Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário, devemos considerar que o texto literário

tem uma dimensão estética, plurissignificativa e de intenso dinamismo, que possibilita a criação de novas relações de sentido, com predomínio da função poética da linguagem. É, portanto, um espaço relevante de reflexão sobre a realidade, envolvendo um processo de recriação lúdica dessa realidade. No texto não-literário, as relações são mais restritas, tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade, com predomínio da função referencial da linguagem, e na interação entre os indivíduos, com predomínio de outras funções.
A · · · · · produção de um texto literário implica: a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística

2.1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma, visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece, nos planos fônico, prosódico, léxico, morfo-sintático e semântico. Não é o tema, mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário. Assim, não há temas específicos de textos literários, nem temas inadequados a esse tipo de texto. Os dois textos que seguem têm o mesmo tema - o açúcar: no primeiro, a função poética é predominante. É uma das razões para ser considerado um texto literário. Já no segundo, puramente informativo, há o predomínio da função referencial. "O açúcar" (Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980, pp.227-228)
O açúcar O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e afável ao paladar como beijo de moça, água na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar não foi feito por mim. Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco

Brasil.e a vida do trabalhador que o produz . onde não há hospital nem escola. "A cana-de-açúcar" (Vesentini. importante nos dias atuais como fonte de energia e de bebidas. puro . homens de vida amarga e dura produziram este açúcar branco e puro com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. Em lugares distantes. propiciaram condições favoráveis a esse cultivo.branco. A região que durante séculos foi a grande produtora de cana-de-açúcar no Brasil é a Zona da Mata nordestina.W. São Paulo. está ligada ao uso do álcool como combustível. Alagoas.ou no Estado do Rio e tampouco o fez o dono da usina. doce. a cana-de-açúcar foi introduzida no Brasil pelos colonizadores portugueses no século XVI. 1992. especialmente em São Paulo. triste.106) A cana-de-açúcar Originária da Ásia. lém da menor distância em relação ao mercado europeu. a) associações lexicais entre vocábulos do mesmo campo semântico: açúcar açucareiro dissolver usina cana canavial plantar colher mercearia comprar vender adoçar .dura. Além de produzir o açúcar. sociedade e espaço. Ática.e vai ampliando seu potencial significativo. amarga. explorando recursos formais para estabelecer um paralelo entre o açúcar . homens que não sabem ler e morrem de fome aos 27 anos plantaram e colheram a cana que viraria açúcar. A imensa expansão dos canaviais no Brasil. onde os férteis solos de massapé. o maior produtor nacional de cana-de-açúcar é São Paulo. a cana serve também para a produção de álcool. Comentários sobre os textos: "O açúcar" e "A cana-de-açúcar" O texto "O açúcar" parte de uma palavra do domínio comum . J. que em parte é exportado e em parte abastece o mercado interno. Atualmente. Em usinas escuras. seguido de Pernambuco.açúcar . p. Este açúcar era cana e veio dos canaviais extensos que não nascem por acaso no regaço do vale. Rio de Janeiro e Minas Gerais.

c) o som de uma cavalgada e a música Disparada ( Geraldo Vandré ). 2. b) o som de vozes de crianças brincando e a música Domingo no Parque (Gilberto Gil). reordenando-a. d) uma foto de jornal . que dizem: "Graciliano Ramos. Para caracterizar ou explicitar a diferença entre função informativa e função artísticoliterária da linguagem. A título de exemplo.b) relações antitéticas: vida amarga e dura x açúcar branco e puro c) comparações: a comparação é o confronto de idéias por meio de conectivos. de palavras que explicitam o que está sendo comparado. de expressão não-literária. através do confronto entre um determinado dado da realidade e o mesmo dado. Refletindo a experiência cultural de um povo. de Portinari .Os retirantes. Isso dá ao texto literário um caráter ficcional. citamos Platão e Fiorin (1991). f) imagens de pessoas se movimentando e uma escultura representando pessoas. o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional. e por isso degradados ao nível da animalidade. g) uma pequena crítica sobre a passagem de uma escola de samba e a música Foi um rio que passou em minha vida ( Paulinho da Viola).com o mesmo tema da foto. podem ser comparadas as seguintes situações: a) o barulho de buzinas na rua e uma música que use esse mesmo som. as artes desempenham um papel muito importante. ou de produzi-lo. reaproveitado em uma obra artística. num país como o Brasil.uma foto dos sem-terra e um quadro . e) várias cenas do cotidiano e uma colagem de Glauco Rodrigues. recriando o real num plano imaginário. inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias. de maneira indireta. como teve início seu cultivo no Brasil. em VIDAS SECAS.2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva.3 recriação da linguagem (desautomatização) . Por isso." 2. ou seja. despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. os lugares onde é produzida. o autor informa o leitor sobre a origem da cana-de-açúcar. um termo se define em função do que sabemos de outro: "Vejo-o [o açúcar] puro e afável como beijo de moça (como) água na pele (como) flor que se dissolve na boca No texto "A cana-de-açúcar". a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade. Na comparação. etc.

O fogo começou no primeiro andar. a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem.F.178) Texto 7 A queimada Num alvoroço de alegria. Surpresos. as labaredas esguichavam. continuava a queda dos galhos. 38.No texto literário. Rio de Janeiro."Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" (Jornal do Brasil. (. São Paulo. três textos que exemplificam esse processo: os dois primeiros. Apresentamos. O fumo crescia e subia no ar rubro. aquecida até o seio. são comparados em relação aos recursos lingüísticos utilizados. Não houve feridos. os estampidos redobravam. revelando assim novas formas de ver o mundo. Português: linguagens."Carnaval" (Graça Aranha. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. O prédio era de construção antiga e estava em obras. ocorre a desautomatização da linguagem. a propagação do fogo foi rápida."A queimada" (Fragmento. respectivamente. a Mec Central. 19/02/97) .Briguiet. baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer.) O aceiro foi sendo aberto até que o fogo se aproximou. que eram a ossatura do monstro. destruiu no início da madrugada de ontem um prédio de quatro andares na Rua Teófilo Otoni. A viagem maravilhosa. possivelmente provocado por um curto-circuito. Graça Aranha. pp.Briguiet. Ouviam-se sucessivas e medonhas descargas de um tiroteio. quando a taboca estalava nas chamas. como um ser animado. como havia grande quantidade de madeira estocada. p. interrompendo-lhes o prazer.F. 1990. onde funcionava uma empresa especializada na venda e fabricação de componentes eletrônicos.111-113) Texto 8 . relacionada ao processo de recriação do real.111-113) Texto 8 Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro Um incêndio. Atual. Assim. Canaã. A ação dos bombeiros evitou que prédios vizinhos fossem atingidos pelas chamas. Sobre a terra queimada na superfície. avançava solene. sôfrega por saciar o apetite. enquanto a fogueira circundava num abraço a moita de bambus. singular. a coluna. Canaã. pp. eretos. incendiado. Apud William Cereja e Thereza Magalhães. Rio de Janeiro. quase pelas terras alheias. Texto 7 . no Centro. que tratam do mesmo tema. atônitos.. o que os caracteriza como literário e não-literário. a seguir. O fogo não tardou a penetrar num pequeno taquaral. 19/02/97) Texto 9 . Mas o fogo avançava sobre eles. Graça Aranha. (Jornal do Brasil. pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. combinando-as de maneira inusitada.. (Fragmento. repararam que a devastação tétrica lhes ameaçava a vida e era invencível pelo mato adentro. os homens viam amarelecer a folhagem que era a carne e fender-se os troncos firmes.

avançava solene). dançando. bumba.Comentários sobre os textos 7 e 8 : "A Queimada" e "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" Reconhecemos o texto 7. tresandam. gritam. cuja finalidade é documentar. Apud William Cereja e Thereza Magalhães. São Paulo. Dentro dos sons movem-se cores. No texto 8. melosa. de um texto não-literário. atribuindo-lhe características próprias de seres animados. troncos/ossos. cheia de apetite. aços estrepitosos. de mendubim. reco-recos. como um ser animado. o movimento dos tatos violentos. candomblé. do ímpeto musical. de laranja. bumba. não apresenta nenhuma combinação nova ou inusitada de palavras. alucinantes. o leitor passa pelo plano da expressão e vai direto ao conteúdo para entender. Trata-se. suaves. que maxixam. cheiro de negro. Atual. de bocas e de mucosa. violões. de bananas. p. o plano do conteúdo. Neste texto. Viola chora e espinoteia. é recriado no plano da expressão. Texto 9 Carnaval Maravilha do ruído. Melopéia negra. saboreiam. Tudo é encanto.178) . Os sons se sacodem. ardentes. cheiro de todos os matizes. Dentro dos sons e das cores. A viagem maravilhosa. meigos. brutais. o fogo. A linguagem deste texto é denotativa. propagação do fogo. de Madureira à Gávea. pulando. berram. cheiro mulato. lúbricos. flautas. desfilando sob o verde das árvores. na unidade do prazer desencadeado. zombeteiam. Libertação dos sentidos envolventes das massas frenéticas. cheiro branco. Instrumentos sem nome inventados subitamente no delírio da improvisação. Tatos. Dentro dos cheiros. como solene. sôfrega. sons. pandeiros. de castanhas. Português: linguagens. (Graça Aranha. lutam. encantamento do barulho. deslumbram. seu conteúdo pode ser resumido sem prejuízo da informação que ele contém. vivas . a ação dos bombeiros. cores. "A Queimada". Texto 7 Texto 8 "a coluna avançava solene e sôfrega" "o incêndio começou no primeiro andar" "a propagação foi rápida" adjetivação metafórica: troncos firmes e eretos descargas medonhas ar rubro ausência de adjetivação: o incêndio. O autor fala da queimada como se ela fosse um ser vivo. arrebentam no ar sonoro dos ventos. "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro". cheiros se fundem em gostos de gengibre. a descrição de uma queimada. de todas as excitações e de todas as náuseas. por apresentar inúmeros recursos expressivos: metáforas (folhagem/carne. liras. movem-se os cheiros. feiticeira. em face do azul da baía no mundo dourado. transmitir notícias. Falsetes azucrinam. por isto. saxofones. como um texto literário. informar-se. gaitas e trombetas. o prédio. Tudo é instrumento. vaias. Zé Pereira. klaxons. o ar rubro) e comparações (a coluna.

desfilam. pelo carinho. pela sexualidade. cheiros. cheiro de negro. Cores: · movem-se cores. Sons: · viola chora e espinoteia · os sons se sacodem. de todas as excitações e de todas as náuseas. de bocas e de mucosa. 2. Então quedaram-se todas . movem-se as pessoas das diversas raças. Texto 10 . Todas as árvores quiseram ver o salto original."Acrobatismo" (Cassiano Ricardo) Acrobatismo Parou o vento. lutam.. suaves. No texto literário. de castanhas. Enquanto atividade de recriação. combinando as palavras de forma inesperada. tatos e gostos vão se sucedendo para descrever o carnaval.Comentários sobre o texto 9 . como acontece nas outras manifestações artísticas. ruídos e sons de diversos instrumentos enchem o ar. o contato físico entre as pessoas. Acompanhando esses sons. ardentes. Ao ritmo dos sons e cores. Em primeiro lugar. pulando. Isto é o que define seu caráter plurissignificativo. suas preferências. expressa seu modo de ver o mundo. lúbricos. a euforia da festa. Por isso. vivas. a mistura de raças. ao passo que a expressão não-literária se reconhece pelo seu caráter denotativo . observador atento de uma cena.. desfilando . cheiro branco. faz-se igualmente um amplo uso de metáforas e metonímias. os cinco sentidos são explorados de maneira simbólica e inusitada: sons. O autor. as cores da natureza e das fantasias se movem. revelando novas imagens decorrentes dessas combinações.. misturando seus cheiros. o texto literário provoca um prazer estético em seu fruidor. seu estado emocional. de laranja."Carnaval" Neste texto. Ele não descreve o que vê. criando novos significados. uma brincadeira com a linguagem. alucinantes.4 Plurissignificação O trabalho de recriação que se efetiva na construção do texto literário é uma atividade lúdica. berram. mas o que pensa ver. Tudo isto é o carnaval . tocando-se das mais diversas formas: pela luta. a expressão literária se caracteriza pela conotação . o que sente. de mendubim. cheiro de todos os matizes. Gosto: · gostos de gengibre."libertação dos sentidos". variados e inebriantes. meigos. cheiro mulato.. proporcionando um "prazer desencadeado". dançando. Tato: · o movimento dos tatos violentos. brutais. cores. seu ambiente. arrebentam no ar sonoro . Esse contato íntimo conduz a uma fusão de bocas e gostos. com o objetivo de despertar no leitor o prazer estético. Cheiros: · movem-se os cheiros. de bananas.

textos líricos. por exemplo. substituir vocábulos por sinônimos. O mesmo acontece entre o trapézio e o galho de onde o inseto se jogou no ar (um traço comum entre eles é. No Soneto da Separação. e vai cair sem o menor rumor sobre o tapete da grama. perde-se o essencial. entre a folha e o louva-a-deus traços comuns como a leveza de movimento. Foi como se um silêncio fofo de veludo Começasse a passear seus pés de lã por tudo. a maciez). quando se resume um texto não-literário. por exemplo. poéticos e textos não-literários. seu soneto é um texto literário. o poeta francês Paul Valéry diz que. (1978). Mais informações sobre os conceitos de conotação e de denotação são apresentados no item 1 do índice. uso de palavras fora do seu sentido normal. portanto. e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. muito viva. prestando muita atenção. quando se resume um texto literário. Nisto uma folha sai. Poderão surgir. criada no trabalho mental de apreensão. a partir de suas respostas. a forma). pelo uso de recursos poéticos. a acrobacia de um e outro). Não podemos. a metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu".5 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade." Assim. A esse respeito. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. há um amplo uso de metáforas. de uma rama. num texto literário. entre o tapete de grama e o chão recoberto de vegetação (têm em comum a cor. resumir as idéias. Segundo Mattoso Câmara Jr. É um louva-a-deus lépido e longo que se jogou de um trapézio como um pequeno palhaço verde e lá se foi a rodopiar às cambalhotas no ar. mudar a posição em que as palavras foram colocadas. a partir da qual se cria uma metáfora. 2. suprimir ou acrescentar vocábulos. isto é. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto. Podemos. entre o palhaço verde e o louva-a-deus (traços comuns: a cor. Pelo trabalho com a linguagem. sua intocabilidade. permitem que se estabeleça entre eles uma relação. apreende-se o essencial.com os seus anéis azuis de orvalho e os seus colares de ouro teatral. Comentários sobre o texto 10 ."Acrobatismo" Neste poema. Texto 11 Soneto da Separação . perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa. por exemplo. a cor.

Apresentamos. De repente. meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a ávore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta Comentários sobre o texto 12 Quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem. "Ao povo seu poema. Texto 12 Meu povo. o povo e o poema crescem como a árvore nova. "no povo meu poema". Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore." . b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" . um poema de Ferreira Gullar (texto 12) . a partir do qual são feitos comentários que evidenciam algumas características da expressão literária apontadas no embasamento teórico. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar.De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. a seguir. não mais que de repente.

De um lado Tuísca. cria a expressão hoje-em-noite. utiliza recursos variados. transcrevemos um trecho do romance "Gabriela.c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra. poema/árvore. de Carlos Drummond de Andrade (texto 15). de Jorge Amado) . queriam dançar. e." (Gabriela. Que beleza os pés pequeninos no chão a dançar! Seus pés reclamavam. para essa recriação.evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. brinquedo de roda adorava brincar. Resistir não podia. ao explorar conteúdos. terra fértil. ao invés de usar a expressão hoje em dia. crescer. o poeta é comparado a um plantador. Como exemplo. São alguns deles: · ritmos · sonoridades · rimas e aliterações a) Ritmo . o poema é o fruto que ele produz (metáfora). d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro. Um outro exemplo interessante para mostrar a desautomatização da linguagem encontramos no poema Som.6 recursos fônicos característicos da literariedade O escritor de um texto literário. Arrancou os sapatos. Antes da morte do pai e da mãe. de Jorge Amado (texto 14) Texto 14 "Gabriela ia andando. Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética. largou na calçada. Rodando na praça. Parou a escutar." Dois planos foram explorados -.o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar. aquela canção ela cantara em menina. de outro lado Rosinha. 2. procura recriar a linguagem. Texto 13 Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! (Casimiro de Abreu) Textos literários em prosa também podem apresentar efeitos sonoros e rítmicos. a cantar e a dançar. cravo e canela". correu pros meninos. cravo e canela. já cristalizada na língua. em que o autor. a ver a roda rodar. antes de ir para a casa dos tios.

apresenta um ritmo e uma sonoridade que nos fazem lembrar os textos em verso. o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem. sob a forma de palavras derivadas de som. Observe: soneto sonata dissonante sonouro sonoro sonso . sem relação semântica com a palavra som. som de raspante derrapante rouco reco ronco rato som superenrolado com se sona hoje-em-noite vou curtir. explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos. Existem nele: · rimas (escutar. o poeta faz a palavra som ecoar o tempo todo. Poesia e prosa. evidenciar ou transformar o sentido que o léxico e a sintaxe dão às palavras e às frases. · inversões que contribuem para o ritmo e a rima (os pés pequeninos no chão a dançar. vou curtir um som ausente de qualquer música e rico de curtição (Carlos Drummond de Andrade.Este texto. p. b) Sonoridade . mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia. rodar. brinquedo de roda adorava brincar). aproveitando as associações de significantes. em forma de prosa. dançar. é possível prolongar. Aguillar. seja em verso. Rio de Janeiro. 1979. brincar).por meio da sonoridade de um texto.784) Neste poema. Texto 15 Som Nem soneto nem sonata vou curtir um som dissonante dos sonidos som ressonante de sibildos som sonotinto de sonalhas nem sonoro nem sonouro vou curtir um som mui sonso. mui insolúvel som não sonoterápico bem insondável. ou de vocábulos que apresentam a seqüência fônica s o n. · frases curtas com um número aproximado de sílabas: seus pés reclamavam queriam dançar resistir não podia brinquedo de roda adorava brincar de um lado Tuísca de outro lado Rosinha rodando na praça a cantar e a dançar Seja em prosa.

as encadeadas. mais uma vez. pois as palavras que rimam pertencem a diferentes classes gramaticais (retalha/toalha: verbo e substantivo. vozes veladas. Texto 16 O trilo dos grilos. Neste sentido. Texto 18 Hão de chorar por ela os cinamomos. muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. a repetição de vogais nasais e fechadas contribui para reforçar o conteúdo triste e sombrio. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. vulcanizadas. Nesta estrofe do soneto de Alphonsus de Guimaraens. preciosas. Murchando as flores ao tombar do dia. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. como nestes versos de Murilo Araújo. Rima é a conformidade ou identidade de fonemas. as rimas podem ser classificadas em função da sua riqueza. as alternadas. as opostas. Além disso. as rimas podem ser perfeitas. argentino. Volúpias dos violões. e ricas. podendo aparecer também entre vocábulos no interior dos versos. ricas. límpido. de aço fino. tímido. as misturadas. que ocorre geralmente no final de dois versos diferentes. que é definida pelo maior ou menor número de fonemas associados. O texto abaixo exemplifica rimas emparelhadas. porque se sucedem duas a duas. vivas. No poema de Cruz e Souza. imperfeitas. Dos laranjais hão de cair os pomos. veludosas vozes. com o raiozinho dos astros. em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos. Hão de chorar por ela os cinamomos. Lembrando-se daquela que os colhia. o uso poético da linguagem.fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema. secreta/poeta: adjetivo e substantivo) .sonidos insolúvel ressonante sonoterápico sontinto insondável sonalhas sona Há também uma seqüência onomatopaica. Texto 17 Vozes veladas. multicores/amores: adjetivo e substantivo. vãs. Existem muitas possibilidades de disposição das rimas nas estrofes do poema. As mais freqüentes são as emparelhadas. reproduzindo o ruído estridente da música moderna: ressonante derrapante raspante rouco reco ronco rato superenrolado c) Rimas e aliterações . esgrime. pobres. pelas classes das palavras que rimam pela raridade das terminações.

nos trocadilhos a presença da linguagem poética. nas brincadeiras infantis. na funda correnteza na límpida toalha. mais presa de uma dor tantálica e secreta de dia em dia murcha o louro do poeta! . (Fagundes Varela) A literatura é o veículo. . por excelência. nos jogos de palavras..Texto 19 Queixas do poeta No rio caudaloso que a solidão retalha. nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes embalam-se avezinhas de penas multicores pejando a mata virgem de cânticos de amores. mas não é o único. da linguagem em sua função poética. podemos perceber também na publicidade. deslizam mansamente as garças alvejantes..

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