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Análise do poema

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Published by: Sara Cruz on Dec 06, 2010
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Análise do poema "não tenhas nada nas mãos

"
Reis é o clássico entre os heterónimos de Fernando Pessoa. Trata claramente do heterónimo com a personalidade -se mais vincadamente analitica e formal, é o que escreve em melhor Português e é aquele que mais insiste em referências clássicas, sobretudo Gregas. Amante do exacto, médico de profissão e frio racionalista, Reis incorpora aquela parte de Pessoa que olha friamente para a realidade e não se emociona com ela. Reis olha simplesmente, como Caeiro, e embora não aceite a realidade sem emoção como Caeiro a aceita, Reis consegue tirar a emoção da realidade, tornando-se também deste modo objectivo. De certo modo é Caeiro o oposto de Reis. Se Caeiro aceita simplesmente, ingenuamente, Reis analisa demasiado, torna tudo em simbolo. Quanto ao poema que refere, vamos passar à sua análise de seguida: Não tenhas nada nas mãos Nem uma memória na alma, Que quando te puserem Nas mãos o óbolo último, Ao abrirem-te as mãos Nada te cairá. Reis fala do momento da morte. É aquando da morte que Reis diz que não deveremos ter nada nas mãos, nem uma memória na alma. Passa aqui uma ideia cara a Reis, que é o estoicismo - a resistência do homem ao sofrimento. A morte, o momento que todos temem deve - segundo Reis - ser encarado a frio, sem nenhum apoio, "sem nada nas mãos". Tão vazio (e sozinho) deve o homem encarar esta última etapa que mesmo o óbolo (a moeda que se costumava colocar nos mortos para pagar a passagem do Hades, o rio dos Infernos na antiguidade clássica) desapareceria, abertas as mãos. Que trono te querem dar Que Átropos to não tire? Que louros que não fanem Nos arbítrios de Minos? Átropos era a parca que cortava o fio da vida. Ou seja, decidia a morte. Reis diz-nos "Que trono te querem dar / Que Átropos to não tire?", ou seja, que coisas podes ter em vida, que posições, emprego, dinheiro, status social, que a morte não te tire? Tudo é vão e acaba com a morte, acaba quando Átropos decide cortar o fio da vida. O mesmo com os louros, com as glórias (lembre-se que os atletas eram loureados, presenteados com folhas de louro pelas suas vitórias desportivas). Minos era um dos juizes dos mortos, na mitologia grega. Que horas que te não tornem Da estatura da sombra Que serás quando fores Na noite e ao fim da estrada.

A morte é afinal essa sombra em que se torna o homem, desaparecido - uma lembrança - mera sombra, oposição ao sol. A noite e o fim da estrada são representações simbólicas da morte, o apagamento do ser e o fim da vida. Colhe as flores mas larga-as, Das mãos mal as olhaste. 1

Senta-te ao sol. Eis o estoicismo de Reis em todo o seu esplendor. e possuir afinal só aquela nobreza simples de nos conhecermos . Se renunciarmos. melhor é renunciarmos já. devemos aprender a renunciar e ver nissoum acto nobre da nossa parte. Abdica E sê rei de ti próprio. e." 2 .o lema grego altivo "nosce te ipsum". conhece-te a ti mesmo. Porque tudo se perde. nada vamos perder quando morrermos e se tudo acabamos por perder. Apenas em nós próprios podemos afinal possuir. não queiras conhecer nem possuir nada além de ti. acrescentamos nós.

recusa do esforço ou do compromisso . Nomeadamente observamos. incorporando quase em ícone um classicismo perfeito. "Que importa àquele a quem já nada importa / Que um perca e outro vença. Ser alheio. A vida ao passar.usando palavras de Jacinto do Prado Coelho . / Que me aumentam na alma?" . Da primavera (símbolo da renovação) e do Outono (símbolo da negatividade e do fluir do tempo). "Se cada ano com a primavera / As folhas aparecem / E com o Outono cessam?" . 3 . em vez de. e prefere as flores à realidade. Para além do homem e das suas preocupações.tudo isto encontramos nesta Ode que analisamos agora. Efémeras e belas.o ritmo morto do poema sugere isto mesmo. a resignação e a nobreza de espectador perante a realidade que se desenrola perante os seus olhos.Análise do poema "Prefiro rosas. apenas a observar. na beleza do artificio e na prática constante e perfeccionista da Ode. as outras coisas que os humanos / Acrescentam à vida. Por isso podemos dizer que Reis vê na sua atitude perante a vida uma decisão nobre e não apenas uma inevitabilidade.eis o reforço do que dizíamos antes. sobretudo as rosas. que Reis está indiferente à vida. ser estrangeiro é a forma de Reis se proteger da dor. Não é em vão que Reis clama pelas rosas ao iniciar este poema. Afasta-se para dentro e encontra nesse afastamento a razão de viver. procurar a proximidade com as coisas. "Prefiro rosas." . são um símbolo da contraposição entre o ideal estético nobre do poeta face à obrigação de viver. afinal está o destino e a natureza. Reis sabe que é diferente da Natureza e está revoltado com isso. quase de imediato. representando em teoria uma perfeita imagem do passado no presente . De notar também aqui os traços clássicos ("Logo que a vida" e "Que a vida"). mas ao mesmo tempo mágico e infinito. embora esta última perspectiva seja também essencial para o compreender. como Caeiro. Heterónimo clássico por definição. / E antes magnólias amo / Que a glória e a virtude.um verdadeiro poeta neoclássico. como outros deste heterónimo de Fernando Pessoa. do mesmo rio onde ele se senta com Lídia.marcada indiferença pela vida.o que os homens acrescentam à vida opõe-se ao que é natural. Tudo se move e acontece mesmo sem as nossas acções e o egoísmo (de quem vence ou perde) dilui-se no momento. Terá surgido a Pessoa como contraposição ao futurismo. meu amor. à pátria" O poema "Prefiro rosas. Reis é um homem perturbado e a sua aceitação. à pátria. a sua ataraxia é uma aceitação muito menos pacífica. Estas flores. as flores não prolongam a dor.". Esta indiferença.civilizado.Reis demite-se da vida." de Ricardo Reis. mas ama as magnólias (símbolo da nobreza). deixa-o na margem do rio. mas que já não é ingénua como a de Caeiro... umleit motif de Reis ao longo de todas as suas odes. para os Gregos representam um ideal estético por excelência e opõe-se eficazmente à realidade crua e dolorosa da vida imposta. Austero e contido. Reis prefere as rosas (símbolo do amor). em favor de um "quietismo" assustador. mesmo que assim tenha de se proteger da vida. O passar pela vida sem a modificar opõe-se também à mudança. Os ritmos incessantes da natureza. deixo / Que a vida por mim passe / Logo que eu fique o mesmo. "E o resto. ao que os homens acrescentam à vida. meu amor. ele é . Por ser clássico Reis traz uma atitude contemplativa da vida. às flores de gosto clássico. "Logo que a vida me não canse. a atitude expectante perante a vida. é marcado por temas fortes e constantes da sua obra. / Se a aurora raia sempre. As rosas. quer na forma quer no conteúdo dos seus poemas." . aceitação da vida. Reis tem de Pessoa toda a sua disciplina mental. às tribulações e movimento.

com um verso decassílabico e dois hexassílabos cada. Como se quem o ouvisse não existisse. à glória e à virtude . que lhe advém da influência Horaciana. 4 . As coisas da vida trazem-lhe apenas indiferença. não permite comunicação sincera. nem laços emocionais. diminuída).A interrogação retórica de Reis fica no ar e leva-nos de novo à pátria (em minúsculas.responde Reis à sua própria interrogação. sinal do seu epicurismo. de maneira calma e solitária. Até a maneira como o vocativo está intercalado no verso 1 é clássica. Esta contemplação. Reis dirige a alguém (ao seu amor). Veja-se agora como é curioso todo o poema."as outras coisas". Reis espera apenas pela "hora fugitiva". senão na sua concepção ideal. formal. uma marca também de Reis. sempre igual. Reis fala. salvo o desejo de indiferença / E a confiança mole / Na hora fugitiva. sem rima. mas é como se falasse consigo mesmo." . mas fala como a um -se confidente. Os versos são brancos. e fica sereno. pelo passar do tempo. Estilisticamente o poema constitui-se por 6 estrofes isomórficas. fria. não conseguindo quebrar a barreira que o impede de se encarar o exterior. "Nada.

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