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O Neocolonial

Na passagem do século XIX ao XX, as idéias circulavam entre os países,


passa a existir, inclusive, um novo modo de vida, industrial e urbano,
semelhante nos vários países. Esta circulação se dava através das viagens
internacionais, de revistas e livros.
Nos diversos países, acontece uma reação contra a descaracterização das
culturas locais, devido à adoção daquele novo modo de vida.
Esta reação acabará por dar origem a um conjunto de movimentos
semelhantes nas Américas, nas primeiras décadas do século XX,
movimentos regionalistas, procurando a revalorização da cultura e do
passado locais, em cada país. A casa torna-se o símbolo da identidade
nacional, nos vários locais.

Esta revalorização da cultura e do passado em cada país é marcada


pelo interesse pela arquitetura colonial e pode ser observado em
diversos países da América Latina, na época das comemorações dos
movimentos de independência nacional. No México, Peru, Colômbia,
Venezuela e países da América Central nota-se a retomada de
motivos decorativos ligados à tradição cultural dos povos incas,
maias, astecas, etc., numa tentativa de substituir a arquitetura
“importada” da Europa no fim do século XIX.

No Brasil, o engenheiro português Ricardo Severo defenderá o


estilo colonial brasileiro de raízes portuguesas como o verdadeiro
estilo nacional, em oposição ao ecletismo da arquitetura da época
que, segundo Severo, representava estilos estranhos à nossa
tradição.
Este movimento ficará conhecido como Neocolonial (não apenas no
Brasil, mas nos demais países da América Latina) e, no Brasil, será
lançado em São Paulo. A conferência do arquiteto português
Ricardo Severo na Sociedade de Cultura Artística aconteceu em
1914.

A ausência de uma arquitetura indígena que pudesse ser


resgatada, como nos outros países da América Latina, leva à
retomada do barroco e do rococó. Severo prega a necessidade de
um retorno às obras de Mestre Valentim e de Aleijadinho, bem
como às construções do século XVIII português. As antigas formas
da arquitetura colonial serviriam de inspiração para a arquitetura
do presente, mas atendendo a novos programas de necessidades,
novos modos de vida, com novas tecnologias de construção. Assim,
o estilo neocolonial seria um movimento ao mesmo tempo
tradicionalista e moderno.

A partir desse momento, o estilo neocolonial foi muito difundido na


arquitetura brasileira. Ricardo Severo construiu uma série de edifícios no
estilo em São Paulo e arredores, começando pelo Palacete Numa de Oliveira
(1916-1917), na Avenida Paulista, já demolido.
Palacete Numa de Oliveira

Entre 1920 e 1924, Severo projeta ainda a Casa Lusa, também em São
Paulo, e a Casa Praiana, no Guarujá.

Casa Lusa
Casa Praiana

Em 1926, é responsável pelos planos da Beneficência Portuguesa de


Campinas e de Santos, além da Casa José Moreira, edifício comercial
localizado na Avenida São João, em São Paulo. A última obra neocolonial
importante de Severo é o edifício da Faculdade de Direito de São Paulo,
inaugurado em 1939, no Largo São Francisco.

Sede da Faculdade de Direito de São Paulo, edifício neocolonial


inaugurado em 1939.

Em busca das raízes da arquitetura brasileira, que serviria de modelo para


os edifícios do novo estilo, Ricardo Severo contratou os serviços de José
Wasth Rodrigues para fazer um levantamento das edificações da
arquitetura colonial brasileira, principalmente de seus ornamentos e demais
elementos construtivos, pensando na elaboração de um Dicionário da Arte e
da Arquitetura Colonial do Brasil, obra nunca publicada. Rodrigues a
publicaria, décadas depois, sob o nome de Documentário Arquitetônico
Relativo à Antiga Construção Civil no Brasil.
Um dos álbuns com elementos da arquitetura colonial, para serem
utilizados nos projetos neocoloniais.

José Mariano Filho, historiador e crítico de arte e de arquitetura,


teve um papel importante no movimento. Foi também diretor da
Escola Nacional de Belas Artes entre 1926 e 1927. Sua atuação na
divulgação do Neocolonial foi intensa. Teve presença constante na
imprensa, polemizando e defendendo a causa do Neocolonial. A
campanha neocolonial foi impulsionada por publicações como o jornal O
Estado de S. Paulo e a Revista do Brasil.

José Marianno defendia a tese de que os estilos provenientes de outros


países enfraqueceram a expressão da “raça brasileira”. Ele não gostava da
denominação, “Arquitetura Neocolonial Brasileira“, preferia “arquitetura
tradicional brasileira”.

Na condição de presidente da Sociedade Brasileira de Belas Artes, em 1924,


patrocinou viagens de estudos de arquitetos às cidades mineiras coloniais,
em busca do nosso passado. Lúcio Costa visita Diamantina; Nestor de
Figueiredo, Ouro Preto; e Nereu Sampaio, São João Del-Rey e Congonhas do
Campo. Lucio Costa, quando jovem, também foi adepto do movimento,
entre 1917 e 1930, tendo chegado a projetar casas neocoloniais. Depois se
engaja no chamado movimento moderno da arquitetura brasileira.

Além disso, a influência de Mariano Filho no governo faz com que o


Neocolonial vire o estilo dos concursos e construções oficiais, como
mostra, entre outros, os projetos dos pavilhões do Brasil na
Exposição da Filadélfia, 1925, e na Exposição de Sevilha, 1928,
diretamente inspirados na arquitetura tradicional brasileira.
Muitos arquitetos renomados aderiram ao Neocolonial à época, como Victor
Dubugras, Heitor de Mello, Archimedes Memória e outros.
Durante a Semana de Arte Moderna de 1922, dedicada à busca de
uma arte nacional, Georg Przyrembel apresentou projetos no estilo.
No Rio de Janeiro, então capital da República, o Neocolonial foi o
estilo de muitos pavilhões da Exposição do Centenário da
Independência, em 1922.

Exposição do Centenário da Independência, 1922


No Rio, o Neocolonial foi também o estilo escolhido para muitas escolas,
como o antigo Instituto de Educação (atual Instituto Superior de Educação
do Estado do Rio de Janeiro), construído entre 1927 e 1930 pelos arquitetos
Ângelo Bruhns e José Cortez.

Instituto de Educação, Rio de Janeiro.

O Neocolonial, no final da década de 1920, começará a ser utilizado pela


classe média – será mostrado nas revistas paulistanas dedicadas a
engenheiros e arquitetos.

Victor Dubugras
Nascido em Sarthe, na França, Victor Dubugras (1868-1933) foi criado na
Argentina, onde começou a prática arquitetônica. Chegou a São Paulo
provavelmente em 1891.
Ligou-se à Politécnica já no ano de sua fundação, ?????onde lecionou até
1926: estética, composição arquitetônica e técnicas de desenho e aquarela.
A partir de 1914, Dubugras passa a praticar o Neocolonial. Algumas
casas de 1915, em Santos, seguem a estética, como a de Saturnino
de Brito. E ainda, vinculada ao Neocolonial, a casa da Baronesa de
Arari.

Casa de Saturnino de Brito

Casa da Baronesa de Arari (1916)

Foi responsável pela reurbanização do largo da Memória, em 1919, na


cidade de São Paulo, primeira obra pública do arquiteto em estilo
neocolonial, e por diversos monumentos projetados para o Caminho do Mar,
em 1922, considerados obras-primas da arquitetura neocolonial no Brasil.

Rancho da Maioridade (1922)

O Neocolonial de Dubugras não era feito apenas com volutas e


frontões, elementos que existiam nas igrejas barrocas. Estes
elementos não pareciam ter sido adicionados simplesmente para a
utilização do novo estilo. Faziam parte da composição. Não era
simplesmente uma busca pelas formas da arquitetura tradicional.
Ela servia de inspiração, mas era recriada.
Utilizava paredes em tijolo aparente, de excelente acabamento,
assentadas sobre embasamento em pedra, que não existiam na
arquitetura do período colonial.
A versão do Neocolonial de Dubugras foi difundida entre os arquitetos e
popularizada em São Paulo: são as chamadas “casas de tijolinhos”. Tais
casas não existiam na arquitetura colonial brasileira.
Dubugras é mestre na adaptação dos edifícios ao local em que são
implantados, através das formas e dos materiais. Como os pousos
da Serra do Mar, que parecem sempre ter estado ali, tal a maneira
como se integram à natureza.
As experiências anteriores de Dubugras com o uso do concreto em
residências tiveram problemas de conservação no clima chuvoso de
São Paulo. As estruturas de concreto e os revestimentos de
argamassa sofreram fissuras e infiltrações. As casas em tijolos
aparentes ou alvenaria de pedras e amplos beirais, pelo contrário,
tiveram excelente conservação. As cintas de amarração em
cimento, revestidas de argamassa, ficavam apenas no alto sob os
beirais e assim estavam protegidas. O arquiteto utilizou não a
técnica mais moderna, o concreto, que na época ainda não estava
desenvolvida o suficiente para ser utilizada no clima de São Paulo,
mas aquela mais adequada à situação – a que estava disponível e
se adaptava às condições existentes, a pedra e o tijolo aparente,
complementados por telhados com grandes beirais.
Na época, a utilização de lajes de concreto em residências limitava-
se ao piso dos banheiros do pavimento superior. Assim, não havia,
mesmo nos sobrados, a necessidade de peças estruturais de
concreto, como vigas e pilares. As vigas, quando utilizadas, eram
metálicas, apoiadas nas paredes do pavimento térreo.
Os pisos do pavimento térreo eram executados quase sempre em
madeira, e havia a necessidade de porões para evitar a umidade.
Os pisos do pavimento superior e as escadas eram também
executados em madeira e, assim, Dubugras criava grandes espaços
com pé direito duplo e detalhes em madeira, como os parapeitos,
os lambris nas paredes, os forros e até mesmo móveis. Formavam
um conjunto bastante sofisticado.
Nas casas mais sofisticadas, as características incluíam telhados com
amplos beirais, chaminés, grandes vitrais junto às escadas e balcões em
que o acabamento dos peitoris tinha pequenos arcos sobrepostos - com os
eixos desencontrados –, detalhe provavelmente criado por Dubugras e que
se tornou marca do Neocolonial. E alguns ornamentos barrocos que faziam
referência à arquitetura tradicional. Dubugras construiu casas na Avenida
Paulista, na Vila América e pelo menos uma casa no Jardim América.

Casa de Victor Dubugras no Jardim América, mostrando os peitoris


do balcão com pequenos arcos sobrepostos.

A arquitetura de classe média


Deve-se ver a arquitetura de forma mais ampla, relacionada à construção
da cidade. Compreender as mudanças sociais, culturais e econômicas que
ocorrem e que influem na arquitetura.
A implantação das casas, que passam a ser centralizadas no lote
urbano, com recuos e jardins, é fundamental para o estudo da
arquitetura das primeiras décadas do século XX. Anteriormente,
projetava-se em “duas dimensões”, a casa estava colada às divisas
do lote, então a preocupação era apenas com a planta e a fachada
frontal. A partir do momento em que esta casa é colocada no centro
do terreno, têm-se a condição de pensar o projeto em “três
dimensões”, como um volume, onde todas as fachadas podem ser
definidas pelo projeto.
Nesta época, anos 1920, a questão central em um projeto não era o
estilo. O aspecto externo da arquitetura poderia ser de vários tipos.
O mais importante era o atendimento das necessidades do homem
da época e a utilização da técnica construtiva mais desenvolvida. O
projeto era conseqüência de novas maneiras de se viver, novas
noções de conforto. Estas eram as questões importantes.
O panorama da arquitetura paulistana dos anos 1920 é bastante indefinido,
com casas neocoloniais, do estilo missões (vindo dos Estados Unidos) e
outros tipos de influência.
Além dos profissionais diplomados, havia a atuação dos
construtores licenciados. Estes profissionais não diplomados
podiam obter licença para trabalho provando sua experiência
profissional, e na época sua atuação era muito expressiva.
O aspecto externo da arquitetura de classe média não é único, tem
muitas variações, mas sob outro aspecto, esta arquitetura é única:
é uma nova forma de morar, moderna, geralmente nos subúrbios.
Um novo estilo de vida para a classe média.
Casas mais simples, bem iluminadas, por várias janelas, localizadas no
centro do terreno, com jardins.
Os sobrados ainda eram chamados de palacetes, mas menores e mais
simples em relação àqueles das elites paulistanas, localizados na Avenida
Paulista.
É a época em que surgem os subúrbios-jardim, o primeiro deles em
São Paulo foi o Jardim América, criado pela Companhia City na
década de 1910. Nele se adotaram recuos para a implantação em
todas as laterais da casa, isolando-a no centro do lote e áreas
mínima e máxima de construção. O uso também era
regulamentado, exclusivamente residencial. Havia limitação na
altura dos muros laterais – dois metros. As redes de eletricidade
eram subterrâneas.
Mapa do Jardim América, mostrando os jardins internos às quadras

Jardim América, anos 1920


As grandes avenidas eram bem arborizadas, havia extensos gramados,
jardins internos às quadras. Era uma novidade no conjunto da cidade, uma
nova forma de morar, inspirada nas cidades-jardins inglesas e nos subúrbios
ingleses e americanos do século XIX e início do XX.
O padrão dos loteamentos da Companhia City foi tão bem recebido, que
empreendimentos de outras empresas utilizaram características dos seus
bairros-jardins, entre ele o Jardim Europa, implantado em 1921.
O fato da companhia vender os terrenos a prazo e também conceder
financiamentos para a construção tornou o loteamento acessível à classe
média, compostas de profissionais liberais, funcionários de grandes
empresas e comerciantes, entre outros.
A sala de estar, ligada por um arco à sala de jantar, substitui a
antiga e fechada sala de visitas. E nos dias quentes, a varanda atua
também como ambiente de estar. São espaços para a reunião da
família. O próprio jardim, com equipamentos como pérgulas, é
outro ambiente para a família se reunir. Na copa, são feitas as
refeições mais informais.
Estas casas menores tornaram-se possíveis porque várias atividades
começaram a ser executadas fora da casa, como o pão e a preparação de
outros tipos de alimentos. Começa a ser utilizado o fogão a gás, e, no final
da década, a geladeira. Com a diminuição do número de empregados
domésticos, são necessárias casas menores e mais simples de
serem mantidas.

Casa no Jardim América, arquiteto Adhemar de Moraes.


“Palacete” no Jardim América, arquiteto Renato Aguiar
Casas do arquiteto Olavo Caiuby, no Jardim América

A revista A Casa-interiores
Houve muitas publicações novas nos anos 1920, entre elas a revista
A Casa. Foi a primeira revista destinada ao público leigo de classe
média, e não apenas aos profissionais. As casas mostradas são de
tamanhos pequeno ou médio, sem a sofisticação dos palacetes das classes
mais abastadas. A revista era publicada no Rio de Janeiro, mas o alcance da
publicação era nacional.
A importância da revista não se deve tanto aos edifícios e projetos
mostrados. Em grande parte dos projetos a autoria não é nem mesmo
mencionada. Ela importa como modelo para a moradia de classe
média.
Importante é a questão de uma nova noção de conforto,
representada pelas “cômodas poltronas de couro”, pelos tapetes grossos e
por uma decoração mais simples, mas mais elaborada.
Cortinas, almofadas, que serviriam para atenuar a rigidez dos móveis em
madeira, bastante desconfortáveis, que ainda não haviam se modernizado.
As plantas eram colocadas em vários pontos da casa, até em treliças de
madeira.
Jardim mostrado na revista

Anúncio de loteamento
Anúncio de casas na revista, (1924), Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio
de Janeiro

Casa em estilo Missões, mostrada na revista, arquiteto Edgar


Vianna
Casa na Rua Brigadeiro Luiz Antônio, hall, arquiteto Dácio de
Moraes

Anúncio da revista A Casa