Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário, devemos considerar que o texto literário

tem uma dimensão estética, plurissignificativa e de intenso dinamismo, que possibilita a criação de novas relações de sentido, com predomínio da função poética da linguagem. É, portanto, um espaço relevante de reflexão sobre a realidade, envolvendo um processo de recriação lúdica dessa realidade. No texto não-literário, as relações são mais restritas, tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade, com predomínio da função referencial da linguagem, e na interação entre os indivíduos, com predomínio de outras funções.
A · · · · · produção de um texto literário implica: a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística

2.1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma, visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece, nos planos fônico, prosódico, léxico, morfo-sintático e semântico. Não é o tema, mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário. Assim, não há temas específicos de textos literários, nem temas inadequados a esse tipo de texto. Os dois textos que seguem têm o mesmo tema - o açúcar: no primeiro, a função poética é predominante. É uma das razões para ser considerado um texto literário. Já no segundo, puramente informativo, há o predomínio da função referencial. "O açúcar" (Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980, pp.227-228)
O açúcar O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e afável ao paladar como beijo de moça, água na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar não foi feito por mim. Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco

explorando recursos formais para estabelecer um paralelo entre o açúcar .W. p.e a vida do trabalhador que o produz .e vai ampliando seu potencial significativo. Brasil. Em usinas escuras. que em parte é exportado e em parte abastece o mercado interno. está ligada ao uso do álcool como combustível. A imensa expansão dos canaviais no Brasil. a cana-de-açúcar foi introduzida no Brasil pelos colonizadores portugueses no século XVI.branco. onde os férteis solos de massapé. sociedade e espaço. onde não há hospital nem escola.dura. Além de produzir o açúcar. Ática. puro . a cana serve também para a produção de álcool. Rio de Janeiro e Minas Gerais. São Paulo. A região que durante séculos foi a grande produtora de cana-de-açúcar no Brasil é a Zona da Mata nordestina. 1992.106) A cana-de-açúcar Originária da Ásia. doce.ou no Estado do Rio e tampouco o fez o dono da usina.açúcar . homens que não sabem ler e morrem de fome aos 27 anos plantaram e colheram a cana que viraria açúcar. Este açúcar era cana e veio dos canaviais extensos que não nascem por acaso no regaço do vale. homens de vida amarga e dura produziram este açúcar branco e puro com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. seguido de Pernambuco. propiciaram condições favoráveis a esse cultivo. lém da menor distância em relação ao mercado europeu. amarga. especialmente em São Paulo. "A cana-de-açúcar" (Vesentini. Alagoas. importante nos dias atuais como fonte de energia e de bebidas. J. Comentários sobre os textos: "O açúcar" e "A cana-de-açúcar" O texto "O açúcar" parte de uma palavra do domínio comum . Em lugares distantes. a) associações lexicais entre vocábulos do mesmo campo semântico: açúcar açucareiro dissolver usina cana canavial plantar colher mercearia comprar vender adoçar . o maior produtor nacional de cana-de-açúcar é São Paulo. triste. Atualmente.

Para caracterizar ou explicitar a diferença entre função informativa e função artísticoliterária da linguagem. as artes desempenham um papel muito importante. através do confronto entre um determinado dado da realidade e o mesmo dado. num país como o Brasil. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva. onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. reordenando-a. o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional. recriando o real num plano imaginário. g) uma pequena crítica sobre a passagem de uma escola de samba e a música Foi um rio que passou em minha vida ( Paulinho da Viola).2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real. etc. c) o som de uma cavalgada e a música Disparada ( Geraldo Vandré ).3 recriação da linguagem (desautomatização) . podem ser comparadas as seguintes situações: a) o barulho de buzinas na rua e uma música que use esse mesmo som. ou seja. reaproveitado em uma obra artística. Refletindo a experiência cultural de um povo. de maneira indireta. despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. b) o som de vozes de crianças brincando e a música Domingo no Parque (Gilberto Gil). os lugares onde é produzida. o autor informa o leitor sobre a origem da cana-de-açúcar. A título de exemplo. d) uma foto de jornal . 2." 2. a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade. ou de produzi-lo. como teve início seu cultivo no Brasil. e por isso degradados ao nível da animalidade.com o mesmo tema da foto.uma foto dos sem-terra e um quadro . de expressão não-literária. e) várias cenas do cotidiano e uma colagem de Glauco Rodrigues. Isso dá ao texto literário um caráter ficcional. Na comparação. um termo se define em função do que sabemos de outro: "Vejo-o [o açúcar] puro e afável como beijo de moça (como) água na pele (como) flor que se dissolve na boca No texto "A cana-de-açúcar". inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias. em VIDAS SECAS.Os retirantes. de palavras que explicitam o que está sendo comparado. citamos Platão e Fiorin (1991). f) imagens de pessoas se movimentando e uma escultura representando pessoas.b) relações antitéticas: vida amarga e dura x açúcar branco e puro c) comparações: a comparação é o confronto de idéias por meio de conectivos. de Portinari . Por isso. que dizem: "Graciliano Ramos.

quase pelas terras alheias. Rio de Janeiro. incendiado. a Mec Central. pp. a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem. são comparados em relação aos recursos lingüísticos utilizados. Assim. quando a taboca estalava nas chamas. os estampidos redobravam. atônitos. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. Rio de Janeiro. Apresentamos. O fogo não tardou a penetrar num pequeno taquaral."A queimada" (Fragmento. (Jornal do Brasil. destruiu no início da madrugada de ontem um prédio de quatro andares na Rua Teófilo Otoni. O fumo crescia e subia no ar rubro. Canaã. baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer. ocorre a desautomatização da linguagem. como havia grande quantidade de madeira estocada.111-113) Texto 8 . 19/02/97) Texto 9 . aquecida até o seio. possivelmente provocado por um curto-circuito. enquanto a fogueira circundava num abraço a moita de bambus. p. São Paulo. Ouviam-se sucessivas e medonhas descargas de um tiroteio. pp. Graça Aranha. Texto 7 . sôfrega por saciar o apetite. Português: linguagens. respectivamente. interrompendo-lhes o prazer. relacionada ao processo de recriação do real.F. os homens viam amarelecer a folhagem que era a carne e fender-se os troncos firmes. Não houve feridos. Surpresos.) O aceiro foi sendo aberto até que o fogo se aproximou.178) Texto 7 A queimada Num alvoroço de alegria.Briguiet.. 38.No texto literário."Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" (Jornal do Brasil. 1990. Canaã. continuava a queda dos galhos. no Centro. como um ser animado. 19/02/97) . onde funcionava uma empresa especializada na venda e fabricação de componentes eletrônicos. Sobre a terra queimada na superfície. combinando-as de maneira inusitada. as labaredas esguichavam. o que os caracteriza como literário e não-literário. A viagem maravilhosa. singular. Mas o fogo avançava sobre eles. O prédio era de construção antiga e estava em obras. a coluna. Graça Aranha. três textos que exemplificam esse processo: os dois primeiros.111-113) Texto 8 Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro Um incêndio. que tratam do mesmo tema. avançava solene. Atual. a propagação do fogo foi rápida. (Fragmento. a seguir. repararam que a devastação tétrica lhes ameaçava a vida e era invencível pelo mato adentro.. (. O fogo começou no primeiro andar. que eram a ossatura do monstro. pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. eretos.Briguiet. Apud William Cereja e Thereza Magalhães. revelando assim novas formas de ver o mundo."Carnaval" (Graça Aranha. A ação dos bombeiros evitou que prédios vizinhos fossem atingidos pelas chamas.F.

Português: linguagens. o plano do conteúdo. saxofones. Neste texto. movem-se os cheiros. de bocas e de mucosa.Comentários sobre os textos 7 e 8 : "A Queimada" e "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" Reconhecemos o texto 7. Texto 7 Texto 8 "a coluna avançava solene e sôfrega" "o incêndio começou no primeiro andar" "a propagação foi rápida" adjetivação metafórica: troncos firmes e eretos descargas medonhas ar rubro ausência de adjetivação: o incêndio. do ímpeto musical. cheiro mulato. cuja finalidade é documentar. meigos. que maxixam. lutam. Libertação dos sentidos envolventes das massas frenéticas. Os sons se sacodem. "A Queimada". cheia de apetite. Texto 9 Carnaval Maravilha do ruído. pulando. gritam. cheiros se fundem em gostos de gengibre. bumba. Apud William Cereja e Thereza Magalhães. transmitir notícias. Zé Pereira. cheiro de negro. (Graça Aranha. O autor fala da queimada como se ela fosse um ser vivo. São Paulo. Trata-se. berram. na unidade do prazer desencadeado. troncos/ossos. vaias. saboreiam. flautas. Tudo é instrumento. de um texto não-literário. em face do azul da baía no mundo dourado. a ação dos bombeiros. como um texto literário. bumba. arrebentam no ar sonoro dos ventos. dançando. informar-se. como um ser animado. Tatos. Atual. sôfrega. propagação do fogo. Dentro dos sons e das cores. No texto 8. candomblé. de todas as excitações e de todas as náuseas. o prédio. ardentes. encantamento do barulho. p. atribuindo-lhe características próprias de seres animados. de Madureira à Gávea. cores. como solene. o fogo. o ar rubro) e comparações (a coluna. deslumbram. A viagem maravilhosa.178) . aços estrepitosos. avançava solene). "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro". Tudo é encanto. cheiro de todos os matizes. de laranja. seu conteúdo pode ser resumido sem prejuízo da informação que ele contém. violões. Melopéia negra. de bananas. melosa. Falsetes azucrinam. feiticeira. suaves. A linguagem deste texto é denotativa. Dentro dos sons movem-se cores. desfilando sob o verde das árvores. brutais. por isto. de mendubim. por apresentar inúmeros recursos expressivos: metáforas (folhagem/carne. tresandam. não apresenta nenhuma combinação nova ou inusitada de palavras. Instrumentos sem nome inventados subitamente no delírio da improvisação. a descrição de uma queimada. Dentro dos cheiros. cheiro branco. sons. o leitor passa pelo plano da expressão e vai direto ao conteúdo para entender. alucinantes. reco-recos. Viola chora e espinoteia. klaxons. zombeteiam. pandeiros. gaitas e trombetas. é recriado no plano da expressão. liras. de castanhas. o movimento dos tatos violentos. lúbricos. vivas .

desfilam. revelando novas imagens decorrentes dessas combinações. 2. Acompanhando esses sons. com o objetivo de despertar no leitor o prazer estético.Comentários sobre o texto 9 . proporcionando um "prazer desencadeado". o que sente. berram. seu estado emocional. Esse contato íntimo conduz a uma fusão de bocas e gostos. de mendubim. lúbricos. faz-se igualmente um amplo uso de metáforas e metonímias. cheiro de todos os matizes. o texto literário provoca um prazer estético em seu fruidor. suaves. o contato físico entre as pessoas. ao passo que a expressão não-literária se reconhece pelo seu caráter denotativo . a mistura de raças. arrebentam no ar sonoro . Isto é o que define seu caráter plurissignificativo. a expressão literária se caracteriza pela conotação . O autor. Por isso. Gosto: · gostos de gengibre. pulando. Ao ritmo dos sons e cores. Cores: · movem-se cores. cores. dançando. a euforia da festa. os cinco sentidos são explorados de maneira simbólica e inusitada: sons. pela sexualidade. pelo carinho."libertação dos sentidos". Cheiros: · movem-se os cheiros. Texto 10 . meigos. Sons: · viola chora e espinoteia · os sons se sacodem. as cores da natureza e das fantasias se movem. Tudo isto é o carnaval . alucinantes. vivas. misturando seus cheiros. cheiro mulato. ardentes. Enquanto atividade de recriação. desfilando . observador atento de uma cena. Todas as árvores quiseram ver o salto original. No texto literário.. cheiros. ruídos e sons de diversos instrumentos enchem o ar. suas preferências. cheiro branco. brutais. expressa seu modo de ver o mundo. de castanhas.. Ele não descreve o que vê. de laranja. tocando-se das mais diversas formas: pela luta. mas o que pensa ver. criando novos significados.4 Plurissignificação O trabalho de recriação que se efetiva na construção do texto literário é uma atividade lúdica. Tato: · o movimento dos tatos violentos."Acrobatismo" (Cassiano Ricardo) Acrobatismo Parou o vento. de bocas e de mucosa. de todas as excitações e de todas as náuseas.. combinando as palavras de forma inesperada. como acontece nas outras manifestações artísticas. uma brincadeira com a linguagem. de bananas. lutam. Então quedaram-se todas . tatos e gostos vão se sucedendo para descrever o carnaval.."Carnaval" Neste texto. seu ambiente. cheiro de negro. movem-se as pessoas das diversas raças. variados e inebriantes. Em primeiro lugar.

Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. Nisto uma folha sai. a partir de suas respostas. criada no trabalho mental de apreensão. permitem que se estabeleça entre eles uma relação. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto. entre a folha e o louva-a-deus traços comuns como a leveza de movimento. A esse respeito.5 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade. a acrobacia de um e outro). pelo uso de recursos poéticos. a metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". (1978). e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. sua intocabilidade. portanto. quando se resume um texto literário. perde-se o essencial. quando se resume um texto não-literário."Acrobatismo" Neste poema. O mesmo acontece entre o trapézio e o galho de onde o inseto se jogou no ar (um traço comum entre eles é. resumir as idéias. Texto 11 Soneto da Separação .com os seus anéis azuis de orvalho e os seus colares de ouro teatral. apreende-se o essencial. poéticos e textos não-literários. textos líricos. a partir da qual se cria uma metáfora. Segundo Mattoso Câmara Jr. e vai cair sem o menor rumor sobre o tapete da grama. Foi como se um silêncio fofo de veludo Começasse a passear seus pés de lã por tudo. a forma). por exemplo. a cor. Comentários sobre o texto 10 ." Assim. perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa. Não podemos. Pelo trabalho com a linguagem. 2. por exemplo. num texto literário. No Soneto da Separação. entre o tapete de grama e o chão recoberto de vegetação (têm em comum a cor. Podemos. de uma rama. isto é. entre o palhaço verde e o louva-a-deus (traços comuns: a cor. mudar a posição em que as palavras foram colocadas. prestando muita atenção. por exemplo. seu soneto é um texto literário. Mais informações sobre os conceitos de conotação e de denotação são apresentados no item 1 do índice. suprimir ou acrescentar vocábulos. há um amplo uso de metáforas. substituir vocábulos por sinônimos. Poderão surgir. É um louva-a-deus lépido e longo que se jogou de um trapézio como um pequeno palhaço verde e lá se foi a rodopiar às cambalhotas no ar. a maciez). o poeta francês Paul Valéry diz que. muito viva. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. uso de palavras fora do seu sentido normal.

"no povo meu poema". Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. um poema de Ferreira Gullar (texto 12) . Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. "Ao povo seu poema. Texto 12 Meu povo. não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Apresentamos. De repente. meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a ávore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta Comentários sobre o texto 12 Quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem. b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" . a partir do qual são feitos comentários que evidenciam algumas características da expressão literária apontadas no embasamento teórico. podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar. a seguir." . não mais que de repente.De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. o povo e o poema crescem como a árvore nova.

de Carlos Drummond de Andrade (texto 15). o poema é o fruto que ele produz (metáfora). Como exemplo. cravo e canela". brinquedo de roda adorava brincar. de Jorge Amado (texto 14) Texto 14 "Gabriela ia andando. o poeta é comparado a um plantador. de Jorge Amado) . a ver a roda rodar. d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro. transcrevemos um trecho do romance "Gabriela." Dois planos foram explorados -. terra fértil. utiliza recursos variados. já cristalizada na língua. Resistir não podia." (Gabriela. Parou a escutar. poema/árvore. antes de ir para a casa dos tios. Que beleza os pés pequeninos no chão a dançar! Seus pés reclamavam. cravo e canela. largou na calçada. crescer. e.o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar. Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética. Arrancou os sapatos.6 recursos fônicos característicos da literariedade O escritor de um texto literário. procura recriar a linguagem. ao invés de usar a expressão hoje em dia. Um outro exemplo interessante para mostrar a desautomatização da linguagem encontramos no poema Som. Antes da morte do pai e da mãe. em que o autor. correu pros meninos. para essa recriação. São alguns deles: · ritmos · sonoridades · rimas e aliterações a) Ritmo . de outro lado Rosinha. Rodando na praça.c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra. aquela canção ela cantara em menina. Texto 13 Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! (Casimiro de Abreu) Textos literários em prosa também podem apresentar efeitos sonoros e rítmicos. a cantar e a dançar. ao explorar conteúdos. De um lado Tuísca. cria a expressão hoje-em-noite. queriam dançar.evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. 2.

784) Neste poema. em forma de prosa. rodar. mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia. dançar. Poesia e prosa.por meio da sonoridade de um texto. Texto 15 Som Nem soneto nem sonata vou curtir um som dissonante dos sonidos som ressonante de sibildos som sonotinto de sonalhas nem sonoro nem sonouro vou curtir um som mui sonso.Este texto. Existem nele: · rimas (escutar. p. apresenta um ritmo e uma sonoridade que nos fazem lembrar os textos em verso. brincar). o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem. brinquedo de roda adorava brincar). explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos. · frases curtas com um número aproximado de sílabas: seus pés reclamavam queriam dançar resistir não podia brinquedo de roda adorava brincar de um lado Tuísca de outro lado Rosinha rodando na praça a cantar e a dançar Seja em prosa. sob a forma de palavras derivadas de som. b) Sonoridade . mui insolúvel som não sonoterápico bem insondável. Aguillar. aproveitando as associações de significantes. vou curtir um som ausente de qualquer música e rico de curtição (Carlos Drummond de Andrade. · inversões que contribuem para o ritmo e a rima (os pés pequeninos no chão a dançar. som de raspante derrapante rouco reco ronco rato som superenrolado com se sona hoje-em-noite vou curtir. Rio de Janeiro. o poeta faz a palavra som ecoar o tempo todo. evidenciar ou transformar o sentido que o léxico e a sintaxe dão às palavras e às frases. sem relação semântica com a palavra som. seja em verso. ou de vocábulos que apresentam a seqüência fônica s o n. 1979. Observe: soneto sonata dissonante sonouro sonoro sonso . é possível prolongar.

O texto abaixo exemplifica rimas emparelhadas. e ricas. Volúpias dos violões. vozes veladas. em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos. vulcanizadas. Dos laranjais hão de cair os pomos. Além disso. porque se sucedem duas a duas. ricas. preciosas. as misturadas. secreta/poeta: adjetivo e substantivo) . Rima é a conformidade ou identidade de fonemas. multicores/amores: adjetivo e substantivo. Neste sentido. vãs. as encadeadas. Existem muitas possibilidades de disposição das rimas nas estrofes do poema. que ocorre geralmente no final de dois versos diferentes. veludosas vozes. vivas. como nestes versos de Murilo Araújo.fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema. As mais freqüentes são as emparelhadas. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. pelas classes das palavras que rimam pela raridade das terminações. as opostas. de aço fino. mais uma vez. Texto 17 Vozes veladas. pobres. as alternadas. Texto 18 Hão de chorar por ela os cinamomos.sonidos insolúvel ressonante sonoterápico sontinto insondável sonalhas sona Há também uma seqüência onomatopaica. pois as palavras que rimam pertencem a diferentes classes gramaticais (retalha/toalha: verbo e substantivo. reproduzindo o ruído estridente da música moderna: ressonante derrapante raspante rouco reco ronco rato superenrolado c) Rimas e aliterações . Murchando as flores ao tombar do dia. límpido. que é definida pelo maior ou menor número de fonemas associados. imperfeitas. as rimas podem ser perfeitas. Nesta estrofe do soneto de Alphonsus de Guimaraens. as rimas podem ser classificadas em função da sua riqueza. Texto 16 O trilo dos grilos. Lembrando-se daquela que os colhia. o uso poético da linguagem. argentino. a repetição de vogais nasais e fechadas contribui para reforçar o conteúdo triste e sombrio. Hão de chorar por ela os cinamomos. muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. esgrime. tímido. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. No poema de Cruz e Souza. podendo aparecer também entre vocábulos no interior dos versos. com o raiozinho dos astros.

da linguagem em sua função poética. mais presa de uma dor tantálica e secreta de dia em dia murcha o louro do poeta! . nos trocadilhos a presença da linguagem poética. podemos perceber também na publicidade. nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes embalam-se avezinhas de penas multicores pejando a mata virgem de cânticos de amores.. . (Fagundes Varela) A literatura é o veículo. deslizam mansamente as garças alvejantes. nos jogos de palavras. nas brincadeiras infantis.Texto 19 Queixas do poeta No rio caudaloso que a solidão retalha. mas não é o único. por excelência. na funda correnteza na límpida toalha..

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