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A Arte Barroca: Emoção e Contraste

O documento resume as principais características do estilo artístico Barroco, que surgiu na Itália do século XVII e se espalhou pela Europa e Américas, incluindo o Brasil. Aborda o contexto histórico e religioso, traços como emotividade, dramatismo e contrastes, e destaca artistas como Aleijadinho e suas obras em Minas Gerais.

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A Arte Barroca: Emoção e Contraste

O documento resume as principais características do estilo artístico Barroco, que surgiu na Itália do século XVII e se espalhou pela Europa e Américas, incluindo o Brasil. Aborda o contexto histórico e religioso, traços como emotividade, dramatismo e contrastes, e destaca artistas como Aleijadinho e suas obras em Minas Gerais.

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BARROCO

INTRODUÇÃO
▪ O Barroco foi uma tendência artística que se
desenvolveu primeiramente nas artes plásticas
e depois se manifestou na literatura, no teatro e
na música.
▪ Início: Itália do século XVII.
▪ Permaneceu vivo no mundo das artes até o
século XVIII. Na América Latina, entrou no
século XVII, trazido por artistas que viajavam
para a Europa.
▪ A palavra “barroco” significa “pérola irregular”
ou "pérola deformada“.
CONTEXTO HISTÓRICO
▪ Integração de Portugal ao império espanhol.
▪ Durante 60 anos (1580-1640) assiste-se ao declínio comercial
e naval do Reino, apesar das significativas exportações do
açúcar brasileiro.
▪ Portugal chega a perder para a Holanda muitas de suas
colônias orientais até parte do território brasileiro.
▪ Restaura-se a Coroa e Portugal se torna independente só em
1640, com conflito militar, que levou ao trono o 1º rei da
dinastia de Bragança, D. João IV.
▪ Com a descoberta do ouro em Minas Gerais, no final do
século XVII, Portugal vive um novo período de riqueza,
esbanjada durante o longo reinado de D. João V (1707-1750).
▪ Espanha e Portugal tornaram-se baluartes da Contrarreforma,
séculos XVI, XVII e XVIII.
▪ Inquisição (estima-se 1.000 execuções entre 1530-1630 e 250
entre 1630-1730).
▪ O Barroco se desenvolve após o processo de
Reformas Religiosas, ocorrido no século XVI, a Igreja
Católica havia perdido muito espaço e poder. Mesmo
assim, os católicos continuavam influenciando muito
o cenário político, econômico e religioso na Europa.
▪ A arte barroca surge neste contexto e expressa todo
o contraste deste período: a espiritualidade e
teocentrismo da Idade Média com o racionalismo e
antropocentrismo do Renascimento.
▪ Osartistas barrocos foram patrocinados pelos
monarcas, burgueses e pelo clero.
▪ As obras deste período são rebuscadas, detalhistas e
expressam as emoções da vida e do ser humano.
CARACTERÍSTICAS GERAIS
▪ Emocional sobre o racional; seu propósito é
impressionar os sentidos do observador, baseando-
se no princípio segundo o qual a fé deveria ser
atingida através dos sentidos e da emoção e não
apenas pelo raciocínio.
▪ Busca de efeitos decorativos e visuais, através de
curvas, contracurvas, colunas retorcidas;
▪ Tentativa de conciliar forças antagônicas; bem e
mal; céu e terra; pureza e pecado; alegria e tristeza;
espírito e matéria.
▪ Entrelaçamento entre a arquitetura e escultura;
▪ Violentos contrastes de luz e sombra.
Conflito espiritual: o homem barroco sente-se
dilacerado e angustiado diante da alteração dos
valores, dividindo-se entre o mundo espiritual e o
mundo material. As figuras que melhor expressam esse
estado de alma são a antítese e o paradoxo.

"Nasce o sol, e não dura mais que um dia,


Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, porque não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
(...)
Começa o Mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância."
Toda situação de tensão e de conflito religioso influencia
o Barroco em todas as artes. Por essa feita, os artistas barrocos
unem aspectos contraditórios.

sagrado x profano
luzes x sombras
paganismo x cristianismo
racional x irracional
perdão x culpa

Conceptismo ou quevedismo: esse estilo predomina


em textos em prosa. A elaboração está no aspecto conceitual
do texto, valorizando a construção intelectual, o conteúdo.
Recorre à metáforas, hipérboles, paradoxos, antíteses. Seu
maior representante foi Antonio Quevedo.
Cultismo ou gongorismo: é o jogo de palavras; é o
rebuscamento da forma, é a obsessão pela linguagem culta,
erudita, por meio de inversão da frase (hipérbato), do uso de
palavras difíceis.

É o abuso no emprego de figuras de linguagem,


especialmente a metáfora, a antítese e o hipérbato.

O principal cultista do Barroco mundial foi o espanhol


Luiz de Gôngora. No Brasil, Gregório de Matos.

"O todo sem a parte não é o todo;


A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,


E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica todo."
▪ FUSIONISMO: fusão das visões medieval e renascentista
(antagônicas). É a união dos opostos.

▪ CULTO DOS CONTRASTES:


perdão/pecado;carne/espírito;juventude/velhice;
céu/terra/erotismo/espiritualidade.

▪ PESSIMISMO: o conflito religioso gera descontentamento e tensão,


acentuando o caráter pessimista em algumas obras a respeito do
mundo, da vida terrena (busca pelo Paraíso).

▪ REBUSCAMENTO/HERMETISMO: linguagem e conceitos fechados,


difíceis.

▪ TEATRALIDADE: representação do movimento, a partir das curvas


(opondo-se às retas renascentistas); ao drama (na escultura, a
representação dos olhos arregalados); conferindo um caráter
exagerado, afetado, a fim de provocar o receptor.

▪ FIGURAS DE LINGUAGEM: as mais comuns são hipérbole,


hipérbato, paradoxo, antítese, metáfora.
A ARTE BARROCA NO BRASIL
◼ Associação com a igreja católica.
◼ Minas Gerais foi o berço da mais
forte e mais bela expressão de uma
arte barroca genuinamente
brasileira.
◼ Fatores: alto poder aquisitivo
proporcionado pelo ouro e uma
aguda sensibilidade artística.

▪ Características: opulência das formas, excesso de


ornamentação (contrapondo a simetria e os conceitos
volumétricos do Renascimento), superposição de planos e
volume, elementos contorcidos e espirais, o teto é elaborado
com elementos da escultura e as janelas permitem a
penetração da luz de modo a destacar as colunas, transmitem
uma impressão de poder e de movimento.
▪ Linhas: nas regiões enriquecidas pelo comércio de
açúcar e pela mineração, encontramos igrejas com
trabalhos em relevos feitos em madeira, as talhas
recobertas por finas camadas de ouro, com janelas e
portas com detalhados trabalhos de escultura. Já nas
regiões onde não existia nem açúcar nem ouro, as
igrejas apresentam talhas modestas e os trabalhos
foram realizados por artistas menos experientes e
famosos do que os que viviam nas regiões ricas.
Igreja de São
Francisco, uma
das Sete Maravilhas
de Origem
Portuguesa no Mundo,
faz parte do Centro
Histórico de Salvador,
que hoje é Patrimônio
da Humanidade.
ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA
▪ Os projetos de Aleijadinho para as
igrejas mineiras expressam uma obra de
arte plena e perfeita. Além de
extraordinário arquiteto e decorador de
igrejas, foi também incomparável
escultor.
▪ O Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, (1738 – 1814)
em Congonhas do Campo, constituído
por uma igreja em cujo quadro estão as
esculturas em pedra-sabão de doze
profetas, cada um desses personagens
numa posição diferente executa gestos
que se coordenam. Com isso ele
conseguiu um resultado muito
interessante, pois torna muito forte para o
observador a sugestão de que as figuras
de pedra estão se movimentando.
MANUEL DA COSTA ATAÍDE
▪ Professor e pintor. Suas pinturas
em tetos das igrejas seguiam as
características do estilo barroco,
e aliavam-se perfeitamente às
esculturas de Aleijadinho. Mestre
(1762 – 1830)
Ataíde pintou várias igrejas de
Minas Gerais com estilo próprio
e bem brasileiro. Usava cores
vivas e alegres e gostava muito
do azul. Ataíde utilizava tanto a
tinta a óleo (que importava da
Europa) como a têmpera.

Assunção da Virgem, Igreja São Francisco de Ouro Preto


▪ A Praça de São Pedro (1656 – 1667), obra de Gian
Lorenzo Bernini, no Vaticano (Roma), tem um estilo
clássico com influências da arquitetura barroca. Os
braços da praça simbolizam a igreja, que abriga e
abraça os fiéis.
▪ Caravaggio - (Michelangelo
Merisi da Caravaggio, 1573 -
1610), o que melhor caracteriza a
sua pintura é o modo
revolucionário como ele usa a luz.
Ela não aparece como reflexo da
luz solar, mas é criada
intencionalmente pelo artista, para
dirigir a atenção do observador.

◼ A ceia em Emáus (1600 – 1601)


capta o momento em que Jesus,
após a ressurreição, revela-se a
seus discípulos, abençoando o
pão. Entre sombras e tons
escuros, a luz recai sobre o rosto
sereno de Jesus.
Judith degola Helofernes
As meninas
(Velásquez)
Lição de anatomia
(Rembrandt)
O CONTEXTO BRASILEIRO
▪O movimento brasileiro, influenciado pelo
barroco português, apresentou suas próprias
características, pois diferente da realidade
portuguesa de luxo e pompa da aristocracia, o
Brasil vivia uma realidade de violência, em que
se perseguiam os índios e escravizavam os
negros.
▪ No Brasil, o barroco ganhou impulso entre 1720
e 1750, momento em que várias academias
literárias foram fundadas por todo o país.
LITERATURA
▪ Prosopopeia é um poema
épico escrito por Bento
Teixeira e publicado
em 1601 que narra aventuras
da família Albuquerque e é
dedicado a Jorge
d’Albuquerque Coelho, então
governador da Capitania de
Pernambuco. Apesar de poder
ser considerado o marco inicial
do barroco na literatura
brasileira, seu valor artístico
tem sido questionado por
vários críticos modernos.
▪ Efemeridade do tempo e carpe diem: o homem
barroco tem consciência de que a vida terrena é
efêmera, passageira, e por isso, é preciso pensar na
salvação espiritual. Mas já que a vida é passageira,
sente, ao mesmo tempo, desejo de aproveitá-la
antes que acabe, o que resulta num sentimento
contraditório, já que aproveitar a vida implica
pecar, e se há pecado, não há salvação.

https://www.youtube.com/watch?v=bOukv
R5ZydQ&ab_channel=ArquivodeTrailers
▪ Os escritores que mais se destacaram foram:

Na poesia:

- Gregório de Matos
- Bento Teixeira
- Botelho de Oliveira
- Frei Itaparica

Na prosa:

- Pe. Antônio Vieira


- Sebastião da Rocha Pita
- Nuno Marques Pereira
GREGÓRIO DE MATOS
▪ Gregório de Matos é o maior poeta barroco brasileiro,
sua obra permaneceu inédita por muito tempo, suas
obras são ricas em sátiras, além de retratar a Bahia com
bastante irreverência, o autor não foi indiferente à
paixão humana e religiosa, à natureza e reflexão.
▪ As obras desse escritor são divididas de acordo com a
temática: poesia lírica religiosa, amorosa e filosófica.

(Salvador, 1636 – Recife, 1696)


Quando Deus redimiu da tirania
Da mão do Faraó endurecido
O Povo Hebreu amado, e esclarecido,
Páscoa ficou da redenção o dia.
Páscoa de flores, dia de alegria
Àquele povo foi tão afligido
O dia, em que por Deus foi redimido;
Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia.
Pois mandado pela Alta Majestade
Nos remiu de tão triste cativeiro,
Nos livrou de tão vil calamidade.
Quem pode ser senão um verdadeiro
Deus, que veio estirpar desta cidade
o Faraó do povo brasileiro.

(DAMASCENO, D. Melhores poemas: Gregório de Matos. São Paulo: 2006)


Com uma elaboração de linguagem e uma
visão de mundo que apresentam princípios
barrocos, o soneto de Gregório de Matos
apresenta temática expressa por

A) visão cética sobre as relações sociais.


B) preocupação com a identidade brasileira.
C) crítica velada à forma de governo vigente.
D) reflexão sobre dogmas do Cristianismo.
E) questionamento das práticas pagãs na Bahia.
A LÍRICA RELIGIOSA
A JESUS CRISTO NOSSO SENHOR

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,


da vossa alta clemência me despido;
porque, quanto mais tenho delinquido,
vos tenho a perdoar mais empenhado. ▪ Explora temas como
o amor a Deus, o
Se basta a vos irar tanto pecado, arrependimento, o
a abrandar-vos sobeja um só gemido: pecado, apresenta
que a mesma culpa, que vos há ofendido referências bíblicas
vos tem para o perdão lisonjeado.
através de uma
Se uma ovelha perdida, e já cobrada linguagem culta,
glória tal e prazer tão repentino cheia de figuras de
vos deu, como afirmais na sacra história, linguagem.
eu sou Senhor, a ovelha desgarrada,
cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
perder na vossa ovelha, a vossa glória.
A LÍRICA AMOROSA

Anjo no nome, Angélica na cara,


Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
É marcada pela Se Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?
dualidade
amorosa entre Quem veria uma flor, que a não cortara
carne/espírito, De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
ocasionando um Que por seu Deus, o não idolatrara?
sentimento de
culpa no plano Se como Anjo dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
espiritual. Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,


Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
A LÍRICA SATÍRICA

▪ Os textos fazem referência à desordem do


mundo e às desilusões do homem perante a
realidade.

▪ Em virtude de suas sátiras, Gregório de Matos


ficou conhecido como “O boca do Inferno”, pois
o poeta não economizou palavrões nem críticas
em sua linguagem, que além disso era
enriquecida com termos indígenas e africanos.
Soneto
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um frequentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha
Pesquisa. Escuta, espreita, e esquadrinha,
Para levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.

Nesse texto o poeta expõe os personagens que circulavam


pela cidade de Salvador - conhecida como Bahia - desde as mais
altas autoridades até os mais pobres escravos.
Quantos há que os telhados têm vidrosos
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receosos.

Adeus, praia, adeus, ribeira,


De regatões tabaquista,
Que vende gato por lebre
Querendo enganar a vista.

Nenhum modo de desculpa


Tendes, que valer-vos possa:
Que se o cão entra na igreja,
É porque acha aberta a porta.

GUERRA, G. M. In: LIMA, R. T. Abecê de folclore. São Paulo: Martins Fontes,


2003 (fragmento).
Ao organizar as informações, no processo de
construção do texto, o autor estabelece sua
intenção comunicativa. Nesse poema, Gregório
de Matos explora os ditados populares com o
objetivo de

A) enumerar atitudes.
B) descrever costumes.
C) demonstrar sabedoria.
D) recomendar precaução.
E) criticar comportamentos.
Lisongeia outra vez impaciente a retenção de sua mesma desgraça...

Discreta e formosíssima Maria,


Enquanto estamos vendo claramente
Na vossa ardente vista o sol ardente,
E na rosada face a Aurora fria:

Enquanto pois produz, enquanto cria


Essa esfera gentil, mina excelente
No cabelo o metal mais reluzente,
E na boca a mais fina pedraria:

Gozai, gozai da flor da formosura,


Antes que o frio da madura idade
Tronco deixe despido, o que é verdura.

Que passado o Zenith da mocidade,


Sem a noite encontrar da sepultura,
É cada dia ocaso de beldade.
Gregório de Matos
O Barroco é um movimento complexo, considerado como a arte
dos contrastes. O poema de Gregório de Matos, que revela
características do Barroco brasileiro, é uma espécie de livre-
tradução de um poema de Luís de Góngora, importante poeta
espanhol do século XVII.

Fruto de sua época, o poema de Gregório de Matos destaca

A) a regular alternância temática entre versos pares e ímpares.


B) o contraste entre a beleza física da mulher e a religiosidade
do poeta.
C) o pesar pela transitoriedade da juventude e a certeza da
morte ou da velhice.
D) o uso de antíteses para distinguir o que é terreno e o que é
espiritual na mulher.
E) a concepção de amor que se transforma em tormento da
alma e do corpo do eu lírico.
PADRE ANTÔNIO VIEIRA
(Lisboa, 1608 – Salvador, 1697)

“Serem os homens de qualquer cor, iguais e livres por natureza.”

▪ O padre Vieira foi um grande e produtivo escritor do Barroco em


língua portuguesa. Escreveu 200 sermões - entre os quais pode-se
destacar o "Sermão da Sexagésima" -, cerca de 500 cartas e
profecias que reuniu no livro "Chave dos Profetas", que nunca
acabou.
▪ Um dos mais influentes personagens do século XVII em termos de
política e Oratória, destacou-se como missionário em terras
brasileiras.
▪ Antônio Vieira defendeu também os indígenas, os judeus, a
abolição da distinção entre cristãos-novos (judeus convertidos,
perseguidos à época pela Inquisição) e cristãos-velhos (os
católicos tradicionais), e a abolição da escravatura. Criticou ainda
severamente os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição.
SERMÃO DA SEXAGÉSIMA
“Como hão de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito
distantes, e muito claras.”
Pregado na Capela Real, no ano de 1655.
I
E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse
hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador!
Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e
trouxe de tão longe.
Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a
semear» a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz
menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe
hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que
lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais.
Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque
também das passadas colhe fruto.
Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros
que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à
China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar
na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em
casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes
de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah
pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos:
Exiit seminare.
Vieira escreveu, inspirando-se no
filósofo grego Aristóteles:

“... Os sonhos são a imagem da vida. Cada


um sonha como vive (...). Os sonhos são
uma pintura muda, em que a imaginação a
portas fechadas, e às escuras retrata a vida,
e a alma de cada um, com as cores das
suas ações, dos seus propósitos, e dos seus
desejos.”
QUESTÕES SOCIAIS
“Dominarem os homens brancos aos pretos, é
força, e não razão, ou natureza.”

“Estes homens (os escravos negros) não são filhos


do mesmo Adão, e da mesma Eva? Estas Almas
não foram resgatadas com o sangue do mesmo
Cristo? Estes corpos não nascem, e morrem,
como os nossos? Não respiram com o mesmo ar?
Não os cobre o mesmo céu? Não os aquenta o
mesmo sol? Que estrela é logo aquela, que os
domina, tão triste, tão inimiga, tão cruel?”

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