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LITERATURA : QUINHENTISMO

Os descobridores, ao chegarem ao Brasil (há mais de 500 anos, por isso Quinhentismo), se depararam com um povo e
cultura diferentes da que pertenciam e impuseram a esses indivíduos uma nova cultura, língua, religião, compreensão do
mundo, estilo de vida, costumes e valores.
Como forma de registrar o que haviam descoberto, Pero Vaz de Caminha, em sua Carta ao rei de Portugal, descreve como
era a terra e os povos que aqui habitavam. Esse Novo Mundo era detentor de exotismos e peculiaridades descritas por
Caminha em sua epistola. Esse é primeiro registro documental do início da literatura no Brasil, ou seja, tinha-se o homem
europeu descrevendo a realidade brasileira no ano de 1500 e essa descrição foi feita a partir do olhar europeu sobre os
colonizados. Essa literatura inicial é caracterizada como informativa. Segundo Montello (1980), essa literatura que foi
produzida aqui “desde a descoberta até a emancipação política, já é uma literatura nossa, diferente de Portugal”, pois
mostrava os exotismos, os sentimentos, a visão de mundo, os ritmos e vocabulários do
Novo Mundo.
No período de descobrimento do Brasil, a Europa vivenciava o capitalismo trazido pelo
mercantilismo e era preciso explorar para lucrar e com a colonização do país a partir de
1530 descobriram aqui a madeira pau-brasil, que por muitos anos foi lucrativa para
Portugal, colocando-o entre os países mais ricos da Europa nesse período.
No início do século XVI a Europa vivia o auge do Renascimento e como produto desse
período tem-se a “Monalisa” de Leonardo da Vinci. E nesse mesmo século, onde se tinha
teocentrismo versus antropocentrismo houve ruptura na Igreja com a Reforma,
Contrarreforma e Inquisição.
Nesse cenário, a partir de 1549, os portugueses trouxeram a “Companhia de Jesus” com o
principal objetivo catequisar os índios para expandir o cristianismo, para tanto, usaram-se
da literatura e do teatro explorados pelos Padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta,
sendo o último o principal autor jesuíta desse período, por ter vivido entre os índios, ter
escrito uma gramática do tupi e por sua evangelização que usava do teatro como recurso pedagógico e catequético. Essa
literatura é chamada de jesuítica ou de catequese.
A produção literária do período quinhentista é de suma importância para a história, a filosofia e a literatura, pois é
através dela que podemos analisar os relatos de como era o Brasil e o seu povo naquele período, mesmo que visto pelo
homem europeu com costumes e realidades diferente da nossa. Assim como, visualizar as reais intenções do povo
português quando aqui chegou, como exemplo a concepção dos jesuítas que primeiro deveria se aprender a cultura e
língua indígena para depois deformá-la e catequizá-la.

Literatura de Catequese
A Literatura de Catequese ou Literatura dos Jesuítas, ao lado da “Literatura de Informação” representou uma categoria
de textos elaborados durante o movimento literário quinhentista no Brasil Colônia.
Essa categoria literária de caráter religioso, foi considerada uma das primeiras manifestações literárias no Brasil,
explorada sobretudo, pelos jesuítas.
Eles eram membros religiosos da “Companhia de Jesus”, enviados durante o período colonial com o intuito principal de
catequizar os índios e obter mais fiéis para a igreja católica, uma vez que na Europa vinha sofrendo cada vez mais com a
Reforma Protestante (1517).
A despeito de se aproximarem da Literatura de Informação uma vez que representavam textos imbuídos de
características das novas terras descobertas pelos portugueses, a Literatura de Catequese foi escrita exclusivamente pelos
jesuítas, encarregados de apresentar aos índios, o que os portugueses consideravam como o “certo”, sobretudo sobre
aspectos da religião cristã.
A princípio, esses escritos eram justamente destinados a informar os nobres portugueses e ao Rei descrições da nova
terra, dos sujeitos encontrados, desde aparência, estrutura social, rituais, dentre outros aspectos.
Mais tarde adquiriram um cunho pedagógico e educacional. Nesse ínterim, vale destacar que além do trabalho de
catequese realizado entre os índios, os jesuítas promoveram a educação no país, de forma que fundaram os primeiros
colégios no Brasil.

Principais Características
As principais caraterísticas da literatura de catequese são:
Literatura de caráter documental e religioso
Crônicas históricas, de viagens, teatro pedagógico e poesia Didática
Textos informativos e descritivos
Linguagem simples
Temas cotidianos e religiosos pautados na fundamentação religiosa cristã

Principais Autores e Obras


Os principais jesuítas que se dedicaram a Literatura de Catequese foram:
José de Anchieta (1534-1597): considerado o precursor do teatro no Brasil e figura principal da literatura de catequese,
José de Anchieta foi um padre jesuíta espanhol que escreveu cartas, sermões, poemas e peças teatrais sobre o Brasil, das
quais merecem destaque: Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil; Poema à Virgem; A Cartilha dos
Nativos (Gramática Tupi-Guarani); Auto da festa de São Lourenço (peça teatral).
Manuel da Nóbrega (1517-1570): jesuíta e missionário português, Padre Manuel da Nóbrega chegou ao Brasil em 1549.
De suas obras, destacam-se: Diálogo Sobre a Conversão do Gentio (1557); Caso de Consciência Sobre a Liberdade dos
Índios (1567); Informação das Coisas da Terra e Necessidade que há para Bem Proceder Nela (1558); Cartas do Brasil
(1549-1570) e Tratado Contra a Antropofagia e contra os Cristãos Seculares e Eclesiásticos que a Fomentam e a
Consentem (1559).
Fernão Cardim (1549-1625): jesuíta português e membro da Companhia de Jesus (Ordem dos Jesuítas) a partir de 1566,
foi enviado como missionário para o Brasil em 1583. De sua literatura jesuítica destacam-se as obras: Do Clima e da Terra
do Brasil; Do Princípio e Origem dos Índios do Brasil; e Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica.

Literatura de Informação
A Literatura de Informação corresponde aos textos de viagens escritos em prosa, que constituem o primeiro movimento
literário do Brasil: o Quinhentismo (1500-1601).
Recebem essa denominação, posto que são textos de caráter informativo. Além da literatura de informação, o
movimento quinhentista é formado pela Literatura de Catequese, escrito pelos jesuítas.
Resumo
Durante o período das grandes navegações, Portugal, grande potência marítima europeia do século XVI e XVII, colonizou
as terras brasileiras, encontradas em 1500.
As expedições portuguesas que aportaram no Brasil, eram compostos também de escrivães, aqueles designados para
relatarem as impressões das terras encontradas.
Por esse motivo, a literatura de informação ou as crônicas dos viajantes eram textos formados por muitas descrições e
adjetivos relacionados às novas terras descobertas.
Além de indicar características sobre a paisagem do local, os escrivães descreviam sobre os povos que aqui habitavam,
desde seus costumes, rituais e estrutura social.
Esses textos históricos e literários foram essenciais para fundar a literatura brasileira, uma vez que surgem os primeiros
relatos sobre o Brasil, posto que os índios que aqui estavam eram sociedades baseadas na linguagem oral, em detrimento
da linguagem escrita.
Dessa maneira, escrito em Porto Seguro, Bahia, dia 1° de maio de 1500, a “Carta de Pero Vaz de Caminha” ou “Carta a el-
Rei Dom Manoel sobre o achamento do Brasil” representa o marco inicial da literatura brasileira, ou seja, o primeiro
documento escrito em território brasileiro.
Além de Caminha, outros representantes que se destacam na Literatura de Informação foram:
Pero Lopes de Souza (Diário de navegação, 1530);
Pero de Magalhães Gândavo (Tratado da Província do Brasil e História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente
chamamos de Brasil, 1576);
Fernão Cardim (Narrativa epistolar, diz-se da obra literária ou romance que usa a técnica de troca de correspondência
entre as personagens como forma de narrativa; e Tratado das terras e das gentes do Brasil, 1583);
Gabriel Soares de Souza (Tratado descritivo do Brasil, 1587).

Exemplo
Segue abaixo um trecho da "Carta de Pero Vaz de Caminha" quando descreve aspectos da sociedade indígena:
"Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim
pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre
elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da
sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas
tão nuas, e com tanta inocência assim, descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma. Todos andam rapados
até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de
tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos. Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz
consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não
fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe
pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não
quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma
taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada,
provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora. Viu um deles umas
contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e
meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se
dariam ouro por aquilo."