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20/12/2017 Holodomor – Wikipédia, a enciclopédia livre

Holodomor
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Holodomor (em ucraniano: Голодомор) ou "Holocausto Ucraniano"
é o nome atribuído à fome de carácter genocidário causado por Josef
Stalin, no comando da União Soviética, que devastou principalmente o
território da República Socialista Soviética da Ucrânia (integrada na
URSS), durante os anos de 1932 - 1933. Este acontecimento — também
conhecido por Grande Fome da Ucrânia — representou um dos mais
trágicos capítulos da História da Ucrânia, devido ao enorme número de
pessoas vítimas do bloqueio de alimentos feito por Stalin à Ucrânia.
Vítima do Holodomor numa rua da
Apesar de esta fome ter igualmente afetado outras regiões da URSS avessas
cidade ucraniana de Kharkiv. Essa
ao regime stalinista, o termo Holodomor é aplicado especificamente aos fotografia foi efectuada por um
factos ocorridos nos territórios com população de etnia ucraniana: a cooperante alemão, em 1932.
Ucrânia e a região de Kuban, no Cáucaso do Norte. Como tal, é por vezes
designado de "Genocídio Ucraniano"[1][2][3] significando que essa tragédia
seria resultante de uma ação deliberada de extermínio, desencadeada pelo regime soviético, visando especificamente o
povo ucraniano, enquanto entidade sócio-étnica.

Em que pese ainda não existir um consenso internacional entre acadêmicos ou políticos indicando que de fato as
políticas soviéticas causadoras da fome na Ucrânia se enquadram na definição legal de genocídio de acordo com a
Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio de 1948,[4][5] alguns historiadores fazem referência
à natureza genocidária do Holodomor[6][7][8][9][10][11][12][13] usando como referência o conceito de
genocídio[14][15][16][17][18][19][20][21][22] e a sua definição jurídica.[23][24] Por outro lado, alguns estudiosos sustentam
o argumento de que Holodomor não foi um genocídio, mas sim, essencialmente, uma consequência dos problemas
logísticos associados a alterações econômicas radicais implementadas durante o período de liquidação da propriedade
privada e industrialização (que teria causado fome por toda a União Soviética).[25][26]

O termo Holodomor deriva da expressão ucraniana 'Морити голодом' (moryty gholodom), tendo como raiz
etimológica as palavras holod (fome) e moryty (matar através de privações, esfaimar), significando por isso "matar
pela fome".[27][28] O termo teria sido utilizado pela primeira vez pelo escritor Oleksa Musienko, num relatório
apresentado à União dos Escritores Ucranianos de Kiev, em 1988.[29] No quarto Sábado do mês de Novembro a
Ucrânia[30] e as comunidades ucranianas implantadas em diversos países de acolhimento[31][32][33] prestam
homenagem às vítimas do Holodomor.

Índice
1929: a coletivização da agricultura e a deskulakização ("Grande Viragem")
Os objetivos da "Grande Viragem"
A "guerra anticamponesa"
1931: o início da fome soviética
O âmbito geográfico
As causas iniciais da fome
1932-1933: o Holodomor ucraniano
https://pt.wikipedia.org/wiki/Holodomor 1/30
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A escalada da crise
A "interpretação nacional" de Stalin
A repressão do campesinato ucraniano
As medidas repressivas
As consequências
A repressão das elites ucranianas
Epílogo
Regressão, herança e genocídio
Quantas vítimas?
Da negação ao reconhecimento
Uma página em branco
A posição da comunidade académica
A Ucrânia e o Holodomor
O Holodomor e a comunidade internacional
O impacto cultural do Holodomor
Uma excepção genocidária?
Ver também
Referências
Notas
Bibliografia
Ligações externas

1929: a coletivização da agricultura e a deskulakização


("Grande Viragem")

Os objetivos da "Grande Viragem"


No início da década de 1930, Estaline (ou Stálin) decidiu aplicar uma nova política para a URSS, através da
transformação radical e acelerada das suas estruturas económicas e sociais. Essa mudança visava aos seguintes
objectivos:[34]

A coletivação da agricultura, ou seja, a apropriação pelo Estado soviético das terras, colheitas, gado e alfaias
pertencentes aos camponeses. Dessa forma, o Estado passaria a estabelecer planos de colecta para a produção
agro-pecuária, que lhe permitiam de modo regular e quase gratuito, abastecer as cidades e as forças armadas,
bem como exportar para o estrangeiro. Por outro lado, pretendia-se estabelecer um efectivo controle político-
administrativo sobre o campesinato, forçando-o a apoiar o regime soviético. Esse apoio seria igualmente
garantido com a eliminação da camada social mais próspera e favorável à economia de mercado, os kulaks.
A industrialização acelerada da União Soviética, com base nas receitas financeiras obtidas através da
exportação dos produtos agrícolas, sobretudo dos cereais.

A "guerra anticamponesa"
O processo de colectivização acelerada da agricultura e de "liquidação dos kulaks enquanto classe" (deskulakização),
desencadeado por decisão do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética, em Dezembro de 1929, teve
consequências trágicas para milhões de pessoas.[35]

Para a sua execução, os funcionários e membros do Partido Comunista que estavam presentes nos campos, foram
apoiados por brigadas de operários e de "activistas" vindos dos centros urbanos.[36] Sendo a União Soviética um país
em que a fractura entre o mundo dominante das cidades e o mundo dominado das aldeias continuava a ser profunda,
a colectivização foi sentida como uma verdadeira guerra declarada pelo Estado contra o modo de vida e a cultura
camponesa tradicionais.[37]
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Os camponeses (82% da população soviética), depois de serem obrigados,


através de todo o tipo de abusos e violências,[38] a entregar os bens, são
forçados a aderir às explorações agrícolas colectivas (kolkhozes) ou estatais
(sovkhozes). Estas destinavam-se a abastecer, de forma regular e quase
gratuita, o Estado com produtos agrícolas e pecuários, através de planos de
colecta fixados pelas autoridades centrais.

Com base na acusação arbitrária de pertencerem à categoria dos kulaks


(camponeses ricos e hostis ao poder soviético),[39] os "socialmente Genrikh Yagoda (direita) na
estranhos" ao novo sistema agrícola kolkhoziano, são desterrados a título companhia do escritor Máximo
definitivo para outras regiões, principalmente para o Cazaquistão e a Gorki (esquerda). Enquanto vice-
chefe da polícia política (O.G.P.U.),
Sibéria.[40] Por outro lado, as operações de deportação visavam fornecer os
Yagoda foi um dos principais
recursos humanos necessários à colonização e exploração das imensas
responsáveis pela repressão do
riquezas naturais, existentes nesses territórios desabitados.[41] campesinato, no âmbito da
colectivização e da deskulakização.
No total, são deportadas - frequentemente de modo caótico e
precipitado[42] - cerca de 2,8 milhões de pessoas:

2 400 000, dos quais 300 000 ucranianos,[43] no contexto da campanha de deskulakização (1930-1932);
340 000, devido à repressão da resistência às requisições predatórias efectuadas pelos organismos estatais
encarregues de se apoderar dos cereais (1932-1933).[44][45]
No entanto, em muitos casos, as vítimas da repressão foram simplesmente abandonadas nesses territórios distantes e
inóspitos.[46] Em consequência disso, aproximadamente 500 mil deportados, entre os quais muitas crianças,
morreram devido ao frio, à fome e ao trabalho extenuante.[47]

Os sobreviventes, trabalhando como "colonos de trabalho" nas empresas de exploração dos recursos naturais -
exploração florestal, carvão, minerais não ferrosos, metalurgia, agricultura e artesanato - ou nos estaleiros de obras
públicas - construção e manutenção de estradas e vias férreas - são tratados como verdadeiros párias, sendo sujeitos a
todo o tipo de privações e abusos.[48]

Por sua vez, cerca de 400 mil camponeses foram enviados para uma rede de campos de trabalho forçado (Gulag),
gerida pelo O.G.P.U.- na época, sob a direcção de Vyacheslav Menzhinsky -[49] e outros 30.000 foram punidos com a
pena capital.[50]

A resposta dos camponeses foi desesperada e muitas vezes violenta,[51] havendo numerosas manifestações, revoltas e
distúrbios por todo o país (mais de 14 000 casos registados pelo O.G.P.U.).[52]

Essa resistência mobilizou cerca de três milhões de pessoas, em particular nas regiões do rios Don e Volga, no Cáucaso
do Norte, no Cazaquistão, e sobretudo, na Ucrânia.[53]

As motivações da sublevação camponesa foram múltiplas, surgindo de acordo com os novos desafios suscitados pela
intransigência do Estado soviético: recusa em aderir aos kolkhozes; oposição à política anti-religiosa das autoridades
(encerramento das igrejas, confiscação dos sinos, vandalismo anti-religioso dos activistas da Juventude Comunista);
solidariedade com os kulaks e outros "elementos anti-soviéticos", vítimas de perseguição; resistência à confiscação,
pelos órgãos estatais de colecta, de uma crescente percentagem da produção agro-pecuária, através de "desvios" e
roubos da colheita "colectiva", numa conjuntura económica cada vez mais degradada.[54][55]

1931: o início da fome soviética

O âmbito geográfico

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A partir de 1931 - com o perfeito conhecimento das autoridades - as crescentes dificuldades alimentares começam a
provocar a morte de centenas de milhares de pessoas, em várias regiões da União Soviética.

A situação é especialmente grave no Cazaquistão, bem como nas principais áreas cerealíferas - Ucrânia, Cáucaso do
Norte e território do rio Volga - onde tinha sido oferecida maior resistência à política de colectivização agrícola.[56]

As causas iniciais da fome


Exceptuando o caso particular do Cazaquistão,[57][58][59][60][61] as causas iniciais desta tragédia devastadora foram
globalmente idênticas:[62]

a grave desorganização do ciclo produtivo agrícola causada pelas


medidas de deskulakização, que visavam reprimir e eliminar as elites
camponesas;
a colectização forçada, que levou muitos dos camponeses a reagir de
forma violenta e desesperada, através da destruição de uma grande
parte do seu património (alfaias, animais, colheitas, etc.);
a ineficácia e a miséria que caracterizam os kolkhozes, instituídos
num contexto de violência e de caos generalizados;
as sucessivas e implacáveis vagas de requisição (colectas), através
das quais o Estado procura dar resposta a um triplo problema
(dificuldades sentidas no processo de industrialização acelerada;
explosivo crescimento urbano, em resultado do êxodo rural;
necessidade de travar o agravamento da dívida externa, mediante o
crescimento da exportação de matérias-primas);
a resistência dos camponeses face àquilo que consideravam tratar-se
de uma "segunda servidão"[63] - designada, por Nikolai Bukharin, de
"exploração militar-feudal"[64] - trabalhando cada vez menos, devido à
sua rejeição do modelo colectivista imposto pelo regime, ou em
consequência da debilidade física gerada pelas dificuldades
alimentares;
as más condições meteorológicas que prejudicaram as colheitas de
Capa da revista soviética
1932.[65]
Kolhospnytsia Ukrayiny ("Mulher
Por conseguinte, a fome desencadeada em 1931 - embora numa escala Kolkhoziana da Ucrânia") de
reduzida, em comparação com os dois anos subsequentes - é na sua Dezembro de 1932.
origem, o resultado de uma política de inspiração marxista que pretendia
eliminar as bases sociais e o modo de funcionamento da economia capitalista.[66]

Havia, no entanto, a plena consciência por parte das forças em confronto - Estado e camponeses - de que se estava a
reeditar a situação de violência e de fome[67] que caracterizara o período do comunismo de guerra (1918-1921).[68][69]

1932-1933: o Holodomor ucraniano

A escalada da crise
Em 1931 - em consequência das más colheitas na Sibéria Ocidental e no Cazaquistão - milhares de kolkhozes da
Ucrânia, do Cáucaso do Norte e da região do rio Don, foram alvo de requisições acrescidas.

Desse modo, os órgãos estatais de coleta, apesar de uma colheita bastante medíocre (69 milhões de toneladas),
conseguiram obter perto de 23 milhões de toneladas.

A Ucrânia foi obrigada a contribuir com 42% da sua produção cerealífera, o que provocou o agravamento da
desorganização do ciclo produtivo, iniciada com a colectivização forçada e a deskulakização.[70]

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Na Ucrânia e em outras regiões, a partir da primavera de 1932, assistiu-se ao alastramento da fome e ao êxodo dos
camponeses em direcção às cidades, suscitando a preocupação das autoridades, nomeadamente dos dirigentes de
várias repúblicas. Por seu lado o governo, animado com o êxito das requisições, fixou o plano de colecta para 1932 em
29,5 milhões de toneladas, dos quais 7 milhões deveriam ser obtidos na Ucrânia.[71]

Deste modo, tornou-se inevitável o conflito entre os camponeses, determinados a usar todos os meios para conservar
uma parte da produção, e as autoridades locais, obrigadas a cumprir o plano de colecta, o qual, nas palavras do
dirigente soviético Sergei Kirov, representava:[72]

“ A pedra de toque da nossa força ou da nossa fraqueza, da força ou da fraqueza


dos nossos inimigos. ”
Com efeito, esses planos são de tal modo elevados, que os obrigam a tentar esconder a maior quantidade possível de
cereais, para garantir as reservas alimentares indispensáveis à sua sobrevivência.[73]

A campanha de colecta de 1932 depara-se, por isso, desde o início, com numerosas dificuldades: manifestações dos
camponeses atingidos pela fome; fuga dos kolkhozes de um crescente número de trabalhadores; roubo dos bens
pertencentes aos kolkhozes (gado, alfaias e sobretudo colheitas) e recusa de muitos funcionários locais e regionais do
partido ou dos sovietes em aplicar planos de colecta que condenariam à fome dezenas de milhões de pessoas.[74]

Inicialmente, Estaline manifestou a sua crescente impaciência face ao ritmo lento que caracteriza a campanha de
requisições na Ucrânia, acusando os dirigentes locais de serem os responsáveis pela situação, devido ao seu laxismo e
falta de firmeza perante os "actos de sabotagem" e de "terrorismo".[75]

Para superar essas dificuldades, a 7 de Agosto de 1932, entrou em vigor a lei sobre o " roubo e delapidação da
propriedade social " (mais conhecida por "lei das cinco espigas"), punível com dez anos de campo de trabalho forçado,
ou com a pena capital.[76]

As brigadas encarregues da colecta efectuaram autênticas expedições punitivas, nomeadamente nas regiões
cerealíferas. Estas requisições foram acompanhadas de numerosos abusos, violências fisicas e detenções maciças de
kolkhozianos.[77]

Apesar de uma ligeira diminuição nos objectivos dos planos de colecta[78] e de uma repressão extremamente dura
(mais de 100 000 pessoas foram condenadas nos primeiros meses de aplicação da lei),[79] em 25 de Outubro, Moscovo
só colectara 39% da quantidade de cereais exigida à Ucrânia.[80]

A "interpretação nacional" de Stalin


Mas entre Julho e Agosto de 1932, Stalin concebeu uma nova análise da situação na Ucrânia e das suas causas,
expressa a 11 de Agosto, numa carta endereçada a Kaganovitch:[81][82]

“ [A Ucrânia] é hoje em dia a principal questão, estando o partido, o Estado e mesmo


os órgãos da polícia política da república, infestados de agentes nacionalistas e de
espiões polacos, correndo-se o risco de se perder a Ucrânia, uma Ucrânia que,
pelo contrário, é preciso transformar numa fortaleza bolchevique sem olhar a
custos. ”
Na perspectiva do ditador, o Partido Comunista e o governo ucranianos tinham sido infiltrados por agentes
nacionalistas ("Petliuristas") e espiões polacos ("agentes de Piłsudski"), e as aldeias renitentes à colectivização,
estavam sob a influência de agitadores contrarrevolucionários.[83]

A decisão de utilizar a fome - provocando artificialmente o seu alastramento - para "dar uma lição" aos
camponeses,[84] foi tomada no Outono, num contexto especialmente delicado para o ditador, com a agudização da
crise provocada pelo 1.º Plano Quinquenal, o receio de uma guerra com a Polónia,[85] e o suicídio da sua esposa

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Nadezhda Alliluyeva.[86]

Em 22 de Outubro de 1932, foram enviadas para a Ucrânia e para o Cáucaso do Norte duas "comissões
extraordinárias" - dirigidas respectivamente por Vyacheslav Molotov e Lazar Kaganovitch - com o objectivo de
"acelerar as colectas" e tendo o apoio dos mais altos responsáveis do O.G.P.U. (incluindo Genrikh Yagoda).[87][88]

Simultaneamente, milhares de agentes da polícia política e de "plenipotenciários" do partido foram transferidos, para
colmatar a ineficácia das estruturas comunistas locais e reprimir qualquer indício de "sabotagem". Entre Novembro e
Dezembro, mais de 27 000 pessoas foram detidas (30% são dirigentes de kolkhozes e pequenos funcionários rurais)
com base na acusação de "sabotagem dos planos de colecta".[89]

O recurso à "arma da fome" adquiriu uma lógica e uma violência particulares nos territórios essencialmente
ucranianos. Estaline - em perfeita coerência com a sua própria análise acerca das origens e dinâmicas do fenómeno
nacional - considerava a Ucrânia um caso de especial gravidade, devido à interligação profunda entre o "nacionalismo
burguês" e o campesinato.[90]

De facto, já em 1925, Estaline tinha explicitado o seu ponto de vista sobre a "questão nacional", ao afirmar:[91]

“ Que isto explica o facto do campesinato constituir o principal exército do movimento


nacional, de que não pode existir um movimento nacional poderoso sem um
exército camponês. ”
Em conformidade com esta análise, o dirigente do O.G.P.U. ucraniano, Vsevolod Balystsky, definiu, em 5 de Dezembro
de 1932, como principal missão a desempenhar pela polícia política da república:[92]

“ o urgente desmantelamento, identificação e esmagamento dos elementos contra-


revolucionários e kulak-petliuristas que estão a sabotar as medidas aplicadas pelo
Governo Soviético e pelo Partido nas aldeias. ”
A repressão do campesinato ucraniano

As medidas repressivas
Em resultado da "interpretação nacional" que Estaline fez da situação ucraniana, a decisão de utilizar a fome nesses
territórios adquire características específicas de natureza genocidária,[93][94] confirmadas pela recente
desclassificação de milhares de documentos provenientes dos arquivos ucranianos.[95][96][97][98][99]

Assiste-se a uma escalada de medidas repressivas, em grande parte diferentes das aplicadas noutras regiões da União
Soviética:

em 18 e 20 de Novembro de 1932, o Comité Central ucraniano impõe respectivamente aos camponeses


particulares e aos kolkhozes, diversas multas em géneros alimentícios, no caso de incumprimento ou de
sabotagem do plano de colecta;[100]
em 1 de Dezembro de 1932, é interditada a comercialização da batata nos distritos refractários, e em 3 de
Dezembro, esta medida é igualmente aplicada à carne e aos animais;
em 6 de Dezembro de 1932, com base no princípio da responsabilidade colectiva, as aldeias sujeitas a esta
punição passam a fazer parte de "listas negras";[101][102]
em 15 de Dezembro de 1932, foi também proibida a importação de artigos manufacturados pelos distritos que
não tenham cumprido o plano de requisição;[103]
entre o Outono e o Inverno de 1932, foi implantado nas fronteiras da Ucrânia - pelas tropas do Ministério do
Interior e da milícia - um bloqueio ao fornecimento de alimentos. Esta medida, impediu os camponeses atingidos
pela fome de procurar comida na Rússia e em outras regiões, ou de a trazer para a Ucrânia;[104]
em 22 de Janeiro de 1933,[105][106] Estaline e Molotov deram ordens específicas à polícia política no sentido de
impedir o êxodo dos camponeses ucranianos - da Ucrânia e do Cáucaso do Norte - que em desespero
procuravam obter comida noutras zonas. Para justificar a decisão, declararam estar convictos de que era uma
fuga:[107]
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“ organizada pelos inimigos do poder soviético, os socialistas revolucionários e os


agentes polacos, com objectivos de propaganda, para desacreditar, por intermédio
dos camponeses que fogem para as regiões da URSS a norte da Ucrânia, o

sistema kolkhoziano, em particular, e o sistema soviético, em geral.

nessas regiões, é suspensa a venda de bilhetes de comboio e são


montadas barreiras policiais nas estações ferroviárias e nas estradas
que levam às cidades. Só no decurso do mês de Fevereiro, foram
detidas 220 000 pessoas, fundamentalmente camponeses à procura
de comida, dos quais 190 000 são obrigados a regressar às aldeias
para aí morrer de fome;[108]

em conformidade com a decisão tomada pelo Conselho dos


Comissários do Povo da União Soviética, em 27 de Dezembro de
1932, o governo da Ucrânia decreta, a 31 de Dezembro, a criação do
passaporte interno. Esta medida exclui os camponeses, que ficam
"presos" à sua terra, numa situação semelhante à do "servo da
gleba";[109]
além da actividade exercida no âmbito do combate aos "sabotadores
do plano de colectas" - apoio às brigadas que tentavam localizar os
cereais escondidos pelos camponeses, usando todo o tipo de
Vyacheslav Molotov. Membro do
violências e abusos;[110] deportação das populações mais
insubmissas e detenção dos suspeitos de actos de sabotagem - a Politburo e responsável pela
polícia política é a única organização autorizada a recolher campanha de requisições na
informações sobre a fome, de acordo com o decreto do Politburo de Ucrânia.
16 de fevereiro de 1933.[103]
A confirmação de que a fome servia para impor a total obediência dos
camponeses aos ditames do regime soviético e do seu chefe supremo, está
presente na carta enviada para Moscovo pelo secretário-geral do Partido
Comunista da Ucrânia, Stanislav Kossior, em 15 de Março de 1933:[111]

“ a insatisfatória evolução das sementeiras em


numerosas regiões, prova que a fome ainda
não levou à razão muitos kolkhozianos. ”
No sentido de garantir as condições necessárias às futuras colheitas, entre
Janeiro e Junho de 1933, as autoridades centrais adoptaram, de forma
tardia, selectiva e insuficiente,[112][113] várias medidas de auxílio a algumas
das regiões atingidas pelas "dificuldades alimentares".[114]

Para cerca de 30 milhões de pessoas atingidas pela fome, são


disponibilizadas 320 000 toneladas de cereais, ou seja 10 quilos de cereais
por pessoa, representando somente 3% do consumo médio anual de um
camponês.[115] Stanislav Kossior, secretário-geral
do Partido Comunista da Ucrânia
No entanto, esta ajuda, além de privilegiar o abastecimento das cidades,
destina-se unicamente aos que a "merecem": os kolkhozianos com melhor rendimento, os brigadistas, os tractoristas,
etc.[116]

As consequências
Em termos demográficos, a mortalidade na Ucrânia, à semelhança dos outros territórios soviéticos atingidos pela
fome, incidiu fundamentalmente sobre a população rural, independentemente da sua origem étnica.

No entanto, o regime soviético tinha a perfeita consciência de que essa população rural continuava a representar a
"espinha dorsal" da nacionalidade ucraniana (75% a 85% dos ucranianos residiam em aldeias), em contraste com as
cidades, etnicamente mais "cosmopolitas" (russos, judeus, polacos, etc.).[117]

https://pt.wikipedia.org/wiki/Holodomor 7/30
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Por conseguinte, a fome adquiriu características e dimensões bem distintas


das que teria evidenciado noutras circunstâncias políticas.

Apesar de ser bastante menos intensa e generalizada do que a Fome de


1921 - 1922 , em termos de seca e de regiões afectadas (a colheita de 1945
foi inferior à de 1932, mas não existiu fome generalizada), causou entre
três a quatro vezes mais vítimas, em resultado de decisões políticas que
procuravam salvar o regime da crise, que ele próprio tinha provocado.[118]

Muitos camponeses famintos A convicção de que se tinha alcançado uma vitória definitiva sobre o
conseguiram evitar as barreiras campesinato, foi assumida em diversas ocasiões, pelos mais altos
policiais e chegar às cidades, tendo
dignitários do regime. São disso exemplo, as palavras de Lazar
no entanto, acabado por morrer
Kaganovitch:[119]
(Kharkiv, 1933).

“ nós ganhámos definitivamente a guerra, a


vitória é nossa, uma vitória fantástica, total, a
vitória do estalinismo. ”
de Sergo Ordjonikidze:[120]

“ os nossos quadros que enfrentaram a situação de 1932-1933 e que aguentaram


[…] ficaram temperados como o aço. Acredito que com eles se construirá um
Estado como a História nunca viu. ”
e de Mendel Khataevich:[121]

“ está a decorrer uma luta feroz entre os camponeses e o poder. É um combate até à
última gota de sangue. É uma prova de força entre o nosso poder e a sua
resistência. A fome demonstrou quem é o mais forte. Custou milhões de vidas, mas
o sistema dos kolkhozes viverá para sempre. Vencemos a guerra! ”
No decurso da tragédia, o Estado soviético continuava a exportar milhões de toneladas de cereais para o estrangeiro
(em 1932, 1 730 000; em 1933, 1 680 000), enquanto acumulava enormes reservas estratégicas (em 1933, 1 800 000
toneladas).[122][123]

Num acto de retaliação, em 22 de Outubro de 1933, o adido consular da União Soviética em Lviv, Alexei Mailov, foi
assassinado por Mykola Lemyk, militante do movimento independentista "Organização dos Nacionalistas
Ucranianos".[124][125]

A repressão das elites ucranianas


Devido à sua convicção de que, na Ucrânia e no Kuban, a questão camponesa era também uma questão nacional, o
regime soviético sentiu necessidade de as enfrentar e de as "resolver" de forma conjunta.

Com efeito, na óptica do regime soviético, os camponeses não eram os únicos culpados da crise, partilhando a
responsabilidade com a elite política e cultural ucraniana.[126]

E para que esta resolução fosse duradoura, procedeu à eliminação das elites ucranianas e das suas políticas, suspeitas
de conivência com os camponeses.[108][127]

Em 14 e 15 de Dezembro de 1932, o Politburo aprovou dois decretos especificamente destinados aos territórios de
população predominantemente ucraniana, revogando a política das nacionalidades aplicada desde 1923.[128][129]

Na sua perspectiva, a política de "Ucranização" ou indigenização ("Korenizatsiya")[130][131] fora desenvolvida de


forma errada na Ucrânia e no Kuban, tendo estimulado o nacionalismo e os seus agentes, inclusivamente no interior
do partido e do governo:[132][133][134]
https://pt.wikipedia.org/wiki/Holodomor 8/30
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“ o desleixo levou à «Ucranização» não-


bolchevique da maior parte dos distritos do
Norte do Cáucaso, o que não corresponde aos
interesses culturais da população, sendo
aplicada sem qualquer controlo dos órgãos
regionais sobre o processo de «Ucranização»
das escolas e da imprensa, dando aos inimigos
do poder soviético cobertura legal para
organizar a oposição dos kulaks, dos [ex-]
oficiais, dos antigos Cossacos emigrantes e dos
membros da Rada do Kuban. ”
Em consequência desse diagnóstico, preconizava-se:[134]

“ Mudar imediatamente da língua ucraniana para


a língua russa, a documentação administrativa
dos órgãos soviéticos e cooperativos, bem
como todos os jornais e revistas dos distritos
«Ucranizados» do Norte do Cáucaso, por ser
mais compreensível para a população do
Kuban, e também preparar a mudança para a
língua russa do ensino nas escolas. ” O escritor Mykola Khvylovy, uma
das vítimas da vaga de terror contra
as elites ucranianas, suicidou-se em
Esta mudança também afectou as medidas de "Ucranização", de que
13 de Maio de 1933.
tinham beneficiado as comunidades implantadas na Rússia. Ao contrário
das outras minorias nacionais, os milhões de ucranianos que aí viviam,
perderam o direito ao sistema educativo e à imprensa na sua língua, bem como à autonomia política.[135]

Com a chegada, em Janeiro de 1933, de Pavel Postychev, acompanhado de


centenas de quadros russos, na qualidade de novo plenipotenciário de
Moscovo na Ucrânia, desencadeia-se uma vaga de terror antiucraniano.

A polícia política perseguiu com obstinação as "organizações


contrarrevolucionárias nacionalistas burguesas" - alegadamente
infiltradas nas instituições políticas e culturais - causando milhares de
vítimas.[136][137][138]

A título de exemplo, no âmbito das purgas, são reprimidos 70% dos


secretários distritais e dos sovietes (entre Janeiro e Outubro de 1933);
40 000 pequenos funcionários dos sovietes; a quase totalidade dos
quadros do Comissariado do Povo para a Educação; 4000 professores e
200 funcionários dos institutos pedagógicos.[139]

Por sua vez, individualidades importantes, como o dirigente partidário


Mykola Skrypnyk[140][141] - acusado de ser um "instrumento de elementos
Como vice-secretário-geral do P. C.
nacionalistas burgueses" - e o director teatral Les Kurbas,[142] são alvo de
da Ucrânia, Postychev foi
perseguição. responsável pelo agravamento das
requisições agrícolas e pela
O escritor Mykola Khvylovy é igualmente vítima desta vaga
repressão das elites "nacionalistas".
repressiva,[143][144] sendo o seu suicídio interpretado como um acto de
protesto contra o genocídio em curso.[145]

No seu discurso ao Partido Comunista ucraniano, em Novembro de 1933, Pavel Postychev expôs de modo eloquente a
interpretação conspirativa que o regime fazia da situação na república, ao afirmar:[146]

os erros e falhas cometidos pelo Partido Comunista da Ucrânia, na implementação



https://pt.wikipedia.org/wiki/Holodomor
” 9/30
20/12/2017 Holodomor – Wikipédia, a enciclopédia livre

“ da política das nacionalidades, foram uma das principais causas para o declínio da
agricultura ucraniana em 1931-1932. Não restam dúvidas de que sem a eliminação ”
dos erros na implementação da política das nacionalidades, sem a derrota
esmagadora dos elementos nacionalistas, que se tinha instalado em diversas áreas
da construção social na Ucrânia, teria sido impossível superar o atraso na
agricultura.

Epílogo

Regressão, herança e genocídio


Com o seu cortejo de violências, de torturas e de chacinas pela fome, o
Holodomor constituiu uma enorme regressão civilizacional. Assistiu-se à
proliferação de déspotas locais, dispostos a tudo, para extorquir aos
camponeses as suas escassas reservas alimentares e à banalização da
barbárie, que se traduziu em rusgas, abusos de autoridade, banditismo,
abandono infantil, "barracas da morte", canibalismo[147][148] e
agravamento das tensões entre a população rural e a população
urbana.[149]
Jovem vítima do Holodomor
Apesar da herança do Holodomor apresentar similitudes com as de outras
regiões da União Soviética – a "arma da fome" esmagou a resistência
camponesa, garantindo a vitória de Estaline e do seu regime totalitário; abriu o caminho para a vaga de terror de 1937-
1938 (o "Grande Terror");[150][151] transformou o estado federal soviético num império despótico, através da
submissão da segunda república mais importante; deixou um legado de dor em numerosas famílias que nunca tiveram
direito a expressar o luto, porque a fome se converteu em segredo de Estado – na Ucrânia, as suas marcas físicas e
psicológicas foram bastante mais profundas e traumatizantes.[152][153][154][155]

Essas marcas são o resultado da especificidade[156][157][158] que


caracterizou a evolução dos acontecimentos na Ucrânia e no Cáucaso do
Norte, e que conferem ao Holodomor o seu carácter de genocídio:

uma taxa de mortalidade superior às das outras repúblicas (a taxa de


mortalidade por mil habitantes, em 1933, foi de 138,2 na Rússia e de
367,7 na Ucrânia), tendo a esperança de vida descido de 42,9 (sexo
masculino) e 46,3 (sexo feminino), em 1926, para respectivamente
7,3 e 10,9, em 1933. A título comparativo, no ano de 1941, durante a
invasão alemã da União Soviética, a esperança de vida na Ucrânia foi
de 13,6 e 36,3, respectivamente para homens e mulheres;[66][159] Vítima do Holodomor numa rua de
os milhões de vítimas ucranianas - incluindo as da região de Kuban - Kharkiv.
e os outros milhões de ucranianos submetidos a uma política de
russificação, depois de Dezembro de 1932;
um decréscimo de 20% a 25% da população de etnia ucraniana, tendo a natalidade decaído de uma média de
1 153 000 nascimentos (1926-1929) para 782 000, em 1932 e 470 000, em 1933;[160]
a decisão de Estaline em utilizar a fome numa perspectiva antiucraniana - em resultado da "interpretação
nacional" da crise das colectas no Verão de 1932 - causando o seu agravamento e multiplicando o número de
vítimas;
a eliminação de uma grande parte da elite política e intelectual da república, sob a acusação de "nacionalismo
burguês".
Deste modo, toda a sociedade ucraniana foi sujeita a uma enorme violência, comprometendo, por muitas décadas, o
difícil processo de construção da identidade nacional.[161][162][163][164][165]

Quantas vítimas?

https://pt.wikipedia.org/wiki/Holodomor 10/30
20/12/2017 Holodomor – Wikipédia, a enciclopédia livre

Relativamente à definição exacta do número de vítimas, os historiadores


têm deparado com sérias dificuldades resultantes dos seguintes
factores:[166][167][168][169][170][171]

as restrições no acesso a certos arquivos da ex-União Soviética;


a mortalidade directamente imputável às epidemias de tifo;
a política de secretismo imposta pelo regime, ao proibir os
funcionários dos sovietes rurais de mencionar a fome como causa da
morte;
a desorganização dos registros, em consequência do falecimento ou
da fuga dos funcionários pertencentes às regiões dizimadas; Vítima do Holodomor
a circunstância de muitas vítimas terem ficado insepultas ou
enterradas em valas comuns;
as migrações de camponeses famintos para outras repúblicas soviéticas;
a adopção da nacionalidade russa, por parte de muitos camponeses ucranianos.[172]
Apesar da existência de estimativas que vão de 1,5[173][174][175] a 10 milhões de vítimas ucranianas, os cálculos mais
recentes do historiador Stanislav Kulchytsky, com base em fontes dos arquivos soviéticos, indicam um número entre 3
a 3,5 milhões de mortes.[176][177]

Por sua vez, calcula-se que 1,3 a 1,5 milhões tenham morrido no Cazaquistão (exterminando 33% a 38% dos
Cazaques), além de centenas de milhares no Cáucaso do Norte e nas regiões dos rios Don e Volga, onde a área mais
duramente atingida correspondia ao território da República Socialista Soviética Autónoma Alemã do Volga,
totalizando aproximadamente 5 a 6 milhões de vítimas, entre os anos de 1931 e 1933.[178][179]

Da negação ao reconhecimento

Uma página em branco


A fome na União Soviética e na Ucrânia constituiu desde o início um segredo de Estado, permanecendo durante meio
século como uma "página em branco" da sua história.

Em Janeiro de 1933, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Maksim Litvinov - contrariando as informações veiculadas
por alguns jornais[180] e norte-americanos[181] - negou a existência de qualquer problema, e em Fevereiro, o Politburo
emitiu uma resolução, no sentido de restringir as deslocações dos correspondentes estrangeiros.[182][183]

Também foram rejeitadas as ofertas de auxílio humanitário de várias entidades, tais como o Comité Central de
Salvamento da Ucrânia,[124] o cardeal de Viena Theodor Innitzer,[184][185] o metropolita greco-católico de Lviv Andrii
Szeptycki[186][187][188] e o Comité Internacional da Cruz Vermelha.[189]

Reagindo às diversas iniciativas humanitárias, o Chefe de Estado soviético, Mikhail Kalinin, acusou os que pediam
"contribuições para a «esfomeada» Ucrânia" de serem "impostores políticos" e declarou:[190]

“ Só classes degradadas e em desintegração podem produzir elementos tão cínicos.



Por outro lado, diversas personalidades estrangeiras, como Édouard Herriot,[191][192] Walter
Duranty[193][194][195][196][197] ou George Bernard Shaw,[198][199] contribuíram, de forma inconsciente ou deliberada,
para a ocultação dos factos.[200][201][202][203]

Estaline, ao receber em Dezembro de 1932, o dirigente ucraniano, Rodion Terekhov, também manifestou a sua posição
negacionista:[204]

“ Deram-me conhecimento de que é um bom orador, mas também estou a ver que é
um bom contador de histórias. Você elaborou uma fábula acerca de uma pretensa ”
https://pt.wikipedia.org/wiki/Holodomor 11/30
20/12/2017 Holodomor – Wikipédia, a enciclopédia livre

fome, pensando certamente que me assustava, mas isso não resultou. Em vez
disso, deveria deixar as suas funções de secretário regional e de membro do
Comité Central da Ucrânia e trabalhar para a União dos Escritores. Você escreveria
fábulas e os imbecis liam-nas.
Actualmente, ainda persiste a tese negacionista do Holodomor[205][206][207]

,[208] não obstante a existência de numerosa documentação contemporânea aos acontecimentos, como por exemplo:

a correspondência diplomática italiana,[209][210][211][212] britânica,[213] alemã,[214] polaca[215]turca e


japonesa;[216]
as declarações de jornalistas ocidentais, como Gareth Jones[217][218][219] e Malcom Muggeridge;[220]
os relatos de simpatizantes do regime, como Harry Lang e Adam Tawdul;[221]
as denúncias de opositores do sistema estalinista, como Boris Souvarine[222][223] ou Victor Serge;[224][225][226]
os testemunhos de dignitários desiludidos com o Estalinismo, como Fyodor Raskolnikov[227] e Pyotr
Grigorenko;[228][229]
as memórias de sobreviventes e testemunhas.[230][231][232][233][234][235][236][237][238][239][240][241][242][243][244]
Conotados com sectores políticos da Extrema Esquerda, o jornalista canadiano Douglas Tottle, autor do polémico
Fraud, Famine and Fascism: The Ukrainian Genocide Myth from Hitler to Harvard (1987)[245][246] e a historiadora
francesa Annie Lacroix-Riz,[247] afirmam tratar-se, no essencial, de uma invenção propagandística de carácter
anticomunista, envolvendo o Vaticano, os imperialismos nazi e polaco e o magnata da imprensa norte-americana
Randolph Hearst.[248]

A posição da comunidade académica


Em 1984, depois de uma campanha promovida pela comunidade ucraniana
dos Estados Unidos, as duas câmaras do Congresso aprovaram a constituição
da Comissão de Inquérito dos E.U.A Sobre a Fome da Ucrânia, sob a direcção
do professor da Universidade de Harvard James Mace.[249][250] No seu
relatório apresentado ao Congresso em 1988, a comissão reconheceu como
provado o carácter genocidário da fome de 1932-1933.[251]

Por outro lado, graças aos esforços da mais importante organização da


diáspora - o Congresso Mundial dos Ucranianos Livres - foi criada, em 14 de
fevereiro de 1988, a Comissão Internacional de Inquérito Sobre a Fome de
1932-33 na Ucrânia.[189][252][253] Esta comissão, presidida pelo professor da
Universidade de Estocolmo, Jacob Sundberg,[254] era formada por sete
juristas de diferentes países: Reino Unido, Canadá, França, E.U.A., Suécia,
Bélgica e Argentina.[255] Em 2003, o Chefe de Estado
italiano Carlo Ciampi patrocinou
No relatório final, apresentado em 1990 ao subsecretário da O.N.U. para os
um importante encontro
Direitos Humanos e ao Presidente da Assembleia Parlamentar do Conselho da académico sobre o Holodomor
Europa, a Comissão anunciou as seguintes conclusões:

existiu uma fome artificial na Ucrânia entre Agosto - Setembro de 1932 e Julho de 1933;
a fome foi imposta ao povo ucraniano pelo regime soviético, tendo causado um mínimo de 4,5 milhões de mortes
na Ucrânia, além de 3 milhões de vítimas noutras regiões da U.R.S.S.[256][257]
Depois do trabalho pioneiro de Robert Conquest[258] The Harvest of Sorrow: Soviet Collectivization and the Terror-
Famine (1986)[259] e da revolução arquivística e historiográfica de 1991, os meios académicos passaram a dedicar uma
crescente atenção a este acontecimento.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Holodomor 12/30
20/12/2017 Holodomor – Wikipédia, a enciclopédia livre

Durante os anos noventa, em resultado da acumulação de novos conhecimentos[260] aprofundou-se o debate sobre a
natureza da fome. Esse debate[261][262][263][264][265] - muitas vezes influenciado por divergências de carácter
ideológico[266] - foi protagonizado por diferentes interpretações:

a "revisionista",[267][268][269][270] que relativiza a dimensão criminal - Stephen Wheatcroft[271] ou Mark


Tauger;[272]
a "nacional",[134][273][274] que salienta a especificidade genocidária do Holodomor ucraniano - James
Mace,[275][276][277][278] Yuriy Shapoval[279] ou Nicolas Werth;[280][281][282]
a "camponesa",[283][284][285] que destaca, numa perspectiva pan-soviética, o uso da fome como "arma política"
contra o campesinato - Viktor Kondrashin[286] ou Georges Sokoloff[287]
No entanto, as comemorações dos 70 anos do Holodomor, em 2003, constituíram um ponto de viragem, em especial,
com a realização de uma grande conferência internacional, em Vicenza (Itália).[288][289]

Deste encontro científico,[290][291] patrocinado pelo Presidente da República Carlo Ciampi, resultou uma declaração -
subscrita por 28 personalidades académicas da Itália, Alemanha, Ucrânia, Polónia, Canadá e E.U.A.[292] - apelando ao
Parlamento italiano, bem como a Silvio Berlusconi, que exercia a presidência rotativa da União Europeia, e a Romano
Prodi, Presidente da Comissão Europeia, no sentido de promoverem o reconhecimento internacional do Holodomor
como um acto de genocídio.[293][294]

Em Paris, na Universidade da Sorbonne, também se realizou uma


conferência[297][298] sobre o tema, com a participação de historiadores de
diversos países.[299] Nessa ocasião, foi apresentado um apelo, dirigido à
Assembleia Nacional francesa e ao Parlamento Europeu, para o
reconhecimento da fome de 1932-1933 na Ucrânia, como acto de
genocídio.[300]

Em Kiev, na sequência do encontro académico internacional intitulado "É


Tempo de Dizer a Verdade", em que estiveram presentes especialistas deste
período histórico, bem como deputados, representantes dos meios
diplomáticos e da comunicação social, foi igualmente aprovada uma resolução,
apelando ao reconhecimento internacional do genocídio.[301]
Em 16 de dezembro de 2003, o
Director-Geral da UNESCO,
A Ucrânia e o Holodomor Koichiro Matsuura, condenou o
Durante mais de 50 anos a diáspora ucraniana procurou divulgar os factos regime estalinista pela sua
responsabilidade no
relativos ao Holodomor, deparando com a indiferença da maioria da opinião
Holodomor.[295]
pública mundial e com a oposição sistemátiva da União Soviética.[carece de
fontes?]

Só depois da desagregação da U.R.S.S. e da recuperação da independência nacional em 1991, é que se tornou possível
invocar publicamente o genocídio.[carece de fontes?]

Em 1998, foi instituído no quarto sábado do mês de Novembro, o "Dia da Memória das Vítimas da Fome e das
Repressões Políticas" e em 2006, o Parlamento da Ucrânia aprovou uma lei sobre o carácter genocidário do
Holodomor.[carece de fontes?]

O Holodomor e a comunidade internacional


A comunidade internacional tem, de forma gradual, vindo a assumir posições favoráveis ao reconhecimento do
Holodomor como genocídio, ou mais genericamente, como um crime contra a Humanidade.[carece de fontes?]

https://pt.wikipedia.org/wiki/Holodomor 13/30
20/12/2017 Holodomor – Wikipédia, a enciclopédia livre

No âmbito das organizações internacionais, destacam-se as resoluções aprovadas pela


Assembleia Báltica;[302][303] Assembleia-Geral das Nações Unidas;[304][305]
Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa;[306] OSCE[307][308][309][310]
Parlamento Europeu[311] e UNESCO.[312][313][314]

Merece igualmente destaque o reconhecimento expresso pelos parlamentos, chefes de


Governo e chefes de Estado dos seguintes países:

O Presidente do
Parlamento Europeu,
Hans-Gert Pöttering,
prestou homenagem às
vítimas do Holodomor,
em 21 de novembro de
2007.[296]
Mapa dos países que reconheceram o Holodomor como genocídio.

Andorra[315] Eslováquia[330][331] Lituânia[345][346][347]


Argentina[316][317] Espanha[332][333] México[348][349]
Austrália[318][319] Estados Unidos [334][335] Paraguai[350][351]
Brasil[320][321] Estónia[336] Peru[352]
Canadá[322][323][324] Geórgia[337][338][339]
Polónia[353][354][355][356][357]
Chile[325] Hungria[340][341]
República Checa[358][359]
Colômbia[326][327] Itália[342][343]
Ucrânia[360][361][362][363]
Equador[328][329] Letónia[344]
Vaticano[364][365]

O impacto cultural do Holodomor


Ao longo de muitas décadas, a abordagem cultural do Holodomor esteve severamente condicionada pela censura
imposta pelo regime soviético, com a natural excepção das comunidades de exilados implantadas no estrangeiro,
nomeadamente nos E.U.A. e no Canadá.[carece de fontes?]

Com a independência da Ucrânia, em 1991, a situação sofreu uma profunda mudança, permitindo a artistas e
escritores a possibilidade de o invocar nas suas criações.[366][367][368]

Uma excepção genocidária?


Os meios académicos[369][370][371][372] e políticos[373][374][375][376][377][378] têm dedicado igualmente a sua atenção a
outros crimes praticados pelo regime estalinista, que evidenciam características genocidárias. A título de exemplo:

as deportações - entre as décadas de 30 e de 50 - de numerosos grupos étnicos da União Soviética ou de


países ocupados pelos soviéticos, tais como os Balquares,[379] os Tártaros da Crimeia,[380] os Alemães do
Volga,[381][382] os Inguches e os Chechenos,[383][384] os Polacos,[385][386] os Letões,[387][388] os
Estonianos,[389][390] os Lituanos,[391][392] os Coreanos[393][394] ou os Finlandeses da Carélia.[395]

o extermínio de 22.000 prisioneiros polacos, conhecido genericamente por "Massacre de Katyn", em 1940.[396]
a eliminação de 200.000 prisioneiros húngaros, nos campos de concentração soviéticos, em 1944-1948.[397]

https://pt.wikipedia.org/wiki/Holodomor 14/30
20/12/2017 Holodomor – Wikipédia, a enciclopédia livre

Ver também
ucraniana (1932- Primavera de
Aleksandr 1933) Praga
Solzhenitsyn
Impacto cultural Protesto na
Anticomunismo do Holodomor Praça da Paz
Arquipélago de Khmer Vermelho Celestial em
Gulag 1989
Lista de fomes
Assassinatos em em massa Revolução
massa sob Cultural Chinesa
Livro Negro do
regimes Revolução de
Comunismo
comunistas Veludo Monumento às vítimas da ocupação
Massacre de
Fome russa de Richard Pipes soviética da Polónia.
Katyn
1921
Memorial das Robert Conquest
Grande Expurgo
Vítimas do Socialização
Grande Salto Comunismo
Adiante The Soviet
Posição da Story[398]
Gulag Ucrânia em
Vyacheslav
Holodomor - A relação ao
Molotov
desconhecida Holodomor
tragédia Negacionismo
do Holodomor

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Ligações externas
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20/12/2017 Holodomor – Wikipédia, a enciclopédia livre

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"Por que é que Estaline exterminou os ucranianos?": 1 (http://www.day.kiev.ua/151228/) (em inglês) , 2 (http://ww
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- Holodomor - Página do autor da primeira monografia polaca sobre a Grande Fome da Ucrânia (http://www.rober
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Ucrânia: vítima da tirania stalinista (http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=9930C808-3048-5
60B-1C994C1B5172D90C&mes=Julho2007) (em português)

Número dos países que reconheceram o Holodomor


Ucrânia
Andorra, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia,
Equador, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, Estónia, Geórgia, Hungria,
Itália, Letônia, Lituânia, México, Paraguai, Peru, Polónia,
República Checa, Vaticano

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