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Nobreza do Cordel

Rei da poesia do sertão com folhetos de tiragens expressivas como Branca de


Neve e o soldado guerreiro, Peleja de Riachão com o
Cordelista Leandro Gomes de Barros, que morreu há 90 Diabo, O cavalo que defecava dinheiro e O testamento
anos no Recife, transformou cenas do cotidiano e do cachorro. Calcula-se que ele publicou cerca de 600
acontecimentos públicos em sátira e sonho obras. Seu público era tão vasto quanto sua obra:
Renato L sertanejos, matutos, cantadores, cangaceiros,
Da equipe do Diario feirantes#
Fazenda Melancia. Município de Pombal (hoje Paulista).
Região oeste do estado da Paraíba. As coordenadas No dia 4 de março de 1918, Leandro Gomes de Barros
geográficas do nascimento de Leandro Gomes de Barros falece no Recife, supostamente vitimado pela influenza,
abrem essa nota biográfica. É aqui onde vamos a temível gripe espanhola. Essa versão, no entanto, caiu
encontrar, em 19 de novembro de 1865, Dona Adelaide por terra graças aos esforços de Cristina Nóbrega. Ela
parindo uma criança com "a cabeça um tanto grande e encontrou, em março deste ano, a certidão de óbito do
bem redonda/o nariz, afiliado, um pouco grosso/as poeta no Cartório de Registros de Pessoas Naturais,
orelhas não são muito pequenas/beiço fino e não tem distrito 3º, folha 41, livro 17. A causa mortis apontada
quase pescoço". O pai, esse ninguém sabe, ninguém foi um aneurisma.
viu. O que os pesquisadores têm como certo é que,
após a morte do genitor, a criança e a mãe rumaram Segundo o pesquisador Arievaldo Viana, a doença fatal
para Vila do Teixeira (PB), terra de cantadores como poderia ter sido provocada pela prisão de Leandro após
Inácio da Catingueira e Hugolino do Sabugi. a publicação do folheto O Punhal e a palmatória. Essa
narrativa da vingança de um morador de engenho
No novo lar paraibano, Leandro ganhou um tutor: o espancado pelo seu senhor causou a indignação das
padre Vicente Xavier de Farias, irmão de Dona Adelaide. elites da época. Humilhado e ofendido pela temporada
A relação tumultuada entre os dois gerou uma fuga e atrás das grades, ele teria tido a saúde fatalmente
uma mudança de nome. Aos 11 anos, nosso herói saiu abalada.
de casa por conta dos maus tratos supostamente
sofridos e das desavenças quanto à herança paterna. Sobre Leandro, escreveu Carlos Drummond de Andrade:
Graças aos esforços da escritora Cristina Nóbrega e de "não foi príncipe dos poetas do asfalto, mas foi, no
outros pesquisadores, sabemos, hoje, que ele pertencia julgamento do povo, rei da poesia do sertão, e do Brasil
à família Gomes da Nóbrega e que teria alterado o em estado puro...".
sobrenome, em represália aos desmandos do tutor. O
Barros, conjecturam alguns, remeteria ao pai. Editorial

No início da década de 80 Leandro Gomes de Barros morreu há 90 anos. É preciso


do século 19, encontramos lembrá-lo. Como reclamam, com razão, especialistas e
Leandro Gomes de Barros pesquisadores, o mestre de Pombal ainda não ocupa o
morando em Vitória de lugar de merecido destaque na literatura brasileira. A
Santo Antão. Depois, ele publicação deste caderno especial sobre o cordelista
ruma para Jaboatão, onde busca contribuir para essa valorização e mostrar a
casa com Dona grandeza do cordel.
Venustiniana Eulália de
Sousa, mãe do seus quatro Leandro Gomes de Barros foi um homem de seu tempo
filhos: Rachel, Herodíades, e um desbravador dos caminhos da poesia. O cordelista
Julieta e Esaú Eloy. É aí, transitou por vários domínios poéticos com irreverência
também, onde, por volta criativa e vigor. Sobreviveu do seu ofício, criando,
de 1893, ele começa a publicando e vendendo seus poemas. Seus versos
publicar seus versos, atividade que seria sua principal falavam diretamente ao povo.
fonte de renda durante a vida. Detalhe curioso: os
O menino traquino, que se divertia em pregar peças nos
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folhetos, muitas vezes, eram colocados sobre uma lona,


estendida no meio da feira. Como seus adultos, aprendeu mais tarde a fazer versos e a ganhar
contemporâneos, ele não usava cordão ou "cordel" para a vida com isso. Antenado, traduziu em rimas as
expor a mercadoria. questões sociais e políticas, com mordacidade e
irreverência.
O ano de 1907 marca a chegada de Leandro Gomes de
Barros ao Recife. Ele se torna proprietário de uma Alguns intelectuais já tiraram o chapéu para o mestre
pequena gráfica, chamada Typografia Perseverança, de Pombal, a exemplo de Carlos Drummond de
montada exclusivamente para a impressão e Andrade, que o considerou superior a Olavo Bilac, (1865
distribuiçãode seus próprios folhetos. Em 1913, passa o - 1918), contemporâneo de Leandro e chamado de
negócio adiante por conta das viagens incessantes e do príncipe dos poetas. O dramaturgo Ariano Suassuna há
relativo desinteresse dos filhos pela profissão de anos dá o seu testemunho sobre o cordelista: "Para
tipógrafo. Nessa época, ele já era um autor conhecido, mim, o príncipe dos poetas brasileiros é Leandro Gomes

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de Barros, autor de dois dos três folhetos em que me social e o fez com maestria. Poucos conseguiram
inspirei para escrever O Auto da Compadecida: O igualar-se. No geral, ninguém o superou até hoje. José
enterro do cachorro e A história do cavalo que defecava Camelo de Melo, autor do Romance do pavão
dinheiro". misterioso, foi um gênio na modalidade romance, assim
como José Pacheco, autor de A chegada de Lampião no
A reportagem acima, que trata da biografia do inferno foi um gênio em matéria de gracejo. Mas
homenageado, conta detalhes da trajetória do ninguém teve a grandeza de Leandro, que foi gênio em
cordelista. O biógrafo Arievaldo Viana, que há anos todos os estilos.
recolhe pequenos fragmentos da história do cordelista,
concede a entrevista publicada na página 3. A qualidade Como se deu a formação intelectual e poética de
do conjunto de sua obra é analisada em dois artigos. Leandro Gomes de Barros?
Um da especialista Maria Alice Amorim e outro da
professora Jerusa Pires Ferreira se encontram nas Leandro descendia de uma família de pessoas
páginas 4 e 5. inteligentes. Era parente do padre Vicente Xavier de
Farias, que foi vigário e mestre-escola na Vila do
Na página 6, fazemos uma panorâmica sobre o mercado Teixeira. Acho provável que ele tenha estudado com o
editorial para o cordel. Em duas viagens ao Agreste e à padre entre os 9 e os 15 anos de idade, período em que
Zona da Mata encontramos outros mestres, José Costa permaneceu na companhia do padre-mestre. Ele fez
Leite, Dila e J. Borges, que estão na ativa e falam da romances de cavalaria baseados no livro de Carlos
paixão e das dificuldades do ofíciona página 7. Magno e os 12 Pares de França com tal fidelidade, que
Finalizando este especial, abordamos as questões de se pegarmos uma versão em prosa da história, ficamos
autoria, a utilização de obras da cultura popular pela encantados com a maneira como ele aproximava a sua
cultura erudita e a independência da xilografia. E vamos poesia do texto original. Foi um pesquisador incansável
comer cordel. dos contos tradicionais (fez poemas baseados n'As mil e
uma noites) onde buscava argamassa para suas
Entrevista [ Arievaldo Viana ] criações e, sobretudo, um bom conhecedor da Bíblia
Sagrada. É provável que tenha lido poetas eruditos
"Leandro foi gênio em todos os estilos" como Castro Alves, Gonçalves Dias, Camões ou Álvares
de Azevedo, mas o que ele gostava mesmo era da
O que faz de Leandro um artista autêntico, poesia dos cantadores, principalmente aqueles que
original, no vasto universo do cordel? cantavam "Ciência", que bebiam em fontes como o
Lunário Perpétuo. Seu amigo e compadre Francisco das
O pioneirismo de Leandro Gomes de Barros e os ChagasBatista era editor e livreiro na capital da Paraíba
mecanismos que ele desenvolveu para que houvesse a e deve ter fornecido material de leitura e pesquisa para
transição da poesia popular oral para o folheto impresso Leandro. Seu genro Pedro Batista, irmão de Chagas e
é uma coisa de gênio. A arte do trovadorismo veio da esposo de Rachel Aleixo (sua filha mais velha) era
Península Ibérica e floresceu tanto na América membro do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba e
Espanhola quanto na América Portuguesa. Houve um também possuía uma livraria em Guarabira-PB. Leandro
tipo de literatura popular em verso no México, Chile, conviveu com homens cultos e era uma pessoa
Nicarágua e Argentina, muito parecida com o folheto sintonizada com as coisas de seu tempo. Era também
nordestino... De certo modo, a Literatura de Cordel muito curioso em relação às coisas do passado. Talvez
brasileira surgiu de maneira tardia, porque antes da não tenha aprimorado demais o seu estro para não se
vinda da Corte Portuguesa em 1808, era proibida a distanciar de seu público, pessoas simples, que
existência de prelos aqui no Brasil. Então, a poesia moravam nos engenhos, nas fazendas ou nos
popular oral, que já existia desde os tempos de arrabaldes das capitais nordestinas.
Agostinho Nunes da Costa, Hugolino do Sabugi, Inácio
da Catingueira e Romano da Mãe D'água ganhou um Como o cordel era visto pelas elites do início do
novo alento quando Leandro mudou-se da Vila do século 20? E a produção de Leandro?
Teixeira, na Paraíba, para Vitória de Santo Antão e
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passou a editar os primeiros folhetos nas tipografias de Se pegarmos como parâmetro a obra de Leandro
Recife. Leandro não se limitou a reaproveitar os temas veremos que ele freqüentava livrarias, redações de
correntes, como a gesta do boi (Boi Misterioso), o jornais, cafés, hotéis e, principalmente mercados e
cangaço (já existiam cópias manuscritas dos ABCs de estações de trem, principal meio de transporte de sua
Jesuíno Brilhante e Lucas da Feira) ou temas europeus época. Pegava os temas mais em voga e diluía a seu
como o Ciclo de Carlos Magno e os Doze Pares de modo, colocando sua visãocrítica e despertando uma
França, Imperatriz Porcina e Roberto do Diabo. Ele foi consciência crítica nos seus leitores. O preconceito
mais longe. Criou um tipo de poesia cem por cento contra a poesia popular sempre existiu e sempre
brasileira, destacou-se sobretudo pela sua sátira mordaz existirá. Talvez fosse mais forte no tempo de Leandro,
e instigante. O estilo de Leandro é inconfundível. Ele mas isso não impedia que homens de letras como Sílvio
teve fôlego para transitar em todos os gêneros e Romero, Leonardo Mota, Gustavo Barroso, Câmara
modalidades correntes: peleja, romance, gracejo, crítica Cascudo, Rui Barbosa e Mário de Andrade se

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dedicassem à leitura e até mesmo à pesquisa das Nunes Batista e da socióloga Ruth Brito Lemos Terra
produções poéticas dos cantadores e poetas de para que Leandro voltasse à tona e fosse conhecido
bancada. Aliás, é importante lembrar que Leandro pelas gerações atuais. Hoje em dia a Casa de Rui
bebeu na fonte da cantoria, mas os cantadores Barbosa mantém, preservado, um precioso acervo de
beberam muito mais na obra de Leandro. Você pega folhetos de Leandro em edições que vão de 1904 a
livros de Leonardo Mota e encontra vários poetas 1920. Muitas delas feitas pelo próprio autor. É isso que
declamando ou cantando criações de Leandro como O possibilita o resgate, mas ainda não colocou Leandro no
soldado jogador, O boi misterioso, Padre Nosso do seu devido lugar. Poetas de menor expressão gozam de
imposto etc, muitas vezes sem dar o devido crédito ao muito mais prestígio junto ao público nos dias atuais.
autor. O que ocorre com grande parte dos intelectuais
brasileiros é a falta de interesse por uma cultura Como se dava a fabricação e distribuição dos
genuinamente nossa. É por isso que surgiram escolas cordéis na época de Leandro? O processo era
literárias imitando os franceses e os ingleses e muito diferente da realidade atual?
devotando um verdadeiro desprezo às coisas de
nossopaís. Foi preciso que intelectuais vindos da Europa Não era muito diferente não. As dificuldades eram
ou da América do Norte viessem aqui pesquisar o nosso maiores e os poetas-editores tinham que ser muito
folheto de feira e a nossa gravura, que organizassem criativos. Eles aproveitavam os momentos ociosos das
exposições nas maiores universidades do mundo, para tipografias dos grandes jornais ou mesmo das pequenas
que boa parte dessa gente passasse a ver o cordel com oficinas e rodavam o seu material. Leandro publicava
bons olhos. Um aspecto muito positivo nessa virada do com muita freqüência. Criava um título novo toda
milênio foi a adaptação que a Rede Globo fez para O semana, segundo me informou o poeta Paulo Nunes
auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Hoje você Batista, filho do editor Francisco das Chagas Batista,
vai numa escola qualquer, nos cafundós do sertão, e duas vezes compadre de Leandro (Leandro era padrinho
toda criança sabe quem é João Grilo. Sabem que ele é de Pedro Werta Batista e Chagas era padrinho de Julieta
um personagem oriundo da tradição popular cuja de Barros Lima). A ilustração da capa também era um
popularidade consolidou-se através da literatura de problema. Nesse tempo só havia vinhetas e clichês de
cordel. zinco ou de chumbo. A xilogravura só foi aparecer em
1907, num folheto que Chagas Batista fez sobre a vida
Mesmo reconhecida por escritores e do cangaceiro Antônio Silvino. Leandro chegou a usar o
pesquisadores a obra de Leandro ainda desenho em algumas capas (Pedro Cem, Branca de
permanece desconhecida do grande público. A Neve e o soldado guerreiro, Cancão de fogo etc). Eram
que você atribui esse fato? desenhos que se assemelhavam com o cartum, feitos
sob encomenda por ilustradores dos jornais. Um deles
Ainda em vida Leandro enfrentou muitos problemas foi o mestre Avelino, que fez muitas capas para João
com a pirataria. Havia editores em Belém-PA e Martins de Athayde. Num determinado período,
Fortaleza-CE que não davam trégua e reproduziam seus provavelmente entre 1907 e 1913, Leandro chegou a
maiores clássicos em edições clandestinas. Depois de possuir um prelo e criou a Typografia Perseverança,
sua morte, em 1918, sua filha Rachel e seu genro Pedro mas acabou desfazendo-se de sua máquina porque os
Batista continuaram editando seus folhetos e colocando filhos pequenos não demonstravam aptidão para o
avisos veementes contra esse abuso. Rachel morreu ofício de tipógrafo. Era uma pequena indústria familiar.
prematuramente, aos 27 anos, em 1921. Um Ele tinha que viajar, para visitar seus agentes, fechar
desentendimento entre a viúva do poeta, dona negócios, fazer a venda direta nas feiras, por isso não
Venustiniana e o marido de Rachel acabou provocando tinha tempo de tocar a tipografia. Mas ele era uma
a venda de todo o seu espólio ao poeta-editor João pessoa antenada com o progresso. Chegou a usar
Martins de Athayde. João Martins era bom poeta, mas clichês com fotografia, como se vê nos folhetos A
queria superar o mestre e acima de tudo preservar a guerra da Europa e Antônio Silvino no júri. Se vivesse
sua propriedade e começou a eliminar o nome de nos dias atuais, estaria utilizando computador e
Leandro da capa dos folhetos, colocando apenas o seu impressora laser, com certeza.
como "Editor Proprietário". Depois foi mais longe...
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Adulterou os acrósticos de Leandro e chegou mesmo a


lançar uma antologia O trovador do Nordeste, Quais eram os temas mais recorrentes na obra de
organizada por Valdemar Valente, onde se faz passar Leandro? Em termos de temática e de técnica,
por autor de vários poemas de Leandro. A situação foi ele seguiu uma trajetória sem grandes alterações
se agravando com o passar dos anos e piorou ainda ou, pelo contrário, observamos guinadas
mais quando Athayde encerrou suas atividades, em surpreendentes ao longo de sua vida?
1949, passando todo o acervo de Leandro e outros
poetas para o editor José Bernardo da Silva, de Leandro apostava mais em três vertentes: a) - o cordel
Juazeiro. Muitos pesquisadores desinformados, ainda factual ou folheto-reportagem, onde ele abordava
hoje citam obras de Leandro como se fossem de assuntos do cotidiano, desastres, guerras, fatos da
Athayde e até mesmo de José Bernardo. Foi necessário política e do cangaço; b) - a sátira, onde ele malhava
que surgissem pesquisas sérias, como a de Sebastião com refinada ironia os vícios de alguns membros da

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Igreja Católica, os nova-seitas (protestantes), os centenas de folhetos de cordel, e sempre discorrendo,


políticos e os charlatões em geral, como se vê nos de maneira saborosa, sobre variados temas, Leandro
folhetos Bento, o milagroso de Beberibe e O homem fincou morada no Monte Parnaso, contudo, o grande
que come vidro. A sogra e a mulher são dois temas problema é que o lugar preenchido pelo bardo
muito freqüentes e a cachaça um verdadeiro fetiche. c) classificado como "popular" não é avistado por uma
- Ele enveredava também pelo romanceiro, contos de porção significativa de experts em poesia brasileira. É
fada e lendas tradicionais, tendo adaptado até mesmo indiscutível a qualidade da obra poética deste autor,
contos d'As mil e uma noites. Ele também aceitava embora comumente excluído dos circuitos acadêmicos
sugestões de seus leitores. Também criou muitas que se debruçam quase com exclusividade sobre a
pelejas com cantadores reais ou fictícios, para atender poesia chamada erudita. E isto provoca um
aos amantes da cantoria. Ele foi um criador de tipos desconhecimento do que poderia ser fruído por um
marcantes, como é o caso do Cancão de Fogo, um número maior (em quantidade e também qualidade) de
personagem pícaro com nuances auto-biográficas e leitores fora do circuito de especialistas em literatura de
também destacou-se escrevendo os romances de cordel. Bom lembrar que ele escreveu durante o período
exemplo, com forte cunho moral, como A órfã, História em que praticamente todos os poetas se utilizavam das
de Pedro Cem e A vida de João da Cruz. formas fixas para construir os seus poemas, aviso
importante tanto para situar a época da produção de
Quais são os principais herdeiros de Leandro? Leandro, quanto para não usar este argumento do
formalismo em contraposição ao vigor do que construiu
De um modo geral, todos os poetas receberam, de em imagem e metáfora.
alguma forma, influências do mestre de Pombal (PB).
Lógico que uns mais e outros menos. Existem poetas Mais do que simplesmente fiel aos temas e à estrutura
fazendo algo mais ligado a cantoria ou a poesia matuta formal constantes dos folhetos, Leandro Gomes de
que estão muito distantes da escola de Leandro. Se Barros engendrou uma obra que, como escreveu nos
aproximam mais de Pinto do Monteiro e Patativa do próprios versos do folheto O marco brasileiro, foi
Assaré. O seguidor de Leandro não se limita à poesia construída para ser indestrutível: eu edifiquei um marco
descritiva nem comete agressões (conscientemente) às / para ninguém derribar / e se houver um teimoso / que
normas vigentes da gramática. O discípulo de Leandro é venha experimentar / verá que nunca fiz cousa / para
criterioso quanto à forma e utiliza-se prodigiosamente homem desmanchar. Passeando pelas formas fixas
da força da imaginação. Quando recria um tema vigentes, a quase totalidade dos textos de Leandro é
popular, coloca pitadas de humor e procura fugir do construída em estrofes de sextilhas, septilhas, décimas,
lugar comum. Dentre os poetas que encontram-se e os versos são feitos com cinco sílabas ou redondilha
militando nos dias atuais, eu citaria Mestre Azulão, menor, sete sílabas ou redondilha maior, decassílabos.
Manoel Monteiro, Gonçalo Ferreira, Costa Leite, Antonio Este aspecto formal seria apenas um dado técnico se o
Alves e João Firmino Cabral (todos da velha geração). verso deste autor consagrado fosse desprovido de
Da nova safra de poetas, eu destacaria o trabalho dos qualidades poéticas e de vinculações temáticas com a
irmãos Evaristo e Rouxinol do Rinaré, Marco Haurélio, poética tradicional de oralidade, praticada na Idade
Klévisson Viana e outros que sabem trabalhar com a Média, e que ganhou contornos próprios no Nordeste
imaginação e são capazes de produzir um romance de brasileiro, ainda hoje encantando leitores e ouvintes,
32 ou 48 páginas. Desde que me enveredei pelo ramo inclusive pelos assuntos que aborda, de forma singular.
da poesia popular, no final da década de 1970, procurei
assimilar as boas influências de Leandro e outros Dentre as classificações por assunto, Leandro Gomes de
mestres, dentre os quais citaria José Pacheco, Joaquim Barros espalha-se, com argúcia e apuro poético, por
Batista de Senna, Manoel D'Almeida Filho, Delarme entre temas do romanceiro tradicional ibérico; das
Monteiro e José Camelo de Melo, todos já falecidos. novelas de cavalaria e de encantamento,
respectivamente dos ciclos de Carlos Magno e do rei
Leandro ilustrava seus cordéis? Artur; por entre variados temas recorrentes no cordel
português, a exemplo dos testamentos (o clássico
Não há evidências de que Leandro fosse ilustrador ou Testamento de Cancão de Fogo está aí incluído) e de
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xilogravador. Sabe-se que a grande maioria de suas poemas satíricos, picarescos, de crítica social. Leandro é
capas eram as chamadas "capas-cegas", aquelas mordaz no que diz respeito ao casamento, à cobrança
ilustradas apenas com arabescos e vinhetas. Quando se de impostos, às religiões católica e protestante (esta,
tratava de um assunto palpitante como a 1ª Guerra "nova seita", conforme refere nos folhetos). No cordel O
Mundial ou a prisão de Antônio Silvino, ele aproveitava dinheiro, satiriza o poder eclesial, ao narrar a realização
clichês utilizados pelos jornais para ilustrar suas capas. do enterro de um cachorro, com honras de potentado,
em troca de quatro contos de réis. É galhofeiro, cria
Clássico subestimado no cenário da poesia histórias bem-humoradas com a figura da feiticeira, da
Maria Alice Amorim velha, da mulher gastadeira e, sobretudo, da sogra. Faz
folhetos em que combate o alcoolismo, exalta as
Peço às musas que me guiem: escrever sobre Leandro proezas do cangaceiro e "bom bandido" Antônio Silvino,
Gomes de Barros não é tarefa simples. Autor de reinventa romances de princesas e heróis sertanejos.

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mundo perfeito e inatingível. O marco é engendrado


Embora havendo quem repita, desavisadamente, erro sem o arroubo do improviso, com a fluidez de obra
histórico em afirmar que Leandro foi o primeiro a escrita, mas oferece as características de oralidade do
escrever folhetos, na verdade é necessário alertar que discurso malcriado das pelejas, em que o poeta traz
Leandro Gomes de Barros não foi o primeiro poeta para si bravura e grandiosidade, atribuindo covardia e
cordelista brasileiro, mesmo sendo quase inexistentes toda sorte de fragilidades aos inimigos de poesia.
as notícias sobre a obra dos antecessores. Leandro se Embora existam indícios de que os marcos eram
destaca, nesta seara, por ter escrito e publicado, com praticados, já no século 19, por poetas da tradição oral,
regularidade, centenas de títulos e ter obtido o sustento somente conhecemos os marcos impressos a partir de
exclusivamente com a venda dos folhetos editados em João Martins de Athayde (1880-1959), contemporâneo
gráfica própria e pioneira no ramo. Para manter os de Leandro. Entre 1916 e 17, O marco do meio mundo
leitores enovelados nas narrativas, publicava tudo em é o que Athayde escreve e publica, em seguida
partes. Assim, um folheto sempre trazia dois ou mais contestado por Leandro, com o folheto Como derribei o
títulos. Dos enredos seculares tradicionais, como marco do meio mundo. E nesta seara, mais uma vez
aqueles que Câmara Cascudo apresenta em Cinco livros Leandro consolida a fama de grande poeta ao criar, no
do povo, consagrou-se com dois deles: o da donzela ano de 1916 o clássico O marco brasileiro, o primeiro de
Teodora e o da princesa Magalona. Nos gêneros própria autoria, conforme declara na última estrofe: Foi
clássicos da literatura de cordel, Leandro também se sai esse o primeiro marco / que desde que escreve fez / em
muitíssimo bem nas pelejas e nos marcos (matérias vinte e oito de junho / de novecentos e dezesseis / foi
vinculadas). Escolhas temáticas que apontam, inclusive, lembrança de um amigo / a pedido de um freguês.
para a garantia de sucesso editorial, e, o mais (MAA)
importante, apontam para a sensibilidade artística e
apuro técnico do grande poeta. Capítulo ausente na literatura brasileira
Jerusa Pires Ferreira

As pelejas: Embate poético fictício A literatura de folhetos, conhecida como de cordel,


guarda e transmite, entre outros aspectos, a dimensão
Um dos gêneros clássicos da literatura de cordel é o das épica que através dos folhetos do cangaço ou dos ciclos
pelejas, urdidas à maneira dos combates verbais narrativos das histórias de Carlos Magno, por exemplo,
sustentados entre dois repentistas e acompanhados de passa a significar uma dimensão fundadora de nossa
acalorada platéia. Entretanto fabricadas na solidão de cultura. E não apenas a que chamamos de popular.
um gabinete e no mundo interior do quengo do poeta, Nesse conjunto, Leandro Gomes de Barros, um dos
este gênero sempre aproxima, mais e mais, o folheto e nossos maiores poetas, entre aqueles que aí tiveram
a poesia de viola, justamente por inventar, o cordelista, espaço, contribuiu para a organização de um discurso
que dois violeiros se encontram e se desafiam um ao narrativo que confirma a vertente épica que temos e
outro num duelo poético cheio de desaforos e que nem imaginávamos de tamanha importância! Seus
impropérios. As figuras de linguagem e os recursos textos, quer na descrição das batalhas, na recriação dos
estilísticos usados no folheto são semelhantes àqueles combates, na conservação do léxico, no ritmo e
utilizados por violeiros repentistas numa noitada de propriedade narrativa dizem o quanto ele nos ofereceu,
poesia, e o autor da peleja ainda reproduz o ambiente como procurei mostrar em meu estudo Cavalaria em
em que se dá a batalha. É, portanto, imbuído desse Cordel (São Paulo, Hucitec, 1993, 2ª ed.).
espírito de emulação que Leandro Gomes de Barros cria
pelejas alçadas à condição de títulos clássicos, num Um dos mais significativos, A Batalha de Oliveiros com
gênero clássico, escritas por autor consagrado. Duas Ferrabrás, editado muitas vezes, revela a competência,
delas, a Peleja de Riachão com o Diabo e Romano e a potência de um poeta que consegue transitarpor
Inácio da Catingueira, têm sido sucessivamente vários domínios. Mas o impressionante nele é a sua
reeditadas por todo o país e,testemunhando a passagem pelos mais diversos temas, o registro
sofisticação de uma construção poética que Leandro tão paródico que imprime aos seus textos e se contrapõe
bem dominava, lançam mão de recursos lingüísticos de modo dialógico à dimensão épica.
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usados por renomados poetas da Idade Média, como a


impossibilia ou adynata - o mesmo que enumeração de A da mulher sob ataque e defesa, como foi muito
coisas impossíveis. (MAA) comum nas literaturas ibéricas do século 16, ele
compara o corpo da mulher a cofres que guardam
Os marcos: A fortaleza do cordelista armas de destruição, gavetas de ira no peito e coisas
assim. Ao combater, com realismo, os efeitos do dia-a-
Ainda a propósito das confluências de cantoria de viola dia, como se sabe, dirige ao casamento e à sogra seus
e poesia de folhetos, o gênero cordelístico dos marcos declarados petardos, toda a sua ironia.
ancora a linguagem poética num combate imaginário
em que só sai vencedor o construtor de uma fortaleza E tem mais. Acho que ele é o caso do poeta que
imbatível, de um castelo indestrutível e belo, apto a representa esta tensão permanente entre o "real" e o
expurgar o inimigo por meio de palavras geradoras de "ideal", e como no Quixote ou no Tirant lo Blanc de

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Nobreza do Cordel (Continuação)

Joannot Martorell cumpre no conjunto de seus textos a criação, e que tenha o dom de tornar as almas mais
idéia plena de dialogismo. espertas e despertas, quem sabe!

Tudo isto é bem conhecido pelos estudiosos das nossas Editoras mantêm negócio
culturas populares. No entanto, uma questão nos fica.
Não seria importante aqui quebrar as fronteiras de Trabalho árduo, amor à causa e um fluxo de caixa
campos literários rígidos que condenam ao anonimato reduzido fazem parte da realidade dessas empresas
criadores como Leandro? Que tratam tudo como textos Renato L
da tradição e do folclore? A saga dos editores de cordel traz um enredo
semelhante ao de outros ramos da indústria do livro
Não seria a hora de estudiosos, universitários, autores brasileira. Também aqui convivem ombro a ombro
da história da literatura brasileira, incluírem em seus trabalho duro, amor à causa, cobranças de apoio e um
repertórios um poeta dessa grandeza? fluxo de caixa que passa longe - mas bote longe nisso! -
das fortunas acumuladas na mídia eletrônica. Para
Sabemos que no mundo inteiro a questão é medir o "estado de coisas" do setor, a reportagem do
problemática, na medida em que se consideram as Diario conversou com os responsáveis por quatro
"belas letras" distantes de uma literatura considerada editoras-chave do negócio do cordel. A mais tradicional
tosca e produzida por alguém que não pertence aos delas, a Luzeiro, é paulista. As restantes (Coqueiro,
circuitos dominantes, e que está mais diretamente Tupynanquim e Queima-Bucha) são, respectivamente,
ligada às malhas do coletivo, devendo pertencer pernambucana, cearense e potiguar.
portanto a uma espécie de lastro comum. Sem perceber
as relações dinâmicas entre a tradição e o criador
individual. Rígidos cânones foram organizando os A Luzeiro surgiu
sistemas literários. Mas nós brasileiros, que temos uma em 1912 com o
presença tão forte desses registros diversos de criação nome de
poética, avançando por vários territórios nobilitados, Tipografia Souza.
não deveríamos pensar em Leandro Gomes de Barros Na década de 50,
como um poeta pertencente ao nosso conjunto criador? já rebatizada
Incluí-lo em nossas histórias da literatura? Daquelas que como Editora
venham a ser construídas evitando repetir perspectivas Prelúdio, passou a
de omissão?Ao organizar o Dicionário Literário da publicar cordel
Paraíba, tentou a pesquisadora Idelette Muzart Fonseca depois que os
dos Santos criar uma atitude nesta direção, e eu própria donos descobriram o gênero via os migrantes
escrevi um verbete sobre o delicado poeta Natanel de nordestinos que chegavam em massa a São Paulo.
Lima. Mas não se pensa aqui em propor novos cânones, Rebatizada como Editora Luzeiro após uma concordata
ao contrário, abrir a nossa consideração para as mais em 1973, a empresa passou para as mãos dos irmãos
diversas poéticas, em movimento permanente. Nicoló, proprietários de um distribuidora de livros, em
fevereiro de 1995. Hoje, segundo um dos sócios,
Ao que parece, em nosso meio, poucos souberam se Gregório Nicoló, possui cerca de 220 títulos em
posicionar e apenas Manoel Bandeira percebeu com catálogo, com tiragens mínimas de 2.500 exemplares.
clareza esta dimensão, ao dizer que poeta não era Considerada a editora mais tradicional do gênero, luta
(tópico de modéstia) e sim os nossos poetas e para recuperar a posição de destaque de cinqüenta
improvisadores, em sua sonoridade e naquela anos atrás.
matemática da memória que mesura com perfeição e
apuro: Primeiro proprietário a ser contactado pelo Diario,
Gregório Nicoló antecipou as queixas contra a
"Saí dali convencido que não sou poeta não; distribuição de outros colegas. "Eu tentei algo com a
Chinaglia e a Nova Cultural", afirmou ele, "mas os
Que poeta é quem inventa em boa improvisação jornaleiros não conheciam o cordel. Mesmo se
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conhecessem, não íam deixar exposta uma revista de


Como faz Dimas Batista e Otacílio, seu irmão" R$ 12 para vender uma de R$ 2,80. Além do mais, a
revista chega nas mãos deles consignada e a minha,
(Poesias Reunidas Estrela da vida inteira, Rio de não, o cara tem que comprar. Por causa dessa
Janeiro: Livraria José Olympio, 1976). dificuldade, tô entrando hoje com livros. Não vou deixar
de fazer o folheto, nem o de 16, nem o de 32 páginas,
Está por inscrever na história de uma poesia brasileira mas com o livro, boto de 6 a 10 títulos dentro, faço uma
um grande capítulo que possa incluir aquela que capa só e atinjo outro público que não é o do dia-a-
sobressai do conjunto da poesia oral, popular, impressa dia".
em folhetos descartáveis, dita, recitada ou guardada na
memória e que, considerando poetas como Leandro, Gregório Nicoló também divide com os demais editores
tenha a capacidade de abrir-se para outros universos da outra característica: um otimismo inabalável. Segundo

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Nobreza do Cordel (Continuação)

ele, um sinal dos novos tempos está no comportamento basta botar naquele tamanhozinho pra ser considerado
das grandes editoras: "antes, você nunca via um cordel cordel. Só edito o que for aprovado por meu conselho
na íntegra numa publicação das gigantes do mercado. editorial". Vale lembrarque, como suas congêneres, a
Agora, tá diferente, eles pegam os poetas novos ou o Queima-Bucha não vive apenas do cordel. Se a Luzeiro,
que é de domínio público e colocam integralmente", por exemplo, envereda pelos livros místicos, Gustavo
afirma. Esse paulistano da gema não tem, no entanto, a Luz abre espaço para a poesia. Mas o cordel aparece
ligação visceral com os folhetos de cordel dos colegas sempre como o gênero dominante.
nordestinos. Ana Ferraz, por exemplo, da Editora
Coqueiro, é uma sertaneja da cidade de Floresta Dos nossos entrevistados, talvez o que possua a ligação
(Sertão pernambucano) que convive com essa literatura mais visceral com o cordel é o cearense Klévisson
desde a infância. Casada com um dos filhos do Viana. "Hoje o folheto está misturado com meu próprio
jornalista Ivan Maurício, que fundou a empresa em sangue, é o ar que eu respiro. Mas, de uma forma ou
1991, ela está à frente dos negócio há dez anos. de outra, nunca esteve separado da minha vida". Filho
de um agricultor, seu primeiro contato com a literatura
Ana Ferraz não sabe precisar a quantidade exata de se deu através do cordel. Fiquei fascinado tanto pela
títulos que publica mensalmente, mas estima algo poesia quanto pelo desenho." Depois de largar em 1995
próximo aos 100 folhetos diferenciados. Apesar de não o emprego de desenhista em um jornal de Fortaleza,
ter página na internet, a editora recebe um grande fundou a Tupynanquim. A editora mergulhou de cabeça
número de pedidos via e-mail de cidades como Rio de no mundo dos folhetos por volta de 1998. Hoje, seu
Janeiro, Londrina e São Paulo. A maior parte da catálogo traz cifras expressivas: 2 milhões de
clientela, no entanto, éde Pernambuco e da Paraíba. A exemplares publicados, 500 obras e um total de 80
tiragem mínima é de 200 exemplares. Ela só abre uma poetas."No Brasil inteiro", afirma Klévisson, "não tem
exceção: "nessa época do ano", chega muita um catálogo maior do que o nosso em quantidade de
encomenda de convite de casamento, geralmente de títulos. E nós temos, no mínimo, 30 folhetos que já
pessoas das classes A e B que tem um certo beiram a décima edição. São folhetos que vendem
conhecimento do cordel. Quase sempre, os versos são permanentemente. E, curiosamente, noventa por cento
feitos por encomenda para distribuir com os desses títulos são obras novas".
convidados. Aí, pode ser uma tiragem de 50 exemplares
que faço, porque acho importante consolidar esse Para Klévisson Viana, o grande mérito da editora é o
mercado". resgate do romance de cordel. "Nós temos uns 3 mil
poetas em atividade e os que escrevem romances de
A Coqueiro possui no catálogo obras-primas de José cordel não chegam a trinta!. Porque pra escrever
Costa Leite e outros mestres. Suas maiores tiragens, no romance você tem que ter roteiro, desenvolver
entanto, são geradas pelas encomendas personagem e tudo isso dá trabalho. Geralmente, o
governamentais. Nesse caso, os números podem atingir poeta que se dedica ao folhetim de oito páginas não
a casa dos 60 mil exemplares, como na série feita para tem fôlego para encarar 24, 32 ou mesmo 48 páginas.
a Prefeitura de Olinda com 15 folhetos ligados à área da Fica atrelado só ao folhetim de notícia, que, hoje, com a
saúde, ou no recente pedido do governo paraibano de TV, o rádio e a internet disseminados, só se sustenta no
um cordel sobre a transposição do rio São Francisco. caso de um grande acontecimento, como no ataque às
Atualmente, uma das maiores dores de cabeça de Ana Torres Gêmeas". Ele é categórico na hora de afirmar
Ferraz é a pirataria que infesta os principais pontos que "não existe um único clássico da literatura de cordel
turísticos do Recife. "Tem o filho de um poeta que está que não seja um romance"!
xerocando o cordel e,depois, vendendo na Casa da
Cultura, no Mercado de São José e noutros pontos. A Outro mérito da Tupynanquim apontado por Klévisson é
gente fica revoltada porque os folhetos na editora são a preocupação em criar uma rede de distribuição que
baratos, custam 30 centavos, e quem compra não ajuda funcione, também, como rede de poetas, aproximando
só a gente, ajuda o poeta popular. Só quando o dinheiro os mais novos de nomes tradicionais como Mestre
entra é que a gente pode fazer o material do poeta e, a Azulão, Antônio Alves da Silva , João Firmino de Araújo
xerox, os comerciantes não querem comprar". e José Costa Leite. "Essa geração que tem mais de 80
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anos é a herdeira direta da geração de Leandro Gomes


De Pernambuco para o Rio Grande do Norte, sede da de Barros. Quando nós estabelecemos um diálogo com
Queima-Bucha. Lá como cá, as encomendas oficiais eles, estamos bebendo direto da fonte". Editoras como
respondem pelas maiores tiragens. Segundo o a Tupynanquim contribuem, segundo ele, para que o
proprietário, Gustavo Luz, que fundou a editora em público do cordel aumente progressivamente. "Dia
1985, números enormes na casa das 60 mil cópias são desses, eu proferi uma palestra em Sobral para 400
atingidos quando órgãos como a Secretaria de professores. Há alguns anos, esse público seria, no
Tributação Estadual compram folhetos para campanhas máximo, de 30 pessoas. Agora, até cachê a gente
educativas. Com cerca de 15 a 20 títulos mensais e recebe!".
tiragem mínima de 1.000 exemplares, ele demonstra
cuidado na hora de escolher o que publicar: "Cordel Noventa por cento do que a Tupynanquim publica é
tem rima, métrica e oração. Hoje, o sujeito acha que iniciativa da própria editora. "Temos excelentes pontos

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de vendas em Fortaleza e a maior rede de livrarias do Silvino Pirauá de Lima e depois por Leandro Gomes de
estado é grande distribuidora de literatura de cordel". Barros e Francisco das Chagas Batista, segundo
Ele se vê como uma espécie de guerrilheiro cultural, pesquisa do folclorista Luís da Câmara Cascudo. Ficções
pronto para avançar, se o momento é favorável, ou para que exigem criatividade e extenso conhecimento da
se recolher e repensar as estratégias quando o mercado língua portuguesa, além das técnicas refinadas de
enfrenta uma ressaca. Sua luta ajudou a trazer novos métrica e rima. "Leandro de destacava porque tinha um
públicos parao cordel: "tem aquele leitor tradicional, repertório imenso de temas. Era uma mente prodigiosa
que ouvia os versos do cordel antigamente no alpendre e escrevia romances compulsivamente", depõe Costa
da casa de fazenda durante a debulha do feijão e os Leite, que chega a fazer um folheto por dia e até quatro
leitores mais esclarecidos vindos de outros gêneros romances por mês, sendo os últimos Entre o amor e o
literários, incluindo muitos jovens e adolescentes". trono e O assassinato de Manoel Teixeira e a vingança
de seu filho Manoel, prontos para serem rodados. "O
FOLHETOS AJUDAM A DESCOBRIR O MUNDO problema de escrever romance hoje em dia é que o
povo, na feira, não quer comprar. Por terem mais
Dila, J. Borges e José Costa Leite foram iniciados páginas, custam R$ 3, enquanto os folhetos, com até
na leitura por meio dos cordéis, depois se 16 páginas, ficam por R$ 1. Aliás, é um absurdo que
tornaram referência da arte esse preço seja o mesmo há vários anos. Tudo sobe
Aline Feitosa nessa vida, menos o preço do folheto de cordel",
lastima ele e emenda que, infelizmente, não há
Dila, J. Borges e José Costa Leite. Três cordelistas valorização para sua arte. "O poeta popular é o
contemporâneos em histórias de vida que convergem professor do povo, daqueles que não podem ir à escola,
num ponto. Todos aprenderam a ler depois dos oito dos analfabetos. E isso não é reconhecido", reclama.
anos e por um único motivo: desbravar as histórias em
versos dos folhetos de cordel. Sem acesso à escola, Verdade ou ficção?
freqüentavam as feiras onde os poetas vendiam suas
obras. A poesia chegava primeiro pelos ouvidos, em Conversar com Dila é como entrar num universo
recitais ou cantorias de viola - seguindo a origem dessa fantástico. Por mais que se preste atenção, é difícil
literatura popular. O universo misterioso dos contos discernir a realidade das criações que saem da mente
atraía a curiosidade para os olhos. "Ia soletrando do artista. Envolvido na literatura de cordel desde os 12
devagar, juntando consoante com vogal, e quando via anos, quando compôs as primeiras linhas, Dila conta
já estava lendo um verso inteiro", conta J. Borges sobre sua história como se fosse o personagem das tramas
sua iniciação à leitura, idêntica à metodologia utilizada surreais que inventa. Aliás, seus cordéis são recitados
por Dila e Costa Leite na infância. "Só depois das com tanta convicção, que pode ficar indelicado não crer
primeiras palavras lidas, é que fui para escola", diz o no que ele diz. Já na pergunta básica de uma
mestre de Bezerros sobre um tempo que não durou entrevista, quando se quer saber sobre sua infância, ele
muito, afinal era melhor vender folhetos de escritores toma ar para contar a história de seu "pai". No folheto
conhecidos para ajudar na renda da família. Felipe e Beleza, onde usa o heterônimo Dila Felipe
Sabóia Sabád Sabaó Sabé, seu genitor nasceu na
Na verdade, há Holanda e chegou em Caicó, Rio Grande do Norte, aos
mais cruzamentos sete anos de idade. Teve 130 filhos e 127 filhas de 63
no caminho mulheres e morreu aos 115 anos sem nenhum cabelo
dostrês do que branco na cabeça. Dila tira a vista do folheto e emenda
eles imaginam. contos sobre o cangaço (tema de sua maior produção)
São todos de e jura de pés juntos que foi seu pai quem matou o
família humilde do verdadeiro Adolf Hitler, que tinha dois sósias. Virgulino
Nordeste Ferreira, o Lampião, aliás, é parente próximo, quando
brasileiro. José ele não comenta, quase que cochichando ao pé do
Francisco Borges ouvido, que ele é o próprio, sobrevivente que conseguiu
(J. Borges), 73 anos, é de Bezerros, agreste enganar a todos.
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pernambucano; José Soares da Silva (Dila), 71 anos,


nasceu em Bom Jardim, também no Agreste do estado; Dinheiro é bom
e Costa Leite, 80, é natural do município paraibano de
Sapé. Cada um também recebeu o título do governo de Se vender matrizes de xilogravuras e originais de
Pernambuco de Patrimônio Vivo e contam mensalmente folhetos a preço de banana é uma das características
uma aposentadoria vitalícia de R$ 750. Para eles, restou freqüentes no universo mercadológico dos cordelistas, o
também uma tradição que cada vez mais se perde na hábito não cabe a José Costa Leite. Paraibano, mas
rotina dos cordelistas atuais. Eles fazem parte de um morador de Condado, município da Zona da Mata Norte
grupo seleto de resistentes que permanecem a escrever de Pernambuco, esse senhor sabe bem o valor de seu
romances em folhetos, ou seja, produzem histórias com trabalho. Tudo bem que ele se queixe de não ter
versos que chegam a 32 ou 48 páginas. Os romances conseguido se mostrar ao mundo "como J. Borges fez",
em folhetos foram introduzidos no Brasil pelo cantador mas não deixa um visitante entrar em sua casa sem que

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consuma pelo menos alguns folhetos e uma xilogravura. picarescas e histórias sociais. Até hoje é referência para
Na poesia, Costa Leite exibe intimidade com a língua populares e eruditos. "Há pouco tempo encontrei um
portuguesa, apesar de jamais ter pisado na escola. Há informante que recitou um poema completo de Leandro
quase cinco décadas, publica anualmente mais de 400 no Sertão do Pajeú", conta o folclorista Roberto
folhetos e um almanaque popular, como dicas para Benjamim. Considerado o primeiro a publicar e editar
entrada do ano. Lá, o leitor encontra variedade de seus versos, o artista teve um percurso curioso na
assuntos: previsões para os signos do zodíaco, historiografia literária brasileira; pois, embora
calendário de eclipses, orações contra os inimigos, reconhecido entre os intelectuais, não alcançou êxito
previsão do tempo, fases da lua, bons dias para que o tornasse expressivo nesse meio.
plantações, flora medicinal e ainda uma auto-
apresentação que relaciona a própria vida com o Saudado por
número sete. "Nasci em 27/07/1927, na Paraíba (estado poetas como
que tem sete letras). O nome José Costa Leite tem 14 Carlos Drummond
letras, que é duas vezes sete. O número do chapéu é de Andrade (que o
57 e o número da casa onde moro é 223, que na considerava o
numerologia dá sete#" E por aí vai. príncipe dos
poetas) e por
O mais popular pesquisadores
como Câmara
Sem dúvidas, José Francisco Borges é o mais popular Cascudo, Leandro
dos xilogravuristas de Pernambuco. Mas a fama é Ariano se inspirou nos folhetos O Gomes de Barros
resultado de uma trajetória que tem início nas letras, enterro do cachorro, O cavalo que antecipa uma
nos versos da literatura de cordel. "Ouvia na boca da defecava dinheiro e O castigo da discussão cada vez
noite as histórias que meu pai lia. Gostava das coisas de soberba para compor a mais atual: a
Leandro, José Camelo de Melo e Silvino Piramar. Mas o Compadecida, mas lembra que relação delicada
folheto que marcou foi Peleja de Zé Pretinho e o cego essas histórias circulam desde o que a cultura
Aderaldo, de Firmino Teixeira do Amaral. E assim, século 5. Foto: Otavio de Souza /
erudita vai manter
DP - 3/2/2005/D.A Press
enquanto vendia folhetos dos outros na feira, ia com a
aprendendo a ler e escrever. Depois freqüentei aos 12 cultura popular na trajetória de reconhecimento desta
anos uma escola num sítio de Bezerros" conta ele, que pela política oficial. O jornalista Ivan Maurício, autor de
só depois dos 20 anos começou a arriscar as primeiras Arte popular e dominação (1978), escrito em parceria
rimas. Em 1964, publicou seu primeiro folheto, O com Ricardo Almeida e Marcos Cirano, analisa a
encontro de dois vaqueiros, ilustrado pelo mestre Dila, apropriação da cultura popular pelas elites nacionais
com originais "perdidos em qualquer gaveta". "Vendi como garantia de prestígio social. "É uma relação de
tudo, num instante", lembra ele, que partiu para o classe. As elites acreditam que as obras não têm dono
segundo, O verdadeiro aviso de Frei Damião, já com porque são populares. É assim que se encara o povo no
ilustração própria e que teve, segundo ele, mais de 40 Brasil. A cultura popular vira trampolim para o prestígio
mil exemplares vendidos em menos de um mês. "A político", afirma Ivan, ressaltando que o contexto
partir daídeslanchei e não parei mais de escrever. Mas, histórico de meados do século 20, época de maior
devo confessar que a xilogravura toma mais meu difusão do gênero, não permitia que o artista fosse
tempo". O legado cultural que construiu foi repassado reconhecido publicamente. Produzida e divulgada em
aos filhos, assim como sua antiga oficina, em Bezerros. núcleos e comunidades tradicionais, a cultura popular
Agora, vive no Memorial J. Borges, também em sua não tem, em contraponto àquela desenvolvida pelos
cidade natal. meios de comunicação de massa ou por meio de uma
linguagem erudita, uma pretensão de ser tão expansiva
CORDEL TRAVA RELAÇÃO DELICADA COM A ou universal. No entanto, sua representatividade
CULTURA ERUDITA constitui um dos elementos mais significativos da
identidade nacional; sendo disputada, portanto, pelos
Noção de autoria cerca tanto a obra de que se alternam no poder e possuem as devidas
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cordelistas, como Leandro Gomes de Barros, condições para a "retirada" dessas manifestações de
quanto a de quem foi influenciado por ela; mas sua origem e levá-las ao conhecimento massivo.
isso gera uma polêmica sobre a trajetória de
reconhecimento pela política cultural oficial O interessante na discussão da apropriação da arte de
Carolina Leão Leandro por um artista erudito é a própria noção de
autoria que cerca tanto a sua obra quanto a de quem
Rei entre os poetas populares, Leandro Gomes de fora influenciado por ela. Ariano Suassuna, por
Barros gozou da fama e do reconhecimento entre os exemplo, reproduziu um verso do folheto O enterro do
seus pares enquanto viveu seus bem aproveitados 53 cachorro, na peça O auto da compadecida (1950).
anos. Ao contrário de autores que sequer foram Suassuna, que o tem decorado na ponta da língua e
lembrados em vida, o paraibano fez fama com sua recita com maestria, conheceu a obra de Leandro
versatilidade: escreveu pelejas, romances, comédias através dos escritos do pesquisador cearense Leonardo

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Mota, presença na biblioteca do seu pai. O escritor


lembra que contos como O cavalo que defecava
dinheiro se reproduziam oralmente por meio das
contações feitas por gerações. "A primeira versão dessa
história data do século V: Asno de ouro, de Lucius
Apuleio, que antecede a novela picaresca", comenta. A
professora de literatura da UFPE Luzilá Gonçalves,
também relembra que autores como Molière
interpretaram e se inspiraram em obras populares,
compondo, no entanto, um outro texto - original e
autêntico. "A idéia está no ar. Ariano fez uma obra-
prima com o Auto da Compadecida. Leandro com
certeza não ficaria triste", defende. Ariano foi além da
referência estética. Quando Secretario de Cultura do
Governo Arraes, em 1998, o escritor criou o Prêmio
Leandro Gomes de Barros, que incentiva a edição de
cordéis já publicados e fomentava a criação de
novidades do gênero.

O próprio Leandro, aliás, sofreu com a questão da


autoria. Caracterizada pela produção tradicional, criada
pelo imaginário e inconsciente coletivo, a literatura
popular é marcada pelas múltiplas vozes de seu texto.
Tal heterogeneidade aponta para a definição de autor.
Quem, afinal, assina essas narrativas? Segundo Roberto
Benjamim, ele criou versos em cima de histórias
clássicas e tradicionais. No auge da sua mocidade, era
moda a literatura de escritores como Alexandre Dumas,
que exerciam influência nos escritospopulares. "No
cordel, há uma certa quantidade de poesias que são
recriação. Há essa interpenetração", coloca o folclorista.
"A cultura é dinâmica. Ela permite a recriação. Leandro
incorporava o cinema, histórias antigas. Ele reescreveu
na linguagem popular um clássico da linguagem
universal, As mil e uma noites", lembra Ivan. O
jornalista destaca que o maior problema, porém, foi
quando o também poeta João Martins Athayde comprou
os títulos de Leandro e colocou seu nome nas obras.
"Leandro foi um poeta autêntico. Os livros dele tinham
uma dimensão imensa. Mas quem ganhou mais dinheiro
foi João Martins, com a obra dele", explica Ivan.

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