IDENTIDADE E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

Com aproximadamente quatro décadas desde seu surgimento, a Teoria das Representações Sociais constitui-se na atualidade uma referência para psicólogos sociais de todo o mundo. Essa referência não reside no fato de ser apenas "mais uma boa teoria" (Guareschi & Jovchelovitch: 1998; 17), entretanto por questionar em lugar de adaptar-se, por apresentar-se inovadora na pesquisa e na compreensão das relação intra-indivíduos e destes com o ambiente social que os cerca, da construção do conhecimento do cotidiano, do senso comum e dos processos cognitivos que envolvem. O constructo representações sociais tem sido alvo de diferentes compreensões por parte dos estudiosos. De acordo com Moscovici representação social é "uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de conhecimentos e a comunicação entre os indivíduos" (Moscovici: 1978). Ainda na mesma obra, Moscovici reafirma que a definição de representação social é: "Um corpus organizado de conhecimentos e uma das atividades psíquicas graças às quais os homens tornam inteligível a realidade física e social, inserem-se num grupo ou numa ligação cotidiana de trocas, e liberam os poderes de sua imaginação." (Moscovici: 1978) Sá (1996) apresenta, ainda, um conceito de representação formulado por Moscovici posteriormente (em 1981), o qual diz que: "Por representações sociais, entendemos um conjunto de conceitos, proposições e explicações originado na vida cotidiana no curso de comunicações interpessoais. Elas são o equivalente, em nossa sociedade, dos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais; podem também ser vistas como a versão contemporânea do senso comum" (Moscovici apud Sá: 1996) Denise Jodelet define representação social como "uma forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada tendo um objetivo prático e contribuindo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social" (Jodelet apud Moisés Domingos: 1998; 119). De acordo com Abric, "a representação é um guia para a ação, ela orienta as ações e as relações sociais (...) um sistema de pré-decodificação da realidade porque ela determina um conjunto de antecipações e expectativas" (Abric: 1998; 28). No entendimento de Wagner representação social: "É um conteúdo mental estruturado – isto é, cognitivo, avaliativo, afetivo e simbólico – sobre um fenômeno social relevante, que toma a forma de imagens ou metáforas, e que é conscientemente compartilhado com outros membros do grupo social." (Wagner: 1998; 3) Doise enfoca de forma privilegiada os níveis de análise posicional e ideológico e define representações sociais como "princípios geradores de tomadas de posição ligadas a inserções específicas em um conjunto de relações sociais e que organizam os processos simbólicos que intervêm nessas relações" (Doise apud Sá: 1996; 33). Essas conceituações – não definitivas, pois ainda são alvo de estudos e permanentemente são construídas e reconstruídas – entretanto, conduzem à visão de representação social como um conhecimento construído socialmente, que nos dá a visão e o conceito de um objeto em foco por um grupo e categoria em particular, classificando e atribuindo "funções" a esse mesmo objeto, dentro de suas relações diversas. Isto representa dizer que um mesmo fato ou evento social é apreendido por grupos diferentes, de formas diversas, podendo ter maior, menor ou nenhuma importância quando classificado dentro de suas respectivas escalas de valores e, ainda, ter uma função simbólica na ação ou comportamento dos indivíduos do grupo diante do objeto e em suas relações. Por exemplo, a forma como a violência, a morte, a doença, o sexo, entre outros objetos são encarados em cada grupo. Essas diferentes visões conduzem à elaborações mais complexas como a identidade grupal, que entendemos ser muito mais que características fenotípicas ou sociológicas, no entanto, pode ser considerada, também, como a resultante de um somatório de representações vigente entre seus indivíduos. Abric (1998) define que as representações possuem quatro importantes funções: de saber, orientadora, justificadora e identitária. Dentro do objetivo do presente trabalho, será abordada unicamente a função identitária. As representações definem para os grupos uma identidade e garante-lhes a especificidade, autorizando, assim, uma comparação intergrupal. Perceber-se-á que as representações de cada grupo de inserção são sempre valorizadas por seus integrantes em alguns de seus aspectos, no propósito de atribuir-lhe uma imagem positiva.

como. isto é. dotadas do habitus que permite o conhecimento e reconhecimento das leis imanentes do jogo. Assim. etc. 119).se define. 119) Na sociedade pós-moderna. é necessário que aí existam os enjeux e pessoas prontas a jugar o jogo.. ou seja. isto é. 118). na caracterização de cada grupo. E em seus estudos. Analisando-se ambas as visões acima. ou ainda. Como foi visto. como citou Abric. dentro dos processos de controle de seus membros e de socialização. é relativa. com a posição do sujeito dentro de um determinado "campo". como destaca Serge Moscovici (1976. de pensamento e de ação que guiam os indivíduos assegurando-lhes a conformidade e constância de certas práticas através do tempo" (Domingos Sobrinho: 1998. desinteressados).. o habitus não cessa de produzir percepções. conceitua habitus ou ethos de posição como um "sistema das disposições socialmente constituídas que. afirma que: . ao elaborar ou transformar sua representação acerca do objeto. (. significa que estão inseridas em um campo de relações entre indivíduos e grupos. 29). nos processos de socialização" (Abric: 1998. onde os indivíduos possam encontrar uma identidade." (Domingos Sobrinho: 1998.. destinados a serem percebidos como absurdos. gerase um habitus ou ethos de posição. É interessante verificar que essa "maior evidência" de um ou outro componente identitário. Varia de acordo com o momento. os grupos acumulam experiências ao longo de sua história e evolução." Domingos Sobrinho (1998) afirma que "uma vez estruturado. Para que um campo funcione. desejos. sem o nosso consentimento (de forma não consciente). insensatos. 31-32) Dentro desse campo. por exemplo. Bourdieu (1999). crenças. de recomposição dos grupos de pertença. na visão de mundo de cada um de seus integrantes. como uma identidade sócio-cultural. transmitidas de uma geração a outra e nos são imposta. apud ACCARDO & CORCUFF. conseqüentemente. opiniões. observa-se no conceito de Jodelet que as representações sociais contribuem "para a construção de uma realidade comum a um conjunto social". o que tem influência sobre seus discursos quando fala e a forma como ouve os discursos dos outros. a partir da diferença de apreensão acerca de um mesmo objeto social. não consistem unicamente no resultado da atividade cognitiva de classificação e ordenação dos objetos. do esporte. Considerando a identidade como algo relacional. as quais "produzem os esquemas de percepção. quando afirma-se que são socialmente elaboradas e partilhadas. compreendê-la requer uma reflexão sobre todo o sistema de referências culturais do indivíduo ou grupo em estudo.) são vivenciadas por um grande número de pessoas.)’ (BOURDIEU.. Neste ponto a função identitária das representações terão papel essencial na determinação.. o objetivo de permitir aos grupos controlar socialmente seus membros "e.) ‘. fica claro a importância do estudo das representações para a compreensão das relações e fenômenos intergrupais. Além disso. Domingos Sobrinho (1997. em especial. pode-se verificar que as representações sociais não são construídas dentro de um vazio social. ao definir os enjeux e interesses específicos. dos enjeux. representações. degeneração e reconstrução. enquanto estruturas estruturadas e estruturantes. Domingos Sobrinho faz referência a Jean Remy e Lalive D’Epinay que privilegiaram a noção de habitus como um ethos de posição. Assim. Jodelet entende representação social como "uma forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada tendo um objetivo prático e contribuindo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social" (grifo nosso) (Jodelet apud Moisés Domingos: 1998. a outros investimentos. são constitutivas do processo de construção da identidade do grupo.. constituem o princípio gerador e unificador do conjunto das práticas e das ideologias de um grupo de agentes. o sujeito elabora ou transforma sua identidade. 1986"[sic] (Domingos Sobrinho: 1997. há uma busca de sentidos. que possuem uma certa posição dentro do espaço social e. da política. etc. 1978). em permanente processo de construção. o que é corroborado pelos estudos de Abric (1998) referentes à função identitária das representações. utiliza-se do conceito estabelecido por Pierre Bourdieu e afirma: "Um campo (seja o campo da religião. entre outras coisas. com alguns mais evidentes do que outros (Andrade: 1998). gestos e toda uma gama interminável de produções simbólicas" (Domingos Sobrinho: 1998. ou melhor.Esta função tem. um habitus (Domingos Sobrinho: 1998). em concordância com as afirmações de Domingos Sobrinho (1998): "Possuindo um caráter coletivo (.1998) em suas pesquisas no campo representacional. ainda. 118). no delineamento de sua identidade. nas tradições regionais ou familiares que. ou sublimes. Domingos Sobrinho (1997) ao definir "campo". um sentido de mundo e sociedade. Essa reflexão permite conhecer os diversos componentes identitários do sujeito. que são irredutíveis aos enjeux e interesses próprios a outros campos (nós não podemos fazer se movimentar um filósofo com os enjeux dos geógrafos) e que não são percebidos por qualquer um que não tenha sido preparado para entrar nesse campo (cada categoria de interesse implica a indiferença a outros interesses.

Celso Pereira de.). Ao contrário. 1996. The phenomenon of social representations. Denize Cristina de (orgs. pode-se concluir que o estudo das representações sociais torna-se. Pedrinho & JOVCHELOVITCH. pelas propriedades relacionais que cada uma deve a sua posição dentro do sistema das diferentes condições sociais que é também sistema de diferença: ‘a identidade social se define e se afirma pela diferença" (Boudieu. bem como de seus grupos de pertença. 1998. Jean Claude. 1997. 1998. Goiânia: AB. A representação social da psicanálise. 1970). In: FARR. Estudos interdisciplinares de representação social. Cada condição social é. Goiânia: AB. Denize Cristina de (orgs." (Domingos Sobrinho: 1997.). os sistemas culturais por eles produzidos não são estranhos entre si. Petrópolis. não podemos imaginá-los de maneira isolada. RJ: Vozes. Moisés. SÁ. ed. Entretanto. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRIC. GUARESCHI. Antonia Silva Paredes e OLIVEIRA. contribuindo para o estabelecimento de uma "identidade social" e um posicionamento ante uma gama de fenômenos no cerne da sociedade. Sandra (orgs. Natal: EDUFRN.). 1998. In: MOREIRA.). A identidade como representação e a representação da identidade. Serge (eds. 1998. & MOSCOVICI. Antonia Silva Paredes e OLIVEIRA. __________. por conseguinte. Canbridge: Cambridge University Press. efetivamente. portanto. 1984. assim. Margot Campos (org. Maria Antonia Alonso de. 33) Dentro dessas considerações. .). Representações sociais e educação: algumas reflexões. Social representations. "Habitus" e representações sociais: questões para o estudo de identidades coletivas. Estudos interdisciplinares de representação social. um precioso instrumento na compreensão dos discursos e práticas dos indivíduos. a partir da construção das representações dos diferentes objetos em disputa dentro de um campo particular do espaço social que um determinado grupo vai construindo os traços distintivos de sua identidade. Antonia Silva Paredes e OLIVEIRA. RJ: Vozes. In: MOREIRA.). DOMINGOS SOBRINHO. Classe média assalariada e representação social da educação: algumas questões de ordem teórico-metodológicas. Rio de Janeiro: Zahar. Denize Cristina de (orgs. ANDRADE. MOSCOVICI. é condicionada por uma oposição e suscita a elaboração de representações sobre os diferentes objetos que ocasionam essa oposição. Estudos interdisciplinares de representação social. particulares e. 1978. Textos em representações sociais. Petrópolis. ao mesmo tempo."É. In: MADEIRA. Serge. Goiânia: AB. A identidade do grupo. Sobre o núcleo central das representações sociais. A abordagem estrutural das representações sociais. In: MOREIRA. mas dentro de um universo onde todos estão em relação de articulação e interdependência. __________. Robert M. 4. definida por suas propriedades intrínsecas.

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