Texto literário e texto não-literário Relacionando o texto literário ao não-literário, devemos considerar que o texto literário

tem uma dimensão estética, plurissignificativa e de intenso dinamismo, que possibilita a criação de novas relações de sentido, com predomínio da função poética da linguagem. É, portanto, um espaço relevante de reflexão sobre a realidade, envolvendo um processo de recriação lúdica dessa realidade. No texto não-literário, as relações são mais restritas, tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade, com predomínio da função referencial da linguagem, e na interação entre os indivíduos, com predomínio de outras funções.
A · · · · · produção de um texto literário implica: a valorização da forma a reflexão sobre o real a reconstrução da linguagem a plurissignificação a intangibilidade da organização lingüística

2.1 valorização da forma O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma, visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece, nos planos fônico, prosódico, léxico, morfo-sintático e semântico. Não é o tema, mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário. Assim, não há temas específicos de textos literários, nem temas inadequados a esse tipo de texto. Os dois textos que seguem têm o mesmo tema - o açúcar: no primeiro, a função poética é predominante. É uma das razões para ser considerado um texto literário. Já no segundo, puramente informativo, há o predomínio da função referencial. "O açúcar" (Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980, pp.227-228)
O açúcar O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e afável ao paladar como beijo de moça, água na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar não foi feito por mim. Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco

seguido de Pernambuco. Rio de Janeiro e Minas Gerais.branco. "A cana-de-açúcar" (Vesentini. onde não há hospital nem escola.açúcar . Este açúcar era cana e veio dos canaviais extensos que não nascem por acaso no regaço do vale. p. doce. São Paulo. A região que durante séculos foi a grande produtora de cana-de-açúcar no Brasil é a Zona da Mata nordestina. Comentários sobre os textos: "O açúcar" e "A cana-de-açúcar" O texto "O açúcar" parte de uma palavra do domínio comum . a) associações lexicais entre vocábulos do mesmo campo semântico: açúcar açucareiro dissolver usina cana canavial plantar colher mercearia comprar vender adoçar . Atualmente. A imensa expansão dos canaviais no Brasil.dura. onde os férteis solos de massapé. que em parte é exportado e em parte abastece o mercado interno.ou no Estado do Rio e tampouco o fez o dono da usina. sociedade e espaço. a cana serve também para a produção de álcool.W.e vai ampliando seu potencial significativo. homens que não sabem ler e morrem de fome aos 27 anos plantaram e colheram a cana que viraria açúcar.e a vida do trabalhador que o produz . 1992. Ática. Brasil. Além de produzir o açúcar. lém da menor distância em relação ao mercado europeu. triste. especialmente em São Paulo. J. Em lugares distantes. a cana-de-açúcar foi introduzida no Brasil pelos colonizadores portugueses no século XVI. Alagoas. homens de vida amarga e dura produziram este açúcar branco e puro com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. o maior produtor nacional de cana-de-açúcar é São Paulo. explorando recursos formais para estabelecer um paralelo entre o açúcar . está ligada ao uso do álcool como combustível. Em usinas escuras.106) A cana-de-açúcar Originária da Ásia. puro . amarga. importante nos dias atuais como fonte de energia e de bebidas. propiciaram condições favoráveis a esse cultivo.

um termo se define em função do que sabemos de outro: "Vejo-o [o açúcar] puro e afável como beijo de moça (como) água na pele (como) flor que se dissolve na boca No texto "A cana-de-açúcar". através do confronto entre um determinado dado da realidade e o mesmo dado. etc. de palavras que explicitam o que está sendo comparado. de expressão não-literária. d) uma foto de jornal . Por isso. os lugares onde é produzida. f) imagens de pessoas se movimentando e uma escultura representando pessoas. o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva. reaproveitado em uma obra artística. onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas. e por isso degradados ao nível da animalidade. inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias.b) relações antitéticas: vida amarga e dura x açúcar branco e puro c) comparações: a comparação é o confronto de idéias por meio de conectivos. de maneira indireta. o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional. citamos Platão e Fiorin (1991). de Portinari . despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais. b) o som de vozes de crianças brincando e a música Domingo no Parque (Gilberto Gil). a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade.Os retirantes. recriando o real num plano imaginário.3 recriação da linguagem (desautomatização) . ou seja. A título de exemplo. num país como o Brasil.com o mesmo tema da foto. em VIDAS SECAS. que dizem: "Graciliano Ramos. ou de produzi-lo. como teve início seu cultivo no Brasil. podem ser comparadas as seguintes situações: a) o barulho de buzinas na rua e uma música que use esse mesmo som. g) uma pequena crítica sobre a passagem de uma escola de samba e a música Foi um rio que passou em minha vida ( Paulinho da Viola). o autor informa o leitor sobre a origem da cana-de-açúcar. Refletindo a experiência cultural de um povo. reordenando-a. Para caracterizar ou explicitar a diferença entre função informativa e função artísticoliterária da linguagem.uma foto dos sem-terra e um quadro . Isso dá ao texto literário um caráter ficcional. e) várias cenas do cotidiano e uma colagem de Glauco Rodrigues. as artes desempenham um papel muito importante. c) o som de uma cavalgada e a música Disparada ( Geraldo Vandré ). Na comparação. 2." 2.2 reflexão sobre o real Em lugar de apenas informar sobre o real.

Graça Aranha. pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano. que tratam do mesmo tema. 1990. Assim. A ação dos bombeiros evitou que prédios vizinhos fossem atingidos pelas chamas. Ouviam-se sucessivas e medonhas descargas de um tiroteio. Mas o fogo avançava sobre eles. Atual. baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer. três textos que exemplificam esse processo: os dois primeiros. a coluna. Apresentamos. ocorre a desautomatização da linguagem. São Paulo.111-113) Texto 8 Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro Um incêndio. Não houve feridos.Briguiet..F. 19/02/97) . Sobre a terra queimada na superfície. O fogo começou no primeiro andar. quase pelas terras alheias.111-113) Texto 8 . os estampidos redobravam. possivelmente provocado por um curto-circuito. eretos. continuava a queda dos galhos. Canaã. 19/02/97) Texto 9 ."A queimada" (Fragmento. são comparados em relação aos recursos lingüísticos utilizados. incendiado. repararam que a devastação tétrica lhes ameaçava a vida e era invencível pelo mato adentro.178) Texto 7 A queimada Num alvoroço de alegria. p.No texto literário. o que os caracteriza como literário e não-literário. revelando assim novas formas de ver o mundo. 38. no Centro. O fogo não tardou a penetrar num pequeno taquaral. Graça Aranha. O fumo crescia e subia no ar rubro."Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" (Jornal do Brasil. Surpresos. sôfrega por saciar o apetite. pp. como havia grande quantidade de madeira estocada. Rio de Janeiro. interrompendo-lhes o prazer.. a seguir. pp."Carnaval" (Graça Aranha. (Jornal do Brasil. Apud William Cereja e Thereza Magalhães. enquanto a fogueira circundava num abraço a moita de bambus. destruiu no início da madrugada de ontem um prédio de quatro andares na Rua Teófilo Otoni.F. Canaã. como um ser animado. atônitos. Rio de Janeiro. respectivamente. aquecida até o seio. O prédio era de construção antiga e estava em obras. a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem. onde funcionava uma empresa especializada na venda e fabricação de componentes eletrônicos. avançava solene. que eram a ossatura do monstro. singular. as labaredas esguichavam. Português: linguagens. a propagação do fogo foi rápida. os homens viam amarelecer a folhagem que era a carne e fender-se os troncos firmes. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras. A viagem maravilhosa. quando a taboca estalava nas chamas. a Mec Central. combinando-as de maneira inusitada. Texto 7 .) O aceiro foi sendo aberto até que o fogo se aproximou. (Fragmento. relacionada ao processo de recriação do real.Briguiet. (.

Dentro dos sons movem-se cores. Dentro dos cheiros. seu conteúdo pode ser resumido sem prejuízo da informação que ele contém. Atual. O autor fala da queimada como se ela fosse um ser vivo. pandeiros. do ímpeto musical. dançando. desfilando sob o verde das árvores. feiticeira. Dentro dos sons e das cores. cheiro mulato. lúbricos. Trata-se. violões. Tatos. como um texto literário. candomblé. Apud William Cereja e Thereza Magalhães. Instrumentos sem nome inventados subitamente no delírio da improvisação. por apresentar inúmeros recursos expressivos: metáforas (folhagem/carne. a descrição de uma queimada. sons. sôfrega. pulando. em face do azul da baía no mundo dourado. (Graça Aranha. troncos/ossos. de mendubim. cheia de apetite. por isto. transmitir notícias. o prédio. bumba. tresandam. gaitas e trombetas. reco-recos. cheiro de todos os matizes. p. encantamento do barulho. de laranja. São Paulo. berram. o plano do conteúdo. saboreiam. Texto 9 Carnaval Maravilha do ruído. "A Queimada". cuja finalidade é documentar. atribuindo-lhe características próprias de seres animados. de castanhas. a ação dos bombeiros. Zé Pereira. flautas. avançava solene). é recriado no plano da expressão.Comentários sobre os textos 7 e 8 : "A Queimada" e "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" Reconhecemos o texto 7. movem-se os cheiros. melosa. alucinantes. informar-se. deslumbram. propagação do fogo. saxofones. de Madureira à Gávea. A viagem maravilhosa. Neste texto. Tudo é instrumento.178) . como solene. de um texto não-literário. Falsetes azucrinam. que maxixam. suaves. brutais. meigos. vaias. No texto 8. aços estrepitosos. Português: linguagens. cheiros se fundem em gostos de gengibre. bumba. Melopéia negra. Os sons se sacodem. A linguagem deste texto é denotativa. o movimento dos tatos violentos. Texto 7 Texto 8 "a coluna avançava solene e sôfrega" "o incêndio começou no primeiro andar" "a propagação foi rápida" adjetivação metafórica: troncos firmes e eretos descargas medonhas ar rubro ausência de adjetivação: o incêndio. de bananas. gritam. de bocas e de mucosa. zombeteiam. ardentes. de todas as excitações e de todas as náuseas. Libertação dos sentidos envolventes das massas frenéticas. Viola chora e espinoteia. "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro". o fogo. o ar rubro) e comparações (a coluna. na unidade do prazer desencadeado. cores. lutam. como um ser animado. liras. vivas . o leitor passa pelo plano da expressão e vai direto ao conteúdo para entender. não apresenta nenhuma combinação nova ou inusitada de palavras. arrebentam no ar sonoro dos ventos. cheiro de negro. klaxons. Tudo é encanto. cheiro branco.

o que sente. Sons: · viola chora e espinoteia · os sons se sacodem. Texto 10 . 2. Enquanto atividade de recriação. desfilando . arrebentam no ar sonoro . Cheiros: · movem-se os cheiros. Acompanhando esses sons. o texto literário provoca um prazer estético em seu fruidor. de bananas..Comentários sobre o texto 9 . ardentes. pelo carinho. tocando-se das mais diversas formas: pela luta. de mendubim. de bocas e de mucosa. Ele não descreve o que vê. mas o que pensa ver. suaves."libertação dos sentidos". observador atento de uma cena. cheiro branco. cheiro de todos os matizes. Cores: · movem-se cores. movem-se as pessoas das diversas raças. meigos. dançando. de laranja.. as cores da natureza e das fantasias se movem. berram. desfilam. uma brincadeira com a linguagem. suas preferências. Isto é o que define seu caráter plurissignificativo. Tato: · o movimento dos tatos violentos. cheiro de negro. ruídos e sons de diversos instrumentos enchem o ar. a euforia da festa. cheiros. faz-se igualmente um amplo uso de metáforas e metonímias. Em primeiro lugar. Esse contato íntimo conduz a uma fusão de bocas e gostos. combinando as palavras de forma inesperada. de todas as excitações e de todas as náuseas. revelando novas imagens decorrentes dessas combinações. expressa seu modo de ver o mundo. alucinantes. Então quedaram-se todas . Ao ritmo dos sons e cores. com o objetivo de despertar no leitor o prazer estético. lutam. vivas. cheiro mulato. Gosto: · gostos de gengibre. proporcionando um "prazer desencadeado". O autor. cores.4 Plurissignificação O trabalho de recriação que se efetiva na construção do texto literário é uma atividade lúdica. seu estado emocional. brutais. a mistura de raças.. o contato físico entre as pessoas."Acrobatismo" (Cassiano Ricardo) Acrobatismo Parou o vento. misturando seus cheiros. a expressão literária se caracteriza pela conotação . lúbricos. seu ambiente."Carnaval" Neste texto. os cinco sentidos são explorados de maneira simbólica e inusitada: sons. pela sexualidade. pulando. ao passo que a expressão não-literária se reconhece pelo seu caráter denotativo . Por isso. variados e inebriantes. tatos e gostos vão se sucedendo para descrever o carnaval. como acontece nas outras manifestações artísticas. Tudo isto é o carnaval . de castanhas. Todas as árvores quiseram ver o salto original. criando novos significados. No texto literário..

e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. resumir as idéias." Assim. quando se resume um texto não-literário. Nisto uma folha sai. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto. (1978). criada no trabalho mental de apreensão. O mesmo acontece entre o trapézio e o galho de onde o inseto se jogou no ar (um traço comum entre eles é. num texto literário. muito viva. Não podemos. a partir da qual se cria uma metáfora. e vai cair sem o menor rumor sobre o tapete da grama. sua intocabilidade. entre o palhaço verde e o louva-a-deus (traços comuns: a cor. Poderão surgir. há um amplo uso de metáforas. perde-se o essencial. A esse respeito. No Soneto da Separação. Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. Podemos. apreende-se o essencial. por exemplo. textos líricos."Acrobatismo" Neste poema. poéticos e textos não-literários.com os seus anéis azuis de orvalho e os seus colares de ouro teatral. entre o tapete de grama e o chão recoberto de vegetação (têm em comum a cor. uso de palavras fora do seu sentido normal. a forma). perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa. permitem que se estabeleça entre eles uma relação. por exemplo. quando se resume um texto literário. Foi como se um silêncio fofo de veludo Começasse a passear seus pés de lã por tudo. a maciez). Pelo trabalho com a linguagem. entre a folha e o louva-a-deus traços comuns como a leveza de movimento. substituir vocábulos por sinônimos. a cor. seu soneto é um texto literário. Segundo Mattoso Câmara Jr. de uma rama. por exemplo. pelo uso de recursos poéticos. prestando muita atenção. Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva. suprimir ou acrescentar vocábulos. Texto 11 Soneto da Separação . É um louva-a-deus lépido e longo que se jogou de um trapézio como um pequeno palhaço verde e lá se foi a rodopiar às cambalhotas no ar. 2. a partir de suas respostas. portanto. a metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". Mais informações sobre os conceitos de conotação e de denotação são apresentados no item 1 do índice. a acrobacia de um e outro). o poeta francês Paul Valéry diz que.5 intangibilidade da organização lingüística Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade. Comentários sobre o texto 10 . mudar a posição em que as palavras foram colocadas. isto é.

o povo e o poema crescem como a árvore nova. "no povo meu poema"." . b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" . De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. podemos observar: a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar. De repente.De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mão espalmadas fez-se o espanto. meu poema Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a ávore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em terra fértil Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta Comentários sobre o texto 12 Quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem. Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore. um poema de Ferreira Gullar (texto 12) . Texto 12 Meu povo. "Ao povo seu poema. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente. a seguir. não mais que de repente. não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. a partir do qual são feitos comentários que evidenciam algumas características da expressão literária apontadas no embasamento teórico. Apresentamos.

Que beleza os pés pequeninos no chão a dançar! Seus pés reclamavam. Antes da morte do pai e da mãe. 2. cria a expressão hoje-em-noite. ao explorar conteúdos." Dois planos foram explorados -. De um lado Tuísca. terra fértil. aquela canção ela cantara em menina. Um outro exemplo interessante para mostrar a desautomatização da linguagem encontramos no poema Som." (Gabriela. para essa recriação. correu pros meninos. e. de Jorge Amado) . cravo e canela". procura recriar a linguagem. de outro lado Rosinha. d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro. a ver a roda rodar. Texto 13 Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! (Casimiro de Abreu) Textos literários em prosa também podem apresentar efeitos sonoros e rítmicos.o do real e o da recriação da realidade: Real -> o campo da agricultura: plantar. a cantar e a dançar. já cristalizada na língua.evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação. em que o autor. São alguns deles: · ritmos · sonoridades · rimas e aliterações a) Ritmo . Como exemplo. ao invés de usar a expressão hoje em dia. o poema é o fruto que ele produz (metáfora). cravo e canela.6 recursos fônicos característicos da literariedade O escritor de um texto literário. de Carlos Drummond de Andrade (texto 15). Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética. utiliza recursos variados. de Jorge Amado (texto 14) Texto 14 "Gabriela ia andando. Arrancou os sapatos. o poeta é comparado a um plantador. Parou a escutar. brinquedo de roda adorava brincar. poema/árvore. crescer.c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra. Rodando na praça. antes de ir para a casa dos tios. Resistir não podia. queriam dançar. transcrevemos um trecho do romance "Gabriela. largou na calçada.

por meio da sonoridade de um texto. evidenciar ou transformar o sentido que o léxico e a sintaxe dão às palavras e às frases. Observe: soneto sonata dissonante sonouro sonoro sonso . brinquedo de roda adorava brincar). Existem nele: · rimas (escutar. p. é possível prolongar. ou de vocábulos que apresentam a seqüência fônica s o n. aproveitando as associações de significantes. apresenta um ritmo e uma sonoridade que nos fazem lembrar os textos em verso. mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia. b) Sonoridade . Texto 15 Som Nem soneto nem sonata vou curtir um som dissonante dos sonidos som ressonante de sibildos som sonotinto de sonalhas nem sonoro nem sonouro vou curtir um som mui sonso. sob a forma de palavras derivadas de som. Rio de Janeiro.Este texto. rodar. vou curtir um som ausente de qualquer música e rico de curtição (Carlos Drummond de Andrade. 1979. brincar). som de raspante derrapante rouco reco ronco rato som superenrolado com se sona hoje-em-noite vou curtir.784) Neste poema. o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem. o poeta faz a palavra som ecoar o tempo todo. explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos. · frases curtas com um número aproximado de sílabas: seus pés reclamavam queriam dançar resistir não podia brinquedo de roda adorava brincar de um lado Tuísca de outro lado Rosinha rodando na praça a cantar e a dançar Seja em prosa. Aguillar. seja em verso. em forma de prosa. · inversões que contribuem para o ritmo e a rima (os pés pequeninos no chão a dançar. Poesia e prosa. mui insolúvel som não sonoterápico bem insondável. dançar. sem relação semântica com a palavra som.

e ricas. podendo aparecer também entre vocábulos no interior dos versos. Neste sentido. ricas. Texto 17 Vozes veladas. As mais freqüentes são as emparelhadas. argentino. mais uma vez. as rimas podem ser classificadas em função da sua riqueza. No poema de Cruz e Souza. imperfeitas. reproduzindo o ruído estridente da música moderna: ressonante derrapante raspante rouco reco ronco rato superenrolado c) Rimas e aliterações . Nesta estrofe do soneto de Alphonsus de Guimaraens. que ocorre geralmente no final de dois versos diferentes. Rima é a conformidade ou identidade de fonemas. multicores/amores: adjetivo e substantivo. esgrime. Dos laranjais hão de cair os pomos. vulcanizadas. que é definida pelo maior ou menor número de fonemas associados. Murchando as flores ao tombar do dia. a repetição de vogais nasais e fechadas contribui para reforçar o conteúdo triste e sombrio. a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia. secreta/poeta: adjetivo e substantivo) . Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. de aço fino. o uso poético da linguagem. límpido. vãs. preciosas. Hão de chorar por ela os cinamomos. Texto 16 O trilo dos grilos.sonidos insolúvel ressonante sonoterápico sontinto insondável sonalhas sona Há também uma seqüência onomatopaica. Existem muitas possibilidades de disposição das rimas nas estrofes do poema. as alternadas. as misturadas. as opostas. vozes veladas. como nestes versos de Murilo Araújo. pelas classes das palavras que rimam pela raridade das terminações. porque se sucedem duas a duas. Volúpias dos violões.fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema. muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema. pobres. veludosas vozes. pois as palavras que rimam pertencem a diferentes classes gramaticais (retalha/toalha: verbo e substantivo. em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos. as rimas podem ser perfeitas. Lembrando-se daquela que os colhia. O texto abaixo exemplifica rimas emparelhadas. com o raiozinho dos astros. Texto 18 Hão de chorar por ela os cinamomos. vivas. tímido. as encadeadas. Além disso.

. mais presa de uma dor tantálica e secreta de dia em dia murcha o louro do poeta! . da linguagem em sua função poética. (Fagundes Varela) A literatura é o veículo.. na funda correnteza na límpida toalha. mas não é o único. nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes embalam-se avezinhas de penas multicores pejando a mata virgem de cânticos de amores.Texto 19 Queixas do poeta No rio caudaloso que a solidão retalha. por excelência. deslizam mansamente as garças alvejantes. nos trocadilhos a presença da linguagem poética. nos jogos de palavras. nas brincadeiras infantis.. podemos perceber também na publicidade.

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