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Sonetos

 
Através da literatura, Antero exprime a revolta e o inconformismo; reflecte
profundamente sobre o mundo, reflecte para agir. Daí o seu carácter forte de
líder que o transformou
no mestre, mentor inspirador e símbolo da Geração de 70.
A poesia de Antero traduz as suas vivências e os seus anseios. Nela se
encontra uma faceta luminosa ou apolínea, tradutora do seu ardor
revolucionário e de grande elevação moral, e outra nocturna, que remete para
o pessimismo e o desejo de evasão. António Sérgio afirma que
o Antero apolíneo exprime a Luz, a Razão e o Amor como fontes da harmonia
do Universo e o Antero nocturno canta a noite, a morte, o pessimismo e um
certo niilismo. A sua poesia filosófica romântica aberta à modernidade permite
diversas divisões, mas julgamos pertinente a opção em quatro fases: a lírica
ou de expressão do amor; a do apostolado social e das ideias
revolucionárias; a do pessimismo; e a da metafísica e regresso a Deus.
 
 Na primeira fase, exprime o amor espiritual, à maneira de Petrarca,
sem a sensualidade da lírica de Garrett, mas cantando a mulher como ser
adorável, uma “visão” , como sucede em "Ideal", "Beatrice", "Abnegação"
ou "Idílio";
na segunda fase, traduz as preocupações sociais, o desejo profundo de
construir um mundo novo, considerando que a poesia é a voz da
revolução que visa a Justiça, o Amor e a Liberdade, como em "A um Poeta";
"Evolução"; "Hino à Razão"; "Tese e Antítese"; "A Ideia";
na terceira fase, há um grande pessimismo e frustração a traduzir uma
certa decepção da luta, como em "O Palácio da Ventura";
"Despondency"; "Nox";
numa quarta fase, parece reconciliar-se e busca o descanso merecido
"na mão de Deus", como em "Na Mão de Deus"; "Salmo"; "A um
Crucifixo"; "À Virgem Santíssima"; "Solemnia Verbo".
 
A interpretação da obra de Antero não pode ser simplista até porque está
sempre presente um anseio e uma grande interrogação perante o sentido da
nossa própria existência, o mundo em que vivemos, e a explicação ou
presença de um Deus que, racionalmente, queremos compreender. Mais do
que tradução dos seus desejos ou angústias pessoais, há, na obra anteriana,
as preocupações do ser humano que reconhece a sua condição e a sua
fragilidade, que sente esperanças e sofre os desalentos, que duvida perante os
mistérios da criação, da morte e de Deus.
Mas porque nos seus sonetos está todo o pulsar humano, julgamos que,
para facilitar a compreensão destas quatro fases que se apontam na evolução
da obra de Antero, podemos reflectir na própria evolução que sucede a muitos
seres humanos: dos ideais da juventude e da luta consciente caímos, muitas
vezes, no desânimo por não vermos realizados os nossos propósitos, acabando
por recorrermos a um Deus protector pois só o sonho e a continua esperança
alimentam a vida.