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[REVISTA CONTEMPORÂNEA – DOSSIÊ 1964-2014: 50 ANOS Ano 4, n° 5 | 2014, vol.

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DEPOIS, A CULTURA AUTORITÁRIA EM QUESTÃO] ISSN [2236-4846]

A Marcha Contra a Farsa da Abolição na Transição Democrática (1988).

Rodrigo Bueno de Abreu1

Resumo: Este artigo visa promover uma análise preliminar sobre a Marcha Contra a
Farsa da Abolição, que ocorreu em 1988, no Rio de Janeiro. O evento será tomado
como o ponto de partida para uma discussão mais aprofundada sobre o papel do
movimento negro durante o período de distensão democrática e sobre o papel dos
militares e suas agências de patrulhamento no imediato pós ditadura.
Palavras-Chave: Abolição / Centenário / Marcha / Ditadura / Transição.

Abstract: This article intents to promote a preliminary analysis on the March Against
the Farce of Abolition, occurred in 1988, in Rio de Janeiro. The event will be taken as
the starting point for further discussion of the role of the black movement during the
period of democratic distension and on the role of the military and their repressive
patrol agencies in the immediate post dictatorship.

Introdução
Foi no exercício da docência no ensino médio que o interesse pelo tema – o
Movimento Negro e o Centenário da Abolição – foi despertado. A Lei 10.639/03,
posteriormente modificada, pela Lei 11.645/08, tornou obrigatórios conteúdos
relativos à história e cultura africanas e afro-brasileiras nas escolas públicas e
particulares, abrindo uma série de polêmicas e debates. A percepção das dificuldades
de organizar ou estruturar cursos de história de acordo com as exigências da nova
legislação me conduziu ao curso de pós-graduação Lato Senso em História da África

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Mestrando do PPGH – UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

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e do Negro no Brasil, ministrado por um conjunto de professores ligados ao Centro de


Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) da Universidade Cândido Mendes. A constatação da
total ignorância de grande parte dos profissionais ligados à docência, nesse nível,
sobre as problemáticas africanas e da população afro-descendente brasileira –
incluindo a minha própria – foi impressionante.
Uma outra história foi descortinada ao longo dos meses que se seguiram,
literalmente. O contato e as frequentes discussões com os professores, muitos dos
quais militantes históricos do Movimento Negro Contemporâneo2, foram os caminhos
que me levaram à definição do objeto de pesquisa: A Marcha Contra a Farsa da
Abolição, realizada no ano do centenário da abolição da escravidão, em 1988.
Aquelas leituras e reflexões foram o ponto de partida para a pesquisa que desenvolvo
atualmente.
Marcha, farsa, abolição: palavras escolhidas para representar uma visão do
Brasil, cercada de expectativas. Palavras, expectativas e visões que ganharam as ruas
gerando reações dotadas de múltiplos significados. Iluminar esses significados é uma
forma de contribuir para a compreensão de toda a complexidade do processo de
redemocratização brasileiro.

A Marcha: Abordagens e Possibilidades

Imaginemos uma cena impossível: a cabeça de Zumbi dos Palmares começa


vagarosamente a ganhar vida, movimentando-se como que acordando de um estado
de hibernação de mais de 250 anos. Eis que um corpo de guerreiro jaga se liberta,
despedaçando a pirâmide que o aprisionava, e numa espécie de grito primal convoca
seu povo a se preparar para uma batalha decisiva. Ao mesmo tempo, assustados com
aquele fato no mínimo inusitado, militares começam a se preparar para garantir a
segurança da cidade. Não sabem muito bem como agir diante desse estranho

2
Sobre as definições do que seria o Movimento Negro contemporâneo ver: DOMINGUES, Petrônio.
Movimento negro brasileiro: alguns apontamentos históricos. Tempo [online]. 2007, vol.12, n.23, pp.
101-102. ISSN 1413-7704. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S1413-77042007000200007.
Acesso em 15/02/2014.

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adversário. Um exército de pessoas negras sem armas, mas que grita e desafia com
uma disposição preocupante liderados por um gigante. Um dos comandantes militares
responsáveis pela segurança da cidade, percebe que para enfrentar a batalha seria
necessário não somente a utilização de táticas tradicionais mas também algo que fosse
páreo para aquele gigante jaga que agora jogava capoeira no meio da avenida
Presidente Vargas. Num gesto rápido o comandante aciona o botão de um mecanismo
que os militares ganharam e adaptaram, mexendo em algumas peças e engrenagens,
do presidente dos EUA, alguns anos antes, no auge da chamada Guerra Fria.
Igualmente estranho foi o que ocorreu. O habilidoso cavaleiro movimenta seu cavalo
que salta do Panteão para a avenida. Era o famoso Duque de Caxias, o Patrono, já
empunhando a sua espada pacificadora e se postando à frente da tropa.
A cena dessa batalha fantástica e metafórica, de certa forma, teve lugar no Rio
de Janeiro de 1988. No dia 11 de maio ocorreu uma das maiores demonstrações
públicas do Movimento Negro contemporâneo, a Marcha contra a Farsa da Abolição,
um protesto que reuniu mais de 5 mil pessoas no centro da cidade, cujo objetivo era
explicitar uma posição crítica acerca das comemorações do centenário da abolição da
escravidão. Utilizando carros de som, faixas e, fundamentalmente, os pulmões, os
militantes pretendiam ir da Candelária até o monumento de Zumbi dos Palmares, na
Praça Onze. Não conseguiram. Foram impedidos pelo Exército, em frente ao
Comando Militar do Leste, mais especificamente, um pouco antes do Panteão de
Caxias. Mais de 600 soldados, armaram barricadas e ostentaram armas pesadas,
impedindo a passagem da Marcha. Os militantes não puderam passar em frente ao
monumento de Caxias e por isso não chegaram, como pretendiam, ao monumento a
Zumbi. Zumbi e Caxias, numa batalha metafórica no meio da Avenida Presidente
Vargas. Se considerarmos que os monumentos vão muito além de seus suportes
materiais, notamos facilmente a importância do episódio.
A Marcha figurou entre os grandes eventos programados pelo Movimento
Negro para aquele ano. O poder simbólico do contexto foi muito significativo para o
país e para todos os atores envolvidos na redemocratização, após o encerramento do
regime militar. Foi um ano de mobilização para a militância. Enquanto o centenário

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da abolição da escravidão provocou uma reunião das diversas associações e órgãos –


em franca expansão e reconfiguração desde os anos 70, em especial após a fundação
do MNU (Movimento Negro Unificado), em 1978 – com o objetivo de denunciar a
permanência do racismo e as condições de exclusão dos negros brasileiros, a
sociedade acompanhava o fim dos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte,
que havia marcado para outubro a promulgação da nova Constituição. Anunciava-se a
Nova República, uma nova democracia, um novo Brasil.
Nesse contexto os órgãos oficiais procuravam divulgar uma imagem positiva
do momento chamando a atenção para a importância da construção coletiva desse
novo Brasil – e procuravam tratar o centenário da abolição como motivo de
comemoração e de celebração da união nacional – porém, as entidades do Movimento
Negro usavam os meios disponíveis para anunciar o ano, como um ano de resistência.
Nesse sentido, podemos observar que o ano de 1988 possuiu duas agendas, bem
distintas. Uma ligada aos órgãos oficiais, onde figuravam eventos comemorativos,
shows, encenações públicas, etc. Outra ligada às associações e órgãos de luta contra a
discriminação e o racismo, onde os eventos tinham o sentido de protesto e
conscientização, sendo a Marcha contra a Farsa da Abolição seu maior destaque.
As duas agendas focalizavam a questão do negro em dias distintos: o 13 de
maio e o 20 de novembro. Na versão oficial, a Lei Áurea funcionou como um acerto
de contas, um momento de reconhecimento das mazelas da escravidão e da falência
desse sistema. O Imperador D. Pedro II e a Princesa Isabel de certa forma pariram a
liberdade, não importando a longa sustentação do regime escravocrata pelo Império.
O 13 de maio assumiu um significado muito importante no contexto da transição para
a República, com grande apelo popular e quase sempre motivo de celebrações.
Celebrações sobre uma transição que, acima de tudo fora realizada pacificamente.
Cem anos depois, os órgãos oficiais, ainda que reconhecendo a situação social inferior
do negro, insistiam na idéia de comemoração. Em contrapartida, desde a década de
70, o Movimento Negro vinha tentando estabelecer a data da morte de Zumbi dos
Palmares como o dia escolhido pelos próprios negros para a celebração de sua própria
história. Não um dia para simples celebração da liberdade, mas um dia para exaltar a

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luta do povo negro contra o sistema opressor. Na trajetória do Movimento Negro


contemporâneo, a mitificação de Zumbi significou uma ruptura com o sistema de
valores opressores sustentados por uma versão da história que ignorava os problemas
da população descendente dos antigos escravos 3.
A Marcha foi interrompida pelo Exército brasileiro, pois foi considerada uma
ameaça ao patrimônio público. A desconfiança dos militares era oriunda de uma
entrevista com Frei Davi (militante do movimento) em que ele defendia uma revisão
da história brasileira no sentido de derrubar os “falsos heróis” e substituí-los pelos
“verdadeiros”. A entrevista era sobre uma cartilha elaborada por uma comissão de
padres e religiosos negros, em 1987, editada pela editora Vozes. O objetivo da
cartilha era influenciar na educação dos jovens estudantes. Segundo Frei Davi:

(...)Na cartilha, nós estávamos propondo derrubar todos os falsos


heróis e colocar no lugar os verdadeiros heróis. E elencávamos como
um dos principais falsos heróis da história do Brasil o Duque de
Caxias. E propúnhamos, portanto, derrubar todas as estátuas do
Caxias do Brasil e colocar no lugar Zumbi dos Palmares. 4

A entrevista foi tomada, pelos militares, como indicativa de desordem e


vandalismo o que levou à reação armada para proteger o Patrono do Exército. Caxias
e Zumbi tornaram-se naquele momento o pomo da discórdia. A Guerra do Paraguai,
muitos anos antes, havia sido reinterpretada, em reflexões ligadas ao Movimento
Negro, sendo destacados o racismo e a crueldade do Exército brasileiro no confronto.
Obviamente tal versão fora considerada uma ofensa às FFAA, especialmente ao
Exército. O Comando Militar do Leste protegeria Caxias custasse o que custasse5.
Frei Davi continua:

3
A análise sobre a mitificação de Zumbi dos Palmares é didaticamente demonstrada em: GOMES,
Flávio dos Santos. De Olho Em Zumbi dos Palmares: Histórias, Símbolos e Memória Social. São
Paulo, Ed. Claro Enigma, 2011.
4
Alberti, Verena e Pereira, Amílcar Araújo. Histórias do Movimento Negro no Brasil: Depoimentos ao
CPDOC., Rio de Janeiro, ed. Pallas; CPDOC-FGV, 2007. p. 263.
5
Ver: Castro, Celso. A Invenção do Exército Brasileiro, Coleção Descobrindo o Brasil. Rio de Janeiro,
ed. Zahar, 2002. pp. 13-38. Celso Castro explica a construção do mito ao redor do Patrono do Exército
através das instáveis décadas de 20, 30 e 40 do século passado, apontando o objetivo de manter a

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(...)Em 1988, muita coisa estava mal resolvida na sociedade


brasileira. O Exército viu isso como um atrevimento muito grande
e falou: “O Frei Davi mora onde? Duque de Caxias. Então é
Baixada Fluminense. Quem é o bispo? Dom Mauro Morelli, que é
um bispo ultra-esquerdista, então está ali o foco do comunismo.
Então Vamos proibir.” E aí então, quando souberam que eu estava
participando das reuniões de articulação, organizando a Marcha de
1988, O Exército falou: “Eles vão é derrubar a estátua de Caxias
agora, ali em frente ao batalhão.” E então foi feito o maior aparato
militar do Brasil após a ditadura, para não permitir que nós
passássemos em frente à estátua de Caxias.6

Outro militante do Movimento Negro, Amauri Mendes Pereira, também relata


esse embate no contexto do centenário da abolição:

Mas tudo era uma forma de ver harmonia. E nós estávamos ali
exatamente para botar água nessa sopa. Era pra mostrar que não
havia harmonia. Nosso ímpeto era mostrar que havia o contrário,
havia o racismo, que a gente queria a harmonia, mas que isso tinha
que ser construido.7

E o Frei Davi tinha falado do Caxias. Ele não falou nada que ia
jogar coisas, só falou que o Caxias, o maior símbolo do Exército
Brasileiro (...) teria sido um escravagista, teria sido conivente com a
repressão aos escravos fugidos, e era importante mostrar isso. Tinha
que desmistificar a história toda. Então que o movimento negro, ao
passar pelo busto de Caxias, ia lembrar esse momento. Mas ele não
falou em agressão, não falou em nada disso. E se fosse realmente
para defender, bastava botar uma barreira de soldados ali. Nada
justifica o tamanho, o volume, a comoção que ficou perante aquele
monte de tropas que se colocou nas ruas: os tanques, armaram
casamata, aqueles sacos enormes, metralhadoras...Loucura. Isso está
documentado em todos os jornais. Nós temos vários vídeos. Foi
paranóia do Comando Militar do Leste.8

coesão da corporação. Destaca também o episódio da Marcha Contra a Farsa da Abolição, chamando a
atenção para a batalha entre os monumentos erguidos para homenagear Caxias e Zumbi.
6
Alberti, Verena e Pereira, Amílcar Araújo. Histórias do Movimento Negro no Brasil: Depoimentos ao
CPDOC., Rio de Janeiro, ed. Pallas; CPDOC-FGV, 2007. p. 264.
7
Ibid. p. 258.
8
Ibid. p. 263

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O Movimento Negro e a Marcha

As falas dos militantes, apesar de não poderem ser tomadas como ilustrativas
de todo o chamado Movimento Negro contemporâneo, por conta da variedade de
organizações e posições desse movimento, e por se tratarem de militantes atuantes em
organizações do Rio de Janeiro, nos fornecem uma pista crucial para
compreendermos a postura dessa militância formada em fins do regime militar. Ao
contrário de organizações anteriores, que marcaram a trajetória do Movimento Negro
ao longo de todo o século XX, como a FNB (Frente Negra Brasileira) ou o TEN
(Teatro Experimental do Negro), para ficar apenas nas mais expressivas, o propósito
de mudar a sociedade ou denunciar o racismo, não seria mais perseguido através de
estratégias pacíficas. A ideia de organizações como o SINBA (Sociedade de
Intercâmbio Brasil – África) e o IPCN (Instituto para Pesquisa em Culturas Negras),
era a do enfrentamento explícito.
Diversos historiadores vêm se debruçando sobre essa mudança no sentido de
decifrá-la 9 . Suas conclusões têm apontado para a mesma direção. É preciso
contextualizar o Movimento Negro contemporâneo e explorar algumas de suas
peculiaridades, para entender essa mudança. O início dessa nova fase coincide com
dois marcos importantes do regime militar: o início do processo de descompressão,
chamado de abertura política, e o desmonte do “milagre econômico”. Foi durante a
chamada “abertura” que ocorreu a retomada dos movimentos sociais, como o
movimento estudantil e o movimento sindical. No caso do Movimento Negro, é
inegável que seus militantes iniciaram sua formação justamente no bojo desses
movimentos maiores e mais mobilizadores. A militância desenvolveu-se, em vários
estados brasileiros, no interior dos grupos estudantis e dos partidos políticos ligados

9
Ver: DOMINGUES, Petrônio. Movimento Negro Brasileiro: alguns apontamentos. Revista TEMPO,
vol.12, n. 23, julho, 2007, pp. 100-122. Rio de Janeiro, EDUFF, 2007; PEREIRA, Amilcar Araújo. O
Mundo Negro: A Constiuição do Movimento Negro Contemporâneo no Brasil (1970-1995), 2010. 268
f. Tese de Doutorado – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia,
Departamento de História, Niterói, Rio de Janeiro, 2010; e ALBERTO, Paulina Laura. Terms of
Inclusion: Black Intellectuals in twentieth-century Brazil. North Carolina (USA), North Carolina Press,
2011.

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ao meio sindical, como a Convergência Socialista. Algumas entrevistas10 demonstram


que esses novos militantes eram universitários, de uma espécie de “classe média
negra”, gerada ao longo do “milagre brasileiro”, onde ocorreram, simultaneamente,
um processo de inclusão econômica – para alguns grupos em determinadas regiões,
como no rio de Janeiro – e um processo de expansão do ensino universitário privado,
com possibilidades melhores de ingresso. Esses jovens universitários negros , ao
longo dos anos 70, passaram a ter contato com teorias, movimentos e fatos, internos e
externos, que moldaram sua forma de militância.
No meio acadêmico, é notório que nos anos 70 as discussões sobre a
democracia racial brasileira e os mitos que a cercavam estavam bem avançadas e em
claro estágio de refutação. As obras de intelectuais como Florestan Fernandes e
Fernando Henrique Cardoso, já haviam produzido frutos muito profundos e
impulsionado a escola sociológica brasileira à virada oriunda das obras de Carlos
Hasenbalg e Nelson do Valle Silva11. Ao mesmo tempo, desenvolvia-se a consciência
de que o tipo de capitalismo imposto pelo regime militar havia produzido uma
significativa piora dos índices sociais brasileiros, o que tornava-se cada vez mais
evidente com o processo de crises subsequentes ao choque de 1973. Era preciso que
os trabalhadores retomassem as lutas contra o arrocho salarial e contra a miséria. Por
causa das dificuldades de se desenvolver uma discussão acerca do problema do negro
no âmbito dos grupos estudantis, partidos e sindicatos ligados à esquerda – por esses
considerarem essa discussão um risco para a consciência de classe – optou-se pela
criação de órgãos e grupos de ação próprios.
Pode-se afirmar que esse ressurgimento dos movimentos sociais ou das
esquerdas foi acompanhado por uma literatura, produzida por pensadores brasileiros e
estrangeiros de matriz marxista. Essa literatura foi bastante influente para a formação
10
Alberti, Verena e Pereira, Amílcar Araújo, Op. cit.
11
CARDOSO, F. H. Capitalismo e escravidão no Brasil meridional: o negro na sociedade escravocrata
do Rio Grande do Sul. São Paulo: Difusão. 1977; FERNANDES, Florestan. A Integração do Negro na
Sociedade de Classes (volumes 1 e 2). São Paulo, Ed. Globo, 5a edição, 2008 ; HASENBALG, Carlos.
Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil. Rio de Janeiro, Ed. IUPERJ, 2005.

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dos quadros mais destacados e da intelectualidade ligada ao Movimento Negro. Para


essa nova militância, passou a existir, de fato, um projeto de democracia inclusiva a
ser alcançado, onde a questão da raça deveria ocupar um lugar central, pois percebia-
se a raça como componente importante da exclusão social mais abrangente. Isso teria
impulsionado essa guinada política “esquerdista” do movimento.
O conceito de democracia socialista de massas, apresentado por Carlos Nelson
Coutinho em seu célebre ensaio “Democracia como Valor Universal”12, em 1967, é
um exemplo claro dessa literatura de esquerda, importante para a formação de
quadros intelectuais em diversos movimentos sociais ao longo do processo de
abertura13.
O núcleo do pensamento de Coutinho era reconciliar o ideário socialista e a
ideia de democracia, criticando simultaneamente a visão liberal de democracia, a
Ditadura Militar e o pensamento marxista-leninista ainda muito influente no Partido
Comunista. Coutinho, pioneiro na introdução do pensamento gramsciniano no Brasil,
apresentava a democracia como “patrimônio categorial do marxismo” na medida em
que, se “dará através da incorporação do Estado pelos aparelhos de hegemonia
privados da sociedade (partidos, sindicatos, associações)”, superando-se dessa forma
o modelo de democracia liberal, elevando-o a um nível superior.

A democracia socialista é, assim, uma democracia pluralista de


massas; mas uma democracia organizada, na qual a hegemonia deve
caber ao conjunto dos trabalhadores representados através da
pluralidade dos seus organismos (partidos, sindicatos, comitês de
empresa, comunidades de base, etc.). Se o liberalismo afirma
teoricamente o pluralismo e mistifica/oculta a hegemonia, se o
totalitarismo absolutiza a dominação e reprime o pluralismo, a
democracia de massas funda sua especificidade na articulação do
pluralismo com a hegemonia, na luta pela unidade na diversidade
dos sujeitos políticos coletivos autônomos .14

12
COUTINHO, Carlos Nelson. A Democracia Como Valor Universal. Separata de SILVEIRA, Ênio,
et al. Encontros Com a Civilização Brasileira, v. 9. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. pp. 33-47.
13
Ver CARVALHO, Maria Alice de. Breve História do “Comunismo Democrático” no Brasil.
In: FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Aarão (org.). Revolução e Democracia: 1964... –
Coleção: As Esquerdas no Brasil. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 2007. pp 263-
281.
14
COUTINHO, Carlos Nelson. Op. cit. p.40.

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Essa reconciliação, por via gramsciniana, entre marxismo e democracia,


permitia, de muitas formas, a inclusão de categorias até então invisíveis para o
marxismo tradicional. Imaginar uma democracia de fato, no Brasil, apresentando-se a
inferioridade estatística do negro de forma tão explícita implicava na criação de
estratégias mais diretas de enfrentamento do racismo.
Igualmente importante é perceber que o Movimento Negro a partir dos anos
70, buscou referências em lutas contra o racismo desenvolvidas em outros países do
chamado Atlântico Negro 15 . A luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e
fundamentalmente o movimento de descolonização do continente africano exerceram
um peso considerável nas discussões sobre as possíveis trajetórias a serem seguidas
pelas entidades brasileiras. A percepção, guardados os devidos distanciamentos e
especificidades, de que a temática racial perpassava sociedades em condições muito
diferentes, mas que o desenvolvimento de legislações antirracistas era especialmente
pequeno, e até mesmo inexistente, nos países em desenvolvimento ou
subdesenvolvidos (categorização utilizada na época) foi importante na formulação de
várias teorias antimperialistas. É importante destacar que muitas obras de intelectuais
ligados à descolonização começaram a ser lidas e debatidas. Um exemplo claro disso
é que a leitura de Franz Fanon chegou ao Brasil, como demonstra Alberto16, pela via
africana. As reflexões de Fanon foram gradativamente adquirindo importância cada
vez maior, chegando até ao enquadramento na situação de luta contra o racismo no
Brasil. De certa forma, para muitos militantes, era preciso desenvolver no país um
processo de descolonização sem um colonizador externo. Era imperativo que os
negros brasileiros rompessem os grilhões econômicos, sociais e psicológicos que
continuamente os escravizavam e colonizavam.

15
PEREIRA, Amilcar Araújo (2010). Op. cit. p. 106-127.
16
ALBERTO, Paulina Laura (2011). Op. cit. p. 258-259.

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Os Militares e a Marcha

Pelo que foi exposto até aqui procurei apresentar algumas análises para a
compreensão da atuação do Movimento Negro nessa fase contemporânea. O que
poderia ser discutido acerca da atuação do Exército? É possível confrontar a fala de
Amauri de que “(...) Nada justifica o tamanho, o volume, a comoção que ficou perante
aquele monte de tropas que se colocou nas ruas: os tanques, armaram casamata,
aqueles sacos enormes, metralhadoras(...)” ? Foi paranóia e até loucura do Comando
Militar do Leste? Acredito que não. A postura do Exército no episódio possui raízes
bem mais profundas, algumas até desconhecidas ou pouco exploradas.
José Murilo de Carvalho destaca a importância do Exército na história
republicana e o preconceito, acadêmico fundamentalmente, que pesa sobre essa
constatação 17 . Está muito claro, em análises abrangentes, que construiu-se uma
espécie de cultura política na República brasileira, e porque não dizer em boa parte
das repúblicas da América Latina, onde na ausência das soluções, arranjos ou
equilíbrios, às FFAA caberia o papel de intervenção. Desde a introdução do regime
em 1889, contamos pelo menos quatro intervenções responsáveis por significativas
mudanças de rumo para o país18. Nessa perspectiva o golpe de 1964 e a Ditadura são
tributários de uma longa tradição de intervenções, onde as FFAA e o Exército em
particular se tornaram responsáveis pela manutenção da ordem e pela estabilização.
Da mesma forma é possível, assim como faz Celso Castro19 compreender os
valores sobre os quais se assentam os ideiais nacionais do Exército brasileiro. A
mitificação do Duque de Caxias foi brilhantemente analisada pelo antropólogo, que
demonstrou como “O Patrono” passou a simbolizar os ideiais de pacificação e união
da nação, desde os tempos do Império até nossos dias. São incontáveis às referências

17
CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ED.,
2006.
18
Refiro-me às datas: 1930, 1937, 1945 e 1964.
19
Ver: CASTRO, Celso. Exército e Nação: Estudos Sobre a História do Exército Brasileiro. Rio de
Janeiro: FGV, 2012. Ver também: ________. A Invenção do Exército Brasileiro, Coleção Descobrindo
o Brasil. Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 2002.

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positivas à Caxias em diversas publicações e discursos militares, bem como à alusão


às suas grandes realizações como exemplos da importância do Exército para a nação.
Muitos autores também destacam as reformas militares introduzidas nas forças
armadas latino-americanas, desde o fim do século XIX, oriundas das diversas missões
estrangeiras, como o fator de elevação do Exército à condição de instituição exclusiva
no desenvolvimento da segurança geopolítica20. Como demonstra Comblin21, durante
o período da Guerra Fria, por influência direta das diretrizes elaboradas pelos EEUU,
o termo geopolítica se converteu em algo mais complexo e elaborado, indo desde o
combate ao comunismo até a defesa dos valores e comportamentos pscicossociais que
caracterizariam uma sociedade ocidental,estável e harmônica. Tais valores e
preocupações foram sistematizados na chamada Doutrina de Segurança Nacional
(DSN), ao nosso ver de suma importância para a estruturação da linha de ação de
grupos no interior do regime militar. A DSN foi o rol de teorias que justificou as
ações repressoras e autoritárias dos últimos regimes militares do cone sul. Sua faceta
mais destacada e analisada era o combate ao comunismo, mas de certa forma, ela
buscava combater todas as ameaças à nação e aos seus valores, e posicionava as
FFAA – Exército à frente – como protagonistas desses combates. Vejamos a definição
proposta pela ESG em 1979:

Segurança Nacional é a garantia que, em grau variável, é


proporcionada à Nação, principalmente sob a égide do Estado,
através de ações políticas, econômicas, psicossociais e militares, para
a conquista e manutenção dos Objetivos Nacionais, a despeito dos
antagonismos e pressões existentes ou potenciais.22

É evidente que o combate ao comunismo envolvia o combate aos comunistas


internos, organizados ou não em agremiações, guerrilhas, grupos, etc. Mas não
somente isso. A definição de DSN proposta pela ESG não nomeia o inimigo

20
Ver: NOVARO, Marcos e PALERMO, Vicente. A Ditadura Militar na Argentina 1976 – 1983. São
Paulo: EDUSP, 2007.
21
Ver: COMBLIN, Joseph. Ideologia de Segurança Nacional. Rio de Janeiro, Paz e Terra 1979.
22
ESG. Segurança Nacional – Conceituação da Escola Superior de Guerra. Separata de: A Defesa
Nacional. Rio de Janeiro: BIBLIEX, n. 681 – 682, p. 13-22, janeiro/fevereiro, 1979.

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diretamente, optando pela forma genérica dos “antagonismos e pressões” contrários


aos objetivos nacionais. Sob esse prisma pode-se propor uma análise de outros
possíveis “inimigos”, sem deixar de reconhecer o protagonismo dos comunistas.
Alberto23, analisando documentos do DOPS, posteriormente transformado em DGIE
(respectivamente: Divisão de Ordem Política e Social e Divisão Geral de
Investigações Especiais), deparou-se com algumas ordens de investigação sobre
eventos e entidades do Movimento Negro, que comprovam seu constante
patrulhamento24. Em uma dessas investigações é citado diretamente o IPCN, onde a
DGIE descreve o teor de algumas reuniões, o que evidencia a infiltração da entidade
pela Ditadura. Logo na capa, na determinação do assunto da investigação, aparece
sublinhada a expressão: RACISMO NEGRO. É transcrita toda a a pauta da reunião
realizada na sede do IPCN em abril de 1977, onde foi discutida a questão das
possíveis intervenções educacionais do movimento para despertar uma nova
consciência entre os negros brasileiros.

Desta forma, o tema predileto dos debates nas reuniões levadas a


efeito, é o preconceito racial e/ou social e o papel do negro na
coletividade(...) O Raciocínio seguido pelo IPCN, conduz a uma
desvinculação do que até aqui foi observado em termos da história do
negro no Brasil. Assim, tratam eles de desmistificar as datas
históricas significativas para a compreensão da Cultura Negra (o 13
de maio por exemplo), da forma como eram apresentados,
emergindo, modernamente o fato de libertação dos escravos como
uma obrigação e não como um ato de caridade do SISTEMA.25

Investigando os referidos documentos podemos apresentar algumas ideias


preliminares sobre a preocupação dos militares com as manifestações das entidades
negras. Em primeiro lugar é fato, como já discutimos, a existência de vínculos entre
os militantes do Movimento Negro e as esquerdas, seja em termos teóricos, seja na

23
ALBERTO, Paulina Laura (2011). Op. Cit. p. 245 – 296.
24
Alguns exemplos: ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (APERJ) –
Arquivo: Polícias Políticas /DGIE pastas: 258 ff. 622-629/ 259 ff. 40-46.
25
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (APERJ) – Arquivo: Polícias Políticas
/DGIE pasta 258 ff. 624 e 625.

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inspiração, como no caso das lutas de libertação levadas à cabo pelo MPLA, pela
FRELIMO e pelo PAIGC26, na África Portuguesa. Em segundo lugar, assim como faz
Alberto27, podemos verificar um fato igualmente importante: a Ditadura projetou a
ideia da democracia racial como característica e valor da nação, assumindo sua defesa
intransigente e fazendo propaganda em eventos internacionais, como no FESTAC de
1977, na Nigéria28. Uma comprovação disso é o Decreto-Lei n. 510, de 20 de março
de 1969 que considera crime contra a Segurança Nacional a alusão ao racismo. No
artigo 33 aparece: ART. 33 / VI - “incitar ao ódio ou discriminação racial” (pena de 1
a 3 anos de reclusão). Em nenhum outro momento de nossa história republicana as
ideias sobre a harmonia das relações sócio-raciais brasileiras adquiriram tanta
importância. A defesa desse “bem”, desse valor, passou a ser também uma
preocupação da DSN.

Conclusão: A Marcha e a Transição Democrática

Em um documento de outubro de 1976, sete páginas produzidas pelo CISA29,


constatam a existência de grupos que estimulavam o racismo no Brasil. O documento
confidencial estabelece vínculos entre grupos brasileiros e grupos socialistas africanos
ligados à luta anticolonialista na Nigéria e no Senegal. Afirma ainda que muitos
outros grupos próximos ao SINBA proliferavam, incentivando o chamado racismo
negro, quer pelo discurso da violência, quer pelo discurso do pacifismo culturalista:

6 - Das palestras assistidas nesses Centros, foram colhidos os


seguintes tópicos, que evidenciam a propaganda racista e socialista:
' Qualquer movimento cultural não pode ser desvinculado do político,
pois, que muitas manifestações culturais, principalmente a negra, é
esmagada por uma força política branca que é adversa a qualquer
outro motivo cultural de outra raça.'

26
MPLA - Movimento pela Libertação de Angola; FRELIMO. - Frente Para a Libertação de
Moçambique ; PAIGC -Partido Africano Para a Independência da Guiné-Bissau e do Cabo Verde.
27
ALBERTO, Paulina Laura (2011). Op. cit. p. 245-296.
28
Ibid. p. 245-296.
29
CISA - Centro de Informações da Aeronáutica.

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' O problema do negro no Brasil é sócio-cultural, pois a sociedade


dominante na época da escravidão até os dias de hoje é branca e não
é do seu interesse que a cultura negra vigore'
(...)
' O racismo branco de uma sociedade cristã é marcado pela sua
passagem histórica, onde o negro não é tido como irmão e um igual,
mas, como objeto de trabalho e exploração. A religião cristã com o
fito dos brancos poderem manter um domínio nas raças tidas como
inferiores, tais como, o índio, os negros, os mestiços, etc’(...). 30

Em um outro documento 31 do III COMAR, do Ministério da Aeronáutica,


datado de 4 de novembro de 1986, encontramos um relato detalhado sobre a
realização do II Encontro Estadual de Negros do Rio de Janeiro. Segundo a
Aeronáutica participaram desse evento cerca de noventa pessoas e houve muitos
discursos sobre a questão do negro, o racismo na sociedade, a continuação da luta
contra a discriminação racial, a formação de novos quadros integrantes do
movimento. Foi realizado também um ato de repúdio contra a inauguração da estátua
de Zumbi dos Palmares, considerada uma proposta eleitoreira do PDT. Os primeiros
nomes de todos os que discursaram estão devidamente anotados assim como também
uma espécie de resumo sobre tudo o que foi exposto durante o evento. O documento
possui tarja de confidencial, e constam também alguns nomes de lideranças de
entidades do movimento devidamente destacados ou sublinhados.
Tratando-se de dois documentos separados por dez anos e por alterações
institucionais significativas, à primeira vista, nota-se a semelhança de seus teores e de
suas preocupações. Aparentemente pode-se comprovar, já que esses são apenas
alguns exemplares de documentos muito semelhantes em posse do Arquivo
Nacional/RJ, que existe uma linha de continuidade, e não uma ruptura, como poderia
se supor, entre práticas de patrulhamento dos movimentos contestatórios pelos órgãos
de inteligência militares.

30
ARQUIVO NACIONAL (BRASIL). VAZ. 125 A. 53, de 20 de outubro de 1976, Rio de Janeiro. 7
folhas.
31
ARQUIVO NACIONAL (BRASIL). VAZ. 93.54, de 04 de dezembro de 1986, Rio de Janeiro. 4
folhas.

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Certamente, e os documentos comprovam isso, a linha de continuidade


prendia-se a certos valores, como o combate ao socialismo e às organizações
esquerdistas. Por que não poderíamos incluir nesse ponto as manifestações das
entidades negras, certamente uma lacuna historiográfica de peso. É possível agora
pontuar algumas ideias pertinentes:

1. A despeito do desmonte do aparelho institucional que servia aos propósitos do


regime militar, é possível dizer que esse desmonte não se deu de forma
homogênea ou simultânea. Restando resquícios de órgãos de inteligência e
repressão até pelo menos 1988, sem levarmos em consideração os novos órgãos
criados já na Nova República.
2. Coube à Aeronáutica, e a seus órgãos de inteligência o patrulhamento do
movimento negro em vários pontos do território brasileiro. O que isso poderia
significar? Apenas a título especulativo, já que não há uma base para maiores
conjecturas: Tratava-se de um movimento que, mesmo não sendo de massa,
estava presente em diversos estados? Justificava-se a utilização da Aeronáutica
por táticas internas de patrulhamento?
3. O fato de o CIEX ou o CENIMAR 32 não terem produzido documentos
investigativos, poderia significar uma atribuição de função ao DOPS ou ao
DGIE 33 ? Ou poderia também significar que existia uma divisão interna e até
mesmo uma relativa autonomia de alguns setores da repressão, no sentido de
determinar as ameaças em potencial?
4. O fato de o movimento negro ter se transformado numa lacuna historiográfica
pode ser lido retrospectivamente, já que desde 1995 muitas conquistas foram
implantadas e percebeu-se uma relativa desmobilização das bases das diversas
entidades?

32
CIEX - Centro de Inteligência do Exército ; CENIMAR - Centro de Inteligência da Marinha.
33
DOPS - Destacamento de Ordem Política e Social, posteriormente renomeado DGIE - Divisão Geral
de Investigações Especiais.

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5. Ou ainda pode-se creditar tal lacuna à predominância na historiografia dos ranços


culturalistas nas análises sobre a a atuação do movimento negro em nossa
história? Fato é que o culturalismo e a dimensão política nunca foram
completamente separados, ganhando mais visibilidade um ou outro dependendo
do contexto e da região abordados. Mas a pergunta permanece, por que o
movimento negro não figura como movimento de luta pela democracia na quase
totalidade dos trabalhos produzidos sobre a transição democrática?
6. E por ultimo, mas não menos importante, por que a democracia racial não poderia
ser incluída como uma das facetas ou objetivos a serem traçados para a
construção da democracia brasileira nos anos 80. Timidamente acenou-se com
uma solução constitucional, muito mais uma justificativa simbólica do que uma
ação efetiva.

Pode-se ir além: como inserir, de fato, numa ordem supostamente


democrática, uma marcha interrompida por militares armados, defendendo uma
memória " nacional" ? Qual deveria ser o papel das FFAA na ordem democrática?
Perguntas muito complexas, que talvez ainda não tenhamos como responder.
Teoricamente, os militares não teriam justificativa para impedir um
movimento supostamente pacífico, num contexto diferente do período anterior. Nesse
caso, cabe a referência a alguns trabalhos sobre as transições democráticas e suas
principais categorias de análise34. É importante considerarmos que alguns conceitos
como democracia, liberalização, cidadania, autoritarismo, ditadura, são polissêmicos e
de difícil definição.
Como demonstra Aarão 35 , no período imediatamente anterior à Segunda
Guerra Mundial, as palavras ditadura e autoritarismo gozavam até de certo prestígio,
devido à descrença nos pressupostos liberais em grande parte do mundo. Já depois do
conflito, tais palavras passam a ser associadas ao fascismo e por isso seu uso muda,

34
D'ARAUJO, Maria Celina; SOARES, Gláucio Ary Dillon e CASTRO, Celso. S. A Volta aos
Quartéis – a memória militar sobre a abertura. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1995. p. 7 – 44.
35
FILHO, Daniel Aarão Reis. As Conexões Civis. O Globo, Rio de Janeiro, 15 de Fev. , 2014, Caderno
Prosa, p. 3. Entrevista concedida a Leonardo Cazes.

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tornando-se mais problemático. Da mesma forma, como faziam os marxistas


brasileiros da década de 70, o termo democracia foi e continua sendo muito debatido
nas ciências sociais. Pode-se considerar democrática uma sociedade que adotou
formas políticas de participação e acesso ao poder? Mesmo que essas formas políticas
não sejam capazes de agregar participação, mobilizar ou gerar algum grau de
confiança para os cidadãos?
Alguns autores36 destacam que antes das instituições, a democracia deve ser
pensada como uma categoria social, vinculada à cultura política, ou seja, mais
importante que instituições democráticas deve-se pensar na consolidação de uma
cultura democrática em termos de ação social. Aliás, a ideia de cidadania que está
normalmente vinculada à democracia é tão problemática quanto. Consideramos
cidadãos brasileiros todos os nascidos no país ou naturalizados que tenham acesso aos
direitos definidos constitucionalmente.
Todavia, mais da metade da população não tem acesso a direitos básicos como
educação e saúde. É possível então afirmar que existe democracia no Brasil? Vivemos
uma democracia liberal, ou um liberalismo autoritário? É inegável que existiram
avanços legislativos em relação às liberdades civis, mas o que dizer sobre a cultura de
autoritarismo persistente em nossa legislação? A Constituição de 1988 permite
intervenções militares desde que sejam autorizadas por um dos três poderes. Eliézer
Rizzo37 demonstra, por exemplo, os bastidores da disputa pelo texto da Carta que, seja
por incompetência dos civis ou pelo preparo e articulação dos militares, fracassou em
subordinar o últimos aos primeiros. Novamente percebemos que problematizar os
conceitos implica necessariamente em problematizar interpretações. Ou seja,
questionar o senso comum que se construiu sobre determinados processos.

36
Ver: AVRITZER, Leonardo. Cultura Política, Atores Sociais e Democratização - Uma Crítica às
Teorias da Transição Para a Democracia. Revista Brasileira de Ciências Sociais (RBCS). São Paulo,
v.10, n.28, junho, 1995. Disponivel em:
http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_28/rbcs28_09.htm - acesso em 15/02/2014). Ver
também: DAGNINO, Evelina; OLVERA, Alberto J., PANFICHI, Aldo (orgs.). A Disputa pela
Construção Democrática na América Latina. São Paulo, Paz e Terra; Campinas, UNICAMP, 2006.
37
OLIVEIRA, Eliézer Rizzo de. De Geisel a Collor: Forças Armadas, Transição e Democracia.
Campinas: Papirus, 1994.

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É notório, por exemplo, que no período em que ocorreu a Marcha que analiso,
o governo de um presidente civil, considerado o símbolo da volta da democracia,
comprometeu-se de forma profunda com os interesses dos militares, agindo inclusive
de forma violenta no combate a movimentos sociais. Se considerarmos os vínculos
históricos de Sarney com os militares e suas formas de ação em muitas questões que
se apresentaram em seu governo, no mínimo abrimos a possibilidade para
entendermos que a democracia brasileira, na década de 1980 deve ser considerada de
um ponto de vista complexo. O termo democracia incompleta talvez tenha alguma
utilidade para as análises do processo político brasileiro, desde os anos 80 até os dias
atuais.
Além disso, o progressivo afastamento de setores civis e militares por conta
das divergências iniciadas nos anos 60 e aprofundadas nos anos 70, influenciou
sobremaneira o senso comum e a produção historiográfica, levando a interpretações
duvidosas sobre o regime militar brasileiro. A historiografia já sinaliza para uma
guinada interpretativa, onde destacam-se os papéis de lideranças civis, empresários,
imprensa, intelectuais, estudantes, associações, entre outros, na implantação e
sustentação do regime. Isso pode auxiliar análises sobre a permanência de uma cultura
autoritária no próprio meio civil. A recorrência às FFAA continua figurando como
garantia e segurança da ordem democrática, exatamente como afirmavam os militares
que tomaram o poder em 1964. Apesar da memória que aponta para uma forte
oposição entre militares e civis ao longo do regime militar , o conjunto dos valores
nacionais a ser protegido pelas FFAA, naquele contexto, continuou quase sem
alterações até nossos dias. Observa-se inclusive um certo ressentimento dos meios
militares quanto ao não reconhecimento desse papel nos anos 60, como se tivesse
havido, no período, uma espécie de desvio. Compreende-se assim que a ditadura
passou a ser exclusivamente militar pela construção de uma memória muito mais
recente do que se pensava.
A defesa da ideia da harmonia racial como um bem simbólico já está
configurada como uma linha de atuação do regime e das FFAA, mesmo após 1985.
Interessante é também perceber como existiram campanhas governamentais, peças de

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teatro, campanhas religiosas e de mídia, valorizando esse Brasil colorido e


harmônico38 no Centenário da Abolição. Certamente é também possível observar que
muitos grupos do chamado movimento negro divergiam e lutavam para dar voz aos
seus questionamentos, por diversas estratégias, algumas mais radicais, outras menos.
As marchas, as artes, a música, a cultura, cada manifestação buscava seu espaço nessa
nova democracia que se desenhava pelas mãos de muitos autores.
Seria também muito profícua, em nossa visão, a multiplicação de análises
onde as relações entre civis e militares fossem tratadas de formas mais técnicas e
menos rancorosas. Talvez fosse possível deslocar interpretações sobre conflitos civis-
militares para um terreno mais rico em possibilidades analíticas. Ou mesmo abrir
caminhos para se compreender as ações dos variados meios militares, considerando
suas interfaces históricas, políticas e sócio-culturais, bem como sua diversidade
interna.
Em 1988, por exemplo, foi escrito um artigo pelo Coronel Cláudio Moreira
Bento, publicado na revista A Defesa Nacional, em julho, alguns meses após a
Marcha, intitulado: O Exército e a Abolição (Pensamento e Ação). Nele, o Coronel
elenca algumas conclusões de um extenso estudo desenvolvido pelo AHEX (Arquivo
Histórico do Exército), do qual era diretor na ocasião, sobre as relações entre o
Exército e a população negra, desde a independência até o centenário da abolição da
escravidão. De forma muito orgulhosa o Coronel destaca o papel do negro para a
sociedade brasileira e para o Exército, em particular, deslindando períodos como o
Brasil colônia e a Guerra do Paraguai para basear historicamente sua argumentação.
Em um momento de clara exaltação, o autor demonstra de que forma o Exército
retribuiu a tais contribuições, citando diretamente, a célebre petição dirigida pelo
Clube Militar à Princesa Isabel, onde o Exército, de livre iniciativa, se recusava a
participar de missões de recaptura de escravos fugitivos. Para o Coronel e para boa
parte do Exército brasileiro deu-se a abolição por meio desta petição.

38
Refiro-me aos diversos eventos do centenário da abolição, especialmente à Campanha do Axé,
veiculada pela Rede Globo de Televisão e à Campanha da Fraternidade que possuía como lema: " Ouvi
o Clamor Desse Povo".

20
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Na mesma linha, já que o artigo era sobre o Centenário da Abolição , o papel


do Exército foi novamente exaltado de forma incontestável, pois trata-se, em sua
visão, de uma instituição acolhedora e defensora histórica dos negros. O que poderia
se esperar dessa instituição no evento que analisamos? Existem aí representações que
modelam formas de agir e pensar que podem conduzir a reflexões históricas muito
vivas até nossos dias. Entre outras conclusões, afirma o Coronel:

(...) 1o – Que a contribuição do negro e seus descendentes foi maciça,


marcante e efetiva no campo militar, para ajudar a legar aos
brasileiros um país de dimensões continentais, cristão e, talvez, a
maior democracia racial, em que pese detectar-se vez por outra, sem
justificação científica, pequenas manchas de preconceito e de
discriminação racial e até de racismo(...).39

Por tudo isso é que a Marcha contra a Farsa da Abolição é mais um dos muitos
objetos de análise que vêm surgindo no horizonte historiográfico que podem lançar
novas luzes sobre aspectos da Ditadura e da transição ainda pouco explorados. É um
desses momentos privilegiados para o historiador no qual entram em disputa direta,
nas ruas, os valores, as memórias as representações que marcaram e ainda marcam
nossa história recente. Se os monumentos em questão realmente ganhassem vida e se
encontrassem teriam muito a dizer.

39
BENTO, Cláudio Moreira. O Exército e a Abolição (Pensamento e Ação). Separata de: A Defesa
Nacional. Rio de Janeiro: BIBLIEX, n.738, , p. 7-16, julho/agosto 1988.

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Bibliografia:
Arquivos consultados:
APERJ – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro
AHEX – Arquivo do Exército

Fontes consultadas:
Revista: A Defesa Nacional (1964 – 1988)
Arquivo de Polícias Políticas (POLPOL)

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