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Visões e Percepções Tradicionais

por Honorat Aguessy.
Neste estudo, Aguessy investiga o que compõe a visão tradicionalista das culturas
negras africanas, suas visões, seus modos de transmissão, etc. in História Geral da
África. São Paulo; Ática, 1981 volume 1
«Não se conhece tudo. Tudo o que se conhece é uma parte de tudo.»
Pensamento Peul.
Quando se começa a tratar da cultura na Europa, a primeira atitude consiste em procurar
referências noutros autores: o conjunto dos escritos dos diversos autores define o campo
cultural que o homem culto tem necessariamente de conhecer e dominar.
Tratando-se da África, da África em geral, procede-se de outro modo: a dominante em
matéria de cultura desloca-se do escrito para o oral. Esta mudança não pode deixar de
implicar conseqüências particulares não só no que se relaciona com as fontes dos
valores culturais mas também no que se refere ao estatuto e ao destino prático das
condições e dos vigentes de transmissão do modo de concepção do mundo.
Qual é então o proprium africanum da concepção do universo, da vida, da sociedade?
Seria surpreendente pensar que as sociedades não africanas nunca tivessem tido idéias
pelo menos similares às dos Africanos sobre estes assuntos.
Ser-nos-á permitido falar, desde o princípio, de influência exterior (hipótese que sempre
obcecou alguns escritores europeus etnocêntricos)? Seria demasiado fácil, de cada vez
que as sociedades humanas revelassem certas similaridades, recorrer à hipótese que
inspira a relação actual de forças, exclamando: «Não! Esses objectos de arte não podem
ter sido produzidos por Africanos no século VI a. C! Certamente que houve, nesse lugar,
passagem e influência de europeus!» Reconhece-se aqui o tipo de reflexão que um sem
número de europeus faz quando se lhes fala dos objectos de arte de Nok, por exemplo,
ou, mais precisamente, das pequenas figuras de Ifé.
A única atitude intelectual que poderá encorajar a compreensão e o propósito heurístico,
pelo menos para o homem de cultura, consiste em libertar o seu espírito dos
preconceitos que a vontade de dominação suscita e que têm na política um privilegiado
terreno de expressão.
Pensemos na reflexão de Claude Lévi-Strauss a propósito das aptidões lógicas das
diferentes sociedades: «Talvez descubramos um dia que a mesma lógica se produz no
pensamento mítico e no pensamento científico e que o homem pensou sempre do
mesmo modo. O progresso - se é que então se possa aplicar o termo - não teria tido a
consciência por palco, mas o mundo, onde uma humanidade dotada de faculdades
constantes ter-se-ia encontrado, no decorrer de sua longa história, continuamente às
voltas com novos objectos (1).»
Segundo este ponto de vista, o proprium africanum da concepção do universo e da
sociedade não consistirá em pensar que as faculdades do intelecto africano são
superiores às das outras sociedades, mas também não se poderão considerar inferiores.
O proprium africanum deve ser procurado no meio ambiente cultural (incluindo a
ecologia) dialecticamente transformado.
Dizemos dialecticamente transformado porque há uma troca entre o meio ambiente e o
intelecto, transformação do meio ambiente pelas produções do intelecto, reapropriação

do intelecto transformado pelo meio ambiente (incluindo, eventualmente, as mudanças
que implicam os contactos com outras sociedades).
Nestas condições, será necessário ter em conta diferentes variáveis para definir o
propríum afrícanum. Quais são?
Em priMeiro lugar destacam-se as condições telúricas (clima, estações, cheias e regime
de chuvas) e, de um modo geral, ecológicas: as possíveis variações de acordo com a
vegetação, a savana, a floresta cerrada, a hidrografia, podem justificar as modalidades
de povoamento e de comunicação e os pontos nevrálgicos do modo de pensar africano.
Conseguiu-se assim determinar o pen-amento dos plantadores da savana, dos caçadores
das estepes, dos pastores (Masro, Nuer, Shilluk) , dos habitantes das grandes florestas e
da civilização dos grandes impérios (Mosi, Ashanti, Ioruba, Bamun, Benim, etc.).
Em segundo lugar intervêm a «dimensão» e a «extensão» das sociedades em causa sociedades restritas e fechadas, maiores e abertas -, de modo que a oposição entre o
isolamento de pequenos grupos fechados e a multiplicidade dos contactos - «fonte de
numerosos empréstimos e influências» - possa levar a distinguir a diferente importância
desta ou daquela característica das visões e percepções do mundo.
Em terceiro lugar é necessário ter em conta a mentalidade resultante da história
específica de cada uma das sociedades africanas. Assim, a cultura bastante desenvolvida
de Nok, baseada no trabalho sobre o ferro e o estanho, na arte das estatuetas, na
fabricação de numerosas terracotas, na agricultura de técnicas artesanais, não produziu a
mesma mentalidade que a dos Hotentotes ou a dos Pigmeus.
Numa palavra, a definição do proprium afrícanum deve ter em conta os diferentes
aspectos da cultura motivados por essas três espécies de variáveis: físicas, socioeconómicas e históricas.
Será que estas exigências são consideradas nos numerosos ensaios que visam definir o
que é característico da África em relação à concepção do universo, da vida e da
sociedade?
Não nos propomos aqui proceder a uma avaliação exacta dos resultados de estudos
efectuados acerca deste assunto, por exemplo por Marcel Griaule, o padre Tempels,
Melville Herskovits, Lucien Lévy-Bruhl, Bascom, etc. Se Lucien Lévy-Bruhl é
essencialmente conhecido pelo seu livro de inspiração ideológica A Mentalidade
Primitiva, se o padre Tempels se notabilizou entre os europeus com A Filosofia Banto,
devem-se a Herskovits e a Griaule umas dezenas de publicações (nada menos do que
alguns oitenta títulos de artigos ou de livros publicados sob o nome de Griaule) que
tentam elucidar os problemas que nós aqui abordamos. Semelhante avaliação seria
fastidiosa e ultrapassaria os limites do nosso estudo.
Contudo, um olhar sinóptico sobre os diversos trabalhos europeus mostra a importância
dada a estes três princípios para definir a concepção africana do mundo: «Vida, Força e
Unidade são os três grandes princípios» das visões e percepções tradicionais. A
propósito disto, alguns pensadores europeus perguntaram «como explicar, do ponto de
vista filosófico, que sistemas de pensamento que atribuem uma tão grande importância
ao elemento vivo, motor, dinâmico do ser, não tenham conseguido um progresso técnico
mais evoluído? Porque foi que África não se expandiu cientificamente antes do contacto
com os colonizadores ?», e se a ausência de uma orientação voltada para a invenção de
uma produção mais industrial se não explicasse, pelo menos em parte, por um apego
extremo à Terra-Mãe, o respeito por ela não toleraria que a explorassem mais do que o
necessário «para a não cansar, tornar exangue e débil» (2) ...

2) na base. mas separados numa análise lógica não representam senão uma . os poderes mágicos inferiores. etc. como os modernos estão persuadidos. objecto de veneração. Assim se apresenta o esquema desse mundo onde o universo. precisa ele. Nesta perspectiva. também não pode entrar em relação directa com o homem. que escreve: «Ntu é o termo que designa o centro fundamental das forças.» Um a linguística que serve de elemento de comparação a um outro autor para precisar o sentido desta força vital: «Poder-se-ia comparar a filosofia assim vivida a uma frase que enunciasse uma mensagem original: ela compõe-se de diversos elementos (verbo. tudo se passa como se o mundo pudesse ser representado por um triângulo que mostrasse: 1) no cimo e por fora. é a força universal enquanto tal. em si próprio. 3) Uma notória incapacidade em passar da ideologia à operação lógica. é antes e pelo contrário próximo. os seres sobrenaturais) por um lado. e poder-se-á assim julgar que tudo o que é concebido no corpo não consiste unicamente na extensão e nas suas modificações. Citemos Janheinz Jahn (3). Immane. que leva a uma espécie de percepção impressionista do mundo: 1) Uma certa contaminação ao nível dos conceitos (entre o material e o espiritual. Poder-se-á aproximar essa força da força viva que Leibniz diz ser «qualquer coisa de diferente do tamanho da figura e do movimento. Esses diferentes seres são: o Ser supremo.» «Ntu. 2) Uma repugnância em colocar os problemas relativos à natureza e à ordem. advérbio.) e cada um deles é indispensável para a significação total. complementos. ele não é. mineral e animal e o universo mágico.Louis. ou como simples tendência que mantém a complexidade das realizações da genealogia dos seres? Ou pensar essa força vital como a expressão dinâmica das contradições fecundas que os seres escondem? Sempre que os pensadores tratam deste assunto ser. ou um qualquer outro nome. sujeito. e o "ponto" a. Ntu é a força no seio da qual o ser e o ente coincidem. a vida e a sociedade estão inextricavelmente ligados e simbioticamente envolvidos. o universo energético original. Ntu é as próprias coisas e não uma determinação que se lhes junta. pura e simplesmente. as almas dos defuntos (antepassados próximos dos homens). 3) nos dois outros lados. somos obrigados a restabelecer alguns seres ou formas que eles baniram» (Discurso de Metafísica)? Será necessário compará-la ao impulso vital bergsoniano. por exemplo). 4) por dentro. que se manifesta pelo desdobramento no espaço da aparição das espécies.Vincent Thomas mostra como três idéias mestras podem exprimir o carácter do modo de pensar africano. Amma. os seres sobrenaturais (ídolos e espíritos). adjectivos. Deste modo. Vidye. que ele se refere não é de modo algum "longínquo". a que chamamos "Deus". o homem) representado no interior de um círculo rodeado por todos os lados pelo universo material. os homens vivos. os universos vegetal.vem-se de uma profusa variedade de metáforas. Na maior parte dos trabalhos que tentam aprofundar o campo cultural africano destacase a extraordinária complexidade da visão unitária que África tem do mundo.verso energético. O representante mítico desse uni. No seio de Ntu estão ausentes as contradições com que André Breton se debate. Diferentes níveis de existência e diferentes seres encontram-se unidos pela «força-vital». e os antepassados) por outro. Nya-Murunga o "Grande Criador" Olorum. o Ser supremo.

sistema de intenções e de signos. Louis-Vincent Thomas e Janheinz Jahn. etc. às suas dimensões segmentares. semear um campo) sem pronunciar ~ palavras rituais que tornarão o trabalho eficaz (5). o aristotelismo. Nos seus múltiplos artigos (Arte e Símbolo na África Negra. o verbo (4) que pode ser representado pela palavra. isento e sem dar lugar a dúvidas. «a alma humana.Muntu é «uma essência que é força. Jahn nota que «o impulso eficaz que põe em movimento todas estas forças é o Nommo. do universo e da sociedade . Louis. obscuro ou irracional parece ser desconhecida na África tradicional.» Escreveu-se muito acerca do tema que desenvolvemos. outros. de modo a evidenciar o platonismo. desde que o homem vive. vindo não importa de onde.. pelo contrário. hominizando a natureza. mas estéreis. sem o qual o conteúdo esmoreceria e perderia o interesse. sem originalidade. Lembrando os diversos aspectos da inextricável ligação da vida. «tudo se concentra na existência preciosa dos homens-vivos. Existem anotações não menos numerosas e do mesmo tipo em autores ánglófonos como Bascom.fracção ínfima e desvitalizada do seu sentido e não revelam o significado. o nietzscheísmo. o debate entre Marcel Griaule.) e especialmente nos seus livros . Mas. nunca teve uma denominação especial na nossa filosofia» (Kagame). sobre o Negro . Humanizando. se assim for. Fortes. O problema que se levanta é o seguinte: como saber em que medida teremos de aceitar declarações que. Será de espantar que para se conseguir a tradução da mensagem seja necessário começar por procurar o verbo?» Jahn também insiste na importância do verbo. aos fenómenos que nele acontecem. o tomismo.» Quais as dificuldades que levanta esta atitude de juízo prematuro sobre a sociedade africana? Uma das primeiras é a existência de uma controvérsia entre europeus para saber se se pode falar de filosofia em África. Tait. desligadas da realidade positiva»? Como se explica que cada um destes autores descubra na concepção africana do mundo o sistema filosófico ocidental seu predilecto. com uma grande ou pequena experiência de um país negro. sabem considerar África como um mundo novo a descobrir todos os dias (6) .Vincent Thomas chama também a atenção para a importância do verbo: «A concepção de um mundo arbitrário. As Religiões Negras.. pelo esperma.e. Este tipo de homem passará sempre por África sem nunca a penetrar. Até agora. preparar um veneno. com que base? Damos a palavra a uma européia: «Quem quer que seja. afirma assim a acção do seu poder. nessa frase. Radcliff-Brown. atribui um sentido ao universo total. pela água. julga-se à altura e quase com o dever de fazer um juízo cartesiano. se não são inteiramente falsas. citamos sobretudo autores francófonos. e pertence-lhe a posse do Nommo». Consideremos. e referimo-nos aqui a europeus. o agostinismo. Middleton. aliás. primeiro que tudo. não são todavia verdadeiras e exactas a todos os níveis? Em que medida se trata «de teorias por vezes fascinantes. O homem negro. ou melhor. que perpetuam a existência dos vivos transmitida pelos antepassados» -. etc. A Civilização Dogon. Evans-Pritchard.? Poderse-á falar arbitrariamente? E. a força vital é o verbo. A Imagem do Mundo no Sudão. etc. o bergsonismo. por exemplo. E tem uma tal fé no poder do seu verbo que não começa nada (construir uma piroga. debate aliás simbólico porque não chegou a processar-se directamente entre estes três pensadores europeus.

«Todas as coisas têm a sua filosofia» escreveu Friedell. Desde que haja consciência. E também não . de intuição e de experiência vivida transforma-se em filosofia. representa para ele o testemunho mais incontestável de tal facto. se considerarmos como filosofia a aceitação da investigação ontológica expressa num sistema conscienciosamente elaborado (7). que nos oferece apenas mitos (8) . P. ao que parece.) A1ém disso.é por um pensador.às metafísicas grega (M. ter declarado que não há filosofia em África e que apenas existem visões e percepções do mundo. duas características que não parecem ser frequentes na África negra (. a propósito do universo.. ora o espírito crítico não é uma qualidade essencial da alma africana. O seu interlocutor dogon. que se esforce por ter idéias de conjunto sobre o mundo e relacione o seu comportamento moral com alguns ele.» Esta controvérsia é ferozmente mantida pelos especialistas estrangeiros. precisa que ela é a «pedra angular da cultura africana» escreve: «Poderemos ser rebatidos ao dizerem-nos que o pensamento filosófico postula uma tomada de consciência de que não encontramos exemplo explícito no passado de África. Eis a ambiguidade terminológica com que L. um sentido lato da palavra filosofia que considera filósofo qualquer pessoa que reflicta um pouco.) têm poder e profundidade.. uma distanciação do pensamento perante si mesmo a fim de se julgar. a lei de antecipação (. Deste ponto de vista. não podemos também deixar de considerar semelhantes pretensões como excessivas.» O debate não fica por aqui. idéias esparsas desprovidas de síntese e de .. expõe a sua opinião sobre o problema: «A originalidade da escola etnológica moderna consiste em ter evidenciado as filosofias africanas comparáveis e mesmo superiores . Tempels) em relação às filosofias européias. mas não tem. Thomas.. ou mais exactamente: «Todas as coisas são filosofia.mentos cosmogónicos.. da vida. Ogotemmêli desenvolveu.» Mas para ele tal objecção já foi refutada.dizem-nos . da sociedade e da génese do mundo. por muito eminente que seja. Com efeito. ao empregar a expressão «filosofia tradicional» no capítulo quarto da sua obra (Ntu). A tarefa do homem é procurar a idéia que se encontra escondida em cada coisa. há uma filosofia diola porque há um modus vivendi diola. Ogotemmêli. Griaule) ou cartesiana (R. Janheinz J ahn declara: «Como se trata de uma filosofia africana e não de uma variedade da filosofia européia. a imagem do mundo que era objecto de crença. mais sensual que reflectida. uma verdadeira filosofia exige uma justificação lógica. por seu lado. mais mística que epistemológica (. a hierarquia das forças. Porque Janheinz Jahn. Há..) O complexo das tradições e das concepções negro-africanas constitui um conjunto que raramente podemos qualificar como filosofia propriamente dita. idéias que maravilharam Griaule.V. P. qualquer efeito sobre as culturas africanas. Tempels). Sem deixar de referir a ignorância relativa que estas atitudes manifestam (evidente no caso de R. Não é pelo facto de um investigador ter declarado que África tem filosofias superiores ou mesmo semelhantes às conhecidas na Europa ou noutra parte do mundo que o estatuto das culturas tradicionais africanas será posto em evidência. torna-se evidentemente perigoso expressar esta forma de pensamento com as usadas no mundo do vocabulário europeu. pesquisar em cada coisa O pensamento que lhe dá forma.» Concluindo. mas uma verdadeira filosofia implica a idéia de sistema: o que supõe simultaneamente a síntese e a abstracção. por certo.Deus de Água (diálogos com Ogotemmêli e Raposa Pálida) Marcel Griaule defende a existência de filosofia em África. Sem dúvida que a concepção dinâmica do universo.

investindo-os de um valor absoluto. Os mitos são um modo de resolver o problema da transmissão e do ensino popular dessa filosofia. Thtas anotações têm por fim desembaraçar o espírito do leitor (e o nosso em primeiro lugar) de certos preconceitos que falseiam a análise. objectiva: estabelece-se na história do pensamento um ponto de emergência. o Mito de Cronos. um modo de tornar publicamente inteligíveis as conclusões elaboradas numa torre de marfim» (9). no movimento circulatório que caracteriza o . observa-se no seu discurso a total ausência do mito: com ele. movemo-nos no domínio do puro pensamento. Se demonstrassem de maneira irrefutável que só a posse de uma filosofia. economia monetária). Vernant (11). preso na rede da ordem cultural que o determina. o Mito de Er o Arménio. onde o ser puro é considerado como pertencendo à categoria espácio-temporal inalterável.-P. Influenciados por estas considerações. jóia que surgiu do «milagre grego». que fazem a mesma discriminação. com a preocupação de melhor situarmos a concepção africana do mundo. determina o alto nível de uma cultura. verificaríamos que a insistência sobre o milagre grego esconde uma extraordinária ideologia. não valerá a pena refutar esta ou aquela opinião. o Mito da Caverna. ganga asfixiante da alma sensual africana. Seria mais indicado dizer. Assim. organização da vida política. para estes últimos. e o mito. tal como o faz Claude Lévi-Strauss. o seu objectivo seria permitir um melhor conhecimento das idéias puras que a intuição intelectual e a apreensão sinóptica revelam. se segundo a psicanálise tem origem não só na ordem simbólica (e tira partido da eficácia simbólica à semelhança da actividade do xamã) mas também no delírio onde o «eu» que pensa e constrói a síntese e a abstracção se embala na ilusão de ser livre. como demonstram as pesquisas de J. não teriam em si mesmos sentido algum. a presença e a abundância dos mitos nos diálogos de Platão deve-se a uma preocupação pedagógica. sem a exposição dos mitos não vemos muito bem como Platão conseguiria chegar à razão suficiente (logos ikanos) do seu estudo. Com efeito.mos imparciais para vermos com serenidade a ideologia que se esconde por detrás de semelhantes declarações. O mito serviu-lhe muitas vezes de síntese para os grandes problemas que abordou. Não se trata de uma diligência neutra.abstracção. que desaparecerão ipso facto (por milagre) os valores produzidos e renovados pelo espírito criador africano. feita de abstracção estéril e de lógica. Mas é de temer que ele não raciocine como alguns especialistas helenistas e em especial como os especialistas (10) da filosofia de Platão. Assim.. um lugar único e uma orientação unívoca. para Adebayo Adesanya «quando se ouve um professor Ifa. alguns africanos operam uma separação radical entre a filosofia. transformação da vida social. Mesmo que concordássemos em reconhecer a influência da Grécia em relação a certas realizações (organização do espaço. estando. que a emergência da filosofia na Grécia consistiu sobretudo na reflexão do mito sobre o mito. Assim. extensão do comércio marítimo. Adebayo é um Ioruba conhecedor da cultura ioruba. propomo-nos antes apresentar algumas observações que levem à compreensão da concepção do mundo na África tradicional. o Mito de Poros e de Plénia. Para limitar a importância dos valores produzidos pelo espírito criador em África. pelo contrário. faz-se referência ao «milagre grego» e ao espanto que causa a ausência de nomes de grandes filósofos africanos. Mas se a filosofia é uma denegação permanente. Ora. aceitaríamos proceder a uma análise mais aprofundada desta questão.. excluindo o argumento de falta de poder de síntese e de abstracção. Seja.

Esse preconceito do «milagre grego»" que obcecou muitos filósofos ocidentais. Heidegger. tenha sido suficiente para que certos observadores afirmassem. Trata-se de uma extrapolação abusiva que tende para o paralogismo. pelo indivíduo. Não será por o «eu» ocupar um lugar tão preponderante nas culturas ocidentais que os observadores a que nos referimos o opõem ao «eu» Africano? Sigamos. o indivíduo nunca deixou de estar ligado à colectividade. Mas o indivíduo não se opõe à colectividade.mente notada. entre o indivíduo e o grupo. os valores que se tornam de consumo público passam sempre. a propósito. ao grupo. contrariamente à ideia fixista que se tem dela. Que dizer agora sobre a posição dos que reclamam nomes de grandes filósofos africanos.mito. saber que ao assinar ou não um texto não se é inteira e totalmente o autor. no nosso trabalho de descoberta de uma metodologia apropriada ao campo cultural africano. É surpreendente que esta característica. de maneira dogmática. precisar os pontos que nos parecem mais importantes. mil laços entretecidos que permanecem indestrutíveis. ou seja. Ao longo dessas mudanças e movimentos. Que seria desse indivíduo na sociedade sem a língua. quer se trate de escrita ou de oralidade. superficial. é melhor ainda. que o «eu» não existe em África. Há. não deve servir para falsear a análise do estatuto das diferentes culturas. não resiste à sua aplicação contínua ao mesmo objecto que o invade inteiramente e o impregna do sentimento vivido da sua irrealidade. não poderia traduzir um estado imóvel da cultura que se transmite de uma geração para outra. pensadores que tivessem individualmente elucidado os problemas metafísicos evidenciando o seu «eu» e não diluindo-o no anonimato da tradição? É bom poder assinar um texto inteiramente redigido e concebido por nós. Comecemos pelo falso problema que representa o lugar do «eu» na obra. atemporal. os escritores das suas obras. Os pensadores são. por exemplo. a reflexão de C. quer dizer. não poderia ser a repetição das mesmas sequências. onde a migração dos grupos constitui simultaneamente uma metáfora e uma metonímia significativas. Porque esse pouco de realidade que ousa ainda pretender é o . a tradição. que dá um sentido a tudo o que o indivíduo realiza e produz. Em todo o modo de produção cultural. que o indivíduo está sujeito à colectividade. Lévi-Strauss no Homem Nu: «A consistência do "eu". isto deve-se ao facto de ele se mover num contexto em que a tradição fixa a ordem do simbólico. mas serão autores exclusivos? Qual a relação entre a obra assinada pelo «eu pensante» e a obra anónima dita tradicional? Parece-nos que o modo como se aborda este aspecto do problema do estatuto das culturas ditas tradicionais encerra ambiguidades e esconde uma certa falta de informação em relação a África. As sociedades africanas movem-se num quadro dinâmico. por um ensaio parcial sempre inadequado para apresentar uma obra sempre inacabada. A actividade e a mudança estão na base do conceito de tradição. É assim pelo menos que se vive a relação indivíduosociedade em África. especialmente Hegel. ou sem a gramática moldada pela colectividade e o vocabulário que ela lhe lega? Se cada indivíduo se caracteriza por um estilo. pois. Tentaremos. nem que seja apenas por instantes. sinónimos de enriquecimento dialéctico. Além disso. Husserl. sem sombra de dúvida. preocupação maior de toda a filosofia ocidental. Não há uma essência da sociedade e esta última não tem uma natureza fixa. ainda que seja necessário tomar em consideração a causalidade económica e acrescentá-la a esta reflexão.

. e cada mito deve. ter a sua origem numa criação individual (14). mas que unicamente aí aconteçam coisas e que essas próprias coisas. parece-nos útil insistir no domínio e nas condições de produção dos valores africanos.» Para mais. por nossa vez. no sentido que os astrónomos dão a esse termo: lugar de um espaço e momento de um tempo relativos em relação um ao outro. que o excluía do princípio ao fim (já que. o que cria reflexos culturais que levam os pensadores a negar qualquer réstea de pensamento onde não encontrem obras escritas. enquanto ela se escrevia. mas é a sua adopção num modo colectivo que actualiza. lembramos que uma das características das culturas africanas tradicionais. Enquanto. devemos hoje reconhecer que a oralidade pode produzir obras culturais muito ricas. É o que C. por outro. se proclamou a abolição. como centro inicial de imaginação e de narração. marcar uma tal reticência em relação ao sujeito quando se fala de mitos. um desejo individualizado (senão ele nada designaria).de uma singularidade. as fontes de valores são os «autores» e as suas obras. com grande insistência. os paralogismos encontrados nas declarações feitas sobre este assunto indicam-nos a via que o nosso estudo deve seguir para ser pertinente.(12). é após ter acabado a sua obra. Não nos compete declarar. Em compensação. Kant.. Hegel..» Em atenção aos que reclamam nomes de filósofos africanos correspondentes a Platão. que levam a contestar o carácter filosófico das culturas africanas e especialmente a sua concepção do mundo. Poder-se-á afirmar que a África nunca conheceu a escrita? . aquilo que se designa pela expressão «visões e concepções tradicionais (do universo. desde que o nó de acontecimentos passados. surjam de muitos outros lados e as mais das vezes sem se saber de onde. que as visões e percepções tradicionais sobre o universo são isto ou aquilo. Descartes. colocando no lugar do "eu" um outro anónimo e. que se entrecruzam. Se há um momento possível para o reaparecimento do "eu". actuais ou prováveis não exista como substrato. etc. é a oralidade. o seu "mitismo"(13). quer dizer. Ao contrário.» Numa palavra. «por um lado.. de modo mais circunspecto.. Em primeiro lugar. Aristóteles. Lévi-Strauss exprime claramente na seguinte passagem: «Porquê. onde se passaram. deviam ser lembradas antes de precisar. cada um deles tenha sido imaginado e narrado por um indivíduo em especial? Só as pessoas falam. não duvidamos de que bastaria juntar os dois e revirar o todo para reconhecer no interior esse "eu" de quem. da vida e da sociedade). permitem circunscrevê-la aproximativamente. em tal circunstância.» Preconceitos deste género. de narrativas que não puderam nascer sem que num dado momento. geralmente inacessível.. Não faríamos mais do que acrescentar novas asserções a todas as outras já conhecidas pela maioria dos leitores. que as visões e percepções tradicionais da vida consistem em tais ou tais manifestações. se passam e se passarão acontecimentos cuja densidade.. lembramos este pensamento do mesmo autor: «As obras individuais são todas mitos em potência. que se tornava o autor de um executante que só e apenas vivia por ela) (15). nunca se encontrou um mito que não tivesse tido por autor um indivíduo. ao contrário do que se poderia julgar.» . a sua característica essencial. em última instância. era menos o autor da obra do que a própria obra. e que negam a autenticidade de toda a cultura que lião ê conhecida por obras individuais excepcionais. esta também relativa em relação a outros acontecimentos não menos reais mas mais dispersos. considerada como uma fonte de visões ilusórias e incoerentes. no quadro da escrita.

Neste sentido. convém precisar que apesar do uso da escrita pela sociedade bamun (Camarões).) que nasceu a maior parte das opiniões que nos governam. julgar pelo estado presente qual terá sido o estado de antigamente». C. as nossas leis. das escritas baba emende (Serra Leoa e Libéria). poderíamos replicar aos que se opõem. encruzilhada universitária onde se encontravam os homens cultos do mundo inteiro e que deixou a sua marca na evolução das idéias e instituições. É inegável que nessa área do campo cultural africano não tenham existido obras escritas. muitos outros sábios e eruditos falaram de tais estudos. quando falamos de oralidade como característica do campo cultural africano. Que assim seja. as causas dos hábitos: numa palavra. todavia. procurar saber quais as possíveis influências do governo. Como hoje em dia se reconhece. É indispensável. toda a sociedade humana dispõe de um meio de fixação específico que lhe permite uma certa apropriação do tempo. E. pensamos numa dominante e não numa exclusividade. verdadeiro mosaico de povos onde as populações targui. Depois de Heródoto de Halicarnasso. em África foi por meio de aquisição e transmissão orais que os valores culturais se perpetuaram. Será pois interessante conhecer os lugares onde nasceram essas idéias. «foi nessas paragens (. para lá desta afirmação geral que vale para toda a sociedade. na melhor das hipóteses. Nigéria Oriental). A zona egípcia da África seria a única onde se conceberam obras culturais por escrito? Investigando. publicar nessa zona da África. dispondo de um meio de fixação específico. no século V a. A objecção que a seguir se levanta é a de que nunca se escreveu qualquer obra científica ou literária no campo cultural africano! Para responder a isto convinha examinar um pouco mais a dinâmica cultural própria do continente africano. deveremos insistir no facto de a escrita egípcia figurar.. É interessante examinar até que ponto esse espírito. de lá vieram as idéias religiosas que influenciaram tão poderosamente a nossa moral política e pessoal.. . descobre-se que o uso da escrita teve uma certa voga noutras regiões africanas. do século XVIII. Mas. o espírito e o carácter das nações que os consagraram. «dádiva do rio». todo o nosso estado social. a oralidade numa cultura permite privilegiar o aspecto oral na aquisição e transmissão dos conhecimentos e dos valores. esses costumes.Só uma informação deficiente sobre o campo cultural africano poderia levar a dizer que a África não criou sistemas de escrita pictográfica (escrita de idéias ou escrita de palavras) ou fonética (escrita silábica ou escrita alfabética). lembrar aqui que o património cultural egípcio faz parte integrante do património cultural africano. entre as três mais importantes e mais antigas escritas «de palavras». Se alegarem que os sistemas de escrita a que fazemos alusão são recentes e datam apenas do século XIX ou. Não insistiremos nas extraordinárias produções culturais das escolas do Egipto antigo. songai e mandinga se encontravam lado a lado. os usos e os costumes em que se baseiam. Portanto. esses usos se alteraram ou conservaram. Tal é o caso dos Estados da «civilização circunvizinha da Nigéria». juntamente com o sistema sumério e o chinês. do clima. Como Volney escreve (16). moura. estudos que esclarecem a atmosfera cultural. Notemos contudo que nem toda a gente está de acordo em integrar esta produção cultural na área cultural tradicional de África. da escrita nsidibi (Calabar. as sociedades referidas não fizeram dela o mesmo uso que a civilização chinesa ou a civilização oriental.. apesar da existência da escrita vai (Serra Leoa). no entanto.

astronomia. se apercebeu disso». . teologia. O seu excepcional nível cultural permitiu a eclosão e a emergência de um certo número de sábios cuja autoridade no domínio da ciência. entre 15 a 20 mil alunos corânicos e cerca de 150 a 180 escolas corânicas. característico das culturas de dominante oral. Esta cidade com cerca de 70 a 80 mil habitantes tinha. porque. «Ele é a cúpula da evolução cultural da grande cidade nigeriana. era mundialmente reconhecida e admirada. genealógico e social. germinando por si mesma. por outro. É assim que Abderrahmann El Temini. no conjunto dos centros de estudos e de ensino respeitantes a todos os conhecimentos adquiridos na época». das letras. eram por vezes mais adiantados. Ele é também o fruto da cultura sudanesa. que se baseia numa passagem do livro Tarikh el Fettach (21). para determinar e situar correctamente o indivíduo no seu contexto familiar. era incontestável. ao nível do ensinamento do profeta Maomé. originário de Hedjaz. Tombuctu conheceu uma vida intelectual excepcional. necessitaria de pelo menos quarenta palavras (22). direito. portanto. mas a atenção particular que cada cultura presta às «coisas» comuns do mundo para as distinguir em «objectos». Este célebre doutor «simboliza só por si o apogeu da cultura nigeriana».. lógica. é porque sentia que o contexto de simbiose cultural em que prosperava a Universidade de Tombuctu demonstrava um modo específico de abordar os mesmos problemas ou de os reformular. etc. contrariamente aos mestres da geração precedente. por um lado «os sábios sudaneses da "Idade Média" eram da mesma classe intelectual que os seus colegas árabes. Kakê e Sissoko. Neste contexto. Como observam I. A autenticidade não conota o solipsismo de uma cultura.Os trabalhos de Ibn Khaldun (17) e de Ibn Batuta (18)... mas sim pelo nível do estilo particular que ela adopta para individualizar ou qualificar esses materiais e para. nenhuma cultura se desenvolve e se expande de maneira autárcica e que. do direito. bem representado. segundo Sissoko. poder-se-á falar de cultura autenticamente africana? Digamos sumariamente que. por outro lado «a universidade deve ser entendida no sentido geral e medieval. quer dizer. A influência do Islão na civilização sudanesa. moral. formular a síntese.» Este texto já responde a uma das objecções: havendo influência do Islão sobre esta civilização dos Estados da região do Níger. por um lado. etc. autores árabes a que se juntam eruditos sudaneses tais como EsSaadi (19) e Kati Mohammed (20). retórica. levado ao Mali por KanKan Mussa. Ele é. etc. Mas os sábios da Universidade de Tombuctu não eram meros repetidores que se abandonavam ao psitacismo. a partir deles. que ele é a expressão de um método. Ahmed Baba só estudou em Tombuctu. Veremos. história. O vigor intelectual e mundial da Universidade de Tombuctu do século X ao século XVI é um dos traços culturais mais marcantes desse desenvolvimento. a autenticidade de uma cultura não se avalia pelo nível do assunto ou dos materiais sobre que o espírito trabalha. palavras significativas. a quintessência da civilização sudanesa no seu apogeu. dão-nos imensos pormenores não só sobre a vida económica mas também sobre a irradiação cultural dessa região. a propósito deste nome. Contentemo-nos em citar o célebre doutor Ahmed Baba cujo nome completo. Se o sábio Ahmed Baba se notabilizou por umas quarenta obras sobre gramática. o padrão de avaliação da universidade sudanesa na segunda metade do século XVI. «idéias». Neste contexto cultural é possível citar nomes de pensadores especializados no campo da reflexão levada a um extremo grau de abstracção. escreve Sissoko.

insistir antes nos grandes doutores africanos que foram Tertuliano. vem sempre ao de cima? A tradição. Como já dissemos. não importa em que conjuntura actual. . desprezado pelo modernismo.não traduzirá a tradição. Orígenes. Poderíamos. o estilo textual dessa cultura? Assim. Também poderíamos ter evocado nomes de pensadores etiopes que se tornaram célebres pelas suas obras escrita. Arnóbio. repetimos que a característica essencial das culturas africanas é a oralidade. por exemplo. a formação destes sábios estava profundamente polarizada na área cultural cristã e especialmente romana. que teve o privilégio de enunciar uma verdade em que todo o homem se deveria inspirar: «Homo sum: humani nihil a me alienum puto. em lugar de traduzir um período volvido da vida de um povo. convidado pelos grandes mestres da inteligentsia de Marráquexe. nas atitudes individuais. nas actividades manuais reflexas e reflectidas. Não esqueçamos Terêncio. ou uma força de inércia ou de conservadorismo arrastando os mesmos gestos físicos e intelectuais para um imobilismo de espírito. não no sentido de definição da essência de uma cultura. o proprium da concepção do mundo de África pode ser determinado pelas diferentes manifestações do seu modo de apreensão das coisas.. não só de um domínio para outro mas também de um período para outro. Mas ao fazê-lo estaríamos a facilitar a crítica aos que reduzem a cultura tradicional africana a qual. Porque. Não é uma moda passageira como o modernismo. São Firminiano. Com efeito. uma vez que Ahmed Baba era. mas . Numa palavra. Nestas condições.Este estilo sudanês não escapou à atenção dos maiores sábios do século XVI. etc. dos acontecimentos. Só ela caracteriza uma cultura e a distingue de uma outra cultura. em lugar de traduzir o seu «ter sido».quer coisa de indefinível e de flutuante. houve numerosos pensadores africanos que desenvolveram por escrito e durante séculos os valores produzidos pela sociedade e os frutos das suas próprias inspirações e elaborações. assimilável aos seus fantasmas ou à zona de sombra do seu próprio ser. Examinemos agora esses domínios e períodos de forma mais rigorosa. São Cipriano. desde muito cedo influenciada pelo cristianismo...'). um sinónimo de actividade e não de passividade. mesmo quando se utiliza a escrita. Santo Agostinho. em lugar de fazer referência a esta área cultural da zona do Níger entre os séculos X e XVI (área influenciada pelo Islão). e que o mais profundo do modernismo exigente. O que é tradicional na concepção do mundo de um povo? Aquilo que é rele.» Todos eles deram à humanidade uma importante soma de reflexões muito elaboradas desde os primeiros séculos da era cristã. produtos da área cultural da África. coercivo e muitas vezes superficial se desloca sem parar. incapaz de se renovar (23). desfaz-se e refaz-se. Tomar em consideração as suas contribuições como fazendo parte integrante do património cultural tradicional africano não será jogar demasiado com a dimensão geográfica? Eis uma nova interrogação que implica pôr em questão o conceito de «tradição». nas relações com os outros. a cultura tradicional faz-se. nas actividades puramente intelectuais. São Cirilo de Alexandria. Manifesta-se nos comportamentos mais actuais como nos gestos mais antigos. Apesar de certas manifestações dos valores africanos.na medida em que uma tradução pode sempre apresentar um texto não importa em que língua .gado para o passado muito antigo desse povo? Não será antes o que não deixa de manifestar a marca particular do povo considerado e que. a tradição não é uma repetição das mesmas sequências em períodos diferentes. não traduzirá antes o seu «ser» permanente.

que «durante séculos foi uma das armas decisivas do Islão ocidental». Quanto mais os grandes doutores africanos dominavam os diferentes campos da ciência e do saber do seu tempo tanto mais as massas se contentavam com o aspecto oral da vida cultural quotidiana. tâmaras. as civilizações. de peles e de escravos. Estas actividades comerciais tiveram sem dúvida uma grande importância no aparecimento dos primeiros reinos negros do Sudão. de Bito). que é sinal de autoridade. roupas de lã e de seda. a . Privada da mina de sal de Teghaza. A cultura dos doutores. «aurora do Ocidente dos tempos modernos. tais como a detenção da palavra. Como já precisamos mais acima. Teghaza. de marfim.nacionalmente conhecida. Por falta de apoio das massas. que a florescência da cultura elitista baseada na escrita requer uma base económica sólida. chegava a Air ou ao Chade. que dissemos ser sinónimo de actividade. A oralidade é tanto efeito como causa de um certo modo de ser social. de Bure. pela oralidade. essa brilhante vida cultural não tardou a desmoronar-se. com a geração de Ahmed Baba. de Bure e de Bito. missangas. privada do ouro das minas de Bambuque. quando se quer conhecer a concepção do mundo na cultura africana tradicional pode-se e com interesse tirar partido dos trabalhos produzidos por e nesse período. a cultura baseada na escrita foi uma actividade citadina e minoritária. o século XVI foi o crepúsculo da civilização da África negra». cavalos. em especial a ilusão retrospectiva que leva a representar a área cultural atrás analisada à luz do estado actual dessa região. depois de ter oferecido. uma terceira. partindo de Gadamés ou de Trípoli. Durante séculos de vida intelectual intensiva e inter. É aliás esta abertura ao maior número que explica o facto de a oralidade ter vencido a resistência da escrita na civilização da zona do Níger. de acordo com o que Hubert Deschamps escreve: «Através do Sara. no plano metodológico. Assim. Levavam para lá o sal do Sara (Idjil. de passagem. na maioria dos Africanos. a cultura sudanesa desenvolvida no contexto da escrita desapareceu bruscamente. reconhecida e respeitada em que a Universidade de Tombuctu manifestou a sua autoridade. a língua do Corão. muito evoluída.» A ilusão retrospectiva leva igualmente ao esquecimento do contexto de prosperidade económica que favorecia a troca e o estado culturais. Observemos. cobiçada por Marrocos mas muito importante para os sudaneses. prata. em busca de ouro (minas de Bambuque. as caravanas de camelos dirigiam-se para o Sudão Ocidental. permanecia contudo rigorosamente purista do ponto de vista linguístico: só o árabe. podia traduzir a verdade.a tradição. Em todo o caso. por volta dos séculos VIII e IX (24). porque é necessário evitar um certo número de obstáculos. apenas se expande autenticamente. Bilma) e os produtos da África do Norte: trigo. sabemos que somos mortais. Os mercadores arábico-berberes residiam no Sudão. pois o Africano tem tanta autoridade como qualquer outro povo para poder afirmar como Valéry: «Nós. Denuncia as relações sociais específicas privilegiando certos factores de estratificação ou de diferenciação social. falar de oralidade é sublinhar a existência de uma dominante em que prevalece a comunicação oral. cobre. Uma estrada atravessava a Mauritânia. as maiores promessas de renome mundial. uma outra ia até à zona do Níger. não é de modo algum designar a exclusividade da comunicação oral proveniente de uma hipotética incapacidade do uso da escrita.» Um outro obstáculo consiste em acreditar que a oralidade não se serve de algum meio que implique a utilização de sinais especialmente indicados para ajudar a memória.

Classifica-se este jogo.iniciação a conhecimentos que constituem uma espécie de saber mínimo garantido. O seu carácter africano continental fez com que ficasse conhecido como The National Game o/ A/rica (O Jogo Nacional da África) (26). Podemos reparti-los assim: 1. algumas das manifestações da atitude que certos povos africanos têm em relação ao universo e à sociedade. e esse carácter deve conotar uma mentalidade similar naqueles que o praticam.. que se pratica de Este a Oeste e de Norte a Sul da África. se Marcel Griaule. 4.. importante ensinamento que o jogo pode suscitar na mentalidade da sociedade. mitos. se interessou sobretudo pelo seu aspecto pedagógico (“a criança adquire o sentimento e . enquanto os jogos euro-asiáticos apenas são considerados do ponto de vista histórico e etimológico(27). No Daomé e no Togo chamam-lhe «aji». provérbios. que observou a prática deste jogo pelos Dogon. máximas. 3.» Esta tentativa de teorização mostra que o domínio dos jogos não é um domínio a menosprezar quando se quer pôr em destaque as características de uma sociedade. nos jogos euro-asiáticos. na categoria dos jogos de cálculo. variantes que enriquecem a concretização desses princípios: trata-se do jogo a que alguns europeus chamam Jogo Africano dos Godés e os nomes. que qualifica o indivíduo.» Preocupado com a teoria da comunicação. trata-se efectivamente de um jogo nacional. A disposição e a transformação da natureza. são certamente ainda mais significativos. a enumeração do conjunto dos peões é hierárquica e a do tabuleiro é uniforme. Nestas condições. os diferentes domínios a investigar para definir o proprium cultural africano vão da religião ao quotidiano mais banal. Estudaremos.. Com efeito. modestamente. 2. De qualquer modo. na base de certos princípios comuns. ao que parece. adivinhas. contos. nos mankala a situação inverte-se. sobre a função expressiva.. A propósito disto pôde um investigador escrever: «A comparação entre os jogos de cálculo euro-asiáticos e os mankala mostrou que a diferença principal entre estes últimos reside nos dois tipos de enumeração preferencial das grandes entidades constitutivas . porque ignoram. devido à sua formação e aos seus preconceitos.o tabuleiro e os peões. «Assim. A função comunicativa nos textos das tradições orais prevalece. As produções de oralidade: ditados. lendas. o urbanismo. o vestuário.. no Senegal é o nome «ouri» que caracteriza este jogo. a arquitectura. Não procederemos aqui a uma investigação completa diversificada de todos estes domínios de expressão e de concretização da concepção africana do mundo. na Abissínia utiliza-se o nome «gamada». Os Jogos Experimentemos começar por um domínio geralmente menosprezado pelos especialistas ou entendidos. Estes dois tipos de enumeração explicam-se por uma escolha preferencial. o autor acrescenta: «Parece-me que o mankala poderá servir para esclarecer a estrutura da comunicação verbal vista através das obras literárias das sociedades africanas.. A profunda inserção do mankala no contexto social permitiu estabelecer relações entre as diferentes linguagens (no sentido mais lato da palavra). As produções artísticas: a escultura.. Um destes jogos confirma a pertinência da noção de unidade africana e revela. os Masai chamam-lhe «dodoi». As práticas religiosas africanas. «mankala» é o nome que tem no Zaire e talvez em toda a África Central e Oriental (25). variáveis de uma sociedade para outra.

Apenas podemos reflectir sobre as suas regras ou estar atentos a certos ditados ou provérbios que fazem alusão ao princípio dos jogos em geral. No entanto. mas também se multiplicam as diligências no plano internacional para os fazer conhecer no mundo inteiro. pode permanecer imutável no fim do jogo. O ensinamento que revela a observação do mankala ou aji ganharia em ser confrontado com os resultados da observação de outros jogos africanos. Trata-se de um jogo onde não é obrigatório haver um vencedor. não visa imediatamente a eliminação de um adversário com pouca sorte. Por consequência. :m uma actividade que concretiza uma atitude perante o universo. é significativo no plano sociológico. se um outro observador notou que. Em princípio. não leva fatalmente uns a enri.. todos participarem). enquanto actividade agnóstica. cujos efeitos. os ditados e as máximas. escreve). Noutros termos. sem nenhum elitismo. Segundo esta perspectiva. por si próprios. a vida e a sociedade. Põe-se agora a questão de saber qual o tipo de vantagem a que se alude! Mas não é este o lugar para aprofundar esse problema. A vantagem que cada jogador obtém com o jogo dependerá do excesso de energia que ele despende durante o jogo? Ou estará relacionada com o ritual. exigem uma enorme tensão de espírito». fazer a sua teoria.quecer e outros a arruinar-se.. Os provérbios Passemos para um outro domínio que nos elucida acerca da concepção do mundo em África: os provérbios. distinguem -se os vitoriosos e os vencidos (28). A competição lúdica. enquanto os jogos noutros países do mundo exigem que haja um vencedor em cada partida. As suas implicações não visam apenas o carácter alternativo do jogo. ninguém deve ser reduzido ao papel de simples espectador da vitória do outro. quer como manifestação directa quer como compensação do comportamento quotidiano.depois a noção de quantidade ao manipular as pedras do jogo”. muitas vezes deveras complicadas. os jogos não podem. no Daomé. Não só cada país toma consciência do seu valor e se esforça por recolhê-los. jogo nacional da África. É assim que o Fon (Fó. no fim da partida. O que se pode dizer é que não se trata de uma mudança de riquezas materiais. ainda não totalmente elucidados. Porque se presta toda esta atenção a um domínio que. são múltiplos sobre o indivíduo e o grupo? O que acontece é que. cada jogador deve tirar vantagem do jogo. através da observação do jogo. que à partida nada levava a pensar serem desiguais. A sua mecânica assemelha-se ao jogo de sociedade estudado por C. São numerosos em todas as sociedades. devemos sublinhar que o facto de ser o jogo preferido pela grande massa dos africanos. a igualdade que reina no início de cada partida. essa igualdade é postulada. talvez se possa compreender a concepção do mundo em África. que escreve. «as combinações desse jogo. em língua daomeana) diz: «mê ji je mê ji je we ayihú nó vivi» (o jogo só tem sentido se.» No mankala. Esta frase reflecte já o «semidito» que caracteriza o discurso africano. visam igualmente e sobretudo o seu carácter de reciprocidade e de igualdade. segundo a opinião de alguns. cada um por sua vez. Pouco importa o que efectivamente acontece. é apenas uma manifestação inferior do intelecto? . graças ao número igual de grãos que cada jogador possui. a propósito: «O jogo aparece então como dijuntivo: termina pela criação de uma separação diferencial entre jogadores ou campos individuais. Lévi-Strauss.

as representações. ditados e máximas africanas. seria bom que. Para começar. Não esqueçamos. a propósito de tal ou c tal provérbio respeitante ao comportamento social. a feitura destes «resumos» da reflexão é similar. Há outros que. resultado de experiências mil vezes confirmadas. os velhos do Conselho não saltam para . a força da gravidade. revelam-se como sendo belos «resumos» de longas e amadurecidas reflexões. Vemos de maneira mais nítida nos provérbios que se referem ao respeito por si. além disso. o efeito de boomerang. não é a maioria das vezes um pensamento simples e claro. moral ou político. a honestidade considerada como uma virtude. Há alguns que se encontram em todos os países e a todo o momento. depois de longas rodagens e experiências. Em seguida. a falta de informação. a discrição e o respeito que se espera dos mais velhos. os provérbios não são obras secundárias e. a experiência considerada como a escola da vida. o leadership. pelo contrário. o respeito pelos mais velhos. Sanda (29) e incidindo sobre diferentes temas: a paciência considerada como uma virtude. na vida. traduzem a atitude específica de uma categoria social no contexto de um país ou de um conjunto de países. o respeito por si que os mais velhos esperam dos outros.diz o Ioruba. A este respeito achamos particularmente interessante a recolha de provérbios feita pelo nosso colega A. com efeito. Apesar desta ausência de monotonia ou de repetição das mesmas imagens e das mesmas palavras. que nem sempre poderemos considerar os provérbios como a expressão de uma sabedoria eterna e universal. no universo. que os mais velhos devem possuir. não pode ser considerada como o lugar de um entendimento miraculoso e sem contestação entre os cidadãos.Primeiramente. O que convém notar em primeiríssimo lugar nestes provérbios que surgem de diferentes sociedades africanas é a unidade do modo de pensar africano. Descobrimos nesse nível de expressão do intelecto e nesse modo de manifestação da reflexão que a unidade não nasce da repetição das mesmas imagens e das mesmas palavras para exprimir a mesma idéia. Eis porque. o recurso à oposição maior alto-baixo traduz o inevitável. a sabedoria. preferimos insistir sobre os aspectos que se seguem. que se empregam diferentes imagens para exprimir a mesma idéia: um homem idoso não faz de si próprio um objecto de escárnio das pessoas . a cooperação e a reciprocidade nas relações humanas. mas consiste num dinâmico esforço de metaforização onde se evidencia a criatividade de cada grupo. O carácter anónimo dos provérbios traduz a sua profunda inserção no âmago da experiência e da vida colectiva. a ignorância. onde quer que se encontre a expressão do mesmo pensamento através de língua diferentes e em diversos países. em haussa e em ashanti. Esta forma de expressão lacónica dos resultados de um sem número de experiências na sociedade. Assim. O. em lugar de apresentar aqui uma lista de . o Kikuyu e o Ashanti forjam outras imagens: um homem respeitável não deve rebaixar-se ao nível de um garoto. a gratidão e a ingratidão. África. salvo se a virmos como a expressão de um fantasma onde a unanimidade qualificaria eternamente as relações sociais. ao passo que o Fó. seria indicado reunir e confrontar esses «resumos» de longas e amadurecidas reflexões. nos interrogássemos sobre a categoria social donde emergiu e se cristalizou semelhante pensamento.provérbios. a esperança e a perseverança. sem utilizar as mesmas palavras em ioruba.

uma concepção equilibrada. ou reconhece-se que ela é realmente importante? Tomando como exemplo um determinado país poderemos analisar o problema com mais pormenor. que um filho do primeiro casamento não é um filho mas uma guerra intestina. Escreve a propósito dos Uolof: «As suas conversas têm por objecto os provérbios de certos filósofos antigos (. O mais notável de entre eles é Cothi-Barma. Finalmente. a identidade ou a similaridade do pensamento expresso não deixa dúvidas. Eis uma delas: «Cothi conservava na cabeça de seu filho quatro tufos de cabelo (os Uolof tinham por costume rapar a cabeça de todas as crianças). «Condenado à morte pelo rei. os enigmas e as fábulas. no domínio dos provérbios.» Boilat ficou vivamente impressionado com o modo de comunicação e de expressão dos Uolof e anotou as passagens mais surpreendentes. há mais de um século que se recolhem os provérbios deste país. procurou durante muito tempo. das mesmas imagens. há uma concepção. dispomos não só das Fábulas Senegalesas (1828) -e neste caso o autor. Sua mulher tinha. se realizam os trabalhos mais convincentes sobre a concepção do mundo em África. hoje em dia. Numa palavra. cheio de curiosidade. Eis como. terá de ser ele a arrumar a mesa. a unidade de pensamento não conota a repetição dos mesmos gestos intelectuais ou manuais. mas não confiar nela.. adaptada aos meios e aos fins que a sociedade estabelece. Consideremos o caso do Senegal. ela é a expressão de uma mentalidade dinâmica que.atravessar o rio.). Tanto quanto nos autorizam as informações que obtivemos. recorreu à astúcia. Boilat dá-nos mesmo nomes de «alguns filósofos antigos» Uolof. tinha a cabeça rapada. nem protector. Com efeito. dizia.. quando um dos mais velhos devora a comida toda com avidez. a quem respondeu sem qualquer comoção: Não será verdade que um rei não é parente. um filho do primeiro casamento que. Nestas condições. por seu lado. O Damel (33). já que. É nesta perspectiva que. que numa região um velho é sempre necessário (34). é possível ter acesso à visão do mundo dos Africanos. Cada um desses tufos. representa uma verdade moral que só eu e minha mulher conhecemos. que se encolerizara com o primeiro símbolo. Salientamos a propósito que há mais do que uma visão. e salvo da execução por um velho muito influente junto do rei. teve uma acção muito importante na expressão das fábulas recolhidas -. mas também os Bosquejos Senegaleses (1853). será pertinente perguntar: a tentativa de recolha e compreensão dos provérbios africanos será uma questão de moda. em face de um problema ou de uma situação similares. no entanto. onde o escritor Boilat (31) nos apresenta numerosos provérbios senegaleses. Os brilhantes conceitos deste filósofo poderiam perfeitamente constituir matéria para uma grande obra (32). O segundo. reage e reflecte similarmente. por causa de um segredo que não vos contei e que tinha o . descobrir o segredo. que é necessário amar a esposa. Cothi foi conduzido à presença do rei. Mandou chamar a mulher do filósofo e convenceu-a à força de presentes. «O primeiro tufo significava que o rei não é um parente. O quarto. Roger Le Baron (30). A história dos seus filósofos é tão interessante que não deixo de citar alguns factos. As quatro imagens utilizadas não são as mesmas e. O terceiro. nem um protector. como todas as outras crianças. mas sempre em vão.

escreve ele . para a construir. «O pobre que receia o Sol. que são contados em ambiente de reunião. pelo contrário. poder. O ensinamento que se pode tirar da obra de Boilat incide especialmente na antiguidade da sua tomada de consciência do valor dos provérbios. Os provérbios vulgares abarcam todas as formas de provérbios: «Uma língua insolente é uma má arma». esquecendo os serviços que vos prestei e a constante amizade de nos ligava desde a infância? «Não será verdade que se deve amar a esposa mas não confiar totalmente nela. ou ainda: «As interrogações reiteradas tornam-nos indiscretos». «Esse homem .» Boilat legou-nos uma observação importante acerca das categorias dos provérbios. ao luar ou em redor da fogueira. mas uma guerra intestina. Apesar disso. receia um parente (um benfeitor). mas sim morto. os habitantes de Cayor exaltam a sua subtileza. vítima da vossa injusta cólera? (35). senão em exigir-lhe roupas que receava perder? «Não será finalmente verdade que um velho é útil num país.» Enfim. Boilat descreve um outro modo de expressão que pertence à oralidade: os enigmas.) Se a coisa parece difícil. por amor de Deus!) (36).direito de guardar para mim. a propósito de um terceiro filósofo Uolof. já que. «Aquele que despreza a sua condição é um homem sem honra. estar de acordo com os vizinhos e ser amado por todos». Masseni. ou ainda: «Três coisas o conservam neste mundo. os Uolof. Talvez o facto de os primeiros estrangeiros que se interessaram pelos provérbios africanos não terem tese «de escola filosófica» a defender e se contentarem em mencionar o seu espanto. «Quando um filho não se contenta com o tecto paterno é porque a sua mãe é impaciente. reunidos em grupo. eu já não estaria vivo a esta hora. Por exemplo: «Três coisas são necessárias neste mundo.» Boilat nota que «se atribuem a Cothi mais de cinco mil adágios ou máximas». poucos são os homens de cultura africana que se desinteressam destes . a quem eu revelara o segredo. De um outro filósofo Uolof. o exterior e sacos de dinheiro». o proprietário trabalhou e sofreu muito. me condenaste à morte. e quando alguém adivinhou a resposta. Os provérbios trinitários salientam três coisas. interpelam-se uns aos outros com perguntas e respostas que são verdadeiros textos de filosofia. Ainda hoje. quando devia chorar o pai condenado à morte. ou: «Conhecer-se a si próprio vale mais do que sabê-lo pelos outros».» 3. seguram o queixo e exclamam: Bissimilay Dhiame! (A verdade.só se ocupou a fazer enigmas para divertir os ociosos. me traiu em troca de vis presentes? «Não será verdade que um filho do primeiro casamento não é um filho.» 2. ou: «Três coisas são as preferidas neste mundo. já que sem um velho sábio e prudente. «Aquele que vai a casa dos outros pedir esmola faz mal. possuir. os Uolof utilizam duas espécies de provérbios: os provérbios trinitários e os provérbios vulgares. rindo-se muito. não pensava. cuja gravidade soube dominar a vossa paixão. considerados como uma expressão da concepção do mundo dos Africanos. ele transcreve os quatro adágios seguintes: 1.» 4. os tenha levado a atribuir aos provérbios um valor importante. objectos ou considerações. toda a gente grita: Wenc neu dug! (Ele disse a verdade. neto de Cothi. «Cada um interroga por sua vez. À noite. saber». Segundo ele. uma vez que a minha mulher. a saúde. os amigos. para pôr à prova a sua fidelidade. Biram Thiam-Demba.

a religião desempenha o papel de seu substituto vivo. Na sua análise da casa kabyle. Excluindo a escola que a vida quotidiana familiar e social constitui e que enriquece a experiência do indivíduo. A arte Depois dos jogos e dos provérbios. animais e humanas tal como cada sociedade as representa na sua linguagem. quer se trate da arquitectura. do permitido e do proibido. de urbanismo. . será necessário agora abordar o domínio da arte.. como dizem os Fó) e torna-se um homem total.. domínios de observação úteis para o estudo que empreendemos. não vemos por que razão. dos provérbios e da arte. do modesto entrançamento dos cabelos. minerais. na interpretação do proprium africano no que respeita às «visões e percepções tradicionais». Assim. constitui um aspecto importante da integração das actividades numa cultura dinâmica. É através dela que ele tem acesso às categorias vegetais. a expressão de todo o homem e de toda a vida no gesto do artesão. cuja pureza e rigor são testemunho de um elevado valor estético que tem por base a reflexão. através das múltiplas escalas de oposições. de música. mas sob a forma de actividade social criativa e libertadora. A religião africana é. Trata-se agora de fomentar estudos deste género nas culturas com dominante oral.problemas quando se esforçam por compreender a sua própria sociedade. É ela que lhe permite ultrapassar o conhecimento vulgar dos valores a que a sociedade se agarra. Exprimem.-artista. Para nos limitarmos aos seus aspectos essenciais. de coreografia. no jogo do prescrito e do interdito. o efeito e a origem da civilização da oralidade (38). em certo sentido. Se Erwin Panofsky (37) foi bem sucedido na análise das relações entre a arquitectura gótica e o pensamento escolástico. Assim. à vida e à sociedade exprime-se não de forma especulativa. na ausência de tratados escritos. em relação aos domínios dos jogos. desabrochado. começaremos por notar que existem verdadeiras escolas de preparação não só dos fiéis mas também para o cidadão vulgar. Essas escolas são aquilo a que habitualmente se chama de iniciação. apreender a expressão do homem na sua vida concreta. Por falta de livros que consignem as aquisições das culturas africanas. Quer se trate da estatuária e da escultura. a atitude dos Africanos em relação ao universo. não será possível extrair do trabalho dos construtores das gigantescas casas bamileké (Camarões). A religião Não poderíamos negar o lugar preponderante que cabe à religião. O domínio religioso é de uma riqueza considerável. As práticas religiosas conservam e traduzem a relação com o mundo do homem africano. O objecto trabalhado participa de um mundo em que a unidade. aprofundando o seu porquê. veremos como é possível. das casas-obus chadianas ou dos castelos somba (Norte do Daomé). no estudo das culturas que não estão polarizadas em tratados escritos. etc.. a iniciação representa uma instituição capital para a informação e para a formação do indivíduo. conhecendo o início da produção dos valores e instituições ou talvez até a sua origem. os valores e contra valores da sociedade. Pierre Bourdieu conseguiu já pôr em evidência o pensamento social que a subtil arquitectura kabyle traduz. o cidadão deixa de ser um errante (um ahe. susceptiveis de esclarecer o assunto que examinamos. o pensamento que as inspira e a concepção das relações sociais que eles estabelecem.

mas sempre presente. Mas a iniciação não concede todo o saber durante uma cerimónia de tempo limitado. de 21 anos cada uma: 21 anos de aprendizagem. também um adulto vicioso dificilmente é recuperado. nasce direito e apenas começa a curvar-se mais tarde com o peso dos ventos deste mundo. «Sair do curral» é como uma morte para o pastor. excelente escola que educa cada cidadão. sobre aquilo que o homem pode esperar e o que pode fazer. a sua inocência desaparece à medida . Tudo o que se conhece é uma parte de tudo. Mais adiante. numa atitude em relação à vida. igualmente conhecimento de tudo o que não somos (39). o mais dedicado dos iniciados ou o seu filho. os Fó. científico e político. mais 3 graus superiores que são inaudíveis.dos pela sua profissão mas também instruindo-o acerca da estrutura do universo. cada um dos seus elementos e dos aspectos que fazem parte de um todo. 21 anos de prática e 21 anos de ensino».A tentativa de definir a origem faz-se através do mito (palavra. mas o discurso fundamental em que se baseiam todas as justificações da ordem e da contra-ordem sociais.» E esta ciência deve atingir o universal. começa com a "entrada" e termina com a "saída" do curral. do conhecimento. Implica três sequências. e que não se reduz à aquisição de algumas receitas. Assim. não só ao ensinar-lhe os conhecimentos técnicos requeri. chama então o seu sucessor: o mais apto. que não é o discurso falso ou com intenção de enganar. A criança nasce isenta de todo o vício. Dieterlen escrevem: «A iniciação é conhecimento: de Deus e das regras que ele instaurou. que tem lugar aos 63 anos.» A iniciação (diz um texto peul) começa ao entrar no curral e acaba na tumba. Hampâté Bâ e G. Tal como a árvore. quer dizer. Assim como um velho tronco torcido não pode ser endireitado. chamada "palavra desconhecida" (40). porque se apresenta como uma ética.» Este testemunho faz aperceber o papel insubstituível da iniciação. Um texto basa (41) (Camarões) elogia os méritos de semelhante educação e desenvolve as idéias sobre a concepção basa do homem: «O homem é como uma árvore.» Para compreender bem este aforismo é necessário saber que «a vida de um Peul. que só o tempo prodigaliza e apenas ao homem perseverante um esforço constante que desemboca num certo estilo de vida. dizem que ele tem «a orelha furada» (e to to). podemos levantá-lo quando ainda é novo. por exemplo). conhecimento de si. A propósito do Koumen A. Fazchupar a sua língua porque a saliva é o suporte da palavra». por exemplo. aquele que teve acesso às revelações ou manifestações que a iniciação concede já não é um simples figurante. Os Peul dizem: «Não se conhece tudo. enquanto pastor iniciado. ela continua depois com o enriquecimento moral. Alguns testemunhos de sábios poderiam completar estas observações. Eis porque diremos que o saber prodigalizado pela iniciação é de ordem qualitativa e não quantitativa: trata-se de aprender a viver e não de capitalizar conhecimentos. são os da "palavra não formulada". à sociedade e ao universo. depois diz-lhe ao ouvido o nome secreto do bovino. No entanto. um pormenor importante: «33 graus correspondem aos 33 fonemas da língua peul.

anatomia e fisiologia). É interrogando as teologias e cosmologias elaboradas nos cenáculos que nos daremos conta. É assim que o tratamento do corpo. indivíduo-colectividade.. veneraçãofamiliaridade. ao fazer uma prospecção do domínio religioso. de igual importância. é «composto por 22 categorias de 12 elementos. que o conhecimento dogon. botânica. É um ardil em que caem muitas vezes aqueles que têm pressa de descobrir o politeísmo por todo o lado. correspondem-lhes». tal como Marcel Griaule. Veremos assim que os Dogon ou outros Africanos «construíram uma explicação própria das manifestações da natureza (antropologia. que possuem uma maior experiência da vida. etc. têm obrigação de a educar e instruir para que ela possa evitar o mal e procurar o bem. em todos os lugares que não fazem parte da Europa. artes. da vida e da sociedade. esta construção de 11 616 sinais exprime todos os seres e todas as situações possíveis vistas pelos machos. por exemplo. Mas conhece todas as regras do jogo. ou seja.) (42).» 'A moral assim ensinada ao educando pelo educador só toma o seu valor de palavra respeitável e imperativa no quadro das práticas religiosas. As das mulheres.que cresce e aprende de tudo. de tal maneira que pode ensina-las a outros e obrigá-los a adaptar-se a elas. O educador é simultaneamente um árbitro e um treinador. se revelarão os preciosos veios de idéias sobre as «visões e precepções tradicionais». que intervém na relação do homem com a divindade. recolhimento-júbilo. descobre o mundo que a rodeia e que age sobre ela. e cada um está à cabeça de uma lista de 22 pares. 264. Pela sua curiosidade e o seu gosto de aventura depressa descobre o mal. Ele próprio pode não ser um bom jogador.» O domínio religioso revela-nos outras características da concepção que os Africanos têm do universo. Eis porque. É uma manifestação presente no regozijo colectivo e não a conclusão de um silogismo. onde tudo mergulha no sagrado. nessa idade ainda não está prevenido em relação a nada. Os seus familiares mais velhos. Impõe-se uma outra observação: diz respeito à multiplicidade de nomes que um deus pode ter. é o homem total ligado à sociedade que manifesta a divindade ao assumir e sublimar tudo o que o constitui como homem. em que o corpo é eliminado em proveito do espírito. Vêem . economia. religiosas e políticas. Depois de ter tomado consciência de si própria.. Ora. Esta não é só um objecto de demonstração através do confronto de escolas teológicas. assim como dos factos sociais (estruturas sociais. zoologia. As técnicas do corpo desempenham uma função tão importante que é talvez pelo corpo que se manifesta a divindade. prova a inadequação do pensamento religioso dualista. Na unidade corpo-espírito. técnicas.

A criança obtém desde a sua nascença vários nomes: nome secreto. Com efeito. como o dia. . não podem apreender o estatuto específico do mito e daquilo que ele nos ensina sobre «as visões e percepções tradicionais» que dizem respeito à concepção do mundo dos Africanos. ou os pés. o conto supõe uma narrativa sem intervenção de animais.). das peripécias da sua idiossincrasia. assim. etc. Gostaríamos de saber em que condições ele desejaria que se empregasse o termo mito. que um estudo que considerasse a proliferação dos nomes de uma divindade como sintoma de politeísmo condenar-se-ia a seguir uma pista errada. estabelecendo as etapas importantes da vida. da sua ligação mítica com os antepassados. podemos perguntar-nos se a distinção que ele faz entre conto e fábula será operatória no contexto africano. mito. dele próprio. conto. . ou o cordão umbilical à volta do pescoço. Os que empregam indiferentemente as palavras fábula. A proliferação dos nomes da divindade deve ser compreendida nesta óptica. da sua posição familiar. O mito Como escrevíamos mais acima.homem. a divindade não se demonstra. A proliferação de nomes do indivíduo traduz a constelação de desejos dos seus pais. o mito não é o falso discurso enganador. Léopold Sédar Senghor esforçou-se por pôr ordem nestes empregos indeferenciados das palavras que designam diversas categorias de narrativas. enquanto a fábula faz intervir os animais como principais actores da narrativa. compreende-se melhor a atitude em causa. Ora. etc.na multiplicidade dos nomes de um deus a confirmação de uma idéia preconcebida. Se após a religião abordamos agora o domínio do mito é porque ele tem alguma relação com o domínio religioso. Dar vários nomes à divindade ou a Deus é o melhor meio de cantar a sua glória e o seu poder. deus. Segundo ele. situando esse modo de nomeação da divindade no quadro cultural da oralidade. não analisou a comparação entre o conto e a fábula. De resto. do modo como ele veio ao mundo (primeiro a cabeça. Neste sentido deveremos distinguir as diferentes categorias de narrativas. nome corrente e outros nomes que lhe são ulteriormente atribuídos. mas sim o discurso fundamental em que se baseiam todas as justificações da ordem e da contraordem sociais.é um sinal que sublinha a sua importância. etc. nesse enquadramento. Infelizmente. a proliferação dos nomes de um ser . A presença ou ausência de animais será um critério determinante no contexto cultural africano? Não haverá outros critérios que entram em linha de conta. é nomeada. a noite. Vemos. Ainda neste caso.

Y õXó «conto de fadas. porque tanto de umas como de outras se pode extrair uma lição de moral. em contrapartida..o período do dia em que se conta a narrativa? Para evitar o impasse criado no contexto europeu por simples análises conceptuais das palavras fábula. O termo indígena huenúxó conviria para designar o mito. pondo em cena os homens e os animais. gostaríamos igualmente de saber qual o termo que os Uolof dessa época usavam para designar o mito. mito. adágios. ou sentados na areia. O mito (huenúxó) pode ser contado não importa em que período do dia. xexó «conto». Trata-se da área cultural fó (Daomé). «É geralmente à noite. tâ «história verdadeira respeitante ao passado familiar». fábula. Retomando estes termos para aprofundar o emprego vulgar que deles se faz. acontecimento.» glu «conto. Que significam estes termos? Muitas explicações foram dadas acerca deste assunto por eminentes autores (44). No livro de Boilat (43). apresentando algumas perguntas (em que período do dia se conta esta ou aquela forma de narrativa? Quem diz ou conta a narrativa? A quem se conta a narrativa? Quando intervém a exigência ou o critério de verdade ou de falsidade?) conseguiremos talvez determinar o estatuto do mito e precisar os ensina. » Neste caso. não despreza nada que possa divertir os seus auditores.mentos que ele encerra. ao nível daqueles que são susceptíveis de receber a mensagem comunicada. Está. ao luar. de vez em quando. tà Xójoxó . está estabelecido que para uma qualquer pessoa . as suas caretas e o seu tom de voz. acompanhados do som do tambor (. conto. huenuxó. canta. e a assembléia repete o refrão com mil aplausos. por outro. O contador está colocado no centro do círculo. tenta imitar os seus gritos. máximas. ao passo que huenúxó significaria (provisoriamente) «narrativa verdadeira ou lendária» (45).. Consideremos uma área cultural africana onde os termos que designam os géneros de narrativa são mais numerosos. submetido a restrições a dois níveis: por um lado. Encontramos na sua linguagem habitual as palavras Xó. publicado há mais de um século (1853). lenda. Xó queria dizer «história. lemos o seguinte: «Os Uolof chamam laibe aos provérbios. ao nível dos que estão habilitados a recitar ou reactualizar a mensagem. xójo Ó «narrativa histórica. No que respeita à primeira restrição. datável». enigmas e fábulas propriamente ditas. convinha estudar as palavras 'que designam diferentes categorias de narrativas na terminologia africana. notícia». em frente da entrada das suas casas. no meio da praça pública da aldeia. que os Uolof contam as fábulas.) O contador nunca explicita a moral: compete ao auditório tirar as conclusões. anedota».

de solidariedade eficiente. do glu (anedotas sobre não importa que assunto da vida). um praticante tenta tomar conhecimento da narrativa fundadora que permitiria elucidar um problema existencial angustiante. Para nos fazermos compreender numa outra linguagem. o mito tem conseqüências na medida em que o auditor-consultante é afectado pelas conclusões a que a narrativa conduz.tos indícios do tâ (narrativas histórico-míticas). do xexó (conto de fadas). Assim. A voz coloca. do gesto e do ritmo confere à palavra narrativa do mito e à palavramensagem que emana da narrativa uma força e um estatuto tais que o mito (heunuxó) (47) nada tem a ver com o aspecto puramente lúdico e divertido das outras formas de narrativa concebidas pela teoria indígena. etc. A utilização da voz. digamos que se trata de especialistas em matéria de práticas religiosas (pelo menos no sistema de adivinhação). aqui e agora. é no entanto importante sublinhar que só o huenuxó consegue toda a sua eficácia pela palavra. No mito. Útima característica do mito (fó. entre o locutor e o interlocutor. Neste clima de relação. Para M. Aqui intervém o princípio de autoridade e de relação de solidariedade eficiente entre o locutor e o intelocutor. guarda-as todas. diremos que o mito africano (mesmo quando dissimula a sua ciência e o seu poder «na prega dos farrapos com que são revestidos») tem origem na ordem do simbólico. Não podemos aqui deixar de pensar em Pavlov. pelo menos): o especialista não o narra por simples gosto de conversar e com a preocupação de divertir. Para a segunda. distingue-se da ordem do «imaginário» e da ordem do «real». Se todas essas formas de narrativa apresentam de comum o facto de terem apenas por fundamento a palavra (mythos).não é necessário que a mensagem seja narrada por um especialista. é o huenuxó (mito) que se distingue por mui. chefe desta escola psicanalítica. o simbólico é o que dá . Jacques Lacan (48). Uma outra característica do huenuxó (mito) consiste em ser absurdo considerar as categorias do verdadeiro e do falso. que siga a via que a narrativa aponta e obtenha satisfação. espera que o seu auditor tire da narração a lição devida. Por outras palavras. para usar a linguagem da escola freudiana de Paris. num contexto simbólico. o problema da realidade enquanto objecto considerado. A ordem do simbólico. tal como a entendemos. para o qual a palavra «entra em relação com todas as excitações externas e internas que chegam aos hemisférios cerebrais. a palavra manifesta-se como acto. substitui-as e por essa razão pode provocar as mesmas reacções que as suscitadas por esses mesmos excitantes» (46).

artístico e lúdico. a instauração da ordem. no mito. a música. Ele apela para uma participação do interlocutor ou do observador-auditor. «tomada do simbólico» sobre o imaginário e o real. os provérbios e as fábulas. onde os valores sociais prioritários estão nimbados de uma aura de religiosidade. que pode ser útil para situar a categoria da narrativa de que provém o mito (huenuxó) em relação às outras categorias de narrativa (tâ) glu.tremo da elucidação das suas implicações. na medida em que esse hipotético enganador receba da ordem justificada por essas narrativas o engano que. apesar da extensão da narrativa. apesar do seu carácter . de uma penada. sem esquecer as adivinhas. a maneira de viver bem. a justificação deste ou daquele princípio moral e as diferentes forças da sociedade. Muitas das numerosas narrativas de adivinhação que se relacionam com a criação do mundo. pode envolver o seu interlocutor. ser nomeadas como mitos. Todos esses domínios de prospecção do pensamento africano possuem uma característica permanente: o «semi-dito» do discurso verbal.sentido ao imaginário e ao real. nem na dinâmica de um processo». O mito africano não é um discurso conscientemente enganador. o estatuto do homem no universo. Situam-se para lá de toda a eventual vontade de enganar que possa emanar do locutor. quer se esforce. até ao ex. ao nível da palavra. no termo desta elucidação. «supremacia do simbólico» sobre o imaginário na medida em que nenhuma formação imaginária é específica e «nenhuma é determinante na estrutura. Quer tente. A luz desta trilogia. Ele é permanente e constrangedor em relação ao imaginário constituído pelas formas sucessivas ou pelas manifestações habituais e não permanentes do simbólico que produz o real. pensamos que manifesta. etc. do mesmo modo. a coreografia. nos provérbios. idéias que se podem comparar às que se manifestam nos outros domínios de investigação: os jogos. o urbanismo. deve ser aqui deveras sublinhado.. a cadeia que se apodera do homem «já antes do seu nascimento e para lá da sua morte». O discurso que transmite o pensamento em todas as suas manifestações não vai. a arquitectura. E do nosso conhecimento que o domínio do mito está ligado ao da religião. no quadro de uma cultura de dominante oral. pensamos que o carácter fundador do mito. «ocultar aos profanos uma preciosa fécula que parece pertencer a um saber universal e legítimo». as idéias mestras respeitantes à concepção do mundo dos Africanos. gestual. o seu carácter de doador de sentido às realidades quotidianas e aos conteúdos das outras formas de discurso. Há uma «autonomia do simbólico». xexó. podem. Tendo em conta os temas variados que aborda. O simbólico representa a ordem ou a organização constitutiva.

Couturat. p. Paris. (9) Adebayo Adesanya. IF AN.abreviado. pp. cit. se lance ou se implante num espaço sem explicação. Trata-se de uma sociedade onde o universo e a vida não poderiam ser assumidos por um indivíduo reduzido ao solipsismo. quer. aceitando ou negando a existência de uma filosofia africana. 119. op. Notas (1) Claude Lévi-Strauss. a simultaneidade da comunidade. o «nós»: a anterioridade ou. Thomas. É esta dimensão prioritária que o mito teoriza na linguagem fundadora que representa. cit.. Les religions de l'Afrique Noire. p.Théologie. (3) Janheinz Jahn. p. 41. Cosmologie. 1896). 25. 821. (6) Sr Marie de Paul Neiers. Yoruba Métaphysical Thinking. Paris. Thomas. Goldschmidt. 112. pp. o «semidito» diz bastante sobre os princípios essenciais da sociedade a que nos referimos. por dar tudo a conhecer ao leitor. e através das quais se traduz o fantasma de um grupo ou de um indivíduo? Só é legítimo admitir os pensamentos interpretativos do mundo. Anthropologie (tese defendida em 1974). devemos evitar todo o dogmatismo preguiçoso. No fundo. Dacar. mas também por vezes delirantes. op. enfim. (2) Sr Marie de Paul Neiers. V. in Odu 5. 14. 254-255. (7) L.. e que a sociedade não sabe o que fazer deles na sua tentativa de transformar o mundo. que considera «estranha à filosofia de Platão toda a passagem de aspecto mítico» (no De Platonicis Mythis. e V. p. 121. provocando a sua intervenção. a partir do momento em que surge o «eu». Muntu.. não será também legítimo tomar em consideração os pensamentos que germinam na transformação do mundo e nas diferentes actividades quotidianas? As vozes de manifestação da lógica e do pensamento são muito variadas. 127. Ibadan. op. para quem os . (8) Janheinz Jahn. Essai d'analyse fonctionelle sur une population de Basse-Casamance. não serão todas as filosofias constituídas por visões e percepções mais ou menos bem articuladas. pensamentos por vezes brilhantes. p. La philosophie de quelques tribus de la région de Jos Nigeria . l'homme africain et la culture néo-africaine. 303. Anthropologie structurale. esforçando-nos por considerá-las a todas. quando não determina conjuntamente o «eu». (10) Ci. cit. p. (4) Janheinz Jahn. 1958. (5) L. Extrair destes diferentes domínios as visões e percepções tradicionais africanas é bem mais instrutivo do que examinar as declarações e estados de espírito deste ou daquele pensador. V. Le Seull (tradução de Briau de Martinoir). O «outro» está sempre implicado e integrado no que condiciona. pelo menos.

Histoire des Berberes et des dynasties musulmanes de Afrique septentrionale (tradução do barão Slane) . IV. dispondo cada um de uma fila de seis buracos contendo cada um 4 grãos ou pedras pequenas. e nesse caso com 3 ou 4 filas de casas. p. (26) Stewart Culln. Argel. Plon 1962..thropologie Sociale. 1964. em Cahier d'Histoire Mondiale. Finale. Dessene. (21) Kati Mohammed. 2. L'Homme Nu. o jogo vulgar é a 2.-P. (17) Ibn Khaldun. Mythe et pensée chez les Grecs. (24) Hubert Deschamps. Maisonneuve. 1843. p. E a mudança desses peões faz-se em todos os casos de maneira análoga. 15. 1972. Vernant.. 7. 560 (14) Id. IV. (23) Honorat Aguessy. 1949. Paris. Paris. pp. (15) Lévi-Strauss. Tarikh el Fettach. (25) Normalmente este jogo processa-se entre dois jogadores. (1896). 1965. Paris. t. (12) Lévi-Strauss.. (11) J. Finale. 269. ou grãos. Lévi-Strauss. Finale. «Se bem que haja formas de jogo com mais de dois jogadores. 1783. apresentado no Simpósio . (13) Id. Tarikh el Fettach (tradução de O. Quando não há tAtua. Voyage dans Ze Soudan (tradução de Marc Guckin. F. são pedras todas semelhantes. IV. L'Homme Nu. the national game of Africa... (20) Kati Mohammed.mitos platônicos apenas servem de base ao método supremo que é a dialéctica. uma para cada um dos jogadoras. (28) C. (16) C. os jogadores ascavam na terra duas filas de buracos simples. «Tradition orale et structures de pensée: Essai de méthodologie». Maspéro. Volney. 311. geralmente de 6 godés (por vezes 5. XIV.. pp. Houdas). VI. Laboratoire d' An. de Slane) . 1785.» Joseph Boyer. sobre uma tAtua com duas filas de godés. MankaZa. pequenas conchas que serviam antigamente de moeda. Sanda. 1964. (19) Es-Saadi. 7 ou 8). 2. Voyage en Syrie et en Bgypte. Paris. 348. 297. O. ou cauris. p. (29) A. ibid. Em cada godé são colocados 4 peões. (22) Ahmed ben Admed ben Ahmed ben Ornar ben Mohammed Akit ben Ornar ben Ali ben Yahia ben Koutalata ben Bekr ben Nik ben Lak ben Jahia ben Tachata ben Tabkar ben Hiran ben EI Badjard ben Ornar ben Abou Bekr ben Ornar el Larneci. n. L' Afrique des origines à 1945. p. p. Paris. 563. em Présence Africaine. Vol. 1784. Tarikness Sudan (tradução de O. IV. ibid. p.. p. documento de trabalho não publicado. Maisonneuve. (15561627). 1854. Houdas). La pensée sauvage. 559-560. p. (18) Ibn Batuta. 46. (27) Documento de trabalho não publicado. Finale. 559. 316.

1853. 1973.Internacional sobre a Autocompreensão Cultural das Nações. (45) Ci. 352. 468. (30) Roger Le Baron. Julho. (42) M. e G. Ecrits. o chefe. 1926. (40) A. pp. 1972. Architecture gothique ét pensée scolastique. trad. 40. Pavlov. muito conhecido em Lôgkat. Babimbi-Oeste (Camarões). (46) I. e G. (47) Para mais pormenores ver a nossa tese de Estado. Fables sénégalaises. Mouton. (32) Boilat. (34) Boilat. Simon Bolivar Njami-Nwandi. Esquisses sénégalaises. Koumen. Bourdieu. Esquisses sénégalaises. Hampâté-Bâ. Danxomé. pp. 1967. . pp. 391-392. Griaule. (31) Boilat. Paris. edit. 1947. 1974 Nubla-Paris. 345-346. p. «Religions africaines. de Minuit. Austria. Esquisses sénégalaises. 354-355. (35) Boilat. Dictionnaire fon-français Segurola. em Les Religions africaines comme source de valeurs de civilisation. 546. Dieterlen. Lacan. Esquisses sénégalaises. 16-17. o rei. 52. 1961. 19. Aguessy. (39) A. p. (44) Ci. «Derniers résultats des recherche sur le travaill des hémispheres cérébraux» in Journal de Psychologie. (43) Boilat. pp. Dieterlen. pp. 354-355. 1853. (33) Damel. p. Esquisses sénégalaises. Koumen. Esquisses sénégalaises. (37) Erwin Panofsky. Hampâté-Bâ. 1828. P. Ahanhanzo Maurice Glélé. Le Renard pale. (38) Ci. Sorbona. comme effet et source de Ia civilisation de l'oralité». pp. Insbruque. Présence Africaine. (36) BoiIat. H. (48) J. P. II. traduzido por M. (41) Canto popular baga.