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A estrutura de um ensaio filosófico

A. P. Martinich
Universidade do Texas, Austin

1. Esboço da estrutura de um ensaio filosófico
Sócrates não era amigo daquilo que entendia por retórica. Ainda assim, dispunha-se a
conceder que "Todo discurso deve ser construído como uma criatura viva, dotado por
assim dizer do seu próprio corpo; não lhe podem faltar nem pés nem cabeça; tem de
dispor de um meio e de extremidades compostas de modo tal que sejam compatíveis uns
com os outros e com a obra como um todo" (Fedro, 264C). Estendendo o alcance da
metáfora, assim como as partes do corpo têm diferentes formas e funções — braços,
pernas, asas e chifres —, assim também as têm as partes do ensaio. Além disso, assim
como diferentes animais exibem diferentes anatomias, assim também se passa com os
ensaios filosóficos: alguns são mais complexos e invulgares do que outros. Todos,
contudo, evoluem a partir de uma forma básica.
Neste livro, discute-se a forma mais básica do ensaio e os seus descendentes imediatos
na escala da evolução. Todas essas formas têm cabeça, tronco e cauda. Em termos
prosaicos, todo ensaio deve apresentar três partes: começo, meio e fim. Foi Winston
Churchill, creio eu, quem o disse da seguinte maneira: diga o que vai fazer, faça-o, diga
o que fez. Talvez já tenhas ouvido isso, e por uma boa razão: trata-se de uma verdade.
Além disso, como um primeiro critério de especificação da estrutura de um ensaio, é
uma valiosa observação. Mas esse truísmo seria objectável se não se dissesse nada mais
sobre o que entra na estrutura do ensaio e como o autor pode construir uma. Faz-se
necessário um guia mais informativo (vê abaixo) sobre a redacção do ensaio.
No guia mais informativo, o primeiro elemento, "diz o que vai fazer", e o terceiro, "diz
o que fizeste", não sofrem modificações substanciais. Eles aparecem a seguir como
segmentos I e V, respectivamente. O segundo elemento, "fá-lo", no entanto, divide-se
em três segmentos, II, III e IV.
A estrutura de um ensaio filosófico (forma simples):
I — Apresenta a proposição a demonstrar.
II — Apresenta o argumento a favor da proposição.
III — Demonstra que o argumento é válido.
IV — Demonstra que as premissas são verdadeiras.
V — Retoma de modo conclusivo o que foi provado.
O segmento I, "Apresenta a proposição a demonstrar", é o começo do ensaio. A
proposição a demonstrar costuma receber o nome de "frase de tese" ou, mais
simplesmente, "tese". A tese tem de ser um enunciado como "A justiça é atribuir a cada

no segmento III. é a Verdade pela Verdade (Veritas gratia Veritatis). . em vez de começar com a apresentação de tua tese. Os segmentos II. Explica de que maneira as suas premissas implicam a sua conclusão. Se começares o ensaio com a primeira premissa. A afirmação da tese vem antes da demonstração.) Embora virtualmente todas as proposições infinitas possíveis tenham uma probabilidade absurdamente baixa de ser usadas pelo autor. Outro propósito pode ser. Apresenta em primeiro lugar os indícios a favor das tuas premissas. A divisão mais básica de um ensaio é a apresentação da tese e a demonstração dessa tese. Aristóteles disse: "Um discurso tem duas partes: temos de apresentar nossa tese e temos de a demonstrar". Não deve haver surpresas na filosofia. o professor não vai supor nem que conheces nem que não conheces o assunto. o próximo passo do teu ensaio (segmento IV) é provar que as tuas premissas são verdadeiras. sobretudo se puderes responder a essas objecções. (É fácil. ao escrever um ensaio filosófico. por outro lado.pessoa aquilo que lhe é devido". Um dos motivos disso é que de uma proposição segue-se um número infinito de proposições. ainda haverá com frequência um número relativamente grande de proposições com uma probabilidade relativamente alta de ser escolhidas. mostrar ao teu professor que conheces o assunto. excepto as causadas por uma descoberta expressa com uma clareza brilhante. mas. Um ensaio sem clareza é indício de um pensamento sem clareza. vai ser-lhe difícil lembrar-se das ruas por onde passou. Qualquer pessoa que tenha feito um curso de lógica deverá ser capaz de fazê-lo. III e IV constituem o meio do ensaio. porém irrelevante aqui. Como a filosofia pode ser difícil. aquilo que Aristóteles diz sobre este último pode aplicar-se ao ensaio. Além disso. Quanto ao segmento II. Levantar as objecções que antecipas que o leitor poderá fazer ajuda a desanuviar a atmosfera. mostra que o teu argumento é válido. o destino for conhecido. no entanto. é boa prática apresentar o mais cedo possível todas as tuas premissas. o público mostrar-se-á dúbio com relação a uma ou mais das tuas premissas. Não confundas pirotecnia retórica com luz filosófica. toda a placa ou sinal de trânsito serão registados com relação a esse destino. Se. Embora um ensaio não seja propriamente um discurso escrito. a resposta a objecções reforça a tua defesa e torna-a mais imperiosa quanto à sua aceitação por parte do leitor. Como um argumento válido só garante uma conclusão verdadeira se todas as premissas forem verdadeiras. O leitor tem a hipótese de conhecer a aparência geral da maneira como vais proceder para provar a tua tese. o leitor terá grandes dificuldades para compreender a relevância da premissa. é importante dizer com toda a clareza possível o que estás a tentar demonstrar no teu ensaio. quando começar a ler. num dia chuvoso. demonstrar isso. que o faça. Quem não fez esse curso pode pedir ao professor. que as premissas estabelecidas conduzem de facto à conclusão. assim como pode ter carácter histórico: "A dúvida metódica de Descartes é equivalente ao cepticismo de Sexto Empírico". isto é. o ónus de provar que conheces o assunto é todo teu. toda a curva à esquerda e à direita. Se o passageiro não souber o destino. Essa é a maneira mais directa e patente de defender a tua tese. Compara escrever um ensaio com dirigir um veículo. Claro que o teu principal objectivo. Isso dá ao leitor a oportunidade de ver a estrutura geral do teu argumento. Antes de ler o teu ensaio. Então. é injusto e irracional que o autor espere que o leitor antecipe quais dessas poderá usar. Tipicamente.

não deve ser considerada invariável. é necessário dizer outras coisas sobre ele. é bom explicar a importância dos resultados perto do começo do ensaio. essa estrutura é bem mais complexa. nem todo o ensaio conterá todos os elementos do esboço. Em terceiro lugar. os ensaios desenvolvem um passo de cada vez. apresentar a tua posição. Essa ordem. caso a sua importância não tenha podido ser explicada pela tua apresentação em algum segmento anterior do ensaio. Esta última conclusão não é adequada quando se está a apresentar a monografia final de uma disciplina ou curso. podes querer introduzir os segmentos II. I(a)(2) e I(b)(1). O esboço é. Se fizeres isso. auto-explicativo. o teu material deve ditar a ordem. Tipicamente. nem todos conterão esses elementos na ordem aqui apresentada. Tipicamente. partes desse esboço — e mesmo todo ele — podem ser incorporadas como elementos de outras partes do esboço. Vê as páginas seguintes. (Vê a caixa ilustrativa. o que em alguns casos significa discutir o tópico num dado lugar e noutros casos. Uma das razões disso é que. Uma delas é resumir o teu argumento. Por exemplo.O segmento V é o fim do teu ensaio. a fim de despertar o interesse do leitor. A fim de te ajudar a reflectir sobre essa complexidade. Podes usar termos técnicos livremente e supor que o sentido de todas as tuas proposições é claro. embora padrão. fornecer bases mais específicas e assim por diante. Ainda assim. . no começo do ensaio. Outra maneira de terminares o ensaio é explicar que outra ou outras implicações ele tem ou dizer qual é o próximo passo da tua investigação. vamos examinar um esboço bem mais complicado da estrutura de um ensaio filosófico. Como vem no final da tua explicação cuidadosa. é tanto justificável como aconselhável explicar a importância dos resultados no final. É muitas vezes retoricamente mais eficaz seguir este procedimento: indicar as bases gerais.) A estrutura de um ensaio filosófico (Forma um pouco mais complexa): I — Começo: apresenta a proposição a demonstrar. Outra maneira de terminar o ensaio é explicar por que razão os resultados obtidos são importantes. mais uma vez. Por fim. Outro motivo de o mesmo tópico geral ser referenciado em mais de um lugar no esboço depende. o teu resumo pode supor muitas coisas. alguns itens do esboço são mais ou menos os mesmos. Em segundo. ou seja. ou a relação entre os resultados e a importância que têm é implausível sem o argumento. por exemplo. III e IV do "Esboço" como elemento subordinado a I(a)(2). podes querer introduzir o argumento que outro filósofo qualquer apresenta em favor da sua posição. Nesses casos. a) Orientação 1) Especifica o tópico geral a ser discutido. Em primeiro lugar. como. Mas às vezes não é possível avaliar essa importância antes de se percorrer todo o argumento. o esboço da primeira parte do teu ensaio conterá elementos encaixados. Isso segue a ideia de "diz o que fizeste". visto que se trata de uma entidade abstracta e esquemática. em larga medida. noutro lugar. Descrevi em linhas gerais a estrutura mais simples que um ensaio filosófico pode ter. no curso da explicação daquilo que outros filósofos pensaram sobre o teu problema. Há várias maneiras de terminar um ensaio. de um modo geral. do facto de o teu material dever ditar a ordem.

resolve a ambiguidade. 2) Aduz as intuições do público. O mais comum é que a explicação se volte para esclarecer as relações conceptuais entre os conceitos expressos nas premissas. a) Explica a força geral do argumento. assim. c) Apresenta as regras que justificam as inferências não aparentes feitas a partir do enunciado inicial do argumento. dá exemplos e apresenta argumentos subsidiários que apoiem a verdade das tuas premissas. c) Motivação: explica por que essa tese ou tópico é interessante ou importante. bem como o significado de termos que podem ser entendidos erradamente e. a) Explica os termos usados em sentido técnico ou que são ambíguos. 2) Diz quem teve uma opinião oposta ou um ponto de vista diferente. 1) Apresenta objecções que tenham sido efectivamente levantadas à tua posição. b) Apresenta o que vai ser provado. d) Diz o que vais pressupor no teu ensaio sem discussão.2) Relata o que outros filósofos pensaram sobre o tópico. 1) Diz quem teve a mesma opinião ou um ponto de vista semelhante. 2) Às vezes é possível explicar as inferências citando regras de um sistema natural de dedução. como. b) Explica o que as premissas significam. . 1) Explica as premissas. b) Levanta objecções. modus ponens ou modus tollens. II — Apresenta o argumento em favor da proposição a ser provada. III — Demonstra que o argumento é válido. por exemplo. b) Explica de que maneira a conclusão é consequência das premissas. prejudicar a verdade das tuas premissas. a) Fornece os indícios a favor das premissas. IV — Demonstra que as premissas são verdadeiras. 1) A inferência que leva a conclusões intermediárias terá de ser explicada como parte da explicação como um todo. apresenta a tese.

1) Diz quem teve a mesma opinião ou um ponto de vista semelhante. 2) Levanta objecções que ninguém tenha levantado e que. uma vez respondidas. a) Orientação 1) Especifica o tópico geral a ser discutido. 2) Relata o que outros filósofos pensaram sobre o tópico. II — Apresenta o argumento em favor da proposição a demonstrar. c) Responde às objecções. c) Motivação: explica por que essa tese ou tópico é interessante ou importante. b) Apresenta as regras que justificam as inferências não aparentes feitas a partir do enunciado inicial do teu argumento. III — Demonstra que o argumento é válido. V — Conclusão a) Retoma de modo conclusivo o que foi provado. b) Apresenta o que vai ser provado. a) Explica os termos usados em sentido técnico ou que são ambíguos. ii) Apresenta as objecções levantadas pelo teu professor e pelos teus colegas. IV — Demonstra que as premissas são verdadeiras.i) Apresenta as objecções que filósofos historicamente significativos tenham levantado com relação ao teu problema. explicitem e tornem mais clara a tua tese. apresenta a tese. . resolve a ambiguidade. 2) Diz quem teve opinião oposta ou um ponto de vista diferente. b) Indica outros resultados que se podem querer obter. II — Apresenta o argumento em favor da proposição a demonstrar. A estrutura de um ensaio filosófico (Com uma estrutura encaixada): I — Começo: apresenta a proposição a demonstrar.

V — Conclusão 2. Depois. Ele afirma ainda que "A Palavra de Deus deve. [1]A Teoria Moral de Hobbes Segundo a Ordem Divina [2] O problema central da filosofia moral de Thomas Hobbes é responder à seguinte questão: "Por que razão estão os seres humanos obrigados a seguir as leis morais?" [3] Há duas maneiras essenciais de interpretar a resposta de Hobbes a essa pergunta. [12] A concepção segundo a qual se deve obedecer às leis morais por serem elas ordenadas por Deus. volta ao começo e lê cada item numerado e a nota que lhe corresponde. ele não a enunciou casualmente nem o fez com reservas. pois. A partir das muitas passagens que podem ser citadas. 1962. p. [11] Hobbes afirma com frequência que as leis morais. [15] O primeiro passo para compreender por que isso é verdade consiste em distinguir entre a forma e o . são leis divinas (Leviatã. Para melhores resultados no uso dos comentários. [9] Segundo essa tese. ser levada igualmente em consideração no tocante aos Ditames da razão e da equidade" (Leviatã. [4] A primeira é a de que os seres humanos têm de obedecer à lei moral porque Deus lhes ordena que obedeçam.1). para Hobbes. As leis morais são leis. ver também De Cive. 456. [14] Com respeito a essa objecção. [7] Podemos denominá-la Tese Secular. Deus é o legislador da lei moral. B. [6] A outra interpretação diz que os seres humanos devem obedecer às leis morais porque essas leis são racionais. no sentido em que são dedutíveis pela razão. [5] Essa interpretação é de modo geral conhecida como Tese de Taylor-Warrender. fica claro que é genuína a adesão de Hobbes a essa doutrina. uma acção é moral quando Deus a ordena. por C. 4. c. IV — Demonstra que as premissas são verdadeiras. [10] A minha interpretação. incorpora igualmente o principal elemento da Tese Secular. org. por ele identificadas com os ditames da razão. Não há outro legislador da lei moral além de Deus. pode igualmente ser demonstrada por recurso a um argumento que Hobbes não poderia deixar de aceitar. Todas as leis requerem um legislador. 399). apresento uma interpretação que é uma versão da Tese de TaylorWarrender. faz uma leitura prévia e rápida de todo o ensaio (é bastante curto). Anatomia de um ensaio Reproduzimos a seguir um exemplo da teoria moral de Hobbes segundo a ordem que ilustra a maioria dos itens da estrutura de um ensaio filosófico discutida na secção anterior. Macpherson. Logo. [13] Uma objecção à minha tese é que Hobbes não recorre a Deus ao deduzir as leis morais. [8] Neste ensaio. p. visto que aquilo que Deus ordena é dedutível pela razão. 31. afirmo não ser necessário que Hobbes mencione Deus na dedução das leis morais. porém.III — Demonstra que o argumento é válido. Penguin. As passagens foram numeradas (de [1] a [22]) para posterior referência ao já adiantado sobre a estrutura texto do ensaio.

ordeno). como o de ser racional. . é impossível haver uma lei irracional ou contraditória. de obediência obrigatória. como tudo o que é racional é dedutível pela razão. [17] Por exemplo. a frase "Ordeno que todos os que tomarem algo em empréstimo devolvam o objecto em questão no mesmo estado em que se encontrava quando do empréstimo" é usada apropriadamente para exprimir uma lei quando enunciada por um soberano. porém não a partir de nosso conhecimento da natureza de Deus. como para todos os teorizadores que recorrem à ordem divina ao tratar da obediência às leis morais. toda a lei tem duas partes: há o seu conteúdo. O título deve veicular uma gama restrita de tópicos a partir dos quais é seleccionado o tópico principal. Deus. Como é sempre a primeira coisa que o leitor vê. 588. se formulado com habilidade. as leis têm de ser racionais. e a sua forma. expressão da autoridade que obriga a fazer o que se tem de fazer. A transição é muito suave neste ensaio. por conseguinte. [3] Esta frase introduz 1(a)(2): Relata o que outros filósofos pensaram sobre o tópico.) I(a)(i) é um relato da história do problema que não vincula esta história com a tese do autor. [22] Conclui-se. Claro que a compreensão do título depende em larga medida do grau de informação do público. visto ser Ele invisível bem como propenso a ser percebido de outras maneiras. (A diferença entre I(a)(i). assim. e a ordem de Deus é o que torna esse conteúdo uma lei e. Ora. como diz Hobbes. [20] O resto da frase exprime o seu conteúdo. [16] Para Hobbes. visto que a expressão "filosofia moral de Thomas Hobbes". I(b)(i) e 1(b)(2) relatam essa história na sua relação com essa tese. há certos conhecimentos que os seres humanos têm a respeito de Deus. O título "A Teoria Moral de Hobbes Segundo a Ordem Divina" indica. p. ver também p. I(b)(i) e 1(b)(2) reside apenas na relação que as frases têm com outras partes do ensaio. que exprime o que se tem de fazer. Além disso. [21] Embora a forma das leis morais seja imediatamente clara (eu. que o conteúdo da lei moral é dedutível pela razão. Notas [1] O título é uma parte extremamente importante do ensaio porque. "O estilo de uma Lei é Ordenamos" (Leviatã. [18] e é divisível em duas partes. na primeira frase. antes mesmo do nome do autor. 317). [19] A expressão "ordeno" exprime a forma da lei ou. evidentemente. Não obstante. [2] A primeira frase deve fazer a transição entre o carácter abstracto e esquemático do título e o carácter concreto e específico do ensaio. o título cria a primeira impressão. porque os seres humanos não têm acesso directo a Deus. que o principal tópico da discussão não incluirá elefantes nem eras geológicas. O item [2] satisfaz I(a)(i): Especifica o tópico geral a ser discutido. faz eco a duas das palavras contidas no titulo. O título é mais informativo para alguém que saiba quem é Hobbes e o que é a teoria moral segundo a ordem divina. o conteúdo da lei moral também o é. o seu conteúdo não o é.conteúdo da lei. ajuda a compor as duas partes mais importantes do início de um ensaio. restringindo o tópico à intersecção de tópicos sobre Hobbes e a teoria moral segundo a ordem divina.

apresenta a tese". Seria apropriado introduzir aqui uma nota com referências ao trabalho académico de Taylor. que começa com "A outra interpretação". A citação ou outras indicações do pensamento de outros estudiosos sobre uma questão filosófica oferece bases ao leitor ideal e indícios ao teu professor de que investigaste e estás bem informado sobre o teu tópico. O item [5] também marca o lugar no qual se poderia incluir uma discussão do trabalho de Taylor e de Warrender. devendo. Basil Blackwell. [8] Esta frase satisfaz 1(b): "Apresenta o que vai ser demonstrado. as suas ideias. "The Ethical Doctrine of Hobbes". caso o autor desejasse ampliar o ensaio. que começa com "A primeira" e de [6]. [5] Esta frase dá o nome da interpretação a que se fez referência em [4]. por Stuart Brown. [7] Esta frase relaciona-se com [5]. pois. Essas promessas devem ser cumpridas assim que for possível. Há muitos outros pontos deste ensaio que podem ser expandidos de várias maneiras. Vê a estrutura paralela de [4]. As frases prolépticas assemelham-se a promessas implícitas relativamente a falar mais sobre o tópico.O item [3] é. ao segmento [11]. Vê. mas a repetição é proveitosa se o . Clarendon Press. repetindo ligeiramente as informações dadas em [6]. de preferência descrevendo. [4] Esta frase é a primeira parte da explicação do que foi dito em [3]. isto é. E. 1957. por outro lado. ele exprime de maneira geral algo que precisa ser relatado em detalhes. a frase [5] poderia ser facilmente transformada em três: [5] Essa interpretação é de modo geral conhecida como Tese de Taylor-Warrender. Taylor apresentou pela primeira vez a tese com as seguintes palavras: "Só posso tornar consistentes entre si os enunciados de Hobbes supondo que ele considerava com toda a seriedade aquilo que diz com tanta frequência: que a «lei natural» é a ordem de Deus. Essa nota não aparece aqui por razões de simplicidade. por exemplo a nota. Estas três proposições ([5]. 49). Ela dá uma explicação adicional à tese. E. [9] Esta frase satisfaz parcialmente 1(b). a razão pela qual devo cumprir o meu dever é que Deus me ordena que o faça" (The Political Philosophy of Hobbes. [6] Esta e a próxima frase completam a discussão de I(a)(2). em vez de citar. Oxford. 1965. org. Oxford. ser obedecida por ser ordem de Deus" (A. Por exemplo. [5a] e [5b]) poderiam ser expandidas em dez ou mais se isso fosse necessário ou desejado. proléptico. [5a] A. Taylor. Ela completa a discussão de 1(a)(2): "Relata o que outros filósofos pensaram sobre o tópico". p. de Warrender e de qualquer outro estudioso que o autor julgue que fornece fundamentos relevantes sobre o assunto. in Hobbes Studies. a promessa é cumprida nas frases seguintes: [4] a [7]. [5b] Howard Warrender elaborou mais tarde uma variante da tese nos seguintes termos: "[De acordo com Hobbes]. 213). p. Esse tipo de estrutura une diferentes frases e contribui para o que é chamado de "coerência" ou "coesão". No nosso caso.

O argumento é tão breve e simples que as suas premissas nem sequer são dadas no ensaio. seria apropriado introduzir as ideias de Strauss neste ponto. como IV. Tal como [9].) Há uma boa razão para mostrar esse argumento simples aqui. na prática é muitas vezes necessário ao autor desenvolver no ensaio mais de um argumento. Embora teoricamente um único argumento sólido em favor de uma proposição seja suficiente para a provar. Hobbes diz que as leis da natureza são leis divinas. repete ligeiramente as informações dadas antes. Na frase seguinte. não há espaço para discutir a interpretação de Strauss e nem sequer para mencioná-la. mas não as apresenta. então Hobbes pensa que as leis da natureza são leis divinas. "Apresenta o argumento a favor da proposição". Na primeira frase de [11]. "Elaboração sucessiva". Num ensaio curto como este (cerca de duas páginas). Se o ensaio fosse ampliado para uma versão de 10-20 páginas. que substancia propositadamente a sua posição.) Consideremos agora a maneira como [11] satisfaz o item IV. como muitos outros filósofos. Há pelo menos duas razões para isso. (Alguns filósofos diriam que [11] não exprime um argumento. Uma consequência disso é que não há necessidade de incluir no ensaio coisa alguma que satisfaça o item III: "Demonstra que o argumento é válido". Por exemplo. vê o capitulo 4. o autor cita de facto as palavras de Hobbes como indício favorável à sua concepção. Não desejo discutir isso aqui e peço que seja aceite como um argumento para fins de exposição. além de fornecer mais uma referência à obra deste. dependendo da definição de "diz". Hobbes escreveu. o público com frequência não o reconhece como sólido se for o . embora não no próprio ensaio. [12] Este parágrafo desenvolve um segundo argumento a favor da tese do autor. A última frase do parágrafo afirma que seria possível apresentar mais indícios. ele teria a seguinte forma: Se Hobbes diz que as leis da natureza são leis divinas. Se se explicitasse o argumento. mas só uma proposição e o indício a favor da sua verdade. (Para uma discussão adicional disso. O autor já fundamentou satisfatoriamente a verdade da premissa "Hobbes diz que as leis da natureza são leis divinas". teriam de se oferecer mais indícios e alguma discussão sobre elas. Logo. Em primeiro lugar. "Demonstra que as premissas são verdadeiras". A repetição evita que o leitor tenha de voltar para ver o que é a Tese Taylor-Warrender. secção 4. Num ensaio mais longo.autor julgar que o público pode não estar familiarizado com os estudos sobre Hobbes. Leo Strauss acha que. Hobbes pensa que as leis da natureza são leis divinas. contudo. por razões políticas. [10] Esta frase continua a satisfazer 1(b). palavras que não desejava ver tomadas literalmente. o autor dá como referência o Leviatã. a fim de alcançar o seu propósito. [11] As frases deste segmento satisfazem tanto II. Alguns estudiosos julgam que o argumento não é sólido. é a primeira ou a segunda premissa que é falsa.

[14] Esta frase começa a responder à objecção levantada em [13]. Trata-se da frase do parágrafo que introduz o teu tópico. é tipicamente necessário desenvolver vários argumentos em favor da mesma conclusão. Logo. Não é do mesmo modo um estímulo para que ela apresente o máximo de argumentos que puder. Num ensaio mais longo. Todas as leis precisam de um legislador. Começa. Se o argumento do item [12] fosse explicitado. o efeito psicológico de levar o público a pensar que a proposição é falsa. Parece ser um facto psicológico sobre os seres humanos ser mais fácil aceitar um argumento como sólido se houver vários outros argumentos. seria apropriado fazer referência a pelo menos o mais importante desses críticos. que levem à mesma conclusão. com isso.único argumento sólido apresentado em favor da conclusão. Em segundo lugar. enquadra-se mais especificamente em IV(b)(I)(i). por piores ou aparentemente piores que sejam. não significa que o autor deva apresentar os seus argumentos com demasiada brevidade nem com insuficiência de detalhes. assim. Uma pessoa pode ser persuadida por um argumento sólido e outra por outro. elaborado pelo autor de acordo com o método da "Elaboração sucessiva". Essa visão geral precisa ser elaborada. Assim. No tocante ao carácter persuasivo ou não do ensaio. [13] Esta frase introduz o item IV(b): "Levanta objecções". Isso. sendo respondida nas frases imediatamente seguintes. o que vem nas frases seguintes. Deve-se enfatizar ainda que uma conclusão é verdadeira se houver ao menos um argumento sólido que a sustente e que a existência de um milhão de argumentos maus para a sustentar não prova que a conclusão seja falsa. para convencer muitas pessoas. pode provocar. no entanto. Apresentar um argumento mau ou um argumento que pareça mau pode prejudicar o objectivo do autor. Não há legislador da lei moral além de Deus. esse seria o lugar apropriado para o expandir da maneira descrita. Ela convida à questão "Por que será que Hobbes menciona Deus na sua dedução da lei moral?". a satisfazer o item IV(c). mesmo as referências aos oponentes de Taylor e de Warrender foram omitidas. Sendo ele breve. dependendo das suas crenças e dos princípios de prova que sustentarem antes da leitura. . e até descrever com alguma extensão as suas objecções. Assim. Se este ensaio fosse o esboço de um ensaio mais longo. apresentar 20 argumentos maus a favor de uma tese pode fazer muito mais mal do que apresentar apenas um argumento sólido. a sua forma seria: As leis morais são leis. ainda que logicamente independentes do primeiro. Diferentes pessoas reconhecerão como sólidos diferentes argumentos. Ainda que um argumento não-sólido a favor de uma proposição não indique que ela é falsa. Trata-se de uma objecção-padrão levantada pelos críticos da Tese Taylor-Warrender. o público do autor é heterogéneo. Este segmento exprime de modo não qualificado a visão geral do autor. Deus é o legislador da lei moral.

A. [20] Esta frase está coordenada com [19]. ligam-no ao anterior.[15] Esta frase dá continuidade ao item IV(c). O ponto mais importante do ensaio não deve ser introduzido em resposta a uma objecção. Isso completa a discussão de IV(c). é preciso dizer mais. Se todas as réplicas forem relativamente sem importância. vinculando-a com as palavras de Hobbes ("como diz Hobbes"). [22] Este parágrafo satisfaz V: Conclusão. nem de forma apressada nem tardiamente. dado que o autor apresenta um ponto que o público provavelmente não conhece e explicá-lo de duas maneiras distintas reduz o ónus do leitor. embora se inicie remetendo para Hobbes ("Para Hobbes"). [19] e [20]. Há uma certa redundância na informação dada em [19]. Torna a caracterização menos abstracta. Uma caracterização é sempre geral e abstracta. P. mas essa repetição justifica-se. dado que uma resposta é. [18] Esta frase começa a explicar o exemplo. de modo geral. Além disso. Embora não seja óbvio — nem precise de o ser —. [16] Esta frase dá continuidade a IV(c). uma parte subordinada. [17] Esta frase dá um exemplo daquilo que é caracterizado em [16]. realizando-se nas duas frases seguintes. A frase seguinte toma a caracterização mais clara ao ilustrá-la com um exemplo. no momento certo será. ela amplia de imediato a sua importância ao generalizar ("como para todos os teóricos que recorrem à ordem divina"). [21] As expressões "a forma das leis morais" e "seu conteúdo". a leitura do ensaio será entediante. que a distinção entre forma e conteúdo é muito importante. mas [19] é bem mais breve do que ela. mas é muitas vezes legitimo introduzir como réplicas pontos dotados de certa importância. Ele não deve tentar dizer o que há para ser dito em uma ou duas frases. o que é feito no próximo parágrafo. a partir desta frase. Martinich Tradução de Vítor Oliveira . é preciso que ele desvele o seu pensamento passo a passo. na primeira frase deste parágrafo. é proléptica. Resume o argumento de todo o ensaio. O resto da frase serve então para caracterizar a diferença entre a forma e o conteúdo da lei. A maior parte deste parágrafo apresenta uma reconstrução da maneira como Hobbes vincula o conteúdo de uma lei moral como racional (ou dedutível) à forma de uma lei moral. Mais uma vez é criada coesão. [19] Esta frase explica que parte do exemplo diz respeito à forma da lei. É importante que o autor não apresse a sua exposição. Ao que parece.

html . 2002).com/filos_ensaiofilosofico.Excerto retirado de Philosophical Writing: An Introduction. Texto retirado do site Crítica: revista de Filosofia http://criticanarede. 1998. P. 52-66). Martinich (Oxford: Backwell. pp. de A. edição brasileira: Ensaio Filosófico (São Paulo: Edições Loyola.