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A NATUREZA E OS LIMITES DO DESENVOLVIMENTISMO NO CAPITALISMO DEPENDENTE BRASILEIRO 1

Luiz Filgueiras

O atual padrão de desenvolvimento capitalista brasileiro começou a se constituir a partir do início dos anos 1990, com o Governo Collor. A seguir, amadureceu e consolidou-se nos dois Governos FHC e, finalmente, nos dois Governos Lula e no Governo Dilma legitimou-se politicamente, tornando-se hegemônico na sociedade e consensual entre as forças sociais que disputam, dentro da ordem, a primazia pela direção do Estado. Isso, contudo, não significa que as políticas econômico-sociais implementadas, ao longo desses vinte e quatro anos, tenham sido sempre as mesmas; nem que as contradições existentes entre as distintas frações do capital tenham sido superadas. Ao contrário; essas políticas se modificaram de acordo com as inflexões sofridas pelo bloco no poder, expressando, em cada momento e conjuntura, o reposicionamento das distintas frações do capital, e de seus interesses, no interior do Estado e, portanto, em suas respectivas capacidades de conduzi-lo. Em suma, ao longo da constituição, consolidação e aceitação do atual padrão de desenvolvimento, sucederam-se distintos regimes de política macroeconômica, com resultados diversos no que concerne ao desempenho da economia brasileira. Além de expressar um reordenamento da importância das distintas frações do capital no interior do bloco no poder, a substituição de um regime por outro, quando ocorreu, sempre teve como pano de fundo as mudanças ocorridas na dinâmica da economia mundial. Desse modo, a compreensão mais profunda do autointitulado “desenvolvimentismo” dos Governos Lula e Dilma, em especial de suas possibilidades e limitações, exige um esforço que deve ir além da mera comparação dos resultados e indicadores macroeconômicos e sociais desses governos, tanto entre si quanto em relação aos Governos FHC. Essa compreensão necessita da caracterização da natureza do atual padrão de desenvolvimento e de suas inflexões, bem como do significado dos distintos regimes de política macroeconômica vigentes em cada momento.

1 O ponto de vista e as ideias aqui defendidas estão mais desenvolvidos e aprofundado no ensaio que escrevi para o livro publicado em 2013, pelo Centro Celso Furtado e o Banco do Nordeste, intitulado “Novas Interpretações Desenvolvimentistas”, organizado por Inez Silvia Batista Castro. Professor Associado da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal da Bahia (FCE/UFBA) e membro do Grupo de Pesquisa Economia Política e Desenvolvimento (GEPODE).

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Antes, contudo, deve ser dito que, segundo as forças políticas que sustentaram os Governos Lula e, também, o de Dilma, a estratégia desenvolvimentista adotada a partir de 2005 mudou o modelo econômico neoliberal prevalecente nos Governos Collor e FHC e no início do primeiro Governo Lula - com a superação da estratégia e das políticas neoliberais até então adotadas. O resultado expressou-se na retomada de taxas de crescimento mais elevadas, tal como as verificadas no período desenvolvimentista associado ao Modelo de Substituição de Importações (1930-1980); mas, diferentemente deste último, esse crescimento veio acompanhado por melhora na distribuição de renda e redução da pobreza. O presente artigo, como se verá a seguir, discorda dessa interpretação, pois esta apoia seus argumentos em elementos e indicadores conjunturais que expressam um melhor desempenho da economia brasileira entre 2006 e 2008, mas que podem ser facilmente revertidos. Além disso, essa interpretação se atém apenas à mudança do regime de política macroeconômica; desconsiderando, portanto, a permanência dos atributos estruturais que caracterizam o padrão de desenvolvimento.

- Capitalismo Dependente e Padrão de Desenvolvimento Desde o surgimento do pensamento crítico cepalino nos anos 1950, que identificou a permanente transferência de excedentes dos países periféricos para os países centrais do sistema capitalista, se opondo, assim, à visão neoclássica acerca do comércio internacional - apoiada na teoria das vantagens comparativas de Ricardo -, sabe-se que o subdesenvolvimento não se constitui em um estágio prévio ao desenvolvimento, que todo país passou ou deve passar para atingir, a partir daí e através de etapas históricas sucessivas, o estágio final de país desenvolvido. Nesses termos, os países desenvolvidos nunca foram, em qualquer momento de suas respectivas histórias, países subdesenvolvidos. Essa compreensão foi levada as suas últimas consequências, nos anos 1960, pela Teoria Marxista da Dependência, em especial nos trabalhos de André Gunder Frank, Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos e Vânia Bambirra, entre outros. Mais do que uma consequência de uma determinada divisão internacional do trabalho, tecida e imposta pelos países imperialistas, o subdesenvolvimento é a forma assumida pelo desenvolvimento capitalista no “resto do mundo”, isto é, para além dos países imperialistas, identificados a partir do pós-guerra como países desenvolvidos.

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A conhecida tese sobre o “desenvolvimento do subdesenvolvimento” aponta

exatamente para o fato de que os países subdesenvolvidos também possuem um processo de desenvolvimento capitalista, mas este não os leva a superarem a condição de subdesenvolvimento - alcançando o mesmo estado dos países imperialistas (desenvolvidos). Em sentido contrário, esse desenvolvimento reitera sempre, em novas circunstâncias históricas, a condição de subdesenvolvimento, reproduzindo e atualizando a superexploração do trabalho, a remessa de excedentes e a situação de dependência e subordinação desses países no interior do sistema mundial capitalista e da divisão internacional do trabalho. Em suma, a razão do subdesenvolvimento deve ser buscada no desenvolvimento do sistema capitalista em escala mundial; e não na ausência ou insuficiência desse desenvolvimento. Essa dependência, contudo, não é algo externo que se sobrepõe, de fora para dentro, aos países periféricos; na verdade, ela se constitui econômica e politicamente no

interior desses países, através das alianças de classe que compõem os blocos no poder em cada um deles. Isso ocorre porque a dependência não se limita simplesmente à “deterioração dos termos de troca” ou à “troca desigual” evidenciadas no comércio internacional. Para além da circulação (exportação/importação) de mercadorias e capitais, é a totalidade do ciclo de reprodução do capital nos países periféricos que está subordinado e determinado, direta ou indiretamente, pelo ciclo de reprodução do capital em escala mundial com o domínio pelos capitais estrangeiros dos principais, e mais dinâmicos, setores e segmentos produtivos existentes nesses países. Desse modo, a dependência é um fenômeno endógeno aos países periféricos, que se efetiva econômica e politicamente através da articulação orgânica, ou não, de determinadas frações de capitais nacionais com o capital estrangeiro; imprimindo a sua marca na natureza dos padrões de desenvolvimento constituídos nesses países, definindo o bloco no poder que controla o Estado, condicionando o financiamento desses padrões e controlando a introdução e difusão do progresso tecnológico. Tudo isso circunscrevendo e limitando, ou mesmo impondo e dirigindo, a implementação de “reformas” e políticas econômicas, que reproduzem a situação de subdesenvolvimento e de dependência, sobretudo financeira e tecnológica, dos países periféricos.

É sob essa ótica que se deve compreender o desenvolvimento do capitalismo

dependente brasileiro, em particular o seu período mais recente, quando da crise do

Modelo de Substituição de Importações nos anos 1980 e a constituição, a partir da década de 1990, do novo padrão de desenvolvimento vigente até hoje.

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O Novo Padrão de Desenvolvimento: o Modelo Liberal Periférico no Brasil

A partir dos anos 1980, com a crise da dívida externa dos países periféricos,

assistiu-se a um processo de desestruturação do padrão de desenvolvimento brasileiro

conhecido como o Modelo de Substituição de Importações, que desembocou, nos anos 1990, em uma ruptura que levou à construção de um novo padrão de desenvolvimento aqui denominado de Modelo Liberal Periférico.

A desestruturação do padrão anterior iniciou-se pela ruptura de seu padrão de

financiamento, calcado no endividamento externo e nas instituições financeiras do Estado. Essa desestruturação reduziu drasticamente a capacidade de crescimento da

economia e se fez acompanhar de um processo inflacionário acelerado que, em vários momentos, esteve no limiar de uma hiperinflação - apesar da implementação de sucessivos, e fracassados, planos de estabilização.

O novo padrão, apesar de manter uma linha de continuidade com anterior, no

que concerne a seguir a mesma estratégia “associada-dependente” em relação ao capital internacional - prevalecente desde o Governo JK com o Plano de Metas, implicou em importantes transformações estruturais: econômicas, políticas e sociais, que o distingue do padrão de desenvolvimento anterior. Essas transformações, associadas às novas circunstâncias do capitalismo no âmbito mundial, alteraram significativamente a dinâmica da economia e da sociedade brasileiras. Assim, o Modelo Liberal-Periférico (MLP), constituído a partir dos anos 1990 (Governo Collor) se estruturou a partir de profundas mudanças em, pelo menos, cinco dimensões da organização econômico-social e política do país, quais sejam:

1- A disputa capital/trabalho tornou-se mais favorável ao primeiro, em razão do

aumento do desemprego e do enfraquecimento dos sindicatos decorrentes da reestruturação produtiva. 2- Na relação entre as distintas frações do capital, a abertura comercial e financeira, juntamente com as privatizações, deslocou a hegemonia econômica e política do capital industrial e do capital estatal, típica do Modelo de Substituição de Importações, para o capital financeiro.

3- A abertura comercial e financeira, com a articulação/incorporação do mercado

financeiro nacional ao mercado financeiro mundial, também redefiniu a inserção internacional comercial e financeira do país, transformando-o cada vez mais em um produtor/exportador de commodities agrícolas e minerais e em mais uma plataforma de acumulação para o capital financeiro internacional.

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4- A estrutura e o funcionamento do Estado foram redefinidos pelo processo de privatização das empresas estatais e a desregulação de uma série de atividades, bem como pela abertura financeira - que incorporou a rolagem da dívida pública ao circuito do capital financeiro em escala internacional. 5- O enfraquecimento do movimento dos trabalhadores e dos sindicatos decorrentes do processo de reestruturação produtiva, juntamente com o abandono do trabalho político de organização e uma ação cada vez mais apenas institucional, implicou em um forte processo de transformismo do Partido dos Trabalhadores, e de suas principais lideranças. Essa guinada, que se iniciou no começo dos anos 19990, acelerando-se e tornando-se evidente a partir do primeiro Governo Lula, foi decisiva para a legitimação do novo padrão de desenvolvimento. Assim, esse novo padrão, fazendo uso, ao longo do tempo, de distintos regimes de política macroeconômica, apresenta uma dinâmica com as seguintes características:

vulnerabilidade externa estrutural, inserção passiva e regressiva na economia internacional, instabilidade macroeconômica e dificuldade de manutenção de taxas de crescimento mais elevadas. Essas características tornam-se mais ou menos evidentes conforme a conjuntura econômica sela menos ou mais favorável. Esse novo padrão de desenvolvimento capitalista brasileiro passou por, pelo menos, quatro momentos distintos, desde o início da década de 1990 até o presente momento, quais sejam:

1- Uma fase inicial de transição, bastante turbulenta, de ruptura com o MSI e implantação das primeiras ações concretas de natureza neoliberal (Governo Collor):

abertura comercial e financeira e início das privatizações. O fracasso do Plano Collor no controle da inflação, apesar da forte recessão provocada pela sua política econômica, dificultou a continuação das reformas neoliberais e contribuiu para a deposição do Presidente da República. Esse foi um momento de grande liquidez interacional e de auge do neoliberalismo no plano mundial; no entanto, no plano interno - do último país da América Latina que aderiu a onda neoliberal mundial -, o projeto neoliberal ainda não tinha obtido um forte consenso entre as distintas frações do capital, em particular a sua fração industrial. 2- Uma fase de ampliação e consolidação da nova ordem econômico-social neoliberal, com a implementação do Plano Real e o aprofundamento das reformas neoliberais e do processo de privatizações, na qual se amplia e consolida a hegemonia estrita do capital financeiro no interior do bloco no poder (1 o Governo FHC). Nesse

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período, o elemento central do regime de política macroeconômica é a chamada “âncora” cambial, com a valorização do real e o agravamento dos déficits da conta de transações correntes do balanço de pagamentos do país. A eclosão de uma crise cambial em fins de 1998, com fuga de capitais, decretou o fim desse regime - evidenciando a impossibilidade da continuação de uma hegemonia estrita do capital financeiro. Na verdade, essa foi apenas mais uma das inúmeras crises cambiais fabricadas pelo capital financeiro na década de 1990; como a do México (1994-95), as de quase todos os países do Leste da Ásia (1997) e a da Rússia (1998) além da crise da Argentina na década seguinte. 3- Uma fase iniciada com o fim da âncora cambial e a adoção de um novo regime de política macroeconômica: o chamado tripé macroeconômico (metas de inflação, superávit fiscal primário e câmbio flutuante); na qual se fortalece o capital produtor-exportador de commodities (agronegócio e indústria extrativa mineral) ampliando-se o seu espaço no bloco no poder, por ser vital para reduzir a instabilidade macroeconômica do modelo (2 o Governo FHC e 1º Governo Lula). A atividade dessa fração do capital, propiciando a obtenção de superávits comerciais, é decisiva para possibilitar a remessa de lucro e juros do capital estrangeiro, em especial do capital financeiro; além de reduzir a vulnerabilidade externa conjuntural da economia brasileira. Essa primeira inflexão do padrão de desenvolvimento, com a alteração do regime de política macroeconômica e o fortalecimento de outra fração do capital no interior do bloco no poder, coincide com o início da ascensão de um novo ciclo econômico mundial: produtivo, comercial e financeiro “puxado” pelos EUA e a China. 4- Por fim, a fase atual, que teve início no final do primeiro Governo Lula, na qual se amplia a presença da burguesia interna 2 no interior do bloco no poder, em articulação com o Estado; com este último voltando a ter um papel ativo e mais direto no processo econômico e na arbitragem dos interesses das distintas frações do capital (2º Governo Lula e Governo Dilma). Em especial, o Estado, via o BNDES, financia o processo de centralização de capitais, fortalecendo os grandes grupos econômicos nacionais e promovendo a internacionalização dos mesmos. Esse período coincide com o auge do ciclo econômico mundial e a presença cada vez maior da China no comércio

2 Conceito formulado por Nicos Poulantzas, a burguesia interna não se confunde com a burguesia nacional; embora tenha contradições importantes com o capital internacional, não possui autonomia político-ideológica frente a este. No Brasil, além do agronegócio e dos grandes grupos econômicos da indústria extrativa mineral, fazem parte dessa burguesia os grandes grupos que atuam na construção civil e as grandes redes varejistas nacionais.

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internacional e, posteriormente, com a crise geral do capitalismo detonada no último trimestre de 2008 a partir dos EUA. É principalmente nesse momento que o debate do “desenvolvimentismo” X neoliberalismo ganha força, em razão do maior crescimento da economia, da redução do desemprego, da diminuição da pobreza e da pequena melhora na distribuição de renda verificados, principalmente, entre 2006 e 2008. Mas esse melhor desempenho teve como condição essencial uma conjuntura internacional extremamente favorável, que permitiu uma melhora radical do balanço de pagamentos e da vulnerabilidade externa conjuntural do país. Isso possibilitou a flexibilização do regime de política macroeconômica: manutenção das metas de inflação e redução das taxas de juros; diminuição dos superávits fiscais primários e maior gasto do Estado; e intervenção no câmbio para a constituição de reservas. Adicionalmente, essa conjuntura permitiu o crescimento real dos salários e a expansão da política social que, juntos com a ampliação do crédito, dinamizaram o mercado interno. No entanto, a crise mundial, com a piora da conjuntura internacional e seus desdobramentos na crise soberana dos países da zona do euro, interrompeu o que, para muitos, parecia ser a constituição de um novo modelo de desenvolvimento e a Era de um desenvolvimentismorenovado. A natureza dependente do capitalismo brasileiro, em especial do atual padrão de desenvolvimento, com as características e atributos aqui já explicitados, ficou evidente. O Governo Dilma, com a mesma estratégia e as mesmas políticas ditas desenvolvimentistas” do Governo Lula, colheu resultados, em quase todos os indicadores macroeconômicos, iguais ou piores que os dois Governos FHC. Nos dois Governos Lula e no Governo Dilma, a abertura comercial e financeira, assim como as privatizações, continuaram; a inserção passiva e regressiva do país na divisão internacional do trabalho se agravou, acentuando-se o processo de reprimarização das exportações e de desindustrialização; a dívida pública continuou a alimentar o capital financeiro e sua hegemonia no interior do bloco no poder apenas ganhou a companhia de outras frações do grande capital; a disputa capital/trabalho continuou fortemente favorável ao capital, com a difusão do processo de terceirização e a proliferação das mais diversas formas de precarização do trabalho. Em resumo, as principais características do Modelo Liberal Periférico se mantiveram ao longo dos últimos vinte e quatro anos, apesar do regime de política macroeconômica ter sido alterado duas vezes e o bloco no poder ter sofrido duas acomodações uma no início do segundo Governo FHC e a outra no final do primeiro Governo Lula. É exatamente em razão do padrão de desenvolvimento ter sido mantido,

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em suas características fundamentais, que as políticas ditas desenvolvimentistas têm limites estreitos de aplicação, assim como os seus resultados podem ser facilmente revertidos. A presente disputa eleitoral, já em andamento, é esclarecedora: o candidato da vertente mais dura do neoliberalismo reivindica fundamentalmente, de diferente e em oposição ao Lulismo, à Dilma e ao “desenvolvimentismo”, um novo aperto do tripé macroeconômico: metas de inflação menores e taxas de juros maiores, aumento do superávit fiscal primário e redução dos gastos e da participação do Estado, e flutuação do câmbio. Ou seja, um retorno ao segundo Governo FHC, com a mudança do regime de política macroeconômica, mas sem a alteração dos atributos fundamentais do padrão de desenvolvimento. Em suma, a disputa é de como conduzir melhor o Modelo Liberal Periférico:

com qual tipo de regime de política macroeconômica e sob o comando de qual fração do capital. Não está em disputa, de forma alguma, propostas que alterem a ordem desse padrão de desenvolvimento que, a depender de cada conjuntura, pode ser compatível com um ou outro regime, com políticas mais ortodoxas ou com o limitado “desenvolvimentismo” dos Governos Lula e Dilma.