Transtorno Dissociativo
O transtorno dissociativo é um conjunto de condições psicológicas em que a pessoa
apresenta uma desconexão ou uma interrupção em funções normais da consciência,
memória, identidade, percepção ou comportamento.
Em outras palavras, partes da mente que normalmente funcionam de forma integrada
passam a atuar de modo separado.
Os transtornos dissociativos são encontrados com frequência como consequência de
traumas, e muitos desses sintomas, incluindo constrangimento e confusão acerca dos
sintomas ou um desejo de ocultá-los, são influenciados pela proximidade ao trauma.
geralmente estão ligados a traumas intensos, especialmente vivências de abuso
físico, sexual ou emocional na infância, mas também podem aparecer em situações de
estresse extremo.
Os Principais Sintomas são:
Perda de memória (Amnésia Dissociativa)
• Esquecimento de períodos de tempo, eventos, informações pessoais e/ou
habilidades.
• Descoberta de evidências de ações que não se lembram de terem
realizado.
Despersonalização/Desrealização
• Sensação de estar separado de si mesmo, das próprias emoções ou do
próprio corpo.
• Sentimento de que o mundo ao redor é distorcido ou irreal.
Mudança de Identidade (Transtorno Dissociativo de Identidade)
• Presença de duas ou mais identidades distintas ou estados de
personalidade (chamados de 'alters').
• Mudanças involuntárias e repentinas entre estas identidades, que têm
seus próprios nomes, comportamentos e memórias.
Exemplo:
Na amnésia:
Uma pessoa que passou por um assalto muito violento.
Depois do episódio, ela não consegue se lembrar de partes importantes do que
aconteceu — quem estava lá, como fugiu, o que fez logo depois.
O cérebro “desliga” certas memórias para proteger a pessoa da dor emocional.
No TDI :
Uma mulher que sofreu abusos na infância desenvolve diferentes “partes” da
identidade:
• Uma parte dela pode ser frágil e medrosa, ligada à criança ferida.
• Outra parte pode ser forte e protetora, que aparece em situações de risco.
• Às vezes, ela nem se lembra do que fez quando outra parte estava no controle.
Cada identidade ajuda a lidar com emoções que seriam insuportáveis para uma só.
Situações que lembram o trauma
• Ver alguém que se parece com o agressor
• Estar em lugares parecidos com onde ocorreu o abuso ou violência.
• Ouvir frases ou tom de voz semelhantes.
Estímulos sensoriais
• Cheiros (perfume, cigarro, álcool).
• Sons (portas batendo, gritos, sirenes).
• Toques inesperados.
Conflitos emocionais
• Brigas familiares ou no relacionamento.
• Sentir-se rejeitado ou abandonado.
• Situações de perda (morte, separação).
Estresse intenso
• Pressão no trabalho ou nos estudos.
• Situações de exposição social.
• Falta de sono ou sobrecarga emocional.
Vivências de intimidade
• Relações sexuais ou de proximidade emocional podem ser gatilhos,
especialmente se a pessoa sofreu abuso.
Datas e ciclos
• Aniversários de traumas.
• Épocas do ano que lembram acontecimentos dolorosos.
Diagnóstico
O DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição)
estabelece critérios específicos para o diagnóstico dos Transtornos Dissociativos.
O processo diagnóstico envolve uma avaliação clínica detalhada, que inclui a
observação do comportamento do paciente, entrevistas com ele e, quando possível,
com familiares, além da consideração de outros fatores relevantes.
Para esse diagnóstico não existe um único “CID do transtorno dissociativo geral”,
mas sim um grupo de códigos (F44 no CID-10 ou 6B6 na CID-11).
Como o diagnóstico é feito na prática:
Entrevista Clínica Detalhada:
O profissional de saúde mental (psiquiatra ou psicólogo) realiza uma entrevista
aprofundada para coletar informações sobre a história do paciente, incluindo
experiências de vida, traumas (se houver), sintomas atuais e passados, histórico
familiar e uso de substâncias.
Avaliação dos Sintomas Dissociativos:
O profissional investiga especificamente a presença de sintomas como lapsos de
memória, sentimentos de irrealidade, distanciamento de si mesmo ou do ambiente, e a
ocorrência de diferentes "personalidades" ou estados de consciência.
Exclusão de Outras Condições:
É crucial descartar outras condições médicas ou psiquiátricas que possam causar
sintomas semelhantes, como:
* Epilepsia (especialmente do lobo temporal)
* Lesões cerebrais
* Efeitos de substâncias (drogas, álcool, medicamentos)
* Transtornos de ansiedade (transtorno de pânico, transtorno de estresse pós-
traumático)
* Transtornos psicóticos (esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo)
* Transtorno de personalidade borderline
* Simulação
Observação do Comportamento:
O profissional observa o comportamento do paciente durante a sessão, procurando por
sinais de dissociação.
Questionários e Escalas:
Podem ser utilizados questionários específicos para avaliar a gravidade e o tipo de
sintomas dissociativos (ex: Escala Dissociativa Revisada - DES-II).
O diagnóstico requer uma avaliação cuidadosa e especializada, pois os sintomas
podem ser complexos e se sobrepor a outras condições.
Tratamento
Apos o diagnóstico o paciente é encaminhado para dá seguimento junto ao
profissional.
Na psicanálise confiança e segurança são fundamentais.
Pacientes com dissociação frequentemente têm medo de confrontar experiências
traumáticas, então o analista precisa ser um “contêiner” emocional, acolhendo
lembranças e sentimentos fragmentados sem julgamento.
Algumas ferramentas sao utilizada
Associação livre: o paciente fala tudo que vem à mente, permitindo que conteúdos
dissociados apareça
Análise de sonhos e atos falhos: esses são vistos como janelas para conteúdos
inconscientes.
Interpretação de sintomas: o analista liga episódios dissociativos a experiências
emocionais não integradas.
Objetivo central:
Reduzir a fragmentação da personalidade, ajudando o paciente a reconhecer e aceitar
partes dissociadas de si mesmo.
Com o tempo, a pessoa consegue lidar com emoções e memórias traumáticas sem
precisar dissociar. A integração aumenta a coerência do self, melhora o
funcionamento diário e reduz crises dissociativas.
Em casos graves, psicofármacos podem ser usados para tratar sintomas comórbidos
(ansiedade, depressão, crises)
Não existe uma “Cura” rápida ou garantida
e sim uma remissão dos sintomas e aumento da integração psíquica.
Quanto mais cedo o tratamento começar, melhor a chance de reduzir crises
dissociativas e melhorar o funcionamento diário.