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i1 EscR1rí:

COLEÇÃO MULTIPLAS ESCRITAS

Elizabeth L. Eisenstein
FRONTISPÍCIO

Frontispício da Hiftoire de ['origine et du premÜrJ progreJ de l'imprimeri.e, de Prosper Marchand


A REVOLUÇÃO DA CULTURA IMPRESSA
(Haia: Pierre Paupie, 1740). Mostra o espírito da imprensa descendo dos céus sob a égide Os primórdios da Europa Moderna
de Minerva e Mercúrio. El!! é dado em primeiro lugar à Alemanha, que o doa sucessiva-
mente à Holanda, à Inglaterra, Itália e França (lendo-se da esquerda para a direita).
Observem-se as letras diversificadas dos alfabetos latino, grego e hebraico, que adornam
os trajes drapeados do espírito da imprensa. Observem-se igualmente os retratos em meda-
lhão dos mestres da imprensa. A Alemanha tem Gutenberg e Fust (o medalhão de Peter
Schoeffer está em branco); Laurens Coster representa a Holanda; William Caxton, a
Inglaterra; Aldus Manutius, a Itália; Robert Estienne, a França. A escolha do último, que Tradução
fugiu de Paris para Genebra, após ter sido censurado pela Sorbonne, refletia provavelmen- Osvaldo Biato
te a experiência de Marchand, que trocou Paris por Haia, em 1707, após sua conversão ao
protestantismo. Essa composição, como o livro que ela ilustra, dá uma idéia de como edi-
tores e impressores glorificavam seus antecessores, ao mesmo tempo que se promoviam a Revisão técnica
si próprios.
Rodolfo Ilari
Mayumi Denise Senoi Ilari
PREFÁCIO

Confesso abertamente que, ao empreender esta história da Imprensa, assumi uma tare-
fa demasiado ambiciosa para minha capacidade, e de cujo alcance não me apercebi bem
de início.
Joseph Ames, 7 de junho de 1749.

C omecei a in~eressar-me pelo tema d~ste li:ro no início ~a década d~


1960, depms de ler a alocução pres1denc1al de Carl Bndenbaugh a
Associação Histórica Americana. Essa alocução, que se intitulava "A gran-
de transformação", enquadrava-se num gênero apocalíptico, então muito
em voga (e ainda onipresente, infelizmente). Ele chamava a atenção, alar-
misticamente, para a extensão em que uma "tecnologia desenfreada" esta-
va cortando todos os liames com o passado, e retratava os estudiosos con-
temporâneos como vítimas de uma espécie de amnésia coletiva. A descrição,
de Bridenbaugh, do momento aflitivo vivido pelos historiadores, sua quei-
xa a propósito da "perda de memória da humanidade", em geral, e sobre
o desaparecimento da "cultura comum de leitura da Bíblia", em particu-
lar, parecia constituir mais um elenco de sintomas do que um diagnóstico.
Faltava-lhe a capacidade de colocar os alarmes presentes dentro de algum
tipo de perspectiva - capacidade essa que o estudo da história, acima de
qualquer outra disciplina, deveria poder dar. Parecia anti-histórico iden-
tificar o destino da "cultura comum de leitura da Bíblia" com o de toda a
civilização ocidental, quando a primeira é muito mais recente - sendo o
subproduto de uma invenção de apenas quinhentos anos. Além disso, e
PREFÁCIO
A REVOLUÇÃO DA CULTURA IMPRESSA

sugeriam novas maneiras de lidar com alguns problemas de há muito exis-


mesmo após Gutenberg, o hábito da ~eitura_bíblica c?ntinuou sendo inco-
tentes. McLuhan suscitou, contudo, algumas questões sobre os reais efeitos
mum entre muitos europeus ocidentais e latino-amencanos altamente cul-
do advento da imprensa. Tais questões deveriam ser elucidadas antes que outros
tos, que aderiram ao credo católico. .
assuntos pudessem ser explorados. Quais foram algumas das mais importan-
Seguindo a tradição de ilustres prede~essores,_ ta~s _como He_nry Adams _e
tes conseqüências da mudança do texto manuscrito para o impresso? Imagi-
Samuel Morison, 0 presidente da Associação Hist?nca Amenc~na_ parec:a
nando que seria necessário um esforço tremendo para dominar uma biblio-
estar projetando sobre o curso total da ci~ização o~id~n~l sua p~op_na noçao
de um distanciamento crescente com respeito a uma infancia provinciana ame-
grafia vastíssima, comecei a investigar o que tinha sido escrito sobre esse tema
obviamente importante. Para minha surpresa, não encontrei nem mesmo
ricana. À medida que as pessoas envelhecem, passam a preocupar-se com ~ma
uma pequena bibliografia disponível para consulta. Ninguém havia ainda ten-
memória menos confiável. A amnésia coletiva, no entanto,_ não_ me pareci~ o
tado investigar as conseqüências da mudança nas comunicações no século XV.
diagnóstico correto da dificuldade então enfrentada pelos histonadores. A JU~-
Embora reconhecendo que seria necessário mais de um livro para reme-
gar por minha própria experiência e pela de meus colegas, era a lembrança, mais
diar tal situação, também senti que um esforço preliminar, mesmo que insu-
do que o esquecimento, que apresentava a ameaça se~ pr:,cedentes. Era tal a
ficiente, era melhor que nada, e por isso embarquei num estudo de dez anos
quantidade de dados despejados sobre nós, de tantas drrAeç~es, e com tamanha
--- com o objetivo primordial de familiarizar-me com a literatura especializa-
velocidade, que nossa capacidade de impor ordem e coe~encia estava sendo fo:-
da (ai de mim, já imensa e em rápida expansão) sobre os primórdios da
çada até O ponto de quebrar-se (se é que já não se havia quebr:do). S~ havia
imprensa e a história do livro. Entre 1968 e 1971, foram publicados alguns
uma tecnologia" desenfreada", que estava levando a uma sensaçao de cnse cul-
artigos preliminares, no intuito de suscitar reações de estudiosos e colher bene-
tural entre os historiadores, não teria ela mais a ver ~om um au?1e?to ~a taxa
fícios de uma crítica informada. Meu trabalho completo, A máquina imprNJo-
de publicação do que com os novos meios de comumcação au~ovisual ·
ra como agente de tranJ/ormação, foi publicado em 1979. Seu texto foi conden-
Enquanto eu remoía esta questão e me perguntava se ~ena_ s~~sato co~-
tinuar a produzir monografias ou orientar meus alunos umversitanos ~ faze-
sado, para o leitor não especializado, a fim de constituir a presente versão.
lo __, dada a indigesta abundância com que ora nos defront~mos e a d~fi~ul-
Nela foram acrescentadas ilustrações, mas as notas de rodapé foram elimi-
nadas. Qualquer leitor desejoso de identificar plenamente todas as citações
dade de assimilar o que temos---, dei com um exemplar do hvro~galáxta_í}e
e referências deve consultar a edição integral.
Gutenberg, de Marshall McLuhan. Num vivo contra~te com a qu~ixa d~ his-
~ tr~tamento que dei à matéria está distribuído em duas partes principais.
toriador americano, o professor canadense de língua ingles~ ~arecia sentir um
A pnmeira enfoca a mudança ocorrida na Europa Ocidental, do manuscrito
prazer malicioso na perda das pe:spect~vas ~históricas familiares. Ele senten-
para o impresso, e busca esquematizar as principais características da revo-
ciou que as formas históricas de investigaçao est~vam ~bsoletas, e q~e a era
lução ~as comunicações. A segunda trata da relação entre a mudança nas
de Gutenberg estava no fim. Mais uma vez, senti que sintomas de cnse cu~-
comunicações e outros desenvolvimentos convencionalmente relacionados
tural estavam sendo apresentados como se fossem um diag~ó~tico. O própno
com a transição da era medieval para o início dos tempos modernos. (Con-
livro de McLuhan parecia antes atestar os problemas especiais caus~dos pela
ce~trei-me nos movimentos culturais e intelectuais, adiando para um livro pos-
cultura impressa do que dos causados pelos meios de expressão mais, ~ecen-
tenor os problemas ligados aos movimentos políticos.) A última parte, por-
tes. Ele fornecia evidências adicionais de como a sobrecarg~ P?de lev~~ a incoe-
tanto, retoma desdobramentos conhecidos e busca focalizá-los sob um novo
rência. Ao mesmo tempo, estimulou também minha cunos~dade Ga d_esper-
tada pelas minhas considerações sobre a impressão da Bíbha) ~ respeito das
ângulo de visão. Contudo, a primeira parte cobre terreno pouco conhecido -
pelo. m~~os pa~a a maioria d~s historiadores (embora não para especialistas
conseqüências históricas específicas da grande m~d~nça _oc~rnda no camp?
na h1stona do hvro) - e particularmente desconhecido para esta historiado-
das comunicações no século XV. Há muito me sentia insatisfeit~ com as e~ph-
ra (que se havia previamente especializado no estudo da Revolução Fran-
cações, então correntes, que eram dadas para as revoluções intelectuais ~o
cesa e na história francesa do início do século XIX).
início dos tempos modernos. Algumas das mudanças a que McLuhan aludia
A REVOLUÇÃO DA CULTURA IMPRESSA

presumivelmente
- falantes,
. . mas sem a escn.t a) . E sses novos enfoques são úteis
Enquanto tentava dar conta desse território pouco conhecido, acabei des- nao somente para corngrr um velho d esequil'b i no ..
. e1insta mas t b,
cobrindo (como sucede a todos os neófitos) que o que parecia relativamente acrescentar muitas novas dim - . ' am em para
d, 'd d . , ensoes ao estudo da história ocidental. Não há
simples à primeira vista se tornava gradualmente complexo, à medida que eu
fuuvid a e que
d mmto se tera a ganhar, em termos d e ennquecimento . . e apro-
aprofundava meu exame, e que novas áreas de ignorância se abriam mais rapi-
n amento
b a
d compreensão
d histórica' com os trabalh d
os que ora se esenvol-
damente do que as antigas iam sendo fechadas. Como seria de esperar de um
vem so re ~u anças .e~ográ~cas e climáticas, estrutura familiar, criação de
trabalho de tão longa gestação, os primeiros pensamentos tiveram de ser
meno~es, cnme e pumçao, festivais, funerais e revoltas por comida - ar
substituídos por pensamentos segundos; e até mesmo alguns terceiros pen-
mencionar so~ente al~umas das novas searas que estão sendo cultivad! a
samentos tiveram de ser revistos. Especialmente quando escrevia sobre o papel Embora seJa proveitosa para muitas finalidades a atual f. .d
conservador da imprensa (tema a que foi dada particular importância e por- "h' , · d b · ' vogaem avor
istona e
, . d aixo para cima" não é muit · d
o apropna a para compree d ª
tanto é repetidamente tratado no livro), não pude evitar de perguntar-me se propositos este llivro. "O antropólogo e historiador da Afi'nca • , 1om~alerJanos
V. · pre-co
seria sensato apresentar, sob uma forma tão fixa e permanente, pontos de vista
an~m.~, ªº. exp orar os relacionamentos entre a tradição oral e a hi:tória
que ainda se encontravam em formação. O leitor não deve esquecer o cará-
ter conjetural e provisório do que segue. Este livro deve ser lido como um ::z:: ~:;:::~::r;l:~~:~ ~ difere~ça exist~nte, e~tre a história escrita pro-
ram o efeito da im is ona escnta postenor a imprensa. Quando explo-
ensaio extenso, e não como um texto definitivo. Ocident 1 d" . prensa solbre a cultura popular, os historiadores da Europa
Também convém observar, desde já, que o tratamento por mim dado ao a mgem natura mente a aten - b . .
assunto é voltado primordialmente (embora de maneira não exclusiva) para popular oral pela que resulta do advento Çdªº. para a su.,.., stitmção da cultura
a imprensa. 1anto n
os efeitos da imprensa sobre registros escritos e sobre os pontos de vista de tro caso, a atenção é desviada dos tó icos - um como nou-
elites já letradas. A discussão centra-se na mudança de uma modalidade de m~ capítulos. Isso nã-0 quer dizer quta ~~e ~erao ~xplor~os nos próxi-
cultura letrada para outra (e não de uma cultura oral para uma cultura escri-
ta). Este ponto merece especial realce, porque vai em sentido oposto às orien-
::::t Novos tópicos ":azid?s pela trad:"çã: :s;=:;:ptt:e:~
do Saber. ~~erru;: repercu'.'°';s s,gn,fica~vas dentro e fora da Comunid!de
tações atuais. Ao tocar no tema das comunicações, os historiadores geralmen-
ver mas o ~ stante, na~ e a expansao dessa capacidade de ler e escre-
te têm-se dado por satisfeitos ao observar que seu campo de estudo, ao , a maneira como a impre lt .
contrário da arqueologia ou antropologia, se limita às sociedades que lega- ComunwaJe Jo Saóer o . ~sa a .er~u aJ comuntcaçõN NcritaJ dentro Ja
El . que constitm o pnncipal objeto de atenção d t r
ram registros escritos. Para a definição dos campos de estudo, a forma parti- e se preocupa mais do que tudo com o des . d . es e ivro.
cular que assumem esses registros escritos é considerada menos importante te fora de moda) "alta" cultu d r tm~ a ~mpopular (e atualmen-
Ta b, .d . ra as e ites profissionais leitoras do latim
do que a questão mais geral de saber se foram deixados quaisquer registros
- m :m. consi erei necessário, afastando-me da moda manter . .
escritos. Tem-se intensificado recentemente o cuidado com este importante çao provinciana e concentrar-me em al '. uma posi-
aspecto, mediante um ataque bifrontal às velhas definições do campo, que pro- Europa Ocidental Em ..A • gumas poucas regiões localizadas na
vêm respectivamente de historiadores africanos e, de outro lado, de historia- zada no correr dest~ livroconnsequetJ.~cdia, a_edxptalressão "cultura impressa" é utili-
. um sen o oci en pr · · r
dores sociais ocupados com a civilização ocidental. Os primeiros, necessaria- vo vimentos ocorridos O .d . ovinciano: rerere-se a desen-
1
lado sua a lica - ~o c1 ente postenormente a Gutenberg, pondo de
mente, tiveram de questionar a exigência prévia de haver registros escritos.
Os últimos opõem-se ao modo como tal exigência tem dirigido a atenção para
berg na A!a J.t? po~sivel para ~om desenvolvimentos anteriores a Guten-
também outr.os ias,tna? somente atos anteriores acontecidos na Ásia, como
o comportamento de uma reduzida elite letrada, favorecendo ao mesmo tempo
o esquecimento da imensa maioria dos povos da Europa Ocidental. Novos Novo Mundo , pos ta enores
b, r - naEuropa O· nental, no Oriente
. Próximo e no
. - ,
s10nais de possíveis m em roram
. exclu'd Ofi
i os. . erecem-se por vezes visões oca-
enfoques estão sendo desenvolvidos, muitas vezes com a cooperação de afri-
perspectivas comparat
canistas e antropólogos, para tratar de problemas levantados pela história dos e salientar o sign'fi d d ivas, mas somente com o intuito
d i ica o e certas características que parecem peculiares à
"inarticulados" (como são por vezes chamados, de modo estranho, os povos
11
A REVOLUÇÃO DA CULTURA !MP

cristandade ocidental. Uma vez que mensagens muito velhas afetavam os usos
a que se destinava o novo meio, e tendo em vista que a diferença entre trans- to e ponderar sobre o peso relativo das d'fi .
signar inovações significativas também i erent~s hipóteses. De~ar de con-
missão mediante cópia manual e mediante cópia impressa não pode ser per-
convencida de que O prol d d pode diS t orcer perspectivas. Estou
cebida sem a travessia mental de vários séculos, tive de ser muito mais elás- onga o esprezo de u d
ções levou ao estabelecim t d . ma mu ança nas comunica-
tica com os limites cronológicos do que com os geográficos, volvendo com o correr do tempo. en o e perspectivas cada vez mais distorcidas,
ocasionalmente ao Museu Alexandrino e às práticas cristãs primitivas; deten-
do-me vez por outra a contemplar manuscritos e papelarias medievais; ante- Agradeço a várias instituições pelo a oio ar . J
do em que trabalhei neste livro A U . p 'd pd dc1a que me deram no perío-
cipando-me para observar os efeitos da acumulação e das mudanças decor- . mvers1 a e e Mi h ·
e a Fundação John Simon Gu h . M c igan, em Ann Arbor,
rentes do aumento de produção. ggen e1m emorial · d · , .
trabalho. Terminei a obra du t , . ªJu aram-me no 1mc1o do
Um comentário final necessário: como indica o título da minha versão inte- ran e meu estagio co "F 11 ,,
Estudos Avançados nas Cie"n · d Co mo e ow no Centro de
gral, considero a imprensa como um agente, e não como o agente - e muito c1as e mportam t S e
menos como o único agente - de mudanças na Europa Ocidental. É neces-
contei com o apoio da Nat' lE d
IOna n owment for th H
°,
en em tanrord, onde
··
dação Andrew W. Mellon. e umamt1es e da Fun-
sário estabelecer estas distinções porque a própria idéia de explorar os efei-
tos produzidos por uma determinada inovação levanta a suspeita de que este-
ja sendo favorecida uma interpretação monocausal, ou que se tenda ao
reducionismo e ao determinismo tecnológico.
É claro que ressalvas feitas num prefácio devem ser recebidas com as
devidas reservas, pois só transmitem certeza na medida em que forem cor-
roboradas pelo corpo do livro. Apesar disso, parece-me recomendável escla-
recer desde já que meu objetivo é enriquecer, e não empobrecer a compreen-
são histórica, e que considero interpretações que lançam mão de uma única
variável contrárias a tal objetivo. Na qualidade de um agente de mudanças,
a imprensa modificou os métodos de coleta de dados, os sistemas de arma-
zenamento e recuperação, bem como as redes de comunicação utilizadas pelas
comunidades cultas em toda a Europa. Merece atenção especial, porque gerou
resultados especiais. Neste livro, tento descrever esses efeitos e sugerir
como podem ser relacionados com vários outros desenvolvimentos conco-
mitantes. A idéia de que esses outros desenvolvimentos possam ser reduzi-
do,1 à mera mudança nas comunicações parece-me absurda. A maneira como
eles foram reorientados por tal mudança parece-me, contudo, digna de ser
exposta. Se me alinho com os revisionistas e revelo insatisfação com práti-
cas correntes, é para criar mais possibilidades para uma dimensão de mudan-
ça histórica até hoje negligenciada. Quando divirjo de explicações conven-
cionais multivariáveis (como ocorre em várias ocasiões), não o faço para
substituir muitas variáveis por uma só, mas sim para explicar por que mui-
tas variáveis, há muito presentes, começaram a interagir de modos diferen-
tes. Isso significa que uma pessoa deve usar sua capacidade de discernimen-

1]
······················ PA_R.TE I

O ADVENTO DA CULTURA
IMPRESSA NO OCIDENTE
·········· l ·..

UMA REVOLUÇÃO DESPERCEBIDA

N o final do século XV, a reprodução de materiais escritos começou a trans-


ferir-se da escrivaninha do copista para a oficina do impressor. Essa
mudança, que revolucionou todas as formas de aprendizado, foi particular-
mente importante para o estudo da história. Desde então, os historiadores pas-
saram a dever muito à invenção de Gutenberg; a imprensa intervém no seu
trabalho desde o início até o fim, desde a consulta aos fichários até a revisão
/ do texto final. Uma vez que os historiadores são geralmente ávidos por inves-
tigar mudanças capitais, e dado que esta mudança transformou as condições
de exercício de seu próprio ofício, seria normal esperar que tal mudança atrai-
ria alguma atenção dos historiadores em geral. No entanto, qualquer inves-
tigação histórica levará à conclusão contrária. É emblemático que a deusa Clio
tenha conservado em suas mãos um pergaminho manuscrito. Fez-se tão
pouco caso da mudança para as novas oficinas que, após quinhentos anos, a
musa da história ainda permanece do lado de fora. No dizer de um sociólo-
go, "A História é testemunha do efeito cataclísmico que tiveram sobre a socie-
dade as invenções de novos meios de transmissão de informações entre as pes-
soas. Disso são exemplos o desenvolvimento da escrita e, mais tarde, o da
imprensa". Na medida em que historiadores de carne e osso, que produzem

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artigos e livros, testemunham sobre o que aconteceu no passado, o efeito do tica. Na realidade, mesmo os que parecem admitir que houve mudanças fun-
desenvolvimento da imprensa sobre a sociedade, longe de parecer um cata- damentais curiosamente deixam de nos dizer quais foram elas.
clismo, é notavelmente insignificante. Muitos estudos sobre as transforma- "Nem os eventos políticos, constitucionais, eclesiáticos e econômicos, nem
ções ocorridas nos últimos cinco séculos nada dizem a esse respeito. O_S}!lQvime_ntos soci<>i~g1cos, f1foscfficos·oullte-rJ:r1os podem ser plenamente
Existe, é claro, uma bibliografia ampla, cada vez mais extensa, sobre a his- compreendidos", nos diz Steinberg, "sem tomarmos em consideração a influên-
tória da imprensa e temas relacionados. Já apareceram várias obras que com- º
cia que ;idvento do prelo teve sobre eles". Todos esses fatos e movimentos
pendiam e resumem partes dessa vasta literatura. É o caso de Rudolph Hirsch, têm sido submetidos a um exame acurado por gerações de estudiosos, no intui-
que passa em revista os problemas ligados à "impressão, venda, leitura", duran- to de entendê-los mais completamente. Se a imprensa exerceu alguma influên-
te o primeiro século após Gutenberg. Foi recentemente traduzida para o inglês cia sobre eles, o que explica que tal influência tenha sido tão pouco notada,
uma obra, mais extensa e bem organizada, de autoria de Febvre e Martin, dada raramente sugerida e muito menos discutida? Convém formular essa pergun-
a lume pela primeira vez numa série francesa dedicada à "evolução da huma- ta, pelo menos para sugerir que os efeitos produzidos pela imprensa não são
nidade", e que cobre com maestria os três primeiros séculos da imprensa. Cober- nada óbvios. Embora possam ter sido encontrados por estudiosos que explo-
tura maior ainda, abarcando "quinhentos anos", foi realizada por Steinberg, ram outras áreas de interesse, é provável que eles tendam hoje a passar des-
em seu excelente e sucinto exame da matéria. Todos esses três livros resumem percebidos. Localizá-los e explicitá-los - sob uma forma esquemática ou não
dados recolhidos dentre numerosos estudos esparsos. Contudo, no correrdes- - é algo mais fácil de dizer do que de fazer.
sas obras, as profundas implicações históricas desses dados são, quando muito, Não se sabe ao certo o que têm em mente os autores, como Steinberg,
apenas sugeridas, jamais explicitadas de fato. A exemplo do que ocorre na seção quando se referem ao impacto da imprensa sobre todos os campos da ativida-
dedicada à imprensa na Nova Edição CambrúJge de HutóriaModerna, o conteúdo de humana - político, econômico, filosófico, e assim por diante. Em parte,
dessas sínteses raramente entra no tratamento de outros aspectos da evolu- pelo menos, eles parecem estar assinalando conseqüências indiretas que devem
ção da humanidade. ser inferidas e se relacionam com o consumo de produtos impressos ou com
Segundo Steinberg, "A história da imprensa é parte integrante da histó- mudanças de hábitos mentais. Tais conseqüências, é claro, têm grande signi-
ria geral da civilização". Infelizmente, esta afirmação não é aplicável à histó- ficação histórica e repercutem na maioria das formas de empreendimentos huma-
ria escrita, tal como esta se apresenta hoje, embora seja provavelmente cor- nos. Não obstante, é difícil descrevê-las precisamente ou sequer determinar
reta em relação ao curso real dos eventos humanos. Em vez de serem integrados exatamente o que elas são. Uma coisa é descrever como os métodos de pro-
a outros trabalhos, os estudos dedicados à história da imprensa.são isolados dução de livros foram se modificando a partir da segunda metade do século
e mantidos artificialmente estanques em relação ao resto da literatura histó- XV, ou avaliar taxas de crescimento da produção. Outra coisa é decidir como
rica. Teoricamente, tais estudos são centrados num tópico que repercute em o acesso a uma maior quantidade (ou variedade) de registros escritos afetou
muitos outros campos. Na realidade, eles raramente são consultados por as maneiras de aprender, de pensar e perceber das elites letradas. Do mesmo
estudiosos que operam em quaisquer outras áreas, talvez porque sua relevân- modo, mostrar que a padronização foi conseqüência do prelo nada tem a ver
cia a respeito dessas ainda não esteja clara. "A natureza exata do impacto que com decidir como as leis, as línguas ou construções mentais foram afetadas
a invenção e disseminação da imprensa tiveram sobre a civilização ocidental pelo advento de textos mais uniformes. Ainda hoje muito pouco sabemos
ainda permanece sujeita a interpretações." Esta declaração parece minimi- sobre o modo como o acesso a materiais impressos afeta o comportamento huma-
zar a questão. Existem poucas interpretações, mesmo de natureza inexata ou no -apesar de todos os dados obtidos de seres vivos e responsivos; apesar de
aproximada, a que os estudiosos poderiam recorrer, a fim de levar a cabo outras todos os esforços desenvolvidos por analistas de opinião pública, por pesqui-
investigações. Os efeitos causados pela imprensa suscitaram muito pouca con- sadores de opinião ou cientistas do comportamento. (Um rápido olhar sobre
trovérsia. Não porque fossem coincidentes as opiniões sobre o tema, mas por- controvérsias recentes a propósito da desejabilidade ou não de censurar mate-
que praticamente nenhuma opinião foi exposta de forma explícita e sistemá- riais pornográficos mostra-nos como somos ignorantes.) Os historiadores que

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têm de ir além do túmulo para reconstruir formas passadas de consciência Os escolares a quem se pede traçar viagens antigas em alto-mar sobre mapas
encontram-se em posição particularmente desvantajosa para lidar com esses sem legendas tendem a não dar-se conta de que não existiam mapas mundiais
temas. Teorias sobre mudanças (desigualmente espaçadas no tempo) que uniformes na era em que as viagens foram realizadas. Estimula-se um esque-
afetam processos, atitudes e expectativas de aprendizagem não se prestam, cimento semelhante, já agora em nível muito mais sofisticado, quando se
de qualquer modo, a formulações simples, nítidas, que possam ser facilmente recorre a técnicas modernas, cada vez mais refinadas, para cotejar os manus-
comprovadas ou integradas em relatos históricos convencionais. critos e produzir edições confiáveis deles. Cada edição posterior nos revela
Os problemas gerados por alguns dos efeitos mais indiretos trazidos pelo mais do que o que se sabia antes sobre o modo como determinado manuscri-
salto do manuscrito para o impresso provavelmente jamais serão vencidos to foi composto e copiado. Conseqüentemente, cada edição torna mais difí-
inteiramente. Contudo, tais problemas poderiam ser enfrentados mais dire- cil imaginar como se mostraria um determinado manuscrito diante do estu-
tamente, se outros empecilhos não estivessem pelo caminho. Dentre os efei- dioso do tempo da escrita manual, o qual só dispunha, para consulta, de uma
tos de longo alcance que devem ser assinalados contam-se muitos que ainda única versão manuscrita e nenhuma orientação segura quanto ao local e data
afetam observações atuais e que operam de modo particularmente intenso de composição, título ou autor. Os historiadores aprendem a distinguir as fon-
sobre todo estudioso profissional. Assim, o acesso constante a materiais tes manuscritas dos textos impressos; mas não aprendem a avaliar com igual
impressos, é um dos pré-requisitos para o exercício da própria tarefa de his- cuidado como se apresentavam os manuscritos numa época em que era incon-
toriador. E difícil observar processos que penetram tão intimamente em nos- cebível tal tipo de distinção. Da mesma maneira, quanto mais preparados esti-
sas próprias observações. A fim de podermos avaliar as mudanças ocasiona- vermos para dominar os eventos e datas contidos em livros de história moder-
das pela imprensa, por exemplo, é necessário examinar as condições que nos, menos condições teremos para avaliar as dificuldades que se antepunham
existiam antes de seu advento. E as condições inerentes à cultura manuscrita aos estudiosos escribas, que tinham acesso a registros escritos variados, mas
só podem ser observadas olhando através da cortina dos materiais impressos. careciam de cronologias, mapas e outros guias de referência de todo tipo, hoje
Até mesmo uma familiaridade superficial com as descobertas dos antro- de uso corrente.
pólogos, ou observações ocasionais de crianças em idade pré-escolar, podem Por isso, quaisquer tentativas de reconstruir as condições que precede-
ajudar-nos a lembrar o abismo que existe entre cultura oral e cultura escri- ram a imprensa nos conduzem a uma dificuldade acadêmica. Toda recons-
ta. Em conformidade com isso, vários estudos têm salientado a diferença trução pressupõe o recurso a materiais impressos, circunstância que emba-
que existe, respectivamente, entre mentalidades formadas coin base na ça a percepção das condições que existiam antes que tais materiais se tornassem
palavra escrita e na palavra falada. É muito mais difícil especular sobre o disponíveis. Mesmo quando essa dificuldade é parcialmente vencida por
abismo que separa nossa experiência da de elites letradas que se baseavam estudiosos sensíveis, que conseguem desenvolver umfeeling correto das épo-
exclusivamente em textos copiados à mão. Não existe nada de análogo em cas, após manusearem massas enormes de documentos, ainda assim tais ten-
nossa experiência ou na de qualquer ser vivo no mundo ocidental de hoje. tativas de reconstrução tendem a ser desalentadoramente incompletas.
Por isso, as condições existentes na cultura do manuscrito devem ser arti- A própria teia de relações em que consistia a cultura do manuscrito era
ficialmente reconstruídas pelo recurso a livros de história e guias de refe- tão esgarçada, irregular e multiforme, que só nos é possível delinear algumas
rência. E, na maior parte das vezes, essas obras tendem mais a esconder que / poucas tendências de longo alcance. As condições então existentes nas pro-
a revelar o objeto de tal pesquisa. Os temas da era do manuscrito são proje- f , ximidades d~s livra~as da ve_lha ~~~a, na ~ibli~teca d~ ~exand~a ou em
tados em épocas posteriores, e as grandes tendências posteriores à imprensa ~ certos mosteiros e cidades umversltanas med1eva1s permitiram a ehtes letra-
são projetadas em épocas mais antigas, o que torna difícil vislumbrar a exis- ___ ,·· das desenvolver uma cultura "livresca" relativamente sofisticada. Apesar
tência de uma cultura literária distinta baseada na cópia manual. Não exis- disso, todos os acervos de bibliotecas estavam sujeitos à contração, e todos
te sequer um termo de uso consensual que designe o sistema de comunica- os textos manuscritos eram passíveis de adulteração, após terem sido copia-
ções escritas que existia antes do advento do prelo. dos numerosas vezes, com o correr do tempo. Além do mais, fora de certos

20 21
que não se pode responder em termos gerais. E as descobertas a esse respei-
to tendem a variar enormemente, dependendo da data e do lugar. Vereditos
conflitantes costumam ocorrer especialmente com relação ao último século
antes do advento da imprensa - época em que o papel já se tornara dispo-
nível e em que o homem letrado tendia a tornar-se seu próprio escriba.
Os especialistas em incunábulos, que lidam com informações de documen-
tos em frangalhos, tendem a insistir em que uma similar falta de uniformida-
de caracteriza os procedimentos utilizados pelos impressores primitivos. É
sem dúvida temerário fazer generalizações sobre os primórdios da impren-
sa, motivo por que se deve estar sempre prevenido contra a tendência de pro-
jetar sobre um passado distante o produto das edições padronizadas moder-
nas. Não obstante, convém igualmente precaver-se para não tornar menos
nítida a diferença fundamental entre o último século da cultura manuscrita
e o primeiro século posterior a Gutenberg. A cultura criada pela imprensa
em suas origens foi suficientemente uniforme, de modo que podemos medir
sua diversidade. Temos condições de avaliar sua produção, chegar a médias,
delinear tendências. Dispomos, por exemplo, de estimativas aproximadas da
produção total de todos os materiais impressos durante a chamada era dos incu-
nábulos (isto é, o período compreendido entre a década de 1450 e 1500). Do
mesmo modo, podemos dizer que a tiragem "média" das edições primitivas varia-
va entre duzentos e mil exemplares. Não há cifras comparáveis para os últi-
mos cinqüenta anos de cultura manuscrita. Na realidade, não temos cifra
alguma. Qual foi a tiragem da "edição média" entre 1400 e 1450? A pergun-
Escriba medieval escrevendo sob ditado, retratado num anúncio gravado em madeira para a firma
de J. Badius, na obra de William de Ockham, Dw!ogw (Lyon, J. Trechsel, circa 1494). Reproduzi-
ta praticamente não faz sentido. E o uso do termo "edição", quando aplicado
da mediante gentil permissão de John Ehrman, da obra A JiArilmição Je fil'ro.1 por catálogo até 1800 J. C., às cópias de um livro manuscrito, praticamente constitui um anacronismo.
de Graham Pollard e Albert Ehrman (Cambridge, The Roxburghe Club, 1965). As dificuldades que encontramos para avaliar a produção de textos manus-
critos nos indicam que o processo de quantificação não pode ser aplicado às
condições da cultura manuscrita. Os dados de produção mais geralmente cita-
centros especiais transitórios, a teia da cultura manuscrita era tão frágil, que dos, obtidos com base nas memórias de um vendedor florentino de livros
mesmo as elites letradas confiavam fortemente na transmissão oral. Uma vez manuscritos, mostram-se totalmente indignos de confiança. A Florença qua-
que as cópias executadas nos "escritórios" eram feitas sob ditado, e que as trocentista, de qualquer modo, tem muito pouco em comum com outros cen-
composições literárias eram tidas como "publicadas" mediante sua leitura em tros italianos (tais como Bolonha), para não falar de regiões transalpinas. Na
voz alta, pode-se dizer que até mesmo o aprendizado "pelo livro" dependia realidade, nenhuma região é típica. Não existe o livreiro, o escriba ou mesmo
da confiança depositada na palavra falada - o que produzia uma cultura híbri- o manuscrito "típico". Mesmo pondo de lado os problemas apresentados pelos
da semi-oral, semiletrada, sem qualquer equivalente preciso nos dias de hoje. produtores de livros e mercados seculares (que são desesperadoramente com-
Saber o que se entendia por publicação antes da imprensa, ou como exata- plexos), e considerando somente as necessidades dos religiosos às vésperas do
mente eram transmitidas as mensagens na era dos escribas, são indagações a advento da imprensa, mesmo assim teremos de enfrentar uma notável diver-

22 23
sidade de procedimentos. Os estoques dos livros para as ordens monacais varia- versitários - para não falarmos de livreiros que atendiam à clientela não
vam de acordo com a ordem; os frades mendicantes não seguiam as normas universitária. Importa ainda ter em mente que determinados padrões rela-
adotadas pelos monges. Os papas e cardeais freqüentemente recorriam às "ati- tivamente claros do século XIII podem tornar-se imprecisos na parte final
vidades multifárias" dos cartolai italianos; os pregadores compunham suas do século seguinte. Durante o período compreendido entre 1350 e 1450 -
próprias antologias de sermões; ordens semilaicas buscavam fornecer carti- século crucial no preparo de nosso cenário - , as condições existentes eram
lhas e catecismos para todo o mundo. geralmente anárquicas, e alguns hábitos presumivelmente obsoletos foram
A ausência de uma produção média ou de um procedimento típico consti- retomados. Os Jcriptoria monacais, por exemplo, começavam a viver a sua
tui um formidável obstáculo, quando se tenta descrever o cenário em que se última "idade de ouro".
deu o advento da imprensa. Tomemos, por exemplo, uma afirmação com pre- A existência de Jcriptoria monacais até mesmo além dos primórdios da
tensão de síntese, enganadoramente simples, feita por mim quando começava imprensa é demonstrada de modo fascinante por uma obra que é freqüente-
a tentar descrever a revolução da imprensa. A produção de livros no século XV, mente citada como uma curiosidade entre os livros dos primeiros dias da
dizia eu, passou dos Jcriptoria para as oficinas de impressão. Essa afirmação foi imprensa: De lauJe Jcriptorum, da autoria de Johannes Trithemius. Nesse tra-
criticada por não levar em conta uma mudança anterior, dos Jcriptoria para as tado, o abade de Sponheim não somente exortava seus monges a copiar livros,
papelarias. No decorrer do século XII, donos de papelarias leigos começaram como explicava as razões pelas quais os "monges não devem parar de copiar
a substituir escribas monacais. Os livros requeridos pelos professores univer- devido à invenção da imprensa". Dentre outros argumentos (como o da utili-
sitários e pelas ordens mendicantes passaram a ser fornecidos mediante um sis- dade de manter ativas mãos que poderiam estar desocupadas, incentivando desse
tema de "produção". Os copistas já não eram reunidos numa mesma sala, mas modo a diligência, a devoção, o conhecimento das Escrituras, e assim por dian-
trabalhavam sobre diferentes partes de um determinado texto, recebendo do te), o autor compara algo ilogicamente a palavra escrita num pergaminho, que
dono da papelaria o pagamento por peça executada (o assim chamado siste- iria durar mil anos, com a palavra impressa sobre papel, que teria uma sobre-
ma dapetia). A produção de livros, segundo aquele crítico, já havia saído dos vivência mais curta. Não se mencionou o possível uso do papel (ou pergami-
Jcriptoria três séculos antu do advento da imprensa. nho raspado) por copistas, ou de pele, para uma versão impressa especial. Como
Talvez valha a pena determo-nos um pouco mais naquela objeção. Sem estudioso cristão, o abade conhecia perfeitamente escritos anteriores que ha-
dúvida, deve-se considerar o surgimento do papeleiro leigo em cidades uni- viam oposto o durável pergaminho ao papiro perecível. Seus argumentos
versitárias e outros centros urbanos durante os séculos XII e XIII. É impor- revelam sua preocupação em preservar uma forma de trabalho manual que
tante o contraste entre o trabalho gracioso de monges, que labutavam pela parecia especialmente apropriada para os monges. Resta saber se ele estava
remissão de seus pecados, e o trabalho assalariado de copistas leigos. Pesquisas realmente preocupado com o aumento do uso do papel - na qualidade de biblió-
recentes realçaram o emprego de um sistema de "produção" e levantaram dúvi- filo ardente e à luz de antigas advertências. Suas atividades, contudo, revelam
das sobre antigas crenças em Jcriptoria leigos ligados a lojas de papelaria. Por claramente que, como autor, ele não dava preferência ao trabalho manual em
esse motivo, convém ser extremamente cauteloso no uso da expressão Jcrip- detrimento do trabalho impresso. Tanto que mandou imprimir logo seu Lou-
toria, no contexto das condições existentes no fim da Idade Média - mais vor doJ ucri.baJ, assim como outras obras suas de mais peso. Com efeito, utili-
cautelosa do que fui, em minha versão preliminar. zou tanto uma determinada oficina impressora em Mainz (atual Mogúncia),
Contudo, é importante, por outro lado, abster-se de atribuir demasiada que "ela bem poderia ser chamada de Editora da Abadia de Sponheim".
ênfase a tendências lançadas em centros como Paris, Oxford, Bolonha e outras Mesmo antes de 1494, época em que o abade de Sponheim deu o salto do
cidades universitárias no século XII, nas quais os exemplares eram repro- Jcriptorium para a oficina impressora, os cartuxos da Cartuxa de Santa Bár-
duzidos rapidamente, para atender a necessidades institucionais especiais. bara, em Colônia, já estavam aderindo aos impressores locais para dar mais
Exige-se cautela quando, tomando regulamentos universitários destinados amplitude a seus esforços, uma vez que se tratava de uma ordem de reclusos
a controlar copistas, os estendemos às práticas efetivas de papeleiros uni- obrigados, pelo voto do silêncio, a pregar" com as próprias mãos". Como regis-

24 25
trado em outros relatos, o mesmo aconteceu fora de Colônia, e não somente
entre os cartuxos. Um certo número de ordens beneditinas reformadas tam-
bém mantinham ocupados os impressores locais; em determinados casos,
monges e freiras mantinham suas próprias impressoras monacais. Merece cer- ·········2 ..
tamente mais atenção o possível significado da interferência de um empreen-
dimento capitalista num espaço religioso. Nessas condições, excluir comple-
tamente a fórmula "dos .1criptoria para a oficina impressora" parece tão
inadequado quanto tentar aplicá-la de modo irrestrito. Mesmo reconhecen-
DEFINIÇÃO DO SALTO INICIAL
do a significação de mudanças que afetaram a produção de livros no século
XII, não devemos equipará-las ao tipo de "revolução do livro" que ocorreu
no século XV. Esta última, diferentemente da primeira, assumiu uma forma
Deveríamos observar a força, o efeito e as conseqüências de invenções que em nenhum
cumulativa e irreversível. A revivescência dos .1criptoria monacais durante o
campo foram tão evidentes como nestas três, que eram desconhecidas dos antigos, a saber:
século anterior a Gutenberg foi a última de seu gênero.
a imprensa, a pólvora e a bússola. Pois essas três alteraram a aparência e o estado do
mundo inteiro.
Francis Bacon, Novum organum, Aforisma 129.

O ualquer pessoa provavelmente ganhará mais seguindo o conselho de


~ Bacon do que meditando sobre as razões pelas quais ele deve ser
seguido por outros. Esta tarefa claramente ultrapassa a competência de qual-
quer indivíduo, pois requer a convergência de muitos talentos e a elaboração
de muitos livros. Além disso, é difícil obter colaboração alheia, enquanto a
relevância do tópico para os diferentes campos de estudo permanece obscu-
ra. Antes de conseguir qualquer ajuda, parece necessário desenvolver algu-
mas hipóteses provisórias que relacionam a passagem do manuscrito para o
impresso com desenvolvimentos históricos relevantes.
Essa empreitada, por sua vez, parece requerer um ponto de partida
pouco convencional, além de uma reformulação do conselho de Bacon. Em
vez de tentar lidar com "a força, o efeito e as conseqüências" de uma única
invenção pós-clássica que está ligada a outras, preocupar-me-ei com uma
importante transformação, que constituiu em si mesma um vasto conglome-
rado de mudanças. A indecisão sobre o que se deve entender por advento
da imprensa contribuiu, creio eu, para reduzir o interesse sobre suas pos-
síveis conseqüências e as tornou mais difíceis de rastrear. É difícil desco-
brir o que aconteceu numa determinada oficina de Mainz nos anos 1450.

26 27
No curso de outras indagações, parece quase prudente deixar de lado um lo da imprensa. Aplica-se um modelo evolucionário da mudança a uma situa-
evento tão problemático. Isso não se aplica ao aparecimento de novos gru- ção que mais parece requerer um modelo revolucionário.
pos ocupacionais, que empregavam novas técnicas e instalavam equipamen-
tos novos em novos tipos de oficinas, ao mesmo tempo que expandiam Um homem nascido em 1453, ano em que se deu a queda de Constantinopla, bem que
redes comerciais e buscavam novos mercados, a fim de aumentar os lucros poderia, em seu qüinquagésimo aniversário, olhar para trás e contemplar uma vida duran-
auferidos com as vendas. Desconhecidas em toda a Europa até meados do te a qual haviam sido impressos cerca de 8 milhões de livros, mais talvez do que todos
os escribas da Europa haviam produzido desde que Constantino fundara sua cidade,
século XV, as oficinas de impressores eram encontradas em todos os cen-
no ano 330 d.e.
tros municipais importantes já por volta de 1500. Elas acrescentavam um
novo elemento à cultura urbana em centenas de cidades. Negligenciar tudo
isso, ao tratar de outros problemas, pareceria pouco prudente. Por esse moti- O que foi a produção efetiva de "todos os escribas da Europa" é matéria
vo, entre outros, passaremos por alto o aperfeiçoamento de um novo pro- inevitavelmente polêmica. Mesmo que se deixe de lado o problema de tentar
cesso de impressão baseado no uso de tipos móveis, e não nos deteremos estimar a quantidade de livros que deixaram de ser catalogados e foram pos-
na vasta literatura dedicada a explicar a invenção de Gutenberg. Uti- teriormente destruídos, é necessária muita cautela ao lidar com os dados hoje
lizaremos o termo "imprensa" como um rótulo conveniente, como se fosse disponíveis, uma vez que levantam freqüentemente pistas falsas com respei-
uma expressão abreviada para nos referirmos a um conglomerado de ino- to à quantidade de livros envolvidos. Uma vez que era usual registrar como
vações (ocasionando o uso de tipos de metal móveis, tinta à base de óleo, um único livro qualquer conjunto de textos distintos, desde que estivessem enca-
prensa de madeira manual, e assim por diante). Nosso ponto de partida não dernados em um mesmo par de capas, torna-se muito difícil precisar a quan-
será uma oficina impressora em Mainz. Ao contrário, começaremos onde tidade efetiva de textos existentes numa determinada coleção manuscrita. O
terminam muitos estudos: depois de terem sido postos em circulação os pri- fato de que objetos contados como em um livro continham, freqüentemente,
meiros produtos impressos datados, e após se terem lançado ao trabalho os uma combinação variável de muitas obras constitui outro exemplo da dificul-
sucessores imediatos do inventor. dade de quantificar dados gerados na era dos escribas. Uma situação seme-
Assim sendo, o advento da imprensa é considerado como o estabelecimen- lhante ocorre quando temos de enfrentar o problema de calcular o número de
to de prelos em centros urbanos além da Renânia, durante um período que homens-horas necessários para a cópia de livros manuscritos. Pesquisas recen-
se inicia na década de 1460 e que coincide, de modo aproximado, com a era tes acabam de tornar virtualmente inúteis as velhas estimativas baseadas no
dos incunábulos. Os estudos dedicados a este ponto de partida foram tão pou- número de meses que 45 escribas, a serviço de um vendedor de livros manus-
cos, que ele não recebeu ainda qualquer etiqueta convencional. Poder-se-ia critos de Florença, Vespasiano da Bisticci, levaram para produzir duzentos livros
falar numa mudança básica em determinado modo de produzir livros, numa para a Biblioteca Badia, de Cosimo de Mediei.
revolução dos meios de comunicação ou da mídia; ou talvez, de modo mais Assim sendo, o número total de livros produzidos por "todos os escribas
simples e mais explícito, num salto do texto manuscrito para o impresso. Seja da Europa" desde 330, ou mesmo desde 1400, com toda a probabilidade per-
qual for o termo utilizado, deve-se entender que ele abarca um amplo feixe manecerá indefinido. Não obstante, é sempre possível fazer algumas compa-
de mudanças relativamente simultâneas e inter-relacionadas, cada uma das rações, que colocam a produção das impressoras em nítido contraste com as
quais requer estudo detido e tratamento mais explícito - como vai sugerido tendências anteriores. "Em 1483, a Impressora Ripoli cobrava 3 florins por
no rápido esboço a seguir. quinterno, para compor e imprimir a tradução dos DiálogoJ de Platão, feita
Em primeiro lugar, impõe-se dar maior ênfase ao marcante acréscimo por Ficino. Um escriba poderia ter cobrado 1 florim por quinterno para
havido na produção de livros e à redução drástica conseguida no número de copiar o mesmo trabalho. A prensa de Ripoli produziu 1 025 cópias; o escri-
homens-horas necessários para fabricá-los. Hoje em dia, há uma tendência a ba teria completado uma." Tendo em vista este tipo de comparação, parece
imaginar um aumento crescente na produção de livros durante o primeiro sécu- equivocado sugerir que "a multiplicação de cópias idênticas" foi meramente

28 29
"intensificada" pela imprensa. O processo de copiar à mão poderia ser muito
1 / 1
eficiente, não há dúvida, quando se tratava de duplicar um edito real ou urna 1~ \
1 \
bula papal. No século XIII, foram produzidas tantas cópias de urna Bíblia
então recentemente editada, que alguns estudiosos de hoje julgam poder refe-
rir-se a urna "edição" parisiense de um manuscrito da Bíblia. Contudo, pro-
duzir urna só "edição" integral de qualquer texto constituía difícil empreita-
da naquele século. Aquela solitária "edição" manuscrita do século XIII bem
poderia ser comparada com o grande número de edições da Bíblia produzi-
das nos cinqüenta anos que vão de Gutenberg a Lutero. Além do mais, quan-
do a mão-de-obra de escribas era empregada para multiplicar editos ou pro-
duzir urna "edição" integral das escrituras, ela estava sendo desviada de
outras tarefas.

Muitos textos valiosos escaparam por pouco à destruição; inúmeros outros


desapareceram. A sobrevivência, em tais casos, dependeu muitas vezes da cir-
cunstância de que urna cópia esporádica fosse feita por um estudioso interes-
sado, que agira corno seu próprio escriba. Em vista da proliferação de textos
"únicos" e da acumulação de variantes, constitui prática duvidosa dizer que
"cópias idênticas" tenham sido "multiplicadas" antes da imprensa. Este ponto
é especialmente importante quando se tem em mente a literatura técnica. Era
de tal magnitude a dificuldade de produzir urna cópia "idêntica" de urna obra
técnica significativa, que a tarefa não podia ser confiada a quaisquer assala-
riados. Homens de saber tinham de engajar-se em" copiar corno escravos" qua-
dros, diagramas e termos não-usuais. A produção de edições completas de
conjuntos de tábuas astronômicas não se limitou a "intensificar" tendências
anteriores. Ela as reverteu, ao criar uma situação nova, que liberou tempo <
rn
para a observação e a pesquisa. zr.z:l
Na vez anterior em que fora introduzido na Europa do século XIII, con- o:::
A..
vém observar, o papel não tivera de modo algum um efeito "similar". A pro- :§ o
o
dução de papel atendeu então às necessidades dos comerciantes, burocra- < t-<')

Q
tas, pregadores e literatos; acelerou o ritmo da correspondência e permitiu o 00
o
o
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o 3r:::: 3
o
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z -o r::::"'
-~
<1)

Dois mapas (nas páginas seguintes) que revelam a disseminação da imprensa na Europa Ocidental "'
<1) 3 o
o
durante a era dos incunábulos. Estes mapas, traçados por Henri-Jean Martin, mostram a dissemi- êi <1)

rn < o
nação da imprensa antes de 1471; de 1471 a 1480; de 1481 a 1490; e de 1491 até 1500. Reproduzi- rn
ã •
o
dos da obra L'apparition Ju livre (da série É,,olution de l½umanite'), de L. Febvre e H.-J. Martin (Paris, o
Albin Michel, 1958, defronte da página 272), mediante gentil permissão de H.-J. Martin e Edições <
Albin Michel.

JO 51
A DISSEMINAÇÃO DA IMPRENSA
Antes de 1481
• (Locais mostrados no mapa anterior)
• De 1481 a 1490
o De 1491 a 1500

o 100 200 300

J2
JJ
que .um maior ~úmero de h~mens de letras agissem como seus próprios máquinas. Na realidade os bibliófilos florentinos já mandavam comprar livros
escribas. Mas amda se necessitava da mesma quantidade de homens-horas impressos em Roma desde 1470. Sob a direção de Guidobaldo da Montefel-
para produzir _um determinado texto. Multiplicaram-se as lojas de papelei- tro, a Biblioteca ducal de Urbino adquiriu edições impressas e (envergonha-
ras, ou cartolat, em resposta a uma demanda crescente por cadernos, tabu- damente ou não) mandou-as encadernar com as mesmas capas magníficas então
letas, folhas preparadas e outros artigos. Além de vender materiais de escri- usadas para os manuscritos. A mesma corte patrocinou o estabelecimento de
ta e livr?s escolares, bem como serviços e materiais de encadernação, alguns uma impressora pioneira em 1482. O comentário de Vespasiano mostra que
comercia~tes passaram também _a auxiliar os colecionadores de livros que ele estava sendo vítima de devaneios nostálgicos e irrealizáveis, tanto assim
os patrocinavam, procurando localizar obras mais valorizadas. Mandavam que não conseguiu de seus clientes principescos apoio suficiente para conti-
copiá-las, atendendo a encomendas, e conservavam alguns exemplares para nuar seu comércio exclusivista. Seu principal concorrente em Florença,
vender em suas lojas. Contudo, sua participação no comércio de livros era Zanobi di Mariano, conseguiu manter-se em atividade até sua roorte em 1495.
mais ocasional do que se poderia imaginar. "A disposição de Zanobi para vender livros impressos - um tipo de comér-
cio que Vespasiano havia rejeitado - explica sua sobrevivência como livrei-
As atividades dos cartolai eram variadas [... ] Os que se especializavam na venda e pre- ro nos anos traiçoeiros do final do século XV. Lidando exclusivamente com
paração de materiais para a produção de livros, ou na sua encadernação, provavelmen- manuscritos, Vespasiano teve de encerrar seu comércio em 1478."
te pouco, ou nada, se interessavam pela produção ou venda de manuscritos e (mais tarde) Só depois de Vespasiano ter fechado as portas é que se pode dizer que come-
de livros impressos, novos ou usados. çou um autêntico comércio de livros por atacado.

Até mesmo o comércio de livros a varejo empreendido por Vespasiano da Logo que Gutenberg e Schoeffer terminaram a última folha de sua monumental Bíblia,
Bisticci, o mais conhecido mercador florentino de livros, que atendia prela- o financista da firma, Johan Fust, tomou para si cerca de uma dúzia de exemplares, a

?ºs ~ príncipes e "fazia todo o possível" para atrair clientes e fazer negócios, fim de verificar a melhor maneira de colher os frutos de seus pacientes investimentos.
E para onde se voltou ele, em primeiro lugar, para converter suas bíblias em dinheiro?
Jamais esteve a ponto de transformar-se num comércio por atacado. Apesar
Dirigiu-se a Paris, então a maior cidade universitária na Europa, onde mais de 1Omil
dos métodos geralmente agressivos com que Vespasiano promovia suas ven-
alunos lotavam a Sorbonne e outras faculdades. E o que encontrou ele naquela cidade,
das e correlacionava livros e clientes, ele jamais deu sinais de "ter ganhado
para seu amargo desprazer? Uma corporação bem organizada e poderosa, a guilda do
muito dinheiro" com todas as suas transações. Não há dúvida de que ele con- forte comércio livreiro, a Confrérie des Libraires, Relieurs, Enlumineurs, Écrivains et
quistou clientes notáveis e angariou considerável celebridade como "o prín- Parcheminiers [... ] fundada em 1401 [... ] Alarmados pelo aparecimento de um foras-
cipe dos editores". Sua loja foi enaltecida por poetas humanistas em termos teiro detentor de tesouro tão inaudito, quando constataram que ele estava vendendo uma
similares aos que foram utilizados mais tarde em louvores dedicados a Guten- Bíblia atrás da outra, chamaram logo a polícia e apresentaram seu abalizado veredicto
berg e Aldus Manutius. Talvez seja ainda mais notável a sua fama póstuma de que tal quantidade de livros valiosos só poderia estar na posse de um só homem median-
- alcançada somente no século XIX, depois da publicação de suas memó- te a ajuda do próprio diabo. Fust teve de fugir para salvar a pele, ou sua primeira via-
rias, e da utilização destas por Jacob Burckhardt. A obra de Vespasiano, VidaJ gem de negócios teria terminado numa vexatória fogueira ...
de homcfld ilu,,tre.1, contém uma referência aos livros manuscritos ricamente enca-
dernados, existentes na biblioteca do Duque de Urbino, e dá a entender, em Esta história, tal como referida por E. P. Goldschmidt, pode ser tão infun-
tom esnobe,_que um livro impresso se sentiria "envergonhado" em tão elegan- dada quanto a lenda que associava a figura de Johann Fust à do dr. Fausto. A
te companhia. Essa referência, isolada, feita por um mercador de livros atí- reação adversa ali narrada não deve ser considerada como típica; muitas refe-
pico e obviamente preconceituoso, foi reproduzida e expandida em muitos rências a esse período inicial são, na pior das hipóteses, ambivalentes. As mais
comentários enganosos sobre o suposto desdém que os humanistas da freqüentemente citadas costumam associar a imprensa aos poderes divinos, não
Renascença teriam alimentado em relação aos objetos vulgares produzidos pelas aos diabólicos. Contudo, as referências mais conhecidas provêm dos anúncios

35
bombásticos ou prefácios compostos precisamente pelos primeiros impresso- É preciso dar o peso devido à circunstância de que havia novas cara~te-
res, ou então dos editores e autores que trabalhavam nas oficinas de impres- rísticas e que elas foram exploradas. A despeito dos seus esforços no sentido
são. Tais pessoas tendiam a adotar uma visão mais favorável do que os mem- de reproduzir os manuscritos o mais fielmente possível, o fato é que Peter
bros das corporações, que tinham feito dos livros manuscritos o seu ganha-pão. Schoeffer, impressor, estava seguindo procedimentos diferentes dos ~dot~-
Os lwraire.1 parisienses poderiam ter boas razões para estar alarmados, embo- dos por Peter Schoeffer, escriba. A ausência de quaisquer mudanças visíveis
ra se estivessem antecipando aos fatos: o valor de mercado dos livros copiados no produto combinava-se com uma mudança completa n?s ~odos de produ-
à mão só veio a cair depois da morte de Fust. Outros membros daconfrérie jamais ão, dando origem a uma combinação paradoxal de contmmdade aparente e
poderiam prever que a maioria dos encadernadores, rubricadores, desenhistas ~udança radical. Por isso, a semelhança temporária entre o produto do tra-
de iluminuras e calígrafos passariam a estar mais ocupados que nunca, tão logo balho manual e o do trabalho impresso parece dar apoio à tese de uma mudan-
os primeiros impressores se estabelecessem. Quer vissem a nova arte como a ça evolutiva muito gradual; e, no entanto, podemos tam~ém sustentar a tese
dádiva ou maldição, quer a atribuíssem a Deus ou ao Diabo, o fato é que o aumen- oposta, se sublinharmos a sensível diferença entre os dms modos _de produ-
to inicial de produção impressionou os observadores contemporâneos como sendo ção e observarmos as novas características que começaram a surgir antes do
algo tão notável, a ponto de sugerir uma intervenção sobrenatural. Até mesmo final do século XV. ·
os incrédulos estudiosos modernos podem ficar perturbados, ao tentar calcu- O trabalho do escriba era necessariamente orientado pela aparência super-
lar o número de bezerros que foram necessários para suprir peles em quanti- ficial do texto. Ele se empenhava totalmente em procurar traçar letras espa-
dade suficiente para editar em papel velino a Bíblia de Gutenberg. Não deve- çadas uniformemente, dentro de um padrão simétrico e agradá:el. Procedi-
ria ser difícil chegar ao consenso sobre a idéia de que o aumento ocorrido na mento completamente distinto exigia-se para orientar os compositores. Neste
segunda metade do século XV foi abrupto, e não gradual. caso, era necessário fazer marcações no manuscrito, enquanto se ia analisan-
Se em vez da quantidade considerarmos a qualidade, torna-se muito mais do O seu conteúdo. Desse modo, todo manuscrito que vinha às mãos do
difícil vencer o ceticismo. Quando se coloca uma cópia manuscrita tardia de impressor tinha de ser examinado de uma maneira nova - que dava ocasião
um dado texto ao lado de uma das primeiras versões impressas, a tendência
mais imediata é achar que não houve mudança alguma, muito menos uma uill luquar Dr írd'I llominilJ3.
mudança abrupta ou revolucionária. ni apfue1BUWG:llfflldmimií.
1 magffllt gnuiú,qui tr anifrimria
tãriifrlloípitintuqmbat·lliri\l.;tn
qprrimrnní qutririn riun qui in mr
Por trás de cada livro impresso por Peter Schoeffer há um manuscrito publicado [... ] w,.
tu11u1c ~oll tBmaÍIÚ nr111riãq;
lufttani:ilftiirit illrmfuiimii ut uílit
A decisão sobre os tipos de letras a usar, a seleção das iniciais e a decoração das rubri-
prttii 1 mãfu llplllJ rú b~ qumlrci.
cas, a determinação do comprimento e largura de cada coluna, o planejamento das mar- tiotnúntiffio~O~f!:OuttO
gens [... ] tudo estava predeterminado pela cópia manuscrita precedente. anin:furur9 gamu pnmummBnun.
nua aar .fl.udúq; poll ãnoo ijttlO!,
imm n[umpm bnroaba tttl'l'D:E@l
fuirtúapftoC11Jii{ldíú-ndantinu,t
Não somente os primeiros impressores (como Schoeffer) buscaram copiar ruum rumtlt tUtr rurunilftt .)Jilbtt
múio qb lnnnno mrrgir:uiur uonr
um determinado manuscrito o mais fielmente possível, como também os escri- adun-tt in aum; Difripft tr autl:nrin
bas do século XV retribuíram a gentileza. Como nos demonstrou Curt Büh- onttatúfufu:fmriuo roniir. ll ntc n
EÚtlÍ1UU9 aí roni tt11lam-1 ltgmtur
ler, um grande número de manuscritos executados no final do século XV foram
copiados de livros impressos primitivos. Assim, tanto o trabalho manual
A semelhança entre um texto manuscrito e um impresso é demonstrada por estas duas páginas, a
como o executado no prelo mantiveram-se quase indistinguíveis na aparên- primeira das quais extraída de uma Bíblia manuscrita (a Bíblia Gigante de Mainz), e a segunda, de
cia, mesmo depois que o impressor começou a afastar-se das convenções dos uma Bíblia impressa (a famosa Bíblia de Gutenberg). Reproduzidas por especial cortesia da Divisão
escribas e a explorar algumas características novas inerentes à sua arte. de Livros Raros e Coleções Especiais da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.


J6
por sua vez a mais revisões, mais correções e mais cotejos do que nos textos até mesmo os problemas decorrentes de uso e desgaste podem ser ~inimiza-
copiados à mão. No espaço de uma geração, os resultados desse reexame apon- dos: as partes rombudas puderam ser aguçadas, os detalhes esmaecidos pude-
taram uma nova direção - não mais no sentido da fidelidade às convenções ram ser reavivados, de modo a garantir-se uma durabilidade notável.
dos escribas, mas buscando servir a conveniência do leitor. O caráter comer- Não é tanto pela importância que dá à imagem impressa, mas antes por s~bes-
cial altamente competitivo do novo modo de produção de livros incentivou a timar O significado do texto impresso, que !vins parece perder-se no cammho.
adoção relativamente rápida de toda e qualquer inovação que valorizasse uma Embora ele mencione de passagem que "a história dos impressos como uma
determinada edição junto aos compradores. Muito antes de 1500, os impres- série integrada" se inicia com seu uso" como ilustrações em livros impressos de
sores já faziam suas experiências com o uso de "tipos graduáveis, títulos de tipos móveis", em outros lugares sua análise tende a apartar o emprego das figu-
páginas, notas de rodapé, índices, cabeçalhos ilustrados, referências cruza- ras impressas do destino dos livros impressos. Seu tratamento dá a ~nte~der
das [... ] e muitos outros artifícios à disposição do compositor" - todos indi- que os novos aspectos da rep~titividade se limi~v~m às mensagens pictóncas.
cadores da "vitória do operador de buril sobre o escriba". As páginas de rosto E nós sabemos que esses efeitos não estavam limitados a figuras ou, no caso
tornaram-se cada vez mais comuns, facilitando o preparo de listas de livros em tela, a figuras e palavras. As tabelas matemáticas, por exemplo, também foram
e catálogos,<ao mesmo tempo que constituíam anúncios em si mesmas. As ilus- transformadas. Para estudiosos interessados na mudança científica, o que acon-
trações feitas à mão foram sendo substituídas gradualmente por xilografias teceu com os números e as equações é certamente tão importante como o que
e estampas - inovação que acabou contribuindo para revolucionar a litera- aconteceu com as imagens ou as palavras. Além disso, muitas das mais impor-
tura técnica, pela introdução de "mensagens pictóricas que podiam ser repe- tantes mensagens pictóricas produzidas durante o primeiro século de impren-
tidas com exatidão" em todos os tipos de obras de referência. sa empregavam vários dispositivos - bandeirolas, chaves alfanuméricas, linhas
O fato de que imagens, mapas e diagramas idênticos podiam ser vistos simul- apontando para o desenho etc. - destinados a relacionar imagens aos textos.
taneamente por muitos leitores esparsos constituiu por si só uma espécie de Tratar material visual ilustrativo como uma unidade à parte corresponde a per-
revolução. Esta observação foi feita de modo incisivo por William Jvins, anti- der de vista os elos vinculadores, que eram tão importantes na literatura téc-
go curador de gravuras do Metropolitan Museum. Embora a ênfase particu- nica, porque expressavam relações entre palavras e coisas.
lar dada por lvins à "mensagem pictórica que podia ser repetida com exati- Mesmo tendo em vista que a impressão tipográfica e a impressão manual
dão" tenha sido bem acolhida entre historiadores da cartografia, sua propensão podem ter-se originado como inovações distintas, que eram utilizadas inicial-
ao exagero provocou objeções de outros especialistas. As imagens passíveis mente para fins diversos (assim, as cartas de baralho e imagens de santos eram
de repetição, argumentavam eles, datam dos antigos selos e moedas, ao passo estampadas com base em blocos de madeira, enquanto as iluminuras, feitas à
que uma reprodução exata não tinha muito a ganhar com o uso de blocos xilo- mão, continuavam a decorar muitos dos primeiros livros impressos), as duas
gráficos, que se gastam e quebram após longo uso contínuo. Neste ponto, como técnicas em breve se tornaram integradas. A utilização da tipografia para os
em qualquer outro, não convém subestimar ou exagerar as vantagens da textos levou ao uso da xilografia para as ilustrações, com o que foram selados
nova tecnologia. Embora se admita que as xilografias podiam danificar-se ao os destinos do escriba e do desenhista de iluminuras. Ao considerar-se a manei-
serem copiadas para inclusão em diversos tipos de texto, convém considerar ra como a literatura técnica foi afetada pelo deslocamento do manuscrito para
também, por outro lado, o estrago que ocorria quando imagens feitas à mão o impresso, parece razoável adotar a estratégia de George Sarton, que :on-
tinham de ser copiadas para centenas de livros. Embora alguns desenhistas templava "uma invenção dupla: tipografia para o texto, gravura para as ima-
de iluminuras medievais dispusessem de livros de padrões e de técnicas de gens". Convém dar mais importância ao fato de que as letras, os ~úmeros e~
perfuração, a reprodução precisa de detalhes sutis permaneceu fugidia até o figuras, tudo já podia ser repetido nos últimos anos do século XV. E talvez mais
advento da xilografia e da gravura. Blocos e pranchas tornaram possível pela significativo salientar que o livro impresso tenha proporcionado novas for~as
primeira vez a repetição de material visual ilustrativo. Quando confiados a de interação entre esses diferentes elementos, do que a transformação sofnda
artesãos experientes no uso de bons materiais e sob adequada supervisão, pela figura, pelo número ou pela letra tomados separadamente.
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J8 39
. ilustrativo destm'ado a ediçoes
- impres-
·
A preparação da cópia e do material teção e empregos lucrativos, sem se esquecer de cultivar e promover autores
,
sas ~ambem _provocou um rearranJo ?as artes e rotinas ligadas à produção e artistas talentosos, que poderiam angariar lucros ou prestígio à sua firma.
de hvros.' Nao somen~e as novas técmcas (como fundição de tipos e prensa- Nas cidades em que sua empresa prosperava e ele pessoalmente atingia uma
gem_ de h~os) e~volVIam verdadeiras mudanças ocupacionais, como a pro- posição de influência junto aos seus concidadãos, sua loja tornava-se um ver-
duçao de hvros impressos também reunia num só local talentos tradicionais dadeiro centro cultural que atraía os literatos locais e personalidades famo-
de vá~ias espécies. Durante a era dos escribas, a fabricação de livros havia sas estrangeiras, ao constituir um local de reuniões e centro de mensagens
oco~ndo s?b os aus~ícios distintos representados por donos de papelarias e para uma Comunidade do Saber cosmopolita e crescente.
copistas leigos nas cidades universitárias; iluminadores e miniaturistas trei- Alguns vendedores de livros manuscritos haviam exercido, sem dúvida, fun-
nados em ateliês especiais; mestres ourives e artesãos de couro associados a ções similares, antes do advento da imprensa. Já se mencionou que os huma-
guildas especiais; monges e irmãos leigos reunidos nos Jcriptoria; funcionários nistas italianos eram reconhecidos a Vespasiano da Bisticci por muitos dos ser-
da realez~ e secretários papais ativos em chancelarias e cortes; pregadores viços que mais tarde seriam prestados por Aldus Manutius. Mas, na verdade,
qu_e compilavam ~or cont~ próp~ia livros de sermões; poetas humanistas que a estrutura da loja a que presidia Aldus era muito diferente da conhecida por
agiam como ~senhas de si próprios. O advento da imprensa levou à criação Vespasiano. Como protótipo do capitalista primevo e herdeiro de Ático e seus
de um _novo t~po de estrutura de loja; a um reagrupamento que gerou conta- sucessores, o impressor abraçou uma gama de atividades mais ampla. A casa
tos mais estreitos entre trabalhadores diversamente capacitados e incentivou de Aldus em Veneza, que abrigava cerca de trinta pessoas, foi recentemente
novas formas de trocas interculturais. descrita por Martin Lowry como uma "quase incrível mistura de colônia penal,
Por esse motivo, não é raro encontrar ex-padres entre os primeiros impres- casa de pensão e instituto de pesquisa". Poder-se-ia consagrar um estudo muito
sores, ou ex-abades atuando como organizadores ou corretores de texto. Por interessante a uma comparação entre a cultura ocupacional do impressor Peter
outro lado, muitos professores universitários, que amiúde também se exerci- Schoeffer e a do escriba Peter Schoeffer. Diferentemente do salto entre dono
tavam nesses labores, passaram a ter contato mais próximo com mecânicos de papelaria e editor, o salto do escriba para o impressor representou uma mudan-
e metalúrgicos. Outras formas profícuas de colaboração aproximaram astrô- ça ocupacional autêntica. Embora Schoeffer tenha sido o primeiro a dar o
nomos e gravadores, ou físicos e pintores, assim desvanecendo velhas divi- salto, muitos outros seguiram o mesmo caminho antes do fim do século.
sões de trabalho intelectual e incentivando novas maneiras de coordenar a A julgarmos pela excelente monografia de Lehmann-Haupt, muitas das
ação do cérebro, dos olhos e das mãos. As antigas dificuldades de financiar atividades pioneiras de Schoeffer estavam relacionadas com a passagem
a publicação de grandes volumes em latim - que eram usados no fim da Idade do comércio a varejo para uma indústria por atacado. "Durante algum tempo,
~édia Pº: faculda~es de teologia, direito e medicina - levaram por sua vez o comércio com livros impressos se manteve dentro dos estreitos canais do
a formaçao de sociedades que agregavam ricos negociantes e estudiosos comércio de livros manuscritos. Dentro em pouco, contudo, a vaga não pôde
l?cais. Finalm~nte, as novas corporações financeiras, formadas para permi- mais ser contida." Foram localizados novos pontos de distribuição; impri-
tir aos mestres impressores contratar mão-de-obra e suprimentos necessários, miram-se folhetos, circulares e catálogos de vendas; os próprios livros
puseram em contato representantes da sociedade e do meio acadêmico. eram levados Reno abaixo, para além do Elba; para o ocidente, em dire-
. Na qualidade de elemento-chave em torno do qual giravam todos os arran- ção a Paris; para o sul, em direção à Suíça. O impulso no sentido de abrir,
JOS, o próprio mestre-impressor funcionava como ponte entre vários univer- novos mercados era acompanhado de esforços para manter os concorren-
sos. E~e era responsável não só por conseguir dinheiro, como pelo suprimen- tes sob controle, mediante a oferta de melhores produtos, ou, pelo menos,
to de insumos e mão-de-obra, ao mesmo tempo que tinha de desenvolver a impressão de um prospecto anunciando os textos "mais legíveis" da firma,
complexos esquemas de produção, lidar com greves, tentar avaliar as condi- índices "mais completos e mais bem arranjados", "mais cuidadosa revisão
ções dos mercados livreiros e angariar o apoio de assistentes preparados. Tinha de textos" e edição. Eram objeto de atenção os funcionários que serviam
de manter-se em bons termos com as várias autoridades que asseguravam pro- arcebispos e imperadores, não somente porque eram potenciais bibliófilos
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commútuur,ut inttr Jiffec,rnJum,nif,rtlíBo ,iufmodijigna,:.rr,,nfutrjô líbtr.tri ntquw.
Este exemplo de material ilustrativo/visual com remissões ao texto é extraído da obra De humani cor- y Tr11nfutrfur ,1/,J,mÚnú mufcu/,,,.
pori., fa6rú:a lilwi,,eptem, de Andreas Vesalius (Basiléia, Johann Oporinus, 1555, p. 224-5). Reproduzido a: Obuqu't 4[cmkn1 ,1bJom1,m m11fcu/,u,ab abkmint hi'c rtjltxlM.
f, Uforum
mediante gentil permissão da Folger Shakespeare Library.

-12 .jJ
O FFICIN A! TYPO GRA- l'ICTURE OF A PRINTING OFFICE [xviJ
P H I C Ai O E L I N E A T I O. os donos de papelarias que serviam as faculdades universitárias, os escribas
leigos que prestavam serviços às ordens mendicantes e os copistas semilai-
cos que pertenciam a comunidades fundadas pelos Irmãos da Vida em Comum,
não faltavam de todo iniciativas competitivas e comerciais. Tais iniciativas,
contudo, eram fracas, quando comparadas com os esforços do velho Schoef-
fer e seus concorrentes, no sentido de recuperar os investimentos iniciais, pagar
os credores, consumir resmas de papel e manter empregados os impressores.
O vendedor de livros manuscritos, ao contrário do que ocorria com o impres-
sor, não tinha por que se preocupar com máquinas paradas ou com trabalha-
dores em greve. Alguém já lembrou que o simples fato de instalar um prelo
num mosteiro, ou num tipo de associação com uma ordem religiosa, já cons-
tituía uma fonte de perturbação, pois trazia "uma multidão de preocupações
com dinheiro e propriedade" a um espaço previamente reservado à medita-
EEtNcorrcétorum
y
TH fcnlptorisopus,quo prodiditunâ'.
M 11
Singula chalcographi mnncra ritc grcgis.
curas,opcrasq; rcgcnrum,
This cut, the work of Thymius' accurate hand
Shows ali at once how printing shops are manned:
ção e aos trabalhos pios.
Q!Jasq: gcrit ledor, compofitorq; ,ices. The masters' duties, the correctors' chores, Na qualidade de publicistas que defendiam seus próprios interesses, os
Ut vulgus filcam. tu qui Jégis illa, hbcllo Toe work of readers and compositors.
Fac itcratâ animi fcdulitatc fatis. To this small book then you'U apply your mind primeiros impressores publicavam listas de livros, circulares, cartazes.
Sic mcritz cumulans hinc fcrrilitatis honorcs, Good reader, ifyou're not the vulgar kind,
Ceu piélura oculos, intima mentis ages. So that a picture in your mind may risc
Colocavam o nome de sua firma, o emblema e endereço de sua loja no fron-
L. I. L. F. To match this picture that's before your eyes. tispício de seus livros. Com efeito, a utilização por eles dada às páginas de
l. l. l. F rosto desde já acarretava uma inversão significativa em relação aos proce-
dimentos dos escribas, uma vez que elas se colocavam na frente; e o colofão
Um mestre impressor em sua oficina. Os versos latinos e a xilogravura apareceram pela primeira vez
do escriba aparecia em último lugar. Eles estenderam suas técnicas promo-
" •.na obra de Jerome Hornschuch, Orthotypographia (Leipzig, M. Lantzenberger, 1608). A tradução
em inglês foi extraída de uma edição fac-similada, organizada e traduzida por Philip Gaskell e Patri- cionais, de modo a incluir os artistas e autores das obras por eles publica-
cia Bradford (Biblioteca da Universidade de Cambridge, 1972, p. XVI). Reproduzida mediante gen- das, com isso contribuindo para a criação de novas formas de celebridade
til permissão da Biblioteca da Universidade de Cambridge. pessoal. Os mestres de cálculos e fabricantes de instrumentos, à semelhan-
ça de professores e pregadores, também ganharam com os anúncios nos livros,
que espalhavam sua fama além das lojas e salas de aulas. Os estudos dedi-
e censores, mas também porque constituíam fregueses virtuais que expe- cados à formação de uma intelligentJia leiga - nos quais se reconhece uma
diam um fluxo contínuo de ordens para a impressão de decretos, editos, nova dignidade aos ofícios artesanais, ou se admite uma visibilidade maior
bulas, indulgências, cartazes e panfletos. No final do século, Schoeffer havia ganha pelo "espírito capitalista" - bem que poderiam atribuir mais atenção
galgado uma posição de eminência na cidade de Mainz. Comandava uma a esses primeiros praticantes das artes da propaganda.
"extensa organização de vendas", associara-se também a uma operação con- Por outro lado, o fato de que eles dispunham de um novo aparelho publi-
junta de mineração e fundara uma dinastia de impressores. Após sua morte, citário colocou os primeiros impressores numa posição extremamente vanta-
o acervo de tipos passou para seus filhos, e a firma Schoeffer, sempre em josa em relação a outros empresários. Eles não só buscavam conquistar mer-
operação, expandiu-se pelo século seguinte, para abarcar também a impres- cados cada vez mais amplos para seus produtos, como também contribuíam
são de música.
para a expansão de outros empreendimentos comerciais, com os quais lucra-
Como está sugerido no trecho anterior, há muitos pontos de possível con- vam igualmente. Que efeitos teve o aparecimento de novas técnicas publici-
traste entre as atividades do impressor de Mainz e as do escriba de Paris. Éntre tárias sobre o comércio e a indústria do século XVI? Talvez já conheçamos

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algumas das respostas. E outras provavelmente poderão ainda ser encontra- tário em relação ao problema, sem dúvida fascinante, de quão rapidamente
das. Vários outros aspectos da impressão de pequenos trabalhos avulsos e das tais grupos se expandiram.
transformações por ela trazidas merecem estudos mais aprofundados. Por Quando a atenção se concentra nos grupos já então alfabetizados, torna-
exemplo: os calendários e indulgências impressos, que foram inicialmente se claro que sua composição social requer maior reflexão. Terá a imprensa ini-
executados em Mainz, nas oficinas de Gutenberg e Fust, justificariam pelo menos cialmente servido ao clero e ao patriciado, como uma "arte divina"?, ou deve-
tanta atenção quanto as bíblias, muito mais conhecidas. Com efeito, a produ- ríamos antes imaginá-la como"amiga do pobre"? Ela foi descrita dos dois modos
ção de indulgências em quantidades maciças ilustra de modo claro o tipo de pelos contemporâneos, e provavelmente teve as duas funções. Ao nos recor-
mudanças que muitas vezes passam despercebidas, fazendo com que, mais tarde, darmos das funções de escriba realizadas por escravos romanos, ou mais tarde
suas conseqüências sejam mais difíceis de avaliar do que talvez devessem ser. por monges, irmãos leigos, clérigos e notários, podemos concluir que o traba-
Em contraste com as várias mudanças esboçadas acima, as modificações lho de escrever jamais coincidiu com a condição social de elite. Pode-se igual-
ligadas ao consumo de novos produtos impressos são mais intangíveis, indi- mente supor que a situação de letrado era mais compatível com as funções seden-
retas e difíceis de tratar. Desse modo, é indispensável deixar uma larga mar- tárias do que com as caças e cavalgadas tão ao gosto de muitos cavalheiros e
gem de incerteza, quando se examinam essas modificações. lordes. Sob essa luz, pode ser equivocado imaginar que a recém-criada impren-
A propósito do espinhoso problema de estimar as taxas de alfabetização, sa pôs à disposição de pessoas menos favorecidas alguns produtos até então
antes e depois do advento da imprensa, parecem-me irrefutáveis os comen- usados exclusivamente por pessoas com mais recursos. Parece mais provável
tários de Cario Cipolla: que muitas áreas rurais tenham permanecido intocadas até a chegada da era
da estrada de ferro. Dada a grande população rural européia no início da Idade
Não é fácil tirar uma conclusão geral dos dados esparsos que eu citei e dos dados igual- Moderna, bem como a persistência de dialetos locais, que impunham uma bar-
mente esparsos que eu não citei[...] Eu bem poderia prosseguir concluindo que, no final reira lingüística adicional entre o mundo falado e o escrito, é provável que somen-
do século XVI, "havia mais pessoas alfabetizadas do que geralmente se supõe" [...] Do te uma parcela muito pequena da população total tenha sido afetada pela
mesmo modo, também poderia concluir que "havia menos indivíduos alfabetizados do que mudança inicial. Não obstante, no interior dessa população relativamente
geralmente se acredita", uma vez que, na realidade, ninguém sabe o que significa a expres- pequena e predominantemente urbana, um espectro social razoavelmente
são "geralmente se acredita"[...] Poder-se-ia arriscar afirmar que, no final do século XVI, extenso pode ter sido atingido. Na Inglaterra do século XV, por exemplo, mer-
a taxa de analfabetismo da população adulta na Europa Ocidental ficava abaixo de 50% cadores e escribas engajados no comércio de livros manuscritos já atendiam
nas cidades de áreas relativamente mais adiantadas, e acima de 50% em todas as áreas às necessidades de humildes padeiros e comerciantes, como também de advo-
rurais, bem como nas cidades de áreas mais atrasadas. Esta assertiva é horrivelmente vaga gados, dignitários e fidalgos. A proliferação de comerciantes alfabetizados
[... ], mas os dados disponíveis sobre o assunto não nos permitem ser mais precisos. nas cidades italianas do século XIV não é menos notável que a presença de
um comandante militar analfabeto na França do final do século XVI.
Tendo em vista os elementos fragmentários disponíveis, bem como as pro- Seria um equívoco, contudo, imaginar que o desapreço pela leitura era uma
longadas flutuações resultantes, parece-nos mais prudente deixar de lado os característica peculiar à nobreza, embora pareça plausível que o enfado com
controversos problemas ligados à difusão da alfabetização, até que outros temas o pedantismo latino fosse compartilhado igualmente por aristocratas e ple-
tenham sido explorados com maior cuidado. Um ponto que merece ser ressal- beus leigos. Também se nos afigura duvidoso descrever os primeiros públi-
tado (e que será repetidamente ressaltado neste livro) é o fato de que existem cos ledores como pertencentes à "classe média". É preciso ter extremo cui-
outros tópicos que merecem ser explorados - além da expansão do público dado quando se tenta associar gêneros de livros a grupos de leitores. Muitas
leitor e da "disseminação" das novas idéias. Ao considerarmos as transforma- e muitas vezes, toma-se como certo que obras "incultas" ou "vulgares" refle-
ções iniciai,, geradas pelo advento da imprensa, seja como for, as mudanças tem gostos de "classe baixa", apesar de catálogos de biblioteca e listas de auto-
sofridas por grupos já então alfabetizados devem receber tratamento priori- res nos oferecerem provas em contrário. Antes do advento da alfabetização

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em massa, as obras mais "populares" eram aquelas que atraíam diversos gru- com base em catálogos de bibliotecas, listas de subscrições e outros dados -
pos de leitores, e não somente a plebe. mesmo tendo em vista, é claro, a circunstância de que muitos compradores
As divisões entre os públicos ledores em latim e em língua vernácula são de livros se preocupam mais em exibi-los do que em lê-los - , e os alvos, mais
muito mais difíceis de correlacionar com o JtatUJ social do que se sugere em hipotéticos, visados pelos autores e editores. Com demasiada freqüên~ia, os
muitos estudos. É fato que o médico do século XVI que usava latim era con- títulos e prefácios são considerados como prova do número real de leitores,
siderado superior ao cirurgião, que não o fazia, mas também é verdade que embora saibamos que eles não são nada disso.
nenhum dos dois tinha chance de pertencer aos escalões mais elevados da socie-
dade. Na medida em que o movimento de tradução para o vernáculo sedes- As informações sobre a disseminação da leitura e da escrita [ ...] têm de ser suplemen-
tinava aos leitores que desconheciam o latim, ele visava freqüentemente a atrair tadas pela análise de seu conteúdo; esta, por sua vez, fornece prova circunstancial sobre
pajens e aprendizes, mas também a aristocracia rural, os fidalgos e os corte- a composição do público leitor: um livro de culinária[ ...] reimpresso oito ou mais vezes
sãos, bem como lojistas e balconistas. Nos Países Baixos, uma tradução do no século XV, era obviamente lido por pessoas interessadas no preparo de alimentos;
assim, o livrinho Doctrinal Je.1 filleJ, sobre a conduta de moças, devia ser consultado pri-
latim para o francês muitas vezes era destinada a círculos cortesãos relativa-
mente fechados, passando ao largo da população urbana leiga, que só conhe- mariamente por "donzelas" e "madames".

cia os dialetos da Baixa Renânia. Enquanto isso, uma tradução para o "holan-
dês" poderia destinar-se a pregadores que necessitavam em seus sermões citar Essa "prova circunstancial", contudo, é altamente suspeita. Sem fechar ques-
passagens da escritura, e não necessariamente à população leiga (que freqüen- tão sobre o corpo de leitores dos mais antigos livros de culinária (cujo cará-
temente é tida como destinatária exclusiva de trabalhos devocionais em "ver- ter não me parece nada óbvio), os livrinhos referentes à conduta das moci-
náculo'). Tutores empenhados em educar jovens príncipes, instrutores da corte nhas talvez apresentassem igualmente interesse para os tutores, confessores
ou de escolas religiosas, capelães que traduziam do latim atendendo a pedi- ou educadores do sexo masculino. A circulação de livros impressos sobre nor-
dos da realeza haviam sido pioneiros em introduzir técnicas de "populariza- mas de etiqueta tinha ramificações psicológicas muito amplas; não se deve
ção", antes mesmo que o impressor se lançasse em sua empreitada. ignorar sua capacidade de aumentar a ansiedade dos pais. Além do mais, tais
Mas o mais vigoroso ímpeto dado à popularização, antes do advento da obras eram provavelmente lidas também por autores, tradutores e editores
imprensa, veio mesmo da necessidade, sentida por pregadores, de manter suas de outros livros de etiqueta. Impõe-se ter sempre em mente o fato de que auto-
congregações acordadas e reter a atenção em vários tipos de ajuntamentos res e editores constituíam um grupo muito amplo de leitores. Até mesmo aque-
ao ar livre. Diferentemente do pregador, o impressor só podia fazer suposi- les poetas do século XVI, que evitavam impressores e circulavam seus ver-
ções sobre a natureza do público interessado em seu trabalho. Assim sendo, sos em forma manuscrita, bem que se aproveitaram da possibilidade de ter
deve-se ter cuidado extremo ao tomar os títulos das primeiras obras impres- acesso a materiais escritos. Alguém já sugeriu que os livros que descreviam
sas como se fossem guias seguros sobre seu público ledor. Exemplo disso é a os sistemas de escrituração por partidas dobradas eram lidos menos por
descrição freqüente da Bíblia ilustrada do século XV, primeiro tirada como comerciantes do que por autores de livros de escrituração mercantil e pro-
manuscrito e em seguida impressa manualmente, como sendo a Bíblia "do fessores de contabilidade. Pode-se especular se não haveria mais poetas e auto-
pobre". Tal descrição é talvez anacrônica, por ter sido baseada na abrevia- res teatrais do que pastores entre os que estudaram os chamados Almanaqll(,f
ção do título completo latino dado a esses livros. Com efeito, a Bi/Jlia paupe- do pa<1tor. Dada a adulteração de dados transmitidos no correr dos tempos, e
rum praedúatorum tinha como alvo não os homens miseráveis, mas os pobres vistos os falsos remédios e receitas impossíveis contidas nos tratados médi-
pregadores, que só tinham conhecimentos superficiais de latim e considera- cos, é de desejar-se que tais compêndios tivessem sido estudados mais por poe-
vam de mais fácil entendimento as lições das Escrituras desde que contas- tas do que por médicos. Dados, por outro lado, os exóticos ingredientes des-
sem com livros ilustrados como guias. Os analistas mais exigentes têm suge- critos, pode-se supor que poucos boticários chegaram de fato a tentar a
rido a necessidade de distinguir entre o número real de leitores, calculado cocção de todas as receitas contidas nas primitivas farmacopéias impressas,

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embora pudessem ter-se sentido obrigados a entulhar suas prateleiras com No romance Notre Darru de ParÍ.1, de Victor Hugo, damos com um estudioso, mergulha-
aqueles produtos bizarros, para a eventualidade de que a nova publicidade do em profunda meditação, no seu gabinete [...] o qual contempla fixamente O pri~ei-
pudesse provocar a demanda por tais itens. Defrontamo-nos com enigmas de ro livro impresso que veio perturbar sua coleção de manuscritos. Então[...] ele miraª
difícil solução, ao tentarmos decifrar os fins, pretendidos ou reais, de alguns imensa catedral, cuja silhueta se desenha sobre o céu estrelado[ ...] "Ceei tuera cela", diz
ele. O livro impresso destruirá o edifício. A parábola que Victor Hugo desenvolve, com-
dos primeiros manuais impressos. Qual seria, por exemplo, o interesse em publi-
parando a construção, repleta de imagens, com a chegada a sua biblioteca de um livro
car, em língua vernácula, manuais que delineavam procedimentos com os quais
impresso, bem poderia aplicar-se ao efeito causado pela disseminação da imprensa so~re
já estavam familiarizados todos os praticantes proficientes de certos ofícios?
os invisíveis templos da memória do passado. O livro impresso tornará desnecessárias
É oportuno relembrar, de qualquer modo, que começava a tornar-se evidente, essas imensas memórias construídas pelas gerações, repletas de imagens. Fará desapa-
durante o primeiro século da imprensa, a distância entre a prática aplicada na recer hábitos de épocas priscas imemoriais, pelas quais cada "coisa" ganha de imediato
loja e a teoria aprendida na sala de aula; e que muitos dos chamados guias e uma imagem e passa a ser guardada nos escaninhos da memória.
manuais práticos continham na realidade conselhos impraticáveis, quando não
lesivos às pessoas. Ao conhecido tema romântico da catedral gótica como uma" enciclopédia
Embora possam ser adiadas certas conjecturas sobre transformações sociais de pedra", Frances Yates acrescentou um prolongamento fascinante, seu c?~
e psicológicas, convém, neste passo, salientar certos pontos. Como sugere estudo das esquecidas artes da memória. A imprensa não somente ehmmou
Altick, é necessário distinguir entre a condição de alfabetizado e a leitura muitas funções até então exercidas por figuras de pedra colocadas sobre
habitual de livros. Não se pode dizer, de modo algum, que todos os que domi- velhos pórticos ou desenhadas em vitrais, como também afetou ~magens
naram a palavra escrita, até os dias de hoje, se tenham tornado membros de menos tangíveis, ao eliminar a necessidade de colocar figuras e obJetos em
uma comunidade de leitores de livros. Além do mais, aprender a ler é diferen- nichos imaginários localizados em teatros da memória. Ao tornar dispensá-
te de aprender pela leitura. A confiança no treinamento pelo aprendizado, na vel a utilização de figuras para fins mnemônicos, a imprensa revigorou ten-
comunicação oral e em artifícios mnemônicos especiais, havia caminhado dências iconoclásticas já presentes entre muitos cristãos. As sucessivas edi-
junto com a conquista das letras na era dos escribas. Com o advento da impren- ções das /nJtituiçõeJ de Calvino desenvolvem a necessidade_ de se obedece~ ao
sa, contudo, a transmissão de informações escritas tornou-se muito mais efi- Segundo Mandamento. O texto favorito dos defensores d~ lIIlagens o _dita- ~;ª
ciente. Não foi só o artesão fora da universidade que se beneficiou com as novas do de Gregório Magno, segundo o qual as estátuas serVJ.am como os hvros
oportunidades de ensinar a si próprio. Déigual importância foi a oportunida- dos iletrados". Embora Calvino, ao repelir esse ditado com desdém, nada tenha
de, agora aberta a alunos brilhantes, de ultrapassar os limites alcançados por dito a respeito da imprensa, o fato é que o novo meio de comunicação dava
seus mestres. Alunos bem dotados não precisavam mais sentar-se aos pés de suporte à idéia calvinista de que aos analfabetos se devia ensinar a l~r, e não
um determinado professor a fim de aprender uma língua ou especialização aca- dar estampas com imagens. Sob essa ótica, parece plausível sugerir que a
dêmica. Ao contrário, eles passaram rapidamente a poder conquistar maes- imprensa estimulou um movimento no sentido "da cultu~a da i~agem p~a a
tria por si próprios, mesmo tendo de obter certos livros sorrateiramente, às cultura da palavra", tendência essa que se revelava mmto mais compat1vel
escondidas de seus professores - como fez o jovem e futuro astrônomo Tycho com a bibliolatria e panfletagem protestante, do que com as estátuas e pin-
Brahe. "Por que devem os velhos ter preferência sobre os jovens, agora que turas barrocas patrocinadas pela Igreja católica pós-tridentina.
é possível a estes últimos, mediante estudo diligente, adquirir os mesmos Na realidade, a metamorfose cultural provocada pela imprensa foi muito
conhecimentos?", perguntava-se o autor de um livro de história do século XV. mais complicada do que se poderia exprimir numa simples fórmula. De um
À medida que o aprendizado nos livros foi ganhando realce, di~inuía a lado, as estampas com imagens se tornaram mais e não menos abundantes
importância dos processos mnemônicos. Já não eram mais necessárias a rima após O estabelecimento de oficinas impressoras pela Europa Ocidental. Em
e a cadência para se preservarem certas fórmulas e receitas. Transformou- segundo lugar, a propaganda protestante explorava a imagem_ impressa_ não
se a natureza da memória coletiva. menos que a palavra impressa - como sugerem numerosas caricaturas e ilus-

j(/ 51
A R S M E M O R I JE. a importância das imagens, ampliaram muito as oportunidades abertas aos
criadores de imagens e contribuíram para colocar a história da arte em seu
caminho atual. Nem mesmo as figuras imaginárias e teatros da memória, des-
critos por Frances Yates, caíram no desaparecimento, ao se perderem suas
funções mnemônicas; ao contrário, ganharam "um novo e surpreendente
alento". Passaram a suprir o conteúdo de magní6cos livros de emblemas e esme-
radas ilustrações barrocas para livros da Ordem Rosa-Cruz e obras ocultis-
tas no século XVII. Ajudaram ainda a inspirar um gênero inteiramente novo
de literatura impressa - o livro didático ilustrado para crianças. Os meni-
nos de Leipzig, na época de Leibniz, "eram criados com base no livro ilustra-
do de Comenius e no Catecismo de Lutero". Desse modo, as imagens da anti-
ga memória reentraram na imaginação das crianças protestantes, culminando
por fornecer a Jung e seus seguidores os indícios que alimentaram a hipóte-
se do inconsciente coletivo. Não paira qualquer dúvida de que a nova voga
dos livros de emblemas recheados de imagens era tanto um fruto da impren-
sa do século XVI quanto o era o livro de texto "ramista", sem figuras.
Além disso, em certos campos do conhecimento, como na arquitetura, geo-
metria ou geogra6a, bem como em muitas das ciências da vida, a cultura impres-
A visão de um "terceiro olho", no século XVII. Depois de terem perdido suas funções originais, as
artes da memória antiga adquiriram um significado ocultista e como que recobraram força sob a forma
sa não só não realizou a fórmula oferecida acima; na verdade, ela ampliou as
impressa. Extraída da obra de Robert Fludd, Utr1i1,1q11e co,,mi maiori.1 ... (Oppenheim, Johan-Theodor funções exercidas pelas imagens, ao passo que reduzia as desempenhadas pelas
de Bry, typis Hieronymi Gallery, 1621, II, 47). Reproduzida mediante gentil permissão da Folger palavras. Muitos textos fundamentais de Ptolomeu, Vitrúvio, Galeno e outros
Shakespeare Library. antigos tinham perdido suas ilustrações após terem sido copiados durante sécu-
los, e somente as readquiriram depois que o manuscrito foi substituído pelo texto
trações satíricas da época. Mesmo as imagens religiosas eram defendidas por impresso. Pensar em termos de um movimento que vai da imagem para a pala-
certos protestantes, e isso com base na sua compatibilidade com a cultura vra orienta a literatura técnica na direção errada. Na visão de George Sarton,
impressa. O próprio Lutero fez comentários sobre a incoerência de certos ico- não foi a "palavra impressa", mas a "imagem impressa" que atuou como um "sal-
noclastas, que arrancavam quadros das paredes, mas contemplavam com a vador da ciência ocidental". Para a Comunidade do Saber tornou-se cada vez
maior reverência as ilustrações na Bíblia. As imagens "não são mais prejudi- mais elegante adotar a velha máxima chinesa segundo a qual uma só imagem
ciais nas paredes do que nos livros", comentava ele para em seguida, de modo era mais valiosa do que muitas palavras. Na antiga Inglaterra dos primeiros
sarcástico, interromper sua linha de pensamento: "Preciso conter-me e parar Tudors, Thomas Elyot marcou sua preferência por "figuras e tabelas", em vez
por aqui, para não dar aos destruidores de imagens outro pretexto para de "ouvir as regras de uma ciência", o que merece maior consideração. Em-
jamais lerem a Bíblia, ou para queimá-la". bora as imagens sempre fossem indispensáveis para estimular a memória, as
Se aceitarmos a idéia de um movimento no sentido da imagem para a pala- comunicações se haviam apoiado pesadamente na instrução verbal também na
vra, teremos, além do mais, alguma di6culdade em justi6car e entender a obra era dos escribas. As preleções acadêmicas, é claro, eram por vezes suplemen-
de alguns artistas do Norte, tais como Dürer, Cranach ou Holbein, que eram tadas por figuras desenhadas nas paredes; instruções verbais aos aprendizes
protestantes, embora devessem muito à imprensa. Como se pode veri6car pela eram acompanhadas de demonstrações; era comum o uso de blocos e painéis,
carreira de Dürer, as novas artes da imprensa e gravação, em vez de reduzir dedos e articulações da mão para ajudar no ensino da aritmética; e gestos nor-

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malmente acompanhavam a recitação de chaves mnemônicas. Apesar disso tudo,
quando se desejava duplicar com rapidez um conjunto de instruções, as pala-
vras sempre tinham preferência sobre quaisquer outras formas de comunica-
ção. De que modo, a não ser pelo uso de palavras, poderia alguém ditar um
texto a um grupo de escribas? Após o advento da imprensa, multiplicaram-se
os materiais ilustrativos visuais, codificaram-se símbolos e sinais; desenvolve-
ram-se muito rapidamente formas distintas de comunicação iconográfica e

Ptudence. Prt1dentia.

Prudence, t. Prudenti118 I •
loollett. apon au t~trig11
omnia ci1 cumfpeflat,
a, a Serpem, 2. ut Serpens, 2.
anb bottt., nihiJq; agir, .
fpe1krt1J 1 o: t~fnkett Joquitur, & cog1tat
aot,tng tn 1'ain. iA caífum.
f:;~8 looks backward, ~ R,}picit, 3.
18 mto a lo*ing-glafs,4 t:uiquam in Sptculum, .ot•
to tbings paH s 11d Prttterita ;
ano rst, hefore her, 5. & Prof;icit, 5.
as witb a Pc:rfpt:étive-
gtafs, 7. ranquam Tt!efcopio, 1,
things t-0 come, Futurtt
D) the end ; 6. feu Finem: 6.
&h.-J/rdhm
an• (o 1'• petcflbet' acq; ita perfpicit
1Dld
E m bora a utilização dos dedos e gestos para fazer contas tenha sido suplantada
- d
pelo uso de livros,
· )
Uma antiga imagem mnemônica transformada, para fins didáticos, em ilustração de um livro de figu- de tabelas e de quadros aritméticos impressos, estas artes antigas foram codihca as e tiveram o~ga
ras para crianças. A imagem da Prudência, extraída da obra Orhi, ,1m,111ali11111 pti-111,1 (I 658), de Johann · so b a f'orma impressa.
v1da · E st a grav ura, extraída da obra .de Jacob Leupold,. Theatmm 11l"lth111et1ca-
Amos Comenius, traduzida para o inglês por Charles Hoole (Londres, 1685). Reproduzida median- ·
qeomefntwn... · C . zu nkel , 1727) , é aqui reproduzida com gentil
(Le"1pz1g, , permissão do Departamen-
te gentil permissão da Folger Shakespeare Library. ·to de Coleções Especiais das Bibliotecas da Universidade de Stanford.

jj
não-fonética. A circunstância de que os livros ilustrá.dos impressos foram usa-
dos pela primeira vez pelos reformadores da eduhção, com o intuito de ins-
truir crianças, bem como o fato de ~ue o ~e~en~? f~resc~nt~mente co~side-
rado pelos pedagogos como uma realização util, tudo ISSO nos mdica a necessidade
de pensar além da fórmula simples "da imagem para a palavra".
··········3.
Como se infere desses comentários, as tentativas de resumir as mudanças
trazidas pela imprensa numa única frase ou fórmula exata tendem a nos con-
duzir a caminhos errados. Mesmo reconhecendo que havia uma confiança cres- ALGUMAS CARACTERÍSTICAS
cente em livros de regras (e menos em regras empíricas) ou que o conheci- DA CULTURA IMPRESSA
mento pela leitura se avantajava em detrimento do ouvir ou do fazer, mesmo
assim deve-se considerar como a imprensa incentivou novas objeções ao
conhecimento livresco baseado na cópia "servil", e como permitiu a muitos
observadores comparar dados recentemente coligidos com as regras herda-
das. Por motivo semelhante, temos de ter muito cuidado, antes de supor que
a palavra falada foi gradualmente silenciada, à medida que se multiplicavam
os textos impressos, ou que a faculdade da audição passou a ser negli.gencia-
da em proveito da visão. Por certo, a história da música ocidental após Guten-
berg depõe contra essa última opinião. No que diz respeito às muitas ques-
tões suscitadas pela afirmação de que a imprensa emudeceu a palavra falada,
observo que várias delas são referidas em outras partes deste livro. No
momento, todas têm de ser deixadas de lado. A dmitindo-se que tenha ocorrido algum tipo de revolução nas comunica-
ções no final do século XV, pergunta-se: como isso _afet?u ou~os desen-
volvimentos históricos? A maioria dos estudos convenc10_nais de!em-s: lo~o
Esta discussão preliminar teve como propósito demonstrar que o salto do
mundo do manuscrito para o do impresso acarretou um largo espectro de modi- depois de haver feito algumas poucas observações a propósito da dissemmaçao
ficações, cada uma das quais exigiria mais investigação, sendo que o conjun- mais· amp Ia de obras de humanistas ou de .panfletos protestantes.
. 1 Algumas
.,.
to de todas corresponde a algo complicado demais para ser englobado em qual- sugestões úteis _ sobre os efeitos da padromzação no ensmo forma e n~ ci~~-
quer fórmula simples. Mas dizer que não existe um modo simples de resumir cia, por exemplo - aparecem em obras dedicadas à Renascença ou à histona
esse complexo conjunto não quer dizer em absoluto que nada tenha sido modi- da ciência. Em todos os sentidos, os efeitos do novo processo ficam vagamente
ficado. Muito pelo contrário! subentendidos, em vez de serem definidos explicitamente; além disso, são dras-
ticamente minimizados. Isso pode ser ilustrado com um exemplo. ~rant~ os
primeiros séculos da imprensa, os textos velhos foram du~licados mais _rapid:-
mente que os novos. Com base nisso, a maioria_ d~ autondades co~clm que a
imprensa não apressou a adoção de novas te~nas . Mas de onde VIe~am e~sas
novas teorias? Devemos invocar algum espínto dos tempos? Ou sera passivei
que um aumento na produção de velhos textos tenha contribuíd~ para_ a formu-
lação de novas teorias? Talvez também tenham contribuído para tais te~nas alguns
outros traços característicos que distinguiram a nova da velha manerra de pro-
duzir um livro. Precisamos fazer um balanço desses traços antes de podermos
relacionar O advento da imprensa com outros desenvolvimentos históricos.
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Sem tentar levantar um inventário completo, destaquei alguns dos aspec- absorver por um só texto e a aplicar suas energias em comentá-lo. Assim
tos q~e aparecem na literatura especializada sobre a imprensa das origens, e terminou o tempo do glosador e do comentarista, e teve início uma "era de
mantive-os em mente enquanto reconsiderava alguns desenvolvimentos his- intensas referências cruzadas entre um livro e outro".
tóricos escolhidos. Algumas conjecturas baseadas nesse enfoque podem ser Em conexão com a Renascença do norte da Europa, se não com o advento
passadas em resenha a seguir, subordinadas a títulos que indicam minhas prin- da imprensa, já houve sugestões muito freqüentes de que se experimentou
cipais linhas de pesquisa. no século XVI algo parecido com uma grande explosão do conhecimento. Pou-
cos estudos sobre a literatura da época deixam de citar passagens pertinen-
tes de Marlowe ou Rabelais, indicando como as pessoas se sentiam embria-
Um exame mais detido da disseminação ampla: gadas ao ler, e de que modo o conhecimento livresco era tido como um
o aumento da produção e as alterações na recepção poderoso elixir mágico, que conferia novos poderes a cada gole. Contudo, ao
tratar de qualquer mudança intelectual de importância no século XVI, tende-
A maioria das re!erências à ampla disseminação é demasiado fugaz para se a ignorar a efervescência provocada pelo acesso a um maior número de
tornar c~aros os efeitos específicos de um acréscimo no suprimento de tex- livros. Num estudo recente e penetrante sobre a sensação de crise intelectual
tos :mdiferentes mercados. Do mesmo modo como a "disseminação" da alfa- refletida nos escritos de Montaigne, por exemplo, somos informados sobre o
betização tende a ganhar tratamento prioritário sobre as alterações sofri- impacto esmagador da Reforma e das guerras de religião, e sobre a "amplia-
das por setores já instruídos, a "disseminação" das idéias de Lutero ou a ção dos horizontes mentais" produzida pelas descobertas geográficas e pelas
dificuldade ?ªs teorias de Copérnico em se "disseminarem" tão rápido como redescobertas dos humanistas. Seria tolice asseverar que os acontecimentos
as ptoloma1cas parecem sobrepujar quaisquer outras questões. Muitas mais dignos de nota daquela época não causaram impressão num observa-
:7ezes, atribui-se ª?A imrres,sor apenas a função de servir como agente de dor tão arguto como Montaigne. Mas seria igualmente equivocado negligen-
Imprensa. Sua efic1enc1a é Julgada exclusivamente pela cifra de circulação ciar o fato que repercutiu mais diretamente sobre seu ponto de observação
al~ançada. Mesmo quando um número maior de exemplares de um deter- favorito. Temos de ter em conta, entre outras coisas, o fato de que ele, pas-
~mado texto esta':'ª~ ~endo "dissemina~os, dispersos ou espalhados" pela sando alguns meses em seu estudo na torre, podia examinar mais livros do
t~ragem de uma ed1çao impressa, textos diferentes, que já haviam sido ante- que os estudiosos de épocas anteriores tinham visto ao final de uma vida de
riorme~te espa!hados e disseminados, também estavam sendo aproximados viagens. Ao explicar os motivos pelos quais Montaigne percebia, nos livros
~ntre si e reumdos para uso de leitores individuais. Em alguns locais, os por ele consultados, um grau maior de "conflito e diversidade" do que haviam
~mpressores produziam mais textos eruditos do que poderiam vender, e assim constatado os comentaristas medievais na época anterior, impõe-se dizer algo
mu~davam. o_s me~ca?os locais. Em todas as regiões, um dado comprador sobre a maior quantidade de livros que ele tinha à mão.
p_od1a a~q~mr mais livros, a preço mais baixo, e levá-los para seu escritó- Estantes de livros abastecidas com mais abundância só poderiam obvia-
rio ou b1bliotec~. Assim, o imp_ressor que duplicava livros de uma lista apa- mente aumentar as oportunidades de consultar e comparar diferentes textos.
rentemente antiquada estava amda assim proporcionando ao vendedor uma Apenas pelo fato de tornarem disponíveis dados mais variados, ao ampliar a
escolha de textos mais rica e variada do que a suprida pelo escriba. "Um saída de textos aristotélicos, alexandrinos e arábicos, os impressores incenti-
estudante sério, numa leitura individual, podia agora cobrir um acervo de vavam esforços para organizar esses dados. Alguns mapas costeiros medie-
material mais amplo do que um estudante, ou até mesmo um estudioso vais, por exemplo, tinham alcançado maior grau de precisão do que muitos
experime_ntado, precisava ou aspirava a dominar, antes que a imprensa tor- dos antigos, mas poucos olhos tinham podido ver uns e outros. Do mesmo modo
nasse os livros baratos e abundantes." Para consultar diferentes livros o estu- como os mapas de diferentes regiões e épocas haviam sido reunidos para apre-
dioso já ?ão mais prec~sava ser também um andarilho. Gerações su~essivas paração de novos atlas, assim também os textos técnicos vieram convergir nas
de estud10sos sedentários passaram a sentir-se menos inclinadas a se deixar bibliotecas de certos médicos e astrônomos. Tornaram-se mais visíveis as con-

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tradições, ficou mais difícil harmonizar as tradições divergentes. A transmis- O intercâmbio transcultural estimulou atividades mentais de modos con-
. são das opiniões estabelecidas não pôde ser feita sem dificuldades, depois que traditórios. O primeiro século da imprensa foi marcado sobretudo pela efer-
os arabistas tomaram partido contra os galenistas, e os aristotélicos contra os vescência intelectual e por uma" dedicação ao estudo, de grande abertura, mas
ptolomaicos, Não só se enfraqueceu a confiança nas velhas teorias, mas o enri- sem foco preciso". Algumas dessas correntes cruzadas podem ser explicadas
quecimento dos materiais de leitura incentivou o desenvolvimento de outras se observarmos que novos elos entre as disciplinas estavam sendo forjados antes
novas combinações e permutas intelectuais. A atividade intelectual combina- que os antigos tivessem sido cortados. Na era dos escribas, por exemplo, as
tória, como bem sugeriu Arthur Koestler, inspira muitos atos criativos. Depois artes mágicas estavam ligadas estreitamente aos ofícios mecânicos e à bruxa-
que os velhos textos foram postos em contato num mesmo escritório, distin- ria matemática. Quando "a tecnologia invadiu a imprensa", foi acompanha-
tos sistemas de idéias e disciplinas especiais passaram a poder combinar-se. da de um vasto acervo de conhecimentos ocultos, e poucos leitores tinham
Em resumo: a maior produção, dirigida a mercados relativamente estáveis, criou condições de distinguir entre os dois elementos. Os historiadores que ainda
condições que favoreceram inicialmente novas combinações de velhas idéias hoje se mostram perplexos com o elevado prestígio de que desfrutavam a al-
e, mais tarde, a criação ele sistemas de pensamento inteiramente novos. quimia, a astrologia, a "magia e cabala", além de outras artes ocultas, na
Vale observar.que o intercâmbio transcultural foi, de início, experimen- Comunidade do Saber, talvez considerem útil meditar sobre como foram
tado por todos os novos grupos ocupacionais responsáveis pela tiragem de transmitidos na era dos escribas os espólios herdados das antigas culturas do
edições impressas. Antes que uma determinada obra de referência viesse à Oriente Próximo. Parte desses documentos se haviam reduzido a alguns frag-
luz, já tinham ocorrido encontros frutíferos entre fundidores de tipos, revi- mentos de leitura frustrante, que haviam sobrado de sistemas de contagem
sores, tradutores, editores de texto, ilustradores ou negociantes de materiais de números, medicina, agricultura, cultos míticos, e assim por diante. Outros
impressos, indexadores e outros profissionais engajados em operações edito- tinham-se reduzido a impenetráveis glifos. Como certos ciclos cósmicos e
riais. Os impressores mais antigos foram os primeiros a ler os produtos que vitais são experimentados por todos os homens, alguns elementos comuns
saíam de seus prelos. Eles também ficavam ansiosamente de olho na produ- podiam ser encontrados nos fragmentos e glifos. Parecia plausível conside-
ção de seus concorrentes. Os efeitos do acesso a um maior número de livros rar, por um lado, que todos derivavam de uma mesma fonte, e, por outro, acre-
(e, na realidade, a todas as múltiplas características ligadas à tipografia) fize- ditar piamente em certas alusões contidas em obras patrísticas a respeito de
ram-se sentir pela primeira vez, e com mais intensidade, dentro das oficinas um texto da primitiva Ur, deixado pelo próprio inventor da escrita, no qual
dos impressores, nos próprios produtores de livros novos. Enquanto outras se continham todos os segredos da Criação, tais como haviam sido revelados
bibliotecas eram alimentadas pelas criações de impressores famosos, como os a Adão, antes da queda. Parecia igualmente plausível que os ensinamentos
Estiennes ou Christopher Plantin, as valiosas coleções reunidas por esses pró- contidos nesse primitivo texto de Ur, após terem sido cuidadosamente pre-
prios impressores continham muitos subprodutos de sua labuta diária. servados pelos antigos sábios e videntes, tinham se corrompido e tornado con-
Comenta-se amiúde que, no início da Idade Moderna, uma quantidade notá- fusos no decorrer das invasões bárbaras. Uma grande coleção de escritos con-
vel de trabalho inovador, tanto no campo da erudição como no da ciência, foi tendo o saber antigo foi enviada da Macedônia para Cosimo de Mediei,
realizada fora dos centros universitários. Essa nova ocorrência talvez possa traduzida do grego por Ficino em 1463, e impressa em quinze edições antes
ser explicada pela atração que as oficinas impressoras passaram a exercer sobre de 1500. Tinha a forma de diálogos com o deus egípcio Toth, cujo nome grego
os estudiosos e homens de letras. Pode-se dizer o mesmo com respeito à dis- era Hermes Trismegisto. Os escritos recuperados no século XV pareciam pro-
cussão dos novos intercâmbios entre artistas e estudiosos, ou entre teóricos vir do mesmo corptM de textos, juntamente com outros diálogos fragmentários,
e praticantes, que se mostrou tão proveitosa na fase inicial da ciência moder- já conhecidos de estudiosos mais antigos e também atribuídos a Hermes Tris-
na. A imprensa incentivou novas formas de atividade combinatória, de fundo megisto. O chamado corptM hermético passou por muitas edições até 1614, ano
tão social quanto intelectual. Ela alterou as relações não só entre os homens em que um tratado de Isaac Casaubon mostrou que ele havia sido compilado
de cultura, mas também entre os sistemas de idéias. já na Era Cristã. Com base nisso, somos informados de que os estudiosos renas-

6()
61
centistas cometeram um" erro fundamental na datação". O que é verdade, sem
dúvida. Uma compilação neoplatônica, feita na Era Cristã, fora tomada como
se se tratasse de um trabalho que precedera e influenciara Platão. Não obs-
Speci,nen Ltélionis / dt.lü, in primo latm Ohelifêi exbihitum •
tante, parece igualmente um erro atribuir datas precisas a compilações de escri-
bas, que muito provavelmente derivavam de fontes mais antigas. Hemphta Numen fupre- mum .& Archctypon
infiuit virtutcm & muncra fua
Requer também mais estudo a transformação da" ciência" oculta e esoté-
rica dos escribas, após o advento da imprensa. Alguns escritos arcanos (em in liderei Mundi ani- mã,id efi folare Numé fi bi fubdit ú
grego, hebreu ou siríaco, por exemplo) tornaram-se menos misteriosos, ao Mundo Hyla:o, fiue Elementari ,
vnde vitalis motus in
passo que com outros ocorreu o contrário. Assim, os hieróglifos foram com- omniumque rerum ahun- ditia, & fpccierú varietas proucnit.
ex vbcrmc Cra- teris Ofiriaci, in quem mira
postos tipograficamente mais de três séculos antes de sua decifração. Essas traélus continuo infiuit
quadam fympathia
letras esculpidas sagradas afiguravam-se densas de significação para leitores
duplici in fibi fub dita dõminio potcns •
que não as podiam entender. Eles eram também usados, por vezes, como sim-
Vigilantiffimus Chenofiris
ples motivos ornamentais por arquitetos e gravadores. Tendo em vista, por facrorum canalium cuflos, idcfl Natura: humidz
1
um lado, a decoração barroca e, por outro, as complicadas interpretações dos in qua vira rerum omnium confiilit.
estudiosos (das seitas Rosa-Cruz ou maçônica), a duplicação da escrita pic- Ophionius Agathodzmon
ad cuius fa. uorem obtincndum
tórica egípcia, ao longo de toda a Idade da Razão, confronta os estudiosos
modernos com enigmas que jamais poderão ser decifrados. Por isso, não vitamque pro- pagandam
Sacra ha:c ci Tabula confecranda efi ;
devemos pensar somente em novas formas de ilustração, ao considerarmos cuius beneficio c:rlefie Heptapyrgon idell arx _pl~netarum
os efeitos da imprensa sobre o mundo acadêmico de então. Novas formas de diuioi Ofiridis Agathod;rmonis hum1d1
mistificação também foram incentivadas nibus aduerfis confcruatur •
affificntia ab om-
Desse ponto de vista parece necessário qualificar melhor a assertiva de
que o primeiro século de imprensa deu "grande ímpeto à ampla dissemina- Pr:rtcrca in facri- 1 licijs &cerimonijs in hunc
finem eiufdcm ftatua circumfctenda eft;
ção de conhecimentos precisos sobre as fontes do pensamento ocidental, tanto
clássico como cristão". A duplicação dos escritos herméticos, das profecias Eparillcrium Natura: fiue fons Hccatinus, fiue vetigincus
sibilinas, dos hieróglifos de "Horapollo" e de muitos outros escritos aparen- .id efi Naturz effiu- uium inter facrificia aperiendum•
temente respeitáveis, mas que eram na realidade fraudulentos, produzia o morphus D~mon, v_bcrcm (do
Q!.? allcétus Po)y.
efeito contrário, espalhando conhecimentos errôneos, embora tenha poste- rcrú cõccdc:t in quadripartito Mú-
varictatem
riormente contribuído para a purificação de fontes dos ensinamentos cris-
Typhonis technx vita: infidiatriccs , elidcntur
tãos. Neste ponto, como em outros, impõe-se distinguir sempre entre os resul-
Vndc vita rcrum innoxia confcruabirur
tados iniciais e os efeitos a longo prazo. O enriquecimento material das
ad quod plurimum quoq;conducét hzc, 4uz fequúrqr
bibliotecas acadêmicas veio rápido; a triagem de seu conteúdo levou mais
pcntacula , fiue pcriammata , ob myilicas

rationcs , q ui bus coníln1él:a funt.


A duplicação da escrita pictórica egípcia contribuiu mais para a mistificação do que para a ilustração
das pessoas. Uma vez que haviam sido compostos e impressos muito antes de serem decifrados, os fum cnim vila: bonor1,1m omnium
hieróglifos eram interpretados de modos diferentes pelos estudiosos, tal como o jesuíta autor da obra
que aqui aparece. Extraída da obra Obe!i,ci aegyptiaci ... de Athanasius Kircher (Roma, Ex Typogra-
phia Varesij, 1666, p. 78). Reproduzida mediante gentil permissão da Folger Shakespeare Library.

62 6]
tempo. Em comparação com a grande saída de materiais não-acadêmicos,
em língua vernácula, veremos que a tiragem dos dicionários trilíngües, ou
de edições em grego ou mesmo em latim, parece tão reduzida a ponto de
levantar a questão de se a expressão "ampla disseminação" não deveria ser
abandonada de uma vez por todas.
O termo" disseminação", tal como é definido nos dicionários, parece espe-
cialmente apropriado para caracterizar a duplicação de cartilhas, livrinhos
de bê-á-bá, catecismos, calendários e literatura devocionária. A produção cada
vez maior desses materiais, contudo, não acarretava necessariamente um
maior avanço da instrução ou dos intercâmbios transculturais. Catecismos,
panfletos religiosos e bíblias iriam encher algumas prateleiras em detrimen-
to de qualquer outro material de leitura. O ensino formal, aberto mas sem
objetivos precisos, conviveu com um novo espírito de religiosidade inflexível
e estreito. Ao mesmo tempo, os manuais e guias práticos também se torna-
ram mais abundantes, tornando possível o estabelecimento de planos para orien-
tar as pessoas neste mundo -possivelmente afastando sua atenção das incer-
tezas futuras no próximo. Daí, a exclusão do "Paraíso" nos mapas, a partir
do século XVI, por se tratar de localidade demasiado incerta. Mais tarde, o
cardeal Barônio seria citado por Galileu, por distinguir entre "como ir para
o céu" - problema da alçada do Espírito Santo - e "como se movem os céus"
- objeto de demonstração prática e de raciocínio matemático. Contudo,
seria um equívoco insistir demasiadamente neste ponto, uma vez que muitos
desses chamados guias práticos continham verdadeiros disparates e mistifi-
cações, o que os tornava altamente inaplicáveis. Além do mais, e até a publi-
cação dos Principúz(Princípios), de Newton, a produção de teorias conflitan-
tes e de tábuas astronômicas oferecia uma orientação muito incerta sobre "como
se movem os céus". Os manuais sobre exercícios devocionários e guias sobre
problemas espirituais continham sempre recomendações precisas. Os leito-
res que podiam contar com a ajuda de mapas de estradas, livros de frases,
tabelas de conversão e outros recursos semelhantes tendiam a depositar sua
confiança em guia"S para a jornada da alma após a morte. Panfletos que expu-
nham o livro do Apocalipse pressupunham forte apoio no raciocínio mate-
mático. O estabelecimento de datas precisas para a Criação e para a Segun- Imagens medievais do mundo tornaram-se mais acessíveis no século XVI, graç~s à utilizaçã~ de b~o-
da Vinda ocupava os mesmíssimos talentos que desenvolviam novas tábuas cos e chapas, que apresentavam esquemas tradicionais sob uma nova forma visual. Um rei medi~-
val, aqui representando Atlas, sustenta um cosmo aristotélico, nesta gravura extraída da obra de Wil-
astronômicas e modernas técnicas de projeção cartográfica.
liam Cunningham The co,1mo_9raphica!.9/a,1.ie (A abóbada cosmográfica) (Londres, John Day, 1559,
Paira muita dúvida, de qualquer modo, quanto a saber se "o efeito da nova fólio 50). Reproduzida mediante gentil permissão da Folger Shakespeare Library.
invenção sobre o nível geral de cultura" foi mais significativo do que sua ação

65
sobre a leitura da Bíblia em língua vernácula, no começo do século XVI. O impor- avançar demasiado na outra direção, superestimando a capacidade dos pro-
tante a enfatizar é o fato de que muitos efeitos dessemelhantes, mas de grande cedimentos dos escribas para alcançar os mesmos resultados das primeiras
importância, aconteceram quase que simultaneamente. Se isso pudesse ser impressoras. Os primitivos métodos de impressão tomavam impossível, obvia-
expresso de modo mais claro, certos acontecimentos que parecem contraditó- mente, lançar os tipos de edição "padrão" com os quais estão habituados os
rios poderiam ser confrontados com mais equanimidade. Poder-se-ia compreen- estudiosos modernos. As variantes impressas multiplicavam-se rapidamen-
der melhor a intensificação dos sentimentos de religiosidade e de secularismo. te, e havia a necessidade de rodar uma quantidade enorme de erratas. Resta
Poderiam do mesmo modo ser evitados alguns debates sobre periodização. A 0 fato de que Erasmo ou Bellarmino podiam imprimir erratas; Jerônimo ou
imprensa tornou mais visíveis alguns textos antigos e muito utilizados, que são Alcuíno, não. O próprio ato de publicar erratas já demonstrava uma capaci-
habitualmente negligenciados e às vezes (erroneamente) tidos por obsoletos, dade nova de localizar erros textuais com precisão e transmitir essa informa-
quando se delineiam tendências novas. Muitas figuras medievais da terra foram ção simultaneamente a leitores esparsos. Isso ilustra bem claramente alguns
multiplicadas mais rapidamente durante o primeiro século da imprensa do que dos efeitos da padronização. Como quer que fosse a supervisão que se apli-
durante toda a chamada Idade Média. Elas não sobreviveram somente entre os cava aos copistas medievais - e os controles eram mais flexíveis do que se
conservadores elisabetanos "relutantes em perturbar a velha ordem", mas tor- poderia inferir de muitos relatos - , os escribas não tinham como perpetrar
naram-se mais acessíveis aos poetas e autores teatrais do século XVI do que haviam o tipo de erro "padronizado" incorrido, por exemplo, por um compositor de
sido aos menestréis e jograis do século XIII. Dado o emprego de novos veícu- texto que omitiu a palavra "não" no início do Sétimo Mandamento, e desse
los (como xilografias e gravuras metálicas) para representar cosmologias medie- modo criou a "Bíblia iníqua" de 1631. Se o erro de um único compositor podia
vais, não se pode pensar simplesmente em mera sobrevivência, mas deve-se ao circular num grande número de exemplares, o mesmo podia ocorrer com a
contrário admitir um processo mais complexo, por meio do qual ilustrações anti- emenda introduzida por uma autoridade na matéria.
gas eram apresentadas sob novas formas visuais. A necessidade de qualificar a tese da padronização é talvez menos urgen-
Em vista de tais considerações, não posso concordar com o seguinte te do que a necessidade de acompanhar suas ramificações. A observação feita
comentário de Sarton: "É desnecessário indicar quanto a arte da impressão por Sarton, de que "A imprensa tornou possível pela primeira vez publicar cen-
significou para a difusão da cultura; mas não se deve dar ênfase demasiada
à difusão, e sim falar mais de padronização". Mostrar como a imprensa modi-
ficou padrões de difusão cultural merece muito mais estudo do que foi feito.
Além disso, ter acesso individual a textos diversos não é o mesmo que sub-
meter um determinado texto ao exame e à ação de muitas mentes. A primei-
ra questão costuma ser esquecida quando se dá ênfase demasiada exclusiva-
mente à "padronização".

Considerações sobre alguns efeitos da padronização

Embora ela deva ser considerada juntamente com muitos outros tópicos,
é inegável que a padronização merece estudo mais detido. É necessário ter
cuidado em não desprezar perspectivas históricas, como conseqüência de não Ampliação de uma passagem da "Bíblia iníqua", impressa por R. Barker em 1631, mostrando o man-
se levar em conta a imensa diferença existente entre os métodos da impren- damento "Cometerás adultério". Reproduzida mediante gentil permissão da Divisão de Livros Raros
sa primitiva e os de tempos mais recentes. Contudo, importa igualmente não da Biblioteca Pública de Nova York.

66 67
tenas de cópias que, embora semelhantes, podiam ser espalhadas por toda parte", te, os traços idiossincráticos da mão do escriba. Colocado em face de uma répl~-
é demasiado importante para ser perdida em questiúnculas sobre o fato de que ca sua impressa, qualquer desenho ou esboço revela um contraste mais
as primeiras cópias impressas não eram todas precisamente iguais. Mas eram impressionante ainda. Parece mais novo e mais "original" do que quando_ P?sto
uniformes o suficiente para que os estudiosos localizados em regiões distintas diante de uma cópia feita à mão. Assim, as distinções entre o novo e ongmal,
pudessem corresponder-se a respeito de uma determinada citação, e assim per- de um lado, e o passível de repetição e copiado, de outro, tornaram-se pro-
mitir que as mesmas emendas e erros fossem localizados por muitos olhos. vavelmente mais agudas depois do advento da imprensa. O processo de
Ao sugerir que as implicações da padronização podem ser subestimadas, padronização também pôs a de~coberto, d: mod~ ~~is dar~, todo~ os des-
estou pensando não somente em erros e emendas de textos, mas também em vios dos cânones clássicos refletidos em mmtos edific10s, estatuas, pmturas e
calendários, dicionários, efemérides e outros guias de referência; em mapas, objetos de arte. Inicialmente, a expressão "gótico" significava "ainda não
tabelas, diagramas e vários outros materiais visuais. A capacidade de produ- clássico"; e "barroco", "desvio da norma clássica". Em última instância, todo
zir imagens espaço-temporais uniformes é freqüentemente atribuída à inven- 0
curso da história da arte ocidental viria a ser traçado em obediência a câno-
ção da escrita, sem que se tenha em conta a dificuldade de multiplicar à mão nes clássicos fixos e diversos desvios deles: "Esta seqüência de estilos e perío-
imagens idênticas. O mesmo é válido para sistemas de notação, musicais ou dos, conhecidos de todos os iniciantes - clássico, românico, gótico, renas-
matemáticos. Com efeito, é provável que a capacidade de repetição tenha trans- centista, maneirista, barroco, rococó, neoclássico, romântico - , representa
formado mais as disciplinas do quadririum do que as do tririum. somente uma série de máscaras, de duas categorias: clássica e não-clássica".
Os diferentes tratamentos sobre o tema da padronização são demasiado Com o desaparecimento das variadas formas de escrita à mão dos copis-
numerosos para que eu possa enumerá-los exaustivamente aqui. Este tema tas, os estilos de letras tornaram-se mais agudamente polarizados em dois gru-
entrou em todas as operações relacionadas com a tipografia, desde a fundi- pos de caracteres: "gótico" e "romano". Uma polarização similar afetou os ~ro-
ção em réplica de tipos metálicos medidos com toda a precisão até a confec- jetos arquitetônicos. Uma consciência mais_ viva das três ordens estabe_leci~~s
ção de blocos de madeira que tinham as dimensões exatamente necessárias por Vitrúvio acompanhou a produção de impressos e gravuras arqmtetom-
para coincidir com a superfkie dos tipos. Ele envolveu também o impacto "subli- cas, paralelamente com novos tratados e velhos te~t?s. O ~onhecimen~o mais
minar", em leitores esparsos, dos encontros repetidos com idênticos estilos exato de distantes fronteiras regionais também f01 mcentivado pela tiragem
de tipos, dispositivos de impressão e ornamentação da página de rosto. Até de mapas mais uniformes, com limites e nomes topográficos mais uniform~s.
mesmo a caligrafia foi afetada. Os livros de padrões do século XVI peneira- Desenvolvimentos parecidos afetaram costumes, leis, línguas e roupas locais.
ram as idiossincrasias pessoais de diversas "formas de letras" dos escribas. Um certo livro de moldes de vestidos, publicado em Sevilha na década de 1520,
Sua ação sobre os manuscritos foi a mesma que a dos livros de padrões sobre fez com que a moda "espanhola" se tornasse conhecida em toda a extensão
a tipografia, a dos livros de modelos sobre as indústrias de roupas ou de móveis, do vasto império dos Habsburgos. Desse modo, dava-se orientação nova a
ou a dos motivos arquitetônicos e plantas de construção. Os manuais de alfaiates e costureiras, ao mesmo tempo que a diversidade dos trajes locais se
escrita, do mesmo modo que as folhas com modelos e os livros de padrões tornava mais surpreendente para os moradores de Bruxelas ou Lima.
não eram desconhecido; na era dos escribas. Mas, tal como as gramáticas ~ Um reconhecimento mais pleno da diversidade corria paralelamente à
cartilhas manuscritas - usadas por professores diferentes, em distintas padronização. As publicações do século XVI não soment~ disseminaram m_odas
regiões - , eram diferenciados, e não uniformes. idênticas, como também incentivaram o hábito de colecionar outras. Os hvros
Talvez a própria noção de "estilo", tenha sofrido mudanças a partir do que ilustravam os trajes diversos usados em todo ~ mundo passaram a _ser estu-
momento em que o trabalho da mão utilizando o "estilo" foi substituído por dados por artistas e gravadores, bem como duplicados em tal quantidade de
impressões mais padronizadas obtidas com o recurso aos tipos metálicos. As contextos, que os estereótipos de trajes regionais se foram desenvolven~o. Com
distinções entre caligrafia e impressão são tais que, ao confrontarmos um texto 0
correr dos tempos, adquiriram no papel uma vida para toda.ª eternidad~, e
manuscrito com um impresso, podemos perceber nele, muito mais claramen- podem ainda hoje ser reconhecidos em bonecas, óperas ou bailes a fantasia.

69
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E il pieJejlallo dique//' or,line Cor,111111 foffe !'! teru p,,rte del/a colalUfd,fa,el,/;e ,-luá fei e duoi te~,

S ma jl puo comportart ri, moduli /Úu per piu fueluua , conforme mo/to , e ,mwniente • fim,/ ordme,
& anco perche íl nettodelpiedeJ}allo /mzn la cima/a e l,affame,rto rie/ca diduoi quadri, come /ipuo 'Vt•
dere per lifuoi1111111eri 1/ refio czoe la /,afê, tia cim ,fa, (5 ül,aff4Jllento, pereffere notdto mm11tamtntl,
e anco la 11npo/la Je/1' arco, 110n actade altra (crittura.
A Torro owro hajlor.eJuperiore, BToroowro !,apo11e in{eriort.

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inen fün mac!J acn De getallm. ~e cefte / te \lleten bet baf1.6 r nmanum moe bafement / bc w11l
fi1 op ·e naufle ;1jn aenneree,11n,1t / al.6 meoe b'impotta oft opttellmg!J uan De boge / foo m !Jocucn
lllP bacr nict mctt uan re fc!J111um.
A ee ,~01UJJ oft ttock ban bol>elt/ B8e ,go1Uf oft ftock ban bmebm.

I le Picdefial de ccfic or<lonnance Cotinthicnnc eíl: le tiers de la colomnc, il riendra fix mO-
S dules mais on lc pourra bien faire de fept Modulespour plus grande folidité , forr con.
& •,
forme &co~vcnablc accíl:c ordonnance : &auffi, afinquele Piedeftal, fans la cimacc & bafe-
mcnr, rcvienneà deuxquarrcz, comme l'on pourra voir parles nombres. Le refie, c'cfi afavoit
la bafe , la cimace & le bafement , puis qu'ils fone notez par menu I comme auffi l"impofitioB
de l"arc, il n'eftjabefoing d'cn cfcrire d'avantage•
.4 Le Tore ou bafion d'cnhaut, B Le Tore ou bafton d-embas.

ofthe Columne, it lhall containe


I F/ixwhich
ty,
the Pedcfial of this Corinthian Order bee the third paf!
modulas cn and two thirds, but you maymakc it of7 modulas, for the greatcr folidi.
isverry conformable and bcfitcing this Order: asalfo, rhac the Pedeftal, wirhout the
Cimact and bafcment commeth our even in,. fouresquares even as you may fee by the Num-
bcrs. The refi, co wirc thc bafe, the Cimate and bafement the while they arenored leaft, as alfo
the Impofi or fctting up of the Bow or Arch, ío that wee neede 110t write more thereot:
..t The Torus or J>iece on high, B lhe Torus or pieçe belou.

Uma consciência mais viva das antigas ordens arquitetônicas descritas por Vitrúvio acompanhou a
tiragem de gravuras e textos impressos. Regras detalhadas para a ordem coríntia (acima) são dadas
em italiano, holandês, francês, alemão e inglês, acompanhando a gravura da página ao lado. Extraí-
da de Giacomo Barozzio Vignola, Re.90/a Je ai1q11e orJti1ic!;1rchitett11ra (Amsterdam, Jan. Janz., 1642,
p. 54-5). Reproduzida mediante gentil permissão da Folger Shakespeare Library.

Os conceitos relacionados com uniformidade e diversidade - com o típi-


co e o único - são interdependentes. Representam os dois lados da mesma
moeda. Sob este ponto de vista, poder-se-ia considerar o aparecimento de um
novo sentido de individualismo como um subproduto das novas formas de
padronização. Com efeito, quanto mais padronizado for o tipo, tanto mais impe-
7()
71
VaÍ'iailía (ola de j,160(1,!,J&li}

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nucC\11 tn boja íaJc la mcdb fapuafrn c6 lnabrça de
çua.l•mangas.. los cucbillos trilhos ,·1 ma, puntillat ptll loa c11-
~hillos dclantcros.Uco1 de largo ,aa y media,,
de ruc4o quime pa!oaoa. ~ ~I:

Livros de moldes para costureiras e alfaiates publicados na Sevilha do século XVI tornaram as modas
"espanholas" mais conhecidas em todo o imenso império dos Habsburgos. O modelo mostrado acima
foi extraído de Diego de Freyle, Geometria y fraca para e! oficw Je /0,1 .ia.itre,1 (Sevilha, Fernando Díaz,
1588, fólio 17, verso). Reproduzida mediante gentil permissão da Folger Shakespeare Library.

rioso será o sentido do ser pessoal idiossincrático. E este foi exatamente o sen-
tido captado nos &r:1au de Montaigne. Por ser uma criatura irrequieta, preo-
cupada com incidentes triviais, o autor dos E11,1aior:1 contrastava em quase tudo
com o tipo ideal dado a conhecer por outros livros. Esses últimos apresenta-
vam príncipes, cortesãos, conselheiros, comerciantes, professores, bem como
lavradores e outros semelhantes, usando termos que levavam seus leitores a
se tornarem cada vez mais conscientes, não somente de suas deficiências em
seus respectivos papéis, mas também da existência de um ser único e solitá-
rio, caracterizado por todos os traços peculiares que não eram compartilha-
dos pelos demais - traços esses que não tinham quaisquer funções exem-
plares ou de relevância social, e por via de conseqüência, destituídos de
mérito literário. Por apresentar-se assim, em toda a modéstia, como um indi-
víduo atípico, e por pintar com amor cada uma de suas peculiaridades, Mon-
taigne, por assim dizer, retirou do esconderijo o seu ser individual. Ele foi o
primeiro a exibi-lo, de modo deliberado, à curiosidade pública.
As convenções retóricas tradicionais haviam permitido a diferença de tom
entre o discurso perante uma grande platéia, numa arena pública, em que se
impunham pulmões fortes e largos gestos oratórios, e a defesa de uma causa,
num tribunal, que requeria uma cuidadosa atenção para o detalhe, bem como A diversidade acompanhou a padronização. Também foram editados no século X~! livros qu_e_ ilus_-
• • e- d .,. d -africano" éextraídadeCesare Vecelho,Deg/1halnt1ant1-
uma abordagem íntima, em voz suave, baseada em argumentação cerrada. tram traJes diversos. Esta ngura e um m O d "d d'
· · · · D · n Zenaro 1590, p. 495-6). Repro uz1 a me 1an-
chi et moclerm dt c/1,•er.ie partt dei mondo (Veneza, amia ,
Não existia ainda, contudo, qualquer precedente para orientar quem dese-
te gentil permissão da Folger Shakespeare Library.
jasse dirigir-se a uma larga platéia de pessoas que não se achavam reunidas
no mesmo lugar, mas, ao contrário, espalhadas em moradas esparsas, e que,
na condição de indivíduos solitários com interesses divergentes, seriam muito
7J
72
ma~s receptivo~ a .intercâmbios íntimos do que a efeitos retóricos de grosso na impressora, tendência esta que se firmou com a preparação de cópias rela-
calibre. O ensaio .mformal concebido por Montaigne revelou-se um método tivas a motivos arquitetônicos, divisas regionais, nomes de lugares, detalhes
engenhoso para h~ar com a nova situação. Estabeleceu portanto uma base
das roupas e costumes locais. Ao que tudo indica, o próprio ato de reunir mate-
nova p~ra cons:~rr ~on~to íntimo com leitores desconhecidos, os quais, embo- rial e publicar guias e manuais de vestuário ilustrados teria estimulado nã~
ra admirando a distância retratos de homens respeitáveis, se sentiam mais à
só uma nova consciência de lugar e de época, como a preocupação de atri-
vont~de qua~do apresentados face a face a uma pessoa que se declarava buir a cada uma delas a sua correta ornamentação. Na verdade, esta tese pare-
me.d~o~re. A?ima de tu~o, ele ~arantiu uma bem-vinda segurança de que 0 ce ser posta em dúvida quando constatamos a utilização - na Crônica de
s?htario s~ntimento de smgularidade, que era sentido pelo leitor, não só tinha Nuremberg, por exemplo - da mesma gravura em madeira, para represen-
sido experimentado por um outro ser humano, como era suscetível de ser com- tar cidades diferentes (tais como Mainz e Bolonha ou Lyon) ou da mesma
partilhado em larga escala.
efígie para indicar distintas personagens históricas. Os primeiros impresso-
. ~nquanto ~~ au~or co~o Montaigne desenvolvia um novo gênero literá- res freqüentemente se mostravam muito frugais no uso de algumas poucas
rio, mformal e i?i~ssmcrático - pondo a nu, ao mesmo tempo, todas as arti- estampas para cobrir uma variedade de propósitos. Uma edição de Ulm, de
manhas e pecuharidades que definem o "me, mim mesmo" em contraste com
1483, "tem uma gravura que é usada 37 vezes; 34 ilustrações são feitas
o tipo - , outros gêneros definiam tipos ideais e delineavam papéis apropria- mediante o emprego de somente dezenove blocos". E no entanto a década de
dos para padres e comerciantes, para o nobre e a senhora, para O moço e a
1480 também viu um artista gravador ser contratado com a incumbência de
moça bem nascidos.
fazer representações novas para cidades e plantas encontradas ao longo de
. Neste pon~o~ c~m.o em outros, a "mensagem pictórica que podia ser repe- uma peregrinação à Terra Santa. As ilustrações de cidades, feitas por Erhard
tida ?ºm exatidao aJudou a reforçar os efeitos da tiragem de edições estan- Reuwich, para a obra de Breydenbach, Peregrinatw in Terram Sanctam (1486),
~ardizadas~ Encontros :e.petidos com figuras idênticas de casais representa- e de plantas, para o herbário em vernáculo Gart der Guundheit, de Schoeffer
ti:o~
dos tres grupos so~iais - nob.re, burguês e campesino - , trajando roupas ( 1485), mostraram o caminho no sentido de alcançar-se um registro cada vez
distmtas ~ coloc~das diante de paisagens regionais também distintas, prova- mais preciso e detalhado de observações em forma visual. Importa distinguir
ve~mente mcentivaram u~ aguçado sentimento das divisões, sociais e regio- ainda entre a reutilização descuidada de alguns blocos para propósitos vários
~ais. Ao mesmo tempo, a circulação de retratos dos reis e de estampas de oca- e o reemprego deliberado da representação de uma cidade ou efígie "típica",
siões solenes permitiu à dinastia reinante imprimir, de um modo novo, uma
para servir como indicadores ou pontos de referência nos guias, no intuito
presen~a pessoal na consciência de_ todos os seus súditos. A diferença entre de auxiliar os leitores a orientar-se num texto. Seja qual for o propósito das
a velha imagem passível de,repetiçãh, que era estampada nas moedas, e O mais
gravuras de cidades e efígies utilizadas numa obra como a Crônica de Nurem-
n~~o subproduto da imprensa nos é sugerida por um dos mais célebres epi- berg, permanecem igualmente válidas as observações anteriores sobre indi-
sod10s da Revolução Francesa. As feições individuais de imperadores e reis
vidualização e padronização. Quanto mais estandardizada era a imagem
não eram suficient~mente detalhadas nas moedas para que seus rostos pudes-
empregada, mais claramente podiam ser observados pelo desenhista at~nto
sem ser reconhecidos, quando eles viajavam incógnitos. Mas um retrato
os traços peculiares de diferentes cidades, efígies ou plantas que se deseJava
estampado em papel-moeda permitiu a um cidadão francês mais atento reco-
representar. Durante séculos, pintores, entalhadores e escultores vinham
nhecer e deter Luís XVI em Varennes.
representando formas naturais sobre margens de manuscritos, trajes eclesiás-
~n.v~m n.otar que um grau de percepção mais agudo, tanto para os tra- ticos ou matrizes de pedra. Agora, seus talentos eram utilizados para novas
ços mdiVIduais como para os típicos, tenderia a aparecer primeiro nas pes-
finalidades, em programas de publicações técnicas iniciados por mestres
s?as que eram responsáveis por compilar e editar novos manuais de vestuá-
impressores e editores eruditos, a partir de Peter Schoeffer e outros.
rio, livr?s de estilo, fes~ejos em ocasiões solenes e guias regionais. A prática
E neste ponto, como em outros, temos de nos recordar que os impresso-
de publicar erratas haVIa aguçado a atenção para erros perpetrados na ofici-
res primitivos eram responsáveis não somente por publicar guias de referên-
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eia inovadores, como também por compilar alguns deles. Para aqueles de nós
que pensam em termos de divisões de tarefas (as quais só viriam muito mais
tarde), parecerá imenso, quase inconcebível, o repertório dos papéis que
cabiam aos antigos impressores. O próprio mestre-impressor poderia servir
ora como um produtor e vendedor de livros, ora como indexador-condensa-
dor de texto-tradutor-lexicógrafo-cronista. Muitos impressores, é claro, limi-
tavam-se a duplicar o que lhes caía nas mãos, de modo muito mal-ajambra-
do. Mas havia também os que se orgulhavam de sua profissão, e não hesitavam
em contratar assistentes bem preparados. Tais mestres colocavam-se na invul-
gar situação de poder lucrar passando a outros alguns sistemas que haviam
criado para si próprios. Com isso, não só praticavam auto-ajuda, como tam-
bém a pregavam. No final da Idade Média, já havia manuais práticos escri-
tos especificamente para orientar padres, inquisidores, confessores e peregri-
nos - como também comerciantes leigos. Embora dilatadas Jummae atraiam
hoje a atenção de eruditos, sabe-se que os escribas medievais também com-
punham Jummulae compactas, isto é, livros-guias abrangentes, destinados a
transmitir orientação prática em matérias diversas - que incluíam desde a
composição de um sermão até o comportamento esperado no leito de morte.
Aqui, como em outras instâncias, o impressor parece ter entrado em função, manma
a partir do momento em que o escriba saiu de cena. Mas, ao fazê-lo, ele muito
amplificou o tratamento de velhos temas. Simplesmente não há, na cultura
dos escribas, algo equivalente à "avalanche" de livros do tipo "como fazer"
que jorravam dos novos prelos, explicando por "passos fáceis" exatamente
como assenhorear-se de diversas habilidades que variavam entre tocar um
instrumento musical e escriturar livros de contabilidade.
Muitas indústrias capitalistas primitivas exigiam um planejamento efi-
ciente, atenção metódica aos detalhes e cálculos racionais. Contudo, as deci-
sões tomadas pelos primeiros impressores afetaram diretamente tanto a fei-
tura de ferramentas como a de símbolos. Seus produtos transformaram a
capacidade de manipular objetos, de perceber fenômenos variados e meditar
sobre os mesmos. Os estudiosos interessados na "modernização" ou "racio-
nalização" ganhariam em refletir mais sobre os novos tipos de trabalho men-

O uso de um quarteirão para ilustrar várias cidades é mostrado na página ao lado por Verona
(acima) e Mântua (abaixo), que estão representadas na Crônica de Nuremberg. Extraídas de Hart-
mann Schedel, Lwerchronicorum (Nuremberg, Anton Koberger, 12 de julho de 1493, fólios 68 e 84).
Reproduzidas mediante gentil permissão da Folger Shakespeare Library.
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iaurettus \'allenfüJ

~rnarous cõpoftdla Jo.Gerfon CJflccl,


nust>octcn lanus p~nficnfi's

Retratos idênticos (de Baldus e Lorenzo Valia, acima, e de Compostela e Jean Gerson, abaixo) tam-
bém adornam a Crônica de Nuremberg. A reutilização de uma determinada xilogravura pode ter sido
destinada a chamar a atenção do leitor para um dado tópico (como uma cidade ou personagem), e
não para representar um determinado perfil. Extraída da obra de Hartmann Schedel, Lwerchronú:o-
rum (Nuremberg, Anton Koberger, 12 de julho de 1493, fólios 236,246,213,240). Reproduzida median-
te gentil permissão da Folger Shakespeare Libraiy.

. - .
C 'nica de Nuremberg, o artista-grava d or E r hard Reuwich havia
. con-
tal estimulado pelo escrutínio silencioso de mapas, tabelas, diagramas, dicio- Pouco antes da pubhcaçao da ro d · m à Terra Santa. Sua vista de
. d 'd d !antas encontra as numa viage
nários e gramáticas. Eles também precisam olhar mais de perto para as roti- cluído novas ilustrações e c1 a es e p h ' . r; t nte com uma convencional e des-
. . , . os recon ec1ve1s vun ame
nas seguidas por aqueles que compilaram e produziram essas obras de refe- Veneza contém vários traços arqmtetomc . - d V f 't s por Erhard Reuwich, da obra
. d ) E 'da das ilustraçoes e eneza e1 a
cabida paisagem ao fun o . . xtra1 . . ' (M . Erhard Reuwich [tipos de Peter
rência. Essas rotinas levariam a um novo uprit de .1y.1teme. No prefácio de seu b h~ · t 1 01 Terram Sanctam amz,
de Bernhard von Breyden ac ' ere_qruw u d D rt menta de Coleções Especiais
pioneiro atlas, que continha textos e índices suplementares, Abraham Orte- Schoeffer], 1486). Reproduzida mediant~ gentil permissão o epa a
das Bibliotecas da Universidade de Stanford.
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lius c?~parava s~u Theatrum a urna "bem sortida loja", disposta de modo a
permitir ~ue os leit?,res p~ssarn ~acilrnente encontrar quaisquer instrumentos VIII em York. A lista de livros, rimada, estava incompleta porque e~i~ências
q~e deseJern obter. É rnmto mais cômodo encontrar coisas quando elas estão métricas impunham a exclusão de várias obras. Os catálogos das bibliotecas
di~postas nos seus lugares, e não espalhadas ao acaso", observava um outro medievais não se apresentavam, é claro, normal~ente em versos, mas es:a-
editor do ~éculo XVI, ao justificar o modo corno havia reorganizado um texto vam, de qualquer modo, muito longe de se orgam~arem segun_do os ~adroes
por ele editado. Da mesma forma, ele poderia ter reclamado de um funcioná- , · mq dernos - ou, na realidade ' de quaisquer padroes
d os fiic hanos . umformes.
rio que houvesse desarrumado documentos contábeis da grande firma comer- R fl t . d O te~peramento multiforme da cultura dos escnbas, eles eram, na
e em o . · · d ·
cial por ele gerida. maior parte das vezes, organizados de modo idios~incrático, no mtulto e ~JU-
dar um dos guardiães a encontrar, a seu modo, os hvr?s buscados, que podiam
repousar em armários ou arca~, como também podiam ficar acorrentados a
carteiras, num aposento especial. ,
Alguns efeitos produzidos pela reorganização dos textos e dos guias
A utilização crescente da ordem alfabética plena, tanto para catalogos ?e
de referência: a racionalização, codificação e catalogação dos dados
livros como para índices, tem sido atribuída ao advento do papel, matenal
. As decisões editoriais tomadas pelos primeiros impressores, no que diz res- menos custoso para a confecção dos necessários índices de fichas. Não resta
peit? à apresentação e layout, muito provavelmente contribuíram para reor- dúvida de que os materiais de escrita mais baratos tornaram menos onerosas
gamzar o modo de pensar dos leitores. A sugestão de McLuhan, de que a var- as tarefas de indexação e catalogação, mas certamente p?uco fizer~m para
r~dura de linhas impressas afetou os processos de pensamento, é, à primeira vencer a resistência natural à operação de copiar longas hstas repetidamen-
VIsta, um tanto est~anha. Uma _reflexão mais detida, contudo, sugere que os te, pelo processo manual. Houve esforços ~casionais, _no sentido de faze~ com
pensamentos do~ ~eitores ~ão gmad?s pelo modo como estão ordenadas e apre- que um índice fosse válido para_várias c?pias, mas tais empen~os eram m~a-
sentadas as matenas contidas nos hvros. Mudanças básicas no formato de um riavelmente prejudicados por diversos tipos de erros dos escnbas. Na ma~or
livro be~ poderia~ conduzir a mudanças nos padrões de pensamento. parte das vezes, 0 dono de um compêndio medieval, ao prepar~r um índice
A _utilização de hvros de referência impressos, por exemplo, incentivou um para seu próprio uso, não se sentia na obrigação de empregar um sistema usado
repetido recurs? à ordem alfabética. Desde o século XVI, a porta de acesso por qualquer outra pessoa; geralmente, seguia um métod~ qualquer de sua
ao mundo da leitura, para todas as crianças ocidentais, tem sido a memoriza- livre escolha. Do mesmo modo, ao procurar manter atualizado o acervo de
ção de ~a seqüênci~ fixa de letras distintas, representadas por símbolos e sons uma biblioteca, o seu responsável não tinha qualquer incentivo a organizar
desproVIdos de sentido em si. As coisas eram tão diferentes antes do advento seus registros nos moldes adotados por outros bibliotecários - nem qualquer
da imprensa, que um compilador genovês de uma enciclopédia do século XIII estímulo tampouco a colocar os volumes em qualquer ordem clara que fosse.
~~e~ava ao ~on~o d; ?~zer q~e ':'amo' vem antes de 'bibo', porque 'a' é a letra (Com base em contatos com alguns guardiães vivo~ de livros r~~os, é ~e su~-
imcial do pnmeiro; b e a pnmeira letra do segundo; e 'a' vem antes de 'b' [ ... ] peitar-se que os predecessores medievais destes úl~imos se sentmam ta~ mais
com a graça de Deus atuando sobre mim, eu inventei esta ordem". satisfeitos quanto mais inexplicável fosse o arranJ? dado a um ~etermmad?
Nos manuais de referência dos escribas havia iguais chances de ser utili- inventário de livros.) Contudo, após o advento da imprensa, as hstas org~m-
zados o~tr?s modos de organizar os dados. No que diz respeito aos catálo- zadas por prateleiras foram suplementadas por catálogos de venda des~m~-
gos de bib~i~tecas de_es~ribas, o pleno uso de sistemas alfabéticos pelos famo- dos a leitores fora do recinto da biblioteca; ao mesmo tempo, qualquer mdi-
~os _g~a~di~ es da Bi~hoteca_ de Alexandria desaparecera com a própria ce compilado para um texto podia agora ser duplic~o ce~ten~ de vezes. Desse
1

mstitmçao. No que diz respeito à catalogação, há um grande contraste entre modo, 0 caráter comercial competitivo do negóc10 de hvros impressos, mor-
um poema e um índice de fichas", observam Reynolds e Wilson, em conexão mente quando associado à padronização tipográfic~, fez ~o~ ~ue as etapas
com alguns versos atribuídos a Alcuíno, ao descrever a biblioteca do século de catalogação e indexação se tornassem não só ~ais prati~~veis, como alta-
mente desejáveis. Para abastecer mercados e atrair potenciais compradores,
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mantendo seus concorrentes sob controle, era indispensável não só contar com
listas de vendas que arranjassem os títulos dos livros de maneira clara e coe-
rente, como igualmente oferecer edições que pudessem ser descritas como "nova
e melhorada", e "com bom índice".
Não se deve levar ao pé da letra um prospecto de Peter Schoeffer, segun-
do o qual sua firma oferecia índices" mais completos e bem arranjados", e tex-
tos "mais legíveis" do que a concorrência. Os primeiros impressores, tal como
os modernos agentes de imprensa, muitas vezes prometiam mais do que tinham
condições de entregar. Não obstante, a pressão da concorrência exacerbou os
esforços no intuito de tentar melhorar os produtos costumeiros, e também aju-
dou a combater a resistência congênita às mudanças que até então havia carac-
terizado a cópia dos textos valiosos. A racionalização do formato contribuiu
para sistematizar a educação formal em diversas áreas. Os cinco catálogos pari-
sienses de livros de Robert Estienne, publicados entre 1542 e 1547, refletem
um rápido avanço em muitas frentes. Dispostos em linhas trilíngües, com
cada seção ordenada numa progressão uniforme, começando com os alfabe-
tos em hebraico, grego e latim e prosseguindo com gramáticas, dicionários e
textos, esses catálogos foram descritos com toda a justiça como um "milagre
de lúcida organização". A mesma competência foi usada por Estienne tanto
no seu trabalho pioneiro em lexicografia como na sua seqüência de edições da
Bíblia. Suas sucessivas edições melhoradas da Bíblia, produzidas na Paris do
século XVI, podem ser comparadas com a assim chamada "edição" posta em
circulação pelos escribas da Paris do século XIII, analogamente, suas nume-
rosas contribuições à lexicografia podem ser comparadas com o singular e único
léxico bilíngüe elaborado pelos mestres da Universidade medieval no século
XIII sob a direção de Robert Grosseteste.
Tais comparações têm utilidade não somente porque revelam o novo poder . d , circundado por uma glosa e recheado de abre-
Este exemplo de um tratado medieval, on e o texto e A . , 1 Ph .. (. 1300
que a imprensa podia alcançar, mas também porque sugerem que tentativas de viaturas, foi extraído de uma cópia manuscrita em velino, da obra de nstote es, . y.iua , . '
trabalhos lexicográficos já haviam sido realizadas antes da chegada da impren- folha 22, recto). Reproduzida mediante gentil permissão da Folger Shakespeare L1brary.

sa. Esforços no sentido de codificar e sistematizar, feitos antes da entrada dos


novos prelos, haviam sido realizados por pregadores e professores, que tinham ramos do conhecimento e conceitos abstratos esque-
compilado concordâncias para uso de outros clérigos, ou organizavam passa- gramas que most ravam Os 1 t
matizados ou relacionavam os órgãos do corpo humano a corpo~ ~e es es.
gens das Escrituras, tópicos de sermões e comentários para si próprios. Um poema
Outros vi~ham com pequenas abas, de pergaminho ou papel, para facil~r r~fe-
não constitui somente "um grande contraste em relação a um índice de fichas";
rências. Em outras palavras, convém precaver~se contra qualquer te~. enci: a
ele está igualmente distante de muitos tratados escolásticos sobre temas não só . "dades introduzidas com a imprensa ou, ao contrario, a nao
médicos como legais e teológicos. Tais tratados tinham o texto circundado por superestimar as noVI . · d
levar em conta o modo como alguns desenvolvimentos préVIos ªJU aram a
glosas e repleto de abreviaturas e anotações marginais. Alguns continham dia-
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c~nal~~ os usos qu~ a nova ferramenta foi chamada a implementar. Alguns Entre 1500 e 1800, foram publicados mais de setenta léxicos dedicados
dispositlv~s,. que ~ais tarde se tornariam usuais (como diagramas ou colche- exclusivamente ao hebraico. Na segunda metade do século XVI, Christopher
tes, ou o habito de hgar um trecho a outro mediante referências cruzadas), não Plantin lançou-se ao preparo de uma edição levemente revista da Bíblia Poli-
eram desconhecidos dos compiladores e comentadores medievais, embora tais glota Complutense de 1517-1522. Acabou publicando um monumental tra-
práticas tomassem, naqueles tempos, formas idiossincráticas e variadas. Assim balho novo, contendo cinco volumes de texto e três de materiais de referên-
como a utilização uniforme da ordem alfabética para todas as palavras de refe- cia, que incluíam gramáticas e dicionários de grego, hebraico, aramaico e siríaco.
rência não resultou exclusivamente da invenção da imprensa, mas necessitou Nova expansão foi trazida pela edição poliglota parisiense de 1645, sendo que
da existência de uma linguagem escrita alfabética como base, do mesmo modo o clímax sobreveio na Inglaterra de meados do século XVII. A edição "poli-
s~ p~de dizer que ~mito do que diz respeito às atividades de catalogação, refe- glota", de Londres, datada de 1657, foi anunciada por um folheto que exal-
rencias cruzadas e mdexação - que tanto marcaram a educação formal do sécu- tava a sua superioridade sobre todas as edições precedentes (em termos que
lo XVI - não deve ser tido apenas como subproduto de uma cultura tipográ- foram mais tarde reproduzidos pelo bispo Sprat, no seu louvor à Royal
fica, mas também como reflexo de novas oportunidades criadas entre membros Society). Seu conteúdo nos revela quanto terreno já havia sido conquistado
do clero e da burocracia, para a realização de velhos objetivos. em dois séculos de imprensa. Ela apresentava textos em "hebraico, samari-
tano, grego da tradução dos setenta, caldeu, siríaco, árabe, etíope, persa e latim
No que ele tinha de mais característico, o homem medieval [... ] era um organizador, um da Vulgata", aumentando assim o acervo de tipos de imprensa postos em uso
construtor de sistemas, um codificador. Ele queria um lugar para cada coisa e cada coisa pelos eruditos ocidentais em seus estudos orientais. Seus apêndices sofistica-
no seu lugar certo. Seu deleite estava em fazer distinções, criar definições e tabulações dos revelaram em que medida a impressão da Bíblia fizera avançar a indús-
[... ] Nada havia que os povos medievais fizessem melhor, ou com maior prazer, do que
tria do conhecimento moderno. Eles compreendiam
classificar e arrumar coisas. De todas as nossas invenções modernas, suspeito que eles
teriam a maior admiração pelo índice de fichas.
um vasto aparato que incluía um quadro de cronologia antiga preparado por Louis Cap-
pel; descrições e mapas da Terra Santa e de Jerusalém; plano do templo; tratados sobre
Como sugere esta citação de C. S. Lewis, não se deve pensar somente em moedas hebraicas, sobre pesos e medidas, sobre a origem da linguagem e do alfabeto e
"lojas bem sortidas", quando se considera o ímpeto de racionalizar as institui- sobre o idioma hebraico; um relato histórico das principais edições e principais versões
ções ocidentais. O desejo de ter "tudo em seu lugar correto" era compartilha- das Escrituras; uma tabela com leituras variantes, com um ensaio sobre a integridade e
do tanto pelos universitários medievais como pelos primeiros capitalistas. A a autoridade dos textos originais e outras matérias.
oficina gráfica cumpriu uma função significativa, embora esquecida, ao com-
binar atividades intelectuais e comerciais, que se reforçavam mutuamente e A produção de tabelas, catálogos, dicionários geográficos e outras obras
desse modo criavam um impulso particularmente poderoso, quase irresistível. de referência satisfazia tanto impulsos práticos como religiosos. Enquanto a
Por outro lado, deve-se evitar a tentação de conferir demasiado valor a obra de Robert Estienne sobre lexicografia surgiu como um resultado episó-
antecipações medievais ocasionais de tendências que só poderiam realmen- dico de suas edições bíblicas, uma das contribuições lexicográficas de Chris-
te ter sido lançadas após o advento da imprensa. Os estudiosos medievais teriam topher Plantin resultou simplesmente de sua condição de comerciante imi-
admirado nossos fichários, mas seu sentido de ordem não era baseado na uti- grado. Depois de estabelecer-se em Antuérpia e de estabelecer vínculos com
lização dele: Um único léxico bilíngüe não pode ter o mesmo efeito que cen- a cidade holandesa de Leiden, Plantin decidiu aprender holandês. Como
tenas de gmas de referência trilíngües. Simplesmente, não há, nas casas de indivíduo que jamais desperdiçava esforços, ele passou a "colocar em pilhas
e~tu.do ou ?ibliote.cas conventuais medievais, algo que se possa comparar às e em ordem alfabética" cada palavra que aprendia. Desse modo, lançou-se
bibhas poliglotas impressas dos séculos XVI e XVII ou ao aparato de refe- numa parceria que resultaria no Th&1aurw theutonicae Linguae, de 1573 - o "pri-
rências que as acompanhavam. meiro dicionário holandês digno desse nome".

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Colocar palavras (e letras) em pilhas, em ordem alfabética, era na reali- imprensa tornara a feitura de livros de texto um gên:ro novo e ~uc_rativo. A
dade uma rotina empregada universalmente nas oficinas impressoras. O pre- mera preparação desse tipo de livros, de textos ~m diferentes n~veis, para 0
paro de cada índice já constituía um exercício de análise textual - algo que ensino de disciplinas variadas, incentivou a reavaliação de pro~edimentos _her-
se aplicava agora a muitas obras que jamais haviam recebido um índice antes. dados e uma reorganização dos diferentes enfoques a serem aplicados aos diver-
Tal atividade e outros procedimentos inerentes à edição de cópias orientavam sos campos de estudo. Contudo, o novo realce aplicado ao sistema e a~ mé-
as atividades acadêmicas numa direção algo distinta da que presidira o pre- todo não era exclusivamente pedagógico ou limitado à preparação de hvros
paro de orações, diálogos e outras peças comemorativas ocasionais, que de texto. Era utilizado igualmente nos textos que os primeiros humanistas
haviam preocupado os humanistas das gerações anteriores. Às objeções levan- haviam menosprezado: a saber, textos consagrados aos estudos avançados nas
tadas pelos últimos contra a linguagem e grafia bárbaras usadas pelos esco- faculdades de teologia, direito e medicina.
lásticos acrescentavam-se novas objeções à organização bárbara dos compên- O professor medieval do CorpLM JurÍJ "não estava preocupado em mostrar
dios medievais, com sua vasta massa de complicadas digressões e detalhes como cada componente se relacionava com a lógica do conjunto", em parte
aparentemente sem relação entre si. As primeiras edições impressas eram répli- porque muito poucos professores nas faculdades de direito j_amais tinham tido
cas fiéis, é verdade, desses compêndios manuscritos "bárbaros"; mas o pró- a oportunidade de ver o CorpLM JurÍJ inteiro. A separação acidental de porções
prio ato da duplicação já representava uma preliminar necessária à futura rear- do manuscrito do DigeAo dera origem a duas séries de aulas, "ordinárias" e
rumação. Uma falha, que antes passara despercebida devido à apresentação "extraordinárias", antes mesmo que sucessivas teias de comentários fossem apos-
oral ou ao hábito das cópias de trechos avulsos, agora se tornava mais visí- tas ao texto por glosadores e pós-glosadores. Por outro lado, a subdivisão de
vel aos revisores de textos e indexadores, e também mais chocante para os porções em puncta, a serem lidas em voz alta, dentro de horários fixados por
editores, que valorizavam rotinas sistemáticas. Os critérios clássicos de uni- calendários acadêmicos, também provocou fragmentação e conseqüente desor-
dade, coerência interna e harmonia eram agora aplicados além do campo das ganização das seqüências. Para alguém ter acesso à mais importan~e fonte ma-
orações, poemas e pinturas, de modo a abarcar a reorganização de vastas com- nuscrita do Diguto, era necessário fazer uma peregrinação a Pisa, onde o
pilações e de inteiros campos de estudo que não se enquadravam até então Códice Florentino, lá conservado a sete chaves, poderia, quando muito, ser
dentro da seara humanística. examinado por um curto limite de tempo. Por todo um século após o advento
da imprensa, este problema do acesso ao texto continuou a martirizar aque-
A clareza e lógica de organização, a disposição da matéria na página impressa torna-
les que tentavam limpar" os estábulos de Áugias do direito", mediante o exp~~-
ram-se[ ... ] uma preocupação dos editores, quase que um fim em si mesmo. Trata-se de go de touceiras de comentários e reconstituição do corpLM na ~ua ~orma ongi-
fenômeno conhecido por qualquer estudante de livros enciclopédicos dos fins do sécu- nal. Os estudiosos de direito eram simplesmente barrados (aliás hteralmente,
lo XVI, decorrente do fascínio crescente com as novas possibilidades técnicas da com- no caso de Budé, que só pôde ver o manuscrito através de uma grade) pelos
posição tipográfica e da grande influência exercida pela metodologia de Peter Ramus ... zelosos guardiães do precioso códice, os quais somente concediam aos visit~-
A doutrina ramista - segundo a qual todo assunto pode ser tratado topicamente, e a tes dar miradas fugazes à venerada relíquia. Sua publicação em 1553 consti-
melhor exposição é a que procede mediante análise - foi adotada entusiasticamente tuiu pois um acontecimento de alguma importância - que permitiu_ a _u~a gera-
por impressores e editores. ção nova, encabeçada por Jacques Cujas, completar o trabalho miciado por
estudiosos da geração anterior, como Budé, Alciato e Amerbach. As correções
Como sugere Neal Gilbert, o termo methodLM, que fora tido por bárbaro e de>Cujas incluíam desde" os mais simples erros textuais" até" substituições ana-
como tal banido pelos primeiros humanistas, impôs-se plenamente um sécu- crônicas". Ele empreendeu também "a tarefa de indexar as citações", de modo
lo antes de Descartes - vindo a aparecer "com uma freqüência quase ina- que, no fim do século, a totalidade da compilação já estava à disposição dos
creditável nos títulos dos tratados do século XVI". A doutrina ramista pro- estudiosos, emendada e indexada. Despojada da incrustação das glosas, a
vavelmente deveu muito de sua popularidade ao fato de que o advento da antiga compilação tornou-se mais que nunca uniforme sob os aspectos de esti-


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lo e coerência. Justamente por isso, ela passou a ser vista como cada vez menos John Rastell cuidou de fornecer uma tabula introdutória: um "registro cro-
relevante para a jurisprudência da época. Tal como ocorrera com o latim de nológico, em capítulos, dos estatutos de 1327 a 1523", em 46 páginas. Assim
Cícero depois que a restauração completa foi aplicada com sucesso à letra do agindo, ele não se limitava a suprir um índice de matérias; oferecia também
antigo código, seu sopro de vida evaporou-se definitivamente. uma resenha esquemática da história parlamentar - aliás, a primeira a ser
Um outro corpo de leis vivas também sofreu como resultado de editora- vista por muitos leitores.
ção, indexação e emendas ao texto. Mesmo quando algumas antigas compi- Esse tipo de inovação espetacular, embora merecedor de estudo acurado,
lações, como o CorpLM JuriJ, pareciam menos relevantes para a prática cor- não deve desviar nossa atenção de mudanças muito menos conspícuas e muito
rente, deu-se uma incisividade maior a alguns estatutos e ordenaçõeJ vigentes. mais generalizadas. A familiaridade crescente com páginas numeradas regu-
Na Inglaterra Tudor, as proclamações reais, uma vez impressas, não mais tinham larmente, sinais de pontuação, divisões de seções, títulos de páginas, índices
de ser afixadas em paredes, portas e outros locais públicos; eram coleciona- e assim por diante ajudou a reorganizar o pensamento de todoJ os leitores, fosse
das num conveniente volume in octavo e recebiam um índice de seu conteú- qual fosse sua profissão ou ofício. A utilização de números arábicos para a nume-
do, para mais fácil referência. Na década de 1480, e começando com W de ração de páginas indica como a mais banal inovação poderia ter conseqüên-
Machlinia (um contemporâneo de Caxton, quase desconhecido), as tarefas cias pesadas - no caso, resultou numa elaboração mais cuidadosa de índi-
ligadas à impressão da legislação inglesa atraíram um número crescente de ces, de anotações e referências cruzadas. A maior parte dos estudos feitos sobre
empreendedores londrinos, como Pynson, Redman, Berthelet ou John Ras- a imprensa tem apontado, com toda a propriedade, a indicação das páginas
tell, o versátil cunhado de Thomas More. de rosto como sendo a mais significativa das novas características associadas
ao formato do livro impresso. Parece-me dispensável explicitar de que modo
Acompanhando de perto a produção dos seus concorrentes, cada um deles envidava esfor- as páginas de rosto contribuíram para a catalogação de livros e o aprimora-
ços no sentido de manter suas mercadorias atualizadas e atraentes para o público mais mento do ofício de bibliógrafo. Já a maneira como elas concorreram para a
interessado em direito. Foi provavelmente no intuito de contrapor-se à sumarização inte- formação de novos hábitos de indicar local e data, de um modo generalizado,
gral dos Estatutos [... ] publicados por Redman em 1528, que Pynson reimprimiu sua parece requerer considerações mais detidas.
edição de 1521 [... ] com nova página de rosto e quatro fólios de "novas adições" [ ... ]
Rastell não podia deixar tais iniciativas sem resposta, motivo por que respondeu com
seuMagnumAbbreviamentum, em que alistou os estatutos desde 1523, sumariados em[... ] Onovo processo de coleta de dados: da cópia
latim, anglo-francês e inglês.
adulterada à edição melhorada

A publicação de sumários e listas de estatutos, lançados por John Rastell Ao tirarem edições sucessivas de uma determinada obra de referência ou
e seu filho, oferece uma boa ilustração de como um formato de livro raciona- conjunto de mapas, os impressores não só competiam com seus rivais como
lizado podia afetar os órgãos vitais da comunidade política. A organização faziam progressos em relação a seus predecessores. Além disso, passavam a
sistemática dos títulos, as tábuas que seguiam uma rigorosa ordem alfabéti- poder melhorar a si próprios. A seqüência de Bíblias latinas publicadas por
ca, os índices e referências cruzadas a parágrafos corretamente numerados, Robert Estienne e a sucessão de atlas rodados por Ortelius sugerem como a
tudo isso nos revela como as novas ferramentas postas à disposição dos tendência inveterada da cultura escriba havia sido não meramente contida,
.impressores ajudaram a pôr mais ordem e método num considerável corpo mas de fato revertida.
de leis públicas. Até fins do século XV nem sempre era fácil decidir exata- Ao dizer tal coisa, deparar-me-ei provavelmente com objeções levantadas
mente "o que era realmente um estatuto", motivo por que se vinha multipli- por estudiosos que têm boas razões para receber com ceticismo quaisquer afir-
cando há muito tempo a confusão sobre as diversas "grandes" cartas. Ao "ingle- mações favoráveis aos primeiros impressores. Os prefácios e reclames que
sar e imprimir" o Great hoke o/Jtatut&:1 1530-1533 (Grande livro dos estatutos), repetidamente anunciam melhorias são invalidados por provas concretas de

88 89
cópias feitas sem cuidado, quando não - o que é pior - de correções incom- O Tbeatrum f01. [ ... ] em pouco tempo reimpresso
· · vezes [ ...] As sugestões de cor-
v ánas
petentes. Algumas comparações de livros de referência da era dos manuscri- reções e revisões não paravam de chegar, mantendo Ortelius e seus gravad~res ocu~~-
tos com suas primeiras versões impressas revelam freqüentemente que um dos em alterar as chapas para novas edições [...] Em três anos, ele consegmra ~dqumdr
antigo processo de adulteração foi agravado e acelerado após a impressão. tantos mapas novos, que publicou . um sup )ement o d e 17 mapas , que foram mais
. _tar e
No campo das ilustrações da Bíblia, por exemplo, a utilização repetida de blo- incorporados ao Tbeatrum. Até O ano de sua morte, em 1598, pelo menos 28 ediç~e~ do
cos de qualidade inferior levava à impressão de letras pouco legíveis; legen- atlas tinham sido tiradas em latim, holandês, alemão, francês e espanhol [ ...] A ultima
das borradas, quando interpretadas erroneamente por oficiais ignorantes, pro- edição foi publicada pela Casa de Plantin, em 1612.
duziam justaposições enganadoras. E, com o correr das décadas, todos esses
erros se combinavam entre si, nas edições clandestinas. Nem todas as edições, é claro, eliminavam todos os erros percebidos; as
Os primeiros livros impressos de botânica sofreram degradações muito boas intenções, apesar de declaradas nos prefácios, nem se~pre eram hon-
parecidas com as das primeiras bíblias impressas. Uma seqüência de herbários, radas no correr da manufatura. Ainda assim, os pedidos dos editores por ~ezes
impressos a partir da década de 1480 e terminados em 1526, revela um "cres- incentivavam leitores a empreenderem seus próprios proje~~s de_ pesqmsa _e
cimento contínuo da quantidade de distorções", a ponto de chegar o produto trabalhos de campo, os quais resultavam em programas_ adicionais de p_u~h-
final - um herbário inglês de 1526 - a fornecer um "exemplo notavelmente -
caçoes. Eclodi'u , desse modo ' uma explosão de conhecimento. Das · , ·ediçoes
l l
triste do que acontece com a informação visual, à medida que ela passa de um de Ortelius restavam, por exemplo, tratados sobre topografia e historia oca ,
copista para o próximo. Contudo, no próprio decorrer de um processo de adul- numa área que vai de Moscou a Gales. .
teração (que já vinha de longe, embora num passo mais lento e irregular, sob O solicitador ou receptor dos novos dados nem sempre era um imp~~ssor
a égide dos escribas), o novo veículo tornou esse processo mais visível aos letra- ou editor. Muitas vezes, tratava-se do autor ou responsável por uma se~ie de
dos, e ofereceu um meio de dominá-lo pela primeira vez. Nas mãos de muitos edições, que recebera de leitores dados sobre erros ou acrés_cimos a ser~m. mcor-
impressores ignorantes, somente interessados em obter lucros rápidos, os dados porados numa edição posterior. ~ m~ vez que os comentários d~ Mattioh s~b:e
tendiam a adulterar-se em ritmo cada vez mais acelerado. No entanto, sob a Dioscórides (publicados pela primeira vez em 1554) consumtam uma ediçao
orientação de mestres tecnicamente competentes, a nova tecnologia também atrás da outra, foram periodicamente revistos e corrigidos, tendo por b~s~ os
proporcionava um modo de transcender os limites que os procedimentos dos espécimes e as informações recebidas dos corres~ond~ntes. Plantas exoticas
escribas haviam imposto a mestres igualmente capazes do passado. Sob super- eram desse modo apresentadas aos europeus (f~i as~im qu: ~ castanha-da-
visão adequada, observações feitas ao vivo podiam finalmente ser duplicadas índia, 0 lilás e a tulipa vieram da Turquia para os Jardms botamcos europeus,
sem correr o risco de saírem tremidas ou borradas, com o passar do tempo. via edição de Mattioli de 1581). A proliferaç_ão de rel~to_s sobr~ frutos e
Alguns impressores e publicadores do século XVI nada mais fizeram que sementes também teve como resultado uma série de descriçoes mais comple-
reproduzir velhos compêndios. Outros, contudo, estabeleceram imensas redes tas e precisas de plantas domésticas.
de correspondentes e solicitaram críticas sobre cada edição, por vezes pro-
metendo publicamente mencionar o nome dos leitores que enviassem novas Em meados do século XVII, os botânicos competiam entre si para obter novidades da
informações ou localizassem erros a serem eliminados. Índia, do Novo Mundo, de regiões geladas, pântanos e desertos - de qualquer l~gar,
em toda parte. As plantas e os animais de países exóticos distantes eram ora radical-
mente novos, ora suficientemente diferentes dos já conhecidos, a ponto de caus~r per-
Pelo simples expediente de ser honesto com seus leitores, bem como de solicitar-lhes plexidades e requerer investigação mais detalhada [ ...] Surgiu assim um novo tipo de
críticas e sugestões, Ortelius transformou o seu Theatrum numa espécie de empreendi- cientista, 0 naturalista itinerante [... ] Os gananciosos aventureiros de antes eram agora
mento cooperativo em base internacional. Ele recebeu informações úteis de todos os can- substituídos por homens que buscavam conhecimento [ ... ]
tos do mundo, a ponto de cartógrafos se acotovelarem para lhe enviar os mais recentes As descobertas feitas em terras estrangeiras excitavam os cientistas da narureza que eram
mapas de regiões ainda não cobertas pelo Theatrum.
obrigados a permanecer em seus países - como médicos, professores e curadores de

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vento da imprensa do que o fora antes. Ao relacionar os que haviam colabo-
jardins botânicos ou estufas - , e os forçavam a descrever de modo mais completo e acu-
rado para o enriquecimento de seu atlas, Ortelius prenunciav~ a "idéia moder-
rado as faunas e floras de seus próprios países[...] A soma de conhecimentos assim adqui-
na de cooperação científica". Isso, contudo, não nos autonza a estabelecer
ridos ganhou tal envergadura, que tendeu a gerar confusões, do que surgiu a necessi-
dade de novas apresentações de conjunto. comparações odiosas entre, de um lado, artes~os "hon_estos" e cooperadores,
que visavam ao bem alheio, e, de outro, escol~tI:os ~u literatos petulantes, tor-
tuosos e egoístas, que só trabalhavam para si propnos. Nenhum grupo ocupa-
As novas apresentações de conjunto, por sua vez, levaram a outros novos
cional jamais teve o monopólio de determinada virtude ~u vício: Após o ~éc~-
intercâmbios, que provocaram também novas investigações; desse modo, a
lo XVI foi possível incentivar publicamente algumas técn~c~ socialmente ute1~,
acumul~ção de ~ais dados tornava necessária uma classificação mais apura-
não porque artesãos cooperativos tivessem se tomado mais mfluentes, mas deVI-
da; e assim por diante, numa seqüência ad infinitum. Esta sucessão de edições
do ao advento da imprensa. Com efeito, os artesãos-autores não eram menos
melhoradas e obras de referência em contínua expansão constituía uma série
"gananciosos", nem menos atraídos pela isca dos ~ovo~ direitos d~ pr~prieda-
ilimitada - o que não era o caso das coleções armazenadas nas bibliotecas
de intelectual do que os literatos e mestres das umvers1dades medievais.
dos monarcas alexandrinos e príncipes renascentistas. A destruição da Biblio-
Convém assinalar que algumas passagens moralmente mais elevadas, que
t~ca de Alexan~ria, no passado distante, e a destruição da grande coleção reu-
justificavam a feitura de livros por "humildes" artesãos, eram acompanhadas
mda por Matth1as Corvinus, no passado recente, foram assinaladas por Con-
de apelos para que o leitor visitasse a oficina do autor, onde "podem ser vis-
rad _G~sner, na ~edica~ória da primeira edição de sua monumental bibliografia,
tas coisas maravilhosas", e de endereços onde os instrumentos estavam à venda.
a Bi/Jlwtheca Umrer.1alu (1545), que arrolava cerca de 10 mil títulos de obras
Ao dizer a seus leitores onde poderiam obter seu endereço, e convidá-los para
em latim, gr~go e hebraico. As ciências naturais e as ligadas às bibliotecas,
uma demonstração grátis na oficina, o artesão-autor estava provavelmente
que Gesner aJudara a fundar, continuavam capazes de expansão ilimitada. Elas
refletindo seu desejo de atrair potenciais compradores para suas mercado-
provocaram um processo aberto, indefinidamente contínuo. A palavra ingle-
rias. O importante a sublinhar é que, em casos como esse, egoísmo e altruís-
sa /ee'J/Jac/c e sua tradução portuguesa, "retroalimentação", embora horroro-
sas e usadas em demasia, ajudam-nos a definir a diferença entre a coleta de mo podiam caminhar juntos.
Este ponto é aplicável às" criações mentais" tanto de professores como dos
dados tal como foi realizada antes e depois do salto nas comunicações. Após
construtores de instrumentos - se é que de fato as duas figuras podem ser
o advento da imprensa, a coleta de dados em larga escala tornou-se o tema
mantidas separadas. De início, uma certa ambivalência com respeito a novas
de novas formas de realimentação que não haviam sido possíveis durante a
modalidades de propaganda caracterizou não só os acadêmicos mas também
era dos escribas.
os artesãos. Em ambos os grupos havia autores que expressavam o desejo de
Aqui como em outras passagens interessa, antes de passarmos a outros
prestar informações por louváveis motivos desinteressados, em~ora continu~-
temas, delinear os novos traços da cultura decorrente da imprensa, em vez de
sem a buscar fama e a engajar-se em disputas por preferência. De maneira
apenas observar, de passagem, que o advento da imprensa era, muito natural-
semelhante, 0 modo de procedimento cooperativo na coleta de dados e o reco-
mente, um dos pré-requisitos para o advento do ensino e da ciência modernos.
nhecimento honesto das fontes consultadas e contribuições recebidas não se
Se os efeitos da imprensa tivessem recebido mais atenção, talvez nos mostrás-
limitavam absolutamente ao campo das ciências naturais. Não menos que a
semos menos inclinados a atribuir especiais virtudes morais aos homens de saber
zoologia, a bibliografia tornou-se nova área de trabalho coop~rativo, suje~ta
do ~éculo XVI, ou a opor supostos "aventureiros gananciosos" a naturalistas·
a transformações e crescimento. Na realidade, o chamado pai das duas dis-
~esmteressad~s. Se os autores, editores e impressores adotaram, por vezes,"o
simples expediente de ser honesto", ao citar nominalmente os autores das con- ciplinas era o mesmo homem.
Na medida em que todos os campos acadêmicos e científicos se tornaram
tribui~ões r~cebidas, tal não se deveu à circunstância de que eles tivessem
palco de uma mudança tão fundamental, passando de uma sucessão de cópias
coraç~es mais nobres, mas à constatação de que esse expediente muito simples
adulteradas para uma seqüência de edições melhoradas, era de se prever que
se haVIa revelado, por uma série de motivos vários, mais satisfatório após O ad-
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tais efeitos se manifestassem de modo generalizado sobre a totalidade da
Considerações sobre o poder de preservação da imprensa:
Comunidade do Saber. E, segundo penso, isso deve ser considerado, quan-
fixidez e mudança cumulativa
do tratamos de movimentos intelectuais de peso, tais como a crescente
orqu_estração de temas associados a progressos ilimitados e a colocação em De todas as novas características trazidas pela capacidade de duplicação
surdma de velhos temas de "decomposição da natureza". "O Poder que a
própria da imp~ensa, ~ de preservaç~o é pos~iv~lmente .ª mais importante. Para
Imprensa nos confere de aperfeiçoar e corrigir continuamente nossos Tra-
balhos em Edições sucessivas", escreveu David Hume ao seu editor, "pare-
podermos avaliar devidamente sua 1mport~nc1a, ~recisamos recordar as :on-
dições que prevaleciam quando os textos amda nao era~ compostos ~m tipos.
~e-me a pr~ncipal vantagem dessa arte". O que era verdadeiro para um autor Nenhum manuscrito, por mais útil que fosse como gma de referência, pode-
isolado aplicava-se com força ainda maior aos trabalhos de referência de maior ria ser preservado por muito tempo sem ser adulterado pelos copistas. E ~esmo
alcance, escritos em colaboração. Uma série de edições novas e ampliadas esse tipo de "preservação" dependia precariamente não só da demanda 1?cons-
fez com que o futuro parecesse reservar maiores promessas de ilustração que tante de elites locais, como da incidência incerta de um trabalho qualificado
o passado.
do escriba. Na medida em que os registros eram vistos e usados, tornavam-
"Até um século após a morte de Copérnico", escreve Thomas Kuhn, "não se vulneráveis ao desgaste. Documentos armazenados estavam sujeitos a
ocorrera~, com relação aos dados então disponíveis aos astrônomos, quais- umidade, insetos, roubo e fogo. Mesmo que fossem colecionados ou conser-
quer modificações potencialmente revolucionárias." E no entanto, a vida de vados no abrigo de um grande centro de mensagens, sua dispersão final ou
Copérnico (1473-1543) coincidiu com as próprias décadas em que muitas perda eram inevitáveis. Para poderem ser transmitidas por via escrita, de uma
alterações, hoje apenas perceptíveis a olhos modernos, estavam transfor- geração para a seguinte, todas as informações tinham de ser trasladadas por
mando "os dados disponíveis" para todos os leitores de livros. Um estudo meio de textos inconstantes e manuscritos efêmeros.
mais detido dessas mudanças poderia ajudar-nos a explicar por que siste- Esse aspecto da cultura do escriba não é tratado com freqüência pelos estu-
mas concebidos para traçar os cursos dos planetas, mapear a terra, sincro- diosos modernos, motivo por que o vemos eclipsado completamente por
nizar cronologias, codificar leis e compilar bibliografias foram todos revo- recentes estudos antropológicos, que só focalizam os contrastes entre os
lucionados antes do fim do século XVI. Observa-se que, em cada caso, os registros orais e escritos exibidos durante os últimos séculos. Por isso, os antro-
resultados alcançados no Período Helenístico foram inicialmente duplica- pólogos tendem a a~ribuir à escrita manual a cap ~cidade de produzir ''.ver-
dos, para depois, num espaço de tempo incrivelmente rápido, serem todos 1
sões do passado registradas de modo permanente . No entanto, um registro
ultrapassados. Em cada caso, os novos esquemas, desde que foram publi- único em manuscrito, mesmo que sobre pergaminho, tinha muito pouco de
cados, tornaram-se logo disponíveis à correção, ao desenvolvimento e ao
permanente, a menos que fosse encafuado e não mais usado. Proced~r a m~is
refinamento. Gerações sucessivas puderam assim construir sobre o traba- de um registro implicava o ato de copiar, que levava a alterações t~xtua~s. Regis-
lho deixado pelos polímatas do século XVI, em vez de tentar recuperar frag- tros duráveis não podiam prescindir de materiais duráveis. As mscnções em
mentos esparsos dele. As variadas "revoluções" culturais do início dos tem- pedras conservaram-se; os registros em papiros se desmancharam. Essas
pos modernos deveram muito às características já esboçadas. Mas os grandes diferenças tangíveis deram nascimento à regra seguinte: "Preserva-se muito
tomos, tábuas e mapas, vistos hoje em dia como "marcos memoráveis",
quando se escreve pouco; preserva-se pouco quando se ~sc~eve ~imito". Ap~s
poderiam ter sido inúteis, se não houvesse também entrado em ação o poder o advento da imprensa, no entanto, tornou-se menos s1gmficativa a durabi-
~e prese1:7ação da imprensa. A fixidez tipográfica constitui um dos pré-requi- lidade do material de escrita; podia-se agora preservar graças à utilização abun-
sitos_ básicos_ para o avanço acelerado do conhecimento. Ela contribui para dante de papel, em lugar da pele escassa e custosa. A quantidade passou a
explicar mmtas outras coisas que parecem diferenciar a história dos últi- importar mais que a qualidade. No próprio momento em que eram duplica-
mos séculos da de todas as eras anteriores - como espero que as próximas das, regras seculares se tornavam obsoletas. Isso nos faz lembrar o modo como
observações venham a indicar.
estudiosos modernos sorriem à menção de que um abade instruía seus mon-
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ges a copiarem manualmente livros impressos, para que os textos respecti- cos de fogo, ou do deslocamento, quando este for necessário por qualquer razão públi-
vos não se perdessem. E, não obstante, os estudiosos de hoje, não menos que ca. Nossa experiência provou que uma cópia única, ou até mesmo algumas, guardadas
os monges do século XV, estão sujeitos a se deixarem levar pelas aparências, manuscritas em escritórios públicos, não são algo com que possamos contar por um lapso
e as aparências se tornaram cada vez mais enganadoras. de tempo maior. As devastações causadas pelo fogo ou por inimigos ferozes foram as
De modo geral, a imprensa impunha o uso de papel, isto é, material já maiores causas das perdas que ora deploramos. Quantas das preciosas obras da Anti-
por si menos durável do que pergaminho ou velino, além de se ter tornado guidade se perderam irremediavelmente, porque existiam unicamente em forma manus-
mais perecível com o correr dos séculos, na medida em que se reduziu seu crita? Já se terá perdido alguma, desde que a arte da imprensa permitiu multiplicar e
teor de fibras têxteis. A raspagem e reutilização de pele animal não oblitera distribuir as cópias? Isso nos leva portanto à única maneira de preservar esses rema-
as letras completamente, enquanto a raspagem ou reciclagem de material nescentes de nossas leis ora em exame, isto é, a multiplicação de cópias impressas.
impresso descartado não permitem a obtenção de palimpsestos. Numa época
em que as mensagens escritas são duplicadas em tal abundância que podem Esta reveladora carta é apontada por Julian Boyd como tendo levado à
ser lançadas à lata de lixo ou convertidas em polpa, é improvável que as mes- publicação de Statutu o/Virgínia, de Hening. Segundo Boyd, ela reflete os mes-
mas suscitem idéias de preservação prolongada. Manuscritos conservados mos pontos de vista que Jefferson expressara muito antes "a Hazard, autor
em salas de tesouros, testamentos guardados em caixas-fortes ou diplomas de HútoricaL CoLLectiofl,J: 'o que foi perdido não pode ser recuperado; mas sal-
emoldurados sob vidros parecem-nos menos perecíveis do que mapas rodo- vemos o que resta: não por meio de cofres-fortes e grades, que afastam da
viários, calendários de cozinha ou jornais diários. Além disso, somos lem- vista e do uso públicos e condenam ao desgaste com o passar do tempo, mas
brados com freqüência do notável valor de sobrevivência de velhos docu- por uma multiplicação de cópias de tal ordem, que as coloque a salvo de qual-
mentos, que se mantiveram durante milhares de anos enterrados sob lava quer acidente"'.
ou conservados em vasos. Posteriormente ao advento da imprensa, um pro- Está de acordo com a índole de Jefferson enfatizar o aspecto democrati-
cesso de recuperação já nos permite a descoberta de tantos registros, há tanto zador do papel de preservação do texto impresso, o qual salvou documentos
tempo perdidos, que tendemos a subestimar como podem ser perecíveis preciosos, não guardando-os a sete chaves, mas retirando-os das arcas e cofres-
todos os manuscritos que não foram enterrados, mas estiveram em uso. O fortes, e duplicando-os para que todo o mundo pudesse vê-los. Esta noção de
desenvolvimento de novas técnicas de restauração e duplicação, que trou- que a melhor maneira de preservar dados significativos consistia em torná-los
xeram à luz escritos dados por perdidos, leva-nos a esquecer as perdas ocor- públicos, em vez de mantê-los secretos, chocava-se frontalmente com a tradi-
ridas antes da introdução das novas técnicas.
ção, razão por que produziu choques com os novos censores e foi essencial
Estudiosos de antes eram menos desatentos. Thomas Jefferson, por exem- tanto no advento da ciência moderna como no pensamento da Era das Luzes.
plo, era extremamente consciente do poder de preservação da imprensa. Ao deplorar a perda das "preciosas obras da Antiguidade" enquanto "elas exis-
Assim escreveu a George Wythe:
tiam somente em manuscritos", Jefferson deu expressão a um velho tema huma-
nista, que associava o renascer do conhecimento antigo à nova arte da impren-
Desde cedo, no decorrer de minhas pesquisas sobre as leis da Virgínia, observei que sa. Os problemas inerentes a essa associação serão discutidos no próximo
muitas delas já estavam perdidas, e muitas mais se encontravam a ponto de sê-lo, por capítulo. Permitam-me aqui assinalar somente que um renascimento do mundo
existirem somente em cópias únicas, em poder de indivíduos cuidadosos ou curiosos, clássico, já em movimento quando os primeiros impressores se passaram para
após cuja morte elas seriam provavelmente usadas como papel velho. Assim, impus-me a Itália, resistiu a tudo - os avanços otomanos na Europa Ocidental, as inva-
a tarefa de reunir todas as então existentes [... ] na busca desses resíduos não economi- sões francesas da Itália, os saques dos mosteiros ingleses e todos os horrores
zei nem tempo, nem esforços, nem dinheiro[ ... ] Mas [... ] pergunto-me: Qual será o meio
das guerras de religião. Uma vez fundidos os novos tipos com os caracteres
mais eficaz de preservar de perdas futuras esses remanescentes? Por mais cuidado que
gregos, nem a ruptura da ordem civil na Itália, nem a conquista de terras gre-
eu tenha, não poderei preservá-los das traças, da deterioração natural do papel, dos ris-
gas pelo Islã, nem mesmo a tradução para o latim de todos os mais importan-
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tes textos gregos, nada ~sso fez com que o conhecimento do mundo grego defi- tipos no século XVI, por ter seguido padrões aleatórios, muito contribuiu para
nh~se outra vez no Ocidente. Mas as decorrências da fixidez tipográfica vão a posterior elaboração de mitologias nacionais por parte de certo~ ~pos sepa-
mmto além da recuperação permanente das letras gregas. Nem se esgotam elas rados, no interior dos estados dinásticos multilíngües. A duphcaçao de ca~-
com o ~ômputo ~as outr~s línguas antigas que foram recuperadas e garanti- tilhas e traduções vernáculas contribuiu de outros modos para o desenvolvt-
das apos terem sido perdidas - não somente para a Europa Ocidental, mas mento do nacionalismo. Uma "língua materna" aprendida "naturalmente" em
para o mundo inteiro - durante milhares de anos. Elas implicam a totali- casa só podia ser fortalecida por um tipo de ensino que consistia em repisar
dade da moderna "indústria do conhecimento" em si mesma, com suas biblio- uma língua impressa homogeneizada adquirida na infância quando do pro-
grafias em contínua expansão, sua pressão constante por mais instalações cesso de aprendizado de leitura. Durante os anos mais impressionáveis da infân-
para as bibliotecas e mais espaço nas estantes.
cia, os olhos viam primeiro uma versão mais padronizada do que o ouvido
Elas e_nvolve~ também questões menos acadêmicas e mais geopolíticas. escutara antes. Particularmente, depois que as escolas de gramática passa-
O mapa hngüístico da Europa foi "fixado" pelo mesmo processo e ao mesmo ram a ensinar os primeiros rudimentos de leitura usando antologias vernácu-
tempo que o foram as letras gregas. É muito enfatizada a importância da fixa- las em substituição às latinas, as "raízes" lingüísticas e o enraizamento de uma
ção d~ l_ínguas nacionais literá~as. Contudo, muitas vezes se minimiza o papel pessoa no seu torrão natal passaram a confundir-se entre si.
estrategico representado pela imprensa. O relato de Steinberg, cuja paráfra- Mas a imprensa veio a contribuir ainda de outras maneiras para a frag-
se r~sumida é reproduzida a seguir, nos revela até que ponto esse papel foi mentação permanente da cristandade latina. As chamadas políticas erastia-
crucial.
nas, havia muito seguidas por diversos soberanos, puderam, por exemplo, ser
implementadas de modo mais radical. A duplicação de documentos ligados
A imprensa "preservou e codificou, por vezes chegou mesmo a criar", alguns idiomas. ao ritual, à liturgia ou à lei canônica, que estivera sob a proteção dos clérigos
Sua ausência entre pequenos grupos lingüísticos, durante o século XVI, "levou com-
na era dos escribas, passou, na era da imprensa, para as mãos de indivíduos
provadamente" ao desaparecimento ou exclusão de seus idiomas vernáculos do domí-
laicos empreendedores, sujeitos somente à autoridade dinástica. Firmas locais,
nio da literatura. Sua presença no interior de outros grupos, no mesmo século, asse-
não sujeitas ao controle papal, receberam lucrativos privilégios dos monar-
gurou a possibilidade de reavivamentos intermitentes ou contínua expansão. Havendo
for~ificado as paredes lingüísticas que separavam grupos distintos, os impressores
cas das casas de Habsburgo, Valais e Tudor, para atenderem às necessidades
mais tarde tornaram homogêneo tudo que se encontrava no interior dessas paredes, dos cleros nacionais. Um impressor de Antuérpia juntou forças com um rei
eliminando pequenas diferenças, padronizando os idiomas para milhões de escritores de Espanha, no intuito de fornecer a todos os padres espanhóis cerca de 15
e leitores, conferindo papel periférico aos dialetos provinciais. A preservação de uma mil exemplares de um breviário do século XVI - cujo texto fora levemente
determinada língua literária dependeu freqüentemente de que, no século XVI, tivessem alterado em relação à versão autorizada pela Roma pós-tridentina. Desse modo,
ou não sido impressos em vernáculo na região (sob os auspícios nacionais ou estrangei- Felipe II demonstrou o controle real sobre o clero de seu reino, ao mesmo
ros) algumas cartilhas, catecismos e bíblias. Em caso afirmativo, ocorria a subseqüen- tempo que Christopher Plantin deixava de pagar direitos ao privilegiado
te expansão de uma cultura literária "nacional" separada. Quando não foi esse O caso, impressor italiano, a quem havia sido outorgado um lucrativo monopólio sobre
desaparecia um dos pré-requisitos para que brotasse a consciência nacional; e O diale- a versão romana recém-autorizada. Não podemos explorar aqui os outros dife-
to falado manteve seu caráter local.
rentes modos pelos quais os impressores, ao servirem seus próprios interes-
ses, contribuíram para enfraquecer ou cortar os vínculos com Roma, fortale-
. Os es~udos s?bre consolidação dinástica e nacionalismo bem que pode- cer o sentimento nacionalista e consolidar as dinastias. Mas não há dúvida de
riam dedicar mais espaço ao advento da imprensa. A tipografia não só dete- que eles merecem estudo mais acurado.
ve a deriva lingüística como enriqueceu e padronizou as línguas nacionais, Ainda há muitas outras conseqüências da fixidez tipográfica que precisam
pre~arando_desse modo o caminho para as etapas de mais consciente purifi- ser exploradas. Como sugere o capítulo 6, as divisões religiosas no século XVI,
caçao e codificação de todas as principais línguas européias. A fundição de no interior da cristandade latina, mostraram-se particularmente duradouras.
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que não fossem impostas novas restrições. A iniciativ_a privada já não depen-
Qua~do ~ora s~ condenava uma heresia ou se excomungava um rei cismáti-
dia da proteção da guilda, mas novos poderes eram sm~ul~aneamente_ confia-
co, ta~s açoes deixavam um rastro mais indelével do que fora O caso nos anos
dos às autoridades burocráticas. A competição _pelo direito d: ~ubhcar um
anteriores. De modo similar, à medida que os editos se tornavam mais visí- 0
dado texto gerou também controvérsias a respeito de ~ovos topicos, _como
veis;, torn~vam,~se tam~ém mais i~evogáveis. A Magna Carta, por exemplo,
'lio e a pirataria. A imprensa trouxe a necessidade de defimr legal-
era publicada ostensivamente (isto é, proclamada) duas vezes por ano, em monopo · d " d · ' "
ue pertencia ao domínio público. Uma espécie e terra e nmguem
cada condado. Já em 1237 havia confusão sobre de que "carta" se tratava. Em me nte O q " · d' 'd
literária tornou-se com Otempo objeto de ~m "loteamen~o , e um m iVI ua-
1_533, no_ entanto, os ingleses que consultassem a Tabula do Great 6oke pode-
lismo possessivo começou a caracterizar a atitude dos esc~ito~es pa~a co~ s~as
riam verificar com que freqüência ela fora confirmada em sucessivos estatu-
. Os "termos plágio e direito de reprodução (copirra1te) nao existiam
tos reais. Também na França o "mecanismo mediante o qual a vontade do sobe- ob ras d . ,
ara menestrel. Somente depois do advento a imprensa e que passaram a
rano" era incorporada ao corpo "publicado" da lei, por meio do "registro", foi O
p "
provavelmente alterado pela fixidez tipográfica. Já não era mais possível ter ter significação para o autor . . . . .
d:
c~rteza que_ alguém estava seguindo o" costume imemorial" quando conce-
A celebridade pessoal está associada hoJe à publicidade pela imf rensa: O
mesmo pode ser dito com relação ao pas~ado - de um _rno_d~ qu~ e especi~l-
dia uma imumdade ou assinava um decreto. Os monarcas aprenderam com
mente relevante para os debates sobre as dif:r~nças entr: mdiv,tduahsmo ~edie-
os teóricos políticos que estavam "fazendo" leis, do mesmo modo como M. Jour-
val e renascentista. A existência de materiais de escrita mais baratos i~ce~-
dain aprendeu que estava falando em prosa. Mas os membros dos parlamen-
tivou O registro individual de biografias ~ d~, tr~ca de,_co:respondencia
tos e das assembléias também aprenderam com juristas e impressores sobre
particular. Mas os fatos estritamente pessoa:s e , ef~meros so foram co~se~-
velhos direitos abusivamente usurpados. Tornaram-se mais intensas as lutas
vados incólumes graças aos prelos e não as fabricas d_e pape~. A propria
pelo direito de estabelecer precedentes, uma vez que cada precedente se tor-
"busca da fama" talvez tenha sido afetada também pela Imortalidade ~onfe-
nava mais duradouro e, conseqüentemente, mais difícil de quebrar.
rida pela imprensa. O impulso de escrev:r foi manifes~ad? tanto nos_dias de
A fixidez do texto impresso também permitiu o reconhecimento mais
Juvenal como na era de Petrarca. O deseJO de ver o proprio trabalho impres-
explícito da _inovação individual e incentivou o registro de títulos de proprie-
so (fixado para sempre com o próprio nome ~m a~tolo~ias e fichários) nada
dade s_obre mvenções, descobertas e criações. Não foi por acaso, penso eu,
que a imprensa constituiu a primeira "invenção" a tornar-se enredada num
, tem a ver com a vontade de traçar linhas que Jamais seriam fixadas de forma
permanente, ou que poderiam ser perdidas para sempre; se_r alteradas ao ser~m
conflito sobre prioridades e pretensões nacionais rivais. Discussões em favor
copiadas, ou mesmo - caso fossem realmente memoravei t~rna~-se ~bJe~
~ -~
de Gutenberg contra Coster ou Jenson abriram o caminho para disputas pos- 1

to de transmissão oral, sendo atribuídas finalmente a um anommo · Nao f01


teriores do tipo "Dia de Colombo". Poder-se-ia contrastar o anonimato do
praticável iniciar Omoderno jogo de livros e autores enquanto não se torn?u
inventor dos óculos com as futuras querelas sobre o direito que teria Galileu
possível distinguir entre compor e recitar um poema, ou _entre escrever e copi~r
~e reclama~ prioridade de invenção no caso do telescópio. Que participação
um livro, e enquanto os livros não puderam ser classificados por algo mais
ti~eram os Impressores e editores de mapas na atribuição do nome do pró-
prio Novo Mundo? O modo como foram fixados os nomes de órgãos do corpo que seu incipit. . .
São Boaventura, monge franciscano do século XIII, disse que havia qua-
humano ou das crateras da lua também serve como indicação da maneira como
a imortalidade individual podia ser alcançada por meio da imprensa. tro modos de fazer livros:
Por volta de 1500, já ~stavam sendo criadas ficções legais capazes de ajus-
Um homem pode escrever as obras de outros, sem qualquer acréscimo ou alteração, e
tar o patenteamento de mvenções e a atribuição de propriedades literárias.
nesse caso ele será chamado simplesmente um "escriba" (,1criptor). Um outro escreve os
Uma vez que os direitos de um inventor podiam ser estabelecidos legalmen-
trabalhos de outros, com adições que não lhe são próprias; será então cha~ado de
te e que, por outro lado, já não se colocava mais o problema de se manterem "compilador" (compilator). Um terceiro escreve tanto obras suas como alheias, mas
intactas as receitas não escritas, a livre publicidade passava a dar lucro, desde
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100
dando o principal lugar à alheia, e reservando a sua própria para fins de explicação; será
então chamado um "comentador" (commentator) [...] Um último escreve tanto obra sua . - mar em consideração o formidável ímpe-
como alheia, mas reservando o lugar principal para a sua e juntando a de outros para das novas línguas vulgares, unpoe-~e to , movimentos em prol de
to dado pelos impressores, em diversos paises, aos
fins de confirmação; tal homem será chamado de "autor" (auctor).
tradução para o vernáculo. d . dos termos - tais como: anti-
. d "d e a etermma
Convém am a consi erar qu - . - imitação - talvez tenham
Essa passagem é notável, não somente por excluir qualquer composição d b rt recuperaçao, mvençao e . d
inteiramente original nesse esquema em tudo mais simétrico, como também go e moderno, esco e a~ dessem ter sido registrados e
"b 'd f d s diversos, antes que pu d
pela concepção unitária do escrever que lhe é inerente. Um escritor é um homem sido atn m os senali o importantes . desVIos,
. com relação aos usos prece, en-
modo permanente guns, d atnstico , . e o me d"ieval, a busca da verdade e con-
que "faz livros" com uma pena, do mesmo modo como um sapateiro é um d
homem que faz calçados sobre uma fôrma. tes. "Durante to o o peno o p , h do na tradição ... não como o
d b rt do que está entran a
cebida como are esco , e a " E ºt estudiosos compartilham este ponto
Muitos dos problemas ligados ao reconhecimento de autoria em "autores" b · d ue e novo mm os . "d
escribas podem resultar de esforços equivocados no sentido de aplicar con- 'Jer1co. nmento
D t or q_
sido mmto . d·.f,
i icil, na era dos escribas, distingmr entre" es-
cepções decorrentes da imprensa em áreas onde não são adequadas. O cha- de VIsta.
. eve e · "e "red escob n-. la "· "Descobrir uma nova arte con- ·
cobnr alguma c01sa nova rt perdida uma vez que técmcas
mado livro forjado de Hermes é apenas uma das muitas exemplificações r il cuperar uma a e '
fundia-se rac mente com re . d freqüentemente descaber-
desse ponto. Quem er1crereu as falas de Sócrates, as obras de Aristóteles, os d h . t mais avança os eram
e sistemas e con ecimen os 1 t Moisés Zoroastro e Toth não
poemas de Safo, ou qualquer trecho das Escrituras? "Deus não foi o autor" dos Provave men e, ' .
tos aos serem recupera .
11 h ·a por descobrir. Mas mm-
do texto escrito das Escrituras, afirma o recensor de um livro recente, l1L1pi- r • t d " todas as artes que aVI .
tinham de rato mven a o . . b tornaram a entrar no Ociden-
ração 6{b/ica. "Quem foi então?" Esta é a nova e radical interrogação levanta- . h d t" gigantes, cuJas o ras
da pela pesquisa acadêmica, trazendo até nós séculos de desenvolvimentos e tas proVIn , d am e an · igos trazendo poucos traços de sua origem, mesmo quan-
te atraves e rotas smuosas, . , . t, l Supunha-se que a alguns
a complexa multiplicidade de autoria dos documentos bíblicos, tais como os d rícia tecmca no ave . .
lemos hoje. Isaías não escreveu o Livro de Isaías. do davam provas e uma pe E nação Talvez lhes tivesse
. h .d dado prever a ncar .
videntes pagãos tm a si o d" .na uma chave especial para o
As novas formas de autoria e de direito de propriedade literária solapa- ·d d d ela mesma outorga iVI , l
igualmente si o a a P b d . d tigos não era incompatlve
ram as velhas concepções de autoria coletiva, de maneira a afetar não só a . 1A -o pela sa e ona os an .
saber umversa . veneraça . . - ra incompatível com a ms-
composição de textos bíblicos, mas também os ligados à filosofia, ciências e d h · nto nem a imitaçao e .
com o avanço o con ecime , . tº ham feito os antigos poderiam
direito. A veneração pela sabedoria dos tempos antigos foi provavelmente sendo r nsar e agir como o m . d
piração. Esrorços para pe . d slumbramento súbito ou e
modificada, na medida em que os sábios da Antiguidade eram retrospectiva- fl . de experimentar um e
talvez re ehr a esperança . . 1d nhecimento puro, claro e certo
mente colocados no papel de autores individuais - isto é, humanamente sus- . . d d fonte ongma e um co
acercar-se mais am a a l rolongada noite gótica.
cetíveis de erros e talvez até mesmo plágio. O tratamento das diversas bata-
- que estivera até então enco~ert~ pe a~ recedentes, não havia qual-
lhas de livros entre "antigos e modernos" provavelmente ganharia com uma d . d ocomam movaçoes sem p
maior discussão sobre esses tópicos. Não deveria ser minimizado o papel dos Além d o mais, quan d oconh ece- " las, ant es d o advento da imprensa. Quem -
quer mo o seguro e re . h cido _ quer de geraçoes
primeiros impressores nessa famosa querela, posto que eles foram os respon- . - d t rmmar o que era con e
poderia, com precisao, e~ d h bºtantes contemporâneos, em ter-
sáveis por provocar a definição dos direitos de propriedade literária, por criar
anteriores, numa dada região, quer e" ªd_ i Sarton "pressupõe a deter-
novas concepções de autoria, por explorar os livros mais vendáveis e por abrir d. ? "U gresso constante ' iz-nos ' .
ras istantes. m pro . " D" l que o advento da imprensa
novos mercados. No início do século XVI, por exemplo, equipes de traduto- . - d ada etapa anterior . iz e e . r, il"
res eram utilizadas para produzir versões vernáculas das obras mais popula- mmaçao exata d e c . - uma tarera r ""mcom paravelmente mais rac ' mas .
tornou essa etermmaçao d" d" er Oualquer determma-
res dos autores romanos antigos e dos humanistas contemporâneos que se expri- fi d , do que preten ia iz · ~
ele talvez tenha ica o aquem 1 d . rensa· o refinamento progres-
miam em latim. Ao discutirmos sobre os debates entre latinistas e defensores "d · ' e antes a imp ,
ção exata deve ter si o impossiv Contudo nenhuma
102
sivo de certas artes e técnicas podia ocorrer e ocorreu. ,

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. ns ritos e encantamen-
.. nemônicos foram transmudados em image ,
técnica sofisticada poderia ser estabelecida de modo seguro, registrada per- positivos ~ .
manentemente e ainda conservada para posterior recuperação. Antes de ten- tos mistenosos. h . to antigo que se havia desen-
- pelo con ec1men
tarmos dar conta de uma "idéia" de progresso, poderíamos observar de mais Não obstante, a veneraçao . 't depois que desapareceram
d 'b breviveu mm 0
perto os novos processos dinâmicos trazidos pela acumulação contínua de regis- volvido no tempo os e_scn ª1·s so d Entre os seguidores da Rosa-Cruz ~
tros fixos. A condição de permanência trouxe como resultado uma nova - que a haviam a imenta 0 •
as cond .içoes nça de que a " nova nL'laso fiai
. mplo permaneceu a cre r. d
modalidade de mudança progressiva. Em resumo, a preservação do velho foi da Maçonaria, por exe_ , N wt n nada mais teriam reito o que
. t ga Descartes e e o h .d d
um requisito para que se criasse a tradição do novo. é na verda d e mmto an i . d d tureza outrora con eci a os
, . ca dos segre os a na , d l .
Na época dos escribas, o avanço do conhecimento havia tomado os con- recuperar a ch ave mag1 . . nte retirada do mun o aico
· Amides mas postenorme .
tornos de uma busca da sabedoria perdida. Após o advento da imprensa, essa antigos construtores de pira , , l r má-fé do clero. Na rea11-
t da incompreens1ve po .
busca teve um rápido impulso. Velhos mapas, tabelas e textos, depois de orga- ou deliberadamente orna . eservação do conhecimento
'.l , • após a imprensa, e a pr d
nizados e datados, tornaram-se contudo datados em mais de um sentido. dade, o lnoex so veio f . N ntanto alguns livres-pensa o-
. onges e reiras. o e , dad
Muitas casas editoras de mapas deram a lume edições realmente novas e melho- agão deveu mmto aos m . . . - d Contra-Reforma paraal e
P algumas mstitmçoes a .
radas de atlas e mapas das estrelas, pelos quais se verificava que os moder- res iluminados remeteram Z discípulo de Copérmco.
,. f rmaram oroastro num . d
nos navegadores e observadores do universo sabiam muito mais sobre os céus das Trevas gotica e trans o . . - f . separada da inspiração, e a cópia a
is que a imitaçao 01 d
e a terra do que os sábios da Antiguidade. "Um simples marinheiro de hoje", Analogamente, d epo . d . ltura clássica tornou-seca a vez
. _ · A eia e reviver a cu . 'fi
disse ,Jacques Cartier, em Bri.ef narratwn, de 1545, "aprendeu por real expe- composiçao, a expenen d r t primárias que antes sigm icava
'd dA · A busca as ron es ' ·
mais án a e aca em1ca. . um pedantismo resseqm-
riência o oposto do que ensinam os filósofos". Edições novas e melhoradas .
beber em águas cnsta mas, p
r assou a associar-se a
.d tação de antigos videntes, bar-
de antigos textos também começavam a acumular-se, revelando a existência
de mais escolas de filosofia antiga do que se havia sonhado até então. Ata- do. Nem por isso ficou comprometi a a r:p~ .a reivindicada mais tarde
h a de seu manto magico sen " . . l" b
ques desfechados aqui e acolá contra uma autoridade pelos que favoreciam dos e pro fetas. A eranç . . 'fi d do termo ongma , usca-
A . reorientaram o sigm ica o . ,
uma outra acabaram fornecendo munição para um assalto global contra qual- pelos romanticas, que 'ta artes dos escribas na epoca
. - lt e tentaram ressusc1 r as . .
quer espécie de opiniões consagradas. ram inspiraçao no ocu o d "d osição da natureza", antes mtl-
, tema a ecomp 'b e ·
As partes incompatíveis das tradições herdadas podiam agora ser deixa- da imprensa. Ate mesmo 0 l - d ritos da era dos escn as, r01
. d , - e adu teraçao os esc . l
das de lado, em parte porque a tarefa de preservação se tornara menos urgen- mamente 1iga o a erosao b . afetas modernos, que )U garam
· tado por som nos pr
te. As atividades de copiar, memorizar e transmitir absorviam menos ener- retrabaIhad o e reonen . d l d ,, acharam que o regresso,
defrontar-se com uma "tecnologia escontro a a e
gias. Os livros de referência de uso corrente já não saíam tremidos ou borrados ·
com o correr dos tempos. O ritmo e a rima, as imagens e os símbolos deixa- e não o progresso, caracterizava a sua época.
ram de preencher sua função tradicional de preservar a memória coletiva. Uma
vez que as informações técnicas podiam ser transmitidas diretamente, por meio
Amplificação e reforço: o pers~st~nc~~ d_os
estereótipos e das divisões soe1ohngu1st1cas
de números, diagramas e mapas exatos, a experiência estética se tornou cada
vez mais autônoma. Embora os livros sobre as artes da memória tenham se . f .t arte da prática de escrever no
multiplicado após o advento da imprensa, a necessidade de recorrer a essas Muitos outros temas que haviaml ei o ~ que os moldaram, passavam
'b l os das cu turas vivas
artes reduziu-se. Os sistemas dos escribas, elaborados em forma impressa, período dos escn as, avu s " . l . " Com o correr dos tempos, certos
terminaram por petrificar-se, e somente nos dias de hoje estão sendo reuni- às páginas impressas como tipo agias; . na fórmula de Merton, pas-
. e rtidos em estereotipas - " , .
dos pela pesquisa moderna, como se fossem resíduos fósseis. Desapareceram arquétipos roram conve . 1· hA d s nanicos. Tanto estereoti-
dos Titãs para os e ic es o l .
igualmente as fórmulas especiais que haviam ajudado a preservar receitas e sou-se da li nguagem . d d processos tipográficos desenvo vi-
,,
po com o "cli' chê" são termos onun os e
técnicas no interior dos círculos fechados de iniciados. Alguns restos de dis-

IM
e é mais importante,
- empre as mesmas. E , 0 qu
dos três séculos e meio após Gutenberg. Eles apontam, contudo, para outras g uas vernácu l as nao eram s d ntemente documentos
t m tipos e fixa os permane 1 .,
características gerais da cultura associada à tipografia que merecem conside- também eram campos os_e A. d' , ticas municipais e ec esias-
. t como cromcas mas ' ·
ração mais atenta. Durante os últimos cinco séculos, a disseminação de novas inteiramente diversos, ais d d ulturas locais, alguns orais,
· outros pro utos as e l XVII
mensagens também acarretou a amplificação e o reforço de mensagens velhas. ticas, 3untamente com . d ribas No início do sécu o ,
d manuscritos os esc · l' ·
Refiro-me aos efeitos produzidos por uma repetição cada vez mais freqüente, outros remontan o aos . . d Id d M' dia com distintas fontes e assi-
. d e.1tac reg10nais a a e e .. d'
de capítulos e versos idênticos, de anedotas e aforismos extraídos de um limi- a mistura e re~ g ., . . lantado estereótipos mtidamente iversos
tadíssimo número de fontes manuscritas. Independentemente da republicação cas e das Escrituras )ª havia i~p l A mo tempo é claro, também se
. t vernacu a o mes ' l ·
constante das obras clássicas e bíblicas ou das mais antigas obras vernáculas, dentro de cad a 1itera ura . . lita Mensagens em atim
. v. bl' Litterarum mais cosmopo · ·
tem havido uma inconsciente colaboração entre inúmeros autores de novos expandia uma 1\ICJpu tca d' . das para um público internac10-
. d f As) eram issemma d
livros ou artigos. Durante quinhentos anos, esses autores têm coincidido em (e, mais tar e, em ran_ce 1· .. , . O autores de textos técnicos esen-
f teiras mguisticas. s b
transmitir algumas velhas mensagens com uma freqüência crescente, mesmo nal cruzand o as ron . . d ais eficaz de ultrapassar as ar-
. t mpo um me10 am a m
que estejam relatando, cada um por si, eventos recentes, ou desenvolvendo idéias volviam ao mesmo e - 't' se pictóricas levavam mensagens
. 1· .. , . F rmulaçoes mate ma ica
novas. Assim, por exemplo, se calhar que essas mensagens contenham uma reiras mguisticas. o d t 'enti'ficos em toda parte, sem
. . rrespon en es ci
só referência, por fugaz que seja, à heróica resistência dos espartanos nas Ter- idênticas aos vtrtuOJt e aos co ·derável do público ledor
. d d - Embora uma parte consi .
mópilas, uma centena de relatos sobre distintas campanhas militares fixará a necessidade e tra uçao. 'd l d - só por publicações eruditas
, l XVIII si o a cança a nao dA
descrição de Heródoto na mente do leitor, que passa a visualizar tais relatos já tivesse, no secu o .' . m francês e pela correspon en-
. a vigorosa imprensa e . , . -
com um impacto multiplicado em cem representações distintas. Qualquer em latim, como por um d' . lturas cosmopolitas hterarias nao
. . l · t'fica essas istmtas cu l p
relato diferente de outras campanhas será recebido somente uma vez. Na eia episto ar cien i i , 1· - d d' f rentes línguas vernácu as. or
f de amp iaçao as i e r
medida em que os materiais impressos proliferam, esse efeito se torna mais pro- tinham a mesma orça d . l'ngua estrangeira só rerorça-
b' das O exterior em i
nunciado. Quanto mais amplos forem os horizontes do leitor no momento, tão isso, as mensagens re~e i . 1 referências compartilhadas que
mais freqüente será o encontro com a versão idêntica, e mais profunda a vam de modo intermitente e ocasiona as f ·1·
. d' d m casa na língua ami iar.
impressão por ela deixada. Como, em sua maioria, os escritores costumam ser haviam sido apren i as e d f, . 1·g1'osas que não coincidiam com
d 6 - 0 e ronteiras re 1 f
particularmente inclinados a um largo espectro de leituras, disso resulta um l 0
Por outro a , a. ixaça , l XVI efeito poderoso sobre a re-
. 1· .. , t s no secu o teve um ·-
efeito "realimentador" multiplicado. Na hora de cunhar citações familiares, des- as fronteiras mguis ica e ·..:das Por exemplo: nas regioes
. rtas ensagens roram transffilu . -
crever episódios cotidianos ou criar símbolos ou estereótipos, os antigos (isto qüência com que ce m 'l' assagens extraídas de traduçoes
· culturas cato icas, as P d
é: os primeiros a serem impressos) ganharão geralmente a preferência em detri- onde pre d ommavam di . d d modo mais esparso e tênue o que
'bl' ram ssemma as e ·-
mento dos modernos. Quantas vezes não foi repetida até hoje a famosa des- vernáculas d a Bi ia e O b d do latim eclesiástico nas reg10es
, t tantes a an ono ·
crição feita por Tácito dos Teutões amantes da liberdade, desde que se desco- o eram nas areas pro es l f. d' d' - s eclesiásticas e dinásticas nos rei-
, e un ir tra içoe
briu um único manuscrito da obra Germania, num convento do século XV? E, protestantes tornou possiv . , . d nos católicos - fato que con-
odo mais mtimo o que .
pergunto eu, em quantos outros contextos diferentes - anglo-saxão, franco nos protestantes d e m . f resolvidos os conflitos entre
ou germânico - já apareceu essa mesma descrição? vém observar, quan o
d se considera como oram
y· l te a penetração soei'al da
d'f t íses ma men '
A freqüência com que qualquer mensagem era transmitida dependia pri- Igreja e Estado nos i ere_n es pad . rte as mesmas fases, a difusão segun-
. - não segma por to a pa 'b . - .
mariamente da fixação de fronteiras lingüísticas literárias. Um tipo particu- alfab etizaçao, que . d h'b't de leitura a distri mçao irre-
1 tóno os a i os ,
lar de reforço acontecia quando se reaprendia a língua-mãe durante o apren- do um quadro um tanto ª. ea d . ões baratas de velhas obras
. mais caros e e reimpress l
dizado da leitura. Ia no mesmo sentido a amplificação progressiva de gular d e 1ivros novos, . . d . f tou a freqüência com a qua
'f t res sociais, tu o isso a e .
"memórias" nacionais diversamente orientadas. As parcelas de uma cultura entre d i erentes se o b' d distintos grupos lingüísticos.
mensagens diversas foram rece i as nos
latina herdada que eram traduzidas num dado momento para diferentes lín-
J()7

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