Você está na página 1de 25

1

A POLÍTICA ECONÔMICA DO PETRÓLEO NO BRASIL

Wladmir Tadeu Silveira Coelho

Mestre em Direito e Historiador

Sumário:

1- Introdução
2- O interesse do Direito Econômico no tema
3 – Elementos formadores da Política Econômica do Petróleo
3-1 Estado e organização do mercado internacional do petróleo no início do século XX
3-2 A negação da soberania nacional como forma de organização do mercado internacional do
petróleo
4 – A organização da produção petrolífera no Brasil
4-1 O período liberal republicano
4-2 A primeira fase de regulamentação
4-3 O breve período de proteção à iniciativa privada nacional
5 – O Estado empresário
5-1 O monopólio estatal do petróleo
5-2 A difícil efetivação do monopólio do petróleo
6 – A Constituição de 1988: O retorno do monopólio do petróleo
6-1 – A quebra do monopólio: O modelo regulatório
7 – O modelo regulatório do pré-sal
7-1 – A manutenção da intervenção do Estado no modelo regulatório
7-2 – A proposta governamental para o marco regulatório do pré-sal
8 – Conclusões
2
1- Introdução

Após o anúncio da descoberta do campo de Tupi, na bacia de Santos, em 2007 o termo pré-

sal, ou seja: “conjunto de rochas localizadas nas porções marinhas de grande parte do litoral

brasileiro, com potencial para a geração e acúmulo de petróleo.” (Petrobrás, 2010) tornou-se

obrigatório nas discussões relativas à exploração do petróleo.

A porção do litoral brasileiro com potencial produtivo de petróleo na camada de pré-sal, até

este momento confirmada, possui a extensão de 800 km e vai do Espírito Santo a Santa Catarina

apresentando campos petrolíferos cuja quantidade ainda não foi calculada de forma definitiva.

Quando assim afirmamos consideramos as informações disponíveis na imprensa e órgãos oficiais

com estimativas entre 5 e 10 bilhões de barris (Petrobrás, 2010) existindo noticias de uma reserva

em torno de 80 bilhões de barris conforme declaração do diretor geral da Agencia Nacional do

Petróleo (ANP) Haroldo Lima. (Estado de São Paulo, 2008). De qualquer forma estes números,

quando comparados com as reservas nacionais provadas em 2008 de 12,8 bilhões de barris (ANP,

2008), mostram a importância destas novas áreas de exploração petrolífera para a economia

nacional.

O formidável aumento das reservas brasileiras de petróleo terminou por suscitar debates em

torno da política econômica a ser adotada no setor petrolífero nacional a partir do pré-sal

“ressuscitando” – grosso modo – a polêmica em torno da legitimidade da presença do Estado no

domínio econômico versus competência absoluta das empresas privadas. Neste ponto consideramos

necessária uma reflexão a respeito do tema a partir da análise das políticas econômicas do petróleo

adotadas no Brasil verificando a participação do Estado e empresas privadas em seu

desenvolvimento.

2- O interesse do Direito Econômico no tema

O petróleo - do ponto de vista especificamente econômico - pode ser entendido como

um dos fatores da produção estando associado à idéia de "recurso natural" ou como "matéria prima"

sendo encontrado, por isso, na base do processo produtivo que pode ser entendido como "utilização
3
pelo homem dos recursos naturais, ou seja, das coisas existentes na natureza, e que tenham

capacidade de satisfazer as suas necessidades" (SOUZA 2005) transformando, deste modo, a sua

utilização em importante conteúdo social.

Temos assim a aplicação de uma política econômica do petróleo, aspecto disciplinador do

"ato" e do "fato" produção, analisada em Direito Econômico através do Instituto da Produção.

(SOUZA 2005). Esta característica disciplinadora apresenta-se revestida pela norma jurídica,

resultante não somente da natureza econômica da produção e sim acrescida de sua projeção social, e

por conseqüência, política.

Consideram-se por este motivo os recursos minerais - o petróleo incluido - como bens

naturais ou econômicos, dependendo do estado encontrado no momento da classificação. Assim

encontraremos, na base da utilização dos recursos minerais, o direito de propriedade, entretanto, a

soma dos interesses econômicos e sociais presentes neste elemento da produção determinaram, ao

longo da história, diferentes modelos para sua exploração apresentando-se desde a utilização plena

à limitação do direito de propriedade.

Estas restrições ao direito de propriedade dos bens naturais foram - freqüentemente-

representadas de acordo com a localização destes na crosta terrestre, dividida para este fim, em solo

e o subsolo, além de uma graduação quanto à importância do mineral levando em consideração a

sua abundância ou escassez.

Para entendimento destes aspectos o Direito Econômico busca, de forma inicial, uma análise

da ideologia sobre a qual fundamenta-se a legislação considerando os textos constitucionais e

infraconstitucionais a partir da ideologia adotada. Desta fundamentação será possível estabelecer ou

entender a política econômica relativa ao tema considerando os aspectos - muitas vezes conflitantes

- entre os interesses individuais e coletivos.

3 – Elementos formadores da Política Econômica do Petróleo

3-1 Estado e organização do mercado internacional do petróleo no início do século XX


4
O mercado petrolífero mundial foi controlado, até o início dos anos de 1970, por cinco

empresas estadunidenses1 e duas européias2 aspecto revelador do caráter concentrador deste setor

cuja origem encontra-se diretamente relacionada a política econômica do petróleo adotada nos

países sede.

As técnicas de elaboração destas políticas econômicas apresentaram variações e admitiam

desde a organização interna do mercado de combustíveis através da concorrência regulada

associada ao subsídio do setor fato observado nos Estados Unidos, a participação direta do Estado

no domínio econômico conforme verificado na Inglaterra.

Nos Estados Unidos a adoção da concorrência regulada para o ramo petrolífero é observada

a partir da Sherman Act (1890), aprovada para eliminar o truste da Standard Oil formado naquele

momento por 84 empresas que monopolizavam o processo de extração, transporte e

comercialização do petróleo naquele país.

A garantia de concorrência interna no setor petrolífero estadunidense ocorre em dois

momentos distintos: O primeiro em 1892 por determinação da Suprema Corte de Ohio resultando

na transformação do truste da Standard Oil em um grupo menor formado por 20 companhias

independentes que, na prática, mantinham o monopólio ao apresentarem como sócio oculto John

Davidson Rockefeller controlador das antigas empresas. O segundo momento verifica-se em 1911

quando a Suprema Corte determina a dissolução definitiva do truste naquele ano controladora de

"115 empresas, sendo que 62 mantinham o controle de outras 53 companhias em diversos

países"(VICTOR, 1991).

Superada a fase de organização da concorrência amplia-se o grau de protecionismo interno,

nos Estados Unidos, através da “Revenue Act” (1913) passando os investimentos petrolíferos

estadunidenses a contar com “(...) subsídio razoável diante da possibilidade de esgotamento dos

minérios e todos os outros depósitos naturais” (USA, 1915- livre tradução) .

1
Standard Oil de Nova Jersei representada na marca Esso transformada no ano de 1972 em Exxon Corporation;
Standard Oil of New York representada na marca Mobilioil; Standart Oil of California representada na marca Chevron,
Gulf Oil de Pittsburg, Texaco do Texas
2
(Royal Dutch Shell, Anglo-holandesa e British Petroleum empresa britânica)
5
No ano seguinte a criação do subsídio ao petróleo nos Estados Unidos, através da “Revenue

Act”, o governo inglês também adota uma política intervencionista para o setor assumindo o

controle acionário da "Anglo-Persian Oil Company"3. Esta empresa, quando privada, operava a

partir das concessões oferecidas pelo governo iraniano em 1909 a Willian Knox D'arcy que

desejava monopolizar o setor petrolífero naquele país e para este fim contou com o auxilio do então

Primeiro Lorde do Almirantado Winston Churchill.

A justificativa do governo para intervir no setor petrolífero encontrava-se na substituição

dos motores a carvão, por combustível derivado do petróleo nos navios de guerra britânicos

(ODEL, 1974) e não possuindo reservas próprias transformava-se em questão de segurança nacional

a preservação das concessões controladas por empresas inglesas existentes no exterior.

Deste modo, o objetivo de monopolizar a produção iraniana de petróleo – manifestado por D

´arcy - foi alcançado através da associação entre capital privado e poder militar, aspecto facilmente

observado através do modelo de administração adotado para a "Anglo-Persian Oil Company" no

qual o governo inglês participava de forma minoritária preservando em seus lugares os antigos

diretores.

A partir deste quadro podemos observar que o controle do mercado internacional do petróleo

inicia-se através da elaboração de políticas econômicas nacionais nitidamente protecionistas e

intervencionista aspecto muito distante da famosa “mão invisível”. Controlar o setor de energia

implica influenciar diretamente no processo produtivo e neste aspecto sequer Adam Smith admitiu

liberdade total defendendo o Estado como elemento disciplinador de sua distribuição através do

incentivo à criação de empresas nacionais para o seu transporte, afirmando:

(...) O preço do combustível exerce tão importante influência sobre o trabalho, que em toda
a Grã Bretanha as manufaturas se tem confinado principalmente aos países produtores de
carvão; outras partes do país, devido ao preço elevado desse bem de primeira necessidade,
não conseguem trabalhar tão barato. Além disso, em algumas manufaturas, o carvão é
instrumento necessário de comércio(...) Se algum subsídio pudesse, em qualquer caso ser
aceitável, talvez devesse ser sobre o transporte de carvões dessas partes do país onde
abundam, para as que são necessitadas. Mas a legislatura, em vez de uma subvenção lançou
imposto (SMITH, 1999).
3
A Anglo-Persian Oil Company foi posteriormente transformada em British Petroleum e sua privatização ocorreu a
partir de 1981 durante o governo de Margareth Thatcher.
6
Observe que Adam Smith analisa a organização do mercado considerando a realidade

política e econômica da Inglaterra possuindo este país uma série de povos tributários cuja finalidade

seria a oferta de matéria prima. Este processo, seguindo os princípios do pensamento liberal

clássico, possibilitaria a produção em escala ideal nos países industrializados, destinando o

excedente aos produtores de matéria prima, que satisfazendo as necessidades internas com produtos

industrializados a baixo preço acumulariam o capital suficiente para constituir– no devido tempo –

o seu parque industrial alcançando deste modo um elevado grau de riqueza,4 entendida neste caso

como maior nível de civilização.

3-2 A negação da soberania nacional como forma de organização do mercado internacional do

petróleo

Para manter o equilíbrio natural do mercado defendeu Adam Smith uma atenção especial

aos países pobres considerados, em sua obra, não civilizados. Entendia o autor, ser o desequilíbrio

resultante responsável por gerar a inveja criando a necessidade de proteção dos mais favorecidos:

(...) a prosperidade dos ricos provoca a indignação dos pobres que muitas vezes são levados
pela necessidade e influenciados pela inveja a apropriar-se de seus bens. (...) [o rico] está
sempre rodeado de inimigos desconhecidos que, embora nunca tenha provocado, nunca
conseguirá acalmar (SMITH,1999).

Esta proteção implicaria em civilizar os países pobres, apresentando como resultado a

garantia do funcionamento equilibrado do mercado. O modelo civilizatório liberal adota como

principio o uso da força observando o pai do liberalismo econômico que: "a invenção das armas de

fogo, uma invenção que à primeira vista, parece ser tão nefasta, é certamente benéfica não só à

manutenção como avanço da civilização (SMITH,1999)".

Considerando este pensamento a soberania dos povos menos desenvolvidos estaria

diretamente associada a menor ou maior obediência destes às necessidades comerciais dos países

industrializados, constituindo qualquer ação no sentido de transformação interna da economia em

4
Adam Smith observa que a riqueza de um país está representada no controle da quantidade de trabalho e nas forças de
geração de energia – incluindo a alimentação dos operários - existente no mercado universal. Desta forma seria natural
entender este controlador como possuidor de maior grau de civilização sujeitando o termo ao desenvolvimento
tecnológico.
7
grave ameaça à estabilidade do mercado mundial. Neste sentido a soberania nacional seria apenas

admitida como autonomia para a criação de um sistema jurídico voltado, internamente, para a

manutenção do quadro internacional. Para Ferrajoli (2002) esta situação favoreceu a criação de um

caráter "absolutista" na relação entre os países diante da inexistência de uma "constituição" com

poderes de limitar ou regular a ação de um país mais forte sobre um mais fraco.

A soberania assume - assim - um caráter de não plenitude visto que sujeita-se a normas

gerais de relacionamento caracterizadas pela manutenção de uma estrutura econômica e politica que

no minimo exige - daqueles em uma fase inicial de superação das etapas de crescimento - uma

espera sem tempo determinado - para a conclusão do processo de acumulação de capitais

necessários para iniciar uma nova fase, ou a industrialização.

Estando o mais fraco, do ponto de vista militar e econômico, sujeito ao entendimento de

funcionamento ideal da economia a partir das necessidades do mais rico, suas decisões internas

encontrar-se-iam também comprometidas, pois seria necessário um tamanho acumulo de capitais

para garantir não somente uma industrialização futura, mas também os recursos necessários para a

compra da energia para a movimentação desta, entendendo que ao esgotar os recursos naturais os

custos aumentariam com a necessidade de importação.

A soberania de um Estado, em relação aos demais, estaria pautada por este respeito às

normas básicas da economia entendendo-se que seria dever proteger-se contra possíveis desvios

apresentados por um país ao limitar a liberdade de comércio ou propriedade implicando em

prejuízos ao mercado externo. Assim tornar-se-iam legítimas as ações de força cujos objetivos

encontram-se no principio de imposição da normalidade ou garantia da superação de etapas para o

crescimento dos diferentes povos.

Considerando estes princípios, observaremos no centro do debate relativo a organização do

mercado internacional do petróleo a tentativa de impedir os países produtores a implementação de

políticas econômicas para o setor nas quais assumam o controle do bem econômico e iniciem a

utilização do poder econômico gerado de acordo com as necessidades nacionais. Deste modo as
8
modificações observadas quanto a propriedade do bem mineral e econômico petróleo visando

transferir ao Estado o seu controle ou mesmo sua regulamentação, via de regra, surgem de

processos revolucionários e mesmo assim a efetivação desta transformação, ocorre de forma

extremamente lenta, situação observada por exemplo, no México, Bolívia e Brasil.

A Constituição de 1917, do México, resultante de uma ação revolucionária, transferiu para o

Estado a propriedade dos recursos minerais, entretanto somente em 1938 a produção de petróleo foi

estatizada sofrendo este país sansões econômicas, principalmente, por parte dos Estados Unidos e

Inglaterra. Também podemos citar o caso boliviano quando após a Guerra do Chaco (contra o

Paraguai) o governo estatiza em 1936 a produção petrolífera, considerando os danos sofridos

durante o citado conflito quando a Standard Oil instaladas naquele país, negou-se a cumprir as

ordens de abastecimento das forças armadas. No Brasil a regulamentação do setor petrolífero ocorre

a partir da Constituição de 1934, esta como resultante do processo da Revolução de 1930, e criação

no mesmo ano do primeiro Código de Minas, entretanto, somente em 1953 teríamos o processo de

produção do petróleo regulamentado em sua plenitude através da Lei 2004.

4 – A organização da produção petrolífera no Brasil

4-1 O período liberal republicano

A Constituição de 1891 apresentava como característica ideológica a valorização dos

princípios liberais clássicos nos quais combinam-se liberdade política e econômica. Para este fim o

citado diploma, rompendo com a tradição dominial portuguesa, determinava em seu artigo 72

parágrafo 17 que: “as minas pertencem aos proprietários do solo, salvas as limitações que forem

estabelecidas por lei a bem da exploração deste ramo de indústria" (BRASIL, 1891).

Este modelo de propriedade, amparado no direito de acessão, possibilitou o controle de

vastas áreas com potencial petrolífero por empresas estrangeiras, notadamente a Standard Oil, cuja

forma de organização e proteção dos países de origem tratamos neste trabalho. Assim possuíam as

empresas internacionais os rumos da política econômica do petróleo nacional, mantendo no subsolo


9
o petróleo brasileiro, garantindo o consumo de sua produção nos campos dos Estados Unidos,

México ou países do Oriente.

O engenheiro e homem público João Pandiá Calógeras foi o pioneiro ao propor a

transformação desta realidade observando a necessidade de regulamentação da exploração

petrolífera no Brasil. Calógeras apresenta em 1903 – através de seu livro “As minas do Brasil e sua

legislação” e posteriormente elaborando o decreto 2935 de 6 de janeiro de 1915 conhecido como

Lei Calógeras - um modelo visando a auto-suficiência energética no qual o Estado apresentaria um

papel regulamentador atuando – inclusive – de forma direta no setor produtivo (FGV 2005).

O conteúdo da chamada lei Calógeras foi o primeiro, durante a república, a questionar o

dogma liberal do direito absoluto da propriedade criando a figura do descobridor de minas que teria

o direito de exploração de uma área, mesmo com proprietário conhecido e oferecendo ao Estado a

oportunidade de explorar áreas com potencial mineral. Todavia seu alcance foi reduzido em função

do caráter facultativo da distinção entre a propriedade do solo e subsolo (VENÂNCIO FILHO,

1968)

Durante o governo Arthur Bernardes ocorre uma singela, mas significativa modificação

deste impedimento ideológico através da reforma constitucional de 1926, acrescentando à redação

do parágrafo 17 do artigo 72 da primeira Constituição republicana as seguintes modificações:

a) as minas pertencem ao proprietário do solo, salvo as limitações estabelecidas por lei, a


bem da exploração das mesmas;
b) as minas e jazidas minerais necessárias à segurança e defesa nacionais e as terras onde
existirem não podem ser transferidas a estrangeiros (BRASIL 1926).

Neste ponto o caráter intervencionista é observado com maior clareza considerando-se a

limitação ao direito de propriedade e à preservação - em termos futuros - de um setor da economia

à agentes brasileiros, com a proibição das transferências de áreas com potencial de mineração à

participação de empresários estrangeiros, aspecto não abordado nas leis anteriores.

Enquanto a legislação lentamente buscava transformar o modelo de exploração do petróleo,

o capital nacional também buscava participar do setor através da organização de empresas seguindo,
10
em muitos casos o modelo existente nos Estados Unidos. O escritor Monteiro Lobato representou

este empresário pioneiro e organizou diferentes empresas cujo financiamento ocorria através da

venda de cotas anunciadas na imprensa.

As iniciativas de Lobato não resultaram em empresas consolidadas ou com elevada

produção, todavia em decorrência de sua postura pioneira surgem intensos debates relativos a

viabilidade da exploração petrolífera nacional tendo em vista a existência, até a década de 1930, de

estudos geológicos (encomendados por empresas internacionais) negando a ocorrência de petróleo

no Brasil, levando o escritor e empresário a seguinte conclusão:

(...) é obvio que as companhias importadoras não têm interesse no desenvolvimento das
fontes de petróleo que o Brasil indubitavelmente possui, interessando-lhes mais, dada a
atual superprodução dos diversos fields em exploração, a escravização petrolífera do Brasil.
É porém evidente que dadas as atuais condições, as empresas americanas tem que
acimparar o solo potencialmente petrolífero para assim defender os seus negócios de
importação, do que resulta o interesse que demonstram em impedir a exploração (LOBATO
1968).

As grandes empresas petrolíferas privadas para sua consolidação recorreram ao apoio direto

do Estado enquanto no Brasil a força da tradição colonial somada ao dogmatismo liberal trataram

de sepultar as iniciativas empresariais do capital nacional. Todavia, diante das constantes crises em

função da dependência brasileira da exportação do café, iniciam-se debates a respeito da

necessidade de uma modernização econômica culminando com o movimento revolucionário

chefiado por Getúlio Vargas.

4-2 A primeira fase de regulamentação

O período iniciado a partir da Revolução de 1930 apresenta como consenso, entre os grupos

ocupantes do poder, a legitimidade da propriedade estatal do bem natural petróleo e profundas

discordâncias quanto a presença do Estado no domínio econômico, através da exploração direta do

mineral, aspecto prolongado até o pós-guerra radicalizando-se durante a campanha do Petróleo é

nosso.
11
A primeira Constituição da chamada “era Vargas” foi promulgada em 1934 e, do ponto de

vista econômico, caracterizava-se por apresentar um conteúdo intervencionista possibilitando a

participação do Estado no domínio econômico através do monopólio:

Por motivo de interesse público e autorizada em lei especial, a União poderá monopolizar
determinada indústria ou atividade econômica, asseguradas as indenizações, devidas,
conforme o art. 112, nº 17, e ressalvados os serviços municipalizados ou de competência dos
Poderes locais (BRASIL 1934).

Quanto às atividades relacionadas diretamente à mineração vamos nos deparar com as

seguintes determinações: no artigo 5º o fortalecimento da União, ficando esta com a competência

exclusiva de legislar sobre o tema, o fim do regime de ascensão (artigo 118) a necessidade de

concessão ou autorização federal para exploração de minas e jazidas (artigo 119), a exigência de

nacionalidade brasileira ou de constituição de uma empresa nacional para atuar no setor mineral

(artigo 119 § 1º), nacionalização das jazidas e minas julgadas básicas ou essenciais à defesa

econômica ou militar do país (artigo 119 § 4º), manutenção das antigas autorizações de exploração

(artigo 119 § 6º), com a seguinte ressalva em seu artigo 12 das disposições transitórias:

os particulares ou empresas que ao tempo da promulgação desta Constituição


explorarem a indústria de energia ou mineração, ficarão sujeitos às normas de
regulamentação que forem consagradas na lei federal, procedendo-se, para este
efeito, à revisão dos contratos existentes (Brasil 1934).

A regulamentação da exploração mineral prevista nas disposições transitórias efetiva-se

através do Decreto n.º 24642 de 10/07/1934 criando o Código de Minas regulamentando, inclusive,

as atividades relacionadas a exploração petrolífera. Através deste diploma legal poderemos observar

como principal característica da política econômica do petróleo, a garantia do abastecimento interno

não associado à criação de uma indústria nacional voltada para a auto-suficiência.

Este quadro revela uma nítida interferência dos grupos internacionais – ironicamente – no

modelo de nacionalização adotado no Brasil, considerando o governo a possibilidade de beneficiar-

se de uma eventual disputa entre empresas do setor. O ministro responsável por conduzir o processo
12
de elaboração do primeiro Código de Minas, Major Juarez Távora, resume esta situação a partir do

seguinte comentário:

[o]primitivo Código de Minas (...) facilitava a iniciativa particular para a exploração


mineral, libertando-a, por um lado, das exigências dos proprietários do solo e das questões
de condomínio, e, de outro lado, proporcionando-lhe facilidades para o estabelecimento de
servidões do solo e subsolo, necessários à exploração, garantindo-lhe tarifas mínimas de
transporte e taxação limitada, não excedente, em conjunto, às possibilidades financeiras de
cada empreendimento. Se criou, ao lado disso, exigências administrativas e técnicas - estas
foram ditadas pela necessidade de racionalizar a indústria e impedir abusos ou omissões que
a vinham desmoralizando (TÁVORA 1955 p.26).

Ao regulamentar a exploração mineral O Decreto n.º 24642 de 10/07/1934 determinava em

seu parágrafo 5º do artigo 3º do Código de Minas que: "As autorizações de pesquisa e concessões

de lavra serão conferidas exclusivamente a brasileiros e a empresas organizadas no Brasil"

(BRASIL 1935). Todavia, observaríamos que desde o final da década de 1920 atuavam no país

algumas empresas petrolíferas - organizadas em conformidade com as leis nacionais - cujo

controle verdadeiramente pertencia aos trusts internacionais. O escritor Monteiro Lobato apresenta

as companhias Geral de Petróleo Pan Brasileira, Marítima, Brasileira de Petróleo, Brasil Patentes,

Nacional de Petróleo como parte deste esquema (LOBATO 1968 p.148).

4-3 O breve período de proteção à iniciativa privada nacional

Este quadro, de abertura do setor petrolífero à participação internacional, sofre, por curto

período, uma alteração de caráter protecionista de viés nacionalista através do Decreto-Lei 395 de

29 de abril de 1938 determinando em seu artigo 3º a nacionalização da indústria petrolífera nas

seguintes bases:

I, Capital social constituído exclusivamente por brasileiros natos, em ações ordinárias,


nominativas;
II, A direção e gerência confiadas exclusivamente a brasileiros natos, com participação
obrigatória de empregados brasileiros na proporção estabelecida pela legislação do país
(BRASIL, 1939).

O mesmo diploma legal cria o primeiro órgão responsável por elaborar as políticas do setor

petrolífero denominado Conselho Nacional do Petróleo cuja função alcançava a exploração direta

do setor petrolífero.
13
Em 1941, através do Decreto-Lei 3553 de 25 de agosto, o governo promove a seguinte

modificação do artigo 16 do Código de Minas:

O Presidente da República poderá autorizar, por decreto, alterações, fusões ou


incorporações de empresas de mineração, para fins de participação de capitais
estrangeiros (...)
(...) Em se tratando de minas em lavra, amparadas pelo §4º do artigo143 da
Constituição, as empresas que as explorem poderão ser autorizadas a emitir ações ao
portador e admitir, como sócios ou acionistas, as sociedades nacionais além dos
cidadãos brasileiros, mas a sua administração se constituirá de brasileiros natos, na
sua maioria (BRASIL 1942).

Três anos depois, ampliando a desnacionalização do setor mineral, é publicado o Decreto-

Lei 6230 cuja redação autorizava formação de empresas mineradoras constituidas, em metade, por

ações ao portador restringindo a outra parte a ações nominativas pertencentes de forma exclusiva à

brasileiros natos.

Os dois últimos decretos-lei citados possibilitam observar o quanto cedeu ao liberalismo

clássico - pelo menos no aspecto relacionado ao petróleo - a ditadura do Estado Novo. Assim a

política econômica adotada no período apresentou-se pautada no discurso nacionalista, mas sem um

projeto concreto de auto-suficiência - objetivo defendido desde 1915 por Pandiá Calógeras - fato

que acabou por sufocar as tentativas até então existentes de exploração petrolífera.

5 – O Estado empresário

5-1 O monopólio estatal do petróleo

O desabastecimento de combustíveis observado durante a Segunda Guerra Mundial criou a

necessidade de transformações significativas na política econômica do petróleo nacional. Naquele

momento o Brasil era importador direto de gasolina, gerando como entendimento de solução desta

dependência a criação imediata de refinarias de controle estatal, entregando a exploração petrolífera

às empresas internacionais através de um sistema de regulamentação da produção, determinando

este, a garantia de abastecimento interno. Esta foi basicamente a proposta do Estatuto do Petróleo

encaminhado, em 1947, ao Congresso Nacional durante o Governo do Marechal Eurico Dutra.


14
A proposta do governo Dutra não consegue o apoio necessário do Congresso Nacional em

função da forte rejeição da opinião pública que reivindica – através de amplo movimento popular

denominado “o petróleo é nosso” – o monopólio estatal do petróleo.

Destacamos deste período a proposta estatizante originaria da Federação das Associações

Comerciais de Minas Gerais, presidida por Renato Falci, intitulada “Tese Mineira do Petróleo”.

Neste documento – elaborado pelo professor Washington Peluso Albino de Souza em 1952 – os

empresários defendem a criação de uma empresa estatal financiada através da criação de tributos

justificado:

(...) em termos superiores ao da esfera imediata dos interesses particulares dos homens de negócios,
transferindo-a para o plano mais elevado da necessidade de garantir a soberania nacional e de
oferecer às classes produtoras brasileiras uma posição real de independência na sua missão de
trabalhar pelo fortalecimento econômico do país (FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES
COMERCIAIS DE MINAS GERAIS, 1952).

Esta proposta encontrava sua fundamentação no texto constitucional de 1946 em seu Título

V da Ordem Econômica e Social – no qual conservava a possibilidade de monopólio estatal de um

ou mais setores da economia (característica observada nos textos constitucionais de 1934 e 1937)

acrescentando, todavia, a necessidade de Lei Especial. Quanto a exploração dos recursos minerais a

Constituição mostrava-se aberta ao capital privado ao estabelecer a possibilidade de concessão

(art.153) característica que leva, todavia, a limitação do direito de propriedade através da separação

entre a propriedade do solo e subsolo, conforme determinava o seu artigo 152.

Considerando a ideologia constitucionalmente adotada foi aprovada em 3 de outubro de

1953 a lei 2004 estabelecendo o monopólio estatal do petróleo, criando ao mesmo tempo uma

empresa mista – a Petróleo Brasileiro S/A (Petrobrás) responsável pela execução deste,

conservando o Conselho Nacional do Petróleo como órgão regulamentador.

5-2 A difícil efetivação do monopólio do petróleo

Após o suicídio do presidente Getúlio Vargas retornam ao governo – através do vice

presidente João Café Filho – antigos defensores do modelo de abertura aos grupos estrangeiros do

mercado petrolífero nacional, destacando-se o general Juarez Távora.


15
Távora defendia, através da Tese de Segurança Continental, o direito das empresas

internacionais explorarem o petróleo brasileiro, como forma de garantir o suprimento das Forças

Armadas do Brasil e Estados Unidos, tendo em vista a possibilidade de invasão do continente por

forças soviéticas. Para este fim retomou o discurso da incompetência do poder público em

administrar uma empresa com as características da Petrobrás e diante das grandes descobertas

anunciadas no Amazonas, no primeiro ano de funcionamento da empresa, revelou a intenção do

governo em pedir "(...) ajuda de empresas particulares que desejem empreitar serviços de pesquisa

e exploração, sob o controle da Petrobrás, mediante pagamento das despesas feitas e mais um

lucro razoável , exclusivamente com o óleo que conseguirem produzir" (TÁVORA 1955). Esta

primeira tentativa de flexibilização do monopólio estatal não foi consolidada, mas a exploração nos

grandes campos amazônicos foram suspensas.

Outro argumento para flexibilizar o monopólio estatal do petróleo encontrou o seu fundamento

no relatório elaborado pelo antigo geólogo da Standard Oil Walter Link em 1961. O citado

documento apontava a inviabilidade de exploração comercial do mineral em terra recomendando a

adoção de exploração na plataforma continental5.

Durante o período militar o relatório Link foi dogmatizado e ignorando a ocorrência de

petróleo em terra, o então presidente da Petrobrás, General Ernesto Geisel, apresentou a proposta de

internacionalização da empresa criando a Braspetro (Petrobrás Internacional) possibilitando a

associação desta empresa com outras do setor privado ou estatais para extração petrolífera no

exterior, proporcionando desta forma "[os] meios para assegurar o abastecimento nacional de

petróleo" (GEISEL apud GOMES in KUCINSKI 1977).

O passo seguinte foi efetivamente flexibilizar o monopólio exercido pela Petrobrás através

da implantação – em 1976 – do chamado contrato de risco. Utilizando uma nova interpretação para

a lei 2004, entendeu o governo que a Petrobrás teria o direito de celebrar contratos de "serviço

com cláusula de risco", aspecto considerado - pelo governo - não agressivo à Constituição (art.

5
As áreas para exploração marítima do petróleo indicadas no relatório Link não apresentam relação direta com as
recentes descobertas do pré-sal. (NA)
16
162) que determinava o monopólio estatal do petróleo. Desta forma o texto do "contrato de

prestação de serviço com cláusula de risco" representou uma espécie de decreto no qual a Petrobrás

era entendida como "proprietária" de "todo e qualquer direito decorrente" da lei 2004 (Gazeta

mercantil 20/10/1976) ficando autorizada a instituir o modelo de exploração mais conveniente.

As ações de abertura do setor petrolífero nacional ao capital estrangeiro ocorrem

coincidentemente com a descoberta das plataformas marítimas na bacia de Campos no estado do

Rio de Janeiro . Todavia, estas novas frentes de exploração eram consideradas de retorno a longo

prazo e diante de uma crise internacional e consequente aumento no valor do petróleo importado,

aspecto que ampliava o déficit comercial brasileiro, a política adotada pelo governo militar resultou

no direcionamento das atividades da Petrobrás para o mar, entregando às "prestadoras de serviço" a

exploração em terra.

Esta prática - de abandono das pesquisas em terra - foi insistentemente negada pela

Petrobrás pois poderia representar junto à opinião pública a assimilação pura e simples do relatório

Link. Entretanto em uma longa reportagem publicada em 1974 a revista Veja destaca que:

De qualquer forma, o vigor dos investimentos na exploração marinha revela uma


nova orientação na estratégia de pesquisas, manejados principalmente após 1970,
quando Geisel assumiu a direção dos negócios do petróleo. Hoje, apenas uma entre
as dez áreas escolhidas para investigações preliminares está no continente - no
extremo ocidental do Acre. E a primeira geração de perfuradores, formada na
Petrobrás, ao longo dos últimos vinte anos, já se encontra quase totalmente deslocada
para o setor de operações internacionais, trabalhando para a Braspetro na Líbia,
Iraque e Egito. Enquanto isso, boa parte das nove regiões promissoras da plataforma
(...) tem ofertado sinais positivos de uma breve e generalizada coleção de novas
descobertas, desde Ubarana até o recente achado de Garoupa (VEJA dezembro,
1974).

Retornamos neste ponto ao aspecto observado no Brasil desde o final do século XIX: O país

não apresentaria áreas para exploração comercial do petróleo em terra, mas os oligopólios

internacionais buscam garantir o controle de regiões com potêncial produtivo cujo resultado é

sempre negativo.

Diante deste quadro não causaria espanto ou comoção nacional o fracasso resultante das

ações de empresas dispostas a correr "riscos" como Shell, British Petroleum, obrigando o país a
17
continuar importando petróleo - destas mesmas empresas - enquanto os resultados na plataforma

continental não surgiam de forma satisfatória.

6 – A Constituição de 1988: O retorno do monopólio do petróleo

A Assembléia Constituinte eleita em 1986 vai retomar a discussão em torno da política

econômica do petróleo, considerando as propostas de abertura comercial em marcha desde o golpe

de 1964 e os princípios nacionalistas presentes na lei 2004.

A Constituição de 1988 em seu artigo 177 mantém o monopólio estatal da pesquisa, lavra e

refino do petróleo conservando parte da redação do artigo 162 da Constituição de 1967. O elemento

de diferenciação verificado no texto constitucional de 1988 está na ampliação da intervenção no

setor petrolífero, acrescentando ao monopólio o gás natural e hidrocarbonetos fluidos, aspecto este

presente na legislação infraconstitucional desde 1953 no artigo 1º da lei 2004.

A partir da Constituição de 1988 também observaremos a inclusão do monopólio estatal dos

minerais nucleares (art. 177 inciso V) indicando as bases para o estabelecimento de uma política

energética não atrelada exclusivamente ao petróleo. Neste aspecto torna-se nítida a intenção do

legislador em oferecer ao Estado brasileiro a função de regulamentar o setor de energia, entendendo

este a partir de uma visão nacionalista cujo objetivo seria a garantia da autosuficiência. Assim

afirma (SOUZA, 2002) :

A orientação monopolizadora do Estado nestes setores, veementemente combatida


pela iniciativa privada, que mais uma vez tentou abalá-la com a bandeira da
"desestatização" em "lobbies" milionários junto aos constituintes, tem sido, no
entanto, a busca de reversão de um modelo colonialista de exportação de matérias
para as metrópoles econômicas e políticas. As lições da II Guerra Mundial, com a
falta de produção nacional e a impossibilidade de sua importação, valeram para
formar convicção da opinião pública quanto ao petróleo. Com o presente texto [da
Constituição de 1988] o mesmo se dará com os minérios e minerais radioativos.

A disposição de monopolizar a exploração do petróleo no Brasil era, deste modo, acrescida

de uma experiência de pelo menos cinqüenta anos de legislações formuladas em bases

regulamentatorias, mas conflitantes com interesses comerciais de um setor oligopolizado. Neste

aspecto encontraremos no texto constitucional de 1988 uma preocupação com a criação de meios

para impedir a quebra do monopólio, através de interpretações convenientes aos grupos


18
internacionais, como verificado no caso dos contratos de prestação de serviço com cláusula de risco.

Assim o parágrafo primeiro do artigo 177 determinava: "O monopólio previsto neste artigo

inclui os riscos e resultados decorrentes das atividades, sendo vedado à União ceder ou conceder

qualquer tipo de participação , em espécie ou em valor na exploração de jazidas de petróleo ou gás

natural (...)" (BRASIL 1988).

Todavia, a Constituição determinava a exceção para o alcance do monopólio do petróleo

mantendo em vigor os contratos de risco celebrados durante o governo militar (artigo 45 das

disposições transitórias) preservando uma tradição iniciada em 1934 de manter aberta uma porta

para a manutenção de áreas com potêncial petrolífero em poder dos oligopólios, mesmo que estas

apresentem resultados "negativos" ou "insuficientes" do ponto de vista comercial.

6-1 – A quebra do monopólio: O modelo regulatório

Na prática, o artigo 45 das disposições transitórias tornou-se desnecessário sete anos mais

tarde através da emenda constitucional número 9 que alterou o parágrafo 1º do artigo 177 do

seguinte modo: "A União poderá contratar com empresas estatais ou privadas a realização das

atividades previstas nos incisos I a IV deste artigo observadas as condições estabelecidas em lei"

(BRASIL 1995).

Como sabemos a lei em vigor era a 2004 de 3 de outubro de 1953, mas o seu conteúdo

nacionalista encontrava-se, neste momento, em oposição ao texto constitucional - pelo menos no

aspecto referente a emenda número 9 - assim o passo seguinte foi atualizar a legislação, fato

concretizado a partir da lei 9478 de 6 de agosto de 1997 de autoria do deputado Eliseu Resende.

Com a nova lei, a União perde a obrigatoriedade de preservar a Petrobrás como empresa

responsável pela execução do monopólio incluindo nos objetivos da política energética nacional o

princípio da livre concorrência (inciso IX do artigo 1º) que passaria a ser regulado através da

Agência Nacional do Petróleo (ANP) (artigo 7º da lei 9478).

A idéia de livre concorrência encontrava-se originalmente no texto constitucional de 1988

(artigo 170 inciso IV) todavia este aspecto liberal deparava-se com limites claros decorrentes das
19
posições nacionalistas, como o verificado no caso do monopólio do petróleo. Além deste limite

também encontraremos restrições à livre concorrência no artigo 171 do mesmo texto quanto ao

entendimento de empresa brasileira definida, originalmente nos incisos I e II, como:

I "constituida sob as leis brasileiras e que tenha sua sede e administração no país;
II empresa brasileira de capital nacional aquela cujo controle efetivo esteja em caráter
permanente sob titularidade direta ou indireta de pessoas físicas domiciliadas e residentes no
País ou de entidades de direito público interno, entendendo-se por controle efetivo da
empresa a titularidade da maioria de seu capital votante e exercício, de fato e de direito, do
poder decisório para gerir suas atividades (BRASIL 1988).

Para este trabalho interessa-nos entender que esta definição de empresa brasileira,

beneficiava a Petrobrás quanto ao controle nacional de seu capital reforçando também as

determinações presentes no artigo 18 da lei 2004, mantendo afastada qualquer hipótese de controle

da empresa pelos oligopólios internacionais.

Para o processo da quebra do monopólio estatal do petróleo e enfraquecimento da Petrobrás,

a alteração do artigo 171 da Constituição de 1988 também apresentou-se necessário e para tal em 15

de agosto 1995 a Emenda Constitucional número 6 revoga os incisos I e II do citado artigo, aspecto

imediatamente incorporado a lei 9478.

Assim, a exploração do petróleo no Brasil passou a ser regulada pela União e podendo "ser

exercida mediante concessão ou autorização, por empresas constituídas sob as leis brasileiras, com

sede e administração no país" (BRASIL artigo 5º da lei 9478).

Considerando as modificações introduzidas a partir da lei 9478 torna-se natural a comparação com a

proposta apresentada em 1947, através do chamado Estatuto do Petróleo. Consideramos que não

seria temerário afirmar que trata-se a lei 9478 de um aperfeiçoamento da proposta neoliberal

defendida cinqüenta anos antes pelo General Juarez Távora, fundamentada na antiga idéia de

"cooperação" diante da impossibilidade de concorrência no setor petrolífero dominado pelos

"trustes".

Encontraremos na lei 9478, como modificações básicas da proposta elaborada em 1947, a

criação de uma Agência Reguladora (art. 7º), necessidade de licitação para a distribuição das

concessões (art.23), além da autorização para participação direta de empresas estrangeiras neste
20
processo (art.39). As empresas interessadas no processo de licitação, também contariam com

informações técnicas levantadas ao longo de 44 anos pela Petrobrás, cujo acervo seria transferido a

ANP (art. 22 parágrafo 1º da lei 9478) e disponibilizado para consulta dos interessados.

Neste último ponto vamos nos deparar com um aspecto no mínimo curioso, ou seja, a

transformação de grupos internacionais em beneficiários de uma política econômica de caráter

nacionalista, financiada através de recursos públicos cujos resultados seriam oferecidos como

atrativos ou garantias da ausência de riscos para investimentos.

7 – O modelo regulatório do pré-sal

7-1 – A manutenção da intervenção do Estado no modelo regulatório

A primeira década do século XXI caracteriza-se, na América do Sul, por transformações

significativas na organização econômica notadamente no setor de petróleo e gás. A partir deste

momento o modelo regulatório, implantado a partir dos anos de 1990, perde força diante da

presença do Estado empresário conforme observado na Venezuela, Bolívia e Equador em oposição

ao neoliberalismo de regulação cuja principal característica foi a transferência de serviços e

atividades típicas do Estado para empresas privadas. (CLARK, 2006)

Esta redução da presença do Estado no setor econômico, todavia, não significou a extinção

das empresas estatais ou mistas para as quais ficou reservado uma atuação reduzida quando

comparada ao momento anterior aos anos de 1990 (CLARK, 2006). Esta atuação, acrescentamos,

estaria em muitos momentos relacionada ao financiamento do setor privado ou transformando as

estatais em espécie de órgãos regulatórios. Para o primeiro caso ilustrariamos apontando a

organização do Gasoduto Brasil Bolívia:

O controle do Gasoduto Bolívia-Brasil encontra-se dividido da seguinte forma: em


território boliviano é administrado pela Gás Transboliviano S/A, empresa cujo controle
acionário pertence à Shell; no Brasil, a Petrobrás, por intermédio de sua subsidiária, a
Gaspetro, controla 51% da transportadora Brasileira do Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG).
Dessa empresa participam ainda a BBPP Holding (El passo, Total, British Gás) com 29%
das ações,Transredes (Shell) com 12%, Shell com 4%.
Verifica-se dessa forma que o controle do gasoduto Bolívia-Brasil, quanto a exportação,
pertence na verdade à Shell, empresa responsável ainda pela administração da Transredes,
cuja função é distribuir o gás no mercado interno daquele país. (COELHO, 2006)
21
Quanto a transformação das empresas estatais em espécie de órgão regulatório, continuamos

utilizando como exemplo o caso boliviano quando a Lei 1689 de 30 de abril de 1996 em seu artigo

4 reservou à estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) a “obrigação de

supervisionar a aplicação, por parte das empresas privadas, dos métodos mais adequados à

exploração dos recursos minerais” (COELHO, 2006). Continuava a YPFB – de acordo com a citada

lei- responsável por exercer a exploração petrolífera, mas obrigada a repassar esta função às

empresas privadas através de um contrato de risco compartilhado.

Os casos boliviano e brasileiro, relativos a exploração do petróleo e gás, revelam que as

técnicas de intervenção não apresentam como resultado obvio o fechamento da economia para os

setores privados através de políticas protecionistas .

Ampliando esta informação poderíamos incluir que durante o período militar: “o Estado

interferiu na economia com o intuito de favorecer o crescimento de grandes empresas privadas

estrangeiras ou nacionais. Pelo aspecto econômico, o resultado nefasto de tal política foi o

crescimento da dependência estrutural da economia brasileira” (PIMENTA e MIRANDA, 2009).

7-2 – A proposta governamental para o marco regulatório do pré-sal

A política econômica do petróleo no Brasil proposta pelo presidente Lula da Silva segue o

processo observado desde 1934 procurando conciliar intervenção do Estado e abertura às empresas

privadas nacionais e estrangeiras. Podemos fundamentar esta afirmativa a partir de uma analise do

projeto de lei número 5938/2009 – de autoria do Poder Executivo – instituindo o modelo de

exploração no pré-sal.6

Nesta proposta é mantido como órgão regulador a Agência Nacional do Petróleo (ANP),

mas fica determinada a criação de uma empresa estatal cuja função também possui caráter de órgão

regulador. Esta nova estatal será responsável por gerir os contratos, indicar os presidentes e metade

dos componentes dos Comitês Operacionais existentes nos blocos do pré-sal – e neste ponto sim

6
Existem no Congresso Nacional quatro projetos de autoria do Executivo tratando do modelo de exploração do pré-sal.
Optamos por analisar o projeto nº 5938/2009 por considerá-lo de maior relevância para este trabalho. (NA)
22
assemelha-se as funções de uma empresa – de comercializar o petróleo resultante na exploração nos

blocos pertencente a União

Os ministros Edson Lobão, Guido Mantega, Miguel Jorge, Paulo Bernardo e Dilma Rousseff

assinam a exposição de motivos do citado projeto e justificam as alterações argumentando que o

marco regulatório em vigor “foi fundamentado nas premissas que levaram à promulgação da

Emenda Constitucional nº 9, de 1995(...) [assim] o referido marco legal foi concebido de modo a

contemplar as condições vigentes àquela época.” (BRASIL, 2009) Todavia o governo, ao

encaminhar o projeto 5938/2009, não apresentou nenhuma proposta de alteração constitucional,

possibilitando entender que as criticadas “premissas” continuam valendo para o novo marco

regulatório.

Desta forma não seria incoerente analisar a proposta governamental, considerando as

características demonstradas neste trabalho do modelo neoliberal dos anos de 1990, quando a

intervenção econômica passa a ser utilizada como forma de financiamento das empresas privadas.

Assim, para exploração do pré-sal, o projeto 5938/2009 transforma a Petrobrás em

operadora de todos os blocos, entendo esta função como “responsável pela condução e execução,

direta ou indireta, de todas as atividades de exploração, avaliação, desenvolvimento, produção e

desativação das instalações de exploração e produção” (BRASIL, 2009). Entretanto o controle do

bloco não cabe a Petrobrás (detentora de participação mínima de 30%) apesar desta empresa

desempenhar as funções mais onerosas, atuando, na prática, como elemento financiador.

Esta condição de operador “único” não pode ser confundida com “onipresença” podendo

desaparecer, considerando-se a possibilidade de individualização da produção, fato previsto quando

uma jazida estende-se além do bloco concedido obrigando a realização de um acordo mediado

através da Agência Nacional do Petróleo e deste, conforme o artigo 35 do citado projeto, a

indicação de um operador criando a possibilidade de inúmeros sub-blocos operados de modo

independente àquele adotado nas áreas adjacentes de acordo com o parágrafo 2º do artigo 36 do

projeto em questão.
23
Outro aspecto a ser observado encontra-se na realização dos leilões para participação dos

70% restantes nos blocos. Será vencedor neste procedimento a empresa ou consórcio oferecedor da

maior quantidade de petróleo ao Estado, diante de valor minimo estabelecido em edital. Esta

quantidade não encontra-se definida no projeto 5938/2009 criando as condições de sua livre

adaptação as necessidades das empresas interessadas e tratando-se de um setor oligopolizado a

proposta governamental também torna-se frágil considerando-se a possibilidade de um acordo,

quando da apresentação das propostas, entre as empresas interessadas como forma de divisão das

áreas de atuação.

Este ponto repercute diretamente no projeto 5940/2009 tratando da criação do Fundo Social

a ser formado, dentre outras fontes, por recursos originados na comercialização estatal do petróleo.

O citado Fundo é constantemente apontado como a fórmula de garantir a aplicação do poder

econômico originado no petróleo em melhorias sociais impedindo a repetição dos exemplos

observados em outros países produtores quando a exploração do mineral não resultou em avanços

sociais para a população.

Considerando a fórmula encontrada através do projeto 5938/2009 o volume de recursos

destinado ao futuro Fundo Social será estabelecido em função das políticas econômicas das

empresas tornando este uma forma compensatória infinitamente aquém do verdadeiro poder

resultante da futura exploração do pré-sal.

8 – Conclusões

Os grandes grupos controladores do mercado internacional de petróleo organizaram-se a

partir de legislações, que possibilitaram a proteção destes por parte do Estado ou por meio da ação

estatal direta através da criação de empresas.

Esta característica deve-se a condição peculiar do petróleo encontrado na base da produção

na condição de matéria prima e combustível e por isso consubstanciado em fator de segurança

nacional, entendendo como parte integrante desta a manutenção da circulação dos bens e serviços

(CAMARGO,2007).
24
As diferentes políticas econômicas do petróleo em nosso país ainda não conseguiram

associar este principio à necessidade de auto-suficiência que desapareceu dos debates, substituído

pelo dogma mercantilista da balança comercial favorável associado à crença liberal do acumulo de

capital e consequênte salto – no devido tempo – para a “civilização” decorrente da exportação de

matéria prima.

Desta fórmula “mercantil- liberal” surge a necessidade de ampliação a todo custo das

exportações de commodities – agora com a inclusão do petróleo do pré-sal – criando-se para este

fim todo tipo de atrativo para as empresas internacionais iniciarem o mais breve possível o ciclo do

petróleo.

Este novo ciclo teria uma duração aproximada de 35 anos – coincidindo com o tempo de

duração para os novos contratos de partilha da produção do pré-sal e previsão para o esgotamento

dos recursos ali existentes – período direcionado para a ampliação das pesquisas nacionais para o

setor petrolífero aspecto consumidor de parcela considerável dos recursos eventualmente gerados.

Nos Estados Unidos, o presidente Obama pretende ainda em 2010 extinguir o subsídio

instituído no início do século passado para a indústria petrolífera direcionando os recursos para a

pesquisa em energia alternativa aos combustíveis fósseis, esperando, em trinta anos, livrar-se deste

último.

Ao mesmo tempo, no Brasil, a empresa criada para garantir a auto-suficiência nacional é

transformada em elemento financiador dos oligopólios internacionais através de uma política cujo

principal objetivo é iniciar – o mais breve possível – a exportação do petróleo do pré-sal.


25
Referências Bibliográficas

ANP. Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo e do Gás Natural 2007. Rio de Janeiro:
Agência Nacional do Petróleo e Gás.
BRASIL, Constituição (1891) Constituição dos Estados Unidos do Brasil: Rio de Janeiro,
Imprensa Nacional, 1912.
BRASIL, Constituição (1891) Constituição dos Estados Unidos do Brasil: Rio de Janeiro,
Imprensa Nacional, 1926.
BRASIL, Constituição (1934) Constituição dos Estados Unidos do Brasil: Rio de Janeiro,
Imprensa Nacional, 1943.
BRASIL, Constituição (1988) Constituição da República Federativa do Brasil: Brasília, Câmara
dos Deputados, 1988.
BRASIL. Decreto nº 24642. 10 jul. 1934.Cria o Código de Minas. Coleção das Leis. Rio de
Janeiro, 1936.
BRASIL. Decreto-Lei nº 3553. 25 ago. 1941. Dá nova redação ao art. 76 do Código de Minas. Lex:
coletânea de legislação e jurisprudência. São Paulo, ano 5, p. 379-380. 1941.
CAMARGO, Ricardo Antônio Lucas. Direito Econômico, direitos humanos e segurança
coletiva. Porto Alegre, Núria Fabris, 2007.
CLARK, Giovani.Política econômica e Estado. Boletim Científico da Escola Superior do
Ministério Público da União. Brasília, 2006.
COELHO, Wladmir Tadeu Silveira. A exploração petrolífera na América do Sul: Uma breve
análise do caso boliviano. Boletim Científico da Escola Superior do Ministério Público da União.
Brasília, 2006.
ESTADO DE SÃO PAULO. ANP: pré-sal deve ter no mínimo 50 bilhões de barris. Disponível em:
<http://www.estadao.com.br/noticias/economia,anp-pre-sal-deve-ter-no-minimo-50-bilhoes-de-
barris,274168,0.htm>. Acesso em: 02 de fevereiro de 2010.
FERRAJOLI, Luigi. A soberania no mundo moderno. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
LOBATO, José Bento Monteiro. O escandalo do petróleo e do ferro. São Paulo: Brasiliense,
1968.
ODEL, Peter. Petróleo a mola do mundo. São Paulo: Record, 1974
PETROBRÁS. A Petrobrás fez história e está fazendo o futuro. Disponível em:
<http://www2.petrobras.com.br/presal/10-perguntas/> . Acesso em: 02 de fevereiro de 2010.
PIMENTA, Eduardo Goulart;MIRANDA,Iúlian; BARACHO JÚNIOR, José Alfredo Oliveira
(Org.). Princípios e valores fundamentais da ordem econômica na Constituição de 1988 in
Constituição e Democracia aplicações. Belo Horizonte, Fórum, 2009.
SMITH, Adam. Inquérito sobre a natureza e a causa da riqueza das nações. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 1999.
SOUZA, Washington Albino de. Primeiras linhas de direito econômico. São Paulo: LTR, 2005.
SOUZA, Washington Albino de. Teoria da constituição econômica. Belo Horizonte: Del Rey,
2002.
TÁVORA, Juarez. Petróleo para o Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955.
UNITED STATES OF AMERICA. Statutes at large. Dísponível em: <http://www.tax-
freedom.com/originaltariff.pdf>. Acesso em 02 de fevereiro de 2010.
VENÂNCIO FILHO, Alberto. A intervenção do estado no dominio econômico. Rio de Janeiro:
Fundação Getúlio Vargas, 1968.
VICTOR, Mário. A batalha do petróleo brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.