Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário, devemos considerar que o texto literário

tem uma dimensão estética, plurissignificativa e de intenso dinamismo, que possibilita a criação de novas relações de sentido, com predomínio da função poética da linguagem. É, portanto, um espaço relevante de reflexão sobre a realidade, envolvendo um processo de recriação lúdica dessa realidade. No texto não-literário, as relações são mais restritas, tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade, com predomínio da função referencial da linguagem, e na interação entre os indivíduos, com predomínio de outras funções.
A · · · · · produção de um texto literário implica: a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística

2.1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma, visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece, nos planos fônico, prosódico, léxico, morfo-sintático e semântico. Não é o tema, mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário. Assim, não há temas específicos de textos literários, nem temas inadequados a esse tipo de texto. Os dois textos que seguem têm o mesmo tema - o açúcar: no primeiro, a função poética é predominante. É uma das razões para ser considerado um texto literário. Já no segundo, puramente informativo, há o predomínio da função referencial. "O açúcar" (Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980, pp.227-228)
O açúcar O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e afável ao paladar como beijo de moça, água na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar não foi feito por mim. Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco

p. propiciaram condições favoráveis a esse cultivo. a cana-de-açúcar foi introduzida no Brasil pelos colonizadores portugueses no século XVI. explorando recursos formais para estabelecer um paralelo entre o açúcar .açúcar .ou no Estado do Rio e tampouco o fez o dono da usina. importante nos dias atuais como fonte de energia e de bebidas. "A cana-de-açúcar" (Vesentini. Rio de Janeiro e Minas Gerais. sociedade e espaço. a cana serve também para a produção de álcool. Em usinas escuras. Brasil. triste. Além de produzir o açúcar. homens que não sabem ler e morrem de fome aos 27 anos plantaram e colheram a cana que viraria açúcar. o maior produtor nacional de cana-de-açúcar é São Paulo. Alagoas. São Paulo.e a vida do trabalhador que o produz . Este açúcar era cana e veio dos canaviais extensos que não nascem por acaso no regaço do vale.106) A cana-de-açúcar Originária da Ásia. amarga. Comentários sobre os textos: "O açúcar" e "A cana-de-açúcar" O texto "O açúcar" parte de uma palavra do domínio comum .W. A imensa expansão dos canaviais no Brasil.e vai ampliando seu potencial significativo. 1992. A região que durante séculos foi a grande produtora de cana-de-açúcar no Brasil é a Zona da Mata nordestina. doce. J. homens de vida amarga e dura produziram este açúcar branco e puro com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. Ática. a) associações lexicais entre vocábulos do mesmo campo semântico: açúcar açucareiro dissolver usina cana canavial plantar colher mercearia comprar vender adoçar . Atualmente. seguido de Pernambuco. está ligada ao uso do álcool como combustível. que em parte é exportado e em parte abastece o mercado interno. puro . lém da menor distância em relação ao mercado europeu. Em lugares distantes. onde não há hospital nem escola. especialmente em São Paulo. onde os férteis solos de massapé.branco.dura.

c) o som de uma cavalgada e a música Disparada ( Geraldo Vandré ).com o mesmo tema da foto. de maneira indireta. etc. que dizem: "Graciliano Ramos. despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. de expressão não-literária. Por isso. ou seja. podem ser comparadas as seguintes situações: a) o barulho de buzinas na rua e uma música que use esse mesmo som. as artes desempenham um papel muito importante. num país como o Brasil. em VIDAS SECAS. citamos Platão e Fiorin (1991). d) uma foto de jornal . recriando o real num plano imaginário. reaproveitado em uma obra artística. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva.2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real. g) uma pequena crítica sobre a passagem de uma escola de samba e a música Foi um rio que passou em minha vida ( Paulinho da Viola). os lugares onde é produzida. onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. através do confronto entre um determinado dado da realidade e o mesmo dado. Na comparação. A título de exemplo. Para caracterizar ou explicitar a diferença entre função informativa e função artísticoliterária da linguagem. inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias.3 recriação da linguagem (desautomatização) . e por isso degradados ao nível da animalidade. Refletindo a experiência cultural de um povo. um termo se define em função do que sabemos de outro: "Vejo-o [o açúcar] puro e afável como beijo de moça (como) água na pele (como) flor que se dissolve na boca No texto "A cana-de-açúcar"." 2. e) várias cenas do cotidiano e uma colagem de Glauco Rodrigues. como teve início seu cultivo no Brasil. 2. f) imagens de pessoas se movimentando e uma escultura representando pessoas.Os retirantes. ou de produzi-lo. Isso dá ao texto literário um caráter ficcional.uma foto dos sem-terra e um quadro . b) o som de vozes de crianças brincando e a música Domingo no Parque (Gilberto Gil). o autor informa o leitor sobre a origem da cana-de-açúcar. de Portinari . reordenando-a.b) relações antitéticas: vida amarga e dura x açúcar branco e puro c) comparações: a comparação é o confronto de idéias por meio de conectivos. de palavras que explicitam o que está sendo comparado. a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade. o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional.

revelando assim novas formas de ver o mundo. Apresentamos.. quase pelas terras alheias. ocorre a desautomatização da linguagem. 1990. Canaã. pp. A viagem maravilhosa.111-113) Texto 8 Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro Um incêndio. (Jornal do Brasil. a propagação do fogo foi rápida. p. (.Briguiet. continuava a queda dos galhos."A queimada" (Fragmento.No texto literário. pp. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. Não houve feridos. O prédio era de construção antiga e estava em obras. singular. O fogo não tardou a penetrar num pequeno taquaral. Canaã. respectivamente. Rio de Janeiro. quando a taboca estalava nas chamas."Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" (Jornal do Brasil. 38. possivelmente provocado por um curto-circuito.111-113) Texto 8 . baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer. A ação dos bombeiros evitou que prédios vizinhos fossem atingidos pelas chamas. sôfrega por saciar o apetite. incendiado. Mas o fogo avançava sobre eles. a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem. São Paulo. que tratam do mesmo tema. enquanto a fogueira circundava num abraço a moita de bambus. os estampidos redobravam. destruiu no início da madrugada de ontem um prédio de quatro andares na Rua Teófilo Otoni. 19/02/97) .F. o que os caracteriza como literário e não-literário. 19/02/97) Texto 9 . Graça Aranha. como havia grande quantidade de madeira estocada. Apud William Cereja e Thereza Magalhães.. atônitos. Português: linguagens. como um ser animado. O fogo começou no primeiro andar. Atual. Graça Aranha. Surpresos. (Fragmento. combinando-as de maneira inusitada.F.Briguiet."Carnaval" (Graça Aranha. onde funcionava uma empresa especializada na venda e fabricação de componentes eletrônicos. avançava solene. Assim. a coluna. que eram a ossatura do monstro. Texto 7 . a seguir. aquecida até o seio. as labaredas esguichavam. Ouviam-se sucessivas e medonhas descargas de um tiroteio.) O aceiro foi sendo aberto até que o fogo se aproximou. a Mec Central. O fumo crescia e subia no ar rubro. no Centro. Rio de Janeiro.178) Texto 7 A queimada Num alvoroço de alegria. relacionada ao processo de recriação do real. interrompendo-lhes o prazer. os homens viam amarelecer a folhagem que era a carne e fender-se os troncos firmes. repararam que a devastação tétrica lhes ameaçava a vida e era invencível pelo mato adentro. são comparados em relação aos recursos lingüísticos utilizados. eretos. três textos que exemplificam esse processo: os dois primeiros. Sobre a terra queimada na superfície.

A linguagem deste texto é denotativa. a ação dos bombeiros. pulando. tresandam. liras. gritam. Atual. que maxixam. desfilando sob o verde das árvores. saboreiam. cheiro de todos os matizes. meigos. lutam. p. o leitor passa pelo plano da expressão e vai direto ao conteúdo para entender. cheiro mulato. Libertação dos sentidos envolventes das massas frenéticas. alucinantes. movem-se os cheiros. aços estrepitosos. de bananas. bumba. atribuindo-lhe características próprias de seres animados. violões. No texto 8. Tudo é instrumento. como um ser animado. arrebentam no ar sonoro dos ventos. deslumbram. Falsetes azucrinam. lúbricos. cuja finalidade é documentar. como solene. pandeiros. Trata-se. A viagem maravilhosa. "A Queimada". informar-se. vivas . avançava solene). "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro". suaves. brutais. candomblé. de mendubim. Dentro dos sons movem-se cores. de bocas e de mucosa. a descrição de uma queimada. Viola chora e espinoteia. O autor fala da queimada como se ela fosse um ser vivo. na unidade do prazer desencadeado. Apud William Cereja e Thereza Magalhães. gaitas e trombetas. dançando.178) . encantamento do barulho. propagação do fogo. sôfrega. cheiros se fundem em gostos de gengibre. sons. troncos/ossos. como um texto literário. berram. em face do azul da baía no mundo dourado. cheia de apetite. é recriado no plano da expressão. melosa. ardentes. Neste texto. de Madureira à Gávea. seu conteúdo pode ser resumido sem prejuízo da informação que ele contém. Tatos. São Paulo. de castanhas.Comentários sobre os textos 7 e 8 : "A Queimada" e "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" Reconhecemos o texto 7. por apresentar inúmeros recursos expressivos: metáforas (folhagem/carne. Dentro dos cheiros. o fogo. cheiro branco. não apresenta nenhuma combinação nova ou inusitada de palavras. (Graça Aranha. Texto 7 Texto 8 "a coluna avançava solene e sôfrega" "o incêndio começou no primeiro andar" "a propagação foi rápida" adjetivação metafórica: troncos firmes e eretos descargas medonhas ar rubro ausência de adjetivação: o incêndio. o movimento dos tatos violentos. cheiro de negro. de laranja. reco-recos. Tudo é encanto. klaxons. feiticeira. cores. Texto 9 Carnaval Maravilha do ruído. do ímpeto musical. Zé Pereira. vaias. flautas. o plano do conteúdo. Melopéia negra. Português: linguagens. por isto. bumba. zombeteiam. o prédio. Os sons se sacodem. o ar rubro) e comparações (a coluna. Dentro dos sons e das cores. saxofones. transmitir notícias. de todas as excitações e de todas as náuseas. de um texto não-literário. Instrumentos sem nome inventados subitamente no delírio da improvisação.

cores. seu ambiente. vivas. variados e inebriantes. combinando as palavras de forma inesperada.4 Plurissignificação O trabalho de recriação que se efetiva na construção do texto literário é uma atividade lúdica. pelo carinho. suas preferências. o texto literário provoca um prazer estético em seu fruidor. o contato físico entre as pessoas. a euforia da festa. como acontece nas outras manifestações artísticas. seu estado emocional.. Enquanto atividade de recriação. desfilam. Ele não descreve o que vê. expressa seu modo de ver o mundo. mas o que pensa ver. brutais. dançando. proporcionando um "prazer desencadeado". Tato: · o movimento dos tatos violentos. Todas as árvores quiseram ver o salto original. uma brincadeira com a linguagem. de bananas. cheiro mulato. lúbricos. Em primeiro lugar. de mendubim. suaves. cheiros. cheiro de todos os matizes. misturando seus cheiros. tocando-se das mais diversas formas: pela luta."Acrobatismo" (Cassiano Ricardo) Acrobatismo Parou o vento. alucinantes. de laranja. de castanhas. desfilando . cheiro branco. 2. de bocas e de mucosa. a mistura de raças. pela sexualidade. tatos e gostos vão se sucedendo para descrever o carnaval."Carnaval" Neste texto. cheiro de negro. ao passo que a expressão não-literária se reconhece pelo seu caráter denotativo . lutam. Tudo isto é o carnaval .. Por isso. observador atento de uma cena. arrebentam no ar sonoro . Ao ritmo dos sons e cores. Isto é o que define seu caráter plurissignificativo.Comentários sobre o texto 9 .. revelando novas imagens decorrentes dessas combinações. berram. o que sente. movem-se as pessoas das diversas raças. Esse contato íntimo conduz a uma fusão de bocas e gostos."libertação dos sentidos". as cores da natureza e das fantasias se movem. com o objetivo de despertar no leitor o prazer estético. de todas as excitações e de todas as náuseas. a expressão literária se caracteriza pela conotação . O autor.. Gosto: · gostos de gengibre. criando novos significados. os cinco sentidos são explorados de maneira simbólica e inusitada: sons. Cheiros: · movem-se os cheiros. No texto literário. ruídos e sons de diversos instrumentos enchem o ar. ardentes. Acompanhando esses sons. faz-se igualmente um amplo uso de metáforas e metonímias. Cores: · movem-se cores. meigos. Sons: · viola chora e espinoteia · os sons se sacodem. Texto 10 . Então quedaram-se todas . pulando.

a acrobacia de um e outro). isto é. Não podemos. permitem que se estabeleça entre eles uma relação. quando se resume um texto não-literário. (1978). entre o palhaço verde e o louva-a-deus (traços comuns: a cor. suprimir ou acrescentar vocábulos. uso de palavras fora do seu sentido normal. há um amplo uso de metáforas. Segundo Mattoso Câmara Jr. a forma). criada no trabalho mental de apreensão. num texto literário. a partir da qual se cria uma metáfora. portanto. substituir vocábulos por sinônimos. prestando muita atenção. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. poéticos e textos não-literários. apreende-se o essencial. resumir as idéias. sua intocabilidade." Assim. a maciez). o poeta francês Paul Valéry diz que. quando se resume um texto literário. mudar a posição em que as palavras foram colocadas. pelo uso de recursos poéticos. a cor. entre a folha e o louva-a-deus traços comuns como a leveza de movimento. A esse respeito.5 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade."Acrobatismo" Neste poema. e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. a metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". Poderão surgir. a partir de suas respostas. textos líricos. Texto 11 Soneto da Separação . O mesmo acontece entre o trapézio e o galho de onde o inseto se jogou no ar (um traço comum entre eles é. Podemos. muito viva. seu soneto é um texto literário.com os seus anéis azuis de orvalho e os seus colares de ouro teatral. Foi como se um silêncio fofo de veludo Começasse a passear seus pés de lã por tudo. por exemplo. por exemplo. Mais informações sobre os conceitos de conotação e de denotação são apresentados no item 1 do índice. perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa. Nisto uma folha sai. por exemplo. e vai cair sem o menor rumor sobre o tapete da grama. Comentários sobre o texto 10 . É um louva-a-deus lépido e longo que se jogou de um trapézio como um pequeno palhaço verde e lá se foi a rodopiar às cambalhotas no ar. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto. perde-se o essencial. Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. de uma rama. No Soneto da Separação. entre o tapete de grama e o chão recoberto de vegetação (têm em comum a cor. 2. Pelo trabalho com a linguagem.

"Ao povo seu poema. o povo e o poema crescem como a árvore nova. b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" . meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a ávore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta Comentários sobre o texto 12 Quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem. Apresentamos.De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. a partir do qual são feitos comentários que evidenciam algumas características da expressão literária apontadas no embasamento teórico. De repente. podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar. um poema de Ferreira Gullar (texto 12) . "no povo meu poema". não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. não mais que de repente. Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore. a seguir. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. Texto 12 Meu povo. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama." .

terra fértil." (Gabriela. para essa recriação. Texto 13 Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! (Casimiro de Abreu) Textos literários em prosa também podem apresentar efeitos sonoros e rítmicos. utiliza recursos variados. o poema é o fruto que ele produz (metáfora). a cantar e a dançar.c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra. antes de ir para a casa dos tios. já cristalizada na língua. Parou a escutar. 2. poema/árvore. d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro. Rodando na praça. Arrancou os sapatos. Que beleza os pés pequeninos no chão a dançar! Seus pés reclamavam. de outro lado Rosinha. ao invés de usar a expressão hoje em dia. transcrevemos um trecho do romance "Gabriela. correu pros meninos. De um lado Tuísca. de Jorge Amado) . em que o autor. brinquedo de roda adorava brincar.evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. a ver a roda rodar. o poeta é comparado a um plantador. aquela canção ela cantara em menina. e. queriam dançar. cria a expressão hoje-em-noite. Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética. de Jorge Amado (texto 14) Texto 14 "Gabriela ia andando.o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar. procura recriar a linguagem. de Carlos Drummond de Andrade (texto 15). Resistir não podia. cravo e canela. São alguns deles: · ritmos · sonoridades · rimas e aliterações a) Ritmo . cravo e canela". crescer.6 recursos fônicos característicos da literariedade O escritor de um texto literário. ao explorar conteúdos." Dois planos foram explorados -. largou na calçada. Um outro exemplo interessante para mostrar a desautomatização da linguagem encontramos no poema Som. Antes da morte do pai e da mãe. Como exemplo.

dançar. em forma de prosa. Observe: soneto sonata dissonante sonouro sonoro sonso . explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos. p. Existem nele: · rimas (escutar. apresenta um ritmo e uma sonoridade que nos fazem lembrar os textos em verso.Este texto. o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem. ou de vocábulos que apresentam a seqüência fônica s o n. sob a forma de palavras derivadas de som. mui insolúvel som não sonoterápico bem insondável. rodar. é possível prolongar. Rio de Janeiro. Aguillar. Texto 15 Som Nem soneto nem sonata vou curtir um som dissonante dos sonidos som ressonante de sibildos som sonotinto de sonalhas nem sonoro nem sonouro vou curtir um som mui sonso. evidenciar ou transformar o sentido que o léxico e a sintaxe dão às palavras e às frases. mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia. Poesia e prosa.784) Neste poema. · inversões que contribuem para o ritmo e a rima (os pés pequeninos no chão a dançar. vou curtir um som ausente de qualquer música e rico de curtição (Carlos Drummond de Andrade. o poeta faz a palavra som ecoar o tempo todo. aproveitando as associações de significantes. b) Sonoridade . brinquedo de roda adorava brincar). 1979.por meio da sonoridade de um texto. seja em verso. sem relação semântica com a palavra som. brincar). · frases curtas com um número aproximado de sílabas: seus pés reclamavam queriam dançar resistir não podia brinquedo de roda adorava brincar de um lado Tuísca de outro lado Rosinha rodando na praça a cantar e a dançar Seja em prosa. som de raspante derrapante rouco reco ronco rato som superenrolado com se sona hoje-em-noite vou curtir.

argentino. Nesta estrofe do soneto de Alphonsus de Guimaraens. veludosas vozes. límpido. as misturadas. Rima é a conformidade ou identidade de fonemas. a repetição de vogais nasais e fechadas contribui para reforçar o conteúdo triste e sombrio. tímido. e ricas. Além disso. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. as alternadas. Hão de chorar por ela os cinamomos. No poema de Cruz e Souza. vãs. em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos. que ocorre geralmente no final de dois versos diferentes. o uso poético da linguagem. Murchando as flores ao tombar do dia. As mais freqüentes são as emparelhadas. as rimas podem ser perfeitas. as encadeadas. mais uma vez. as opostas. Lembrando-se daquela que os colhia. esgrime. ricas. vulcanizadas.fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema. multicores/amores: adjetivo e substantivo. pobres. vivas. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. preciosas. Volúpias dos violões.sonidos insolúvel ressonante sonoterápico sontinto insondável sonalhas sona Há também uma seqüência onomatopaica. podendo aparecer também entre vocábulos no interior dos versos. vozes veladas. que é definida pelo maior ou menor número de fonemas associados. pois as palavras que rimam pertencem a diferentes classes gramaticais (retalha/toalha: verbo e substantivo. reproduzindo o ruído estridente da música moderna: ressonante derrapante raspante rouco reco ronco rato superenrolado c) Rimas e aliterações . porque se sucedem duas a duas. como nestes versos de Murilo Araújo. de aço fino. Texto 17 Vozes veladas. Dos laranjais hão de cair os pomos. imperfeitas. Texto 16 O trilo dos grilos. Texto 18 Hão de chorar por ela os cinamomos. com o raiozinho dos astros. pelas classes das palavras que rimam pela raridade das terminações. O texto abaixo exemplifica rimas emparelhadas. secreta/poeta: adjetivo e substantivo) . Neste sentido. as rimas podem ser classificadas em função da sua riqueza. Existem muitas possibilidades de disposição das rimas nas estrofes do poema.

(Fagundes Varela) A literatura é o veículo. nos trocadilhos a presença da linguagem poética. mais presa de uma dor tantálica e secreta de dia em dia murcha o louro do poeta! . mas não é o único. deslizam mansamente as garças alvejantes. na funda correnteza na límpida toalha. por excelência. nas brincadeiras infantis. . nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes embalam-se avezinhas de penas multicores pejando a mata virgem de cânticos de amores. da linguagem em sua função poética. nos jogos de palavras... podemos perceber também na publicidade.Texto 19 Queixas do poeta No rio caudaloso que a solidão retalha.

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