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Relato etnográfico sobre os “alunos

vendedores” no ambiente comum da


Universidade Federal de Sergipe
Alana Santos de Andrade
Davi Santos Dethling de Carvalho
Gabryella Melo Silveira
Janice da Silva Soares
Laisa Ribeiro Trindade Almeida
Vitória Maria Cruz Carvalho de Jesus

Introdução
A Universidade Federal de Sergipe constitui um importante ambiente nas
relações dos alunos que a frequentam, em especial aqueles que passam a maior
parte do dia no campus e aqueles que encontram, dentro da universidade, o seu
meio de sustento ou complemento para o mesmo, sendo, estes últimos, o foco
do presente relatório etnográfico. Vale salientar que, até o presente momento,
não se proíbe o comércio de qualquer tipo no interior do campus.
Sendo assim, faz-se a seguinte pergunta:
De que forma o ato comunicacional da venda pode ser, em grande medida,
forjado pelo contexto em que ela se dá, pela especificidade do que é vendido e
pela anuência ambiental dada ao vendedor?

Biblioteca Central
Neste tópico, deslocaremos os nossos olhares para a Biblioteca Central da
Universidade Federal de Sergipe, popularmente conhecida pelos alunos como
Bicen.
Ao contrário do que voga na maior parte das dependências universitárias, existe
uma vedação à comercialização na biblioteca, o que se justifica com o caráter
especial que um ambiente de estudo e leitura requer. As idiossincrasias da Bicen
impingem a seus usuários outras vedações mais, também explicitamente
justificáveis, como as feitas ao uso de equipamentos de som estéreo e ao
consumo de alimentos e bebidas.
É diante e de encontro a tudo isso que atua, diariamente, um dos nossos
estudantes em análise: um aluno vendedor que, não bastasse esta condição, a
exerce em um ambiente completamente avesso à venda.
Especificamente, a observação de sua atuação – por parte de um dos discentes
– vem sendo feita muito antes da sugestão deste trabalho etnográfico pelo
docente. Sua presença foi notada, e, pelos mesmos motivos que foi escolhida
para a realização desta análise, ainda em tardes não etnográficas de estudo na
biblioteca.
É importante perceber que duas informações estão, até aqui, omitidas: de quem
trata este texto e qual o objeto de sua venda. A primeira das perguntas não
poderá ser respondida nominalmente, e esta condição foi imposta pelo próprio,
quando da primeira aproximação, para que pudesse ser feito um
acompanhamento das vendas e posterior entrevista. No entanto, é possível
descrever o vendedor em questão enquanto o estudante que é.
O homem de 28 anos cursa administração há dois, e faz das vendas na biblioteca
seu meio de sustento, segundo ele próprio, há oito meses. Sobre o objeto da
venda do futuro bacharel em administração há algo muito notável, que extrema
a relação da ilicitude do vendedor com o ambiente onde a venda se processa:
ele vende trufas. Feitas por ele mesmo, afirmou, e acomodadas no pequeno
isopor em que as oferece ao seu público, ou seja, usuários da Biblioteca Central.
Aqui é preciso notar o porquê de, dentre tantos, especificamente este aluno
representar o que foi possível encontrar de mais notável no comércio entre
alunos da universidade. Sem hesitar, ele se contrapõe a toda uma estrutura de
repulsão que venda duplamente a sua prática comercial, antes por ser um
comércio, em si, e ainda por ser um comércio de alimentos, dos quais se proíbe
o consumo no ambiente em questão. Por que alguém escolheria impor-se tais
dificuldades para a consecução de algo já difícil como vender? Como esse
contexto de repulsão influi e remodela uma prática tão antiga como a
negociação, o convencimento e a venda? Foi o que tentou-se descobrir através
de um acompanhamento por duas tardes seguidas em jornadas de vendas – nos
dias 29 e 30 de agosto de 2018 – com uma entrevista realizada ao final da
segunda tarde.
O primeiro contato com o aluno se deu ainda uma semana antes da primeira
tarde de vendas e observação, quando, já com a ideia de utilizá-lo como fonte
do presente escrito, o discente observador se dirigiu a ele numa das
oportunidades em que ofereceu seu produto. Na ocasião, o discente expôs suas
intenções, às quais ele respondeu com solicitude, pedindo apenas o anonimato
em troca da possibilidade de observá-lo em ação. Um pedido simples mas que,
no entanto, enlaçou-se completamente em sua realidade, que, se não é a de um
vendedor fora da lei, é de, ao menos, um vendedor irregular.
Aceitos os seus humildes e significativos termos, tentou-se marcar para tão logo
fosse possível o primeiro encontro de observação, interesse que não pôde ser
satisfeito por um motivo, mais uma vez, importante para o que trata este texto.
Ele não venderia nos dias imediatamente próximos pelos mais estudantis
motivos: teria provas. Sem mais possibilidades e exercendo a alteridade a que
condição de também aluno obrigada o discente, marcou-se para a segunda
metade da semana seguinte, quando lhe seria possível voltar às vendas.
Finalmente, foi possível vê-lo em ação na quarta-feira da semana que se seguiu
ao primeiro contato. Não pela primeira vez, mas pela primeira vez enquanto
contato etnográfico. Ele parecia nervoso com a presença próxima do observador
nas primeiras abordagens, e tudo o que era desejado nesta observação era
retratá-lo fidedignamente, sem que qualquer afetação comprometesse a forma
como ele, cliente e ambiente interagiam. Assim, uma vez que já tinha material
das vezes em que fora abordado como cliente, o discente observador afastou-
se, e centrou sua observação na macro relação supracitada. Estando então à
distância, pôde-se perceber idiossincrasias em sua forma de abordagem que
perfizeram impressões trazidas ainda do olhar cru de clientela com que o havia
visto nas primeiras vezes.
O discente lembrou-se claramente de pensar consigo em como era
cumprimentado, e como o produto era oferecido e descrito, e também o
agradecimento pela atenção quase sem respirar, num único tiro de fala, quase
ininterrupto. Rindo de sua velocidade idiopática enquanto cliente, percebeu-a
como sintoma da ambiência enquanto etnógrafo. Afinal, não é de se esperar uma
fala pausada de quem vende alimentos cercado por cartazes proibindo
justamente sua venda e consumo.
Também foi possível perceber sua predileção por mesas cheias – com mais de
quatro pessoas – o que pareceu se relacionar à tentativa de economizar falas
descritivas, abordagens e listagem de sabores, otimizando o rendimento. Ainda
como tendência de oferta, quase nunca as fazia em mesas plenas de homens
ou nas quais houvesse apenas uma mulher em meio a vários homens. Divagou-
se sobre os motivos desta última tendência, mas isto pode ser explicado com
suas próprias palavras na entrevista final. Encerrou-se o dia com um saldo bom
de vendas, que ele aludiu à sua ausência nos dias anteriores. Tal fator trouxe-
nos resposta, enfim, à questão sobre o porquê de enfrentar todos os impeditivos
que a biblioteca oferta como espaço de venda: exclusividade. Como o espaço
repele vendedores, ele reina sozinho no nicho das trufas direcionadas a leitores.
Um verdadeiro monopólio da coragem e astúcia.
Na quinta-feira, dia seguinte, começou-se os trabalhos – ele, de venda, e o
discente etnógrafo, de observação – mais tarde, por imposição da grade de
horários da face estudante do vendedor em questão. Mas, tão logo ele se pôs a
vender, notou-se uma iteração de sua passagem pelas cabines de estudo e
pelos cantos da biblioteca, rechaçando o meio dos pisos – são dois andares –
ainda que estivessem povoados por mesas que se encaixassem no seu aparente
arquétipo de abordagem, repletas e femininas. Era aparente nesta tendência
uma tentativa de esconder a si mesmo e ao ato da venda de qualquer olhar
administrativo vinculado às normas da biblioteca. Essa era uma outra impressão
a se confirmar na entrevista de logo mais.
A essa altura já era possível saber o motivo de o aluno-vendedor utilizar um
casaco grosso carregado de bolsos, mesmo no calor do andar superior da
biblioteca. A oferta de locais onde pudesse pôr moedas e notas de valores
diferentes, somada à agilidade adquirida em oito meses de contravenção
bibliotecária, lhe otimizava o tempo e o expunha a riscos menores. Muito mais à
vontade do que no começo de toda a observação e mais uma vez feliz com as
vendas, ele se dirigiu ao observador com o aval para que se desse início à
entrevista, e assim foi feito.
Antes, entretanto, pediu-se permissão para que a transcrição de suas respostas
fosse literal, uma vez que já havia sido utilizada bastante licença analítica em
todo o material de observação, e seria mais interessante que a entrevista fosse
a expressão mais pura possível de sua posição e visão a respeito dos próprios
feitos. Ele concordou, reiterando a necessidade de que sua identidade fosse
preservada. Começou-se, então, com as perguntas que já haviam sido
preparadas pelo observador.
Antes de mais nada, o que a venda representa, hoje, para o seu estudo?
Resposta: “Indiretamente muito. Eu não faço mais nada que dê renda fora isso
aqui, as trufas, então sem vender eu não colocaria nada em casa. Seria
sustentado. Se fosse assim eu parava o curso e ia trabalhar [...]. Por isso vender
trufa me mantém estudando".
Por que especificamente a BICEN?
Resposta: " Comecei vendendo fora daqui, na sala, nos corredores e na fila do
resun. Vendi a primeira vez aqui por coincidência, estava aqui estudando e
ofereci sem compromisso ao pessoal da mesa do lado. Compraram 5 trufas. Daí
tirei a ideia de vender aqui. Porque não tem ninguém vendendo até por não
poder, né?! Daí em diante vendo só aqui”.
Como você lida com isso, com o fato de a venda e do consumo de alimentos
aqui ser proibida pela direção da biblioteca?
Resposta: "Rapaz, sendo sincero, eu acho bom. Se não fosse isso teria mais
gente vendendo. Nunca vi um papel de trufa minha no chão, o pessoal é educado
[...]. Tento não atrapalhar o estudo das pessoas, falo baixo e rapidinho até pra
isso mesmo. Não acho que faço mal a ninguém com a venda não, então não me
sinto mal”.
De longe, tive a impressão de que você prefere mesas com meninas. Isso
procede? Se sim, qual seria o motivo?
Resposta: (Entre risos) "Mulher compra mais, pow... Pode ver que é difícil vender
pra homem sem mulher perto. Eles compram quando elas compram ou pra dar
pra elas, mas sozinhos é mais difícil. Antes eu oferecia igual mas percebi que
não vale a pena ...".
Você encontra colegas de curso enquanto vende? Qual a reação deles? A sua?
É desconfortável?
Resposta: "Encontro pouco porque sou irregular, e não vendo aqui no horário
deles. Mas quando encontro é bom, que eles gostam de comprar. Compram até
fora daqui, quando nem estou para venda, porque já sabem que vendo”.
Então formulou-se ainda duas questões no momento, baseadas no último dia de
vendas,
Outra impressão minha, além daquela sobre as meninas, foi a de que você
prefere os lados da biblioteca, os cantos, além das cabines. Isso ocorre? Por
quê?
Resposta: "Vou muito nas cabines porque ofereço mais alto, com mais calma,
as pessoas ficam mais à vontade pra pegar e pagar também. Percebo isso. Daí
sempre tô indo nelas. Isso dos cantos eu não faço não (risos) deve ter sido
impressão sua [...] mas as cabines é isso”.
Até quando você pretende vender trufas?
Resposta: "Talvez eu dê uma pausa porque está muito corrido vindo todo dia.
Acho que vou passar a vender dia sim dia não, mas parar totalmente não dá
como te disse é o sustento. Talvez se conseguir uma bolsa ou estágio, mas por
enquanto é o que dá pra fazer.”

Com as respostas, o discente observador despediu-se e agradeceu a


disponibilidade, com o material do presente texto em mãos e certo de que o olhar
etnográfico possibilita ângulos impossíveis ao observador comum. Pôr-se no ato
do outro, tanto quanto possível, permite muito mais que vê-lo melhor, mas
também ver a si próprio enquanto observador prejudicado pelo prejulgamento e
pela preconcepção. Enquanto possível cliente, jamais houve suspeitas por parte
do discente de influências e condicionantes que rodeavam o assédio daquele
colega nas tardes de biblioteca. A partir de então, nunca outra vez uma trufa terá
o mesmo sabor. Afinal, há tanto por se escolher e observar entre as de castanha,
café, ninho com Nescau, morango, doce de leite, prestígio e brigadeiro.

Praça da Democracia
Para o desenvolvimento deste tópico, escolheu-se uma jovem discente que
chamou atenção pela simplicidade na hora de oferecer o seu produto, e assim
observou-se a mesma durante quase que uma semana inteira. Ela vende a mais
ou menos dois anos, e demonstra uma grande facilidade em interagir e
conquistar seus clientes. Em uma breve conversa com ela, explicou-se de que
se tratava a observação e relatou-se que seria interessante fazer algumas
perguntas. A mesma, por sua vez, não se opôs em permitir ser observada e
indagada.
Diante disso, teve início a observação, um pouco de longe na Praça da
Democracia, local onde ela revelou ser o melhor para fazer as suas vendas, por
se tratar de um lugar a céu aberto, o qual as pessoas estão em contato com o
ar, com as plantas e, assim, tendem a estar com a alma em paz, como dito pela
jovem. Sendo assim, pôde-se perceber que em momento algum ela se
incomodou com o fato de saber que alguém a observava – pelo contrário,
continuou agindo normalmente como há havia sido possível notar que agia em
outros dias.
Entre observações realizadas a cada dia, foram-lhe sendo feitas algumas
perguntas, e a aluna, sempre muito espontânea, contou sobre sua vida e como
chegara até ali. Com isso, a partir deste parágrafo, o tópico será conduzido em
cima das perguntas que foram feitas e suas respectivas respostas.
M. tem vinte e um anos e cursa o quinto período de Matemática na Universidade
Federal de Sergipe. Nascida em São Domingos, município do interior de Sergipe,
filha de A. P e A. M. P, e irmã de mais três meninos. Quando decidiu cursar
matemática no ano em que terminou o ensino médio, fez sua inscrição no Sisu
e foi aprovada. Com isso, ela e os pais começaram a buscar um lugar próximo à
universidade para morar. Depois de certa procura, M. então se mudou e passou
a dividir uma casa com mais duas meninas no bairro Rosa Elze. Porém, os seus
pais recebiam um salário mínimo cada, e tinham ainda três outros filhos, de
forma que os gastos não eram poucos. Logo, com a mudança de M. para São
Cristóvão, eles passaram a ter que mandar dinheiro para pagar o aluguel, água,
luz, internet, mercadinho, entre outros. Dito isto, a aluna percebeu que precisava
fazer algo para ajuda-los, e, dessa maneira, passou a se dedicar em fazer
brigadeiros e vende-los, na intenção de “folgar” um pouco as despesas dos seus
pais, e, querendo ou não, poder garantir a sua independência.
De início, foi um pouco complicado, porque, geralmente, M. passava o dia todo
na universidade e, quando chegava em casa, à noite, cansada do dia, ainda tinha
que fazer os brigadeiros, estudar e dormir – ou seja, passou a ser mais cansativo
para ela do que antes. Além disso, sabe-se que muita gente vende brigadeiro,
então, no começo, todo mundo a olhava como mais uma que vendia este produto
no meio de tantos outros. Entretanto, no segundo ou terceiro mês tudo começou
a ficar melhor, e M. já tinha mais agilidade na hora de fazer os brigadeiros em
casa, além de já conseguir ter mais tempo para estudar e dormir e não se sentia
tão exausta. Ela também foi conquistando seus clientes pela universidade, que
foram fazendo sua propaganda e aumentando as suas vendas.
Atualmente, M. vende brigadeiros pelo preço de um real nas salas, corredores e
na Praça da Democracia, de segunda a sexta, das nove da manhã até as seis
da noite, mas é preciso ressaltar que, antes das duas da tarde, já não se encontra
mais nenhum brigadeiro a ser comprado. M. afirmou se sentir bem realizada com
suas vendas, tanto que há muito tempo ela não volta para casa com brigadeiros
em sua vasilha. Graças às vendas que tem feito, agora consegue pagar o seu
aluguel, água, luz, internet, xerox, e, deste modo, os seus pais passaram a pagar
apenas o seu mercadinho e suas passagens quando volta para casa em alguns
finais de semana. Consequentemente, tem sobrado dinheiro no salário deles, o
que, possivelmente, está sendo bem utilizado com outras coisas referentes a
eles e os demais filhos.
Aliado a isso, o brigadeiro foi escolhido por ser o único doce que ela sabia fazer
na época – e, ainda assim, queimou algumas panelas, desperdiçou ingredientes
e demorava muito para fazer pelo menos cinco brigadeiros. Nos dias atuais, no
entanto, ela tem aprendido com sua tia nos finais de semana em que volta para
sua casa em São Domingos a fazer surpresas de uva, beijinhos e cajuzinhos.
Futuramente, M. pretende acrescentar essas gostosuras a suas vendas, pelo
menos preço. Além do mais, o brigadeiro é um doce universal, do qual
praticamente todo mundo gosta, de forma que uniu-se o útil ao agradável.
É importante citar também que o início sempre é complicado em tudo feito nas
nossas vidas, e com M. não foi diferente. Às vezes, ela se sentia triste e frustrada
por voltar para casa com a vasilha cheia de brigadeiros, sendo que ter
conseguido levar a mesma vasilha cheia para a universidade já havia sido uma
enorme vitória – afinal de contas, ela mal sabia enrolar um brigadeiro e deixar
todos do mesmo tamanho. De forma que tudo isso foram desafios, e,
logicamente, havia dias em que M. tinha vontade de voltar para sua casa em São
Domingos, deitar em sua cama e desistir de tudo, porque, na verdade, ela sabia
que não estava sendo nada fácil para os seus pais a manter em São Cristóvão.
Mas, como a vida, sempre nos surpreende, aos poucos tudo foi melhorando, e,
hoje, ela não se imagina sem seus brigadeiros. No que diz respeito ao futuro, M.
pensa em, enquanto estiver na graduação, continuar vendendo, e, depois que
se formar, caso volte para a sua casa, começar uma parceria com sua tia, visto
que a mesma adora fazer doces e sempre a ensina a fazer novos doces.
Em consonância com isso, os colegas de turma de M. lhe deram grande apoio
quando a mesma começou a vender, e, até hoje, mesmo depois de tantos
meses, eles continuam comprando e fazendo sua propaganda como se tivessem
experimentado pela primeira vez. Sobre os outros vendedores, alguns deles são
conhecidos de M. e sua relação com eles é muito boa, pois M. acredita que, em
nossas vidas, o sol é para todos, de forma que não é porque ela vende brigadeiro
que ninguém mais pode vender. Pelo contrário, todos podem e devem investir
no comércio que acham mais apropriado. Com os professores, M. afirma que a
relação também é boa: alguns compram, outros não, mas não a impedem de
comercializar em sala de aula, sendo que alguns pedem que, durante a aula,
seja evitado esse comércio, e M. os respeita da mesma forma. Quanto aos seus
clientes, é perceptível que, além do sabor maravilhoso e cheiro incrível do
brigadeiro, a simplicidade e o carisma com que ela oferece o seu produto e a
forma como trata seus clientes foram vitais para que M. os conquistasse não
apenas pela barriga, mas pelo coração, e assim eles se tornaram seus clientes
fiéis. Além disso, M. garante ser muito grata a eles pela preferência, e “sempre
que reza agradece a Deus por eles, pedindo que os mesmos sejam retribuídos
em dobro”.
Por fim, recentemente vem sendo disseminada a informação de que a atuação
de vendedores ambulantes, inclusive os estudantes, será proibida dentro da
universidade. Diante disso, M. revelou que acredita e espera que isso não venha
a se concretizar, afinal é necessário que se pare e analise o fato de que muitas
dessas pessoas utilizam o dinheiro das vendas para se manter e viver, assim
como é o caso dela. Obviamente, há pessoas que vendem por vender, como
hobbie, mas, em sua grande maioria, é desse comércio que se garante o dinheiro
para pagar as contas no final do mês.

Restaurante Universitário
Nos horários de almoço da Universidade Federal de Sergipe, a presença de
certos vendedores permeia toda a comunidade universitária. Um deles, o
vendedor D., observado neste tópico, se instala próximo ao armário em que são
guardados os pertences dos alunos enquanto estes almoçam no Restaurante
Universitário – Resun, em cima de uma espécie de bancada onde põe os seus
produtos à venda.
D. veio de Valença, na Bahia, para estudar na Universidade Federal de Sergipe,
no curso de Farmácia, e, assim como muitos outros vendedores, buscou uma
alternativa para ter uma renda extra. D. saiu da Bahia por escolha própria, o que,
para ele, foi uma forma de fugir um pouco da realidade da sua terra natal, fugir
de julgamentos, além do fato de seu curso ser um curso relativamente novo que
traz muitas oportunidades para ele, além de possuir grades curriculares flexíveis.
Há mais ou menos um ano, D. vende o seu produto, que é a famosa “tortalete”,
ou empada, e os sabores variam entre leite condensado, morango, beijinho,
baiana (queijo com pimenta), entre outros, pelo valor de apenas um real. É
frequente a movimentação de alunos na região, o que constitui um dos motivos
para a escola de D. de se implantar na mesma – no entanto, ele também vende
nas salas de aula, mais especificamente das matérias que ele frequenta.
D. sempre foi acostumado a ter seu próprio dinheiro, já que tinha uma mini
empresa de distribuição de tortalete na sua antiga cidade, mas, com a vinda para
Sergipe, a dependência dos pais também se instalou e a ideia de continuar a
vender as empadas surgiu para facilitar a sua independência. Porém, o ato de
fazer as tortaletes não só o propiciam dinheiro, mas também uma forma de
relaxamento da rotina corrida da universidade. Além do mais, há outro ponto
positivo, o fato de ganhar mais reconhecimento, fazer mais amigos, “virar ponto
de referência do Resun no Instagram do crushesufs”, como brinca o mesmo, ao
ser fotografado ao lado de uma pessoa que estavam procurando no restaurante.

Campus e ônibus
Neste tópico observou-se um estudante do curso de História da Universidade
Federal de Sergipe, que, há aproximadamente quatro meses, começou a vender
salgados pelo campus e no ônibus da sua cidade, em que vai e volta para a
mesma todos os dias.
Como na grande maioria dos casos, começou a partir de uma necessidade de
se conseguir uma renda extra para ajudar nas despesas de casa e na sua própria
manutenção da UFS. O “Salgados faz História”, nome com o qual o mesmo
batizou o seu negócio, foi uma oportunidade de conciliar os estudos e a venda
de salgados.
“Como todo comércio, tive dificuldades. Primeiro tive que, de algum jeito, arrumar
dinheiro para investir na venda dos salgados, o que foi difícil no início, mas tudo
deu certo”, disse ele. Ele cita que também teve problemas no aspecto sobre a
conciliação dos horários de vendas e de estudo, já que em alguns momentos
precisa vender os salgados e, assim, nem sempre sobra tempo para estudar.
“Nos horários que estou vendendo, poderia estar estudando, aí é complicado”.
Em média, ele consegue ganhar de 150 a 200 reais por quatro dias na semana.
“Esse dinheiro foi uma forma de aliviar as despesas de casa”.
Durante a observação, principalmente em sala de aula, foi possível notar a sua
simpatia com os colegas e a sua forma de fazer propaganda dos produtos,
sempre carismático. Através das vendas dos seus salgados, ele consegue
manutenção e sustento na própria universidade, unindo o útil ao agradável,
separando um certo tempo para seus estudos e também para a venda do que,
segundo ele, é um alívio econômico para sua família, uma forma de ser mais
independente financeiramente e, ao mesmo tempo, utilizar o espaço da
universidade para fins lucrativos. Sendo assim, ele consegue estudar e vender
seus salgados, conseguindo “fazer a sua própria história”.

Independência e conflitos familiares


Um dos jovens observados para a composição do presente relatório etnográfico
chamou bastante atenção pelo seu jeito entrosado ao se enturmar fácil com as
pessoas da universidade, motivo que o faz ser bem sucedido nas vendas.
Este jovem mora em Aracaju desde criança, e saiu da casa da mãe há mais ou
menos um ano devido a conflitos familiares e à busca pela independência.
Estudante universitário, viu na venda de brigadeiros uma oportunidade de
conseguir renda para se manter morando sem os pais.
Seus produtos, brigadeiros, custam um real e cinquenta cada, e possuem
diversos sabores. Devido ao seu jeito extrovertido, ele consegue vender por toda
a universidade e em vários horários. A renda que obtém com as vendas dos
doces é essencial para o pagamento de suas despesas, sendo também um
trabalho bastante agradável pelo fato de o mesmo sempre ter gostado de
cozinhar. No entanto, hoje em dia, ele passou a ver o ato de vender como uma
obrigação, pois, caso pare com as vendas, não conseguirá pagar as contas. Há
ainda, segundo ele, um certo preconceito por parte da comunidade acadêmica.
“Algumas pessoas acabam desdenhando, sabe? A gente percebe o jeito que
falam e as brincadeiras que fazem, isso é um pouco chato, mas ainda bem que
é raro acontecer, a maioria da galera é de boa”, relatou ele.
Conclusões
A venda de produtos dentro da universidade por parte de alguns alunos traz
benefícios às suas vidas, pois é através dela que os mesmos conseguem pagar
as contas, além de fazer novas amizades e ser um importante passo para
garantir independência financeira.
Precisamos refletir sobre o fato de que muitos estão ali pelo fato de precisarem
daquilo para seu próprio sustento, seja pelo fato de estarem fora de seus
territórios natais ou por uma renda extra em sua própria cidade. O que nos
diferencia dessas pessoas? O fato de elas venderam? Será que, se também
precisássemos de uma renda extra, não estaríamos ali todos nós? Em nenhum
momento observou-se falta de respeito ou discriminação de outros estudantes
pelo fato de existirem alunos-vendedores ali, mas devemos pensar em tantas
outras pessoas que gostariam de fazer o mesmo, que necessitam do dinheiro,
mas que têm receio do que os outros irão pensar sobre estar em uma posição
de venda. Vender é uma posição menor? De forma alguma. Mas vale lembrar
que estamos situados no contexto da universidade, dentro do campus. Será que
vemos todos os outros vendedores ambulantes do lado de fora com os mesmos
olhos?