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Notas de Aula - Revisão de Microeconomia

Microeconomia
Curso Cecı́lia Menon

1 Parte I
1.1 Teoria do Consumidor
1.1.1 I. Demanda do Consumidor
1. Teoria do Consumidor: Teorias cardinal e ordinal. Curvas de indiferença. Limitação orçamentária.
Equilı́brio do consumidor. Mudanças de equilı́brio devidas à variação de preços e renda (equação de
Slutsky): efeito-preço, efeito-renda e efeito-substituição. Escolha envolvendo risco.

2. Curva de Demanda: deslocamento da curva e ao longo da curva. Elasticidade-preço, elasticidade-


renda, elasticidades-preço cruzadas. Elasticidades compensadas e não-compensadas. Classificação de
bens: normais, inferiores, bens de Giffen, substitutos, complementares. Excedente do consumidor.
Demanda de mercado e receita total, média e marginal.

1.1.2 Preferências e Utilidade


Denotamos por X (contido em Rn+ , no caso geral, ou em R2+ , no caso de dois bens) o conjunto que
representa as cestas de bens disponı́veis para o consumidor.

Um elemento do conjunto X ⊂ R2+ é um vetor x = (x1 , x2 ), onde xi é a quantidade do bem i, i = 1, 2,


na cesta x.

Vamos supor que cada consumidor é capaz de ordenar as várias cestas de consumo disponı́veis em
ordem de preferência: x  y significa dizer que x é (fracamente) preferı́vel a y.

As preferências podem satisfazer certas propriedades, chamadas axiomas. Axiomas sobre preferências
são portanto hipóteses sobre o comportamento dos consumidores.

Temos que:

• x  y: x é tão bom quanto y;

• x  y: x é estritamente melhor do que y; e

• x ∼ y: x e y são indiferentes.

1.1.3 Axiomas
Vamos supor que  satisfaz os seguintes axiomas:

• Axioma de Completeza: Para quaisquer cestas x e y em X, ou x  y ou y  x (ou ambos).

• Axioma de Reflexividade: Para qualquer cesta x em X, temos que x  x.

• Axioma de Transitividade. Para quaisquer cestas x, y e z em X, se x  y e y  z então


x  z.

• Axioma de Não-Saciação Global. Para todo x ∈ X, existe uma cesta y ∈ X tal que y  x.

1
• Axioma de Não-Saciação Local. Para todo x ∈ X, existe uma cesta y ∈ X suficientemente
próxima de x tal que y  x.

• Axioma de Monotonicidade. Para todos x, y ∈ X, se x ≥ y, então x  y, enquanto se


x > y, então x  y.

• Axioma de Convexidade. Se x e y são duas cestas de bens tais que x ∼ y, então λx + (1 −


λ)y  x, para todo λ ∈ [0, 1].

• Axioma de Convexidade Estrita. Se x e y são duas cestas de bens distintas tais que x ∼ y,
então tx + (1 − t)y  x, para todo t ∈ (0, 1).

• Axioma de Continuidade. Os conjuntos  (x) ≡ {y ∈ X; y  x} e  (x) ≡ {y ∈ X; x  y}


são fechados para todo x ∈ X.

O axioma de não-saciação global diz que, para qualquer cesta considerada, sempre existe uma outra
cesta que provê maior satisfação.

O axioma de não-saciação local vai além: diz que para toda cesta, existe uma outra cesta bem próxima
a ela que provê maior satisfação ao consumidor.

O axioma da monotonicidade diz que mais é melhor : se acrescentamos mais bens à cesta do consum-
idor, sua satisfação aumenta.

O axioma de convexidade diz que médias são melhores do que extremos: uma combinação de duas
cestas indiferentes entre si é sempre tão boa quanto qualquer uma das cestas que forma a combinação.

Uma versão mais forte desse axioma é o da convexidade estrita, que diz que a cesta média é estritamente
melhor do que as cestas que a formam.

O axioma da continuidade é de caráter técnico, necessário para o teorema de representação de uma


preferência por uma função de utilidade.

1.1.4 Função de Utilidade


Do ponto de vista prático, preferências nem sempre são fáceis de se manusear e de se obter inferências
econômicas.

Definição: Uma função de utilidade assinala para cada cesta x ∈ X um valor u(x) ∈ R.

Uma função de utilidade nada mais é do que uma representação numérica das cestas disponı́veis para
o consumidor.

Se para as cestas x e y temos que u(x) > u(y), então dizemos que a cesta x provê mais utilidade (ou
satisfação, ou bem-estar) para o consumidor.

2
1.1.5 Exemplos de Funções de Utilidade com Dois Bens
• Utilidade Cobb-Douglas: u(x1 , x2 ) = xα1 xβ2 , α > 0, β > 0.

• Utilidade Linear: u(x1 , x2 ) = ax1 + bx2 , a > 0, b > 0.

• Utilidade Quase-Linear: u(x1 , x2 ) = g(x1 ) + x2 .

• Utilidade de Leontieff: u(x1 , x2 ) = min{ax1 , bx2 }, a, b > 0.


1
• Utilidade CES: u(x1 , x2 ) = (axρ1 + bxρ2 ) ρ , a > 0, b > 0.

1.1.6 Utilidade Linear e Utilidade de Leontieff


Utilidade Linear:
u(x1 , x2 ) = ax1 + bx2 , a > 0, b > 0
Representa bens substitutos perfeitos - ou seja, o consumidor aceita substituir um pelo outro a uma
taxa constante.

Utilidade de Leontieff:
u(x1 , x2 ) = min{ax1 , bx2 }, a > 0, b > 0
Representa bens complementares perfeitos - ou seja, são consumidos sempre em conjunto, em pro-
porções fixas.

1.1.7 Teorema da Representação


Definição: A função de utilidade u representa o sistema de preferências  se para todo x, y vale

x  y ⇔ u(x) ≥ u(y).

Teorema de Representação. Seja X = Rn+ . Se o sistema de preferências satisfaz os axiomas


de completeza, reflexividade, transitividade e continuidade, então existe uma função de utilidade u
contı́nua que representa esse sistema. Mais ainda, qualquer transformação monotônica positiva dessa
função de utilidade também representa o mesmo sistema de preferências.

1.1.8 Exemplo
As preferências lexicográficas constituem um exemplo clássico de preferências para as quais não existe
função de utilidade que a represente.

Esse tipo de preferência é completa, reflexiva, transitiva, porém não é contı́nua (não satisfaz o axioma
da continuidade).

O importante em uma função utilidade é o modo em que ela ordena as cestas de bens, e não o número
especı́fico associado a cada cesta.

Se f é uma função crescente em todo o seu domı́nio (ou seja, uma transformação monotônica positiva),
então f (u(.)) também representa o mesmo sistema de preferências que u representa, no sentido de que
preserva a ordenação das cestas de bens determinada por .

3
1.1.9 Curvas de Indiferença
Uma curva de indiferença representa um conjunto de cestas indiferentes entre si. Então, uma curva de
indiferença contém todas as combinações de cestas que dão o mesmo nı́vel de satisfação ao consumidor.

• ∼ (x) = {y ∈ X : y ∼ x} (em termos de preferências),

• I(k) = {x ∈ X : u(x) = k} (em termos de utilidade).

Chamamos mapa de indiferença a coleção de curvas de indiferença distintas de uma determinada utilidade.

Exemplo: Preferências “bem-comportadas”. No caso de dois bens, uma curva de indiferença muito
comum é convexa em relação à origem (representa preferências completas, reflexivas, transitivas, monôtonas e
estritamente convexas). A figura abaixo ilustra o mapa de indiferença tı́pico de utilidades bem-comportadas.

x2
6
Curvas de indiferença
“bem-comportadas”

ū3 > ū2


ū2 > ū1
ū1
-
x1

1.1.10 Bens Substitutos Perfeitos


x2
6
Curvas de Indiferença
u(x1 , x2 ) = x1 + x2

@
@
@
@ @
@ @
@
@ @ @
@ @
@
@  @ @
@
@ @
@
@ -
x1

4
1.1.11 Bens Complementares Perfeitos
x2
6 Curvas de Indiferença
u(x1 , x2 ) = min{x1 , x2 }



semi-reta x2 = x1

-
x1

1.1.12 Relações - Monotonicidade e Convexidade


Uma preferência bem-comportada será representada por uma utilidade bem comportada. Os axiomas de uma
preferência se refletem na utilidade que a representa.

Se a preferência é monótona, a utilidade que a representa é crescente. Observe que o significado de utilidade
crescente é o mesmo de preferência monótona, o consumidor prefere mais a menos.

Se a preferência for convexa, a utilidade que a representa será quasecôncava. Finalmente, se a preferência for
estritamente convexa, a utilidade que a representa será estritamente quasecôncava.

1.1.13 Convexidade Estrita


x2
6

xq
@
@
@ q
@ xt = tx + (1 − t)x̂
@
@
@
@q
@

-
x1

1.1.14 Axiomas e Curvas de Indiferença


• O axioma de transitividade implica que duas curvas de indiferença distintas não podem se cruzar.

• O axioma de monotonicidade implica que não existem “males”: mais de cada bem é melhor. Mono-
tonicidade implica que as curvas de indiferença tenham inclinação negativa. Preferências monotônicas
também são chamadas preferências crescentes.

• O axioma de convexidade implica que a curva de indiferença seja convexa em relação à origem (ver
figura acima - ilustra a curva de indiferença de uma preferência estritamente convexa).

5
1.1.15 Taxa Marginal de Substituição
Definição: Taxa Marginal de Substituição (TMS). A taxa marginal de substituição (TMS) é a inclinação
da curva de indiferença.

A TMS entre dois bens mede a taxa pela qual o consumidor está disposto a trocar um bem por outro: a TMS
do bem 1 pelo bem 2 é o valor que o consumidor atribui ao bem 1 em termos do bem 2.

A TMS é um número negativo: se o consumidor abre mão de um pouco de um bem, ele precisa receber um
pouco do outro bem para manter-se na mesma curva de indiferença (consequência do axioma de preferências
monôtonas).

1.1.16 Observação sobre a Definição de TMS


Porém, alguns livros definem a TMS como o valor absoluto da inclinação da curva de indiferença.

Isso é uma fonte enorme de confusão em algumas questões da ANPEC, nas quais não é possı́vel inferir qual
definição o examinador utilizou na questão.

A utilidade marginal do bem xi mede o acréscimo na utilidade devido a um aumento no consumo do bem i:

∂u(x)
U M gi (x) =
∂xi
O valor da utilidade marginal não possui nenhum conteúdo econômico, pois apenas a ordenação das cestas
importa. A única informação relevante que podemos obter da utilidade marginal é do seu sinal.

1.1.17 Fórmula
A TMS é calculada usando a utilidade marginal de um bem:
∂u(x1 ,x2 )
dx2 ∂x1 U M g1 (x1 , x2 )
T M S1,2 (x1 , x2 ) = = − ∂u(x ,x )
=−
dx1 du=0
1 2 U M g2 (x1 , x2 )
∂x2

Observações:

1. A TMS não depende da função de utilidade que usamos para representar as preferências.

2. Se as preferências são bem comportadas, o axioma de convexidade estrita implica que o valor absoluto
da TMS diminua quando percorremos uma curva de indiferença (na direção de se afastar do eixo do
bem 2).

1.1.18 TMS de Algumas Funções de Utilidade


1. Utilidade Cobb-Douglas: u(x1 , x2 ) = xα1 xβ2 , α > 0, β > 0. Nesse caso,

U M g1 (x1 , x2 ) α x2
T M S1,2 (x1 , x2 ) = − =−
U M g2 (x1 , x2 ) β x1

2. Utilidade Linear: u(x1 , x2 ) = ax1 + bx2 . Nesse caso, a TMS entre os dois bens é igual a −a/b,
qualquer que seja a cesta de bens considerada.

3. Utilidade com um Bem Neutro: u(x1 , x2 ) = x1 . Nesse caso, a TMS entre os bens é infinita.

4. Utilidade de Leontieff: u(x1 , x2 ) = min{ax1 , bx2 }. Nesse caso, a TMS é zero, infinita, ou não está
definida, dependendo da cesta considerada. Mais especificamente, temos que:

6
• Se (x1 , x2 ) é tal que ax1 < bx2 , T M S1,2 (x1 , x2 ) = +∞;
• Se (x1 , x2 ) é tal que ax1 > bx2 , T M S1,2 (x1 , x2 ) = 0;
• Se (x1 , x2 ) é tal que ax1 = bx2 , T M S1,2 (x1 , x2 ) não é definida.

1
5. Utilidade CES ou ESC (elasticidade constante de escala): u(x1 , x2 ) = (axρ1 + bxρ2 ) ρ , a > 0,
b > 0, ρ < −1, ρ 6= 0. Nesse caso,
a x2 1−ρ
 
U M g1 (x1 , x2 )
T M S1,2 (x1 , x2 ) = − =−
U M g2 (x1 , x2 ) b x1

1.1.19 Preferências e Utilidades Homotéticas


A preferência de um consumidor é chamada homotética se satisfaz a definição abaixo. A utilidade do con-
sumidor é chamada homotética caso represente preferências homotéticas (todas as funções de utilidade vistas
até agora - com exceção da utilidade quase-linear - são homotéticas).

Definição: Preferências homotéticas. As preferências  são homotéticas se todas as curvas de indiferença


são relacionadas por expansões proporcionais ao longo de raios:
se x ∼ y, então αx ∼ αy, ∀α ≥ 0,
onde x e y são cestas de bens.

Para qualquer linha reta saindo da origem em direção ao quadrante positivo, todos os pontos de curvas de
indiferença distintas que essa linha cruza possuem a mesma TMS.

Portanto, se conhecemos uma única curva de indiferença gerada por uma preferência homotética, somos
capazes de descrever todas as curvas de indiferença geradas por essa preferência, pois todas as curvas de
indiferença são versões aumentadas ou diminuı́das umas das outras.

Ou seja, podemos descrever completamente o sistema de preferências que gerou essa curva. Esse fato tem
implicações importantes, principalmente na análise empı́rica da teoria do consumidor.
x2
6 
 Preferências Homotéticas
B r Pontos A e B (e C e D)

 têm a mesma inclinação
A r

D
 

 r 

 C
r


   u1
 
  u0


 -
x1

Representação de Preferências Homotéticas. Toda função utilidade que representa preferências ho-
motéticas pode ser escrita como:
u(x1 , x2 ) = f (v(x1 , x2 )),
onde f é uma função estritamente crescente e v é uma função homogênea de grau 1 (ou seja, v(tx) = tv(x), ∀t ≥
0).

É fácil verificar que a função Cobb-Douglas u(x1 , x2 ) = xγ1 x1−γ


2 , com 0 < γ < 1, é homotética, pois ela é
homogênea de grau 1 (f é a identidade nesse caso). As funções de utilidade linear, de Leontieff e CES são
também homotéticas.

7
1.1.20 Problema de Maximização de Utilidade
As preferências  e a reta orçamentária contêm informações distintas sobre o consumidor.

• As preferências ou as utilidades refletem o gosto do consumidor, sem considerar o que de fato pode ser
adquirido.

• A reta orçamentária reflete as possibilidades de compra do consumidor, sem considerar suas preferências.

O problema (primal) do consumidor combina esses dois conceitos, ao caracterizar esse problema como a
maximização da utilidade sujeita à restrição orçamentária.

1.1.21 Resolvendo o Problema


O problema do consumidor pode ser formulado como:

max u(x1 , x2 ) sujeito a p1 x1 + p2 x2 ≤ m (1)


(x1 ,x2 )∈R2+

A solução do problema do consumidor são as demandas ótimas dos bens (demandas Marshallianas, que
dependem da renda e dos preços:
x∗i = xi (p, m), para i = 1, 2
Para resolver a maioria dos problemas de maximização de utilidade, usamos o método de Lagrange. O
Lagrangeano do problema é:
L = u(x1 , x2 ) + λ(m − p1 x1 − p2 x2 ),
onde λ é o multiplicador de Lagrange.

As condições de primeira ordem (CPOs) desse problema são:


∂u(x∗ ,x∗ )


 λ p1 = ∂x11 2

∂u(x∗ ,x∗ ) (2)
 λ∗ p2 = ∂x1n 2
m = p1 x∗1 + p2 x∗2

As CPOs (2) são apenas necessárias para a solução. As condições de segunda ordem (CSOs) verificam se a
cesta encontrada usando o método de Lagrange é de fato um máximo.

1.1.22 TMS igual Relação de Preços


Se dividirmos a CPO do bem 1 pela do bem 2, obtemos:
∂u(x∗1 ,x∗2 ) ∂u(x∗1 ,x∗2 )
∂x1 p1 ∂x1 p1
∂u(x∗1 ,x∗2 )
= ou − ∂u(x∗1 ,x∗2 )
=−
p2 p2
∂x2 ∂x2

O lado esquerdo da equação acima é a TMS, que representa o valor marginal do bem 1 em termos do bem 2
(inclinação da curva de indiferença).

O lado direito dessa equação é o custo de mercado do bem 1 em termos do bem 2 (a inclinação da reta
orçamentária).

A equação acima diz que o valor marginal (valoração individual) do bem 1 em termos do bem 2 deve ser igual
ao custo marginal (valoração de mercado) do bem 1 em termos do bem 2.

8
1.1.23 Solução Gráfica
A equação anterior tem a seguinte interpretação gráfica: a inclinação da curva de indiferença na cesta ótima
de consumo (a TMS calculada na cesta ótima) é igual à inclinação da reta orçamentária (que mede a taxa de
troca de mercado dos dois bens).

Resumidamente, o consumidor tenta alcançar a curva de indiferença mais alta (que representa um nı́vel de
satisfação maior) possı́vel, isto é, que possua alguma cesta de bens factı́vel (que o consumidor possa comprar).
Essa curva é a que tangencia a reta orçamentária. Qualquer curva de indiferença que dê um nı́vel de satisfação
mais alto já não inclui nenhuma cesta de bens que possa ser comprada.

x2
6
Solução do Problema
Q
Q do Consumidor: Cesta E
Q
Q r
AQ
Q
Q
Q
Q
Q rE
Q
Q
Q
Q
Q
Qr
Q
B Q
Q
Q
Q-
x1

1.1.24 Encontrando as Demandas


A receita básica para achar essas funções usando o métod de Lagrange é a seguinte (funciona quase sempre...):
1. Invertemos as duas primeiras CPO para achar x1 , x2 como funções dos preços e do multiplicador de
Lagrange λ.

2. Substituı́mos esses valores para x1 , x2 na última CPO (a reta orçamentária) para achar λ como função
dos preços e da renda.

3. Substituı́mos esse valor de λ nas equações originais para x1 , x2 , o que nos dá as funções de demanda
Marshallianas.

1.1.25 Utilidade Cobb-Douglas


O problema do consumidor com utilidade Cobb-Douglas é:

max xα1 xβ2 s.a p 1 x1 + p 2 x2 = m (α > 0, β > 0)


x1 ,x2

Para resolver esse problema, montamos o Langrageano:

L = xα1 xβ2 + λ(m − p1 x1 − p2 x2 )

As funções de demanda são:


 
α m
x1 (p1 , p2 , m) =
α + β p1
 
β m
x2 (p1 , p2 , m) =
α + β p2

9
Note que o preço do outro bem não afeta a demanda de nenhum dos bens. Temos também que
p1 x∗1 α p2 x∗2 β
s1 = = e s2 = =
m α+β m α+β
Ou seja, a porcentagem ou fração da renda consumida em cada um dos bens é constante. O consumidor
sempre gasta a mesma fração fixa da sua renda com cada bem, e essa fração é definida pelos coeficientes dos
bens na função utilidade.

Um truque que facilita o cálculo desse tipo de função utilidade (onde os bens entram multiplicativamente na
utilidade) é log-linearizar a função:

v = log(u) = α log(x1 ) + β log(x2 )

Note também que toda função de utilidade de Cobb-Douglas do tipo u(x1 , x2 ) = xα1 xβ2 , com α > 0 e β > 0,
pode ser reescrita como u(x1 , x2 ) = xγ1 x1−γ
2 , com 0 < γ < 1, de modo que represente a mesma preferência.
Esse resultado é consequência da teoria do consumidor ser uma teoria ordinal.

1.1.26 Função de Utilidade Quaselinear


Uma classe de utilidades muito usadas em economia são as utilidades quaselineares. Para o caso de dois bens,
essa utilidade é dada por:
u(x1 , x2 ) = g(x1 ) + x2 ,
ou seja, a utilidade é linear em um bem apenas. Essa utilidade gera demandas com caracterı́sticas importantes.

Usando a reta orçamentária, obtemos que x2 = m/p2 − (p1 /p2 )x1 . Substituindo esse valor de x2 na função
utilidade, obtemos:
max g(x1 ) + m/p2 − (p1 /p2 )x1 ,
x1

um problema sem restrição explı́cita.

As demandas geradas por utilidades quaselineares têm essa propriedade da demanda de um dos bens não
depender da renda (quando os bens são consumidos em quantidades positivas, ou seja, quando a solução é
interior ).

Nesse caso, o efeito de uma alteração da renda na demanda do bem 1 é nulo: uma variação na renda não
altera a quantidade consumida do bem 1. Qualquer alteração na renda afeta apenas a demanda do bem 2.

Exemplo: Seja u(x1 , x2 ) = ln x1 + x2 . As demandas ótimas são:


(
p2
M p1 se p2 ≤ m
x1 (p1 , p2 , m) = m
p1 se p2 > m
 m
−1 se p2 ≤ m
xM
2 (p1 , p2 , m) = p2
0 se p2 > m

1.1.27 Quando o Método de Lagrange Não se Aplica


O método do Lagrangeano assume uma série de condições que nem sempre são satisfeitas.

Três casos onde não podemos usá-lo:

1. Bens substitutos perfeitos (utilidade linear),

2. Bens complementares perfeitos (utilidade de Leontieff),

10
3. Bens imperfeitamente divisı́veis.

Como achar as demandas quando não podemos usar o Lagrangeano? A análise deve então ser feita caso a
caso. Para os dois exemplos abaixo (e na maioria dos casos de apenas dois bens), a solução gráfica pode
ajudar a achar as demandas.

1.1.28 Bens Substitutos Perfeitos


As funções de demanda da utilidade de bens substitutos perfeitos, u(x1 , x2 ) = ax1 + bx2 , a > 0, b > 0, são:

M m/p1 , se p1 /a < p2 /b
x1 (p1 , p2 , m) =
0, se p1 /a > p2 /b

0, se p1 /a < p2 /b
xM
2 (p1 , p2 , m) =
m/p2 , se p1 /a > p2 /b

No caso em que p1 /a = p2 /b, o consumidor é indiferente entre qual dos bens comprar, pois a TMS é sempre
igual à relação de preços dos bens. Nesse caso, o consumidor comprará qualquer quantidade x∗1 e x∗2 tal que
satisfaça a sua reta orçamentária, p1 x∗1 + p2 x∗2 = m.

Portanto, para esta função de utilidade, não vale, em geral, que a T M S dos bens seja igual à relação de
preços.

Mais ainda, de modo rigoroso, não podemos falar de funções de demanda, pois para o caso em que p1 /a = p2 /b,
existem várias cestas de bens que maximizam o bem-estar do consumidor (nesse caso, podemos determinar
correspondências de demanda).

Porém, esse último observação nunca foi alvo de questionamento na ANPEC.

1.1.29 Bens Complementares Perfeitos


As funções de demanda da utilidade de bens complementares perfeitos, u(x1 , x2 ) = min {ax1 , bx2 } , a > 0, b >
0, são:
m
xM
1 (p1 , p2 , m) = a
 , e
p1 + b p2
a m
xM
2 (p1 , p2 , m) = a

b p1 + b p2

1.1.30 A Função de Utilidade Indireta


A função de utilidade indireta, v, função dos preços e da renda, definida como:

v(p1 , p2 , m) = max u (x1 , x2 ) sujeito à p1 x1 + p2 x2 = m,


x1 ,x2

diz qual o máximo de utilidade alcançável aos preços p = (p1 , p2 ) e renda m.

Se a solução do problema do consumidor for x∗1 = x1 (p1 , p2 , m) e x∗2 = x2 (p1 , p2 , m), então encontramos a
função de utilidade indireta substituindo as demandas ótimas na função de utilidade:

v(p1 , p2 , m) = u (x∗1 , x∗2 ) = u(x1 (p1 , p2 , m), x2 (p1 , p2 , m))

11
1.1.31 Exemplos
• Utilidade Cobb-Douglas: u(x1 , x2 ) = xα1 x21−α , 0 < α < 1. Neste caso,
−(1−α)
v(p1 , p2 , m) = αα (1 − α)1−α p−α
1 p2 m

• Utilidade Linear: u(x1 , x2 ) = x1 + x2 . Neste caso,


m
v(p1 , p2 , m) =
min{p1 , p2 }
• Utilidade de Leontief: u(x1 , x2 ) = min{x1 , x2 }. Neste caso,
m
v(p1 , p2 , m) =
p1 + p2
1.1.32 Propriedades da Função Utilidade Indireta
Propriedades. Se u(x) é contı́nua e crescente, então v(p, m) é:
1. Contı́nua;
2. Homogênea de grau 0 em (p, m);
3. Estritamente crescente em m e decrescente em p;
4. Quaseconvexa em (p, m);
5. Satisfaz a identidade de Roy:
∂v(p, m)/∂pi
xi (p, m) = − , i = 1, 2.
∂v(p, m)/∂m
1.1.33 Lei da Demanda
As curvas de demanda são (quase sempre!) negativamente inclinadas: se o preço do bem aumenta, compramos
menos desse bem. Essa propriedade é chamada de lei da demanda.
Lei da Demanda: Para qualquer bem ou serviço, a lei da demanda afirma que se consume mais quando o
preço diminui (ou que se consume menos quando o preço aumenta), mantendo todo o resto constante (condição
de ceteris paribus).
Observações:
• Dizer que a demanda é negativamente inclinada ou que o valor marginal de um bem é decrescente é a
mesma coisa.
• Bens que satisfazem a lei da demanda são chamados bens comuns. Exceções são chamados Bens de
Giffen.

1.1.34 Curva de Demanda


quantidade
6

@
@
@
@ Curva de Demanda
@
@
@
@
@
@
@
@

-
preço
12
1.1.35 Função de Demanda Inversa
A função de demanda inversa p(x) mede a relação do valor marginal com a quantidade consumida: quanto o
consumidor está disposto a pagar pela última unidade x consumida.

1.1.36 Curva de Demanda Inversa


preço
6

@
@
@
@ Curva de Demanda Inversa
@
@
@
@
@
@
@
@

-
quantidade

1.1.37 Curva de Preço-Consumo


A curva de preço-consumo apresenta, de modo diferente, a mesma informação sobre o bem analisado do que
uma curva de demanda. Porém, a curva de preço-consumo apresenta também informação sobre a variação do
outro bem com relação a mudanças no preço do bem analisado.

O gráfico de uma curva de preço-consumo tem como eixos as quantidades dos bens consumidos. A curva de
preço-consumo de um bem é obtida deixando-se o preço desse bem variar, mantendo os outros preços e a
renda fixos.

1.1.38 Curva de Preço-Consumo


x2
6
H
@
A H
A@HHH
A @ HH
HHr Curva de Preço-Consumo
A @ H
r
A @
Ar
H
@ HH
A @ H
A @ HH
H
A @ HH
A @ H
A @
A @
A @
A @ -
x1

13
1.1.39 Elasticidade-Preço da Demanda
A elasticidade-preço da demanda pelo bem i é calculada como a mudança percentual na quantidade dividida
pela mudança percentual no preço:

∂ log(xMi (p, m)) pi ∂xM


i (p, m)
εM M
i = εi (p, m) = = M
∂ log(pi ) xi (p, m) ∂pi

Quando a elasticidade-preço da demanda (em valor absoluto) é (em valor absoluto):

• < 1: dizemos que a demanda é inelástica;

• > 1: dizemos que a demanda é elástica;

• = 1: dizemos que a elasticidade é unitária.

A elasticidade-preço da demanda do bem i depende da possibilidade de o consumidor abdicar do bem i.


Portanto, ela será maior:

1. Quanto mais fácil for substituir o consumo do bem i pelo consumo de outros bens.

2. No longo prazo.

3. Quanto menos “necessário” o bem for.

Ou seja, o fator fundamental para determinar a elasticidade-preço da demanda de um bem é a possibilidade


de substituir o seu consumo.

1.1.40 Elasticidade-Preço Cruzada da Demanda


A elasticidade-preço cruzada da demanda do bem i com relação ao preço do bem j é:

∂ log(xMi (p, m)) ∂xM


i (p, m) pj
εM M
ij = εij (p, m) = = M
∂ log(pj ) ∂pj xi (p, m)

Temos que:
∂xi
• Se εM
ij > 0 ou, de modo equivalente, ∂pj > 0: dizemos que o bem i é substituto bruto do bem j.
∂xi
• Se εM
ij < 0 ou, de modo equivalente, ∂pj < 0: dizemos que o bem i é complementar bruto do bem j.

1.1.41 Elasticidade-Renda
A elasticidade-renda do bem i mede a sensibilidade da demanda em relação a mudanças na renda:

∂ log(xMi (p, m)) ∂xM


i (p, m) m
ηi = ηi (p, m) = = M
∂ log(m) ∂m xi (p, m)

Classificações do bem i quanto à sua variação com a renda:

• Inferior : ηi < 0;

• Normal : ηi ≥ 0;

– Necessários (ou básicos): 0 ≤ ηi ≤ 1;


– Bens de luxo: ηi > 1.

14
1.1.42 Caminho de Expansão da Renda e Curva de Engel
A curva de Engel relaciona a quantidade demandada de um bem com o nı́vel de renda, todo o resto constante.
Portanto, usamos a função de demanda para achar a forma da curva de Engel, considerando apenas a renda
e a quantidade como as variáveis no gráfico.

Exemplo: Vimos que para a utilidade Cobb-Douglas u(x1 , x2 ) = xα1 x1−α 2 a demanda do bem 1 é x1 = α pm1 e
do bem 2 é x2 = (1 − α) pm2 (logo, para α entre (0, 1), ambos os bens são normais). A figura a seguir ilustra a
curva de Engel para o bem 1.

Quando podemos afirmar que a curva de Engel será linear? A curva de Engel será linear se a preferência (e,
portanto, a utilidade que a representa) for homotética (o caso de todas funções de utilidade vistas até agora,
com exceção da utilidade quaselinear).

1.1.43 Curva de Engel


renda
6 Curva de Engel para x1 = α pm1
p1
(inclinação: α)

-
quantidade

1.1.44 Caminho de Expansão da Renda


O caminho de expansão da renda mostra as cestas de bem consumidas para vários nı́veis de renda. Essa
curva também é chamada de curva de renda-consumo.

O gráfico do caminho de expansão da renda tem como eixo as quantidades dos dois bens (note que os eixos
de um gráfico da curva de Engel são a quantidade de um bem e a renda)

Se ambos os bens são normais, a curva de renda-consumo tem inclinação positiva. A figura abaixo ilustra esse
caso.

x2
6
Q
Q
Q
Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q
Q
Q
Q
Q r
Caminho de Expansão da Renda
Q Q Q
Q Q r Q
Q Q Q
Qr
Q Q Q
Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q QQ
Q
Q Q -
x1

15
1.1.45 Relação obtida com a Agregação de Engel

Todas as elasticidades-renda somam um, quando ponderadas pela fração si = pi xi /m da renda gasta em cada
bem:
s1 η1 + s2 η2 = 1
Dessa relação, podemos concluir que:
1. Todas as elasticidades-renda podem ser iguais a um.
2. Se um dos bens é de luxo, o outro deve ser um bem necessário ou inferior.
3. Se um dos bens é um bem inferior, então o outro bem deve ser de luxo.

1.1.46 Relação obtida com a Agregação de Cournot


Se um bem é elástico (inelástico), o outro bem é substituto (complementar) desse bem:
s1 (1 + εM M
11 ) = −s2 ε21 (Bem 1)

s2 (1 + εM M
22 ) = −s1 ε12 (Bem 2)
Analisando a primeira equação, se o bem 1 é elástico (inelástico), então εM
11 < −1, e o lado esquerdo de (3) é
negativo (positivo). O lado direito de (3) deve ser negativo (positivo) também, ou seja, a elasticidade-preço
cruzada do bem 1 com relação ao bem 2 deve ser positiva (negativa).

1.1.47 Relação obtida com a Homogeneidade


A propriedade de homogeneidade implica que a soma de todas as elasticidades com respeito à demanda de um
bem deve ser zero:
ε11 + ε12 + η1 = 0 (bem 1, caso de 2 bens)
ε21 + ε22 + η2 = 0 (bem 2, caso de 2 bens)
Esse resultado é consequência da propriedade de homogeneidade de grau zero das demandas marshallianas:
se todos os preços e a renda variam na mesma proporção, as demandas de todos os bens não se alteram.

1.1.48 Regra do Dispêndio Total


A mudança no dispêndio total com um bem quando o seu preço aumenta é igual a:
∂D
= q(p) (1 − |εp |) ,
∂p
Portanto, temos que:
1. Se |εp | < 1 (demanda inelástica): preço e dispêndio se movem na mesma direção;
2. Se |εp | = 1 (demanda com elasticidade unitária): dispêndio não se altera com uma mudança no preço;
3. Se |εp | > 1 (demanda elástica): preço e dispêndio se movem em direções opostas;

1.1.49 Problema Dual do Consumidor


O dispêndio (ou gasto) do consumidor com a cesta de bens (x1 , x2 ) é igual à:
e = p1 x1 + p2 x2
O problema dual do consumidor pode ser escrito como:
min p1 x1 + p2 x2 sujeito a u(x1 , x2 ) ≥ u0 ,
(x1 ,x2 )∈R2+

onde u0 é o nı́vel de utilidade almejado.


Se as preferências são bem-comportadas, a solução para o problema dual do consumidor é única.

16
1.1.50 Resolvendo o Problema
A solução do problema dual pode ser escrita em função dos preços p1 , p2 e do nı́vel de utilidade u0 almejado:

x∗1 = xh1 (p1 , p2 , u0 ),


x∗2 = xh2 (p1 , p2 , u0 ),

As demandas xhi (p1 , p2 , u0 ), para i = 1, 2, são chamadas demandas Hicksianas ou demandas compensadas. As
demandas hicksianas xhi (p1 , p2 , u0 ), i = 1, 2, fornecem o nı́vel de utilidade u0 ao menor custo possı́vel, quando
os preços são p1 e p2 .

1.1.51 A Função Dispêndio


A função dispêndio é definida como:

e(p1 , p2 , u0 ) = min p1 x1 + p2 x2 sujeito a u(x1 , x2 ) ≥ u0


x1 ,x2 ∈R2+

Podemos obter a função dispêndio substituindo as demandas compensadas no dispêndio:

e(p1 , p2 , u0 ) = p1 xh1 (p1 , p2 , u0 ) + p2 xh2 (p1 , p2 , u0 )

O problema dual do consumidor tem a seguinte interpretação gráfica: o consumidor fixa o nı́vel de utilidade
que deseja alcançar. Ele então procura o gasto mı́nimo que alcança esse nı́vel de satisfação.

1.1.52 Representação Gráfica


x2
6
E: Solução do Problema
Q
Q Dual do Consumidor
Q
Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q rE
Q Q
Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q-
x1

1.1.53 Resolvendo o Problema


Supondo que o método de Lagrange se aplica, construı́mos o Langrageano do problema de minimização do
dispêndio:

L = p1 x1 + p2 x2 + µ(u0 − u(x1 , x2 )),

As CPOs resultam em:  ∗ ∗


∗ ∂u(x1 ,x2 )
 p1 = µ
 ∂x1
∗ ∗
p = µ ∗ ∂u(x1 ,x2 )
 2 ∂x2
u0 = u(x∗1 , x∗2 )

As duas primeiras CPOs são idênticas às duas primeiras CPOs do problema de maximização da utilidade.

17
1.1.54 TMS igual à Relação de Preços
Se dividirmos a primeira CPO pela segunda, obtemos:

∂u(x∗1 ,x∗2 ) ∂u(x∗1 ,x∗2 )


∂x1 p1 ∂x1 p1
∂u(x∗1 ,x∗2 )
= ou − ∂u(x∗1 ,x∗2 )
=−
p2 p2
∂x2 ∂x2

Portanto, a condição de que a TMS entre os dois bens seja igual à relação de preços desses bens continua
válida para o problema dual do consumidor.

1.1.55 Observação
1. As demandas Hicksianas são funções dos preços e do nı́vel de utilidade. As demandas Marshallianas são
funções dos preços e do nı́vel de renda.

2. A demanda Hicksiana também é chamada demanda compensada porque “compensa” o consumidor de


modo a mantê-lo sempre na mesma curva de indiferença u0 .

3. A demanda Hicksiana não é diretamente observável, apenas a demanda Marshalliana é observável.

1.1.56 Utilidade Cobb-Douglas


O problema dual do consumidor, considerando a utilidade Cobb-Douglas, é:

min p1 x1 + p2 x2 s.a xα1 x21−α (α ∈ (0, 1))


x1 ,x2

Para resolver esse problema, montamos o Langrageano:

L = p1 x1 − p2 x2 + µ(u0 − xα1 x1−α


2 )

As funções de demanda são:   1−α


 x
 1
 h (p , p , u ) =
1 2 0
α
1−α pα−1
1 p1−α
2 u0

 xh (p , p , u ) = α −α pα p−α u

  
2 1 2 0 1−α 1 2 0

1.1.57 Casos Especiais


• Bens Substitutos perfeitos: u(x1 , x2 ) = ax1 + bx2 . As demandas Hicksianas são:

h u0 /a, se p1 /a < p2 /b
x1 (p1 , p2 , u0 ) =
0, se p1 /a > p2 /b

0, se p1 /a < p2 /b
xh2 (p1 , p2 , u0 ) =
u0 /b, se p1 /a > p2 /b

No caso em que p1 /a = p2 /b, o consumidor comprará qualquer quantidade x∗1 e x∗2 tal que satisfaça a
restrição, ax∗1 + bx∗2 = u0 .

• Bens Complementares Perfeitos: u(x1 , x2 ) = min{ax1 , bx2 }. As demandas Hicksianas são:


u0 u0
xh1 (p1 , p2 , u0 ) = e xh2 (p1 , p2 , u0 ) =
a b

18
1.1.58 Propriedades da Função Dispêndio
Se u(x1 , x2 ) é contı́nua e estritamente crescente, então e(p1 , p2 , u0 ) é:

1. Contı́nua,

2. Homogênea de grau 1 nos preços,

3. Estritamente crescente em u e crescente nos preços,

4. Côncava nos preços,

5. Lema de Shepard: A derivada de e(p1 , p2 , u0 ) com relação ao preço de um bem é a demanda desse bem:

∂e(p1 , p2 , u0 )
= xhi (p1 , p2 , u0 ), i = 1, 2.
∂pi

1.1.59 Os Dois Problemas do Consumidor


Considere os dois problemas do consumidor:

max u(x1 , x2 ) s.a p1 x1 + p2 x2 = m (3)


x1 ,x2

min p1 x1 + p2 x2 s.a u(x1 , x2 ) = u0 (4)


x1 ,x2

Se certas condições técnicas são satisfeitas, então:

1) Maximização da utilidade implica minimização do dispêndio. Sejam (x∗1 , x∗2 ) solução de (3) e
u0 = u(x∗1 , x∗2 ). Então (x∗1 , x∗2 ) é solução do problema (4).

2) Minimização do dispêndio implica maximização da utilidade. Sejam (x∗1 , x∗2 ) solução de (4) e
m = p1 x∗1 + p2 x∗2 , m > 0. Então (x∗1 , x∗2 ) é solução do problema (3).

1.1.60 Dualidade
Algebricamente, temos que as seguintes relações entre a função de utilidade indireta e a função de dispêndio
são válidas:

e(p1 , p2 , v(p1 , p2 , m)) = m


v(p1 , p2 , e(p1 , p2 , u)) = u0

Para as funções de demanda, valem as seguintes relações para todo i = 1, . . . , n:

xM h
i (p1 , p2 , m) = xi (p1 , p2 , v(p1 , p2 , m))
xhi (p1 , p2 , u0 ) = xM
i (p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )),

1.1.61 Dualidade
As relações entre a função de utilidade indireta e a função de dispêndio, dadas por

e(p1 , p2 , v(p1 , p2 , m)) = m


v(p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )) = u0 ,

mostram uma maneira mais curta para se achar a função dispêndio (a função de utilidade indireta) a partir
da função de utilidade indireta (da função dispêndio).

Para isso, basta “invertemos” uma das funções para achar a outra, e, portanto, não é, em geral, necessário
resolver os dois problemas do consumidor.

19
1.1.62 Estática Comparativa
As estáticas comparativas dos dois problemas do consumidor são diferentes. Por exemplo, os ajustamentos
nas duas demandas devido a uma mudança de preços são diferentes, já que diferentes variáveis são mantidas
constantes em cada problema.

A demanda Marshalliana xM i (p1 , p2 , m), obtida do problema de maximização da utilidade, mantém o nı́vel
de renda constante. Se o preço do bem 1 diminui, por exemplo, a reta orçamentária se torna mais horizontal
(ver figura a seguir). O consumidor, com o mesmo nı́vel de renda, pode alcançar um nı́vel de utilidade mais
alto (cesta ótima se desloca de E para Ê).

1.1.63 Representação Gráfica


x2
6
m Preço do bem 1 diminuiu
p2 Q
eQ Solução muda de E para Ê
eQ
e Q
Q
e Q
e E QQ
er Q
e Q rÊ
Q
e Q
e Q
Q
e Q
e Q
Q
e Q
e Q
QQ
e -
m - m x1
p1 p̂1

1.1.64 Estática Comparativa - Demanda Hicksiana


A demanda Hicksiana xhi (p1 , p2 , u0 ), obtida do problema de minimização do dispêndio, mantém o nı́vel de
utilidade constante.

Se o preço do bem 1 aumenta, por exemplo, a inclinação da reta de dispêndio aumenta (em valor absoluto).
Para essa nova relação de preços, o equilı́brio muda de E para Ê.

Observe que a cesta original E não é mais acessı́vel, no sentido de que o dispêndio mı́nimo necessário para
alcançar Ê não é suficiente para alcançar E (aos novos preços).

1.1.65 Representação Gráfica


x2
6 Equilı́brio: E
Preço do bem 1 aumentou
T
T Solução muda de E para Ê
T
T
Q
Q T r Ê
QT
QT I @
Q @
TQ r E
T QQ
T Q
T Q
Q
T Q
T Q
-
x1

20
1.1.66 Equação de Slutsky
Como o ajustamento da demanda Marshalliana é diferente do ajustamento da demanda Hicksiana quando um
preço se altera, a pergunta óbvia é se existe alguma conexão entre esses dois ajustamentos. A resposta é sim,
e essa conexão é descrita pela equação de Slutsky, dada por:

∂xM
i (p, m) ∂xhi (p, u) ∂xM
i (p, m)
= − xM
j (p, m)
∂pj ∂pj ∂m

A equação de Slutsky relaciona a demanda Marshalliana, observável, com a demanda Hicksiana, não ob-
servável, por meio do efeito renda.

1.1.67 Efeito Substituição e Efeito Renda


Considere a equação de Slutsky para o bem i:

∂xM
i (p, m) ∂xhi (p, u) ∂xM
i (p, m)
= − xM
i (p, m)
∂pi ∂p ∂m }
| {z } | {zi } | {z
efeito total efeito substituição Efeito Renda

Logo, o efeito total é decomposto em:


1. Efeito Substituição Hicksiano: se o preço do bem aumentou, o consumidor substitui o consumo desse
bem pelo consumo de outros bens, dada a nova relação de preços dos bens e mantendo-se o bem-estar do
consumidor constante. O efeito substituição é sempre negativo (mais exatamente, sempre não positivo).
2. Efeito Renda: com o aumento do preço, há uma diminuição da renda disponı́vel a ser gasta. Esse efeito
pode ser negativo ou positivo, dependendo se o bem é normal ou inferior, respectivamente.

1.1.68 Representação Gráfica


x2 Equilı́brio inicial: E, consumo de x∗1 unidades do bem 1
6
m Preço do bem 1 diminuiu
p2 Q
eQ Efeito Substituição: x∗1 → x∗∗
1
eQ Efeito Renda: x ∗∗ → x∗∗∗
1 1
e QQ Efeito Total: x ∗ → x∗∗∗
e Q 1 1
∗∗∗ ∗ ∗∗ ∗ ∗∗∗ ∗∗
Q x1 − x1 = (x1 − x1 ) + (x1 − x1 )
Qe r E Q
Q
| {z } | {z } | {z }
Qe Q ˆ Efeito Total Efeito Substituição Efeito Renda
Qe Q
Qr

Q
eQ r Ê Q
eQQ Q
Q
e Q Q
e QQ Q
Q
e Q Q
e Q Q
r r re
QQ
-

x - x -x ∗∗ ∗∗∗ x1
1 1 1

1.1.69 Resultados
A equação de Slustky mostra que para um bem de Giffen, o efeito renda tem que ser negativo o suficiente
para suplantar o efeito substituição.

Logo, todo bem de Giffen é um bem inferior. Porém, nem todo bem inferior é bem de Giffen.

Além disso, todo bem normal é bem comum. Porém, nem todo bem comum é bem normal.

21
1.1.70 Análise de Bem-Estar
Quando ocorre alguma mudança no ambiente econômico, como por exemplo um aumento de preço, um novo
imposto, etc, consumidores e firmas podem ficar em situação melhor ou pior do que antes da mudança.

O excedente do consumidor (EC) é a medida clássica da mudança do bem-estar de um indivı́duo devido a


uma mudança no ambiente econômico.

O excedente do consumidor é a diferença entre a utilidade total obtida pelo consumo e o valor pago pelas
unidades consumidas do bem analisado. Ele representa o ganho que o consumidor obtém ao comprar várias
unidades do bem pagando sempre o mesmo preço.

1.1.71 Excedente do Consumidor


preço
6
AQ
Q *
 Excedente do Consumidor
Q 
Q
Q
Q
Q
Q Valor pago pelas
Q rB unidades consumidas
Q
p Q :

Q
  Q
 Q
Q
Q
QQ
Curva de Demanda Inversa
-
0 x qttde

1.1.72 Excedente do Consumidor


O excedente do consumidor é dado por:
Z q̄
EC = [p(q) − p] dq,
0

onde p(q) é a função de demanda inversa do bem considerado.

A variação no excedente do consumidor (∆EC) para uma mudança no preço do bem de p0 para p1 , p1 > p0
(e a quantidade muda de q 0 para q 1 , q 1 < q 0 ) é:
Z q1 Z q0
1 0 1
p(q) − p0 dq
   
∆EC = EC(p ) − EC(p ) = p(q) − p dq −
0 0

Porém, para calcular o EC para uma mudança de preços, é mais conveniente usar a demanda Marshalliana
diretamente. Nesse caso, o EC para um nı́vel de preços p é dado por:
Z p
EC = q(p)dp,
p

onde p é o menor preço tal que a demanda se iguale a zero (q(p) = 0).

Logo, para uma variação de preço, de p0 para p1 , a variação no excedente do consumidor é:
Z p0
∆EC = q(p)dp
p1

22
qtde
6
Q
Q
Q
Q
x0 Qr
Q
Q
Q
x1 Q r
Q
Q
Q
∆EC Q
Q
Q
Q
Curva de Demanda
-
p0 p1 preço

1.1.73 Problemas no Excedente do Consumidor


O excedente do consumidor não é adequado para medir mudanças no bem-estar do consumidor.

Quando integramos ao longo da demanda Marshalliana, o nı́vel de satisfação do consumidor pode mudar.

Logo, uma compensação baseada no EC não necessariamente manterá a utilidade do consumidor constante.

Duas medidas de bem-estar do consumidor mais precisas do que o EC são a variação compensadora (V C) e
a variação equivalente (V E).

1.1.74 Variação Compensadora e Variação Equivalente


A V C é a quantidade de dinheiro que temos que tirar do indivı́duo depois da variação de preços, para deixá-lo
com o mesmo bem-estar que tinha antes dessa variação:

v(p1 , m0 − V C) = v(p0 , m0 )

A V E é a quantidade de dinheiro que temos que dar ao indivı́duo antes da variação de preços, para deixá-lo
com o mesmo bem-estar que terá depois dessa variação:

v(p1 , m0 ) = v(p0 , m0 + V E)

Podemos mostrar que:

V C = m0 − e(p1 , v(p0 , m0 ))
V E = e(p0 , v(p1 , m0 )) − m0 .

Além disso, temos também que:


Z p0
VC = q h (p, u0 )dp
p1
Z p0
VE = q h (p, u1 )dp
p1

Pelo modo como definimos V E e V C, os dois terão sempre o mesmo sinal. Mais ainda, se a mudança ocorrida
melhorou o bem-estar do indivı́duo, então V C > 0 e V E > 0. Se a mudança ocorrida piorou o bem-estar do
indivı́duo, então V C < 0 e V E < 0.

23
1.1.75 Qual Medida Usar?
Qual medida é mais apropriada? Depende do que queremos medir. Se queremos calcular um esquema de
compensação aos novos preços, então V C é mais adequada. Se queremos calcular o quanto o consumidor está
disposto a pagar por uma mudança de polı́tica, V E é mais adequado.

É possvel mostrar que:


V C ≤ ∆EC ≤ V E,
se o bem cujo preço mudou for normal.

Se o bem for inferior, a relação contrária vale:

V E ≤ ∆EC ≤ V C.

1.1.76 Funções Quaselineares


Quando as três medidas serão iguais? Quando a utilidade for quaselinear no bem. Nesse caso, a demanda do
bem depende apenas do preço desse bem, se a renda for grande o suficiente (ou seja, se a solução for interior).

1.1.77 Dotação Inicial


No problema de maximização de utilidade do consumidor, assumimos que a renda era uma variável exógena,
fora do controle do consumidor.

Porém, em vários problemas o mais correto é a renda ser uma variável endógena. O exemplo mais importante
é o caso da renda do trabalho.

Vamos supor que o consumidor possua uma dotação inicial e = (e1 , e2 ) dos bens 1 e 2. Esses bens podem ser
vendidos no mercado aos preços p1 e p2 .

Logo, a renda do consumidor é agora então igual à m = p1 e1 + p2 e2 .

1.1.78 Problema do Consumidor com Dotações Iniciais


O problema do consumidor é agora:

max u(x1 , x2 ) s.a p1 x1 + p2 x2 = p1 e1 + p2 e2


x1 ,x2

Resolvendo esse problema, achamos as funções de demanda brutas (ou seja, o consumo final de cada bem),
denotadas por xi (p, pe), i = 1, 2.

A demanda lı́quida do bem i é a quantidade comprada ou vendida do bem i, ou seja, é a diferença entre a
demanda bruta e a dotação inicial, xi (p, pe) − ei .

24
1.2 Teoria da Firma
1.2.1 II. Oferta do Produtor
1. Teoria da produção - Fatores de produção. Função de produção e suas propriedades. Isoquantas. Elas-
ticidade de substituição. Rendimentos de fator, rendimentos de escala. Função de produção com proporções
fixas e proporções variáveis. Combinação ótima de fatores. Firma multiprodutora.

2. Custo: Custo de Produção. Curvas de isocusto. Função de custo; curto e longo prazo; custo fixo e
variável. Custo marginal; custo médio.

3. Curva de Oferta da Firma e da Indústria de curto e longo prazos.

1.2.2 A Firma
A firma é uma entidade que transforma insumos em bens finais (produtos).

INSUMOS - FIRMA - PRODUTOS

Vamos supor que o objetivo da firma seja maximizar lucros (maximiza a renda dos donos da firma). Outros
objetivos podem ser considerados, mas este é o mais usado.

A tecnologia de uma firma descreve a sua capacidade de produzir bens usando insumos de produção (também
chamados de fatores de produção). A tecnologia é dada pela limitação técnica da firma, definida por leis da
natureza e por avanços tecnológicos.

1.2.3 Conjunto de Possibilidade de Produção (CPP)


O modo mais geral de representar a tecnologia de uma firma é por meio do Conjunto de Possibilidade de
Produção Y ⊂ Rm .

Um vetor y ∈ Y é chamado um plano de produção, onde denotamos os insumos com valores negativos e os
bens finais com valores positivos:

yi < 0 ⇒ i denota um insumo


yi > 0 ⇒ i denota um bem final

1.2.4 Propriedades
1. Y 6= ∅.

2. 0 ∈ Y .

3. Y é fechado.

4. Y ∩ Rm
+ = {0}.

5. Y − Rm
+ ⊂Y.

6. Se y ∈ Y , y 6= 0, então −y 6∈ Y .

7. Se y ∈ Y , então ty ∈ Y , para todo t ∈ [0, 1].

8. Se y ∈ Y , então ty ∈ Y , para todo t ≥ 1.

25
9. Se y ∈ Y , então ty ∈ Y , para todo t ≥ 0.

10. Y + Y ⊂ Y .

11. Y é convexo.

12. Y é um cone convexo.

1.2.5 Exemplo de CPP


y
6

CPP
Insumo: x
  Produto: y
*



 


- x

1.2.6 Funções de Produção


Se a firma produz apenas um único bem, a função de produção relaciona a quantidade máxima de produto
que podemos obter, dados os insumos utilizados (fronteira do CPP).

Suponha que a firma utilize dois insumos, x1 e x2 . A função de produção é representada por:

y = f (x1 , x2 )

onde y é a quantidade produzida do bem final. Observe que abandonamos a notação de representar insumos
por números negativos, já que no caso de funções de produção não existe perigo de confusão entre o que é
produto e o que é insumo.

1.2.7 Isoquantas
Uma isoquanta descreve combinações de insumos que produzem a mesma quantidade do bem final.

Isoquantas é um conceito similar ao de curva de indiferença. Porém, o rótulo de uma curva de indiferença
não tem nenhum significado, enquanto o rótulo da isoquanta tem um significado preciso: é a quantidade do
bem produzido.

Uma isoquanta pode ser definida, em termos da função de produção, como:

Q(y) = {(x1 , x2 ) ≥ (0, 0); f (x1 , x2 ) = y}

1.2.8 Formato das Isoquantas


Se os dois fatores são importantes na produção (f estritamente crescente), então as isoquantas são negativa-
mente inclinadas.

Se a tecnologia é convexa, então a isoquanta será convexa em relação à origem.

Ou seja, combinações de insumos que produzem a mesma quantidade do bem final continuam produzindo
pelo menos a mesma quantidade do bem final.

26
1.2.9 Exemplos
• Tecnologia de Leontief (proporções fixas): y = f (min{ax1 , bx2 }), onde f é uma função crescente e a e
b são números positivos.

• Tecnologia Linear (insumos substitutos perfeitos): y = f (ax1 + bx2 ), onde f é uma função crescente e
a e b são números positivos.

• Tecnologia Cobb-Douglas: y = Axα1 xβ2 .


1
• Tecnologia CES : y = (axρ1 + bxρ2 ) ρ , − ∞ < ρ < 1, ρ 6= 0.

1.2.10 Produto Marginal


O produto marginal do insumo i é:

∂f (x1 , x2 )
P Mi (x1 , x2 ) = = fi (x1 , x2 ), i = 1, 2.
∂xi
Se vale a propriedade de “free-disposal” - a firma pode dispor de seus insumos sem nenhum custo, então o
produto marginal de qualquer insumo é sempre não negativo.

A lei do produto marginal decrescente diz que o produto marginal de qualquer insumo decresce à medida que
usamos mais desse insumo, mantendo o uso dos outros insumos inalterado.

1.2.11 Taxa Técnica de Substituição


A taxa técnica de substituição (TTS) entre dois insumos mede o quanto a firma deve abrir mão de um desses
insumos e acrescentar do outro insumo para continuar produzindo a mesma quantidade do bem final:

dx2 f1 (x1 , x2 )
T T S12 = =−
dx1 f2 (x1 , x2 )

A TTS é o análogo para a teoria da firma da taxa marginal de substituição da teoria do consumidor. Se
a TTS for decrescente em valor absoluto, então as isoquantas serão convexas: à medida que percorremos a
isoquanta, a sua inclinação decresce (em valor absoluto).

1.2.12 Elasticidade de Substituição


A TTS mede a inclinação de uma isoquanta. A elasticidade de substituição é uma medida da curvatura de
uma isoquanta. A elasticidade de substituição entre os insumos i e j é definida como:

  
    
x2 f1 x2x2
d ln x1 d ln
f2 d x 1x1
σ12 = =   =   
d ln (|T T S12 |) d ln ff12 x2 f1
x 1 d f2

1.2.13 Exemplos
A elasticidade de substituição entre os dois insumos de uma função de produção Cobb-Douglas é igual a um.

A elasticidade de substituição da CES é:


1
σ12 =
1−ρ

27
1.2.14 Função de Produção CES
As seguintes funções são casos especiais da função CES:
1
lim (xρ1 + xρ2 ) ρ = xα1 x1−α
2 , lim σ12 = 1
ρ→0 ρ→0
1
lim (xρ1 + xρ2 ) ρ = x1 + x2 , lim σ12 = +∞
ρ→1 ρ→1
1
lim (xρ1 + xρ2 ) ρ = min{x1 , x2 }, lim σ12 = 0
ρ→−∞ ρ→−∞

Ou seja, a função de produção CES engloba diversos graus de substituição entre os insumos. As figuras abaixo
ilustram diferentes tipos de isoquantas geradas por essa função.

x2 x2 x2
Isoquantas y = min{x1 , x2 } β
6 6 Isoquantas y = xα
1 x2
6 Isoquantas y = x1 + x2

@
 @
 @
y2 = 10 unidades @ @
@ @
 y1 = 5 unidades @
@ @ @
@ @ @
- - @ @ -
x1 x1 x1

Caso ρ → −∞ Caso ρ → 0 Caso ρ = 1

(σ → 0) (σ → 1) (σ → ∞)

1.2.15 Economias de Escala


Dizemos que a função de produção apresenta retornos constantes de escala (RCE), retornos crescentes de
escala (RCrE) ou retornos decrescentes de escala (RDE) se a função de produção satisfaz a propriedade da
segunda coluna da tabela abaixo.

Tipo Ret. de Escala Função de Produção


Constantes f (tx1 , tx2 ) = tf (x1 , x2 ), t > 0, ∀(x1 , x2 )
Decrescentes f (tx1 , tx2 ) < tf (x1 , x2 ), t > 1, ∀(x1 , x2 )
Crescente f (tx1 , tx2 ) > tf (x1 , x2 ), t > 1, ∀(x1 , x2 )

1.2.16 Maximização de Lucros


Vamos dividir o problema da firma de maximização de lucros em duas etapas:

1. A firma minimiza o seu custo de produção, para um dado nı́vel de produção fixo.

2. A firma escolhe o nı́vel de produção ótimo que maximiza lucros.

Logo, queremos resolver primeiro o seguinte problema:

min w1 x1 + w2 x2 s.a. y = f (x1 , x2 )


x1 ,x2

28
1.2.17 CPO
O Lagrangeano desse problema é:
L = w1 x1 + w2 x2 + λ (y − f (x1 , x2 ))
As CPO são:
w1 = λf1 (x1 , x2 )
w2 = λf2 (x1 , x2 )
y = f (x1 , x2 )
Se dividirmos a CPO do insumo 1 pela CPO do insumo 2, obtemos:
w1 f1 (x1 , x2 ) P M g1
= = = |T T S12 |
w2 f2 (x1 , x2 ) P M g2
Por exemplo, se
w1 2 1 P M g1
= > = ,
w2 1 1 P M g2
então o insumo 1 está caro em relação ao insumo 2, dadas as produtividades marginais desses dois insumos.

Se a firma diminuir em uma unidade o uso do insumo 1 e aumentar em uma unidade o uso do insumo 2,
o nı́vel de produção não se altera (P M g1 = P M g2 = 1), porém a firma economiza R$ 1, já que w1 = 2 e
w2 = 1. Portanto, se o preço relativo de dois insumos é diferente da sua taxa técnica de substituição, a firma
não estará minimizando custos.

1.2.18 Demandas Condicionais


As demandas derivadas do problema de minimização de custos da firma, se existirem, são demandas por
fatores condicionais (no nı́vel de produção y):
x1 = x1 (w1 , w2 , y) e x2 = x2 (w1 , w2 , y).
A demanda condicional xi (w1 , w2 , y) diz a quantidade ótima do insumo i, i = 1, 2, que minimiza o custo de
se produzir y aos preços dos insumos w1 , w2 .

Graficamente, para o caso de dois insumos, o problema de minimização de custo é achar o menor custo possı́vel
para a isoquanta gerada pela escolha do nı́vel de produção desejado (similar ao problema de minimização do
dispêndio do consumidor).

Uma reta de isocusto Ic = {(x1 , x2 ) : w1 x1 + w2 x2 = c} é a combinação de insumos com o mesmo custo.


Temos que achar a reta de menor isocusto que possibilite a produção de y.

x2
6
E: Solução do Problema
Q
Q de Minimização de Custos da Firma
Q
Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q rE
Q Q
Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q-
x1

29
1.2.19 O Caminho de Expansão da Firma
O caminho de expansão mostra a combinação de insumos que minimiza o custo de produção para cada nı́vel
de produção, dado o preço dos insumos.

Graficamente, obtemos o caminho de expansão conectando os pontos de tangência de uma isoquanta com a
curva de isocusto, para diferentes isoquantas.

O caminho de expansão da firma será linear caso a função de produção seja homotética, ou seja, f = g ◦ h,
onde g é uma função crescente e f é uma função homogênea de grau 1 (Cobb-Douglas, CES, Leontieff, linear
são exemplos de funções de produção homotéticas).

x2
6
Q
Q
Q
Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q
Q
Q
Q
Q r
Caminho de Expansão
Q Q Q
Q Q r Q
Q Q Q
Qr
Q Q Q
Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q-
x1

1.2.20 Função Custo


A função custo c(w1 , w2 , y) é definida como

c(w1 , w2 , y) = w1 x1 (w1 , w2 , y) + w2 x2 (w1 , w2 , y)

A função custo c(w1 , w2 , y) diz qual é o custo mı́nimo de se produzir a quantidade y de produto, quando os
preços dos insumos são w1 , w2 .

1.2.21 Propriedades da Função Custo


A função custo satisfaz as seguintes propriedades:

1. c(w1 , w2 , 0) = 0;

2. Crescente em y, crescente em w1 , w2 ;

3. Homogênea de grau 1 em w1 e w2 ;

4. Côncava em w1 e w2 ;

5. Lema de Shephard:
∂c(w1 , w2 , y)
= xi (w1 , w2 , y), para i = 1, 2.
∂wi

30
1.2.22 Propriedades das Funções de Demanda Condicionais
As funções de demanda condicionais satisfazem as seguintes propriedades:

1. xi (w1 , w2 , y) é homogênea de grau 0 em w1 e w2 , i = 1, 2;

2. Não existem “insumos de Giffen”:


∂xi (w1 , w2 , y)
≤ 0, para i = 1, 2.
∂wi

3. Os efeitos preço-cruzados são iguais:

∂x1 (w1 , w2 , y) ∂x2 (w1 , w2 , y)


= .
∂w2 ∂w1

1.2.23 Observações
1. A prova dessas propriedades é similar à prova das propriedades das funções equivalentes na teoria do
consumidor.

2. Note que para as demandas por insumos condicionais, não é possı́vel ocorrer que o preço de um insumo
aumente e que a firma passe a usar uma quantidade maior desse insumo.

1.2.24 RCE e Função Custo


Existe uma ligação intuitiva entre rendimentos constantes de escala (RCE) e a função custo. Lembrem-se que
uma tecnologia que apresenta RCE pode ser representada por uma função de produção homogênea linear:

f (tx1 , tx2 ) = tf (x1 , x2 ), para todo t > 0

Vamos denotar por c(w1 , w2 , 1) o menor custo de se produzir 1 unidade do bem final (y = 1). O seguinte
resultado é válido:

Teorema: Se a firma possui uma tecnologia que apresenta RCE, então a função custo dessa firma pode ser
escrita como:
c(w1 , w2 , y) = yc(w1 , w2 , 1)

1.2.25 Teorema Geral


Teorema: Função de Produção Homotética. Se a função de produção é homotética (ou seja, f =
g ◦ h, onde g é estritamente crescente e h é homogênea de grau um), então as funções custo e as demandas
condicionais podem ser escritas como:

c(w, y) = φ(y)c(w, 1),


x(w, y) = φ(y)x(w, 1),

onde φ(y) é função estritamente crescente e w representa o vetor de preços dos insumos.

Se a função de produção é homogênea de grau α > 0, então:

c(w, y) = y 1/α c(w, 1),


x(w, y) = y 1/α x(w, 1),

31
1.2.26 Intuição
O resultado do teorema é bastante intuitivo. Se a firma apresenta RCE, então o custo de se produzir cem
unidades do seu produto é apenas cem multiplicado pelo custo de produzir uma unidade desse produto.
Se a tecnologia da firma apresenta RCrE, o custo aumenta numa proporção menor do que o aumento da
produção: se a firma, por exemplo, aumenta a produção em dez vezes, o custo aumenta em menos de dez
vezes.
O inverso ocorre se a tecnologia apresenta RDE: se a firma aumenta a produção em dez vezes, o custo
aumentará em mais de dez vezes.

1.2.27 Função Custo no Curto Prazo


Suponha que o segundo fator não possa ser alterado no curto prazo, x2 = x̄2 (por exemplo, o segundo fator
pode ser capital). A função custo de curto prazo (ou função custo restrita) é dada por:
ccp (x1 , x2 , y; x̄2 ) = min w1 x1 + w2 x̄2 s.a. f (x1 , x̄2 ) = y
x1

Nota: O valor ótimo dos custos dos insumos variáveis (igual à w1 x1 (w1 , w2 , y; x̄2 ), no caso de dois bens
apenas) é o custo total variável da firma. O custo do insumo fixo (igual à w2 x̄2 , no caso de dois bens apenas)
é o custo fixo total da firma.

1.2.28 Intuição
As CPOs da firma no curto prazo são dadas por:
w1 = λf1 (x1 , x̄2 )
y = f (x1 , x̄2 )
Ou seja, as CPOs para os insumos variáveis não mudam. Se tivermos três insumos, onde apenas um está fixo,
então para os dois insumos variáveis continua valendo a condição de que a taxa técnica de substituição entre
eles deve ser igual à sua relação de preços.

1.2.29 Demandas Condicionais


As demandas condicionais podem ser representadas da seguinte forma:
x1 = xcp
1 (w1 , w2 , y; x̄2 ) e x2 = x̄2
O superescrito cp indica que a demanda é de curto prazo. A demanda pelo primeiro insumo depende do nı́vel
que a firma possui do segundo insumo, x̄2 .
O custo de curto prazo é dado por:
ccp (w1 , w2 , y, x̄2 ) = w1 xcp
1 (w1 , w2 , y; x̄2 ) + w2 x̄2

1.2.30 Ligação entre Longo Prazo e Curto Prazo


Suponha que os preços dos insumos estão fixos por enquanto. Vamos representar então as funções de demanda
de longo prazo e a função custo apenas como funções do nı́vel de produção:
x1 = x1 (y), x2 = x2 (y) e c = c(y)
A seguinte relação entre demandas de longo prazo e demandas de curto prazo é válida:
x1 (y) = xcp
1 (y; x2 (y))
A seguinte relação entre a função custo de longo prazo e a função custo de curto prazo é válida:
c(y) = ccp (y; x2 (y))

32
1.2.31 Intuição
A primeira igualdade diz que a quantidade ótima de longo prazo do primeiro insumo é igual à quantidade
ótima de curto prazo, quando a quantidade do insumo dois é fixa ao nı́vel ótimo de longo prazo.

A segunda igualdade diz que o custo mı́nimo de longo prazo é igual ao custo mı́nimo de curto prazo, quando a
quantidade do insumo dois é fixa ao nı́vel ótimo de longo prazo (escolhida quando a firma minimiza os custos
no longo prazo).

1.2.32 Custo Fixo e Custo Variável


O custo total é a soma do custo fixo e do custo variável, definidos como:

• Custo fixo: é a parte do custo que não varia com a quantidade produzida. Exemplos: aluguel, contador,
segurança, etc.

• Custo variável : é a parte do custo que varia com a quantidade produzida. Exemplos: insumos variáveis,
mão-de-obra, etc.

Nota: a classificação de um custo como fixo ou variável depende do horizonte temporal da análise (no longo
prazo todos os custos são variáveis).

1.2.33 Notação
Vamos supor que alguns fatores estão fixos. Vamos denotar as demandas e os preços dos fatores fixos pelo
superescrito f e vamos denotar as demandas e os preços dos fatores variáveis pelo superescrito v.

Notação: w = (wv , wf ) e x = (wv , wf ), onde wv , wf , wv , wf são vetores e wx wv xv , wf xf representam


a multiplicação de vetores termo a termo.

1.2.34 Dividindo CT em CF e CV
A função custo total (CT) de curto prazo pode ser escrita como a soma dos custos variáveis (CV) e dos custos
fixos (CF) da firma:
c(w, y; xf ) = wv xv (w, y; xf ) + w f f
| {zx }
| {z }
custo variável custo fixo

Portanto,
CT = CV + CF,
onde:

• Custo Variável (CV ): cv (y) = wv wv (w, y; xf ): é o custo que depende da quantidade produzida.

• Custo Fixo (CF ): CF = wf xf : é o custo que não depende da quantidade produzida.

1.2.35 Custo Médio (CM e) e Custo Marginal (CM g)


1. Custo Médio (CM e): é o custo total dividido pela quantidade produzida: CM e = y1 c(w, y; xf ): custo
médio por unidade produzida. O custo médio pode ser decomposto em dois outros custos médios:

• Custo Variável Médio (CV M e): É o custo variável médio de produção, y1 wv xv (w, y; xf ) = y1 cv (y).
• Custo Fixo Médio (CF M e): é o custo fixo médio de produção, y1 wf xf = y1 CF .

2. Custo Marginal (CM g): é o acréscimo no custo ao se produzir mais uma unidade adicional do bem
∂c
final: CM g = ∂y = c0 (y) = c0v (y).

33
1.2.36 Observações
• O custo médio (CM e) é portanto igual ao custo variável médio (CV M e) mais o custo fixo médio
(CF M e), por definição.
• A integral do custo marginal de 0 a y mede o custo variável de produção dessas y unidades do produto.
• Todos esses custos são custos de curto prazo. Vamos discutir a geometria dessas curvas de custo de
curto prazo.

1.2.37 Curva de Custo Médio


Custos
6
Predominam efeitos Predominam efeitos
dos Custos Fixos dos Custos Variáveis
CM e

- y

1.2.38 Relação entre CM e, CF M e e CV M e


A curva de custos médios é a soma da curva de custo variável médio mais a soma da curva de custo fixo
médio:
CM e = CV M e + CF M e
A curva de custo fixo médio é sempre decrescente, e se aproxima de zero quando a produção aumenta. Ou
seja, para nı́veis mais altos de produção, a curva de custos variáveis médios se aproxima da curva de custo
médio total. A figura a seguir ilustra esse ponto.

1.2.39 Relação entre CM e, CF M e e CV M e


Custos
6

CM e
CV M e

CF M e
-
y

34
1.2.40 Relação entre CM e e Rendimentos de Escala
Vimos anteriormente que se a tecnologia apresenta RCE, então a função custo pode ser escrita como uma
função linear da quantidade produzida:
c(w, y) = yc(w, 1)
⇒ O custo médio da firma é o mesmo para qualquer nı́vel de produção da firma (e é sempre igual ao custo
marginal, qualquer que seja o nı́vel de produção).

Observações:

1. Se a firma possui RCrE, o custo médio será decrescente.

2. Se a firma possui RDE, o custo médio será crescente.

1.2.41 Relação entre CM e e Rendimentos de Escala


Tipo de Rendimentos de Escala Forma da Curva de CM e
Decrescentes Crescente
Constantes Horizontal
Crescentes Decrescente

1.2.42 Curva de Custo Médio e Retornos de Escala


Custos
6
Predominam efeitos Predominam efeitos
dos Custos Fixos dos Custos Variáveis
CM e

Nesta região de produção Nesta região de produção


predominam RCrE predominam RDE

- y

1.2.43 Relação entre CM e e CM g


A curva de custo marginal possui uma relação importante com a curva de custo médio, descrita pela proposição
abaixo.

Proposição: A curva de custo marginal está abaixo da curva de custo médio quando esta é decrescente e
acima da curva de custo médio quando esta é crescente. As duas curvas se cruzam no ponto mı́nimo da curva
de custo médio.

35
1.2.44 Relação entre CM e e CM g
Custos
6

CM g CM e

-
y
1.2.45 Custo Médio de Longo Prazo
Custos
6
CM eCP CM eLP

-
ȳ y

1.2.46 Custo Médio de Longo Prazo


Mais precisamente, a curva de custo médio é a envoltória inferior de todas as curvas de custo médio de curto
prazo, onde cada curva de custo médio de curto prazo é obtida ao variarmos o valor do insumo fixo.

A relação c(y) = ccp (y, x2 (y)) deixa esse ponto claro: cada nı́vel do insumo fixo corresponde a algum nı́vel
ótimo que seria escolhido no longo prazo, para a quantidade certa de produção. A figura a seguir ilustra esse
ponto.

1.2.47 Custo Médio de Longo Prazo


Custos
6
Curvas de CM eCP para
três nı́veis do insumo fixo
CM eLP

-
y
36
1.2.48 Custo Marginal de Longo Prazo
O custo marginal de longo prazo, para o caso onde o insumo era fixo e agora pode assumir qualquer valor, é
apenas a curva de custo marginal obtida da função custo de longo prazo.

Ela será menos inclinada do que qualquer curva de custo marginal de curto prazo, refletindo o fato de que no
longo prazo é mais barato produzir o bem final, já que a firma pode ajustar todos os fatores de produção.

1.2.49 A Firma Competitiva


A análise que fizemos a respeito do custo da firma vale para qualquer tipo de firma que deseja maximizar
lucros, seja uma firma pequena ou uma grande firma monopolista.

Porém, para avançarmos mais em nossa análise, precisamos dizer algo sobre o ambiente de mercado em que
a firma está inserida.

Qualquer firma tentará cobrar o preço mais alto possı́vel pelo seu produto. Porém existem dois fatores que
impedem a firma de cobrar um preço muito alto pelo seu produto.

1.2.50 Duas Restrições


Essas restrições são:

1. A demanda de mercado: se o preço for alto demais, ninguém ou quase ninguém comprará o bem.

2. Existência de outras firmas produzindo o mesmo bem: se a firma cobrar um preço muito alto, os
consumidores provavelmente comprarão o bem de firmas que o vendem a um preço mais barato.

Portanto, para modelarmos o comportamento da firma, precisamos supor algo sobre o ambiente econômico em
que está inserida. O ambiente em que estudaremos agora o comportamento da firma será competição perfeita
(ou concorrência pura).

1.2.51 Mercado Perfeitamente Competitivo


Dizemos que o mercado de um bem é perfeitamente competitivo se todas as firmas que produzem esse bem
são tomadoras de preço: cada firma, individualmente, acha que não pode afetar o preço do bem que produz,
e o toma como dado quando faz suas escolhas de produção e de uso de fatores.

A hipótese de competição perfeita é razoável para mercados onde o número de firmas é grande, e cada firma
produz uma parcela pequena da produção total do bem.

O mercado competitivo é então normalmente caracterizado pela presença de muitos compradores e vendedores,
cada um com pouca influência sobre o preço do bem negociado. O mercado em competição perfeita é uma
versão idealizada do mercado concorrencial.

1.2.52 Problema da Firma


Vamos analisar agora apenas decisão de produção de uma firma competitiva (não iremos nos preocupar com
a escolha ótima de insumos, analisada anteriormente).

Suponha que a firma já resolveu o seu problema de minimização de custos, ou seja, conhecemos c(y), o custo
mı́nimo de se produzir a quantidade y do bem. Então o problema da firma se reduz a decidir o nı́vel de
produção ótimo.

37
1.2.53 Solução do Problema da Firma - Caso Geral
O problema de qualquer firma pode ser escrito como:

max Receita(y) − Custos(y)


y

A CPO desse problema é:

Receita Marginal (RM g(y ∗ )) = Custo Marginal (CM g(y ∗ ))

Essa condição é válida para qualquer firma, esteja ela inserida em um ambiente competitivo ou não. Se a
condição não for válida, a firma pode aumentar os lucros.

1.2.54 Oferta da Firma Competitiva


Para a firma competitiva, a receita marginal é igual ao preço, pois sua receita total é dada pela venda da sua
produção, py, já que a firma competitiva é tomadora de preços. Então, para cada unidade adicional do bem
vendida, a firma competitiva recebe o preço de mercado do bem.

As CPO e CSO de maximização de lucros da firma competitiva são portanto dadas por:

(CP O) : p = CM g = c0 (y)
(CSO) : − c00 (y) < 0 ⇒ c00 (y) > 0

Custos
6
CM g CM e
CV M e

@
@
R
A parte hachurada da curva de CM g
é a curva de oferta da firma competitiva
-
y

1.2.55 Caracterização da Curva de Oferta


A firma nunca escolhe um nı́vel de produção na parte decrescente da sua curva de custo marginal, pois isso não
é ótimo: nessa parte da curva de custo marginal, a firma pode aumentar o seu lucro aumentando a produção.

Segundo, a curva de oferta é igual à curva de custo marginal apenas na região onde o custo marginal está
acima do custo variável médio. A razão disso é que se o custo marginal for menor do que o custo variável
médio, é melhor para a firma encerrar suas atividades: o que ela produz não cobre nada dos custos fixos nem
parte dos custos variáveis de produção.

38
1.2.56 Resumo
Resumindo, temos os seguintes resultados:

Caso Decisão da Firma Lucro (ou Prejuı́zo)


p < CV M e Encerra atividades Prejuı́zo = CF
p = CV M e Indiferente Prejuı́zo = CF
CV M e < p < CM e Produz Prejuı́zo < CF
p = CM e Produz Lucro zero
p > CM e Produz Lucro Positivo

1.2.57 Inclinação da Curva de Oferta


Portanto, a curva de oferta da firma competitiva é inclinada positivamente: se o preço do seu produto au-
mentar, a firma produz mais desse bem.

A função de oferta inversa da firma é dada por p(y) = CM g(y). Essa função mede o preço para o qual a firma
oferecerá y unidades do produto. Nos gráficos acima, representamos na verdade a curva de oferta inversa, já
que o eixo vertical representa o preço do bem.

1.2.58 Decisão da Firma no Longo Prazo


No longo prazo, todos os custos são variáveis. Se a firma operou com prejuı́zo, pois conseguia pagar parte dos
custos fixos, no longo prazo ela fecha as portas e sai do mercado.

Portanto, os lucros de longo prazo de uma firma são no mı́nimo iguais a zero. Se os lucros forem negativos, a
firma sai do mercado. Então o preço do bem no longo prazo é no mı́nimo igual ao custo médio, p ≥ CM e.

Mais ainda, a oferta de longo prazo da firma é mais elástica com relação ao preço do produto: se ocorre uma
mudança de preço, a reação da firma a essa mudança é maior no longo prazo do que no curto prazo, já que
no longo prazo a firma pode ajustar os fatores fixos.

1.2.59 Maximização de Lucro Direta


Vimos que o objetivo da firma é maximizar lucros. Vamos agora resolver esse problema de modo direto agora.

Se a firma deseja maximizar lucros, ela deve escolher quantidades de insumos tais que maximiza o seu lucro
(diferença entre receita e despesa):

max pf (x1 , x2 ) − w1 x1 − w2 x2
x1 ,x2

Note que a quantidade de produção é escolhida de modo implı́cito, ao se escolher as quantidades de insumos
que maximizam o lucro.

1.2.60 Solução do Problema de Maximização de Lucro


Vamos supor que o método do Lagrange se aplica. A solução da maximização é dada pelas CPO do problema:
pf1 (x∗1 , x∗2 ) = w1
pf2 (x∗1 , x∗2 ) = w2
O termo ao lado esquerdo das CPO, chamado valor do produto marginal do insumo i, é o preço do bem final
multiplicado pelo produto marginal do insumo i, ou seja, é a taxa em que a receita aumenta dado um aumento
no uso do insumo i.

⇒ A CPO então diz que o valor do produto marginal de um insumo tem que ser igual ao seu preço.

39
1.2.61 Demandas (Incondicionais) por Insumos
A firma competitiva maximiza o lucro, igual à receita menos despesa:
max pf (x1 , x2 ) − w1 x1 − w2 x2
x1 ,x2

Se resolvermos as CPO do problema de maximização de lucro, encontramos as demandas dos fatores como
função dos preços, chamadas demandas incondicionais ou demandas ótimas por insumos da firma:
x1 = x1 (p, w1 , w2 )
x2 = x2 (p, w1 , w2 )

1.2.62 Condições de Segunda Ordem


Para o caso de dois bens (e mais geralmente também) não é suficiente que os produtos marginais de cada bem
2 > 0 também deve ser verificada.
sejam negativos (fii < 0). A condição f11 f22 − f12
No exemplo da Cobb-Douglas, as duas primeiras condições são satisfeitas se α > 0, β > 0, α < 1, β < 1. A
terceira condição se resume a α + β < 1.
O que ocorre se α + β = 1? Nesse caso, a tecnologia apresenta retornos constantes de escala, pois
f (tx1 , tx2 ) = (tx1 )α (tx2 )β = tα+β xα1 xβ2 = tf (x1 , x2 )

1.2.63 Retornos Constantes de Escala


Se a firma tiver um lucro positivo usando os insumos x∗1 , x∗2 quando os preços são p, w1 , w2 , então ela poderá
multiplicar infinitamente o seu lucro ao replicar a sua escala de produção infinitamente, já que:
max pf (tx∗1 , tx∗2 ) − w1 (tx∗1 ) − w2 (tx∗2 ) = tπ > 0
x1 ,x2

Aumentando t, ou seja, aumentando a escala de produção, a firma aumenta o seu lucro.


Portanto, o único lucro econômico possı́vel de longo prazo para uma firma com retornos constantes de escala
é zero. A firma nesse caso será indiferente entre qual quantidade produzir.

1.2.64 A Função Lucro e a Função Oferta


A função lucro, se existir, é definida como:
π(p, w1 , w2 ) = max pf (x1 , x2 ) − w1 x1 − w2 x2 .
x1 ,x2

A função de oferta da firma é definida como:


y ∗ = y(p, w1 , w2 ) = f (x∗1 , x∗2 ).

1.2.65 Propriedades da Função Lucro


A função lucro, caso exista, é contı́nua e satisfaz as seguintes propriedades:
1. Crescente em p.
2. Não crescente em w1 e w2 .
3. Homogênea de grau um em (p, w1 , w2 ).
4. Convexa nos preços.
5. (Lema de Hotelling) Vale que:
∂π ∂π
= y(p, w1 , w2 ), = −xi (p, w1 , w2 ), para i = 1, 2
∂p ∂wi

40
1.2.66 Intuição das Propriedades
1. Se o preço do bem que a firma vende aumentar, tudo o mais constante, o lucro da firma aumenta.

2. Se o preço de algum insumo aumentar, todo o resto inalterado, o lucro diminui (ou permanace o mesmo).

3. Se todos os preços aumentarem na mesma proporção, o lucro aumenta na mesma proporção (“preços
absolutos não importam”).

4. Variação nos preços é bom para firma, pois o seu lucro esperado será maior.

5. Se o preço de um insumo aumentar em R$ 1, o lucro diminui em um valor igual à quantidade xi de


insumo i que está sendo usada (análogo do Lema de Shepard para o consumidor).

1.2.67 Propriedades das Demandas por Insumos e da Oferta


1. As funções de demanda por insumos e a função oferta são homogêneas de grau zero:

y(tp, tw1 , tw2 ) = y(p, w1 , w2 ), ∀t > 0


xi (tp, tw1 , tw2 ) = xi (p, w1 , w2 ), ∀t > 0, ∀i

2. Um aumento no preço de um insumo diminui a demanda por esse insumo, um aumento no preço do
produto aumenta a sua oferta:
∂y ∂xi
≥ 0; ≤ 0, i = 1, 2.
∂p ∂wi
3. Os efeitos-preço cruzados são iguais para os insumos:
∂x1 ∂x2
= .
∂w2 ∂w1

1.2.68 Intuição
A propriedade 1 diz que uma mudança em todos os preços na mesma proporção não afeta a escolha ótima da
firma.

A propriedade 2 diz que não podem existir “insumos de Giffen”: as demandas por insumos de uma firma
reagem negativamente (ou se mantêm inalteradas) a uma mudança do preço do insumo, sem exceções.

A propriedade 3 é um tanto surpreendente: para o caso de dois insumos, temos que o efeito de um aumento
no salário sobre o uso de capital na firma é igual ao efeito de um aumento no preço de capital sobre o uso de
trabalho na firma.

1.2.69 Princı́pio de LeChatelier


O princı́pio de LeChatelier diz que um ajuste na produção da firma devido a uma alteração no preço do
produto é sempre maior no longo prazo do que no curto prazo:

dyLP dy ∗
≥ CP
dp dp
Isso ocorre porque no longo prazo a firma pode ajustar também os fatores de produção que estavam fixos no
curto prazo.

41
1.2.70 O Excedente do Produtor (EP )
O Excedente do Produtor (EP ) é a área acima da curva de oferta, e abaixo do preço do bem.

A curva de oferta diz a quantidade ofertada para cada nı́vel de preços. No caso da firma competitiva, a curva
de oferta é dada pela curva de custo marginal.

Então o EP é a área entre essa curva e o preço de mercado, e mede o quanto a firma está ganhando ao receber
o mesmo preço por unidades que custaram mais barato do que o custo marginal da última unidade vendida.

Custos
6
CM g CM e
pM CV M e

EP

-
y

O lucro da firma é a diferença entre receitas e custos, onde custos podem ser divididos em custos fixos e custos
variáveis:
Lucro = py − CV − CF
O EP é a área entre o preço do bem e a curva de oferta, que é igual à curva de CM g. A área abaixo da curva
de CM g mede o custo variável da firma. Portanto, temos que:
EP = py − CV
Juntando essa duas relações, obtemos:
EP = Lucro + CF
O Excedente do Produtor (EP ) é muito usado para medir a perda ou o ganho de lucro quando a firma varia
o seu nı́vel de produção.

Portanto, podemos medir o impacto no lucro da firma causado por uma alteração no nı́vel de produção,
utilizando apenas a curva de CM g e o CF de produção (ou seja, sem saber nada do CM e de produção).

Custos
6

pM
∆EP
p̂M

Se o preço aumentou de p̂M para pM ,


então ∆EP é o ganho de EP dessa mudança
-
y

42
1.3 Escolha sob Incerteza
1.3.1 Loterias
Vamos analisar a teoria do comportamento do consumidor sob incerteza. A incerteza no problema do con-
sumidor significa que este não saberá exatamente qual vai ser o seu consumo.

O espaço de consumo X é composto de loterias. Suponha que A = {a1 , . . . , an } é um conjunto finito de


resultados. Uma loteria (p 1 ◦ a1 , . . . , pn ◦ an ) assinala a probabilidade pi ao resultado ai , para todo i =
Pn
1, 2, . . . , n, onde pi ≥ 0 e i=1 pi = 1.

Note que A é um subconjunto do conjunto de loterias (pois a loteria degenerada (p1 ◦ a1 , . . . , pn ◦ an ), com
pj = 0, para todo j 6= i, pertence a G, para todo i, onde G representa o espaço de loterias). Vamos denotar
esta loteria degenerada por 1 ◦ ai ou, de modo mais compacto, por ai , para simplificar a notação.

1.3.2 Conjunto de Escolha


O consumidor decidirá entre loterias - loterias são as cestas de consumo agora.

Note a mudança na estrutura da teoria: não consideramos mais cestas de bens, mas loterias. Isso exige um
grau diferente de capacidade de escolha do indivı́duo.

Vamos supor que o consumidor possui preferências  sobre o conjunto G de loterias, onde essas preferências
satisfazem certos axiomas.

1.3.3 Conjunto de Axiomas


Axioma 1 - Completeza e Transitividade.  é completa e transitiva.

Axioma 2 - Continuidade. Para quaisquer loterias g, h, k ∈ G, os conjuntos

{α ∈ [0, 1]; αg + (1 − α)h  k} ⊂ [0, 1]


{α ∈ [0, 1]; k  αg + (1 − α)h} ⊂ [0, 1]

são fechados.

Axioma 3 - Independência. Para quaisquer loterias g, h, k ∈ G e α ∈ (0, 1), temos:

f  g ⇔ αf + (1 − α)h  αg + (1 − α)h

1.3.4 Utilidade Esperada


A utilidade U : G → R possui a propriedade de utilidade esperada se, para todo g ∈ G, g = (p1 ◦a1 , . . . , pn ◦an ),
temos que
Xn
U (g) = pi u(ai ).
i=1

Portanto, U é linear nas probabilidades, e determinada pelos valores que assume no conjunto dos resultados.

Cada realização i é chamado um “estado da natureza.” Por exemplo, em um problema de seguro contra
roubos para carros, dois estados da natureza são relevantes: “carro é roubado” e “carro não é roubado”.

43
1.3.5 Existência de Utilidade Esperada
Teorema: Existência de Utilidade Esperada. Se as preferências  definidas sobre o espaço de loterias
G satisfazem os axiomas acima, então existe U : G → R que representa  e satisfaz a propriedade de utilidade
esperada (é linear nas probabilidades).
A utilidade U é chamada de utilidade esperada ou utilidade de Von Neumann e Morgenstern. A utilidade
u é chamada, por alguns autores, de utilidade de Bernoulli. Observe que u(ai ) = U (1 ◦ ai ). O axioma de
independência é fundamental para obtermos o formato linear nas probabilidades que a utilidade esperada
apresenta.

1.3.6 Unicidade de U
Teorema: Unicidade da Utilidade Esperada. Suponha que a utilidade esperada U representa . Então
a utilidade esperada V representa as mesmas preferências  se, e somente se, existe α, β ∈ R, β > 0, tais que
V (g) = α + βU (g),
para toda loteria g ∈ G.
A utilidade esperada que representa um sistema de preferências que satisfaça os axiomas acima é única a
menos de transformações afins positivas.

1.3.7 Jogo Justo


Um jogo justo é um jogo com valor esperado zero.
Por exemplo, considere o lançamento de uma moeda. Se sair cara, o jogador ganha R$ 10,00. Se sair coroa,
o jogador perde R$ 10,00. O valor esperado desse jogo é:
1 1
V E = × 10 + × (−10) = 0,
2 2
logo esse é um jogo justo.
Um comportamento frequentemente observado é que as pessoas preferem não participar de um jogo justo.
Isso é uma evidência de que as pessoas são, em geral, avessas ao risco.

1.3.8 Exemplo: Seguros


Todo indivı́duo avesso ao risco (que não gosta de risco) escolherá assegurar totalmente os seus ativos, se o
preço do seguro for atuarialmente justo, isto é, tal que o seu preço seja igual à perda esperada.
Sejam:
• w0 : riqueza inicial;
• π ∈ (0, 1): probabilidade do indivı́duo sofrer uma perda de X reais;
• c: quantidade de seguro comprada;
• p = π: preço atuarialmente justo de cada real assegurado.
O problema do indivı́duo é:
max [πu(w0 − πc − X + c) + (1 − π)u(w0 − πc)]
c
A CPO resulta em:
u0 (w0 − πc − X + c) = u0 (w0 − πc),

o que resulta em c∗ = X se u00 < 0 (garante a CSO e garante que c∗ > 0), ou seja, no caso de um seguro
atuarialmente justo, o indivı́duo se assegura totalmente contra uma perda.
A condição u00 < 0 significa que o indivı́duo é avesso ao risco, conceito que analisaremos a seguir.

44
1.3.9 Loterias na Riqueza
Seja U : G → R uma função de utilidade esperada, onde o conjunto de resultados A = {w1 , . . . , wn } é dado
por valores não-negativos de riqueza (wi ≥ 0, para todo i).

Nota: Se A = R+ , uma loteria será representada por uma função de distribuição acumulada F : R → [0, 1]
(F (x) = P (g ≤ x)). A utilidade de uma loteria será:
Z ∞
U (F ) = u(x)dF (x)
−∞

1.3.10 Aversão ao Risco


Definição: Comportamento em Relação ao Risco. Considere a loteria g não-degenerada. Dizemos que
o indivı́duo é:
1. Avesso ao risco em g se U (E(g)) > U (g),

2. Neutro ao risco em g se U (E(g)) = U (g),

3. Amante do risco em g se U (E(g)) < U (g).


Se o indivı́duo for avesso (neutro, amante) ao risco para toda loteria não-degenerada g, então dizemos que
esse indivı́duo é avesso (neutro, amante) ao risco.

u
6

rS u(w)


u(E(g)) r



U (g) r T



R
r


-
w1 EC E(g) w2 w

1.3.11 Equivalente de Certeza e Prêmio ao Risco


Definição: Equivalente de Certeza e Prêmio ao Risco. O equivalente de certeza (ECg ) da loteria g é
o montante de dinheiro ECg dado com certeza, tal que u(g) = u(ECg ). O prêmio ao risco associado à loteria
g é o montante de dinheiro P tal que u(g) = u(E(g) − Pg ) (logo, Pg = E(g) − ECg ).

Teorema: Aversão ao Risco, EC e Prêmio ao Risco. As seguintes afirmativas são equivalentes:


1. O indivı́duo é avesso ao risco;

2. u(·) é côncava;

3. ECg ≤ E(g), para toda loteria g;

4. Pg ≥ 0, para toda loteria g.

45
1.3.12 Neutralidade ao Risco e Propensão ao Risco
Teorema: Neutralidade ao Risco, EC e Prêmio ao Risco. As seguintes afirmativas são equivalentes:

1. O indivı́duo é neutro ao risco;

2. u(·) é linear;

3. ECg = E(g), para toda loteria g;

4. Pg = 0, para toda loteria g.

Teorema: Propensão ao Risco, EC e Prêmio ao Risco. As seguintes afirmativas são equivalentes:

1. O indivı́duo é propenso ao risco;

2. u(·) é convexa;

3. ECg ≥ E(g), para toda loteria g;

4. Pg ≤ 0, para toda loteria g.

1.3.13 Medidas de Arrow-Pratt


Os coeficientes de Arrow-Pratt medem o grau de aversão ao risco de um consumidor.

O grau de aversão ao risco de um indivı́duo está relacionado com a convexidade da utilidade u.

Essas medidas são locais, ou seja, em um ponto do nı́vel de renda.

Definição: Coeficiente de Aversão ao Risco Absoluto (CARA). O coeficiente de aversão ao risco


absoluto (CARA) de Arrow-Pratt da utilidade U no nı́vel de riqueza w é dada por:

u00 (w)
Ra (w) = −
u0 (w)

Definição: Coeficiente de Aversão ao Risco Relativo. O coeficiente de aversão ao risco relativo (CARR)
de Arrow-Pratt da utilidade U no nı́vel de riqueza w é dada por:

wu00 (w)
Rr (w) = −
u0 (w)

1.3.14 Exemplos
Exemplo 1 (CARA constante) Considere a utilidade u(w) = −e−αw . Para essa utilidade, Ra (w) = α,
para todo w.

w1−ρ
Exemplo 2 (CARR constante) Considere a utilidade u(w) = 1−ρ . Para essa utilidade, Rr (w) = ρ, para
todo w.

1.3.15 Exemplo: Resultado de Arrow


Resultado de Arrow: todo indivı́duo, independentemente do seu grau de aversão ao risco, sempre investirá
no ativo com risco, desde que ele tenha um retorno esperado superior ao retorno do ativo sem risco rf (neste
exemplo, rf = 0).

46
1.3.16 Modelo de Média e Variância
O modelo de média e variância supõe que os investidores levam em conta apenas o retorno e o risco quando
decidem o que investir.

A utilidade nesse modelo é dada por:


U = U (µw , σw ),
onde µw é a média da riqueza e σw é o desvio padrão da riqueza.

Sob certas condições, pode se mostrar que o modelo de utilidade esperada se resume a um modelo de média
e variância.

Suponha dois ativos, um sem risco, cujo retorno é denotado por rf , e um com risco, cujo retorno esperado é
denotado por Erm e cuja variância é denotada por σm2 .

Seja x a parcela da renda investida no ativo com risco. Nesse caso, temos que o retorno esperado e o risco da
carteira de investimentos desse indivı́duo, denotados por Erx e σx2 , são:

Erx = xErm + (1 − x)rf


σx2 = x2 σm
2

Se o indivı́duo investe apenas no ativo sem risco, ou seja, x = 0, temos que (Erx , σx ) = (rf , 0). Se o indivı́duo
investe apenas no ativo com risco, ou seja, x = 1, temos que (Erx , σx ) = (Erm , σm ).

Supondo que Erm > rf , ao ilustrar a escolha do indivı́duo em um gráfico com retorno esperado e desvio-padrão
nos eixos, obtemos a figura abaixo.
Er −r
A inclinação da reta orçamentária é σmm f , chamada “Sharpe ratio”, mede o custo de se conseguir um maior
retorno em termos do aumento do risco desse retorno. Ela também é chamada “preço do risco”, uma vez que
mede como o retorno e risco podem ser substituı́dos no portfolio de investimento.

Er
6

Reta Orçamentária
Erm −rf
r  Inclinação:

Erm  σm



E 
Erx r



rf 

-
σx σm σ

Na escolha ótima, a curva de indiferença do investidor tangencia a reta orçamentária, ou seja, a taxa marginal
de substituição entre risco e retorno é igual ao preço do risco:
∂U (µ,σ)
Erm − rf
T M S = − ∂U∂σ
(µ,σ)
=
σm
∂µ

Note que a parcela da renda que o indivı́duo investirá no ativo com risco depende de suas preferências,
mais especificamente, de sua aversão ao risco. Porém, qualquer que seja a sua escolha ótima de carteira de
investimentos, temos que nessa escolha a relação acima de igualdade entre TMS e preço do risco será válida.

47
1.3.17 Modelo do CAPM
O CAPM (“Capital Asset Pricing Model ” é um modelo de equilı́brio, que relaciona o retorno esperado de um
ativo financeiro com o seu risco.

A expressão final do CAPM é:


Eri = rf + βi (ErM − rf ),
onde ri é o retorno do ativo sob análise, rM é o retorno do mercado, rf é o retorno do ativo sem risco
σi,M
e βi = cov(r i ,rM )
var(rM ) = σ 2 .
M

48
2 Parte II
2.1 Equilı́brio Parcial
2.1.1 III. Mercados
1. Concorrência Perfeita: O equilı́brio da empresa em concorrência perfeita: a curva de oferta; desloca-
mento da curva e mudança ao longo da curva; curto e longo prazo; elasticidade-preço da oferta. Equilı́brio do
mercado: posição de equilı́brio, deslocamento das curvas de procura e de oferta.

2.1.2 Demanda de Mercado


Em um mercado competitivo, compradores e vendedores tomam os preços como dados. O agente econômico
individual (consumidor ou firma) vê os preços como algo fixo, fora do seu controle.

Porém, os preços são determinados pelas ações de todos os agentes econômicos da sociedade.

A análise de equilı́brio parcial ignora os efeitos de equilı́brio geral (supõe que são desprezı́veis) e se concentra
no estudo de um mercado em particular.

2.1.3 Demanda de Mercado


Suponha que existam I potenciais compradores de um bem qualquer. A demanda de mercado de um bem é
a soma de todas as demandas individuais por esse bem:
I
X
q d (p) = q i (p, p, mi ),
i=1

onde mi é a renda do comprador i, q i (p, p, mi ) e p são a demanda desse comprador e o preço do bem em
questão, e p são os preços de todos os outros bens.

2.1.4 Oferta de Mercado


A curva de oferta de mercado é obtida somando-se todas as curvas de ofertas do bem.

Podemos destacar duas curvas de oferta principais: a curva de oferta de curto prazo, que mostra como a oferta
da indústria responde a diferentes preços no curto prazo; e a curva de oferta de longo prazo, que mostra como
a oferta da indústria responde a diferentes preços no longo prazo.

Podemos encontrar também a função de oferta inversa da indústria, que diz qual preço mı́nimo a indústria
como um todo aceita para ofertar uma certa quantidade.

2.1.5 Oferta de Mercado de Curto Prazo


A função de oferta de curto prazo de um mercado competitivo é a soma de todas as ofertas de cada firma. Se
existem J firmas na indústria, e se cada firma j oferta qj (p, w) quando o preço é p, então a oferta da indústria
é:
XJ
q S (p) = qj (p, w)
j=1

No curto prazo, o número de vendedores no mercado, J, está fixo. Esses vendedores podem variar a sua oferta
apenas usando os fatores que não estão fixos.

49
2.1.6 Oferta de Mercado de Longo Prazo
No longo prazo, nenhum insumo está fixo. A firma pode decidir sair do mercado se os custos médios de longo
prazo não forem cobertos.

Portanto, no longo prazo ocorre um importante ajuste de margem extensiva: a entrada e saı́da de firmas,
dependendo de a indústria ter lucros ou prejuı́zos.

O equilı́brio do mercado competitivo é portanto o ponto onde o preço iguala o custo médio de longo prazo
mı́nimo, e, portanto, iguala o custo marginal. Esse é o ponto de máxima eficiência possı́vel.

Nesse caso, temos duas variáveis para determinar no equilı́brio de longo prazo de uma indústria competitiva:
o preço de equilı́brio e o número de firmas da indústria.

Essas variáveis são determinadas pelas seguintes condições:


J∗
X

d
q (p ) = qj (p∗ ),
i=1

j
π (p ) = 0, j = 1, . . . , J ∗ .

A primeira equação é condição de equilı́brio de mercado (demanda igual à oferta), e a segunda equação é a
condição de lucro zero da firma competitiva.

2.1.7 Equilı́brio Parcial


O mercado de um certo produto está em equilı́brio quando a demanda se iguala à oferta.

O equilı́brio de mercado competitivo é obtido via ajuste de preços: o preço de equilı́brio é o preço que faz
com que a demanda seja igual à oferta.

Como a demanda diminui se o preço sobe e a oferta aumenta se o preço sobe, só existe um preço de equilı́brio.
A figura a seguir ilustra esse ponto.

Preço
6
Curva de Oferta
Q 
Q 
Q 
Q 
Q 
Q r
p∗ Q

 Q
 Q
 Q
 Q
 Q
 Q
Curva de Demanda

-
q∗ q

2.1.8 Excesso de Demanda e Excesso de Oferta


Se a demanda é maior do que a oferta, dizemos que há um excesso de demanda.

Se a oferta é maior do que a demanda, dizemos que há um excesso de oferta.

Em qualquer desses casos, o preço se ajustará para equilibrar o mercado.

50
2.1.9 Excesso de Oferta
Preço
6
Curva de Oferta
Q 
Q 
Q r Excesso de Oferta r
p̂ Q 
Q 
Q 
Q

 Q
 Q
 Q
 Q
 Q
 Q
Curva de Demanda

-
qD qO q

2.1.10 Excesso de Demanda


Preço
6
Curva de Oferta
Q 
Q 
Q 
Q 
Q 
Q 
Q

 Q
r Qr
 Q
p̃ 

Excesso de Demanda
Q
 Q
 Q
Curva de Demanda

-
qO qD q

2.1.11 Estática Comparativa


Exercı́cios de estática comparativa em modelos de equilı́brio parcial medem o efeito de um choque, uma
alteração de uma ou mais variáveis, no equilı́brio de mercado.

Os três casos que analisaremos abaixo são particularmente importantes:


1. Choques na Demanda;
2. Choques na Oferta; e
3. Impostos e Subsı́dios.

2.1.12 Choques na Demanda


Um choque na demanda é qualquer evento que altera a demanda de um bem.

Um choque na demanda desloca a curva de demanda para a esquerda ou para a direita, dependendo se esse
choque contrai ou expande a demanda, respectivamente.

Por exemplo, se metade dos consumidores de um bem desaparece subitamente, a curva de demanda desse
bem se deslocará para esquerda, indicando que houve uma diminuição na quantidade demandada para todo
nı́vel de preço possı́vel. Nesse caso, tanto o preço quanto a quantidade de equilı́brio diminuirão.

51
2.1.13 Choque Negativo na Demanda
Preço
6
Q
Q Oferta
Q 
Q 
Q 
p∗ Q Q r
Q Q
Q  Q
Qr
? Q  Q
p∗∗ Q
Q
Q
 Q Q
 Q Q Demanda Original
 Q
 Q
Q
Q
Q
Demanda Final
-
q ∗∗  q∗ q

2.1.14 Choques na Oferta


Um choque na oferta é qualquer evento que altera a oferta de um bem.

Um choque na oferta desloca a curva de oferta para a esquerda ou para a direita, dependendo se esse choque
contrai ou expande a oferta, respectivamente.

Por exemplo, se metade das firmas que produzem um bem é destruı́da em um terremoto, a curva de oferta
desse bem se deslocará para esquerda, indicando que houve uma diminuição na quantidade ofertada para todo
nı́vel de preço possı́vel. Nesse caso, a quantidade de equilı́brio diminuirá e o preço de equilı́brio aumentará.

2.1.15 Choque de Oferta


Preço
6
Oferta Final

Q 
@  Oferta Original
Q  I
@
Q 
p∗∗ Q
Qr



Q 
6  Q 
p∗
 Q r
 
Q
  Q
I
@  Q
@   Q
Q

 Curva de Demanda

-
q ∗∗  q∗ q

2.1.16 Tributos e Impostos


Suponha que sobre um determinado bem é cobrado um imposto sobre a quantidade de tamanho t, pago pelo
vendedor do bem.

Nesse caso, temos que pD = pS + t, onde pD é o preço pago pelos consumidores e pS é o preço recebido pelos
vendedores.

Se o imposto é do tipo ad valorem, com taxa τ , temos que pD = (1 + τ )pS .

52
2.1.17 Perda de Peso Morto e Eficiência
Um imposto não gera apenas uma transferência de riqueza do mercado para o governo. Ele diminui a
quantidade de mercado e com isso gera uma perda de peso morto (“deadweight loss”), uma renda econômica
dissipada.

Na figura abaixo, o imposto modifica os preços de equilı́brio. A área A é excedente do consumidor transferido
para o governo e a área C é excedente do produtor transferido para o governo. Logo, a área A + C é a receita
que o governo arrecada com o imposto.

A área B é excedente do consumidor dissipado pela diminuição da quantidade de equilı́brio dado o imposto.

A área D é excedente do produtor dissipado pela diminuição da quantidade de equilı́brio devido ao imposto.

A soma B +D, a perda de excedente total, é a perda social gerada pelo imposto. Essa perda, chamada também
de perda de peso morto ou ônus do imposto, é uma ineficiência gerada pelo imposto.

Preço
6
Curva de Oferta
Q 
Q 
pD Qr
Q 

A B Q r
Q 
Q

C D Q
pS r 

Q
Q
 Q
 Q
 Q
Curva de Demanda

-
q∗ q

53
2.2 Teoria dos Jogos
2.2.1 VI. Teoria dos Jogos
1. Equilı́brio de Nash;

2. Equilı́brio de Nash em Estratégias Mistas;

3. Jogo Repetido;

4. Equilı́brio Perfeito em Subjogos.

2.2.2 Teoria dos Jogos


A teoria dos jogos permite modelar comportamentos estratégicos dos agentes econômicos. É o instrumento
adequado quando existe interdependência estratégica entre os agentes do modelo analisado.

No modelo de consumo usual, o consumidor decide entre possı́veis cestas de bens, dados os preços e a sua
renda. Não há interdependência estratégica nesse modelo.

Porém, existem situações onde as ações de um agente dependem das ações de outro agente diretamente. Na
prática, assumimos que o payoff (utilidade) do agente depende não só da sua ação, mas da ação de outros
agentes.

2.2.3 Jogo
Definição: Jogo. Um jogo refere-se a qualquer situação envolvendo dois ou mais agentes, chamados jo-
gadores, onde exista interdependência estratégica.

Para descrevermos um jogo é necessário conhecermos três objetos:


• Os jogadores,
• A regra do jogo,
• O resultado (payoff) do jogo.

2.2.4 Hipóteses sobre os Jogadores


São feitas duas hipóteses básicas sobre os jogadores:
1. Os jogadores são racionais. As ações de um jogador são consistentes com o seu objetivo desejado,
maximizar a utilidade.
2. Os jogadores são inteligentes. Os jogadores sabem tudo o que sabemos sobre o jogo e conseguem fazer
as mesmas inferências que fazemos sobre a situação em que se encontram.
A segunda hipótese não é tão inócua quanto parece. Na teoria de equilı́brio geral os indivı́duos são racionais,
mas não é necessário que sejam inteligentes no sentido acima: os agentes econômicos não precisam conhecer
toda a estrutura de teoria de equilı́brio geral ao tomarem suas decisões.

2.2.5 Formas de Representação


Existem duas formas de representarmos um jogo:

FORMA NORMAL: Representação em forma matricial. Esta forma é adequada para situações onde os jo-
gadores se “movem” (decidem suas ações) simultaneamente. Modelo estático. Esta forma também é conhecida
como forma estratégica.

FORMA EXTENSIVA: Representação em forma de árvore. Esta forma é adequada para situações onde exista
uma ordem cronológica dos eventos do jogo. Modelo dinâmico.

Existe uma correspondência entre essas duas formas.

54
2.2.6 Hipótese de Conhecimento Comum
Uma hipótese bastante usada em teoria dos jogos é a de conhecimento comum (“common knowledge”). Essa
hipótese diz que a racionalidade dos jogadores e a estrutura do jogo é de conhecimento comum para todo
jogador.

Se considerarmos dois jogadores, um determinado fato é de conhecimento comum dos jogadores se o jogador
1 conhece o fato, se o jogador 1 sabe que o jogador 2 conhece o fato, se o jogador 1 sabe que o jogador 2 sabe
que o jogador 1 conhece o fato, se o jogador 1 sabe que o jogador 2 sabe que o jogador 1 sabe que o jogador
2 conhece o fato, e assim vai ad infinitum, o mesmo raciocı́nio valendo para o jogador 2.

Essa hipótese é fundamental para a validade de certos procedimentos, tais como os procedimentos de elim-
inação de estratégias dominadas.

Mais ainda, ela é fundamental para o conceito de equilı́brio de Nash (existem artigos que relaxam a hipótese
de conhecimento comum, sob certas condições).

Myerson (1991) argumenta que a hipótese de jogadores inteligentes implica supor que a estrutura do jogo é
de conhecimento comum desses jogadores.

2.2.7 Jogo na Forma Estratégica


Na forma normal não nos preocupamos com cada ação do jogador, mas apenas com cada estratégia do jogador,
o conjunto de todas as ações que podem ser tomadas no decorrer de uma partida do jogo, incluindo ações
para qualquer situação de jogo.

Para certos jogos, como veremos a frente, a estratégia do jogador pode condensar uma quantidade enorme de
informação, descrevendo um número muito grande de ações a serem tomadas ao longo do jogo.

2.2.8 Exemplo: Cara ou Coroa


1↓ / 2 → Cara Coroa
Cara −1, 1 1, −1
Coroa 1, −1 −1, 1

No jogo “Cara ou Coroa”, fica claro que cada jogador deve agir de modo imprevisı́vel. Logo, quando os
jogadores decidem estrategicamente, pode ocorrer que a melhor forma de agir seja escolher de modo aleatório
ou de modo que o seu rival não saiba exatamente o que ele escolherá.

2.2.9 Exemplo: Dilema dos Prisioneiros


Luiz Alberto e Laelio foram presos e estão sendo interrogados separadamente, acusados de um crime. Se
ambos confessarem o crime, eles receberão uma pena de 3 anos na cadeia. Se ambos não confessarem o crime,
a pena será de apenas dois anos, por falta de evidência. Porém, o promotor pode fazer uma acordo com um
deles, dando uma pena de apenas um ano na prisão para quem confessar e, para quem não confessar, de cinco
anos na prisão, por não ter colaborado com a justiça. A matriz abaixo descreve este jogo.

1↓ / 2 → Confessar Não Confessar


Confessar −3, −3 −1, −5
Não Confessar −5, −1 −2, −2

55
2.2.10 Exemplo: Problema de Coordenação
Suponha que duas pessoas estão viajando separadamente para o Rio de Janeiro e combinaram de se encon-
trar para almoçar no dia seguinte. Porém esqueceram de marcar o restaurante e não estão conseguindo se
comunicar. Eles costumam almoçar sempre em dois restaurantes, um no centro da cidade e outro na Barra
da Tijuca. O almoço no restaurante da barra é mais agradável do que o almoço no restaurante do centro.
Porém, eles se desencontrarem é a pior situação possı́vel. A matriz abaixo descreve este jogo.

1↓ / 2 → Barra Centro
Barra 3, 3 0, 0
Centro 0, 0 1, 1

2.2.11 Exemplo: Batalha dos Sexos


Nelson↓ / Renata → Futebol Compras
Futebol 2, 1 0, 0
Compras 0, 0 1, 2

A batalha dos sexos modela também um problema de coordenação, mas que envolve uma disputa de poder,
onde cada um tenta implementar o seu equilı́brio preferido.

2.2.12 Estratégias Estritamente Dominantes


Definição: Estratégia Estritamente Dominante. A estratégia ŝ1 é estritamente dominante para o
jogador 1 em um dado jogo se para toda estratégia s1 6= ŝ1 , s1 ∈ S1 , onde S1 representa o conjunto de todas
as estratégias disponı́veis para o jogador 1, vale:

u1 (ŝ1 , s2 ) > u1 (s1 , s2 ), para todo s2 ∈ S2 .

Logo, uma estratégia si é estritamente dominante para o jogador i, i = 1, 2, se ela for a única estratégia que
maximiza o payoff desse jogador, quaisquer que sejam as estratégias escolhidas pelos outros jogadores.

2.2.13 Dilema dos Prisioneiros


1↓ / 2 → Confessar Não Confessar
Confessar −3, −3 −1, −5
Não Confessar −5, −1 −2, −2

Confessar é uma estratégia estritamente dominante para os dois prisioneiros. Ela é a melhor estratégia para
cada prisioneiro, independentemente do que o outro prisioneiro escolha. Nesse caso, dizemos que (C, C) é um
equilı́brio em estratégias estritamamente dominantes.

2.2.14 Ineficiência no Dilema dos Prisioneiros


Observe que o equilı́brio (C, C) é Pareto dominado pelo conjunto de estratégias (N C, N C), ou seja, cada
jogador obtém um payoff maior em (N C, N C) do que em (C, C).

Temos, então, um caso onde o comportamento individual maximizador dos agentes envolvidos resulta em um
equilı́brio Pareto ineficiente.

Logo, na presença de interdependência estratégica, a interação de jogadores cujo objetivo é maximizar o seu
próprio bem-estar pode levar a situações Pareto-ineficientes.

56
2.2.15 Outros Conceitos de Dominância
• Estratégia Estritamente Dominada;
• Estratégia Fracamente Dominante;
• Estratégia Fracamente Dominada;
• Estratégias Racionalizáveis.

2.2.16 Equilı́brio de Nash em Estratégias Puras


O máximo que podemos obter usando a hipótese de conhecimento comum é o conceito de estratégias racionalizáveis,
que se assemelha ao conceito de estratégias que sobrevivem ao processo de eliminação de estratégias dom-
inadas. Para obtermos qualquer outro conceito mais robusto, temos que adicionar alguma hipótese nova.

Definição: Equilı́brio de Nash (em Estratégias Puras). Um conjunto de estratégias ŝ = (ŝ1 , ŝ2 ) é um
equilı́brio de Nash (EN) (em estratégias puras) para um certo jogo se vale:
u1 (ŝ1 , ŝ2 ) ≥ u1 (s1 , ŝ2 ), para todo s1 ∈ S1 , e
u2 (ŝ1 , ŝ2 ) ≥ u2 (ŝ1 , s2 ), para todo s2 ∈ S2

2.2.17 Existência de Equilı́brio em Estratégias Puras


O jogo de Cara ou Coroa não possui EN em estratégias puras. Logo, de modo geral, não podemos garantir a
existência de EN em estratégias puras.
1↓ / 2 → Cara Coroa
Cara −1, 1 1, −1
Coroa 1, −1 −1, 1

Intuitivamente, qualquer solução desse jogo envolve ambos os jogadores escolhendo suas estratégias de modo
imprevisı́vel. Para formalizar essa ideia, vamos introduzir o conceito de estratégias mistas.

2.2.18 Estratégias Mistas


Definição: Estratégias Mistas. Seja Si o conjunto de estratégias puras do jogador i. Uma estratégia mista
do jogador i é uma distribuição de probabilidade sobre Si , ou seja, uma função σi : Si → [0, 1], que associa
uma probabilidade a cada estratégia pura do jogador i. Logo, temos que
X
σi (si ) ≥ 0, ∀si e σi (si ) = 1.
si ∈Si

Se os jogadores randomizam suas estratégias, então o resultado do jogo deixará de ser determinı́stico. Neste
caso, calculamos o payoff dos jogadores usando utilidade esperada.

2.2.19 Equilı́brio de Nash


Definição: Equilı́brio de Nash (Estratégias Mistas). Um conjunto de estratégias σ̂ = (σ̂1 , σ̂2 ) é um
equilı́brio de Nash para um certo jogo de dois jogadores se vale
u1 (σ̂1 , σ̂2 ) ≥ u1 (σi , σ̂2 ), para todo σ1 ∈ ∆(S1 ), e
u2 (σ̂1 , σ̂2 ) ≥ u2 (σ̂i , σ2 ), para todo σ2 ∈ ∆(S2 )

A definição acima permite que os jogadores randomizem entre as estratégias puras. Logo, eles podem não
somente escolher uma estratégia pura, mas também escolher uma estratégia que envolva várias estratégias
puras, cada uma escolhida com determinada probabilidade. Observe que no equilı́brio, cada jogador conhece
o modo em que os outros jogadores estão randomizando (as estratégias mistas escolhidas por seus rivais).

57
2.2.20 Calculando EN em Estratégias Mistas
Suponha que o jogador 1 decida proceder do seguinte modo: com probabilidade α ele escolhe Ca e com
probabilidade 1 − α ele escolhe Co. Similarmente, o jogador 2 decide proceder do seguinte modo: com
probabilidade β ele escolhe Ca e com probabilidade 1 − β ele escolhe Co. Vamos representar na matriz abaixo
essa situação.

1↓ / 2 → Cara (β) Coroa (1 − β)


Cara (α) −1, 1 1, −1
Coroa (1 − α) 1, −1 −1, 1

Essas randomizações são um EN se:


u1 (Ca, σ2 ) = u1 (Co, σ2 ) e u2 (σ1 , Ca) = u2 (σ1 , Co),
onde σ1 e σ2 representam as estratégias mistas dos jogadores 1 e 2, respectivamente. Portanto:
u1 (Ca, σ2 ) = u1 (Co, σ2 ) ⇒ β = 0, 5
u2 (σ1 , Ca) = u2 (σ1 , Co) ⇒ α = 0, 5
Logo, σ1 = (1/2 ◦ Ca; 1/2 ◦ Co) e σ2 = (1/2 ◦ Ca; 1/2 ◦ Co) é um EN em estratégias mistas.

2.2.21 Teorema de Existência de EN


Teorema de Existência de Equilı́brio de Nash. Todo jogo finito na forma normal possui pelo menos um
equilı́brio de Nash (considerando-se estratégias mistas).

2.2.22 Alguns Resultados


1. Se existir equilı́brio em estratégias estritamente dominantes, ele será único e será o único EN do jogo.
O mesmo vale para equilı́brios obtidos com o PEEED: se existir, será único e o único EN do jogo.
2. Se existir equilı́brio em estratégias fracamente dominantes, então ele será um EN. Neste caso, pode
ocorrer que exista outro EN, formado por estratégias fracamente dominadas. O exemplo abaixo mostra
esse caso.
3. Vimos em um exemplo acima, o PEEFD pode levar a diferentes resultados, dependendo da ordem de
eliminação das estratégias. De qualquer modo, se o PEEFD levar a algum resultado, qualquer que seja
esse resultado, ele será um EN.

2.2.23 Forma Extensiva de um Jogo


Definição: Jogo na Forma Extensiva. Representamos um jogo finito na forma extensiva em forma de
árvore, onde em cada conjunto de decisão um jogador escolhe a ação que desenvolve o jogo.

Definição: Jogo de Informação Perfeita. Um jogo é chamado de informação perfeita se cada conjunto
de informação do jogo contém apenas um nó de decisão.

Logo, em um jogo de informação perfeita, cada jogador conhece todas as jogadas dos outros jogadores escol-
hidas anteriormente.

2.2.24 Informação Perfeita


Se um jogo não é de informação perfeita, então existe pelo menos um ponto do jogo em que algum jogador
não sabe o que foi escolhido no momento anterior (um conjunto de informação que contém mais de um nó).

Nesse caso, unimos os nós que fazem parte de um mesmo conjunto de informação por um retângulo pontilhado,
como ilustra o jogo na figura abaixo.

58
2.2.25 Exemplo - Jogo de Informação Perfeita
1t
@
@
E @D
@
2 t @t 2
@
A A
 A  A
l  A r l  A r
 A  A
t

 

 At 
A t

 

At 
A
1 0 0 3
3 0 0 1

2.2.26 Exemplo - Jogo de Informação Imperfeita


1t
@
@
E @D
@
t 2 @t
@
A A
 A  A
l  A r l  A r
 A  A
t

 

 At 
A t

 

At 
A
1 0 0 3
3 0 0 1

2.2.27 Estratégia de um Jogo na Forma Extensiva


A definição de estratégia para jogos simultâneos é simples e direta: a estratégia de cada participante é a ação
escolhida para o jogo todo.

No caso de jogos sequênciais, a definição de estratégia é mais complicada. Nesse caso, um determinado jogador
pode ter vários pontos de escolha ao longo do jogo.

Por exemplo, em xadrez, as jogadas dos dois jogadores se alternam ao longo da partida.

2.2.28 Estratégia de um Jogo na Forma Extensiva


A estratégia de um jogador em um jogo na forma extensiva é uma regra que determina a sua escolha de ação
em TODOS os conjuntos de informação do jogo.

Uma estratégia para o jogador i é então um plano CONTINGENTE COMPLETO (uma regra de decisão
completa) que especifica como o jogador i jogará em toda e qualquer circunstância do jogo.

Dizer que uma estratégia é um plano contingente completo para o jogo significa dizer que uma estratégia
define ações para TODOS os conjuntos de informação do jogo, mesmo que esses conjuntos de informação não
sejam alcançados durante o jogo.

Isso inclui definir ações para conjunto de informações onde a própria estratégia do jogador em questão torna
essas ações irrelevantes.

59
2.2.29 Memória Perfeita
Um jogo é chamado de memória perfeita quando nenhum jogador esquece o que já sabia (inclusive ações que
já foram tomadas durante o desenrolar do jogo).

O jogo ilustrado na figura abaixo não apresenta memória perfeita. Nesse jogo, o jogador 1, na terceira rodada
do jogo, após a sua escolha na primeira rodada e após a escolha do jogador 2 na segunda rodada, não se
lembra de sua escolha feita na primeira rodada do jogo.

1
t
HH
 HH
E HD
 HH

t jt
H
 H


@
2 H
@
a @ b a @ b
@ @
t Rt t Rt
@ @

A
@
A
1 A
@
A
l  A r l  A r l  A r l  A r
 A  A  A  A
 A  A  A  A

 U
A
 AU  AU  AU

2.2.30 Estratégias Comportamentais


Existem dois modos de se definir randomização por parte dos jogadores em um jogo na forma extensiva:

1. Randomizar a estratégia usada. Esse modo de randomização é o mesmo usado em jogos estratégicos.

2. Randomizar em cada momento de jogar.

No primeiro modo, obtemos o conceito de estratégia mista visto anteriormente. No segundo modo, obtemos
o conceito de estratégia comportamental.

Para toda estratégia comportamental de um jogador i, podemos encontrar uma estratégia mista de i tal que
resulta na mesma distribuição sobre payoffs, quaisquer que sejam as estratégias, mistas ou comportamentais,
usadas pelos outros jogadores, e vice-versa.

Nesse caso, o tipo de estratégia, mista ou comportamental, usada, é indiferente para análise do jogo.

2.2.31 Jogos Dinâmicos


Vários tipos de jogos possuem um dinâmica de ações escolhidas em tempos diferentes. Em alguns desses jogos,
representá-los na forma normal e daı́ encontrarmos os EN pode não ser adequado.

Quando transformamos um jogo na forma extensiva para a forma normal e achamos os EN do jogo nessa
forma, alguns equilı́brios podem não ser crı́veis, baseados em ameaças de um dos jogadores que não será
cumprida nunca.

Portanto, o principal problema na resolução de jogos dinâmicos por meio de encontrar os EN da sua repre-
sentação na forma normal diz respeito à credibilidade de uma estratégia que faz parte de um EN do jogo na
forma normal.

60
2.2.32 Exemplo: Monopolista e Firma Entrante

Entrante
t
@
Não Entra @ Entra
@
@
  Rt Monopolista
@
0 @
2 Briga @
@ Acomoda
@
 @R 
 
−1 1
−1 1
2.2.33 Exemplo: Monopolista e Firma Entrante
A forma normal equivalente do jogo acima é:
Entrante/Monopolista Briga Acomoda
Não entra 0,2 0,2
Entra -1,-1 1,1

Existem dois EN em estratégias puras para o jogo: 1) firma entrante (E) entrar, monopolista (M) acomodar,
se E entrou, e 2) firma entrante não entra, monopolista brigar se E entrar.

O segundo EN é baseado em uma ameaça vazia, não-crı́vel : M faz uma ameaça, que se for levada a sério,
não precisa ser cumprida, pois nesse caso E escolheu não entrar. Porém, se E entrar, o melhor para M é se
acomodar.

2.2.34 Informação Perfeita


Vamos primeiro analisar jogos de informação perfeita, onde os jogadores estão perfeitamente informados de
todas as ações previamente escolhidas quando for o seu momento de jogar. Jogos como damas, xadrez, etc
são jogos de informação perfeita.

O objetivo é desenvolver um conceito de equilı́brio que elimine equilı́brios baseados em estratégias não-crı́veis,
como no exemplo acima, onde o ideal seria acharmos (1, 1) como único equilı́brio.

Portanto, queremos refinar o conceito de EN - queremos que as soluções do jogo ainda sejam EN, mas queremos
eliminar os EN não crı́veis. O seguinte conceito é fundamental para obtermos esse conceito de equilı́brio.

2.2.35 Racionalidade Sequencial


Princı́pio da Racionalidade Sequencial: A estratégia de um jogador qualquer deve especificar ações que
são ótimas em cada ponto do jogo.

Esse princı́pio é implementado em um jogo de informação perfeita por um Algoritmo de Indução Reversa
(“backward induction”):
1. Comece pelos nós de decisão finais da árvore (“nós penúltimos” - nós cujos sucessores são todos nós
terminais);
2. Determine a escolha ótima dos jogadores que jogam nesses nós (problema de maximização individual,
sem interação estratégica);
3. Redesenhe a árvore, substituindo os nós de decisão final por um nó terminal, com payoff definido pela
escolha ótima no passo 2);
4. Repita passos 1), 2) e 3) para esse jogo reduzido, até chegar ao fim.

61
2.2.36 Racionalidade Sequencial
A solução de indução reversa para jogos com informação perfeita se resume a que todos os jogadores façam
escolhas que maximizem o seu payoff sempre que for a sua vez de jogar. Na prática, o jogo é resolvido do
fim para o começo. No exemplo anterior, o único EN que satisfaz o princı́pio da racionalidade sequêncial é
(entrar,acomodar se E entrou).

Existência de Equilı́brio. Todo jogo na forma extensiva finito de informação perfeita Γ tem um EN em
estratégias puras, que pode ser encontrado usando indução reversa. Se os payoffs de cada jogador são diferentes
nos nós terminais, para todos jogadores, então existe um único EN que pode ser encontrado usando indução
reversa.

Logo, todo jogo finito de informação perfeita tem (pelo menos) um EN em estratégias puras.

2.2.37 Exemplo: Monopolista e Firma Entrante (continuação)


No jogo Monopolista/Entrante, existem dois EN em estratégias puras, mas apenas um EN obtido usando o
algoritmo de indução reversa.

O algoritmo elimina exatamente o EN baseado em uma ameaça não-crı́vel, o monopolista abrir uma guerra
de preços caso o entrante de fato entre.

Esta ameaça não é crı́vel pois uma vez que o entrante entrou no mercado, se o monopolista fizer uma guerra
de preços, ele próprio se prejudicará sem nenhum ganho.

2.2.38 Subjogos
O algoritmo de indução reversa acima só se aplica para jogos de informação perfeita.

Porém a idéia de racionalidade sequêncial pode ser usada também para jogos de informação incompleta por
meio de um algoritmo similar de indução reversa.

A idéia central é definir subjogos do jogo principal (Selten, 1965, 1975). Cada subjogo pode ser visto como
um jogo por si só. Racionalidade sequêncial exige que um EN seja EN para cada subjogo.

2.2.39 Exemplo
1t
@
@
E @D
@
t 2 @t
@
A A
 A  A
l  A r l  A r
 A  A
t

 

 At 
A t

 

At 
A
1 0 0 3
3 0 0 1

62
2.2.40 nó z que pertence ao conjunto de informação de y
Definição: ENPS em Estratégias Puras. O conjunto de estratégias s = (s1 , s2 , . . . , sI ) do jogo Γ é um
equilı́brio de Nash perfeito em subjogos (ENPS) se s = (s1 , s2 , . . . , sI ) induz um equilı́brio de Nash em todo
subjogo de Γ.

ENPS é um refinamento de EN: todo ENPS é um EN, já que o próprio jogo é um subjogo seu. O contrário
não é válido: existem EN que não são perfeitos em subjogos.

Para todo jogo na forma extensiva finito de informação perfeita, o conjunto de estratégias de indução reversa
é igual ao conjunto de ENPS em estratégias puras.

2.2.41 Existência de ENPS


Teorema: Existência de ENPS (Selten). Todo jogo na forma extensiva finito com memória perfeita
possui um ENPS.

A hipótese de memória perfeita é necessária. Existem exemplos de jogos que não são de memória perfeita,
que não possuem ENPS.

2.2.42 Algoritmo Geral de Indução Reversa:


O seguinte algoritmo geral de indução reversa para jogos na forma extensiva, sejam de informação completa
ou não, é válido para encontrar os ENPS:

1. Comece pelo término da árvore, ache os EN para todos os subjogos finais (subjogos que não possuem
nenhum subjogo estrito);

2. Substitua cada subjogo pelo payoff de um de seus EN;

3. Repita os passos 1) e 2) para o jogo reduzido, continue até não restar nenhum subjogo;

4. Repita 1), 2) e 3) para todos os EN encontrados (no caso de algum subjogo ter mais de um EN).

Para jogos de informação perfeita, esse algoritmo é igual ao algoritmo anterior.

2.2.43 Cooperação
Em um jogo do tipo dilema dos prisioneiros, seria possı́vel obter cooperação se repetı́ssemos o jogo diversas
vezes? Com a repetição, o número de estratégias de cada jogador aumenta. Nesse caso, é possı́vel criar
estratégias onde o jogador pune o outro caso ele não coopere.

Exemplo: Dilema dos Prisioneiros.

1↓ / 2 → Confessar Não Confessar


Confessar −3, −3 −1, −5
Não Confessar −5, −1 −2, −2

Se o dilema dos prisioneiros é repetido um número fixo (finito) de vezes, o único equilı́brio de Nash perfeito em
subjogos será formado pelo EN do jogo em cada perı́odo sendo jogado. Logo, não é possı́vel obter o resultado
eficiente com a repetição finita do jogo.

Porém, se o jogo é repetido infinitamente (ou se ele não tem uma data fixa para terminar), pode-se mostrar
que o resultado eficiente em cada rodada do jogo pode ser obtido como equilı́brio, dependendo do quanto os
jogadores descontem o futuro.

63
As estratégias que levam a esse tipo de equilı́brio são chamadas estratégias gatilho (trigger ou tit-for-tat ou
grim strategies, Nash-reversion strategies). Um exemplo é a estratégia “olho-por-olho”, onde a estratégia de
hoje do jogador é igual à estratégia usada pelo seu adversário ontem.

Exemplo: Dilema do Prisioneiro:

1↓ / 2 → Confessar Não Confessar


Confessar −3, −3 −1, −5
Não Confessar −5, −1 −2, −2

O jogador 1 adota a seguinte estratégia: na primeira interação ele joga N C (cooperar). Nos perı́odos seguintes,
se o outro jogador escolheu N C (cooperar) no perı́odo anterior, ele coopera hoje. Caso contrário, o jogador
1 escolhe C (não cooperar). Suponha que a taxa de desconto intertemporal é 0 < δ < 1.

Temos que o jogador 2 cooperará se:


∞ ∞
X X −2 −3δ
−2δ t ≥ −1 + −3δ t ⇒ ≥ −1 +
1−δ 1−δ
t=0 t=1

Logo, se
1
δ≥ = 50%,
2

então o resultado cooperativo ((N C, N C) todo perı́odo) é obtido como equilı́brio (é um equilı́brio de Nash
perfeito em subjogos).

Portanto, dependendo da taxa de desconto intertemporal e dos payoffs obtidos desviando do equilı́brio coop-
erativo e seguindo o equilı́brio cooperativo, podem existir equilı́brios em que os jogadores adotem estratégias
que envolvem cooperação. Esse resultado é conhecido como “Folk Theorem.”

Usualmente, a taxa de desconto intertemporal δ é determinada pela taxa de juros r, do seguinte modo:
1
δ=
1+r
Logo, se encontrarmos a taxa de desconto intertemporal, podemos também encontrar a taxa de juros associada.
No exemplo acima, obtemos que:
r≥1

64
2.3 Competição Imperfeita
2.3.1 III. Mercados
2. Monopólio: Equilı́brio da empresa monopolista. Discriminação de preços; barreiras à entrada. Com-
paração com o mercado de concorrência perfeita.
3. Concorrência Monopolı́stica: Diferenciação do produto. Equilı́brio da empresa em concorrência
monopolı́stica: curto e longo prazo. Comparação com o mercado de concorrência perfeita.
4. Oligopólio: Caracterização da estrutura oligopolı́stica.
4.1 Modelos Clássicos - Cournot, Bertrand e Edgeworth; fatias de mercado; cartéis; liderança de preços;
comparação com o mercado de concorrência perfeita.
4.2 Modelos de mark-up - Princı́pio do custo total; curva de demanda quebrada; concentração e barreiras à
entrada; diferenciação e diversificação do produto.
5. Formação de Preços e Fatores de Produção.

2.3.2 Monopólio
Um monopólio caracteriza-se por uma estrutura de mercado onde existe apenas um produtor e vendedor do
bem ou serviço, que não tem substitutos próximos.

Monopólio e competição perfeita constituem dois tipos extremos de mercado que possuem uma caracterı́stica
importante em comum: a ausência de interações estratégicas no comportamento dos agentes em cada um
desses modelos.

Deve haver alguma razão que justifique a não existência (ou entrada) de potenciais competidores. Caso
contrário, o monopólio não se sustentaria. Logo, deve existir algum impedimento à entrada de novas firmas
na indústria. Esses impedimentos são chamados de barreiras à entrada.

2.3.3 Maximização do Lucro do Monopolista


O monopolista deseja escolher o nı́vel de produção que maximiza o lucro π = Receita−Despesa = p(q)q −c(q):

max p(q)q − c(q)


q≥0

A CPO desse problema resulta em:


p(q ∗ ) + q ∗ p0 (q ∗ ) = c0 (q ∗ )
| {z } | {z }
RM g CM g

A CSO é dada por:


2p0 (q ∗ ) + p00 (q ∗ )q ∗ − c00 (q ∗ ) ≤ 0

2.3.4 Intuição da Receita Marginal


A RM g do monopolista é:
RM g = p(q ∗ ) + q ∗ p0 (q ∗ ) < p(q ∗ ),
pois p0 (q ∗ ) é negativo.

Para cada unidade a mais vendida, o monopolista recebe o preço do bem. Mas para vender mais uma unidade,
o monopolista deve baixar o preço de todas as unidades vendidas (termo q ∗ × p0 (q ∗ )). Essa é a origem da
ineficiência do monopólio.

65
2.3.5 CPO em termos de Elasticidade da Demanda
Podemos reescrever a CPO do monopolista como:
 
∗ 1
p(q ) 1 − = c0 (q ∗ ),
|(q ∗ )|
onde |(q ∗ )| = −(dp(q ∗ )/dq)(p/q) é a elasticidade-demanda do bem.

Como o preço e custo marginal são não-negativos, o monopolista escolhe sempre produzir uma quantidade do
bem na parte elástica da demanda de mercado.

2.3.6 Decisão de Produção do Monopolista


custo,
preço 6
c0 (q)
Q
SQ
S Q
S QQ
Q r
p(q ∗ )
S
S Q
Q
S Q
S Q
Q
S Q
0 ∗
c (q ) Sr Q
Q
S Q
S Q
Q
p(q)
S Q
S
-
q∗
SS
q

2.3.7 Exemplo: Demanda Linear e RCE


Suponha que a demanda do bem seja dada por p = a − bq e a função custo do monopolista seja c(q) = cq,
onde c é uma constante, com a > c.

O problema do monopolista nesse caso é:

max (a − bq)q − cq
q≥0

A CPO resulta na seguinte solução:


a−c a+c
q∗ = e p=
2b 2

2.3.8 Markup
Rearranjando a expressão acima, obtemos:
c0 (q ∗ )
p(q ∗ ) = h i = M c0 (q ∗ ),
1
1 − |(q∗ )|

onde M é o “markup” cobrado sobre o custo marginal de produção,


1
M=h i >1
1
1− |(q ∗ )|

Como o monopolista produz apenas na parte elástica da demanda, o markup é maior que 1. Se a elasticidade
da demanda é constante, o valor do markup é constante, qualquer que seja o nı́vel de produção. Se c0 (q) = c,
para todo q, então p = M c > c.

66
2.3.9 Índice de Lerner
Rearranjando mais uma vez a expressão do lucro de um monopolista em termos da elasticidade da demanda,
obtemos:
p(q ∗ ) − c0 (q ∗ ) 1
=
p(q ∗ ) |(q ∗ )|

A diferença, em termos percentuais, entre o preço cobrado e o custo marginal, chamado de “ı́ndice de Lerner”, é
o inverso do valor absoluto da elasticidade da demanda calculada no ponto ótimo de produção do monopolista.
Logo, quanto menos elástica a demanda nesse ponto, maior essa diferença percentual.

2.3.10 Lucro do Monopolista


O lucro do monopolista é obtido substituindo a demanda ótima encontrada resolvendo o problema de maxi-
mização de lucro do monopólio.

Para o exemplo acima, com demanda linear e RCE, vimos que q ∗ = a−c
2b . Logo, o lucro do monopólio é:

(a − c)2
    
a+c a−c a−c
π= −c = ,
2 2b 2b 4b

maior que zero (supondo a > c, a, b e c positivos).

custos e
receitas 6
CM g(q)
Q
SQ CM e(q)
S Q
S QQ
S Q
preço do S Q
monopólio Lucro
S
Q
Q
S s Q
Q
S Q
S Q
Q
S Q
S Q
Q
S Q
Q
S p(q)
RM g(q)
S
s -
0 q∗ q

2.3.11 Peso Morto


Em uma situação de ineficiência econômica, dizemos que existe um peso morto (“deadweight loss” - DWL) -
um valor econômico que é dissipado na economia.

Por exemplo, em um monopólio, vimos que o preço cobrado é maior do que o custo marginal. Isso leva a uma
situação de produção sub-ótima no mercado: a firma produz menos do que o socialmente ótimo.

Fazendo isso, o monopolista cobra um preço maior e aufere um lucro econômico positivo. Porém, ocorre uma
perda econômica que é dissipada na economia.

67
2.3.12 Peso Morto
custo,
preço 6
Q
SQ
S Q
S QQ
Q r
c0 (q)
p(q )∗ S 

S Q 
Q 
S Q
DWQ L

S
S  QQ
c0 (q ∗ ) r
 Q
S Q
S Q
 Q
 S Q
 S Q
S p(q)
-
q∗
S
0 S q
2.3.13 Mensuração do Peso Morto
O peso morto gerado por um monopólio é calculado como a área do excedente total (a soma do excedente do
consumidor com o excedente do produtor) dissipado na economia, ou seja, a área do triângulo representado
na figura acima.

Em geral, essa área é: Z qcp


DW L = (p(q) − c0 (q))dq,
qm
onde qm é a quantidade produzida em monopólio e qcp é a quantidade produzida em competição perfeita.

Em muitos casos, basta calcular a área de um triângulo, ou seja, basta calcular a altura e a base do triângulo
representado na figura acima.

2.3.14 Monopólio Natural


Uma indústria é um monopólio natural se a produção de determinado bem ou serviço por uma única firma
minimiza o custo social.

Em um monopólio natural, a curva de custo médio de longo prazo é decrescente para todos os nı́veis relevantes
de produção. Ou seja, a tecnologia da firma apresenta retornos crescentes de escala.

Esta é uma importante falha de mercado observada em setores importantes, tais como serviços de utilidades
públicas.

Observe que a curva de custo médio deve ser julgada na região relevante dada a demanda pelo produto.
custo,
preço 6
Dilema: apenas uma firma no mercado
minimiza o custo, mas nesse caso a firma
pode cobrar preço de monopólio

CM e
CM g
-
q

68
2.3.15 Inovação Tecnológica
Inovação tecnológica pode alterar o formato da curva de custo médio, deslocando-a para a esquerda e fazendo
com que atinja seu ponto de mı́nimo a quantidades menores.

Logo, à escala ótima de produção (ou escala mı́nima de eficiência), o ponto de mı́nimo da curva de
custo médio total diminui e passa a ser mais fácil haver competição neste setor.

Nos últimos anos, mudanças tecnológicas têm tido esse efeito em diversos setores, como telecomunicações e
geração de energia elétrica.

2.3.16 Discriminação de Preços


Até agora, estamos supondo que o monopolista vende o bem pelo mesmo preço, qualquer que seja o comprador
e a quantidade comprada por ele.

Porém, em muitas situações, o preço cobrado pelo monopolista depende de quem compra e da quantidade
vendida. Nesse caso, dizemos que o monopolista está discriminando preços.

Exemplos: Desconto por quantidade comprada e cobrança diferenciada, dependendo do perfil do consumidor.

2.3.17 Tipos de Discriminação de Preços


1. Discriminação de primeiro grau ou discriminação perfeita: consegue vender diferentes quantidades
do produto a diferentes preços e cujos preços podem diferir de comprador a comprador.

2. Discriminação de segundo grau: monopolista vende diferentes quantidades do produto a diferentes


preços e os preços não variam com o comprador (preços não-lineares, descontos de quantidade).

3. Discriminação de terceiro grau: monopolista vende a preços diferentes para diferentes tipos de
pessoas, mas cada unidade do bem tem o mesmo preço para o comprador (descontos de cinemas, etc).

Discriminação perfeita é rara quando não impossı́vel: difı́cil e proibições legais.

Na discriminação do segundo grau, os preços diferem dependendo da quantidade comprada, mas não do perfil
do comprador. Nesse caso, a ineficiência do monopólio diminui, mas não desaparece.

Na discriminação de preços do terceiro grau, os preços diferem pelas caracterı́sticas do consumidor, mas não
pela quantidade consumida. Nesse caso, a ineficiência do monopólio também diminui, mas não desaparece
por completo.

2.3.18 Ineficiência
Portanto, se discriminação perfeita fosse possı́vel, a ineficiência do monopólio desapareceria.

Discriminação de segundo e terceiro graus diminuem essa ineficiência. Nesses casos, ocorre uma redistribuição
de riqueza que pode não ser aceitável para a sociedade.

Todo o excedente do consumidor vai para o monopolista, no caso de discriminação perfeita, e parte do
excedente do consumidor vai para o monopolista, no caso de discriminação de preços de segundo e terceiro
graus.

69
2.3.19 Exemplo - Discriminação de Terceiro Grau
Suponha que existam dois tipos de consumidores, cada tipo tem uma curva de demanda própria, p1 (q1 ) e
p2 (q2 ) (suponha que os consumidores não consigam revender o bem). O custo de produção da firma é dado
por c(q1 + q2 ).

O problema da firma é:


max p1 (q1 )q1 + p2 (q2 )q2 − c(q1 + q2 )
q1 ,q2
As CPOs do problema resultam em:
RM g(q1 ) = CM g(q1 + q2 ) = RM g(q2 ),
ou seja, a receita marginal obtida no mercado de cada grupo deve ser igual ao custo marginal de produção
total.

Logo, temos que:


 
1
p1 (q1 ) 1 − = CM g(q1 + q2 ), e
|1 (q1 )|
 
1
p2 (q2 ) 1 − = CM g(q1 + q2 )
|2 (q2 )|
Se p1 > p2 , obtemos:
1 1
1− <1− ⇒ |1 (q1 )| < |2 (q2 )|
|1 (q1 )| |2 (q2 )|
Portanto, o mercado que apresenta maior preço é o mercado com menor elasticidade da demanda (em valor
absoluto).

2.3.20 Oligopólio
O oligopólio é uma estrutura industrial onde poucos produtores oferecem produtos homogêneos a muitos
compradores. É um tipo de estrutura industrial entre competição perfeita e monopólio.

Em um oligopólio, cada firma deve conhecer a demanda do mercado e fazer conjeturas sobre as ações das
outras firmas do mercado. Além disto, elas devem saber como suas ações afetam as ações das outras firmas.

Portanto, dizemos que esse é um problema de interdependência estratégica, logo uma ferramenta importante
que auxilia a análise deste tipo de problema é a teoria dos jogos.

2.3.21 Colusão
Uma definição de equilı́brio possı́vel que leva em conta interações estratégicas entre agentes econômicos é o
equilı́brio de colusão (ou de cartel).

Nesse equilı́brio, as firmas comportam-se como um único ente, maximizando o lucro agregado, pela escolha
do nı́vel agregado de produção. Essa é uma situação tı́pica de cartel (ou conluio).

O resultado principal de cartéis é a sua tendência à instabilidade: cada firma tem um incentivo para burlar a
regra de produção definida pelo cartel.

2.3.22 Colusão no Tempo


Se repetirmos a interação entre as firmas em conluio por vários perı́odos, podemos ter dois resultados:
1. Se a interação é finita e tem data certa para acabar, não é possı́vel termos um cartel estável.
2. Se a interação se repete indefinidamente (infinitamente ou se não tem data certa para acabar), o
equilı́brio de cartel pode ser estável. Normalmente, ele é estável quando as firmas participantes concor-
dam em uma punição para quem trair o acordo de cartel.

70
2.3.23 Principais Modelos de Oligopólio
Vamos usar o conceito de equilı́brio de Nash para analisar quatro modelos básicos de oligopólio, o de Cournot
(1838), o de Bertrand (1883) (jogos simultâneos), o de Stackelberg (1934) e o de liderança no preço (jogos
sequênciais).

Vamos analisar primeiro os modelos de Cournot e Bertrand. Esses dois modelos tratam do mesmo problema
e levam a conclusões bastante distintas. Os dois modelos são estáticos, sem nenhuma interação dinâmica.

No modelo de Cournot, as firmas escolhem a quantidade ótima a ser produzida. No modelo de Bertrand, as
firmas escolhem o preço ótimo a ser cobrado.

2.3.24 Oligopólio de Cournot - Caso Geral


Suponha uma indústria com entrada bloqueada onde J firmas produzem um bem homogêneo, todas com
estrutura de custos dada por c(qj ). A demanda inversa do mercado é representada por p = p(Q), onde
Q = q1 + · · · + qJ é a produção total.

Encontramos q̄j resolvendo o problema da firma j, tomando como dados as quantidades de produção ótimas
das outras firmas:
max p(Q)qj − cj (qj )
qj

A CPO desse problema é:


p(Q) + p0 (Q)qj = c0j (qj )

Rearrajando a CPO, obtemos:  


sj
p(Q) 1 − = c0j (qj ),
|εp (Q)|
onde sj = qj/Q é a fração da produção total produzida pela firma j.

2.3.25 Oligopólio de Cournot - Modelo Linear


Suponha uma indústria com entrada bloqueada onde J firmas produzem um bem homogêneo, todas com
estrutura de custos idêntica, dada por:

C(qj ) = cqj , c ≥ 0, j = 1, . . . , J.

Suponha também que a demanda inversa do mercado é dada por:


J
X
p=a−b qj ,
j=1

onde a > 0, b > 0 e a > c.

O lucro da firma j quando produz q j e as outras firmas produzem qi , i 6= j, é:


J
!
X
πj (q1 , . . . , qJ ) = a − b qi qj − cqj
i=1

Queremos encontrar uma alocação q̄ = (q̄1 , . . . , q̄J ) tal que q̄j seja a solução do problema acima, dado que as
outras firma estão escolhendo q̄1 , . . . q̄j−1 , q̄j+1 , . . . q̄J . Chamamos essa alocação de um equilı́brio de Cournot-
Nash do problema de oligopólio caracterizado acima.

71
Encontramos q̄j resolvendo o problema da firma j, tomando como dados as quantidades de produção ótimas
das outras firmas:  
J
!
X X
max a − b q̄i qj − cqj = max a − bqj − b q̄i  qj − cqj
qj qj
i=1 i6=j

A CPO desse problema resulta em:


a 1X c a−c 1X
q̄j = − q̄i − = − q̄i (5)
2b 2 2b 2b 2
i6=j i6=j

A equação (5) é a curva de reação da firma j: ela diz qual o melhor nı́vel de produção a ser escolhido pela
firma j, dado que as outras firmas estão produzindo q̄i , i 6= j.

Dada a simetria do problema (a condição (5) acima vale para toda firma j), vamos procurar por um equilı́brio
simétrico, q̄1 = · · · = q̄J . Nesse caso, a condição (5) resulta em:
a−c
q̄ =
b(J + 1)
Portanto, temos que:
a−c (a − c)2
q̄j = , ∀j, e π̄j =
b(J + 1) b(J + 1)2
 
a−c a−c
q̄ s = J e p̄ = a − J
b(J + 1) J +1

2.3.26 Oligopólio de Cournot - Modelo Linear, Duas Firmas


Se existem apenas 2 firmas, temos que:
a−c (a − c)2
q̄j = , e π̄j =
3b 9b
a−c a + 2c
q̄ s = 2 e p̄ =
3b 3

Comparando com a situação de monopólio, vemos que a produção total em um oligopólio de duas firmas com
competição na quantidade é maior do que a produção de monopólio.

2.3.27 Propriedades do Modelo


O desvio do preço p̄ de equilı́brio de oligopólio do preço de equilı́brio em competição perfeita é:
a−c
p̄ − c = >0
J +1
A equação acima mostra que o preço cobrado é maior do que o preço de mercado em competição perfeita
e tende ao preço de competição perfeita quando o número de firmas aumenta. Portanto, o resultado de
competição pode ser visto como o limite do caso de um modelo competição a Cournot, quando o número de
firmas tende a infinito.

2.3.28 Ineficiência do Oligopólio de Cournot


A diferença ET (q ∗ ) − ET (q c ) é o peso morto do modelo de Cournot, onde q ∗ é a quantidade total produzida
em um mercado competitivo e q c é a quantidade total produzida no oligopólio de Cournot.

Um mercado oligopolista, onde as firmas competem via quantidades, é Pareto-ineficiente, pois apresenta uma
dissipação de valor econômico.

Essa dissipação diminui quando o número de firmas aumenta e, se o número de firmas tender ao infinito, o
peso morto desaparece.

72
2.3.29 Resumo do Modelo de Cournot
No modelo de Cournot, as firmas competem na quantidade produzida. Ou seja, cada firma escolhe a quantidade
que vai produzir no mercado, sabendo que a outra firma vai fazer o mesmo.

O resultado desse modelo é intermediário entre os resultados de competição perfeita e monopólio: a produção
total do mercado será maior do que no caso de um monopolista, mas menor do que seria a produção total em
um mercado competitivo.

O modelo de Cournot leva a um resultado intermediário, e quanto mais firmas no mercado, mais o equilı́brio
se aproxima do equilı́brio competitivo. Esse modelo traz um resultado razoável.

2.3.30 Resumo do Modelo de Bertrand


No modelo de Bertrand as firmas competem no preço. Ou seja, cada firma escolhe o preço que vai anunciar
no mercado, sabendo que a outra firma vai fazer o mesmo.

O modelo de Bertrand é um modelo que leva a um resultado extremo, mesmo que existam apenas duas firmas
no mercado: elas se comportam como firmas competitivas, sem tentar manipular o mercado e cobrando preço
igual ao custo marginal.

Nesse caso não há ineficiência e nenhuma firma terá poder de mercado, mesmo que existam apenas duas
firmas no mercado. Por isso, esse modelo é visto com cautela, já que não traz um resultado razoável.

2.3.31 Modelo de Stackelberg (Liderança na Quantidade)


No modelo de duopólio de Stackelberg (ou liderança na quantidade), uma das firmas, chamada lı́der, escolhe
a quantidade que vai produzir primeiro. A outra firma, chamada seguidora, observa a escolha da firma lı́der
e então escolhe a sua quantidade de produção.

Este modelo é útil em situações onde existe uma firma grande, que possui maior parcela do mercado, e outras
firmas menores, que gravitam em torno da firma maior, e que tomam decisões após a firma lı́der ditar o rumo
da indústria.

Pode-se mostrar analiticamente que é melhor ser lı́der do que seguidora e que a firma lı́der obtém um lucro
maior do que se estivesse em uma situação de Cournot, onde todas as firmas são iguais no sentido de tomarem
suas decisões simultaneamente.

A firma lı́der incorpora no seu problema de maximização a curva de reação da firma seguidora. Vamos supor
que a firma 1 seja a firma lı́der e a firma 2, a seguidora.

Logo, no modelo de Stackelberg, a lı́der escolhe o nı́vel ótimo de produção incorporando a curva de reação da
seguidora em sua decisão de produção.

No modelo de Cournot, a mesma firma escolhe o nı́vel ótimo de produção, dado um ponto qualquer da curva
de reação da outra firma.

Portanto, o lucro da lı́der será maior ou igual ao lucro que essa firma obteria em uma situação de competição
a Cournot.

73
2.3.32 Modelo de Stackelberg - Caso Linear
Suponha que existam apenas duas firmas no mercado, onde a demanda agregada inversa é p = a − bq e o custo
de produção de cada firma é ci (qi ) = cqi , i = 1, 2. O nı́vel ótimo de produção da firma seguidora é encontrado
resolvendo-se o problema:
max (a − b(q̄1 + q2 ))q2 − cq2
q2 ≥0

A CPO do problema acima resulta na curva de reação da firma seguidora:


a − c q̄1
q2 = −
2b 2
Vamos resolver o problema da firma lı́der (firma 1), que incorpora a curva de reação da firma seguidora na
sua decisão da quantidade ótima a produzir:
  
a − c q1
max a − b q1 + − q1 − cq1
q1 ≥0 2b 2

A CPO do problema da firma lı́der resulta na quantidade ótima de produção ql∗ = a−c
2b .

a−c
Substituindo esse valor na curva de reação da firma seguidora, encontramos a sua quantidade ótima, qs = 4b .

Usamos as quantidades ótimas para calcular o preço de equilı́brio , via demanda de mercado:
 
∗ a−c a−c a + 3c
p = a − b(ql + qs ) = a − b + =
2b 4b 4

Finalmente, o lucro da firma lı́der e o lucro da firma seguidora são

(a − c)2
πl (ql∗ ) = p∗ ql∗ − cql∗ =
8b
(a − c)2
πs (qs∗ ) = p∗ qs∗ − cqs∗ =
16b

2.3.33 Modelo de Liderança no Preço


Modelo similar ao de Stalckelberg, onde a estratégia da firma é o preço. A firma lı́der escolhe o preço, a
seguidora toma o preço escolhido da firma lı́der como dado.

Nesse caso, a seguidora se comporta como uma firma competitiva. Resolvendo o seu problema de maximização
de lucro, encontramos a sua curva de oferta, denotada por q S (p).

A lı́der se defronta então com uma curva de demanda residual, ou seja, ela se comporta como um monopolista
onde a demanda com a qual ela se defronta é a demanda total de mercado menos a oferta da empresa seguidora.

2.3.34 Competição Monopolı́stica


Modelos de competição imperfeita relaxam a hipótese de produtos homogêneos. Nesse tipo de modelo, um
grupo de firmas compete produzindo bens similares mas não idênticos.

Cada firma produz um bem substituto próximo mas não idêntico aos bens produzidos pelas outras firmas.
Isso garante um certo grau de monopólio para cada firma, onde o grau de monopólio é maior quanto menos
semelhantes os bens de diferentes firmas são.

Vamos analisar de modo geral o equilı́brio de curto prazo, onde o número de firmas é fixo na indústria e o
equilı́brio de longo prazo, onde há livre entrada e saı́da de firmas do mercado.

74
2.3.35 Caracterı́sticas Principais
Modelos de competição imperfeita então assumem que:
• Existem muitas firmas,
• Produção de bens diferenciados mas substitutos próximos,
• Existe livre entrada e saı́da do mercado.
O poder de mercado que a firma obtém depende de sua capacidade de diferenciar o seu produtos dos outros
que compõem o mercado. Exemplos: mercado de refrigerantes, mercado de pasta de dentes, mercado de sabão
em pó.

2.3.36 Hipóteses do Modelo


Suponha um número potencial de infinitas firmas. A demanda da firma j depende de seu preço e dos preços
das outras firmas:
∂qj ∂qj
qj = qj (p), onde <0 e > 0, para k 6= j,
∂pj ∂pk
onde p = (p1 , p2 , . . . ).
O lucro da firma j é:
πj (p) = qj (p)pj − cj (qj (p)),
onde cj é a função custo da firma j.

2.3.37 Condições de Equilı́brio


A condição de equilı́brio no curto prazo para p̄ é derivada da CPO do problema de maximização de lucro da
firma j:
∂qj (p̄)
[RM gj (qj (p̄)) − CM gj (qj (p̄))] = 0
∂pj
No longo prazo, além da condição acima, o lucro de cada firma j deve ser zero, logo a condição a seguir,
πj (p̄) = 0, para todo j,
se soma à condição anterior para caracterizar o equilı́brio de longo prazo.
Logo, no curto prazo a firma pode obter lucros econômicos positivos.
No longo prazo, ocorre o ajuste de entrada de novas firmas. Isso faz com que a demanda da firma caia e o
seu lucro se torne zero.
Nesse caso, p = Cme, porém p > Cmg, pode persistir ainda algum poder de mercado da firma, o que gera
uma ineficiência de mercado, mesmo no longo prazo, com a firma obtendo lucro econômico nulo.

$ $
6 CM g 6 CM g
Q
S CM e CM e
Q
S Q
pcp S QQ P
QP
S Q
Q plp QPPP
S Q PP
Q Q PP
S Q Q PP
S Q Q P p(q)
QQ Q
SS
RM g p(q) Q RM g
Q
0 q 0 q
- -
qcp qlp
Curto Prazo Longo Prazo

75
3 Parte III
3.1 Equilı́brio Geral e Bem-estar
3.1.1 IV. Equilı́brio Geral e Teoria do Bem-estar
1. Troca Pura;

2. Troca Com produção;

3. Caixa de Edgeworth;

3.1.2 Idéia
Na teoria de equilı́brio parcial, estudamos o funcionamento do mercado de um bem isoladamente.

Agora vamos estudar o funcionamento de uma economia como um todo. De modo geral, a demanda e a oferta
de um bem dependem não somente do preço deste bem, mas também do preço de outros bens da economia.

Essa relação de dependência entre os mercados torna o estudo de uma economia mais complicado. Esse estudo
é chamado equilı́brio geral.

3.1.3 Questões Fundamentais


• Definição. O que é um equilı́brio.

• Existência. Sob que condições podemos garantir que um equilı́brio existe.

• Unicidade. Sob que condições o equilı́brio será único.

• Estabilidade. Desvios do equilı́brio tendem ao equilı́brio.

3.1.4 Hipóteses
A hipótese fundamental no estudo de equilı́brio geral é de mercados competitivos. Ou seja, os agentes da
economia (consumidores e firmas) são tomadores de preços.

Outras hipóteses importantes são:

1. ausência de custos de transação,

2. ausência de externalidades,

3. ausência de bens públicos,

4. ausência de problemas de informação.

3.1.5 Economia de Trocas


Cada indivı́duo da economia recebe uma dotação inicial de bens. Vamos representar os dois consumidores por
A e B, para facilitar a notação e os dois bens por 1 e 2. Esse caso pode ser analisado graficamente por meio
da caixa de Edgeworth.

A dotação total de uma economia, eT , é a soma das dotações iniciais dos indivı́duos da economia. No caso
de dois consumidores e dois bens, temos que eT = eA + eB , onde ei = (ei1 , ei2 ), i = A, B.

A caixa de Edgeworth é uma representação gráfica dessa economia, onde cada ponto da caixa possui quatro
coordenadas, duas referentes ao indivı́duo A e duas referentes ao indivı́duo B.

76
3.1.6 Caixa de Edgeworth
eB
1  0B
r
Bem 2
?

eA r r r eB
2 2
e = (eA , eB )
6
r
0A - eA Bem 1
1

3.1.7 Preferências na Caixa de Edgeworth


Para completarmos a caracterização dessa economia, temos que especificar as preferências individuais. Rep-
resentamos estas preferências por meio de funções de utilidade.

Supondo que todas as preferências sejam bem comportadas, obtemos um mapa de curvas de indiferença que
preenche a caixa de Edgeworth, para cada indivı́duo.

Um ponto na caixa de Edgeworth no qual as curvas de indiferenças dos dois consumidores se tangenciam é
um elemento da curva de contrato, o conjunto de todas as alocações com essa caracterı́stica de tangência.

3.1.8 Preferências na Caixa de Edgeworth


eB
1  0B
r

rc

eA r r r eB
2 2
e = (eA , eB )
6
r
0A - eA
1

3.1.9 Alocação Factı́vel


Vamos denotar por e = (eA , eB ) a distribuição de dotações na economia e por x = (xA , xB ) uma alocação
dessa economia. Portanto, uma alocação para a economia atribui uma cesta de bens para cada consumidor.

Dizemos que a alocação x = (xA , xB ) é factı́vel se ela exaure a dotação total da economia, ou seja, se:

xA B A B
1 + x1 = e1 + e1
xA B A B
2 + x2 = e2 + e2

77
3.1.10 Alocações Pareto-Eficientes
Dizemos que uma alocação factı́vel é Pareto-eficiente se não for possı́vel melhorar (estritamente) pelo menos
um indivı́duo sem piorar ninguém.

Dado que as trocas na economia são feitas de forma voluntária, se a economia se encontra em uma alocação
Pareto-eficiente, não será possı́vel mudar essa alocação. Portanto, as alocações Pareto-eficientes são candidatas
naturais ao equilı́brio da economia.

A curva de contrato então é o conjunto de todas alocações Pareto eficientes da economia. Essa curva também
é chamada conjunto de Pareto.

3.1.11 Curva de Contrato na Caixa de Edgeworth


 0B

?
Curva de
Contrato
r
r

r
e = (eA , eB )
6

0A -

3.1.12 Alocações Eficientes


Para o caso de dois consumidores, A e B, uma alocação eficiente de Pareto pode ser vista como uma alocação
onde um dos agentes está tão bem quanto possı́vel, dada a utilidade do outro agente.

Logo, o seguinte problema de maximização caracteriza as alocações eficientes:

max uA (xA A
1 , x2 ) s.a. i) uB (xB B
1 , x2 ) = ū,
xA A B B
1 ,x2 ,x1 ,x2

ii) xA B A B
1 + x1 = e 1 + e 1 ,
iii) xA B A B
2 + x2 = e 2 + e 2

Resolvendo esse problema, obtemos:


∂uA ∂uB
T M S A =
∂xA
1
µ1 T M S B =
∂xB
1
µ1
∂uA
= e ∂uB
=
µ2 µ2
∂xA
2 ∂xB
2

Ou seja, em uma alocação Pareto eficiente, as taxas marginais de substituição entre dois bens devem ser iguais
entre os consumidores (se não fosse o caso, existiria alguma troca que melhoraria um dos consumidores sem
piorar o outro - observe a figura acima).

78
3.1.13 Fronteira de Possibilidade de Utilidade
O conjunto de possibilidade de utilidade ilustra combinações de utilidades possı́veis de serem obtidas, dados
os recursos da economia.

No problema acima, se variarmos ū de uB (0, 0) a uB (eT1 , eT2 ), encontramos a fronteira de possibilidade de


utilidade (FPU), que descreve as combinações de utilidades máximas possı́veis dos participantes da economia.

Na fronteira são representadas combinações de utilidades geradas por alocações Pareto eficientes. Mais ainda,
toda alocação Pareto eficiente possui uma representação da utilidade gerada na fronteira de possibilidade de
utilidade.

uB
6
Fronteira de
 Possibilidade
de Utilidade

- A
u

3.1.14 Observações sobre o Critério de Pareto


• Uma outra maneira de interpretar: alocações de recursos que têm a propriedade que ninguém pode
melhorar sem piorar alguma outra pessoa são alocações Pareto ótimas.

• Eficiência de Pareto é o que economistas querem dizer quando chamam algo de eficiente.

• Em geral há um conjunto grande de pontos Pareto ótimos em uma economia. Dizer que a economia
deve estar em um ponto Pareto ótimo é um juı́zo de valor, mas o mais fraco juı́zo de valor que se pode
fazer a respeito da situação da economia.

• O critério de Pareto apenas diz que não deve haver perdas ou desperdı́cios na economia, ele não diz
nada sobre a distribuição de riqueza de uma sociedade.

3.1.15 Coalizões
Definição: Bloqueio. Seja S ⊂ I uma coalizão de consumidores. Dizemos que S bloqueia a alocação factı́vel
x ∈ F (e) caso exista uma alocação y tal que:
i i
P P
1. É factı́vel para a coalizão: i∈S y = i∈S e ;

2. Ninguém piora, pelo menos uma pessoa melhora na coalizão: yi i xi para todo i ∈ S, com pelo menos
um j ∈ S tal que yj j xj .

Uma alocação para a qual não existe nenhuma coalizão que a bloqueie (ou seja, tal que para todo S ⊂ I
não exista y ∈ F (e) tal que yi i xi para todo i ∈ S, com pelo menos uma preferência estrita) é chamada
alocação não-bloqueável.

79
3.1.16 Núcleo
Note que alocações ineficientes são bloqueadas pela coalizão formada de todos os indivı́duos da economia
(S = I). Logo, toda alocação não-bloqueável é Pareto-eficiente (a volta não é válida em geral).

Definição: Núcleo. O conjunto das alocações não bloqueáveis é chamado de núcleo. O núcleo de uma
economia depende da distribuição de suas dotações iniciais.

 0B

?
Núcleo

 r

r

r
e = (eA , eB )
6

0A -

3.1.17 Economia de Mercado


Vamos supor agora que as transações são efetuadas em mercados competitivos. Cada consumidor age de modo
a maximizar seu bem-estar, dados os preços de mercado que ele observa.

Vamos continuar supondo que não exista produção na economia. Logo, cada consumidor recebe uma dotação
inicial, que pode ser vendida e daı́ usada para se adquirir outra cesta de bens.

Portanto, o sistema de preços é o instrumento alocativo de uma economia de mercado. Ele determina o valor
de cada dotação inicial e, consequentemente, quais cestas de bens estão dentro da possibilidade de consumo
de cada indivı́duo.

3.1.18 Consumidores
Suponha I consumidores, I = {1, . . . , I} denota o conjunto dos I consumidores. Suponha também que as
preferências i de cada consumidor i ∈ I são representáveis por uma função de utilidade ui bem comportada
(contı́nua, estritamente crescente e estritamente quasecôncava).

O problema do consumidor i, no caso de dois bens apenas, é:

max ui (xi1 , xi2 ) s.a. p1 xi1 + p2 xi2 ≤ p1 ei1 + p2 ei2 ,


xi1 ,xi2

onde ei = (ei1 , ei2 ) é a dotação inicial do consumidor i, i = A, B.

3.1.19 Demanda
Resolvendo o problema do consumidor, encontramos a sua demanda, denotada por xi (p, pei ), onde xi (p, pei ) =
(xi1 (p, pei ), xi2 (p, pei )), i = A, B. Note que a renda do consumidor agora é endógena: ela depende dos preços
vigentes na economia.

Se as preferências são bem comportadas (em especial, estritamente convexas), a demanda xi (p, pei ) será
contı́nua para todo p  0. No caso em que o preço de algum bem seja zero, a demanda por esse bem será
infinita, logo não estará bem definida em zero.

80
3.1.20 Preços na Caixa de Edgeworth
 0B
@
@
@ ?
@
@ r xA
@
@
@ r
B
x@ @
@ r e = (eA , eB )
@
@
6 @
@
@
0A -
obs: xi : demanda bruta de i, i = A, B

3.1.21 Preços de Equilı́brio


Na figura acima, o nı́vel de preços representado não iguala a demanda à oferta, para nenhum dos dois bens.
Nesse caso, dizemos que os mercados não se exaurem.

Logo, a economia está em desequilı́brio. O equilı́brio será obtido via preços caso a demanda se iguale à oferta
para todos os bens da economia. Essa situação é chamada de equilı́brio de mercado, ou equilı́brio competitivo,
ou equilı́brio Walrasiano.

Preços que alcançam o equilı́brio são chamados de preços de equilı́brio. A alocação resultante é chamada de
alocação de equilı́brio (ou alocação de equilı́brio Walrasiano).

3.1.22 Função de Excesso de Demanda Agregada


Definição: Excesso de Demanda Agregada. A função de excesso de demanda (ou excedente de demanda)
agregada do bem k é:
I
X I
X
zk (p) = xik (p, pei ) − eik
i=1 i=1
A função de excesso de demanda agregada é:

z(p) = (z1 (p), . . . , zn (p))

Observe que zk (p) = 0 equivale a


I
X I
X
xik (p, pei ) = eik
i=1 i=1
Então, aos preços p, se zk (p) = 0, a demanda de mercado pelo bem k iguala a oferta de mercado desse bem.

Teorema: Propriedades da Função Excesso de Demanda. Se para cada consumidor i ∈ I, ui é


contı́nua, estritamente crescente e estritamente quasecôncava, então, para todo p  0, temos que:
1. (Continuidade) z(·) é contı́nua em p;
2. (Homogeneidade) z(αp) = z(p), para todo α > 0;
3. (Lei de Walras) pz(p) = 0.

A função excesso de demanda agregada é chamada também função de demanda excedente agregada.

81
3.1.23 Propriedades do Excesso de Demanda Agregada
• (Continuidade) Se um preço varia em uma quantidade pequena, o excesso de demanda agregada varia
por uma quantidade pequena. O excesso de demanda será contı́nuo se as demandas individuais forem
contı́nuas. Para que isso ocorra, as preferências devem ser convexas. Também, se cada consumidor for
tomador de preço e sua demanda for pequena em relação à demanda de mercado, então mesmo que a
demanda iindividual seja descontı́nua, a demanda agregada poderá ser contı́nua.

• (Homogeneidade) Apenas preços relativos importam, podemos normalizar os preços e usar um nu-
merário. Logo, não podemos determinar o valor dos preços absolutos de equilı́brio da economia. Se
existem n preços na economia, apenas n − 1 preços são independentes.

• (Lei de Walras) O valor do excesso de demanda agregada é sempre zero, quaisquer que sejam os preços
de mercado. Consequentemente, se existem n mercados na economia, e n − 1 mercados estão em
equilı́brio, então necessariamente o último mercado estará em equilı́brio. Portanto, para o caso de dois
bens, precisamos verificar o equilı́brio apenas para um dos mercados (uma vez que um mercado esteja
em equilı́brio, o outro automaticamente estará em equilı́brio).

3.1.24 Equilı́brio Walrasiano


Definição: Equilı́brio. O vetor p∗ é um equilı́brio Walrasiano se z(p∗ ) = 0.

Portanto, um vetor de preços é um equilı́brio se a demanda agregada se iguala à oferta agregada em todos os
mercados da economia.

Definição: Alocação de Equilı́brio Walrasiano (WEA). Seja p∗ um equilı́brio Walrasiano para a


economia E = (i , ei ) e seja
x(p∗ ) = (x1 (p∗ , p∗ e1 ), . . . , xI (p∗ , p∗ eI ))
o vetor no qual sua i-ésima coordenada é a cesta de bens demandada pelo consumidor i quando os preços são
p∗ . O vetor x(p∗ ) é chamado alocação de equilı́brio Walrasiano.

3.1.25 Equilı́brio na Caixa de Edgeworth


xB∗
1  0B
@
@
@ ?
@
@
@
@
r @ r Alocação de equilı́brio
xA∗
2 @ xB∗
2
@
@
@
r
@ e
6 @
@
r @
0A
xA∗
-
1

82
3.1.26 Equidade, Inveja e Justiça
Seja x = (xA , xB ) uma alocação qualquer. Dizemos que o indivı́duo i inveja a cesta do indivı́duo j caso ele
prefira a cesta de j à sua própria cesta. Por exemplo, dizemos que o indivı́duo A inveja a cesta de B caso
uA (xB B A A A
1 , x2 ) > u (x1 , x2 ).

Definição: Alocação Equitativa. Uma alocação equitativa é uma alocação para a qual nenhum indivı́duo
inveja a cesta de outro indivı́duo.

Definição: Alocação Justa. Uma alocação justa é uma alocação equitativa e eficiente.

Podemos mostrar que sempre existirá pelo menos uma alocação justa: a alocação de equilı́brio obtida de uma
divisão igualitária de recursos será uma alocação justa.

3.1.27 Como Encontrar o Equilı́brio


Em questões da ANPEC, para determinar o equilı́brio, pode ser útil primeiro esboçar a caixa de Edgeworth
dessa economia. Este é o caso quando a preferência de um dos consumidores for linear. A análise gráfica
auxilia a determinação do equilı́brio neste caso.

De modo geral, temos que encontrar as demandas dos indivı́duos, para determinar os preços que equilibram
o mercado. Se existem dois bens apenas, vamos encontrar apenas a relação de preços de equilı́brio. Neste
caso, a lei de Walras diz que podemos normalizar um dos preços e encontrar o preço de equilı́brio do outro
mercado usando a condição de demanda igual à oferta, istoé, somando as demandas de todos os consumidores
pelo bem escolhido (normalmente são apenas dois consumidores) e igualando a dotação total desse bem.

3.1.28 Firmas
Se introduzirmos firmas no modelo de equilı́brio geral. A produção e, portanto, a oferta agregada, são
consequências do comportamento maximizador de lucros das firmas.

Logo, a quantidade de bens disponı́veis para consumo não será mais fixa e dependerá da decisão de produção
das firmas.

O lucro das firmas é distribuı́do aos consumidores, que são os proprietários das firmas. Vamos caracterizar
firmas por meio da tecnologia de produção que possuem.

Na análise de equilı́brio geral é mais conveniente representar a tecnologia de uma firma usando o conceito de
conjunto de possibilidade de produção, em vez de representá-la usando o conceito de função de produção.

3.1.29 Caixa de Edgeworth para Produção


Suponha que existam dois produtos, X e Y , produzidos por duas firmas distintas, que usam dois fatores de
produção, capital, K e trabalho, L. Suponha que as quantidades de capital e trabalho estão fixas.

Podemos construir uma caixa de Edgeworth para produção, onde uma firma é representada no vértice sudoeste
da caixa e a outra firma é representada no vértice noroeste da caixa.

Representamos as isoquantas de ambas as firmas na caixa. Pontos de tangência destas isoquantas representam
pontos de eficiência produtiva ou eficiência técnica. Podemos então definir uma curva de contrato para a
produção.

83
3.1.30 Curva de Contrato para Produção
 02

Curva de
r Contrato
r para Produção

01 -

3.1.31 Fronteira de Possibilidade de Produção da Economia


Observe que na curva de contrato para a produção, as taxas marginais de substituição entre os insumos são
iguais para ambas as firmas.

Logo, em pontos de eficiência técnica, as taxas marginais de substituição entre insumos são iguais entre firmas,
mesmo que estas firmas produzam bens diferentes.

Podemos construir o seguinte conceito a partir da curva de contrato para a produção:

Definição: A fronteira de possibilidade de produção (FPP) mostra a quantidade máxima do bem Y (digamos
vinho) que a sociedade pode produzir, para qualquer quantidade do bem X (digamos pão) produzida.

3.1.32 Fronteira de Possibilidade de Produção


Bem Y
6
Fronteira de Possibilidade de Produção
Q
Q

Q A
Q
Y0 Qr
Q
Q
Q
Q
Q
C
r
Q
Q
Q
Q
Q
Q B
Y1 Qr
Q
Q
Q
Q-
X0 X1 Bem X

84
3.1.33 Eficiência Produtiva
Pontos na FPP representam a quantidade máxima do bem X que pode ser produzida para certa quantidade
do bem Y . Pontos que estão na FPP são os pontos de eficiência técnica ou eficiência produtiva. Pontos no
interior da FPP são pontos ineficientes do ponto de vista técnico.

Lembre-se que nestes pontos, a taxa marginal de substituição técnica entre dois insumos é igual para todas
as firmas, quaisquer que sejam os bens que elas produzam.

Podem existir pontos de eficiência técnica que não representem alocações Pareto eficientes. Porém, toda
alocação Pareto eficiente está necessariamente associada a um ponto de eficiência técnica.

3.1.34 Taxa Marginal de Transformação


Definição: O custo marginal do bem X é o custo de produzir uma unidade adicional de X, expresso em
unidades do outro bem que deixa de ser produzido:

dY
CM gX,Y = −
dX F P P

O formato da curva da FPP reflete como o custo marginal de um bem muda com a quantidade do outro bem
sendo produzida.

Esse custo de oportunidade marginal da FPP recebe um nome: taxa marginal de transformação dos bens.
Essa taxa mede a taxa pela qual um bem pode ser transformado em outro, no sentido de que os fatores de
produção são realocados da produção de um dos bens para a produção do outro bem.

3.1.35 Alocações de Equilı́brio


Definição: Alocação de Equilı́brio. Seja p∗ um equilı́brio para E = (ui , ei , θij , Y j )i∈I,j∈J . O par de
vetores (x(p∗ ), y(p∗ )) é uma alocação de equilı́brio Walrasiano, onde:

1. (Maximização dos Consumidores) x(p∗ ) = (x1 (p∗ ), . . . , xI (p∗ )) é o vetor com as cestas ótimas de cada
consumidor, quando os preços são p∗ e a renda do consumidor i, i = 1, . . . , I, é mi (p∗ );

2. (Maximização das Firmas) y(p∗ ) = (y1 (p∗ ), . . . , yJ (p∗ )) é o vetor com os planos de produção ótimos
de cada firma j, quando os preços são p∗ ;

3. (Equilı́brio) Os mercados de todos os bens estão em equilı́brio:


X X X j
xik (p∗ ) = eik (p∗ ) + yk (p∗ ), ∀k = 1, . . . , n.
i∈I i∈I j∈J

3.1.36 Equilı́brio
A figura abaixo ilustra a situação de equilı́brio. Observe que se a condição de tangência não é satisfeita, isso
signfica que a taxa na qual o consumidor está disposto a trocar um dos bens pelo outro é diferente da taxa
na qual esse bem pode ser transformado no outro.

Então existe a possibilidade de melhorar o bem-estar do consumidor, ao se rearranjar a produção. Portanto,


se a condição de tangência não é satisfeita, a alocação não é Pareto eficiente.

85
3.1.37 Equilı́brio
Bem Y
6

@
@
@
@r
@
Y∗
@
@
Fronteira de Possibilidade @ Curva de Indiferença
de Produção @
@
@ Nı́vel de Preços
@
de Equilı́brio
-
X∗ Bem X

3.1.38 Observações Importantes


• A figura acima deixa claro que nem todo ponto de eficiência técnica será Pareto eficiente, mas todo
ponto Pareto eficiente será tecnicamente eficiente.

• Uma alocação Pareto eficiente satisfaz as seguintes três condições:

1. Eficiência nas trocas: As taxas marginais de substituição entre quaisquer dois bens devem ser
iguais.
2. Eficiência técnica ou produtiva: Para todas as firmas, as taxas técnicas de substituição entre os
insumos devem ser iguais.
3. Eficiência no mix de produtos: A taxa técnica de transformação entre dois bens deve ser igual à
taxa marginal de substituição dos consumidores.

3.1.39 Bem-Estar Social


Vimos que o princı́pio básico de eficiência usado em economia é o Critério de Pareto.

Idéia: Se, na situação social A, um indivı́duo fica melhor e nenhum fica pior comparado à situação B então
a situação A é melhor para a sociedade.

Ou, se na situação social A, todos os membros da sociedade estão melhores comparados à situação B, então,
a situação A é melhor para a sociedade que a situação B.

3.1.40 Critério de Pareto


O critério ou princı́pio de Pareto pode ser formalizado da seguinte maneira.

Definição: Uma alocação social A é Pareto-dominada pela alocação B se a alocação B é factı́vel e nenhum
agente fica pior, e pelo menos um fica melhor, na alocação B que na alocação A.

Definição: Uma alocação factı́vel é Pareto Ótima (ou eficiente de Pareto) se não é Pareto-dominada por
nenhuma outra alocação factı́vel.

86
3.1.41 Os Dois Teoremas de Bem-Estar
Primeiro Teorema do Bem-estar. Toda alocação de equilı́brio Walrasiano é Pareto-ótima.

Segundo Teorema do Bem-estar. Sob as hipóteses do segundo teorema do bem-estar, se x é Pareto-


eficiente, então x é uma alocação de equilı́brio Walrasiano para algum preço p de equilı́brio, após redistribuição
adequada de dotações iniciais.

3.1.42 Falhas de Mercado


Falhas de mercado são situações que invalidam os teoremas de bem-estar. Em particular, se alguma falha
estiver presente, não podemos afirmar que a alocação de recursos e bens alcançada por uma economia de
mercado satisfaça o critério de eficiência de Pareto.

Exemplos de falhas de mercado:


• Bens Públicos;
• Externalidades;
• Poder de mercado;
• Informação Imperfeita;

3.1.43 Núcleo
Existe um teorema mais forte do que o primeiro teorema do bem-estar, que diz que toda alocação de equilı́brio
pertence ao núcleo da economia:

Teorema do Núcleo. Se cada utilidade individual é estritamente crescente , então todo equilı́brio Walrasiano
está no núcleo dessa economia.

Isso significa que a alocação de equilı́brio não é bloqueável por nenhuma outra alocação factı́vel. Observe que
o primeiro teorema do bem-estar pode ser visto como um corolário do teorema do núcleo.

3.1.44 Teoria da Escolha Social


Escolha Social: problema de agregar preferências individuais em uma preferência social. Como um grupo ou
uma sociedade decide coletivamente?

Queremos que essa regra de agregação satisfaça certos critérios de caráter normativo.

Exemplo: Se todos em uma sociedade preferem a alternativa A à alternativa B, então a regra social prefere
A a B (unanimidade de Pareto).

Resultado principal: Teorema da Impossibilidade de Arrow.

3.1.45 Definições
• Alternativa: descrição completa de um estado social;
• X: conjunto finito de alternativas, todas excludentes;
• I: tamanho do grupo ou sociedade (número de indivı́duos);

• Preferências: indivı́duo é capaz de escolher entre alternativas diferentes (completa e transitiva);

– Preferência fraca: i
– Preferência estrita: i
• Grupo de preferências: lista das preferências de todos os indivı́duos do grupo.

87
3.1.46 Relação de Preferência Social
Definição: Preferência Social. Uma relação de preferência social S é uma relação binária completa e
transitiva sobre X. Representamos por S e ∼S as relações de preferência estrita e indiferença derivadas de
S , respectivamente.

Notação:

• x S y: (a alternativa) x é socialmente tão boa quanto a y,

• x S y: (a alternativa) x é socialmente melhor que y,

• x ∼S y: (a alternativa) x é socialmente indiferente a y

3.1.47 Mais de Duas Alternativas


No caso de apenas duas alternativas, o requerimento da regra social ser transitiva não faz sentido.

Se tivermos três ou mais alternativas, transitividade passa a ser relevante. Nesse caso, votação majoritária
aos pares não satisfaz esse requiremento.

Suponha que a regra de escolha social é dada por votação aos pares, quem tiver mais votos ganha.

Definição: Vencedor de Condorcet. Dizemos que uma alternativa é um vencedor de Condorcet se ela
ganha de todas as outras alternativas na votação majoritária aos pares.

3.1.48 Paradoxo de Condorcet (Paradoxo da Votação)


Suponha o seguinte profile de preferências estritas:

Posição Indivı́duo 1 Indivı́duo 2 Indivı́duo 3


Primeira x y z
Segunda y z x
Terceira z x y

Votação majoritária entre:



x vs y ⇒ x S y 
y vs z ⇒ y S z ⇒ x S y, y S z, z S x
x vs z ⇒ z S x
 | {z }
S não é transitiva!

Ou seja, mesmo que as preferências individuais sejam transitivas, pode ocorrer que a preferência social não o
seja. Para o grupo de preferências acima, não existe um vencedor de Condorcet.

3.1.49 Manipulação de Agenda


Regras de escolha social não transitivas podem trazer problemas de manipulação de agenda.

Suponha que a regra de escolha é tal que, no caso de três alternativas x, y e z, se a agenda é (x, y, z), então
primeiro vota-se x vs y, e depois o vencedor dessa votação contra z.

(x, y, z) : x vs y ⇒ x ganha, x vs z ⇒ z ganha


(y, z, x) : y vs z ⇒ y ganha, y vs x ⇒ x ganha
(z, x, y) : z vs x ⇒ z ganha, z vs y ⇒ y ganha

Logo, para esse grupo de preferências em particular, quem define a agenda de votações define a alternativa
vencedora.

88
3.1.50 Teorema de Arrow
Arrow: encontrar uma regra de decisão social que agregue preferências individuais de “modo satisfatório”.

As condições do teorema de Arrow são exigências normativas sobre a função de bem-estar social f que gera
a decisão social, S = f (1 , . . . , N ).

Note que f associa a cada grupo de preferências individuais uma preferência social, (1 , . . . , N ) 7→S .
f

3.1.51 Hipóteses do Teorema de Arrow


• Domı́nio Irrestrito. Considera todas as combinações possı́veis de preferências sobre o espaço de
alternativas X.
• Princı́pio Fraco de Pareto. Para qualquer par de alternativas x e y tal que x i y para todo i, então
x S y (critério de unanimidade).
• Não-Ditadorial. Não existe indivı́duo h tal que se x h y então x S y, quaisquer que sejam as
preferências dos outros indivı́duos i 6= h.
• Independência das Alternativas Irrelevantes. Condição mais sutil. Impõe à regra de escolha social
a propriedade de que o ordenamento entre duas alternativas dependa apenas dessas duas alternativas,
e que não seja afetado por nenhuma outra alternativa diferente delas.

3.1.52 Contagem de Borda


O mecanismo de escolha social de contagem de Borda requer que cada indivı́duo ordene as alternativas de
acordo com sua preferência.

Um possı́vel mecanismo de contagem de Borda: dado o indivı́duo i, associamos o número ci (x) = n para cada
alternativa x, onde n é a posição de preferência de x para i.

Por exemplo, se c1 (x) = 2, então x é a segunda alternativa preferida do indivı́duo 1.

A regra de escolha social R é definida do seguinte modo:


I
X I
X
x S y ⇔ ci (x) ≤ ci (y)
i=1 i=1
O mecanismo de escolha social de contagem de Borda:
• é completo e transitivo (e de domı́nio irrestrito; podemos lidar com empates facilmente);
• satisfaz o princı́pio fraco de Pareto,
• não é ditadorial.
Porém, não satisfaz o critério de independência das alternativas irrelevantes, pois o ordenamento de duas
alternativas depende do posicionamento de todas as outras alternativas.

3.1.53 Exemplo
Suponha dois indivı́duos e três alternativas, x, y, z.

x 1 z 1 y ⇒ c1 (x) = 1, c1 (y) = 3
Grupo A: ⇒ x S y
y 2 x 2 z ⇒ c2 (x) = 2, c2 (y) = 1

x 1 y 1 z ⇒ c1 (x) = 1, c1 (y) = 2
Grupo B: ⇒ y S x
y 2 z 2 x ⇒ c2 (x) = 3, c2 (y) = 1

Nos dois grupos, os ordenamentos individuais entre x e y são os mesmos. Porém, o mecanismo de Borda
resulta em escolhas diferentes. Logo, temos uma violação da hipótese de IIA.

89
3.1.54 Teorema de Arrow
Teorema da Impossibilidade de Arrow (versão I). Se existem pelo menos três alternativas em X,
então não existe função de escolha social f que resulte em S completa e transitiva e tal que satisfaça as
condições de domı́nio universal, princı́pio fraco de Pareto e independência das alternativas irrelevantes e que
seja não-ditadorial.

Teorema da Impossibilidade de Arrow (versão II). Se existem pelo menos três alternativas em X,
então a única função de escolha social f que resulte em S completa e transitiva e que satisfaça as condições
de domı́nio universal, princı́pio Pareto fraco e independência das alternativas irrelevantes é a regra de escolha
social ditadorial.

3.1.55 Preferências de Pico Único


Vamos abandonar a hipótese de domı́nio universal e considerar apenas preferências de pico único, ou seja,
preferências para as quais seja possı́vel ordenar as alternativas de algum modo tal que elas tenha um único
máximo.

Nesse caso, vale o Teorema de Black ou Teorema do Eleitor Mediano: Se as preferências são de pico único,
então a alternativa preferida do eleitor mediano é a que vencerá em uma votação majoritária (é o vencedor
de Condorcet).

3.1.56 Função de Bem-Estar Social


Uma função de bem estar social W é uma função definida sobre as funções de utilidade individuais, W =
W (u1 , . . . , uI ). Alguns tipos são:
P
• FBES utilitarista ou de Bentham: W (u1 , . . . , uI ) = i ui
P
• FBES da soma ponderada das utilidades: W (u1 , . . . , uI ) = i ai ui , com ai ≥ 0 para todo i.
• FBES Rawlsiana: W (u1 , . . . , uI ) = min{u1 , . . . , uI }.
Considere o seguinte problema de maximização:
X X
max W (u1 (x), . . . , uI (x)) sujeito à xi = ei ,
x
i i

onde W é uma FBES crescente. Se a FBES é crescente, então a alocação ótima será Pareto eficiente. As
curvas de indiferença de W são chamadas curvas de isobem-estar.

3.1.57 Representação Gráfica


u2
6

rMáximo da FBES W

Conjunto de
Possibilidade
de Utilidade
Curva de Isobem-Estar
-
u1

90
3.1.58 Relação entre FBES e Alocações Eficientes
Mais ainda, qualquer alocação Pareto eficiente pode ser o resultado ótimo para alguma FBES. Em particular,
se maximizarmos a FBES ponderada variando os pesos ai , obtemos qualquer ponto da FPU como solução
ótima.

Para que este resultado seja de fato verdadeiro, é necessário que o conjunto de possibilidade de utilidades seja
convexo.

Observe então que existe uma relação entre FBES e alocações eficientes bastante estreita: toda solução de
um problema de maximização de uma FBES crescente é eficiente e toda alocação eficiente é solução de um
problema de maximização de bem-estar social, para uma FBES apropriada.

91
3.2 Externalidades e bens Públicos
3.2.1 IV. Equilı́brio Geral e Teoria do Bem-estar
4. Bens Públicos;

5. Externalidades.

3.2.2 Externalidade
Externalidade Dizemos que ocorre uma externalidade quando o bem-estar de um agente econômico (in-
divı́duo ou firma) é afetado diretamente pelas ações de outro agente econômico.

Uma externalidade de consumo ocorre quando a ação de um agente afeta as preferências de outro agente.
A externalidade pode ser negativa ou positiva.

Uma externalidade de produção ocorre quando a ação de um agente afeta a tecnologia de alguma firma.
Assim como a externalidade de consumo, a externalidade de produção pode ser positiva ou negativa.

Uma externalidade pode ser:


• positiva; ou
• negativa.

3.2.3 Ausência de Mercado


O ponto principal da externalidade em termos econômicos é a inexistência do mercado para o bem ou serviço
gerado pela atividade causadora da externalidade.

Quando ocorre uma externalidade, o custo (se a externalidade é negativa) ou o benefı́cio (se a externalidade
é positiva) social da ação do agente é diferente do custo ou benefı́cio privado.

Esta discrepância entre o custo ou benefı́cio social e o custo ou benefı́cio privado torna a decisão privada
distinta da decisão ótima social, mesmo em um mercado perfeitamente competitivo.

No caso de uma externalidade negativa, o nı́vel de atividade está acima de seu nı́vel socialmente ótimo. No
caso de uma externalidade positiva, o nı́vel de atividade está abaixo de seu nı́vel socialmente ótimo.

Isto ocorre porque o custo (ou benefı́cio) associado à externalidade não é levado em conta pelo agente causador
da externalidade.

Nesse caso, o primeiro teorema do bem-estar não é mais válido em geral : na presença de externalidades, a
alocação de mercado pode ser ineficiente no sentido de Pareto.

Preço
6 Custo social
 Oferta (custo privado)
Q  
Q  
Q  
r
Q  
Ótimo Social
Q  
Q r 

  Equilı́brio de Mercado
Q
 Q
  Q
  Q
 Q
 Q
 Q
Demanda

-
qsocialqmercado Quantidade

92
3.2.4 Exemplo
Se o mercado operar livremente numa situação de externalidade negativa, a quantidade produzida será maior
que a quantidade ótima do ponto de vista social (qmercado > qsocial ).
Logo, a existência de uma externalidade leva a uma ineficiência, pois o benefı́cio marginal total de uma
atividade não se iguala ao seu custo marginal total (custo marginal privado somado ao custo marginal social).
Nesses casos, pode ser possı́vel melhorar a alocação de mercado (isto é, alcançar uma alocação Pareto-ótima).

3.2.5 Soluções para o Problema de Externalidades


1. Cultural e Determinação Legal;
2. Impostos, subsı́dios, quotas;
3. Alocação de direitos de propriedade.
4. Criação de mercados;
Cada solução tem vantagens e desvantagens. Todas elas tentam “internalizar” a externalidade, no sentido de
que todos os custos (ou benefı́cios, no caso de uma externalidade positiva) sociais sejam levados em conta na
hora de decidir o nı́vel ótimo de externalidade produzida.

3.2.6 Impostos, Subsı́dios, Quotas


Um mecanismo importante de correção da ineficiência gerada por uma externalidade é o Estado colocar um
imposto sobre a produção no valor exato do custo social da externalidade.
Neste caso, a curva de custo marginal privado se desloca para cima, coincidindo com a curva de custo social.
Esse tipo de imposto, chamado de imposto de Pigou (ou subsı́dio, no caso de uma externalidade positiva)
tenta corrigir a ineficiência causada pela externalidade. A taxa é escolhida de modo que o nı́vel ótimo da
atividade geradora da externalidade seja alcançado.
Em ambos os tipos de externalidade, o efeito da taxa (ou subsı́dio) é fazer com que o agente gerador da
externalidade incorpore em seu problema de maximização o custo real de suas ações (“internalizar” a exter-
nalidade).

3.2.7 Observações sobre Solução via Imposto de Pigou


1. O governo deve taxar a atividade geradora da externalidade diretamente.
2. O governo pode optar por um esquema de subsı́dio para redução da externalidade, ao invés de taxar a
externalidade.
3. A solução exige que o governo conheça os beneficı́os e custos exatos que envolvem o problema de
externalidade. Se esse é o caso, o governo poderia simplesmente impor quotas de produção ou exigir
diretamente que a firma produzisse a quantidade socialmente ótima do bem.

3.2.8 Alocação de Direitos de Propriedade


Segundo alguns economistas, o problema da poluição e, de forma mais geral, o problema de externalidade é
um problema de alocação incorreta ou de inexistência de direitos de propriedade.
Suponha que os direitos de propriedade da atividade geradora da externalidade sejam alocados ao agente X.
Ou seja, o agente Y não pode incorrer na atividade geradora da externalidade sem a concordância de X.
Suponha que o agente Y faz uma oferta ao agente X de pagar T para poder produzir a externalidade.
O agente Y escolherá T de modo que a sua oferta seja aceita. Nesse caso, pode ser mostrado que o nı́vel
socialmente ótimo da externalidade é alcançado com a alocação do direito de propriedade da atividade geradora
da externalidade. Esse resultado é resumido no teorema de Coase.

93
3.2.9 Teorema de Coase
Teorema de Coase. Se a externalidade pode ser transacionada e se não existem custos de transação nem
efeitos de renda, então o resultado eficiente será alcançado pelo mercado, independentemente de quem possua
os direitos de propriedade da atividade geradora da externalidade.

Do ponto de vista de eficiência, é irrelevante quem ganha os direitos de propriedade. Porém, a alocação dos
direitos influencia a distribuição de renda.

3.2.10 Teorema de Coase - Externalidade de Consumo


Em geral, a quantidade produzida de externalidade na alocação eficiente depende da distribuição dos direitos
de propriedade entre os consumidores

Porém, se as preferências forem quaselineares, a quantidade produzida de externalidade independe da dis-


tribuição dos direitos de propriedade e será, portanto, a mesma em toda alocação Pareto ótima.

Preferências quase lineares resultam em efeito renda nulo, condição necessária para a validade do teorema de
Coase no caso de externalidades de consumo. Observe também que a distribuição de riqueza final dependerá
da distribuição dos direitos de propriedade.

3.2.11 Economia de Informação


A solução de mercado contida no teorema de Coase exige apenas que o governo aloque e garanta direitos de
propriedade.

Logo, não é necessário que o governo conheça os benefı́cios e custos associados à externalidade. Sob esse ponto
de vista informacional, a solução de Coase é mais fácil de ser implementada.

Porém, a hipótese de ausência de custos (ou custos baixos) de transação é crucial. Altos custos de transação
impedem que a solução eficiente seja alcançada.

3.2.12 Criação de Mercado


A presença de externalidade pode ser associada à ausência de mercados competitivos para a externalidade.

Para implementar esse tipo de solução, é necessário que os direitos de propriedade estejam bem definidos e
que exista um mercado competitivo para a atividade que gera a externalidade. O mercado, nesse caso, age
como um procedimento de barganha.

Nessa solução, um novo mercado é criado, de modo que a externalidade passa a ser negociada como um bem
tradicional.

3.2.13 Tragédia dos Comuns


A “tragédia dos comuns” ocorre quando um bem comunitário sofre do problema do bem escasso que não
tem dono: cada agente tem incentivo a explorá-lo mais que o ótimo social, pois se ele não o fizer outro agente
fará.

Exemplos da “tragédia dos comuns” são a sobrepesca, tais como a pesca do esturjão na Rússia, o abastecimento
de água, principalmente em regiões áridas como o Nordeste brasileiro.

Uma solução é a regulamentação por uma autoridade, usualmente o governo ou uma associação comunitária.
Essa regulamentação pode ser por meio de concessões, limitando o montante do bem comum disponı́vel para
uso por cada indivı́duo.

Sistemas de concessão para atividades econômicas extrativistas tais como mineração, pesca, caça, corte de
árvores são exemplos desta solução. O governo pode também impor limites de danos admissı́veis ao bem
comum.

94
3.2.14 Soluções
Historicamente, existem situações onde os próprios usuários do recurso comum cooperavam para conservá-lo
em nome do benefı́cio mútuo. Essa foi uma das razões para a formação de diversas associações de pescadores
no litoral brasileiro.

Outra solução que pode ser usada para certos recursos é transformar o bem comum em propriedade privada,
fazendo com que o dono tenha incentivos para garantir a sustentabilidade do bem, preservando-o. Observe
que a tragédia dos comuns é um problema de externalidade multilateral exaurı́vel.

3.2.15 Bens Públicos


Um bem público (puro) é um bem que possui duas caracterı́sticas:

1. Não-rival : O consumo do bem por uma pessoa não limita ou diminui a quantidade disponı́vel para
consumo por outras pessoas;

2. Não-excludente: Não é possı́vel (ou é muito custoso) excluir indivı́duos do seu consumo.

Bens públicos podem ser vistos como um problema de externalidade de consumo onde todas as pessoas são
obrigadas a consumir a mesma quantidade do bem.

3.2.16 Classificação
Os bens privados são na maioria bens excludentes e rivais. Exemplos são bens de consumo, tais como laranja,
sorvete, automóvel.

Os bens públicos são não-excludentes e não-rivais. Exemplos são segurança pública, pesquisa básica, defesa
nacional, estradas sem pedágio descongestionadas.

Os bens de recursos comuns são não excludentes e rivais. Exemplos são peixes no oceano ou em um rio, meio
ambiente, estradas sem pedágio congestionadas.

Os bens de clube são excludentes, mas não rivais. Exemplos são TV a cabo, estradas com pedágio não
congestionadas, corpo de bombeiro.

Rival Não Rival


Excludentes Bens Privados Bens de Clube
Não excludente Recursos Comuns Bens Públicos

3.2.17 Provisão de Bem Público


A caracterı́stica de não ser possı́vel excluir uma pessoa do consumo do bem público torna o mercado ineficiente
na provisão de bens públicos, justificando a ação do Estado para corrigir a alocação gerada pelas forças de
mercado.

No caso de provisão privada de um bem público, o nı́vel de produção de mercado é inferior ao nı́vel socialmente
ótimo.

Essa ineficiência criada pela provisão privada do bem público é causada pelo fato de que o bem público
comprado por um consumidor fica disponı́vel a todos os outros consumidores.

95
3.2.18 Ineficiência na Provisão Privada de Bem Público
A caracterı́stica de o bem público comprado por um consumidor ficar disponı́vel a todos os outros consumidores
cria uma situação onde cada consumidor deseja pegar carona no consumo do bem público pago pelos outros.

Esse problema de provisão do bem público é conhecido na literatura como o problema do carona (“free-riding
problem”). O carona é o agente econômico que se beneficia do bem sem pagar por ele.

3.2.19 Corrigindo a Ineficiência


Essa ineficiência pode ser corrigida por meio de taxas e subsı́dios. O problema é que cada indivı́duo pode não
revelar corretamente o benefı́cio que obtém com o bem público, aproveitando o bem público pago pelo resto
da população.

A questão então é se existe alguma forma de induzir cada indivı́duo a revelar o seu benefı́cio real com o
bem público. Esse é um problema tı́pico de desenho de mecanismos (a resposta dessa questão é dada pelo
mecanismo de Groves e Clarke).

3.2.20 Alocação Eficiente - Caso Geral


Suponha que existam dois indivı́duos, que podem consumir dois bens, um bem privado, denotado por x, e
um bem público, denotado por G. Vamos supor que G é perfeitamente divisı́vel e normalizar o preço do bem
privado em um. Suponha que c(G) represente o custo de prover G unidades do bem público.

A utilidade do agente i, i = 1, 2, é ui (xi , G) (não necessariamente quase linear). Vamos representar por wi a
riqueza do indivı́duo i, i = 1, 2. O problema de maximização que determina as alocações Pareto eficientes é:

max u1 (x1 , G) s.a. i) u2 (x2 , G) = ū2 ,


x1 ,x2 ,G
ii) x1 + x2 + c(G) = w1 + w2

Resolvendo o problema acima, obtemos:


∂u1 (x1 ,G) ∂u2 (x2 ,G)
∂G ∂G ∂c(G)
∂u1 (x1 ,G)
+ ∂u2 (x2 ,G)
=
∂G
∂x1 ∂x2

Em termos da TMS entre o bem privado e o bem público, temos que:

|T M S1 | + |T M S2 | = CM g(G)

Ou seja, em uma alocação Pareto eficiente, a soma das taxas marginais de substituição entre os bens público
e privado dos dois consumidores deve ser igual ao custo marginal de provisão do bem público (a soma da
propensão marginal a pagar tem que ser igual ao custo marginal).

3.2.21 Observações
• No caso geral, a quantidade ótima do bem público será diferente em diferentes alocações do bem privado
entre os dois consumidores.

• Porém, se as preferências forem quase lineares, a quantidade ótima de bem público será única, sempre
igual, qualquer que seja a alocação do bem privado entre os consumidores.

• Isto ocorre porque a condição acima, a soma da propensão marginal a pagar igual ao custo marginal,
no caso de preferências quase lineares, independe da alocação do bem privado entre os consumidores.

96
3.2.22 Corrigindo a Ineficiência
A ineficiência causada pelo bem público pode ser corrigida por meio de taxas e subsı́dios, ou seja, o pagamento
se torna compulsório para todos e ninguém pode tomar carona no pagamento de outros contribuintes, em
princı́pio.

Neste caso, outro problema aparece de modo claro: cada indivı́duo pode não revelar corretamente o benefı́cio
que obtém com o bem público, aproveitando o bem público pago pelo resto da população.

Logo, a presença de caronas traz dois problemas na provisão do bem público: como financiar a produção do
bem público e qual o verdadeiro valor do bem para a sociedade.

3.2.23 Mecanismo de Groves e Clarke


O mecanismo de Groves-Clarke (ou imposto de Groves-Clarke) provê incentivos de modo que os agentes
econômicos revelem corretamente o valor que atribuem ao bem público.

Caracterı́sticas do mecanismo:

• Vale apenas para utilidades quaselineares;

• Não necessariamente gera um resultado eficiente (apenas o nı́vel do bem público será ótimo, porém o
nı́vel do bem privado pode ser ineficiente, devido ao custo de implementação do mecanismo);

• Revelar corretamente o valor que o indivı́duo de fato atribui ao bem público é uma estratégia fracamente
dominante;

• Mecanismo pode ser bastante desigual e prejudicar vários consumidores (questão de eficiência versus
equidade).

97
3.3 Informação
3.3.1 V. Economia da Informação
1. Seleção adversa;

2. Perigo Moral;

3. Modelo de Sinalização;

4. Modelo de Principal Agente.

3.3.2 Informação Imperfeita


Informação imperfeita quebra essa metodologia: assimetrias de informação podem gerar comportamentos
estratégicos, onde o objetivo é tirar proveito da informação privada.

Na maioria dos casos, a assimetria de informação gera uma ineficiência (uma falha de mercado). Logo, o
primeiro teorema do bem-estar deixa de ser válido.

Caracterı́sticas dos Modelos de Informação:

1. Na maior parte, equilı́brio parcial (um bem);

2. Interação de um número pequeno de agentes (dois, usualmente);

3. As restrições geradas pelo modelo são descritas por um contrato, garantido por uma terceira parte;

4. Modelos de teoria dos jogos com informação assimétrica.

3.3.3 Classificação dos Modelos


I) Tipo da informação assimétrica:

(a) O que o agente é/suas caracterı́sticas: informação oculta


(b) O que o agente faz/decisão que toma: ação oculta

II) Quanto à forma do jogo:

(a) Seleção adversa (ou “Screening”): uma parte é imperfeitamente informada sobre as caracterı́sticas
da outra parte. Parte desinformada move-se primeiro.
(b) Sinalização: uma parte é imperfeitamente informada sobre as caracterı́sticas da outra parte. Parte
informada move-se primeiro.
(c) Perigo Moral : uma parte é imperfeitamente informada sobre as ações da outra parte. Parte
desinformada move-se primeiro.

3.3.4 Principal e Agente


Modelo de barganha simples, sem interação no processo de barganha (contrato do tipo “take-it-or-leave-it”).

• Principal : Parte desinformada.

• Agente: Parte informada.

Cumprimento do contrato é assegurado por uma terceira parte (justiça, por exemplo).

98
3.3.5 Classificação da Otimalidade das Soluções
• First-Best: a solução do problema para o caso em que a informação é perfeita. Esse caso serve de
comparação para avaliar a perda de bem-estar incorrida pela assimetria de informação.

• Second-Best: a solução do problema para o caso em que é considerado a assimetria informacional.


Usualmente, essa solução apresentará uma perda de bem-estar, com relação à solução de First-Best.

• Third-Best: a solução do problema para o caso em que é considerado a assimetria informacional,


restringindo os tipos de contratos que podem ser feitos. Esse tipo de solução é mais comum para casos
de perigo moral (por exemplo, relação patrão-empregado, em que contrato de salário pode ser apenas
do tipo pagamento fixo mais comissão).

3.3.6 Seleção Adversa


Mercado de seguros para carros, com várias firmas e vários consumidores (Akerlof, 1970).

Modelo básico - serve para outros problemas (Spence (1973): sinalização no mercado de trabalho).

Alguma caracterı́stica de uma das partes da transação (agente) não é observada pela outra parte (principal ).

3.3.7 Mercado de Carros Usados (Akerlof )


Existem apenas dois equilı́brios possı́veis:

1. apenas carros ruins são vendidos,

2. ambos os carros são vendidos (equilı́brio agregador, sem revelação do tipo de carro).

Caso extremo (Akerlof): mercado de carros de boa qualidade fecha.

3.3.8 Sinalização
Nos modelos de sinalização, o agente (vendedor do carro, no exemplo acima), de alguma maneira crı́vel,
comunica o seu tipo para o principal (o comprador, no exemplo acima).

Por exemplo, os vendedores de carro bom podem oferecer uma garantia, de modo a sinalizar que seu carro é
de boa qualidade. Neste caso, a sinalização serve para que esses vendedores diferenciem o seu carro dos carros
ruins e com isso o mercado funciona melhor.

Para que o sinal consiga de fato separar os dois tipos de carros, é importante que para o custo de fornecer
garantia para CR seja maior do que para carro bom (“single-crossingle property”, ou condição de Spence-
Mirrless ou condição de separação - “sorting condition”), de modo que não é viável para o vendedor de CR
fornecer a mesma garantia fornecida pelo vendedor de carro bom.

3.3.9 Modelo de Sinalização de Spence


Firmas querem contratar empregados, que podem ser de dois tipos: alta produtividade (θH ) ou baixa produ-
tividade (θL ).

Se a firma conseguisse observar o tipo do trabalhador, ela pagaria salários diferentes para tipos diferentes.
Porém firma não consegue distinguir o tipo do trabalhador.

O trabalhador pode sinalizar o seu tipo à firma, por meio da quantidade de educação adquirida.

Duas hipóteses importantes no modelo de Spence:

• Sinal não afeta produtividade (sinal puro),

99
• Tipos diferentes têm custos diferentes de adquirir o sinal (condição de Spence-Mirrless).

Podem existir dois tipos de equilı́brios:

• Separador : tipos diferentes de trabalhadores obtêm quantidades diferentes de educação e firmas con-
seguem corretamente separar os tipos, pagando salários diferentes para tipos diferentes,

• Agregador : tipos diferentes de trabalhadores obtêm a mesma quantidade de educação e firmas pagam
um mesmo salário para os dois tipos de trabalhadores (igual à produtividade média dos tipos, ponderada
pela proporção de cada tipo no mercado).

3.3.10 Bem-Estar no Modelo de Spence


Em geral, podemos apenas afirmar que o equilı́brio separador é ineficiente do ponto de vista social.

Intuitivamente, isto ocorre porque o sinal é custoso de se adquirir e não traz nenhum benefı́cio social, apenas
benefı́cios privados. Ele serve apenas para separar os tipos e é um desperdı́cio do ponto de vista social.

Pode-se mostrar que o trabalhador de produtividade baixa está pior com a existência no equilı́brio separador.
E o trabalhador de produtividade alta? Está melhor no equilı́brio separador ou no equilı́brio agregador?

O trabalhador de produtividade alta pode estar pior ou melhor no equilı́brio separador do que estaria em uma
situação sem sinal (equilı́brio agregador).

Ele adquire o sinal porque isto é o melhor a ser feito, uma vez que o equilı́brio separador é a instituição que
vigora no mercado. Logo, dado que todos os trabalhadores de tipo alto estão se educando e recebendo salário
mais alto, para ele é melhor também adquirir educação e se diferenciar do que não se diferenciar e receber o
salário destinado a trabalhadores de produtividade baixa.

Pode-se mostrar que quanto maior a proporção de trabalhadores de produtividade alta, mais provável que
este tipo de trabalhador esteja pior no equilı́brio separador.

3.3.11 Perigo Moral


Perigo moral está presente em transações onde uma da partes (principal) não consegue monitorar as ações da
outra parte, e essas ações são relevantes para a transação que está sendo negociada.

Exemplo: Seguro de automóveis - motorista pode deixar de tomar cuidado com o carro após adquirir o seguro.
Esse comportamento afeta o resultado do contrato (a probabilidade de o carro ser roubado pode aumentar,
por exemplo) e não é possı́vel (ou é muito custoso) a firma observar esse comportamento.

3.3.12 Principal e Agente


Principal : Parte desinformada - companhia de seguro.

Agente: Parte informada - consumidor.

O agente toma uma ação que afeta a sua utilidade e a utilidade do principal. O principal não observa a ação
tomada, apenas o resultado da ação.

Quando a ação que o agente escolhe espontaneamente não é Pareto-ótima (o que o principal gostaria), dizemos
que existe um problema de perigo moral. É comum que a ação escolhida pelo agente, no caso em que o principal
não consiga observar a ação tomada, seja tal que o agente se esquive de se esforçar (shirking).

100
3.3.13 O Problema
“First-Best”: caso em que o principal observa a ação do agente, de modo que é possı́vel implementar a ação
ótima diretamente.

Problema principal-agente: o principal deve desenhar um esquema de incentivos de tal modo que o agente
escolhe a ação desejada.

Em geral, supõe-se que:


• principal: neutro ao risco (principal consegue diversificar o risco associado com a sua relação com o
agente);
• agente: avesso ao risco (“pequeno”, não consegue diversificar o risco).

3.3.14 Divisão Ótima de Risco


Divisão ótima de risco (optimal risk sharing): principal fornece um seguro total para o agente (por exemplo,
salário fixo para o agente) e com isso assume todo o risco da atividade produtiva.

A divisão ótima de risco nem sempre é possı́vel quando existe problema de perigo moral, pois o agente pode
não escolher a ação desejada pelo principal.

Solução: principal oferece um contrato ao agente. Trade-off entre:


• Divisão de riscos (salário do agente não deve depender do produto);
• Incentivos (principal deve condicionar o salário do agente ao produto).

3.3.15 Modelo
Suponha uma firma que contrata um trabalhador (vendedor, por exemplo), mas não tem como observar o
esforço feito por ele.

Vamos denotar por e a quantidade de esforço que o trabalhador dedica à atividade para a qual foi contratado.
Suponha que existam apenas dois nı́veis de esforço possı́veis, eL e eH , com eL < eH .

Vamos denotar por y a quantidade de produto gerado pelo trabalhador. Vamos supor também que existam
apenas dois nı́veis de produto, yL e yH , com yL < yH .

Vamos supor que o nı́vel de esforço do trabalhador não é observável e que o nı́vel de produto é observável
pela firma.

Note que cada nı́vel de esforço pode resultar nos dois tipos de produtos. Ou seja, mesmo que o trabalhador
se esforce pouco (eL ), o produto pode vir a ser alto (yH ). Similarmente, mesmo que ele se esforce muito (eH ),
pode ocorrer que o produto seja baixo (yL )

Isto é necessário para que o problema de perigo moral exista. Se o produto fosse perfeitamente correlacionado
com o nı́vel de esforço, a firma poderia inferir corretamente o nı́vel de esforço ao observar o produto.

3.3.16 Problema do Principal-Agente


O principal deve desenhar um esquema de incentivos de tal modo que o agente escolhe a ação desejada.

Como o principal não observa o nı́vel de esforço do agente, ele pode apenas condicionar a remuneração do
agente ao produto observado. Logo, a remuneração não necessariamente será fixa.

Chamamos contrato o esquema de pagamentos que o principal oferece ao agente. O problema do principal é
desenhar o contrato que maximize o seu lucro.

101
3.3.17 Resolvendo o Problema do Principal-Agente
O contrato que o principal oferece ao agente deve satisfazer duas restrições:

1. Restrição de Participação (RP): garante que o agente aceitará o contrato oferecido pelo principal;

2. Restrição de Compatibilidade de Incentivos (RCI): garante que o agente escolha o nı́vel de esforço que
o principal deseja implementar.

O problema normalmente é dividido em dois. Primeiro, o principal calcula o contrato ótimo para cada nı́vel
de esforço do agente. Segundo, o principal escolhe dentre estes contratos ótimos, o que maximiza o seu lucro.

3.3.18 Eficiência
Se no caso de informação perfeita o nı́vel de esforço ótimo é baixo, então o contrato ótimo nesse caso será
também o contrato ótimo para o caso de informação assimétrica.

Porém, se no caso de informação perfeita o nı́vel de esforço ótimo é alto, então pode ocorrer que para o caso
de informação assimétrica a firma decida implementar o nı́vel baixo de esforço. Isso ocorrerá se for muito
dispendioso para a firma induzir o consumidor, por meio do contrato, a se esforçar muito.

Neste caso, temos uma situação claramente ineficiente - a utilidade do consumidor continua igual a sua
utilidade reserva, porém a firma obtém lucro menor.

102