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Fichamento de “Relativizando – Uma Introdução à Antropologia” de Roberto Damatta

Na primeira parte do livro Damatta busca explicar a Antropologia como uma


Ciência. Ele inicia sua argumentação estabelecendo a diferença entre “ciências
naturais” e “ciências sociais”, o que segundo ele é importante na contextualização de
um dos campos da Antropologia, a Antropologia Social ou Cultural. As ciências
naturais se dedicam ao estudo de fatos simples, que possuem suas causas facilmente
identificadas e isoladas, podem ser vistos e reproduzidos em laboratórios. A partir da
observação, a teoria originada pode ser testada por diferentes observadores,
independentemente dos locais em que estes se encontrem. Isso confere a essa área de
estudos caráter objetivo. Apesar de serem facilmente observados, classificados e
explicados, os fenômenos das ciências naturais, geralmente, encontram problemas na
sua aplicação: “...Nada mais simples e bem-vindo do que o isolamento de um vírus e
nada mais complexo do que esse próprio isolamento permitindo a realização de guerras
bacteriológicas e de contaminação.” (Damatta, pág. 20).
As ciências sociais, por sua vez, trabalham com fenômenos complexos, com
causa e determinação complicadas. Na maioria das vezes não é possível criar uma teoria
que proponha uma única causa para o fenômeno, os mesmos eventos quando ocorrem
em locais diferentes podem ter significados distintos. Tais eventos não podem ser
reproduzidos, e por isso, as ciências sociais estudam fatos que não estão mais
ocorrendo. Os resultados desses estudos não costumam se transformar em tecnologia ou
em ideologias fortemente aceitas pela população, assim sendo, não agem diretamente
sobre o mundo. As ciências sociais não possuem a objetividade fornecida por uma
experiência, suas reconstruções não são completas e dependem de documentos,
observações e são sujeitas a subjetividade do observador, sua educação, preconceitos,
sua experiência de vida e seus interesses.
Além das diferenças já citadas entre os dois tipos de ciências, o autor destaca o
fato de que nas ciências naturais existe um distanciamento entre o sujeito que observa e
o objeto observado. Esse distanciamento impede que o observado conteste o observador
e que mude seu comportamento por causa das teorias criadas a seu respeito. Já nas
ciências sociais, como disse Lévi-Strauss, o observador e o observado estão no mesmo
patamar, ambos fazem parte do universo das experiências humanas. A partir da
observação de uma cultura diferente é possível perceber, tomar ciência, da própria
cultura. Através da comparação feita, é possível relativizar o sistema ao qual
pertencemos. Outro aspecto essencial é o de que nas ciências sociais os fenômenos são
avaliados pelo investigador sob sua própria ótica e sob a ótica da sociedade estudada,
com o próprio nativo. Este exprime seu ponto de vista e, muitas vezes, questiona a
teoria apresentada, podendo invalidá-la.
A Antropologia possui três campos distintos: a Antropologia Biológica, vendo o
homem como um ser biológico, enfatizando seu físico, sua carga genética, seu percurso
evolutivo e sua interação com outros seres vivos; a Arqueologia, que se encarrega do
estudo das sociedades do passado, valendo-se de pistas deixadas por elas, como
artefatos de cerâmica, cemitérios e escritos, para remontar o sistema em que viviam; e
a Antropologia Cultural ou Social, que defende a idéia de que a cultura e a sociedade
formadas por um povo não foram originadas apenas através de uma superação de
obstáculos impostos pelo ambiente ou por outros grupos, mas também a partir da
reflexão e criação feitas pelo Homem.
A Antropologia Social identifica a dimensão da cultura e da sociedade através de
dois planos: instrumental e cultural/social. No primeiro as respostas dadas pelos
indivíduos diante de um desafio são diretas, não havendo uma reflexão sobre a ação. No
segundo plano, o homem interage com o ambiente, responde a suas adversidades de
forma consciente, pensada e não por impulso.
Por último, o autor aborda os três planos de Consciência Antropológica. O
primeiro é a consciência física, que faz parte da Antropologia Biológica, aborda as
mudanças do corpo humano e suas evoluções, comparando-o com outros animais. Os
acontecimentos considerados estão num passado muito distante (“história fria”) e
acontecem de forma lenta. O segundo plano é o da consciência arqueológica, nele a
escala de tempo está em milhares de anos e os acontecimentos são importantes porque
permitem a diferenciação das civilizações, dos sistemas produtivos e dos regimes
políticos. Também se refere a uma “história fria” e lenta. A terceira consciência
pertence à Antropologia Cultural ou Social, o tempo a que se refere é o da história atual
e os fatos e as sociedades passam a serem vistos de uma forma complexa e racional.