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UNIVERSIDADE AbERTA

E-fólio A de Evolução e Classificação Biológica

Luís Correia Turma 1

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1. TEMA 1

Em termos evolutivos, qual a importância da laurissilva?

A designação laurissilva provém do latim Laurus (lauráceas) e Silva (floresta). A laurissilva tem a sua origem, há cerca de 20 milhões de anos, nos períodos Miocénico e Pliocénico, existindo no sul da Europa e nos países da bacia do Mediterrâneo. As enormes variações do clima da região e as glaciações subsequentes praticamente extinguiram as florestas de laurissilva existentes. Os arquipélagos atlânticos que constituem a Macaronésia (Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde) são hoje, a par da Mauritânia, os locais onde se pode encontrar a laurissilva. Contudo, é na Ilha

da Madeira que se pode encontrar a melhor conservada e mais exuberante mancha de laurissilva, ocupando cerca

de 15 000 ha. O Parque Natural da Madeira, criado em 1982, é o responsável pela gestão da laurissilva, enquanto área protegida. A Directiva Habitats (92/43/CEE) designa-a como um habitat prioritário. Em 1992 foi integrada na Rede

de Reservas Biogenéticas do Conselho da Europa, por apresentar evidentes valores naturais e

carácter de singularidade. Em Dezembro de 1999 a UNESCO consagrou a floresta laurissilva

da Madeira como Património Mundial Natural. Foi, ainda, reconhecido Sítio da Rede Natura

2000 com o nome laurissilva da madeira e código PTMAD0001, por ser um Sítio de Interesse

Comunitário (SIC) e uma Zona de Protecção Especial (ZPE).

A ilha da Madeira, cujas condições edafoclimáticas se adequam ao desenvolvimento da

floresta laurissilva, do tipo húmida subtropical, constitui-se como um dos últimos redutos deste ecossistema e o melhor ambiente para estudar a sua evolução.

Segundo o texto T1, Teorias da evolução e princípios básicos da classificação biológica, evolução é o processo de transformação gradual que se opera ao longo de determinado período de tempo que se traduz pela alteração das características dos seres vivos. O isolamento geográfico, proporcionado pela sua condição de ilha, funcionou como barreira, impelindo à criação de novas espécies num processo evolutivo designado como especiação alopátrica.

processo evolutivo designado como especiação alopátrica. Figura 1 – Vinhático ( Persea indica ). Retirado de

Figura 1 Vinhático (Persea indica). Retirado de

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No entanto, o isolamento biogeográfico longo sob um novo tipo de clima (temperado sub- mediterrânico e mediterrânico) conduziu entretanto a especiação intensa (radiação adaptativa- neo-endemismo). (Capelo, J. (2004), p. 16.). Pode considerar-se existirem fenómenos de radiação adaptativa na laurissilva madeirense, já que os endemismos aqui encontrados constituem espécies ecologicamente distintas mas com uma origem ancestral comum.

O gradualismo, entendido como a produção

de grandes diferenças fenotípicas entre espécies que se produzem por acumulação de muitas mudanças individuais ao longo do

tempo evolutivo, pode ser aplicado ao caso

da laurissilva da madeira.

Em termos evolutivos pressupõe-se que a própria composição do património florístico da Laurissilva esteja associada à ecologia e biologia do Pombo Trocaz, o que lhe confere

Figura 2 Laurissilva da Madeira. Retirado de http://pt.scribd.com/doc/44963042/FLORESTA-LAURISSILVA, em

uma importância de grande relevo. (Programa de Desenvolvimento Rural da Região Autónoma da Madeira 2007-2013 (2007), p. 40.). O

papel desempenhado pelo pombo trocaz (Columba trocaz), designado como semeador da laurissilva, permitiu a sua reflorestação em toda a área que constitui o seu habitat.

A disseminação da laurissilva dá-se em andares bioclimáticos, a que correspondem diferentes

espécies de lauráceas. As mais representativas são o Barbusano (Apollonias barbujana), Til

(Ocotea foetens). Loureiro (Laurus novocanariensis) e Vinhático (Persea indica).

A importância da laurissilva, em termos evolutivos, prende-se com o facto das florestas

existentes constituírem verdadeiros laboratórios naturais onde se podem estudar as mutações

genéticas ocorridas ao longo do tempo e os fenómenos de especiação, radiação adaptativa, gradualismo ou até a teoria da seleção natural segundo Darwin.

ou até a teoria da seleção natural segundo Darwin. 2012/03/28 2 2º Ano – 2º Semestre

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2. TEMA 2

Os ciclídeos dos grandes lagos africanos sofreram especiação ao longo dos anos, havendo, neste momento, uma grande quantidade de espécies endémicas. Há outras espécies que ainda não se encontram divididas e classificadas em espécies diferentes,

mas consideram-se como estando numa fase avançada de especiação.

Não se sabe ao certo há quantos milhões de anos existem os ciclídeos, nem tão pouco quantas espécies habitam o planeta. Gilberto Junior estima que existam cerca de 2000 espécies e por volta de 140 géneros. A sua classificação biológica é a seguinte:

Reino: Animalia Filo: Chordata Sub-filo: Vertebrata Classe: Actinopterygii Ordem: Perciformes Família: Cichlidae Aceita-se que os ciclídeos já existiam no supercontinente Gondwana, depois da separação da Pangea. Em termos da biogeografia, enquanto descoberta dos padrões de distribuição da vida e das causas que levaram a esses padrões, admite-se que o fracionamento de Gondwana poderá ter distribuído o ciclídeo ancestral comum pelos continentes do hemisfério sul, que continuaram a deriva continental (Alfred Wegener) até à posição que hoje detêm. Este tipo de distribuição, denominada de vicariância, é mais aceite que a hipótese de

dispersão.

Os ciclídeos assim separados iniciaram processos evolutivos distintos já que a partilha de fluxo génico era impossível devido às barreiras geográficas criadas, podendo considerar-se como especiação alopátrica. Os ciclídeos são essencialmente peixes de água doce, havendo contudo alguns géneros que toleram e vivem mesmo em águas com elevada salinidade, de que é exemplo o Tilapiinae. Os grandes lagos africanos, implantados na falha tectónica conhecida como vale do Rift, é uma expressão comummente usada para designar os lagos Malawi (também conhecido como

Figura 3 – Gondwana. Retirado de
Figura 3 – Gondwana. Retirado de

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Niassa), Tanganica e Vitória. Estes lagos abrigam a maior quantidade conhecida de espécies endémicas de ciclídeos, não só entre lagos mas também dentro do mesmo lago, de tal forma que há quem os considere uma linhagem monofilética. Os ciclídeos neotropicais formam um clado monofilético grupo-irmão do clado, também monofilético, dos ciclídeos africanos (Stiassny, 1991; Farias et al., 1999; Sparks & Smith, 2004). (Ortiz, J. (2012), p. 5.). A esta dimensão endémica, dos ciclídeos dos lagos africanos, não deve ser alheia a dimensão dos lagos, a diversidade e quantidade de nichos existentes, a falta de predadores, a abundância de alimentos, para só citar algumas possíveis causas para a radiação adaptativa observada. A rápida evolução adaptativa e a explosiva taxa de especiação simpátrica fazem dos ciclídeos dos grandes lagos do leste africano foco de atenção de muitos pesquisadores (ver Kocher, 2004 para revisão). (Ortiz, R. (2012), p. 3.). Nos grandes lagos africanos, o número de espécies, tal como Darwin referia, aumentou com o tempo, apesar das extinções entretanto verificadas. Poder-se-á perguntar: porque é que num mesmo lago existem tantas espécies diferentes de ciclídeos? Bom, a resposta não é fácil, nem imediata e envolve vários fatores. Para Galis e Metz (1998) a flexibilidade e a versatilidade do aparato mandibular faringeal dos ciclídeos promoveu a diversificação evolucionária por duas razões. Primeiro, causou uma plasticidade comportamental; segundo, forneceu condições à evolução. (Ortiz, J. (2012), p. 3.). A diferenciação comportamental pode ter levado à especiação, sem barreiras geográficas de permeio, logo num processo de especiação simpátrica. A agressividade patente nos mbuna (Melanochromis, Pseudotropheus) e menos evidente noutros géneros de ciclídeos é, seguramente, uma prova da referida diferenciação comportamental. A diversificada coloração dos ciclídeos do lago Malawi mostra uma diferenciação fenotípica muito evidente, podendo

uma diferenciação fenotípica muito evidente, podendo Figura 4 - Melanochromis Johannii . Retirado de

Figura 4 - Melanochromis Johannii. Retirado de http://www.aquariumdomain.com/viewFreshwaterAfric anCichlid.php?id=71, em 2012/03/28

considerar-se que houve gradualismo.

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Estudos realizados sobre a tilápia Oreochromis niloticus um ciclídeo cosmopolita dos rios e lagos da África comparativamente a outras espécies (Dimidiochromis Compressiceps, Metriaclima Zebra e Labeotropheus fuelleborni), chegaram à identificação do gene que mantém o pigmento, fato que remonta à ancestralidade dos genes dessa família de opsins, o qual todos grupos de vertebrados

possuem. Isso firma a hipótese da relação filogenética entre as espécies de ciclídeos dos três grandes lagos e faz a tilápia representar um precursor dos Haplocromídeos primitivos que deram origem aos ciclídeos dos lagos, justamente pela presença desse opsin. (Bravo, J. (2004)). A especialização de alguns ciclídeos como os conchículas (Lamprologus ocellatus) levou a que criassem um nicho muito peculiar.

ocellatus ) levou a que criassem um nicho muito peculiar. Figura 5 - Lamprologus ocellatus .

Figura 5 - Lamprologus ocellatus. Retirado de

3. CONCLUSÃO O tempo é um fator importantíssimo em fenómenos de especiação, nos dois casos estudados podemos estar a falar de cerca de 200 milhões de anos. Barreiras geográficas foram as causas para a especiação alopátrica quer da laurissilva quer dos cilídeos. No caso dos ciclídeos dos grandes lagos africanos ocorreu especiação simpátrica. A teoria da seleção natural de Darwin também aconteceu em ambos os casos. Radiação adaptativa e gradualismo são simultaneamente encontrados nos processos evolutivos da laurissilva e dos ciclídeos.

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4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TEMA 1 Disponível nos textos de apoio da UC Evolução e Classificação Biológica, disponibilizados

na plataforma moodle; Sítio do Scribd A Floresta Laurissilva da Madeira Património Mundial. Disponível em

http://pt.scribd.com/doc/44963042/FLORESTA-LAURISSILVA , 2005. [Consult. 18 Mar. 2012]. Sítio da Wikipédia - Laurissilva. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Laurissilva#cite_ref-

0. [Consult. 18 Mar. 2012]. Sítio da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa- Apontamentos.

[Consult. 19 Mar. 2012]. Sítio do Zoomarineblog A Floresta Laurissilva da Madeira, Património Mundial. Disponível

em http://zoomarineblogue.blogs.sapo.pt/406264.html, 2007. [Consult. 19 Mar. 2012].

Sítio da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Biodiversidade e Ambiente I.

Disponível em http://webpages.fc.ul.pt/~maloucao/Aula%2015BA.pdf, 2005. [Consult. 19

Mar. 2012]. Sítio de Azoresbioportal A perspectiva arquipelágica: Madeira. Disponível em

f. [Consult. 19 Mar. 2012]. Sítio do Gabinete de planeamento e políticas do MAMAOT Programa de Desenvolvimento Rural da Região Autónoma da Madeira 2007-2013. Disponível em

Sítio de umbelata paisagem&vegetaçãoA paisagem vegetal da Ilha da Madeira. Disponível

em http://www.umbelata.com/ficheiros/quercetea_6.pdf, 2004. [Consult. 20 Mar. 2012].

Sítio da Universidade da Madeira História e Evolução da Vegetação. Disponível em

2012].

Sítio da Biblioteca digital do Instituto Politécnico de bragança – Biogeografia e uso do território. Disponível em

[Consult. 20 Mar. 2012].

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TEMA 2 Disponível nos textos de apoio da UC Evolução e Classificação Biológica, disponibilizados na plataforma moodle;

Sítio da Wikipédia Cichlidae. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Cicl%C3%ADdeo,

2012. [Consult. 22 Mar. 2012].

Sítio da Comunidade Ciclídeos Os três grandes lagos do vale do rift. Disponível em

Mar. 2012]. Sítio da Nature Reviews ADAPTIVE EVOLUTION AND EXPLOSIVE SPECIATION:

THE CICHLID FISH MODEL. Disponível em

Reviews_Genetics.pdf, 2004. [Consult. 22 Mar. 2012]. Sítio da Universidade Federal do Espírito Santo Especiação. Disponível em

[Consult. 22 Mar. 2012]. Sítio de O mundo da aquariofilia Ciclídeos Africanos. Disponível em

http://aquaworld.no.sapo.pt/html/cicl.html, 2012. [Consult. 23 Mar. 2012].

Sítio do blog Conhecendo a África Os três grandes lagos no Vale do Rift. Disponível em

[Consult. 23 Mar. 2012]. Sítio de CMCA Padrões de coloração e resposta visual nos Ciclídeos Africanos. Disponível

2007. [Consult. 23 Mar. 2012].

Sítio da Universidade Estadual Paulista CARACTERÍSTICAS ESPERMÁTICAS NA

SUBFAMÍLIA CICHLINAE (PERCIFORMES: CICHLIDAE) E SUAS IMPLICAÇÕES FILOGENÉTICAS. Disponível em

2011. [Consult. 24 Mar. 2012].

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