Você está na página 1de 479

AS CANTIGAS DE D. JOAN GARCIA DE GUILHADE E ESTUDOS DISPERSOS

OSKAR NOBILING

AS CANTIGAS DE D. JOAN GARCIA DE GUILHADE E ESTUDOS DISPERSOS

Edição preparada por Yara Frateschi Vieira

CANTIGAS DE D. JOAN GARCIA DE GUILHADE E ESTUDOS DISPERSOS Edição preparada por Yara Frateschi Vieira

Niterói/RJ 2007

Copyright © 2007 by Editora da Universidade Federal Fluminense

Direitos desta edição reservados à EdUFF – Editora da Universidade Federal Fluminense Rua Miguel de Frias, 9 – anexo – sobreloja – Icaraí – CEP 24220-900 – Niterói, RJ – Brasil Tel.: (21) 2629-5287 – Fax: (21) 2629-5288 – http://www.uff.br/eduff – E-mail: eduff@vm.uff.br

É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Editora.

Normalização e edição do texto: Yara Frateschi Vieira Revisão: Yara Frateschi Vieira Tradução de “As Vogais Nasais em Português”: Dinah Maria Isensee Callou e Maria Helena Duarte Marques Tradução dos demais artigos em alemão: Markus Lasch Revisão da tradução: Yara Frateschi Vieira Edição do Manuscrito Coletânea de canções brasileiras: Paulo Roberto Sodré Digitalização dos textos em português: Paulo Roberto Sodré Capa: Isabel Carballo Editoração eletrônica: Selma Consoli – MTb 28.839 Supervisão gráfica: Káthia M. P. Macedo

Dados Internacionais de Catalogação-na-Fonte – CIP

O???

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos / Oskar Nobiling. Yara Frateschi Vieira (Organização, introdu- ção e notas). Niterói : EdUFF, 2007. 488 p. ; 23 cm. (Estante Medieval 2)

Oskar Nobiling

Inclui bibliografia.

ISBN ISBN 978-85-228-0452-8

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE Reitor: Roberto de Souza Salles Vice-Reitor: Emmanuel Paiva de Andrade Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação: Humberto Fernandes Machado Núcleo de Estudos Galegos da UFF: Maria do Amparo Tavares Maleval e Fernando Ozorio Rodrigues (Diretores) Diretor da EdUFF: Mauro Romero Leal Passos Diretor da Divisão de Editoração e Produção: Ricardo Borges Diretora da Divisão de Desenvolvimento e Mercado: Luciene Pereira de Moraes Assessora de Comunicação e Eventos: Ana Paula Campos

Comissão Editorial da EDUFF Presidente: Mauro Romero Leal Passos Gesmar Volga Haddad Herdy Gisálio Cerqueira Filho Hildete Pereira Melo João Luiz Vieira José Walkimar de Mesquita Carneiro Lívia Reis Márcia Menendes Motta Maria Laura Martins Costa Mariângela Rios de Oliveira Silvia Maria Baeta Cavalcanti Vânia Glória Silami Lopes

Coleção Estante Medieval Direção: Fernando Ozorio Rodrigues (UFF) Maria Amparo Tavares Maleval (UFF/UERJ)

Conselho Consultivo Ângela Vaz Leão (PUC-Minas) Célia Marques Telles (UFBA) Evanildo Cavalcante Bechara (UERJ/UFF/ABL) Gladis Massini-Cagliari (UNESP) Hilário Franco Júnior (USP) José Rivair de Macedo (UFRGS) Leila Rodrigues da Silva (UFRJ) Lênia Márcia de Medeiros Mongelli (USP) Luís Alberto de Boni (PUC-RS) Mário Jorge da Motta Bastos (UFF) Massaud Moisés (USP) Vânia Leite Fróes (UFF) Yara Frateschi Vieira (UNICAMP)

APRESENTAÇÃO

SUMÁRIO

Uma Raridade na Estante Medieval - Maria do Amparo Tavares Maleval

7

INTRODUÇÃO - Yara Frateschi Vieira

9

CADERNO FOTOGRÁFICO

21

APÊNDICE - Correspondência de Oskar Nobiling com José Leite de Vasconcelos

29

Bibliografia de Oskar Nobiling

35

LÍRICA MEDIEVAL GALEGO-PORTUGUESA

As cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

39

Introdução ao Estudo da mais Antiga Poesia Portuguesa

145

Uma Canção de D. Denis

161

Acerca da Interpretação do Cancioneiro de D. Denis

165

Acerca do Texto e da Interpretação do Cancioneiro da Ajuda

173

A Edição do Cancioneiro da Ajuda, de Carolina Michaëlis de Vasconcelos

219

Textos Arcaicos

257

LÍNGUA PORTUGUESA

As Vogais Nasais em Português

265

Albanês e Português

289

Emendas e Aditamentos à Secção Portuguesa do Lateinisch-romanisches Wörterbuch de Körting

311

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

Português do Brasil deixe eu ver

367

Brasileirismos e Crioulismos

369

Frases Feitas

373

IV. LITERATURA POPULAR Coletânea de Canções Brasileiras

389

Quadras do Estado Brasileiro de São Paulo

455

Uma Página de História de Literatura Popular

469

Estudos sobre o Romanceiro Popular, de Carolina Michaëlis de Vasconcelos

477

6

Introdução

APRESENTAÇÃO

UMA RARIDADE NA ESTANTE MEDIEVAL

Maria do Amparo Tavares Maleval

A coleção Estante medieval da EdUFF se honra sobremaneira com a publicação desse seu segundo título, contendo os dispersos de Oskar Nobiling diligentemente reunidos por Yara Frateschi Vieira, pesquisadora insigne que tantos trabalhos de monta vem tornando acessíveis aos leitores interessados na Idade Média. Nascido em Hamburgo, 1865, jovem ainda Nobiling veio para o Brasil (1889), naturalizando-se brasileiro em 1894. Aqui, dedicar-se-ia ao magistério em São Paulo, bem como a pesquisas que, ao lado do seu inte- resse pela lírica medieval galego-portuguesa, demonstravam o grande apreço que dedicava à nossa cultura, recolhendo “da boca do povo” muitos dos nossos cantares tradicionais e elaborando estudos sobre o português brasi- leiro, entre outros. De há muito que os filólogos e medievalistas ansiavam por uma reedição de As cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, tese de doutora- mento defendida em Bonn, 1907. Não só pela importância desse trovador,

um dos mais fecundos e originais dos cancioneiros medievais galego-por- tugueses, autor de 54 cantigas distribuídas entre as espécies ou gêneros de amor, de amigo, de escárnio e/ou maldizer, introdutor do motivo dos “olhos

Mas sobretudo pela qualidade da edição crítica

verdes” na nossa lírica

realizada por Nobiling, que se tornou entre nós um pioneiro e paradigma da crítica textual dos antigos cancioneiros, seguido e reverenciado por filólogos como Celso Cunha, Segismundo Spina, Leodegário Azevedo Fi- lho e outros. A edição criteriosa (embora considerada não definitiva por Nobiling, por lhe faltarem alguns textos à colação) das poesias de Guilhade já seria suficiente para aplaudirmos com entusiasmo a inclusão da sua publicação

7

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

em nossa Estante. Mas Yara Frateschi Vieira foi além: reuniu os demais textos dispersos de Nobiling, providenciando a tradução dos que haviam sido publicados em alemão. Com isto, apresenta-nos uma valiosíssima re- colha de estudos que nos permitem delinear o perfil do grande pesquisador, dedicado ao estudo e fixação de textos da nossa lírica ancestral, à aprecia- ção das suas edições então realizadas por Carolina Michaëlis de Vaconcelos (Cancioneiro da Ajuda) e Henry Lang (Cancioneiro de D. Denis); como também, repetimos, à recolha das cantigas tradicionais do nosso folclore e à história e dialetologia da língua portuguesa, ao estudo do português bra- sileiro.

A presente edição ainda contém Introdução, da lavra da organiza- dora, com importantes informações sobre o autor e sua trajetória, além do Apêndice com correspondências, caderno fotográfico e bibliografia. E na orelha, Evanildo Cavalcante Bechara a prestigia com o seu precioso aval. Portanto, comemorando os cem anos transcorridos desde a publi- cação de As cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade por Oskar Nobiling, Yara Frateschi Vieira enriquece a Estante medieval com a organização des- ta obra, que sem dúvida fará a nossa Estante visitada e respeitada por leito- res de escol. À admirável e incansável intelectual muito agradecemos, bem como à Xunta de Galicia, que nos permite a publicação de obras valiosas como a que ora temos a satisfação de apresentar, através de convênios de cooperação com a UFF e a UERJ, visando à divulgação da língua, da lite- ratura, da cultura galega.

8

Introdução

INTRODUÇÃO

Yara Frateschi Vieira

Portugal e Brasil receberam, na segunda metade do século XIX, dois grandes presentes 1 vindos da Alemanha, naquela altura berço e germinadouro das novas idéias e novos métodos filológicos: por circunstâncias até mesmo semelhantes, Carolina Michaëlis passou a viver em Portugal e Oskar Nobiling, treze anos depois, no Brasil. Ambos deslocaram-se para outro país por motivos familiares: Carolina, por seu casamento com Joaquim de Vasconcelos, e Nobiling, ao que tudo indica, por incentivo da sua irmã mais velha, Magda, que se casara com um teuto-brasileiro residente em São Paulo 2 . Não é muito o que sabemos da sua vida. Nasceu em Hamburgo, aos 30 de março de 1865. Terá vindo para o Brasil em 1889 (a data de 15 de novembro referir-se-á provavelmente à sua saída da Europa 3 ). Mas deve ter feito os estudos de romanística ainda na Alemanha, pois sai dali já com 24

1 Numa frase que se tornou célebre e de maneira muito mais enfática, Menéndez y Pelayo chamava Carolina Michaëlis “el hada benéfica que Alemania envió a Porto para ilustrar gloriosamente las letras peninsulares” (apud Ricardo Jorge, “D. Carolina Michaëlis”, Academia de Ciências de Lis- boa, Boletim de Segunda Classe 5 (1911-1912) p. 302d)

2 Colhi essa informação dos dados que gentilmente me enviou da Alemanha o Dr. Gerhard Nobiling. Por ser ele, como se autodenomina, “o genealogista da família”, elaborou uma crônica familiar, abran- gendo o ramo que veio para o Brasil. Segundo as suas anotações, a filha mais velha de Theodor Nobiling (1815-1889), Magdalena, casou-se à volta de 1884 com Heinrich Franklin Schaumann, farmacêutico filho de alemão, nascido em Campinas, fundador e proprietário da tradicional botica O Veado d’Ouro (uma das principais artérias paulistanas, por sinal, traz hoje o seu nome). O casamento de Magda teria sido o estímulo para que todos os irmãos, progressivamente, viessem para o Brasil, onde se instalaram e criaram família, permanecendo muitos descendentes ainda hoje no país, princi- palmente em São Paulo e na região do litoral paulista. O mais novo dos irmãos, Johannes Theodor Nobiling, nascido em 1877 e vindo para o Brasil em 1897, tornou-se aqui conhecido como Hans Nobiling, um dos introdutores do futebol no país e fundador do Esporte Clube Germânia, mais tarde denominado Esporte Clube Pinheiros. Existe hoje uma rua em São Paulo com o seu nome e no Clube Pinheiros criou-se o Centro Pró Memória Hans Nobiling – infelizmente, uma visita ao local compro-

Informa-

ções menos detalhadas podem ser também encontradas na publicação Famílias Brasileiras de Ori- gem Germânica. Vol. VI. São Paulo: Instituto Hans Staden, 1975, pp. 192-194.

3 Essa data encontra-se nas notas do Dr. Gerhard Nobiling.

vou-se infrutífera, pois toda a documentação ali existente refere-se apenas ao irmão caçula

9

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

anos; e suponho que terá aprendido o português antes de vir para São Paulo.

O seu dom para línguas é, aliás, comentado por muitas testemunhas que o

conheceram. Nas notas genealógicas de G. Nobiling, consta que falava 13 línguas, entre as quais o albanês! Mas essa observação terá nascido prova- velmente do fato de ele ter escrito um estudo, no qual comparava o português e o albanês. Na verdade, ao lermos os artigos que publicou em português e as

suas notas manuscritas ou cartas, ficamos deveras impressionados com o seu português impecável, ainda que bastante formal e menos vivaz que o de Ca- rolina Michaëlis. Depois de estar alguns anos em São Paulo, solicitou a naturaliza- ção, que lhe foi concedida pelo governo brasileiro em 1894 4 : o pedido de cidadania deve ter sido motivado pela oportunidade de vir a ser nomeado professor (lente catedrático) de língua e literatura alemã do recém-fundado “Ginásio de Estado”, o que efetivamente ocorreu em 1895. Em 1901, casa-se, no Consulado Alemão de Santos, com Erna Philippine Fenchel, nascida em Bremen em 1877. A sua primeira filha, Ilse, nasce em São Paulo, em 1902; a segunda, porém, Hedwig, nasce em Bremen, em 1903, assim como o terceiro, Ernst (1907); o quarto, Walter, nasce em 1909 em São Paulo. Como a família da sua mulher era de Bremen, podemos perguntar-nos se somente ela teria viajado à Alemanha para dar à luz; mas consideradas as duras condições das longas viagens de navio, parece mais provável que tenha sido acompanhada pelo marido, que precisaria certamen-

te licenciar-se das suas obrigações docentes no Ginásio de Estado, pelo me-

nos por alguns meses. O nascimento do terceiro filho, em 15 de abril de 1907, quase coin- cide com a defesa da sua tese de doutorado junto à Universidade de Bonn, no dia 18 de julho daquele mesmo ano 5 . Embora o título que consta na folha de rosto do exemplar da tese na Biblioteca da Universidade de Bonn seja Die Lieder des Trobadors D. Joan Garcia de Guilhade (13. Jahrhundert), indu- zindo-nos a pensar que ele teria escrito a tese em alemão, traduzindo-a de- pois para o português, para publicá-la na forma em que a conhecemos, na verdade apenas a folha de rosto e o curriculum vitae na última página estão

4 Cópia da concessão, datada de 22 de setembro de 1894, consta do Arquivo do Instituto Martius- Staden. É interessante observar que o nome é aí grafado com –k: Oskar. Os portugueses, como tendiam a aportuguesar todos os nomes, grafavam Oscar. O próprio Oskar, nas cartas e textos publicados, assinava O. Nobiling, de modo que não sabemos qual a sua grafia preferida. Decidi- mos manter o nome como aparece no documento oficial e como se tornou tradição grafá-lo no Brasil: Oskar.

5 Ivo Castro informa que foi ali aluno de Wendelin Foerster: NOBILING (Oskar), in Biblos. Enciclo- pédia Verbo das Literaturas da Língua Portuguesa. Vol. 3. Lisboa: Verbo, 1999, col. 1134.

10

Introdução

escritos em alemão, sendo o texto já redigido em português 6 . Penso que podemos aceitar, então, que a tese foi apresentada à banca examinadora em português. Não sabemos em que língua terá decorrido a discussão nem a constituição da banca A preparação e redação do trabalho fez-se, porém, em São Paulo, com todas as dificuldades que Nobiling não se cansou de expor, em diversas ocasiões. No próprio Prefácio, datado de março de 1907, diz:

Não pude, na terra em que empreendi o presente trabalho, utilizar-me de todos os subsídios científicos que me ofereceriam as bibliotecas da Ale- manha ou da França. Entre as obras que sinto não ter consultado, ocupam um lugar insigne os estudos que o Dr. F. Hanssen, lente do Instituto Peda- gógico de Santiago de Chile, publicou relativamente à história da métri- ca hispano-portuguesa 7 .

No minucioso e virulento estudo crítico do livro de João Ribeiro, publicado pela primeira vez em O Estado de S. Paulo de 22 de abril de 1908, assim abre o seu arrazoado, alegando como possível “concessão” às faltas encontradas no livro a dificuldade de se escrever no Brasil:

Reconheçamos que é bem difícil escrever, nesta terra e sobre assuntos filológicos, um livro de valor, sem redizer o que já foi dito por outros e sem deixar de aproveitar os resultados das pesquisas feitas por tantos sábios que em países tão diversos se dedicam à lingüística neo-latina. A grande maioria das obras científicas que se ocupam dos múltiplos problemas refe- rentes à história, não só das línguas românicas, mas do próprio idioma português, e particularmente todas as obras de maior erudição, tarde ou nunca aparecem no Brasil. As livrarias as ignoram, as bibliotecas públicas não as possuem. Quem conhece entre nós os trabalhos que publicaram e publicam os Monaci e de Lollis na Itália, os Cornu e Meyer-Lübke nos países de língua alemã, Jeanroy na França, H. Lang nos Estados Unidos? 8

Nas cartas e nos bilhetes enviados por Nobiling a José Leite de Vas- concelos, o tema quase constante é a falta de recursos bibliográficos e a conse-

6 Informação dada pela Sra. Cornelia Hoermann, da Biblioteca da Universidade de Bonn. Ela confirmou-me por e-mail que a biblioteca possui 2 exemplares: um deles está fora de lugar e portanto não pôde ser consultado; existe, contudo, uma cópia em microficha que ela fez o favor

de consultar, verificando que estava em português. Cf. F. Jensen, Nobiling, Oskar. In G. Tavani e

G.

Lanciani, Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa . Lisboa: Caminho, 1993,

p.

475. (Vid. foto da folha de rosto adiante)

7 Cf. As cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, trovador do século XIII. Vid. adiante pp. 39-143.

8 Frases Feitas. Vid. adiante: pp. 373-386.

11

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

qüente solicitação ao filólogo português para que lhe envie os seus trabalhos ou o informe do que se publica “lá fora” sobre um determinado assunto 9 . Uma lacuna que também registra na Introdução às Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade é não ter podido consultar os códices, baseando as suas lições nas edições então disponíveis: de Monaci, Molteni e Carolina Michaëlis. Na verdade, ele não é o único a queixar-se dessa dificuldade:

Carolina Michaëlis, em 1904, não deixara de lançar uma farpa a Monaci, aludindo ao fato de “haver adquirido ha annos o precioso thesouro [CB] e de não o facultar mais aos que desejariam vê-lo”; e acrescentava em nota: “Em 1894 Monaci ainda extrahiu manu propria as variantes do CD, em favor de um joven professor americano. Depois facultou-o a Cesare de Lollis” 10 . É, aliás, através da correspondência entre Carolina Michaëlis e José Leite de Vasconcelos que ficamos sabendo que em 1911 ou 12, quando, já doente, foi para a Europa, Nobiling tinha a intenção de ir a Roma e não sair de lá en- quanto não conseguisse ver os apógrafos italianos:

Ouvi dizer que V. E. [J.L. Vasconcelos] esteve em Roma? Claro que de- sejo saber se viu Monaci e os Cancioneiros?! Sabe, se Oskar Nobiling realizou o seu plano de não sair da cidade eterna, sem ter conseguido esse seu fim? 11

E a respeito dessa última viagem também Sílvio de Almeida co- e causa-me pena o lembrar que, com a doença que o levou à

Europa, ele também cegamente levava os mais largos planos de estudos na ”

biblioteca do Vaticano

menta: “

12

Não sabemos se teria conseguido, antes de dirigir-se à Alemanha, ver por fim os tão desejados códices: morreu no dia 19 de setembro de 1912,

9 Cf. no Apêndice os itens 1, 2, 3, 5, 6, 7 e 8.

10 Cancioneiro da Ajuda. Edição de Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Reimpressão da ed. de Halle (1904), acrescentada de um prefácio de Ivo Castro e do glossário das cantigas (Revista Lusitana, XXIII). Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1990, vol. II, p. 50 e nota 1 da mesma página.

11 Bilhete s.d. [22600 na numeração do Epistolário de José Leite de Vasconcelos, Suplemento no. 1, O Arqueólogo Português. Lisboa: Museu Nacional de Arqueologia, 1999, pp. 258-260]. C. Michaëlis, porém, aí agradece a Leite de Vasconcelos “o carinhoso artigo no Boletim, a que deu o título de Preambulo”, que é facilmente identificável: trata-se do artigo publicado no Boletim de Segunda Classe, V (julho 1911) pp. 246-297. O volume foi publicado em 1912, mas é possível que ela o tenha visto antes da impressão. Podemos então datar o bilhete de fins de 1911 ou princípio de 1912. (Agradeço ao Museu a autorização para fotografar os documentos e a Ivo Castro, que generosa- mente os fotografou.)

12 “Oscar Nobiling”, publicado pela primeira vez em O Estado de S. Paulo, 30 de setembro de 1912; republicado na Revista Lusitana, XV (1912) pp. 366-368; e no Jornal de Filologia, I: 2 (1953) pp. 157-159.

12

Introdução

no Eppendorfer Krankenhaus, em Hamburgo, acometido de uma doença que

o levou em plena maturidade, aos 47 anos 13 .

* * *

Infelizmente, porém, o país não estava de fato preparado para po- der beneficiar-se do presente que recebera. Ao contrário de Portugal, que reconheceu o valor de Carolina Michaëlis, oferecendo-lhe mesmo uma cáte- dra na Universidade, apesar de ser mulher, o Brasil nem sequer contava ain- da com uma universidade propriamente dita, apenas com faculdades de formação profissional: a primeira instituição universitária a funcionar plena- mente é a Universidade de São Paulo, criada em 1934 14 . Não admira assim que os seus trabalhos tenham tido repercussão imediata muito maior no Exterior. E temos de considerar que a sua vida pú- blica, digamos assim, na arena filológica, durou apenas 9 anos: de 1902 a

1911. Em carta sem data, Nobiling relata a Leite de Vasconcelos que fora

convidado para exercer a função de rédacteur da Société Internationale de

Dialectologie Romane, encarregando-se do domínio da língua portuguesa fora da Europa 15 . Levanta a hipótese de que Leite de Vasconcelos teria tido algum papel na indicação do seu nome: se isso é verdade, pode-se supor que

o convite terá sido feito entre 1902 e 1906-7, uma vez que já em 1902 publi-

cara o artigo “Uma canção de D. Denis” na Revista Lusitana, que a crítica à

edição de Lang do Cancioneiro de D. Denis saiu na Zeitschrift für romanische Philologie de 1903, e uma parte dos seus comentários à edição do Cancionei- ro da Ajuda por Carolina Michaëlis, na revista Romanische Forschungen de

1907. Silveira Bueno informa que logo depois do doutoramento foi chamado

a fazer parte do corpo docente da Universidade de Freiburg 16 . Ignoro em que

fundava tal afirmação: é possível que Nobiling tivesse sido convidado para ocupar uma cátedra em Freiburg, mas se isso aconteceu, não aceitou o convi- te, pois no histórico do Departamento de Línguas e Literaturas Românicas daquela universidade, o seu nome não consta como professor 17 . Correspon-

13 Segundo as notas do Dr. Gerhard Nobiling.

14 Vid. Fernando de Azevedo, A cultura do Brasil. Introdução ao estudo da cultura no Brasil. 4ª. ed. rev. e aum. São Paulo: Melhoramentos, 1964, pp. 562-679.

15 Vid. carta 1, s.d., no Apêndice.

16 Silveira Bueno, “Prof. Oscar Nobiling”, in Jornal de Filologia, I: 2 (out. a dez. 1953), p. 156.

17 http://www.romanistik.uni-freibur g.de/geschichte/ (9.10.2007). Nas anotações de G. Nobiling não há menção desse fato, o que seria natural, se Nobiling tivesse ocupado uma posição docente numa universidade alemã.

13

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

dendo-se com os filólogos da época 18 , mantinha-se a par do que se publicava fora, solicitando aos autores que lhe enviassem as suas obras quando não podia adquiri-las, e pedindo a quem considerava autoridade no assunto que revisse os seus trabalhos: numa carta a Leite de Vasconcelos, Carolina

Oskar Nobiling rev[iu] um manuscrito sobre

Michaëlis menciona que “

cantigas de Alf[onso] X” 19 . Qual a opinião que extraiu dessa leitura, expres- sa-a na “Explicação Prévia” anteposta ao Glossário do Cancioneiro da Aju-

da, ao mencionar as críticas que a sua edição recebera de outros estudiosos:

a

Dois estudos, estrictamente filológicos, vieram da América. Um muito benévolo, cheio de observações criticas, era obra do malogrado profes- sor de São Paulo (do Brasil), Oskar Nobiling, publicador consciencioso das Cantigas de João de Guilhade, e autor de numerosos estudos, o me- lhor dos quais sôbre Alfonso o Sábio, como poeta, ficou infelizmente por acabar, quando faleceu em 1912 20 . (itálicos meus)

Leite de Vasconcelos refere-se também a um trabalho sobre a lín- gua do Testamento de Afonso II, que Nobiling lhe oferecera para publicar na Revista Lusitana; como ele lhe respondesse que estava no momento organi- zando o volume das Lições de Filologia, onde reimprimia e analisava aquele Testamento, Nobiling declarou-se disposto a esperar que saísse o livro, para então decidir se lhe restaria algo que observar 21 . O filólogo português ignora- va se o trabalho fora ou não concluído, pois logo em seguida sobrevieram a doença e a morte de Nobiling 22 . Na esperança de poder localizar esses textos, entrei em contacto com descendentes da família tanto em São Paulo como na Alemanha; tinha a esperan-

18 É ainda Silveira Bueno que o informa: “Correspondeu-se com os maiores representantes da filologia portuguesa, da literatura, aqui e em Portugal, bem como se fez amigo das maiores no- tabilidades que, naqueles dias, pontificavam na Alemanha e na França”. (Op. cit., p. 153) Infeliz- mente, da correspondência que Nobiling certamente trocou com filólogos, só pude recuperar, por enquanto, a que foi enviada a José Leite de Vasconcelos. Certamente escreveu a Carolina Michaëlis, que em bilhete sem data, relata a Leite de Vasconcelos que Nobiling saíra do Brasil no “dia 5” (de que mês? de 1911?) no vapor “Petrópolis” e que queria encontrar-se com Braamcamp Freire. Como no mesmo bilhete ela agradece a Leite de Vasconcelos as felicitações, muito provavel- mente pela sua nomeação para a Universidade (publicada em 22 de junho de 1911), supomos que a correspondência seja de logo depois dessa data. Cf. doc. 22610 – bilhete postal s.d. [1911?] do Epistolário, op. cit.

19 Carta datada do Porto, 30 de novembro de 1911. (Doc. 22736, do Epistolário, op. cit.)

20 Glossário, Cancioneiro da Ajuda, op. cit., vol. I, pp. vi-vii.

21 Vid. carta e bilhete postal, nos. 4 e 5, no Apêndice, datados de 1909.

22 Cf. item 16 da bibliografia elaborada por J. L. de Vasconcelos, na Revista Lusitana, XV (1912) pp. 369-70.

14

Introdução

ça de que se pudessem encontrar na Biblioteca do Instituto Martius-Staden, onde está o manuscrito da Coletânea de canções brasileiras e onde também se guarda o exemplar de trabalho das Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, com as suas notas manuscritas. Infelizmente, ninguém soube dar notícia de eventuais trabalhos perdidos. Silveira Bueno, na matéria que lhe dedica no Jornal de Filologia, baseando-se em conversas com a viúva de Nobiling, fale- cida em São Paulo em 16 de março de 1953, informa que a guerra de 1914 teria destroçado completamente a sua biblioteca e os seus bens, e que a família, tendo perdido quase tudo, regressara a São Paulo 23 . No necrológio de Erna, publicado no jornal alemão de S. Paulo, fala-se bastante do marido, mencio- nando-se o seu dom para línguas (“penetrara no espírito da língua portuguesa melhor do que qualquer brasileiro nato”) e algumas das suas obras, entre as quais “tradução para o alemão de obras poéticas portuguesas e brasileiras”. Esse último dado é, provavelmente, errôneo, pois não há notícia de traduções poéticas que teria feito para o alemão (a não ser que as tenha publicado em jornais ou revistas alemãs de que não consta registro) 24 . Que o trabalho de Nobiling passava quase desconhecido nos círcu- los intelectuais brasileiros da época, declara-o um seu colega, também do- cente no Ginásio do Estado, ao escrever o seu elogio fúnebre:

Aqui no Brasil houve por muito tempo, mesmo entre os estudiosos, o mais completo desconhecimento do seu valor; e Sílvio Romero, que com ele só tardiamente se correspondeu, chegou a perguntar-me certo dia: -

como foi que você descobriu o Nobiling?” E a pergunta justa-

“Mas

mente assinala a modéstia daquele que honrava a sua cadeira do Ginásio de S. Paulo, do mesmo modo por que podia glorificar uma qualquer uni-

versidade da Europa 25 .

Sílvio Romero podia, certamente, não conhecer Nobiling; mas este, já em 1895-1897, ao coligir “da boca do povo” canções populares, anotava ao lado de algumas delas o número das composições correspondentes, registradas no estudo de Romero sobre os cantos populares do Brasil.

23 Silveira Bueno, op. cit., pp. 153-156. Numa Nota final, Silveira Bueno agradece “ao Dr. Giglio Pecoraro o auxílio que prestou ao Jornal de Filologia, conseguindo a fotografia e as notas da introdução em diversas ocasiões que teve de conversar com a família de Oscar Nobiling ainda residente nesta capital de S. Paulo”. Não me ficou claro se o Dr. Giglio Pecoraro escreveu o texto ou forneceu notas para que Silveira Bueno o escrevesse.

24 O necrológio, publicado em Deutsche Nachrichten, 19.3.1953, está arquivado na Biblioteca do Instituto Martius-Staden.

25 Publicado originalmente em O Estado de S. Paulo, de 30.9.1912 e reproduzido na Revista Lusita- na, XV (1912), pp. 366-369.

15

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

Na verdade, como já se mencionou acima, teremos de esperar até depois da década de 30 do século XX, momento em que começam a funcio- nar regularmente as instituições de ensino superior no Brasil, para que o trabalho de Nobiling pudesse ser resgatado do esquecimento e produzir fru- tos. O seu primeiro herdeiro direto é, assim, a edição d’O Cancioneiro de Paay Gômez Charinho, de Celso Cunha, apresentada como tese de concurso “para provimento da cadeira de Literatura Portuguesa da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil” 26 . Elsa Gonçalves, que preparou a reedição dos três trabalhos de Cunha dedicados aos “trovadores do mar”, não deixa de sublinhar essa filiação direta, ao perguntar: “Será necessário lem- brar que, em 1945, as únicas edições verdadeiramente críticas de trovadores galego-portugueses eram a de Don Denis, por Henry R. Lang (1894) e a de Joan Garcia de Guilhade, por Oskar Nobiling(1907)?” 27 E o próprio Cunha coloca sob a égide de Nobiling a tese a ser defendida, selecionando da edição de Guilhade, para primeira epígrafe do seu texto, as seguintes palavras:

já será tempo de reunirmos em edições completas as obras dos mais importantes dentre os trovadores, a fim de se poderem estudar as feições comuns dêsse primeiro período da literatura portuguêsa bem como as indi- viduais que caracterizam os seus vultos mais eminentes. (Oskar Nobiling, As cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Erlangen, 1907, pág. V) 28

É ainda seguindo a mesma linha de trabalho defendida em 1907 por Nobiling que, em 1974, começa a ser publicada a Coleção Oskar Nobiling, dirigida por Leodegário de Azevedo Filho. O primeiro volume da coleção, segundo o Plano publicado, seria exatamente a edição das cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, por Maximiano de Carvalho e Silva. Na verdade, só se publicaram dois volumes dos dez inicialmente previstos: As cantigas de Pero Meogo, por Leodegário de Azevedo Filho, e As cantigas de Pero Mafaldo, por Segismundo Spina 29 . Ao apresentar a coleção e justificar o nome para ela escolhido, o seu diretor inclui uma bio-bibliografia de O. Nobiling, que se inicia com o reconhecimento do seu valor para o trabalho de

26 Conforme se lê no facsímile da folha de rosto da tese, reproduzido em Celso Cunha, Cancioneiros dos Trovadores do Mar, edição preparada por Elsa Gonçalves. Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1999, p. 33.

27 Ibid., p. 32.

28 Ibid., p. 35.

29 As cantigas de Pero Meogo (estabelecimento crítico dos textos, análise literária, glossário e re- produção facsimilar dos manuscritos). Por Leodegário A. de Azevedo Filho. Rio de Janeiro:

Edicções Gernasa e Artes Gráficas Ltda., 1974; Segismundo Spina, As cantigas de Pero Mafaldo. Edição crítica. Rio-Fortaleza, Tempo Brasileiro/Universidade Federal do Ceará, 1983.

16

Introdução

edição de textos medievais no país: “No Brasil, sem levar em conta os traba- lhos anteriores, todos de menor importância, quem deu início à publicação científica de textos da lírica medieval galego-portuguesa foi o professor Oskar Nobiling (Hamburgo, 1865 – Bonn [sic], 1912) 30 .

O mesmo Professor Azevedo Filho, quando diretor da Academia

Brasileira de Filologia, criou a Medalha Oskar Nobiling, que, durante a rea- lização do VIII Congresso Brasileiro de Língua e Literatura, foi conferida a cem especialistas brasileiros e estrangeiros, “por relevantes serviços presta- dos à causa do ensino da Lingüística, da Filologia e da Literatura” 31 .

Não faltaram, inclusive, projetos de reedição da obra de Nobiling. Serafim da Silva Neto iniciou a tradução de alguns dos artigos escritos em alemão, dedicados a aspectos de lingüística portuguesa, pensando reuni-los num volume. Por razões que ignoro, desistiu desse projeto, cedendo as tradu- ções já feitas à Revista Filológica, que chegou a republicar apenas o estudo “Brasileirismos e Crioulismos” 32 . O artigo sobre as vogais nasais do Portu- guês, traduzido por Dinah Maria Isensee Callou e Maria Helena Duarte Mar- ques, foi publicado pela revista Littera, em 1974 33 . Cem anos depois da publicação das Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, é mais do que tempo, portanto, de que esses esforços anteriores, malogrados certamente por circunstâncias exteriores à vontade dos seus au- tores, sejam levados a cabo e de que esses trabalhos se coloquem finalmente à disposição de um público mais amplo, inclusive os estudantes universitá- rios, que poderão consultá-los reunidos num único conjunto e vertidos para o vernáculo, no caso dos que foram escritos em alemão. Com esse objetivo em mente, atualizou-se a ortografia dos textos originalmente publicados em português, excetuando-se, porém, os nomes dos trovadores, que con- servam a grafia empregada por Nobiling.

A organização do volume procurou refletir os três campos de inte-

resse de Nobiling: naturalmente, o maior número de trabalhos ocupa-se de temas ligados à lírica medieval galego-portuguesa, sobressaindo entre eles a

30 As cantigas de Pero Meogo, op. cit., p. 11. Na verdade, como já foi dito, Nobiling morreu em Hamburgo. A indicação de Bonn, porém, encontra-se em algumas das suas biografias.

31 8º. Congresso Brasileiro de Língua e Literatura (de 19 a 23 de julho de 1976). Homenagem a Oskar Nobiling. Rio de Janeiro: Edições Gernasa, 1977, p. 9.

32 “Brasileirismos e Crioulismos”, in Revista Filológica 7 (junho de 1941) pp. 63-67. Esse artigo, aliás, foi publicado na Revue de Dialectologie Romane em português. É curioso observar que, na Nota “Res et Verba”, que antecede o artigo, elencam-se os artigos que Serafim da Silva Neto se incumbira de traduzir para português; entre eles, o segundo é descrito como “Relações entre lín- guas européias e americanas (do al.)” (ibid., p. 63). Desconheço a existência desse artigo, que não consta de nenhuma das bibliografias que pude consultar.

33 Republicado aqui, pp. 265-288.

17

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

edição de Joan Garcia de Guilhade, mas merecendo atenção especial do lei- tor também as minuciosas resenhas críticas que Nobiling escreveu sobre a edição do Cancioneiro de D. Denis, de Henry R. Lang, e sobre a edição do Cancioneiro da Ajuda de Carolina Michaëlis, todas elas cheias de reparos e sugestões que revelam um conhecimento íntimo dos textos, da bibliografia crítica e de aspectos do estado da língua pertinentes à versificação trovado- resca, como a questão da elisão e do hiato. Já referimos anteriormente como Carolina Michaëlis reagiu favoravelmente às críticas vindas do professor de São Paulo, incluindo mesmo algumas delas no Glossário do Cancioneiro da Ajuda.

Dos trabalhos sobre a língua portuguesa, merecem destaque, por incidirem especialmente sobre o português brasileiro, o estudo sobre as vo- gais nasais, o artigo sobre brasileirismos e crioulismos, bem como a constru- ção brasileira “deixe eu ver”; e as minuciosas emendas e aditamentos à secção portuguesa do Dicionário Latino-Românico de Körting 34 . Chama a atenção ainda o ácido estudo crítico sobre um livro de João Ribeiro, onde o filólogo, em geral muito comedido nos julgamentos, mas espicaçado por críticas que considerava infundadas, não hesita em mostrar que o autor daquele livro, além de ignorante e pretensioso, é também um plagiário. Recém chegado ao Brasil, Nobiling pôs-se imediatamente a cam- po, em busca de cantigas ou bailados dramáticos tradicionais, ainda vivos no Estado de São Paulo. Dessa forma, já por volta de 1895-1897, registrara a sua recolha num caderno de 32 páginas; pelo menos é o que resta da Coletâ- nea de canções brasileiras, manuscrito conservado no Instituto Martius- Staden, de São Paulo: a maneira abrupta como termina a fala de Bico Branco de Novais, e algumas remissões do próprio Nobiling a páginas posteriores à de número 32, levantam a hipótese de o caderno estar incompleto. No entan- to, já em 1953, quando Helmut Heinke transcreveu as notas estenográficas do manuscrito, em duas páginas datilografadas colocadas em apêndice, o caderno terminava na pág. 32. Algumas dessas cantigas foram aproveitadas para a redação do artigo “Quadras do Estado brasileiro de S. Paulo”, publica- do em 1904. O seu interesse pela literatura popular revela-se também num artigo bastante curioso sobre as possíveis vias de transmissão do conto “João mais Maria”, publicado no Almanaque Garnier, em 1907. Naturalmente, es- ses trabalhos de cunho etnográfico, que completava com a descrição das peculiaridades lingüísticas cuidadosamente anotadas, não deixaram de cha-

34 Carolina Michaëlis recomendava-os aos seus estudantes. Cf. Lições de Filologia Portuguesa. Segundo as preleções feitas aos cursos de 1911/12 e de 1912/13. Seguida das Lições Práticas de Português Arcaico. Lisboa: Martins Fontes, s.d., p. 280.

18

Introdução

mar a atenção de José Leite de Vasconcelos, que numa página solta escreve:

“O. Nobiling – estudo de um conto no Almanaque Garnier 1907 – Não o

posso obter [ ] não o tem 35 ”, e solicita-os a Nobiling, como depreendemos

da resposta deste, em bilhete datado de 6 de janeiro de 1908 36 . Naturalmente, não deve surpreender a variedade dos temas trata- dos na obra de Nobiling: a crítica textual, a literatura medieval galego-portu- guesa, a história e a dialetologia do português e a literatura e a cultura popular. Ele formara-se dentro do espírito da filologia alemã de raízes românticas, magistralmente sintetizado por Carolina Michaëlis nas preleções dirigidas aos seus alunos e depois publicadas em volume:

Depois do que deixei dito é quási supérfluo assentar ainda em resumo que para mim filologia portuguesa é o estudo científico, histórico e com- parado da língua nacional em tôda a sua amplitude, não só quanto à gramática (fonética, morfologia, sintaxe) e quanto à etimologia, semasiologia, etc., mas também como órgão da literatura e como mani- festação nacional 37 .

Assim, entrelaça-se, na busca de um conhecimento que faça justiça à complexidade dos seus objetos, o estudo da língua, de uma perspectiva científica e comparatista que especialistas contemporâneos também chama- ram “glotologia” 38 , ao da literatura medieval, atento aos problemas específi- cos do estabelecimento do texto, mas também sensível ao que poderíamos chamar o mysterium da poesia 39 ; e ainda, dentro dessa visão ontológica da literatura, o empenho em resgatar “o profundo sentimento poético, a força de imaginação e a arte narrativa que não raro transparecem nas obras da literatu- ra popular” 40 , que a revolução industrial ameaçava de extinção e a imagina- ção romântica associava aos fundamentos da identidade nacional.

* * *

35 Doc. 16247A, Epistolário de J. L. de Vasconcelos, op. cit.

36 Vid. Apêndice, item 2.

37 Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, op. cit., p. 156.

38 Cf. a exposição dessas tendências no contexto português, na obra citada de Carolina Michaëlis, p. 146 ss.

39 Cf., a respeito dessa concepção da literatura na filologia alemã romântica, R. Howard Bloch, “New Philology and Old French”, in Speculum 65 (1990) 38-39.

40 “Uma página de história de literatura popular”: vid. adiante pp. 469-476.

19

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

A realização deste volume deve muito a muitas pessoas e institui-

ções. Em primeiro lugar, como ainda poderia repetir, infelizmente, as pala- vras centenárias com que Nobiling se queixava da pobreza das bibliotecas brasileiras, tive de recorrer a amigos que me ajudaram a obter alguns dos trabalhos publicados em revistas alemãs. Devo especial agradecimento a Maria Ana Ramos, que se desdobrou para localizar e enviar-me várias dessas có- pias; a Isabel Morán Cabanas e a Mercedes Brea, que me remeteram cópias obtidas da Biblioteca da Universidade de Santiago de Compostela e do Cen- tro de Investigacións Linguísticas e Literarias “Ramón Piñeiro”. Ao Instituto Martius-Staden, de São Paulo, em especial a Verônica Yamaguchi, devo as fotografias da Coletânea de Canções Brasileiras e do exemplar de trabalho das Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, com as anotações do punho de Nobiling, bem como fotografias e documentos do seu acervo. Ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, agradeço que permitis- sem fotografar o artigo “Uma página de história de literatura popular”, no Almanaque Garnier, e a Márcio Coelho Muniz e Paulo Roberto Sodré, que o fotografassem. A Lívia Cristina Coito, do Museu Nacional de Arqueologia, de Lisboa, devo o pronto envio das fotografias dos documentos referentes à correspondência de Nobiling com José Leite de Vasconcelos.

Para os dados biográficos, foram especialmente úteis as informa- ções que me remeteu da Alemanha Gerhard Nobiling, ao qual fui encami- nhada pela atenção de Rainer Nobiling, da Universidade de Heidelberg. A Cornelia Hoermann, da Biblioteca da Universidade de Bonn, agradeço ter conferido, por mim, o exemplar da tese de doutoramento ali depositado.

A digitalização dos textos publicados em português, tarefa que exi-

gia atenção meticulosa, bem como familiaridade com o assunto, foi realizada

graças à competência e ao cuidado de Paulo Roberto Sodré, que também se incumbiu da edição do manuscrito da Coletânea de Canções Brasileiras.

A Markus Lasch, que traduziu os trabalhos publicados em alemão,

o agradecimento por ter mantido um cordial diálogo comigo, na revisão dos

textos.

A Evanildo Bechara, que muito graciosamente aceitou redigir a

orelha para o livro; a Lênia Márcia de Medeiros Mongelli; Berta Waldman; Célia Marques Telles; Mariña Arbor Aldea; Isabel Carballo; e de modo espe- cial, a Maria do Amparo Tavares Maleval e Fernando Ozorio Rodrigues, diretores da Coleção “Estante Medieval”, que acolheram com entusiasmo a publicação do volume na coleção, contribuindo com valiosas sugestões e resolvendo as dificuldades de caráter prático que se foram apresentando – a todos agradeço terem colaborado para que esse livro se realizasse da melhor forma possível.

20

Apêndice

CADERNO FOTOGRÁFICO

21

1. Fotografia de Oskar Nobiling [Biblioteca do Instituto Martius-Staden].

1. Fotografia de Oskar Nobiling [Biblioteca do Instituto Martius-Staden].

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos 2. Página da publicação Die

2. Página da publicação Die brasilianischen Nobilings. Hundert Jahr-Feier der deutschen Familie Nobiling in Brasilien, por Leo A. Schoof e Sabine Schoof. [Enviada pelo Dr. Gerhard Nobiling]

24

Caderno Fotográfico

Caderno Fotográfico 3. Folha de rosto da tese de doutoramento de Oskar Nobiling, Die Lieder des

3. Folha de rosto da tese de doutoramento de Oskar Nobiling, Die Lieder des Trobadors D. Joan Garcia de Guilhade (13. Jahrhundert), defendida na Universidade de Bonn, aos 18 de julho de 1907. [Foto enviada pelo Dr. Gerhard Nobiling]

25

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos 4. Página do exemplar de

4. Página do exemplar de trabalho de O. Nobiling de As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, trovador do século XIII, com anotações do seu punho. [Biblioteca do Instituto Martius-Staden]

26

Caderno Fotográfico

Caderno Fotográfico 5. Página do manuscrito de Nobiling: Coletânea de canções brasileiras , com as suas

5. Página do manuscrito de Nobiling: Coletânea de canções brasileiras, com as suas anotações. [Biblioteca do Instituto Martius-Staden]

27

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos 6. Cartão postal com vista

6. Cartão postal com vista da Rua de S. Bento, São Paulo, datado de 20 de junho de 1910, enviado a José Leite de Vasconcelos. [Epistolário de José Leite de Vasconcelos, Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa]

28

Apêndice

APÊNDICE

Correspondência de Oskar Nobiling com José Leite de Vasconcelos

1 - Carta, s.d. [2 folhas, escritas frente e verso, faltando pedaços na parte superior] (16254) 1

Ex mo . Senhor,

Recebi, do secretario da Sociét[é In]ternationale de Dialectologie Romane 2 , um convite para exercer as funcções de rédacteur, relativamente ao dominio da lingua portugueza fóra da Europa: convite que acceitei. Acres- centa o Dr. Schädel que foi V. Ex a . quem propoz que se separasse esse dominio do de Portugal, confiando-o a um redactor especial; e julgo não errar, se presumo que tambem devo a V. Ex a ., ao menos em parte, o ter-se escolhido o meu nome para esta incumbencia honrosa. E, emquanto agradeço sincera- mente essa prova de sua consideração, muito valiosa para mim, permittir- me-á que recorra ao seu auxílio para desempenhar-me da tarefa // [difíc]il de organizar os estudos dialectologi[cos n]o campo vastissimo que me ficará con[fiado]. Tarefa, aliás, que me será tão grata – pois espero me ponha em contacto com collaboradores altamente estimaveis – quanto proveitosa – pois me é indispensavel o conhecimento dessa collaboração para os meus proprios estudos dialectologicos poderem dar o fruto que desejo. Mas V. Ex a . mal póde formar uma idéia da escassez dos recursos de que dispõe quem se dedica aqui a estes e outros estudos de glottologia portugueza. Os livros e revistas que se publicam sobre taes assumptos em Portugal ou outros paizes, só por rara felicidade é se alguma vez apparecem aqui no commercio. O que eu possuo é pouco: alem de sua Esquisse // d’une Dialectologie (1901), Map[pa d]ial[ectolo]gico (1897), Dialecto Mirandez

1 Indica-se a numeração que cada documento tem no Epistolário de José Leite de Vasconcelos. Cf. O Arqueólogo Português, Suplemento, no. 1, Lisboa, 1999, item 2419 – NOBILING, O.

2 Vêm em itálico as palavras que no manuscrito estão grifada.

29

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

(1882) e [Flores] Mirandezas (1884) e a Pronuncia normal [portu]guesa de Gonçálves Viana (1892) somente uma pequena Collecção de Vocabulos usado[s] no Rio Grande do Sul (1856), Kreolische Studien de Schuchardt (II-IX, 1883- 91), a Giria Portugueza por Alberto Bessa (1901) e os vols. VI a VIII da Revis- ta Lusitana (e ainda estes incompletos, graças ao meu livreiro de Lisboa, que me tem remettido bem irregularmente os fasciculos). Nestes volumes encontro

o Dialecto Indo-port. de Goa, por S. R. Dalgado, O Guineense por Marques de

Barros e Malaio e Português por Fokker e G. Viana. O que venho pedir à fineza de V. Ex a . é, pois, o seguinte: os titulos de todas as obras que, alem das citadas, se publicaram // [sobre dialectos] port., e os endereços dos dialecto[logos] de merito que estudam os fallares das pos[se]sões port. da Asia e Africa. Muito me penhorará, fornecendo-me quantas informações tiver à sua disposição; e mais grato ainda lhe ficaria, se pudesse fazer-me remetter, quer directamente quer por intermedio do secre- tario da Société, quaesquer obras que interessem o meu campo de estudos. Nenhuma desejaria mais possuir do que os proprios trabalhos de V. Ex a . e os estudos de Adolfo Coelho relativo aos dialectos crioulos.

Conte V. Ex a . com minha gratidão pelos preciosos auxilios que me queira prestar, e disponha dos serviços de seu admirador e att o . amigo O. Nobiling

A respeito da Rev. Lusitana peço-lhe uma informação. Não será

devido a um erro typogra// [continua na margem superior desta pág., a que

da Rev. Para as assignaturas

[

faltam pedaços] o preço de R$ 6000 fortes, [

]

]

deverá ser 600 [

]

No v. da folha, na margem superior das 2 págs. há também 3 linhas

] da de ouro do

Brasil [d]eve ser attribuido ]

escritas de um lado e 2 do outro, a que faltam pedaços: [

Brasil (= cêrca de [

]

àquelle preço marcad[

que o facto de ser qua-[

]

desejaria que muitos [

]

2 - Verso de bilhete postal. (o verso das 2 folhas de 16247-1 contém ano- tações de JLV, que não se transcrevem, dada a dificuldade da leitura) (16247

– 2 + A – B 3 )

3

16247 – 1 + A – B - Rosto de bilhete postal endereçado a José Leite de Vasconcelos, Biblioteca Nacional, Lisboa, datado de 6.1.1908 (saída do Brasil) e 23.I. 1908 (chegada a Lisboa). Acompa- nham duas páginas com anotações de J. Leite de Vasconcelos.

30

Apêndice

Ex mo . S r .,

São Paulo, 6. I. 1908 Avenida Br. Luiz Antonio, 12

Agradeço os dois bilhetes postaes que ultimamente recebi de V. Ex a . e a gentileza das referencias a minha pessoa e trabalhos. Agradeço igual- mente o folheto “Uma chronica de 1404”, que me enviou para a Allemanha. Sinto muito que não me sobre, para enviar-lh’o, nenhum exemplar das Vierzeilen, tendo, por descuido do editor, recebido pouquíssimas separatas, nem tampouco do estudo sobre um conto do Brasil, publicado no Almanaque Garnier de 1907. São estes, de facto, os unicos trabalhos meus scientíficos de alguma importancia que faltam na collecção de V. Ex a . Com muito gosto accederei ao seu convite de enviar uma contribuição para a Rev. Lus., se bem que não possa fazê-lo já, pois estou escrevendo mais uns artigos sobre o CA, que vão ser publicados no Archiv que foi de Herrig. Esperando ter, algum dia, o prazer de conhecer pessoalmente a V. Ex a ., sou

seu adm. or e am o ., O. Nobiling

3 - Verso de bilhete postal 4 (16248- 2)

Ex mo . S r .

S. Paulo, 3. VIII. 1908 Rua Taguá, 2

Agradeço penhorado os artigos que V. Ex a . teve a bondade de remetter-me, e sobretudo os Textos Archaicos, de que darei notícia crítica no “Estado de S. Paulo”, logo que os tiver lido com a devida attenção. As suas contribuições ao Jahresbericht me serão de muita utilidade.

4 16248 – 1 – Rosto de bilhete postal, endereçado a José Leite de Vasconcelos, Biblioteca Nacional, Lisboa. A data no carimbo lê-se 4 AGO [1908].

31

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

Por hoje limito-me a estas rápidas palavras, pedindo a V. Ex a . dis-

ponha de

4 – Carta (16249)

Ex mo . S r .,

seu admirador e att o . am o .

O. Nobiling

São Paulo, 1.XI.09 Rua Taguá, 2

Desejando eu muito acceder ao seu pedido de um artigo para a Revista Lusitana, venho perguntar se V. Ex a . acceitaria um estudo que estou escrevendo sobre a língua do Testamento de D. Affonso II (impresso no vol. VIII da R. Lus.). O artigo será de um pouco mais de 16 pag. impressas, e peço-lhe a fineza de me dizer tambem quando ele poderá sair ahi, pois estou também cogitando de mandá-lo para alguma revista da Allemanha.

O fim do trabalho é averiguar, quanto possível, o estado phonetico

e morphologico a que tinha chegado a lingua port. naquella época, compa-

rando-o com o idioma classico dos trovadores contemporaneos. Esperando a sua resposta, sou de V. Ex a . adm. or e am. o att. o

5 - Bilhete postal (16250)

Ex mo . S r .

O. Nobiling

S. Paulo, 14.XII.09 Rua Taguá 2

Agradeço a sua carta de 16 do mez pass., cujos assumptos me inte- ressam muito. Claro está que adiarei a publicação do meu art. até apparecer a

32

Apêndice

nova edição do texto, a qual resultando do cotejo com o ms., será natural- mente uma base mais solida para semelhante estudo. Então verei tambem se depois dos commentarios de V. Ex a . me ficará alguma coisa para dizer. Se assim for, pedirei a V. Ex a . que receba os meus additamentos na R. Lus. Poderá V. Ex a . enviar-me o seu Dialecto brasileiro? Será grande favor, pois só o conheço pela crítica de Ad. Coelho. Termino exprimindo-lhe os meus melhores desejos para o anno novo e subscrevendo-me de V. Ex a . adm. or e am. o att. o

6 – Bilhete postal (16251)

Ex mo . S r .,

O. Nobiling

S. Paulo, 1.II.10 Rua Taguá, 2

Agradeço a sua amável carta de 1. I, e com muito prazer receberei o Dial. brasil. que me promette, assim como qualquer outra obra sua que me queira enviar. Possuo a Esquisse d’une dialectologie, Gil Vicente e a lingua- gem pop. (1902), Uma chronica de 1404, O dial. mirandez (1882), Flores mirandezas (1884), Mappa dialectol. do continente port. (1897), e o que appareceu na Rev. Lus. do VI vol. em diante. Não publicará V. Ex a . breve algum artigo na Revue ou no Bulletin de Dialect. Rom.? É pena que o portuguez seja até agora tão pouco contem- plado nestes periodicos que me parecem merecedores de todo o apoio. Creia-me V. Ex a .

seu am. o att. o e adm or .

O. Nobiling

33

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

7 - Cartão postal com vista da Rua de S. Bento, São Paulo (16252)

20.VI.10

Ex mo . S r .

Agradeço muito a magnífica collecção de obras suas, e espero com impaciencia o estudo sobre a linguagem do Test. de Aff. II. – O meu endereço daqui em diante será: Rua Maranhão, 40. S. Paulo. Saudações do adm. or e am. o obr. o

8 - Bilhete postal (16253 5 )

Ex mo . S r . e Amigo,

O. Nobiling

S. Paulo, 29.X.10 Rua Maranhão, 40

Acabando eu agora a leitura e estudo das suas interessantíssimas “Contribuições para a dialectologia port.”, vi que o folheto intitulado “Sur le dialecte portugais de Macao” não é senão a introducção de um trabalho que V. Ex a . (se comprehendi bem) pretendia offerecer ao Congresso dos Orientalistas. Se este trabalho existe impresso, muito lhe agradeceria a sua remessa; senão, não poderia V. Ex a . dá-lo à Revue de Dialectologie para ser impresso quanto antes? Peço encarecidamente me envie o manuscripto, quer para publicação quer emprestado, compromettendo-me eu nesse caso a devolvê-lo em breve.

Seu adm or e am. o obr. o

O. Nobiling

5 16253 + A contém o rosto do bilhete postal e parte de uma cinta de papel que terá envolvido impressos, enviados por Nobiling a Leite de Vasconcelos.

34

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

BIBLIOGRAFIA DE OSKAR NOBILING

Sammlung brasilianischer Lieder (Manuskript). 32 Seiten, um 1895-97. Mit Umschrift (von Hellmuth Heinke) der stenographischen Bemerkungen.

Primeiro Livro de Alemão. São Paulo, 1901.

“Uma canção de D. Denis”. Revista Lusitana, 7 (1902) 65-67.

“Die Nasalvokale im Portugiesischen”. Die neueren Sprachen, 11: 3 (1903) 129- 153. [Tradução: “As vogais nasais em Português I”. Trad. de Dinah Maria Isensee Callou e Maria Helena Duarte Marques. Littera, Ano 4: 12 (1974) 80-109.

“Albanês e português”. Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, 21ª. Série, 7 (julho 1903) 297-303; 21ª. Série, 9 (setembro 1903) 325-335.

“Zur Interpretation des Dionysischen Liederbuchs”. Zeitschrift für romanische Philologie, 27 (1903) 186-192.

“Vierzeilen aus dem brasilianischen Staate S. Paulo”. Romanische Forschungen, 16 (1904) 137-150.

“Zu Text und Interpretation des “Cancioneiro da Ajuda”. Romanische Forschungen, 23 (1907) 339-385.

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do seculo XIII. Edição critica, com Notas e Introducção. These para o Doutorado da Universidade de Bonn (Fa- culdade de Philosophia), apresentada por Oskar Nobiling, Lente cathedratico do Gymnasio da Capital do Estado de S. Paulo (Brasil). Erlangen: K.B. Hof- und Univ.-Buchdruckerei von Junge & Sohn, 1907, 82 p. [Também em: Romanische Forschungen, 25 (1908) 641-719]

“Uma página de história da literatura popular”. Almanaque Brasileiro Garnier, Rio de Janeiro, 5 (1907) 232-236.

35

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

“Introducção ao estudo da mais antiga poesia portugueza”. Revista da Sociedade Scientifica de São Paulo, 2: 11-12 (1907) 153-158; 3: 1-2 (1908) 1-9.

“Carolina Michaëlis de Vasconcellos, Cancioneiro da Ajuda. Edição critica e commentada. Bd. I und II. Halle 1904. xxviii, 94 und 1001 S”. Archiv für das Studium der neueren Sprachen und Literaturen, 121 (1908) 197-208; “Conclusão”, 122 (1909) 193-206.

“Frazes Feitas”. O Estado de S. Paulo, 22 abril 1908. [Também em: Castro Lopes, Artigos Philologicos. Collectanea Postuma. Publicada por seu filho, Domingos de Castro Lopes. Rio de Janeiro: Typ. do Instituto Profissional, 1910, 467-482. – Análise crítica do livro de João Ribeiro, Frazes Feitas. Estudo conjectural de locuções, ditados e proverbios. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1908]

LENZ E BROSSEAU, Primeiro Livro de Inglês. Contendo livro de leitura, gramática e vocabulário. Adaptado ao ensino do Inglês nas escolas e ginásios do Brasil pelo Dr. O. Nobiling. São Paulo: Melhoramentos, 1908. [6ª ed., 1945]

“Berichtigungen und Zusätze zum portugiesischen Teil von Körtings Lateinisch- romanischem Wörterbuch. Archiv für das Studium der neueren Sprachen und Literaturen, 124 (1910) 332-345; 125 (1910) 154-157 e 393-397; 126 (1911) 424- 432; 127: 1-2 (1911) 181-188; 127: 3-4 (1911) 371-377.

“Bras.-port. deixe eu vêr”. Revue de Dialectologie Romane, Bruxelles, 2 (1910) 102-

103.

“Brasileirismos e crioulismos”. Revue de Dialectologie Romane, Bruxelles, 3 (1911) 189-192. [Rep. Revista Filológica, Rio de Janeiro, 7 (junho 1941) 63-67]

“Carolina Michaëlis de Vasconcellos, Estudos sobre o romanceiro peninsular: Ro- mances velhos em Portugal. Publicados en la Revista Cultura Española”. Madrid, 1907-1908. Archiv für das Studium der neueren Sprachen und Literaturen, 126 (1911)

261-269.

Textos Archaicos,

pelo Dr. J. Leite de Vasconcellos. – (2ª. ed., Lisboa, Livraria

Classica Editora, 1908). Revista Lusitana 15 (1912) 361-365. [Seguida da “Necro-

logia”, por Sílvio de Almeida, publicada n’O Estado de São Paulo, 30 setembro 1912, e da lista de publicações de O.N. organizada por J. Leite de Vasconcelos.]

36

Bibliografia de Oskar Nobiling

LÍRICA MEDIEVAL GALEGO-PORTUGUESA

37

AS CANTIGAS DE D. JOAN GARCIA DE GUILHADE, TROVADOR DO SÉCULO XIII *

PREFÁCIO

Estando hoje acessível aos estudiosos todo o cabedal da poesia dos antigos trovadores portugueses, quer – graças aos sábios italianos Monaci e Molteni – em primorosas edições diplomáticas, quer – é ao Can- cioneiro da Ajuda de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos que me refiro – numa edição crítica e comentada do mais alto valor científico, já será tem- po de reunirmos em edições completas as obras dos mais importantes den- tre os trovadores, a fim de se poderem estudar as feições comuns desse primeiro período da literatura portuguesa bem como as individuais que caracterizam os seus vultos mais eminentes. Pode-se afirmar desde já que, apesar do convencionalismo e uniformidade essencial que reinam na lín-

gua, no estilo e na poética dos trovadores, entre eles se destacam individu- alidades bem caracterizadas, e cujos traços distintivos transparecem tanto mais quanto as poesias têm mais o cunho nacional, afastando-se dos tipos e modelos provençais. Hoje nenhum conhecedor poderia atribuir, assim como

o fizeram Diez e F. A. de Varnhagen, a um único poeta as obras de mais de

trinta trovadores distintos, quais são os autores das cantigas contidas no

Cancioneiro da Ajuda.

Devemos à elevada competência de H. Lang a edição completa do mais fecundo dos trovadores, el-rei D. Denis. De todos os mais – postas

à margem as cantigas sacras de D. Afonso o Sábio – não há quem, pelo

número das suas composições até hoje conservadas, e que abrangem todos

* Edição crítica com notas e introdução. Erlangen: K. B. Hof-/Univ. Buchdruckerei von Junge & Sohn, 1907.

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

os gêneros mais notáveis, pela originalidade, por nenhum outro excedida, de sua índole poética, pelo interesse e variedade dos seus assuntos, mereça mais ser estudado que D. Joan Garcia de Guilhade, de cujas obras publico aqui a primeira edição completa. Quanto à sua biografia, veja-se o pouco que foi possível averiguar dela, no Cancioneiro da Ajuda de D. Carolina Michaëlis, v. II, p. 407 a 415, onde se encontra também uma apreciação e ligeiro comentário da sua obra literária. Baste relembrar aqui que Joan de Guilhade foi, segundo parece, um pequeno fidalgo originário da Galiza (onde há várias localidades Guilhade), o qual, em meados do século XIII, andou por terras de Portugal e Espanha, ostentando sua habilidade no exer- cício das armas e na arte de trovar.

A presente edição ainda não pode ser definitiva. Para isso seria indis-

pensável possuirmos, além da colação dos códices existentes em Roma, a edi- ção completa e literalmente exata dos documentos públicos escritos em língua portuguesa durante os séculos XIII e XIV. Só então é que se poderia escrever a história da ortografia do antigo português, da qual colheríamos preciosas infor- mações acerca de sua pronúncia. É apenas a título de ensaio que tentei resolver algumas das questões relativas a ambas e, baseado nestas soluções, uniformi-

zar certas grafias por demais vacilantes dos códices manuscritos.

O texto das cantigas vai acompanhado de um comentário duplo:

o crítico (assinalado com o número I) e o explicativo (designado com II). Estes bem como o texto que ofereço baseiam-se no estudo que fiz do con- teúdo inteiro dos três grandes Cancioneiros líricos da Biblioteca Vaticana, de Colocci-Brancuti e da Ajuda e, em segunda linha, no das Cantigas de S. Maria de D. Afonso o Sábio, que se distinguem dos outros Cancioneiros por particularidades notáveis no vocabulário, na gramática e na versificação. Não ocultei as minhas próprias dúvidas e hesitações. Já que não existe nem um dicionário nem uma gramática da língua dos trovadores, esse mais an- tigo idioma literário da Península, às vezes me vi obrigado a dar explica- ções lexicológicas ou gramaticais que se podem encontrar dispersas, quer no D. Denis de Lang, quer na pequena, mas substanciosa monografia que, para o Grundriss de Gröber, Cornu escreveu sobre a Língua Portuguesa, ou mesmo no livro de Diez sobre a Primeira Poesia palaciana de Portugal. Dispensei-me, aliás, de citar autoridades ou passos comprobativos, sempre que as provas das minhas asserções ocorrem facilmente a todos os conhe- cedores dos antigos Cancioneiros.

O Índice alfabético com que remata este volume não deixará de

prestar serviços, se bem que ele não possa substituir um glossário comple- to. Este, ao meu ver, será publicado com mais proveito no fim das edições de todo esse grupo de trovadores cujas poesias contêm testemunhos de

40

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

relações diretas ou indiretas com Guilhade: grupo interessantíssimo, ao qual se liga também o monarca castelhano, predecessor e modelo, na pro- teção outorgada às Musas, de seu neto, el-rei D. Denis. Não pude, na terra em que empreendi o presente trabalho, utili- zar-me de todos os subsídios científicos que me ofereceriam as bibliotecas da Alemanha ou da França. Entre as obras que sinto não ter consultado, ocupam um lugar insigne os estudos que o Dr. F. Hanssen, lente do Institu- to Pedagógico de Santiago do Chile, publicou relativamente à história da métrica hispano-portuguesa.

S. Paulo (Brasil), Março de 1907.

LISTA DAS PRINCIPAIS OBRAS CONSULTADAS COM AS ABREVIATURAS USADAS

A

Cancioneiro da Ajuda. Edição crítica e comentada por Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Halle a. S. 1904. v. I (citam-se as cantigas).

A II

A mesma obra. V. II (citam-se as páginas).

B

Il canzoniere portoghese Colocci-Brancuti pubblicato nelle parti che completano il codice Vaticano 4803 da Enrico Molteni. Halle a. S. 1880 (a numeração das canti- gas é a do editor).

Bluteau

Vocabulario portuguez e latino

pelo padre D. Raphael

Bluteau. Coimbra e Lisboa, 1712-1728.

Canc. Gall.

Cancioneiro gallego-castelhano… collected and edited by Henry R. Lang. I. New York, 1902.

Cancioneiro português da Vaticana. Edição crítica restituída por Teófilo Braga. Lisboa, 1878.

41

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

CD

Das Liederbuch des Königs Denis von Portugal. Herausgegeben von Henry R. Lang. Halle a. S., 1894.

CM

Cantigas de Santa Maria de Don Alfonso el Sabio. Las publica la Real Academia Española. Madrid, 1889 (ci- tam-se as cantigas e, da p. 565 em diante, as páginas).

Coelho

Diccionario etymologico da língua portugueza. Lisboa:

P. Plantier-editor.

Cortesão

Subsídios para um diccionário completo da língua portuguêsa, por A. A. Cortesão. Coimbra, 1900-1901.

Diez

Etymologisches Wörterbuch der romanischen Sprachen. 4. Ausg. Bonn, 1878.

Diez

Grammatik der romanischen Sprachen. 5. Aufl. Bonn, 1882.

Elucid. ou Elucidario Elucidario das palavras, termos, e frases, que em

por Fr. Joaquim de

Portugal antiguamente se usárão

Santa Rosa de Viterbo. Lisboa, 1798-1799.

Gonçalves Viana Apostilas aos dicionários portugueses. t. I (A-H). Lis- boa, 1906.

Grundriss

Grundriss der romanischen Philologie

herausgegeben

von Gustav Gröber. Strassburg, 1888-1901.

Körting

Lateinisch-romanisches Wörterbuch. Paderborn, 1891.

KuHp

Über die erste portugiesische Kunst- und Hofpoesie von Friedrich Diez. Bonn, 1863.

Lanchetas

Gramática y vocabulario de las obras de Gonzalo de Berceo. Madrid, 1900.

Meyer-Lübke

Grammatik der romanischen Sprachen. Leipzig, 1890-

1894.

42

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

Nobiling

“Die Nasalvokale im Portugiesischen”, em Die Neueren Sprachen, v. XI, f. 3, junho 1903.

Nobiling

“Zu Text und Interpretation des Cancioneiro da Ajuda”, em Romanische Forschungen, Erlangen, v. XXIII, 1906.

Randglossen Randglossen zum altportugiesischen Liederbuch. Von Carolina Michaëlis de Vasconcelos, em ZfRPh, passim, do v. XX, f. 2 (= Randglosse I; neste artigo citam-se as páginas da separata) ao v. XXX (1896-1906).

V

Il canzoniere portoghese della Biblioteca Vaticana messo a stampa da Ernesto Monaci. Halle a. S., 1875 (a nume- ração das cantigas é a do editor).

ZfRPh

Zeitschrift für romanische Philologie, herausgegeben von Dr. Gustav Gröber. v. XX a XXX (1896-1906).

43

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

INTRODUÇÃO

A. OS TEXTOS

A maior parte das cantigas de D. Joan Garcia do Guilhade nos

são conservadas tanto pelo códice da Vaticana como pelo Cancioneiro

Colocci-Brancuti: são as que nesta edição têm os n. 1 a 8, 14 a 42, 46, 47,

49 a 53, e os primeiros versos de 48. Uma delas, o n. 2, existe até em duas

versões, bastante divergentes, no Cancioneiro da Vaticana. A sua última parte, assim como os n. 3 a 8 se encontram, além disso, no Cancioneiro da Ajuda; e é este o único que conserva os nossos n. 9 a 13. O resto, isto é, as cantigas que aqui vão sob os n. 43 a 45 e a maior parte de 48, só se conservaram no Cancioneiro Colocci-Brancuti. Uma, finalmente, que o Cancioneiro da Vaticana atribui a Estevan Fayan, é, segundo C. Michaëlis 1 , atribuída a Guilhade pelo Cancioneiro Colocci-Brancuti; e, visto se tratar duma cantiga que não traz nenhum cunho individual, confesso que não sei decidir a questão, pelo que a coloquei no Apêndice, sob o n. 54.

Já existem em edições críticas – sem contar as hoje antiquadas 2

as seguintes dentre as cantigas de Joan de Guilhade: os nossos n. 2 a 13 no

A 228 a 239, os n. 1, 14 e 54 no Apêndice dessa edição (A 454 a 456), os n.

37 e 38 no II volume da mesma obra (“Investigações bibliográficas,

1 A II, p. 408, nota 1. O Canc. da Aj. não contém esta cantiga. O Índice de Colocci aponta, no lugar correspondente, 11 cantigas de Guilhade (417-27), às quais corresponderiam V 28 a 38, ficando assim excluído o n. 39, que é o da cantiga controversa; porém este argumento não é decisivo, pois a numeração do V aí é errada, e, se descontarmos os n. 38, que é repetição do 29, e 32, que continua o 31, não obtemos mais de 10 cantigas com o número 39, e 9 sem ele.

2 Entre elas o Cancioneiro portuguez da Vaticana. Edição crítica restituída por Teófilo Braga, da qual todos os estudiosos da antiga língua e literatura ainda hoje têm de recorrer à edição de Monaci. É que faltavam a T. Braga, quando empreendeu essa obra, os conhecimentos indispen- sáveis do idioma e da arte métrica dos trovadores. Quem se quiser convencer da verdade desta asserção – aliás reconhecida pelos competentes – compare, por exemplo, o texto que ele dá dos n. 25 ou 34 da presente edição.

44

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

biográficas e histórico-literárias”, p. 645-47), finalmente os n. 43, 45 e 46 nas Randglossen, ZfRPh, v. XX, 2, p. 12, e v. XXV, p. 166 e 147 (à p. 145 do mesmo vol. já se acha impresso, pela primeira vez, o nosso n. 14 ). A editora de todas estas cantigas, D. Carolina Michaëlis, que além disso imprimiu bastantes passos soltos de outras – sobretudo no A II, p. 411 a 414 –, é justamente considerada como primeira autoridade nessa matéria:

claro é que tirei grande proveito das suas publicações, e espero que não me censurem de temerário, se cá e lá discordei de sua opinião. Não se me tendo oferecido a oportunidade de ver os códices, não pude tomar por base de meu texto senão o que vai impresso nas edições de Monaci (V), Molteni (B) e C. Michaëlis (A); assinalei cuidadosamente as variantes dos manuscritos que se depreendem delas – excetuando meras divergências gráficas, de que darei conta às pp. 49 a 53 – e aquelas emendas dos editores que me mereceram reparo. Monaci, nas notas de sua edição diplomática, já emendou vários dos erros numerosos que cometeram os copistas italianos, ignorantes do idioma português: designei estas emendas pela abreviatura “Mon” e por “Mich” as lições que C. Michaëlis introduziu no texto, distinguindo por algarismos (“Mich 1 ”, “Mich 2 ”) as divergências das duas edições que ela deu da cantiga 14. A primeira secção dos nossos textos abrange as cantigas (ou cantares) d’amor. Assim chamavam os trovadores àquelas poesias em que

o poeta falava em seu próprio nome, exprimindo os sentimentos que lhe

inspirava a mulher amada, a senhor; compreendiam, porém, sob a mesma denominação também os diálogos amorosos quando (como no n. 4) era o poeta quem falava em primeiro lugar 3 . São quase sempre sentimentos de mágoa, queixas e modestas súplicas que se manifestam nas cantigas d’amor;

o nosso poeta, todavia, sai às vezes do estilo tradicional pelo tom de alegria ou confiança em que fala (n. 1 e 8). O código de cortesia, importado do sul da França, vedava revelar quem era o objeto desses lamentos e suspiros; mas Guilhade infringe as leis convencionais, cometendo indiscrições que não têm desculpa a não ser a loucura da paixão (n. 3 e 12). E há uma entre as suas cantigas d’amor que é literalmente sem igual: é a 14ª, que principia como uma verdadeira cantiga de maldizer, assumindo um tom mais terno a partir do verso 11. Quanto aos personagens aí mencionados veja-se o que

*

*

3

Cf. Vieira, Y. F. et al., Glosas Marginais ao Cancioneiro Medieval Português de Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Coimbra, Santiago de Compostela, Campinas, 2004, p. 42, 155, 129. (NE).

Ibid., p. 126. (NE)

Veja-se o tratado fragmentário de poética conservado no começo do Canc. Col.-Branc. (B, p. 3, 1. 2-12): o trecho está transcrito no CD, p. xiii.

45

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

foi averiguado por C. Michaëlis, na ZfRPh, v. XX, 2, p. 52 . Também é nos seus doutos comentários (A, p. 447 e 923) que o leitor verá que o nosso n.

3 foi traduzido em versos alemães por Diez, KuHp, p. 90, e por Storck; que

o estribilho do n. 2 é repetido (ainda que alterado) na cantiga B 361, cujo autor é el-rei D. Afonso de Castela e de Leão; e que há afinidade entre o n.

7 e a cantiga B 403, de Gil Perez Conde. Transparecem aí relações de

amizade e dependência cujo estudo mais detido fica reservado para o futuro. Agreguei a esta seção o n. 15, que no Canc. da Vaticana está, por engano, entre as cantigas d’amigo: desse modo, o número de cantares d’amor que possuímos de Guilhade se eleva a 15, ou, se contarmos o n. 54, de autor incerto, a 16. Quando se tratava de cantar um amor correspondido, os trovadores costumavam recorrer a outro gênero de poesias: são as cantigas d’amigo, assim chamadas, naturalmente, porque na primeira estrofe se encontra sempre a palavra amigo (isto é, namorado). Nestas cantigas, quem fala é a dama; ou antes, é o trovador que assume o papel dela 4 , falando em seu nome. Apressava-se ele a torná-las públicas, cantando-as ou fazendo-as cantar nos paços e cortes; e facilmente compreendemos a satisfação que muitas vezes a dama devia colher de ouvir tais cantigas, sabendo só ela (o segredo de) quem as inspirava . Somos informados sobre o modo pelo qual nasciam e se divulgavam essas cantigas por dois exemplos do gênero, que, por causa de sua importância, vêm publicados no Apêndice, sob os n. 55 e 56. Nos cantares d’amigo, tampouco como nos de amor, não aparece o nome da dama; alguns poetas, porém, e entre eles Guilhade, gostam de inserir neles seu próprio nome (n. 16, 19, 21, 26, 30, 34, 36). Possuímos 21 cantigas d’amigo de Joan de Guilhade. A este gênero pertencem também os diálogos entre amantes, sempre que é a dama quem primeiro toma a palavra 5 , e os diálogos entre esta e a mãe ou amigas, de que temos um exemplo no n. 34. É nas cantigas d’amigo que Guilhade revela toda a sua originalidade: ostenta uma vaidade ingênua (n. 20, 21, 27) e logo

*

4

*

*

5

Cf. Vieira, Y. F. et al., Glosas Marginais

Parece ser este o primeiro sentido da locução enfingir-se d’ela, que se lê, v. g., V 616, 3 e 9; 778, 2; 882, 2: geralmente ela pode traduzir-se por “gabar-se de provas de amor” e não implica de modo algum a idéia de presunção mentirosa, como se verifica no nosso n. 55 e no V 1125.

O trecho “Apressava-se ele

inspirava” foi acrescentado por Nobiling na margem superior do

seu exemplar de trabalho, que se encontra hoje na Biblioteca do Instituto Martius-Staden. Daqui para a frente indicaremos tais anotações por “An. Nob.” (NE)

An. Nob.: “o modo

Cf. mais acima, nota 3.

op. cit., p. 115. (NE)

essas” substitui a seqüência riscada: “a origem de tais”. (NE)

46

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

depois trata sua própria pessoa e seu amor com fina ironia ou franco desprezo

(n. 25, 26, 29, 30, 32, 34, 36); dá vida e individualidade às donzelas que

falam nas suas cantigas, emprestando-lhes ora uma melancolia humilde, ou altiva e desdenhosa (n. 22, 23, 17), ora um otimismo encantador (n. 18), ora uma ternura meiga (n. 16, 23), ora um espírito folgazão (n. 25, 29), uma

virtude esquiva ou ingênua (n. 19, 21, 31). Na cantiga 35ª, assim como eu

a entendo, a bela que diz de si mesma que parece ben e ama prez e parecer, zomba das outras, que perderam seus servidores desde que os trovadores van pera mal, enquanto que ela confiadamente espera seu tempo, certa de que virá aquele que fará valer o amor. Nas 2 tenções que possuímos de Guilhade, é ele próprio o agressor,

e o agredido o jogral Lourenço, que, conforme se conclui da segunda delas

(n. 38), estava ao seu serviço, cantando e acompanhando as suas cantigas e

recebendo, a troco disso, o sustento. Impossível é dizer hoje se eram justificadas as queixas que aí trocam o amo e o criado. A censura que Guilhade dirige ao jogral (v. 750) por fazer mal sua parte da tenção, refere- se, como observa C. Michaëlis 6 , à infração da regra que prescrevia a correspondência das rimas (vid. mais adiante, pp. 56-61.) Cantigas d’ escarnho são, segundo se exprime o antigo tratado de poética 7 , aquelas que os trobadores fazen querendo dizer mal a alguen en elas, e dizen-lh’o per palavras cubertas, que ajan dous entendimentos, pera lhe-lo non entenderen ligeyramente; as cantigas de maldizer, pelo contrário, são aquelas que fazen os trobadores [dizendo mal] descubertamente en elas en craras palavras a quen queren dizer mal, e non aver[án] outro entendimento se non aquel que queren dizer chãamente. Convém observar, entretanto, que a distinção entre estes dois gêneros de composições satíricas muitas vezes é bem difícil de fazer, pelo que preferi não me afastar da ordem em que as cantigas aqui impressas se sucedem nos códices, a não ser para reunir em grupos as cantigas que dizem respeito aos mesmos personagens ou à mesma classe de personagens. Assim comecei pelas sátiras dirigidas contra jograis, entre os quais o Lourenço das tenções ocupa o primeiro lugar; seguem-se as cantigas que escarnecem duns fidalgos; e remata o cancioneiro de Joan de Guilhade com as invectivas contra o belo sexo que formam o mais vivo contraste com as galanterias dos cantares d’amor. Da grosseira indecência e imoralidade de que fazem alardo as cantigas de escárnio e maldizer da época não faltam exemplos nas de

6 A II, p. 646, nota 2.

7 B, p. 3, 1. 14-19 e 33-36.

47

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

Guilhade. Tais são os n. 41 e 42, que se dirigem ao jogral Martinho e sua mulher, os n. 47 e 48 8 , que presumo referirem-se igualmente a idênticos personagens, os n. 51, 52 e 53. O cavalo de que fala a cantiga 49ª também tem, sem dúvida, sentido obsceno; de outra parte, o vocábulo obsceno da cantiga 52ª não significa aí, ao meu ver, senão “roubar” . O n. 43 pertence a um grupo de cantigas de diversos autores, do qual D. Carolina Michaëlis tratou num artigo importante, “Der Ammenstreit” 9 . Ela descobriu os laços que unem todos esses documentos interessantes, e indicou as lacunas que existem nesta série de poesias conexas. Poucas palavras bastarão aqui para elucidar a nossa cantiga. Embora o autor dirija a palavra ao jogral Lourenço, já acima mencionado, seu verdadeiro adversário é D. Joan Soarez Cõelho, o protagonista de todo esse grupo de escaramuças poéticas. Este fidalgo 10 tinha censurado as tenções de Guilhade e exaltado a arte do jogral acima da dele (v. 854-56) 11 . Guilhade, en bon tacticien, defende-se tomando a ofensiva, e zomba do rico-homem por ter prestado homenagem a uma “ama” e entretido relações com tecedeiras. Possuímos duas cantigas d’amor de Joan Soarez (A 166 e 171; art. cit., p. 4 e 8), nas quais este professa ser vassalo de uma mulher a quem “ouve chamar ama por aí” 12 , e uma tenção (V 786; art. cit., p. 9) em que o mesmo fidalgo declara que viu damas nobres tecer cintas e criar (o que pode significar “amamentar”) formosas meninas. E há outras cantigas (B 384 e V 1092; art. cit., p. 6 e 11) em que vários autores ridicularizam o trovador por ter cantado amas e tecedeiras. É, pois, a este coro que o nosso poeta une sua voz na cantiga 43ª. As cantigas que escarnecem de fidalgos escassos (n. 44 a 46) explicam-se por si sós. A última delas se refere a um decreto real que regulava a despesa feita pelos ricos-homens na mesa e vestuário: decreto hoje perdido, mas que C. Michaëlis 13 julga ter sido promulgado em 1258, pelo rei de Portugal. Naturalmente esta lei suntuária determinava o máximo das

8 C. Michaëlis engana-se (A II, p. 410), quando julga descobrir nesta cantiga “confissões de Guilhade sobre o mau-preço da própria mulher”.

* [

]

V 1036, 20. An. Nob. (NE)

9 Randglosse, I, na ZfRPh, XX, 2. (Cf. Vieira, Y. F. et al., Glosas Marginais

(NE)

op. cit., pp. 28-108).

10 Encontra-se sua biografia no A II, p. 364-82.

11 Só se Guilhade de propósito inverteu a verdade, as suas palavras se podem referir à tenção (V 1022) em que Joan Soarez acomete a Lourenço, afirmando que suas tenções são tão imperfei- tas que o verdadeiro autor não pode ser outro que Joan de Guilhade. Cf. o art. cit., p. 14-15. – Ignoro se a censura de Joan Soarez alude a um dos nossos n. 37 e 38 ou a outra tenção trocada entre Guilhade e seu jogral e hoje perdida.

12 Atal vej’ eu aquí “ama” chamada.

48

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

despesas lícitas; mas o poeta interpreta-a como se ela prescrevesse um mínimo 14 .

B. GRAFIA E PRONÚNCIA

A ortografia dos Cancioneiros, que pela relativa uniformidade se distingue bastante da anarquia gráfica dos documentos públicos daquela época, segue princípios fonéticos, se bem que em certas palavras se faça notar a influência da forma latina. Tais grafias não-fonéticas são, ao meu ver, bona, que se encontra freqüentes vezes ao lado de bo a, boa , e boa, bem como et e a sigla 7, como escrevem de preferência certas cantigas e grupos de cantigas (v. g. V 455-58, 467 e 468, 470-72, 556, 593, 707 e 708 etc.), enquanto que as mais só empregam a forma e 15 . Raro é o emprego de consoantes duplas que não sirvam, como servem rr e ss, para denotar a pronúncia. A que mais freqüentemente se encontra geminada é ff, quer por sua semelhança com o , quer por motivos da pronúncia latina vigente nos primeiros séculos da Idade Média 16 . Assim se lê, v. g., soffr’ e soffri (A 239, 8 = v. 262), enffengia (V 354, 5 = v. 494). Nestes casos e em outros, tratei apenas de regularizar as grafias dos códices, tornar fácil a leitura e evitar ambigüidades. Não empreguei geminações fora de rr e ss; eliminei as raras letras mudas, como o h de ha e he (que escrevo á 17 e é), ou um e de seerá (v. 329) quando a medida do verso exige a pronúncia será; adotei o lh e nh dos códices italianos, em vez do ll 18 e nn do Canc. da Ajuda e das Cantigas de S. Maria, e igualmente as grafias mh, bh, vh (antigamente uh), pelas quais aqueles códices substitu- em com vantagem as grafias mi, bi, ui [= vi ] dos outros, sempre que o i não forma sílaba. Assim distingo o monossílabo mha (pronuncie-se miá) do dissílabo mia (ambos < lat. mea) e escrevo Segobha (v. 246; pronuncie-se Segôbia). Resolvi as abreviaturas e siglas, e separei as palavras, guiando-

13 A II, p. 414-15, e Randglosse III. (Cf. Glosas Marginais

14 C. Michaëlis é de opinião um tanto diferente: cf. A II, p. 665.

15 Se a consoante final do lat. et estivesse, ainda que esporadicamente, conservada na pronúncia do português antigo, a grafia et (7) se encontraria sobretudo antes de palavras que começam por vogal; mas de semelhante praxe não há vestígio.

16 A ortografia anglo-saxônica conserva um estado evolutivo do latim, em que o f simples entre vogais tinha o som de v (cf. o port. proveito < profectum).

17 Não há ambigüidade nisso, pois a contração à de a a ainda não era usada.

18 A respeito da grafia nullo, que pode ser latina ou castelhana, veja-se a nota ao v. 106.

* [= vi] – An. Nob. (NE).

op. cit., pp. 133-156. NE)

49

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

me geralmente pelo uso moderno e empregando largamente o apóstrofo e o traço de união. Escrevi, v. g., pe-lo (= per lo), po-lo (= por lo), de-lo (= des lo), mh-amor (dissílabo, = mi amor). Pelo contrário, fui parco no emprego de acentos, exceto quando se tratava de distinguir vocábulos de pronúncia diferente, como de e (v. 325) 19 , ou notar a acentuação dos vocábulos agudos acabados por vogal ou s 20 . A fim de ser coerente, e porque não são raras na língua antiga as palavras terminadas por i átono (como dixi, ouvi

< habui), acentuei o i, como as mais vogais, em vocábulos agudos (v. g.

aquí, < audivi). Nos vocábulos terminados por n (vid. mais abaixo) jul-

guei dispensável o emprego do acento, a não ser para indicar pronúncia diversa de palavras parecidas, como o futuro (v. g. preguntarán) e o plus- quamperfeito (preguntáran). Como não emprego os acentos para marcar a pronúncia aberta ou fechada do e e o (exceto para distinguir homógrafos), cumpre-me dizer aqui algumas palavras sobre duas diferenças importantes que, como o demonstram as rimas dos Cancioneiros, distinguem a pronúncia antiga da moderna.

1°. Os comparativos mayor, menor (ou me or), melhor, peyor (ou

peor), bem como arredor e derredor rimam sempre com a terminação -ôr,

e nunca com o vocábulo cór (= coração): segue-se daí que o o daquelas

palavras era fechado, o que condiz perfeitamente com o ô latino e o o castelhano das palavras correspondentes. 2°. Conquanto ao ditongo éu do português moderno correspon- desse na língua antiga o dissílabo é-o (v. g. céu < cé-o), o ditongo éu existia em eu, meu(s), teu(s), seu(s), na 3ª sing. perf. deu, em Deus, judeu(s) e outros substantivos e adjetivos cujo e corresponde a um e ou ae latino, bem como em alguns vocábulos tirados do provençal, v. g. greu (= pesado, pe- noso) e ben-lheu ou ben-leu (= talvez). Estas palavras não rimam nunca com a desinência -eu da 3ª sing. perf. dos verbos em -er (desinência que corresponde à latina -e vit). Pronunciava-se, portanto, com ê esta última desinência, assim como o vocábulo sandeu 21 , que só rima com ela. Quanto

19 Onde não há certeza de ser diferente a pronúncia, não quis diferenciar a forma escrita. Por isso não distingui (como o faz C. Michaëlis) en (< inde) e en (< in).

20 Palavras que, em virtude de seu emprego sintático, têm pouco ou nenhum acento tônico, são pero (cf. v. 51) e pera (= para). Quanto a atá, veja-se a nota ao v. 536.

21 Nenhum dos que se ocuparam até hoje da etimologia problemática deste vocábulo atendeu à qualidade de seu e, que o afasta tanto de Deus como dos adjetivos meu e judeu, apesar do fem. sandia, análogo a mia e judia.

50

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

ao ditongo ey, as rimas não estabelecem distinções, quer seu e provenha de um e , e ou a latino: pois rima rey (< re gem) com sey (< sapio), e dereyto (franc. droit) com leyto (franc. lit) e feyto (franc. fait). O ditongo ou, final- mente, parece que tinha o o ainda aberto: veja-se a nota ao v. 1085. Um sinal que introduzi no texto, seguindo o exemplo das edições de obras poéticas em antigo alemão, é o ponto colocado debaixo daquelas vogais finais ou iniciais que, ao encontrarem-se com outras, não contam na medida do verso. Na maioria dos casos, os códices suprimem tais vogais, o que indiquei pelo apóstrofo; como, todavia, o não contar uma vogal no verso não implique necessariamente sua elisão na pronúncia (podendo também dar-se a crase ou fusão numa só sílaba das duas vogais que se encontram), recorri ao expediente mencionado para distinguir esses casos de elisão ou sinalefa dos não menos freqüentes de hiato. Quanto ao valor e emprego das letras, tenho de observar mais o seguinte. Distingui o v do u, e o j do i. O g, antes de e e i, tinha seguramente

o mesmo valor que o j, e achamos escrito, nos códices, trager ou traier, oie ou oge: grafias que eu tratei de regularizar, bem como o emprego do c, ç e z. Já está esboçado nos códices, porém não se tinha ainda bem fixado o uso moderno de escrever sempre z no fim da palavra, ao passo que no princípio

e meio dela z designa o som sonoro, c ou ç o som surdo: lemos, se bem que

excepcionalmente, lanzar (v. 515), crexe (v. 534), zafou (v. 589), donçela (v. 606) etc. Nestas e outras palavras semelhantes generalizei as grafias mais comuns dos códices, e nos casos duvidosos guiei-me pela pronúncia moderna, dando conta, na lista das variantes, de todas estas alterações da grafia manuscrita (exceto em casos como vencedes por vençedes, v. 514) 22 . Não ocorre ainda a confusão de z ou c com s (ss). – O y se usava com o valor de um i, e de preferência depois de uma das letras a, e, o, u, como em mayor, ey, oya, guysa. Restringindo ainda mais seu uso, aproveitei-me da letra para estabelecer uma distinção fonética: empreguei sempre y para designar o i que, depois de vogal, não faz sílaba. Escrevi, pois, mayor, ey, porém oia e guisa. Deste modo, torna-se dispensável o uso do trema em palavras como oia, oir e oirey; e se, ao mesmo tempo, a ortografia do português antigo se aproxima da castelhana, não há nisso, por certo, desvantagem. – Em lugar da desinência átona os escrevia-se às vezes us, e

22 Subsistem algumas dúvidas relativamente a arriçar (v. 979) e ao fazo, fazades dos códices (v. 499 e 1100), que talvez traduzam a pronúncia, influenciada por fazes e fazedes. (An. Nob.: v. 979, por 1019; e 1140 por 1100. NE)

51

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

muito a miúdo a sigla 9 23 : eu generalizei a grafia os em todas as palavras assim terminadas, incluindo os pronomes átonos vos e nos 24 . A nasalidade das vogais indica-se nos Cancioneiros pelo til sobreposto, ou um m ou n colocados depois da vogal. Não há distinção entre estas notações, exceto quando a vogal nasal é seguida por outra vogal, sendo então de regra o uso do til, o qual, porém, muitas vezes não está no lugar próprio, ou se omite inteiramente (cf. as grafias já citadas bo a, boa , e boa). Nesse caso, não se emprega nunca m, e é raro n; porém depois de i se encontra freqüentemente escrito nh, v. g. no sufixo -inho, ao lado de -i o, em minha, ou mi a (cf. v. 221). Igual emprego do nh ocorre em unha, que se lê ao lado de u a e ua . Não é possível que todas estas vacilações traduzam pronúncias diversas correntes no tempo dos trovadores; uniformizei, por isso, a notação das vogais nasais, escolhendo, entre as grafias dos códices, aquelas que, sem destoarem dos hábitos ortográficos modernos, parecem melhor responder à pronúncia antiga 25 , e notando, na lista das variantes, a lição do códice, sempre que me afastei dela. No meio da palavra, antes de vogal, usei sempre do til, quando a etimologia prova que existiu outrora vogal nasal. Esta praxe apóia-se nas rimas dos Cancioneiros 26 , pois nunca rimam as terminações dissílabas * -ãa(s), -ães, -ão(s), -e a, -e es, -e o, -i as, - i o(s), -õa(s), -ões, -õo com -aa(s), -aes, -ao(s), -ea, -ees, -eo, -ias, -io(s), -oa(s), -oes, -oo; e as raríssimas rimas de -e as com -eas (CM 357, 4; 385, 8), de -e en com -een (CM 340, 10), de -i a com -ia (V 751; CM 221), de -u)a com -ua (v. 1076 ), de -u)u com -uu (V 1000; 1150; 1151) não destoam das outras rimas imperfeitas que cá e lá ocorrem nas Cantigas de S. Maria

23 Casos excepcionais são os seguintes: V 1100, 5 (= v. 1073) p9 = pós (< posuit); 1083, 14 p9 = pos (< post); 941, 12 ap9; 963, 9 e 1083, 2 dep9) (1083, 4 de pus; 1083,13 en pus).

24 Sobre a distinção gráfica entre estes e vós e nós, entre mi, ti, si e , , veja-se meu artigo “Zu Text und Interpretation des Canc. da Ajuda”, em Romanische Forschungen, v. XXIII, p. 342-44. (Vid. o artigo aqui publicado, “Acerca do texto e da interpretação do Cancioneiro da Ajuda”, pp. 176-178. NE)

25 Minha opinião sobre a evolução histórica das vogais nasais acha-se exposta e largamente funda- mentada no artigo “Die Nasalvokale im Portugiesischen”, em Die Neueren Sprachen, XI, 3, pp. 129-153. (Vid. aqui: “As vogais nasais em português”, pp. 265-288. NE)

26 Cf. também “Zu Text und Interpret. des Canc. da Aj.”, pp. 341-342. (Vid. aqui “Acerca do texto

e da interpretação

”,

op. cit., pp. 175-176. NE)

* Muitas destas terminações são hoje monossílabas; a medição dos versos, porém, demonstra que não o eram naquele tempo esses grupos de vogais, que vieram a ser contíguas em português, mas em latim estavam separadas por uma consoante, n, l ou outra. Todavia, nos tempos mais antigos da língua portuguesa já eram monossílabos vou < va(d)o, vays < va(d)is, vay < va(d)it, os perf. vi (< vidi) etc., dey < (dedi) etc. e os grupos de vogais já contíguas em latim, como em meu, fuy (An. Nob.). (NE)

* An. Nob., em vez de 1111. (NE)

52

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

e em cantares de escárnio e maldizer 27 . Posso amparar-me igualmente com as rimas dos Cancioneiros, se, divergindo das grafias manuscritas, porém de acordo com a etimologia, imprimo vi ide (= vinde, v. 620) e mãefestar (v. 952): pois te edes (= tendes) rima com a desinência -êdes (V 1068, 6; 1175, 17; B 131, 16; 401, 27; 423, 1), e bõaça (= bonança) com palavras em -aça (V 1004, 5), embora os copistas escrevam teendes e boança. – No interior da palavra, antes de consoante, empreguei m ou n, de conformidade com o uso moderno; mas no fim da palavra usei sempre do n, para evitar a grafia am, que, quando é final, hoje se pronuncia como ão. Antes de um traço de união, faço uso do til, v. g. em nõ-no (= não o); se)-na (= sem a, v. 290), e -no (= no, v. 149). As grafias mais comuns dos códices são nono, sena etc.; mas encontram-se a miúdo outras, v. g. quen no, nonno, cõ no, razoãno, se no (V 316, 4; 1038, 4; 1133, 2; 1038, 20; 856, 2). Quanto à nasalidade da vogal que precede o n em todos estes exemplos e outros semelhantes, ela está fora de dúvida: sirva de prova V 253, 6-7, onde ben rima com que -, ao qual se segue no no verso seguinte; e se V 922 te -no rima com pequeno, é que também no interior da palavra era nasal a vogal que precedia uma consoante nasal, provam-no grafias tais como Joha ne, da)no, te)nho, do)na (V 917, 3; 919, 10; 925, 19; 1071, 4).

C. METRIFICAÇÃO

Não são poucos os problemas que a história da arte métrica hispano- portuguesa nos dá para resolver, sobretudo no que concerne às origens da poesia peninsular. O seu primeiro período, que é a época dos trovadores, está visivelmente sob a ação de influências que se combatem: a da métrica provençal, que tanto se faz sentir no fragmentário tratado de poética conservado no Canc. Colocci-Brancuti, e a duma arte lírica popular da Península, cujos documentos mais preciosos são os cantos paralelísticos 28 com suas rimas de preferência graves. Hoje ainda é impossível discriminar exatamente os efeitos dessas influências diversas: o trabalho a fazer parece- me ser por enquanto puramente estatístico. O axioma de que parto é a perfeita regularidade da versificação nas obras dos trovadores. O rigor na contagem das sílabas; os mil artifícios

27 As assonâncias das cantigas paralelísticas não distinguem entre as vogais nasais e as outras. Ao meu ver, este gênero tradicional de cantigas é originário de uma época ou região que desconhecia as vogais nasais.

28 Vejam-se os exemplos no A II, p. 928-29, e no CD os n. 89 a 94, 113 e 116. Cf. também sobre estes e outros pontos da antiga arte métrica C. Michaëlis no Grundriss, II, 2, p. 195-199.

53

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

métricos; a perfeição das rimas, maior então do que hoje; a própria mono- tonia destas rimas incessantemente repetidas, monotonia sem dúvida in- tencional e particularmente notável nas cantigas d’amor: tudo demonstra o poder de uma tradição bem estabelecida e que confirmam as freqüentes alusões à observação ou transgressão das regras da arte (cf. v. 750 e 854).

1. OS VERSOS

Não existindo até agora uma terminologia isenta de ambigüidade, designo aqui uniformemente todos os versos pelo número de sílabas rigorosamente contadas, incluindo, nos versos graves, a que se segue à última tônica. Chamo, por exemplo, hendecassílabo grave ao v. 105: a bõa dona por que eu trobava; decassílabo agudo ao v. 106: e que non dava nulha ren por mí; e decassílabo grave ao v. 496: El disse ja que por mí trobava. Esta denominação está de acordo com a praxe geral dos trovadores, que ocasionalmente substituem um verso da segunda espécie por um verso da terceira 29 . Assim vemos o nosso poeta empregar, nos versos 1° e 4° do n. 36, um octossílabo agudo em lugar do octossílabo grave das outras estrofes, e, no verso 5° da mesma cantiga, um decassílabo agudo em vez dum decassílabo grave. É muito instrutiva, a esse respeito, a cantiga V 1007, na qual alternam hendecassílabos graves com decassílabos, sendo estes últimos agudos nos versos 2º e 3° da primeira estrofe e 5° e 6° das outras duas, porém graves nos versos 5º e 6° da primeira e 2° e 3° das mais. Muito mais rara é nos Cancioneiros a troca de um octossílabo agudo por um eneassílabo grave, ou de um decassílabo agudo por um hendecassílabo grave. Joan de Guilhade, sim, oferece dois exemplos desta última irregularidade: são os

v.

410 e 411, onde os decassílabos ocupam o lugar de hendecassílabos, e os

v.

603 e 604, onde se verifica a troca inversa. Contudo, não é impossível

que os culpados sejam aí os copistas, pois era fácil evitar a irregularidade substituindo, no primeiro caso, falou e queyxou por falara e queyxara, e no segundo, fezesse e desse por fezer e der.

Eis a lista dos versos diferentes empregados nas cantigas aqui impressas, na ordem de sua freqüência:

29 A respeito desta particularidade da antiga métrica portuguesa leia-se o artigo de Mussafia nos Sitzungsberichte der Wiener Akademie der Wissenschaften, Philosophisch-historische Klasse, v. 123, secção X.

54

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

1º. o decassílabo agudo, verso de 10 sílabas, com acento fixo na 10ª e, na grande maioria dos casos, com outro acento na 4ª e cesura 30 , embora fraca, depois da 4ª ou 5ª; 2°. o octossílabo agudo, verso de 8 sílabas, com acento fixo na 8ª, recaindo, na quase metade dos casos, outro acento na 4ª; 3°. o octossílabo grave, verso de 8 sílabas, com acento fixo na 7ª e outro, na metade dos casos, na 4ª; 4°. o hendecassílabo grave, verso de 11 sílabas, com acento fixo na 10ª e, na grande maioria dos casos, com outro acento na 4ª e cesura depois da 4ª ou 5ª; Nota. Parecem ser de estrutura especial os hendecassílabos graves da cantiga 28, acentuados na 10ª e na 3ª ou 4ª sílaba e com cesura fixa depois da 4ª, ficando assim divididos em duas partes, a última das quais é de 7 sílabas como os versos com que estes hendecassílabos alternam e rimam. 5°. o decassílabo grave, verso de 10 sílabas, com acento fixo na 9ª e, na grande maioria dos casos, com outro acento na 4ª e cesura depois da 4ª ou 5ª;

6°. o hendecassílabo agudo, verso de 11 sílabas, com acentos fixos na 5ª e na 11ª e com cesura bem distinta depois da 6ª ou, mais raramente, a 5ª; Nota. São de estrutura diferente os hendecassílabos do estribilho da cantiga 26, pois têm acentos nas sílabas 3ª, 6ª, 9ª e 11ª. Os do estribilho da cantiga 16, se é que são hendecassílabos, têm acentos na 4ª, 8ª e 11ª e cesura depois da 4ª; parece, porém, mais provável que sejam decassílabos agudos:

veja-se minha nota no comentário crítico. 7°. o heptassílabo agudo, verso de 7 sílabas, com acento fixo na 7ª

e

outro, as mais das vezes, na 2ª ou 3ª; 8°. o heptassílabo grave, verso de 7 sílabas, com acento fixo na 6ª

e

outro na 3ª ou 4ª. Só existem em dois exemplos os seguintes versos:

9°. o pentassílabo grave, verso de 5 sílabas, com acento na 4ª; 10°. o tetrassílabo agudo, verso de 4 sílabas, com acento na 4ª; 11°. o trissílabo agudo, verso de 3 sílabas, com acento na 3ª. Não se encontram senão em um exemplo só:

12°. o dodecassílabo grave, verso de 12 sílabas, com acentos nas sílabas 2ª, 5ª, 8ª e 11ª;

30 Sirvo-me deste termo da métrica latina para designar aqui uma pausa no interior do verso.

55

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

13°. o hexassílabo agudo, verso de 6 sílabas, com acento na 6ª. Destes versos, servem por si sós para formar estrofes: o decassílabo agudo (n. 9, 13, 15, 18, 29, 32, 33, 35, 37 a 39, 46 [, 54] 31 ), os octossílabos agudo (n. 1 a 5, 7, 8, 17, 25, 40, 47, 48) e grave (n. 19, 20, 22, 24, 45: nesta última cantiga foi precisa uma emenda no verso 3° para obter a regularidade métrica), o hendecassílabo agudo (n. 14) e o grave (n. 21, se sanarmos a irregularidade dos v. 410 e 411, segundo ficou indicado na p. 54). Na cantiga 16 temos hendecassílabos graves e um estribilho de hendecassílabos agudos, salvo no caso de emenda, sendo então estes últimos reduzidos a decassílabos. O estribilho tem versos diferentes do resto da estrofe nas cantigas seguintes: n. 27, octossílabos agudos + decassílabos graves; n. 30, 41 e 34, octossílabos graves + um trissílabo ou um tetrassílabo agudos, ou tetrassí- labos entremeados de um trissílabo; n. 23, 50 e 11, decassílabos agudos + decassílabos graves, ou hendecassílabos graves; n. 26 e 42, decassílabos graves + hendecassílabos agudos (da estrutura especial mencionada em nota), ou um hexassílabo agudo; n. 44, hendecassílabos graves + um dode- cassílabo grave; n. 49, heptassílabos agudos + pentassílabos graves (elimi- nei por emenda as irregularidades que havia no estribilho). De versos diferentes usados no corpo da estrofe há os seguintes exemplos: n. 36, quatro octossílabos e um decassílabo do corpo da estrofe combinam-se com um decassílabo e um octossílabo do estribilho, sendo agudos os versos do estribilho, e graves os da estrofe, exceto os versos 1°, 4° e 5° da primeira estrofe; [n. 56, octossílabos graves são entremeados de heptassílabos agudos, e a estrofe remata com um estribilho formado de heptassílabos agudos;] n. 6, [n. 55] e n. 10, 12, 31 (onde convém emendar os v. 603 e 604, segundo ficou indicado na p. 54), 43 e 51 a 53, decassíla- bos agudos diferentemente entremeados de hendecassílabos graves; n. 28, hendecassílabos graves de estrutura especial alternam com heptassílabos graves.

2. AS ESTROFES

Chamavam-se cantigas de mestria (meestria, maestria) as que não tinham estribilho, e, segundo parece, eram tidas em mais alto apreço

31 Os exemplos incluídos em [] são de cantigas que não pertencem a Guilhade, ou cujo autor é incerto.

56

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

pelos juízes da arte do que as cantigas de refran. Nos cantares de cunho popular não falta nunca o refran ou estribilho. Dava-se o nome de finda (fi)inda, fi)ida) a uma espécie de epílogo que se segue à última estrofe, tendo um número de versos sempre menor que ela e repetindo, as mais das vezes, rimas da última, ou de várias estrofes, ou de todas. Eis aqui a lista das estrofes diferentes.

I. Estrofes sem estribilho.

a) de 5 versos:

1ª. 11 11 11 11 11 32 ). N. 21: 3 estrofes 33 ; rimas ia ou (? ou ara?), isse isa, ade õas.

b) de 6 versos:

2ª. 11 10 b 11 10 b 10 b 11 com finda 10 b 11 . N. 6: 3 estrofes; rimas ava í. 11 a 11 b 11 a 11 b 11 c 11 c. N. 14: 3 estrofes; rimas ar ey ar, on êr êr, á êr en. Como se vê, c = a na primeira estrofe, c = b na segunda; na terceira, c apresenta rima idêntica (alguen: alguen), contanto que não haja erro de copista.

c) de 7 versos:

4ª. 8 a 8 b 8 b 8 a 8 c 8 c 8 a. N. 5, 40 e 47: 3 estrofes; rimas (5) í éus êr, éu en ey, ey on ar, (40) ir ar en, ir ar en, ôr êr on, (47) í on ér, á en í, éu ôr az. N. 17: 3 estrofes com finda 8 c 2 8 c 2 8 a 3 34 ), rimas á en êr, í ey on, ér éus en. N. 48: 3 estrofes com finda 8 d 8 d 8 a 1 ; rimas al en í, ar en ôr, ar êr ôr, on. O primeiro e o último verso de cada estrofe têm rima idêntica.

5ª. 10 a 10 b 10 b 10 a 10 c 10 c 10 a. N. 46: 3 estrofes; rimas êr ey an, ér êr ar, ês ar ós. N. 35: 3 estrofes com finda 10 b 1 10 b 1 10 a 3 (= a 1 ); rimas êr on ôr, ôr al ér, êr ar en. N. 39: 3 estrofes com finda 10 b 2 10 b 2 10

32 Os algarismos designam o número de sílabas de cada verso, as letras iguais as rimas – menos o x, que nota falta de rima –, os acentos denotam versos graves, as letras maiúsculas o estribilho. (Nobiling usa asteriscos sobre as letras para denotar versos graves; substituímos pelo acento, dada a impossibilidade de sobrepor asterisco a caracteres. NE)

33 Na lª estrofe 11 10 b 10 b 11 11 , se não emendarmos os v. 410 e 411.

34 c 2 = rima c da 2ª estrofe, a 3 = rima a da 3ª estrofe.

57

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

c 1 (= b 1 ); rimas ar (:al 35 ) on êr, ir í ar, on ôr ey. A tenção n. 37: 4 estrofes e 2 findas, pertencendo alternadamente uma estrofe ou uma finda a cada um dos dois poetas. Segundo as regras, deveria haver rigorosa correspondência entre as rimas de cada duas estrofes; mas o interlocutor de Guilhade dispensa-se de observar esta regra quanto à rima c. Assim também, a finda de Guilhade segue o esquema 10 c 3 10 c 3 10 a 3 (= a 4 ), a de seu interlocutor, porém, o seguinte: 10 d 10 d 10 a 3 . As rimas da tenção são ôr ar ey ~ ôr ar êr, ar êr ey ~ ar êr é, ey ar ~ on ar.

6ª. 10 a 10 b 10 b 10 a 10 c 10 c 10 b. A tenção n. 38: 4 estrofes com a correspondência regular das rimas e 2 findas 10 c 4 (= c 3 ) 10 c 4 10 b 4 (= b 3 ); rimas ar êr í, á ér ey.

7ª. 11 10 b 10 b 11 10 c 10 c 11 . Sempre 3 estrofes. Com finda 10 c 3 10 c 3 11 3 : n. 10 e 43; rimas (10) ésse êr í – v. 1 e 7 têm rima idêntica –, ia en ôr, ia ôr êr, (43) adas êr í, adas ey êr, adas í ey. Com finda 10 b 1 10 b 1 11 3 : n. 31 36 e 51; rimas (31) ándan en ey, igo al ésse (? ou ér?), ida ér ôr a sempre rima idêntica –, (51) êdes on êr, êdes ar on, êdes í ér. Com finda 10 c 1 (= b 2 ) 10 c 1 11 3 : n. 53; rimas êdes ér ar, eyra ar êr, ua (: u a) 37 in an. Com finda 10 d 10 d 11 3 (= 2 = 1 ): n. 12 e 52; rimas (12) ia êr en, ia êr en, ia êr êr, ar, (52) ia on êu, ia ar êz, ia ar ôr, en.

II. Estrofes com estribilho.

a) O estribilho consta de um só verso, que não rima.

a) 2 versos + estribilho:

8ª. 8 8 4 B. N. 41: 3 estrofes: rimas ousa, endo, êdes; estribilho ér.

9ª. 10 10 6 B. N. 42: 3 estrofes; rimas ia, ejo, ente; al.

b) 3 versos + estribilho:

10ª. 11 11 11 12 . N. 44: 3 estrofes; rimas ia, igo, ão; outo.

35 Entre as raras rimas imperfeitas dos Cancioneiros, a rima ar: al é a mais comum. Veja-se mais abaixo, nota 39.

36 Na 2ª estrofe 11 10 b 10 b 11 11 11 11 , se não emendarmos os v. 603 e 604.

37 Rima imperfeita: veja-se mais abaixo, nota 39.

58

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

g) 4 versos + estribilho:

11ª. 8 8 8 8 8 * . N. 45: 3 estrofes; rimas ia ome, asso ando, eyto, ôso; ávan.

d) 5 versos + estribilho. O fato de ser repetido o verso do estribilho

com ligeira variação (n. 34) ou sem ela (n. 7) não altera essencialmente a estrutura da estrofe.

12ª. 8 a 8 b 8 b 8 a 8 a 8 C. N. 7: 3 estrofes com finda 8 a 3 8 a 3 ; rimas êr en, ey é, ar í; éu.

13ª. 8 8 8 8 8 4 C. N. 34: 3 estrofes; rimas udo igo, ado ia, ade endo; á.

14ª. 8 8 8 8 8 3 C. N. 30: 3 estrofes com finda 8 d Ù3 C 8 d Ù 3 C; rimas igo éstes, ôres émos, ia ura, ôda; ou.

b) O estribilho consta de 2 versos finais, que rimam entre si.

a) 4 versos + estribilho:

[15ª. 8 7 b 8 7 b 7 C 7 C. N. 56: 3 estrofes: rimas igo êr; eyto en, ito ey; êz. As rimas e C são idênticas].

16ª. 8 8 8 8 8 8 . N. 22: 3 estrofes; rimas oyta ada, oyta ejo, oyta ilha; igo. A rima é idêntica em todas as estrofes.

17ª. 8 8 8 8 8 8. N. 24: 2 estrofes; rimas igo, ado; êmos. A rima CÙ é idêntica.

18ª. 8 a 8 b 8 b 8 a 8 C 8 C. N. 2: 4 estrofes; rimas an êr, ey é, êr en, al í; í; a rima C é idêntica. N. 3 e 25: 3 estrofes; rimas (3) ar ey, á on, êr á; í, (25) ôr en, êr í, ér í; on. N. 1: 3 estrofes com finda 8 C 8 C; rimas éus on: ey en; ôr ar; í; a rima C é idêntica.

19ª. 8 a 8 b 8 b 8 a 8 8 . N. 23: 3 estrofes; rimas en ou, on ey,

éus êr; ia.

* An. Nob.: CÙ em vez de BÙ. (NE)

59

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e Estudos Dispersos

20ª. 8 8 8 8 8 8 . N. 19 e 20: 3 estrofes: rimas (19) igo ano, ouca aça, ade iga; eyto, (20) igo inta, êdes õas, ousa ades; inga.

21ª. 8 a 8 b 8 b 8 a 10 10 . N. 27: 4 estrofes; rimas êr en, í ar, ey é, ou ar; ôda.

22ª. 10 a 10 b 10 b 10 a 10 C 10 C. N. 15, 32, 33 [, 54]: 3 estrofes; rimas (15) êr en, ar í, êu on; ou, (32) í ar, ôr êr, an ôr; ey, (33) ar on, í on, éu en; êz [(54) ey en, ar al, é í; êr]. N. 9, 13, 18 e 29: 3 estrofes com finda 10 C 10 C; rimas (9) á en, í ôr, on ar; êr, (13) ey éus, êr í, ôr al; on, (18) ar êz, an on, êr ér; en, (29) í en, ar is, á ôr; êr. O n. 9 tem a rima a idêntica, em cada estrofe, 9 e 18 repetem a palavra final do último verso, 13 a do primeiro verso do estribilho no primeiro verso da finda.

23ª. 10 a 10 b 10 b 10 a 11 11 . N. 11: 3 estrofes; rimas an ôr, êr on, en éus; êen. A rima é idêntica.

24ª. 11 7 11 7 11 7 . N. 28: 3 estrofes; rimas igo éra, ia ado, ido ando; isse.

25ª. 11 11 11 11 11 C 11 C ou antes, talvez 38 , 10 C 10 C. N. 16: 3 estrofes; rimas igo ado, ia eyro, ade ado; en. A rima C é idêntica.

b) 5 versos + estribilho:

26 a . 8 a 8 b 8 b 8 a 8 a 8 C 8 C. N. 4 e 8: 3 estrofes; rimas (4) êr en, êz í, on ey; ôr, (8) ôr ey, ir éus, en on; êr.

27 a . 8 (a) 8 8 8 (a) 10 (a) 10 C 8 C. N. 36: 3 estrofes; rimas ar igo, udo ade, ésse ia; an.

[c) O estribilho consta de 2 versos, que rimam com versos anteriores, sofrendo variações quando varia a rima: 4 versos + estribilho.

28 a . 10 a 10 b 10 b 11 10 A 11 . N. 55: 3 estrofes; rimas on í igo, ôr êz igo, en êr igo.]

d) O estribilho consta de 2 versos, um dos quais se acha intercalado entre os outros versos da estrofe: 3 versos + 1° estribilho + 1 verso + 2° estribilho.

38 Veja-se meu comentário crítico.

60

As Cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade, Trovador do Século XIII

29ª. 7 a 7 a 7 a 5 7 a 5 . N. 49: 3 estrofes; rimas êu, ou, ar (:

al); éva (: érva) 39 .

30 a . 10 a 10 a 10 a 10 10 a 10 . N. 50: 3 estrofes; rimas ar, on,

ey; ia.

31 a . 10 10 10 11 B 10 11 B. N. 26: 3 estrofes; rimas ia, ava,

ando; í.

3. LIGAÇÃO DAS ESTROFES ENTRE SI

Os trovadores dispunham de muitos expedientes para ligar entre si as estrofes de uma cantiga, auxiliando assim a memória de quem a reci- tasse ou cantasse. Dentre estes expedientes, as rimas ocupam um lugar proeminente e serão sós estudadas aqui: quanto às cantigas atafi idas (cujas estrofes são todas sintaticamente unidas atá a fi ida = até o fim), ao dobre (ou repetição da mesma palavra em lugares determinados de uma estrofe ou de todas) 40 e sua variedade, o mordobre 41 , de que fala o antigo tratado de poética no título 4º, cap. 3, 5 e 6, será preciso juntar materiais mais amplos antes que se possa entrar em seu estudo. No emprego das rimas para ligar as estrofes distinguimos os casos seguintes. I. Rimas iguais nos lugares correspondentes de todas as estrofes.

a) Todas as rimas da 1ª estrofe se repetem nas outras (“estrofes eqüiconsoantes”). N. 6: a, b, c iguais nas 3 estrofes e a finda.

b) Duas rimas são repetidas. N. 12: a, b iguais nas 3 estrofes e a finda; c, igual nas 2 primeiras, varia na 3ª e na finda (veja-se mais adiante, sob II, b).

39 Temos aqui dois exemplos dessas rimas imperfeitas que cá e lá ocorrem nas cantigas de escárnio e maldizer. Cf. nota 35, 37, e 42.

40 Dobre parece ser substantivo verbal derivado de dobrar (= redobrar). O leitor encontra um exemplo no n. 5, nos primeiros dois versos de cada estrofe.