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URBANIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO:

A FRAGMENTAÇÃO DO ESPAÇO
E DA PERSONALIDADE 1
A m élia Luisa Dam iani

RESUM O :
A proposta deste artigo é perseguir um cam inho de com preensão do tema proposto, norteado pela com plexida­
de do trabalho de Milton Santos, especialm ente no livro A n a tu re z a do Espaço; assim, iniciando por considerar
a potência m etodológica deste trabalho como eixo principal. O movimento do desvendam ento da tem ática
geográfica, a pertinência do encadeam ento dos temas, pretende não subestim ar os pressupostos filosóficos
que definem uma concepção de totalidade, que orienta o significado do tem ário geográfico, não conceber esse
m ovim ento pode criar um processo de vulgarização de sua análise, com conseqüências quanto ao sentido das
possibilidades e da ação renovadora, que lhe são conclusivas.
PALAVRAS-CHAVE:
fragm entação, totalidade, lugar, ação, cidadão.

RÉSUM É:
Le but de cet article consiste en suivre un parcour de compréhension des idées regi par la com plexité de 1'ouvre
de Milton Santos, partfculièrem ent dans le livre La nature de L'Espace. De cette façon, dês le début, 1'axe
principal est la prise en c nnsidération de la puissance méthodologique de ce travail. Le m ouvement de décryptage
des thém es géographiques, de leur enchevitrem ent, vent que les fondements philosophiques soient soulignés
ainsi que la rencontre de la conception de totalité, qui donne leur signification. Ignorer ce m ouvem ent peut
consolider un processus de vulgarisation de son analyse, avec des conséquences concernant le sens des possibilités
et de Faction rénovatrice qui leur sont décisives.
MOTS-CLÈS:
fragmentation, totalité, lieu, action, citoyen.

A questão central que move minha inda­ porque capturada por uma disciplina, a Geogra­
gação, neste momento, é a da totalidade. Há mui­ fia. Assim, na forma de incôm odo li a noção de
to me incom oda uma leitura possível de alguns Milton Santos de formação sócio-espacial. Não a
escritos geográficos mais atuais - como os da Ci­ concebia mais abrangente que a noção de for­
ência Espacial e o estudo dos padrões e siste­ mação econõmico-social, porque apontava a ne­
mas -2, ou, inclusive, passagens do trabalho do cessidade de pensar o significado do espaço, ao
prof. Milton Santos, que aproximava a noção de contrário, ela me aparecia redutora. As notas de
estrutura daquela de totalidade, preterindo a idéia rodapé remetiam, neste caso, a marxistas estru-
de form ação, de história, claram ente ou não. Vis­ turalistas, que a história dem onstrou com o equi­
lum brava uma versão estrutural do marxismo, e, vocados. Por outro lado, o sentido de tudo que
até, uma leitura vulgarizada do estruturalismo, vivem os parece sugerir uma força reprodutora

Professora do Departamento de Geografia da FFLCH/USP


Depto. de Geografia: Av. Professor Lineu Prestes, 338 - Cidade Universitária - Butantà - SP - C EP 05508-900
20 Revista G EO U SP, N° 5 p. 19-25 Amélia Luisa Damiani

inesgotável, que pode real ou m etaforicam ente, da com preensão do desm antelam ento da rede
rem eter à idéia de globalização, reprodução que urbana com a m odernização tecnológica e a ten­
atualiza essa literatura estrutural e a torna o fici­ tativa de com preender a dialética entre os fato­
al. Ela reina no m ercado, no cotidiano, até no res de concentração e de dispersão, que ap are­
im aginário. Mas ela está com prom etida com o ce no livro O Espaço Dividido. A estrutura apare­
eterno presente, não com o devir. Politicam en­ cia móvel, provisória, também como desestruturação.
te, é o o u tro do saber crítico. Em relação à urbanização, configurando uma teo­
A noção de totalidade não envolveria, en­ ria crítica sobre a urbanização nos países po­
tão, a de estru tura? Certam ente envolve, mas bres, alternativa aos m odelos consolidados e de­
num p ro cesso com plexo entre estruturação e m asiadam ente inseridos nas estratégias políti­
desestruturação. Mão é a idéia de com posição, cas e econôm icas de exploração dos países po­
articulação ou equilíbrio permanente, aquela que bres, tive a oportunidade de tentar pensar, mais
a alim enta, mas a de negação, de movim ento. globalm ente, à propósito do Sim pósio sobre sua
"O pensam ento dialético segue a form ação do obra, realizado em 1996, em São Paulo.4 O que
todo a partir das contradições, com o momento para mim é mais caro é a idéia de econom ia ur­
e fase de seu d esenvolvim en to."3 bana segm entada, que move a interpretação da
A estrutura é sempre provisória, "ameaçada, existência de um crescim ento eco n ôm ico que
minada em seu interior, pela negação" e a totali­ supera o crescim ento populacional, rebaixando
dade envolve o todo em m ovim ento, "nunca fe­ o rendimento médio e expandindo empregos mal
chado, nunca term inado" Além disso, prenhe remunerados, fruto das diversas tem poralidades
de desigualdades. Trata-se do desenvolvim ento do capital. Dela eu me apropriei sedenta de aju ­
desigual, com o motriz. O desenvolvim ento de­ da para com preender o significado do urbano
sigual não rem ete a uma fatalidade, um destino no processo de acum ulação global do capital. O
irreparável, com o a concepção de subdesenvol­ acento sendo nas diversas tem poralidades do
vim ento, em certo m om ento, parecia apontar; capital, no seu processo reprodutivo desigual,
mas às d iferen ças reais, aos níveis diversos, nega, portanto, a dicotom ía do atrasado e do
co n ten d o , tam bém , inúm eras po ssib ilidades, moderno. Configura a com preensão da m oder­
quase im previstas. nização perversa e seu papel estratégico. O novo
O desenvolvim ento desigual entre o eco­ reinventa o "velh o " e dele se vale, com o face
nôm ico, o político e o social. obscura do m oderno, que não só se move por
É sempre possível a crítica, mas quando a lta s te c n o lo g ia s , m as p e la e x p lo r a ç ã o e
eia não persegue a obra de um autor, ela pode clandestinização do trabalho, definida por Alain
ser parcial, chegando m esm o ao nível do pre­ Lipietz com o flexibilização do trabalho. Pesso­
conceito. Porque ela não acom panha o projeto alm ente, estudo a urbanização configurando um
m aior que alim enta cada trabalho, cada m om en­ setor produtivo extrem am ente com plexo e es­
to do percurso pretendido. E o sentido de nos­ tratégico para a reprodução do capital, reprodu­
sa época, o sentido hegemônico, é aquele de zindo um proletariado, que sequer se reconhe­
inform ar, o am ontoado das produções sugere ce como trabalhador, dados os term os crassos
isso, e não, exatam ente, c o n h e ce r. As inform a­ da exploração que sofre. Essa produção do es­
ções, produzindo retóricas, substituem o saber, paço define-se, prim ordialm ente, nas, e a partir
o conhecim ento. das, grandes cidades. A elasticid ad e dos lucros,
Q uanto ao trabalho do prof. Milton Sa n ­ nesses negócios econôm icos, define, nas c id a ­
tos, do qual não sou uma conhecedora, eis o des, a reprodução de um cap italism o rentista,
infinito lim ite, um m om ento para mim precioso, em nosso país. Moção configurada por Jo s é de
de aproxim ação e não de distanciam ento, é o Souza Martins, tendo com o universo de re fle ­
Urbanização e globalização: a fragmentação do espaço e da personalidade 21

xão, e sp e cia lm en te, o cam po e as atividades m o d e lo da d iv is ã o t é c n ic a do tr a b a lh o , à


rurais. racionalidade sem fissuras, mas ela é lida à luz
Ainda a destacar, de forma introdutória, da divisão social do trabalho, com portando o ale­
os term os definidos por Milton Santos da moder­ atório. A redução da divisão territorial do traba­
nização incom pleta e perversa, que atinge os pa­ lho à divisão técnica do trabalho não é som ente
íses pobres, e os resíduos transformadores, que um ato de incom preensão; revela uma leitura
detém, no interior da pobreza e dos espaços po­ possível, em bora restringida, porque, no nível da
bres, numa dem onstração da lei do desenvolvi­ prática, e, portanto, também, do pensam ento, a
m e n to d e s ig u a l, p ara a lé m de um a le itu ra divisão técnica aparece como m odelo, generali­
econom icista. Admite-se o desencontro entre o za-se e transcende a fábrica. Esta é uma m aneira
econôm ico e o social, um não sendo, estritam en­ de com preender o cotidiano colonizado, estuda­
te, o reflexo do outro. E, ainda, que o social, "mar­ do por Henri Lefebvre.
ginalizado" do econôm ico mais moderno, não re­ A fragm entação, para Milton Santos, é
presenta, exatam ente, atraso, "ações arcaicas, lida dialeticam ente, a partir de Sartre, prim ordi­
irracionais e ineficientes" o que manteria um ca­ alm ente:
ráter etnocêntrico e ideológico, mas revela pos­ "A m etam orfose do real-abstrato em real-
sibilidades, a força dos "lentos" os espaços da concreto, da essência em existência, da potên­
c ria tivid a d e , o descon forto criador, a esfera cia em ato é, consequentem ente, a m etam orfo­
com u n icacion al.5 se da unidade em m ultiplicidade" A fragm enta­
Retom ando o tema da totalidade, ela apa­ ção é a realização da totalidade, com o proces­
rece, em A Natureza do Espaço, nos termos de so, e não, estritam ente, estrutura, simultanei-
Sartre, com o totalidades em movimento. "A tota­ dade. E equivale a um processo "pelo qual o todo
lidade estruturada é, ao mesmo tempo, uma to­ se torna um outro todo...um processo de an áli­
talidade "perfeita" acabada, um resultado e uma se e de síntese ao mesmo tem p o ."8 O que equi­
totalidade in-fieri, em movimento, um processo."6 vale a alterar, profundam ente, a interpretação
Conviveriam a totalidade produzida e em produ­ da fra g m e n ta ç ã o do todo, p o te n c ia liz a n d o ,
ção, num incessante processo de totalização, de­ metodológicamente, o movimento entre o todo
finindo-se com o incom p leta. Utilizando-se de e as partes, e, dialeticam ente, transform ando a
W hitehead, Milton Santos define "o presente imi­ parte, ao mesmo tempo, em totalidade. A totali­
nente, inconcluso, não apenas projeto e não ain­ dade em movimento é além de uma integral, um
da realidade term inada...a essência da existên­ diferencial.9 A fragm entação do todo não som en ­
cia reside(indo) na transição entre o já dado e a te é resultante da divisão internacional do tra­
nova solução, pois o presente contém um apeti­ balho, m ovida pela G lobalização, pelo Mundo,
te para um futuro não realizado" 7 Se a paisagem o que eqüivaleria a dizer que o local, o lugar é,
e o território aparecem como totalizaçòes perfei­ apenas, resultado do global, da globalização,
tas, a totalização, que se está fazendo, define o imerso, de forma absoluta na racionalid ad e e
espaço. O espaço com preende, então, a socie­ na com petitividade; mas o lugar realiza concre­
dade global realizando-se com o fenôm eno, a tamente o global, que em si é ab strato .10 "A tota­
especificação do todo social, um aspecto parti­ lidade é, ao mesmo tempo, o real-abstrato e o
cular da sociedade global, a condição do real real concreto. Só se torna existência, só se reali­
concreto. A fragm entação do todo não se define za com pletam ente, através das formas sociais,
estruturalm ente, como divisão de um todo, que incluindo as geográficas." E, ao m esm o tempo,
exige articulação, com posição, nos termos como "os fra g m e n to s de totalidade assim tornados o b ­
apresentam os de início a questão. Não se reduz je tiv o s continuam a in te g ra ra to talid ad e."11 Ape­
a análise da divisão territorial do trabalho ao nas algumas das possibilidades da totalidade se
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tornam realidade. As "determ inações do todo se do lugar, isto é, a resistência do lugar não signifi­
dão de forma diferente, quantitativa e qualitati­ ca, no limite último, a im possibilidade de trans­
vam ente, para cada lugar."12 Em píricam ente (e fo rm ar o g lo b al, que se a p re s e n ta ria co m o
essa é a possibilidade aberta pelos progressos avassalador, indestrutível, e a m udança possível
técnicos e pelas formas atuais de realização da apresentar-se-ia como apenas localizada, fruto de
vida económ ica), o global existe através do local insurgências locais, redução da perspectiva da
13; e assim o lugar, que não é estrita parte do realização do internacional, previsto no século
global e seu reflexo, contrapõem-se a ele; é pos­ XIX, por Marx, restringido no século XX, pela for­
s ib ilid a d e de h is t o r ia , de m o v im e n to , de ça reprodutora da sociedade existente, im previs­
insurgência, de resistência. A explicação não se ta anteriorm ente. A interpretação exige m aior
esgota na elucidação de um m ovim ento vertical, com plexidade. O g lo bal se re a liz a no lugar,
que d e fin a a e s p e c ia liz a ç ã o fu n c io n a l dos co m o p ro c e s s o , h is tó ria e d e v ir. O g lo b a l
subespaços e sua interdependencia, mas envol­ in d e te rm in a d o , determ ina-se no lugar, num
ve um movimento horizontal, em que "as forças m ovim ento d ialético , previsto por íie g e i, e n ­
oriundas do local, das horizontalidades, se ante­ tre o universal e o particular. O m undo d eser­
põem às tendências meramente verticalizantes."14 to, p ro d u z id o p e la m u n d ia liz a ç ã o , a firm a ,
A racionalidade que se impõe, é limitada, porque dialeticam en te, o lugar com o ligação, relação
exclui, econôm ica, social e politicam ente, por­ real, próxima. Contudo, estam os diante de uma
que produz seu inverso, a irracionalidade, ou aporia prática e teó rica: a p o tên cia e o sig n ifi­
m e lh o r, o u tr a s fo rm a s de r a c io n a lid a d e , cado históricos da força do lugar.
racionalidades paralelas e divergentes, daí inclui, A in su rreição dos p a rticu la rism o s, no
c o n tra d ito ria m e n te , a vo n ta d e e a a çã o de Contrato de Cidadania, do Grupo de Mavarrenx,
contrariá-la. Im erso no mundo, o lugar se dife­ aparece como um fenôm eno anti-estatista, pro­
rencia, é a g lo c a lid a d e de George Benko, citado põe a deterioração do Estado, a negação do E s­
por Milton S a n to s.15 E a grande cidade é, neste tado colado na econom ia m undializada, o reco­
sentido, o mais significativo dos lugares, "é o n h e cim e n to dos e s p a ço s de d ife re n ç a e de
espaço onde os fracos podem subsistir" consti­ alteridade e, ao m esm o tem po, apresenta-se
tuindo subsistem as de cooperação, diversos da como a em ergência possível de despotism o, de
cooperação de tipo hegemônico, e de solidarie­ dom inante tradicionalista com elem entos reli­
dade, criando formas de sobrevivencia e vida giosos, nacional-populistas, etc. Mão pode ser
extremamente plásticas, adaptáveis, criativas, nas lida, portanto, sob as luzes de um progressism o
zonas urbanas "opacas" abertas, não estritamen­ universalista; pode reproduzir micro-absolutis-
te invadidas pela lum inosidade restringida da mos, recusando a legitim idade da diferença e
ra c io n a lid a d e té c n ica , ra cio n a lid a d e té c n ica do diverso, e sem potência para contrapor-se à
reprodutora de uma mecânica rotineira e sem sur- ordem mundial, senão sim b o licam e n te.18 Con­
presas, de urna cultura de massa uniforme e siderei, pessoalm ente, a interpretação do lugar,
indiferenciada -.16 Dialeticamente, as cidades in­ tam bém , com o p a r tic u la r iz a ç à o , seg reg ação ,
cluem , além dessa cultura de massa, que aí tem privação, o limite do homem privatizado do co ­
seu am biente propício e, ao mesmo tempo, des­ tid ian o .19
prezado, pois ela é indiferente à ecologia social, Esses m ovim entos podem, tam bém , re­
uma cultura popular, com raízes na terra, onde fletir uma resistência potente, ainda em curso,
se vive, encarnando a vontade de enfrentar o da qual não vislum bram os os resultados. (Pen­
futuro, sem romper com o lugar.17 sam ento sugerido por E. J. Hobsbawm , em arti­
E, assim, podemos esclarecer, a partir go reproduzido pelo Jo rn a l "Folha de S. Paulo"
dessas últimas observações, o a lca n ce m u n d ia l com data desconhecida).
Urbanização e globalização: a fragmentação do espaço e da personalidade 23

Considerem os a interpretação de Milton massa, mais ainda, aparecendo com o superação,


San tos sobre os lugares com o um interm édio en­ negação da negação do pobre, privado de co n ­
tre o Mundo e o Indivíduo, reproduzindo a possi­ sumo. Então, ele não é som en te p rivação no
bilidade de com unhão. Quanto às grandes cida­ presente, ele é futuro criador. E as grandes c i­
des, principalm ente, a idéia não é a do domínio dades assim o revelam , com o co n sciên cia das
e da generalização absolutos da heteronom ia so­ im possibilidades e direito de ver e com preender.
cial, da alienação regional, fruto das demandas Os "pobres descobrem o seu verdadeiro lugar,
externas, que levam à ação, governadas por fa­ na cidade e no mundo, isto é, sua posição so ci­
tores, cuja sede é longínqua. As cidades são tam ­ a l."22 Os pobres podem viver a contingência de
bém, e contrariam ente, um espaço de revelação, chegar às classes médias, a de reivin d icar so lu ­
sugerindo um m ovim ento da consciência que se ções tópicas, com o no caso de asso ciaçõ es de
dá conta da cidade pela lógica dos medos, das m oradores, que definem , para Milton San to s,
prem onições, da sensibilidade, aguçada com o uma "ação política espacista, mas não propria­
próprio processo de trabalho; tornada, a seguir, mente e sp a cial."23
uma dúvida m etódica popular, "que constitui a "O trabalho das associações de m orado­
sem enteira de que brotam visões totalizantes."20 res apenas precipita o ciclo, na m edida em que
O ato, a ação é o centro da explicação e tende a facilitar a aquisição da m ercadoria casa,
não se resolve numa praxis repetitiva, mas, tam ­ e sua valorização posterior, incluindo-se no con­
bém, criativa, na constituição do cidadão e da ceito de habitação os serviços públicos que lhes
personalidade forte, na "existência de indivídu­ acrescentam valor. Para ser transcendente, a luta
os solidários tanto ao nível da ação, quanto ao urbana deve enfocar a cidade com o um todo e o
nível da sensibilidade." Os "outros também sen­ indivíduo total."24 Compreendendo que a "indivi­
do n ós" 21 A com preensão não se desenvolve, dualidade som ente se realiza no grupo" Sendo
neste sentido, analisando, de um lado, o consu­ o grupo a condição para adquirir os instrum en­
midor, reduzido à usuário; e de outro lado, a tos de realização eficaz da liberdade. O homem
personalidade forte, ativa, d is tin to s , nos termos livre nasce com a desalienaçáo e se afirm a no
de um dilem a formal: ou um ou o outro. Ma ver­ grupo. O que não garante, ainda, a cidadania, que
dade, o primeiro, o consumidor, contém a segun­ só tem eficácia enquanto categoria tornada ju rí­
da, a personalidade forte, como negação. A ex­ dica, sempre revista e ampliada. Ainda a consi­
plicação desse m ovim ento dialético exige a me­ derar "a diversidade (enorm e) de situações es­
diação da noção de alienação, enquanto duplo paciais de classe" e que uma cidadania concreta
processo, o de alienação-desalienação. São al­ não prescinde do com ponente te rrito rial, por
guns dos term os através dos quais a ação apare­ exemplo, exigindo uma repartição não-mercantil
ce no livro O espaço do cidadão. dos bens e serviços de um lugar.25
A idéia, que move a análise, não é ou cul­ Sobre a personalidade, é possível, e m es­
tura de massa, imersa nas áreas luminosas do mo necessário, discutir os processos de "so ciali­
consum o e do consum ism o, própria às classes zação narcisista" definidos no livro O Contrato
m édias, o u cultura popular, própria aos pobres, de Cidadania, já m encionado. "O narcisism o não
abortados de sua condição de trabalho e de con­ é mais considerado como uma doença individu­
sum o; então, culturas apenas distintas e separa­ al, mas como um tipo de personalidade que a
das. Mas, am bas são tratadas numa relação, re­ sociedade do capitalism o tardio escolhe em seu
lação esta contraditória. A cultura popular negan­ seio, do qual ela necessita para poder se repro­
do a cultura de massa, a ela resistindo. A cultura duzir. Ela é então geralm ente vista com o uma
popular, nascida da privação, configurando uma forma de pseudo-patologia cada vez mais difusa
alternativa e constituindo a negação à cultura de e m e d ia d a s o c ia lm e n t e '" 26 Define-se um a
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autonom ização infundada das regras, com o in­ "estrutura coagulada de interação": diluição da
te n sificação do político vazio de conteúdo, que autonomia, definição de uma "pseudo-afetividade
age sobre os indivíduos fazendo crescer sua in­ difusa, como expressão de uma inacreditável po­
segurança, pois as regras estão mais rígidas e, breza sim bólica" 28 Eles se calam e vivem a "nor­
paradoxalm ente, não regem mais. m alidade" a indiferença.
"Aqueles que as sofrem , na insegurança "Mas, talvez, o sofrim ento, que acom pa­
e na precariedade da existência, são te rrific a d o s nha a consciência desta desestruturação do eu,
pelas regras e por sua ineficácia, ao mesmo tem ­ possa justam ente constituir o ponto de partida
po que eles percebem com o perigoso o o u tro , de um engajamento responsável em favor de uma
no olhar do qual eles vêem se refletir seu pró­ atitude crítica e negativa renovada."29 Uma "figu­
prio m e d o ."27 Então, existe, hoje, uma transfor­ ra de sujeito que é composta pelas diferenças e pelas
m ação radical da vida dos indivíduos, definindo alteridades, que conheça o outro como sua própria
uma m odificação histórica da subjetividade, uma determinação."30 Além da solidão, que se redescubra
vacu id ad e geral do eu, a considerar; indivíduos na solidariedade e no desejo de negação. Mo senti­
sujeitos a uma disciplina renovada e, ao mesmo do trágico da crise. Ma crítica do político.31
te m p o , m u tila d o s , d iv id id o s em in ú m e ro s Mos pobres e na sua comunicação o prof.
pertencim entos, constituindo seu caráter como Milton Santos lê esta possibilidade.

M o tas

1 Texto apresentado no Simpósio Multidisciplinar Interna­ 9 Op. Cit. p. 98.


cional "O Pensamento de Milton Santos e a Construção 10 "Seg und o liegel, 'o espírito torna-se um objeto,
da Cidadania em Tempos de Globalização" promovido pois o espirito é o m ovim ento de se tornar outra
pela Unesp-Bauru/FOB/USP-Bauru, em Bauru, de 24 a coisa para si m esm o, isto é, um o b jeto para si
27 de julho de 1997. m esm o e, depois sublim ar esse estranham ento'...
- Johnston, R. J., Geografia e Geógrafos, São Paulo, O que cham am os totalidade é a Idéia hegeliana. A
Difel, 1986. fenom enología é a transm utação do real-abstrato
3 L E F E B V R E , flenri. M arx. Madri, G uadarram a, 1974, em real concreto. E vice-versa." ( Santos, Milton. A
p. 58. n a tu re z a d o E spaço, p. 98).
‘ Trata-se do En co ntro In tern acion al "O Mundo do 11 Op. Cit., A n a tu re z a d o E spaço, p. 98.
C id a d ã o . Um C id ad ão do M undo" realizado na ,2Op. Cit. p .100.
U n iversid ad e de S ã o Paulo, em outubro de 1996, 13A m ediação do m ovim ento das redes, constituin­
e o trab alh o m en cio n ad o refere-se à p articip ação do os níveis m undial, o dos territórios dos Esta­
em m esa red ond a sobre a "T eoria da Urbaniza­ dos, além do local, nesta explicação, está abstraí­
çã o para os Países Pobres" da qual resultou um da, em bora, contida na recente obra de Milton S a n ­
artigo pessoal d eno m inad o : "Teoria da urbaniza­ tos, A Matureza do Esp aço, devido à proposta da
ção para os países pobres: elem en to s da obra de m esa.
Milton S a n to s" 14 Op. Cit., A n a tu re z a d o E sp aço, p. 228.
5 C o n ce p çã o que vem sendo construída, por Milton 15"A localidade se opõe à globalidade, m as tam bém
Santos, em sua obra, resgatada e aprofundada em se confunde com ela. O Mundo, todavia, é nosso
seu livro A n a tu re z a d o E spaço. estranho. Entretanto se, pela sua essência, ele pode
6 Santos, Milton. A n a tu re z a d o E spaço. S ão Paulo, esconder-se, não pode fazê-lo pela sua existência,
liu cite c , 1996, p. 96. que se dá nos lugares." ( Santos, Milton. A n a tu r e ­
7 Op. Cit. p. 97 za d o Espaço, p. 258)
8 Idem nota anterior. 16Op. Cit., A n a tu re z a d o E sp aço, pp. 258/26 1.
Urbanização e globalização: a fragmentação do espaço e da personalidade 25

17 Op. Cit. p. 262. 21 Op. Cit. p. 77.


18 Q roupe de Navarreux. Du C ontrat de Citoyenneté, 22Op. Cit. p. 65.
Syllep se/Périsco p e, 1990. 23Op. Cit. p. 75.
19 D am iani, A m élia Luisa, O Lugar e a Produção do 24Op. Cit. p. 76.
C otidiano. In En co n tro Internacion al: Lugar, For- 25Op. Cit. pp. 78/79/82/116/1 17.
m ação Socio-espacial, Mundo, A M PEG E (Associa- 26Op. Cit., Du Contrat de Citoyenneté, p. 266.
ção n a cio n a l de Pesquisa e Pós G rad uação em Ge- 27 Idem nota anterior.
ografia), U niversid ad e de S ã o Paulo, 08 a 10 de 28Op. Cit. p. 267.
setem b ro de 1994. 29 Idem nota anterior.
20 Santos, Milton. O Espaço do Cidadão, São Paulo, 30Op. Cit. p. 277
n o b e l, 1987 31Op. Cit. p. 279.