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Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos

Quem foi Florestan Fernandes?


11 de abril de 2006

FLORESTAN FERNANDES

"Afirmo que iniciei a minha aprendizagem sociológica


aos seis anos, quando precisei ganhar a vida como se fosse um
adulto e penetrei, pelas vias da experiência concreta, no
conhecimento do que é a convivência humana e a sociedade"

Florestan Fernandes

Florestan Fernandes nasceu em São Paulo, no dia 22 de


julho de 1920. Sua luta pela vida começou já na
infância, para conquistar o próprio nome - já
que patroa de sua mãe o chamava de Vicente, por considerar
que Florestan não era nome de pobre - e sobreviver começou
a trabalhar aos seis anos, o que o impediu de completar o curso
primário e o levou a se formar no curso de madureza (supletivo).

Era vendedor de produtos farmacêuticos quando, aos 18


anos, ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras da Universidade de São Paulo em 1947, formando-se
em ciências sociais. Doutorou-se em 1951 e foi assistente
catedrático, livre docente e professor titular na cadeira
de sociologia, substituindo o sociólogo e professor francês
Roger Bastide em caráter interino até 1964, ano
em que se efetivou na cátedra.

O nome de Florestan Fernandes está obrigatoriamente associado


à pesquisa sociológica brasileira. Sociólogo
e professor universitário com mais de cinquenta obras
publicadas, transformou as ciências sociais no Brasil
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e estabeleceu um novo estilo de pensamento.

Foi mestre de sociólogos renomados, como Octavio Ianni


e Fernando Henrique Cardoso. Cassado com base no AI-5, em 1969,
deixou o país e lecionou nas universidades de Columbia
(EUA), Toronto (Canadá) e Yale (EUA). Retornou ao Brasil
em 1972 e passou a lecionar na PUC-SP. Não procurou reintegra-se
à USP, da qual recebeu o título de professor emérito
em dezembro de 1985.

Florestan esteve ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT) desde


sua fundação. Em 1986 filiou-se ao partido e exerceu
dois mandatos de deputado federal (1987-1991 e 1991-1995).

Colaborou com a Folha desde os anos 40 e, em junho de


1989, passou a ter uma coluna semanal nesse jornal.

Florestan não via o destino da ex-URSS como o fim do


socialismo e do marxismo, nem a globalização como
a esperança dos excluídos - ao menos, dizia, enquanto
o "capitalismo da fase atual não conseguir uma equação
definitiva para a questão social".

Florestan Fernandes morreu em São Paulo no dia 10 de


agosto de 1995.

Renato
Roschel

do Banco
de Dados

Biografia de Florestan Fernandes

Fonte:
Fundação Florestan Fernandes
Uma vida de luta e construção

Florestan Fernandes nasceu em São Paulo, no dia 22 de Julho


de 1920, de família muito humilde do Brás. Sua mãe, Dona Maria Fernandes, era
uma imigrante portuguesa, analfabeta e trabalhava como lavadeira. Sua madrinha,
que era patroa de sua mãe, costumava chamá-lo de Vicente, pois julgava que
Florestan, não era nome apropriado para uma criança pobre.
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Devido às necessidades de sua família, Florestan começou a trabalhar aos seis


anos de idade, onde desempenhou vários ofícios como: engraxate, auxiliar de
marceneiro, auxiliar de barbeiro, alfaiate e balconista de bar. Como sua vida no
trabalho estava exigindo que se dedicasse em período integral, aos nove anos de
idade parou de estudar no terceiro ano do curso primário. Somente aos dezessete
anos concluiu o antigo curso de madureza (atual supletivo), por insistência dos
fregueses do Bar Bidu, na Rua Líbero Badaró, onde trabalhava como cozinheiro,
pois achavam que Florestan era muito inteligente devido aos comentários sobre a
política e a leitura da realidade que fazia.

Florestan
aos cinco anos começando

sua luta pela sobrevivência


Vendedor de produtos farmacêuticos, Florestan, aos dezoito
anos de idade, ingressou na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São
Paulo. Neste momento, ele dizia que o Vicente começou a morrer e sobreveio o
Florestan.

Obteve a licenciatura em 1943, ano em que O Estado de São Paulo publicou o seu
primeiro artigo. Em 1944, casou-se com Myriam Rodrigues Fernandes, com quem teve
seis filhos. Neste mesmo ano, tornou-se assistente do professor Fernando de
Azevedo, na cátedra de sociologia II. Obteve o título de mestre em 1947 com a
dissertação A organização social dos Tupinambá e concluiu o doutorado em
1951, com a tese A função social da guerra na sociedade Tupinambá, sob
orientação do professor Fernando de Azevedo.
Nas obras em que defendeu (por sinal, são muito respeitadas
ainda hoje), Florestan constrói a estrutura da tribo Tupinambá, já
desaparecida na época, por meio de documentos de viajantes. Concluído o
doutorado, Florestan passou a livre docente da USP na cátedra de Sociologia I,
e posteriormente, tornou-se professor titular.

Devido ao seu engajamento na Universidade, foi perseguido pela ditadura militar


e foi cassado com base no Ato Institucional de nº 5, pediu exílio, em 1969,
para o Canadá, onde assumiu um lugar de professor de Sociologia na Universidade
de Toronto.

Faleceu em São Paulo no dia 10 de agosto de 1995, aos 75 anos de idade, vítima
de embolia gasosa maciça (presença de bolhas de ar no sangue), seis dias após
submeter-se a um transplante de fígado. Ele estava revisando os originais de
seu último livro: A contestação necessária – retratos intelectuais de
inconformistas e revolucionários, uma coletânea de biografias de amigos e heróis.

A militância política

O intelectual militante, o professor engajado e o político eleito com mandato


pelo partido dos trabalhadores marcaram a história deste grande educador.

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Um pensamento importante de Florestan se deu por volta de 1969 em plena ditadura


militar, com a transição da fase acadêmica-reformista para a política-revolucionária.
O processo de consolidação do pensamento revolucionário foi destruído pelo
AI-5, que coloca vários intelectuais para fora das universidades, inclusive
Florestan, que passa a não reconhecer mais a universidade como um centro dinâmico
das transformações.

Seu ingresso no partido dos trabalhadores se deu a convite do presidente do


partido, Luis Inácio Lula da Silva, num momento de sua vida, onde o
desencantamento com a Universidade já se fazia presente.

Época
da Constituinte,

em frente ao Congresso Nacional.


Eleito deputado federal duas vezes pelo Partido dos
Trabalhadores, ele manteve coerência com seu pensamento e obra, e, se destacou
na defesa da escola pública e do projeto de Diretrizes e Bases da Educação.
Devido à sua crítica ao governo militar, a sua ligação a movimentos sociais
e organizações políticas de esquerda e a luta pela educação pública.

Revolucionando a sociologia brasileira

Na Universidade, Florestan inaugura uma nova fase de sua vida. Engajado nos
estudos e na reflexão sobre a sociedade, aprofunda-se no pensamento de Émile
Durkheim e dos demais pensadores da sociologia positivista. Como um intelectual
orgânico, introduz no meio acadêmico um novo perfil intelectual,
responsabilizando-se e engajando-se nos problemas da realidade social
brasileira, sobretudo na militância em prol das pessoas de condições menos
favorecidas.

Na década de 40, Florestan participava de um grupo marxista, onde se dedicou ao


estudo da obra de Marx e sofreu uma influência muito grande, principalmente
sobre o pensamento dialético, pois isso o ajudou a entender melhor a dominação
da sociedade burguesa e seus métodos expressos na realidade social.

Aliando o rigor metodológico à pesquisa empírica,


Florestan Fernandes funda a sociologia critica no Brasil. Inaugurando um novo
estilo de pensar a realidade social. Para Florestan, o pensamento se pensa todo
o tempo, pois a reflexão crítica deve ser sobre o pensamento e o pensado.

Segundo Ianni, contribuições de Florestan para a Sociologia brasileira, tem


origem em 5 fontes, são elas:

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· A Sociologia Clássica e moderna, com diálogo contínuo, aberto e crítico


que se desenvolve com os principais sociólogos, ou cientistas sociais, que
apresentam alguma contribuição à pesquisa e à interpretação da realidade
social.

· No pensamento marxista é contínuo e o crescente diálogo com as obras de


Marx, Engels, Lênin, Trotsky e Gramsci, entre outros, incorporou
progressivamente o pensamento dialético, que fica evidenciado tanto na escolha
dos temas quanto no tratamento dado a eles; criando desafios para os movimentos
sociais e os partidos políticos comprometidos com as lutas de grupos e classes
populares.

· A corrente mais crítica do pensamento brasileiro – em diferentes momentos,


manifesta-se um diálogo, explícito ou implícito, como Euclides da Cunha, Lima
Barreto, Manoel Bonfim, Astrogildo Pereira, Graciliano Ramos, Caio Prado Junior
e outros cientistas sociais e escritores, inclusive do século XIX. Em
diferentes escritos, reencontram-se sugestões, desafios ou temas suscitados
pela obra desses autores, compondo uma espécie de família intelectual
fundamental e muito característica no pensamento brasileiro. Levam em conta as
lutas dos mais diversos setores populares que entram no passado e no presente da
sociedade brasileira. Ajudam a recuperar algumas dimensões básicas das condições
de existência, de vida e trabalho, do índio, caboclo, escravo, colono,
seringueiro, camarada, sitiante, operário e outros, pretéritos e presentes.

· Os desafios de sua época, a começar pelos anos 40. As transformações em


curso na sociedade, em termos de urbanização, industrialização, migrações
internas, emergência de movimentos sociais e partidos políticos, governos e
regimes, sem esquecer as influências externas, criam e recriam desafios práticos
e teóricos para muitos.

· Os grupos e classes sociais que compreendem a maioria do povo, descortinando


um panorama social e histórico mais largo do que aquele que aparece no
pensamento produzido segundo as perspectivas dos grupos e classes dominantes. É
o negro, escravo e livre, isto é, trabalhador braçal, na lavoura e indústria,
que descortina um horizonte inesperado, amplo. Ao lado do índio, imigrante,
colono, camarada, peão e outros, a presença do negro na história social
brasileira desvenda perspectivas fundamentais para a construção do ponto de
vista crítico na Sociologia, nas Ciências Sociais e em outras esferas do
pensamento brasileiro.

Além dessas cinco fontes principais da Sociologia Crítica fundada por


Florestan, Ianni acrescenta outras inspirações como a militância política, a
reflexão sobre a responsabilidade ética e política do sociólogo, o convívio
com o pensamento latino-americano, destacando-se figuras como as de José Martí,
José Carlos Mariátegui, Ernesto Che Guevara e assim por diante. Sintetizando
as matrizes da Sociologia inaugurada por Florestan Fernandes no Brasil.
Sociologia Crítica essa que se caracteriza como um estilo de pensar a realidade
social a partir da raiz.

Na década de 50, Florestan volta-se para a questão do racismo, em um trabalho


pioneiro, onde levantou sérias dúvidas sobre o mito da democracia racial e deu
espaço para o estudo da democracia de forma mais ampla. Em um artigo de 1977,
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publicado em O Globo, o sociólogo afirma que no Brasil “não existe sequer


democracia para brancos poderosos, imagine para negros e mulatos”.

A Educação para o professor Florestan

Antonio Candido, intelectual, amigo de Florestan por mais de 50 anos, descreve o


professor Florestan Fernandes em três momentos com a seguinte citação:
“Houve um Florestan dos anos 40, um Florestan dos anos 50 e um Florestan dos
anos 60 a partir do qual a síntese já estava feita. O Florestan dos anos 40 é
o da construção do saber, que ao construir o seu, constrói a possibilidade de
saber dos outros. O Florestan dos anos 50 é o que começa a se apaixonar pela
explicação do saber do mundo, porque, tendo já os instrumentos na mão, se
dedica a aplica-los para compreender os problemas do mundo. O terceiro momento
é o do Florestan que, tendo aplicado o saber à compreensão do mundo,
transforma-o numa arma de combate. Naturalmente, as três etapas estão
misturadas, pois sempre houve a terceira na primeira e, a primeira na terceira.
Estou me referindo às predominâncias. (CANDIDO, 1986, P.33).

Florestan
(no alto, à direita) em um dos

inúmeros atos em defesa da escola pública.


O professor Florestan criticou a pedagogia tradicional e
condenava a postura dos educadores distante do processo social, acreditando que
estes deveriam estar engajados na tarefa de transformação social. Desta forma,
tornou-se defensor permanente da escola pública, fazendo da Educação um dos
temas centrais da sua vida. Para ele, não poderia existir estado ou sociedade
democrática sem uma educação democrática via escola pública gratuita.

Como bom marxista defendeu uma educação vinculada ao pensamento socialista.


Para ele, a classe trabalhadora era a principal força revolucionária, e,
portanto seus membros deveriam estar preparados, bem informados e conscientes de
seu papel e isto seria uma responsabilidade da Educação. Portanto entendia a
Educação como um fator de mudança social.

As faces que marcam o professor Florestan Fernandes na Educação são: a de


professor, cientista, militante e publicista da Educação, faces que ele
manteve em outras práticas e que mostraram a coerência deste intelectual em
toda sua trajetória de vida.

A campanha em defesa da escola pública

Muitos educadores já estavam envolvidos na discussão e principalmente na criação


de um projeto que, através do Estado-Educador, privilegiasse a educação
escolarizada, tornando o acesso e a permanência cada vez maior nas classes mais
baixas. Simultaneamente, estava em tramite a aprovação da lei de Diretrizes da
Educação Nacional, que com o apoio das elites, não suportavam essas
propostas. É neste contexto que nasce a campanha em defesa da escola pública.

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Defesa
de tese de Octavio Ianni em 1961.

Sentados, na primeira fila, Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso.


Em torno de indignações, reuniram-se vários educadores em
São Paulo e realizaram a I Convenção Estadual em Defesa da Escola Pública,
donde saiu grande mobilização, dando origem a Campanha em Defesa da Escola Pública.

Essa campanha conseguiu juntar diversos intelectuais além de outros segmentos


da sociedade. No meio intelectual uniu uma diferente corrente do pensamento
educacional: os liberais idealistas, os liberais pragmáticos e os socialistas.
Nesta esta última corrente, encontravam-se Florestan, Darcy Ribeiro e Fernando
Henrique Cardoso.

A Lei de Diretrizes e Bases - L.D.B.

Tendo a Educação se apresentado como tema de grande relevância para o


professor Florestan, sua atuação em defesa do tema se constitui em algo memorável.
Além de sua atuação na campanha, podemos destacar a sua atuação na assembléia
constituinte e no processo de construção da L.D.B.

Florestan Fernandes X Darcy Ribeiro

No processo de constituição da Lei de Diretrizes e Bases da Educação,


Florestan Fernandes sofre uma grande decepção com seu até então amigo Darcy
Ribeiro, que havia o acompanhado na longa trajetória em defesa da Educação.

A maior injustiça de Darcy a Florestan é referente a sua frase: “Florestan não


se inquieta com o milhão de alunos do proletariado estudantil, que pagam caro
para estudar a noite, em escolas péssimas, montadas para fazer lucros
empresariais, enganando-os. Abandona-os à sua sorte”.

Florestan, que sempre lutou pelos menos favorecidos, que mobilizou diferentes
segmentos para a construção de um projeto democrático e tentou incluir nas
leis medidas que contemplassem a educação popular, encontrando resistências
nas comissões foi traído e injustiçado por seu amigo.

Darcy considera, também, que o projeto da Câmara consolida o atual sistema de


ensino e que continuará a manter o Brasil na condição do “... país que
oferece a seu povo a pior educação”.

Esse conflito vivido entre Florestan e Darcy Ribeiro foi aberto e ocupou espaço
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na mídia, persistindo até próximo dos últimos dias da vida do professor.

Florestan Fernandes foi professor a vida toda e apesar de decorrentes internações


hospitalares nos últimos anos de vida, o sociólogo não abriu mão do tom
professoral e intelectual que o caracterizava.

Florestan foi, sem dúvida, um dos maiores professores e sociólogos do Brasil


por ser um dos grandes responsáveis pela Consolidação do pensamento científico
no estudo dos temas sociais no Brasil.

Conclusões

Florestan Fernandes, de engraxate a Professor catedrático, 75 anos de vida


dedicada a luta contra desigualdade social. Intelectual orgânico, no sentido
empregado por Gramsci, foi militante aguerrido na defesa da Escola Pública de
Qualidade e com forte influência marxista, acreditou, lutou e defendeu a
transformação social, atribuindo papel relevante aos trabalhadores a partir da
consciência de classe e incluindo a Educação como tema de grande destaque na
construção e consolidação de um novo projeto de sociedade.

O
deputado federal Florestan Fernandes

em ato pela defesa do ensino público em 1988.

Sociólogo formado em 1943, obteve título de mestre em 1947


e de doutor em 1951. Atuou em universidades importantes no Brasil e em outros países,
contudo, conquistou uma posição de destaque na Sociologia Brasileira devido
sua atuação nos diferentes campos das ciências sociais, abrindo caminho para
a profissionalização dos sociólogos ao defender a participação e a interferência
dos intelectuais nos problemas nacionais, inaugurando um novo estilo de pensar a
realidade social, por meio da qual se torna possível reinterpretar a sociedade
e a história, bem como a Sociologia anteriormente produzida.

Fundador da Sociologia Crítica no Brasil, tem sua produção intelectual


impregnada de reflexão, no questionamento à realidade e o pensamento
sintetizado. Enfrentou especialmente durante a ditadura, a grande repressão por
propagar no meio universitário, um engajamento dos intelectuais, aos problemas
da sociedade brasileira. Foi desligado da Universidade e exilado no Canadá, com
base no AI 5, retornando para o Brasil após 1972.

No Brasil, guiado pela inquietude em que o tema da Educação representava em


seu projeto de sociedade, participou intensamente da Campanha em Defesa da
Escola Pública, na criação do Fórum de defesa, no processo de construção
da LDB, defendendo um projeto lei, democrático e tinha o apoio e a participação
de diversas entidades sociais.

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Nos últimos anos de sua trajetória de militância Educacional, sofreu uma


grande decepção com dois amigos que militavam com ele, dentro de uma tendência
que defendia um Educação com bases socialista na ocasião da Campanha em
Defesa da Escola Pública, Fernando Henrique Cardoso e Darcy Ribeiro. Com este
último travou diversos embates públicos até seus últimos dias de vida.

Este grande intelectual, a convite de Lula, inicia sua vida partidária no


partido dos trabalhadores, mantendo sempre sua coerência, valoriza a
diversidade dentro do partido, mas mantém-se, como ele me se intitulava:
"lobo solitário", sendo admirado e respeitado por todas as alas do
PT. Conquista o parlamento, onde convive com as tensões do momento de transição
pelo qual passava o nosso país. No parlamento, dedica-se a defender as causas
dos menos favorecidos, sem nunca abandonar sua dedicação ao tema Educação,
desempenhando um papel de grande relevância na Constituinte de 1988. Acreditava
que a Constituição poderia corrigir as desigualdades verificadas no projeto
Educacional da sociedade.

Com toda sua participação na Constituinte, conhecendo por dentro o parlamento,


Florestan teceu críticas de que o parlamento servia para sustentar o
conservadorismo imperialista, expressando as tensões entre passado autoritário
e as perspectivas futuras e que a constituição de 88 foi um processo
inacabado, pois a própria conjuntura que desencadeou colocou a Constituição
de um lado, e as organizações populares de outro.

Enfim, crítica social, militância ativa, dedicação à docência, a pesquisa,


ao publicismo; o sociólogo e professor, político engajado na luta contra
desigualdade, na defesa da educação pública, do socialismo, da democracia e
da solidariedade entre a classe trabalhadoras e entre os povos latino-americanos
fizeram do Professor Florestan Fernandes, um grande homem de nosso tempo –
coerente, sonhador e comprometido com sua classe.

Principais Obras

Florestan começa a escrever no final dos anos 40 e ao longo de sua vida


publicou mais de 50 livros e centenas de artigos. Suas principais obras foram:

· Organização Social dos Tupinambá (1949);

· A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá (1952);

(Estas duas obras são indispensáveis para o conhecimento das nossas sociedades
indígenas)

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· Mudanças Sociais no Brasil (1960);

(Nesta obra Florestan faz um panorama de seu trabalho e retrata o Brasil)

· Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológicas (1959);

(Esta é um dos clássicos da sociologia de Florestan, se esta obra tivesse sido


publicada nos Estados Unidos, na mesma época, teria revolucionado o ensino da
sociologia).

· Folclore e Mudança Social na Cidade de São Paulo (1961);

(Esta obra revela o Brasil do tradicionalismo popular, na qual se tornou um


documento etnográfico sobre a cultura popular).

· A Integração do Negro na sociedade de classes (1964);

(Estudo das revelações raciais em nosso país).

· Sociedade de Classes e subdesenvolvimento (1968);

· A Revolução Burguesa no Brasil (1975).

(São obras que servem de eixo para compreender o Brasil que se seguiu à queda
do antigo regime).

Bibliografia

FERNANDES, F. (1981) Sociedade de classes e subdesenvolvimento, 4ª edição,


Zahar editores, Rio de Janeiro, RJ.

MARTINS,J.S.(1998) Florestan: Sociologia e Consciência Social no Brasil, Edusp,


São Paulo – SP.

IANNI, O. (1986) Florestan Fernandes: Sociologia, Editora Ática, São Paulo -


SP.

SILVA, M. L. O. (1998) Trabalho de Pesquisa do Historiador

http://www.florestaneducador.hpg.ig.com.br/sumario.htm São
Paulo, sexta-feira, 21 de janeiro de 2005
Folha
de São Paulo
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DEPOIMENTO

Florestan
e o MST

ANTONIO
CANDIDO
Numa reunião como esta, nada mais natural do
que evocar o nome de Florestan Fernandes, um dos intelectuais
brasileiros do nosso tempo mais empenhados em transformar o
pensamento em ação política e social.
O
traço que quero ressaltar nele em primeiro lugar é o
orgulho com que sempre se referiu à humildade das suas origens
de homem do povo, nascido na pobreza, marcado pelas privações
que se opõem como obstáculo à realização
pessoal. Orgulho nobre e justo, porque para ele esses obstáculos
foram estímulo, e os seus grandes feitos surgiram da luta
contra tudo o que poderia tê-lo paralisado.
Florestan
construiu a sua personalidade, a sua carreira, a sua obra, a sua
militância graças a uma tenacidade e a uma coragem
raras, aliadas à lucidez com que soube desde cedo analisar a
realidade que o cercava, escolhendo as posições de
radicalidade e inconformismo. Consciente da iniqüidade própria
da nossa organização social, ele se aplicou a partir de
certa altura a estudar o mecanismo do privilégio, a natureza
das oligarquias, a formação da burguesia, a exclusão
do negro depois da Abolição, os vícios elitistas
do nosso processo educacional.
Havia na sua personalidade
poderosa uma espécie de titanismo, tomada a palavra em seus
dois sentidos principais: o de força hercúlea e de
ânimo de revolta contra as potências superiores.
Curiosamente, ele atuou a maior parte da vida fora dos partidos.
Ainda moço, na segunda metade dos anos de 1940, por influência
de seu amigo Hermínio Sacchetta, militou algum tempo numa
organização trotskista, mas em seguida, e por quase
quarenta anos, militou por conta própria, só
ingressando no PT em 1986, quando foi eleito deputado federal. Nesse
longo intervalo, eu lhe dizia de vez em quando que não
precisava entrar para nenhuma organização partidária,
porque valia sozinho um partido de esquerda...
Isso se tornou
claro no decorrer dos anos de 1950, quando empreendeu com Roger
Bastide a grande pesquisa sobre a condição do negro em
São Paulo. Até então ele se enquadrava no tipo
mais acadêmico de sociologia, no qual produziu alguns trabalhos
fundamentais. A partir da referida pesquisa, foi elaborando o que
viria a denominar "sociologia crítica", isto é,
marcada pela consciência política.
A situação
do negro é um dos problemas mais graves da sociedade
brasileira, porque significa a exclusão e a humilhação
de grande parte do povo devido à cor da pele. É uma
situação que desumaniza o excluído, por
negar-lhe acesso aos níveis satisfatórios da vida
social e econômica; e desumaniza também os agentes da
exclusão, porque implica neles uma falta de fraternidade que
raia pela insensibilidade moral.
Florestan enfrentou este
problema com decisão e clarividência, inclusive fazendo
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da pesquisa uma oportunidade para o negro manifestar-se como sujeito,


não como objeto. Ele e seus colaboradores, inspirados pelo
mestre Roger Bastide, abriram uma fase nova na maneira de abordar o
problema racial em São Paulo.
Nos anos de 1960 houve
outros momentos importantes da ação política de
Florestan, sempre associada à sua condição de
intelectual revolucionário independente. Foi o caso, a partir
de 1959, da memorável campanha que desenvolveu por todo o país
a favor da escola pública, expondo uma das falhas mais
dramáticas da sociedade brasileira, que é o descaso
pela democratização e generalização do
ensino. No Brasil, consciente ou inconscientemente, a preocupação
sempre foi formar as classes dominantes, descurando o resto da
população, com uma insensibilidade que chega a parecer
projeto intencional. O resultado é este país mal
preparado para a vida moderna, comprometido pelas sobrevivências
arcaicas da nossa organização social. A campanha de
Florestan expôs a chaga e foi um episódio maior na luta
pela verdadeira democracia.
Quando entrou para o PT, a sua saúde
já estava seriamente abalada, devido a um erro de hospital. Os
amigos ficaram apreensivos ao vê-lo assumir a responsabilidade
de um mandato no Congresso, e alguns chegaram a pensar que não
resistiria. No entanto, o seu titanismo venceu tudo, ele pareceu
recuperar as forças e durante dois quadriênios exerceu o
papel de legislador com firmeza e competência, ambas
exemplares. Quando a morte o feriu, devido a outro erro hospitalar, a
impressão foi que só ela seria capaz de abater o
ardoroso lutador.
Por tudo isso, acho que nada mais natural do
que evocar o seu nome num evento ligado ao MST, cujo ânimo de
luta e cuja oportunidade histórica se combinam bem ao que ele
foi, porque o MST possui a fibra militante e o alcance revolucionário
que ele tanto prezava. Estou certo de que o MST é um movimento
historicamente decisivo, e Florestan devia pensar o mesmo.
Para
esclarecer o meu ponto de vista, peço licença para
remontar ao tempo da minha mocidade e da minha iniciação
na vida política. O ano era 1945 e, com a volta das liberdades
civis após sete de ditadura, um grupo de jovens de que eu
fazia parte fundou uma agremiação inconformada, que
desejava encontrar fórmulas adequadas à nossa
realidade, num sentido de transformação revolucionária.
Éramos cheios de esperanças e estávamos
convencidos de que nem o stalinismo nem o trotskismo poderiam
fornecer diretrizes convenientes ao Brasil. Por isso, tentávamos
com a nossa bisonhice elaborar uma concepção e uma ação
de cunho radical, pautadas pelas características da evolução
histórica brasileira, sem abrir mão da democracia.
O
nosso principal inspirador era um antigo comunista que fora preso em
1935, fugira da prisão em 1937, vivera no exterior e voltara
quando a guerra eclodiu em 1939: Paulo Emilio Salles Gomes. O nosso
agrupamento, denominado União Democrática Socialista,
UDS, durou pouco e nós acabamos entrando para a Esquerda
Democrática, que em 1947 passou a se denominar Partido
Socialista Brasileiro, fechado em 1965 pela ditadura militar. O
manifesto da UDS foi escrito por Paulo Emilio e nele se lia o
seguinte trecho, para o qual chamo a sua atenção:
"Na
história do liberalismo e da pseudodemocracia do Brasil, os
grandes fazendeiros, industriais, comerciantes e banqueiros já
falaram muito. A classe média e o operariado disseram algumas
palavras. Os trabalhadores da terra são a grande voz muda da
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história brasileira".Este ponto de vista foi um dos


meus guias políticos desde aquele ano remoto de 1945. Os
trabalhadores urbanos tinham começado a se organizar
politicamente em grande escala e a participar como força viva
no país. Mas o trabalhador rural continuou marginalizado, sem
liderança, mesmo paternalista, sem oportunidade de se
manifestar na política de maneira consciente. Só em
1955 um companheiro nosso do Partido Socialista, Francisco Julião,
fundou as Ligas Camponesas e iniciou de maneira efetiva,
revolucionária a seu modo, a era das atuações
sistemáticas do trabalhador agrícola. Mas passou ainda
muito tempo antes que o processo amadurecesse e o campesinato
começasse a pensar realmente na vida política
brasileira, o que só aconteceu com o MST.
Por isso este
último é um acontecimento histórico decisivo,
porque completa a incorporação de todos os brasileiros
à esfera das decisões de interesse coletivo. Retomando
as palavras do manifesto da nossa UDS, lembremos que primeiro falaram
as classes dominantes; depois, a classe média e os operários;
finalmente ergueu-se a voz que faltava, a dos trabalhadores da terra.
Assim, o circuito se completou e o Brasil está preparado, pela
primeira vez, para as lutas decisivas, com a possibilidade da
participação de todos os segmentos e camadas, cada um
afirmando os seus interesses e as suas reivindicações.
Graças ao MST estão, portanto, criadas as condições
para que a sociedade brasileira possa manifestar-se de maneira
íntegra, inclusive afirmando a vontade transformadora dos seus
setores radicais. O MST foi um sinal de amadurecimento da sociedade e
a condição para que seja realizada a vontade
transformadora no sentido da justiça social e da organização
econômica pautada por ela.
O que estou procurando sugerir é
que devido ao MST estamos finalmente maduros para tentar realizar a
aspiração de um homem como Florestan Fernandes, isto é,
a ação revolucionária que há de
transformar o Brasil. Quem diz revolução não diz
necessariamente insurreição nem violência armada,
mas decisão de alterar pela raiz a estrutura da sociedade,
estrutura que no Brasil é das mais injustas da terra.
Com
estas palavras fecho o meu anel expositivo. Um grande intelectual
revolucionário, como foi Florestan Fernandes, deve ser pensado
em conexão com os grandes movimentos radicais, como é o
MST. A conjunção de ambos neste evento é natural
e anima a nossa esperança.

ANTONIO
CANDIDO, 86, é crítico literário, professor
emérito da USP e autor de "Formação da
Literatura Brasileira" (1959) e "O Discurso e a Cidade"
(1993), entre outros livros.

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