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As mulheres anarquistas no Brasil (1900-1930):

entre os esquecimentos e as resistências


SAMANTA COLHADO MENDES*

Resumo: O presente artigo abordará as experiências das mulheres anarquistas


no Brasil em parte do período que a historiografia convencionou chamar de
Primeira República. Essas mulheres não se denominavam feministas nem
pretendiam ser um grupo a parte dentro do movimento anarquista, mas
pensavam a singularidade de ser mulher e de suas lutas, principalmente no que
se refere às mulheres operárias, nosso principal foco de estudos aqui. Sem
dúvida alguma, essa percepção imprimiu ao movimento novas visões e
importantes contribuições até nossos dias, sejam para as lutas libertárias, seja
para o movimento feminista. Todavia, essa importância não foi resgatada em
sua complexidade e grandeza pela historiografia. Pensar seu apagamento é
recontar essa história e, acima de tudo, resgatar memórias fundamentais, enfim,
dar voz a sujeitos suprimidos das páginas da história oficial.
Palavras-chave: mulheres anarquistas; operárias; anarquismo; feminismo;
história social; história das mulheres.
The anarchist women in Brazil (1900-1930): between forgottening and
resistance
Abstract: The present article will approach the experiences of women
anarchists in Brazil during part of the period that historiography called the First
Republic. These women did not call themselves feminists neither did they
claim to be a separate group within the anarchist movement, but they thought
the uniqueness of being a woman and her struggles, especially with regard to
working women, our main focus here. Undoubtedly, this perception has given
the movement new visions and important contributions to our day, whether for
libertarian struggles or for the feminist movement. However, this importance
was not redeemed in its complexity and grandeur by historiography. Imagine
its erasure is to recount this history and, above all, to rescue fundamental
memories, so, to give voice to suppressed subjects of the pages of official
history.
Key words: anarchist women; workers; anarchism; feminism; social history;
women's history.

*
SAMANTA COLHADO MENDES é Mestra em história (Unesp/Franca).

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Elvira Boni – Terceiro Congresso Operário Brasileiro

Corriqueiramente ouvimos a associação anarquismo foi retratado como um


entre anarquia e bagunça, entre movimento ingênuo e insipiente, base
anarquismo e violência. Essas para movimentos partidários que
associações, todavia, não coincidem também deixaram marcas em nossa
com a teoria e a história de um história política.
movimento tão rico e com tantos Essa visão, acima de tudo, descarta a
adeptos em todo mundo, em diversos importância dos anarquistas em
momentos históricos desde o século movimentos historicamente
XIX. Coincidem, certamente, com
reconhecidos, como seu papel central
maneiras de se contar a história que nas Revoluções Mexicana e Russa, em
passam por interesses e relações como as importantes manifestações na
presentes em nossa sociedade. A França, Espanha, Brasil e América
História é contata a partir de Latina como um todo. Acima de tudo,
perspectivas e, nesse sentido, o
no caso do Brasil, descartam sua
anarquismo foi deturpado não só pela importância que, por sinal, foi
historiografia hegemônica, tradicional, e fundamental para formação e
que até pouco tempo estudávamos na desenvolvimento do movimento
escola, como por muitos historiadores
operário e mesmo para as primeiras
de movimentos sociais que diminuíram
iniciativas de educação popular,
sua relevância histórica e presente para voltadas às classes mais baixas,
afirmar a predominância de outras representadas pelas Escolas Modernas.
ideias e partidos. Por muito tempo, o

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Quando nos indagamos sobre os podemos destacar algumas delas. A
sujeitos atuantes nesse movimento, que escrita da história sempre se dá no
imprimiram sobre ele suas ideias e masculino, raramente eram
ações que influenciam gerações em mencionados os artigos definidos;
diversos movimentos até nossos dias, operárias poderiam ser retratadas apenas
são mais nítidas nossas impressões de como classe operária ou operariado, por
que pouco sabemos sobre eles e de que exemplo. A estatística, só recentemente,
há inúmeros estereótipos e preconceitos adotou especificidades de análises,
em nossas visões e análises. Para além como as relativas à gênero e raça/etnia –
de nomes como Mikhail Bakunin, Piotr em greves, por exemplo, eram
Kropotkin, Emma Goldman e Louise computados o total da categoria em
Michel, entre outros, a maioria de seus greve, sem mencionar, na maioria das
militantes permanece anônima, vezes, números específicos de mulheres
suprimida de relatos históricos, de obras ou de mulheres brancas e mulheres
clássicas sobre o movimento operário e negras. E, talvez o mais relevante, o
demais movimentos sociais. esquecimento e descarte de diversos
Muitas mulheres, principalmente as documentos considerados sem
importância pela história. Aqui, é
operárias que atuaram no movimento
interessante colocarmos que, ainda
anarquista foram suprimidas das
como afirmava Perrot (2007), muitas
páginas da história, tradicionalmente
mulheres, por considerarem que suas
contada em uma perspectiva masculina,
branca, eurocêntrica e de classes histórias pessoais não tinham
importância para as demais pessoas,
privilegiadas. As operárias anarquistas
permaneceram num “quase anonimato”, descartavam seus documentos, ou
mas buscar suas vozes e suas ações faziam isso para esconder aspectos de
significa recuperar a história do próprio sua vida, como resistência individual.
Cartas foram queimadas, fotografias e
movimento e sua importância dentro
documentos pessoais descartados
das lutas sociais, bem como sua
intencionalmente por elas ou por quem
importância para a compreensão das
escrevia a história “oficial” – algo que
experiências e lutas femininas, sejam
não poderia ser descoberto era
elas individuais e cotidianas ou
descartado sem deixar rastros.
organizadas em movimentos, partidos e
coletivos. “A história vista de baixo”, a Além de todas essas questões, quando
partir de suas perspectivas e vozes, pensamos no contexto brasileiro, é
como defendiam historiadores como válido dizer que muitas das mulheres
Edward Palmer Thompson e Natalie pobres, sejam as trabalhadoras
Davis, nos permite reconhecer o imigrantes europeias - que
movimento, as marcas desses sujeitos desembarcavam em massa em cidades
na história e, mesmo, a recontá-la. como São Paulo, em fins do século XIX
e início do século XX1, para trabalhar
As confusões a partir de como são
citadas as mulheres libertárias,
1
principalmente as operárias, e esse Grande parte da mão de obra nas lavouras e
silenciamento nos dizem muito sobre nas cidades paulistas, após 1886 – onde se inicia
o que se convencionou chamar “grande onda
nossa história e nossa sociedade. Como imigratória” – era composta por imigrantes,
já colocara Michelle Perrot (2007), isso principalmente europeus vindos da Itália,
se dá por diversas razões, das quais Portugal e Espanha.

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nas lavouras de café do interior, ou nas burguesa, sobre sua atuação em diversas
indústrias nascentes da capital – sejam movimentações de ação direta,
as trabalhadoras nascidas aqui ou as sabotagens, boicotes, greves,
trabalhadoras negras, antes escravizadas manifestações, comícios, etc. Mulheres
e agora em busca de trabalho no campo como Voltairine de Cleyre, nos Estados
e nas cidades, tiveram pouco ou Unidos, Virginia Bolten, na Argentina,
nenhum acesso à educação formal e a e as costureiras Tecla Fabbri, Teresa
espaços privilegiados de escrita e de Cari e Maria Lopes3, no Brasil, tiveram
cultura letrada, por isso, não deixaram importância fundamental para o
relatos escritos. Transmitiram suas movimento operário e anarquista e, por
vivências, impressões e ações através de diversas razões, ficaram “nas sombras”
relatos orais, de geração para geração, da história. Buscar suas histórias, seus
que em raros exemplos foram gravados relatos e experiências, mesmo que por
e transcritos por meio da história oral, meio de rastros documentais, é essencial
pouco valorizada pela história para reconstruirmos nossa própria
tradicional e por muitos historiadores história como mulheres e a história do
ainda hoje. movimento operário e libertário. E,
acima de tudo, para percebê-las como
Elvira Boni, costureira, militante
sujeitos de ação, que interferiram na
anarquista com grande atividade no Rio
realidade, deixando marcas nas
de Janeiro, principalmente na “União
gerações que as sucederam, ou seja, que
das Costureiras”, em um raro e belo
relato coletado pela historiadora Angela imprimiram sobre essa realidade suas
ideias e marcas próprias.
de Castro Gomes (1988), afirmava que
ela e suas irmãs, dentre elas Carolina Nós precisávamos ir chamar as
Boni, bordadeira militante libertária da moças para fazerem a greve. E,
mesma União e do “Grupo Pela numa dessas ocasiões, duas ou três
Emancipação Feminina”, estudaram companheiras foram presas numa
apenas no que se conhecia como ensino fábrica de camisas para homens na
Rua dos Andradas. Quando eu
primário, tendo aprendido a ler e
soube disso, me juntei com mais
escrever, apenas. Já Maria Allés,
fichada pelo Departamento de Ordem 3
Tecla Fabbri, Teresa Cari e Maria Lopes
Política e Social (DEOPS) de São publicaram, em “A Terra Livre” (São Paulo), de
Paulo, em 1922, como propagandista 28 de julho de 1906, um manifesto intitulado
anarquista, possuía a inscrição em sua “Ás jovens costureiras de São Paulo”, em que
ficha de identificação policial: “não discutiam a importância da organização das
sabe ler e escrever”2. mulheres desse ofício para lutar pelo que
chamavam de “melhorias imediatas” (condições
Isso não quer dizer, entretanto, que sua de trabalho, vida e salários) e para a construção
atuação no movimento libertário tenha da revolução libertária. Elas consideravam que
havia singularidades em ser mulher operária e
sido pequena. São inúmeros seus artigos isso deveria ser discutido no seio das lutas, não
em jornais e, ainda em maior número, como forma de dividir homens e mulheres
os relatos da imprensa, seja operária ou libertárias, mas de construir a luta que levasse
em conta, também, o que chamamos hoje de
discussão de gênero e os “usos” do capitalismo
2
Prontuário nº 0327 - Maria Alles, para dividir a classe e fazer operários
Departamento de Ordem Política e Social concorrerem entre si ao empregar essas
(DEOPS). São Paulo. Arquivo Público do discussões como justificativa para salários mais
Estado de São Paulo. baixos, pagos às mulheres.

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duas e fomos lá na Rua da Relação vivia no bairro do Brás (Rua
falar com Bandeira Mello [chefe de Uruguayana) e trabalhava, como
polícia]. Ele apareceu e disse: “O operária têxtil na Fábrica de Seda Santa
que as meninas querem comigo”? Branca. Segundo os investigadores
Eu digo: “Protestar contra o policiais ela teria, com outras de suas
absurdo que houve. Prenderam três
companheiras, discordado de um
moças porque elas estavam
chamando as companheiras para regulamento interno de fábrica que
fazerem greve para a conquista das controlava o tempo que as operárias
oito horas de trabalho4”. E dali a passavam no banheiro6 e, por isso,
pouco elas foram soltas. O Bandeira teriam exigido a demissão da gerência e
Mello me deu muitos conselhos, promovido uma greve na fábrica após
disse que eu não me deixasse levar serem dispensadas por tal reclamação.
por aqueles sindicalistas da União
dos Alfaiates, porque eles só São Paulo, 29 de agosto de 1922
sabiam fazer barulho e mais nada. Exmº Snr Dr. Everardo Bandeira de
Eu digo: “Não, nós temos ideias Mello
próprias. Não vamos nos deixar
D.D. Director do Gabinete de
levar por ninguém”. (ELVIRA
Investigações e Capturas
BONI, apud: GOMES, 1988, p.34,
grifos nossos), Em additamento a nossa parte de
25 do corrente mez, com relação a
Apesar de todos os estereótipos dos
registros e documentos produzidos
pelos organismos da repressão do no início do século XX, estava fortemente
Estado, que imprimiram aos anarquistas relacionada aos investimentos de capitais
a marca de criminosos, perpetuadores excedentes da produção cafeeira do interior do
Estado, como salientam economistas como
de uma ideologia “exótica”, os arquivos Wilson Cano (1998). A tal relação somamos o
do DEOPS se configuram como alguns crescimento urbano e populacional da cidade. O
desses “rastros” documentais. No último certamente fruto da grande massa de
intuito de reprimir as movimentações e imigrantes vindos da Europa para trabalharem
controlar a população operária, seus na lavoura, e muitas vezes tentando vida melhor
na capital do Estado, ou vindos diretamente para
arquivos nos fornecem, hoje, elementos trabalharem nas novas oficinas e fábricas
sobre atuação e vida de algumas dessas nascentes, cujo carro chefe era a indústria têxtil.
mulheres libertárias, que não deixaram Nessas indústrias a mão de obra feminina e
seus próprios relatos impressos nas infantil era amplamente utilizada, em muitos
páginas da “história oficial”. dos casos, elas constituíam sua maioria.
6
Os relatos sobre regulamentos internos nas
A já referida pelas fichas policiais como fábricas eram constantes na imprensa operária
“Propagandista anarquista”, Maria nesse período histórico, eles não só indicam os
questionamentos do movimento operário às
Allés, segundo seu prontuário era uma
estratégias de controle do operariado, como a
imigrante espanhola (Sevilha)5 que existência de uma noção de gestão “racional” de
fábrica entre os industriais da cidade. Regular
4
A jornada de oito horas de trabalho, oito de tempo de banheiro e os movimentos corporais
lazer, oito de descanso era bandeira histórica dos trabalhadores são princípios da gestão
dos anarquistas em todo o mundo. Nesse taylorista empregadas nas unidades industriais.
período, no Brasil, inúmeras categorias a Demorar ao banheiro, por outro lado, era
levantavam como ponto de pauta em suas estratégia de resistência do operariado desde os
organizações e mobilizações. primeiros anos da revolução industrial, em
5
A industrialização na cidade de São Paulo a diversas partes do mundo, bem como as
partir de fins do século XIX e, principalmente sabotagens de peças e máquinas.

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Fabrica de Seda “Santa Branca”, Domingos, Adelaide Afani, Conceição
temos a vos informar o seguinte. Saraiva, Philomena Ponte, Irma
No dia 24 visto o abuso de algumas Mosconi, Narcisa Severini, Maria
operarias quando iam a privada e Ragazzi, Palmira Silva, Izabel
ali demorassem algum tempo, a Bohemer. Beatriz Formigiani, Victoria
gerencia fez um novo regulamento, Guerreiro e Angelina Soares. Para além
o qual não foi bem recebido pelas das duas últimas é impossível
operarias em questão. Estas precisarmos se as outras tinham atuação
dirigiram-se a gerencia dando-lhe no movimento anarquista da época.
oito dias para deixarem a fábrica, Certo é que atuaram em movimento de
tendo então o gerente despedido-as ação direta com a presença de libertárias
desde aquelle momento. As
como Victoria Guerreiro, que escrevia
referidas operarias reuniram-se
então na casa de Angelina Soares, artigos para a imprensa libertária,
isto no dia 26, ficando estabelecido Angelina Soares, que com suas irmãs
fazerem a greve geral da fabrica Maria Antonia, Matilde e Pilar, bem
que pretenderam levar a effeito, como com sua mãe, Paula, atuaram
pois no dia 27, muitas operarias fortemente no movimento libertário do
não concordando com tal medida início do século XX, em Santos, São
tomada por suas companheiras Paulo e Rio de Janeiro. Elas atuaram em
entraram para a fabrica muito centros de estudo, no teatro operário e
tempo antes da hora do costume; na escola moderna, transformaram sua
foi neste momento que ia para o casa em local de acolhida para
trabalho a operaria Ida Pastore,
anarquistas fugidos, participaram de
acompanhada de seu marido
Antonio Pastore, tendo sido ambos greves, publicaram artigos em jornais
agredidos por Angelina Soares, operários e atuaram em organizações de
Angelo Bolognesi e outros mulheres libertárias, como o Centro
operarios e auxiliados mais pelo Feminino de Jovens Idealistas, fundado
anarchista Francisco Rux, vulgo em São Paulo, 1915.
“Carioca” e Manoel Soares.
Tanto a documentação da repressão,
Ida Pastore a victima da aggressão quanto os documentos arquivados pelos
que se acha em estado de gravidez libertários, referências bibliográficas
adeantado foi medicada na Policia sobre o movimento operário no que se
Central, visto as parteiras terem se convencionou chamar Primeira
negado a esse exame. República brasileira e os dados das
A fabrica se acha normalisada, fábricas indicam que a atuação das
tendo hoje sido dispensados pela mulheres no movimento foi enorme.
gerencia da mesma os nossos Seu apagamento da história tradicional,
serviços. portanto, não significa ausência. Eram
Assinamos Fioravante Pagano e grande número em manifestações
Oreste Lascalla. (PRONTUÁRIO públicas, discursos como
Nº0327 – MARIA ALLES, propagandistas e artigos na imprensa
DEOPS – SP, grifos nossos). anarquista.
Além de Maria Alles, aturam nessa No mesmo ano de sua fundação,
greve, segundo lista anexada ao algumas mulheres do Centro Feminino
prontuário, suas irmãs Francisca Alles e de Jovens Idealistas – Maria Antonia
Assumpta Alles, Iracema e Giardiara Soares, Sofia Loise, Encarnación Mejias

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e Esperança Maestre – escreveram e O Centro constituiu em seu próprio
enviaram uma carta endereçada “Ao seio, um Comitê de Agitação
Camarada Orlando”, pendido sua Contra o Serviço Militar
publicação no jornal anarquista Obrigatório, o qual se incumbirá
“Barricada”, em que propunham a dos trabalhos necessarios para essa
campanha.
organização de uma campanha ativa
contra o alistamento militar obrigatório. O Comitê ficou constituido pelas
Tal carta expressava uma das grandes companheiras Maria Antonia
bandeiras de lutas das mulheres Soares, Sofia Loise, Encarnación
libertárias nesse período – a oposição Mejias e Esperança Maestre.
ferrenha à Primeira Guerra Mundial7. [...]
Para além disso, ela dialogava com a Todos os meios possíveis adoptará
proposta de internacionalismo e o Comitê para que esta campanha
solidariedade de anarquistas do mundo tenha um resultado satisfatório.
inteiro, visto que, grande parte deles, se Portanto, ficaremos contentes,
engajou em movimentações contra a mesmo gratas, si algum camarada,
guerra dizendo que ela significava a achando bom um meio qualquer, o
morte de irmãos operários pelas mãos propôr ao Comité, o qual o
de seus congêneres, empurrados para tal estudará, pondo-o em pratica, si o
pelos Estados e suas bandeiras achar conveniente. (MARIA
ANTONIA SOARES, SOFIA
nacionais. Mulheres libertárias no Brasil
LOISE, ENCARNACIÓN MEJIAS
e em outras partes do mundo E ESPERANÇA MAESTRE,
propunham “greve dos ventres”, que outubro de 1915, p. 1. CEDEM –
pode ser explicada como negação a ter SP, grifos nossos).
filhos para servirem de soldados nas
guerras. As marcas que tais mulheres
imprimiram sobre o contexto de sua
O Centro Feminino de Jovens época e os diálogos que faziam com
Idealistas, reunido em assembleia conjunturas mais amplas, eram,
geral na noite do 24 do corrente
portanto, evidentes. Elas se referiam e
mez, resolveu iniciar
immediatamente uma activa discutiam, também, os feminismos que
campanha contra o serviço militar nasciam ou se popularizaram no período
obrigatorio, por consideral-o em que aturam. Embora a leitura de
prejudicial à vida moral e “ondas feministas” e até muitos
econômica deste povo, como foi à movimentos feministas atuais não
vida dos povos onde esta lei vigora. referenciem profundamente as
libertárias e seus debates e
7
É interessante observarmos que, inclusive em contribuições para discussões atuais, e,
períodos posteriores, as mulheres anarquistas apesar dessas libertárias negarem o
tiveram papel ativo nas lutas e oposição às rótulo de “feminista”, por associá-lo ao
guerras. Em períodos que antecederam a
Segunda Guerra Mundial, Maria Lacerda de
feminismo liberal e seu elitismo, por
Moura, importante e conhecida anarquista elas criticado, é certo que colocaram
brasileira, se opôs ao fascismo em artigos, sobre ele novas questões, novas visões e
livros, conferências pela América Latina, a profunda noção de classe, ao pensar e
organizou e presidiu ligas antifascistas. Foi forte discutir a vida e as condições de
opositora à Guerra e é considerada por muitos
estudiosos, hoje, a primeira antifascista das
trabalho em fábricas, oficinas e ateliês
Américas. de costura em todo o país.

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Mulheres libertárias consideravam de As lutas femininas e sua importância
grande importância qualquer iniciativa e eram reconhecidas, mas o liberalismo e
as lutas das mulheres. Para elas a luta o sufragismo que marcam o movimento
significava aprendizagem na prática, feminista mais popular da época eram
vivência da solidariedade e construção criticados.
de métodos de ação. Mas foram além ao É com grande satisfação que vejo,
discutir papéis impostos às mulheres; as por meio da imprensa, o grande
diferenças de classe entre elas, que voo que vai tomando o feminismo.
levam à condições de vida e opressões É verdade que a maioria das
diferentes; a exploração dos corpos das feministas de hoje visam quase
mulheres dentro das fábricas, seja essencialmente à conquista do voto
devido as extenuantes e cansativas – e eu sou contrária ao voto por ser
jornadas de trabalho, seja pelos uma coisa inútil e até um obstáculo
inúmeros abusos sexuais que para a marcha do progresso. Mas o
denunciavam em suas ações, greves e que mais admiro e aprecio nessa
luta empreendida pelas sufragistas
em artigos de jornais; observavam a
é a sua perseverante energia, que
maternidade como ato consciente e faz com que não se detenham ante
fruto da escolha feminina, não destino nenhum obstáculo para conseguir o
natural e “divino das mulheres”, o que que desejam.
significa, em última instância, controle
Bem sabem elas que pacificamente
sobre o próprio corpo. Nesse sentido,
nada conseguirão, e, muito
propuseram e discutiram amplamente o acertadamente, empregam a ação
amor livre e /ou plural, assim como direta. Manifestam-se também com
denunciaram o papel nocivo do vigor, nestes tempos, outras
casamento burguês, que com os patrões, tendências de feminismo além das
aprisionaria às mulheres à dependência sufragistas, que certamente virão a
econômica e as frivolidades das despertar no meio feminino em
cerimônias e da moral capitalista. certo grau de atividade e que
Negavam o sufrágio como meio de reverterá em favor da sua completa
libertação, afirmando que ele só emancipação.
perpetuaria e legitimaria a exploração e, Como disse anteriormente, senti
mesmo com o voto das mulheres, elas imenso prazer ao ver esse despertar
votariam pela própria opressão em um tão almejado, mas não sei a que
sistema que as mantém sem acesso à atribuir a indiferença que reina
educação, instrução, cultura e lazer. entre as companheiras, tanto no
Assim, a libertação das mulheres seria Brasil como no estrangeiro, neste
momento propício para a
fruto de sua própria ação e passaria,
propagação das nossas ideias.
necessariamente, por sua emancipação
intelectual e até econômica. O elemento feminino, cansado de
viver escravizado, compreendeu
Em “Despertar Feminino”, publicado que já é hora de conquistar seus
em 8 de outubro de 1914 no jornal direitos usurpados pelo ridículo
anticlerical “A Lanterna” e assinado por orgulho masculino e como em sua
Maria A. Soares8, essa visão é evidente.
que ambas contribuíram para jornais libertários
e anticlericais, além da atuação em outras
8
Não há como precisarmos se trata-se de Maria “frentes” do movimento anarquista que citamos
Angelina ou Maria Antonia Soares. Sabemos ao longo desse artigo.

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obscura existência não pode A percepção das condições de vida e
reflexionar e portanto compreender trabalho a que estavam submetidas as
onde está a verdadeira mulheres operárias eram foco de análise
emancipação, na sua ânsia louca de e crítica nos escritos de grande parte das
liberdade seguirá o caminho que libertárias em todo o mundo9. As
primeiro lhe indicarem, julgando
operárias estavam submetidas a
ter feito muito bem.
jornadas de trabalho que podiam chegar
Vemos que se acham na brecha a 14 horas diárias e, em muitos casos,
agora as sufragistas. trabalho noturno. Seus salários, mais
baixos que os dos homens, não
Pois bem, como não veem outro permitiram um sustento independente
caminho trilhado, seguirão
da família, mas ao mesmo tempo seu
forçosamente esse.
salário era fundamental para a vida de
Acontecerá da mesma forma que toda a família e não um complemento.
com os socialistas parlamentaristas Dessa forma estavam presas ao
no meio operário. trabalho, em oficinas sujas, mal
iluminadas, e às uniões que nem sempre
Intrometeram-se tanto,
se pautavam no amor e nas afinidades,
conseguiram fazer acreditar nas
suas promessas vãs, e temos os mas ao sustento. Se fossem mães a
resultados funestos, vendo-se hoje situação era ainda mais complicada.
muitos trabalhadores que ainda Dessa forma, havia poucas margens à
creem que a sua felicidade será educação e à instrução, quanto mais ao
completa quando forem governados acesso à cultura e ao lazer – bases
por socialistas. Se deixarmos que a fundamentais para sua emancipação e,
política absorva todas as energias consequente emancipação da
da mulher, mais elementos teremos sociedade10. Vale citar, ainda, que
de combater, e portanto mais muitas dessas mulheres, ao chegar em
encarniçada e difícil será a luta pra casa recebiam, ainda a carga do trabalho
conseguir a emancipação que
procuramos.
9
Portanto, companheiras, apelo para Libertárias como Emma Goldman, nos Estados
vós, em nome do futuro da Unidos e Carmen Lavera, na Argentina,
Humanidade, para que unidas nos debruçavam-se sobre esse tema, mas a condição
lancemos na luta, procurando da mulher operária foi foco de discussão
eliminar tudo quanto obstrua o também entre os bolcheviques logo depois da
Revolução Russa. Sobre esse assunto vale a
caminho que há de conduzir-nos ao pena consultar GOLMAN, Wendy. Mulher,
futuro ditoso, que tem sido o sonho Estado e Revolução. São Paulo. Boitempo,
mais doce da nossa vida. 2014.
10
Para as anarquistas a emancipação da mulher
Sim, unamo-nos e não deixemos não ocorreria sem a emancipação da
que progrida esse novo morbus que humanidade. Ela estava, portanto, ligada à luta
se introduziu entre nós e teremos pela construção da sociedade libertária em
assim evitado que amanhã sejam comunhão com seus companheiros. Todavia, a
nossas inimigas as que hoje são revolução deveria passar pela consideração da
nossas irmãs. (MARIA A. situação das mulheres na sociedade capitalista,
SOARES. A Lanterna, 3 de ou seja, por sua emancipação intelectual,
outubro de 1914, p.4, grifos igualdade econômica, etc. Ou seja, não há
sectarismo em suas lutas, mas consideração das
nossos).
singularidades de ser mulher operária.

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doméstico, sem mencionar o cuidado circunstancia sería el colmo de la
com os filhos. dicha, sea en nuestra condición una
grave y temible carga para los
O já referido manifesto “Ás Jovens “esposos”.
Costureiras de São Paulo”, assinado por
Tecla Fabbri, Teresa Cari e Maria [...]
Lopes e publicado em “A Terra Livre”, No siendo libre la educación y no
em 28 de julho de 1906 questionava: pudiendo disponer de tempo
“Como se pode ler um livro, quando se suficiente para adquirirla ¿cómo
vai para o trabalho ás 7 horas da manhã vamos a ser educadas? ¿Quién
e se volta para casa ás 11 horas da ignora que desde nuestra más
temprana edad el taller nos traga y
noite? (TECLA FABBRI, TERESA
martiriza? En él no es donde nos
CARI; MARIA LOPES. “A Terra podemos educar, muy al contrario,
Livre”, 28/07/1906, p. 2). Da mesma allí hay de todo, de todo, menos
forma, o jornal argentino auto descrito eso... ¡y cien y cien veces hemos
como periódico comunista-anárquico visto víctimas de la lubricidad
“La Voz de La Mujer”11, escrito e burguesa las míseras obreras, bajar
publicado só por mulheres libertárias da rápidamente en horribles tumbos y
capital argentina, Buenos Aires, ao caer despeñadas al abismo del
longo de 1896 (sem regularidade exata), vicio, que cada vez más hambriento
discutia tais questões em seus nove e insaciable las tragaba,
números: cubriéndolas de cieno y lágrimas,
que, niñas casi... que apresuraban
Nosotras creemos que en la actual por sí mismas su caída, para con
sociedad nada ni nadie es más ella librarse de la rechifla y
desgraciada en su condición que la escarnio de sus mismos
infeliz mujer. Apenas llegadas a la verdugos!... (CARMEN LAVERA,
pubertad, somos blanco de las La Voz de la Mujer, 8 de janeiro de
miradas lúbricas y cínicamente 1896, p. 20 a 23, ano 1, nº 1, grifos
sensuales del sexo fuerte. Ya sea nossos).
éste de la clase explotadora o
explotada. Más tarde, ya “mujeres”, Em “O Nosso Jornal”, uma espécie de
caemos las más de las veces jornal-manifesto escrito só por mulheres
víctimas del engaño en el lodazal do “Grupo pela Emancipação
de las impurezas, o en el desprecio Feminina”12 – de tendência libertária - e
y escarnio de la sociedad, que no publicado em 1 de maio de 1923, no
ve en nuestra caída nada, amor, Rio de Janeiro a questão da educação
ideal, nada absolutamente, más que feminina também se mostra recorrente
la “falta”.
12
Si realizamos lo que algunas creen O Grupo pela Emancipação Feminina se
su dicha, esto es el matrimonio, formou depois da dissolução da União das
entonces nuestra condición es peor, Costureiras, em 1919. Tal união, após uma
grande greve, da qual participaram mulheres
mil veces peor. La falta de trabajo
como Elvira Boni, conquistou a jornada de oito
en el “marido”, lo escaso de la horas de trabalho diárias nesse mesmo ano. O
remuneración, las enfermedades, intuito do Grupo era divulgar os ideais
etc., hacen que lo que en otra anarquistas e logo se dissolver, a fim de que
suas integrantes se mobilizassem em outras
11
“La voz de la mujer”, que se auto intitulava organizações e ações de propaganda libertárias,
periódico anarco-comunista, discutia as como elas mesmas defendiam no editorial do
questões referentes às mulheres operárias. jornal.

72
em inúmeros de seus artigos. Há é, que a mulher, ao elevar-se à
inúmeras críticas à falta de acesso à altura de seres pensantes, deixaria
educação e instrução pelas mulheres, de ser a escrava incondicional do
principalmente as mulheres operárias, e homem e isto não lhe agrada.
aos males da moral e da educação [...] Não somos tão exploradas nas
burguesas, que reforçariam papéis de fábricas e oficinas? Porque pois,
submissão feminina e de dependência, enquanto eles procuram livrar-se
assim como discutia Anna de Castro por todos os meios ao teu alcance,
Osório em “A Terra Livre”, em 2 de da exploração de que são objeto, a
abril de 1907, ao afirmar que as nós querem negar o direito de
tomar parte ativa nas lutas sociais?
mulheres estavam submetidas à
Que argumentos apresentam os que
vigilância do homem ou do convento. vêm como maus olhos a
Em oposição, elas defendiam a emancipação moral e econômica da
educação libertária como meio essencial mulher?
de preparação da revolução social e de
[...] Mas é preciso ter em conta que
emancipação feminina.
a educação até o presente a mulher
Alegando que lhe basta lavar, tem recebido é deficiente, deixa
varrer e cozer e nada mais. muito a desejar. Isto somado aos
Enquanto preocupar-se com obstáculos que em seus passos
problemas sociais, isso nem se devido a falsas crenças e costumes
pensa. antigos, torna mais meritória e bela
sua obra. Quer dizer que si se
Todo o seu raio se limita a cuidar educasse a mulher igualmente
de seus filhos e manter sua casa o como o homem, seria como ele,
mais correcta possível, como si o inteligente e valorosa. (FIDOLA
pensar racionalmente e preocupar- CUÑADO. “O Nosso Jornal”, 1 de
se com a classe operária impedisse maio de 1923, grifos nossos).
que a mulher cuidasse de seu lar e
do seu amor. Além da educação feminina, “O Nosso
Jornal” trazia artigos sobre organização
[...] Como há de despertar a
inteligência da criança e ensinar- das mulheres operárias13, padrões
lhe a criar uma consciência? Se em impostos à mulher e as condições de
seu cérebro não penetrou a luz de vida e trabalho das operárias. Além,
uma ideia, que há de inculcar-lhes disso, discutiam os feminismos, em
se não velhos prejuízos e antigos consonância com o que se discutia no
costumes? “Despertar Feminino”, que citamos
Nestas condições, que benefício anteriormente, ou seja, conforme a
proporcionam à humanidade e a visão das libertárias sobre o tema,
elas mesmas? negando o rótulo de feministas por
associarem-no ao sufragismo, mesmo
Nenhum, seguramente. Mas, os que considerando sua importância dentro
assim pensam, “os débeis de
das lutas pela emancipação feminina.
espirito”, os que já não conhecem
senão caminhos já trilhados, não Defendiam a educação libertária como
admiram o benefício e o progresso
que tal perfeição moral 13
Novamente, essa não era uma maneira
proporcionaria à causa operaria, sectária de enxergar a organização operária, mas
por ser ela a mais prejudicada por a consideração de que havia singularidades em
esse atraso. Só vem uma coisa, isto ser mulher operária.

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importante ponto de partida para o trabalho feminino. Porque?
emancipação da mulher e de toda Porque a mulher se submete com
humanidade, além de defenderem muito mais facilidade aos
inúmeras formas de ação direta. ordenados inferiores. Muitas prezas
Criticavam, ainda, a dominação pelas necessidades, outras porque
trabalham unicamente para
masculina, como vemos no trecho
satisfazer exigências do luxo
anterior, exercida dentro do casamento contentam-se em ser mal
– prisão para a mulher – e nos próprios retribuídas, não vendo sequer a
meios operários, em suas lutas e clamorosa injustiça que com elas se
mobilizações. pratica. Não vêm também que,
assim, fazem concorrência aos
Assinaram seus artigos: Carolina Boni, homens, prejudicando-os.
Esperança Manjon, Iveta Ribeiro, Pillar
Serra, Maria Lopez, Maria Alvarez, [...]
Olga Castro, Fidola Cuñado, Joana Contudo, será de facto a mulher
Rocco e Clementina. Segundo seu sempre assim? Não sentirá um dia
próprio edital: pulsar o coração num assomo de
revolta contra a atual sociedade que
[...] Desejávamos mostrar que a
só isto proporciona? Não quererá
atual situação da mulher, apesar de
destruir nunca o falso pedestal de
seu extraordinário progresso,
deusa que lhe criaram para
conseguido nestes últimos anos,
demonstrar que necessita
não era ainda a situação ideal de
unicamente de ser respeitada e não
verdadeiras mulheres.
mentirosamente glorificada?
Porque, embora víssemos que a Oh! Sim! Tenhamos esperanças na
mulher, principalmente depois da realização deste nosso sonho!
guerra, tem galgado muitíssimos Principalmente hoje, dia 1º de
postos para os quais a ignorância e Maio, em que os escravizados do
o egoísmo dos homens e mesmo mundo inteiro dão-se as mãos por
das próprias mulheres, persistam cima das fronteiras afirmando a
em julgá-las incapaz, embora inutilidade delas, para lembrar o
soubéssemos que a mulher em sacrifício heroico de mártires como
geral, finge sentir-se feliz, tudo isto eles, que morreram em defesa de
não é mais que uma ilusão do nossa liberdade!
verdadeiro progresso.
A nossa obra foi simplesmente
Os factos demonstram claramente. interrompida. Há de renascer, um
Todos os logares outrora ocupados dia, mais difícil de ser vencida! Há
por homens, em toda a parte onde a de ser compreendida porque não é
mulher faz hoje o mesmo que apenas uma questão feminina, mas
ontem era feito pelo homem, não é um dos pontos mais importantes da
retribuída com igual salário como questão social.
se fôra ele. Nas fábricas, no
comercio, nos ministérios, sempre Confiamos que a revolta feminina
isto se verifica. Não é, porventura explodira um dia e realizará a obra
querer eternizar a inferioridade da da regeneração da humanidade,
mulher com essa diferença? Porque porque a emancipação da mulher
não poderá ela ganhar tanto quanto será o principal fator para a
ele se faz o mesmo trabalho? formação da Sociedade Futura!
Atualmente, até já se prefere muito (GRUPO PELA EMANCIPAÇÃO

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FEMININA, 1 de maio de 1923, p. Referências
1, grifos nossos). CANO, Wilson. Raízes da concentração
Para essas mulheres, a emancipação industrial em São Paulo. Campinas/ S.P. Ed.
feminina, obra das próprias mulheres, só se Unicamp, 1998.
consolidaria com a revolução social que nos GOLDMAN, Wendy. Mulher, Estado e
levasse a anarquia. Ela, todavia, deveria ser Revolução. São Paulo. Boitempo, 2014.
preparada pelas lutas e ações e só seria GOMES, Angela de Castro (coord.). Velhos
possível se pensasse a “questão feminina”, Militantes. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 1988.
se passasse pela emancipação econômica e
intelectual da mulher da submissão MOURA, Maria Lacerda de. A mulher é uma
degenerada. São Paulo. Tenda de livros, 2018.
burguesa perpetuada pelas instituições do
Estado e pela religião, enfim, da realização PERROT, Michelle. Minha História das
da mulher como indivíduo pleno. Mulheres. São Paulo. Contexto, 2007.

Evidentemente essa revolução não se


consolidou, muito menos a anarquia, não Fontes históricas
alcançamos nem mesmo os salários iguais
A LANTERNA, São Paulo, 3 de outubro de
aos dos homens, já mencionados por elas 1914. Centro de Documentação e Memória da
em 1923. Ainda não temos o controle sobre UNESP, São Paulo. (Artigo de Maria A.
nossos corpos, nossa vida reprodutiva, Soares).
nossos amores e poucas de nós se veem em
relacionamentos livres, realmente A TERRA LIVRE, São Paulo, 1905 – 1907.
Arquivo Edgard Leuenroth – Universidade
igualitários e não tóxicos com indivíduos Estadual de Campinas – São Paulo. (Artigos
do sexo oposto. Ainda não exercemos assinados por Tecla Fabbri, Teresa Cari, Maria
livremente nossa sexualidade e somos Lopes e Anna de Castro Osório).
reguladas por padrões heteronormativos.
Ainda vivemos a constante ameaça do CARTA DO CENTRO FEMININO DE
JOVENS IDEALISTAS, outubro de 1915.
estupro, dos abusos e das agressões em Centro de Documentação e Memória da
nossos ambientes mais cotidianos. Todavia, UNESP, São Paulo. (Manuscrito assinado por:
não fossem suas vozes, ecoadas até nós por Maria Antonia Soares, Sofia Loise, Encarnación
tradição oral, por rastros de sua história Mejias e Esperança Maestre).
escrita e por experiências passadas de mães
LA VOZ DE LA MUJER. Buenos Aires,
para as filhas, pouco teríamos avançado em
1896. Un Gato Negro Editores. Bogotá,
nossas lutas, questionamentos, resistências Colômbia, novembro de 2011.
e conquistas. Mesmo com seu “quase”
apagamento da história tradicional e de O NOSSO JORNAL. Rio de Janeiro, 1 de
muitas páginas dos feminismos e maio de 1923. Arquivo Edgard Leuenroth -
Universidade Estadual de Campinas – São
anarquismos, como afirma Carolina O.
Paulo.
Ressurreição: “Se hoje somos, é porque
antes outras já foram”. (RESSUREIÇÃO, PRONTUÁRIO Nº 0327 – MARIA ALLES.
apud: MOURA, 2018, p. 23). Departamento de Ordem Política e Social
(DEOPS). São Paulo. Arquivo Público de
Estado de São Paulo.

Recebido em 2018-09-11
Publicado em 2018-11-16

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