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Sobre a experiência do passe


Jacques Lacan (03-11-73)

Intervenção de Lacan na sessão


de trabalho sobre o passe do
Congresso da École Freudienne
de Paris (1-4/11/73).

Tradução: Alexandre Simões


(Campo Lacaniano – Belo
Horizonte; abril de 1999).

A propósito da experiência do passe e de sua transmissão:

[1] A experiência do passe é uma experiência em curso.

[2] O modo sob o qual eu a produzi é a proposição, a qual é inteiramente marcada


de prudência, de uma prudência quiçá humana, demasiado humana - não vejo como eu
teria podido ser mais prudente.

[3] Minha prudência era comandada pelo estado de coisas existente - é o próprio
princípio da prudência. Assim, eu não quis remeter a outros que não àqueles que já tinham
um título efetivamente correspondente a uma seleção, aquele de Analista da Escola, o
cuidado de admitir pessoas cuja simples presença entre eles mudava totalmente o alcance
daquele título. Eis aí o que se produz em todo agregado humano quando os seres recrutados
se situam neste real em nome de princípios completamente diferentes daqueles que outrora
têm permitido constituir uma classe. O fato que esta classe, preservando o mesmo nome,
seja habitada por um tipo completamente diferente de indivíduos, é suscetível de mudar
inteiramente não algumas estruturas fundamentais, mas a natureza do discurso.

[4] Certamente, isto não é, de minha parte, um ato de autoridade, um ato de mestre,
visto que o primeiro resultado que isto me trouxe foi a evasão desatinada de um certo
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número de pessoas das quais eu apreciava o apoio e a fidelidade 1. A fidelidade não é uma
noção de mestre: se vocês lerem um pouquinho meus escritos, os que podem abordar a
ordem da política, aí verão vocês que não é a fidelidade que nela constitui o valor principal.
Não diria que eu não hesitei a arriscar esta partida por eu não ter considerado
conscientemente nenhum risco, pensando que eu lhes persuadiria.

[5] Efetivamente, foi ao que me esforcei em reuniões restritas, e foi de alguma


maneira sem advertência e depois que eles estavam arranjados entre eles que, em uma
reunião chamada “Congresso da Escola”, recebi deles - tratava-se de três pessoas que todo
mundo conhece - a notícia coletiva e assinada de suas demissões. Não se pode dizer que se
eu tinha apostado sobre o que se pode chamar meu prestígio, isto tenha sido um êxito.
Todavia, a coisa me pareceu leviana, extremamente leviana, como também seria certamente
o caso, no futuro, para quem quer que quisesse lhes seguir. A questão não está aí.

[6] A questão é saber como efetivamente tem funcionado até aqui a sociedade
analítica, da qual Freud traçou os primeiros esboços, e que tomou uma forma cada vez mais
precisa daí em diante. Estas sociedades têm permanecido demasiado prudentes, daí que
elas funcionem segundo as leis triviais do grupo, onde é, em efeito, absolutamente
necessário que sempre se manifeste o mestre, como eu acreditei poder o dizer no momento
da grande confusão de maio de 68. O que vocês querem, dizia àqueles que, em nome dos
que estavam em Vincennes, onde eu tinha simplesmente aceitado ir, imaginavam que eu
estava aí delegado por poderes superiores e acreditavam ser necessário tumultuar, daí que
eu fale sem que isto se produza de hábito - o que vocês querem é um mestre 2. O que se
averiguou exatamente depois, a crise de 68 não tendo tido outras conseqüências a não ser
um retraimento máximo daquilo que eu tinha - desde antes, graças a Deus! -, definido
como “o mercado do saber”; eu quero dizer que o saber é reduzido a se transformar em uma
mercadoria. E a partir de maio de 68, a Universidade viu seu prestígio fazer literalmente um

1
Nota do tradutor: alusão ao rompimento efetuado por Jean-Paul Valabrega, Peira Aulagnier e François
Perrier em relação a Lacan, desdobrada na fundação, pelos mesmos, do chamado Quarto Grupo, isto é, a
Organização Psicanalítica de Língua Francesa, em 1969.
2
Nota do tradutor: referência feita por Lacan ao tumultuado seminário realizado em Vincennes no dia 03-12-
69. Maiores detalhes do conteúdo do mesmo podem ser obtidos ao final do Seminário XVII, mais exatamente
nas páginas 187-197 e, em especial, na página 196 (da edição brasileira).
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“boom”, de forma que não há nenhuma maneira de aí se aninhar que não seja o objeto de
cobiças e de lutas selvagens.

[7] É precisamente com o objetivo de isolar o que aí tem a ver com o discurso
analítico, que eu fiz a proposição. A delegação, por reconhecimento comum, de uma
autoridade, porque não dizer de um poder, parecia-me poder advir mais conforme ao que
deveria ser um recrutamento autêntico caso se instaurasse este modo de inquirição que é o
passe. O passe, em efeito, permite a qualquer um que pense poder ser analista, a qualquer
um que aí se autorize ele mesmo ou que está próximo de o fazer, de comunicar o que o fez
se decidir, e se engajar em um discurso onde certamente não é fácil, parece-me, de ser o
suporte.

[8] O que daí resultou? É o júri de aprovação que teve, ao admitir este novo
membro, de fazer mudar de sentido o termo “Analista da Escola”. O modo sob o qual eram
apreciados em nossas sociedades os indivíduos selecionados, sempre tinha me parecido,
porque não o dizer, participar destas leis da concorrência que fazem com que a maior parte
dos grupos humanos funcionem. Eu desejei um outro modo de recrutamento, e este é o
passe. Ele era, em meu espírito, o primeiro passo de um recrutamento em um estilo
diferente, em uma ordem modelada muito exatamente sobre o que eu tinha pensado que,
então, especificava o discurso analítico.

[9] Neste momento, foi feita alusão aos meus ditos quadrípodes 3. Se eu pude, destes
quadrípodes e de suas rotações, especificar o discurso do mestre dentre outros discursos,
especialmente o discurso universitário na medida em que é distinto do discurso científico,
isto não foi senão a partir do discurso analítico. Se não houvesse discurso analítico, eu
jamais teria pensado o discurso do mestre como simplesmente um certo tipo, um certo
modo de cristalização daquilo que compõe, em suma, o fundo de nossa experiência, a saber,
a estrutura mesma do inconsciente - ninguém havia pensado, antes de mim, em referir aí o
3
Nota do tradutor: o termo utilizado por Lacan é ‘quadripodes’. Por se tratar de um neologismo que, como
sempre, oferece maiores dificuldades à sua tradução e, ademais, comporta em si o risco de proliferações
inócuas, reproduzo, a seguir, os pertinentes comentários de Ari Roitman - tradutor do Seminário XVII -
quanto a esta mesma palavra: “Não há referência dicionarizada do termo, mas, pela etimologia, alude ao que
tem quatro pés: os esquemas - sic - discursivos que, além de serem quatro, compõem-se de quatro
elementos que rotam por quatro lugares circulares”; (versão brasileira do citado seminário, p. 205).
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discurso do mestre. É notável, isto surpreende a mim mesmo, que tenha ocorrido de
atribuir aí uma necessidade, sob o termo “mais-de-gozar”, àquilo que no discurso capitalista
Marx tinha sabido detectar como a mais-valia. O discurso dito capitalista é uma certa
variedade do discurso do mestre, dele se distinguindo apenas por uma pequenina mudança
na ordem das letras. É um fato que ao detectar, no sentido do discurso capitalista, a mais-
valia como sua mola essencial, Marx de uma só vez conferiu uma consistência e uma
potência ao discurso do mestre do qual nós não terminamos de ver os resultados. É
absolutamente certo que o capitalismo de estado que reina na U.R.S.S. nos mostrará, na
seqüência, que há todo interesse em que o discurso do mestre saiba o que ele faz. Não é
sem interesse, aos meus olhos, que naquilo que lhe concerne, o discurso psicanalítico, não
somente tome corpo, mas, desde já, tenha tomado corpo, quer vocês queiram ou não. E este
Congresso é um testemunho do fato de que, enfim, há um interesse, um interesse potente e
universal, de que este discurso se mantenha - não é obrigado que os psicanalistas, eles
mesmos, disto tenham tomado consciência para que isto já funcione. Aliás, é certamente
este o drama deles - eles respondem a uma demanda, mas se esta demanda não enxerga
mais distante do que a ponta de seu nariz, ela não será senão uma demanda de enfermo,
enquanto que poderia bem ser outra coisa.

[10] O que vem no lugar da mais-valia e que eu nomeei “mais-de-gozar” é uma


função muito mais radical que aquela da mais-valia no discurso capitalista. É uma função
de fundamento ligada à dependência do homem em relação à linguagem. O discurso
analítico permite de se entrever que é por esta linguagem que o homem se encontra
separado, obstruído de tudo aquilo que concerne a relação sexual e que é por aí que ele faz
sua entrada no real, mais exatamente, ele faz falta/defeito/ponto-fraco [défaut] a este real. É
por aí que ele tem uma pequena chance, na mesma proporção das vias que lhe são trilhadas
em direção a um certo número de pontos, que testemunham a presença mesma do real na
origem de seu discurso.

[11] O que, no discurso dito do mestre, vem no lugar do mais-de-gozar, é o que eu


nomeei, há tempos, de objeto a. Este objeto, ao final das contas, não representa nada além
de um certo número de enigmas polarizados, que para aqueles que falam, se presentificam
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nestas grandes funções que não são sem estar ligadas ao corpo, a saber, o seio que nutre, o
dejeto-rejeito, a merda para chamá-la por seu nome - ou ainda estas coisas que, por terem
um aspecto mais nobre, são estritamente do mesmo nível, o olhar e a voz.

[12] Ora, acontece que este objeto a pode trocar seu lugar com o significante-
mestre, pode substituí-lo na função pseudo-diretriz e, desde aí, funcionar como deve
funcionar o analista. O analista funciona na análise como representante do objeto a - desta
fórmula, depois de tudo, ainda não é mesmo seguro que perceba, eu mesmo, todo o
sentido, mas eu estou certo de que é precisamente desta maneira que isto deve se escrever e
é exatamente o que exprimem os quadrípodes que designam o discurso do mestre e o
discurso analítico.

[13] Desde então, ao se supor - viés demasiado conhecido -, que ao simplesmente


se colocar um analista se encontra com uma destas velhas sociedades fundadas sobre o
discurso do mestre, desde este ponto de vista, eu não vejo o que impediria alguém que
esteja instalado na posição diretriz do S 1, aquela do mestre, de discernir alguma coisa
quanto as relações deste S1 com aquilo que faz parte do mesmo discurso, só que em um
outro lugar, o objeto a, e em particular, de apreciar em um momento que é aquele que eu
chamo o passe, porque alguém assume este risco louco, de advir o que é este objeto a.

[14] É uma experiência radicalmente nova que nós temos proposto, pois o passe não
tem outra ocupação que não a análise. E é bastante compreensível que do júri de aprovação,
sendo dado seu recrutamento até o presente, não possa lhes chegar senão testemunhos de
perplexidade e de embaraço, mas é certo também que há alguns passantes que não poderão
jamais esquecer o que foi para eles, que estavam, como dissemos no princípio, em final de
análise, a experiência do passe. É o testemunho deles que falta nesta reunião. Eu diria, de
uma palavra que tomarei emprestado de uma pessoa que ouvi em uma destas salas, que o
passe era alguma coisa como o raio4.

4
Nota do tradutor: ‘éclair’, aqui traduzido por ‘raio’ (penso que ‘relâmpago’ também seria aceitável, caso não
trouxesse consigo algumas indesejáveis limitações) porta o sentido figurado de ‘revelação súbita’,
posteriormente aludido por Lacan, tal como poderá ser acompanhado no desenvolvimento do parágrafo
seguinte.
6

[15] Isto não pôde não despertar em mim o eco de uma frase célebre de Heráclito
comentada por Heidegger em um livro recentemente publicado em francês, e que diz:
                               5. O
que quer dizer: “o trovão6 dirige/gera [régit]          ” - é intraduzível.
Diels7, que compilou os fragmentos de Heráclito e deles fez a coletânea de certa maneira
definitiva, autentificada, traduziu por “o universo”, o que é falsificar tudo.
         é alguma coisa como “os todos”, “os todos” enquanto diversos,
enquanto que há um montão de todos. Há um montão de todos que são radicalmente
distintos. “Os todos, é o raio que os dirige/gera”. O raio, talvez, lhes efetua uma pequena
tendência em direção ao universo, mas ele seguramente demonstra que não há isto aí. Sem
dúvida, nós somos obrigados, porque isto está comandado por nossa posição subjetiva, a
pensar o mundo como um universo, enquanto que nada assegura que haja o que quer que
seja de comum, por exemplo, entre a erupção dos seres vivos e as condições mais ou menos
estelares nas quais eles se encontram obrigados a habitar. A origem da vida, ninguém ainda
resolveu. Esforça-se por destampar este buraco, mas aí se chegará? - isto não foi tentado.
Digamos, para não dizer mais nada, que a enunciação do 
procede de uma idéia verdadeiramente principal de heterogeneidade entre as coisas.

[16] Pode o passe efetivamente pôr em relevo para aquele que aí se oferece, como
pode o fazer um raio em um ponto de vista completamente diferente, uma certa porção de

5
Nota do tradutor: este é tido como o fragmento 64 daquilo que nos chegou de Heráclito, neste caso, a partir
de Hipólito (Refutação de todas as heresias, IX, 10,7). A sua inscrição textual é ligeiramente diferente da
apresentada por Lacan. Ei-la: : ‘o raio conduz todas as coisas que são’ (cf.
HERÁCLITO, Fragmentos / edição bilíngüe com tradução, introdução e notas de Emmanuel Carneiro Leão/
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1980. P. 91). Em uma publicação mais acessível a todos nós, a dos
Pensadores (editora Nova Cultural, 1991, volume dedicado aos ‘Pré-Socráticos’, p. 57), a tradução foi a
seguinte: “De todas (as coisas) o raio fulgurante dirige o curso”.
6
Nota do tradutor: pelo andamento do parágrafo e de acordo com o próprio fragmento de Heráclito (bem
como com a sua idéia de um fogo primitivo gerador de tudo o que há, inclusive dos contrários), a frase
trabalhada por Lacan deveria referir-se unicamente ao raio (éclair ) e não ao trovão (tonnerre). Não se fica
com a impressão de que Lacan desenvolve o início deste parágrafo em cima de um lapso?
7
Nota do tradutor: Aqui, Lacan está fazendo menção a Hermann Diels (1848-1922), filólogo clássico e
historiador da Filosofia Antiga. Cf. Enciclopedia filosofica I (Istituto per la Collaborazione Culturale/
Venezia-Roma – 1957).
7

sombras de sua análise? É uma coisa que concerne ao passante. Eu posso lhes afirmar, e
penso que nada no Júri de aprovação, nem mesmo Leclaire, me desmentirá, que o passe
absolutamente foi para alguns uma experiência desordenadora.

[17] Eis aqui, portanto, o que eu obtenho após ter proposto esta experiência.
Obtenho alguma coisa que não é absolutamente da ordem do discurso do mestre, muito
menos do sábio. Seria preciso saber notar as coisas das quais eu não falo - jamais falei de
formação analítica, falei de formações do inconsciente. Não há formação analítica. Da
análise se extrai uma experiência, em relação a qual é inteiramente equivocado que se a
qualifique de didática. A experiência não é didática. Logo, por que vocês crêem que eu
tentei apagar inteiramente o termo didática e que eu falei de psicanálise pura?

[18] Eu lhes dei uma aula no ano passado sobre o que está em jogo na experiência
pretensamente interrogativa no que tange ao animal 8. Colocam-se diversos animais em
pequenos labirintos, onde eles são tratados como ratos, é o caso de o dizer, e se tenta lhes
instruir a aprender. Não é inteiramente manifesto que isto esteja em conformidade ao gênio
deles, e que sejam capazes disto, tal como ocorre conosco. Ora, ao ver as coisas sob este
ângulo, uma análise implica certamente a conquista de um saber que está lá antes que nós o
saibamos, a saber, o inconsciente, e o sujeito pode certamente aí aprender por qual truque
isto se produziu. É neste sentido e somente neste sentido que uma análise é didática. Mas se
não ocorre senão instruir a aprender a empurrar os botões que são necessários para que isto
se abra no inconsciente, ora, permitam-me de lhes dizer, ele não aprendeu grande coisa. Ele
não apreendeu a não ser que deste saber que eu defini como articulado - aí está a essência
disto sobre o qual insisto quando digo que o inconsciente é estruturado como uma
linguagem - cada um, à sua maneira, e em um ponto completamente local, é o efeito. A
pura e simples dependência. Se ele não fez senão aprender a instruir como fazer para que
outros além dele disto se dêem conta, é muito pouca coisa perto disto que lhe é desvelado
em uma experiência analítica. Ele não tem de tudo aí aprender, ainda que nisto pense o
analista, mas isto lhe é desvelado. Esta dimensão é inteiramente outra que aquela do
aprender. Seu primeiro movimento é o de não saber por qual ponta a apreender.
8
Nota do tradutor: Referência ao Seminário XX, mais exatamente à lição do dia 26-06-73 (pp. 187-201 da
edição brasileira).
8

[19] É neste sentido que, definitivamente, o passe não poderá ser julgado, como
alguém o disse esta manhã, a não ser pelo esforço de apreensão daqueles que, por estarem
expostos a este passe, nele viveram a experiência e, quem sabe, por uma vez, o diálogo.
Evidentemente, é o que não pode senão lhes faltar pelo instante, porque, depois de tudo,
isto não é tão antigo. Aqueles que se encontram na situação de serem ofertados a esta
experiência não são os velhos, e pode se colocar a questão de saber se é agora que é
necessário que eles aí apresentem não sei qual inscrição, traçado, caricatura ou se é
necessário que eles amadureçam/adquiram mais experiência.

[20] Uma coisa é certa, é que se ousei introduzir esta experiência, isto não era
porque eu aí intervenha. Qualquer que seja a idéia que vocês possam disto fazer, eu não
opero, ao nível do júri de aprovação, senão com a mais extrema discrição. Vocês me dirão
que, a discrição querendo dizer igualmente discernimento, opero talvez mais longe do que
eu reconheço - por que não? Eu tenho o sentimento de que eu espero. Se não temos
resultados mais luminosos a lhes oferecer acerca daquilo que resulta desta experiência, é
em função desta discrição, que vai muito mais longe do que a discrição, que é da ordem da
espera. Eu não estou aí, da minha parte, eu peço desculpas, senão a esperar o que
justamente isto vai poder oferecer - à condição de aí se compreender um modo
completamente diferente de nele recolher o testemunho.

[21] Que alguém, aqui, muito simplesmente, me proponha uma outra maneira onde
isto teria podido ser recolhido. Eu desejei evitar o retorno aos velhos hábitos, o caráter
magistral que sempre se manifesta do fato de que alguém está aí como um candidato. Pois
bem, eu quero que se chame o passante um candidato ou cândido a [un candidat, ou
candide-a], pouco importa; o importante é que aquele que o escuta não esteja aí com o rei
na barriga. É em função disto que eu tinha solicitado expressamente que os passadores não
fossem escolhidos senão entre os novatos e escolhidos pelos analistas deles,
independentemente, eu o sublinhei, de seus consentimentos. Aqueles que estão em
condição de ocupar a posição do passador aí se colocaram, em certos casos, como analistas
9

- isto não é, absolutamente, o que esperamos deles. O que esperamos deles é um


testemunho, uma transmissão, a transmissão de uma experiência na medida em que
justamente ela não é endereçada a um velho de guerra, a um primogênito.

[22] Esta passagem, esta falha pela qual tentei fazer passar meu passe, eu talvez
teria podido nela inventar algo mais sutil, mas não era preciso complicar mais ainda as
coisas, e permanecer na ordem do que se faz. Eu teria podido lhes solicitar de se tornarem
prestidigitadores, por exemplo, mas vejam vocês o cansaço que isto teria causado! O
resultado é alguma coisa inteiramente nova e, em alguns daqueles que aí se apresentaram, o
passe não foi sem efeito. Estes efeitos provavelmente são, depois de tudo, as ruínas/restos
[dégâts] - por que não? Cada um sabe que, visto que nós, da espécie humana, somos
condenados/fudidos [foutus], as ruínas/restos é o que melhor pode nos caber.

[23] Bem, eu estou aqui com as ruínas/restos sobre minhas costas. Isto não é mais
inútil por isto, visto que, como alguém me fazia notar, se há alguém que passe seu
tempo/tenha um passa tempo a passar o passe, é certamente eu.