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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL

PROJETO DE DOUTORADO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL

POLÍTICAS SEXUAIS DA SÍFILIS NO CONTEXTO DO SISTEMA DE SAÚDE


BRASILEIRO: UMA ANÁLISE ETNOGRÁFICA

Porto Alegre, 2017


SUMÁRIO

1. RESUMO....................................................................................................................3
2. INTRODUÇÃO..........................................................................................................3
3. DISCUSSÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA E REFERENCIAL
TEÓRICO...................................................................................................................5
4. OBJETIVO.................................................................................................................11
4.1 Objetivo Geral.......................................................................................................11
4.2 Objetivos Específicos...........................................................................................12
5. METODOLOGIA.......................................................................................................12
6. CRONOGRAMA........................................................................................................14
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................15
1. RESUMO

Este projeto de pesquisa investiga as políticas sexuais dirigidas à sífilis no sistema de saúde
brasileiro, no período contemporâneo. Este estudo se desenvolve em uma conjuntura de
reemergência da epidemia desta doença no país e de desabastecimento de penicilina no mercado
global da saúde, principal medicamento para o seu tratamento. Pretende-se desenvolver
trabalho de campo etnográfico em espaços terapêuticos de prestação da atenção à sífilis e de
gestão da política de saúde, bem como por meio do estudo de documentos. Objetiva-se
compreender as expressões e regulações da sexualidade nas políticas sexuais da sífilis no
sistema de saúde brasileiro, por meio de uma análise desenvolvida em três planos: investigação
das condições de possibilidade e dos efeitos do desabastecimento de penicilina na gestão da
epidemia de sífilis, genealogia das representações epidemiológicas da doença no âmbito da
vigilância em saúde, e pesquisa das formas como sujeitos acometidos pela doença refletem e
organizam suas práticas erótico-sexuais a partir do imperativo da sífilis.

2. INTRODUÇÃO

Este projeto de tese de doutorado em antropologia social constitui uma proposta de


investigação das políticas sexuais dirigidas à sífilis1, no âmbito do sistema de saúde brasileiro, em
um contexto em que o aumento no número de casos desta doença passa a demandar a atenção e o
trabalho de autoridades de saúde pública, tanto no Brasil quanto em diversos outros países. Trata-
se de uma pesquisa que busca compreender as formas pelas quais intervenções de natureza diversa
no campo da saúde brasileira abordam a reemergência da epidemia de sífilis, com foco nas
regulações e expressões da sexualidade imbricadas neste processo.
A sífilis é uma doença com significados profundos e arraigados na história da saúde
pública de diversos países ocidentais, o que se deve em muito à sua gravidade e ao caráter sexual
nas formas de sua transmissão – o que fez com que fosse estigmatizada a partir das moralidades
que, ao longo dos tempos, revestiram o tema da sexualidade. Assim, foi concebida como castigo

1
A Sífilis constitui uma infecção sexualmente transmissível (IST), provocada pela bactéria Treponema pallidum.
A enfermidade se manifesta por meio de quatro fases: primária (entre 4 a 8 semanas, com o aparecimento de
úlceras indolores na área infectada), secundária (entre 2 a 6 meses, com erupções cutâneas espalhadas pelo corpo),
latente (de 2 a 40 anos, e se caracteriza pela ausência de sintomas significativos) e terciária (formação de gomas
sifilíticas, tumorações, deformidade articular, efusões bilaterais no joelho, neurosífilis e sífilis cardiovascular).
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divino, como doença de libertinos, pecadores, pervertidos, prostitutas, entre outros tipos
desviantes. De acordo com Sérgio Carrara, em pesquisa que descreve a luta contra a sífilis no
Brasil até meados do século XX, passa-se a dar expressiva importância social para a doença a
partir da segunda metade do século XIX. Neste período, a sífilis surge como uma “ameaça
sanitária, individual e coletiva, de grande magnitude” (CARRARA, 1996, p.13), que demanda
mobilizações significativas na maioria dos Estados-Nação ocidentais. A partir de 1940, com a
difusão da penicilina, o primeiro antibiótico da história da medicina, a doença deixa de constituir
um perigo de proporções severas para se tornar um problema de saúde normalizado, com
tendência à estabilidade de seus indicadores de morbimortalidade.
Entretanto, nos últimos anos vários países, entre eles o Brasil, observam em seus
sistemas de informação um aumento substantivo do número de casos de sífilis, tanto congênita
(contraída pelo infanto durante a gravidez), quanto adquirida (obtida por meio de relações
sexuais). No Brasil, a sífilis adquirida, que tem notificação compulsória estabelecida pelo
Ministério da Saúde desde 2010, obteve entre 2013 e 2015 uma elevação de sua incidência de
32,2 por cem mil pessoas para 42,7, um aumento de 32% (BRASIL, 2016). No que se refere às
taxas de incidência de sífilis congênita, instituída como notificação compulsória no Brasil desde
1986, houve uma elevação de 1,0 por mil nascidos vivos em 2001 para 6,5 em 2015, um
aumento de 550% e um valor 13 vezes maior do que aquele considerado admissível pela
Organização Mundial da Saúde (BRASIL, 2016).
No que se refere ao Estado do Rio Grande do Sul, estas taxas se apresentam bastante
superiores às médias brasileiras. O estado apresentou em 2016 a incidência de 111,5 a cada cem
mil pessoas para sífilis adquirida e, no que se refere à sífilis congênita, Porto Alegre apresentou,
no mesmo ano, incidência de 30,2 a cada mil nascidos vivos (RIO GRANDE DO SUL, 2016).
Deste modo, se a Sífilis vem tornando-se, novamente, um problema social de proporções
significativas, sua magnitude no Estado do Rio Grande do Sul é ainda maior.
Este quadro fez com que o Ministério da Saúde considerasse o aumento no número de
casos de sífilis no Brasil uma epidemia, o que foi reverberado por diversos órgãos de imprensa
no país (GLOBO, 2017; ÉPOCA, 2016; VEJA, 2016; ESTADÃO, 2016). Nesse sentido, no ano
de 2016 a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS)
assinou uma carta de compromisso estabelecendo ações estratégicas para redução da sífilis
congênita no país, com prazo previsto de um ano (PAHO, 2016).
Uma das dificuldades à gestão da epidemia de sífilis no Brasil, e também percebido
como uma de suas causas, é o desabastecimento de penicilina benzatina no mercado da saúde

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global, devido à falta de matéria prima para a fabricação do medicamento. As empresas
fabricantes locais de penicilina compram o ingrediente ativo de empresas multinacionais, sendo
somente quatro aquelas que atualmente o fabricam2, o que não supre a demanda mundial do
medicamento. O desabastecimento de penicilina se agrava, ainda, devido a sanções pelas quais
passam estas empresas, em função de reprovação em fiscalizações sanitárias de órgãos
reguladores da União Europeia, bem como à subprodução do ingrediente ativo da droga, uma
vez que as empresas em questão produzem somente 20% de sua capacidade para a fabricação.
A partir desta breve discussão, é possível definir o objeto de pesquisa do presente projeto
como o conjunto de ações, práticas e medidas que conformam as políticas sexuais que tomam
a sífilis como objeto de sua atenção, no contexto brasileiro e, mais especificamente, no Estado
do Rio Grande do Sul.

3. DISCUSSÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA E REFERENCIAL TEÓRICO

O aumento do número de casos de sífilis no Brasil provoca por parte do Estado uma
série de ações e medidas destinadas ao seu governo, compreendidas a partir do conceito de
política sexual. O presente projeto de pesquisa apresenta como questão de investigação, de
forma ampla, a seguinte indagação: de que formas as políticas sexuais dirigidas à sífilis
engendram determinadas formas de expressão e regulação da sexualidade?
Este problema de pesquisa geral se desdobra em uma série de questões: de que maneira
a reemergência da epidemia de sífilis se constitui como discurso e qual produção institucional
e legislativa enseja, no sentido de políticas, leis, normativas etc.? Quais temas e questões são
trazidos à tona no processo de combate à sífilis no Brasil, no sentido do impacto da
reemergência da epidemia desta doença na agenda política que envolve as questões de
sexualidade no contexto nacional? De que forma o aumento no número de casos de sífilis
modifica as dinâmicas de controle, vigilância e atenção a esta doença no âmbito do sistema
de saúde brasileiro? Quais sistemas de valores e quais hierarquias sexuais pautam este
processo? Quais modos de intervenção, formas de conhecimentos e códigos morais estão
imbricados nesse processo? Como as pessoas refletem sobre e organizam suas práticas
erótico-sexuais a partir do imperativo da sífilis?

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Três destas empreses estão localizadas na China (North China Pharmaceutical Group Semisyntech Co. Ltd; CSPC
Pharmaceuticals Group Ltd. e Jiangxi Dongfeng Pharmaceutical Co.) e uma na Áustria (Sandoz GmbH)
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O conceito de política sexual é utilizado por autores como Gayle Rubin, Jefrey Weeks
e Sérgio Carrara, para dar conta, de uma forma ampla, de ações e práticas contemporâneas,
desenvolvidas após a consolidação do dispositivo da sexualidade (FOUCAULT, 1977), cujo
intuito é a intervenção, o manejo ou a gestão de questões relativas ao sexo e à sexualidade. Este
conceito parte do trabalho de Michel Foucault, para o qual as práticas de gestão, manejo e
controle da sexualidade, mesmo quando se manifestam por meio de formas repressoras e
limitantes, constituem modos de exercício do poder em sua qualidade produtiva, de maneira a
criar e instaurar o próprio objeto que aborda como centro de sua atenção. O conceito de política
sexual explora, também, a ideia fundamental de que a sexualidade, longe de se reduzir a uma
questão privada, é central para o exercício moderno do poder: o sexo como ponto de entrada
para o controle de corpos e das populações, alvo principal de um poder que se exerce pelo
manejo da vida ao invés da ameaça de morte.
Gayle Rubin utiliza o conceito de política sexual em seu texto Thinking Sex: Notes for
a Radical Theory of the Politics of Sexuality (1989). Para a autora, políticas sexuais não
envolvem somente questões estritamente do âmbito das práticas sexuais, mas sim um leque de
temáticas bastante abrangente: “One may then think of sexual politics in terms of such
phenomena as populations, neighborhoods, settlement patterns, migration, urban conflict,
epidemiology, and police technology” (RUBIN, 1989, p.150). Para além destas questões de
aspecto geral, para Rubin, as políticas sexuais conformam um sistema sexual valorativo, que
organiza os diferentes sujeitos eróticos em posições desiguais de discriminação e de acesso a
recursos sociais:

The modern sexual system contains sets of these sexual populations, stratified
by the operation of an ideological and social hierarchy. Differences in social
value create friction among these groups, who engage in political contests to
alter or maintain their place in the ranking. Contemporary sexual politics
should be reconceptualized in terms of the emergence and ongoing
development of this system, its social relations, the ideologies that interpret it,
and its characteristic modes of conflict. (RUBIN, 1989, p. 155)

Desta maneira, para Rubin, o conceito de política sexual envolve a ideologia e os valores
sociais que constituem os mecanismos de hierarquização de práticas e identidades sexuais
dentro de um sistema, bem como suas disputas e conflitos internos. A autora, assim, centra sua
análise em formas contemporâneas de repressão sexual em um sentido político, ênfase que, em
sua leitura do campo de estudos da sexualidade, foi diminuída tendo em vista a ampla aceitação
do argumento de Foucault acerca da rejeição da hipótese repressiva.

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Jeffrey Weeks (1989), ao utilizar o conceito de política sexual, também confere atenção
para o caráter repressivo dirigido a sexualidades divergentes, em seu caso no contexto da
Europa ocidental, no espaço temporal que se estende desde a era vitoriana até o período
burguês. O autor menciona os riscos de análises comprometidas com orientações foucualtianas
em negar os controles repressivos dirigidos à sexualidade moderna a partir da assunção da
hipótese repressiva:

Por um lado, Foucault rejeita a teoria baseada do redirecionamento da energia


sexual. Mas, por outro lado, ao fazer isso ele está em perigo de desconsiderar
a noção de ‘repressão social’. Parece claro que em certos momentos alguns
regimes políticos e sociais são mais ‘opressivos’ que outros em relação a
várias formas de comportamento sexual. A polêmica rejeição da hipótese
repressiva obscurece as formas reais de controle que podem ser exercidas.
(WEEKS, 1989, p. 10)

Para Weeks, o conceito de políticas sexuais envolve, de maneira mais específica, ações
destinadas à regulamentação das práticas sexuais produzidas no âmbito do Estado. Para o autor,
a importância do papel do Estado estaria ofuscada no conceito de dispositivo da sexualidade,
pelo destaque atribuído por Foucault e por estudos posteriores à ideia de norma:

ao enfatizar o papel da norma como um artifício do poder Foucault está


conscientemente diminuindo o papel do Estado - ao menos como expresso em
seu aparato legal - e ao fazê-lo, subestima seu papel na construção de atitudes
ligadas à sexualidade através das leis do casamento, da regulação do desvio,
do judiciário, da polícia, bem como, de forma mais geral, do sistema
educacional, do sistema previdenciário, e assim por diante. A regulação é
exercida tanto através 'da norma' quanto do poder político. Foucault não
negaria isto, é claro, mas ao enfatizar a 'norma' sobre a lei corre o risco de
ignorar importantes transformações políticas. (WEEKS, 1989, p. 10)

Desta forma, mesmo partindo do pressuposto foucaultiano no qual o poder não reside
dentro do aparato estatal, mas sim se ramifica por toda sociedade, a ênfase analítica em ações
que se originam em seu âmbito aponta para uma forma de regulamentação específica.
Já no Brasil, o conceito de política sexual foi utilizado pelo Centro Latino Americano
em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM), na pesquisa Direitos e Políticas Sexuais no
Brasil – o panorama atual (VIANNA, LACERDA, 2004), com intuito de mapear as legislações
e ações governamentais relativas à sexualidade no Brasil, o que abarca também regulações
internacionais com capacidade de imposição no contexto nacional. A pesquisa organiza as
políticas sexuais em diferentes arenas de disputa: “orientação sexual”, “prostituição, turismo

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sexual, exploração sexual infanto juvenil”, “violência sexual”, “nupcialidade, divórcio,
separação e adultério”, “direitos reprodutivos”, “DST\AIDS”.
Partindo desta experiência de pesquisa do CLAM, Sérgio Carrara (2015) busca
compreender as implicações da emergência do que se convencionou chamar de direitos sexuais,
na história recente do Brasil, na produção de novos estilos de regulação moral da sexualidade,
bem como dos sujeitos que se constituem a partir destas normalizações. A partir das elaborações
de Weeks, Sérgio Carrara emprega o conceito de política sexual para fazer referência a
“diferentes tipos de ação social dirigidos ao Estado ou promovidos em seu âmbito ou sob sua
chancela”, assim como “processos sociais que se desenvolvem em múltiplos planos”
(CARRARA, 2015, p.324), uma vez que são criados a partir de acordos entre diferentes
Estados, com mediação de organismos internacionais.
Carrara argumenta que as demandas de ativismos LGBT e feministas por direitos civis
e proteção social, bem como sua assimilação por diferentes Estados nacionais, constituem
facetas de um processo de transformação no dispositivo da sexualidade.

Porém, talvez mais importante seja o fato de que trabalhar no nível de tais
políticas abre a possibilidade de abordar o próprio dispositivo da sexualidade,
indagando sobre suas fissuras, tensões e horizontes de transformação, em
suma, sua própria historicidade (CARRARA, 2015, p.325).

Trata-se do surgimento de uma nova linguagem de expressão do regime da sexualidade,


que passa de uma formulação biomédica para um quadro sócio jurídico, a qual é acompanhada
por significativas transformações: o sexo não mais visto como um meio de produção de uma
“raça” ou “nação” saudável, mas como uma forma de satisfação e aprimoramento de si, de
forma que as intervenções se dariam em nome da “saúde” e do “bem estar”; bem como uma
forma de regulação moral da sexualidade, que se afasta do ideal da reprodução e se erige a partir
da ideia de consenso nas práticas sexuais.

Partindo destas orientações, compreendo que intervenções realizadas pelo Estado ou


provocadas em sua direção, com foco no controle, prevenção e tratamento de doenças
sexualmente transmissíveis, constituem uma das arenas em que se desenvolvem as políticas
sexuais no Brasil. Mobilizo este conceito para fazer referência ao conjunto de ações sociais
dirigidas à gestão da epidemia de sífilis, que possuem o Estado como seu contexto de produção
ou como horizonte de seus efeitos, tais como regulamentações legislativas, campanhas
educativas, programas sanitários, normativas ministeriais, etc.

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Está em questão compreender os modos de expressão e regulação da sexualidade,
envolvidos nas políticas sexuais que se desenvolvem em torno da atenção à sífilis no contexto
do sistema de saúde brasileiro. Ou seja, de que maneira o conjunto de intervenções orientadas
para o combate à sífilis engendra determinadas formas de expressão da sexualidade e gestão
social das práticas erótico sexuais.
Para tal, pretende-se desenvolver a pesquisa em três planos diferentes: investigação dos
efeitos do desabastecimento de penicilina na organização do sistema de saúde brasileiro, em
específico as implicações deste evento para o controle, tratamento e prevenção da sífilis;
genealogia das representações epidemiológicas da sífilis; e o acompanhamento de profissionais
e usuários do sistema de saúde envolvidos no cuidado à doença. Na sequência, comento
brevemente estes três planos de investigação.

Os discursos acerca da reemergência da epidemia de sífilis no Brasil, veiculados por


especialistas e autoridades em saúde pública, mídia e governo, localizam no desabastecimento
de penicilina uma das principais causas para o aumento progressivo no número de casos da
doença nos últimos anos. Uma vez que a penicilina é o principal medicamento para o tratamento
de sífilis, constitui-se num ator fundamental na rede que se forma a partir da gestão de sua
epidemia.
Assim, considero que para a compreensão das maneiras através das quais o sistema de
saúde brasileiro se organiza em torno da sífilis contemporaneamente, é fundamental uma
investigação acerca das causas e efeitos do desabastecimento de penicilina. Utilizo o conceito
de evento para tratar deste episódio, tal como trabalhado por Bruno Latour a partir de uma
leitura de Alfred Whitehead (LATOUR, 2000). O conceito de evento alude a uma suspensão
do questionamento relativo ao controle ou à fonte da ação, com o intuito de considerar tais
situações a partir das imponderabilidades que lhes são intrínsecas, perguntando que acontece
em seus desenrolares propriamente ditos.
Trata-se de descrever as articulações que produziram as condições de possibilidade para
que tal evento acontecesse, bem como seus desdobramentos imprevistos, nas dinâmicas de
atenção, gestão e vigilância da sífilis. Procuro então apontar em linhas gerais as associações que
se tornaram necessárias para que houvessem as condições de desabastecimento de penicilina
no sistema de saúde brasileiro, bem como indicar alguns eixos de transformação ou de alteração
neste sistema de saúde após este evento

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O desabastecimento de penicilina posiciona a epidemia de sífilis no Brasil no campo da
saúde global, conformado pela articulação conjunta de Estados-Nação e organismos
supranacionais de diferentes naturezas (BIEHL, 2011). A descrição deste evento constitui, desta
forma, uma maneira de compreender as articulações entre atores situados para além do âmbito
do sistema de saúde brasileiro na produção da epidemia de sífilis no Brasil. Trata-se de uma via
de acesso para compreensão das formas como articulações globais produzem efeitos e são
vividas em contextos locais.

Outra linha de investigação é análise do histórico das definições de sífilis na notificação


desta doença, no sistema de saúde brasileiro. A sífilis constitui uma doença de notificação
obrigatória no Brasil, de modo que a ocorrência de qualquer caso positivo deve ser comunicada
por um profissional de saúde à vigilância em saúde, por meio do preenchimento de uma ficha
de notificação. As fichas de notificação de sífilis, assim como qualquer outra ficha de
notificação, possuem definições de caso para a doença em questão. Trata-se do conceito que
estabelece os critérios que definem os casos que devem ser considerados positivos e negativos
para sífilis, os tratamentos que devem ser considerados adequados e inadequados, entre outras
variáveis que constituirão o perfil epidemiológico da doença.
Argumento que tais elaborações constituem representações (COOPMANS, 2014), cuja
principal característica é a produção de visibilidades para a doença em foco, no caso a sífilis. Ou
seja, dados epidemiológicos constituem expressões para o objeto ao qual se reportam, e lhe
revelam certas qualidades ao mesmo tempo em que ocultam outras. Objetivo analisar as
ferramentas mobilizadas na produção destas representações, as fichas de notificação. Em
específico, trata-se de elaborar uma descrição das alterações e mudanças nas definições de caso
de sífilis utilizadas em tais instrumentos, desde a institucionalização da notificação obrigatória
(congênita 1986, adquirida 2011 e em gestante 2005). Ou seja, está em questão compreender de
que maneira são construídas representações para a sífilis, bem como seus efeitos sobre os
discursos e práticas dirigidos à doença.
A análise deste processo permite compreender de que forma o sexo funciona,
contemporaneamente, como um aparato de produção de dados sobre populações. Nesse sentido,
a política sexual se relaciona a uma política da representação (CARRARA, 2015), pois produz
aquilo que pode ser conhecido e dito sobre a sífilis, as principais características de sua
distribuição no espaço e no tempo, atributos de grupos atingidos, tratamentos empreendidos,
etc. Desta forma, objetiva-se compreender como se fazem políticas sexuais a partir de dados

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epidemiológicos, e de que maneira dados dessa natureza produzem narrativas sobre o sexo e a
sexualidade, e quais narrativas são essas.
Estas questões são investigadas a partir de um trabalho de campo situado em
normatizações do processo de notificação da sífilis, que se desenvolve no âmbito da vigilância
em saúde. Trata-se de uma investigação, também, sobre os métodos envolvidos na detecção,
contagem, e medição da sífilis na sociedade. Nesse sentido, métodos são aqui compreendidos
como estratégias políticas de ordenamento da realidade (LAW, 2004).

Por fim, este projeto também pretende acompanhar profissionais da saúde, em suas
vivências com o “trabalho vivo” que envolve à atenção à sífilis, bem como usuários do sistema
de saúde, em suas experiências no percurso do tratamento da doença. De que maneira as pessoas
organizam suas práticas erótico-sexuais a partir do imperativo da sífilis? Como atribuem sentido
à doença e quais os efeitos desta experiência na dimensão vivida da sexualidade? Está em
questão compreender como se dá a experiência do diagnóstico de sífilis para usuários do sistema
de saúde, e seus efeitos na forma de pensar e vive a sexualidade. Este é um plano de investigação
centrado nos processos de subjetivação que envolvem intervenções biopolíticas em
sexualidade.
No contexto da cidade de Porto Alegre, pretende-se acompanhar o trabalho da Área de
Infecções Sexualmente Transmissíveis, da Secretaria Municipal de Saúde, bem como o projeto,
por ela organizado, “Fique Sabendo”. Trata-se de uma unidade móvel de saúde, que realiza
testes para detecção de HIV, Sífilis e Hepatite C em praças, eventos e lugares públicos da
cidade. No que se refere aos demais serviços de saúde, ainda não foram selecionados os
contextos de pesquisa específicos que servirão à investigação.

OBJETIVOS

3.1 Objetivos gerais:

O presente projeto de pesquisa objetiva produzir uma inteligibilidade ao conjunto de


medidas, ações e práticas de saúde, compreendidas em termos de políticas sexuais, efetivadas
no âmbito da gestão da epidemia de sífilis no contexto brasileiro e, mais detidamente, no Estado
do RS. Objetiva-se compreender quais regulações e expressões da sexualidade estão imbricadas
no desenvolvimento destas políticas sexuais.

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3.2 Objetivos específicos:

- Mapear a produção institucional e legislativa em torno do sistema de saúde brasileiro


a partir da reemergência de epidemia de sífilis como fato epidemiológico e discursivo.
- Compreender as relações entre articulações globais e contextos locais nas políticas
sexuais dirigidas à sífilis no Brasil, por meio de uma investigação das condições de
possibilidade e dos efeitos do desabastecimento de penicilina no sistema de saúde brasileiro.
- Descrever as transformações nos critérios de notificação da sífilis, desde a
institucionalização de sua obrigatoriedade, a fim de compreender como são elaboradas
representações para essa doença, bem como seus efeitos nos discursos e práticas sobre a sífilis.
- Compreender os processos de subjetivação que acompanham as significações e
intervenções contemporâneas para a sífilis.

4. METODOLOGIA

O presente projeto de pesquisa busca investigar as políticas sexuais elaboradas com vistas
à gestão de epidemia de sífilis no Brasil e, mais particularmente, no Estado do RS, com o objetivo
de compreender as regulações e expressões da sexualidade envolvidas nas dinâmicas
contemporâneas de atenção, vigilância e tratamento da sífilis.
Parto da compreensão delineada por Bruno Latour (2012), e partilhada por outros autores
que também criticam suposições relativas à existência inata de totalidades sociais (WAGNER,
2010; STRATHERN, 2014), na qual a pesquisa etnográfica não deve pressupor existência de
grupos pré-definidos, para então debruçar-se sobre o seu estudo. Diferentemente, para o autor, o
processo de pesquisa deve procurar compor os agrupamentos no decorrer do processo de
investigação, por meio do rastreamento das pistas deixadas pelos atores em suas associações.
Desta forma, no que se refere ao presente projeto de pesquisa, não se trata de conceber um
conjunto bem ordenado e coerente de ações relativas ao combate à sífilis, para então colocá-lo ao
escrutínio analítico, mas sim de, por meio da descrição etnográfica, compor uma inteligibilidade
acerca das intervenções propostas no âmbito deste fenômeno.
Nesse sentido, este projeto faz uso da ideia de rede sociotécnica (LATOUR, 2012) como
forma de situar-se dentre e de mapear os processos em questão. A mobilização da noção de rede

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como instrumento teórico-metodológico implica em traçar as associações estabelecidas por atores
heterogêneos, humanos e não-humanos na expressão do autor citado, buscando compreender
analiticamente os efeitos de poder decorrentes de tais associações. Trata-se de uma forma de
rastrear o entrelaçamento de fenômenos oriundos de diferentes domínios (social, econômico,
biológico, etc.) na conformação dos processos em questão.
Desta forma, trata-se de seguir a sífilis onde esses efeitos de poder são manifestos,
interagindo com aqueles atores que gravitam em torno da doença: profissionais de saúde,
pacientes, medicamentos, documentos legislativos, campanhas de prevenção, laboratórios
farmacêuticos, etc. Este processo de busca por associações não acontece em um plano abstrato
ou etéreo, nem se desenvolve de maneira contemplativa, mas sim se realiza a partir da própria
posição, material, epistêmica e política, do pesquisador em campo. Portanto, as descrições
elaboradas constituem um conhecimento situado (HARAWAY, 1995), objetivado a partir dos
compromissos estabelecidos durante o processo de pesquisa.
Esta pesquisa etnográfica será desenvolvida por meio de trabalho de campo, realizado em
sítios etnográficos e por meio do estudo de documentos. No que se refere aos lócus etnográfico
desta investigação, pretende-se iniciar a pesquisa em espaços que abordam a sífilis via políticas de
saúde, no contexto de Porto Alegre e do Estado do RS: principalmente serviços de saúde destinados
ao diagnóstico e à prestação de atenção aos pacientes; departamentos de planejamento da política
de saúde (como a Seção de Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis e da Aids do
Departamento de Ações em Saúde, da Secretaria Estadual de Saúde do RS); e comitês gestores
relacionados à Doenças Sexualmente Transmissíveis (como o Comitê Municipal de Investigação
de Transmissão Vertical de HIV e Sífilis, de Porto Alegre e o Comitê Estadual de Sífilis Congênita,
do Estado do RS). Desta forma, esta pesquisa pretende interagir tanto com pacientes acometidos
pela sífilis quanto com profissionais de saúde e da gestão em saúde envolvidos com essa doença.
O estudo de documentos, principalmente diretrizes terapêuticas, protocolos e diretrizes
clínicas, notas técnicas e regulamentações gerais do Ministério da Saúde e textos legislativos,
constituem também parte importante do campo delineado nesta pesquisa. Estes documentos
constituem atores fundamentais na organização de modelos de atenção à saúde, bem como
conformam caixas pretas (LATOUR, 2012) que cristalizam processos controversos anteriores
relativos aos temas tratados. É pertinente, também, considerá-los como fontes de informação
sobre as categorias conceituais mobilizadas no universo do sistema de saúde brasileiro,
passíveis de serem problematizadas a partir de experiências etnográficas em lócus de pesquisa
específicos.

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Este projeto também fará uso de entrevistas com atores situados no universo de pesquisa.
A entrevista deve ser considerada um instrumento de investigação importante para estudos do
campo da antropologia da ciência, da saúde e da doença, pois seus contextos etnográficos são
compostos por interlocutores que, muitas vezes, possuem acesso dificultado em termos de
trabalho de campo, uma vez que localizados em posições hegemônicas no universo de pesquisa
em questão.

5. CRONOGRAMA

2019 - Apresentação dos dados da pesquisa em eventos acadêmicos


- Desenvolvimento da pesquisa
- Qualificação
- Elaboração de artigos
- Submissão do projeto ao comitê de ética
2020 - Desenvolvimento da pesquisa
- Realização de intercâmbio, com vistas a acessar contextos etnográficos que
permitam perspectivas comparativas em relação ao universo de pesquisa estudado.
- Elaboração de artigos relacionados à tese
2021 - Redação da tese
- Apresentação dos dados e da discussão teórica da tese em eventos acadêmicos
2022 Defesa da tese

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFIAS

BIEHL, J. Antropologia no campo da saúde global. Revista Horizontes Antropológicos, ano


17, n.35, p.257-296, 2011.

BRASIL. Boletim Epidemiológico Sífilis. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de


Vigilância em Saúde, vol. 47, n. 35, 2016.

CARARRA, Sérgio. Tributo a vênus: a luta contra a sífilis no Brasil, da passagem do século
aos anos 40. Sérgio Carrara – Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 1996.

14
_________Moralidades, racionalidades e políticas sexuais no Brasil contemporâneo. Mana,
Rio de Janeiro , v. 21, n. 2, p. 323-345, Aug. 2015 .

Coopmans, Catelijne, et al., eds. Representation in scientific practice revisited. MIT Press,
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Assinatura

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Prof. Dra.,Fabíola Rohden – Orientadora.

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