Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário, devemos considerar que o texto literário

tem uma dimensão estética, plurissignificativa e de intenso dinamismo, que possibilita a criação de novas relações de sentido, com predomínio da função poética da linguagem. É, portanto, um espaço relevante de reflexão sobre a realidade, envolvendo um processo de recriação lúdica dessa realidade. No texto não-literário, as relações são mais restritas, tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade, com predomínio da função referencial da linguagem, e na interação entre os indivíduos, com predomínio de outras funções.
A · · · · · produção de um texto literário implica: a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística

2.1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma, visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece, nos planos fônico, prosódico, léxico, morfo-sintático e semântico. Não é o tema, mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário. Assim, não há temas específicos de textos literários, nem temas inadequados a esse tipo de texto. Os dois textos que seguem têm o mesmo tema - o açúcar: no primeiro, a função poética é predominante. É uma das razões para ser considerado um texto literário. Já no segundo, puramente informativo, há o predomínio da função referencial. "O açúcar" (Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980, pp.227-228)
O açúcar O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e afável ao paladar como beijo de moça, água na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar não foi feito por mim. Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco

a cana-de-açúcar foi introduzida no Brasil pelos colonizadores portugueses no século XVI. A região que durante séculos foi a grande produtora de cana-de-açúcar no Brasil é a Zona da Mata nordestina. importante nos dias atuais como fonte de energia e de bebidas. Este açúcar era cana e veio dos canaviais extensos que não nascem por acaso no regaço do vale. onde não há hospital nem escola. Alagoas. São Paulo. doce. triste. onde os férteis solos de massapé. amarga. Comentários sobre os textos: "O açúcar" e "A cana-de-açúcar" O texto "O açúcar" parte de uma palavra do domínio comum . A imensa expansão dos canaviais no Brasil. Em lugares distantes. Atualmente.e a vida do trabalhador que o produz . puro . propiciaram condições favoráveis a esse cultivo. J. a) associações lexicais entre vocábulos do mesmo campo semântico: açúcar açucareiro dissolver usina cana canavial plantar colher mercearia comprar vender adoçar . homens de vida amarga e dura produziram este açúcar branco e puro com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. Além de produzir o açúcar. sociedade e espaço. lém da menor distância em relação ao mercado europeu. está ligada ao uso do álcool como combustível. Em usinas escuras. Brasil.W.branco. p. seguido de Pernambuco. a cana serve também para a produção de álcool. homens que não sabem ler e morrem de fome aos 27 anos plantaram e colheram a cana que viraria açúcar.ou no Estado do Rio e tampouco o fez o dono da usina. Rio de Janeiro e Minas Gerais.106) A cana-de-açúcar Originária da Ásia. o maior produtor nacional de cana-de-açúcar é São Paulo. que em parte é exportado e em parte abastece o mercado interno. explorando recursos formais para estabelecer um paralelo entre o açúcar .dura. 1992. especialmente em São Paulo. "A cana-de-açúcar" (Vesentini.e vai ampliando seu potencial significativo.açúcar . Ática.

de Portinari . o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional. um termo se define em função do que sabemos de outro: "Vejo-o [o açúcar] puro e afável como beijo de moça (como) água na pele (como) flor que se dissolve na boca No texto "A cana-de-açúcar". Por isso. através do confronto entre um determinado dado da realidade e o mesmo dado. como teve início seu cultivo no Brasil. de palavras que explicitam o que está sendo comparado.b) relações antitéticas: vida amarga e dura x açúcar branco e puro c) comparações: a comparação é o confronto de idéias por meio de conectivos. despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. d) uma foto de jornal .com o mesmo tema da foto. a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade. onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. reaproveitado em uma obra artística." 2. reordenando-a. f) imagens de pessoas se movimentando e uma escultura representando pessoas. 2. A título de exemplo. etc. os lugares onde é produzida. ou de produzi-lo. recriando o real num plano imaginário. g) uma pequena crítica sobre a passagem de uma escola de samba e a música Foi um rio que passou em minha vida ( Paulinho da Viola). num país como o Brasil. c) o som de uma cavalgada e a música Disparada ( Geraldo Vandré ). e por isso degradados ao nível da animalidade. e) várias cenas do cotidiano e uma colagem de Glauco Rodrigues. Refletindo a experiência cultural de um povo. de maneira indireta.2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real.Os retirantes. ou seja.uma foto dos sem-terra e um quadro . de expressão não-literária. Isso dá ao texto literário um caráter ficcional. citamos Platão e Fiorin (1991). Na comparação. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva. podem ser comparadas as seguintes situações: a) o barulho de buzinas na rua e uma música que use esse mesmo som. que dizem: "Graciliano Ramos. em VIDAS SECAS. o autor informa o leitor sobre a origem da cana-de-açúcar. Para caracterizar ou explicitar a diferença entre função informativa e função artísticoliterária da linguagem. inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias. b) o som de vozes de crianças brincando e a música Domingo no Parque (Gilberto Gil). as artes desempenham um papel muito importante.3 recriação da linguagem (desautomatização) .

F. (Fragmento. Mas o fogo avançava sobre eles. a Mec Central.111-113) Texto 8 . a coluna. São Paulo. repararam que a devastação tétrica lhes ameaçava a vida e era invencível pelo mato adentro. eretos. p. Rio de Janeiro. Canaã. Não houve feridos. ocorre a desautomatização da linguagem. a seguir.. o que os caracteriza como literário e não-literário. A viagem maravilhosa. pp. quase pelas terras alheias. A ação dos bombeiros evitou que prédios vizinhos fossem atingidos pelas chamas. respectivamente. atônitos. 19/02/97) . pp. Canaã. a propagação do fogo foi rápida. Português: linguagens. no Centro.) O aceiro foi sendo aberto até que o fogo se aproximou. Graça Aranha. Apud William Cereja e Thereza Magalhães. destruiu no início da madrugada de ontem um prédio de quatro andares na Rua Teófilo Otoni."Carnaval" (Graça Aranha. 1990. O fogo não tardou a penetrar num pequeno taquaral. que eram a ossatura do monstro. avançava solene. pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. Atual. 38. possivelmente provocado por um curto-circuito. singular. revelando assim novas formas de ver o mundo. O fumo crescia e subia no ar rubro.178) Texto 7 A queimada Num alvoroço de alegria. (Jornal do Brasil. Rio de Janeiro."A queimada" (Fragmento. baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer."Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" (Jornal do Brasil.Briguiet. Apresentamos. os homens viam amarelecer a folhagem que era a carne e fender-se os troncos firmes.No texto literário. os estampidos redobravam. são comparados em relação aos recursos lingüísticos utilizados. O prédio era de construção antiga e estava em obras. O fogo começou no primeiro andar. a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem. aquecida até o seio. (.111-113) Texto 8 Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro Um incêndio. 19/02/97) Texto 9 . como havia grande quantidade de madeira estocada. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. que tratam do mesmo tema. como um ser animado. relacionada ao processo de recriação do real. Surpresos. Texto 7 .F. Assim. combinando-as de maneira inusitada. interrompendo-lhes o prazer. quando a taboca estalava nas chamas. Graça Aranha. sôfrega por saciar o apetite. Sobre a terra queimada na superfície. três textos que exemplificam esse processo: os dois primeiros. continuava a queda dos galhos. as labaredas esguichavam. incendiado. enquanto a fogueira circundava num abraço a moita de bambus.Briguiet. onde funcionava uma empresa especializada na venda e fabricação de componentes eletrônicos.. Ouviam-se sucessivas e medonhas descargas de um tiroteio.

movem-se os cheiros. o fogo. encantamento do barulho. cheiros se fundem em gostos de gengibre.178) . lutam. propagação do fogo. Neste texto. Apud William Cereja e Thereza Magalhães. dançando. Texto 9 Carnaval Maravilha do ruído. por apresentar inúmeros recursos expressivos: metáforas (folhagem/carne. de bocas e de mucosa. No texto 8. lúbricos. atribuindo-lhe características próprias de seres animados. "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro". Viola chora e espinoteia. Zé Pereira. informar-se. Instrumentos sem nome inventados subitamente no delírio da improvisação. o plano do conteúdo. desfilando sob o verde das árvores. como um texto literário. zombeteiam. saxofones. Português: linguagens. cheiro de todos os matizes. como solene. como um ser animado. a descrição de uma queimada. saboreiam. feiticeira. bumba. de todas as excitações e de todas as náuseas. do ímpeto musical. reco-recos. Dentro dos sons movem-se cores. sons. tresandam. p. A linguagem deste texto é denotativa. klaxons. Tudo é encanto. troncos/ossos. o movimento dos tatos violentos. sôfrega. gritam. Libertação dos sentidos envolventes das massas frenéticas. cuja finalidade é documentar. meigos. flautas. que maxixam. transmitir notícias. pulando. o prédio. de Madureira à Gávea. não apresenta nenhuma combinação nova ou inusitada de palavras. a ação dos bombeiros. cheia de apetite. de castanhas. liras. Dentro dos cheiros. Tatos. cheiro branco. arrebentam no ar sonoro dos ventos. alucinantes. cheiro mulato. melosa. cores. seu conteúdo pode ser resumido sem prejuízo da informação que ele contém. bumba. de laranja. brutais.Comentários sobre os textos 7 e 8 : "A Queimada" e "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" Reconhecemos o texto 7. Trata-se. Texto 7 Texto 8 "a coluna avançava solene e sôfrega" "o incêndio começou no primeiro andar" "a propagação foi rápida" adjetivação metafórica: troncos firmes e eretos descargas medonhas ar rubro ausência de adjetivação: o incêndio. "A Queimada". por isto. aços estrepitosos. gaitas e trombetas. é recriado no plano da expressão. o leitor passa pelo plano da expressão e vai direto ao conteúdo para entender. A viagem maravilhosa. suaves. cheiro de negro. Atual. vivas . Melopéia negra. deslumbram. violões. O autor fala da queimada como se ela fosse um ser vivo. ardentes. Dentro dos sons e das cores. vaias. pandeiros. Os sons se sacodem. na unidade do prazer desencadeado. (Graça Aranha. de um texto não-literário. candomblé. de mendubim. o ar rubro) e comparações (a coluna. São Paulo. berram. Falsetes azucrinam. avançava solene). em face do azul da baía no mundo dourado. de bananas. Tudo é instrumento.

"Carnaval" Neste texto. vivas.4 Plurissignificação O trabalho de recriação que se efetiva na construção do texto literário é uma atividade lúdica. pela sexualidade. Acompanhando esses sons. Tudo isto é o carnaval . como acontece nas outras manifestações artísticas. dançando. Sons: · viola chora e espinoteia · os sons se sacodem. misturando seus cheiros. Ao ritmo dos sons e cores. proporcionando um "prazer desencadeado". mas o que pensa ver. seu estado emocional. uma brincadeira com a linguagem.. cheiros. de castanhas. o contato físico entre as pessoas. pelo carinho.. Cheiros: · movem-se os cheiros. de laranja. brutais. suaves. o que sente. de bocas e de mucosa. Gosto: · gostos de gengibre.Comentários sobre o texto 9 . alucinantes. de todas as excitações e de todas as náuseas. combinando as palavras de forma inesperada. com o objetivo de despertar no leitor o prazer estético. ruídos e sons de diversos instrumentos enchem o ar. Todas as árvores quiseram ver o salto original. O autor. Isto é o que define seu caráter plurissignificativo. Esse contato íntimo conduz a uma fusão de bocas e gostos. variados e inebriantes. Em primeiro lugar. observador atento de uma cena. cheiro de negro. 2. Então quedaram-se todas . No texto literário. faz-se igualmente um amplo uso de metáforas e metonímias. a expressão literária se caracteriza pela conotação . Enquanto atividade de recriação. Ele não descreve o que vê. cheiro branco. as cores da natureza e das fantasias se movem. tocando-se das mais diversas formas: pela luta. Texto 10 . ardentes.. revelando novas imagens decorrentes dessas combinações. desfilam. criando novos significados. cores. Tato: · o movimento dos tatos violentos. Por isso. expressa seu modo de ver o mundo. ao passo que a expressão não-literária se reconhece pelo seu caráter denotativo . a mistura de raças. a euforia da festa. o texto literário provoca um prazer estético em seu fruidor."Acrobatismo" (Cassiano Ricardo) Acrobatismo Parou o vento. berram. os cinco sentidos são explorados de maneira simbólica e inusitada: sons. suas preferências. lutam. cheiro de todos os matizes. de mendubim. cheiro mulato. tatos e gostos vão se sucedendo para descrever o carnaval. de bananas. Cores: · movem-se cores. arrebentam no ar sonoro .. pulando. movem-se as pessoas das diversas raças. seu ambiente. desfilando . lúbricos. meigos."libertação dos sentidos".

substituir vocábulos por sinônimos. Mais informações sobre os conceitos de conotação e de denotação são apresentados no item 1 do índice. por exemplo. Nisto uma folha sai. a partir de suas respostas. de uma rama. No Soneto da Separação. a maciez). As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. pelo uso de recursos poéticos. isto é. muito viva. Podemos. a cor. Pelo trabalho com a linguagem. permitem que se estabeleça entre eles uma relação. 2.com os seus anéis azuis de orvalho e os seus colares de ouro teatral. Foi como se um silêncio fofo de veludo Começasse a passear seus pés de lã por tudo. quando se resume um texto literário. a metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". Não podemos. Texto 11 Soneto da Separação . uso de palavras fora do seu sentido normal. perde-se o essencial."Acrobatismo" Neste poema. (1978). criada no trabalho mental de apreensão. Comentários sobre o texto 10 . textos líricos. entre o tapete de grama e o chão recoberto de vegetação (têm em comum a cor. a partir da qual se cria uma metáfora. mudar a posição em que as palavras foram colocadas. A esse respeito. Poderão surgir. a forma). Segundo Mattoso Câmara Jr. portanto. perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa." Assim. há um amplo uso de metáforas. resumir as idéias. por exemplo. Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. e vai cair sem o menor rumor sobre o tapete da grama. por exemplo. apreende-se o essencial. entre o palhaço verde e o louva-a-deus (traços comuns: a cor. a acrobacia de um e outro). quando se resume um texto não-literário.5 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade. sua intocabilidade. entre a folha e o louva-a-deus traços comuns como a leveza de movimento. prestando muita atenção. e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. É um louva-a-deus lépido e longo que se jogou de um trapézio como um pequeno palhaço verde e lá se foi a rodopiar às cambalhotas no ar. num texto literário. seu soneto é um texto literário. o poeta francês Paul Valéry diz que. O mesmo acontece entre o trapézio e o galho de onde o inseto se jogou no ar (um traço comum entre eles é. poéticos e textos não-literários. suprimir ou acrescentar vocábulos.

a seguir. Apresentamos. Texto 12 Meu povo. De repente. "Ao povo seu poema. meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a ávore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta Comentários sobre o texto 12 Quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem. b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" . De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama.De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. não mais que de repente. podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. a partir do qual são feitos comentários que evidenciam algumas características da expressão literária apontadas no embasamento teórico. Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore. um poema de Ferreira Gullar (texto 12) . o povo e o poema crescem como a árvore nova." . não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. "no povo meu poema".

evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. de outro lado Rosinha.o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar. o poeta é comparado a um plantador. antes de ir para a casa dos tios. Antes da morte do pai e da mãe. largou na calçada. Rodando na praça. Texto 13 Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! (Casimiro de Abreu) Textos literários em prosa também podem apresentar efeitos sonoros e rítmicos. e. de Jorge Amado) . São alguns deles: · ritmos · sonoridades · rimas e aliterações a) Ritmo . aquela canção ela cantara em menina. Como exemplo. para essa recriação. procura recriar a linguagem. Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética. ao invés de usar a expressão hoje em dia. Resistir não podia. crescer. cravo e canela".6 recursos fônicos característicos da literariedade O escritor de um texto literário. De um lado Tuísca. Que beleza os pés pequeninos no chão a dançar! Seus pés reclamavam. Arrancou os sapatos. poema/árvore. o poema é o fruto que ele produz (metáfora). de Jorge Amado (texto 14) Texto 14 "Gabriela ia andando. de Carlos Drummond de Andrade (texto 15). d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro. terra fértil. cravo e canela. Parou a escutar. transcrevemos um trecho do romance "Gabriela. correu pros meninos. Um outro exemplo interessante para mostrar a desautomatização da linguagem encontramos no poema Som. a ver a roda rodar. a cantar e a dançar. já cristalizada na língua.c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra. queriam dançar. 2." (Gabriela. em que o autor. brinquedo de roda adorava brincar. utiliza recursos variados." Dois planos foram explorados -. cria a expressão hoje-em-noite. ao explorar conteúdos.

explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos.Este texto. Observe: soneto sonata dissonante sonouro sonoro sonso . Aguillar. p. sem relação semântica com a palavra som. Rio de Janeiro. brinquedo de roda adorava brincar). rodar. Texto 15 Som Nem soneto nem sonata vou curtir um som dissonante dos sonidos som ressonante de sibildos som sonotinto de sonalhas nem sonoro nem sonouro vou curtir um som mui sonso. é possível prolongar. o poeta faz a palavra som ecoar o tempo todo. Existem nele: · rimas (escutar. b) Sonoridade . seja em verso. brincar). vou curtir um som ausente de qualquer música e rico de curtição (Carlos Drummond de Andrade. ou de vocábulos que apresentam a seqüência fônica s o n. em forma de prosa. dançar. Poesia e prosa. mui insolúvel som não sonoterápico bem insondável. evidenciar ou transformar o sentido que o léxico e a sintaxe dão às palavras e às frases. · frases curtas com um número aproximado de sílabas: seus pés reclamavam queriam dançar resistir não podia brinquedo de roda adorava brincar de um lado Tuísca de outro lado Rosinha rodando na praça a cantar e a dançar Seja em prosa. 1979. sob a forma de palavras derivadas de som. apresenta um ritmo e uma sonoridade que nos fazem lembrar os textos em verso. · inversões que contribuem para o ritmo e a rima (os pés pequeninos no chão a dançar. som de raspante derrapante rouco reco ronco rato som superenrolado com se sona hoje-em-noite vou curtir. o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem.por meio da sonoridade de um texto. aproveitando as associações de significantes.784) Neste poema. mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia.

tímido. No poema de Cruz e Souza. Murchando as flores ao tombar do dia. as opostas. podendo aparecer também entre vocábulos no interior dos versos. preciosas. e ricas. Texto 17 Vozes veladas. pelas classes das palavras que rimam pela raridade das terminações. vozes veladas.fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema. multicores/amores: adjetivo e substantivo. mais uma vez. que ocorre geralmente no final de dois versos diferentes. Hão de chorar por ela os cinamomos. as rimas podem ser perfeitas. as alternadas. Texto 16 O trilo dos grilos. que é definida pelo maior ou menor número de fonemas associados. argentino. Volúpias dos violões. esgrime. o uso poético da linguagem. ricas. de aço fino. muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. Além disso. Texto 18 Hão de chorar por ela os cinamomos. Neste sentido. secreta/poeta: adjetivo e substantivo) .sonidos insolúvel ressonante sonoterápico sontinto insondável sonalhas sona Há também uma seqüência onomatopaica. Rima é a conformidade ou identidade de fonemas. como nestes versos de Murilo Araújo. porque se sucedem duas a duas. veludosas vozes. O texto abaixo exemplifica rimas emparelhadas. em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. a repetição de vogais nasais e fechadas contribui para reforçar o conteúdo triste e sombrio. Existem muitas possibilidades de disposição das rimas nas estrofes do poema. vulcanizadas. Nesta estrofe do soneto de Alphonsus de Guimaraens. com o raiozinho dos astros. As mais freqüentes são as emparelhadas. as encadeadas. reproduzindo o ruído estridente da música moderna: ressonante derrapante raspante rouco reco ronco rato superenrolado c) Rimas e aliterações . as misturadas. Dos laranjais hão de cair os pomos. pois as palavras que rimam pertencem a diferentes classes gramaticais (retalha/toalha: verbo e substantivo. as rimas podem ser classificadas em função da sua riqueza. vivas. imperfeitas. límpido. Lembrando-se daquela que os colhia. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. vãs. pobres.

nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes embalam-se avezinhas de penas multicores pejando a mata virgem de cânticos de amores. deslizam mansamente as garças alvejantes.Texto 19 Queixas do poeta No rio caudaloso que a solidão retalha. mais presa de uma dor tantálica e secreta de dia em dia murcha o louro do poeta! . nos jogos de palavras. (Fagundes Varela) A literatura é o veículo. por excelência... . na funda correnteza na límpida toalha. nos trocadilhos a presença da linguagem poética. podemos perceber também na publicidade. da linguagem em sua função poética. nas brincadeiras infantis. mas não é o único.

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