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ESCLARECIMENTOS SOBRE

OS QUATRO EVANGELHOS DE
JEAN-BAPTISTE ROUSTAING

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OS EVANGELHOS EXPLICADOS PELO
SR. ROUSTAING

A opinião de Kardec sobre a obra "Os


Quatro Evangelhos"

Essa obra compreende a explicação e a


interpretação dos Evangelhos, artigo por ar-
tigo, com a ajuda de comunicações ditadas
pelos Espíritos. É um trabalho considerável e
que tem, para os Espíritas, o mérito de não
estar, em nenhum ponto, em contradição
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 3
com a doutrina ensinada pelo Livro dos Espí-
ritos e o dos Médiuns. As partes correspon-
dentes às que tratamos no Evangelho Se-
gundo o Espiritismo o são em sentido análo-
go. Aliás, como nos limitamos às máximas
morais que, com raras exceções, são claras,
estas não poderiam ser interpretadas de di-
versas maneiras; assim, jamais foram assun-
to para controvérsias religiosas. Por esta ra-
zão é que por aí começamos, a fim de ser
aceito sem contestação, esperando, quanto
ao resto, que a opinião geral estivesse mais
familiarizada com a Idéia espírita.

O autor desta nova obra julgou dever se-


guir um outro caminho. Em vez de proceder
por gradação, quis atingir o fim de um salto.
Assim, tratou certas questões que não tí-
nhamos julgado oportuno abordar ainda e
das quais, por conseqüência, lhe deixamos a
responsabilidade, como aos Espíritos que as
comentaram. Conseqüente com o nosso
princípio, que consiste em regular a nossa
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marcha pelo desenvolvimento da opinião, até
nova ordem não daremos às suas teorias
nem aprovação nem desaprovação, deixando
ao tempo o trabalho de as sancionar ou as
contraditar. Convém, pois, considerar essas
explicações como opiniões pessoais dos Espí-
ritos que as formularam, opiniões que podem
ser justas ou falsas e que, em todo o caso,
necessitam da sanção do controle universal,
e, até mais ampla confirmação, não poderi-
am ser consideradas como partes integrantes
da doutrina espírita.

Quando tratarmos destas questões fa-lo-


emos decididamente. Mas é que então tere-
mos recolhido documentos bastante numero-
sos nos ensinos dados de todos os lados pe-
los Espíritos, a fim de poder falar afirmati-
vamente e ter a certeza de estar de acordo
com a maioria. É assim que temos feito, to-
das as vezes que se trata de formular um
princípio capital. Dissemo-lo cem vezes, para
nós a opinião de um Espírito, seja qual for o
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nome que traga, tem apenas o valor de uma
opinião individual. Nosso critério está na
concordância universal, corroborada por uma
rigorosa lógica, para as coisas que não po-
demos controlar com os próprios olhos. De
que nos serviria dar prematuramente uma
doutrina como uma verdade absoluta se,
mais tarde, devesse ser combatida pela ge-
neralidade dos Espíritas?

Dissemos que o livro do Sr. Roustaing


não se afasta dos princípios do Livro dos Es-
píritos e do dos Médiuns. Nossas observa-
ções são feitas sobre a aplicação desses
mesmos princípios à interpretação de certos
fatos. É assim, por exemplo, que dá ao Cris-
to, em vez de um corpo carnal, um corpo
fluídico concretizado, com todas as aparên-
cias da materialidade e de fato um agênere.
Aos olhos dos homens que não tivessem en-
tão podido compreender sua natureza espiri-
tual, deve ter passado em aparência, expres-
são incessantemente repetida no curso de
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toda a obra, para todas as vicissitudes da
humanidade. Assim seria explicado o misté-
rio de seu nascimento. Maria teria tido ape-
nas as aparências da gravidez. Posto como
premissa e pedra angular, este ponto é a
base em que se apoia para a explicação de
todos os fatos extraordinários ou miraculosos
da vida de Jesus.

Nisso nada há de materialmente impossí-


vel para quem quer que conheça as proprie-
dades do envoltório perispiritual. Sem nos
pronunciarmos pró ou contra essa teoria,
diremos que ela é, pelo menos, hipotética, e
que se um dia fosse reconhecida errada, em
falta de base todo o edifício desabaria. Espe-
ramos, pois, os numerosos comentários que
ela não deixará de provocar da parte dos
Espíritos, e que contribuirão para elucidar a
questão. Sem a prejulgar, diremos que já
foram feitas objeções sérias a essa teoria e
que, em nossa opinião, os fatos podem per-
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feitamente ser explicados sem sair das con-
dições da humanidade corporal.

Essas observações, subordinadas à san-


ção do futuro, em nada diminuem a impor-
tância da obra que, ao lado de coisas duvi-
dosas, em nosso ponto de vista, encerra ou-
tras incontestavelmente boas e verdadeiras,
e será consultada com fruto pelos Espíritas
sérios.

Se o fundo de um livro é o principal, a


forma não é para desdenhar e contribui com
algo para o sucesso. Achamos que certas
partes são desenvolvidas muito extensamen-
te, sem proveito para a clareza. A nosso ver,
se, limitando-se ao estritamente necessário a
obra poderia ter sido reduzida a dois, ou
mesmo a um só volume e teria ganho em
popularidade.

(Allan Kardec, "Revista Espírita", ed. Ju-


lho de 1866 - Ed. Edicel)
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EM "MECANISMOS DA MEDIUNIDADE"
REVELAÇÕES SOBRE O CARÁTER SU-
PRANORMAL DO CORPO DE JESUS

"Procuravam, então prendê-lo; mas nin-


guém pôs as mãos nele, porque ainda não
era chegada a sua hora." ( João, 7:31)

Comentando o episódio da tentativa de


prisão do Cristo, no Templo, em Jerusalém,
registrada no Evangelho de João, conforme
acima, André Luiz, através da pena segura
de Chico Xavier, faz revelações importantes
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sobre o corpo do Cristo, confirmando as in-
formações publicadas na obra "Os Quatro
Evangelhos", de Roustaing, sobre as sucessi-
vas materializações e desmaterializações por
que passou o corpo de Jesus quando de sua
presença entre nós.

"Mecanismos da Mediunidade" foi publi-


cado em 1959. Confira, abaixo:

"Em Jerusalém, no tempo, desaparece de


chofre, desmaterializando-se, ante a espec-
tação geral... Em cada acontecimento, sen-
timo-lo a governar a matéria, dissociando-lhe
os agentes e reintegrando-os à vontade, com
a colaboração de servidores espirituais que
lhe assessoram o ministério da luz." (pág.
185).
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OBRA DE DIVALDO PEREIRA FRANCO


REFORÇA A TEORIA DO CORPO FLUÍ-
DICO

Em nossa edição de agosto do ano pas-


sado citamos um trecho da obra "Mecanis-
mos da Mediunidade", falando de sucessivas
materializações e desmaterializações do cor-
po de Jesus, quando de sua passagem pela
Terra.

Encontramos algo extremamente seme-


lhante na obra "A Luz do Espiritismo", de
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Vianna de Carvalho, psicografia de Divaldo
Pereira Franco, que merece também desta-
que. Confira:

"Em Nazaré, ante a turba enfurecida, Je-


sus utilizou a faculdade da desmaterializa-
ção." (pág.87)

Começa assim o fenômeno que o Codifi-


cador denominou "Concordância Universal",
no capítulo I de 'O Evangelho Segundo o
Espiritismo": dois médiuns sérios, respeita-
dos, confiáveis, recebendo de Espíritos diver-
sos uma mesma informação, em lugares e
épocas distintas.
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"OS QUATRO EVANGELHOS"


DE ROUSTAING, CONFIRMAM
"O EVANGELHO SEGUNDO
O ESPIRITISMO", DE KARDEC

"Já se vos há falado de mundos onde a


alma recém-nascida é colocada, quando ain-
da ignorante do bem e do mal, mas com a
possibilidade de caminhar para Deus, senho-
ra de si mesma, na posse do livre-arbítrio. Já
também se vos revelou de que amplas facul-
dades é dotada a alma para praticar o bem.
Mas, ah! há as que sucumbem, e Deus, que
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não as quer aniquiladas, lhes permite irem
para esses mundos onde, de encarnação em
encarnação, elas se depuram, regeneram e
voltam dignas da glória que lhes fora desti-
nada."

Esse trecho é de Kardec ou Roustaing?

Kardec. Evangelho Segundo o Espiritismo,


capítulo III - "Há muitas moradas na casa do
Pai" - item Mundos Regeneradores. Mensa-
gem de Santo Agostinho, recebida em Paris,
1862, tratando exatamente da queda espiri-
tual - um dos pilares fundamentais da obra
de Roustaing.

Aliás, no tomo I desta obra, encontramos


o seguinte:

"A muitos Espíritos acontece falir (...)


porque quase todos fazem mau uso do livre-
arbítrio. Alguns, porém, dóceis aos incumbi-
dos de os guiar e desenvolver, seguem sim-
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ples e gradualmente pelo caminho que lhes é
indicado para progredirem.”

Os primeiros sofrem uma punição, um


castigo que teriam podido evitar. É para ex-
perimentarem as conseqüências da falta co-
metida, que, como já explicamos, uma vez
preparados a ser humanizados, eles caem na
encarnação humana, conforme o grau de
culpabilidade e nas condições apropriadas às
exigências da expiação e do progresso" (item
59).

Ambas as obras apontam, claramente, a


encarnação humana como NECESSIDADE
apenas para os que faliram, malbaratando o
uso de seu livre-arbítrio. Está aí, claramente,
a idéia da chamada QUEDA DO HOMEM, tão
bem figurada na Gênese de Moisés.

Em mundos ad-hoc recebemos o precioso


dom do livre-arbítrio, apresentando-nos, en-
tão, em completo estado de simplicidade e
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ignorância. Para os que seguem os conselhos
de seus orientadores espirituais, o processo
evolutivo pode ser todo feito em mundos
fluídicos. Apenas os que se transviam, nesse
caminho, encarnam em mundos grosseiros,
como o nosso, para se depurar e voltar ao
estado de equilíbrio espiritual.

Como podemos ver, Kardec e Roustaing,


juntos, complementam-se e confirmam-se
mutuamente, trazendo luz nova e base sólida
para todos os aprendizes de boa-vontade.
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MENSAGEM DE ISMAEL, PROTETOR DO


ESPIRITISMO NO BRASIL, SOBRE A
CONCEPÇÃO DA VIRGEM E A NATUREZA
DO CORPO DE JESUS

Aproveitando a homenagem que estamos


fazendo ao querido Antônio Luís Saião, autor
de uma das mais importantes obras brasilei-
ras sobre os Evangelhos - "Elucidações E-
vangélicas", resumo comentado da obra "Os
Quatro Evangelhos", de Roustaing, transcre-
vemos abaixo uma mensagem de Ismael
sobre o corpo de Jesus, recebida por Frede-
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rico Pereira da Silva Junior. Na edição que
temos, dessa obra, de 1933, as mensagens
recebidas pelo grupo eram publicadas ao
final do volume. As edições atuais não têm,
infelizmente, esse importante complemento.

Mais um acréscimo valioso, portanto, pa-


ra o nosso "Museu Roustaing":

"Meus filhos, bem pouco me cabe dizer


sobre o vosso estudo de hoje. Soubestes
guardar convosco a paz que os vossos guias
vos trouxeram e, recebendo facilmente as
suas inspirações, pudestes, com o vosso
próprio espírito, tocar a verdade. É assim
que firmastes opinião definitiva sobre a con-
cepção da sempre Virgem e sobre o corpo
aparentemente carnal de Nosso Senhor Je-
sus Cristo.

Se a opinião isolada do vosso bom Mestre


Allan Kardec pôde, de alguma sorte, influir
no entendimento de alguns, fazendo-lhes
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crer que o Redentor do mundo viera revestir-
se da matéria grosseira dos corpos comuns,
para dar o exemplo das maiores virtudes,
encaminhando a humanidade inteira para a
terra da promissão, hoje, que todos os Espí-
ritos bem iluminados afirmam que o nasci-
mento de Jesus foi todo aparente, que o seu
corpo apenas se constituíra de fluidos con-
centrados no seio da sempre Virgem Maria,
não há razão de ser para duas opiniões a tal
respeito.

Maria foi sempre mãe de Jesus, como to-


das as mães são mães dos homens. Se o que
se gera no ventre da mulher não é o Espírito,
mas sim a massa que vai vestir o mesmo
Espírito, incontestavelmente Maria foi mãe
de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, assim, bem
o vedes, realizaram-se todas as profecias; e,
assim, veio ao mundo Aquele a quem deve-
mos a Seara da abundância, os frutos da
verdade. Insistamos: a opinião do homem,
falível quase sempre, pôde como que inocu-
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 19
lar, no espírito de seus irmãos, a idéia de
que Jesus, se não revestisse um corpo car-
nal, igual ao de todas as criaturas humanas,
seus sofrimentos seriam nulos. Entretanto,
como bem disseram entre vós, qual o maior
sofrimento, o físico ou o sofrimento moral?

Mas, mesmo com esse corpo de natureza


celeste, com essa reunião de moléculas fluí-
dicas, que ainda desconheceis, não seria
possível o próprio sofrimento físico do Re-
dentor? Quem sofre, é o Espírito ou a carne?
Não é a lesão, o golpe sobre a matéria que,
por intermédio do perispírito, faz chegar ao
Espírito as sensações e a dor? Vedes, portan-
to, que não pode prevalecer de modo algum
a opinião isolada do vosso bom Mestre Allan
Kardec.

Meus filhos, continuemos a estudar os


Evangelhos do Senhor em todos os seus
mais pequeninos detalhes. Procurai conhecer
o espírito de toda a letra, com humildade,
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 20
porque a verdade há de fazer-se aos vossos
olhos, como um testemunho do agrado do
Senhor, que vos vê esquecidos das paixões
do mundo, concentrados, estudando a vida
do seu amado Filho.

O único requisito que se vos pede é a


humildade.”

Ismael
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 21

O EVANGELHO DE MARIA

Há quem estranhe os primeiros capítulos


do Evangelho de Lucas, exatamente os que
se referem às condições especiais (não "mi-
lagrosas") do "nascimento" de Jesus. Os es-
tudos exegéticos, tanto católicos como pro-
testantes, confirmam perfeitamente a auten-
ticidade desses textos.

Entretanto, mais recentemente, através


da psicografia segura de Chico Xavier, Em-
manuel, na magistral obra "Paulo e Estevão",
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 22
traz mais subsídios para uma avaliação mais
criteriosa e mais justa sobre esses capítulos,
salientando o valor do trabalho de pesquisa
feito por Lucas antes da redação de suas
anotações evangélicas:

"Com delicadeza extrema, Paulo visitou a


Mãe de Jesus na sua casinha singela, que
dava para o mar. Impressionou-se fortemen-
te com a humildade daquela criatura simples
e amorosa, que mais se assemelhava a um
anjo vestido de mulher. Paulo de Tarso inte-
ressou-se pelas suas notícias cariciosas, a
respeito da noite do nascimento do Mestre,
gravou no íntimo suas divinas impressões e
prometeu voltar na primeira oportunidade, a
fim de recolher os dados indispensáveis ao
Evangelho que pretendia escrever para os
cristãos do futuro. Maria colocou-se à sua
disposição, com grande alegria.
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 23
O projeto deste Evangelho continou a ser
alimentado, mas dificultado pelas viagens
constantes do apóstolo.

Estando preso na Cesaréia, Paulo resol-


veu encarregar Lucas da redação.

A esse tempo, o ex-doutor de Jerusalém


chamou a atenção de Lucas para o velho
projeto de escrever uma biografia de Jesus,
valendo-se das informações de Maria;
lamentou não poder ir a Éfeso, incumbindo-o
desse trabalho que reputava de capital im-
portância para os adeptos do cristianismo. O
médigo amigo satisfez-lhe integralmente o
desejo, legando à posteridade o precioso
relato da vida do Mestre, rico de luzes e es-
peranças divinas.

Por isso o Evangelho de Lucas é também


considerado como o EVANGELHO DE MARI-
A."
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 24
Emmanuel, em "Paulo e Estevão"
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 25

A OPINIÃO DE CHICO XAVIER SOBRE A


OBRA DE JEAN-BAPTISTE ROUSTAING

Há quem desconheça a opinião do mis-


sionário de Pedro Leopoldo sobre a obra "Os
Quatro Evangelhos" e seu organizador, Rous-
taing. Em sua obra "Testemunhos de Chico
Xavier" (Ed. FEB), Suely Caldas Schubert
comenta alguns episódios da vida e obra do
querido médium relacionadas ao assunto,
que refletem bem seu pensamento sobre o
tema. Reunimos algumas:
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 26
"Aguardo, com justificado interesse, o teu
trabalho sobre Kardec-Roustaing. Deve ter
sido um esforço exaustivo, mas muito lindo,
o de procurar notícias das relações de am-
bos, nas publicações do "Espiritismo jovem".
Creio que esse trabalho, do qual te ocupas
agora, é de profunda significação para o
nosso movimento. Esperarei o "Reformador",
de outubro próximo, ansiosamente."

(Carta de Chico Xavier ao então presiden-


te da FEB, Wantuil de Freitas, a 15 de se-
tembro de 1946, a propósito de um estudo
de autoria de Wantuil, publicado na edição
de outubro do mesmo ano em "O Reforma-
dor")

"Sinto inveja da leitura que vens fazendo


com o Ismael da "Revue Spirite". Deve ser
um encanto entrar em contato com essas
coleções antigas. Creio que estás fazendo
esse trabalho com a inspiração de nossos
Maiores. Creio, não - tenho a certeza disso.
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 27
Que possamos recolher muitos frutos dessa
tarefa abençoada é o meu desejo muito sin-
cero.

Aguardo tuas notícias novas sobre a revi-


são do "Roustaing". Não te excedas nesse
serviço. Das 7 às 23 horas é demais. Res-
guarda teus órgãos visuais. Lembra-te de
que a tua família espiritual hoje é enorme. "

(Idem, com data de 25 de setembro de


1946, ainda sobre o mesmo assunto)

Chico comenta, ainda uma vez, em cor-


respondência com data de 29 do mesmo
mês, a nova edição da obra de Roustaing:

"(...) Aguardo com muito interesse a no-


va edição do "Roustaing". Constituirá um
grande serviço à Causa da Verdade e do
Bem, nos moldes de que me tens dado notí-
cias."
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 28
Sobre o trecho de Roustaing em "Brasil,
Coração do Mundo, Pátria do Evangelho"

"Não te incomodes com a declaração ha-


vida de que o trecho alusivo a Roustaing, em
"Brasil", foi colocado pela Federação. Quan-
do descobrirem que a Casa de Ismael seria
incapaz disso, dirão que fui eu. De qualquer
modo, eles falarão. O adversário tem sempre
um bom trabalho - o de estimular e melhorar
tudo, quando estamos voltados para o bem."

(Carta de Chico para Wantuil, de 25 de


março de 1947).

O presidente da FEB da-lhe algumas in-


formações sobre o caso, também por corres-
pondência. Chico agradece, em nova missi-
va, esta última de 15 de abril do mesmo a-
no:

"Agradeço as notícias que me deste, rela-


tivamente ao caso da acusação havida quan-
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 29
to ao livro "Brasil". Deus te proteja em teu
ministério de supervisão espiritual."

Meses mais tarde, ambos retornam ao


assunto, dessa vez falando sobre uma nova
edição desta obra. Wantuil enviara a Chico
um exemplar com pequenos ajustes de reda-
ção, mas estava especialmente preocupado
com a polêmica surgida sobre o trecho refe-
rente a Roustaing, e avaliava a possibilidade
de adiar-se um pouco a nova tiragem, ou
mesmo de submeter o trecho à revisão do
autor espiritual. Chico discorda, e apresenta
sua ponderação com um misto de gentileza e
energia, em correspondência de 24 de agos-
to de 1947:

"Nosso gesto poderia traduzir, para mui-


tos, temor ou excessiva consideração para
com o bloco que nos acusa de interpolar os
textos mediúnicos, porque não tendo havido
uma providência desta, em qualquer edição
dos livros recebidos em Pedro Leopoldo,
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 30
desde a publicação do "Parnaso", há quinze
anos, a mudança seria extremamente cho-
cante."

... mas, humilde, deixa a decisão final pa-


ra o então presidente da Casa de Ismael,
assinalando:

"De uma coisa poderemos estar certos - é


de que nunca estaremos livres da persegui-
ção e da leviandade dos nossos adversários
gratuitos. Mais vale recebê-los com paternal
vigilância que dispensar-lhes excessiva con-
sideração.(...)"

Sobre a revisão geral do texto, de natu-


reza lingüística, Chico agradece a dedicação
de Wantuil em nova carta, enviada apenas
seis dias depois:

"Restituí-te o livro ontem com todas as


corrigendas que fizeste e podes crer que es-
ses reajustamentos e todos os outros que
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 31
puderes fazer, no "Brasil, Coração do Mun-
do" e em todos os outros livros, representam
motivo de imenso prazer e de indefinível
conforto para mim.Deus te recompense."

Em outubro de 1947, Wantuil publica em


"O Reformador" um esclarecer artigo sobre a
questão do corpo fluídico de Jesus, um dos
pontos mais importantes da obra "Os Quatro
Evangelhos". Chico elogia o trabalho feito em
missiva de 13 de novembro...

"Considero muito valiosa a página "Corpo


Fluídico?", do Reformador de outubro próxi-
mo passado. É de autoria de quem? Trata-se
de um trabalho condensado de grande ex-
pressão educativa."

... e ainda reforça o elogio em outra, de


22 do mesmo mês:

"Minhas felicitações pela encantadora e


substanciosa página "Corpo Fluídico?". Creio
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 32
que deves continuar a produzir trabalhos
semelhantes para a nossa edificação geral."

1951... 15 de março. Os filhos de Wantuil


seguem para a Europa em tarefa espírita.
Vão a Bordéus (cidade de Roustaing) e Paris,
em missão de pesquisa. Chico alegra-se com
a notícia:

"Estou muito contente com a partida dos


teus rapazes para a Europa. Será um grande
serviço à nossa Causa a visita a Bordéus e
Paris. Observador quanto é, Zêus pode trazer
muito material informativo edificante para
nós no Brasil, mormente no que se refere à
obra de Roustaing. Também lastimo que o
tempo dos dois estimados viajantes seja tão
curto lá."

Em 1952, 23 de outubro:

"Minhas felicitações pelo teu belo traba-


lho com a obra de Roustaing. Está realizando
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 33
um serviço de grande importância para o
nosso ideal."

Em março de 53, Chico demonstra curio-


sidade sobre as vendas das obras de Kardec,
Roustaing e dos grandes pioneiros de nossa
doutrina - Léon Denis, Flammarion e Dellane
- ressaltando seu valou doutrinário:

"Tendo em alta conta e profunda estima


a obra de Kardec e de Roustaing e dos gran-
des pioneiros que foram Léon Denis, Flam-
marion e Delanne, ficaria muito contente e
agradecido se me desses a conhecera esta-
tística sobre a penetração dos livros que nos
legaram, em nossa Pátria, caso tenhas essa
estatística com facilidade. Considero essa
penetração muito importante para o traalho
de nossa Consoladora Doutrina, no Brasil."

Wantui envia-lhe os dados requeridos.


Chico agradece, a 27 de junho do mesmo
ano:
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 34

"Grato pelas notícias dos grandes pionei-


ros Roustaing, Denis, Flammarion e Dellane.
Se a "Revue Spirite" algo publicar, esperarei
tuas notícias."

*****

É o que conseguimos reunir. Acreditamos


que os depoimentos falam por si retratando,
com clareza, o carinho do amado Chico em
relação a Roustaing e à sua obra - "Os Qua-
tro Evangelhos".
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 35

A OPINIÃO DE DR. BEZERRA DE MENE-


ZES, QUANDO ENCARNADO, SOBRE A
OBRA "OS QUATRO EVANGELHOS"

"O Espiritismo não é, com julgam os pa-


dres ser a revelação messiânica, a última
palavra sobre as verdades que Deus, em seu
amor pela humanidade, faz baixar do céu à
Terra.

Enquanto o homem não chegar ao último


grau da perfeição intelectual, o de penetrar
todas as leis da criação, a revelação não
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 36
chegará a seu termo, pois que ela é progres-
sivamente mais ampla, na medida do desen-
volvimento da faculdade compreensiva do
homem.

O Espiritismo, pois, tendo dado mais do


que as anteriores revelações, muito terá ain-
da que dar, porque muito terá ainda que
progredir a humanidade terrestre.

Allan Kardec, Espírito preposto por Jesus


para reunir em um corpo de doutrina ensinos
confiados, pelo mesmo Jesus, ao Espírito da
Verdade, constituído por uma legião de Altís-
simos Espíritos, só apanhou o que estes de-
ram - e estes só deram o que era compatível
com a compreensão atual do homem terreal.

Mas o homem, como já foi dito, não ces-


sa de desenvolver a sua faculdade compre-
ensiva e, pois, os principais fundamentos da
revelação espírita, compreendidos nas obras
fundamentais de Allan Kardec, tendem cons-
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 37
tantemente a se alargar em extensão e com-
preensão, como ele mesmo veio alargar os
princípios fundamentais do ensino ou revela-
ção messiânica - e como esta veio alargar os
da revelação mosaica.

A Allan Kardec sobrevivem outros missio-


nários da verdade eterna que, sem destruir a
obra feita, porque esta é firmada na lei e a
lei é imutável, darão mais luz, para mais lar-
go conhecimento das faces mais obscuras
daquela verdade.

Eis aí que já apareceu Roustaing, o mais


moderno missionário da lei, que em muitos
pontos vai além de Allan Kardec, porque é
inspirado como este, mas teve por missão
dizer o que este não podia, em razão do a-
traso da humanidade.

Não divergem no que é essencial, mas


sim nos modos de compreender a verdade,
porque esta, sendo absoluta, nos aparece
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 38
sob mil fases relativas - relativas ao nosso
grau de adiantamento intelectual e moral,
que um não pode dispensar o outro, como as
asas de um pássaro não se podem dispen-
sar, para o fim de ele se elevar às alturas.

Roustaing confirma o que ensina Allan


Kardec, porém adianta mais que este, pela
razão que já foi exposta acima.

É, pois, um livro precioso e sagrado o de


Roustaing..."

(Bezerra de Menezes - em "A Gazeta de


Notícias, de 22/04/1897, respondendo a um
leitor acerca da obra "Elucidações Evangéli-
cas", de Antônio Luiz Sayão, que resume
num único volume o conteúdo da obra de
Roustaing)
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 39

A OPINIÃO DE DR. BEZERRA DE MENE-


ZES, DEPOIS DE DESENCARNADO, SO-
BRE A OBRA "OS QUATRO EVANGE-
LHOS"

Houve uma época em que levantou-se


dúvida sobre se Doutor Bezerra de Menezes
teria mantido sua opinião favorável à obra
"Os Quatro Evangelhos", de João Baptista
Roustaing, depois de desencarnado.

Em sua obra "Ponte Evangélica", de


1984, nosso amigo Jorge Damas publicou um
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 40
caso que trouxe luz definitiva sobre o tema
(pág.36-46). Confira:

"No dia 18 de fevereiro de 1891 fundou


Dr. Bezerra de Menezes o Grupo Espírita Re-
generação, com o objetivo da "prática da
caridade cristã e a propaganda da Doutrina
Espírita, dentro dos moldes da legítima fra-
ternidade e da máxima tolerância...". Sua
idéia inicial era de que este Grupo se corpori-
ficasse dentro da Federação Espírita Brasilei-
ra, onde fora fundado, para que, mais tarde,
se constituísse estatutariamente e marchasse
independentemente.

Desde suas primeiras reuniões, o Dr. Be-


zerra de Menezes instituiu o estudo baseado
nos "ensinamentos do Evangelho, de Nosso
Senhor Jesus Cristo, nas instruções da codifi-
cação de Allan Kardec, na Revelação da Re-
velação de J.-B. Roustaing.
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 41
Após a desencarnação do Dr. Bezerra de
Menezes, em 11 de abril de 1900, o Regene-
ração continuou o trabalho, implantado por
seu fundador. Enquanto isto, alguns adversá-
rios de Roustaing divulgavam, entusiastica-
mente, que o "Kardec Brasileiro" havia reco-
nhecido o seu "engano" em adotar o estudo
sistemático, Kardec-Roustaing, encontrando
a "verdade definitiva"somente em Kardec.

Em 1952, o Dr. Alcides de Castro, grande


continuador de Bezerra de Menezes, no Re-
generação, sentiu a necessidade de organi-
zar um estatuto. Recorreu a Chico Xavier, a
fim de obter uma orientação espiritual, que
viesse ao encontro do seu objetivo. Bezerra
de Menezes, então, se manifestou afirmando
que ditaria todo o estatuto, através da medi-
unidade segura do então presidente do Gru-
po, Dr. Alcides.

Preparou-se, assim, o nosso Alcides para


a tarefa de tão grande responsabilidade.
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 42
Quando terminou, levou o trabalho a Chico
Xavier, através de quem obteve reconheci-
mento da espiritualidade, quando à autenti-
cidade do estatuto, ditado por Bezerra de
Menezes. Para sua surpresa, o próprio Bezer-
ra de Menezes, através do lápis missionário
de Chico Xavier, subscreveu o estatuto, sen-
do acompanhado por outras entidades, ami-
gas do Grupo, que da mesma forma se mani-
festaram participando da festa espritual da
independência do "Regeneração".

(...) logo na primeira página do estatuto,


Bezerra de Menezes (desencarnado) reco-
menda o estudo obrigatório, interno e publi-
camente, da obra "Revelação da Revelação",
de J.-B. Roustaing, com o leitor poderá ob-
servar nas cópias anexas".
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 43

PELO FRUTO SE CONHECE A ÁRVORE

Conheça a médium Émilie Collignon


da obra "Os Quatro Evangelhos"

Nasceu na Bélgica, em 1820. Conhecida


apenas por Madame E. Collignon, Émilie figu-
ra em comunicados de Kardec na Revue Spi-
rite, em 1864 e 1865, e em notas, na mesma
revista, no período de 1870 a 1876, mas só
agora começa a ter seus dados biográficos
levantados.
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 44
Sabe-se hoje que se nome completo era
Émilie Aimée Charlotte Bréard Collignon. Ca-
sou-se com o Sr. Charles Paul Collignon e
teve um filho, aos 36 anos, batizado como
Henri Paul François Marie Collignon, conside-
rado, à época, um dos mais simpáticos pre-
feitos da França.

Émilie Collignon começou a psicografar


mecanicamente "Os Quatro Evangelhos" em
1861, aos 41 anos de idade, ano em que
conheceu o Sr. Roustaing.

Além da obra "Os Quatro Evangelhos",


recebida entre 1861 e 1865, ela publicou
mais quatro brochuras, quase todas voltadas
à educação, no seu sentido mais profundo.
Contribuiu com várias comunicações mediú-
nicas para a codificação da Doutrina Espírita.

Kardec, como educador emérito, comenta


sua obra "Conselhos às mães de Família", na
Revue Spirite de 1864, afirmando, entre ou-
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 45
tros comentários, ter a "satisfação de apro-
var este trabalho sem reservas", por tratar-
se de "linguagem de um espírito elevado" e
que "a educação, nesta brochura, é encarada
sob seu verdadeiro ponto de vista em rela-
ção ao desenvolvimento físico, moral e inte-
lectual da criança, considerada desde o ber-
ço até sua situação no mundo", constituindo
assim, "uma obra digna de toda atenção".

Madame Collignon também dedicou-se


com ardor às obras assistenciais. O caso da
escola que tentou abrir para recolher meni-
nas das ruas de Bordeaux é, certamente, um
bom exemplo de seus esforços nesse sentido
e da generosidade de seu coração.

Seus apelos aos espíritas, em busca de


recursos, através da Revue Spirite, não obti-
veram os resultados necessários. A França
vivia então dias difíceis, com a economia a-
balada pelos efeitos da guerra franco-
prussiana.
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 46

Émilie, no entanto, não se deu por venci-


da. Sua grandeza de espírito e retidão de
caráter podem ser avaliadas pela sua deter-
minação em servir ao próximo, mesmo na
adversidade. Malogrado seu projeto, doou o
dinheiro arrecadado para uma obra similar e
para uma creche, fundadas por maçons,
passando a colaborar na sua direção.

É o que se poderia esperar, realmente,


de um espírito tão sensível e tão comprome-
tido com a causa do bem e a vivência dos
princípios evangélico-doutrinários...

Émilie Collignon desencarnou em 1902,


aos 82 anos.
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 47

DISCURSO PRONUNCIADO PELO SR.


BATTAR, BASTONÁRIO DA ORDEM DOS
ADVOGADOS DE BORDEAUX, FRANÇA,
POR OCASIÃO DAS EXÉQUIAS DE JEAN-
BAPTISTE DE ST-OMER ROUSTAING
(04/01/1879):

"Senhores e caros confrades,

Mal acabamos de entrar no ano novo,


somos chamados diante deste túmulo, no
umbral da eternidade, para dar nosso derra-
deiro adeus a um confrade que nos deixa, e
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 48
que leva, com todas as nossas saudades,
muitas lembranças do passado.

Após longo tempo afastado do Palácio,


em virtude da deterioração de sua saúde,
pertencendo a uma geração cujas classes se
misturam a cada dia, ele era pouco conheci-
do da maioria de vós, ainda que jamais ti-
vesse vontade de abandonar a advocacia.
Contudo é bom que sua memória vos seja
lembrada, pois ela oferece um exemplo no-
tável do que pode o amor ao trabalho, aliado
a uma firme vontade, jamais desmentida,
para vencer os obstáculos acumulados ao
longo de sua vida.

Nascido em Bordeaux, em 1805, de uma


família de poucos recursos, Jean-Baptiste
Roustaing foi matriculado no Liceu da cida-
de, onde recebeu uma educação boa e sóli-
da. Mas, ao sair do colégio, era preciso esco-
lher uma carreira, e os sacrifícios, que seu
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 49
pai se havia imposto para lhe ajudar, haviam
chegado ao fim.

Nessa ocasião, ao lado de nomes que


lembram um passado glorioso, e que se tor-
nariam célebres, o quadro da Ordem conti-
nha outros, cheios de promessas brilhantes
para o futuro.

O jovem Roustaing foi inflamado de no-


bre emulação e, a exemplo de um pintor
ilustre, ele disse sobre si próprio: "E eu tam-
bém terei um lugar neste quadro". Resoluto,
ele partiu para Toulouse, não contando com
ninguém, a não ser ele próprio, para conti-
nuar seus estudos. Tornou-se professor para
poder se transformar em estudante. De um
lado, ele ensinava matemáticas especiais,
obtendo, assim, os recursos necessários para
fazer face às despesas com taxas de inscri-
ções e às necessidades de sua vida; de ou-
tro, seguia assiduamente os cursos da Escola
de Direito.
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 50

Conhecendo qual o preço do tempo, ele


se empregava inteiramente, e logo obteve
todos os seus diplomas. Pôde, então, voltar a
Bordeaux e ao seio de sua família.

Tinha, finalmente, alcançado o objetivo


de todos os seus desejos: tinha estudado, no
intervalo, procedimentos legais em um dos
melhores centros de estudo de Paris; tinha-
se munido de todas as peças e se lança com
ardor nas lutas do palácio e consegue logo
seu lugar.

Trabalhador infatigável, secundado por


uma viva inteligência e excelente memória,
ele analisava as causas até as últimas etapas
de profundidade do direito. Seu caráter labo-
rioso e perseverante se revelavam em toda
parte, nas suas audiências e nos seus escri-
tos.
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 51
Muito honesto para procurar desnaturar
fatos, a fim de acomodá-los às necessidades
de sua defesa, ele os aceitava em sua reali-
dade, tal como se ofereciam a ele, e procu-
rava com cuidado quais eram os princípios
de direito aplicáveis às suas causas. O terre-
no do direito era o campo de batalha a que
se afeiçoara, e sobre o qual tinha prazer de
chamar seus adversários. Era aí que desen-
volvia todos os recursos de uma ciência
completa, e que dava provas de prodigiosa
fecundidade.

Quando acreditava ter obtido uma visão


definitiva, ele a seguia até o fim, sem jamais
desencorajar, e não parava a não ser diante
de uma impossibilidade absoluta.

Para atingir seu objetivo, nada o conti-


nha; as mais prolongadas e penosas pesqui-
sas eram para ele, poder-se-ia dizer, um
prazer. Quantas noites passou mergulhado
em suas meditações, pesquisando autores e
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 52
compilações diversas para extrair o que po-
deria servir às suas defesas. E quando, no
dia seguinte, chegava à tribuna, surpreendia
seus adversários com a variedade de seus
recursos. Quantas vezes ele, assim, com
uma inspiração feliz pela descoberta impre-
vista, recuperara causas aparentemente de-
sesperadas; quantas vezes fez triunfar mé-
todos que, à primeira vista, poderia parecer
fortemente duvidosos, mas que ele funda-
mentava no direito e nas autoridades mais
importantes.

Foi assim que ele conquistou na advoca-


cia uma das situações mais prestigiadas e,
ao mesmo tempo, uma modesta fortuna,
mas suficiente para seus gestos simples e
seu coração desprovido de ambição. Ele re-
servava mesmo grande parte para empregar
em abundantes esmolas.

Não vos surpreenderíeis, senhores, se eu


acrescentasse que foi também, por ter ganho
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 53
a afeição e estima de seus confrades que,
em 1848, nomearam-no bastonário da Or-
dem e lhe conferiram, por sufrágio, a mais
alta distinção àquele que jamais a aspirara.

Depois, chegou o dia em que esse arden-


te organismo achou-se quebrado pelo exces-
so de trabalho, onde a atividade do espírito
foi vencida pelo esgotamento do corpo. Em
torno de 1860, sua saúde, profundamente
alterada, obrigou-o a se afastar da vida mili-
tante da advocacia, e a se recolher a seu
interior, onde sua inteligência ainda se fazia
sentir sobre matérias de direito e sobre ou-
tros assuntos. Mas desejava sempre continu-
ar advogado, e conservava com amor sua
beca que, nesses momentos de ilusão, habi-
tual entre doentes, jactava-se, algumas ve-
zes, de poder retomar suas antigas ativida-
des. A partir desse momento, ele se liberou,
com mais desprendimento que antes, de su-
as atividades de beneficência e caridade,
tanto na cidade como no distrito de Targon,
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 54
onde possuía uma propriedade. Assim, du-
rante três anos, com a colaboração de um de
seus vizinhos de campo, ele sustentou e
manteve, até seus últimos momentos, um
pobre morador que ficou enfermo em conse-
qüência de grave acidente. Em Bordeaux,
prestava socorro a infelizes, e sua morte,
para eles, seria grande perda; pode-se dizer
que ele será pranteado pelos pobres.

Há dois meses apenas, conduzimos ao


lugar de repouso os despojos mortais da
companheira de sua vida e de suas boas o-
bras; ele sobreviveu pouco tempo; parece
que a morte se apressava em reuní-los. De-
vemos esperar que esteja em um mundo
melhor, e que existência tão bem vivida, tão
honesta e tão generosa receberá sua recom-
pensa.

Segundo bela expressão de um de nossos


ilustres antecessores, o homem que deixa
este mundo só leva consigo o que ele deu;
Esclarecimentos sobre Jean-Babtiste Roustaing 55
as lágrimas dos infelizes que nosso confrade
secou com seu consolo e suas benemerên-
cias, as que o reconhecimento fez derramar
em seu túmulo, serão acompanhadas até
diante do Juiz Supremo."

Jornal de Bordeaux, 06 de janeiro de 1879

Fonte: http://www.casarecupbenbm.org.br/museu/museu.html