A Sombra
Chegamos até a principal estrela de nossa obra. Apesar de parecer contraditório
que a Sombra possa brilhar como uma estrela, não poderíamos deixar de aproveitar o
trocadilho.
É aqui, ou melhor, é nela que mora o maior desafio do autoconhecimento para
onde estamos caminhando.
Não se trata bem do brilho da Sombra, mas da iluminação dela. Também não é
um combate com a Sombra. Ela precisa ser diluída através da integração em sua
própria realidade pessoal. Essa diluição ocorrerá pela sua capacidade de assimilar o
conteúdo sombrio e permitir que ele faça parte de sua vida.
Tudo aquilo que você conseguir extrair e descobrir na escuridão da Sombra se
tornará imediatamente luz. Uma Luz a serviço de sua consciência e que lhe presenteará
com a possibilidade de controle, não sendo mais vítima desses conteúdos que pedem
reconhecimento, mas que normalmente não ouvimos ou aceitamos.
Para ilustrar um pouco mais o início desta etapa, vamos começar utilizando um
trecho da obra “Ao encontro da Sombra”, de Robert Bly:
“Passamos nossa vida até os 20 anos decidindo quais as partes de nós mesmos que
poremos na sacola e passamos o resto da vida tentando retirá-las de lá. Algumas vezes parece
impossível recuperá-las como se a sacola estivesse lacrada.”
Jung também costumava dizer isso em outras palavras. Nós passamos
praticamente os primeiros 20 anos de nossa vida construindo a sombra e o restante
dela tentando nos livrar da mesma.
Fica claro que é muito mais difícil nos livrarmos dela do que construí-la dentro
de nós. Você provavelmente não teve essa informação, ou melhor, seus pais não
tinham essa informação e por mais que lhe foi oferecido o melhor que podiam dar, boa
parte de sua sombra estará relacionada às vivencias familiares, desde sua concepção.
O homem ou a mulher adulta precisa se tornar consciente e enfrentar seus
piores medos da infância.
Parte de nossa proposta para alcançar o equilíbrio psicológico é a
autorrealização, o encontro do si mesmo, tornar-se completo, tornar-se consciente do
que está inconsciente, alcançando a harmonia entre Ego e o Self, ou seja, entre o
usuário e o sistema operacional que falamos um tempinho atrás na metáfora do
smartphone.
Por isso, se queremos alcançar o equilíbrio, uma vida mais livre e plena,
precisamos destrinchar e entender essa parte sombria que tem espaço importante em
nossas mentes.
Em primeiro lugar precisamos desmistificar a interpretação equívoca que
costumeiramente temos a respeito da Sombra.
Temos por hábito utilizar e associarmos a palavra sombra a significados ou
analogias ruins. Quantos de nós não utilizamos frases desse tipo: “Esse local é sombrio,
dá medo!” ou “Ele é apenas sombra do homem que deveria ser” ou ainda, “Aquele
rapaz é só sombra do irmão”.
Enfim, imaginamos que a sombra esteja apenas associada à falta de luz, o que
poderia abrir um extenso campo filosófico em torno dela. O que é luz é bom, divino. O
que é escuridão é ruim, então sem dúvidas, associamos isso ao medo do desconhecido.
Mas o conceito real da Sombra está muito longe destas primeiras associações
preconceituosas.
Assim como projetamos uma sombra física, também projetamos uma sombra
psíquica. Essa sombra psíquica contempla tudo aquilo que esquecemos ou não
queremos lembrar, tudo que desconhecemos que já vivemos, e tudo que não queremos
reconhecer que está dentro de nós.
O que temos consciência, ou seja, tudo aquilo que é percebido pelo Ego está à
luz, e por isso é conteúdo consciente. O que não é percebido ou admitido pela
consciência estaria com ausência de luz, dessa forma na escuridão da psique.
O uso da palavra Sombra também faz todo sentido se tivermos conhecimento
da tese dicotômica, ou seja, da dualidade que sempre está presente em nossas vidas.
Dicotomia é a divisão de um elemento em duas partes, em geral contrárias, como a noite e
o dia, o bem e o mal, o preto e o branco, o céu e o inferno etc.
Ficaria mais fácil de entendermos a “Sombra” se tivermos conhecimento dos
opostos, dos contrários.
Tantas e tantas referências poderíamos usar para mais exemplificações, como:
Yin e Yang, bonito e feio, forte e fraco, LUZ e ESCURIDÃO (ou, SOMBRA), mas
paramos por aqui para evitar a monotonia.
Agora que já entendemos de fato o que é a Sombra, temos condições para
descobrirmos como ela se formou e como podemos começar a tomar consciência de
tudo isso que está guardado aguardando a oportunidade de ser iluminado.
A formação da Sombra
A construção de nossa sombra é algo que começa desde o início das nossas
vidas.
Vamos viajar no tempo e retornar ao período onde estávamos com 2 ou 3 anos,
onde nosso processo de educação estava começando. Certamente muito do que
vivenciamos nessa fase e que não temos consciência iniciou a formação de nossas
sombras.
Imagine que um menino de 3 anos, onde o Ego já começou a ter uma pequena
estruturação e a criança já percebia a diferença entre ela e os demais, tenha recebido
uma educação um tanto radical de que homem não chora, ou não mostra afetividade.
Tal criança toda vez que demonstrou um comportamento amável, dócil demais,
ou expressou suas emoções através das lágrimas, foi duramente repreendida.
Para sentir-se aceita, amada pelos pais, essa criança começou a evitar os
comportamentos mais dóceis e emotivos.
Visualize como uma criança de 3 anos pensaria vivendo uma experiência como
essa: “Papai não gosta que eu chore, diz que sou feio quando choro, diz que isso não é
coisa de homem.... Eu gosto do papai, eu quero que ele goste de mim também”. Bingo,
tudo isso foi para a Sombra.
Citemos outro exemplo, imaginemos uma pequena garota com seus 6 ou 7 anos
que possui um comportamento irritado, que grita muito, fala muito alto, e sua mãe
reage duramente aplicando castigos severos.
Será natural que essa garota passe a reprimir sentimentos, retendo sua ira, sua
raiva, especialmente porque esse comportamento gera a desaprovação de sua mãe. Tal
garota passa a crescer optando pelo comportamento mais dócil, pacato, suave ao
extremo.
Essa garota tende a ser cada vez mais dócil e “boazinha”, uma vez que ela
detectou o padrão que é e será mais aceita dessa forma, escondendo perigosamente
dentro de si partes que também a integram. Bingo novamente, sombra ganhando peso.
E assim nossas sombras iniciam sua formação, principalmente com os
comportamentos que não são tão agradáveis no conceito de nossos pais, ou seja,
geralmente as pessoas mais importantes para qualquer criança.
Gostaria de aproveitar o exemplo dessa garotinha e falar rapidamente sobre
uma perigosa tendência que tenho observado nos últimos tempos.
Uma vez que somos mais aceitos pelo meio quando usamos nossas Personas (a
“máscara” que falamos um tempinho atrás), somos tendenciados a acreditar que
SOMOS a própria PERSONA, o que está muito longe da realidade.
Pomos na Sombra o que rejeitamos em nós, o que rejeitam em nós e o que
achamos que os outros rejeitam.
A Sombra é como uma estrutura complementar, como uma subpersonalidade
que tem o desejo de fazer ou ser o que a Persona não permite.
Temos visto nossas crianças e jovens escolherem e imitarem ídolos
padronizados pela mídia, formatados pela ditadura da beleza e do consumismo. O
próprio ídolo não é realmente o que aparenta ser, no entanto seus admiradores acabam
se esforçando para criar uma Persona moldada aos padrões da imagem apresentada
pelo ídolo.
Quanto mais acreditamos que somos a própria Persona, maior e mais densa
torna-se a nossa sombra. Maiores serão os conflitos e desafios que deverão ser
superados para o encontro do equilíbrio.
Estaríamos assim no caminho mais distante possível de nosso real ser, do si
mesmo. A Sombra forma-se através dos choques entre coletividade e individualidade.
Agora achamos que podemos dizer-lhe uma coisa importante que estávamos
esperando a oportunidade ideal.
Nossa psique busca o equilíbrio mesmo contra nossa vontade, quanto mais
longe estivermos do autoconhecimento e quanto maior for o conteúdo em nossa
sombra, mais experimentaremos severos desequilíbrios, como psicoses, angústias,
ansiedades, neuroses e transtornos dos mais variados como tentativa de autoajuste.
Todo esse conteúdo abandonado vai sendo armazenado em nossa sombra e em
algum momento será necessário retira-lo de lá. Caso contrário, não conseguiremos
alcançar nossa autorrealização.
Você pode dizer agora: “OK! Já entendi que essa tal Sombra é importante. Mas
como é que vou conseguir conhecê-la?”
Bem, não vamos dizer que é fácil, mesmo porque é uma luta que tem exigido
esforço contínuo de todos nós também. Mas acreditamos que poderemos dar uma
contribuição valiosa no que tem sido produtivo para nós e para muitos outros que
estão na batalha do autoconhecimento.
Lembremos que na Sombra está em tudo aquilo que não tenho consciência, ou
até conheço, mas não aceito, e que faz parte de mim. A meta é nossa integração total,
descortinando o material inconsciente que construímos durante nossa existência.
Identificarmos a Sombra é seguirmos o mais verdadeiro e antigo aforismo grego
presente na entrada do oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”.
Como identificamos a Sombra
Antes, lembremos que na Sombra está tudo aquilo que você não tem
consciência, ou até conhece, mas não aceita, e que faz parte de você. A meta é sua
integração total, descortinando o material inconsciente que construiu durante sua
existência.
É preciso reconhecer aquilo que nos incomoda, não arrancá-lo de nós como se
isso fosse possível através de um simples passe de mágica.
Inicialmente queríamos propor a você, para ficar mais claro e fácil o processo
de identificação, ao menos parcial da sombra, a divisão entre duas categorias. Uma
será a categoria das coisas que não aceitamos ou não reconhecemos que faz parte de
nós, e outra será a categoria das coisas que não lembramos nas faixas mais superficiais
da consciência.
Coisas que não aceitamos
Nós vamos vivendo, crescendo, envelhecendo e não raro mantemos os mesmos
padrões de educação que tivemos em nossa formação, editados levemente pelas
tendências da época que vivemos.
Assim, nós acabamos por acreditar que aquilo que vemos nos outros, tais como
comportamentos inadequados, medos e defeitos em geral, não está dentro de nós
também.
Lembra-se do que falamos sobre dicotomia? Pois bem, a bendita dicotomia está
dentro de todos nós.
Só sabemos o que é o bem porque sabemos o que é o mal, o que é certo porque
sabemos o que é errado, o que é o amor porque sabemos o que é ódio, o que é
agradável porque sabemos o que é desagradável, e assim por diante.
Como já dito por Jung, se entendermos que o mal habita na natureza humana
independentemente da nossa vontade e que não pode ser evitado, o mal entra na cena
psicológica como o lado oposto e inevitável do bem.
Assim caro amigo, temos que dar uma triste notícia a você, e antes que
suspenda a leitura pedimos que acompanhe as explicações. Estamos certos que vai
ajudar muito.
“Você é invejoso e preconceituoso!”
Pronto, falamos. Nossa, que peso removemos de nossas costas. Estávamos
segurando isso já por algum tempo.
Todos nós já sentimos inveja e já fomos preconceituosos, ou melhor, temos isso
dentro de nós. Mas espere, saber que isso está dentro de nós não nos dá o direito de
agirmos sob essas bases. Mais adiante veremos mais sobre a inveja como um gigante
da alma.
Isso mesmo, o desafio aqui é integrar tudo isso, sabermos que todos somos
“imperfeitos”, se é que nós sabemos de fato o que é ser perfeito.
Muitos não estão tendo a oportunidade que você está, a sombra de cada um
acaba por formar uma sombra coletiva que termina por impor a busca desenfreada
pelo poder, alimentando a cobiça, a inveja e o ciúme, aumentando o vazio existencial.
Com conhecimento de que somos portadores de todos os defeitos que vemos
nos outros, deve mudar muito a forma como agimos e nos portamos exatamente a
frente desses pares. Acreditem, sejamos corajosos em admitirmos tudo isso a nós
mesmos e teremos a recompensa imediata de gozarmos da sublime empatia e
tolerância.
A capacidade crítica do Ego pode ser muito prejudicada pelo nosso histórico de
vida como condições familiares, meio social e educação. Novos momentos podem ser
contaminados pelo velho já conhecido, a raiz do preconceito.
Então, mãos à obra e detecte dentro de você todas as mazelas que nosso Ego
presunçoso e desestruturado impede que vejamos. Ache onde e quando sente ciúmes,
inveja, raiva, ódio, revolta, quando e diante de que circunstâncias deseja o mal a
outrem. Mais adiante teremos etapas que serão mais focadas a tudo isso que estamos
citando aqui.
Nesta etapa ainda estamos tentando apenas prepara-lo para a jornada.
Frisamos novamente que não recebemos licença para agirmos de forma odiosa
por sabermos que também temos ódio dentro de nós, tampouco podemos fazer o mal
por termos em determinado momento desejado o mal a alguém.
As pessoas que convivem conosco conseguem identificar nosso lado sombrio
com muita clareza, recorde da janela de Johari onde você já pôde ter pistas a respeito
de sua Sombra.
Sabemos que é um processo duro, e quase perdemos uma amizade assim.
Usamos a sinceridade e dissemos a um amigo: “Você já parou para pensar que você
pode estar com inveja dele?”.
Imaginem alguém se desfigurando por completo, pois é, foi o que vimos a
nossa frente. Mas pelo menos, apesar do constrangimento daquele momento,
identificamos algo mais, além da inveja, que estava na sombra dele. Obviamente só
falamos também sobre esse outro “algo mais” posteriormente.
Esquecemos que a linguagem é simbólica, uma forma de gerarmos
comunicação e transferência de informações. Inveja é uma palavra apenas, como todos
os demais sentimentos ou defeitos inaceitáveis socialmente falando.
A inveja, bem como o ciúme, está diretamente vinculado ao nosso cérebro
instintivo, que teve sua formação, segundo a ciência, a cerca de 200 milhões de anos
atrás. Nosso cérebro instintivo traz uma herança, por coincidência uma das maiores
contribuições de Jung está relacionada a isso, o inconsciente Coletivo e os Arquétipos.
Mas deixemos esses temas para outra oportunidade. Afinal, aqui nossa estrela é
a Sombra e não vamos tirar os olhos dela.
Basta imaginarmos e analisarmos as pesquisas sobre nossos ancestrais mais
distantes e perceberemos o padrão territorial e de posse prevalecendo, bem como a
necessidade do destaque no grupo para alcance do status de macho alfa.
Por isso caro amigo, quando sentimos aquela inveja do vizinho que comprou
aquele carrão e está com tanquinho ao invés da barriga protuberante, é o nosso cérebro
mais primitivo agindo. É uma parte de nós que reclama a dominância do clã.
E quando sentimos ciúmes da nossa companheira ou companheiro, que está
conversando de forma descontraída com alguém do sexo oposto, é novamente nosso
cérebro mais primitivo apresentando-se, reclamando cuidados diante da possibilidade
de nossos pares serem conquistados e tomados de nós.
Mas cuidado! Isso não significa que tenhamos que agir como nossos ancestrais
mais primitivos, afinal de contas estamos falando de nosso cérebro primitivo.
Quando tomamos conhecimento e aceitamos todas as partes que estão dentro
de nós, especialmente as que não queremos admitir, nossa força lógica e racional torna-
se mais poderosa. Isso mesmo, não esqueçamos que já temos ao nosso dispor o
neocortex, a parte de nosso cérebro que pensa, analisa e raciocina.
Apesar desta parte racional ser um pouco mais lenta que a primitiva ligada à
sobrevivência, quanto maior for o conhecimento e ciência a respeito das partes
recalcadas, maior será nosso controle sobre nosso sistema emocional.
Esmiuçar, tomar atenção ao que nos incomoda nas outras pessoas e
circunstâncias. Reviver e ressignificar o que nos machucou no passado. Coragem! Essa
é a dica para identificarmos em nossa Sombra o que não aceitamos ou não admitimos
que está dentro de nós.
Coisas que não lembramos
Se identificar as coisas que não aceitamos é uma tarefa que exige coragem,
identificarmos as coisas que não lembramos exige paciência e perseverança.
Como já falamos vivemos muitas coisas ao longo de nossas vidas, contudo,
provavelmente por um sistema de defesa altamente sofisticado em nossa mente,
muitas experiências importantes ficaram arquivadas em nosso banco de memórias
inacessíveis ao Ego.
Jung desenvolveu algumas técnicas para auxílio na interpretação do material
inconsciente, dentre elas merecem destaque, em nossa modesta opinião, a técnica de
análise dos sonhos, a imaginação ativa, e outras ferramentas analíticas para detecção
de complexos.
Complexos, aliás, que também merecem uma breve explicação.
Complexos: Os complexos são grupos de ideias inconscientes associadas a eventos ou
experiências particulares emocionalmente coloridos. Jung os deduziu a partir de seus estudos
iniciais de associação de palavras quando ele observou que determinadas palavras provocam
reações intensas ou produzem menos reação do que o esperado. Os complexos são construídos
em torno de estruturas psíquicas solidamente interligadas conhecidas como arquétipos.
Também veremos mais profundamente esse tema em etapa posterior.
Hoje muitas outras técnicas foram criadas e aprimoradas, mas honestamente
sempre acabamos detectando uma releitura das teorias de Jung.
Apesar de não ser uma estratégia completa e definitiva, atrevemo-nos a sugerir
algumas possibilidades na busca desse inventário de memórias inacessíveis.
O primeiro passo é ter paciência e ser perseverante como dito mais acima,
identificar essa parte da sombra é como vasculhar um porão escuro com uma lanterna
fraca. Vasculhar o inconsciente nesse nível também exige um trabalho de interpretação
detalhado e de possibilidades.
Podemos sugerir que analise seus sonhos. Mas, você pode nos dizer: “Eu não
sonho”.
Outra crença a ser desmistificada. Todos sonhamos. Segundo Jung, o Sonho é
um sistema regulador compensatório inerente a nossa vontade.
Muitos estudos utilizando equipamentos modernos de alta tecnologia
mostraram que todos temos atividades relacionadas ao sonho. Durante nosso período
de sono, tratando-se de uma métrica normal, temos entre 3 e 4 sonhos por noite.
Para você que costuma lembrar de seus sonhos, antes mesmo de sair de sua
cama, procure anotar com o máximo de detalhes possíveis o conteúdo de seu sonho.
Uma dica importante e fundamental: nossos sonhos trazem mensagens utilizando a
linguagem do inconsciente, que é simbólica.
Dessa forma, as pessoas que você vê em seu sonho não são objetivamente elas
mesmas e sim projeções simbólicas do que elas representam em seu mundo íntimo.
Não daria para tratar sobre análise de sonhos aqui, mas se quiser tirar proveito dessa
possibilidade de autoencontro, recomendamos a busca por um profissional psicanalista
que trabalha com interpretação de sonhos e também recomendamos a leitura de um
livro chamado Inner Work – A chave do Reino Interior, de Robert A. Johnson.
Aproveite o livro indicado também para fazer uso da outra sugestão criada por
Jung para interpretação de nosso inconsciente, a Imaginação Ativa.
Se você é um dos que não se lembram de seus sonhos, pode utilizar uma técnica
que pode parecer estranha, mas de fato funciona. Vamos dividi-la com você.
Levando em conta que se fossemos comparar hipoteticamente o tamanho de
nosso Ego e o tamanho de nosso inconsciente, poderíamos imaginar que o Ego seria a
gota e o inconsciente o oceano, podemos dizer que somos muito maiores e melhores do
que percebemos.
Antes de dormir, peça de forma firme, e se possível em voz alta, ao seu
inconsciente que permita que você se lembre de seus sonhos. Faça esse teste.
Alguns testes foram realizados sobre esse tema, mas gostaríamos de mencionar
que certa vez tomamos conhecimento de uma pesquisa que separou dois grupos de
pessoas que diziam ter dificuldades em acordar antes do despertador tocar. A
conclusão é que quase todas as pessoas que pediram ao inconsciente para acordar
antes do despertador após alguns dias começaram a acordar antes do horário
programado.
Em outro estudo, a um grupo foi ensinada essa técnica de pedir ao inconsciente
que permitisse a lembrança do sonho, enquanto que ao outro nada foi ensinado. Para
resumir, 100% das pessoas do grupo que teve a técnica ensinada recordou pelo menos
parcialmente de sonhos no período avaliado.
Legal, já falamos de duas possibilidades, os sonhos e a imaginação ativa. Mas e
as memórias? Como podemos resgatá-las?
Nessa seara temos sugestões também. A primeira delas inclusive nós já
passamos a você, a Linha do Tempo desde o seu nascimento. Para maior
aproveitamento no que tange à Sombra, foque-se especialmente no período até 20 anos,
pode ser um pouco mais ou um pouco menos.
O destaque aqui é que consiga se lembrar e anotar ano a ano os fatos que
consegue recordar. Não espere que consiga muito êxito logo da primeira vez, a dica é
que faça um pouco por dia.
Use também a técnica de requisição ao inconsciente citada mais acima quando
falamos dos sonhos. Peça ao inconsciente que o ajude a se recordar de fatos desse
período de sua vida. Certamente você perceberá que conforme começa a dispensar
atenção a esse processo, muitas lembranças subitamente retornarão à sua mente
consciente.
Agora, também gostaríamos de sugerir a Hipnose. Em um primeiro momento
estamos certos que muitos podem ter receio e certo preconceito quando o assunto é
hipnose. Isso provavelmente ocorre porque sempre tivemos acesso à chamada hipnose
de palco, de entretenimento, através dos meios de comunicação.
Sugerimos que caso queira acelerar seu processo de autoconhecimento, busque
um profissional com domínio da técnica de hipnose que busca o estado alterado de
consciência para auxilio na interpretação do conteúdo inconsciente, acesso às
memórias inacessíveis, ressignificação e recontextualização de experiências.
Mas fique tranquilo. Mesmo se não quiser fazer uso de um psicanalista ou
hipnoterapeuta para acelerar o processo, durante toda nossa jornada você vai ter
etapas que vão lhe ajudar pouco a pouco a descortinar esse conteúdo.
De fato, identificar as memórias inacessíveis que estão presentes na sombra não
é tarefa das mais simples. Exigirá boa vontade e dedicação, que indubitavelmente serão
recompensados por um Ego mais estruturado e uma vida psíquica equilibrada.
Uma dica que achamos relevante para esse início de processo é vasculhar fotos
antigas e conversar com pais, irmãos, avós e amigos de infância a respeito de
experiências vividas em seu passado infanto-juvenil. Reler diários e revisitar locais do
passado também costumam ativar essas memórias antigas.
A atividade neural no resgate dessas memórias ocorre como em um efeito
dominó. Basta iniciar a busca que vai ficando cada vez mais fácil desenterrar os
retratos de sua história.
Queremos Juntar as Partes
Torcemos para que nesse momento você já tenha clareza sobre a importância e
profundidade que acompanham esse tema junguiano.
É hora de ratificarmos que nossa proposta final é juntarmos as partes. Isso
mesmo, nossa missão é integrarmos os seus opostos. Você terá que buscar contato e
conversar com cada parte sua encontrada, revendo suas escolhas.
Depois de sabermos o que é a sombra, de aprendermos a identificá-la e de nos
relacionarmos com ela nos diferentes estágios, a partir daqui, a cada nova etapa nossa
meta será a união contínua de todas as suas partes.
Esteja ciente de que o objetivo é juntarmos seus opostos criando uma terceira
via, a via do equilíbrio. Tudo em excesso precisa ser avaliado e trabalhado. Nem bom
demais, nem ruim demais, nem espaçoso demais, nem isolado de mais.
Percebemos que somos vítimas de nossa incapacidade de autoavaliação.
Jung dizia que para conquistar a sombra precisamos de 3 qualidades
fundamentais:
Coragem, porque machuca ver que não somos o que aparentamos ser aos
outros.
Persistência, porque é um caminho inconstante de ir e vir. Muitas vezes
achamos que já estamos livres do indesejado e nos vemos novamente fazendo o que
achávamos que tínhamos extirpado de nós. Isso exige persistência e perseverança para
que não desistamos diante da frustração.
Humildade, porque sem humildade o Ego ganha todo o espaço nos impedindo
a autoconquista.
Tudo isso você já sabia desde que falamos de sua preparação para esse desafio,
mas não custava repetir.
Em uma ótica mais madura, percebemos também que existe algo de muito
positivo no oposto indesejável. É justamente por sua existência que podemos encontrar
o almejado equilíbrio e ajustar nossos comportamentos.
Enquanto as nossas inquietações mais profundas e origem de autodestruição
não forem tratadas, seremos reféns dos processos avassaladores de baixa autoestima e
desvalorização.
As pessoas que somos de fato estão em nossas sombras. E mais, não vamos nos
esquecer de que é na sombra que reside o ser divino dentro de nós, o que Jung
chamava de imago dei, o Self.
Não se esqueça que precisamos acolher todas as nossas partes, todas precisam
ser ouvidas. Não se trata apenas de revelarmos, mas de transformarmos tudo que
existe em nós.
Tomarmos posse das forças opostas e transmutá-las em uma nova
possibilidade.
Avalizando essa conclusão, veja o que Jung diz em Mysterium Coniunctionis,
PT.706
“Esse processo de entrarmos em acordo com o outro em nós é bem compensador, porque
neste caminho nós conhecemos aspectos de nossa natureza que não permitiríamos que
ninguém nos apontasse e que nós nunca teríamos admitido.”
Nestas linhas finais desta pequena contribuição a respeito da Sombra, deixamos
uma profunda reflexão extraída do livro Aion, também de autoria de Jung:
“Cristo tomou nossos pecados sobre si mesmo. Ele nos mostrou o caminho. Precisamos
agora carregar nossa própria cruz. Isso significa que precisamos beber da taça amarga de
nossas imperfeições até a última gota. Precisamos aceitar e encarar nossas faltas, por
menores que sejam quando comparadas com as do nosso próximo.
Não é suficiente reconhecer intelectualmente que temos fraquezas. Para que a
transformação psíquica ocorra, nossos próprios ossos precisam sentir remorso; nossas
faltas se tornam então “problema moral que desafia toda a personalidade-ego.”
E antes de seguirmos para as próximas etapas, por excesso de zelo achamos
produtivo contar a você essa pequena história que fizemos uso também na obra
Formando Seres Integrais, veja:
É a história de um neto e de seu avô. Para resumir esse conto, tudo trata sobre uma relação
muito amorosa e divertida que um neto tinha com seu avô. O avô era um homem muito
divertido, afetuoso, sempre sorridente, brincalhão e feliz. Contudo subitamente passou a ficar
calado, impaciente e entristecido. Então, o neto não sabendo o porquê dessa mudança na forma
de ser de seu avô, tomou coragem e foi perguntar ao seu avô: “Vô, por que tem estado tão quieto
e triste nesses últimos tempos?” O avô ficou surpreso e um tanto desconfortável, respirou
profundamente, começou a coçar seu próprio queixo e pôs-se em estado pensativo. Passaram-se
alguns minutos e o velho senhor começou a gargalhar. Seu neto, sem entender muito bem o que
estava acontecendo manteve-se à frente de seu estimado avô, e então recebeu a seguinte resposta:
Sabe meu neto, está acontecendo dentro de mim uma verdadeira batalha entre dois lobos. Um
dos lobos é preguiçoso, agressivo, impaciente, invejoso, ciumento, teimoso, raivoso, violento e
egoísta, o outro é animado, afetuoso, paciente, inspirado, seguro, perseverante, calmo, carinhoso
e caridoso.
O neto espantado, então perguntou: “Mas e então vovô, qual dos lobos vai vencer?”
Sorridente e já se levantando de sua cadeira, respondeu o avô: “Vai vencer aquele lobo que eu
alimentar!”
Quanto maior for o seu conhecimento a respeito das partes dentro de você,
sejam elas consideradas boas ou más, maior será o seu controle sobre seu sistema
emocional. Desta forma seu futuro psicológico equilibrado será uma realidade.
Vamos lembrar do exemplo bíblico do apóstolo Paulo que alcançou sua
integridade ao tomar conhecimento que fazia o mal que não queria e não fazia o bem
que queria fazer.
Para diluir a Sombra você terá que treinar o autoperdão e o autoamor.
Você precisa amar suas partes perversas e rejeitadas, descobrindo a quantidade
de caridade que é capaz de oferecer diante de suas próprias fraquezas.
Sabemos que é preciso disciplina para resistir e superar os desejos e impulsos
dos sentimentos ruins, ser forte o bastante para suportar a pressão de um impulso.
Sentir o peso da frustração ou da dor de não atender um desejo é difícil e um tanto
doloroso. Mas esse é o caminho para administrar a Sombra.
Lembre-se que cada pergunta e tarefa que propomos nessa obra está sempre
fundamentada e motivada a arrancar conteúdos de sua Sombra, portanto não esquive-
se de aproveitar cada uma delas.
Medite a cerca da diferença entre reprimir e controlar.
O maior erro é a repressão da Sombra. A modificação ou a supressão de
comportamentos indesejados diversos sem análise e aceitação sincera não o tornará
melhor. Teremos que viver o encontro com essa Sombra e controla-la sem sermos
esmagados por ela, pelo contrário, se formos capazes de confronta-la poderemos
escolher quando, onde e como permitiremos sua expressão em um cenário construtivo.
Segundo Winckel, todo mal que reprimimos dentro de nós continua tentando
permanecer sempre mal com uma tendência de piorar. Descubra o mal que reside em
você e torne-o seu maior aliado.