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Ciclos, ciclos, ciclos

Entendendo os Ciclos Naturais


Fritjof Capra

Esta conferência foi organizada por um grupo de pessoas que acreditam e que
afirmam na brochura, “que a jardinagem reconecta as crianças aos princípios fundamentais
da alimentação enquanto integra e anima virtualmente cada atividade realizada na escola.”.
Eu quero pegar esta afirmação como um passo mais adiante para mostrar que a jardinagem
vai reconectar as crianças não somente a questões fundamentais de alimentação mas
também aos princípios fundamentais da vida.
Ao longo das duas décadas passadas uma nova concepção da vida, um novo sistema
de olhar a vida está emergindo na vanguarda da ciência. Eu não tenho tempo para descrever
esta nova concepção da vida com muitos detalhes, mas quero mencionar algumas
características importantes. A percepção central é que existe um padrão básico da vida que
é comum a todos os sistemas vivos – organismos vivos, ecossistemas ou sistemas sociais. O
padrão básico é a rede. Existe uma teia de relações entre todos os componentes dos
organismos vivos, assim como a rede de relações entre as plantas, animais e
microorganismos em um ecossistema ou entre pessoas nas comunidades humanas.
Uma das características chave dessa rede viva é que o fato de que todos os seus
nutrientes passam ao longo de ciclos. Nos ecossistemas, a energia circula perfeitamente na
rede enquanto a água, o oxigênio, carbono e todos os outros nutrientes circulam nestes
familiares ciclos ecológicos. Da mesma forma, o sangue circula perfeitamente em nosso
corpo como o ar, a linfa e assim por diante. Em todos os lugares onde vemos vida, vemos
rede e em todos os lugares onde vemos redes vivas vemos ciclos.
Essas três percepções – a rede de padrões, o fluxo de energia e os ciclos de
nutrientes – são essenciais para a nova concepção científica da vida. Cientistas a
formularam com uma linguagem técnica complicada. Eles falam em “rede autopoiética”,
“estruturas dissipativas” e “ciclos catalíticos”. Mas o fenômeno básico é descrito através de
termos técnicos como rede da vida, fluxo de energia e ciclos naturais. E esses são
exatamente o fenômeno que são experienciados, explorados e entendidos pelas crianças
através da jardinagem.

Sabedoria Ancestral
Compreender a vida em termos de rede, fluxos e ciclos é relativamente novo na
ciência mas isto é parte essencial para a sabedoria de tradições espirituais como por
exemplo a tradição Nativa Americana, tradição Cristã ou a tradição Budista. Alguns dos
mais velhos de seu círculo lembrarão de que o título desta minha palestra é o título de uma
velha canção de Pete Seeger: – “To every thing there is a season: turn, turn, turn”
– “Para cada coisa existe um tempo: ciclo, ciclo,ciclo”. O lirismo desta canção foi tirado
diretamente da bíblia e eu escolhi este título para nos lembrar que a consciência dos ciclos
naturais é parte da sabedoria ancestral humana. Infelizmente, até certo ponto nós perdemos
esta sabedoria durante um recente e relativamente curto período da era industrial. Existe um
grande conflito hoje entre a ecologia e a economia do mundo industrial. Isto deriva do fato
de que a natureza é cíclica enquanto que os sistemas industriais são lineares. Como Paul
Hawken apontou, as empresas consomem recursos, os transformam em produtos e lixo e
vendem os produtos para os consumidores que descartam mais lixo quando consomem.
Padrões sustentáveis de produção e consumo necessitam ser cíclicos, imitando os processos
cíclicos da natureza. Para atingir esses padrões cíclicos, precisamos fundamentalmente
redesenhar os negócios e a economia.
A raiz deste problema está na nossa obsessão de um crescimento econômico
ilimitado. Crescer é uma característica chave de todos os seres vivos mas em um planeta
finito nem todos podem crescer ao mesmo tempo. Para cada coisa há uma estação.
Enquanto algumas coisas crescem outras decrescem.. Assim como no último ano as folhas
caíram para nutrir um novo crescimento na primavera, algumas instituições deveriam
também declinar e decair, Hazel Henderson nos lembra que o capital e os talentos humanos
podem ser reciclados para criar novas organizações.
Esta sabedoria ancestral pode ser vivenciada e entendida diretamente através da
jardinagem. Com a chegada do século XXI, o grande desafio de nosso tempo é criar
comunidades ecológicas sustentáveis, comunidades que possam satisfazer nossas
necessidades e desejos sem diminuir as chances das futuras gerações. Para esta tarefa,
podemos aprender valiosas lições com o estudo dos ecossistemas que são comunidades
sustentáveis de plantas, animais e microorganismos. Para entender essas lições, nós
precisamos aprender os princípios básicos da ecologia. Nós precisamos nos tornar
ecologicamente alfabetizados e o melhor lugar para isto é o jardim escolar.
Não é uma coincidência que a jardinagem e a preparação da comida que cresce no
jardim são partes integrais da prática religiosa de muitas tradições espirituais como por
exemplo as tradições monásticas do Cristianismo e do Budismo. Plantar e cozinhar são
exemplos de trabalhos cíclicos – trabalhos que têm que serem feitos continuamente,
trabalhos que não deixam nenhum traço persistente. Você cozinha uma refeição e
imediatamente come. Você lava os pratos e logo eles estarão sujos novamente. Você planta,
cuida do jardim, colhe e então planta novamente. Este trabalho é parte de uma prática
monástica porque ela ajuda a reorganizar a ordem natural de crescimento e declínio, de
nascimento e de morte, e então isso nos faz conscientes de quanto estamos envolvidos nos
ciclos naturais.
No jardim, nós aprendemos sobre os ciclos dos alimentos, um dos mais antigos e
importantes conceitos ecológicos. Desde o princípio da ciência ecológica, os ecologistas
tem estudado a nutrição das relações. Primeiro, eles formularam o conceito da cadeia de
alimentos que ainda é utilizado atualmente – animais pequenos comendo os maiores, que
são comidos por animais maiores e assim por diante. Recentemente os ecologistas
perceberam que todos os grandes seres vivos são comidos por pequenos quando eles
morrem pelos chamados organismos decompositores. Esta é a base do conceito de ciclos
alimentares. E finalmente, os ecologistas reconheceram que esses ciclos de alimentos estão
todos interconectados porque a maioria das espécies são alimentos de diversas outras
espécies, como nós somos, e então os ciclos de alimentos fazem parte de uma extensa e
interconectada rede. Portanto, o conceito contemporâneo da ecologia é o da teia alimentar,
uma rede de relações de nutrição.

Aprendendo através da jardinagem


No jardim, nós aprendemos que as plantas verdes são vitais para o fluxo de energia
de todos os ciclos ecológicos. Suas raízes pegam a água e os sais minerais da terra e a seiva
é levada para as folhas onde elas a combinam com dióxido de carbono (CO 2) do ar para
formar açúcares e outros compostos orgânicos. Neste processo maravilhoso, conhecido
como fotossíntese, a energia solar é convertida em energia química e transformada em
substâncias orgânicas, enquanto o oxigênio é liberado para o ar para ser novamente
utilizado por outras plantas, e pelos animais no processo de respiração.
Pela mistura de água e minerais vindos da terra com a luz solar e o CO 2 vindos do
ar, as plantas verdes ligam a terra e o céu. Nós somos estimulados a acreditar que as plantas
crescem do solo mas realmente a maioria das suas substâncias vem do ar. A maior parte da
celulose e dos outros componentes orgânicos produzidos através da fotossíntese consistem
em carbono pesado e átomos de oxigênio que as plantas retiram diretamente do ar em
forma de CO2. Quase todo o peso de uma tora de madeira vem do ar. Quando nós
queimamos uma tora em uma fogueira, o oxigênio e o carbono se combinam mais uma vez
em CO2 e na luz e no calor do fogo nós recuperamos parte da energia solar que entrou na
produção da madeira. Tudo isto nós aprendemos na jardinagem.

Ciclos dentro de ciclos


Em um típico ciclo alimentar, as plantas são comidas pelos animais que por sua vez
são comidos por outros animais e então os nutrientes das plantas são passados através da
cadeia alimentar, enquanto a energia é dissipada como calor através da respiração e o lixo,
através da excreção. Os lixos, bem como animais mortos e plantas são decompostos por
insetos e bactérias, os organismos decompositores, que quebram moléculas maiores nos
nutrientes básicos para ser retirado novamente pelas plantas verdes.
Na jardinagem, nós integramos os ciclos alimentares naturais em nossos ciclos de
plantio, crescimento, colheita, compostagem e reciclagem. Através desta prática, nós
também aprendemos que o jardim como um todo está envolvido em sistemas maiores que
são novamente redes vivas com os seus próprios ciclos. Os ciclos alimentares se
interconectam com esses ciclos maiores – o ciclo da água, o ciclo das estações e assim por
diante, todos ligados à rede de vida planetária.
Através da jardinagem nós também nos tornamos conscientes de como somos parte
da teia da vida. Um trecho do famoso discurso do Chefe Seatlle diz: “ Nós não tecemos a
trama da vida, somos simplesmente um de seus fios. Qualquer coisa que fizermos para a
teia, faremos para nós mesmos.”
No jardim, nós aprendemos que um solo fértil é um solo vivo contendo bilhões de
organismos vivos em qualquer centímetro cúbico. As bactérias do solo são responsáveis por
várias transformações químicas que são essenciais para sustentar a vida na Terra. Como a
natureza dos solos é viva, nós precisamos preservar a integridade dos grandes ciclos
ecológicos em nossa prática de jardinagem e agricultura. Este princípio é incorporado pelos
métodos da agricultura ancestral e tradicional que são baseados em um profundo respeito
pela vida. Estes agricultores costumam plantar diferentes culturas todos os anos, com
rotatividade preservando o equilíbrio do solo.
Cerca de 40 anos atrás, esta prática tradicional da agricultura orgânica mudou
drasticamente com a introdução massiva de fertilizantes químicos e pesticidas.
A agricultura química quebra seriamente o equilíbrio do solo, e tem um severo impacto na
saúde humana, porque qualquer desequilíbrio no solo afeta o alimento e a saúde de quem
come este alimento. Felizmente, um número crescente de agricultores está consciente do
risco da agricultura química e estão voltando para a orgânica, com métodos ecológicos. O
jardim escolar é o lugar ideal para ensinar para nossas crianças as vantagens da agricultura
orgânica.

Aprendendo com o mundo real


Outro tipo de ciclo que nós encontramos no jardim é o ciclo da vida de um
organismo – o ciclo do nascimento, crescimento, maturidade, declínio, morte e
renascimento da próxima geração. No jardim, nós vivenciamos diariamente a experiência
do crescimento e desenvolvimento. Nós podemos acompanhar o desenvolvimento da planta
desde a semente até o primeiro fruto, o crescimento das folhas, dos brotos, das flores e das
frutas. E quando nós olhamos dentro da fruta descobrimos no seu núcleo novas sementes e
então o ciclo da vida recomeça.
O entendimento do crescimento e do desenvolvimento, é claro, é essencial não
somente para a jardinagem mas também para a educação. Enquanto as crianças aprendem
que aquele trabalho no jardim da escola muda com o desenvolvimento e maturação das
plantas, os métodos pedagógicos dos professores e seu discurso mudam com o
desenvolvimento e a maturidade dos estudantes. Este é o pensamento sistêmico em ação –
aplicando o mesmo princípio para diferentes níveis dos sistemas.
Desde o trabalho pioneiro de Jean Piaget nas décadas de 20 e 30, um amplo
consenso emergiu entre cientistas e educadores sobre a revelação das funções cognitivas no
crescimento infantil. Parte deste consenso é o reconhecimento que um rico e multisensorial
ambiente de aprendizagem – as formas e as texturas, as cores, os aromas, e os sons do
mundo real – é essencial para o completo desenvolvimento cognitivo e emocional da
criança.
Aprender no jardim da escola é aprender no mundo real no que há de melhor. Isto é
benéfico para o desenvolvimento individual do estudante e da comunidade escolar, e esta é
uma das melhores formas das crianças se tornarem ecologicamente alfabetizadas e portanto
capazes de contribuir na construção de um futuro sustentável.

BIBLIOGRAFIA INDICADA
Livros

Agroflorestas para crianças - Agroflorestas para crianças - Uma sala de aula ao ar livre
– Carolyn Nuttall

Hortas escolares – O ambiente horta escolar como espaço de aprendizagem no contexto do


Ensino Fundamental – UFSC, SED, Epagri, 2002.

Agricultura Ecológica- Preservação do pequeno agricultor e do meio ambiente. – Jurandir


Zamberlam & Alceu Froncheti. Editora Vozes, 2001.

Introdução à Permacultura. Bill Molison & Reny Mia Slay. – Ministério da Agricultura e
do Abastecimento, Projeto Novas Fronteiras, 1998.

Permacultura Um – Uma agricultura permanente nas comunidades em Geral. Bill Molison


& David Holmgren. Editora Ground, 1983.

Permacultura – O Sítio Abundante, co-criando com a natureza – Marsha Hanzi


(informações: Instituto de Permacultura da Bahia: (71) 379 9387ou 378 1115)

Manual de Compostagem para Hortas e Jardins. Stu Campbell. Editora Nobel, 1995.

Pedagogia da Terra, Moacir Gadotti. Editora Peirópolis, 2000.

Ecopedagogia e cidadania planetária, Francisco Gutiérrez, & Cruz Prado. Editora Cortez e
IPF, 1999.

Revistas

Permacultura Brasil (contato: (61) 922 3228 )

Agroecologia & Agricultura Familiar (contato: Rede Ecovida: (49) 222 4255)

Contatos

IPAB – Instituto de Permacultura Austro Brasileiro –


SC
Jorge Timerman tel: (48) 235 1679
Alfabetização ecológica:
O desafio da educação no próximo século
Fritjof Capra, 1999

Desde sua introdução, no começo dos anos 80, o conceito de sustentabilidade tem
sido distorcido, cooptado e mesmo banalizado quando usado sem o contexto ecológico que
lhe dá o sentido adequado. Portanto, acredito ser importante refletir por um instante sobre o
que sustentabilidade realmente significa.
O que é sustentável, em uma comunidade sustentável não é o crescimento
econômico, o desenvolvimento, a fatia de mercado ou a vantagem competitiva, mas toda a
teia da vida, da qual todos nós dependemos. Em outras palavras, uma comunidade
sustentável estaria desenhada de uma forma que a sua vida, negócios, economia, estruturas
físicas e tecnologias não interferissem na habilidade que a natureza tem de sustentar a vida.
O primeiro passo nessa caminhada, naturalmente, é compreender os princípios de
organização que os ecossistemas desenvolveram para sustentar a teia da vida. Essa
compreensão é o que eu chamo alfabetização ecológica.
Os ecossistemas do mundo natural são comunidades sustentáveis de plantas,
animais e microorganismos. Não há lixo nestas comunidades ecológicas: o resíduo de uma
espécie é o alimento da outra. Assim, a matéria percorre um ciclo contínuo na teia da vida.
A energia que alimenta os ciclos ecológicos vem do sol, e a diversidade e a cooperação
entre os membros das cadeias é a fonte da resistência da comunidade.
O Centro de Alfabetização ecológica em Berkley dedica-se a adotar a experiência da
compreensão do mundo natural na educação fundamental. Ser ecoalfabetizado significa, no
nosso ponto de vista, compreender os princípios básicos da ecologia e ser capaz de aplicá-
los na vida cotidiana das comunidades humanas. Particularmente, nós acreditamos que os
princípios da ecologia devem nos guiar para a criação de comunidades sustentáveis. Em
outras palavras a alfabetização ecológica oferece um sistema de conhecimento ecológico
para a reforma educacional. A palavra ecologia, como vocês sabem, veio do grego oikos
(casa). Ecologia é o estudo de como a casa Terra funciona. Mais precisamente, é o estudo
das relações que interligam todos membros da casa Terra.

Sistemas Vivos
A teoria mais apropriada para a ecologia é a teoria dos sistemas vivos. Esta teoria
que hoje está em grande evidência, tem suas raízes em diversos campos científicos que se
desenvolveram durante a primeira metade do século – biologia organísmica, psicologia
gestalt, ecologia, teoria geral dos sistemas e cibernética.
Em todos estes campos cientistas exploraram sistemas vivos, o que significa
integrar partes cujas propriedades não podem ser reduzidas em pequenas partes. Embora
nós possamos perceber partes em cada sistema vivo, a natureza do todo é sempre diferente
da mera soma das partes.
A teoria dos sistemas envolve uma nova maneira de ver o mundo e uma nova
maneira de pensar, conhecida como pensamento sistêmico. Significa pensar em termos de
relações, conexões e contextos.
O pensamento sistêmico alcançou um outro nível nos últimos vinte anos com o
desenvolvimento de uma nova ciência da complexidade, incluindo toda uma nova
linguagem matemática e um novo conjunto de conceitos para descrever a complexidade dos
sistemas vivos.
Exemplos destes sistemas são abundantes na natureza. Cada organismo – animal,
planta, microorganismo ou ser humano – é um todo integrado, um sistema vivo. Partes de
organismos – folhas ou células – são também sistemas vivos. No mundo vivo vemos
sistemas abrigando outros sistemas. E sistemas vivos incluem comunidades de organismos.
Estes podem ser sistemas sociais – uma família, uma escola, uma cidade – ou ecossistemas.
Os sistemas vivos são todos cujas estruturas específicas surgem das interações e
interdependências entre as suas partes. A teoria dos sistemas nos diz que todo sistema vivo
divide um conjunto de propriedades comuns e princípios de organização. Isto significa que
o pensamento sistêmico pode ser utilizado para integrar disciplinas acadêmicas e descobrir
similaridades entre fenômenos de diferentes escalas: a criança, a classe, a escola, o bairro e
as comunidades e ecossistemas vizinhos.
Os princípios da ecologia são os princípios de organização que são comuns a todo
sistema vivo. Isso poderia ser dito assim: existem diferentes padrões de vida. E de fato, em
comunidades humanas eles podem ser chamados princípios de comunidade.
É claro que há muitas diferenças entre ecossistemas naturais e comunidades
humanas. Não há cultura nos ecossistemas, não há consciência, justiça nem equidade. Então
não podemos aprender algo sobre estes valores humanos estudando os ecossistemas
naturais. O que nós podemos aprender é como viver de forma sustentável. Em mais de três
bilhões de anos de evolução os ecossistemas se organizaram para maximizar a
sustentabilidade. Esta sabedoria da natureza é a essência da alfabetização ecológica.

A teia da vida
Então, como os ecossistemas se auto-organizam? Bem, a primeira coisa que
percebemos quando observamos um ecossistema é que não se trata de um simples conjunto
de espécies, e sim uma comunidade, o que significa que os seus membros dependem uns
dos outros. Eles estão todos interconectados em uma vasta rede de relações, a teia da vida.
Compreender ecossistemas nos leva ao estudo de relações. Este é um aspecto-chave
do pensamento sistêmico. Implica uma mudança no foco, do objeto para a relação. Uma
comunidade vibrante é plena de múltiplas relações entre seus membros. Nutrir a
comunidade significa nutrir essas relações.
Agora, entender relações não é fácil para nós, porque é algo que vai contra a ciência
tradicional da cultura ocidental. A ciência mede e pesa coisas. Mas relações não podem ser
pesadas nem medidas, devem ser mapeadas. Você pode desenhar um mapa de relações,
interconectando diferentes membros e diferentes membros da comunidade. Quando faz isto,
descobre certas configurações de relações que se repetem. A estas configurações damos o
nome de padrões. O estudo das relações nos leva ao estudo de padrões.

Matéria e Forma
E aqui nós descobrimos uma tensão que é bem característica da ciência e filosofia
ocidentais, através dos anos. É uma tensão entre duas maneiras de compreender a natureza,
o estudo da matéria e o estudo da forma. Essas duas maneiras são bastante diferentes. O
estudo da matéria começa com a questão: “do que é feito”. Isto leva para uma noção de
elementos fundamentais, blocos de construção que são medidos e quantificados. O estudo
da forma pergunta: “qual é o padrão?”. E este leva a uma noção de ordem, organização e
relações. Em vez de quantidade, envolve qualidade, em vez de medida, envolve
mapeamento.
Então, essas são duas linhas de pesquisa muito diferentes, que competiram entre si
na tradição científica e filosófica. Na maior parte do tempo, o estudo da matéria – de
quantidades e constituição – foi dominante. Mas nas últimas décadas a ascensão do
pensamento sistêmico trouxe o estudo da forma – dos padrões e das relações – para a
discussão novamente. A principal ênfase na teoria do caos e da complexidade está nos
padrões. Os estranhos atratores da teoria do caos, os fractais da geometria fractal – todos
esses são padrões visuais. Toda essa nova matemática da complexidade é essencialmente
uma matemática de padrões.

Arte e Educação
Como disse anteriormente, quando você estuda um padrão necessita mapear um
conjunto de relações, enquanto estudar a matéria é estudar as quantidades que podem ser
medidas. Compreender padrões requer visualização e mapeamento. Esta é a razão pela qual
sempre o estudo dos padrões esteve na vanguarda, os artistas contribuíram
significativamente para o avanço da ciência. Talvez os dois exemplos mais célebres são
Leonardo da Vinci, que dedicou sua vida a estudar padrões, e o poeta alemão Goethe, que
no século XVIII, fez contribuições significativas para a biologia ao estudar padrões.
O estudo dos padrões, portanto, é central para a ecologia. Para educadores, esta
percepção deve ser também importante porque ela abre a porta para integrar as artes ao
currículo. Dificilmente existe algo mais eficiente que as artes – artes visuais, música ou
artes performáticas – para desenvolver e refinar as habilidades naturais das crianças para
reconhecer e expressar padrões. Assim as artes podem ser uma poderosa ferramenta para
ensinar o pensamento sistêmico, além de realçar a dimensão emocional que é cada vez mais
reconhecida como um componente essencial do processo de aprendizagem.

Os princípios da ecologia
Quando o pensamento sistêmico é aplicado ao estudo dos múltiplos relações que
interligam os membros da casa-Terra, alguns princípios básicos podem ser reconhecidos.
Eles podem ser chamados de princípios da ecologia, princípios de sustentabilidade, ou
princípios de comunidade, ou você poderia chamá-los de princípios básicos da vida. Nós
necessitamos de um currículo que ensine às nossas crianças esses princípios fundamentais
da vida:
 que um ecossistema não produz lixo, o lixo de uma espécie é o alimento da
outra;
 que a matéria cicla continuamente através da teia da vida;
 que a energia que alimenta os ciclos ecológicos vem do sol;
 que a diversidade assegura a sobrevivência;
 que a vida, desde o seu começo há mais de três bilhões de anos atrás, não
expandiu-se pelo planeta através da competição, mas através da cooperação,
parceria e trabalho em rede.
Ensinar conhecimento ecológico, que é também sabedoria ancestral, será o papel
mais importante da educação no próximo século.
Reforma do sistema escolar
Como tem sua base intelectual no pensamento sistêmico, a alfabetização ecológica
oferece uma poderosa ferramenta para sistematizar a reforma da ensino discutida entre
educadores. Uma reforma “sistêmica” da escola é baseada, essencialmente em duas idéias:
uma nova visão do processo de aprendizagem e uma nova visão da liderança.
Recentes pesquisas em neurociência e ciências da cognição resultaram em uma
nova compreensão do processo de aprendizagem, baseada na visão de que o nosso cérebro
é um sistema complexo, fortemente adaptativo e auto-poiético. A nova compreensão
reconhece uma construção ativa do conhecimento, na qual toda nova informação é
reportada a experiências passadas em uma busca constante por padrões e significado; assim
vemos a importância de uma aprendizagem a partir da experiência onde diversas
aprendizagens envolvem múltiplas inteligências; e os contextos emocional e social, que é
onde começa o conhecimento.
Uma nova compreensão do processo de aprendizagem necessita estratégias
institucionais. Particularmente, é necessário redesenhar e integrar o currículo, enfatizando
conhecimentos contextuais, para que cada disciplina seja percebida como recursos que
servem a um foco central.
Uma maneira ideal de conseguir esta integração é o método de aprendizagem por
projetos que consiste a facilitação de experiências de aprendizagem que coloquem o
estudante dentro de um mundo complexo, projetos que estejam no universo cotidiano dos
estudantes, através dos quais eles desenvolvam ações e apliquem seus conhecimentos e
habilidades.

O jardim escolar
No centro para a alfabetização ecológica, nós vivenciamos que cultivar um jardim
escolar e usá-lo como um recurso para conseguir alimentos para a merenda é um projeto
perfeito para experimentar o pensamento sistêmico e os princípios da ecologia na prática, e
integrar o currículo. A jardinagem reconecta as crianças aos princípios da alimentação – e
portanto, para os princípios da vida – enquanto integra e enriquece qualquer atividade da
escola.
No jardim, nós aprendemos sobre os ciclos naturais da comida e os integramos com
outros ciclos como o da plantação, colheita, compostagem e reciclagem. Dentro desta
prática nós também aprendemos que o jardim é um todo envolvido em sistemas maiores
que são redes vivas com seus próprios ciclos. O ciclo alimentar está interconectado com
estes ciclos maiores – o ciclo da água, o ciclo das estações, e assim por diante – todos eles
ligados à rede planetária da vida.
Através da jardinagem nós também nos tornamos conscientes de como somos parte
da teia da vida, e a experiência ecológica nos permite sentir um sentido de lugar. Nós nos
conscientizamos de como estamos envolvidos em um ecossistema, em uma paisagem com
fauna e flora particulares ou em um sistema social e cultural. “Lugares”, escreve David W.
Orr, “são laboratórios de diversidade e complexidade, combinando funções sociais e um
processo natural... O estudo do lugar nos permite ampliar nosso foco para examinar as
interrelações entre as disciplinas e aumentar nossa percepção do tempo.”
Para as crianças, estar no jardim é algo mágico. Como um dos nossos professores
relatou “uma das coisas mais empolgantes do jardim é que criamos um local mágico para
crianças que não teriam esse contato em nenhuma outra parte, que não sentiriam a Terra
nem as plantas que crescem. Você pode ensinar o que quiser, e estar ali, vendo crescer,
cozinhando e comendo, essa é a ecologia que toca o coração deles e que fará diferença...”
Crescimento e Desenvolvimento
No jardim, nós observamos e vivenciamos o ciclo da vida de um organismo – o
ciclo de nascimento, crescimento, maturidade, morte e nascimento da próxima geração. No
jardim nós experimentamos crescimento e desenvolvimento diariamente, e a compreensão
de crescimento e desenvolvimento é essencial, não somente para a jardinagem, mas
sobretudo para a educação. Enquanto as crianças aprendem que aquele trabalho no jardim
da escola muda com o desenvolvimento e maturação das plantas, os métodos pedagógicos
dos professores e seu discurso mudam com o desenvolvimento e a maturidade dos
estudantes.
Desde o trabalho pioneiro de Jean Piaget, Rudolf Steiner e Maria Montessori um
amplo consenso emergiu entre cientistas e educadores sobre a revelação das funções
cognitivas no crescimento infantil. Parte deste consenso é o reconhecimento que um rico e
multisensorial ambiente de aprendizagem – as formas e as texturas, as cores, os aromas, e
os sons do mundo real – é essencial para o completo desenvolvimento cognitivo e
emocional da criança.
Aprender no jardim da escola é aprender no mundo real no que há de melhor. Isto é
benéfico para o desenvolvimento individual do estudante e da comunidade escolar, e esta é
uma das melhores formas das crianças se tornarem ecologicamente alfabetizadas e portanto
capazes de contribuir na construção de um futuro sustentável.

Liderança Compartilhada
É obvio que a integração do currículo escolar a partir de um trabalho de horta ou
qualquer outro projeto ambiental só será possível se a escola se tornar uma verdadeira
comunidade de aprendizagem. As relações entre as várias disciplinas só ficam claras se
houver relações humanas correspondentes entre professores e administradores escolares.
Em uma comunidade de aprendizagem professores, estudantes, administradores e
família estão interconectados em uma rede de relações, trabalhando juntos para facilitar a
aprendizagem. O conhecimento não flui de cima para baixo, mas há um intercâmbio cíclico
de informações. O foco é no aprendizado e qualquer um do sistema é, ao mesmo tempo,
professor e aluno. Feedbacks são intrínsecos ao processo de aprendizagem, como uma
chave para avaliar o processo. O pensamento sistêmico é crucial para entender o
funcionamento das comunidades de aprendizagem. De fato, como eu já mencionei, os
princípios da ecologia podem também ser vistos como princípios das comunidades.
Finalmente, a compreensão sistêmica da aprendizagem, um novo desenho do
currículo e novos padrões de qualidade só serão possíveis com uma nova prática de
liderança. Essa nova maneira de liderança é inspirada na compreensão de uma importante
propriedade dos sistemas vivos, que só recentemente foi identificada e explorada. Todo
sistema vivo ocasionalmente atravessa fases de instabilidade, na qual algumas de suas
estruturas quebram enquanto novas estruturas emergem. Este estabelecimento espontâneo
de ordem – de novas estruturas e novas formas de comportamento – é uma das
características da vida. Em outras palavras, criatividade – a geração de formas que são
sempre novas – é uma propriedade de todos sistemas vivos.
Liderança, portanto, consiste em uma grande escala contínua de facilidades para
emergir novas estruturas e incorporá-las no que elas têm de melhor para o desenho da
organização. Este tipo de “liderança sistêmica” não é limitado a indivíduos sozinhos, mas
pode ser compartilhado e a responsabilidade então torna-se uma capacidade do conjunto de
indivíduos

Componentes da alfabetização ecológica


Isto me leva a concluir minha fala. Eu tenho tentado mostrar para você como é a
forma do pensamento sistêmico intelectual essencial da alfabetização ecológica, a estrutura
conceitual que nos permite integrar vários componentes. Vou resumir estes componentes:
 entender os princípios da ecologia, experienciando-os na natureza e deste modo
adquirindo o senso de lugar;
 incorporar as inspirações vindas do novo aprendizado que enfatiza a pesquisa
das crianças em padrões e significados;
 implementar os princípios da ecologia que alimentam o aprendizado
comunitário, facilitar a emergência e compartilhar lideranças;
 integrar o currículo através de projetos de aprendizagem.

Como nosso século está acabando e nós vamos na direção do início do novo
milênio, a sobrevivência da humanidade depende de nossa habilidade para entender os
princípios da ecologia e viver de acordo com eles. Esta é a iniciativa que transcende todas
as diferenças de raça, cultura ou classe. A Terra é nossa casa comum e criar um mundo
sustentável para nossas crianças e para as futuras gerações é nossa tarefa comum.