Determinação de Nexo Causal Na
Determinação de Nexo Causal Na
Resumo | Causalidade é um tema transdisciplinar, sendo a interface médico-legal uma de suas vertentes mais instigantes. Levando
em consideração que a medicina e o direto possuem raízes e objetivos distintos, este artigo traz referências para auxiliar o médico do
trabalho e o perito médico na árdua tarefa de caracterização do nexo causal ocupacional. Além dos clássicos postulados de Bradford
Hill e da Classificação de Schilling, são apresentados outros norteadores capazes de aprimorar o pensamento crítico e permitir o uso
responsável do conceito de concausalidade tanto no universo jurídico quanto no ambiente médico ocupacional.
Palavras-chave | nexo causal; nexo ocupacional; causalidade; medicina do trabalho; perícia médica.
Abstract | Causality is a transdisciplinary topic with the medical-legal field representing one of its most exciting aspects.
Since medicine and law have different roots and objectives, this article provides references to support occupational physicians and
medico-legal experts in the difficult task of establishing occupational causation. In addition to the traditional Bradford Hill criteria
and Schilling’s Classification, additional standards are provided to enhance critical assessment and contribute to the responsible use
of the concept of causation in both the legal and medical-occupational fields.
Keywords | causal nexus; work-relatedness; causation; occupational medicine; medico-legal expertise.
1
Serviço de Saúde Ocupacional e Qualidade de Vida no Trabalho, Senado Federal, Brasília, DF, Brasil.
Fonte de financiamento: Nenhuma
Conflitos de interesse: Nenhum
Como citar: de Almeida G. Determination of causal associations in occupational medicine and the medico-legal context: references and standards. Rev Bras Med Trab.
2021;19(2):231-239. [Link]
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quanto maior o número de critérios satisfeitos, maior a admite-se a ocorrência de outros agentes, contemporâneos
probabilidade de a associação ser causal. ou não, como a causalidade indireta, bastando que o fator
• Força da associação: usualmente medida por medida etiológico condicionante desencadeie outro que, então,
de associação, como risco relativo ou razão de chance; diretamente acarrete o dano7.
• Consistência: consonância com os resultados de INUS é o acrônimo em inglês de insufficient but non-
outros estudos; redundant part of an unnecessary but sufficient condition,
• Especificidade: uma exposição determinada gera a ou seja, uma condição insuficiente mas necessária de um
doença; conjunto que, por sua vez, é desnecessário mas suficiente
• Temporalidade: a causa precede o desfecho (doença); para a produção de um desfecho. Para esclarecimento da
• Gradiente biológico: efeito dose-resposta; lógica INUS, um exemplo clássico parece indispensável.
proporcionalidade; Segundo Mackie, citado por Araújo, Dalgalarrondo e
• Plausibilidade biológica: se uma associação é Banzato9:
corroborada por uma explicação plausível diante do
nível atual de conhecimento fisiopatológico, a ideia de Especialistas concordam que um incêndio que
causalidade é fortalecida; destruiu parcialmente uma casa foi causado por
• Coerência: os achados devem seguir a ciência atual um curto-circuito. Este não era isoladamente
como parâmetro; suficiente nem necessário para o incêndio. Não
• Evidências experimentais: evidências experimentais foi necessário porque o fogo poderia ter se
de aumento da frequência do efeito são relevantes iniciado de uma forma diferente, como em um
indícios de causalidade; curto-circuito em outro lugar ou através de um
• Analogia: levar em conta outras doenças ou exposições incêndio doloso etc. Não foi suficiente posto que
com características semelhantes. na ausência de oxigênio ou na presença de um
Assim, os critérios de Bradford Hill são norteadores sprinkler (borrifador automático anti-incêndio)
para a causalidade no meio biomédico, certamente não eficiente não aconteceria o incêndio. Portanto
se limitando à caracterização de agravos relacionados ao o curto-circuito (que chamaremos aqui de A)
trabalho. foi uma condição necessária para o conjunto
ABc, onde B representa fatores positivos como
Condição INUS (insufficient but non- adequada presença de oxigênio e c representa
redundant part of an unnecessary but fatores negativos como a presença de um
sufficient condition, no inglês) sprinkler, por exemplo. Assim, quando a condição
A chamada condição INUS é uma evolução sofisticada A for uma condição necessária para o conjunto
da tradicional abordagem de causa necessária e/ou minimamente suficiente (ABc) então A é uma
suficiente. Diferentemente de Bradford Hill, o criador condição INUS.
do modelo, John L. Mackie (1974), filósofo australiano Esta abordagem proposta por Mackie é tanto capaz
radicado em Oxford, contempla influências causais fracas, de dar conta de casos individuais e causas ‘fortes’;
bem como elos causais dissinérgicos ou desconhecidos10. como também de casos populacionais e causas
É um constructo elegante, apesar de pouco difundido no ‘fracas’. Para estes últimos, espera-se que haja
meio médico-pericial. numerosas condições minimamente suficientes
Nessa visão, uma possível definição de causa de (ABc, DEf, GHi etc.) e entre elas diversas condições
doença seria um evento/condição/atributo antecedente INUS (A, D e H, por exemplo). Nestes casos,
e necessário para a ocorrência da doença, tendo as outras pode-se aplicar a abordagem probabilística e tentar
condições fixadas. Se esse evento/condição/atributo fosse identificar em qual grandeza as condições INUS se
diferente, de um modo específico, a doença não ocorreria relacionam com o efeito em estudo. [...] Por fim, a
ou seria mais branda ou tardia11. Não se exige exclusividade análise por meio das condições INUS, não impede
etiológica nem causalidade direta e imediata. Logo, que se faça, em um segundo momento, a aplicação
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gráficos (Figura 1).
De fato, causas em medicina são geralmente II
U A
componentes insuficientes de complexos causais 20% 20%
suficientes. Por exemplo, a exposição ao bacilo de Koch
não determina progressão inexorável para tuberculose.
É preciso a conjunção de outros elementos, como B
10%
desnutrição ou imunodeficiência, para que se configure
uma condição minimamente suficiente, na qual a E
20%
exposição do microrganismo é um elemento necessário
C
(já que, por definição, toda tuberculose exige infecção 30%
pelo bacilo)13. O modelo também abarca elementos de
proteção: se o sujeito for bem nutrido, talvez não haja a A B C E U
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décadas antes3. Bem depois, Franchini (1984), um dos • Grupo I: doenças que têm o trabalho como causa
expoentes da escola italiana de medicina legal, trouxe necessária, como os acidentes de trabalho e as doenças
critérios bem semelhantes aos de Simonin, com a profissionais legalmente reconhecidas (ex.: saturnismo
vantagem de lançar mão de termos mais intuitivos. Como e silicose);
mérito adicional, ainda fez alusão à importância do olhar • Grupo II: doenças que têm o trabalho como um dos
epidemiológico. Seguem os critérios de Franchini17: fatores contribuintes [ex.: lesão por esforço repetitivo
• Critério cronológico: adequação temporal da suposta (LER)/distúrbios osteomusculares relacionados ao
causa e efeito, tendo sempre em vista que a primeira trabalho (DORT)];
tem de preceder o segundo e a evolução natural do • Grupo III: doenças que têm o trabalho como agravante
processo apresenta uma cronologia; ou provocador de distúrbios latentes ou pré-existentes
• Critério topográfico: compatibilidade racional entre (ex.: asma e dermatite alérgica).
a sede do traumatismo e a sede da lesão, o que não Pouco conhecida, mas digna de menção, é a quarta
implica necessária coincidência anatômica (pois, por categoria. Foi introduzida pelo autor em 1989 e engloba
exemplo, existem lesões a distância); doenças em que o trabalho oferece livre acesso a perigos
• Critério de adequação lesiva: correspondência da potenciais (por exemplo, cirrose alcoólica em empregados
estrutura lesada com o alegado dano causador, inclusive de bar ou hotelaria; suicídio em patologistas, intensivistas
o mecanismo de lesão e o instrumento ou meio que a e anestesistas)19.
produziu; Com efeito, ocorre um aprofundamento da divisão
• Critério de continuidade fenomenológica: de doenças já trazida por Bernardino Ramazzini, pai da
continuidade de expressões fisiopatológicas que medicina do trabalho, em 1700: doenças profissionais
torne concebível uma cadeia causal, similar ao critério (tecnopatias), advindas de fatores inerentes à atividade
de encadeamento anatomoclínico de Simonin e laboral; e doenças do trabalho (mesopatias), provocadas
suplementar ao critério cronológico7; pelas circunstâncias do trabalho. Essa visão relaciona-se
• Critério de exclusão de outras causas: diagnóstico com a concepção atual da multifatoriedade patogênica,
diferencial e conhecimento do estado anterior do não ignora os determinantes sociais no espectro saúde-
indivíduo; doença e, ao mesmo tempo, permite a compreensão do
• Critério epidemiológico ou estatístico: relação trabalho como lugar adequado para a promoção e proteção
entre dados de frequência/incidência entre o dano da saúde. De fato, Schilling desenvolveu sua classificação
e a potencial causa, buscando nessa previsibilidade com fortes matizes higienistas, bastante adaptada à saúde
indícios de concordância ou discrepância. coletiva.
Assim, diferentemente de Bradford Hill, os critérios Por outro lado, em análises caso a caso, a Classificação de
de Simonin e Franchini são direcionados ao círculo Schilling precisa ser complementada por outros critérios,
pericial (médico-legal). Note que, mesmo tendo o agente sob pena de se banalizar o nexo causal ocupacional. O papel
traumático como causa padrão, o raciocínio é valido para adjuvante do trabalho precisa ser substancial, ou seja: sem
aplicação genérica. aquele dado labor, o agravo naquele indivíduo específico
não existiria ou apresentaria intensidade claramente
Classificação de Schilling reduzida, dentro do previsível pelo conhecimento da
A contribuição de Richard Schilling é um reconhecido patologia ou deficiência preexistente20.
divisor de águas nas discussões da relação entre doença e
trabalho. A fácil compreensão de sua proposta permitiu Recomendação da NIOSH
sua difusão até para aqueles não versados nas áreas De acordo com o Instituto Nacional de Segurança
biomédicas. e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos (National
A Classificação de Schilling original (1984) é composta Institute for Occupational Safety and Health, NIOSH), a
por três grupos18: abordagem para a determinação da relação com o trabalho
pode ser adaptada em um processo de seis etapas4:
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exposições semelhantes pode influenciar as decisões nesses 9%, isto é, longe de uma “probabilidade razoável”.
de causa, e as exposições profissionais podem ser causa Normalmente, esse ponto de corte de razoabilidade
primária ou contributiva. significa ser “mais provável que não”, ou seja, mais que 50%.
Em destaque, é preciso avaliar a evidência Isso exige um RR ou RC igual ou maior que 2, paradigma
epidemiológica, mesmo sabendo que a maior parte dos aceito na maioria das cortes dos Estados Unidos2.
estudos que relacionam o trabalho com agravos não Aliás, sem enveredar por outras críticas metodológicas,
agudos são de qualidade insatisfatória. Com esse objetivo, a falta desse critério mínimo representa uma impropriedade
deve-se retomar a pergunta fundamental de Bradford visceral do conhecido Nexo Técnico Epidemiológico
Hill: “existe alguma outra maneira de explicar o conjunto Previdenciário (NTEP) do Instituto Nacional do Seguro
de fatos diante de nós; existe outra resposta igualmente Social (INSS), realizando cruzamento entre a Classificação
ou mais provável de causa e efeito?”. Em outras palavras, Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) e os
parece crucial definir um limiar (threshold) estatístico para agrupamentos de doentes com diagnóstico codificado
a aceitação de uma razoável associação com uma doença. na Classificação Internacional de Doenças (CID)24. Por
Contudo, nessa questão, os olhares coletivo e individual um lado, o NTEP diminui a subnotificação de acidentes
divergem consideravelmente. do trabalho e doenças ocupacionais. Por outro, ainda
A título de ilustração, suponha-se que um estudo tenha que com alguns cuidados estatísticos, estabelecer nexo
encontrado uma medida de associação [risco relativo com qualquer RC acima de 1,0 é demais complacente
(RR) ou razão de chances (RC)] de 1,10, intervalo em um contexto individual de concessão securitária/
de confiança de 95% de 1,06 a 1,17 e valor p < 0,05. previdenciária.
Resultados semelhantes foram encontrados em outros Uma tentativa de solução equitativa foi formulada
estudos de boa qualidade. Assim, sob fria estatística, trata- pelo jurista Sebastião Oliveira, consistindo em uma
se de um fator de risco. Entretanto, convém notar que, a divisão em graus de causalidade ocupacional e relativos
cada 110 casos da doença, 100 deles representam o basal montantes indenizatórios na Justiça do Trabalho25. Na
da população, enquanto 10 casos são aqueles em que a verdade, essa gradação assemelha-se ao conceito de
exposição ocupacional efetivamente desempenhou um apportionment (aquinhoamento/repartição) presente em
papel, ou seja: a chance de um empregado ter a doença várias localidades dos Estados Unidos26 (Quadro 1).
pelo trabalho é de 10/110, isto é, somente 9%. Ainda em nosso meio, são dignas de nota as
Em uma ótica sanitarista, esse valor talvez demande a contribuições de Penteado (critérios de Penteado)27 e
adoção de medidas preventivas de escopo populacional, Lenz (equações de nexo causal, além dos conceitos de
mas, ao se analisar um caso específico, parece sem “transcausa” e “doença transocupacional”)28. Todavia, são
sentido taxar uma doença como ocupacional com base derivações das fontes previamente apresentadas.
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