Você está na página 1de 442

UNIVERSIDADE

 FEDERAL  FLUMINENSE  
PROGRAMA  DE  PÓS-­‐GRADUAÇÃO  EM  SOCIOLOGIA  E  DIREITO  
CONFLITOS  SOCIOAMBIENTAIS  E  URBANOS  
 

LEONARDO  ALEJANDRO  GOMIDE  ALCÁNTARA  


 

 
TERRITÓRIO  MINADO  

NITERÓI  
2014  
 
  2  

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE


CENTRO DE ESTUDOS GERAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA E DIREITO

LEONARDO ALEJANDRO GOMIDE ALCÁNTARA

TERRITÓRIO MINADO

 
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em
Sociologia e Direito da Universidade Federal
Fluminense, como requisito parcial para a obtenção
do título de Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais.

Orientador: Professor Doutor Wilson Madeira Filho

Niterói, 2014
  3  

ALCÁNTARA,  Leonardo  Alejandro  Gomide.  


 
  Território   Minado/   Leonardo   Alejandro   Gomide   Alcàntara,  
UFF/  Programa  de  Pós-­‐Graduação  em  Sociologia  e  Direito.  Niterói,  
2014.  

  428  f.  
   
  Orientação  do  Prof.  Dr.  Wilson  Madeira  Filho  
  Tese   (Doutorado   em   Ciências   Jurídicas   e   Sociais)   –  
Universidade  Federal  Fluminense,  2004.  
 
  1.   Interdisciplinaridade.   2.   Justiça   Ambiental.   3.  
Conflitos   sócio-­‐ambientais.     I.   Dissertação   (Mestrado).   II.  
Título  
  4  

LEONARDO ALEJANDRO GOMIDE ALCÁNTARA

TERRITÓRIO MINADO

Tese apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em Sociologia e Direito da
Universidade Federal Fluminense, como
requisito parcial para a obtenção do título de
Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais.

Aprovada em 27 de março de 2014.

BANCA EXAMINADORA:

________________________________________________________________
Prof. Dr. Wilson Madeira Filho (PPGSD – UFF)

________________________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Marta de Azevedo Irving (UFRJ)

________________________________________________________________
Prof.ª Dr.ª May Waddington Telles Ribeiro (UFPI)

________________________________________________________________
Dr.ª Alba Simon (SEA)

_______________________________________________________________
Prof. Dr. Ronaldo Lobão (PPGSD – UFF)

Niterói, 2014

 
 
 
  5  

In memoriam

Ao meu pai, que me deu a vida e deu a vida pela educação de seus filhos.
No curso da redação deste trabalho ele partiu em uma “conjunção astral”.

Lua e estrela a se alinhar


A brisa leve a me beijar o rosto
O carrossel dos seus sorrisos
Girando no gosto da memória
Sonorizando os risos que nos compõem
Fecho os olhos e encontro seus olhos
Negros como o espaço
De onde você me disse que viemos
Onde as estrelas te desenham
E me desenham menino nos seus braços
Vou refletir a sua luz
Assim como a das estrelas faz a lua
Essa angústia sem ter fim foi o desejo do último abraço que não dei
Perpetuadas saudades que se assentam no curso do tempo
Em frente, passo a passo, aguardo o nosso encontro
Meu amado
Homem do espaço
  6  

Dedico este trabalho ao meu filho que ainda não nasceu, concebido um mês
após o falecimento de meu pai, para me ajudar a entender a vida.

Eu já preparo o seu berço


Para quando o rebento rebentar
Meu pequeno germinal
Nesses tempos avassaladores
Todos os rios do mundo nasceram dos meus olhos
Todo peso do mundo verticalizou-se nos meus ombros
E agora... No peso da mão de uma criança
A alma esmagada se põe iluminada
Para fazer a cabeça se curvar sutilmente diante da vida
No respeito
E perceber estar
Dividido e subtraído
Somado e multiplicado
Para fazer a cabeça se erguer sutilmente para o espaço
E perguntar
Faz algum sentido?
E novamente agradecer por esse lindo anjo todo colorido te hospedar
Te gestar e te ser junto comigo
Que sou parte partida na saudade
Parte encontrada na esperança
Parte espera de você
  7  

AGRADECIMENTOS

Esse é um trabalho de muitos, eu apenas o redigi.


Agradeço ao meu orientador, Wilson Madeira Filho, sem o seu profundo apoio essa
tese não existiria. Sem sua paciência e compreensão o trabalho não se encerraria. Esse
trabalho é fruto de sua liberdade de pensamento, de seus ensinamentos e, sobretudo, de sua
amizade.
Agradeço a equipe que acompanhou parte dessa pesquisa, meus amigos, Thaís, Ivan,
Jamile, Denise, Eduardo, Alessandra, Débora, Carol, Cristiane, Marina e Camila. Agradeço
também aos amigos da geografia, Caio, Cauã e Jonas.
Agradeço à Bianca Martins de Queiroz, futura mãe do meu filho, quem esteve comigo
nos momentos mais difíceis deste processo e que tanto me ajudou a construir esse trabalho.
Agradeço à minha mãe e aos meus irmãos que, mesmo com as nossas estruturas tão
abaladas, nos mantivemos fortes e unidos, lado a lado, nos apoiando reciprocamente uns nos
outros.
Agradeço às pessoas da Unidade Avançada José Veríssimo, especialmente ao
Carlinhos, à Mira, ao Paulinho e todos os demais funcionários que sempre dispensaram a
minha pessoa o mais respeitoso tratamento e o mais solidário apoio.
Agradeço aos funcionários do ICMBio, especialmente ao André, ao Nei, à Andréa, ao
Beto, ao Carlos Augusto, ao Copaíba, ao Coruja, ao Maneco, ao Rosimiro, ao Rutivaldo, ao
Gilmar, enfim, todos os demais que tive o prazer de conhecer e que muito contribuíram para o
trabalho. Afirmo aqui também meu agradecimento à instituição que sem o apoio logístico esse
trabalho nunca atingiria suas metas.
Agradeço aos funcionários do IBAMA que me concederam entrevista, em especial ao
Nedel e ao Vinente.
Agradeço aos pesquisadores que me auxiliaram na compreensão da realidade da
pesquisa e me concederam entrevistas. Em especial à Virgínea e ao Richard.
Agradeço aos quilombolas de Oriximiná, em especial aos moradores das comunidades
da Tapagem, do Jamari, do Abuí, do Paraná do Abuí, da Cachoeira Porteira, da Mãe Cué, do
Juquerizinho, do Curuça, do Moura, da Boa Vista, do Último Quilombo, da Nova Esperança e
do Sagrado.
Agradeço aos oriximinaenses que muito contribuíram para a pesquisa, em especial ao
Mário, ao Charlinho, ao Emerson, à Ormezinda, à Fátima e ao Carlos.
  8  

Agradeço aos comunitários das muitas comunidades do Lago Sapucuá que me


hospedaram e me proporcionaram ricas entrevistas e conversas, especialmente ao seu Chico e
Dona Tereza.
Agradeço aos funcionários da MRN que contribuíram com o trabalho.
Agradeço aos meus amigos que acompanharam alguns trabalhos, em especial ao
Lúcio, ao Léo e ao Fabiano.
Todas essas pessoas e muitas outras que não fiz menção direta são parte desse
trabalho.      
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  9  

RESUMO

Esta tese estabelece uma análise dos dissídios entre diferentes grupos de interesses que
recaem sobre os territórios de duas Unidades de Conservação na Amazônia brasileira: a
Reserva Biológica do Rio Trombetas e a Floresta Nacional Saracá-Taquera, localizadas no
Estado do Pará. Oriundos das políticas governamentais de desenvolvimento e de conservação
experimentadas durante o regime militar e no início da transição democrática, esses espaços
territoriais protegidos guardam fortes embates assimétricos que envolvem populações
tradicionais, mineração da bauxita, grandes corporações, cientistas de diversas instituições e
entidades governamentais ligadas à gestão ambiental. Uma área peculiarmente marcada pela
intensidade das forças que colidem ao buscar determinar quais práticas devem prevalecer no
uso e ocupação desses territórios, ultrapassando sobremaneira os marcos legais que os regem.
A região em que a pesquisa se debruça situa-se entre os maiores contínuos de áreas protegidas
do país, onde se localiza uma das maiores mineradoras de bauxita do mundo e a primeira
Terra Quilombola titulada no Brasil. Sustentado em pesquisa de campo que buscou conjugar
concomitantemente a análise documental, os relatos orais dos diversos atores e as vivências in
situ, o estudo objetivou percorrer a historicidade e a interatividade entre os grupos de
interesses que vão compor aquela realidade e a integração dos mesmos a uma vasta rede
sócio-técnica que ultrapassa as fronteiras nacionais. A pesquisa está estruturada em três partes
e doze capítulos em que são apresentados o percurso e o desenvolvimento dos trabalhos, a
base epistemológica e metodológica, e a rede de interações estabelecida pelos atores que
configura a sócio-natureza em questão. O estudo resulta em uma densa narrativa que
apresenta as múltiplas estratégias utilizadas para dar legitimação às práticas dos segmentos
enfocados, as conexões que perfazem e reconfiguram os territórios e a distância que marca os
resultados dos diferentes projetos idealizados e a realidade mapeada na pesquisa.

Palavras-chave: conflitos sócio-ambientais, Unidades de Conservação, populações


tradicionais, mineração, ecologia política.
  10  

ABSTRACT

This thesis provides an analysis of the conflicts between different interest groups that fall on
the territories of two protected areas in the Brazilian Amazon: the Biological Reserve of Rio
Trombetas and Saracá-Taquera National Forest, located in the State of Pará. Arising from
government policy development and conservation experienced during the military regime and
the beginning of the democratic transition, these protected spaces keep strong asymmetric
territorial clashes involving traditional populations, bauxite mining, large corporations,
scientists from various institutions and government-related entities environmental
management. An area peculiarly marked by the intensity of the forces that seek to collide
determine which practices should prevail on the use and occupation of these territories,
greatly exceeding the legal frameworks governing. The region in which the research focuses
is among the largest continuous protected areas of the country, home to one of the largest
mining bauxite in the world and the first Quilombo Territory titled in Brazil. Sustained in
field research that sought simultaneously combine document analysis, the oral reports of the
various actors and experiences in situ, the study aimed to go historicity and interactivity
among interest groups that will make up that reality and their integration to a wide socio-
technical network that transcends national boundaries. The research is divided into three parts
and twelve chapters in which are presented the course and development of the work, the
epistemological and methodological basis, and the network of interactions established by the
actors who sets the socio-nature in question. The study results in a dense narrative that
presents multiple strategies used to give legitimacy to the practices of the focused segments,
which make up the connections that reconfigure the territories and the distance that marks the
results of the different idealized projects and reality mapped in the survey.

Keywords: socio-environmental conflicts, Conservation Units, traditional populations,


mining, political ecology.
  11  

LISTA DE FOTOS

Foto 01: Carregador de navios. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2010.....................36

Foto 02: Soltura dos filhotes de tartaruga-da-Amazônia. Virgínea Bernardes, 2010.............41

Foto 03: Entrada da Reserva Biológica - Flutuante. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara,
2011...........................................................................................................................................46

Foto 04: Festa na Tapagem. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012...........................49

Foto 05: Preparo de tartarugas jovens. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012..........53

Foto 06: Canoa de índio. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012...............................58

Foto 07: Cachoeira Porteira – BR163. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2013..........60

Foto 08: Tabuleiros do Rio Trombetas. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012........103

Foto 09: Teatro Amazonas. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012...........................175

Foto 10: Mineração Rio do Norte. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012................215

Foto 11: Torre do Linhão no Rio Trombetas. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara,
2013.........................................................................................................................................217

Foto 12: Descoberta da bauxita pela Alcan na década de 1960. MRN, 2013......................242

Foto 13: Instalação de Porto Trombetas em 1974. MRN, 2013............................................246

Foto 14: Contaminação do Lago Batata. MRN, 2013...........................................................250

Foto 15: Colocação da bandeira indicando o controle do Governo sobre a área em setembro
de 1976. IBDF/POLAMAZÔNIA, 1976................................................................................273

Foto 16 e 17: Marcação e soltura de tartarugas apreendidas em 1976.


IBDF/POLAMAZÔNIA, 1976...............................................................................................288

Foto 18: A castanheira. Leonardo. Alejandro Gomide Alcántara, 2012...............................305

Foto 19: Família do lago do Abuí. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2011...............313

Foto 20: ICMBio/Auto de Infração 033651A/Ocorrência 05/2011.......................................327

Foto 21: Tabuleiros do Rio Trombetas. MMA/ICMBio, 2011..............................................328

Foto 22: Altar da Comunidade do Abuí. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2011.......385

Foto 23: Ladainha. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012.......................................391


  12  

Foto 24: Cemitério Quilombola da Tapagem. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara,


2010.........................................................................................................................................401

Foto 25: Cachoeira Porteira. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012.......................415


  13  

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Ilustração 01: Diário de Campo – Brega 45. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara,
2010...........................................................................................................................................82

Ilustração 02: Jean-Pierre Chabloz, 1942. In. Jornal da Unicamp, nº 542, Campinas. 15 de
outubro de 2012......................................................................................................................191

Ilustração 03: Mineração da Bauxita. MRN/RIMA do Platô Bacaba, 2007........................249

Ilustração 04: Panfletos dos Seminários sobre as barragens na Cachoeira Porteira, 1989 e
1981.........................................................................................................................................396
  14  

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1: Situação Fundiária/Demarcação Reserva Biológica do Rio Trombetas.


MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE..................................................................................300

Gráfico 2: Número de filhotes de tartaruga contabilizados, REBIO do Rio Trombetas. Fonte:


MMA/ICMBio, 2011..............................................................................................................334

Gráfico 3: Comparativo entre o número de filhotes contabilizados de 1986 até 2003 no Rio
Trombetas e Santarém. MMA/ICMBio 2011.........................................................................338

Gráfico 4: Número de famílias no interior da FLONA-ST. MMA/ICMBio,


2011.........................................................................................................................................370

Gráfico 5: Proporção do desmatamento acumulado até 2009 por terra quilombola em


porcentagem de área. Fonte: CPISP, 2011.............................................................................409
  15  

LISTA DE MAPAS

Mapa 01: Diário de Campo – Rota da Pesquisa. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara,
2013...........................................................................................................................................30

Mapa 02: Diário de Campo – esboço do trajeto. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara,
2010...........................................................................................................................................39

Mapa 03: Landsat – Google Earth, 2013.................................................................................67

Mapa 04: Landsat – Google Earth, 2013...............................................................................173

Mapa 05: Porto Trombetas. Landsat – Google Earth, 2013.................................................239

Mapa 06: Projeto Trombetas – mapa das reservas. Greig (1977) reproduzido por Machado,
2007.........................................................................................................................................242

Mapa 07: Platôs de Bauxita. MRN, 2010..............................................................................247

Mapa 08: Floresta Nacional Saracá-Taquera e Reserva Biológica do Rio Trombetas.


MMA/ICMBIO, 2011.............................................................................................................268

Mapa 09: Mapa dos territórios quilombolas incidentes sobre as UCs. MMA/ICMBio,
2011.........................................................................................................................................310

Mapa 10: Zoneamento da FLONA-ST. Fonte: Plano de Manejo da Floresta Nacional Saracá-
Taquera, 2001.........................................................................................................................361

Mapa 11: Mapa geral das novas áreas propostas de inclusão na zona de mineração da
FLONA-ST. MRN, 2011…………………………………………………………………….361

Mapa 12: Mapa Falado da Comunidade da Casinha – Lago sapucuá. MMA/ICMBio,


2011.........................................................................................................................................366

Mapa 13: Zoneamento e Unidades de Manejo Florestal da FLONA-ST. MMA/SFB/ICMBio,


2012.........................................................................................................................................374

Mapa 14: Comunidades quilombolas no interior e entorno da FLONA-ST e na REBIO-RT.


MMA/ICMBio, 2011..............................................................................................................402
  16  

LISTA DE TABELAS

Tabela 01:Fonte: Publicador Paraense – Belém, ano I, nº 64, de 24 de dezembro de 1849, p.1,
reproduzido por BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: Formação Social e Cultural.
(2009:124)...............................................................................................................................177

Tabela 02: Pauta de Exportação Mineral do Pará. Fonte: SECEX/MDIC - em


US$.........................................................................................................................................214

Tabela 03: Exportações Brasileiras e Paraenses. Fonte: SECEX/MDIC - em


US$.........................................................................................................................................214

Tabela 04: Unidades de Conservação Consolidadas. Fonte: CNUC/MMA –


www.mma.gov.br/cadastro_uc Atualizada em: 30/08/2013...................................................260

Tabela 05: Descrição das técnicas de pesca, utilizadas pelas comunidades quilombolas do
Rio Trombetas. Fonte: Luciana S. Melo, 2012.......................................................................305

Tabela 6: Descrição das técnicas de caça utilizadas pelas comunidades quilombolas do Rio
Trombetas. Fonte: Luciana S. Melo, 2012..............................................................................305

Tabela 07: Processos Judiciais Referente à FLONA-ST e à REBIO na Procuradoria da


República do Munícipio de Santarém, 2011...........................................................................316
  17  

ABREVIATURAS UTILIZADAS

AACOSMO – Associação dos Agentes Comunitários de Saúde do Município de Oriximiná


ACOMTAGS – Associação das Comunidades da Gleba Trombetas e Gleba Sapucuá
ACORQAT – Associação Comunitária dos Remanescentes de Quilombo da Área Trombetas
ACPAMO – Associação Comunitária dos Pequenos Agricultores do Município de Oriximiná
ACPLASA - Associação Comunitária dos Produtores do Lago Sapucuá
ACRQVB – Associação dos Remanescentes de Quilombo de Boa Vista
ADCT – Ato das Disposições Constitucionais Transitórias
ALBRÁS – Alumínio Brasileiro S. A.
ALCAN – Aluminiun Company of Canada
ALCOA – Aluminium Company of America
AMTMO – Associação de Mulheres Trabalhadoras do Município de Oriximiná
ANM – Agência Nacional de Mineração
APA – Área de Proteção Ambiental
ARQMO – Associação de Remanescentes de Quilombos do Municípios de Oriximiná
ATAAV - Associação Terrasantense dos Agentes Ambientais Voluntários
BASA – Banco da Amazônia S.A.
BAUXISA – Bauxita Santa Rita
BCA – Banco de Crédito da Amazônia
BCB – Banco de Crédito da Borracha
BNDE – Banco Nacional de Desenvolvimento
CAETA – Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia
CAJUFF – Centro de Assistência Judiciária Universidade Federal Fluminense
CAP – Companhia de Alumina do Pará
CEBS – Comunidades Eclesiais de Base
CEDENPA – Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará
CEPAM – Conservação da Biodiversidade Amazônica
CEPRAM – Conselho Estadual de Proteção Ambiental
CETESPE – Companhia de Tecnologia de Saneamento Básico e de Controle da Poluição das
Águas
CFEM – Compensação Financeira por Exploração Mineral
CFRO – Casa Familiar Rural de Orixminá
CIMI – Conselho Indigenista Missionário
  18  

CIVAT – Comissão Interestadual dos Vales do Araguaia e Tocantins


CNAE – Comissão Nacional de Atividades Espaciais Brasileira
COCRITA – Comércio e Criação de Tartarugas Ltda
CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente
CNPM – Conselho Nacional de Política Mineral
CNPT – Sociobiodiversidade Associada a Povos e Comunidades Tradicionais
CPCB – Centro de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade
CPDH – Comissão Pastoral de Direitos Humanos
CPISP – Comissão Pró-Índio de São Paulo
CPT – Comissão Pastoral da Terra
CPTPA – Comissão Pastoral da Terra
CSN – Companhia Siderúrgica Nacional
CUT – Central Única dos Trabalhadores
CVRD – Companhia Vale do Rio Doce
DESEC/BASA – Departamento de Estudos Econômicos do Banco da Amazônia S.A
DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral
DRP – Diagnóstico Rápido Participativo
EIA/RIMA – Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental
EMATER-PA – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural
EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
FAO – Food and Agriculture Organization
FIDAM– Fundo para Investimentos Privados no Desenvolvimento da Amazônia
FIEPA – Federação das Indústrias do Estado do Pará
FLONA – Floresta Nacional
FLONA-ST – Floresta Nacional Saracá-Taquera
FUNATURA – Fundação Pró-Natureza
GRI – Global Reporting Initiative
IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
IIHA – Instituto Internacional da Hileia Amazônica
INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
INPA – Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia
  19  

IPEAM – Instituto de Previdência dos Servidores do Estado do Amazonas


IPHAM – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
ITAL– Instituto de Tecnologia de Alimentos
ITERPA – Instituto de Terras do Pará
IUM – Imposto Único sobre Mineral
JABOR – Jardim Botânico do Rio de Janeiro
MECOR – Ministério Extraordinário para Coordenação dos Organismos Regionais
MMA – Ministério do Meio Ambiente
MPEG - Museu Paraense Emílio Goeldi
MRN – Mineração Rio do Norte S/A
NASA – National Aeronautics and Space Administration
OIT – Organização Internacional do Trabalho
PEAEX – Projeto Estadual Agroextrativista
PES – Programa de Educação Socioambiental
PIB – Produto Interno Bruto
PND – Plano Nacional de Desenvolvimento
PNMA – Política Nacional de Meio Ambiente
POLAMAZÔNIA – Polos Agropecuários e Agrominerais da Amazônia
PPGSD/UFF – Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito/ Universidade Federal
Fluminense
PRAD – Projeto de Recuperação de Áreas Degradadas
PRD – Plano Regional de Desenvolvimento
PU - Plano de Utilização
RADAM – Projeto Radar na Amazônia
RDS – Reserva do Desenvolvimento Sustentável
REBIO – Reserva Biológica
REBIO-RT – Reserva Biológica do Rio Trombetas
RESEX – Reserva Extrativista
RLF – Reservas Legais Florestais
SAVA – Superintendência do Abastecimento do Vale Amazônico
SEMA – Secretaria Especial do Meio Ambiente
SEMTA – Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia
SFB – Serviço Florestal Brasileiro
SIN – Sistema Interligado Nacional
  20  

SISNAMA – Sistema Nacional de Meio Ambiente


SIVAM/SIPAM – Sistema de Vigilância e Proteção da Amazônia
SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza
SOPREN – Sociedade de Preservação dos Recursos Naturais e Culturais da Amazônia
SPVEA – Superintendência para a Valorização Econômica da Amazônia
STIEMNFOPA – Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Extrativas de Minerais Não
Ferrosos do Oeste do Pará
STTRO - Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Oriximiná
SUDAM - Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia
SUDEPE – Superintendência de Pesca
SUDHEVEA – Superintendência da Borracha
TAC – Termo de Ajustamento de Conduta
TAMAR – Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Tartarugas Marinhas
TAR – Teoria Ator Rede
TST – Tribunal Superior do Trabalho
UAJV/UFF - Unidade Avançada José Veríssimo/ Universidade Federal Fluminense
UC – Unidade de Conservação
ZOOFIT – Zoológico das Faculdades Integradas do Tapajós
  21  

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO.................................................................................................................23

PARTE I: DIÁRIO DE CAMPO..........................................................................................30

1 INTRODUÇÃO.....................................................................................................................31

2 O PARAÍSO E O LIMBO.....................................................................................................36

3 EREZU’M-NÁ – A TERRA DE MUITAS PRAIAS...........................................................67


3.1 O marido da abelha ............................................................................................................68
3.2 O sentido do desenvolvimento............................................................................................82

PARTE II: DO CAMPO ATÉ AS REDES, DA SOCIEDADE À NATUREZA.............103

1 TRÊS MATRIZES...............................................................................................................104
1.1 Estruturalismo-construtivista...........................................................................................105
1.2 Rizoma e Multiplicidade...................................................................................................110
1.3 Multiterritorialidade.........................................................................................................117

2 CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS E JUSTIÇA AMBIENTAL.....................................122


2.1. Breve descrição sobre a questão ambiental e sobre os marcos institucionais
regulatórios.............................................................................................................................122
2.2. As especificidades dos Conflitos Ambientais por uma sociologia estruturalista-
construtivista...........................................................................................................................131

3 A DEMOCRACIA AMPLIADA – HUMANOS, SERES VIVOS E INANIMADOS:


QUANDO TODOS FALAM..................................................................................................136
3.1. Nem mais cultura e nem mais natureza: sobre a Antropologia Simétrica.......................136
3.2. Descrever, escrever, descrever, escrever: a perspectiva metodológica da Teoria Ator-
Rede........................................................................................................................................148
3.3. A Filosofia Política na Antropologia Simétrica...............................................................153
3.3.1. As concepções convencionais do ecologismo..............................................................153
3.3.2. O papel da natureza no discurso público......................................................................155
3.3.3. O coletivo em uma câmara...........................................................................................163

PARTE III: O VALE DO RIO TROMBETAS..................................................................173

1. O PROGRESSO E A ORDEM...........................................................................................174
1.1. Breves passagens na fabricação da Amazônia brasileira.................................................176
1.2. Integrar e desintegrar: o avanço do progresso e a construção da ordem..........................186
1.3. “Amazônia: de última página do Gênesis ao preâmbulo do mundo futuro”...................195

2. OS PLATÔS DE BAUXITA..............................................................................................215
2.1. A máquina minerária........................................................................................................215
2.2. Para além dos territórios e das leis...................................................................................225
  22  

2.3. Mil platôs de bauxita........................................................................................................237

3. A CONSERVAÇÃO E ORDEM........................................................................................253
3.1. A segregação do espaço e os estoques para a ciência......................................................259
3.2. A edificação da governança ambiental no Rio Trombetas..............................................273

4. A RESERVA BIOLÓGICA DO RIO TROMBETAS........................................................288


4.1. O mosaico das violências ................................................................................................311
4.2. A guerra das tartarugas....................................................................................................328

5. A FLORESTA NACIONAL SARACÁ-TAQUERA – FLONA – ST...............................352


5.1. Acima da lei.....................................................................................................................355
5.2. Manejando com os Planos...............................................................................................366
5.3. A concessão florestal.......................................................................................................370
5.4. Por que dar vez às florestas e aos seus povos?................................................................377

6. RECONHECIMENTO E TRADIÇÃO EM MOVIMENTO.............................................385


6.1. Os negros da floresta – a história contada por Dico........................................................385
6.2 Dos grilhões às redes........................................................................................................391
6.3. Demarcou, titulou e acabou?............................................................................................401

CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................................415

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................................427
  23  

APRESENTAÇÃO

Adentrar neste estudo é como abrir um mapa e percorrer os caminhos traçados.


Pegando um barco do município paraense de Oriximiná, um dos maiores do mundo em
extensão territorial, segue-se pelo Rio Trombetas em direção às Guianas. Da embarcação em
pouco tempo não se avistará o município, ocultado em meio à densa floresta amazônica, e,
logo adiante, avistam-se erguidas imensas torres de transmissão de energia, cujos olhos não
alcançam de onde vieram, nem para onde vão. O chamado “linhão de Tucuruí-Macapá-
Manaus”. As águas de tonalidade ocre, opacas, já nas primeiras horas tornar-se-ão verdes,
translucidas, na medida em que o barco se afasta do Lago Sapucuá. O cenário em volta
representará as maiores extensões de floresta tropical do planeta, nas águas baixas, centenas
de praias vão compondo a paisagem e o olhar atento permitirá captar uma explosão de vida
em constante interação. Pequenas embarcações e poucos agrupamentos humanos vão
marcando o caminho, onde a acuidade do olhar vai reparar também as marcações no rio e as
boias sinalizadoras. Quando, no curso da viagem, se deparar com um ou mais navios
transcontinentais, esse momento vai representar, após cerca de cinco horas de percurso, uma
grande ruptura na simetria da paisagem, transfigurada pelas edificações industriais de grande
porte de um shipload. Neste mesmo local situa-se o distrito de Porto Trombetas, cujos olhos,
neste momento, avistará apenas uma praça em frente ao porto dessa “cidade” que abriga os
funcionários de uma das maiores mineradoras de bauxita do mundo: a Mineração Rio do
Norte - MRN. Ao lado esquerdo do rio, os platôs de onde se extrai a bauxita, acompanham o
trajeto fora do campo de visão. Seguindo o curso, em menos de vinte minutos, se avistará, ao
lado do distrito, a comunidade de Boa Vista, a primeira Terra Quilombola titulada no Brasil.
Ali se avistarão várias casinhas aglomeradas de alvenaria e telha de amianto, onde antes
existiam poucas casinhas de madeira cobertas com palha de ubim. Adiante, em menos de uma
hora, aparecerá uma casa flutuante com uma grande placa que anuncia que dali pra frente a
entrada é proibida, somente possível quando autorizada, marcando a presença do Governo
Federal. Agentes fiscais se revezam quinzenalmente neste flutuante por meio do qual o Estado
exerce suas políticas de conservação. De um lado do rio está a Reserva Biológica do Rio
Trombetas, do outro a Floresta Nacional Saracá-Taquera, duas unidades de conservação que
marcam com seus 849.036,86 hectares a agrimensura da pesquisa. Continuando o percurso, o
que já fora observado ao longo, várias pequenas entradas se abrem para imensos lagos onde
geralmente se assentam pequenos agrupamentos humanos. Nos dois lados do Rio Trombetas
  24  

serão avistadas casas suspensas de madeira e palha, espaçadas, podendo marcar as horas do
percurso após o flutuante. Focando o olhar percebe-se a peculiaridade étnica dessas
comunidades, que, diferente das demais ao longo do trajeto, seus habitantes são
predominantemente negros. Cerca de cinco horas após o ingresso nas unidades de
conservação, outra base de fiscalização se avista, com uma pequena balsa e uma escadaria em
terra que leva a um grupo de casas onde, geralmente, se alojam os pesquisadores. Neste
momento se iniciam grandes extensões de areia sobre o rio, chamadas de tabuleiros, estes, em
outros tempos, representaram o maior berçário conhecido da tartaruga-da-Amazônia. Essas
grandes praias seguem acompanhando a paisagem por mais algumas horas até que paredões
de pedra passam a compor o cenário e, ao longe, soará forte a turbulência das águas. Pouco
depois uma grande cachoeira será avistada e impossibilitará a continuação do percurso no
barco. Adiante, somente de canoa. Chega-se aos limites da Reserva em uma comunidade
chamada Cachoeira Porteira. Índios, negros e ribeirinhos são avistados no vilarejo, uma
estrada o corta rumo ao infinito, a BR-163, e pouco acima da cachoeira está a comunidade
indígena de Tawanan. Neste recanto, que paira um projeto insepulto de uma hidroelétrica, se
finda o traço longitudinal do percurso desta pesquisa.
A breve descrição tem como escopo ilustrar a intensidade das relações imbrincadas
nesses territórios em que a pesquisa se debruça. Multinacionais mineradoras, indígenas,
quilombolas, governo, ONGs, cientistas, ribeirinhos e o que mais se liga das florestas, das
águas e dos solos compõem essa sócio-natureza. As diferentes simetrias que caracterizam os
distintos atores recria uma contenda territorial peculiar que abrange desde a inviabilização de
modos de vida de determinados grupos, disputas na acessibilidade dos recursos do ambiente,
até os modelos de desenvolvimento nacional e de conservação da sociobiodiversidade. Todos
confrontam os sentidos e as qualificações possíveis para essas áreas, as conexões e os
agenciamentos que podem ser estabelecidos.
O estudo versa sobre os “conflitos socioambientais” em espaços territoriais
especialmente protegidos na Amazônia brasileira; mais especificamente em duas unidades de
conservação, consideradas de importância nacional tanto para a preservação da
biodiversidade, quanto para o uso sustentável dos recursos naturais: a Reserva Biológica do
Rio Trombetas e a Floresta Nacional Saracá-Taquera, situadas na mesorregião do Baixo
Amazonas, microrregião de Óbidos, em uma região conhecida como Alto Trombetas no
município de Oriximiná. Os imbróglios e os próprios espaços empenhados na análise
originaram-se a partir das políticas de desenvolvimento e de conservação experimentadas no
regime militar, que empenhou uma nova colonização do espaço amazônico para integrá-lo a
  25  

um ideal de progresso. Compreender a distribuição e a configuração do poder que recai sobre


essa geografia multiterritorializada marca o objetivo da pesquisa.
Neste estudo os conflitos não são tomados como algo que cristaliza em polos opostos
grupos de interesses antagônicos, que se digladiam num campo de batalha em torno do que é
o mais justo, ou mais legítimo, ou tem força maior para se impor e a partir daí recriar o
território. O conflito é percebido como um encontro de diferentes forças que se transformam
em suas colisões dentro de uma realidade vivida e experimentada. Está em movimento
constante, o que se estende ou se retrai ou se coliga, não é compreendido aprioristicamente,
senão dentro dos traços que são deixados e que podem ser demonstrados. Esses traços
traduzem uma história de relações que pode ser narrada dentro de uma temporalidade. São
eles os caminhos deste mapa que, por sua vez, se subdivide em três partes, que correspondem
a diferentes momentos seccionados, não apenas nos assuntos, mas também nas velocidades,
todavia complementares na compreensão do todo da tese.
Parte I
A primeira parte do estudo visa apresentar como a pesquisa foi desenvolvida e
aproximar o leitor da realidade em que ela se assenta, neste momento, sem lançar mão de uma
discussão teórico-metodológica. Parte-se de uma seleção dos principais momentos grafados
em diários de campo, correspondentes à cerca de duzentos dias de vivências in situ,
sustentadas a partir de três eixos de investigação:
a) o primeiro diz respeito à base documental, em que foram utilizados pareceres, processos,
planos de manejo, laudos antropológicos, estudos de impacto ambiental, representações, notas
técnicas, normativas, entre outros documentos somados aos estudos acadêmico-literários das
pesquisas de áreas diversas que se empenharam na região de estudo ou que auxiliaram na
compreensão da mesma;
b) o segundo eixo se sustenta nas percepções dos diversos atores sobre os dissídios que os
envolve, neste momento a investigação se deu por meio de entrevistas gravadas e conversas
estabelecidas com representantes das comunidades tradicionais, agentes e autoridades
governamentais, funcionários da empresa, cientistas e representantes de movimentos sociais;
c) o terceiro eixo corresponde às vivências propriamente ditas, em que se buscou ir nos
diferentes locais para experimentar as diferentes realidades e contrastar, sempre que possível,
o que dizem os documentos, o que dizem as pessoas e o que se pode observar.
Os instrumentos utilizados para coleta de dados foram câmera fotográfica, filmadora,
gravador de voz e computador. Esta primeira parte está subdividida em três capítulos: o
primeiro introduz de maneira panorâmica a multiplicidade das políticas que recaem na região
  26  

enfocada; o segundo narra os trabalhos de campo realizados com base nos diários de campo,
neste momento sem dar voz aos múltiplos atores, apenas descrevendo a experiência; e o
terceiro capítulo busca uma apresentação do município de Oriximiná contextualizada com a
complexidade de sua vastidão territorial.
Parte II
No início da pesquisa adotei enquanto viés de análise, sem pretensões de uma pureza
teórica, a perspectiva estruturalista-construtivista, pela sua ampla utilização na sociologia da
questão ambiental no estabelecimento de um “campo próprio dos conflitos socioambientais”.
Neste primeiro momento tracei hipóteses que focavam os posicionamentos ocupados pelos
diferentes atores em conflito, com seus respectivos “capitais” empenhados na “luta cognitiva
e classificatória” pelas mudanças de posições pleiteadas no “campo”. No caso, o que
representa a própria ocupação e utilização do território: quais práticas são mais legítimas,
mais justas, mais sustentáveis etc. Nesse sentido, o objetivo geral da tese, neste primeiro
momento, foi compreender e explicitar as contradições e as discrepâncias de poder no uso
desses territórios associadas à uma perspectiva de justiça. Em síntese, a partir de um modelo
sistêmico em que os elementos da realidade poderiam ser inseridos, para que se
compreendesse as “estruturas profundas” que determinam a realidade e o movimento dos
atores, que não são perceptíveis apenas empiricamente, pois representam “forças sociais
ocultas”.
A constante necessidade de amputar aspectos da realidade percebidos enquanto
relevantes, mas que não eram comportados pela moldura, me levou a uma mudança de
perspectiva, induzida também por afinidades filosóficas anteriores. Com essa mudança, todos
os artigos escritos na fase exploratória da pesquisa, que compuseram grande parte do “projeto
de qualificação”, tiveram que ser abandonados ou refeitos. A transição empenhada se
apresentou não apenas como uma “troca de paradigma”, mas como uma mudança na “forma
de ver o mundo”. Esse momento foi aproveitado na segunda parte da tese com o intuito tanto
de elucidar essa transição, quanto de empenhar diferentes perspectivas epistemológicas que,
ao configurarem ontologias e metafísicas muito distintas sobre o que é o “social”, marcam
diferentes possibilidades de leitura para os conflitos socioambientais.
Essa segunda parte também é subdividida em três capítulos. O quarto capítulo
apresenta sucintamente as três matrizes teóricas que influenciaram o desenvolvimento da
pesquisa. No quinto capítulo é apresentada toda uma base conceitual que aporta diferentes
compreensões da questão ambiental e dos conflitos sobre os recursos, dentro de algumas
concepções, destacando-se a do estruturalismo-construtivista. O sexto capítulo trata a
  27  

perspectiva filosófica de maior influência e são esmiuçadas as problematizações, os


posicionamentos e o método de abordagem da pesquisa. Para efetuar sua análise a pesquisa
não ficou fidelizada a nenhum direcionamento exclusivo, marcando sua interdisciplinaridade,
mas se valeu do instrumental da teoria ator-rede, dos rizomas e da antropologia simétrica
enquanto orientações filosóficas. Sob esta perspectiva, a sociedade não é explicada pelas
“relações sociais”, mas compreendida dentro das associações que a compõem, dentro de uma
multiplicidade em que tudo que se encontra e transforma a realidade – quando possível de ser
observado no plano do real – deve ser computado, independente de ter origem humana ou
não. Os “atores sociais” passam a não ser apenas seres-humanos, mas qualquer coisa que
“cria” a realidade social, nesse sentido emprega-se também o termo actante. A divisão entre
cultura e natureza é rompida pelo abandono da noção usual de cultura e de natureza
simultaneamente, a dicotomia é fundida não pela relação de interdependência ente duas
entidades, mas de uma existência inseparável e irredutível a uma coisa ou à outra, o que se
busca explicar neste sexto capítulo que encerra a segunda parte tese.
Parte III
O que causa estranheza, num primeiro momento, é planificar o que é tradicionalmente
compreendido enquanto sociedade com aquilo que se designa como natureza, mitigando
completamente uma racionalidade transcendente na ação, arraigada na visão moderna de
mundo. Por sua vez, na prática, essa perspectiva opera de maneira simples, substancialmente
empírica, onde se descreve o que está se conectando e construindo a realidade. Passa a
considerar igualmente os seres vivos, não vivos e seres-humanos, sem recorrer a nenhuma
força invisível oculta para explicar o social, tudo deve poder ser demonstrado. É como contar
a história frisando como-uma-coisa-se-liga-a-outra. A perspectiva, que também não passa de
mais uma versão analítica da realidade, rompe de certa forma com a ciência paradigmática,
pois ao recusar um “modelo” de explicação, recusa a própria explicação, apenas se narra o
que se observa em associação e a realidade deve se auto-explicar. Por esse viés cada passo do
trabalho pode ser refeito, aprofundado, ampliado ou subtraído, está suscetível de receber
modificações constantes.
Esse norte filosófico operou também como uma “escusa epistemológica” para se
descrever tudo o que estava sendo vivenciado a partir dos três eixos de análise. Nesse sentido,
a terceira parte da tese corresponde às narrativas que descrevem as conexões entre os
diferentes atores e seus dissídios atrelados a um “modelo” de sociedade em expansão. Foram
produzidos seis capítulos que obedecem a uma cronologia e se apresentam por uma
  28  

homologia estrutural: primeiro é estabelecido um delineamento histórico-descritivo e depois


passa-se a analisar as interações e a rede de conexões que perfazem aquela realidade.
No sétimo capítulo são narradas como as políticas governamentais avançaram sobre o
norte do país, muitas vezes associadas à grandes grupos econômicos transnacionais,
enfatizando também as percepções destas políticas sobre os povos locais e seus modos de
vida. No oitavo capítulo é apresentado o agenciamento da bauxita de Oriximiná, traça-se todo
um histórico de conexões entre várias mineradoras e destas com o governo que, a partir daí,
viabilizaram o empreendimento que dá origem à MRN, busca-se também descrever a
reconfiguração territorial que representou a chegada do Projeto Trombetas na região. No nono
capítulo é narrada a ascensão e a penetração da questão ambiental nas políticas
governamentais, a consagração do modelo de conservação com base na segregação territorial
e o início da governança ambiental na área do estudo. No décimo capítulo é apresentada a
história de criação da Reserva Biológica do Rio Trombetas, os conflitos que se recriaram e
que ainda subsistem, e as incertezas que pairam sobre o destino deste espaço territorial
protegido e da espécie que ele visa conservar, a tartaruga-da-Amazônia. No décimo primeiro
capítulo é narrada a polêmica história da Floresta Nacional Saracá-Taquera, criada para
atender aos interesses da MRN em que se assiste o uso sustentável dos recursos florestais
exercido pelos remanescentes de quilombo e ribeirinhos, sendo sobrepostos à mineração da
bauxita, que efetua a supressão total da floresta, na unidade de conservação destinada à
exploração dos recursos florestais. Por fim, no décimo segundo capítulo é apresentada a
história de luta dos remanescentes de quilombo de Oriximiná, que estabeleceram conexões
com uma rede internacional de atores e, a partir daí, ganharam ampla visibilidade e força
política que está reconfigurando novamente o espaço territorial em análise, com as demandas
para a titulação dos territórios. Com exceção do sétimo capítulo todos os demais se sustentam
nos três eixos de análise e apresentam as perspectivas dos diferentes grupos de interesse,
dando voz a eles e focando também a interatividade entre os mesmos.
O estudo percorre uma vasta área por meio de uma cuidadosa narrativa que descreve
uma realidade muito singular em um momento muito singular. A ampla rede de interações
percorrida revelam nós que atam diferentes interesses e recriam realidades próprias. Abdicar
de recorrer às estruturas profundas, às genealogias, à razão transcendente, às forças sociais
ocultas, enquanto modelos de inteligibilidade dos conflitos sociais, se revelou de grande
utilidade para dar visibilidade aos nós, aos interesses e às realidades que envolvem as pessoas,
as ações e as responsabilidades. É importante salientar que tanto a pesquisa documental
empenhada, como os depoimentos colhidos, quanto as vivências realizadas, ainda quando
  29  

conjugados para a análise, podem falhar, todos configuram percepções. Quaisquer suposições
adicionais valorativas, que serão apenas suposições, tomaram como norte a ideia de uma
democracia ampla, que visa apreender a pluralidade dos seres. As linhas e os nós que atam a
rede narrada, que dão os caminhos deste mapa, são portas abertas para novas pesquisas ou
para intervenções ou ações. Contudo, condizente à filosofia que inspira o trabalho, aspira-se
que eventuais ações não venham de modelos pré-concebidos, mas que brotem diretamente
destes solos.

 
  30  

PARTE I – DIÁRIO DE CAMPO

Mapa 01: Diário de Campo – Rota da Pesquisa. Leonardo Alejandro Gomide Alcàntara, 2013.
  31  

1 INTRODUÇÃO

Com toda a sua exuberância a Amazônia brasileira, a maior floresta tropical do


planeta, além de abrigar incomensurável biodiversidade, é um reduto sem precedentes de
recursos madeireiros, minerais, hídricos e energéticos que salta aos olhos do mundo como um
dilema que antagoniza ideais de conservação e de desenvolvimento, de soberania e de
internacionalização de espaços, apresentados por uma multiplicidade de discursos que vão do
local ao global. Mas, além das riquezas compreendidas como “naturais”, a Amazônia possui
também vasta diversidade “cultural” como uma terra de muitos e distintos povos que vão dos
seus índios, quilombolas e ribeirinhos aos colonos, fazendeiros e citadinos, apresentando
diversas formas e razões de uso e ocupação desse vasto território, já há muito, habitat
humano.
A multiplicação de projetos de ocupação das terras amazônicas por grandes
empreendimentos, de exploração de seus recursos e de desenvolvimento econômico, na
perspectiva de uma nova colonização, foram significativamente incentivados pelo governo
brasileiro no curso das décadas de 1960 e de 1970. O levante de uma bandeira de apropriação
territorial, a sedução de um progresso homogeneizador, a atuação de missionários religiosos,
ONGs, multinacionais e toda sorte de piratas, confrontados com as tradições culturais
daqueles que ali sempre estiveram, em suas múltiplas relações, constitui a complexa realidade
social desse grande bioma. Uma história que guarda o estigma de ter relegado à invisibilidade
grande parte dos que ali tradicionalmente subsistem e estabelecem uma peculiar relação com
seus territórios. Aqueles que vivem em comunidades com menor acesso aos marcos
decisórios da sociedade foram, muitas vezes, vitimados por madeireiras, fazendeiros,
grileiros, sojicultores, pecuaristas, políticas públicas de infraestrutura e de conservação,
missionários, mineradoras etc. Não obstante estabelecerem modos de vida integrados com
aquele ambiente, são constantemente deles expulsos ou retirados, ou têm seus modos de vida
inviabilizados. Habitantes de um mundo onde se recria a todo tempo uma realidade de
contrastes, de uma dinâmica cultural viva, intercambiante, de aspirações de progresso e
desenvolvimento concomitantes às de proteção socioambiental. Povos que vem se articulando
politicamente através de associações formalizadas ou não, mais e mais demandam a
demarcação de seus territórios, reivindicam maior influência no poder, reinauguram modos de
vida singulares e formalizam novas e velhas formas de lidar com o território e com a
  32  

propriedade, com base na ideia de uso comum. Criam-se percepções ainda não harmonizáveis
em nossa tradição jurídica privatista.
A presente pesquisa foca essa realidade severamente marcada pelos processos de
disputa sobre os recursos ambientais – acesso, controle e exploração – em um território de
grande riqueza e sobre um viés que retrata um marco indispensável na inteligibilidade das
sociedades contemporâneas: a sustentabilidade dos modelos de desenvolvimento e a
distribuição de poder sobre os recursos naturais. Esse vasto campo amazônico, no qual a
investigação se empenha, antagoniza a barbárie civilizatória do desenvolvimento, o
enclausuramento impositivo das políticas conservacionistas e a luta por reconhecimento dos
velhos povos de lá, imbricadas entre o discurso da defesa da tradicionalidade identitária e as
novas ambições materiais, abduzidos pela sociedade de consumo.
O mundo de contrastes circunscreve-se nas linhas de um dos maiores municípios do
planeta em espaço territorial e no seu entorno: Oriximiná, localizado na calha norte do Estado
do Pará, na região oeste. O município, instalado em 1934, situa-se na mesorregião Baixo
Amazonas e microrregião de Óbidos (01º 46` 00" S e 55º 51` 30" W.Gr.), faz divisa ao norte
com o Suriname e com a Guiana Francesa, ao leste com o municípios de Óbidos, ao oeste
com o município de Faro e o estado de Roraima e ao sul com os municípios de Juriti e Terra
Santa. Conforme o IBGE (2010) possui uma população urbana estimada de 40.147 e rural de
26.674. Com um território de 107.602,99 Km², o município encontra-se em área de particular
beleza, com seus grandes rios, lagos, praias, igarapés e toda a complexidade e opulência da
floresta amazônica.
Desde meados da década de 1970, acompanhando as referidas políticas
governamentais que focavam implementar grandes empreendimentos na Amazônia, norteados
pelos ideais desenvolvimentistas hegemônicos e pelo mito dos “territórios vazios”, o
município de Oriximiná assistiu a uma forte modernização e dinamização de sua economia.
Ao longo da bacia do Rio Trombetas, principal rio da região que nasce na fronteira do
Suriname e da Guiana Francesa, desaguando no Amazonas, foram experimentados enormes
projetos para apropriação dos recursos minerais e do potencial hidroelétrico, visando tornar a
área um novo polo de desenvolvimento. Empenharam-se nessa colonização do território
empresas como a ELETRONORTE, ALCAN, ALCOA Mineração S.A., Mineração Rio do
Norte – MRN, Andrade Gutierrez, Jarí, Petrobrás, Engerio, entre outras, incentivadas,
subsidiadas e apoiadas pelo Estado brasileiro. Dentre estas empresas, a que efetivamente se
consolidou na região foi a MRN, constituída em 1974 por empresas nacionais e
internacionais, possuindo como acionistas a Vale do Rio Doce (40%), BHP Billiton Metais
  33  

(14,8%), Rio Tinto - Alcan (12%), Companhia Brasileira de Alumínio – CBA (10%), Alcoa
Alumínio S.A. (8,58%), Norsk Hydro (5%), Alcoa World Alumina (5%) e Alcoa AWA
(4,62%).
A MRN atua na mineração e beneficiamento primário da bauxita, iniciando sua
produção com 3,3 milhões de toneladas anuais e atualmente produzindo cerca de 18,1 milhões
de toneladas por ano de bauxita, matéria prima do alumínio. Para acomodar seus funcionários,
pesquisadores, diretores e todo pessoal de suporte, foi criada uma sede urbana para a empresa,
denominada de Porto Trombetas, com mais de 6.000 habitantes e com uma infraestrutura
social muito superior à do próprio município de Oriximiná. Uma “cidade” fechada, recolhida
sobre si mesma, a qual surpreende pelo rigor e disciplina, controlando quem entra e quem sai,
possuindo “hora de recolher” dos bares e restaurantes, exibindo escolas, hospitais,
laboratórios, áreas de lazer, comércio etc.
Concomitante aos projetos de desenvolvimento experimentados na região, revelando
quão antagônicas foram tais políticas públicas, criaram-se duas unidades de conservação de
importância nacional nos arredores de Oriximiná e municípios vizinhos: A Reserva Biológica
do Rio Trombetas, com cerca de 408.000 ha, criada em 1979 pelo Decreto Federal nº 84.018
de 21 de setembro do mesmo ano; e a Floresta Nacional Saracá-Taquera, com 429.600 ha,
criada no final de 1989 pelo Decreto Federal 98.704 de 27 de dezembro de 1989, abrangendo
três municípios: Oriximiná, Faro e Terra Santa – ambas são atualmente disciplinadas pelo
Sistema Nacional de Unidades de Conservação, Lei 9985/2000. De um lado, o
desenvolvimentismo predatório da mineração, da hidroelétrica, da abertura de estradas; e de
outro, a conservação segregacionista e excludente da reserva biológica e da floresta nacional,
unidades de conservação que demarcam o campo preciso desta pesquisa.
Os impactos ambientais e sociais das grandes empresas que por lá passaram são de
complexa mensuração, pois não apenas modificam os modos de vida das populações e dos
ecossistemas, mas recriam em âmbito local toda uma rede de atores e relações de poder que,
por fim, mudam a dinâmica do ambiente (sócio-natural) completamente. A criação das duas
unidades de conservação está intimamente ligada ao modelo de apropriação do ambiente que
se instaurou. Apesar de operar como uma garantia de proteção da biodiversidade e dos
recursos naturais daqueles territórios, as unidades foram sobrepostas aos territórios de
populações tradicionais ferindo profundamente outra riqueza que a região de Oriximiná
guardava: os modos de vida de populações tradicionais, sobretudo os remanescentes de
quilombos que há cerca de duzentos anos habitam o vale do Rio Trombetas, exatamente na
área que passou a ser abrangida pelas unidades e pela mineração.
  34  

As populações tradicionais da região, ribeirinhos, indígenas e quilombolas, excluídos


do processo de desenvolvimento e prejudicados pelas políticas de conservação, tiveram o seu
levante nas décadas de 1980 e 1990. Organizados, subvencionados, orientados e subsidiados
pelos movimentos pastorais da Igreja Católica de inspiração libertária e reativa e,
posteriormente, por organizações internacionais e nacionais, os tradicionais da região ganham
voz e cultura política, constituem associações formalizadas e real inserção nos espaços de
consulta e deliberação coletiva. Inovam a partir de suas próprias tradições ao terem suas terras
tituladas em regime coletivo de exploração, confrontando com o modelo de propriedade
privada, mais aceito na tradição política e jurídica brasileira. Por sua vez, percebem-se
ameaçados em suas culturas e práticas, confrontadas com o novo mundo penetrante e sedutor,
desejado, mais do que imposto, mas com um custo alto, impagável. Escancaram seus
contrastes internos ao enfrentarem a dinâmica de modernização do seu mundo, sofrem
problemas de regularização fundiária de seus territórios, invasão de fazendeiros e caçadores
em suas terras, repressão dos órgãos governamentais entre outros fatores que vão
transformando a forma como os mesmos lidam com seu ambiente.
Nesse contexto, junto às empresas e populações tradicionais a figura do Estado é
substancialmente importante para o estudo e, explicitamente, o que ostenta as maiores
contradições. Na esfera judicial pode-se eleger o termo “ausência” para definir
hiperbolicamente a situação. O constante revezamento de magistrados e promotores, que
nunca criam vínculo com a região, e o reconhecido esforço de um único defensor público para
o município de Oriximiná e vizinhos, traduz o papel menoscabo do Judiciário enquanto poder
incumbido de dirimir os conflitos sociais de toda ordem na região. Com uma ressalva: o papel
do Ministério Público Federal, presente no município de Santarém, apresenta-se com
considerável importância no desdobramento dos conflitos socioambientais pertinentes às duas
unidades de conservação. Na esfera pública municipal as gordas verbas provenientes dos
royalties da mineração fomentaram uma política e uma cultura assistencialista em que laços
de dependência mútua se concretizaram, através do combustível para alimentar os geradores e
embarcações, somadas à política de transferência de renda do governo federal, onde as
comunidades tradicionais tornam-se também, na prática, verdadeiros currais eleitorais. Na
esfera estadual, com atuação menos significativa na área do presente estudo (unidades de
conservação federais), tem-se como pertinente a análise dos processos de titularização de
terras e os processos de licenciamento para exploração de madeira nas áreas adjacentes. Por
fim, na esfera federal a atuação de órgãos como o antigo IBDF, o IBAMA e mais
recentemente o ICMBio, revelam as mudanças de postura governamental com relação às
  35  

populações tradicionais e polêmicas questões sobre autonomia e subordinação com relação


aos fortes poderes econômicos que atuam na área.
Recentemente os recursos madeireiros vêm despertando os olhares do respectivo setor
industrial para a região. Com a Lei 11.284/2006 que implementou uma nova política de
gestão de florestas públicas, dois importantes instrumentos foram criados para conter a
derrubada criminosa da floresta amazônica: o Manejo Florestal Sustentável e a Concessão
Florestal. Em 2010 foi licitada a Concessão Florestal na Floresta Nacional Saracá-Taquera.
Novos conflitos territoriais afloraram entre empresas, governo e tradicionais, sobretudo com
relação à demarcação de terras e áreas para escoamento dos produtos madeireiros, mesmo
antes de se iniciar a produção. Entretanto, questões mais graves relacionadas à exploração da
madeira e outros recursos florestais avistam-se no horizonte através do crescente número de
parcerias firmadas entre comunidades e empresas. As associações de comunitários, para as
quais suas terras são tituladas em regime coletivo, firmam contratos com empresas
madeireiras que se valem do Manejo Florestal Sustentável para mascarar a usurpação desses
recursos, por meio de pactos ilegais e desproporcionais.
O breve contexto marca a realidade em que a presente pesquisa se assenta. A análise
foca as conexões, agenciamentos e multiplicidades que constituem aquela densa rede sócio-
natural de interações. Neste sentido, não se propõe uma “descrição de fatos” com base em um
eixo “genético/genealógico” ou de uma “estrutura profunda” que determina a realidade.
Também não há pretensão de abarcar todas as interações que se multiplicam ou se cessam, ou
se encontram ou se desviam a todo instante. Parte-se de um esforço empírico a partir de
vivências, entrevistas, análise de documentos que buscam resultados que possam contribuir na
inteligibilidade dessa realidade que explicita contradições tão profundas nas políticas de
desenvolvimento, de conservação e da dinâmica das transformações culturais.
  36  

2 O PARAÍSO E O LIMBO

Impressões do lado de cá
Descrevo, sabendo que a palavras não abrangeriam o que de fato gostaria de dizer, o que
sobre os meus olhos se impõe e os meus sentimentos inunda. Entorpecido com tanta vida,
viva, cores, vida sobre vida, morte e vida. Da textura fina das meninas de pele cobre, das
águas cálidas sobre a areia clara, o horizonte dos rios ultrapassa a distância dos olhos e se
perde no oceano doce onde o sol se esconde.
Do mundo os contrastes afloram, da beleza que se rouba, da terra que se estupra, do bicho
que se come na fome dos gostos dos homens, dos seres milenares que vão ao chão para
tornarem-se nossos objetos. Experimento! Nunca sei muito bem onde se encaixa o que digo e
acredito. Apenas vivo para sentir que existo junto a isso.
Moderados sentimentos, cada conversa, cada palavra, revelam que os sentidos se modificam
a cada instante na repetição da tradição de anteontem. Milenar! As pessoas dos rios me
disseram sobre o tempo, a imensa escultura dos nossos saberes, passa percebido sobre tudo
em volta, onde estou e sou.
Queria fazer sentir em cada um, parte de cada um, de tudo que existe, mas se sinto, por que
me sinto só? Essa busca do medo maior fazia controlar tudo e daí se expandir para o infinito,
dentro e fora das nossas ambições e desejos de conseguir ter alguém! Ou tudo?
Saudades.

Abril de 2010

Foto 01: Carregador de navios. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2010.


Chegávamos ao aeroporto de Porto Trombetas por volta das oito horas da noite do dia
08 de abril de 2010. Éramos oito, dentre estudantes de graduação, mestrado, doutorado e o
professor que ministrava a disciplina de Prática de Pesquisa II, razão da viagem. Logo na
chegada nos deparamos com um acontecimento surpreendente: não podíamos ingressar na
“cidade”, devido a uma falha de comunicação. Não anunciamos nossa chegada na referida
data e o ingresso dependia de uma autorização prévia que não detínhamos. Aguardamos por
  37  

cerca de uma hora no pequeno aeroporto até que a situação se resolvesse após conversa com
representante da área de comunicação da empresa, Sr. Pedro Ribeiro, prosseguindo então para
o hotel em que nos alojamos. O breve acontecimento guardou em si uma inusitada situação:
como poderia ser necessário autorização para ingressar em um distrito? Considerando que
éramos na maioria profissionais do Direito, e como tal, tínhamos para nós enquanto
fundamental e constitucionalmente previsto o direito de ir e vir, em se tratando de espaços
públicos sem aparentes restrições. O pequeno distrito de Oriximiná, Porto Trombetas, a
company town, chamou-nos a atenção por sua peculiar condição de uma “cidade enclave”,
recolhida em si, controlada, disciplinada e normatizada pela Mineração Rio do Norte, que o
criou e que o mantém, dando a razão de sua existência.
Ordem, disciplina e controle são termos que retratam bem a realidade do pequeno
distrito, a lógica operacional das grandes empresas como a MRN e a busca obstinada da
modernidade em suas múltiplas expressões. São termos que guardam peculiar importância na
inteligibilidade do contexto da presente pesquisa. A pequena cidade industrial, incrustrada na
densa floresta amazônica, está conectada às grandes minas de bauxita e desemboca no Rio
Trombetas, onde opera o seu “shiploader” (carregador de navios). Diariamente navios
transcontinentais chegam ao Porto de Trombetas para se abastecerem do minério e o levar a
diversos lugares do mundo. A bauxita ali comercializada, minério com baixo valor agregado,
é levada para diferentes locais para ser transformada no leve metal chamado alumínio.
O contraste sobre os olhos não se dá apenas com a imagem dos imensos navios sendo
carregados na cidade industrial frente àquele rio e floresta tão exaltantes, ou das grandes
minas manchando a floresta de vermelho nas fotos de satélite ou nos sobrevoos, mas também
no choque entre os que ali há muito vivem na absorção da nova ordem, na conjugação entre
exploração minerária e preservação ambiental, na relação entre multinacionais e o governo
brasileiro. Contraste, contradição e paradoxo são termos também substanciais para elucubrar
o círculo imaginário que recai sobre aqueles territórios delimitando a abrangência desta
pesquisa, que muitas vezes o ultrapassa, quando da possibilidade de conduzir-se no fluxo de
seus múltiplos rizomas. Da dialética que desconstrói para reconstruir, da ambivalência que
valora o que se antagoniza, para a multiplicidade e polivalência dialógica das redes e
interações que se multiplicam e se desvelam na medida em que se penetra nos seus fios
conectores e atinge seus nós.
Neste momento, além de apresentar o desenvolvimento do estudo e suas nuanças,
tenho o intuito de aproximar o leitor da realidade vivida ao longo de três anos na execução
desta pesquisa, sobretudo no que tange aos trabalhos realizados naquela região. Sem
  38  

pretensão de abarcar todas as vivências, são narradas algumas passagens, com base nos
diários de campo, que contribuíram de maneira mais substancial na formação dos
entendimentos expostos na tese sobre a realidade delineada.
A origem da pesquisa está atrelada à mencionada disciplina ofertada pelo Programa de
Pós-Graduação em Sociologia e Direito – PPGSD/UFF, sob responsabilidade do professor
Wilson Madeira Filho, orientador desta pesquisa. Nessa oportunidade pude conhecer Porto
Trombetas e Oriximiná em que, durante quinze dias do mês de abril de 2010, com o referido
grupo, foram levantados dados sobre a realidade político-institucional do município,
principalmente no que se refere a meio ambiente, saúde, educação e suas populações
tradicionais.
No município de Oriximiná, nos estabelecemos na Unidade Avançada José Veríssimo,
campus avançado da Universidade Federal Fluminense – UAJV/UFF, em que gozávamos de
boa infraestrutura, com acomodações condignas, refeitório e ambiente adequado para
trabalhar. Esse primeiro contato acarretou na mudança do tema de minha tese, anteriormente
voltada para o desdobramento de conflitos socioambientais em instâncias colegiadas de
deliberação coletiva da gestão ambiental. Foi também o ponto de partida para este estudo e a
particular beleza daquela região, em toda sua complexidade, fonte de sua inspiração.
Trabalhávamos concomitantemente um projeto para implantação de um Centro de
Assistência Judiciária em Oriximiná – CAJUFF Amazônia, visando a prestação de assistência
judicial gratuita para hipossuficientes no município, propondo a instalação do mesmo na
própria UAJV/UFF. Este trabalho foi conduzido paralelamente ao longo da pesquisa.
Nesse campo, de caráter exploratório, foi possível delimitar a pesquisa e problematizar
o tema que trata dos conflitos socioambientais e das disputas de poder sobre o território
(interior e entorno) de duas Unidades de Conservação Federais: a Floresta Nacional Saracá-
Taquera – FLONA-ST e a Reserva Biológica do Rio Trombetas – REBIO-RT. Na ocasião,
organizamos uma expedição para conhecermos as áreas, fretamos um barco com condutor,
auxiliar e uma cozinheira, aportando todos os insumos necessários para os trabalhos. Foi
firmada uma importante parceria com estudantes de geografia da UFF, que ali desenvolviam
um projeto de extensão sobre segurança alimentar, em que, um nos acompanhou na
expedição, facilitando o ingresso nas comunidades que já conhecia. Após registro da pesquisa
no SISBIO/ICMBIO, foi possível visitar as duas unidades e algumas comunidades que ali
residem (Abuí, Paraná do Abuí, Moura, Boa Vista, Mãe-Cué, Último Quilombo e Nova
Esperança). Foram realizadas entrevistas coletivas, Diagnósticos Rápido-Participativos,
conversas com autoridades públicas e vivências importantes. Muito material foi coletado, de
  39  

Estudos de Impacto Ambiental aos Planos de Manejo, dando início também ao eixo
documental da pesquisa.

Mapa 02: Diário de Campo – esboço do trajeto. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2010.

O deslumbre daquela paisagem acompanhava diuturnamente o trajeto, à época, as


águas inundavam os igapós – um mundo de água. O barco deslizava sobre o rio que parecia
um tapete, tamanha mansidão, tornando a viagem agradavelmente monótona pela paisagem
contínua. Palafitas quebravam essa continuidade verde surgindo em entremeio à densa
floresta, nossos destinos ali se apresentavam, em significativos intervalos de tempo. Marcava
os nossos olhos estrangeiros o contraste entre a abundância das riquezas amazônicas e a
simplicidade material daquele povo, a dita “precariedade” no estereótipo etnocêntrico
cunhado na visão dos que veem de outra realidade. Desembarcávamos sob olhares curiosos e
desconfiados, quase sempre éramos rodeados por crianças, que se desinibiam mais facilmente.
Buscávamos as lideranças comunitárias para que nos propiciassem uma reunião coletiva,
convocando os demais comunitários. Neste momento explorávamos as principais questões
daqueles povos na tentativa incipiente de compreender a realidade que se impunha. Além da
descrição de conflitos que muito me interessava, outro dois pontos me chamavam a atenção: a
fala que se repetia de que pesquisadores sempre por ali apareciam, mas que nunca retornavam
para que eles soubessem sobre o que pesquisavam; e o que reverteríamos para eles com os
nossos trabalhos.
Não obstante a pertinente queixa, as entrevistas coletivas e os diálogos com os
comunitários, estabelecidos na primeira vivência, fluíram adequadamente e foram
  40  

substancialmente produtivos para esboçar o entendimento de um lado do conflito. Ali se


externava o profundo ressentimento oriundo da criação das Unidades de Conservação e
consequente policiamento realizado pelos agentes governamentais que recaia sobre seus
modos de vida. As estórias narradas remontavam principalmente a primeira década da
Reserva Biológica do Rio Trombetas e expunham a violência física e simbólica que a
conservação ambiental incidia sobre suas vidas: cultura e corpos. Nessa época os
acontecimentos se davam sob a égide do regime militar e seus resquícios ainda vívidos no
início da transição democrática.
Desse primeiro contato decorria a compreensão de que me empenhar neste trabalho
requereria retornar ali muitas vezes e viver aquela realidade intensamente para compreendê-
la. Para além de livros e recortes já empreendidos, deveria sentir na pele a realidade, os
modos de vida, as dificuldades inerentes à vida naquele lugar, os trabalhos da empresa, as
ações dos órgãos ambientais e o que mais se fizesse pertinente ou possível. Vindo de uma
realidade outra, estrangeira nas devidas proporções, mesmo com leituras acadêmicas que
relatavam sob seus distintos vieses aquele mundo, tudo era muito novo e requeria grande
empenho no campo para obter alguma profundidade. Ainda que na brevidade de meu tempo e
na certeza de que sempre haveria mais a se descobrir, mais a se aprender. A posição de
observador-participante, limitada pela parca disponibilidade de poucos e intercalados meses
para o campo ao longo dos anos, buscou ser compensada pela intensidade das vivências.
Aqui, também, fez-se necessário compreender a minha posição na própria pesquisa, pois
lidava a um só tempo com quatro grupos distintos de “atores humanos”: comunitários (os
remanescentes de quilombo, ribeirinhos e indígenas), os representantes da empresa
(Mineração Rio do Norte principalmente), os pesquisadores (sobretudo os ligados às ciências
biológicas) e os agentes governamentais (ligados aos órgãos ambientais). A minha posição
não esteve atrelada a nenhum grupo em particular, estava permeável aos posicionamentos de
cada um deles, sem, no entanto, hierarquiza-los dentro de uma perspectiva valorativa pré-
concebida. O papel de pesquisador buscou ser sensível aos diferentes enfoques na busca de
compreender em que plano se dava a legitimação das diferentes práticas e propostas de
uso/ocupação daqueles territórios e elucidar o matiz ideológico que as sustentava.
  41  

Dezembro de 2010

Foto 02: Soltura dos filhotes de tartaruga-da-Amazônia. Virgínea Bernardes, 2010.

No segundo campo, realizado em dezembro de 2010, a pesquisa já havia avançado em


sua base teórica e alguns objetivos puderam ser pontuados, direcionando melhor a análise.
Empenhávamos nessa segunda empreitada apenas eu e uma colega, então aluna do mestrado,
que também direcionou seu trabalho para aquela região: Thais Maria Lutherback Saporetti
Azevedo, que desenvolveu pesquisa sobre os contornos sócio-jurídicos do Projeto Estadual
Agroextrativista Sapucuá-Trombetas (PEAEX – Portaria ITERPA nº 729) e sobre os modos
de vida das comunidades beneficiadas com o mesmo. A dissertação intitulada de Estatização
do Puxirum: uso coletivo da terra no Projeto Estadual Agroextrativista Sapucuá-Trombetas,
em Oriximiná (PA) – Niterói: PPGSD-UFF, 2012, tratou a territorialidade da Amazônia
naquela área em questão, nas relações individuo/sociedade em suas bases de solidariedade
social dentro de um território de uso comum para 32 comunidades. Território este criado a
partir de um projeto estatal que promoveu o assentamento de centenas de famílias que
exercem atividades de baixo impacto integradas à dinâmica daquele ambiente. O território, de
regime coletivo, é titulado para a Associação das Comunidades da Gleba Trombetas e Gleba
Sapucuá – ACOMTAGS.
Thaís Azevedo tornara-se companheira na pesquisa. No curso dos trabalhos, os
acompanhou até o encerramento de seu mestrado e, reciprocamente, teve os seus por mim
acompanhados. As temáticas estavam intimamente ligadas, pois os limites territoriais do
  42  

PEAEX confrontam com a Floresta Nacional Saracá-Taquera e suas comunidades direta ou


indiretamente, estavam envolvidas em alguns conflitos focados nesta pesquisa. Outro ponto
importante foi o estreitamento das relações com atores institucionais que rendeu o apoio
logístico sem o qual o campo tornar-se-ia muito mais complexo e limitado. O Instituto
Nacional de Conservação da Biodiversidade – ICMBio no que tange às UCs e o Sindicato dos
Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Oriximiná – STTRO com relação à PEAX, foram
muitas vezes imprescindíveis para a locomoção até as longínquas comunidades alvo da
pesquisa.
Em uma oportunidade, a convite do ICMBio, após longa entrevista com o chefe das
unidades de conservação à época, foi possível retornar à Reserva Biológica em um evento que
envolveu as comunidades quilombolas, pesquisadores, representantes do município e os
funcionários do ICMBio, enquanto organizadores. Tratava-se da “soltura de quelônios” e da
“reunião da castanha”, encontros anuais que discutem a proteção dos quelônios da Amazônia
e a coleta da castanha dentro da REBIO. O evento que durou três dias foi todo documentado e
proporcionou uma boa visão sobre os conflitos internos (entre os próprios tradicionais) e
externos (entre tradicionais, ICMBio e pesquisadores) no que tange à utilização dos recursos
na área protegida. Um melhor detalhamento dos mesmos se dá em parte própria da tese.
Seguimos junto aos comunitários quilombolas e ribeirinhos que viviam em Oriximiná
e outros convidados da cidade, entre estudantes e representantes da prefeitura. Pegamos o
barco Ana Cândida, do próprio ICMBio e rumamos em direção a Porto Trombetas e depois à
Reserva Biológica. Na Base do Tabuleiro nos juntamos aos pesquisadores e auxiliamos no
transporte dos milhares de filhotes de tartarugas (Podocnemis expansa), tracajás (P. unifilis) e
pitius (P. sextuberculata) – quelônios que seriam soltos e que foram retirados ainda ovos de
seus ninhos vindo a eclodir nos tanques da base. O evento reunia pessoas das diversas
comunidades quilombolas, principalmente crianças. Os cientistas explicavam sobre seu
trabalho, os instrumentos de alta tecnologia que utilizavam e um pouco sobre a ecologia das
tartarugas. Os representantes do governo expunham suas estratégias para conservação da
espécie e seus planos de parceria para com as comunidades. Os comunitários assistiam
compenetrados e vez ou outra perguntavam sobre o que lhes interessava. Na soltura, as
milhares de tartaruguinhas pretejavam a areia vermelha numa massa em movimento rumo ao
rio. As crianças interceptavam algumas delas para brincar numa cena que marcava os olhos. A
soltura de filhotes se repetiu no lago do Erepecu, também dentro da reserva.
Por sua vez, a reunião da castanha é também um evento anual que busca dar respaldo
jurídico ao ingresso no interior da REBIO para o extrativismo da castanha, por meio de um
  43  

“termo de Compromisso” firmado entre os comunitários e o Governo. Neste evento foi


possível aferir a permeabilidade e disponibilidade dos agentes governamentais para com os
tradicionais no que diz respeito a compreender suas demandas e buscar efetivá-las,
concomitantemente assegurando um controle sobre o ingresso na reserva e regrando esse
ingresso, limitando o que pode ou não fazer, o que se pode ou não levar da floresta e quando e
como devem os comunitários ingressar para a prática do extrativismo. Ficou marcada aí, entre
vários outros eventos posteriormente vivenciados, as mudanças de postura do órgão ambiental
federal, atual ICMBio, que substituiu o IBAMA que por sua vez substituiu o IBDF, na gestão
desse território. A disciplina para o ingresso na área que corresponde à reserva antes era dada
pelos “patrões”, agora possibilitada pelo próprio governo, com uma distinção clara: todo a
produção extraída tornou-se de posse dos comunitários.
Outro momento importante foi uma visita a uma parte do assentamento da
ACOMTAGS, onde residem mais de trinta famílias de ribeirinhos na zona de amortecimento
da FLONA. Uma realidade também marcada por conflitos na demarcação do território e na
sobreposição de áreas. Assim como no caso dos quilombolas, o avanço do progresso
homogeneizador, as estratégias de conservação e o crescimento econômico redundaram em
significativas transformações nos modos de vida dos tradicionais e conflitos sobre as formas
de utilização dos territórios e seus recursos.
Guiados pelo presidente da ACOMTAGS, Emerson Carvalho, que nos acompanhou
durante todo este campo, navegamos em uma pequena lancha até a comunidade da “Casinha”,
onde conhecemos a Dona Teresa e Seu Chico. Ali pernoitamos e escutamos muitos causos
sobre a vida naqueles interiores. O Seu Chico demonstrava grande preocupação com os
recursos ambientais do Sapucuá, demonstrava-se bastante inteirado das questões de seu
território e era politicamente muito ativo, como líder dessa comunidade. Trabalhava
voluntariamente no “Projeto Pé de Pincha” em que nos arredores de sua casa possuía um
criatório de quelônios. Reclamava da falta de engajamento dos demais ali para com o projeto
e também das más práticas. Denunciava hábitos predatórios dos próprios comunitários que,
por vezes, roubavam até mesmo os quelônios que detinha em seu cativeiro.
Alimentar-se dos quelônios é uma tradição cultural muito arraigada em toda Amazônia
e a prática de se retirar matrizes no momento da postura faz parte dessa tradição, obtendo
ovos e carne ao mesmo tempo, ambos muito apreciados. Não obstante olhares externos
perfazerem julgamentos recriminatórios, principalmente quando se evoca a questão da
sustentabilidade e a confronta com tais práticas, a vivência cuida de prostrar as visões
romantizadas sobre os tradicionais, na mesma proporção que o faz com os ideais
  44  

conservacionistas. Não há uma correlação necessária entre as práticas tradicionais e as


perspectivas idealizadas de sustentabilidade, assim como não há uma sustentabilidade a priori
nos seus modos de vida. O que não quer dizer que os mesmos não vivam integrados com seus
ambientes e que suas dinâmicas de vida não sejam extremamente distintas da sociedade de
consumo.
Num desdobramento deste campo, fomos a outra comunidade da ACONTAGS
chamada de Castanhal. Ali também coletamos dados, realizamos entrevistas e por fim nos
quedamos até o dia seguinte, como sempre, dormindo nas redes em espaços coletivos. No cair
da tarde, não havia alimento suficiente para nós três que viemos de fora, mais os cinco
presentes daquela família. O pai, Seu Eduardo, havia saído com um dos filhos para caçar
neste dia e apenas retornariam na manhã seguinte. Como não havia comida para os que ali
restaram, nos empenhamos em uma caçada nos arredores do imenso lago. Dois jovens
daquela família, eu como observador participante e Emerson, partimos num pequeno bote
cujo equilíbrio requeria cuidados até para respirar, e seguimos Sapucuá a dentro na busca do
alimento. Os instrumentos para a pesca/caçada, além do bote, consistiam em lanternas,
terçado e zagaia. Tínhamos como foco peixes, jacarés e eventualmente algum outro animal
pequeno que se pudesse capturar e transportar, posto que o barco mal nos comportava. A
caçada resultou no abatimento de três pequenos jacaretingas (Caiman crocodilus crocodilus),
um peixe chamado cujuba (Oxydoras niger) e uma ave saracura (Aramides sp.), parecida ou
igual as que existem no sudeste. Os jacarés eram fisgados com a zagaia e tinham suas cabeças
decepadas com o terçado, para não causar acidentes no barco, os outros animais não
requeriam tal golpe. Os animais abatidos foram suficientes para o jantar deste dia, em que
comemos o peixe, e o almoço do dia seguinte, em que nos alimentamos dos jacarés com
castanhas, e da ave. Fato curioso é que dos jacarés apenas as caudas foram aproveitadas, o
restante do corpo foi descartado. Indaguei sobre se o restante não era comestível, obtendo
como resposta que sim, mas o mais apreciado era o filé da calda. Como não faltou alimento o
resto não foi aproveitado. Logo mais chegou o Seu Eduardo afirmando que a caçada não fora
bem sucedida, conseguindo apenas um jabuti que se tornaria o alimento daquela noite, em que
já teríamos partido.
Neste mesmo período foi buscado uma aproximação com os funcionários da MRN.
Contudo não logrei o êxito esperado na busca desse maior estreitamento das relações com a
empresa mineradora que opera no interior da FLONA. A dificuldade de acesso aos dirigentes
e responsáveis técnicos, mesmo cumprindo formalidades de solicitações institucionais, fez-me
buscar diálogos com os funcionários de base, que também rendiam conversas interessantes,
  45  

sem no entanto, gravar entrevistas. Um diálogo marcante se deu com um operador de


guindaste de uma empresa terceirizada pela MRN. O funcionário relatava que ganhava por
hora e que ficava a maior parte do tempo ocioso, pois nem sempre seus serviços eram
requisitados. Ao mesmo tempo não havia um momento certo para o mesmo, poderia ser a
qualquer hora, obrigando-o a ficar em Porto Trombetas durante toda a semana, mas recebendo
somente quando trabalhava operando o guindaste. Tal situação, ele externava, estava gerando
problemas com sua esposa que residia em Oriximiná, além de sentir-se injustiçado por não
receber, enquanto deveria estar sempre de prontidão. Outras conversas se deram com os
cooperados de Boa Vista, primeira comunidade quilombola titulada do Brasil, que possui uma
cooperativa que presta serviços à MRN - Cooperboa. Nestes diálogos, apesar de exercerem
trabalhos de baixa qualificação como faxineiros, jardineiros e serviços gerais, os cooperados
se diziam satisfeitos com seus trabalhos, que, por sua vez, transformam profundamente sua
cultura tradicional e ao mesmo tempo esquivam a empresa de encargos trabalhistas.
Esse campo tampouco avançou em relação aos posicionamentos políticos no
município de Oriximiná no que tange às unidades de conservação e seus impactos locais, bem
como sobre a aplicação dos Royalties advenientes da mineração. O acesso aos vereadores e ao
prefeito – com exceção de um vereador que não contribuiu muito – não foi conquistado ao
longo de toda a pesquisa, restando apenas o que se pôde aferir com documentos e observações
de campo. Por sua vez, os representantes do poder judiciário, Ministério Público e Defensoria
Pública foram bastante acessíveis, mas por serem geralmente substitutos e permanecerem
breve período no município, acabaram por contribuir muito pouco para a pesquisa. Senão pelo
o fato de demonstrarem a baixa importância do judiciário naquela realidade. Com exceção do
Defensor Público que exerce forte papel no município e região, sobretudo na defesa dos
interesses dos povos tradicionais, mesmo com uma vultuosidade de trabalho inconcebível
para uma só pessoa e em condições relativamente precárias.
  46  

Julho de 2011

Foto 03: Entrada da Reserva Biológica - Flutuante. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2011.

Em julho de 2011 foi realizada a terceira ida a campo. Nesta etapa, foi possível um
estreitamento dos laços com lideranças comunitárias, novas vivências, diversas entrevistas e o
levantamento documental de parte significativa da história da organização político-
institucional dos povos tradicionais de Oriximiná. Houve um maior estreitamento das relações
com a MRN, agendando previamente as visitas e entrevistas para início do próximo ano.
Também foi possível identificar os atores sociais que se apresentam como peça-chave para a
pesquisa e que foram entrevistados posteriormente.
Em uma visita à Paróquia de Santo Antônio em Oriximiná, pude realizar o
levantamento da história da mobilização política dos remanescentes de quilombo e da
organização dos trabalhadores rurais de Oriximiná. De um lado a mobilização associativista,
que tem como marco a Associação dos Remanescente de quilombo de Oriximiná – ARQMO
e, do outro, a organização sindical com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais
de Oriximiná – STTRO, ambos intimamente ligados ao movimento pastoral da Igreja
Católica. Foi possível aferir que no final da década de 1980, se iniciara um trabalho articulado
pelas linhas da Pastoral de Direitos Humanos (ligada à Pastoral da Terra), por parte de padres
presbíteros, franciscanos e verbitas, de conscientização sobre direitos e articulações políticas
direcionadas aos trabalhadores rurais e tradicionais de Oriximiná. Quase que
concomitantemente, outras organizações deram apoio, no que diz respeito aos remanescentes
de quilombo, para que se estruturassem politicamente. Neste caso, a Comissão Pró-Índio de
  47  

São Paulo teve forte participação. Um momento histórico em que a visibilidade dos
tradicionais e seu capital político cresceu sobremaneira naquela região.
Acompanhando uma equipe da UFF coordenada pela professora Adriana Russi
Tavares de Mello – que realizava o levantamento dos diferentes artesanatos produzidos por
aqueles povos tradicionais, por meio de um projeto de educação patrimonial – pude me
aproximar de um importante funcionário da MRN, no que diz respeito às relações da empresa
com as comunidades. Evandro Soares Silva, assistente de Relações Comunitárias da MRN,
nos apresentava, em um local chamado Casa da Memória em Porto Trombetas, a história da
MRN, sua produção e seus projetos com as comunidades, principalmente quilombolas. Após
a apresentação tive oportunidade de conversar com o referido funcionário a respeito das
relações da mineradora com as comunidades, aproveitando para reproduzir algumas de suas
queixas a respeito do insucesso dos projetos experimentados, sobretudo em relação à
continuidade dos fomentos para o prosseguimento dos mesmos. Os projetos variados, melhor
detalhados em parte especifica da tese, são de piscicultura, apicultura, agricultura familiar,
artesanatos de barro entre outros. Alguns projetos prosperaram em algumas comunidades,
mas na grande maioria das áreas visitadas fracassaram. A resposta que obtive não foi
diferente do que já ouvira em Oriximiná, verbalizado por autoridades públicas ligadas à
prefeitura municipal e mesmo por pessoas da UAJV/UFF, que atribuíam esse insucesso à
incapacidade administrativa dos próprios tradicionais, mas geralmente colocado de uma
forma preconceituosa, relacionando seus modos de vida à falta de vontade de trabalhar, à
preguiça – termo escutado de maneira recorrente nas conversas com pessoas em Oriximiná,
que revelavam um preconceito muito vívido na área urbana sobre os modos de vida
tradicionais. Por sua vez, o então chefe das unidades de conservação, Carlos Augusto
Pinheiro, relacionava o fracasso dos projetos sociais da MRN à sua inobservância aos modos
de vida tradicionais. Dizia que a empresa tratava os quilombolas e ribeirinhos ali como se os
mesmos fossem empreendedores e empregava uma lógica muito distinta de seus modos de
vida na operacionalização dos projetos, enquanto se tratava de povos extrativistas.
Outro desdobramento deste campo foi uma vivência de cinco dias na comunidade da
Cachoeira Porteira, uma das primeiras áreas a abrigar remanescentes de quilombo e que se
liga diretamente à história deste povo na região. Além de entrevistas com as lideranças
comunitárias que remontaram os conflitos e a história local, foi possível acompanhar os
modos de vida dessa comunidade, muito singular por abrigar não apenas quilombolas, mas
remanescentes dos projetos de desenvolvimento experimentados ali por várias empresas
principalmente a partir da década de 1970. Alguns dos antigos funcionários e pessoas
  48  

contratadas para os serviços ali desenvolvidos permaneceram no local e se estabeleceram


absorvendo os modos de vida daquela comunidade quilombola e também a reconfigurando.
Com uma infraestrutura muito distinta das demais comunidades, Cachoeira Porteira, possui
várias vias abertas e uma estrada que avança cerca de duzentos quilômetros floresta adentro,
hoje com cerca de sessenta quilômetros trafegáveis por veículos com tração. Muitas casas de
alvenaria, escola, centro comunitário (como as demais comunidades) e uma grande casa para
os indígenas, já que ali é ponto de passagem para várias aldeias e etnias tanto do Rio
Mapuera, quanto do Rio Cachorro e do próprio Rio Trombetas para o acesso à Oriximiná.
Veículos motorizados como caminhonete e motocicletas também compõem aquela realidade.
Resquícios dos grandes empreendimentos empenhados pela ELETRONORTE, Andrade
Gutierrez, MRN, ALCOA entre outras, ainda são visíveis como a pista de pouso e outras
ruínas sufocadas pelo avanço da floresta.
Nos hospedamos em um quarto numa casa de pessoas que vieram com as empresas e
que ali permaneceram com o abandono dos empreendimentos, seu Flor e Dona Ivanete, que
nos receberam por intermédio da Profª Adriana Russi. A rodovia federal, uma estradinha de
terra batida, em que se encontra a comunidade de Cachoeira Porteira, forma um peculiar
cenário com iluminação pública proveniente de gerador a diesel, postes de madeira e casas
dos dois lados, que brevemente se findam enquanto a estrada segue no horizonte. Cruzávamos
com pessoas carregando suas espingardas, um homem carregando sua caça – uma paca que
havia abatido na noite anterior – bicicletas circulando, muitas crianças e pessoas em seus
afazeres. Acompanho dois jovens na colheita da mandioca nos seus roçados. Eles colocam a
colheita em cestos chamados paneiros e em sequência as levam a um barracão de produção de
farinha. As mulheres retiram as cascas da mesma e em seguida as colocam na água para
adormecerem. Sigo acompanhando a feitura no dia seguinte, com a mandioca amolecida é
retirada a água e produzida uma massa que, por sua vez, é levada a um grande tacho para
queimar. Mexendo a massa sobre o fogo a farinha vai sendo produzida, as pessoas ali, homens
e mulheres, vão se revezando de tempo em tempo quem mexe a mesma. O processo dura
algumas horas, experimento ali essa feitura, mas a temperatura alta da proximidade do fogo
somada ao ambiente já muito quente, tornava o trabalho bastante árduo. A saída da
comunidade também se mostrou bastante problemática, pois por ser muito distante e possuir
transporte muito limitado, uma ou duas vezes por semana, os atrasos nunca se contabilizavam
em horas, mas em dias. Esse era um risco constante em vários locais da pesquisa.
  49  

Novembro de 2011

Em novembro de 2011 foi realizado campo em São Paulo com fins de conhecer a
Comissão Pró-Índio - CPISP, Organização Não Governamental que desempenhou papel
importante na articulação política dos remanescentes de quilombo de Oriximiná e na
demarcação de seus territórios. Neste campo foi possível realizar entrevista com Lúcia
Andrade, constantemente citada por diversos personagens entrevistados durante a pesquisa, e
obter material sobre as questões fundiárias relativas aos territórios e a novos conflitos que se
avistavam no horizonte a partir de novos empreendimentos na região.
Lucia Andrade foi referida seguidamente, seja pelas comunidades tradicionais, seja
por representantes do governo ou da mineração, sua inserção naquela realidade foi
indubitavelmente muito marcante. Na sede da CPISP, após troca de e-mails e agendamento
prévio, pude conhecer pessoalmente a equipe que ali estava presente e realizar longa conversa
gravada com ela, cumprindo importante etapa da pesquisa no que tange à remontar a ascensão
política dos remanescentes de quilombo e a atuação de organizações exógenas na construção
daquela realidade.

Dezembro de 2011 e janeiro de 2012

Foto 04: Festa na Tapagem. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012.


  50  

Em dezembro de 2011 e janeiro de 2012 foi realizado um campo destinado à


realização de vivências junto às comunidades quilombolas, à mineração e ao governo.
Durante esses dois meses foi possível acompanhar os modos de vida dos tradicionais. Ainda
que de maneira breve, pude estabelecer uma rica convivência em algumas comunidades em
que a observação de seus modos de vida se dava de forma direta e participativa: comendo o
que eles comem, dormindo como eles dormem, indo aos roçados, auxiliando na produção da
farinha, visitando castanhais e mesmo acompanhando caçadas e pescarias. Neste mesmo
campo foi possível acompanhar também o trabalho dos fiscais do ICMBio, muitos
contratados das próprias comunidades, em suas relações institucionais e com seu próprio
povo.
Para este trabalho foi imprescindível a ajuda do ICMBio, que disponibilizou além da
infraestrutura constante da Base do Tabuleiro, com alimentação, dormitório e internet via
satélite – local que foi utilizado como base para a pesquisa – mas sobretudo no transporte. Foi
disponibilizado um casco de alumínio com um motor de cinco cavalos chamado de “rabeta”,
que possibilitou outra mobilidade e independência no acesso às comunidades. Como operar o
barco era atividade assaz simples e já conhecia os caminhos, não era necessário um auxiliar
para me conduzir até as respectivas áreas de trabalho. O combustível e os demais insumos
foram arcados com os recursos da bolsa de pesquisa.
A primeira comunidade a ser visitada foi o Abuí e o Paraná do Abuí, terras
quilombolas tituladas pelo Iterpa em 20 de novembro de 2003 com o nome de Alto Trombetas
e dimensões de 61.211,9600 ha. Permaneci no Abuí na casa do seu então coordenador o Sr.
Raimundo Printes do Carmo, que vivia com seus filhos e netos em uma pequena casa de
madeira com teto de palha em uma ilha no lago do Abuí. Fiquei em um barraco ao lado, local
em que produziam a farinha. Apesar de sempre levar algum alimento, deixava-o na casa em
que me hospedava e me alimentava com toda a família. A alimentação consistia, basicamente,
em farinha, raramente algum legume ou verdura, arroz e carne que sempre tinha, ora peixe,
ora caça ou algum animal de criação. Como já verbalizavam os técnicos do ICMBio e outros
pesquisadores, ali não havia carência de alimentos, apesar dos hábitos alimentares constar de
um cardápio pouco variado, a floresta garantia relativa fartura de produtos alimentícios, entre
frutas e caças variadas, mas principalmente peixes. Mencionavam que aquela realidade era
muito distinta, por exemplo, do sertão nordestino, o que estando no local se percebe
prontamente. Entretanto, essa “fartura” da floresta se dá de maneira sazonal, em épocas de
cheia é mais complicado pescar, com exceção de algumas espécies de peixes, o que faz mudar
um pouco a base da alimentação com relação às épocas de seca. Em outros momentos a caça
  51  

pode ser mais fácil ou mais complicada e eles explicavam que cada caça (paca, anta,
queixada, macacos etc.) tinha uma melhor temporada, em que a mesma estava mais “gorda”.
Na comunidade do Abuí me alimentei basicamente de farinha e peixes, um dia trouxeram
uma caça, uma ave chamada mutum, que foi repartida por toda a família. Me surpreendia a
facilidade de obtenção do alimento. Pude acompanhar dois irmãos, entre oito e onze anos, que
após sua avó pedir a eles para pescar, em menos de uma hora, com um casco de madeira e
uma pequena malhadeira, retornaram com peixes para toda a família, cerca de dez pessoas.
Em outro desdobramento deste campo, na Base do Tabuleiro, acompanhei a ação dos
agentes do ICMBio na fiscalização das praias de desova das Tartarugas da Amazônia na
REBIO. Já havia entrevistado parte deles em outras oportunidades; neste sentido, ali focava
mais o acompanhamento dos trabalhos. Apesar do período de desova ter passado à época,
uma fiscalização mais acirrada se estendia por mais de um mês pela razão dos quelônios
permanecerem nas praias mesmo após a eclosão dos ovos, sendo esse cuidado considerado
necessário. O controle constante dos barcos que passam pela base, nesta época também se
agrava, proibindo que no turno da noite os mesmos subam o rio, obrigando-os a parar. Ouvia
muitas queixas a esse respeito nas entrevistas com alguns tradicionais, essa situação lhes
gerava certa revolta, pois muitas vezes tinham que esperar amanhecer nos barcos para
retornarem aos seus lares. Como o argumento que lhes externam é que o barulho dos barcos
prejudica as tartarugas e, no entanto, os próprios agentes circulam a noite com lanchas que
produzem igual ruído, os mesmos não deixavam de questionar qual a razão de lhes cercearem
o direito de ir e vir.
Naquela ocasião, ao contrário do que ocorreu em 2010, em que houve até disparos de
arma de fogo por parte de pescadores de quelônios direcionados aos agentes, a fiscalização
corria de forma mais amena. Para a realização dos trabalhos, foi montado um acampamento
no tabuleiro principal, próximo à base, em que os agentes se revezavam entre os que ali
pernoitariam ou não. Pude pernoitar um dia e vivenciar este trabalho naquela imensa praia,
entre o céu espelhado no rio e a sonora floresta. Outro trabalho consistia em uma ação de
busca direta utilizando uma lancha de quarenta cavalos, em que os agentes por meio de um
instrumento feito de vários grandes anzóis fixos em uma base de metal amarrada numa longa
linha, faziam busca ativa de malhadeiras de quelônios naquela parte do Rio Trombetas e nos
lagos próximos da base (Jacaré e Leonardo). Nesta noite, apesar de não encontrarmos
nenhuma malhadeira, foi possível flagrar dois comunitários do Paraná do Abuí pescando a
tartaruga. Camuflados na vegetação da beira do rio, os pescadores foram abordados pelos
agentes, também das comunidades, de maneira educada. Maneco, um dos agentes, pede para
  52  

aproximar o barco apontando uma forte lanterna na direção dos mesmos. Aborda-lhes
explicando que tal prática não era ali permitida e pedindo a compreensão deles em relação ao
trabalho que estava sendo desenvolvido. Por fim solicita que entreguem seus materiais de
pesca e os libera para seguirem para suas casas, noite adentro naquele rio. Não houve
momentos de maiores tensões, senão o medo da minha parte de os pescadores estarem
armados e ocorrer algum acidente.
Nesta mesma época, acompanhando a equipe do ICMBio no cadastro dos
comunitários para o “acordo da castanha” no centro comunitário do Abuí, pude conhecer
pessoalmente o pescador em questão. Um senhor com mais de setenta anos de idade que me
explicou sobre a tradição da pesca dos quelônios. Foi bastante simpático na conversa; por sua
vez, o filho dele, conhecido pescador de quelônios e reincidente infrator, foi mais hostil ao me
ver conversando, interrompendo a conversa e retirando seu pai de onde estava.
Sigo os trabalhos visitando a comunidade da Tapagem, mais antiga comunidade ali,
colhendo relatos de suas lideranças e moradores, posteriormente descendo para outra
comunidade que se desdobrou desta, chamada Sagrado Coração, ambas em área da FLONA.
Um pouco mais abaixo, visito a comunidade da Mãe Cué, em que tive um pouco mais de
dificuldade na recepção, tendo que dormir num barracão afastado e não conseguindo comida
durante um dia, o que já havia ocorrido em outras ocasiões (me alimentei de granola e leite
em pó que sempre levava comigo). Nesta comunidade realizei uma entrevista coletiva que
revelava quanto estava vivo o ressentimento gerado pelas práticas governamentais dos tempos
anteriores. Posteriormente visito a comunidade do Curuça e do Juquerizinho, na FLONA e na
REBIO respectivamente.
As vivências possibilitavam aferir também como as comunidades se distinguem em
termos de estrutura, organização política ou mesmo em suas práticas. A história do
surgimento desses locais, os recursos financeiros que receberam, o fato de a comunidade estar
dentro ou fora da REBIO ou em terra titulada, os recursos naturais que estão próximos e como
são utilizados... diversos e distintos fatores corroboram as peculiaridades de cada uma. Apesar
da proximidade entre muitas das comunidades e da relação de parentesco entre seus membros,
os percursos pelo rio não são tão simples, principalmente para aqueles que não dispõem de
recursos financeiros para adquirir combustível. Mesmo com muitas pessoas possuindo sua
“rabeta”, os contatos entre as comunidades são mais esporádicos e casuais. Obviamente essa
“tecnologia” revoluciona não apenas o transporte ali, mas as próprias conexões que aquela
socionatureza vai estabelecer com aquele mundo ao redor.
  53  

A comunidade do Jamari, no interior da REBIO, vive um dos conflitos mais


importantes da análise desta pesquisa, tratado mais profundamente em parte própria da
mesma. Uma disputa no interior da FLONA antagoniza os interesses dos quilombolas dali
com os da MRN. A comunidade do Jamari, assim como a do Curuça na FLONA, tem como a
principal atividade econômica o extrativismo do óleo de copaíba. No entanto, as copaibeiras
(Copaifera sp.) de onde extraem o produto, se situam em um dos platôs destinado à
mineração, o Platô Monte Branco. Com as atividades mineiras já iniciadas, milhares de
copaíbas estão sendo derrubadas, dentro da unidade de conservação destinada ao uso
sustentável dos recursos florestais, extinguindo o principal meio de subsistência daquela
comunidade. Neste campo, algumas experiências importantes foram também vividas, para
além do conflito em si. Pude acompanhar a extração de uma fruta chamada bacaba e a pesca
da tartaruga para consumo de uma família da própria comunidade. O sacrifício dos animais
foi uma cena marcante, pois eram subtraídos de seus cascos ainda vivos, levando certo tempo
até morrerem, sendo consumidos por inteiro em um prato com sabor bem exótico. Nesta
estada abateram também um peixe-boi, que foi dividido com toda a comunidade. Segundo seu
caçador era o décimo primeiro daquela temporada, dizendo que ali eles eram muito
abundantes e que proporcionavam alimento para muitos de uma vez.

Foto 05: Preparo de tartarugas jovens. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012.
Na comphany town acompanhei o trabalho e o dia a dia dentro do escritório do
ICMBio e um pouco da vida no pequeno distrito. Hospedei-me no alojamento do Pioneiro,
local destinado ao pessoal da própria entidade e aos pesquisadores das unidades de
conservação. O escritório, situado em Porto Trombeta na “Praça da Feirinha” – única área
  54  

acessível ao público geral – desde sempre foi mantido pela MRN, assim como a maior parte
dos programas desenvolvidos nas duas unidades de conservação. Convênios entre governo e
empresa estipulam os fomentos aos programas e os repasses de recursos que vão dar origem
aos planos de manejo, pesquisas, ações de conservação etc. Perscrutar sobre a autonomia do
órgão em sua atuação requer pensar, de um lado, que toda a operacionalidade do mesmo está
atrelada aos fomentos da mineração, e, de outro lado, que o ICMBio é composto de pessoas
que não necessariamente coadunam com a lógica da empresa. Isso diz muito e é muito do que
queremos dizer para sairmos de uma perspectiva analítica de fluxos uníssonos e lineares que
estabelecem uma inteligibilidade do mundo a partir de uma secção, privilegiando os aspectos
de análise que a reafirmam. Não sobrepujando o poder do capital e sua força em imprimir sua
lógica na compreensão dessa realidade, apenas sendo sensível às muitas minas incrustradas no
território, que constantemente são acionadas e imprimem também sua dinâmica, um desvio
vetorial, novas conexões, transformações ideológicas, inversões argumentativas.
Do início da pesquisa de campo ao seu término, assisti constante reconfiguração no
corpo técnico do ICMBio. No ano de 2010 o chefe da unidade havia sido substituído, o
anterior passou a chefiar outra unidade de conservação no nordeste e novos funcionários
haviam sido ali alocados. No ano seguinte outras pessoas haviam saído, transferidas para
outras unidades, reduzindo bastante o corpo de funcionários. Em 2012, novamente ocorreram
mudanças significativas, com substituição de pessoas. Por outro lado, também havia aqueles
que estavam ali desde a criação das unidades e ali se mantiveram. A saída de algumas dessas
pessoas me foi relatada por um funcionário como consequência da forte influência da
mineração. No caso relatado, a razão teria menos relação com alguma obstaculizacão à prática
da mineração propriamente do que por não se adequar à rigorosa dinâmica do distrito.
Porto Trombetas, dentro de sua peculiar organização, é um belo local com suas praças,
jardins e arborização. É conectado à grande floresta e possui uma infraestrutura mais
completa do que a de Oriximiná, ao menos em equipamentos urbanos. Caminhando por suas
ruas é possível avistar diferentes exemplares da fauna amazônica cruzando os caminhos, mais
facilmente do que nas comunidades tradicionais onde estes compõem parte da alimentação.
Tudo parece contrastar com o deserto vermelho das grandes minas que dali não se vê. Visito
as áreas de trabalho da empresa tanto as administrativas e de produção, como o horto, o centro
de reabilitação de animais, hospital, entre outros locais. Busco sempre dialogar com as
pessoas discretamente, conversar sobre a pacata vida ali e seus trabalhos.
Após acompanhar os trabalhos no escritório do ICMBio, combino com um
funcionário, que me auxiliava sobremaneira na pesquisa, de jantarmos em um restaurante em
  55  

Porto Trombetas. Ali conversávamos sobre assuntos diversos, dentre eles a vida no distrito.
Relatou-me que os dois funcionários do ICMBio que haviam saído neste ano, cederam às
pressões da empresa, indo trabalhar em outras unidades de conservação. Ele mesmo
comentava sentir-se constantemente vigiado, às vezes dizia mesmo ter a sensação de estar
sendo seguido – outras pessoas reproduziam esse comentário também. Falava que a vida ali
era extremamente monótona, regrada e sem muitas opções para se divertir. No ano seguinte
este funcionário foi transferido passando a chefiar outra unidade de conservação também na
Amazônia.
Apesar de estar muito próximo das áreas de mineração, não consegui visitar as minas
que estavam sendo exploradas e nem as áreas em processo de recuperação. As conversas com
responsáveis por departamentos estrategicamente importantes para a pesquisa se deram
sempre de maneira informal, sem entrevistas gravadas, salvo anotações em diário de campo.
Conversei com Milena Moreira, a gerente de Meio Ambiente da MRN, que me apresentou a
nova metodologia de recuperação das áreas degradadas, segundo a mesma, proveniente do
Laboratório de Restauração Ambiental Sistêmica da UFSC e da Escola Superior de
Agricultura Luiz de Queiroz da USP, a “metodologia de nucleação” que visa formar
microhabitats, seria a mais avançada que havia. Perguntei sobre as áreas em processo de
regeneração, que não estavam obtendo resultados satisfatórios, e sobre as políticas ambientais
da empresa. Milena ressaltava a assídua preocupação da empresa com a questão ambiental,
sempre investindo em tecnologia de ponta e contratando profissionais que eram referência
nacional para a execução dos trabalhos, muitos de universidades federais do sudeste e sul do
país.
Conversei brevemente também com Ademar Cavalcanti, Gerente de Saúde,
Segurança, Meio Ambiente e Relações Comunitárias, cargo importante na empresa, o qual se
subordinam quase todos os departamentos da mesma. Falava-me da falsa imagem que as
pessoas tinham sobre a empresa ser altamente lucrativa, dizendo que em alguns anos a mesma
chegou a operar no vermelho, que a mineradora sofre todos os riscos inerentes às oscilações
do mercado, do capital dos investidores, acionistas, custos da produção, entre outros.
Conversávamos sobre os valores de uma indenização para o governo dos produtos florestais
não-madeireiros no Platô Monte Branco. Cavalcanti peremptoriamente afirmava que o valor
econômico da bauxita era muito superior ao da floresta, que os recursos gerados ali traziam
desenvolvimento para todo o país e que o principal problema da FLONA era a invasão de
fazendeiros para criação de gado. A referida indenização era decorrente de uma determinação
do escritório local do ICMBio, que exigiu um inventário das espécies não-madeireiras como
  56  

condição da liberação da licença para extrair bauxita no local. A questão gerou conflito entre
o ICMBio na instância local e a empresa, que, com seu poder político, conseguiu obter a
licença em âmbito federal no ICMBio em Brasília. O Ministério Público Federal ingressou
com uma ação e obteve decisão judicial determinando que se interrompesse o desmatamento
de 267 ha de floresta, correspondente a uma parte do platô, no processo nº 3080-
52.2011.4.01.3902. O imbróglio girava em torno não apenas da interrupção do cronograma da
empresa e as implicações daí decorrentes; mas, dependendo da metodologia adotada para a
avaliação dos produtos florestais, os mesmos poderiam torna-se economicamente mais
vantajosos do que a exploração da bauxita, ou seja, a floresta poderia valer mais em pé do que
minerar o solo e o subsolo para extrair bauxita.
Em Oriximiná, no dia 19 de janeiro de 2012, pego um barco chamado Silva Moda que
prestava o serviço de transporte para os quilombolas, trazendo-os e os levando da cidade para
suas respectivas comunidades rio acima. O destino era novamente a comunidade da Tapagem,
desta vez, para presenciar a festa tradicional do santo padroeiro da mesma, São Sebastião.
Embarquei por volta das quatro horas da tarde, pois sabia que o barco ficaria bem cheio. Não
imaginava o quanto, pois além dos quilombolas e outras pessoas que viviam em Oriximiná,
foram levados também os equipamentos de som e bebidas para a festa. As redes se
sobrepunham umas sobre as outras em quatro andares, fiquei ao longo da viagem com o corpo
tocando os coletes salva-vidas, dispostos horizontalmente no teto. Imóvel como uma crisálida
por cerca de dezoito horas, a imagem ali contrastava a festividade do barco, seu alto som e
foguetórios, com silêncio da noite naquele rio entre a floresta. Jovens ficavam sobre o teto do
barco, bebiam e dançavam o “tecno-brega”, numa algazarra que parecia dilatar cada minuto
dentro do barco. Chegamos ao amanhecer, vários barcos das outras comunidades já se
encontravam aportados.
A festa, com duração de duas noites, reunia pessoas de todas as comunidades ao redor,
nesta ocasião havia também outros pesquisadores, inclusive um casal francês. Sigo realizando
conversas com os comunitários, perguntando sobre a tradição da festa e as mudanças na
mesma. Os mais velhos me relatavam que antigamente a música era tocada na tradição do
“pau-e-corda”, com violas, violões, tambores e instrumentos que eram por eles produzidos.
Relatam que isso se perdeu e que os jovens não querem mais saber disso. Hoje é o som
eletrônico do tecno-brega que anima a festividade, tocado por músicos profissionais, muitos
oriundos das próprias comunidades. As mudanças na tradição exaltam a força dos inevitáveis
intercâmbios culturais e a assimilação da cultura de massas. Por outro lado, permanece ainda
a tradição da “ladainha”, com tambores e rezas cantadas ao longo de todo o Sírio de São
  57  

Sebastião, findando-se na igrejinha da comunidade. Muitas pessoas seguram velas em suas


mãos, o lago enfeitado com milhares de barquinhos iluminados é cortado pelo barco que
transporta o santo, bandeiras e foguetes marcam a bela e rara cena de sua chegada. Jovens
com seus cabelos como de jogadores de futebol, homens, mulheres e idosos festejam sem
parar, bebendo e dançando muito.
Em Santarém foi possível realizar uma conversa com o Procurador da República
responsável na época pelas unidades de conservação federais em questão. Após breve relato
das atividades em curso me foi disponibilizado uma relação dos processos findos e em
andamento referentes às unidades que envolviam o Ministério Público Federal. A conversa
sobre conflitos no interior e entorno das unidades, mesmo muito breve, dimensionava o papel
da Procuradoria da República e suas limitações, assim como o poder das corporações.
Converso sobre a constitucionalidade da atividade de mineração em Floresta Nacional.
Questiono sobre a questão do Platô Monte Branco, em que uma atividade de uso sustentável
da floresta colide com outra que suprime toda a floresta, em área destinada ao uso sustentável
da mesma. O Promotor se posiciona dizendo que, diante do poder das mineradoras, seria mais
fácil ocorrer uma modificação na lei ou na unidade em questão, do que cessar a atividade de
mineração. Nesse sentido as energias eram direcionadas para questões e conflitos mais
pontuais, que detivessem um amparo legal mais preciso, como na análise das autuações do
órgão gestor das unidades, cumprimento de formalidades e condicionantes no processo de
licenciamento ambiental pelo IBAMA, reparação de danos, compensações, possíveis
irregularidades, necessidade de indenizações e abertura e acompanhamento das ações
judiciais daí decorrentes. O Ministério Público Federal sempre fora relatado como muito
atuante nas questões das unidades, inclusive, seus representantes foram conhecê-las e aos
povos que residem no interior das mesmas.
  58  

Outubro de 2012

Foto 06: Canoa de índio. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012.

Em outubro de 2012 foi realizada nova expedição com fins de dar continuidade ao
projeto do Centro de Assistência Judiciaria da Universidade Federal Fluminense na Amazônia
- CAJUFF. O campo se desdobrou em três momentos: O primeiro, em Santarém, visitamos a
Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA, a subseção da Ordem dos Advogados –
OAB e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, buscando firmar
parcerias para o projeto. Nesta oportunidade estiveram presentes professores e alunos da
graduação, mestrado e doutorado. Com relação a pesquisa, foi possível no contato com o
INCRA, superintendência de Santarém, gravar entrevista com o responsável pelas
demarcações e titularizações de territórios quilombolas, Raimundo Guilherme Pereira Feitosa.
Além das explicações sobre a atividade do INCRA na regularização dos territórios
quilombolas, obtive informações sobre os trabalhos desenvolvidos na região alvo da pesquisa.
Neste momento estava ocorrendo a realização de laudo antropológico com fins de propor
titulação de áreas quilombolas em sobreposição às unidades de conservação. Indaguei sobre a
questão legal que assegura rigidez para alterar ou desafetar unidades de conservação, como
estas questões seriam dirimidas e sobre as articulações institucionais com o ICMBio. Foi
relatado que o governo estaria reconhecendo uma “dívida” com esses povos, sendo esta a
razão destes trabalhos. Com relação às articulações institucionais, como se depreendera em
outras ocasiões, são sempre muito limitadas e restritas às questões pontuais. O aparato
  59  

burocrático estatal, em seus múltiplos setores e fragmentações, guardam pouca sinergia


mesmo quando se trata de assuntos transversais.
No segundo momento deste campo, os trabalhos foram realizados em Oriximiná,
sobretudo com o Defensor Público, Mario Luiz Printes, em que tivemos a oportunidade de
acompanhar sua atuação e as relações com o Ministério Público e com a magistratura.
No terceiro momento, organizamos uma expedição contratando a mesma embarcação
e tripulação da primeira expedição em 2010. A mesma se iniciou no Lago do Sapucuá, em
que foi apresentada a dissertação de mestrado da pesquisadora Thaís Azevedo para as
comunidades do PEAX. Posteriormente, visitamos o emblemático “Lago Batata”, que serviu
de depósito para o rejeito da bauxita na primeira década de exploração comercial da mesma,
onde conversamos com os moradores locais sobre o feito e seus resquícios que ainda
perduram. Num segundo momento aportamos na Vila Paraíso, bem próximo a Porto
Trombetas, em que um dos pesquisadores, o estudante de mestrado Eduardo Castelo Branco e
Silva, ali permaneceu para realizar seus trabalhos. Nesta comunidade, também conhecida
como Brega 45, vivem algumas famílias e diversas mulheres que se prostituem para atender
tanto aos funcionários da MRN quanto aos tripulantes das embarcações que veem se abastecer
de bauxita. Seguimos viagem até aportarmos na comunidade da Cachoeira Porteira partindo,
no dia seguinte, para as comunidades indígenas do Rio Mapuera. Ficou marcada a dificuldade
de acesso às mesmas e a dificuldade de diálogo com os indígenas que, além de muito
fechados, falavam pouco português. Em sequência, no retorno deste campo no Mapuera,
foram revisitadas algumas comunidades quilombolas (Cachoeira Porteira, Moura, Último
Quilombo, Mãe Cué e Nova Esperança), em que, por estarmos em período eleitoral, foi
possível acompanhar como se dava o processo de votação das mesmas. Na comunidade
quilombola Mãe Cué presenciamos forte movimentação de barcos e funcionários da MRN
que realizavam os estudos e preparativos para iniciar a exploração da bauxita no Platô Cruz
Alta, utilizado também por essa comunidade. Nesta ocasião, conversamos com um ancião da
comunidade que já havíamos conhecido desde o primeiro campo, o “Tinga”, que nos relatou
como os tradicionais ali utilizavam aquela área em seus trabalhos extrativistas.
Ainda neste terceiro momento, visitamos a base Santa Rosa e a comunidade Último
Quilombo no Lago Erepecú. Detínhamos a informação de que Richard Carl Vogt, pesquisador
da Reserva Biológica do Rio Trombetas, ministrava ali um curso sobre ecologia de quelônios
para os seus alunos do INPA, e fomos em busca de uma entrevista. Ao chegarmos nos
deparamos com um iate de quatro andares em que Richard Vogt estava com seus alunos.
Segundo o mesmo, esse barco foi uma doação para a realização dos seus trabalhos de
  60  

conservação e pesquisa por toda a Amazônia. Richard Vogt nos concede uma longa entrevista
e explica sobre os seus trabalhos na reserva, mostra-nos os equipamentos de alta tecnologia
que utiliza e nos fala sobre as dificuldades enfrentadas na conservação dos quelônios
aquáticos da Amazônia.

Dezembro de 2012 e janeiro de 2013

Foto 07: Cachoeira Porteira – BR163. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2013.

Em dezembro de 2012 e janeiro de 2013 foram realizados os últimos trabalhos de


campo na Amazônia para coleta de dados da pesquisa. O intuito deste campo era traçar a rota
de captura e comercialização das tartarugas-da-Amazônia extraídas da REBIO, acompanhar
os trabalhos dos pesquisadores e atualizar os dados obtidos sobre a MRN e a atuação
governamental.
Os trabalhos se iniciam em Oriximiná, onde consigo uma entrevista com um barqueiro
já conhecido, que em tempos passados havia realizado um transporte de tartarugas para
Manaus. Segundo o mesmo, no assoalho de um barco que transportava gado. O barqueiro, que
solicitou que não mencionasse seu nome, relatou-me que essa é uma forma de burlar a
fiscalização, utilizada até os dias de hoje. Conversávamos sobre o comércio e o consumo de
quelônios em Oriximiná, especialmente a tartaruga. Apesar de ser um hábito, uma tradição, a
espécie não é tão frequentemente ofertada e consumida, não faz parte da dieta normal da
população, sendo mais restrita aos dias festivos e ocasiões especiais. Como uma tartaruga de
tamanho médio chega a custar considerável quantia, esse hábito também é mais restrito aos
  61  

que possuem maior poder aquisitivo. Apesar de não serem os únicos, os principais
consumidores são as pessoas da elite do município, que, em alguns casos, possuem criatórios
legais ou não em suas fazendas, tanto de peixes quanto de quelônios.
O barqueiro, que trabalhava com fretes, tinha grande vivência em toda região e
conhecia muito das relações que ali se estabeleciam. Relatava que antigos agentes
governamentais extraíam peixes da reserva para as “pessoas importantes” do município, bem
como filhotes de tartaruga para os criatórios (práticas que supostamente se mantém). Falava
também da corrupção dentro do município, da manutenção do poder pelo prefeito que se
reveza nas eleições com seus aliados há cerca de trinta anos. Peço informações de como obter
uma tartaruga no município, com fins de conhecer como se dá o comércio, ver o real valor de
venda e as condições de vida de quem vende.
Por indicação, consigo me aproximar de um comerciante no porto de Oriximiná.
Talvez por desconfiança, a pessoa me diz que no momento não teria uma tartaruga para me
vender, mas que poderia obter um animal no valor de duzentos e cinquenta Reais, no final do
mês. Não objetivava realizar entrevista, logo me apresentei como um estudante de fora que
queria experimentar a tartaruga, junto com outros estudantes. Não cheguei a conhecer o local
que vive, nem tampouco onde armazena os animais, a conversa foi breve e não retornei para
efetuar o “negócio”.
Em um segundo momento deste campo, volto a Porto Trombetas para seguir junto aos
agentes do ICMBio para a Base do Tabuleiro, onde teria disponível um barco para a
realização dos trabalhos com as comunidades. Sigo para Cachoeira Porteira com objetivo de
obter informações sobre um conflito territorial que se dava entre índios e quilombolas naquela
região. Consigo nova entrevista com o coordenador da comunidade, Ivanildo Carmo de
Souza, que me informa sobre os acontecimentos e as medidas governamentais que estavam
sendo tomadas. O conflito basicamente se dava pela realização de novos aldeamentos em
áreas utilizadas pelos quilombolas ou demarcadas para os mesmos e a consequente disputa
pelos recursos dali. Naquele momento a situação já caminhava para sua resolução consensual.
Na ocasião desta conversa, solicito apoio para conhecer os trabalhos nos castanhais
próximos dali. A Associação dos Remanescentes de Quilombo de Cachoeira Porteira –
AMOCREQ, presidida pelo Ivanildo, nos sede transporte até o quilometro vinte e três da
rodovia federal BR-163 para que conhecêssemos o castanhal que havia ali próximo, cerca de
dez quilômetros floresta adentro. O nosso guia, nascido em 1952 no Piauí, era um antigo
funcionário da ELETRONORTE que trabalhava como telegrafista e ali permaneceu. Caçador
e extrativista de castanha, Edward de Souza Araujo – Seu Diva – assumira “integralmente” os
  62  

modos de vida local, com cerca de quarenta anos ali vivendo. Estabelecemo-nos em um
pequeno barraco de lona plástica e estacas de madeira a vinte e três quilômetros da
comunidade. Ali pernoitamos e logo cedo partimos para os castanhais, dentro da REBIO,
onde caminhamos o dia inteiro percorrendo cerca de vinte quilômetros no total. Nos
castanhais a floresta se torna mais homogênea diante da repetição daquelas imensas árvores,
testemunhas seculares de toda a vida ali e que compõem sociedades humanas desde tempos
muito remotos. Hoje é a principal atividade econômica da maioria das comunidades ali e
conecta-se aos grandes centros nas prateleiras dos supermercados, como um valioso alimento.
No trajeto foi explicado como se dava o processo de extrativismo, como coletam, onde
depositam os ouriços, como limpam e transportam; um trabalho bastante árduo. Pernoitamos
mais um dia no barraco e retornamos ao amanhecer para a comunidade, no mesmo veículo
que nos levara. Seu Diva relatava como as empresas ali chegaram e depois partiram, nos
mostrava algumas áreas que seriam submersas com a represa e que foram destinadas a
extração de madeira para a MRN. Parte dessas áreas visitadas simplesmente não se
regeneraram, permanecendo o solo descoberto há mais de vinte anos.
De volta a comunidade conheço um rapaz que estava vendendo por quarenta Reais
tartarugas-da-Amazônia, segundo o mesmo, de tamanho médio (não as vi). Destaca-se como
em uma comunidade o valor do animal é muitas vezes inferior ao que é vendido no município
de Oriximiná, que por sua vez, é muitas vezes inferior aos grandes centros como Manaus e
Belém.
Noutro momento deste campo, acompanho o trabalho dos pesquisadores com as
tartarugas-da-Amazônia na Base do Tabuleiro. Richard Vogt e Virginia Bernardes
monitoravam algumas matrizes por rádio-telemetria, as que permaneciam na região após a
desova e nascimento dos filhotes. Também estavam instalando receptores sonoros para a
captação da vocalização desses quelônios, na busca de ampliar o conhecimento sobre a
ecologia desses animais.
No acompanhamento dos trabalhos, quase diariamente, muitas conversas sobre os
conflitos ali se desenrolaram, marcando bem a interpretação dos pesquisadores sobre a frágil
situação desta espécie ameaçada de extinção e sobre o jogo de poder que recai sobre esses
espaços territoriais. Richard Vogt, americano, mas com traços germânicos e mexicanos
advindos do seu país, é o mais antigo pesquisador da REBIO e seu entorno, inicia seus
trabalhos na década de 1980 e desde então segue ali pesquisando. Virgínea, fez mestrado no
INPA, encaminhava-se para o doutorado e estava trabalhando como pesquisadora do projeto
  63  

financiado pela PETROBRAS, “Tartarugas-da-Amazônia: conservando para o futuro”,


coordenado pelo próprio Vogt.
Conversávamos sobre assuntos diversos, dentre os que chamavam mais a atenção para
a pesquisa estava a questão da acentuada e brusca queda no número de matrizes e a ausência
de explicação para a mesma. Várias hipóteses são cogitadas, do aumento exorbitante do
número de navios para abastecimento de bauxita à melhora na eficiência de captura pelos
pescadores com a chegada de novas tecnologias. A questão é trabalhada em parte da tese
expondo diferentes perspectivas dos atores entrevistados e documentos levantados. Vogt
menciona sobre uma pesquisa a ser financiada pela MRN sobre o impacto dos navios que, ao
longo dos anos, aumentaram seu trafego exponencialmente. Fora uma determinação do
próprio órgão ambiental, mas que até aquele momento não havia sido iniciada, quase treze
anos depois da queda brusca da espécie na reserva.
Não apenas os pesquisadores, mas tradicionais e mesmo funcionários do órgão
ambiental mencionavam sobre a possibilidade de muitos filhotes de quelônios e peixes terem
sido extraviados da reserva por agentes governamentais como uma prática “organizada”.
Outro ponto mencionado por Richard tratava do estranho desaparecimento de um dos
principais tabuleiros (praia) de desova das tartarugas, o Tabuleiro do Leonardo. Pouco após a
dragagem do Rio Trombetas para facilitar o tráfego dos navios até o Shipload da MRN, este
sofre uma redução significativa de suas dimensões. Segundo o pesquisador, os estudos na
época (1980) não apontaram uma correlação, mas ele entendia ser uma estranha coincidência
algo que ali estava a centenas de anos, simplesmente desaparecer naturalmente logo após a
implementação da grande obra.
Paralelamente ao acompanhamento dos trabalhos dos pesquisadores, visitei algumas
comunidades na busca de informações sobre a pesca dos quelônios exercida pelos
comunitários. Desta vez, não para o consumo próprio, o que já havia acompanhado, mas em
busca daqueles que exerciam a pesca tradicionalmente para o comércio. Essas pessoas já eram
conhecidas pelos agentes governamentais, muitos reincidentes infratores, o que tornava fácil
saber onde residiam. Entretanto, o acesso aos mesmos para tratar de assunto tão delicado, não
era simples, requerendo sempre uma aproximação muito cuidadosa e honesta. Por fim,
consegui apenas uma entrevista com um pescador tradicional do Paraná do Abuí, que por sua
vez, foi muito produtiva e esclarecedora. Neste ano ele havia aceitado o convite para trabalhar
no ICMBio.
  64  

Março de 2013
Na primeira semana de março de 2013 foi realizado em Brasília o último campo desta
pesquisa. Acompanhando um evento do Ministério do Meio Ambiente pude estabelecer um
estreito contato com funcionários do departamento de unidades de conservação. Entretanto as
ocupações com atividades internas e a pouca disponibilidade de tempo, não viabilizaram
entrevistas com os mesmos, senão breves conversas que não trouxeram dados novos. Por sua
vez, no IBAMA, pude entrevistar um antigo funcionário que participou da criação da Reserva
Biológica do Rio Trombetas. Assim como Beto Guerreiro – mais antigo funcionário do
ICMBio em Porto Trombetas e o mais envolvido com a criação da REBIO, sendo inclusive
um dos autores dos estudos que a embasou – João Carlos Nedel também não entendia haver
uma relação direta da MRN com a criação da REBIO. Afirmou que esta desde o princípio
tinha como foco a preservação dos quelônios. Entretanto, achava uma estranha coincidência o
fato da mesma ter sido criada no mesmo ano em que iniciam as operações comerciais da
mineradora e em uma área contígua à mesma. Por sua vez, quanto à FLONA, afirmou (assim
como Beto Guerreiro) que a mesma foi criada em um ato vertical empenhado pelo Presidente
da República na época, após uma reunião com os presidentes do IBAMA e da MRN. Nedel
fora convocado para realizar os estudos que justificariam sua criação, com a unidade já criada.

Considerações “preliminares”

Erodindo discursos e imagéticas dos conceitos e perspectivas sobre conservação


ambiental, desenvolvimento econômico, progresso social, populações tradicionais,
movimentos sociais, conflitos etc., as vivências do campo apresentam uma realidade que não
pode ser estancada, fragmentada e cristalizada no tempo. Cada segmentação implica em novas
comunicações e relações sempre cambiantes, cuja análise não pôde engessá-las ou percebê-las
estáticas. Uma realidade que se recria na medida em que se ampliam suas conexões, se
desterritorializa e reterritorializa com novas interações, nova ordem, segregações, exclusões e
inclusões. A lógica inerente ao sistema econômico capitalista em “recriar o mundo a sua
imagem e semelhança” está tão presente quanto a lógica do tradicional de cooperação e
solidariedade que, por sua vez se decompõe também em individualismo, hierarquia, desejos,
ambições ...
Há evidente e brutal discrepância de forças entre aqueles grupos que compõem os
interesses que recaem naqueles territórios. Numa fotografia momentânea poderíamos
prontamente hierarquiza-los. Mas as disputas antagônicas também acabam sendo trocas e a
  65  

ordem que é impressa tem incrustrada em suas fissuras aquilo que a modifica também.
Violência física, psicológica e moral, arbitrariedades, controle do corpo e da cultura, estão ao
lado de negociação, sedução, receptividade e permeabilidade. Há uma real desproporção entre
as trocas estratificadas. Provavelmente se adotarmos qualquer parâmetro de justiça, isso se
salientaria. Mas analisar essa realidade numa perspectiva dicotômica/dualista sob a lógica de
uma “unidade-pivô que funda um conjunto de relações biunívocas”, reduzindo-a aos grupos
de interesse ou às suas relações quantificáveis, não foi o caminho adotado para entender a
dinâmica desses conflitos territoriais.
Penetrar essa densa rede, requer pensar que ela conecta os acionistas globais das
maiores mineradoras do mundo às jazidas de bauxita daquele solo. Provavelmente ávidos por
crescimento e lucro e completamente alienados daquela realidade, ou senão, informados por
meio de um material “filtrado”, publicitário ou sobre o controle da própria empresa. Requer
pensar nas relações dos governos com as corporações e na permeabilidade destes e daquelas
para com os interesses das peculiares pessoas locais. Requer pensar na opulência da ciência e
da técnica nas reconfigurações do ambiente, na mobilização das forças, dos seres e dos
elementos naturais que vão compor o coletivo hibridizado. Pensar a “Ciência” em seu poder
de legitimar os discursos, dar os certos e errados, direcionar os caminhos.
Pode-se dizer que há um disciplinamento territorial que favorece o bom andamento
dos negócios do capital, na mesma medida em que este disciplinamento territorial lhe é
profundamente antagônico; e, ato contínuo, dentro de sua lógica requer outros
disciplinamentos para outros grupos de interesses que também vão conflitar. Nessas relações
todos se modificam – mineração, conservação, tradição. O Estado subserviente aos interesses
do capital, assume também o papel de incorporar outros interesses que lhe impõem uma
posição ambígua, que não se encerra e não se determina a priori.
Não há mineração de bauxita sem a extensa rede que lhe dá suporte, assim como não
há o território quilombola desconectado desta rede. A bauxita que sai de lá pode fazer parte
do computador que redigiu este trabalho ou da bicicleta em que me exercito, das peças do
carro, utensílios domésticos, aeronaves etc. suas conexões são múltiplas e indivisíveis da
própria sociedade. O processo que transforma aquelas pedrinhas avermelhadas nos objetos
que utilizamos, demanda muita tecnologia, maquinário, a supressão de milhões de árvores,
destruição de culturas, decisões políticas, organização do trabalho etc. Esse processo
integrado costuma não fazer parte do campo de visão das pessoas de uma forma geral, pelo
menos não em sua multiplicidade, mesmo nas pesquisas. Segmentamos o conhecimento tanto
quanto possível e este do interesse, da justiça, da moral, da política, do poder. Cada item tem
  66  

o seu compartimento próprio, individualizado e é apresentado a sua própria maneira,


geralmente atrelado a alguma autoria. De um lado, os que representam os objetos da ciência,
as coisas, do outro, os que representam os sujeitos de direito, os humanos, cada “grupo” em
seu próprio lado “entre si”. E no entanto tudo isso compõe a realidade indissociavelmente –
sociedade-natureza-mundo...
  67  

3 EREZU-M`NÁ – A TERRA DE MUITAS PRAIAS

Mapa 03: Landsat – Google Earth, 2013.

Se algo me confortava naquela cidade depois de um dia de trabalho sob o calor


equatorial era aproveitar as últimas horas de luminosidade no lago Iripixi, contemplando a
paisagem ou me banhando em suas águas mornas. Por vezes, quando dispunha de mais tempo
ia caminhando, perfazendo diferentes traçados observando a vida no município, suas praças
grandes, arquitetura e infraestrutura. É um município bem organizado, arborizado e bonito,
com muitas peculiaridades e grande potencial turístico. O imenso lago, nas épocas secas,
formava um mundo de praias de areia fina e clara que, mesmo caminhando horas a fio, não se
cumpria toda a extensão. Por vezes pegava um moto-taxi para chegar mais rápido nesses
locais, mas gostava mesmo era de ver as paisagens e as pessoas. Ademais eram constantes os
acidentes envolvendo motociclistas.
Ao caminhar pelas ruas me chamava a atenção as largas canaletas que dividiam as
calçadas. As vezes percebia esgoto doméstico correndo por elas, mas eram primordialmente
  68  

destinadas às águas das fortes e intermitentes chuvas. O grande matadouro frente ao porto
parecia coberto com um manto negro de tantos urubus, uma cena também marcante. Essas
aves necrófagas eram muito comuns pela cidade, talvez pelo alto consumo de carnes e pelos
hábitos de deixar restos de alimentos pelas ruas em latões de lixo destampados. Cheguei a
cruzar, por duas vezes, com carapaças de Tartaruga-da-Amazônia e de outro quelônio em
calçadas de ruas mais afastadas. Razão de muitos conflitos entre governo e tradicionais na
Reserva Biológica, esses animais são amplamente consumidos no município. Lá o mais
consumido não é um peru para a ceia do natal ou uma leitoa para comemoração de um
casamento, a tartaruga-da-Amazônia é o animal preferido nas datas comemorativas, servida
em pratos diversos como guisados, assados, sarapatéis etc. Pude contatar dois pontos de venda
e distribuição de quelônios, traficados da reserva e arredores, que atendiam ao consumo
interno e também aos centros urbanos maiores.
Em dias que me restava menos tempo, sem poder empreender longas caminhadas,
subia até praça do cemitério próximo da UAJV para ver o sol se esconder no mar das águas
brancas1 que formam o encontro do Trombetas com o Sapucuá. Muitas conversas, muitos
casos e trocas de experiências me auxiliavam a compreender aquela realidade. Nalgumas
noites saia para as casas noturnas da cidade onde se escutava muito Technobrega e se dançava
muito, uma cultura bastante massificada por todo o Norte. Casos de violência não eram raros,
constantemente se noticiavam brigas entre pessoas envolvendo armas brancas nesses bailes.
Em uma ocasião um estudante de medicina da UFF chegou a ser agredido com um terçado,
protegendo sua face com o braço e consequentemente levando uma série de pontos para
costurar as feridas. Foi um caso isolado que coincidiu com um dos campos da pesquisa. O
município apresentava-se peculiar e complexo tanto em sua história quanto na sua vida
política cotidiana.

3.1 O marido da abelha


A história do município de Oriximiná está atrelada ao clérigo de ascendência
indígena, natural de Faro, José Nicolino de Souza. O vigário de Óbidos no seu ímpeto de
penetrar os “vastíssimos desertos do Trombetas”2 e com propósitos de estender os territórios
da empresa pastoril, por meio de expedições de desbravamento, funda em 1877, a povoação

                                                                                                           
1
“Águas brancas” é um termo local utilizado para classificar as águas dos rios quando são mais turvas, ocre ou
barrentas, em contraposição às “águas pretas” que são mais cristalinas, esverdeadas, cobre ou azuladas.
2
PARÓQUIA DE SANTO ANTÔNIO. Histórico da Paróquia de Santo Antônio. In. Caminhando Libertando:
Anuário da Prelazia de Óbidos. 1957-1982. p.1. Disponível em: http://www.oriximina.org/noticias.html.
Acesso em: 18 de março de 2013.
  69  

Uruá-Tapera. Pouco depois o povoado é elevado à Freguesia de Uruá-Tapera pelo Presidente


da Província do Pará e Desembargador do Estado do Maranhão, Joaquim da Costa Barradas,
pela Lei nº 1288 de novembro de 1886. Em 1894 o mesmo foi elevado à Vila e em seguida à
Município pela Lei nº 174 de 09 de junho de 1894, passando a se chamar Oriximiná. Seis
anos após sua criação, em 1900, Oriximiná veio a ser extinto pela Lei 729 e teve seu território
dividido entre Óbidos e Faro. Apenas em 1934 Oriximiná é elevado novamente à categoria de
município pelo decreto estadual nº 1442, seguindo assim desde então3.
Se permitirmos a imaginação retroceder a um passado remoto, centenas ou mesmo
milhares de anos atrás, antes de nos depararmos com a soledade de um local indômito,
assistir-se-ia povoados, quiçá civilizações, habitando a região do vale do Rio Trombetas.
Artefatos, estatuetas e outras cerâmicas arqueológicas com geometrias sofisticadas dão
testemunho dos tempos anteriores, levados em grande parte para museus estrangeiros por Curt
Nimuendajú e imortalizados nos estudos de Peter Paul Hilbert4, que compôs muitas coleções
no Museu Paraense Emílio Goeldi. No curso da pesquisa me deparei algumas vezes com
artefatos arqueológicos na casa de quilombolas da Mãe Cué. Diziam que esses objetos eram
abundantes nas Terras Pretas de índio nas proximidades da comunidade, inclusive em áreas
pleiteadas para mineração, anteriormente por uma empresa chamada Santa Patrícia, hoje pela
Mineração Rio do Norte. A denominada Terra Preta é outro indício de que sociedades
sofisticadas habitavam a região, tratando-se de terrenos férteis e estáveis para cultivo,
tecnicamente criados pelos indígenas do passado e muito distinto dos pobres solos
equatorianos. Um amigo formado em geografia pela UFF, mestrando no INPA, estava
pesquisando esses sítios arqueológicos na Reserva Biológica do Rio Trombetas, onde de vez
em quando nos esbarrávamos. Os castanhais da Amazônia, por sua baixa variabilidade
genética, tem atribuída a sua dispersão pelas mãos humanas há cerca de 2000 anos, quando
começa o florescimento cultural da região5. Essas árvores magníficas, a Bertholletia excelsa,
principal fonte de subsistência dos quilombolas, são também testemunhas de uma Amazônia
“doméstica e habitat humano”, enquanto “florestas antropogênicas”6. As cerâmicas Konduris,
as terras preta de índio, os muitos sítios arqueológicos remontam a história de muitos grupos
humanos que ali habitaram, atestando a riqueza cultural da região. Nossa história poderia se

                                                                                                           
3
IBGE. http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/para/oriximina.pdf
4
HIBERT, Peter Paul. A Cerâmica Arqueológica da região de Oriximiná. Instituto de Antropologia e Etnologia
do Pará. In. Publicação Nº 9, Belém. Pará. 1955.
5
NEVES, Eduardo. Amazônia ano 1000: na Amazônia de 1000 anos atrás, civilizações experimentam o
florescimento cultural. In. National Geographic. Nº 122, maio de 2010.
6
SCOLES, Ricardo. Ecologia e Extrativismo da castanheira (Bertolletia excelsa) em duas regiões da Amazônia
brasileira. Tese (doutorado). Orientador: Rogério Gribel Soares Neto. Manaus. INPA, 2010, 193 f.    
  70  

iniciar pelos Pauxis, ou os Pianacotós, os Cunurys, os Cherenas, os Paracoianas, os


Paracuatás, os Uaboys, os Uaracys, os Kayanas, os kaxuyanas, os HixKaryanás, os Tiriyós, os
Tixikyanas, os Tunayanas, os Xeréws, os Zo’és, os Waiwais, entre outros extintos ou que
ainda sobrevivem rumo a um futuro cada vez mais incerto dentro dos Territórios Indígenas.
Entretanto, na chegada dos grandes empreendimentos e das políticas governamentais em foco,
os grupos indígenas remanescentes já não mais habitavam a região. Apesar de circularem nas
áreas das Unidades de Conservação, não compõem efetivamente os conflitos em tela. Nas
décadas de 1950 e 1960 os destacamentos militares e missões religiosas os centralizaram nas
fronteiras entre Brasil, Guina e Suriname – territórios Kassawa, Kanashen e Kwamalá,
respectivamente.
As regiões encachoeiradas do alto Trombetas e de seu afluente Cuminá (ou
Erepecuru), antes mesmo da chegada do referido padre Nicolino, já era habitada pelos negros
fugidos que viviam nos grandes mocambos. Ao clérigo é atribuída a catequese dos negros
que por sua vez o conduzia, acompanhando suas expedições, pelos vastos sertões. A história
de Oriximiná está ligada à história dos Negros do Trombetas e esses ligados aos índios que ali
viviam no passado, como os Pinacotós, os Caribas, entre outros. Apesar da importância
histórica e do considerável número de comunidades e respectivo contingente populacional
(ainda que espraiado), aos olhos do regime militar, os quilombolas praticamente inexistiam,
passando a serem considerados bem posteriormente, por assim dizer, pelos novos contornos
políticos e “pelo seu próprio levante”.
Oriximiná, cuja etimologia da palavra é incerta - em tupi-guarani significa
literalmente: o marido da abelha¨ (zangão) - (uruçuí (orixi) + miná) = (abelha +
marido), é o segundo maior município do país em extensão territorial – cerca de 2,5 vezes o
Estado do Rio de Janeiro, maior do que países como a Grécia, Suíça ou Portugal, situando-se
entre os maiores do mundo. De cima avista-se uma imensidão verde com múltiplas
tonalidades, recortada por imensos cursos d’água, em entremeios, que compõem parte da
maior bacia hidrográfica do mundo. Com seus 66.821 habitantes, o município de Oriximiná
apresenta-se como um pequeno intervalo nessa imensidão verde de seus 107.603,292 Km2 de
território, situado na calha norte do estado do Pará, uma das áreas mais íntegras do estado em
sua bio-sócio-diversidade. Ocupando a 3631ª posição no ranking do IDH dos municípios do
país7, com um PIB total estimado em quase um bilhão de Reais, e per capta em R$16.982,09

                                                                                                           
7
PNUD. Ranking decrescente do IDH-M dos municípios do Brasil. Atlas do Desenvolvimento Humano.
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) (2010). Disponível em:
http://www.pnud.org.br/atlas/ranking/Ranking-­‐IDHM-­‐Municipios-­‐2010.aspx. Acesso em março de 2013.
  71  

– uma quantia substancial frente aos muitos municípios brasileiros equiparados em


contingente populacional, não obstante a desigualdade ser proporcionalmente aviltante. A
parte urbana do município padece de problemas corriqueiros ligados à saneamento básico,
saúde, educação, infraestrutura entre outros, mesmo recebendo anualmente milhões de reais
em royalties advindos da exploração da bauxita pela MRN. Para a parte interiorana
rural/tradicional do município, entendo, não se pode aplicar os mesmos parâmetros para aferir
riqueza e pobreza, dada a dispersão e a heterogeneidade.
Com tamanha extensão territorial prodigalizam recursos naturais variados no
município. Mensurar dentro desta vastidão essa riqueza é tarefa de grande complexidade, há
muito empenhada por órgão governamentais, muitas vezes, com parcerias internacionais,
conforme visto. Os recursos minerais apresentam jazidas grandes de bauxita, fosfato, ouro,
diamantes entre outros minerais. Os recursos florestais são madeireiros com diversas espécies
nobres típicas do bioma amazônico, e não madeireiros, que abundam a floresta como a
copaíba, a bacaba, o breu, a castanha, o açaí e outras centenas de frutas, seivas e cipós. A
biodiversidade da fauna, tradicionalmente explorada na caça e na pesca, ainda é em parte
desconhecida pela ciência. Os distintos recursos com distintas valorações simbólicas e
econômicas, perfazem uma região extremamente rica e de acirrados conflitos. Entretanto,
dentre esses muitos recursos, é a bauxita que efetivamente vai reconfigurar toda a história
local, sendo um recurso que só possui valor significativo em grandes quantidades e que
demanda muita tecnologia e investimentos maciços para a extração, impossível para os povos
de lá.
A vista de cima muitas vezes oculta o que o olhar aproximado revela. A falsa ideia de
um vazio demográfico queda-se cindida pela pluralidade de pequenas comunidades
multiétnicas que subsistem com uma peculiar territorialidade cujas formas de uso e ocupação
do espaço se estende por quase toda aquela área. Territorialidade ininteligível aos nossos
modelos convencionais. São indígenas, ribeirinhos e quilombolas que dividem este espaço
com citadinos, empresas, projetos de desenvolvimento, de conservação ambiental e de
demarcações de suas terras.
A miopia aguda dos projetos governamentais experimentados nas décadas de setenta e
oitenta, tendo como carro chefe a extração da bauxita, desconsiderou parte daquelas pessoas
sobrepondo os interesses de modernização e dinamização da economia aos interesses e modos
de vida dos tradicionais que ali viviam durante esse período8. Nesse processo contínuo de
                                                                                                           
8
Conforme apurado nos documentos governamentais que serão trados na 3ª parte da tese, os tradicionais não
passavam de retratos do subdesenvolvimento local, não gozando de nenhum status diferenciado. Os mesmos
  72  

transformações, seja por imposição, seja por sedução, a rede sociotécnica do ocidente se
amplia ali, amarrando bem suas conexões e fincando as suas bandeiras, integralizando
territórios à uma ordem própria e seletiva. Sob o sofisma de uma “terra sem homens” a
chegada de projetos como os da Mineração Rio do Norte, Andrade Gutierrez, ENGE-RIO,
ELETRONORTE entre outros, vão reconfigurar toda a lógica espacial e imprimir uma
racionalidade específica e homogeneizadora do território dentro da ambivalência dos projetos
modernizantes. De um lado alguns benefícios advindos dos repasses de recursos aos citadinos
e comunitários, ligados a infraestrutura, tecnologias, trocas comerciais e assistências
governamentais, de outro, enriquecimento sem parâmetros de grupos minoritários que se
ligam direta ou indiretamente ao grande capital, perda de recursos naturais, degradação
ambiental e supressão de direitos. Por sua vez, a democratização do país e a Constituição
Federal de 1988 reconfiguraram gradativamente a lógica anterior, contrabalançando a
unilateralidade dos interesses considerados, inserindo novas pretensões e novos atores, mas
dentro da mesma lógica expansionista do coletivo que vai agregando mais coisas, se
ampliando e hierarquizando.
A oposição de diferentes “racionalidades” de uso, significação e ocupação do
território, somada à grande riqueza de recursos naturais e culturais, faz daquela região uma
terra de extremos. Grandes projetos de desenvolvimento ligados à ideologia hegemônica, com
madeireiras, mineradoras, agroindústria e hidroelétricas, se contrapõem aos espaços
tradicionalmente utilizados. As práticas tradicionais também foram transformadas pelos
projetos conservacionistas que, historicamente, antes de serem consonantes às práticas mais
sustentáveis, como se presumiria, aliam-se à dinâmica daqueles que possuem melhores
condições de acesso e formalização de seus interesses à lógica governamental. Entretanto,
essa realidade gradativamente vem se modificando. As mudanças políticas, a atuação de
agentes externos, as novas concepções do ambientalismo, as mudanças legais que recaíram
sobre as Unidades de Conservação com a Lei 9985/2000, por sua vez, proporcionam um
momento histórico de inversão de interesses e (des)legitimação de práticas.
Cabe ressaltar que a dinâmica dos tradicionais dentro dos inevitáveis intercâmbios
culturais se modificam e, ainda para aqueles mais resguardados, não podemos adjetivar suas
práticas como sustentáveis a priori, como muito se romantiza. A continuidade de práticas ou
modos de vida (hábitos alimentares, trocas econômicas, ocupação de áreas, abertura de
roçados) podem não se sustentar por lapsos temporais mais delongados, pela intensidade das
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
deveriam ser integrados à nova dinâmica industrial por meio do pleno emprego e com modernização de suas
práticas extrativistas.
  73  

práticas dos próprios tradicionais ou pelo aumento do seu contingente populacional, sejam
eles indígenas, quilombolas ou ribeirinhos. Nesse sentido, isentar suas práticas da
necessidade de algum controle estatal, por mais paradoxal que seja dentro da história aqui
narrada, pode tornar mais difícil a sobrevivência e continuidade das comunidades tradicionais
em seus territórios. Territórios estes sob constante ameaça das próprias políticas
desenvolvimentistas do governo e dos “invasores” que podem ser: a) grupos organizados
externos como geleiras, madeireiras, mineradoras; b) grupos ou indivíduos menos
organizados como fazendeiros, grileiros, garimpeiros; c) ou mesmo pessoas internas da
própria comunidade que extraem recursos em grande quantidade para fins comerciais
tornando-os escassos para os demais ou gerando outros problemas.
A exponencial ordenação e normatização territorial que recaiu sobre Oriximiná – nas
estacas e recortes que marcam as linhas imaginárias dos seus diferentes espaços – recriou um
imenso território em disputa, “palmo a palmo”, por distintos grupos, com diferentes
significados para a terra. O município corresponde ao maior contínuo de áreas protegidas do
mundo com três Unidades de Conservação estaduais: Floresta Estadual do Trombetas,
Floresta Estadual de Faro e Estação Ecológica do Grão Pará; duas Unidades de Conservação
federais: Floresta Nacional Saracá-Taquera e Reserva Biológica do Rio Trombetas; três
Terras Indígenas: Trombetas-Mapuera, Nhamundá-Mapuera e Tumucumaque; e, cinco Terras
Quilombolas tituladas: Boa Vista, Água Fria, Trombetas, Erepecuru e Alto Trombetas. Além
de outras demarcações pleiteadas por quilombolas ou indígenas. Isso significa regras de uso e
significações relativamente variadas para extensos pedaços de terra, muitas vezes já
habitados/utilizados, que pressupõe rígido controle sobre o manto legitimador dos ideais de
sustentabilidade e proteção sociocultural. No outro extremo terras são demandadas por
fazendeiros, pecuaristas e sojicultores, que também exercem fortes influências políticas.
Contudo, em termos de influência, todos se apresentam incomparáveis perto da mineração de
bauxita que parece flutuar num mundo aparte, acima de tudo isso.
Com as adversidades geradas pelos distintos modos de utilização do território e a
inserção de novos atores sociais surge a consciência dos conflitos, a politização dos grupos de
interesse e a luta material e simbólica por cada espaço daquela terra. A discrepância de forças
é o que muitas vezes perturba os sentimentos de justiça, pois dentre as muitas facetas,
algumas correspondem a uma “sociedade” com o Estado com repercussões diretas nos
processos decisórios políticos e jurídicos, sobretudo os interesses minerários e energéticos. As
decisões sobre a utilização dos recursos são tomadas em instâncias que ultrapassam as esferas
locais (ou mesmo nacionais) repercutindo na ordenação territorial sempre favorável a estes
  74  

grupos, pensada milhares de quilômetros distante da realidade ali e muitas vezes


flexibilizando a própria lei que regulamenta o uso do território e de seus recursos. Outra
faceta corresponde ao próprio governo que, com suas políticas verticalmente aplicadas, de
desenvolvimento e ambientais, submetem as práticas culturais seculares ao crivo da lei,
muitas vezes criminalizando-as, compreendendo uma ingerência muito grande que atinge
sobretudo aqueles com menor acesso e capacidade de formalização de processos, bem como
capacidade de defesa reduzida. Ao mesmo tempo as políticas ambientais não são capazes de
impedir a degradação do ambiente e a perda gradativa dos recursos, decorrente
principalmente de invasores e projetos desenvolvimentistas, mas também das práticas
culturais predatórias. Uma terceira faceta que se apresenta, apesar da fragilidade decorrente de
serem historicamente excluídos pelas políticas anteriores, hoje ganham substancial força e voz
de combate, são os grupos étnicos como os indígenas e os quilombolas que gozam de porções
significativas de terras demarcadas e muitas outras sendo reivindicadas, com amplo apoio de
organizações nacionais e internacionais. O Estado gradativamente os conectou em suas
políticas. Em menor escala ali no campo do estudo, estão os ribeirinhos e os compreendidos
como “individuais” que possuem maior dificuldade de inserção de seus interesses, ora
conflitam com os outros grupos, que também, não raras as vezes, conflitam entre si.
Nesse contexto de contrastes e conflitos evocar o judiciário – a instância por
excelência para dirimir conflitos sociais – deveria ser algo recorrente, pois, além de avultarem
os problemas corriqueiros de ordem penal, civil e trabalhista, sobretudo na urbe, há a
peculiaridade de questões de ordem difusa e coletiva. Ocorre que, o judiciário no local é
extremante carente e insuficiente diante da envergadura dos problemas e questões que ali se
apresentam. Durante todo o curso da pesquisa assisti mudanças dos representantes do
Ministério Público e da magistratura, geralmente atuando substitutos no fórum de Oriximiná.
Isso repercute na ausência da formação de vínculos mais concretos dessas instituições com a
realidade local e mina a possibilidade de uma prestação adequada da função jurisdicional do
Estado. Nesse sentido um contingente populacional significativo não possui acesso à justiça,
não apenas pela deficiência estrutural da mesma, ou pela hipossuficiência econômica, mas
também pela defensoria pública também ser extremamente minguada. Com apenas um
representante diante de uma demanda extraordinária em muitos sentidos – pela diversidade
dos assuntos em pauta, pela extensão do território, pela diversidade etno-cultural da
  75  

população, pela força dos grandes grupos econômicos – o Defensor Público torna-se uma
figura emblemática pelo seu esforço e história9.
Entretanto, no que diz respeito aos espaços territoriais recortados, correspondentes às
duas unidades de conservação federais, todos os litígios que se desdobram em seus limites são
tratados pela Justiça Federal e pela Procuradoria da República. Nesse sentido, os principais
casos enfocados que envolvem a Reserva Biológica, a mineração da bauxita na Floresta
Nacional e as comunidades quilombolas, tiveram como primeira instância o foro judicial do
município de Santarém e não de Oriximiná, que não possui Justiça Federal. O que certamente
não diminui a importância da Justiça Estadual e seu necessário e urgente fortalecimento no
município.
Conforme afirma o Sr. Josielson dos Santos Costa, Coordenador Social da Paróquia de
Santo Antônio, nas cidades paraenses onde operam os grandes projetos de mineração, o papel
jurisdicional do Estado é quase inexistente. Como se toda uma região fosse entregue pelo
próprio Estado ao jugo dos protagonistas da mineração. Prioritariamente a ordenação do
território seria para atender à estabilidade e manutenção dos bons negócios dos mesmos10.
Essa “simbiose” entre mineradora e Estado, que trato mais profundamente adiante, em
Oriximiná se materializa de maneiras muito diversas como, p. ex., nos veículos, equipamentos
e recursos doados pela MRN e utilizados pelo poder judiciário, legislativo e executivo locais,
além dos repasses tributários e suas aplicações. Na realidade de Oriximiná essa relação é
significativamente estável, principalmente se comparada a outras realidades como foi a de
Carajás. Aqui a “violência” é sutil, se apresenta pela regra e pelo controle sistemático, pelo
disciplinamento frio, sem explosões, sem descontroles perceptíveis à primeira vista. Talvez,
por isso, ainda mais penetrante, ainda mais extensiva.
Uma conveniente distância é mantida entre a MRN, situada no distrito de Porto
Trombetas, e a realidade política e econômica que se apresenta em Oriximiná, não obstante a
onipresença material da empresa em praticamente tudo. Não me refiro às cinco horas de barco

                                                                                                           
9
MADEIRA FILHO, Wilson; ALCÁNTARA, Leonardo Alejandro Gomide; VERAS, Cristiana Vianna;
AZEVEDO, Thais Maria Lutterback Saporetti; TERRA, Alessandra Dale Giacomin; SANTOS, Camila Oliveira;
NASCIMENTO, Marina Marçal do. Nas mãos de Deus: a atuação da defensoria pública do estado do Pará no
município de Oriximiná junto às comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas. In: II Seminário
Interdisciplinar em Sociologia e Direito: resumos e artigos. Niterói: PPGSD-UFF/PROEX-UFF, Niterói,
outubro de 2012, GT 10, p. 1-23.
10
COSTA, Josielson dos Santos. Relato sobre o papel da igreja na organização política das comunidades
quilombolas. Entrevista concedida a Leonardo Alejandro Gomide Alcàntara e a Thaís M. L. S. Azevedo.
Oriximiná. 21 de julho de 2011. Esse ponto apresentando pela entrevista enseja uma pesquisa de
aprofundamento: aferir a operacionalidade do judiciário nos municípios em que atuam os grandes
empreendimentos de mineração. Aqui segue enquanto sugestão, pois não se trata propriamente do foco desta
análise.
  76  

ou uma hora de lancha para chegar no distrito, ao mesmo tempo em que a empresa está por
trás de várias ações governamentais, seja financiando ou influindo politicamente conforme
sua conveniência, a mesma segue blindada pelo próprio Estado, que lhe faculta essas vestes
de imparcialidade. Conforme salientou em conversa, Evandro Soares Silva, assistente de
Relações Comunitárias da MRN, a empresa cumpre a lei e paga todos os seus tributos, o que
o município faz com o recurso não está na esfera de responsabilidade da mesma. Será? O
“poder sobre o poder” fica salientado nos dizeres de João Bosco Almeida, advogado,
fundador da Associação Comercial de Oriximiná e da Fundação Ferreira de Almeida:
A vila de Porto Trombetas era o templo sagrado e estratégico do
governo militar e empresas estrangeiras, onde se instalava a
Mineração Rio do Norte SA – MRN, empresa mito e sucesso de
administração para os seus acionistas. Porto Trombetas era
indecifrável e inacessível nessa época da pós-ditadura. Dizem que até
o prefeito do município tinha que pedir licença para desembarcar.
Assim se nutria a sociedade agora mais civil que via a nova república
de Tancredo e Sarney surgir. Após longa madrugada, aportavam na
vila de Porto Trombetas os teimosos empresários de Oriximiná,
devidamente conduzidos para o café da manhã na Casa de Hóspedes
da MRN. Crachás e Credenciamento não era compatíveis com a
liberdade democrática nem com a mudez e rudimentares técnicas
comercias dos oriximinaenses. Foi a primeira vez que uma delegação
de oriximinaenses conseguiu ser recebida em Porto Trombetas pelos
seus próprios méritos, isto é, sem favor político[...].
Depois da apresentação, um passeio pela área industrial e mina fez os
empresários oriximinaenses virem pela primeira vez as enormes
máquinas assustadoras a escavar o solo e extrair as riquezas,
originariamente em prazo estimado para quatro séculos. Hoje tarefa
ajustada para pouco mais de quatro décadas, tal o esforço exigido pelo
mercado mundial do alumínio.11

Nesse cenário de sobreposições de poderes, em que até o Chefe do Executivo local


tinha que pedir licença para ingressar no distrito de sua administração, a política municipal
exerce um papel marginal no disciplinamento territorial. Quanto mais pelas riquezas em jogo
e pelo “interesse nacional”. Nesse sentido, o município limita-se aos projetos de menor
envergadura, às ações dentro da urbe ou proximidades imediatas e às políticas
assistencialistas aos comunitários. Conforme alguns depoimentos de munícipes, os repasses
do CEFEM (royalties da mineração) – principal provento do município – sustentariam uma
política clientelista que se vale das relações de dependência das comunidades no que tange ao
transporte, ao combustível, enfim, toda sorte de carências que se vive nesses interiores.

                                                                                                           
11
ALMEIDA, João Bosco. Kondurilândia: Ideias e registros na gênese da nova unidade federativa no oeste do
Pará. Fundação Ferreira de Almeida. Oriximiná. 2001. p. 69
  77  

Outros afirmavam que aqueles que estavam no poder ou diretamente ligados a ele, há mais de
vinte anos se revezando no município, tornaram-se milionários, adquiriram muitas cabeças de
gado e largas porções de terras na região. Latifundiários – em geral brancos e pessoas de fora
– no poder ou diretamente ligados a ele, segundo os entrevistados mais engajados
politicamente, não é uma realidade exclusiva de Oriximiná, levando-se em conta outras
realidades paraenses.
Não foi possível no curso da pesquisa uma conversa direta com o chefe do executivo,
apesar das muitas tentativas. Mesmo quando raramente conseguia um agendamento prévio,
sem horário definido, o atendimento no gabinete do prefeito era extremamente concorrido,
sempre havia uma fila imensa que não compatibilizava com o meu horário ou não chegava ao
seu término no final do expediente, não me possibilitando ser atendido. A fila era composta
por pessoas carentes da cidade e das diversas comunidades interioranas. Por curiosidade
puxava assunto para saber o que tratariam com o prefeito e obtinha respostas quase
constantes: estavam ali para pedir ou materiais de construção, ou combustível, ou
medicamentos, ou um gerador para a comunidade, ou arrumar o barco que estragou, entre
outros favorecimentos. Os cabrestos, os currais e os recursos que asseguravam a manutenção
do povo gado a um só tempo.
Durante todo o curso deste trabalho, que se iniciou em 2009, o prefeito municipal foi o
político do Partido Verde, Luiz Gonzaga Viana Filho, que se reelegera ao seu quarto mandato
na mesma época em que eu realizava o campo em outubro de 2012. Em meados de 2013 uma
série de protestos e manifestações nas redes sociais pediam a cassação do prefeito, com
inúmeras irregularidades expostas nos meios de comunicação. Nepotismo, desvio de recursos
públicos, enriquecimento ilícito, entre outras irregularidades foram avençadas pelas redes
sociais e pela imprensa. Consultando o Tribunal de Contas da União encontro uma decisão
obrigando o prefeito e uma empresa a ele ligada a devolver aos cofres públicos R$ 1.546.827,
3612, relativo ao seu primeiro mandato e ainda sem decisão final. Na Justiça Eleitoral
inicialmente seu nome constava dentre os políticos impugnados pelo “Ficha Limpa”, mas o
mesmo conseguiu contornar a situação, se reeleger e seguir no mandato até o final da
pesquisa.
Em nota divulgada pelo “Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Extrativas de
Minerais Não Ferrosos do Oeste do Pará - STIEMNFOPA” e notícia divulgada no “Jornal de

                                                                                                           
12
Tribunal de Contas da União. (10/09/2009 15:32) TCU condena ex-prefeito de Oriximiná (PA). Disponível
em: http://portal2.tcu.gov.br/portal  /page/portal/TCU/  imprensa/  noticias/detalhes_noticias?  
noticia=1771906. Acesso em março de 2013.
  78  

Santarém e Baixo Amazonas” do dia 19 de julho de 2013, é possível exemplificar a


complexidade das relações entre a política local e a mineração da bauxita pela MRN. O caso
trata de uma denúncia de fraude envolvendo o município de Oriximiná, a empresa Cattani
Transporte e Turismo S/A e a MRN. O município licita em 1998 e concede à empresa de
transporte citada (única concorrente), enquanto concessão de transporte público, o trajeto da
vila de Porto Trombetas até as minas de bauxita situadas nos Platôs Aviso, Saracá, entre
outros. A primeira questão que se levanta é: o que há de público no transporte dos
funcionários da MRN, alojados na Company Town, para os trabalhos nas minas de bauxita
exploradas pela própria empresa? A segunda questão é: quem e o que se ganha com essa
concessão? O primeiro ponto é prontamente dedutível, transportar os funcionários da empresa
para a realização dos trabalhos de mineração da mesma no coração da floresta amazônica,
distante de tudo e de todos, é de interesse exclusivo da própria empresa, não há nada de
público nesta relação. Ninguém, senão os próprios trabalhadores da empresa utilizam este
transporte ou podem utilizá-lo. Esse foi o entendimento apresentado pelo Laudo de Inspeção
Judicial e pelo Relatório do Ministério Público do Trabalho, realizados pelo Juiz Federal da
vara do trabalho de Óbidos, Sergio Polastro Ribeiro, e pela Procuradora Cíntia Nazaré Pantoja
Leão, respectivamente13. Com relação ao segundo ponto, fica mais evidente a associação
entre Estado e Mineração para atender aos interesses da última. A Súmula 90 do TST diz o
seguinte: “O tempo despendido pelo empregado, em condução fornecida pelo empregador,
até o local de trabalho de difícil acesso ou não servido por transporte regular público, e para
o seu retorno, é computável na jornada de trabalho”. As denominadas horas “in itineri”
também são asseguradas pelo artigo 58, § 2º da CLT. Ou seja, o conluio realizado para
simular a prestação de transporte público – inexistente em Oriximiná – possibilitou à empresa
MRN se isentar do pagamento das horas gastas pelos seus funcionários no deslocamento até
as minas – cerca de 70 minutos. As horas in itineri eram obrigatórias para empresa desde
1981, após decisão em primeira instância do Juiz Federal do Trabalho de Óbidos Jader Rabelo
de Souza14. Entretanto, o TRT 8º região em direção oposta ao laudo de inspeção judicial e ao
relatório do Ministério Público do Trabalho, reformou a sentença creditando a licitação
pública e isentando a empresa desta da obrigação trabalhista.

                                                                                                           
13
STIEMNFOPA. Trabalhadores da MRN organizam protesto contra fraude no transporte público. Oriximiná.
Disponível em http://www.stiemnfo.org.br/noticias.php?id=16538. Acesso em 18 de agosto de 2013
14
ABREU, F. Sant’Anna. Sindicato organiza frente contra a corrupção do transporte público em Oriximiná. In:
Jornal de Santarém e do Baixo Amazonas. Caderno 1 – Plantão, 15 a 25 de julho de 2013. p. 3. Santarém. 2013.
Disponível em: http://www.calameo.com/books/001507549fead079a393e. Acesso em 2 de agosto de 2013.
  79  

Valer-se do próprio Estado como blindagem para assegurar seus interesses e proteger-
se de ataques externos, ocultando-se, é uma estratégia muito bem sucedida: práticas que
dificilmente se legitimariam do ponto de vista legal e moral, ganham as vestes da legitimidade
estatal e do “interesse público”. A relação com município é menos do que a ponta do iceberg,
conforme se avança, percebe-se que a influência da MRN se amplia ainda mais nas instâncias
superiores, contrario senso.
Oriximiná, cuja economia está atrelada à exploração mineral, não se restringe a esta,
tendo em vista tanta riqueza natural. As madeireiras e os pecuaristas também ganham
importância neste cenário, sendo usual “medir” a riqueza dos munícipes pelas suas terras e
gado. Por sua vez, pecuária, agricultura e exploração madeireira são atividades geralmente
relacionadas às pessoas de lá e não a grupos transnacionais como é a mineração. Nesse
complexo a percepção que se tem ao dialogar com a população local é de que os mesmos são
conscientes politicamente da realidade local, principalmente quando se trata dos grupos
tradicionais, mas não somente. A importância da Igreja na organização política das
populações rurais e tradicionais merece destaque sendo melhor tratada um pouco mais
adiante. Em algumas passagens da entrevista com o Coordenador Social da Paróquia de Santo
Antônio é possível estabelecer algumas conexões entre os diferentes grupos de poder e
elucidar um pouco mais aquela realidade política. Pergunto:
*Deixa eu dar um pulo no tempo. O município recebe hoje uma
quantia muito significativa de recursos devido aos royalties da
mineração e pra quem vem de fora, eu não sei qual é a monta, mas eu
sei que é significativa, em torno de alguns milhões [...] pra quem vem
de fora a gente vê uma administração que tem carências que poucos
recursos poderiam resolver. Ou seja, seriam deficiências da
administração política pública e de outro lado você vê filas de
pessoas na prefeitura pedindo coisas. Há uma política assistencialista
forte, mas assistencialista no sentido de paternalista, pelo meu ponto
de vista, e, ao mesmo tempo, com deficiências significativas que
políticas públicas simples poderiam resolver. Como você vê a
administração hoje aqui no município, fazendo um paralelo com o
passado? Você vê a continuidade de uma lógica?
– É... já ouviram a história do cachorro? Do cachorro e da coleira?
Mudam os cachorros, mas a coleira é a mesma. Então, na década de
70 no município houve uma reunião dos pecuaristas e deliberaram
que o município seria um polo exportador de carne. Devido aos
grandes empreendimentos planejados pra cá, certo? Então logo em
seguida, sai ali da região de Macapá, chega a Jari, em seguida chega
a Mineração Rio do Norte. Então estava no projeto a Mineração Rio
do Norte, a barragem do Trombetas e a ALCOA em Juriti. A pesquisa
de Juriti saiu em 77. Então mais tarde falaram pra gente da Rio Tinto.
Mas pelo menos essas duas empresas já estavam garantidas aqui na
  80  

nossa região. Então os pecuaristas resolveram fazer isso e uma forma


de tranquilizar o povo é o assistencialismo. O primeiro prefeito que
começou a dar os passos ao assistencialismo foi o Altino Guimarães,
que nem casa ele tinha, mas todo dia ele dava comida pro povo. A
administração simplesmente copiou o processo fazendo algumas
infraestruturas. Então não houve muita mudança de 70 até hoje.
Muitas escolas hoje construídas com recursos do Estado e da União.
A Mineração Rio do Norte depois de 30 anos fez um convênio com o
MEC e com o estado pra construir a Universidade Federal que está
sobre um terreno sub judice, de repente, se o proprietário requerer,
pode demolir aquilo ali a qualquer momento. Então foi um erro, né.
Depois de 30 anos de mineração nós temos aqui o prédio. E quando a
gente anda aí pelo Brasil, as empresas fazem escola, hospital e dá o
apoio, né. E aqui, foi a primeira vez que a mineração faz um prédio
dessa magnitude. Tirada de outro apoio de royalties pra construção
de micro sistema, aqui na área do município nós temos outros apoios
além de carros, alguns novos e principalmente carros velhos pra cá,
para prefeitura, que eles doam. Tem uns três carros na SEMAGRE,
que são carros velhos, bem batidos, né, que a mineração doou. Temos
um na área da saúde que tá no setor de endemias...15
                                                                                                           
15
  COSTA, Josielson dos Santos. Relato sobre o papel da igreja na organização política das comunidades
quilombolas. Entrevista concedida a Leonardo Alejandro Gomide Alcàntara e a Thaís M. L. S. Azevedo.
Oriximiná. 21 de julho de 2011. Segue nesta fala: Então, tem muitos veículos que eles usam bastante depois
jogam pra cá. É a lixeira, né. Então, questão de administração não mudou muita coisa e o assistencialismo é
forte. Então elege de vereador a governador aqui em Oriximiná. Pra ver uma das manobras mais irreais que
aconteceram e nós conseguimos derrubar a propaganda foi na construção da Praça do Centenário. Tínhamos aqui
um deputado que andava muito na região, o Priante, José Priante do PMDB que tinha um outdoor, a prefeitura
agradecendo o deputado José Priante por conseguir recursos pra construção da Praça do Centenário, mas bem ao
lado tinha uma placa da prefeitura falando que era um milhão de reais mas com recursos próprios do município.
Então nós fomos na rádio comunitária e fizemos as interrogações: ou era recurso próprio ou era verba de fora
que estava sendo aplicada para a construção da Praça do Centenário. Com dois dias depois tiram o outdoor e
colocaram outra informação lá. Então o que que sustenta essa máquina aqui? É esse assistencialismo. Daí da
prefeitura sai a telha, sai o cimento, sai o ferro, sai peça pra motosserra, qualquer qualidade. E aqui na Igreja eles
tem alguns impasses porque quando a prefeitura quer financiar alguma coisa pra cá os padres exigem uma
prestação de contas, certo. E hoje na atualidade tem uma creche no bairro de S. José Operário que tá dentro da
área da Igreja. E o prefeito prometeu, né, uma forma de convenio aí e queria murar toda a área da Igreja. No
entanto, construíram a creche mas não muraram. E agora o prefeito quer fazer novamente a ampliação da creche
do S. José e o padre já falou que só vai aceitar a ampliação depois que ele murar. E agora o prefeito está jogando
muitas pessoas contra a própria Igreja, contra o próprio vigário. Então como ele consegue isso? Com uma cesta
básica, paga uma passagem de Santarém pra Manaus... então não mudou muita coisa. Isso nós já estamos
correndo pros 28 anos de assistencialismo aqui. E no período eleitoral ele é muito mais forte. Quase todos os
moto-táxis trabalham e só o Ministério Público que não vê e os outros órgãos que não veem, os moto-táxis
carregando gente pra cima e pra baixo [com dinheiro público]. Se vocês fizerem uma pesquisa do Ministério
Público aonde tem área de mineração, vocês vão encontrar essa deficiência. Nos municípios que tem mineração
ou outro setor forte que equilibra a balança comercial desse estado ou do próprio município, vocês vão encontrar
deficiência no judiciário... todas as instâncias. Pra ver bem aqui, Uruá [?] um distrito muito novo, tem em torno
de 15 anos esse município, compreende? Não tem delegacia, não tem juiz, não tem promotor, não tem defensor e
é justamente onde, provavelmente, a Mineração Rio Tinto faça a base deles. Quem responde por esse município
[distrito]? O município de Óbidos que já tem uma outra deficiência. Então aqui no município o doutor Mário,
graças a Deus, que atende muitas vezes Óbidos mais Oriximiná, Terra Santa e Faro. E pra ele chegar até Faro e
Terra Santa tem que tirar do bolso dele. Como um dia desses conversávamos, é... uma questão já de sociologia
mesmo, né... em 64 se faz o código penal, desculpe 40 se faz o código penal... o que não fizeram de mudança,
não conseguiram alterar o código penal, muitas pessoas conseguiram alterar no ECA. Então você não precisa
fazer uma pesquisa muito alongada. É só você pegar de 64 a 92 que você vai ver uma população carcerária com
uma idade bem elevada, mas de 92 até agora você vai ver que a população carcerária mudou. Hoje aqui em
  81  

Os investimentos nacionais e internacionais para a exploração da bauxita dão novos


contornos e conexões para Oriximiná, muitas mudanças chegam com o agenciamento desse
“actante”. Uma rede que opera acima de qualquer outro interesse, se estabelece nesta vastidão
de terras onde se situam as maiores reservas de bauxita do Brasil. Regida pela lógica
expansionista do desenvolvimento, mas muito mais complexa do que simplesmente “a força
do capital”, a marcha adiante segue incorporando novos interesses e excluindo outros, criando
novos recortes territoriais e desconstruindo outros, agenciando coisas, pessoas, plantas,
animais e minerais no que a compõe.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
Oriximiná o preso mais velho tem 23 anos. Entendeu? Um menor mata a mando de alguém e com 2, 3 dias tá
solto. E exemplos aqui em Oriximiná não falta. Demora mais às vezes aí no Centro de Acolhimento por não ter
promotor às vezes logo pra sentenciar ele, se ele fica aí, se libera ou se vai pra Santarém. Então como eu to te
falando, é só olhar os municípios onde tem mineração que vocês vão ver as deficiências do judiciário em todas
as instâncias.  
  82  

3.2 O sentido do desenvolvimento

Ilustração 01: Diário de Campo – Brega 45. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2010.

Ano de 2010 – primeiro campo – saímos eu, Wilson Madeira e Ivan Pimentel de Porto
Trombetas por volta das onze da noite, as meninas pesquisadoras quedaram-se na Casa de
Hóspedes. Já havíamos acertado, ali mesmo no porto, com um barqueiro que nos conduziria e
aguardaria o nosso retorno da comunidade denominada Vila Paraíso, ou Brega 45. Cerca de
vinte minutos navegando e chegávamos às palafitas iluminadas, cheia de música, de bebidas e
de dança. A pujança e excitação pela oportunidade de uma pesquisa tão extraordinária para
mim se misturava ao medo do desconhecido, de estar na beira de um rio no coração da
Amazônia, em uma vilazinha onde as damas prestam serviços sexuais para os operários do
grande empreendimento minerário. Subimos as escadinhas de madeira e, transitando por uma
passarela suspensa, podíamos escolher em qual daqueles pequenos cabarés tomaríamos
discretamente uma cerveja e iniciaríamos o nosso trabalho. Poucas passadas e uma senhora
  83  

nos recebe educadamente e nos serve em uma mesa, ao nosso lado meninas se exibiam com
danças sensuais, aguardando que nos manifestássemos. Wilson acena e elas se aproximam e
se sentam na mesa, nos apresentamos e iniciamos ali breve conversa. Escolho uma das
meninas, a mais nova, que me conduz para o seu quarto anexado aos outros da grande
palafita, como um cortiço todo de madeira. Ali uma pequena estante, um radinho, sua cama
que ocupava 70% do quarto e um armário onde guardava seus pertences. Me assento na cama,
me apresento e apresento o meu trabalho, já havia combinado pagá-la (seu tempo) por uma
breve entrevista. Ela me conta: “completei 19 anos tem dois meses [tinha minhas dúvidas] e
sou de Santarém [...] estou aqui para levantar um dinheiro, minha prima trabalha aqui, ela
que me chamou, mas ela não está aqui agora não, está lá pra Santarém”. Me diz também que
sua família não sabia que estava ali e que logo retornaria e voltaria a estudar. “Aqui dá pra
fazer um bom dinheiro, as vezes, quando vem os estrangeiro, tiro até quatrocentos dólares na
semana”. Parte desse dinheiro ficava com a “casa”, que ela não se queixou do tratamento.
Provavelmente ela não vivia a mesma realidade de outras meninas ali, pois era jovem e
bonita, de pele cobre, claramente com ascendentes indígenas. Me contou que era praxe ali
cobrar US$ 60,00 por estrangeiro e o mesmo valor em Reais para os brasileiros, e que atendia
o “povo da mineração” em geral, das empreiteiras e dos navios. Disse que não gostava dos
orientais, se queixava: “a gente não entende nada do que eles falam [...] e eles são muito
bruto com a gente” ... Por ali já apareceram gregos, americanos, canadenses, franceses, gente
do mundo todo que atravessa os oceanos, penetra nos grandes rios e vai lá pegar o mineral
avermelhado. Essas moças, cujos brios se ofuscam nas sombras dos preconceitos, são
proibidas em Porto Trombetas, circundam na Praça da Feirinha... sempre as via por lá, mas
não são beneficiárias de nenhum projeto da mineração, provavelmente as mais invisíveis de
todos. Isso por prestar esse antigo serviço que ali amansa a solidão dos marinheiros e
operários da máquina minerária. É só mais um povo a ela conectado, cuja existência e
subsistência estão atreladas à própria MRN, ali tão perto e tão diferente dos quilombolas do
Boa Vista, dos ribeirinhos do Lago Batata e dos indígenas do Mapuera.16

                                                                                                           
16
Poucos dias depois retornamos com as pesquisadoras Thaís Azevedo, Carolina Thibes, Denise Vidal, Jamile
Souza, Alessandra Terra. As meninas realizaram ampla abordagem no local, estabelecendo descontraídos
diálogos com as meretrizes, se banhando no Rio Trombetas, brincando e ao mesmo tempo recolhendo
importantes informações. No campo realizado em outubro de 2012 também retornamos ao Brega 45 e deixamos
um pesquisador, Eduardo castelo Branco e Silva, enquanto o resto da equipe seguiu para a aldeia-mãe Mapuera.
Eduardo Silva realizou o seu mestrado sobre o Brega 45, tomando como lastro as experiências vivenciadas no
outro campo. Os dois renderam artigos:
a) MADEIRA FILHO, Wilson; ALCÁNTARA, Leonardo Alejandro Gomide; PIMENTEL, Ivan Ignácio;
VIDAL, Denise da Silva; AZEVEDO, Thais Maria Lutterback Saporetti; THIBES, Carolina Weiler; SOUZA,
Jamille Nedeiros de; TERRA, Alessandra Dale Giacomin. Vila Parais: invisibilidade das prostitutas do Brega 45,  
  84  

A história sobre o povo do Lago Batata narrada no compendio analisado nos próximos
capítulos17 não se alinha com as informações obtidas em um campo que realizei no mesmo.
Além de não mencionar quais foram os impactos vivenciados pelas pessoas ali, a narrativa
que enfatiza a alegria e a satisfação daquele povo ribeirinho, oculta as vozes ressentidas e as
transformações que vieram com a chegada da MRN. Partindo de entrevistas coletivas, por
meio de Diagnóstico Rápido Participativo - DRP com duas famílias, merecem destaque
alguns pontos aferidos nas histórias orais coletadas.
Converso com a família de Dona Domingas Alzira Pires18, 45 anos, e com a família de
Domingos de Souza19, 76 anos. Antes da chegada da MRN poucas famílias viviam no Lago
Batata, segundo os relatos, apenas duas e uma na área em que se erigiu Porto Trombetas. Foi
com a chegada da mineração que várias famílias se instalaram neste lago. Famílias “doutras
paragens, vinha por causa da concorrência de trabalho” [sic] e foram se instalando ao longo
do Batata. Com a deposição do rejeito de bauxita no lago, dentre as ações da empresa,
ganhava destaque nas falas, a remoção das famílias que ali haviam se instalado, pouco após a
contaminação. Outra ação mencionada tratava da realização de poços artesianos para as
comunidades afetadas mais acima, como Boa Vista e Moura, segundo os relatos. As famílias
retiradas do Lago Batata foram alocadas do outro lado do Rio Trombetas, “numa paragem
que chama de Bacabal” [sic], mas muitas se dispersaram e foram para outras “paragens”,
como o caso de Dona Domingas, que foi para o Juqueri Grande, abaixo da Cachoeira Porteira.
Segundo os entrevistados, a indenização que foi paga pela MRN não “dava pra nada”,
disseram que todos ali foram retirados e nas casas que restaram “colocaram fogo”. Conforme
Domingos de Souza, morador mais antigo do lago que chegou antes da mineração, com a
indenização que recebeu conseguiu comprar apenas uma “canoa velha [...] não dava pra
nada”. Mencionou que a “mineração falou que ia ajudar, mas não ajudou nada, eles
esqueceram”. Do local para onde foi removido, assim como grande parte das pessoas em
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
conjunto de prostíbulos no entorno da Mineradora Rio Norte, às margens do Rio Trombetas, em Oriximiná (PA).
In: Confluências, v. 13, n.1. Niterói: PPGSD-UFF, novembro de 2012, p.73-81.
b) MADEIRA FILHO, Wilson; SILVA, Eduardo Castelo Branco e; PINAUD, Deborah Zambrotti; TERRA,
Alessandra Dale Giacomin; LOUZADA, Ana Beatriz. Retorno à Vila Paraíso: memórias, processos de
territorialização e gestão de espaços de prostituição no Brega 45, no Rio Trombetas, em Oriximiná (PA). In:
Confluências, v. 14, n.1. Niterói: PPGSD-UFF, dezembro de 2012, p.218-236.
17
MOURÃO, Isaura. Um pouco de história, seu povo. In. BOZELLI, R. L.; ESTEVES, F. De Assis, ROLAND,
F. Lago Batata: impacto e recuperação de um ecossistema amazônico. Rio de Janeiro: IB-UFRJ/SBL, 2000. p.
17-25.
18
PIRES, Domingas A.; et al. Entrevista Coletiva na comunidade do Lago Batata: família de Dona Domingas.
Entrevista realizada por Leonardo Alejandro Gomide Alcàntara e Wilson Madeira Filho em 30 de setembro de
2012. Oriximiná, 2012.
19
SOUZA, Domingos; et al. Entrevista Coletiva com o ancião do Lago Batata e seus familiares. Entrevista
realizada por Leonardo Alejandro Gomide Alcàntara e Wilson Madeira Filho em 30 de setembro de 2012.
Oriximiná, 2012.
  85  

igual situação, ficou menos de três anos e retornou para o Batata: “aqui tem muitos igarapés,
é mais bonito, é a vida da gente”. Dona Domingas afirma que as pessoas ali se opuseram à
remoção: “eles reclamava mas não adiantava nada, tinha que sair, tinha que perder tudo”
[sic]. Por sua vez, com relação a contaminação do lago, os comunitários que participaram da
entrevista, assim como Seu Domingos, davam mais ênfase à poluição visual: “a água ficou
feia e ainda tá feia, fica tudo vermelho quando a água baixa, tudo sujo da lama da bauxita, e
também é ruim, pode causar doença, dá coceira” [sic]. Disseram, nas duas entrevistas, não ter
assistido os trabalhos para recuperação do lago, não detinham conhecimento sobre o que foi
feito nesse sentido, para os mesmos, apenas pararam de lançar os rejeitos, mas não “retiraram
a lama vermelha, quando a água baixa fica tudo feio lá pra cima”. Ou seja, os grupos
familiares entrevistados não fizeram parte do processo de recuperação do lago.
A população do Batata, no tempo da pesquisa com 120 famílias, retira parte de sua
renda da agricultura, comercializando a produção de farinha de mandioca, beiju, jerimum,
melancia entre outros produtos na Praça da Feirinha, onde conseguem escoar, segundo os
entrevistados, tudo o que produzem. A outra fonte de renda, principalmente para os
“maridos”, se dá com os trabalhos para as empresas terceirizadas da MRN, conforme os
mesmos se referem: “as empreiteiras”. Pergunto se são empregados ou apenas prestam o
serviço e obtenho como resposta que são empregados. O esposo de Dona Rosana (que estava
junto com a Dona Domingas na entrevista), por exemplo, trabalha para a Cattani – a polêmica
empresa supra mencionada que tornou-se a concessionária do maculado transporte público de
Oriximiná para os trabalhadores da MRN até as suas minas. Conforme os relatos, nenhum
morador do lago estava trabalhando direto para a MRN, mas para as terceirizadas, que por sua
vez, empregavam muitas pessoas de lá.
Seu Domingos inicia a entrevista dizendo que antes da chegada da MRN não havia
“motor” (a rabeta para canoa), não havia comércio, para comprar qualquer coisa que
necessitasse tinha que ir remando até Oriximiná... uma jornada de três dias. Relata a chegada
da mineração, os acampamentos de pesquisa, as explosões nos platôs, as explosões na água
que a “branquejavam de tanto peixe que boiava”, o rejeito despejado no lago, no igarapé
Caranã... falou daquilo que provavelmente marcou seus olhos, sua história, dentro de sua
percepção de mundo. Seu Domingos afirmou que as coisas melhoraram muito com a chegada
da mineração, agora ele tem um motor, ou pode pegar um barco para Oriximiná, tem sempre
um regatão para escoar os produtos, tem acesso ao hospital de Porto Trombetas em caso de
emergência, tem gerador a diesel e tem ajuda da prefeitura. Seu Domingos não associa a
diminuição do pescado à contaminação das águas, diz que quando chegou o comércio (junto
  86  

com a MRN), é que se começou a pescar em demasia, de forma predatória. Foi a atuação dos
“invasores” (aqueles que pescam ou caçam para comercialização) que ocasionou a escassez
dos peixes e também dos “bichos-de-casco” e da caça. “Foi a invasão [...] antes não tinha
pra quem vendê, era só a gente aqui, despois começou tudo” ... [sic]. Fala da chegada do
“IBAMA”, segundo ele, se não fosse a entidade, já não haveria mais nada. Esse
posicionamento também obtive de entrevistados quilombolas.
Os programas sociais e ambientais da MRN são bastante diversificados podendo ser
divididos em voluntários e decorrentes de condicionantes dos licenciamentos ambientais20 – o
que corresponde a grande maioria dos projetos. Além dos projetos ambientais mencionados
sobre reflorestamento, manejo de fauna e de sítios arqueológicos, relacionado às operações
nas minas e todos gozando de parcerias com instituições de pesquisa como EMBRAPA, UFV,
UFPA, UFRJ, UFSC, ZOOFIT, UFG, UFJF, UFA, INPA etc., existem os projetos voltados
para as comunidades do entorno da mineração21. As ações socioambientais tem perceptível
repercussão na vida dos povos tradicionais na área de influência da empresa, perfazem
conexões peculiares da mesma com as comunidades, criam laços, influências, acessos,
oportunidades, recursos e dependências. Em praticamente todas as comunidades que visitei,
senão todas, parte da infraestrutura, como os barracões comunitários, foi construída com
recursos da mineração e, pelo menos um projeto de desenvolvimento social, também havia
sido realizado. Com fins ilustrativos elenco os principais projetos da empresa e,
posteriormente, comento aqueles em que tive oportunidade de vivência de campo e/ou coleta
de relatos por parte de comunitários e/ou autoridades públicas.
Como condicionante dos licenciamentos ambientais foi criado o Programa de
Educação Socioambiental – PES em 2010. Este programa se subdivide em doze projetos (em
alguns casos incorporando projetos anteriores) com aplicação e participação comunitária.
Transformar realidades, desenvolver conhecimentos, capacidades, O resultado dos projetos
variavam conforme a comunidade, prosperando em algumas e fracassando em outras.

                                                                                                           
20
Condicionantes, conforme o próprio nome, são ações que devem ser realizadas para a manutenção e validade
das licenças ambientais.
21
Separado por regiões segue um breve panorama das comunidades: 1. Sapucuá – Casinha, Amim, Ascenção,
Cunuri, Ajará, Leiro, Maceno, Castanhal, Macedônia, Vila Ribeiro, Amapá, São Braz, Boa Nova, Saracá
(realizei trabalhos de campo na Casinha, Castanhal, São Braz e Boa Nova); 2. Médio Trombetas – Sacuri, Boa
Vista, Nova Sacuri, Jacupá, Camixá, Tapixaua, Curupira, Axipicá, Varjão, Samaúma, Bacabal, Acari, Batata,
Flechal, Vila Paraiso e Muçurá (realizei campo na Boa Vista, Vila Paraiso, Batata e Flechal); 3. Alto
Trombetas – Moura, Último Quilombo, Nova Esperança, Palhal, Juqueri Grande, Jamari, Curuça, Juquerizinho,
Mãe Cué, Sagrado Coração, Tapagem, Paraná do Abuí, Abuí e Cachoeira Porteira (somente o Palhal e o Juqueri
Grande não foram trabalhados).
  87  

Um projeto que tive oportunidade de conhecer foi o de “Educação Ambiental e


Patrimonial”, realizado em parceria com o Museu Paraense Emílio Goeldi - MPEG.
Subdividido em diversas ações, o projeto visa fortalecer a identidade cultural comunitária
com a realização de cursos e oficinas, dentre estes, os de artesanato em barro, com a
exposição em diversas feiras os produtos fabricados pelas comunidades. No Lago do Moura
conheço as oficinas de trabalho, os artesãos, os fornos para a queima do barro e um barracão
para armazenar e expor as peças. Os próprios comunitários quilombolas nos explicavam (à
equipe do primeiro campo) a realização dos artesanatos: como coletavam a argila, as cinzas
de uma raiz que utilizavam para “dar liga”, o âmbar de uma planta (jutaicica) que utilizavam
para dar o verniz das peças, a queima do barro etc. Grande parte dos trabalhos eram
inspirados na cerâmica Konduri, a maioria das peças eram réplicas dos artefatos
arqueológicos, muitos encontrados por lá mesmo. Os quilombolas se diziam satisfeitos com o
projeto que, visualmente, estava bem organizado. Esse projeto está atrelado às compensações
ambientais decorrentes dos impactos sobre os sítios arqueológicos, dentre outros que
acarretam em perda cultural, como uma imposição também do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional - IPHAM. Foi realizada uma pesquisa de mestrado sobre o
projeto, apresentando-o de uma forma geral, relatando um ponto interessante que foi a
dificuldade inicial de acesso à comunidade por parte do pessoal do MPEG. Os comunitários
achavam que os mesmos queriam lucrar com os artefatos arqueológicos encontrados por eles,
mas que, ao levarem representantes comunitários ao museu, compreenderam a seriedade dos
trabalhos. A pesquisa conclui que:
Ao longo de onze anos de existência, a parceria entre o MPEG e a
MRN, é possível constatar alguns ganhos significativos para essas
comunidades em termos de conhecimento, devidos as diversas ações
educativas as quais participaram e ganho em termos financeiros, pois
muitos têm uma fonte de renda a partir da confecção e venda de
objetos feitos em cerâmica22.

Os projetos de “Meliponicultura”, aplicados em Terra Santa, são derivados do PES e


assessoram os comunitários na criação de abelhas indígenas (sem ferrão) – não tive contato
com esse projeto. Já o “Projeto Mel” de 1996, foca as comunidades ribeirinhas de Oriximiná
que possuíam tradição na apicultura, o projeto atua assessorando tecnicamente e fornecendo
equipamentos para a criação de abelhas com ferrão (Apis sp). Tive oportunidade de conhecer
                                                                                                           
22
SANTOS, Alessandra L. L. Ações De Responsabilidade Socioambiental Em Parceria: O Caso Do Projeto
Educação Ambiental e Patrimonial Realizado nas Comunidades Boa Vista e Lago Moura – Porto Trombetas/PA.
2012. Dissertação. (Mestrado em Administração de Empresas). Universidade da Amazônia. Belém-Pará. 2012.
 
  88  

o mesmo na comunidade de Boa Vista e assistir na Exposição Agropecuária de Oriximiná de


2011, os comunitários expondo os seus produtos, apoiados ali pela MRN. No evento estavam
também expostos os produtos de outro projeto do PES, o de “Agricultura Familiar”,
desenvolvido em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Oriximiná – STRO e
com a Casa Familiar Rural de Orixminá – CFRO, o projeto oferece assistência técnica e
treinamento aos agricultores para a produção de orgânicos. Em ambos os casos, os
comunitários externavam satisfação com os projetos.
O projeto de “Microssistemas e Poços Artesianos” tem como objetivo fornecer água
potável para as famílias impactadas pelo Projeto Trombetas. Estive em contato com esse
projeto na comunidade de Boa Vista, onde os comunitários relatavam a necessidade desses
poços para o consumo de água depois da chegada da mineração, mas não foi possível no
curso da pesquisa aprofundar nesta questão. O projeto também é uma condicionante do PES.
Os projetos “Leme”, sobre segurança na navegação, o “Combate a Malária”, o
“Instituto Gaya de Defesa das Águas” e a “Associação Terrasantense dos Agentes Ambientais
Voluntários – ATAAV” são projetos que não tive oportunidade de conhecer, sequer por
relatos, somente pelo material publicitários da própria MRN. Já o projeto dos “Sistemas
Agroflorestais”, iniciado em 2005, com plantio de espécies frutíferas e instalação de casas de
farinha, pude estar em contato direto nas comunidades visitadas do Lago Sapucuá, onde a
então coordenadora da Comunidade de Boa Vista me relata sobre os resultados já atingido por
algumas famílias que colhiam os primeiros frutos. Esse projeto também está atrelado à
capacitação para o empreendedorismo cooperativista.
Me chamava a atenção um projeto que estive em contato em várias comunidades,
tanto no Sapucuá, quanto com os quilombolas do Trombetas, intitulado de “Desenvolvimento
da Piscicultura”. O projeto iniciado em 2002, também desenvolvido em Terra Santa e Faro,
beneficiava cerca de 200 famílias e oferecia a capacitação profissional, a infraestrutura
(doação de tanques-rede, alevinos e ração) e assessoria técnica aos beneficiários para a
produção de pescado (tambaqui – Colossoma macropomum). Em grande parte das áreas
visitadas o projeto não prosperava. As queixas, principalmente dos quilombolas, referiam-se a
falta de assistência por parte da MRN que, conforme os relatos, iniciava o projeto, mas não
dava a continuidade em tempo necessário para que o mesmo se sustentasse. Por sua vez, em
conversa informal com o assistente de Relações Comunitárias da MRN, Evandro Soares
Silva, o mesmo relata que a mineradora cumpre sua parte do combinado, que é fornecer a
ração apenas no primeiro ciclo de produção do pescado e que o fato deste e outros projetos
não prosperarem, estaria relacionado às dificuldades de organização e trabalho dos próprios
  89  

comunitários. Outrossim, Carlos Augusto de Alencar Pinheiro, que exerceu a chefia da


Floresta Nacional Saracá-Taquera e da Reserva Biológica do Rio Trombetas até 2010,
afirmava que a razão do fracasso de muitos projetos experimentados com as comunidades
quilombolas, não apenas os da MRN, mas de outras organizações e do próprio governo,
estava no fato de desconsiderarem a cultura dos mesmos. Para ele, os projetos, forma geral,
visavam transforma-los em empreendedores enquanto os mesmos eram extrativistas. Visavam
a geração de renda dentro de um contexto e de um mercado que não tem relação nenhuma
com a realidade deles e que, não raras as vezes, impactavam negativamente sobre seus modos
de vida. O coordenador da comunidade quilombola do Curuça-Mirim me apresenta a sua
percepção do projeto:
*De criação de peixe?
- É. Aí quando foi em 2008, a gente fez um projeto com eles de
piscicultura. E aí eles ajudaram, mas a ajuda que dão da piscicultura
é só pra tecer nome. Que o lucro não dá, é muito pouquinho.
*E o trabalho?
- Você trabalha de graça. Dá 3 tanque por exemplo, com 3 mil peixe.
Aí trabalha um ano e meio, 2 anos. Na hora que é de vender o cara
tem 30% fora da perca [sic] que ele tiver. Se tiver perca ela não vai
nem ter. Aí pra sustentar todo mundo? Porque olha, agora a gente
tinha 8 mil, eu comprei 3 mil e ela deu 5 mil com o projetozinho que
ela fez lá. Nós só vemo 3 mil. Fomo conferir agora deu 3 mil. Pra
dividir com todo mundo daqui a um ano e meio, o que é que o cara
vai fazer? Tem que comprar ração, tem que reformar tanque, que ele
só presta um ano e pouco. Uma tela dessa é 20,00 reais lá na loja,
pra cá vai sair por mil e poucos reais. Um tanque desse é 2.400,
2.600 reais, pro cara comprar.
*Ou seja, não é sustentável. O projeto não dá retorno.
- É muito pouco. Então ele daria se eles investisse bastante. Pra você
ter de mês em mês, pelo mínimo, você ter pra tirar. Mas aí como você
vai tirar? Se você só pode tirar peixe no outro ano?
*Mas em quanto tempo você acha que a prática ficaria sustentável
sem eles terem que colocar mais dinheiro aí? Você acha que
consegue? Se investir muito no início você acha que depois ela
consegue se sustentar ou eles vão ter sempre que ficar...
- Não, se investir bastante com projeto, um trem bom, ele dá pra
sustentar, entendeu? Mas tem que ter bastante. Por que? O tanque
rede ele só dá pra fazer uma coisa. Não dá pra fazer sustentar,
porque perde muito. Agora se a pessoa tivesse, como muitos fazem,
um criatório de barragem... de dois em dois meses ele tá colocando...
já é o suficiente pro cara tirar. Agora pouco do jeito que é investido
não tem condição.
*É só pra falar que faz alguma coisa.
- Só pra falar que faz. Pra eles tá muito bem. Porque se eles chegar
numa comunidade dessa, implantar um projetozinho desse como tá
  90  

sendo... olha, lá na comunidade a gente tá ajudando, é isso, é isso,


tem isso e tem aquilo. Mas na prática a realidade é outra. É difícil.
*E esse problema tem se repetido em todos os lugares?
- Em todos os lugares. O pessoal tá desistindo do lugar por causa
disso. Porque as vezes eles não dá condição, aí o trem para, né. Para
porque já tem muitas comunidade aí que já pararam. Porque eles
dão, as vezes três tanque no começo, aí dão três, quatro mil peixes
pequenininho.
*Quanto tempo leva pra crescer?
- Olha, pra ele tá normal leva dois anos. Aí eles dão ração por 15
meses. Aí desses 15 meses que acaba, você tem que vender, aí você já
tem que comprar de novo, né, pra sustentar. Então é uma coisa que se
eles ficasse ajudando nesse período, né... Porque hoje ninguém sabe
pra quanto tempo uma copaibeira se torna adulta. Tá tendo até um
estudo.23

Um projeto que pude vivenciar e que talvez seja o mais complexo de todos é o
“Manejo de Copaíbas”. Conforme mencionado, grande parte desses projetos decorrem de
condicionantes ambientais, nesse sentido, visam “compensar” alguns dos impactos causados
pela atividade de mineração ou trazer algum benefício direto para as comunidades
impactadas. Este projeto está relacionado ao Platô Monte Branco, de substancial importância
para a MRN, que no curso da pesquisa estava na eminência da supressão de milhares de
copaibeiras, fonte de renda das mencionadas comunidades do Jamari e do Curuça, no
território da Floresta Nacional. O projeto visa a produção e manejo de mudas de copaíba pelos
comunitários, em nome da “preservação da espécie” e como forma de gerar “autonomia” para
os produtores locais – ressalvo: como compensação pelo extermínio de umas das áreas de
maior concentração da espécie de toda a região e pela extinção do principal modo de
subsistência das referidas comunidades. As mudas são plantadas em estruturas criadas nas
próprias comunidades, Jamari e Curuça, com sementes coletadas pelos comunitários e
insumos cedidos pela MRN (saquinhos e adubo), toda a mão-de-obra fica por conta das
comunidades e as mudas são adquiridas pela MRN pelo valor de R$ 1,50, com dois anos de
idade, que segundo os comunitários, não “compensa” o trabalho. É só imaginar ter que regar
milhares de mudinhas quase todos dia sem ter água encanada, como é o caso do Jamari, tendo
que pegar água do rio. Conforme representante do Curuça e do Jamari, sobre o projeto do
inventário e viveiro de mudas respectivamente:

                                                                                                           
23
CURUÇA-MIRIM. As copaibeiras do Platô Monte Branco. Entrevista concedida à Leonardo Alejandro
Gomide Alcántara. Oriximiná, 12 de janeiro de 2012
  91  

Curuça
- Tá sendo estudado e a gente não sabe. Aí fizeram um projeto. Esse
projeto que o Jonas tá fazendo com a gente e a gente já passou pra
você, né. Tá fazendo um inventário a redor. A gente tá trabalhando
com ele, mas de 2 em 2 meses. Então, dentro de uma comunidade, de
2 em 2 meses é pra ir 5 pessoas. 5 daqui e 5 do Jamari. São 10
pessoas que nós trabalhamo. Aí o que acontece, chega um mês todo
mundo quer ir porque precisa de ganhar um dinheirinho. Aí tu não
pode levar 10, só é 5 que eles pediram. Aí, poxa, fica aquela coisa... E
aqui tá a prova bem aqui, olha depois a gente vai lá. Fizeram esse
projeto, a gente ajuntou as sementes pra produzir, pra plantar em
2013. É pra plantar lá no platô, no Monte Branco e aqui na área da
comunidade pra fazer uma área pra plantar um pouco. Mas só que
esse trabalho que a gente faz aqui é de graça, não pagam nada,
entendeu? Ninguém ganha nada por isso, a gente tá trabalhando
mesmo só porque um dia quer ver, se ficar, talvez os filhos e os netos
da gente consiga alcançar esse período aí. Então a gente vai plantar
na situação, a gente tá trabalhando, tem uma base aí de 5 mil pé, e
muda aí de copaíba. Só que esse trabalho que a gente faz, que eles
pediram pra gente fazer, vai ser levado pra lá, vai ser levado pra cá,
mas eles não pagam nadinha. Nada, nada, nada.24
Jamari
- A gente conversamo com ela, perguntamo o que ela podia ajudar.
Porque antes, quando eu fui numa comunidade bem próxima dela que
é Boa Vista, ela deu a maior assistência. Agora quando chega com
nós por aqui ela não dá a mínima atenção e nem fala de indenização
nada não. O que ela diz pra nós é que ela vai tirar, mas vai repor. Vai
plantar mais do que tinha. Se ela vai derrubar 5 mil, ela diz que vai
plantar 20.000. Aí com 10 anos nós já tamo utilizando lá, mas isso
não é verdade. Não vai acontecer isso. A gente já fizemo umas
pesquisas, já fizemo trabalho com eles lá. Já derrubaram copaibeira,
já tiraram medida... já fizeram pesquisa do corpo dela toda pra ver
que marca era aquela, quanto que aquilo reproduzia e a gente vê que
não dá certo, que nós temo uns plantio agora da copaíba, que é pra
plantar aqui no Jamari e levar um pouco lá pro platô também, mas
ele morre e eu acho que não dá certo.25

Após conversa com os comunitários, quando retorno à Porto Trombetas questiono a


um Analista Ambiental do ICMBio sobre essa relação. O mesmo se posiciona dizendo
desconhecê-la e que a mesma deve ser revista, posto que as mudas são destinadas ao plantio
nas proximidades das comunidades e na restauração do platô como obrigação da MRN,
enquanto parte da compensação ambiental. Ou seja, quem está se beneficiando desta situação

                                                                                                           
24
CURUÇA-MIRIM. As copaibeiras do Platô Monte Branco. Entrevista concedida à Leonardo Alejandro
Gomide Alcántara. Oriximiná, 12 de janeiro de 2012
25
JAMARI. Uso comunitário do Platô Monte Branco. Entrevista concedida à Leonardo Alejandro Gomide
Alcántara. Oriximiná, 09 de janeiro de 2012
  92  

é a própria MRN que economiza na produção e no plantio das mudas – sua obrigação –
utilizando-se dos quilombolas que não percebem remuneração direta (salário) pelo trabalho.
Outro projeto polêmico é a “Compra de sementes florestais” que se dá diretamente de
algumas comunidades no entorno do Lago Sapucuá. Esse projeto tem sua origem atrelada ao
início da exploração da bauxita no Platô Almeidas com 876,2 ha, o primeiro projeto da MRN
a ter uma audiência pública no processo de licenciamento por determinação do IBAMA a
pedido da população. Foram duas audiências públicas, a primeira em 28 de março e a segunda
em 21 de maio, ambas em 2002. Na primeira audiência conforme representação encaminhada
ao Ministério Público Federal, assinada por oito organizações26, os interessados comunitários
e suas organizações representativas obtiveram o RIMA, às vésperas da audiência, com 41
páginas sendo-lhes ocultado 75% do relatório original com 203 páginas. Apontando na
mesma representação:
Que a Audiência Pública conduzida pelo IBAMA não obedeceu os
trâmites da RESOLUÇÃO CONAMA Nº 009/1987. O local de
realização foi a Câmara Municipal de Oriximiná que comporta 150
pessoas e compareceram aproximadamente 500 pessoas. A maioria
ficou fora das discussões; o intermediador impediu a participação
popular ao exigir que os questionamentos fossem feitos por escrito,
mesmo sabendo que as pessoas participantes eram pessoas humildes
de pouca escrita; não se permitiu interlocução entre o público e o
representante da mineradora; o intermediador ainda, dirigiu a palavra
de maneira áspera, dizendo que a opinião dos representantes não iria
interferir na aprovação do projeto da mineradora, parecendo jogo de
carta marcada.27

Na segunda audiência pública, determinada pelo Ministério Público Federal, os


participantes comunitários se posicionaram favoravelmente à mineração do platô, segundo
alguns representantes da comunidade Boa Nova28, devido a proposta da MRN de adquirir
sementes florestais dos mesmos. Seria uma forma de compensar a perda da renda nos
castanhais do Platô, algo entre R$4.000,00 e R$7.000,00 que algumas famílias obtinham por
ano, como um “dinheiro livre”, já que a principal atividade era a produção da farinha de
                                                                                                           
26
Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Município de Oriximiná – STRO; Associação dos Remanescentes de
Quilombo do Município de Oriximiná – ARQMO; Associação de Mulheres Trabalhadoras do Município de
Oriximiná – AMTMO; Associação dos Pequenos Produtores Rurais do Médio Lago Sapucuá – ACPLASA;
Comissão Pastoral de Direitos Humanos – Paróquia Santo Antônio; Associação dos Agentes Comunitários de
Saúde do Município de Oriximiná – AACOSMO; Associação Comunitária dos Remanescentes de Quilombo da
Área Trombetas – ACORQAT; Associação Comunitária dos Pequenos Agricultores do Município de Oriximiná
– ACPAMO.
27
SINDICATO DOS TRABALHADORES RURAIS DE ORIXIMINÁ et al. Representação à Procuradoria
Geral da República de Santarém. Oriximiná, 02 de Abril de 2002.
28
SARMENTO, José Luiz; et al. Entrevista Coletiva com comunitários da Boa Nova, Lago Sapucua. Entrevista
realizada por Thaís L. S. Azevedo e Leonardo Alejandro Gomide Alcantara em 27 de julho de 2011. Oriximiná,
2011.  
  93  

mandioca, conforme os relatos. Mencionam, também, sobre outros projetos que foram
ofertados como o de piscicultura, criação de galinhas, agroflorestal etc. No caso da compra de
sementes os comunitários se queixavam que, com o aumento do número de famílias vendendo
sementes e as mesmas sendo adquiridas também de outras localidades, a renda, que no início
do projeto “compensou” o recurso dos castanhais, não o fazia mais. Reclamavam também da
inconstância dos pedidos que, por vezes, eram requeridas sementes fora da estação das
mesmas. Não houve nenhuma indenização direta para os comunitários pela perda de suas
áreas de trabalho. Segundo Dona Maria Expedita, que participou do DRP, aquela região,
dentre outras cabeceiras, pertenciam ao Sr. Luiz Gonzaga Viana, pai do Luiz Gonzaga Viana
Filho, o prefeito de Oriximiná, diz que ali haviam muitos castanhais que “eram a coisa mais
linda”, lamentando a perda.
Segundo o inventário florestal do EIA/RIMA os castanhais do Platô Almeidas
ocupavam cerca de 450 ha, possuindo mais de 1.150 árvores contabilizadas, com uma média
de 32,4 metros de altura. Segundo um analista ambiental do ICMBio que resguardo a fonte,
após vistoria do IBAMA na área foram identificadas omissões sobre o número de castanheiras
(para reduzir a indenização). Na representação ao Ministério Público as associações
apontaram 3000 castanheiras e mais madeiras-de-lei que foram omitidas. Além de não constar
no EIA/RIMA os impactos relacionados ao uso comunitário e sustentável da floresta na
unidade de conservação. Como compensação ambiental por essa perda a empresa foi obrigada
a investir em 2002 em outro projeto: o “Banco de Germoplasma de Castanheira-do-Brasil”. O
projeto voltado para o inventário, para a futura recuperação dos castanhais suprimidos e para
o manejo dos castanhais remanescentes nas encostas do platô, até 2012 havia plantado 1,3 mil
mudas da Bertholletia excelsa. Um desdobramento deste projeto é o “Manejo dos castanhais”
nas encostas do Platô Almeidas (área não minerada) com envolvimento dos comunitários de
Boa Nova e Saracá, também com inventários e plantios, o projeto incide sobre nove
castanhais: Veado Pequeno, Veado Grande, Josefa, Tauri, Viana, Pedras, Moreira, Paiol e
Severino. Cada pedaço de terra, cada cabeceira, cada castanhal, cada igapó, cada igarapé,
cada espaço na floresta parece ter nome próprio, cada pedaço de terra ou de água perfaz
territórios.
Outros projetos sociais da empresa também merecem menção, enquanto conexões da
mesma com as populações tradicionais do seu entorno. Dentre esses projetos, o relacionado
ao “Apoio à Educação Formal” (que não tive contato) se subdivide em inúmeros subprojetos
com foco tanto Oriximiná, como Terra Santa e Faro. Existem projetos também específicos
para comunicação externa e interna da empresa. O jornal Konduri, disponível no sítio
  94  

eletrônico da empresa, é direcionado para todas as comunidades da área de influência com


tiragens bimestrais. Há também o Programa de Rádio Estação MRN, com programas
semanais de dez minutos de duração. Esses projetos são voluntários e representam um dos
principais veículos de comunicação de massas das comunidades, divulgando as ações da
MRN.
O Projeto “Quilombo” leva atendimento médico e orientações de saúde às
comunidades quilombolas do Alto-Trombetas. O projeto opera por meio de um convênio
entre a MRN e a Fundação Esperança de Santarém, em que um barco equipado com recursos
médico-hospitalares e respectiva equipe de médicos e enfermeiros, realiza visitas
“divulgadas” enquanto mensais em 18 comunidades (contrapõem aos depoimentos dos
comunitários). No primeiro campo da pesquisa, junto à equipe do PPGSD, coincidiu deste
barco estar na comunidade do Moura na mesma data em que estávamos. Na ocasião, além de
conhecer pessoalmente o projeto, participo ativamente tomando a vacina contra a influenza
H1N1, que estava sendo aplicada nas comunidades devido a pandemia no início de 2010. Esse
projeto também faz parte das compensações ambientais.
Além das “ações socioambientais da empresa” tratadas acima29, uma questão que se
apresenta importante para a pesquisa foi o auxílio prestado pela MRN nas regularizações
fundiárias dos territórios tradicionais – quilombolas e ribeirinhos. Além das unidades de
conservação, FLONA e REBIO, os territórios quilombolas e os assentamentos coletivos
também guardam estreita relação com a MRN. Pode se dizer, com acontecimentos de
relevância histórica nacional. Converso com Ademar Cavalcanti30 em sua sala no escritório
central da MRN em Porto Trombetas – o mais importante funcionário da empresa que
consegui ter acesso – segundo o mesmo, partiu dele (da empresa) em uma reunião com
representantes do INCRA, a proposta de se titular o território quilombola de Boa Vista sobre
o regime jurídico de propriedade coletiva, até então inédito no Direito e apenas avençado
pelos tradicionais e rejeitado inicialmente pelo INCRA. Infelizmente não consegui acesso a
esses representantes do INCRA para aprofundar a questão e tampouco outra reunião com
Ademar Cavalcanti. Em outra ocasião, em um campo realizado em São Paulo na Comissão
Pró-Índio, Lúcia Andrade menciona, ao explicar o envolvimento da organização com a
                                                                                                           
29
Existem outros projetos de menor relevância para a pesquisa que não foram tratados na tese e outros dois, “Pé-
de-Pincha” e “Projeto Quelônios”, que abordo no capítulo sobre a REBIO-RT.
30
Ademar Cavalcanti é o Gerente de Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Relações Comunitárias da MRN, o
“terceiro homem da empresa” e o que está sempre presente em Porto Trombetas. A entrevista não foi gravada,
apresentando-se mais como uma conversa amigável de aproximação, com o intuito de marcar outra conversa
posterior que seria gravada, mas que infelizmente não ocorreu. Contudo, foi possível tocar dois assuntos de
grande importância para a pesquisa: o Platô Monte Branco e os territórios tradicionais. Após a conversa
transcrevo seus pontos principais no diário de campo.      
  95  

titulação da terra de Boa Vista, que os quilombolas levaram a proposta da “terra coletiva”,
quando solicitaram auxilio da organização, inclusive pela experiência da mesma com as terras
indígenas, que se assemelham ao modelo proposto. Contudo, na mesma entrevista, também
ressalta que os quilombolas da Boa Vista já tinham um acordo prévio com a MRN, expõe:
[...]Então, a gente chegou em 1989 a convite da Paróquia de
Oriximiná. A gente tinha naquela época uma campanha muito grande
contra as hidrelétricas... para discutir esse modelo energético. A
gente estava com um trabalho grande no Xingú, estava começando na
Amazônia e também discutindo a Cachoeira Porteira. Foi por causa
da hidrelétrica de Cachoeira Porteira que a Paróquia de Oriximiná
nos convidou.... Na mesma época teria um encontro “raízes negras”
na comunidade de Jauari, era o segunda na região e o primeiro em
Oriximiná. E aí nós fomos lá para falar das hidrelétricas e, nesse
meio tempo, a discussão da titulação começou a aparecer... E assim,
era muito recente que tinha sido aprovada a Constituição... E é
interessante, porque assim, esse direito está na Constituição,
construído a partir de uma luta direta do movimento negro urbano,
não teve um envolvimento dos quilombolas nesse período. Mas os
quilombolas de lá já tomavam conhecimento da existência desse
artigo, mas ninguém sabia como colocar em prática, porque é um
artigo super curto... E aí o que eles pediram: “olha a gente quer terra
coletiva, vocês têm experiência em trabalhar na demarcação de terra
indígena que é coletiva também, vocês não querem ajudar a gente a
pensar como vai ser isso?” Então, foi por esse viés da área coletiva...
e o que começou como uma ajuda mais pontual acabou virando um
programa da Comissão Pró-Índio com quilombos. O que hoje é um
programa com atuação nacional e local, lá em Oriximiná. Então, foi
nesse sentido... e pra gente fez sentido também, porque esse viés do
direito à terra coletiva era o nosso mote na questão indígena. Então a
gente achou muito interessante e achamos que uma coisa reforça a
outra inclusive.
*Tudo é muito novo... era muito novo na época, né. Vocês tiveram
participação com relação à titulação de Boa Vista?
- É então, a gente participou de todos esses processos.
*Todas as titulações?
- É, todas as titulações [...] E a luta pela terra sempre foi um viés
muito forte e a gente pensou junto, inclusive essa estratégia da Boa
Vista, de começar com uma terra que fosse mais simples, né... porque
tinha uma discussão se começava com as terras das unidades de
conservação, onde o conflito era mais forte naquele momento. Nossa
estratégia foi uma sugestão que foi acatada de: “olha, é tudo muito
novo, vamos começar com uma menor, mas simples.” Na época foi
muito interessante porque a Mineração Rio do Norte era favorável,
porque resolvia também uma questão, porque, assim, é... a mineração
já tinha ocupado áreas que antigamente os quilombolas utilizavam da
Boa Vista, mas já tinha um acordo lá. A Boa Vista não queria aquela
área, a relação deles, como você deve já conhecer, é bem diferente
com a mineração. Então se chegou nesse... se pensou e se teve uma
  96  

estratégia que foi da autodemarcação, então... é... na Água Fria... é...


todas essas áreas: Boa Vista, Água Fria e até a área do Alto
Trombetas foi uma questão de autodemarcação, inclusive abrindo
pico mesmo, né [...] 31

Conforme se depreende, a MRN teve participação ativa junto à comunidade e ao


INCRA na titulação da Boa Vista no início da década de 1990, supostamente, apoiando um
novo modelo jurídico com a propriedade coletiva, adotado por uma provável convergência de
interesses – quilombolas e MRN, pois o INCRA, inicialmente, não havia aceitado a proposta
da propriedade coletiva. Tal afirmação contrasta com os dados de Ferreira32, em que o
“modelo coletivo” seria uma reivindicação exclusiva dos quilombolas e não oriunda de uma
articulação com a MRN e INCRA. Por sua vez, a equipe do INCRA recebia apoio logístico da
MRN e se instalava em Porto Trombetas. As documentações legais e taxas cartoriais da
titulação também foram pagas pela MRN. A comunidade de Boa Vista, com 1.125,0341 ha, é
o primeiro Território Quilombola titulado do Brasil, foi a primeira vez que se fez cumprir o
artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição Federal de 1988, a que gozou
de aplicação direta sem nenhum tipo de regulamentação do Estado33. O processo de titulação
de Boa Vista envolveu seis atores principais: o INCRA, que concedeu o título em 24 de
novembro de 1995; a Associação dos Remanescentes de Quilombo de Oriximiná – ARQMO
criada em 1989 e a Associação dos Remanescentes de Quilombo de Boa Vista – ACRQVB,
de 1994, para quem a terra foi titulada; a Igreja Católica/Comissão Pastoral da Terra - CPTP e
a Comissão Pró-Índio de São Paulo - CPISP, principais apoiadores dos quilombolas; e a
MRN, com ampla influência no caso (requer aprofundamento nas investigações). Enquanto
propriedade coletiva, apesar de diferente de uma Terra Indígena que é propriedade exclusiva
da União (inalienável, imprescritível e indisponível), o Território Quilombola, que é titulado
para uma associação, pro-indiviso, é uma área estável, com regras de uso, destinação própria e

                                                                                                           
31
ANDRADE, Lúcia. A participação da Comissão Pró-Índio na organização política dos remanescentes de
quilombo de Oriximiná. São Paulo, 03 de novembro de 2011.
32
FEREIRA, José Cândido. Organização Social e regimes de propriedade numa comunidade quilombola
paraense. 2013. Dissertação (Mestrado em Antropologia). Programa de Pós-Graduação em Sociologia.
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. 2013. p. 123
33
O que levantou amplos debates jurídicos pois não se sabia se estaria criando uma usucapião sui generis ou
uma modalidade de território protegido para grupos étnicos e tradicionais, sob regime particular de terra. Em
toda sorte como não havia regulamentação questionou-se a necessidade de previsão legal para respaldar os atos
do  Estado,   com base no princípio da legalidade. Outra corrente entendia a necessidade de aplicação imediata
artigo 68 da ADCT como forma de assegurar o Direito Fundamental à sobrevivência desses grupos, cujas terras,
mais do que bem patrimonial, constituem elemento integrante de sua própria identidade coletiva. Sem seus
territórios seriam absorvidos pela sociedade envolvente e perderiam sua peculiaridade identitária e étnica. Nesse
sentido gozaria de aplicabilidade imediata, enquanto extensão de direito fundamental, com base no princípio da
dignidade da pessoa humana.          
  97  

também caráter de inalienabilidade, imprescritibilidade e impenhorabilidade34. Não goza da


mesma força jurídica de uma Terra Indígena, mas adquire outra ordem de estabilidade se
comparado às propriedades individuais, inclusive criando-se regras de uso internas. Essa
“estabilidade”, que dificulta modificações, entrada e instalação de pessoas alheias à
comunidade ou agentes externos que reconfigurem a ordem estabelecida – a própria
comunidade de Boa Vista sofre grande impacto populacional com a chegada da mineração –
possivelmente converge com as aspirações da MRN, ou a mesma, estrategicamente, faz somar
essas reivindicações com suas forças. Nessa mesma direção, atendendo as reinvindicações das
comunidades tradicionais ribeirinhas por seus territórios e, ao mesmo tempo, assegurando a
ordenação fundiária e estabilidade do entorno da mineração, se deu a titulação das terras da
Associação das Comunidades Tradicionais da Área da Gleba Sapucuá-Trombetas –
ACONTAGS. A MRN firma convênio com o INCRA e com o ITERPA, com STTRO e com
a própria ACONTAGS, fornecendo apoio logístico e financeiro no processo de assentamento
que vai originar o Projeto Estadual Agroextrativista Sapucuá-Trombetas - PEAEX35, também
sob modalidade coletiva (a MRN só apoiou assentamentos em modalidade coletiva36).
Outro ponto que merece destaque é a estratégia publicitária da empresa que, aportando
todas as suas ações e projetos, constrói uma imagem proativa e empenhada na promoção do
“desenvolvimento sustentável”, essencial para a sua reputação e, por conseguinte, para os
seus negócios. Apresentar suas premiações relacionadas à mineração, gestão empresarial,
responsabilidade social, saúde, recursos humanos e comunicação, bem como suas
qualificações como ISO 14.001 e OHSAS 18.001, também reforçam esta imagem. Enquanto
atividade de interesse público um dos seus pilares legais é a publicidade, neste sentido a
empresa tem obrigação legal de apresentar por auditores independentes seus balanços,
resultados e atividades. Com relação à esfera ambiental, a própria legislação impõe ampla
transparência, contudo, os relatórios anuais independentes, como o GRI, são facultativos, mas
adquiriram grande importância atualmente para a imagem internacional de empresas como a
MRN. A estratégia da MRN é valer-se de suas obrigações e apresentar o máximo possível
seus programas, enquanto compromisso socioambiental da empresa, fazendo com que suas
“feridas” se mostrem sempre “tratadas”. Por outro lado, omissões fazem parte tanto nas
pesquisas (como no caso das copaibeiras) quanto nas suas relações com o governo.

                                                                                                           
34
Artigo 17 do Decreto nº 4.887/2003 que revogou o Decreto  nº  3.912/2001  
35
Para conhecer o assentamento coletivo ver a obra: AZEVEDO, T. M. L. S. Estatização do Puxirum: Uso
coletivo da terra no Projeto Estadual Agroextrativista Sapucuá-Trombetas, em Oriximiná (PA). 2012.
Dissertação. (Mestrado em Sociologia e Direito) – PPGSD. UFF. Niterói, 2012.
36
Informações constantes do sítio da empresa.
  98  

Apresentar os fatos fragmentados sem possibilidade de “ligar uma coisa a outra” é o que
possibilita maquiar as “conexões necessárias”, como p. ex., o projeto “germoplasma da
castanha” que está ligado ao extermínio dos castanhais no platô Almeidas; ou o projeto
“manejo de copaibeiras” que se liga ao extermínio no platô Monte Branco, ambos em uma
unidade de conservação para o uso sustentável dos recursos florestais e fonte de subsistência
de povos tradicionais. O que traduz (translada, se conecta, faz acontecer, desencadeia) se
oculta pela purificação publicitária.
Ao longo de sua história a MRN amplia sobremaneira seu capital e sua produção. Sua
chegada representa a chegada do Governo Federal na região e todo um disciplinamento
territorial peculiar com as unidades de conservação, sobretudo a Floresta Nacional Saracá-
Taquera diretamente atrelada a ela. E, com obrigação que se impôs de considerar novos
interesses, os assentamentos coletivos e os territórios quilombolas vêm dar vez a uma nova
realidade e movimento político àquelas terras, obrigando adaptações por parte de seus atores e
redimensionamento às controvérsias. Se pegarmos os balanços da empresa de 2012, seu
faturamento bruto se deu na ordem de R$ 1.034.562 bilhões, com recolhimento de R$
116.045 milhões em tributos, logo lucro líquido de R$917.139 milhões. A empresa, ligada à
SUDAM conforme o delineamento histórico, desde sua origem, é favorecida com benefício
fiscal de redução parcial do Imposto de Renda. A Lei Complementar nº 87 e 1996, “Lei
Kandir”, também beneficia a empresa com isenções no imposto estadual do ICMS, para
produção destinada à exportação. Em 2012 MRN investiu cerca de R$ 310.7 milhões em suas
atividades e ações operacionais. Destes, R$ 190,4 milhões foram destinados à abertura de
novas minas, R$ 44.8 milhões para projetos especiais como melhoria no sistema de
peneiramento e linha de transmissão; R$ 17.1 milhões em equipamentos de mineração; R$
11.1 milhões em correias transportadoras; R$ 7.0 milhões em ferrovia; para os projetos
socioambientais, segurança e saúde foram destinados R$ 13.9 milhões; R$ 5.1 milhões em
pesquisas geológicas e R$ 21.3 milhões em projetos de infraestrutura, atualização tecnológica,
modernização e continuidade operacional37. A empresa está crescendo ininterruptamente
desde sua criação, em vias de se tornar a maior do planeta no setor, com implicações de
diversas ordens, dentre elas, a que mais translada interesses são os recursos financeiros que
gera. O município de Oriximiná oscila de 30% a 50% de sua receita atrelada à atividade
mineral, sua principal fonte de recursos, com uma média de 1,2 milhões de reais por mês,
gradativamente ampliados na medida em que se aumentou a atividade minerária (a CFEM
                                                                                                           
37
MRN. Relatório da Administração 2012. Auditores independentes. Disponível em:
http://www.mrn.com.br/Informaes%20Financeiras/24x27cm-­‐DOE-­‐2012.pdf. Acesso em fevereiro de 2013.
  99  

decorre do lucro da venda do mineral). Desde 2010 Oriximiná divide parte do recurso da
CFEM com o município de Terra Santa, quando se inicia a exploração do Platô Bela Cruz,
situado entre os dois municípios. O recurso arrecadado com CFEM manteve-se com uma
média entre 22 e 26 milhões de Reais de 2004 até 2009, no ano de 2010 cai para R$
18.596.174,68 e, em 2013, o município arrecadou R$7.941.190,2438.
Os argumentos que sustentam historicamente os grandes empreendimentos como a
MRN se ligam ao ideal de desenvolvimento, hoje com o adjetivo obrigatório de “sustentável”.
Nesta seara, o que se esperaria em cumprimento às promessas que legitimam esse ideal, é que,
nos locais onde se instalaram estes projetos, assistir-se-ia efetivas melhoras nas condições de
vida das pessoas. Dois estudos se debruçam nesta análise especificamente no município de
Oriximiná: “Royalties da Mineração: Instrumentos de promoção do desenvolvimento
sustentável de regiões mineradoras na Amazônia Oriental”39 e “Adequação de um município
minerador aos objetivos de desenvolvimento do milênio das Nações Unidas”40. O primeiro
analisa os Royalties da mineração de uma forma geral, apresentando como o Brasil é um dos
países que possui as menores alíquotas, partindo para a arrecadação municipal, o investimento
do recurso no município, o despreparo para o futuro por parte das autoridades e os resultados
para sociedade de uma forma geral, em síntese:
Em Oriximiná, no período 91/95, os royalties apresentaram, em
média, 30% da receita municipal. Nesse mesmo período o número de
funcionários da prefeitura aumentou de 1.250 para 2.330 e a relação
funcionário por habitante dobrou de 0,03 para 0,06. Como
consequência, os gastos com o funcionalismo passaram de 46% em
1991 para 62% do orçamento em 1995, infringindo a legislação que
estabelece um teto máximo de 60% para gastos com funcionalismo.
Em 1991, o município de Oriximiná provavelmente utilizou o
dinheiro dos royalties para pagamento de funcionários pois a receita
municipal sem royalties (US$3.385) foi insuficiente para cobrir os
gastos com o funcionalismo (US$ 3.570). Nos outros casos, não é
possível afirmar que os royalties foram utilizados para pagamento de
salário nem descartar essa hipótese. Infelizmente, a contabilidade
pública municipal não permite examinar com exatidão o destino dos
royalties. Os gastos de Oriximiná em investimentos em infraestrutura
e setores produtivos foram muito pequenos. Esses gastos
corresponderam a apenas 2,45% e 4,25% do total do orçamento
municipal em 1991 e 1995 respectivamente, embora os royalties
tenham representado 34 e 30% do total do orçamento.
                                                                                                           
38
DNPM. Arrecadação da CFEM por substância.
39
SILVA, Maria A. R. Royalties da Mineração: Instrumentos de promoção do desenvolvimento sustentável de
regiões mineradoras na Amazônia Oriental. Belém: IMAZON, 2012. Disponível em:
http://www.periodicos.ufpa.br/index.php/ncn/article/viewFile/15/12. Acesso em: junho de 2013.
40
LIMA, M. H. R.; FERNANDES, F. R. C.; TEIXEIRA, N. S. Adequação de um município minerador aos
objetivos de desenvolvimento do milênio das Nações Unidas. Rio de Janeiro: CETEM.2009.
  100  

[…] os municípios que se beneficiam dos provenientes da extração


mineral não possuem índices de desenvolvimento acima da média de
outros municípios paraenses. Era de se esperar que a riqueza trazida
depósitos minerais gerasse melhorias no bem-estar da população local.
Esse aumento de receita, entretanto, ainda não se converteu em
melhoria de bem-estar social. Indicadores de qualidade de vida como
fornecimento e consumo de energia, oferta adequada de água, de
saúde e de educação, ou estão abaixo, ou na média do Estado. No caso
da educação, por exemplo, Parauapebas e Oriximiná apresentam
índices de matrículas no segundo grau abaixo da média do Estado.
Baixos níveis de escolaridade se refletirão na baixa produtividade e
qualificação da mão-de-obra local e no despreparo para exercer em
sua plenitude a cidadania41.

Também partindo de indicadores objetivos, o segundo estudo estabelece uma análise


comparativa entre os compromissos assumidos para conquistar os “objetivos do milênio da
ONU”, em sua proposta de implementação até 2015, com os resultados dos 30 anos da
mineração da bauxita em Oriximiná. São analisados nove objetivos, vis a vis, com os
indicadores municipais, sendo eles: 1 – Reduzir pela metade a proporção da população com
renda inferior a um dólar por dia – resultados: 57,34% da população abaixo da linha da
pobreza em 2000; 2 – Reduzir pela metade a proporção da população que sofre de fome –
resultados: 11,7% de crianças menores de dois anos desnutridas em 1999 caiu para 5,7% em
2007; 
 3 – Garantir que todas as crianças, de ambos os sexos, terminem um ciclo completo
de ensino básico – resultados: para cada 100 meninas no ensino fundamental havia 106
meninos; 4 – Eliminar a disparidade entre os sexos no ensino primário e secundário, até
2005, e em todos os níveis de ensino, a mais tardar até 2015 – resultados: para cada 100
meninos no ensino médio em 2006, haviam 126 meninas; 5 – Reduzir em dois terços a
mortalidade de crianças menores de cinco anos – resultados: taxa bem mais elevada que a
média nacional, com 25,1 óbitos para cada mil crianças;
 6 – Reduzir em três quartos a taxa
de mortalidade materna – resultados: 37,78% das mulheres não realizaram consultas médicas
em 2006.
 7 – Deter a propagação do HIV/AIDS e começar a inverter a tendência atual; e 8
– Deter a incidência da malária e de outras doenças importantes e começado a inverter a
tendência atual – resultados: os programas contra doenças infecciosas e transmissíveis por
mosquitos resultaram numa taxa de mortalidade zero em 2006; 9 – Integrar os princípios do
desenvolvimento sustentável nas políticas e programas nacionais e reverter à perda de
recursos ambientais – resultados: as condições de saneamento e acesso à água não sofreram

                                                                                                           
41
SILVA, Maria A. R. Op. Cit. p. 1 - 13
  101  

melhorias, as taxas de desmatamento são altas, inclusive nas unidades de conservação, e em


2008 registram-se os primeiros aglomerados subnormais urbanos. O estudo conclui que:
Considerando que as estatísticas do município de Oriximiná, como um
todo, não apresentam uma situação tão perfeita como aquela que levou
a obtenção da ISO 14001 pelo Porto Trombetas, pode-se concluir que
essa localidade deve ser considerada um enclave dentro do município.
Em Porto Trombetas não existe fome nem miséria, todas as crianças
estão na escola e tem educação de qualidade, existe assistência de
saúde em todos os níveis, acesso a água potável e saneamento além de
cuidado ao meio ambiente. Por se tratar de uma localidade
considerada modelo fica ainda mais evidente o contraste com o
restante do município.
Atingir as metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio,
levando-se em conta o que mostra as estatísticas oficiais não é uma
tarefa fácil. Vimos que ainda falta muito para reduzir pela metade a
proporção da população com fome e com renda abaixo da linha de
pobreza, além disto, destaca-se o fato que o rendimento das escolas de
ensino fundamental do município apresentou um dos piores resultados
no IDEB, quando considerado o restante dos municípios do país. Cada
um dos objetivos foi analisado e concluímos que não estão dentro das
metas do Milênio, portanto, a atividade de mineração, apesar de ser
uma atividade econômica que atende as normas econômicas de
primeiro mundo e que foi desenvolvida com todo o cuidado
ambiental, ainda não trouxe para o município o esperado
desenvolvimento social.42

Conforme a linha que narramos, até então, a ordem espacial de Oriximiná e região
ganha novos contornos com a descoberta da bauxita e a chegada das empresas mineradoras
junto ao governo. A Reserva Biológica do Rio Trombetas de 1979 e a Floresta Nacional
Saracá-Taquera de 1989, representam os primeiros disciplinamentos territoriais mais rígidos,
do ponto de vista legal, para a região. Essas “políticas de conservação” territorial, que dão os
limites em que a pesquisa se empenha, não somente repercutiram em uma ordem severa sobre
os modos de vida dos habitantes humanos daquelas florestas, mas legitimaram, em nome de
um interesse universal de “proteção da natureza”, ações violentas por parte dos agentes
estatais para com eles – um excepcional controle sobre saberes e corpos. Essas ações foram se
transformando tanto com relação aos tradicionais como com relação à empresa,
estabelecendo-se hoje uma relação que se aproxima mais de uma “parceria” entre governo e
tradicionais. Mas no fluxo da história, não apenas pelo sincronismo de sua implementação, as
políticas de desenvolvimento e de conservação, também perfazem um liame na configuração
de uma ordem territorial “desejada” na hierarquia dos interesses em jogo que, conforme

                                                                                                           
42
LIMA, M. H. R.; FERNANDES, F. R. C.; TEIXEIRA, N. S. op. cit. p. 1- 11
  102  

mencionado, “a bauxita” ocupa o topo da cadeia. Contudo, com a gradativa ascensão da


questão ambiental (e dos direitos compreendidos como de 3ª geração) enquanto variável de
remissão necessária para a legitimação de qualquer política-ação, a “conservação” não mais
pôde ser utilizada enquanto “escudo” para os interesses da mineração (onde governo =
empresas), ao contrário, assistiu-se uma verdadeira multiplicação dos vínculos e dos
interesses em jogo com consequentes inversões (basta observar o atual tratamento aos
tradicionais, os licenciamentos ambientais, o início dos projetos narrados, os territórios
titulados e todo material publicitário da empresa a partir de 1990). Por sua vez, isso não
rompeu a hierarquia posta, dentro do que é mantido como mais ou menos importante (ou tem
mais poder para se fazer assim, estabelece mais conexões, converge mais interesses etc.), mas
forçou uma adaptação, uma permeabilização às conexões com novos atores, um movimento
de interpenetração daquilo que vai compondo aquela realidade, um “tentar” trazer para dentro,
agenciar. Não apenas a “conservação” das tartarugas-da-Amazônia, mas dos tradicionais e
seus modos de vida, da floresta e seus animais, do lago, dos igarapés etc. passaram a ser
“necessários”. Cada ser ali, vivo ou não, agora pode ser, “por si ou interposta pessoa”, uma
mina, pronta para ser acionada e corromper a ordem, ou para ser agenciada e aumentar a
composição social. Certo é que todos os “interesses” não podem “coexistir” por suas
diferentes temporalidades na dinâmica do que se faz crescer acelerada e irrefreavelmente. E
quando ganham voz, “por si ou interposta pessoa”, tornando-se de remissão necessária
conforme dito, ou se compensa ou se cede, sempre no limite do necessário, senão se rompe ou
se faz romper. Uma vez cedido será preciso ceder mais, uma vez compensado será necessário
compensar proporcional e equitativamente. O movimento faz o encontro e o encontro a
mudança e a mudança mais movimento, que não se prevê ao longe, não se controla em sua
microfísica, não se detém numa suposta racionalidade das ações.
Quo vadis?
  103  

PARTE II
DO CAMPO ATÉ AS REDES, DA SOCIEDADE À NATUREZA

Foto 08: Tabuleiros do Rio Trombetas. Leonardo Alejandro Gomide Alcàntara, 2012.
  104  

1 TRÊS MATRIZES

Caminante, son tus huellas


el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino


y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver pisar.

Caminante no hay camino


sino estelas en la mar...
António Machado

Neste momento da caminhada o olhar se volta para aqueles que acuram nossas
percepções sobre aquilo que estamos estudando: os teóricos, suas ideias e práticas perpetradas
nas páginas dos livros. Como analisar um “conflito ambiental”? Ou, ampliando um pouco o
termo, como descrever as controvérsias sobre as diferentes formas e propostas de uso e
apropriação do que chamamos de “natureza”?
Essa parte da tese, subdividida em três capítulos, tem como escopo apresentar
brevemente algumas percepções teórico-metodológicas que influenciaram e auxiliaram na
confecção da mesma. Sem pretensão de realizar longas explanações – de maneira introdutória
– são abordados os pontos centrais de inteligibilidade e aplicação das teorias no contexto da
pesquisa. As discussões empenhadas se afunilam em dois pontos-de-vista teóricos,
substancialmente divergentes em suas ontologias e metafisicas, sobretudo nas concepções
sobre o que é “natureza” e o que é “sociedade”.
A proposta aqui não é a elaboração de um quadro comparativo em que se aloca, lado-
a-lado, as diferentes perspectivas que se empenham num mesmo foco. Também não se
pretendeu estabelecer uma relação de superioridade/inferioridade de uma perspectiva em
relação a outra para este tipo de análise. No ponto de vista do qual observo, é o contexto do
campo e a posição pessoal do pesquisador – sua criatividade, disponibilidade e sensibilidade –
que deve conduzir a escolha de sua “metodologia” de observação/experimentação. No caso
em tela, entendo, a realidade da pesquisa é autoexplicativa nos “porquês” de uma mudança
analítica no curso dos trabalhos. E é exatamente esta a função da presente parte da pesquisa:
mostrar de antemão seus fundamentos, contradições, confusões, fusões e distanciamentos.
  105  

Apresentar, ao mesmo tempo, algumas matrizes acadêmicas em torno da questão num plano
de abstração mais nítido (sic) e os (des)caminhos adotados no curso do trabalho. Isso, além de
previamente apresentar conceitos que não precisam ser retomados ao longo do texto,
aproxima o leitor da análise empenhada.
As duas perspectivas convergem na necessidade de uma base empírica e que se dá
com o foco em “objetos quentes”, em movimento, objetos que estão em controvérsias. De um
lado as compreensões sobre conflitos na especificidade das disputas territoriais e sobre
recursos ditos naturais, que antagonizam “sujeitos de interesses” num “campo de lutas”; do
outro, o que cinde à própria visão recortada com base nas estruturas e nos sujeitos para uma
percepção que privilegia as multiplicidades e agenciamentos que se extraem da realidade
vivida. Sem sujeitos e sem objetos em planos de distinção, sem estrutura e sem mecanismos
em planos de determinação da realidade. Por uma vertente, a realidade é explicada dentro de
um quadro, um pano-de-fundo, um papel-parede a priori. Na outra vertente nada se explica
apenas se descreve e a descrição deve se explicar por si. Como diz o poema de Machado43:
“caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar”.

1.1 Estruturalismo-construtivista

Esta primeira matriz tem como objetivo subsidiar o debate empenhado no próximo
capítulo. Perpassando questões generalizadas sobre o que se compreende como “questão
ambiental”, passando-se à sua integralização nos contextos histórico-culturais, a abordagem
seguirá por uma breve análise de concepções que situam a problemática do meio ambiente
dentro das disputas sobre os recursos naturais territorializados. Trata-se também, no campo da
ecologia dos saberes, de lidar com ferramentas epistemológicas, a um só tempo colonizatórias
e reterritorializantes. Neste sentido a dimensão universalizável da questão ambiental passa a
ser rechaçada, percebendo esta enquanto “causas parcelares”, situadas no espaço e no tempo
de realidades contingentes, que podem atingir maior ou menor potencial de “universalização”,
conforme são inseridas nas esferas políticas em sentido amplo. Nesse víeis, que rejeita
parcialmente o reducionismo objetivista, cria-se um “campo” próprio para os conflitos
ambientais, propondo uma análise sustentada em um “estruturalismo-construtivista” que aqui

                                                                                                           
43
Tomado esse pequeno recorte na citação de Vandenbergue. VANDENBERGUE, Frédéric. Construção e
crítica na nova sociologia francesa. Trad. Ana Liési Thurler. Brasília: Sociedade e Estado. Vol. 21. Nº 2.
Maio/Agosto. 2005
  106  

introduzimos e que se mostrou, num primeiro momento, de grande valia na análise


empenhada.
Para iniciar a discussão cabe um aparte sobre a noção de estrutura em Lévi-Strauss. Na
perspectiva do antropólogo e filósofo francês a ideia de “estrutura” não representa a própria
realidade empírica, mas se origina dela, parte de uma construção teórica que toma a realidade
empírica para construir modelos aplicáveis a ela. Opõe-se ao empirismo na medida em que a
explicação de um fato em si, a descrição de um conflito social p. ex., não possui significado,
senão pelas estruturas profundas que lhe dá o sentido. Ou seja, o estruturalismo parte de
projeções teóricas que são criadas com base nas “relações sociais” existentes/factuais, em que
se incorpora aspectos julgados essenciais pro tempore dessas relações reais e, a partir daí, se
constroem os modelos que por sua vez tornam manifesta a estrutura social44.
A estrutura para Lévi-Strauss deve atender à algumas condições enquanto modelo
científico: a) ela deve se constituir de elementos tais que a modificação de um deles
repercutirá sobre todos os outros, i. e. estão organizados dentro de um conjunto de relações
interdependentes – é um sistema; b) todo modelo parte de um “grupo de transformações”
onde cada transformação representa um modelo de mesma família e, no conjunto das
transformações, perfaz-se um grupo de modelos; c) constatados os elementos dentro do
conjunto de transformações que perfazem os modelos, é possível prever como o “sistema”
reagirá se modificar algum de seus elementos, cujas propriedades relacionais estão adstritas
ao modelo; d) o modelo deve possibilitar compreender todos os fatos
observados/considerados, nesse sentido refere-se a uma totalidade. Na construção da estrutura
se tem como base oposições binárias em que as unidades da estrutura são despidas de sentido
em si, mas o adquire nas relações que se estabelecem entre as várias unidades que, por sua
vez, devem abranger, em sua descrição, a totalidade do campo estruturado. Compõem a
estrutura as menores unidades significativas na amplitude do estudo, mas aquilo que não é
pertinente é eliminado/desconsiderado. Esse sistema de relações é que constituem a
sociedade, como, por exemplo, um sistema de trocas econômicas, um sistema de comunicação
linguística, um sistema religioso etc. O sentido e o valor de cada elemento dentro do sistema
advêm da posição que ocupa em relação aos demais, identificado a partir das oposições
binárias. Os modelos se subdividem em conscientes e inconscientes. O primeiro se refere as
normas de uma forma geral, que existem em razão de uma função: perpetrar as crenças e os
                                                                                                           
44
 LÉVI-STRAUSS, Claude. A noção de estrutura em etnologia. In. Os Pensadores: Lévi-Strauss. A noção de
estrutura em etnologia; Raça e História; Totemismo Hoje. Trad. E. P. Graeff, I. Canelas e M. B. Corrie. São
Paulo: Abril Cultural. 1980. p. 7
 
  107  

usos sociais. Quanto mais nítida é essa estrutura que se salienta no plano consciente, mais
oculta é a estrutura profunda que dá razão a ela. A diferença entre culturas é explicitada nos
modelos conscientes que criam uma distância que obstaculiza uma identificação imediata
entre os membros pertencentes de cada qual (linguagem, valores morais, hábitos diferentes, p.
ex.). A garantia da objetividade na etnologia se dá na própria distância entre o observador e o
observado que não se identificam pelas suas divergências culturais. Ao mesmo tempo a
distância não representa uma estranheza completa, que inviabiliza qualquer interlocução, mas
um terreno de comunicação, de reciprocidade, uma intersecção de duas subjetividades, um
lugar comum na própria diferença, o que faz recusar a antinomia entre sujeito e objeto, são
dois sujeitos. De um lado há um conjunto de manifestações empiricamente percebidas, que
são as relações sociais visíveis, o fato social que é apreendido de maneira totalizante no
movimento único das suas propriedades (dentro dos elementos elegidos enquanto
significantes); do outro lado a experiência subjetiva e a razão imaterial/intangível que é
estabelecida teoricamente, revelando as estruturas sociais invisíveis45. Dois mundos apartados
com tráfegos distintos, o da natureza e o da cultura que, não obstante a razão lógica
pertencente a cada um dos membros da segunda, a operacionalidade da mesma é
condicionada pela estrutura.
A rigidez do estruturalismo de Lévi-Strauss, que determina a realidade independente
da consciência e da vontade dos agentes, anulando-os, é transformado na proposta de
Bourdieu. O sujeito banido pela estrutura rígida, continua inserido na estrutura e por ela
determinado, mas também é força estruturante, a constrói, nessas relações flexibilizando-a
enquanto dinâmica, enquanto cambiável46. As estruturas sociais são interiorizadas no
indivíduo, no contexto de um “campo social”, dentro de sua história e de suas idiossincrasias.
Grosso modo, a cultura moral (estrutura normativa e orientadora da conduta) cotidiana, na
dinâmica de sua absorção e aprendizagem do indivíduo, operando inconscientemente seu
esquema de ação, percepção e reflexão. A “hibridização” dessa “estrutura social” com o
“indivíduo” é designada habitus.
O habitus que conduz a maneira de perceber, valorizar, julgar, interpretar e agir, é o
que entremeia sociedade e indivíduo, o que se interioriza da estrutura social e se exterioriza na
ação individual dentro do grupo. Retira a liberdade do sujeito, produto de uma “estrutura

                                                                                                           
45
LÉVI-STRAUSS, Claude. A noção de estrutura em etnologia. In. Os Pensadores: Lévi-Strauss. A noção de
estrutura em etnologia; Raça e História; Totemismo Hoje. Trad. E. P. Graeff, I. Canelas e M. B. Corrie. São
Paulo: Abril Cultural. 1980.
46
THIRY-CHERQUES, Hermano R. Bourdieu: a teoria na prática. In RAP. Rio de Janeiro 40(1):27-55,
Jan./Fev. 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rap/v40n1/v40n1a03.pdf. Acesso em: 02/11/2012
  108  

profunda” que organiza suas práticas e representações, e o percebe enquanto “agente”


reestruturador, que, dentro de seu aprendizado e senso prático, reconfigura também o mundo
social em seus diversos campos.
A cada um dos microcosmos que constituem o social é designado o termo “campo”,
com graus de autonomia e lógica própria (sistêmico), sendo microcosmos diversificados
(educacional, político, econômico etc.). Estes campos estão relacionados ao processo de
diferenciação dos indivíduos e dos grupos que, por sua vez, detêm um mesmo habitus
estruturado e específico de cada campo. Os indivíduos e grupos hierarquizam seus interesses
na busca de posições dentro do campo, conforme dispõem/dominam um montante de
“capital” (econômico, intelectual, social, simbólico) requerido em cada microcosmo (p. ex. o
capital intelectual no campo acadêmico, o financeiro no empresarial, o social no político etc.).
Enquanto um processo de constante disputa/conflito, tanto para o posicionamento no campo
(monopólio do capital específico), quanto para o ingresso no mesmo (aquisição do capital
necessário e compartilhamento do habitus inerente), os agentes/grupos fazem uso de
estratégias para ocupar as posições, mantê-las e dominar as instituições que regem as suas
regras e distribuem o capital. Nesse sentido as relações de força dão a estrutura do campo, que
se reproduz por aqueles que estão em posições privilegiadas e lutam para mantê-la por meio
da violência simbólica contra os que tentam subverter a ordem.
A classe dominante é o lugar de uma luta pela hierarquia dos
princípios de hierarquização: as facções dominantes, cujo poder se
assenta no capital econômico, têm em vista impor a legitimidade da
sua dominação, quer por meio da própria produção simbólica, quer
por meio dos ideólogos conservadores os quais só verdadeiramente
servem os interesses dos dominantes por acréscimo, ameaçando
sempre desviar em seu proveito o poder de definição do mundo social
que detêm por delegação; a fração dominada (letrados ou <<
intelectuais>> e <<artistas>>, segundo a época) tende sempre a
colocar o capital específico a que ela deve a sua posição, no topo da
hierarquia dos princípios de hierarquização.47

A violência simbólica, constituída pela autoridade percebida enquanto legítima no


campo, por sua vez, opera pelas regras (nomos) e valores, ideologias, crenças (doxa)
naturalizados pelos agentes/grupos. A doxa e o nomos são consensuais, aceitos, aderidos de
forma ampla pelo grupo que compõem o campo específico, cristalizando o habitus, o que vale
e o que é válido. “[...] a doxa é um ponto de vista particular, o ponto de vista dos dominantes
que se apresenta e se impõe como um ponto de vista universal; ponto de vista daqueles que

                                                                                                           
47
BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. Lisboa: DIFEL, 1989. p. 12
  109  

dominam o domínio do Estado, constituindo seu ponto de vista no ponto de vista universal
pelo Estado.”48 Nesse sentido, legitimam e conformam a hierarquia do campo que opera
como uma estrutura que constrange os agentes estruturados em posições, mantendo uma
estabilidade temporal (campo de forças), mas que também é palco da ação desses agentes para
conquistar posições/postos (campo de lutas), na medida que se adquire ou se perde o capital
exigido em cada campo.
O esquema que leva à análise empírica é sistêmico. Deriva do
princípio de que a dinâmica social se dá no interior de um /campo/,
um segmento do social, cujos / agentes/, indivíduos e grupos têm
/disposições/ específicas, a que ele denomina / habitus/. O campo é
delimitado pelos valores ou formas de /capital/ que lhe dão
sustentação. A dinâmica social no interior de cada campo é regida
pelas lutas em que os agentes procuram manter ou alterar as relações
de força e a distribuição das formas de capital específico. Nessas lutas
são levadas a efeito /estratégias/ não- conscientes, que se fundam no
/habitus/ individual e dos grupos em conflito. Os determinantes das
condutas individual e coletiva são as /posições/ particulares de todo
/agente/ na estrutura de relações. De forma que, em cada campo, o
/habitus/, socialmente constituído por embates entre indivíduos e
grupos, determina as posições e o conjunto de posições determina o
/habitus/.49

Como os campos são de certa maneira arbitrados pela análise (uma estratégia
epistemológica e não necessariamente uma existência real), são segmentações ou reduções da
realidade social. Na realidade complexa é inegável que eles estão em constante interação e
interpenetração. Como a percepção é sistêmica (tem um in put e um out put), o campo se
auto-referencia e as penetrações inter-sobre-campos serão refratadas pela lógica interna de
cada um. As penetrações são sempre possíveis pelo fato dos campos possuírem homologia
estrutural, mas absorvem o “externo” traduzido em suas regras internas. A mediação dessas
influências externas se dá pela estrutura interna do campo que, por sua vez, não impedem
condicionamentos de um campo sobre outro, por contaminações mais profundas, ainda que
reproduzidas por meio de uma “expressão simbólica”50. Como é o caso da economia que
influencia a política, o direito, a educação, a ciência etc.
Essa perspectiva teórico-metodológica possibilita uma moldura (com base na teoria
das estruturas) a ser preenchida com dados empíricos do campo, do comportamento dos

                                                                                                           
48
“[…]la doxa est un point de vue particulier, le point de vue des dominants, qui se présente et s’impose comme
point de vue universel; le point de vue de ceux qui dominent en dominent l’Etat et qui ont contitué leur point de
vue en point de vue universel en faisant l’État”. BOURDIEU, P. Raisons pratiques: sur la thèorie de l’action.
Paris: Seuil, 1994 p. 129
49
THIRY-CHERQUES, Hermano R. Op cit. p. 31
50
 id. Ibid. p. 41
  110  

agentes, das instituições etc. (que influenciam na estrutura dando-lhe o víeis construtivista),
compondo um quadro de análise sistemática do objeto (entre o objetivismo e subjetivismo).
Esse “modelo analítico”, que tem grande valia para as perspectivas críticas e atualiza
sobremaneira as heranças marxistas das mesmas, tem significativa recepção e influência na
sociologia da questão ambiental que foca os conflitos sobre recursos e territórios51,
empenhadas num primeiro momento desta pesquisa. Por esta lente, temos de um lado os
sujeitos, ainda quando adjetivados de “agentes” pela sua liberdade limitada e condicionada, e
do outro lado os objetos, que vão da própria sociedade objetiva fragmentada nos campos
como um “fato social” inspirado em Durkheim, ou das coisas em si (recursos naturais no
caso), reificadas na composição da realidade social e não representativas na constituição da
mesma, classicamente restrita e explicada pela própria sociedade (fenômenos sociais
explicados por fenômenos sociais).
Essa breve descrição teve como propósito introduzir as discussões sobre conflitos
socioambientais empenhadas no próximo capítulo, conforme mencionado, que influenciaram
o primeiro momento da pesquisa tanto na identificação dos agentes sociais, quanto na
compreensão da distribuição do poder sobre aqueles territórios e seus recursos.

1.2 Rizoma e Multiplicidade

O que foi vivenciado no campo da pesquisa, os dados que foram sendo obtidos, a
realidade que foi se revelando em sua complexidade, reivindicou uma postura que levasse em
consideração outros muitos elementos que a configuram, não os hierarquizando dentro da
constituição da mesma. Houve um abandono parcial da estrutura – não na negativa de sua
existência – mas na identificação de que sob esta perspectiva se recobraria um recorte que, de
um lado, conduziria a um enquadramento dos elementos de análise que sempre a reafirmasse,
e de outro, daria voz somente àqueles sobredeterminados pela própria estrutura (em posições
inferiores como os tradicionais p. ex.) e subavaliaria a posição de muitos outros “actantes”
que compõem aquela realidade. Nesse contexto a filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari,
na estruturação de um pensamento “rizomático” foi de grande inspiração.
                                                                                                           
51
  Nesse sentido podemos apontar alguns autores como: Acselrad, H. “As práticas espaciais e o campo dos
conflitos ambientais”, In: Conflitos ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará; Fundação Heinrich
Böll, pp. 13-35.; Carneiro, E. J. “Política ambiental e a ideologia do desenvolvimento sustentável”, in: ZHOURI
ET ALII (org.), A insustentável leveza da política ambiental, Belo Horizonte: Autêntica, pp. 27-47.; Zhouri, A.
& Laschefski, K. Desenvolvimento e Conflitos Ambientais: Um Novo Campo de Investigação. In: Zhouri, A.;
Laschefski, K. (org.). Desenvolvimento e conflitos ambientais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010; entre
outros.
  111  

Ao expor uma inovadora concepção de constante fluidez da existência de qualquer


coisa, em que tudo consiste em um vir-a-ser, um devir, um fluxo que segue e interrompe,
cessa e recomeça, coagula e liquefaz, tudo se territorializa e se desterritorializa,
diacronicamente ou sincronicamente, com mais ou menos tempo, multidimensionalmente,
conforme cada espaço, sempre em processo, Deleuze e Guattari apresentam uma abdicação
das “estruturas primeiras” e das “instâncias últimas” na percepção da realidade. Rompem a
visão moderna, os sujeitos e os objetos, os decalques, as fotografias, as unidades de medidas,
o poder significante, a subjetivação; abandonam o pensamento que se estrutura na lógica
binária, na dicotomização ou em uma unidade principal que se divide – o pivô que se
desmembra. O sistema epistemológico atrelado ao que os autores denominam de “árvore-raiz”
que se apresenta tanto na simples visão binária, ou na unidade que se divide em dois polos de
si mesma, ou ainda na unidade abortada que se multiplica; que se apresenta por uma lógica
valorativa, ou de um télos, de uma linearidade, de uma hierarquia, ou de uma gênese, de uma
genética, ora “raiz pivotante”, ora “raiz dicotômica”, ora “raiz fasciculada”, ora operando no
objeto, ora operando no sujeito, ora complementando um com o outro; é substituída pelo
sistema de pensamento que os autores designam como “rizoma”.
Os autores enumeram características aproximativas do rizoma em seis princípios, que
passamos a descrever brevemente no intuito de facilitar o entendimento desta introdução ao
pensamento dos autores. Os primeiros dois princípios tratam da “conexão e heterogeneidade”
inerente ao rizoma. Em um rizoma qualquer ponto se conecta a outros pontos, entretanto esses
pontos e linhas de conexão são de ordens diversas e não hierarquizadas, sobretudo
heterogêneas. Se pensarmos, p. ex., uma língua ou linguagem, não a ligaremos somente aos
locutores, auditores, cultura, percepções da linguística, mas a “cadeias biológicas, políticas,
econômicas”, outras línguas, centros de poder etc. a análise passa a ser efetuada por um
“descentramento sobre outras dimensões e outros registros” e captar os “agenciamentos”.
O terceiro princípio trata a “multiplicidade” enquanto um “substantivo”, sem sujeito e
sem objeto, “mas determinações, grandezas, dimensões”. A trama que se liga à marionete,
está ligada ao artista/operador, que está ligado a outra trama, a das suas fibras nervosas,
formando outra marionete e aí por diante... São dimensões que se conectam numa
multiplicidade e que mudam de natureza na proporção que aumentam as conexões (falávamos
da marionete, do artista, das reações químicas do seu cérebro, da cultura, do instinto, do
aprendizado etc.). Esse crescimento das dimensões na multiplicidade é o “agenciamento”.
Toda multiplicidade é plana, pois “preenchem e ocupam todas as suas dimensões” (plano de
  112  

consistência), por sua vez “definem-se pelo fora: pela linha abstrata, linha de fuga ou de
desterritorialização segunda a qual elas mudam de natureza ao se conectarem a outras”.
O quarto princípio é o da ruptura assignificante em que apresenta o rizoma enquanto
“linhas de segmentaridade segundo as quais ele é estratificado, territorializado, organizado,
significado, atribuído etc.; mas compreende também linhas de desterritorialização pelas quais
ele foge sem parar”. Essa linha de fuga é uma ruptura, mas essa ruptura também é o rizoma,
ele foge fazendo outras ligações, sobre outras ligações, sobre outros rizomas, impedindo
dualismos e dicotomias, mesmo rudimentares como bem e mau.
O quinto e o sexto princípios tratam da cartografia e da decalcomania. “Um rizoma
não pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo”, a estrutura profunda e o
eixo genético fazem decalques reprodutíveis ao infinito. O rizoma faz um mapa inteiramente
voltado para uma experimentação ancorada no real. O decalque remete à uma presumida
competência que traduz o mapa em imagem (transforma o rizoma em raízes ou radículas),
organizou, significou, estabilizou, neutralizou as multiplicidades segundo eixos próprios de
significância e de subjetivação (reproduz a si mesmo enquanto crê reproduzir outra coisa – é
sempre o imitador que cria o seu modelo e o atrai). O mapa é aberto, é conectável em todas as
suas dimensões, demonstrável, reversível suscetível de receber modificações constantemente.
O decalque seria como uma fotografia, nas palavras dos autores, um rádio que começaria a
eleger e isolar o que ele tem a intensão de reproduzir, com a ajuda de meios artificiais, de
colorantes ou outros procedimentos de coação52.
Essa perspectiva compreende a realidade como um conjunto de forças que se
encontram e se afetam/transformam, forças em constante afecção, sem início nem fim, em
múltiplas direções, sempre um processo. O encontro das forças produzem transformações,
forças de diferentes signos se encontrando, uma afetando a outra e assim reciprocamente e
sequencialmente em encontros que causam um processo e que se designam como “síntese
disjuntiva”, o que dá existência as coisas. O social é uma sequência de sínteses disjuntivas.
A realidade não é inteligível por um plano de significação, mesmo onde ela se
externaliza53, pois sempre que assim feito, implica em “criar” uma ordem, uma autoridade,
                                                                                                           
52
DELEUZE, G. & GAUTTARI, F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. São Paulo. Editora 34,
2011. pp. 22-48
53
As forças em afecção – intensio – geram transformações que se tornam visíveis – extensio – , externas (como
um encontro de placas tectónicas geram um terremoto ou o vento sobre a agua gera uma onda) e assim possíveis
de serem apreendidas, configurando parte também da realidade, que por sua vez será tomada, explicada,
significada, quantificada, decalcada, vindo a compor toda uma inteligibilidade e hierarquia e, por fim, uma
ordem social. Levando em consideração essa “dupla-articulação – dupla-pinça – double-bind”, a realidade não
pode ser nem composta pelo significante, nem pelo significado, uma vez que o que se têm é o que está
“estratificado”. “Do mesmo modo que os signos só designam uma certa formalização da expressão num
  113  

uma hierarquia, um comando. A oposição entre formas de “perceber a realidade” são dadas
pelas metáforas botânicas “rizoma” e “arvore-raiz”: de um lado, faz alusão a um tipo de caule
que se espalha subterraneamente, como uma grande rede emergindo em certos pontos; do
outro, o tronco rígido que se erige e se ramifica sucessivamente, formando suas extremidades.
Ultrapassando sobremaneira a sugestão metafórica, as duas percepções coexistem e a
perspectiva do rizoma não se apresenta como uma oposição – mais uma vez binária – às
outras formas de pensamento, mas muda sobremaneira o ângulo de visão sobre a realidade,
dando-lhe outro movimento e pluralidade. A multiplicidade inerente ao rizoma, não é a
simples identificação da complexidade caótica e aleatória a qual é preciso ordenar, ou da
identificação da ambivalência ou sobredeterminação dos fenômenos, ou ainda de uma
realidade natural múltipla vista de cima por uma realidade espiritual una. “É preciso fazer o
múltiplo, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas, ao contrário, da maneira
simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões que se dispõe, sempre n - 1”54. Para
fazer o múltiplo é necessário estar subtraído dele (excluir o Uno), o que equivale a pensar a
realidade (cartografá-la) enquanto encontros e agenciamentos múltiplos, heterogêneos, de
diversas ordens, experimentados, não hierarquizados e sem dicotomizá-la, sem corpo nem
alma separados.
Ao mesmo tempo em que contrapõe o pensamento centralizador e hierarquizador da
árvore-raiz, apreendendo outra “visão de mundo”, o rizoma – que conecta um ponto qualquer
a outro ponto qualquer, que são traços de naturezas muito variadas, que são linhas (o ponto
em movimento é uma linha) – pode apresentar “nós de arborescência”, formar “bulbos”,
hierarquias, despotismos, microfascismos; bem como a raiz pode criar rizomas, “empuxos
rizomáticos”, linhas de fuga, desterritorializações. Há tangenciamentos entre eles, há
transposições, se transpassam. Essa perspectiva filosófica não pode ser tratada como uma
simples oposição de “modelos”. Enquanto a árvore-raiz seria um modelo que produz
“decalques” em realidades estruturadas/recortadas/objetivadas/significadas/subjetivadas, o
rizoma é um processo que esboça mapas com linhas que ligam coisas diversas em
geografias/platôs/planos de consistência.
A ordem epistemológica do Estado, da Ciência, do Ocidente está estruturada no
modelo árvore-raiz, mas essa ordem pode ser pensada como apenas um plano de existência

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
determinado grupo de estratos, a própria significância só designa um certo regime dentre outros nessa
formalização particular”. DELEUZE, G. & GAUTTARI, F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. São
Paulo. Editora 34. 2011 p. 108        
54
DELEUZE, G. & GAUTTARI, F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. São Paulo. Editora 34. 2011
p. 23
  114  

que faz a leitura dos pontos em que o rizoma se exterioriza55, local onde este se torna visível e
então é cristalizado/sobrecodificado por este modelo, que lhe impõe uma organização e
produz uma ordem. Por sua vez qualquer dimensão da sociedade faz rizoma, ou seja, não para
de se conectar à “cadeias semióticas, organizações de poder, ocorrências que remetem às
artes, às ciências, às lutas sociais”, é uma manifestação da vida, da matéria, da energia, da
cultura... Se desterritorializa e se reterritorializa em um constante devir. Há necessariamente
uma dimensão “molar” (externa, dura, macro) e uma molecular (interna, flexível, micro) em
dupla articulação na sociedade56. “O plano de consistência é a abolição de qualquer metáfora;
tudo o que consiste é Real. São elétrons em pessoa, buracos negros verdadeiros, organitos em
realidade, sequência de signos autêntica”57. Substitui unidades por dimensões, por “direções
movediças”, por “um meio pelo qual ele cresce e transborda”, sem começo nem fim. Um
rizoma é substancialmente distinto58 de um “eixo genético” ou de uma “estrutura profunda”.
Um eixo genético é como uma unidade pivotante objetiva sobre a qual
se organizam estados sucessivos; uma estrutura profunda é, antes,
como uma sequência de base decomponível em constituintes
imediatos, enquanto que a unidade do produto se apresenta numa
outra dimensão, transformacional e subjetiva59.

Esse deslocamento epistemológico não apenas possibilita sua leitura nas muitas
ciências, como obriga ser lido por múltiplas ciências, fundindo-as na inteligibilidade que
busca dos encontros, conexões, agenciamentos e contextos que configuram a (sua percepção
de) realidade. Isso permite anular a grande divisão entre sociedade e natureza, posto que a
sociedade passa a ser explicada pela multiplicidade de “encontros” que a constituem, não
mais por si mesma, o que ganha peculiar aplicabilidade no método desenvolvido por Bruno
Latour60, Michel Callon61 e John Law62, tratado no último capítulo desta segunda parte. Esse

                                                                                                           
55
Extensio e intensio/ molar e molecular são como duas faces da mesma moeda, o molar é a
representação/exteriorização do molecular conglomerado. A sociedade é molar e molecular ao mesmo tempo,
uma face representável pelo nosso aparato cognitivo, exterior (uma instituição p. ex.), e outra interior, molecular,
intensiva e subterrânea, sendo a síntese de um conjunto de forças de diferentes signos (não-visível).
56
Importante ressaltar que a dupla molar e molecular não se trata de uma dicotomia, mas de uma existência que
se articula duplamente, se coproduzem, se contém, se co-transformam. Suponhamos que o rizoma tenha fluxos e
florescimentos, partes flexíveis (forças - intensio) e partes rígidas (afecções - extensio), partes que estão em
movimento e partes que se cristalizam, a primeira corresponderia à molecular e a segunda à molar. A ideia de
molar e molecular também não podem ser consideradas apenas uma mudança de perspectiva micro e macro, de
escala ou dimensão, dinâmica e estática, mas também da natureza do sistema de referências considerado.
57
Id. Ibid. p. 110
58
“O sistema dos estratos, portanto, nada tinha a ver com significante-significado, nem com infraestrutura-
superestrutura, nem com matéria-espírito. Tais oposições eram maneiras de reduzir a um todos os estratos, ou
então de fechar o sistema sobre si, isolando-o do plano de consistência como desestratificação.” Id. Ibid. p.112
59
Id. Ibid. p. 29
60
LATOUR, Bruno. Reassembling the Social: A introduction to Actor-Network-Theory. New York: Oxford.
2005.
  115  

entendimento da sociedade traduz também uma filosofia política em Deleuze-Guattari e uma


abrangente leitura sobre territorialidade, ambas influentes nesta pesquisa.
Pensar a sociedade para os autores requer pensar a ideia de segmentaridade inerente
às sociedades. Primeiramente os tipos de segmentos: I. binários (classes sociais, homens e
mulheres, público e privado etc.), II. circulares (local de trabalho, jurisdição, cidade, país etc.)
e III. lineares (início e fim de processos – família, escola, faculdade etc.). Estamos sempre
segmentados e de formas distintas. Em segundo lugar é necessário dissolver as dicotomias
entre segmentaridade e centralização, primitivo e moderno, molar e molecular. O primitivo e
o moderno não estão numa divisão temporal do tipo evolutiva, a dupla-articulação faz com
que um esteja contido no outro, ou pronto para emergir ou sendo suprimido. O que os
distingue é a forma de segmentaridade: de um lado a flexível, mais presente nas sociedades
primitivas, de outro a rígida, consagrada nas sociedades modernas, ambas correspondentes às
três esferas de segmentação.
A segmentaridade flexível se caracteriza enquanto tal por apresentar uma
territorialidade mais itinerante, nômade, mutável, há uma maior multiplicidade em sua
organização, nesse sentido mais molecular, mais permeável às transformações rizomáticas,
por sua própria descentralização (uma comunidade ou uma tribo p. ex.). Por sua vez, a
segmentaridade rígida caracteriza-se por sua centralização, pela organização binária, tudo
converge a um centro, a uma autoridade, a uma ordem, é arborescente, tem um centro de
poder que se ramifica, nesse sentido mais molar (o Estado moderno p. ex.). Há núcleos de
arborescência na segmentaridade flexível como há um tecido flexível na segmentaridade
rígida:
Toda a sociedade, mas também todo indivíduo, são pois atravessados
pelas duas segmentaridades ao mesmo tempo: uma molar e a outra
molecular. Se elas se distinguem, é porque não têm os mesmos
termos, nem as mesmas correlações, nem a mesma natureza, nem o
mesmo tipo de multiplicidade. Mas, se são inseparáveis, é porque
coexistem, passam uma para a outra, segundo diferentes figuras como
nos primitivos ou em nós – mas sempre uma pressupondo a outra. Em
suma tudo é político, mas toda política é ao mesmo tempo
macropolítica e micropolítica.63
Um exemplo muito elucidativo dos autores é o das classes e massas sociais. As massas
traduzem uma visão molecular, não possuem nem o movimento, nem a repartição, nem os
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
61
 CALLON, Michael et al. A quoi tient le succès des innovations? 1 : L’art de l’intéressement, Gérer et
comprendre, Annales des Mines, 11, pp.4-17. 1988.
62
LAW, John. Notes on the Theory of Actor-Network: Ordering, Strategy and Hetergeneity. In. Systems
Practice , Vol.5, nº. 4, 1992. Disponível em: http://link.springer.com/article/10.1007/BF01059830
63
DELEUZE, G. & GAUTTARI, F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 3. São Paulo. Editora 34.
2012. p. 99
  116  

objetivos, nem a mesma forma de lutar das classes. Contudo, dentro delas são “talhadas as
classes” que perfazem uma noção molar, cristalizada dentro das massas (organizada,
dicotomizada). Por sua vez dentro das classes as massas vão constantemente vazar, encontrar
suas linhas de fuga, desterritorializar-se em massas novamente. Podemos avançar um pouco
mais dizendo que dentro da classe os interesses serão percebidos enquanto homogêneos,
“comuns”, podendo ser organizados e pautados, nesse sentido são molares (duros). Em
oposição, dentro das próprias classes, percebido na microfísica, indivíduos vão ter interesses
difusos, variados, divergentes, que, mais tempo/menos tempo, formarão uma forma de
“vazamento” da ordem da classe, compondo “massas” novamente, tornando-se moleculares
(moles). Isso é irrefreável, inelutável e incontrolável ad eternum dentro de qualquer ordem.
Uma ordem molar será tanto mais forte quanto maior for sua correspondência na
“molecularização de seus elementos, suas relações e seus aparelhos elementares. [...] uma
grande segurança molar organizada tem por correlato toda uma microgestão de pequenos
medos [...]”64. A questão é que, por mais que o segmento molar (macropolítico,
macroeconômico, macropoder etc.) esteja organizado para e adaptado às linhas moleculares
ou “fluxos de quanta”65 (dentro da micropolítica, microeconomia, micropoder), não se detém
um controle sobre estes, sempre vão haver fendas, trincas, vazamentos, linhas de fuga em que
os fluxos vão gerar suas modificações moleculares no que é molar (e depois se cristalizar
novamente em outra molaridade, sempre em movimento). Nesse sentido a afirmativa marxista
de que uma sociedade se define por suas contradições é equivocada, parte-se somente da
grande escala (do pensamento biunívoco arborescente da visão que só apreende o que é
molar). As sociedades se definem mais pelas suas linhas de fuga, pelas desterritorializações,
pelas suas fissuras, pelo seus fluxos de quanta.
Os “centros de poder se definem por aquilo que lhes escapa, pela sua impotência,
muito mais do que por sua zona de potência”66. Cada segmento molar tem o seu centro de
poder e este tem neste “segmento duro” sua zona de potência; mas todo centro de poder tem
também sua difusão num tecido microfísico (zona indiscernível), que o segmento duro tenta
moldar através de agenciamentos que vão adaptar as variações de massa e fluxo através de
traduções ou conversões em função do segmento dominante e dos segmentos dominados (p.
ex. as classes). Entretanto, há uma terceira zona, a de impotência, que está relacionada com os
fluxos de quanta, onde não é possível controlar nem determinar, no máximo converter
                                                                                                           
64
Id. Ibid. p. 102
65
Em alusão aos “movimentos quânticos” da mecânica quântica utilizada tanto na física quanto na química.
66
DELEUZE, G. & GAUTTARI, F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 3. São Paulo. Editora 34.
2012. p. 105.
  117  

(sempre parcialmente dentro da segunda zona). Como a microtextura (segunda zona) oscila
entre a primeira e a terceira zonas – entre a ordem e o que a desconstrói – a impotência é que
traduz a potência do centro de poder, sua capacidade de traduzir os fluxos moleculares em sua
ordem, fazê-la ser desejada. No exemplo de classes podemos falar de medo, segurança,
estabilidade, o que seduz e assim agrega, faz aderir...
É ela [capacidade de se adaptar aos fluxos moleculares da segunda
zona] – e não o masoquismo – que explica que um oprimido possa
sempre ocupar um lugar ativo num sistema de opressão: os operários
dos países ricos participando ativamente da exploração do terceiro
mundo, do armamento das ditaduras, da poluição da atmosfera.67

Não se trata de antagonismos, mas diferentes linhas que se misturam ou se distinguem,


que podem ser traçadas num mapa, mas não interpretadas, representadas ou simbolizadas. A
revolução vai ser sempre percebida por um arbitramento de “antes e depois” dentro das
características que se elegem como fundamentais, subavaliando os elementos microfísicos
que geraram as próprias mudanças e que vão dar sempre movimento. Por fim, para encerrar
essa introdução estendida, cabe-nos reafirmar que ela é base para o entendimento da discussão
empenhado no terceiro capítulo desta segunda parte, na perspectiva de uma “democracia
ampliada” de Bruno Latour, que a materializa de certa maneira em um método/instrumento de
análise que é a antropologia simétrica e a teoria ator-rede.

1.3 Multiterritorialidade

Sociedade, natureza e pensamentos são imanentes. Deleuze e Guattari marcam a


realidade vinculada às interações, conexões e agenciamentos que dão a existência, a
transformação e o movimento às coisas68. Saindo das homogeneidades e homologias
apreendidas pelo estruturalismo e pelo sistêmico, um agenciamento (aquilo que se pode
depreender na menor escala da existência real de algo) é necessariamente heterogêneo e em
múltiplas dimensões e naturezas. Um agenciamento liga a ordem social à biológica à
                                                                                                           
67
Id. Ibid. p. 116
68
Aqui me refiro a tudo e qualquer coisa, pessoas, plantas, planetas, computadores e bauxita etc. A existência
não se dá pelo Cosmo ou pelo Caos, mas por um Caosmo na perspectiva Deleuze-guattariana. Podemos dizer,
guardadas as devidas proporções, que essa perspectiva se aproxima sobremaneira da concepção de “Ordem,
desordem e organização” – exceto pela presença de uma ideia origem na teoria da complexidade – tratada em
Edgar Morin: “Assim ordem, desordem e organização se co-produziram simultânea e reciprocamente. Sob efeito
dos encontros aleatórios, as imposições originais produziram as inter-relações organizacionais. Mas pode-se
dizer que, sob feito das imposições originais e das potencialidades organizacionais, os movimentos
desordenados, desencadeando encontros aleatórios, produziram a ordem e a organização. Ha então um circuito
de co-produção mútua [...]”. MORIN, Edgar. O Método 1: a natureza da natureza. Porto Alegre: Sulina, 2008. p.
76.
  118  

epistemológica etc. e todas elas a uma geografia. É inerente aos agenciamentos uma
territorialidade, eles descontroem territórios e os recriam num processo constante de múltipla
agregação que está sempre produzindo, sempre criando. Este processo é designado enquanto
“processo maquínico” ou simplesmente máquina, exatamente por agenciar diversos
elementos, funcionar na soma de suas forças e compor/construir/criar realidades (o que existe
é uma mecanosfera).
O agenciamento possui dois eixos em dupla articulação que o traduz enquanto um
processo de desterritorialização (linhas de fuga, momentos moleculares, forças e funções em
afecção) e de territorialização (componentes discursivos, momentos molares, sistemas
semióticos, significantes-significação) simultaneamente. Percebe-se que o sentido de território
é muito ampliado, indo do psicológico, social, animal etc., sempre num plano de existência
real, do que de fato se conecta, existe e se transforma. Obviamente nem tudo pode ser
apreendido por qualquer análise que seja, mas composto num mapa que traça os
agenciamentos identificados, sempre podendo ser refeito, ampliado, corrigido etc. Essa
percepção explicita uma visão “geográfica” desta filosofia, apreendida e aplicada de maneira
muito própria por Rogério Haesbaert, em sua “teoria da multerritorialidade”. Essa concepção
de território e territorialidade também foi influente na análise empenhada nesta pesquisa,
pelos territórios que percorre. “Muito mais do que uma coisa ou objeto, o território é um ato,
uma ação, uma real-ação, um movimento (de territorialização e desterritorialização), um
ritmo, um movimento que se repete e sobre o qual se exerce um controle.69”
Haesbaert parte de uma crítica às formas mais correntes do uso do termo
“desterritorialização”, apontando que estas perspectivas repercutem num sentido de promover
e legitimar a ótica parcial do modelo hegemônico neoliberalista, que prega o fim do Estado e
das fronteiras para a livre atuação das forças de mercado:
Assim, o que “desterritorializa”, de fato, na maioria das vezes, é
justamente esse afastamento ou fragilização do Estado e a
consequente onipotência de uma economia “flexível”, “fictícia”,
especulativa e/ou “deslocalizada”. Aí não são os grandes empresários
que estão “desterritorializados” – ao contrário, são eles que tem a
liberdade de escolher a (multi)territorialidade que mais lhes convém,
mais flexível e mutante, é verdade, mas justamente por isso ainda
mais prodigiosa70.
Perpassando de forma adensada diferentes perspectivas sobre territorialidade e
concepções sobre território, Haesbaert se empenha numa análise sobre as teorias da
                                                                                                           
69
HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do fim dos territórios à multiterritorialidade. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. p. 127
70
Id. Ibid. p. 367
  119  

“desterriotrialização”, desde a “criação” do termo/conceito com Deleuze e Guattari, até as


distorções mais “convenientes” atreladas ao “fim dos territórios”. Aqui nos basta uma breve
síntese desta análise, dada pelo próprio autor, apenas para atingirmos sua proposta de
multiterritorialidade.
O capitalismo pós-industrial, informacional, pós-fordista, ou “flexível” (Sennett71, ou
conforme Bauman72), da “modernidade líquida”, dentre as muitas características, se apresenta
pela “força dos laços fracos”, por sua forte maleabilidade e adaptabilidade. Essa “nova
ordem” vai repercutir em uma contínua e acelerada reconfiguração das relações
comunicacionais, espaço-temporais, comerciais e políticas de todo o globo. Destes laços que
se expandem em velocidades sem paralelos, o foco nas suas relações com os “territórios”,
mais centrada nas transformações do Estado-Nação, mas não apenas, se apresenta como o
contexto de análise do autor. Neste cenário, em que os territórios podem ser alcançados e
abandonados conforme a conveniência dos investidores, que apresenta complexas
segregações e ordenações, onde a tecnologia abreviou o espaço e o tempo, Haesbaert aponta
“alguns pontos” que caracterizam a territorialidade inerente a esta época para em seguida
desconstruir a ideia de uma “desterritorialização”, percebida como desatrelada de uma
contínua “reterritorialização”.
No contexto da “pós-modernidade”, ora percebida como o que inaugura um novo
tempo, ora como o que exacerba a modernidade na crescente racionalização e seus mitos
sobre o domínio técnico do mundo, destaca-se o surgimento de uma economia virtual, de um
ciberespaço, de uma continuada homogeneização simbólica/cultural/estética/ambiental. Há
uma crescente padronização e mercantilização de todas as esferas sociais, bem como um
papel ambíguo no Estado que opera para assegurar a “fluidez” dos interesses privados e ao
mesmo tempo promove a inclusão de interesses públicos que colidem e complexificam a
lógica do sistema. O antagonismo entre uma “inclusão simbólica” que abrange os extratos
sociais mais marginalizados no compartilhamento dos mesmos anseios e ideais da sociedade
de consumo, ao mesmo tempo acompanhada de uma crescente segregação econômica que
aprofunda as desigualdades sociais73. Uma sociedade percebida pelos seus “opostos” e
“ambivalências” que inaugura novas formas de território principalmente quando focadas nas
relações de espaço-tempo. De um lado o sujeito universal, cosmopolita, de-todo-lugar, de

                                                                                                           
71
SENNETT, Richard. A Corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Trad.
Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Record, 1999
72
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
73
HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do fim dos territórios à multiterritorialidade. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. p. 149
  120  

outro lado, o ausente, o sem-lugar, o sem acesso. Pode-se falar do surgimento de um espaço
imaterial, virtual ao mesmo tempo em que se pode falar de um uso ainda mais acirrado e
disciplinado do espaço e dos recursos materiais. A tecnologia que encurta as distâncias e
redefine a noção de tempo, tudo é instantâneo e imediato, decisões tomadas de longe, de fora,
mas com efeitos locais reais; e informações sincronicamente compartilhadas por todo o globo,
“aniquilando o espaço pelo tempo”. O território é instável e fluído, amanhã pode mudar, o
capital segue para onde for mais atrativo, para as melhores oportunidades, não há fronteiras,
pelo menos não muito rígidas. De um lado o local que perde sua identidade frente ao global
pelos mecanismos de “desencaixe”, com um “alongamento” espaço-temporal
(sobredeterminação); de outro lado o global que se encolhe, fica comprimido até reproduzir-
se no nível local, com a “compressão” do espaço-tempo. Os territórios se imbricam e se
justapõem, ora fronteiras são flexibilizadas ora são enrijecidas e as identidades culturais,
sempre atreladas a um território, se chocam, hibridizam-se e transformam-se.
Esse contexto fomenta os discursos sobre desterritorialização, partindo de diferentes
vieses, mas na grande maioria atrelados a uma visão linear e inevitável de um mundo “sem
fronteiras” ou sem territórios, com base em dicotomias como espaço-tempo, sociedade-
natureza, local-global, sujeito universal, cultura global etc. O deslocamento perceptivo de
Haesbaert se dá com a compreensão de que as mudanças compõem um “processo” que resulta
em novas perspectivas territoriais e não na abolição dos territórios. Para cada
desterritorialização, há uma reterritorialização, ora suplantando espaços e criando outros
novos, ora os hibridizando, mas dando outro plano de extensão e de controle. É um processo
sincrético, múltiplo, multiterritorial. Por uma perspectiva ideal-típica weberiana o autor
sintetiza três modalidades de organização espaço-territorial:
[...] os território-zona, mais tradicionais, forjados no domínio da
lógica zonal, com áreas e limites (“fronteiras”) relativamente bem
demarcados e com grupos mais “enraizados”, onde a organização em
rede adquire papel mais secundário; os territórios-rede, configurados
sobretudo na topologia ou lógica das redes, ou seja, são espacialmente
descontínuos, dinâmicos (com diversos graus de mobilidade) e mais
suscetíveis a sobreposições; e aquilo que denominamos
“aglomerados”, mais indefinidos, muitas vezes mesclas confusas de
territórios-zona e territórios-rede, onde fica muito difícil identificar
uma lógica coerente e/ou uma cartografia espacialmente bem
definida.74

                                                                                                           
74
HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do fim dos territórios à multiterritorialidade. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. p. 306
  121  

A realidade aponta uma complexidade de des-re-territorializações formando uma


multiplicidade de territorialidades que conjuga diferentes forças, tempos, interesses, que
enrijece ou flexibiliza ordenações territoriais, que inclui ou que exclui grupos humanos e não-
humanos, que se configura na dinâmica dos macropoderes e dos micropoderes. Os territórios
se imbricam, sobrepõem-se, formam redes, fazem rizomas. A multiterritorialidade é o que
permite conectar os diversos territórios, físicos ou virtuais, com indistintos limites materiais e
imateriais, possuindo uma dimensão tecnológica (do ciberespaços, dos transportes, das trocas
informacionais) e simbólica (das significações, ordenações, valorações). Não é possível
adotar uma postura axiomática a priori, sem se debruçar sobre as realidades dos fenômenos,
os mesmos podem se dar como dominação ou emancipação. O que se trata, mais uma vez, é
uma tentativa de se perceber a realidade sem dicotomizá-la, sem estancar os processos e
valorizar previamente.
Apropriar-se do espaço é uma condição da vida, percebê-lo em suas múltiplas
interações que compõem a sociedade-natureza, obriga a cindir a hierarquia entre as coisas
existentes, vivas e não vivas, humanas e não humanas: pensar o mundo em sua imanência.
“Amor por tudo aquilo que existe” é muito provavelmente o que
deveria estar no centro de nossos processos de territorialização, pela
construção de territórios que não fossem simples territórios funcionais
de re-produção (exploração) econômica e dominação política, mas
efetivamente espaços de apropriação e identificação social, em cuja
transformação nos sentíssemos efetivamente identificados e
comprometidos75.

Entretanto, não quer dizer que na perspectiva do autor não se adote axiomas, ou
pressupostos, ou mesmo crie polarizações. As mesmas estão presentes em vários momentos,
quase sempre inevitáveis, mas aportadas como sempre relacionais e suscetíveis de
reavaliações. Na perspectiva de Haesbert a “estrutura” se mantém como pano-de-fundo, nas
construções do poder e nas relações simbólicas principalmente, bem como percebe-se um
significativo empenho do autor em salientar as “especificidades humanas” de territorialidade,
para manter o humano em uma posição diferenciada, dicotomizada. Nesta feita, a filosofia
Deleuze-Guatttariana é parcialmente adotada, o que é afirmado pelo próprio autor.

                                                                                                           
75
Id. Ibid. p. 369
  122  

2 CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS E JUSTIÇA AMBIENTAL

2.1 Breve descrição sobre a questão ambiental e sobre os marcos institucionais


regulatórios

Percebida de diversas formas e sob diversas vertentes a ideia de crise ambiental e


humanitária consubstanciadas pelos desníveis de ordem diversa nas relações entre sociedade-
ambiente, sociedade-sociedade e sociedade-indivíduo ganha uma penetração social
inquestionável, não apenas na esfera política, mas na educacional, na ética, na econômica, na
moral, na jurídica, na religiosa e na epistemológica. Consagrada por conferências, tratados,
convenções e acordos multilaterais entre Estados, na ampla difusão midiática, na
promulgação das leis domésticas, nas manifestações de grupos militantes etc. a questão da
disfunção entre as práticas sociais e a estabilidade ecossistêmica, que vai de escalas locais à
global, assumiu a forma de uma nova categoria de problemas humanos, não necessariamente
novos, mas agora compreendidos como “ambientais”.
Sob uma perspectiva amplamente difundida as questões ambientais, concebidas como
“crise civilizatória”, são comumente traduzidas e simplificas em uma relação quantitativa de
matéria e energia frente às formas de consumo e produção do modelo civilizatório
hegemônico. Dentro dessa problemática é percebido que a utilização dos elementos naturais,
dentro dos parâmetros tecnológicos estabelecidos, supera a capacidade de regeneração dos
mesmos, comprometendo, ao longo do tempo, sua continuidade. Por outro lado a absorção
dos resíduos das atividades humanas também não se mostra viável nessa dinâmica. O sistema
estaria esbarrando, nas várias direções, em limites. Dados apontam que a pressão exercida
sobre os sistemas naturais da Terra, diante do contingente populacional e do estilo de vida da
sociedade de consumo, excede aproximadamente 25% a capacidade de renovação desses
sistemas76. Apontam também que, nos últimos trinta anos a perda de biodiversidade supera
qualquer outro momento da história do homem e que o modo como geramos e consumimos
energia começa a mostrar sinais claros de irreversíveis alterações climáticas77 etc.
Esses e outros problemas que são objetivamente tratados pelos meios de comunicação
da sociedade, expõem um estado calamitoso e insustentável que pressupõe o
comprometimento dos modos de vida (ou da própria vida nas versões mais catastrofistas) que
                                                                                                           
76
HAILS, Chris et al. Relatório Planeta Vivo 2006. Gland – Suíça: World Wide Fund for Nature – WWF,
Zoological Society of London – ZSL e Global Footprint Network, 2006.
77
ALLEY, Richard et al. Intergovernmental Panel on Climate Change: Climate Change 2007: The Physical
Science Basis. Summary for Policymakers. Genova: WMO/ UNEP, 2007.
  123  

atingiria de forma mais ou menos homogênea toda a humanidade. Tratadas por um matiz
essencialmente economicista a questão tende a ser compreendida em sua resolução ou
mitigação por processos de conscientização, proteção de espaços territoriais e de
desenvolvimento de tecnologias que possibilitariam contornar a situação agônica que
enclausura a sociedade como um todo.
Alier78 aponta três momentos do “ambientalismo” como ramificações de um tronco
único: “o culto ao silvestre”, o “evangelho da ecoeficiência” e o “ecologismo dos pobres”.
Apesar de guardarem vários pontos em comum, sobretudo por se apresentarem contrários ao
modelo de produção da sociedade capitalista, cada qual tem seu viés que o distingue
nitidamente: o primeiro tem como característica fundamental a segregação de espaços
territoriais para a conservação e preservação de espécies ameaçadas de extinção; o segundo
compreende a saída para a crise a partir de investimento em tecnologias verdes, adaptando o
sistema atual aos novos problemas; por fim, o terceiro reivindica justiça na distribuição dos
recursos e dos ônus da degradação, configurando movimentos por justiça ambiental e dando
um matiz cultural para a questão. As duas primeiras linhas, que “eventualmente dormem
juntas”79, tratam a questão ambiental de forma mais fragmentária, técnica e, não raras as
vezes, associada à uma forma de manutenção/adaptação do modelo hegemônico.
Apesar da importância da compreensão, reduzir as questões ambientais
exclusivamente à problemática das quantidades de matéria e energia, é percebido como algo
impossibilita apreendê-las em sua real complexidade na dinâmica das sociedades. Dentro
desse contexto algumas vertentes teóricas buscam compreender essas questões de maneira
mais integrativa e conjuntiva, percebendo as inter-relações entre sociedade e meio ambiente,
ou seja, entre os elementos que constituem o meio e seus sentidos culturais e históricos,
apontando para a interconexão explícita dos processos sociais e ecológicos. Nesse sentido, as
formas de uso, apropriação e ocupação do território e dos seus elementos constitutivos pelos
diferentes segmentos e formas sociais é dotada de distintos fins, sentidos e significados.
Os modelos e práticas sociais se ligam diretamente às representações simbólicas que
atribuem diferentes significados aos elementos ambientais e à distribuição de poder sobre os
mesmos, dentro de um contexto histórico-social. A partir dessa relação Acselrad expõe que
disputas figuram: no campo dos significados, legitimando ou deslegitimando práticas sócio-
                                                                                                           
78
ALIER, Juan Martínes. O ecologismo dos pobres: conflitos ambientais e linguagem de valoração. São Paulo:
Editora Contexto, 2005.
79
Nessa perspectiva o “culto ao silvestre” e o “credo da ecoeficiencia” eventualmente dormem juntos. Assim
vemos a associação entre a Shell e a WWF para o plantio de eucaliptos ao redor do mundo com base no
argumento de que isso diminuirá a pressão sobre os bosques naturais e, presumivelmente, promoverá também o
aumento na absorção do carbono. Id. Ibid. p. 33
  124  

culturais de apropriação da base material; nas relações atreladas aos recursos e sua
acessibilidade e deterioração (questões de justiça ambiental); e nas competições sobre a
distribuição de poder sobre esses elementos.80
Há uma dimensão política e conflitiva intrinsecamente ligada às questões ambientais
que não se resume a uma convergência consensual necessária da ideia de crise e da
construção de uma consciência universal da mesma.
Nesse viés – sensível às diferentes práticas, significados e modelos culturais de
apropriação do ambiente – percebe-se uma realidade permeada por conflitos socioambientais.
Os impactos gerados por determinados usos, o poder exercido sobre determinado recurso, o
status designado para determinada área, os riscos de uma dada atividade, entre outras
situações que se reproduzem diuturnamente nas sociedades, muitas vezes, perfazem o que se
convencionou designar como “conflitos ambientais” ou “socioambientais”. Vale dizer, as
disputas entre os grupos sociais derivadas dos distintos tipos de relação que eles mantém com
seu meio natural, engloba três dimensões: o mundo biofísico, o mundo humano-social e o
relacionamento dinâmico e interdependente de ambos81, o ambiental e o social se conectam
(ainda que dentro de um modelo epistemológico que os dicotomiza).
O processo de disputa sobre os elementos ambientais, pelo seu controle (distribuição
de poder e designação de sentidos), acesso (distribuição social dos recursos) e exploração
(formas de uso, apropriação e ocupação), é um ponto marcante e indissociável da
compreensão das sociedades contemporâneas.
Diante dessa realidade crescem mundialmente as discussões sobre instituições
regulatórias e políticas, assim como de tecnologias para resolução de conflitos ambientais82. E
nesse sentido uma questão se perfaz: o que significa resolver um conflito? Seria cessá-lo ou
mitigá-lo? Negociá-lo ou arbitrá-lo? A resolução de um conflito ambiental deve se pautar
exclusivamente numa discussão técnica, ou incluir a dimensão da justiça e da ética? O
conflito deve ser resolvido em si, ou deve-se confrontar e transformar o processo que lhe deu
origem?
As práticas sociais institucionalizadas que visam dirimir conflitos de qualquer
natureza – grosseiramente – tendem, inicialmente, a uma harmonização ou conciliação entre
                                                                                                           
80
ACSELRAD, Henri. As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais. In: ACSELRAD, Hanri.(org.)
Conflitos Ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Heinrich Boll. 2004
81
LITTLE, Paul E. Os Conflitos Socioambientais: Um Campo de Estudo e de Ação Política. In: BURSZTYN,
Marcel (org.) A Difícil Sustentabilidade: Política Energética e Conflitos Ambientais. Brasília: Garamond
Universitária, 2000. p.p. 107 - 122
82
ACSELRAD, Henri, H., BEZERRA, G.N. “Inserção econômica internacional e “resolução negociada” de
conflitos ambientais na América Latina” apres. Seminário Nacional Desenvolvimento e Conflitos Ambientais,
Belo Horizonte, 2008. http://www.ufmg.br/conflitosambientais/ acesso em 28/02/2009 [disponível em pdf]
  125  

as partes. Caso essas “tentativas” se percebam frustradas, pode um terceiro imparcial ou um


colegiado fazer a mediação ou arbitrar uma posição mediante critérios e valores (p. ex. o
papel jurisdicional do Estado). Esse processo, via de regra, visa à estabilidade social (por fim
ao conflito ou resolve-lo), mas pode também transformar a realidade social. Considerando as
duas perspectivas, que não se antagonizam, mas se distinguem, poder-se-ia identificar, dentre
os instrumentos e espaços que lidam com “conflitos ambientais”, aqueles que assumem um
caráter mais “resolutivo” (resolvem o conflito em si) ou podem assumir um caráter mais
“transformador” (ultrapassa o conflito em si e os atores imediatamente envolvidos).
Destacam-se três enfoques:
O primeiro enfoque trata de modelos de análise e ação que visam resolver os conflitos
de forma mais direta e negocial, a partir dos próprios envolvidos ou a partir de terceiros
dotados de autoridade ou capacidade pericial para arbitrá-los. Trata-se de metodologias de
resolução negociada, não muito utilizadas no Estado brasileiro, pois o meio ambiente com
qualidade é um direito indisponível, mas bastante difundidas em alguns países. São exemplos
dessas tecnologias de resolução negociada de conflitos ambientais: a Negociação Direta, a
Conciliação, a Facilitação, a Mediação, a Arbitragem etc. Essa perspectiva negocial privatista
sofre acusações de despolitizar o conflito, retirando o debate da esfera pública e alocando-o
exclusivamente na esfera de conhecimento dos atores nele diretamente envolvidos. Por sua
vez é percebida como mais célere, menos burocrática e, com as devidas proporções, mais
eficiente do que o judiciário83.
Uma segunda perspectiva – instância por excelência para dirimir conflitos sociais –
trata-se do próprio judiciário. A emergência das questões ambientais, encampadas, sobretudo,
na década de 1970 pelo Brasil, faz surgir uma nova categoria de interesse juridicamente
tutelado: o meio ambiente, concebido em sua integralidade (diferentemente da forma
fragmentária como era tratado – p. ex. florestas, fauna, solos etc. anteriormente concebidos
sem manter relações entre si). Essa mudança conceitual tem como marco a Política Nacional
do Meio Ambiente, Lei 6938 de 31 de Agosto de 1981, que traz no seu texto um conceito para
Meio Ambiente e um tratamento sistêmico para seus elementos. Com a promulgação da
Constituição Federal de 1988, se deu a elevação dos bens e da qualidade ambiental ao grau de
direito fundamental, assumindo – a qualidade ambiental – atribuições de irrenunciabilidade,
inalienabilidade e imprescritibilidade. Sendo o “meio ambiente ecologicamente equilibrado”
um direito com titularidade difusa (dirige-se a toda a comunidade). Nesse sentido os bens
                                                                                                           
83
VIÉGAS, Rodrigo Nuñez. As resoluções de conflito ambiental na esfera pública brasileira: uma análise crítica.
In. Confluências, n. 9 v. 2, Niterói, 2007.
  126  

ambientais são bens de interesse comum, perspectiva essa que vem redimensionar o conceito
de propriedade privada com implicações significativas em sua fruição. Esta fica submetida à
explorabilidade limitada (certos bens ou espaços não são passíveis de utilização) e
condicionada (deve-se demonstrar que o uso não será nocivo para receber outorga do poder
público). A fruição passa a estar atrelada à função socioambiental da propriedade e as
questões ambientais passam a envolver (direta ou indiretamente) a sociedade como um todo –
caráter difuso.84
Apesar de gozar de um arcabouço teórico e legislativo amplo, que dialoga com outras
disciplinas inclusive não jurídicas, e de reformular vários conceitos jurídicos tradicionais, o
Direito Ambiental é uma disciplina relativamente marginalizada, que vem ganhando
importância gradual na atualidade. Seu conteúdo legislativo encontra grande descompasso
com a realidade, e o poder judiciário em si, é consideravelmente despreparado para lidar com
as questões ambientais que lhes são apresentadas85. A inaptidão técnica e a extrema
morosidade são apontados como fatores de esvaziamento do judiciário para dirimir as lides
ambientais. Estas, por sua vez, recairiam ainda mais para uma instrumentalização
contratualista e privada, flexibilizando o teor de indisponibilidade e de “bens de uso comum”
dos elementos ambientais.
Por sua vez, é importante salientar que o acesso à justiça é bastante ampliado no
Direito Ambiental. Instrumentos como a Ação Civil Pública (Lei 7347 de 24-07-85) e a Ação
Popular (Lei 4717 de 29-06-65), além de serem instrumentos processuais específicos de tutela
do interesse coletivo, ampliam o rol de legitimados ativos para a impetração da ação,
possibilitando-a às associações civis e aos cidadãos respectivamente. Não obstante tratar-se de
instrumentos de exercício profundo da cidadania, tanto a Ação Civil Pública quanto a Ação
Popular não são amplamente utilizados pela sociedade civil.
O Ministério Público, que utiliza amplamente a Ação Civil Pública, pode-se dizer,
desempenha um papel importante na resolução de conflitos ambientais. Este possui como
função precípua, além de fiscalizar a lei e promover a justiça, defender os direitos
massificados da sociedade (função preventiva e repressiva). Dispondo de uma série de
instrumentos de atuação, o Ministério Público pode figurar tanto como “demandista”, atuando
frente ao Poder Judiciário que se incumbe da resolução dos conflitos, através da Ação Civil

                                                                                                           
84
BENJAMIN, Antonio H. Constitucionalização do Ambiente e Ecologização da Constituição Brasileira. In.
CANOTILHO, J. J. G.; MORATO LEITE, José R. (org.), Direito Constitucional Ambiental Brasileiro. São
Paulo: Saraiva, 2007.
85
NAVIA, J. M. B. Limiti e promesse del diritto ambientale in America Latina. In: Rivista Giuridica
dell´Ambiente. N. 3 vol.4. Milano: Giuffrè editore, 2003.
  127  

Pública, do Inquérito Civil e Criminal p. ex.; ou assumir um papel “resolutivo”, lançando mão
dos procedimentos administrativos e firmando Termos de Ajustamento de Conduta, e a partir
daí, resolvendo os embates86.
A resolução de conflitos através de Termos de Ajustamento de Condutas pelo
Ministério Público ou Termos de Compromisso (legitimados para alguns órgãos ambientais)
se dá mediante um compromisso firmado para “ajustar” a conduta do agente que está em
desacordo com a lei. Figurando como título executivo extrajudicial, esses instrumentos evitam
a burocracia do processo judicial, são mais flexíveis e negociados, podendo ser assistidos por
outras instituições (órgãos públicos, universidades, associações etc.) que lhes dão mais
legitimidade. Entretanto, apresentam inúmeras deficiências decorrentes do não cumprimento
dos acordos firmados, principalmente devido à ausência ou insuficiência de fiscalização.
O terceiro enfoque trata dos instrumentos administrativos de co-gestão política do
meio ambiente. Espaços onde se constroem e se decidem políticas socioambientais, planos de
desenvolvimento, normatizações, controle de atividades, qualificação de territórios etc. Há
cerca de quatro décadas, quando as políticas ambientais deixaram de ser tratadas
implicitamente em outros setores (constituindo um campo próprio), se inicia o processo de
construção desses instrumentos de gestão ambiental, que ao longo do tempo, foram ganhando
materialidade na realidade social brasileira.
Sob a influência da Conferência das Nações Unidades sobre Meio Ambiente Humano
de 1972, realizada na cidade de Estocolmo, o Governo Federal, na excepcionalidade do
Regime Militar e em meio a obras colossais e desastrosas, descontrolada exploração dos
recursos naturais, favorecimentos e expansão das fronteiras agrícolas, teve o início do que se
designa como “política ambiental explícita do governo”87. Precisamente no final de 1973 com
a criação da Secretaria Especial de Meio Ambiente - SEMA, instituída pelo Decreto n°
73.030, em 30 de outubro de 1973.
Contudo, já antes da criação da SEMA, começaram a se institucionalizar órgãos em
alguns estados do Brasil, que passaram a tratar o Meio Ambiente como um setor específico de
políticas públicas. Em junho de 1973 criou-se a Companhia de Tecnologia de Saneamento
Básico e de Controle da Poluição das Águas – CETESPE (Lei 118/73 SP). E, em outubro de
1973, foi criado na Bahia o primeiro conselho de meio ambiente do país, o Conselho Estadual
de Proteção Ambiental – CEPRAM (Lei 3163/73 BA).

                                                                                                           
86
ALMEIDA, Gregório Assagra de. Direito Processual Coletivo Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2003.
87
ACSELRAD, Henri. Políticas ambientais e construção democrática. In: SILVA, Marina et al.(org.) O desafio
da sustentabilidade: um debate socioambiental no Brasil. São Paulo. Fundação Perceu Abramo. 2001. p.p. 75-96
  128  

Segundo Lemos88, surge pela primeira vez um colegiado de Meio Ambiente com
poderes deliberativos no Estado do Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, outra importante
inovação se deu com a criação da Comissão de Política Ambiental - COPAM (instituído em
29 de abril de 1977 que, a partir de 1988, passou a ser Conselho Estadual de Política
Ambiental, mantendo a sigla COPAM). Um órgão colegiado normativo e deliberativo que,
pela primeira vez, incluía a participação da sociedade civil de forma mais ampla, com
representantes de entidades ambientalistas, fomentando um maior controle social das políticas
públicas de meio ambiente do estado89.
Em 1981, com a edição da Política Nacional de Meio Ambiente, fica instituído o
Sistema nacional de Meio Ambiente (SISNAMA), que se estabelece como uma rede
articulada de órgãos interativos que atuam nos três níveis da federação. Esse amplo modelo de
gestão – que incorpora os órgãos ambientais federais, estaduais e municipais – veio se
constituindo por tripartições em sua estrutura, com órgãos centrais (mais diretamente ligados
ao governo – chefe do executivo), órgãos executivos (executam as políticas, aplicam
penalidades, fiscalizam, transigem etc.) e órgãos decisórios (conselhos e comitês que
comportam múltiplos segmentos representativos). As representações, principalmente dos
órgãos colegiados, também vêm se organizando por mecanismos tripartites – Estado,
Mercado e Sociedade. Esse processo se deu acompanhando uma crescente mentalidade
democrática e participativa, consagrando a participação social nos processos decisórios e
configurando uma gestão descentralizada sobre os territórios.
Foi a partir dos modelos experimentados na Bahia, no Rio de Janeiro, em Santa
Catarina, em São Paulo e em Minas Gerais (posteriormente disseminados pelo país) e de seus
aperfeiçoamentos, que o Governo Federal se inspira para criar o Conselho Nacional de Meio
Ambiente (CONAMA) em 1981, comportando amplos segmentos representativos. Também
na década de 1980 aponta-se o grande momento do surgimento dos conselhos de meio
ambiente no âmbito municipal, concomitantemente ao surgimento de inúmeras associações
ambientalistas90.

                                                                                                           
88
LEMOS, Haroldo Mattos de. O sistema nacional de meio ambiente e o conselho nacional de meio ambiente no
Brasil: seu impacto na qualidade de vida. In: Diálogos de Política Social e Ambiental: Aprendendo com os
Conselhos Ambientais Brasileiros. Banco Interamericano de Desenvolvimento/Ministério do Meio Ambiente do
Brasil. Brasília: BID/MMA, 2002, 1ª edição. p.p. 31-82
89
RIBEIRO, José Cláudio Junqueira. Indicadores Ambientais: Avaliando a Política de Meio Ambiente no
Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte: Semad, 2006.
90
ALCÁNTARA, Leonardo A. G. Conflito, Consenso e Legitimidade: Delimitação e análise de embates sociais
no Conselho Municipal de Meio Ambiente de Juiz de Fora. Dissertação (Mestrado em Sociologia e Direito) –
PPGSD. UFF, Niterói, 2008.
  129  

Gradativamente o modelo de gestão ambiental brasileiro, conforme exposto no breve


delineamento histórico, vai tomando forma e vão sendo instituídos, na federação, nos estados
e parte considerável dos municípios, seus órgãos constitutivos: Ministério, Secretarias,
Departamentos, Fundações, Autarquias, Agências e Conselhos.
Pode-se dizer que o modelo de gestão do ambiente compartilhada entre Estado e
sociedade civil, através de consultas, audiências públicas e dos colegiados ambientais em sua
maioria com caráter deliberativo e normativo, está amplamente difundido no Estado
brasileiro. Além das políticas de desenvolvimento ambiental e urbano, merecem destaque as
políticas de gestão de recursos hídricos e de unidades de conservação. A Política Nacional de
Recursos Hídricos (criada pela Lei 9433 de 08 de janeiro de 1997), além de criar o Conselho
Nacional de Recursos Hídricos e os conselhos estaduais, cria também os “comitês de bacia”.
Estes operam na delimitação geográfica de uma bacia hidrográfica ou sub-bacia, comportam
diversos segmentos participativos e são incumbidos de arbitrar conflitos relacionados a esse
recurso.
No que tange às unidades de conservação, tema central do presente estudo, a previsão
de “criar em todas as unidades da federação espaços territoriais a serem especialmente
protegidos cuja alteração só pode se dar mediante lei específica” é um instrumento da política
ambiental brasileira constitucionalmente assegurado. Regulamentado pelo Sistema Nacional
de Unidades de Conservação (criado pela Lei 9985 de 18 de julho de 2000), essa política
pública que destina áreas para conservação, outrora extremamente arbitrária e causadora de
inúmeros conflitos, acompanhou também um processo de democratização. A lei, além de
dispor sobre consulta pública e processos participativos para a criação de várias categorias de
unidades de conservação (mantendo o equívoco da desnecessidade para com as Reservas
Biológicas e Estações Ecológicas), dispõem também de “Conselhos de Unidades de
Conservação” para auxiliar a geri-las. Entretanto, a maior parte desses conselhos possuem
caráter meramente consultivo, o que os enfraquece substancialmente na possibilidade de se
promover um pacto político-sócio-ambiental mais equânime, visto que as discussões ali
empregadas e os resultados atingidos podem não materializar-se e as decisões reais serem
tomadas em outra instância.
Perscrutando a realidade brasileira, onde as desigualdades são características
marcantes da sociedade, promover entendimentos e convergências, ou ao menos o respeito
nas demandas entre os interesses de grupos díspares, não é uma tarefa fácil. Tradicionalmente
um conflito de interesses se resolve na imposição da vontade daquele que possui melhores
condições econômicas, em última instância através da força bruta, ainda que por meio de
  130  

ações ilegítimas de um Estado subserviente. Nessa realidade a implementação da gestão


ambiental compartilhada, com o advento de espaços públicos discursivos que possibilitam a
participação de uma diversidade de atores e o poder de decidir as questões que ali são levadas
representa a promoção de uma responsabilidade solidária, coletiva e democrática para
mediação e negociação dos conflitos. E isso se dá através do diálogo social e político que
favorece tanto o fortalecimento institucional, quanto a legitimidade dos atos públicos,
representando uma maneira distinta da forma tradicional de se dirimir conflitos na sociedade.
Aí reside parte substancial da importância desse modelo de gestão para dirimir conflitos de
natureza socioambiental91.
As três esferas mencionadas e as inúmeras arenas nas quais se desembocam são os
espaços em que os múltiplos atores sociais levam suas demandas e buscam legitimá-las, são o
locus em que os conflitos se publicizam e os discursos se constroem. Ora culminam em
negociações ou trocas em que o poder do dinheiro silencia demandas, ora cumpre-se a lei para
incluir ou excluir interesses legítimos ou não, ora pactua-se a consideração dos interesses
daqueles que historicamente tiveram sua voz suprimida e sua existência negada. Esses
espaços – reuniões entre empresas e comunitários, audiências públicas, reuniões de
colegiados, audiências judiciais, vistorias, debates técnicos, fiscalizações etc. – e os
documentos que originam, são indispensáveis na compreensão do desdobramento dos
conflitos socioambientais e, principalmente, na atuação dos atores sociais, na revelação de
suas estratégias, na construção de suas alianças e das elaborações argumentativas que visam
legitimar suas posições.
O fluxo das relações estabelecidas entre os diversos atores e instituições, as estratégias
utilizadas para legitimar ou fazer prevalecer interesses, a arte de transformar causas
particulares em questões públicas, requer que a análise leve em consideração as múltiplas
construções argumentativas que se desenvolvem. Assim, a vociferação das denúncias,
carregadas com sentimentos de injustiça, que são proferidas pelos grupos que dão
materialidade aos conflitos, requerem, conforme Boltanski,92 que se compreenda a medida de
sua satisfação concomitante a de sua aceitação pelo público na análise do caso específico.

                                                                                                           
91
ALCÁNTARA, Leonardo A. G. Conflito, Consenso e Legitimidade: Delimitação e análise de embates sociais
no Conselho Municipal de Meio Ambiente de Juiz de Fora. Dissertação (Mestrado em Sociologia e Direito) –
PPGSD. UFF, Niterói, 2008.
92
BOLTANSKI, L. L'amour et la justice comme compétences: trois essais de sociologie de l'action. Paris:
Métailié, 1990.
  131  

2.2 As especificidades dos Conflitos Ambientais por uma sociologia estruturalista-


construtivista

Emergindo a partir da década de 1970 como subdisciplina acadêmica específica, a


sociologia ambiental, outrora distribuída em distintas disciplinas (como ecologia humana,
sociologia rural, sociologia dos recursos naturais, dos movimentos sociais entre outras),
passou a integrar uma problemática fragmentada em diversos campos do conhecimento,
dentro do que se designa de “dimensão ambiental”93. Partindo, muitas vezes, da tentativa de
uma visão mais conjuntiva entre humano-sociedade-natureza, a questão se constrói sobre
variados enfoques (realistas, materialista-marxista, estruturalista, construtivista, pós-
materialista etc.) e se debruça sobre um amplo campo de objetos de estudo que englobam:
atitudes e valores, movimentos ecológicos, sociedade de risco, desenvolvimento sustentável,
políticas ambientais, conflitos ambientais, entre outros.
Na perspectiva adotada para a pesquisa, sobre o desdobramento dos conflitos
socioambientais nos espaços territoriais de duas unidades de conservação, faz-se necessária
uma compreensão do “ambiental” em suas diferentes construções argumentativas inseridas
nos processos discursivos. Isto não significa diminuir ou despir as especificidades da temática
ambiental em si, ou percebê-la como retradução ou readaptação de outras questões. A
“dimensão ambiental” pode ser percebida como uma forma mais acurada de se compreender
as questões humanas inter-relacionadas com sua base material e simbólica, que é o meio
ambiente. Por sua vez, essa perspectiva, direciona o entendimento sobre o meio ambiente
como um terreno contestado material e simbolicamente94. Ou seja, o que significa uma prática
ambientalmente sustentável para um determinado agente, pode não ser para outro; ou o
significado de um determinado elemento natural pode variar de um agrupamento humano em
relação a outro, ou para uma forma de utilização com relação a outra etc. Assim, a questão
ambiental é intrinsecamente conflitiva e a luta por recursos naturais é também uma luta por
sentidos culturais.
De forma heurística, Little95 oferece uma tipologia interpretativa para os conflitos
socioambientais: primeiro, o que seriam conflitos em torno do controle sobre recursos

                                                                                                           
93
HERCULANO, Selene C. Sociologia Ambiental: origens, enfoques metodológicos e objetos. In. Revista
Mundo e Vida: alternativas em estudos ambientais. n. 1. Niterói, 2000.
94
ACSELRAD, Henri. As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais. In: ACSELRAD, Hanri.(org.)
Conflitos Ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Heinrich Boll. 2004
95
LITTLE, Paul E. Os Conflitos Socioambientais: Um Campo de Estudo e de Ação Política. In: BURSZTYN,
Marcel (org.) A Difícil Sustentabilidade: Política Energética e Conflitos Ambientais. Brasília: Garamond
Universitária, 2000. p.p. 107 - 122  
  132  

naturais; segundo, conflitos em torno dos impactos sociais e ambientais gerados pela ação
humana; e terceiro, conflitos em torno dos usos dos conhecimentos ambientais. O tratamento
e entendimento dos conflitos devem considerar a pluralidade, o multiculturalismo e a
complexidade da sociedade atual.
No campo dos conflitos sociais, ganha substancial importância: a) a reflexão sobre os
atores sociais, a construção de suas identidades e solidariedades (constituição de movimentos
sociais); e b) o fenômeno da ação coletiva, referenciada por orientações e relações sociais.
Nesse sentido, conforme aponta Melucci96, deve-se entender o sujeito coletivo da ação não
como uma estrutura definida e homogênea (integrada em suas demandas) e nem reduzidos ao
“momento histórico”, mas de forma complexa, heterogênea em seus significados,
organizações e formas de ação. Essa perspectiva conduz à compreensão de um fenômeno de
ação coletiva, não de forma global ou como resposta a uma crise do sistema (patologia
social), mas como um objeto construído por uma análise que o decompõe segundo o sistema
de relações sociais ao qual a ação faz referência e às orientações que tal ação assume. É,
sobretudo, um conflito expresso na luta entre atores pelo controle de recursos essenciais de
interesse comum97. Essa percepção (sobre conflitos sociais em geral), remonta à necessidade
de uma análise empírica, onde a compreensão de um conflito ou formação de movimento
social, em sua real dimensão, só é possível partindo da análise de casos concretos.
Para a caracterização do “ambiental” como um campo específico de construção e
manifestação dos conflitos, Acselrad98 parte de um “estruturalismo construtivista” onde: a) as
posições no espaço social, em que os agentes sociais se distribuem segundo princípios de
diferenciação, conflitando pela posse das espécies de poder/capital específicos, formam os
“campos de forças relativas”; e b) as categorias vigentes de construção simbólica do mundo,
historicamente produzidas pela ação coletiva, são mutáveis; podem ser deslegitimadas pelas
lutas simbólicas (“desinventadas”), onde, nessa luta pela distribuição do poder, há uma
“valorização/desvalorização relativa dos diferentes tipos de capital”, portanto uma luta
classificatória e cognitiva. Desta forma, a designação sobre o que é ou não ambientalmente
benigno vai redistribuir o poder sobre os recursos territorializados. Isso se dá pela
legitimação/deslegitimação das práticas de apropriação dos recursos ou da localização em que

                                                                                                           
96
MELUCCI, Alberto. A Invenção do Presente - Movimentos sociais nas sociedades complexas. Trad. Maria do
Carmo Alves do Bomfim. Petrópolis: Ed. Vozes, 2001
97
Id. Ibid.
98
ACSELRAD, Henri. As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais. In: ACSELRAD, Hanri.(org.)
Conflitos Ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Heinrich Boll. 2004.
  133  

esses se encontram, tornando a luta por recursos ambientais, simultaneamente, uma luta por
sentidos culturais e o meio ambiente uma construção variável no tempo e no espaço.
Nesse sentido, a emergência da questão ambiental tem no argumento ambiental (nas
justificações ecologizadas) o ponto de integração das distintas “ordens de justificação”. Ou
seja, a lógica dos discursos pertinentes à questão ambiental, ao contrário de uma causa
universal ecológica, trata de causas parcelares que podem ser universalizadas através de
valores compartilháveis que justificam os atos no plano do interesse comum. Dessa forma
uma gama variada de atores sociais integra o campo de forças da luta que visa classificar a
representação legítima da natureza e distribuir o poder sobre os recursos territorializados.
Assim, lhe dão diversos significados como, por exemplo, o de reservatório de recursos,
paisagem de consumo estético, reprodução de grupos socioculturais etc. Utilizando-se de
diferentes estratégias discursivas de legitimação que expõem, dentre uma diversidade de
vertentes, direitos de propriedade e direitos de uso, argumentações científicas sobre riscos,
vocação de determinadas áreas e seus usos etc. Dentro dessa disputa argumentativa e de
legitimidade, as representações dominantes podem sofrer inflexões no plano discursivo,
reconfigurando o poder relativo dos atores no campo das práticas.
Os conflitos ambientais têm origem, concebendo a sociedade como uma rede
espacialmente interativa de atividades que formam “acordos” de mútuos benefícios
(simbióticos), quando há o rompimento desses “acordos”. A atividade de um determinado
grupo compromete a manutenção das atividades de outro grupo, por meio de “impactos
indesejáveis” transmitidos por meios físicos (solo, água, ar ou sistemas vivos)
comprometendo a continuidade das formas sociais de apropriação, uso ou significação do
meio. O conflito é gerado a partir do momento que o grupo afetado denuncia a ruptura do
“acordo simbiótico”99, partindo da perspectiva de que a sociedade se constitui de uma forma
geral de relações de mútuos benefícios que podem ser rompidos gerando o benefício.
O quadro analítico proposto por Acserald aponta para uma remissão necessária dos
conflitos ambientais a quatro dimensões constitutivas: 1ª- A apropriação material dos recursos
do território: campo por excelência onde se desenrolam disputas sociais, econômicas e
políticas pela apropriação dos diferentes tipos de capital natural e também, pela mudança e
conservação da estrutura de distribuição de poder. Nessa vertente os agentes possuem
dotações diferenciadas de capital material e capacidade distinta de terem acesso a esses

                                                                                                           
99
 ACSELRAD, Henri. As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais. In: ACSELRAD, Hanri.(org.)
Conflitos Ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Heinrich Boll. 2004
 
  134  

capitais (acesso aos recursos vivos, água, terra fértil etc.). 2ª - Apropriação simbólica dos
recursos do território: a luta para impor as categorias simbólicas que legitimam ou não a
distribuição de poder sobre os distintos tipos de capital. Aí se percebe embates entre
diferentes formas de apropriação do território pela afirmação de seus respectivos caracteres
como: “ambientalmente correto”, “sustentável”, “compatível com a vocação do meio”,
“produtivo”, “competitivo” etc. 3ª - A durabilidade da atividade no que se refere à
possibilidade de continuidade dos modos de apropriação material: a condição de existência da
base material que determinadas formas sociais dependem para sua subsistência e integridade
pode ser afetada por atividades que comprometem essa durabilidade. No plano argumentativo
esse pode ser um critério de legitimação/deslegitimação de uma determinada atividade, a ser
acionado no campo representativo do meio ambiente pelos sujeitos do conflito. 4ª - A
interatividade, onde “os conflitos ambientais opõem atores sociais que desenvolvem ou
propugnam distintas formas técnicas, sociais, culturais e simbólicas de apropriação dos
elementos materiais de um mesmo território ou de territórios conexos”. Há uma interação de
atividades em que uma transmite impactos indesejados para a outra, onde essa “interação” é
de difícil mensuração (incerteza cognitiva) e, portanto “suposta e sustentada na autoridade da
própria denúncia.” 100
Por uma perspectiva crítica das relações de poder sobre os recursos ambientais e seus
significados, da desigual distribuição dos custos socioambientais de certas práticas e sua
alocação territorial, que prejudica grupos cuja voz muitas vezes não redunda nas esferas de
decisão, impõe considerar a dimensão da (in)justiça ambiental. Uma definição esclarecedora
sobre o tema é apresentada por Herculano, Acselrad e Pádua101 (2004) como: “o mecanismo
pelo qual sociedades desiguais, destinam maior carga dos danos ambientais do
desenvolvimento às populações de baixa renda, aos grupos raciais descriminados, aos povos
étnicos tradicionais, aos bairros operários, às populações marginalizadas e vulneráveis”
(definição de injustiça ambiental).
Para o enfoque da pesquisa a desconsideração se dá também em outro nível, quando
espaços territoriais há muito habitados possuem recursos que interessam a grandes grupos
econômicos e os mesmos sobrepõem seus interesses, dominando o espaço com o aval do
poder público. E, ainda, a dominação se dá aliada a uma política ambiental segregacionista
que endossa a separação entre espaços humanos e naturais, colocando, na realidade em foco,
                                                                                                           
100
ACSELRAD, Henri. As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais. In: ACSELRAD, Hanri.(org.)
Conflitos Ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Heinrich Boll. 2004
101
ACSELRAD, H.; HERCULANO, S.; PÁDUA, J. A. Justiça Ambiental e Cidadania. Rio de Janeiro: Relume
Dumará: Fundação Ford. 2004.
  135  

muito mais uma estratégia política de controle e dominação do que de conservação ambiental
propriamente. A multiplicidade de formas de uso da área foco da pesquisa traduz uma
multiplicidade de territorialidades e uma complexa dinâmica de poder em que relações
estreitas entre poder econômico e Estado revelam práticas antagônicas que vão do
esvaziamento do poder estatal ao controle minucioso de práticas, da liberalização absoluta a
um compartilhamento íntimo do espaço físico.
A crítica vem dar voz aos dominados (no caso os subtraídos de seus recursos ou
territórios etc.) dando-lhes maior visibilidade e uma inserção possível de rearranjar as
estruturas, uma vez que identifica o “capital” de legitimação do campo em questão (o dos
conflitos ambientais), e denuncia a “injustiça” na distribuição do poder (do acesso aos marcos
decisórios e do discurso legitimador do desenvolvimento e da sustentabilidade). No caso da
pesquisa os quilombolas não tem acesso ao discurso técnico-científico do desenvolvimento
sustentável e nem condições de formalizar processos perante o órgão ambiental para legitimar
suas práticas. Por sua vez suas práticas são menos impactantes do que as da mineradora e
mais condizente do ponto de vista legal com as finalidades de uma das unidades de
conservação em questão, a FLONA. Evocando a questão da sustentabilidade e da legalidade e
inserindo-as nas esferas públicas, por agentes externos via de regra, poder-se-ia reconfigurar a
distribuição do poder ali, distribuí-lo melhor ou subverte-lo.
Por essa perspectiva – ou poderíamos dizer perspectivas, já que não foi apresentada
uma linha única, mas algumas linhas próximas – o “social” se conecta ao “natural” por uma
socialização do que se compreende como “ambiental”. Agora ele está alocado no polo
“cultura” e não mais exclusivamente nas questões relativas à matéria e energia, polo
“natureza”. Mantém-se a divisão, a dicotomia, muda-se o polo: o ambiental é socialmente
construído. Em outro ângulo, a análise remete às forças sociais estruturadas que fornecem o
poder hierarquizado do campo (pelo sistema econômico, capital, multinacionais, relações de
mercado, governo etc.). Esse “pano de fundo” dá o formato do quadro em que os elementos
obtidos em campo devem ser inseridos demonstrando as dimensões constitutivas do conflito
e, assumpta positione, denunciar as injustiças. O caráter normativo de orientação e a herança
marxista da crítica tornam-se forças vivas na análise. Por sua vez, nem tudo cabe na moldura
sem ultrapassar suas bordas e descaracterizar a imagem que se quer mostrar. O que fazer com
esses elementos sobressalentes? Desviar o olhar, aparar as arestas ou simplesmente ignorá-
los? Haverão sempre delitescências. Conforme mencionado, algumas questões levaram a uma
mudança de perspectiva metodológica no curso do campo.
  136  

3 A DEMOCRACIA AMPLIADA – HUMANOS, SERES VIVOS E INANIMADOS:


QUANDO TODOS FALAM

3.1 Nem mais cultura e nem mais natureza: sobre a Antropologia Simétrica
 
Segregar, do latim segregare, aduz em sua etimologia o significado de apartar,
separar, colocar de lado. Com o seu radical grex/gregis, mais precisamente, apartar do
rebanho. Por uma conotação possível o termo exprime uma tática muito afim à visão de
mundo moderna, dentro de sua instrumentalização e apreensão do conhecimento e de suas
estratégias de desenvolvimento. O termo, assim como separar ou disjungir, guarda a
ambivalência de se remeter tanto ao que é posto para fora quanto ao que permanece dentro, ao
que se considera e inclui quanto ao que se desconsidera e exclui. Cria dicotomias. A simples
palavra apresenta-se como insigne ponto de partida na compreensão da crítica e do raciocínio
norteadores do estudo em tela.
Na clássica divisão de Descartes um res cogitans, ser que compartilha sua
racionalidade diretamente com o Cosmos, é capaz de apreender a operacionalidade e a
natureza dos demais seres, todos res extensa102. Descartes entendia que o conhecimento
estava mais próximo das vivências e experiências do que das obras edificadas pelos velhos
sábios ou instituições. Estabelecia uma base empírica forte em seu método, em que: 1. só
poderia ser aceito como verdadeiro aquilo que por suas evidências não poderia ser posto em
dúvida; 2. dividir/fragmentar para resolver o objeto em análise tanto quanto possível; 3.
organizar o conhecimento em gradações, dos objetos mais simples aos mais complexos,
supondo sempre relações de causa e efeito; e 4. estabelecer enumerações e divisões para não
omitir nada. Seu método, ainda hoje, influencia qualquer tipo de ciência, mesmo as que se
intitulam não-modernas. Entretanto, na sua concepção – consagrada na célebre frase cogito
ergo sum – a existência se dá independente da matéria, pois a alma se distingue por completo
do corpo. A razão (espelho da perfeição de Deus), distingue o humano, sensível, subjetivo,
dos demais seres, mecânicos, autômatos, objetivos103.
A inteligibilidade do mundo pela civilização ocidental moderna se consagrou por
instrumentos metodológicos que buscam fragmentar, separar, reduzir, simplificar e ordenar a
                                                                                                           
102
DESCARTES, R. As paixões da alma. In. Os Pensadores. Discurso do Método; Meditações; Objeções e
respostas; As paixões da alma; Cartas. Trad. J. Guinsburg e B. Prado Jr. São Paulo: Abril Cultural, 1979. pp. 214
- 294
103
DESCARTES, R. O método. In. Os Pensadores. Discurso do Método; Meditações; Objeções e respostas; As
paixões da alma; Cartas. Trad. J. Guinsburg e B. Prado Jr. São Paulo: Abril Cultural, 1979. pp. 25 -71
  137  

realidade para possibilitar a sua compreensão104. Pensar um mundo objetivo e um sujeito


cognoscente, capaz de apreender essa objetividade e a partir de suas formulações refletir o
que é a realidade, matematizá-la, quantifica-la e reproduzi-la num laboratório, configura a
perspectiva pela qual a ferramenta de conhecimento humano mais sofisticada se instaurou e
cunhou uma visão particular de mundo. Do outro lado, o ser social, racional, imerso em seus
valores e subjetividades, é um ser político, cuja inteligibilidade só é possível dentro de suas
próprias referências, e apresenta-se por uma ordem ontológica completamente distinta do
resto do mundo. Esta “Grande Divisão” representa o mundo moderno: de um lado os
humanos do outro lado os não-humanos.
Essa dualidade, sujeito e objeto, sociedade e natureza – artifício epistemológico que
possibilitou ao humano ocidental grandes progressos – encontra na contemporaneidade fortes
objeções105. Aparta um mundo compreendido como necessariamente comum dentro do
próprio avanço do conhecimento, em dois mundos cuja comunicação tornou-se cerceada,
possível somente a partir desse próprio artifício. Os cientistas fazem a gestão da Natureza e os
políticos fazem a gestão da sociedade, para este “acordo” Latour utiliza o termo
“constituição”.106
Apesar da estruturação de um pensamento biunívoco permear todo o manto cultural do
ocidente (céu e inferno, bem e mal, corpo e alma), a modernidade imprime uma verdadeira
guinada na percepção da realidade e nas forças produtivas da sociedade, assim como
apresenta uma nova dinâmica do tempo. Afasta Deus da explicação dos fenômenos naturais e
dá ao ser racional a capacidade de compreender as “leis” que regem a natureza. Do outro lado,
afasta-o também (as instituições que o representam) da ordenação social e da estruturação do

                                                                                                           
104
MORIN, Edgar.  Ciência com Consciência: Edição revista e modificada pelo autor. Trad. Maria D. Alexandre
e Maria Alice Sampaio Dória. 7.ed. São Paulo: Bertrand Brasil, 2003
105
Latour aponta como marco da descrença nas promessas modernas, de emancipação humana e domínio da
natureza, o ano de 1989. De um lado o “fim” do socialismo com a queda do muro de Berlim: “Ao tentar acabar
com a exploração do homem pelo homem, o socialismo multiplicou-a indefinidamente. Estranha dialética esta
que ressuscita o explorador e enterra o coveiro após ter ensinado ao mundo como fazer uma guerra civil em larga
escala. O recalcado retorna e retorna em dobro: o povo explorado, em nome da qual a vanguarda do proletariado
reinava, volta a ser um povo; as elites com seus longos dentes, que pareciam ser desnecessárias, voltam com toda
força para retomar, nos bancos, nos comércios e nas fábricas, seu antigo trabalho de exploração.”; do outro lado,
as primeiras conferências sobre o estado global do planeta apontando o fim da possibilidade de conquista
ilimitada da natureza e a impossibilidade de crescimento eterno: “Ao tentar desviar a exploração do homem pelo
homem para uma exploração da natureza pelo homem, o capitalismo multiplicou indefinidamente as duas. O
recalcado retorna e retorna em dobro: as multidões que deveriam ser salvas da morte caem aos milhões na
miséria; as naturezas que deveriam ser dominadas de forma absoluta, nos dominam de forma igualmente global,
ameaçando a todos. Estranha dialética esta que faz do escravo dominado o mestre e dono do homem e que
subitamente nos informa que inventamos os ecocídeos e ao mesmo tempo as fomes em larga escala”. LATOUR,
Bruno. Jamais fomos modernos. 2ª ed. São Paulo: editora 34, 2009. p. 13 - 14
106
Id, Ibid. p. 19. Vai utilizar o termo para trata a separação entre o mundo social e o mundo natural como algo
análogo à separação do executivo do judiciário, p. ex..
  138  

Estado, possibilitando aos homens regerem suas próprias leis, criarem seu “contrato social”.
Curiosamente, o Deus moderno suprimido pode ser evocado no caso de conflito entre a
sociedade e a natureza, como entidade transcendente, com duplo papel, ao mesmo tempo
impotente e juiz soberano. Ele está agora alocado no foro íntimo, na religião individual, sem
intervir nem na política e nem na ciência, mas garantindo a paz aos espíritos humanos.
Entretanto, a modernidade não se resume a alguns pensadores e suas filosofias, nem
tampouco aos vários outros pensadores, práticas e instituições que se somam no processo de
sua “construção”. Aqui não temos a pretensão de exaurir o que se pode entender por
modernidade e sua peculiar ordenação do mundo. Entretanto, nos é necessário entender um
pouco da “constituição” moderna, na percepção de Bruno Latour, para compreendermos uma
das bases metodológicas que mais influenciaram no trabalho. Conforme Latour, “nosso meio
de transporte é a noção de tradução ou rede. Mais flexível que a noção de sistema, mais
histórica que a de estrutura, mais empírica que a de complexidade, a rede é o fio de Ariadne
destas histórias confusas”107.
Diferente do pensamento de Deuleze e Guattari, em que o labirinto rizomático se dá
sem a possibilidade de um fio de Ariadne, sem começo nem final, Latour, ao acompanhar as
redes sociotécnicas, possibilita arbitrar por recortes – p. ex., o surgimento de uma nova
tecnologia e suas conexões – para dizer, conforme suas palavras, da “própria matéria da
sociedade”, de uma “nova forma que se conecta ao mesmo tempo à natureza das coisas e ao
contexto social, sem contudo reduzir-se nem a uma coisa nem a outra”108. Agora os rizomas
ganham uma ontologia e atores.
Sua percepção de modernidade estende-se um pouco além das críticas convencionais.
Um pouco além de pensar a modernidade revolucionária em contraposição ao passado
arcaico, com uma temporalidade outra que suplanta o passado com a flecha do tempo e suas
mudanças irreversíveis; da emancipação humana à dominação da natureza, das promessas do
socialismo às do capitalismo, ao declínio estrondoso de ambos os sonhos, desembocando no
descrédito e desconstrutivismo pós-moderno. Latour apresenta uma compreensão atrelada à
uma antropologia da sociedade moderna, valendo-se como referência do método etnográfico,
em que se estuda “sem crises e sem crítica o tecido inteiriço das naturezas-culturas” em se
tratando de povos tradicionais (liga-se política, divindades, práticas alimentares,
conhecimentos, seres-vivos etc. na composição social). Por sua vez, a antropologia mantém-
se centrada na cultura, mantém a divisão, a assimetria, neste sentido precisa ser “repensada”.
                                                                                                           
107
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. 2ª ed. São Paulo: editora 34, 2009. p. 9
108
Id. Ibid. p. 11
  139  

Para o autor, se é possível fazer uma antropologia da sociedade moderna, é preciso alterar a
definição de mundo moderno, assim como a prática da própria antropologia.
Um ponto de partida no seu pensamento desloca o olhar para compreender como o
tecido social moderno é formado por “seres híbridos”. Ou seja, a sociedade moderna mobiliza
e recruta uma diversidade de seres e forças de diversas ordens na sua constituição que não
podem ser pensadas nem mais como “naturais” e nem mais como “culturais” puramente. A
interação, dependência e utilização do que se compreende como natureza é ampliada
incomensuravelmente na sociedade moderna em que o trabalho de “purificação” – que vai
dividir o social do natural – não dá mais conta de fazê-lo, a partir da proliferação dos híbridos
(utilizar um objeto de alumínio nos liga às comunidades quilombolas, aos acionistas
multinacionais da mineradora, às decisões governamentais, às estratégias industriais, às
políticas de conservação, às copaibeiras, castanheiras, tartarugas-da-amazônia etc.) . O
paradoxo entendido por Latour é que, quanto mais os híbridos são proibidos na constituição
moderna, mais eles se inserem, mais eles estão presentes (e na realidade sempre estiveram
presentes compondo o social, por mais que negligenciados). Em sua hipótese a palavra
“moderno” designa dois conjuntos de práticas distintas cuja eficiência depende de mantê-las
separadas uma da outra:
O primeiro conjunto de práticas cria, por “tradução”, mistura entre
gêneros de seres completamente novos, híbridos de natureza e cultura.
O segundo cria por “purificação”, duas zonas ontológicas inteiramente
distintas, a dos humanos de um lado, e a dos não humanos de outro.
[...] O primeiro, por exemplo, conectaria em uma cadeia contínua a
química da alta atmosfera, as estratégias científicas e industriais, as
preocupações dos chefes de Estado, as angústias dos ecologistas; o
segundo estabeleceria uma partição entre um mundo natural que
sempre esteve aqui, uma sociedade com interesses e questões
previsíveis e estáveis, e um discurso independente tanto da referência
quanto da sociedade.

O autor ampara sua hipótese na própria prática da ciência e da técnica – a matéria


intelectual e produtiva da modernidade – que avoca para si a legitimidade de representação do
mundo natural. Colocando em suspeição nossas crenças sobre “ciência” e nossas crenças
sobre “sociedade”, estudando a ciência em ação, busca-se romper as perspectivas (da
sociologia do conhecimento e da epistemologia) que mantém intactas a separação entre
conteúdo científico e contexto social. Seu “primeiro princípio de simetria”109 obriga a analisar

                                                                                                           
109
[...] Quando se toma a decisão de estudar um laboratório, colocando entre parênteses ao mesmo tempo nossas
crenças sobre a ciência e nossas crenças sobre a sociedade, só estamos prolongando o programa formulado por
David Bloor (1976, trad. franc.1982) [...] a ideia original de Bloor era encorajar os historiadores e sociólogos que
  140  

concomitantemente tanto o contexto social quanto o conteúdo científico, não distinguindo a


“ciência que prospera/sancionada” da “ciência refutada/proscrita”, uma vez que não haveria
diferença essencial entre verdade e erro. Na tradição moderna ideologia e ciências são
imiscíveis, uma representa a crença e a outra a verdade, o sujeito/contexto social e o
objeto/natureza revelado/manipulada. O princípio de simetria ao analisar a ciência em ação,
descrevendo-a tal qual um antropólogo descreveria uma sociedade primitiva, atentando-se
para como os fatos são construídos, o cotidiano dos cientistas, os seus contextos sociais, seus
múltiplos agenciamentos, “força a conservar apenas as causas” que poderiam servir tanto
para os vencedores quanto para os perdedores da ciência, explicando porque alguns ganham e
outros perdem. O interior do laboratório e o seu exterior estão conectados e se
retroalimentam.
A produção de uma “verdade científica”, a construção de fatos e máquinas, só é
possível através de um processo coletivo que mobiliza um grande número de aliados e
interesses, i. e., por meio da construção de uma grande rede de atores que a possibilita. A
suposta universalização da ciência nada mais é do que a dimensão e estabilidade da rede que a
sustenta, sem a qual ela não existe. Para transformar uma suposta proposição/enunciado (uma
descoberta cientifica qualquer p. ex.) em fato, em uma “caixa-preta”110 que ninguém mais
questiona como se chegou lá ou como de fato ela opera – só se acrescentam ou se retiram
coisas dela, só se atenta para o que entra e o que sai – é preciso um grande trabalho de
aliciamento (de investidores, políticas públicas, empresários, outros cientistas, governo,

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
ainda hesitavam de passar de uma história e uma sociologia dos cientistas para uma história e uma sociologia das
ciências. Bloor chamava de “programa fraco” a ideia de que era suficiente cercar a “dimensão cognitiva” das
ciências com uns poucos “fatores sociais” para ter o direito de ser chamado de historiador e sociólogo. O
“programa forte” exigia, ao contrário, que se investisse na fortaleza, no núcleo, no santo dos santos, no conteúdo
– pouco importa qual seja a metáfora. Segundo ele, nem um estudo merecia levar o nome de sociologia ou
história das ciências se não levasse em conta tanto o contexto social quanto o conteúdo científico, e isso também
nas ciências teóricas como a matemática (Bloor, 1976).
[...] A doutrina de Bloor é límpida mesmo quando exige basicamente o abandono de toda filosofia da ciência: ou
as explicações sociais, econômicas são usadas para explicar porque um cientista enganou-se, e então elas não
tem valor, ou devem ser empregadas simetricamente, de modo a explicar porque esse cientista errou e aquele
outro acertou. Fazer sociologia para compreender por que os franceses acreditam na astrologia, mas não pra
compreender por que eles acreditam na astronomia, isso é assimétrico. Fazer sociologia para entender o medo
que os franceses tem do átomo, mas não faze-lo para a descoberta do átomo pelos físicos nucleares, isso é
assimétrico (Latour, 1985). Ou bem é possível fazer uma antropologia do verdadeiro, assim como do falso, do
científico, como do pré-científico, do central, como do periférico, do presente, como do passado, ou então é
absolutamente inútil dedicar-se à antropologia, que nunca passaria de um meio perverso de desprezar os
vencidos, dando a impressão de respeitá-los, como o mui ilustre O pensamento selvagem, de Levi-Strauss
(1962). LATUOR, Bruno. WOOLGAR, Steve. A vida de laboratório: A produção dos fatos científicos. Rio de
Janeiro: Relume Dumará, 1997. pp. 22, 23.
110
A expressão Caixa-preta é utilizada na cibernética sempre que uma máquina ou um conjunto de comandos se
revela complexo demais. Em seu lugar é desenhado uma caixinha preta, a respeito da qual não é preciso saber
nada, senão o que nela entra e o que dela sai. LATOUR, bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e
engenheiros sociedade afora. São Paulo: Unesp, 2000. p. 14
  141  

cidadãos etc.). Um simples artigo científico emprega diversas “mãos” em sua construção, não
importa se possui um único autor, apresentará aliados que agregam e reafirmam os
argumentos, é uma construção coletiva (basta ver suas referências e os
conhecimentos/descobertas que se somam). Se possuirmos maior adesão ao nosso “suposto
enunciado”, mais ele for citado, utilizado, incorporado e fortalecido em diversos contextos,
quanto mais ele suportar os ataques de seus adversários, refutações e tentativas de torna-lo
mero “artefato”, mais se consolidará, mais se tornará fato.
O destino de um projeto depende das alianças que ele permite e dos
interesses que mobiliza, por isso que nenhum critério, nenhum
algoritmo pode proporcionar um sucesso a priori. Ao invés de
decisões racionais, devemos falar da agregação de interesses que são
ou não capazes de produzir. Inovação é a arte do interesse para um
número crescente de aliados que fazem você mais forte111

O fato representa uma “estabilidade” e não a natureza em si. “[...] devemos abster-nos
de invocar a realidade exterior ou o caráter operacional que a ciência produz para explicar a
estabilização dos fatos, porque esta estabilidade e esta operacionalidade são consequência, e
não a causa da atividade científica”112. Seguindo o nosso exemplo, por sua vez, de um lado,
devemos considerar a necessária expansão de nosso suposto enunciado para que ele não se
estagne no tempo e no espaço (se transforme apenas em sonho/fantasia de um cientista), do
outro devemos considerar aqui um controle necessário para que ele não se altere
substancialmente, se desconfigure na medida que vai formando suas conexões. Nesse sentido
duas ações concomitantes são imprescindíveis: alistar as outras pessoas/interesses e tornar
previsíveis suas ações (controlar o comportamento delas). Para atingir esse sucesso é
necessário operar um processo de tradução ou translação de interesses:
Além de seu significado linguístico de tradução (transposição de uma
língua para outra), também tem um significado geométrico
(transposição de um lugar para outro). Transladar interesses significa,
ao mesmo tempo, oferecer novas interpretações desses interesses e
canalizar as pessoas para direções diferentes. [...] Os resultados de tais
translações são um movimento lento de um lugar para outro. A
principal vantagem dessa mobilização lenta é que problemas de
                                                                                                           
111
Akrich, M., Callon, M. et Latour, B., 1988, A quoi tient le succès des innovations? 1 : L’art de
l’intéressement, Gérer et comprendre, Annales des Mines, 11, pp.4-17. 1988. p. 17. Disponível em:
http://halshs.archives-­‐ouvertes.fr/docs/00/08/17/41/PDF/SuccesInnovation.pdf, Acesso em 12/04/2013. No
original: Que le sort d'un projet dépende des alliances qu'il permet et des intérêts qu'il mobilise, explique
pourquoi aucun critère, aucun algorithme ne permettent d'assurer a priori le succès. Plutôt que de rationalité des
décisions, il faut parler de l'agrégation d'intérêts qu'elles sont ou non capables de produire. L'innovation c'est l'art
d'intéresser un nombre croissant d'alliés qui vous rendent de plus en plus fort.
112
LATOUR, bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Unesp,
2000 p. 203 - Foi devido a estabilização do “enunciado” que ele se tornou “fato” e não por ter se revelado fato
que se estabilizou.
  142  

âmbitos restritos (como o orçamento para a ciência ou o do modelo


monoporo) agora estão solidamente amarrados a problemas bem mais
amplos (a sobrevivência do país, o futuro dos carros), na verdade tão
bem amarrados que a ameaçar os primeiros equivale ameaçar os
segundos. Sutilmente urdida e cuidadosamente atirada, essa finíssima
rede pode ser muito útil para manter os grupos em suas malhas.113

As múltiplas estratégias de tradução/translação é que vão possibilitar às ciências e


tecnologias agregarem interesses de diversas ordens: investimentos, fomentos, equipamentos,
serem percebidas como indispensáveis ou como altamente lucrativas ou as duas coisas; vão
conseguir afastar as controvérsias até tornarem-se estáveis, a partir daí serem percebidas
como o “real” (descobertas científicas p. ex.), ou serem inseridas no mercado (tecnologias ou
máquinas p. ex.). Enfim, vão compor a sociedade moderna. Esse conceito de
tradução/translação é de suma importância na percepção metodológica do autor uma vez que
formam os pontos de conexão na rede.
O meio mais simples de transformar o conjunto justaposto de aliados
que atue com unicidade é atar as forças reunidas uma à outra, ou seja,
construir uma máquina. Máquina, como um nome indica, é, antes de
tudo, maquinação, estratagema, um tipo de esperteza em que as forças
usadas mantêm-se mutuamente sobre controle, de tal modo que
nenhuma delas possa escapar do grupo. Isso constitui uma máquina
diferente da ferramenta, que é um elemento isolado, seguro
diretamente pela mão de uma pessoa.114

Nesse sentido, quanto mais sofisticada/densa/ampla é a ciência ou a tecnologia em


questão, mais pessoas estão alinhadas no mesmo objetivo, trabalhando para ele. Ou seja, a
concepção de ciência comumente isenta/independente só serve para uma parcela ínfima da
produção científica de Universidades ou da ciência que não avança, pois a que progride estará
alinhada a múltiplos interesses, “bem amarrada” e direcionada. A razão/racionalidade está
atrelada a amplas negociações de uma política-ciência, que extraí daí o seu poder: parecer
apolítica e fiel representante da natureza. Irracionalidade vai ser aquilo que obstrui o avanço
da rede neste diapasão (sem nenhuma diferença essencial com a racionalidade). Sua expansão
estará sempre atrelada a centrais de poder, de cálculo, que estabelecem toda uma metrologia
(constantes oficiais – tempo, peso, medida, padrões biológicos etc.) e são capazes de
empreender prodigiosas mudanças de escala e construir seu próprio espaço-tempo.
Informações obtidas em locais longínquos, traduzidas em inscrições, formulários e
formalismos, podem ser acumuladas e combinadas nos centros, a partir daí transformados em
                                                                                                           
113
Id. Ibid. p. 194
114
LATOUR, bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Unesp,
2000. p. 212
  143  

estatísticas e equações, em gráficos, podendo ser utilizados em diversos contextos por


economistas, bancos, militares, governo etc. e dando posição privilegiada àqueles que
realizam os cálculos, pois tudo passa por suas mãos.
Quando alguém pergunta de que modo a geometria ou a matemática
“abstrata” pode influenciar a “realidade”, na realidade está admirando
a posição estratégica assumida por aqueles que trabalham nos centros
com formas de formas. Estes deveriam ser os mais fracos, por estarem
mais distantes (como muitas vezes se diz) de qualquer “aplicação”,
mas, ao contrário, podem ser os mais fortes pela mesma razão, já que
os centros acabam por controlar o espaço e o tempo: eles desenham
redes que se interligam nuns poucos pontos de passagem
obrigatória.115

Desta forma, uma grande expansão da rede exigirá sempre uma maior heterogeneidade
da mesma (empresas, políticos, militares, consumidores, matéria-prima, equipamentos,
máquinas etc.) e centros mais dominadores e mais formalistas para se “manterem coesos e
conservar seu império”. A tecnociência só funciona eficazmente fora do “laboratório”, i. e.,
suas previsões podem ser confirmadas, até aonde estende suas redes: “fatos e máquinas são
como trens, eletricidade, bytes ou legumes congelados: podem ir para qualquer lugar desde
que a trilha por eles percorrida não seja interrompida de modo algum”116, e não por inércia
própria, por dizer o que é o real/natureza.
Pensar a tecnociência é pensar um “empreendimento demiúrgico” que se estende na
medida que alicia interesses múltiplos e que ao mesmo tempo é rara e frágil, totalmente
dependente das conexões que estabelece, e que só pode ser percebida na presença do
que/quem se alia a ela (se não reproduziremos o mito de que ela representa a natureza). É a
mais forte Política que se vale da condição de apolítica/isenta/neutra, operando como
demiurgo trabalhador da construção do mundo material e intelectual. Se quisermos saber qual
o seu poder, basta-nos olhar para o lado e perceber os “objetos” que nos cercam e do que são
compostos (e que estão atrelados a nossa existência como tal); se quisermos saber sua
fragilidade, basta olhar para como tudo isso está concentrado em centros, ao mesmo tempo
diluído em pontos, em laços “vitais”. Daí vem o seu poder, ter as características de uma rede,
ter seus recursos concentrados em poucos locais (nos centros, laçadas e nós), interligados
como fios/malhas que realizam conexões que se estendem por toda parte.
É devido à burocracia que as redes avançam mais – pela administração, pelo
gerenciamento – estão em operações financeiras, subvenções, aparatos legais, envolvem
                                                                                                           
115
Id. Ibid. p. 399
116
LATOUR, bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Unesp,
2000. p. 407
  144  

diversas e distintas disciplinas, não apenas as consideradas “ciência e tecnologia”. “Acreditar


mais no formulário de enésima ordem do que no senso comum é próprio de astrônomos,
economistas, banqueiros, em suma de todos os que, nas centrais, tratam com fenômenos
ausentes por definição”117. Assim pode-se mobilizar recursos e pessoas para operarem em
longas distâncias, mantendo um controle/ordem, até onde a rede se estende. Em síntese,
pode-se dizer que a ciência é a última instância na extensa rede de poderes e micropoderes
que compõem a sociedade ocidental, dando-lhe forma e substância.
O sistema econômico, por exemplo, não pode ser usado sem
problemas para explicar a ciência porque ele próprio é o resultado
extremamente controverso de outra ciência social: a economia. Como
vimos antes, ele é extraído de centenas de instituições de estatísticas,
questionários, pesquisas e levantamentos, sendo tratado em centrais de
cálculo. Alguma coisa como o Produto Nacional Bruto é uma
exposição visual de enésima ordem que, na verdade, pode ser
combinado com outros formulários, mas que não está fora da frágil e
minúscula rede construída pelos economistas do que as estrelas, os
elétrons ou as placas tectônicas.118

Para chegar aos seus preceitos Latour acompanha os cientistas nas produções de seus
“fatos”, no interior do laboratório, no cotidiano, nas relações em que um chefe de pesquisa
estabelece com empresas, políticos e outros cientistas para conseguir recursos, equipamentos,
instrumentos, status etc. Foca na relação e no trabalho da equipe técnica e de pesquisadores de
segundo escalão que não aparecem com seus nomes nos feitos, foca nos instrumentos
utilizados, no material manipulado, nas bactérias no meio de cultura etc. Chega a conclusão
de que a ciência é uma construção sociológica. Ela não se caracteriza pela objetividade,
racionalidade ou pela veracidade de suas descobertas119 e sim pela rede que compõe. Mas,
conforme dito, a sociedade também está entre parênteses (em suspeição), assim como a ideia
de natureza.

                                                                                                           
117
id. Ibid. p. 417
118
LATOUR, bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Unesp,
2000. p. 417  
119
É importante frisar que Latour não está questionando a eficiência e veracidade das descobertas científicas. O
autor diria: se quer testar se a gravidade de Newton é uma reles “construção social” se jogue do décimo quinto
andar de um prédio. A questão é que a ideia de “construção social” e mesmo do “social” é diferente do uso
habitual das ciências sociais. O fato de ser socialmente construído não quer dizer que é um artifício/subjetivo em
contraposição ao que é natural/objetivo. Como Thatcher, Latour vai dizer que “não existe essa tal de sociedade”,
mas por razões completamente diferentes, por entender que sociedade diz respeito a “associação”, mas estas
associações não se limitam à humanos, longe disso, são heterogêneas. Ao contrário dos sociólogos da sociedade
(em contraposição aos sociólogos das associações) a sociedade não pode ser explicada por si mesma, auto-
referenciada, como na tradição positivista. E isso serve da mesma forma e pelas mesmas razões para as ciências
da natureza e para epistemologia.
  145  

O primeiro princípio de simetria não mais divide a ideologia da ciência, uma vez que
coloca a “natureza entre parênteses”, o peso das explicações agora é sustentado no polo
sociedade (construtivista para a natureza, realista para a sociedade). Por sua vez, esse
princípio mantém uma assimetria. Se as práticas modernas revelam que natureza e sociedade
são imanentes, a partir do trabalho de “mediação/tradução” a tecnociência transforma os
elementos da “natureza” em seres híbridos de um lado, do outro o trabalho de “purificação”,
faz sociedade e natureza transcendentes, separando os humanos dos não-humanos. Ou seja,
após essa clivagem o que estava unido se separa em sujeitos e objetos, deduz-se, sem muita
dificuldade, que a ideia de sociedade também é uma construção. Se formos construtivistas
para um devemos sê-lo para o outro, se formos realistas para um devemos sê-lo para o outro
também. Neste sentido é necessário um segundo princípio de simetria: o princípio de simetria
generalizada.
Quando se diz que “a ciência é uma construção sociológica”, não se refere a sociedade
dos sociólogos (que pode ser explicada por si mesma), mas a uma sócio-lógica, que é
construída por associações heterogêneas que envolvem tanto humanos quanto não-humanos.
A principal dificuldade ao se mapear o sistema de associações
heterogêneas está em não fazer nenhuma suposição adicional sobre
sua realidade. [...] Uma metáfora ajudaria a dar ao observador
liberdade suficiente para mapear as associações sem distorcê-las
classificando-as em “boas” ou “más”: a sócio-lógica é muito
semelhante aos mapas rodoviários; todos os caminhos vão a algum
lugar, sejam eles trilhas estradas vicinais, rodovias ou autopistas, mas
nem todos vão para o mesmo lugar, suportam o mesmo tráfego,
custam o mesmo preço de abertura e manutenção. Dizer que uma
afirmação é “absurda” ou um conhecimento é “acurado” não tem mais
sentido do que chamar de “ilógica” uma trilha de contrabandistas e
“lógica” uma autopista. As únicas coisas que queremos saber sobre
essas vias sócio-lógicas é onde elas levam, quantas pessoas as
percorrem com que tipo de veículo, e que facilidades oferecem para a
viagem; e não se estão certas ou erradas.120

O princípio de simetria generalizada é uma “posição” que permite olhar tanto para o
trabalho de mediação/tradução quanto para o de purificação simultaneamente, olhar ao
mesmo tempo como se dá a atribuição de propriedades não-humanas e de propriedades
humanas aos seres existentes. Esse ponto mediano possibilita explicar natureza e sociedade
conjuntamente, partindo dos quase-sujeitos e dos quase-objetos de Michel Serres (híbridos de
natureza e cultura). Essa é a grande ruptura com a visão moderna uma vez que essa

                                                                                                           
120
LATOUR, bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Unesp,
2000. p. 336
  146  

constituição que divide humanos e não-humanos (sociedade e natureza) nunca existiu de fato,
a proliferação dos híbridos (embriões congelados, aquecimento global, organismos
geneticamente modificados, áreas protegidas etc.) revelou isso, mas os híbridos sempre
existiram (em todas as “culturas”) e nunca foram assumidos enquanto tal, por isso “jamais
fomos modernos”.
O grande questionamento que ampara as alegações de Latour partem da própria
antropologia, impedida de estudar o ocidente enquanto uma cultura como as demais. Por que
o Ocidente e somente ele não é apenas uma cultura como as demais? Essa percepção é o que
deve ser rompido na perspectiva do autor. A resposta se liga à própria Grande Divisão entre
humanos e não-humanos. Enquanto o ocidente faz uma distinção plena entre natureza e
cultura, a natureza é externa à sociedade e revelada/mobilizada pela ciência, nas outras
sociedades tem-se apenas representações simbólicas da natureza, projeções de categorias
sociais sobre a mesma.
A Grande Divisão interior explica, portanto, a Grande Divisão
exterior: apenas nós diferenciamos de forma absoluta entre a natureza
e a cultura, entre a ciência e a sociedade, enquanto todos os outros
sejam eles chineses ou ameríndios, zandés ou barouyas, não podem
separar de fato aquilo que é conhecimento do que é sociedade, o que é
signo do que é coisa, o que vem da natureza como ela realmente é
daquilo que suas culturas requerem. Não importa o que eles fizerem,
por mais adaptados, regrados e funcionais que possam ser,
permanecerão eternamente cegos por esta confusão, prisioneiros tanto
do social quanto da linguagem. Não importa o que nós façamos, por
mais criminosos e imperialistas que sejamos, escapamos da prisão do
social e da linguagem e temos acesso às próprias coisas através de
uma porta de saída providencial, a do conhecimento científico. A
partição anterior dos não-humanos define uma segunda partição, desta
vez externa, através da qual os modernos são separados dos pré-
modernos. Nas culturas Deles, a natureza e a sociedade, os signos e as
coisas são quase coextensivos. Na nossa sociedade ninguém deve
poder misturar as preocupações sociais e o acesso às coisas em si.121

Para solucionar o problema, suspendendo toda e qualquer afirmação que distinguiria


os “Ocidentais” dos “Outros”, Latour tem uma proposta ousada: declarar que não existem
culturas, mas naturezas-culturas. O próprio termo cultura é um artifício para conceber algo
exclusivamente humano, um artefato criado pelo afastamento da natureza. Perceber a
imanência entre ambas (cultura e natureza) é o único parâmetro possível para comparações –
não existe nem cultura universal ou relativa, nem natureza universal, apenas naturezas-
culturas. Com isso três posições tradicionais da antropologia são substituídas a um só tempo:
                                                                                                           
121
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. 2ª ed. São Paulo: editora 34, 2009. p. 99
  147  

I. Relativismo absoluto – culturas sem hierarquia e sem contato, todas incomensuráveis e com
a natureza fora do jogo, totalmente à parte; II. Relativismo Cultural – A natureza está
presente, mas do lado de fora das culturas, sendo que todas possuem um ponto de vista mais
ou menos preciso sobre essa; III. Universalismo particular – uma das culturas (a ocidental),
possui um acesso privilegiado à natureza que a separa das outras.
Na percepção da antropologia simétrica, todos os coletivos (termo utilizado para se
diferenciar da sociedade dos sociólogos – homens-entre-si – e dos epistemólogos – coisas em
si) constituem naturezas e culturas, o que as distingue é a dimensão da mobilização da
natureza na constituição. Ou seja, o tamanho dessa mobilização, quantos elementos exteriores
passam a compor o interior, quais pontos serão atados/interligados. O que vai compor o
“social” e o que vai ser “externo” a ele.
A solução surge ao mesmo tempo em que o artefato das culturas se
dissolve. Todas as naturezas culturas são similares por construírem ao
mesmo tempo os seres humanos, divinos e não humanos. Nenhuma
delas vive num mundo de signos ou de símbolos arbitrariamente
impostos a uma natureza exterior que apenas nós conhecemos.
Nenhuma delas e sobretudo não a nossa, vive em um mundo de
coisas. Todas distribuem aquilo que receberá uma carga de símbolos e
aquilo que não receberá (Claiverie, 1990). Se existe uma coisa que
todos fazemos da mesma forma é construir ao mesmo tempo nossos
coletivos humanos e não-humanos que os cercam. Alguns mobilizam
para construir seus coletivos ancestrais, leões, estrelas fixas e o sangue
coagulado dos sacrifícios; para construir os nossos, nós mobilizamos a
genética, a zoologia, a cosmologia e a hematologia.122

Nessa perspectiva aporta-se uma base comum para todas as naturezas-culturas – um


ponto de partida que “calibra o zero da balança” – para que a antropologia simétrica possa
gravar também as diferenças e entender a dominação de uns coletivos sobre os outros. No
primeiro momento, “o trem bala, o acelerador de partículas e uma rede de satélites” ganham o
mesmo peso do que “uma fogueira de gravetos, o espírito dos ancestrais e o arco e flecha”. Os
quase-objetos vão tomando formas de natureza e formas de sociedade ao traçarem suas
trajetórias. No final da medição os primeiros vão traçar coletivos completamente distintos do
segundo. Mas esta distinção esta, sobretudo, no tamanho e nas formas de mobilização dos
não-humanos que vão compor o coletivo. Não estão na natureza e nem na cultura, pois não
existem separadamente. As ciências não possuem suas qualidades primeiras por serem a
verdade revelada da natureza, mas porque tornam mais íntima a relação dos humanos e não-

                                                                                                           
122
Id. Ibid. p. 104
  148  

humanos na composição do coletivo. Multiplica sobremaneira o recrutamento de seres não-


humanos na composição do coletivo e assim o amplia absurdamente.

3.2 Descrever, escrever, descrever, escrever: a perspectiva metodológica da Teoria Ator-


Rede

Latour deslocou o olhar da antropologia para os “quase-objetos e quase sujeitos”, i. e.,


o que vai compor cada coletivo e será simbolizado/valorado como interior/exterior a ele. A
antropologia “perde as culturas mas ganha as naturezas”, o que amplia consideravelmente o
seu foco de ação e cria um campo ilimitado de estudo. Contudo, o deslocamento não se
restringe à uma mudança de “posição no olhar”, mas à elaboração de um método
substancialmente empírico de análise que ganha o status de teoria: a Actor-network Theory
(ANT).
A Teoria Ator-Rede – TAR (na tradução usual) parte de uma ideia de sociedade,
conforme mencionado, que não designa “um conjunto de humanos e suas relações que os
amalgamam”, conotação usual da sociologia enquanto ciência que estuda o social. Para a
TAR a palavra social designa “um rastro de associações heterogêneas” que, por conseguinte,
tem como sociologia o rastreamento dessas associações, das conexões, das coisas diferentes
que se ligam, transformam e deixam traços. A apropriação do termo, segundo Latour, é
possível porque mantém a mesma etimologia da palavra a partir da raiz latina socius –
“alguém seguindo alguém”, “um associado”. O social, então, não é um domínio especial ou
específico, ele designa um movimento, um processo de constante re-associação e
remontagem. O termo Teoria Ator-rede, conforme o próprio Latour, “é um nome tão estranho,
tão confuso, tão sem sentido que merece ser mantido” por ter sido assim popularizado. O
autor, segundo o próprio, proporia termos mais sofisticados como: “ontologia actante-
rizoma”, “sociologia da tradução” ou “sociologia da inovação”123.
A TAR, longe de ser um empreendimento monocrático, é fruto de uma associação de
engenheiros, antropólogos, sociólogos e filósofos franceses e ingleses. Seus principais
representantes são Bruno Latour, Michel callon e John Law. Hoje, podemos dizer, que é uma
Escola. Praticar a metodologia da TAR, conforme Latour (em sua visão pessoal), requer
algumas observações: I. o papel concedido aos não-humanos – eles não podem ser simples
projeções simbólicas, devem ser efetivamente considerados como atores, o agenciamento
                                                                                                           
123
LATOUR, Bruno. Reassembling the Social: A introduction to Actor-Network-Theory. New York: Oxford.
2005.
  149  

deve ser mais do que uma “causalidade natural” também, deve-se identificar efetivamente um
papel ativo da associação do não-humano em questão; II. A direção que a explicação irá
tomar – o social não pode ser mantido “estável” quando da descrição de uma associação
(continuará sendo apenas social pelo social), nenhuma “força social oculta” deve direcionar a
explicação ou ser mantida nela (tudo deve poder ser demonstrado); III. Qual o objetivo do
estudo: se é, de um lado, dispersar/desconstruir o social ou, de outro, remonta-lo, buscar as
associações – a TAR não deve ser concebida como o desconstrutivismo pós-moderno e nem
como uma simples crítica das “Grandes Narrativas” – eurocêntricas ou hegemônicas – seu
foco é “verificar quais são as novas instituições, procedimentos e conceitos capazes de coletar
e reconectar o social”124.
O que a TAR busca, conforme dito, é modificar todo o repertório da crítica
abandonando simultaneamente o uso da natureza e o uso da sociedade. Sair do tríplice
repertório que só opera em separado: naturalização, socialização e desconstrução. A
sociologia do social busca – em oposição a sociologia das associações da TAR ou sua
“associologia” – por trás dos fenômenos sociais, as “forças sociais” que os revelam
(fetichismo, mercado, estrutura, simbolismo etc.), que, por sua vez, são forças
“transcendentais” no sentido de não possuírem uma conexão material com o fenômeno
descrito. A proposta da TAR seria exatamente eliminar esse “vento de éter” e, desvelando as
múltiplas e heterogêneas conexões que perfazem um fenômeno social, dar-lhe materialidade e
empiria tão rigorosa quanto qualquer ciência natural e seus laboratórios. Parte de uma recusa
peremptória de se construir o objeto como um sistema invisível de relações que
sobredeterminam e explicam a ação. Conforme Latour:  
Se eles [os sociólogos convencionais] literalmente não substituem
algum fenômeno por uma força social, o que as explicações sociais
querem dizer quando dizem que há alguma força "por trás das
aparências ilusórias", que constitui a 'coisa real', de que deuses, artes,
direito, mercados, psicologia e crenças são "realmente" feitas? O que é
uma entidade que desempenha o papel principal sem fazer nada? Que
tipo de ausência/presença é essa? Para mim, isso parece ainda mais
misterioso do que o dogma da Santíssima Trindade, e eu não fico
tranquilo enquanto é esse o mistério que é suposto para explicar toda a
religião, direito, arte, política, economia, impérios, ou simplesmente
tudo, incluindo a Santíssima Trindade! 125
                                                                                                           
124
LATOUR, Bruno. Reassembling the Social: A introduction to Actor-Network-Theory. New York: Oxford.
2005. p. 11
125
Id. Ibid. p. 103. No original:  If they don’t literally replace some phenomenon by some social force, what do
social explainers mean when they say that there is some force ‘behind the illusory appearances’ that constitutes
the ‘real stuff’ out of which gods, arts, law, markets, psychology, and beliefs are ‘really’ made? What is an entity
that plays the main part without doing anything? What sort of absence/presence is this? To me, this looks even
  150  

Sob este preceito é o social que deve ser explicado e não dar uma explicação prévia
por estar “atrás”, há nítidas inversões de causalidade. O que se busca são “traduções” entre
mediadores que podem gerar associações rastreáveis. O Termo tradução ganha peculiar
especificidade dentro da técnica como aquilo que induz aos mediadores a coexistência.
Por sua vez a noção de “rede” não se assemelha a ideia de uma superfície de
interconexões estáveis que simplesmente fluem informações – algo como em cibernética ou a
World Wide Web. A rede se define pelos seus agenciamentos internos e não pelos seus limites
externos. Assim como a noção de rizoma de Deleuze e Guattari, as redes são como linhas que
formam agenciamentos em todos os lados e direções. São abertas e operam em uma
multiplicidade, com circulações, fluxos e conexões que transformam, criam mudanças e
formam nós (a parte que se constitui/cristaliza). A rede não é um objeto a ser descrito neste
sentido, ela não está “parada”, mas no movimento que é dado pelos atores, que estão sempre
agindo, deixando traços, “construindo o mundo sócio-lógico”.
Ator-rede define a co-existência de ambos em uma circulação de mútua construção e
simultaneidade. Dois lados de uma moeda, micro e macro, global e local. Entretanto a rede
não se reduz a um ator, pois perfaz um conjunto heterogêneo de vários atores, animados e
inanimados, agenciados, mas que pode se desintegrar, mudar os componentes, as alianças, se
redefinir.
O ator é um “alvo em movimento”, pode ser representado por um vasto conjunto de
entidades, não apenas humanos, mas animais, máquinas, objetos etc. Nesse sentido, por
comportar também os não-humanos, recebe também o nome de actante. Qualquer coisa que
está produzindo efeito no mundo e pode ser “lido” pelos traços que deixa, que se define pelo
que faz, pelo seu desempenho, é um actante. Atua em razão de muitos outros e representa a
fonte de incerteza sobre a origem da ação. A ação é sentida como um nó, um laço, “um
conglomerado de vários conjuntos de agenciamentos a serem lentamente desembaraçados”.
O envolvimento dos não-humanos não significa uma afirmação vazia de que os
objetos fazem as coisas acontecerem no lugar dos humanos. Mas uma forma de explorar tudo
que participa da ação e que o analista deve estar preparado para olhar, pois é a única forma
concreta de explicar a durabilidade e a extensão das interações sociais.
Se sociólogos tivessem o privilégio de observar com mais cuidado os
babuínos e reparar sua "estrutura social" constantemente em
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
more mysterious than the dogma of the Holy Trinity, and I am not reassured when it is this mystery that is
supposed to explain the whole of religion, law, art, politics, economics, empires, or just plain everything—
including the Holy Trinity!
  151  

decomposição, teriam testemunhado o custo incrível que foi pago ao


trabalho de manter, por exemplo, a dominância social, sem coisa
alguma, apenas com as habilidades sociais. Eles teriam documentado
empiricamente o preço a pagar para a tautologia de laços sociais feitas
de laços sociais. É o poder exercido através de entidades que não
dormem e associações que não quebram, que permitem o poder para
durar mais tempo e se expandir ainda mais e, para alcançar tal
façanha, muitos mais materiais do que pactos sociais devem ser
concebidos. Isso não quer dizer que a sociologia do social é inútil, só
que poderia ser excelente para estudar babuínos, mas não para estudar
os seres humanos.126

A proposta metodológica de TAR é uma tentativa de descrição empírica da


composição da sociedade nas múltiplas associações que possibilitam sua existência,
durabilidade e expansão. Não permite juízo de valores e nem uma estrutura prévia, não pode
ser utilizada como moldura para encaixar a realidade e promover uma explicação. Não tem
posição moral, sentido político ou qualquer outra orientação normativa. Requer acompanhar
tudo e qualquer coisa que deixa traço, que molda o mundo em observação, e de forma
minuciosa para se apreender o que foi tecido na sua atuação. O que transforma a sociedade e
como transforma, materialmente, sem pano de fundo e limitado ao que pode ser efetivamente
demonstrado/descrito. Guardada as devidas proporções, é como o mapa de Deleuze e
Guattari, em que se deve traçar as linhas, fazê-lo e refazê-lo, na medida em que novos
agenciamentos vão surgindo, mas somado de uma perspectiva própria de metafísica, de uma
ontologia e de atores. O resultado de sua aplicação é um “local” para se testar, experimentar,
reformular, recriar e transformar, sempre que necessário.
As redes são como mediadores híbridos que se constituem ao mesmo tempo que
constituem o mundo, o que performa e transforma. A TAR não busca propriamente as inter-
relações que já estão “prontas”, estáveis, onde as ligações já estão constituídas, mas o
conteúdo relacional, em processo, o que está deixando traços. É isso que deve ser mobilizado,
detectado, descrito. Seres humanos, não-humanos, sociais e técnicos (processos, leis,
tartarugas, bauxita etc. o que estiver se conectando à rede) uma vez identificado seus traços,
devem ter seus agenciamentos traduzidos/transladados. Deve-se dar voz as “pessoas” e as
                                                                                                           
126
LATOUR, Bruno. Reassembling the Social: A introduction to Actor-Network-Theory. New York: Oxford.
2005. p. 70. No original:   If sociologists had the privilege to watch more carefully baboons repairing their
constantly decaying ‘social structure’, they would have witnessed what incredible cost has been paid when the
job is to maintain, for instance, social dominance with no thing at all, just social skills. They would have
documented empirically the price to pay for the tautology of social ties made out of social ties.79 It’s the power
exerted through entities that don’t sleep and associations that don’t break down that allow power to last longer
and expand further— and, to achieve such a feat, many more materials than social compacts have to be devised.
This does not mean that the sociology of the social is useless, only that it might be excellent for studying
baboons but not for studying humans.
  152  

“coisas”, mesmo que elas sejam mudas, há sempre quem as represente (Pasteur representa as
bactérias, Bourdieu os dominados, Einstein a relatividade, um líder sindical os sindicalizados,
um entomólogo os insetos etc.). Mesmo os que falam (humanos), quando não conseguem
falar todos ao mesmo tempo, elegem seus representantes. Em todos os casos os porta-vozes e
os representantes podem trair: um cientista pode estar completamente equivocado ao
pronunciar as qualidades de seu objeto de pesquisa, um político pode estar representando seus
próprios interesses ou interesses de outros que não os que o elegeram, assim por diante.
Assim, a rede é uma expressão para verificar a quantidade de energia,
movimento e especificidade que os nossos próprios relatórios são
capazes de captar. Rede é um conceito, não é uma coisa lá fora. É uma
ferramenta para ajudar a descrever algo, não o que está sendo descrito.
Ele tem a mesma relação com o assunto em questão como uma grade
de perspectiva tem para uma pintura em perspectiva, único ponto
tradicional: desenhadas pela primeira vez, as linhas podem permitir
projetar um objeto tridimensional em um pedaço de linho, mas elas
não são o que vai ser pintado, só o que possibilita ao pintor dar a
impressão de profundidade antes de serem apagadas. Da mesma
maneira, uma rede não é o que é representado no texto, mas o que
prepara o texto para levar a retransmissão de agentes como
mediadores. A consequência é que você pode dar conta com o ator-
rede de temas que em nada têm a forma de uma rede: de uma sinfonia,
uma peça de legislação, uma pedra da lua, uma gravura. Por outro
lado, você pode muito bem escrever sobre as redes técnicas: televisão,
e-mails, satélites, força de vendas - sem qualquer ponto explicado pela
teoria ator-rede.127.
A TAR é uma técnica, um instrumento de descrição da sócio-realidade que ressuscita
a heterogeneidade do socius, perdida com a purificação moderna e convenientemente
percebida somente em sua dimensão humana. As consequências de sua aplicação é a
descrição sistemática, minuciosa, fria e apolítica, na identificação ponto-a-ponto, dos
agenciamentos que formam o coletivo em expansão. Apenas o que é fisicamente rastreável e
empiricamente demonstrável pode ser levado em consideração. Mas vai além, ela vai dar voz
aos objetos mudos, aos humanos, animais, vegetais e todos os outros seres que vão compor o

                                                                                                           
127
LATOUR, Bruno. Reassembling the Social: A introduction to Actor-Network-Theory. New York: Oxford.
2005. p. 131. No original:  So, network is an expression to check how much energy, movement, and specificity
our own reports are able to capture. Network is a concept, not a thing out there. It is a tool to help describe
something, not what is being described. It has the same relationship with the topic at hand as a perspective grid
to a traditional single point perspective painting: drawn first, the lines might allow one to project a three-
dimensional object onto a flat piece of linen; but they are not what is to be painted, only what has allowed the
painter to give the impression of depth before they are erased. In the same way, a network is not what is
represented in the text, but what readies the text to take the relay of actors as mediators. The consequence is that
you can provide an actor-network account of topics which have in no way the shape of a network—a symphony,
a piece of legislation, a rock from the moon, an engraving. Conversely, you may well write about technical net-
works—television, e-mails, satellites, salesforce—without at any point providing an actor-network account.
  153  

coletivo. Nesse sentido guarda uma peculiar filosofia política: a democracia das coisas.
Perspectiva esta, que muito tem a ver com o que compreendemos como questão ambiental.

3.3 A filosofia Política na Antropologia Simétrica


3.3.1 As concepções convencionais do ecologismo
Eugene P. Odum, um dos principais teóricos das ciências ecológicas, vislumbrava na
ecologia uma ponte de ligação entre ciências humanas e naturais, uma forma de integração de
saberes que a História moderna estancou e cerceou o diálogo. Sob a perspectiva de uma
ciência integrativa que estuda o “ambiente”, incluindo todos os organismos nele existentes e
os processos funcionais que o torna habitável, estabeleceu-se uma “denúncia”, por parte desse
saber, na forma como a civilização ocidental industrializada alterava abrupta e
irreversivelmente os ecossistemas na harmonia de seus ciclos, comprometendo sua própria
estabilidade e a de inúmeros outros seres128. A percepção material do comprometimento, do
esgotamento, das perturbações oriundas desse modelo de apropriação dos elementos
“naturais”, subsidiada pelo crescente conhecimento científico integrativo, fomentou, entre
outras coisas, o surgimento de movimentos sociais que, da sua maneira, contribuíram para que
tais assuntos fossem pautados nas agendas políticas dos Estados, reivindicando significativas
e variadas mudanças em diversos setores sociais. A relação entre humanos, sociedade e
natureza ganhava novos contornos epistemológicos com a ascensão das ciências ecológicas e,
também, novos contornos políticos, com a emergência dos movimentos ambientalistas,
sobretudo a partir da segunda metade do século passado – assim compreendido.
Essas questões, partindo da crítica do modelo de desenvolvimento que se tornou
hegemônico, da sociedade de consumo, aportam a necessidade de uma nova consciência que
reclamaria a urgência da percepção de uma interdependência sociedade-natureza e uma
necessária extensão da ética para valores além dos humanos, mas que englobassem o
ambiente e os elementos que o compõe. O cômputo das externalidades (aquilo que não se
inclui no sistema de produção social), não se limitaria à percepção de limitação e finitude de
recursos/escassez/dotação de valor econômico/pagamento pelos serviços ambientais, mas
(também) reconhecimento de identidade/causalidade/ integração.
Tarefa assaz complexa de se vencer, como visto, a dicotomia sociedade-natureza e a
inserção de uma valoração intrínseca ao que não é humano esbarram, obviamente, na própria
percepção de si do humano, de sua concepção de independência, autodeterminação e domínio
                                                                                                           
128
ODUM, Eugene P.. Ecologia. Trad. Christopher J. Tribe. Rio de Janeiro: Guanabara. 1988.
  154  

sobre o mundo, compreendido como natural, regido pela estrita causalidade, e apartado do
social, humanamente construído.
A tradição cultural do ocidente sempre compreendeu o humano em uma posição
diferenciada em relação a tudo mais que existe. Da herança hebraica à greco-romana, da
formação da moral judaico-cristã, perpassando a baixa e alta idade-média, ao renascimento, a
disputa hierárquica de preeminência se alternou entre uma entidade criadora superior e o
próprio humano, relegando tudo mais a um plano inferior e segregado. Ainda que
evocássemos a dualidade da apreensão e compreensão do mundo que flutuou entre o exterior
e o interior, entre o que se apresenta externamente no mundo e o que se compreende
internamente no humano, entre a natureza suja e imperfeita à natureza magnífica, reveladora
de Deus, toda matéria é percebida pelo humano para servi-lo e controlada por autoridades
inquestionáveis/irresistíveis. No florescer da modernidade as dicotomias ganham contornos
mais nítidos: racional-irracional, mente-corpo, matéria-energia, sociedade-natureza, emoção-
razão, sujeito-objeto. Com o despertar do novo guia do saber humano revelador das novas
verdades, a Ciência moderna, a capacidade de modificar o ambiente aumentou
exponencialmente, assim como a capacidade de domesticar o mundo material - e subjugar
quase tudo que se pode manipular, reduzir, experimentar, classificar, ordenar, sistematizar etc.
- ao interesse humano (ao menos de certo número de humanos) se consolida. Conforme
empreendido anteriormente, “jamais fomos modernos”, é difícil dimensionar a ilusão, mas
importante reconhecer seus feitos formidáveis.
Essa visão de controle sobre o natural e o mesmo natural dissociado do social,
também, de certa forma, compõe o debate dos ambientalistas (amplamente considerados) em
suas reivindicações – uma herança explícita. Quando acusam o modelo de sociedade (sistema
social) de ser predatório, desarmônico com o ambiente/natureza, ou recriam um humano
desintegrado da “natureza”, não-natural, patológico, cancerígeno, viral, ou que, a partir de seu
desenvolvimento econômico, sua superpopulação, ameaça a vida do planeta, compromete-se a
estabilidade dos ecossistemas, fortalece-se a imagem de uma natureza idílica, enquanto, no
plano fático de uma ecologia política a ser construída, percebe-se uma conotação muito
restrita dessa natureza, pois não inclui o humano como sua manifestação, ao mesmo tempo
reafirmando sê-lo algo que foi de alguma forma separado, que precisa se reencontrar e que
detém as ferramentas para tanto. Parte-se de uma estrutura de valoração que define certo-
errado, bem-mal, racional-irracional como coisas alheias a uma concepção mais ampla e
complexa de natureza. Uma questão se perfaz: como integrar sociedade e natureza partindo de
  155  

sua dissociação? Ou melhor, seria necessário uma “humanização” da natureza para que a
mesma pudesse ser incorporada/valorada na vida política? Ou uma naturalização do humano?
Não obstante as múltiplas conotações de natureza e as múltiplas soluções empreitadas
para dirimir a ideia de crise ambiental, a proposta “ousada” por Bruno Latour, em sua obra
“Políticas da Natureza: como fazer ciência na democracia”, estabelece um campo conceitual
diferenciado para a ecologia política ao escancarar suas limitações, e, ao mesmo tempo,
propõe-se uma nova constituição político-social, sob bases de sua epistemologia reformadora
que integraria sociedade e natureza, humanos e não-humanos, em um mesmo patamar político
que dissolve tanto a ideia de natureza quanto a de sociedade. Conforme dito, não existe
natureza e nem cultura, mas naturezas-culturas.

3.3.2 O papel da natureza no discurso público


Partindo de uma concepção de natureza como o “termo que permite recapitular em
uma só série ordenada a hierarquia dos seres” ou o que pode qualificar “um ser por sua
pertença a certo domínio da realidade” classificando-o “em uma hierarquia unificada, que vai
do maior ou menor dos seres”, Bruno Latour, expondo esse conceito não como o seu próprio,
mas como o usual/convencional, advoga que a natureza não pode ser compreendida
dissociada de uma conotação política, da mesma forma em que a política está sempre
associada a uma concepção de natureza. Ao contrário do que se propaga, Latour questiona a
afirmação de que a natureza só passa a ser devidamente considerada na vida política a partir
dos movimentos ecológicos, afirmando, o autor, que as preocupações com a natureza e com
recursos naturais nunca estiveram dissociadas da vida política desde tempos mais remotos.
Lançando mão da alegoria platônica da Caverna, Latour129 cria, como ferramenta,
“certa ideia de Ciência130 e certa ideia de mundo social” para explicar a concepção ocidental
de vida pública de acordo com sua proposta de filosofia política. O mito da Caverna de Platão
(grosso modo) retrata, por uma linguagem metafórica, que as sociedades humanas em sua
percepção da realidade, funcionariam como pessoas que vivem presas em grilhões em uma
caverna. Essas pessoas (a sociedade) detêm uma “falsa compreensão” do mundo, pautada em
crenças e superstições (senso comum), devido ao único contato com a realidade que possuem

                                                                                                           
129
LATOUR, Bruno. Políticas da Natureza: como fazer ciência na democracia. Trad. Carlos Aurélio Mota de
Souza. Rio de Janeiro: Edusc. 2004.
130
Latour estabelece uma distinção entre ciências (no plural e em minúsculo) da Ciência (singular e em
maiúsculo) em que, a primeira se aproxima dos múltiplos saberes humanamente construídos e temporalmente
alterados; a segunda é a “politização das ciências pela epistemologia, a fim de tornar impotente a via política
ordinária, fazendo pesar sobre ela a ameaça de uma natureza indiscutível”, algo como uma poderosa instituição
que dita as verdades do mundo. p.26
  156  

serem as sombras dos objetos que se projetam sobre as paredes dentro da caverna. Somente
aquele que consegue transcender para um conhecimento racional, organizado e sistemático,
ou seja, se libertar da caverna, atinge a real verdade do mundo (a essência/natureza das
coisas) – esse representaria o papel do filósofo, que se distingue dos demais.
Para explicar a concepção ocidental de vida pública utilizando-se dessa alegoria,
Latour substitui o filósofo pela autoridade científica, posta como capaz de apreender as
verdades objetivas do mundo, a “natureza” das coisas, e trazer luzes a ordem social obscura.
Entretanto, na alegoria de Platão, o detentor do verdadeiro conhecimento, o filósofo (o que se
liberta da caverna), ao retornar para iluminar os demais com a verdade, é acusado de deturpar
a ordem que vige e punido por isso. Hoje, na percepção de Latour, o cientista goza de uma
ampla via de acesso ao “mundo social obscuro do subjetivismo” e pode apresentar “as coisas
tais com elas são”, distinguindo-as das representações (subjetivas) que se fazem delas. Isso
operaria na vida política como uma forma de encerrar todo tipo de embate social: a Ciência
seria a autoridade que valida os discursos, legisla objetivamente e julga, por estar acima e em
outro plano, de toda a política humana. Ao contrário do destino do filósofo de Platão no mito
da caverna, que é morto pela ordem social, o sábio contemporâneo (o cientista, o pesquisador,
as instituições científicas etc.) vai ditar a ordem social.
Nesta relação, a Ciência engloba concomitantemente “saberes, política e natureza”, e
se apresenta como um liame entre dois mundos: o da realidade (a natureza) e o das
construções sociais (as crenças humanas sobre a natureza). Nessa “dupla ruptura”, que
remonta ao mito da caverna, entre o verdadeiro conhecimento (a realidade da natureza) e o
conhecimento vulgar (concernente a vida político-social), transitam os expertos, capazes de,
ao passar de um mundo para o outro, levar a luz para a política e dar fim aos embates com sua
voz de autoridade. Esse poder da Ciência, que remonta ao da Igreja medieval, segundo
Latour, é que faz da natureza um fator de imobilização do discurso público e neutraliza a
democracia.
O resultado dessa “dupla ruptura”, segundo Latour, organiza a vida pública em duas
câmaras: de um lado a sociedade humana, orientada por suas ficções, submergida em sua
própria ignorância, mas capaz de falar; de outro o mundo não-humano alheio às disputas e
ficções humanas, compostas dos objetos reais, o que define o que existe, mas que é muda.
Entre ambas, existem aqueles que podem transitar de uma para outra (os expertos) que
possuem o poder de fala e a autoridade capaz de pôr ordem na assembleia dos humanos uma
vez que podem “fazer o mundo mudo falar, dizer a verdade sem ser discutida, pôr fim aos
  157  

debates intermináveis por uma forma indiscutível de autoridade, que se limitaria as próprias
coisas”131.
Objetar-se contra tal autoridade é o mesmo que macular a confiabilidade da Ciência
em descrever os fenômenos do mundo, “confundindo questões cognitivas com questões
políticas”, lançando mão de um relativismo que será taxado de sofisma. Nesse sentido, para o
sucesso dessa constituição social bicameral, é necessário apartar Ciência do corpo social,
mantê-la intocada, pois uma vez tocada em sua credulidade, enquanto não detentora/tradutora
da realidade (natureza), mas mero representante de mais um poder social, o “truque” perderia
o efeito e a “natureza” não mais poderia ser evocada para silenciar a discussão pública. Para
Latour, a melhor forma de sair da caverna é não entrando nela, não cortando as inúmeras
relações que estabelecemos com a realidade e com as ciências, para aceitar uma autoridade
externa como iluminação, possível somente à instituição Ciência. Ou seja, entender que a
Ciência é tudo, menos neutra.
Com efeito, sabemos que, depois de Popper, Habermas, Khun, Morin entre outros
(groso modo), a Ciência, suas teorias e autoridade, não pode ser mais vista como espelho do
real, dissociada de uma construção social político-ideológica, mesmo às ciências mais duras,
que ditariam as leis da natureza, no máximo apresentam “verdades temporais”, cujos mesmos
fenômenos que descrevem serão explicados/concebidos de outra forma na medida em que as
teorias avançam e os paradigmas se modificam.
Para Popper um conhecimento para ser científico deve poder ser falseado, ou seja,
contradito, ter como ser provado em contrário. Neste sentido qualquer conhecimento
científico não representa o “real” em absoluto, senão uma verdade temporária, durável até
quando provada falsa. Apreende de forma heurística em seu falsificasionismo o jogo da
“verdade e erro” da ciência. “Penso que nos devemos habituar à ideia de que a ciência não
pode ser vista como um “corpo de conhecimentos”, mas sim como um sistema de hipóteses,
ou seja, um sistema de conjecturas ou antecipações que não admite, em princípio,
justificação, com o qual, entretanto, operamos enquanto puder sobrepujar os testes a que for
submetido – um sistema de hipóteses que não estamos em condições de declarar
‘verdadeiras’, ou ‘mais ou menos certas’ ou mesmo ‘prováveis’. 132
Para Habermas, não obstante a pretensão de certeza e imparcialidade inerente ao
conhecimento científico e tecnocrático, onde as tensões entre objetivismo e subjetivismo são

                                                                                                           
131
LATOUR, Bruno. Políticas da Natureza: como fazer ciência na democracia. Trad. Carlos Aurélio Mota de
Souza. Rio de Janeiro: Edusc. 2004.Id. Ibid. p. 34
132
POPPER, Karl. A Lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1972. p.349
  158  

escancaradas, esta “consciência” não está isenta de sua historicidade. A ciência e a técnica
correspondem a uma ideologia cujo núcleo “é a eliminação da diferença entre a práxis e
téchne” representada por uma política de dominação contextualizada temporalmente na
perspectiva da sociedade industrial. 133
Para Kuhn a ciência normal se sustenta por paradigmas que são “o conjunto das
crenças, dos valores reconhecidos e das técnicas comuns aos membros de um determinado
grupo”. Ou seja, certa comunidade científica opera na sofisticação/aprofundamento dos
“paradigmas” que lhes proporciona todo um direcionamento da análise de um dado
fenômeno, cuja leitura é possível pelo paradigma, incorporando desde teorias, procedimentos,
técnicas, métodos, instrumentos, valores entre outras coisas, que vão se somando até o
momento em que o mesmo entra em colapso, não mais possibilitando a leitura do fenômeno
ou das controvérsias que surgem em torno das explicações. Neste momento surgem as crises
que podem repercutir na complete substituição do paradigma dando outra inteligibilidade ao
fenômeno e iniciando-se um novo processo que o autor compara às revoluções políticas,
enquanto mudanças na visão de mundo que se estabelecem pela adesão da comunidade
científica à nova visão. Por essa perspectiva a ciência normal não busca descobertas, lê apenas
o que pode ser lido pelo paradigma. As descobertas decorrem das crises, dos erros ou das
insuficiências do paragisma em explicar o fenômeno. 134
Na perspectiva epistemológica de Morin, que em vários momentos perfaz interseções
com pontos do pensamento de Latour e vice-versa, há uma ampliação da concepção de
paradigma de Kuhn, somando a noção de “mindscape” de Maruyama e de “epistême” de
Foucault, expandindo-a para todo o sistema cultural e noológico. Num paradigma está contido
“para todos os discursos realizados sobre seu domínio” as categorias-mestras de
inteligibilidade do mundo. Dessa forma, aqueles indivíduos inscritos culturalmente em
determinados paradigmas vão agir, pensar e conhecer carregando elementos deste paradigma.
Morin critica o reducionismo moderno da ciência e ao mesmo tempo o holismo que a mesma
atinge posteriormente, em sua perspectiva de complexidade: a realidade é complexa e requer
uma dupla recursividade do todo e da parte para uma melhor aproximação da mesma. As
dicotomias evocadas que traspassam a história e avançam no tempo, modelando a forma de
experimentar o mundo das sociedades ocidentais, são reflexos de um grande paradigma
subterrâneo que as engloba, o “paradigma da disjunção”. Nessa direção, duas concepções
                                                                                                           
133
HABERMAS, Jurgen . Técnica e Ciência enquanto “Ideologia”. Os Pensadores. Trad. Zeljko lopari ́c e
Andréa M. A. C.Lopari ́c . 2.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 337
134
KUHN, Thomas Samuel .A estrutura das revoluções científicas. Trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson
Boeira. 3.ed. São Paulo: Perspectiva, 1998.
  159  

antinômicas, dois paradigmas opostos, possuem a mesma raiz – espiritualismo e materialismo,


por exemplo, embora sejam paradigmas antagônicos convivem na base comum de um
paradigma matriz para ambos. Isso nos remete a ideia de que vários paradigmas podem
conviver em uma cultura, pacificamente ou em guerra, criando a organização social e sendo
criado por ela, numa relação rotativa de interdependência. O grande paradigma da sociedade
ocidental, o paradigma da disjunção, segundo Morin, comanda a dupla natureza da práxis: de
um lado a auto-adoração do sujeito individual, do humano, do nacional, do moral; e do outro
o objetivismo, o tecnicismo, as ciências, o que quantifica e manipula. A disjunção entre os
dois universos é consagrada pelo humanismo ocidental, que se instala em ambos. Assim o que
se vê na ciência não é o aspecto que faz do homem mais um objeto entre outros da ciência,
mas o que faz dela o instrumento da dominação humana sobre a natureza, fazendo daquele
que manipula (o homem) o sujeito do universo. Encontra-se algo de paradigmaticamente
comum no desenvolvimento histórico- cultural do ocidente que se liga à técnica, ao
capitalismo, à indústria, à vida urbana, à burocracia. Algo estabelecido entre os princípios de
organização do Estado-nação, das ciências, da economia, enfim, da organização da sociedade;
que se explicita no próprio tratamento do real, no que tange a disjunção/redução. Onde há
uma ocultação mútua do sujeito pelo objeto e do objeto pelo sujeito, uma redução à ordem, à
medida, ao cálculo, a uma mesma especialização e hierarquização, ao pragmatismo, ao
empirismo, ao manipulacionismo, à tecnologização e tecnoburocratização, à racionalização, à
dissociação entre o homem e o natural em detrimento das unidades complexas, das totalidades
e das qualidades. A égide da razão junto com todos os princípios e componentes da ciência
clássica nutre uma visão de mundo de ordem, de unidade, de simplicidade que diz alcançar a
verdadeira realidade oculta atrás das aparências de confusão, pluralidades, complexidades.
Qualquer outro sistema de conhecimento de outras culturas é desprezado/rejeitado na
qualidade de mito ou superstição, quando não passa pelo crivo do que é científico. Nesse
sentido, conforme visto, a visão mecanicista, materialista, determinista, cientificista satisfaça
necessidade de certeza, de perfeição, de harmonia, ou seja, a todas aspirações religiosas,
mesmo com o afastamento de Deus. Morin expõem a interdependência das sociedades
humanas à rede da própria vida, expondo que na medida em que a sociedade vai se tornando
mais complexa e mais autônoma, aumenta o gasto de energia, as necessidades materiais, a
interface, a interação, a entropia e principalmente (ironicamente) a dependência. 135

                                                                                                           
135
MORIN, Edgar. As Idéias: habitat, Vida, Costumes, Organização .In: O Método 4. Trad. Juremir Machado
da Silva. 4o Ed. Porto Alegre: Sulinas, 2005. p. 260 – 261; MORIN, Edgar. Ciência com Consciência: Edição
revista e modificada pelo autor. Trad. Maria D. Alexandre e Maria Alice Sampaio Dória. 7.ed. São Paulo:
  160  

Mas, conforme visto, Latour apresenta uma proposta e um entendimento


completamente diferente dos epistemólogos tradicionais.
A sociologia das ciências que emerge, na percepção de Latour, se demonstra como
insuficiente para reinventar a Constituição social bi-cameral (natureza de um lado, humanos
de outro), sendo necessário juntá-la ao movimento social da ecologia política, devido às
inovações que o mesmo traz. É preciso olhar para a ciência em movimento e não a pronta e
acabada.
A ecologia política – movimento concebido tradicionalmente como de meados do
século passado concomitante acadêmico e político – na perspectiva do autor não possui como
questão central a introdução da natureza nas preocupações políticas, que, aliás, sempre esteve
presente para abortar a política. Ao contrário do que se supõe, a ecologia política corriqueira
sustenta-se sobre a mesma constituição social apresentada sob a perspectiva de duas câmaras
e a natureza continua sendo utilizada para submeter a política. Nesse sentido, quando se fala
de natureza – seja para atacá-la, ignorá-la ou protegê-la, conservá-la, defendê-la – faz-se,
senão, o silenciar da política pela autoridade dos que supostamente detém a realidade das
coisas. Para retirar do mito da caverna o movimento da ecologia política, segundo o autor, é
necessário compreender que ele não mais se apoia na natureza, na sua conservação, proteção e
defesa de um “meio ambiente”.
O autor evoca uma distinção entre a prática dos movimentos ecológicos e a teoria que
as sustenta, a militância ecológica e a filosofia da ecologia (o que ele chama de
Naturpolitick). Na “filosofia da ecologia”, o “respeito à natureza”, estabelece uma
classificação em importância de todos os seres e busca a partir daí uma religação sociedade-
natureza, a noção bem definida dos seres, sua importância, o controle dos riscos, a
domesticação dos problemas. Ou seja, a implementação de um mundo bem ordenado, com
noções/conceitos bem definidos e autoridades bem delineadas para dizer o que é ou não
importante para a natureza e para a sociedade, um modelo que mantém as duas câmaras (o

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
Bertrand Brasil, 2003. p. 329 -331; ALCÁNTARA, Leonardo A. G. Conflito, Consenso e Legitimidade:
Delimitação e análise de embates sociais no Conselho Municipal de Meio Ambiente de Juiz de Fora. Dissertação
(Mestrado em Sociologia e Direito) – PPGSD. UFF, Niterói, 2008.
  161  

mito da caverna) e todas as aspirações modernas. Por sua vez, a prática da ecologia política
inovaria em seus reveses (quando as coisas aparentemente não dão certo ou saem do seu
controle), o que na percepção do autor, sempre ocorre.
Ao ver ampliar a incerteza das conexões entre os seres, ao ver os desarranjos surgidos
das situações imprevisíveis, ao fazer emergir objetos eivados de incomensuráveis riscos, a
ecologia tornaria impossível o uso de qualquer noção de “natureza”, concebida como algo
uno, delimitável e estável. Nesse sentido a prática da ecologia política se caracterizaria pela
“multiplicação dos vínculos de risco”, o que na prática perturbaria “o ordenamento das classes
de seres, multiplicando as conexões imprevistas e variando brutalmente sua respectiva
importância”136. A crise ecológica, nesse sentido, seria uma crise não da natureza, mas da
objetividade.
Para uma melhor compreensão, dois pontos precisam ser elucidados. Primeiro, o que é
o ideal e a prática da ecologia política; segundo, a substituição dos ditos objetos sem risco
(limpos) da modernidade, pelos vínculos de risco e os objetos desordenados apresentados pela
ecologia política.
No que diz respeito ao ideal e a prática da ecologia política, Latour desenvolve duas
listas em que, na primeira, expõe a realidade da ecologia política e na segunda, os benefícios
que se extraem dessa realidade (num primeiro momento percebido como fraquezas). Pretendo
apresentá-las, sem enfrentá-las, de forma conjunta e simplificada: a) a natureza a qual a
ecologia política se refere está sempre associada aos humanos e a outros seres de forma
complexa (incluindo aparelhos, instituições, consumidores, fauna, flora etc.), não se trata de
uma natureza una, mas distribuída em seus contornos e com agentes redistribuídos; b) ao
proteger a natureza e colocá-la ao abrigo do homem, ela possibilita um controle ainda mais
sofisticado e invasivo da natureza pelo próprio homem, em benefício do próprio homem e não
da natureza em si desumanizada, por outro lado, “suspende nossas certezas concernentes ao
soberano bem dos homens e das coisas, dos fins e dos meios”; c) ela não saberia o que é um
sistema ecológico-político, sustentando inúmeras contradições científicas o que míngua ainda
mais as certezas e lhe beneficia de uma outra política da ciência; d) não consegue estabelecer
uma hierarquia regrada por elos cibernéticos, mas uma heterarquia, com uma multidão de
dispositivos experimentais que não formam uma ciência certa; e) pretende falar do todo, mas
se pauta a lugares, situações, biotopos, situações particulares e pontuais em suas ações, não
podendo ordenar uma hierarquia única de ações; e f) pretende despontar como poder real na
                                                                                                           
136
LATOUR, Bruno. Políticas da Natureza: como fazer ciência na democracia. Trad. Carlos Aurélio Mota de
Souza. Rio de Janeiro: Edusc. 2004. p. 56-57  
  162  

vida política, mas exerce papel marginal e não compreende bem nem sua política e nem sua
ecologia, tendo seus propósitos diferentes de sua prática, que após compreendida, lhe
proporcionaria a maturidade política137.
Quanto ao segundo ponto, os vínculos de risco se caracterizam por produzir novos
objetos, desordenados, diferentes daqueles modernos, “limpos”, com “contornos nítidos,
propriedades reconhecidas e essência bem definida”, cujos “pesquisadores, engenheiros,
administradores, empresários e técnicos, que concebiam, produziam e colocavam esses
objetos no mercado, tornavam-se invisíveis uma vez terminado o objeto”. Objetos que saiam
de um mundo (da técnica, da Ciência, da natureza, da certeza) para outro (dos fatores sociais e
dimensões políticas), em que seus impactos não repercutiriam sobre sua definição primeira,
sobre seus autores/produtores, mas encerrar-se-iam nos seus usuários (sociedade). Com a
proliferação dos vínculos de risco é somado aos “objetos limpos”, seus riscos associados, as
consequências de seus impactos são agregadas aos seus produtores, idealizadores,
consumidores, não se distinguindo mais o mundo social ou político do mundo da objetividade
e da rentabilidade. As consequências incomensuráveis passam a fazer parte do objeto, assim
como seus produtores passam a ser expostos numa rede de entrelaçamentos que não distingue
mais um universo independente do outro138. Poderíamos dizer que o princípio da precaução e
a “teoria do risco” na responsabilidade civil objetiva caracterizam bem esta mudança.
Como na prática a ecologia política vai “perturbar ao ordenamento das classes de
seres, multiplicando as conexões imprevistas e variando brutalmente sua respectiva
importância”, torna impossível, diante de uma multiplicidade de entendimentos sobre o que
tem prevalência, o que conta e o que não conta, o que deve ser percebido conjuntamente e o
que deve ser separado, uma concepção única de natureza ou de ordem social. Algo como se
imaginássemos, dentro de uma dada atividade social, um imbróglio que conjugasse ao mesmo
tempo: uma rodovia, um sapo, seres humanos, uma relação comercial, um peixe, capital
financeiro, um valor cultural, uma paisagem etc. Ou, no nosso caso, empresas multinacionais,
técnicas de mineração, unidades de conservação, comunidades quilombolas, agentes
governamentais, tartarugas, castanheiras, copaibeiras, bauxita, ONGs etc. Com a prática da
ecologia política, em tese, dentro desse imbróglio, na realização da tal atividade social,
poderiam todos concorrer em uma ordenação de prevalência, consideração, relevância ou
preeminência, sem ter como, em uma esfera pública, estabelecer, a partir de uma concepção

                                                                                                           
137
Id. Ibidem. p. 45-48
138
LATOUR, Bruno. Políticas da Natureza: como fazer ciência na democracia. Trad. Carlos Aurélio Mota de
Souza. Rio de Janeiro: Edusc. 2004.Id. p 48-53  
  163  

de natureza ontológica, ditada por uma autoridade epistemológica (supostamente) externa à


própria política, o que realmente deve prevalecer.
Nesse sentido, tanto a ordem natural, quanto a ordem social, se misturam, não sendo
debatidas separadamente, sem que uma anulasse a outra e vice-versa. A ecologia política, com
a multiplicação dos objetos, exerce o papel de unificar as duas arenas, da natureza e da
política, à única arena do coletivo, em sentido amplo, compreendendo a categoria de todos os
seres. No curso da pesquisa, essa perspectiva mostrou-se providencial, assaz reveladora dos
traços dos humanos e não-humanos que compõem a rede. Um pouco além, apresenta
perspectivas políticas progressistas para os imbróglios ditos ambientais.

3.3.3 O coletivo em uma câmara


Conforme mensuramos, a natureza, desde sempre, desempenhou um importante papel
na vida política ocidental. Com significados cambiantes que atravessam a história, a natureza
pôde ser evocada para legitimar a superioridade de uma etnia sobre outra, a posição
hierárquica de grupos sociais, a privação dos direitos políticos das pessoas de sexo feminino,
a liberdade humana e sua natureza racional etc. O potencial político da “natureza” se dá,
segundo Latour, devido ao emprego do termo no singular, ou seja, ao caráter de unificação
que o termo enseja, ao poder de congregar e hierarquizar tudo que existe, de apresentar
essências, verdades. Na perspectiva do autor, se pensássemos uma multiplicidade de
“naturezas”, esse efeito seria perdido.
Se, de um lado, a natureza é percebida por aquilo que representam os fatos, de outro a
política representa os valores, tornando-se ordens incomensuráveis, não relacionais, em que a
evocação da primeira, que só seria possível aos sábios cientistas/expertos, anuncia a definição
da realidade, dos fatos e não uma relação de poder, uma ideologia, ao contrário da segunda.
Essa compartimentação estanque entre os dois poderes, na percepção de Latour, é que deve
ser “laicizada”139 e a prática da ecologia política está dando início ao processo.
Por sua vez, encampar a perspectiva das ciências sociais de que não há acesso a uma
natureza imediata, pois qualquer compreensão de natureza não ultrapassaria a condição de
representações mentais humanas, ou de que “a natureza não existe” senão como construção
social, levaria à percepção, pela ecologia política, de que a natureza que se defende é a
concepção ocidental da mesma. Ainda assim essa percepção não livraria a política do mito da

                                                                                                           
139
O termo laicizar é justificado em menção a qual a “naturalização” sempre foi utilizada para combater a
religião, através dos objetos modernos da Ciência, mas a mesma continua toda impregnada da religião que
combateu.
  164  

caverna, pois, não obstante as construções sociais sobre a natureza, a mesma continuaria suas
manifestações independente das percepções humanas e, se não há acesso à natureza, estamos
condenados a escuridão da caverna, nenhum conhecimento real poderia ser apreendido, não
precisaríamos de sábios e nem de ciências – mas os mesmos continuariam. Há a necessidade
de reconhecer a história humana construída, mas, além disso, a história não construída de tudo
que existe externamente que segue independentemente das construções e representações
sociais, buscando intercessões de modo a fundi-las. Para tanto seria necessário agregar a
história infinitamente longa da natureza – matéria, energia, evolução da vida, manifestações
do universo etc. – dentro do que se conhece por meio das várias disciplinas científicas –
astronomia, química, física, biologia etc. – datadas a partir da história das ciências, formando
uma história conjunta.“[...] já não falamos mais do todo da natureza, mas daquilo que se
produz, se constrói, se decide, se define, em uma cidade sábia sobre ecologia, quase tão
complexa como a do mundo em que ela produz o conhecimento”140.
Ainda que a história das ciências no esforço de tornar cognoscível a natureza não
escape da realidade das representações sociais, à medida que se aproxima de uma exatidão (o
eterno jogo da verdade e do erro das ciências), se aproxima também do que a natureza
realmente é, mantendo-se como representação social, opera sob as duas perspectivas e reúne
as duas assembleias: a dos humanos e a das coisas. Esquivando-se das “evidencias enganosas
das ciências do homem” (construtivismo social, estruturalismo etc.), pode-se apreender o
papel e a “presença múltipla” dos não-humanos (multiplicidade dos seres – naturezas), bem
como distinguir o “trabalho político” que os apresentava sob a forma de uma natureza única
que impunha sua autoridade muda.
A ruptura absoluta que separa a sociedade da natureza (assembleia dos humanos e
assembleia das coisas), cuja transcendência só é possível aos sábios que tornam
compreensível a realidade dos objetos à sociedade, através da figura da natureza una, objetiva
– criando uma autoridade inquestionável; é substituída por um “coletivo em via de
expansão”, em que as propriedades tanto dos humanos quanto dos não humanos não são
garantidas (vínculos de risco – objetos desordenados), reconhecendo os não-humanos como
parte indissociável do social, “recrutados, mobilizados, socializados, domesticados para
engrossar a demografia do coletivo”
Na nova conjuntura, os sábios e as ciências não são abandonados, ao contrário,
assumem o papel de conexão/representação com o mundo exterior, através da mediação das
                                                                                                           
140
LATOUR, Bruno. Políticas da Natureza: como fazer ciência na democracia. Trad. Carlos Aurélio Mota de
Souza. Rio de Janeiro: Edusc. 2004. p. 70  
  165  

disciplinas científicas que unem a história social e natural. Mas ao contrário do esquema da
caverna, não para impor “um recurso decisivo a uma transcendência indiscutível” para
solucionar os problemas político-sociais, e sim para funcionar como problematização,
complicação, “não resolvendo definitivamente nenhuma das questões essenciais do coletivo”.
Ao apelar para a realidade exterior não se aparta o mundo social e nem o faz calar, como no
coletivo em duas câmaras (sociedade versus natureza), mas convoca uma multiplicidade de
novos seres para uma vida em comum, em que todos são atores (actantes) que funcionam em
rede – estabelecem interferências, associações, conexões, fluxos, circulações, alianças etc.
Conforme visto, a proposta conduz a um afastamento concomitante da natureza e da
cultura enquanto conceitos separadamente fechados, isolados e independentes, em que, na
proposta de Latour, a ideia de coletivo abarca ambos, fundindo-os. Parte da natureza não em
direção ao humano, mas em direção a “multiplicidade das naturezas” (pluriverso) em que “o
social” ganha conotação de associação, coleção, englobando seres humanos e não-humanos,
possibilitando seu ajuntamento, sua unificação, coleta, a partir da prática da ecologia política.
Existe, pois, uma outra via além do idealismo para abandonar a
natureza, uma outra via além dos sujeitos para abandonar os objetos,
uma outra via além da dialética, para “ultrapassar” a suposta
contradição entre sujeito e objeto. Para dizê-lo de modo mais brutal
ainda, graças à ecologia política, a Ciência não sequestra mais a
realidade exterior para criar uma corte de apelação de última instância,
ameaçando a vida pública com uma promessa de salvação pior do que
o mal. Tudo aquilo que as ciências humanas haviam imaginado sobre
o mundo social, para construir suas disciplinas longe das ciências
naturais, foi ao inferno da Caverna que elas tomaram emprestado.
Intimidadas pela Ciência, elas aceitaram o mais cominatório dos
diktats: “Sim, reconhecêssemos bem prazerosamente, confessavam
elas em coro, mais falamos de construção social, mais nos
distanciamos, de fato, da verdadeira verdade”. Ora, era preciso recusar
o Diktat e se reaproximar, contra a ameaça da Ciência, da realidade
produzida pelas ciências, afim de poder colocar, a novos custos, a
questão da composição do mundo comum. 141

A questão que se perfaz é como se daria a nova constituição, uma vez que a mesma
dilui as categorias dos sujeitos e dos objetos em suas pretensões? Partindo da perspectiva de
uma conotação de política como “composição progressiva de um mundo comum” a ser
compartilhado; e desconstruindo a noção de natureza que servia como pano de fundo para a
unificação dos seres e das culturas, que independente das particularidades havia uma
“essência” comum, as soluções propostas pelo mononaturalismo e pelo multiculturalismo
                                                                                                           
141
LATOUR, Bruno. Políticas da Natureza: como fazer ciência na democracia. Trad. Carlos Aurélio Mota de
Souza. Rio de Janeiro: Edusc. 2004. p. 74
  166  

tornam-se vazias. Se de um lado o mononaturalismo estabilizava a noção de natureza,


propugnando “uma natureza, várias culturas; a unidade na mão das ciências exatas, a
multiplicidade nas mãos das ciências humanas”, em que a noção de cultura esta esvaziada de
substância e a natureza, traduzida pelos sábios, corresponde ao real. De outro lado, no
multiculturalismo, as culturas são diversas e possuem distintas maneiras de definir o real, não
existindo essências ou realidade durável, essas são meras ilusões. Em uma das perspectivas,
um mundo sem valor, mas com essência, de outra, um mundo de valores, não essencial,
impossibilitado de se tornar um mundo comum. Nesse sentido, para essa superação, é que se
faz necessário romper com a noção de cultura e com a noção de natureza, pois ambas se
assemelham, possuem em sua separação caráter político e nos aprisionam em um coletivo
impróprio, do mito da caverna.
Como a natureza e o humano, no mundo ocidental, sempre viveram em oposição na
vida pública, a questão não é a inserção da natureza na vida política, mas o contrário, seu
exorcismo enquanto condição de se estabelecer um poder, que não se assume como tal,
encampado por um grupo restrito de humanos. As ciências, na multiplicidade de suas
disciplinas, se inserem na coletividade não como solução pronta e acabada para os problemas
humanos, mas como forma de injetar e recrutar novos atores, não-humanos, delimitar seu grau
de penetração e influência, gerando novas incertezas que alavancariam o progresso do
conhecimento e a abertura de novas instituições, ainda não visualizáveis politicamente.
A diluição da dicotomia sujeito e objeto é a diluição da dicotomia sociedade e
natureza. Nesse sentido, os não-humanos não são totalmente objetos, ao menos devemos
cessar de objetivá-los e compreender qual a dimensão de sua relação com a assembleia de
humanos. Coletar quais e de que forma se associam aos humanos na complexa construção da
realidade, quais efeitos produzem, quais influencias geram, de que maneira modificam a
sociedade etc. Segundo Latour142 o objeto era o não-humano mais a polêmica da natureza
dando uma lição à política dos sujeitos, uma vez libertos, não como “coisas em si”, compõem
o coletivo de forma acessível, atacável e qualificável. Por sua vez, os sujeitos não são (mais)
totalmente sujeitos, o que caracterizava o sujeito era sua ruptura com a estrita causalidade da
natureza, seu arbítrio próprio, sua condição de não ser objeto, ou seja, o sujeito era o humano
preso na polêmica da natureza e resistindo corajosamente à objetivação pela Ciência. A
143
liberação do humano não mais como sujeito, conforme Latour é a consciência do fato de

                                                                                                           
142
 LATOUR, Bruno. Políticas da Natureza: como fazer ciência na democracia. Trad. Carlos Aurélio Mota de
Souza. Rio de Janeiro: Edusc. 2004. p. 93  
143
 Id. Ibidem. p. 94-95  
  167  

os humanos não existirem por si mesmos, mas através de uma longa cadeia de não-humanos,
sem os quais eles não saberiam fazer questão de liberdade.
O imaginário comum nos conduz a perceber que a relação de afastamento e
independência do homem com relação ao mundo “dito” natural, passou a ser questionada com
a emergência das questões ambientais, consagrando os movimentos ambientalistas, como a
ecologia política, como responsáveis pela inserção da natureza nas preocupações políticas. A
proposta de Latour vem desmitificar essa suposição com uma inversão de perspectiva que
acusa a natureza, em suas diversificadas concepções, de sempre estar presente na vida política
do ocidente, apresentando-se a partir de autoridades que a traduzem para o entendimento geral
como “a certeza” que serve de embargo para qualquer discussão política. O mérito da
ecologia política seria exatamente digerir essa percepção de natureza, da objetividade e
hierarquização, “pondo fim à natureza” e fazendo irromper uma percepção de mundo
carregada de incertezas, riscos e multiplicidades, possibilitando a constituição de uma nova
vida política que dissolveria a dicotomia sociedade e natureza.
O “prelúdio do novo tempo” antes de se dar pelo sucesso da ecologia política
enquanto movimento que se insere de fato na vida pública, o que não ocorre, vai ser dado
pelos seus desconcertos, na sua prática, que geram a penetração irreversível dos “vínculos de
risco” que desmantelam o projeto moderno de um mundo ordenado que apontaria para um
futuro promissor. O sentido teleológico da modernidade, bem como a autoridade da Ciência e
da técnica na busca da redenção humana ficam suspensas, questionadas com a multiplicidade
de incertezas.
Toda essa discussão não deixa de encampar as tradicionais críticas recorrentes da
modernidade no que tange ao modelo de inteligibilidade do mundo,
disjuntivo/fragmentário/divisor/simplificador, consagrado pela filosofia e ciência moderna.
Ao apresentar o sujeito cognoscente e a realidade do mundo objetivo por uma indissolúvel
conjunção entre ambos, o autor nos remete ao entendimento de que o sujeito está presente nos
objetos que conhece, ao mesmo tempo em que esses se inscrevem no espírito humano em uma
relação de dupla-via. A realidade objetiva é uma construção subjetiva que jaz no mundo
objetivo. Apesar de realmente inovadora, a diluição das dicotomias de sua proposta
epistemológica, com as devidas ressalvas, se acercam das propostas da teoria da
complexidade de Edgar Morin, buscando uma interligação de saberes e a hibridização dos
seres dicotomizados/antagonizados pelo pensamento moderno. Mas há diferenças cruciais e
um método “facilmente aplicável”, efetivamente empírico e epistemologicamente progressivo
pelas possibilidades que abre.
  168  

Conversões

Falamos de conflitos ambientais sob uma perspectiva estruturalista-construtivista e nos


deslocamos para uma percepção da ontologia actante-rizoma da Teoria Ator-Rede. O que
ambas as perspectivas aqui tratadas nos conduzem, cada uma a sua maneira, é a visibilidade e
a possível inserção de interesses tradicionalmente negligenciados/desapercebidos nas esferas
públicas e nos espaços de decisões – ambas podem ser percebidas como progressivas num
sentido democrático.
De um lado, a denúncia das formas de dominação que recaem sobre os grupos
humanos com menos acesso ao “poder”. No caso da pesquisa, aqueles que têm os seus modos
de vida ameaçados/comprometidos/dizimados nos avanços territoriais dos grandes grupos
econômicos afinados com os projetos governamentais de desenvolvimento e conservação.
Esta perspectiva, com orientações normativas declaradas, é fortemente sustentadas nas
questões de proporcionalidade e justiça sobre o acesso e o uso dos recursos que compõem as
diferentes faces da sociedade. Do outro lado, amplia-se os interesses à tudo que se agencia na
composição da sociedade, mas apenas descrevendo como uma coisa se liga a outra, sem
maiores explicações, sem orientações normativas, sem juízos morais de valor declarados a
priore. Contudo não se trata de um “realismo/objetivismo ingênuo”, ainda que os axiomas
não se revelem explicitamente nas descrições, ou estarão embutidos (não declarados) ou virão
depois, com as possíveis utilizações de uma pesquisa. Em todo caso, sem prejuízo algum para
esta perspectiva de análise. Por mais que se empenhe em uma descrição restrita ao que se
pode demonstrar empiricamente, por mais que nos esforcemos em sermos imparciais, os
“olhos” veem aquilo que lhes conecta a atenção, involuntariamente, já que somos parte de
múltiplas conexões mútuas e dentre elas também os instrumentos que possuímos para
observar e os nossos valores morais, nossas crenças que nos “ensinam” a olhar.
Foram frisadas duas diferentes perspectivas, quase opostas podemos dizer, que
possibilitam caminhar em um topoi mas que levam a utopos ou mesmo distopos particulares,
mas que no final se encontram. Se a sociologia crítica estrutural-construtivista visa dar
visibilidade aos humanos dominados em busca de sua emancipação ou autonomia – neste
caso focamos o reconhecimento de seus territórios, o controle dos seus recursos naturais, o
acesso aos recursos públicos, a organização cooperativa, o melhor escoamento ou valorização
de seus produtos, a melhoria da qualidade de vida etc. Percebemos que essa mesma
emancipação representa a configuração de uma estreita dependência aos recursos públicos, à
  169  

inserção nos espaços estatais, às tecnologias, ao mercado, a toda uma reconfiguração de


saberes, de identidades, de transformações irreversíveis... É ambivalente e paradoxal, pois os
benefícios emancipatórios gerados carregam dentro de si um maior controle e dependência,
seja das autoridades, dos recursos públicos, do combustível, da aceitação no mercado, dos
agentes externos, ou na hibridização desproporcional da cultura. Laços bem amarrados com
organizações internacionais, com o Estado, com o mercado, com o consumo, com o saber
científico se solidificam. Se tomarmos como exemplo os geradores das comunidades, os
motores para as embarcações – que tanto os beneficia nos afazeres doméstico, laborais e nos
seus deslocamentos – ao mesmo tempo temos o petróleo, o auxílio do governo para que isso
opere, o vinculo político, o arrebanhamento, a subordinação. Há uma hierarquização na
multiterritorialidade que se desenha. Em se tratando de populações tradicionais, como no
caso, a questão se complexifica ainda mais dentro do que substancialmente os transforma.
Por sua vez, sob a outra perspectiva, descrever as redes sociotécnicas que se expandem
e formam suas conexões e agenciamentos, partindo de uma dependência criada e assumida,
das transformações em foco, da frieza na análise dos objetos quentes, em movimento, “esse”
coletivo em expansão visto em sua multiplicidade e diversidade parece caminhar para um ser
unívoco irreversível/inelutável e essa “diversidade/pluralidade” tão cara à vida, não seria mais
controlada pela Ciência, mas pelo pacto civil em nome da paz, das coisas e dos homens.
Difícil não elucubrar neste “bom modo de compor o mundo” em constante desterritorialização
uma possível reterritorialização hegemônica, não obstante falarmos de um coletivo que não
representa-se no singular da palavra, é necessariamente heterogêneo... mas se expande e quer
estabilizar-se. Como? Por ordem? Então voltemos ao conflito em condições desiguais de
poder? Ou identifiquemos as finas linhas que ligam as redes para interceptá-las em seus
frágeis laços e conter seu avanço? Ou ainda, aceitamos irreversibilidade de seu avanço e
mitigamos seus impactos com a consideração dos interesses excluídos? Outra ambivalência e
outro paradoxo: partimos da diversidade, da multiplicidade, para assistirmos o levante dos
seres representados pelas múltiplas ciências e dos humanos pelos diversos segmentos
políticos representativos, para se alinharem num mundo harmonizado comum, incorporando
tudo que deve ser levado em consideração na composição do coletivo, a partir das lutas na
assembleia da câmara única, da democracia dos objetos e sujeitos. Contudo, não é possível
apreender tudo e todos, qual métrica vai dar valor ao que conta e ao que não conta na
composição do coletivo?
Algumas questões se apresentaram como profundos “dilemas” no curso da pesquisa e
direcionaram o estudo não na proposição de respostas ou saídas para os mesmos, mas na
  170  

explicitação das aporias e contradições ou na problematização da realidade em foco. Como


articular a diversidade de modos de vida circunscrita naqueles territórios com a unidade
ideológica integracionista e ordenadora que parece avançar irrefreavelmente? Como manter as
particularidades inerentes àqueles povos e suas relações ecossistêmicas somando-se os
benefícios almejados e as trocas tecnológicas que se assentam em um modelo universalista?
Faz algum sentido falar de proteção sócio-natural quando reduzimos a intencionalidade das
ações humanas e planificamos o socious com a natura?
Essas questões perduram mesmo quando partimos de uma percepção de “cultura”
imanente aos seus ambientes e conexões, sempre cambiante e intercambiante, viva e
dinâmica. Tratamos, de um lado, de populações tradicionais, suas identidades e
sustentabilidade de seus modos de vida. Quando falamos dos direitos aos seus territórios, das
injustiças históricas, da espoliação pelos poderosos etc. assistimos gradativamente o levante
político dos mesmos, a inserção cada vez mais efetiva de seus interesses, ao mesmo tempo em
que ocorre o aumento da inserção do Estado e de agentes exógenos em suas vidas, novas
relações comerciais, conforme mencionado, novas dependências, outras conexões... muitos
interesses parecem colidir na disputa dos fins daqueles espaços territoriais e de seus recursos
dentro do próprio Estado. Interesses que divergem mas são regidos dentro de uma mesma
lógica de controle, disciplina, ordenação, previsibilidade e segurança em suas demandas.
Unidade de Conservação, Território Quilombola, mineração da bauxita parecem pertencer,
nos termo de Latour, à mesma rede sócio-técnica em expansão. Contudo, se comparada aos
tempos anteriores, as diferenças se exaltam no que tange à permeabilidade dos diferentes
interesses na composição daquela realidade, com o processo de democratização do estado
brasileiro. Antes uma ordenação restrita aos interesses da mineração da bauxita que se valia
da doxa do desenvolvimento e de uma conservação maquiada para imprimir sua ordem e
legitimar-se, agora estendido aos remanescentes de quilombo e outros grupos excluídos,
obrigando-nos a pensar um papel ambíguo para o Estado que trata as questões em
compartimentos distintos e com escasso diálogo entre si.
Conforme mencionado anteriormente, optei no curso da pesquisa em adotar uma
perspectiva mais descritiva, dentro do que se apreendeu enquanto constitutivo daquele
realidade, inspirado na Teoria Ator-Rede. Entretanto, a estratégia metodológica empregada
não abdicou dos resultados propiciados pela perspectiva moderna de análise, tampouco
deixou de se sustentar na literatura especializada dentro do seu recorte específico e na
temática que se relaciona mais diretamente, que abrange conflitos ambientais, disputa de
poder, territórios, relações de direito, proteção da biodiversidade e etnografia. Assim como se
  171  

valeu de instrumentos corriqueiros de investigação como levantamento de pesquisas


pertinentes e correlacionadas, análise de documentos, processos administrativos e judiciais,
aplicação de questionários, entrevistas semiestruturadas, narrativas, observações in lócus,
caminhadas transversais entre outros que se apresentaram importantes à execução do estudo.
O ponto se dá com relação ao método, que se apresenta mais como uma “visão de mundo” do
que como procedimentos empregados. Aquilo que permite não segregar a natureza da
sociedade ou vice-versa na busca do conhecimento, não apenas fragmentar para entender, ou
emoldurar nos limites de uma teoria: ao invés, compreender as inter-relações, conjunções,
redes e, ao mesmo tempo, eleger o que se percebe como mais importante na construção de
uma visão sobre aquela realidade partindo dos elementos que a constitui: visão esta não-
moderna, pois não compreende em separado um mundo humano e outro não-humano.
Isso quer dizer que elementos constitutivos daquela realidade, que tradicionalmente
não se considerariam em uma pesquisa jurídico-sociológica enquanto construtores da
dinâmica social, não foram desprezados, na medida em que produzem efeitos na constituição
da mesma. Neste sentido, a Podocnemis expansa é tão importante na construção daquela
realidade quanto os remanescentes de quilombo, a bauxita, o combustível, a mineradora, as
decisões judiciais, a rabeta, a Copaifera multijuga, as tramas políticas entre outros
atores/actantes que influenciam na constituição da realidade que se perfaz na Reserva
Biológica do Rio Trombetas e na Floresta Nacional Saracá-taquera. Cabe ressaltar que apesar
de existir uma visão privilegiada, qual seja a dos conflitos de interesse e da distribuição de
poder sobre esses territórios, a pesquisa não reduz aquela realidade a essa visão segregada de
tudo que a compõe.      
Cabe reafirmar que não houve uma fidelidade teórico-metodológica no curso da
pesquisa que direcionou o seu curso com exclusividade, conforme exposto. Em outras
palavras, uma filiação a um modelo que conduziu linearmente a análise, a partir de seus
pressupostos, na inteligibilidade da questão estudada. Mais adequadamente poder-se-ia falar
de influências, já que o estudo se sustenta sobretudo nas suas vivências de campo, na sua base
empírica, sem uma comunhão paradigmática, como no sentido de Kuhn, ou da própria praxe
da academia. Por ser uma perspectiva aberta, “não o quadro a ser pintado, mas o pincel que
pinta”, a Teoria Ator-Rede exerceu maior influência. Contudo, ao lançar mão de instrumentos
metodológicos e perspectivas epistemológicas de ordens diversas, que contribuíram na
análise, procedeu-se rejeitando certos “caminhos”, parcial ou integralmente, de maneira mais
“livre e adaptável” de acordo com o próprio fluxo da pesquisa e suas demandas na
compreensão/descrição dos espaços em que se assenta. O exercício das duas perspectivas
  172  

narradas permite de um lado reduzir, delimitar a análise, configurando um “campo dos


conflitos socioambientais”, do outro abrir e complexificar esse microcosmo num plano de
existência mais amplo, incorporando os diversos elementos que constituem essa realidade
analisada e que são excluídos na primeira visão.
A seguir, na próxima e última parte da pesquisa, optei por apresentar em uma ordem
cronológica os interesses que compõem a realidade em análise. Não por uma pré-existência
relacionada aos grupos que ali viviam (ou vivem), mas dentro do avanço de um modelo
expansionista de sociedade que gerou os conflitos enfocados. Nesse sentido, primeiro surgem
as políticas estatais, seguidas da descoberta da bauxita e posterior instalação da infraestrutura
e ordenação territorial para sua exploração. No período subsequente, concomitante à
exploração comercial da bauxita, é criada a Reserva Biológica do Rio Trombetas, Unidade de
Conservação de proteção integral em área contígua à mineração com objetivo principal de
proteção da Tartaruga-da-Amazônia, por esse viés, tornando a reserva e esse quelônio os
próximos actantes a serem considerados. Apesar de viverem no local antes mesmo de existir o
município de Oriximiná e todas as políticas públicas que ali recaíram, os remanescentes de
quilombo, peculiar grupo humano que vive naquelas terras, foram praticamente relegados à
invisibilidade por todo esse período, possuindo levante político e melhor voz a partir de
meados da década de oitenta, marcando, daí pra frente, uma nova ordenação territorial. Nesse
contexto surge a Floresta Nacional Saracá-Taquera, estrategicamente criada para proteger os
interesses da mineração da bauxita, mas posteriormente gerando profundas contradições
legais com essa prática, acirrando ainda mais os conflitos sobre aqueles territórios e seus
recursos. A Floresta nacional é tratada junto com a Reserva Biológica, dentro das políticas
conservacionistas experimentadas na região e a atuação do Governo Federal.
  173  

PARTE III
O VALE DO RIO TROMBETAS

Mapa 04: Landsat – Google Earth, 2013.


  174  

1 O PROGRESSO E A ORDEM

O presidente Médici expressou sua confiança em que a


transamazônica pode ser o caminho para o encontro da verdadeira
vocação econômica da Amazônia.
Continuemos citando o discurso presidencial: o coração da
Amazônia é o cenário para que se diga ao povo que a revolução e
este governo são essencialmente nacionalistas, entendido o
nacionalismo como a afirmação do interesse nacional sobre
quaisquer interesses e a prevalência das soluções brasileiras para os
problemas do Brasil. Dois desses problemas referidos na fala do
chefe do Estado são: o homem sem terras no nordeste e a terra sem
homens na Amazônia [...].
[...]Tanto para a agricultura quanto para a criação a terra é boa, há
verdes pastos na floresta de leite e mel. A imensidão amazônica induz
o homem a pensar no seu grande destino. A estrada que leva ao céu
deve ser uma imensa e vasta transamazônica rasgada por Deus no
coração dos homens que sabem sacrificar-se pelo progresso da
humanidade.
(Propaganda do Governo Federal da década de 1970 - Arquivo Nacional)

Céu e inferno. Da natureza idílica ao faroeste caboclo, da natureza hostil à urbe-


habitat. Ora as retinas se apraziam diante de tantas cores e tanta vida portentosamente
aflorando; ora são violentadas com os lúgubres traços da destruição que o avanço
desenvolvimentista vai deixando por onde passa. Ora o calor daquela floresta quase
impenetrável me atormenta e aqueles imensos rios e seus perigos me enclausuram; ora o
refrigério do ar-condicionado de um quarto de hotel e o conforto de estar sendo bem servido,
a um preço por mim acessível, me aliviam. Desço no aeroporto de Manaus ainda bem cedo,
me hospedo em um hotel central na cidade e sigo para o INPA, em busca dos meus
pesquisadores-atores. Consigo mais material, mais contatos e nenhuma entrevista. Passeio na
cidade, observo suas vias, dutos, tráfego, pessoas circulando, energia fluindo, um caos (ou
uma ordem). Observo os pedintes, os zumbis do crack, os turistas gringos, as prostitutas, os
ambulantes aos milhares. É uma cidade, como todas, com sua história própria, seu ambiente
peculiar, suas segregações – a Manaus dos turistas, a Manaus dos excluídos, a Manaus dos
comerciantes, a Manaus dos pesquisadores, estudantes e moradores mais abastados dos
condomínios, “belos e organizados”.
Aproveito o dia que me sobra para conhecer melhor a cidade, observar as edificações
históricas e visitar o Teatro Amazonas, sublime testemunha da opulência dos tempos
pretéritos. Observo atentamente as explicações do guia sobre aquele ecletismo, tanta
exuberância, tanto luxo, quase tudo vindo de fora, da Europa. Ouço sobre as seringueiras, o
  175  

látex, a borracha, sobre a história de Manaus, do Amazonas, da Amazônia. Esse teatro


conecta-se ao “passado glorioso” dessa região e essa cidade, que já foi uma das mais
prósperas do mundo, conta esse passado que a nossa caminhada pretende percorrer
brevemente. Recobro a memória de que os grandes monumentos erigidos na nossa história
sustentam-se sobre os ossos daqueles que ela renegou. Todos esses grandes monólitos têm o
suor e o sangue dos espoliados esquecidos como argamassa. Mas minha apreciação deve
manter-se neutra.

Foto 09: Teatro Amazonas. Leonardo Alejandro Gomide Alcàntara, 2012.

Vou ao porto de Manaus digladiar por uma passagem para Oriximiná, sabia, pelas
experiências anteriores, que no final do ano todos viajam. A multidão desesperada faz o
momento dos cambistas especuladores. Não havia mais passagens aéreas e, por “nau”,
somente para Óbidos ou Santarém. Como não podia aguardar até a próxima semana, segui
para Óbidos. No translado conheço duas francesas que vieram se aventurar no Brasil,
disseram vir conhecer a “natureza”, a Amazônia, maior floresta tropical do mundo – “essa
imensa reserva ecológica do planeta”. A companhia das turistas estrangeiras e os longos
diálogos desentendidos que travávamos, abreviavam as trinta horas de viagem percorridas
pelo Rio Amazonas. A paisagem contínua, por vezes, era interrompida pelos pequenos
povoados ribeirinhos, criações de gado e cidadelas. No navio, muito Technobrega, pessoas
bebendo e um verdadeiro emaranhado de redes que aconchegavam as centenas de pessoas que
ali viajavam. Chegando em Óbidos consigo no mesmo dia um barco para Oriximiná.
Necessitando aguardar algumas horas, aproveito o entretempo para conversar com pessoas
dali. Os olhos se confundem diante da tamanha complexidade daquela região.
  176  

Perscrutar essa realidade e compreender sua pluralidade requer vasculhar como se deu
seu complexo ordenamento territorial. A Amazônia dos seringueiros, babaçueiros, açaizeiros,
dos muitos índios, dos ribeirinhos, dos quilombolas; a Amazônia dos patrões, dos regatões,
dos fazendeiros, das elites falidas; a Amazônia periferia nacional ameaçada pela cobiça
internacional; a Amazônia futuro do país com incomensuráveis recursos – o biológico, o
madeireiro, o mineral; a Amazônia último reduto da vida, da manutenção do equilíbrio
térmico do planeta, da natureza para conservação; a Amazônia dos grandes projetos
governamentais de desenvolvimento, das empreiteiras, das hidroelétricas, das monoculturas,
da pecuária extensiva, das mineradoras multinacionais; a Amazônia atrasada, terra sem lei à
Amazônia voz de seu povo, ainda quando educados e representados pelos que vem de fora.
Não há uma Amazônia, são muitas “Amazônias”, como já consagrara Carlos Walter Porto
Gonçalves144, que também nos conta essa história, ponto de suma importância para traçarmos
as linhas de nossa jornada.

1.1 Breves passagens na fabricação da Amazônia brasileira

A organização do espaço Amazônico – sua integração a uma territorialidade


burocrático-administrativa nacional –incorporou assimetricamente os interesses dos diferentes
segmentos humanos que ali chegaram ou já habitavam a região145. Essa ordenação territorial,
como qualquer outra, abrange os sistemas produtivos, os conflitos sociais, as atividades
econômicas, as normatizações jurídicas, as tecnologias disponíveis, as geografias, os
agenciamentos de múltiplos seres não-humanos que compõem as naturezas-culturas e as
diferentes significações/representações dos mesmos. Cria hierarquias posicionando o que
conta mais e o que conta menos na reprodução social, se alterando com o tempo. A marcha
expansionista macroétnica caucasiana, não representa apenas um processo de sucessão
ecológica na região, mas uma complexa hibridização genética, cultural, material e energética,
sobre uma fina rede de conexões. Uma dupla via de conexões, levam seres e trazem sua
“biota-portátil”146. Na Amazônia, em especial, um gênero de planta, a das seringueiras –
Heveas (guianenenses, benthamiana, brasiliensis etc.) – sobretudo uma espécie, a Hevea
                                                                                                           
144
GONÇALVES, C. W. P. Amazônia, Amazônias. São Paulo: Contexto, 2001.
145
Assim como geralmente se dão as composições socionaturais. Conforme a perspectiva que adoto, trabalhada
na segunda parte da tese, a “Grande Divisão sociedade-natureza” é uma estratégia epistemológica que não se
sustenta dentro do avanço do conhecimento hodierno. Nesse sentido qualquer sociedade é socionatural, como
qualquer cultura é uma “natureza-cultura”, de uma megalópole como Nova York ou São Paulo à aldeia indígena
do Mapuera ou a comunidade quilombola do Abuí.
146
CROSBY, Alfred W. Imperialismo ecológico: a expansão biológica da Europa 900-1900. Tradução de José
Augusto Ribeiro e Carlos Afonso Malferrari. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
  177  

brasiliensis, vai exercer grande influência nas delimitações territoriais amazônicas. Isso se
deu sob o jugo dos que faziam conectar o produto de sua seiva, o látex transformado em
borracha, à toda rede sociotécnica de produção da Segunda Revolução Industrial em meados
do século XIX, sem maiores considerações aos povoados que ali há muito existiam. Nesse
sentido o que se compreende como Amazônia está atrelado ao marco científico da
abrangência das Heveas147 e o surto econômico de sua exploração contribuiu sobremaneira na
delimitação das fronteiras nacionais que ali se estabeleceram.
A borracha passa a ser parte indissociável de diversos componentes das máquinas da
indústria, dos fios de transmissão de energia e de telecomunicações, dos calçados, de roupas,
dos pneumáticos que vão reconfigurar os veículos, o transporte e a indústria automobilística.
Enfim, essa “planta” passa a estar presente em toda a “sociedade ocidental” e dar-lhe outra
abrangência com o seu agenciamento. Partindo do conhecimento dos índios e apresentada aos
europeus com a colonização, a borracha gradativamente vai encontrando “funções sócio-
lógicas”, até atingir maior envergadura comercial e disseminação com a “descoberta” da
borracha vulcanizada em 1839/1843148.
Assim como outros períodos de exploração de commodities amazônicas, o látex vai
propiciar um grande fluxo migratório contribuindo para configurar a pluralidade de grupos
humanos que vão habitar a região. Esses fluxos migratórios se deram subindo o Rio Tapajós,
o Xingo, o Madeira, posteriormente atingindo o Solimões, o Purus e o Juruá, chegando ao
Acre (Aquyri) em 1877149. Cerca de 300 a 500 mil migrantes nordestinos entre 1860 e 1912150
vão para os seringais tornarem-se “servos por dívida”, como ilustra Euclides da Cunha:
De feito, o seringueiro, e não designamos o patrão opulento, se não o
freguês jungido à gleba das “estradas”, o seringueiro realiza uma
tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se [...]
Repitamos: o sertanejo emigrante realiza, ali, uma anomalia sobre a
qual nunca é demasiado insistir: é o homem que trabalha para
escravizar-se.
Enquanto o colono italiano se desloca de Gênova à mais remota
fazenda de São Paulo, paternalmente assistido pelos nossos poderes
públicos, o cearense efetua, à sua custa e de todo em todo
                                                                                                           
147
GONÇALVES, C. W. P. op. Cit. p. 18
148
Essa descoberta está associada ao inventor estadunidense Charles Goodyear em 1839, que por acaso mistura a
borracha natural com enxofre em uma chapa quente, adquirindo outra consistência ao material – elasticidade e
resistência às variações de temperatura. O inglês Thomas Hancock em 1843, consegue efetuar o mesmo processo
obtendo primeiramente a patente e dando maior disseminação comercial ao produto. Contudo, mesmo antes
desta técnica já haviam diversas aplicações para borracha, como calçados, colchões, peças industriais, roupas
etc.
149
MEDEIROS, R. L. de. Decodificando a Internacionalização da Amazônia em Narrativas e Práticas
Institucionais: Governos da Natureza no Brasil e nos Eua. Tese (Doutorado em Estudos Comparados sobre as
Américas) – CEPPAC. UNB, Brasília, 2012.
150
GONÇALVES, C. W. P. Amazônia, Amazônias. São Paulo: Contexto, 2001. p. 86
  178  

desamparado, uma viagem mais difícil, em que os adiantamentos


feitos pelos contratadores insaciáveis, inçados de parcelas fantásticas e
de preços inauditos, o transformam as mais das vezes em devedor para
sempre insolvente.
A sua atividade, desde o primeiro golpe de machadinha, constringe-se
para logo num círculo vicioso inaturável: o debater-se exaustivo para
saldar uma dívida que se avoluma, ameaçadoramente, acompanhando-
lhe os esforços e as fadigas para saldá-la. 151

No momento econômico da borracha desponta uma nova elite na região, com as


“casas exportadoras”, as “casas aviadoras” e os “coronéis de barranco”, deslocando as áreas
de maior interesse econômico do Baixo Amazonas para o Tapajós e Xingu e sobretudo para o
Juruá e o Purus. As casas exportadoras, aviadoras, os coronéis donos de seringais e os
comerciantes estabeleceram-se, via de regra, nos grandes centros, Belém e Manaus, onde
ocorriam as transações comercias de exportação da borracha. As antigas oligarquias
latifundiárias, não lograram tanto êxito com o extrativismo do látex no Baixo Amazonas, mas
mantiveram-se atreladas ao aparelho burocrático estatal dos grandes centros regionais,
mantendo-se influentes152.
No sistema produtivo da borracha a “contratação” dos imigrantes se dava pelo sistema
de aviamento. Os mesmos eram levados de suas terras agrestes para os seringais amazônicos,
onde trabalhavam no extrativismo. Chegavam no “barracão” com sua produção de borracha –
área controlada onde depositava-se o produto – já devendo o custo de sua viagem. Tinham
que pagar por sua alimentação e o que mais precisassem. Não podiam plantar para sua
subsistência mantendo-se dependentes dos aviadores e acabando por se endividar
progressivamente. Ao mesmo tempo, tinham que produzir cada vez mais para sair da dívida.
Criava-se uma situação na qual os seringueiros não tinham como se libertar na maioria das
vezes, nunca percebendo pagamento em espécie que lhe permitisse voltar para suas terras. O
aviamento estabelece uma teia de relações em que o “patrão seringalista” (e/ou um
intermediário/regatão) obtinha um crédito com o seringueiro a partir dos bens essenciais
permutados pela borracha produzida, criando uma situação de “servidão por dívida”153.
O Sistema de aviamento conectava o extrativista seringalista ao mercado exportador,
ao capital estrangeiro norte-americano e inglês que controlavam as casas exportadoras,
interligava os interiores com as cidades, a mata e a urbe, a seiva leitosa da seringueira com o

                                                                                                           
151
CUNHA, Euclides da, 1866-1909. Um paraíso perdido : reunião de ensaios amazônicos / Euclides da Cunha ;
seleção e coordenação de Hildon Rocha. -- Brasília : Senado Federal, Conselho Editorial, 2000. 393 p. --
(Coleção Brasil 500 anos) p.127 e 144
152
GONÇALVES, C. W. P. Amazônia, Amazônias. São Paulo: Contexto, 2001.
153
SANTOS, R. História econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: Editora T.A. Queiroz, 1980.
  179  

mundo154. O aviamento, assim como a patronagem, consolidou muitas das relações


socioeconômicas entre os estratos sociais amazônicos e, sobre outras roupagens, e ainda hoje
sobrevive, inclusive nos territórios estudados por esta pesquisa155.
O espaço amazônico à época da colônia portuguesa, século XVII, era vinculado às
classificações administrativas enquanto sertão, terras incultas, rio das amazonas e confins.
Palavras que designavam terras de pouco conhecimento ou menor interesse. Diante de
acirradas disputas entre franceses, ingleses, holandeses e espanhóis por aquelas terras, a coroa
portuguesa se via na necessidade de lançar mão de estratégias para assegurar a soberania
sobre sua área pleiteada156– dentre jogos burocráticos, negociações internas e externas,
missões religiosas e guarnições militares. Na perspectiva de se atribuir uma utilidade
mercantil e a legitimidade política da posse sobre o território, a “domesticação das terras
incultas”, fazia-se necessário a integração das terras ao comércio marítimo português, sua
exploração econômica e o controle militar. Essa estratégia se dava a partir de tratados
firmados entre os centros econômico-militares e não propriamente pela criação de uma
identidade com os povos locais157.
Antes de se estabelecer a fiscalização fazendária, o controle dos produtos, a
homogeneização da língua e dos credos, foram operadas as missões das Ordens Religiosas e
militares: o aldeamento de povos indígenas em missões jesuítas e a realização das
fortificações militares, como o Forte do Presépio em 1616, na foz do Amazonas onde vai
surgir a cidade de Belém. Medeiros158 aponta como importante ator-autor neste período o
Conselheiro Imperial Alexandre de Gusmão, em sua obra “Resposta ao papel do Brigadeiro
Antônio Pedro de Vasconcelos sobre o Tratado dos Limites da América” (1751) em que

                                                                                                           
154
Esse sistema em “rede”, extremamente espoliador e complexo por ter intermediários as vezes até mesmo
aviados/seringueiros, estabelecia numa peculiar cadência de conexões: a)
Floresta/seringueiras/seringueiros/víveres – a extração do látex/produção da borracha com a exploração do
trabalho estabelecida com a permuta dos produtos de outros locais (alimentícios, instrumentos de trabalho,
vestimenta etc.), não havendo, via de regra, pagamento em espécie ao seringueiro (haviam os contadores para
garantir que a dívida permanecesse); b) Rio/barco/regatão/seringalistas – a tecnologia do barco a vapor e o
“crédito” dos produtos de   subsistência proporcionavam o custeamento da viagem para os locais longínquos – o
seringalista ou o regatão (dono do barco e geralmente intermediário) obtinha a   borracha sem ter qualquer   custo
adicional; c) Urbe/casas-aviadoras/casas-exportadoras – venda da borracha para as casas   exportadoras em  
Manaus ou Belém; d) Capital estrangeiro – o recebimento do crédito controlado pelo capital inglês ou norte-
americano nas casas exportadoras, percebido enquanto moeda, apenas pelas casas aviadoras e seus
intermediários diretos (coronéis, patrões, comerciantes, regatões).
155
O documentário “Nas Terras do Bem-Virá”, Brasil, 2007, 111min.- Direção: Alexandre Rampazzo, traz uma
análise muito bem amparada das condições atuais de trabalho e exploração dos recursos na Amazônia brasileira.
156
Que em muito ultrapassava o Tratado de Tordesilhas.
157
MEDEIROS, R. L. de. Decodificando a Internacionalização da Amazônia em Narrativas e Práticas
Institucionais: Governos da Natureza no Brasil e nos Eua. Tese (Doutorado em Estudos Comparados sobre as
Américas) – CEPPAC. UNB, Brasília, 2012.
158
MEDEIROS, R. A. L. op. Cit. p. 52 - 59
  180  

argumenta a importância dessas terras em disputa com a Espanha. Gusmão opera a linguagem
dos tratados para assegurar a efetividade do Tratado de Madri (1750), mantendo as pretensões
da Coroa Portuguesa – ainda nas suas modificações com os Trados de El Pardo (1761) e
Santo Ildefonso (1777) – nas terras da América Meridional.
Os aldeamentos das missões religiosas vão surgindo em pontos estratégicos ao longo
do Rio Amazonas, na confluência com outros rios como o Tapajós, o Trombetas, o Rio Negro
e o Japurá. Posteriormente estes locais vão dar origem às cidades da região: Santarém,
Óbidos, Manaus e Tefé – respectivamente. Com a domesticação dos índios inicia o processo
de exploração econômica da Amazônia por meio do extrativismo de sua fauna e flora –
especiarias, plumas e peles principalmente – tendo em vista atender o mercado europeu. As
denominadas “drogas do sertão” e os produtos da fauna, não se apresentaram como um
grande atrativo mercantil pela própria dispersão das mercadorias valiosas e dificuldade de
acesso. Por sua vez, também os aldeamentos dos índios nem sempre eram bem sucedidos.
Enquanto conhecedores daquele ambiente, em alguns casos, os mesmos se libertavam e se
refugiavam da “espada e da cruz” portuguesas159, retomando seus hábitos em locais mais
afastados. Porém, junto com os portugueses e a rede sócio-técnico-biológica que avançava,
chegavam também as pestilências virais e bacterianas das quais os índios não tinham defesas.
As epidemias rapidamente se alastravam e ceifavam milhares de vidas em curto período de
tempo160.
Com a criação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e do Maranhão em 1755,
sobre o governo do Primeiro Ministro Marques de Pombal, a Amazônia se integra mais
efetivamente à lógica mercantil. Nesse momento a empresa comunitária jesuítica, fundada na
mão-de-obra servil dos índios amansados, sucumbe diante da empresa colonial,
economicamente mais eficiente, com base na mão-de-obra escravista das diásporas africanas.
Os jesuítas são expulsos da região e as terras passam a ser doadas por cartas de sesmarias
àqueles colonos e soldados que se comprometessem a cultivá-las. A agricultura e pecuária são
ampliadas sendo cultivados cacau, café, algodão, arroz, fumo e anil, consolidando a elite
latifundiária que irá se estabelecer politicamente na região (muito mais ligada a Portugal do
que à elite do resto do país161). Neste período é introduzido o trabalho escravo com negros em

                                                                                                           
159
MEDEIROS, R. L. de. Decodificando a Internacionalização da Amazônia em Narrativas e Práticas
Institucionais: Governos da Natureza no Brasil e nos Eua. Tese (Doutorado em Estudos Comparados sobre as
Américas) – CEPPAC. UNB, Brasília, 2012.
160
Nesse sentido ver RIBEIRO, D. O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 3ª ed. São Paulo:
Companhia das Letras. 2010.
161
Mesmo por questões geográficas, era mais barato, mais fácil e mais perto se deslocar para Portugal do que
para o sudeste do Brasil, especificamente para o Rio de Janeiro onde se situava a elite brasileira à época.
Observações do autor:
1 Mário Meireles (1980: 192) nos informa que, em 1680, esses escravos eram vendidos ao preço de Rs
60$000 por “fôlego vivo” de Angola. As “peças de Guiné”, no mercado de São Luís e Belém, valiam Rs
120$000 a 130$000, enquanto o índio escravo era vendido a Rs 30$000 (SALLES, 1988: 14).
2 As crianças eram vendidas na África, pagando imposto de exportação, sendo agrupadas em diversas
  categorias: “crias de pé”, definidas como aquelas que tivessem de quatro palmos para baixo e 181  
faziam jus à metade do pagamento do imposto. As “crias de peito” eram isentas de impostos
(KLEIN, 1987: 55).
3 No Pará havia um intenso comércio de aluguel de escravos. Segundo nos relata Salles (1988: 170),
um negro de bom físico e gozando de boa saúde era mercadoria cara no Pará Colonial. Os
proprietários dos escravos cobravam a diária do aluguel em 300 réis, ou Rs 7$500 por mês, ou Rs
1756.89$000
Entreporeste
ano.ano
Comoe um
o de 1788
escravo estima-se
podia quepor
ser comprado foram comercializados
Rs 112$500 cerca
por “peça”, esse era28.657162
preçode
inteiramente amortizado em quinze meses de aluguel, ressarcindo assim o capital empatado (SALLES,
1988: 170). As mais caras eram as amas-de-leite que eram compradas a Rs 500$000 e rendiam,
escravos
quandonegros
alugadas,na 320região do sendo
réis por dia, Grão-Pará
o capital einvestido
Maranhão, contribuindo
amortizado para anos.
em cerca de quatro a formação
Havia, naquele tempo, um mercado regular de famulagem das famílias abastadas que podiam pagar
os pretosda
multiétnica de região
sala e dee,cozinha,
com asmucamas, aios emesmos,
fugas dos aias, amas,dando
pagens,origem
arrumadeiras, lavadeiras
às muitas e
comunidades
cozinheiras (SALLES, 1988: 171).
163
remanescentes de quilombo da Amazônia que passaram a viver nos “mocambos” .
POPULAÇÃO DOS ESCRAVOS NEGROS DO GRÃO-PARÁ EM 1849

COMARCAS HOMENS MULHERES TOTAL %

BELÉM 9.637 9.552 19.189 56,10%


CAMETÁ 2.536 2.189 4.725 13,81%
SANTARÉM 2.018 1.865 3.883 11,35%
MACAPÁ 1.516 1.418 2.934 8,58%
BRAGANÇA 1.416 1.350 2.766 8,09%
RIO NEGRO 348 362 710 2,08%

TOTAL 17.471 16.736 34.207 100,00%


Tabela 01 – Publicador
Fonte: Fonte: Publicador
ParaenseParaense
– Belém,– ano
Belém, ano
I, n.º 64,I, de
nº 24
64,de
dedezembro
24 de dezembro dep.1849,
de 1849, p.1, reproduzido
1, reproduzido por
por Vicente Salles em O Negro no Pará (1988: 72).
BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: Formação Social e Cultural. (2009:124)
Observações do autor:
1 Em 1849 a Comarca do Rio Negro ainda pertencia à Província do Grão-Pará, da qual iria se desligar
Na região
em 1850 para se do BaixonaAmazonas
constituir Província dode Santarém, Alenquer, Monte Alegre, Óbidos e Faro,
Amazonas.
2 A Comarca de Belém detinha a maior concentração de escravos da região: 56,10%. A proporção de
os sesmeiros iniciaram
escravos negros decresciapor voltaque
à medida dese1780
subia as
o rioplantações
Amazonas: a de
atualcacau
região,eocupada
criações
pelode gado. Esses
Estado
do Amazonas, detinha apenas 2,08% da população negra escrava.
3 O contingente populacional mais numeroso da Província do Amazonas provinha do grupo caboclo, que
Remediados, aplicados
detinha 63,93% a plantar
do total de habitantes,cacau noque
enquanto grupo deesse
no Pará 20percentual
colonoscaía adquiriram
para 16,20%233 escravos em
conforme
se demonstra no próximo quadro de composição étnica da populção amazônica em 1872 e 1890.
1778. Na medida em que o cacau ganhava importância entre os gêneros exportados entre
1783 e 1792, aumentava a população escrava164. A oscilação da economia cacaueira é
124 Samuel Benchimol
correlacionada à fuga de escravos, seja por estagnação, crise ou fenômenos ambientais que
enfraqueciam a propriedade e criavam as oportunidades. As fugas encontraram condições de
subsistência e isolamento contra as investidas de recaptura nas cachoeiras dos rios Curuá,
Trombetas e Erepecuru/Cuminá no século XIX. Conforme pesquisa de Funes, as épocas de
fuga se davam nas cheias e datas festivas de dezembro a maio, em que os escravos
provinham-se de suprimentos, pólvora e armas e subiam para as áreas menos transitáveis
desses rios. Assim formavam-se os quilombos, que representavam o espaço de reprodução
sócio-material autônomo, com núcleos familiares convivendo em espaço de uso comum. As
relações com o homem branco se mantiveram por trocas comerciais estabelecidas com os
regatões, suprindo os mercados locais com produtos extrativistas como a castanha-do-Brasil,
peles, peixes, tartarugas e excedentes de agricultura, atingindo importância econômica na

                                                                                                           
162
A estimativa é dada por Herbert Klein, da Columbia University de New York, traduzido e publicado pelo
IBGE nas Estatísticas Históricas do Brasil apud BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: Formação Social e Cultural.
3ª edição. Manaus: Valer, 2009. p. 124
163
Esse momento nos é de substancial importância, pois a formação de um dos principais grupos de atores que
compõem a pesquisa tem aí a sua origem. Os negros que se refugiaram da escravidão nas fazendas de cacau das
regiões de Santarém e Óbidos, sobem o Rio Trombetas e se estabelecem acima das cachoeiras onde não podiam
ser recapturados. Esse ponto será aprofundado posteriormente.
164
ACEVEDO, A. & CASTRO, E. Negros do trombetas: guardiões de matas e rios. Belém: Naea, 1993. p.17
  182  

região. Essa participação vai repercutir em proteção por parte dos setores comerciais que se
beneficiavam com as trocas, dificultando as investiduras da ordem escravocrata165.
Na conquista de seus territórios e no domínio sobre os mesmos a relação com os
povos originários é apontada de maneira dúbia na literatura. Ora como relações amistosas, ora
como conflituosas em que os índios eram cada vez mais afastados. Inclusive há relatos sobre
relações de escravidão e sequestro de mulheres indígenas para procriação166. Por sua vez a
autonomia que atingiram sobre os territórios, o substancial contingente populacional que
formaram e as hibridizações culturais e genéticas com os indígenas, assumindo parte de seus
costumes, confluem nos estudos167.
Em 1772 a província do Grão-Pará é separado do Maranhão, posteriormente tornando-
se província do Império em 1823. É subdividido novamente nas províncias do Pará e do
Amazonas pela Lei 582 de 05 de setembro de 1850 que, por sua vez, tornam-se dois estados
federativos em 1889, com a República proclamada168.
Entre 1834 e 1840 uma violenta revolta se instaura na província do Grão-Pará
contribuindo para a afirmação indenitária daqueles povos, principalmente dos subjugados
pelas elites locais. A “cabanagem” explode com os braços dos índios, negros, caboclos e os
brancos renegados e afastados da vida pública. Resumidamente, o movimento toma a capital
Belém em 1835, executando em via pública o presidente provincial Bernardo Lobo de Souza,
o comandante das armas da província, Joaquim Silva Santiago e o capitão James Inglis e
colocando no poder o líder cabano Ten-Cel Félix Antônio Clemente Malcher. O poder sobre a
capital dura pouco sendo retomado no mesmo ano. Isso se dá pelas alianças militares
estabelecidas pelo império (Portugal, Inglaterra, França) e devido às divergências entre os
próprios cabanos, subdivididos em facções, sem uma unidade que permitisse a manutenção do
poder. Por sua vez, subsistindo como guerrilhas, o movimento vai ser liquidado apenas em
1840, levando dois terços da população masculina paraense, cerca de 40.000 homens, na
imensa maioria cabanos. A cabanagem se destaca pelo caráter de secessão que assume com a
proposta de se criar o país do Amazonas. Nesse processo há a participação dos negros dos
                                                                                                           
165
FUNES, Eurípedes. “Nasci nas Matas, Nunca Tive Senhor: história e memória dos mocambos do Baixo
Amazonas”. Tese de doutorado. Pós-Graduação em História da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1995.
166
HILBERT, Peter Paul. A cerâmica Arqueológica da Região de Oriximiná. P. Nº 9 Belém: Instituto de
Antropologia e Etnologia do Pará, 1955.
167
Nesse sentido: ACEVEDO, A. CASTRO, E. Negros do trombetas: guardiões de matas e rios. Belém: Naea,
1993.; ANDRADE, Lúcia M. M. de. Os Quilombos da Bacia do Trombetas: breve histórico. Revista de
Antropologia. Volume 38, nº 01, São Paulo, 1995, p.79-99.; e FUNES, Eurípedes. “Nasci nas Matas, Nunca Tive
Senhor: história e memória dos mocambos do Baixo Amazonas”. Tese de doutorado. Pós-Graduação em História
da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1995.
168
STELLA, T. H. T. A integração econômica da Amazônia (1930-1980). Dissertação (Mestrado em Economia)
– Instituto de Economia. UNICAMP, Campinas, 2009.
  183  

mocambos que auxiliaram os revoltosos e da mesma forma se valeram da instabilidade


política para engrossarem seus contingentes169.
Conforme Ribeiro170, os conflitos de toda ordem que dilaceraram a história brasileira
guardam dois traços importantes: não foram conflitos puros e não chegaram a amadurecer
como uma alternativa viável ao poder, conquanto como reais ameaças. Segundo o mesmo
autor, o caráter marcante desses conflitos interétnicos é a disputa pela hegemonia da imagem
étnica que se buscava imprimir na sociedade. Uma vez no poder representaria outra
organização social em substituição à anterior, percebida enquanto espoliadora171.
Segundo Santos172, além dos portugueses e brasileiros nativos e mestiços, os
imigrantes estrangeiros também contribuíram para a consolidação da extensa rede sócio-
técnica do ocidente na região com a infraestrutura de portos, energia, telegrafia, telefonia,
saneamento, comércio e crédito. Alemães, ingleses, americanos, franceses, judeus, norte-
africanos, sírio-libaneses entre outros, vão trazer e implementar novas tecnologias e compor
também esse processo histórico da gênese desse vastíssimo território.
No império e ainda na república, perdurava uma constante ameaça de interesses
externos173 e indeterminação das fronteiras territoriais na região. Se, de um lado, o avanço da
colonização com suas espoliações, aculturações, miscigenações acarretava na desconsideração
completa e subjugação dos povos de lá, do outro, criava uma vinculação religiosa, linguística
                                                                                                           
169
SALLES, V. O Negro no Pará, Sob o regime da escravidão. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas e
Universidade Federal do Pará, 1971.
170
RIBERIO, D. O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras.
2010. p. 167-168
171
Apenas para marcar a posição cabe ressaltar que, em nossa leitura, as concepções de exploração social,
habitualmente percebidas como de um grupo étnico sobre outro, ou de uma classe sobre outra, “do homem pelo
homem”, é estendido também à sua microfísica que leva a perceber essa exploração no interior de cada grupo
étnico entre seus membros, em cada unidade familiar de qualquer classe, numa interação individual do mais
velho sobre o mais novo, do mais forte sobre o mais fraco, ou mesmo, do humano sobre os animais, p. ex. O
pano de fundo ético judaico-cristão, ampliado e “purificado de suas bases divinas” nos ideias iluministas e
marxistas de igualdade, tendem a ver um “bom” e um “mau” estancados que culminam inevitavelmente num
maniqueísmo simplista. Tem tanto “mau” presente no “bem” e vice-versa que optamos – conforme posição
firmada na segunda parte da tese – em não apresentar uma fotografia da hierarquia que se sobrepõe sobre os
interesses em jogo (que no nosso caso vai dos acionistas das megacorporações mineradoras tomando os
territórios dos quilombolas com o aval do governo, ao cachorro sofrido da comunidade cuja existência é despida
de qualquer valor intrínseco para os mesmos), mas apresentá-la num mapa que pode ser refeito, em seu
movimento, em suas conexões, em suas desterritorializações e reterritorializações, na expressão de Deleuze e
Guattari.
172
SANTOS, R. História econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: Editora T.A. Queiroz, 1980. p. 97
173
A forte pressão externa para a abertura do Amazonas para livre navegação e comércio internacional, apoiada
pela Inglaterra, França, Peru, Bolívia, Equador, Venezuela e elites locais, tinha como principal interessado os
EUA. O império norte-americano chegou a cogitar a invasão da Amazônia em 1850 para alocar ali a população
negra do sul daquele país na exploração da borracha e algodão. Com a criação em 1853 da Companhia Nacional
de Navegação e Comércio do Amazonas, monopólio concedido ao Barão de Mauá, e, posteriormente, com a
abolição da escravatura nos EUA em 1863, a ameaça foi afastada. Por sua vez, em 1866 ocorre a abertura da
livre navegação na Amazônia à todos os países, excetuada para navios de guerra, e somente em nome “da ciência
e do progresso”.
  184  

e comercial que contribuía para a consolidação político-institucional do Estado brasileiro


nestes territórios. O princípio do direito internacional, uti possidetis, fora constantemente
evocado para assegurar a soberania nacional na região, legitimado pela caracterização do uso
da terra, ainda que na perspectiva assimétrica brevemente narrada. Neste contexto, um ator de
destaque foi o Barão do Rio Branco, com importante missões políticas para assegurar os
interesses brasileiros frente as ostensivas externas, conforme Medeiros:
A atuação do Barão se inscreve nas seguintes contendas: (1) o
território de Palmas e a contenda de limites com a República
Argentina (Tratado de Montevidéu de 25 de janeiro de 1890 e
arbitramento do presidente dos Estados Unidos da América); (2)
disputa territorial com a Guiana Francesa (caso Amapá), pretensões da
França na bacia amazônica, a controvérsia foi resolvida por
arbitramento do Conselho Federal Suíço, missão do Barão em Berna;
(3) limites do Brasil com a Guiana Inglesa, também ocorreu
arbitramento, não de todo satisfatório aos interesses do Brasil,
Joaquim Nabuco foi convidado por Rio Branco para representar o
Brasil, Tratado de Arbitramento de 6 de novembro de 1901; (4) a
questão do Acre, após toda a movimentação de confronto da soberania
boliviana por parte de seringueiros brasileiros e o agravamento da
situação com a entrada da Bolivian Syndicate, Paranhos Jr. costura
acordos com EUA e Inglaterra, a fim de desfazer os interesses
comerciais do Bolivian Syndicate e prevenir potenciais intervenções.
Esse arranjo político deixa o caminho livre para o Brasil continuar
negociando diretamente com a Bolívia (Tratado de Petrópolis de 17 de
novembro de 1903); e (5) pretensões peruanas aos territórios entre os
rios Javari e Madeira, expansão brasileira nas bacias dos rios Purus e
Juruá (Tratado de Limites de 8 de setembro de 1909); limites com a
Colômbia (tratado de 24 de abril de 1907); (6) Uruguai (tratado de 30
de outubro de 1909); e (7) Guiana Holandesa, em 1906. Em todas elas
foram utilizadas a categoria do uti possidetis para legitimar a posse
brasileira174.

A consolidação do Estado Brasileiro atrelado às elites litorâneas, principalmente da


região Sudeste e Sul, e suas políticas centralizadoras, vão marcar o continuado e reconhecido
descaso do país para com a região. Marginalizada e submetida a políticas dilapidadoras
atreladas aos interesses centrais, muitas vezes em detrimento dos interesses regionais, o Norte
do país seguiu flutuando entre a negligência interna e o interesse externo. A atividade
econômica altamente lucrativa da borracha, que tanto drenou recursos para a capital, Rio de
Janeiro, na época, sofre declínio em 1913 devido à concorrência das platations de
seringueiras da Inglaterra na Ásia. Houve uma ruptura quantitativamente significativa da
                                                                                                           
174
MEDEIROS, R. L. de. Decodificando a Internacionalização da Amazônia em Narrativas e Práticas
Institucionais: Governos da Natureza no Brasil e nos Eua. Tese (Doutorado em Estudos Comparados sobre as
Américas) – CEPPAC. UNB, Brasília, 2012.  
  185  

exportação da borracha amazônica para os países exportadores. Os mesmos passam a adquirir


por preços bem inferiores a borracha asiática, repercutindo na desagregação da complexa rede
social que se formou em torno desse extrativismo, acarretando inúmeras falências e novas
reestruturações sociais. Atividades de agricultura são retomadas e outros produtos do
extrativismo vão ganhar espaço como a castanha, óleos vegetais, madeiras e fibras vegetais,
contudo sem atingir a relevância da era áurea da borracha.
Essa breve contextualização histórica nos serve de base para compreender o que se
sucede posteriormente e que assume maior importância no estudo, principalmente com as
políticas de desenvolvimento implementadas a partir da década de 1960. Adentrar na história
dessa região, não obstante os olhares historiográficos arbitrarem seus enfoques e
reproduzirem seus recortes, visou nortear o percurso, apresentar algumas das conexões que
vão configurar as territorialidades que se instauraram. As visões relatadas também não
deixam de ser contrastadas com as vivências, por vezes dando margem a outras
interpretações.
Se de um lado temos a configuração socioambiental, econômica, institucional e
territorial amazônica atrelada ao extrativismo de seus recursos, à exploração do trabalho
migrante, à escravidão, aos interesses egóicos das elites – realidade não muito diferente do
restante do país – mas num contexto de isolamento e “descaso” para com a região; de outro
lado, esse mesmo descaso e a biogeografia local colaborou não apenas para manter esse
bioma mais íntegro, mas também para que os povos nativos e os espoliados negros e mestiços
se refugiassem nos interiores e estabelecessem conexões mais fortes com outros
conhecimentos, sobretudo dos próprios nativos. Por essa perspectiva, teriam obtido maior
“independência” em relação aos modos de vida dos colonizadores e possibilitando uma maior
diversidade de grupos humanos que ainda sobrevivem (dentre indígenas, ribeirinhos,
quilombolas) com relativo isolamento. Por assim dizer, grupos menos dependentes dos
conhecimentos, das técnicas e dos objetos do ocidente, agenciando os elementos daquele
ambiente de forma própria, relacionada aos conhecimentos locais, de maneira “imediata” e
sem desintegrá-lo ou homogeneizá-lo por completo. Dependem da “integridade” do ambiente
que lhes provem praticamente tudo que necessitam, mas assistem um intercambio cada vez
mais intenso com os saberes e objetos ocidentais que lhes reconfigura junto com seus
ambientes.
Apesar de existir uma grande diversidade cultural no restante do país, as comunidades
e povos tradicionais das demais regiões, via de regra, apresentam menor grau de “autonomia”
se comparados com os amazônicos. As configurações ambientais que se desenharam os
  186  

tornaram mais “integrados” e dependentes das tecnologias “comuns”, não obstante estarem
marginalizados ou mesmo isolados. Além do mais, com exceção de poucas áreas como o
norte, as demais regiões guardam o estigma da dizimação de parte significativa dessa
diversidade sócio-natural (sobretudo dos indígenas), bem como o extermínio de parte
substantiva do próprio ambiente e dos saberes locais. Nesse sentido, o que o imenso
ecossistema amazônico pode oferecer em termos de subsistência para grupos sociais
tradicionais ou autóctones, tornou-se extremamente raro se comparado ao restante do país.

1.2 Integrar e desintegrar: o avanço do progresso e a construção da ordem

O vale do Amazonas em futuro não muito remoto será um centro de


civilização e o celeiro do mundo.
(A. Humboldt)

Entre as idas e vindas do campo nas unidades de conservação eu encontrava sempre


um ambiente confortável e familiar na Unidade Avançada José Veríssimo em Oriximiná. Em
grande parte das vezes estavam estabelecidos ali estudantes e professores da Universidade
Federal Fluminense de áreas diversas como medicina, enfermagem, antropologia, veterinária
entre outras, que proporcionavam ricas trocas de experiências e informações.
A UAJV, criada pela resolução 024 de 1972 do conselho Universitário, é vinculada à
Pró-Reitoria de Extensão da UFF e tem como objetivo atividades de ensino, pesquisa e
extensão, levando estudantes da universidade federal no estado do Rio de Janeiro ao
município de Oriximiná, na calha norte do Pará. A UAJV conecta-se diretamente às políticas
governamentais do regime militar que estabeleceram na região amazônica diversas unidades
acadêmico-extensionistas subordinadas às universidades do sudeste, sob o lema
governamental do “integrar para não entregar”. Com trabalhos diversos, os Campis marcavam
importantes políticas governamentais que visavam suprir as reais carências das diversas
localidades, principalmente em educação e saúde. Instalada incialmente no município de
Óbidos em 1972 e transferida para Oriximiná em 1973, onde se estabeleceu, a UAJV
contribuiu substantivamente para a estruturação do município com a formação de mão de obra
local, intercâmbio de profissionais de fora, estruturação do sistema de saúde (SUDS e depois
SUS) e com o Hospital e Maternidade São Domingos Sávio. Essas geopolíticas175 marcam a

                                                                                                           
175
Considerando o termo aqui em sua concepção mais amplamente disseminada: enquanto políticas formuladas
levando-se em consideração os fatores geográficos como formas de se imprimir disciplina e poder sobre os
territórios e re-estruturar a realidade sócioeconômica.
  187  

ambivalência das propostas governamentais para a região, o que tanto integra quanto
desintegra, conforme o olhar pregresso nos revela.
Se a economia gomífera fez conectar a seiva daquela planta à toda produção técnico-
industrial do ocidente, fez estender também parte dessa rede sócio-técnica à região, sobretudo
nos centros urbanos Belém e Manaus. Trouxe iluminação às ruas, novos meios de transporte,
serviços variados. Trouxe a infraestrutura dos grandes centros, inclusive uma incipiente
indústria manufatureira e a reprodução do conhecimento científico com a Universidade de
Manaus, em 1912 (anterior Escola Livre de Manaus em 1909). Entretanto, estar sustentada em
uma economia primário-exportadora, com foco centrado em poucos produtos, basicamente a
borracha, escancarava a fragilidade dos laços que amarravam essa rede. A posição de
isolamento, a dilapidação tributária do governo central, as relações pré-capitalistas de
produção com o sistema de aviamento, as constantes transferências de recursos das elites para
o exterior e a predominância do capital mercantil, são apontados como fatores que inibiram a
acumulação primitiva do capital e consequente reprodução ampliada do mesmo, com o
reinvestimento na industrialização e diversificação econômica. Ou seja, apesar de auferir
imensos recursos, estes não promoveram o desenvolvimento do capitalismo industrial na
região, como ocorreu com o café no sudeste do país.
Com a “revolução” de Getúlio Vargas em 1930, inicia-se um novo período de
integração territorial no Brasil, com significativas mudanças em âmbito comercial e
produtivo. A exportação primária vai cedendo lugar para a industrialização e para o comércio
nacional interno, como uma bem-sucedida reação à crise de 1929 que atingiu globalmente os
países capitalistas. Com o fortalecimento do Estado e sua intervenção mais efetiva na
economia, a partir do Estado Novo em 1937, surgem políticas públicas que corroboram a
modernização do Estado brasileiro, tais quais: programas de colonização agrária e créditos
agrícolas e industriais pelo Banco do Brasil; instituem-se órgãos setoriais do governo para
tratar assuntos estratégicos, criam-se empresas estatais de grande porte e promove-se a
nacionalização de recursos minerais e o controle federal de produtos agrícolas – dentre eles o
cacau, o café e o açúcar. Integrar a região Norte através da institucionalização de políticas
estratégicas passa a ser uma das bandeiras desse governo. Pode-se depreender o matiz desse
direcionamento político em algumas passagens do pronunciamento presidencial intitulado de
Discurso do Rio Amazonas, proferido no Teatro Amazonas em 10 de outubro de 1940:
[...] Conquistar a terra, dominar a água, sujeitar a floresta, foram as
nossas tarefas. E nessa luta, que já se estende por séculos, vamos
obtendo vitória sobre vitória. [...] Necessitais adensar o povoamento,
acrescer o rendimento das culturas, aparelhar os transportes. [...] Da
  188  

colonização esparsa [...] devemos passar à concentração e fixação do


potencial humano. [...] Com elementos de tamanha valia, não mais
perdidos na floresta, mas concentrados e metodicamente localizados
será possível, por certo, retomar a cruzada desbravadora e vencer,
pouco a pouco, o grande inimigo do progresso amazonense, que é o
espaço imenso e despovoado. É tempo de cuidarmos, com sentido
permanente do povoamento amazônico.[...] O nomadismo do
seringueiro e a instabilidade econômica dos povoadores ribeirinhos
deve dar lugar a núcleos de cultura agrária, onde o colono nacional
recebendo gratuitamente a terra, desbravada, saneada e loteada, se fixe
e estabeleça a família com saúde e conforto.[...] Vim para observar de
perto as condições de realização do plano de reerguimento da
Amazônia. Todo o Brasil tem os olhos voltados para o Norte, com o
desejo patriótico de auxiliar o surto do seu desenvolvimento. E não
somente os brasileiros; também os estrangeiros, técnicos e homens de
negócios, virão colaborar nesta obra, aplicando-lhe a sua experiência e
os seus capitais, com o objetivo de aumentar o comércio e as
indústrias e não, como acontecia antes, visando formar latifúndios e
absorver a posse da terra, que legitimamente pertence ao caboclo
brasileiro. [...] Nada nos deterá nesta arrancada que é, no século XX, a
mais alta tarefa do homem civilizado: conquistar e dominar os vales
das grandes torrentes equatoriais, transformando sua força cega e sua
fertilidade extraordinária em energia disciplinada176.

Nesse cenário, compreendia-se como principal óbice ao desenvolvimento da


Amazônia a concepção de um “vazio demográfico” – o que se reproduziu no período anterior
e também no posterior. Esse argumento pode ser reafirmado pelas estatísticas que de fato
sempre apontaram a baixa densidade demográfica, mas esta percepção se relativiza quando se
conhece os modos de vida das populações nativas e tradicionais que ali vivem e as relações
que estabelecem com aquele ambiente. Entretanto, nesse novo contexto do “coletivo em
expansão” e sua bandeira de colonização, a estratégia política de Estado consubstanciava-se
num plano denominado “Movimento de Reconstrução Nacional” que possuía como diretrizes
a realização de expedições para ocupar os “vazios demográficos”. Não obstante a
insensibilidade do governo para com os povos nativos, aqueles que promoveram as
expedições buscaram integra-los com maiores cuidados. Assumem a mesma perspectiva
experimentada no início da República, na primeira década do século XX, por Candido
Mariano da Silva Rondon, o Marechal Rondon, percebendo os mesmos enquanto possíveis
formadores da nação e empenhando sua filosofia do “morrer se preciso for, matar nunca”.
A “Marcha para o Oeste” e a “Expedição Roncador-Xingu” rumara no começo da
década de 1940 para o “coração do Brasil, desconhecido e mitificado”, com fins de promover
                                                                                                           
176
VARGAS, Getúlio. Discurso do Rio Amazonas. In. Revista Brasileira de Geografia. Quarto centenário do
descobrimento do Rio Amazonas. Abril – Junho. 1942. p. 3 - 6
  189  

sua colonização. A missão era “preencher seus vazios” com a abertura de estradas e
identificação de locais propícios à implementação de campos de pouso, bases militares e
futuras cidades. A épica expedição foi liderada inicialmente pelo Coronel Flaviano de Mattos
Vanique e seu grupo de frente com 40 homens, cada um com “um fuzil, cinquenta balas e um
par de botas”. No seu avançar passou a ser liderada pelos irmãos Leonardo, Orlando e
Cláudio Villas-Bôas, após a desistência de Vanique que não queria lidar com os indígenas. A
epopeia percorrera mil e quinhentos quilômetros de picadas abertas e rios, desbravando o vale
do Araguaia e o sul da Amazônia177. A medida que avançava deixava para trás a marca do
“progresso”, com bases militares, criação de estradas, pistas de pouso e fundando dezenas de
vilas que posteriormente tornam-se cidades. Junto com as estradas chegam as fazendas, a
demarcação do território sob a lógica colonizadora da política à brasileira, privilegiando
sempre os “amigos do rei”. A mata vai cedendo lugar às plantações de grãos e criação de
gado, os povos nativos vão se hibridizando e sucumbindo nas doenças, nos trabalhos
espoliadores e na perda de seus habitats. Na ambiguidade dessas relações e na força política
dos Villas-Bôas e Darcy Ribeiro, foi criado a primeira terra indígena demarcada em 1961,
pelo então presidente Jânio Quadros. O Parque Nacional do Xingu (hoje Parque Indígena do
Xingu), com 27 mil quilômetros quadrados, abriga catorze etnias representando um mosaico
linguístico com quatro grande famílias: Carib, Aruak, Tupi e Jê. Essa perspectiva política da
época entendia ser necessário o isolamento cultural dos indígenas, tanto quanto possível, para
assegurar sua subsistência, postergando ao máximo o inevitável contato com o homem
branco.
O pensamento geopolítico militar brasileiro no primeiro momento de Vargas tem
como expoente Mário Travassos com sua obra Projeção Continental do Brasil de 1938.
Preocupado com a integração e controle militar-econômico do continente sul-americano com
a liderança brasileira, sua análise subdivide-se em dois eixos de projeção estratégica:
Atlântico x Pacífico e Prata x Amazonas. Travassos percebia como desafio a essa integração
econômica sul-americana a forte influência norte-americana no continente. Em particular,
negativo aos interesses brasileiros, a influência dos EUA na bacia amazônica. Dentro dessa
perspectiva iniciam-se as projeções de fortalecimento político institucional através de redes de

                                                                                                           
177
VILLAS BÔAS, O.; VILLAS BÔAS, C. A Marcha para o Oeste: A epopeia da expedição Roncador-Xingu.
São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  190  

transportes terrestres e aéreos, telecomunicação, trocas econômicas e povoamentos que


conectassem longitudinalmente as regiões mais isoladas do norte com o litoral sul-sudeste178.
No primeiro período da era Vargas a Amazônia mantinha-se na condição de
exportadora primária, entretanto mais voltada para o mercado interno e com exportações mais
diversificadas (apesar da borracha se manter como o principal produto). A ligação com o
restante do país se dava pelo comércio costeiro através da cabotagem. Enquanto o sudeste e
sul se industrializavam cada vez mais, as desigualdades regionais se exorbitavam, marcando
ainda mais os contrastes entre os estados ricos e pobres no país. Vargas, com sua política de
forte apelo nacionalista, amplia a presença do Estado na região Norte e cria o Serviço de
Navegação do Amazonas e de Administração de Porto do Pará (SNAPP), estatizando as
companhias inglesas The Amazon River Steam Navegation Company Limited e Port of Pará.
Em 1943 cria novos Territórios Federais (além do Acre) em áreas estratégicas com presença
de minerais: Rio Branco, Guaporé e Amapá179.
Entretanto, neste mesmo período, o Brasil estava sobre forte pressão dos EUA para
que aderisse aos Acordos de Washington e saísse da condição de país neutro com relação à II
Grande Guerra. Cedendo à pressão, o Brasil (sob a ameaça de invasão norteamericana no
Nordeste) declara guerra ao Eixo – Alemanha, Itália e Japão. Esse episódio vai repercutir
significativamente na região Amazônica, ao mesmo tempo em que esta vai ganhar
importância crucial na II Guerra. Com o controle do Japão sobre a heveicultura na Ásia, que
se tornara a principal fornecedora de borracha para o ocidente, a indústria americana e aliada
bélica e automobilística viu-se gravemente ameaçada e novamente a borracha da Amazônia
ganha importância mundial. Nesse momento, a presença norte-americana na Amazônia se
fortalece abrangendo as esferas empresarial, política e militar. Em contrapartida à adesão
brasileira, os EUA vendem armamentos para o Brasil e concedem altos valores em
empréstimos que possibilitaram a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e da
Companhia Vale do Rio Doce (CVRD).
Em 1942 ocorre uma nova etapa de migração nordestina para a Amazônia, no episódio
conhecido como “Batalha da Borracha”. Para atender as demandas emergências dos EUA e
dos aliados em guerra, o governo brasileiro inicia uma grande campanha publicitária para
angariar mão de obra para os seringais, tendo como foco principal os nordestinos castigados
pela seca. Diziam as campanhas: “Rumo à Amazônia – Terra da fartura”, “Vai também para
                                                                                                           
178
MEDEIROS, R. A. L. Decodificando a Internacionalização da Amazônia em Narrativas e Práticas
Institucionais: Governos da Natureza no Brasil e nos Eua. Tese (Doutorado em Estudos Comparados sobre as
Américas) – CEPPAC. UNB, Brasília, 2012. p. 96 - 98
179
Atuais estados de Roraima, Rondônia e Amapá.
  191  

Amazônia – Protegido pelo SEMTA”, “Mais pneus para a vitória”, “Mais borracha para a
vitória”, “Cada um no seu lugar – Brasil para a vitória”, entre outros slogans tresvariados,
propagandeados pelo governo que contratara até o artista suíço Jean-Pierre Chabloz180.

Ilustração 02: Jean-Pierre Chabloz, 1942. In. Jornal da Unicamp, nº 542, Campinas. 15 de outubro de 2012.

Como era necessário um aumento exponencial da produção de borracha e as


migrações, nesse primeiro momento, não estavam cumprindo suas metas, passou-se a uma
convocação compulsória de nordestinos para os seringais. Os “soldados da borracha”, em
torno de cinquenta mil pessoas, ao contrário do paraíso difundido pelo governo,
(re)encontraram o “inferno verde”181 que, diante das condições insalubres de transporte,
alojamento e trabalho nos seringais, ceifou milhares de vidas (em torno de 30% a 40% das
pessoas enviadas ou mais). Os EUA participaram do processo ativamente fornecendo recursos
financeiros e tecnologias, drenando gordas verbas para o SNAPP para ampliar a navegação,
inclusive exigindo um contrato de trabalho entre seringalista e seringueiro que destinasse 60%
do lucro ao seringueiro182. Esse acordo jamais foi cumprido, repetindo-se o mesmo sistema de
aviamento narrado anteriormente. Nos permitimos verbalizar que se há uma assimetria nas
relações exteriores que submetem o país, grosso modo, à eterna condição de colônia
fornecedora de matéria-prima, internamente há um amparo, algo mais do que uma
cumplicidade e complacência, por parte da elite nacional que não apenas historicamente
sustenta essa condição, vendendo aviltantemente os recursos que deveriam ser bens comuns,
mas a própria alma do povo.

                                                                                                           
180
MORAES, A. C. A. Jean-Pierre Chabloz e a Campanha de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia
(1943): cartaz e estudo preliminar em confronto. In. VI EHA – Encontro de História da Arte – Unicamp.
Campinas, 2010.
181
Obra literária, com onze contos, de 1908 de Alberto Rangel. Assim como Euclides da Cunha, que chefiou a
expedição para o auto Purús, Rangel parceiro de Euclides, em sua obra buscava retratar a vida do homem na
floresta amazônica e o trabalho duro nos seringais. O livro com seu “ardente verbalismo” desmitificava a ideia
de Eldorado que habitava o consciente popular de outras regiões do país na época.
182
STELLA, T. H. T. A integração econômica da Amazônia (1930-1980). Dissertação (Mestrado em Economia)
– Instituto de Economia. UNICAMP, Campinas, 2009. p. 76
  192  

Nesse período a aliança estadunidense configurava-se também com a presença das


corporações Rubber Development Corporation - RDC, a Board of Economic Warfare, a
Rubber Reserve Company - RRC, a Reconstrucction Finance Corporation e a Defense
Supllies Corporation. O Brasil, por sua vez, cria o Serviço Especial de Mobilização de
Trabalhadores para a Amazônia – SEMTA, que posteriormente é substituído pela Comissão
Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia - CAETA, a
Superintendência do Abastecimento do Vale Amazônico - SAVA e o Banco de Crédito da
Borracha – BCB, associado ao capital americano.
Os resultados dessa associação não foram positivos para a região e nem para os
trabalhadores, muito pelo contrário. Além da baixa produtividade, a aliança se findou logo
que se recuperou o poder sobre a produção asiática, ocasionando novamente diversas
falências nos seringais brasileiros. Todo esse projeto fora estruturado para atender uma
demanda de curto prazo, sem uma visão de futuro que assegurasse sua continuidade. O custo
em vidas humanas expõe um episódio lamentável da história do país. Na mesma linha, a
experiência realizada pela Ford em Belterra levou o mesmo destino da anterior em
Fordlândia: o abandono. Adiante, a produção da borracha se volta para o mercado interno,
mas sem atingir grande relevância comercial, ou mesmo, sem se manter sustentável
economicamente.
Na sequência da primeira era Vargas – que inaugura uma “nova modalidade” de
integração desses interiores que se estenderá nas próximas décadas – outros episódios
importantes vão configurar a área. Com a Constituição Federal de 1946, criou-se o Plano de
Valorização da Amazônia e, em seu artigo 199, passou-se a destinar 3% da renda tributária da
União para a Amazônia183. Em 1952 foi criado o Instituto Nacional de Pesquisas da
Amazônia – INPA, substituindo o Instituto Internacional da Hileia Amazônica – IIHA de
1947, considerado ameaça à soberania nacional184. O BCB estatizado subsidiava a cadeia
produtiva da borracha que já não se sustentava por si só, mantendo a consolidada e obsoleta
estrutura econômica local, mas politicamente estável e vinculada a floresta e seus povos. Em

                                                                                                           
183
No documento oficial do governo chamado “Operação Amazônia” de 1966, é relatado, página 40, que: “Não
se cumpre o dispositivo constitucional de vincular três por cento da recita tributária para programas de
valorização da Amazônia”.
184
O ex-presidente, então parlamentar, Arthur Bernardes liderou a campanha contra o Instiuto da Hiléia, dizendo
ser o mesmo uma proposta de internacionalização da Amazônia, destacando que o mesmo: “poderia adquirir,
possuir e levar bens, contratar e assumir obrigações, receber contribuições e donativos, movimentar fundos, criar
e gerir centros científicos e outros serviços em geral, executar atos legais necessários às finalidades”. O IIHA,
com conclave em Iquitos, Perú, reunia além dos países possuidores de territórios amazónicos, os que detinham
relações coloniais como França, Holanda, Inglaterra e também a Itália que não se enquadrava nos intereses
diretos. GOVERNO FEDERAL. Operação Amazônia, Brasília. 1966. p. 130
  193  

1950 o BCB vai ser renomeado enquanto Banco de Crédito da Amazônia – BCA, ampliando
o rol de operações bancárias para diversas atividades, não apenas a borracha.
O retorno democrático de Vargas em 1951 marcou o pensamento nacional-
desenvolvimentista, em certa medida, influenciado pela Comissão Econômica para a América
Latina e Caribe da ONU, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento – BNDE e pela doutrina
da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos e seu diagnóstico de eliminar os “pontos de
estrangulamento” da economia nacional. Por sua política própria foi criada a Petrobrás em
1953, entre outras estatais, consideradas como grande obra do nacionalismo político-
econômico de Vargas a contragosto norte-americano185. Para a região amazônica suas
políticas buscavam a promoção de um desenvolvimento capitalista, mas sem desconstituir os
sistemas econômicos vigentes na época e suas relações de poder (considerando os interesses
das elites locais e a ordem social estabelecida). A Amazônia seguia como consumidora de
produtos de toda ordem e exportadora primária de produtos do extrativismo e da agricultura.
Neste período, em 1953, foi regulamentado o Plano de Valorização da Amazônia e
criada a Superintendência para a Valorização Econômica da Amazônia – SPVEA, pela Lei
Federal 1806 de 1953186. Essa mesma Lei incorpora à Amazônia o Estado de Goiás, do
Maranhão e do Mato Grosso, que passou a se chamar Amazônia Legal. Aí estabelecidas suas
delimitações por razões geoeconômicas, como forma do governo planejar e promover o
desenvolvimento da região, não mais pela característica florestal do bioma.
Após Vargas, no período subsequente, a lógica do capitalismo industrial se aprofunda,
constituindo-se indústrias ainda mais pesadas, realizando-se empréstimos ainda mais
vultuosos, criando uma vinculação ainda mais estreita com a sócio-tecnologia do modelo
econômico ocidental – um alinhamento mais fiel como ocorreu no governo Dutra. Na mesma
medida em que se aprofunda o capitalismo industrial e sua fome de mobilizar uma imensa
diversidade de seres humanos e não-humanos, se aprofundam as desigualdades entre os
centros e as periferias, tanto na microescala quanto na macro. A Amazônia agora se torna uma
importante “fronteira de recursos” e deve ter continuada a política de integração já iniciada
por Vargas. Só que ampliada, criando-se novas conexões, conexões mais íntimas com a
própria rede sócio-técnica que se instaurara: por estradas.

                                                                                                           
185
SKIDMORE, T. E. Brasil de Getúlio Vargas à Castelo Branco (1930 – 1964). Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1975.
186
A SPVEA tinha como objetivo: a) assegurar a ocupação da Amazônia em um sentido brasileiro; b) constituir
na Amazônia uma sociedade economicamente estável e progressista, capaz de, com seus próprios recursos,
prover a execução de suas tarefas sociais; c) desenvolver a Amazônia num sentido paralelo e complementar ao
da economia brasileira.
  194  

No governo de Juscelino Kubitscheck, 1956 – 1961, destacam-se a criação de Brasília


– que desloca a capital para região central do país – e a implementação das diretrizes
estabelecidas ainda no governo anterior para a dinamização da economia nacional. As
mesmas vão constituir o “Plano de Metas” do governo, abarcando cinco setores básicos da
economia e trinta e um objetivos – “cinquenta anos em cinco” era o lema desenvolvimentista
do governo. Dos cinco setores gerais – indústria de base, transportes, energia, alimentação e
educação – os três primeiros drenaram 93% dos recursos. Nesse período foi criada a Zona
Franca de Manaus – ZFM, pela Lei 3.173/1957 que, apesar de ser direcionada para o
comércio externo com os países vizinhos, foi forte instrumento de integração com o mercado
interno. Também foi criada a Universidade Federal do Pará – UFPA, o Acre se eleva a
categoria de Estado em 1962 e se iniciam os levantamentos aerofotométricos na região para
levantamentos de suas “potencialidades”. Ainda neste momento se inicia a integração da
região amazônica à malha viária nacional: a BR-010 – Belém/Brasília concluída em 1960
com 1954 Km de extensão; a BR-029 – Brasília/Porto Velho/Rio Branco, concluída em 1961
com 3.306 Km.
A Amazônia ocidental e a oriental passam a estar conectadas com a nova capital do
país por longas estradas, algumas até então não pavimentadas em vários trechos. Essa
aclamada acessibilidade vai repercutir no predomínio de outra forma de mobilização daquela
socionatureza, não mais atrelada aos conhecimentos locais, à floresta e a sua grande
diversidade. Ou pelo menos, não a tendo mais como principal atrativo. Chega gradativamente
a vez do “grande capital” levado pelas ações do governo, empresas e fazendeiros, todos “de
fora” daquele contexto. Neste momento, os olhos se voltam muito mais para o que há no
subsolo ou na terra logo abaixo da floresta – mineração agricultura e pecuária. “Na prática”
despindo a floresta de valor, ou dando-lhe mais valor quando suprimida, exterminada, como é
o caso da indústria madeireira que, em seu modelo de exploração, simplesmente dizimava a
mesma187.
Nos momentos que se sucederam à história política narrada, a excepcionalidade do
regime militar marca outro momento desta pesquisa: as políticas de desenvolvimento e
conservação que recaíram sobre a área elegida e suas contínuas transformações desde então.
A análise agora se volta para os documentos oficiais, com foco nas políticas públicas
implementadas e suas consequências, numa interpretação e descrição próprias, com menor
recursividade aos dados secundários.
                                                                                                           
187
Não obstante nos documentos oficiais e pesquisas da época ter menções constantes sobre a necessidade de
“exploração racional” dos recursos florestais de maneira a posibilitar sua continuidade.
  195  

1.3 “Amazônia: de última página do Gênesis ao preâmbulo de um mundo futuro”

Mensagem da Amazônia
Prezado Compatriota:
1. Venha investir na Amazônia, nossas terras são férteis e tudo nelas é
abundante!
2. Leis federais, estaduais e municipais oferecem ao homem de empresa
brasileiro condições altamente favoráveis para participar do
programa de aceleração do desenvolvimento da região amazônica.
3. A SUPERINTENDENCIA DO DESENVOLVIMENTO DA
AMAZÔNIA (SUDAM) e o BANCO DA AMAZÔNIA S/A (BASA) estão
à sua disposição para ajudá-lo a investir num dos muitos projetos em
implantação: são empreendimentos industriais, agrícolas e pecuárias
disseminados na imensa extensão territorial que é a Amazônia
brasileira.
4. Venha, pois participar do desbravamento econômico da Planície
Verde, através da Operação Amazônia.
5. Seja mais BRASILEIRO conhecendo melhor a Amazônia e ajudando a
integrá-la definitivamente no patrimônio ativo nacional.
(Mensagem da Amazônia – Álbum Operação Amazônia, 1967)

Em 1966 é apresentado ao então Presidente da República, Marechal Humberto de


Alencar Castello Branco, o relatório intitulado de “Operação Amazônia”, desenvolvido pelo
Ministério Extraordinário para Coordenação dos Organismos Regionais – MECOR,
comandado pelo então Ministro Marechal Oswaldo Cordeiro de Farias. O fulcro deste
documento assentou-se no binômio desenvolvimento e segurança, como forma de reformular
as diretrizes políticas para a Amazônia a partir de um compêndio de diferentes informações e
experiências relativas à área. Inspirado na experiência da “Operação Nordeste”, a proposta da
Operação Amazônia visou reorganizar o aparato legislativo em nível federal que recaia sobre
a região e recriar um sistema de incentivos tributários e de projetos de infraestrutura para
atrair investidores. Porém, diferente da primeira, tinha como fator preponderante declarado a
questão da segurança nacional e percebia no desenvolvimento econômico, dentre outros
fatores, uma forma de assegurar o adensamento populacional para superar a ameaça do vazio
demográfico (o que não era um problema para o nordeste). A Operação Amazônia estabelece
uma ampla revisão do “I Plano de Valorização” de 1953/54, que sequer foi examinado pelo
Congresso Nacional, e vai ocasionar a extinção da Superintendência para a Valorização
Econômica da Amazônia - SPEVEA e subsequente criação da Superintendência do
Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM.
  196  

O documento em foco para empenhar sua análise subdivide o “imenso” território


amazônico em quatro “grandes subáreas”: a Amazônia litorânea (Macapá, Belém, zona
Bragantina), a Amazônia central (estado do Amazonas próximo ao Brasil central), a
Amazônia fronteira (todo o cordão fronteiriço) e a Amazônia periférica (áreas parciais dos
estados de Goiás, Mato Grosso e Maranhão). Cada qual comporia políticas específicas
levando-se em conta suas características inerentes e as estratégias respectivas a se lançar mão
para o desenvolvimento. Nesse sentido, áreas com maior infraestrutura seriam destinadas à
expansão econômica mais atuante e imediata (litorânea e periférica p. ex.), áreas como a
Amazônia Central gozariam de estudos mais detalhados para a exploração dos recursos ainda
desconhecidos e, áreas como as fronteiriças, preocupar-se-ia mais com a questão da segurança
e com interligação destas ao território nacional. Em todas elas as interligações por rodovias
eram questões prementes.
Conforme mencionado anteriormente, o quadro econômico associado à borracha
estava se diversificando. Apesar do mesmo integrar o maior contingente demográfico de mão
de obra à época, havia culturas que estavam se sobressaindo como a juta e a pimenta do reino,
bem como a exploração da madeira e a agropecuária, principalmente nas regiões já
interligadas por estradas. Os centros urbanos maiores apresentavam uma industrialização
modesta, mas com capacidades de aproveitamento dos recursos da região. As atividades
mineiras do manganês, da cassiterita e a refinaria do petróleo também compunham o quadro
econômico. A posição política na época, não percebia na industrialização uma saída imediata
para as questões de integração da região:
Não estará certamente na industrialização a grande saída para
desenvolver e promover o povoamento, no prazo exigido pelas
condições nacionais de segurança e de interesse de integração regional
da Amazônia. O mérito da industrialização local estará na fixação de
bases mais estáveis para o aproveitamento dos recursos naturais
existentes e potenciais. Todavia o aproveitamento agrícola, pecuário e
até mesmo, por certo tempo, o extrativismo orientado deverão
oferecer perspectivas mais efetivas para a diversificação da estrutura
econômica no ritmo acelerado exigido presentemente188.

O diagnóstico geral da socioeconomia apontava dez “gargalos” ao desenvolvimento:


i. a extensão geográfica versus baixa densidade demográfica, ii. o potencial desconhecido dos
recursos naturais, iii. a escassez de recursos humanos, iv. a distribuição dos recursos
assistenciais onerada pela dispersão geográfica, v. o dualismo econômico com o extrativismo
de baixa produtividade contrastando com a ascendente tecnologia empresarial, vi. a
                                                                                                           
188
GOVERNO FEDERAL. Operação Amazônia. Brasília. 1966.  
  197  

infraestrutura precária, vii. a dificuldade de escoamento de produtos em geral e insuficiência


dos agropecuários, viii. a industrialização incipiente com predominância de pequeno porte, ix.
o desestímulo a iniciativa privada acarretando baixo interesse empresarial e x. descompasso
entre a atuação dos órgãos federais e estaduais. Por sua vez, como solução para o status de
subdesenvolvimento da região, propunha-se uma série de intervenções governamentais que
iam desde reorganização de políticas locais – fortalecendo lideranças conforme contribuição
ao estimado quadro de desenvolvimento – aos incentivos às instituições de pesquisa,
desenvolvimento de tecnologias próprias, criação de divisas etc. Com relação a este ponto
será dado ênfase às propostas efetivamente aplicadas.
Cabe mencionar que o extrativismo, apesar de percebido enquanto necessário
naquele momento, era algo que deveria ser gradativamente substituído (prioritariamente) ou
modernizado (tanto quanto possível). Além de representar os principais indicativos de
subdesenvolvimento, quando não era estabelecido pelos regimes de patronagem e aviamento,
eram realizados por grupos autônomos/autossuficientes que, em todos os casos, não
correspondiam aos interesses de integração. Como nesta seara a borracha era o produto que
mais se destacava e, ao mesmo tempo, vivia um quadro econômico muito negativo, percebia-
se a necessidade, dentre várias medidas, de repetir-se as políticas de subsídios e estoques
(antes realizadas pelo Banco de Crédito da Borracha - BCB que tornou-se Banco de Crédito
da Amazônia - BCA e, posteriormente, Banco da Amazônia S.A. - BASA). Na mesma
medida, vislumbrava-se um futuro cada vez mais complexo para a economia gomífera
extrativista com as plantações na Bahia e com o advento do elastômero/borracha sintética.
No que tange a esfera político-administrativa, a descontinuidade dos programas
federais e as ações fragmentadas do poder público foram postas como óbices que requereriam
mudanças estratégicas principalmente em âmbito federal. A escassez de recursos, com
previsões orçamentárias não cumpridas e liberadas com relativo atraso, culminavam na
insuficiência dos programas e na referida descontinuidade dos mesmos. Uma ambiguidade se
apresentava: de um lado, o governo federal, excessivamente centralizado, arbitrário e detentor
da maior monta dos recursos necessários aos investimentos estatais; do outro, o mesmo
atribuía uma importância secundária à região, mantinha instituições federais mal equipadas e
que padeciam de deficiente corpo técnico, com salários não equiparados e de baixa
qualificação para atuar em tamanha abrangência territorial. Ou seja, a administração federal
exercia um poder centralizador e ao mesmo tempo ausente.
Os planos da SPVEA são, desde o início, comprometidas pela
insuficiência de recursos, liberados parcialmente e com relativo
  198  

atraso. Não se cumpre o dispositivo constitucional de vincular três por


cento da receita tributária para programas de valorização na
Amazônia. O cálculo base dilui os recursos finalmente disponíveis
para a programação financeira, indicada nos planos iniciais. Acresce,
por outro lado, a importância de um mais perfeito entrosamento da
máquina ministerial com os planos parciais da SPVEA, concorrentes
em muitos setores e áreas geográficas delimitadas. O ideal seria
identificar para a Amazônia um quadro geral de aplicações federais
diretas ou indiretas, compreendendo toda a prioridade governamental,
inclusive na mobilização de recursos financeiros externos e internos.
O programa global assim concebido, partindo dos planos parciais
discutidos ou previstos em cada unidade governamental, constituiria
um PROGRAMA ANUAL DE PRIORIDADES PARA A
AMAZÔNIA, a exemplo do que se faz na aprovação de planos
setoriais189.

A atuação das administrações estatais e territoriais são apontadas como o que


assegurava a presença do poder público na área, descrevendo o poder central/federal enquanto
ausente, omisso e descompassado. Por sua vez, os estados elaboravam projetos audaciosos em
diversos setores, mas não detinham recursos para executá-los e os incentivos que propunham
não eram suficientemente atrativos aos investidores. Mormente diante da precária
infraestrutura e da concorrência com as áreas mais assistidas pelo governo federal.
A análise empenhada apresentou, enquanto um programa bem sucedido para a região,
a denominada Comissão Interestadual dos Vales do Araguaia e Tocantins – CIVAT, criada
em 1962. Tratava-se de uma iniciativa interestadual, de caráter autárquico, com fins de
pesquisa para aproveitamento de recursos do solo e da água do complexo Araguaia-Tocantins
com 884.448 Km2. A CIVAT, reconhecida internacionalmente, chegou a ser assistida pela
equipe norte-americana Bureau of Land Reclamantion e pela Food and Agriculture
Organization – FAO, que concluem ser a área de sua atuação, de um lado, o maior potencial
do mundo em diversidade mineral, do outro, a de maior extensão agricultável e a solução para
a fome no mundo, respectivamente.
No tocante aos programas setoriais prioritários esboçados para a Amazônia, alguns
pontos são destacados com estratégias estabelecidas de médio e longo prazo nos setores de:
infraestrutura, pesquisa de recursos naturais, fomento econômico, industrialização, saúde e
educação.
A infraestrutura, percebida como prioritária para o processo de desenvolvimento e,
indubitavelmente, o principal ponto de conexão e integração sociotécnica, focava o
aproveitamento energético (hidroelétrico e termoelétrico), o aprimoramento das vias já
                                                                                                           
189
 GOVERNO FEDERAL. Operação Amazônia, Brasília. 1966.    
  199  

existentes e implementações de novas vias para os transportes (rodoviário, ferroviário, fluvial


e aéreo) e os projetos de telecomunicações relacionados às tecnologias da época.
As pesquisas sobre os “desconhecidos” recursos naturais e seus potenciais realizavam-
se através do INPA, IPEAM e por iniciativas, então isoladas, dos centros universitários das
capitais do país e também por entidades do exterior. Destacam-se pesquisas sobre recursos
minerais (ainda sem menções à bauxita do Trombetas no Platô do Saracá), os recursos
florestais e da pesca, todos tidos como subaproveitados. O fomento econômico ligava-se
diretamente aos incentivos governamentais que visavam tornar a região atrativa para a
industrialização privada e para a agricultura de monoculturas (principalmente) e pecuária
extensiva.
Para a educação eram apontados como principais problemas as descontinuidades dos
programas federais e estaduais, bem como a deficiência quantitativa e qualitativa de mão de
obra, propondo como solução políticas imigratórias adequadas e capacitação dos profissionais
orientada para atividades regionalmente úteis (atrelada às características locais). A saúde
apresentava como foco programas de saneamento, assistência médica, endemias rurais e
erradicação da malária, constatando também orçamento insuficiente para a implementação
dos mesmos.
A síntese do diagnóstico governamental apontava que a “Amazônia como um todo
para efeito de planejamento e desenvolvimento, é uma ficção”, dentro destas determinadas
áreas-problemas, tendo em vista o parco conhecimento que se dispunha e a operacionalidade
das próprias instituições governamentais na região. Essa breve descrição nos possibilita
compreender o panorama geral da época e o direcionamento das políticas posteriores que
culminam na área de análise, enquanto o embrião de um relativamente lento, mas continuado
processo de expansão de um modus operandi.
Em seu outro eixo o documento externa sua preocupação acentuada com a questão da
segurança nacional, destacando a questão do vazio demográfico, a suposta proposta de
internacionalização da Amazônia pelo “Instituto Internacional da Hiléia Amazônica – IIHA”
e o que se considerou outros pleitos de internacionalização à época, relacionados ao potencial
da região em absorver os excedentes demográficos de outros países. Destaca-se no documento
que, forma geral, as intervenções estrangeiras na região se davam por meio da pesquisa
científica, como no exemplo dos “Centros Tropicais de Pesquisa e Treinamento” com
Conselho Administrativo em Washington ou na cooperações entre centros nacionais de
pesquisa com a Organização das Nações Unidas.
  200  

O estudo intitulado de “Operação Amazônia” culmina na proposta de reformas


legislativas, através de projetos de leis e decretos, que vão se converter, dentre os mais
importantes, nos seguintes instrumentos normativos: Lei nº 5.173 de 27 de outubro de 1966,
que dispõe sobre o Plano de Valorização Econômica da Amazônia, extingue a SPVEA e cria a
SUDAM; a Lei nº 5.174, com mesma data de criação da anterior, dispondo sobre a concessão
de incentivos fiscais em favor da Região Amazônica; a Lei nº 5.122, de 28 de setembro de
1966, que dispõe sobre a transformação do Banco de Crédito da Amazônia – BCA em Banco
da Amazônia S/A – BASA, e no Decreto nº 60.070 de 16 de janeiro de 1967, que regulamenta
o Plano de Valorização Econômica da Amazônia190.
O Plano de valorização Econômica da Amazônia apresentava como objetivos
principais a integração da região à economia nacional, a promoção do desenvolvimento
autossustentado e do bem-estar social, dentro da lógica expansionista aqui narrada. Dentre as
orientações do Plano destacam-se: o incentivo à pesquisa, a criação de polos de crescimento
com concentração de recursos, a política imigratória, a substituição, quando possível, da
economia extrativista, a implantação ou expansão de infraestrutura pelo governo e adoção de
intensiva política de estímulos fiscais e creditícios para reversão dos recursos ali gerados e
atração de investimentos nacionais e estrangeiros. Muitos desses pontos são comuns às
propostas governamentais anteriores, mas atingiram neste momento histórico outro
dimensionamento.
A SUDAM, principal entidade do Governo Federal na região, é criada como autarquia
estabelecendo sua sede em Belém. A finalidade primordial da entidade era dar suporte às
ações federais na região e coordenar o Plano de Desenvolvimento. Além de promover e
realizar diretamente pesquisas sobre as potencialidades regionais, a SUDAM, diretamente ou
através de entidades públicas federais, estaduais ou municipais, tinha também como fim
prestar assistência ao aproveitamento dos recursos naturais, por meio de financiamentos de
longo prazo, com juros módicos, ou investimentos a fundo perdido, para os projetos
aprovados. Cabe destacar que a SUDAM, por meio de seu Conselho Técnico, posteriormente
transformado em Conselho Deliberativo, possibilitava a participação direta dos governos
locais na estruturação e execução de suas políticas, dentro do contexto do regime militar.
Além do Fundo para Investimentos Privados no Desenvolvimento da Amazônia –
FIDAM, criado na própria SUDAM, os incentivos fiscais são também de grande importância
para compreensão da configuração atual do espaço amazônico e sobretudo para a realidade
                                                                                                           
190
GOVERNO FEDERAL/SUDAM. Novo Sistema de Ação do Governo Federal na Amazônia: legislação
básica/vol. I. Editora Spencer S.A. Rio de janeiro, 1967
  201  

em análise. Os incentivos se davam por ordens diversas. As atividades exercidas por pessoas
jurídicas que eram consideradas de interesse para o desenvolvimento da região, ficavam
isentas do imposto de renda em 50% para os que já haviam se instalado até a publicação da
lei, e 100% para os que se instalassem até o fim do exercício de 1971. Outros benefícios
tributários também eram atribuídos com relação à importação de equipamentos, desde que
não produzidos no Brasil. As deduções tributárias para investimentos diretos, outra forma de
incentivo, recaiam sobre o imposto de renda de qualquer empresa com registro no país.
Variavam entre 75%, para investimentos no FIDAM, à 50%, para projetos agropecuários,
industriais e de serviços básicos (energia, transporte, comunicações, colonização, turismo,
educação e saúde pública).
Como já comentado, o antigo Banco de Crédito da Amazônia – BCA foi transformado
no Banco da Amazônia S.A. – BASA. Com atribuições ampliadas em relação ao BCA, o
BASA tornou-se o depositário dos recursos provenientes das medidas fiscais do governo.
Essa instituição financeira pública, responsável pela execução creditícia da política do
Governo Federal na região, atuava executando os serviços bancários em geral, com linhas de
créditos e financiamentos para os projetos públicos e privados, conforme mencionado, e
também com negociações para obtenção de recursos externos com agências internacionais ou
estrangeiras.
Já nos primeiros anos do golpe militar, a política governamental experimentada
começa apresentar resultados para o Governo, com a ampliação do número de projetos e de
investimentos para a região. Com a criação da SUDAM e do BASA a “nova política” se
solidifica enquanto novo marco para as transformações posteriores. No discurso proferido
pelo então presidente Humberto Castello Branco no Teatro Amazonas em dezembro de 1966,
de maneira entusiástica, salientou-se a proeminência dos céleres resultados:
Não fizemos milagre que não fosse o do trabalho e o da honestidade.
E daí a verdadeira multiplicação dos pães a que temos assistido na
administração da Amazônia. Realmente, ao assumir o General Mário
Cavalcanti a direção da SPVEA em 1964, não encontrou sequer um
projeto aprovado para absorver os recursos oriundos do Imposto de
Renda. Hoje, há cerca de 40 projetos aprovados, com investimentos
previstos num montante de 73 milhões; além de mais 9 projetos em
fase de conclusão, num total aproximado de sete bilhões. Alguns
deles, como acontece com o da JUTEX, para fiação e tecelagem, da
SIDERAMA, para siderurgia, e da SABIM e INASA, para madeiras,
  202  

são indiscutivelmente grandiosos e contribuirão para mudar a face


econômica da região191.

Os diversos discursos proferidos pelos militares e outras autoridades que atuaram na


região alinham-se argumentativamente no ideal desenvolvimentista, sempre sobre uma
vertente de integração econômica, científica e industrial. Sob esse ângulo, sem diferenças
substanciais com os momentos anteriores, mas efetivamente mais incisivo, o regime militar
ataca sobre várias frentes e com várias políticas expansionistas o território amazônico. Em
1968 diversos projetos já haviam se instaurado, sobretudo para estender e consolidar a
infraestrutura necessária à propagação e sustentação deste ideário. Energia, transportes,
telecomunicações, educação, saneamento, habitações, políticas imigratórias, de incentivos e
principalmente de pesquisas eram as prioridades dos investimentos. O aproveitamento dos
recursos naturais renováveis e não renováveis deveriam ser ordenados pela técnica e pela
ciência aplicadas à produção. A crescente e constante industrialização deveria atingir até
mesmo as práticas extrativistas, quando as mesmas não pudessem ser substituídas por outras
mais lucrativas. O poder público – representado pelo regime militar – e a iniciativa privada –
principalmente no interesse do alto empresariado – estavam de mãos dadas todo o tempo na
empreitada colonizadora da região.
No governo do Marechal Costa e Silva o engenheiro e militar Cel João Walter de
Andrade assume a superintendência da SUDAM, em 1967. Em seu discurso na instalação do
Conselho Deliberativo da SUDAM, em 1968, externa de maneira veemente a necessidade da
colaboração estrangeira “ordenada e disciplinada” como condição sine qua non para atingir os
objetivos almejados pelo governo. Salienta que dentre os principais problemas a serem
enfrentados, a questão do capital era o de ordem mais proeminente. “Abrir as portas ao
capital estrangeiro” e receber “sem medo ou desconfiança, todos aqueles que nos desejam
ajudar nessa cruzada desenvolvimentista”192, considerando aí os países “irmãos” para o
regime militar, fora palavra de ordem. Por sua vez, tratava-se a questão da “ameaça à
soberania nacional” condicionando os investimentos externos ao regime jurídico nacional.
Essa suposta saída para o problema da soberania ainda opera como base de legitimação para
as intervenções externas: constituir as empresas com base nas leis brasileiras.

                                                                                                           
191
BRANCO, H. C. Solenidade de instalação da I Reunião de Incentivo ao Desenvolvimento da Amazônia. In:
GOVERNO FEDERAL/SUDAM. Operação Amazônia: discursos. Serviço de Documentação e Divulgação.
Belém. 1968. p. 39
192
ANDRADE, J. W. Solenidade de instalação do Conselho Deliberativo da SUDAM. In: GOVERNO
FEDERAL/SUDAM. Operação Amazônia: discursos. Serviço de Documentação e Divulgação. Belém. 1968. p.
133 - 134
  203  

Em 1971 o estudo denominado “Subsídios ao Plano Regional de


193
Desenvolvimento” , vai dar novos direcionamentos às políticas governamentais para a
região. Com base nas pesquisas e experiências da SUDAM e do Departamento de Estudos
Econômicos do Banco da Amazônia S.A. – DESEC/BASA, o documento estabeleceu uma
análise focada nas múltiplas realidades da Amazônia incorporando, ainda que de maneira
incipiente, questões locais. I. e. a análise adentra em peculiaridades de algumas realidades
municipais, visando uma melhor adequação das propostas do Governo Federal. A
metodologia empenhada no estudo buscou compatibilizar os indicadores do Plano Regional
de Desenvolvimento - PRD com o Plano Nacional de Desenvolvimento – PND. A análise
adotou como módulo territorial o município em que se analisaram indicadores gerais
(relativos à infraestrutura, serviços públicos, recursos naturais etc.) e dados estatísticos
(referentes à população, industrialização, agropecuária etc.) para posterior análise crítica
comparativa. A proposta culminou na escolha de “áreas prioritárias”, a partir de um
zoneamento geoeconômico, para a atuação governamental entre 1972/1974194.
O estudo apresenta uma análise das pesquisas sobre recursos naturais já empenhadas
na época e uma programação para novas pesquisas ou de aprofundamento, com fins de
elaborar uma base cartográfica mais precisa para região. Para tanto, levando-se em conta as
informações cartográficas da Fundação IBGE, da PETROBRÁS, de outros mapeamentos já
desenvolvidos com os estudos geológicos no Pará e, também, do sensoriamento remoto
iniciado em 1970 com o Projeto Radar na Amazônia – RADAM. A aerofotogrametria e
fotointerpretação era apresentado como “a forma mais expedita de avaliação de recursos
naturais” e, com tecnologia norte-americana, o projeto RADAM executava essa função, à
época iniciando o levantamento de uma área de 1.500.000 Km2 ao sul do Rio Amazonas com
ampliação já prevista para a parte norte, em período subsequente.
O estudo subsidiário do PRD relacionou uma gama ampla de dados levantados sobre
variados recursos (solos, hidrografia, geologia, madeiras, castanha-do-pará, borracha, fauna,
mão-de-obra p. ex.) com diferentes atividades sociais (pecuária, agricultura, indústria,
mineração, extrativismo, saúde, educação...). As informações obtidas nas pesquisas já
realizadas foram apresentadas conjuntamente às propostas de programas futuros e de
aprofundamento. O estudo evidencia grande defasagem de informações à época, em todos os

                                                                                                           
193
O texto foi confeccionado pelos seguintes pesquisadores: dr.ª Catharina Vergolino Dias, dr.ª Clara Martins
Pandolfo, dr. Alfredo H. Higassi, dr. Antero d. D. P. Lopes, dr Benjamin M. da Silva, dr. Claudio J. Da Costa,
José R. M. Rodrigues e dr. Pedro L. A. da Silva.
194
GOVERNO FEDERAL/SUDAM. Subsídios ao Plano Regional de Desenvolvimento (1972 – 1974). Belém:
Ministério do Interior, 1971. p. 51
  204  

subsetores, no processo de compatibilização dos indicadores estabelecidos. Afirma uma


realidade de pouco conhecimento científico produzido e com informações sistematizadas
disponíveis de maneira dispersa e fragmentária, atribuídas essas dificuldades à própria
extensão da região (e não às políticas governamentais e privadas mal sucedidas).
No que se refere aos estudos sobre os recursos minerais na região do Rio Trombetas,
apesar de já existirem resultados desde 1963, apresentados pelo grupo canadense ALCAN,
apenas em 1967 foram confirmadas as reservas de bauxita economicamente viáveis de serem
exploradas e a partir daí ganhando maior importância para o governo. O estudo
governamental em tela dizia das grandes reservas de bauxita no Rio Trombetas como
superiores a 200 milhões de toneladas. Na época desse plano de desenvolvimento regional já
se iniciavam os trabalhos pré-operatórios para a exploração por parte da ALCAN com os
subsídios governamentais, assim como caminhavam os estudos de planejamento daquela área
enquanto prioritária para um modelo de desenvolvimento industrial.
Na análise dos estudos florísticos da Hiléia alguns posicionamentos governamentais
marcam a inserção do que se pode designar como “preocupação ambiental”. Apesar de, em
outros momentos, diferentes documentos fazerem menção à necessidade de exploração
racional dos recursos naturais, principalmente madeira, aqui a ideia de preservação e a
escolha de espaços destinados à conservação são explicitados:
É também imperiosa a necessidade de iniciar estudos imediatos
visando à localização, decretação e organização de Reservas Florestais
em grandes áreas, suficientemente representativas dos diversos
ecossistemas amazônicos, que assegurem a manutenção das condições
de equilíbrio ecológico ambiental e como garantia de abrigo à fauna
remanescente.195

Há menção sobre um necessário equilíbrio entre solo, água e floresta apontado na


necessidade de disciplina na ocupação territorial, tanto para projetos industriais como para
agropecuários. Menciona-se também sobre a criação de um mecanismo de fiscalização
“ambiental”, para assegurar o cumprimento de projetos de reflorestamento decorrentes da
utilização industrial de recursos naturais. A principal legislação ambiental à época era a Lei
4771/1965, o antigo Código Florestal, muito progressista na temática e que encampava grande
parte da discussão técnica de conservação de recursos florestais e de solos que estava
emergindo. Inclusive, já fazia menção sobre as florestas enquanto bens públicos e a
necessidade de preservação de 50% da propriedade rural na Amazônia a título de Reserva

                                                                                                           
195
GOVERNO FEDERAL/SUDAM. Subsídios ao Plano Regional de Desenvolvimento (1972-1974). Belém:
Ministério do Interior, 1971. p. 65
  205  

Legal Florestal. A realidade que se sucedeu, como é de praxe, foi muito diversa do “mundo
bem organizado” idealizado nos projetos governamentais. O documento também menciona a
necessidade de se criar “Reservas Florestais de Renda” para “funcionarem como fontes
permanentes de suprimento de matéria-prima”196.
Por sua vez a fauna é apresentada como uma das principais fontes de alimento das
populações interioranas, o que se mantém provavelmente para grande parte da região, a
exemplo do que constatei na região vivenciada. Apesar da crítica ao modelo de exploração
predatória, na comercialização de peles principalmente, é vislumbrada a possibilidade de uma
“exploração racional” que influiria positivamente na balança comercial regional. Para ilustrar,
posso dizer que, conforme apurei, bem antes da criação das unidades de conservação no Rio
Trombetas, uma das práticas econômicas das populações quilombolas dali era a
comercialização de peles, principalmente de felinos, caçados pelos “gateiros”. No estudo
governamental, perscruta-se também sobre criação de parques e reservas com fins turísticos
como fonte de renda. Já com relação à pesca, criticam-se as práticas tradicionais aspirando-se
uma pesca industrializada, a piscicultura e a carcinocultura197.
As menções sobre os povos que vivem nos interiores da grande floresta são raríssimas
por todos os estudos analisados. Essas populações ainda não eram concebidas enquanto
“povos tradicionais” ou “quilombolas”, nesse sentido não gozavam de um estatuto jurídico
diferenciado para os seus modos de vida e seus territórios. As parcas referências os
descreviam enquanto míseros representantes do subdesenvolvimento da região, os espoliados
da patronagem e do aviamento. Para o governo esses povos deveriam ter seus modos de vida
integrados e seus sistemas produtivos racionalizados, adaptados à dinâmica do novo mundo
que chegava. O extrativismo, fonte principal de subsistência desses povos, era prática que
deveria ser extinta ou transformada na medida do possível, conforme mencionado. A postura
explicitada nas pesquisas governamentais para o desenvolvimento regional coadunam com as
políticas públicas experimentadas. Seus resultados, que não poderiam ser outros, ocasionaram
a invisibilidade desses povos por longo período. Sobrepujados pelos projetos econômico-
produtivos e concebidos como anônimos do subdesenvolvimento, quando os “interesses do
desenvolvimento” insidiam sobre seus territórios, esses povos estavam praticamente
desprovidos de quaisquer meios de defesa. Contudo, dentro de sua atuação dúbia, o Estado
desde aquela época tinha como foco a inclusão social dessas populações, indistintamente,

                                                                                                           
196
Id. Ibid. p. 66
197
Id. Ibid. pp. 69, 70 e 71
  206  

conforme muitas menções nas propostas de políticas públicas relacionadas à saúde, habitação,
educação etc.
É preciso que se dê ao seringueiro, ao castanheiro, ao madeireiro, ao
babaçueiro – que são milhares de humildes brasileiros – condições de
vida mais humanas, facilitando-lhes acesso a um nível social mais
elevado e mais condizente com o ritmo de progresso que
experimentam a região e o país.198

O extrativismo vegetal, por menos rentável que fosse aos olhos do governo, era fonte
de renda substancial para grande parte da população amazônica. Com uma gama variada de
produtos, a prática extrativista era percebida enquanto “degradante processo de espoliação
social”, atribuindo-se algum destaque econômico à extração da Borracha, da Castanha do
Pará, do Pau Rosa, do Babaçu e das madeiras em geral. Todas as práticas extrativistas tinham
como foco a realização de estudos para a racionalização do processo exploratório.
A Amazônia, para progredir e se desenvolver, tem necessidade de
modificar os seus postulados econômicos, através de uma forma de
atendimento razoável que, sem causar um colapso na economia
regional, com o abandono puro e simples dessas atividades,
abruptamente, possa entretanto proporcionar melhoria de padrão de
vida aos anônimos trabalhadores que, no recesso da mata, à margem
dos benefícios da civilização, ajudam a construir a grandeza do
Brasil.199

Dentre essas diversas atividades a que se apresenta diretamente correlacionada com a


área foco do estudo e os nossos atores é a exploração da Castanha-do-Pará, hoje Castanha-do-
Brasil. Abaixo da Borracha e do Babaçu, a castanha representava a principal atividade
econômica extrativista. Cerca de 90% da produção era destinada ao exterior, na época
destinada a multinacionais como a PARA NUT norte-americana, BRASIL NUT inglesa,
NOIX BRÉSIL francesa. Os problemas apontados não distam muito do que se percebe ainda
hoje: a intermediação no transporte com o regatão, os locais de processamento distantes dos
locais de coleta, armazenagem deficiente gerando perdas significativas, produto
comercializados sem beneficiamento com baixo valor agregado etc. Além das propostas de
racionalização técnica e implementação de usinas de beneficiamento locais, mencionava-se
também sobre a introdução de modelos cooperativistas200 para os coletores. O fomento aos

                                                                                                           
198
 GOVERNO FEDERAL/SUDAM. Subsídios ao Plano Regional de Desenvolvimento (1972-1974). Belém:
Ministerio do Interior, 1971. p. 75
199
GOVERNO FEDERAL/SUDAM. Subsídios ao Plano Regional de Desenvolvimento (1972-1974). Belém:
Ministerio do Interior, 1971 p. 75
200
Id. Ibid. p. 83
  207  

estudos acerca da espécie vegetal e da produção dava-se por meio de convênio entre a
SUDAM e o Instituto de Tecnologia de Alimentos – ITAL, de Campinas/São Paulo.
Seguindo a lógica do desenvolvimento atrelada ao crescimento econômico, o estudo
indica como áreas prioritárias para o Plano Regional de Desenvolvimento aquelas que já
gozavam de melhor infraestrutura e adensamento populacional.
A ausência de uma rede urbana, bem estruturada na Amazônia, levou
a considerar-se as cidades que, pela sua população, pelas funções
administrativas, políticas, culturais, econômicas, de prestação de
serviços, desempenham um papel importante, não apenas quanto ao
município ao qual pertencem, mas principalmente, porque irradiam
suas influências a outras comunas.201

Os denominados “Centros Propulsores para o Desenvolvimento” elegidos


corresponderam a 26 municípios, em todos os estados e territórios Amazônicos, delimitados
em algumas regiões. A de maior importância para a pesquisa é a região de Santarém, que
inclui os municípios de Faro, Juriti, Óbidos, Alenquer, Monte Alegre, Santarém e Oriximiná.
Na sequência deste diagnóstico que direcionou projetos, programas, investimentos e maior
atenção do governo para as áreas prioritárias, iniciou-se uma nova política, ainda mais
delimitada regionalmente, sobre os “Polos de Desenvolvimento”.

***

O fluxo narrado visa dar historicidade às conexões que transformaram a área da


pesquisa, acarretando nas controvérsias que passarei a analisar. No ínterim entre os planos
governamentais que ali se iniciavam e a implementação efetiva dos projetos de
desenvolvimento e, posteriormente, de conservação, ocorria um evento de grande
importância, com influência nas políticas públicas que estavam se desenhando: a Conferência
das Nações Unidades Sobre Meio Ambiente que ocorreu em Estocolmo em junho de 1972.
Em 1971 o então Secretário-Geral do Conselho de Segurança Nacional, João Batista de
Oliveira Figueiredo, na exposição de motivos à Presidência da República, associava as
providências avençadas nos encontros preparatórios do conclave enquanto ameaças às
políticas de desenvolvimento nacional e à questão da Segurança Nacional202. O
posicionamento do chefe da delegação brasileira, Ministro José Costa Cavalcanti, endossou as
orientações do governo que atribuíam a responsabilidade pela correção da deterioração do
                                                                                                           
201
Id. Ibid. p. 222
202
CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE O MEIO AMBIENTE HUMANO. Relatório da
delegação do Brasil. Vol II. Estocolmo, 1972. p. 3
  208  

ambiente aos países desenvolvidos, assim como priorizava o crescimento econômico e o


combate à pobreza, antes das preocupações ambientais. “Um país que não alcançou o nível
satisfatório mínimo no prover o essencial não está em condições de desviar recursos
consideráveis para a proteção do meio ambiente”203. Apesar de sobrepor soberbamente os
planos de desenvolvimento econômico às políticas de conservação ali pautadas, a Conferência
de Estocolmo foi o germinal para uma posição política que gradativamente vai ganhando
importância e se transformando, atrelada à problemática ambiental que tornar-se-á de
remissão necessária nos discursos de legitimação de políticas públicas.
A lógica que se segue nos documentos governamentais analisados, destinados aos
programas e projetos de desenvolvimento na região, apresenta, para cada versão, o que foi
implementado das propostas anteriores, o que prosperou ou declinou, dando um panorama
geral sobre a realidade local a partir de dados estatísticos e propondo também futuras
políticas. Nesse sentido, o apresentado até aqui – Operação Amazônia, Ação do Governo
Federal na Amazônia, Subsídios ao Plano Regional de Desenvolvimento entre outros –
representam uma gradação das ações governamentais (e empresariais) que vão, ao longo da
história, reconfigurando toda a região amazônica, mas que o foco aqui se direciona para área
em estudo.
As áreas selecionadas enquanto prioritárias para o Plano Regional de
Desenvolvimento vão ser contempladas pelo programa de Polos Agropecuários e
Agrominerais da Amazônia – POLAMAZÔNIA204. Partindo das informações diagnosticadas
sobre recursos naturais, sociedade e economia de cada área escolhida, foram indicadas as
programações e os recursos necessários para a execução dos programas nos anos de 1975 até
1979. O estudo apresenta dez polos com suas respectivas características e propostas de ação,
sendo: Polo Carajás, Polo Trombetas, Polo Altamira, Polo Pré-Amazônia Maranhense, Polo
Acre, Polo Juruá-Solimões, Polo Roraima, Polo Tapajós, Polo Amapá e Polo Marajó.
Seguindo a nossa trilha, nos debruçaremos no Polo Trombetas, a partir de aqui, afunilando a
caminhada até os “pontos quentes” que buscamos.

***

Com mais de 85.000 Km2 o Polo Trombetas, em sua área de abrangência, abarcou
parte dos municípios de Monte Alegre, Alenquer, Óbidos e Oriximiná. Com 60% dos solos
                                                                                                           
203
Id. Ibid. p. 13
204
GOVERNO FEDERAL/SUDAM. Síntese do POLAMAZONIA. Belém. 1975
  209  

de baixa fertilidade e cerca de 10% de boa fertilidade as propostas de aproveitamento


agropecuário foram bastante diversificadas, indo desde pastagens, juta, arroz até cana-de-
açucar para as regiões mais férteis. Por sua vez, os recursos minerais é que ganharam mais a
atenção. Além da bauxita, em 1975 com reserva estimada em 1,2 bilhões de toneladas e já
programada para ser explorada comercialmente a partir de 1977 pela MRN, o calcário em
Monte Alegre também gozava de projeto para a exploração de 470.000 toneladas/ano
destinados à fabricação de cimento. Ao sal-gema, ao cobre, à ilmenita e ao ouro também se
atribuía importância econômica, mas sem propostas programadas de exploração no horizonte
descrito. As madeiras também ganhavam destaque estimando-se a possibilidade de uma área
de exploração com 1.773.000 ha com volume médio de 60m3/ha de madeiras comerciais.
O panorama geral da região no início das políticas do Poloamazônia apresentava uma
economia essencialmente sustentada no setor primário, com culturas de subsistência e
pecuária extensiva com baixa qualificação técnica. O extrativismo apresentava-se em
declínio, não atingindo importância econômica considerável. A dispersão da população foi
apontada como o principal entrave às políticas sociais de educação, saúde, saneamento,
produção, consumo, entre outras. Além de ações em pesquisas, políticas de colonização,
regularização fundiária e implantação de “planos diretores de desenvolvimento urbano” para
os municípios do polo, compunham os investimentos governamentais. Estradas de penetração
foram construídas, bem como consolidados trechos da rodovia estadual PA-254 entre
Oriximiná e Prainha e aprimorados os atracadouros de Oriximiná, Alenquer e Monte Alegre.
Por ter sido eleita enquanto polo de desenvolvimento, a Região do Trombetas, perceberia a
partir de então maciços investimentos em infraestrutura com fins de formar na área um
complexo industrial, principalmente ligado a produção de energia e a bauxita.
Em 1976 o Ministério do Interior/SUDAM promulga o “II Plano Nacional de
Desenvolvimento – Programa de Ação do Governo para a Amazônia”, consolidando a “nova
era de expansão desenvolvimentista” que recaiu sobre a região analisada e a configurou
enquanto um território minado por conflitos. O II PND adotou uma fórmula que visava a
“manutenção de altas taxas de crescimento do PIB, através de ampla contribuição em relação
ao setor de comércio exterior”205 para em última instância promover a distribuição da renda
pelo crescimento econômico e reduzir as desigualdades inter-regionais. Focava-se gerar
divisas via exportações de matérias-primas e produção de insumos, tanto para o consumo
interno quanto externo, identificando nas diversas regiões aquelas que pudessem atender essas
                                                                                                           
205
GOVERNO FEDERAL/SUDAM. II Plano Nacional de Desenvolvimeto – Programa de Ação do Governo
Para a Amazônia. Belém, 1976. p. 52
  210  

demandas e, a partir daí, investir na infraestrutura requerida para operacionalizar tais


atividades.
Nessa direção, em curto e médio prazo, a prioridade do governo fora o crescimento
econômico, seguindo o que se designou como “modelo amazônico de desenvolvimento”,
sempre atrelado a um grande capital financeiro privado nacional e internacional (os parceiros
do desenvolvimento). Este modelo priorizava investimentos/benefícios aos setores e produtos
dotados de “vantagens comparativas” (empreendimentos que possibilitassem per se a inserção
de produtos no mercado interno e externo). Essas políticas setoriais dos produtos com
vantagens comparativas foram voltadas para a pecuária de corte, aproveitamento madeireiro,
exploração mineral, indústria, turismo, pesca em escala empresarial e lavouras selecionadas.
O extrativismo que possibilita produtos exclusivos da região, por fim, é mencionado na
perspectiva de que “a estratégia adotada permitirá uma paulatina substituição da atividade de
coleta por outra essencialmente agrícola”206, i. e., com base em plantações técnicas das
espécies extrativas.
Noutro viés as ações governamentais tinham como foco a ocupação territorial, a
expansão das fronteiras econômicas, a difusão do emprego produtivo e, posteriormente,
elevação do poder aquisitivo das pessoas da região. Ressaltando-se que a “questão da
segurança” estava sempre presente em todos os momentos.
As ações programadas do governo levaram em conta a gradação de estratégias
estabelecidas ao longo do regime militar e culminaram em políticas selecionadas e
direcionadas para áreas eleitas, conforme a possibilidade de contribuição das mesmas para o
“crescimento”. Os diferentes polos elegidos e suas subsequentes políticas específicas geraram
múltiplas e complexas realidades nas regiões. Hoje, ao trafegar pela Amazônia, podem-se
encontrar áreas onde não mais se reconhece o bioma tamanha devastação (principalmente
aquelas regiões/áreas que receberam maior incentivo para a agricultura, a pecuária e as
madeireiras), outras áreas intocadas para conservação ou para os povos autóctones, ou ainda
complexos industriais, imensas mineradoras e grandes projetos de aproveitamento energético
dividindo espaço com a floresta e seu povo antigo.
Dentro desse complexo de políticas e ações tanto públicas quanto privadas, nacionais
e estrangeiras, locais, regionais e globais que recaíram sobre o vale do Rio Trombetas e
reconfiguraram as relações sociais ali estabelecidas anteriormente, o primeiro ator da história
aqui narrada sobre “conflitos ambientais” – melhor seria dizer “actante” – foi a bauxita. A
                                                                                                           
206
GOVERNO FEDERAL/SUDAM. II Plano Nacional de Desenvolvimento – Programa de Ação do Governo
Para a Amazônia. Belém, 1976.p. 56
  211  

bauxita é que fez estender para lá todo o ideário desenvolvimentista e estabelecer políticas
públicas e conexões reais sobre aquela região reconfigurando-a. Seccionou o arcaico e o
moderno, o produtivo e o improdutivo, o passado e o futuro. Fez jorrar milhões e milhões em
investimentos, solapar interesses dos grupos humanos mais frágeis, dizimar vastas extensões
de floresta e conectar a área com toda a ordem tecnológica, cientifica, social e econômica
relacionada, ao menos de forma incontestavelmente material, com qualquer um que usa
objetos de alumínio provenientes daquela região. A bauxita foi eleita o que era mais
importante naquela região acima de qualquer outra coisa humana ou não-humana. Por razões
de ordem cronológica esse primeiro ator seguirá a narrativa um pouco mais adiante,
apresentando o seu percurso de transformações sócio-lógicas.
Ainda no II PND as reservas de bauxita já eram estimadas em 2,6 bilhões de
toneladas. Enquanto a Transamazônica cortava o sul do Amazonas abrindo caminho para as
pastagens e monoculturas, ao norte emergiam complexos industriais, outras rodovias e ações
para proteger áreas representativas por sua fauna, flora ou outros atributos naturais.
O potencial energético da Amazônia em seus muitos rios considerados como um todo
era estimado em 62.000MW, com exceção do Amazonas que, por si só, representaria cerca de
150.000MW. Ao Rio Trombetas atribuía-se 16.000MW, possuindo um projeto de
hidroelétrica planejada para atender o beneficiamento da bauxita, estimando-se produção de
800MW na área da Cachoeira Porteira207. A hidroelétrica estava prevista juntamente com a
criação de um complexo industrial no Trombetas. A legislação permitia a participação direta
das grandes indústrias consumidoras nas obras de geração de energia, possibilitando um
ambiente favorável para os investidores que vão se instalar durante um breve e transformador
período na Cachoeira Porteira.
O projeto Trombetas visa a exploração da bauxita, cujas reservas
localizam-se nas proximidades da cidade de Oriximiná-Pará, às
margens do Rio Trombetas. O projeto será executado em duas etapas;
a primeira objetivando a exportação do minério lavado e seco e a
segunda a produção de alumina/alumínio; o prazo de maturação para
as duas será de cinco a sete anos, respectivamente. Os efeitos
esperados no quinquênio 1975-79 são os seguintes: produção anual de
cinco milhões de toneladas de bauxita lavada e seca. E um milhão de
toneladas de alumina. Prevê-se ainda, após a construção de Tucuruí,
em 1981, a produção de 640 mil toneladas anuais de alumínio
metálico208.
                                                                                                           
207
O projeto da hidroelétrica da Cachoeira Porteira, anos depois, vai ser um dos estopins para a organização
políca dos remanescentes de quilombo, assumindo grande importância nesta narrativa.
208
GOVERNO FEDERAL/SUDAM. II Plano Nacional de Desenvolvimeto – Programa de Ação do Governo
Para a Amazônia. Belém, 1976.p. 73. Continua: Estima-se ainda a aplicação de Cr$ 960,5 milhões, sendo os
recursos oriundos da CVRD, de grupos privados e de financiamentos internos e externos, além de incentivos
  212  

A geopolítica do regime militar assentada no binômio segurança e desenvolvimento e


exercida com o autoritarismo e a desumanidade que lhe é inerente, culminava no controverso
projeto “sigiloso” do Conselho de Segurança Nacional denominado “Calha Norte – PCN”209.
Neste ínterim Cachoeira Porteira estava se conectando à malha rodoviária nacional pela
BR163, sendo construída pelo consórcio Andrade Gutierrez, Noberto Odebrecht e Estacon
Engenharia. Por sua vez a hidroelétrica UHE Porteira era responsabilidade da
ELETRONORTE e ENGE-RIO. Nem a hidroelétrica e tampouco a continuação da BR163
prosperaram. Contudo, permanecem enquanto espectros que a qualquer momento podem
voltar para assombrar, a exemplo de Belo Monte, antiga Kararaô210 projetada na década de
1980. Em abril de 1988 é apresentado novo projeto básico da UHE Porteira – Planejamento
da rede hidrométrica da Bacia Trombetas/Mapuera211. Novos postos pluviométricos e
fluviométricos e seus respectivos equipamentos foram instalados (Pluviógrafo e Limnígrafo)
em diversos rios da região – além do Trombetas e Mapuera, no Cachorro, no Caxipacoré, no
Anamú, no Erepecuru e no Tiriós. Os dados processados serviriam de suporte para a
operacionalidade da hidroelétrica – UHE Porteira. No último campo da pesquisa observei um
novo equipamento que haviam instalado próximo ao encontro dos rios Trombetas e Mapuera,
semanas antes da minha chegada à Cachoeira Porteira, segundo os quilombolas.
Já na década de 1970, os volumes do Projeto RADAMBRASIL, via de regra,
indicavam áreas para a criação de espaços territoriais protegidos para a conservação, dentre
estes, a Reserva Biológica do Rio Trombetas, Parque nacional Pico da Neblina, Reserva
Biológica do Moju, Parauequara entre outras. Contudo, uma consideração mais efetiva dos
interesses ambientais e sociais se dá na década de 1980, mesmo assim de forma tímida e
desde que não obstruíssem os “interesses do desenvolvimento”. Na transição democrática de
1985 com a eleição indireta de Tancredo Neves, seu posterior falecimento e entrega do cargo
ao seu vice, José Sarney, os projetos da calha norte seguiram “bem tutelados” sem maiores
óbices. A geopolítica subsequente manteve-se autoritária e obscura, nos anos de 1990 é
lançado o Sistema de Vigilância e Proteção da Amazônia – SIVAM/SIPAM, desta vez
amparado no binômio “segurança e desenvolvimento sustentável”. O projeto consiste no “uso
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
fiscais. […] Ressalta-se que o projeto de produção de alumina/alumínio encontra-se em fase de estudo de pré-
viabilidade e depende fundamentalmente da construção da hidroelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins, com
potencial inicial de 3000MW.
209
PROST, Catherine. Forças Armadas, geopolítica e Amazônia. Paper do NAEA 156. Dezembro de 2000.
210
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL. Especial Belo Monte – Cronologia do Projeto. Disponível em:
http://www.socioambiental.org/esp/bm/hist.asp. Aceso em: janeiro de 2013
211
CENTRAIS ELÉTRICAS DO NORTE DO BRASIL S.A. Usina Hidroelétrica Porteira: Planejamento da
Rede Hidrométrica Bacia Trombetas Mapuera. Abril de 1988.
  213  

interativo de vários sistemas tecnológicos de controle: detecção aérea, radares e


sensoriamento remoto [...] detecção e monitoramento de comunicações clandestinas,
telecomunicação e radiolocalização”. O projeto foi iniciado no Governo Collor, seguido do
Itamar Franco e defendido no Governo Fernando Henrique Cardoso “em nome da garantia da
credibilidade internacional do Brasil”. Implementado em 2002, esse projeto gerou grande
polêmica e foi associado ao interesse dos EUA no suposto auxílio no combate ao tráfico de
drogas e do terrorismo, seus inimigos despatriados.212
Os conflitos na região do Vale do Rio Trombetas vão se acirrando, ou melhor,
tornando-se mais visíveis, na medida em que novos direitos vão se consolidando (como os
ambientais, indigenistas e dos remanescentes de quilombo na Constituição Federal de 1988),
novos atores entram em cena para somar forças com determinados grupos (ONGs, cientistas,
certos setores do governo etc.) e as tecnologias possibilitam um fluxo cada vez maior de
informações e interações. Ao mesmo tempo os recursos ali vão despertar a cobiça de outros
grupos, também influentes, como madeireiras, fazendeiros e outras mineradoras além da
Mineração Rio do Norte. O Poder Público, menos monolítico, infere estratégias de setores
autônomos, por sua vez, antagônicas, buscando de qualquer forma a manutenção de sua
estabilidade sistêmica, conforme o atual contexto político.
A ideia de desenvolvimento permeia todos os discursos e atos de poder ao longo dessa
história na marcha avante pelas terras incultas. Como a promessa da Terra Prometida ou do
Reino de Deus, mas operada pelas mãos das ciências e das técnicas e num plano temporal
mais imediato – de um amanhã mais breve, no máximo para o final do século – a doxa do
desenvolvimento promete a elevação humana e a satisfação de todas as suas aspirações
espirituais, morais e materiais. Ganha incontáveis devotos de diferentes classes, castas e
etnias, crédulos fiéis de suas promessas. Violar as mais robustas montanhas, romper pradarias,
barrar imensos rios, aniquilar florestas, dominar, manipular e ordenar numa rígida escala
hierárquica tudo que pode ser vinculado a esse processo expansionista é o fazer-se máquina
do progresso. Uma soma de diferentes forças direcionadas. Sob distintas vestes ideológicas
que alternam as posições hierárquicas dos seres e das coisas, os projetos modernos –
tecnicistas, socioambientalistas ou capitalistas – prometem uma realização futura próxima.
August Comte nos falava de um devir na história vinculado ao conhecimento. Uma
inevitabilidade da transição entre os estágios teológico, metafísico e científico das formas de
compreensão do mundo, onde, no final, tudo será ciência, técnica e indústria. A lei dos três

                                                                                                           
212
PROST, Catherine. Forças Armadas, geopolítica e Amazônia. Paper do NAEA 156. Dezembro de 2000. p. 31
  214  

estágios e o ideário do positivismo se equivoca ao anunciar o fim das guerras e também um


tempo certo para as transições. Um mundo de conflitos e sobredeterminações na força da
astúcia, da sedução, da opressão e das armas avança irrefreavelmente estendendo suas ações
até aonde pode manter-se estável em seus pontos de ligação ao seu todo múltiplo. Enquanto
operador de um sistema de crenças que legitima ações e que materialmente amálgama uma
pluralidade de seres, esse avanço associativo foi se modificando dentro daquilo que passou a
incluir e excluir, a ser mais considerado ou menos considerado, modificando-se além de uma
esfera de previsibilidade e controle.
  215  

2 OS PLATÔS DE BAUXITA

2.1 A máquina minerária

Foto 10: Mineração Rio do Norte. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2012.

O mineral avermelhado, nas reservas de Oriximiná com mais de 50% de Alumina


(Al2O3) e cerca de 800 milhões de toneladas, com descoberta atribuída à Pierre Berthier no
ano de 1821 em Les Baux, no sul da França, formou suas jazidas no vale do Rio Trombetas há
cerca de 40 milhões de anos, no período Paleogeno, especificamente no Oligoceno (Terciário
Superior)213. Esse mineral não ferroso, matéria prima do alumínio inicialmente utilizado para
fins não metalúrgicos, hoje com utilizações variadas, metalúrgicas ou não, assim como foi o
látex das seringueiras em vários locais da Amazônia, vai conectar a região em estudo com o
mundo, vai compor a carapaça metálica não oxidante e leve dos muitos objetos que compõem
as sociedades humanas, as aeronaves, os fios de transmissão de eletricidade, os satélites ou
simplesmente uma panela em que se prepara os alimentos.
Tínhamos ainda umas quatro horas antes do cair da noite, chegávamos no meio da
tarde na Comunidade da Casinha nos interiores do lago Sapucuá. Logo que nos estabelecemos
pegamos um barco e dois remos para nos banharmos em alguma das muitas praias do entorno.

                                                                                                           
213
KOTSCHOUBEY, Basile et al. Caracterização e Gênese dos depósitos de bauxita da província bauxífera de
Paragominas, Noroeste da Bacia do Grajaú, Nordeste do Pará/oeste do Maranhão. Cap.XI. In. MARINI, O. J.;
RAMOS B. W.; QUIROZ, E. T. Caracterização de depósitos minerais em distritos mineiros da Amazônia.
Brasília: DNPM – CT/MINERAL – ADIMB, 2005.
  216  

Eu e Thaís Azevedo remávamos já com certa destreza e logo atingimos o pontal de areia do
outro lado, onde avistávamos ao longe a igrejinha adjacente à casinha branca. Atrás de nós o
lago ultrapassava a linha do nosso horizonte. A imagem que penetra as pupilas cristaliza-se na
alma, o tempo parou ali, como se tivéssemos cruzado um portal para ingressar nesse mundo
recôndito. No crepúsculo Dona Tereza ajeitava o fogão de lenha para fazer a comida, nesse
dia os carapanans estavam ouriçados, “carapanam, bicho covarde” dizia Dona Tereza, nem a
fumaça de óleo queimado do lampião os afastava. Seu Chico ajeitava a mesa para comermos e
preparava o combustível para ligar o gerador, lá pelas oito da noite. Tínhamos eletricidade
pelo menos até o final da novela, importante momento para eles, depois retornávamos aos
lampiões e as estórias da mata grande. Dormíamos todos no barracão, lá, curiosamente, os
mosquitos davam trégua.
Quando amanheceu seguimos com Seu Chico até um longo trecho recentemente
desmatado que cortou boa parte da propriedade coletiva PEAEX Sapucuá-Trombetas.
Estávamos próximo da divisa da Floresta Nacional Saracá-Taquera e, naquele lugar,
podíamos testemunhar a realização das obras do “Linhão de Tucuruí”. Projeto bilionário do
Governo Federal, destinado a percorrer 1.800 Km de floresta, por um circuito duplo na tensão
de 500 e 230 quilovolts (KV). O objetivo do projeto é levar a energia da Hidroelétrica de
Tucuruí até Manaus, atendendo alguns municípios do percurso. As torres erguidas só se
avistavam ao longe, algumas estão projetadas com até inéditos 280 metros de altura, ali
apenas grandes buracos, estruturas de concreto em andamento e restos de grandes árvores,
inclusive castanheiras que foram cortadas e que tanto chatearam Seu Chico. Desta vez os
contrastes parecem não caber nos olhos. Seu Chico se queixava que para as comunidades ali,
diretamente impactadas com o empreendimento não haveria “rebaixamento da transmissão”,
ou seja, eles não perceberiam energia elétrica nenhuma com o empreendimento, só as
limitações e prejuízos em suas terras (servidão de 40 metros de largura). No mesmo espaço
das mais sofisticadas linhas de transmissão do país, diversas famílias sem eletricidade, na
escuridão da noite e das políticas desenvolvimentistas. Diferente seria para a MRN em Porto
Trombetas, que obteve licença para uma linha de transmissão própria, com 98 Km partindo
dali e que irá mudar sua matriz energética (o que é possível, posto que uma das subestações
está prevista para o município de Oriximiná). Por determinação do IBAMA foi realizada
audiência pública. Os comunitários do assentamento coletivo brigavam por uma indenização,
segundo os mesmos, miserável.
  217  

Foto 11: Torre do Linhão no Rio Trombetas. Leonardo Alejandro Gomide Alcántara, 2013.

A linha de transmissão Tucuruí/Macapá/Manaus que compõe o Sistema Interligado


Nacional (SIN), tem escopo estratégico para o desenvolvimento industrial desses centros.
Apesar de fazer parte do programa “Luz para Todos”, os pequenos municípios estão tendo
que digladiar para que a linha que passará por cima de suas cabeças compartilhe um pouco da
energia, o que não ocorre de imediato e até o final da pesquisa não havia uma definição.
Todos querem energia, todos querem estar conectados. Em Oriximiná passo em frente ao
escritório da Andrade Gutierrez, responsável por trecho da obra e vejo uma fila dobrar a
esquina, “peão tem que aproveitar qualquer oportunidade nessa vida” me fala um pretendente
ao emprego. Passo dias depois e encontro o anúncio: “não temos mais vagas, favor não
insistir”.
  218  

O Pará é a segunda maior província mineral do país, logo depois de Minas Gerais,
respondendo por cerca de 35% da economia nacional neste setor. Abriga uma das maiores
reservas minerais do mundo, principalmente em bauxita e minério de ferro. Além de ser o
sexto maior exportador de minérios do Brasil, possui um dos maiores rebanhos bovinos, a
maior produção de pescado, encontra-se entre os primeiros produtores de abacaxi, açaí, coco,
cacau entre outras frutas. Quando a barragem de Belo Monte ficar pronta em Altamira – o
maior município do país em extensão territorial – o Pará provavelmente será a maior potência
hidroenergética do Brasil. O Estado é o décimo terceiro colocado dentre os PIBs nacionais e
cresce acima da média das outras unidades federativas. Seu crescimento econômico galopante
não condiz com a realidade de seu povo, com quase um terço vivendo no nível da miséria e a
maioria, como no restante do país, é pobre. Mas se comparado a outros tempos, esse índice
melhorou significativamente. As políticas governamentais, principalmente do Governo
Federal, atualmente se esforçam mais efetivamente para reduzir as desigualdades e incluir
economicamente os mais pobres. Sobretudo melhorar os índices e fazer com que as pessoas
possam comprar mais objetos, consumir mais... retirar da pobreza equivale a criar
consumidores, integrar ao sistema. O foco principal das políticas afirmativas não é agregar ou
preservar culturas, conhecimentos, experiências de vida, que pouco importam para os
indicadores e estatísticas.
Não obstante as desigualdades sociais persistirem, as políticas para o crescimento
econômico seguem a todo vapor, ainda na toada da velha receita do “crescer para depois
dividir”. Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Pará – FIEPA, estão previstos para
os próximos anos mais de R$ 130 bilhões em investimentos públicos e privados, destes mais
de 50% vão para a indústria mineral214 e o restante para infraestrutura ou produção de energia
que também beneficiam o setor mineral. O setor contribuiu com 90% das exportações
paraenses que, por sua vez, contribui com bilhões de reais anualmente na balança comercial
brasileira, sendo o Pará um dos principais responsáveis pelo seu equilíbrio215.

                                                                                                           
214
Principalmente na região do Carajás onde a Cia Vale do Rio Doce pretende investir cerca de 20 bilhões no
projeto conhecido como S11D, com finalidades de aumentar o processamento do minério retirado pela empresa
na região. FIEPA. Guia Industrial Pará. Disponível em http://cadind.fiepa.org.br/oguia.php. Acesso em 20 de
outubro de 2013.
215
Conforme tabela em demonstrativo do DNPM é possível fazer uma estimativa da movimentação financeira
do setor minerário na balança comercial. DEPARTAMENTO NACIONAL DE PRODUÇÃO MINERAL.
Economia Mineral do estado do Pará. Belém, 2012. Disponível em
http://www.dnpm.gov.br/mostra_arquivo.asp?  IDBanco  ArquivoArquivo  =6860. Acesso em 21 de outubro de
2013.
  219  

NCM*

DESCRIÇÃO VALOR
26011100 Min. De ferro não aglom. E seus 11.770.815.145
concentrados
26030090 Outros minérios de cobre e seus 853.845.822
concentrados
26020090 Outros minérios de manganês 280.458.651
25070010 Caulim 259.132.241
26060011 Bauxita não calcinada 199.932.321
75022000 Ligas de níquel em forma bruta 91.148.529
71081310 Ouro em barra, fios, perfis de sec. Mac., 82.088.088
bul. Dour.
26090000 Minério de estanho e seus concentrados 9.733.647
26110000 Minério de tungstênio e seus concentrados 554.169
TOTAL 13.547.708.613

* Nomenclatura Comum do Mercosul


Tabela 02: Pauta de Exportação Mineral do Pará. Fonte: SECEX/MDIC - em US$

ANO BRASILEIRA PARAENSE


TOTAIS MINERAIS TOTAIS MINERAIS
2007 186.974.311.748 13.996.988.204 9.223.762.135 3.715.029.173
2008 209.733.426.593 19.842.127.864 11.316.727.635 6.025.375.640
2009 177.756.897.710 16.792.322.617 9.695.932.264 5.587.113.218
2010 219.734.555.237 33.559.557.514 13.968.161.969 9.170.741.268
2011 256.039.574.768 44.216.554.398 18.336.604.195 13.547.708.613
Tabela 03: Exportações Brasileiras e Paraenses. Fonte: SECEX/MDIC - em US$

São milhares de pessoas que empregam sua força de trabalho para fazer a máquina
minerária rodar, mas que sem a alta tecnologia, as imensas escavadeiras e caminhões, linhas
férreas, navios, muita energia, capital, combustível, decisões políticas e muitas outras forças
somadas, de nada servem. Desse contingente de empregados apenas 35% são paraenses e a
maior parte está alocada nos setores de lavra e beneficiamento em que o nível de escolaridade
necessário é o fundamental e o fundamental incompleto216.
Dentre as atividades econômicas minerárias do Pará as empresas ligadas à bauxita
movimentam um mercado bilionário e fazem da região um dos principais polos produtores do
mundo, oscilando entre o terceiro e o quarto lugar. Suas 2,7 bilhões de toneladas
correspondem a 75% das reservas brasileiras e estão entre as maiores do mundo217. Das
quinze maiores empresas paraenses, quatro são diretamente ligadas a esse minério, inclusive a
de maior economia: Hydro Alunorte, Alumínio Brasileiro – Albras, Mineração Rio do Norte –
MRN e Mineração Paragominas, respectivamente. O setor que recebeu aportes bilionários nas

                                                                                                           
216
ENRÍQUEZ, Maria A. Plano de Mineração do Estado do Pará. In. GOVERNO DO PARÁ. Relato da Sexta
Oficina: Mineração em Unidades de Conservação no Pará. Belém. 2012
217
MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Relatório Técnico 22: Perfil da Mineração de Bauxita. Brasília:
Banco Mundial. 2009
  220  

últimas décadas, atualmente aguarda uma melhora no mercado internacional218 e a redução


dos custos de energia219 para novos investimentos. Inclusive, um projeto milionário da Norsk
Hydro ASA (Norueguesa) em parceria com a Dubal (estatal de Dubai) de produção de
alumina foi adiado, a Companhia de Alumina do Pará – CAP220. A Alunorte de 1978
(subsidiária da Hydro que tinha como parceira e acionista a Vale do Rio Doce) em Bacarena é
a maior refinaria de alumina do mundo. Por sua vez a Alcoa (Norte-Americana) investiu
bilhões em Juruti, próximo a Oriximiná, ampliando para cerca de 4,5 milhões de toneladas
anuais sua capacidade produtiva de bauxita primária. Despejados aqui superficialmente como
manchetes jornalísticas de cadernos econômicos, vários destes projetos com propostas
iniciadas nas décadas de 1970 e 1980 e outros mais recentes, vão aportar bilhões e bilhões em
recursos, na maior parte internacional. Por sua vez esses recursos podem ser fracionados nos
múltiplos interesses que se mobilizam em torno da produção do metal não-ferroso mais
consumido no mundo, com possibilidade infinita de reciclagem, alta condutibilidade elétrica e
térmica e incontáveis funções dentro das sociedades atuais.
O mercado altamente integrado221 e transnacional em torno da bauxita traduz em
números e linhas de gráficos os dados produzidos pelos estudos técnico-científicos: da
quantidade de reservas, da qualidade das mesmas, das tecnologias disponíveis para
extração/produção, das políticas governamentais favoráveis, dos custos ambientais entre
muitas outras variáveis que representam as milhões de toneladas que serão extraídas do
mineral em suas regiões de origem. A mudança de escala nos números processados pelas
centrais de cálculos (universidades, bancos, bolsas de valores, governos etc.) vão
associando/transladando diferentes setores e funções sociais amarrando-os na extração do
mineral. Enlaçam desde as grandes companhias minerárias globalizadas, as políticas públicas,

                                                                                                           
218
[...]o saldo para os metais é de fortes perdas em 2013, com o alumínio acumulando queda nas cotações de
15% no ano. Segundo analistas, o cenário não deve mudar no ano que vem, já que não há sinais de mudanças na
China, com o país mantendo políticas de subsídio para a produção mesmo com margens negativas. "Como essa
dinâmica não muda, esse ciclo de baixa deve se estender para 2014 e 2015", diz Bruno Rezende, analista da
Tendências Consultoria. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ALUMÍNIO. Cotações do Alumínio primário
recuam em 2013. Disponível em: http://www.abal.org.br/noticias/lista-­‐noticia/integra-­‐noticia/?id=1183.
Acesso em dezembro de 2013.
219
A produção do alumínio é uma das atividades que mais consomem energia elétrica em sua cadeia de
produção, por isso a variação no preço da mesma influencia toda a cadeia. No Brasil a cotação para o setor está
em US$ 72/MWh, muito acima da média mundial registrada em US$ 40/MWh. ROCKMANN, R. Cautela com
preços baixos e energia cara. In. VALOR ECONÔMICO S.A.: Estados – Mineração lidera a economia: setor
estimula uma sólida cadeia produtiva. Rio de Janeiro. Novembro de 2013.
220
HYDRO. Projeto de alumina da CAP é adiado. 2013. Disponível em: http://www.hydro.com/pt/A-­‐Hydro-­‐
no-­‐Brasil/Imprensa/Noticias/Projeto-­‐de-­‐alumina-­‐da-­‐CAP-­‐e-­‐adiado/. Acesso em outubro de 2012.  
221
No sentido de que as próprias companhias mineradoras, concorrentes entre si, participam enquanto parceiras
nos projetos de produção em suas diversas etapas, desde a mineração da bauxita, à produção de alumina, ao
alumínio primário.
  221  

os consumidores, até acionistas/investidores individuais que veem nesses números seus


posteriores ganhos pessoais em cifras, mas não veem, pelo menos não com seus olhos, a
realidade de onde sai estes minerais. A máquina precisa crescer para manter suas amarras e
criar novas. Se não crescer ou ter essa perspectiva o investidor retira seu dinheiro e põe em
algo mais lucrativo e aí tudo pode estagnar ou parar. A oscilação destes números vão
repercutir diretamente no avanço sobre os territórios e as transformações socionaturais que
vêm a reboque. Este avanço multidimensional que literalmente move montanhas dos locais de
extração é promovido pelas grandes companhias transnacionais que atuam conjuntamente
entre si, muitas das vezes, sejam como parceiras em projetos ou como acionistas uma das
outras. Detentoras dos aportes tecnológicos necessários para extrair e dar valor monetário ao
mineral, nossos protagonistas aqui, cujo papel principal é dado à MRN, são hidras que
amarram nossa rede do local ao global (até onde estendem suas conexões) e tem muito mais
do que sete cabeças.
Nesse processo, além dos projetos comuns entre as multinacionais, são estabelecidas
parcerias íntimas com o Estado, não apenas como detentor legal dos recursos do subsolo, mas,
muitas vezes, como imprescindível condição de operacionalização dessa “máquina”. Uma
breve oscilação negativa na cotação mundial desse mineral pode paralisar a operação ou
expansão dessa rede, tanto quanto uma política governamental não realizada a seu favor – os
laços dessa poderosa conjuntura são frágeis. A máquina opera no limite e quer sempre
ultrapassá-lo. O setor recebe internacionalmente um tratamento diferenciado do poder
público222, que mobiliza outros bilhões em infraestrutura e fortalecimento de outros setores
correlatos, como o de energia elétrica, para somar as forças dessa máquina.
Em seu processo produtivo, a bauxita minerada e primariamente beneficiada (lavada e
secada) é levada às refinarias para a produção da alumina por meio de um processo químico
denominado “Bayer” (dissolução, filtração, cristalização e calcinação do minério).
Posteriormente a alumina sofre redução por eletrólise em um processo denominado Hall-
Héroult, para a obtenção do alumínio. No processo de calcinação é consumido (além de cal,
soda cáustica, óleo combustível etc.) cerca de 150 a 400 Kwh por tonelada. Entretanto, para a
produção de alumínio primário, no processo de redução da alumina, são consumidos 14 a 16,5
MWhcc por tonelada de alumínio, em que para cada cinco toneladas de bauxita é produzida

                                                                                                           
222
MACHADO, Raymundo Campos. A Indústria do Alumínio neste Final de Século. Ouro Preto: Fundação
Goicerx. 1988. p. 288
  222  

223
uma de alumínio. A tecnologia exigida em todas as etapas do processo, o custo de
produção e a demanda extrema de energia dão o porte dos atores envolvidos. O Brasil na
produção do alumínio tem destaque internacional tanto na produção quanto na tecnologia
empregada, mas os principais atores que movem esse processo não tem pátria, senão, talvez,
suas matrizes como destinação da maior monta dos dividendos da produção, porém essa trilha
não foi percorrida nesta pesquisa.
A mobilização de outros setores por meio do Estado na cadeia produtiva do alumínio
fica explicitado com o projeto da ALBRÁS – Alumínio Brasileiro S. A. (inicialmente com
capital nacional da CVRD, japonês da Nippon Amazon Aluminium Co. - NAAC e do BNDES,
hoje com a parte referente à CVRD transferida para a Hydro). A ALBRÁS provocou e
viabilizou a construção da Usina de Tucuruí, no Pará, entre 1975 e 1984. A empresa teve para
si criada a Usina de Tucuruí, mas a hidroelétrica, por sua vez, possibilitou a ALUMAR,
criada em 1984, composta pela ALCOA, BHB Billition e Rio Tinto-Alcan, situada em São
Luiz – MA224. Atualmente a construção da hidroelétrica de Belo Monte, orçada em cerca de
R$ 30 bilhões com 80% de investimentos públicos, planejada desde da década de 1980,
apresenta um quadro muito parecido com o desenvolvimentismo do regime militar na
sobreposição de interesses e na manutenção de relações estreitas entre as empreiteiras e
empresas eletrointensivas, principalmente do alumínio primário225. É a renovação dos votos
desse antigo casamento entre políticas governamentais e grandes empreendimentos. A
hidroeletricidade na proporção projetada em Belo Monte beneficia os setores que tem alta
demanda de energia e necessidade de que ela seja estável, contínua e ininterrupta por todas as
horas do dia, diferente das demandas domésticas e de empresas de menor impacto energético
que poderiam ser atendidas por fontes alternativas (eólica e solar)226. A transmissão dessa
energia para o sudeste do país também faz aquecer o setor da bauxita/alumínio que vão
compor parte dos materiais de transmissão (principalmente cabos) – tudo conectado.

                                                                                                           
223
MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Relatório Técnico 22: Perfil da Mineração de Bauxita. Brasília:
Banco Mundial. 2009
224
MACHADO, Raymundo Campos. A Indústria do Alumínio neste Final de Século. Ouro Preto: Fundação
Goicerx. 1988. p. 289
225
FEARNSIDE, Philip M. Belo Monte: Resposta à Associação Brasileira do Alumínio. Instituto Nacional de
Pesquisa da Amazônia. 23 de fevereiro de 2012. Disponível em:
http://philip.inpa.gov.br/publ_livres/mss%20and%20in%20press/Fearnside-­‐Belo%20Monte-­‐
Resposta%20a%20Assoc%20Bras%20de%20Aluminio.pdf. Acesso em: 16 de março de 2012.
226
BERMANN, C. & MARTINS, O.S. Sustentabilidade Energética no Brasil: Limites e Possibilidades para
uma Estratégia Energética Sustentável e Democrática. (Série Cadernos Temáticos No. 1) Projeto Brasil
Sustentável e Democrático, Federação dos Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), Rio de
Janeiro, RJ. 2000. p.151.
  223  

A inserção do governo brasileiro no setor do alumínio, enquanto “sócio”, se inicia com


o Projeto Trombetas em 1972 na proposta da CVRD – na época controlada pelo Ministério de
Minas e Energia – em participar minoritariamente da MRN, projeto original da canadense
Alcan apoiado pela SUDAM. A CVRD também vai participar diretamente nos demais
projetos estatais na região amazônica como o da ALBRÁS e da ALUNORTE. Investimentos
privados internacionais e nacionais como os da Companhia Brasileira de Alumínio – CBA (do
grupo Votorantin) e da Alcoa, da Hydro entre outras, também vão receber apoio direto do
governo com investimentos em infraestrutura, ou concessão de benefícios fiscais, ou
subsídios em financiamentos, tributos, além de favorecimentos outros que não aparecem em
documentos oficiais.
Atualmente a CVRD privatizada abreviou o nome para Vale e é considerada a terceira
maior mineradora do mundo com 5.5% de suas ações com o governo, 37.9% de investidores
estrangeiros, 23.3% de investimentos brasileiros e 33.3% da Valepar (Grupo Bradesco e
outros acionistas como a Litel, Mitsui, BNDESpar e Elétron)227. No ano de 2010 a CVRD
anuncia seu gradativo afastamento do setor de alumínio transferindo para Hydro todas as suas
participações na Albrás, na Alunorte e na Companhia Alumina do Pará228. Em setembro de
2013 é anunciado em matéria na Revista Valor Econômico a comercialização das cotas da
Vale na MRN, que tem a companhia como principal acionista e está em disputa pela Alcoa,
Rio Tinto Alcan, BHP Billiton e Norsk Hydro, suas acionistas também. Outros grupos de fora
entre russos e chineses também tem interesses229. Atualmente a MRN é constituída pela Vale
(40%), BHP Billiton Metais (14,8%), Rio Tinto Alcan (12%), Companhia Brasileira de
Alumínio – CBA (10%), Alcoa Brasil (8,58%), Norsk Hydro (5%), Alcoa World Alumina
(5%) e Alcoa AWA (4,62%). São as maiores mineradoras do mundo que compõem esta joint-
venture, que se tornou a maior produtora de bauxita do Brasil e uma das maiores do mundo (a
maior produtora individual do mundo), com produção vendida em 2012 de 17,1 milhões de
toneladas do minério. Desta produção 59% atenderam as refinarias da Alunorte e da Alumar

                                                                                                           
227
VALE DO RIO DOCE. A Vale. Disponível em http://www.vale.com/PT/investors/company/fact-­‐
sheet/Documents/factsheetp.pdf. Acesso em novembro de 2013.
228
Id. Vale conclui gestão de portfólio de ativos de alumínio. Disponível em:
http://www.vale.com/brasil/PT/investors/home-­‐press-­‐releases/press-­‐releases/Paginas/vale-­‐conclui-­‐gestao-­‐de-­‐
portfolio-­‐de-­‐ativos-­‐de-­‐aluminio.aspx. Acesso em novembro de 2013
229
RIBEIRO, Ivo. Fatia da Vale na MRN terá disputa acirrada. In Valor Econômico. São Paulo. 29 de setembro
de 2013. Disponível em: http://www.valor.com.br/empresas/3282206/fatia-da-vale-na-mrn-tera-disputa-
acirrada#ixzz2mq3Ozg3k. Acesso em 10 de outubro de 2013.
  224  

(mercado interno230) e os 41% restantes foram destinados ao mercado externo, sendo 18%
para os EUA, 11% para o Canadá, 10% para Europa e 2% para a China. A MRN conta com
um quadro de empregados de cerca de 1.300 funcionários, destes 88% são da região Norte231.
Conforme buscou-se mapear há uma complexa rede que configura a mineração da
bauxita, quase sempre associada à produção do alumínio, sua principal destinação (o uso para
refratários é muito restrito e não está relacionado com a bauxita da Amazônia). Nessa rede
atuam poderosos grupos de interesses que se coligam para a viabilização de seus projetos.
Formam-se égides sobre égides, é inidentificável de onde originam as decisões e
reponsabilidades. Empresas que “competem no mercado entre si”, mas que aqui apresentam-
se unidas para concretização dos projetos de extração mineral na Amazônia brasileira. É só
ligar os pontos que as linhas se apresentam. O Estado assume o papel preponderante e
garantidor do processo (que detalharemos adiante com a atuação da MRN), na analogia
ecológica, uma relação simbiótica. Alguns iriam preferir dizer que o Estado é parasitado por
interesses externos em que assumimos a posição de eternos fornecedores de matéria prima ou
commodities, entregando nossos recursos ao capital estrangeiro que dilapidam nossas terras e
almas. Os dois lados da divisão internacional do trabalho, quem se enriquece e quem se
empobrece. “A pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas
transações” que só favorecem as perpétuas elites nacionais. Mas, nesse viés, deveríamos nos
prender a uma perspectiva de Estado idealizada que não se assenta em nenhum plano de
existência: o Estado é definitivamente peça fundamental no jogo e a dicotomia do interesse
público e privado é diluída pela própria realidade. A rede certamente se estende aos
indivíduos: governantes ou ligados a eles, alto empresariado, e mesmo aos “Senhores
Ausentes” de Bauman (elites globais), já que o velho modelo José Ermírio de Morais, que
mostra a cara, assume a responsabilidade e maquia o capital externo, não existe mais. Não
tive folego para avançar nessa direção. O lucro é o que faz conectar atuando sobre a nossa
fome, os nossos instintos mais primitivos, ele não determina, é determinado pela ciência e
técnica que faz possível o agenciamentos deste metal, que o faz parte indissociável da
sociedade no número infinito de conexões que passa a estabelecer e dependências que passa a
criar.

                                                                                                           
230
É importante ressaltar que tanto a Alunorte quanto a Alumar também são exportadoras de alumina, ou seja,
um percentual da bauxita que é processada aqui vai para fora da mesma forma, só que com uma etapa a mais de
beneficiamento. Exportam mais de 80% de sua produção, conforme disponível em seus sites.
231
MRN. Relatório da Administração 2012. Auditores independentes. Disponível em:
http://www.mrn.com.br/Informaes%20Financeiras/24x27cm-­‐DOE-­‐2012.pdf. Acesso em fevereiro de 2013.
  225  

2.2 Para além dos territórios e das leis

Ferramentas de pedra são utilizadas antes do surgimento do Homo sapiens


acompanhando todo o paleolítico. O fascínio por minerais, não apenas de uso prático ou
direto, mas também sobre aqueles coloridos e que brilham, acompanha a espécie humana em
muitas de suas composições socionaturais, ganhando maior expressão no surgimento das
civilizações. Inúmeras guerras foram travadas em busca de minerais e também ganhas pelo
domínio dos mesmos. Eras inteiras são assim marcadas: Idade do Cobre, do Bronze, do Ferro,
do Ouro, do Silício...
[...] sem os metais, os homens teriam sido privados da “glória e
pompa” da batalha, ferida com espadas, armas e trombetas; em vez
disso, haveria somente “uivos e brados de homens pobres e nus
espancando-se uns aos outros [...] com porretes, ou brigando
totalmente aos murros”. 232

A mitologia do eldorado fez a força dos corações aventureiros dos povos ibéricos para
rasgarem o mundo atrás da fortuna dos metais e gemas. O conhecimento milenar da fundição,
que se liga até os dias de hoje à mais sofisticada metalurgia, proporcionou ferramentas,
extensões ou rizomas do nosso corpo, que deram outro poder a nós e as nossas sociedades. Se
uma tribo conhecer um machado de ferro, não mais utilizará um machado de pedra para cortar
uma árvore e, se ela não detiver a tecnologia para a fabricar a ferramenta, passa a estar
dependente de quem a possui. Se um grupo humano produz armas de metal torna-se quase
impossível para outro rival que não as detiver competir ou defender-se. Armas, germes e aço,
como diria Jared Diamond233, fizeram diferença para o povo europeu, selecionado na guerra e
na doença, imbuído de conhecimentos de muitas civilizações anteriores, para dominar as
terras ameríndias. “Tiros de arcabuz, golpes de espada e sopros de peste”234, os diferentes
ciclos do ouro, da prata, da esmeralda, do diamante ou outro mineral qualquer, abriram as
veias da América Latina que ainda sangram após todos esses séculos. Agora na técnica das
imensas máquinas, na força dos que detém o conhecimento para fazer armas de uranio ou para
nos seduzir e fazer que desejemos machados de ferro para cortar as árvores com que
construiremos nossas casas ou extrairemos a lenha para cosermos nosso alimento.

                                                                                                           
232
THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural: mudanças de atitudes em relação às
plantas e aos animais (1500-1800). Tradução de João Roberto Martins Filho. São Paulo: Companhia das Letras,
2010. p. 25
233
DIAMOND, Jared. Armas, germes e aço: o destino das sociedades humanas. Rio de Janeiro: Record, 2007
234
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2010. Disponível em:
http://copyfight.noblogs.org/gallery/5220/Veias_Abertas_da_América_Latina(EduardoGaleano).pdf. Acesso
em outubro de 2010.
  226  

Ciência, técnica e mineração caminham de mãos dadas compondo parte substancial da


matéria das sociedades humanas. A identificação, mapeamento, qualificação, extração,
regulamentação, aplicação, utilização e comercialização dos minerais compõem uma rede
sociotécnica de proporções globais de longa e sangrenta história. Nos tempos modernos os
grandes projetos minerários foram tradicionalmente idealizados, negociados e decididos em
locais muito distantes de sua extração e realizados por organizações ou grupos que não
possuíam nenhum laço com território da mina além do interesse frio no próprio mineral e da
capacidade técnica para extraí-lo. Diferente do garimpo, ou da faiscação ou da cata, também
impactantes em menor escala, a mineração que nos referimos precisa mobilizar muitos
interesses em uma mesma direção para que opere e, para amalgama-los, precisa convencer ou
com o repasse de parte de seus resultados ou pela força bruta sobrepujando interesses – o que
se fez mais usual ao longo da história e que apresenta um novo quadro na contemporaneidade
que aqui estamos explorando.
Enquanto a América Latina via reduzir a um décimo sua população original na
violência colonizadora, a Europa via quintuplicar seu capital com as riquezas minerais
sorvidas destes solos235. No Brasil colonial, onde a principal mão de obra eram os negros
africanos, as corridas pelo ouro, diamantes e outros minerais preciosos marcaram diversas
passagens da história e assentaram grupos humanos em diferentes sítios deste vasto território,
além de contribuir muito para a riqueza europeia. No período colonial a Coroa realizava
acirrado controle sobre os que detinham conhecimentos minerários, principalmente ourives e
ferreiros, inclusive proibindo a fabricação do ferro, em 1785. Via nesse controle uma forma
de combater os descaminhos, principalmente do ouro e do diamante, e manter a dependência
da colônia sobre os objetos de ferro, imprescindíveis para várias funções. Com a chegada do
Príncipe Regente em 1808 se inicia a siderurgia no Brasil, em apoio à busca do ouro, com o
alemão Schonewolf. Com deficiências técnicas e conhecimentos geológicos ainda pouco
desenvolvidos o Brasil pós-colonial do século XIX recebe diversos personagens estrangeiros
para “contribuir” no reconhecimento e mapeamento de suas riquezas naturais como: John
Baptist Von Spix, Carl Friedrich Philipp Von Martius, Harry Rosenbush, Hermann Von
Ihering, entre outros. Quando o mineral de fácil acesso dos aluviões começaram a se exaurir,
as minas e jazidas foram amplamente abertas à iniciativa privada, isso já na independência.
Nesse momento, os ingleses foram os maiores investidores que, com apoio do capital nacional

                                                                                                           
235
LOPEZ, Octavio J. Minería del Caribe y de América Central. In. LINS, F. A. F. A Construção do Brasil e da
América Latina pela Mineração: Histórico Atualidade e perspectivas. Rio de Janeiro: CETEM/MCT, 2000. p.
125.
  227  

do Barão de Catas Altas e do Marquês de Olinda, incorporaram a “Imperial Brazilian Mining


Association”, com sede em Londres. Posteriormente novas companhias foram se instalando,
tornando a exploração do ouro brasileiro o investimento mais lucrativo da Inglaterra na
América Latina do séc. XIX. Esses investimentos e tecnologias escavaram grandes minas em
S. João Del Rei, S. José Del Rei (Tiradentes), Sabará, Itabira do Campo, entre outros locais236.
A mineração, conforme ilustrado, associa-se historicamente a vários atores externos e
internos que alojam-se, subtraem e modificam parte do território. Quando esgota o mineral
elas partem deixando as cicatrizes na terra. As regras que vão disciplinar a apropriação dos
recursos minerais, proveniente de tratados internacionais ou emanadas do Estado enquanto
ente Soberano, vão variar conforme o momento político e conforme o interesse sobre cada
mineral. No Brasil da época colonial as jazidas pertenciam à Coroa Portuguesa disciplinadas
pelo regime denominado Regaliano, o donatário do território que obtivesse outorga de lavra
devia o quinto237 à Coroa. No período do império o regime foi o Dominial em que jazidas e
minas pertenciam à Nação. Com a proclamação da República e a Constituição de 1891 o
regime foi o de Acessão, em que as jazidas e minas pertenciam ao proprietário do solo (art.
72, §17). Com a Emenda de 03 de setembro de 1926, se as minas e jazidas estivessem
relacionadas à segurança nacional não poderiam ser transferidas a estrangeiros. Este regime
perdurou até a próxima Constituição e o Código de Minas, ambos de 1934. A partir de então
passou-se ao regime de “res nullius”, em que as jazidas e minas constituíam “propriedade
distinta da do solo”, não pertenciam a ninguém especificamente, concedendo-se ou
outorgando direito a quem realizasse a exploração conforme a lei, com preferência para o
proprietário do solo238. Neste período assim como na Constituição de 1937 e 1967, a
exploração mineral só poderia ser realizada por empresas nacionais ou organizadas no Brasil.
Com a Constituição Federal de 1988 os recursos minerais passam a ser bens da União (art. 20,
IX), que detém competência privativa para legislar sobre os mesmos. A Constituição Federal
de 1988 avança muito na temática frente às constituições anteriores, tratando em diversos
momentos os recursos minerais: art. 20, IX; art. 21, XXV; art. 22, XII; art. 174, §§ 3º e 4º; art.
176, §§ 1º, 2º e 3º; art. 225, § 2º; art. 231, § 3º.239 Por fim os Atos das Disposições
                                                                                                           
236
RAMOS, José R. A. Mineração no Brasil Pós-Colonia. In. LINS, F. A. F. A Construção do Brasil e da
América Latina pela Mineração: Histórico Atualidade e perspectivas. Rio de Janeiro: CETEM/MCT, 2000. p. 56
237
O “quinto” conforme o próprio nome, correspondia à quinta parte da produção, os vinte por cento que eram
devidos à Coroa.
238
RAMOS, José R. A. Mineração no Brasil Pós-Colonia. In. LINS, F. A. F. A Construção do Brasil e da
América Latina pela Mineração: Histórico Atualidade e perspectivas. Rio de Janeiro: CETEM/MCT, 2000. p. 58
239
Art. 20. São bens da União: IX - os recursos minerais, inclusive os do subsolo;
Art. 21. Compete à União: XXV - estabelecer as áreas e as condições para o exercício da atividade de
garimpagem, em forma associativa. XXIII - explorar os serviços e instalações nucleares de qualquer natureza e
  228  

Constitucionais Transitórias – ADCT, dispôs sobre o assunto também nos artigos 43 e 44240.
Uma das grandes inovações e a de maior repercussão para a mineração foi o tratamento
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
exercer monopólio estatal sobre a pesquisa, a lavra, o enriquecimento e reprocessamento, a industrialização e o
comércio de minérios nucleares e seus derivados, atendidos os seguintes princípios e condições: a) toda atividade
nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso
Nacional; b) sob regime de permissão, são autorizadas a comercialização e a utilização de radioisótopos para a
pesquisa e usos médicos, agrícolas e industriais; c) sob regime de permissão, são autorizadas a produção,  
comercialização e utilização de radioisótopos de meia-vida igual ou inferior a duas horas; d) a responsabilidade
civil por danos nucleares independe da existência de culpa;
Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: XII - jazidas, minas, outros recursos minerais e
metalurgia;
Art. 174. Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as
funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para
o setor privado. § 3º - O Estado favorecerá a organização da atividade garimpeira em cooperativas, levando em
conta a proteção do meio ambiente e a promoção econômico-social dos garimpeiros. § 4º - As cooperativas a que
se refere o parágrafo anterior terão prioridade na autorização ou concessão para pesquisa e lavra dos recursos e
jazidas de minerais garimpáveis, nas áreas onde estejam atuando, e naquelas fixadas de acordo com o art. 21,
XXV, na forma da lei.
Art. 176. As jazidas, em lavra ou não, e demais recursos minerais e os potenciais de energia hidráulica
constituem propriedade distinta da do solo, para efeito de exploração ou aproveitamento, e pertencem à União,
garantida ao concessionário a propriedade do produto da lavra. § 1º A pesquisa e a lavra de recursos minerais e o
aproveitamento dos potenciais a que se refere o "caput" deste artigo somente poderão ser efetuados mediante
autorização ou concessão da União, no interesse nacional, por brasileiros ou empresa constituída sob as leis
brasileiras e que tenha sua sede e administração no País, na forma da lei, que estabelecerá as condições
específicas quando essas atividades se desenvolverem em faixa de fronteira ou terras indígenas. § 2º - É
assegurada participação ao proprietário do solo nos resultados da lavra, na forma e no valor que dispuser a lei. §
3º - A autorização de pesquisa será sempre por prazo determinado, e as autorizações e concessões previstas neste
artigo não poderão ser cedidas ou transferidas, total ou parcialmente, sem prévia anuência do poder concedente.
§ 4º - Não dependerá de autorização ou concessão o aproveitamento do potencial de energia renovável de
capacidade reduzida.
Art. 177. Constituem monopólio da União: V - a pesquisa, a lavra, o enriquecimento, o reprocessamento, a
industrialização e o comércio de minérios e minerais nucleares e seus derivados, com exceção dos radioisótopos
cuja produção, comercialização e utilização poderão ser autorizadas sob regime de permissão, conforme as
alíneas b e c do inciso XXIII do caput do art. 21 desta Constituição Federal
Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e
essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e
preservá- lo para as presentes e futuras gerações. § 2º - Aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a
recuperar o meio ambiente degradado, de acordo com solução técnica exigida pelo órgão público competente, na
forma da lei.
Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os
direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e
fazer respeitar todos os seus bens. § 3º - O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais
energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com
autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos
resultados da lavra, na forma da lei.
240
Art. 43. Na data da promulgação da lei que disciplinar a pesquisa e a lavra de recursos e jazidas minerais, ou
no prazo de um ano, a contar da promulgação da Constituição, tornar-se-ão sem efeito as autorizações,
concessões e demais títulos atributivos de direitos minerários, caso os trabalhos de pesquisa ou de lavra não
hajam sido comprovadamente iniciados nos prazos legais ou estejam inativos.
Art. 44. As atuais empresas brasileiras titulares de autorização de pesquisa, concessão de lavra de recursos
minerais e de aproveitamento dos potenciais de energia hidráulica em vigor terão quatro anos, a partir da
promulgação da Constituição, para cumprir os requisitos do art. 176, § 1º.
§ 1º - Ressalvadas as disposições de interesse nacional previstas no texto constitucional, as empresas brasileiras
ficarão dispensadas do cumprimento do disposto no art. 176, § 1º, desde que, no prazo de até quatro anos da data
da promulgação da Constituição, tenham o produto de sua lavra e beneficiamento destinado a industrialização no
território nacional, em seus próprios estabelecimentos ou em empresa industrial controladora ou controlada.
§ 2º - Ficarão também dispensadas do cumprimento do disposto no art. 176, § 1º, as empresas brasileiras titulares
de concessão de energia hidráulica para uso em seu processo de industrialização.
  229  

diferenciado ao meio ambiente e seus atributos que passam a ser “bens de uso comum do
povo”, ou seja, de interesse difuso, “res communis”, de caráter eminentemente público. A
obrigação de reparar o dano causado pela mineração, obrigação já dedutível da Política
Nacional de Meio Ambiente, Lei 6938 de 1981, é ineditamente explicitada na Constituição de
1988. Na mesma linha instituiu-se também uma tríplice responsabilização decorrente de dano
eventual ao meio ambiente: penal (inclusive figurando no polo ativo a pessoa jurídica –
mediante culpa lato senso), civil (responsabilidade objetiva com dever de indenizar e reparar
o dano) e administrativa (correspondente à transgressão de regra administrativa de tutela
ambiental, podendo ser responsabilidade objetiva ou subjetiva conforme a regra
administrativa transgredida).
O reconhecimento da importância da atividade minerária é notório na Constituição de
1988 enquanto atividade de “relevante interesse público”. Por sua vez, com exceção das
substâncias minerais protegidas (radioativas e hidrocarbonetos), a Constituição possibilitou ao
Poder Público autorizar e/ou conceder tanto a pesquisa quanto a lavra para particulares241.
Nesse caso, a grande diferença em relação aos momentos anteriores, está na rigidez do
controle ambiental da atividade pelo reconhecimento de que a mesma pode causar muito mais
prejuízos do que benefícios sem este controle. Aqui a legislação se conecta ampliando os
vínculos e fazendo emergir interesses.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
§ 3º - As empresas brasileiras referidas no § 1º somente poderão ter autorizações de pesquisa e concessões de
lavra ou potenciais de energia hidráulica, desde que a energia e o produto da lavra sejam utilizados nos
respectivos processos industriais.
241
Com fins elucidativos segue um breve resumo do regime de concessão e autorização para lavra, baseado no
Código de Mineração em vigor (Decreto-lei 227/1967): 1. Requerimento de Pesquisa em área livre (equivale a
área sem requerimentos ou pesquisas anteriores conforme art. 18 do Código de Mineração). Apresenta-se os
documentos constantes do art. 16 dirigido ao Diretor Geral do Departamento Nacional de Produção Mineral -
DNPM, tais documentos devem ser preparados por geólogos ou engenheiros de minas, atendendo aos requisitos
será emitido Alvará publicado no Diário Oficial da União (ato compulsório). 2. Autorizada a pesquisa o acesso a
área poderá ser negociado com o proprietário ou pleiteado judicialmente, em que serão fixadas as rendas e
indenizações. Após autorizado, o Titular da pesquisa deve iniciá-la dentro de sessenta dias e manter um fluxo
constante de informações para o DNPM, previstos na Lei, até a apresentação do relatório final – Relatório dos
Trabalhos de Pesquisa (art. 22 e 30). 3. Após aprovação do relatório publicada no DOU, o titular tem o prazo de
um ano para requerer a concessão de lavra. Dará entrada então a uma série de documentos para a requisição
dirigidos ao Ministro de Minas e Energia com o Plano de Aproveitamento Económico da jazida. 4. Apresentando
a documentação concernente ao requerimento de lavra será analisada no DNPM e, estando bem instruída,
ensejará a Concessão pelo Ministro de Minas e Energia de uma Portaria, devendo atender aos requisitos do
Licenciamento Ambiental para o aproveitamento da jazida. Cabe ressaltar que também estão previstos os
regimes de a) Licenciamento (substancias de emprego imediato na construção civil) facultado exclusivamente ao
proprietário do solo ou a quem obtiver expressa autorização; b) Permissão de Lavra Garimpeira (substâncias
minerais garimpáveis); c) Extração (para órgão ou entes públicos de substancias utilizadas imediatamente na
construção civil de obras públicas.
  230  

Os diversos momentos políticos que compuseram a legislação mineral internacional


vão influenciar as legislações domésticas dos países, dentre eles o Brasil, destacando-se
quatro momentos242:
1º. (1945/1965) Após a II Grande Guerra aumenta a demanda global de minério para a
reconstrução dos países assolados. Simultaneamente se intensificam os movimentos
nacionalistas e de independência nos países colonizados. O aumento da resistência dos países
pobres à dominação dos países ricos acarreta na rediscussão de contratos e concessões que
feriam a soberania desses países hospedeiros de companhias estrangeiras. Começam as
reivindicações para “dividir o lucro”. Neste momento, iniciam os movimentos ambientalistas
que involuntariamente promovem o deslocamento da mineração mais poluente para os países
pobres, ao reivindicar um controle mais rígido para a prática nos países ricos.
2º. (1965/1980) A ONU reconhece em 1972 a soberania nacional sobre os recursos minerais
existentes nos subsolo dos países e na plataforma continental. O governo passa a ter um
controle mais efetivo da mineração, com participação mais direta do Estado e restrições ao
capital estrangeiro. Proliferam-se as estatais e as joint-ventures e a parceria entre ambas. Os
primeiros grandes tratados sobre meio ambiente são estabelecidos, possuindo como como
marco a Conferência das Nações Unidas Sobre meio Ambiente Humano de Estocolmo.
3º. (1980/1990) Crise econômica nos países produtores, auxílios internacionais e aumento da
dívida externa, terceirizações, contratos de serviço, contratos de risco e gradativo
fortalecimento da legislação ambiental.
4º (1990-) Globalização econômica regida pelo ideário neoliberalista com grande volatização
e dinamicidade do capital que passa a se movimentar com mais facilidade em busca de
oportunidades melhores. Privatizações em série de estatais. Maior visibilidade de interesses
excluídos por meio do intercâmbio e fortalecimento dos movimentos sociais. Adaptação do
paradigma da “economia de rapina” para a “ecoeficiência” e consequente ampliação da
negociação com os stakeholders (diversas partes envolvidas).
No Brasil o Código de Minas de 1934 (Decreto nº 24.642/1934) é revogado pelo
Decreto-Lei 1.985 de 29 de março de 1940, que por sua vez ganha nova redação com o
Decreto-Lei nº 227 de 28 de fevereiro de 1967, com sucessivas modificações posteriores,
principalmente pela Lei 7.805 de 1989 e Lei 9.314 de 1996, sendo este último o Código de
Minas que vige atualmente. Por ser o recurso mineral um bem público que pode ter concedida

                                                                                                           
242
Com exceção do quarto momento os demais encontram-se em: HERRMANN, Hildebrando. A mineração sob
a óptica legal. In. LINS, F. A. F. A Construção do Brasil e da América Latina pela Mineração: Histórico
Atualidade e perspectivas. Rio de Janeiro: CETEM/MCT, 2000. p. 171
  231  

a exploração ao particular, figuram alguns preceitos gerais do direito administrativo somados


aos específicos do direito mineiro em que se destacam: a legalidade, a formalidade, a
gratuidade (em casos específicos), a utilidade pública, a divisibilidade, a transmissibilidade e
as onerações. Apesar de possuir regime jurídico próprio, a mineração guarda estreita relação
com o direito ambiental, sobretudo por se tratar de atividade altamente impactante e pela
elevação do meio ambiente enquanto direito humano fundamental, garantido
constitucionalmente.
O principal ente público relacionado à mineração no Brasil é o Departamento
Nacional de Produção Mineral - DNPM. Sua origem está associada à Diretoria do Serviço
Geológico e Mineralógico do Brasil, criado em 1907, na época subordinado ao Ministério da
Agricultura, Indústria e Comércio. Oficialmente instituído em 1934, pelo Decreto 23.979,
manteve-se atrelado à agricultura até 1960 quando foi criado o Ministério de Minas e Energia
pela Lei 3.282. Trinta anos depois esse ministério é fundido com o de Comunicações e
Transportes e com o de Industria e Comércio formando o “Ministério da Infraestrutura” que
modificou substancialmente o DNPM. Em 1994 o DNPM torna-se Autarquia (Lei 7876) com
representação em todos os Estados e assumindo a responsabilidade de promover, planejar,
fomentar, outorgar, normatizar, controlar e fiscalizar o aproveitamento dos recursos minerais
e a realização das pesquisas geológicas. Apesar das muitas atribuições, o DNPM é
considerado uma entidade que age compulsoriamente autorizando pesquisas ou outorgando
lavras, bastando atender as formalidades legais, sem muita discricionariedade e ponderações.
Atualmente tramita o Projeto de Lei 5807, de 2013, que pretende substituir o atual
Código de Minas. A proposta foi realizada pelo Governo federal sob o argumento do
anacronismo do código anterior e da necessidade de modernizar a exploração mineral no país,
estimular a concorrência e ampliar a participação governamental dos resultados. Essa
proposta vem redimensionar a atividade mineral e sua regulamentação. A criação do
Conselho Nacional de Política Mineral - CNPM e da Agencia Nacional de Mineração –
ANM, segue a lógica da Agência Nacional do Petróleo, Gás-natural e Biocombustíveis. Essa
mesma lógica se reproduz no regime legal de exploração das minas e jazidas que serão
licitadas para exploração privada por períodos de quarenta anos prorrogáveis por mais vinte.
Outras modificações importantes estão relacionadas aos Royalties – Compensação Financeira
  232  

pela Exploração dos Recursos Minerais – CFEM – que sofrerá reajustes, majorando-os em
geral. 243
A CFEM que substituiu o Imposto Único sobre Mineral - IUM, é uma tributação
específica que recai sobre a atividade de mineração (também recaem as outras tributações em
geral). As alíquotas agrupam as substâncias minerais em quatro grupos: 1. Minério de
alumínio, manganês, sal-gema e potássio – 3% sobre o produto comercializado; 2. Ferro,
fertilizante, carvão e demais substâncias – 2%; 3. Pedras preciosas, pedras coradas lapidáveis,
carbonatos e metais nobres – 0,2%; 4. Ouro – 1% quando extraído por empresas e isento para
garimpeiros. Os recursos são distribuídos da seguinte maneira: 12% para União (DNPM,
IBAMA e MCT), 23% para o Estado onde for extraída a substância e 65% para o município
produtor, conforme a Lei 7990 de 28 de dezembro de 1989. Os recursos do CEFEM por força
da lei, devem ser aplicados em melhorias locais comunitárias, de infraestrutura, qualidade
ambiental, educação, saúde etc. Apesar de existirem diferentes modelos para a cobrança de
Royalties pelo mundo, o Brasil é um dos países com as mais baixas alíquotas244, i. e. está
entre os que menos recebe tributo específico da atividade minerária.
Enquanto atividade causadora de significativa degradação a exploração de recursos
minerais é condicionada ao licenciamento ambiental, seja em âmbito municipal, estadual ou
federal. O licenciamento ambiental torna-se condição para a licença de lavra pelo
Departamento Nacional de Produção Mineral - DNPM. Esse procedimento administrativo sui
generis do direito ambiental, de caráter híbrido (não puramente vinculado e tampouco
discricionário), visa avaliar em todas as etapas do empreendimento (licença prévia, licença de
instalação e licença de operação) os impactos na sua área de influência e a forma como estes
serão controlados/mitigados/compensados, condicionando a expedição das licenças. O
licenciamento ambiental não é ato precário, mas as licenças possuem prazos de validade,
exigindo-se renovações quando vencidas, mas possuindo estabilidade temporal no tempo de
sua vigência. O licenciamento ambiental é precedido de estudos prévios que subsidiam os
tomadores de decisão para a concessão ou não da licença, amparada no “interesse social”.
Estes estudos visam quantificar e qualificar os impactos ambientais, bem como apresentar
globalmente o projeto, a tecnologia utilizada e os responsáveis técnicos, mas não vinculam a
licença. Dentre os diversos tipos de Avaliações de Impactos Ambientais, três são importantes

                                                                                                           
243
BRASIL. Projeto de Lei nº 5807 de 2013. Disponível em:
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=1B5D111BB92060BD820BEF376F
D02721.node1?codteor=1101841&filename=PL+5807/2013
244
MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Aspectos Tributários da Mineração Brasileira: Análise
comparativa de Royalties. Brasília, junho de 2009.
  233  

para o estudo: o Estudo de Impacto Ambiental e seu respectivo Relatório de Impacto


Ambiental – EIA/RIMA (apresentado na requisição da Licença Prévia), o Plano de Controle
Ambiental (apresentado no requerimento da Licença de Instalação) e o Projeto de
Recuperação de Áreas Degradadas – PRAD (no curso da operação).
No caso da mineração da bauxita em Oriximiná pela MRN, o licenciamento se dá em
âmbito federal, posto que a atividade se situa em uma unidade de conservação federal, a
Floresta Nacional Saracá-Taquera. Neste caso o órgão responsável pelo licenciamento é o
IBAMA, mas por impactar diretamente a unidade de conservação, o ICMBio faz parte do
processo. O IBAMA outorga as licenças, mas para que ocorra o processo de licenciamento é
necessário que ICMBio conceda uma “Autorização para o Licenciamento Ambiental”. Esta se
dá por meio de análise técnica e parecer conclusivo, considerando os impactos ambientais, os
atributos, o Plano de Manejo da UC e a compatibilidade da atividade245. A Resolução
CONAMA 237 de 1997 regulamenta os licenciamentos ambientais de uma forma geral
enquanto a Resolução CONAMA 009 de 1990 é específica para a atividade de mineração,
exigindo-se o licenciamento também para a pesquisa mineral246. O processo de licenciamento
ambiental consubstancia-se em um princípio de participação democrática, inerente ao direito
ambiental, que visa possibilitar a participação dos interessados durante o processo por meio
de audiências públicas, conselhos gestores e consulta de todos os estudos e documentos
produzidos no processo (Lei Federal 10.650/03). Quando se trata de áreas frágeis e os
impactos recaem sobre grupos humanos sensíveis a questão ganha ainda mais notoriedade,
com um maior número de documentos legais de remissão obrigatória no processo (como p.
ex. a legislação indigenista, lista de espécies ameaçadas de extinção, classificação do curso
d’água, Convenção 169 da OIT etc.). A observância dos preceitos legais, a subsunção, a
formalização dos processos de autorização e de licenciamento com consequente legitimação
estatal, vão constituir uma das facetas do ideário do “desenvolvimento sustentável”.
A questão ambiental – historicamente sustentada na própria ciência e tecnologia em
sua política – é um divisor de águas no universo empresarial e nas políticas de

                                                                                                           
245
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Instrução Normativa Nº 05 de 02 de setembro de 2009. Disponível
em: http://www.icmbio.gov.br/portal/images/stories/o-que-somos/in052009.pdf
246
O jusambientalista Paulo de Bessa Antunes entende ser ilegal a exigência de licenciamento ambiental para a
pesquisa: “Parece-me, portanto, que há uma evidente ilegalidade na exigência de licenciamento ambiental para
as atividades de pesquisa mineral” […]. ANTUNES, P. B. Direito Ambiental. 14ª edição. São Paulo: Atlas.
2012. p. 955. Devo, todavia, dizer que discordo peremptoriamente, a atividade de pesquisa é extremamente
impactante e pude constatar com os meus próprios olhos as estradas sendo abertas e inúmeras árvores sendo
derrubadas para as pesquisas da MRN no Platô Cruz Alta, além de toda a movimentação de lanchas e
mobilização dos pesquisadores e funcionários, com impactos visíveis próximos da comunidade de Mãe Cué,
inclusive sobre a mesma.
  234  

desenvolvimento. Na medida em que foi ampliando sua penetração social, não apenas no
campo legal, mas sobretudo no moral, foram se multiplicando os diferentes vínculos nos
processos produtivos e obrigando a consideração de fatores de risco inerentes às atividades. A
legitimação de uma atividade como a mineração, até a década de 1970 (ou 1980 para os
países do sul), sustentava-se em um modelo de responsabilidade social coorporativa, num
campo de relações limitado aos seus empregados, clientes, governos, proprietários e
concorrentes. Esse modelo ancorado no universo dos negócios, construía sua aceitação
pública tendo como base argumentativa e publicitária principalmente: os investimentos
realizados, os empregos gerados, o pagamento de impostos, o oferecimento de bens e
serviços, a transferência de tecnologias, a substituição de importações, a entrada de divisas e
as ações filantrópicas como criação de fundações, escolas, hospitais, infraestrutura etc. Esse
modelo de desenvolvimento, com a emergência da questão ambiental, se percebeu acuado e
obrigado a adaptar-se aos novos imperativos morais (legais, políticos, econômicos, sociais,
tecnológicos etc.) atrelados à ideia de crise ambiental, como condição sine qua non de
legitimação social. Esse deslocamento na indústria mineral corresponde à gradativa filiação
ao ideário do “desenvolvimento sustentável”, sacralizado no documento da “Comissão
Mundial da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento” de 1987, conhecido como
“Nosso Futuro Comum” ou “Relatório de Brundtland” e nos processos de adaptação
tecnológica denominado “ecoeficiência”. Além da adequação legal brevemente explanada,
nesse “novo modelo” que também incorpora os pontos de legitimação do modelo anterior,
ligados à eficiência econômica, tem somada dois outros vieses de análise: o desempenho
ambiental e o desempenho social (impactos sobre os ecossistemas humanos e não-humanos),
considerados principalmente depois da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente
e Desenvolvimento de 1992 no Rio de janeiro. As partes interessadas, aqueles que devem ser
levados em consideração no processo produtivo, são significativamente ampliados. Estes – na
palavra inglesa que se tornou o jargão dos economistas – stakeholders passam a ser: as
organizações das comunidades locais, as ONGs socioambientais, os fornecedores, os
financiadores e outros grupos de interesses especiais, os consumidores, os acionistas, as
mídias, além dos anteriormente considerados. Nesse sentido, o controle se amplia para muito
além do Estado, como é o caso da mineração da bauxita, via de regra relacionada ao mercado
externo, sendo exercido internacionalmente por ONGs, exportadores, acionistas etc247. Nesse

                                                                                                           
247
BORGES, L. F. Política e Mineração na era da ecoeficiência. In. LINS, F. A. F. A Construção do Brasil e da
América Latina pela Mineração: Histórico Atualidade e perspectivas. Rio de Janeiro: CETEM/MCT, 2000. p.
149 - 154
  235  

contexto, ampliado gradativamente na década de 1990 e 2000, a “imagem social e ambiental”


da empresa passa a ter um peso vital para a mesma. Assim, percebe-se nas últimas duas
décadas uma substancial ampliação dos investimentos em recuperação de áreas degradadas,
projetos comunitários, em preservação da natureza, em certificações e autorregulação, a
exemplo das normas ISO 14.001 e OHSAS 18.001, adequação tecnológica ao
desenvolvimento mais Limpo – P + L e, substancialmente, em publicidade sobre essas ações.
Estar associada a uma imagem de empresa ambientalmente poluidora ou socialmente
irresponsável pode significar para um acionista ou consumidor fazer mal a si mesmo, aquilo
que deve ser evitado, ou para uma instituição financiadora um investimento de alto risco que
qualquer hora pode gerar um motim ou uma repressão estatal, um prejuízo etc.
Como toda lógica empresarial moderna e sua busca obstinada pela objetividade,
investir em tecnologias e criar indicadores ambientais e sociais foi a maneira de medir o
desempenho nesses processos, buscar formas de corrigir as deficiências para atingir um
óptimo operacional e a previsibilidade das ações. A Comissão para o Desenvolvimento
Sustentável –CDS das Nações Unidas tem atuação contínua nesta direção na busca de
concretizar o ideal do desenvolvimento sustentável, medindo a sustentabilidade dos agentes
sociais produtores. Um exemplo amplamente aceito é o GRI – Global Reporting Initiative,
indicadores sobre desempenho econômico, ambiental e social, com o desempenho financeiro
de empresas (utilizado pela própria MRN p. ex.). Forma geral, os indicadores são criados
levantando-se em conta os interessados (stakeholders) e seus interesses (hipóteses de
desenvolvimento), apresentando a proposta de empreendimento (a atividade e seus resultados)
e negociando os benefícios que podem ser gerados (acordos políticos)248. Pode resultar, não
apenas no demonstrativo qualitativo e quantitativo de desempenho ambiental, mas em uma
forma de resolver conflitos socioambientais por via privada, entre as partes com discrepantes
poderes e influências, em que a ideia de benefícios gerados com a otimização da utilização
dos recursos naturais, serão, necessariamente relativas.
A mineração, uma das mais importantes atividades humanas na constituição das
sociedades, está historicamente situada entre os trabalhos mais usurpadores, degradantes e
predatórios que já existiram. Exercida sem maiores controles até meados do século passado,
pouco a pouco, foi se submetendo aos regramentos e reivindicações nacionais e

                                                                                                           
248
Nesse sentido ver as obras: VILLAS BÔAS, R. C. Indicadores de desenvolvimento sustentável para a
indústria extrativa mineral: guia prático. Rio de Janeiro: CETEM/MCT/CNPq/CYTED. 2009; VILLAS BÔAS,
H. C. A indústria extrativa mineral e a transição para o desenvolvimento sustentável. Rio de Janeiro:
CETEM/MCT/CNPq. 2011; FERNANDES, F. R. C.; ENRÍQUEZ, M. A. R. S.; ALAMINO, R. C. J. Recursos
Minerais & Sustentabilidade Territorial. Volume I e II. Rio de Janeiro: CETEM/MCTI. 2011.
  236  

internacionais. Com a emergência da questão ambiental e sua penetração social espetacular,


um novo paradigma se instaura: a ordem passa a ser a “internalização das externalidades”, os
custos para reparar/indenizar os danos causados pela atividade passam a ser de obrigação de
quem a exerce, conforme o “clássico princípio do poluidor-pagador”. Além de serem
substancialmente ampliados os preceitos normativos que regulamentam a atividade, também
passou a ser obrigatória a consideração de riscos e interesses de grupos, antes negligenciados,
enquanto dever jurídico e condição de aceitação moral. A adaptação a essas novas exigências
e suas mudanças no mundo dos negócios é nitidamente perceptível ao acompanhar a história
da MRN e de suas ações ao longo. O que se ilustra e se perfaz nessas “políticas de
adequação” ao mesmo tempo revela o quão contraditória é essa adaptação e como a mesma
pôde ser arquitetada em benefício dos interesses da própria empresa, fazendo convergir vários
interesses, mas não necessariamente coadunando com interesses socioambientais
universalizáveis ou aceitáveis sob uma perspectiva de universalização. E, no caso em estudo,
sempre associado às políticas governamentais. Três momentos são especialmente marcantes:
1. a criação das unidades de conservação em 1979 e 1989; 2. A recuperação ambiental do
Lago Batata a partir de 1987; e 3. Os projetos de desenvolvimento comunitário a partir de
1990. Desses momentos o que gera as maiores controvérsias são as unidades de conservação,
cuja mineração se dá no interior de uma Floresta Nacional e adjacente a uma Reserva
Biológica, ambas sobrepondo-se aos territórios tradicionalmente utilizados pelos
remanescentes de quilombo. A questão tornou-se complexa sob várias perspectivas, inclusive
do ponto de vista legal, o que enfrentaremos nos capítulos seguintes249.
Mais uma vez é só ligar os pontos para vermos as linhas, na mesma medida em que se
filia ao paradigma do “desenvolvimento sustentável” a ex