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AS CINCO VIAGENS DO C∴M∴

Ir∴ Nery Saturnino Dutra

No Grau de Aprendiz Maçom, respondemos à pergunta “ De onde viemos ? “. Como Companheiro devemos saber o
que somos. Quando Moisés indagou à voz manifestada na Sarsa Ardente – como deveria definir o Deus de Israel,
ouviu : Nuk Panuk (Sou o que sou).

Compreender o que somos significa despertar o Deus Interior, que vibra no íntimo do Iniciado, por meio da elevação
que fará, digno da exaltação, para melhor servir na Construção do Grande Templo.

Partindo do ocidente, o aprendiz maçom passará pelas trevas do norte, cruzará a sabedoria retornando ao ponto de
partida, depois de banhar-se na luz da beleza que se encontra no sul do templo.

A Primeira Viagem

Na primeira viagem, o aprendiz leva consigo os instrumentos com os quais iniciou seus trabalhos na senda maçônica.
Sem o malho e o cinzel, não poderia trabalhar na pedra bruta, sem a vontade, representada pelo primeiro
instrumento, não poderia exercer o livre arbítrio, caracterizado pelo segundo. A vontade tornou-se livre das asperezas
de sua personalidade profana, transmutando-se na pedra polida da inteligência superior.

Aqui, temos o sentido da pedra filosofal percebido pelos cinco sentidos, que caracterizam esta primeira viagem.

Todos compreendem a importância da visão, do olfato, do paladar, da audição e do tato, na percepção do mundo
manifestado. Nosso cérebro estabelece um perfeito relacionamento com este plano, por meio destes sentidos. Essa
comunicação é a própria razão da vida consciente.

Existe uma energia fundamental, por trás de toda a matéria, que a faz vibrar numa determinada freqüência : Tudo é
Vibração!

Com a visão, percebemos o volume e a cor dos objetos, porque as vibrações sensibilizam nossos olhos, que
transmitem, por maneira própria, as informações ao cérebro para a devida codificação.

Os ouvidos são órgãos capazes de perceber sons produzidos pelas vibrações.

O sentido do olfato utiliza o nariz para levar ao cérebro as informações dos odores.

O paladar é o sentido através do qual distinguimos o gosto das coisas.

Finalmente, o tato, que, junto com a visão, é o principal sentido físico, apresenta-se como responsável pela nossa
sensibilidade imediata. Nestes dois sentidos encontra-se a comprovação da qualidade vibratória do objeto em
análise.

Essa energia fundamental faz vibrar os elétrons, que formam os átomos, as moléculas e, finalmente a matéria.

Junto a essa energia negativa, encontramos uma outra, positiva, responsável pela consciência humana, que nos
transforma numa alma vivente.

Essa força vital adentra o corpo recém nascido, por ocasião da primeira respiração, gerando o milagre da vida. A
energia negativa é composta de minerais, de elementos químicos, que formam o invólucro carnal. A força vital, o
elemento positivo, é o contido no ar que respiramos.

Ainda que não possamos viver, plenamente, sem os cinco sentidos físicos, devemos compreender que os mesmos são
meros instrumentos da vontade humana, simbolizados pelo malho e pelo cinzel.

O Iniciado deve buscar adormecer o físico, para despertar o psíquico, pois nossos sentidos são falhos, não fossemos
humanos, ilusórios, porque nos enganam constantemente. Quando afirmamos gostar do sabor da baunilha, iludimo-
nos com o paladar, já que a baunilha não tem gosto, mas sim cheiro. 

Imaginamos usar o sentido do paladar, estamos, de fato, utilizando o sentido do olfato.

Os verdadeiros sentidos que o aprendiz deve despertar são os internos. Nosso simbolismo possibilita isso. Assim,
como homens livres e de bons costumes, devemos desenvolve-los, o que permitiria a contemplação do lado oculto da
estrela flamígera.

A Segunda Viagem
A Segunda viagem é dedicada às cinco ordens da arquitetura. Seus instrumentos são o compasso e a régua. Esta
última traça o caminho digno, reto, na direção da perfeição. Neste segundo grau aprendemos a arte de traçar linhas
sobre os materiais desbastados e aplainados, o que só se consegue com tais instrumentos, cumprindo assim os
objetivos maçônicos da construção e da reconstrução arquitetônica do templo humano.

Enquanto na primeira viagem, as ferramentas eram pesadas, nesta, servem ao desenvolvimento do trabalho
intelectual. Inicialmente, trabalha-se a matéria, em seguida, geometriza-se. Com esses dois instrumentos, podemos
construir quase todas as figuras geométricas, começando com a linha reta e o círculo.

Na arquitetura grega, eram plantadas três colunas, chamadas: Dórica, Jônica e Coríntia. Na fase operativa, os franco
maçons criaram duas ordens secundárias: Toscana e Compósita.

A decoração dos templos maçônicos emprega, quase que exclusivamente as cinco primeiras ordens de colunas.

A cada degrau que sobe, o companheiro encontra-se ordenado com uma das cinco colunas, nos degraus estão escritos
as iniciais e denominações a saber:

- D Dórica, que significa União.


- J Jônica, que significa Beleza.
- C Coríntia, que significa Grandeza.
- T Toscana, que significa Força.
- C Compósita, que significa Perfeição.

O companheiro cedo compreenderá a grande beleza que reside na força da união, que nos levará à perfeição, na
edificação do templo universal.

A Terceira Viagem

Nesta viagem, o aprendiz leva na mão esquerda a régua e a alavanca. Este novo instrumento representa a força ativa,
com a qual poderemos levantar objetos mais pesados, a possibilidade de desenvolver nosso poder interior, no
deslocamento da matéria inerte, presa na gravidade de nossos falsos instintos. A alavanca pode, ainda, ser entendida
como a convicção de que a fé remove montanhas.

Segundo o Irmão Rizzardo da Camino, no seu Simbolismo do Segundo Grau, esta terceira viagem é dedicada às Artes
Liberais, concebidas na época do surgimento do Rito Escocês Antigo e Aceito, a saber: a Gramática, a Retórica, a
Lógica, a Música e a Astronomia.

Assim, como modernamente teríamos de acrescentar novas disciplinas a esta ordem, não faremos qualquer definição
individual, pois qualquer bom dicionário tornará suficientemente claros seus objetivos.

Nosso trabalho esta direcionado a entender a simbólica maçônica e como tal, valemo-nos dos instrumentos desta
viagem, o pensamento, que gera a vontade de mover o objetivo, por meio da alavanca, e a retidão de propósito,
simbolizada pela régua.

A Quarta Viagem

Nesta viagem, a aprendiz substituirá a alavanca pelo esquadro, o qual, simbolicamente estabelecerá a união do nível
com o prumo, que possibilitará construir a base do nosso templo.

O esquadro serve para acertar a pedra da nossa responsabilidade. No rito Escocês esta viagem lembra a memória dos
filósofos: Sólon, Sócrates, Licurgo, Pitágoras e Jesus.

Quanto a inclusão de Jesus, como filósofo, bem como dos outros, transcreve-se a opinião de Jules Boucher,
expressada na obra “A Simbólica Maçônica” lecionando: “Eram precisos cinco, nenhum a mais, nenhum a menos. Se
ao menos tivessem escolhido tipos representativos bem definidos, essa lista parece ter sido estabelecida por um
primário que tivesse lido o manual de história da filosofia e que tivesse limitado filosofia grega, ele teria acrescentado
Jesus por causa da religião católica, cuja marca ele havia recebido e querendo rebaixa-lo, tê-lo-ia transformado num
mero filósofo. Estas são as reflexões que nos sugere esta lista, na qual não podemos verdadeiramente encontrar
nenhum caráter iniciático.

O Irmão Rizzardo da Camino substitui no seu citado livro, o nome de Jesus pela inscrição I.N.R.I. encontrado no alto
da cruz, logo acima da cabeça do Crucificado.

Particularmente, concorda-se com esta substituição, ainda que, em termos não entenda-se como misteriosa, para um
iniciado, essa fórmula hermética que, longe de significar “Jesus Nazareno Rei dos Judeus” deve ser entendida como
“Igne Natura Renovatur Integra” traduzida como “O Fogo Renova a Natureza Inteira”, ou como as iniciais usadas na
cabala para significar : I a água, N o fogo, R o ar, e o I final como a terra.
O esquadro e a régua são os últimos instrumentos portados pelo futuro companheiro. O desejo de desenvolver sua
personalidade, deve ser intenso, mas não intransigente. A construção do Templo far- se-á com pedras parcialmente
polidas, que ajustar-se-ão aos seus respectivos lugares.

Não temos a pretensão de construir morada completamente isenta de imperfeições, próprias da nossa espécie, mas
um edifício digno de ser visitado pelo Grande Geômetra. Aquele que é, sem nunca Ter sido, que não busca outra casa
para habitar, senão o Templo do Coração, livre da cobiça, da inveja e do perfeccionismo, próprio dos hipócritas e
daqueles que ousam definir ou qualificar o indefinível, o inqualificável.

A Quinta Viagem

Agora, nada carrega o aprendiz, salvo a vontade de instruir-se nas práticas intelectuais. A base do edifício foi traçada
com os instrumentos, porém somente com muito esforço, será digno de conhecer os elevados objetivos da nossa Arte.

Cumpre lembrar que seis foram as ferramentas utilizadas nas viagens anteriores, que correspondem às faculdades
objetivas, mais um.

Cinco são os sentidos que o Iniciado aprende a dominar, representados pelo Pentagrama, mas no centro dessa estrela
brilha uma Gnose (ciência superior às crenças vulgares) uma irradiante Luz Interna.

Tendo descoberto esta nova faculdade, não mais precisará da régua, porque esta livre dos sentidos inferiores e plena
daquela luz que brilha intensamente no seu peito arfante.

A retrogradação, ou seja, o andar para trás, retroceder, representa a reintegração do ser. Regenerado pelo esforço e
pela determinação, livre dos vícios e pleno de conhecimento, inicia o retorno, partindo da realidade humana em
direção à atualidade cósmica.

Como numa introspecção, terá a oportunidade de retroagir no tempo, dentro do espaço que utilizou na
sua vida para construir seus objetivos e projetos.

Livre da noção de tempo e espaço, não mais estará restrito a um movimento físico, mas comprometido com uma
consciência impessoal.

Ao rever o caminho percorrido, o aprendiz maçom tem uma espada apontada sobre seu peito, a lembra-lo na
Iniciação Maçônica. Ela o induz a reflexão, à contemplação própria deste grau. Lembra, igualmente, a sabedoria,
sempre precedida pela dor. Também, alerta para não se abandonarem as regras anteriores.

A espada não deve ser entendida como uma ameaça, mas como uma indicação de que o novo companheiro, deve
agora, encontrar o que esta perdido, o instrumento que o ajudará na obra da construção individual. Seu próprio
coração, no fundo do ser, fará receptivo ao real sentido da espada sobre o peito, que outro não será, senão o Guia que
conduz o iniciado à divina liberdade, transformando-o num ser mais sábio e inteligente.

Deste modo, ao término das cinco viagens, podemos responder o que somos, o enigma iniciático deste grau.

Aprendemos o “Conhece-te a ti mesmo” e estamos prontos para ver a Estrela Flamígera.

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