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Sonhos em Gestalt

Capítulo 7
Workshop apresentado pôr Serge Ginger
IGTA – Montreal – 2000

Sonhos como “Mensagens”

Para Freud, os sonhos eram a “porta de entrada” para a mente inconsciente. Perls concordou com esta máxima
– pelo menos em um ponto – e ainda declarou que a análise detalhada de um único sonho seria material
suficiente para uma terapia toda.!

O livro que fez Perls famoso relata um seminário sobre sonhos, que foi gravado. O título original é Gestalt
Therapy Verbatim(USA, 1969) – ele é todo sobre sonhos e existência, em Gestalt Terapia.

Na realidade, Perls tomou emprestado seu método principal de análise de sonhos de um outro psicanalista
dissidente, Otto Rank. Nós descreveremos uma série de abordagens complementares ao trabalho com sonhos;
parece, entretanto, necessário abordar brevemente a visão tradicional assim como cobrir recente pesquisa
nesta área. De fato, embora a abordagem psicanalítica fosse dominante de 1900 a 1960, a situação desde então
evoluiu, especialmente desde o trabalhos do pesquisador Michel Jouvert

Além disto, os sonhos sempre fascinaram o homem, e ele sempre tentou decodificar suas mensagens: 3.000
anos atrás, as interpretações proféticas e aplicações terapêuticas de sonhos já eram praticadas na
Mesopotâmia. Na Grécia, em 420 os templos de Esculápio eram reservados para incubação: as pessoas
dormiam no chão, se enrolavam numa pele de animal ensangüentada, entre serpentes sagradas, e imploravam
por sonhos, os quais, supunha-se, curavam suas doenças...!

Lembre-se do famoso sonho do Faraó, de sete vacas magras e sete vacas gordas. José foi liberto da prisão,
sobe a condição de ser capaz de interpretar este sonho; ele, subseqüentemente se tornou Primeiro Ministro do
Egito. Sabemos que naqueles tempos, interpretação de sonhos era uma profissão altamente respeitada. A
lenda diz que a corte do Rei de Babilônia empregou 24 onirologistas capacitados(especialistas em sonhos).
Um dia, o Rei teve um sonho que ele sabia ser importante. Cada onirologista ofereceu uma interpretação
diferente e o Rei ficou certamente intrigado... Mas como aconteceu, cada uma das 24 predições se tornou
verdade, cada uma era uma demonstração brilhante da natureza polissêmica da linguagem do inconsciente – a
qual toma muitas diferentes ou significados paralelos(como textos secretos...ou os contos de fada dos irmãos
Grimm!)

Os Judeus consideravam um sonho não interpretado como uma carta não lida, ou seja, como uma ofensa ao
autor. Mas, quem é o autor afinal? O sonho é uma expressão do inconsciente do sonhador(Freud), ou uma
mensagem de algum lugar? O Inconsciente coletivo(Jung), transpessoal(Grof, Descamps), ou inspiração
divina – o que poderia explicar sonhos premonitórios? Ou ele poderia ser simplesmente um fenômeno natural,
essencial, biológico(Jouvert, Dement, Hobson)?

PESQUISAS RECENTES

Hoje sabemos que somente espécies superiores sonham. Animais de sangue frio (peixes, répteis) nunca
sonham, mas seus sistemas nervosos auto-regeneram através de suas vidas(neurogeneses permanente),
renovando neurônios da mesma forma como células comuns. E assim, eles estão reduzidos aos instintos
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inatos e são incapazes de aprender ou adquirir reflexos condicionados... eles não podem se beneficiar da
psicoterapia – ao contrário de gatos, cachorros, cavalos... e golfinhos(que dormem com um hemisfério pôr
vez!).

Durante o sonho, o animal está particularmente vulnerável: ele é temporariamente surdo e paralisado. Não é
surpreendente que para se tornar capaz de sonhar, é exigida uma certa segurança. Assim, vacas sonham treis
vezes mais em estábulos comparadas com as de campo! E grandes carnívoros, seguros de si mesmos,
permitem a si mesmos sonhar acima de 40% de seu tempo de sono, enquanto as presas menos seguras
dificilmente ousam sonhar mais do que 5% de tempo de sono.

O próprio homem gasta em torno de 20% de seu tempo de sono em sonhos. Isto soma um total de 100
minutos cada noite – dos quais ele pode ou não se lembrar. Toda pessoa tem sonhos, mas uns meros oito
minutos após acordar, 95% dos conteúdos são esquecidos!

O feto começa a sonhar no útero, a partir do sétimo mês após a concepção(e assim, antes de ser possível
reprimir a experiência consciente – como Freud pensou) e o recém-nascido continua a construção cerebral
como tal durante 60% de seu tempo. A mulher grávida tem duas vezes mais sonhos do que ela teria
normalmente, “para acompanhar” a neurogênesis de seu filho. Não é impossível que alguns destes sonhos
permitem transmissão inconsciente de certas experiências da vida, as quais poderiam contribuir para a famosa
“hereditariedade das características adquiridas” – que não são transmitidas geneticamente, pelo DNA nuclear,
mas podem ser transmitidas pelo mitocôndria citoplasmático assim como memórias iniciais durante o “sono
paradoxal”(Ginger, 1987).

O TERCEIRO ESTADO

Estamos conscientes hoje de que – igual à matéria – temos treis estados: vigília, sono e sonhando. O último,
ainda chamado sono “paradoxal,” é tão diferente do sono quanto da vigília e implica significante atividade
cerebral: 2/3 do cérebro direito são mobilizados, no hipotálamo(necessidades), área Iímbica(emoções e
memória), córtex(imagens visuais) e lobo frontal(síntese, projeções e visão) – enquanto o cérebro
esquerdo(análise verbal racional e criticismo lógico) está reduzido a um mínimo. Entretanto, a comunicação
entre os dois hemisférios, via corpo caloso, continua durante o sono sem sonho.

Nossas memórias são armazenadas durante o sonho, especialmente aquelas com conteudo emocional, e
experiências importantes, positivas ou negativas. A memorização dos processos complexos vividos durante o
dia acontece principalmente durante a primeira hora de sono. Durante os sonhos, o cérebro está ativo, e usa
tanta glicose quanto acordado, o que explica porque perdemos peso enquanto dormimos.

Um rato privado de sonho perde muito de sua habilidade de aprender. O mesmo se aplica a pacientes que
tomam neurolépticos pôr longo tempo ou remédios antidepressivos – ambos reduzem ou abolem o sonho. A
privação prolongada de sonho parece conduzir a delírio compensatório, que pode ser tanto agressivo ou
sexual1, assim como tendências bulímicas.

Uma das funções dos sonhos poderia ser a revisão diária de nosso programa genético, e sua atualização
diária seguindo as experiências durante o dia precedente – a hipótese da “reprogramação genética ”evocada
por Jouvert. Isto poderia também ser quando o conteudo neuronal é mantido, quando circuitos avariados são
reparados... assim como a cada noite as linhas dos trens subterrâneos são discretamente limpas e reparadas.!

Assim sonhar pode ser responsável por duas funções opostas e complementares:

Ele poderia representar o “cordão umbilical para as espécies”- que nos nutriria com nossas origens e
valorizava as funções de sobrevivência(agressividade e sexualidade): gatos sonham com caçadas e saltos,
enquanto ratos sonham com fugas! E homens sonham com...sexualidade! É interessante notar que Esquimós

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Sabemos hoje que a excitação fisiológica sexual precede a todo sonho(em torno de 2 minutos), que isto
ocorre em toda idade, em ambos os sexos, e independentemente do conteudo do sonho(contrário à hipótese de
Freud)
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sonham com serpentes – embora elas não existam em seus climas(isto dá suporte à noção de arquétipos). O
sonha assim faz o papel de anteparo de nossa cultura”- uma vez que nossa educação é contrária a tais
impulsos vitais.

Entretanto, sonhar poderia também ser um importante fator de individuação(aquele que me faz diferente de
meu vizinho), como minha própria única experiência é tomada em consideração.

Sonhar poderia então facilitar a integração de minhas próprias memórias dentro de nossa memória
coletiva cultural, a qual asseguraria a função essencial da síntese da hereditariedade e características
adquiridas.

Se esta hipótese fosse ser completamente confirmada pela pesquisa atual, seria durante o sono paradoxal que
nossa memórias de longo prazo seriam gravadas nas estruturas cerebrais. Se for assim, então no sentido de
evitar as “feridas” psicológicas de um evento traumático, a memória de curto prazo poderia ser “apagada”
antes de se tornar fixada na memória de longo prazo: ou seja antes dos próximos sonhos ocorrerem. Um
processo análogo àquele de apagar a mensagem exibida no computador, antes de salva-la no disco
rígido(Ginger, 1987).

“GESTALT – EMERGÊNCIA”

Temos sido bem sucedidos no teste desta hipótese, tempo e além: uma intervenção psicoterapêutica de
“emergência, antes da primeira noite, ajuda desdramatizar eventos tais como estupro, acidente, ataque,
incêndio, fogo, suicídio de alguém amado, etc., uma vez que ela libera expressão emocional profunda dentro
da segurança da sessão terapêutica. O evento poder ser representado numa versão modificada, onde a vítima
assume um papel mais ativo melhor do que permanecer num estado de “inibição de ação”(Laborit, 1979).
Este método parece diminuir o trauma porque a “ex-pressão” imediata evita a duradoura “im-pressão” na
estrutura cerebral profunda. As vítimas subsequentemente recontam o evento doloroso menos
emocionalmente, com maior distância, como se elas fossem uma testemunha não envolvida.

Um exemplo de muitos: uma jovem mulher dirigindo montanha a baixo perdeu o controle, seu caro deslizou,
capotou muitas vezes, e fez uma aterrissagem forçada 20 metros abaixo da estrada, no barranco. O carro está
destruído, mas felizmente a motorista é jogada fora e consegue agarrar-se num arbusto; ela não está ferida,
mas com tremores horríveis pelo choque: Ela pensa que morreu! Durante a sessão terapêutica – poucas horas
após o acidente – eu a fiz ir além de somente me contar a estória: ela fez mímica disto, representou suas
fantasias sobre morte, e chorou seu medo e suas raiva – para reduzir sua tensão interna através da
externalisação da ex-pressão. Acima de tudo, eu a encorajei a imaginar e representar diferentes papéis ativos:
ela se “tornou” seu carro, saltando fora da estrada deliberadamente, então voando como um avião, etc. Estes
jogos desdramatizam a situação e a permitem a emergir de seu papel como vítima, aprisionada dentro do
carro, liberada de toda responsabilidade. Após uma hora de abordar todos os aspectos do acidente, ela
readquiriu sua respiração, numa calma mistura de riso e lágrimas. O próximo dia, quando ela acompanhou a
polícia à cena e descreveu o que aconteceu, calmamente e precisamente, eles pouco acreditaram que ela tinha
de fato estado ao volante do carro...

Nós então sugerimos a criação de serviços psicológicos de emergência, uma rede “Gestalt de Emergência –
onde as pessoas poderiam ir, sem hora marcada, no mesmo dia do acidente ou ataque, para um trabalho
catártico da experiência, antes da noite, antes dos sonhos.

FREUD, JUNG... E OUTROS

Freud considerou que “os sonhos tem o poder de cicatrizar, aliviar sofrimentos”, e seu seguidor Ferenczi
pensou nos sonhos como “traumatolíticos”; que eles poderia dissolver trauma, e “digeri-los”
inconscientemente. Isto particularmente se aplicaria aos sonhos recorrentes, repetitivos – o que parece reduzir
progressivamente a atmosfera emocional envolvendo a memória da situação estressante.

Para Freud, sonhar é sempre um “sintoma neurótico”; não é uma mensagem transcendente de cima, mas uma
mensagem imanente do abaixo, vindo do “Continente Escuro” de impulso inconsciente. Jung elevou o status
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dos sonhos, quando ele considerou que eles não eram apenas traços de eventos biológicos ou psicológicos,
mas eram também uma percepção inconsciente da base cultural comum da humanidade. Para Jung, se
estendem inteiros dentro do passado, assim como dentro do futuro. Os sonhos não escondem desejos
reprimidos, mas de fato revelam material do inconsciente coletivo e podem mesmo assumir um significado
esotérico.

O seguinte ilustra a abordagem de Perls para sonhos:

Ele disse que todo elemento diferente no sonho representa parte da personalidade. Como um objetivo de cada
um de nós é se tornar saudável e então unificado, devemos reunir os fragmentos do sonho. Ele continuou
afirmar que devemos reintegrar todos estes elementos projetados, que pertencem a nossa personalidade, a
assim revelam o potencial escondido do sonho. Não somente isto, mas nós não interpretamos sonhos em
Gestalt Terapia. Fazemos alguma coisa muito mais interessante: melhor do que analisar e assumir uma
autópsia, nós o trazemos para a vida. Fazemos isto trazendo o sonho para o presente: ao invés de relaciona-lo
como um evento passado, podemos representa-lo, traze-lo para o presente assim ele se torna parte da pessoa,
ser realmente envolvido. Ele sugeriu que se você deseja trabalhar sozinho num sonho, escreve-lo, listar cada e
todo elemento, não omitir detalhe, e trabalhar sobre cada parte dele tornando-se cada elemento, um a um.

(parafraseando Gestalt Therapy Verbatim.)

Certos Gestaltistas, como Isadore From, vão além e consideram o sonho(especialmente a noite precedente ou
seguinte à sessão)não somente como uma projeção mas também como um retroflexão, isto é, um importante
distúrbio do contato-fronteira entre cliente e terapeuta. A pessoa dormindo diria para si mesma,
inconscientemente, o que ela evita expressar para seu terapeuta.

Do pensamento que o cliente em terapia sabe em geral que quando ele se lembra de um sonho, ele conta a seu
terapeuta. Ele considerou que este fato determinou, num certo sentido, o conteudo do sonho: não é somente
um sonho, é um sonho sobre o qual ele contará a seu terapeuta. From também disse que um outro nome para
“retroflexão” poderia ser “censura” ou “retenção”: o paciente fala para si mesmo, diz a si mesmo coisas que
ele não poderia, ou que não desejaria contar a seu terapeuta. From assim reintroduz, mais ou menos
explicitamente, a noção de transferência, que ele descreve equivalente do “aqui e agoira”. Ele continua
acentuando que o ponto de transferência é facilitar o término da coisa inacabada vinda do passado, e que
enquanto não encorajamos a transferência, como ela é praticada na psicanálise, não podemos elimina-la. Seria
ridículo fingir que nós não usamos transferência. Nós simplesmente perguntamos como que alertar o paciente
para sua transferência, e a reduzimos.

10 abordagens práticas a sonhos


Usamos não menos que dez abordagens terapeuticas para sonhos – que conduz a si mesmas para harmoniosa
combinação, para facilitar o trabalho do cliente bem como do Gestaltista. Você poderia ainda usar um de seus
próprios sonhos para explorar estas possibilidades, uma após a outra(mas se você estiver sozinho, a número 6
pode ser um desafio!).

1. O sonho em si, independente de qualquer uso deliberado, tem – como temos visto – muitas funções
“terapeuticas” naturais. Elas incluem adaptação biológica ou autoregulação, o que não necessariamente
requer re-memorização consciente: revisão e atualização da hereditariedade genética, assimilação da
experiência, individualização comportamental(Jouvert), dissolução progressiva do trauma(Ferenczi).

2. Meramente recontar o sonho após acordar é útil: pois o sonho é trazido para a consciência, espontâneas
associações e dedramatização pode ocorrer.

3. Interpretações via associações(tanto com forma ou conteudo), e decifrar símbolos(Freud) facilita um rico
desvio para o inconsciente individual.

4. Universal, referências simbólicas do inconsciente coletivo, assim como mensagens escondidas


considerando o futuro (Jung) introduz uma dimensão transpessoal e espiritual de “revelação” potencial.
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5. O sonho pode ser representado, como um psicodrama coletivo(Moreno), para trazer certos aspectos e
enriquecer as reações dos vários protagonistas.

6. O grupo pode funcionar como um amplificador; o terapeuta confia certas frases chave do sonho para os
membros do grupo – que as falarão em voz alta ao fim da sessão(Anne Peyron-Ginger).

7. O sonho como uma projeção do sonhador(Perls) encoraja a reunificação das facetas variadas do
indivíduo, pela repossessão passo a passo dos aparentemente disparatados elementos.

8. O sonho como uma retroflexão(From) enriquece a troca entre terapeuta e cliente, o que fica no coração de
toda psicoterapia, particularmente Gestalt.

9. O sonho pode ser considerado ser uma Gestalt não terminada(Ginger, Quatrini): de fato pela sua natureza
variada o sonho acontece durante o sono, e é inconsciente – exatamente igual a digestão. Quando a
digestão se torna consciente(dor de estômago, etc) significa que alguma coisa está errada. Poderíamos
imaginar que se o sonho espontaneamente emerge na consciência após acordar, isto não está
completamente “digerido”. Neste caso(e somente neste caso2), podemos ser muito atentos em ajudar
terminar negócios inacabados. A propósito, uma sugestão poderia ser que o cliente contasse o sonho no
presente, então o terminasse como ele escolhesse: ele é assim responsável – uma vez que o sonho é seu –
e ativo, uma vez que ele representa como um monodrama, para reduzir a tensão psicológica inconsciente
de “negócio inacabado” a assim construir seu próprio futuro. Para Quattrini, o sabor emocional ao
acordar é mais importante que memórias visuais. Ele considera confluência do sonhadores com suas
emoções.

10. Finalmente, o sonho pode simplesmente servir como um pretexto para explorações posteriores, como um
trampolim do qual a sessão inicia. O terapeuta pode prestar mais atenção a como o sonho é contado no
aqui e agoira(tom de voz, ritmo de respiração, gestos, postura, relacionamento com o terapeuta, etc), do
que no conteudo do sonho...e pode mesmo ignorar o sonho completamente!

Como podemos ver, o Gestalt Terapeuta tem muitos recursos para explorar este “caminho real” (Freud).
Muitas abordagens podem ser usadas em sucessão, ou podem ser combinadas num caminho mutuamente
enriquecedor.

P.S. A maioria destas abordagens pode também ser aplicada para trabalhar com desenho ou
pintura(Gestalt arte terapia).

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Eu particularmente não concordo com a idéia de impiedosamente classificar todo sonho, como parecendo
“estupro do Inconsciente” (como se não acreditássemos que ele continuasse a trabalhar pôr si mesmo)> Nem
eu aceito a noção que não-sonhadores são de certa forma “culpados”(eles são geralmente suspeitos de
repressão, etc).