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1.

A RELEVÂNCIA DO TEMA:

Quando nos propomos a falar sobre o “tempo” enquanto um “problema” ou


ainda sobre “o problema do tempo”, o senso comum quase que de imediato se mostra
perplexo, num misto de estranheza e  sarcasmo. Desde quando o tempo é um problema?
Existe de fato relevância nesse tema que justifique uma pesquisa acadêmica? São
questionamentos não raros e  maculados pelo conhecimento comum, que tende a ver as coisas
de forma periférica, como quem vê apenas a ponta de um ice Berg e, julga, ingenuamente,
conhecê-lo em sua totalidade, considerando portanto desnecessário depreender esforço
reflexivo sobre ele.

De fato, a questão do “tempo” parece, e somente parece, ser extremamente


simples e conhecida de todos, o próprio filósofo Agostinho de Hipona  reconhece isso quando
afirma: 

Que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que
o tempo? Quando dele falamos compreendemos o que dizemos.
Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam [1].

                        Apenas como recurso didático e para comprovação das palavras de Agostinho,
citaremos um texto canônico muito conhecido que versa sobre o tempo:

Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito


debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de
plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo
de curar, tempo de derribar e tempo de edificar, tempo de chorar e
tempo de rir, tempo de prantear e tempo de saltar de alegria, tempo de
espalhar pedras e tempo de juntar pedras, tempo de abraçar e tempo de
afastar-se de abraçar, tempo de buscar e tempo de perder, tempo de
guardar e tempo de deitar fora, tempo de rasgar e tempo de coser,
tempo de estar calado e tempo de falar, tempo de amar e tempo de
aborrecer, tempo de guerra e tempo de paz [2].

                        O que há de intrigante e difícil nessas palavras transcritas do sábio?


Absolutamente nada. Tudo está perfeitamente claro e respondido, até que se pergunte: O que
é o Tempo?

                        Diante dessa pergunta que sabemos e ao mesmo tempo não sabemos a
resposta, temos que assumir uma postura cautelosa e nutrir um forte desejo de refletir
seriamente sobre o tema, como fez Agostinho quando perguntado pela sua mente brilhante:

Se ninguém me perguntar eu sei, porém, se quiser explicar a quem me


perguntar, já não sei [3].

                        Apenas esta citação de um dos maiores filósofos de sua época, e não só de sua
época mas de toda história da filosofia, colocando-se humildemente diante do gigantismo do
“problema do tempo”, de suas implicações e desafios, já seria suficientemente aceitável como
prova da relevância e dificuldade do tema. Queremos porém, como se não bastasse,
argumentar ainda com as palavras de Edmundo Husserl (1859-1938-Lições):

A análise da consciência do tempo é uma antiqüíssima cruz da


psicologia descritiva e da teoria do conhecimento. O primeiro que
sentiu a fundo as poderosas dificuldades que aqui residem e que com
elas lutou até quase ao desespero foi Santo Agostinho. Os capítulos
14-28 do Livro XI das Confissões devem ainda hoje ser
profundamente estudados por quem se ocupe com o problema do
tempo. Portanto, nestas coisas, a época moderna, orgulhosa do seu
saber, nada mais grandioso e mais considerável trouxe do que este
grande e, na verdade, incansável pensador.

                        É pertinente lembrar ainda que o problema do tempo foi abordado e objeto de
extremo esforço intelectual de vários pensadores reconhecidos pelo brilhantismo de suas
mentes em suas respectivas épocas e áreas de conhecimentos, dos quais podemos citar
rapidamente: Parmênedes, Heráclito, Demócrito, Platão, Aristóteles, Isaac Newton, Leibniz,
Kant, Hegel, Albert Einstein,Henri Bérgson, Martin Haidegeer e tantos outros.

2. A SUBJETIVIDADE DO TEMPO

Como já demonstramos anteriormente, a aparente simplicidade do tema e


o suposto conhecimento que temos acerca do tempo acabam criando uma série de barreiras
que dificultam sua compreensão.

Alguns têm sugerido que esta dificuldade está diretamente relacionada


com o nosso grau de envolvimento e  a estreita relação do ser humano com o tempo. Somos
seres temporais, isto é, vivemos “dentro do tempo”, e já assim fomos criados. Esta dificuldade
de compreensão logo desapareceria,  se pudéssemos, transcender desta realidade, nos
tornando, de alguma forma, um observador externo, alheio ao tempo. Devemos notar que esta
é também a visão moderna de tempo, algo que é exterior ao homem, isto é, uma visão objetiva
de um tempo que existe, independentemente da existência do homem.

O cerne do pensamento Agostiniano inverte esta perspectiva e levanta


entre outras as seguintes questões: E se a “realidade” for inversa? Ou seja, se ao invés de
vivermos dentro do tempo for ele nosso hóspede? Hóspede de nossas consciências? Mais
ainda, produto de nossas consciências? Criação de nossas mentes? E, finalmente, o tempo
existe objetivamente?

O pensamento geral de Agostinho e, conseqüentemente, seu pensamento


sobre o tempo tem como base fundamental sua teoria da verdade, que consiste primariamente
em entender a verdade como “aquilo que é”, lógica peculiar de sua época. É fazendo uso
desta lógica e aplicando sua idéia da verdade na sua teoria do tempo que Agostinho chega a
duas conclusões muito importantes.

2.1. A primeira delas é decorrente de sua análise lógica acerca da existência do passado, do
presente e do futuro. Afirma ele:

Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo claro e brevemente? [...] e que
modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro – se o passado já não
existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente,
e não passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a
causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? [4].
                        Agostinho desconhecia, pelo menos filosoficamente, a existência de um tempo
objetivo. Ele argumentava logicamente a favor da não existência objetiva do passado e do
futuro, visto que um já passou (referindo-se obviamente ao pretérito), logo já não é, o que se
segue que não é verdadeiro afirmar existir o passado. Quanto ao futuro, este ainda não veio,
logo ainda também não é, sendo, por conseqüência, tão falso quanto afirmar a existência do
passado afirmar existência do futuro. Quanto ao presente, a única forma que o reconhecemos
como presente é quando contrastado  em relação aos outros dois tempos, isto é, passado e
futuro, caso contrário o que seria? E se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará
de existir, ou seja, quando deixar de ser presente e tornar-se passado, logo, também não é em
si mesmo, decorrendo daí lógica e igualmente ser tão falso afirmar a existência do presente
quanto afirmar a existência  do passado e do futuro.

2.2. Vejamos agora a segunda conclusão que chega Agostinho, como conseqüência de sua
primeira reflexão,  acerca da existência do tempo. Afirma ele:

O que agora transparece é que, não há tempos futuros nem


pretéritos. É impróprio afirmar: Os tempos são três: Pretérito,
presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três:
presente das coisas passadas, presente dos presentes, presente dos
futuros. Existem pois estes três tempos na minha mente que não
vejo em outra parte (grifo meu) : lembrança presente das coisas
passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente
das coisas futuras. Se me é lícito empregar tais expressões, vejo
então três tempos e confesso que são três [5].

                        Se formos cuidadosos em observar esta citação de Agostinho, logo


perceberemos que existe uma espécie de primazia do presente em relação ao passado e ao
futuro, esta primazia é de fato digna de um desenvolvimento de mais elaborado, o que não
ocorrerá aqui, por razões obvias, entretanto queremos destacar aqui, como segunda
conclusão de Agostinho, relativamente à sua teoria do tempo, é o aspecto subjetivo que ele
atribui ao tempo. O tempo em sua teoria não é um “ente” independente do homem e objetivo,
mas, pelo contrário, existe tão somente dentro de nossas mentes e em nenhum outro lugar
mais. Isto equivale afirmar que o tempo existe por causa de nossas consciências, isto é, não
existindo o homem, não existindo sua consciência, o tempo também não mais existirá, porque
é lá que não somente e unicamente existe o tempo como também é lá, na consciência, na
mente do homem, onde tem início e onde há também sua tripartição em passado, presente e
futuro e insistentemente repetimos, na mente humana e em nenhum outro lugar.

3. A RETOMADA DO PENSAMENTO AGOSTINIANO DO TEMPO

                        Iniciamos  esta pequena reflexão sobre o problema do tempo em Agostinho


argumentando em torno da importância do tema, bem como demonstrando que grandes
pensadores, nas mais variadas áreas do conhecimento e em épocas distintas tiveram que
abordar a questão do “tempo”, talvez, quem sabe, inquiridos pelas suas próprias consciências.
                        Agora, já em palavras conclusivas, queremos lembrar que o  pensamento de
Agostinho de Hipona não ficou cristalizado em sua época, como bem afirmou Edmund Husserl.
Todas que o sucederam e quiseram  abordar o problema do tempo, tiveram que abrir sua
cartilha, ainda que para discordar. O cerne de sua teoria do tempo tem sido ratificada
contemporaneamente por Henri Bérgson, eficiente opositor do positivismo. Segundo ele, o
positivismo não se manteve fiel à sua promessa de retratar a verdade, primordialmente, no que
tange ao problema do tempo. O tempo especializado, cronológico, não é o tempo de nossas
consciências, que é o tempo real, o tempo concreto. Esta denúncia é feita sob as bases da
teoria agostiniana do tempo, evidentemente acrescida de novas descobertas. E com ele,
Bergson, concluímos:

             Toda consciência é memória-conservação, acumulação do


passado no presente e antecipação do futuro [6].

Duração pura, duração vivida, duração real, duração qualidade,


duração completa, todas são qualidades próprias dos estados
psíquicos que se sucedem sem justaposição [7].

Sim, eu creio que nossa vida passada está aí conservada nos mínimos
detalhes, e tudo o que nós percebemos, passamos, desejamos desde o
primeiro despertar da nossa consciência, persiste infinitamente [8].

[1] Cf. XI 14,17.


[2] Eclesiastes 3:1-5.
[3] Ibid., XI 14,17
[4] Cf. XI, 17, 22.
[5] Cf. XI, 20, 26
[6] GUIMARÃES, Myrna Botelho de Barros. A Qualidade do Pensamento em Bergson. Recife: Ed. de
Pernambuco, 1989. p. 61.
[7] Ibid. p. 50.
[8] Ibid. p. 77.

fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/fabio1.htm
A DEGRADAÇÃO MORAL DO TEMPO:

Notas acerca das reflexões agostinianas sobre a natureza do Tempo

Leandro Duarte Rust*

Aurelius Augustinus nasceu em Tagaste, cidade do norte da África, no ano de


354. Estudou em Madaura e Cartago, lecionou em Roma e Milão, onde
descobriu o neoplatonismo1 e se converteu ao cristianismo. Regressando à
África, foi consagrado bispo de Hipona e, desde então, aquele que outrora fora
adepto da seita herética dos maniqueus,2 tornar-se-ia um incansável defensor
da fé cristã, sendo posteriormente considerado um dos maiores pensadores de
todos os tempos do cristianismo. Agostinho morreu em Cartago em 430,
enquanto a cidade era invadida por exércitos vândalos, um dos povos
germânicos que integraram-se ao Império Romano através da migração ou
invasão a partir de fins do século IV.

Entre os anos 398-399, Agostinho escreveu sua Confissões, obra


autobiográfica marcante na história do pensamento doutrinário cristão. No
décimo primeiro livro da obra deparamo-nos com esta inquietante indagação:
"Que é, pois, o Tempo? (...) Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser
explicar (...) já não sei". Assim, o bispo de Hipona sintetizava as dificuldades
encontradas na tentativa de definir o Tempo, entretanto, apesar de tais
dificuldades, nos próximos mil anos estas reflexões seriam insistentemente
retomadas pelos eclesiásticos medievais sempre que tentavam definir o
movimento temporal.

No pensamento de Agostinho, o Tempo foi visto como tendo sido criado como
qualquer animal, planta e mesmo o homem. Seria uma criatura, um "ser" como
todos os demais; e como tal, tendo um princípio teria igualmente um fim, uma
morte. Todavia, para o bispo de Hipona, o Tempo era um ser marcado por uma
característica particular: sua existência fragmentada. Isto é, os elementos que o
compõem – passado, presente e futuro – seriam descontínuos entre si,
pareciam isolados, incomunicáveis. Vejamos: de acordo com o bispo de
Hipona, o passado já não existe mais, pois já se sucedeu, deixou de existir; o
futuro, uma vez que ainda não veio, ainda não aconteceu, também não existe;
e quanto ao presente, este não passa de um ponto de Tempo sem nenhuma
duração, pois na tentativa de situá-lo, cada hora poderia ser dividida em
momentos, cada momento em instantes, cada instantes em parcelas ainda
menores... E assim chegaríamos a uma partícula tão ínfima, tão efêmera e
passageira, cuja duração tornava-se insignificante, irrelevante.

O Tempo agostiniano, por ser fragmentado, parece indefinível, inapreensível;


como se a condição de sua existência fosse, paradoxalmente, cessar de existir,
não mais existir. Esta existência parece uma perpétua fuga, um permanente
desaparecimento. Eis o Tempo com o qual se digladiou Agostinho,
simultaneamente evidência e mistério: algo que somente se deixa vislumbrar
ocultando-se, que só se entrega em sua perda; todos o reconhecem, mas
ninguém o vê cara a cara. Daí, o sentido da interrogação citada acima.
Agostinho concebeu a natureza do tempo, portanto, como um nada entre dois
nadas.

Para Agostinho o Tempo imprimia em tudo o que a ele estava submetido – isto
é, tudo o que não se encontrava na eternidade celestial – suas qualidades.
Portanto, a vida de todos os seres tornava-se uma perpétua fuga, um
permanente desaparecimento que culminaria no falecimento. Cada instante
temporal era tido com um agente causador de morte, afinal "... esta vida não
passa de corrida para a morte. Que outra coisa se faz em cada dia, em cada
hora e em cada momento até que, apurada a derradeira gota da vida, se
completa a morte que se ia operando...". O movimento temporal tornava-se,
desta forma, a fonte da fragilidade de tudo o que era vivo, através de sua
sucessão todas as criaturas tornavam-se perecíveis, passageiras, transitórias.
O Tempo tornou-se o cúmulo de uma tristeza que afligia o espírito de
Agostinho: ao tornar a vida breve, limitada, incompleta, a sucessão temporal
tornava-a desprezível, efêmera, de importância apenas relativa. Ao perceber o
Tempo como um causador de degradação e humilhação da vida, o bispo de
Hipona atribuía-lhe simultaneamente atributos morais: a sucessão temporal
aparece revestida por uma reputação extremamente má; de classe inferior à
eternidade, sua natureza mostra-se implacável e perversa. Para Agostinho tudo
o que era dominado pelo Tempo – ou seja, tudo o que é terreno, carnal –
deveria ser desprezado, renunciado. Em suma, Agostinho expressava uma
degradação moral do Tempo.

Estas reflexões agostinianas legaram à Idade Média uma estreita relação entre
temporal, carnal, terreno, mortal e decadente. Justificava-se um dualismo entre
Tempo e Eternidade que se refletia no contraste entre a carne e o espírito,
entre o pecado e a salvação, e, assim, encorajava a rejeição ao mundo. O
movimento temporal expressava-se através das imagens da doença, do
envelhecimento, do enterramento progressivo, da esterilidade, da cegueira, da
obscuridade...

 Notas:

* Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da


UFRJ.

1-Doutrina filosófica cujos adeptos mesclavam idéias do misticismo oriental


helenista e de outras escolas filosóficas - como o pitagorismo e o estoicismo -
ao legado do pensamento de Platão. Este sistema filosófico conheceu três
fases distintas: a Alexandrina (séc. II-III), tendo em Plotino o principal expoente,
a Síria (séc. IV-V), iniciada por Jâmblico, e a Ateniense (séc. V-VI),
representada por Proclo. Uma das idéias comuns aos neoplatônicos era que o
mundo espiritual da razão, habitado pelo Absoluto inalcançável, prefeito e
imaterial (o Uno), governava o mundo material e imperfeito dos homens, o qual
mostrava-se um pálido reflexo do primeiro.

2- Doutrina fundada por Mani no século III, na Pérsia, que se espalhou


rapidamente pelo Egito, Síria, África do Norte e Itália. Eis alguns princípios
elementares: desde toda eternidade existem dois princípios, o do bem e o do
mal. O primeiro se chama Deus e domina o reino da luz, o segundo chama-se
Satanás, rei das trevas, a luta incessante entre ambos rege o Universo. A
matéria é a portadora do mal e o espírito a fortaleza do bem.

Para saber mais

AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1990. (Parte II).

___. Confissões. São Paulo: Abril S/A., 1975.

BUSTAMANTE, Regina Maria da Cunha. Visão histórica de um cristão romanizado


sobre o final do Império Romano: Agostinho de Hipona. Cadernos de História. Rio de
Janeiro, n.4, p.17-24, 1987.

COMTE-SPONVILLE, André. O Ser-Tempo. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

GILSON, Etienne & BOEHNER, Philotheus. História da Filosofia Cristã. Petrópolis:


Vozes, 1985.

GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Estampa, 1995. Vol.1.

RICOUER, Paul. Tempo e Narrativa. Campinas: Papirus, 1994. Vol.1.

SCHUBACK, Márcia de Sá Cavalcante. Para Ler os medievais: ensaio de


hermenêutica imaginativa. Petrópolis: Vozes, 2000.

VIDAL, F. Canals. Historia de la Filosofia Medieval. Barcelona: Herder, 1976.

Fonte: http://www.ifcs.ufrj.br/~frazao/tempo.htm
A CONCEPÇÃO DE TEMPO EM SANTO AGOSTINHO

David Camilo[1]

Resumo:

Entre os grandes autores da história da filosofia Medieval, Aurelius Augustinus, mais conhecido como
Santo Agostinho ocupa um lugar de destaque. Tendo tratado filosoficamente sobre a questão da
existência de Deus, abordou dentro desse tema vários assuntos, provas e reflexões como: a Fé na
Trindade, O Exemplarismo, a ordem moral, a caridade como cerne da moral, as provas: psicológica,
moral e cosmológica da existência de Deus e mais alguns outros caminhos que julgou necessário para
formular sua estrutura de pensamento.

Uma das reflexões que fazem parte da questão tratada por Agostinho é o conceito de tempo.

Neste trabalho tenho por objetivo analisar e compreender o pensamento de Santo Agostinho em relação
ao conceito de tempo em seu aspecto psicológico, para em seguida, compreender a idéia de passado,
presente e futuro estabelecendo relações entre si. A problemática tratada neste trabalho consistirá em
tentar responder de forma argumentativa a seguinte questão: Como pode o presente "ser", dado que,
passado e futuro "não são?"

Palavras-chave: Agostinho, Deus, tempo, passado-presente-futuro, alma.

Riassunto:

Tra in grandi autori della storia della filosofia Medievale, Aurelius Agustinus, più conosciuto come Santo
Agostino, occupa un posto di distacco. All'interno della questione della esistenza di Dio, Agostino ha
abbordato diversi argomenti, prove e riflessioni come: la Fede, le prove: psicologica, morale e
cosmologica della esistenza di Dio e più alcuni altri cammini che ha giudicato necessario per formulare la
sua struttura di pensiero.

Una delle riflessioni che fanno parte della questione trattata da Agostino è il concetto di tempo.

In questo lavoro ho per obbiettivo fare l'analisi e comprendere il pensiero di Santo Agostino in rapporto al
concetto di tempo nel suo aspetto psicologico, per in seguito comprendere l'idea di passato, presente e di
futuro stabilendo i rapporti tra di loro. La problematica trattata in questo lavoro consisterà in cercare di
rispondere in modo argomentativo la seguente questione: Come il presente può "essere", giacché il
passato e il futuro "non sono"?

Parole chiavi: Agostino, Dio, tempo, pasatto-presente-futuro, anima.

Introdução

Este artigo tem por objetivo analisar e compreender o pensamento de Santo Agostinho (354-430) em
relação ao conceito de tempo em seu aspecto psicológico, para em seguida, compreender a idéia de
passado, presente e futuro estabelecendo relações entre si. Para que isso seja possível, será necessário
buscar no pensamento de Agostinho, como se deu o conceito de tempo e que situação o levou a refletir
sobre esse assunto.

É importante sabermos que Agostinho viveu na época Medieval e também por esse motivo seu
pensamento trata de questões relacionadas à existência de Deus. Dentro desse assunto aborda uma
série de reflexões para que se chegue a uma linha de pensamento solidificada a respeito desse tema.
Uma destas reflexões é o tempo, o qual será tratado neste trabalho.

Deste modo, levando em consideração a concepção de tempo que o mundo em que vivemos exerce
sobre nós, nos faz buscar e mostrar a partir de uma outra perspectiva, neste caso Santo Agostinho, as
possíveis carências e ou deficiências que temos da visão de tal conceito. Para tanto, analisar a
concepção de tempo torna-se um elemento de suma importância para compreendê-lo e percebê-lo a
partir de uma outra ótica.

COMPREENSÃO E RECONSTRUÇÃO DO TEMA

O tempo é algo que mexe com todos e está na boca e no cotidiano de todas as pessoas. Como diz
Agostinho, "que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo?".Quando
dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando deles
nos falam". Contudo, quando queremos nos colocar a explicá-lo, já não mais o sabemos.

Forçado pela controvérsia com os maniqueus, Agostinho assume uma postura equilibrada e cautelosa
diante do difícil enigma (implicatissimum aenigma-cf. Conf.,XI, 22, 28). Por isso, diante da pergunta
ontológica: "o que é, por conseguinte, o tempo?" (Conf., XI, 14, 17), ele responde: Se ninguém me
perguntar, eu sei; porém, se quiser explicar a quem me perguntar, já não sei" ( Conf., XI, 14, 17). Essa
resposta de Agostinho não impede, entretanto, que ele seja ousado em sua construção, considerada, até
hoje, como uma das mais importantes.

Agostinho usa com grande maestria a dialética para expor suas idéias, para tanto, usaremos também
deste método para melhor compreendermos seu raciocínio.

Entre os grandes autores da história da filosofia Medieval, Aurelius Augustinus, mais conhecido como
Santo Agostinho, ocupa um lugar de destaque. Tendo tratado filosoficamente sobre a questão da
existência de Deus, abordou dentro desse tema, vários assuntos, provas e reflexões como a Fé na
Trindade, O Exemplarismo, a ordem moral, a caridade como cerne da moral, as provas: psicológica,
moral e cosmológica da existência de Deus e mais alguns outros caminhos que julgou necessário para
formular sua estrutura de pensamento e assim explicar essa existência. Uma das reflexões que fazem
parte da questão da existência de Deus tratada por Agostinho é o conceito de tempo, em seu aspecto
psicológico.

O tempo é um ser de razão com fundamento na realidade. Santo Agostinho estuda o problema do tempo
sob o aspecto psicológico: como nós o apreendemos. Não o estuda sob o aspecto ontológico: como é em
si mesmo. Para este último caso teria de considerá-lo como indivisível.[2]

Esta afirmação torna-se muito importante para entender e contextualizar o pensamento de Agostinho. A
afirmação de que o pensador refletia o tempo no aspecto subjetivo, ou psicológico, mostra que é preciso
que o homem se perceba em relação a si mesmo e ao mundo entendendo como isso se dá.

Para compreendermos melhor sobre o conceito de tempo em Santo Agostinho, é necessário que se
entenda de onde parte essa reflexão e a que ela está ligada.

Em sua argumentação dialética para provar a existência de Deus, Santo Agostinho desenvolve uma série
de reflexões dentro desse pensamento para fazer-se melhor compreendido. Dentro dessa dinâmica, o
problema do tempo tem como ponto de partida a existência de Deus e a criação do mundo.
Não houve nenhum tempo em que não fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o próprio tempo. Nenhuns
tempos Vos são coeternos, porque Vós permaneceis imutável, e se os tempos assim permanecem, já não
seriam tempos. Que é, pois, o tempo?

Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender mesmo só com o pensamento.[3]

Santo Agostinho para explicar que não havia possibilidade de existir tempo antes da criação do mundo,
descreve sobre a superioridade de Deus em relação ao tempo e a inferioridade deste para com Aquele,
que é bem explicitada na seguinte citação:

Como poderiam ter passado inumeráveis séculos, se Vós, que sois o autor de todos os séculos, ainda os
não tínheis criado? Que tempo poderia existir se não fosse estabelecido por Vós? E como poderia esse
tempo decorrer, se nunca tivesse existido?[4]

Certamente foi Santo Agostinho quem, ante o colapso da Civilização Antiga e ao principiar toda sua
filosofia por uma análise do fenômeno do tempo, deu o passo decisivo na direção do subjetivismo
transcendente. Agostinho foi o primeiro pensador a ousar associar a consciência do Eu à intuição do
Tempo.foi também o primeiro, concomitantemente, a introduzir essa noção temporal como elemento
essencial de todo filosofar religioso e moral. Há aí uma coincidência curiosa e enigmática. A filosofia do
Tempo, a qual o bispo de Hipona surpreendentemente intuiu, se enquadra tanto em sua obra eminente de
Apologética como na análise psicológica, essencialmente subjetivista e "existencial", que empreendeu em
suas famosas "Confissões", onde nos deparamos com um arrazoado de natureza metafísica.

O tempo que conhecemos é dividido da seguinte maneira:

1-Presente: sucessão de fatos que acontecem no aqui, agora, neste momento.

2-Passado: sucessão de fatos que já decorreram em um presente já superado.

3-Futuro: sucessão de fatos que não ocorreram, não ocorrem agora, mas que ainda irão ocorrer.

Para Santo Agostinho, o tempo presente existe, mas interroga-se em relação ao passado e ao futuro, já
que não podem ser medidos pela sensibilidade."Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde
elas estão. Se ainda o não posso compreender, sei todavia que em qualquer parte onde estiverem, aí não
são futuras nem pretéritas, já lá não estão.[5]

O pensamento de Agostinho analisa os três tempos não como sendo três, mas como um só tempo, pois o
analisa como um tempo contínuo, e, sendo assim, classifica-os como um eterno presente do seguinte
modo:

PRESENTE DO PRESENTE, PRESENTE DO PASSADO E PRESENTE DO FUTURO.

Dado isso:

1 – O presente é:

O presente é porque o vivo neste momento e por isso posso percebê-lo e com isso medi-lo.

2 – O passado não é:
O passado é tempo, porém um tempo que já passou e se já passou não pode ser medido pela
sensibilidade, portanto ele não é.

3 – O futuro não é:

O futuro ainda não chegou, por isso, não podemos medi-lo, portanto ele não é.

Tendo em vista que para Agostinho existe um único tempo, a partir desta perspectiva, podemos então,
através de uma análise crítica, levantar a problemática que norteia esta pesquisa: "Como pode o presente
"ser", dado que, passado e futuro "não são?"

Assim como Agostinho, Plotino, algumas décadas antes, já afirmava que o tempo não existe fora da alma:
"é a vida da alma e consiste no movimento graças ao qual a alma passa de uma condição de sua vida
para outra". Assim, pode-se dizer que até o universo está no tempo só na medida em que está na alma,
ou seja, na alma do mundo.[6]

Já na filosofia moderna, Bergson reexpôs essa concepção, contrapondo-a ao conceito científico de


tempo. Segundo ele, o tempo da ciência é espacializado e, por isso, não tem nenhuma das características
que a consciência lhe atribui. Ele é representado como uma linha, mas a linha é imóvel, enquanto o
tempo é mobilidade. A linha já está feita, ao passo que o tempo é aquilo que se faz; aliás, é aquilo graças
a que todas as coisas se fazem. [7]

Em sua primeira obra, Essai sur lês données immédiates de la conscience, Bergson insistira na exigência
de considerar o tempo vivido ( a duração da consciência) como corrente fluida na qual é impossível até
distinguir estados, porque cada instante dela transpõe-se no outro em continuidade ininterrupta, como
acontece com as cores do arco-íris. Esse ficou sendo o conceito fundamental de sua filosofia. Segundo
Bergson, o tempo como duração possui duas características fundamentais: 1º novidade absoluta a cada
instante, em virtudedo que é um processo contínuo de criação; 2º conservação infalível e integral de todo
o passado, em virtude do que age como umabola de neve e continua crescendo à medida que caminha
para o futuro.

Não muito diferente, é o conceito de Husserl sobre o "tempo fenomenológico". Ele afirma: "Toda vivência
efetiva é necessariamente algo que dura; e com essa duração insere-se em um infinito contínuo de
durações, em um contínuo pleno". Tem necessariamente um horizonte temporal atualmente infinito de
todos os lados. Isso significa que pertence a uma corrente infinita de vivências. Cada vivência isolada,
assim como pode começar, pode acabar e encerrar sua duração; é o que acontece, por exemplo, com a
experiência de uma alegria. Mas a corrente de vivências não pode começar nem acabar. Isso significa
que, assim como a duração bergsoniana, a corrente de vivências tudo conserva e é uma espécie de
eterno presente.

QUANTO AO TEMPO PSICOLÓGICO, HISTÓRICO E CRONOLÓGICO.

A Agostinho devem-se as primeiras análises sobre o tempo e ele mesmo reconheceu que é muito difícil
encontrar uma resposta sobre "o que é o tempo?" afirmando que é um dos conhecimentos que todos
sabemos o que é, todavia, sabemos também que não é fácil explicá-lo. Toda a nossa vivência é feita num
tempo.

O tempo nas diversas dimensões que possui, não deixa, entretanto, de ser um só tempo, ou seja, único.
Contudo, toda a nossa vivência situa-se num tempo cronológico, num tempo histórico e num tempo
psicológico. O nosso nascer, o crescer, envelhecer e morrer estão sempre situados num tempo, porque
"Espaço e Tempo" fazem parte da nossa existência.
Quando estamos esperando ansiosamente uma pessoa em um encontro e esta pessoa está atrasada a
apenas alguns minutos, parecem-nos esses minutos longas horas, todavia não foram horas mas sim
minutos. Isto denota que o tempo também é afetado pelo nosso espírito, ou seja, é abstraído
psicologicamente como se tivesse outro tipo de contagem fora do relógio, que faz com que se prolongue
ou se abrevie. Na realidade o temponão para, mas quantas são as vezes que nos parece ter parado?
Quantas ocasiões a nossa noção de tempo parece estar a parte ao tempo cronológico?

Pois bem, a partir disso, verifica-se que o tempo da consciência ou tempo psicológico não se regula ao
mesmo passo ou a mesma medida que o tempo cronológico.

O TEMPO E SUAS DIMENSÕES

John Quinn[8], em seu artigo El Tiempo en San Agustín, explicita a plena consciência que Agostinho
possui sobre as várias dimensões presentes no tempo, que são:

1- Tempo Psicológico –futuro, passado e presente existem na alma por atos psíquicos.

2- Tempo Físico-tempo é uma distenção da alma.

3- Tempo Moral- o tempo não depende do movimento físico.

4- Tempo Histórico- estabelece que o tempo real é o presente.

Todos estes elementos estão bem presentes e pontuados no texto de John M Quinn em seu artigo
intitulado El Tiempo en San Agustín.

No tempo psicológico, o qual é tratado neste trabalho, e que, por conseguinte mais nos interessa, a
investigação teórica levanta três questões: Existe o objeto? O que é? Qual é a sua dignidade ou valor
ôntico?. A duvida acerca da existência do tempo está suscitada brevemente, e depois se desfaz em
seguida, porque há testemunhos massivos em favor da realidade do tempo. O status ôntico do tempo é
ressaltado implicitamente em algumas referências a inferioridade do tempo em comparação com a
eternidade. O tratado sobre o tempo se centra quase exclusivamente na tarefa de formular uma definição
do tempo.

A exposição se divide em três partes: a parte primeira estabelece que o tempo real é o tempo presente; a
parte segunda afirma que o tempo não depende do movimento físico, a parte terceira afirma
empiricamente que o tempo é uma distenção da alma, com provas que resolvem a perplexidade inicial.
Um capítulo final resolve o problema inicial. Fazendo ver que o futuro, o passado e o presente, existem na
alma por atos psíquicos.

Antes da investigação, sabemos e não sabemos o que é o tempo. Se ninguém suscita a questão,
sabemos o que é o tempo; uma percepção teoricamente vaga e prática do tempo está indicada na
maneira de falar acerca do tempo passado, do tempo presente e do tempo futuro. Mas quando
convidados a dar uma definição, não somos capazes inicialmente de declarar com precisão o significado
do tempo. Quando uma investigação rudimentaria pode desfaze-se de que exista um passado e um
futuro, sem dúvida uma análise ulterior reabilita sua condição real. Se o passado e o futuro foram
completamente inexistentes, então não seriam conhecíveis. Mas partes da literatura profana e sagrada
predizem o futuro ou voltam a contar o passado. Além do que, nem o passado existe como passado nem
o futuro existe como futuro; se não que ambos existem precisamente como presentes.
As imagens que Agostinho evoca de sua infância são reavivadas na memória presente. O futuro existe
antes de sua atualização como evento em projetos presentes. A observação presente implica uma
concepção antecipada do que o processo presente significa ao que está preordenado casualmente; o
amanhecer prediz a saída do sol, ou seja, em outras palavras: os três tempos são em algum sentido
tempos presentes: tempo como presente, tempo como re-presente (novamente presente), tempo como
pré-presente (antecipadamente presente). Aquio presente não designa o presente físico, que é puntiforme
e indivisível. Se o presente físico fosse divisível, então seria impossível dividir o futuro do passado, de
certa forma o passado e o futuro se fundiriam.

TEMPO COMO DISTENÇÃO DA ALMA

Aqui temos nítidos exemplos, no caso três induções, que verificam empiricamente que o tempo é uma
distenção da alma.

Na seção Deus creator omnium,o ouvido – com prática – compara sílabas largas. Nós não podemos
medir sílabas passadas, a menos que as mantenhamos em existência, não medimos os sons físicos
agora passados, mas sim suas impressões psíquicas ainda presentes.

Assim como medimos os tempos em que os corpos estão em repouso, também damos atributos de tempo
a períodos de silêncio. Com a imaginação podemos por uma longitude temporal de som ao longo das
pausas que serão medidas, somente porque o tempo é uma distenção psíquica. Em certas ocasiões o
silêncio é anterior a ação de falar.

A prática interior de uma poesia memorizada mede uma duração de som antes que seja pronunciada; a
longitude do som que deve exteriorizar-se é medida por uma distenção interior em silêncio. Estas
induções, que culminam com anterioridade as análises dialéticas, dissipam a perplexidade inicial.

O paradoxo do conhecer e do não conhecer o tempo. A definição do tempo como distenção pavimenta o
caminho para resolver o problema de como existem e coexistem tempos fisicamente inexistentes. O
futuro, o presente estendido e o passado recebem sua continuidade por atos da alma. A expectação
fundamenta o futuro; o aguardar corresponde o presente; a memória retém o passado.

Ao apreender o tempo, nos retemos mentalmente o fator anterior e o fator posterior juntamente com os
seguimentos interpostos: o tempo, tal como o conhecemos, é uma linha do tempo psíquico. Para alguns
que ainda insistem em que, aos olhos de Agostinho, o tempo é irremediavelmente subjetivo, uma pura
"construção" da mente, a plena verdade de que para Agostinho o tempo não é menos objetivo e não é
menos subjetivo que o movimento. Como o tempo, seu concomitante, o movimento em sua totalidade, é
apreendido também unicamente pela atividade retentora da mente, ou seja, a mente é onde podemos
medir os intervalos de tempo.

Segundo alguns autores, a distenção de Agostinho é uma tradução aproximada de La diastases de


Plotino, para quem a distenção da vida da alma implica tempo. Segundo a apreciação de Plotino, que é
metafísica e não natural-psicológica, o tempo não pertence a alma humana, mas sim a Alma. Posto que a
alma causa a natureza e, por tanto, o tempo, sua vida é a única que é verdadeiro tempo.

O TEMPO E SUA MEDIDA

É claramente notada uma distinção entre aqueles que postulam um tempo exterior, ou um tempo absoluto
como que embutido no espaço e passível de medição, como relata José Osvaldo no artigo
Implicatissimum Aenigma: O Tempo e Santo Agostinho, e aqueles que, na linha de Agostinho, se
debruçam sobre o tempo subjetivo, na intimidade da alma ou da consciência. Pois bem, medimos o tempo
como desejam os físicos e os naturalistas.

Diria Bergson, contudo, que medimos a durée, medimos a duração do tempo pela confirmação da
memória relativa à permanência, ordenada e sucessiva, de fenômenos observados, de eventos
constatados ou de idéias pensadas. Mas, afinal, como podemos medir aquilo que não existe
concretamente? De fato, como podemos fazê-lo se o passado já passou, se o futuro ainda não chegou e
se o presente não se fixa numa extensão permanente da realidade observada? Como para Agostinho, "O
que é o presente senão um simples ponto de transição entre a imensidão do passado e o abismo do
futuro", esvaecendo antes mesmo que sobre ele se possa aplicar qualquer medida?" E o futuro? Não é
verdade que, para mim, só existe futuro como uma imagem antecipada, em minha consciência,daquilo
que se impõe sobre mim como determinação externa ou como aquilo que espero e aguardo. Na verdade,
tudo que é passado não mais existe. O passado existiu. Tudo que é futuro não existe, pois existirá. E tudo
que é presente tampouco existe pois apenas configura a transição imediata e instantânea do passado
para o futuro. Características essas apontadas por José Osvaldo analisando o tempo agostiniano.

A existência só é valida, portanto, numa extensão de tempo, numa durée bergsoniana eminentemente
subjetiva ou numa outra dimensão que corta perpendicularmente as três dimensões do espaço.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No livro XI de suas "Confissões", as palavras de Agostinho sobre o tempo tornaram-se justamente


célebres e sempre merecem ser citadas, até mesmo, pelo seu sublime valor metafísico e também pelo
seu conteúdo moral: "O que é então o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se devo explicá-lo a
quem me levanta a questão, não sei (Quid est ergo tempus? Si nemo ex me quaerat scio; se quaerenti
explicare velim, néscio)". E continua sua meditação: "Mas de qualquer forma isto, pelo menos, ouso
afirmar que sei: se nada houvesse ocorrido, não haveria tempo passado; se nada se aproximasse, não
haveria tempo futuro; se nada há, não haveria tempo presente".

Outra vez nos encontramos envoltos em nossa problemática e percebemos como ela percorre todo o
longo caminho em nossa empreitada durante esta pesquisa. Isso se torna notório quando continua
Agostinho em sua meditação:"Mas os dois tempos, passado e futuro, como podem ser, uma vez que o
passado já não é mais, e o futuro ainda não é? Por outro lado, se o presente sempre fosse presente e
nunca fluísse para longe no passado, não seria tempo de modo algum, porém eternidade.

Em suas "Investigações" sobre a Natureza da Filosofia, Ludwig Wittgenstein assinala que a pergunta
sobre algo que sabemos quando ninguém nos pergunta, mas que não mais sabemos quando somos
solicitados a fornecer uma explicação, é algo difícil que devemos lógica e constantemente recordar na
pesquisa.

O esforço de compreensão lógica da questão que se colocou na mente do pensador possui uma
profundidade peculiar. Ela está desde logo, obviamente, diante de nossa mente. Mas, em certo sentido,
não podemos compreendê-la. Wittgenstein tentou desenvolver a investigação filosófica pela análise
gramatical do fenômeno do tempo.

No entanto, na discussão, em contexto fenomenológico e psicológico, assinala Agostinho que o passado,


o presente e o futuro encontram-se na alma, respectivamente, como memória, como contuitus (visão,
observação, percepção) e como exspectatio (espera, expectativa). É este o problema central que se
depara perante nossa angustiada curiosidade filosófica.
Foi Edmund Husserl um dos primeiros pensadores modernos a salientar a importância da descoberta feita
por Agostinho.

Em sua "Fenomenologia da Consciência do Tempo Interior", acentua o filósofo alemão que, nos textos
citados, se descobre o cerne da psicologia descritiva e da teoria do conhecimento tendo sido Agostinho "o
primeiro a sentir as dificuldades tremendas com que aí nos deparamos e o primeiro a sobre elas trabalhar
quase que com desespero". Husserl acrescenta que o livro XI de as Confissões deve ainda ser estudado
em profundidade por quem quer que se ocupe com o problema do tempo."Pois tão segura de seus
conhecimentos, a modernidade não avançou tão gloriosamente ou consideravelmente mais adiante nessa
matéria do que o grande e perseverante pensador". Husserl conclui a introdução do argumento de seu
livro com a famosa citação: "si nemo a me quaerat, scio: si querenti explicare velim, néscio"...

No entanto, na discussão, em contexto fenomenológico e psicológico, assinala Agostinho que o passado,


o presente e o futuro encontram-se na alma, respectivamente, como memória, como contuitus (visão,
observação, percepção) e como exspectatio (espera, expectativa). É este o problema central que se
depara perante nossa angustiada curiosidade filosófica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO, Santo. Confissões, Os Pensadores Humanos (Trad. J. Oliveira e ª Ambrósio de Pina)


Ed. Abril, São Paulo, 1973.

AGOSTINHO, Santo. Confissões, Pensamento Humano (Trad. J. Oliveira e ª Ambrósio de Pina) Ed.
Vozes ltda, Rio de Janeiro, 1988.

DIEZ, Carmen; Tempo pensado e Tempo construído.2000. Monografia (Graduação em Ciências


Humanas) – Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

LIBERA, Alain, A filosofia Medieval. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, 1990GUERERO, Rafael
Ramón.

MADEC, Golven. Dictionnaire des Philosophes: Tradução Denis Heisman, São Paulo, Ed. Martins
Fontes. 2001. Título do original francês.

RUFINI, José Renivaldo. Passado, Presente e Futuro: O tempo da consciência e a consciência do


tempo no pensamento de Santo Agostinho. In: Veritas: Porto Alegre: Edipucrs. Vol. 48. Nº 3. Setembro
2003. p. 351 – 359.

QUINN, John M. El Tiempo en San Agustín. Dicionario de San Agustín: San Agustín a traves del tiempo:
Monte Carmelo.1999.

A.M. Johnston: Time as a Psalm in St Augustin.

AYER, A.J. As Idéias de Bertrand Russell. São Paulo: Cultrix, 1974.

RUSSELL, Bertrand. A análise da Mente. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. (Muirhead of philosophy)

[1] Graduando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.


[2] AGOSTINHO, Santo. Confissões, Pensamento Humano (Trad. J. Oliveira e ª Ambrósio de Pina) Ed.
Vozes ltda, Rio de Janeiro, 1988.

[3] AGOSTINHO, Santo. Confissões, Os Pensadores Humano ( Trad. J. Oliveira e ª Ambrósio de Pina)
Ed. Abril, São Paulo, 1973. Pág. 243

[4] AGOSTINHO, Santo. Confissões, Os Pensadores Humano ( Trad. J. Oliveira e ª Ambrósio de Pina)
Ed. Abril, São Paulo, 1973. Pág. 243

[5] AGOSTINHO, Santo. Confissões, Os Pensadores Humano ( Trad. J. Oliveira e ª Ambrósio de Pina)
Ed. Abril, São Paulo, 1973.

[6] IBID, III, 7, 3.

[7] LA PENSÉE ET LE MOUVANT, 3ª ed., 1934, p. 9.

[8] Pesquisador e professor espanhol especialista em filosofia Medieval.

fonte: http://www.webartigos.com/articles/8524/1/a-concepcao-de-tempo-em-agostinho/pagina1.html

Para a semana de humanidades

http://www.cchla.ufrn.br/humanidades/

GT 07 - Arte, poesia e ontologia

Coordenador(es): Dra. Andréa Copeleovitch e Dr. Oscar Federico Bauchwitz

Contato(s): doxum2001@yahoo.com.br e neoplatonismo@bol.com.br

Departamento: DEART e DFIL

Resumo: Procura-se congregar profissionais e pesquisadores cuja produção artística ou


intelectual permita a reflexão e o diálogo em torno a questões sobre a arte e a poesia, e o
sentido ontológico de ambas as expressões do pensamento e do agir humanos.
Resumo

Neste trabalho tenho como base a observação do poema “Tempo” de Tarcísio


Alves e suas convergências ao estudo Agostiniano sobre o tempo, abordando a problemática
dos tempos presente, passado e futuro e ainda se existe um quarto tempo que seria a
eternidade. Pois o autor teve grande influência sobre os estudos da metafísica de Agostinho de
Hipona relacionados a esse tema, mas precisamente no capitulo de numero XI da obra
Confissões. O devido poema trata da ordem ontológica do pensamento humano em relação ao
tempo. O autor procura ver as varias relações do tempo consigo mesmo e com o mundo
exterior, sendo ele fruto de aflição por não entender o significado concreto do tempo.
Travando um dialogo consigo mesmo e simulando uma conversa com o próprio tempo, o autor
questiona o verdadeiro valor do tempo e suas atribuições, ou mesmo se existe um tempo real.
O poema finaliza-se com o autor não tendo uma resposta exata a cerca do tempo, então
indignado despreza o tempo dando maior importância à natureza humana.

O TEMPO AGOSTINIANO

Tarcísio Alves dos SANTOS

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

O presente trabalho tem como base a comparação do poema "Tempo" de


autoria própria, analisando suas convergências com o estudo Agostiniano e suas reflexões
acerca do tema, levando em consideração que Agostinho de Hipona, mais precisamente no
capítulo de número XI da obra Confissões, trata da temática da metafísica, abordando a
problemática da existência dos tempos presente, passado e futuro e ainda se existe um quarto
tempo que seria a eternidade. O poema, por conseguinte, trata da ordem ontológica do
pensamento humano em relação ao tempo, de modo que o autor procura ver as várias
relações do tempo consigo mesmo e com o mundo exterior, sendo ele fruto de aflição por não
entender o significado concreto do tempo. Travando um diálogo consigo mesmo e simulando
uma conversa com o próprio tempo, o autor questiona o verdadeiro valor do tempo e suas
atribuições, ou mesmo se existe um tempo real.
Tempo

Oh tempo! Quem és tu que me persegues desde a minha mocidade? Cf. cap. XI pag. 217, 218, 220

Quantos anos tens que nunca revelaste a ninguém?

E por que te chamam tão diferente: passado, presente e futuro? Cf. cap. XI pag. 218, 220

Por acaso tu não és único? Como pode, então, ser dividido? Cf. cap. XI pag. 220

Ainda há aqueles que te chamam de infinito por esse jugo, Cf. cap. XI pag. 218

Desses eu gosto, surpreendem-me pelo novo sentido que te dão.

Mas se tu és assim, sem começo e sem fim, Como fôras criado e por quem?

Por acaso há um tempo que não é tempo e este te criou, Cf. cap. XI pag. 218, 222

Para que o tempo pudesse ser enquanto não era? Cf. cap. XI pag. 218, 222

Ah tempo! Fala ao meu coração, pois quero saber quem realmente és.

Se vivo em um mundo com tempo ou sem tempo.

Me diz qual o teu verdadeiro nome ou se todos são teus,

Porque preciso saber qual é meu tempo ou se não tenho,

Não me deixe ser como aqueles que nunca te entenderam, Cf. cap. XI pag. 220, 223

E muito menos como esses ignorantes que nunca te procuraram. Cf. cap. XI pag. 220, 223

Oh, maravilhoso tempo, desce do teu trono e vem a mim,

Diz-me se sou passado e meu tempo já não existe, Cf. cap. XI pag. 225

Diz-me se sou presente para que eu possa aproveitar o tempo que me resta, Cf. cap. XI pag. 225

Fala-me se sou futuro para preparar-me onde quer que eu esteja, Cf. cap. XI pag. 225

Ou se sou infinito, eterno e nunca morrerei e estaremos sempre juntos. Cf. cap. XI pag. 225

Fala!...Se não queres falar tudo bem, cala-te! Por que o que o tempo diz, afinal? Cf. cap. XI pag. 230

Tú és apenas o tempo, enquanto eu sim posso ser a eternidade. Cf. cap. XI pag. 230

Tas

As paginas do livro refere-se ao livro os pensadores.