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Materiais Amorfos
Gustavo A. Vieira, Maxwell F. Pinto, Márcio J. Teixeira, Jr., Bruno L. Fraga, Fábio S. Silveira, e
Rildo W. Oliveira

desenvolvimento cronológico das ligas amorfas [3] é


Resumo—Os materiais amorfos possuem propriedades resumidamente o seguinte: Fe80B20 (1976), Fe82B12Si6 (1978),
únicas. Feitos a partir da rápida solidificação de ligas metálicas Fe81.5B13Si3.5C2 (1979), Fe78B13Si9 (1980), sendo esta última
apresentam fácil magnetização devida ao fato de seus átomos se a utilizada atualmente em todos os projetos de sistemas de
encontrarem arranjados de maneira aleatória, facilitando a energia elétrica.
orientação dos domínios magnéticos. Transformadores usando
núcleo de metais amorfos exibem perdas que são 60% a 70%
II. LIGAS AMORFAS
menores que os transformadores convencionais. Este artigo visa
uma discussão sucinta a respeito das aplicações destes materiais.
A. Caracterização
Tendo em vista a caracterização das ligas metálicas
I. INTRODUÇÃO amorfas, abaixo são apresentadas suas propriedades físicas
mais relevantes.
I NICIALMENTE, os metais amorfos eram formados pela
deposição de vapor de metal a temperaturas criogênicas.
As primeiras ligas eram finos filmes de materiais tais como
1) Espessura das Lâminas
Os metais amorfos admitem uma espessura nominal das
lâminas do núcleo da ordem de magnitude de
bismuto e germânio, e não possuíam aplicação prática por aproximadamente 10 vezes menor que os materiais
serem muito instáveis à temperatura ambiente e terem que ser comerciais, como o ferro-silício. Esta é uma das razões pelas
mantidas a temperaturas próximas do zero absoluto para
quais eles apresentam baixos valores de perdas no núcleo.
manterem suas características amorfas. A primeira evolução Entretanto, um maior número de laminações implica em
foi obtida quando se passou a fabricar os metais amorfos aumento dos custos de produção. Cortar estes materiais
através do resfriamento rápido de metais no estado líquido, requer técnica avançada e perícia, visto tratar-se de um
necessitando para tanto taxas de variação de temperatura na material com alto grau de dureza.
ordem de 106 K/s. Como matéria prima, eram usadas 2) Dureza
misturas de metais tais como prata e cobre, prata e germânio, Os metais amorfos são extremamente duros, da ordem de 4
ouro e silício, e paladium e silício. vezes maior que os aços usados como materiais elétricos
O próximo estágio do desenvolvimento dos metais amorfos convencionais. Esta característica além de dificultar sua
foi atribuir propriedades ferromagnéticas às ligas através da laminação também a torna variável, uma vez que não é
tentativa de varias combinações de materiais. Ironicamente, possível garantir a mesma espessura durante todo o corte da
uma combinação com características magnéticas satisfatória lâmina. As ferramentas de corte não possuem grau de
foi obtida por acidente ao se combinar aço, fósforo e carbono. exatidão estável, desregulando-se durante o processo.
Mas, a dificuldade de se fabricar este tipo de material na 3) Fator de Empilhamento
forma de tiras levou à adição de materiais como o alumínio, A combinação das características de alta dureza, lâminas
silício, etc. de espessura muito baixa e variável, com superfície rugosa,
Uma fórmula geral do tipo MaYbZc foi definida para ligas contribuem para um fator de empilhamento baixo, da ordem
amorfas termicamente estáveis sendo M um ou mais dos de 80%, comparado com 95% dos aços usados como
metais do conjunto formado por aço, níquel, cobalto e cromo; materiais elétricos convencionais. Consequentemente, a área
Y representa elementos do grupo formado por fósforo, boro e de seção reta do núcleo destes transformadores é cerca de
carbono; Z representa alumínio, silício, antimônio, germânio 18% maior que dos transformadores com núcleo de ferro-
e berílio; e a, b e c na faixa de 60 a 90, 10 a 30 e 0.1 a 15 silício.
4) Efeito de Recozimento
respectivamente sendo que a+b+c = 100. A combinação
Aços elétricos convencionais, por serem magneticamente
utilizada em transformadores é do tipo aço – boro – silício. O
orientados, têm stress elástico bem menor que metais
amorfos. Estes por não serem, a priori, magneticamente
Artigo feito em 19 de junho de 2000. Este trabalho foi desenvolvido para orientados e terem elevado stress elástico introduzido durante
a disciplina “Teoria dos Materiais” ministrada por Jaime Arturo Ramirez, o processo de fabricação devem ser imperativamente
para o curso de graduação em engenharia elétrica no 1º semetre de 2000. recozidos.
G. A. Vieira ( e-mail: avieira.bhz@zaz.com.br).
O recozimento na presença de um campo magnético
M. F. Pinto (e-mail: maxwell@campus.cce.ufmg.br).
M. J. Teixeira, Jr. (e-mail: marciojr@campus.cce.ufmg.br). longitudinal melhora significantemente suas propriedades
B. L. Fraga (e-mail: brunol@campus.cce.ufmg.br). magnéticas, tais como indução de saturação, força coerciva,
F. S. Silveira (e-mail: sernizon@campus.cce.ufmg.br). perdas ativas e potência de excitação, promovendo a
R. W. Oliveira (e-mail: rildo@campus.cce.ufmg.br).
relaxação estrutural do material.
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O alto stress interno das ligas amorfas é resultado da possível produzir fitas de comprimento significativo. Com a
solidificação rápida, não permitindo a formação de cristais no técnica utilizada hoje, em teoria, pode-se produzir fitas de
material e deixando-o instável. A relaxação estrutural obtida largura ilimitada. Fitas de 50mm de largura são produzidas
pelo tratamento térmico e magnético realizado durante o rotineiramente.
recozimento em temperaturas abaixo da cristalização, leva o 2) Tratamento magnetotérmico [6]
material a um estado semi-estável. Entretanto, ele reduz a
ductibilidade do material, deixando-o mais rígido e Tem sido demonstrado experimentalmente que durante o
quebradiço. processo de produção das ligas amorfas para fins magnéticos,
5) Indução de Saturação são introduzidas tensões mecânicas internas que tendem a
Os materiais amorfos têm em geral uma composição de mudar suas propriedades em relação ao seu estado bruto de
80% de ferro e 20% de boro. Esta composição leva estes têmpera. Estas alterações são indesejáveis, pois
materiais a terem uma indução de saturação 20% menor comprometem alguns parâmetros importantes no que tange
quando comparado aos materiais de ferro puro para mesma sua eficiência ao longo de um ciclo de operação, tais como a
temperatura. De fato, tanto o aumento da temperatura, quanto indução de saturação, a força coerciva, as perdas ativas e a
o aumento de Boro + Silício na liga amorfa, diminuem sua potência de excitação. Portanto estas tensões necessitam ser
indução de saturação crescentemente. aliviadas para que as características magnéticas favoráveis do
6) Magnetostricção material sejam recuperadas ou até melhoradas, como aumento
A alteração das dimensões físicas de um material da indução de saturação e a redução da coercividade, que tem
magnético quando magnetizado causa ruído e/ou perdas no sido obtido por meio de tratamento térmico sob a ação de um
núcleo. Ligas amorfas baseadas em ferro exibem uma campo magnético, também conhecido como tratamento
magnetostricção linear de saturação comparáveis às do ferro- magnetotérmico [5].
silício de grão orientado, assim como os níveis de ruído de
ambas as ligas são praticamente os mesmos. III. APLICAÇÕES
7) Massa e Volume
Em decorrência do aumento na área de seção reta, A. Transformadores de Distribuição
conseqüência do maior fator de empilhamento, o volume dos
transformadores com núcleo de material amorfo é maior que Uma das principais aplicações das ligas metálicas amorfas é
os de ferro-silício em mais de 15% no núcleo de transformadores de distribuição.
Em função da menor indução de saturação dos materiais Nas últimas décadas, o valor relativo de energia elétrica
amorfos, novamente é necessário aumento da área de seção aumentou dramaticamente. Por isso, o uso racional de energia
reta do núcleo para que se tenha o mesmo valor de fluxo tornou-se estratégia básica para conter os gastos. As perdas
magnético, o que implica em maior quantidade de material associadas com distribuição são de particular interesse para as
necessário para sua construção. A conseqüência direta disso é concessionárias e o uso de núcleos de metais amorfos nos
o aumento da massa do núcleo do transformador (em média transformadores de distribuição é uma das alternativas
15%). encontradas para a melhoria de eficiência.
B. Processo de Produção Estes transformadores podem assumir diversas
configurações, a saber:
1) Congelamento a milhões de graus por secundo [4] 1. Cruciforme
Amostras de materiais amorfos (ou “vidros metálicos” 2. Toroidal
como também são chamados) podem ser obtidas colocando- 3. Núcleo com entreferro distribuído
se ligas propícias em contato com um substrato metálico de 4. Núcleo de chapas enlaçadas juntas
alta condutividade térmica.
A alta taxa de resfriamento necessária (105 a 106 K/s) é B. Comparação entre transformadores de núcleo amorfo e
conseguida quando o material é dilatado até
aproximadamente 50 metros de espessura. Ligas muito núcleo de aço-silício
reativas, como Be-Ti, precisam ser processadas em vácuo.
Porém as ligas FeNiCo-BsiC, que são as de principal Conforme pode ser observado na tabela abaixo, os
interesse comercial, podem ser processadas no ar. Se isto não transformadores com núcleo de material amorfo apresentam
ocorresse, a fabricação de ligas amorfas em grande escala sensíveis vantagens em relação aos de aço-silício,
seria impraticável. principalmente no que tange as perdas a vazio. Além disso,
As primeiras técnicas para se produzir estas ligas eram observa-se também significativas reduções na corrente de
bem simples como utilizar uma única gota para produzir excitação e no ruído audível. Entretanto ele é mais pesado,
superfícies irregulares ou utilizar uma pistola de gás para mais volumoso e mais caro.
impulsionar a altas velocidades uma gota derretida num
substrato resfriado.
Depois de muitos anos de pesquisa nesta área, tornou-se
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TABELA I
COMPARAÇÃO ENTRE TRANSFORMADORES DE NÚCLEO AMORFO E NÚCLEO DE AÇO-SILÍCIO [1]

Amorfo Aço-Silício
Tipo KVA Perdas Perdas %I %Z Massa Perdas Perdas %I %Z Massa
a vazio c/ carga exc. (lb) a vazio c/ carga exc. (lb)
(W) (W) (W) (W)
10 12 102 0.31 1.6 318 29 111 0.60 1.8 300
15 16 141 0.27 1.6 422 41 143 0.70 1.9 321
1φ 25 18 330 0.15 1.9 441 57 314 0.36 2.25 406
50 29 455 0.13 2.7 719 87 462 0.23 3.2 709
75 37 715 0.09 3.3 944 122 715 0.38 3.0 821
100 49 944 0.09 3.0 1131 162 933 0.21 2.6 961

75 51 925 0.14 4.0 2030 142 956 0.31 4.1 2000


150 90 1397 0.10 3.9 2870 216 1429 0.24 3.5 2900
3φ 300 165 1847 0.10 3.9 4360 412 2428 0.14 5.1 3600
500 230 3282 0.09 4.8 6090 610 3589 0.18 4.6 4900
750 327 4468 0.07 5.75 6600 713 5206 0.15 5.75 6800

TABELA II
PROPRIEDADES GERAIS E CARACTERÍSTICAS DO METGLAS 2605CO
Conforme se observa na curva típica de magnetização
abaixo, os materiais amorfos apresentam ciclo de histerese Eletromagnéticas
extremamente estreito além de apresentar baixa força
coerciva. Como a área interna da curva B-H representa as Indução de saturação (T) 1.80
perdas devidas à magnetização do núcleo, é visível a Máxima permeabilidade DC (µ)
vantagem dos materiais amorfos a respeito das perdas a Recozido (alta frequência) 400000
vazio e das baixas correntes de magnetização. Não recozido 120000

Magnetostricção de saturação (ppm) 35


Resistividade elétrica (µΩ/cm) 123
Temperatura Curie (ºC) 415

Físicas

Densidade (g/cm3) 7.56


Força de tensão (Mpa) 1000 a 1700
Módulo Elástico (GPa) 100 a 110
Fator de laminação (%) >75
Expansão térmica (ppm/ºC) 8.6
Temperatura de cristalização (ºC) 430
Temperatura de serviço contínuo (ºC) 125

Complementando os dados anteriores seguem abaixo as


curvas típicas de permeabilidade de impedância e de
perdas a vazio no núcleo (Fig. 2 e Fig. 3).

C. Experiências de Campo
Fig 1. Curva de magnetização do MetGlas 2605CO (baseado em ferro) da Demonstrou-se experimentalmente serem os
Allied Co. transformadores com núcleo de metal amorfo tão duráveis
Aplicações: Sensores de campo, blindagem, núcleo de alta frequência. e confiáveis quanto os com núcleo de ferro-silício.
Benefícios: Média indução de saturação, baixa magnetostricção, alta
resistência a corrosão. As perdas no núcleo por histese magnética e corrente de
Focault são entre 50% e 60% menores, chegando em
A tabela abaixo contém os dados fornecidos pelo transformadores de distribuição de baixa potência a 87%.
fabricante do material cuja curva foi mostrada acima. Eles As perdas por efeito Joule nos enrolamentos são
facilitam a compreensão das características de um menores em até 21%. As perdas totais chegam a 60%
transformador construído com este material. menos.
A corrente de excitação é sensivelmente menor em
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relação aos transformadores com núcleo de ferro-silício. O amorfas ser a construção de núcleos de transformadores de
custo dos transformadores com núcleo de metal amorfo é distribuição, outras aplicações são viáveis. Algumas delas
maior entre 25% e 50%. Estima-se que seu investimento são listadas abaixo.
seja pago em torno de 2 a 3 anos devido seu menor • Transformadores de alta frequência
consumo de potência • Estator de motores ac e rotor de motores dc
• Sensores piezomagnéticos para carros, máquinas
industriais e sonares
• Fitas magnéticas para dispositivos antifurto utilizadas
em estabelecimentos comerciais.

IV. EXPECTATIVAS FUTURAS


Os estados magnético das ligas amorfas ainda não são
totalmente compreendidos. Enquanto as ligas amorfas
baseadas em ferro são satisfatoriamente usadas em
transformadores de distribuição, melhoramentos no
desempenho deste tipo de material podem ser esperados
quando for obtido um melhor conhecimento da estrutura
atômica e suas propriedades.
Evoluções no processo de produção são almejadas a fim
de se obter melhorias na espessura das lâminas, assim
como na qualidade da superfície, tornando-a menos
rugosa, o que diminuiria as perdas por histerese.
Fig. 2. Curva típica de permeabilidade de impedância do MetGlas
2605CO (baseado em ferro)
V. CONCLUSÃO
Sendo assim, as pesquisas nesta área continuam
avançando em busca da melhor utilização deste tipo de
material, tendo em vista otimizar a relação custo–
eficiência e possibilitar, no futuro, a utilização em grande
escala de metais amorfos em todas suas possíveis
aplicações.

VI. REFERÊNCIAS

[1] NG, H. W., Hasegawa, R., Lee, A. C. E Lowdermilk, L. A.


Amorphous alloy core distribution transformer. Proceedings of the
IEEE, Vol. 79, No.11, p. 1608-1623, 1991.
[2] Boyd, E. L. e Borst, J. D. Design concepts for an amorphous metal
distribution transformer. IEEE Transactions on Power Apparatus
and Systems, Vol. PAS-103, No. 11, p. 3365-3372, 1984.
[3] G. E. Fish, Soft magnetic materials. Proceedings of the IEEE, Vol.
78, No. 6, p.972-974, 1990.
[4] Raskin, D. e Davis, L. A. Metallic glasses: a megnetic alternative.
IEEE Spectrum, vol.18, No.11, p.28-33, nov. 1981.
[5] Luciano, B. A. e Kiminami, C. S., Algumas considerações sobre a
realização de transformadores com núcleos de ligas amorfas,
Campina Grande, Universidade Federal da Paraíba, p.383-391,
1995.
[6] Grahan Jr., C. D. e Egami, T., Magnetic properties of amorphous
materials. Metals Technology, p. 244-247, jun. 1980.

Fig. 3. Curva típica de perdas a vazio (MetGlas 2605CO -baseado em


ferro).

D. Outras aplicações

Apesar da principal aplicação das ligas metálicas