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Palavras10

5.º Teste de avaliação – 10.º ano maio

Educação Literária

Grupo I (104 pontos)


A

Apresenta as tuas respostas de forma bem estruturada.

Lê as seguintes estâncias do Canto VII d’ Os Lusíadas. Consulta as notas apresentadas.

81
E ainda, Ninfas minhas, não bastava
Que tamanhas misérias me cercassem,
Senão que aqueles que eu cantando andava
Tal prémio de meus versos me tornassem1:
A troco dos descansos que esperava,
Das capelas2 de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tão duro estado me deitaram.

82
Vede, Ninfas, que engenhos de senhores3
O vosso Tejo cria valerosos,
Que assi sabem prezar, com tais favores,
A quem os faz, cantando, gloriosos!
Que exemplos a futuros escritores,
Pera espertar engenhos curiosos,
Pera porem as cousas em memória
Que merecerem ter eterna glória!

83
Pois logo, em tantos males, é forçado
Que só vosso favor me não faleça,
Principalmente aqui, que sou chegado
Onde feitos diversos engrandeça:
Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado
Que não o empregue em quem o não mereça,
Nem por lisonja louve algum subido,
Sob pena de não ser agradecido.
Luís de Camões, Os Lusíadas, Ministério da Educação, 1989, p. 319.

1
dessem.
2
coroas destinadas a glorificar os poetas.
3
grandes senhores de Portugal.

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1. Explicita os sentimentos expressos pelo sujeito nesta passagem e justifica recorrendo a elementos do
texto.
2. Identifica o destinatário do apelo do sujeito e enquadra-o no contexto literário de Camões épico.
3. Indica um recurso expressivo presente na estância 82 e explica a sua expressividade, tendo em conta
a intencionalidade do poeta.
4. Indica o tema desta reflexão do poeta, justificando.

Que me quereis, perpétuas saudades?


Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais
e, se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,


porque estes tão ligeiros que passais,
nem todos para um gosto são iguais,
nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado


que, quase é outra cousa; porque os dias
têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias


não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias.
Luís de Camões, Lírica Completa – II, Lisboa: IN-CM, 1994, p. 220.

5. Identifica o tema do poema, justificando com expressões selecionadas.


6. Refere, exemplificando, dois recursos expressivos que transmitam a expressividade da dor do
sujeito poético.

7. Escreve uma exposição (120 a 150 palavras) sobre o papel das reflexões do poeta presentes
n’ Os Lusíadas.
A tua exposição deve incluir:

 uma introdução ao tema;


 um desenvolvimento no qual explicites o papel das reflexões do poeta, fundamentando com,
pelo menos, dois exemplos significativos;
 uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

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Grupo II (56 pontos)


Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.
Escreve, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.

Leitura | Gramática
Incentivo ao incentivo à leitura

Os textos que escrevo aqui na VISÃO são frequentemente incluídos em livros da


disciplina de português do ensino secundário. É uma maneira excelente de pôr os alunos em
contacto com escrita requintada e raciocínios sofisticados (1). Talvez um dia este mesmo texto
venha a figurar num desses livros. Seria curioso: pela primeira vez, um texto incluído numa
5 seleta escolar refletiria acerca da circunstância de ser um texto incluído numa seleta escolar.
É uma espécie de mise en abyme (2) capaz de aborrecer alunos durante uns bons dez
minutos de aula, ou até de lhes azucrinar a paciência num teste.
De vez em quando recebo chamadas telefónicas de jovens, filhos de amigos meus, que
se encontram nesse momento a proceder à “análise e interpretação” de qualquer coisa escrita
10 por mim. Costumam estar bastante indignados. Dizem que, se eu quero ser corretamente
interpretado, deveria deixar-me de brincadeiras e escrever logo o que pretendo dizer, em vez de
me pôr com figuras de estilo. Que começar frases com a palavra “que” excita nos professores a
vontade de pedir uma análise sintática, e depois quem se lixa são eles. E que estão estafados de
estudar estas estúpidas aliterações, por exemplo (3).
15 Ora, a culpa não é minha. Como calculam, eu nunca imaginei ser um TPC. Lamento
profundamente que a vida se tenha desenrolado desta forma. É deplorável que milhares de
estudantes tenham de me conhecer assim, entre uma estrofe d’Os Lusíadas e um excerto do
Auto da Barca do Inferno – e que os seus professores os obriguem a dar-me a mesma atenção
que eles dedicaram a Camões e Gil Vicente. Foi isso que me levou a escrever esta crónica
20 cheia de anotações explicativas, para facilitar o trabalho dos alunos (4). Há um aspeto da minha
obra que tanto alunos como professores devem manter presente: na maior parte das vezes eu
escrevo estes textos em pijama. Todas as respostas de um teste ou trabalho de casa sobre mim
devem incluir essa referência: “Nesta frase – que, muito provavelmente, o autor escreveu em
pijama –, encontramos uma epanadiplose. (5)” E sempre que um professor perguntar, a
propósito de um texto meu, o que pretende realmente o autor, o aluno fica desde já credenciado
25
para responder: “O autor pretende que este aluno tenha 5 a português. É a sua única ambição
na vida.” (6) A sério.(7)
Ricardo Araújo Pereira, Visão,22.06.2017,
http://visao.sapo.pt/opiniao/ricardo-araujo-pereira/2017-06-22-Incentivo-ao-incentivo-a-leitura
(consultado em 24.08.2017)
(1) Atenção: isto é bem capaz de ser ironia.
(2) Eis uma interessante expressão em estrangeiro cujo significado está disponível na Wikipedia.
(3) Prometo parar prontamente com este tipo de proposição.
(4) Cá está mais uma anotação bastante explicativa.
(5) É difícil encontrar uma epanadiplose numa frase minha, porque eu não sei bem o que uma epanadiplose é.
(6) Não há aqui qualquer ironia.
(7) A sério.

1. O título do texto veicula


(A) a opinião dos professores.
(B) a ironia do autor.
(C) a opinião dos alunos.
(D) a humildade do autor.

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2. A passagem “azucrinar a paciência num teste” (l. 7) constitui


(A) um juízo de valor.
(B) um argumento.
(C) uma descrição.
(D) um comentário irónico.

3. O vocábulo “Ora” (l. 15) encerra um valor


(A) explicativo.
(B) conclusivo.
(C) temporal.
(D) adversativo.

4. O segmento “eu escrevo estes textos em pijama” (ll. 21-22) apresenta


(A) valor modal epistémico.
(B) valor modal de obrigação.
(C) valor modal de permissão.
(D) valor modal apreciativo.

5. A terceira frase do terceiro parágrafo apresenta marcas linguísticas próprias de


(A) discurso direto.
(B) paráfrase.
(C) discurso indireto.
(D) citação.

6. Indica a função sintática do pronome “que”


a) “Foi isso que me levou a escrever esta crónica (…)” (l. 19).
b) “(…) que tanto alunos como professores devem manter presente” (l. 21).
7. Divide e classifica as orações da seguinte frase: “Lamento profundamente que a vida se
tenha desenrolado desta forma” (ll.15-16).

Grupo III (40 pontos)


Escrita

Há muitas situações em que as pessoas reagem plenamente indiferentes em relação aos


semelhantes nas situações de fragilidade e incapacidade (autor anónimo).

Tendo em conta o comentário apresentado, num texto bem estruturado, com um mínimo de
200 e um máximo de 300 palavras, redige uma exposição sobre a indiferença nas relações humanas.
Recorre a exemplos que conheças.
Respeita as marcas específicas deste género textual, a nível da estrutura e das marcas
linguísticas.

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