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Capítulo 1

NOÇÕES BÁSICAS DE CRISTOLOGIA

1.1 NOÇÕES PRELIMINARES

Abre-se o presente curso de Teologia com um estudo elementar de


“Cristologia”. A partir da etimologia, é possível depreender que a referida disciplina
teológica seja o estudo ou o discurso (lógos) sobre Jesus Cristo. Na verdade, trata-se do
tratado central da Teologia cristã1, pois Jesus Cristo é o revelador do Pai e do Espírito
Santo, redentor da humanidade e modelo para o qual todos os homens são convidados a
tender.
Etimologicamente, o nome “Jesus”, que significa “Javé Salva”. Trata-se de
uma adaptação para o português de um nome hebraico que aparece na Bíblia em duas
formas: Yehoshua e Yeshua. No caso, Yeshua é uma forma abreviada do nome
Yehoshua. Nas línguas europeias, o nome “Jesus” deriva do grego Iesous.2
Atualmente, sob o ponto de vista histórico, pode-se dizer tranquilamente
que Jesus foi um judeu do século I. Porém, chamá-lo de “Cristo” é um pouco mais
delicado, pois, nem todos podem ou querem dizer que Jesus é o Cristo.3 Na verdade,
essa afirmação traz no seu bojo o núcleo mais íntimo da fé cristã, ou seja, aquilo que,
desde o tempo dos apóstolos, a Igreja tem proclamado.
No dia de Pentecostes, quando Pedro se levantou com os onze para dirigir
aos judeus a mensagem considerada como a primeira pregação cristã, o ponto alto de
suas palavras foi: “Que toda a casa de Israel saiba com certeza: a esse Jesus que vós
crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2,36). Dessa forma, nasceu a confissão de
fé “Jesus é o Cristo” que só mais tarde evoluiria, semanticamente, para o nome
composto “Jesus Cristo”. Parte-se de uma confissão de fé da Igreja Primitiva que
consiste em atribuir ao homem Jesus um título particular emprestado à terminologia do

1
Por conseguinte, a teologia cristã há de ser essencialmente cristocêntrica. Não que a cristologia esgote
toda a teologia, mas oferece a ela a necessária chave interpretativa, funcionando assim como princípio
hermenêutico de todo o edifício. Protologia e escatologia, antropologia e teologia, eclesiologia e
sacramentologia, são diferentes partes de uma construção teológica que busca sua unidade e
coerência, seu sentido e sua chave hermenêutica na pessoa e no acontecimento de Jesus Cristo que a
centraliza [DUPUIS, Jacques. Introdução à Cristologia. São Paulo: Loyola, 1999, p. 9].
2
Cf. PAGOLA, José Antônio. Jesus: aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2010, p. 29.
3
Cf. LOEWE, William P. Introdução à Cristologia. São Paulo: Paulus, 2000, p. 7.
Antigo Testamento: Masiah – termo traduzido para o grego Chistós – que em português
significa “ungido”. Assim, a Igreja apostólica reconheceu e anunciou Jesus como
salvador universal.4
Portanto, chamar Jesus de Cristo, para os cristãos, significa dizer que ele é
muito mais do que o fundador de sua religião. Significa aceitar aquilo que o anjo
anunciou aos pastores sobre o seu nascimento: “nasceu-vos hoje um Salvador, que é
Cristo-Senhor, na cidade de Davi” (Lc 2,11). Significa também aderir à profissão de fé
que Jesus havia aceitado de Pedro: “Tu és o Cristo” (Mc 8,29) ou “Tu és o Cristo, o
Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Simão Pedro, além de chamar Jesus de “Cristo”,
chama-o também “Senhor” e o “Filho de Deus”.
Note-se que ao lado do título “Cristo”, mais dois títulos aparecem e ajudam
a entender o núcleo central da fé cristológica. Evidenciam claramente o lugar central
que essa confissão ocupou, desde o início, na fé da Igreja cristã. 5 O Catecismo da Igreja
Católica explica o sentido deles ao tratar da Profissão de fé cristã:

Filho de Deus, no Antigo Testamento, é um título dado aos anjos, ao


povo da Eleição, aos filhos de Israel e a seus reis. Significa então uma
filiação adotiva que estabelece entre Deus e sua criatura relações de
uma intimidade especial. Quando o Rei-Messias prometido é chamado
“filho de Deus” isso não implica necessariamente, segundo o sentido
literal desses textos, que ele ultrapasse o nível humano. Os que
designaram Jesus como Messias de Israel talvez não tenham tido a
intenção de dizer mais do que isto. Não acontece o mesmo com Pedro,
quando confessa Jesus como “o Cristo, o Filho do Deus vivo”, pois
este lhe responde com solenidade: “Não foi a carne e o sangue que te
revelaram isso, e sim meu Pai que está nos Céus” (Mt 16,17).6
Se Pedro pôde reconhecer o caráter transcendente da filiação divina de
Jesus Messias foi porque este o deu a entender claramente. Diante do
Sinédrio, à pergunta de seus acusadores: “Tu és o Filho de Deus?”,
Jesus respondeu: “Vós dizeis que eu sou” (Lc 22,70). Já bem antes,
Ele se designara como “o Filho” conhece o Pai e que é diferente dos
“servos” que Deus enviou anteriormente a seu povo, superior aos
próprios anjos. Distinguiu sua filiação daquela de seus discípulos, não
dizendo nunca “nosso Pai”, a não ser para ordenar-lhes: “Portanto,
orai desta maneira: Pai Nosso” (Mt 6,9); e sublinhou este distinção:
“Meu Pai e vosso Pai” (Jo 20,17).7

E ainda:

4
Cf. DUPUIS, J. Introdução, op. cit., p. 8-9.
5
Cf. IDEM. Ibidem, p. 8.
6
Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000, p. 125, n. 441.
7
Ibidem, p. 125, n. 443
Na versão grega dos livros do Antigo Testamento, o nome inefável
com o qual Deus se revelou a Moisés, Iahweh, é traduzido por
“Kyrios” [“Senhor”]. Senhor torna-se desde então o nome mais
habitual para designar a própria divindade do Deus de Israel. É neste
sentido forte que o Novo Testamento utiliza o título de “Senhor” para
o Pai, e também – e aí está a novidade – para Jesus reconhecido assim
como o próprio Deus. Jesus mesmo atribui-se de maneira velada este
título quando discute com os fariseus sobre o sentido do Salmo 110
(cf. Mt 22,41-46), mas também de modo explícito dirigindo-se a seus
apóstolos (cf. Jo 13,13). Ao longo de toda a sua vida pública, seus
gestos de domínio sobre a natureza, sobre as doenças, sobre os
demônios, sobre a morte e o pecado demonstravam sua soberania
divina.8

Portanto, a fé cristã, desde a Igreja Apostólica, reconhece a Jesus como


Cristo, como o Filho de Deus encarnado para a salvação da humanidade: “Ele se fez
verdadeiramente homem permanecendo verdadeiro Deus. Jesus Cristo é verdadeiro
Deus e verdadeiro homem”.9

8
Ibidem, n. 446-447.
9
Ibidem, n. 464.