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“Homo faber:

o animal que tem mãos”,


na visão de
Hannah Arendt
EDUARDO JARDIM
[Professor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio]
I
Na abordagem do tema deste seminário – Homo faber: o animal que
tem mãos –, vou tomar por referência a obra de Hannah Arendt,
A condição humana, de 1958.1 A filosofia de Hannah Arendt não foi
a primeira a se interrogar sobre a natureza do fazer, embora, no
século XX, sua contribuição tenha sido a mais importante. Na Anti­
guidade, Aristóteles, na Ética a Nicômaco, fez a primeira explana­
ção conceitual do fazer humano. No início do livro VI dessa obra,
ele formulou a distinção entre as várias disposições em virtude das
quais a alma atinge a verdade. Elas são cinco, organizadas em duas
classes. A primeira inclui as disposições que dizem respeito à rela­
ção da alma com as coisas invariáveis – aquelas que não podem ser
de forma diferente. São elas: a ciência (epistéme), a sabedoria filosó­
fica (sofia) e o conhecimento intuitivo (nous). Na segunda classe, são
mencionadas as virtudes relativas às atividades que se ocupam das
coisas variáveis – aquelas que podem, inclusive, não ser. São elas:
a sabedoria prática (frónesis), que deve governar as ações políticas,
que envolvem as relações dos homens entre si, e a arte (techne), que
determina a atividade produtiva, em sentido amplo.2

1. ARENDT, Hannah. A condição humana. 11a ed. Trad. R. Raposo, revista por A. Correia. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2010.
2. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. L. Vallandro e G. Bormheim. São Paulo: Nova Cul­
tural, 1991.

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mão de obra

É verdade que os filósofos antigos não tinham apreço espe­


cial pelas atividades produtivas, pois elas tomavam tempo e exigiam
um esforço que poderia ser dedicado à atitude muito mais nobre da
contemplação da verdade. Mesmo para o cidadão ateniense daquela
época, a atividade do artista não era tida em alta conta. A participa­
ção na vida política, em que os homens livres, do sexo masculino,
se sentiam felizes e realizados, era muito mais valorizada do que a
atividade artística ou produtiva.
Independentemente das avaliações do seu autor, a Ética a
Nicômaco, com sua proposta de distinção das esferas do fazer, o âm­
bito da produção, e da ação ou da vida prática, manteve-se a principal
referência para o tratamento do assunto, inclusive para a formulação
de teses centrais de Hannah Arendt em A condição humana. O ponto
mais importante da exposição de Aristóteles, sempre retomado pe­
los comentadores, tem a ver com o critério adotado para diferenciar
o fazer e o agir. Para o filósofo, que sempre esteve muito interessado
em investigar o “para quê” de todas as coisas, enquanto a finalidade
do fazer é o produto final obtido, a finalidade do agir está contida
na própria ação. Medimos o valor da atividade produtiva pelos seus
resultados, mas julgamos que a prudência do estadista ou a justeza
de uma deliberação moral valem por si mesmas.
No início da Era Moderna, no século XVII, a visão depre­
ciativa do fazer cedeu lugar à exaltação da figura do homo faber.
Os tempos modernos operaram uma radical inversão: deu-se a des­
valorização do modo de vida contemplativo, que havia sido presti­
giado desde a Antiguidade, e elevou-se à posição superior a ativi­
dade pro­dutiva com suas virtudes – a produtividade, a capacidade de
planejar, a habilidade técnica. Data dessa época a expressão de John
Locke, no Segundo Tratado do Governo Civil, que deve ter servido de
inspiração para o título deste seminário: “O trabalho de nosso cor­
po e a obra de nossas mãos”. A expressão acrescenta à distinção de

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Aristóteles entre o agir e o fazer, uma segunda, que divide o fazer em


duas atividades distintas: a obra (work) das nossas mãos e o trabalho (la-
bor) do nosso corpo. No início da Era Moderna, o fazer, entendido como
a obra de nossas mãos, foi a mais prestigiada de todas as atividades.3
O desafio de compreender o mundo atual, marcado pelo
avanço da técnica em escala planetária, está na origem das investiga­
ções de importantes filósofos contemporâneos. Na virada do século
XIX para o XX, Henri Bergson mostrou que a compreensão do real
adotada ao longo da história do pensamento ocidental obedeceu a
critérios espaciais definidos no contexto da fabricação. Como isso se
deu? A compreensão habitual das coisas fixa seu lugar em um âmbito
espacial. Isso ocorre porque nossa primeira aproximação das coisas é
da ordem do fazer, que é uma atividade que necessita, para se realizar,
de parâmetros espaciais bem demarcados. Essa atitude natural do
homem passou a ser considerada, em nossa tradição de pensamento,
o modelo para dar conta do conjunto da realidade. Segundo Bergson,
a prioridade atribuída ao fazer e ao espaço teria sido responsável pela
lamentável ausência de uma reflexão sobre os fenômenos temporais,
notada ao longo de toda a história da filosofia.4
Já a filosofia de Martin Heidegger é movida, em muitos as­
pectos, por um esforço de elucidação da natureza da técnica. Isso
está presente desde Ser e tempo (1927), livro no qual, de novo, é reco­
nhecida a anterioridade da perspectiva instrumental na lida com o
mundo. Ao longo de sua extensa obra, cada vez mais, Heidegger
dedicou-se ao exame do que considerou o último estágio da civiliza­
ção do Ocidente: a época da técnica, chamada por ele de cibernética.

3. Na passagem em que define o que é propriedade exclusiva dos homens, Locke afirma:
“O trabalho de seu corpo e a obra das suas mãos, pode dizer-se, são propriamente dele.” Segundo
Tratado sobre o Governo. Cap. V. Trad. E. J. Monteiro. São Paulo: Os Pensadores, 1973.
4. BERGSON, Henri. Cf. O pensamento e o movente. Introdução. Trad. F. L. Silva. São Paulo:
Os Pensadores, 1974.

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Ele observou que a técnica contemporânea não consiste apenas em


um setor específico da experiência, mas é o princípio que rege a
compreensão e a organização de toda a vida do homem atualmente.
O fato de a humanidade passar a seguir e a favorecer apenas o que
se desvela na técnica, e a tirar dela todos os seus parâmetros e suas
medidas, constitui o verdadeiro perigo presente no mundo de hoje.5
Heidegger não é um inimigo da técnica. Sua filosofia não expressa
um repúdio do mundo atual, mas, antes, empenha-se em uma tarefa
de elucidação. Ele também considera a possibilidade de o homem
alterar sua relação com as coisas técnicas. Ao invés de subordinar-
se aos critérios técnicos, Heidegger indaga sobre a possibilidade de
manter com a técnica uma relação de serenidade (Gelassenheit).6

II
O livro de Hannah Arendt, A condição humana, reúne as duas prin­
cipais direções de investigação da filosofia contemporânea sobre o
fazer. De um lado, essa atividade é tema de uma fenomenologia da
vida ativa do homem, que abrange, ainda, outras duas: o trabalho
(labor) e a ação (action). De outro, essa fenomenologia constitui a
referência para uma pesquisa de caráter histórico, na qual são exa­
minadas as alterações nas atividades humanas e a posição delas en­
tre si, ao longo da Era Moderna até o presente.
O livro começa com um prólogo que apresenta sua motiva­
ção. A condição humana exprime a perplexidade diante das impor­
tantes mudanças na vida ativa do homem no século XX. Elas são si­
nalizadas pela corrida espacial, que traduz o desapego do homem da
sua morada terrena, pelo desenvolvimento da engenharia genética,

5. HEIDEGGER, M. A questão da técnica. Ensaios e conferências. Trad. E. Carneiro Leão, M.


Schuback, G. Fogel, Petrópolis: Vozes, 2002.
6. HEIDEGGER, M. Serenidade. Trad. Maria M. Andrade e O. Santos, Lisboa: Instituto Piaget.

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que promete dotar de artificialidade a vida humana, e pela automa­


ção, que anuncia a abolição do trabalho. Todos esses eventos exigem
que se formule urgentemente a questão: “o que estamos fazendo?”
Acontece, porém, que o acelerado desenvolvimento do know-how, da
nossa capacidade técnica, não foi acompanhado de uma expansão
dos nossos recursos linguísticos. Somos capazes de realizar tarefas
extremamente complexas com nossas máquinas e computadores
sobre as quais, entretanto, não sabemos falar. Disso deriva uma
situação muito problemática. Toda atividade compreensiva depende
da capacidade discursiva. Com o notável empobrecimento do poder
humano de discorrer sobre o que se faz, certamente deverá ocor­
rer uma restrição da capacidade de compreensão da realidade. Além
disso, uma vez que a vida política depende do debate de opiniões
diferentes, que é efetivado naturalmente de forma discursiva, ao
submeter-se a capacidade de falar a critérios técnicos, bloqueia-se o
acesso à experiência política. Isso já acontece atualmente em todas
as ocasiões em que nossa avaliação dos agentes políticos recorre a
padrões de competência técnica.
O espanto diante do que estamos fazendo e a percep­
ção da diminuição acelerada da capacidade de falar e, portanto, de
compreender e de julgar, motivaram Hannah Arendt a elaborar
A condição humana.

A fenomenologia da vida ativa prepara a investigação sobre


a história moderna. Esta, por sua vez, fornece a base para a elucida­
ção da situa­ção contemporânea.
Foram três as atividades descritas por Hannah Arendt na feno­
menologia da vida ativa: o trabalho (labor), a obra (work) e a ação (action).
O primeiro passo da descrição dessas atividades indica a
qual condição específica da experiência humana cada uma delas está
associada.

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A vida é a condição específica da atividade do trabalho.


O mundo é a condição específica da obra ou do fazer. A pluralidade
é a condição específica da ação.
A distinção entre o trabalho e a obra não é comumente con­
siderada. No entanto, para Hannah Arendt, trata-se de atividades
muito diferentes. Este ponto de vista será decisivo para a reconstitui­
ção da história da Era Moderna, marcada por uma deterioração do
fazer e pela expansão da atividade do trabalho.

O trabalho (labor) é a atividade responsável pela reprodução


da vida humana em seu aspecto biológico. Como animal laborans,
o homem chega a se confundir com os outros animais. A atividade
reprodutiva e a confecção de alimentos e de bens que são consu­
midos imediatamente e que servem para nos manter vivos fazem
parte da esfera do trabalho. Nada de durável resulta dessa atividade.
O trabalho não assegura a permanência do mundo. O resultado
da atividade do trabalho são os bens de consumo. O trabalho é re­
petitivo e interminável. Em geral, ele é exercido em grupo, e os
homens, quando envolvidos nessa atividade, não se destacam en­
tre si. Cada um de nós é membro da espécie humana. O trabalho
era realizado tradicionalmente no âmbito do lar – para os gregos,
óikos –, protegido da luz da vida pública. A palavra economia de­
riva dessa expressão grega. Ela designava a ciência dos assuntos
domésticos. A assunção da economia a uma posição de destaque na
modernidade e o fato de ela ter adquirido relevância pública indi­
cam uma alteração profunda da posição do trabalho entre as ativi­
dades da vida ativa, nos últimos séculos. Vivemos atualmente em
uma sociedade de consumo, na qual todos os bens são consumidos
e repostos de forma muito rápida. Em certo sentido, hoje, somos
todos trabalhadores. Hannah Arendt comentou, com ironia, que
mesmo reis e presidentes consideram, atualmente, seu ofício como

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um ganha-pão. Podemos acrescentar que também os filósofos e os


artistas fazem a mesma coisa.

Enquanto o trabalho lida com bens perecíveis, o fazer pro­


duz objetos que formam um mundo dotado de permanência e de es­
tabilidade. Assim, o homem expressa sua condição de habitante do
mundo, ao construir seus artefatos. Mundo é o conjunto das coisas
artificiais produzidas pelo homem. Quais as principais caracterís­
ticas do fazer? No fazer tudo existe para o bem da obra. Todas as
etapas do processo produtivo conduzem a um resultado. O critério
da instrumentalidade rege todo esse processo. A atividade produtiva
é bem delimitada – ela começa com a intervenção do agente produ­
tor, com seus instrumentos, em uma matéria dada, e prossegue, de
forma contínua, até atingir sua meta – a realização do produto. Todo
fazer é projetivo, volta-se para o futuro, onde se situa a meta a ser
atingida. A atividade produtiva é previsível e, por esse motivo, sem­
pre pode ser planejada. O mundo da fabricação é dotado de grande
confiabilidade. Ele é estável, sólido, duradouro. A obra de arte, da
qual até mesmo cuidamos para que seja preservada do desgaste, é o
produto da fabricação por excelência. Todas essas qualidades fizeram
com que a coisa fabricada fosse, muitas vezes, considerada o modelo
para se pensar o conjunto da realidade. Até mesmo nossa noção de
um deus criador depende dela. Também a ideia de que a história
se desenvolve em etapas até chegar à sua plena realização, como
na visão de Hegel e de Marx, tem origem no modelo da fabricação.
Sob o aspecto quantitativo, o fazer pode ser realizado solitariamente,
pois o que conta é a relação do produtor com sua obra. Lembremos
os ateliês dos artistas antigos, que tinham na porta o aviso: “Não
perturbe!” O fazer pressupõe a existência do material, de instrumen­
tos, do agente fabricador e de um plano definido. Desse modo, o
fazer não inicia processos, mas intervém e transforma aqueles que

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já foram começados. Todo processo produtivo pode ser revertido.


O que se constrói pode ser desfeito. Uma cadeira pode ser queima­
da. Um quadro, destruído.

A distinção entre a ação e a fabricação tem um papel central na


argumentação de A condição humana. As primeiras notas de preparação
do livro, do início dos anos 50, já se ocupam dela.7 Essa importância se
deve a que a elaboração de uma teoria política, um dos propósitos da
obra de Hannah Arendt, depende de uma definição muito precisa do
que é a ação, a matéria da vida política, a qual foi frequentemente con­
fundida com a fabricação. Por esse motivo, a definição do que é ação é
alcançada quando se sublinha seu contraste com a esfera da fabricação.
Viu-se que a cadeia produtiva é organizada para se chegar a
um fim determinado: seu produto. Já o significado da ação está con­
tido na própria atividade. Não existe, na ação, algo como um produto
distinto dela, que seja seu resultado. Não há nenhum “quê” envolvi­
do na ação. Ela é a atividade na qual um “quem” se manifesta – a
personalidade de alguém. Ao se tomar por referência o conjunto das
artes, é possível afirmar que a pintura, a escultura e a arquitetura
são produtivas. Já o teatro e a dança, por serem artes performáticas,
aproximam-se da ação. O produto do fazer é tangível. Ele sobrevive
ao processo do qual é o resultado. Diferentemente dos produtos do
fazer, os gestos e as palavras dos agentes da ação são visíveis, mas
não são palpáveis. Sua visibilidade depende da presença de uma
pluralidade de agentes, capazes de reconhecer seu significado. Por
esse motivo, a ação, em contraste com o fazer, que fica protegido da
publi­cidade e é solitário, depende da existência da esfera pública, que
é sempre constituída por uma pluralidade de agentes. Pelo fato de

7. Estas notas constam do Diário de pensamento da autora, já publicado, em dois volumes, em


várias línguas.

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apenas a ação ter o poder de iniciar processos, ela possui um caráter


milagroso, no sentido de que faz surgir algo imprevisto e totalmente
novo. A imprevisibilidade da ação significa que ela nunca é passível de
controle. Em contraste com o fazer, a ação nunca é planejada. Assim,
ela não é orientada por uma visão do futuro, como acontece no fazer.
A ação se dá no registro temporal do presente. O único recurso para
lidar com a natureza imprevisível da ação é a promessa, a capacidade
de fazer pactos. O único recurso para lidar com o caráter irreversível
da ação é o poder de perdoar. O perdão libera do fardo do passado
tanto quem perdoa quanto quem é perdoado. Ele é o contrário da vin­
gança e do ressentimento, que aprisionam a uma situação anterior.

III
Abordarei agora os temas de natureza histórica tratados em A con­
dição humana. Eles têm a ver com o retrato da Era Moderna e a dis­
cussão das mudanças ocorridas no âmbito da vida ativa nos últimos
quatro séculos.
Na virada do século XVI para o XVII, três eventos marcaram
o início da Era Moderna: a descoberta dos novos continentes, a Refor­
ma e a invenção do telescópio por Galileu. Os três, de algum modo,
trazem a marca do processo de alienação do mundo, característico
da Era Moderna. O mais dramático desses eventos deve ter sido a
cisão do cristianismo provocada pela Reforma. O mais espantoso foi
a descoberta dos novos continentes, que está na origem da ocupação
pelo homem de toda a Terra, e, em última instância, da corrida espa­
cial que Hannah Arendt presenciava em sua época.
Porém, o evento mais significativo, que alterou a história do
Ocidente e determinou o ingresso definitivo na Era Moderna, foi a
invenção do telescópio por Galileu. A criação desse instrumento por
mãos humanas foi responsável por uma alteração radical na compre­
ensão da realidade do homem ocidental. A investigação de Galileu,

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possibilitada pela invenção do novo instrumento, não é apenas um


capítulo decisivo da história das ciências. O resultado da invenção de
Galileu envolveu bem mais do que isso, pois determinou o curso da
história nos séculos seguintes.
Vou indicar o significado da profunda ruptura causada por
esse evento. A visão de realidade adotada no Ocidente, desde a antiga
Grécia, se baseava na crença de que a verdade se revelava, de forma
imediata, para o entendimento humano. Essa crença dependia, em
última instância, da certeza de que nossos sentidos são confiáveis
para apreender, sem qualquer mediação, a realidade. A confiança na
capacidade receptiva dos sentidos sustentou, até mesmo, as formu­
lações teóricas que, de modo algum, estavam comprometidas com
uma orientação sensualista ou empirista. Pode-se tomar a filosofia
de Platão para explicar essa tese. Todo mundo deve ter lido, algum
dia, a alegoria da caverna, que inicia o livro VII de A República. O que
relata essa famosa passagem? Ela narra o percurso de um persona­
gem, desde sua prisão no fundo da caverna, condenado a só ver as
sombras projetadas na parede à sua frente, até sua libertação e eleva­
ção a um plano superior, fora da caverna, quando ele pode ver as coi­
sas à luz do dia e, finalmente, contemplar o próprio Sol. Para Platão,
o primeiro estágio da alegoria, aquele em que o prisioneiro só sabe
das sombras à sua frente, corresponde à forma de conhecimento
mais rudimentar, imperfeito e ilusório: o conhecimento pelos senti­
dos. Platão ensina que esta etapa precisa ser superada através de um
árduo esforço que permite, finalmente, atingir o patamar superior
da pura intuição da ideia do Bem, representado na figura do Sol.
Para Platão, como se sabe, a verdadeira realidade é puramente ideal,
é o mundo das ideias. Porém, chama atenção, no relato do filósofo,
o fato de ele descrever essa apreensão puríssima da verdade com ter­
mos cujo significado é extraído da experiência da percepção visual.
Platão foi o primeiro pensador a tomar a visão, o mais apurado dos

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sentidos, para descrever o acesso à verdade. Ele foi seguido por toda
a tradição ocidental até a modernidade, que viu na contemplação a
forma apropriada de captar o ser. Para essa tradição, para ver a ver­
dadeira realidade, é preciso fechar os olhos do corpo e abrir os olhos
do espírito. Ainda que, até a modernidade, os filósofos não fossem,
em geral, sensualistas ou empiristas, eles acreditavam que o modelo
para definir o conhecimento verdadeiro era ainda a visão, com seu
poder de acolher, de forma imediata, a realidade.
Tudo isso mudou no início do século XVII. A invenção do
telescópio veio provar que nossos sentidos não são confiáveis. Um
instrumento criado pelas mãos do homem mostrou que a realidade
se esconde da percepção imediata. Os sentidos são sempre engano­
sos. Apenas ao intervir ativamente no real, é possível revelar seu
verdadeiro aspecto. A partir do momento em que se desconfiou da
capacidade receptiva dos sentidos, também foi atingida a capacidade
do homem de acolher a verdade em sentido amplo. Nesse momen­
to, a atitude contemplativa, considerada até então a mais apta para
apreender o real, foi desvalorizada.
A primeira expressão filosófica dessa nova situação, a
metafísica de Descartes, não foi motivada pelo júbilo, mas por uma
profunda desconfiança. A primeira obra filosófica moderna, as Medi­
tações metafísicas, começa com o reconhecimento da força aniqui­
ladora da dúvida. A dúvida cartesiana é muito abrangente. Ela diz
respeito não apenas aos dados dos sentidos, mas questiona a capaci­
dade humana de acolhimento da verdade em sentido amplo. Ao final
da Primeira meditação, o filósofo está tão cheio de dúvidas que se vê
caído em águas muito profundas, sem poder nem manter os pés no
fundo nem nadar para se manter à tona.8 A Segunda meditação é um

8. DESCARTES. Meditações. Trad. J. Guinsburg e B. Prado Jr. São Paulo: Os Pensadores, p. 99.

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esforço de superação desse radical ceticismo. É conhecido seu pro­


cedimento: na ausência de um amparo no mundo, o espírito reco­
lhe-se em si mesmo e se envolve exclusivamente com o conteúdo do
pensamento. Duvidar é pensar. Uma primeira certeza pode, então,
ser estabelecida relativa à existência do sujeito pensante. Muito se
comentou a respeito do caráter problemático da solução cartesiana.
Como escapar da posição solipsista da Segunda meditação? Nietzsche
se referiu à orientação filosófica inaugurada por Descartes como a
escola da suspeita. Hannah Arendt, por sua vez, lembrou, mais de
uma vez, a declaração do físico Werner Heisenberg de que, na ima­
gem da natureza construída pelas novas ciências naturais, o homem
se defrontou apenas consigo mesmo. Para Hannah Arendt, a aliena­
ção constitui a principal característica da mentalidade moderna.
Sua mais dramática manifestação consiste na fuga do homem do
mundo para dentro de si mesmo.
O passo seguinte desse percurso histórico considerará o as­
sunto específico deste seminário – o fazer. A Era Moderna foi inau­
gurada com a desconfiança na capacidade receptiva da verdade. Tudo
que é imediatamente dado é alvo de suspeita. Mas, se não podemos
acolher a verdade, não seremos, então, capazes de construí-la?
A resposta afirmativa a esta questão definiu o rumo da civi­
lização ocidental nos séculos seguintes. A atitude contemplativa foi
desacreditada e foram alçadas a uma posição superior as formas
ativas de relação com o real, em especial, a atividade produtiva.
A figura do homo faber foi realçada em detrimento de todas as ou­
tras imagens do homem. Diversos foram os desdobramentos dessa
virada: o desenvolvimento das modernas ciências experimentais,
que podem ser chamadas de instrumentais, já que dependem do
avanço da tecno­logia dos instrumentos, o aparecimento das filoso­
fias modernas, como a de Kant, que definem como seu ponto de
partida a atividade do sujeito, das modernas concepções da história,

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que supõem a existência de uma finalidade histórica e, finalmente, o


enorme crescimento econômico, em proporção nunca vista, provo­
cado pela revolução industrial.
Todas essas manifestações sustentam-se no reconhecimen­
to do primado de uma determinada noção de processo. Na primeira
etapa da Era Moderna, processo significava um percurso progres­
sivo, feito por etapas, que se desdobra até atingir um fim, um resul­
tado. Como se vê, a noção de processo vigente na primeira etapa da
modernidade foi definida no contexto da atividade produtiva.
A história da Era Moderna, tal como narrou Hannah Arendt,
descreve a erosão gradativa do processo produtivo ao longo dos
últimos séculos. Isso estava anunciado desde o início da moderni­
dade, no século XVII. Nenhuma atividade depende mais do reco­
nhecimento de um padrão estável de orientação do que a fabricação.
O próprio artesão precisa fixar mentalmente o modelo do artefato
que vai construir para poder dar início à feitura da sua obra. Ora, se,
já na aurora da Era Moderna, o acesso a esses padrões foi bloqueado,
o processo produtivo perdeu a estabilidade. Do ponto de vista da
organização das atividades que compõem a vida ativa, essa trans­
formação significou a substituição da fabricação, na posição mais
elevada entre todas as experiências, pelo mero trabalho, com seu
caráter automático.
Já observei que uma determinada noção de processo está
associada à atividade produtiva. Neste caso, processo diz respeito à
realização, por etapas, de uma determinada tarefa, planejada para
alcançar uma meta futura. Ao longo da Era Moderna, com a corrosão
e o desaparecimento dessa meta, o processo passou a significar o
simples movimento, que se desdobra, automaticamente, de forma
indefinida. Processo corresponde, em uma segunda etapa da moder­
nidade, ao automatismo da vida, a qual não tem propriamente um
objetivo, mas se repete incessantemente.

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mão de obra

Em seus livros, Hannah Arendt explorou diversos aspectos


dessa alteração na organização da vida ativa. Um deles foi o apare­
cimento da sociedade, que consiste em uma forma de organização
social inexistente antes da modernidade. O que é uma sociedade?
As sociedades surgiram com a expansão da esfera do trabalho, no
momento em que a satisfação das necessidades vitais impôs-se
como princípio norteador para a organização de toda a vida ativa dos
homens. A hiperinflação do mundo do trabalho alcançou seu ponto
culminante nas sociedades de consumo, nas quais todos os bens tor­
nam-se objetos de consumo imediato e são destituídos de qualquer
estabilidade. O consumismo é a atitude que corresponde ao último
estágio da dissolução da atividade do fazer no mero trabalho.
Os teóricos das ciências da vida e os filósofos vitalistas, no
final do século XIX, apresentaram a formulação teórica da nova
noção de processo vital. O assunto da biologia surgida com as teorias
da evolução é a vida das espécies – um processo contínuo e inter­
minável. As novas ciências da vida ocuparam o lugar que tinha sido
das ciências mecânicas, no início da Era Moderna. A biologia veio
substituir as várias engenharias.
A visão de Hannah Arendt do mundo contemporâneo subli­
nha a substituição dos critérios estáveis do fazer pelo automatismo
do processo vital. Os capítulos finais de A condição humana tratam
da derrota do homo faber, do destaque, na atualidade, da figura
do animal laborans e da afirmação da vida como o bem supremo.
Ao menos em parte, essa visão aproxima-se da avaliação do mundo
da técnica proposta por Heidegger. Para o filósofo, a técnica contem­
porânea não é mais produtiva, mas ocupa-se, na verdade, de assegu­
rar que não haja entraves para o bom funcionamento de um sistema
que se reproduz automaticamente.
Outro autor que contribuiu para esclarecer a natureza do
cenário contemporâneo foi o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz.

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Já afirmei que todo processo produtivo aponta para o futuro, quando


um determinado resultado é alcançado. Em seus últimos escritos,
Octavio Paz indicou que o mundo contemporâneo é marcado pelo
ocaso do futuro. A humanidade ocidental já não se mobiliza para a
realização de qualquer projeto. Isso significa que já não organiza­
mos nossas atividades de acordo com os critérios definidos no âm­
bito do fazer. Nossas sociedades não são mais industriais, mas pós-
-industriais. Vivemos em um ambiente pós-histórico, cuja natureza
ainda é, em grande parte, desconhecida.9

IV
Gostaria de apresentar duas observações como conclusão. A primei­
ra diz respeito a um dos aspectos destacados por Hannah Arendt no
seu retrato do mundo contemporâneo. Em A condição humana, ela
mostrou que a história moderna teve início, no século XVII, com a
inversão das posições da contemplação e da ação: a vita contemplativa
foi desprestigiada e a vita activa passou a ser valorizada. Na primeira
etapa da Era Moderna, o fazer ocupou uma posição de destaque entre
as demais atividades – o trabalho e a ação. Ao longo da história mo­
derna, o fazer cedeu lugar ao trabalho como a principal atividade do
homem. Essa alteração condicionou o modo de ser do cenário con­
temporâneo – o Mundo Moderno, nos termos de Hannah Arendt.
Porém, a filósofa chamou atenção para uma nova mudança no con­
texto contemporâneo. O advento da automação nas sociedades in­
dustriais avançadas anuncia o fim do trabalho. Pela primeira vez na
história, a humanidade vislumbra a possibilidade de se liberar do
seu fardo mais antigo e mais natural, o do trabalho e da sujeição à
necessidade. A reação de Hannah Arendt diante desse quadro é de
perplexidade. Ela observa que, hoje, formamos uma sociedade de

9. PAZ, Octavio. La quête du présent. Paris: Gallimard, 1991.

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trabalhadores. Estamos desprovidos das crenças tradicionais, e nosso


único valor e critério é o próprio trabalho. “O que se nos depara,
portanto, é a perspectiva de uma sociedade de trabalhadores sem
trabalho, isto é, sem a única atividade que lhes resta. Certamente
nada poderia ser pior.”10
A segunda observação é motivada pela constatação da crise
da atividade produtiva, que condiciona a mudança radical de rumos
na história moderna. Muitas vezes perguntei se, nesse cenário de
uma nova era, o fazer teria se concentrado na arte, que figuraria
como seu último refúgio. Essa indagação serviu de justificativa, em
última instância, para a esperança expressa nos últimos escritos de
Heidegger sobre a técnica contemporânea, os quais sempre termi­
nam com uma menção à arte. Ela também esteve na base do pen­
samento do escritor modernista Mário de Andrade, que pregou o re­
torno da arte ao artesanato, como um remédio para os descaminhos
do formalismo e do individualismo da arte moderna.11 No entanto,
ao observar o panorama da arte contemporânea desde o período
das vanguardas no início do século XX, quando se destaca a obra
de Marcel Duchamp, hesito em tomar esse caminho. A razão da
minha hesitação é de que a arte, na atualidade, parece manter uma
relação com o fazer muito diferente da que existia em outras épocas.
O próprio caráter de obra tornou-se problemático na arte contem­
porânea. Pode-se até perguntar se faz sentido chamar de obras tan­
tas manifestações cuja realização já não depende do esforço das nos­
sas mãos. De qualquer forma, impõe-se ainda a exigência de uma
reflexão crítica sobre o panorama atual. Esta não passará pelo apelo
a um resgate do passado para sempre perdido. Qual sentido haveria
em recorrer à habilidade manual como critério da arte no mundo da

10. A condição humana. Prólogo, p. 5.


11. ANDRADE, Mário de. O artista e o artesão. O baile das quatro artes. São Paulo: Livraria Martins.

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“ Homo faber : o animal que tem mãos”, na visão de Hannah Arendt

cibernética avançada e dos novíssimos meios de comunicação? Uma


reconsideração do significado do fazer precisaria ser feita. Essa seria
uma tarefa que se apresenta em um seminário que trata do homo
faber, o animal que tem mãos.

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