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I

f

'

.

.

'

GORNELIUS GASTORIADIS

A

EXPERIÊNCIA

DO

MOVIMENTO

OPERÁRIO

COMO

LUTAR

A

Regra

d01

Jogo,

1979

Edições

: j'

USP-FEA

MONOGRAFIAS

331.88

EXPERIENCIA DO MOVIMENTO OPERARIO :COMO LUTAR

�·

_,

j

C354E

 

I !f

' •J

64572

Como

em todos o·s

outros volumes desta

publicação, os

 

terttos

são

aqui

rep'l'oduzidos

sem

modificação,

com

ea:­

MATERIAIS

2:

cepção

dos

e'N'os

de. impressão

e

de

alguns lapsus

calami

 

e,

se

necessário,

a

actualização

das

referêncú:ts.

As

notas

C.

Cas�oriadis,

A

Experiêneia

do

Movimento

Operário

nomeadas

por

letTas

são

novas.

 

1- Gomo

Lutar

 

PaTa

uma

vista

de

conjunto

 

das ideias·

e

da sua

evo­

 

lução,

deve

o

leitor

reportar-se

à

«Introdução»

de

A

so­

't .ítulo

'

original

 

L'expérience

du

mouvement

ouvrier

 

:

ciedade burocrática,. 1:

As relações

de produção

na Rússia.

1- Comment lutter.

©

Uni ' On

Générale

dis,

197

d'Editions

et

Coonelius

Gastoria­

Este

burocrática,

nado por

volume

,21:

Vol.

1,

é aqui

2.

designado

A revolução contm

po'l' Vol. l, 1;

A sociedade

desig­

a hlll'o<eracia

é

Alguns

textos a

que frequentemente

se

faz referência

 

seTão

designados

por

siglas,

de

acordo

com

a

seguinte

Reservados

os direi1los de

tradução

para

a

língua

lista:

portuguesa

por

A

Regra

do

Jogo,

Edições,

Lda.

R.

Sousa

Martins,

5,

2.0

Dt.0- 10100

Lisboa.

 

CFP- Concentração

das

fo'l'ças

p'l'odutivas

(inédito,

Trndução

----�- c

··--·--=

de

--

Grup·a

de

José

Viana

João

B.

e

Miguel

Serras

Pereira

MaTço

de

1948;

Vol.

I, 1).

FCP- Fenomenologia

da

consciência

proletá'l'ia

(iné­

dito,

Março

de

1948;

Vol.

l,

1).

-�======= •=========�-----------------=-=========-==--

SB-Sociali8mc

Vol.

1) .

de 1949,·

I,

ou

barbárie

(S.

RPR- As relações de

Vol.

n.• fJ ,

Maio de 1949;

produção

I,

1).

ou

B

,

n.•

na Rússm

1,

Margo

(S. ou B.,

DC I e II-Sobre a dinâmica do capitali8mo (S. ou B.,

n.••

1fJ

e

13,

Agosto

de 1953

e Janeitro de 1954).

SIPP-Situação

do

impemlismo

e

perspectivas

proletariado

(S. ou B., n.• 14, Abril de 1954).

do

(S.

CS

ou

I,

CS li,

B.,

n.•

CS III- Sobre o conteúdo do

17,

Julho de

1955,

n.•

22,

Julho·

sociali8mc

1957,

de

n.• 28 , Janeiro de 1958).

 

RPB- A

revolução

proletám

contro

a

burocraoia

(S.

ou

B.,

n.•

20,

Dezembro

de

1956;

Vol.

I,

2).

PO

I

e

II-ProletaJrii:ulo

e

O'l'ganizag®

(S.

ou

B.,

n.••

27

e

28,

Abril e Julho de 1959) .

 

MRCM I, II e III-O movimento· revolueionárw sob o capitalismc moderno (S. ou B., n.•• 31, 32 e 39, Dezem­

bro de 1960,

Abril

e Dezemb'l'o de 1961) .

de

PR-RecomeÇCII' a revolução (S. ou B., n.• 85, Janeiro

1964).

RIB- O papel da ideologm bolcheviata no nascimento

da bU'l'OC'I"acia (S. ou B., n.• 85,

MTR

I

a

V-Marxismc

e

Janeiro de 1964).

teorm

revolueionáM

(S.

ou B., n.0'36 a 40, Abril, de 1964 a Junho de 1965).

6

IG-Introduç® ao

Vol.

I,

1.

Introdução

A QUESTÃO DA HISTóRIA DO MOVIMENTO OPERÃRIO

A minha ideia inicial era separar, na presente

reedição, os meus textos de Socialisme ou Barba,. rie consagrados às reivindicações e às formas de luta e de organizão dos trabalhadores, e os

relativos

(«questão do partido» ). Reflectindo melhor, esta

solução

militantes

à

organização

potica

dos

muito

pareceu-me

apresentar

mais

in­

convenientes do que vantagens , uma vez que as

cons­

tantemente ligadas no meu trabalho. Mas, acima

de tudo, reflecte e materializa uma posição que há já muito tempo não corresponde à minha. Com efeito, isso equivale a aceitar e a ratificar a ideia de dois campos de realidades separados não ape-­

nas de facto mas de direito. Num deles, encon-

duas questões

estiveram,

desde

o início e

7

A EXPERiltNCIA DO MOVIMENTO OPERARIO

trecno[ogia

pela

luta

na pro dução,

ver

CS li

e

III.

Sobre

CS

III.

(23) Marx, como s·e ·sabe, extrai e abstrai desta luta

a

(«compress.ão dos poros da jornada de trabalho»), dei­

pas,siV"o

opor

sin­

óptica , da de

está

que

se aplicaria a uma cois, As duas V"ezes em que a «resis­

presente

capitalista

a

luta

na

pl1odução

que

nos

países

à

de

Leste,

ver

do

RPB

e

metade

corresponde

operário

actividxule

como

puro

que

este

fábrica,

pela

esta

xando aparecer o

desta

actividade.

A

na produção

(e

dical,

etc.)

não

um

materi al

não

difeve,

em

obj-ecto

lhe

pod·

agitação

de

Marx

exame é

a

resistência

fora

de

da

acordo com

inerte. A i n dignão moral

cada

linha,

mas

a

lógica

do

tênci

dos

operários

é

m enci onada

no

Primeiro

Livro

do

Capital

(a propósito

do

controlo

e

da

vigilância,

e

a

propósito

do

s�wário

à

peça)

é

apre,S>Cntada

CQI!llo fatal­

mente

condenada

ao

malogro.

(2�)

Ver

neste

volume

«As

greves

selvagens

na

in­

dústria automóvel 'americwna», p.

297

e seg.

 

(25)

Sobre

a

questão

das

condições

de

trabalho,

ver,

além

do

texto

mencionado

na

nota

precedente,

a

parte

final

de MRCM.

 

e

(2 6 ) Ver

MRCM I

e II.

( 2 7)

III e

( 28 )

Para

MRCM

uma

ll.

discussão

destes

A

sociedade bwrocnitica,

1,

factores,

pp.

ver

CS

li

(�9) Claude Lefort, por •seu lado, utilizou a ideia de experiência, tomada num sentido mais lato, num texto notável «A exp•eriência proletária», Socialisme ou Bar­

barie, n.• 111 (Março de 1953), retomado agora em Elé­

ments

pour une critique de la

burocracie, Droz, Genebra­

-Parjs, 1971, pp. 319 ·a 58. Ver também os seus artigos contra Sartre, ib., pp. 59 a 10:8.

(3°)

Sobre

'esta

evolução,

e

os

múltiplos

a condicionaram, ver

MRCM e RR.

factores que

(B1)

Ver CS I

e li,

PO I,

RR,

PIE,

MTR

e IG.

126

O PARTIDO REVOLUCIONÃRIO *

1. A crise actual do grupo mais não é que a expressão mais aguda da crise permanente que atravessa desde que se constituiu, e que a. s�enta uma forma mais violenta sempre que se põem problemas respeitantes às suas relações com o exterior (saída do P. C. 1., primeira dis­ cussão sobre o carácter da revista no Outono de 1948, conteúdo da revista por altura da re­ dacção do n.o 1) . De todas as vezes reencontra­ mos na raiz das divergências a falta de clarifi­ cação sobre as questões do partido revolucioná­ rio e da nossa orientação estratégica e táctica. 2. A solução destes problemas, quer do ponto de vista teórico geral, quer do ponto de vista da nossa orientação, tornou-se numa questão

de vista da nossa orientação, tornou-se numa questão (*) S. ou B. n.• 2 a e

(*)

S.

ou B.

n.• 2

a este texto.

(Maio de 1:9149). Ver adiante o Posfácio

127

A EXPERif:NCIA DO MOVIMENTO OPERARIO

vital para o grupo. A atitude que consistisse em repelir a discussão e a tomada de posição frente a estes problemas, a pretexto de que a situação histórica ou as nossas forças subjecti­ vas nos não permitem responder-lhes por agora� equivaleria ao desmembramento do grupo. Tor­ nou-se evidente que nos é, desde já, impossível funcionar colcctivamcnte sem saber com exactidão que tipo de actividade é o nosso, em que quadro, histórico por um lado, imediato por outro, se inscreve esta actividade, qual é a nossa ligação com a classe operária e a luta que, mesmo sob as formas mais estropiadas, esta trava constan­ temente, qual é enfim o nosso estatuto organiza­ tivo e os princípios em que se baseia. O apare­ cimento da revista, que nos leva a assumir responsabilidades públicas, impõe-nos responder concreta e imediatamente a estas questões.

3.

É

indesmentível que

o

grupo

se encontra

actualmente perante uma viragem da sua exis­ tência, e que deve responder ao dilema radical que tem perante si.

Este dilema é definido pela ambiguidade objectiva tanto do grupo no seu estado actual como do primeiro número da revista. O grupo pode servir de ponto de partida quer para a for­ mação de uma organização proletária revolucio­ nária quer para a d e um conjunto de indivíduos servindo de Comité de Redacção de uma revista mais ou menos académica.

128

O PARTIDO REVOLUCIONARIO

Isto significa que o grupo não conseguiu dar ao seu trabalho um carácter político incontes­ tável. Para o fazer, teria sido necessário primeiro

e

antes

de

tudo que

se

considerasse a si próprio

como uma organização política. O que implicaria conclusões teóricas, programáticas e organiza­ Uvas, que não foram até agora tiradas ou apli­ cadas. Ora, actualmente este carácter político

do grupo é objectivamente contestado, ao pôr-se em questão a ideia da disciplina na acção, a ne­ cessidade de uma direcção efectiva do grupo,

e a ligação entre o programa da revolução e

as suas formas de organização. Estas concep­ ções, a serem adaptadas, retirariam definitiva­

mente ao grupo qualquer possibilidade de se

tornar núcleo de uma organização política revo­ lucionária. 4. Se tais concepções, que equivalem objecti­ vamente à recusa do carácter político do grupo, prevalecerem, o grupo será inevitavelmente con­ duzido à desintegração. Isto porque essas posi­ ções estão em contradição consigo próprias e não podem servir de base e de critério a qualquer outra actividade que não seja a «Confrontação». É evidente que os camaradas que pertencem ao grupo (incluindo os que formularam as concep­ ções aqui criticadas) se reuniram no seu inte­ rior para exercer uma actividade política, e que

o grupo não poderá nunca recrutar senão em

bases e para fins políticos. A única solução da crise é a politização do grupo e do seu trabalho.

129

A EXPERI:f':NCIA DO MOVIMENTO OPERÁRIO

5. Política é a actividade coerente e organi­ zada visando apoderar-se do poder estatal, para aplicar um programa determinado. Não é polí­ tica a redacção de livros, nem a publicação de revistas, nem a propaganda, nem a agitação, nem a luta nas barricadas, que são apenas meios que podem desempenhar um papel político enor­ me, mas que só se tornam meios políticos na medida em que estão consciente e explicitamente ligados ao objectivo final que é a tomada do poder estatal com vista à aplicação de um pro­ grama determinado. Tanto a forma como o con­ teúdo da actividade poUtica variam, evidente­

esta

se situa e a classe social de que exprimem os interesses. Assim, a politica proletária é a acti­ vidade que coordena e dirige os esforços da classe operária para destruir o Estado capita­ lista, instalar em seu lugar o poder das massas armadas e realizar a transformação socialista da sociedade. Esta política é a antitese exacta de todas as que a precederam, em todos os pon­ tos, excepto num: tem como objectivo central, como ponto em torno do qual gira - precisa­ mente para o abolir -, o Estado e o poder. 6. Na medida em que se admite que a acti­ vidade política revolucionária é, no período actual, a forma suprema de luta da humanidade pela sua emancipação, reconhece-se por isso mesmo que a primeira tarefa que se impõe a todos os que tomaram consciência da necessidade da re-

mente,

segundo

a

época históvica na

qual

130

O PARTIDO REVOL,UCIONARIO

volução socialista é agruparem-se para preparar colectivamente esta revolução. Daqui resultam inevitavelmente os traços fundamentais de toda

a acção política colectiva permanente, a saber:

a base da coerência de toda a acção colectiva,

isto é, um programa histórico e imediato, um estatuto de funcionamento, uma acção constante virada para o exterior. a partir destes traços que se pode definir o partido revolucionário. O partido revolucioná­ rio é o organismo colectivo, funcionando segundo um estatuto determinado e com base num pro­ grama histórico e imediato que tende a coorde­ nar e dirigir os esforços da classe operária, para destruir o Estado capitalista, instalar no seu lugar o poder das massas armadas e realizar a transformação socialista da sociedade. 7. A necessidade do partido revolucionário resulta simplesmente do facto de não existir, e de ser impossível que exista, outro organismo da classe capaz de executar estas tarefas de coordenação e direcção de uma maneira perma­ nente antes da revolução. As tarefas de coor­ denação e direcção da luta revolucionária em todos os campos são tarefas permanentes, uni­ versais e imediatas. Os organismos capazes de executar estas tarefas, abrangendo a maioria da classe ou reconhecidos por esta e criados a par­ tir das fábricas só aparécem no momento da re­ volução. Além disso, estes organismos (órgãos de tipo soviético) só se elevam à altura das ta-

131

133

A EXPERII!:NCIA DO

MOVIMENTü OPERÃRIO

refas

do partido

tros

e

históricas

em função

período

a

da

acção

constante

Ou­

fábricas

vanguarda

durante o

revolucionário.

partir

das

de

organismos,

criados

agrupando

apenas

elementos

(Comités

de

Luta) ,

na

medida

em

que

encara­

rem

a

realização

destas

tarefas

de

uma forma

permanente

serão

e

à

escala

do

organismos

nacional

tipo

do

e internacional,

partido.

Mas

explicámos que

os

Comités de

Luta,

devido

a não

terem fronteiras

estritas

e

um programa

clara­

mente

definido,

são embriões

de organismos so­

viéticos

8.

O

e não de

organismos do

tipo partido.

enorme valor

dos Comités de

Luta,

no

período que

se

vai

seguir,

não advem

do

facto

de

substituírem

o

partido

-o

que

não podem

nem devem

revolucionário fazer - mas

de re­

presentarem

ção

rácter e

nente, não no

uma vez

de

agrupar

Luta.

postos

imediatas

uma

sidade

a

forma

permanente

associa­

do ca­

perma­

de Luta,

revolução, mas

quizerem

antiburocráticas,

de

permanentes

mais

indispensável

de

dos operários que

do papel

tomam consciência

Forma

da burocracia.

de que

sentido

um Comité

se

criado, persistirá até à

sempre

que

com

base em

os

que

o

operários

posições

poderão fazer

Com

pela

efeito,

luta

de

e

sob

os

a forma

problemas

de Comité

classes

nas

suas formas

quotidianas

dos

a

têm um

tornam

organização

estes

operários,

de

cuja

neces­

cruel consciência. o

facto,

por

outro

lado,

de

que

a

organização

clássica

das

massas

criada

para

responder

a

estes

pro-

132

O PARTIDO REVOLUCIONARIO

blemas,

vez

capitalismo

ganizarem-se independentemente

o sindicato,

um

estatal,

se tornou

e

burocracia

pode

ser cada

do

or­

burocracia

mais

instrumento

da

obrigará

e

os operários a

da

e da própria

forma sindical.

Os Comités

de Luta

traçaram

a

forma

desta

organização

de

van­

guarda.

Se

os Comités

de Luta

não resolvem

a

ques­

tão da

direcção revolucionária,

a

questão

do par­

tido,

são

contudo

o

material

de

base

para

a

construção

do

partido

no

período

actual.

Com

efeito, não

só podem

ser para

o

partido um meio

vital

para

o

seu desenvolvimento,

tanto

do ponto

de vista das

possibilidades de recrutamento como

da audiência

que oferecem

à

sua ideologia; não

as experiências

do seu

combate são

um ma­

terial

indispensável para

a

elaboração

e

a con­

cretização

do

programa

revolucionário;

mas

também

serão

as

manifestações essenciais da

presença histórica da

própria classe

num período

em

que

não

qualquer

perspectiva

imediata

positiva,

como é

o período

actual. Através

deles,

a

classe

lançará

ataques

parciais,

mas extrema­

mente importantes, contra

pitalismo, assaltos que

a burocracia

e

serão indispensáveis

o

ca­

para

que

conserve a

consciência

das

suas possibilida­

des

de acção.

Inversamente,

a existência

e

a actividade

do

partido

é

uma

condição

indispensável

para

a

propagação,

a

generalização

e

a

conclusão

da

experiência

dos

Comités

de

Luta,

porque

s6

o

A EXPERií:NCIA

DO

MOVIMENTO OPERARIO

partido pode elaborar

da

e

propagar

não

poder

as conclusões

criar antes das suas ta­

seja

não

acaso,

sua acção.

facto

9.

O

da

classe

da revolução,

refas históricas,

o

para o

outro

só não

cumprimento

organismo

é

um

que

partido,

não

produto do

O PARTIDO

REVOLUCIONÁRIO

Quer a experiência do passado, quer a análise das

organismos

não

mente autónomos

ou influenciados

pro­

tes

pelas corren­

condições

formal­

dominados

actuais mostram

e

não

serão,

que estes

foram

à partida,

senão

e que de facto serão

pelas ideologias

e

hostis

ao

políticas historicamente

poder

como corresponde

a características profundas da

letário.

Estes

organismos

se tornam

efectiva­

situação

social

e

histórica

do

capitalismo

deca­

mente

autónomos a

partir

do

momento

em que

dente.

A

classe,

sob

o

regime

de exploração,

é

a

sua maioria adapta e

assimila

o programa re­

determinada

na

sua

consciência

concreta

por

volucionário,

que

até

o

partido

era

o

único

uma série

de poderosos

factores

(as flutuações

 

a

defender

sem

compromissos.

Mas

esta

adop­

temporais,

as diversidades

corporativas,

locais

e

ção

nunca

se

fez

nem

fará

automaticamente.

nacionais,

a

cstrat.ificnçiio

económica)

que fazem

A

luta

constante

da vanguarda

da classe

 

contra

que, na

sua exiAtência real,

a

sua unidade social e

 

as

correntes

hostis

é

uma

das.

suas

condições

histórica

esteja

escondida

por

um

conjunto

de

indispensáveis.

Esta

luta

exige

uma

coordena­

determinações particulares.

Por

outro

lado,

a

ção

e uma organização tanto

mais desenvolvidas

alienação

que

sofre

sob

o

regime

capitalista

quanto

mais crítica

é

a

situação

social,

e

o

par­

torna-lhe

impossível

dedicar-se

imediatamente à

tido

é

o

único

quadro possível para

tal

coorde­

realização

das infinitas

tarefas que

a preparação

nação

e organização.

 
 

da

revolução

exige.

Não

é

senão

no

momento

11.

A

necessidade

do

partido

revolucionário

da

revolução que

a classe

supera

a

sua

alienação

termina com

a

vitória mundial

da revolução.

e

afirma concretamente a

sua

unidade histórica

Não

é

senão

quando

o

programa

revolucionário

e

social.

Antes da

revolução,

um organismo

e

o

socialismo

conquistarem

a

maioria

do

pro­

estritamente

selectivo

e

construído

sobre

uma

letariado mundial

que um

organismo

de

defesa

ideologia

e

um

programa

claramente

definidos

deste

programa,

para

além

da própria

organiza­

pode

defender

o

programa

da revolução

no

seu

ção

desta

maioria

da

classe

mundial,

se

torna

conjunto

e

considerar

colectivamente

a

prepara­

supérfluo,

e

que

o

partido pode

realizar

a

sua

ção da

revolução.

 

própria supressão.

 

10. A

necessidade

do

partido

revolucionário

12. A

crítica

que

fazemos

da

concepção

de

não

acaba

com

o

aparecimento

de

organismos

Lénine

sobre

«a introdução,

a

partir

do

exterior,

autónomos

de

massas

(organismos

soviéticos) .

da

consciência

política no

proletariado,

feita

pelo

134

135

A EXPERI:f:NGIA DO MOVIMENTO OPEJURIO

partido» não implica de modo nenhum que aban­ donemos a ideia de partido. Este abandono é igualmente estranho à posição de Rosa Luxem­ burgo que, no entanto, tantas vezes é invocada.

A ta­

refa da social-democracia não consiste apenas na preparação técnica e na condução das greves mas - e sobretudo - na direcção política de todo o movimento. A social-democracia é a mais esclarecida vanguarda do proletariado, a que possui em maior grau a consciência de c lasse. Ela não pode nem deve esperar com fatalismo e de mãos cruzadas pelo aparecimento da «situa­ ção revolucionária», esperar até que o movimento espontâneo do povo caia do céu. Pelo contrário, neste caso como nos outros, deve permanecer à frente do desenvolvimento das coisas e tentar acelerar este desenvolvimento.» De facto, a con­ cepção da espontaneidade que está hoje muitas vezes por trás das críticas à ideia de partido é muito mais a concepção anarco-sindicalista do que a de Rosa. 13. A análise histórica mostra que no desen­ volvimento da classe as correntes políticas orga­ nizadas desempenharam sempre um papel pre­ ponderante e indispensável. Em todos os momen­ tos decisivos da história do movimento operário, a progressão exprimiu-se pelo facto da classe, sob a pressão das condições objectivas, ter che­ gado ao nível da ideologia e do programa da frac­ ção política mais avançada e, ou se ter fundido

Eis o que Rosa dizia sobre a questão: «

136

O PARTIDO REVOLUCIONARIO

com esta - como na Comuna - ou se ter posto

atrás desta - como durante a

Não foram seguramente estas fracções organi­

zadas que, de fora, fizeram «penetrar» na classe o grau de consciência mais elevado da época - e isto chega para refutar a concepção de Lénine. A classe chegou lá pela acção de factores objec­ tivos e pela sua própria experiência. Mas sem a acção destas fracções a luta não teria sido le­ vada tão longe, nem teria tomado a forma que tomou. Foram estas fracções políticas organizadas que permitiram simultaneamente a distinção de etapas no movimento operário, a constituição do movimento em cada fase com base num pro­ grama exprimindo clara e universalmente as necessidades da época, e a objectivação da expe­ riência proletária (mesmo quando esta foi nega­ tiva) de modo a poder formar a base de partida para o desenvolvimento posterior. Pode-se dizer, sem hesitar, que todas as ve­ zes que o movimento não foi senão espontanei­ dade pura, sem preponderância de uma fracção política organizada - quer se trate de Junho de 1848, da Comuna de Paris, de 1919 na Alemanha ou da Comuna das Astúrias em 1934 -, chegou sempre ao mesmo ponto: demonstração da re­ volta dos operários contra a exploração, da sua

para uma organização comunista - e

da sua derrota nesta base, derrota que exprimia

revolução russa.

tendência

137

A EXPJmiBNCIA DO MOVIMENTO OPERAHIO

a falta de uma consciência clara e coerente dos objectivos e dos meios. A oposição entre as concepções igualmente falsas da «espontaneidade pura» e da «Consciên­ cia inculcada de fora» não pode ser resolvida se não se compreenderem correctamente, por um lado, as relações entre a parte e o todo, a frac­ ção da classe e a classe no seu conjunto, e, por outro lado, entre o presente e o futuro, a van­ guarda que se agrupa desde já sobre o programa revolucionário e começa imediatamente a pre­ parar a revolução, e a massa que não entra em cena senão no momento decisivo. 14. As concepções, que pretextando a possi­ bilidade de burocratização negam a necessidade de uma organização política anterior à revolução e executando as funções de direcção da classe,:

:

dão prova de um desconhecimento completo das características e das leis mais profundas da es­ trutura e do desenvolvimento da sociedade mo­ derna. A racionalização da vida social, a transfor­ mação de todos os fenómenos históricos em

,'

fenómenos mundiais, a concentração das forças produtivas e do poder político são não só traços dominantes, mas também traços positivos da sociedade moderna. Não só a revolução proletá­ ria seria impossível sem o aprofundamento cons­ tante destes traços, como o papel da revolução será o de levar a realização destas tendências

'

ao máximo.

138

O PARTIDO REVOLUCIONAHIO

O cumprimento desta tarefa, a vitória da revolução - e até a simples luta contra adver­ sários arqui-racionalizados, ultra-concentrados e exercendo um poder mundial-- impõem ao pro­ letariado e à sua vanguarda tarefas de raciona­ lização, de conhecimento da sociedade actual em toda a sua extensão, de contabilização e inven­ tário, de concentração e de organização sem pre­ cedentes. O proletariado não poderá vencer, nem sequer lutar seriamente contra os seus adversá­ rios - adversários que dispõem de uma organi­ zação formidável, de um conhecimento completo da realidade económica e social, de quadros edu­ cados, de todas as riquezas da sociedade, da cul­ tura e da maior parte do tempo do próprio pro­ letariado - se não tiver um conhecimento e uma organização de conteúdo proletário, superiores às dos seus adversários melhor equipados neste aspecto. Tal como no plano económico, a nossa luta contra a concentração capitalista não signi­ fica o regresso a uma enorme quantidade de «produtores independentes», como o queria Prou­ dhon, mas o último passo na via desta concen­ tração ao mesmo tempo que a transformação radical do seu conteúdo -- também no plano polí­ tico a nossa luta contra a concentração capita­ lista ou burocrática não significa de modo ne­ nhum um regresso a formas mais fragmentadas ou «espontâneas» de acção política, mas o último passo para um poder mundial, simultâneo com a transformação total do conteúdo desse poder.

139

-----------------------�----------------------------------------------------���------��

A KXPEIU�NCIA DO

MOVIMENTO

OPERARIO

:m da

mais elementar evidência que

tarefas

não

uma

longa

e

imaginar que a

a

partir

a realiza­

É absolu­

minuciosa

solução

do nada

sem

modo extrema­

seu

quanto

se improvisa.

tamente

preparação. Não destas questões

por organismos fragmentários, muitas

e

mente

conteúdo humano,

político

dade

ligações entre si,

ção

de tais

indispensável

se

pode

seja inventada

e

de

qualquer

variáveis

quer

quer

vezes

ao

móveis

e

quanto ao

a

seu conteúdo

da capaci­

derrubar a dominação

e até

da sua

sua capacidade

tam­

ideológico.

Ora,

questão

seu

do proletariado para

este, não é

dos exploradores

de

capacidade física,

política,

bém

sua

e instaurar o

apenas

poder,

lutar por

a questão

nem mesmo da

geral e

·no sentido

abstracto, mas

a da

capacidade

sua capacidade

no plano

dos meios, da

e

organizativa,

racionalizadora

técnica.

:li':

completamente

absurdo

pensar

que

estas capacidades lhe

são

automaticamente

con­

feridas

com um toque

culo.

pende de

as fracções

travam

para

revolução. Não há,

outro sítio,

Mas

versais

pelo regime

O

capitalista

e que

aparecerão

«D:�> maiús­

capacidades de­

permanente que

explorada

exploração

universais da

qualquer

de varinha no dia com

destas

luta

classe

de

em

desenvolvimento

forma decisiva da

mais conscientes da

no

interior do

regime

à altura

das tarefas

nem

aqui, nem

estarem

automatismo

a

aquisição

na história.

destas

uma

longa

15.

capacidades uni­

prepara­

não só

necessita de

ção,

mas

também

se

não

refere,

não

se

pode

140

O PARTIDO REVOLUCIONARIO

referir,

dadas

as

condições

sociais

do regime

de

classe e

o peso

da

alienação,

à

totalidade indis­

tinta

da

classe,

sobretudo

não

se

pode

referir

unicamente

ao proletariado manual.

É preciso ter

claramente consciência - e

ciência -

intelectuais serão fatalmente levados

nhar na revolução

Se nos demarcámos claramente

a

penetrar

consciência socialista

cessário lançarmo-nos com a

os que,

querem

podem e

propagar

que

cons­

os trabalhadores

a desempe­

na sua preparação.

da concepção do

intelectuais

do exterior uma

é-nos ne­

mesma força contra

- que

esta

do enorme

papel

socialista e

qual

Que

Fazer?,

segundo

fazer

os

devem

no proletariado,

levantar

hoje,

um muro

a

realidade

económica

muito

aboliu - entre

os

trabalhadores

intelectuais

e manuais,

separar

de facto

uns

dos

outros,

propagar

um

fetichis­

mo

do

trabalho

manual

e

dos

organismos

«de

fábrica».

Se

Lénine afirmava

 

que

separar

os

operários

e

os intelectuais significa

entregar

os

primeiros

ao

trade-unionismo

e

os

segundos

à

burguesia,

podemos

com

muito

mais

verdade e

força

dizer

hoje

que separar

assim

intelectuais

e manuais significa entregar

rocracia e

universalidade, votar

bu­

à revolta desprovida de

prostituição,

primeiros

os primeiros

à

à

os segundos

os

os

segundos

Lénine

à

derrota

heróica.

cometia

- o

o

erro de

designar

à

um

limite

de

Come­

objectivo

consciência autónoma

trade-unionismo -

da

classe

tomada

operária.

tia

igualmente

o

erro - essencialmente

na prá-

 

141

A EXPERIÊNCIA DO MOVIMENTO OPERARIO

tica - de conceber a direcção da classe como um corpo organicamente separado desta e cris­ talizado com base numa consciência que a classe não podia receber senão de fora. Atacamos esta concepção porque a experiência histórica mostra que não existe um tal limite na tomada de cons­ ciência da classe explorada e que o conteúdo essencial da revolução proletária é a abolição da distinção entre dirigentes e executantes. Mas, ao fazer isto, recusamo-nos a levantar um muro entre trabalhadores intelectuais e manuais. O que assenta sobretudo numa base econó­ mica. O erro de Lénine era tanto mais grave quanto no seu tempo o intelectual era essencial­ mente o literato no sentido geral do termo, o teórico, o escritor «artesanal», trabalhando iso­ ladamente e sem ligação com a produção social, intelectual e material. Uma transformação enor­ me se desenrolou também neste domínio. Com efeito, por um lado, os métodos de produção in­ telectual tornam-se cada vez mais colectivos e industrializados, por outro lado, esta produção intelectual está cada vez mais directamente li­ gada à produção material primeiro, e depois à vida social em geral (no domínio não só da téc­ nica e das ciências exactas, mas também das ciências económicas, pedagógicas, sociais em 'geral, e estando a própria actividade inteledual «pura» cada vez mais socializada). 16. Mas a tentativa de separar manuais e intelectuais e a sua aplicação ao nosso grupo

142

----

--------- ----

O PARTIDO REVOLUCIONAHIO

não se opõe simplesmente à evolução económica; é também contrária à nossa orientação progra­ mática fundamental. A supressão da oposição entre direcção e execução torna-se essencial­ mente supressão da oposição entre trabalho.ma­ nual e intelectual. Esta supressão não se pode fazer nem ignorando o problema, nem separando ainda mais radicalmente os dois sectores ·da ac­ tividade humana e os seus representantes. A fusão do trabalho intelectual e manual e dos seus representantes tende a realizar-se, por um lado, no seio da própria produção através do movi­ mento da economia, mas, por outro lado, deve constituir, desde já, um objectivo essencial da vanguarda consciente, objectivo que esta deve começar a realizar no seu interior pela fusão das duas categorias e pela universalização das tarefas. :Ir: preciso, por conseguinte, afastar resoluta­ mente como arcaica e re,trógrada qualquer con­ cepção geral que leve a uma separação objec­ tiva entre manuais e intelectuais, e qualquer aplicação desta concepção ao nosso grupo que queira tirar da nossa composição social argu­ mentos sobre a nossa actividade, o nosso carácter histórico ou político. :m preciso compreender que uma das funções mais essenciais do partido con­ siste em que ele é o único organismo pré-revolu­ cionário no qual a fusão dos manuais com os intelectuais é historicamente possível. 17. Os termos «acção autónoma» e «organis­ mo autónomo» da classe, muitas vezes usados

143

A EXPERI:ítNCIA

DO MOVIMENTO OPERÁRIO

no nosso vocabulãrio, devem

pena

um instrumento

facto dos operários, mais ou

mente

ser

fonte

clarificados sob

e

até

O simples

menos espontanea­

postos

de

se tornarem

uma

de erros

de aut()-mistificação.

responderem

a

e

para

problemas

O PARTIDO REVOLUCIONAH.IO

ou

dos

burocrática.

ao malogro

total

ou

à

degenerescência

Por

conseguinte,

e

da

a

acção

questão

da

da

autonomia

idêntica

da

dos

à

organismos

questão

do

classe é

conteúdo ideológico

e político,

pela luta de

classes, se

constituírem

em

organis­

base

programática

destes

organismos

e

desta

mos

ou empreenderem acções

determinadas, por

acção. Se

um relativo grau

de

autonomia

se ex­

maior

que

seja

a

sua

importância,

não

chega

para

definir

estes

organismos

ou

estas

acções

como

«autônomas»

no

sentido completo

do ter­

mo.

Para

nos convencermos

disto, basta-nos ver

o

caso

mais

importante

que

se

manifesta

com

o

aparecimento,

em

grande

escala,

de

organis­

mos

de

duplo

poder

(Sovietes,

 

Comités

de

Fã­

brica,

Milícias,

etc.).

Não

a

experiência

do

passado,

turo possível,

mas

também

a análise

de

todo

fu­

da sua

o

mostram que no

momento

constituição

e

durante

um

certo

período

estes

organismos

são directa

ou

indirectamente

indirectamente

domi­

nados

ou

decisivamente influenciados

por

orga­

nizações políticas

historicamente hostis

ao poder

prolt-tário.

Se

no interior

destes organismos

não

se

manifestar

a

acção

constante

de

fracções

-ou pelo

menos de

uma fracção - fatalmente

minoritária

de

início, lutando

por

todos

os

meios

políticos

revolucionários

para

levar

estes

orga­

nismos a

adaptar

a ideologia e

o programa que,

nas

circunstâncias

dadas,

exprimem

os

interes­

ses

históricos

da classe,

é

antecipadamente

certo

que

estes

organismos

de

massas

serão

conduzi-

144

prime

em toda a

forma

de

organização

proletá­

ria, se

os

Comités de

Luta, traduzindo-lhe

a to­

mada

de

consciência

antiburocrática,

represen­

tam

um

grau

mais

desenvolvido

desta

autono­

mia,

se

os Sovietes

englobam

numa consciência

que tende

da

que só

tido

exprimem concreta

históricos

organização

podem

da classe.

a

tornar-se

completa

a grande maioria

não esquecer nunca

pleno sen­

que

os interesses

modo

assim

de

classe,

é preciso contudo

são autónomos, no verdadeiro e

do

termo,

da

os

organismos

e perfeitamente

partir

e

de

as

classe,

a

proletária.

ser legitimamente a

acções

um

organismos

direcção incontestada

18.

Não

é senão

a partir desta

noção

de

au­

tonomia que

se

pode

abordar

o problema criado

pela

pluralidade

das concepções políticas

que

se

afrontam no

interior

da

classe.

O

facto

de,

de

cada

vez,

existir um

único programa,

uma única

política

que exprime

os

interesses históricos do

proletariado,

não impede que

na