Império de Tauron
A chama do oeste
Outrora a maior nação do mundo conhecido, o Império de Tauron era formado por metrópoles de
intensa vida urbana, fazendas cujas plantações se estendiam até o horizonte e estradas patrulhadas
pelas invencíveis legiões táuricas. Porém, esses tempos de glória ficaram para trás — há poucos anos, a
Tormenta atacou a capital do Império.
Quando as nuvens rubras tomaram o céu de Tiberus, os minotauros voltaram todos os seus esforços à
defesa da cidade, abandonando as regiões mais afastadas. A autoridade imperial ruiu e a lei, a ordem e a
civilização que eram o orgulho táurico aos poucos desapareceram. Nas províncias, governadores
gananciosos declararam independência e hoje governam como reis mesquinhos. Nos acampamentos
legionários, generais abandonaram sua lealdade a Tiberus e passaram a lutar por seu próprio orgulho. A
maior parte do antigo Império é hoje formada por terras assoladas por desertores, escravagistas, tiranos
e pelo horizonte sempre vermelho da Tormenta. Terras que precisam desesperadamente de heróis.
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Nome oficial: Império de Tauron
Lema: A Força é um Escudo
Gentílico: tapistano
Capital: Tiberus
Forma de governo: República Triunviral
Regente: Triunvirato eleito pelo Senado (atualmente formado por Kelskan, Pérola Aurelius
Lomatubarius e Glabo Varaxus)
População: 9.500.000
Raças principais: minotauros, elfos, humanos
Divindades principais: Khalmyr, Arsenal, Allihanna, Tanna-Toh
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História
A história do Império de Tauron se confunde com a dos minotauros. Os filhos do Deus da Força foram
criados em épocas imemoriais como bárbaros poderosos, destinados a serem o povo mais forte de
Arton. E, por incontáveis anos, parecia que seu destino se concretizaria, pois as tribos táuricas se
espalhavam pelo continente, subjugando todos a seu redor.
Até que, em seu caminho, surgiram os gigantes. Os filhos de Tauron eram o povo mais forte de Arton…
Mas os gigantes, crias de Megalokk, não eram um povo — eram monstros. A força táurica não foi páreo
para os colossos e os minotauros foram derrotados. Nos séculos seguintes, serviram aos gigantes,
erguendo castelos que tocavam as nuvens, forjando espadas que fendiam o solo. Houve revoltas, mas
todas foram debeladas. Ao longo de gerações de servidão, os minotauros aprenderam as técnicas dos
colossos, até as dominarem e, por fim, as aprimorarem. Foi um minotauro chamado Goratikis o primeiro
a perceber que ele e seus irmãos estavam evoluindo, enquanto os gigantes estavam estagnados.
Goratikis então entendeu a chave para a vitória. Os minotauros não deveriam usar apenas a força bruta,
pois nisso jamais superariam seus algozes. Deveriam usar conhecimento, técnica, disciplina. Não
deveriam lutar como monstros, mas como um povo.
Goratikis passou anos desenvolvendo um sistema de princípios, que mais tarde batizou de Tarvica, com
o propósito de unir os filhos de Tauron. Em reuniões clandestinas, discursava para outros minotauros
dizendo que eles deveriam se portar não como indivíduos, mas como parte de algo maior. Enquanto
Goratikis era o coração da rebelião, inflamando as mentes e almas dos minotauros, seu principal
seguidor, Tiberus, era a mente, forjando armas, escudos e, mais do que isso, construindo caminhos
secretos, estreitos e tortuosos dentro dos castelos dos gigantes. Passagens labirínticas, que os colossos,
com suas mentes brutas e diretas, não conseguiriam entender.
Enfim, o dia da revolta chegou. Um gigante era mais poderoso que um minotauro, mas os minotauros
lutaram em falanges com uma centena de combatentes — centúrias. E um gigante não era mais
poderoso que cem minotauros. As armas de Tiberus e principalmente a arquitetura que ele desenvolveu
também cumpriram seu papel. Nesse dia, colossos tombaram e castelos queimaram. Uma década de
batalhas se seguiu, durante as quais os filhos de Tauron expulsaram as crias de Megalokk para as
montanhas Lannestul, de onde elas jamais saíram.
Após séculos de dominação, os minotauros estavam livres. E mais fortes do que nunca.
O Reino dos Minotauros
Libertos, os minotauros peregrinaram até a margem do Rio dos Deuses — não como uma miríade de
tribos, mas como uma nação. Lá, ergueram uma cidade, Gorakis, onde Goratikis reinou por cinquenta
anos. Em seu leito de morte, mudou o nome da cidade para Tiberus, em homenagem ao seu grande
companheiro, e o nomeou como sucessor. Sob a tutela de Tiberus, outras cidades foram erguidas —
como Calacala, na costa do Mar Negro, e Marma, na fronteira com a Grande Savana. Foi o início de
Tapista, o Reino dos Minotauros.
Contudo, Tiberus já era velho quando se tornou rei. Não governou por muitos anos e, quando partiu
para os Reinos dos Deuses, não deixou um sucessor. Frente a esse problema, os anciões de Tapista se
uniram e debateram em busca de uma solução. Por fim, lembraram-se das virtudes de Goratikis e de
que se libertaram dos gigantes apenas quando lutaram de forma coletiva, não individual. Assim,
entenderam que sua nação deveria ser governada não por um, mas por todos. Foi o fim do Reino de
Tapista... E o início da República Tapistana.
Força Regida por Lei
Nos séculos seguintes, a República Tapistana prosperou. Sob a burocracia, todos os cidadãos sabiam seu
lugar e ações eram tomadas apenas após deliberação e debates. Nessa época, os minotauros travaram
contato com anões. Com os povos compartilhando traços culturais, como o amor à ordem e ao trabalho
duro, uma aliança surgiu. As duas raças trocaram conhecimentos e, unindo a engenharia criada por
Tiberus às técnicas do subterrâneo, os minotauros construíram algumas das maiores maravilhas da
superfície de Arton. Travaram contato também com os humanos do Reinado e, após algumas
escaramuças e muita diplomacia, se uniram à coalizão.
Quanto mais a República crescia, porém, mais crescia a burocracia. Em certo ponto, havia tantos cargos
públicos que eleições ocorriam quase todos os meses — não só para o Senado, mas para diversas
funções de variada importância. A tomada de qualquer decisão envolvia tantos passos que quase nada
era feito em tempo hábil. Parecia que o Estado seria esmagado por seu próprio peso.
De todos os cargos eletivos, o mais importante era o de princeps, ou “primeiro cidadão”. O princeps
tinha poderes supremos e podia tomar decisões sem o aval do Senado. No entanto, o cargo existia
apenas em épocas de crise, como uma invasão ou calamidade, e era automaticamente extinto após o
problema ser resolvido. O princeps Tellos, um minotauro especialmente influente, mudaria isso.
Aproveitando-se de que parte da sociedade táurica estava descontente com a lentidão gerada pela
burocracia, Tellos usou de sua força e seu prestígio para mudar o cargo de princeps de temporário para
vitalício. Na prática, tornou-se um rei. Quando isso ocorreu, a República Tapistana tornou-se república
apenas em nome: o Senado continuou existindo, mas sua autoridade ficou limitada a assuntos menores.
As grandes decisões passaram a ser tomadas apenas pelo prínceps. Foi o início de um período de
ditadura que culminou em um dos maiores conflitos militares da história de Arton.
Lei Ditada pela Força
Após a ascensão de Tellos como princeps vitalício, a Tarvica passou a ser vista como uma relíquia
antiquada, sendo substituída na maior parte da sociedade por uma crença simplista de que os
minotauros eram um “povo escolhido”, com “direito divino” de dominar o mundo. Essa deturpação
chegou ao extremo quando a escravidão se tornou legalmente aceita, com pessoas capturadas em
batalha ou incapazes de pagar suas dívidas sendo forçadas a servir seus captores ou credores.
Minotauros poderosos passaram a ter haréns de humanas e elfas. Quando Aurakas, um descendente de
Tellos, se tornou princeps, a força e a soberania já não eram mais usadas como um caminho para a
civilização, mas como um fim em si mesmas.
Em meio a isso tudo, havia um pequeno reino insular, Hershire. Situado no extremo oeste do Reinado,
era uma terra pacata e bucólica, conhecida no resto do mundo apenas pelo gorad, um doce típico que
produzia e comercializava com reinos próximos. Mas isso estava prestes a mudar, pois em Hershire se
acendeu uma fagulha que logo se tornou um incêndio e se alastrou por todo o oeste de Arton.
As Guerras Táuricas
As tensões começaram quando uma caravana de minotauros que comercializava em Hershire foi
atacada por salteadores. Os mercadores foram mortos e a República Tapistana exigiu que a coroa local
levasse os criminosos à justiça. Quando o pequeno reino se mostrou incapaz de cumprir tal demanda, as
legiões táuricas tomaram o assunto em suas mãos. Em poucos meses, todos os bandidos haviam sido
capturados e executados. Os minotauros deixaram uma legião guarnecendo o território de Hershire; em
troca, começaram a cobrar tributo do reino. Na prática, transformaram Hershire em um protetorado.
O que poderia ser ruim para o pequeno reino acabou se mostrando um bom negócio. O tributo cobrado
era alto, mas com as estradas patrulhadas pelos legionários, o comércio de gorad floresceu. Hershire
passou a exportar a guloseima para todo o Reinado e além, enchendo de ouro os cofres do castelo real.
Mas as imposições táuricas não pararam nas taxas de proteção; sendo um protetorado, Hershire se viu
obrigado a aceitar as leis tapistanas, incluindo a legalização da escravidão. A maioria do povo foi contra
tal atrocidade, mas fazendeiros gananciosos viram nisso uma oportunidade de aumentar ainda mais
seus lucros e começaram a usar mão de obra escrava em suas plantações de gorad. Isso foi o estopim da
revolta contra a “proteção” de Tapista.
O barão Fheller Rautin, um senhor de terras de Hershire, foi até o castelo real e pediu para o rei, Jedmah
Roddenphord, banir a escravidão do reino. Jedmah ignorou o pedido — seu reino estava seguro e
próspero; para ele, a situação era confortável. Fheller então viajou até Deheon, onde fez um
pronunciamento no Palácio Imperial, exigindo represálias à captura e uso de escravos em Hershire. Já
cansado de guerras e matanças, o Rei-Imperador da época, Thormy, enviou emissários à República
Tapistana em busca de uma solução diplomática. Porém, quando meses se passaram sem que nada de
concreto acontecesse, o barão Fheller Rautin se cansou de esperar e desapareceu de sua propriedade,
levando seus filhos e todos os seus guardas. Poucos dias depois, atacou um acampamento legionário em
Hershire, com o objetivo de expulsar os minotauros e libertar os escravos locais. Fheller era um nobre
valente, mas era apenas um. Seus filhos eram cavaleiros, mas jovens e inexperientes. E seus guardas,
vivendo em um reino protegido pelos minotauros, nunca haviam visto combate real. Na batalha que se
seguiu, todos os humanos foram mortos.
A República Tapistana exigiu uma resposta de Hershire. O Rei Jedmah decretou que as ações do barão
eram atos ilegais, não sancionados pela coroa do reino. Mas nem todos os nobres foram tão covardes.
Incentivados pelo martírio do barão Fheller Rautin, outros senhores de terras da região convocaram
suas guardas e contrataram grupos de aventureiros, com os quais formaram um pequeno exército para
combater a escravidão. Não bastasse o apoio desses nobres locais, escravos também se revoltaram,
atacando propriedades rurais e casas de comércio de gorad. Sobreviventes apontaram o líder do
movimento como sendo um humano ex-escravo chamado Razthus Quebra-Muros. Após matar
fazendeiros escravagistas, Razthus teria declarado: “As próximas remessas de gorad serão adoçadas
com sangue”.
Afrontada, a nação táurica foi obrigada a responder com aço, sob risco de ver revoltas similares em seu
próprio território. Despachou mais legiões para Hershire, iniciando um conflito longo e sangrento no
reino. Os minotauros eram mais poderosos, mas os rebeldes conheciam o terreno e usavam táticas de
guerrilha. Por fim, a força venceu: os legionários dizimaram o exército dos nobres e afugentaram os
rebeldes de Razthus. Então invadiram o castelo real e depuseram o Rei Jedmah. Prisioneiro dos
minotauros, Jedmah enfim entendeu que a escravidão não era, no fim das contas, um bom negócio. O
princeps Aurakas apontou um governador minotauro como autoridade local e mudou o nome do reino
para Tragematum. A pequena ilha deixou de ser uma nação do Reinado para se tornar a primeira
província do recém-formado Império de Tauron.
O Rei-Imperador Thormy enviou diplomatas, exigindo que Hershire fosse liberto. Os minotauros
responderam que haviam atacado em legítima defesa, mas devolveriam o território se o Reinado
ajudasse na captura de Razthus Quebra-Muros. A essa altura, Razthus era um herói do povo, e Thormy
não poderia prendê-lo sem parecer um tirano. Houve muitas idas e vindas de cartas e emissários, mas
nenhum acordo foi obtido. As tensões se acumularam. Por fim, Aurakas percebeu que havia atingido um
ponto sem volta — se cedesse às demandas do Reinado, perderia sua autoridade. Sem opção de recuar,
o único caminho era em frente. Nos meses seguintes, as legiões marcharam. Uma a uma, as nações do
oeste do Reinado caíram e foram transformadas em províncias do Império de Tauron: Petrynia, Fortuna,
Lomatubar, Tollon. A partir de Tollon, os minotauros invadiram Deheon e sitiaram a capital, Valkaria. O
Rei-Imperador Thormy então tomou uma decisão surpreendente: mandou uma mensagem para o
princeps Aurakas, na qual ofereceu abdicar do trono e se entregar como refém, com as condições que as
hostilidades cessassem, as legiões recuassem de Deheon e os habitantes das nações conquistadas
fossem tratados como cidadãos do novo Império de Tauron, não podendo assim ser escravizados.
Sabendo que aquela barganha era boa demais para ser recusada, Aurakas aceitou a oferta.
Muitos se perguntam por que Thormy não lutou. A verdade é que, após diversos conflitos no leste — as
batalhas contra os exércitos aberrantes de Crânio Negro, poucos anos antes, e a Marcha de Arsenal,
mais cedo no mesmo ano — o Exército do Reinado estava fragilizado. Talvez o Rei-Imperador pudesse
ser vitorioso, talvez não. Qualquer que fosse o resultado da batalha, ele sabia que dezenas de milhares
morreriam. Frente a isso, Thormy escolheu a paz. Com seu tratado, selou o fim das Guerras Táuricas, um
conflito causado por erros diplomáticos, a ganância de um rei, a impulsividade de um barão e a
arbitrariedade de um princeps. Também cumpriu uma parte da ancestral profecia da Flecha de Fogo:
“quando um rei partir sua coroa em duas”. Por fim, abriu caminho para a ascensão da próxima soberana
do Reinado, que governa até os dias de hoje: a Rainha-Imperatriz Shivara.
Era Imperial
Nos meses após as Guerras Táuricas, o Império de Tauron solidificou seu domínio sobre os territórios
conquistados. Os antigos reinos foram transformados em províncias, com seus regentes sendo
substituídos por governadores minotauros. Como mostra de civilidade, os regentes não foram
executados ou presos; em vez disso, mantiveram suas posições, mas de forma cerimonial, com pouco ou
nenhum poder concreto. Cada província também recebeu uma ou mais legiões para manter a lei e a
ordem. Apesar dos esforços táuricos, alguns lugares jamais foram conquistados: repleta de aventureiros,
a cidade costeira de Malpetrim se manteve livre e independente. Perdida em meio a uma vastidão de
planícies poeirentas, a cidade fora da lei de Smokestone jamais foi descoberta pelas legiões.
Sob o domínio imperial, o povo das províncias sofria com leis severas e impostos pesados. Contudo, vivia
em uma sociedade mais segura e ordeira. Os minotauros eram senhores rígidos, mas não sádicos — pelo
menos não em sua maioria. E, dentro dos termos do acordo de Thormy, os antigos habitantes do
Reinado foram tratados como cidadãos do Império, não como um povo conquistado. Assim, estavam
protegidos pelas leis tapistanas e não podiam ser punidos sem julgamento.
Havia, porém, a questão da escravidão. A atrocidade, que sequer deveria existir na sociedade táurica
segundo os princípios da Tarvica, era um flagelo na terra. Pela lei, apenas condenados, devedores e
prisioneiros de guerra podiam ser escravizados; na prática, escravagistas emboscavam viajantes e
atacavam aldeias para capturar e vender pessoas em mercados clandestinos. Aos poucos, focos de
resistência contra o jugo táurico começaram a surgir, com rebeldes lutando em busca da liberdade.
Eventuais revoltas não impediram o Império de se tornar uma das principais potências de Arton. Nessa
época, Tauron, o Deus da Força e criador dos minotauros, ascendeu à liderança do Panteão, tomando o
lugar de Khalmyr, o Deus da Justiça. Parecia que nada seria capaz de impedir a expansão táurica pelo
resto do mundo.
Mas então uma tempestade caiu sobre Tiberus, a capital do Império.
Império em Ruínas
Enquanto os minotauros expandiam seus domínios, outro povo acumulava tragédias. Os elfos, que já
haviam sido expulsos de suas terras pelos duyshidakk, agora viam o Reino Divino de Glórienn ser
tomado pela Tormenta. Tantos desastres fizeram a Deusa dos Elfos perder seu posto como divindade
maior do Panteão e se tornar uma deusa menor. Apavorada, Glórienn aceitou a proposta de Tauron:
tornar-se sua protegida... e parte de seu harém. Muitos elfos seguiram os passos da deusa e rumaram
para o Império de Tauron, onde entregaram sua liberdade em troca de segurança. Tornaram-se
escravos, assumindo posições como tutores, concubinos, conselheiros, gladiadores ou mesmo
trabalhadores braçais.
Foi então que Gwen, uma elfa aventureira, decidiu fazer algo contra a apatia de seu povo. Ela foi para
Tiberus, onde se uniu a rebeldes abolicionistas para acabar com a escravidão e fazer os elfos
recuperarem seu amor-próprio. Enquanto isso, Glórienn tinha seus próprios planos. No entanto, em vez
de liberdade, a Deusa dos Elfos buscava apenas um mestre mais poderoso, traindo Tauron por
Aharadak. A rebelião liderada por Gwen e a traição perpetrada por Glórienn culminaram com o
surgimento de uma área de Tormenta em Tiberus e um combate titânico entre Tauron e Aharadak, que
terminou com a morte do Deus da Força e a ascensão do Deus da Tormenta ao Panteão. Os eventos
cataclísmicos mataram dezenas de milhares, incluindo o princeps Aurakas. Apesar de tudo, os
minotauros não abandonaram a capital. Em vez disso, lutaram por cada rua da metrópole e resistiram.
Muito por conta do sacrifício de Tauron — feito de rocha vulcânica, o colossal cadáver do deus jaz até
hoje na cidade, sua energia divina residual impedindo que a área de Tormenta se expanda por toda
Tiberus.
Com Tauron e Aurakas mortos e Tiberus sob ataque incessante de demônios, uma onda de revoltas se
espalhou pelas províncias. O Império estava prestes a cair. Foi nesse momento sombrio que os
senadores sobreviventes tomaram uma série de medidas enérgicas. Baniram a escravidão e o cargo de
princeps, passando para um sistema com três regentes eleitos, e convocaram as legiões que se
mantiveram leais de volta à capital, para ajudar na luta contra a Tormenta. Com isso, abandonaram as
províncias à própria sorte, mas recuperaram um pouco de normalidade na cidade.
Os mais cínicos dizem que a escravidão foi proibida apenas porque a maioria dos escravos já havia
fugido — e os que ficaram teriam mais motivação para defender Tiberus se fossem cidadãos. Porém,
outros dizem que essa mudança ocorreu porque os senadores lembraram os princípios da Tarvica e
entenderam que a escravidão não tinha lugar em uma sociedade que prosperara priorizando o coletivo.
Esses minotauros admitem que a nação táurica nunca esteve tão fraca desde quando o povo foi
dominado pelos gigantes. Mas também dizem que, ao retomar as tradições, esse povo aguerrido está no
caminho certo para recuperar sua própria força.
Geografia
O coração do Império de Tauron se situa no vale fértil formado pelo Rio dos Deuses quando este passa
ao lado das Montanhas Uivantes. A maior parte do terreno é formada por planícies com solo propício
para o plantio de cereais e frutas, pontuadas por colinas, bosques e florestas. O clima varia: frio a
sudeste (devido às Uivantes), quente e árido a nordeste, e tropical a oeste.
O Império de Tauron possui poucas cidades, mas cada uma delas é muito grande. Entre as cidades, há
vastas fazendas construídas ao redor de luxuosas propriedades rurais chamadas villas. Muitas dessas
propriedades jazem abandonadas ou se tornaram esconderijo de bandidos, escravagistas, monstros ou
mortos-vivos.
Mais do que qualquer reino em Arton, o terreno do Império de Tauron é entrecortado por estradas
largas, pavimentadas e labirínticas, possibilitando viagens rápidas (quando você é um minotauro, é
claro!) de um lugar para outro. No auge do Império, as estradas eram seguras, com constantes patrulhas
de legionários. Hoje, com as poucas legiões remanescentes ocupadas com a defesa da capital, viajar
pelas estradas é uma aventura por si só.
Povo e Costumes
Como esperado, o Império de Tauron é dominado pelos minotauros e a maior parte dos ricos e
poderosos pertence a essa raça. Porém, como existem apenas minotauros do sexo masculino, eles não
são a maioria em termos populacionais, com elfos e humanos existindo em quantidade similar —
especialmente mulheres, em muitos casos como esposas dos minotauros. Além disso, sendo uma
sociedade urbana e cosmopolita, é comum ver seres de raças variadas andando pelas ruas
movimentadas das cidades imperiais.
Cidadãos de classe social elevada costumam trajar togas — um tipo de manto de lã, geralmente branco
— e sandálias. Já trabalhadores usam túnicas simples. Tapistanos também valorizam trajes militares,
mesmo quando seu tempo de serviço nas legiões já terminou.
Seguindo os princípios filosóficos que regem sua sociedade, a maior parte dos cidadãos é composta de
servidores públicos (burocratas, militares, políticos) ou produtores (lavradores, pescadores, artesãos).
Comercializar é visto como um ato de fraqueza e, embora haja minotauros mercadores, a maioria dos
comerciantes no Império pertence a outras raças, especialmente anões e hynne.
A Tarvica de Goratikis
A Tarvica, a filosofia criada por Goratikis, foi a fundação sobre a qual os minotauros ergueram seu reino
e, posteriormente, a República Tapistana. Consiste em sete princípios que determinam como um
minotauro deve agir e tem como objetivo fortalecer o coletivo, seja uma família, um exército ou uma
nação. Apesar de existir há séculos, a Tarvica ainda é motivo de debate entre filósofos, que divergem
sobre como interpretá-la. Alguns defendem, por exemplo, que Goratikis estipulou uma ordem para os
princípios, sendo o primeiro (Força) o mais importante; já outros dizem que todos têm o mesmo peso e
que Goratikis os escreveu em uma ordem apenas porque, bem, não podia escrever todos ao mesmo
tempo. Seja como for, essa filosofia rege a sociedade táurica. Obviamente, nem todo minotauro segue
os princípios — assim como nem todo humano segue as leis do Reinado —, mas os membros mais
distintos do Império de Tauron vivem de acordo com eles. Ou, pelo menos, assim o dizem…
De um ponto de vista humano, a Tarvica pode parecer inconsistente, pois os princípios podem ser
usados para justificar tanto atos bondosos quanto malignos. A verdade é que a sociedade táurica como
um todo não se importa com o Bem e o Mal. Isso não significa que os minotauros, enquanto indivíduos,
não sejam bondosos ou malignos e, especialmente, não justifica atrocidades! Um ato cruel continua
sendo cruel, independentemente de ser socialmente aceito. Minotauros honrados se focam nos
aspectos benévolos dos princípios, enquanto os perversos os distorcem em benefício próprio — e
podem ascender no Império de formas inconcebíveis para um habitante do Reinado.
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Os sete princípios da Tarvica
Força. Força física, mas não apenas isso, como muitos forasteiros acreditam; também força de vontade
e de caráter. Um minotauro jamais deve duvidar de suas decisões. Um minotauro segue sempre em
frente; se seu plano se mostrar ruim, arcará com as consequências disso, com a serenidade de ter agido
conforme suas convicções. Críticos do sistema dizem que esse princípio é apenas uma desculpa para ser
teimoso; defensores argumentam que aquele que questiona suas próprias escolhas fica vagando para
frente e para trás na estrada da vida, sem jamais chegar a lugar algum. Esse princípio não possui um
aspecto bondoso e um maligno, visto que a força por si só não é boa nem má; o que você faz com ela é
que define a ética de seus atos.
Soberania. Autoridade sobre os outros. Para minotauros bondosos, esse princípio consiste na
capacidade de organizar as pessoas e então direcioná-las a um propósito maior. Já para minotauros
malignos, justifica agressão, dominação militar e tirania. Embora discordem dos meios, ambos
concordam com o fim — o coletivo é mais forte que o indivíduo.
Zelo. Capacidade de proteger os mais fracos. A lógica filosófica para isso é que um coletivo pode existir
apenas se os mais fortes protegerem os fracos; sem isso, os mais fracos cairão e o coletivo ruirá.
Novamente, minotauros malignos usam esse princípio como justificativa para atos de opressão — dizem
que estão “protegendo” uma pessoa, quando na verdade estão tomando decisões por ela. Já
minotauros bondosos entendem que defender alguém não justifica tirar dessa pessoa o direito a suas
próprias escolhas.
Obediência. Capacidade de acatar as decisões dos mais fortes. Importante entender que, para os
minotauros, sempre haverá alguém mais forte. Um plebeu fraco e desarmado deve obediência a um
legionário. O legionário segue as ordens de seu legado. O legado acata as decisões do Triunvirato. Os
membros do Triunvirato agem conforme as leis feitas pelo Senado. E os senadores são escolhidos pelo
povo, do mais rico patriarca ao mais humilde plebeu, em um complexo e infinito ciclo de obediência.
Austeridade. Frugalidade e temperança. Historiadores creem que esse princípio foi criado por Goratikis
para incentivar a economia de recursos durante a rebelião contra os gigantes, mas seu propósito é ainda
mais profundo: para Goratikis, quando um indivíduo busca luxos desnecessários, prejudica outros do
coletivo. Esse é o princípio mais convenientemente “esquecido” por boa parte da sociedade táurica.
Aqueles que o seguem muitas vezes são respeitados pela frente, mas tachados como radicais
excêntricos pelas costas.
Labor. Persistência e trabalho duro. Goratikis sabia que os minotauros jamais se libertariam do jugo dos
gigantes sem se empenhar ao máximo — contando apenas com sua força inata, não derrotariam seus
algozes, que eram fisicamente mais poderosos. Assim, instaurou na mente de seu povo a ideia de que,
para alcançar um grande objetivo, a dedicação importa mais do que o talento. Para minotauros que
seguem esse princípio piamente, o esforço de uma pessoa é mais importante do que o resultado de suas
ações — alguém que falhe em sua tarefa, mas tenha se dedicado a ela, é mais bem visto do que alguém
que seja bem-sucedido sem esforço.
Civilidade. Capacidade de viver em sociedade — respeitar os outros, agir em prol do bem comum,
conhecer seu lugar e fazer o que é esperado. Minotauros malignos usam esse princípio para impedir que
aqueles menos afortunados ascendam socialmente. Já os bondosos entendem o contrário e usam seus
recursos para que todos tenham mais oportunidades na vida. De certa forma, este princípio é uma
consequência de todos os outros e representa o objetivo final desse sistema filosófico — fortalecer o
coletivo. Por conta dele, o serviço público, seja como um burocrata no palácio de Tiberus, seja como um
legionário nos muros da cidade, é visto como a ocupação mais nobre de todas.
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