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José Heder Benatti

Direito de Propriedade e Proteção Ambiental no Brasil:

apropriação e o uso dos recursos naturais no imóvel rural

Belém

2003

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José Heder Benatti

Direito de Propriedade e Proteção Ambiental no Brasil: apropriação e o uso dos recursos naturais no imóvel rural

Tese apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Doutor em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido, Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará.

Orientador: Dr. David Gibbs McGrath

Belém

2003

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José Heder Benatti

Direito de Propriedade e Proteção Ambiental no Brasil:

apropriação e o uso dos recursos naturais no imóvel rural

Tese apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Doutor em Ciências: Desenvolvimento Sócio- Ambiental do Curso de Doutorado Sustentável do Trópico Úmido, Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará. Belém, PA / 2003.

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Tese aprovada como requisito para obtenção do grau de Doutor em Ciências: Desenvolvimento Sócio-Ambiental do Curso de Doutorado em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido, Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará pela Comissão formada pelos professores:

Professor Dr. David Gibbs McGrath – Orientador

Professor Dr. Carlos Frederico Marés de Souza Filho – Examinador Externo

Professor Dr. Antonio José de Mattos Neto – Examinador Externo

Professor Dr. Francisco de Assis Costa – Examinador NAEA

Professora Dra. Rosa Elizabeth Acevedo Marin – Examinadora NAEA

Belém, 23 de abril de 2003.

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À Luciana pelo seu carinho e compreensão nesse período de dedicação quase que exclusiva à tese, e ao meu filho André que tem me mostrado que mesmo na mais tenra idade pode nos ensinar muitas coisas.

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AAggrraaddeecciimmeennttooss EEssppeecciiaaiiss

Ao meu orientador, Dr. David Gibbs McGrath, pelos ensinamentos, paciência em orientar um “jurista” e por me alertar da necessidade de se buscar a interdisciplinaridade. Aos componentes da comissão examinadora da tese (Dr. Carlos Frederico Marés de Souza Filho, Dr. Antonio José de Mattos Neto, Dra. Rosa Elizabeth Acevedo Marin e Dr. Francisco de Assis Costa), pelas valiosas observações e críticas, que contribuíram para o enriquecimento da minha tese e, dentro do possível, algumas sugestões e correções então propostas pela banca foram aqui incorporadas. Durante a minha estadia nos EUA, no doutorado sanduíche, o meu orientador no exterior, Dr. Kilaparti Ramakrisna, contei com sua a preciosa atenção e apoio enquanto diretor do Woods Hole Research Center e professor de Harvard Law School and the Fletcher School of Law and Diplomacy at Tufts University. No decorrer da redação deste trabalho que, por dever de gratidão, também não posso deixar de mencionar, os amigos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o qual colaboro desde a sua fundação, e do Woods Hole Research Center (WHRC), em particular Dr. Daniel C. Nepstad, Dr. George Woodwell, Michael Ernest, pela valiosa convivência ao longo do período do doutorado sanduíche. Aos colegas do Curso de Direito, Dr. Antonio Gomes Moreira Maués, Dr. Davi Diniz e Ms. Girolamo Treccani pelas preciosas contribuições a esta pesquisa. À Universidade Federal do Pará (UFPA) e ao Núcleo de Estudos Amazônicos pela possibilidade de cursar o doutorado. Não posso, igualmente, deixar de manifestar meu reconhecimento ao Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e USAID pelo apoio à pesquisa de campo. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por conceder a bolsa de doutorado sanduíche no exterior. Ao Instituto Internacional de Educação do Brasil (IIEB) e a University of New York pelo apoio à pesquisa durante o doutorado sanduíche. Ao Camilo Torres Sanches, Doraci Aparecida de Brito e Hugo Perez Coelho, pela ajuda no levantamento das informações sobre sesmarias, respectivamente, nos Estados do Rio de Janeiro, Mato Grosso e Pernambuco. A Maria da Graça Ferreira Leal pela criteriosa revisão da tese, e as bibliotecárias do Núcleo de Altos Estudos da Amazônia, do mestrado de direito da Universidade Federal do Pará, da Câmara Federal, do Superior Tribunal de Justiça, da Faculdade de Direito da USP, do arquivo do Tribunal de Justiça do Pará. Aos meus pais, Geraldo Benatti e Ireni Vallesi Benatti, e minha irmã Fátima Aparecida Benatti pelo incentivo e ajuda nos períodos mais difíceis.

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SSuummáárriioo

Lista de Tabelas e Quadros

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Resumo.

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Abstract.

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1.

INTRODUÇÃO .

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1.1.

O PAPEL DA PROPRIEDADE RURAL NA PROTEÇÃO AMBIENTAL:

 

JUSTIFICATIVA

 

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1.2.

DEFININDO O OBJETO DE ESTUDO.

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1.2.1.

Propriedade e domínio .

 

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1.2.2.

Multiplicidade de estatutos de direitos de propriedade

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1.3.

METODOLOGIA DE ESTUDO.

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PRIMEIRA PARTE

 

2.

BREVE HISTÓRICO DA APROPRIAÇÃO PRIVADA DOS RECURSOS

 

NATURAIS: SÉCULO XVII AO SÉCULO XIX.

 

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32

2.1.

DEFINIÇÕES PRELIMINARES DE PROPRIEDADE SESMARIAL,

 

SENHORIAL E

 

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33

2.2.

A DISPUTA PELO MONOPÓLIO JURÍDICO ENTRE A METRÓPOLE

 

PORTUGUESA E A COLÔNIA BRASILEIRA E SEU REFLEXO NO DIREITO 36

2.3.

PROCEDIMENTOS PARA REQUERER A SESMARIA E OS DIREITOS

 

DO SESMEIRO .

 

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38

2.4.

O PROCESSO DE MEDIÇÃO E MARCAÇÃO DAS PROPRIEDADES NOS

 

SÉCULOS XVIII E XIX

 

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45

2.5.

O PERÍODO COLONIAL E A FORMAÇÃO DA PROPRIEDADE

 

SESMARIAL E SENHORIAL .

 

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47

2.5.1.

Análise das sesmarias concedidas em alguns estados brasileiros e a legislação

 

colonial .

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55

2.5.2.

A política de concessão de sesmarias no Grão Pará .

 

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2.6.

APOSSAMENTO E USUCAPIÃO DAS TERRAS DEVOLUTAS

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65

2.6.1.

Distinção entre personalidade política e jurídica do Estado .

 

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68

2.7.

O ARCABOUÇO JURÍDICO QUE LEGITIMOU A CONSOLIDAÇÃO

 

DA PROPRIEDADE SENHORIAL NO BRASIL .

 

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70

2.7.1.

A regra odia restringi, o costume e a Lei da Boa Razão como elementos de

 

interpretação do direito .

 

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74

2.8.

DA INDEPENDÊNCIA À REPÚBLICA VELHA: A TRANSIÇÃO DA

 

PROPRIEDADE SENHORIAL PARA A MODERNA.

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79

2.8.1.

A situação fundiária do Brasil após a independência

 

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80

2.8.2.

O malogro da Lei de Terra como instrumento jurídico para

 

modernizar a propriedade privada

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83

2.8.3.

O sistema hipotecário e a transição para a propriedade moderna

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91

2.8.4.

O sistema hipotecário e o efeito jurídico da transcrição da propriedade rural

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95

2.8.5.

Registro de imóveis no Brasil

 

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99

2.9.

AS CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS, O CÓDIGO CIVIL E A

 

PROPRIEDADE RURAL .

 

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106

2.9.1.

A Constituição e seus efeitos civis

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107

8

2.9.2.

Consolidação e codificação das leis brasileiras: sua base teórica e

 

importância jurídica

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108

2.9.3.

A concepção unitária de propriedade do Código Civil e as distintas formas de

 

apropriação dos recursos naturais no Brasil

 

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116

2.9.4.

Da independência ao declínio da propriedade senhorial

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120

 

SEGUNDA PARTE

 

3.

A CONSOLIDAÇÃO DA PROPRIEDADE MODERNA E A

 

DEGRADAÇÃO AMBIENTAL

 

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125

3.1.

ASPECTOS CONSTITUCIONAIS E LEGAIS DO DIREITO DE

 

PROPRIEDADE .

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127

3.2.

A BASE TEÓRICA E SOCIAL DA PROPRIEDADE LIBERAL EUROPÉIA.

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132

3.3.

AS DIVERSAS ETAPAS DE TRANSFORMAÇÃO DA CONCEPÇÃO

 

DA PROPRIEDADE MODERNA

 

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135

3.4.

HEGEMONIA DAS LEIS ESPECIAIS NAS RELAÇÕES PRIVADAS NO

 

BRASIL .

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137

3.5.

POSICIONAMENTO DO TRIBUNAL SUPERIOR NA DISCUSSÃO SOBRE O DIREITO DE PROPRIEDADE ANTES DA CONSTITUIÇÃO DE 1988

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140

3.6.

DIREITO DE PROPRIEDADE E O NOVO CÓDIGO CIVIL .

 

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3.7.

NATUREZA JURÍDICA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS .

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156

3.8.

A CONCEPÇÃO DE PROPRIEDADE NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 .

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159

3.8.1.

Fundamentos dos limites da propriedade constitucional e seu conteúdo

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167

3.8.2.

Conteúdo da propriedade constitucional .

 

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173

3.8.3.

A questão da ressarcibilidade nas restrições ao direito de propriedade

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177

3.9.

A FUNÇÃO DA PROPRIEDADE CONSTITUCIONAL .

 

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184

3.9.1.

Função socioambiental da propriedade agrária

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187

 

TERCEIRA PARTE

 

4.

A PROPRIEDADE AGROAMBIENTAL E A PROTEÇÃO DOS

 

RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS

 

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194

4.1.

ATIVIDADE AGRÁRIA E PROTEÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS

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200

4.1.1.

Segurança alimentar e a revolução verde

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202

4.1.2.

A Atividade agrícola e a degradação dos recursos naturais .

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206

4.1.3.

Os serviços ecológicos dos recursos naturais

 

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209

4.2.

MEIO AMBIENTE E DIREITO DE PROPRIEDADE .

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211

4.2.1.

Natureza jurídica do meio ambiente e dos bens ambientais .

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213

4.2.2.

Estatuto jurídico do meio ambiente .

 

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219

4.2.3.

Proteção ambiental da floresta .

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221

4.2.4.

A proteção ambiental dos recursos hídricos .

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231

4.3.

ESTRUTURA DA PROPRIEDADE AGROAMBIENTAL E SEU

 

REGIME JURÍDICO .

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236

4.3.1.

A propriedade agroambiental como elemento configurador dos

 

mandamentos constitucionais

 

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237

4.3.1.1.

O debate sobre indenização da área de preservação

 

permanente

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243

4.3.1.2.

Critérios para uma justa indenização da cobertura vegetal .

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251

9

 

ao solo e ao subsolo .

 

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258

4.3.3.

O Código Florestal e o direito de propriedade

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264

4.4.

O PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO E O MANEJO FLORESTAL NA

 

PROPRIEDADE RURAL

 

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272

4.4.1.

Gestão do imóvel rural e o licenciamento ambiental na Amazônia brasileira

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275

4.5.

INSTRUMENTOS JURÍDICOS PÚBLICOS E PRIVADOS DE PROTEÇÃO

 

DOS RECURSOS NATURAIS

 

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285

4.5.1.

Instrumentos jurídicos privados de proteção dos recursos naturais na América

 

Latina .

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286

4.5.2.

Aspectos legais e institucionais do zoneamento ecológico econômico

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292

4.5.2.1. Zoneamento ecológico econômico: conceitos aplicáveis

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293

4.5.2.2. Contexto institucional do ZEE

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295

4.5.3.

Unidades de conservação e domínio privado

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305

4.5.4.

Instrumentos mistos de proteção ambiental .

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308

4.5.5.

Instrumentos privados de proteção ambiental

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312

4.5.6.

Incentivos econômicos para a proteção dos recursos naturais em terras privadas

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317

5.

CONCLUSÃO

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323

5.1.

A PROPRIEDADE RURAL E OS SERVIÇOS AMBIENTAIS

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323

6.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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329

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LLiissttaa ddee TTaabbeellaass ee QQuuaaddrrooss

- Tabela das características da propriedade senhorial, sesmarial e moderna.

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36

- Tabela do gráfico: concessões de

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56

- Tabela da população do Brasil: séculos XVII e XVIII .

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57

- Tabela da legislação colonial

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59

- Tabela das constituições e códigos civis na Europa e América

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106

. - Tabela do regime de propriedade e do uso dos bens ambientais

- Tabela de classificação da propriedade moderna

. - Tabela da competência dos órgãos governamentais que tratam do uso da terra e

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218

manejo dos recursos naturais.

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276

- Quadro da propriedade constitucional, enquanto instituição jurídica e direito subjetivo . 167

- Quadro do conteúdo da propriedade constitucional

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177

- Quadro da função social da propriedade agroambiental .

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193

. - Quadro dos elementos da propriedade agroambiental (horizontalidade)

- Quadro de classificação dos bens jurídicos.

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218

258

- Quadro dos elementos da propriedade agroambiental (verticalidade)

- Quadro dos instrumentos de proteção dos recursos naturais na América Latina .

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291

- Quadro dos instrumentos de proteção dos recursos naturais no Brasil

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317

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RReessuummoo

Esta tese de doutorado tem sua análise centrada no direito de propriedade, buscando entender o papel da propriedade no século XXI. O trabalho demonstrará que a propriedade rural pode ser um importante instrumento de proteção ambiental. Discutimos que do século XVI ao início do século XX havia mais de uma possibilidade para se apropriar do solo e dos recursos naturais, ou seja, não foi somente pelo sistema sesmarial que se teve acesso à propriedade, mas também pelo apossamento primário, que denominamos de propriedade senhorial. É preciso entender que a concepção do direito de propriedade pode ajudar na proteção dos bens ambientais, e para que isso ocorra será necessário rever as premissas advindas dos séculos XIX e XX. Agora se faz necessário superar a visão conservadora do direito de propriedade, que privilegiou os poderes absolutos e exclusivos em detrimento das novas bases de legitimidade e funcionalidade da propriedade, previstas nos mandamentos constitucionais. A propriedade constitucional discutida neste trabalho, também denominada de propriedade agroambiental, tem a incumbência constitucional de produzir alimentos, matérias- primas e de proteger os bens ambientais. A função social e ambiental da propriedade é efetivada quando os serviços ambientais do ecossistema estão assegurados e o desenvolvimento das atividades agrárias mantém um grau satisfatório das funções ecológicas. Esse novo arcabouço só é possível porque a propriedade agroambiental representa a síntese dos interesses individuais e socioambientais, a reunião dos elementos que compõe o conceito de desenvolvimento sustentável, ou seja, a possibilidade de utilizar os recursos naturais e o meio ambiente pelas gerações presentes e pelas futuras gerações.

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AAbbssttrraacctt

Property rights and environmental protection. This research of the doctorate focuses on analyzing what is the juridical role of the rural property in the 21st century, in particular in the Amazon. The question here is how to reconcile the conflicting public vs. private interests, specifically, between owner’s rights and environmental protection. “Owners” for the current purposes include those with ownership rights (owner, tenant), and also those with original possession (homesteading). “Non-owners” by definition are neighbors, civil society and government. Currently we must look for a balance between rural activity and nature conservation. In the beginning of the new millennium the demand for protection of the natural environment may establish a particularly important problem for the Law. In the past however the concept of private property was based on the protection of property as an asset, to do what the owner wished with it including as a tool to produce goods. The concept evolved now to include both agrarian traditional use and natural resources preservation.

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1. IINNTTRROODDUUÇÇÃÃOO

Não seria demasiado afirmar que a década de 60 representou para o pensamento ambientalista internacional um período marcante, seja pela importância que o tema

“meio ambiente” ganhou em alguns países, seja pela inclusão da questão ambiental na pauta governamental. Nesse aspecto, destaca-se o livro de Rachel Carson, Silent Spring (1962), importante obra que discutiu a questão dos pesticidas e inseticidas sintéticos, sua relação com a degradação ambiental e com alguns tipos de câncer. Esse livro ajudou

a aumentar a consciência social quanto às implicações da atividade humana sobre o

meio ambiente e mostrou qual era, de fato, o preço que a sociedade estava pagando por essa ação. Durante a década de 60, a poluição urbana era vista como um problema mais de

“falha” tecnológica, ou seja, o que precisava ser feito era melhorar a tecnologia existente para diminuir a poluição urbana. Por outro lado, os pressupostos malthusianos ganharam força, principalmente com a publicação de The Population Bomb (1966), de Paul Ehlich, e de Tragedy of the Commons (1968), de Garret Hardin. Esses trabalhos relacionaram a degradação ambiental e a depredação dos recursos naturais com os aumentos populacionais. Ehlich defendia a idéia de que o crescimento da população do planeta da maneira exponencial como estava ocorrendo levaria as pessoas a passar fome nos anos 70 e 80, a capacidade humana de produzir alimentos estava quase esgotada e as tentativas de intensificar a produção de alimentos aumentariam a degradação ambiental. Por causa do crescimento populacional, poderiam ocorrer epidemias e a guerra nuclear.

A solução para esse quadro nefasto estaria na mudança das atitudes humanas, ou seja, a

superação do impasse dependeria de uma questão moral. O ensaio escrito pelo biólogo Hardin sobre a “tragédia das áreas comuns”,

afirmava que a superpopulação não seria resolvida com “soluções” científicas e que era inevitável a destruição dos recursos naturais de uso comum. Em sua narração alegórica

– uma área comum na qual vários criadores de gado deixam seus animais pastarem –,

chega-se à conclusão de que a exploração coletiva de áreas comuns levava ao esgotamento do recurso comum e, conseqüentemente, à ruína de todo o sistema que sustentava aquele grupo social. Hardin defendia a idéia de que para proteger os recursos naturais era necessário privatizar as áreas de uso coletivo ou transferi-las para as mãos

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do Estado. Em outras palavras, as ações coletivas não eram capazes de explorar os recursos de forma sustentável 1 . Com a publicação da obra do Clube de Roma, The Limits to Growth (1970), sob a coordenação de Meadows, as visões apocalípticas foram reforçadas, agora com

simulações computadorizadas da tendência global de crescimento da população, do uso dos recursos e da poluição, o que traria para a humanidade um cenário futuro desastroso.

A década de 60 foi marcada por um clima pessimista, os debates ressaltaram

três aspectos importantes da questão ambiental: poluição, crescimento populacional e

tecnologia. Tais discussões reforçavam a crença de que a crise ambiental era resultado do crescimento exponencial da população humana. Como o crescimento econômico, por sua vez, já tinha apresentado vários sinais de ter atingido seu limite, acreditava-se ser necessário mudar a atual tendência. A questão era como fazer essa mudança, pois cada documento indicava um aspecto da questão e, por conseguinte, propondo diferentes “soluções”. O período marca a crítica ao modelo industrial e do progresso tecnológico como alternativa para a melhoria da qualidade de vida.

O aspecto positivo de toda essa discussão ambiental pessimista e imprecisa da

década de 60 foi o fato de ter conseguido despertar nas pessoas e nos governos o

interesse pelas questões apresentadas. As décadas de 70 e 80 foram marcadas pela realização de conferências internacionais (com destaque para a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano Conferência de Estocolmo, em 1972) e pela divulgação de trabalhos que ressaltaram a preocupação global com os problemas ambientais, principalmente as obras World Conservation Strategy (1980) e Our Common Future

(1987).

Nessa nova fase do movimento ambientalista, superou-se a visão emocional das questões ambientais e assumiu-se uma perspectiva mais racional e uma concepção política mais holística. Outro ponto que podemos destacar nesse período foi o debate que passou a ser feito mais abertamente entre os países mais desenvolvidos e os menos desenvolvidos, em fóruns internacionais que colocaram a questão ambiental como um problema não mais local, nacional ou internacional, mas global.

1 Voltaremos a essa discussão, pois as experiências histórias têm demonstrado o contrário, em particular no Brasil, que a propriedade privada não tem sido capaz de usar os recursos naturais de forma sustentável.

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Consolidou-se então a compreensão de que, se o meio ambiente já vinha há décadas sofrendo alterações, algumas irremediáveis, e se chegara a um nível que poderia ser considerado crítico, era necessário buscar mudanças, alternativas que não colocassem em risco a sobrevivência da humanidade. Pode-se notar que é partir dos anos 70 que surgem as primeiras importantes legislações ambientais. Mesmo com um cenário internacional desfavorável – pois as décadas de 70 e 80 foram marcadas pela recessão econômica, pela crise energética e pelo conservadorismo político –, no final dos anos 70, temos o atendimento de algumas reivindicações ambientalistas. Surgem órgãos ambientais em diversos países e as políticas públicas incorporam a preocupação ambiental. Por outro lado, se as reivindicações estavam sendo atendidas com muita lentidão, não há como negar que o movimento ambientalista fortaleceu-se e tornou-se um referencial para a sociedade, mesmo que ainda de forma marginal nas políticas nacionais e internacionais. É nos anos 90 que emerge com mais força a política ambiental global, não é mais uma política internacional, mas um ponto de pauta obrigatório da agenda global. Um dos primeiros documentos a definir a sustentabilidade como estratégia de desenvolvimento foi o Relatório Brundtland, um trabalho da Comissão Mundial (da ONU) sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. Esse trabalho, presidido por Gro. Harlem Brundtland e Mansour Khalid, assim definia o desenvolvimento sustentável: o “desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades” (NOSSO FUTURO COMUM, 1991:46). O auge da discussão internacional sobre desenvolvimento e preservação do meio ambiente ocorreu com a realização da II Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED), realizada em junho de 1992 no Rio de Janeiro. Nesse encontro, foram aprovados quatro documentos importantes que objetivavam orientar as ações dos governos e da sociedade civil. Os documentos são: a “Agenda XXI”, o “Protocolo sobre as Florestas”, a “Convenção sobre a Diversidade Biológica” e a “Convenção sobre as Mudanças Climáticas Mundiais”. Todas essas discussões da década de 80 e 90 acabaram influenciando várias áreas do conhecimento humano e, como não poderia deixar de ser, o Direito. A questão ambiental que sempre esteve presente em alguns ramos do Direito (por exemplo, o direito agrário) ganha então uma nova dimensão com o aumento vertiginoso das

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convenções ambientais internacionais, a promulgação da Constituição Federal – que realçou a questão ambiental com a inclusão de um capítulo exclusivo sobre a matéria –, além da publicação de artigos dispersos sobre o tema. Inúmeras leis, enfim, direta ou indiretamente trataram do assunto.

O interesse da sociedade e dos governos pela preservação e tutela da natureza, o

reconhecimento do direito a um ambiente sadio e ecologicamente equilibrado vão exercer uma pressão positiva no Direito, provocando seu fortalecimento conceitual. Os temas conhecidos, como a terra, a água, o solo, a floresta, que podem ser integrados na categoria de recursos naturais renováveis, ganham uma nova dimensão, dada a obrigação de preservar e de usar racionalmente esses recursos naturais. Busca-se, depois da Eco-92, um novo equilíbrio entre agricultura e mercado, e a preocupação com os possíveis impactos que as atividades agrárias podem causar ao meio ambiente que leva a um aprofundamento do debate, com a inclusão de novos temas, como biodiversidade, biosseguridade, biotecnologia e bioética (ZELEDÓN,

1998:93).

Nesse quadro, é importante que se concilie a análise científica com a construção normativa e a diversidade social do uso dos recursos naturais, a fim de atender os diferentes interesses, pois há casos em que os objetivos dos diferentes atores sociais que fazem o manejo dos recursos são contraditórios entre si ou até mesmo antagônicos. Portanto, neste início de milênio, a exigência de proteção do ambiente natural vem suscitar um problema particularmente importante para o Direito. A dicotomia premente a ser superada pela doutrina e pela legislação reside nas relações recíprocas

entre a garantia institucional da propriedade e do direito fundamental da propriedade, de um lado, e a garantia da proteção do ambiente, de outro (CANOTILHO, 1995:96). A questão fica mais complexa quando se tem a compreensão de que é constitucionalmente incorreto dizer que o direito ambiental 2 “pesa”, “vale mais” do que o direito de propriedade ou o direito de iniciativa econômica privada.

A tarefa de resolver esse conflito não é fácil, mas, de qualquer modo, devemos

partir do pressuposto constitucional de que todos os direitos têm, em princípio, igual

2 Luis Fernando Coelho, um dos primeiros juristas a apresentar uma descrição para o Direito Ambiental, define como sendo “um sistema de normas jurídicas que, estabelecendo limitações ao direito de propriedade, e ao direito de exploração econômica dos recursos da natureza, objetivam a preservação do

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valor, devendo os conflitos serem solucionados, preferencialmente, mediante o recurso ao princípio da concordância prática, ou seja, o desfecho para o litígio não pode levar ao sacrifício (total) de uma das partes. Os direitos constitucionais conflitantes são de igual valor constitucional e não existe uma diferença hierárquica entre eles, portanto é importante chegar a uma solução que estabeleça limites e condicionantes recíprocas de forma a conseguir uma concordância prática entre os direitos (CANOTILHO,

1995:163).

Na realidade brasileira, a superação desse litígio torna-se mais complexa, pois foi com fundamento no direito de propriedade que ocorreu a apropriação e o uso dos recursos naturais públicos, o que levou à destruição de mais de 90% da Mata Atlântica e de 15% da Floresta Amazônica. De fato, historicamente no Brasil não tivemos a “tragédia dos comuns”, mas sim a tragédia da apropriação privada dos recursos naturais, já que a consolidação da propriedade rural se deu com a destruição da floresta. O paradoxo brasileiro – ao contrário do que foi apregoado pela metáfora da “tragédia dos comuns”, a qual defendia que os recursos naturais deviam ser privatizados sob o argumento de que somente os proprietários teriam incentivos para proteger a “natureza” – está no fato de que as áreas mais preservadas são exatamente aquelas de apossamento coletivo, tais como as áreas indígenas, as reservas extrativistas, as terras de remanescentes de quilombos, ou as áreas públicas, por exemplo, as unidades de conservação (parques, reservas biológicas, florestas nacionais etc.). Desse modo, o conhecimento do funcionamento do direito de propriedade em relação ao homem e a seus usos da natureza é importante para se implementar uma efetiva proteção dos recursos naturais. Os elementos de legitimação do direito de propriedade foram os que fundamentaram a apropriação e a destruição dos recursos naturais.

Assim, parte dos problemas ambientais está diretamente ligada às regras historicamente construídas de legitimação do direito de propriedade. Sem a busca de uma “solução” para os problemas causados pelo cotejo do direito de propriedade com a proteção dos recursos naturais – ou seja, pela existência da garantia institucional da propriedade e do direito fundamental da propriedade, de um lado, e da necessidade de proteção do ambiente, do outro –, o problema ambiental permanecerá (HANNA et al.,

18

1995:17). Acreditamos a alteração das regras de legitimação do direito de propriedade

podem ajudar na recuperação ambiental, ou seja, diminuir o grau de destruição da

cobertura vegetal.

Por isso pretendemos estudar a formação histórica e jurídica do direito de

propriedade, já que a análise de um dos instrumentos utilizados pelo homem para

relacionar-se com o seu meio ambiente natural permitirá a adoção de medidas efetivas

de proteção da natureza. Por outro lado, temos consciência de que o direito de

propriedade não é por si só condição suficiente para a sustentabilidade dos recursos

naturais, mas é uma condição necessária.

É nesse contexto que se insere nossa tese de doutorado. Trata-se de uma

pesquisa que pretende examinar criticamente o conceito de propriedade privada rural,

com o intuito de demonstrar que a propriedade tem como função a produção agrária e a

proteção ambiental, não se limitando somente a produzir alimentos ou matérias-primas.

Por isso, pretendemos denominá-la de propriedade agroambiental.

De fato, o desenvolvimento da tese apresenta uma indagação básica: qual será o

papel do imóvel rural no século XXI? Para responder a essa questão, inicialmente

precisaremos saber qual foi a função do imóvel rural no passado e qual está sendo a sua

função no presente, a fim de projetar as perspectivas para o futuro.

Visa-se também a descrever os instrumentos jurídicos públicos e privados úteis

para a gestão dos recursos naturais renováveis no imóvel rural, com o intuito de analisar

os diversos institutos jurídicos que possam lograr uma eficaz proteção dos recursos

naturais e do meio ambiente, e que permitam o equilíbrio entre a produção e a proteção.

1.1. O PAPEL DA PROPRIEDADE RURAL NA PROTEÇÃO AMBIENTAL:

JUSTIFICATIVA 3

No Brasil, quando se fala em preservação de biomas, biodiversidade, garantia

da viabilidade ecológica de ecossistemas, a primeira sugestão que aparece é a criação de

áreas protegidas (tais como as florestas nacionais, parques, reservas biológicas etc.),

3 Para a legislação brasileira existe um regime especial que distingue a propriedade do solo e a propriedade do subsolo. No capítulo dos princípios gerais da atividade econômica da Constituição Federal, o artigo 176 e seus parágrafos disciplinam a distinção jurídica entre solo e subsolo. Neste trabalho, limitamo-nos a discutir a questão do solo, ficando excluídos da análise os aspectos pertinentes ao subsolo e às jazidas minerais (recursos naturais não-renováveis).

19

como se somente as unidades de conservação tivessem o papel de assegurar a proteção ambiental. Contudo, se analisarmos alguns dados, poderemos chegar à conclusão de que, além das unidades de conservação, a propriedade rural também pode cumprir essa importante tarefa. Conforme levantamento do Instituto Socioambiental (ISA), as unidades de conservação representam 12,22% da área total da Amazônia Legal (RICARDO; CAPOBIANCO, 2001). Somando os 20,66% das terras indígenas existentes na Amazônia Legal (RICARDO, 2001), temos um total de 33,88% de terras públicas com algum tipo de proteção legal 4 ; enquanto aproximadamente 25% da Amazônia Legal são imóveis rurais privados, conforme os dados cadastrais do INCRA 5 . Assim, em relação à quantidade de áreas que poderiam ter alguma forma de proteção ambiental, os imóveis rurais representam um número significativo, pois, quando falamos em conservação da floresta, cerrado, campos naturais e mangues, estamos nos referindo a biomas que estão em propriedades públicas ou privadas. Sem negar a importância que as áreas protegidas têm para a preservação ambiental, fica evidente o papel destacado que a propriedade rural privada pode desempenhar na proteção dos recursos naturais, principalmente quando se parte do pressuposto de que a propriedade possui não somente o papel de produzir, mas também tem a função pública da gestão ambiental, ou seja, de gerir da melhor forma o espaço existente dentro do imóvel rural, o que nos obriga a pensar a sua função nessa matéria 6 .

4 Esse valor pode ser menor, pois temos que considerar também a sobreposição de áreas, por exemplo, as unidades de conservação sobre as terras indígenas, ou até mesmo a sobreposição de unidades de conservação, assim como a sobreposição das unidades de conservação sobre as propriedades rurais, ou destas sobre as terras indígenas.

5 A somatória de terras indígenas, unidades de conservação e propriedade rurais privadas não pode dar 100%, pois não foi contabilizada a área das cidades, das estradas, das terras devolutas e não podemos esquecer a sobreposição das unidades de conservação, das áreas indígenas e dos imóveis rurais. Logo, os dados apresentados têm mais o objetivo de demonstrar a dimensão e a importância do imóvel rural na proteção ambiental.

6 Podemos também citar como exemplo negativo os 52 milhões de hectares desmatados na Amazônia, região que representa mais de duas vezes o Estado de São Paulo. Estima-se que uns 20 milhões sejam pastagens. Do total, calcula-se que a metade está degradada – em torno de 1 milhão de hectares de cultivos perenes e 1,5 milhão de hectares com cultivos anuais – e mais da metade (24,5 milhões de hectares) representa a cobertura vegetal secundária em diversas idades e a infra-estrutura urbana, estradas, barragens, etc. (HOMMA, 1998). No ano de 2002 foram desmatados 25.500 km 2 na Amazônia Legal, uma área superior ao estado de Sergipe (21.910km 2 ). O índice é o segundo maior da história do monitoramento orbital, realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), nos últimos 15 anos, com base em imagens de satélites ambientais. Fica atrás apenas de 1995, quando foram derrubados 29.059 km 2 . Esses dados por si só demonstram a importância de se buscar mecanismos jurídicos para que a propriedade rural assuma a sua responsabilidade pela gestão ambiental.

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O conceito tradicional de propriedade já não consegue responder às demandas

sociais e ambientais de nossos dias, e, cada vez mais, buscam-se outros qualificativos para “adaptá-la” às novas exigências. Primeiro surgiu o debate sobre a função social da

propriedade e, mais recentemente, sobre a função social e ecológica da propriedade. O exercício do direito de propriedade sobre a terra tem que levar em consideração também a conservação do solo e a proteção da natureza. A concepção restrita de que a propriedade cumpre a sua função social quando produz, sem colimar outros interesses, parece não ser suficiente para abarcar as novas necessidades sociais e ambientais apresentadas na contemporaneidade.

É preciso ampliar a compreensão da função social da propriedade para que se

possa incluir nesse conceito a função de proteção ambiental, a fim de favorecer uma utilização mais responsável dos recursos naturais, que permita obter tanto os benefícios econômicos que o imóvel pode produzir, como também os ambientais. Somente a criação da reserva legal e da área de preservação permanente não foram suficentes para assegurar a proteção da floresta. Se algumas décadas atrás a escassez de alimentos era a justificativa para dar um peso maior ao modelo produtivista, em detrimento dos recursos naturais e da qualidade de vida, atualmente as demandas da agricultura e as bases do conhecimento científico indicam-nos que é possível produzir alimentos e preservar os recursos naturais sem colocar em risco a segurança alimentar. Mais ainda, ou ao contrário do juízo advogado pelo paradigma produtivista, é a limitação dos recursos naturais renováveis e os “imperativos” ecológicos que podem comprometer a perspectiva de aumento do estoque de alimentos e, conseqüentemente, colocar em risco a segurança alimentar. Assim, não seria demasiado dizer que a consolidação da agricultura e do desenvolvimento rural sustentável dependerá também da construção de uma visão jurídica que possibilite afirmar que o direito de propriedade encontra amparo legal na função social e ecológica do imóvel rural. Para se elaborar um conceito de propriedade mais abrangente, que incorpore os elementos da função social e ecológica, é necessário rever a formação da propriedade no Brasil, pois, como já afirmamos, a propriedade é caracterizada pelas soluções encontradas pela sociedade em um momento histórico determinado. A superação do modelo atual (produtivista) está na capacidade de entender os elementos que o compõem e os condicionamentos históricos do direito de propriedade.

21

A propriedade rural brasileira passou por um processo peculiar, pois à propriedade foi um dos mecanismos utilizados para legitimar a apropriação privada das terras públicas. Como dissemos anteriormente, propriedade é toda relação jurídica de apropriação de uma coisa, e, em nosso território, essa apropriação deu-se basicamente a pretexto de “controlar” os recursos naturais. Em cada região do Brasil, foi elaborada uma estratégia específica para se apossar dos recursos naturais renováveis, o que, deduz-se, levou à formação de propriedades distintas com algumas características próprias. Assim, por exemplo, no século XIX, na Amazônia, o acesso à terra para a exploração extrativista deu-se pelo aforamento, enquanto no Sudeste, para a exploração do café, foi mediante a posse ou a compra. Por isso, estudar o processo de formação do direito de propriedade – ou os diferentes caminhos para a formação das propriedades – é de fato importante para entender como foi concebida a relação conflituosa entre o direito de propriedade (direito individual) e os direitos sociais (interesses difusos). Compreender esse processo é o primeiro passo para superar a concepção conservadora, com o escopo de contribuir para a conservação da natureza e também para o uso sustentável dos recursos naturais. Modernamente no Brasil foram criados diversos instrumentos jurídicos para a proteção e gestão dos recursos naturais. Os principais instrumentos com incidência na propriedade privada rural são os públicos (zoneamento ecológico econômico, alguns tipos de unidades de conservação, assentamento agroextrativista, área de proteção permanente legal e administrativa, reserva legal etc.) e os privados (reserva particular do patrimônio natural e os contratos de arrendamentos e parcerias agrárias etc.). Todos esses mecanismos jurídicos, somados a outros de âmbito internacional, podem desempenhar um papel importante na gestão dos recursos naturais e da natureza, garantindo assim a manutenção dos serviços ecológicos (preservação da biodiversidade, reciclagem de nutrientes, manutenção do sistema hidrológico e climatológico, etc.). Contudo, para que todos esses mecanismos jurídicos possam ser eficazes, será necessário compreender qual foi o papel desempenhado pela propriedade rural (em particular entre os séculos XVIII e meados do XX), qual é o seu papel atual e como ela poderá cumprir no século XXI uma função destacada na produção de alimentos e na proteção da natureza. Em outras palavras, precisamos estudar como se originou a estrutura do direito de propriedade no Brasil, de modo a compreender o processo

22

dinâmico de desenvolvimento do direito de propriedade, para poder traçar as perspectivas para o novo milênio.

1.2. DEFININDO O OBJETO DE ESTUDO 7

Na discussão que pretendemos desenvolver, não podemos confundir o objeto –

a propriedade, a fazenda, a chácara, o sítio, a data de terra, a gleba, o imóvel – com o

instituto jurídico, que é o direito de propriedade. Uma coisa é o bem e outra é o reconhecimento do direito à terra, este sim o nosso objeto de pesquisa. Estudamos o direito de propriedade quando analisamos a relação existente entre o proprietário e os demais indivíduos, ou seja, entre o proprietário e os não- proprietários, quais são os direitos e deveres assegurados pelo Estado que tornam a propriedade legítima. Do mesmo modo, referimo-nos ao direito de propriedade ao estudar os poderes que uma pessoa exerce sobre a coisa. Assim, o direito de propriedade envolve a relação jurídica entre o proprietário e os não proprietários, como também a relação jurídica entre o sujeito e a coisa. Para facilitar a compreensão dos elementos que compõem o direito de propriedade, podemos didaticamente estruturá-lo em dois níveis: a) objetivo: a relação

entre o sujeito e a res corporalis; b) subjetivo: a relação que ocorre entre sujeito-sujeito,

o direito de ter o bem e de ver respeitado o uso e o gozo desse bem. Assim, de modo geral, podemos definir o direito de propriedade como o

conjunto de normas jurídicas que definem os direitos e deveres do proprietário no uso particular dos recursos naturais, as quais regulam as faculdades de utilização (usus), o desfrute (usus fructus), a disposição material (abusus) e a disposição jurídica (alienatio), e a relação do proprietário com outros sujeitos. A responsabilidade do Poder Público está ligada a sua capacidade de assegurar o cumprimento das normas jurídicas e

a criação e a implementação de instrumentos públicos de proteção ambiental. Examinaremos o conceito de direito de propriedade para demonstrar que o atual conceito não é o mesmo do passado. Mais: os elementos que consolidaram o direito de propriedade no século XX estão em profunda transformação. Para verificar o grau de

7 Nesta parte introdutória, apresentaremos algumas definições de categorias jurídicas, ainda que de forma genérica. No decorrer do texto, essas definições consolidar-se-ão. Preferimos essa metodologia por se tratar de um estudo inter e multidisciplinar que exige esclarecimentos prévios sobre o que se está falando, para facilitar a compreensão das idéias que serão desenvolvidas na tese.

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transformação da propriedade, analisaremos três aspectos: a forma de acesso à propriedade, a forma de exploração dos recursos naturais e das atividades agrárias e as legislações que configuraram o direito de propriedade. Pretendemos com isso fazer um exame mais amplo do direito de propriedade e entender o grau das modificações ocorridas em cada período histórico e as repercussões jurídicas e ambientais. No contexto do trabalho utilizamos o vocábulo apropriação para designar o apossamento, a ocupação da coisa alheia. Assim, apossamento, apropriação e ocupação exprimem o ato pelo qual uma pessoa traz à sua posse um bem que, anteriormente, se encontrava em posse alheia, ou seja, torna próprio o que é de outrem, que pode ser a res nullius (a coisa que não tem dono) ou a res derelictae (a coisa que já teve dono, mas, em virtude de abandono ou renúncia, não mais tem, no momento da ocupação) (SILVA, 2000:72). Desse modo, a apropriação está ligada ao “ato pelo qual apoderamos, para dele fazer nossa propriedade individual, do que não pertence a ninguém ou a toda gente” (LALANDE, 1996:83). O ato de apropriar-se tem o sentido de apoderar (legal ou fraudulentamente) do que pertence a outrem. No período histórico analisado (colonial, monárquico e república) a apropriação privada ocorreu em terras públicas.

1.2.1. PROPRIEDADE E DOMÍNIO

A discussão sobre a autonomia conceitual de propriedade e domínio não é nova. Entre os comentaristas do direito romano dos séculos XV a XVII, essas palavras foram usadas de maneira indistinta em diversos documentos. De modo geral, podemos dizer que a discussão separa dois grupos: os que defendem que os institutos jurídicos propriedade e domínio são sinônimos, toda distinção estando ligada à abrangência do termo – uns defendendo que a propriedade é mais ampla do que o domínio, outros sustentando o contrário; os que defendem que esses dois termos são distintos, ainda que complementares e indissociáveis. Os principais comentaristas do Corpus Iuris Civilis construíram o conceito de domínio com base na faculdade de disposição da coisa. Bártolo de Saxoferrato define o domínio como “o direito de perfeita disposição da coisa corporal, salvo proibição legal” (dominium est ius de re corporali perfecte disponendi nisi lege prohibeat). Para o seu discípulo, Baldo de Ubaldis, “o domínio absoluto é a plena propriedade com a faculdade

24

de alienar” (dominium absolute dictum est plena proprietas cum alienandi potentia)

(DIOS, 1999:216).

Freitas (1915:454), na Consolidação das Leis Civis, não define propriedade,

afirma, no art. 884, que o domínio consiste na livre faculdade de usar, de dispor das

coisas e de demandar ações reais. No seu Esboço de Código Civil, ao discorrer sobre

domínio, no art. 4.071, afirma:

Domínio (direito de propriedade sobre coisas) é o direito real perpétuo ou temporário, de uma só pessoa sobre uma coisa própria, móvel ou imóvel, com todos os direitos sobre sua substância e utilidade, ou somente sobre sua substância, ou somente sobre sua substância com alguns sobre sua utilidade (FREITAS, 1983:575).

Teixeira de Freitas utiliza o termo propriedade para fazer referência, não ao

direito, mas à coisa objeto do direito.

O Código Civil de 1917 e suas alterações, no capítulo da propriedade, também

não definem domínio ou propriedade, usam os termos indistintamente. O art. 524 diz

que “a lei assegura ao proprietário o direito de usar, gozar e dispor de seus bens, e de

reavê-los do poder de quem quer que injustamente os possua”. Já o art. 527 afirma que

“o domínio presume-se exclusivo e ilimitado, até prova em contrário”.

Para Grossi (1992), Gatti (1996), Diniz (1997) e Bessone (1996) e a maioria

dos doutrinadores brasileiros, trata-se de expressões sinônimas, sendo o domínio

identificado integralmente com a propriedade.

Fugindo à regra geral, temos Arone (1999) defendendo que propriedade e

domínio são coisas diversas, ainda que complementares e indissociáveis. A propriedade

é apreendida na relação do proprietário com os demais indivíduos, sendo o conteúdo

externo (in persona) do direito de propriedade. Já o domínio é visto na relação do

indivíduo com o bem, sendo o conteúdo interno (in re) do direito de propriedade, o

conjunto de relações entre o indivíduo e o bem da vida que sujeita a sua vontade.

Em nosso trabalho, a princípio, empregaremos os termos propriedade e domínio

como sinônimos, mas, quando acharmos conveniente, para a melhor compreensão das

idéias defendidas, poderemos utilizá-los como termos distintos. Caso isso ocorra,

alertaremos o leitor.

25

1.2.2. Multiplicidade de estatutos de direitos de propriedade

A princípio – no decorrer do trabalho, aprofundaremos e fundamentaremos nosso ponto de vista sobre essa discussão –, parece-nos que existe uma pluralidade de direitos de propriedade, que influem na relação entre os diferentes objetos sobre os quais pode recair o domínio e os distintos sujeitos que podem ser titulares do direito. Metodologicamente convém estudar separadamente as distintas propriedades e seus correspondentes estatutos dominicais, tais como a propriedade urbana, a propriedade rural, a propriedade industrial, a propriedade intelectual. Esse recurso afigura-se-nos o único meio de aprofundar o tema que nos interessa – a propriedade rural.

O conceito de propriedade e as diferentes manifestações do direito de

propriedade não podem ser considerados de forma absoluta. Por isso, optamos por tratar

a propriedade como algo plural. É essa a visão de diversos autores, para os quais a atual pluralidade de estatutos dominicais é o resultado dos diferentes sistemas jurídicos da propriedade que foram sendo constituídos no decurso da história (RODOTA, 1986; GROSSI, 1992; VAZQUEZ, 1988; ZELEDÓN, 1993; SILVA, 1994; TEPEDINO, 1999). Em cada período histórico, a propriedade manifesta-se por meio da apropriação de bens e das relações jurídicas estabelecidas com eles. Daí se poder falar em uma descontinuidade conceitual: a concepção de propriedade é temporalmente determinada e condicionada por fatores sociais, econômicos e ambientais. Assim, não é incabível conceber a existência, de um lado, da propriedade como um fenômeno geral (todo poder sobre a coisa), que sempre esteve presente na história humana, e, de outro, de diferentes propriedades, específicas de cada momento histórico.

Se durante séculos o direito de propriedade privada rural esteve assentado na

proteção da propriedade como um bem patrimonial, passando depois à proteção da propriedade como um bem de produção (concepção produtivista), hoje o imóvel rural encontra amparo jurídico no binômio: uso tradicional agrário e proteção dos recursos naturais.

Uma das chaves para compreender a existência de distintas propriedades – pois dissemos que de modo geral a propriedade é todo poder sobre um bem – está exatamente no grau de poder, ou seja, no dominium. É a “gradação” do dominium que caracterizará o conteúdo mínimo ou máximo da propriedade, e o fenômeno da

26

descontinuação está nas opções que cada sociedade fez para modelar a intensidade do poder sobre a coisa. Daí a diferenciação histórica (GROSSI, 1992: 92). Desse modo, as expressões históricas da propriedade variam em função do grau

de conteúdo – mínimo ou máximo – da propriedade. No período medieval, tivemos a

propriedade dividida entre o domínio direto (que estava nas mãos do senhor da terra) e o domínio útil (que estava nas mãos do vassalo), o que levou a um fracionamento e,

conseqüentemente, à admissão da legitimidade de mais de um proprietário. Todos detinham poderes sobre a mesma coisa, embora os poderes sobre o bem fossem distintos e desiguais. No período moderno, de cultura predominantemente individualista, o dominium é exclusivo de um sujeito. Como nossa pesquisa envolve estudos interdisciplinares, que aproximam

diferentes disciplinas, optamos por não realizar uma análise restrita à dogmática jurídica 8 . Assim, trata-se de um estudo que leva em consideração não somente o aspecto jurídico, mas também o social, o político e o ambiental. As categorias empregadas são:

propriedade sesmarial, propriedade senhorial, propriedade moderna, propriedade constitucional. Em um mesmo período histórico, podemos ter a propriedade senhorial e

a propriedade moderna; em outro, a propriedade moderna e a propriedade

constitucional, ou seja, a consolidação de uma concepção de propriedade não ocorreu

com a extinção da outra, houve a tolerância de duas concepções no mesmo período histórico ou uma relação conflituosa, como demonstraremos no primeiro capítulo.

1.3. METODOLOGIA DE ESTUDO

Uma das principais dificuldades desta pesquisa é de ordem metodológica. Indagamo-nos sobre o melhor caminho a seguir para que possamos elaborar o trabalho

de modo a abranger os múltiplos aspectos, simultâneos e sucessivos, do fenômeno

8 Não podemos confundir dogmática com dogmatismo. Este é a afirmação da existência de verdades certas, é a adesão irrestrita a princípios aceitos como indiscutíveis. A dogmática pode, porém, ser dogmatista, basta para isso que seus princípios sejam vistos como dogmas. O estudo dogmático teria como objeto principal a análise da legislação e poderia ser realizado de forma crítica, ou seja, com base na teoria crítica do Direito. Entendemos por teoria crítica o instrumental teórico que possibilita repensar uma realidade histórico-social com o intuito de superar suas contradições, em uma sociedade em constante transformação. Os pressupostos são “críticos” na medida em que é possível a articulação dialética entre a teoria e a prática, pois quanto mais dissociada a construção jurídica da realidade social, tanto mais será necessário que os princípios jurídicos sejam afirmados dogmaticamente para se legitimarem.

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social. Em nosso caso particular, perguntamo-nos qual abordagem escolher para estudar

o direito de propriedade? O primeiro ponto que colocamos é que não se trata de qualquer propriedade, mas da propriedade privada rural (poderia ser uma propriedade urbana, pública, intelectual etc.). Não se trata tampouco de qualquer conceito de propriedade, já que optamos pela categoria jurídica. É por intermédio dessa categoria que pretendemos dialogar com os diferentes ramos das ciências sociais. Aqui já indicamos um dos caminhos: nosso trabalho será uma abordagem interdisciplinar. Ao decidir trabalhar com o tema exposto nesta proposta, percebemos com clareza o grande desafio que enfrentaríamos, pois a análise do objeto de pesquisa deve permitir uma compreensão global do problema agroambiental, o que envolve um estudo interdisciplinar, com a aproximação de diferentes pensamentos sobre o conhecimento humano. Por outro lado, nosso tema representa também uma proposta de ruptura metodológica com a compartimentalização das estruturas institucionais de pesquisa vigentes, pois temos a intenção de estudar o direito de propriedade sob um ponto de vista que leve em consideração o processo de regulação entre os sistemas socioculturais

e o meio ambiente biofísico. Essa decisão leva-nos a examinar as formas de apropriação

e de uso da natureza e de transformação do espaço dentro da propriedade. Para nós, o direito da propriedade rural brasileira teve um processo de formação distinto do modelo europeu ou americano. Como dissemos anteriormente, propriedade é toda relação jurídica de apropriação de uma coisa, e em nosso território essa apropriação originou-se da preocupação em controlar os recursos naturais e a força de trabalho para obter o maior retorno financeiro em um curto prazo de tempo. Além disso, em cada região do Brasil, foi elaborada uma estratégia específica de apossamento dos recursos naturais renováveis, o que levou à formação de uma propriedade com algumas características próprias. Do mesmo modo, não podemos esquecer que a palavra propriedade teve diferentes acepções jurídicas no decorrer da história e, como lembra Bloch, “os homens não têm o hábito de trocar de vocabulário toda vez que trocam de costumes” (apud LOPES, 2000:20). Há pelo menos três vertentes importantes de acesso à interpretação do instituto do domínio da terra da sociedade colonial – incluindo-se o período imperial – até a

28

contemporânea, que são: os discursos dos historiadores e dos juristas, os atos

administrativos dos dirigentes coloniais e as leis. Essas vertentes serão estudadas a

partir da revisão bibliográfica dos autores mais representativos do passado, de autores

contemporâneos e da análise do ordenamento jurídico, principalmente dos séculos XIX

e XX.

Pretendemos apartar-nos das duas principais concepções que dominam o debate

científico a respeito do Direito, as quais Bourdieu denomina de formalismo e

instrumentalismo. A primeira parte do princípio de que a “ciência jurídica” deve

alcançar uma autonomia absoluta em relação ao mundo social, ou seja, o seu corpo de

doutrina e regras deve ser completamente independente das pressões sociais. Bourdieu

(1998:209), citando J. Bonnecase, diz que:

a ciência jurídica tal como a concebem os juristas e, sobretudo,

os historiadores do direito, que identificam a história do direito

com a história do desenvolvimento interno dos seus conceitos e dos seus métodos, apreende o direito como um sistema fechado

e autônomo, cujo desenvolvimento só pode ser compreendido segundo a sua ‘dinâmica interna’.

Para a corrente formalista, que os juristas chamam de positivismo jurídico, o

seu objeto de pesquisa deve limitar-se ao enunciado das normas jurídicas, com a

exclusão de qualquer dado histórico ou social 9 .

A tendência oposta parte do pressuposto de que o Direito (com suas leis e

jurisprudência) é o reflexo direto das relações de força existentes na sociedade, “em que

se exprimem as determinações econômicas e, em particular, os interesses dos

dominantes” (BOURDIEU, 1998:210). O Direito é um instrumento de dominação,

reflexo da ideologia de uma classe, possuindo uma autonomia limitada como

superestrutura de uma determinada sociedade, pois a sua eficácia está fortemente ligada

às relações produtivas.

Para superar essas duas concepções teóricas, precisamos entender o papel

específico do discurso jurídico e sua relativa “independência”, por isso é preciso estar

atento aos fundamentos sociais dessa autonomia. Desse modo, é necessário

compreender que o Direito possui um funcionamento específico, com um corpo jurídico

relativamente independente dos constrangimentos externos. Assim, o Direito será visto

como

29

] [

às pressões externas, no interior do qual se produz e se exerce a

autoridade jurídica, forma por excelência da violência simbólica legítima cujo monopólio pertence ao Estado e que se pode combinar com o exercício da força física (BOURDIEU,

1998:211).

um universo social relativamente independente em relação

Quando estudamos as práticas e os discursos jurídicos, que são produtos do

funcionamento do campo jurídico, precisamos considerar

as relações de força específica que lhe conferem a sua estrutura e que orientam as lutas de concorrência ou, mais precisamente, os conflitos de competência que nele têm lugar e, por outro lado, pela lógica interna das obras jurídicas que delimitam em cada momento o espaço dos possíveis e, deste modo, o universo das soluções propriamente jurídicas (BOURDIEU, 1998:211).

O que de fato analisaremos no campo jurídico é a “concorrência pelo

monopólio do direito de dizer o direito”, ou seja, a disputa entre os diferentes agentes

sociais e técnicos, que, investidos de competências próprias, buscam legitimar as suas

interpretações sobre o conjunto de normas para ratificar uma visão de comportamento

social (BOURDIEU, 1998:212).

Nesse aspecto, foi importante estudar seletivamente os processos judiciais e a

jurisprudência do século XX, para entender como eram introduzidos os litígios agrários

no poder judiciário, quais os discursos utilizados e as soluções apresentadas.

Realizada a crítica da historicização e a crítica conceitual do direito de

propriedade, descrevemos os instrumentos jurídicos públicos e privados, que de alguma

forma contribuem para a proteção e a gestão dos recursos naturais renováveis no imóvel

rural privado.

De modo geral, a abordagem metodológica do tema baseou-se em uma pesquisa

teórica, com levantamento bibliográfico, doutrinário, legislativo, das convenções

internacionais e da jurisprudência, na literatura nacional e internacional. Em relação ao

direito de propriedade, destacam-se as doutrinas brasileira, italiana, espanhola e

francesa. No que diz respeito à questão da gestão dos recursos naturais, sobressai a

doutrina dos EUA, da Itália, da Espanha e da Costa Rica.

Coletamos informações históricas e jurídicas nas bibliotecas locais

(Universidade Federal do Pará, Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Centro de

30

Ciências Jurídicas e Tribunal de Justiça do Estado do Pará) e de outras cidades brasileiras (Brasília na biblioteca da Câmara Federal e do Superior Tribunal Federal, em São Paulo a biblioteca da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco), principalmente para embasar nossa discussão sobre o modo como foi estruturado o direito de propriedade no Brasil e no Pará. Para demonstrar que no Brasil existiram diferentes categorias de propriedades (sesmarial, senhorial e moderna), foram pesquisados os Arquivos Públicos do Pará, de Cuiabá, de Recife, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Coletou-se informações sobre o sistema sesmarial de cada estado, a fim de verificar o papel da sesmaria no acesso à terra.

No tocante ao papel da propriedade moderna e à sua vinculação com a função

ecológica, pesquisamos nas bibliotecas acima relacionadas, consultando particularmente

as revistas especializadas. Destacaremos também a jurisprudência sobre o tema. Para o levantamento jurisprudencial, recorre-se igualmente à internet. Ao discutir a existência ou não da relação entre o regime de direito de propriedade e a sustentabilidade dos recursos naturais, pesquisamos os dados

bibliográficos das bibliotecas e os bancos de dados existentes no IBGE, INCRA, NAEA

e em algumas organizações não-governamentais que trabalham com o tema, como

Instituto de Pesquisa Ambiental (IPAM), Instituto Socioambiental (ISA), SOS Mata Atlântica e Fundo Mundial para a Natureza (WWF).

A apresentação de instrumentos jurídicos públicos e privados úteis para a

proteção dos recursos naturais renováveis no imóvel rural contaram com a análise da doutrina e da legislação nacional e internacional.

O trabalho está dividido em três capítulos. O primeiro tratou da análise

histórica do direito de propriedade, conforme já referimos. O segundo capítulo é referente o exame da propriedade moderna, quais seus elementos e porque a concepção moderna da propriedade contribuiu para a destruição dos recursos naturais. A terceira parte apresenta as características da propriedade agroambiental, quais elementos a difere da propriedade senhorial e da moderna. Evidenciada a distinção, buscamos realçar a função social e ambiental da propriedade agroambiental, enumerar os instrumentos jurídicos e econômicos de proteção dos recursos naturais, e propor uma nova estrutura de licenciamento ambiental.

31

Além do aspecto propositivo, buscamos nesse capítulo apresentar a tendência jurisprudencial dos tribunais superiores ao tratar de temas relacionadas à proteção dos recursos naturais, tais como, desapropriação, restrição ao direito de propriedade área de preservação permanente e reserva legal. No primeiro capítulo realizamos uma análise histórica, enquanto que no segundo e terceiro capítulos procuramos fazer um estudo hermenêutico e crítico da dogmática jurídica. Essa mudança no enfoque analítico ocorreu porque buscamos discutir a concepção geral de propriedade. A continuação da análise histórica do direito de propriedade no período contemporâneo demandaria uma mudança no enforque da pesquisa, o que exigiria deixar de estudar o direito de propriedade como conceito geral, para empregar um estudo específico à propriedade (pequena ou grande, individual ou coletiva; pública ou privada). Esse trabalho, a análise específica de uma dominialidade, pretendemos realizar após a conclusão da tese, que é o estudo da propriedade comum na Amazônia. Esperamos que esse trabalho contribua para o debate e realce a importância da propriedade privada rural na conservação dos recursos naturais e do meio ambiente, pois a propriedade rural é um importante instrumento de proteção ambiental. Somente as unidades de conservação não conseguirão manter as funções ecológicas e os serviços ambientais da floresta, funções vitais para a garantia da qualidade de vida do ser humano. Os recursos naturais dos imóveis rurais têm uma atribuição natural e jurídica complementar aos objetivos indicados às unidades de conservação.

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PPRRIIMMEEIIRRAA PPAARRTTEE

2. BREVE HISTÓRICO DA APROPRIAÇÃO PRIVADA DOS RECURSOS NATURAIS: SÉCULO XVII AO SÉCULO XIX

Buscar entender qual será o papel da propriedade rural no século XXI pressupõe antes de qualquer coisa compreender a função desempenhada por ela no passado e no presente. Assim, o histórico que pretendemos desenvolver não tem como objetivo descrever pura e simplesmente a realidade no passado, mas, sobretudo, tentar

inferir, a partir de suas origens, as suas conseqüências no presente e no futuro. Com esse intuito que estudaremos a história jurídico-social do direito de propriedade, resgatando os significados dessa categoria até os nossos dias para poder projetá-la sobre o futuro. Assim, ao apresentar as diferentes concepções da propriedade – de cientistas sociais e juristas –, pretendemos apreender a realidade social, e entender o seu significado em cada período histórico. Pretendemos ainda verificar como o debate sobre a propriedade se desenvolveu no campo jurídico e quais as suas conseqüências. Precisamos

que se realiza no próprio seio do mundo social, no seu conjunto,

neste ou naquele campo especializado e, especialmente, no campo das ciências sociais” (BOURDIEU, 1998:36), a fim de assimilar a complexidade do fenômeno jurídico dos regimes de direito de propriedade. Para uma melhor compreensão da discussão, trabalharemos com três definições sociológica de propriedade: a propriedade sesmarial, a propriedade senhorial e a propriedade moderna 10 . Não se trata de uma mera divisão didática, mas de uma visão distinta do fenômeno da formação da propriedade rural no Brasil, pois desejamos demonstrar em nossa análise que os autores que de algum modo discutiram a propriedade rural analisaram-na como uma categoria única, não compreenderam que historicamente tivemos no mesmo espaço uma disputa entre diferentes concepções de propriedade: ora entre a propriedade sesmarial e a senhorial, ora entre a senhorial e a moderna.

compreender o “[

]

10 Também poderemos utilizar a categoria propriedade individual ou liberal como sinônimas de propriedade moderna.

33

Outro equívoco cometido é o de transportar para o passado a compreensão do

presente sobre o direito de propriedade, desconhecendo, ou pelo menos ignorando, que

trata de diferentes épocas históricas e, conseqüentemente, de distintas categorias. O

conceito de propriedade empregado nos séculos XVIII e XVIII não é o mesmo do

século XX. Precisamos relativisar a concepção contemporânea de direito de propriedade

ao empregá-la no período colonial e monárquico brasileiro.

Desejamos aprofundar a discussão descrevendo as características de cada

categoria e as condicionantes históricas dessa distinção. Discutiremos neste capítulo o

“custo” social e ambiental para a consolidação da propriedade senhorial, ficando a

propriedade moderna para o segundo capítulo.

2.1. DEFINIÇÕES PRELIMINARES DE PROPRIEDADE SESMARIAL, SENHORIAL E MODERNA

Apresentaremos agora os elementos básicos que caracterizam estas três

categorias e as definições serão aprofundadas no decorrer do texto, como também a

análise histórica.

A propriedade sesmarial é aquela que foi confirmada pelo rei, o sesmeiro

requeria uma data de terra, cumpria as duas principais obrigações para receber a

confirmação: o cultivo e a demarcação. Reconhecia como direito individual de

propriedade da terra os que possuíam como título originário atos de concessão e

confirmarção da Coroa portuguesa. O acesso à propriedade da terra era regulamentado

no sistema sesmarial pela Ordenação e pelas diversas legislações esparsas emanadas da

Metrópole portuguesa. Após a confirmação, a terra adquiria o status próximo ao que

hoje é conferido à propriedade privada absoluta 11 . Para os objetivos deste trabalho,

consideraremos propriedade sesmarial também aquela terra que no Brasil não foi

confirmada, mas para a qual houve a solicitação e ou despacho favorável do Capitão-

Mor ou do Governador – as sesmarias concedidas – , ou seja, o solicitante que obtinha a

11 Denominamos sistema sesmarial o conjunto de normas que regulamentavam o acesso à terra pela concessão e confirmação real, pois as regras de funcionamento da sesmaria estavam contidas em prescrições genéricas das Ordenações, sendo que, no final do século XVII, houve uma intensa regulação normativa, “todas entretanto, padecendo do velho mal de, em vez de codificação geral, se baixarem determinações para casos concretos, para regiões determinadas, fixando não raro futilidades, deixando de lado os aspectos básicos e fundamentais” (PORTO, 1965:167).

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lavra da carta de data e sesmaria, assunto que aprofundaremos quando abordarmos os procedimentos para requerer a sesmaria. As Ordenações Manuelinas, como as Filipinas, definiam as sesmarias como

sendo “as datas de terras, casais, ou pardieiros, que foram, ou são de alguns senhores e que, já em outro tempo foram lavradas e aproveitadas e agora o não são” (Man., liv. IV, tít. 67; Filip., liv. IV, tít. 43).

A propriedade senhorial originou-se pelo apossamento primário da terra, ou

seja, pela posse e não pela transferência oficial do bem público para o patrimônio particular, como ocorreu no sistema sesmarial. É o costume local e a concepção jurídica

reinante na época que lhe deu o status de propriedade privada rural. Posteriormente o Estado buscou reconhecê-la e legitimá-la devido à pressão dos proprietários senhoriais. De fato, ocorreu a apropriação privada das terras devolutas, ou seja, do patrimônio público. A legitimação se dava com base no trabalho da terra e a legalização da mesma se deu pela prescrição aquisitiva, transações de compra e venda e testamentos, que eram realizados em documentos privados e “oficializados” nos tabeliães e juízes testamentários. Diria que a concepção de propriedade senhorial está mais próxima da noção sociológica, com elementos e fundamentação jurídica.

O fato de a propriedade senhorial ter sua legitimação na posse, não a torna uma

propriedade ilegal ou a margem da lei, pois é uma propriedade de fato, que se fundamenta na doutrina jurídica dos séculos XVII e XVIII, ganhando força política e jurídica devido o poder do senhor da terra. Lembramos, ainda, que a propriedade

senhorial trata-se exclusivamente da grande propriedade, não incluindo os que não tinham poder naquela época, tais como os quilombolas, caboclos, ribeirinhos, os índios etc. A propriedade senhorial passa a ser ilegal no início do século XX com o fortalecimento da concepção da propriedade moderna.

A propriedade brasileira moderna é aquela que é demarcada e registrada em

cartório, mecanismo utilizado pelo Poder Público para transferir seu patrimônio para o domínio privado. Enquanto as duas primeiras têm o seu período de desenvolvimento do século XV ao século XIX, a última só irá surgir no final do século XIX, mas somente se torna hegemônica entre 1930 e 1960, dependendo da região brasileira. É preciso ressaltar que não se trata de uma substituição de uma categoria por outra: em um mesmo período histórico, elas coexistiram, sem necessariamente conflitarem.

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Não se deve confundir a propriedade sesmarial, senhorial e moderna com a

propriedade absoluta ou a absolutização da propriedade. Chamamos de propriedade

absoluta a que tem como característica o caráter absoluto, exclusivo e perpétuo de seu

dominium, ou seja, aquela em que o poder do proprietário sobre a coisa é absoluto e

exclusivo 12 . Assim, o proprietário do imóvel pode usar, gozar e dispor da coisa como

quiser, sujeitando-se apenas às limitações impostas pela lei ou pelo interesse público. Já

na propriedade feudal o dominium era compartilhado (não absoluto) entre dois sujeitos:

o senhor e o vassalo. Devido a essa caracterização, é comum fazer a analogia entre a

absolutização da propriedade e o fim do feudalismo. Contudo, devemos chamar atenção

para o fato de que no Brasil, pelos motivos históricos que iremos demonstrar, a

propriedade privada rural surge absoluta e individual, seja ela sesmarial, senhorial ou

moderna 13 . Cada uma terá sua característica própria, seu procedimento peculiar de se

apropriar da terra e dos recursos naturais, mas também há elementos comuns,

principalmente entre a propriedade sesmarial e a senhorial.

Podemos citar como exemplo de elemento comum à propriedade sesmarial e à

senhorial o fato de que ambas, durante o período colonial, terem tido o centro

econômico e político, absorvendo em si toda a vida ao seu redor. Por isso pouco ou

quase nenhum espaço foi deixado para o desenvolvimento da pequena ou média

propriedade rural. Outro elemento comum, que desempenhou papel importante na

formação dessas propriedades, foi a apropriação do solo e da floresta, que eram

utilizados perdulariamente, sem nenhuma preocupação com a preservação ou com uma

forma mais permanente de uso. Holanda (1995:50) afirma que:

a regra era irem buscar os lavradores novas terras em lugares de mato dentro, e assim raramente decorriam duas gerações sem que uma mesma fazenda mudasse de sítio, ou de dono. Essa transitoriedade, oriunda, por sua vez, dos costumes indígenas, servia apenas para corroborar o caráter rotineiro do trabalho rural. Como a ninguém ocorria o recurso de revigorar os solos gastos por meio de fertilizantes, faltava o estímulo a melhoramentos de qualquer natureza.

12 O direito é absoluto porque o proprietário tem o monopólio sobre o bem, ficando o restante da sociedade excluída de explorá-lo, ou seja, tem o direito erga omnes porque os demais têm o dever de respeitar. Já exclusivo deve ser entendido como o domínio sobre imóvel recai somente em uma pessoa, não há divisão do dominium, como ocorreu no período feudal ou ocorre com o condomínio contemporaneamente.

13 Quanto ao aspecto absoluto da propriedade, Faoro (1987:126) lembra-nos que “a mudança de rumo, mudança que o contexto comercial da economia acelerou, refletiu sobre o sentido da propriedade territorial, que se afasta da concessão administrativa para ganhar conteúdo dominial”. Tratamos neste trabalho propriedade absoluta e propriedade territorial como termos correspondentes.

36

De forma resumida, podemos dizer que as propriedades possuem as seguintes

características:

Tipos de

Modos de

Modos de Prova

Poderes do

Forma de uso da terra e dos recursos naturais

propriedade

Aquisição 14

Proprietário

Sesmaria

Concessão /

Carta de data e sesmaria / Carta de confirmação

Absoluto e

Manejo

Apossamento e

exclusivo

predatório e

concessão

perdulário

Senhorial

Apossamento

Benfeitoria e o poder econômico e político Título da terra

Absoluto e

Manejo

 

exclusivo

predatório e

perdulário

Moderna

Titulação pública

Absoluto e

Manejo

 

exclusivo

predatório e

 

perdulário

A tabela acima nos dá uma noção geral dos elementos que iremos discutir no

decorrer do texto e demonstra também que os poderes de cada categoria não são

simétricos, ainda que tenham existências na mesma época histórica. O ponto em comum

das diversas concepções de propriedades empregadas está no fato de que as mesmas

podem ser entendidas como os poderes que o proprietário possui em dispor livre e

amplamente sobre um bem determinado, ou seja, é a relação de poder que se estabelece

entre o sujeito e o objeto.

2.2. A DISPUTA PELO MONOPÓLIO JURÍDICO ENTRE A METRÓPOLE PORTUGUESA E A COLÔNIA BRASILEIRA E SEU REFLEXO NO DIREITO 15

14 Na coluna modos de aquisição da propriedade está se referindo exclusivamente em relação ao Estado, pois existem outros modos, como por exemplo a venda, a herança, a doação.

15 Utilizamos aqui a concepção de Bourdieu de campo, ou seja, o espaço social de produção simbólica, conformada por grupos de agentes especialmente treinados que possuem uma autonomia relativa de trabalho específico. O trabalho realizado, apesar de atender os interesses materiais e ideais de uma classe, não pode ser confundido com uma definição restrita de classe (Sergio Miceli, in: BOURDIEU, 1992:VLIV). No nosso caso, analisaremos o conjunto de instituições jurídicas, o ordenamento jurídico estatal e extra-estatal, o vocabulário específico desses “funcionários” que são os advogados e juizes portugueses e brasileiros que atuavam, respectivamente, na defesa de seus clientes e na resolução dos conflitos pela disputa da terra e dos recursos naturais no Brasil Colonial. Contudo, como alerta Bourdieu, não podemos esquecer que os diferentes campos se relacionam e que nas “lutas simbólicas desenvolvidas nos diferentes campos e nas quais está em jogo a própria representação do mundo social e, sobretudo, a hierarquia no seio de cada um dos campos e entre os diferentes campos(1998:133). Outro conceito importante em Bourdieu é de habitus. Na concepção desse autor, habitus “designa uma maneira de ser e de agir, como o princípio gerador de estratégias que permitem fazer face a situações imprevisívies. Sendo assim, habitus se constitui num esquema de percepção internalizado pelos indivíduos de acordo com suas posições na estrutura social” (BARP, 2001:25). A noção de campo e

37

Para estudar a história jurídico-social do direito de propriedade, o primeiro passo é superarmos o dogma da completude estatal, o qual afirma que a produção jurídica é um monopólio do Estado, no nosso caso particular, da Coroa Portuguesa. De fato, o que vamos encontrar no Brasil, analisando os cientistas sociais e juristas que comentaram o período colonial, assim como as legislações dessa época, é uma disputa no campo jurídico na concorrência pelo “monopólio do direito de dizer o direito”, ou seja, encontramos contradições entre as normas emanadas de Portugal e o costume que vai se consolidando no Brasil. Essas contradições revelam a disputa pelo controle exclusivo da criação do sistema de normas jurídicas que regulam o acesso à propriedade. Desse modo, as práticas e os discursos jurídicos distintos, e em certo momento contraditórios entre si, decorrem do fato de cada parte – os juizes e o corpo administrativo de Portugal, por um lado, e por outro os juizes, o corpo administrativo e os advogados brasileiros – buscaram ordenar os mecanismos válidos para se ter acesso ao solo e aos recursos florestais, alcançando seus objetivos de acordo com as relações de forças específicas que possui cada grupo. Além disso, essas práticas e esses discursos são determinados pela “lógica interna das obras jurídicas que delimitam em cada momento o espaço dos possíveis e, deste modo, o universo das soluções propriamente jurídicas” (BOURDIEU, 1996:211). Assim, é preciso partir do pressuposto de que a propriedade rural brasileira mostra-se como um gênero que, em dado momento histórico, desenvolve-se não como a propriedade, mas como distintas propriedades que coexistem inicialmente em dois “ordenamentos jurídicos” no mesmo espaço geográfico, porém advindas de fontes diferentes. A divisão de interesses entre a aristocracia colonial (particularmente a dos senhores de engenho) e a Metrópole portuguesa fica evidente ao se mencionar que, embora fossem favorecidos e poderosos no âmbito local, os senhores de engenho eram fracos no acesso ao poder real, o que dificultava o atendimento das suas reivindicações políticas e econômicas (SCHWARTZ, 1999:361), levando a aristocracia colonial a buscar outros mecanismos sociais e jurídicos com o intuito de ter, em parte, suas vindícias respondidas.

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2.3. PROCEDIMENTOS PARA REQUERER A SESMARIA E OS DIREITOS DO SESMEIRO 16

Antes de iniciar o histórico da formação da propriedade, pretendemos

apresentar o procedimento administrativo, ou oficial, para se requerer a terra no período

colonial. De fato, a dificuldade de implementar esse trâmite burocrático acabou

favorecendo o surgimento da propriedade senhorial, como veremos a seguir.

A sesmaria foi o primeiro caminho para se constituir poderes privados sobre a

terra no Brasil. A legislação que regulou a concessão de terras aos colonos, que

disciplinou o processo legal de aquisição, os direitos e deveres dos sesmeiros e

posseiros efetivava-se com a publicação de forais, decretos, alvarás e cartas régias. Não

havia um regulamento que tratasse exclusivamente da matéria, o que facilitou a

inobservância, a aplicação confusa e até mesmo o abuso pelo não cumprimento da

legislação.

Resumidamente, essas legislações esparsas determinavam que a sesmaria

poderia ser concedida a qualquer pessoa, mas o pretendente tinha que ser cristão.

Contudo, desde o início, privilegiaram-se os “homens de bem e de posse” e a concessão

era feita buscando recompensar o solicitante, devido as suas “qualidades” pessoais ou a

serviços prestados ao rei 17 . O requerente da sesmaria teria que dirigir ao capitão-mor ou

ao governador uma petição solicitando a gleba de terra, contendo o seu nome, o da vila,

cidade ou lugar onde residia, a situação geográfica, extensão e confrontações da posse.

Antes que o governador se manifestasse, o requerimento receberia informações

do provedor da fazenda real, da câmara municipal e do procurador da Coroa. Ouviam-se

testemunhas que deveriam atestar que se tratava de terras públicas e que o requerente

tinha condições para aproveitar as terras requeridas. Após percorrer esse trâmite

administrativo, aguardava-se o despacho final. Se o pedido fosse deferido, lavrava-se a

carta de data e sesmaria, que era assinada pela autoridade superior e despachada para a

Metrópole portuguesa, que daria a palavra final, ou seja, confirmaria ou não o

deferimento da solicitação.

16 Informações retiradas de Vianna (1904:150-154).

17 Privilegiar não significa dizer que a concessão foi exclusiva aos homens de posse. Encontramos nas cartas de sesmarias do Pará e São Paulo a concessão para pessoas pobres. Lembramos também que as concessões não foram exclusivas aos homens. Mulheres e índios também foram “agraciados” com cartas de sesmaria.

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Essa carta tinha o valor de um título provisório e o Rei, dentro de um prazo de três anos, deveria confirmá-la. Dada a confirmação, o sesmeiro recebia a carta de confirmação, que representava o título definitivo.

Com o título provisório, o posseiro sesmeiro só poderia transferi a terra por qualquer meio a um terceiro se tivesse a aprovação do governador. A solicitação deveria ser encaminhada ao provedor-mor e este submetia a comunicação ao juízo do governador.

O título definitivo dava ao sesmeiro direito pleno sobre a terra, como se a

“houvesse, lograsse e possuisse como cousa sua propria, para elle e todos os herdeiros, ascendentes e descendentes, sem pensão, nem tributo algum mais que o dizimo a Deus Nosso Senhor dos frutos que houvesse e lavrasse” (VIANNA, 1904:150).

O posseiro tinha a obrigação de cultivar e demarcar a terra num prazo de cinco

anos. Além disso, deveria facultar a abertura de caminhos públicos e particulares, para a

construção de pontes, portos, pedreiras, ficando ainda reservada ao rei a faculdade de fundar nas terras concedidas vilas ou povoados. Ao rei também pertencia a madeira de lei (páus reaes) que na mata existisse, que era destinada à manutenção e construção de navios da coroa portuguesa.

A primeira tentativa de reunir em um só regulamento todas as normas de

concessão de terra ocorreu com o Alvará de 5 de outubro de 1795. Esse Alvará buscou regulamentar todos os casos, evitar os abusos até então cometidos, definir os direitos e deveres dos posseiros e da Coroa. Nele estava também previsto o procedimento processual em caso de conflito entre o solicitante de sesmaria e um terceiro, principalmente concernente às questões da demarcação. Esse Alvará, chamado também “Lei das Sesmarias”, foi suspenso pelo Decreto de 10 de dezembro de 1796 devido à pressão dos grandes proprietários de terra no Brasil. A Coroa Portuguesa, embora reconhecesse a importância desse Alvará, sustou seus efeitos legais, alegando que não era o momento mais propício e que a sua aplicação poderia aumentar o litígio pela terra. Por isso a Colônia deveria preparar-se para executar a vontade da Metrópole portuguesa. Entre as providências previstas no novo regulamento, destacaremos aquelas que demonstram a preocupação em afirmar que a propriedade sesmarial, se cumpridas todas as exigências legais, tornava-se uma propriedade absoluta com todos os direitos assegurados ao sesmeiro. As exigências legais são listadas a seguir.

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a) As reais resoluções e ordens promulgadas anteriormente, salvo os dispositivos contrários ao Alvará, deveriam continuar sendo observadas.

b) Caberia ao posseiro a obrigação de demarcar as terras solicitadas, tendo o

prazo de um ano para fazê-lo, não podendo tomar posse nem proceder ao cultivo, sem o cumprimento prévio dessa cláusula.

c) Era expressamente proibido aos governadores e capitães conceder sesmaria

ao que não cumprisse a obrigação de demarcar a data requerida, devendo os representantes da Coroa no Brasil encaminhar um documento anexado à solicitação, comprovando que o posseiro tinha demarcado sua data. Somente com esse documento

autenticado pela autoridade na Colônia, seria concedida a carta de confirmação de sesmaria.

d) O posseiro que obtinha a carta de confirmação antes de demarcar suas terras,

tinha o termo impreterível de dois anos para fazê-lo. Expirado esse prazo, a doação

cairia em comisso.

e) Dependendo da localização da terra solicitada (nas margens de rios ou à

beira-mar, dentro de seis léguas ao redor das vilas), a sesmaria não poderia ser superior a meia légua quadrada. A que não estivesse localizada nessas áreas poderia ser maior, mas a definição do limite ficava a critério e do bom senso do governador ou do capitão-

mor.

f) O sesmeiro podia possuir mais de uma sesmaria. Para tanto, ele deveria ter

capacidade financeira e escravos em número suficiente que lhe permitisse explorar as

áreas requeridas, mantendo-se a obrigação de confirmar todas as solicitações do Conselho Ultramarino.

g) O sesmeiro que possuísse uma data de terra e viesse a receber outra ou outras

por herança, doação ou outro título, se não tivesse condições de explorar a terra

adquirida, tinha a obrigação de vendê-la a quem pudesse cultivá-la.

h) Os governadores e os capitães gerais somente poderiam conceder a terra

requerida após o peticionário provar que a mesma se encontrava em terra devoluta, com

certidão extraída dos livros das juntas, provedorias e câmara municipal.

i) Haveria em todas as juntas e provedorias da fazenda real do Brasil dois livros

para registro das sesmarias. Num livro seria lançada as solicitações que fossem passadas aos governadores. Noutro livro seria registrada a carta de confirmação dada pelo rei. O

mesmo procedimento deveria ocorrer nas câmaras municipais, que deveriam ter um

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livro de registro, rubricado gratuitamente pelos ouvidores, para as sesmarias concedidas

nos seus respectivos distritos.

j) A demarcação era um processo à parte, pois não bastava que o posseiro

marcasse a terra pretendida “por rumo de corda e braças craveiras”, com era de costume

na época; era necessário iniciar o procedimento de demarcação previsto no Alvará, o

qual solicitava a convocação dos confinantes. Em caso de litígio, os ouvidores ou três

letrados da comarca, que fossem formados, funcionavam como juizes em primeira

instância na demarcação. Esses últimos três seriam indicados pelas câmaras municipais

e confirmados pelos governadores e capitães gerais.

l) No caso de conflito entre confinantes, somente poderia requerer a aplicação

das normas do Alvará aquele que possuísse legitimamente a sua terra. Em se tratando de

dois posseiros, sem título legal, o conhecimento e a decisão ocorreriam com base nas

leis e direitos comuns e não pelas disposições especiais do Alvará.

Segundo Porto (1965:176), até fins do século XVII não havia muita dificuldade

para legalizar a situação do solo. O processo iniciava com a posse das terras devolutas e

o meio jurídico era a aquisição originária solicitando a carta de data. Somente a partir de

1698 é que surgem as complicações formais, pois, além do pedido e do registro, era

necessário ter a confirmação régia da solicitação e o pagamento de um foro. O Decreto

de 20 de outubro de 1753 proibiu a confirmação da sesmaria sem prévia medição e

demarcação, dispondo também que as datas somente poderiam ser concedidas a quem

não as houvesse recebido antes. Assim, a demarcação e a medição passam a serem

obrigatórias, condições resolutivas, cujo inadimplemento importava na caducidade da

doação.

Resumindo esse procedimento burocrático, o mesmo autor nos diz:

passada a carta de data, o sesmeiro devia, depois de 1549, registrá-la sob pena de caducidade, nos livros da Provedoria, [ fazendo-se mister, depois de 1698, pedir confirmação régia.[ ] Mas antes da confirmação, – condição resolutiva – vinha a posse e, a princípio como praxe, depois como exigência legal rígida – embora raro cumprida, – a cerimônia da demarcação (PORTO,

]

1965:195).

Apesar de todo esse rigor e da preocupação de compelir o posseiro a demarcar

sua terra, parece que a lei não conseguiu êxito no seu principal objetivo, pois poucos se

preocuparam em demarcar sua data. Ademais, conforme o período histórico,

demonstrado logo em seguida no gráfico das sesmarias concedidas, diminuiu

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sensivelmente o número de concessões de sesmarias, fato que reforça a nossa hipótese

de que se tinha consolidado outro mecanismo para se possuir a terra. Assim, a pressão

dos senhores de terra para conseguir a revogação do Alvará de 5 de outubro de 1795 derivava da preocupação em assegurar outros mecanismos de se adquirir a propriedade, ou seja, o costume, que o Alvará combatia firmemente. Outro aspecto que podemos realçar na legislação é que ela faz uma distinção

jurídica entre posseiro e sesmeiro, conseqüentemente, entre seus direitos e obrigações. Do mesmo modo, devemos concluir que, dependendo do seu status jurídico, o sesmeiro ou o posseiro poderia gozar de determinados benefícios da lei, o que leva a deduzir que

se tratava de duas pessoas distintas, ou seja, já havia o reconhecimento normativo de

formas diversas para se ter acesso à terra. Por isso fazemos uma distinção entre a

propriedade sesmarial e a senhorial. Historicamente esta terá maior importância econômica e política do que aquela. Mas as duas serão consideradas propriedades e os seus donos, proprietários. Dito de outro modo, o que diversos historiadores e juristas denominam posseiro era de fato um proprietário, porém perante o costume brasileiro e não pela legislação portuguesa. Várias foram as restrições ao direito de propriedade territorial que o sistema sesmarial estatuiu, sendo que muitas dessas limitações são encontradas nas legislações modernas. Entre as limitações podemos destacar: a tentativa de limitar o tamanho da gleba a ser concedida; a obrigação do aproveitamento da terra em prazo determinado; a medição e a demarcação para ter a confirmação da sesmaria; em 1691, a proibição aos sesmeiros de “se fazerem senhores das aldeias dos índios”; com a Carta Régia de 1695,

a obrigação de pagar dízimo à Ordem de Cristo; desde 1698, a obrigação da

confirmação do título para garantir a propriedade plena; a instituição do princípio de que os sesmeiros eram obrigados a dar caminhos públicos e particulares para pontes, fontes, portos e pedreiras; com a Provisão de 11 de março de 1754, a obrigação de reservar as margens dos rios, nas concessões de terras cortadas pelos rios caudalosos, para fins de uso público (FREIRE, 1998:138-139).

Contudo, entre as diversas medidas de restrição ao direito de propriedade, a mais polêmica foi a de 1780, que passou a obrigar os sesmeiros a pagar o foro “segundo a grandeza e a bondade da terra” 18 . O entendimento era que, a partir dessa data, as

18 A primeira tentativa de instituir o foro sobre as terras dadas de sesmaria ocorreu com a Carta Régia de 22 de janeiro de 1699, a qual afirmava que “as pessoas a quem se derem, no futuro, sesmarias, se

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sesmarias passariam a registrar a cláusula anual de pagamento do foro para cada légua concedida. Desse modo, o sesmeiro deixava de ser proprietário pleno para se tornar um foreiro, ou seja, teria apenas o domínio útil, ficando o domínio direto para a Coroa portuguesa. Essa medida encontrou sérias resistências entre os juristas portugueses da época. Alegavam que desde a sua origem a sesmaria fora isenta de qualquer pagamento

e que o mesmo ocorria com a distribuição do solo na colônia, com exceção do dízimo, e

mesmo assim esse tributo incidia sobre os frutos e não sobre a terra 19 . A questão foi submetida ao Conselho Ultramarino que continuou questionando a legalidade do pagamento do foro, porém, “o Dezembargo do Poço decidido que ‘a Ordenação não se aplicava ao Brasil’, e que ‘podia S. M. Revogá-la’, e assim, sem bulhas nem matinadas, entrou em vigor o preceito que mandava cobrar o foro das sesmarias coloniais” (PORTO, 1965:133). Na colônia brasileira, a resistência também existiu. Diversas foram as tentativas para burlar o pagamento do foro. O posseiro solicitava a sesmaria e ficava diversos anos sem pagá-lo, depois solicitava novamente a mesma área de terra, pois, devido à falta de pagamento, a terra era dada como devoluta e, portanto, podia ser requisitada. Outros pediam a sesmaria, mas não faziam o registro, conseqüentemente, não tinham a confirmação e não se viam na obrigação de pagar o foro. Alguns alegavam que somente deveriam pagar cinco anos após receber a data. Muitos também solicitavam o benefício do não pagamento (PORTO, 1965; FREIRE, 1998). Contudo, como veremos mais abaixo, a prática mais usual foi a de não requerer

a sesmaria, mas adquirir a propriedade pelo apossamento. Assenhorear-se de um pedaço

de terra e cultivá-lo era preferível a recorrer à hierarquia da administração colonial e, depois, à Metrópole portuguesa para conseguir uma concessão de sesmaria (LIMA,

1954:37).

ponham, além da obrigação de pagar o dízimo à ordem, e as mais costumadas, e de um foro segundo a grandeza ou bondade da terra” (PORTO, 1965:133). Mas não se conseguiu lograr nenhum êxito com essa medida, pois quando se tentava fazer a cobrança do foro, a reclamação e a pressão dos sesmeiros eram tão grandes que o pagamento era suspenso. 19 O dízimo era um direito real pertencente à igreja e que permitia receber um décimo de todas as produções do solo. Essa instituição se desenvolve no século VI, em conseqüência de decisões de numerosos concílios, e manteve-se até o século XVIII. Deve-se lembrar que o seu objetivo primitivo foi muitas vezes desviado – o sustento do clero – em virtude de usurpações por laicos ou mesmo de certas autoridades eclesiásticas (GILISSEN, 1988:643).

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Assim, a partir de 1780, podemos encontrar as propriedades sesmariais em três situações jurídicas: as sesmarias que não tinham nenhuma restrição de pagamento do foro; as que passaram a registrar a cláusula anual do foro e pagavam; as que possuíam a cláusula do foro, mas não pagavam. Entretanto, o que os fatos históricos nos mostram é que a regra geral dos sesmeiros era sempre buscar formas de não pagar nenhum tributo, pois o “senhor da terra” sempre se negou a cumprir as determinações legais, principalmente quando essas representavam custos financeiros; ou seja, a legislação não era cumprida. Logo, as sesmarias não perderam suas características absolutistas 20 . Outro exemplo de resistência ao cumprimento de ordens reais que impusessem restrições ao direito de propriedade ou ao acesso aos recursos naturais ocorreu com a Carta Régia de 13 de março de 1797. Essa Carta expedida aos governadores das capitanias da Paraíba, do Rio Grande de São Pedro, da Bahia, declarou que “todas as matas e arvoredos à bordo da Costa, ou de rios que desemboquem imediatamente no mar, e por onde em jangadas se possa conduzir as madeiras cortadas até as praias” pertenceriam à Coroa portuguesa. Determinou, ainda, a reversão das sesmarias dadas a particulares nessas faixas de terra e a proibição de serem concedidas novas. Contudo essa determinação não pode ser cumprida porque os governadores das Capitanias alegaram que todas as terras já estavam concedidas a particulares e não era possível compensar os sesmeiros com novas áreas, pois não existiam mais terras devolutas no interior (PEREIRA, 1950:93-94). A nova decisão real, Carta Régia de 8 de julho de 1800, com base nessas ponderações, obrigou os sesmeiros a proteger “as madeiras e paus reais”, existente na faixa de 10 léguas da costa marítima, com exceção do cedro, que não poderia ser utilizado pelos particulares sem autorização da autoridade, pois pertencia a Coroa 21 , que

20 Freire defende a idéia de que o proprietário tinha pleno direito sobre a sua propriedade e de que a partir de 1780 passou a ser um enfiteuta do Estado. Por outro lado, porém, ele afirma que foi em Pernambuco que a legislação foi mais respeitada, o que nos leva a deduzir que em outras províncias a lei não era eficaz (FREIRE, 1998:138). No geral, o que se nota é que as conclusões tiradas estão baseadas somente na legislação escrita, ignora-se completamente a realidade, conseqüentemente, o costume não é levado em consideração como fonte de direito. 21 De modo geral, o corte das madeiras mais nobres, como o pau-brasil, perobas, ipê e tapinhoãs, denominadas de “madeiras de lei”, estava proibido, sejam as árvores existentes em terras particulares ou em terras devolutas, pois eram de propriedade do Rei. Em todo período colonial a exploração da madeira de lei dependia de licença da autoridade real, apesar de que na prática isso não era respeitado. Essa orientação legal só veio mudar com a Lei de Terra em 1850, que não referiu ao corte de madeira em terra particular, mas proibiu nas terras públicas, “sem dar qualquer poder ou competência a nenhuma

autoridade, para outorgar concessões dessa ordem a quem quer que fosse. (

19 de julho de 1876 libertou de licença prévia o corte de madeira de lei, nas matas particulares”

A Imperial Resolução de

)

(PEREIRA, 1950:101).

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também não foi obedecida. Para Osny Duarte Pereira (1950:94) “a repetição e as

freqüentes modificações nas ordens governamentais eram a prova da desobediência

reiterada.

Feita essa introdução sobre como funcionava o sistema sesmarial na colônia

brasileira, passaremos agora a explicar como era o processo de medição e de

demarcação das propriedades e logo em seguida discutiremos a formação da

propriedade rural no Brasil.

2.4.

O PROCESSO DE MEDIÇÃO E DEMARCAÇÃO DAS PROPRIEDADES NOS SÉCULOS XVIII E XIX.

A obrigação de demarcar as terras está prevista em diversas normas jurídicas

desde o século XVIII 22 . Assim, o posseiro ou o requerente de sesmaria tinha a obrigação

de demarcar suas terras, e algumas normas previam que não se podia tomar posse nem

proceder ao cultivo sem o cumprimento prévio da demarcação. Outras mais severas

definiam que, expirado o prazo para realizar a demarcação, em geral de um a dois anos,

a concessão cairia em comisso.

Com o passar do tempo, o entendimento jurídico era de que a demarcação

constituía um direito, o exercício do direito de propriedade. Para Antonio Joaquim de

Macedo Soares, um juiz de direito do século XIX, a importância da demarcação está no

fato de tratar-se de um dos meios judiciais para separar e dividir o que era de cada um.

Para solicitar a demarcação, era preciso verificar:

] [

patrimônio em virtude de títulos legaes, ou de posse mansas e pacificas, adquiridas por occupações primarias, e subjeitas á legitimação; ou sesmarias que precisem ser revalidadas, ou finalmente, de terras devolutas que pretençam ao Estado: é sempre o juízo divisório das medições de demarcações que está em questão, para o único fim de discriminar o predio de cada um (grafia original) (SOARES, 1878:2).

se tracte de terras possuídas e com prehendidas no nosso

Contudo, apesar de todo o rigor que se buscou estabelecer na demarcação, na

prática foram poucos os que tomaram a iniciativa de delimitar suas áreas. Um dos

motivos que levou os donos de terra a burlar esse mandamento legal foram os

procedimentos administrativos que deveriam ser adotados e os altos custos dos mesmos.

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De fato, a sistemática da medição e de demarcação originada com o sistema sesmarial vai persistir até o início do século XX. Era uma iniciativa do interessado, que assumia os custos sob a intervenção do juiz de demarcação, sendo que anos mais tarde essa incumbência foi transferido ao juiz comissário. Podia requerer a demarcação o que possuísse a carta de confirmação ou pelo menos uma certidão que provasse achar-se pendente de resolução do Conselho Ultramarino a confirmação de sua carta de data, tendo essa competência passado para a Mesa do Desembargo do Paço, no Rio de Janeiro, pelo Alvará de 22 de junho de 1808 (após 1822 bastava ter a carta de data) 23 . Poderia requerer também a demarcação o que provasse ter adquirido terrenos que se achavam devolutos, adquiridos por ocupação primária ou havidos sem título legítimo do primeiro ocupante. Segundo Vasconcellos (1874:196-207), a forma do processo de medição organizado pelos juízes comissários tinha que seguir os seguintes procedimentos, sendo que boa parte dessas diretivas está fundamentada nas Ordenações:

a) o senhor e possuidor de uma posse (sesmaria ou concessão do governo)

apresentava uma petição ao Juiz Comissário, descrevendo o que possuía, o local, os vizinhos confrontantes;

b) o Juiz notificava os peritos que analisavam a veracidade alegada pelo

solicitante e teriam que elaborar o “Auto de Verificação de cultura efetiva e morada habitual” existente no local e verificar a quem pertencia a área a ser demarcada;

c) a equipe responsável pela demarcação – normalmente formada pelo escrivão, por um agrimensor e pelos demais empregados – devia fazer juramento de cumprir suas tarefas;

d) era lido e afixado em lugares público o “Termo dos Editais” e eram

entregues as citações aos confrontantes;

e) afixado os editais (três) nos lugares de costume da freguesia anunciando a

medição das terras e redigida a certidão, o procedimento tornava-se comprovadamente público e dava-se início à demarcação;

f) a audiência de medição acontecia na área em que ocorreria a medição e

demarcação, sendo que essa audiência se dava no início da medição;

23 Desde a promulgação do Alvará de outubro de 1795, as concessões de sesmarias competiam aos governadores e capitães-mores, desde que tais concessões tivessem a confirmação régia, passando pelo Conselho Ultramarino (GARCIA, 1958:19)

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g) depois de cumpridas todas essas formalidades e não havendo nenhuma

contestação, o Juiz sentenciava, julgando a medição finda e acabada, e o interessado

tinha que pagar os emolumentos;

h) após o término, o auto era remetido ao presidente da província.

No caso de haver algum questionamento quanto à legitimidade da parte (por

exemplo, levantava-se a hipótese de o requerente não ter direito à terra porque não era

herdeiro, ou outro posseiro alegava em sua defesa a prescrição de 30 anos), essa

discussão preliminar deveria ser feita por ação ordinária, ou seja, em outra ação.

O mesmo modo ocorria com as posses de terras originariamente adquiridas por

ocupação primária, não sujeitas à legitimação por se acharem em domínio particular por

título legítimo. Essas áreas poderiam ser legitimadas, se os proprietários pretendessem

obter título de sua apropriação, desde que passassem pela repartição geral das terras

públicas, conforme prevê o art. 59 do Regulamento 1318, de 30 de janeiro de 1854.

Contudo, essas medições e demarcações deveriam ser realizadas pelos juízes municipais

(VASCONCELLOS, 1874:208).

Assim, o processo de medição e de demarcação não era um procedimento

expedito, nem de baixo custo. Existindo vastas áreas devolutas e poucos podendo arcar

com os preços pagos na demarcação, era mais fácil e prático utilizar outros meios para

garantir a propriedade da terra e o respeito aos seus limites, na maioria das vezes

indefinidos e mutáveis. O caminho encontrado foi a apropriação privada dos recursos

naturais sem a chancela inicial do Estado.

2.5. O PERÍODO COLONIAL E A FORMAÇÃO DA PROPRIEDADE SESMARIAL E SENHORIAL

Com o descobrimento do Brasil, todas as terras brasileiras passaram a pertencer

a Portugal. Qualquer utilização dos recursos naturais ou da terra só era legalmente

permitido com a concessão do Rei. Assim, a constituição dos institutos jurídicos que

instrumentalizaram e legitimaram em parte a apropriação do território brasileiro começa

em Portugal com as Ordenações desse reino. É com base nas Ordenações Afonsinas,

que representam a última fase de evolução do sistema sesmarial, que esse instrumental

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legal reinol foi aplicado no Brasil, com o intuito inicial de colonizar as terras "descobertas" além-mar 24 . A origem da sesmaria está ligada a conjuntura social e econômica pela qual passava o reino português 25 . No século XV, Portugal sofria o despovoamento e o abandono da propriedade rural e encontrava-se em uma fase agitada das conquistas e navegações, o que obrigou o rei a tomar medidas para superar a crise. Sua finalidade era promover o reerguimento da lavoura, "já oferecendo braços aos que tivessem terras, já oferecendo terras aos que as quisessem lavrar" (LIMA, 1954:15-19). Mais do que garantir a agricultura era importante assegurar o repovoamento e, nesse aspecto, a agricultura surge como conseqüência daquele (LIMA, 1954:21). Um dos sérios problemas na sesmaria instituída no Brasil foi a falta de definição do limite (mínimo e máximo) das áreas que poderiam ser concedidas. T