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"Por que as pessoas aceitam a condição de vítimas de suas sociedades enquanto, em outras

"Por que as pessoas aceitam a condição de vítimas de

suas sociedades enquanto, em outras ocasiões, elas se

tornam tão iradas e buscam, com energia e paixão, fazer alguma coisa para mudar suas condições?" Esta questão inicia e percorre todo o trabalho de Barrington Moore Jr. Em uma primeira parte, Moore Jr. define as várias concepções de Injustiça presentes nas mais diversas sociedades. Mas apenas uma investigação conceitual não sustentaria o complexo projeto que o autor pretendia desenvolver. Era necessária a investigação histórica da classe trabalhadora, algo que permitisse comparações pertinentes entre os períodos de submissão e aqueles' de insurreição. Escolheu a Alemanha, entre a Revolução de 1848 e a tomada do poder por Hitler em 1933, porque, além de apresentar uma poderosa classe trabalhadora, C0111 uma evolução quase que prototípica, o país oferecia um farto e inusitado material de pesquisa, o que possibilitava, entre outras, uma visão geral do cotidiano de suas populações. Por fim, na terceira parte, retoma aos temas levantados no início e os analisa à luz de consideracões históricas. Um estudo exaustivo, co~pleto:definitivo. Uma forma original de se

conhecer, nos h0111ens, a perversa sedução ela

opressão ou o magnetismo do gesto revolucionário.

Áreas de interesse: Antropologia, História e Política.

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li Brava Gente - Os italianos em São Paulo (1870-1920) - Zu/eika A/vim • Cafeicultura

li

Brava Gente -

Os italianos em São Paulo (1870-1920) -

Zu/eika A/vim

Cafeicultura -

Homens, mulheres e capital 11850-1980)

Verena Sto/cke

G

Colônia Cecília -

Afonso Schmidt

e

Contos Anarquistas -

Antonio A. Prado/Francisco F.

. O Movimento Anarquista em São Paulo -

Hardman

Silvia L. Magnani

Nem Pátria Nem Patrão -

Vida operária e·cultura anarquista

no Brasil

-

Francisco F. Har

dman

Coleção Primeiros Passos

e

O que é Anarquismo -

Caio Túlio Costa

o

O que é Autonomia Operária -

Lúcia Bruno

ti

O que é Desobediência Civil -

Evaldo Vieira

O que é Liberdade -

Caio Prado Jr.

e O que é Participação Política -

Dalmo de Ab(eu Dallari

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Injustiça

As bases sociais da obediência e da revolta

Tradução:

João Roberto Martins Filho

editora brasiliense

DIVIDINDO OPlNIOES MULTiPliCANDO' GULTIlRA

1 987

Copyright © 1978, Barrington Mome, Jr.

Título original: lnjustice - of obedience and revolt

Copyright©da tradução: Editora Brasiliense S. A.

lhe social bases

Capa:

Uno H.

Revisão:

Mário R. Q. Moraes Sandra C. Fernandez

Uno H. Revisão: Mário R. Q. Moraes Sandra C. Fernandez brasiliem;" I editora brasiliense s.a. rua

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editora brasiliense s.a. rua general jardim, 160

01223 . são

fone (011) 231·1422

telex: 11 33271

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1 índice

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1 Prefácio 9 .[ Primeira parte .j O sentido de injustiça: Algumas constantes e variáveis
1
Prefácio
9
.[
Primeira parte
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O sentido de injustiça: Algumas constantes e variáveis
1
CajJítulo
1.
Elementos recorrentes em
códigos
mo-
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rais
.
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19
Pontosdepartida
19
I
Autoridade e o desafio à autoridade
36
~
A divisão do trabalho
57
:!
A distribuição de bens e serviços: as' per-
mutações de
Observações finais
64
76
Capítulo
2.
A
autoridade moral do sofrimento e da
injustiça.
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81
Considerações
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81
1
O
ascetismo
83
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Campos de concentração
Os intocáveis.
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89
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Sufocando o sentido de injustiça '"
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100
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118
Capítulo
3.
A recusa do sofrimento e da ppressão
123
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Aspectos culturais e sociais
Os temas
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Capítulo

Capítulo

Capítulo

Capítulo

ÍNDICE

Autonomia moral e personalidade hu- mana

134

Interpretações freudianas

160

 

Segunda parte

U ma perspectiva histórica:

 

os trabalhadores alemães (1848-1920)

 

4. Prólogo

 

173

5.

Os trabalhadores alemães na Revolução

de1848

 

182

O

conflito de principios na modernização

182

Pressões sobre as corporações de ofício

186

O

proletariado

192

Diagnósticos articulados

 

207

O

comportamento dostrabalhad01'es no

período revolucionário

.

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222

O

nacionalismo e os trabalhadores

 

239

6.

Tendências sociais e culturais anteriores.,

7.

a1914

:

Introdução Dimensão e composição da força de tra- balho industrial

Os salários e as concepções operárias da relação salarial Elite e massas entre os trabalhadores A vulnerabilidade corrium ao infortúnio. As relações com os superiores e com ou-

. Algumas fontes para a cultura da classe •

tros operários

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operária Imagens do futuro Ação política e econômica Identificação com o

246

246

248

261

270

277

284

289

292

303

308

Militância

e

apatia

no

Ruhr

antes

de

1914

Ímportância,e características do Ruhr . 316

324

357

316

Os mineiros do carvão Os trabalhadores do ferro e do

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INJUSTIÇA

5

 

As conseqüências de experiências histó- ricas diferentes

373

Capítulo

8.

Arevoluçãoreformista1918-1920

381

 

'Antecedentes gerais

381

A

disputa entre o SPD e os radicais

393

Nota sobre Conselhos e conselhos (1918-

1920)

432

Capítulo

9.

O impulso radical

435

 

Aspectos gerais

435

O

Ruhr da guerra à revolta

451

Terceira parte

Perspectivas gerais

Capítulo 10.

As revoluções alemã e comparações

russa:

algumas

489

Capítulo 11.

A

supressão

de

alternativas

históricas:

Alemanha, 1918-1920

515

Algumas considerações

515

Um!!- não-decisão

crucial:

O

SPD

e

o

. Era possível uma política diferente?

Exército.

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522

527

Por que essa política não foi tentada?

535

Capítülo 12.

Aspectos repressivos da indignação mo-

ral: o exemplo

.

.

.

.

.

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.

.

543

O tema

543

Quem eram os nazistas?

545

Formas e

fontes

da

indignação

moral

. "Direita" e "Esquerda": similaridades e diferenças entre doisradicalismos

nazista

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559

571

Capítulo 13.

Relativismo moral

590

Aspectos descritivos e avaliativos

590

Autoridade racional e predatória

597

 

610

 

Principios de distribuição "

Exploração

.

617

Capítulo 14.

Inevitabilidade e sentido de injustiça

621

6

íNDICE

Observações introdutórias Personalidade individual Aspectos sociais

O problema da identidade nacional

Definições culturais do inevitável Tempo e sentido de injustiça

A expropriação da indignação moral

Capítulo 15.

Epílogo: reciprocidade como fato, logia e ideal

Bibliografia

Índice remissivo

 

621

627

633

654

662

670

676

ideo-

 

682

689

703

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ln~:Uce de quadros

Capítulo 5.

1. Crescimento do número de trabalhadores: 1816-

.

1846

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Capítulo

6.

2. Trabalhadores industriais em 1913, segundo os relatórios do Serviço de Inspeção Fabril

3. Associados de sindicatos: 1907, 1912e 1913

4. Indices de salários reais: 1871-1913

5. Esperanças e fantasias dos trabalhadores, de acor- do com o Arbeiterfrage de Levenstein '

Capítulo

7.

6. Distribuição dos indivíduos que recebiam rendi-

administra-

mentos

nos

três principais

distritos

tivos do Ruhr, em 1907

.

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197

252

258

262

299

319

7. Votação do Partido do Centro e do SPD nos três

principais distritos administrativos do Ruhr:1898-

1912

'

,

8. Principais profissões e número de trabalhadores industriais no Ruhr, em 1907

9. Produção de carvão e número de trabalhadores nas minas: 1800-1913

320

323

328

8

Capítulo 8.

ÍNDICE DE QUADROS

,1

10. Trabalhadores industriais segundo os relatórios

do Serviço de Inspeção

384

10 A. Modificações no número de trabalhadores indus- triais a partir de 1913(vs. 1918e1920) •

385

Capítulo

9.

 

11.

Distribuição das pessoas empregadas na região

 

do Ruhr:

1907 e 1925

.

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453

12.

Principais profissões

dos trabalhadores

indus-

triais da região no Ruhr: 1907 e 1925

 

.

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454

Capítulo 12.

 

13. Classificação de grupós profissionais de acordo com a proporção de membros do NSDAP, com base nas cifras do partido e do censo

550

14. Composição social do NSDAP em 1935

 

557

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Prefácio

Este é um livro que interroga por que as pessoas acei- tam amiúde a condição de vítimas de suas sociedades en- qvanto, em outras ocasiões, elas se tornam tão iradas e bus- cam, com energia e paixão, fazer alguma coisa pára mudar suas condições. Em sua maior parte, ele enfoca as pessoas que vivem na camada inferior da sociedade, ou perto dela:

aqueles- indivíduos quase ou totalmente privados de pro- priedade, renda, educação, poder, autoridade e prestígio. Procura revelar como essas pessoas consideram e explicam as circunstâncias de suas vidas. Ao mesmo tempo, investiga as razões complementares de seu comportamento. Quais as suas noções de injustiça e, portanto, de justiça e de onde provêm essas idéias? Há um núcleo comum de caracterís- ticas gerais ou amplamente compartilhadas em tais concep- ções e, se isso ocorre, por que é assim? Como e por que essas noções têm variado entre grupos diferentes de tI'aba- lhadores e quais foram as tendências históricas mais rele- vantes que afetaram e influenciaram essas variações? Pensei, por algum tempo, em denominá-lo um estudo da indignação moral, fazendo dele uma análise sobre as condições sociais e históricas sob as quais a indignação moral vem à tona. Muitos elementos dessa preocupação ori- ginal permanecem neste trabalho. Não obstante, a aborda- gem das evidências relativas à forma como as pessoas des-

10

PREFACIO

providas de propriedade e de outras vantagens sociais efeti- vamente se sentiam e se comportavam conduziu à compre- ensão de que o termo "indignação moral" n1í.o traduzia apropriadamente o que era em geral descoberto. "Indig- nação moral" sugere, de forma demasiado intensa, as agru- ras de intelectuais procurando interpretar, julgar e trans- formar o mundo. A fórmula cheira muito a sermão. As pes- soas de pouca cultura e educação certamente são capazes de se sentir iradas, Inas a palavra "moral" carrega conota- ções de condescendência e introspecção que não captam" o tom e a particularidade de muitas expressões da ira popu- lar. Ao mesmo tempo, há um claro componente moral nes-

de "in-

justiça, parece apreender de modo mais acurado o tom e o conteúdo de tais manifestações. A primeira parte é uma tentativa inicial de decifrar quais são os elementos centrais e" recorrentes que possam estar presentes nas concepções de injustiça, e dar conta das variações extremas de tai"s concepções. O capítulo 1 exa- mina a gama mais ampla possível de sociedades humanas, em busca de situações recorrentes em geral consideradas iníquas e injustas. Os dois capitulos seguintes investigam em duas direções opostas, da forma mais extensa possível, os desvios de qualquer desses significados potencialmente universais de justiça e injustiça. Através do exame de exem- plos extremos de situações injustas ou degradantes, o capi- tulo 2 procura descobrir os mecanismos psicológicos e so- ciológicos que sufocam o sentido de injustiça. O terceiro e' o último capitulos da primeira parte invertem, por assim di- zer, a problemática: são uma tentativa de localizar e identi- ficar os mecanismos psicológicos e sociológicos através dos quais os seres humanos vêm a resistir à injustiça ou a defi- nir a sua situação como injusta, fazendo alguma coisa fren- te a isso. Embora a primeira parte contenha uma soma con- siderável de materiais históricos, não é inocentemente a" histórica, mas o é explicitamente. A segunda parte introduz dimensões e considel"ações históricas. Embora possa estar rapidamente se aproximan- do o tempo em que uma história comparada dos trabalha- dores industriais do Ocidente (e não apenas dos movimen-

sa c61era. Dessa maneira, "injustiça", ou o sentido

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INJUSTIÇA

11

tos trabalhistas que envolvem uma pequena minoria desses operários) se apresente como viável e proveitosa, ela não me parecia possível à época em que iniciei seriamente o traba- lho para este livro, há mais de dez anos. * A maior parte das fontes secundárias consistia de obras que tratavam daquilo que os teóricos pensavam que as massas de trabalhadores comuns sentiam, ou então eram relatos minuciosos da his- tória dos movimentos operários nacionais. Havia ocasional- mente brilhantes exceções como The Making of the English Working Class ("A formação da classe trabalhadora na In- glaterra") de E.P. Thompson e German Social Democracy 1905-1917 ("A social-democracia alemã, 1905-1917") de "Carl Schorske, que lançavam uma luz valiosa sobre aspec- tos particulares do tema. Mas estudos como esses não exis- tiam em númerO suficiente. Logo se tornou evidente que, no estágio atual, havia a perspectiva de aprender mais com a prospecção das fontes disponíveis sobre um único país, num esforço para apreender as situações de vida de diferen- tes tipos de trabalhadores comuns e para descobrir como respondiam a elas. De tal modo, seriam possíveis as com- parações entre os diferentes tipos de trabalhadores no inte- rior de um mesmo país. Uma vez tomada a decisão de se ater à literatura de um país específico, foi fácil escolher a Alemanha, por uma combinação de razões irresistíveis. Mesmo sem atribuir à história da classe trabalhadora alemã um caráter prototí- pico, pode-se notar que algumas das coisas mais significa- tivas que aconteceram aos trabalhadores de outros países também tiveram lugar na Alemanha, porém de uma forma mais intensa. As corporações de ofício foram muito mais importantes na Alemanha que em qualquer outra parte da Europa ocidental: a sua decadência, com a criação de novas formas industriais de organização, trouxe à luz problemas especialmente severos e reveladores. Em segundo lugar, a

(*)

Um especialista pubJicou um estudo desse tipo quando eu estava pró-

ximo de terminar este livro -

Peter N. Stearnes, Lives Df Labor (Nova Iorque,

1975). Devido à data da publicação, pude fazer uso bastante limitado da obra .

INJUSTIÇA

13

12

PREFÃCIO

Alemanha antes de 1914 tinha construído um poderoso sis- tema industrial para sua época, procurando integrar seus trabalhadores à ordem capitalista, numa e:x;tensão que dei- xava atônitos os marxistas radicais. Todavia, existiam ob- viamente forças que também atuavam contra a integração capitalista. A Alemanha tinha passado, além disso, por duas experiências revolucionárias, a de 1848 e a de 1918- 1920. Talvez porque ambas foram mal-sucedidas, as pers- pectivas de tirar delas algo de novo pareciam especialmente sedutoras. Ao lado desses fatores, as fontes primárias sobre a Ale- manha, embora longe de serem completamente satisfató- rias, são invulgarmente ricas no tipo de dados necessários aos problemas em questão. Havia mais autobiografias de trabalhadores que as aparentemente existentes para à In- glaterra, os Estados Unidos, a França e a Rússia, os outros países cujos idiomas eu poderia ler. Havia diversas pesqui- sas sobre a·vida nas fábricas antes de 1914 e até mesmo uma pesquisa rudimentar, mas em muitos aspectos revela- dora, sobre atitudes operárias. Utilizadas com senso críti· co, tais fontes podem nos ensinar bastante sobre como uma variedade de trabalhadores realmente pensava e sentia frente às questões contemporâneas, sobre as categorias e conceitos através dos quais eles diagnosticavam sua situa- ção, sobre as formas de cooperação· e de antagonismo no trabalho e fora dele, e outros temas similares. A fim de si- tuar tais informações em seu contexto mais geral e como forma de testar o .seu caráter representativo, considerei fun- damentais os relatórios censitários alemães, complementa- dos pelos relatórios do serviço de inspeção fabril - até onde sei, nenhuma dessas fontes foi até agora objeto de investi- gação e interpr.etação críticas. A análise da primeira parte sobre os elementos centrais nas concepções de injustiça, a sua relação com aspectos re- correntes da divisão de trabalho e a gama de variações no comportamento humano de aceitação das relações sociais opressivas sugeriam muitas questões que poderiam ser colo- cadas aos dados sobre a Alemanha, e algumas respostas possíveis. Mas eu não tinha qualquer intenção de forçar os

I fatos históricos alemães através de um crivo conceitual, a

I fim de "testar" hipóteses. Os fatos históricos têm uma de-
1 terminada relação padronizada entre si, que seria obscure- cida e destruída por tal procedimento. É tarefa do pesqui-

1 sador explicitar esse padrão por meio de uma atenção crí-
I tica e cuidadosa com as evidências. É necessário proceder

I delicada e pacientemente, auscultando as pistas e os indí-
I cios contraditórios, da mesma maneira que um experiente especialista faz para entender o estado dos órgãos e tecidos num paciente humano com vida, ao mesmo tempo em que busca padrões que irão revelar um estado saudável ou uma moléstia específica. A análise e as hipóteses são necessárias em ambas as formas de pesquisa em certos pontos. Mas elas em nenhuma parte estão suficientemente Além disso, é uma noção provinciana e filistina de "re- levância" a que requer todo o conhecimento digno de mé- rito para ser relevante, seja à ação política, seja à teoria científica, ou a ambas. A pesquisa histórica pode ter ou- tTOS propósitos, sem por isso cair no mero gosto pelas antigüidades ou na fabricação e distribuição de ancestrais admiráveis para um passado conveniente. Um deles é des- cobrir e avaliar os principais vínculos causais numa cadeia única de acontecimentos que tenham tido conseqüências poderosas sobre todo o mundo. Aquilo que os trabalhado- res alemães tentaram fazer durante os séculos XIX e XX e não conseguiram efetuar, ou sequer estavam interessados em realizar, constitui um conjunto de acontecimentos rela- cionados com conseqüências dessa ordem de magnitude. Trata-se de fatos importantes por si sós, com seus próprios padrões de conexões causais, que trazem implicações vitais para os temas discutidos neste livro. Finalmente, a investi- gação histórica habilita - na verdade, quase impele - a percepção e colocação de questões que se perdem numa análise estática. A história alemã do período que consideramos, da Re- volução de 1848 à tomada do poder por Adolf Hitler em 1933, constituiu uma disputa entre as forças do conservado- rismo - incluindo finalmente a reação na sua forma de massa do nacional-socialismo - do liberalismo e do radi-

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14

PREFÁCIO

calismo revolucionário. Da melhor maneira que me foi pos- sível, procurei compreender e retratar as existências em transformação dos trabalhadores comuns que viviam lJo in- terior desse conflito, a extensão na qual eles possuíam ou não consciência dele e a natureza de suas contribuições a tal confronto. A terceira parte constitui um retorno aos temas gerais levantados na primeira, ao lado de uma tentativa de enfren- tar não só as questões metodológicas bem como os temas 'substanciais que viriam à luz com a introdução de uma perspectiva histórica. A mudança para um nível mais ele- vado de generalidade é deliberadamente gradual. O capí- tulo 10 investiga aspectos particulares das revoluções russas de 1917, a fim de explicar as diferenças significativas e as similaridades no comportamento dos trabalhadores ale- mães e russos na crise que eclodiu no final da Primeira Guerra Mundial. Neste ponto, a análise levanta a questão geral das alternativas históricas suprimidas, procurando discernir que outras possibilidades estavam disponíveis no contexto alemão de derrota ede turbulência revolucionária entre 1918' e 1920. O capítulo 12 recorre ao nacional-socia- lismo como um exemplo extremo das tendências repressivas e agressivas nas concepções populares e de massas sobre a injustiça, num esforço para analisar e compreender as cau- sas mais gerais dessas inclinações. Finalmente, os últimos três capítulos, inclusive o epílogo, procuram chegar a um acordo sobre OS temas gêmeos do relativismo moral, ou da rejeição de qualquer concepção geralmente válida de injus- tiça, e de como as pessoas vêm a perceber a injustiça e a lutar contra ela. Essa parte do trabalho se fundamenta em evidências e em considerações teóricas suscitadas através do livro e também em todos os recursos intelectuais comple- mentares que pud,e empregar. Sem ocultar as minhas próprias preferências morais procurei, do princípio ao fim, construir raciocínios que es- tariam abertos à refutação através do apelo às evidências ou à lógica. Com respeito à posição intelectual que governa o trabalho como um todo, é suficiente dizer aqui que sou tão cético quanto à catástrofe como destino inevitável do ho-

INJUSTIÇA

IS

mem como quanto à utopia, e ainda mais cético com rela- ção à catástrofe como prelúdio necessário à utopia. Ao escrever este livro evitei a prática comum de solici- tar a colegas estudiosos a leitura e a crítica dos manuscri- tos, muito provavelmente em prejuízo meu e do leitor. Mas tive a impressão de que tal prática estava se tornando incô- moda. Isso não significa que eu deseje reivindicar todo o crédito por quaisquer que sejam os méritos deste livro, res- ponsável como sou por seus defeitos. Há alguns estudiosos de quem tomei emprestadas conscientemente certas idéias, os quais senti que estavam olhando sobre os meus ombros nos embates para dar sentido aos materiais da pesquisa. (Meu colega John Rawls aceitou, com sua natural finura e

seu Theory 01 Justice en-

quanto não completasse meu trabalho sobre a injustiça, te- mendo que suas rigorosas categorias filosóficas involunta- riamente influenciassem minha tentativa de perceber com precisão as formas das reações populares destreinadas fren- te às experiências de vida.) Em p'arte porque tais débitos não são sempre visíveis a partir das citações, gostaria de agradecer aqui, sem implicá-los com minhas insuficiências ou, como deve parecer óbvio para aqueles que conhecem seus trabalhos, sem sugerir o seu respaldo a pontos de vista expressos neste livro, a Herbert Marcuse, E.P. Thompson, George C. Romans, Robert Paul Wolff, Gabriel e Joyce Kolko. Sem o seu estímulo e apoio eu jamais teria tentado escrever este livro. Sem o de Elizabeth Carol Moore eu ja- mais poderia terminá-lo. Essa é apenas uma parte do que ela significou na vida deste autor. O restante, se eu pudesse exprimi-lo adequadamente, não seria para publicação. Meu bom amigo Adam VIam, ex-diretor do Centro de Pesquisas Russas de Harvard, concedeu-me generosamente valioso apoio moral na elaboração deste livro - e de outros que pouco ou nada tiveram a ver com a Rússia. Por lnais de duas décadas, Rose Di Benedetto datilografou e recopiou cuidadosamente os nleus manuscritos. Em meio a muitas outras exigências sobre seu tempo, ela tem sido uma fonte de constante estímulo e variado auxílio para minha mulher, para mim e meus alunos.

boa índole, minha recusa a ler o

16

PREFÃCIO

Como autor, procurei tenazmente não seguir o exem- plo de Hçrác1ito, o famoso filósofo grego que serviu de ins- piração inicial a Marx. De acordo com um eminente espe- cialista moderno, Heráclito era um aristocrata na política, que escrevia num estilo difícil e compreensível a poucos. Quando atingiu a velhice, retirou-se para os bosques, depo- sitando seu livro de filosofia no templo de Artêmis. Pelo menos para mim, parece que algumas das mais importan- tes diferenças entre meus procedimentos e os dele devem-se aos esforços de Elizabeth Moore e Arnold C. Tovell, diretor editorial de M. E. Sharpe, Editor. Quero expressar meus agradecimentos a Joyce P. Tovell, por seu cuidado especial na revisão de texto deste livro e a meu editor, por sua dis- posição para publicar este trabalho sem a garantia de mer- cado que caracteriza os livros-textos e num formato atrativo tanto ao leitor comum como ao especialista.

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CAPÍTULO 1

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Pontos de partida

Era uma vez aqueles dias felízes em que os estudantes dos assuntos humanos estavam seguros de seu terreno, quando era possível traçar uma nítida separação entre um sistema político e social baseado na força e na fraude, e um sistema que se baseasse na autoridade racional e na justiça. Ainda que fosse bastante difícil encontrar um exemplo em-

pírico convincente de uma sociedade justa, tal distinção parecia ser elementar e óbvia, o fundamento da análise po- lítica inteligente. Por volta do final do século XIX. essa agradável certeza tinha-se em grande medida esfacelado

diante da investida de idéias que, por aquela época, pas- saram a fazer parte da bagagem intelectual transmitida em porções de cinqüenta minutos em muitas ele nossas univer-

sidades. Os antropólogos abalaram a nossa segurança ao

~ expor vividamente uma tal variedade de costumes e crenças

humanas que fizeram com que a noção de um padrão único

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de julgamento político e moral parecesse nada mais que

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européia. Singularmente, foi o filósofo Herbert Spencer, o epítome do provincianismo vitoriano filistino, quem selecio- nou os textos de antropólogos e historiadores para apresen- tá-los nas páginas introdutórias deA Estática Social (18S0),

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INJUSTIÇA

21

20 o SENTIDO DE INJUSTIÇA

um dos ataques mais vigorosos a fRvor do relativismo moral. Embora Spencer'seja atualmente uma espécie de curiosida- de intelectual, o leitor moderno pode aprender de fontes mais aceitáveis que os conflitos sobre valores, ou sobre pressupostos básicos relativos ao bem e ao mal no ordena- mento dos assuntos humanos, são temas que a ciência não pode colocar porque ela se refere ao modo como as coisas são, nao à maneira como deveriam ser. Temendo que esse ponto de vista tenha um efeito demasiado corrosivo sobre as convicções morais tradicionais, pode-se acrescentar alguma ressalva no sentido de que na delnocracia as pessoas têm o dever, como cidadãos, de tomar posição frente às questões éticas e políticas, mas não devem fazê-lo enquanto profes- sores ou cientistas. A 1'ecuperação das velhas certezas está, portanto, fora de questão, pelo menos na forma em que existirRm anteri- ormente. Não obstante, há razões para suspeitar que a con- fusão de códigos morais possa esconder uma certa unidade' de forma original, bem como uma tendência histórica dis- cernível numa direção única, e que as variações desse mo- delo de uma forma básica única, sofrendo prolongada mo- dificação histórica, sejam explicáveis em termos gerais. É, ao menos escassamente, possível que os assuntos humanos tenham afinal algum sentido. Podemos iniciar nossa busca de sentido recorrendo a um exemplo do tipo de situação que será analisada em todo este livro. Será ao mesmo tempo um exemplo simplificado e hipotético. Vamos supor que um homem golpeie outro com força suficiente para feri-lo. Como se sentirá a vítima? Ha- verá alguma dor física. Por outro lado, sabemos que a capa- cidade para suportar a dor varia significativamente por to- da a sorte de razões, que mereceriam um exame. 1 Este livro não fará isso de forma detalhada, mas isso permanece como um ponto importante a ser lembrado. Se a vítima tem al- gum motivo para crer que o golpe deveu-se a algo que ela fez de mal, é bastante provável que sinta uma certa sensa' ção,de alivio por ter-se livrado tão levemente. Pode ou não

(1)

Cf. Ronald Melzack, The Puzz/e of Pain-.

haver algum resquício de raiva como parte da resposta a punições que são sentidas como inteiramente merecidas.

. Agora mudemos ligeiramente o exemplo, tornando-o mais

1 concreto, para observar uma espécie diferente de sen-

, timento.

homem que desfere o golpe é um policial branco

; numa cidade norte-americana. A vítima é um homem negro educado que nada mais fazia que cuidar de seus próprios , assuntos de um forma perfeitamente pacífica. É quase se- guro, nessa situação, que o homem negro sentirá indigna-

ção moral porque, até onde ele pode ver, o golpe e o feri- mento foram totalmente injustificados e imerecidos. Em que sentido o golpe foi hijusto? O que essa palavra real- mente significa? Colocando de forma simples, ela significa que o policial branco não tinha o direito de fazer o que fez. Se o episódio ocorresse numa comunidade ideal racialmen- te integrada, todas as outras pessoas concordariam com o homem negro. Mas há bastantes razões para temer que ne-

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nhuma comunidade seja assim, embora possam se aproxi-

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mar disso. Na maioria das cidades norte-americanas o ho-

mem negro sentir-se-ia irado porque o policial violou uma norma que o primeiro considerava, de todo o coração, que

deveria serpredorninante nas relações sociais decentes. Evidentemente, as normas sociais e sua violação são componentes cruciais na ira moral e no sentido de injustiça. Em essência, é a ira diante da ofensa o que uma pessoa sente quando outra viola uma norma social. Há aqui duas possibilidades distintas. Um indivíduo pode estar irado porque sente que a norma vigente é ela própria errada, e que é preciso implantar outra. Na vida real tais situaçõeS assumem, com freqüência, a forma de desacordos sobre o que a norma é realmente. Mas, em benefício da simplici- dade, podemos deixar essa situação de lado, por ora. Sem normas a governar a conduta social não haveria um fato como a indignação moral 'ou um sentido de injustiça. Da mesma maneira, a consciência da injustiça social seria im- possível 'se os seres humanos pudessem ser convencidos a aceitar, toda e qualquer norma; Obviamente, há alguns constrangimentos na elaboração das normas morais e, por-

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22

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

tanto, na formas possíveis de indignação moral. Há tam- bém um grande grau de variedade. Como ambos podem ser expJicados'! Na medida em que não há quaisquer traços recorrentes ou constantes na indignação moral, eles teriam que derivar da interação entre aspectos mais ou menos constantes da natureza humana e imperativos igualmente recorrentes que se originam do fato de os seres humanos precisarem viver uns com os oeliros, ou seja, em sociedade. Há dificuldades formidáveis na maneira de descobrir características gerais da natureza e da sociedade humanas de um modo que seja, ao mesmo tempo, cientificamente sustentável e não trivial. Corre-se um grande risco de ser banal ou de estar equivo- cado, quando não de ambas as coisas. Não obstante, vale a pena assumir tal risco porque a posição tomada sobre estas questões, consciente ou inconscientemente, terá uma pode- rosa influência quanto à forma em que outras indagações serão colocadas e, através destas, sobre os resultados en- contrados.

A primeira dificuldade deriva do fato de que é impos- sível observar algo que possa ser chamado a natureza hu- mana pura ou inata, ou biologicamente determinada, não contaminada pelas influências sociais, ou pelo menos qual_O quer forma de comportamento deste tipo que fosse muito relevante para a compreensão da indignação moral e do sentido de injustiça social?" No entanto, é obvio que os seres hun>anos possuem alguma coisa que pode ser chamada ne- cessidades inatas. Eles não são simplesmente fichas em' branco sobre as quais é possível imprimir qualquer tipo de personalidade, como muitos pais poderão testemunhar com

veemência,

mesmo com relação a crianças de tenra idade

Negar qualquer conhecimento possível do que parece

(2) o comportamento de crianças pequenas, ainda prematuramente ex- postas às influências sociais, não seda muito proveitoso, mesmo se pudéssemos ter certeza de que as influências sociais não tivessem sido impostas através de fatores, tais como o tipo de alimentação disponível fi. mãe durante a gravidez. Tampouco seriam úteis os raros exemplos de indivíduos que conseguiram de alguma forma sobreviver sem cuidado humano, porque eles não tiveram obviamente a oportuni- dade de adquirir as capacidades nec'essárias para a vida em sociedade.

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INJUSTIÇA

23

a existência de uma

natureza humana inata - parece afinal um curioso conse- lho de perfeccionismo científico. Uma maneira de conse- guir algumas pistas é registrar as necessidades e os desejos

humanos comuns à maioria das sociedades conhecidas, in- ferindo que eles têm sua origem na natureza humana inata. Assim, formulemos inicialmente uma indagação muito sim- ples: O que é em geral nocivo para os seres humanos? Uma vez que nosso problema é dar conta de situações nas quais a ira aparece e não aparece (ou está presente em um grau muito baixo) como resposta às injúrias, será valioso dispor inicialmente de uma noção operacional sobre que coisas são realmente injuriosas aos seres humanos. A incapacidade para satisfazer certas exigências físicas

é obviamente prejudicial. Na ordem aproximada de sua

importância, tais exigências S3.0 o ar, a água, o alim,mto, o

sono, o abrigo -" no sentido de proteção contra os extremos de calor e de frio - e a satisfação sexual. A incapacidade

para atender a essas necessidades causará sofrimento a qual- quer ser humano. Excetuando-se a satisfação sexual, a au- sência delas produz a morte. E sem a reprodução - até ou a menos que um substituto satisfatório esteja assegurado _

a sociedade humana perecerá. Doença e maus tratos físi-

'cos, tais como a tortura, S8.0 claramente prejudiciais, em- bora, como aparecerá em breve, os seres humanos inflijam sob certas condições a tortura a si próprios.

Deixando de lado as necessidades físicas, que sempl'e são satisfeitas em formas culturalmente elaboradas, os psi- cólogos e antropólogos provavelmente concordariam que a ausência de amor e de respeito de .outros seres humanos é também prejudicial ao indivíduo. Na verdade, há uma am- pla gama de respostas favoráveis cuja falta pode ser de alguma forma danosa. Mencionarei aqui somente uma: a distinção. Suspeito que o desejo de distinção é universal porque muitas culturas inventam ou aperfeiçoam formas de invejar outros seres humanos, enquanto certas culturas condenam ou procuram suprimir a cobiça. Outra situação nociva que não tem recebido a merecida atenção é o simples enfado.

t8.0 óbvio como tudo o que se disse

24

o SENTIDO DE INJÚSTIÇA

Finalmente, a inibição da agressão contra alvos peri- gosos (naturais ou humanos) é certamente prejudicial, uma vez que a pessoa inibida torna-se desse modo vulnerável, uma vítima fácil. E pouco proveitoso tentar colocar a ques- tão de saber se a agressão em si é alguma forma de instinto humano. Tudo o que temos de ressaltar por ora é que não há sociedade conhecida na qual a agressão não apareça de algum modo; por outro lado, o âmbito de sua expressão e os danos a outros seres humanos são extraordinariamente amplos, indo de um olhar hostil à eliminação de populações inteiras. Devido a essa gama de efeitos possíveis, não me parece útil discutir a agressão em termos de um instinto. Em vez disso, parece mais proveitoso pensá-la como algum tipo de capacidade humana que é posta em ação numa grande variedade de formas, com conseqüências igualmen- te muito diferentes, que dependem de circunstâncias espe- cHicas. De tal modo, as caus.as sociais têm um poder expli- cativo muito maior que a elástica capacidade biológica. Mais uma vez, este não é um tema que deva ser abordado aqui. Como hipótese de trabalho, proponho uma concepção de natureza humana inata, no sentido de ser anterior a quaisquer influências sociais mas não necessariamente imune a elas, para a qual não somente as privações físicas- são nocivas, como também as psíquicas: especificamente, a ausência de respostas humanas favoráveis, o enfado e a ini- bição de agressões. Na medida em que tal concepção seja válida, ela sugere a existência de uma "moral natural", no sentido de que algumas preferências moráis, particular- mente as negativas, não sejam meramente a conseqüência do treinamento e do condicionamento sociais. De maneira geral, os seres humanos 'tentarão evitar tais situações de qualquer modo. E num exame mais detido pode-se notar que não faz muita diferença saber se se descreve o compor- tamento em termos de uma evitação negativa ou uma busca de metas positivas. Ao lado da satisfação de necessidades físicas, poderíamos dizer que os seres humanos buscam al- guin grau de variedade e desafio em suas vidas, respostas favoráveis (inclusive a distinção) em relação a seus seme-

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INJUSTIÇA

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lhantes, e oportunidades para a descarga da agressão, lima

; capacidade humana que, se não é instintiva, é despertada por uma tal variedade de frustrações que está destinada a

" encontrar expressão, seja como for. Até este ponto foi pos- sível evitar o uso do termo "sadio", noção escorregadia e

~ carregada. Mas é evidente que a agressão bem-sucedida

contra perigos reais merece ser chamada de sadia e a re- pressão ou inibição de tal comportamento, uma forma de 1 patologia. Afinal, o animal humano efetivamente possui

I notável capacidade para o pensamento lógico e pode usá-la

i na busca de qualquer meta.

O valor básico de qualquer concepção de moral natu-

ral repousa na dedução de que os códigos morais, a ira mo-

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ral e, em conseqüência, um sentido de injustiça social têm raízes muito importantes na biologia humana. Ela não ape- nas estabelece limites às formas que podem assumir os có- digos morais, como também lhes oferece uma certa direção 1 e impulso. O otimista político acredita que seja possível criar uma ordem social baseada quase inteiramente na mo-

1 . ral natural. Um pessimista, do qual Freud é o exemplo mais conhecido, sem ser necessariamente o mais convincente, acredita que til esperança é ilusória. Não é este o lugar para esclarecer essa questão; espero que o livro como um todo clarifique algumas das considerações mais relevantes.

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No entanto, é útil chamar a atenção para o tema, a fim de conservar diante de nós a perspectiva da impossibilidade

absoluta de termos indivíduos completamente sadios e ain- da haver sociedade. Corno resultado, alguns aspectos da so- ciedade teriam por fim prejudicar alguns indivíduos. Se a sociedade humana é nociva a alguém, por que ela existe? A resposta óbvia e banal é que através da divisão do trabalho, possível apenas na e por meio da sociedade, os seres humanos elevam enormemente a sua capacidade de adaptar-se ao meio ambiente e de controlá-lo. Embora ób- via e banal, essa resposta é também verdadeira. Sem a in-

venção da sociedade humana, o Homo sapiens bem pode-

ria ter sido extinto há muito tempo. As capacidades indi-

J viduais do homem enquanto espécime biológico, para lidar com o meio ambiente, são pouco impressionantes, ao passo

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26 o SENTIDO DE INJUSTIÇA

que as capacidades coletivas da sociedade humana atingi- ram atualmente o ponto em que podem destruir todas as formas de vida. Qualquer que seja o critério de avaliação, essa é uma realizac§.o notável. Não obstante, houve altos custos desde o princípio, de forma alguma distribuídos igualmente. A existência e o trabalho com outros seres hu- manos geraram as suas próprias exigências ao comporÜt- mento e aos sentimentos do homem. Uma coisa é ser um caçador solitário, completamente dependente, para sobre- viver do que se pode matar com as própl"ias nlãos· e alguns instrumentos simples. Outra coisa é ser membro de uma tribo de caçadores primitivos, com seu conjunto de regras sobre quem bate o mato para dirigir a caça, quem assume o risco de matar os animais ferozes, como deve ser dividida a presa, e assim por diante. A necessidade de cooperar com outros indivíduos produz um novo e diverso sistema de cau- salidade para o comportamento humano. A causalidade social não terá efeito sem algumas das qualidades e capa- cidades que a natureza humana inata proporciona. Mas ela precisa ser compreendida nos seus próprios termos. Ao lado dos fatores biológicos e inatos, a causalidade social - for- ma ta.quigráfica e inadequada de expressar o fato de que existem numerosos seres humanos no nlundo com os quais é necessário chegar a um acordo - cria a natureza humana real que podemos observar e estudar. É nesse sentido que o fato de viver em sociedade gera os códigos morais. Afirmar que a "sociedade" gera códigos morais pode ser enganador, porque na realidade são os indivíduos concretos que criam os códigos morais. Em grande parte do tempo, alguns indi- víduos criam códigos morais para seus próprios· interesses particulares, em detrinlento de outros membros da socie- dade. No entanto, há um sentido em C.Jue todas as pessoas, elll qualquer sociedade, têm de proteger-se mutuamente ou então cada uma confiará em si própria. Aprofundando um pouco mais, certos problemas sem- pre vêm a luz onde e como quer que um grupo de seres hu- manos tente viver conjuntamente e reproduzir sua espécie. Tais questões podem ser englobadas na noção geral do pro- blema da coordenação social. Por sua vez, esta pode ser

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iNJUSTiÇA

27

decomposta de diversas maneiras. Há o problema da auto- ridade. Nas sociedades muito pequenas ou simples, ele equivale basicamente a saber quem fará as sugestões e quem as seguirá. Há o problema da divisão do trabalho:

quem fará qual trabalho, quando e como. Então, há o pro· blema da alocação dos recursos disponfveis à sociedade e da distribuição entre seus membros dos bens e serviços que

t eles coletivamente produzem. Pace* Marx, ou pelo menos algumas leituras de Marx, as relações sociais de produção e de troca não determinarão sempre o sistema de autoridade prevalecente. As linhas de causalidade correm em ambas as direções.

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Em certo sentido, essas três divlsões do problema da

coordenação social (autoridade, divisão do trabalho e alo- cação dos bens e serviços) trazem um ar de arbitrariedade cartesiana. Em muitas sociedades não letradas, os três as- pectos atuam juntos, de tal forma que é fácil equivocar-se sobre a operação da sociedade sendo demasiado precisos sobre tal distinção. Não obstante, sustentaria que os pro- blemas existem em qualquer sociedade determinada e que para seus membros é um imperativo encontrar alguma so- lução. De outra maneira, a sociedade deixaria de existir. Neste sentido, é legítimo falar de imperativos sociais que conduzem a imperativos morais e, através destes, à ira mo- r;;tl e a um sentido de injustiça social. Recorrendo às expres- sões "necessidades sociais" ou "imperativos sociais" não-se

está obrigatoriamente escondendo um interesse egoísta de

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cessidade ou um imperativo sociais genuínos tem a conse-

qüência de que todos os membros da sociedade sofram se- veramente, ainda que o sofrimento não seja distribuído por igual. Contudo, as expressões "necessidade social" e sua ver- são mais forte "imperativo social" são simultaneamente tão

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Em latim no original: "com o devido respeito a". (N. T.)

28

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

escorregadiças e tão essenciais no discurso racional sobre as questões humanas, mesmo quando outras palavras são uti- lizadas para expressar as mesmas idéias gerais, que é preciso fazer uma pequena pausa para comentar o que elas suge- rem. Até onde sou capaz de discernir, "necessidade social" contém três elementos essenciais. O primeiro elemento é a noção de causalidade com a ordem temporal comum inver- tida: alguma coisa muito desagradável está destinada a ocorrer no futuro se a necessidade não for atendida. Há igual e secundariamente um elemento de escolha inevitável. A sociedade pode atender à necessidade ou pode fracassar em fazê-lo. Se efetivamente atende, deve haver maneiras em que isso ocorre. Uma maneira de atender à necessidade pode satisfazer a um grupo na sociedade, e outra maneira satisfará a outro. Ambos provavelmente reivindicarão que a sua forma atende à necessidade "real" da sociedade em seu conjunto. É esta, de modo um pouco simplificado, a fonte mais comum de distorção ideológica. Finalmente, se um pesquisador continuar a insistir na questão sobre o "porquê' dessa necessidade ou imperativo particular existir para tal grupo ou sociedade específicos, a pergunta deverá em algum ponto comportar um julgamento ético.

Tome-se, por exemplo, a proposição de que em todas as sociedades industriais, incluindo as socialistas, é essen- cial reservar uma alta proporção dos bens e serviços produ-' zidos pela sociedade como recompensa para a função ge- rencial.- Com o intuito de mostrar a estrutura do raciocínio, vamos assumir que a proposição é correta e que é possível demenstrar empiricamente o que a palavra '~alta" significa

- naturalmente, uma suposição bastante duvidosa. Não

obstante, se os adversários de altas recompensas ao geren- ciamento fossem forçados a retornar até esse ponto, ainda . seria possível afirmar nma preferência por uma sociedade sem indústria, Este é um julgamento ético. É possível dis- cuti-lo racionalmente, visto que é pertinente indagar se, por qualquer critério ético, os custos OQ estabelecimento de se- melhante sociedade atualmente não poderiam ser dema- siado elevados em termos de sofrimento humano. É uma recomendação de perfeição afirmar que àqueles

INJUSTIÇA

29

que usam a expressão "necessidade social", ou uma fór- mula similar, têm em mente tais considerações todo o tem- po. Mas é úti1lembraT que eles existem e que toda sorte de pressuposições empíricas e filosóficas esconde-se por trás de todo uso possível. A melhor forma de nos guardarmos é deixar claro que sabemos tão nítido quanto possível exata- mente que tipo de ser humano está em consideração, quan- do quer que a idéia venha à luz. Tendo em mente essa advertência, é possível retornar, ampliando-a ligeiramente, à afirmação de que as pessoas que vivem em qualquer sociedade devem resolver os proble- mas da autoridade, da divisão do trabalho e da distribuição de bens e serviços. Em parte, elas o fazem formulando tos- cos princípios de desigualdade social e ensinando umas às outras, com graus amplamente variáveis de sucesso, a acei- tar e obedecer tais princípios. Ao concordarem, elas criam um contrato social implícito e, às vezes, explícito. O medo, a força e a fraude não são as únicas bases de toda sociedade humana, ainda que seu papel tenha sido decisivo através da história conhecida da espécie. Nem, quanto a isso, são as sociedades humanas simplesmente sistemas mais ou menos elaborados de trocas. Elas são combinações tanto de coer- ção quanto de troca. As proporções dos dois 'ingredientes variam tremendamente de caso para caso. Elas não coin- cidem nas ilhas Trobriand e na sociedade industrial mo- derna. As formas de extração do excedente da população subjacente e de conversão deste em cultura, com o consen- timento, quando não necessariamente da recomendação das ordens inferiores, são muito diferentes em ambos os casos. 3 Apenas para tornar as questões ainda mais compli- cadas, os homens têm urna maneira de alterar o valor que atribuem aos itens com que contribuem para o sistema de trocas. Podem convencer-se de que o valor de urna contri-

(3) Para a extração de um excedente em sociedades não letradas, mesmo naquelas que não dispõem de sistemas hereditários de estratificação social, ver Paul Radin. Primitive Religion, capo IIl, bem como as observações criticas de Raymond Firth em Primitive PolYllesian Economy, pp. 171-172

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o SENTIDO DE INJUSTIÇA

buição humana tem. algo a ver COJU a cor de sua pele. En-

tão, .podelll convencer-se de que não é esse o caso. Enl am-

bos às casos de convencimento há uma generosa dose de

coerção. Exis i cn.1 Emites dentro

convencimento mútuo pode ocorrer. i\1as não é fácil definir quais são eles. Até mesmo as sociedades simples mais conhecidas exi- bem, ao menos de forma rudimentar, alguns princípios de desigualdade social, que aparecem, por exemplo, na divi- são do trabalho por sexo. Seria perfeitamente possível de- sautorizar tal proposição encontrando uma sociedade na qual o trabalho dos homens e das mulheres, embora diver- so, fosse classificado de forma igual em todas as suas for- mas possíveis, desde a coleta de combustível e alimento à preparação da comida. Mas é altamente improvável que tal sociedade exista. 4 Não é este o momento apropriado para introduzir uma discussão geral sobre o que possam ser esses princípios ou sobre as suas possíveis variações no tempo e no espaço. Di- versos princípios podem muito bem ser discernidos no fun- cionamento de qualquer sociedade, mesmo que ela seja muito simples, com tecnologia rudimentar. Numa socie- dade maior e mais complexa seria natural esperar que se- tores díspares da população devessem obediência a princí- pios diferentes, e que houvesse imensas diferenças na exten- são em que pessoas diversas estivessem cônscias desses prin- cípios ou pudessem explicitá-los. Neste capítulo, a análise centrar-se-á na questão de saber se há algum tema recor- rente discernível nas queixas relativas à existência de tais princípios ou à maneint como funcionam na prática. Não é possível qualquer pressuposição sobre se tais reclamações recorrentes existem ou se elas são em algum sentido justifi- cadas. As sociedades humanas podem ou não possuir traços

dos quais esse processo de

(4) Uma investigação instru1iva, embora de caráter geral, sobre os dados antropo16gicos, pode ser encontrada em Gunnar Landtmann, The Origin of the

Inequality oflhe Social Class, caps. I-III.

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INJUSTIÇA

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comuns que sejam, ao mesmo tempo, intoleráveis (ou qua-

se) e inevitáveis.

o termo "sociedade" já surgiu várias vezes, e seria útil dizer também alguma coisa sobre as armadilhas analíticas que podem estar ocultas em sua utilização. Raramente ha- verá alguma dificuldade para que se concorde que a antiga Atenas era uma sociedade, da mesma forma que a antiga Esparta. Os habitantes de cada uma dessas cidades-Esta- dos viviam sob um conjunto de instituições facilmente iden- tificáveis, bastante. distinto um do outro. De qualquer mo- do, nem todos os habitantes conheciam-se pessoalmente. !VIas eles mantinham relações uns com os outros em base contínua, relações estas que com freqüência estavam carre- gadas de conflito, apenas ocasionalmente irrompiam em violência aberta. Ê com esse sentido que a expressão "socie- dade" tem sido usada até aqui e é dessç modo que se pros- seguirá na análise subseqüente, até onde for possível. As- sim, o termo sociedade diz respeito ao corpo mais amplo de habitantes num território especifico que tem um sentido de identidade comum, vive sob um conjunto de arranjos so-

ciais distintos e ci faz, na maior parte do tempo, em um nível de conflito que exclui a guerra civil.

socie-

dade, ainda que seja útil pensá-la como um sistema social

- o que é bastante diferente de uma sociedade - composto

de cidades-Estados rivais com suas próprias dinâmicas in- ternas.l"lesmoassim, é necessário ser cauteloso e pensar nas "necessidades" de grupos bastante concretos de setores politicamente ativos em Atenas, Esparta e outras cidades. Da mesnla forma, há razões suficientemente fortes para sustentar que o sistema das cidades-Estados gregas impu- nha restrições políticas, e aqui é possível dizer amorais, aos

Nesse sentido,

a Grécia clássica não

era uma

atores políticos dessas localidades.

em qualquer socie-

dade, exceto talvez umas poucas sociedades isoladas, as re- gras morais em funcionamento não derivam apenas dela em separado, mas· de um contexto mais amplo que inclui ou- tras. Tal fato pode, por vezes, levar a pressões e ambigüi- dades conflitantes que exigem consideraçãu. William Gra-

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questão daí resultante é que,

INJUSTIÇA

33

32

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

ham Sumner é justamente celebrado por sua distinção entre in group e out group. Ê uma distinção útil mas um tanto rudimentar. Em um 'grande número de situações, diferentes indivíduos na mesma sociedade podem traçar a fronteira de diferentes maneiras. Como um cidadão americano, que é um poderoso executivo numa corporação multinacional, traça esse limite, e em conexão com que decisões? Confesso minha ignorância sobre a resposta. Em certos agrupamen- tos não letrados, afligidos com numerosas querelas internas pode ser ainda mais difícil decidir como e onde essas pes- soas traçam a distinção entre"eles" e "nós" e com base em que fundamentos. s Voltando ao tema central, tais observações são sufi- cientes, espero, para demonstrar que tanto as normas so- ciais como a ira que elas despertam têm uma origem dual. Ê impossível entendê-las, sejá exclusivamente em termos de natureza humana inata, seja em termos de.dinâmica social. Do ponto de.vista ideal, precisa,íamos de um conhecimento perfeito de ambas, algo que nunca teremos. Ao mesmo tempo, há certamente espaço para melhorar a compreensão da única natureza humana que podemos observar: àquela que é modificada e moldada pelos imperativos da vida em diferentes tipos de sociedades. Nessa forma, a natureza hu- mana é, na verdade, altamente plástica. Ê impressionante a

capacidade humana para suportar o sofrimento e o abuso, por mais trágico que isso seja. Na realidade, esse fato situa-

serem investigados em todo. este

livro. Colocando de uma forma um pouco diversa, é essa capacidade que cria os temas, uma vez que a resposta ao abuso é algo imensamente maior que o simples reflexo. Se a capacidade para suportar o mau-trato é tamanha, sob que condições e por qU€ os seres humanos cessam de acomo- dar-se a ele? Tal problema se apresentará no devido tempo. O corpo deste capítulo expõe urna pesquisa de situa- ções que os homens, numa ampla gama de sociedades, con-

se no âmago dos temas a

(5)

Para uma competente discussão teór~ca, ver Marshal Sahlins,

Age Economics, capo V.

Stone

sideram iníquas e injustas. Em sua maior parte, a investi- gação toma a forma de urna série de sondagens em socie- dades "exóticas", tanto letradas como iletradas, escolhidas com o fim de encontrar um número o mais amplo possível de situações e reações morais. Se aparecem similaridades a partir de um arremesso de rede tão largo, há razões para crer que elas representem processos sociais bastante exten- sos e possivelmente universais. Simultaneamente, procura- rei indicar o que esses processos sociais possam ser, apre- sentando-os de urna maneira sistemática sem, no entanto, objetivar urna elaboração teórica indevida. Para expor a questão brevemente, trata-se de urna busca de soluções im- populares a problemas sociais universais. A pesquisa não cobre todas as áreas da vida humana. Ela exclui inteiramente aquelas que os modernos viam, pelo menos até recentemente, corno áreas da vida privada: te- mas sexuais, sistemas de parentesco, hábitos e costumes de amizade. A exclusão não tem como base a idéia de que tais temas não tenham importância, o que seria manifestamente absurdo. Em vez disso, é urna tentativa de limitar o âmbito das evidências a algo mais próximo de uma proporção ma- nuseável. Do mesmo modo, ela reflete meu próprio inte- resse nas instituições econômicas e políticas de sociedades supostamente civilizadas e a relação entre tais aspectos. Em muitas sociedades não letradas tais instituições não são di- ferenciáveis das outras. Os antropólogos repisam a questão de que as trocas econômicas estão interligadas com o paren- tesco e a religião. O mesmo é válido para a política. Não obstante, os amplos problemas da autoridade ou da coorde- nação social, da divisão do trabalho e da distribuição de bens e serviços existem tanto para a sociedade da Idade da Pedra corno para a sociedade industrial moderna. Em de- corrência, essas categorias rudimentares podem fornecer uma base para a comparação através do tempo e do espaço, tornando a investigação mais metódica. 6

(6) Como acontece com toda pesquisa histórica e sociológica,.o risco· prin- cipal é que é muito mais fácil encontrar aquilo que se está buscando e construir explicações plausíveis. Não me parece que regras meto~ológicas mecânicas pos·

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o SENTIDO DE INJUSTIÇA

Sem depositar confiança excessiva em procedimentos mecânicos para atingir a objetividade, será, no entanto, proveitoso enumerar expliCitamente alguns critérios para a distinção entre aquelas situações humanas que são, pelo menos potencialm.ente, universais e aquelas que são especí- ficas a uma dada cultura ou época histórica. Proponho o seguinte conjunto de critérios, como forma de identificar situações universais em potenCial que geram a resposta da ira moral e de um sentido de injustiça soCial. A fim de ser mesmo potencialmente universal, a situação deve exibir to- das as características que se seguem:

que a situação geralmente crie indignação na cul-

tura oCidental moderna. Não é necessário elaborar este ponto, já que a reação será reconhecível pelos leitores oci- dentais. Se a situação parecer-nos bizarra ou incompreen- sível, ela obviamente não pode ser candidata à universali-

1)

dade;

2) que a situação também produza uma resposta- de indignação moral em algumas sociedades não-ocidentais, tanto as sociedades iletradas descritas pelos antropólogos quanto as altamente civilizadas, como a China e a Jndia. Explicando melhor, parece viável sustentar que se um dado tipo de relação social ou comportamento humano susCita indignação moral em civilizações muito diversas da Euro;:>a e da Ãsia e em uma variedade de sociedades não letradas, estamos provavelmente na trilha de uma característica pan- humana ou universal;

3)

que, em uma situação na qual poderíamos esperar,

por outras razões, uma resposta de inc!ignação moral nlas

sam oferecer uma garantia adequada contra essa tcndéncia normal à obstinação. Em vez disso. a confiança em regras mecânicas pode intensificar tal tendência.

pois o investigador presta tanta atenção nas norma:s, que os temas e explicações substanciais, baseados em modos de pensar diferentes, acabam por desaparecer. A melhor garantia é tentar permanecer tfto vigilantemente cético quanto possível,

a fim de preservar a m

especialmente aquelas que se opõem à natureza ou, devo dizer, inclinações polí- ticas,da pessoa. Com esse pl'opósito, é útil abastecer-se de leitura geral e profis- sional tão variada quanto possível. Ê esta a prçcaução fundamental que tomei. Os

críticos devem fazer ° restante.

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&berta à possibilidade de interpretações alternativas,

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35

falhamos em encontrá-la (um exemplo possível seria urna variação cruel de escravidão), devamos também encontrar mecanismos sociais e psicológicos que tirem vantagem da plasticidade da natureza humana a fim de inibir a ira e a indignação. Uma investigação com alguma pretensão científica de-

verá especificar o tipo de evidência factual que desaprovaria

as afirmações do autor. De tal modo, as evidências imperio-

sas contra perspectivas aqui apresentadas deveriam tomar a forma de exemplos específicos de comportamentos huma- nos com relação aos quais: (.l) nós, enquanto ocidentais educados, esperaríamos "naturalmente" urna reação de ira moral ou julgamento de injustiça social, mas (2) onde a evi- dência não mostre nenhum sinal de tal resposta - na ver- dade, que as pessoas em geral encarem essas situações corno normais e naturais - e (3) não haja indicações da existên- cia de qualquer mecanismo social ou psicológico que pu- desse inibir ou sufocar urna resposta daquele tipo. Nesta altura e nos próximos dois capítulos, a pesquisa será deliberadamente a-histórica e mesmo trans-histórica. Antes de prosseguir, e em parte corno forma de indicar um método complementar de refutação das proposições aqui avançadas, esboçarei inicialmente, em poucos traços, u.m modo diverso e mais histórico de abordagem do problema. No decorrer das duas partes subseqüentes do livro, tentarei

reunir esses dois pontos de vista. E no mínimo plausível. defender que a ira moral e um

sentido de injustiça social devam ser descobertos e que o processo de descobrimento é fundamentalmente histórico.

A partir desta perspectiva, pode-se, por exemplo, apresen-

tar a alegação factual de que jamais ocorreria a um grego do século V a.C. indignar-se com a escravidão e defini-la como injusta. O processo de transformação histórica não ti-

nha ainda atingido esse ponto. Como duvido amplamente que os próprios escravos gregos sentissem o mesmo sobre a sua condição - na verdade, até mesmo Aristóteles mostra indícios de constrangimento moral- não parti de talpressu- posto. Mas penso efetivamente que há muito mérito na con- cepção de algum processo histórico de descoberta moral.

36

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

Autoridade e o desafio à autoridade

Os seres humanos recorrem à autoridade para coorde- nar as atividades de um grande número de pessoas. Ela se estende a todas as esferas da vida social e existe em algum grau em todas as sociedades conhecidas, mesmo nas socie- dades primitivas onde não há a figura do chefe. Não obs- tante, a autoridade não constitui o único meio pelo qual os homens procuram conjugar as atividades cotidianas de uma amplo número de pessoas, de· forma a produzir a sociedade. Como o principal problema aqui é o da coordenação, é pre- ciso começar com um breve exame daquelas formas que não envolvem a autoridade. Estas podem nos dizer alguma coisa sobre ela e as reações morais que suscita. Rá evidentemente a mera coerção, distinta da autori- dade, pela falta de qualquer dever moral de obediência. Numa forma pura ela é rara, tal como a autoridade que depende unicamente de um senso de dever. Talvez nenhu- ma delas exista numa fonua absolutamenté pura. Então, há a "instituição do mercado. Especialmente nos tempos mo- dernos, este tem a imensa vantagem de ser capaz de coor- denar a produção e a distribuição de bens e serviços entre número ilirriitado de pessoas que sequer conhecem umas às outras. Mas os resultados· dessa coordenação são, com freqüência, moralmente ofensivos, principalmente para os grupos recém-introduzidos nas relações de mercado, ainda que grupos de culturas diversos entrem nessa situação com pressupostos éticos muito diferentes. Finalmente, há o cos- tume. Sob este, grupos relativamente limitados de pessoas formulam normas para si próprios e vivem mais ou menos de acordo com elas. A regularidade ea ordem porventura existentes em tal comportamento provêm da sanção e da vigilância mútuas, sem que nenhuma pessoa ou grupo con- quiste suficiente vantagem, a ponto de ser capaz de domi- nar ou controlar os Existe um elemento de barganha e de vigilância mú- tuas também nas relações de autoridade, como em breve ficará claro em relaçãó com aquilo que resolvi chamar o contrato social implícito. Este constitui um traço crucial em

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37

qualquer tentativa de descobrir e explicar idéias e compor- tamentos recorrentes sobre o que vem a ser o abuso de auto- ridade. Os abusos de autoridade e todo traço comum que possam exibir são a fonte que exploraremos nesta seção. Antes de prosseguir, no entanto, seria prudente examinar brevemente algumas formas de ordem social onde a autori- dade é quase inexistente,7 não apenas para ver como elas funcionam, mas, o que é mais importante para os propó- sitos presentes, para observar como os seus fracassos podem gerar a ira moral. Os tipos de ira que aparecem na ausência da autoridade, ou antes dela, permeiam as sociedades com sistemas de autoridade mais desenvolvidos. Os homens podem conseguir viver em sociedades des- providas de qualquer coisa que póssalJ1.os reconhecer como autoridade política. Mesmo naquelas que possuem autgri- dade política, é impossível recorrer a ela a não ser em uma parcela dos atritos e disputas que são parte da vida coti- diana, onde quer que· existam seres humanos vivendo em comum. Embora os arranjos econômicos sejam certamente um dos principais fatores a influenciar a intensidade e a incidência das disputas, nenhuma: sociedade conhecida está livre delas. Mesmo as sociedades sem escassez têm querelas freqüentes e amargas disputas. Até um certo ponto, é pos- sível mantê-las dentro de limites, por meio de uma varie- dade de artifícios sociais, como a repreensão, o opróbrio ou o isolamento temporário das pessoas que ameacem tornar- se destrutivas. Por outro lado, numa grande maioria dessas sociedades, se existem paz e ordem, essas são altamente precárias. Um grupo ou um indivíduo pode tornar-se tão irado a ponto de matar outras pessoas. É provável que o resultado seja uma forte exigência de vingança. A sua forma institucional é a inimizade tradicional e sangrenta entre fa-

(7) Para uma análise gerallnstigante, embora de certo modo abstrata, ver Michael Barkun, Law witlwut Sanctiolls: Order in Primitive Societies and tire World Community; Robert Knox Dentam, The Semai: A NOllviolent People of Malaya, especialmente os capítulos VI~VII, fornecem um relato instrutivo de uma sociedade isolada com um minimo de sanções. Há muitas outras na produção teó~ rica existente, não citadas diretament~aqui.

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38

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

mÍlias que pode ser encontrada em muitas partes do mun-

do. O clamor de vingança - reprimido aqui, estimulado e elaborado ali - ecoou em uma imensa porção da experiên·· cia humana. A vingança significa retaliação. Também sig- nifica uma reafirmação da dignidade e do valor humanos, após a injúria ou o dano. Ambos são sentimentos básicos subjacentes à ira moral e ao sentimento de injustiça. A vin- gança é uma forma de igualar as coisas e, com certeza, uma forma que nunca funciona completamente. Não existe a restauração completa por injúrias já infligidas. A vingança é possivelmente a forma mais primitiva de ira moral. No entanto, embora primitiva, é também altamente contempo- rânea. Pode ser encontrada em sociedades de todos os tipos:

desde aquelas onde existe a autoridade politica, influen- ciando o que a autoridade faz (ou a despeito da autoridade), até as culturas praticamente desprovidas de autoridade. Até aqui, evitei a tentativa de definir autoridade, com base no que estávamos falalido em situações onde ela não existia. Em geral, a autoridade é uma destas coisas que notamos mais facilmente depois de observar situações onde ela não e)<iste ou, mais precisamente, onde ela dificilmente existe. A rixa tradicional e sanguinária entre famílias, com ·sua sucessão perpétua de vinganças, é um bom exemplo. As inimizades tradicionais continuam porque não há autori- dade para eliminá-las e para fornecer outras soluções ao problema da ordem social. A autoridade é um reflexo do fato, já mencionado ante- riormente, de que a sociedade humana é, em parte, um conjunto de arranjos através dos quais alguns homens pro- curam extrair Uln excedente econômico de outros, transfor- mando-o em cultura. A autoridade é também um reflexo do fato de que a extração de Um excedente não é tudo o que acontece nas sociedades humanas e não é a única fonte de cultura. A autoridade implica a obediência com base em algo mais que o temor e a coerção. É necessário examinar a que equivale o "mais" na prática. Embora as teorias tradicionais sobre o contrato social pareçam hoje bastante desacreditadas por parte dos saga-

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zes cientistas SOCIaIS, elas cont?m efetivamente uma pers- pectiva relevante, sustentada por abundantes evidências, que atrai cada vez maior atenção.' Em qualquer sociedade estratificada - o tipo de sociedade que abordaremos daqui em diante -, existe um conjunto de limites sobre aquilo que tanto os governantes como os súditos, os grupos domi- nantes e os subordinados, podem fazer. Há também um i conjunto de obrigações mútuas que mantém unidos os dois grupos. Tais limites e obrigações não estão assentados em constituições ou contratos formalmente redigidos, embora em sociedades que têm tal parafernália alguns desses dispo- sitivos - não necessariamente os mais importantes - pos-

, sam ser assentados dessa maneira. Afirmar que existe um contrato social mais implícito que explícito, um conjunto não verbalizado de entendimen-

tos mútuos, não traduz a situação d~ forma acurada. Esse modo de tratar a questã.o soa como se existisse em algum lugar uma espécie de carta platônica com a qual todos os ·membros da sociedade, exceto os socialmente obtusos e politicamente insensíveis, deveriam concordar; qualquer

antropólogo ou sociólogo competente seria capaz de trazer

à luz límpidas cópias dessa carta, a partir de uma variedade de informantes. No entanto, o que ocorre é uma contínua sondagem entre governantes e súditos, a fim de descobrir o que eles podem efetuar impunemente, a fim de testar e descobrir os limites da obediência e da desobediência. Ne- nhum deles sabe exatamente onde se situam os limites, até descobrir, pela própria experiência, ainda que ambas as partes possam ter de antemão previsões razoavelmente pre- cisas. Quanto mais estável a sociedade, mais estreito o âm- bito onde têm lugar tais testes e descobertas. Quanto menos estável a sociedade, mais amplos e extensos os limites. To- davia, algum limite sempre existe; caso contrário, não ha- veria sociedade.

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40

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

pre sendo renegociados. Os governantes sabem que há cer- tos limites a seu poder, a partir dos quais eles não podem esperar concordância. (Isso era válido até mesmo nos cam- pos de concentração nazistas.) E para continuarem como governantes eles precisam de súditos. Enquanto isso, exis- tem entre os súditos padrões de aprovação e condenação que formam a fonte de tais limites. No devido tempo, che- garemos à questão de como e por que os padrões populares de condenação nascem e se transformam. Para o presente, é suficiente notar que esses deveres e limites mútuos efeti- vamente existem, e que sua existência tanto se manifesta em como é descoberta pela prova intermitente das reações de cada um.' Os termos governantes e súditos são aqui basicamente noções gerais simples e abertamente abstratas que desig- nam indivíduos e, com mais freqüência, grupos de indiví- duos. Num dos extremos do espectro - digamos, um Es- tado industrial moderno - eles são imensamente mais dife- renciados e complexos do que os termos em geral denotam. No outro extremo do espectro - digamos, uma sociedade não letrada sem a instituição dos chefes - os termos pa-

(9) Concepções explícitas de contrato social ocorrem no mito e na tradiçllO em pontos grandemente separados no espaço e no tempo. Para escolher aleato- riamente um exemplo africano, Max Gluckman, The Ideus in Barotse Jurispru- dence, pp. 29-30, relata que, de acordo com .o mito da criação dos barotses, o governo do rei foi estabelecido pelo povo, que as-sumiu por vontade própria o dever de render tributo. Conforme Gluckman, há uma "idéia de um" contrato entre rei e povo" neste mito. Numa interpretação das antigas teorias políticas e instituições sociais do subcontinente hindu. Charles D,rekmeier, Kingship and Commlluit)' in Ear/yIlldia, p. 245. afirma que: "O contrato de governo hi_ndu, tal como o budista, era em essência uma troca de taxas de proteção, e a autoridade do rei estava limitada pelas leis sagradas". Um texto chega a descrever o rei como servidçr assalariado do povo. Ocasionalmente, outros textos indicam o direito do súdito de destronar u.m rei injusto 'ou irresponsável, embora tais afirmativas sejam raras. Tais cOllcepçües explícitas c organizadas não são, entretanto, universais. Eu não arriscaria reivindicar algo do gênero com relação aos gregos. Em Homero, especialmente na Odisséia, encontramos uma séria de acordos astuciosos entre determinados homens e determinados deuses, com freqüência dirigidos contra outros deuses, com propósitos bastante limitados e específicos. Pode haver um contrato social implicito, no sentido de um conjunto de leis sob as quais as pessoas vivem. sem que essas leis encontrem expressão em um mito documentado.

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recem, por sua vez, demasiado complexos para denotar uma diferenciação entre aqueles que comandam e aqueles que obedecem, uma distinção que não existe em nenhuma forma permanente. Eu não tenho nenhuma pretensão de estender a língua inglesa além de um contorno reconhecí- vel, no interesse de criar uniformidades pseudo-sociais. Tais diferenças realmente existem, e em alguns lugares as sociedades não letradas efetivamente deslocam-se para fora dos limites dos fenômenos a serem discutidos aqui. Como foi indicado no início, o seu tipo de contrato social pode funcionar com quase nenhuma autoridade. Não obstante, é evidente que um contrato social sob a forma acima descrita existe em numerosos níveis de autoridade no seio do Estado moderno. Ele é visível nas relações entre patrões e empre- gados e em muitas outras. Também existe em muitas socie- dades onde não há Estado formal, mas alguma atividade que requer organização e coordenação regularmente sus- tentadas, como em certos tipos de grupos de caçadores e, ainda mais nitidamente, na prática dos chefes guerreiros temporários. Existem dispositivos comuns compartilhados por um grande número de sociedades e subsociedades como as que acabamos de mencionar nesta forma de contrato social. Os sistemas de autoridade geralmente esp.ecificam (1) por que as pessoas que detêm a autoridade têm tal status e (2) como elas o obtêm ou ingressam nele. Mnito freqüentemente, há algum tipo de cerimônia - no caso dos governantes políti- cos, em geral bastante elaborada -, para significar que uma pessoa ingressa nesse status. Ê certo que os modos de escolha variam enormemente em todo o percurso, da mo- narquia hereditária à escolha pela sorte. Nesse sentido, o contrato social assemelha-se a um impresso em branco, tal como um requeriinento de emprego, ou um formulário de imposto de renda, onde é possível·inserir uma gama limi- tada de valores ou de dados. Em qualquer sociedade, uma violação dos procedi- mentos vigentes para a escolha das autoridades despertará provaveJinente a ira. Tentativas de apresentar um novo princípio em lugar dos existentes geram profunda indigna-

---------------

~2

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çao moral e agitação política. Por sua vez, os novos princí- pios podem ser introduzidos com o recurso a tentativas de corrigir violações ou supostas violações às práticas vigentes. Há em geral certas obrigações mútuas que vinculam governantes e governados, os detentores da autoridade e os que estão sujeitos a ela. Elas constituem obrigações no sen- tido de que: 1) cada uma das partes está sujeita a um dever moral de efetivar certas tarefas como sua parte no contrato social implícito; 2) o fracasso de qualquer uma das partes no desempenho de tais deveres constitui fundamento para que a outra se recuse a executar a sua tarefa. Cada parte encontra, na alegada incapacidade da outra para desempe- nhar adequadamente a sua função, a justificação e o su- porte morais para seu próprio senso de indignação e ira. Carlos I, rei da Inglaterra, acusava os seus opositores no Parlamento de violarem as leis do país e procurou definir a si próprio como o protetor das liberdades dos súditos; os líderes parlamentares o aeusavam de fracassar no desem- penho de suas obrigações monárquicas e de abusar injusta- mente de seus súditos. Enquanto isso, alguns levantaram a questão de se a Inglaterra efetivamente necessitava ter reis. Na época imperial, os rebeldes chineses acusavam o impe- rador de fracasso no desempenho de suas tarefas, devendo, por isso, perder o seu Mandato Celeste. Se eles vencessem,

o mandato passaria a eles; quando eram derrotados, entra-

yam para os livros de história como bandidos que tentaram induzir a população a afastar-se de seus deveres para com o imperador. Embora pelo menos um líder rebelde tenha che-

gado ao ponto de tratar o Mandato Celeste com surpreen- dente cinismo, conlO um ardil para ludibriar as massas,lO antes da intromissão das idéias ocidentais nenhum rebelde

chinês deu o passo radical de questionar se o imperador era ou não necessário. Ainda que os habitantes da China pré- industrial não tenham levado o seu desafio tão longe quanto os ingleses da fase pré-industrial, em ambas as sociedades,

e em muitas outras, podemos encontrar um senso razoavel-

(lO)

Vincent Y. C. Shih,

Some Chillese Rebel ldeologies.

pp.

214-215.

INJUSTIÇA

43

lU ente nítido de obrigações mútuas, urn sentido que emerge de forma mais vívida numa época de questionamento, quan- do as paixões morais são levantadas dos dois lados. 11 Em linhas gerais, tais obrigações se decompõem em três partes diferenciáveis mas correlacionadas. A primeira e talvez a mais essencial obrigação do governante é a prote- çito - especialmente a proteção face aos inimigos estran- geiros. Essa obrigação se aplica não apenas ao chefe do Es- tado mas aos níveis mais inferiores de autoridade. A este respeito, é útil chamar a atenção para o sentimento gene- ralizado de que o governante deve ser, de algum modo, um membro do mesmo gl'upo:tal pessoa deve ter suficientes traços culturais enl comum com seus súditos, a fim ele per- mitir que eles se identifiquem com o governante. Não há razão para atribuir esse sentimento a algo que se assemelhe a um instinto das massas ou a uma aversão inata conl rela- ção ao que é estrangeiro. Os estrangeiros são geralmente conquistadores que oprimiram a "nós", ou pessoas que "nós" procuramos oprimir e explorar - escravos, imigran- tes ou vítimas de ."nossa" conquista. Se os estrangeiros não passam de iguais, como no caso de refugiados com capaci- dades socialmente úteis, tais indivíduos são concorrentes em potencial. Embora existam exemplos de busca de um protetor externo, para os súditos esse fato é um sinal de fraqueza e uma situação inerentemente desagradável. Do ponto de vista da presente investigação, a mais interessante das obrigações do governante diz respeito à

(11) Nas sociedades não letradas, as obrigações dos que detêm a au"tori-

c1ade são amiúde muito fortes. Max Gluckman observa que, em geral, nas socie- dades tribais o chefe deve soconer diretamenle a todos os necessitados, de uma maneira muito diversa do auxílio impessoal fornecido através das modernas agên- cias de bem-estar_ Entre os barotses, na África, tema de seu estudo, a mais pesada obdgação do rei é fornecer pelo menos um local para residência e alguma terra arável, para todos os seus súditos. Ver Barotse Jurisprudence, pp. 6 e 80. Sobre o que ocorre quando uma autoridade mostra-se incapaz de cumprir as obrigações ou expectativas, não consegui encontrar muit;t coisa nos relatos antropológicos; entretanto, Leopold Pospisil, Kapauku Papuans mui theirLaw; pp. 244-45, relata um caso notável, a ser discutido mais detidamente num contexto posterior, onde existe evidentemente uma obrigação de matar um chefe que "não atenda às expec-

tativas sociais.

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o SENTIDO DE INJUSTIÇA

manutenção da paz e da ordem. O núcleo dessa função é estabelecer as disputas que surgem entre os súditos, e entre estes e o governante, de uma maneira que todas as partes encarem como basicamentejustaP O ponto crucial de inte- resse é saber se existem ou não concepções transculturais e trans-históricas de eqüidade ou saber se tais c.oncepções são de tal modo historicamente específicas e culturalmente li- mitadas, a ponto de tornar impossível ou infrutífera a gene- ralização. Apresentarei brevemente algumas razões para sustentar que há algumas concepções gerais de comporta- mento iníguo e injusto, e por implicação, portanto, de com- portamento adequado dos governantes. Ê provável, no en- tanto, que elas façam melhor sentido se observarmos as si- tuações relevantes no contexto da ampla gama de obriga- ções mútuas entre governante e governado, e das formas e conseqüências que podem assumir as violações a essas obri- gações. A terceira obrigação dos governantes é comportar-se de forma a contribuir com a segurança material - falar em prosperidade material poderia sugerir uma ênfase dema- siado forte na acumulação de riqueza - dos súditos. As formas que podem tomar essa obrigação variam desde a mágica da rainha da chuva dos lovedus, uma governanta secreta e misteriosa de uma das tribos bantos, aos esforços dos presidentes norte-americanos para evitar a Depressão. A concepção típica do século XIX de que a sociedade não tinha nenhuma responsabilidade pelo bem-estar da popu- lação; que seria, ao mesmo tempo, especialmente fútil e totalmente imoral esperar que o chefe do Estado tomasse atitudes efetivas para se contrapor a ameaças ao bem-estar popular, parece hoje uma aberração histórica sem impor- tância.

(12) Em resposta aos esforços centralizadores de ShiMHuang-Ti (dinastia Tsin), constmtor da Grande Muralha da China, um rebelde, no ano 206 a.C;, apresentou como parte de seu programa o que pode ser visto como uma definição mínima de legalidade e justiça: "Éxistirão apenas três itens de lei: aquele que matar morrerá. e aquele que ferir outra pessoa, ou roubar alguém, deve ser obri- gado à retribuição. Tudo o que resta da lei Tsin deve ser abolido". Ver Shih, Rebel Ideologies, p. 159.

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4S

Assim, a contribuição que se espera do governante desce à segurança: segurança contra a depredação, contra as ameaças naturais, sobrenaturais e humanas ao supri- mento de alimentos e a outros suportes materiais da vida

cotidiana costumeira. Em troca, as obrigações do súdito são

a obediência às ordens que sirvam a tais fins, as contribui-

ções à defesa comum (exceto naquelas poucas sociedades onde a guerra é desconhecida) e a colaboração material para o apoio aos governantes que, de um modo geral, não se engajam diretamente na produção econômica. Por úl- timo, espera-se comumente dos súditos que façam alguma contribuição através de seus próprios arranjos sociais para

a manutenção da paz. Êdesnecessário dizer que existem numerosas variações sobre estes temas e é grande a extensão em que são elabo- rados. Há também fortes fundamentos para o ceticismo quanto a qualquer visão sobre o efeito de que essas obriga- ções mútuas se harmonizem num sistema global, com uma igualdade de encargos sobre os detentores da autoridade e os que estão sujeitos a ela, e num relacionamento harmo- nioso entre as partes e funções da ordem social. Não obs-

tante, é útil observar que, para muitos indivíduos, especial- mente aqueles situados na base da pirâmide das sociedades estratificadas, a ordem social é uma coisa boa em si mesma,

e por esta eles sacrificariam freqüentemente outros valores.

Eles detestam a interferência violenta e caprichosa em suas vidas cotidianas, venha esta de bandidos, fanáticos políti- cos ou religiosos e agentes do poder. As pessoas em geral

apoiarão, ainda que parcialmente atemorizadas, um líder que prometa paz.e ordem, especialmente quando ele possa fazê-lo com algum colorido de legitimidade, conforme defi- nida naquele tempo e lugar."

(13) Um famoso relato de uma antiga utopia chinesa, encontrado no Livro dos RUos e citado por Jean Chesneaux, Les Traditions Êgalitaires et Utopiques eu Orient, p. 90, afirma que houve uma época em que os ladrões e bandidos não existiam, que as portas externas das casas eram deixadas sem trancas. Historia~ dores europeus enfatizam o sofrimento das populações francesas, alemãs e espa~ nholas, além de outras, durante os pedodos de anarquia e guerra religiosa, e seu desejo de apoiar um poder forte, a fim. de pôr termo a tal sofrimento. Como

~6

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

Embora o contrato social inerente às relações de auto- ridade esteja sempre passando por provas e renegociações e possa entrar em colapso completo em caso de revolução,'4 procurarei argumentar aqui, por via de hipótese, que há certas formas de violação desse contrato que comumente despertani a ira moral e um sentido de injustiça entre os que estão sujeitos à autoridade. Onde não encontramos tal ira, iremos amiúde encontrar certos mecanismos repressivos em operação, um tipo de sihlação a ser examinada no próximo capíh!lo. Nas relações de autoridade, as situações arquetí- picas são aquelas nas quais o governante não realiza seu trabalho (e mais raramente o trabalho dela) de forma ade- quada, isto é, não provê a segurança, ou busca apenas a vantagem pessoal em detrimento da ordem social. Antes de avançar para uma análise um pouco mais de- talhada, alguns comentários adicionais se fazem necessá- rios, à guisa de qualificação e esclarecimento. Os sentimen- tos populares não são inclinados a sustentar governantes com estrita responsabilidade. Quando. mais não seja, há uma tendência perceptível a ver com maus olhos e a descon- fiar da autoridade que governa excessivamente de acordo

com as regras. 15 A

imagem positiva da autoridade é mais

mostra Eric J. Hobsbawm em Rebeldes Primitivos, o bandido que conquista .al- gum apoio local o·faz contra uma autoridade caprichosa e frágil. Na medida em que um líder político, atuando numa situação caótica, organiza seus próprios bandos armados, ele com certeza atemoriza parcialmente a população para dar M lhe apoio. Grande parcela do apoio revolucionário por parte do "povo" é, em sín- tese, o resultado de.mera intimidação. Mas o programa revolucionário pode fazer uma enorme diferença, ao conquistar o apoio popular, quando os seus competi- dores são muito mais tirânicos. (14) As redes.de autoridade locais, seja do ancien régime, -seja da revolu- ção, entretanto, geralmente conseguiram manter-se precariamente até que a nova ordem se estabelecesse. (15) Parece haver fundamento na tese de que o I-lomo sapiens é essencial- mente um anarquista ou, no mínimo, um liberal da velha escola. Até mesmo onde

a autoridade parece ser completamente legítima e aceita, é provável que haja al- gum sinal de desconfiança e hostilidade. Os barotses, de acordo com Gluckman, BarotseJurisprudence, p. 38, dizem que todo mundo adora um príncipe até que ele é feito rei; então, todo mundo o odeia. A autoridade sempre implica algum

grau de restrição e, portanto, de-frustração. Por outro lado, como notamos ante- riormente, é também uma fonte de segurança. Assim, os homens sempre desejam

a autoridade ao mes~o tempo que a rejeitam e desconfiam dela.

ao mes~o tempo que a rejeitam e desconfiam dela. INJUSTIÇA 47 provavelmente a da figura paterna

INJUSTIÇA

47

provavelmente a da figura paterna ríspida e severa, cujos l'aros acessos de fúria revelan1 seu poder de nos proteger e intimidar "nossos" inimigos, mas cujas fraquezas também acenam com alguma perspectiva de remissão para "nossas" transgressões. A raiz dessa concepção paternalista de autoridade e a fonte de sua freqüente recorrência repousam provavelmente na experiência de infância. Uma vez que as crianças ini- ciam a vida sendo totalmente dependentes dos pais, a auto- ridade destes, no princípio a fonte de todas as gratificações, provavelmente terá um componente lnuito benigno. A auto- ridade paterna deverá também abranger o conjunto das ati- vidades diárias de uma criança: as formas e horários de alimentação, a excreção, a diversão e o sono. A autoridade funcionalmente específica, isto é, a autoridade limitada a uma esfera específica da vida, é algo que a criança encontra mais tarde, quando encontra. Na verdade, é somente em alguns aspectos da vida industrial moderna que esta forma de autoridade foi desenvolvida em um alto grau." Hoje em dia, a autoridade do patrão sobre o empregado é cada vez mais confinada estritamente às horas de trabalho e ao com- portamento relacionado ao trabalho; em muitos casos, tal autoridade produz a indignação moral quando se estende ao corte de cabelo, ao modo de vestir (que pode refletir uma intromissão da sexualidade na esfera formalmente desse- xualizada das relações de trabalho) e, obviamente, à cor da pele e. às crenças religiosas. Todavia, esta tendência racio- nalista e individualista em direção à autonomia pessoal se defronta com poderosos impulsos derivados da experiência da infância, a demanda de autoridade completamente en- volvente e da segurança que esta autoridade supostamente

(16) Para urna boa análise de um exemplo de autoridade paternalista di-

Ruanda, pp. 161-162, 168-

169. A aceitação da desigualdade assegurou a paz interna por muitos anos. Em tempos recentes, entretanto, o sistema sucumbiu a maciças chacinas efetuadas pelos estratos dominantes, provavelmente devido aos efeitos provocados pelos usurpadores europeus e pela crescente ·competição por recursos. Os relatos apa- recemem The.New York Times, 31 de maioe 6 de junho de 1973.

fundida ver J. J. Maquet, The Premise of IlIequality in

.48

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

provê. Se tal demanda de uma autoridade difusa e paterna- lista origina-se da experiência da infância, isso ajudaria a explicar por que é amiúde tãó terrivelmente difícil para os seres humanos acreditar que a autoridade vigente é Intrin- secamente cruel e maligna, como no exemplo de Jó ou do comportamento de muitas vítimas do tenor stalinista. Há com certeza considerável variação nesses fatos, que não pode ser explicada em sua totalidade pelas diferentes expe- riência.s infantis. Para o momento, devemos apenas ter.em devida conta uma tendência humana generalizada para in- terpretar as cláusulas do contrato social implícito, em bene- ficio dos governantes, bem como algumas das razões dessa tendência Se essas observações bastante genéricas nos ajudam a avançar um pouco no percurso da compreensão das tendên- cias plebéias e populares conservadoras, que dizer da res- posta contrária - a que imfoca o comportamento dos supe- riores como injusto e passível de oposição? A obediência implica o controle dos impulsos, e é uma hipótese de traba- lho razoável que o controle dos impulsos sempre .envolva al- gum grau de desagrado e, em casos mais severos, uma dor real. É uma previsão segura que formas menos importantes de subversão podem ser encontradas nas formas mais plá- cidas de autoridade humana. A situação geral se refere àquela em que existem limites à autoridade, além dos quais os atos da autoridade parecenl caprichosos, opressivos e in- justos. As atitudes populares face à ·autoridadesão com:· preensivelmente carregadas de ambivalência e em muitas culturas (não em todasl, há evidências no sentido de uma poderosa tendência oculta de igualitarismo, resistência e suspeita diante de todas as formas de subordinação de um homem a outro. 17

(17) o manifesto de outro rebelde chinês sintetiza com precisão as deman- das de muitas populações Rré-industriais: "Li Tzu-cheng não mata, não gosta da

riqueza; não insulta as mulheres. não saqueia; ele comprarâ e venderá de fürma

justa e libertará o povo dos impostos; distribuirá o dinheiro dos ricos entre o povo". Como salienta Shih, que cita esta passagcJ.ll em Rebel Ideo.logies, p. 208, ê fácil imaginar por que o governo Ming achou tão difícil enfrentá-lo.

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INJUSTIÇA

49

Podemos tratar agora de violações específicas do con-

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trato social. As negligências no dever de proteção por parte das autoridades constituem um caso óbvio e não devem de- ter-nos por mais tempo. A traição por parte dos súditos é uma outra violação, e pode ocorrer sob qualquer forma de conflito, dos atos diretamente militares à "sedição" dos lí- deres sindicais - suposta ou real - nos conflitos econômi- cos modernos. Quando severa, e há certamente todo tipo de gradações, a penalidade para o governante é a privação do direito de governar e, para o súdito, dos direitos de parti- cipação na sociedade - se não for pior. Não existem razões para invectivar o sentido de injustiça que isso provoca. Os rebeldes chineses sob os Sung.recorriam ao pagamento de tributos aos bárbaros num esforço para desacreditar a di- nastia, de uma forma que seria perfeitamente inteligível na sociedade ocidental. De modo mais geral, os governantes que não podem proteger a sua prÓpria sociedade, cujos in- sncessos na guerra os desacreditam, são passíveis de priva-

ção do direito de goYernar. Em várias ocasiões os reveses

militares ou a simp.les incompetência militar· constituíram o prelúdio de irrupções revolucionárias.

As conseqüências são mais variadas e complexas nos

~ casos de fracasso ou incapacidade dos governantes para

controlar seus próprios instrumentos de poder, bem como de mau-uso de!l.berado destes. Pode-se afirmar, com razoá- vel certeza, que nenhuma população deixa de externar res- sentimento e indignação face a atos de pilhagem praticados

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por suas próprias tropas, outro tema recorrente nas rebe-

· liões chinesas. Isso não quer dizer, contudo, que tais pilha-

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gens produzam sempre uma forte reação. Ela foi surpreen-

dentemente limitada diante de todo o abuso e brutalidade da Guerra dos Trinta Anos na Europa. Da mesma forma, o

sentimento de que aqueles que detêm a autoridade não de-

I vem punir seus súditos, exceto em casos de crime definido,
I parece bastante difundido. Ele também ocorre na China, bem como no Ocidente. Por outro lado, como todos sabem, a punição arbitrária ocorreu em extensa esc~la, não apenas nas ditaduras modernas e em seus campos de concentração. Embora o medo e o desamparo possam explicar a ausência

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o SE~lTIDO DE INJUSTIÇA

de resistência aberta, precisamos compreender mais clara- mente que fatores produzem tais sentimentos. O terror aberto e esmagador em mãos das autoridades não parece ser uma explicaç1i.o suficiente do porquê de os seres huma- nos em situações como essas empreenderem, de tempos em tempos, atos de resistência objetivamente desesperados. Para o momento, entretanto, esses temas não nos dizem respeito. O ponto a ser destacado é que, apesar de uma ampla gama no grau de sensibilidade, toda cultura parece dispor de alguma definição de crueldade arbitrária por par- te dos detentores da autoridade. O emprego indevido dos instrumentos de violência dos governantes contra os seus próprios súditos é uma violação extrema da obrigação de manter a paz. Uma parte essencial dessa obrigação, como vimos, consiste na composição das disputas entre os súditos. Tal obrigação, que inclui a admi- nistração da justiça, mas é mais ampla, na medida em que se estende muito além dos arranjos formais comumente as- sociados ao termo, constitui pade da autoridade legitima onde quer que exista. Uma tarefa normal de um chefe de seção na indústria, um oficial não-comissionado nos servi- ços militares ou um administrador em qualquer hierarquia burocrática é pôr em ordem os desacordos e atritos entre os subordinados. De modo mais geraI, o direito de intervir em disputas é uma das prerrogativas da autoridade mais avida- mente ansiadas e mais zelosamente mantidas, seja no que tange à burocracia, seja de outra maneira. Há uma tendência constante naqueles que detêm a au- toridade no sentido de distorcer tal processo em benefício próprio, e uma propensão correspondente por parte dos sú- ditos a resistir, evadir-se qu se opor à autoridade. 18 Nesta

(18) Uma fonte dessa oposição, especialmente nas sociedades estratifica-

das, é ~l tendência dos grupos sujeitos a uma autoridade mais elevada no sentido de perpetuar modos tradicionais de tratar as suas próprias disputas, bem como de desenvolver novos tuodas. Glucktnan, Barotse Jurisprudence, p. '21.2, apresenta um exemplo claro que mostra co"mo tal interferência pode produzir indignação. Num caso de assassinato, o rei barotse interveio, ordenando à família do mortu que aceitasse indenizaçflO, pois o assassinato tinha sido acidental. O pai do mmto

INJUSTIÇA

51

altura de nossa investigação, o tema principal é saber se há padrões comuns reconhecíveis, subjacentes a essa oposição. De imediato, parece improvável que uma pessoa deva ter crescido na tradição greco-judaica ou sofrido a influência do direito romano para se sentir vítima de tratamento in- justo. O tema comum nas concepções de tratamento in- justo, eu sugiro, é a violação da reciprocidade. A autori- dade obtém uma vantagem, causa dano ao individuo, sem qualquer justificativa real em termos de ganhOS· para a so- ciedade em seu conjunto. Quando David, a fim de tomar Betsabá como esposa, mandou o esposo dela para a morte certa, ele se tornou o paradigma dessa situação, decorrendo dai, possivelmente, uma das razões de sua fama. Mesmo se a forma parecer mais abstrata e menos dramática, é fácil· reconhecer os mesmos elementos essenciais nas denúncias dos rebeldes chineses de que altos ministros usavam seus postos para perSeguir inimigos e favorecer seus parentes, enquanto o crime continuava impune devido a relações pessoais. Uma violação similar ocorre quando os governantes impõem severas privações materiais à população, com pro- pósitos que esta não aceita, geralmente porque tais propó- sitos estão distantes de sua própria maneira de viver e de seus interesses. Uma rebelião chinesa, sob o governo Sung, mencionada atrás em outra relação, enconirou sua justifi- cação dada a intolerável miséria imposta pelos esforços dos

governantes para obter, a qualquer custo, certas ervas e pe-

chinês hostil sobre a rebelião regis-

19

dras raras. 20 Um relato

tra um episódio que tem a marca da universalidade:

recuSOU a indenização e tentou matar o culpado. Nesta altura, o rei ordenou a execução do pai da vítima que, entretanto, conseguiu fugir. Pace Durkheim. não é de modo algum verdadeiro que a reação de indignação moral sirva para restau~ rar a ordem social. Deve~se ter em conta que tipo de ordem está em jogo. Em geral, parece que os esforços de grupos subordinados, para elaborar suas próprias leis. a fim de solucionar as disputas internas. representam tentativas de manter algum grau de independência em relaçf\O à autoridade superior.

(19)

Shih, Rebel ldeologies. p. 197.

(20)

Shih,

Rebel ldeologies, p. 179.

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52

o SENTIDO DE INJUSTIÇA,

(Fang-La, líder da rebelião) tirando vantagem

dos

(sentimentos) das pessoas que sofriam o intolerável, reuniu então secretamente os desvalidos, os empobrecidos e os de-

socupados e deu-lhes esmola para conquistá-los. Quando

estava seguro de seu apoio, fez abater bois e coar vinho e convocou mais de uma centena dos mais perversos deles

para uma festa. Após algumas rodadas de vinho, La levan-

tou-se e disse: "Basicamente, há um princípio fundamen-

taI, único, com relação ao Estado e à família. Suponham

que os jovens devessem arar e tecer, rnourejando durante o

ano todo e, quando tivessem algum cereal e tecido acumu- lados, os mais velhos tomassem tudo o que havia e o dissi-

passem, além de açoitá-los pelO" mínimo crime, não mos- trando nenhuma clemência em torturá-los, mesmo até à

morte. Vocês gostariam disso?"

certo que não", responderam todos. 21

A marca da universalidade vem do fato de que é prová- vel que qualquer parcela de súditos tenha certas idéias sobre as tarefas e obrigações próprias 'dos governantes, bem como os propósitos adequados da autoridade, cuja flagrante vio- lação produziria um sentimento de indignação moral e in- justiça. Um comentário complementar sobre as atitudes popu- lares face a uma forma especial de malversação de recursos:

o suborno. O dicionário define suborno como um presente ou promessa de recompensa, a fim de corromper o julga- mento ou a conduta. Como tal, ele provavelmente existe em todas as sociedades humanas, incluindo as não letradas, que não dispõem de instituições políticas, uma vez que to- das aquelas têm normas morais cuja existência implica al- gum ponto na administração de julgamento contra a von- tade de um nlembro da sociedade. Aqui, mais uma vez, a investigação e a reflexão apresentam ambivalências revela- doras. O suborno é uma forma moralmente desaprovada de reconciliar a força irresistível da vontade de "X" com o ob-

(21)

Shih,

Rebel Ideplogies, p. 183.

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INJUSTIÇA

53

jeto inamovível da recusa de "Y" a tal vontade. Na fórmula

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apresentada, o "X" e o "Y" podem valer, seja para os' go-

vernantes, seja para os governados. Na China anterior ao século XX as denúncias de corrupção e suborno consti- tuíam temas recorrentes nas rebeliões. Nas cidades norte- americanas do século XIX, sob a lei do patrão, o suborno era um recurso por meio do qual as classes baixas e os imi- grantes mitigavam os rigores da lei. Era uma arma em sua

mão, em vez de um instrumento frente ao qual eles deves-

~ sem indignar-se. O suborno foi denominado o substituto
I americano da luta de classes. 22 No mundo em geral, os go- vernos razoavelmente honestos constituem inovação histó- rica relativamente recente. Al?sim, embora as atitudes mo- rais quanto ao suborno e aos que participam dele variem amplamente no tempo e no espaço (tanto do ponto de vista social como geográfico) parece haver um núcleo comum de

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atitudes negativas diante dele. Para concluir esta parte da análise,

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lima questão geral. Os seres humanos têm comumente o sentimento de que certas formas de punição são injustas? Podemos definir uma punição injusta como sendo aquela que suscita reação imediata, seja porque ela é imerecida, seja porque é excessivamente severa ou cruel, ou por al- guma combinação das duas razões. A luz da variedade, da

ingenuidade e da crueldade que os homens demonstraram
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ao punir e torturar uns aos outros, pode parecer, à primeira vista, estranho que possa existir algo remotamente seme- lhante a uma concepção universal de punição injusta. Mas há motivo para defender que essa variedade possa ser redu- zida a alguns princípios simples, embora relacionados. Desta vez, será melhor iniciar com um exemplo con- creto e, a partir dele, generalizar. Entre os papuas de Ka-

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(22) Talvez este aspecto tenha sido tratado de forma romântica. Na essên· da do exemplo, o suborno deve ter assumido a forma da extração de pequenas somas dos pobres para pequenos favores, tais como a garantia de licenças para ambulantes ou a tolerância frente a violações menores na lei.- Essa espécie de suborno assemelha-se à extorsão dos extremamente pobres por parte dos razoa~ velmente pobres, um arranjo que poupava a plutocracia do problema de governar.

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54

o SENTIDO DE INJUS'I1ÇA

pauku, a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa, se- gundo pen.saXll, é colocarem-na num cárcere do hOmClTI branco. Interrogado por um astuto antropólogo sobre o que havia de errado com a cadeia, um nativo respondeu que

numa prisão a substância vital do homem se deteriora e ele

morre.

"Nós costunlávamos matar apenas as pessoas más e agora Ulll indivíduo pode ir para a prisão simplesmente por-

que rouba ou luta na guerra. Se alguém é ferido por uma

seta, pode morrer, mas na prisão tem-se de sofrer antes da

morte. Deve-se ficar num único lugar e trabalhar quando não se quer. A prisão é realmente o que há de pior. Os seres

humanos não deviam agir assim. É muito imoral" .23

A partir de outras abundantes evidências apresentadas por esse antropólogo, que aprendeu a linguagem deles e tornou-se um membro aceito de sua comunidade, fica claro que a essência da humanidade, para os papuas de Kapau- ku, é a autonomia, a independência, a liberdade e a opor- tunidade de adquirir riqueza e influência. Qualquer restri- ção severa a essa independência, como a prisão do h01nem branco, parece-lhes uma violação de tal humanidade. Na gama das concepções conhecidas de humanidade, .os papuas de Kapauku, tal como os capitalistas norte- americanos do século XIX, são provavelmente algo extrec mo, com sua ênfase nas qualidades individuais em detri- mento das coletivas. Para o tema em questão isso é irrele- vante. O aspecto instrutivo e revelador desse exemplo é a estreita relação entre uma concepção específica de humani- dade e a condenação à injustiça de certas formas de puni- ção, condenação que, se violada, produz a indignação mo- ral. Nessa sociedade há certas punições que não se deve infligir a outro ser humano por serem demasiado dolorosas e degradantes.

(23)

Pospisil, Kapauku Papuans, p. 77.

INJUSTIÇA

55

Tais sentimentos são muito generalizados. As punições descartadas variam de acordo com as distintas concepções de humanidade. Em muitas sociedades com sistemas de classe e de casta, existem sistemas codificados de punição apropriados a cada casta ou classe, porque cada nível é visto como representando um grau ou forma diferente de huma- nidade. Em geral, quanto menos "humana" a vítima, mais cruel e dolorosa a punição justificável. As classes superiores representam a "verdadeira" humanidade, enquanto as infe- riores, como os escravos, são as mais afastadas. Esses có- digos também regulamentam e punem o comportamento agressivo entre indivíduos de estratos diferentes, infligindo pesados c.astigos aos membros dos estratos mais baixos e penalidades leves'para o contrário. A crueldade dirigida às camadas inferiores encontra sua justificação no argumento de que não são, em certo sentido, seres realmente humanos. Princípios similares são válidos também para a guerra. Onde o inimigo é definido como de alguma forma inumano ou inferior, as crueldades mais severas podem parecer mo- ralmente justificadas e não despertar reação. Os códigos aristocráticos, por sua vez, podem definir, ao menos, os lí- deres de seus inimigos como companheiros aristocratas que devem, até onde for possível, ser poupados. Homero des- creve o comportamento de Aquiles ao arrastar o corpo de Heitor através da poeira, diante dos muros de Tróia, como um ato repulsivo que é conseqüência de sua cólera pela morte de Pãtroclo, seu mais próximo camarada. Em nossa própria época, indivíduos moralmente sensíveis indignam- se e reagem diante das crueldades infligidas pelas tropas norte-americanas ou pelos tribunais e prisões deste país às populações pobres ou negras, pois tornou-se generalizada a concepção de que todos os seres humanos compartilham algumas qualidades essenciais. As razões para a variação das definições sociais do que é e não é humano, e para as numerosas gradações entre uma e outra, são demasiado complexas e sofrivelmente compreendidas para que se tente revelá-las. É suficiente su- gerir que a maioria -. talvez, todas as sociedades humanas

- possui alguma definição que reflete a sua ordem social

,56

o SENTIDO DE INJUSTIÇA".

particular e que o caráter dessa definição estabelece limites às formas e especialmente à severidade da punição que os membros de tal sociedade sustentam ser moralmente ade- quadas. Mais uma vez, é necessário salientar que os limites são passíveis de superação, e que, numa sociedade ampla, mais de uma definição pode existir. Não obstante, a trans- gressão desses limites provavelmente produzirá uma reação de indignação moral e um sentido de injustiça.' Saber se uma punição particular é merecida ou ime- recida não é a mesma coisa que saber se ela é ou não cruel, desumana ou excessiva, embora os ocidentais modernos provavelmente aplicassem o termo injusto em ambas as ins- tâncias. As pessoas sujeitas à autoridade podem aceitar uma determinada lei e acreditar que a puniçã,o por sua vio- lação é merecida enquanto, ao mesmo tempo, encaram uma forma específica de punição como algo que um ser humano não deveria infligir a outro. Ou então, podem re- '

E possível distinguir duas formas básicas da última si- tuação. Ou a autoridade impõe punição à violação de uma lei ou norma que é aceita pelos que estão sujeitos à autori-' dade, ou ela impõe punição de acordo com uma lei que não é mais totalmente aceita pelos súditos. Basicamente, ambas as situações fazem parte do pôr-à-prova contínuo do con- trato social implícito ou explicito, que tem lugar onde quer que exista autoridade. Como esse processo' opera todo o tempo e, é familiar ao mais ocasional dos observadores ou participantes das relações humanas; não há necessidade de maior discussão. Uma vez que os detentores da autoridade raramente podem controlar todos os aspectos da maneira como uma tarefa é cumprida, OS subordinados elaboram suas próprias práticas que, com o passar do tempo, adqui- rem a autoridade moral do precedente. Um desafio à auto- ridade moral do precedente, às formas costumeiras de com- portamento que os subordinados criaram para proteger seus próprios interesses vis-à-vis dos superiores, bem como a integridade de seu próprio grupo social, produziram ge- ralmente uma reação de indignação moral. (Isso é válido também quando o desafio provém de um membro do pró-

jeitar a própria lei.

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INJUSTIÇA

57

prio grupo subordinado, como no caso do trabalhador, que é um "derrubador de ritmos" e excede as normas formais

de proqução.) Na Inglaterra, durante o século XVI, oS, camponeses, amiúde, iravam-se porque os seUS senhores quebravam os costumes do domínio e desafiavam antigos direitos. Entre os moradores das cidades, durante os séculos XVIII e XIX, havia muita agitação à medida que os artífices percebiam no avanço da indústria capitalista um ataque aos seus direi- tos e privilégios tradicionais. Uma vez que toda sociedade que não seja absohitamente estática deverá, por definição, exibir leis em constante transformação, não há nesta altura

muito a ganhar com o acréscimo de exemplos mais recôn- ditos de outras épocas e culturas. Para o momento, é sufi- ciente sugerir que, na ausência de mecanismos contrários, completamente poderosos, ocorrerá uma reação que pode- mos reconhecer como sendo um julgamento de injustiça so- cial sempre que uma punição (1) viole a concepção predo-

minante do que é ou deve ser um ser humano; (2) viole uma

lei ou norma aceita pelos súditos da autoridade que inflige a punição; ou, ao contrário, (3) tenha lugar de acordo com uma lei ou norma que os súditos da autoridade passaram a ver como não mais válida ou efetiva. Se o raciocínio que acabamos de esboçar estiver córreto, podemos concluir que toda: sociedade humana dispõe realmente de uma concep- ção de punição injusta e de um modo específico de decidir por que' a punição é injusta.

A divisão do trabalho

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Toda sociedade humana conhecida apresenta uma di- visão do trabalho. Em algumas sociedades não letradas a divisão é basicamente entre os sexos, com muito pouca es- pecialização ao longo das linhas ocupacionais. Até aqui é possível aprender de' muitos livros didáticos de antropologia e .sociologia. Embora sejaimprovável que estes acrescentem

I que em nenhuma sociedade humana a divisão dó trabalho é completamente, satisfatória para todos os seus membros,

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58

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

parece seguro, acredito, tomar essa proposição como mais um ponto de partida para a análise. lvIesmo numa socie- dade não letrada, com uma economia muito simples e re- cursos abundantes, nem todas as tarefas são igualmente atrativas durante todo o tempo. Em economias mais com- plexas, é certo, as diferenças tornam-se mais notáveis. As- sim, na divisão do trabalho, tal como nos sistemas de auto- ridade, defrontamo-nos outra vez com um contrato social implícito, sujeito à prova e à renegociação perpétuas. Tal contrato social serve para regulamentar um con- flito inerente e inevitável, cüja intensidade, entretanto, va- ria amplamente no tempo e no espaço. Trata-se de um con- flito entre (1) as exigências e demandas do trabalhador in- dividual ou da unidade familiar com relação à alimentação, à vestimenta, ao abrigo e à participação nas amenidades e prazeres da vida; (2) as necessidades da sociedade em seu conjunto;2. (3) as demandas e exigências dos grupos ou indivíduos dominantes. Não existe" apenas um conflito de interesses entre o indivíduo e as exigências da ordem social adicionadas às da classe dominante. Há também um certo grau de harmonia, sem o que é improvável que o contrato social funcione. Com efeito, alguns dos instrumentos sociais mais eficazes são aqueles através dos quais a sociedade mais ampla procura fazer com que os indivíduos moldem "e definam seus pró- prios interesses de tal maneira que se tornem congruentes com a ordem social; que aceitem com prazer sua parte na barganha do contrato social, quando as compensações dire- tamente materiais são muito frágeis. Ê possível dispor as principais formas conhecidas de contrato social para a regulamentação da divisão de traba- lho numa escala.aproximanda, de acordo com o grau de compulsão e persuasão inerente ao .arranjo. Presumivel- mente, quanto maior o grau de compulsão, menor o suces- so do acordo, menor o teor de um contrato genuíno, que

9-14.

(24)

Para as dificuldades quanto ao emprego deste termo, ver acima, pp.

INJUSTIÇA

59

denote a aceitação de obrigações recíprocas por agentes hu- manoS livres e racionais. Segundo tal avaliação, a escravi-

.dão, em suas formas mais severas, nas minas e nos carnpos,

pertenceria ao grau inferior da escala. A pura compulsão é o aspecto esmagador dessa relação. Não há um grau 1111.lÍto menor de compulsão onde uma pessoa se defronta com a opção entre morrer de fonle ou empregar-se por salários muito baixos em jornadas exaustivas, a situação clássica, pelo menos em algumas fábricas do início do século XIX na Inglaterra, ou nas fazendas de algodão norte-americanas, após o fim da escravidão. Na maior parte do setor economi- camente mais atrasado do mundo, atualmente, a situação é semelhante, mas há na verdade uma diferença importante:

existe alguma possibilidade de escapar, através ~o mercado de trabalho e da migração. Voltando no tempo, até a Gré. cia antiga, poderíamos situar na parte superior da escala, a situação de um homem como Eumaios, o guardador de por- cos que dá as boas-vindas a Ulisses, em seu retorno de Ítaca sÇlb o disfarce de um mendigo. Homero descreve Eumaios como executor de uma função responsável, orgulhoso de seu senhor e totalmente identificado com o interesse de seu amo. No mundo de" hoje, a situação do trabalhador altamente especializado é similar, exceto pelo fato de que a identifica- ção e o orgulho derivam primordialmente da função em si. Por trás de tais variações e permutações, é possível de-"

tectar certas caracteristicas recorrentes. Há um padrão no modo pelo qual sociedades amplamente separadas no tem- po e no espaço avaliam diferentes tipos de trabalho. Os altos funcionários políticos, religiosos e militares alinham-se próximo ao topo em todas as sociedades estrati- ficadas da Europa e da Ãsia, e também em diversas socie- dades estratificadas não letradas do Novo Mundo e da Ãfri- ca, tais como os incas e os daomeanos. O poder econômico também traz em geral alto status, embora com mais relu- tância em alguns casos, como a China imperial. Nas socie- dades pré-industriais, em geral, a riqueza é principalmente um subproduto da alta posição derivada de outras ativida- des políticas, religiosas e, algumas vezes, militares. Embora as revoluções·comercial e industrial tenham feito muito no

60

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

sentido de reverter a relação, durante o século XX existiu uma forte tendência para que a antiga relação se reafirmas- se outra vez. O que há de comum em todas essas funções positivamente valorizadas é, em primeiro lugar, o controle

- primordial, mas não exclusivamente, das atividades de

e, em menor extensão, as capaci-

dades·, sobretudo as mentais. As tarefas e funções sociais negativamente avaliadas diferem dessas no sentido em que envolvem (1) ausência de controle sobre outros seres humanos e, no' lugar dele, su- bordinação; (2) ausência de habilidades, exceto as capaci- dades manuais mais rudimentares e fáceis de adquirir; (3) trabalho árduo, ou seja, repetitivo e, portanto, desinte- ressante, além de fisicamente penoso; (4) em vários casos, trabalho que exige contato com excremento, podridão, su- jeira e morte. Para uma pessoa de condição social elevada, o desempenho de tais funções constitui geralmente uma ta- refa degradante ou um violento insulto. Unicamente quan- do a punição é considerada justa - em outras palavras, quando essa pessoa já sofreu degradação e aceita a respon- sabilidade pelo ato que a provocou - não ocorrerá a pro- vável manifestação de alguma "forma de indignação moral, de ofendida arete (ou sentido inato da excelência própria); Este tipo de circunstância parece relativamente sem pro- blemas. E com relação às pessoas das posições inIeriores, qual nossa principal preocupação neste estudo? Têm elas a sua própria versão de arete ?

Considero que a ira, ou ao menos o descontentamento, está aí latente, quando não francamente manifesta, po-

dendo assim ser apresentada tal hipótese. Nas avaliações negativas (e positivas) das diferentes tarefas é possível su-. por um reflexo da natureza humana inata: que ninguém realmente deseje executar tais tarefas, que essas funções constituam uma violação de algum sentido inato que os se- res humanos possuem com relação ao que pretendem ser. O motivo central de tal suspeita é que os seres humanos geral- mente evitam. essas funções, quando podem, e apenas as desempenham sob alguma forma de compulsão. Ao mesmo

tempo, tais funções têm sido "socialmente necessárias",

outros seres humanos -

INJUSTIÇA

61

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numa extensa série de sociedades e não houve o mínimo grau de concordância "voluntária". No capítulo seguinte, analisaremos uma forma extrema de concorditncia "volun- tária", a dos chamados intocáveis, no sistema de castas hindu, num esforço para apreender mais claramente que fatores produzem tal aquiescência. Corno já apontamos, a descoberta de um único exemplo no qual a concordância fosse verdadeiramente voluntária invalidaria a hipótese. Se- ria possível' pressupor a concordância voluntária genuína somente onde não existisse nenhuma indicação de resistên- cia à execução dessas tarefas, e onde não houvesse indícios de que a socialização de pessoas que quisessem assumi-las implicasse dor para esses indivíduos. Dois outros aspectos da divisão do trabalho são capa- i zes de despertar a indignação moral e um sentido de injus- tiça social. Eles parecem ser universais, ou quase isso: tra- ta-se das concepções de propriedade e das sanções aos in- dolentes. Em toda sociedade, é necessário que haja algum tipo de relação entre os seres humanos, com o fim de regu- I lar o seu acesso e uso dos meios de produção, isto é, a terra e outros recursos naturais, além dos instrumentos ou outros meios físicos de trabalho." Parece certo que nenhuma das relações até hoje criadas foi completamente satisfatória pa- ra todas as pessoas envolvidas, e que algum grau de conflito sempre esteve pl"eSente em todas elas. Por sua vez, a viola-

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(25) Os modernos antropólogos estão inclinados a desconsiderar o signi- ficado dos direitos de propriedad,e entre os P.o~os não letrados, com o argumento

de que, nas sociedades simples, a terra, os alimentos, a água, as ferramentas, os ornamentos, quase tudo, na verdade, é, como salie:nta Morton Fried, "imedia- tamente acessível a todos, seja de tal forma móvel a ponto de prevenir problemas

de posse. Igualmente clara é a prevenção do furto

dade igualitária simples, tomar alguma coisa antes que ela seja oferecida é um ato mais aparentado à rudeza que ao furto". Ver Fried, The Evolution of Political Society, pp_ 74-75. Tal afirmativa, embora apoiada por alguma evidência, parece ser exagerada. Cf. Gluckman, Barotse Jurísprudellce, pp. 151, 162, 163, sobre os direitos de propriedade e as relações de status na sociedade dos barotses. Numa ampla coleção de exemplos variados apresentada por Edward Westermarck, um dos remanes.centes da escola evolucionista de antropólogos, há divers·os casos reti- rados de sociedades simples onde é nítido que s.anções bastante severas, incluindo em certos casos a morte, são atribuídas ao furto. contra membros da tribo. Ver. Westermarck, The Origin and Developmellt ofthe Moral Ideais, 11, pp. 4-12.

Na realidade, numa socie-

62

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

ção de tais relações será provavelmente considerada injusta, despertando a ira e a indignação por parte dos grupos atin- gidos. Um ataque a esta relaç1í.o entre os seres humanos e os meios ele p1"odução constitui um ataque à pessoa, seja ela um indivíduo ou uma entidade coletiva, como a corporação capitalista e o Estado socialista. O Estado socialista é, na realidade, um ardente e primitivo defensor da propriedade

- vale dizer, a propriedade socialista. Se limitarmos nossa atenção às classes inferiores, que obviamente possuem menores ·direitos de propriedade que as elites (mesmo nas sociedades socialistas, na prática), en- contraremos com bastante freqüência a noção de que todo indivíduo deve ter direitos de propriedade "suficientes" para que desempenhe um papel "decente" na sociedade. Tanto "suficientes" como "decente" são definidos em ter- mos tradicionais. Um camponês deve possuir terra sufi- ciente para sustentar uma família e possibilitar a seu chefe que desempenhe um papel respeitável na comunidade al- deã; um artífice deve ter os direitos de propriedade sobre os instrumentos de seu ofício e suficiente freguesia (ou fregue- ses, comQ se diz atualmente) para desempenhar o papel que lhe é designado na comunidade. Sempre que uma expansão nas relações comerciais ameaçou esse tipo de independên- cia, isso resultou num irado senso de injustiça, em geral voltado contra os responsáveis. Os protestos de Hesíodo so- bre os "julgamentos desonestos" têm ecoado através dos tempos. Tais protestos podem ser encontrados entre pe- quenos negociantes e cultivudores empurrados contra a pa- rede sob o peso da expansão capitalista, podendo assumir uma coloração de "direita" ou de "esquerda", conforme as circunstâncias imediatas. É importante compreender que essa ira tem implicações maiores do que o interesse direta- mente material. Essas pessoas estão moralmente indigna- das porque sentem que todo o seu modo de vida enfrenta um ataque desleal. É desnecessário acrescentar que tal for- ma de indignação moral nem sempre é politicamente efi- caz. Com bastante freqüência ela se esgota em fútil deses- pero, conl ou sem elenlentos de Em todas as culturas, provavelmente, o preguiçoso e o

de Em todas as culturas, provavelmente, o preguiçoso e o INJUSTIÇA 63 parasita confirmados, o indivíduo

INJUSTIÇA

63

parasita confirmados, o indivíduo que se recusa a fazer sua parte nas tarefas comuns e que vive à custa do trabalho dos outros, constitui um modelo social negativo, se essa pessoa é pobre. Isso é válido mesmo em sociedades como a dos lovedus, na África, que apresenta uma atitude nem tão compulsória frente ao trabalho quanto é possível imagi- nar. 26 A pessoa que é privada de sua propriedade por for- ças sociais impessoais é amiúde a mais ávida por aplicar severas sanções sociais contra os indolentes, ainda que tan- to um como outro possam estar sofrendo o ataque do mes- mo conjunto de forças sociais impessoais. 27 Esse fato é ab- . solutamente compreensível: o pequeno proprietário, ou mesmo o empregado que trabalha furiosamente para ape- gar-se a seu ofício (e a posse de um ofício é popularmente encarada como um direito de propriedade) temem e res- sentem-se, ambos, da perspectivas de cair nas fileiras dos desenlpregados e, eventualmente, dos não empregáveis. As- sociada à riqueza, ao contrário, a indolência pode ser um objeto de inveja ou de moderada derrisão, quando não é simplesmente .ignorada. Entre os papuas de Kapauku o caráter negativo está bastante próximo de sua contraparte numa pequena comu- nidade norte-americana do século XIX. Ele é o homem que não trabalha, não cumpre suas obrigações econômicas e, ainda por cima, viola os costumes sexuais. Um homem as- sim imprestável, na sociedade dos papuas, pode suscitar a violenta indignação moral da comunidade, a ponto de os "líderes" exigirem a pena de morte quando ele transgride

repetidamente. a mesma norma. 28 Á

quimós do norte do Alasca parecem muito diferentes. Ein períodos de escassez de alimento, o caçador bem-sucedido e sua família podem passar fome pois, em sua generosidade,

primeira vista, os es-

(26)

(27)

(28)

Eileen J. Krige e J. O. Krige. 11le Realm of a Rain Queen: A Study of

lhe Pattern ofLovedu Society, pp. 53-54, 284.

Sobre essa situação e a sua recorrência sob formas diferentes em vá-

rios pontos da história européia, ver Svend ltanulf, Moral Indignatioll and Middle

Class Psychology.

and Middle C l a s s P s y c h o l o g

Ver o vívido relato em Pospisil. Kapauku Papuans, pp. 223-224.

64

o SENTIDO DE INJUSTiÇA.,.

eles distribuem tudo o que têm em mão. Enquanto isso, os preguiçosos e indolentes podem passar a vida à base de es- molas; Mas, para fazê-lo, devem desafiar abertamente a opinião pública. Também aí, "o maior pecado era a indo- lência", e a dependência contínua dos outros era dolorosa e degradante." Embora a gama de sanções co,ntra o' pregui- çoso seja bastante considerável, no meu liri'Htado conheci- mento, esses indivíduos jamais são modelos sociais positi- 'vos. Em lugares como a Índia, onde os mendigos consti- tuíam modelos socialmente aprovados, esperava-se que eles desempenhassem funções religiosas. Até mesmo as teorias e práticas igualitárias incluem alguma noção no sentido de que todo indivíduo deve remar a sua parte no barco do Es- tado ou, pelo menos, simulá-lo. Essa hostilidade geral aO indolente não refuta 'a: tese de que comumente os homens não gostam do trabalho. Em vez disso, ela reflete a necessidade universal de trabalhar, que caracterizou até agora a sociedade humana, e as maneiras pelas quais essa necessidade tem sido interiorizada até tor- nar-se parte da personalidade moral na maioria dos indi- víduos. Uma das fontes mais poderosas de indignação mo- ral é ver alguém escapar, impunemente, ao desrespeitar uma regra moral que as pessoas fizeram dolorosos esforços para torná-la uma parte de seu próprio caráter.

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distribuição 'de bens e serviços:

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permutações de igualdade

Em todas as socieda.des, os métodos yigentes,,',para a aloca.ção de recursos, bem e serviços entre os seus'membros estão intimamente relacionados à divisão do trabalho e aos métodos de produção predominantes. Não é de forma al-

(29)- Robert F. Spencer, The North Alaskan Eskimo, pp. 164-165 e 130-

131.142.155.

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North Alaskan Eskimo, pp. 164-165 e 130- 131.142.155. ' INJUSTIÇA 6 5 g uma certo q

INJUSTIÇA

65

guma certo que os últimos determinem os primeiros, ainda que os métodos de produção disponíveis possam estabelecer limites às possíveis formas de distribuição. No feudalismo ocidental, por exemplo, a produção era organizada em tor- no de formas de assegurar um suprimento de bens e servi- ços para os guerreiros. Essa consideração governava a posse da terra e o seu cultivo e, através destes, muitos outros as- pectos da ordem social. Com relação aos sistemas de distribuição, pode-se ge- ralmente apresentar evidências 'que corroborem à existência dos dois princípios contraditórios que examinamos em co- nexão com a divisão do trabalho. Um deles é a noção geral de igualdade baseada no que a unidade de consumo neces- sita: uma idéia de que toda pessoa ou família deve receber o "suficiente". O outro, é um princípio de desigualdade ba- seado em algum escalonamento do valor das diferentes ta- refas e funções sociais. As tentativas de reconciliá-los assu- 'mem a forma de noções de justiça distributiva nas quais a , recompensa extraordinária provém do investimento extra de esforço, habilidade ou alguma outra qualidade que o desempenho da tarefa requeira. Assim, ao final, alguma concepção de igualdade, de equalização das coisas, acaba . por prevalecer. Mas antes de chegar a essa conclusão seria útil destinar um exame mais acurado às formas de igual- dade e desigualdade e suas justificações, bem como ao grau de aceitação popular de que dispõem. As violações de qual- quer uma delas podem ser uma fonte de ira moral, uma ruptura do contrato social. As idéias e práticas igualitárias são passíveis de flores- cer em situações onde o suprimento é precário, e qualquer indivíduo está sujeito a enfrentar a escassez imprevisível Os sistemas de racionamento das sociedades modernas são' um exemplo. No outro extremo da escala tecnológica, as tribos que vivem da caça dispõem, com freqüência, de uma regra segundo a qual a presa deve ser partilhada igualita- riamente no seio de um grupo determinado. Por exemplo, ,entre os semais, uma tribo aborígine na Península Malaia, o caçador bem-sucedido não recebe qualqner porção adi- cional da presa, nem ao menos agradecimentos. O animal

Malaia, o caçador bem-sucedido não recebe qualqner porção adi- cional da presa, nem ao menos agradecimentos.

,66

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

caçado é dividido em porções tão iguais quanto possível. 30 Embora a igualdade pareça ocorrer de forma tranqüila nes-

ta e noutras sociedades, este não é, de modo algum, sempre o caso. Entre os sirionos, uma tribo da parte oriental da Bo- lívia, com uma tecnologia de caça bastante pobre, a distri- buição da carne é costumeiramente limitada à família am- pliada, po.is o suprimento. quase nunca é abundante. Ê co- mum que alguém se sinta lesado. Especialmente os homens acusam as mulheres de açambarcarem carne, de comê-la quando eles não estão por perto, ou de consumirem mais 'que a sua porção. As discussões são. freqüentes, e quanto maior é a presa, mais taciturno o caçador que retorna." A igualdade faz bastante sentido como forma de segu- ro para o grupo. Todo caçador sabe que a caça é aleatória, que um retorno de mãos vazias é bastante provável e, nesse caso, é bom saber que é necessária outra fonte de supri- mento. Mas, como já vimos, esses arranjos são, amiúde,

Entre os maoris, onde ert;i costume

sujeitos ao rompimento

dividir o resultado da pesca, quando os pescadores arras- tavam a rede na praia, durante a excitação geral o membros po.bres da tribo inclinavam-se a deslizar algum peixe extra para as dobras das ro.upas. Os membros melhor situados da comunidade viam tal comportamento como vulgar e imo- ral. Ê difícil imaginar uma ilustração mais vívida da perpé-

tua renegociação do contrato social. 32 A igualdade como forma de seguro social exibe seme- lhanças com um conjunto. bastante difundido de crenças e práticas que podemos convenientemente agrupar sob o ró- tulo de "o tabu do cão na manjedoura".* A essência desse tabu é a crença de que a retenção pessoal ou privada, sem utilização; de recursos cujo suprimento é escasso e dos quais outros necessitam é de algum modo imoral, consti-

(30) Dentam, The Semai. pp. 48A9.

(31) Allan R. Holmberg, Nomads o/the Long Bow: The S/riono of Eastern Bo/ú'ia, pp. 154 4 155. (32) Ver Firth. Polynesiall Economy, pp. 285.

A expressão se refere a uma fábula de Esopo, na qual o cão impede um

boi de comer o feno que ele próprio não quer; aplica-se àquele que impede a ou-

trem de utilizar o que para ele mesmo não tem uso. (N. T.)

(*)

INJUSTIÇA

67

tuindo uma violação dos mais elevados direitos da comuni- dade. Entre outras coisas, essa crença ou sentimento subjaz na hostilidade generalizada ao açambarcador ou especula- dor. Ela existe, de algum modo, em numerosas socieda- des não letradas. 33 Ê provável que qualquer norte-ameri- cano que tenha andado desesperadamente pelas ruas à busca de moradia e descobre uma casa ou um apartamento vago, mantido fora do mercado, possa reconhecer tal senti- mento. Tanto o tabu do cão na manjedoura como a regra me- nos difundida da igualdade como forma de um seguro so- cial geral contra o infortúnio dependem, para serem efica- zes, da possibilidade de identificação com a pessoa que está em necessidade. Onde as circunstâncias sociais tornam tal identificação difícil ou improvável, como em certos aspectos da relação senhor-escravo, o sentimerito é passível de fragi- lidade ou inexistência. Neste sentido, Edmond Cahn parece correto quando salienta o significado da empatia para com o 'senso de injustiça indignada. 34 O qtie faz do tabu do cão na manjedoura um fato tão aceito é que alguma forma de escassez é muito provável, de tempos em tempos, em quase todas as sociedades. Até mesmo indivíduos muito protegi- dos, pertencentes às classes dominantes, podem, em algum momento de suas vidas, sofrer essa experiência."

(33) Para alguns exemplos ver Raymond Firth, Primitive Economics of the NelV Zealand Maori, p. 148; Firth, Polynesian Ecotlomy, p. 149; Krige e Krige, Rain Queen, p. 68. Pospisil, Kapauku Papuans, pp. 181-182, descreve um caso concreto, especialmente interessante, no qual os direitos de parentesco davam ao detentor o direito de recusar a permissão de corte de uma árvore para a fabricação de canoas. Mas o exercício real desse direito era considerado contrário à ética. (34) Ver o seu artigo "Justice", Intematiollaj Encyclopedia of the Social Sciences, 1968, vaI. 8, pp. 346-347.

O autor iniciou as reflexões que levaram a esle livro após presenciar

num porto da costa do Maine uma amarga altercação entre dois proprietáriOS de

barcos de cruzeiro. Um capitão 'navegava em direçflo ao porto para reclamar seu

.atracadouro -

depois de tê-lo deixado

sem 'uso e vago por um longo período, durante o qllal o outro iatista se apossara

dele. Somente após expressar vividamente o seu senso de injustiça o "posseiro" renunciou ao atracadouro. O sentimento local, até onde pude julgar, não favo- recia a propriedade privada no que de outro modo seria uma cidadela dessa crença.

(35)

uma mercadoria em falta nesse porto -

a propriedade privada no que de outro modo seria uma cidadela dessa crença. (35) uma mercadoria

INJUST[ÇA

69

.68

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

lugar sem objeção aberta. Ela é simplesmente tomada como garantida. Mas a ausência de objeção aberta não significa que a aceitação de desigualdades na distribuição seja entu- siástica, ou mesmo voluntária. Há indícios de uma corrente subterrânea de resistência nas atitudes populares, até mes- mo frente aos brâmanes, beneficiários do que é talvez o mais antigo, menos coercitivo e melhor entrincheirado entre os sistemas de desigualdade organizada no' mundo. Um pro- vérbio hindu diz que há três tipos de sanguessugas na terra:

apulga, o percevejo e o bl·âmane. 31 As desigualdades de riqueza são bastante comuns em sociedades não letradas e, onde elas ocorrem, são parte da ordem das coisas aceitas. Dapessoa detentora de riqueza espera-se geralmente que desempenhe alguma função so- cial útil e que seja o que podemos chamar de magnânima. Em vez de apresentar uma série de exemplos, será mais útil sintetÍzar as evidências, a partir de uma que é especial- mente reveladora. Entre os papuas de Kapauku, a aquisi- ção de riqueza é um foco fundamental da atividade huma- na. Neste aspecto, eles constituem nm caso bastante inco- mum, em se tratando de sociedades não letradas dotadas de uma tecnologia muito simples. Como já foi mencionado, eles são também tão individualistas quanto o melhor mo- delo de homem econômico. A cooperação é mínima. "Duas pessoas não podem trabalhar em conjunto porque têm ca- beças diferentes" é a sua justificativa para a propriedade privada. Mas uma vez que o capital foi acumulado (princi- palmente na forma de porcos), a obrigação social passa a ser preponderante. "A única justificação para tornar-se ri-

co é o fato de estar-se apto a redistribuir a propriedade acu-

" A ge-

mulada entre os camaradas menos afortunados

nerosidade é o valor cultural mais elevado. Um homem que fracassa em viver de acordo com o ideal da generosidade ofende a comunidade e está sujeito ao ostracismo e ao boi- cote - e até mesmo à morte. Em casos especialmente fla-

Seria um erro manifesto sustentar que todas as formas de desperdício social despertem indignação moral. Em sua obra mais famosa, A Teoria da Classe Ociosa, Veblen cha- mou a atenção para uma variedade de formas de desperdí- cio social por parte das classes superiores que aparente- mente recebem aprovação geral. Na conhecida instituição do potlatch,* há uma destruição deliberada da proprie- dade valiosa, com o fim de validar o elevado status. O exem- plo fundamental de Veblen era, evidentemente, os Estados Unidos, que dispunham de uma profusãode recursos para

o desperdício. Também o potlatch ocorre numa área de

abundância. O tabu do cão na manjedoura aplica-se a re- cursos escassos. Tal escassez é, em parte, matéria de defi- nição social e, em parte, um fato objetivo totalmente inde- pendente da percepção social, é escusado dizer. As justificações para a desigualdade geralmente re-

pousam em alguma capacidade ou função especial que o grupo privilegiado possui e que é, supostamente, tanto es- cassa como valiosa para a sociedade em seu conjunto. Tais

capacidades e funções podem incluir a fabricação da chuva,

o trato com os deuses e os aspectos imprevisíveis e ameaça-

dores do meio ambiente, ou podem assumir as formas mais difundidas da Superioridade moral ·e mental presumivel- mente adequada à classe governante. Por essas razôes, o estrato dominante reivindica o direito a uma parcela mais ampla, com freqüência a parte do leão, do que a sociedade proditz. 36 Na maior parte do tempo, no que diz respeito à experiência humana, essa extração de um excedente teve

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(*) Festa dos índios norte-americanos, na costa noroeste, marcada pela pródiga distribuição de presentes que exigem reciprocidade. (N. T.) (36) Seria proveitoso dispor de estimativas mais precisas sobre a distribui- ção do produto social num certo número de sociedades pré-industriais, se fosse possível elaborá-las. Suspeito que os resultados mostrarian uma proporção muito mais ampla do produto social pré-industrial, fluindo para as mãos das classes dominantes do que comumente pensamos, porque a maioria de nós assimilou as modernas noçOes igualitárias. Ao estudar hist6ria agrária comparadâ, logo notei que, praticamente, todos os especialistas em um país particular acreditavam que a propriedade ou controle efetivo da terra concentrava-se de forma incomum e elevada no país sobre o qual eles escreveram.

(37) L. s. s. O'Malley, Popular Hinduism: The Religiofl Df the Masses, .

p. 191.

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70

o SÉNTIDO DE INJUSTIÇA

grantes, a obrigação de matar o infrator recai, de preferên- cia, sobre sell filho; irmão ou prilno paterno. 38 O antropólogo Leopold Pospisil relata um exemplo de execução, onde os aldeãos persuadiram vários parentes a

matar um homem que não fora capaz de distribuir sua pro-

priedade em proporção. à sua fortuila. Ao filho, prome- teram L\m porco e alguma caça pela sua participação no .ato, 'efoi ele o pTimeiro a desferir as setas de ponta de bam- bu' contra o corpo do pai. Após a execuçli.o, os parentes er- gueram :um tablado para o corpo e esfregaram cinza e fuli- gem em suas faces para expressar luto por seu gesto neces- sário. Para prevenir a vingança da sombra do morto, toma- ram a precaução de dormir durante duas noites na mata. Depois disso, mataram um dos porcos do morto e distri- buíram a carne entre os presentes. Enfim, dividiram a pro- priedade do morto entre si. 39 Este exemplo particular mostra como um elevado grau de desigualdade pode não somente ser aceitável mas até vis- to como muito desejável, até onde seu resultado contribua; de alguma forma, para o bem social, conforme percebido e definido' naquela sociedade. A mesma correlaç1io aparece numa grande variedade de respostas plebéias e populares à magnificência e ostentação entre as classes dominantes, em sociedades mais nitidamente estratificadas. Quase todos os governos, e praticamente toda. classe governante, incluindo as recém-introduzidas classes revolucionária.s, fizeram .uso do fausto e da ostentação. Ê um fato curiosQ. Tal aparato implica, na maior parte do tempo, uma afirmação rituali- zada de desigualdade, de .pompa, circunstância, dignidade e até, muitas vezes, de beleza: esses elementos que separam alguns homens dos outros. '. Dois fatores parecem significativos para tornar esse aparato não somente aceitável como desejável. Em primeiro lugar, as massas têm de acreditaI' que as elites, cuja osten-

(38)

Pospisil, Kapauku Political Ecullomy, pp.

152-153,

sobre o indivi-

dualismo; sobre a generosidade, ver Pospisil, Kapauku Papuans, pp. 19-80.

(39) Kapemlw Papua1Js, pp. 78. 80, 244-245.

INJUSTIÇA

71

tação apreciam, servem a um propósito que elas aprovam. Se o propósito é aprovado, posso sugerir, então o fausto também o é. De outra forma, ocorre o contrário. Embora o aparato possa até certo ponto criar aprovação, seu poder é limitado. Assim, à medida queo poderio inglês começou a perder autoridade na Índia, passou a ser necessário - ou pelo menos parecia aconselhável - restringir a pompa das visitas reais inglesas. Tampouco pode um governo, mesmo um governo moderno, esconder os efeitos de derrotas mili- tares sérias com desfiles de vitória e arcos de triunfo. 40 A outra condição parece ser alguma forma de identificação vicária com a elite; as pessoas percebem o aparato como uma manifestação de gl'andeza e realização de sua socieda- de. 41 Aqui é necessária cautela, pois não há muita infor- mação confiável (e bastante nonsense romântico) com rela- ção ao que as pessoas comuns realmente sentem diante da ostentação em épocas anteriores à nossa. No entanto, há alguns indícios. Desde a época de Péricles - e antes dele, sem dúvida - os grupos dominantes e os governantes têm usado a arte e o fausto, com o propósito explícito de criar talforma de identIficação vicária, e não aparece absoluta- mente crível que tivessem devotado tamanha energia a esse esforço sem alguma indicação de que fosse politicamente válido. Existem também alguns fragmentos do precioso tes- temunho da própria "gentinha" que, efetivamente, indi- cam um orgulho coletivo frente às realizações arquitetôni- cas de sua comunidade. 42 Àí onde os governantes fracassaram em suas tarefas, principalmente na de proporcionar segurança e proteção, e onde a possibilidade de identificação com a ordem social

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(40) Uma pesquisa antiga, mas ainda muito valiosa, sobre.o papel social

dos espetáculos no Império Romano encontra-se em Ludwig Friedlander, Roman

Life alld MaTl1lers lmder the Early Empire, lI, capo I. (41) OmUo aqui qualquer observação sobre a ostentação como tentativa de intimidar, uma vez que o problema considerado não é de temor mas de apro- vação moral contra ira e julgamento negativos. (42) Ver, por exemplo, Alain Lottin, Vie et Mentalité d'u1l Litlois SOllS

LouisXIV, PP: 209-211.

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72

o SENTIDO DE INJUSTIÇA

INJUSTIÇA

73

através dos governantes se evapora - uma situação que pode acontecer por muitas razões diferentes, incluindo, mas sem se limitar a elas, as mudanças nas relações sociais de produção - a ostentação parece despertar o máximo de ira. A imagem que tinham os sans cu/oUe dos aristocratas durante a maré montante do radicalismo revolucionário francês constitui o melhor exemplo. Com um certo grau de segurança, é possivel perceber durante o cu~so da revolução tanto o descrédito da monarquia (e de SeuS moderados su- cessores l'evolucionários) como a evolução de uma parcela substancial da nobreza francesa em direção a uma imagem que provavelmente pareceria, seja como parasitária, seja como exploradora, quando não as duas coisas, para os membros das classes inferiores. É útil também recordar que os sans cu/oUe dirigiram muito de seu rancor aos especula- dores e açambarcadores, a versão perfeita da classe alta pa- rasitária na imaginação popular, que não goza de nenhum dos traços compensatórios de um sistema paternalista. 43 Neste contexto, seria válido explorar o grau de variabi- lidade e de mudança histórica nas concepções populares do trabalho "verdadeiro", enquanto opostas ao divertimento, ao trabalho improdutivo, à ostentação cerimonial e coisas semelhantes. Com toda probabilidade, os elementos cons- tantes devem compreender o trabalho manual produtivo feito para outros. As atitudes com relação à habilidade ma- nual variam consideravelmente, entretanto, como o de- monstram as diferenças no status do ferreiro: um individuo que perdeu a casta, em algumas sociedades africanas, e um deus, embora imperfeito, entre os gregos. Como denota o termo medieval europeu "mistério", si.gnificando "astú- cia"* -- e, na verdade, os dois significados da própria pa- lavra craft* - há uma corrente subterrânea de medo asso- ciado ao respeito (e e ll tre as classes superiores é o oposto:

Albert Soboul, Les Sarls Cu/otte Purisiens ell l'An Il, pp. 412-413,

421-423; com relação aos açambarcadores, ver Albert Mathiez, La Vie Chere.

esp. pp. 520-522.

era/t. Os dois significados que o autor menciona H seguir são: "ofí-

cio", "habilidade", c também "astúcia", "manha", "malícia". (N. T.)

(43)

(*)

desdém) diante da habilidade manual incomum. O ato de ·governar parece compreender trabalho "verdadeiro", do ponto de vista do súdito ou, senão trabalho verdadeiro, uma forma aceitável de atividade, na medida em que produz os resultados da segurança e da proteção. É importante lembrar que os estratos superiores sem- pre gozam de imensas vantagens ao reivi1:!dicar o desempe- nho de funções socialmente necessárias. Em grande medi- da, são eles que definem o que é .socialmente necessário. Essas alegações podem ser verdadeiras em uma época e fal- sas numa época posterior, quando, por exemplo, uma for- ma de habilidade militar pode tornar-se obsoleta. Inclêpen- dentemente de sua veracidade ou não, elas podem gozar de aceitação ou encontrar rejeição entre os segmentos influen- tes de outros estratos. Uma vez que os homens. aprenderam

a considerar certos arranjos sociais