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CLASTRES, Pierre. A Sociedade Contra o Estado. In____CLASTRES, Pierre.

A
Sociedade Contra o Estado: Investigações de antropologia política. Porto:
Afrontamento, 1975. p. [183-211].

Bárbara Gabriela Santos Oliveira 1

No presente capítulo Pierre Clastres discorre acerca da tendência eurocêntrica


em categorizar sociedades que não possuem um modelo político centrado no Estado
como sociedades arcaicas e primitivas, e ainda, que tal ausência do Estado torna-as
sociedades incompletas. A fim de desmistificar tal máxima e de demonstrar que as
sociedades não seguem um etapismo histórico e linear que as conduzirá a um estágio de
civilização cuja presenta do Estado tem uma importância fundante, o autor expõe
elementos de sociedades indígenas no intuito de responder a esse evolucionismo
eurocêntrico, e mais, demostra em algumas de suas explanações que determinadas
sociedades se afastam e se reconfiguram frente a insurgências de centralizações de
poder, o que atesta que não existe por parte dessas sociedades a carência de um Estado.

A concepção de que sociedades primitivas vivem em uma economia de


subsistência é tratada pelo autor como um elemento de fragilidade causado pela
ausência de um poder politico centralizado, tal noção é elucidada e Clastres revela que
determinadas sociedades primitivas possuem outra relação com o trabalho, relação essa
que não se atrela ao acumulo ou produção de excedentes, e que as considerações
evolucionistas de que esses povos são miseráveis é errônea, visto que produzem em um
período curto de tempo o suficiente para viver bem e ainda gozar de uma vida em
comunidade, e é nesse movimento que se baseia a ideia de que os selvagens são povos
preguiçosos. Isso demostra a ausência do trabalho alienado, consequência de um
modelo político centrado no Estado, onde relação de dominantes e dominados permeia
os modos de produção e sociabilidade. Essas sociedades primitivas são estruturalmente
igualitárias e não possuem no seu interior relações de poder e hierarquias, que segundo
o antropólogo, são instrumentos de dominação que tem sua figura no Estado já que é
esse quem detêm o uso das forças necessária capazes de impor a submissão de
dominados aos dominantes.

1
Graduanda em Ciências Sociais – Resenha como complemento avaliativo da disciplina Antropologia:
Desafios Contemporâneos. Turma A.

1
Não há poder centralizado nas sociedades primitivas, a figura do chefe da tribo
não carrega em si qualquer autoridade, ele é regido pela vontade de todo o grupo e sua
chefia se baseia em prestígios oriundos das guerras que travou e em sua capacidade
oratória, capacidade essa que o chefe utiliza para apaziguar os conflitos que possam
surgir no interior da tribo. Suas contribuições e interesses não podem ser regidos por
questões pessoais, é a vontade do grupo que prevalece, e quando há um desvio dessa
premissa o chefe é “destituído” e desacreditado da sua função e tal vontade de poder
pode acarretar em sua morte.

A demografia é um elemento que foge do controle das sociedades primitivas, as


fragmentações, alianças e extensões dos grupos proporciona o impedimento da
emergência de um poder político, no entanto o aumento demográfico das tribos torna a
atenção em não permitir um elemento unificador como o Estado difícil de manter, então
quanto menor o grupo, mais igualitária será a sociedade.

Na conclusão do capítulo, Clastres no intuito de ilustrar a resistência dos povos


primitivos frente a insurgência de um poder estatal trás o exemplo dos tupi-guarani, que
ao ver rebelar entre os seus chefes a constituição e imposição de um poder político,
partem em uma peregrinação religiosa guiada por “profetas”, que assim como os chefes,
possuíam o dom da fala, rumo a uma terra dotada de uma felicidade divina (terra sem
mal), e almejando por outro lado a destruição da sociedade atual e suas normas (terra
maldita). Os tupis guarani viam que a fonte do nascimento do mal e da infelicidade é o
“uno”, elemento místico que o autor sabiamente usa como metáfora metafisica para se
referir ao surgimento do Estado.