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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

FILOSOFIA I
LETÍCIA MARQUES CAMARGO
2008.2

O que Robinson Crusoé faria se não fosse uma Robinsonada?

Robinson Crusoé, primeiramente, não pode ser entendido em uma época anterior a
que ele foi escrito, portanto, quando Defoe escreve o romance, o que ocorre é a
transposição do contexto de sua época para seu personagem. Uma época em que
os caminhos da modernidade capitalista estavam sendo traçados, os paradigmas
liberais e o mito de origem do homem como indivíduo isolado eram legitimados.

Ao compreendermos isso, podemos dizer que Robinson Crusoé, ao sair de casa da


maneira como saiu, era movido por uma vontade “liberal”, ou seja, um desejo de se
libertar dos pensamentos e planos que seus pais (que podem muito bem simbolizar
as formas retrógradas do pensamento da sociedade). Seu desejo não é muito
diferente do desejo de Adam Smith, David Ricardo, Jacques Rousseau (este último
tinha o livro de Defoe, como a base do pensamento natural do homem).

Robinson Crusoé quando naufraga, se encontra completamente sozinho em uma


ilha, e mesmo assim consegue reconstituir todas as relações de produção que
existe em sua sociedade, desde a construção de objetos úteis ao cultivo de cereais,
legitimando aquilo que era falado por economistas clássicos sobre individualismo, e
sobre homem que produz isoladamente, e não em sociedade.

A Robisonada, é o mito fictício de origem, onde o primeiro homem vivia isolado de


todos os outros. Para Marx, esse homem civilizado quando é transportado para uma
ilha deserta, leva consigo a dinâmica de sua própria sociedade, e mesmo a sua
produção individual não é nada além do que mais um produto de sua sociedade,
fruto da história de sua produção social. Ele não cria, não interage com o meio novo
em que vive, apenas repete aquilo tudo o que aprendeu burguesa e religiosamente.

Isso é o que foi escrito por Defoe, no século XVII, mas se retirarmos o Robinson
Crusoé da literatura, se déssemos vida à personagem, o que realmente
aconteceria?

Gilles Deleuze vê a história de Defoe de uma forma interessante:

“... o tema de Robinson em Defoe não era somente uma história, mas o
‘instrumento de uma pesquisa’: pesquisa que parte da ilha deserta e que pretende
reconstituir as origens e a ordem rigorosa dos trabalhos e das conquistas que delas
decorrem com o tempo. Mas é claro que a pesquisa é duas vezes falseada. De um
lado, a imagem da origem pressupõe o que ela pretende engendrar (cf. tudo o que
Robinson tirou dos restos do naufrágio). De outro lado, o mundo re-produzido a
partir desta origem é o equivalente do mundo real, isto é, econômico ou do mundo
tal como seria, tal como deveria ser se não existisse a sexualidade (cf. a eliminação
de toda sexualidade no Robinson de Defoe).” (Deleuze, 1998; p.312)

Portanto, o Robinson que aqui se convoca não é apenas o crente voluntarioso e


empreendedor ou o sobrevivente heróico que reconstrói a “civilização” com os
restos de um naufrágio. Sua aparição no limiar deste trabalho (que não deixa de ser
uma “robinsonada” intelectual sobre a técnica), não se deve, em primeiro lugar, a
sua engenhosidade, nem a sua enorme capacidade de “desviar” a matéria bruta em
benefício próprio. O Robinson aqui convocado é, também e principalmente, o que se
viu condenado à solidão e ao “mundo sem outrem” (Deleuze, 1998). Aquele a quem
aconteceu participar de um experimento “divino” e não sucumbiu; transformou-se.
Para o filósofo Gilles Deleuze, o que ocorre a um ser humano privado de seu
convivo com outros seres humanos seria um:

“Mundo cru e negro, sem potencialidades nem virtualidades: é a categoria do


possível que se desmoronou. (...) Tendo cessado de se estender e se curvar uns em
direção aos outros, os objetos se erguem ameaçadores; descobrimos então
maldades que não são mais as do homem. Dir-se-ia que cada coisa, tendo abdicado
de seu modelo, reduzida a suas linhas mais duras esbofeteia-nos e golpeia-nos
pelas costas. A ausência de outrem, nós a sentimos quando damos uma topada,
instantes em que nos é revelada a velocidade estupidificante de nossos gestos.”
(Deleuze 1998; pp.314-6)

Para Deleuze, então, o homem que é retirado de seu convivo social e transportado
para uma ilha deserta, terá perdido a capacidade de enxergar o mundo conforme
sempre enxergou. Ele terá uma percepção diferenciada de tudo aquilo que
aprendeu, ou simplesmente não saberá mais reconhecer o que é bom ou ruim. A
função do outro, é mais do que meramente uma companhia agradável, ou uma
relação que está exclusivamente baseada nas relações econômicas da sociedade. O
outro justifica sob seu olhar e seu julgamento, o que realmente somos. O outrem
não é apenas outro ser humano, mas sim toda a estrutura possível, todas as
possibilidades humanas.

“Outrem como estrutura não é, portanto, uma “forma” num campo perceptivo, mas
um Outrem a priori, isto é, “a existência do possível em geral”, na medida em que
existe apenas como expressão num rosto, como expresso em um exprimente que
não se parece com ele. Ora, é por definição que o possível só existe enquanto
expresso. O possível é o que pode vir a ser, mas não é, ainda não é. Sua única
realidade possível é a de ser um expresso. E o que é mais importante: só existe
como um expresso num exprimente (rosto, voz), que não se parece com ele. O
rosto não imita o que vê, mas expressa. “O semblante terrificado não se parece
com a coisa terrificante, ele a implica, a envolve como algo de diferente, numa
espécie de torção que põe o expresso no exprimente.” (Deleuze, 1998; p.317)

Os mundos possíveis só podem ser identificados por alguém a partir de uma


expressão de outrem. Esse outro me mostra aquilo que eu posso ainda não
conhecer, mas consigo perceber por sua expressão, sua linguagem, seus
sentimentos. E é por isso que se pode dizer que o outro, todos os outros, são, num
certo sentido, os primeiros não apenas de nossas crenças, mas também da
manifesta ambição humana de superar a condição humana, de cujos produtos nos
envaidecemos, num intrigante narcisismo.

É muito difícil que alguém em sã consciência escolha habitar um mundo sem


outrem. Chega-se a esse mundo insulado, sempre vítima de alguma “catástrofe”. O
acontecimento-padrão, como já vimos, é a “robinsonada”. Se há alguma ameaça de
catástrofe rondando o Robinson que aqui intervém, é a de naufragar no caos
oceânico. E são suas desventuras na solidão de uma ilha deserta, levando-o a se
colocar questões fundamentais “relativas ao antigo problema do conhecimento”,
que principiam o traçado de uma imagem para o pensamento.

Portanto Robinson Crusoé, privado de sua convivência com outras pessoas, teria
um árduo trabalho antes filosófico do que técnico. Ele teria de desenvolver todo um
novo processo de conhecimento. É outrem que nos “ensina” a sentir a preexistência
de um objeto seguinte, de um acontecimento por vir. Há todo um campo de coisas,
nesse instante, invisíveis para mim, mas visíveis para outrem, para outros, que
constitui um campo de virtualidades e de potencialidades capazes, a qualquer
momento, de se atualizarem. Sem essa ajuda de outros olhos, eu não sei o que
vejo.