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Suplemento para

o Professor

Biologia-Suplemento 1 22.06.05, 17:27


MP_BIO Col. Base_1 1 22/06/05, 8:37
SUMÁRIO
Apresentação ...................................................................................................... 4
Estrutura da obra ............................................................................................... 5
• Organização .................................................................................................. 5

Avaliação .............................................................................................................. 5
Comentários sobre as unidades ................................................................... 6
• Unidade 1 - O cenário da vida .................................................................... 6
Bibliografia específica (para os professores) ............................................ 6
Leituras complementares sugeridas (para os alunos) .............................. 7
A internet na sala de aula (endereços na Web) .......................................... 7
Materiais de apoio ......................................................................................... 8
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

• Leituras ................................................................................................... 8
• Sugestões de atividades ...................................................................... 20

• Unidade 2 - A unidade da vida ................................................................. 22


Bibliografia específica (para os professores) .......................................... 22
Leituras complementares sugeridas (para os alunos) ............................ 23
A internet na sala de aula (endereços na Web) ........................................ 23
Materiais de apoio ....................................................................................... 23
• Leituras ................................................................................................. 23
• Sugestões de atividades ...................................................................... 32

• Unidade 3 - A diversidade da vida .......................................................... 38


Bibliografia específica (para os professores) .......................................... 38
Leituras complementares sugeridas (para os alunos) ............................ 39
A internet na sala de aula (endereços na Web) ........................................ 39
Materiais de apoio ....................................................................................... 40
• Leituras ................................................................................................. 40
• Sugestões de atividades ...................................................................... 53

Respostas das atividades e dos exercícios


complementares de todos os capítulos ................................................... 56

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APRESENTAÇÃO
Na última década, conhecemos um mundo em contínua transformação, não só
tecnológica, mas principalmente social, em que todas as mudanças têm sido muito
rápidas. Cada vez mais, a sociedade opina sobre o domínio de novas tecnologias e os
limites éticos que a ciência deve respeitar em suas diversas áreas. A tomada de deci-
sões adequadas não se restringe à ética, mas interessa também ao conhecimento so-
bre princípios físicos, químicos e biológicos das técnicas em discussão.

Em particular no Brasil, a consolidação da democracia, a mudança nas formas


tradicionais de produção de bens e de serviços, a universalização do acesso à educa-
ção formal e o acentuado aumento na demanda pelo ensino médio — mais do que
triplicado na última década — passaram a exigir do aluno que se capacite para uma

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
plena inserção na comunidade e no mundo do trabalho. O domínio do conhecimento
há de ser, portanto, instrumento de inclusão social, e não, como foi durante séculos,
um dos meios para a manutenção da exclusão de milhões de pessoas.

No ensino médio — como etapa integrante da educação básica —, mais importan-


te que apresentar grande quantidade de conceitos é fornecer aos alunos maneiras de
buscar informações, estimulá-los a questionar e a propor soluções. O mais importan-
te é que os alunos saibam procurar respostas. Daí a necessidade de a escola rever o
seu papel, deixando de ser meramente informativa, para atender às reais necessidades
dos indivíduos, preparando-os para a vida, o trabalho e a cidadania.

Esse contexto faz crescer a importância do livro didático como instrumento pe-
dagógico. Para cumprir plenamente seu papel, o livro deve, além da indispensável e
rigorosa atualização e da exatidão dos conceitos, desenvolver o potencial de análise
crítica e o posicionamento consciente dos alunos diante de situações cotidianas. Cabe,
igualmente, ao livro didático conduzir o aluno a reconhecer o conhecimento como
resultado do fazer humano, não fragmentado nem atemporal, pois todo saber reflete
um determinado contexto histórico.

Esta obra foi concebida com essas múltiplas intenções. Cuidamos para que os
assuntos fossem tratados de forma crítica e interdisciplinar, trazendo dados de nossa
realidade e apresentando questionamentos que permitam a reflexão.

As dimensões da obra e a quantidade de atividades propostas levaram em conta a


quantidade de aulas semanais habitualmente dedicada à Biologia na maioria das es-
colas públicas do país. Mesmo condensado, o conteúdo não perdeu informações sig-
nificativas. Houve uma rigorosa seleção de pontos básicos que atendessem às neces-
sidades dos alunos, procurando, sempre que possível, relacionar a informação à apli-
cação, trazendo situações do cotidiano, alertando para problemas existentes e inci-
tando à responsabilidade.

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que o processo de aprendizagem possa ter alcançado seus objetivos!
Estrutura da obra Um livro didático apresenta como sugestão algumas referências tem-
A obra foi desenvolvida em linguagem clara e acessível ao aluno do porais, mas está longe de ser um “planejamento aula-a-aula”!
ensino médio. Dedicamos atenção especial não apenas ao domínio da
linguagem escrita, mas também da visual, sobretudo a artística e a Organização
cartográfica, mediante criteriosa seleção de gráficos, esquemas, diagra- As propostas de atividades foram dosadas para trabalho em classe.
mas, fotos e ilustrações didaticamente relevantes. Na maioria dos capítulos, encontram-se duas propostas de atividades;
Ao longo da obra, são encontrados pequenos textos, graficamente portanto, cada uma correspondente a, aproximadamente, uma semana
destacados com fundo verde (por exemplo, na página 3, coluna da es- de trabalho letivo. A título de sugestão, após cada proposta de ativida-
querda). São definições, etimologias, glossários ou informações com- des encontra-se uma remissão aos exercícios complementares, permi-
plementares. Além deles, destacam-se outras seções: tindo que o aluno e o professor se orientem com mais facilidade ao pla-
• O que você pode fazer? (por exemplo, na página 56): seu objetivo nejarem o estudo dos diversos assuntos apresentados.
geral é mostrar formas de atuação consciente na vida em comunidade. Os exercícios complementares podem ser propostos tanto durante
Quando relacionada à saúde, apresenta medidas de profilaxia e pre- as aulas (dependendo do tempo disponível) quanto como tarefa para
venção de doenças, ou de tomadas de decisões em situações de risco. aprofundar o estudo em casa. As discussões referentes aos textos com-
Têm o objetivo de estender o tratamento dos temas de saúde além de plementares ficam a critério do professor, mas sugerimos que sejam
sua dimensão estritamente biológica, mostrando que, muitas vezes, o apresentadas como propostas de discussão em grupo. Tais questões não
processo saúde/doença é parte integrante e resultante da própria orga- apresentam respostas únicas e servem exatamente para fomentar o de-
nização social. bate, cabendo ao professor o papel de mediador da discussão.
Os textos complementares, apresentados ao longo da obra, estão
• O que deve ser feito (por exemplo, na página 223): estimula o relacionados a grandes temas. Esses textos — graficamente identifica-
posicionamento sociopolítico do aluno, propondo que ele se mantenha dos — podem ser usados pelo professor para motivar e estimular discus-
informado e atuante. sões em grupo.
Os temas destacados são: Ambiente e preservação (ver, por exem-
O conteúdo programático das obras foi dividido em unidades, que
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plo, página 15); Ciência e tecnologia (por exemplo, página 99); Ética e
estão subdivididas em capítulos, nos quais se buscou o equilíbrio em
cidadania (por exemplo, página 46); Orientação sexual (por exemplo,
relação aos conceitos apresentados. Em todos os capítulos, há ativida-
página 313); Pluralidade cultural (por exemplo, página 341); Quali-
des em quantidade adequada, plenamente integradas aos conteúdos apre- dade de vida (por exemplo, página 108) e Trabalho e consumo (por
sentados. Perguntas calcadas na simples memorização deram espaço ao exemplo, página 331). A seleção desses temas — arbitrária — levou em
raciocínio, ao desenvolvimento da consciência e da cidadania, bem como conta a percepção da necessidade de a educação:
ao estabelecimento de uma postura crítica de julgamento e de interven-
ção na realidade. Tomamos como prioridade aquelas que permitem ex- • voltar-se à compreensão crítica da realidade social, científica, cultural
plorar a compreensão de fenômenos, a solução de situações-problema, o e política;
levantamento de hipóteses, a elaboração de propostas de intervenção na • permitir ao aluno usufruir eticamente o conhecimento, a tecnologia e
realidade e a construção de argumentação consistente. os recursos naturais;
Ao escreverem esta obra, os autores incorporaram à concepção do
livro uma ampla experiência didática pessoal. O livro — com o conteú- • estimular o aluno a se perceber como capaz de transformar solidaria-
do habitualmente trabalhado no ensino médio — foi dividido em 36 mente a realidade.
capítulos, cada um destinado a aproximadamente duas semanas de tra-
balho. Longe de ser uma “camisa-de-força”, a seqüência na qual foram
dispostos os conteúdos e a correspondência temporal entre capítulos e
semanas têm caráter de sugestão, e buscam facilitar o trabalho em clas-
Avaliação
se, deixando a critério do professor os ajustes porventura necessários, A avaliação está ganhando cada vez mais espaço nos debates edu-
de acordo com seus interesses, a carga horária, as realidades regional e cacionais. É considerada um elemento indispensável da prática pedagó-
local, o trabalho com temas de oportunidade etc. gica, podendo assumir um caráter de medição, seletivo, diagnóstico,
É importante compartilhar com toda a comunidade escolar — prin- uniformizador, formativo ou regulador, para citar os mais comuns. É
cipalmente com os alunos — a idéia de que essa obra didática é um evidente, para todos os educadores, que devemos avaliar; no entanto, os
“ponto de partida”, e não de “chegada”. Sua versatilidade permite que aspectos geradores de polêmicas e desencontros focalizam-se nos obje-
seja utilizada em diversas perspectivas e nas distintas realidades que com- tivos (para quê), nos sujeitos (quem) e nos procedimentos (como) das
põem o universo educacional do ensino médio no país. Assim, é impor- ações avaliativas. São, portanto, muitos os conceitos e as funções da
tante destacar: avaliação; todavia, são os educadores os responsáveis pela opção de de-
terminados métodos e técnicas que definem sua concepção e função no
• Não se trata de uma obra completa, pelo simples fato de que nenhuma processo pedagógico, já que, na prática, ninguém avalia por avaliar, mas
obra o é ou pode ter essa pretensão. A Biologia é uma ciência e, como para definir uma ação a partir dos indicadores dela advindos.
tal, não é sinônimo de “conhecimento”. Teorias são contestadas, nova- Quando a questão central se localiza nos objetivos da avaliação,
mente testadas e podem cair em descrédito; a descoberta de novos várias abordagens podem ser consideradas. De acordo com uma finali-
fatos pode exigir modificações ou o abandono de uma teoria. A cada dade verificadora, o que interessa são os resultados. Quando estes se
década, a espécie humana vem adquirindo a mesma quantidade de novas caracterizam como o ponto fundamental do processo, a avaliação tende
informações que havia demorado um século para conquistar. Essa acu- a se configurar como um julgamento que implica considerar o grau de
mulação de informações, por exemplo, fará com que, muito em breve, satisfatoriedade dos resultados obtidos em relação aos esperados, e a
este livro esteja obsoleto e deva ser revisto. A ciência não aceita nada análise do mérito do produto apresentado. Nesse sentido, a avaliação é
como imutável, fixo ou infalível, mas constantemente procura evidên- compreendida como uma técnica de análise do progresso dos alunos em
cias adicionais para verificar e explicar seus princípios básicos. pertinência a objetivos educacionais preestabelecidos e usada apenas
como verificação de um produto finalizado; limita-se em uma tentativa
• O recorte programático efetuado por nós, autores, não é a única ma-
de quantificar a produção, descrevendo e discriminando o que os alunos
neira de trilharmos o imenso universo da Ciência, e sequer se arvora a
aprendem na escola. A ação de avaliar figura, então, apenas como coad-
se considerar o melhor ou mais adequado. O recorte é arbitrário. Os 36
juvante do ato pedagógico, concebida como a etapa final do processo de
capítulos da obra podem ser percorridos em diferentes ordenamentos.
ensino e de aprendizagem.
Portanto, diversas seqüências são possíveis, cabendo ao professor op-
Uma função diagnóstica, formativa ou reguladora visa caracterizar
tar pela mais adequada, atendendo às suas disponibilidades de tempo,
a avaliação como um instrumento capaz de indicar aos docentes os inte-
às realidades locais, ao aproveitamento de temas de oportunidade etc.
resses, necessidades, conhecimentos ou habilidades dos alunos com a
• Não há correspondência absoluta entre unidades, capítulos, semanas e finalidade de mapear quais objetivos foram alcançados ou não e, princi-
anos letivos; isto é, não há necessidade de que todo o conteúdo palmente, localizar as dificuldades dos alunos para auxiliá-los na desco-
programático previsto para determinado período seja completado, para berta de outros caminhos que lhes permitam progredir. Uma estratégia

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de avaliação formativa busca: 1) recolher informações sobre o conheci- de procedimentos disponíveis para avaliar, é necessário selecionar os
mento dos alunos, com base nos objetivos propostos, 2) interpretar as mais indicados, de acordo com os objetivos que se tem ao avaliar. Deve-
informações colhidas e, 3) planejar atividades de recuperação para os se ter claro que, ao decidir por um modelo de avaliação formativa, o
alunos que não conseguiram atingir as metas de aprendizagem, por meio educador está optando por uma ação pedagógica não-tradicional, que
de construção de estratégias didáticas mais adequadas. O propósito des- privilegie o caminhar de cada aluno, objetivando ajudá-lo a progredir
se tipo de avaliação, portanto, é orientar todo o processo pedagógico, em suas aprendizagens. Por sua vez, a avaliação normativa e verificadora
por meio de um instrumento educativo que informe e estabeleça uma impede práticas pedagógicas diferenciadas, já que os alunos são consi-
valoração do processo de aprendizagem do aluno para lhe oportunizar, derados iguais, tendo as mesmas capacidades de aprender ao mesmo
em momentos certos, as propostas pedagógicas apropriadas. Nesse sen- tempo os conteúdos propostos, portanto, com as mesmas chances de
tido, a avaliação se transforma no principal instrumento de trabalho do atingirem os objetivos estabelecidos.
educador. Finalizando esta reflexão, é importante evidenciarmos que o mais
A avaliação final, somativa ou integradora é compreendida como importante é o repensar das práticas avaliativas a partir da principal fun-
um olhar final que, a partir de um diagnóstico inicial, evidencia o per- ção da avaliação, que para o professor Celso Vasconcelos “é ajudar a
curso do aluno, as ações específicas que foram realizadas, o resultado garantir a formação integral do sujeito pela mediação da efetiva cons-
final do processo e, fundamentalmente, a partir desse saber, o planeja- trução do conhecimento e a aprendizagem de todos os alunos”.
mento didático com as previsões do que é necessário continuar fazendo,
o que é preciso refazer, para quem e de que modo. Desse ponto de vista,
a avaliação não é compreendida como fim em si mesma, mas como meio
para a realização da adequação e readequação constante do currículo. Comentários
Quando o foco de ação se fixa no objeto da avaliação, podemos
encontrar tendências que focalizam o aluno, a classe, o professor, os
resultados obtidos, o processo de aprendizagem ou a intervenção peda-
sobre as unidades
gógica. Entretanto, nossa tradição escolar tem se centrado, quase que
exclusivamente, no aluno como sujeito, e o resultado de sua aprendiza- Unidade I - O cenário da vida
gem como objeto da prática avaliativa. O aluno é o elemento avaliado e

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A opção pela Ecologia como Unidade introdutória do estudo da
deve apresentar determinados rendimentos de acordo com as expectati- Biologia deu-se em decorrência de dois aspectos:
vas definidas pelo educador. Todavia, tais expectativas, que foram pre-
viamente estabelecidas, não consideram o aluno concreto, mas um mo- • a preocupação de desenvolver no aluno uma visão abrangente das
delo de aluno ideal, que, via de regra, possui determinados requisitos interações que os seres vivos mantêm entre si e com o ambiente, sus-
para alcançar os resultados esperados. tentando a vida;
A avaliação do desempenho dos alunos, em contrapartida, tem como • explorar aspectos do mundo macroscópico pertinentes ao dia-a-dia dos
sujeito a turma e como objeto as atividades coletivas de aprendizado, alunos e mais próximos de sua realidade.
realizadas em sala de aula. As atividades são planejadas para fornecer
critérios e objetivos que possam funcionar como base para uma ação Dominando esta Unidade, a Ecologia assume uma feição diferente.
avaliativa, na qual se analisam capacidades e conhecimentos, mas tam- De hábito, a Ecologia é apresentada nos moldes tradicionais de uma
bém a interação com os outros, a expressão oral, a apresentação e orga- “Biologia de campo”, distante da visão que nós, autores, pretendemos
nização das tarefas, a participação e liderança do grupo. Os portfólios e neste livro.
registros pessoais são usados para coletar e selecionar os trabalhos dos De 1950 até hoje, a população mundial passou de 2,5 bilhões para
alunos, demonstrando seus progressos em relação a eles próprios. Cha- mais de seis bilhões de pessoas, um grupo bastante heterogêneo, cada
mada de auto-avaliação, esse tipo de coletânea ou álbum tende a focali- vez mais dividido entre “os que têm” e “os que nada têm”. Para muitos
zar o desempenho particular de cada aluno. Tais registros, geralmente, países, às voltas com necessidades prementes — como alimentar, abri-
são propriedade dos alunos, mas podem ser socializados com vistas a gar e prover saúde para seu povo —, priorizar as questões ambientais
compartilhar as experiências, os sucessos e as dificuldades com o pro- parece utopia ou ficção. Entretanto, é chegada a hora de decidirmos
fessor ou com todo o grupo, objetivando auxiliar ou ser auxiliado em qual modelo de desenvolvimento adotaremos, como iremos explorar os
algum aspecto da aprendizagem. As notas, geralmente usadas nos pro- recursos ambientais e qual destino daremos para os resíduos que produ-
cessos de avaliação, também trazem opiniões conflitantes entre os edu- zimos em escala crescente. A Ecologia não está restrita às páginas deste
cadores. Para alguns é entendida como o instrumento de classificação livro: está na lata de refrigerante lançada pela janela dos carros, no de-
morado banho de chuveiro e nos aerossóis que usamos em nossas casas.
dos alunos, com sua ênfase na comparação de desempenho e não nos
Não somos apenas espectadores; somos protagonistas no grande “cená-
objetivos educacionais que se pretende atingir. Há uma soma e divisão
rio da vida”. Mais do que transmitir conceitos, desejamos convocar os
de notas para se chegar a uma média reveladora do rendimento escolar,
alunos a uma tomada de posição; queremos estimular a consciência de
revestindo a avaliação de um perfil exclusivamente quantitativo e
que somos todos responsáveis pelo planeta em que vivemos e que deixa-
contabilístico que desconsidera os princípios educativos. Outros com-
remos para nossos filhos.
preendem que é preciso que se perceba o real significado e que se escla-
reça a função e a representação das notas, que não são determinadas
apenas pelo resultado do produto apresentado, mas pela experiência e Bibliografia específica (para os professores)
aquisição do aprendizado. Se a nota representar um mero símbolo, por BOTKIN, Daniel B.; KELLER, E. Environmental science. New York:
meio do qual se demonstra o resultado do conhecimento do aluno, o John Wiley & Sons, 1998.
problema não se localiza em emitir ou não uma nota, um símbolo quan- BREWER, Richard. The science of Ecology. Michigan: Western Michigan
titativo a um trabalho realizado; a contradição está na atitude docente University, 1994.
que, via de regra, avalia o resultado de um produto demonstrativo da CARRON, Wilson; GUIMARÃES, José O. S. As faces da Física. São
aprendizagem. Nessa direção, a nota não dependerá do educador, mas, Paulo: Moderna, 1997.
sobretudo, do interesse do aluno em conquistar e consolidar novos sabe- CHIRAS, Daniel D. Environmental science. Belmont: Wadsworth
res. Para tal, a ação pedagógica não será tarefa fácil, já que exigirá dos Publishing, 1998.
alunos maturidade para que saibam discernir sobre os meios e fins CORSON, Walter H. (Org.). Manual global de Ecologia. São Paulo:
educativos, e dos educadores, o empenho para formação de pessoas li- Augustus, 1996.
vres e autônomas. EMBRAPA. Atlas do meio ambiente do Brasil. Brasília: Terra Viva, 1996.
Podemos observar, então, que os educadores vivenciam, freqüen- FELTRE, Ricardo. Fundamentos da Química. São Paulo: Moderna, 2001.
temente, em sua ação pedagógica, um dilema fundamental: que tipo de FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION. Dimensions of need
avaliação aplicar. Obviamente a escolha não é simples, já que a comple- — An atlas of food and agriculture. London: Banson, 1995.
xidade e a multirreferencialidade do fato educacional impossibilitam ––––––––––––. The state of food and agriculture. New York: J. Wiley,
respostas lineares e definitivas; não basta optar por um ou outro tipo de 1995.
avaliação, mesmo porque nenhuma é completa ou perfeita, todas guar- ––––––––––––. World agriculture: towards 2010 — An FAO study. New
dam especificidades que lhes são próprias. Diante da grande variedade York: J. Wiley, 1995.

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GARSCHAGEN, Donaldson M. (ed.). Ciência e futuro 1993. Rio de cursos naturais, uso de pesticidas e agricultura sustentável.
Janeiro: Encyclopaedia Britannica do Brasil. www.ars.usda.gov
MAGNOLI, Demétrio. O mundo contemporâneo. São Paulo: Atual, 2004. Associação Amazônia — Página da Associação Amazônia, dedicada ao
MELO, Itamar S.; AZEVEDO, J. Controle biológico (Volume 1). Brasília: estudo e à divulgação de informações sobre desenvolvimento sus-
Embrapa, 1998. tentável, conservação, saúde, biodiversidade e temas gerais de Eco-
MILLER, G. Tiller. Environmental science. Belmont: Wadsworth logia, particularmente no que se refere à Amazônia brasileira.
Publishing, 1997. www.amazonia.org
NEBEL, Bernard J.; WRIGHT, Richard T. Environmental Science. The Base de Dados Tropical — A BDT tem como meta e estratégia a disse-
Way the World Works. New Jersey: Prentice-Hall, 1996. minação de informação eletrônica, como ferramenta na organiza-
PERUZO, Tito M.; CANTO, E. L. Química na abordagem do cotidiano. ção da comunidade científica e tecnológica do país. Atua na área de
3v. São Paulo: Moderna, 2003. informação biológica, de interesse industrial e ambiental, e preten-
PRIMAVESI, Ana. Manejo ecológico do solo. São Paulo: Nobel, 1990. de contribuir diretamente para a conservação e utilização racional
RAMAGE, Janet. Energy — A guidebook. Oxford: Oxford University da biodiversidade no Brasil.
Press, 1997. www.bdt.org.br/
RAVEN, Peter H. et al. Environment. Orlando: Saunders College Biodiversity and Biological Collections — Apresenta informações
Publishing, 1995. diversificadas e relevantes na área de Biologia, úteis para estudantes
SMITH, Robert Leo. Ecology and field biology. New York: Harper Collins e professores. Possibilita acesso a numerosos outros endereços na Web.
College Publishing, 1996. www.biodiversity.uno.edu
TARBUCK, Edward J.; LUTGENS, Frederick K. Earth science. New Cetesb — A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental faz
Jersey: Prentice Hall, 1997. parte da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. For-
THURMAN, Harold V. Introductory Oceanography. New York: nece informações sobre o controle da poluição, pesquisas na área
MacMillan Publishing, 1994. de tecnologia ambiental, legislação ambiental e recursos hídricos.
TURK, Jonathan; THOMPSON, Grahan R. Environmental Geoscience. www.cetesb.sp.gov.br
Orlando: Saunders College Publishing, 1995. Department of Atmospheric Sciences (University of Illinois) — Trata de
WILSON, Edward O.; PETER, F. Biodiversidade. Rio de Janeiro: Nova aspectos referentes à atmosfera terrestre (meteorologia, poluição
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Fronteira, 1997. atmosférica etc.).


www.atmos.uiuc.edu
Leituras complementares sugeridas Discovery Channel na escola — Uma página do Canal Discovery que
(para os alunos) contém os mais variados assuntos, dando ênfase à área de ciências e
tecnologia, além de mostrar a natureza e seus ecossistemas.
ALBERTS, Carlos C. Perigo de vida. São Paulo: Atual. www.discoveryportugues.com
BRANCO, Samuel Murgel. Água — Origem, uso e preservação. São Ecoambiental — Uma página voltada ao estudo do meio ambiente; trata
Paulo: Moderna. de vários aspectos, como biodiversidade, atmosfera, poluição, efei-
––––––––––––. Energia e meio ambiente. São Paulo: Moderna. to estufa etc.
––––––––––––. Natureza e agroquímicos. São Paulo: Moderna. www.ecoambiental.com.br/
––––––––––––. O desafio amazônico. São Paulo: Moderna. Ecologia de Paisagem — Laboratório de Pesquisa da Universidade Fe-
BRANCO, Samuel Murgel; BRANCO, Eduardo. Poluição do ar. São deral do Rio Grande do Sul que realiza pesquisas na área de ecolo-
Paulo: Moderna. gia de paisagem, geoprocessamento, zoneamento de áreas ecologi-
CANTO, Eduardo Leite. Plásticos — Bem supérfluo ou mal necessá- camente importantes.
rio? São Paulo: Moderna. www.ecologia.ufrgs.br/paisagem/land5.htm
CAVINATTO, Vilma Maria. Saneamento Básico — Fonte de saúde e Ecologia e Desenvolvimento — Ampla informação sobre a temática li-
bem-estar. São Paulo: Moderna. gada à natureza e sua preservação, levando-se em conta o desenvol-
CHASSOT, Attico. A ciência através dos tempos. São Paulo: Moderna. vimento econômico e industrial.
CHIAVENATO, Julio José. O massacre da natureza. São Paulo: Moderna. www2.uol.com.br/ecologia/
CONTI, José Bueno. Clima e meio ambiente. São Paulo: Atual. Ecologia web site — Um site que traz informações sobre Ecologia, como
FURLAN, Sueli A.; NUCCI, João Carlos. A conservação das florestas por exemplo, parques nacionais, ecossistemas, problemas ecológi-
tropicais. São Paulo: Atual. cos e fauna.
FUTUNA, Edson. O ecossistema marinho. São Paulo: Ática. www.geocities.com/RainForest/Jungle/3434/
GIANSANTI, Roberto. O desafio do desenvolvimento sustentável. São Embrapa — Site da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, com
Paulo: Atual. informações sobre ambiente, melhoramento genético, produção de
MAGOSSI, Luiz Roberto; BONACELLA, Paulo Henrique. Poluição das alimentos, irrigação, plantio e controle biológico. Tem dados sobre
águas. São Paulo: Moderna. zoneamento agrícola, links relacionados com agricultura e ferra-
MINC, Carlos. Ecologia e cidadania. São Paulo: Moderna. menta de busca (“Guia de Fontes”), facilitando pesquisas.
NEIMAN, Zysman. Era verde? São Paulo: Atual. www.embrapa.br
RIBEIRO, José Hamilton. Pantanal, amor baguá. São Paulo: Moderna. Guia de Ecologia — Seleção comentada de sites sobre Ecologia, inclu-
RODRIGUES, Sérgio de Almeida. Destruição e desequilíbrio. São Pau- indo links de instituições, projetos, parques e reservas nacionais,
lo: Atual. dicas de reciclagem, cursos e outros.
ROSA, Antonio Vitor. Agricultura e meio ambiente. São Paulo: Atual. www.sobresites.com/ecologia/
SNEDDEN, Robert. Energia. São Paulo: Moderna. Meio ambiente para todos — Este é o site da ECOM — Ecologia &
––––––––––––. Vida. São Paulo: Moderna. Comunicação, traz informações relacionadas à área de Ecologia,
SCARLATO, Francisco C.; PONTIN, Joel Arnaldo. Do nicho ao lixo. como profissões, universidades, trabalhos, ecoturismo, além de no-
São Paulo: Atual. tícias e biblioteca.
––––––––––––. O ambiente urbano. São Paulo: Atual.
www.meioambiente.org.br/
SOUZA, Herbert (Betinho); RODRIGUES, Carla. Ética e cidadania.
NRDC on-line — Site do Natural Resources Defense Council, que apre-
São Paulo: Moderna.
senta numerosas e interessantes seções, incluindo um dicionário de
TOKITAKA, Sônia; GEBARA, Heloísa. O verde e a vida. São Paulo: Ática.
Ecologia, temas atuais relativos às questões ambientais e muito mais.
TOLENTINO, Mario e outros. A atmosfera terrestre. São Paulo: Moderna.
www.nrdc.org
TUNDISI, Helena da Silva F. Usos da energia. São Paulo: Atual.
O Estado de S. Paulo — Contém cadernos e artigos dos jornais O Estado
de S. Paulo e Jornal da Tarde. Há vários assuntos ligados à Biolo-
A internet na sala de aula (endereços na Web) gia, incluindo ambiente, poluição, novas descobertas, demografia,
ARS (Agricultural Research Service) — Faz parte do Departamento de ética, agronomia etc. Dispõe de item “Pesquisa” para busca através
Agricultura dos Estados Unidos; é um setor de pesquisas em várias de palavra-chave, carregando artigos relacionados ao assunto.
áreas como irrigação, melhoramento genético, produção animal, re- www.estado.com.br

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Odyssey expeditions — Um site em inglês que trata de expedições rela- verdadeira vocação de naturalista. Primeiramente, foi encaminhado à
cionadas à Biologia, principalmente assuntos relacionados à Biolo- medicina, quer por uma tradição de família, quer, possivelmente, por
gia marinha e Ecologia. haver demonstrado na infância a tendência pouco comum de dissecar
www.odysseyexpeditions.org/ animais para examinar o conteúdo. Tendo, entretanto, nas aulas da uni-
Revista Ecologia e Desenvolvimento — Um site do Uol que traz infor- versidade (que era, na época, eminentemente “multidisciplinar” e
mações e curiosidades sobre assuntos relacionados à Ecologia, como eqüipotencial, em termos de formação profissional), revelado nítida e
revistas, livraria, links. incontrolável repugnância pela contemplação da doença e da dor, enca-
www.uol.com.br/ecologia/ minhou-se para a profissão teológica, clerical, com a qual também ma-
The Envirolink Network — Organização ecológica dedicada a divulgar nifestava incompatibilidades, mais inclinado que era aos fatos do que às
informações referentes à Ecologia, discutindo problemas ambientais crenças. Finalmente, por uma circunstância fortuita, que todos conhe-
associados às atividades humanas. cem, do convite para engajar-se como “naturalista de bordo” em uma
www.envirolink.org excursão científica de circunavegação e detalhamento geográfico da costa
U. S. Fish and Wildlife Service — Site elaborado pelo órgão do governo sul-americana, com cinco anos de duração, foi encaminhado à história
norte-americano encarregado da conservação e proteção da vida natural, em que manifestou sempre igual interesse – e competência –
selvagem nos Estados Unidos. Oferece links com endereços afins. pela geologia, pela botânica e pela zoologia.
www.fws.gov Essas tendências e preferências pessoais manifestam-se, possivel-
U. S. Geological Survey — Mantido por esse órgão do governo norte- mente, em função já de um vislumbre metodológico: é muito nítido o
americano, este site apresenta informações sobre meio ambiente, desgosto, por exemplo, que um estudante mostra pelas matemáticas,
incluindo riscos ambientais, recursos naturais e gerenciamento quando suas preferências se dirigem a matérias descritivas, como a bio-
ambiental. logia ou a história; ao contrário, a vocação para a engenharia se caracte-
www.info.er.usgs.gov/network/science/biology/index.html riza por uma forte preferência pelas demonstrações da física e da mate-
World Wild Found for Nature — Site dessa organização não-governa- mática, não percebendo, em geral, qualquer sentido na observação dos
mental dedicada ao estudo de questões ambientais, apresenta diver- hábitos de bichos e plantas. Há, também, a índole do colecionador, uma
sas seções que abordam temas atuais relativos aos problemas tendência sistemática – quase artística – que tanto pode ser aplicada à
ambientais. mineralogia quanto à classificação de insetos, conchas, plantas ou selos

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www.panda.org do correio... Mas são sempre opções metodológicas. Assim, o sistemata,
WWF — A WWF é uma instituição não-governamental que tem como em biologia, dificilmente se interessa pela fisiologia.
principal função a conservação do meio e das espécies existentes Preferências metodológias e acúmulo de conhecimentos constituí-
nele. No site você encontra dados e trabalhos realizados por essa ram, afinal, as razões básicas para a subdivisão da ciência. O princípio
organização. cartesiano só se aplica a coisas que, pela sua extensão, se mostram divi-
www.wwf.org.br síveis. São divisões de conveniência, e não de essência. Descartes pro-
põe subdividir o problema a ser esclarecido em tantas partes quanto pos-
Materiais de apoio sam ser resolvidas separadamente, e não ad infinitum... Entretanto, a
divisão do conhecimento em subdivisões infinitas, segundo uma hierar-
Leituras
quia, constitui objetivo atual dos bibliotecários, e Dewey, com seu famo-
ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR DA BIOLOGIA so “método decimal de catalogação”, conseguiu esse intento, facilitando
A biologia, considerada ciência básica, isto é, um ramo puro do sobremaneira a classificação de livros e a sua busca, “por assunto” nas
conhecimento humano dito científico, contribui para várias outras, as- bibliotecas!
sim como recebe de outras fundamentais contribuições. A questão da Por outtro lado, as tendências modernas à unificação, à globalização,
interdisciplinaridade, entretanto, torna-se meramente “convencional” na à visão sistêmica são visceralmente contrárias a essa “atomização” do
medida em que fazemos, de uma ciência básica, uma abordagem mais conhecimento. Primeiro, pela própria essência das ciências. As leis que
ou menos ampla de seu campo de operações. Isso porque, em termos de explicam o movimento dos astros, a composição íntima da matéria, a
abrangência, as ciências possuem, em geral, limites meramente conven- origem e a natureza física da vida são as mesmas em todo o universo.
cionais. O conhecimento científico – ou seja, aquele que pode ser sub- “Verás que a natureza, em todo semelhantte, é a mesma em toda parte”,
metido a provas e contraprovas, não derivando somente de argumentos, dizia Pitágoras em seus versos áureos. Assim sendo, as divisões entre
opiniões, preferências e “gostos” – não possui barreiras internas, pois química, física, biologia e astronomia são apenas formais e não essenci-
isso seria contrário à sua própria definição, pois limitaria o gênero de ais. Além disso, a constatação “holística” de que a associação de ele-
provas e objeções que lhe poderiam ser impostas. mentos em um sistema é mais do que uma simples justaposição, pois
Na época de Aristóteles, a proposição de interdisciplinaridade não dela resultam propriedades novas, condena a separação dos elementos,
teria sentido. Sua ciência – ou seja, os aspectos de sua contribuição para aconselhando, ao contrário, a síntese, a integração que permite a interação.
o conhecimento que foram derivados da observação, da comparação e Por conseguinte, só podemos tratar formalmente da interdisciplinaridade
da experimentação – incluía os “ramos” mais diversos, como a como tentativa de juntar o que “estava separado”. O sódio (um metal
meteorologia, hidrologia, astronomia, física, biologia... Seria ele um prateado, brilhante, altamente reativo) e o cloro (gás incolor, tóxico,
“multicientista”, um profissional que dominava vários ramos do saber oxidante poderoso) são completamente diferentes do cloreto de sódio
indistintamente? Ou era a própria ciência que não reconhecia a necessi- (sal de cozinha) que se forma pela sua associação. Dizer que são “ele-
dade de subdivisões em “ramos” distintos do saber? Na Idade Média, o mentos complementares” nessa síntese é inteiramente supérfluo e
conhecimento dos alquimistas era também multiforme, tendo dado ori- impróprio.
gem a descobertas básicas nos campos da química, da mineralogia, da
As “Ciências Afins” da Biologia
farmácia, da medicina. Foi, pois, a ampliação dos conhecimentos adqui-
ridos pela ciência que exigiu, por assim dizer, as suas subdivisões em De um ponto de vista formal, há dois níveis de complementaridade
diversas “ciências” (como se a palavra ciência admitisse o plural), e entre a biologia e outras ciências. Existem as ciências para as quais a
estas em várias disciplinas, de acordo com a sua metodologia de traba- biologia contribui e existem as ciências das quais depende a biologia.
lho, ou seja, com os tipos de métodos mais familiares e mais objetiva- Entre as ciências para as quais a biologia contribui decisivamente, a
mente utilizados na obtenção das provas necessárias à sua certificação. ponto de ser impossível a sua abordagem sem ser a partir mesmo da biolo-
O reconhecimento elementar de diferenças de categoria e metodologia gia, estão a medicina e a agronomia, com suas múltiplas ramificações.
entre a filosofia, as artes e a ciência parecer ser, até certo ponto, intuiti- Em menor grau, dentro da geologia, a estratigrafia, ou mais especifica-
vo (embora não o fossem numa época em que os “argumentos”, quer de mentte a bioestratigrafia, recebe o concurso da biologia, por meio da
origem autoritária, revelada, intuída, deduzida ou induzida, observada paleontologia, considerada esta legítima disciplina da biologia, que trata
ou experimentada, tinham igual valor). da morfologia (e até da ecologia, ou pelo menos da biogeografia) dos
Dentro desse panorama extenso da ciência, os que a ela se dedica- animais e vegetais extintos. Os fósseis, considerados como elementos es-
vam começaram a manifestar “preferências”, em consonância, certamen-
te, com seus respectivos temperamentos pessoais. É muito instrutivo, a
esse respeito, notar, na trajetória de vida de Charles Darwin,1 como ele 1
A. Desmond & J. Moore, Darwin. A vida de um evolucionista atormentado (São
foi submetido a diversas alternativas de profissão, até “encontrar” a sua Paulo: Geração, 1995).

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truturais de rochas, são, em relação a estas, elementos secundários e têm Podemos tabular alguns dos fenômenos específicos aos seres vivos:
origem biológica, interessantes apenas como elementos de datação e de
reconhecimento das condições da formação de rochas sedimentares, ca- • Programas evoluídos. Os organismos são produtos de 3,8 bilhões
bendo, pois, a denominação bioestratigrafia ao seu estudo especializado. de anos de evolução, e suas características refletem essa história.
Quanto às ciências ou disciplinas que contribuem metodológica ou Desenvolvimento, comportamento e todas as outras atividades dos
essencialmente para a biologia, incluem praticamente todas as ciências seres vivos são em parte controladas por programas, que são o resul-
básicas, uma vez que a “substância” biológica é a sua natureza química, tado de informações genéticas acumuladas durante a história da vida.
as suas propriedades são físicas e a sua morfologia é geométrica. D’Arcy Desde a origem dos procariontes mais simples até árvores gigantes-
Thompson (1860-1948) foi um zoólogo escocês de saber imenso. Faz cas, elefantes e baleias, desenrola-se uma sucessão evolutiva
parte do seu currículo o fato espantoso de ter sido convidado na mesma ininterrupta.
ocasião a ocupar, em três universidades britânicas distintas, respectiva- • Propriedades químicas. A química orgânica e a bioquímica têm de-
mente as cátedras de: zoologia, matemática e... letras clássicas, tendo monstrado que todas as substâncias encontradas nos seres vivos —
optado pela primeira, que o manteve durante cinqüenta anos na Univer- proteínas, lipídios, ácidos nucléicos e outras — podem ser decompos-
sidade de St. Andrews, sua terra natal. Thompson dedicou-se, em sua tas em moléculas inorgânicas simples e, pelo menos em princípio,
brilhante carreira, a elucidar as leis que dão origem às formas orgânicas, podem ser sintetizadas em laboratório.
principalmente animais.2, 3 Suas pesquisas abordam a questão tanto do
ponto de vista biológico quanto geométrico e físico-químico, procuran- • Mecanismos reguladores. Em todos os seres vivos existem múltiplos
do identificar as “razões” de ser de cada forma, na economia de materi- mecanismos reguladores e de controle — como as respostas de feedback
ais, nas leis da gravidade e das tensões superficiais, demonstrando, por — que mantêm o organismo estável. Estes mecanismos nunca foram
exemplo, o porquê de encontrarmos as formas espiraladas que caracteri- encontrados na matéria inanimada.
zam uma concha de gastrópode, a teca de um foraminífero, o chifre de • Organização. Seres vivos são sistemas complexos e organizados, e
um antílope ou o dente de uma paca... isso explica sua capacidade de auto-regulação.
A fisiologia introduziu, desde a sua origem, a necessidade do recur-
so aos conhecimentos de eletricidade e de química. As decobertas de • Sistemas teleonômicos. Seres vivos são sistemas adaptados, resultan-
algumas propriedades importantes da eletricidade e da pilha elétrica e, tes de incontáveis gerações sucessivas, submetidas à seleção natural.
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por outro lado, da contração muscular e condução nervosa estão associa- Nesses sistemas, todas as atividades — tanto as que regem o desenvol-
das aos trabalhos de Volta, que era físico, e de Galvani, que era médico. vimento embrionário como as atividades fisiológicas e compor-
Muito mais tarde, a descoberta da contratibilidade das moléculas de tamentais dos adultos — são teleonomicamente programadas.
actomiosina introduziu, na fisiologia, um estreito relacionamento com a
• Ordem de grandeza limitada. O tamanho dos seres vivos ocupa uma
química fina, isto é, com a química ao nível de estrutura da molécula.
limitada faixa, desde os menores vírus (frações de micrometros) até as
Mas todo o conhecimento das enzimas, seu papel na digestão e outras
maiores árvores e os maiores mamíferos (algumas dezenas de metros).
funções biológicas, assim como dos hormônios e neurossecreções, como
As unidades básicas de organização biológica — as células com seus
veículos de informações indispensáveis à integração orgânica, tornam
componentes — são muito pequenas, o que confere aos organismos
a biologia estreitamente dependente dos conhecimentos de química. O
grande flexibilidade.
mesmo papel é reconhecido com relação a funções básicas, como a
fotossíntese das plantas, a quimiossíntese dos microrganismos e muitos • Ciclo da vida. Seres vivos — ao menos os que se reproduzem
outros. Finalmente, os estudos de genética têm avançado rápida e sexuadamente — passam por um ciclo de vida definido, que se inicia
inexoravelmente em direção ao esmiuçamento das propriedades das mo- com um zigoto (ovo fecundado) e passa por vários estágios embrioná-
léculas de ADN, originando a chamada “biologia molecular”. Teorias so- rios ou larvais, até alcançarem a idade adulta. A complexidade do ci-
fisticadas de física, de informática e outras têm se associado na compre- clo da vida varia de espécie para espécie, incluindo diversas modalida-
ensão da mecânica da transmissão de caracteres hereditários e nas possi- des de alternância de gerações sexuadas e assexuadas.
bilidades de intervenção e alteração.
• Sistemas abertos. Os seres vivos obtêm continuamente energia e ma-
Tudo isso faz da biologia, não uma colcha de retalhos, mas o maior
téria do ambiente, no qual eliminam os produtos finais do metabolis-
centro integrador de conhecimentos de toda a ciência.
mo. Sendo sistemas abertos, não estão sujeitos às limitações ditadas
Fonte: BRANCO, Samuel M. Meio Ambiente e Biologia. São Paulo: Editora pela segunda lei da termodinâmica.
Senac, 2001, p. 115 a 122.
A percepção das peculiaridades que caracterizam os seres vivos re-
sultou no desenvolvimento de uma ciência autônoma — a biologia. Es-
O QUE CARACTERIZA A VIDA sas peculiaridades são:
Atualmente, se consultarmos biólogos e outros cientistas, encontra- • capacidade para evoluir;
remos consenso sobre a natureza dos organismos vivos. Em nível • capacidade de autoduplicação;
molecular, as suas funções todas — e em nível celular, a maioria delas
— obedecem às leis da física e da química. • capacidade de crescimento e diferenciação, obedecendo a um progra-
Fundamentalmente diferentes das substâncias inertes, os seres vi- ma genético;
vos são sistemas hierarquicamente ordenados, com propriedades nun- • metabolismo (obtenção e consumo de energia);
ca encontradas na matéria inanimada; mais importante, suas ativida-
des são controladas por “programas” genéticos que contêm informa- • capacidade de auto-regulação, mantendo um sistema complexo em
ções acumuladas ao longo do tempo, algo também ausente na matéria equilíbrio (o que se chama homeostase);
inanimada. • capacidade de responder a estímulos ambientais;
Como resultado, os seres vivos apresentam uma notável forma de
• capacidade de alterar-se tanto em nível genotípico (por mutações) como
dualismo, mas não um dualismo de corpo e mente, isto é, um dualismo
em nível fenotípico.
entre o físico e o metafísico. O dualismo da biologia moderna é físico-
químico, e resulta de os organismos possuírem um genótipo e um Fonte: MAYR, Ernst. This is Biology. Cambridge: Harvard University Press,
1997, p. 20 a 23.
fenótipo.
Para o entendimento do genótipo, que é escrito em ácidos nucléicos,
são requeridas explicações evolucionárias. O fenótipo, construído a par- BASE SOBRE MEIO AMBIENTE URBANO
tir das informações contidas no genótipo, é escrito em proteínas, lipídios Cleon Ricardo dos Santos, Unilivre
e outras macromoléculas, e requer explicações funcionais. Tal dualidade Clóvis Ultramari, Unilivre
é desconhecida no mundo inanimado. […] Cláudia Martins Dutra, CIDS-EBAPE-FGV

Introdução
O termo sustentabilidade é mais amplamente utilizado com refe-
2
D. Thompson, Forme et croissance (Paris: Seuil, 1994). rência à sustentabilidade ambiental. Todavia, a Conferência das Nações
3
S. M. Branco, O castor e a motosserra (em preparação). Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92) ampliou

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este conceito, incluindo a sustentabilidade social, econômica, financei- expressivo foi conquistado com a aprovação do Estatuto da Cidade –
ra e institucional, dentre outros aspectos, o que levou a considerações a Lei Federal 10.257, de 10 de julho de 2001, regulamentando a política
respeito de sua aplicação no espaço urbano. Apesar de as cidades apre- urbana.
sentarem limitações conceituais, relativamente à obtenção de um verda- O Estatuto da Cidade estabelece as diretrizes gerias a serem neces-
deiro desenvolvimento sustentável, as áreas urbanas tornaram-se um tema sariamente observadas pelos municípios na implementação da política
de maior debate e participação. urbana, dentre as quais mencione-se.
A ampliação do conceito de sustentabilidade consolidou-se com a
realização da Conferência das Nações Unidas sobre os Assentamentos a garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito
Humanos (Habitat II), em 1996, que aprovou a Agenda Habitat, docu- à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura
mento que explicita não só os princípios, mas também os compromissos urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer,
e ações estratégicas a serem adotadas, tanto pelos governos como pela para as presentes e futuras gerações (artigo 2º I).
sociedade civil e iniciativa privada, visando à obtenção de um desenvol-
A cidade sustentável, portanto, passa a ser considerada como um
vimento sustentável nas áreas urbanas. O próprio conceito de cidade
direito, definindo-se claramente o que se compreende por sustentabilidade
ampliou-se, abrangendo os assentamentos humanos, de forma mais am-
urbana no Brasil, ao menos para efeitos legais.
pla, incluindo as formas mais variadas de ocupação do território pela
Outros aspectos são dignos de menção, como: a garantia da gestão
população.
democrática da cidade; o cumprimento da função social da proprieda-
A sustentabilidade urbana passa a incluir, ao lado das questões es-
de urbana, a ser determinada pelo Plano Diretor, obrigatório para cida-
sencialmente ambientais, o desenvolvimento econômico local, a pro-
des com mais de 20 mil habitantes; a caracterização das cidades como
moção da eqüidade e a justiça social, a gestão urbana democrática e
dotadas de uma função social; o estabelecimento de novos instrumen-
participativa, a moradia adequada para todos, além, entre outras, das
tos de intervenção no espaço urbano, para que se assegure uma melhor
questões essencialmente urbanísticas e das ligadas ao ordenamento
ordenação físico-territorial do município; o controle da especulação
territorial local e regional.
imobiliária e a regularização fundiária, entre outros importantes as-
As cidades são, por definição, sistemas abertos, com uma depen-
pectos. As relações entre o meio ambiente e o desenvolvimento urbano
dência profunda e complexa de recursos externos. Isso, sem dúvida, di-
são igualmente consideradas como diretrizes a serem necessariamente
ficulta a obtenção da sustentabilidade urbana, profundamente relacio-

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observadas.
nada com a auto-suficiência em consumo e com a disposição de resí-
Além da edição de importantes diplomas legais, onde se inclui a
duos sólidos e líquidos, incluindo a disponibilidade de moradia adequa-
Lei de Responsabilidade Fiscal e uma relevante regulamentação dos as-
da e de transportes públicos eficientes. A busca do desenvolvimento
pectos urbano-ambientais, observa-se um nítido processo de descentra-
sustentável nas cidades sofre, assim, a contradição imposta por aspectos
lização que passa a valorizar a instância local, em detrimento de políti-
intrínsecos a esses espaços.
cas urbanas formuladas no plano nacional, ao lado do repasse para os
Estas dificuldades são mais acentuadas no Brasil, onde o processo
municípios de competências setoriais, como a educação e a saúde, bem
de urbanização, extremamente rápido e desigual, leva as populações de
como o trato de questões urbano-ambientais.
baixa renda a ocupar terras periféricas, em geral desprovidas de qual-
Além da marcante influência dos documentos internacionais sobre
quer tipo de infra-estrutura, ou a se instalar em áreas ambientalmente
a estrutura legal e institucional, mencione-se a resultante das ações de
frágeis, que só poderiam ser urbanizadas sob condições rigorosas e me-
agências externas de financiamento:
diante soluções dispendiosas. O desrespeito à legislação urbanística e
um acentuado processo de especulação imobiliária têm provocado con- ... além da importante função meramente financeira, os Bancos têm
seqüências semelhantes. atuado como “inteligência” auxiliar do Governo na elaboração de
A inexistência de uma clara política urbana nacional (não obstante programas e projetos, como, por exemplo, os programas responsá-
esta omissão poder ser considerada como uma forma velada, porém de- veis por políticas de ajuste estrutural, os projetos setoriais de de-
liberada, de política) dificulta a adequada articulação dos necessários senvolvimento, os de combate à pobreza... Desse modo, parte das
investimentos em infra-estrutura e, conseqüentemente, a otimização dos novidades em políticas públicas e projetos de governo brasileiro é,
recursos, sempre inferiores às reais necessidades. muitas vezes, o resultado de um trabalho de cooperação internacio-
Inexistindo instrumentos de referência nacionais, são valorizados nal em que o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desen-
os acordos internacionais, que passam a substituir práticas anteriormen- volvimento (BID) têm um relevante papel. (Vianna Jr. 1998, p. 82).
te adotadas pelos governos brasileiros. “Nesse sentido, a Agenda 21 cons-
titui verdadeiro plano de ação mundial para orientar a transformação de É neste cenário, em que diretrizes internacionais e características
nossas sociedades, pois identifica, em 40 capítulos, 115 áreas de ação locais se mesclam, que a busca do desenvolvimento sustentável para
prioritária” (Guimarães 1999, p.1). No Brasil, a valorização da Agenda as cidades brasileiras tem sido realizada, ora com avanços, ora com
21 é também recorrente, seja por parte das autoridades locais, que se retrocessos.
lançam na tentativa de implementar seus princípios1, seja pelo governo
federal que, muitas vezes, parece substituir, oficialmente, sua compe- Urbanização e sustentabilidade
tência precípua de formular a política urbana nacional pela simples ado-
A existência de um arcabouço legal capaz de propiciar aos municí-
ção de documentos aprovados internacionalmente. “Tornadas realidade,
pios instrumentos adequados para a gestão urbana é particularmente
as Agendas 21 poderão fertilizar toda a vida econômica, social e política
importante na medida em que o Brasil se urbaniza aceleradamente. Com
do País com o novo conceito de desenvolvimento fundamental na quali-
efeito, a taxa de urbanização brasileira, em 1970, era de 30,5%; em 1980,
dade ambiental e na justiça social”, afirmou o ministro de Meio Ambi-
de 38,6%; em 1990, de 49,0%; e em 2000, passa a 81,2%. Analisando-
ente, José Sarney Filho, nos trabalhos de discussão da Agenda 21 Brasi-
se o quadro a seguir, verifica-se, além do fenômeno da urbanização,
leira (Novaes 2000, p. IV).
uma lenta porém persistente concentração da população nas regiões
Concomitantemente à adoção dos princípios, objetivos e estraté-
metropolitanas.2
gias de ação preconizados nas Agendas internacionais, está se consoli-
A importância crescente do fenômeno urbano no Brasil é um fato
dando uma base constitucional e legal adequada para o trato das ques-
notório, ocorrido a partir de uma ocupação concentradora sobre o terri-
tões urbanas. Mencione-se, em especial, as normas constitucionais que
tório e a partir de diferenças, cada vez mais marcantes, entre a ocupação
tratam do meio ambiente, da autonomia municipal, da competência
rural e a urbana. A despeito desses fatos, recente pesquisa realizada pelo
estadual para instituir regiões metropolitanas e aglomerações urbanas
Instituto Social de Estudos da Religião (Iser), “O que o brasileiro pensa
e no Capítulo específico sobre a Política Urbana, que passa a ser uma
sobre o meio ambiente e o consumo sustentável” mostra, por exemplo,
política institucionalizada, a exemplo de outras políticas públicas. Avanço
que o desmatamento — fato não necessariamente integrante de políticas
urbanas — ainda é o problema ambiental mais presente entre a popula-
ção. Confirma isso o fato de 46% dos entrevistados entenderem ser esta
1
A informação de quantos municípios brasileiros estariam desenvolvendo ou que
já desenvolveram processos de Agenda 21 local é de difícil apreensão. A experi-
2
ência empírica dos autores revela que esse número não poderia ser desprezado Para completar este raciocínio, poder-se-ia inserir a população de municípios
se considerada a demonstração de interesse, formal ou não, em elaborar Agen- que compõem aglomerados urbanos ou fenômenos metropolitanos ainda não
das 21 por parte de gestores e técnicos municipais. constituídos formalmente em regiões metropolitanas.

10

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TABELA 1 – BRASIL. POPULAÇÃO METROPOLITANA, URBANA, RURAL E TOTAL
1970-1996 (MILHÕES)
1970 1980 1991 1996 2000
bs. bs. bs. bs. bs.
Metropolitana 23,7 25,5 34,4 29,2 42,9 29,4 46,1 29,4 50,7 29,9
Urbana 28,4 30,5 45,6 38,6 68,1 46,4 77,0 49,0 137,7 81,2
Rural 41,1 44,1 38,0 32,2 35,8 24,4 34,0 21,6 31,8 18,8
TOTAL 93 100 118 100 146,8 100 157,1 100 169,5 100,0
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1970, 1980, 1991. Contagem Populacional 1996 e Censo Demográfico 2000.

a questão ambiental mais urgente no Brasil (Iser & Ministério do Meio Apenas 33,5% dos domicílios são atendidos por rede de esgoto e,
Ambiente 2001)3. dos domicílios servidos, 64,7% do esgoto coletado não tem nenhum tipo
É evidente que um processo de urbanização concentrada e acelera- de tratamento. Nas áreas onde não há tratamento, 84,6% dos esgotos
da indica sérios problemas de ordem ambiental. Analisando-se os as- coletados são despejados diretamente nos rios.
pectos intra-urbanos desse processo, observam-se condições ainda mais É interessante observar, analisando os dados no plano regional, que
impróprias para o meio ambiente e para a qualidade de vida da popula- a região Sudeste, embora tenha o maior percentual de municípios com
ção urbana. Mencione-se a grande dificuldade de impor regulamentos serviços de esgoto (92% do total) apresenta o menor volume (27,2%) de
urbanísticos a uma cidade cada vez mais ilegal e a existência de pres- esgoto coletado tratado. Na região Nordeste, com 42% dos municípios
sões crescentes para a utilização de áreas ambientalmente sensíveis. Nesse atendidos, trata-se 78,2% do volume de esgoto coletado.
sentido, “O ilegal do solo e as edificações em meio urbano atingem No mesmo período (1989/2000), o volume de água distribuído à
mais de 50% das construções nas cidades brasileiras, não considerando população aumentou em 57,5%. Vale salientar que o volume de água
as legislações de uso e ocupação do solo, zoneamento, parcelamento do tratada que chega aos domicílios atendidos cresceu 52,5%, enquanto o
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solo e edificação.” (Maricato 1996, p. 21)4. volume distribuído sem tratamento teve um crescimento de 191,3%. Com
Nas cidades brasileiras são inúmeros os exemplos de ocupação de isso, a porcentagem de água distribuída sem tratamento no Brasil cres-
áreas ambientalmente frágeis, repetindo-se, tanto nas metrópoles como ceu de 3,9% para 7,2% do total.
nas cidades médias e pequenas, os conflitos entre vetores de ocupação e Quanto aos municípios atendidos com serviços de abastecimento
áreas a preservar. A região metropolitana de Curitiba, um exemplo que de água, o País atingiu, em 2000, o expressivo índice de 97,4%. O Su-
pode ser generalizado para o País, tem apresentado forte tendência de deste, com 100%, apresenta o melhor índice regional, enquanto no Nor-
crescimento urbano em direção às áreas de mananciais, onde se combi- te são atendidos 94% dos municípios. Quanto ao total de domicílios
nam baixos padrões de habitabilidade (solos hidromórficos e risco de atendidos, o índice, para todo o Brasil, não passa de 63,9%. Mais uma
enchentes) e perda da principal fonte de recursos hídricos para a popula- vez o Sudeste apresenta o melhor índice de atendimento (70,5%) e o
ção metropolitana. Norte o pior, com apenas 44,3%.
Segundo dados da Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano
Principais problemas ambientais urbanos (SEDU), seriam necessários R$ 44 bilhões, até 2015, para que a popula-
A existência, a persistência e o contínuo crescimento dos problemas ção tenha acesso aos serviços de saneamento básico. As principais fon-
ambientais urbanos, decorrentes da urbanização acelerada e desigual, le- tes de financiamento são o Banco Interamericano de Desenvolvimento
vam à necessidade de políticas específicas para enfrentar o problema. (BID) e o Banco Mundial, já que entidades nacionais como o Banco
A sociedade brasileira não pode prescindir de uma política de de- Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por exem-
senvolvimento vinculada e coordenada a uma política ambiental em plo, não têm concedido recursos e só recentemente a Caixa Econômica
que a água, o esgoto sanitário e os resíduos domésticos e industriais Federal (CEF) voltou a financiar o setor público.
tenham origem e destino transparentes, e o transporte público tenha Assim, é evidente que o País ainda está longe de atingir a meta da
prioridade sobre a auto-estrada, os viadutos e as cirurgias urbanas. universalização dos serviços de saneamento. Caso o ritmo dos investi-
(Gastal 1995, p. 15). mentos públicos (União, estados e municípios) for mantido, este ideal
Os dados básicos sobre água e esgoto, poluição hídrica, poluição será alcançado apenas em 2018.
atmosférica e gestão de resíduos sólidos, nos últimos dez anos, revelam A previsão, em 1998, era de se atingir a universalização em 2010,
um quadro dramático que, não obstante a evolução positiva de alguns mantendo-se constantes investimentos de R$ 44 bilhões, mas a crise cam-
setores, parece se distanciar de qualquer cenário de uma sustentabilidade bial e outras dificuldades obrigaram o setor público a diminuir a pers-
desejada. pectiva dessa transformação. Hoje, os investimentos em saneamento não
representam mais de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), muito abaixo
Água e esgoto
dos índices atingidos nos anos 1980, quando os investimentos chegaram
Um dos problemas ambientais urbanos mais graves é a falta de tra- a 0,38% deste índice.
tamento dos esgotos sanitários que são, em sua maioria, lançados, in A indisponibilidade de abastecimento de água e esgotamento sanitá-
natura, no solo ou em corpos d’água, causando danos irreparáveis às rio representa, também, um grande problema de saúde pública. Doenças
reservas de água potável, rios e águas costeiras e comprometendo seu infecciosas ligadas à falta de saneamento básico foram responsáveis por
uso para abastecimento, irrigação, recreação e turismo. 77% da mortalidade infantil até um ano de idade, registrada em hospitais
Comparando-se os dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Bá- públicos, em 2000, e estima-se que esta seja igualmente a causa de cerca
sico de 2000, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatís- de 8.500 casos anuais de mortalidade prematura e morbidade adicional.
tica (IBGE), com a mesma pesquisa realizada em 1989, verifica-se que, De forma geral, pode-se dizer que os serviços de saneamento con-
no período considerado, houve um aumento de 24% no número de mu- centram-se nos centros urbanos maiores e praticamente inexistem nos
nicípios brasileiros, que passaram de 4.425 para 5.507. No entanto, o pequenos municípios. Além disso, é ostensivo o fato de que a distribui-
serviço de esgotamento sanitário cresceu, no mesmo período, apenas ção dos serviços de saneamento no Brasil é desigual, já que as cidades
10,5%, cobrindo, atualmente, 2.874 municípios. maiores e mais ricas têm mais acesso aos centros de decisão do que as
cidades menores, mais pobres e distantes. No caso da rede de esgoto,
esse fato é evidente: os municípios com mais de 300 mil habitantes têm
quase três vezes mais domicílios ligados às redes de esgotos do que as
3
Em segundo lugar, a pesquisa aponta 38% para a poluição de rios, lagoas e praias, cidades com até 20 mil habitantes, onde apenas 17,8% contam com es-
e 18% para problemas de saneamento, estes sim problemas fundamentalmente gotos tratados. Na região Norte, o serviço é quase inexistente nas cida-
urbanos. A mesma pesquisa realizada nos anos de 2001 e 1997 mostra resultados des desta faixa: 0,4% da população. Nos municípios entre 20 e 45 mil
semelhantes, porém, com incremento para esses dois últimos problemas.
4
Informação obtida a partir do conhecimento empírico junto à administração mu- habitantes, a proporção é de 18,3%. As metrópoles, que contam com
nicipal de São Paulo, da arquiteta e ex-secretária municipal de habitação Ermínia mais de 300 mil habitantes, registram 48% da população atendida. No
Maricato. Sudeste, tem-se 58,7% do total.

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Deve-se, todavia, observar que há diferenças de acordo com o nível congestionamento leve e moderado, levam ao consumo excessivo de 190
de desenvolvimento regional, pois, mesmo com menos de 20 mil habi- mil litros de gasolina nas horas de pico da tarde, “valores que, por ano,
tantes, os municípios do Sudeste fogem à regra, sendo bem melhor as- atingem as cifras estimadas de 200 milhões de litros de gasolina e 4
sistidos, com 44% de domicílios com rede de esgotos, do que as cidades milhões de litros de diesel” (op. cit.). Além disso, esses congestiona-
com mais de 300 mil habitantes. mentos são responsáveis pela emissão de 112 mil toneladas por ano de
Chama a atenção, também, o fato de que 116 municípios não têm CO, apenas nas dez cidades analisadas pela pesquisa.
nenhum domicílio com água potável – destes, 79% se concentram nas
regiões Norte e Nordeste, sendo o Maranhão e o Piauí os estados que Resíduos sólidos
apresentam os piores índices. Tradicionalmente no Brasil é de competência dos municípios a ges-
A Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2000, estudando pela tão dos resíduos sólidos produzidos em seu território, com exceção dos
primeira vez o problema da drenagem urbana, indicou que 78,6% dos resíduos de natureza industrial.
municípios possuem sistema de drenagem de águas pluviais, infra-es- A geração de resíduos sólidos domiciliares varia de acordo com o
trutura importante para prevenir inundações e alagamentos. Não obstante, tamanho das cidades: nos municípios com até 200 mil habitantes são
o problema das enchentes é extremamente grave e atinge um em cada recolhidos de 450 a 700 gramas por habitante/dia; naqueles com mais
quatro municípios brasileiros. As principais causas deste problema es- de 200 mil habitantes esta quantidade aumenta para a faixa entre 800 e
tão relacionadas à má gestão e/ou operação dos sistemas urbanos: obs- 1.200 gramas por habitante/dia. É importante notar, entretanto, e esse é
trução de bueiros (51%); obras inadequadas (27,9%) e dimensionamento um desafio para a sustentabilidade, que o volume per capita de lixo
inadequado do projeto (27,4%). Completa o quadro, com 31% das ocor- gerado tem crescido nos últimos anos. Assim, à preocupação com a ge-
rências, o adensamento populacional em áreas inadequadas. Rio de Ja- rência de estruturas para coleta e disposição desse lixo, deve-se agregar
neiro, Santa Catarina, São Paulo, nesta ordem, são os estados que mais uma preocupação com a urgente mudança nos padrões de consumo ob-
sofrem com o problema. servados.
Com o crescimento das cidades, o desafio da limpeza urbana con-
Poluição hídrica
siste não apenas em remover o lixo, mas, sobretudo, em dar um destino
A contaminação das águas tem contribuído de maneira significati- final aos resíduos coletados. Todavia, o que se observa é que, face às
va para agravar o problema da escassez de água nas cidades brasileiras. limitações orçamentárias, relega-se a disposição final a segundo plano,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Nos grandes centros, o comprometimento da qualidade é causado prin- dando-se prioridade à coleta e à limpeza pública. Daí resultam, sobretu-
cipalmente por despejo de esgotos domésticos, sem qualquer tipo de do em municípios de menor porte, os “lixões”, locais onde o lixo coleta-
tratamento, nos rios e corpos d’água que são utilizados para o abasteci- do é lançado sem qualquer controle, poluindo não apenas o solo, mas o
mento. A contaminação por pesticidas e fertilizantes (que ocorre quan- ar e as águas subterrâneas e superficiais da área e de seu entorno.
do estes rios atravessam zonas agrícolas) contribui ainda mais para agra- Dos 5.507 municípios brasileiros, 4.026, ou seja, 73,1%, têm popu-
var o problema. lação de até 20 mil habitantes, e nestes, 68,5% dos resíduos gerados são
Casos paradigmáticos do problema de contaminação das águas são, vazados em lixões ou alagados. Deve-se considerar, no entanto, que es-
por exemplo, o rio Guaíba, em Porto Alegre, fortemente comprometido tes municípios recolhem apenas 12,8% do total do lixo coletado no País
pelo lançamento de resíduos tóxicos e industriais, além de fertilizantes e — menos do que os resíduos gerados pelas 13 cidades brasileiras com
agrotóxicos, e o rio Paraíba do Sul, que, além de constituir a principal mais de um milhão de habitantes, que conjuntamente recolhem 31,9%
fonte de abastecimento da região metropolitana do Rio de Janeiro, abas- de todo o lixo urbano brasileiro e têm seus locais de disposição final em
tece outras importantes cidades de Minas Gerais e de São Paulo. Neste melhor situação: apenas 1,8% é destinado a lixões, sendo o restante de-
caso, são importantes fatores de comprometimento do rio, além do lan- positado em aterros sanitários ou em aterros controlados.
çamento de esgotos, o desmatamento, os garimpos ilegais e a erosão Ainda de acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico
decorrente do mau uso do solo. Problemas semelhantes ocorrem em 2000, há uma acentuada melhora na destinação final do lixo coletado no
Curitiba, onde a ocupação de áreas de mananciais nas nascentes do rio País nos últimos anos. Em 2000, o lixo produzido diariamente no Brasil
Iguaçu tem se constituído no maior desafio para o planejamento metro- chegava a pouco mais de 125 mil toneladas, das quais 47,1% destina-
politano. O lago Paranoá, em Brasília, e a lagoa Rodrigo de Freitas, no vam-se a aterros sanitários, 22,3% seriam encaminhados a aterros con-
Rio de Janeiro, também enfrentam problemas de poluição, enquanto a trolados e apenas 30,5% seriam depositados em lixões. Com isso, mais
baía de Guanabara sofre com o lançamento de esgotos residenciais e de 69% de todo o lixo coletado no Brasil estariam tendo um destino
industriais, além de vazamento de óleo e produtos químicos lançados final adequado, em aterros sanitários e/ou controlados.
por navios.
Mudanças e retrocessos no caminho da sustentabilidade
Poluição atmosférica
Projetar o futuro, a partir de uma análise genérica da situação urba-
Os problemas de poluição do ar, no Brasil, são causados, em grande no-ambiental, obriga a constituição de perspectivas de difícil
parte, pelas emissões provenientes dos meios de transporte5. De acordo sustentabilidade, a longo prazo, para as cidades brasileiras. Entretanto,
com relatório do Banco Mundial (Brasil: gestão dos problemas da po- ao se analisar alguns setores e algumas iniciativas de sucesso, este exer-
luição – relatório de política) “essas emissões são mais importantes do cício pode se caracterizar, a um tempo, com otimismo e pessimismo. No
que sugerem os inventários de emissões, visto estarem mais próximas setor de resíduos sólidos, por exemplo, houve importantes mudanças de
da superfície e consistirem em particulados mais finos do que as emis- atitude por parte de todas as instâncias governamentais: os governos
sões industriais típicas”. Como resultado desta situação, segundo o mes- federal e estadual têm aplicado mais recursos e criado programas e li-
mo relatório, calcula-se que os custos para a saúde, em São Paulo e no nhas de crédito, beneficiando os municípios que, por sua vez, têm trata-
Rio de Janeiro, incluam cerca de 4 mil casos anuais de mortalidade pre- do com prioridade os problemas de limpeza urbana, criado condições
matura e cerca de 38 milhões de dias de atividades restritas. Controles para expandir o provimento desses serviços e manter sua qualidade. A
rígidos sobre emissões industriais e de veículos, em São Paulo e no Rio, população tem acompanhado, com mais rigor, estas questões, assim como
teriam um custo anual da ordem de US$ 75 milhões, que deveriam ser os órgãos de controle ambiental, o Ministério Público e as organizações
pagos pela indústria e pelos proprietários de veículos. não-governamentais de defesa do meio ambiente.
A importância dos meios de transporte como fator de contaminação De forma geral, cidades de médio e grande porte vêm adotando,
do ar é confirmada por um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa cada vez mais, a privatização dos serviços como forma de gerenciamento,
Econômica Aplicada (IPEA), em parceria com a Associação Nacional o que significa, na realidade, uma terceirização dos serviços até então
de Transportes Públicos (ANTP): Redução das Deseconomias Urbanas executados pelo Poder Público: empresas privadas têm sido contratadas
com a Melhoria do Transporte Público 19886. Segundo esse estudo, ape- para realizar a coleta, a limpeza de logradouros, o tratamento e a dispo-
nas os congestionamentos severos, não incluindo, portanto, os níveis de sição final dos resíduos. Outra tendência marcante é a contratação de
cooperativas ou microempresas, o que tem estimulado a geração de ren-
5
da para pessoas de baixo poder aquisitivo. Por outro lado, soluções con-
O Brasil dispunha, em 2000, de uma frota de cerca de 19 milhões de veículos,
sorciadas para a realização desses serviços não são ainda comuns no
dos quais quase 60% encontravam-se em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Ja-
neiro. Brasil, a não ser quando se trata de destinação final em aterros, quando
6
Fazem parte da pesquisa: Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Curitiba, João o município hospedeiro negocia algumas vantagens financeiras com os
Pessoa, Juiz de Fora, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. demais municípios a fim de instalar o aterro em seu território.

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Também na área de esgotamento sanitário houve grandes transfor- prioridade máxima ao transporte coletivo, em detrimento do transporte
mações, principalmente nos últimos três anos, com a participação de individual por automóvel, e adotem programas alternativos, do tipo drive
empresas privadas na prestação de serviços de abastecimento de água e and park, ou a cobrança de pedágio, por exemplo, que possam contri-
coleta e tratamento de esgoto. buir para o descongestionamento das áreas centrais.
O processo teve início com o veto do Poder Executivo ao projeto de No que se refere à habitação, dados atualizados da Fundação João
lei, aprovado pelo Congresso Nacional, que estabelecia as bases do Sis- Pinheiro indicam um déficit habitacional de 6,6 milhões de domicílios,
tema Nacional de Política de Saneamento, ao mesmo tempo em que o abrangendo mais de 20 milhões de pessoas, 84,2% das quais com renda
governo anunciava a inclusão da área do saneamento como uma das igual ou inferior a 3 salários mínimos (FJP 2001). Para fazer frente a esse
prioritárias a serem privatizadas. déficit, o governo federal estabeleceu políticas9 que têm como princípios
Surgiram, então, as primeiras licitações para a concessão dos servi- básicos: a prioridade de atendimento às populações de baixa renda; o re-
ços em municípios que detinham a operação do sistema. Atualmente, conhecimento da necessidade de estabelecer parcerias governo/socieda-
existem 50 sistemas privatizados, parcial ou totalmente. A Companhia de; a descentralização do controle social sobre a gestão dos seus progra-
de Saneamento de Mato Grosso, por exemplo, foi inteiramente mas; e a necessidade de reconhecer a parcela de população de baixa renda
municipalizada e várias outras estão abrindo seu capital. que trabalha no setor informal e/ou habita moradias informais.
Trata-se de um número relativamente pequeno, se comparado ao Se o discurso do governo federal parece responder corretamente ao
universo dos municípios brasileiros, mas é uma tendência que se avoluma, problema habitacional, seu enfrentamento, com maior eficácia, tem sido
estimada pelo crônico déficit orçamentário do setor público. O tema, no observado a partir de iniciativas dos governos locais. Surgem algumas
entanto, é bastante polêmico, e encontra forte reação em alguns setores. iniciativas que, apesar de se constituírem em exemplos pontuais, têm
“A adoção do conceito privativista contribuiu para o desmonte da estru- servido de modelo de como enfrentar o problema. É o caso, por exem-
tura estatal existente para o saneamento”, afirma, por exemplo, a depu- plo, de Guarapiranga, em São Paulo, que objetiva a reabilitação de áreas
tada Laura Carneiro, receosa de que o conceito de lucro, embutido no urbanas e gestão ambiental por meio da construção de infra-estrutura
processo de privatização, deixe de beneficiar, com tarifas subsidiadas, básica para mais de 20 mil pessoas, localizadas em 190 favelas, melho-
as populações mais pobres, além de tornar mais fracos os mecanismos rando a qualidade de vida de 580 mil pessoas. O programa de Regulari-
de controle. zação das Zonas Especiais de Interesse Social, em Recife, o Programa
As discussões continuam, dentro da perspectiva de que, aliada à Favela Bairro, no Rio de Janeiro, com recursos do Banco Interamericano
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

inquestionável necessidade de aumento de oferta desses serviços à po- de Desenvolvimento e o Programa Integrado de Inclusão Social, em Santo
pulação, pode-se assegurar, além da participação da comunidade na de- André (SP), são outros exemplos de boas práticas nessa área.
finição das metas a serem atingidas, o controle dos serviços prestados e A partir desses exemplos, é possível detectar uma tendência no sen-
a democratização dos benefícios. tido de que o problema habitacional continue a ser enfrentado pelo po-
Durante muitos anos, toda a ênfase, na maioria das companhias es- der local, sugerindo que a replicabilidade intensiva de exemplos pontu-
taduais de saneamento, foi concedida às questões de abastecimento de ais pode conduzir a uma solução possível para um setor que ainda se
água, ficando o esgotamento sanitário relegado a segundo plano. Esta ressente de falta de mecanismos adequados para seu financiamento.
atitude é considerada hoje como politicamente errônea, e consideráveis
esforços estão sendo feitos pelas companhias no sentido de minorar o Política urbana e gestão ambiental urbana a partir de 1992
déficit acumulado pelo setor. Na tentativa de apresentar uma retrospectiva a respeito de como
Analisando-se a questão do transporte urbano no Brasil, observa-se foram enfrentados os problemas setorias acima analisados, a partir de
que este passa por uma profunda crise. As deseconomias urbanas, 1992, quando se iniciou uma discussão das cidades e de sua sustenta-
identificadas pelo estudo do IPEA mencionado anteriormente, tendem a bilidade, resumem-se aqui as mudanças observadas com relação à ges-
se agravar, com o aumento dos congestionamentos e da poluição do ar tão urbana.
que deles deriva. O primeiro fato a considerar é que perde força a noção de que as
Se, por um lado, registram-se iniciativas no sentido de ampliar a cidades são, necessariamente, espaços insustentáveis, incapazes de pro-
oferta de transporte público — o aumento da oferta de transporte sobre duzir o que consomem e eliminar adequadamente o que rejeitam. A ur-
trilhos, com a construção do metrô de Brasília e a ampliação dos metrôs banização passa a ser considerada como um fato irreversível, mas
do Rio e de São Paulo, do Trensurb em Porto Alegre e do trem metropo- administrável, e a cidade deixa de ser um espaço ambientalmente insus-
litano em Recife, por exemplo7 — verifica-se, em muitas cidades, o cres- tentável para transformar-se em um espaço social e ambiental com grande
cimento de sistemas informais –– lotações, perueiros e mesmo de ôni- potencial de soluções criativas. Assim, perdem validade as propostas,
bus —, que trafegam sem licença, atestando a incapacidade dos siste- comumente aceitas em passado recente, de que dever-se-ia reduzir o
mas formais de atender à demanda da população. processo migratório para as cidades e mesmo promover o retorno ao
A realidade é que, talvez devido à sua ineficiência, o transporte campo. A análise das políticas e ações observadas na análise setorial
público por ônibus está perdendo passageiros para o automóvel. E, o não evidencia a presença desses objetivos.
que é pior, está perdendo os passageiros pagantes, o que significa o au- Em segundo lugar, observa-se que o governo local ganha força en-
mento proporcional do número de passageiros não-pagantes – pessoas tre as instâncias de governo, sobretudo a partir da Constituição de 1988,
de mais de 65 anos, estudantes etc. – usuários do sistema. que atribui novas responsabilidades aos municípios, exigindo ações con-
Um estudo publicado no Anuário 2000 da Associação Nacional de cretas em prol da sustentabilidade urbana e de avanços sociais. Esta ação
Empresas de Transportes Urbanos/NTU apresenta diversas circunstân- é rejeitada por novos instrumentos legais e/ou institucionais como, por
cias urbanas e sociais que estão provocando a mudança do transporte exemplo, a Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar 101 de
coletivo no País, e em particular em São Paulo8. 4/5/2000) e, em especial, o Estatuto da Cidade.
Dentro deste quadro, não muito animador, experiências como as À valorização da instância local devem ser creditados muitos dos
que foram implantadas em Curitiba e as que estão se desenvolvendo em esforços e experiências bem-sucedidas em cidades brasileiras e que ser-
Porto Alegre e Goiânia, onde o Poder Público e a iniciativa privada estão vem de exemplo, num processo de constante replicabilidade. Tais expe-
desenhando novas formas de atuação conjunta, podem representar uma riências podem ser constatadas em diversos bancos de Boas Práticas,
melhora para o sistema, a médio e longo prazos. Isso não exclui a necessi- instituídos a partir da valorização, sobretudo consagrada pela Agenda
dade, cada vez mais evidente, de que as autoridades municipais atribuam Hábitat, da difusão de exemplos como forma de multiplicar resultados.
Em nível nacional, tem sido grande o interesse pela capacitação em ges-
tão urbana, a partir desses exemplos: se, antes, aprendia-se sobre a ges-
tão de cidades por meio de idéias e conceitos, agora valoriza-se a expe-
7
Cabe notar que estas medidas, embora importantes, são estatisticamente insigni- riência concreta capaz de, ao ser adaptada, ser reproduzida com sucesso.
ficantes em relação ao problema como um todo.
8
Em São Paulo, segundo esse estudo, está se vivendo uma queda acentuada da
Como instrumentos de difusão e capacitação sobre essas experiências,
demanda de transportes coletivos e o esvaziamento do município-sede. São pou- ressaltam-se: a ação do Centro de Referência e Gestão Ambiental para
co mais de 10 milhões de habitantes estabilizados no município da Capital, en- Assentamento Humano, mantido pela Universidade Livre do Meio Am-
quanto mais de 8 milhões nos demais municípios tendem a aumentar constante- biente, de Curitiba, com o apoio do Ministério do Meio Ambiente, o
mente. Há três décadas que cai a mobilidade da população: 1,5; 1,3; 1,2 viagens
per capita. A divisão modal é meio a meio, e se aumenta a parte da demanda
9
atendida pelos transportes sobre trilhos, diminui a parte dos transportes coleti- “Política Nacional de Habitação” (1996); “Política de Habitação: Ações do Go-
vos por pneus. verno Federal de jan/95 a jun/98” (1998).

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qual, há cinco anos, vem coletando e difundindo experiências bem-su-
cedidas em gestão ambiental no Brasil e na América Latina; o Programa Pergunta para o debate
Caixa – Melhores Práticas, que, com base em uma parceria entre o Ins- Como tornar nossas cidades mais sustentáveis?
tituto de Administração Municipal (Ibam) e a Caixa Econômica Federal,
incentiva e premia experiências de gestão urbano-ambiental; o Progra- Síntese dos debates setoriais
ma de Gestão Ambiental Urbana (GAU), parceria entre Ministério do A exclusão e desigualdade social são as raízes dos problemas
Meio Ambiente, Cooperação Técnica Alemã (GTZ) e o Ibam, que in- socioambientais enfrentados pelas cidades brasileiras. Apesar de existi-
centiva e difunde a implementação de experiências inovadoras na área rem investimentos sociais e ações que mostram que é possível reduzir
de gestão urbana. Dentre outros exemplos, estes demonstram a valoriza- estes aspectos pontualmente, uma melhora geral ainda é difícil de ser
ção da transformação imediata de determinados espaços da cidade, a verificada. A seguir, os autores dos diferentes setores reconhecem avan-
partir de idéias criativas, de baixo custo e que propiciam a obtenção ços e buscam alternativas para um futuro melhor ao nosso meio ambien-
imediata de resultados. te urbano.
Outro aspecto a ser observado é que parece ter perdido importância
a aparente disputa entre priorização de problemas sociais e problemas Aspectos positivos
ambientais, adotando-se a noção ampliada da sustentabilidade, que con- Apesar da visão não muito otimista de três (ONG, Academia e mo-
cilia estes dois aspectos. Esta tendência foi reforçada pelas discussões vimento social) dos quatro autores sobre a evolução das condições do
da Agenda 21 Brasileira e pelas inúmeras iniciativas de formulação das meio ambiente urbano no Brasil, foram mencionados alguns aspectos
Agendas 21 locais. positivos que podem começar a reverter essa situação. Há consenso de
Finalmente, grande relevância foi dada à participação comunitária que o Brasil avançou com respeito a uma maior democratização do pro-
na gestão urbana, tendo o Estatuto da Cidade institucionalizado esta ori- cesso decisório para elaboração de políticas públicas urbanas e também
entação ao estabelecer mecanismos e instrumentos de gestão democráti- que se criaram alguns instrumentos legais e institucionais para imple-
ca da cidade. mentação destas políticas. O artigo da Academia reconheceu a crescente
preocupação urbano-ambiental nas últimas décadas no Brasil, apesar de
Perspectivas para o desenvolvimento sustentável no Brasil
que isto ainda não se transformou em ação. O artigo do representante
Não há dúvida quanto aos desafios que se apresentam para a das empresas enfatizou a busca de uma agenda positiva para melhora-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
sustentabilidade das cidades brasileiras. Todavia, também devem ser mento das condições de vida no meio urbano. Mencionou várias “boas
mencionados os grandes esforços e importantes resultados obtidos. De práticas” urbanas no Brasil. O grande desafio seria disseminar estas boas
fato, o cenário que mais caracteriza as cidades brasileiras referente ao práticas pelo País para catalisar seus resultados positivos. Entre as boas
meio ambiente e às questões sociais é, de um lado, a crise generalizada práticas, cita projetos como o sistema de transporte coletivo de Curitiba
e, de outro, a existência de esforços pontuais, mas com excelentes resul- e o Projeto Favela Bairro do Rio de Janeiro, que fornece infra-estrutura
tados. para as favelas e as integra à malha urbana do resto da cidade. Além
O Brasil demonstrou-se singular entre os países que enviaram con- disso, apresenta vários projetos que são avanços institucionais e do pro-
tribuições de cases para a Conferência Hábitat II e aquelas que lhe se- cesso decisório sobre as cidades, como o orçamento participativo de
guiram, tanto em relação ao número como à qualidade das experiências. Porto Alegre, as discussões sobre a Agenda 21 e a aprovação do Estatuto
O que tem dificultado a ampliação desses sucessos é um processo cu- da Cidade. O Estatuto da Cidade e seus instrumentos também foram
mulativo de crise econômica, legislações ultrapassadas e crescimento mencionados no artigo da representante dos movimentos sociais como
urbano acelerado e desordenado. um dos aspectos positivos da agenda socioambiental urbana do Brasil
O desafio para a sustentabilidade das cidades brasileiras é, justa- nos últimos anos, fruto da vitória dos movimentos sociais na confecção
mente, a necessidade de se conciliar inovação com o esforço cotidiano do capítulo urbano da Constituição de 1988. O debatedor das ONGs
para recuperar o tempo perdido. afirma que o grande avanço foi a criação de uma série de mecanismos
Em cada setor analisado, observa-se a necessidade de enfrentamentos consultivos e decisórios de participação em nível local/municipal, como
específicos na busca de soluções. Alguns exigirão mudanças gerais no os conselhos municipais de gestão de políticas públicas, que já são mais
tocante à gestão urbana. Primeiramente, vale citar a importância de se de 3.500 no País.
dar continuidade ao processo de descentralização que está na origem de
algumas das experiências mais inovadoras em termos de gestão urbano- Problemas
ambiental. O poder local está sendo valorizado e buscando melhor Todos os debatedores concordam que os problemas socioambientais
capacitação técnica. no Brasil são críticos e estão se agravando, especialmente a exclusão
Em segundo lugar, as cidades, sobretudo as de porte médio e gran- social e a degradação da qualidade ambiental das cidades. Nos grandes
de, terão de redirecionar os investimentos na área do transporte, centros a situação é crítica em vários setores importantes. Faltam ofertas
priorizando o transporte público. Impossível pensar em uma cidade sus- de saúde e educação pública de qualidade, condições dignas de moradia
tentável sem políticas que reduzam o consumo de combustíveis fósseis, para boa parte da população, saneamento básico e controle da degrada-
diminuam os níveis de poluição atmosférica e reduzam as deseconomias ção ambiental.
causadas pelos congestionamentos. O debatedor das ONGs menciona que dois terços da população não
Talvez o mais urgente, em termos de prioridade, seja a necessária têm acesso a redes coletoras de esgotos. Há uma desigualdade enorme
rediscussão dos processos de acesso à terra urbana: por um lado, procu- dos investimentos, agravando as diferenças sociais e a exclusão ao míni-
rando diminuir a especulação imobiliária que impossibilita o acesso das mo de serviço público, como ressalta a representante dos movimentos
classes mais carentes à moradia, e por outro, garantindo que esse acesso sociais. Além disso, as populações mais pobres são as que mais sofrem
se dê de forma ordenada, com respeito à legislação urbanística. com as conseqüências de degradação da qualidade ambiental, resultado
Outro desafio para a sustentabilidade das cidades brasileiras é a dos problemas socioambientais urbanos. Para a Academia, a questão
discussão democrática sobre as conseqüências e formas de implemen- está na falta de um maior esforço na reflexão e busca de soluções para os
tação da privatização dos serviços públicos, ora em curso. O setor de problemas do meio ambiente urbano. Afirma que as ciências ambientais
saneamento, elemento importante na construção da sustentabilidade têm uma certa resistência para integrar o urbanismo. Existe uma separa-
ambiental urbana, será um dos mais sensíveis a essas mudanças. Privatizar ção conceitual entre o mundo físico-biótico e o antrópico.
este setor, o que parece inevitável, garantindo o atendimento universal à
população das cidades é, sem dúvida, um desafio de difícil enfrentamento. Causas dos problemas
Por último, vale citar a necessária revisão do modelo de consumo As principais causas dos problemas do meio ambiente urbano estão
observado na sociedade urbana brasileira. É sabida a dificuldade em se relacionadas à implementação das políticas públicas. Muitas vezes os
manter padrões mínimos na prestação de determinados serviços, pelo instrumentos legais e institucionais estão disponíveis para atacar deter-
poder local, como a coleta e disposição final do lixo, se não forem revis- minados tipos de problema, mas eles não são utilizados, segundo os auto-
tos padrões de fabricação e de consumo de mercadorias, por exemplo. res. A debatedora das ONGs pondera que, por exemplo, os instrumentos
Mais importante do que a alteração do comportamento de consumo é a do Estatuto da Cidade existem, mas não são postos em prática por von-
mudança em relação à imagem que se deve ter da cidade. Esse é, talvez, tade política. O artigo empresarial aponta a dificuldade para replicar as
o maior desafio para a sustentabilidade urbana – o entendimento da ci- boas práticas com mais freqüência. O representante das ONGs argu-
dade, por parte de sua população, como capital coletivo. menta que não é a falta de recursos o problema, e sim a priorização dos

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investimentos. No saneamento, por exemplo, o investimento no setor no espiritualidade? Porque em seu seio, normalmente, irrompem os gran-
País caiu de 0,34% do PIB nos anos 1970 para menos de 0,13% na década des sonhos para cima e para a frente, sonhos que podem inspirar práticas
de 1990. Este representante também apontou que os municípios são res- salvacionistas. Notáveis antropólogos, como Claude Lévi-Strauss e C.
ponsáveis por boa parte das políticas públicas urbanas (saneamento, saú- Geertz, têm afirmado que quando um paradigma civilizatório entra em
de, educação e moradia). Tem havido uma descentralização, mas não crise, quando as estrelas-guias se obnubilam e o horizonte de esperança
houve repasse dos recursos suficientes para sua implementação. de um povo perde sua capacidade de gerar sentido, emerge,
Outra causa importante dos problemas socioambientais das cida- irreprimivelmente, a espiritualidade. É o que ocorre hoje, praticamente,
des é a exclusão e desigualdade no acesso ao espaço urbano, informa- em todas as culturas e no mundo inteiro.
ção e poder. A representante dos movimentos sociais aponta a crescen- Que significa aqui a espiritualidade? Sem detalharmos a resposta
te privatização do espaço na mão de poucos, o que impede o acesso à que surgirá logo a seguir, espiritualidade é uma nova experiência do ser,
grande parte da população. O artigo empresarial aponta alguns inte- o irromper de um novo sonho, o vislumbrar de uma outra ordem, capaz
resses elitistas como entrave à implementação de políticas para me- de ordenar o caos que se instalou. Trata-se aqui de uma experiência de
lhora da qualidade de vida da maioria dos habitantes. As ONGs vêem sentido novo, e não de um saber codificado. Tudo o que tem a ver com a
com apreensão a despolitização dos movimentos sociais devido à experiência profunda do ser humano, com seu mergulhar nas raízes últi-
municipalização. mas da realidade, antes que esta se organize em ordem e sistema, em
Na Academia, o principal problema destacado é conceitual. Pa- saber e instituição, constitui o campo da experiência do espírito, donde
ra os acadêmicos, as cidades foram relegadas na definição de meio vem espiritualidade. Espírito representa a força criadora e ordenadora
ambiente. presente no ser humano, a capacidade de rasgar sentidos novos a partir
das virtualidades presentes na própria realidade. Desta experiência espi-
Propostas para resolver os problemas
ritual nascem os paradigmas civilizacionais, capazes de fazer outra his-
As propostas de resolução dos problemas apontam para soluções tória e suscitar esperança às comunidades humanas e às pessoas.
que valorizem o meio ambiente, a democracia e os menos favorecidos. Normalmente a espiritualidade encontra seu nicho natural no seio
De um lado, incluem uma melhoria no processo de decisão e das religiões. Elas nascem da experiência espiritual do fundador, do pro-
implementação das políticas urbanas, com um aprofundamento da de- feta e do carismático. No seio delas se elaboram as grandes utopias da
mocracia. Os autores reivindicam maior envolvimento da população Humanidade, visões de um sentido que transcende a fugacidade dos tem-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

nas decisões e mais transparência no uso dos recursos para que haja pos e alcança a transcendência e a eternidade. Em épocas de crise, cons-
um maior controle social dos gastos públicos. Para o representante das tituem elas o húmus fértil de novas perspectivas. São elas que permitem
ONGs, a sociedade civil nos fóruns de decisão participativa deve ori- a passagem de um paradigma a outro, mantendo o continuum da história
entar os governos no sentido de priorizar políticas de saneamento, saú- humana.
de, educação, meio ambiente e moradia. Os movimentos sociais pe- Mas a espiritualidade não configura monopólio das religiões, em-
dem a implementação do Estatuto da Cidade nos diversos níveis de bora sejam o campo privilegiado de sua emergência e expressão. A
governo. espiritualidade representa uma dimensão do profundo humano. Ela per-
Todos reivindicam propostas relacionadas a tipos de ação. Isto in- tence estruturalmente ao ser humano com o mesmo direito de cidadania
clui a utilização de boas práticas já testadas, o uso de tecnologias de como o poder, a sexualidade, a racionalidade e o enternecimento. Por
baixo custo e a valorização do meio ambiente nos projetos públicos. isso ela emerge nas pessoas mesmo que estas não tenham nenhuma ins-
Fonte: CAMARGO, Aspásia; CAPOBIANCO, João Paulo; OLIVEIRA, José crição religiosa definida. Esta espiritualidade antropológica deverá ser
Antônio Puppim. Meio Ambiente – Brasil. São Paulo: Editora Estação evocada quando abordarmos o tema da espiritualidade e da ecologia.
Liberdade, 2002, p. 338 a 360. Por fim, há de se superar o antropocentrismo, tão visceral em nossa
cultura. A espiritualidade se dá nas religiões e em cada ser humano, mas
ela vai além, se encontra também na própria estrutura do universo. O
ECOLOGIA E ESPIRITUALIDADE espírito está em nós porque, anteriormente, está no universo, do qual
somos parte e parcela. A Carta da Terra alude a isso quando se refere ao
Leonardo Boff nosso “parentesco com toda a vida” e ao “mistério da existência”, em
A Carta da Terra, um dos documentos éticos mais consistentes dos face do qual cabe nossa “reverência, humildade e gratidão”.
últimos anos e já assumido pela Unesco, representa a nova consciência
Fonte: TRIGUEIRO, André (Coord.). Meio ambiente no século 21. Rio de
ecológica da Humanidade. O texto abre com estas palavras dramáticas:
Janeiro: Sextante, 2003, p. 35 a 37
Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa
época em que a Humanidade deve escolher o seu futuro... ou formar
uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar
a nossa destruição e a da diversidade da vida. HÁ UM EQUILÍBRIO EM TUDO O QUE NOS CERCA
Esse alarme não é infundado, pois nas últimas décadas temos A natureza viva se caracteriza por um perfeito e constante equilí-
construído o princípio da autodestruição. A máquina de morte das ar- brio entre suas funções de produção e consumo, dispondo inclusive
mas nucleares, químicas e biológicas é de tal destrutividade que somen- de recurso para eliminar o excesso de populações (mediante a ação
te com uma porcentagem delas podemos danificar substancialmente a de predadores) quando estas ameaçam a disponibilidade de alimento
biosfera e abortar o projeto humano. Como espécie – Homo sapiens et ou outros fatores essenciais à vida de todo o sistema. A ação do ho-
demens —, temos ocupado já 83% do planeta, explorando para nosso mem tende, entretanto, a destruir esse equilíbrio.
proveito quase todos os recursos naturais. A voracidade é tal, que temos
depredado os ecossistemas a ponto de a Terra ter superado já em 20% A importância dos predadores
sua capacidade de suporte e regeneração. Mais ainda, fizemo-nos reféns Dissemos anteriormente que animais predadores como o tamanduá,
de um modelo civilizatório depredador e consumista que, se universali- o tatu e muitos pássaros são parte obrigatória do meio ambiente natural
zado, demandaria três planetas semelhantes ao nosso. Evidentemente das formigas. Da mesma forma, serpentes, aranhas e escorpiões, assim
isso é impossível, o que comprova a falta completa de sustentabilidade de como gaviões, morcegos e onças — temidos pela sua capacidade preda-
nosso modo de produção, distribuição e consumo de bens e serviços. Não tória ou aparentemente destruidora — são animais tão úteis ao equilí-
são poucos os analistas do estado da Terra que advertem: ou mudamos de brio da natureza quanto o beija-flor, a lebre ou a gaivota.
padrão de relacionamento com a Terra ou vamos ao encontro do pior. A içá — rainha de um formigueiro de saúvas — põe alguns milha-
res de ovos por dia, durante os quinze anos de sua existência. Já houve
A urgência da espiritualidade na crise atual caso, numa grande revoada de içás no interior do Estado de São Paulo,
É nesse contexto dramático que surge a urgência da espiritualidade. de se retirar de uma lagoa mais de um caminhão desses insetos, que, após
Ela possui um valor em si, independentemente das conjunturas históri- o vôo nupcial, caíram e apodreceram. Normalmente, cada içá, depois de
cas, como essa descrita acima. Mas, atualmente, em situação de alto fecundada em pleno ar, cai ao solo, cava um orifício e inicia aí um novo
risco, parcamente conscientizado pela maioria dos seres humanos, ela é formigueiro de saúvas, onde passa o resto de sua vida pondo ovos.
invocada urgentemente, pois representa uma das fontes secretas de um Imagine, então, se não houvesse animais que se alimentassem de
novo modo de ser que nos poderá salvar. Por que, exatamente, a formigas! Imagine se a maioria das içás não fosse devorada por pássaros

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Alessandro Passos da Costa
Port Moresby
Darwin
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A U S T R Á L I A
24

Brisbane

Perth

Adelaide
Sydney
Canberra
36 Melbourne
OC
EA
NO
ÍN D

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IC O

Hobart

132
120 144
156

A Austrália, pelo seu isolamento e conseqüente pecualiaridade de sua fauna nativa, tem
sido vítima de introduções bem-intencionadas, porém malsucedidas, de espécies
estrangeiras... Uma delas foi o coelho, importado para mero divertimento de seus
colonizadores ingleses.

durante o vôo nupcial! Imagine se todas aquelas içás que caíram na la- Temos outro exemplo interessante. Há vários anos surgiu nos Esta-
goa — cada uma carregando mais de 100 mil ovos no abdômen — caís- dos Unidos uma dessas modas esquisitas: sapatos e bolsas de pele de
sem em solo propício e construíssem novos formigueiros! Faça um cál- sapo! É claro que o Brasil, país que abriga diversas espécies desse ani-
culo e veja que, com uma revoada de içás por ano, em menos de cinco mal, logo iniciou a matança de sapos e a exportação de suas peles. Em
anos o volume existente de saúvas seria maior que o da própria Terra. alguns lugares, principalmente no Nordeste, o sapo tornou-se uma ver-
Existem muitos exemplos de superpopulação de um ambiente por dadeira raridade, tal a intensidade de seu extermínio. O resultado, na
falta de predadores. Um caso muito conhecido é o dos coelhos na Aus- forma de desequilíbrio ecológico, não se fez esperar. Várias regiões co-
trália. Durante a colonização desse país, os ingleses, sentindo falta de meçaram a ser invadidas por milhões e milhões de besouros ou de mari-
um animal rápido e esperto que substituísse a raposa européia na prática posas. Isso não apenas incomodou terrivelmente seus habitantes — por-
de seu esporte predileto — a caça à raposa —, levaram para lá o coelho que esses insetos entravam nas casas ou se acumulavam nas ruas, princi-
da América do Sul. Acontece, porém, que na Austrália não havia ani- palmente em volta dos postes de iluminação —, como também causou
mais capazes de caçar o coelho, isto é, animais carnívoros, espertos e enorme prejuízo às plantações, pois as larvas dos besouros são brocas
traiçoeiros como a nossa onça, o cachorro-do-mato, a jibóia etc. Ora, de árvore, e as lagartas das mariposas devoram folhas. Por causa disso,
todos sabem que o coelho é um animal que se reproduz muito, gerando foi decretada a proibição da matança e exportação de peles de sapos
inúmeros filhotes por ano. Resultado: em poucos anos os coelhos for- no Brasil.
maram uma população tão grande que não havia plantação que resistis-
se a eles. Tornaram-se um verdadeiro flagelo! Outros fatores de equilíbrio das populações
Até hoje, muitas tentativas têm sido feitas para controlar a popula- Naturalmente, existem vários fatores que impedem a superpopulação
ção de coelhos ou mesmo erradicar, isto é, eliminar completamente o do mundo — ou de qualquer tipo de ambiente — por uma determinada
coelho da Austrália, sem resultado satisfatório. Uma das tentativas con- espécie de animal ou vegetal. Além dos predadores, controladores ati-
sistiu numa verdadeira e desumana guerra biológica. Disseminou-se no vos, há os fatores limitantes, passivos, que são os alimentos disponíveis.
continente um tipo de peste de coelho, causada por um vírus altamente É claro que uma espécie de formiga jamais poderia chegar a ter uma
destruidor, que provocava morte por hemorragia interna, bastante dolo- população do tamanho da massa da Terra, pois não haveria alimento
rosa. Milhões de coelhos morreram dessa forma, mas, algum tempo de- suficiente para mantê-la. Em geral, a espécie que melhor consegue so-
pois, eles começaram a desenvolver anticorpos e se tornaram imunes à breviver em um determinado ambiente é aquela que dispõe de maior
ação do vírus. Hoje esse método já não produz efeito, e os coelhos con- capacidade para aproveitar as formas de alimento nele disponíveis.
tinuam a proliferar e a destruir plantações na Austrália. A disponibilidade de alimento em um ecossistema — ambiente po-
Aqui no Brasil também há muitos exemplos desse tipo de fenôme- voado por várias espécies em equilíbrio — é geralmente garantida pela
no. O episódio com as içás é um deles e vem ocorrendo com freqüência atividade dos seres denominados produtores, ou seja, pelos organismos
cada vez maior porque a vegetação natural da região, o cerrado, vem vegetais capazes de produzir ou sintetizar compostos orgânicos. Como
sendo substituída por imensos bosques de eucaliptos. Ora, todos nós todos os seres vivos de um ecossistema dependem de compostos orgâni-
sabemos que os pássaros, tamanduás e outros habitantes do cerrado não cos para sua própria constituição, podemos dividi-los em dois grupos
se adaptam à floresta de eucaliptos. Mas a saúva sim. Dessa forma, os distintos: os que produzem (produtores) e os que consomem (consumi-
formigueiros ficam livres de seus agressores, e as saúvas reproduzem- dores) matéria orgânica.
se à vontade. Seria necessário conservar espécies de árvores e arbustos Se não houver produtores, todo o ecossistema perecerá ou terá de
nativos em meio aos eucaliptos, para favorecer a manutenção dos preda- receber alimento “de fora”. Muitas regiões no fundo de mares e lagos, as-
dores naturais. sim como cavernas profundas, possuem ecossistemas que são alimentados

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por detritos orgânicos que provêm de outros ecossistemas da superfície. É por área de terra. Os inseticidas e outros agrotóxicos — que, como vere-
que a principal forma de produção de alimentos baseia-se na fotossíntese, mos mais adiante, podem tornar-se nocivos ao ambiente e aos seres
que depende da presença de luz no ambiente. Assim, peixes e outros ani- vivos, inclusive ao homem — foram, em grande parte, responsáveis por
mais que habitam cavernas profundas (como, por exemplo, a Caverna esse aumento da produção de alimentos, reduzindo o ataque de pragas à
do Diabo, na região de Apiaí, Estado de São Paulo) alimentam-se de lavoura e protegendo cereais armazenados contra carunchos e outros
microrganismos e detritos vindos de fora, trazidos pelos rios que atra- seres nocivos.
vessam essas cavernas. No fundo escuro dos oceanos também há uma Mas o crescimento constante das populações continua sendo maior
verdadeira “chuva” de partículas orgânicas precipitando-se continuamen- que o aumento da produção de alimentos. Por isso, mais de dois terços
te das regiões iluminadas da superfície. da população mundial vive em condições de subnutrição ou de quase
Mas há outras formas de produção de matéria orgânica que não inanição. Além disso, as grandes concentrações populacionais — prin-
dependem de luz: são os processos de quimiossíntese. Embora a produ- cipalmente nas cidades — vêm criando problemas crescentes de polui-
ção de bactérias a partir de reações quimiossintéticas seja conhecida há ção dos rios, dos solos e do ar, congestionamento do trânsito, problemas
quase um século, somente a partir de 1976 têm sido descobertos gran- habitacionais, desmatamento de grandes áreas para a formação de novos
des ecossistemas que dependem exclusivamente desse processo como pastos, campos de cultivo, represas para o abastecimento de água potá-
fonte de alimento orgânico. Os ecossistemas quimiotróficos existem em vel ou para a geração de energia elétrica. Há também o esgotamento das
todos os oceanos, onde já não há luz (a mais de 2.000 metros de profun- reservas de petróleo e outros minerais, como ferro, alumínio, chumbo
didade), e estão sempre associados a nascentes de águas sulfurosas de etc., a necessidade de construção de novas indústrias e de utilização de
alta temperatura. Uma fauna muito abundante e variada, constituída de novos processos de geração de energia, como a nuclear.
vermes gigantes, moluscos, caranguejos e até peixes, vive direta ou in- O livro de Malthus foi muito discutido ao longo do século XIX.
diretamente de uma incrível multidão de bactérias que oxidam o enxofre Deu origem a polêmicas intermináveis. A maioria dos sociólogos e
das águas sulfurosas e daí extraem a energia com que sintetizam a maté- economistas da época colocou-se contra sua teoria. Darwin, pelo con-
ria orgânica. trário, descobriu nela a explicação que faltava para formular sua teoria
da seleção natural sobre o fenômeno da evolução dos seres vivos. Vá-
As populações humanas — o princípio de Malthus rias centenas de livros e artigos foram escritos a respeito do princípio
No fim do século XVIII, um sociólogo inglês, reverendo Thomas da população. Depois ele ficou quase esquecido. Voltou, porém, a ser
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Robert Malthus, escreveu um livro muito interessante, que despertou lembrado, já em meados do século XX, quando os problemas de
enorme polêmica. Como era costume naquela época, tinha um título superpopulação, poluição, industrialização, uso de agroquímicos etc.
colossal: Um ensaio sobre o princípio da população; como ele afeta o começaram a se avolumar. Hoje novamente se discute — e agora com
êxito futuro da sociedade. Com observações sobre as especulações do muito mais vigor — a questão da limitação da natalidade, do uso de
Sr. Godwin, Sr. Condorcet e outros escritores. Nesse livro, Malthus aler- anticoncepcionais e até da legitimação do aborto. O que você pensa de
ta os governos para um fenômeno curioso que ele havia observado: as tudo isso?
populações humanas tendem a crescer em proporções geométricas, en-
Fonte: BRANCO, Samuel Murgel. O meio ambiente em debate.
quanto a produção de alimentos cresce apenas em proporção aritmética.
Coleção Polêmica. São Paulo: Moderna, 2004.
Isso significa que, se as populações humanas crescerem livremente, elas
acabarão morrendo de fome. Isso só não acontece, segundo ele, porque
existem alguns fatores que concorrem para que a mortalidade humana AUTO-SUSTENTAÇÃO
seja muito alta: doenças infantis, epidemias, guerras etc. Ilhas de ordem num oceano de caos, os organismos são muito supe-
Malthus, compulsando dados demográficos da época, de todas as riores às máquinas construídas pelo homem. Ao contrário da máquina a
partes do mundo, pôde verificar — principalmente nos países mais no- vapor de James Watt, por exemplo, o corpo concentra a ordem. Ele se
vos, na América — a tendência geral de as populações duplicarem a refaz continuamente. A cada cinco dias, temos um novo revestimento
cada 25 anos, aproximadamente. Ele afirma que, mesmo com a evolu- interno do estômago. Ganhamos um novo fígado a cada dois meses.
ção dos métodos de cultivo e a derrubada de matas para a formação de Nossa pele se repõe a cada seis semanas. A cada ano, 98% dos átomos
novas áreas para plantio, era impossível admitir um aumento da produção de nosso corpo são substituídos. Essa substituição química ininterrupta,
de trigo e outros alimentos nessa mesma proporção indefinidamente. o metabolismo, é sinal seguro de vida. E a “máquina” requer uma entra-
De acordo com o princípio de Malthus existem, entretanto, dois da contínua de energia e de substâncias químicas (alimentos).
tipos de bloqueio ao crescimento indefinido das populações: os positi- Os biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela vêem
vos (que na verdade poderiam ser chamados “efetivos”, ou de “efeito no metabolismo a essência de algo realmente fundamental para a vida.
imediato”) e os preventivos. Os bloqueios positivos são aqueles de que Dão-lhe o nome de “autopoese”. Proveniente de raízes gregas que signi-
já falamos, isto é, todas as causas que tendem, de algum modo, a encur- ficam “si mesmo” (auto) e “fazer” (poiein, como em “poesia”), a
tar a duração da vida humana, tais como ocupações insalubres e perigo- autopoese refere-se à produção contínua de si mesma pela vida. Sem o
sas, pobreza e subalimentação, vestuário insuficiente, ausência de cui- comportamento autopoético, os seres orgânicos não se sustentariam –
dados com as crianças, todos os tipos de excesso, vida em grandes cida- não permaneceriam vivos.
des, doenças e epidemias, guerras, pragas e fome. Uma entidade autopoética efetua continuamente o metabolismo;
Os bloqueios preventivos são o celibato temporário ou permanente perpetua-se através da atividade química, da movimentação das molé-
— isto é, não se casar ou se casar tarde, tendo, portanto, menor número culas. A autopoese acarreta um gasto de energia e a produção de alimen-
de filhos — e os métodos que hoje chamamos anticoncepcionais. Na- tos. Na verdade, ela é detectável pela incessante química biológica e
quela época esses eram severamente condenados como imorais, uma fluxo energético que é o metabolismo. Somente as células, os organis-
vez que a união conjugal deveria ser feita única e exclusivamente com a mos feitos de células e as biosferas feitas de organismo são autopoéticos
finalidade de ter filhos — qualquer outro tipo de relação entre homem e e podem efetuar o metabolismo.
mulher era considerado vício. O DNA é uma molécula de importância incontestável para a vida na
Terra, mas a molécula em si não tem vida. As moléculas de DNA se
A explosão demográfica do século XX replicam, mas não metabolizam nada e não são autopoéticas. A replicação
Atualmente, o problema do crescimento demográfico — isto é, do não é, nem de longe, uma característica tão fundamental da vida quanto
aumento das populações — tem se agravado muito, uma vez que inúme- a autopoese. Consideremos: a mula, resultante do cruzamento de ju-
ros bloqueios positivos são atenuados pelos progressos da medicina e mento com égua, não pode “replicar-se”. Ela é estéril, mas seu metabo-
dos conhecimentos científicos em geral. A descoberta de vitaminas, an- lismo funciona com o mesmo vigor que o de seus pais; sendo autopoética,
tibióticos e vacinas e a introdução de uma série de medidas de caráter ela tem vida. Falando de algo que nos é mais próximo, os seres humanos
social e de assistência aos recém-nascidos e à velhice vêm reduzindo que já não podem, ou que nunca puderam, ou que simplesmente optam
muito a mortalidade infantil e prolongando a vida dos idosos. Isso faz por não se reproduzir não podem ser relegados, por uma exatidão for-
com que as populações cresçam muito depressa, a não ser que sejam çada da definição biológica, ao campo dos não-vivos. É claro que tam-
adotadas medidas de bloqueio preventivo: limitação da reprodução e da bém eles vivem.
natalidade. Em nossa opinião, os vírus não têm vida. Não são autopoéticos.
Por outro lado, muitos avanços têm sido alcançados na agricultura e Pequenos demais para se sustentar, não metabolizam nada. Os vírus não
na pecuária, permitindo maior produção de cereais, frutas, carne e leite fazem coisa alguma até entrarem numa entidade autopoética: uma célula

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bacteriana, a célula de um animal ou a de um outro organismo vivo. Os acordo com leis definidas – mas como é simples o problema de onde
vírus biológicos reproduzem-se no interior de seus hospedeiros, do mes- cairá cada uma, comparado ao da ação e reação de inúmeras plantas e
mo modo que os vírus digitais se reproduzem nos computadores. Sem animais!” No entanto, é a soma dessas interações incontáveis que pro-
um ser orgânico autopoético, o vírus biológico é uma simples mistura duz o mais amplo nível da vida: a biosfera azul, com toda a coerência
de elementos químicos; sem um computador, o vírus digital é um mero holárquica e a misteriosa grandeza de sua evolução a partir do cosmo
programa. sombrio.
Sendo os vírus menores do que as células, faltam-lhes genes e
Fonte: MARGULIS, Lynn; SAGAN, Dorion. O que é vida? Rio de Janeiro:
proteínas suficientes para eles se manterem. As menores dentre as cé- Jorge Zahar Editor, 2002. p. 31 a 33
lulas, pertencentes às mais minúsculas bactérias (com diâmetro de apro-
ximadamente um décimo de milionésimo de metro), são hoje as mais
ínfimas unidades autopoéticas de que se tem conhecimento. Tal como ESCASSEZ DE ÁGUA CRIA NOVA INJUSTIÇA:
a linguagem, as moléculas nuas de DNA ou os programas de computa- A EXCLUSÃO HÍDRICA
dor, os vírus sofrem mutações e evoluem, mas, em si mesmos, são Estoques de água doce estão sendo diminuídos pelo despejo diário
zumbis químicos, na melhor das hipóteses. A célula é a menor unidade de 2 milhões de toneladas de poluentes, alertam especialistas do PNUD.
da vida.
Carlos Ferreira de Abreu Castro* e Aldicir Scariot**, do PNUD
Quando uma molécula de DNA produz outra que lhe é exatamente
idêntica, falamos em replicação. Quando a matéria viva, como uma cé- A crise silenciosa
lula ou um corpo composto de células, dá origem a outro ser semelhante A água é vida para as pessoas e para o planeta. A água doce é, por si
(com diferenças atribuíveis à mutação, à recombinação genética, à aqui- só, o elemento mais precioso da vida na Terra. É essencial para a satisfa-
sição simbiótica, à variação do desenvolvimento ou a outros fatores), ção das necessidades humanas básicas, a saúde, a produção de alimen-
falamos em reprodução. Quando a matéria viva reproduz formas altera- tos, a energia e a manutenção dos ecossistemas regionais e mundiais.
das que, por sua vez, geram uma prole alterada, falamos em evolução, “Embora se observe pelos países mundo afora tanta negligência e tanta
que é a mudança de populações de formas biológicas ao longo do tem- falta de visão com relação a este recurso, é de se esperar que os seres
po. Como enfatizam Darwin e seu legado, mais células e corpos humanos tenham pela água grande respeito, que procurem manter seus
reprodutores são produzidos por gemação, divisão celular, incubação, reservatórios naturais e salvaguardar sua pureza. De fato, o futuro da

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
parto, formação de esporos ou outros processos similares do que o nú- espécie humana e de muitas outras espécies pode ficar comprometido a
mero capaz de sobreviver. Os que resistem por tempo suficiente para se menos que haja uma melhora significativa na administração dos recur-
reproduzir são “naturalmente selecionados”. Dito em termos mais dire- sos hídricos terrestres”.1
tos, não é propriamente que os sobreviventes sejam selecionados por O acesso à água já é um dos mais limitantes fatores para o desenvol-
seu sucesso, mais sim que os seres que não conseguem reproduzir-se vimento socioeconômico de muitas regiões. “A sua ausência, ou conta-
antes de morrer são excluídos pela seleção. minação, leva à redução dos espaços de vida, e ocasiona, além de imen-
A identidade e a auto-sustentação requerem o metabolismo. A quí- sos custos humanos, uma perda global de produtividade social.2 A com-
mica metabólica (comumente chamada de fisiologia) precede a reprodu- petição de usos pela agricultura, geração de energia, indústria e o abas-
ção e a evolução. Para que uma população evolua, seus membros têm tecimento humano tem gerado conflitos geopolíticos e socioambientais
que se reproduzir. No entanto, para que um ser orgânico possa reprodu- e afetado diretamente grande parte da população da Terra. Mais de 2,6
zir-se, primeiro ele precisa se sustentar. Durante a vida de uma célula, bilhões de pessoas carecem de saneamento básico e mais de um bilhão
cada uma das aproximadamente cinco mil proteínas diferentes faz um continuam a utilizar fontes de água impróprias para o consumo. Por fal-
intercâmbio completo com o meio circundante, milhares de vezes. ta de água limpa, metade dos leitos hospitalares disponíveis no mundo é
As células bacterianas produzem DNA e RNA (ácidos nucléicos), ocupada e cerca de 5 milhões de pessoas3, na sua maioria crianças, mor-
proteínas de enzimas, gorduras, carboidratos e outras substâncias quí- rem anualmente. Apesar destes dados assustadores, a crise da água é
micas complexas de carbono. Os corpos de protoctistas, fungos, ani- uma crise silenciosa.
mais e plantas também produzem, todos eles, essas e outras substân- A qualidade e quantidade de água têm impactos diretos nos meios
cias. Contudo, o mais importante e espantoso é que qualquer corpo de vida das populações mais pobres, na sua saúde e na sua vulnerabilidade
vivo produz a si mesmo. a crises de todos os tipos. Também afetam grandemente o estado do
Essa manutenção energética da unidade, enquanto os componen- meio ambiente, a capacidade dos ecossistemas de fornecer serviços
tes, em caráter contínuo ou intermitente, são rearranjados, destruídos ambientais e a probabilidade de desastres ambientais. Em todo o mun-
e reconstruídos, partidos e consertados, é o metabolismo, que precisa do, a falta de medidas sanitárias e de tratamento de esgotos polui rios e
de energia. De acordo com a segunda lei da termonidâmica, a auto- lagos; lençóis freáticos são rapidamente exauridos e contaminados por
sustentação autopoética só preserva ou aumenta a ordem interna me- métodos de exploração inadequados; águas superf iciais são
diante uma contribuição para a “desordem” do mundo externo, con- superexploradas pela irrigação e poluídas por agrotóxicos; populações
forme os restos metabólicos vão sendo excretados e há uma emissão de peixes são sobre-exploradas, áreas úmidas, rios e outros ecossistemas
de calor. Todos os seres vivos têm que realizar o metabolismo e, por reguladores de águas são drenados, canalizados, represados e desviados
conseguinte, todos precisam criar uma desordem local: calor inútil, sem planejamento4. Os estoques de água doce estão sendo intensamente
ruído e incerteza. Assim é o comportamento autopoético, que reflete o diminuídos pelo despejo diário de 2 milhões de toneladas de poluentes
imperativo autopoético necessário a qualquer ser orgânico que viva, (dejetos humanos, lixo, venenos e muitos outros efluentes agrícolas e
que continue com suas funções. industriais) nos rios e lagos. A salinidade, assim como a contaminação
A visão autopoética da vida difere dos ensinamentos padronizados por arsênico, fluoretos e outras toxinas, ameaçam o fornecimento de
da biologia. A maioria dos autores de textos dessa área deixa implícito água potável em muitas regiões do mundo.
que o organismo existe independentemente de seu meio, e que o meio é Uma das conseqüências mais perversas deste mau uso é a exclusão
sobretudo um pano de fundo estático e sem vida. Entretanto, os seres hídrica. Hoje, apenas metade da população das nações em desenvolvi-
orgânicos e o meio ambiente acham-se entrelaçados. O solo, por exem- mento tem acesso seguro à água potável. A escassez de água aumentará
plo, não é isento de vida. É uma mistura de fragmentos de rochas, pólen, significativamente nos próximos anos, devido ao aumento do impacto
filamentos de fungos, cistos de ciliados, esporos bacterianos, nematódeos combinado resultante do aumento do uso per capita de água e dos efei-
e outros animais microscópicos e suas partes. “A natureza”, observou tos das mudanças climáticas. O aumento da população e da renda reflete
Aristóteles, “avança paulatinamente das coisas sem vida para a vida ani- diretamente no aumento do consumo de água e na produção de resíduos
mal, de tal maneira que é impossível determinar a linha de demarcação poluentes. A população urbana dos países em desenvolvimento aumen-
exata”. Independência é um termo político, não científico. tará dramaticamente, gerando demanda muito além da capacidade, já
Desde a origem da vida, todos os seres vivos têm estado ligados, inadequada, de infra-estrutura para fornecimento de água e saneamento.
direta ou indiretamente, conforme seus corpos e populações vão cres-
cendo. As interações ocorrem conforme os organismos se ligam pela
água e pelo ar. Darwin, em Origem das espécies, comparou a comple- * Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Coordenador da Unidade de
Meio Ambiente, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento —
xidade dessas interações a “um banco em dificuldade” – complexo PNUD/Brasil
demais para nós, seres humanos, sequer comecemos a decifrá-lo: “Se ** Doutor em Ecologia, Analista de Projetos, Programa das Nações Unidas para o
jogarmos um punhado de penas para o alto, todas cairão no chão de Desenvolvimento — PNUD/Brasil

18

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Em 2050, pelo menos uma em cada quatro pessoas provavelmente vive- para o alcance de vários Objetivos de Desenvolvimento do Milênio,
rá em um país afetado por escassez crônica ou recorrente de água potá- visto que a água está intrinsecamente ligada a eles. É difícil imaginar
vel. Isto poderá restringir seriamente a disponibilidade de água para to- como pode haver avanços significativos sem primeiro assegurar que
das as finalidades, particularmente para a agricultura, que atualmente as pessoas tenham um fornecimento duradouro e confiável de água e
responde por 70% de toda a água consumida.5 A falta de conciliação instalações sanitárias adequadas.
entre todos esses usos e funções da água, o aumento da demanda aliado
aos conflitos já existentes e a assimetria de poder entre os interesses A crise da água no Brasil
envolvidos criaram uma nova categoria de injustiça social, a exclusão O Brasil detém 12% das reservas de água doce do mundo, sendo
hídrica, os “povos sem água”. que cerca de 70% desse total estão na Bacia Amazônica, onde a densida-
O cenário de escassez provocado pela degradação e pela distribui- de populacional é a menor do país. Por outro lado, a região mais árida e
ção irregular gera conflitos, seja dentro dos próprios países ou entre na- pobre do Brasil, o Nordeste, onde vivem cerca de 28% da população,
ções. Historicamente, dominar o uso da água dos rios fez com que algu- possui somente 5% da água doce. A alta densidade populacional, a po-
mas civilizações se utilizassem disso como forma de exercer poder so- luição e a agricultura, aliadas à visão de que a água é um recurso infini-
bre outros povos e regiões geográficas. Um exemplo de conflito moder- to, já provocam o aumento na escassez de água de qualidade nas regiões
no pelo uso da água é vivenciado por israelenses e palestinos. Israel Sul e Sudeste do país, onde vivem 60% da população.
depende das águas subterrâneas que estão no território palestino ocupa- Os índices de abastecimento de água mostram que há enormes desi-
do e retira cerca de 30% da disponibilidade do aqüífero, comprometen- gualdades entre regiões e entre ricos e pobres. Os mais prejudicados são
do a capacidade de recarga desse reservatório.6 aqueles que vivem nas favelas, periferias e pequenas cidades. Somente
O estoque de água já é grandemente desigual. A Ásia, com 60% da um terço dos 40% mais pobres dispõe de serviços de água e saneamen-
população mundial, detém apenas 36% da água doce mundial. As to, enquanto que para os 10% mais ricos esse valor sobe para 80%. O
disparidades continuarão a crescer. Hoje, vinte países enfrentam uma saneamento básico atinge somente 56% dos domicílios urbanos e mera-
dramática falta de água. Em 2050, se mudanças profundas não ocorre- mente 13% dos domicílios rurais. As classes mais altas, com rendimen-
rem, a escassez de água afetará 7 bilhões de pessoas em 60 países7. É tos acima de 10 salários mínimos, têm cobertura 25% maior em água e
uma crise silenciosa, é uma crise dos que não têm voz. acima de 40% em esgoto que a população com renda inferior a 2 salá-
rios mínimos, cujos índices de cobertura desses serviços estão abaixo da
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A água e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio


média nacional.8
Como afirmou Nitin Desai, secretário-geral da Cúpula Mundial sobre A Meta 11 dos ODM estabelece que, até 2020, deve haver melhora
Desenvolvimento Sustentável, não é possível melhorar a difícil situação significativa na qualidade de vida de 100 milhões de habitantes de mo-
dos pobres do mundo sem fazer alguma coisa em relação à qualidade da radias inadequadas em todo o mundo, incluindo-se acesso a esgotamen-
base de recursos de que dependem: as terras e os recursos hídricos. to sanitário (indicador 31). A análise dos dados demonstra que dimi-
Melhorar a utilização dos recursos hídricos é decisivo para todas as ou- nuiu, em termos relativos, a proporção da população sem acesso a esgo-
tras dimensões do desenvolvimento sustentável. Para o Programa das tamento sanitário — apesar de, em números absolutos, ter havido au-
Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a água é um ponto de mento da população brasileira e da população sem acesso a esses servi-
partida catalítico nos esforços para ajudar os países em desenvolvimen- ços. De fato, em 1991, havia 75,1 milhões de pessoas (61,6%) sem aces-
to na luta contra a fome e a pobreza, na salvaguarda da saúde humana, so à rede de esgoto e, em 2000, esse número subiu para 93,7 milhões, o
na redução da mortalidade infantil e na gestão e proteção dos recur- equivalente a 55,6% dos habitantes. Se o ritmo de queda percentual con-
sos naturais. tinuar o mesmo, em 2015 ainda haverá 45,5% da população sem acesso
Durante a Conferência do Milênio, promovida pela Organização a esgotamento sanitário. A projeção desses dados indica que pouco me-
das Nações Unidas em setembro de 2000, 191 países — a maioria dos nos da metade da população do Brasil (42,3%) continuaria sem acesso à
quais representados na conferência por seus chefes de estado ou gover- rede de esgoto em 2020.9 Essas disparidades demonstram o quanto o
no — subscreveram a Declaração do Milênio, que estabeleceu um con- Brasil ainda tem de avançar nessa questão.
junto de objetivos para o desenvolvimento e a erradicação da pobreza no
mundo, os chamados Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). O acesso à água e saneamento é uma questão ética
Os oitos objetivos fixados pela Conferência do Milênio são: A crise da água vem aumentando, mesmo com alguns avanços
• A erradicação da pobreza e da fome obtidos para atingir os objetivos estabelecidos em 2000. O Projeto do
Milênio das Nações Unidas foi estabelecido em 2002 para desenvol-
• A universalização do acesso à educação primária ver um plano de ação que habilite os países em desenvolvimento a
alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e a reverter o
• A promoção da igualdade entre os gêneros
massacre da pobreza, da fome e das doenças que atinge bilhões de
• A redução da mortalidade infantil pessoas. As equipes das dez forças-tarefas do Projeto Milênio, congre-
gando 265 especialistas de todo o mundo, foram desafiadas a diagnos-
• A melhoria da saúde materna ticar os principais impedimentos ao alcance dos Objetivos de Desen-
• O combate à AIDS, malária e outras doenças volvimento do Milênio e a apresentar recomendações de como superar
os obstáculos, colocando as nações no caminho certo para atingir as
• A promoção da sustentabilidade ambiental metas até 2015.
• O desenvolvimento de parcerias para o desenvolvimento No início de 2005, a força-tarefa sobre Água e Saneamento reco-
mendou ações críticas para minorar a crise global de água e saneamento
Dada esta lista de oito objetivos internacionais comuns, 18 metas e promover a gestão adequada dos recursos aquáticos. Entre essas ações
e mais de 40 indicadores foram definidos, tendo em vista possibilitar estão:
entendimento e avaliações uniformes dos ODM, nos níveis global, re- 1. Governos nacionais e outras partes envolvidas devem assumir o
gional e nacional. A Meta 10 visa reduzir pela metade, até 2015, a compromisso de definir a crise do saneamento como prioridade
parcela da população sem acesso seguro e duradouro a água potável. máxima em suas agendas.
“Nenhuma medida poderia contribuir mais para reduzir a incidên- 2. Investimentos em água e saneamento devem ser ampliados e de-
cia de doenças e salvar vidas no mundo em desenvolvimento do que vem focalizar a provisão sustentável de serviços, em vez de ape-
fornecer água potável e saneamento adequado a todos.” Essa afirmação nas construir instalações.
do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, define de forma categórica o 3. Governos e agências doadoras devem fortalecer as comunidades
papel fundamental que a água e o saneamento desempenham na locais com a autoridade, recursos e capacidade profissional ne-
erradicação da pobreza e para assegurar o desenvolvimento humano cessários para a gestão do fornecimento de água e a provisão de
sustentável. serviços de saneamento.
No contexto dos ODM, a água desempenha um papel central devi- 4. Dentro do contexto das estratégias nacionais de redução da po-
do à sua importância para promover o crescimento econômico e redu- breza, os países devem elaborar planos coerentes de desenvolvi-
zir a pobreza, propiciar segurança alimentar, melhorar as condições da mento e gestão dos recursos hídricos.
saúde ambiental e proteger os ecossistemas. A expansão do acesso ao for- 5. A inovação deve ser incentivada para acelerar o progresso, e assim al-
necimento doméstico de água e aos serviços de saneamento contribuirá cançar diversos Objetivos de Desenvolvimento simultaneamente.

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Por exemplo, o desenvolvimento de novas formas de reutilização nos aquários, a água é a parte mais sensível do hábitat, e pode servir
da água recuperada na agricultura poderia aumentar o rendi- como estabilizadora do ambiente. A “capa d’água” pode suprir exi-
mento das colheitas e reduzir a fome, melhorando também o gências para diferentes formas de vida aquática. Variações na luz,
saneamento. salinidade, pH, oxigênio dissolvido e a presença de um grande es-
6. Mecanismos de coordenação devem ser implementados para me- pectro de poluentes podem causar um desastre a certos organismos
lhorar e avaliar o impacto das atividades financiadas por agências aquáticos.
internacionais no âmbito nacional. Para o sucesso de uma vida em zôos e aquários, há a necessidade
Estas recomendações mostram claramente que, após cinco anos, a de atenção a uma série de exigências dos organismos presentes (nível
ONU continua conclamando os países a assumir o acesso seguro à água de tolerância). Há também certas exigências físicas em termos de for-
potável como prioridade máxima em suas agendas. O mais grave é o ma e dinâmica do display (exibição), que possam ser compatíveis com
fato de que as metas estabelecidas para 2015 não visam a eliminar, e sim a criatura. Por exemplo, alguns peixes preferem água corrente, outros
reduzir, a tremenda injustiça social da falta de acesso seguro à água e ao preferem condições quase estáticas. Alguns preferem águas profun-
saneamento básico para todos os habitantes da Terra. De acordo com a das, e outros, superficiais. As variações são notáveis quando se consi-
força-tarefa, expandir a cobertura de água e saneamento não requer so- deram hábitats de microorganismos em tanques (reservatórios) e
mas colossais de dinheiro (10), nem descobertas científicas inovadoras. hábitats gigantescos para baleias, por exemplo. Deve ser dada especial
Quatro em cada dez pessoas no mundo não têm acesso nem a uma sim- atenção à qualidade da água e ao controle de doenças, que podem ser
ples latrina de fossa não-asséptica e são obrigadas a defecar a céu aber- fonte de problemas nesse meio.
to. Obviamente, o conhecimento, as ferramentas e os recursos financei- Considerando-se que as necessidades físicas dos animais vão muito
ros estão disponíveis para pôr fim a esta infâmia. além do mínimo necessário encontrado, deve-se dar mais atenção ao
Como afirma Mohamed Bouguerra (11), o fornecimento de água conforto, criando-se condições tão similares às encontradas no hábitat
para a humanidade articula-se estreitamente às prioridades estabelecidas natural quanto for possível.
pelos homens. Os usos que damos à água refletem, no fim das contas, os Nas práticas de cultivo em aqüicultura e maricultura, muitos estu-
nossos valores mais profundos. “A água é, primeiramente, uma questão dos se preocupam com as necessidades dos hábitats. Freqüentemente,
política e ética. Nenhuma outra questão merece mais atenção por parte os rios, lagos e todo o oceano são usados nesses estudos.
da humanidade. Ela determina a paz universal e o futuro de todos os Considerações éticas podem ser feitas acerca da apropriação ou de-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
seres vivos.” A posição de Wally N’Dow (12) , para quem grande parte sapropriação da vida aquática em aquários e zôos. Todavia, esta ativida-
dos conflitos políticos e sociais no futuro deixarão de ter como causa o de é usada simplesmente para conhecer uma complexa necessidade do
petróleo e serão provocados pelas disputas em torno da água, é hoje organismo aquático de forma a torná-lo capaz de sobreviver sob deter-
praticamente um consenso. minadas condições de cativeiro.
O alerta feito por Bouguerra não pode ser ignorado. Necessitamos, A maior proposta para esta atividade é os estudantes reconhecerem
hoje, da formulação de uma política global para a água, fundada sobre o e apreciarem a complexidade da vida aquática, usando como enfoque as
plano da ética, e que sirva de guia para definir uma partilha equilibrada condições de vida em zôos ou aquário.
dos recursos. “Dessa maneira se poria fim aos embates indignos que os
detentores do poder e alguns grupos de pressão exercem sobre este re- I – Objetivo
curso. Se a política da água precisa ser integrada à viabilidade econômi- 1. Identificar os componentes do hábitat essenciais à sobrevivência
ca, não é menos indispensável que ela englobe também a solidariedade da maioria dos animais aquáticos.
social, a cooperação com os países mais desprovidos, a responsabilida- 2. Reconhecer e apreciar a complexidade da vida aquática.
de ecológica e a utilização racional desse recurso, para não comprome- 3. Escolher um hábitat adequado à vida aquática.
ter as necessidades das gerações atuais e futuras e dos demais seres vi-
vos que partilham conosco a água do globo.” II – Material
1. J.W.Maurits la Rivière – “Threats to the World’s Water” – Scientific American, • cartões 3 cm x 5 cm
special issue – Managing Planet Earth, 1989.
2. Ladislaw Dobor. In “A Reprodução Social” Volume 2 Política Econômica e • canetas
Social: os desafio do Brasil. 2001. • papel machê
3. Dados do relatório da Força-tarefa da ONU. Água e Saneamento do Projeto do
Milênio. 2005. Na literatura especializada, estes dados variam muito, com nú- • argila
meros até cinco vezes maiores.
4. WWF-Brasil “Programa Água para a Vida – Conservação e Gestão de Água Doce”. • barbante
5. UN/WWAP (United Nations/World Water Assessment Programme). 2003. UN
World Water Development Report: Water for People, Water for Life. Paris,
• papelão
New York and Oxford: United Nations Educational, Scientific and Cultural • caixas de papelão
Organization and Berghahn Books.
6. Instituto Socioambiental – ISA. Almanaque Brasil Socio-ambiental, 2004. • galão
Relatos de diferentes conflitos entre, intra e inter nações, bem como resultan-
tes do crescente processo de privatização dos serviços de águas e saneamento III – Procedimento
pode ser visto em Evaristo Miranda. Água na natureza e na vida dos homens.
Idéias e Letras. 2004 e em Mohamed Bouguerra. As Batalhas da Água: por um 1. Prepare os cartões com o nome de um dos seguintes animais:
bem comum da humanidade. Editora Vozes, 2004. truta, tubarão, dourado, tilápia, cavalo-marinho, gaivota, lontra,
7. The United Nations World Water Development Report 2003, UNESCO-WWAP.
tartaruga marinha, jacaré, sapo, atobá, baleia.
8. Ministério das Cidades 2004. Saneamento Ambiental. Cadernos MCidades, vol. 5.
9. Centro de Pesquisa de Opinião Pública – DATAUnB. Relatório Nacional ODM 2. Divida a classe em grupos de 2 a 4 alunos. Cada grupo retira um
7 “Garantir a sustentabilidade ambiental”. UnB, 2004. cartão da caixa.
10. Estima-se que sejam necessários apenas 4% dos gastos militares com arma- 3. Peça a cada grupo que seja responsável por desenhar um hábitat
mentos no Mundo para prover água potável e saneamento adequado para toda artificial, no qual seu animal possa viver com sucesso. Instrua-os
a humanidade.
11. Mohamed Bouguerra. As Batalhas da Água: por um bem comum da humani-
para pesquisarem em bibliotecas, por exemplo, sobre a necessi-
dade. Editora Vozes, 2004. 238p. dade de cada animal e as características do seu hábitat natural.
12. Ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Habitações Hu- 4. Quando o estudo se completar, cada grupo estará apto a cons-
manas (Hábitat II). truir um modelo ou pequena réplica de um zôo ou aquário, que
Fonte: Disponível em: http://www.pnud.org.br/noticias poderia ser importante para a sobrevivência e conforto desse
impressao.php?id01=1067. Acesso em 05 maio 2005. animal, em cativeiro.
5. Uma vez completo o modelo, peça ao grupo que o apresente ao
resto da classe. Cada exposição deverá incluir uma descrição das
Sugestões de atividades necessidades básicas do animal, assim como uma descrição das
características de seu hábitat natural.
DESENHANDO UM HÁBITAT 6. Peça aos estudantes que sumarizem os componentes do hábitat
As condições básicas de alimento, ar, água e espaço desejáveis que lhes pareçam essenciais à sobrevivência do animal pesquisado:
aos animais parecem óbvias, quando se consideram os zôos. Todavia, alimento, água, refúgio, espaço etc.

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IV – Questões 7. Após o arranjo das plantas, coloque mais uma camada de terra
1. Liste os componentes de um hábitat adequado, que são necessá- de, aproximadamente, 5 cm e compacte levemente, para que as
rios à sobrevivência da maioria dos animais aquáticos. plantas fiquem firmes no lugar.
2. Separe um mamífero aquático, peixe, anfíbio ou outro animal 8. Regue as plantas de tal forma que não encharque o substrato
aquático. preparado. Depois de regar, utilize um pedaço de pano ou al-
3. Descreva as características biológicas de um animal e classifi- godão para limpar o interior do vidro, com o auxílio da pinça.
que-o quanto às necessidades para sua sobrevivência. 9. Após todo esse procedimento, feche o vidro. Você terá feito, en-
4. Compare similaridades e diferenças entre esse animal aquático e tão, o seu próprio ecossistema.
outro. O que ambos precisam, e cada um deles, para sobreviver?
O que poderia ser diferente no hábitat de cada um, e de ambos, de (Obs.: Nos primeiros dias, o interior do vidro pode ficar embaça-
forma a continuar garantindo sua sobrevivência? do, devido à transpiração de todos os componentes vivos. Caso esse
embaçamento dure por muitos dias, abra o vidro, limpe o seu interior e
Fonte: Título original em Inglês: Designing a habitat. In: WREEC (1987).
volte a fechá-lo.)
Aquatic: project Wild, USA: 19-20.
Fonte consultada: http://educar.sc.usp.br/ciencias/ecologia/ativida.ht. Acesso em
Traduzido pela Dra Sônia Lúcia Modesto Zampieron – Bolsista DTI/CNPq.
07 abr. 2005.
Disponível em: http://educar.sc.usp.br/biologia/atividades/m_a_atv3.html,
acesso em 23 maio 2005.
DRAMATIZAÇÃO
CONSTRUINDO UM ECOSSISTEMA
Tema: Presa e Predador
I – Objetivo Esta atividade deve ser realizada com um grupo de no mínimo 20
1. Construir um ecossistema artificial. alunos, em ambiente que tenha espaço físico suficiente para a movimen-
2. Demonstrar que o ecossistema é um sistema auto-sustentável. tação de todos, tal como uma quadra de futebol, ou o próprio pátio da
escola. A atividade consiste na representação de uma possível cadeia ali-
II – Material mentar, envolvendo 3 componentes: A – plantas (produtores), B – preás
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

• vidro de boca larga, com tampa e transparente (vidro de conser- (consumidores primários) e C – jaguatiricas (consumidores secundários).
vas, por exemplo) I – Objetivo
• pinça de fabricação caseira (pode ser de bambu)
1. Analisar a relação produtor / consumidor.
• pedrinhas
2. Analisar a relação presa / predador.
• terra e areia
3. Entender como se processa a transferência de matéria e energia
• plantas de pequeno porte (dar preferência para plantas que neces-
nas cadeias alimentares.
sitem de pouca luz direta)
II – Material
III – Procedimento
• fitas de três cores diferentes (o número de fitas de cada cor deve
1. Observe a figura durante a execução da atividade. ser superior ao número de integrantes do jogo)
• apito, que poderá ser substituído por assobio, dependendo de quem
PAULO MANZI

comandar a atividade
• tabela para acompanhar o desenvolvimento do jogo, conforme
modelo

Modelo da tabela
Figura: Modelo de
um ecossistema GERAÇÕES PLANTAS PREÁS JAGUATIRICAS
artificial em
recipiente de vidro. 1·
Representação
esquemática (sem 2·
escala). 3·





2. Lave bem o vidro que será utilizado para evitar fungos e outros

microorganismos indesejáveis; utilize detergente (biodegradável),
preferencialmente, e deixe secar ao Sol. 10·
3. Separe uma quantidade de terra que corresponda aproximadamente
a 1/4 do vidro. Peneire a terra e deixe-a secar, se estiver úmida. O III – Procedimento
ideal é que seja terra seca. 1. A classe deverá ser dividida em 3 grupos, deixando-se, porém, o
4. Lave também as pedras e a areia. grupo das plantas com um número ligeiramente maior que os
5. Despeje dentro do vidro uma camada de pedrinhas com, aproxi- demais. Da mesma forma, o grupo dos preás deve ser maior que o
madamente, 2 cm de altura. Em seguida, cubra as pedras com das jaguatiricas. Por exemplo, caso a classe possua 30 alunos, o
uma camada de areia da mesma espessura. Coloque, então, 3 cm melhor seria dividi-la da seguinte forma: 14 plantas, 10 preás e 6
da terra peneirada. jaguatiricas.
6. Uma vez feita essa preparação, está na hora de fixar as plantas 2. As fitas devem ser amarradas na cabeça ou no pulso de cada um
nesse substrato, com o auxílio da pinça de bambu. Aqui, não dos integrantes. Cada cor representa um elo da cadeia.
existem muitas regras em relação ao arranjo das plantas den- 3. As plantas ficarão espalhadas pelo pátio, os preás deverão ser
tro do vidro. É importante apenas não se esquecer de que as dispostos em círculo, ficando distantes 5 a 6 metros das jaguatiricas,
plantas irão crescer e se desenvolver dentro do vidro, embora que também estarão dispostas em círculo, envolvendo o círculo dos
lentamente. preás, conforme mostra a figura.

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PAULO MANZI

Dessa forma, não poderíamos deixar de lado uma abordagem evolutiva


do estudo das células.
Ainda nesta Unidade, tratamos da Genética. O nascimento do pri-
meiro filho é uma das situações mais gratificantes da vida de uma pes-
soa, mas também uma das que mais geram ansiedade. É menino ou me-
nina? Tudo vai correr bem? Será uma criança normal? Algumas dessas
questões podem ser respondidas antes do nascimento, por meio da reali-
zação de exames ultra-sonográficos, que fornecem muitas informações
sobre a saúde do feto. Sabendo ou não, ao fazermos essas perguntas,
estamos lidando com informações do campo da Genética.
Além da Genética Clássica, abordamos nesta Unidade questões atu-
ais, como a “impressão digital” do DNA, o Projeto Genoma Humano e
os princípios da terapia gênica. Essas novas tecnologias, além de surpre-
endentes quanto aos métodos que envolvem – inimagináveis há apenas
alguns anos – suscitam polêmicas de natureza ética, social e moral. Ire-
mos, sim, apresentar as leis de Mendel e outras modalidades clássicas
de herança de características. Entretanto, não podemos passar ao largo
Plantas Preás Jaguatiricas
da discussão de aspectos éticos, cuidando para que nossos alunos se
Figura: Representação esquemática da disposição inicial dos compo- engajem nessa discussão e comecem a formar opinião própria a respeito.
nentes do jogo.

4. O jogo terá 10 rodadas. Para iniciar uma rodada, o professor de- Bibliografia específica (para os professores)
verá apitar 1 vez, e para terminá-la, 2 vezes. ALBERTS, Bruce; WATSON, James D. et al. Molecular Biology of the
cell. New York: Garland Publishing, 1994.
Regras do jogo BAINS, Willian. Biotechnology — From A to Z. Oxford: Oxford

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
University Press, 1998.
1. Plantas
BECKER, Wayne M. et al. The world of cell. Menlo Park: The Benja-
As plantas deverão ficar espalhadas pelo pátio ou no lugar escolhi-
min/Cummings Publishing, 1996.
do para o jogo, e permanecer nos seus lugares. Quando apanhadas pelos
BEIGUELMAN, Bernardo. Citogenética humana. Rio de Janeiro:
preás, deverão permanecer no local onde foram apanhadas até a próxi-
Guanabara Koogan, 1982.
ma rodada, e depois ir para o grupo dos preás.
BERKALOFF, André et al. Biologia e Fisiologia celular. São Paulo:
2. Preás Edgard Blücher, 1975.
Cada preá deve procurar apanhar uma planta e evitar ser capturado BRITISH MEDICAL ASSOCIATION. Our genetics future. Oxford:
por uma jaguatirica. A única defesa possível dos preás é abaixar-se. Oxford University Press, 1992.
Abaixando-se, estarão escondidos das jaguatiricas. Quando apanhados BURNS, George W. & BOTTINO, Paul J. Genética. Rio de Janeiro:
por uma jaguatirica, os preás deverão permanecer no local onde foram Guanabara Koogan, 1989.
capturados até o término da rodada. Na rodada seguinte, estes preás pas- CAIRNS-SMITH, A. G. Seven clues to the origin of life. Cambridge:
sarão a ser jaguatiricas. Cambridge University Press, 1985.
CONN, Eric E.; STUMPF, P. K. Introdução à Bioquímica. São Paulo:
3. Jaguatiricas Edgard Blücher, 1975.
As jaguatiricas deverão tentar capturar um preá. DAWKINS, Richard. A escalada do monte improvável. São Paulo: Com-
Os preás e as jaguatiricas que não conseguirem alimento voltarão panhia das Letras, 1998.
na rodada seguinte, como plantas. Explicação: os animais que não con- ––––––––––––. O rio que saía do Éden. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
seguem alimento morrem de fome. Seus corpos são decompostos e de- DE ROBERTIS, E. D. P.; DE ROBERTIS. Jr., E. M. F. Bases da Biolo-
les só restam os sais minerais que as plantas incorporam. Por isso vol- gia celular e molecular. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1989.
tam como plantas. FARRINGTON, Benjamin. What Darwin really said. New York: Scocken,
Os preás e as jaguatiricas que conseguirem alimento continuarão 1982.
como tais. Explicação: preás e jaguatiricas que conseguem alimentos FOX, Sidney W. et al. The origin of life and evolutionary biochemistry.
são bem-sucedidos. Isso permite que se mantenham saudáveis e se New York: Plenum, 1974.
reproduzam, garantindo novos indivíduos para a geração seguinte. FROTA-PESSOA, Oswaldo et al. Genética clínica. Rio de Janeiro: Fran-
As plantas que foram capturadas voltam como preás. Os preás cap- cisco Alves, 1984.
turados voltam como jaguatiricas. Explicação: quando um ser vivo ser- –––––—-––––. Genética Humana. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984.
ve de alimento para outro, as substâncias que formam seu corpo passam GARDNER, Eldon J.; PETER, Snustad D. Genética. Rio de Janeiro:
a fazer parte desse outro ser. Por isso, as plantas capturadas pelos preás, Guanabara Koogan, 1986.
voltam como preás e estes, quando capturados, voltam como jaguatiricas. GOULD, Stephan Jay. O polegar do panda. São Paulo: Martins Fontes,
Fonte consultada: http://educar.sc.usp.br/ciencias/ecologia/ativida.html. Acesso
1989.
em 18 abr. 2005. HARTL, Daniel L. Essential Genetics. Sudbury: Jones and Barlett
Publishers, 1996.
JUNQUEIRA, Luis C.; CARNEIRO, J. Biologia celular e molecular.
Unidade II – A unidade da vida Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991.
Dentro do vasto conhecimento biológico, duas áreas têm a proprie- __________. Histologia básica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
dade de aglutinar informações sobre quase todos os seres vivos. Uma é 1974.
a Ecologia, que trata das relações entre os seres vivos e entre eles e o KLUG, William S.; CUMMINGS, Michael R. Concepts of Genetics.
ambiente; outra é a Citologia, que lida com as células, unidades que New Jersey: Prentice Hall, 1997.
constituem a maioria dos organismos. O estudo das células é uma das KROUGH, David. Biology — A guide to the natural world. New Jersey:
“portas de entrada” no mundo da Biologia. Prentice Hall, 2000.
Nesta obra, nossa proposta é ver a célula como uma estrutura dinâmi- LEHNINGER, Albert L. et al. Principles of Biochemistry. New York:
ca: um labirinto ocupado por água, onde as reações acontecem de forma Worth Publishers, 1993.
organizada, eficiente e econômica. A célula é a menor estrutura capaz de LIMA, Celso P. Genética humana. São Paulo: Harbra, 1984.
executar as atividades que caracterizam os seres vivos, razão pela qual o MONOD, Jacob. O acaso e a necessidade. Petrópolis: Vozes, 1971.
estudo da célula é fundamental para compreendermos a Biologia. NOVIKOFF, Alex B.; HOLTZMAN, Eric. Células e estrutura celular.
A vida não pode ser encarada como algo imutável e pronto. Ela está São Paulo: Interamericana, 1977.
em permanente e intensa mudança, embora assim não pareça aos nossos PASSARGE, Eberhard. Color Atlas of Genetics. New York: Tieme
olhos apressados. Tudo evolui e se modifica com o transcorrer do tempo. Medical Publishers, 1995.

22

MP_BIO Col. Base_1 22 22/06/05, 8:37


RAMALHO, Magno et al. Genética na agropecuária. São Paulo: Glo- NetBiochem — Site mantido pela Universidade Bem Gurion, de Israel,
bo, 1989. contém informações sobre o DNA (estrutura molecular, papel me-
RIDLEY, Mark. Evolution. Cambridge: Blackwell, 1996. tabólico etc.).
SCIENTIFIC AMERICAN. A base molecular da vida. São Paulo: USP/ http://medic.bgu.ac.il/mirrors/netbiochem/nucacids.htm
Polígono, 1968. O DNA vai à escola — Site do projeto educacional “O DNA vai à esco-
__________. A célula viva. Polígono, 1969. la”, contém textos, sugestões de atividades para o professor, infor-
SMITH, John E. Biotechnology. Cambridge: Cambridge University Press, mações, entre outras.
1996. www.odnavaiaescola.com/
TOBIN, Allan J.; MOREL, Richard E. Asking about cells. Orlando: Open Computing Facility at the University of California at Berkeley —
Saunders College Publishing, 1997. A OCF é uma homepage dedicada a estudantes e professores, ela-
WHITFIELD, Philip. From so simple a beginning — The book of borada e mantida pela Universidade da Califórnia (Berkeley, EUA).
evolution. New York: Macmillan, 1993. www.ocf.berkeley.edu/
WILMUT, Ian; CAMPBELL, Keith. Dolly, a segunda criação. Rio de Paleontologia — Homepage dedicada ao estudo dos dinossauros. Con-
Janeiro: Objetiva, 2000. teúdo voltado também para a evolução do homem, animais, vege-
tais e seres unicelulares primitivos.
Leituras complementares sugeridas www.biologo.com.br/paleo.html
Primeiras etapas da evolução biológica — Como diz o nome, esta pági-
(para os alunos) na contém informações sobre a evolução dos seres, focando os pri-
meiros estágios dessa evolução.
BIZZO, Nelio. Evolução dos seres vivos. São Paulo: Ática.
www.dbio.uevora.pt/biologia1/genese3.htm
BUENO, Maria Aparecida da Silva. Cidadania em preto e branco – Dis-
Processo Evolutivo — Esta homepage mostra processos evolutivos e
cutindo as relações raciais. São Paulo: Ática.
genética de populações. Contém diversos links onde podem se bus-
OLIVEIRA, Fátima. Bioética – Uma face da cidadania. São Paulo: Mo-
car informações de várias áreas ligadas à genética e evolução.
derna.
http://dreyfus.ib.usp.br/bio212/
––––––––––––. Engenharia Genética – O sétimo dia da criação. São
Roslin Institute — Centro de pesquisa escocês que se tornou internacio-
Paulo: Moderna.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

nalmente conhecido como o “berço de Dolly”.


www.ri.bbsrc.ac.uk/
A internet na sala de aula (endereços na Web) Sociedade Brasileira de Citologia Clínica — Da Sociedade de Citologia
Brasileira, aborda vários temas ligados à área, além de trazer links e
Academia de Ciências da Califórnia — Uma das melhores páginas de
eventos sobre Citologia.
Biologia da Web! Riquíssima em informações atuais e em links para
www.citologiaclinica.org.br/
diversos outros sites de interesse.
Sociedade Brasileira de Genética — Da Sociedade Brasileira de Gené-
www.calacademy.org/
tica, este site contém informações e novidades no campo da Genéti-
Biological Sciences and Science education — Apresenta um acesso fá-
ca brasileira e mundial, além de datas de congressos e buscas.
cil a vários sites educativos relacionados às Ciências Biológicas.
www.sbg.org.br/
http://nersp.nerdc.ufl.edu/~biolab/biosci.html
Sociedade Portuguesa de Citologia — Site da Sociedade Portuguesa de
Biology Hypertextbook Chapters — Faz parte do site do MIT (Massa-
Citologia, traz informações em vários campos de Biologia celular e
chusetts Institute of Technology). É um texto preciso e ilustrado
molecular.
sobre algumas áreas da Biologia, como respiração celular, fotos-
www.spcitologia.org/
síntese, material genético, Genética mendeliana, membrana celular,
The Dictionary of Cell Biology — É um dicionário (em Inglês) de ter-
atividade enzimática e imunologia.
mos ligados à Biologia celular, apresentando grande utilidade para
http://esg-www.mit.edu:8001/esgbio/chapters.html
consultas rápidas.
Cell & Molecular Biology Online — Um site em inglês que trata de
www.mblab.gla.ac.uk/~julian/Dict.html
assuntos na área de Citologia, contém textos, imagens, publicações;
The Virtual Library — Uma biblioteca para pesquisa em várias áreas do
enfim, uma série de informações ligadas à área.
conhecimento, como Medicina, Agricultura, Biotecnologia,
www.cellbio.com
Entomologia etc. Dispõe de links para imagens, artigos e universi-
Cientic — Explicitar as diferenças entre as perspectivas lamarckista e
dades.
darwinista relativamente à intervenção do ambiente na evolução dos
http://mcb.harvard.edu/biolinks.html
seres vivos. É o que este site traz a seus leitores.
U. S. Human Genome Project — Iniciado em 1990, o U. S. Human
www.cientic.com/cn_obj_bio12.html
Genome Project é um trabalho coordenado pelo Instituto Nacional
Cold Spring Harbor Laboratory — Instituição de pesquisa e ensino.
de Saúde (EUA), dedicado a identificar e localizar aproximadamente
Apresenta programas dedicados ao estudo de câncer, neurobiologia,
80.000 genes do genótipo humano.
genética de vegetais e páginas dedicadas à Biologia Geral.
www.ornl.gov/TechResources/Human_Genome/home.html
www.cshl.org/
Evolução do homem — Este site traz informações relacionadas à evolu-
ção do homem. Processo de desenvolvimento de espécies de Materiais de apoio
hominídeos, seres pré-históricos e ancestrais do ser humano atual.
Leituras
http://evohom.cjb.net/
Gateway to Biotechnology — Organização que divulga a emergente in- TRANSGÊNICOS NA AGRICULTURA
dústria da Biotecnologia dos Estados Unidos. Apresenta os benefí- Apesar de que, há alguns milhares de anos, os agricultores vêm
cios da Biotecnologia e formas de acesso às empresas envolvidas paciente e continuamente melhorando as espécies vegetais úteis e reali-
com seu desenvolvimento. zando, de algum modo, um trabalho “de genética sem o saber” — se-
www.bio.org/aboutbio/welcome.dgw gundo um importante informe da Academia de Ciências da França —,
Jb.usp.br — O estudo da evolução dos seres vivos. O homem sempre os melhoramentos e as variedades obtidas tinham caráter local, desen-
busca uma explicação razoável para os fenômenos à sua volta. É o volvendo-se em áreas geográficas restritas, por causa do clima e das
que esta página procura trazer para seus leitores. características do solo. Além do que, as plantas “domesticadas” eram
www.ib.usp.br/evolucao/inic/text2.htm altamente susceptíveis ao ataque de uma infinidade de pragas da lavou-
Leis de Mendel — Esta página carrega em seu conteúdo a história do pai ra. Somente a partir do século XX, com o desenvolvimento das técnicas
da Genética, Mendel, o qual lançou as principais teorias genéticas, de combate aos insetos, aos fungos e a outros parasitas e, posteriormen-
que são usadas até os dias de hoje, apesar da modernização atual. te, com o desenvolvimento da biotecnologia, é que os melhoramentos
www.geocities.com/%7Eesabio/Mendel.htm reais e a produtividade agrícola se tornaram sensíveis. Basta dizer que,
Museum of Paleontology — Página da Universidade da Califórnia dedicada na época de Júlio César, o plantio de cada grão de trigo produzia não
ao estudo das relações evolutivas entre os diversos grupos de seres mais que três grãos na colheita. Esse número elevou-se ao dobro, em
vivos, incluindo primatas e, particularmente, seres humanos. conseqüência do emprego de esterco nas plantações e da aplicação das
www.ucmp.berkeley.edu/mammal/mammal.html primeiras técnicas de manejo do solo, durante a Idade Média. Atualmente,

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o rendimento é da ordem de cinqüenta grãos (ou cinqüenta sacos) colhi- sobre animais, seja pela sua curta persistência no solo. Além disso, a
dos para cada grão (ou saco) plantado. menor necessidade de manejo para remoção das ervas daninhas durante
Em conseqüência dos melhoramentos alcançados pelas técnicas o crescimento das plantas permite um menor uso de combustíveis (para
agrícolas durante o século XX é que se vem conseguindo fazer face ao o funcionamento das máquinas agrícolas) e evita a erosão e a perda de
vertiginoso aumento da população mundial ocorrido nessa mesma épo- nutrientes. A Associação Americana da Soja calculou, em seu relatório
ca. Assim, por exemplo, entre 1961 e 2000, nos países em desenvolvi- de 2001, uma diminuição de perdas de solos da ordem de 250 milhões
mento da Ásia, a produção de arroz somada à de trigo elevou-se de 127 de toneladas durante o ano 2000. Essas vantagens apontadas pelos espe-
para 762 milhões de toneladas anuais, enquanto a população cresceu, no cialistas permitem considerar a transgênese, nesses casos, como alta-
mesmo período, de 1,6 bilhão para 3,5 bilhões de habitantes. No caso do mente positiva do ponto de vista de uma agricultura sustentável — isto
trigo, isso só foi possível graças à seleção de uma variedade mutante, é, uma agricultura que ajuda a proteger o meio ambiente.
isto é, de mutações gênicas que surgiram ao acaso e que foram isoladas Com respeito à proteção contra insetos, as atenções dos pesquisa-
pelos cientistas japoneses, no final do século XIX, e utilizadas na agri- dores foram dirigidas especialmente para as possibilidades de transfe-
cultura, com evidentes resultados econômico e social. rência de genes da bactéria Bacillus thuringiensis, descoberta no Japão
Porém, desde os anos de 1970, os biólogos começaram a perceber no início do século XX. Essa bactéria é uma terrível praga dos cultivos
que o emprego das técnicas usuais de melhoramento das plantas, basea- de bicho-da-seda, dizimando as populações de lagartas. Por isso, passou
das simplesmente em cruzamentos e aproveitamentos de mutações ca- a ser largamente utilizada, desde 1960, como meio de controle biológico
suais, sofria grandes limitações. A lentidão desses processos e a impos- de larvas de borboletas nocivas, pelo lançamento de esporos reprodutivos
sibilidade de realizar modificações segundo as necessidades exigiam o da bactéria sobre plantações e até florestas. O estudo genético dessas
desenvolvimento de novas tecnologias, de modo a permitir atender às bactérias revelou, além disso, a existência de diferentes raças genéticas
necessidades crescentes de produção mundial de alimentos. Grandes com ações mais ou menos específicas sobre diferentes espécies de lar-
investimentos começaram a ser realizados no desenvolvimento da enge- vas de borboletas, o que permitia utilizar somente as raças que atacas-
nharia genética, inicialmente no melhoramento da resistência às pragas sem determinadas espécies de lagartas nocivas, e não todas as larvas de
das plantas cultivadas; na melhor utilização da água na irrigação e dos borboletas. A partir dos anos de 1980, genes de Bacillus thuringiensis
fertilizantes nitrogenados; na maior eficiência da fotossíntese; e na qua- foram transferidos para diferentes plantas cultivadas, originando espé-
lidade nutricional ou industrial de alguns produtos vegetais. No Brasil, cies transgênicas de milho, arroz, algodão e batatinha, resistentes à ação

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
grandes avanços foram conseguidos, sobretudo pela Empresa Brasileira de lagartas. A principal vantagem no emprego desses transgênicos, so-
de Pesquisas Agronômicas (Embrapa), por exemplo, nas modificações bretudo do ponto de vista ambiental, está na diminuição da necessidade
introduzidas na soja, adaptando essa planta exótica ao nosso clima e ao do uso de inseticidas, principalmente para o controle das lagartas que se
nosso solo, o que permitiu que nos tornássemos um dos maiores produ- abrigam no interior das folhas e dos ramos da planta. Isso permite o
tores e exportadores dessa leguminosa em todo o mundo. Mas além da aumento natural das populações de insetos não-nocivos, favoráveis ao
Embrapa, as universidades brasileiras contribuíram significativamente controle biológico, bem como a diminuição dos inseticidas residuais
para o progresso das técnicas mais avançadas de engenharia genética. nos alimentos, nocivos à saúde.
Foi somente a partir do início dos anos de 1980, no entanto, que Uma das primeiras plantas transgênicas desenvolvidas pela enge-
surgiram os primeiros resultados de transgênese em plantas. Com o apoio nharia genética foi um tomate resistente aos vírus do mosaico, em 1988.
financeiro, finalmente, de grandes empresas produtoras de sementes e Depois, várias plantas cultivadas foram objeto dessas transferências
agroquímicos, assim como de laboratórios de produtos farmacêuticos, gênicas, impedindo a multiplicação dos vírus no interior de suas célu-
essas pesquisas foram intensificadas ao longo daquela década, dando las: tabaco, abobrinha, melão, pepino, alfafa, batatinha, melancia, ma-
seus primeiros resultados em dez anos, isto é, em meados dos anos de mão, mandioca etc. A maior parte desses transgênicos, porém, continua
1990. Em 1994, a sociedade Calgene, dos Estados Unidos, coloca no a ser objeto de pesquisas aprofundadas sobre a sua persistência, sobre a
mercado uma variedade de tomate transgênico com amadurecimento disseminação indesejável dos genes transferidos por meio dos vírus re-
controlável, evitando, assim, que o amadurecimento rápido da fruta pre- sistentes, bem como sobre a sua difícil aceitação pública, em se tratando
judicasse o seu transporte e armazenamento, deteriorando-se antes de de legumes.
chegar ao consumidor. Logo em seguida, porém, começam a aparecer O tomate e o melão foram as primeiras plantas em que se realiza-
transgênicos voltados a aspectos ambientais, como os resistentes aos ram experiências de transgênese visando ao amadurecimento controla-
herbicidas, aos insetos daninhos, aos vírus, assim como também ao me- do e, assim, ao melhoramento da qualidade nutricional dos seus frutos.
lhoramento das qualidades nutricionais dos produtos, como é o caso do Os frutos obtidos amadurecem mais lentamente, o que permite a sua
anunciado “arroz dourado”, rico em vitamina A, destinado a populações colheita mais tardia, e isso dá lugar à obtenção de produtos com melhor
carentes com alta incidência de cegueira em virtude da avitaminose. qualidade gustativa e nutricional nas condições de transporte e
Um dos primeiros objetivos dessas transgêneses consistiu no de- armazenamento atuais. Nos Estados Unidos, foi desenvolvida uma
senvolvimento de resistência das plantas cultivadas aos chamados batatinha transgênica com teor modificado de amido, permitindo menor
herbicidas totais, como o glifosato, o glufosinato e a fosfinotricina. Os absorção de gorduras durante a fritura, o que representa vantagens sob o
herbicidas totais são produtos que destroem indiferentemente quaisquer aspecto dietético. Também na colza (variedade de couve comestível e da
tipos de plantas, ao contrário dos herbicidas seletivos, que matam ape- qual se extrai óleo) e na soja foram introduzidas modificações visando
nas certos tipos de vegetais, considerados “ervas daninhas”, e poupam ao aumento do teor de ácido oléico e à redução do ácido linoléico, im-
as plantas cultivadas. Estes últimos, porém, não são muito eficazes, obri- portante no controle de doenças causadas pelo excesso de colesterol.
gando o agricultor a empregá-los em altas dosagens, em misturas de Há pouco tempo, diante da constatação da Organização Mundial da
vários tipos de herbicidas, geralmente muito tóxicos. Este procedimento Saúde (OMS) de que a carência de vitamina A afeta entre 100 milhões e
faz com que tais herbicidas permaneçam nas plantas e acabem sendo 200 milhões de crianças nos países subdesenvolvidos, provocando gra-
ingeridos pelas pessoas ou por animais. Além disso, para alguns tipos de ves deficiências de visão (cerca de 500 mil casos de cegueira infantil
lavoura, não existem herbicidas seletivos, e uma remoção insuficiente constatados, além da morte de mais de 1 milhão de crianças em idade
de ervas daninhas leva a um baixo rendimento e a uma diminuição da pré-escolar por ano, por avitaminose A), um grupo de cientistas da Suí-
qualidade do produto agrícola. Quanto aos herbicidas totais, estes são ça e da Alemanha conseguiu desenvolver uma variedade transgênica de
altamente eficazes na destruição das ervas daninhas, mesmo em baixas arroz rica em betacaroteno, formador dessa vitamina. Por causa dessa
dosagens, porém matam também a planta cultivada, a não ser que esta substância, esse arroz possui uma coloração amarela, tendo sido
seja semeada após a destruição daquelas. Alguns produtos possuem um apelidado de “arroz dourado”. Considerando que o arroz é um dos ali-
bom efeito herbicida, ao mesmo tempo que são de pouca permanência mentos mais utilizados — e baratos — do mundo, essa constituirá, sem
no solo — graças a uma rápida biodegradabilidade —, permitindo que dúvida, uma forma de fazer chegar a esses povos carentes as quantida-
o cultivo se inicie após algumas semanas. des necessárias da vitamina A, a fim de permitir um desenvolvimento
Os glifosatos são herbicidas totais cuja ação sobre as plantas se dá normal das crianças.
por meio de reações exclusivas dos vegetais, não afetando, pois, a vida No Brasil, a Embrapa realiza experiências de engenharia genética
animal. Assim sendo, a transferência para as espécies cultivadas de um desde 1980. Um importante trabalho já concluído foi o de produzir ba-
gene que lhes conferisse resistência à ação desse herbicida teria duas nanas transgênicas resistentes ao mal de sigatoka, uma doença que ame-
vantagens principais: uma alta eficácia na destruição das espécies noci- aça extinguir as bananeiras de todo o mundo. Muitos outros projetos,
vas e uma baixa nocividade ao ambiente, seja pela ausência de efeitos entretanto, estão em andamento, como o feijão resistente ao caruncho,

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ou o milho com maior teor de metionina, importante componente das idéia de que existiu um único código ancestral e que têm ocorrido alguns
rações para animais, reduzindo assim o custo da alimentação da criação. desvios pouco importantes deste. A existência de variações levanta um
Fonte: BRANCO, Samuel M. problema: como o código pode evoluir? Se, por exemplo, AUA codifica a
Transgênicos – Inventando seres vivos. São Paulo: Moderna, 2004, p. 29 a 37 isoleucina, como é o caso no código “universal”, de que maneira poderia
a designação mudar? A dificuldade é que existem, tipicamente, códons
LINGUAGEM E VIDA AUA em muitos sítios do genoma de um organismo. Mesmo se fosse se-
letivamente vantajoso mudar a isoleucina para metionina em um desses sítios,
John Maynard Smith*
Eörs Szathmáry** com certeza seria desvantajoso fazer essa modificação em todos eles. Pos-
Todos os seres vivos podem transmitir informação de uma geração síveis mecanismos de mudança foram revisados por Osawa et al. (1992).
a outra. A propriedade da hereditariedade — de que a vida gera a vida Essencialmente eles sugerem que a pressão direcional das mutações, a
— depende dessa transmissão de informação, e por sua vez, garante que qual altera a razão entre pares de base adenina-timina e pares de base
populações irão evoluir por meio da seleção natural. Se alguma vez en- guanina-citosina, leva ao desuso de determinados códons: um códon não
contrarmos, em qualquer outro lugar da galáxia, seres vivos com uma utilizado pode então ser redesignado.
origem distinta da nossa, poderemos ter certeza de que eles também O ponto importante é que o código pode evoluir, embora raramente
possuirão hereditariedade e uma linguagem que transmite a informação e com dificuldades. Durante o início da evolução, quando os organis-
hereditária. A necessidade de tal linguagem foi central para o argumento mos eram mais simples e tinham poucos genes, a mudança evolucionária
de Schrödinger em O que é vida?: ele descreveu-a como a “seqüência de provavelmente era mais fácil. A importância disso é a seguinte. Segundo
símbolos de um código”. Podemos arriscar alguns palpites sobre a sua mostraremos em breve, o código possui algumas características
natureza. Ela deve ser digital, porque uma mensagem codificada por adaptativas. Em geral, os biólogos que estudam a evolução explicam a
símbolos que variam continuamente logo degenera em ruído enquanto é adaptação pela seleção natural. Um código que não pudesse mudar não
transmitida de indivíduo para indivíduo. Ela também precisa ser capaz poderia tornar-se adaptativo por essa via. Mas se, como parece ser o
de codificar um número infinitamente grande de mensagens. Essas men- caso, o código é capaz de evoluir, essas características adaptativas ficam
sagens precisam ser copiadas, ou replicadas, com um alto grau de preci- mais fáceis de explicar.
são. Finalmente, as mensagens precisam ter algum “sentido”, em ter- O exemplo mais claro de uma característica adaptativa é este:
mos de influenciar suas próprias chances de sobrevivência e replicação: aminoácidos quimicamente parecidos tendem a ser codificados por
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de outra forma a seleção natural não poderá agir. códons parecidos. Por exemplo, o ácido aspártico e o ácido glutâmico
Os seres vivos possuem não uma, mas duas linguagens desse tipo. são quimicamente semelhantes: o ácido aspártico é codificado pelos
Existe a familiar linguagem genética baseada na replicação dos ácidos códons GAU e GAC e o ácido glutâmico pelos códons GAA e GAG.
nucléicos, DNA e RNA, e existe a linguagem mais familiar ainda, restri- Uma análise mais geral confirma que, a esse respeito, o código está
ta aos humanos, que estamos utilizando neste momento. A primeira é a longe de ser aleatório. Por que deveria ser adaptativo que aminoácidos
base da evolução biológica e a segunda, da mudança cultural. Neste en- parecidos sejam codificados por códons parecidos? Duas razões plausí-
saio iremos discutir a origem de ambas. veis têm sido sugeridas. Primeiro, se um erro é cometido durante a sín-
Na verdade, não discutiremos a origem da replicação dos ácidos tese protéica, o efeito na função da proteína provavelmente será bastante
nucléicos, embora esse fosse um passo crucial — talvez o passo crucial pequeno. Segundo, é menos provável que as mutações sejam deletérias.
— da origem da vida. Em vez disso, vamos tratar da origem do código Uma segunda característica não-aleatória do código diz respeito à
genético. Nos seres vivos existe uma divisão de trabalho entre ácidos sua redundância. Aminoácidos podem ser codificados por um, dois, três,
nucléicos e proteínas. Os ácidos nucléicos contêm a informação genéti- quatro ou seis códons diferentes. Em geral, os aminoácidos que são co-
ca, que é transmitida por meio da replicação. As proteínas determinam o muns entre proteínas tendem a ser especificados por mais códons: por
fenótipo do organismo. A conexão entre as duas se dá pelo código gené- exemplo, leucina e serina (ambas com seis códons) são mais freqüentes
tico, onde a seqüência de bases de um ácido nucléico corresponde à em proteínas do que o triptofano (um códon). Mas provavelmente seria
seqüência de aminoácidos de uma proteína. É nesse processo de tradu- errado interpretar isso como uma característica adaptativa do código. É
ção que os ácidos nucléicos adquirem o que chamamos de seu sentido: mais provável que seja uma conseqüência não selecionada do código ser
ao especificar proteínas, eles influenciam suas chances de sobrevivên- como ele é. Portanto, haverá mais mutações para serina e leucina do que
cia — sua “aptidão”. O mecanismo de tradução é ao mesmo tempo tão para triptofano. Se pelo menos algumas modificações de aminoácidos
complexo e universal que fica difícil pensar como ele se originou, ou forem seletivamente neutras, a observada associação entre abundância
como a vida poderia ter existido sem ele. de proteínas e redundância será previsível. Há também evidências níti-
O segundo desses problemas, a existência da vida sem o código, das de que a seleção impediu que a abundância de proteínas correspon-
que parecia um mistério quase impenetrável há 10 anos, não é mais tão desse precisamente à redundância. Por exemplo, as freqüências dos
misterioso. A descoberta crucial é que, mesmo nos organismos existen- aminoácidos ácidos (ácido aspártico e ácido glutâmico) e básicos
tes, algumas enzimas são feitas de RNA e não de proteína (Zaug & Cech, (arginina e lisina) são aproximadamente iguais, como seria previsto, na
1986). Isto levou à idéia de um “mundo de RNA” onde as mesmas mo- medida em que o pH intracelular é neutro. Mas, considerando a redun-
léculas de RNA eram fenótipo e genótipo, simultaneamente enzimas e dância de códons, esperaríamos que os aminoácidos básicos fossem duas
armazenadoras da informação genética. Dado este quadro, que aceita- vezes mais freqüentes que os ácidos.
mos, é possível ter vida sem proteínas, e portanto sem o código. Tam- Permanece a questão sobre a existência ou não de alguma razão
bém fica mais fácil imaginar como o código poderia ter se originado. química para determinados códons terem se associado com determina-
A característica essencial do código é que cada seqüência de três dos aminoácidos. A alternativa é que as designações foram quimica-
nucleotídeos ou triplet — cada “códon” — corresponde a um de vinte ami- mente arbitrárias, assim como a atribuição de sentidos às palavras na
noácidos. Essa designação é ocasionada pela ligação de determinados linguagem humana é essencialmente arbitrária. Segundo este pressu-
aminoácidos e determinadas moléculas de RNAt, cada qual integrando o posto, pode haver uma razão para o fato de os dois primeiros nucleotídeos
códon relevante. A ligação é realizada por enzimas específicas que pode- nos códons do ácido glutâmico e do ácido aspártico serem os mesmos,
mos chamar “enzimas designadoras”. A especificidade do código depen- mas é apenas por mero acidente que eles são GA e não, por exemplo,
de da especificidade dessas enzimas. Nosso problema é explicar como tal AU. A questão permanece em aberto, mas é claro que qualquer especi-
especificidade surgiu. ficidade química que possa ter existido não foi, por si mesma, suficiente
Antes de abordar essa questão, entretanto, vamos revisar brevemente para determinar o código: a evolução de enzimas designadoras perma-
o que pode ser deduzido da natureza do código existente. Há algumas nece um passo crucial a ser explicado.
variações: por exemplo, nas leveduras e na maioria das mitocôndrias de A idéia básica (Szathmáry, 1993) é que o primeiro envolvimento
animais, o códon AUA codifica a metionina em vez da isoleucina. Outras dos aminoácidos com processos da vida foi como co-fatores de ribozimas.
diferenças como esta são conhecidas e outras mais serão provavelmente Ao recrutar co-fatores de aminoácidos, o alcance catalítico e a eficiên-
descobertas. A variabilidade é limitada, no entanto, e é compatível com a cia das ribozimas puderam ser muito ampliados. Cada co-fator corres-
pondia a um aminoácido ligado a um oligonucleotídeo — provavelmen-
te um trinucleotídeo, em cujo caso o código visto de fora era organizado
* Department of Biology, Biology Building, The University of Sussex, Falmer,
Brighton, Sussex BNI 9QC, UK.
em triplets. A função do oligonucleotídeo era ligar o co-fator à ribozima
** Department of Plant Taxonomy and Ecology, Eötvos University, Budapest, por pareamento de bases. Cada tipo de co-fator poderia ter agido em
Hungary. conjunção com muitas ribozimas diferentes.

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Neste roteiro, a origem da atribuição específica de aminoácidos a pelagem mais pesada à medida que as placas de gelo se aproximam, até
nucleotídeos, que é a base do código, nada teve a ver com síntese de que se tornem mamutes peludos, não são necessariamente superiores,
proteínas no início. Essas designações poderiam ter surgido uma a uma, apenas animais adaptados às condições locais de um frio cada vez mais
cada qual aumentando o número de co-fatores disponíveis e portanto a intenso. Para cada espécie que se torna mais complexa ao adaptar-se a
versatilidade bioquímica. A próxima etapa teria sido a ligação de uma seu ambiente, você encontrará parasitas (às vezes muitas espécies deles)
única ribozima a vários aminoácidos. A ligação destes para formar dentro de seu corpo. Parasitas geralmente possuem uma anatomia muito
peptídeos seria então o primeiro passo em direção à síntese protéica. Por simplificada, em comparação à de seus ancestrais de vida livre. E no
fim, a ribozima inicial teria evoluído para RNAm; a alça de oligo- entanto esses parasitas são tão bem adaptados ao ambiente interno de
nucleotídeo do co-fator teria evoluído pra RNAt; a enzima designadora seu hospedeiro quanto o próprio hospedeiro que evoluiu para enfrentar
R2, ligando um determinado aminoácido a um determinado oligo- os desafios de seu ambiente externo.
nucleotídeo, teria evoluído para uma aminoacil-RNAt-sintetase; e, fi-
nalmente, a ribozima R3, relacionando aminoácidos a peptídeos, teria O que a evolução é
evoluído para um ribossomo. Em sua formação minimalista, nua e crua, a evolução é uma idéia
O modelo deixa muitas questões sem resposta. Por exemplo, as pro- simples com uma surprendente gama de implicações. A asserção básica
teínas são muito maiores, comparadas aos pequenos polipeptídeos que inclui um par de afirmações inter-relacionadas que fundamentam as duas
podiam ser formados utilizando uma ribozima como “mensagem”. Mas disciplinas centrais da história natural: a taxonomia (ou a ordenação das
ele tem a vantagem de sugerir estágios intermediários entre não ter um relações entre organismos) e a paleontologia (ou a história da vida).
código e ter um código, cada estágio podendo ser selecionado a favor: Evolução significa (1) que todos organismos partilham ancestrais co-
por exemplo, ter um único tipo de co-fator seria melhor que não ter muns e portanto possuem elos de genealogia e descendência nas ramifi-
nenhum, ter dois co-fatores seria melhor que ter um, e assim sucessiva- cações da árvore da vida e (2) que as linhagens mudam sua forma e
mente. A esse respeito, o modelo assemelha-se a outras sugestões sobre diversidade ao longo do tempo por intermédio de um processo natural
as origens de órgãos complexos que pareciam inúteis até completamen- de mudança – “descendência com modificação”, nas palavras de Darwin.
te formados: exemplificando, as penas foram úteis para manter seus donos Esse insight, simples porém profundo, responde de imediato à grande
aquecidos muito antes de estarem suficientemente formados para ajudar questão biológica de nossa época: qual a base para o “sistema natural”
no vôo. de relações entre organismos (gatos mais próximos de cachorros do que

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Fonte: MURPHY, Michael; O’NEILL, Luke (Org.). O que é a vida? 50 anos de largatixas; todos os vertebrados mais próximos uns dos outros do que
depois. São Paulo: Editora Unesp, 1997. p. 83 a 88. de um inseto – um fato amplamente reconhecido, considerado ao mes-
mo tempo belo e misterioso, muito antes de a evolução oferecer uma
resposta). As explicações anteriores eram insatisfatórias porque não po-
TRÊS ASPECTOS DA EVOLUÇÃO diam ser testadas (o toque criativo de Deus originando cada espécie por
Stephen Jay Gould decreto, com as relações taxonômicas representando a ordem do pensa-
O que a evolução não é mento divino) ou eram obscuras (as espécies como unidades naturais,
como os elementos da tabela periódica, ordenando a matéria orgânica).
De todos os conceitos fundamentais nas ciências da vida, a evolu-
A explicação evolutiva para o sistema natural é maravilhosamente sim-
ção é o mais importante e também o mais mal compreendido. Mas como
ples: a relação é a genealogia; os seres humanos são parecidos com ma-
podemos entender um assunto melhor ao reconhecer aquilo que ele não
cacos pois partilhamos um ancestral comum recente. A ordem taxonômica
é, e o que não pode ser, devemos começar com algumas refutações, re-
é um registro histórico.
conhecendo para a ciência aquilo que G. K. Chersterton considerou tão
Mas a existência de genealogia e mudança – descendência com
importante para as humanidades: “Arte é limitação; a essência de cada
modificação – não basta para caracterizar a evolução como uma ciência.
pintura é a moldura”.
A ciência possui duas missões: (1) registrar e descobrir os aspectos
Primeiramente, a evolução, assim como qualquer área de ciência, factuais do mundo empírico e (2) propor e testar explicações sobre por
não é capaz de sondar a questão das origens fundamentais ou significa- que o mundo funciona de uma forma particular. A genealogia e a des-
dos éticos. (A ciência, como um empreendimento, busca explicar fenô- cendência atendem à primeira meta – uma descrição do fato da evolu-
menos e regularidades do universo empírico, sob o pressuposto de que ção. Precisamos também conhecer os mecanismos pelos quais a mudan-
leis naturais são uniformes no espaço e no tempo. Essa restrição delimi- ça evolutiva ocorre – explicar as causas da descendência com modifica-
ta um infindável e fascinante mundo dentro do “quadro”; a maioria das ção, que é a segunda meta. Darwin propôs o mecanismo mais famoso e
questões relegadas à “moldura” são impossíveis de responder, de qual- documentado para a mudança na forma do princípio que chamou de
quer forma.) Assim, a evolução não é o estudo da origem primordial da “seleção natural”.
vida no universo ou do significado intrínseco da vida entre os objetos da O fato da evolução é tão bem documentado quanto qualquer coisa
natureza; essas questões são filosóficas (ou teológicas) e não fazem par- que conhecemos na ciência – tão seguro quanto nossa convicção de que
te do domínio da ciência. (Também desconfio que não possuam respos- a Terra gira ao redor do Sol, e não o contrário. Porém, o mecanismo da
tas universalmente satisfatórias, mas isso é assunto para outro momen- evolução permanece o centro de empolgantes controvérsias – e a ciência
to.) Esse aspecto é relevante pois fundamentalistas fervorosos, disfarça- é mais animada e frutífera quando há importantes debates sobre as cau-
dos de “criacionistas científicos”, afirmam que a criação deve ser equi- sas de fatos bem documentados. A seleção natural de Darwin foi confir-
parada à evolução e receber tempo proporcional nas escolas, uma vez mada por copiosos e elegantes estudos como um mecanismo poderoso,
que ambas são igualmente “religiosas” ao lidar com mistérios primordi- especialmente na evolução de características que tornam os organismos
ais. Entretanto, a evolução não trata desses assuntos de modo algum, e adaptados ao seu ambiente – aquilo que Darwim chamou de “o aperfei-
portanto permanece plenamente científica. çoamento de estruturas e a co-adaptação que merecidamente incitam
Em segundo lugar, à evolução foi acrescentado um conjunto de con- nossa admiração”. Mas a história da vida numa escala maior inclui fe-
ceitos e significados que representam mais antigos preconceitos sociais nômenos que talvez necessitem de outros mecanismos (efeitos aleató-
e crenças psicológicas da cultura ocidental do que uma descrição da rios, por exemplo, são fundamentais na definição da história da vida –
realidade natural. Tal “bagagem” pode ser inevitável em qualquer cam- quais grupos sobrevivem e quais morrem, em episódios de extinção ca-
po que se relacione de modo tão íntimo com preocupações humanas tastrófica).
profundas, mas esse forte viés social impediu-nos de levar a termo a
revolução de Darwin. O mais pernicioso e limitante desses preconceitos Que diferença isso faz para nós?
é a idéia de progresso, a noção de que a evolução possui uma motivação A resposta mais profunda e visceral para essa questão encontra-se
ou manifesta uma poderosa tendência de caminhar em direção à maior na psique humana, e por razões que mal consigo começar a compreen-
complexidade, ao projeto biomecânico mais eficiente, a cerébros maio- der. Somos fascinados por elos físicos de ancestralidade; sentimos que
res ou alguma outra definição paroquial de progresso. Esse preconceito nos entenderemos melhor, saberemos quem somos de um modo funda-
baseia-se num antigo desejo que os seres humanos têm de se colocar no mental, quando descobrirmos nossa origem. Rondamos cemitérios e re-
ápice do mundo natural – e dessa forma afirmar um direito natural de gistros de paróquias, mergulhamos nas bíblias familiares e procuramos
dominar e explorar nosso planeta. parentes idosos, tudo isso para preencher lacunas de nossa árvore
Evolução, na formulação de Darwin, é adaptação a ambientes que genealógica. A evolução é o mesmo fenômeno numa escala muito mais
mudam, não “progresso” universal. Elefantes que evoluem para uma ampla – nossas raízes muito além da família. A evolução é a árvore

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genealógica de nossas raças, espécies e linhagens – não apenas do nosso é totalmente diferente e não é necessariamente parte da teoria do equilí-
sobrenome, restrito e local. A evolução responde, na medida em que a brio pontuado. Além do mais, as mudanças morfológicas que se acredi-
ciência pode solucionar tais questões, às perturbadoras e fascinantes tam ocorrer durante as pontuações são preferencialmente modestas e
perguntas sobre “quem somos?”, “a quais outras criaturas somos apa- não foram concebidas para explicar a origem dos táxons superiores. Um
rentados, e como?”, “qual a história de nossa interdependência com o dos exemplos originais da teoria do equilíbrio pontuado era um decrés-
mundo natural?” e “por que estamos aqui?”. Indo além, creio que a im- cimo, de 18 para 15, no número de fileiras de facetas oculares do Phacops,
portância da evolução no pensamento humano é melhor captada num gênero de trilobita (Eldredge, 1971). O descendente não era suficiente-
famoso comentário de Sigmund Freud, que observou, com sua ironia mente diferente para ser colocado num novo gênero.
ácida e certeira, que todas as grandes revoluções científicas têm algo em A teoria exposta por Eldredge e Gould (1972) e por Stanley (1975,
comum: a derrubada da arrogância humana de seu pedestal anterior, 1979) e as observações nas quais está baseada são muito controvertidas.
afastando convicções sobre nossa posição central e dominadora no uni- Elas levantam uma série de questões importantes: se a estase é real, como
verso. Freud menciona três dessas revoluções: a copernicana, que remo- podemos explicá-la? Existe evidência de que a especiação é necessária
veu nosso planeta do centro das atenções de um reduzido universo e o para a mudança evolutiva substancial? Se for assim, por quê? A
deslocou à condição de um pequeno e periférico pedaço de rocha, numa macroevolução é realmente desligada da microevolução?
inconcebível vastidão; a darwiniana, por “nos relegar, humanos, à des-
cendência do mundo animal”; e (numa das afirmações menos modestas Equilíbrio pontuado: prós e contras
da história intelectual) a sua própria, por descobrir o inconsciente e ilus- Como uma explicação teórica de por que a especiação deveria ser
trar a não-racionalidade da mente humana. Nada melhor para abalar nossa necessária para a mudança evolutiva, Eldredge e Gould (1972) seguiram
vaidade e nos libertar do que a mudança entre nos vermos como “apenas Mayr (1963) na argumentação de que conjuntos gênicos coadaptados
um pouco abaixo dos anjos”, criados como mestres da natureza, feitos à resistem a mudança genética e que uma mudança de um pico adaptativo
semelhança de Deus para moldar e dominar a natureza, para o conheci- para outro é facilitada pelo efeito desestabilizador do pequeno tamanho
mento de que somos não apenas produtos naturais de um processo uni- populacional (efeito do fundador). Stanley (1979), ao contrário, argüiu
versal de descendência com modificação (e portanto parentes de todas que populações locais de espécies amplamente distribuídas estão sujei-
as demais criaturas), como também um ramo pequeno e em última ins- tas a pressões de seleção conflitantes, de forma que o fluxo gênico entre
tância transitório, que desabrochou tardiamente na frondosa árvore da tais populações impede a seleção a partir da mudança substancial das
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vida, e não o ápice predestinado da escada do progresso. Afaste a certe- freqüências alélicas. Estes argumentos sofreram forte oposição de
za complacente e desperte as chamas do intelecto. geneticistas de populações, que argumentam que o efeito do fundador,
Fonte: BROCKMAN, John; MATSON, Katinka (Org.) As coisas são assim. usualmente, não é eficiente para mudar populações em direção a novos
São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 95 a 100. picos adaptativos (Lande 1980; Barton e Charlesworth 1984) e que o
fluxo gênico é raramente suficiente para se contrapor à seleção forte
(Charlesworth et al. 1982). Variação geográfica substancial dentro da
EQUILÍBRIO PONTUADO espécie, muitas vezes através de curtas distâncias, demonstra que a evo-
Os depósitos nos quais são encontrados sucessivos fósseis, de uma lução pode ocorrer sem especiação. Enquanto os que advogam o equilí-
linhagem em evolução, são muitas vezes separados por interrupções de brio pontuado propõem que a evolução é mais rápida em populações
pelo menos 50000-100000 anos, de forma que as flutuações de curto individuais, pequenas e localizadas, a teoria de Wright (1977), do balan-
período nas características de uma espécie raramente são evidentes. Li- ço instável, sustenta que a evolução adaptativa progressiva é mais pro-
nhagens com registro dos fósseis irregular freqüentemente mostram pouca vável em espécies de distribuição ampla, compostas de muitas popula-
mudança substancial por milhões de anos. Além disso, não é raro, que ções locais, entre as quais existe um baixo nível de fluxo gênico. Wright
seus descendentes morfologicamente distintos (com diferentes nomes (1982) acredita que a evolução está concentrada em eventos ocasionais
específicos) apareçam subitamente, virtualmente sem nenhuma evidên- rápidos que não correspondem à especiação, mas sim às mudanças nas
cia de formas de transição intermediárias, depois de longos períodos de condições ecológicas (especialmente, disponibilidade de novos nichos
pouca mudança. Exceto em seqüências de fósseis raramente completas, ecológicos).
a impressão é de aparente ESTASE por longos períodos, “pontuadas” por Deve-se concluir que a teoria e os dados da genética de populações
períodos de mudança muito rápida para uma nova morfologia estável. não sustentam a noção de que a evolução dos caracteres requer especiação.
Eldredge e Gould (1972) chamaram este padrão de EQUILÍBRIO Além disso, para mostrar no registro dos fósseis que mudança rápida é
PONTUADO em oposição ao GRADUALISMO FILÉTICO: mudança acompanhada por especiação, seria necessário mostrar que uma forma
anagenética constante. Para explicar o padrão, invocaram a teoria de ancestral não alterada persiste simpatricamente com seu descendente
Mayr (1954) de especiação parapátrica e propuseram que a maioria das modificado. Poucos, se algum, de tais exemplos têm sido documenta-
mudanças evolutivas se propaga rapidamente em populações pequenas dos. Entretanto, a especiação pode ter um papel no avanço anagenético.
e localizadas, em uníssono com a aquisição do isolamento reprodutivo Populações locais de uma espécie de distribuição ampla desenvolvem
(i.é., especiação verdadeira) — uma idéia que o próprio Mayr (1954, adaptações diversas aos seus respectivos ambientes, mas a espécie como
1963) havia prenunciado. Tendo atingido isolamento reprodutivo, a nova um todo irá se tornar fixa somente para alelos que são uniformemente
forma se expande do seu lugar de origem para o território da espécie vantajosos em toda sua distribuição e que são espalhados pelo fluxo
parental que não sofreu mudança e torna-se suficientemente abundante gênico. Mas, provavelmente, tais traços “geralmente adaptativos” (Brown
e amplamente distribuída para ser documentada no registro dos fósseis. 1959) raramente aparecem; é provável que eles sejam uniformemente
Nesta teoria, portanto, a maior parte da mudança evolutiva está associa- vantajosos apenas se alterações nas condições ecológicas forem exten-
da e é contingente com a especiação (i.é., bifurcação de linhagens). sas. Mais ainda, avanços adaptativos em populações locais podem ser
Eldredge e Gould (1972) e Stanley (1975) chegaram a argüir que devido efêmeros ao longo do tempo geológico, já que populações locais se ex-
às espécies individuais serem estáticas, tendências de longa duração na tinguem e mudanças na distribuição geográfica de hábitats podem per-
morfologia são conseqüências não da mudança anagenética dentro de mitir cruzamento entre populações anteriormente isoladas e diferencia-
linhagens individuais, mas de seleção entre espécies. Caracteres asso- das. Atingir o isolamento reprodutivo permite a uma população com
ciados com baixas taxas de extinção ou altas taxas de especiação irão se caracteres divergentes se tornar simpátrica com a espécie parental sem
tornar predominantes dentro de um clado e estabelecerão uma tendência perder sua identidade por meio de intercruzamento; portanto, a espe-
de longa duração, mesmo se a direção da mudança morfológica durante ciação, apesar de não necessária para a evolução de novos caracteres,
o processo de especiação varie ao acaso com respeito à tendência. Stanley pode permitir sua retenção (Futuyma 1986).
(1975) concluiu corajosamente que “a macroevolução está desligada da Os dados do registro dos fósseis permitem várias interpretações.
microevolução” e Gould e Eldredge (1977) argüíram que “a anagênese Existe algum debate, antes de tudo, sobre se algumas seqüências mos-
é apenas cladogênese acumulada e filtrada pela força direcionadora de tram gradualismo ou estase com pontuação. [...] Isto é, a distinção entre
seleção de espécies”. mudança gradual e pontuada não está bem definida. O problema mais
A teoria do equilíbrio pontuado inclui os processos neodarwinistas geral é que se as seqüências dos fósseis parecem mostrar rápidas mu-
tradicionais de evolução gradual: dentro de populações que estão se danças de uma morfologia estável para outra, a especiação pode ter ocor-
especiando, os caracteres se alteram de forma gradual, ainda que rapida- rido ou então pode ter existido apenas um avanço anagenético, através
mente, sob a influência da deriva genética e seleção individual. A pro- de uma série de passos, em uma única linhagem, sem especiação. Even-
posta de que caracteres mudam por saltos macromutacionais descontínuos tos geologicamente “instantâneos”, aos olhos de um paleontólogo,

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podem exigir milhares de anos — durante os quais mudanças considerá- facilitar a anagênese: multiplicando a variedade dos conjuntos gênicos
veis podem ocorrer de forma lenta e gradual aos olhos de um geneticista dentro dos quais a seleção pode agir. Além de facilitar a anagênese, a
de populações (Stebbins e Ayala 1981). Turner (1986) diz que uma alte- especiação pode contribuir para tendências de longa duração se a sele-
ração moderada em um caráter sob seleção natural irá, quase que inevi- ção a nível de espécies, no senso estrito proposto por Eldredge, Gould e
tavelmente, exigir menos que 50000 gerações, que é o que a análise das Stanley, for uma realidade. Isto é, a duração ou taxa de especiação de
seqüências fósseis feita por Lande (1976) mostra; uma mudança em um uma linhagem pode estar correlacionada a um ou mais caracteres que,
caráter, que consuma um período de tempo muito maior deverá requerer devido a esta correlação, aumentam de freqüência ente as espécies de
seleção tão fraca, que esta será superada pela deriva genética. Evolução um clado.
por seleção natural irá ocorrer usualmente de forma mais rápida, de modo A evidência mais fortemente sugestiva de que a especiação aumen-
que um registro fóssil comum não possa documentar. Portanto, diz Turner, ta as taxas evolutivas de longa duração (Stanley 1979) consiste em que
“a genética de populações prediz que a evolução por seleção natural será muitos dos “fósseis vivos” representam clados que tiveram baixa diver-
pontual!”. sidade de espécies através da maior parte de suas longas histórias; nos
peixes pulmonados, por exemplo, a morfologia mudou rapidamente no
Estase início da história do clado quando ele era diversificado, mas muito len-
Talvez o problema mais interessante apresentado pelo registro dos tamente depois que sua diversidade declinou. Entretanto, Douglas e Avise
fósseis seja a estase. Assumindo que muitos caracteres flutuam pouco, (1982) não encontraram diferença na quantidade total de divergência
mas rapidamente, e não são na realidade estáticos, a constância relativa morfológica entre as numerosas espécies de Notropis (carpas) e entre as
da morfologia por milhões de anos parece, todavia, surpreendente em poucas espécies de Lepomis (peixes-lua) — dois gêneros com aproxi-
vista da extrema inconstância do ambiente. Não apenas fósseis, mas for- madamente a mesma idade. Isto sugere que a especiação não facilita,
mas sobreviventes também fornecem prova de estase. Por exemplo, di- necessariamente, a evolução morfológica.
ferenças nas proteínas entre algumas espécies de salamandras do gênero […] Na filogenia dos cavalos, nenhum caráter mostrou uma tendên-
Plethodon sugerem (assumindo-se uma relativa constância da evolução cia estável; a maioria das características mostrou reversões em uma ou
molecular que as espécies mais distantemente aparentadas divergiram mais linhagens, algumas se fixaram sem mudança posterior até a extinção
pelo menos há 60 milhões de anos atrás. Ainda, as numerosas espécies e a taxa de evolução de cada caráter variou grandemente (Simpson 1953).
do gênero são quase indistintas morfologicamente, exceto em tamanho, Tendências, por exemplo, em números de artelhos, podem ser acompa-

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cor e pequenas diferenças nas dimensões esqueléticas (Wake et al. 1983). nhadas desde os Hyracotherium até aos Equus, mas Equus é o único gêne-
Ocorreu especiação abundante, apesar da divergência morfológica subs- ro que não se extinguiu. Nossa noção de tendências na evolução dos cava-
tancial ter ocorrido apenas em uma linhagem, a qual se tornou adaptada los seria muito diferente se, digamos, Anchitherium ou Stylohipparion ti-
a uma zona adaptativa arbórea e que é reconhecida como um gênero vessem sobrevivido. Não sabemos por que apenas Equus sobreviveu: se
distinto (Aneides). Estase em Plethodon seguramente não é atribuível ao por causa de aspectos estruturais que o distinguia de outros gêneros ou se
fluxo gênico, que é extremamente baixo nestas salamandras. teve a “sorte” de seu hábitat ter persistido.
Do ponto de vista da genética de populações, a explicação mais Todas as mudanças morfológicas na história dos Equidae podem
plausível para a estase é a seleção estabilizadora, mas como pode a sele- ser explicadas pela teoria neodarwinista de microevolução: variação ge-
ção favorecer a mesma morfologia face à mudança ambiental? É preci- nética, seleção natural, deriva genética e especiação. Apesar disso, esta
samente neste contexto que devemos reconhecer que os organismos não teoria, por não incluir a extinção, não explica por que os cavalos atuais
são meramente objetos passivos das influências ambientais, mas que têm apenas um artelho em cada pé. A compleição atual dos Equidae é,
eles definem e criam seus ambientes (Lewontin 1983). Tendo evoluído na sua totalidade, uma conseqüência da extinção versus sobrevivência
para usar um certo microhábitat, ou determinados tipos de alimento, de linhagens, assim como de mudança adaptativa dentro da população.
uma linhagem pode estar tamponada em relação a mudanças Neste sentido, a macroevolução não é mesmo ligada à microevolução, já
macroscópicas adicionais, das quais está, assim dizendo, felizmente que eventos microevolutivos não têm conseqüências a longo prazo se
desavisada. Drosophila, dentro de uma garrafa, não pode escapar à sele- forem obliterados por extinção. Para se entender a evolução em um perío-
ção artificial para tolerância a altas temperaturas, mas Drosophila, numa do longo, é necessário tanto se estudar a história dos eventos de espe-
floresta, pode escapar encontrando microhábitats frescos. Salamandras ciação e extinção quanto se estudar os processos da microevolução. Uma
Plethodon, habitantes da úmida serapilheira das florestas e empregando visão abrangente da evolução deve ser, portanto, hierárquica na sua es-
um mecanismo de alimentação muito generalizado para capturar peque- trutura (Gould 1982), englobando a dinâmica das espécies e dos táxons
nos invertebrados, podem ter experimentado poucas pressões de seleção superiores, assim como a dos genótipos e genes que eles incluem.
novas desde que as florestas úmidas e os artrópodes do húmus aparece- Fonte: FUTUYMA, Douglas J. Biologia evolutiva. Ribeirão Preto: FUNPEC,
ram (Wake et al. 1983). O ambiente de qualquer localidade em particu- 2002, p. 422 a 429.
lar muda continuamente no decorrer do tempo geológico, mas hábitats
persistem; eles mudam de lugar e as espécies associadas mudam junto
com eles, enquanto as populações que colonizaram os hábitats modifi-
cados simplesmente se extinguem. Por exemplo, a distribuição de espé- MITO, RAZÃO E CIÊNCIA
cies norte-americanas como o abeto (Picea) mudou em conjunto com o Fundada na razão e na experimentação, a análise científica dos
seu hábitat: através do Pleistoceno. Populações do norte se extinguiram fenômenos naturais, inclusive os biológicos, vem fornecendo in-
durante períodos glaciais e populações do sul se extinguiram durante os contestáveis evidências que contrariam visões de mundo baseadas
períodos interglaciais quentes; não existem abetos adaptados ao calor ao em mitos, como as religiosas. A comprovada evolução da vida na
longo do Golfo do México, onde eles já existiram. Terra, por exemplo, é contestada pelo chamado criacionismo, que
defende a veracidade da versão estática do mundo, pregada pela
Seleção a nível de espécies e a natureza hierárquica da evolução religião católica. A inclusão das teses criacionistas no currículo de
A especiação não parece necessária para a mudança anagenética, escolas públicas, como vem ocorrendo no Brasil, viola o princípio
mas pode, entretanto, ter um importante papel na evolução de longa du- constitucional da separação entre Estado e Igreja no país, é danosa
ração. A variação entre um grupo de espécies, em um ou mais caracteres, à mente de jovens em formação e abre espaço para o fanatismo e a
pode ser muito maior que dentro de uma única unidade panmítica, por- intolerância.
que a recombinação dentro da população restringe a variância dentro de
limites bastante estreitos. O isolamento reprodutivo permite o aumento “Para o outro lado saem os jovens-homens, correndo em fila, cala-
da variância, de forma que um grupo de espécies pode ocupar muitos dos, diretamente para o rancho do oxim. Arrombam a palhoça ao mes-
picos adaptativos, enquanto uma única população pode ocupar apenas mo tempo, por todos os lados. Agarram, levantam e estraçalham o oxim
um (Hutchinson 1967). Portanto, a especiação é um pré-requisito para a ali mesmo. Só com as mãos.” Esse trecho do romance Maíra, do an-
radiação adaptativa dentro de diferentes nichos simpátricos. Se um novo tropólogo, educador e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997), ilustra bem o
fenótipo é favorecido por mudanças nas condições ecológicas, um ou pensamento mágico que prevalece em populações de estruturas pré-cien-
outro membro de um grupo de espécies terá mais probabilidade de evo- tíficas. No romance, ambientado entre indígenas brasileiros e baseado em
luir em direção à condição mais favorável do que uma única espécie, já sua considerável experiência entre eles, a menina Cori morre, mordida
que a variância genética do grupo como um todo é maior do que a de por uma cascavel, e seu pai Epecuí tenta ressuscitá-la com o auxílio do
qualquer espécie (Arnold e Fristrup 1982). Portanto a especiação pode curandeiro — o oxim. A incapacidade de curá-la é fatal a este.

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No início da história humana nossos ancestrais, incapazes de com- notabilizou-se por procurar conciliar o evolucionismo (que enfatiza a
preender o mundo que os cercava, apelaram para o pensamento mágico. mudança) com o cristianismo. Preocupado com problemas de evolução
As relações estabelecidas entre os fenômenos eram finalísticas ou utili- humana, devido a suas pesquisas arqueológicas, ele publicou em 1939
tárias, não se relacionando necessariamente de maneira coerente com os um livro (O fenômeno humano) em que visualiza um processo de
fatos. Haveria um poder onipotente espiritual e invisível, nem sempre hominização da biosfera. Ele propôs que todas as coisas — vivas ou
coerente, que seria próprio das divindades. inanimadas — tenderiam desde a criação do mundo a ser mais comple-
Criou-se assim o mito, ou seja, um conceito ou uma afirmação que xas e mais perfeitamente unificadas, como revelaria a ciência, e que tal
não tem relação com uma causalidade empírica conseqüente. E para as- processo levaria, em última análise, para a emergência da consciência
sociar o divino com o natural surgiram inicialmente os feiticeiros ou humana e sua união eventual com Omega, termo classificado pelo
curandeiros. A função do mago era persuadir os espíritos contidos no evolucionista inglês Julian Huxley (1887-1975) como “um Cristo cós-
ambiente em geral a cooperar com a sociedade. As pessoas que se con- mico”. No Brasil, em livro publicado em 1986, o geneticista Newton
sideravam aptas a tal tarefa receberam então um status especial, que Freire-Maia (1918-2003), católico bem conhecido e um dos fundadores
lhes assegurava vantagens mas também riscos, como no caso apresenta- do Instituto Ciência e Fé de Curitiba, considerou a controvérsia evolu-
do no romance de Darcy Ribeiro. ção versus criação um “falso dilema”.
Com a evolução das sociedades humanas possibilitada pelas revo- Qual é, atualmente, a visão científica do universo? Contrariando a
luções agrária e urbana há todo um desenvolvimento dessas crenças, monotonia de um todo estático, as evidências indicam a ocorrência de
surgindo então as religiões, com suas revelações, mistérios, tradições e um estado dinâmico. Cosmicamente, estamos em um processo de ex-
textos sagrados, e montando-se suas rígidas estruturas hierárquicas de pansão permanente, e a história dos seres vivos é apenas uma parte des-
controle. Embora o adepto de uma religião considere que a sua é a úni- se processo global. A palavra evolução deriva do termo latino evolutio e
ca, a humanidade — segundo o antropólogo canadense (naturalizado seu significado literal é desenrolar. Ela pode ser usada nesse sentido ou
norte-americano) Anthony F. C. Wallace — já criou cerca de 100 mil em outros que envolvam a idéia de mudança. Mas nem toda mudança é
religiões, e a verificação de que isso pode proporcionar lucro tem resul- evolucionária: o deslocamento das folhas de uma árvore com o vento,
tado (inclusive no Brasil de hoje) em uma proliferação cada vez maior. por exemplo, não é um processo evolucionário. O postulado básico do
Em termos históricos, o auge do idealismo e da fé sem razão ocorreu conceito de evolução biológica é de que todas as fornias orgânicas atual-
na Idade Média, com a noção de que existiria apenas uma verdade. Seu mente existentes em nosso planeta derivaram de um ancestral comum,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

personagem paradigmático é Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona, universal. Esse ancestral não deve ser concebido necessariamente como
na atual Argélia, que adotou a doutrina do persa Mani ou Maniqueu (216- uma entidade discreta definida: o microbiólogo norte-americano Carl
274?), segundo a qual o universo foi criado e é dominado por dois princí- Woese tem apresentado evidências de que, no início, teria existido uma
pios antagônicos e irredutíveis: Deus, ou o bem absoluto, e o Diabo, ou o comunidade de células, isto é, um agregado supramolecular.
mal absoluto (esta, aliás, é a origem da palavra maniqueísta). A teoria da evolução só tomou foros estritamente científicos após a
Para se ter uma idéia do clima que reinava na Idade Média, pode-se obra seminal do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882), deno-
recorrer novamente à literatura, através do romance O nome da rosa, do minada Sobre a origem dos espécies por meio da seleção natural ou a
filósofo e escritor italiano Umberto Eco. Ele retrata de maneira excelen- preservação das raças favorecidas na luta pela vida e publicada em
te as intermináveis discussões sobre detalhes, às vezes ínfimos, da dou- 1859. Diz-se que o mundo nunca mais foi o mesmo após a sua divulga-
trina, que podiam resultar em acusações de heresia e julgamento pela ção. A reação ao livro de Darwin, especialmente por parte de elementos
Inquisição, o temível tribunal eclesiástico criado pelo Papa Gregório IX conservadores, foi imediata. Entretanto, um a um, todos os argumentos
em 1231. Segundo o médico Carlos Antonio Mascia Gottschall, no livro contrários à teoria foram sendo descartados. Pela relação de Fritz Müller
Do mito ao pensamento científico, a Inquisição representou, por cerca (1822-1897) com o Brasil — ele radicou-se em Santa Catarina — deve
de sete séculos, a maior mordaça ao conhecimento racional organizado ser lembrado o livro que esse naturalista alemão publicou em 1863, Für
no mundo ocidental. Darwin, do qual existe uma edição em português (Fatos e argumentos a
favor de Darwin), editada em 1990 por Hitoshi Nomura, com uma série
O surgimento da razão e da ciência de anotações adicionais.
Obviamente, tal estado de coisas não poderia se eternizar. Define- Os eventos posteriores mais importantes ocorreram dos anos 30 aos
se razão como a faculdade que tem o ser humano de avaliar e julgar anos 50 do século passado, com a síntese entre os conhecimentos gené-
idéias universais e de estabelecer relações lógicas entre os eventos rela- ticos e os evolutivos. Um dos líderes desse trabalho esteve também inti-
cionados com o seu dia-a-dia e o mundo exterior. Essa faculdade foi mamente vinculado ao Brasil — esteve aqui por vários períodos, a partir
inicialmente cultivada pelos gregos da Antigüidade clássica, exem- dos anos 40, sendo fundamental na formação de uma geração de cientis-
plificados por Aristóteles (384-322 a.C.). tas. Trata-se do geneticista russo (naturalizado norte-americano)
Mas razão só não basta. Ernst Mayr (1904-2005), biólogo Theodosius Dobzhansky (1900-1975) cuja obra magistral A genética e a
evolucionista alemão (naturalizado norte-americano) e uma das figuras origem das espécies, publicada em 1937, é considerada um marco deci-
mais importantes do século em que viveu, expressou em livro publicado sivo no processo que levou a essa síntese.
A segunda metade do século 20 é caracterizada pelo que se denomi-
no ano passado: “O que não compreendo é por que a maioria dos filóso-
nou ‘revolução molecular’. A descoberta da estrutura física do material
fos da ciência acredita que os problemas da filosofia da ciência possam
genético (o DNA ou ácido desoxirribonucléico), o esclarecimento de
ser resolvidos pela lógica.” E concluiu: “Um enfoque empírico parece
como funciona e de como poderia ser manipulado, abriu amplos hori-
um melhor caminho.”
zontes para os estudos evolucionários. Alcança-se assim a era da
O que faltava para compreender razoavelmente o mundo era a ciência,
genômica, com o estudo comparativo da totalidade do DNA (genoma)
que pode ser definida como um conjunto de registros sistematizados que
de diferentes espécies.
visam ao conhecimento de uma parcela da realidade através de método pró-
Se há alguma lição que a moderna genética evolutiva forneceu, esta
prio, a metodologia científica. Esta desenvolveu-se através de esforços de
seria a de que somos todos irmãos. Nada menos do que 50 genes de uma
uma tríade exemplar: o inglês Francis Bacon (1561-1626), o italiano Galileu
levedura, que nos auxilia a fabricar pão e cerveja, têm similaridade sig-
Galilei (1564-1642) e o francês René Descartes (1596-1650).
nificativa com genes causadores de doenças em humanos. Existem 300
Estabilidade ou mudança? genes mapeados na galinha que têm contrapartida humana, e a diferença
genômica média entre humanos e chimpanzés é de apenas 1%. O con-
Na interpretação de nossa existência podem-se distinguir duas filo- ceito de fraternidade universal deixou de ser, portanto, uma idéia abstra-
sofias, uma que dá ênfase à estabilidade, à manutenção do status quo, e ta, para tornar-se uma fria realidade científica.
outra que coloca como importante a mudança.
De acordo com a visão de religiosos ortodoxos, o mundo está prefi- Sobre fanatismo, tolerância e ética
xado através da criação divina. No que se refere ao mundo biológico, Devido à sua universalidade, é provável que o comportamento reli-
deve-se acreditar literalmente na versão da Bíblia, documento que regis- gioso seja um produto secundário dos processos que moldaram a mente
trou histórias orais apresentadas há mais de dois mil anos. Nessa versão, humana. Tentativas de erradicá-lo não tiveram êxito. Na União Soviéti-
as espécies são as mesmas desde a sua criação por Deus; nada se modi- ca, as igrejas foram transformadas em museus e os religiosos eram con-
ficou desde então. siderados com desconfiança pelos poderosos dirigentes do partido co-
Nem todos os religiosos, no entanto, estão de acordo com essas munista, que comandava o país. Em vão. Após a queda do regime, vol-
idéias. O padre jesuíta francês Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) tou tudo ao que era antes.

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Tem-se procurado investigar o papel social das religiões, e o porquê GIRAFAS, MARIPOSAS E ANACRONISMOS DIDÁTICOS
do crescimento do número de fiéis, embora em muitas o celibato de seus Ao tratar da evolução das espécies, os livros didáticos raramente
sacerdotes seja obrigatório. Em termos de evolução cultural, elas consti-
deixam de usar dois exemplos clássicos: o da explicação de Lamarck
tuem um fenômeno interessante de evolução grupal. Enfatiza-se ao má-
para o tamanho do pescoço das girafas (e seu contraponto darwinista) e
ximo o papel do amor ao próximo, da caridade e da ajuda mútua ‘entre
o da seleção natural em mariposas dos bosques da Inglaterra durante a
os fiéis’. Já em relação aos ‘outros’, existe intolerância, discriminação e
propósitos de eliminação, que geraram e geram as chamadas guerras Revolução Industrial. Nos últimos anos, as duas histórias geraram calo-
santas — como, por exemplo, as Cruzadas. rosas polêmicas na mídia científica internacional, mas nada foi dito a
Muito do que foi apresentado até agora pode parecer o óbvio ulu- respeito no Brasil.
lante para uma parcela dos leitores de Ciência Hoje. Por que retomar Tais exemplos permitem uma complexa discussão que envolve in-
esses assuntos nesse momento? A razão é a existência, por toda parte, teresses e responsabilidades da comunidade científica sobre o modo como
paralelamente ao fantástico desenvolvimento da ciência, de movimen- divulga – ou deixa de divulgar – seus estudos e conclusões.
tos fundamentalistas e anticientíficos. Um dos aspectos mais preo- O naturalista e evolucionista francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-
cupantes desses movimentos é a campanha contra os princípios da evo- 1829) lançou seu livro Philosophie zoologique em 1809, ano do nasci-
lução biológica. mento de Charles Darwin (1809-1882). Para explicar a evolução dos
O criacionismo, movimento que prega uma aderência estrita ao tex- seres vivos, Lamarck considerou duas hipóteses: a do uso e desuso e a
to bíblico, negando as avassaladoras evidências científicas relacionadas da transmissão dos caracteres adquiridos. Segundo essas idéias, os seres
à evolução, sempre foi forte — paradoxalmente — na nação líder da vivos seriam capazes de se adaptar a pressões impostas pelo ambiente,
área científica, os Estados Unidos. E o bioquímico Bruce Alberts, presi- usando para isso algumas partes do corpo mais do que outras. As mais
dente da mais prestigiosa associação científica daquele país, a Acade- usadas se desenvolveriam mais; as menos usadas tenderiam a se atrofiar
mia Nacional de Ciências, recentemente manifestou-se alarmado com ou até desaparecer. Daí o nome “uso e desuso”. Ele afirmava ainda que
as proporções que esse movimento está alcançando no território norte- tais modificações seriam transmitidas à descendência. Até então nada se
americano. Em nada menos que 40 estados ou distritos escolares locais
sabia sobre o papel da herança genética na transmissão de caracteres
há questionamentos sobre o ensino da evolução.
entre gerações: Gregor Mendel (1822-1884), que lançou as bases da
Outras táticas dos criacionistas envolvem: (a) a colocação de adesi-
vos nos livros didáticos de biologia da escola secundária, exigindo ou genética, nem havia nascido.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
recomendando a inclusão da doutrina do Desígnio Inteligente (uma das O exemplo clássico utilizado para explicar a teoria lamarckista é o do
denominações do criacionismo) nos cursos dessas escolas; (b) planos de pescoço das girafas. Costumamos ler nos livros didáticos que, segundo
encorajamento aos estudantes, para que examinem as ‘fraquezas’ da te- Lamarck, os ancestrais das girafas teriam pescoço curto. A necessidade de
oria da evolução; (c) reexame dos padrões do ensino de ciências que alcançar a copa das árvores, em especial em épocas de escassez, quando
tratam da evolução; e (d) clara intimidação aos professores que lecio- só restariam as folhas mais altas, teria provocado o constante exercício de
nam essas matérias. esticar o pescoço, e essa característica – “pescoço alongado” – seria trans-
Ora, o Brasil está sendo cada vez mais influenciado, em todos os mitida à descendência. O resultado, após milhares de anos, teria sido o
aspectos de sua vida econômica, social e cultural, pelos Estados Unidos, que vemos hoje: girafas com pescoço longo e musculoso.
Nada mais natural, portanto, que esse movimento também chegasse ao Em geral, os mesmos livros apresentam o contraponto darwinista:
Brasil. Senão, vejamos: (a) a Sociedade Criacionista Brasileira já tem indivíduos nasceriam com pescoços de tamanhos ligeiramente diferentes.
33 anos (foi fundada em 1972), realiza encontros nacionais periódicos Os “privilegiados” teriam vantagem na hora de alcançar as folhas mais
(está no quinto) e edita uma revista; (b) no Centro Universitário Adventista altas, o que, em épocas de escassez, seria decisivo para a sobrevivência.
de São Paulo existe um Núcleo de Estudo das Origens de tendência se- Assim, girafas nascidas com pescoço mais longo teriam maior chance de
melhante: (c) uma lei estadual do Rio de Janeiro criou cargos de profes- sobreviver e de transmitir a característica à prole. Belo e didático exem-
sores de religião, e os dirigentes de sua Secretaria de Educação preconi- plo, não fossem alguns senões. O primeiro deles é que Lamarck jamais
zaram o estudo do criacionismo em toda a rede escolar estadual, em
deu a esse exemplo o destaque que tem recebido há quase 200 anos.
oposição ao evolucionismo; e (d) aparentemente medidas equivalentes
estão sendo adotadas no estado da Bahia. Tentando achar o fio da meada
Ninguém é contra que sejam ministradas aulas de uma determinada
religião em instituições financiadas por instituições religiosas. Entre- O estranho caminho seguido pelo exemplo do pescoço da girafa, de
tanto, desde a Proclamação da República, há 116 anos, vigora no Brasil mero parágrafo a “carro-chefe” da teoria lamarckista, foi detalhado pelo
o princípio de separação entre Estado e Igreja. Se cultores de determina- paleontólogo e divulgador da ciência Stephen Jay Gould (1941-2002)
da fé desejam propagá-la no âmbito da rede pública de ensino, poderão no ensaio “The tallest tale” (alusão à expressão tall tale, história cujos
ser reservados espaços para esse fim, desde que não haja favorecimento detalhes são difíceis de engolir), publicado originalmente na Natural
de qualquer religião no procedimento. Usar dinheiro público para con- History Magazine (p. 18, maio de 1996). Nele, Gould tenta retomar o
tratar professores de religião, porém, é claramente inconstitucional, e fio da meada. Observa que, na Philosophie zoologique, o parágrafo so-
propagar doutrinas contrárias a conceitos científicos firmemente esta- bre as girafas aparece em um capítulo em que estão muitos outros exem-
belecidos é danoso, especialmente para a mente de jovens em formação. plos a que Lamarck possivelmente atribuiu maior importância.
Tem-se enfatizado muito os direitos éticos individuais e coletivos Quanto a Darwin, a primeira edição do seu A origem das espécies
no que se refere às suas relações com a ciência. Um dos menos lembra-
(1859) não faz qualquer menção ao pescoço da girafa, mas à sua cauda!
dos, no entanto, é o direito das pessoas, independentemente de seu es-
Gould especula que o pescoço da girafa teria assumido importância gra-
trato social, condição biológica ou país, de usufruírem não apenas os
benefícios gerados pela ciência através do desenvolvimento tecnológico, ças ao naturalista inglês Saint George Mivart (1827-1900), que, em crí-
mas também a visão do mundo proporcionada pela ciência. É dentro tica ao darwinismo publicada em 1871 (The genesis of species), usou
desse contexto que a ética dita uma posição frontalmente contrária a esse exemplo em sua argumentação. Em reação ao ataque de Mivart,
qualquer tipo de fanatismo ou intolerância. Darwin acrescentou à sexta e última edição de A origem das espécies
Considerando a moda atual, é possível que já se esteja articulando um (1872) um capítulo em que discorre sobre o assunto. Assim a história
movimento para pleitear cotas de ingresso nas universidades para os ateus ganhou os livros escolares – e em muitos deles ainda é mantida.
ou racionalistas científicos. O que ilustraria o princípio dialético da con- Outros dados, resultantes da observação de girafas em seu hábitat
tradição (racional/irracional) tão característico da personalidade humana. (as savanas africanas), ajudam a derrubar o “conto” das folhinhas mais
Fonte: SALZANO, Francisco M. Departamento de Genética, Instituto de altas em tempos de escassez. Na verdade, a importância do tamanho e
Biociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Revista Ciência Hoje. da robustez do pescoço desses animais reside em outras áreas. Entre os
Rio de Janeiro: SBPC, 2005, vol. 36, nº 215. machos, o pescoço é uma “arma” de dominação e uma garantia da pre-
ferência das fêmeas, sendo usado em duelos às vezes fatais. As girafas
Nota dos autores: O texto a seguir põe em discussão o uso didático também usam o pescoço como “torre de observação”, para vigiar a apro-
que se faz de exemplos consagrados no ensino de Biologia. Em nossa ximação de predadores, por exemplo. Esses dois usos já representam,
obra, optamos por citar alguns deles, ainda que com ressalvas, e o segundo os cientistas, fatores relevantes para a importância do compri-
fizemos não apenas por sua utilidade pedagógica, mas também como mento do pescoço. Darwin, aliás, os cita no capítulo mencionado, ao
testemunho do aspecto temporal e histórico da Ciência, ou seja, de afirmar que “a preservação de cada espécie raramente é determinada
como o conhecimento em qualquer área pode ser modificado e aper- por apenas uma vantagem, mas pela associação de todas elas, grandes
feiçoado. e pequenas”. Gould fecha seu ensaio explicando que a velha história do

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pescoço esticado perpetuou-se talvez porque adoremos uma linda histó- descrição de uma série de experimentos do biólogo Bernard Kettlewell,
ria, ainda que falsa, e talvez porque não estejamos habituados a questio- da Universidade de Oxford, na década de 1950. Muitas vezes, os livros
nar pretensas autoridades – no caso, a dos livros. trazem fotografias que registram os experimentos (ou que reproduzem
Ainda em 1996, os zoólogos Robert Simmons e Lue Scheepers pu- os registros originais), mostrando mariposas Biston claras e escuras em
blicaram o artigo “Winning by a neck: sexual selection in the evolution repouso sobre troncos de árvores. Os livros relatam que Kettlewell, nos
of giraffe” (“Vencendo por um pescoço: seleção sexual na evolução da experimentos, coletou mariposas com os dois padrões de cor e os libe-
girafa”) na American Naturalist (148, p. 771). Segundo eles, as girafas, rou em ambientes controlados onde havia troncos também com diferen-
na estação seca, alimentam-se dos arbustos. É na estação das chuvas, tes colorações. Ao recapturar as sobreviventes, ele teria constatado o
quando não se espera competição, que se voltam para o alto das acácias. que já se esperava: o índice de sobrevivência era diretamente relaciona-
Observaram ainda que as fêmeas passam metade de seu tempo alimen- do ao padrão de cor dos troncos.
tando-se com o pescoço em posição horizontal (comportamento tão tí- Tudo estaria perfeito, não fossem, como no caso das girafas, alguns
pico que permite identificar o sexo do animal a distância). Além disso, senões. O primeiro foi a descoberta de que os experimentos não trans-
ambos os sexos alimentam-se com maior freqüência mantendo o pesco- correram exatamente como foram descritos. Houve um “empurrãozinho”,
ço curvado para baixo. Tudo isso, afirmam, sugere que o tamanho do pois as mariposas não estavam vivas: foram coladas aos troncos. O segundo
pescoço não teria evoluído especificamente devido à busca de alimento é que o comportamento das mariposas Biston na natureza não se encaixa
em pontos mais elevados. tão perfeitamente no modelo descrito. O terceiro é que a relação predomínio
Para refutar a objeção de que a competição entre machos não expli- de uma cor/grau de poluição do ar não se manteve como o esperado.
caria por que as fêmeas têm pescoços longos, Simmons e Scheepers O livro de Hooper não é o primeiro a “devassar” o caso Kettlewell.
argumentam que isso resultaria da correlação genética entre os sexos, e Há cinco anos, por exemplo, Michael Majerus fez o mesmo em Melanism:
que outras espécies exibem correlações similares. Ou seja, o pescoço evolution in action (Melanismo: evolução em ação). Em resenha sobre
longo das fêmeas teria vindo como uma espécie de “brinde”. esse livro, publicada na revista Nature (396, p. 35, 1998), Jerry Coyne,
do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Chica-
Muito barulho por nada? go, compara a decepção diante da verdade sobre os experimentos de
Afinal, qual é a importância de tudo isso? O lamarckismo já não foi Kettlewell ao que sentiu quando criança ao saber que Papai Noel
derrubado? Sim, é um fato. Acontece que não se trata apenas de preser- não existia.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

var a memória de um cientista. Segundo Coyne, o livro de Majerus é o primeiro a reunir os pontos
Quando falamos em atualizar as informações em materiais de divul- criticáveis no trabalho de Kettlewell. O mais grave é que as mariposas
gação científica, cursos e livros didáticos, falamos em pôr em evidência Biston, em condições naturais, provavelmente não repousam sobre tron-
um problema maior: o da “cristalização” de conceitos, em ciência e em cos – em mais de 40 anos de estudos sobre seus hábitos, apenas duas
outros campos. Falamos, ainda, do problema crônico da não-ventilação foram vistas fazendo isso. O local preferido continua um mistério, mas
das informações a que professores e autores de material didático têm acesso acredita-se que seja o alto das copas das árvores. Só isso, afirma Coyne,
– ambos têm formação superior, mas em geral não são cientistas. invalidaria os experimentos, já que colocar as mariposas sobre os tron-
Falamos do risco de apresentar a ciência como instância sagrada e cos as tornaria altamente visíveis, o que aumentaria artificialmente a
fechada, que permanece imutável, a salvo de reavaliações e, ao mesmo predação. Além disso, Kettlewell expôs as mariposas durante o dia, quan-
tempo (como revela) a ponto de cair em “armadilhas”, pela perda da do em geral elas escolhem locais de repouso à noite.
perspectiva histórica. Falamos, ainda, do comodismo excelentes, não fos- Mas outro fator compromete a história: na verdade, o novo aumento
sem eles inconsistentes como modelos. na proporção da variedade clara ocorreu bem antes da recolonização
À luz dos conhecimentos genéticos atuais, contrapor, em um livro, dos troncos pelos liquens (que supostamente favoreceriam a camufla-
a explicação de Darwin para o pescoço da girafa à de Lamarck significa gem das mariposas claras). E mais: o aumento e depois a redução de
ridicularizar o segundo, também evolucionista, sem levar em conta o mariposas escuras também ocorreram em áreas industriais dos Estados
momento histórico em que viveu. Ou seja, conduz o leitor à adesão ime- Unidos, onde, porém, não houve alteração na incidência de liquens – é o
diata ao darwinismo, sem lhe dar chance para reflexão, por falta de maio- que relativiza bastante o papel destes na história toda.
res subsídios. É, em outras palavras, manipulação. No Brasil, isso se Em resenha sobre o livro de Hooper no The New York Times (18 de
torna mais grave pela morosidade da divulgação, aqui, das vozes junho de 2002), o editor de ciência Nicholas Wade compara o “empur-
dissonantes publicadas lá fora. rão” de Kettlewell a uma “piada” do grupo inglês Monty Python: as
mariposas, mortas, não passavam de ex-mariposas.
As “ex-mariposas”: outro exemplo clássico
E agora: descartar ou não o exemplo?
A jornalista Judith Hooper lançou, em 2002, na Inglaterra (e depois
nos Estados Unidos), o livro Of moths and men (Sobre mariposas e ho- Majerus, em seu livro, admite as inúmeras falhas do modelo, mas
mens). A obra utiliza outro exemplo clássico de evolução para lançar luz ainda assim o considera didaticamente útil. Jerry Coyne, entretanto, pon-
sobre um tema antes restrito ao círculo dos que defendem as idéias dera que esse não é o melhor exemplo a ser usado em sala de aula, devi-
criacionistas – mais modernamente, os teóricos do “design inteligente”. do a seus pontos fracos. Essa posição fez de Coyne, à sua revelia, uma
Nas aulas de ciências e biologia, aprendemos que o chamado “arma” dos criacionistas contra a teoria da evolução. Ele sugere como
“melanismo industrial” teria alterado o padrão de cor de populações de mais apropriado o trabalho mais recente dos ecólogos Peter e Rosemary
mariposas do gênero Biston, encontradas na região de Manchester (In- Grant sobre a evolução do bico dos tentilhões das ilhas Galápagos –
glaterra). Antes da Revolução Industrial, grande quantidade de liquens tema de um livro de leitura fácil e agradável, já traduzido para o portu-
(associação entre algas e fungos) cobria as árvores das florestas habi- guês: O bico do tentilhão: uma história da evolução no nosso tempo
tadas por tais mariposas, conferindo aos seus troncos uma cor esbran- (Rocco, 1995), do jornalista Jonathan Weiner.
quiçada. O padrão de cor predominante nessas mariposas, na época, era O debate sobre usar ou não o exemplo das mariposas para fins didá-
claro, e elas facilmente se confundiriam com a cor dos liquens, ao re- ticos está longe de uma solução fácil. O biólogo evolucionário David
pousar sobre os troncos. Rudge, da Universidade Western Michigan, escreveu que manter a his-
Com o advento das indústrias, a partir de 1850, o ar carregado de tória no espaço escolar teria inúmeras vantagens. Enquanto Coyne diz
fuligem e outros poluentes provocou a morte dos liquens e o escureci- que suas contradições inviabilizam o uso pedagógico, Rudge acredita
mento dos troncos. Como resultado, a vantagem proporcionada pela cor que ela constitui excelente veículo para apresentar a estudantes o con-
clara teria se invertido: ao repousar sobre troncos escurecidos, as mari- ceito de seleção natural. Para ele, expor as discrepâncias envolvidas no
posas seriam avistadas facilmente por predadores (no caso, alguns pás- assunto permitiria mostrar a natureza da ciência como processo.
saros). Com isso, a variedade de cor escura, em menor proporção, teria Novamente, trata-se de uma questão delicada, na qual estão em jogo
passado a predominar, graças ao fato de se camuflar nos troncos escuros aspectos como corporativismo da comunidade científica, necessidade
e passar despercebida aos predadores. de controle, manipulação, de um lado, e desinformação, de outro. Como
A partir de 1950, a adoção de leis de controle da emissão de poluentes no exemplo da girafa – perfeito, didático, mas falso –, recorrer às mari-
inverteu novamente o padrão: troncos com novas populações de liquens, posas de Manchester é tentador: permite trabalhar, de modo simples,
portanto mais claros, passaram a esconder melhor mariposas de cor cla- conceitos complexos como evolução e seleção natural. Mas insistir ne-
ra. Nos livros didáticos, esse exemplo costuma vir acompanhado da les é falsear informações e, de quebra, passar a alunos e professores uma

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idéia dogmática e nem um pouco ética da ciência. A ciência não tem de 5. Espere a secagem das colas para utilizar o modelo.
ser ensinada como a arte do “jeitinho”, mas como um campo do conhe- 6. Mergulhe o modelo em um recipiente contendo água e detergen-
cimento sujeito a falhas, aperfeiçoamentos e inesperadas complexida- te. Tenha o cuidado de verificar se não há bolhas na superfície da
des diante do que parecia simples e ‘didático’. água. Retire lentamente o modelo da água. Note que, como em
uma célula:
Fonte: ROQUE, Isabel Rebelo. Revista Ciência Hoje. “Girafas, mariposas e
anacronismos didáticos”. Rio de Janeiro: SBPC, vol. 34, nº 200, dez, 2003.
a) há uma fina membrana revestindo todo o modelo;
b) essa membrana é fluida;
c) o formato que a membrana toma é dependente da rede de fios
Sugestões de atividades que formam o modelo, da mesma maneira que a forma da cé-
lula é ditada pela arquitetura do citoesqueleto.
PAPEL DO CITOESQUELETO NA DEFINIÇÃO VARIAÇÕES DO MODELO
DA FORMA CELULAR
Usando o mesmo princípio de revestimento por membrana bilipídica,
O citoesqueleto é formado por uma rede de proteínas citoplasmáticas podemos fazer um modelo um pouco mais sofisticado, que represente
que vão dar forma às células, assim como dotá-las de capacidade de melhor os diferentes componentes do citoesqueleto e sua distribuição
produzir os movimentos celulares. A rede citoplasmática de proteínas no interior da célula.
que constituem o citoesqueleto é organizada em: microtúbulos, micro-
filamentos e filamentos intermediários. Os microtúbulos partem do centro I – Material
celular, geralmente perto do núcleo, e têm uma distribuição radial em • bola de isopor de 2 a 3 cm de diâmetro
direção à membrana. São como “vigas de sustentação”, responsáveis
pelo formato primário das células. Se eles são mais longos em uma dire- • canudinhos de refrigerante (ou outro canudo plástico mais resis-
ção, a célula será mais alongada nessa direção; já os microfilamentos tente)
têm uma distribuição principal na forma de uma rede paralela à mem-
• palito de dente
brana, dando sustentação direta a essa estrutura.
• fio de náilon fino (linha de pescar)
Fonte: Revista Brasileira de ensino de Bioquímica e Biologia molecular

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
www.sbbq.org.br/revista/artigo • cola instantânea
I – Objetivo • cola do tipo epóxi
1. Construir um modelo de citoesqueleto revestido por “membra-
• alicate
nas” de sabão. Neste modelo, a bolha de sabão representa a mem-
brana, a estrutura de arame e o fio de náilon representam o citoes-
queleto; a forma da bolha representa a forma da célula. II – Procedimento
2. Facilitar a percepção da forma celular como uma característica 1. Fure a bola de isopor com o palito de dente e fixe os canudinhos
dependente do citoesqueleto. de refrigerante, usando cola epóxi. Os canudos devem partir ra-
dialmente, todos ligados ao isopor central.
II – Material
2. Corte um feixe de canudinhos com 3 cm e cole próximo ao isopor
• fio metálico rígido (por exemplo, fio de cobre com 1,5 mm de para simbolizar o centríolo.
diâmetro, ou um arame fácil de dobrar) 3. Corte os canudinhos fixados na bola de isopor de tal maneira a
• fio de náilon fino (linha de pescar) dar uma forma ao modelo.
• cola instantânea 4. Faça uma rede externa de fios de náilon, como foi feito no mode-
• cola do tipo epóxi (como durepoxi) lo anterior, só que agora o fio de náilon é colado nas extremida-
• alicate des dos canudinhos ou em outro fio de náilon.
• recipiente com água e detergente 5. O modelo está pronto e pode ir direto para a água com detergente.
Veja Figura 2.
III – Procedimento
1. Com um alicate, dobre um fio de cobre, conforme a Figura 1A, (Obs.: Se ficarem espaços muito grandes entre os fios de náilon, a
para formar um cubo. As dimensões das laterais dependem ape- membrana terá dificuldades de se formar; quando isso acontecer, acres-
nas do tamanho desejado para o modelo. Um modelo de 15 cm cente mais fios de náilon.)

PAULO MANZI
funciona muito bem por ser fácil de manusear. Arame servindo
2. Corte mais 3 fios metálicos para formar os 3 lados que faltam para de suporte
completar o cubo; esses fios devem ser um pouco maiores que o
tamanho do modelo, para poder dobrar e fixar as pontas, como a
Figura 1B.
3. Cole com cola epóxi todas as emendas dos fios.
4. Amarre o fio de náilon em uma das arestas do cubo e enrole-o no
cubo, colocando um pingo de cola instantânea em todos os pon-
tos de contato do fio de náilon com o fio de cobre. A colagem do
fio de náilon vai formar uma “tela” ao redor do modelo, confor-
me a Figura 1C.
PAULO MANZI

A B C

Canudinhos partindo
Cabo Cabo Cabo do isopor ao centro
(microtúbulos)
Rede de fios
1 2 de náilon
5 (microfilamentos)

4
Figura 2: Esquema do modelo em que os canudinhos de refrigerante
6 9
3 representam os microtúbulos, com distribuição radial na célula, e os
fios de náilon representam os microfilamentos de actina, com
distribuição paralela e logo abaixo da membrana plasmática.
7 8 Fonte: Lenira Maria Nunes Sepel e Elgion Lúcio da Silva Loreto.
Departamento de Biologia, CCNE; Universidade Federal de Santa Maria –
Figura 1: Montagem de um modelo simples para demonstrar a Revista Brasileira de ensino de Bioquímica e Biologia molecular
relação entre citoesqueleto, membrana plasmática e forma celular. Disponível em: http://www.sbbq.org.br/revista/artigo . Acesso em 14 abr. 2005.

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CÉLULA VEGETAL I – Objetivo
1. Identificar, ao microscópio óptico, uma organela citoplasmática
I – Objetivo – o cloroplasto.
1. Reconhecer que as células vegetais vivas caracterizam-se pela pre- 2. Identificar, ao microscópio óptico, o citoplasma.
sença de parede celular e de um grande vacúolo. 3. Reconhecer que o movimento dos cloroplastos na célula é resul-
2. Descrever núcleo e vacúolo das células vegetais. tante da ciclose.
3. Representar células vegetais em esquema. 4. Reconhecer que as células vegetais caracterizam-se pela presen-
ça de parede celular.
II – Material
5. Representar em esquema uma célula vegetal.
• lâmina • estilete
II – Material
• lamínula • microscópio
• lâminas
• pinça • cebola
• lamínulas
• pincel • lugol
• pinça
III – Procedimento
• pincel
1. Pegue uma cebola e corte-a no sentido longitudinal, separando
uma das camadas. • folha de elódea (Anacharis sp.)
2. Retire sua epiderme, colocando-a sobre a lâmina com uma gota
d’água, e cubra-a com uma lamínula. Cuide para que a epiderme III – Procedimento
fique bem esticada e sem rugosidades, e que não se formem bolhas 1. Retire uma folha de elódea e coloque-a em uma lâmina com uma
de ar. gota de água.
3. Observe a preparação ao microscópio com objetiva de aumento 2. Cubra-a com a lamínula. Cuide para que não fiquem bolhas de ar
médio. entre a lâmina e a lamínula, que dificultam a visualização.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

4. Multiplique os números indicados na ocular e na objetiva para 3. Observe a preparação ao microscópio, inicialmente em objetiva
calcular quantas vezes está ampliada a imagem observada. de menor aumento. Como a folha é muito fina, permite que se
5. Substitua a água da preparação por lugol e observe novamente ao veja o seu interior. (Veja item IV, questões 1 e 2).
microscópio. 4. Em seguida, com a objetiva de aumento médio, observe as célu-
IV – Questões las: seu contorno regular e os cloroplastos dentro delas.
5. Veja como eles se movimentam no interior da célula. Varie as
1. As células têm contorno bem definido? condições de luz e a temperatura e observe se os movimentos se
2. O que se observa no interior das células? alteram.
3. Que estrutura se observa nas células coradas?
4. O que se nota na região que fica entre a parede celular e o núcleo? IV – Questões
5. Esquematize a célula vegetal observada ao microscópio. 1. Desenhe o que você vê. Indique quantas vezes está ampliada a
imagem em observação.
[Comentários/Respostas das questões do item IV: 1. O contorno bem 2. O que justifica o contorno bem definido e a regularidade das for-
definido deve-se à presença da parede celular, facilmente visualizada. 2. mas das células observadas?
É possível que algum aluno visualize o núcleo. (Obs.: Apesar da am- 3. Desenhe uma célula indicando as partes observadas. Indique
pliação não se observa muita coisa da estrutura celular. Uma técnica que quantas vezes está ampliada a imagem que você observou.
permite observar melhor a célula consiste em corá-la com substâncias 4. Os cloroplastos não apresentam movimento próprio. Apresente
especiais. Oriente seus alunos para substituírem a água da preparação uma justificativa que explique a causa desse movimento.
por lugol.) 3. O núcleo. 4. Provavelmente os alunos observarão granu-
lações circundando espaços aparentemente vazios. • Informe que as zo- (Comentários/Respostas das questões do item IV: 1. O aluno deverá
nas que apresentam granulações constituem o citoplasma e que os espa- representar um conjunto de células com contorno regular e bem defini-
ços aparentemente vagos são, na realidade, o vacúolo. • Explique que do. A ampliação do que está sendo observado será obtida multiplicando-
nas células vegetais há geralmente um grande vacúolo, que ocupa gran- se os números encontrados na ocular e na objetiva usadas. 2. O contorno
de parte da célula. 5 (a seguir)] bem definido e a regularidade da forma das células observadas se deve à
presença da parede celular. 3. Os alunos devem representar uma célula
de contorno regular e identificar as presenças da parede celular, do
PAULO MANZI

cloroplasto e do citoplasma. É possível que um dos alunos possa identi-


ficar a presença do núcleo junto à parede de uma das células observa-
Parede das. O vacúolo também pode ser indiretamente observado, pois consti-
celular tui a zona sem granulação e que parece ser vazio. Oriente os alunos para
que indiquem no esquema, com legendas, o que foi observado. 4. A
Suco
vacuolar Citoplasma causa desse movimento é a ciclose. Os cloroplastos são arrastados pela
Vacúolo (solução) corrente citoplasmática.)
Núcleo

Membrana FOTOSSÍNTESE
vacuolar
I – Objetivo
1. Identificar que no processo da fotossíntese há desprendimento de
um gás.
2. Determinar, em função do volume de gás oxigênio desprendido,
a relação entre taxa de fotossíntese e intensidade luminosa.
Fonte: Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Coordenadoria de
Estudos e Normas Pedagógicas. Subsídios para a implementação de proposta II – Material
curricular de Biologia para o segundo grau. SE/CENP/CECISP/1980.
• tubo de ensaio ou tubo de pequeno diâmetro de vidro ou plástico
• rolha perfurada
OBSERVAÇÃO DE CLOROPLASTOS EM ANACHARIS SP.
• retângulo de madeira coberto com papel milimetrado
(Obs.: Anacharis sp. – planta de água doce comumente usada em aquá-
rios e conhecida vulgarmente por elódea.) • cola

33

MP_BIO Col. Base_1 33 22/06/05, 8:37


• fita adesiva FERMENTAÇÃO – DESPRENDIMENTO DE ENERGIA
• água colorida (com qualquer tipo de corante) I – Objetivo
1. Reconhecer que a fermentação é um processo exotérmico.
• tubo de vidro fino em forma de L 2. Identificar a produção de gás no processo fermentativo.
• copo ou béquer II – Material
• fonte de luz • 2 garrafas térmicas
• ramo de Anacharis sp. (elódea – planta comum em aquários) • 2 rolhas com dois orifícios
• solução de bicarbonato de sódio a 1% • 2 tubinhos de vidro ou plástico
III – Procedimento • 2 copos
1. Coloque uma gota do líquido colorido no interior do tubo fino (em • 2 termômetros
L) e prenda-o ao retângulo de madeira recoberto por papel
milimetrado. • 2 tubos de plástico
2. Inserir uma das extremidades desse tubo no orifício da rolha, como
indica a Figura. • suco de uva puro
• fermento de padaria
PAULO MANZI

III – Procedimento
Suporte 1. Encha as garrafas com o suco de uva e em uma delas coloque,
também, uma colher de café de fermento de padaria.
Escala
graduada 2. Tampe as garrafas com as rolhas perfuradas e coloque em um dos
orifícios um dos tubos de vidro e, em outro, um termômetro, cuja
Termômetro

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ponta deverá ficar mergulhada no suco de uva.
Béquer 3. Encaixe uma das extremidades do tubo de plástico no tubo de
Elódea vidro e a outra em um copo cheio de água. Rotule as duas garra-
fas indicando o que existe em seu interior. Construa um gráfico
Tubo de colocando tempo no eixo horizontal e temperatura no vertical.
ensaio Anote a temperatura no início da experiência e faça outras obser-
vações, anotando sempre a temperatura encontrada.

3. Coloque ramos de Anacharis sp. (elódea) em um tubo de ensaio,

PAULO MANZI
quase cheio com uma solução de bicarbonato de sódio a 1%.
Termômetro
4. Tampe esse tubo com a rolha e prenda-o em um suporte.
5. Coloque-o dentro de um copo ou béquer com água, e um termô-
metro (temperatura da água deve ser constante).
6. Ilumine a preparação com uma lâmpada de 40 watts, situada a 30
cm de distância do tubo de ensaio (o manuseio da lâmpada deve Tubo de vidro
ser realizado exclusivamente pelo professor). Observe se há va-
riações no manômetro. Marque o tempo de início e fim de suas
observações. Registre sua observação. Modifique a distância da
fonte para 45 cm. Faça as mesmas observações anteriores no mes-
mo período de tempo. Faça outras modificações de distância, sem-
pre anotando o que foi observado.
IV – Questões Nível do suco
1. Após um certo tempo, o que você observou? de uva
2. Pesquise em seu livro de Biologia e responda que processo deve
estar ocorrendo no vegetal?
3. Considerando o resultado de sua pesquisa justifique:
a) O papel do bicarbonato de sódio nesta atividade sobre
fotossíntese. Garrafa
b) Que gás está sendo eliminado? térmica
4. Crie uma forma de evidenciar que gás está se desprendendo da Água
planta nesse processo.
5. Qual a relação observada (ver procedimento 6) entre intensidade
luminosa e taxa de fotossíntese? (Deve-se cuidar para que duran-
te o desenvolvimento da atividade a temperatura da água do béquer,
onde está o tubo de ensaio, se mantenha constante.)
Figura: Representação esquemática dos elementos utilizados nesta
atividade.
[Comentários/Respostas das questões do item IV: 1. A presença de bo-
lhas de gás no interior da solução. E a gota colorida do manômetro se IV – Questões
movimentou. 2. Fotossíntese. 3. a) O bicarbonato de sódio aumenta a
1. O que se formou na água do copo?
concentração de gás carbônico da água e, conseqüentemente, a intensi-
2. Por que foram usadas duas garrafas térmicas nessa experiência?
dade da fotossíntese; b) Oxigênio. 4. Para identificá-lo, deveríamos dei-
3. Analise o gráfico construído e explique o que foi observado. Qual
xar um fósforo em brasa, abrir o tubo e, rapidamente, colocar esse fósfo-
sua conclusão?
ro em brasa em contato com o gás do tubo. Como o oxigênio é combu-
rente, deve surgir uma chama, o que demonstra que o gás desprendido é [Comentários/Respostas das questões do item IV: 1. Bolhas de gás; 2.
o oxigênio. (Obs.: Esta atividade deve ser realizada com a ajuda do pro- Porque a garrafa sem fermento constitui a garrafa controle. 3. Na garra-
fessor. Não deve haver materiais inflamáveis nas proximidades.). 5. Os fa térmica onde há o fermento a temperatura é mais elevada que na gar-
alunos devem observar que há uma proporção direta entre a quantidade rafa controle. No processo da fermentação ocorre desprendimento de
de oxigênio que as plantas eliminam e a intensidade luminosa] energia. (Obs.: As observações de temperatura devem ser freqüentes,

34

MP_BIO Col. Base_1 34 22/06/05, 8:37


pois assim que o levedo usar todo o açúcar existente no suco de uva a Qual dessas hipóteses você acha que é plausível? Justifique sua res-
fermentação pára e a temperatura irá diminuir. O uso da garrafa térmica posta.
é importante, pois um frasco de vidro poderia estourar com a pressão
dos gases.)] (Obs.: O aluno deve lembrar-se de que apenas 20 tipos de aminoácidos
entram na composição das proteínas. Portanto, a primeira hipótese é a
COMO AGEM OS RNAt correta.)
Será usado um modelo como estratégia para entender a relação entre Fonte consultada: Série: A prática pedagógica (2º grau) – Química e Biologia.
RNAt e os aminoácidos. Secretaria da Educação do Estado de São Paulo – CENP, 1992.

I – Objetivo
DIVISÃO CELULAR – MEIOSE
1. Concluir que nem todos os tipos de aminoácidos entram na for-
mação das proteínas. Modelo de divisão celular – Meiose
2. Perceber que um mesmo aminoácido pode combinar-se com di-
I – Objetivo
ferentes tipos de RNAt.
1. Reconhecer que os gametas só têm um cromossomo de cada par
II – Material de homólogos.
• cartolina 2. Reconhecer que os gametas originam-se da meiose.
• fita adesiva 3. Reconhecer que a meiose compreende duas divisões sucessivas
do núcleo celular, durante as quais há duplicação dos cromossomos
• clipes e redistribuição dos homólogos nas células-filhas.
• xerox com figuras de RNAt 4. Caracterizar os principais eventos de cada divisão da meiose.
• cola 5. Reconhecer que os núcleos resultantes da meiose são iguais dois
a dois, quanto aos cromossomos e alelos que apresentam.
III – Procedimento 6. Concluir que os alelos de um mesmo par se separam na meiose.
7. Identificar os principais eventos da meiose por meio de um modelo.
1. Recorte 24 cartões de 1 cm x 3 cm e numere-os de 1 a 24, para
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

representar diferentes tipos de aminoácidos. II – Material


2. Prenda, no verso de cada cartão, com fita adesiva, dois clipes,
• 1 ou 2 folhas de papel
como mostra a Figura 1.
• 4 fios de lã (cerca de 5 cm de comprimento)
PAULO MANZI

• massa de modelar de duas cores


• fita adesiva
• tesoura

III – Procedimento
(Obs.: No modelo, apenas as transformações dos cromossomos são con-
Figura 1 sideradas.)
1. Pegue dois fios de lã para representar dois cromossomos. Ponha,
3. Cole a Figura 2 (página seguinte) numa cartolina e recorte as em cada um deles, um pedaço de massa de modelar, de cores
representações de moléculas de RNAt, identificados por 3 letras, diferentes, para representar os alelos A e a.
que representam a seqüência de três bases nitrogenadas. 2. Trace um retângulo ou um círculo em uma folha de papel, para
4. Distribua os cartões retangulares, que representam os aminoácidos, representar o contorno da célula, e coloque os modelos no inte-
sobre a mesa. Ela representará o citoplasma de uma célula, com rior dessa figura.
vários tipos de aminoácidos. Distribua também os cartões que • Antes de a célula entrar em divisão, o que acontece com os
representam as moléculas do RNAt. cromossomos e genes?
5. Ligue com clipe o aminoácido 1 do RNAt; o aminoácido 2 ao 3. Usando dois outros fios de lã e massa de modelar, duplique seus
RNAt 2, e assim por diante, como mostra a Figura 3. “cromossomos”, unindo as “cromátides-irmãs” com fita adesiva,
que representará o centrômero. Coloque os modelos sobre o papel.
PAULO MANZI

1 Na meiose, os cromossomos homólogos ficam estreitamente parea-


dos. Este pareamento é feito ponto por ponto, ou seja, entre genes cor-
respondentes. A Figura 1 mostra como isso acontece.
PAULO MANZI

a A a
A A a
1

B B B
Figura 3 B
B B
A A A c C c
C c
C
d D D d D
IV – Questões d
1. No modelo, quantos tipos de aminoácidos estão ligados a RNAt?
2. Quantos RNAt não se ligam a aminoácidos?
3. Que números eles têm e com que aminoácidos poderiam ter-se li-
gado? A a A a
4. Esse resultado mostra que um aminoácido:
a) só pode ligar-se a um único RNAt;
B B B B
b) pode ligar-se a pelo menos dois RNAt.
5. No modelo apresentado, os aminoácidos 21, 22, 23 e 24 não se C c C c
ligaram a nenhum RNAt. Para explicar esse acontecimento, há
d D d D
duas hipóteses possíveis:
a) nem todos os aminoácidos entram na composição de proteínas.
b) no modelo não foram incluídos todos os tipos de RNAt; entre Figura 1: Esses cromossomos, fortemente pareados, vão para o
estes estariam os que poderiam se unir aos aminoácidos 21 a 24. equador do fuso.

35

MP_BIO Col. Base_1 35 29/06/05, 9:42


PAULO MANZI
Figura 2

A A A A G A G A A G G A A C A

1 2 3 4 5

A U A G C G G U C C A A C G G

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
6 7 8 9 10

G A U U G A C C G C U G U U A

11 12 13 14 15

U U G A C C G U C G U U C U C

15 16 17 17 18

C C U U U U U U C C A U

18 19 19

36

MP_BIO Col. Base_1 36 22/06/05, 8:37


4. Desenhe a lápis, com traços leves, o fuso na sua folha de papel. 9. Suponha que a célula da figura 4 sofra meiose e origine quatro
Em seguida, coloque, no equador dessa estrutura, seus células. Desenhe os cromossomos e alelos das células resultantes.
cromossomos pareados (Figura 2).

PAULO MANZI
PAULO MANZI

R r
Figura 4a
A
A
a

Figura 2: Os cromossomos homólogos agora se afastam, dirigindo-se


para pólos opostos do fuso. Em seguida, este desaparece e formam-se R
novas membranas nucleares e novos nucléolos. Termina, assim, a
primeira divisão da meiose (meiose I).
5. Represente esses acontecimentos no seu modelo.
a) Quantos núcleos a célula tem agora?
b) Quantos cromossomos havia na célula-mãe? Que alelos ela
apresentava? Figura 4b
• Quantos cromossomos têm os novos núcleos? Que alelos apre- R
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

sentam?
• O que aconteceu com os cromossomos homólogos durante a
primeira divisão da meiose? R r

• O que aconteceu aos alelos A e a nesta divisão?


Portanto, na primeira divisão da meiose:
• os cromossomos homólogos, duplicados, se separam, indo para r
núcleos diferentes.
• os alelos, também duplicados, se separam, indo para núcleos
diferentes.
• o centrômero não se divide.
No fim da primeira divisão da meiose, o citoplasma pode dividir-se
ou não. Quando ele se divide, formam-se duas novas células. Quando
não se divide, a célula fica com dois núcleos. r
Em seguida, começa a segunda divisão da meiose. Novamente de-
saparecem membranas nucleares e nucléolos e forma-se o fuso. Os
cromossomos vão para o equador do fuso.
6. Apague os desenhos feitos no papel que representa a célula, dei-
xando só o contorno (ou trace novo contorno em outra folha de a) Em que as células-filhas diferem da célula-mãe?
papel). Desenhe dois novos fusos e coloque seus “cromossomos” b) Em que diferem as células resultantes da meiose?
no equador dessas estruturas (Figura 3).
As duas divisões da meiose compreendem as mesmas etapas que
PAULO MANZI

A A vimos para a mitose. A primeira divisão compreende: prófase I, metáfase


I, anáfase I, telófase I. A segunda divisão compreende: prófase II,
metáfase II, anáfase II, telófase II.
10. Reveja o exercício que fez e, baseando-se no que aprendeu sobre
mitose, descreva as etapas da meiose.
a a
(Comentários/Respostas das questões do item III: 2. Duplicam-se e os
novos cromossomos ficam unidos pelo centrômero. 5. a) Dois; b) Dois,
um portador do alelo A e outro portador do alelo a; c) Cada novo núcleo
tem dois cromossomos unidos pelo centrômero. Um deles tem os alelos
A e A; o outro tem os alelos a e a; d) Foram para núcleos diferentes; e)
Figura 3: Agora o centrômero se divide e os cromossomos se Separaram-se indo para núcleos diferentes. 9. a) As células-filhas têm
afastam para pólos opostos do fuso. um cromossomo e a célula-mãe tem dois. A célula-mãe tem um par de
7. Represente esses acontecimentos no modelo. alelos e as células-filhas têm um único alelo; b) Duas delas têm alelo R
Em seguida, os fusos desaparecem, formam-se novamente as mem- e as outras duas, o alelo r.)
branas nucleares e os nucléolos. Termina, assim, a segunda divisão da Fonte: Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Coordenadoria de
meiose. Portanto, na segunda divisão da meiose: Estudos e Normas Pedagógicas. Subsídios para a implementação de proposta
curricular de Biologia para o 2º grau, vol. 3, Genética, 1979.
• os centrômeros se dividem, separando os cromossomos.
• os cromossomos que se separam vão para células diferentes.
OSCILAÇÃO GENÉTICA — GENÉTICA DE POPULAÇÕES
8. Desenhe os quatro núcleos resultantes da meiose, representando
seus cromossomos e alelos. Nesta atividade, vamos verificar o que acontece com as freqüências de
um par de alelos, quando as populações são muito pequenas. Para isso,
No final da meiose, o citoplasma pode se dividir ou não. No primei- cada equipe irá trabalhar com um modelo que representa uma popula-
ro caso, formam-se quatro células. No segundo, forma-se uma célula ção de 12 indivíduos. Inicialmente há, na população, os seguintes indi-
com quatro núcleos. víduos: 3 AA, 6 Aa, 3 aa. Os alelos serão representados por “pinos

37

MP_BIO Col. Base_1 37 22/06/05, 8:37


mágicos” de cores diferentes. Dois pinos ligados pelas extremidade re- IV – Questões
presentarão um indivíduo.) 1. Construa um gráfico representando as freqüências dos alelos A e
I – Objetivo a nas sucessivas gerações. Represente, na abscissa, o número de
gerações e, na ordenada, as freqüências dos alelos (0 → 1.0).
1. Calcular as freqüências dos alelos em sucessivas gerações. 2. Na sua população, a freqüência dos alelos A e a:
2. Construir um gráfico para representar alterações nas freqüências a) oscilou?
gênicas. b) permaneceu constante, de geração em geração?
3. Conceituar oscilação genética. 3. Na sua população:
4. Discriminar os fatores que alteram as freqüências dos alelos das a) desapareceu o alelo A?
populações. b) desapareceu o alelo a?
5. Verificar, por meio de um modelo, a oscilação genética em pe- c) não desapareceu nenhum alelo.
quenas populações. 4. Reúna os dados das equipes, colocando no quadro-de-giz as res-
II – Material postas às seguintes perguntas:
a) Em quantas equipes a freqüência dos alelos oscilou?
• 48 pinos mágicos (jogo plástico de armar, encontrado em lojas de
b) Em quantas equipes o alelo A desapareceu?
brinquedos e supermercados) de duas cores (24 de cada cor)
c) Em quantas equipes o alelo a desapareceu?
• 1 caixa ou saco de papel d) Em quantas equipes não desapareceu nenhum alelo?
• 1,5 folha de papel almaço quadriculado (Obs.: Quando as populações são muito pequenas, a freqüência dos alelos
oscila, nas sucessivas gerações. Essa oscilação deve-se ao acaso e rece-
III – Procedimento be o nome de oscilação genética. Algumas vezes um dos alelos pode
1. Observe a tabela. desaparecer. Isso acontece, por exemplo, quando uma população se sub-
divide, originando várias pequenas, que ficam isoladas por uma barreira
Gerações 1ª 2ª 20ª geográfica: populações de ilhas, por exemplo. Com o tempo é possível
Freqüência do alelo A que as freqüências dos alelos se tornem diferentes nas diversas popula-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Freqüência do alelo a ções. Pode também acontecer que, por mutações, as freqüências gênicas
Nº de genótipos dos descendentes dessas populações se tornem tão diferentes que elas passem a constituir
variedades de uma espécie ou mesmo espécies diferentes.)
AA Aa aa AA Aa aa AA Aa aa
Fonte consultada: Série: A prática pedagógica (2º grau) – Química e Biologia.
1 Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. CENP, 1992.
2
3
Unidade III – A diversidade da vida
Por décadas, o estudo dos seres vivos resumiu-se quase exclusiva-
mente a aspectos sistemáticos, como se todas as categorias taxonômicas
12
fossem “gavetas” de um enorme armário. Atualmente, porém, tais gave-
tas encontram-se entrelaçadas por um importante elo: a ancestralidade
TOTAIS comum. Como os ramos de uma grande árvore, os seres vivos evoluem
continuamente, adaptando-se às exigências ambientais e adquirindo ca-
2. Usando seis pinos da mesma cor, represente os três indivíduos
racterísticas anatômicas e funcionais peculiares.
AA. Com seis pinos (3 de cada cor), represente os indivíduos aa.
A diversidade das formas de vida, na Terra, é enorme e os critérios
Unindo pinos das duas cores, represente os seis indivíduos Aa.
de classificação sempre arbitrários. Optamos, por exemplo, pela classi-
Coloque esses “indivíduos” na caixa ou no saco de papel.
ficação em cinco reinos, proposta por Robert Whittaker, embora alguns
3. Anote, na tabela, as freqüências iniciais dos alelos A e a (0,5).
autores apresentem classificações em seis, sete ou até oito reinos. Futu-
4. Tire, simultaneamente, dois “indivíduos” da caixa, ao acaso, para
ramente, essa nossa opção deverá ser revista. Quanto à classificação dos
representar o primeiro cruzamento. Ao retirar os pinos, segure-os
primatas, utilizamos a proposta do Museu de Zoologia da Universidade
por uma das extremidades e considere as cores dos pinos que está
de Michigan (1999), que poderá provocar alguma estranheza. Sabemos
segurando, como indicadores dos alelos que formarão o descen-
que escolhas sempre têm um lado pessoal, embora tenhamos nos
dente. Por exemplo, se pinos vermelhos representam o alelo A, e
escudado na mais recente bibliografia a respeito. A classificação de
pinos brancos, o alelo a, e se obtém um dos pares segurando um
protistas (ou protoctistas), e entre eles das algas, baseou-se em extensa
pino vermelho e outro branco, o descendente será Aa (Figura 1).
revisão bibliográfica, apoiada principalmente por Lynn Margulis e
Karlene Schwartz (Cinco reinos – Um guia ilustrado dos filos da vida).
PAULO MANZI

Procuramos enfatizar a biologia do ser humano, embora não seja-


mos partidários de uma visão excessivamente antropocêntrica da ciên-
cia. Pareceu-nos pertinente, numa obra com esse propósito, estabelecer
a Biologia Humana como o trilho sobre o qual deveriam caminhar os
estudos de anatomia, fisiologia e reprodução, principalmente.
Na abordagem de alguns aspectos da Biologia Humana, tivemos a
intenção de, ao lado de informações de caráter científico, formularmos
questões de natureza moral, ética e social. Quando os temas são as dro-
gas , a gravidez na adolescência, as doenças sexualmente transmissíveis
Figura 1 (como a Aids) e os acidentes, a discussão pode ser aprofundada, e deve
5. Cada cruzamento dará origem a um único descendente. Marque o ser encorajada a participação de outros profissionais — como professo-
genótipo desse indivíduo na tabela e recoloque os pinos na caixa. res de outras disciplinas, médicos, psicólogos e assistentes sociais.
6. Repita esse procedimento 12 vezes, representando 12 cruzamen-
tos dessa geração. Bibliografia específica (para os professores)
7. Anote, na última linha da tabela, o total de genótipos dessa gera- BATES, Martson. The Forest and the sea. New York: Random House,
ção. Essa será a proporção entre os genótipos da geração seguinte. 1960.
8. Rearranje os pinos de modo a representar os indivíduos da gera- BERG, Linda R. Introductory Botany. Orlando: Saunders College
ção seguinte e coloque-os na caixa. Publishing, 1997.
9. Calcule e anote na tabela a freqüência dos alelos A e a nessa nova BROWDER, Leon W. et al. Developmental Biology. Orlando: Saunders
geração. College Publishing, 1991.
10. Repita o procedimento até obter 20 gerações ou até um dos alelos COATES, Verônica et al. Medicina do adolescente. São Paulo: Sarvier,
desaparecer. 1993.

38

MP_BIO Col. Base_1 38 22/06/05, 8:37


DORIT, Robert L. et al. Zoology. Orlando: Saunders College Publishing, MARCONDES, Lucila. O sangue. São Paulo: Ática.
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RAWITSCHER, Felix. Elementos básicos de Botânica. São Paulo: http://biodiversity.uno.edu/
Compahia Editora Nacional, 1968. BIOL 121 Human Biology — Faz parte do site da Universidade da Virgínia
ROST, Thomas L. et al. Plant Biology. Belmont: Wadsworth, 1998. e é uma fonte generosa de consulta que oferece textos de qualidade
RUPERT, Edward; BARNES, Robert D. Invertebrate Zoology. Orlando: em muitos campos da Biologia e da Medicina.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Saunders College Publishing, 1994. www.people.virginia.edu/~rjh9u/humbiol.html


SCHMIDT-NIELSEN, Knut. Animal Physiology: Adaptation and Biólogo — Esta página oferece uma grande variedade de assuntos. Pos-
Environment. Cambridge: Cambridge University Press, 1994. sui um “buscador” dentro da área de Biologia. Além de fornecer
SINNOTT, Edmund W.; Katherine S. Botany: principles and problems. uma listagem de assuntos a serem consultados, também possui links
New York: McGraw-Hill, 1955. com diversas instituições e centros de pesquisa.
STERN, Kingsley R. Introductory Plant Biology. Boston: McGraw-Hill, www.biologo.com.br
1997. Bioterium — Neste site podemos encontrar informações e técnicas de
STEWART, Michael. Animal Physiology. Hodder & Stoughton The Open criação de animais exóticos em cativeiro, legislação, divulgações
University, 1991. científicas, entre outras informações.
STORER, Tracy I. et al. Zoologia geral. São Paulo: Nacional, 1991. www.bioterium.com.br
VERONESI, Ricardo; FOCACCIA, Roberto. Tratado de Infectologia. Carnegie Museum of Natural History — O Museu de História Natural
São Paulo: Atheneu, 1996. de Pittsburgh, um dos maiores do mundo, apresenta textos
VERONESI, Ricardo. Doenças infecciosas e parasitárias. Rio de Janei- explicativos, coleções, pesquisas, desenhos e fotos, além de progra-
ro: Guanabara Koogan, 1991. mas educacionais relacionados com o conhecimento sobre a Terra,
os seres vivos, os povos e as culturas.
VILLEE, Claude A. et al. Zoologia geral. Rio de Janeiro: Guanabara
www.clpgh.org/cmnh/main.html
Koogan, 1988.
Embrapa — Site da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, com
WITHERS, Philip C. Comparative animal Physiology. Orlando: Saunders
informações sobre ambiente, melhoramento genético, produção de
College Publishing, 1992.
alimentos, irrigação, plantio e controle biológico. Tem dados sobre
zoneamento agrícola, links relacionados com a área de agricultura,
Leituras complementares sugeridas e tópico para busca (“Guia de Fontes”), facilitando pesquisas.
(para os alunos) www.embrapa.br/
Fundação Parque Zoológico de São Paulo — Este site traz informações
ADAS, Melhem. Fome — Crise ou escândalo? São Paulo: Moderna. e curiosidades de como funciona um zoológico, além de fotos, textos
ARBEX JR., José. Narcotráfico — Um jogo de poder nas Américas. e informações sobre a Fundação Parque Zoológico de São Paulo.
São Paulo: Moderna. www.zoologico.sp.gov.br/
BARONE, Antônio. Aids. São Paulo: Ática. Informações sobre peixes e répteis — Banco de informações e de ima-
BONASSI, Fernando. Tá louco! São Paulo: Moderna. gens da Universidade do Texas (Austin). Bastante atualizado, inclu-
BURGESS, Melvin; BOCCANERA, Silio (tradução). Herô. São Paulo: indo aspectos importantes da taxonomia e da biologia desses ani-
Moderna. mais, incluindo dados interessantes sobre serpentes.
CASTRO, Maria da Glória C. Menina mãe. São Paulo: Moderna. www.utexas.edu/
CAVALERI, Ana Lúcia Ferreira; EGYPTO, Antonio Carlos. Drogas e Instituto de Botânica — Do Instituto de Botânica da Secretaria de Estado
prevenção — A cena e a reflexão. São Paulo: Saraiva. do Meio Ambiente, este site contém informações e materiais sobre
COTRIM, Beatriz Carlini. Drogas: verdades e mitos. São Paulo: Ática. Botânica, seu projeto ganhou o prêmio Super Ecologia 2002.
CUNHA, Paulo. Por dentro do sistema imunológico. São Paulo: Atual. www.ibot.sp.gov.br/
DUARTE, Albertina. Gravidez na adolescência. São Paulo: Rosa dos Internet Directory for Botany: Vascular Plants Families — Contém uma
Ventos, 1998. descrição das plantas vasculares, sua classificação, características
DUARTE, Ruth de Gouvêa. Sexo, sexualidade e doenças sexualmente principais e importância. Conta com imagens e links relacionados
transmissíveis. São Paulo: Moderna. com novidades e pesquisas na área.
GEWANDSZNAJDER, Fernando. Dinossauros. São Paulo: Ática. www.helsinki.fi/kmus/botvasc.html
––––––––––––. Nutrição. São Paulo: Ática. Introduction to Clinical Microbiology — Faz parte do site da Universi-
––––––––––––. Origem e história da vida. São Paulo: Ática. dade do Texas e trata de fundamentos da Microbiologia Clínica,
––––––––––––. Sexo e reprodução. São Paulo: Ática. mostrando textos e ilustrações referentes às bactérias: organização,
GIKOVATE, Flávio. Drogas — Opção de perdedor. São Paulo: Moderna. classificação e descrição dos grupos, com sua aplicação clínica.
JAF, Ivan. Primeira vez. São Paulo: Moderna. http://medic.med.uth.tmc.edu/path/00001450.htm
LEONARDI, Teresa Grassi; LEONARDI, Cristina. A dinâmica do cor- Introduction to the Metazoa — Página do Laboratório de Biologia Ma-
po humano. São Paulo: Atual. rinha de Woods Hole, Massachusetts. Muito didática, com informa-
LIMA, Celso Piedemonte. Genética. São Paulo: Ática. ções diversificadas a respeito de metazoários (classificação, aspec-
MACHADO, Osni Telles Marcondes. Começo de conversa. São Paulo: tos evolutivos e ecológicos etc.).
Saraiva. www.ucmp.berkeley.edu/phyla/phyla.html

39

MP_BIO Col. Base_1 39 22/06/05, 8:37


Microbe Zoo — Site muito interessante sobre microorganismos: modos Materiais de apoio
de vida, hábitats, importância ecológica e econômica, doenças cau-
sadas etc. Leituras
http://commtechlab.msu.edu/sites/dlc-me/zoo/ OS REINOS DA VIDA
National Institute of Health — Site mantido pelo Instituto Nacional de Do tempo de Aristóteles até meados do século vinte, praticamente
Saúde do governo norte-americano, apresenta grande quantida- todos classificaram os membros do mundo vivo em dois reinos, plan-
de de informações valiosas a respeito de doenças humanas e tas ou animais. Desde a metade do século dezenove, contudo, muitos
epidemiologia. cientistas notaram que certos organismos, tais como as bactérias e os
www.nih.gov mofos-de-lodo (slime molds), diferiam das plantas e dos animais mais
Nomenclatura e Classificação dos Seres Vivos — Nomenclatura e clas- do que plantas e animais diferiam ente si. O terceiro e quarto reinos
sificação dos seres vivos. É o que se encontra neste site. A tentativa para acomodar estes organismos anômalos foram propostos diversas
é de se universalizarem os nomes científicos de animais e plantas, vezes. Ernest Haeckel (1834-1919), o proponente alemão e popularizador
para que se possam facilitar os estudos das mais variadas espécies. da teoria da evolução de Darwin, por exemplo, fez várias propostas
http://members.tripod.com/~netopedia/biolog/nomenc.htm para um terceiro reino de organismos. As fronteiras do novo reino de
Open Computing Facility at the University of California at Berkeley — Haeckel, o reino Protista, variaram durante o curso de sua longa car-
A OCF é uma homepage dedicada a estudantes e professores, ela- reira, mas seu persistente objetivo era colocar os organismos mais pri-
borada e mantida pelo staff da Universidade da Califórnia (Berkeley, mitivos e ambíguos separados das plantas e dos animais, com a impli-
EUA). cação de que os organismos maiores se desenvolveram a partir de an-
cestrais protistas. Haeckel reconheceu as bactérias e as algas azuis-
www.ocf.berkeley.edu
esverdeadas como um grande grupo — o Monera, diferenciado pela
Os seres vivos — Esta página traz tópicos como: reconhecendo um ser ausência de um grupo celular — dentro do reino protista. Contudo, a
vivo, características dos seres vivos, origem da vida, as eras e a evo- maioria dos biólogos ignorou as propostas para reinos adicionais além
lução da vida. das plantas e animais ou as considerou curiosidades desimportantes,
www.portalbrasil.eti.br/educacao_seresvivos.htm um pleito especial de excêntricos.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Protist Image Data — Informações e ilustrações (inclusive fotos colori- As opiniões em relação aos reinos da vida começaram a mudar na
das) de protistas, como algas e protozoários, tratando, ainda, de década de 1960, principalmente devido ao conhecimento obtido pelas
questões relacionadas com a ecologia desses organismos, como o novas técnicas bioquímicas e da microscopia eletrônica. Estas técnicas
modo de vida e a associação com seres humanos. revelaram afinidades e diferenças fundamentais no nível subcelular, que
http://megasun.bch.umontreal.ca/protists/protists.htm encorajaram uma enxurrada de novas propostas para sistemas de múlti-
Seres Vivos — Classificação Geral dos Seres Vivos. É do que trata esta plos reinos. Entre estas propostas, um sistema de cinco reinos (plantas,
página, evolução, vírus, nomenclatura, além de outras informações. animais, fungos, protoctistas e bactérias), primeiramente propostos por
Robert Whittaker em 1959, e grandemente baseado no trabalho anterior
www.logic.com.br/prof.cynara/news.htm
e altamente original de Herbert Copeland de quatro reinos (plantas, ani-
Sociedade Botânica do Brasil — Da Sociedade Brasileira de Botânica, mais, protoctistas e bactérias), tem consistentemente se sustentado por
esta página possui uma série de elementos dentro da Botânica, como mais de três décadas. Com algumas modificações provocadas por dados
eventos, cursos, textos, entre outros. mais recentes, o sistema de Whittaker é o usado neste livro. Resumida-
www.botanica.org.br mente, nossos cinco reinos são Bacteria (com seus dois sub-reinos,
The Eletronic Zoo — Outra página do Laboratório de Biologia Marinha Archaea e Eubacteria), Protoctista (algas, protozoários, mofos-de-lodo
de Woods Hole, Massachusetts. Muito didática, com informações e outros organismos aquáticos menos conhecidos e parasíticos), Animalia
diversificadas a respeito de metazoários (classificação, aspectos (animais com ou sem espinhas dorsais), Fungi (cogumelos, fungos e
ecológicos etc.). leveduras) e Plantae (musgos, fetos e outras plantas portadoras de esporos
http://netvet.wustl.edu/e-zoo.htm ou sementes). Em relação ao reino das plantas, para distribuir os 12 filos
The Tree of Life — A “Árvore da Vida”, projeto da Universidade do entre dois grandes grupos, usamos Bryata, para todas as plantas
Arizona (EUA), contém informações sobre relações filogenéticas e avasculares (musgos, hepatófitas e antocerófitas) e Tracheata, para to-
características de organismos, ilustrando a diversidade e, ao mesmo das as outras — isto é, as plantas vasculares, seguindo a sugestão de
tempo, a unidade da vida. Fundamental para o desenvolvimento dos James Walker (Universidade de Massachusetts, Amherst; comunicação
conceitos iniciais sobre filogenia e taxonomia. pessoal). Embora Walker use “Anthocerophyta” para o grupo de plantas
avasculares, chamamos somente as antocerófitas de Anthocerophyta,
http://phylogeny.arizona.edu/tree/life.html
mantendo a política deste livro de simplificação dos nomes quando pos-
The University of Michigan (Museum of Zoology) — Coleção de fotos e
sível. Agrupamos nossos cinco reinos em dois super-reinos: (1) Prokarya,
informações a respeito de animais. Inclui dados sobre hábitats, his-
contendo somente o reino procariota, as bactérias, e (2) Eukarya, con-
tória natural, conservação e importância econômica. São apresenta-
tendo os outros quatro reinos, que englobam todos os eucariotas. Reco-
das sinopses de alguns grupos taxonômicos de maior importância. nhecemos que os termos sócio-políticos como reino, classe, ordem e
www.oit.itd.umich.edu/projects/ADW família são anacronismos que eventualmente serão substituídos. Contu-
The Virtual Library — Uma biblioteca para pesquisa em várias áreas do do, o seu uso atualmente generalizado torna conveniente para nós conti-
conhecimento, como Medicina, Agricultura, Biotecnologia, nuar a usá-lo na nossa classificação de toda a vida na Terra.
Entomologia, etc. Dispõe de links para imagens, artigos, universi- A única ameaça séria para qualquer dos esquemas de cinco reinos é
dades e conferências. o sistema de três domínios dos microbiologistas, liderado por Carl Woese
http://golgi.harvard.edu/biopages.html da Universidade de Illinois. Usando critérios moleculares, especialmen-
U. S. Food and Drug Administration — Site da FDA, organismo norte- te seqüências nucleotídicas de RNA ribossômico, esses microbiologistas,
americano de proteção ao consumidor, relacionado com o controle advogam por três grandes grupos: dois domínios (Archaea e Bacteria)
da qualidade de alimentos, drogas e medicamentos. consistindo em células procarióticas e um domínio (Eukarya) contendo
http://www.fda.gov todos os outros organismos. Os fungos, as plantas e os animais são três
dos reinos do domínio Eukarya, da mesma forma como eles estão no
Visible Man Project — Mostra fotos e ilustrações precisas referentes à
nosso esquema de cinco reinos. Contudo, dentro de cada um dos três
anatomia humana.
domínios há numerosos reinos adicionais — muitos correspondentes aos
www.nlm.nih.gov/research/visible filos no esquema de cinco reinos.
Zoo Barcelona — Pertencente ao Zoológico de Barcelona (Espanha), Embora sejamos profundamente devedores a Carl Woese (Universi-
esta página traz informações e funcionamento desse zoológico, pos- dade de Illinois), Mitchell Sogin (Laboratório Biológico Marinho em
sui passeios virtuais e câmeras vinte e quatro horas por dia em de- Woods Hole) e outros analistas de seqüências moleculares por suas con-
terminados recintos, como o do Copito de Nieve, que é o único go- tribuições inigualáveis à reorganização do mundo vivo, rejeitamos o es-
rila albino do mundo. quema de três domínios bacteriocêntricos em bases biológicas e pedagó-
www.zoobarcelona.com gicas. Biologicamente, esta trifurcação falha em reconhecer a simbiogênese

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da célula (fusão de bactérias anteriores) como a principal fonte de ino- a classif icação dos organismos unicelulares separadamente dos
vação na evolução dos eucariotas. Além disso, os seus três domínios e multicelulares se enfraqueceu.A multicelularidade se desenvolveu mui-
múltiplos reinos são estabelecidos somente pelo critério das compara- tas vezes em organismos unicelulares — muitos seres multicelulares
ções de seqüências moleculares, enquanto cada reino no nosso esquema são parentes muito mais próximos de certos unicelulares do que o são de
de cinco reinos só pode ser definido usando todas as características do outros organismos multicelulares. Por exemplo, os ciliados (Filo
organismo — moleculares, morfológicas e de desenvolvimento. Didati- Ciliophora), a maioria dos quais são micróbios unicelulares, incluem
camente, a existência de tantos reinos no sistema de três domínios des- pelo menos uma espécie que forma um sorocarpo, uma estrutura
trói o propósito de uma classificação gerenciável da biodiversidade ter- multicelular contendo um cisto. Os euglenídeos, os crisomonadinos e as
restre, na forma de uma informação que possa ser obtida pelos professo- diatomáceas também desenvolveram descendentes multicelulares.
res, naturalistas e outros não especialistas. Por estas razões, embora tenha- Aqui adotamos o conceito de protoctista proposto em 1956 pelo
mos feito extensivo uso dos dados de seqüência molecular na nossa clas- botânico americano Herbert F. Copeland. A palavra foi introduzida pelo
sificação, rejeitamos o esquema que tem nestes dados o seu critério único. naturalista inglês John Hogg em 1861 para designar “todas as criaturas
inferiores, ou seres orgânicos primários; — ambos Protophyta,... tendo
Fonte: MARGULIS, Lynn et al. Cinco reinos — Um guia ilustrado dos filos da
vida na Terra. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001.
mais a natureza de plantas; e Protozoa... tendo mais a natureza de ani-
mais”. Copeland reconheceu, assim como vários acadêmicos do século
dezenove, o absurdo de se referir à alga gigante pela palavra “protista”,
um termo que implica unicelularidade e, assim, pequenez. Ele propôs
PROTOCTISTA uma definição mais ampla do Reino Protoctista para acomodar certos
(Do grego protos, primeiro; ktistos, estabelecer) organismos multicelulares, assim como os unicelulares, que podem as-
semelhar-se aos seus ancestrais — por exemplo, kelp (algas marinhas),
(Microorganismos nucleados e seus descendentes, excluindo fun-
assim como as pequeninas algas marrons criptomônadas Nephroselmis.
gos, animais e plantas; evoluídos a partir da integração de simbiontes
O Reino Protoctista assim definido também resolveu o problema de fron-
microbianos anteriores. Meióticos ou não-meióticos, com variações
teiras nebulosas que surgem se os organismos unicelulares são incorpo-
no círculo de fertilização da meiose. Os registros fósseis se esten-
rados aos reinos intrinsecamente multicelulares.
dem desde a era Proterozóica Média Inferior — cerca de 1,2 bilhão
Numa tentativa de reconciliar a informação genética e ultra-estru-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de anos atrás — até o presente.)


tural com dados moleculares recentemente adquiridos, propomos aqui
O Reino Protoctista compreende os micoorganismos eucarióticos 30 filos protoctistas. Esse número é mais uma questão de gosto do que
e seus descendentes imediatos: todas as algas, incluindo as ervas-do- de tradição, porque não há regras para definir os filos protoctistas. Nos-
mar (seaweeds), mofos-de-água undulipodiados (flagelados), os mo- sa classificação é questionável; por exemplo, alguns questionam que os
fos-de-lodo (slime molds) e os slime nets, os tradicionais protozoários mofos-de-lodo celulares e plasmodiais (Filo Paramyxa e Myxomycota,
e outros organismos aquáticos ainda mais obscuros. Seus membros respectivamente) deveriam ser unificados. Alguns acreditam que os
não são animais (que se desenvolvem de uma blástula), nem plantas oomicetos, hifoquitrídeos e quitrídeos são realmente fungos, e que as
(que se desenvolvem de um embrião), nem fungos (que não possuem clorófitas são plantas. Alguns insistem que Chaetopholares e Prasinto-
undulipódios e se desenvolvem de esporos). Nem são protoctistas phytes, que aqui estão dentro do Chlorophyta, devem ser elevados ao
procariotas. Todas as células protoctistas têm núcleos e outros atributos status de filo. A maioria reuniria as algas verdes de conjugação (Filo
caracteristicamente eucarióticos. Muitos fotossintetizam (têm plastídios), Gamophyta) com as outras no Chlorophyta. Existem argumentos contra
muitos são aeróbios (têm mitocôndrias) e muitos têm undulipódios, com e a favor dessas visões. Nosso sistema tem a vantagem de limitar o nú-
a base no cinetossomo, em algum estágio de seu ciclo de vida. Todos os mero de táxons mais altos e definir de forma precisa os três reinos dos
protoctistas se desenvolveram por simbiose entre pelo menos dois tipos grandes organismos. Embora tenha a desvantagem de que estes eucariotas
diferentes de bactérias — em alguns casos, entre muito mais do que têm pouco em comum uns com os outros, agrupar juntos as xenofióforas,
dois. À medida que os simbiontes se integraram, um novo nível de indi- as cercomônadas, os mofos-de-água e os outros como um único reino
vidualidade surgiu. protoctista é melhor do que ignorá-los inteiramente.
Muitas combinações diferentes de bactérias primitivas em consór- Os protoctistas são aquáticos: alguns marinhos, alguns de água doce,
cios simbióticos não passaram pelo teste da seleção natural. Mas aque- alguns terrrestres em solos úmidos e alguns parasitas ou simbióticos em
las que sobreviveram deram origem às linhagens modernas e atuais dos tecidos úmidos de outros. Aproximadamente todos os animais, fungos e
protoctistas, que podem ser classificadas de acordo com a estrutura de plantas — talvez todos — têm protoctistas associados. Os filos, tais
suas organelas. Na mitocôndria, por exemplo, as estruturas membranosas como Microspora e Apicomplexa, incluem milhares de espécies, todas
mais essenciais (e por isso de evolução lenta) são as cristas. Estas estru- as quais vivem em tecidos de outros.
turas podem ser achatadas [como nas estramenópilas (quitrídios) e Ninguém sabe o número de espécies de protoctistas. Embora so-
zoomastigotas]; tubulares [como nos alveolados]; discóides [como nas mente 40.000 foraminíferos extintos estejam documentados na litera-
amebas, mofos-de-lodo e discomitocondriados]; ou totalmente ausentes tura paleontológica, e mais de 10.000 protoctistas vivos estejam des-
[como nos arqueoprotistas e micrósporos]. Os perfis dos pigmentos critos na literatura biológica, Georges Merinfeld (Universidade de
fotossintetizantes, essenciais à função do cloroplasto, são critérios im- Dalhousie, Halifax, Nova Escócia) estima que haja mais de 65.000
portantes, também empregados pelos taxonomistas para resolver a espécies sobreviventes, e John Corliss (Universidade de Maryland)
desconcertante diversidade do Reino Protoctista. sugere que haja mais do que 250.000. Mofos-de-água e parasitas de
Os undulipódios e suas inserções, os cinetossomos sempre embuti- plantas são descritos na literatura de fungos, de protozoários parasitas
dos nos cinetídios, são cruciais para uma compreensão dos protoctistas. na literatura médica, de algas por botânicos e de protozoários de vida
Os undulipódios estavam presentes nos ancestrais comuns de todos os livre pelos zoólogos. Práticas contraditórias na descrição e denomina-
filos, mesmo antes das mitocôndrias, dado que os arqueoprotistas ção de espécies têm conduzido a confusões que este livro tenta dirimir.
anaeróbicos os carregavam. Seu comportamento durante a mobilidade e Um outro problema é que muito da diversidade dos protoctistas está
a reprodução está relacionado com a divisão celular mitótica. Em alguns nas regiões tropicais, onde os cientistas são escassos. Ainda mais, a
filos, todos os membros contêm undulipódios; em outros filos, eles es- documentação de novas espécies freqüentemente exige uma dedica-
tão ausentes; mas a maioria dos protoctistas os produzem e os eliminam ção muito grande e um estudo ultra-estrutural. A maioria dos fungos
em função de suas histórias da vida. Embora a importância dos está limitada aos protoctistas de zonas temperadas, que são fontes de
undulipódios que se desenvolvem dos cinetossomos seja enfatizada por alimento, produtos industriais ou doenças.
todos que estudam protoctistas — algólogos, zoólogos de invertebrados, Uma variação marcante na organização celular, nos padrões da di-
microbiológos, micólogos, parasitólogos, protozoólogos e outros — al- visão celular e no ciclo de vida é evidente neste grupo diverso de micró-
guns sentem que o uso do termo “flagelo” deve ser mantido. Mas bios eucariotas e seus parentes. Enquanto as algas são fotótrofos
“flagelos” não têm relação alguma com estruturas rotatórias de bactérias, oxigênicos, os outros são heterótrofos que ingerem ou absorvem sem
e assim a palavra, quando aplicada aos cílios, caudas de espermatozóide alimento. Em muitos, o tipo de nutrição varia com as condições: eles
e outros undulipódios, é confusa. fotossintetizam quando a luz é abundante e se alimentam no escuro.
Por que “protoctista” em vez de “protista”? Desde o século dezenove, Embora os protoctistas sejam mais diversos no estilo de vida e nutrição
a palavra protista, usada formal ou informalmente, surgiu para denotar do que os animais, os fungos ou as plantas, metabolicamente eles são
organismos unicelulares. Nas últimas duas décadas, contudo, a base para muito menos diversos do que as bactérias.

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O conhecimento crescente sobre a ultra-estrutura, a genética, o ci- Phaeophyta, Oomycota e Rhodophyta no Reino Protoctista; a maioria
clo de vida, o desenvolvimento dos padrões, a organização cromossomial, dos membros do Reino Fungi; e todos os membros do Reino Plantae.
a fisiologia, o metabolismo, a história fóssil e especialmente a sistemá- Contudo, a multicelularidade é mais diversa nos animais; isto é, muitas
tica molecular de protoctistas têm revelado muitas diferenças entre eles células com funções altamente especializadas são agrupadas em teci-
e os animais, os fungos e as plantas. Os grandes grupos de protoctistas, dos, e os tecidos em órgãos. Conexões complexas ligam as células em
descritos aqui como filos ou grupos de filos, são tão distintos a ponto de tecidos na maioria dos filos; dois tipos de conexões exclusivas de ani-
merecerem o status de reino nas mentes de alguns autores, como expli- mais são os desmossomos e as junções em hiato, que regulam a comuni-
cado no Handbook of Protoctista (“Manual de Protoctistas”) (Margulis, cação e o fluxo de materiais entre as células. As conexões de célula para
Corliss, Melkonian e Chapman, editores) e o Illustrated Glossary of célula podem ser vistas com um microscópio eletrônico.
Protoctista (“Glossário Ilustrado de Protoctistas”) (Margulis, McKhann A maioria dos animais ingere os nutrientes. Muitos animais levam o
e Olendzenski, editores). O Glossário contém sete tabelas taxonômicas, alimento para dentro de seus corpos através de uma abertura oral ou
incluindo as classes, nomes comuns e sumários de critérios técnicos para engolfam partículas sólidas em células digestivas por fagocitose (“co-
distinguir estes grupos. Novos dados sobre a biologia molecular relati- mer células”), ou gotas de líquido por pinocitose (“beber”), ou absor-
vos nos táxons protoctistas são descritos por Mitchell Sogin, e o livro vem as moléculas de alimento através de membranas celulares. Os para-
contém um glossário de organismos (após o glossário geral), onde cen- sitas, tais como as tênias, freqüentemente não possuem sistemas digesti-
tenas de categorias e nomes taxonômicos em uso corrente são definidos vos. Animais dependentes da luz solar, tais como Convoluta paradoxa
e esboçados. Já que nenhuma pessoa ou grupo sozinho pode dominar (um platelminto) e Elysia (um molusco), adquirem simbiontes fotos-
todos os detalhes biológicos dos protoctistas, esperamos anos de discus- sintetizadores, como os protoctistas que se tornaram plantas.
são animada pela frente sobre sua melhor taxonomia. Com uma reve- Os animais que habitam chaminés pretas do fundo do oceano pro-
rência à diversidade protoctista, um reconhecimento da sua herança fundo (aberturas hidrotérmicas) e fontes frias (água fria surgindo do fundo
eucariótica comum e um senso de humildade tanto em relação à sua do mar) não dependem diretamente da luz do Sol para energia. Em vez
complexidade quanto à nossa ignorância, apresentamos nossos 30 filos disso, a energia que alimenta seus simbiontes vem de compostos
protoctistas. inorgânicos como os sulfetos e o metano, que são produzidos por essas
Fonte: MARGULIS, Lynn et al. Cinco reinos – Um guia ilustrado dos filos da chaminés do fundo do mar. Os vermes de tubo, os mariscos e outros
vida na Terra. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001. animais de fontes frias são nutridos por simbiose com bactérias qui-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
miolitoautotróficas. Um quimiolitoautótrofo é uma bactéria auto-
alimentadora que usa energia liberada por oxidações químicas inorgânicas
ANIMALIA
como fonte de energia para seus processos vitais, incluindo a síntese de
(Do latim anima, respiração, alma) moléculas orgânicas a partir de CO2. Os animais de fontes e de chami-
nés ou digerem as bactérias diretamente ou absorvem as moléculas or-
[Organismos diplóides que se desenvolvem de embriões (blástulas) gânicas sintetizadas por seus parceiros simbióticos. Essas comunidades
e que se formam por fusão (fertilização: citogamia e cariogamia) de de chaminés são raras hoje mas foram típicas do ambiente terrestre de
óvulos e espermatozóides haplóides (anisogametas). A meiose de 3 bilhões de anos atrás.
gametas produz anisogametas.] Os animais exibem diversos padrões comportamentais, tais como
atração à luz, repulsão a produtos químicos nocivos e detecção de gases
Na classificação de dois reinos (animais e plantas) — mais antiga e
dissolvidos e temperatura. Tais comportamentos são encontrados em
não usada neste livro — os animais compostos de muitas células
membros de todos os cinco reinos, mas os animais têm este tema mais
(multicelulares) eram referidos como Metazoa para distingui-los dos
elaborado. No início da história do reino animal, mas de meio bilhão de
Protozoa (animais unicelulares). No nosso sistema, não há animais
anos atrás, os sistemas nervosos, incluindo os cérebros, evoluíram em
unicelulares; os protozoários tradicionais estão colocados no Reino
diversos ramos. Os organismos de nenhum outro reino têm sistemas
Protoctista. Definimos animais como organismos heterotróficos,
nervosos ou cérebros.
diplóides, multicelulares, que normalmente (exceto as esponjas) se de-
senvolvem a partir de uma blástula. A blástula, um embrião multicelular Quanto à forma, os animais são os mais diversos de todos os orga-
que se desenvolve do zigoto diplóide, produzido pela fertilização de um nismos. Os menores animais ainda são chamados de micróbios. Meno-
grande óvulo haplóide por um pequeno espermatozóide haplóide, é ex- res do que muitos protoctistas, estes animais exigem um microscópio
clusiva dos animais. para poderem ser vistos. Muitas destas espécies de animais diminutos
Devido aos gametas animais — o óvulo e o espermatozóide — di- formam a fração heterotrófica do plâncton (do grego planktos, nadan-
ferirem em tamanho, eles são chamados anisogametas. O zigoto diplóide do); animais planctônicos — junto com as espécies planctônicas
produzido por fertilização se divide por divisões celulares mitóticas, re- fotossintetizadoras — constituem a base das teias alimentares marinhas
sultando numa massa sólida de células, que normalmente se torna oca e de água doce.
para se transformar numa blástula. Em muitos animais, a blástula desen- Os maiores animais atualmente são as baleias, mamíferos na nossa
volve uma abertura chamada de blastóporo, que é a abertura para o de- própria classe (Mammalia) e filo (Craniata). Os membros da maioria
senvolvimento do trato digestivo, e será o local da boca em animais per- dos filos animais habitam águas rasas. As formas de hábito verdadeira-
tencentes a alguns filos, ou o ânus em animais pertencentes a alguns mente terrestre são encontradas em somente quatro filos: os quelicerados,
outros filos. Certos animais em alguns filos não apresentam nenhum como as aranhas; os mandibulados (unirremes), como os insetos; os crus-
destes padrões; em vez disso, estes animais com segmentação espiralada táceos, como os tatuís; e craniatos, como os répteis, aves e mamíferos.
produzem um blástula (estereoblástula) que é uma massa sólida de célu- As espécies que vivem no solo (por exemplo, os vermes terrestres) per-
las — suas afinidades permanecem obscuras até que se descubra mais tencem a diversos filos, mas, como exigem umidade constante, não se
acerca de sua biologia. Os moluscos cefalópodes, que têm muita gema livraram propriamente do ambiente líquido. De fato, os animais da mai-
no seu ovo, não possuem blastoceles (cavidades embrionárias). A dife- oria dos filos são vermes aquáticos de um tipo ou outro, exceto insetos e
renciação e as migrações celulares transformam a blástula numa gástrula, outros do Filo Mandibulata. Provavelmente, mais de 99,9% de todas as
um embrião com uma invaginação fechada, que é o trato digestivo em- espécies de animais que já viveram estão extintas, e são estudadas na
brionário na maioria dos animais. Paleontologia e não na Zoologia.
Os detalhes de desenvolvimento embrionário posterior diferem lar- De todos os organismos, somente os animais foram bem-sucedidos
gamente de filo para filo. Contudo, padrões de desenvolvimento co- em invadir ativamente a atmosfera. Representantes de todos os cinco rei-
muns proporcionam pistas para as relações entre os filos. Em muitos nos (por exemplo, esporos de bactérias, fungos e plantas) gastam frações
filos, os detalhes do desenvolvimento são conhecidos para muito pou- significantes de seus ciclos de vida suspensos na atmosfera, mas nenhum
cas espécies até o momento; em alguns filos, para nenhuma das espé- em qualquer reino para a sua vida no ar. O vôo ativo evoluiu somente nos
cies. Como o desenvolvimento é intricado e complexo, não podemos animais. A locomoção dos animais através do ar evoluiu de forma inde-
resumi-lo em poucas palavras. Por razões semelhantes, definições con- pendente diversas vezes, mas em somente dois filos: Mandibulata, Classe
cisas e precisas dos filos nem sempre poderão ser dadas. Nossas descri- Insecta, e Craniata, Classes Aves (aves), Mammalia (morcegos) e Reptilia
ções são mais informais. (diversos dinossauros voadores extintos).
A multicelularidade não é privilégio dos animais; organismos Por muitos anos, e mesmo agora, alguns biólogos associam ani-
multicelulares são abundantes em todos os reinos. Exemplos incluem a mais a um de dois grandes grupos: os invertebrados — animais sem
maioria das Cyanobacteria e Actinobacteria no Reino Bacteria; espinhas dorsais, e os vertebrados — animais com espinha dorsal. To-

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dos os animais, exceto os membros do nosso próprio filo, Craniata, Do Proconsul surgiram o gibão, o chimpanzé e o gorila. Do
invertebrados. Hoje em dia, cerca de 98% de todos os animais vivos Ramapithecus surgiram o Australopithecus e o Homo.
são invertebrados. Essa dicotomia invertebrado-vertebrado considera Sempre que se descobria um novo grupo de fósseis, a tendência era
de forma significativa a nossa perspectiva distorcida. Nossos animais classificá-lo como gênero e espécie novos. Todavia não existe consenso
de estimação, bestas de cargas e fontes de alimento, couro e ossos — racional para tal. Alguns desses fósseis coexistiram, como o homem de
isto é, animais terrestres mais próximos do nosso tamanho e mais fami- Neanderthal e o Cro-Magnon, ou o Cro-Magnon e o homem moderno,
liares — são membros do nosso próprio filo. De um ponto de vista me- não sendo excluída a possibilidade de que pudessem cruzar, produzindo
nos antropocêntrico, os atributos que não a ausência de uma espinha descendentes férteis. Um Cro-Magnon vestido como um homem mo-
dorsal são melhores indicadores da divergência evolutiva primitiva. Pre- derno, apesar de suas diferenças, não chamaria a atenção.
ferimos descrever estes animais, na maioria marinhos, por seus atribu- É extraordinário conceber como cada uma dessas raças migrou, atra-
tos únicos a diferenciá-los coletivamente como invertebrados. [...] vessando continentes, colonizando-os para depois ser substituída pela
Fonte: MARGULIS, Lynn et al. Cinco reinos – Um guia ilustrado dos filos da raça mais evoluída.
vida na Terra. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001. Além do contínuo aumento de volume do cérebro, o desenvolvi-
mento mais importante durante a evolução foi a alteração da forma da
OS PRIMATAS faringe e da língua, permitindo que os sons produzidos na laringe fos-
O homem é classificado na ordem Primatas: sem modulados pela língua, pela alteração do espaço acima da faringe.
Isso permitiu ao Homo sapiens desenvolver a linguagem, falar e
Subordem Superfamília Espécie com isso criar uma transmissão de informação instantânea e contínua
Prossimili lêmur (Madagáscar) (em contraste com a informação genética, que é transmitida de uma só
Anthropodea ceboideia macacos das Américas vez de uma geração para outra), permitindo a transferência de suas des-
platirrinos (narizes chatos) cobertas, como é o caso da produção de ferramentas.
ceropithecidae babuínos e macacos da Com a descoberta da escrita, a informação cultural passou a ser
África mais importante do que a genética, mantendo o homem como uma espé-
hominoidea pongidae: gorila, cie única.
orangotango, chimpanzé,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

gibão
Recentemente, comparando-se seqüências dos cromossomos Y e
hominidae: homens e seus fósseis mitocondriais e recuperando-se em alguns casos o DNA de ossos e
outros fósseis, tem sido possível analisar a história das populações hu-
Os primatas surgiram no início do cenozóico, há 60 milhões de anos. manas. Essas pesquisas indicam a existência de apenas quatro linha-
Quinze anos depois de Darwin ter publicado seu famoso livro A Descen- gens de DNA entre os ameríndios, que devem ter resultado de migra-
dência do Homem (1871), foram descobertos em Neanderthal, na Ale- ções da Ásia Oriental (Mongólia), através do estreito de Bering, cerca
manha, fragmentos ósseos que um professor identificou como um ho- de 20 mil anos atrás, num período glacial que permitiu a passagem a
mem de pequena estatura. Esse fóssil foi investigado e apresentado como pé, chegando até a Patagônia. Não se confirmam as idéias de que a
um precursor do homem. Todavia, um dos mais famosos professores de América do Sul teria recebido migrações da África ou de vikings e de
patologia, Virchow, contestou que se tratava de um indivíduo com doen- que o Brasil teria sido ocupado há mais de 12 mil anos. As mais anti-
ça deformante. Só em 1880 o “homem de Neanderthal” foi aceito como gas populações brasileiras são os fósseis da Lagoa Santa, que viveram
um precursor do homem. Outros crânios e esqueletos semelhantes fo- há 10 mil anos e desapareceram. A América do Sul foi o último conti-
ram descobertos mais tarde em outros pontos da Europa. nente a ser povoado pelo homem.
As origens Fonte: RAW, Isaias; MENNUCCI, Leila; KRASILCHIK, Myriam. A biologia e
Época em que o homem. São Paulo: Edusp, 2001, p. 328 a 333
Fósseis Características
viveram
Proconsul 21 000 000 a Ereto, é o ancestral dos CONSCIÊNCIA E DOGMA –
10 000 000 chimpanzés e gorilas. A ORIGEM DO HOMO SAPIENS
Dente canino grande.
A história do surgimento do homem – a partir da evolução gra-
Provavelmente não fazia
dual de um antigo ancestral, que também deu origem aos grandes
artefatos para se defender.
macacos – está bem documentada por evidências científicas acu-
Vivia na África.
muladas desde que Darwin e Wallace ousaram defender uma versão
Ramapithecus 14 000 000 a É provavelmente o mais diferente da registrada no texto bíblico. O confronto entre o conhe-
12 000 000 antigo primata cimento e o mito, porém, permanece vivo, como mostra o cresci-
semelhante ao homem. mento, inclusive no Brasil, do movimento criacionista. Os textos
Arco dental curvado. religiosos são belos em sua força simbólica e valiosos para a cultu-
Provavelmente vivia em ra, mas sua interpretação dogmática representa um sério obstáculo
árvores. à compreensão do mundo e, portanto, à própria compreensão da
Australopithecus 4 000 000 a Volume encefálico 450 ml. espécie humana.
900 000 Ereto. Usava o fogo.
Olhando em volta nos vemos diferentes dos outros animais. Muitas
Homo erectus 800 000 a Volume encefálico 1 000 ml. vezes, até, nos achamos tão afastados deles que falamos como se eles
Homem de 400 000 Vida comunal, usava o fogo pertencessem à natureza e nós, os Homo sapiens, não. Falamos com
Pequim e fazia ferramentas freqüência na dicotomia ‘o homem e a natureza’, embora esta seja ape-
primitivas de pedra. nas aparente. O que acontece é que, como humanos, vemos o mundo
Homo sapiens 300 000 a Crânio espesso com através de nossa ótica. O que nos aponta alguma semelhança são as nos-
Java 50 000 sobrancelhas salientes e sas necessidades básicas, metabólicas.
testa inclinada. Na verdade, o que nos distinguiu dos demais seres vivos foi a nossa
Homo sapiens 200 000 a Volume encefálico maior capacidade de desenvolver uma linguagem articulada, que permite com-
Neanderthal 40 000 do que 1 500 ml. binar palavras seguindo uma gramática e assim construir frases que ad-
Fabricava ferramentas quirem um sentido mais amplo que a simples adição dessas palavras. É
avançadas. Enterrava os uma linguagem de dupla articulação, já que se utiliza das palavras e dos
mortos e aparentemente sentidos. Essa linguagem, surgida não se sabe quando, deu-nos uma nova
tinha uma religião. capacidade que não parece ser encontrada em nenhum outro ser vivo: a
consciência. Somos animais que temos consciência da morte, que vive-
Homo sapiens 40 000 a Pintava cavernas e esculpia
Cro-Magnon 10 000 figuras; inventou a
mos as aflições do futuro, que encontramos a nossa identidade no passa-
agulha de costura. do. Olhamos o mundo com um olhar próprio e podemos enxergar além
do horizonte.

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Nossa capacidade de deduzir levou-nos a concluir que a Terra é momento de transformação, tentou-se estudar a Bíblia usando a mate-
redonda somente observando a sombra projetada por uma haste em mática. Isso tornou possível fazer uma contagem regressiva do Velho
dois pontos distantes. Ao observar um eclipse lunar, concluímos que a Testamento e chegar ao dia em que Deus teria criado Adão. O dia e a
região escura formada na Lua era a sombra da Terra projetada no espa- hora aproximada, como afirmava o teólogo inglês John Lightfoot (1602-
ço, e foi possível estimar o tamanho relativo de nosso satélite. Ao ob- 1675), vice-chanceler da Universidade de Cambridge. Ele havia refeito
servarmos o ciclo lunar ou a seqüência das estações do ano, pudemos os cálculos do arcebispo irlandês James Ussher (1581-1656) e obtido o
criar um calendário e medir o tempo. Desenvolvemos a capacidade de que julgava ser uma precisão maior. Para Lightfoot, Adão teria surgido
inferir o futuro. E foi possível — uma necessidade mesmo de sobrevi- no mundo por criação divina no dia 23 de outubro de 4004 a.C., por
vência — construir uma interpretação do mundo que pudesse fazer volta das nove horas da manhã.
sentido e nos dar sentido. A cronologia da criação passou a ser adotada como dogma e
Nossos ancestrais diretos, os primeiros H. sapiens, surgiram possi- publicada nas Bíblias inglesas até o século 19. Foi nelas que Charles
velmente entre 150 mil e 100 mil anos atrás. Antes desse momento, no Darwin (1809-1882) aprendeu a religião. Durante sua viagem ao redor
extenso período que vai de 1,5 milhão a 500 mil anos atrás, sabemos que do mundo no Beagle, Darwin ainda era um ortodoxo. Acreditava que o
os Homo erectus migraram da África e ocuparam diversas regiões do mundo não tinha mais que seis mil anos. E suas observações como natu-
mundo. Estes não parecem ser substancialmente diferentes de nós, e ralista foram influenciadas por essa crença.
alguns pesquisadores acreditam que tanto um quanto o outro pertencem Antes do início da viagem de Darwin já existia a noção de que as
a uma só espécie derivada de um ancestral mais antigo, um hominídeo espécies haviam evoluído e muitas delas desaparecido. A interpretação
extinto muito tempo antes. Registros arqueológicos mostram que os H. dos fósseis como registros do passado levou o paleontólogo francês
erectus já desenvolviam complexos rituais de morte, o que indica terem Georges Cuvier (1769-1832) a afirmar que os ossos fossilizados que
sido capazes de desenvolver uma linguagem articulada e já possuírem analisava não eram de espécies atuais (“l’homme fossile n’existe pas”,
alguma espécie de cultura. Mas os registros mostram também que, após dizia ele: “o homem fóssil não existe mais”). Decorrência dessa afirma-
esse período de migração para lugares distantes, eles desapareceram sem ção é o fato de que espécies do passado não estão mais presentes, ou
que saibamos as razões. Um pequeno núcleo de H. erectus, isolados dos seja, o ser vivo passou por mudanças. As idéias de evolução remontam a
demais em uma região possivelmente a nordeste da África ou no Oriente essa época. Jean-Baptiste Monet, cavaleiro de Lamarck (1744-1829),

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Próximo pode ter dado origem ao H. sapiens. não admitia que as diferentes espécies presentes tivessem surgido na
A capacidade de articular uma linguagem e de desenvolver a cons- criação, como afirma a Bíblia, e se mantido estáticas desde então, pois
ciência permitiu ao H. sapiens procurar soluções para a sua adaptação a se isso tivesse ocorrido elas não poderiam sobreviver às alterações
lugares inóspitos e a condições climáticas adversas. O homem é capaz ambientais. Sua conclusão foi a de que as espécies se transformavam
de sobreviver ao calor dos desertos e ao frio gélido das regiões polares. continuamente para poder sobreviver a um ambiente que se altera o tem-
Podemos viver em regiões áridas ou em áreas de umidade elevada. A po todo.
sobrevivência é possível adaptando-se ou criando-se novos hábitos ali- Uma das mais importantes descobertas no campo da geologia foi
mentares adequados aos recursos disponíveis. Essa capacidade está di- feita pelo inglês William Smith (1769-1839) no início do século 19. Smith
retamente relacionada à possibilidade de transmitir informações e expe- descobriu que as camadas de sedimentos são registros de tempos anti-
riências de uma geração para a outra. Vivemos na natureza, dela depen- gos, e isso o levou a concluir que a Terra não foi, no passado, semelhante
demos, mas, em diversas épocas, consideramo-nos além dela. E de fato ao que é hoje. Ou seja, a própria Terra tem uma história. A interpretação
estamos além dela, no sentido de que podemos pensar sobre ela, buscar das camadas sedimentares mostrou que o planeta é muito mais antigo do
interpretações e significados. que se poderia supor. Sua história ultrapassa muito a marca de alguns
De início coletores-caçadores, os H. sapiens começaram a criar as- milhares de anos. De fato, pelas observações atuais, a Terra surgiu a
sentamentos maiores e, por volta de 3 mil a.C., as primeiras cidades partir da aglomeração de átomos e moléculas, quando o sistema solar se
apareceram na Mesopotâmia, região que corresponde aproximadamen- formou, há uns 4,5 bilhões de anos. A vida, por sua vez, parece ter surgi-
te ao atual Iraque. A capacidade de articular uma linguagem permitiu o do apenas uns 500 milhões de anos após a formação do planeta.
desenvolvimento de uma consciência e o surgimento de ritos que garan- Nessa nova percepção do tempo de existência da Terra, existe tem-
tiam a manutenção da identidade dos indivíduos no seu grupo. Com o po para que os mecanismos que atuam sobre a transformação do ser
surgimento das primeiras cidades nasceu uma nova ordem política. vivo possam ocorrer. Trata-se, portanto, de uma visão radicalmente di-
versa daquela vivida por Darwin em sua viagem, quando ele tinha como
O mito e a matemática dogma a cronologia de Ussher. De fato, em seis mil anos seria impossí-
vel pensar em mudanças dos seres vivos. Mas nesse período tão curto
Os mitos têm duas funções essenciais para a preservação da cultura. também seria impossível pensar nas transformações geológicas obser-
Em primeiro lugar, eles respondem às nossas perguntas existenciais mais vadas, como havia mostrado outro geólogo, o escocês Charles Lyell
primárias — Como surgiu o mundo? Como, e quando, ele acabará? Quem (1797-1875), amigo de Darwin. Para Darwin, era fundamental reformular
foi o primeiro homem? O que ocorre depois da morte? A outra função é sua idéia do tempo de origem da Terra e do surgimento do homem no
a de justificar um sistema social existente e dar sentido a costumes e planeta. E, sem dúvida, esse foi um dos obstáculos que ele teve que
ritos tradicionais, criando, assim, um sentido de pertencimento ao gru- ultrapassar para poder formular uma teoria de evolução por seleção na-
po. A linguagem simbólica dos mitos exige uma permanente interpreta- tural. Em sua autobiografia, Darwin deixa claro que teve muita dificul-
ção e uma adequação aos acontecimentos que caracterizam a história da dade em abandonar sua visão ortodoxa da religião.
cultura.
Grande parte dos mitos inicia sua narrativa afirmando que no início
Espécies em transformação
era o ‘caos’, ou o ‘nada’, e que em dado momento alguma entidade
sobrenatural criou tudo o que viria depois. Esse elemento comum pode A evolução por seleção natural, proposta por Darwin e Alfred Russel
estar relacionado ao fato dos mitos de origem serem, em última instân- Wallace (1823-1913) em 1858, tem como elemento essencial o tempo.
cia, mitos fundadores de culturas. Eles nos dizem quando se começa a Wallace realizou uma expedição à Amazônia no período de 1848 a 1852,
ter consciência do mundo, ou seja, quando a linguagem de dupla articu- quando manteve contato com outro naturalista inglês, Henry Walter Ba-
lação permitiu ordenar e classificar o mundo sensível, dando a este um tes (1825-1892), que esteve na mesma região de 1848 a 1859. É prová-
significado. vel, como aponta o bioquímico Ricardo Ferreira, da Universidade Fede-
Interpretar um mito sem levar em conta sua linguagem simbólica ral de Pernambuco, que a semente da teoria da evolução por seleção
nos leva a uma posição delicada, que desfaz a força do próprio mito. Um natural tenha nascido ainda em 1850, quando do último encontro de
exemplo marcante dessa apropriação do mito, retirando dele seu valor Wallace e Bates em uma região próxima a Manaus (ver ‘A natureza bra-
simbólico, ocorreu no século 17. A ciência moderna mal iniciava sua sileira e a teoria da evolução’, em CH nº 127).
trajetória. O físico e astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642) ha- Quando de seu retorno à Inglaterra, em 1852, Wallace sofreu um
via publicado os seus diálogos e mostrado que a matemática era a lin- naufrágio e perdeu todas as suas anotações e coleções. Sem poder apre-
guagem que se podia usar para compreender os fenômenos naturais, sentar seu trabalho, ele seguiu para a Indonésia em 1854, onde perma-
anunciando uma revolução de maiores conseqüências que iria transfor- neceu até 1862. Lá, Wallace escreveu dois artigos sobre a idéia de
mar por completo a maneira ocidental de se olhar o mundo. Nesse evolução por seleção natural. O primeiro, On the law which has

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regulated the introduction of new species (‘Sobre a lei que tem regula- microscópica, o DNA, que, estendido, teria mais de 1 m de comprimen-
do a introdução de novas espécies’), escrito em 1855, foi encaminhado to? São conceitos muito distantes do senso comum, embora, muitas ve-
para publicação. Uma cópia do artigo de 1858, intitulado On the zes, possam com este se confundir. Aqui ingressamos em um dos aspec-
tendency of varieties to depart indefinitely from the original type (‘So- tos que desafiam todos os que se dedicam à divulgação da ciência. Como
bre a tendência das variedades de se afastar indefinidamente do tipo falar de teorias elaboradas para um público que não tem conhecimento
original’), foi encaminhada para Darwin para comentários. Menos de de conceitos básicos?
um mês depois que este recebeu o manuscrito, ainda em 1858, os tra- A leitura sem orientação leva o leitor a um emaranhado de idéias
balhos de Wallace e de Darwin sobre a evolução foram apresentados confusas, que não fazem sentido. Como salienta o antropólogo francês
na Linnean Society. No ano seguinte foi publicado o livro de Darwin, Claude Lévi-Strauss no prefácio de seu livro História de lince (Compa-
A origem dos espécies, onde se pode notar a influência das idéias de nhia das Letras, 1993): “Para o homem, volta a existir, portanto, um
Wallace sobre o processo de seleção. mundo sobrenatural. (…) Aos olhos dos leigos (ou seja, de quase toda a
A idéia-mestra do processo de evolução por seleção natural é, em humanidade), esse mundo sobrenatural apresenta as mesmas proprieda-
linhas gerais, a de que uma parcela de uma população, ao sair de um des que as do mito: tudo acontece de um modo diferente do que no
ambiente inicial, se mantém isolada da população de origem. Com o mundo comum e, freqüentemente, ao inverso. Para o homem comum —
tempo, no novo ambiente, alguns caracteres presentes nesse grupo que todos nós — esse mundo permanece inatingível, exceto pelo viés de
permitem uma melhor adaptação ao novo ambiente serão ‘selecionados’ velhos modos de pensar que o especialista consente em restaurar para o
(já que seus portadores terão vantagens para sobreviver e deixar descen- nosso uso. (…) Do modo mais inesperado, é o diálogo com a ciência
dentes) e irão dominar na população. Os caracteres selecionados, dife- que torna o pensamento mítico novamente atual.”
rentes dos que dominavam na população antes do isolamento, dão ori- É nesse cenário que as idéias criacionistas ressurgem com força na
gem a novos estados. Nem todas as mudanças sobreviverão, pois a sele- sociedade tecnológica. Idéias que oferecem um forte obstáculo para a
ção natural age no sentido de eliminar aquilo que não se adapta ao meio. compreensão do mundo atual, pois baseiam-se em leituras dogmáticas
Com o tempo e o isolamento, uma nova espécie, derivada da primeira, de textos que são belos por sua força simbólica e que não podem, de
irá surgir no novo ambiente. Essa trajetória explica, entre outras coisas, forma alguma, ser abandonados, pois constituem nosso mito de origem
a tendência a uma maior diversidade das espécies e não, como se pode- e contribuem para a construção de nossa cultura. Mas são textos que
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ria pensar, a um estrangulamento que levaria à sobrevivência de apenas devem ser lidos com a mente aberta para que se entenda o simbolismo,
uma espécie. uma das mais fortes características de nossa linguagem articulada. Não
Nem Darwin nem Wallace poderiam dizer como os caracteres alte- devemos errar como o reverendo Ussher ou o vice-chanceler de
ravam-se, pois nenhum dos dois tinha conhecimento dos princípios da Cambridge e racionalizar o simbólico. Seria uma perda irreparável.
genética — segundo a qual as mutações ocorridas nos genes são respon-
Fonte: BARROS, Henrique Lins. Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Revista
sáveis por essas alterações. A genética, em particular a genética molecular, Ciências Hoje. Rio de Janeiro: SBPC, vol. 36, nº 215.
só iria aparecer muitos anos depois da publicação dos trabalhos iniciais
sobre a evolução por seleção natural. Hoje, com o desenvolvimento de
técnicas extremamente precisas, é possível comparar a informação ge-
nética de diferentes espécies e estabelecer seu grau de parentesco. A SAÚDE GLOBAL
A teoria da evolução por seleção natural teve de imediato uma enor-
me resistência, pois via-se nela uma negação frontal ao caráter particu- Por que global?
lar e divino do homem. As maiores críticas vieram dos setores mais É possível que o adjetivo global venha a ser equivocadamente en-
conservadores. Como, estes perguntavam, podia-se afirmar que o ho- tendido como saúde perfeita e total, como ausência de qualquer doença,
mem, feito à imagem e semelhança de Deus, vinha do macaco? defeito ou imperfeição. Essa utopia encontrou algum respaldo na defi-
Essa questão, uma entre as muitas que perduram há mais de um nição cunhada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo a
século, revela uma leitura superficial e equivocada das idéias que apare- qual a saúde é “um estado de completo bem-estar físico, mental e soci-
cem na teoria da evolução por seleção natural. O Homo sapiens é apenas al”, que contribuiu para ampliar (até demais, às vezes) o horizonte mui-
um parente de gorilas e chimpanzés. Os estudos em genética e em tas vezes puramente organicista da biomedicina. Nos corredores da OMS
paleontologia mostram que essas três espécies devem ter se originado a em Genebra, porém, às vezes ouviu-se sussurrar: “Se alguém vier aqui e
partir de um ancestral que viveu há mais de 10 milhões de anos, muito afirmar que se encontra num estado de completo bem-estar etc., etc.,
antes do surgimento de qualquer cultura. Essa espécie, extinta há mi- etc., vamos interná-lo no manicômio”. Na verdade, a saúde não é um
lhões de anos, deu origem a espécies diferentes que, por sua vez, acaba- estado e não é perfeição. É uma condição em equilíbrio variável, que
ram originando as três atuais. Gorilas, chimpanzés ou homens não con-
diferentemente do passado pode-se hoje mudar notavelmente para me-
seguiriam sobreviver às condições ambientais em que viveu o seu an-
lhor. Parece-me também pouco provável que se possa atingir a perfeição
cestral comum, nem este se adaptaria ao mundo de hoje.
humana por meio da higiene e da medicina; às vezes, essa tentativa in-
A vida vem mudando permanentemente, embora muito lentamente.
duz as pessoas a realizar excessos, os médicos a tratar o supérfluo e os
Mas nem gorilas nem chimpanzés foram capazes de desenvolver uma
Estados a perpetrar abusos.
linguagem articulada. Já foi demonstrado, por exemplo, que os grandes
Assim, entendo por saúde global aquela de todos os sujeitos huma-
macacos podem aprender quase mil palavras, mas são incapazes de for-
nos, e penso que existam motivos válidos para pôr esse conceito no cen-
mar uma frase. Os macacos podem, sem dúvida, construir instrumentos
tro da reflexão bioética sobre a relação entre saúde e doença. O motivo
rudimentares e, como muitos outros animais, conseguem se comunicar
principal é que a saúde, a qual é ao mesmo tempo um dos processos
com eficiência. Mas a gramática só foi desenvolvida pelo homem. E
mais íntimos da pessoa e um dos fenômenos mais ligados à vida coleti-
isso é o que nos diferencia dos demais animais.
va, tem um caráter duplo no plano moral: intrínseco, como presença,
limitação ou ausência de capacidades vitais (no limite, como antítese
Razão, simbolismo e dogma
entre vida e morte), e instrumental, como condição essencial para viver
A extrapolação das idéias evolucionistas para o campo social mos- em liberdade. De fato, a liberdade substancial fica reduzida quando a
trou-se, como era de se esperar, um desastre. Não se pode pensar em doença predomina: a) porque o indivíduo normalmente fica impedido
evolução em tempos históricos. A evolução é um processo que precisa em uma ou mais das suas faculdades de decidir e de agir; b) porque a sua
de tempo — de muito tempo — para agir. Um fato importante que deve- sorte é confiada a poderes estranhos, sobretudo se ele não é mais consi-
mos ter em mente é o de que a compreensão da teoria da evolução por derado, enquanto doente, um cidadão detentor de direitos; c) porque a
seleção natural, uma teoria elaborada, exige um grande conhecimento doença, quando é grave e persistente, freqüentemente lança o indivíduo
de suas bases. Uma leitura superficial leva à não compreensão das idéias (assim como as nações) para baixo, para um círculo vicioso de uma
que formam a base dessa teoria. regressão que pode se tornar irreversível. Isso foi o que ocorreu muitas
Como entender, sem essa compreensão, que as espécies têm vezes no passado, e que está acontecendo agora. Para muitos campone-
caracteres, que existem variedades ou estados, que os genes atuam no ses chineses, por exemplo, desde que foi reduzida ou eliminada a assis-
processo de seleção? Como compreender que a informação da vida está tência pública, adoecer tornou-se a causa principal da sua precipitação
contida em quase todas as células do corpo humano em uma molécula na pobreza, como acontecia nos campos há um ou dois séculos. Em

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alguns países africanos, a combinação entre AIDS, pobreza e a indife- populacional entre o início e o fim do século XVI havia sido avaliada
rença do mundo significa cair numa crise dificilmente reversível. em “apenas” 5-10 milhões de vidas perdidas. Pesquisas sucessivas de-
Saúde global, também, porque a saúde é um bem indivisível. Nes- monstraram que as Américas em 1492 eram tão populadas como a Euro-
se campo, e vou insistir nisso, o gênero humano está ligado por um pa (50-80 milhões), ao passo que, no final do século XVI, não restavam
destino comum. Por isso é paradoxal que enquanto são globalizadas as ali mais que 10 milhões de habitantes. Mesmo que não se possa definir
finanças, a informação simultânea, a migração dos povos e a transfe- estritamente como genocídio, dado que o extermínio foi provocado por
rência de mercadorias, a criminalidade organizada, os conhecimentos uma conjunção de fenômenos naturais e decisões humanas, essa foi cer-
científicos e as tecnologias, os sistemas de poder, a produção, o consu- tamente a maior tragédia demográfica já vivida pela espécie humana.
mo e o trabalho humano, um bem essencial como a saúde seja negli- Ao se analisar os aspectos antropológicos e morais dessa experiên-
genciado ou deteriorado por uma globalização tão proeminente e cia, deparar-se-ão com dois mitos, que durante muitos séculos conspira-
invasiva. Exatamente porque a globalização representa a fase atual e ram, por ignorância das causas e dos percursos das doenças, contra o
futura do desenvolvimento e porque pode responder a muitas exigên- avanço das ações humanas para preveni-las e curá-las.
cias do gênero humano, a saúde deve ser encarada hoje como uma O primeiro deles trata-se da origem divina das doenças: para alguns
finalidade global, como um bem que em toda parte seja tratado de por desprezo, para outros por preferência. “Quando os cristãos encon-
forma explícita e programada. traram-se exauridos pela guerra — contou Francisco de Aguilar, sequaz
A dimensão global da saúde e das escolhas morais ligadas a tal di- de Cortés — Deus achou por bem mandar a varíola aos índios e a cidade
mensão, que agora é predominante, na verdade, não é totalmente nova. foi colhida por uma grande pestilência (…)”. Em 22 de maio de 1634,
Apresentou-se, muitas vezes, nos séculos que constituem a época mo- John Winthrop, primeiro governador da Massachusetts Bay Colony, as-
derna, de formas diferentes daquelas que se está vivendo. Por isso, trata- sinalou: “Quanto aos indígenas, quase todos morreram de varíola; desse
rei esse tema sob uma perspectiva diacrônica, correspondente aos even- modo, o Senhor quis estabelecer o nosso direito àquilo que possuímos”.
tos e às orientações que efetivamente estiveram em cena na história do Deve-se acrescentar que os próprios ameríndios atribuíram ao privilégio
mundo. Assim, tentarei descrever as várias fases na forma de um prólo- divino a incolumidade dos espanhóis diante do mal que exterminava os
go e mais três atos: cada um deles com características próprias e suas nativos, o que contribuiu para o seu abalo psicológico e sua posterior
próprias coordenadas morais. Nas partes conclusivas, farei então refe- derrota. Toda a medicina científica afirmou-se refutando esse mito, de

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rência à questão crucial da eqüidade na saúde, às tendências atuais da Hipócrates em diante, graças à sua negação em reconhecer a presença
globalização e as escolhas morais que seguem a isso. direta e pessoal do divino na natureza, e também da crença de que a
epilepsia, por exemplo, fosse um male sacro: “Acerca do mal sacro, essa
Prólogo: a “unificação microbiana” do mundo é a realidade. Por nada é mais divino ou mais sacro do que as outras
doenças, mas tem estrutura natural e causas racionais”. Entretanto, mes-
A globalização das doenças, ou seja, a difusão dos mesmos quadros mo quando as muitas causas foram reconhecidas, o mito se perpetuou.
mórbidos por todas as partes do mundo, começa em 1492, com a desco- O outro mito consiste em atribuir a origem das doenças ao “inimi-
berta (ou conquista) da América, que assinalou a passagem dos povos e, go” ou ao estranho diferente, hostil e, portanto, suspeito, e se manifes-
portanto, das suas doenças, da separação à comunicação global. tou claramente na outra margem do Atlântico quando apareceu a sífilis.
Mesmo antes, na história, as doenças epidêmicas já se haviam di- Proveniente do Novo Mundo, a doença explodiu na Europa pela primei-
fundido de um continente a outro, seguindo os deslocamentos das popu- ra vez em 1495, de forma epidêmica, durante o assédio e a conquista de
lações e a troca de mercadorias, como a peste e o cólera que viajaram Nápoles pelos exércitos franceses de Carlos VIII. Atingiu de modo igual
diversas vezes entre a Ásia e a Europa. Porém, antes de 1492, as muitas os dois exércitos, mas os italianos logo a denominaram mal franzes (ou
condições diferentes determinadas pelo ambiente, pela nutrição, pela em linguagem mais douta morbus gallicus), enquanto os franceses a
organização social e cultural e sobretudo pela presença ou ausência de chamaram mal napolitain. Quando chegou ao Oriente, os japoneses a
germes, de vetores biológicos e de doenças infecciosas, que em todos os definiram como mal português, e assim por diante, a cada vez culpando
lugares eram a principal causa de mortalidade, tinham criado quadros outras nacionalidades. Foram registradas mais 12 diferentes “denomi-
epidemiológicos notavelmente diferentes entre o Velho e o Novo Mun- nações de origem” da sífilis, todas estigmatizantes, provenientes de ou-
do. Nas Américas, por exemplo, não existiam a varíola, o sarampo, a tros tantos povos e países. Quando se começou a intuir que a doença
febre amarela, a malária perniciosa e provavelmente a difteria, a coque- proviesse da América, obviamente não faltou a tendência a atribuir a
luche, a varicela, a febre tifóide, a escarlatina e a gripe. Na Eurásia e na culpa aos índios vitimados pela doença, porque “não tinham conhecido
África não havia a sífilis. a palavra de Cristo”, e aos transmissores dela, porque tinham “hábitos
Também por isso, após 1492, o impacto das novas doenças foi de- particularmente libidinosos”.
vastador, principalmente no continente americano, cujas populações não Antes e também depois da sífilis, aliás, a tendência a inculpar “os
apresentavam nenhuma defesa imunológica contra elas. Essas resistên- outros” pelas epidemias foi uma componente constante da história das
cias imunitárias desenvolveram-se sempre como resultado de longa se- doenças. Os judeus foram acusados como transmissores da peste negra
leção, convivência, lutas e adaptações entre os microorganismos e o hós- na Europa, os irlandeses pelo cólera em Nova York, os italianos pela
pede; apenas em épocas recentes a resistência humana também foi cria- poliomielite no Brooklyn. Enfim, deve-se recordar que a primeira defi-
da como produto da ciência. nição da AIDS, formulada pelo Centro de Controle de Doenças (CDC)
Alguns outros aspectos daquilo que ocorre no Novo Mundo im- de Atlanta, quando identificou a doença, foi “imunodeficiência adquiri-
põem reflexões morais. Estas nascem da simultaneidade e da sinergia da relacionada aos homossexuais” (Gay-related immune deficiency),
entre as doenças, então incontroláveis, e a perda da identidade, da segu- porque os primeiros focos epidêmicos tinham sido observados entre a
rança e do poder das populações americanas, tudo isso causado pelo comunidade gay; posteriormente, a doença foi associada aos haitianos.
extermínio deliberado, pelo trabalho escravo e letal nas minas, pela que- É óbvio acrescentar que as investigações epidemiológicas não podem
bra dos equilíbrios alimentares, pelo colapso psicológico e cultural que negligenciar locais, focos epidêmicos, ambientes e comportamentos que
contribuiu para reduzir a resistência às doenças e provocou até mesmo possam contribuir para a difusão das doenças; mas são justamente os
epidemias de suicídios. mitos que descrevi que dificultam essas pesquisas.
A primeira denúncia da “história mais longa de massacres e devas-
tações que poderia e deveria ser redigida” foi escrita pelo bispo Bartolomé
Primeiro ato: a saúde torna-se internacional
de Las Casas em 1552. As análises mais aprofundadas são aquelas reali-
zadas nas últimas décadas do século XX, como efeito de uma radical Depois da unificação microbiana do mundo transcorreram quase
revisão historiográfica sobre o “equívoco de Colombo”. Ao longo dos três séculos antes que a humanidade (povos, governos, cultura e ciência)
séculos, que separam essas duas datas, o julgamento que prevaleceu foi tomasse consciência dos riscos comuns e começasse a encará-los com
aquele correspondente à tradição da “história escrita pelos vencedores”, um empenho que ultrapassasse as fronteiras. Porém, não foram séculos
pelo menos quanto a dois aspectos. Um deles está na ênfase quase ex- obscuros, mesmo porque desde o século XVII já começara a afirmar-se
clusiva sobre as doenças, verificada em todos livros, manifestando a o valor do conhecimento científico e da experimentação. No século
tendência a encobrir as outras causas de extermínio, provocadas e em XVIII, reconheceu-se que “salvar as almas não é mais o único dever das
razão das culpas humanas. O outro consiste em subestimar as perdas de- famílias e das autoridades civis e religiosas. Salvar os corpos é um com-
mográficas ocorridas no continente americano. A cifra global da queda promisso igualmente importante”, e foram feitos grandes avanços no

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sentido de reconhecer que “a competência sobrenatural do juiz das al- Todavia, apenas depois de quarenta anos e muitas conferências conse-
mas, teólogo e confessor, pai espiritual e exorcista” deveria ser “substi- guiu-se atingir (VII Conferência, Veneza, 1892) um limitado acordo para
tuída pelo juízo natural sobre os influxos mórbidos da alma sobre o cor- impor a quarentena aos navios que chegavam à Europa vindos do Orien-
po e pela competência do médico”. Porém, apenas no século XIX, fo- te. Uma das razões dessa lentidão foi a oposição, principalmente ingle-
ram verificados os três pressupostos indispensáveis a qualquer ação efi- sa, a qualquer regra que pudesse obstaculizar o comércio.
caz contra as doenças: a) o conhecimento das suas causas; b) a O tema do conflito entre o livre mercado e o controle sanitário, isto
individuação de recursos preventivos e terapêuticos; c) a vontade de agir é, da prioridade entre o valor do lucro e o valor da saúde, já havia sido
contra as doenças no âmbito internacional. tratado na Toscana renascentista e estava destinado a reapresentar-se de
Essa possibilidade tivera uma primeira confirmação já no final do maneiras sempre novas, resolvendo-se com o prevalecimento de um ou
século XVIII, com o início da difusão mundial da inoculação preventiva outro interesse ou então com acordos mais ou menos razoáveis. A outra
da varíola contra as suas formas mais violentas. Essa era praticada já há razão do atraso em adotar medidas antiepidêmicas internacionais foi a
tempos na Ásia, com o uso da serosidade extraída de pústulas variólicas contenda científica entre a teoria dos miasmas e a teoria do contágio, as
já curadas. A prática veio ao conhecimento da Europa pela Turquia, onde duas hipóteses científicas sobre a origem e a disseminação das epidemi-
as curandeiras empíricas conseguiam provocar a doença nas crianças de as que disputaram terreno até os últimos anos do século XIX. Quando
forma atenuada, criando nelas uma imunidade permanente. Também para foi formado o Office International d’Hygiène Publique, com sede em
a América, o mesmo conhecimento empírico fora trazido pelos escra- Paris (1907, com a concordância de 23 nações européias), a descoberta
vos, que o haviam conhecido na África. Entretanto, a vacinação apenas dos microorganismos como agentes infecciosos já havia solucionado essa
se difundiu pela Europa, e depois para o mundo, quando Jenner, tendo contenda.
também aproveitado a experiência popular feminina, a reinventou e a Quando a tese do contágio (que já havia sido sustentada por Girolamo
aperfeiçoou; e quando, após ter promovido a experimentação com presi- Fracastoro em 1546, com o seu livro De contagione et contagiosis morbis
diários e crianças órfãs, a família real inglesa aceitou ser inoculada e e a sua hipótese dos germes, definidos como seminaria prima) triunfou
divulgar a prática. graças a Pasteur, Koch e outros cientistas, o debate científico entrela-
Dentre as razões pelas quais a vacinação empírica difundira-se tão çou-se quase que imediatamente com as escolhas a serem feitas na polí-
tardia e lentamente na Europa, duas merecem uma reflexão. Uma con- tica sanitária, e essas com as diversas orientações morais. Um dos temas
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siste na “cegueira epistemológica” e na arrogância profissional dos mé- mais controversos (e ao se substituir a palavra micróbio pela palavra
dicos europeus, que julgavam não ter nada a aprender com pessoas que gene reporta-se à atualidade) foi a influência relativa dos micróbios, do
os seus preconceitos induziam a considerar como três vezes subdesen- meio ambiente, da natureza e da cultura na origem e na disseminação
volvidas intelectualmente: porque mulheres, porque curandeiras e por- das doenças. Houve na Itália, por exemplo, ásperas polêmicas entre dois
que turcas. A outra está no debate teológico sobre o próprio princípio da grandes estudiosos da malária, Giovanni Battista Grassi e Angelo Celli:
vacinação: de um lado, aqueles que se opunham a ela porque contrariava o primeiro tendia a reduzir o ciclo patogênico da doença à equação ho-
os desígnios da providência divina, único árbitro da vida, da doença e da mem doente + anófeles = malária, enquanto o segundo acrescentava a
morte. A isso acrescentava-se um duplo “agravante específico”: o fato esta equação outros fatores que são determinantes na epidemiologia da
de que o remédio era uma invenção dos turcos infiéis, aperfeiçoada e malária, como as condições de vida e de trabalho, a água, a nutrição, a
difundida na Europa pelos médicos da Inglaterra protestante. Do outro instrução; e afirmava que para combater a doença era necessária a parti-
lado, aqueles que a justificavam, também em nome de Deus. Na Itália, cipação de pelo menos três pessoas: o médico, o encanador e o profes-
teve muita repercussão o parecer de três conhecidos teólogos toscanos, sor. Como observou Bernardino Fantini, a equação de Grassi era válida
os quais sustentavam que quem desafiava Deus eram aqueles que rejei- quanto à causalidade específica da malária, mas em relação ao sucesso
tavam a vacinação, pondo em risco a vida dos homens; e afirmavam que contra a endemia não podiam ser ignoradas as indicações de Celli.
o Senhor ensina a aceitar serenamente da sua mão as doenças, mas não Outro tema controvertido, que nos reporta diretamente à saúde glo-
proíbe de acautelar-se contra elas. A batalha desenrolou-se usando tam- bal, nasce dos resultados insatisfatórios da decisão de criar barreiras de
bém a arma das citações bíblicas: “Non tentatibis Dominum Deum controle, destinadas a conter a chegada de epidemias exóticas na Euro-
vostrum” contra “Honora medicum propter necessitatem, etenim illum pa. Identificou-se, como escreveu Fantini, a exigência de “repensar o
creavit Altissimus”; e a medicina, felizmente, venceu a partida. Posteri- conjunto das estratégias defensivas contra as doenças epidêmicas. Já
ormente, na encruzilhada entre a afirmação de que doenças e sofrimen- não bastava proteger as fronteiras dos países ocidentais ou os assenta-
to são um dom do Senhor e a vontade de utilizar a ciência médica para mentos dos colonos brancos contra os riscos de invasão”. Em 1896,
socorrer os aflitos, depois de muita discussão, a Igreja Católica Robert Koch falou à Sociedade Alemã para a Saúde Pública, critica-
freqüentemente elegeu a via mais humanitária, baseando-se na tradição mente, sobre as orientações destinadas a impedir a difusão do cólera
de beneficência e contribuindo para difundir sentimentos e práticas de mediante os cordões sanitários: “Sou da opinião que esses esforços in-
solidariedade. ternacionais sejam totalmente supérfluos, dado que a melhor proteção
A época de maior progresso na luta contra as doenças epidêmicas internacional seria que cada Estado fizesse aquilo que nós fazemos, ou
foram as décadas entre os séculos XIX e XX. Descobriram-se muitos seja, pegar o cólera pelo pescoço e aniquilá-lo para sempre”. Poucos
micróbios, os agentes de infecções letais como a tuberculose, a peste e o anos depois, Angelo Celli observava, nas suas Lições de higiene, que
cólera, assim como foram comprovados os canais da sua transmissão desde os tempos da primeira Conferência Sanitária Internacional a in-
por meio de artrópodes vetores ou alimentos e água contaminados. Fo- tenção limitava-se “a impedir a importação da peste bubônica e do cóle-
ram introduzidos soros e vacinas. Muitas cidades foram saneadas. Vota- ra”, doenças causadas por germes que não eram normalmente presentes
ram-se leis para reduzir a jornada de trabalho de 12/14 horas para 8, dar nos nossos territórios: “Os conceitos predominantes na epidemiologia
garantias às mulheres grávidas, impor limitações aos trabalhos dos me- do cólera eram muitos, diferentes dos atuais: tinha-se uma grande confi-
nores. Formou-se a idéia de que, mesmo sendo o livre mercado um fator ança em poder manter o cólera distante fechando as fronteiras dos Esta-
decisivo para o progresso econômico, algumas coisas não poderiam sujei- dos, levantando em terra e no mar barreiras de quarentena que alguns
tar-se inteiramente a ele: os seres humanos, antes de mais nada, pois de países, tomando ao pé da letra, prolongavam por quarenta dias. Depois,
outro modo a segurança e a dignidade de todos seriam comprometidas. viu-se que isso é perfeitamente inútil”.
Nessa base, foram formuladas as regras universais contra a escravidão e, É interessante recordar, como exemplo de interesses contrastantes
posteriormente, as leis nacionais sobre o trabalho. Proliferaram os segu- que podem convergir a favor da saúde, que entre o final do século XIX e
ros sociais e outras formas coletivas de proteção à saúde, promovidas ou o início do século XX, em vários continentes, muitas descobertas de
garantidas pela ação dos Estados. Enfim, firmaram-se acordos entre na- agentes biológicos e de vetores de doenças epidêmicas foram feitas por
ções contra a transmissão de doenças de uma parte do mundo a outra. médicos coloniais ou por comissões científicas militares que trabalha-
A primeira tentativa nessa direção foi feita com a Conferência Sani- vam após as ocupações realizadas pelos exércitos: no norte da África, o
tária Internacional de 1851, à qual estiveram presentes onze países euro- plasmódio da malária (Laveran, 1880); na China, o micróbio da peste
peus mais a Turquia, quando ainda conheciam-se apenas a distribuição (Yersin, 1894); na Índia, o papel das pulgas e dos ratos na transmissão
geográfica e a alta capacidade letal das epidemias mais graves (cólera, dessa doença; na América Central, o papel do mosquito Aedes aegypti
peste e febre amarela), ao passo que a etiologia e a transmissão perma- (já assinalado pelo cubano Carlos Finley em 1891) como vetor da febre
neciam ignoradas. A vontade de agir precedeu assim a certeza científica. amarela, na época da abertura do canal do Panamá.

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Tais pesquisas caracterizam o nascimento da medicina colonial (que racial”. Deve-se, também, ter consciência da influência que exerceram,
depois foi renomeada tropical), cuja entrada na Inglaterra foi promovi- no sentido de obrigar a conversão a essa segunda opção, os movimentos
da por Patrick Manson, que na Índia demonstrara (1878) o papel do sindicais e políticos dos trabalhadores, que produziram um efeito duplo:
mosquito Culex pipiens na transmissão da elefantíase: a primeira certe- promover diretamente uma maior salubridade do trabalho e um amplo
za (seguida depois por muitas outras) da função dos insetos na transmis- acesso aos serviços de saúde, e estimular, pelo medo de reações revolu-
são dos microorganismos. Esse capítulo da história da medicina, como cionárias, a orientação dos governos para a criação de sistemas de segu-
escreve David Arnold, também foi analisado rança social. Também nesse caso, agiram beneficamente motivações e
interesses divergentes. O resultado não foi apenas um tênue compromis-
de acordo com a tendência a ver a história apenas do ponto de so, mas sim um estímulo forte para o melhoramento da vida humana e a
vista dos colonizadores e a ignorar a experiência dos colonizados criação de um senso moral comum em torno do valor intrínseco e do
(…) como uma história dos sucessos das raças brancas contra um valor nobremente instrumental da saúde.
cenário não apenas de graves doenças e ambientes hostis, mas tam- É dentro desse quadro que nasce a Organização Mundial da Saúde.
bém de ignorância, superstições e inércia dos nativos. As instituições que a precederam tinham surgido essencialmente para
defender o norte rico do mundo das doenças importadas dos países po-
Porém, não há dúvidas de que, além do desejo de conhecer, as pesquisas
bres do leste e do sul. Por outro lado, a proposta de criar não mais uma
sobre doenças tropicais foram incentivadas pelo fato de que as doenças
agência, mas uma organização mundial, não veio dos países desenvolvi-
atingiam os exércitos e os colonos e não apenas as populações locais, e
dos e sim do Brasil e da China, com a finalidade de solicitar uma ação
novos conhecimentos eram indispensáveis para estabilizar a exploração
global e com o argumento que as armas da ciência não podem ser
e estendê-la às zonas internas dos continentes, após a ocupação das áre-
patrimônio apenas dos países desenvolvidos. A isso soma-se a idéia-
as costeiras. De fato, Arnold mostra que ao início da ocupação procu-
força, comum naquela época, de que a saúde é uma condição prévia para
rou-se criar para as tropas e os colonos, com a mesma idéia do “cordão
a paz, imperiosa dadas as conseqüências da guerra em termos de doen-
sanitário”, nichos residenciais que estivessem resguardados das epide-
ças, fome e sofrimento das populações arruinadas e, mais ainda, susten-
mias; e Milton Roemer acrescenta, no que se refere à assistência, que na
tada pela consciência de que existiam novas possibilidades de transfor-
África “os serviços médicos eram considerados necessários apenas para
mar a necessidade de saúde em direito.
proteger os europeus (…) [os serviços] não foram estendidos à popula-

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A organização foi denominada mundial em vez de internacional
ção africana a não ser depois da Primeira Guerra Mundial”. Certamen-
como uma forma de mostrar que não era apenas o resultado de um acor-
te, contudo, durante o longo período, muitos outros e, às vezes, popula-
do entre Estados, mas principalmente uma exigência dos povos; e esta-
ções inteiras, foram beneficiados tanto pelas descobertas científicas como
beleceu como finalidade a saúde e, não apenas as atividades sanitárias
pelas medidas preventivas e pelas redes assistenciais, mais ou menos
em sentido estrito. Assim, acentuou-se o empenho global e ressaltou-se
rapidamente e de maneiras mais ou menos universais. A proteção à saú-
que o melhoramento da saúde não depende apenas da medicina, e que é
de humana começou assim a ser considerada, desde as primeiras déca-
preciso pôr em jogo “todos os fatores de melhoramento físico e psíquico
das do século XX, uma tarefa da política e um objetivo da comunidade
dos indivíduos e dos povos”, como afirma o estatuto da OMS. As suas
internacional.
tarefas foram notavelmente ampliadas e passaram a compreender a luta
contra velhas e novas doenças, a nutrição, a infância, as vacinas e os
Segundo ato: afirma-se o direito à saúde
fármacos, a saúde pública. Os pontos mais altos da atividade da OMS,
A saúde começou também a ser considerada como um direito. Isso nos quais essa adquiriu prestígio como “sujeito moral” e como patroci-
ocorreu, como proclama e freqüentemente como realidade, no clima de nador autorizado da saúde global, foram provavelmente dois: a campa-
esperança e de fervor que se seguiu à conclusão da Segunda Guerra nha contra a varíola, uma doença que em 1967 ainda era endêmica em
Mundial. Esse direito foi sancionado em muitas constituições e, na Itá- trinta e um países e afligia de 10 a 15 milhões de pessoas, e que foi, pela
lia, com a incisiva formulação “direito fundamental do indivíduo e inte- primeira vez na história das infecções humanas, completamente
resse da coletividade” (artigo 32). E esteve na base do ato constitutivo erradicada; e a Conferência de Alta Ata (1978), que numa polêmica con-
da OMS, assinado em 7 de abril de 1948. tra o predomínio das altas tecnologias médicas lançou com argumentos
Discute-se, do ponto de vista histórico, se tal direito nasceu já no século convincentes e com uma forte motivação moral a centralização dos cui-
XIX como uma extensão dos direitos de primeira geração, isto é, dos direi- dados primários com a saúde (primary health care), a ser estendidos por
tos “negativos” do cidadão tendentes a limitar o arbítrio do poder, como todo o mundo, como síntese entre prevenção, nutrição adequada, dispo-
uma espécie de “cidadania sanitária” protegida do ataque das doenças epi- nibilidade hídrica, assistência à infância, vacinações, controle das doen-
dêmicas; ou então se pertence aos direitos de segunda geração, os direitos ças localmente endêmicas, tratamentos adequados, fármacos essenciais.
sociais, para cuja aplicação o poder deve agir intervindo com ações positi- Como resultado de fatores múltiplos, do clima político e moral que
vas em vez de simplesmente furtar-se a realizar ações coercitivas. prevaleceu sobretudo depois de 1945 e da independência conquistada
Na verdade, foram muitas as motivações e os argumentos que con- por muitas nações, no século XX, houve, pela primeira vez, uma regres-
tribuíram para o seu reconhecimento, antes mesmo que juristas e filóso- são estável dos flagelos “eternos” da humanidade e um melhoramento
fos o interpretassem e o legitimassem. Segundo Roy Porter, nas nações muito profundo dos níveis de saúde, e acelerou-se a jornada para um
industriais afloraram duas idéias. Uma era que notável aumento da expectativa de vida da espécie humana. Esse fato,
mesmo tendo ocorrido de maneira bastante diferenciada no tempo his-
o funcionamento harmonioso e eficiente de complicadas economi- tórico e no espaço geográfico do globo, mantendo iniqüidades substan-
as de produtores e consumidores exigisse uma população que fosse ciais entre os povos, os gêneros e as classes, representa indubitavelmente
saudável e capaz de ler e escrever, qualificada e respeitadora das um extraordinário progresso social e biológico do século XX. Todos
leis; e nas democracias em que os trabalhadores eram também elei- sabem que tal século comportou duas guerras mundiais, inumeráveis
tores, o amplo desenvolvimento dos serviços de saúde tornou-se guerras locais, genocídios e violências. Mas também é válido o julga-
um dos meios para arrebatar os descontentes, mento de Toynbee:
impedindo-os de escolher rumos arriscados. A outra idéia era a de que O século XX não será lembrado apenas como uma época de confli-
“prevenir fosse melhor que corrigir; muito melhor determinar antes o tos políticos e de inovações técnicas, mas principalmente como o
que tornava as pessoas doentes e depois — guiados pela estatística, pela período no qual a sociedade humana ousou pensar na saúde de toda
sociologia e pela epidemiologia — tomar medidas capazes de construir a espécie humana como num objetivo prático atingível.
uma saúde positiva”.
Deve-se acrescentar que essas idéias freqüentemente foram uma
segunda escolha, uma reconsideração, após uma revolução industrial que Terceiro ato: a globalização dos riscos
fora acompanhada por formas selvagens de exploração e após as ten- Mesmo assim, não estou seguro de que as últimas décadas serão
dências eugênicas hostis ao progresso da saúde pública e da saúde para lembradas do mesmo modo. Essa sensação deriva, antes de mais nada,
todos, pela idéia de que “a medicina preventiva estava salvando os fra- dos fatos: do fim de muitas esperanças, da retração do progresso sanitá-
cos ao mesmo tempo em que os robustos, conduzindo assim ao suicídio rio, do crescimento das diferenças e da iniqüidade na área da saúde e no

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grau de segurança, tanto entre as nações como no interior de grande Espongiforme Bovina (BSE, a doença da vaca louca) difundiu-se na
parte delas. Os indicadores globais da saúde ainda registram alguns pro- população humana da Grã-Bretanha e depois se espalhou para outros
gressos, mas poder-se-ia dizer que o problema bioético mais premente lugares, simplesmente porque os criadores alimentaram as vacas com
consiste agora na contradição entre dois fenômenos: nunca houve tanta carne, vísceras e miolos de ovinos, transformando por ganância nobres
saúde no mundo, tantos conhecimentos seguros e soluções possíveis, herbívoros em carnívoros e abrindo a via de transmissão interespecífica
tantas doenças e mortes preveníveis, evitáveis e curáveis. Ao mesmo dos príons, que assim realizaram um “duplo salto de espécie”: dos ovi-
tempo, existe uma escassa intenção de usar conhecimentos e soluções nos para os bovinos e desses para o homem. Além disso, os interesses
no interesse de todos. comerciais levaram a esconder o risco e a obstar a prevenção. A tubercu-
Isso contribui para explicar por que, enquanto o final do século XIX lose aumenta não apenas porque é uma infecção oportunista que atinge
vivenciou uma onda até mesmo exagerada de otimismo graças às gran- os doentes de AIDS, mas, também, porque crescem a pobreza e a
des descobertas médicas e aos primeiros resultados na luta contra as marginalidade urbana, as carências alimentares, o trabalho infantil, o
epidemias, o final do século XX foi caracterizado por perplexidade e até uso impróprio e indiscriminado de fármacos antibióticos que provocam
mesmo por pessimismo, sobretudo após a falência do incauto slogan a seleção e a disseminação mundial de bactérias resistentes aos medica-
lançado pela OMS nos anos 1980: “Saúde para todos em 2000”. Certa- mentos. A persistência de doenças microbianas e parasitárias, como a
mente, não contribuiu para sua credibilidade e nem para elevar os âni- malária, deve-se também à carência de investimentos na pesquisa de
mos a decisão da OMS, chegado o ano 2000, de relançar o slogan pror- vacinas. As somas à disposição dos pesquisadores estão na proporção de
rogando o prazo para 2020 e prometendo “Até o século XXI!”; salvo em um para cem, se confrontadas as despesas com a malária e com a AIDS:
caso de novo adiamento após essa data. a única explicação para essa diferença é que a AIDS pode matar ricos e
Uma razão igualmente forte para essa inversão de ânimos sobre as pobres, enquanto a malária ataca quase somente os pobres. E as viagens
perspectivas da saúde no mundo está provavelmente numa percepção de internacionais? Não acontecem apenas por turismo, cultura ou necessi-
que se vive numa época de crescente globalização de riscos; essa per- dade de trabalho. Nos últimos dez anos, 50 milhões de homens, mulhe-
cepção é bastante disseminada, mas vaga porque está ofuscada pela in- res e crianças precisaram deslocar-se de um país a outro como resultado
sensibilidade, a desinformação ou a espera quase miraculosa dos suces- da fome, de desordens civis, golpes de estado e guerras: tragédias que
sos da medicina (todos os DNAs serão restaurados com a terapia genéti- sempre foram, na história, preliminares de doenças.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ca, todos os órgãos lesados serão substituídos por uma peça de reposi- No quadro evolutivo da espécie, assim como os seres humanos sem-
ção, e promessas em diante). Tal ramo da globalização parece hoje cada pre tenderam a colonizar novos territórios, os germes que podem causar
vez mais claro. Embora outros pudessem ser acrescentados, enquadrei doenças (sejam bactérias, vírus, príons, protozoários ou metazoários)
em quatro campos os principais riscos potenciais e danos atuais à saúde têm um irrefreável impulso endógeno de colonizar novos hóspedes. Hans
e à integridade individual e coletiva; trata-se de doenças ou “patologias Zinsser, num livro curioso e precursor intitulado Ratos, piolhos e histó-
sociais” que produzem conseqüências nocivas ao ser humano: a recru- ria, publicado em 1934, escreveu:
descência de antigas infecções e o aparecimento de novas; as implica-
ções da degradação ambiental para a saúde; a universalização das dro- Por mais que a vida civilizada possa tornar-se segura e bem controla-
gas; as violências destrutivas e autodestrutivas. da, bactérias, protozoários, vírus, pulgas infectadas, piolhos, carrapa-
tos, mosquitos e percevejos estarão sempre emboscados na sombra
Antigas e novas infecções para saltar sobre as presas quando negligência, pobreza, fome ou guerra
reduzem as defesas. E mesmo em tempos normais eles atacam os
A extraordinária redução da mortalidade por doenças infecciosas pobres, os mais jovens e os mais velhos, vivendo ao nosso lado numa
em todos os países e em todas as idades alimentara, nas últimas décadas, obscuridade misteriosa, esperando a sua oportunidade.
a esperança de um mundo sem epidemias. Infelizmente, a persistente
vulnerabilidade das populações diante dos micróbios e dos vírus foi de- O fato de que por um longo tempo os comportamentos, conhecimentos
monstrada, nos anos 1970 e 1980, pelo aparecimento e identificação do científicos, medidas preventivas e políticas sociais tenham obstado a
vírus da AIDS, que se disseminou rapidamente por quase toda parte. Foi sua tendência invasiva (mostrando assim que as leis da natureza ou a
então que, como escreveu Laurie Garrett num livro que fala dos riscos punição divina não eram subjacentes às doenças causadas ou veiculadas
de futuras pestes, “os limites e os imperativos da globalização da saúde por eles), e que agora, contrariamente, a realidade biossocial e as ações
tornaram-se evidentes, num contexto mais amplo que o das vacinações e e omissões humanas levem ao crescimento das suas oportunidades de
do controle das diarréias da infância”; foi então que se fizeram eviden- agredir o ser humano, traz inquietantes interrogativas morais sobre a
tes “as hipocrisias, as crueldades, as falências e inadequações das sacras responsabilidade de cada um.
instituições da humanidade, incluídos o establishment médico, a ciên-
Fonte: BERLINGUER, Giovanni. Bioética cotidiana. Brasília: Editora
cia, as religiões organizadas, os sistemas da Justiça, as Nações Unidas e Universidade de Brasília, 2004.
os governos de todas as orientações políticas.”
Depois da AIDS, foram identificados outros 29 vírus e bactérias
capazes de disseminar-se globalmente, mas que, até agora, permanecem
SEXUALIDADE
felizmente circunscritos a algumas áreas. Foi constatada a transmissão
intercontinental de doenças que eram consideradas persistentes apenas Sexualidade é o conjunto de caracteres próprios de cada sexo, que
em alguns países, como o cólera, que reapareceu depois de quase um se expressa e é visível de acordo com a construção cultural e as possibi-
século na América Latina. Acirrou-se a endemização da malária, que a lidades de orientação sexual. A sexualidade existe e se realiza no corpo
cada ano faz milhões de vítimas na África e em outras áreas do hemisfé- humano, logo está relacionada a todos os aspectos da vida humana.
rio sul, e que se estendeu até o estado da Virgínia, nos EUA. Verifica- Quase todas as sociedades ditas civilizadas têm encarado a sexuali-
ram-se uma recrudescência e uma maior virulência de micróbios como dade como um aspecto muito importante da vida social, a ponto de o
Mycobacterium tuberculosis, com um aumento dos casos também na exercício da sexualidade ser cercado de “ritos de passagem”, de tabus e
Europa e nos Estados Unidos. ser alvo de regulamentações.
A explicação mais freqüente desses fenômenos refere-se ao aumen- A sexualidade feminina através dos tempos recebeu duas formas de
to exponencial e à rapidez dos deslocamentos de homens e mulheres em tratamento, ambas discriminatórias e reforçadoras da inferioridade da
todas as partes do mundo. É uma verdade que príons, vírus, micróbios e mulher:
parasitas viajam sem passaporte e sem visto pelas fronteiras, uma verda- • reafirmação da sexualidade masculina (mulher como parte ou ins-
de que já fora enunciada pelo historiógrafo Henry Sigerist em 1943, já trumento da satisfação masculina);
então acompanhada de uma advertência: “Desde quando o mundo tor-
• negação da sexualidade feminina como fonte de prazer e sua afir-
nou-se menor como conseqüência dos atuais meios de comunicação (…)
mação como prática necessária apenas à procriação/“reprodução”
a solidariedade humana na área da saúde não pode ser negligenciada
da espécie.
impunemente”.
Mas existem outras razões, sem as quais não se explicaria o surgi- Tais maneiras de tornar pública a sexualidade evidenciam a forma di-
mento ou o recrudescimento atual de muitas doenças. A Encefalopatia ferenciada como historicamente mulheres e homens vêm sendo tratados:

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utilizou-se uma diferença biológica para construir uma desigualdade so- b) Métodos naturais
cial que perdura até nossos dias. São aqueles que se baseiam no conhecimento da fisiologia do orga-
A heterossexualidade tem sido apresentada como a “face normal” nismo feminino (maturação de óvulos) e do masculino (produção de
das relações sexuais, e o menino é estimulado a exercitá-la desde a mais espermatozóides), ou seja, no conhecimento do “ritmo” do organismo
tenra idade. Quando adulto, espera-se que ele seja “um macho que goste humano. Consistem sobretudo em saber como e quando ocorre a ovula-
de fêmeas”. O exercício da sexualidade feminina é reprimido em todas ção e impedir que aconteça a fecundação.
as idades e em quase todas as culturas. Talvez seja essa a origem do Os métodos naturais estão agrupados em dois tipos:
medo que as mulheres em geral têm de falar sobre “sexo” e das dificul- 1. Teoria/Método do ritmo. Consiste na abstinência sexual nos dias
dades em buscar e em sentir prazer. Parece que essas têm sido as “re- do ciclo menstrual nos quais a probabilidade de fecundação é maior, ou
gras” da “civilização”. seja, no período da ovulação. Subdivide-se em: método da tabela, méto-
Embora esteja comprovado que a homossexualidade feminina e a do da temperatura basal do corpo e método do muco cervical.
masculina não são doenças, elas ainda são vistas com reservas. Existe 2. Outros métodos “naturais”:
até uma “pontinha” de esperança de que haja um “tratamento”, ou pelo • Coito interrompido. Interrupção da relação sexual antes da
menos a “redescoberta” de que a homossexualidade seja mesmo uma ejaculação.
doença. • Aquecedor dos testículos. O calor atua como contraceptivo mas-
Desde a descoberta de que o ato sexual gera prole, a sexualidade culino, pois afeta a produção de espermatozóides. A temperatura
feminina e a procriação passaram a ser consideradas fenômeno único e do saco escrotal é sempre mais baixa que a do restante do corpo,
indissociável. Essa visão foi reforçada pelas religiões, sobretudo as cris- a ponto de, naturalmente em temperaturas elevadas, os testículos
tãs, e a católica em especial. A vinculação entre sexualidade e a se afastarem e, no frio, se aproximarem do corpo. Por dificulta-
obrigatoriedade de sempre gerar prole concorre para manter a opressão rem esse movimento de defesa natural, vestimentas que apertem
da mulher, impedindo-a de decidir sobre o seu corpo, de exercitar sua ou comprimam essa região são contra-indicadas.
sexualidade em plenitude e de ter direito ao prazer (relação sexual com
• Amamentação. O ato de amamentar funciona como um método
fins lúdicos).
contraceptivo, pois enquanto a mulher está aleitando em geral há
Da década de 1960 para cá, chegou-se realmente à possibilidade

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
supressão do estímulo da hipófise para o ovário, e em tais condi-
de SEPARAR sexualidade de procriação/“reprodução”, via métodos
ções a ovulação não acontece.
contraceptivos modernos, “eficazes”. Essa possibilidade colocou para
as mulheres situações novas e conflituosas, em particular na área de c) Métodos hormonais
saúde (os métodos são inócuos?) e sobre “o que fazer com essa tal Consistem na utilização de hormônios sexuais sintéticos para impe-
liberdade”. dir a ovulação e, por decorrência, a concepção. Em outras palavras, são
É importante destacar que existe o desejo das mulheres de controlar um mecanismo que “tapeia” o organismo feminino para suprimir a ovu-
a fecundidade. A prova disso é que hoje são raras as que “aceitam” pas- lação. A elaboração desse mecanismo foi simples para os cientistas. Co-
sivamente parir “até quando Deus quiser”, isto é, até que seus óvulos nhecedores da fisiologia do organismo feminino, imaginaram uma ma-
acabem. Há uma demanda real por um “jeito” que permita à mulher não neira que impedisse a hipófise de estimular os ovários a desencadear a
engravidar quando não quer! ovulação mensal, para que assim se evitasse a gravidez. É isso que a
Em face de tudo isso, urge que compreendamos que há uma conver- pílula hormonal faz, pois utiliza hormônios similares aos que os ovários
gência de desejos: a aspiração das mulheres (de controlar a sua secretam normalmente. Assim, o setor da hipófise que secreta os esti-
fecundidade) e a imposição da sociedade (de controlar a natalidade) para mulantes dos ovários fica desativado. A mulher não se ressente dessa
determinados agrupamentos humanos. O que é ético é questionar até inatividade de parte da hipófise e dos ovários, pois os hormônios sinté-
que ponto hoje em dia o conteúdo das aspirações das mulheres é influ- ticos suprem a “cota hormonal”, mas… e depois? Hipófise e ovários,
enciado e/ou determinado pelo aumento da consciência do direito à au- após longos períodos de repouso forçado, readquirem a capacidade de
todeterminação e até onde as pressões da sociedade capitalista induzem funcionar?
ou anulam as aspirações libertárias. Os contraceptivos hormonais possuem ainda a capacidade de en-
A verdade é que, por outros motivos que não os desejos das mulheres, grossar o muco cervical (para dificultar a motilidade do espermatozóide)
o capitalismo respondeu a uma demanda delas. Essa é a razão pela qual o e afinar o revestimento do útero para que, mesmo ocorrendo a fertiliza-
mercado de contraceptivos sempre será muito rentável e terá consumi- ção, o ovo não consiga se implantar e se desenvolver.
doras(es) fiéis, mesmo arriscando-se a saúde e até a própria vida. No caso do organismo masculino, os contraceptivos hormonais atu-
am impedindo a produção de espermatozóides ou destruindo-os.
A procriação humana Atualmente, os métodos hormonais existem nas seguintes apresen-
Procriar é gerar um ser semelhante. Historicamente a procriação tações:
humana apresenta duas dimensões de desejos contraditórios: a vonta- • contracepção oral: pílulas;
de de ter e a de não ter uma prole, em dado momento da vida. Para • injeções de progesterona;
contemplar as faces diferentes dessa aspiração, a humanidade viabilizou • implantes subcutâneos;
a concepção e a contracepção artificiais. Ambas possuem histórias in- • anéis vaginais;
teressantes e reveladoras do quanto são insondáveis os conflitos do
• DIU hormonal;
agir humano.
Não conceber quando não se desejar fazê-lo é um sonho muito an- • vacina antifertilidade, cujo objetivo geral é produzir a infertilidade
tigo das mulheres. Talvez por essa razão o aborto seja uma prática milenar temporária mediante a “reorientação” do sistema imunológico,
em todas as sociedades estudadas até hoje. para atuar contra a produção de espermatozóides (vacina mascu-
lina) e/ou a maturação dos óvulos, ou de hormônios da gravidez
• Contraceptivos contemporâneos (vacina feminina). Não podemos deixar de assinalar que a vacina
Os contraceptivos estão agrupados em três métodos principais: de antifertilidade é uma abordagem distorcida da gravidez, como se
barreira, naturais e hormonais. ela fosse uma doença contra a qual as mulheres precisassem ser
a) Métodos de barreira imunizadas;
Consistem em artefatos que impedem fisicamente a passagem do • RU-486, molécula antiprogesterona que possibilita a interrupção
esperma para o útero e em produtos químicos que objetivam destruir os da gravidez a partir do oitavo dia. Trata-se de uma substância
espermatozóides, associados a uma base de substância espessa que di- química abortiva, logo, conceitualmente não é um método
minui a motilidade dos espermatozóides e assim impede sua passagem. contraceptivo, pois não impede a concepção; atua após a concep-
Esses métodos existem na forma de espumas, geléias, cremes e suposi- ção. Sua ação acontece via bloqueio da taxa normal de progeste-
tórios. São comercializados sob a forma de espermicidas ou esperma- rona uterina secretada e por aumento das prostaglandinas natu-
ticidas, esponja contraceptiva vaginal, diafragma, capuz cervical, cami- rais — substâncias que agem naturalmente na estimulação das
sa-de-vênus ou condom, e DIU (dispositivo intra-uterino). contrações uterinas durante o trabalho de parto; e

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• pílula do homem, que inibe a produção de espermatozóides ou os A razão mais evocada para esta prática é o fato de elas não quere-
incapacita para a fecundação (por exemplo, diminuindo sua rem ter mais filhos. (…) A falta de programas públicos de saúde
motilidade). sexual e reprodutiva que ofereçam um repertório de métodos anti-
concepcionais e as dificuldades para adquirir pílulas, preservativos
• Algumas palavras sobre a esterilização cirúrgica
ou outros métodos reversíveis acabam por colocar as mulheres frente
A esterilização é um procedimento que torna as pessoas estéreis a uma encruzilhada: ou fazer a laqueadura, ou provocar o aborto, ou
(incapazes de procriar), por meio de métodos químicos ou cirúrgicos. A prosseguir com uma gravidez indesejada. Daí a opção pela
esterilização cirúrgica masculina chama-se vasectomia, e a feminina é anticoncepção cirúrgica. Mesmo sabendo da irreversibilidade de tal
conhecida como laqueadura, ligadura ou ligação das trompas. A prática, 50% destas mulheres foram esterilizadas antes dos 30 anos
vasectomia consiste no bloqueio dos canais deferentes (que carregam o de idade.
sêmen). A laqueadura é uma operação realizada nas trompas com a fina- Entre a satisfação, o desejo, e a satisfação de um desejo, no
lidade de evitar o encontro do espermatozóide com o óvulo. campo dos direitos reprodutivos, há sempre um longo caminho a
Outras cirurgias podem produzir efeito esterilizador, como a percorrer. Recursos disponíveis, livres de discriminação, permiti-
prostatectomia (extração da próstata) e a histerectomia (extração do úte- rão que escolhas informadas dêem às mulheres — negras e brancas
ro), embora, usualmente, não seja a esterilização a principal indicação — possibilidades de satisfazer seus desejos.
dessas cirurgias.
Muitas pessoas, incluindo juristas, consideram a laqueadura e a Fonte: OLIVEIRA, Fátima. Bioética – Uma face da cidadania. Coleção
Polêmica. São Paulo: Moderna, 2004.
vasectomia como lesões corporais, porque elas encerram a função
reprodutiva definitivamente. Atualmente existem técnicas para recanalizar
os canais deferentes e as trompas; isso, porém, não é possível em todos
os casos, pois a reversão depende muito do grau de lesão causado pela
POR QUE CLONAR SERES HUMANOS?
técnica usada para a esterilização. Além disso, são procedimentos ainda
muito caros, não acessíveis a todas as pessoas que, arrependidas, dese-
jam voltar a procriar naturalmente. Clonar humanos é possível?
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

São muitos os fatores que levam uma mulher a se esterilizar, desde Em 1993 dois médicos americanos, especialistas em reprodução as-
a opção livre e consciente até a necessidade econômica ou os problemas sistida, anunciaram a bipartição de um embrião humano — a geração de
de saúde. De acordo com esses fatores, a esterilização feminina pode ser gêmeos idênticos pela “força bruta”, como feito em gado desde a década
classificada em: de 1980. Apesar de ter sido somente um teste e os embriões humanos
• voluntária — quando a mulher opta por encerrar definitivamente bipartidos não terem sido implantados no útero de uma mulher, essa expe-
a sua vida reprodutiva, apesar de conhecer outros métodos riência causou uma enorme comoção nos Estados Unidos. Pela primeira
contraceptivos e de ter acesso a eles; vez falou-se seriamente sobre clonagem humana e a fantasiosa geração de
exércitos de indivíduos idênticos, reacendendo o medo da eugenia, que
• induzida — quando a mulher é levada a se esterilizar por causas
andava esquecida desde o final da Segunda Guerra.
que exercem pressão direta ou indireta sobre a sua vontade. Essas
O impacto social negativo dessa experiência fez com que a bipartição
causas, que podem atuar isoladamente ou em conjunto, são: o
de embriões humanos fosse temporariamente abandonada, e durante al-
discurso de que “pobre não deve nem precisa ter filhos”; a impo-
guns anos o assunto de clonagem de seres humanos ficou esquecido.
sição patronal, que exige atestado de laqueadura para obtenção
Isso até 1997, com o anúncio da Dolly… Logo em seguida, um grupo
de emprego (no Brasil é crime, mas os patrões pedem); desco-
americano declarou ter clonado macacos a partir de células embrioná-
nhecimento ou dificuldade de obter métodos contraceptivos re-
versíveis; pressão social na área da maternidade (falta de creches rias, gerando dois animais geneticamente idênticos. Apesar de o interes-
e outros equipamentos sociais que diminuam a dupla jornada de se de clonar macacos ser exclusivamente o da pesquisa, as imagens da-
trabalho feminino); queles seres-quase-humanos clonados ressuscitou imediatamente a idéia
da clonagem de seres humanos na população em geral.
• involuntária ou compulsória — quando a mulher é levada a se
esterilizar por problemas de saúde, independentemente de sua von-
Para que clonar humanos?
tade, ainda que esteja de acordo com isso. Ou quando pessoas ou
governos obrigam uma mulher a se esterilizar independentemen- Pois bem, se a clonagem é possível em diversas espécies e está che-
te de sua vontade e até sem o seu consentimento, por problemas gando tão perto do homem, eu pergunto: Para que clonar humanos? As
de saúde ou não. razões apresentadas até hoje são as mais variadas. Algumas delas — por
Ao contrário do que muitos dizem, essa cirurgia apresenta riscos, exemplo, “Para produzir doadores de órgãos” ou “Para produzir exérci-
como os da anestesia e da infecção hospitalar. Os efeitos físicos da este- tos de indivíduos superiores” — são bizarras e reminiscentes do nazis-
rilização na mulher, dependendo do grau de mutilação causado pela téc- mo e da sociedade descrita no clássico Admirável Mundo Novo, de Aldous
nica utilizada e da habilidade de quem a realiza, podem ser: alterações Huxley.
menstruais, menopausa precoce, aumento de peso, aderências dos ór- Teoricamente, se por um acidente ou doença você viesse a necessi-
gãos internos do abdome e dores freqüentes no “baixo-ventre” (pé da tar de um transplante de algum órgão, um clone seu seria de fato o me-
barriga). Também poderão surgir efeitos emocionais, tais como: frigi- lhor doador — os órgãos do clone seriam perfeitamente imuno-compa-
dez, complexo de castração, sentimento de culpa e perda ou aumento do tíveis com você, uma vez que esse indivíduo seria uma cópia genética
prazer sexual. sua. Mas seria moral e eticamente aceitável gerar um ser humano com o
Não poderíamos encerrar este capítulo sem dar voz à feminista e intuito de ser repositório de órgãos-estepe? Quando um desses órgãos
demógrafa Elza Berquó, especialista em demografia da população ne- fosse necessário, estaríamos preparados para retirá-lo do clone em detri-
gra brasileira, que há anos tem sido no Brasil o esteio da discussão que mento de sua vida? Acredito (pelo menos espero) que essa proposta seja
empreendemos aqui. Vejamos o que ela disse ao jornal O Estado de S. consensualmente inaceitável.
Paulo, no artigo “Evitar filhos é prática comum a mulheres de todas as Quanto à criação de exércitos de indivíduos superiores, a clonagem
classes sociais”. tem na verdade produzido exércitos de animais malformados e uns pou-
cos animais normais — tanto que na prática a idéia de gerar rebanhos de
Os elementos colhidos na pesquisa do Cebrap (Centro Brasi- animais comercialmente interessantes parece não ser comercialmente
leiro de Análise e Planejamento) levam a pensar em uma rede fami- viável… No entanto, pode ser que daqui a alguns anos as técnicas de
liar e social envolvida no processo de difusão da esterilização, e clonagem tenham se aprimorado o suficiente para gerar esses exércitos
igualmente presente entre negras e brancas. (…) Há uma cultura da de indivíduos superiores. Vamos então começar a pensar o que é um
regulação da capacidade reprodutiva através de uma prática: 52% indivíduo superior — para alguns Mozart, para outros Hitler — e se
das já esterilizadas são filhas ou irmãs de esterilizadas, e quase 2/3 devemos começar a tratar a raça humana como gado, programando cru-
delas aconselhariam outras mulheres a recorrerem ao método. (…) zamentos e produzindo “rebanhos” geneticamente selecionados.

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Outra razão absolutamente fantasiosa para a clonagem de seres hu- é relativamente fácil agora, com a clonagem… Mas como reproduzir
manos está refletida na vaidosa frase “Eu quero viver para sempre”. Há essa rede tão complexa de relações e experiências de vida que, junto
quem acredite que quando morrer — seja por acidente, doença ou velhi- com seus genes, deram origem a quem você é hoje?
ce —, se for gerado um clone seu, estará recomeçando sua vida toda de Voltando à idéia de utilizar a clonagem como forma de ressuscitar
novo! Que se fizer isso sucessivamente poderá até atingir a vida eterna! um ente querido: admito que, teoricamente, o clone seria o ser mais
Vejamos o que acontece com os clones naturais que conhecemos, os próximo a esse indivíduo. Porém, sinto informar que, mesmo assim, não
gêmeos univitelinos. Cada indivíduo de um par de gêmeos univitelinos seria a mesma pessoa.
possui identidade e consciência próprias, e apesar de serem genetica-
mente idênticos são pessoas diferentes. Da mesma forma, o clone pos- O DNA não-nuclear: mitocôndrias
suirá também identidade e consciência diferentes das de sua matriz. Ele
não herdará os conhecimentos adquiridos pela matriz ao longo de sua Os leitores com maior conhecimento de biologia básica devem estar
vida — estes não estão escritos no nosso genoma, mas estão escritos em pensando: “Espera aí, a autora está simplificando demais essa história — o
todas as conexões nervosas que desenvolvemos durante a vida. Assim, clone nunca será geneticamente idêntico à sua matriz por causa das
não espere que o seu clone nasça com a sua consciência… Ele será um mitocôndrias”. As mitocôndrias são estruturas importantíssimas presentes
recém-nascido começando uma nova vida que, fora as informações con- em todas as nossas células: elas são basicamente as usinas de energia das
tidas em seu genoma, terá pouca relação com a sua. células. E daí? O que é que elas têm a ver com a clonagem? Eu mencionei
Finalmente, algumas pessoas vêem na clonagem a possibilidade de antes que o nosso genoma, a nossa receita, está dentro do núcleo das células.
reaver um ente querido falecido. A partir de umas poucas células desta Porém, as mitocôndrias, que se encontram fora do núcleo, também têm um
pessoa, a geração do seu clone seria quase uma forma de ressurreição. genoma. Comparado com o genoma nuclear, de 3,2 bilhões de letras, o
Pode parecer absurdo, mas imagine o desespero de um casal que acaba genoma da mitocôndria é mínimo — somente 16 mil letras. No entanto,
de perder seu filho querido — é quase irresistível a idéia de driblar a este pequeno pedaço da receita é fundamental para a nossa existência —
terrível irreversibilidade da morte recomeçando a vida do filho por meio mutações em genes da mitocôndria levam a doenças gravíssimas, que afe-
da clonagem. Mas você verá que a coisa não é tão simples assim. tam principalmente o sistema nervoso e os músculos, decorrentes da defici-
ência de produção de energia nas células dos pacientes.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Mas a maior peculiaridade dessa pequena fração do nosso genoma
contida nas mitocôndrias é sua herança. Como falei no início do livro,
O clone será um clone? nosso genoma é formado pela união de meio genoma materno e meio
genoma paterno, vindos do óvulo e do espermatozóide, respectivamen-
Ser vivo = genética + meio ambiente te. Já a fração do genoma contida nas mitocôndrias é herdada exclusiva-
mente da mãe! Por quê? Quando um espermatozóide fecunda um óvulo,
O clone será mesmo idêntico à sua matriz? Eles terão o mesmo
ele introduz nesse óvulo o seu núcleo, contendo a metade paterna do
físico, o mesmo tipo de cabelo, cor de olhos, temperamento, inteligên-
genoma. Porém, não introduz nenhuma mitocôndria no óvulo. Assim, o
cia, gostos, aptidões? Sim, não, não sei…
embrião formado possui somente as mitocôndrias que estavam no óvu-
Recapitulando: o clone possui exatamente os mesmos genes que
lo, ou seja, as mitocôndrias maternas. Estas vão se multiplicar e dar
sua matriz. Se os genes determinam todas as nossas características físi-
origem a todas as mitocôndrias presentes no indivíduo adulto — exclu-
cas e quem sabe até psíquicas, o clone será sim idêntico à matriz, certo?
sivamente maternas!
Não. Estamos esquecendo de uns temperos muito importantes, que não
Como o clone é gerado a partir do núcleo de uma célula da matriz
estão escritos nos genes mas dão uma graça toda especial a cada um de
inserido em um óvulo qualquer, suas mitocôndrias serão derivadas das
nós: o meio ambiente, nossas experiências de vida.
mitocôndrias daquele óvulo. Por isso, se formos analisar rigorosamente
Alimentação, quantidade de exercício, tempo de exposição ao sol,
a genética do clone, apesar de seu genoma nuclear ser idêntico ao da
quantidade de ingestão de álcool e de nicotina são exemplos de fatores
matriz, o DNA de suas mitocôndrias não será.
ambientais que influenciam diversas características nossas, desde a al-
Mas qual será o impacto dessa diferença genética entre o clone e a
tura e a cor da pele até a suscetibilidade a doenças e o QI. Junto com
matriz? Não sabemos ainda, mas, dado o pequeno número de genes nas
nossos genes, esses fatores moldam cada um de nós.
mitocôndrias (37 dos aproximadamente 30 mil genes humanos), imagi-
Se você não está muito convencido do efeito do meio ambiente nas
namos que essas diferenças serão sutis. Nossa melhor chance de desco-
características de cada um de nós, vamos pensar nos clones naturais que
brir será estudando clones de modelos animais mais simples, como os
conhecemos: os gêmeos idênticos, ou univitelinos. Gêmeos univitelinos
camundongos. [...]
possuem genomas absolutamente idênticos, certo? Logo, possuem os
mesmos genes que determinam a altura e a quantidade de músculos no Fonte: PEREIRA, Lygia da Veiga Pereira. Clonagem – Fatos & Mitos. Coleção
corpo. No entanto, se um deles se alimentar melhor durante a infância e Polêmica. São Paulo: Moderna, 2004.
fizer mais exercícios que o outro, será mais alto e forte que seu irmão,
mesmo possuindo os mesmos genes que ele.
Sim, mas e se reproduzirmos para o clone as mesmas condições de PLANTAE
vida de sua matriz, eles não serão idênticos? Teoricamente sim. Porém,
vamos voltar ao exemplo dos gêmeos univitelinos: mesmo sendo cria- (do latim planta, planta)
dos pelos mesmos pais, no mesmo lar, ao mesmo tempo, esses clones [Organismos haplóides de sexos complementares crescem de esporos
naturais possuem sua individualidade. Apesar de terem muito em co- produzidos pela meiose (meiose esporogênica) que ocorre no adul-
mum, podem ter gostos, aptidões físicas e intelectuais, características to diplóide. Estes haplóides produzem gametas por meiose. A ferti-
físicas e de personalidade diferentes. lização por espermatozóides (citogamia e cariogamia) ou núcleos
Ainda é difícil estimar quanto a genética e quanto o meio ambiente do pólen (cariogamia) conduz a embriões diplóides retidos pelo or-
influenciam cada uma das nossas características, mas sabemos que mes- ganismo haplóide feminino durante o desenvolvimento inicial. Os
mo diferenças sutis de experiências de vida são suficientes para impri- registros fósseis se estendem desde a Era Paleozóica Inferior (450
mir características individuais em pessoas com genomas idênticos. milhões de anos atrás) até o presente.]
Em resumo, somos um produto da nossa genética e do nosso meio
ambiente; inúmeras características são mais ou menos influenciadas por Os membros do reino das plantas se desenvolvem de embriões —
esses dois fatores. Assim, apesar de o clone ser uma cópia, genetica- estruturas multicelulares envolvidas em tecido materno. Devido a to-
mente idêntica, da matriz, suas experiências de vida particulares influ- das as plantas formarem embriões, elas são todas multicelulares. Além
enciarão uma série de características de uma forma que não podemos disso, devido aos embriões serem os produtos da fusão sexual de célu-
prever. Pense só em todos os parentes, amigos, professores, enfim todas las, todas as plantas potencialmente têm um estágio sexual em seus
as pessoas que passaram por sua vida. Em tudo o que aconteceu perto de ciclos de vida (embora isso nem sempre ocorra). No estágio sexual, o
você e no mundo durante a sua vida. Eles deixaram diversas marcas, gameta masculino (núcleo espermático, haplóide) fertiliza o gameta
influenciando muito quem você é hoje em dia. Reproduzir sua genética feminino (oosfera, ou núcleo do saco embrionário, haplóide). Muitas

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plantas crescem e se reproduzem de modos que sobrepassam a fusão I – Objetivo
sexual binária – todas devem ter evoluído de ancestrais que formavam 1. Criar uma cultura de microorganismos.
embriões por fusão celular sexuada. Um exemplo de reprodução 2. Identificar organismos microscópicos.
assexuada é a planta do morango; as plântulas se formam em exten- 3. Reconhecer que as populações dos organismos microscópios es-
sões chamadas de brotos, que se estendem da planta matriz. Um se- tão constantemente variando.
gundo exemplo é a reprodução assexuada de pequenas bolas verdes de 4. Reconhecer que fatores como espaço, alimento e predatismo li-
células, chamadas de gemas, por um musgo ou hepática matriz. A evo- mitam o tamanho e determinam os tipos de populações.
lução do embrião, protegido da dessecação e de outros perigos
II – Material
ambientais por tecido materno, foi um fator importante na dispersão
das plantas dos oceanos para a terra seca. O desenvolvimento dos an- • folhas de alface
cestrais das algas verdes (clorófitas), de simbiose íntima com os fun- • microscópio
gos, pode ter sido um outro fator na transição da vida aquática para a • lâmina
vida terrestre, facilitando a assimilação de minerais e água pelas plan- • lamínula
tas. Todas as plantas são compostas de células eucariotas, muitas com • conta-gotas
plastídios verdes. Distinguimos as plantas de todos os outros organis- • frasco de boca larga
mos mais por seus ciclos de vida do que por sua capacidade de • água de lago ou charco
fotossíntese, porque algumas plantas (“gotas-de-faia”, Epifagus, por III – Procedimento
exemplo) não executam a fotossíntese. A fotossíntese pelas plantas
1. Lave e enxágüe muito bem o frasco.
demanda enzimas dentro dos plastídios envolvidos por membrana.
2. Coloque no seu interior as folhas de alface e encha-o com água
Todas as plantas que fotossintetizam produzem oxigênio (em compa-
de lago ou charco.
ração, nas espécies procariotas fotossintéticas as enzimas são ligadas
3. Etiquete o frasco, colocando a data em que a infusão foi preparada.
como cromatóforos às membranas unicelulares, e não empacotadas
4. Observe ao microscópio uma gota dessa infusão. Nessa cultura
separadamente; os padrões procariotas da fotossíntese anaeróbica e
você, provavelmente, poderá observar seres microscópicos, como
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

aeróbica incluem a formação de produtos finais como o enxofre, os


bactérias, algas (diatomáceas e clorofíceas), rotíferos, amebas e
sulfatos e o oxigênio).
outros. Talvez nas primeiras observações possam ser vistos al-
As plantas são adaptadas primordialmente para a vida na terra, em- guns paramécios. Porém, na segunda semana o número de
bora muitas habitem a água durante parte da sua vida. As plantas são os paramécios aumentará, facilitando sua visualização. Depois da
principais responsáveis, na terra e em ambientes marinhos rasos, pela terceira semana seu número diminuirá.
transformação da energia solar, da água e do dióxido de carbono em 5. Os paramécios locomovem-se com extrema rapidez, o que torna
produtos primários: alimentos, fibras, carvão, óleo, madeira e outras difícil a sua visualização. Para dificultar seus movimentos, co-
formas de armazenamento de energia (no oceano aberto, os protoctistas loque na água da lâmina uns fios de algodão esparsos e en-
planctônicos são os produtores primários). As plantas caseiras, árvores e trecruzados.
variedades agrícolas são membros do reino das plantas. Embora a maio-
ria das plantas sejam organismos multicelulares, verdes, fotos- IV – Questões
sintetizadores, uns poucos gêneros, como o cipó-chumbo (Cuscuta) e o 1. Represente em esquemas cada um dos organismos encontrados
“cachimbo-indiano” (Monotropa), perderam o pigmento verde no curso nessa infusão. Procure identificá-los com o auxílio de seu profes-
de sua evolução e se tornaram parasitas. Muitos organismos fotossin- sor e das figuras encontradas no capítulo 20.
téticos, que já foram classificados como membros do reino vegetal com 2. Observe o paramécio e com o auxílio da figura 8 da página 190,
base na cor e nos hábitos sedentários não são mais considerados plantas, procure determinar as partes que o constitui.
porque não possuem embriões e outros critérios mínimos para sua clas- 3. Elabore uma hipótese que justifique a causa da diminuição dos
sificação como tal. As cianobactérias (bactérias azul-esverdeadas, as algas paramécios a partir da terceira semana em que essa infusão foi
verdes, todas as outras algas e os liquens (fungos com bactérias ou formada.
simbiontes protoctistas) são agora colocados juntos com seus parentes
nos reinos das bactérias, dos protoctistas ou dos fungos. A fotossíntese (Comentários/Respostas das questões do item IV: 1. As respostas irão
das plantas sustenta o resto da biota, não apenas convertendo energia variar de acordo com as observações feitas. 2. Figura de um paramécio
solar em alimento, mas também absorvendo dióxido de carbono e pro- indicando partes. 3. A diminuição de paramécios pode ser causada pelo
duzindo oxigênio. desenvolvimento de populações de outros organismos que competem
Cerca de meio milhão de espécies de plantas estão descritas. Devi- pelo mesmo alimento. A causa provável desse desaparecimento é o au-
do a novas espécies serem encontradas todos os anos, especialmente nos mento de rotíferos e a diminuição de bactérias que lhe servem de ali-
trópicos, provavelmente um outro meio milhão espera ser descoberto. mento.)
Além disso, esta estimativa provavelmente está subestimada; muitas plan-
tas se parecem umas com as outras na forma, e serão distinguidas como
espécies separadas apenas mediante uma análise química. COMO OCORRE A ENTRADA E SAÍDA DE AR DO
SISTEMA RESPIRATÓRIO - MODELO FÍSICO QUE
Fonte: MARGULIS, Lynn et al. Cinco reinos – Um guia ilustrado dos filos da DEMONSTRA A MECÂNICA VENTILATÓRIA
vida na Terra. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001.

I – Objetivo
1. Construir um modelo de sistema respiratório humano.
Sugestões de atividades 2. Relacionar o modelo construído com a biomecânica do sistema
respiratório dos mamíferos.
OBSERVAÇÃO DE CULTURA DE PARAMECIUM 3. Reconhecer a importância do diafragma no mecanismo da inspi-
E OUTROS ORGANISMOS MICROSCÓPICOS ração e expiração.

As populações das culturas de organismos microscópicos apresen- II – Material


tam variações. O alimento, o espaço e o predatismo determinam os • garrafa plástica transparente
tipos de populações, assim como limitam o seu tamanho. A ativida- • rolha perfurada
de poderá ser realizada na Unidade II, no estudo das células, ou na • tubo de vidro ou plástico
Unidade III, onde será desenvolvido conteúdo relativo às bactérias. • 2 bexigas (como as de aniversário)
às algas e aos protozoários, seres estes comumente encontrados na • barbante ou linha grossa
infusão proposta. • fita crepe

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MP_BIO Col. Base_2 53 22/06/05, 8:40


III – Procedimento
A = O óvulo amadurece e é aspirado
1. Retire o fundo da garrafa e feche-a com a rolha perfurada. B = Ovulação
2. Pegue o tubo de vidro ou plástico e coloque em uma das extremi- C = O óvulo se dirige ao útero
dades uma das bexigas, prendendo-a firmemente com um cordão D = 1º dia do ciclo
ou linha grossa. E = Menstruação
3. Enfie outra extremidade do tubo na rolha perfurada, deixando F = O óvulo se desenvolve no ovário
uns 2 cm acima do gargalo da garrafa.
4. Corte a parte mais estreita da outra bexiga, eliminando-a, e feche A tabela tem por finalidade levar a entender as fases do ciclo
o fundo da garrafa com a outra parte, prendendo-a com fita cre- menstrual e determinar a sua periocidade.
pe. É necessário que a garrafa fique perfeitamente fechada.
5. Vede a parte superior da rolha, junto ao tubo, com cera derretida 2. Se você for do sexo feminino, marque num calendário os dias de
de uma vela. sua menstruação a cada mês. Determine seu ciclo menstrual e seu
período fértil. Se você for do sexo masculino, determine os perío-
(Obs.: Neste modelo, a garrafa representa o tórax. O tubo e a bexiga dos férteis de uma pessoa que possui ciclo menstrual de 28 dias e
presa a ele representam a traquéia e os pulmões, respectivamente. A que teve sua menstruação do mês de abril nos dias 2, 3, 4 e 5.
membrana que fecha a garrafa representa o diafragma, e o orifício do 3. Apresente a ocorrência de um ciclo menstrual e o período fértil
tubo, as cavidades nasais.) ao longo de um semestre. Para isso, recorra a um calendário.

IV – Questões
DRAMATIZAÇÃO
1. Puxe a membrana que representa o diafragma para baixo e para
cima. O que acontece? Tema: Deve-se limitar a natalidade?
2. Relacione o que foi observado na realização dessa atividade com
a biomecânica do sistema respiratório dos mamíferos. I – Objetivo
Levar o aluno a analisar o problema da limitação da natalidade.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
[Comentários/Respostas das questões do item IV : 1. Quando a mem-
brana é puxada para baixo, a bexiga que representa os pulmões enche-se II – Procedimento:
de ar. Quando empurrada para cima, a bexiga elimina o ar. 2. Somente 1. Divida a classe em grupos. Cada um representará uma das perso-
os mamíferos possuem diafragma, músculo que separa a cavidade torácica nagens citadas abaixo. Todos os alunos dos grupos defenderão o
da abdominal. Ao se contrair, o diafragma desloca-se em direção ao ab- posicionamento da personagem designada para o grupo. Os dados refe-
dome, aumentando o volume da caixa torácica. Ao mesmo tempo, entre rentes a essas personagens devem estar impressos e entregues aos parti-
as costelas existem os músculos intercostais, que, ao se contraírem, cipantes de cada um dos grupos na aula que preceder a atividade. É
tracionam as costelas para a frente, aumentando ainda mais o volume importante recomendar aos alunos que preparem em casa sua argumen-
da caixa torácica. Com o aumento de volume, a pressão interna torna-se tação. No dia destinado a essa atividade, cada grupo formará um semi-
círculo voltado para o centro da sala. Antes de iniciar a discussão, um
menor que a pressão atmosférica, forçando a entrada de ar nas vias aé-
representante de cada grupo falará, expondo rapidamente o ponto de
reas (inspiração). Com o relaxamento dos músculos intercostais e do
vista do seu personagem. A discussão terá início quando o médico anun-
diafragma, há diminuição do volume da caixa torácica, forçando a saída
ciar que, no Posto de Saúde onde trabalha, começará a ser distribuído
de ar pelas vias aéreas.] anticoncepcional gratuitamente.

DETERMINANDO O CICLO MENSTRUAL Personagem 1 – Médico


E O PERÍODO FÉRTIL Você é médico e atende a mães solteiras pobres. Muitas dessas mães
não têm condições de criar seus filhos e estes são encaminhados a orfa-
I – Objetivo natos e instituições. Você é a favor de campanhas de esclarecimento jun-
to ao público, bem como à distribuição de anticoncepcionais nos Postos
Levar o aluno a:
de Saúde. Acha que um país com assistência médica tão precária como o
1. Conhecer o próprio corpo.
Brasil não deve ter uma população muito grande.
2. Determinar as diferentes etapas do ciclo menstrual e do período
fértil em que se pode engravidar. Personagem 2 – Operário
3. Diminuir o número de gravidez indesejável. Você é um operário e ganha menos que dois salários mínimos. É ca-
sado, têm três filhos pequenos e luta com grande dificuldade para manter
II – Procedimento
a família. Você e sua esposa não querem ter mais filhos (ela já fez dois
1. Coloque nos círculos do diagrama as letras correspondentes às abortos), pois a vida foi sempre difícil nesses oito anos de casados.
fases do ciclo menstrual, de acordo com o quadro.
Personagem 3 – Economista
PAULO MANZI

Você é economista e trabalha como assessor do governo. Tem apenas


3 4
dois filhos e não pretende ter mais nenhum. Porém, é contra as campanhas
2
1 5 de controle da natalidade pela população. Você acha que a população do
28 6 país deve crescer bastante, pois quanto maior o número de pessoas maior
27 7
o mercado consumidor. Isso significará mais fábricas e empregos. Acha
que o aumento da população é uma forma de estimular o progresso.
26 8
Personagem 4 – Militar
25 9 Você é militar sediado há muitos anos na Amazônia. É contra o
controle da natalidade, pois há vastas regiões desocupadas no Brasil,
24 10 que são um atrativo para as potências estrangeiras.

23
11 Personagem 5 – Padre
Você é padre e acredita que qualquer tipo de interferência no con-
22 12
trole da natalidade, como a doação de anticoncepcionais, é contra a na-
21 13
tureza humana. Na sua opinião, deve-se cuidar das crianças, dando es-
colas, assistência médica, trabalho para os pais etc., pois a vida é um
14
20
dom divino e não cabe a nós decidir quantos devem nascer e viver.
19 15
18 17 16
(Obs.: Professor, não deixe que sua opinião pessoal influencie a dos
alunos. A coordenação é do professor, mas a opinião dos alunos deve ser
Figura: Representação esquemática (sem escala) do ciclo menstrual. respeitada.)

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MP_BIO Col. Base_2 54 22/06/05, 8:40


CULTURA DE PRÓTALOS 5. Desenhe um dos estames indicando, com legendas, as partes que
o constitui.
I – Objetivo 6. Abra uma das anteras para observar os grãos de pólen. Retire
1. Identificar os soros, os esporângios e os esporos. todos os estames isolando o gineceu.
2. Identificar o prótalo. 7. Observe e desenhe o gineceu, indicando com legendas as partes
3. Analisar as etapas do ciclo de reprodução das pteridófitas. observadas.
8. Corte o ovário da flor no sentido transversal. Veja os óvulos em
II – Material seu interior. Procure determinar quantas folhas se modificaram
• pires para dar origem a este ovário.
• copo
• pincel (Obs: O corte transversal do ovário deve ser feito com uma lâmina
• folha de samambaia com soros fina e bem cortante para não amassar o ovário, e para permitir a
• lâmina visualização do local da implantação dos óvulos e o número de lóculos.
• lamínula Pelo número de lóculos, pode-se saber o número de carpelos que deu
• microscópio origem ao verticilo.)

ATIVIDADE DE CAMPO
(Obs.: Caso a escola não tenha microscópio, pode-se fazer a cultura
e observar sua germinação.) Uma atividade de campo é um estudo realizado em um ambiente
natural. Esse tipo de atividade permite contextualizar o conteúdo
III – Procedimento conceitual que estamos desenvolvendo; vivenciar valores saudáveis que
1. Ponha uma folha ou pedaço de folha de samambaia com soros colaboram na aquisição de atitudes de respeito, como também melho-
dentro de um saco plástico. rar as relações interpessoais aluno — aluno e aluno — professor. A
2. Agite o saco vagarosamente e observe se os esporos estão se sol- atividade de campo presta-se à realização de trabalho interdisciplinar,
tando. o que permite uma visão mais abrangente do conteúdo desenvolvido.
3. Coloque um pouco de água em um pires e dentro dele um pedaço Pode também ser desenvolvida como parte de um projeto maior onde
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de telha ou tijolo. O pires deve ser mantido sempre com água para um tema é escolhido e desenvolvido pelas diferentes disciplinas den-
que a telha ou o tijolo se mantenham úmidos. tro do enfoque específico de cada uma das áreas. Por exemplo: a reali-
4. Coloque sobre a telha ou o tijolo os esporos retirados dos soros. zação de um projeto de educação ambiental na escola objetiva instru-
5. Para evitar a evaporação da água, cubra o pires com um copo de mentalizar o aluno, a fim de que possa intervir nos problemas
vidro. Após alguns dias, a superfície do tijolo ou da telha come- ambientais de sua comunidade, visando uma melhoria da qualidade de
çará a ficar verde. vida. Para que esse projeto, assim como outros, atinja essa meta, tor-
6. Retire com o pincel alguns esporos que estão germinando e colo- na-se necessário: ter um caráter multidisciplinar, e, sempre que possí-
que-os na lâmina com uma gota d’água. Cubra com a lamínula e vel, que haja uma vinculação do conhecimento científico com a reali-
observe ao microscópio. dade cotidiana do aluno, e que este esteja mais perto do objeto de estu-
7. Desenhe sua estrutura. do por meio de uma metodologia mais dinâmica, como, por exemplo,
8. Continue observando periodicamente até o prótalo tornar-se adulto. o trabalho de campo e as entrevistas.

IV – Questões Organização da atividade proposta


1. Relacione folíolos, soros, esporângios e esporos. Para que o estudo de campo atinja sua finalidade didática, o papel
2. Reveja o ciclo de vida das pteridófitas. do professor é fundamental, pois o planejamento e a organização desta
atividade são essenciais para a eficiência do trabalho proposto. A ativi-
(Comentários das questões do item IV: 1. As folhas das pteridófitas dade deve ser organizada com bastante antecedência, prevendo períodos
são subdivididas em folíolos. Na parte inferior dos folíolos estão os so- em que haja provas e eventos importantes na escola. O professor, anteci-
ros, que contêm os esporângios, e estes, os esporos.) padamente, deve conhecer o local onde a excursão vai ser realizada. O
conhecimento permite um melhor planejamento da atividade e também
ESTUDO DA ANATOMIA DE UMA FLOR um aproveitamento maior dos recursos do local escolhido. Como sabe-
(Obs.: Nesta atividade será desenvolvido o estudo de uma flor mos que nem sempre isso é possível, o professor deve pelo menos
dicotiledônea. A escolha da azaléia deve-se ao fato de seus verticilos pesquisar em fontes idôneas as características do local e os recursos
serem facilmente detectados. A representação esquemática da flor en- disponíveis que possam enriquecer a atividade proposta.
contrada na página 327 poderá ser usada como norteadora para a deter- Outro dado, que deve ser avaliado, refere-se ao número de inte-
minação dos elementos da flor em estudo. No caso de não poder traba- grantes que participarão da atividade. Este número deve ser limitado
lhar com essa flor, procure iniciar esse trabalho com uma outra, que segundo o local escolhido relacionando número de alunos ao espaço
também tenha todos os verticilos.) físico de onde se deseja ir ou a possibilidade de atendimento de cada
um dos alunos participantes. Chamar a atenção para a importância do
I – Objetivo horário da atividade prevista, pedindo que cheguem sempre com rela-
1. Identificar as partes de uma flor completa. tiva antecedência.
2. Classificar um vegetal a partir dos seus elementos florais. O professor deve sempre fazer uma listagem dos alunos que irão par-
ticipar da atividade e passar uma lista de presença para que assinem. Os
II – Material alunos deverão também ser orientados em relação às roupas e ao tipo de
• flor de azaléia calçado mais conveniente, repelente e alimentos, caso sejam necessários.
• estilete O ideal é que a atividade prática sempre esteja intimamente relacio-
• lápis e papel nada ao conteúdo conceitual que está sendo desenvolvido. Os conteú-
dos, conceitual, procedimental e atitudinal que se espera desenvolver
III – Procedimento nesta atividade, devem ser trabalhados com os alunos antecipadamente,
1. Analise inicialmente a flor sem abri-la, anotando os dados em seu de tal modo que saibam o que devem observar, como anotar e como se
caderno. Veja se é uma flor completa (tem pedúnculo e os quatro portar. É interessante que o professor crie um roteiro do que deve ser
verticilos florais: cálice, corola, androceu e gineceu) ou incom- visto e analisado. Conforme o local da excursão, pode ser realizada co-
pleta (falta uma ou mais de uma de suas partes). leta de material para um posterior estudo em sala de aula. Neste caso, os
2. Observe e descreva o cálice. Qual sua cor? Conte o número de alunos devem ser orientados para que recolham o material que realmen-
suas sépalas. te será analisado. Uma excursão em uma região de mata pode visar o
3. Observe e descreva a corola . Verifique sua cor, o número de estudo do solo, da vida animal e dos vegetais existentes. Nesta ativida-
pétalas e se as pétalas estão unidas ou separadas. Abra cuidadosa- de, a máquina fotográfica é uma ferramenta importante, pois permitirá
mente a flor. Retire o cálice e a corola para poder observar seus analisar posteriormente parte do que foi observado. Os alunos devem
órgãos reprodutores. ser conscientizados que o trabalho de campo é uma aula diferente das de
4. Observe o androceu e conte o número de seus estames. costume, mas que deve ser levada a sério tanto quanto as outras aulas.

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Observação de seres vivos em seu meio 8. Uma das possíveis respostas poderia incluir algumas características
Esta atividade pode ser realizada em um trecho de mata natural ou gerais dos seres vivos, observadas nessa foto: I. a execução de movi-
em um parque de sua cidade. Se sua escolha recair para a visita de um mentos; II. a reação a estímulos ambientais; III. a associação entre
trecho de mata natural, este espaço deve ser muito bem conhecido por forma e função (percebida, por exemplo, na forma dos membros).
você e não deve dar possibilidade a que algum aluno se perca. Peça a 9. I. Trata-se de aves da mesma espécie, mas do mesmo sexo. II. São
seus alunos que sigam as orientações que se seguem, anotando o resulta- aves de espécies diferentes, apesar de muito semelhantes.
do de suas observações. 10. e
Andando lentamente, tente distinguir as plantas umas das outras. 11. a) Como há identidade genética entre todas as plantas da lavoura —
Observe se há plantas epífitas presas ao seu caule e observe suas carac- pois são resultado de reprodução assexuada —, características van-
terísticas. De modo geral, analise as partes de cada tipo de planta. Exa- tajosas, como a elevada produtividade, estarão presentes em todas
mine a forma, dimensão e a nervura de suas folhas. Relacione tamanho, as plantas. b) A identidade genética, por outro lado, faz com que
forma e tipo de folha ao ambiente em que você se encontra. Examine todas as plantas da lavoura sejam susceptíveis à praga, e toda a plan-
suas flores, se existirem. Por meio das características de suas folhas e tação pode ser dizimada.
flores, procure classificar as plantas examinadas. Observe se há árvore 12. a) A diversidade é decorrente de mutações, que ocorreram e foram
cujas raízes saem acima da superfície da terra — como as tabulares — e selecionadas ao longo do tempo, incorporando-se ao patrimônio
relacione a existência desse tipo de raiz ao tamanho do vegetal. Observe genético do grupo. b) A aplicação de inseticidas pode ter eliminado
a altura dos vegetais. Eles competem pela luz? Ao mesmo tempo que os insetos, principal alimento das aves de bico delicado. Com isso, as
essas observações sobre os vegetais estão sendo feitas, deve-se também aves adaptadas a outro tipo de alimentação passaram a predominar.
estar atento para os animais existentes no local. Para que as observações
de animais sejam realizadas, é necessário que você se movimente de Capítulo 2
forma lenta e sem ruído. Procure ouvir os sons para localizar e identifi- 1. j, h, b, i, f, g, a, d, e, c
car o animal. 2. b
Observe o solo. Há vegetação rasteira ou o solo está somente cober- 3. e 4. c
to com folhas? Relacione a existência dessas folhas à fertilidade da mata. 5. d 6. d
Observe se há presença de fungos — pela presença de cogumelos — e 7. c, b, e, a, d

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
analise onde crescem. Justifique onde são encontrados e por quê? As 8. a) O gavião, que, ao mesmo tempo, é consumidor secundário e
fezes dos animais, se existirem, também constituem uma forma de de- terciário. b) As plantas são os produtores e fornecem energia para
tectar os tipos de animais existentes, seu tamanho e muitas vezes sua todos os demais componentes da teia.
alimentação. 9. b
Essas são algumas das observações que podem ser feitas, porém, 10. a) A quantidade total de energia química acumulada nos membros
muitas outras acontecerão durante o percurso, que devem ser anotadas daquele nível trófico. b) Porque os componentes de cada nível trófico
por você ou debatidas com seus colegas e o professor, se necessário. gastam grande parte da energia na respiração celular aeróbia, en-
Todas as anotações realizadas serão usadas para a confecção final do quanto uma outra parcela é perdida na forma de calor.
relatório do seu grupo, em sala de aula. Posteriormente, os grupos rela- 11. c
tarão o que observaram e será construído um texto coletivo da atividade 12. a
desenvolvida. 13. Não. Em uma floresta em equilíbrio, a quantidade de oxigênio libe-
rada pela fotossíntese é praticamente igual à consumida na respira-
Observação para o professor: ção celular aeróbia. A maior produção líquida de oxigênio ocorre
Todos os conceitos relativos às possíveis observações existentes neste nos oceanos, pela atuação do fitoplâncton (algas marinhas).
roteiro devem ter sido desenvolvidos no período anterior à sua realiza- 14. a) Folhas → insetos → rãs → jararaca → gavião. b) Folhas (produtor);
ção em sala de aula. insetos (consumidor primário); rãs (consumidor secundário); jararaca
(consumidor terciário); gavião (consumidor quaternário). c) O sabiá,
Avaliação que atua como consumidor primário (ao se alimentar de folhas e se-
A avaliação de uma atividade de campo não pode ser restringida ao mentes) e consumidor secundário (ao se alimentar de insetos).
relatório apresentado pelo aluno ou grupo. A avaliação deve iniciar no 15. Planta (produtor) → camundongo (consumidor primário) → cobra
momento em que a atividade começa e terminar após a construção do (consumidor secundário) → perdiz (consumidor terciário) → rapo-
texto coletivo. A postura, a responsabilidade, o compromisso na realiza- sa (consumidor quaternário).
ção da atividade são dados que não podem ser desprezados e que devem 16. c
ser considerados. 17. Porque, à medida que os níveis tróficos se afastam do nível trófico
dos produtores, a quantidade de energia disponível para o nível

Respostas das atividades e 18.


trófico seguinte diminui, perdendo-se na forma de calor.
e
19. c
dos exercícios complementares 20. Maior população humana seria suportada na ilha em que as pessoas
se alimentam de vegetais, pois, no nível dos produtores, a quantida-
de todos os capítulos de total de energia e a oferta de energia para o nível trófico imedia-
tamente superior são maiores. Havendo menos níveis tróficos entre
os produtores (plantas) e os consumidores (população humana), a
Capítulo 1 quantidade de energia disponível é maior.
1. c, a, b 21. a) Porque a fotossíntese — principal processo responsável pela pro-
2. Biodiversidade significa o número de espécies em certo ambiente dução de matéria orgânica — libera oxigênio. A quantidade liberada
(diversidade de espécies). Em certos contextos, pode significar a desse gás deve ser proporcional à taxa de fotossíntese e, portanto, à
diversidade genética dentro de uma espécie (diversidade genética) produtividade primária. b) Nas garrafas escuras, as algas não reali-
ou o número de diferentes ecossistemas em determinada região ge- zam a fotossíntese, mas apenas a respiração celular aeróbia, que con-
ográfica (diversidade ecológica). some oxigênio. A quantidade de oxigênio consumida pelas algas que
3. c estão na garrafa escura deve ser igual àquela consumida pelas algas
4. Um dos ratinhos reage a estímulos ambientais (percebe, por exem- da garrafa clara. Portanto, se na garrafa escura foi consumido um
plo, a borda da mesa), alimenta-se, gera filhotes, apresenta proces- volume V1 de oxigênio e na garrafa clara foi liberado um volume V2,
sos metabólicos (defeca e urina) etc. esse volume V2 corresponde apenas ao saldo liberado. O verdadeiro
5. c, g, a, f, e, h, d, b volume produzido na fotossíntese pelas algas da garrafa clara
6. d corresponde a (V1 + V2). c) São principalmente as algas, organismos
7. Uma possível explicação seria que, no solo das florestas, os microscópicos fotossintetizantes, componentes do fitoplâncton.
caramujos de concha escura podiam escapar mais facilmente dos
predadores (as aves). Da mesma forma, caramujos de concha clara, Capítulo 3
vivendo nos campos, podiam se confundir com o ambiente, “enga- 1. d, e, a, c, f, b
nando” a visão dos tordos canoros. 2. e

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3. a) Fungos e bactérias podem atuar como decompositores, conver- competidores, predadores e parasitas que auxiliarão no combate às
tendo a matéria orgânica morta em nutrientes inorgânicos, que po- pragas agrícolas (insetos, fungos, plantas invasoras etc.), além de
dem ser reaproveitados por produtores (por exemplo, algas e plan- aves e insetos que atuam como polinizadores das plantações.
tas). b) Certos fungos produzem antibióticos, substâncias que im- 20. a
pedem ou dificultam o desenvolvimento de bactérias e/ou outros 21. a) A biomassa aumenta progressivamente, até se estabilizar. b) A
fungos. comunidade atingirá o estágio clímax quando ocorrer a estabiliza-
4. b ção da biomassa e da biodiversidade (que também aumentará du-
5. Trata-se de protocooperação. Embora paguro e anêmona-do-mar se- rante a sucessão).
jam beneficiados pela associação, não dependem dela para se man- 22. a)
ter, podendo sobreviver independentemente um do outro.
6. a) Na sociedade das formigas há uma nítida divisão de trabalho, e a
sobrevivência do formigueiro — considerado por alguns biólogos
1.000
um “hiperorganismo” — depende de cada casta executar suas atri-
buições. Se ocorrer a “rebelião” proposta por Calvin, a sociedade se 900
desestrutura, acarretando a morte de seus componentes. b) Cupins 800
e abelhas. 700
7. Soma = 27 (01 + 02 + 08 + 16) 600
8. a) É o estágio X. b) No estágio X, em que há maior diversidade de
500
nichos ecológicos. c) Estágio X (comunidade clímax): equilíbrio
entre a incorporação e a liberação de carbono (fotossíntese = respi- 400
ração celular aeróbia). Estágio Y (comunidade pioneira, aumentan- 300
do a biomassa): predomínio da incorporação sobre a liberação de 200
carbono (fotossíntese > respiração celular aeróbia).
100
9. f, e, d, b, a, c
10. b 84 85 86 87 88 89 90 91
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

11. a)

b) A população atingiu a capacidade de carga.


Ano Tamanho inicial da população Tamanho final da população 23. b 24. b 25. c
1984 — 600 26. Embora não tenhamos discutido a curva de Nelson Moraes (taxa
diferencial de mortalidade por faixa etária), a análise dos gráficos
1985 600 700 permite responder às questões propostas. a) Nota-se redução das
1986 700 850 taxas de mortalidade nas primeiras etapas da vida, particularmente
do índice de mortalidade infantil (mortalidade no primeiro ano de
1987 850 1.270 vida). Como a expectativa de vida também deve ter se elevado no
1988 1.270 1.540
período, há um aumento na taxa de mortalidade nas faixas etárias
mais elevadas. Estes indicadores apontam para provável melhoria
das condições de vida (renda per capita, condições de moradia e de
b) No final de 1986, 850 indivíduos estarão vivendo numa área de
saneamento, acesso aos serviços de saúde etc.). b) Percebe-se que a
100 hectares. Portanto, a densidade populacional será de 8,5 indiví- Região Norte apresenta taxas de mortalidade na infância mais ele-
duos por hectare. c) O aumento da densidade populacional pode ter vadas que as da Região Sul, indicando piores condições de vida da
provocado aumento da competição intra-específica (por abrigo ou população. Por outro lado, as taxas de mortalidade em idades mais
alimento), resultando em aumento da mortalidade e da emigração. elevadas são maiores na Região Sul, denotando provável maior
Outras hipóteses poderiam ser a introdução, na área, de espécies expectativa de vida.
competidoras, parasitas ou predadoras, ou a liberação da área para a
atividade de caça. d) A tendência é de redução no ritmo de cresci- Capítulo 4
mento populacional, até que o tamanho da população finalmente se 1. c, b, a, d
estabilize. 2. Em relação às monoculturas, os ecossistemas naturais apresentam
12. a) O valor A indica a capacidade de carga do ambiente, ou seja, o maior diversidade de espécies (maior biodiversidade) e, portanto,
número máximo de indivíduos dessa espécie que ele pode tolerar. menor susceptibilidade a pragas, em virtude da presença de inimi-
b) A oferta de alimentos e a disponibilidade de locais para abrigo, gos naturais dos eventuais invasores.
acasalamento e cuidados com filhotes. 3. b
13. e 14. b 4. 1) O peixe exótico pode atuar como predador de espécies nativas,
15. Entre joaninhas e cochonilhas: predatismo. Entre cochonilhas e bois: reduzindo suas populações. 2) No novo ambiente, o peixe exótico
competição. pode não encontrar predadores, parasitas e outros inimigos natu-
16. rais. Aumentando rapidamente a população, a espécie introduzida
pode esgotar recursos naturais que eram compartilhados com ou-
Capim Bois Seres humanos tras espécies.
5. f, b, g, c, h, a, e, d
6. D, A e F, respectivamente.
Palmas Decompositores 7. d
8. c
9. e
Cochonilhas Joaninhas
10. Soma = 21 (01 + 04 + 16)
17. 11. b
12. b
Joaninhas 13. Na floresta tropical, a preservação de todas as espécies só é possível
Cochonilhas com a manutenção da área integral (portanto, 500 hectares). Na flo-
Palmas resta temperada, a manutenção de aproximadamente 100 hectares
seria suficiente para preservar toda a biodiversidade da região.
18. Os coelhos e os preás irão estabelecer uma relação de competição, 14. 1) As abelhas exógenas (ou exóticas) poderiam competir por alimen-
pois estarão disputando um mesmo recurso ambiental (no caso, o to ou abrigo com as espécies nativas, que seriam eliminadas. 2) As
alimento representado pelos vegetais). abelhas exógenas poderiam atuar como agentes polinizadores de plan-
19. Naquela em que 40% da mata foram preservados. Essa área fun- tas invasoras, provocando a explosão populacional dessas pragas agrí-
ciona como uma reserva de biodiversidade, onde pode haver colas. (Além dessas, outras hipóteses podem ser propostas.)

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15. e ventos, podendo acarretar chuvas ácidas em locais afastados de onde
16. Entre outros fatores, poderíamos citar a grande disponibilidade de são emitidos. b) Formação sucessiva de comunidades pioneiras (que
água, a abundante exposição à luz solar, o grande potencial biótico toleram as condições adversas do local), comunidades intermediá-
das populações de algas, a elevada capacidade de carga dos ecos- rias (que apresentam produtividade primária elevada, com aumento
sistemas marinhos etc. da biomassa e da biodiversidade) e comunidade clímax (em equilí-
17. Região oceânica abissal: escassez de luz. Deserto: escassez de água. brio com o ambiente).
Tundra: baixas temperaturas. Floresta tropical pluvial: temperatu- 14. a) Principalmente, a intensificação da queima de combustíveis fós-
ras elevadas e abundante oferta de água e de luz. Estuários: grande seis. b) Uma provável conseqüência é o aquecimento global, pois o
disponibilidade de nutrientes trazidos pelos rios. CO2 (bem como outros gases-estufa) aprisiona calor, provocando o
18. a) 4 (Caatinga) e 2 (Cerrado), respectivamente. b) É a área 7 (Pampa aumento da temperatura da atmosfera. c) Se levarmos em conta ape-
gaúcho), que, assim como as pradarias norte-americanas, são clas- nas a energia de origem hidroelétrica, o impacto seria mínimo. Po-
sificados como formação herbácea e se caracterizam pelo predomí- rém, em nível planetário, a redução do consumo de eletricidade pro-
nio de gramíneas e outras plantas de pequeno porte. vocaria redução nas emissões de gás carbônico, pois uma importan-
19. Soma = 11 (01 + 02 + 08) te fonte de eletricidade são as centrais termoelétricas, movidas a
carvão ou derivados de petróleo, cuja queima libera CO 2 e
Capítulo 5 outros gases.
1. g, h, f, j, i, a, b, c, d, e 15. d
2. 16. a) São os que se originam da transformação que a matéria orgânica,
submetida a temperaturas e pressões elevadíssimas ao longo de mi-
Tipo de poluente Efeitos sobre a vida humana lhões de anos, sofre no subsolo. Exemplos: petróleo, gás natural e
Tosse, crises de asma e facilita o aparecimento de carvão. b) Porque o CO2 liberado na queima da madeira seria
Material reincorporado à biosfera por meio da fotossíntese, nas áreas de re-
particulado pneumonias. Pode prejudicar a visibilidade, deter-
minando o fechamento de aeroportos. florestamento.
Óxidos de Irritação das vias aéreas e dos olhos, asfixia e 17. O aquecimento global alteraria os hábitats dos transmissores de do-
nitrogênio morte (em alta concentração). enças tropicais, que vivem e se reproduzem em ambientes quentes.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Óxidos de Com a expansão das áreas de clima tropical, esses transmissores
Irritação das vias aéreas, dos olhos e da boca. (insetos, moluscos e roedores, entre outros) ocupariam lugares que
enxofre
Óxidos de O monóxido de carbono dificulta o transporte de antes não ocupavam, levando consigo agentes infecciosos (como os
carbono oxigênio pelo sangue. causadores de encefalite viral, dengue, malária, febre amarela ou da
esquistossomose) para regiões onde eles não existem atualmente,
Saturnismo (lesões do sistema nervoso, dos rins
Chumbo difundindo essas moléstias em populações que hoje se encontram
e anemia).
fora das áreas de risco.
18. d 19. a
3. a) Inversão térmica. b) No inverno, o ar fica mais frio e mais denso, 20. a) O significado será a redução da quantidade de oxigênio dissolvi-
acumulando-se sobre as cidades como um “manto de partículas de do na água, que poderá acarretar a morte de peixes, moluscos, crus-
poluentes”. A entrada de luz solar é dificultada, retardando o aque- táceos e outros organismos aeróbios. b) O aumento da temperatura
cimento do solo e, conseqüentemente, do ar. Diminuindo a movi- reduz o coeficiente de solubilidade dos gases em líquidos. (O pro-
mentação ascendente do ar, a camada de poluentes permanece mais fessor de Química poderia explicar superficialmente o conceito de
tempo sobre as cidades. coeficiente de solubilidade.)
4. b 21. e
5. a) É a capacidade que determinados gases atmosféricos têm de apri- 22. a) Quanto maior é a porcentagem da população com acesso a água
sionar calor, mantendo a atmosfera e a superfície do planeta relati- potável de boa qualidade, menor é a taxa de mortalidade infantil. b)
vamente aquecidas. b) É o gás carbônico (CO2 ou dióxido de carbo- Acesso a água potável de boa qualidade reduz a chance de contato
no). c) Ocorreria elevação do nível médio dos oceanos graças ao com agentes infecciosos veiculados por água e alimentos contami-
derretimento de geleiras (de calotas polares e cordilheiras) e à dila- nados, como vírus, bactérias e outros organismos causadores de di-
tação da água (pelo aumento da temperatura). Quanto à produção arréia (uma das principais causas de mortalidade infantil em países
agrícola, apesar do aumento da concentração atmosférica de CO2 pobres). Além disso, acesso a água potável de boa qualidade sugere
(que é matéria-prima da fotossíntese), a elevação da temperatura que a população seja servida por saneamento básico, tenha condi-
comprometeria o funcionamento das células, afetando a produtivi- ções satisfatórias de nutrição e moradia, acesso a serviços de saúde,
dade. Além disso, a elevação dos oceanos poderia alagar áreas cos- recebimento de medicamentos ou condições financeiras para ad-
teiras atualmente utilizadas pela agricultura. quiri-los etc. Esses mesmos fatores contribuem para que as crianças
6. d 7. d, a, e, b, c tenham boas condições de vida, reduzindo a taxa de mortalidade
8. a) É a eutrofização (ou eutroficação). b) III → V → IV → II → I. c) infantil.
Reduzir a liberação de produtos fosfatados (detergentes, por exem-
plo) nas águas coletadas; adotar formas alternativas de destinação Capítulo 6
dos dejetos humanos (por meio de fossas sépticas) nos locais não 1. e, b, a, d, f, c 2. c
servidos por rede de esgoto; exigir que os governos, em diferentes 3. a) Compostos inorgânicos nitrogenados (nitrogênio também pode
níveis da administração pública, estendam as redes de saneamento ser aceito como resposta). b) Pela denitrificação (graças à ação de
(água tratada e esgoto) a toda a população. bactérias denitrificantes), na forma de N2 (nitrogênio gasoso). c) A
9. a 10. a associação com bactérias ocorre em nódulos que se formam nas
11. São plausíveis apenas as explicações I e II. I. A queda matinal da raízes das leguminosas.
concentração de NO é acompanhada de elevação da concentração de 4. Copépodes → manjubas → pescadas → atobás. O DDT tende a se
NO2, sugerindo a conversão de um gás em outro. II. A alta da concen- concentrar nos níveis superiores das cadeias alimentares, fenômeno
tração de CO ocorre nos “horários de pico”, quando o movimento de chamado magnificação trófica.
veículos é maior (início da manhã e final da tarde). III. Apesar de 5. d 6. c, e, b, a, d 7. b 8. b 9. c
haver elevação da concentração de NO2 acompanhando a queda da 10. a) X: bactérias denitrificantes, pois liberam nitrogênio gasoso para
concentração de NO (sugerindo a conversão), nota-se alguma con- a atmosfera. Y: decompositores, que são praticamente os únicos or-
centração daquele gás ao longo de todo o dia. IV. Se houvesse deslo- ganismos que digerem a quitina da carapaça de artrópodes. Z: pro-
camento de O3 da estratosfera para camadas mais baixas, sua concen- dutores (autótrofos), porque realizam a fotossíntese e liberam oxi-
tração total na atmosfera permaneceria constante. gênio. W: consumidores de primeira ordem, pois digerem o amido
12. c e, portanto, devem alimentar-se de algas ou plantas. b) Os organis-
13. a) Os gases que, ao se combinarem com a água, são os responsáveis mos Z, que são os produtores e estão na base da pirâmide de energia
pela formação de ácidos (óxidos de nitrogênio e óxidos de enxofre) e, em geral, na de biomassa.
são lançados na atmosfera e levados a longas distâncias pelos 11. d

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12. O ecossistema agrícola é o indicado pela letra a, que dispõe de ener- 4. A – 1; B – 2; C – 4; D – 6; E – 3; F – 5
gia em grande quantidade para crescer e se reproduzir; dessa forma, 5. c 6. c
deve gerar um “saldo” de matéria orgânica, que é o produto da prá- 7. d, a, c, b, e
tica agrícola. O ecossistema b deve corresponder à floresta pluvial 8. a) 1 – Procariontes possuem membrana plasmática. 2 – Células ani-
tropical, em estado de equilíbrio e, portanto, com menor “saldo” de mais possuem complexo golgiense. 3 – A maioria das células de
energia e de matéria orgânica. vegetais com flores não possui centríolos. 4 – Células de vegetais
13. d com flores possuem mitocôndrias. b) Membrana plasmática e
14. As queimadas destroem plantas invasoras e incorporam no solo centríolos, respectivamente.
os materiais oriundos da incineração dos restos vegetais. Entre- 9. a) A solução do recipiente I era hipertônica em relação ao conteúdo
tanto, a elevação da temperatura elimina a comunidade de seres intracelular; a do recipiente II era isotônica. b) Significa que as cé-
vivos (como bactérias, fungos, insetos e anelídeos) que partici- lulas perderam água, por osmose, para o meio extracelular e dimi-
pam da reciclagem da matéria. Isso acaba por empobrecer o solo. nuíram de volume, a ponto de a membrana plasmática afastar-se da
Como remove a cobertura vegetal, aumenta a exposição direta parede celular.
do solo à ação das chuvas e dos ventos, intensificando a erosão e 10. Trata-se de uma célula vegetal. 1 – cloroplasto (fotossíntese); 2 –
a lixiviação. parede celular (proteção); 3 – vacúolo central (equilíbrio osmótico).
15. a 11. a) I – retículo endoplasmático granuloso (ou rugoso); II – comple-
16. Sendo biodegradáveis, irão se decompor ao longo do tempo, redu- xo golgiense. b) III (mitocôndria) – respiração celular aeróbia; IV
zindo a quantidade total de resíduos gerados e evitando o esgota- (centríolos) – participam da divisão celular e, em alguns tipos celu-
mento dos aterros sanitários. lares, da organização de cílios e de flagelos.
17. d 12. Colocados em ambiente hipertônico, os alimentos perdem água por
osmose. Isso também acontece com os microorganismos (bactérias
Capítulo 7 e fungos, por exemplo) que, porventura, neles existirem. Dessa for-
1. c, g, e, a, f, b, h, d ma, tais microorganismos não conseguem sobreviver.
2. c 13. A fagocitose está associada ao englobamento de partículas alimen-
3. c tares (por exemplo, nos protozoários) e ao combate a agentes infec-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

4. a) Polissacarídio de reserva animal: glicogênio (encontrado no fíga- ciosos, como bactérias (em animais).
do e nos músculos). Polissacarídio de reserva vegetal: amido (en- 14. Com o rompimento da membrana lisossomal, as enzimas hidrolíticas
contrado em raízes e caules). b) Os animais alternam períodos de destroem os macrófagos, extravasam e acabam por destruir o tecido
alimentação com intervalos relativamente longos durante os quais pulmonar.
eles dependem dos estoques de glicose, armazenada na forma de 15. b
glicogênio. 16. Durante as quarenta semanas da gestação humana, o útero aumenta
5. a consideravelmente, passando de 7,5 cm de comprimento e 50 g de
6. b, e, f, d, c, a, g massa para 30 cm de comprimento e 1.100 g de massa. É pela atua-
7. b ção das enzimas digestivas (hidrolases) presentes em lisossomos
8. a que ele diminui após o parto, readquirindo seu tamanho normal em
9. a cerca de dez dias.
10. Soma = 53 (01 + 04 + 16 + 32) 17. d
11. No tubo 1 nada ocorrerá; no tubo 2 ocorrerá formação de bolhas 18. a) São eucarióticas as células A e B, que possuem envoltório nucle-
(correspondentes ao oxigênio liberado na degradação enzimática ar; a célula C, que não o possui, é procariótica. b) Bactérias: célula
da água oxigenada); no tubo 3 ocorrerá formação de bolhas; no C (não possui envoltório nuclear nem organóides citoplasmáticos, a
tubo 4 ocorrerá intensa formação de bolhas, pois a trituração au- não ser ribossomos). Animal: célula A (eucariótica, sem parede ce-
menta a superfície de contato da água oxigenada com as enzimas lular nem cloroplasto). Vegetal: célula B (eucariótica, dotada de
presentes no fígado; no tubo 5 não haverá formação de bolhas, parede celular e cloroplastos).
pois a fervura prévia desnaturou irreversivelmente as enzimas do 19. c
fígado. 20. e
12. c
13. a
Capítulo 9
14. e 1. g, d, e, f, c, a, b, h
15. Há uma associação direta entre a porcentagem de gorduras saturadas 2. Os pigmentos fotossintetizantes estão em organóides chamados
na dieta e a incidência de doenças cardíacas em seres humanos. cloroplastos (estruturas microscópicas), no interior dos tilacóides
16. a) A presença de glicina (ou de valina) na dieta é essencial para o (estruturas submicroscópicas). No vegetal, a maior quantidade se
desenvolvimento normal de larvas de moscas do gênero Heliothis. encontra nas células das folhas (órgãos), no parênquima clorofiliano
b) Servir como grupo-controle (ou referência) para comparação com (tecido). Esta localização é particularmente vantajosa porque as fo-
os grupos experimentais (sem glicina e sem valina). lhas, com pequena massa de tecido, conseguem grande área de ex-
17. F, V, F. É importante destacar que apenas a afirmativa II é demons- posição à luz solar.
trada pelo experimento, independentemente de as afirmativas I e III 3. a) Fotossíntese e respiração celular aeróbia. b) As substâncias pro-
serem ou não verdadeiras. duzidas em cada um desses processos são consumidas no outro
18. V, V, V, F (glicose e O2 são produzidos na fotossíntese e consumidos na respi-
19. No tubo I, há substrato (gorduras do leite) e a enzima correspon- ração celular aeróbia; gás carbônico e água são produzidos na res-
dente; ocorre a hidrólise e a formação de ácidos graxos e, por- piração celular aeróbia e consumidos na fotossíntese).
tanto, o meio se torna ácido, mudando a cor do indicador que se 4. a
torna azul. No tubo II, há substrato, mas não há enzima; conse- 5. c
qüentemente, não se formam ácidos graxos e o indicador perma- 6. a) Deve permanecer parado, pois a quantidade de gases liberados é
nece rosa. No tubo III, está presente a enzima, mas não o igual à quantidade de gases absorvidos. b) É o gás oxigênio, produ-
substrato; então, o indicador permanece rosa, pois não se for- zido na fotossíntese.
mam ácidos graxos. 7. d, b, c, h, f, a, e, g
20. d 8. d 9. d
10. e
Capítulo 8 11. c
1. c, h, g, e, i, a, f, d, j, b 12. a) A substância é o gás carbônico. A seqüência é: fitoplâncton,
2. a) É procariótica, pois não possui envoltório nuclear nem organóides moluscos filtradores, peixes carnívoros e decompositores. A subs-
citoplasmáticos membranosos. b) 1. membrana plasmática; 2. tância liberada será o gás carbônico. b) Os processos de captação e
nucleóide (ou cromossomo circular); 3. ribossomo; 4. parede celular. liberação são, respectivamente, a fotossíntese e a respiração. So-
3. a mente o fitoplâncton faz os dois processos.

59

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13. Estimulando-se com o ferro a proliferação do fitoplâncton (algas 18. O código genético é redundante (ou degenerado), ou seja, há
oceânicas), a taxa de fotossíntese executada por estes autótrofos au- aminoácidos que podem ser codificados por dois ou mais códons
mentaria, elevando a quantidade de CO2 recolhido da atmosfera. diferentes. Por exemplo, quando o RNAm tem o códon UUU, o
Dessa forma, poderia ser compensada, ao menos em parte, a grande aminoácido incorporado à proteína é a fenilalanina. Entretanto, di-
quantidade do gás que é liberada pela queima de combustíveis fós- ante de uma proteína com o aminoácido fenilalanina, não podemos
seis. O aumento da biomassa de algas pode alterar todas as cadeias afirmar com certeza se o segmento correspondente no RNAm é o
alimentares marinhas e, eventualmente, provocar eutrofização. códon UUU ou o códon UUC, já que ambos codificam o mesmo
14. a) Porque o camundongo, gradativamente, consumia todo o oxigê- aminoácido.
nio contido no interior do recipiente de vidro, acabando por morrer
por anóxia (falta de oxigênio). b) A fotossíntese executada pela planta Capítulo 11
gerava uma quantidade de oxigênio suficiente para manter a respi- 1. d, c, e, a, b
ração celular aeróbia da própria planta, liberando no recipiente um 2. a) Concluímos que a estrutura (ou arquitetura) celular é determina-
excedente capaz de manter vivo o camundongo. c) Fotossíntese: da pelas informações contidas no núcleo. b) Não. A célula resultan-
cloroplastos; respiração celular aeróbia: mitocôndrias. te, depois de se regenerar, apresentaria características morfológicas
15. a) Porque elas migram em busca do O2, liberado pelo filamento de de A. crenulata.
alga durante a fotossíntese. A luz vermelha é absorvida pela alga 3. Não; apenas em glóbulos brancos, porque os glóbulos vermelhos
com maior intensidade que a verde, quase totalmente refletida. Con- maduros são anucleados e não possuem cromossomos.
seqüentemente, iluminada com luz vermelha, a alga realiza 4. a
fotossíntese com maior intensidade e libera mais O2. b) É a água, 5. F, F, V, F
decomposta na fotólise (por ação da luz), durante fotofosforilação 6. d, b, a, e, c
acíclica da etapa fotoquímica da fotossíntese. 7. a) 1 – Intérfase, período G1 (filamentos de cromatina desconden-
16. c sados e ainda não duplicados). 2 – Intérfase, após o período S
17. e (filamentos de cromatina descondensados e já duplicados). 3 –
18. Por dois motivos, principalmente: a escassez de luz (retida pela es- Prófase (filamentos de cromatina duplicados e condensando-se). 4
pessa camada de folhas das copas das árvores maiores) e a tonalida- – Metáfase (cromátides-irmãs muito condensadas e ainda unidas

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de esverdeada da luz que atinge o solo, depois de atravessar as fo- pelo centrômero). 5 – Anáfase (cromossomos-filhos já separados,
lhas (que se comportam como um “filtro” verde), lembrando que a sendo tracionados). b) Condensados durante a divisão celular, os
luz verde é mal absorvida pela clorofila. cromossomos podem ser tracionados, com menor probabilidade de
19. O ponto x corresponde ao ponto de compensação luminosa, intensi- sofrer fraturas e perdas de fragmentos. Descondensados na intérfase,
dade luminosa em que a taxa da fotossíntese se equivale à da respira- permitem a transcrição e, assim, comandam a síntese de proteínas.
ção celular aeróbia, e as trocas gasosas globais entre a planta e o am- 8. a
biente são nulas. Na área A, a respiração celular aeróbia predomina 9. A figura mostra a duplicação do material genético (DNA). Vemos
sobre a fotossíntese; a planta consome matéria orgânica, libera gás um filamento de cromatina que, em determinado segmento, encon-
carbônico e absorve oxigênio. Na área B, ocorre o inverso: a taxa de tra-se duplicado. No gráfico, a duplicação do DNA está indicada
fotossíntese supera a da respiração celular aeróbia, a planta incorpora pela letra S (período S da intérfase). Nota-se a passagem da quanti-
matéria orgânica, consome gás carbônico e libera oxigênio. dade de DNA de 2C para 4C.
20. a) Ácido láctico. b) Havendo déficit de oxigênio, as células muscu- 10. a
lares degradam moléculas orgânicas por meio da fermentação láctica, 11. Resposta pessoal.
que origina ácido láctico. É o acúmulo dessa substância que acarre- 12. c, e, a, f, d, b
ta dores musculares, fadiga e, eventualmente, câimbras. 13. a) Meiose, pois há emparelhamento e posterior separação de
21. F, F, V, V, F cromossomos homólogos. b) As etapas ocorrem na seqüência 3, 4,
22. Soma = 45 (01 + 04 + 08 + 32) 1, 2 e 5.
23. b 14.
24. a

PAULO MANZI
Capítulo 10
1. b, e, g, d, h, i, f, a, c
2. b
3. d
4. Podem ser UGAGGCGAAUCC ou ACUCCGCUUAGG. Os dois
15. a) É a anáfase II, pois mostra a separação das cromátides-irmãs. b)
filamentos que compõem essa molécula de DNA transcrevem ca-
O número haplóide é igual a 6, pois são quantos cromossomos terão
deias diferentes de nucleotídios em moléculas de RNA mensageiro.
cada célula resultante da meiose representada na figura.
5. O HIV possui RNA como material genético, sendo chamado retrovírus
16. d
por determinar a síntese de DNA, tendo o RNA como modelo.
6. d, a, b, c, e 17. e
7. Trata-se de um organismo procarionte, pois há contato direto entre 18. a
o DNA e os ribossomos, indicando que estão no mesmo comparti- 19. Soma = 11 (01 + 02 + 08)
mento celular (no citoplasma) e que não há carioteca. 20. V, F, V.
8. d 21. e
9. Não obrigatoriamente. Como o código genético é redundante (ou 22. Soma = 22 (02 + 04 + 16)
degenerado), dois ou mais códons diferentes podem codificar o mes- 23. e
mo aminoácido. 24. a) Podemos destacar, como condições propícias à elevada ocorrên-
10. c cia de doenças infecciosas no país em desenvolvimento, a falta de
11. a saneamento básico adequado, as más condições de nutrição e a pe-
12. A: 19,6%; B: 29% quena cobertura da população pelos esquemas de vacinação. b) A
13. a) CAUCGGAUC. b) Não, pois o RNA mensageiro formado a par- menor porcentagem de casos de morte por câncer no país em desen-
tir do filamento complementar a este não teria a mesma seqüência volvimento deve-se ao fato de que os habitantes morrem em grande
de nucleotídios. número por outras causas (como as doenças infecciosas), e um me-
14. Proteínas (A); RNA mensageiro (D); RNA ribossômico (F); ATP (G). nor número atinge as faixas etárias mais avançadas, nas quais a ocor-
15. a rência de câncer seria maior.
25. a) Reprodução assexuada. b) Vantagens: maior número de descen-
16.
dentes gerados e menor tempo entre duas gerações consecutivas.
17. Foi a valina, pois a décima base nitrogenada pertence ao quarto códon Desvantagens: menor variabilidade genética e maior risco de de-
(agrupamento de três em três nucleotídios). Portanto, haverá altera- saparecimento da espécie em face de novos desafios da seleção
ção no quarto aminoácido. natural.

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26. 1: prófase; 2: metáfase; 3: anáfase; 4: telófase. possibilidade de ter o genótipo pp. Retrocruzado com a fêmea
27. d, c, b, a. heterozigota Pp, a probabilidade de nascimento de filhote preto
28. b (genótipo pp) é igual a 25%. Por se tratar de eventos independen-
29. d tes, a probabilidade de ocorrência de ambos é determinada pelo pro-
30. d duto de suas probabilidades: P = 2/3 · 1/4 = 2/12 = 1/6
31. a) A separação de cromossomos homólogos é observada apenas na 10. A doença é determinada pelo alelo recessivo, o que se conclui pela
meiose (anáfase I). b) A separação de cromátides-irmãs verifica-se observação da prole do casal 7 ⫻ 8, ambos normais e com uma
tanto na mitose (anáfase) como na meiose (anáfase II). filha doente.
32. F, V, F, V 11. d
33. e 12. P = 1/6 (16,66%)
13. O gene determinante da síntese da albumina está presente em todas
Capítulo 12 as células do corpo (rins e cérebro, inclusive), e não apenas nas
1. d, c, a, f, e, b, g células do fígado. Todas as células do corpo humano possuem os
2. a) Fortaleceram a hipótese da biogênese, porque reforçavam a idéia mesmos 46 cromossomos e, portanto, os mesmos genes. Entretan-
segundo a qual a vida só poderia surgir a partir de outra preexistente. to, cada grupo de genes em geral se expressa em apenas alguns
b) Os frascos mantidos abertos serviram de controle para compara- tipos de células, fazendo com que elas produzam proteínas especí-
ção, demonstrando que as larvas surgiam a partir de ovos deposita- ficas. Assim, por exemplo, os plasmócitos produzem anticorpos, as
dos pelas moscas. Essas larvas, ao se desenvolver, originavam mos- células precursoras dos glóbulos vermelhos produzem hemoglobina,
cas da mesma espécie daquelas que Redi observava voando ao re- as células musculares produzem grande quantidade de actina e
dor dos frascos. miosina etc.
3. V, V, F, F, V, V 14. a
4. a) Metano, amônia e hidrogênio. b) Elevadas temperaturas e grande 15. a) 50%. b) Como os três primeiros são meninos, restam dois nasci-
incidência de radiações e descargas elétricas. c) Substâncias orgâ- mentos, que são eventos independentes. Portanto: P = 25%.
nicas, como aminoácidos, carboidratos e bases nitrogenadas. d) No 16. a) É importante que os alunos tirem suas conclusões a partir da aná-
próprio ambiente, onde as substâncias orgânicas teriam se formado lise dos heredogramas que construíram. Sabe-se, entretanto, que a
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

em decorrência das condições da Terra primitiva. e) Teria sido a capacidade de dobrar a língua em “U” é condicionada por alelo do-
fermentação de substâncias orgânicas obtidas no ambiente. minante. b) A resposta deverá ser analisada caso a caso.
5. b 17. a) A forma das folhas do tomateiro pode ser determinada por um par
6. Pertence à hipótese da abiogênese (ou geração espontânea). É fa- de alelos, sendo a variedade normal condicionada por alelo domi-
lha porque não impede que ratos previamente existentes alcancem nante (B) e a “batata” pelo alelo recessivo (b).
o material (camisa suja e grãos de trigo) e depositem nele seus b) I. BB ⫻ bb; II. Bb ⫻ Bb; III. bb ⫻ bb; IV. Bb ⫻ bb; V. BB ⫻ B_
filhotes. 18. A mulher albina tem genótipo aa e seu marido tem genótipo Aa, pois
7. d já tiveram uma criança albina (genótipo aa). Portanto, a probabili-
8. A primeira equação resume a fotossíntese e relaciona-se com a hi- dade de nascimento de outra criança albina é igual a 50%.
pótese autotrófica, que afirma terem sido autótrofos os primeiros 19. a) 100% inflorescência mista (genótipos NN ou Nn). b) 75%
seres vivos. A segunda equação resume a fermentação e relaciona- inflorescência mista (genótipos NN ou Nn) e 25% inflorescência
se com a hipótese heterotrófica, que afirma terem sido heterótrofos pistilada (genótipo nn).
fermentadores os primeiros seres vivos. 20. Basta cruzar o animal preto (genótipo BB ou Bb) com uma fêmea
9. e
branca (genótipo bb). Sendo ele homozigoto BB, todos os descen-
10. b
dentes serão pretos (genótipo Bb); sendo heterozigoto Bb, seus des-
11. b
cendentes poderão ser pretos (genótipo Bb) ou brancos (genótipo
12. e
bb).
13. a
21. b
Capítulo 13 22. a) 99 brancos e 33 amarelos. b) 66 heterozigotos.
1. d, f, e, b, a, g, c, h 23. a) Alelo recessivo (veja o casal II-1 ⫻ II-2). b) A mulher III-1, sendo
2. e normal e filha de heterozigotos, pode ser homozigota dominante ou
3. e heterozigota.
4. a) A escolha da calça e da camisa são eventos independentes, cuja 24. a) Recessivo (veja o casal 3 ⫻ 4). b) I-1: AA; I-2: Aa. c) P = 1/64.
probabilidade de ocorrência é dada pelo produto das probabilidades
de ocorrência de cada evento: P = P (calça jeans) · P (camisa azul) ⇒
Capítulo 14
⇒ P = 3/5 · 5/20 ⇒ P = 15/100 = 0,15 (15%). Conclui-se que a 1. a, e, f, d, b, c
probabilidade de você escolher calça jeans e camisa branca é de 2. a
15%. b) A escolha da camisa bege ou verde são eventos mutuamen- 3. a) 50% azuladas e 50% brancas. b) 50% pretas e 50% azuladas.
te exclusivos, cuja probabilidade de ocorrência é dada pela soma c) 100% azuladas.
das probabilidades de ocorrência de cada evento: P = P (camisa 4. Soma = 01 (01)
bege) + P (camisa verde) ⇒ P = 5/20 + 6/20 ⇒ P = 11/20 = 0,55 5. a) Polialelia ou alelos múltiplos. b) CC, Ccch, Cch e Cca. c) Aguti
(55%). Portanto, a probabilidade de você escolher camisa bege ou (50%), himalaia (25%) e albino (25%). d) Cch (25%), Cca (25%),
camisa verde é de 55%. chca (25%) e caca (25%).
5. a) A probabilidade de que a primeira criança seja um menino é de 6. a) AA, Aan e Aa. b) 50% ana (flor normal) e 50% aa (flor rainha).
50%, independentemente de quantos filhos o casal pretende ter. b) 7. e, f, b, a, g, d, c
A probabilidade de nascimento de uma menina é igual a 50%. Como 8. e
3 nascimentos são eventos independentes, temos: 9. a
P = 0,125 (12,5%). A probabilidade de nascimento de 3 meninas é 10. d
igual a 12,5%. 11. a) O casal Lucchesi — B (genótipo IB_) e AB (genótipo IAIB) – não
6. b, f, a, d, c, g, e poderia ter um filho como o bebê nº 1, do grupo O (genótipo ii),
7. a) O ovário retirado da cobaia preta produzia óvulos com o alelo mas poderia ter um filho do grupo A (genótipo IA_), desde que a
que condicionava a pelagem preta, mesmo depois de implantado na Sra. Lucchesi fosse heterozigota (genótipo IBi). Analogamente, o
cobaia albina. b) Fêmea preta: genótipo AA; descendentes: genótipo casal Hart — B (genótipo IB_) e B (genótipo IB_) — não poderia ter
Aa. c) O resultado não seria o mesmo, pois o ovário da fêmea albina um filho como o bebê nº 2, do grupo A (genótipo IA_), mas poderia
continuaria produzindo apenas óvulos portadores do alelo para ter um filho do grupo O (genótipo ii), desde que ambos fossem
pelagem albina. heterozigotos (genótipo IBi). b) Considerando que, de fato, ocorreu
8. a a troca de bebês, e que o bebê nº 2 é filho do casal Lucchesi, a
9. b. Cuidado com seus cálculos! Como o carneirinho é branco, a pro- probabilidade de que este casal (genótipos IBi e IAIB) tenha outra
babilidade de que tenha genótipo Pp é de 2/3, pois exclui-se a criança do grupo A é igual a 0,25 ou 25%.

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12. Mulher: Rh negativo; homem: Rh positivo; primeira criança: Rh 8. a) O genótipo é vv bb. b) vv bb ⫻ VV bb — 100% Vv bb (fruto
positivo (sensibilizou a mãe); segunda criança: Rh negativo (não alaranjado).
teve DHRN, mesmo sendo a mãe previamente sensibilizada); ter- c) Vv bb (fruto alaranjado) ⫻ vv Bb (fruto amarelo)
ceira criança: Rh positivo (teve DHRN).
13. a) ii dd LMLN. b) Apenas sangue do grupo O Rh negativo. Vv bb (fruto alaranjado) x vvBb (fruto amarelo)
14. Soma = 29 (01 + 04 + 08 + 16)
15. a) Um filho com atividade de 0 unidade/m, dois com atividade de
50 unidades/m e um com atividade de 100 unidades/m. b) A dife- vB vb
rença entre a proporção esperada e a encontrada pode ser explicada
Vb Vv Bb Vv bb
pelo pequeno tamanho da amostra (apenas quatro indivíduos).
16. a) Trata-se de um caso de pleiotropia. Alguns exemplos humanos
vb vv Bb vv bb
são a anemia falciforme, a fenilcetonúria, a fibrose cística do pân-
creas (ou mucoviscidose), a síndrome de Marfan etc. b) As penas
são um importante mecanismo de isolamento térmico, dificultando Proporções: (ou 25%) vv Bb (fruto amarelo)
a dissipação de calor do corpo para o ambiente externo. Penas anor- (ou 25%) vv Bb (fruto amarelo)
malmente arrepiadas não retêm calor, provocando excessivo gasto (ou 25%) Vv bb (fruto alaranjado)
de energia na manutenção da temperatura corporal da ave. Com (ou 25%) vv bb (fruto verde-escuro)
isso, há uma hipertrofia de órgãos relacionados com a digestão (par- 9. b, a, e, d, c 10. d
ticularmente da moela, órgão de trituração mecânica dos alimen- 11. b
tos). Com o excessivo consumo de energia na regulação da tempe- 12. a) Chama-se ligação gênica, ligação fatorial ou linkage. b) AB/ab ⫻
ratura corporal, ocorre déficit energético em outras funções, parti- ab/ab
cularmente na reprodução, o que explica a pequena produtividade