Você está na página 1de 82

ATA UPrrcy, SRUNTELE o> ME

ie

Todosos direitos e responsabilidades da autora.

Diagramacao/Capa
MagnoNicolau SUMARIO

Prefacio, 9 |

1. Pressupostos de umaTeoria Gera


l do Estado
6 a, Flavianne Fernanda Bitencourt.
1.1. Teoria Geral do Estado como disci
= nes e engrenagens de uma Teoria Geral do plina autonoma,13
1.2. Nomenclatura, 15
Estado / Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega.
*

~ Joao Pessoa: Ideia, 2013. | 1.3. Origem, 22


a

169p. i 1.4. Objeto de estudo, 23


1.5. Ciéncia Normativa x Ciéncia
Descritiva, 26
1. Direito ~ Estado - Teoria Geral 1.6. Diferenciacdo de outros ramo
s do conhecimento, 28
CDU:34

CLEIN oa CG ;; 2. Conceito de Estado

2.1. Polissemia, 31
Goan 5. 2.2. Variedade conceitual, 34
2.3. Evolucdo na hist6ria, 36
www. ideiaeditora.com.br
2.3.1. Estado Antigo, 38
“Impressono Brasil - Feito o Depésito Legal 2.3.2. Estado Grego, 40
2.3.3, Estado Romano, 43
4B/eq[le 2.3.4, Estado Medieval, 45
2.3.5. Estado Moderno, 47

- Origem do Estado

3.1. Origem do Estado, 53


3.1.1. Teorias sobre o surgimento do Estad
o, 56
3.1.2. Teorias Jusnaturalistas, 58
T
p
5.4. A relacdo entre as instituicdes formais e informais
3.1.3. Teorias Contratualistas, 59 na formacao do desenhoestatal, 99
do em Maquia-
3.2. Justificacao politico-filosofica do Esta 5.5. O pressuposto da cultura na definicao
esquieu, Kant,
vel, Hobbes, Locke, Rousseau, Mont das instituicdes, 104
Hegel e Kelsen, 61 5.6. Capital Social e Cooperacao, 108
3.2.1. Maquiavel, 61 5.7. Finalidade e Escopo dasatividadesestatais, 111
3.2.2. Hobbes, 64 5.8. Estadosfortes e Estados fracos, 113
NN
3.2.3 Locke, 66
3.2.4. Rousseau, 67
3.2.5. Montesquieu, 69 6. Controle do Estado
3.2.6. Kant, 70
3.2.7. Hegel, 72 6.1. Limitacado do Poder, 119
3.2.8. Kelsen, 73 6.1.1. Estado de Direito, 120
6.1.2. Separacao de Poderes e Pesos e Contrapesos, 123
6.1.3. Constitucionalismo, 127
4. Elementos essenciais do Estado 6.1.3.1. Supremacia da Constituicao, 130
6.1.3.2. Direitos e liberdades individuais, 131
elementos 6.1.3.2.1. Igualdade, 132
A.1. Teoria juridica classica acerca dos
constitutivos do Estado, 75
4.2/4.3. Povo e Nacao, 77
4.4, Territério, 79 7. Estado e Democracia
4.5. Soberania, 82
e externa, 82
4.5.1. Dimensdes da Soberania: interna 7.1. Estado de Direito e Democracia Politica, 135
, 85
4.6/4.7. Poder coercitivo e Monopélio da forga 7,2, Acountabilidadeeleitoral e acountabilidade
4.8. Personalidade Juridica, 87 intra-estatal, 138
7.3. Pontos de veto e governabilidade, 141
7.4. Diferenciacdo dos regimespoliticos, 145
5. Estado e Instituicdes 7.4.1.Democracia, 145
7.4.2.Autoritarismo, 145
9
5.1. Individuo, Instituicgdes e Estado,8 7.4.3, Semidemocracia, 145
lismo, 92
5.2. Paradigma do novo instituciona
5.3. Regras do jogo, informalidade,valores,
dinamica e interagado, 96
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado |9
8. Estado e Governo
8.1. Formas de governo, 151 Prefacio
8.1.1 Monarquia, 153
8.1.2 Republica, 154
8.2. Sistemas de governo decorrentes darelacao
ae . a .
Executivo e Legislativo, 154 ss. Descrever a jurisdicéo epistemoldgica de Teoria Geral
8.2.1, Parlamentarismo, 155
Presidenciali 157 ~~_doEstado (TGE) naoé tarefa pacifica. Ao figurar como uma
8.2.2. Presidencialism0, sintese entre Direito, Historia e Filosofia, TGE enfrenta sérias
‘ 8.2.3, Formacao historica e caracteristicas dificuldades em declarar sua autonomia em face de outras
Distintivas, 158 disciplinas, tal como Direito Constitucional, Filosofia do Di-
8.3. Formas de organizacao dos Estados, 159 reito, Ciéncia Politica e Histéria do Direito.
8.3.1. Estados Unitarios, 159 Nao é por outra razdo que a formalizacao cientifica da
8.3.2. Estados Federados, 160 Teoria Geral do Estado, no Brasil, enquanto disciplina aut6-
noma, é caracterizada, j4 em seu inicio, por uma crise de
Z
identidade. Assim como ocorrera com a sua coirma alema -
Referéncias, 163 Staatswissenschaft - e americana - Public Law -, a Teoria
Geral do Estado, ou TGE,se vera dividida entre as miultiplas
perspectivas de estudo e anflise do Estado.
Seria TGE uma ciéncia descritiva ou normativa acerca
do Estado? Trata-se, em realidade, de uma disciplina que
promove uma estranha combinacao entre o normativo e o
descritivo, situacdo que rendera a Teoria Geral do Estado o
titulo de disciplina desintese.
O manuseio de diferentes ferramentas analiticas, po-
rém, nao é algo simples de se promover. E assim veremos o
surgimento de miltiplas correntes dentro da propria TGE,as
quais ora enfatizaraio abordagens mais legalistas e formais,
recorrendo-se de teorias normativas ou construcoes filoséfi-
cas para explicar/defender conceitos e instituicdes estatais,
ora lancarao mao de métodos mais descritivos e empirica-
mente motivados para analisar e explicar 0 seu objeto de
estudo.
ee
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 11
10 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega
Pedagogicamente, o conteddo desta obra foi colocado a
Os textos e manuais de referéncia que subsidiam a dis-
ciplina encampam umaou outra abordagem, sendo raro en- prova e testado perante diversas turmas de alunos da Ame-
contrar as duas tendéncias epistemolégicas reunidas.
rican College of Brazilian Studies, faculdade estadunidense
Este é o desafio a que se propée “Pecas e Engrenagens de Direito brasileiro, na qual tive a oportunidade de compar-
tilhar com a autora a responsabilidade de ministrar a disci-
de uma Teoria Geral do Estado”, escrito por Flavianne Fer-
plina de TGEentre 2008 e 2010.
nanda Bitencourt Nébrega, e que se reporta 4 paradigmatica
O leitor certamente teré, em “Pecas e Engrenagens de
obra de Elster, Nuts and Bolts for the Social Sciences. Flavianne,
uma Teoria Geral do Estado”, uma viséo ampla sobre as
inspirada por Elster, evita restringir a explicacao e 0 estudo
miltiplas leituras e estratégias para entender o Estado, seja a
do Estado a uma tnica ferramenta analitica ou tendéncia
partir de perspectivas eminentemente te6ricas e conceituais,
epistemolégica. Seu propdsito é apresentar uma caixa de
seja por meio de construcées tedricas que foram testadas
ferramentas ampla de mecanismos que possam explicar um
fendmenosocial tao complexo como o Estado.
empiricamente em estudos comparados.
Cada capitulo desta obra retrata a natureza sintética e
ampla da disciplina. O capitulo I] promove uma importante
Sdo Paulo, 13 de marco de 2013
andlise hist6rico-descritiva da evolucao (?) do fenémeno do
Estado, seguidapelo capitulo III que explora a fundamenta-
Pedro Buck
cdo politico-filosdfica do conceito Estado; enquanto os capi- Professor
tulos IV, VI e VIII sao caracterizados por sua abordagem
preponderantemente legalista e teérico-normativa. A forma-
cao em Ciéncia Politica de Flavianne, por sua vez, se faz no-
tar no capitulo referente a Estadoe Instituigoes - Capitulo V
- e em Estado e Democracia - Capitulo VII, influenciados
pela corrente neoinstitucionalista e por andlises comparadas,
pautadas em teorias de médio alcance.
“Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado”
é, assim, umafeliz tentativa de lidar com o carater multiface-
tado da disciplina de TGE, resolvendo a suacrise de identi-
dade. A autonomia de TGE diante de outras disciplinas nao
se vé ameacada em razdo de sua natura multidisciplinar,
mas sim em decorréncia das dificuldades presentes no ma-
nuseio eficiente e adequado das suas miltiplas ferramentas
analiticas.
A formacao multidisciplinar de Flavianne Fernanda Bi-
tencourt Nobregaa habilita claramenteao desafio.
Pecas e Engrenagens de
uma Teoria Geral do Est
ado | 13
| on peo Sbivada> asluuds bat aor,
ips ee par yo"
| “ Amiensdade pe
ole
&
0. ga
ype e”ng al
Unidade 1 ~ unmade uel
qroliitu us
Pressupostos de uma Teoria |
ie Geral do Estado gant? 3
ToLerok pute ro
fo
ay
1.1. Teoria Geral do Estado como
disciplina)
auténoma
3
|
Quando sefala em Teoria Geral do Est
defronte de uma terminolo gia
ado nao se esta
, cujo entendimento e compre
ensao sejam pacificos por parte -
da doutrina. Existe notével
discussao acerca de qual deveri
a ser o termo adequado para
designar 0 ramo do conhecime
nto que se destina a est uda r
investigar o Estado em todos e
seus aspectos e complexidade
O debate em torno do nome ade .
quado nao se apresenta in-
frutifero, uma vez que ele mui
tas vezes é indicativo do pro
grama de pesquisa e da corren -
te filos6fica a que determina-
do doutrinador adere, Ademai
s, a apresentacao do termo
Teo
W riaeGerral doaEstl
ado esta relacionada com a sua
¢ao histérica como disciplina aut proposi-
6noma, cuja datacdo é rela-
tivamente recente, em torno de
1900, a partir dos trabalhos
do autor alemdo George Jell
inek.
Apesar de ser nova como discip
lina aut6noma, estudos
© preocupacoes em torno do Est
ado remontam a antiguidade
8reco-romana. Para citar, a filo
sofia e a historia fornecem
como exemplo as obras de Platao “A Republica”, de Ari
teles “A Politica” e de Cicero “De sto-
Republica” e “De Legi-
bus”. Nao obstante a riquez
a desses escritos,
a especializacao
da Teoria do Estado em seu obj
eto e método sé vem moder-
namente. Maquiavel no séc. XVI 6 qu
em aprese
nta pela
primeira vez naliteraturaocidental aexpressao Est
adoem
P ecase Eng ren agen Ss d e u ma e Oria Geral do
! a E stado {1 5
rt Nobrega
rnanda Bitencou
14 | Flavianne Fe
determin. i
te so com 0 Estado nadoperiodo, ou a comparacao dasinstituicdes d
cipe”. Mas efetivamen
sua famosa obra” Estado passa geral; 2.2. Doutrina particular do Estado7 com 3a
tuicdes escritas é que oO
aparecimento das consti tematizado, ja como orde
-
modo mais sis
&
a ser examinado de rm as fundamen-
m a codificacao das no
namento juridico. Co ar os seus A grande contribui 5
ou mais facil identific
tais que regem os Estados, fic nizou um tra- parte - Teoria Geral d Estado, ja
o i
rmanentes. Isso oportu ZO, Ja que a segunda
Parti lar do Estado, restou
elementos comuns e pe surgimento, Teoria
coe conearicu como projeto oerdeahe :
e€ classificacéo acerca do nek eenceben estaque-se que em sua doutrina oeTele
balho de conceituacao tado (Azambu- construcdo sovial ’ Jelli-
€ funcionamento do Es u_o Estado tanto como
estrutura, organizacao taich a3 e insti-

/
ja, 1998: 9). de se nvolvida tuicdo _juridica. Nesse sentido, c omo grande siste-m
?
atizador

-A2nWa
i ina
£ no século XIX, a d o apa re- queimtee Geral do Estado em:1) Teori 3
a Teoria6Esta
por juristas alemaes, que e_autonoma, Na Aleman
ha, ado sob o ponto de vista socioldgico idles :
ifica_
gs
cer como disciplina_es atizacao juridi-
Sociallehre des Staates) ; 2) TeoriaGeral do Estado
um trabalho de sistem
Gerber, em 1865, inicia consi-
icos doEstado. Ele introduz a 7 a
ca dos fendmenospolit tado. Neste A
estudo
van s EstadoO seria
do se i preciisO O concurso de duas ciénci
o como um direito do Es
i
deracao do poder pablic ganha desta- _auten ee primeira com o emprego dos métodos dasci
co em torno do Estado
periodo, o aspecto juridi a influéncia, -éncias natu ais ea segunda com a aplicacdo do mét arr
ica germanica. Sob est
que na producao académ eine Staais- a uridicas(cf.Jelinek, 2000: 61) en
em 1990 o tratado allgem
GeorgeJellinek elabora o em por-
l corresponde a expressa
1x9 ¢¢ ghG GEoss & furOK ag
lehre, cuja traducao litera ns truir_uma 1.2. Nomenclatura
Estado. A_proposta é co
tugués Teoria Geral do € 0 Co ecimento do Es
tado
a
cujo objeto
disciplina autonoma, fmotara da materia ora objeto de estudo é fru
nno
aA
em sua plenitude. a Ci- sobre esta ciéncia ; (all eine Staats-
aclassificagao na qual gem
~ Jellinek propoe, assim, um s ramos fun-
estaria dividida em doi
, 1
Z
éncia Tedrica do Estado ta do pr op ri
i am ente dita,
Geral
damentais: 1) a Teoria rina do Estado em
geral, cujo influéncia alemd na estruturacao
in aca e sistemat
i izacdo i
a uma dout “licacdo,pring a0estudo do Estado merece uma gidnen
que corresponderia regem_O Es-
pios fundamentais que
objetivo ¢ fixar os princi tado em parti- paca a nn pa ente se levarmos em consideracao a exis.
restringir a nenhum. Es
tado, A ideia é na Estado em come om por ms tedricos politicos em outros aises,
proposta ¢ investigar o
cular_na realidade. Sua elaboracao de cate-
istn Locke ee ial, no Reino Unido, bem fepiresentadl
tutivos, mediante a
seus elementos consti formas manifestadas em
, Thomas Hobbes, John Milton e William Blacks
gorias abstra tas a partir de suas do, tone (ape n.par a cita r ‘
al :
, que serviram de sub
u. as e qu
ciais; 2) Te ia Partic
guns)
‘ "
processos historico-so : 2.1. Doutrina (salvo o alti mo), incl usive, para um dos mais importzant ess
inte
vidira em dois grupos
que por sua vez se di pios fundamen-
especial do Estado, co
m o estudo dos princi . rh Helene naepool olben
a categoria, em
rtencam a uma mesm
tais de Estados que pe |
“eau ¢» de :
CRON oloe x O Edodd om ume
: AS oxy oer : pis ni pcogad oy
olenes dy
16 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega_ Pecas e Engrenagens de uma Teoria
Geral do Estado {17
tedricos politicos, Charles Secondat, Bardo de Montesquieu.’ uma perspectiva juridica)?. Nesse sentido, pertinente a ad-
Em outras palavras, cumpre indagar qual o motivo por de- verténcia de Reale de que “O Estado nao é sé juridico e nao
tras da influéncia alemA no ramo da ciéncia preocupado com ha erro maior do que identificar a doutrina do Estado com
a
o Estado, em especial na definicgaéo de sua nomenclatura, se doutrina juridica do Estado.” (1984: 121; também nesse sen-
outros paises igualmente tiveram importantes representantes tido,Jellinek, 2000: 61)
focados no estudo do Estado. Ressalte-se que a nomenclatura da ciéncia em apreco
Héctor Gros Espiell, embora sem tratar diretamente da vatiara de acordo com 0 pais. Nos Estados Unidos e na In-
questao, trouxe uma resposta a este questionamento, ao glaterra, denomina-se Political Theor y; na Franca , adema is
afirmar que a Alemanha manteve a sua tradicao no estudo de Teoria Geral do Estado (por influéncia, igualmente,
ale-
ma), utiliza-se Doctrine de L’Etat; na Espanha e em Portug
al
cultural que representa o Estado, enquanto nos demaispai- Direito Politico ou Derecho Politico (cf. Dallari, 2000: 4).
ses,especialmente nos anglo-sax6es, a matéria erdeu forcga E possivel perceber queo objeto da Teoria Geral do Es-
eatualidade, restando_ao Direito Constitucional a tarefa de tado, conforme bem denota a sua nomenclatura, 6 a figura
realizar o estudo do fendmenoestatal (cf. seu prefacio a ver- do Estado, tanto no seu ambito pratico? comoideal. A Teoria
sdo espanhola da obra de Malberg, 2002: XII-X1I). Em sinte- Geral do Estado, desta feita, busca responder as seguintes
se, o Direito Constitucional findou por absorver grande parte perguntas: “O que é um Estado (in concreto)?” e“O que
é 0
da_importancia o iénci oma da Teoria Estado (in abstracto)?”(cf. Malberg, 2001: 21).
Geral do Estado,salvo, é.clara, na Alemanha, principalmente A questdo é que ao longo dahistéria, ora 0 aspecto o
em decorréncia da obra e do esforco de Georg Jellinek (cf. mais gerale abstrato, ora o aspecto mais empirico (concreto)
Dallari, 2000: 3-4). em torno do Estado foram valorizados..Como bem acentua
NoBrasil, a Teoria Geral do Estado permanece como Fleiner-Gerster (2006: 13) as teorias gerais do Estado saofi-
ciéncia auténoma, mesmo com hipertrofia do Direito Cons- lhas do seu tempo e procuraram responder as perguntas de
titucional. Trata-se de uma divisdo e coexisténcia salutar,.a sua geracao. Apesar de a motivacdo ser a investigacaéo do
medida que a Teoria Geral do Estado admite e possibilita um Estado em sua integralidade, nao parece possivel que te-
enfoque mais multidisciplinar, tarefa dificilmente realizada nham logrado apreender o Estado em sua totalidade. Até
pelo Direito Constitucional (excessivamente centralizado em porque a sua elaboracao ao longo do tempoesteve presa a
* Cf. Espiell, in. Malberg, 2002: XIII
* Montesquieu, inobstante a sua popularidade, teve sua leitura da * Rui Barbosa, de maneira direta, ja concedia maior énfase
ao as-
teoria/pratica politica inglesa severamente criticada pelo historia- pecto pratico do estudoda politica, enquanto arte de gerir o
Esta-
dor de Harvard, Charles Howard Mcllwain, 1977: 141-142, o qualo do: “A politica nao é a ideologia, nem a estética. Nao pode ter nem
alcunhava como um pensador de armério - closet philosopher, é as abstrac6es ideiais da metafisica, nem a inflexi-bilidade
rectilinea
dizer, descompromissado com as aplicag6es praticas de sua teoria, e absoluta da dialética dedutiva, nem as combinacées simétri
cas da
sendo, ainda, reputado como obscuro por David Lowenthal, in. arte. E, por exceléncia, entre todas, a ciéncia experimental.” (1957:
Strauss e Cropsey, 2004: 486 ss.). 3).
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado
18 | Flavianne Fernanda Bitencourt Ndébrega } 19
paradigmasdistintos. A riqueza hoje esta em poder agregar _Estado,.com 0propésito de separar Teoriado Estado e a Po-
co aaRtoee
de modo colaborativo cada umadessas contribuicgoes.
litica (cf. Heller, 1971:78).
lellinek, por exemplo, apesar de apresentar a Teoria A Teoria Geral do Estado deJellinek vaj estudar a or-
Geral do Estado a partir de uma dupla andlise (a sociologica demesta l repouso,algo.fixo-eregulado, elidindo
e juridica) é criticado por sobrevalorizar_oaspecto,jaridico.e a interferéncia da politica. Esta altima envolveria o Estado
em seu aspecto vivo, suas pecas e engrenagens. Para Heller
_priorizar a construgao de um sistema de validadeuniversal,_
imunea historia e a realidade.(cf.Bercovici, 2004:6).Issose (1971:77), oEstado s6existe enquanto expressao real que se
justifica,especialmente,peloséu objetivo na época devotado renova a.cadadia por meio daagaohumana,Aconsideracao
a elaboracdo de categorias abstrataspara.a compreensao..do do elemento dindmicona andlise doEstado sé seria possivel
Estado, muitas delas iteis até hoje.t Deve ser reconhecida a partir da politica..Desse modo, a fronteira entre a Ciéncia
sua contribuicdo por ressaltar, pela primeira vez, a necessi- Politica e a Teoria do Estado apresenta-se muito ténue, pois
dade dese construir a formacdo de conceitos tanto na Teoria esta vai absorver daquela muitos dos métodos de investiga-
do Direito como na Teoria do Estado. Ele elabora a nocao cao para a compreensao darealidadeestatal.
“conceito de tipo”, cuja validez transcenderia ao singular. Hans Kelsen, da Escola de Marburgo, por sua vez, é
Nao representa conceito concreto ou realidade. generali- quem.vairadicalizar 0 aspecto abstrato, ideal e juridico do
zacgao se pretende_abstrata_¢ideal, mas nao nos moldes de Estado,Suaproposta é purificar o Direito de toda e qualquer
“Max Weber que elabora em 1904 os tipos ideais, suposta- ideolo ia.politica, bem como da moral, psicologia, da socio-
mente puros e na esteia das regras gerais do acontecer (Hel- logia, da economia, da ética e de qualquer outra ciéncia da
ler, 1971: 86). natureza que se venhaa ser considerada (cf. Prefacio de Kel-
Em oposicao a Jellinek,,Hermann Heller prefere a ex- sen, 2005: XXXI). Este seria o 6 ara_o Direito alcancar
pressao Teoria do Estado, pois nao concebe a possibilidade cientificidade. Neste sentido, k
de uma doutrina sobre o Estado que seja geral ou capaz de teito, resuminda-um_ao outro. O Estado seria visto apenas
abranger a totalidade de suas relacdes.Porestarazao,0 aur. Peloseuaspecto juridico, comouma organizagaoidéntica a
tor aderea uma andlise mais voltada ao elementoconcreto, a ordem juridica (sistemade normasjuridicas), sendo o Estado
‘tealidade, dada a singularidade de cada Estado. Assim, sua sua personificacaéo. Em resumo, Estado e Direito se confun-
teoria é fenomenoldégica no sentido de priorizar umainvesti- dem uma unica realidacre
gacéo dos aspectos sociolégicos e faticos que fundamentam _ _.Poressarazao,Kelsennegaqualquer autonomia a Teo-
as instituicdes do Estado. Acusa, ademais, Jellinek de tentar ria Geral do Estado (TGE), como disciplina que pretenda
ina do
_eliminar-qualquerinfluéncia.da_politica emsuadoutr
investigaroEstadoemseusdiversos aspectos. Isso é percep-
tivel considerando que referencial teérico de Hans Kelsen
para o estudo do Estado é exclusivamente o Direito, conce-
bido em seu modo mais formal. Desse modo, uma Doutrina
* Ao longo do desenvolvimento da disciplina TGEsao serao obser- doEstado paraele seria nao mais que um acervo confuso de
vadas a atualidade de alguns conceitos elaborados por Jellinek, questdes tratadas em outrasciéncias, das quais pega emprés-
bem como os problemas de sua aplicacao na realidade contempo-
timo, usurpando suas teoriase métodos. =
ranea.
20 | Fiavianne Fernanda Bitencourt Nobrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do
Estada | 21
Diversamente, Groppali (1962:6), professor emérito da ~ 0 Estado.direcionadoa fins e objetivos; 3. Juridico - Estado
Universidade de Milao, defende a autonomia da Teoria Ge- como monopédlio de producdo e execucdo do Direito5
Estado, como umasintese superior dos principios Invariavelmente, equiparou-se amatéria em questao
fundamentais tratados em outras ciéncias aut6nomas, como Teoria Geral do Estado a Ciéncia Politica (cf. Reale, 1984: 361;
a Sociologia, o Direito e a Politica que tem 0 Estado comoseu Jellinek, 2000: 57, Dallari, 2000: 5). Inobstante o nome que se
objeto o Estado considerado em relacao a determinados queira dar a esta disciplina, o importante é reconhecer e
momentos histéricos. Ele, todavia, prefere a expressao Dou- compreender que a Teoria Geral do Estado busca estudar o
trina do Estado a Teoria Geral do Estado, por considerar bemaspectes.au0
inutil a referéncia 4 expressdo geral, j4 que toda doutrina se comp6em (cf. Reale, 1984: 61; Jellinek, 2000: 61 e, ainda,
pretende geral e abstrata. Groppali, citado por Dallari, 2000: 7). Em razao desta multi-
Para Groppali,identificar o Direito como Estado, como plicidade de prismas do fendmeno do Estado,a ciéncia que
Relsenfez, seria por analogia o.mesme que identificar a pes- lhe é especifica se aproxima das demais ciéncias. quelhe sao
soa humana apenas com o sistema nervoso que guia sua ati- correlatas, como o Direito, mais precisamente o Direito Pu-
vidade (1962:13). Assim como o homem tem o aspecto psi- blico,0 que imprime a Teoria Geral do Estado uma de suas
ane ateem
quico e fisico, o Estado ¢ uma unidade social e juridicayLE caracteristicas mais importantes, a saber, a sua natureza de
natural que toda e qualquer ciéncia que acaba de se formar disciplina de sintese, para sevaler de uma expressaodeDalmo
tenha a necessidade de importar teorias e métodos de outros de Abreu Dallari (2000: 2). Sinteticamente, a Teoria Geral do
ramosdoconhecimento.-Issonae -implica que.a. Doutrinado Estado finda por sistematizar conhecimentos juridicos, filo-
Estado-se.torne menos rigorosa,apenas revela a complexi- soficos, sociolégicos, politicos, histéricos, antropolégicos,
ey
dade que envolve o Estado enquanto fenémeno capturado econdmicos e psicolégicos, desde que, é certo, se refiram ao
por Angulos diversos. O grande desafio da Teoria Geral do elemento central desta ciéncia, o Estado.
Estado é integrar a contribuigao de ciéncias aut6nomas que A Teoria Geral do Estado nesse sentido, é uma ciéncia
abarcam parcialidades do Estado em um todo unitario. de sobreposicao, irradiando-se por outras ciéncias, como o
~~" Groppali (1962: 4 e ss) concebe sua Doutrina do Estado proprio Direito. Esta natureza dispersa da matéria em questao
como ciéncia aut6noma, histérica, geral e explicativa. Seu poderia, é certo, reduzir a sua importancia, dando-lhe cara-
objetivo, apesar de levar em consideracao elementos da his- ter secundario. Contudo, a Teoria Geral do Estado detém
toria, a sociologia e a politica, é estudar o Estado fora dos legitimidade epistemolégica (cf. Reale, 1984: 361) suficiente para
limites do tempo e do espaco. Naosefilia aos autores que fazer com que se apresente como ramo auténomo, cujo pro-
pretendem estudé-la como uma disciplina pratica. Interessa, posito 6 o de conceder um sentido de convergéncia, uma
todavia, sua contribuicdo pela abordagem tridimensional do
Estado, pela consideracao dos aspectos1. Sociologico = Esta-
° Com base nessa abordagem tripartida, Groppali vai dividir sua
do-enquanto.nexo organico da vida em sociedade;2. Politico
enae Doutrina do Estado em trés: 1) Teoria sociolégica do Estado - gée-
nese e evolucdo do Estado; 2) Teoria juridica do Estado - organiza-
cao e personificacao do Estado; 3) Teoria significativa do Estado -
fundamentose fins do Estado.
Pacgas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 23
22 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega —
politico, juridico, filoséfico e econémico), com énfase nos
sistematizacao racional as diversas disciplinas particulares seguintes temas:i) origem, ii) organizacao;iti).funcionamen-
que congregam a Teoria Geral do Estado (cf. Reale, 1984: to e iv) finalidades. Ressalte-se que cada um destes pontos
368). pode ser vislumbrado a partir de distintas perspecti-
vas/correntes (sobre a origem, ha, por exemplo, os contratu-
1.3. Origem e objeto de estudo
alistas e os seus criticos, como, por exemplo, David Hume,
in. Stewart, 1996: 40). Jellinek, por exemplo, da maior desta-
A génese da Teoria Geral do Estado exsurge a partir da
que ao Estadoa partir de seus aspectos social e juridico (cf.
necessidade que o individuo tem de responder as seguintes Fernando de los Rios, em seu prélogo a obra de Jellinek,
perguntas (formuladas por Jellinek, 2000: 197):
2000: 36), perspectiva esta criticada porHeller, que explora o
- Por que existe o Estado com um poder coercitivo?
aspecto mais socioldgico e politico e questiona 0certo “des-
» ~ Por que deve o individuo submeter a sua vontade a
prezo” que o alemAoJellinek ostenta em relagao as normas
vontade de um terceiro?
politicas, reputadas por ele como um simples fruto da con-
- Por qué e em que medida este ha de se sacrificar pela
viccdopessoal de cada individuo.(Jellinek, 2000: 69). Hans
comunidade?
porexplora o Estado apenas sob o Angulo
juridico. Outros investigam temas sobre o Estado, a partir da”
Estas indagacdes e suas respectivas respostas foram
conjugacgao de mais de um referencial te6rico, agregando o
elaboradas, por exemplo, pelos contratualistas (Locke, Rous-
conhecimento da sociologia, economia,filosofia, politica-e do
seau e Hobbes, em um primeiro momento, e Pitkin, em um
Zt aatbeel ce EBtta| ine88
a proprio Direito. Esta altima parece ser a tendéncia atual.
segundo momento, apenas como exemplo). Posteriormente
estas perguntas de natureza pratica, agregam-se outras de
1.4. Ciéncia Descritiva X Ciéncia Normativa
carater tedérico:
- Quais os fins do Estado?
G ser,neabidade Ly leper"A€
A dicotomia entre Ciéncia Descritiva e Ciéncia Norma-
- Como devedar a sua estruturacao0?
tiva 6 aqui colocada para situar a naturezado estudo que é
- Qual o sistema ou regime mais adequado? feito em Teoria Geral do Estado. Ha autores quese utilizam
de classificacGes diferenciadas. Optou-se pela acima por uma
A Teoria Geral do Estado, enquanto ciéncia, nasce a
questao simplesmente didatica com a finalidade de reprodu-
partir da tentativa de sistematizacao das respostas ou compi-
zir o debate fundamental de tradicaéo neokantista que se de-
lacdo das diversas teorias (ou descric6es) sobre o proprio
senvolve no Direito pela oposicao entre_ser_ (sein) edeverser_
Estado. Nesse sentido, pode-se dizer que a matéria em apre-
(sollen). Oprimeiro estaria relacionado 4 investigacao da rea-
co surge juntamente com a génese do proprio Estado (embo-
lidade comoela é e se apresenta, como entidade concreta do
ra o seu carater cientifico e sistematizado seja fruto mais re-
conhecimento; ja a segunda reporta a_uma racionalidade de
cente, influenciada pelo racionalismo e, igualmente, pelo
como deveria ser esta realidade, comoentidadeabstrata do
advento das Constituicd¢s escritas, conforme visto).
conhecimento.
O objeto de estudo da Teoria Geral do Estado é o Esta-
do, abordado em seus diversos aspectos (fendmeno social,
24 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 25
As ciéncias sociais, econdmicas e a politica, por exem- Salutar, ainda, é¢ citar a contribuicdéo de Maquiavel,
plo, procuram, de um modogeral, dar explicacdes sobre os que, ao apresentar o conceito de Estado, em sua obra “O
fendmenos sociais, econdmicos e politicos, investigando co- Principe”, j4 esbogaa necessidade de diferenciacao entre: 1) a
moeles ocorrem na realidade. Suas teorias pretendem des- perspectivadeandlise a partir realidade observada, dada
cobrir, descrever, enfim, explicar o ser através da relacao de peloenfoque no ser, pelas Ciéncias Causais (Descritivas) e 2)
aperspectiva a partir da realidade idealizada, dada pelo en-
tito empty
das vezes em anéalises de natureza normativa, em queo dever inferido na seguinte passagem do capitulo XII obra de Ma-
ser @ seu objeto principal. As assertivas a partir da aborda- quiavel “...é tao grande a diferenca entre a maneira em que
gem normativa so, neste sentido, prescritivas, pois infor- se vive e comose deveria viver”. Perceber-se a separacao das
mam comoas pessoas, a sociedade, as instituicdes e o Estado duas formasdeandlises distintas, a primeira (em quese vive,
devem se comportar. Sao juizos ideais que independem de voltado ao ser) e a segunda (comose deveria viver, voltado
sua correspondéncia com a realidade observada. ao deverser) (cf. Zippelius, 1997: 11).
Hans Kelsen ao desenvolver a sua Teoria Pura do Di- *A especializacaéo do estudo da Teoria Geral do Estado,
reito vale-se da dicotomia entre CiénciaCausal(tam bém
Hotaanegenemtiteng. a partir desses dois referencias (0 da Ciéncia Causal e 0 da-
denominado de Ciéncia Descritiva) eCiéncia_ Normativ do pela Ciéncia Normativa), acabou por privilegiar, em de-
para, assim, situar o Direito no Ambito das. Ciéncias.Norma- terminados momentos da evolucao da disciplina, o exame do
tivas exclusivamente. (cf. Kelsen, 1999: 84). Por decorréncia . Estado ora a partir de seus aspectos concretos, empiricos,
légica, o Estado, que nada mais é pra Kelsen do que siste- faticos, da realidade observada; ora a partir de seus aspectos
ma de normasjuridicas, estaria inserido exclusivamente na normativos, abstratos e ideais. A consequéncia_sao_andlises
perspectiva normativa, na esfera do dever ser. Estando fora uhilaterais e imperfeitas que capturam parcialidades do Es-
das Ciéncias Causais (Descritivas), o Estado nao poderia ser tado (ora sere ora dever ser). A proposta da Teoria Geral do
conhecidoe investigado a partir dos processosreais. Estadoatualmente é poder integrar de modo dialético_as
Zippelius (1997:11), noutro sentido, destaca que o Es- duas abordagens, considerando a possibilidade complemen-
tado nado deve ser conhecido apenas pelo seu componente tar de cada uma delas. Por esse motivo, reconhece-se legiti-
puramente normativo, no qual modelos ideais sao sua unica ma a consideracao da Teoria do Estado tanto como Ciéncia
fonte de andlise. Isso porque unta elaboragao utdpica nao é No iva, como Ciéncia Descritiva. Esse processo de cola-
suficiente para construir por si s6 uma comunidade estatal. borac4o entre essas perspectivas distintas, todavia, s6 podera
S6 a eficdcia e a possibilidade de serem cumpridas é que dao ser verificada a posteriori, com a identificagao de lacunas, em
essa possibilidade. Desse modo, enfatiza a importancia da que a investigacdo a partir da Ciéncia Descritiva ou Ciéncia
abordagem da dimenséao fatica, correspondente aquela dada Normativa nao seja capaz de oferecer uma explicacgéo ou
pelas Ciéncias Causais a fim de queos fatores reais da co- compreensaosatisfatéria sobre o Estado.
munidade politica, econémica e social que fazem o Estado
funcionar possam ser investigados e conhecidos. Alsen; T.bb nok 4 Pont npAvcabint ys —7 Normal si,
Lams & btoolt oleve Abr’
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 27
26 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega
1.5. Diferenciacao de outros ramos do conhecimento A aproximacao ou juizo de identidade entre Ciéncia
Politica e Teoria Geral do Estado, sem embargo, é maior,
O tépico em apreco € um desdobramento do primeiro tendo em vista a influéncia de autores norte-americanos no
topico desta unidade. Por quest6es logicas. O carater autd- desenvolvimento do estudo do Estado no Brasil (Dallari,
nomo da ciéncia da Teoria Geral do Estado pressupoe sua 2000: 4-5), embora seja costume identificar na primeira um
diferenciacao de outros ramos do conhecimento, tal como enfoque mais empirico na tarefa de estudar o Estado.
Ciéncia Politica, Direito Pablico e Direito Constitucional, De qualquer maneira, ainda que uma diferenciacao
apenas para citar alguns poucos ramos do conhecimento. material seja de dificil sustentacao, poder-se-ia distinguir
Esta diferenciacao, afirme-se de pronto, é de dificil rea- Teoria Geral do Estado de Ciéncia Politica, bem como das
lizacdo, especialmente se levarmos em consideracéo a sua demais ciéncias que mantenham o Estado como objeto de
caracterizacaio como uma disciplina de sintese. Com efeito, estudo, a partir de um critério formal(artificial). E que, des-
ha a invaridvel equiparacao, por exemplo, entre TGE e Cién- de 1940, mais precisamente a partir de 27/09/1940, por meio
cia Politica (cf. Reale, 1984: 361; Jellinek, 2000: 57, Dallari, do Decreto-Lei n. 2.639, a Teoria Geral do Estado ganhou
2000: 5) e entre TGE e Direito Constitucional, a ponto de a ares de ciéncia aut6noma, principalmente em face do Direito
Teoria Geral do Estado ostentar, em algunssitios, a denomi- Constitucional:
nacao de Direito ConstitucionalI (Dallari, 2000: 5).
“Art. 1° A disciplina Direito publico constitucional, ora cons-
Inobstante a dificuldade existente, frise-se que a dife-
tante do curso de bacharelado em direito, fica desdobrada
renciacdo entre Direito Constitucional e TGE pode ser mais
em duas, a saber: Teoria geral do Estado e Direito constitu-
facilmente esquematizada. Conforme visto, o Direito Consti- cional.
tucional, ainda que tenha comoobjeto o Estado,seenfoca em “Paragrafo unico. Sera a Teoria geral do Estado ministrada
uma dimensdo especifica deste, 0, seu elemento juridico na primeira série e o Direito constitucional na segundasérie
(sendo quase que integralmente uma ciéncia normativa). do referido curso.”.
Nesta toada, a Teoria Geral do Estadofinda por ser umadis-
ciplina de maior destaque multidisciplinar, elemento este Contudo, a diferenciacgéo, ainda que formal, entre Teo-
que a diferencia do Direito Constitucional. O mesmo ocorre ria Geral do Estado e Ciéncia Politica restaria prejudicada,
com o Direito Publico, ainda que Radbruch apregoe que “Na tendo em vista a Portaria do MEC n.1.886, de 30 de Dezem-
verdade, Estado e Direito Publico nao sao duas coisas distin- bro de 1994, do Ministério da Educagao, a qual, em seuart. 6°
tas, ndo sao causa e efeito ou efeito e causa, mas uma unica estabeleceu como contetido minimo do curso juridico a ma-
coisa sob diversos pontos de vista, tao pouco separados entre téria de “Ciéncia Politica (com Teoria do Estado)”, como se
si quanto um organismo e sua organizacao.” (1999: 37). A fossem elementos idénticos ou, mais precisamente, como se
Teoria Geral do Estado se diferencia do Direito Constitucio- Teoria Geral do Estado fosse matéria especifica da grande
nal e doDireito Pablico exatamente em razao dese preocu- ciéncia conhecida como Ciéncia Politica.
“par, igualmente, com outros aspectos ou elementos do Esta-
do. que nao apenas 0 juridico.
28 | Fiavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 29
1.6. Abordagem multidisciplinar e pluralismo Portanto, tem-se que a Teoria Geral do Estado afigu-
metodolégico ra-se como um ramo multidisciplinar, uma disciplina de sin-
s deste fato, ostentaré diversos métodos
Conformevisto, a figura do Estado pode ser_analisada de pesquisa, dependendo da dimensao do Estado que se
a partir de uma multiplicidade de aspectos, a qual acarreta- busque apresentar ou desenvolver.
ra,igualmente, em_um_pluralismo metodolégico, no que se
refere ao seu estudo. Dallari menciona 0 método dedutivo,
indutivo e analdgico (2000: 7), sem, contudo, se aprofundar
na maneira comoestes deveriam ser utilizados. Alias, a au-
séncia de um método ou de um conjunto sistematico de mé-
todos é criticada porJellinek, 0 qual chega a afirmar que o
‘ponto inicial do estudo do Estado passa, primeiramente, pela
definicao dos seus métodos (2000: 72-73).
Quanto a utilizacao do método indutivo, o qual busca
criar um padrao geral a partir de um fato isolado, o estudio-
so do Estado ha de levar em consideracdéo que este método
somente é valido, é dizer, o padrao geral alcancgado pelo mé-
todo indutivo somente se aplica a um outro Estado que de-
tenha o mesmo fundamentohistdrico, politico ou social (Jel-
linek, 2000: 69 e 82).
Um método que ganha destaque exatamente em decor-
réncia desta critica ao método indutivo é 0 método de investi-
gacao histérica (ou métodosociolégico), o qual se fundamenta
na desconsideracéo de modelos gerais, ideais, adequados a
todos os povos, almejando, em contrapartida, realizar estu-
dos dos elementos peculiares e caracteristicos de cada orga-
nizacao politica (cf. Gettel, 1937: 246-247).
Complementar, em termos temporais, ao método his-
torico é o método juridico, o qual tem como objeto fixar os
principios ou normas juridicas que regem estrutura do Es-
tado. Seu caraéter complementar ao modelo histérico decorre
do fato de a investigacao juridica do Estado estar focado ao
momento atual. “O passado somente pode ser investigado
juridicamente casoeste seja necessdrio para se compreender
um problemahistérico.” (Jellinek, 2000: 93).
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 31
jab 9 Gas Moline ¥ Moguuca vet 7 Gut xvi
i*
UNIDADE 2
Conceito de Estado
2.1. Polissemia
Comofoi visto na Unidade I 0 objeto de estudo da TGE
q é o Estado, concebido em suas diversas formas de manifesta-

cao, como fendmenosociolégico, econdmico, politico, hist6-
rico, filosdfico e também juridico. Diferentes ciéncias afins,
como a Sociologia, Economia, Politica, Historia, Filosofia e o
proprio Direito colaboram para a compreensao e explicacado
do que seja o Estado. Cada qual terminou, todavia, por se
especializar em algum aspecto particular dele. O grande de-
safio para a Teoria do Estadoatual é tentar capturar as gran-
des relacées entre as andlises fragmentadas das pesquisas
que se isolam em suas dreas especificas. (cf. pretacio Fleiner-
Geister, 2006). O exercicio constante
eeRE, oe
em buscadeee umasinte-
tiva em se aproximar de uma nocao mais completa do Esta-
do. Este, entretanto,parece ser um trabalho sem fim, pois 0
conceito se renova e se aperfeicoa a cada dia, adquirindo
i ~ novos matizes..
O rico acervo tedrico fornecido por cada um dos ramos
do conhecimento, citados acima, alimenta uma multiplicida-
de de conceitos em torno do Estado. E um termo polissémi-
co por natureza. A consideracéo do contexto em queestiver
inserido é o ponto de partida para identificacado de seu signi-
ficado. Alguns enumeram caracteristicas como essenciais ao
tempo que outros indicam essas mesmas como elementos
meramente acessorios.
32 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 33
A titulo de ilustracdo, foi estudado que em Kelsen 0 cacao tradicional, como reino do bem comum.Instigante é a
Estado e a ordem juridica coincidem, Dessa sorte, para ele o interpretacao do pensamento de Marx, realizada por Bobbio:
sistema de normas juridicas integra a esséncia e o ntcleo “ O Estado nao tem por fim o bem-viver de todos, mas o
a
conceitualdeEstado, ao passo que para um socidlogo oele- bem-viver daqueles que detém o poder, os quais, além do
mento normativo é de interesse_secundario. O jurista nor- mais, tém sido até agora, na hist6ria da humanidade, uma
malmente define o Estado pelo seu aspecto formal, como minoria. Que o Estado tenha por fim o bem comum, 0 bem-
uma comunidadeestabelecida em um territ6rio com um go- viver, ou mesmoa justica, é uma ideologia da qual a classe
verno. Invariavelmente aparecem nas teorias juridicas trés dominante se utiliza para dar aparéncia de legitimac&o ao
elementoscomoconstitutivos do Estado:_populacao,ter ita- proprio dominio. O Estado nao é a saida do estado de natu-
io-e poderpolitico (este iltimo substituido ora por sobera- reza, mas sua continuacdo sobre outra forma.” (cf. Bobbio,
nia). A ideia de soberania (maiestas-majestade) dos juristas 2000: 121-122)
‘para definir o Estado é diferente da soberania (Herrschaft - Por este motivo a viséo de Marx sobre 0 Estado é adje-
dominacao ou autoridade) abordada pela sociologia de Max tivada de pessimista, j4 que sua teoria prevé o desapareci-
Weberna sua definicéo de Estado como monopolio da forga mento do Estado. A doutrina marxista pe o Estado co-
legitima. A investigacao desses elementos ser4 objeto da mo um inst ento d ressao de uma classe em relacdo a
Unidade IV. Importa, nesta etapa dos estudos, perceber que outra, (Streck; Bolzan, 2000: 31-34). Em decorréncia, opde-se
a expressdo Estado assume conotacées distintas. a proposicao classica da outrina contratualista Quetraz, por
Para o cientista politico, por exemplo, predominam sua vez, i otimista acerca da
i e. Em Gramsci, o Esta- finalidade_(razao de ser) do Estado, o qual é apresentado
do é um instrumento de expansaoe justificagaéo do poder da como construcao abstrata da razéo humana. Estas se apro-
dominante, comoparte do sistema desenvolvidopela ximam de uma anilise mais filoséfica do fenémenoestatal.
burguesia para se perpetuar no controle sobre a sociedade (As teorias contratualistas serao estudadas com mais pro-
no contexto de luta de classe. (cf. Carnny, 1988: 89-101). Em fundidade na UnidadeII).
O'Donnell, 0 Estado é entendido “como componente especi- Dessasorte, a filosofia politica classica oferece uma va-
ficamente politico da dominagéo numasociedade territori- riedade de elaborac6es tedricas para justificar o Estado. As
almente delimitada” (O’Donnell, 1981: 71). definicdes de Estado aparecem como produto da razao hu-
Para outros, o Estado é parte essencial das relagdes mana. Segundo Bobbio, é possivel afirmar que de Hobbes a
econdmicas. Segundo Dallari, as teorias de Marx e Engels sao Hegel predomina uma visdo eulédgica do Estado, cuja énfase
até hoje as de maior repercussado no que serefere a justifica- nao escapa a uma Teoria do Estado racional. (cf. Bobbio,
cdo da origem do Estado por motivos econdémicos ou patri- 2000: 120). As teorias contratualistas também seriam fruto de
moniais (Dallari, 2000: 55). Bobbio, ao diferenciar as teorias uma racionalidade que recria o Estado a partir de um acordo
idealistas e realistas sobre o conceito de Estado, enquadra a
de Karl Marx no segundo grupo. Marx teria desenvolvido ol hipoteticamente celebrado pelos homens para viver em soci-
el
edade. Por exemplo, em Hobbesa sujeicéo dos stiditos e sua
uma visao pessimista entre a relacdo de governantes e go- obediéncia a um poder soberano(terceiro) se realiza em no-
vernados, dessacralizando a nogdo de Estado de suajustifi- me de um bem maior - a seguranca do povo(salus populis).
Sexiglegécomente > blode? pod
er * donne dominante 5
Up More yang seria and ugntasle
34 | Flavianne Fernanda Bitencourt Noébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 35
Seria preciso a instituicéo do Estado Leviata a impor poder“ No periododaItalia renascentista,séc. XVI, Maquiavel
coercitivo a fim que homem nao se torne lobo do proprio vai ser responsavel por cunharpela primeiravez na historia
homem, pois em seu estado de natureza o instinto é a nao apalavra “status”. Segundo Marcel Prélot, é a ele creditado 0
cooperacdo. Esse e outros referenciais tedricos da filosofia uso_pioneiro do nome Estado em seu sentido moderno “de.
politica classica serao abordados com mais profundidade na umaentidadepolitica geral situada acima dos regimesparti-
Unidade seguinte. culares”..(MeHlo, 2002: 377). A famosa passagem de Maquia-
Os exemplos trazidos anteriormente sao reportados vel, em sua obra “O Principe”, reporta diretamente 4 nova
com a finalidade de mostrar que nado existe consenso em tor- expressao: “ Todos os Estados, todos os dominios quetive-
nodo conceito de Estado. A exposicdo anterior tem um ca- ram e tém o império sobre os homens sdo Estados e sao Re-
racter meramente panordmico e nao pretende ser exaustiva. publicas e ou principados”. .O termoitaliano “lostato”, em
Estado é uma palavra multivoca que foi empregada e apro- Maquiavel, vai. designar um coisa totalmente nova,.em opo-
————_— Wr
priada_por diversos autores em momentos especificos da sigao as organizacoespoliticas da Idade Média, cuja forma-
histéria. Ao longo de todo o curso de Teoria Geral do Estado, cao era frouxa e intermitente. (Cf. Heller,1971: 161-167).
o aluno se defrontara com varias concep¢6es e construira seu Interessa pontuar quea palavra “status” aparece antes
proprio convencimento. na literatura ocidental, todavia, sem a conotacdo em seu sen-
jb rosy? tido moderno dada por Maquiavel com o Estado Moderno.
2.2 Variedade conceitual rotted? Do latim o termo “status” designaestar de pé, bemcomo
remete a ideia de estabilidade em certa situacao. Mello fem-
Neste tépico, a questao da variedade conceitual em bra que a referéncia a “status” na
torno do Estado sera abordadaa partir de seu elemento eti- ia significava boa ordem “res reipublicae”. Antes do séc.
molégico. Encontraremos na Hikeratttira remissao ao conceito XIV, Michel Senellart entende que “status” naotinhqual”a
de Estado nas expressoes_gregas “polis” ¢ romana “ eC quersentido politico. (Mello, 2002:377-378). Segundo Zippe-
ou “res publica”. Até o limiar da Idade Média apareciam as lius, no renascimento , os nomes “status”, “stato” e “éétat”
palavras “imperium”, “rich”, “land”, “terrae”. Ainda nesse serviam também_ para_designar. gruposdominantes, poder
sent acme
periodo, “regnum” é uma expressao adotada para designar de conutet. ou mesmo territorios dominados. A expressao
uma organizacdo politica juridicamente organizada e dife-
“renciada do Rei, correspondendo 4 monarquia territorial e pelos autores do séc. XVLqueainda preferiam o termo Re-
“civitas” ou “burg” remeteria ao Estado urbano, mas sem publica ao invés de Estado. Ao longo da historia, todavia, o
sentido politico. (cf. Miranda, 2007: 33-34 e; Mello, 2002: 377). termoitaliano acabou se espalhandoe influenciando o res-
Oo nome Estado vai tante das linguas europeias. Emportugués, a palavra Estado
se aproximaetimologicamentede seu radicallatino “status”.
tica organizada_co 10, com poder so-
berano e separado da Igreja_O vocdbulo Estado vai adquirir
acepcao mais genérica e abstrata,_
inkede Moderne
by ThoAu) oval
36 | Flavianne Fernanda Bitencourt Noébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado
| 37
2.3. Evolucado Histérica listas de Cicero e Aristételes da antiguidadeclassica esbocam
concepgoes modernasdeEstado.
A perspectiva historica 6 um dos recursos para se A classificacao tradicionalmente empregada pelos teé-
compreender o Estado. Boa parte daliteratura, todavia, con- ricos do Estado foi a estabelecida porJellinek, que o dividiu
sidera i eto falar de Estad es eriodo da Idade em tipos histéricos fund. is:
Moderna, embora naturalmente_o homem tenha vivido sob
alguma forma de organizacdo politica. Como pontua Marti-
nez Esteruelas, o Estado nao foi a tnica formapolitica de mudancas permanentes em suas formas. Para ele o que im-
todos os tempos. E um fendémenohistdérico, que se realizou porta é identificar os tipos de Estado que tenham relacdo

ee
em determinada época e pode ser chamado a desaparecer e hist6rica com o Estado atual, ou porque os une uma imediata
dar lugar a outros tipos de sociedades politicas. A humani- continuidade histérica ou. porque o conhecimento de um
dade conheceu outras formas de se governar comonascida- tenha influenciado no outro. Das formas primitivas s6 vai
des gregas, nos impérios antigos, por exemplo (cf. Dantas, -interessar notar aquelas que sejam essenciais 4 compreensao
2008: 55). O Estado seria um conceito hist6rico concreto.sur- do Estado Moderno. Naoelabora os tipos historicos de Esta-
id. 6c, XVI, aco dod ao de so i do com base em umavarredura em todahistoria da cultura
ou da politica. A_tentativa é resgatar as relacdes andlogas
ria nado deve ser entendida exclusivamente como _progressi- com as existentes no Estado moderno (cf. Jellinek, 2000: 282).
va, com se_o conceito de Estado tivesse seguido.um_curso Essa ésua metodologia. Como aponta Dallari, essa divisao
continuo e uniformenahistoria. O termo evolucdo empre- de Jellinek tem umefeito didatico interessante, pois vai evi-
gado aqui no titulo néo tem um sentido escatologico. Os denciar as caracteristicas do Estado em épocas distintas na
exemplares da histéria ndo devem ser tomados como tipos historia da humanidade. (Dallari, 2000:60).
Estatais que se realizam em série consecutiva um apos 0 ou- Apesar declassificacado de Jellinek ser hoje o referencial
tro. Como aponta Aderson de Menezes (1984: 105-106), é mais adotado, é importante ter em mente que existem outras
~ legitima a consideracdo de recuos e avancos, pois um tipo tipologias para analisar o Estado ao longo da historia. Mere-
_estatal contemporaneo pode parecer, por _exemplo, seme- ce destaque, por exemplo, a de Marx em queostipos de Es-
Thante-a um outro conhecido na antiguidade (vide, nesse tado irao corresponder aos tantos modos de producdo, divi-
sentido, a identidade existente entre Estado moderno ro- dindo-o em: Estado despotico, Estado esclavagista, o feudal,
mano, desenvolvido mais abaixo) . Especula que um tipo de © capitalista e o socialista. (cf. Miranda, 2007:24). Como o
Estado futuro poderia ser parecido com o praticado na Idade objetivo, neste primeiro momento, é compreender 0 Estado a
Média, por exemplo. Dessa sorte, os cursos dostipos Estatais partir do referencial Estado Moderno, optou-se pela primeira
tém seus caminhos renovados, com a possibilidade de reper- classificacdo.
cutir em outras épocas e locais. Maluf (2008: 100-101), nesse Uma vez feitas essas consideracées iniciais, tem-se
sentido, ilustra que nos tempos modernos ressurgiram mo- abaixo uma breve pontuacao das caracteristicas dos tipos
narquias de direito divino, enquanto que as teorias raciona- histéricos fundamentais de Estado.
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado {| 39
38 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega
Em relacao aosterritorios, eles eram instaveis. Nao ha-
2.3.1 Estado Oriental itorial estabelecida. A aspiracao era de se
construir algo universal, um império de larga extensaoterri-
O Estado antigo também referido com o da antigui- torial (cf. Miranda, 2007: 25). Nesse sentido, Maluf identifica
dade oriental. Compreenderia o estudo dascivilizac6es egip- a existéncia de grupos humanos_heterogéneos, mantidos
_os
cias, mesopotamica, judia, hebraica, persa etc. Seriam
pela forga, como o trago comum nos Estadosorientais. Tendo
grandes Impérios, de 3000 anos ra Crista. Esses
em consideracao que os povos viviam em constante guerra,
povos do Oriente _nao_teriam desenvolvido, todavia, uma os territorios aumentavam ou diminuiam em fun¢ao da vitd-
concepcao definida de Estado. Sua caracteristica marcante_¢_ ria ou derrota militar, a qual, por conseguinte impunha_es-
presente
teocracia. O aspecto religioso é um elemento forte cravidao aos vencidos. Nao existiram, assim, unidades naci-
nesses povos, como expressdo de umarelacdo esireita entre o
onais que agregassem grupos sociais homogéneos. Sob a
soberano e Op ivino. Segundo Maluf, nessas antigas
égide smo império reuniam-se povos de diferentes
civilizacées nao existiram doutrin icas, mas uma unica
racas, conquistados e escravizados. (cf. Maluf, 2008: 102).
forma de governo, que era.a monarquia absoluta (teocratica), Segundo Raymond Gettell, “a unidade estatal do Oriente
exercida em nome dos deuses tutelares do povo. (cf. Maluf,
nao tinha por base,.como no mundo moderno, a raca ea lin-
2008: 101). guagem, mas apenaso culto aos deuses comuns..Os deuses
Sobre o governo baseado na teocracia, Jellinek (cf.
apoiavam a autoridade dos governantes e protegiam, na
2000: 284) afirma que ele pode ter como resultado o fortale- guerra, os seusfiéis.” (apud Dantas, 2008: 64). .
cimento do poder estatal, como também o seu definhamento. Diferentemente da maioria dos povos orientais_que
Distingue a_teocraci ormas fundamentais: 1)
erampoliteistas, o povo israelita era monoteista. A idolatria
quando o soberano é representante do poder divino e sua
aos monarcas, tao frequente nos povos orientais, foi desco-
vontade é semelhante ao da propria divindade, confundin- nhecida pelo Estado de Israel. Q messias soberano nao era
do-se com ela;2)quando 0 soberano (governante) é limitado como
ee
ior através anunciado pelos profetas.como.um_fato histérico,masAt eet
peladivi uma esperanca do porvir. A legislacdo judia alcangou, se-
de outros Orgaos, como a classe sacerdotal. Essas relacdes
gundoJellinek (2000: 285), um estagio avangado sem parale-
vao depender da peculiaridade de cada concep¢ao religiosa.
lo no povo ocidental da Antiguidade, especialmenteao esta-
No Egito, por exemplo, 0 fara6 era a encarnacao do Deus
belecer direitos aos despossuidos, estrangeiros e escravos.
vivo, sendo considerado seu descendente direto; enquanto
Apesar de avancar no campo do Direito, em um sentido
que na Pérsiao rei era o sacerdote magno.
mais humanista, na qual todos teriam protecao da lei, mes-
O monarca era a expressaoilimitada do poder contra o
mo contra o poder publico,Jellinek (2000:286) ainda enqua-
qual nenhum direito particular poderia ser oponivel. A _soci-
. Ea quali- dra Israel no grupo dos Estados tiposorientais. Isso porque
edadese caracterizay. do ponto de vista politico, assim como nos outros povos ori-
dade de pertencer a uma determin e_possibili-
entais, nao existia ainda no povoisraelita a participacao re-
tava o acessoa direitos, funcao ou oficio, Os demais viviam a
gulada do povo no governo, em que pese muitas vezes o
margem dalei, o que implicava reduzi
ara a grande maioria. br pack nao Lom porks vino ds pPHOF Te YOU p91 AV
0 .ErWridtiouadg am Cratos Qxsswlal ;
40 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 41
povo e o rei contrairem obrigac6es mtituas na forma de um se bastava a si mesma. (cf. Dantas, 2008: 67; Azambuja, 1998:
pacto diante de Jeova. 140). O conceito de autarquia de Aristételes, referente ao
“al
f space popelor modo de organizacaéo da “polis” grega como um todo eco-

2.3.2 Estado giego C ABD ota “g tlemg némico, politico e social, estruturado por todos os meios
para abastecera si, é reforcado por Dallari (2000: 64) como
O Estado grego, também denominado helénico, tem fator que colaborou para a preservacdo da caracteristica de
como caracteristica marcante 0 governo baseado_na munici- municipalidade do Estado tipo grego. Isso se evidencia, se-
palidade. Nao obstante as diferencas passiveis de serem es- gundoo citado Dallari, quando das conquistas e dominacado
tabelecidas entre as diversas cidades da civilizacao helénica de outros povos, uma_vezque.as cidades-estados nao efeti-
(a citar Atenas e Esparta), é possivel identificar a partir de vavam.a-expansaoterritorial e nado procuravam integrar ven-
sua organizacao politica o ponto em comum: a“polis” grega, cedores e vencidos numa ordem comum.
Gidades-estados. Uma nota fundamental, segundo Jellinek A grande contribuicdo da cultura helénica para a Teo-
(2000: 286), é queelas eram onipotentes. OQ cidadao partici- ria do Estado e Politica contempordanearefere-se ao periodo
aria da ela leis soberanas, mas estas o domina- aureo da democracia ateniense,apesar de essa ser bem dis-
riam_ completamente, sem deixar qualquer liberdade a vida tinta da concep¢aoatual. (cf. Miranda, 2007: 26). A-novidade
privada. A politica era um assunto de todos e o individuo esta em _as pessoas poderemparticipar diretamente do go-
teria valor como membro da comunidade. Em Aristételes, o verno, deliberando em praca publica sobre as questoes de
homem é referido, por natureza, como um animalsocial e estad els etc, em Oposicao ao verificado no Estado
politico. A cidade-estado seria 0 espaco da coexisténcia hu- antigo oriental. O aspecto negativo € que essa participacao
mana em busca da felicidade. Por esta filosofia, o_cidadao politica nao era igualitaria, pois sO um estrato da populacdo
deveria ser educado para a virtude, sendoesta o fim tiltimo podiadiret ex rcé-la amente.Como bem exemplifica Maluf
do Estado. Em contrapartida, a conduta moral era o dever (2008: 105), no auge do Estadoateniense, sob a lideranca de
supremo.docidadao (Jellinek, 2000: 292-293). Nesta época, * Péricles, séc VI e IV a.C., com uma populacao de meio mi-
ao contrario do Estado oriental, nao era possivel f hao de habitantes, os cidadaos que constituiam a soberania
uma subordinac&o incondicional do individuo ao Estado(cf. daccidade-estado eram uma minoria em torno de 40 mil.
Annaar
Jellinek, 2000: 295). Nesse sentido, o Estado grego se aproxi- Parafraseando a passagem de Benjamin Constant, em-
ma do Estado moderno (cf. Jellinek, 2000: 298). Contudo, bora soberanosnos assuntos publicos, o individuo da “polis”
uma importante distingao podeser estabelecido entre ambos. grega era um escravo em assuntos privados. O cidadAo gre-
-onhecam ao individuo go € despojado da liberdade no sentido moderno.Ele decide
pela paz, pela guerra, como cidadao; mas aparece circunscri-
to, vigiado e reprimido em todos seus movimentos, como
pessoa. (cf. reproducao do trecho original em Miranda, 2007:
vida propria, sendo auto-suficientes. Eram de pequena ex- 26).
tensao_ territorial, possuiam_uma_populacao diminuta do O ponto de distingéo reputado como o mais importan-
ponto de vista quantitativo e detinham uma organizacao que te por Jellinek (2000: 302) entre o Estado grego e o Estado
42 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 43
moderno esta na valoracéo que cada um deles faz da pessoa 2.3.3 Estado romano
humana. O Estado helénico jamais chegou a considerar,juri-
dicamente, o homem por si mesmo, como pessoa, apesar dé O Estado romano continua a ter uma organizacao poli-
a filosofia grega ter se ocupado da ideia de homem e da hu- tica de base municipal, semelhante a encontrada no formato
manidade. As concepcées politicas de Plataéo e Aristoteles, cidade-estado da cultura helénica, nao obstante ter se espa-
apesar de o primeiro ter desenvolvido uma visaéo mais idea- Thado por umavasta extensaoterritorial. Assim informa Dal-
lista e o segundo uma mais realista, invariavelmente repro- lari (2000:64) que as caracteristi
aramEstadodesde sua fundacdo em 754 a.C. até
a morte de Justiniano no anoone 565, mesmo tendo construi-
O ideal platénico erigiu o Estado como a mais sublime
revelacao da virtude humana e s6 através dele poderia o manteve ao decorrer desse periodo aestrutura cidade-
homemalcancar a perfeigao. Plataoenfatiza o fim moral ‘na estado, a denominada“civitas” romana. Ao longo do tempo,
organizacaéo das cidades e coloca a politica como parte d todavia, podem ser identificados trés regimes politicos dife-
ética. Aristételes também vai aproximara ética da politica a rentes: a Realeza - até 509 a.C -, a Reptiblica ~ 509-27 a.C. - e
‘conceber o homem como “zoonpolitikon”. A felicidade (vir- Império, divido em Alto Império - época de Diocleciano, em
tude), o bem (telos), s6 poderia ser alcancada na medida em 284 d.C. -, e Baixo Império ~ até a época de Justiniano, morto
que o homem comoanimalpolitico vivesse em comunidade, em 566 ic. cf. Gilissen, 2003: 81)
na “polis” grega. Interessa aqui agregar as breves considera- Desde o inicio de sua formacao, o Estado romano pos-
cées do historiador Gillisen, por atribuir a Arist6teles 0 pio- suia a caracteristica peculiar de se apresentar comocentro de
neirismo na investigacao da relatividade humana, em razao unidadeinterior e geral, apesar de agregar uma variedade de
de o estagira ter admitido que as formas de governo podem “gentes” (essas seriam as organizacées de grande familia
ser boas ou mas conforme o gruposocial ao qualse destina. equivalente as clas gregas). No mundo ocidental, 6 com o
(cf. Gilissen, 2003: 77). Império romano que, pela primeira vez, os poderes do Esta-
De todo modo, o do helénic reconheceu o in- do e 0 povo na suatotalidade aparecem corporificados em
dividuo como uma esfera livre e independente do Estado, uma pessoa “princeps”. O legado romanoteria influenciado
_termos Nao desenvolveu uma consciéncia as organizac6es posteriores que concentram o poderpolitico
acerca do caracter juridico da relacdo do individuo frente ao em torno do principe (Jellinek, 2000: 303). Miranda (2007:28)
Estado, diversamente do que-se_verificouunoEstad o
moder: reporta, desse modo, como qualidade e traco particular do
no. Reiterando, na cidade-estado grega, a libe Estado romano “gqdesenvolvimento da nocao de poder poli-
dual_nda.existia_como_instituicaéo juridica, (Jellinek, 2000: tico,como boder supremo e uno, cuja plenitude - im erlum,
298). potestas,mayestas — pode ou deveser reservada a uma 0
origemea ‘um unico detentor.”
Q chefe da familia também vaiexercer um papel espe-
enema
cifico no Estado romanoatravés da figura do “pater famili-
as”. Esclareca-se que a forma romanafoi diferente da grega,
44 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrénagens de uma Teoria Geral do Estado | 45
> Je frog mertog-0® politica
cuja atuacao do chefe de familia era reguladapelalei, limita- 2.3.4. Estado Medieval~”
da no interesse de quem estava submetido a seu poder e com
prazo certo, expirando quando, por omen os filhos che- O Estado Medievalafigura-se como o Estadotipico do
gavam a maior idade(Jellinek, 2000: 304). O “pater rtnemama
familias” periodo temporal reconhecido como Idade Média (cujo mar-
romano detémee
umpoderilimitado,
ta madonna Ea
oxeronde sua autorida- co inicial seria o ano de 476, coincidente com a queda do
de de modo independente,sem sofrer afiscalizacao do Esta- império romano do ocidente, sendo 1.473, a queda de Cons-
do, Isso se justifica porque seupoder nao é uma derivacdo
ranensmeasnernerneesreinciain be nate ounce
tantinopla, o ano de seu ocaso).
“doEstado Ogo ao rio Estado. f
Aa- Para Dallari (2000: 66), o Estado Medieval apresenta
primitiva|
milia aparece, dessa sorte, como uma_organizacao comocaracteristicas:
e permanente na formacdo do Estado. Observa, assim,Jelli- i)
nek (2000: 304) que nas instituicdes antigas romanasj4 é pos- ii) invasbes barbaras
ras@; Exlaols
sivel se encontrar o reconhecimento da personalidade e li-
berdade individual, pelo menosno gue se referia ao “homo
suijuris”. O fato de o Estado nao absorver o individuo em Deste triptico, deve-se esclarecer, de maneira critica,
todos os aspectos de sua moralidade, como diversamente o que ha uma confusao na conceituacao do autor entre aqueles
fez a “polis” grega, ja esboca a tendéncia no Estado romano elementos contextuais-faticos, presentes no Estado medieval,
em separar o Direito da Moral (Azambuja, 1998: 142). e elementos que, efetivamente, afiguravam-se como caracte-
possivel apontar, desse modo, a grande contribuicdo risticas do modelo medieval de Estado. Faz-se esta advértén-
do Estado romanopara ocidente que foi distinguir o Direito cia, uma vez que a influéncia do cristianismo no Estado me-
Publico
nedo Direito
aiPrivado,Mutatis mutandis, a separacao dieval se repetiu, inclusive, nos ditos Estados modernos.
consciente entre o poder ptiblico (Estado) e o poder privado Como simples exemplo, citemos a dinastia inglesa dos Tudor
(paterfamilias). Como evidencia Jellinek (2000: 304), a sepa- (cujos principais representantes sao posteriores ao ano de
racaéo do poder ptiblico do poder privado, mediante a oposi- 1.473. Henrique VIII, por exemplo,foi rei a partir de 1509),
cao entre direito piblico e direito privado decorre da cons- cuja teoria politica de legitimacao do Poder era fortemente
trucdo histérica do Estado romano. O_individuo frente ao influenciadapela teologia politica crista (vide, sobre 0 assun-
_seria
Estadotambémpessoa, gozando derelativa liberdade to, a instigante obra, Os Dois Corpos do Rei, de Ernst Kanto-
em face do poderestatal. Em termos gerais, nao seria obri- rowicz, em concreto 1998: 305-306).
gado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa sendo em vir- Desta forma, nao é possivel considerar que a mera in-
tude de lei. A propriedade aparece também como um direito fluéncia cristéo, enquanto fator de legitimidadeestatal, possa
que.oEstadoteria interesse_em._ proteger e ‘segundo Cicero ser considerada como referencial do Estado Medieval. Uma
seria O objeto mais importante da totalidade da vida politica eventual confusao entre conceitos poderia levar o leitor mais
do Estado.(cf. Jellinek, 2000:304 e Maluf, 2008:111). incauto a consideragdéo de que o Estado moderno laico,
sendo o medievalreligioso, aproximando-o do Estado orien-
tal. Esta inferéncia, ademais de equivocada,levaria a exclu-
sao de Estados contemporaneos que trazem em seu bojo uma
46 | Flavianne Fernanda
Bitencourt Nobrega
Pecas e Engrenagens de uma
Teoria Geral do Estado | 47
relacdo bem proxima, por exemplo,
com o Cristianismo ou c em Roma, foi alcancado, nestes novos povo
com umadesuasigrejas ou correntes s [da Idade
(Catélica), como é o Média], mediante. uma dura e dificil lita.”
caso da Argentina,! do conceito de Estado (2000: 306, trad.
moderno. livre).
Quanto ao segundo elemento, a saber,
as invasdes
bar- A partir desta constatacao, pode-se fazer uma relei
baras, este tampouco pode ser considerado comou tura
ma carac- da caracteriza¢gao do Cristianismo como
teristica do Estado Medi val, uma vez quet elem ento essencial
ais foram recor- do Estado medieval. O Cristianismo sera assi
rentes, apenas, no periodo denomina m considerado,
do como Alta Idade caso levemos em consideracdo a dicotomia que havia
Média, e que vai do século V ao X. entre
A bem da verdade, as Igreja e Rei dentro de um mesmo “Esta
invasGes barbaras sdo mais consequéncias do” medie val. No.
do quecaracteris- listado medieval, eram constantes, ademais dos
ticasdoEstado medieval, que, sim, se iden
tificarA com o ter- conflitos
ceiro elemento apontado por Dallari, a sabe entre imperadorese senhores feudais, as lutas entre
r, o feudalismo os impe-
(um Estado sem um podercentral definido radores e a Igreja (cf. Jellinek, 2000: 310 e ss; Dalla
est4 mais sujeito ri, 2000:
67), sendo que a tltima usualmente buscava se
impor aos
?
A ténica do Estado medieval é, sim, a frag primeiros(cf. Jellinek, 2000: 310).
mentacdo do Desnecessdrio dizer que deste conflito entre fonte
Poder, e esta se encontra representada no s de
feudalismo, com- poder, tipico do Estado medieval, havia, igual
preendida como organizacdo social sem mente, um
uma hierarguia de conflito de fontesjuridicas. Edizer,no Estado medie pas Seton5m
poderes. Q rei, invariavelmente, havia de val nao
conviver comfon- havia uma nica fonte oficial impondo direitos
tesmenores de poder, os senhores feudais, e deveres
08quais,constan-
temente,questionavam e contestavam
o proprio poderreal,
(havendo0direitoimpostopeloimperador,odircito feudal
v, ainda, as imposigdes da Igreja, ordensjuridicas
por vezes suplantando-o. estas que,.
Portanto, importante caracterizar o Estado vomumentemente, entravam em conflito).
medieval
como o Estado feudal, é dizer, desprovido
de uma unidade, 2.3.5. Estado Moderno
outrora presente no Estado romano. Outro
, alids, nado é o
entendimento de Jellinek, 4 medida que
este, de maneira A tarefa de definir 0 Estado moderno afigura-se Ar-
precisa, afirma que “Neste ponto [a ideia
de unidade politi- (lua. Dois motivos bem determinam a sua maior dific
ca] se sustenta precisamente uma das Oposi uldad e
¢6es mais impor- definicional, conceitual, em relacdo aos tipos de Estad
tantes entre o Estado antigo ea evolucdo o até
do Estado na idade entao tratados, E que, ao contrario do que ocorr
média. Aquilo que era considerado como e com o Es-
um dado na Grécia tado Grego, Romano e Medieval, 0 Estad o mode rno nao en-
contra, de pronto, de imediato, elementos peculi
ares, idios-
7A Constituicao argentina de 1994 traz, sincraticos, que possam facilitar a sua definicdo. Enquanto
em seu art. 2°, o seguinte ha
texto: “O governo federal sustenta o culto
catélico apostélico modelos de Estado cuja configuracdo esta atreladaa civiliza-
mano” (in. http:// www.senado.gov.a ro-
r/web/ interes / constituci- cdo a qual se referem (Grécia ou Roma), ou a um dado peri-
on/capitulol.php, acessado em 06/09/20 odo temporal (Estado medieval ou, mais propriamente,
08.
* Outra decorréncia ou cons feu-
equé ncia do Estado medieval é a au- dal, que se inicia a partir do séc. XII, cf. Pocock, 2004: 70),
séncia de um territério fixo (cf. Jellinek,
2000: 307) com caracteristicas bem demarcadas, a saber, fragm
entacdo
48 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 49
do Poder e instabilidade politica, o Estado modero_nao nao fragmentado, tere stado moderno um Estado
apresenta um marcohistérico especifico ou, ainda, qualquer romanosemRoma.Ressalte-se que esta identidade equivo-
vinculacdo a uma dadacivilizacao. Este fato cria, por exem- cada, ao contraério do que ocorre com Dallari, néo passou
plo, sérios problemas na tentativa de diferenciacgéo de Esta- desapercebida porJellinek, A medida que este considera que
dos modernos e Estados pés-modernos, classificagao esta seria uma grande falha simplesmente identificar o Estado
usual no léxico politico e teérico atual (vide, nesse sentido, moderno com modelos mais antigos de Estado, havendo
Pagliarini, 2005: 50 e ss). uma grande diferenca entre ambos (2000: 314-315). Esta dife-
Voltando, contudo, ao conceito de Estado moderno, renca sera mencionada abaixo.
ha autores que buscam identificar sua génese 4 busca de Invariavelmente, também, busca-se classificar o Estado
uma_unidadepolitica (cf. Dallari, 2000: 70 e Jellinek, 2000: moderno a partir de suas notas caracteristicas (cf. Dallari,
312-312, mais concreto em 314°). Este juizo de identidade 2000: 71). Esta metodologia sera, contudo, igualmente polé-
entre unidade e Estado moderno,contudo, somente faz sen- mica, uma vez que as notas caracteristicas do Estado moder-
tido em face do Estado feudal, fragmentado. Dai o porqué de no variaram em nome e em ntimero, dependendo do doutri-
Jellinek bem destacar “a hist6ria interna dos Estados moder- nador. Para Romano, por exemplo, Estado_moderno
nos tem como contetido as lutas levadasa efeito para fixar o seria aquele entor de Soberania tritorialidade. Para
poder do principe frente ao dos estados [enquanto feudos] Del Vecchio, seria a presenga_
reennemetic comerat
de pave,enainda,
seaninannatont
teritirio
ou bracos” (Jellinek, 2000: 312). Esta concepcao, contudo, ha vin: juridico.DonatoDonati, por sua vez, afirmaque Oo
~:
de ser rechacada em face de outros modelos de Estado histo- do
Estamoderno
ricamente considerados, como, por exemplo, 0 romano, uma por pessoa estatal,
vez que o proprio Estado romanotrazia esta pretensdo de capazde exercer a soberania, Groppali destaca, além destes
unidade em seu bojo. Outra compreensdo,alids, nao é logi- trés, o elemento finalidade. Por fim, Ataliba Nogueira des-
camente admissivel, em face da pretenséo universalizante dobra o Estado moderno em cinco elementos - Territ6rio,
que este modelo de Estado sempre deteve (Cf. Dawson, 2001: Povo, Soberania, Poder de Império e finalidade (todos cita-
98, 130, 190-191, 196-197). Ora, somente pode pretender ser dos por Dallari, 2000: 71-72). Ou seja, os elementos caracteri-
universal aquele Estado que j4 detenha uma unidade no mi- zadores_ do Estado_moderno ficariam, por assim dizer, ao
nimopolitica e que privilegie e defenda esta sua caracteristi- gosto do cliente.
ca. Ademais, percebam osleitores que, ao que tudo indica,
Portanto, o elemento caracterizado do Estado moderno Estado moderno seria aquele que detivesse, pura e simple-
nao podeser, exatamente, uma ideia de unidade,pois esta ja mente, todos aqueles elementos constitutivos dos Estados
estava presenteem Roma. ja, se assim procedermos- (objeto da UnidadeIV).
"equiparar Estado modernoao Estado politicamente unitario,
teanan aey
Jellinek, por sua vez, ao tratar do tema, traz outra con-
cepcao de Estado moderno, ademais da ideia de unidade.
Para ele, o Estado modernoseria o Estado, enquanto unida-
* “Asteorias politicas da época moderna também contém em uma
medida maior ou menor a tendéncia de conceber o Estado como de de associagao ou unidadeteleoldégica (2000: 191-192), or-
uma unidade.”(Jellinek, 2000: 314, trad. livre). anizado_conforme_ uma Constituicao (Jellinek, 2000: 311). Ou
50 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 51
seja, o Estado modernoseria, praticamente, o Estado Consti- que tem direitos por si mesmo(Jellinek, 2000: 315). E sera em
tucional. Embora mais preciso do que a definicado acima ex- razao deste fato que Jellinek bem diferenciara o seu Estado
posta (desconsiderando-se aqui por completo aquela que moderno dos demais Estados ja detentores de unidade. Res-
busca classificar o Estado modernoa partir de seus elemen- salte-se, ao cabo, que o autor em apreco é assaz cuidadoso,
tos constitutivos), a concepcao do estudioso de Leipzig ape- uma vez que inclusive chega a diferenciar o Estado moderno
nas transfere o problemapara outro sitio, uma vez que Cons- daqueles Estados anteriores que, eventualmente, possam ter
tituicdo também é um conceito fluido e bem polémico(vide, protegido os direitos dos individuos.Para Jellinek, esta pro-
por exemplo, Grey, 1979: 189). Apenas para esclarecer 0 que tecao, embora pudesse ter existido nos Estados antigos, era
estamos afirmando, lembrem-se vocés leitores que a propria precéria, podendo ser revertida a qualquer momento (Jelli-
Carta Magna de Jodo Sem-Terra, de 1215, portanto, em um nek, 2000: 316).NoEstado moderno,esta concep¢ao de pro-
periodo temporal tipico do Estado medieval, é classificada, tecdodoindividuo se afigura como elemento essencial do
por diversos autores, como um exemplo de Constituicdo Estado.
(Dallari, 2000: 198). Ou seja, teriamos Estados que poderiam Tem-se, aqui, portanto, aquele elemento que efetiva-
ser considerados tanto como Estados medievais como mo- mente diferenciara 0 Estado modernodos demais, uma no-
dernos. ¢ao arraigada de protecao ao individuo.
Inobstante este problema, a definicéo até agora esbo-
cada deJellinek finda por ser mais completa que as j4 menci-
onadas, uma vez que busca identificar um elemento idios- Csoole Wooler ne >) Proll or ols Arnlastolug-

sincratico do Estado moderno em face dos demais e em es-
pecial do antigo (sendoclassificado aqui nesse texto como
Estado romano). Embora possamos considerar como pro-
blematica umaclassificagaéo de Estado moderno pautado na
Se
ideia de-unidade politica + existéncia de uma Consfituicao, a
nogao final de Jellinek quanto ao Estado mioderno, com um
ultimo elemento acrescentado,afigura-se adequada.
E que para o estudioso de Leipzig, a nocdo de indivi-
duo, no Estado moderno, é mais clara do que no Estado an-
tigo: “Na época moderna, pelo contrario, inclusive quando
houve o reinado de um absolutismo sem limites, jamais dei-
xou de existir a conviccdo de que o individuo era um sujeito
de direitos em face do Estado e que, portanto, haveria de ser
reconhecido morale juridicamente poreste.” (Jellinek, 2000:
315, trad. livre. Vide também p. 317).
Em outras palavras, o Estado moderno se fundamenta
no reconhecimento do individuo enquanto um poder social
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 53
UNIDADE3
Origem do Estado
3.1 Origem do Estado
Um t6pico especifico sobre a origem do Estado prova-
velmente suscitara, no leitor, a imagem de que a identifica-
cao do momento exato da génese do Estado estara, necessa-
riamente, vinculada ao panorama hist6rico esbogado na
primeira parte desta Unidade, de forma que se poderia su-
por que o primeiro exemplo de Estado foi o Oriental (de 3000
anos A.C), ao menos em termoscronoldgicos.
tre origem do Estado e os primeiros tipos de Estado doutri-
nariamente identificados certamente_ndo esté equivocada.
Contudo, um juizo de identidade desta natureza acaba por
ser extremamente simplista, uma vez que desconsidera,
principalmente:
(i) a_questéodavariedade conceitual do Estado (so-
bra a qual j4 se discorreu, igualmente, na Parte I
desta unidade);
(ii) a. auséncia de dadosempiricoscapazesde fornecer
ao pesquisador um indicio concreto quanto ao
nascimento do Estado.
No queserefere a (i), ndo ha como desconsiderar a in-
fluéncia da nomenclatura na identificagdo da origem do Es-
tado, pois caso queiramosidentificar a origem do Estado, a
partir de sua nomenclatura atual (e nao comopolis, civitas,
res publica etc), provavelmente apontaremos o século XVI
54 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 55
come o marco do surgimento do Estado (cf. Dallari, 2000: vas de associacdo humana (familar, quer seja matriarcal,
51), uma vez que, conforme visto, foi Maquiavel, em sua querseja patriarcal).
obra O Principe, de 1513, o responsavel por cunhar as comu- De outra banda, quanto (ii), as discussGes sobre o
nidades politicas existentes como Estados. Ato continuo a marco inicial do Estado sao, em geral, eminentemente hipoté-
essa identificacdo, findaremos, invariavelmente, por conside- ticas (cf. Jellinek, 2000: 264). Um exemplo desta afirmacao
rar que a origem do Estado se da com o nascimento do Esta- pode ser encontrada, por exemplo, na seguinte hipdtese
do moderno, nao sendo possivel apontar a existéncia de quanto a formacado do Estado: o Estado se formou a partir da |
quaisquer outros Estados previamente ao Séc. XVI (sobre o consolidacéo de um modelo sedentdrio de vida, em detri-
tema, ainda que rapidamente, Dallari, 2000: 51, e, principal- mentodo costume némade. Emboraseja dificil contestar esta
mente, o video do Prof. Aladr Caffé Alves: afirmacao, uma vez que a vida sedentéria facilita a vida em
http://br.youtube:com/watch?v=ByQT6LZUbYE). Outta, comunidade em um local especifico e determinado (concep-
‘alias, nado é a concluséo de Hermann Heller, o qual afirma cao inicial - ainda precaria - deterrit6rio),nao ha.dadospre-
que o Estado é algo, do ponto de vista histérico, peculiar, cisos quanto a origem deste modelo, o qual. é considerado
“nao podendo ser trasladado a tempos passados” (1971: pelo estudioso de Leipzig como um processo de “origem
141)!. obscura, pois o modelo sedentario esta intimamente ligado
Se, contudo, dermos um sentido mais lato ao conceito ao cultivo de cereais, o qual levou um tempo consideravel
de Estado, nao se apegando a sua nomenclatura ou as suas para ser implantado. Ademais, a pratica de cultivo decereais
caracteristicas peculiares (a serem desenvolvidas na Unidade também ja era realizada pelos povos némades agricolas.”
III e que invariavelmente se referem ao Estado moderno), (Jellinek, 2000: 265,trad. livre).
i aA_origem Diante destas dificuldades, precisa é a conclusdodeJel-
do Homem.Afinal, conforme visto na Unidade anterior (Es- linek quanto 4 impossibilidade de se chegar a um acordo
tado Grego), o homem seria um animal politico e o tmico quanto aquilo que ora se estuda, a saber, a génese do Estado,
meio para encontrar a felicidade residiria em uma comuni- uma vez que a andlise em apreco se pauta em teorias politi-
dade politica (Aristoteles). Portanto, estaremos tendenciosos cas e econdmicas varidveis e diversas (Jellinek, 2000: 264).
a encontrar “elementos de Estado” nas formas mais primiti- O proprio Jellinek é um exemplo claro de seu alerta.
Conforme visto na UnidadeI, o autor em comento destaca a
dimensao juridica do Estado. Ato continuo, o autor finda por
identificar o surgimento do Estado ao surgimento do proprio
* Para o Autor, somente ha Estado quando uma determinada orga- Direito: “o processo primario de formacao dos Estados, é, ao
nizacéo social apresenta uma ideia de i) unidade de dominacao, mesmo tempo, um processo de formacao do Direito, de for-
independente do Exterior e do Interior; ii) dominagdo esta que ha ma que, historicamente, Estado e Direito estao, desde o ini-
de ser continua; iii) a ser exercida por meios préprios; iv) incidente cio, entrelacados um com o outro.” (Jellinek, 2000: 266).
sobre um determinadopovo; v) e territério (cf. Heller, 1971: 142). E
exatamente em raz&o desta inferéncia que Heller finda por questi-
onar a existéncia, por exemplo, do Estado Medieval (“é mais que
questionavel” - cf. Heller, 1971: 141).
56 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 57
3.1.1 Teorias sobre o surgimento do Estado defender, por exemplo, que o Estado é fruto de um ato hu-
mano de vontade. Outra teoria, por sua vez, compreendera
O que é importante ser destacado, pelo leitor deste
2
“queo Estado é decorréncia de umaordem natural, ainda que
item, 6 a existéncia de diversas teorias quanto 4 formacao do atrelada a existéncia do ser humano. A primeira teoria sera
Estado, variedade esta
renner eratesners i paniieitafustee
que decorrera variedade.conceitu-
Neacicteetivaetak
desenvolvida, preferencialmente, pelos adeptos_da_teoria
aldo Estado e dadeempiricossuficientes '" contratualista (embora lhe seja mais abrangente, uma vez
para determinar um_ momento inicial preciso do Estado, o A dort ode que abarca outras hipdteses de formacgao do Estado, como
que torna hipotética a discussdo sobre aquestao em comen- por exemplo, a da dominacao). A se nda, or sua vez, sera-&
to. De qualquer maneira, colaciona-se, didaticamente, algu-
hue, alcunhada como teoria jusnaturalista do Estado (em suasPr~e.,_
mascorrentes quanto a origem do Estado: vertentes mais antigas, uma vez que 0 jusnaturalismo mo- * Qe,Lee,
derno explica o Estado como uma obra voluntaria dos indi-
‘ a) Nascimento do Estado = surgimento Estadamoderno: viduos, compreendendo, assim, a teoria contratualista - cf.
dentro dessesgrupos, costuma-se identificar, como Fass6,1986: 658), ou, mais recentemente, pela concep¢ao or-
marco do surgimento dos Estados modernos 0 ano doEstado,’ cuja caracteristica basica 6 a énfase conce-
de 1648, no qual se celebrou a paz de Westfalia, res- dida a formacao hist6rico-social do Estado, a qual seria_pré-
ponsavel por definir os limites territoriais da Franca via e anterior a formacao juridica do Estado (sendo Gierke
e da Alemanha(cf. Dallari, 2000: 53); um defensor desta,cf. Jellinek, 2000: 270, n. 8).
Embora tenhamosalocadoas teorias acima (contratua-
3b) Nascimento do Estado = surgimentoHomem:Esta lista e as jusnaturalistas e organicistas) sob a classificacdo b,
corrente, atrelada a uma concepcao mais lata de Es- ha quese ressaltar a diferenca que ha entre elas, e que é re-
tado, enquanto organizacao politica, busca _associar forgada por Gettel, no que se refere a distin¢do entre contra-
a_génese do Estado a génese do ser humano, que tualismo e organicismo: “Em geral, a Teoria do Pacto Social
poderia ser didatizada e sintetizada sob a seguinte {contratualista] é hostil a concepcéo de Estado, enquanto
maxima: onde ha homens, havera Estados. organismo. Partindo daquela, o Estado nao é considerado
como um desenvolvimento evolutivo, sendo que consiste de
c) Estado enquanto_fendmeno_r ior ao homem. uma criacéo deliberada da vontade humana. Somente o in-
O Estado surgiu de maneira espontanea, sendo, in- dividuo goza de direitos; o Estado é um simples agregado de
clusive, um fenédmeno prévio ao homem.?
Ressalte-se que algumas destas correntes, ademais,
* Por ora, basta sabermos que a teoria natural quanto a génese do
poderao se dividir em duas, comoé 0 caso de b). Esta podera
Estado era peculiar do Estado antigo, tendo o modelo juridico se
iniciado no Estado medieval(Jellinek, 2000: 267), e que, posterior-
? Heller cita Eduard Meyer, o qual, de maneira peculiar, compre- mente, em seu renascimento enquanto teoria organica, tal teoria
ende que o Estado é mais antigo que o homem, sendo, também, voltou a tona no séc. XIX e XX, sendo Hegel um dos seus defenso-
um elemento comum aos animais (Heller, 1971: 141). res (cf. Gettel, 1937:257-259).
Pecas e Engrenagens de uma Teoria. Geral do Estado | 59
58 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
individuos, sem uma existéncia real, sem consciéncia de sua Estado: “O Estado esta fundamentado por Deus ou pela Pro-
unidade” (1937: 257). . vidéncia Divina e, por conseguinte, todos se véem obrigados,
por mandamento de Deus, a reconhecé-lo e a se submeter a
3.1.2 Teorias Jusnaturalistas sua organizacao” (Jellinek, 2000: 199).
Para a segunda variante do Jusnaturalismo, por
De maneira bem didatica, uma vez que as doutrinas exemplo, defendida por Ulpiano, segundo a qual o direito
jusnaturalistas serao mais bem exploradas em IED (Direito natural seria algo ensinado a todos os seres animados, racio-
Natural vs. Direito Positivo), compreende-se jusnaturalismo nais e - inclusive - irracionais, 0 Estado seria um dado natural,
a doutrina que afirma existir um “direito natural’, ou,.me- fruto do instinto do homem (e de outras entidades anima-
Thordizendo, “um sistema de normas de condutaintersubje- das).
‘tiva diverso do sistema constituido pelas normas fixadas Em contrapartida, 0 jusnaturalismo pautado na razao,
pelo Estado (direito positivo)” (Fass6, 1986: 655). denominado comojusnaturalismo moderno, entende que o
Ressalte-se que o jusnaturalismo é uma expressao flu- Estado é formado por umato de vontade. O Estado é uma
ida e equivoca (cf. Fass6, 1986: 656), havendo inclusive di- construcaoteorica. Osprincipais teoricos desta ultima corrente
versas variantes desta doutrina, as quais, didaticamente, Sao OS contratualistas,4 tratados no proximoitem.
seriam:
1) Direito natural estabelecido pela vontade de uma 1.3 Teorias Contratualistas > “stool noscun
entidade divina; Qilsooler Joratictintor Andante dt du mnone
2) Direito natural enquanto um elemento “natural”, Ressalte-se, de inicio, que o contratualismo se afigura
“fisicamente ‘co-natural a todos os seres animados como uma corrente jusnaturalista, mais precisamente como
a guisa deinstinto” (Fassd, 1986: 655) um doutrina do jusnaturalismo racional moderno (cf. Can-
3) Direito natural enquanto direito ditado pela razao tor, 2006: 139; Fass6, 1986: 658), que, diferentemente, do jus-
do ser humano. naturalismo antigo ou medieval, defende que os préprios
homens sao responsaveis por alcancar o direito natural, por
Aplicandoesta teoria ao objeto do nosso estudo,a sa- meio da razdo (Fassé, 1986: 657), promovendo umainde-
ber, a formacdo do Estado, cada uma tera seus proprios des- pendéncia do direito natural” da figura de Deus (Fass6, 1986:
dobramentos. 657). A finalidade da teoria contratualista ¢ explicar, justifi-
Para a primeira teoria (teoria Teocratica do Estado), o car, onascimento do Estado, a partir de um ato de vontade
Estado seria uma entidade “sobrenatural”. O Estado se for- do serhumano. Trés sao os seus elementos constitutivos:
ma, diretamente, em razdo da vontade divina (Cantor, 2007:
33),Um exemplo claro desta concepcao reside no livro pri- 4
Pode ocorrer, contudo, de eventualmente um dado autor, como
meiro de Samuel, segundo o qual Satil foi designado rei do
ocorre comJellinek (2000: 204 e 224), findar por alocar um adepto
povo de Israel, por vontade de Deus (Cantor: 2007:33 e 38- do jusnaturalismo moderno como um defensor da teoria da forca
43). O Estado é uma criacdo de Deus, conforme bem aponta (como Hobbes) ou ainda sob outras teorias existentes quanto ao
Jellinek, ao fazer mencdo a esta concepcao de justificativa do surgimento do Estado (necessidade moral ou ética, por exemplo).
60 | Fiavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 61
1) Estado de Natureza; ~
Il) Pacto ou contratosocial e; ~ cao voluntaria pelo povo.” (in. Stewart, 1996: 42). Para o au-
Ill) Estado ou sociedadecivil. — tor, por meio da Historia, “sabemos que o povo quase nunca
foi consultado nas revolucées e no estabelecimento de novos
Para os defensores desta teoria, os homens teriam vi- Estados”(in. Stewart, 1996: 49).
vido, previamente a vida em sociedade, em um dito estado de O posicionamento do pensador escocésse refletiu em
natureza. A sociedade civil, o Estado, por sua vez, teria sido outros pensadores, principalmente os empiristas que por ele
formadoapésa realizacao de um pacto ou um contrato soci- foram influenciados, como Jeremy Bentham (1748-1832), 0
al. qual atacou, em 1776, por meio de sua obra, Fragmento sobre o
No quese refere ao estado de natureza, o qual seria uma Governo, o “mito” de que o Estadoteria surgido por meio de
espécie de antesala da sociedade civil (cf. Cantor, 2006: 137), um acordo ou contrato social (cf. Copleston, 2004:23), sendo,
esta expressao foi primeiramente utilizada pelo tedlogo in- em sua opiniao, um fundamento inadequado para o surgi-
giés Sir John Fortscue (1394-1479), em sua obra De Laudibus mento do Estado e para explicar sua autoridade politica (cf.
Legum Engliae, tendo sido consolidada(e popularizada), pos- Fuller, 2004: 680).
teriormente, no léxico dos contratualistas. O contratualismo, ainda que tenha sido submetido a
Os trés principais tedricos do contratualismo sao Tho- sérios e importantes ataques, sobrevive até os dias atuais
mas Hobbes (1588-1679), John Locke (1632-1704) e Jean Jac- (havendo, por exemplo, discussdes entre um contratualismo
ques Rousseau (1712-1778), sobre os quais se discorrerA mais hipotético e outro efetivo, actual - cf. Stark, 2000: 313). Um
abaixo. exemplo de adepto recente desta corrente é neocontratualis-
Conformefoi dito, o contratualismo busca estabelecer mo de John Rawls que resgata a ideia de “estado de nature-
umajustificativa - racional - para o surgimento do Estado,Oo. za” dosclassicos em seu conceito de “posicao original” (cf.
Estado surge a partirde uma avenca (um contrato e um pac- Rosenfeld, 1991: 65-66 e; http:// plato.stanford.edu/ entri-
to),-cujos motivos variarao de acordo com cada pensador es/contractarianism/, acessado em 15/09/ 2008).
desta corrente (Hobbes, Locke e Rousseau apresentam con-
cepc¢6es distintas).
Nada obstante a enorme popularidade das teorias con- 3.2 Justificacao politico-filoséfica do Estado em Ma-
tratualistas, estas nao deixaram de enfrentar diversas obje- quiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Montesquieu,
Ges, sendo a mais séria destas a que apontavaa inexisténcia Kant, Hegel e Kelsen
de exemplos hist6ricos demonstrando a ocorréncia de um
pacto ou contrato social. Trilhava esta senda David Hume 3.2.1 Maquiavel
(1711-1776), o qual afirmava que: “Quase todos os Estados
que existem atualmente, ou aos quais temos acesso por meio Maquiavel (1469-1527), autor da obra O Principe (1513),
de arquivos hist6ricos, foram criados, originariamente, quer reputado comoo principal baluarte da concepcdéo moderna
por meio da usurpac&o, quer por meio da conquista, ou por do Estado, assim o seré reconhecido em razd4o de sua defesa
ambos, sem que houvesse qualquer consentimento ou sujei- da unidade do Poder. Sua teoria nao se preocupa coma Igre-
ja, com o Papa, com os ensinamentos da Sagrada Escritura,
62 | Flavianne Fernanda Bitencourt Ndbrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 63
com o Céu(cf. Gettel, 1937: 237; Strauss, 2004: 292), uma vez Dessa forma, nao existe conduta boa ou ruim, mas sim
que este carater religioso da vida em sociedade findava por y Poder Estatal. Isso
contribuir para a fragmentacdo politica do Estado medieval pode ser percebido na passagem do capitulo XV, da obra “O
(cf., igualmente, Gettel, 1937: 238). Em razao deste detalhe, Principe” de Maquiavel. Pela clareza dos conceitos que em-
Maquiavel parte de umaanilise realista e concreta do Esta-
sees_eass eeneter=
prega, merece aqui sua reproducao naintegra: “Em verdade,
_do, estudando de maneira pormenorizada aformadealcan- ha tanta diferenca de como se vive e como se deveria viver,
eran
car€manteroPoder. que aquele que abandone o que se faz por aquilo quese de-
Portanto, Maquiavel nado reconhece fatores externos a veria fazer, aprendera antes o caminho de sua ruina do que o
politica (Deus, natureza, razdo, ética), perfazendo um estudo de sua preservacdo, eis que um homem que queira em todas
eminentemente empirico e hist6rico. Para Maquiavel, a natu- as suas palavras fazer profissio de bondade, perder-se-4 em
reza humana torna qualquer sociedade uma desordem,que meio a tantos que nao séo bons. Donde é necessario, a um
semente sera resolvida com o advento do principado ou da principe que queira se manter, aprender a poder nao ser bom
‘répuiblica. Assim, a fungao do Principe é fundar o Estado, e usar ou ndo da bondade, segundo a necessidade”(trecho
estabelecendoa ordem, por meio de um governoforte, que extraido da versdo em portugués editado pela Cultvox, do-
0
iniba qualquer forca desagregadora na sociedade, Paraisso minio publico, disponivel em http:// www.dominio publi-
principe nado deve usar apenas a forca fisica,‘Visto que se a co.gov.br/ pesquisa/DetalheObra Form.do?select_action
utilizar tera i de conquistar, mas nado =&co_obra=24134).
dominio, queso ocorrera por meio da virtit. Observe no excerto acima a preocupacado de Maquia-
O conceito de virtt: em Maquiavel é separado do con- vel em separar o mundo do “ser” do mundo do “dever ser”.
ceito de virtude presertte na_ moral crista. Por este motivo, Essa distincdéo era uma novidade para a teoria politica de
algumas atitudes que sao entendidas comovicios pela Igreja, entéo. Como exemplo dos meios empregados em funcao da
em Maquiavel sao expressdes da virti. Os imperativos da necessidade, convém citar outro trecho, como aquele em que
virtudecrist&, como ser bom, honesto, nao fazer mal a ou- o autor afirma que “Porisso é de notar-se que, ao ocupar um
trem, ndo matar, cumprir com suas promessas, entre outros, Estado, deve o conquistador exercer todas aquelas ofensas
nem sempre deveriam ser observados pelo principe. Nesse que se lhe tornam necessarias, fazendo-as todas a um tempo
sentido, Maquiavel é bastante pragmatico e perspicaz ao sO para nao precisar renova-las a cada dia e poder, assim,
alertar que essas condutas com base em uma moral conven- dar seguranca aos homense conquista-los com beneficios”.
cional poderiam levar o Estado a ruina. A politica exige uma (http:/ / www.dominio publico.gov.br/download/texto/
moral e ética propria, que é a sabedoria e habilidade de agir cv000052.pdf, p. 37).
conforme as necessidades. Este seria o ‘conceito de virtude Outro exemplo paradigmatico do carater pratico do
propostopeloflorentino. Sendo o objetivo maior do principe pensador em apreco é o referente a crueldade do Principe:
atuar_para salvar o Estado, manter-se no poder,garantir a “Um principenao deve, pois, temer a ma fama de cruel desde
unidade e a estabilidade politica; os meios empregados de que por ela mantenha seus stiditos unidos e leais, pois que,
acordo com a necessidade em concreto justificariam os fins com mui poucos exemplos, ele sera mais piedoso do que
aqueles que, por excessiva piedade, deixam acontecer as de-
64 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado {| 65
sordens das quais resultam assassinios ou rapinagens: por-
poderia ser mais vivo, o que fara com quenofinal, ao anali-
que estes costumam prejudicar a comunidadeinteira, en-
sar 0 conjunto, mesma nos se-
quanto aquelas execug6es que emanam do principe atingem
guintes termos: “A natureza fez os homens tao iguais, quanto as
apenas um individuo”. (http://www.dominio publi-
faculdades do corpo e do espirito, que, embora por vezes se encontre
co.gov.br/download/texto/cv000052.pdf, p. 64).
um homem manifestamente mais forte de corpo, ou de espirito mais
Ressalta-se, por fim, que um conceito presente na obra
vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isso em
de Maquiavel é o de fortuna(sorte), que, igualmente, é utili-
conjunto, a diferenca entre um e outro homem ndo é suficientemen-
zado de forma diferente do aspecto cristéo, uma vez que
te considerdvel para que qualquer um possa com base nela reclamar
para o filésofo é possivel fazer com que a fortuna favoreca 0
qualquer beneficio a que outro nao possa tambémaspirar, tal como
principe, por meio da virti, nao sendo caracterizada como ele. Porque quanto a forca do corporal o mais fraco tem forca sufici-
uma circunstancia aleatoria, sem qualquer possibilidade de ente para matar o mais forte, quer por secreta maquinacdo, quer
ser seduzida pela coragem,inteligéncia e virilidadedoprin- aliando-se com outros, que se encontrem ameacados pelo mesmo
cipe. perigo.(...)” (Hobbes, 1991: 107).
Assim, um principe virtuoso (virti) ter4 condicdes de Assim, do fato de todos os homens serem tao iguais,
colocar a sorte a seu favor, ndo sendo esta considerada im- surge o estado de guerra, que é 0 estado de natureza dos
previsivel. individuos. Isso porque, como os homenssao iguais e maus
por natureza,a conduta mais racional é tentar antecipar a
3.2.2 Hobbes atitude do outro homem. Dessa forma, como n&o se sabe o
que o outro homem deseja, mas pode-se imaginar que o de-
Antes de adentrar nas especificidades dateoria da ori- sejo é causar 0 mau, entao a regra é atacar primeiro, tanto
gem da formacgaéo do estado para Thomas Hobbes (1588- para se defender de um eventual ataque, quanto para vencé-
1679), convém destacar que ele é.considerado contratualista, lo, a fim dese glorificar.
ou seja, integra um grupo de filésofos que defende Para Hobbes, o contrato de formacado doestado é pac-
formacao do estado esta na celebracéo de um contrato, que tuado e acordado com todos os homens, sem qualquer exce-
estabelece as regras para convivéncia soci rdinacao cao. Em outras palavras, os homens, visandoa atingir a paz e
polftica entre os meieeoe. a protecao do soberano, deverao atribuir a representacado de
todos a um homem ou a uma assembleia de homens, e mes-
homens viveriam sem
sr aualquesimpose mo os individuos que votaram contra, deverao, igualmente,
cdo, minima, para uma convivéncia harmoniosa. Para se en- submeter-se ao poder do soberano, conforme as seguintes
tender o pensamento de Hobbes, deve analisar trés pontos palavras: “Diz-se que um Estadofoi instituido quando uma
essenciais de sua obra: (i) nocdo de individuo;(ii) estado de multidao de homens concordam e pactuam, cada um com
guerra (estado de natureza);(iii) formacdo do Estado. cada um dos outros, que a qualquer homem ou assembleia
No quese refere ao primeiro ponto, Hobbes defendia de homens a quem seja atribuido pela maioria o direito de
ran
que os individuos eram iguais por natureza, de modo que se
representar a pessoa de todoseles (ou seja, de ser seu repre-
um homem Tor mais forte que 0 outro, no espirito o outro
sentante), todos sem excecdo, tanto os que votaram a favor
66 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 67
dele como os que votaram contra ele, deverao autorizar to- Assim, a propriedade privada surgia com o trabalho,
dos os atos e decisdes desse homem ou assembleia de ho- tendo o homem agregado valor a determinada matéria bruta
mens, tal como se fossem seus préprios atos e decisdes, a fim da natureza, criando certos bens, que consubstanciava sua
de viverem em paz uns com os outros”. (Hobbes, 1991: 145). propriedade, excluindo, por consequéncia, qualquer homem
Ressalta-se, por fim, que para Hobbes o contrato nao de sua érbita. Nesse sentido, o limite da propriedade tinha
tem a participacaéo do soberano, mas, apenas dos stditos, o uma relacéo diretamente proporcional com a capacidade de
que demonstra a auséncia de qualquer limite ao poder do trabalho, Quem trabalhasse mai riedade.
Estado que é absoluto para fazer cumprir suas ordens. Ja que Todavia, como o estado de natureza nao esta livre de
o soberano s6 surge depois, como resultado da celebragao do todos os constrangimentos, como violacdo a propriedade,
contrato entre os stiditos, ele se conserva isento de responsa- que para Locke, repita-se era a vida, a liberdade e os bens,
bilidades e obrigacGes. Os individuos dao todo o poder ao que pela auséncia de um corpo competente para julgar o
ssoberano com o objetivo de garantir e preservar sua propria assunto, criar e executar as leis, colocava os individuos em
‘Vida. Caso o soberano nao atendaessa finalidade de garantir constante guerra entre si, gerou a necessidade de mudanca
a paz, a seguranca do povo(salus populis) e vida dos indivi- do estado da natureza para o estadocivil,
duos, os stiditos nao lhe devem mais obediéncia. Isso se jus- Essa mudanga concretiza-se mediante a celebracdo do
tifica nado porque o soberano descumpriu alguma obrigacao contrato social, que estabelece por unanimidade a vontade
(pois ele se situa fora dos compromissos); mas porque dei- de se estabelecer 0 estado civil. Apds 0 estabelecimento deste
xou de existir a principal razdo que levava 0 stidito a obede- estado, agora por maioria, 0povo estabelece a forma dago-
cé-lo - a preservacdo da vida, ou seja, desapareceu o fim em verng.¢.os membros do poderlegislativo, considerado como
vista do qualfoi criada a soberania. Se o soberano negligen- ——
poder supremo por Locke, que devera vincular o executivo e
cia em proteger a vida do individuo, este nao lhe deve mais O Judiciario.
sujeicao. Esta é a liberdade do stidito no Estado Leviata de Por fim, ressalta--se que 0 corpo politico para Locke ob-
Hobbes(Ribeiro, 2004: 53-77). jetiva a protecadodapropriedade privada e a protecdo da
Sociedade
en aeeeBNNEBeedosconflitos
s
externos e internos.
3.2.3 Locke
3.2.4 Rousseau
John Locke (1632-1704) defendeque, no estado da na-
tureza,_osindividuos viveriam na mais perfeita liberdade e e
Rousseau (1712-1778), assim como Hobbes e Locke, é
igualdade, inexistindo qualquer resquicio de guerra © contli- considerado contratualista. O ponto central de sua teoria
to, ao contrario do.ponto de vista Hobbesiano. No entanto, e que diferencia dos outros contratualistas consiste na ideia
ao conteatio do que ocorre com Rousseau, conformese vera,
“Ao de que no estado de natureza todos os homenseramlivrese
para Locke a_propriedade privada, igualmente, existia_no
felizes, pois viviam isolados, sem qualquer nogaéodecompe-
natureza,sendo esta, por conseguinte, considerada ticdo ou conflito.
direito i por parte do
No_entanto, 9 surgimento_da_propriedade_privada,
Estado. quando o homem decide que determinadacoisa the perten-
68 | Flavianne Fernanda Bittencourt Nobrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 69
ce, principalmente com o advento da agricultura, corrompe delegar a terceiros a representacdo da vontadegeral, nao tera
este_estado natural, na medida em que o homem passa a mais esta liberdade.
querer muito mais do que suas necessidades. Nesse sentido, Noentanto,ressalta-se, por fim, que Rousseau defen-
como a sobrevivéncia passou a ser muito mais dificil, tornou- de, igualmente, a representacao no plano do governo, que
se necessaria a associacao com outros homenspara juntar as consiste no corpo administrativo do Estado, limitado pelo
forcas, a fim de buscar a auto-preservacdo, nos seguintes soberano e pela vontade geral, que deverd perseguir os fins
termos: “Eu imagino os homens chegados ao ponto em que estipuladosno contratosocial.
os obstaculos, prejudiciais 4 sua conservacdo no estado natu-
ral, os arrastam, por sua resisténcia, sobre as forcas que po- 3.2.5 Montesquieu
dem ser empregadas por cada individuo a fim de se manter
em tal estado. Entaéo esse estado primitivo nfo mais tem Charles-Louis de Secondat ou Bardo de Montesquieu
condicdes de subsistir, e o género humanopereceria se nao (1689-1755) é o autor de o Espirito das Leis (1748), importante
mudasse sua maneira de ser.” (Rousseau, 2002: 29-30). obra politica responsdvel por popularizar e influenciar di-
Assim, os homens abrem mao de sua liberdadenatural versas Constituicdes Modernas, tal como a norte-americana,
Sy EET
para uma liberdadecivil, alcancada mediante a celebracdo com a sua teoria da Separacao dos Poderes, retirada, ainda
do contrato social, em que todos concederao todos os seus que equivocadamente,> do modelo de governo inglés, pais
direitos para toda a sociedade, sem qualquer ressalva, de- no qual residiu por dois anos.
vendo seguir a seguinte clausula: “Todas as clausulas, bem O que é importante destacar, quanto ao pensadoy em
entendido, se reduzem a uma tinica, a saber, a alienacdototal apreco, que este se preocupa mais com questées praticas do
de cada associado, com todos os seusdireitos, em favor de governo, daatividade politica, do que com a origem e a na-
toda a comunidade; porque, primeiramente, cada qual se tureza do Estado (cf. Gettel, 1937: 31 e 36). Nao por outro
entregando por completo e sendo a condicao igual para to- motivo que o autor em comento quedara famoso, conforme
dos, a ninguém interessa torndé-la onerosa para os ou- dito, pela sua teoria da Separacado dos Poderes, estrutura
tros” (Rousseau, 2002: 30). politica essencial para a manutencdo e respeito da liberdade
Dessa forma, 9contrato social estabelece um corpo dos cidadaos: “Tudoestaria perdido se o mesmo homem, ou
morale coletivo, que consiste na unidade indivisivel e inali- © mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo
endvel de todas as vontades comuns, denominada_ de vonta- exercesse os trés poderes: o de fazer as leis, o de executar as
de_geral. Assim, o contrato social somente se legitima se resolug6es ptblicas e o de julgar os crimes ou as querelas
houvera concretizacaéo dessa vontade geral, que nado se con- entre os particulares” (Montesquieu, 2000: 168).
funde com a vontadeparticular, nem com a soma destas.
Diante disso, g soberano para Rousseau,é o prdéprio
povo, que deveréelabor leisrespeita-las. Isso con-
substancia a liberdadecivil. Por isso que Rousseau defende a * Raymond Gettel, por exemplo, afirma que o equivoco decorreu
impossibilidade de representacdo politica, pois se 0 povo de o fato de a Inglaterra nao adotar umatriparticéo de poderes,
uma vez que 0 sistema parlamentar inglés “supde uma combina-
cao de fungées executivas e legislativas” (1937: 35).
70 | Filavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado
| 71
Montesquieu, em seu viés mais pratico de estudo do
Estado, esbocard, ainda, uma correlacdo entre as formas de 2004: 551), destoa deste tiltimo a medida que demonstra
governo e as suas extens6es territoriais (Despotismo é ade- maior interesse em quest6es mais conceituais do Estado que
quadoaos Estados de extens&o quasi-continental; Monarquia emquest6es praticas (aspecto este ressaltado por Montes-
aos paises de extensdo intermedidria e a Republica aos paises quieu, conformevisto).
de pequena extensao- cf. Gettel, 1937: 33); bem comoa rela- Kant nao trouxe, propriamente, nenhumanovidade ao
cao que haveria entre as primeiras e o meio fisico em que os pensamento politico (cf. Gettel, 1937: 126). Sua contestacdo
Estadosestado inseridos (climas frios promovem a liberdade quanto a existéncia de um contrato social, enquanto feito
politica, enquanto locais quentes a escravidao; as planicies hist6rico e real, encontra fundamentos em Hume, o qualte-
férteis sao propicias astiranias, cf. Gettel, 1937: 35). ria, nas palavras do proprio Kant, despertado-o “de seu sono
Em razao desta influéncia, inclusive, de circunstancias dogmiatico” (cf. Quinton, 1999: 7). Para Kant, dando conti-
geograficas na formacao de um dado Estado, a teoria de nuidade as ideias de Hume, os Estados reais nasceriamde
‘Montesquieu, quanto aos Estados, se aparta muitas vezes de condi¢des hist6ricas, como a forga, por exemplo (cf. Gettel,
concepcgoes naturais do Estado, como um dado- principal- 1937: 127-128). Sem embargo, nado h4 como apartar Kant das
mente Divino, mas, igualmente, das teorias voluntaristas. O teorias contratualistas, a medida queeste defende que 0 pon-
Estado depende de umasérie de circunstancias, geograficas, to de partida de seu estado ideal seria um contrato volunta-
sociolégicas, econémicas e juridicas, que variarao em cada rio(cf. Gettel, 1937: 127 e 258; cf. http://plato.stanford.edu/
Estado (cf. Gettel, 1937: 32; Lowenthal, 2004: 487-489). Nao - entries/contractarianism/, acessado em 15/09/2008).6
por outro motivo é que o pensador defendera que asleis Outro aspecto importante da teoria do Estado de Kant
existem objetivamente e por necessidade, nao cabendo ape- € 0 seu enfoque assaz liberal individualista. O Estado é um
nas a razao humana um papel protagonista na elaboracao meio para o individuo, e nao o contrario (cf. Gettel, 1937:
dasleis e, por conseguinte, na formacdo do Estado (cf. Lo- 128; Hassner, 2004: 552-562, Reale, 1984: 223-224). Bem subli-
wenthal, 2004: 487). nhaesta ideia a sua famosa afirmacdo, constante de sua obra
Fundamentacao da Metafisica dos Costumes: “O homem e, duma
3.2.6 Kant maneira geral, todo o ser racional, existe como fim em si
mesmo,tao 86 como meio para uso arbitrario desta ou daquela
Immanuel Kant (1724-1804) nao podeser, propriamen- vontade. Pelo contrario, em todas as suas acoes, tanto nas
te, considerado um pensador enfronhado, ativamente, em que se dirigem a ele mesmo, como nas que se dirigem a ou-
questées politicas, ainda que seja conhecedor e interessado tros seres racionais, ele tem sempre de ser consideradosimuI-
na Revolucao Francesa e Americana (cf. Gettel, 1937: 126). taneamente como fim” (Kant, 2003: 68). Portanto, o Estado, ao
Hassner, por exemplo, ao tratar do pensador, afirma que a
“seus escritos explicitamente politicos so, quase sempre,
breves e ocasionais” (2004: 549),
Embora tenha se pautado em Rousseau e Montesquieu, ° O contratualismo kantiano influenciou, fortemente, um dos prin-
em seus escritos politicos (cf. Gettel, 1937: 126-127; Hassner, cipais contratualistas contemporanes, John Rawls. Vide, por exem-
plo, A Kantian Conception of Equality (in. Stewart, 1996: 211 e ss).
72 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega
Pecas e Engrenagens de uma Teori
a Geral do Estado | 73
ser pactuado, havera de agir sempre em respeito aos indivi-
tante destacar que a concepcao organica do Estado,
para He-
duos’ gel, fez com queeste inserisse, de maneira centra l, a historia
nos estudospoliticos (para o pensador em apreco,
3.2.7 Hegel o Estado
seria formadopor quatro etapas:i) Oriental, em que apena
s
os déspotas desfrutavam deliberdade; ii e III) Gréci
Georg Wilhem Friedrich Hegel (1770-1831) se caracte- a e Ro-
ma, eM que apenas uns poucos eram detentores da liber
riza por ser um defensor do Poder Estatal, exaltando um dade
e; iv) Alemanha, em que todos eramlivres - cf. Gettel
sentido mistico do Estado Nacional, enquanto ente superior , 1937:
134-135).
em importancia até mesmo em relacdo aos individuos, uma
Ressalte-se que, inobstante haja esta “deificacao”
vez que o individuo somente teria significado _enquanto. do
Estado, ou melhor dizendo, a sua reabilitacdo
membro_ do Q (cf. Gettel, 1937: 132 e 259). Hassner , nado se pode
considerar Hegel com Otalitarismo, uma vez
(2004: 689), nesse sentido, afirma que “somente no Estado e
“que a relacdo do Estado com 0 individuo 6 reciproca, send
por meio do Estado é que o individuo alcanca a sua auténtica oo
Estado um “fim altimo” do individuo, uma vez
realidade, pois somente nele e por ele 6 que se chega a uni- que é neste
que o individuo encontra sua liberdade e Satisfagao
versalidade.”. (Hass-
ner, 2004: 690).
Em razao deste seu posicionamento em relacdo ao Es-
tado, Hegel questiona asteorias contratualistas, podendo ser
3.28 Kelsen
considerado, nas palavras de Reale, o “polo oposto do con-
tratualismo”, uma vez que “nao é o homem quecria o Esta-
Conforme visto nas unidades anteriores, a teori
do, mas o Estado queforma o cidadao” (Reale, 1984; 225- a de
Hans Kelsen (1881-1973) confunde ou melhor dize
226). ndo iden-
tifica o Estado ao Direito, sendo 0 Estado 0 Direito
Nesse diapasdo, Hegel é considerado um defensor da e o Direi-
to o Estado(cf. Reale, 1984: 240; Bercovici, 2004:
teoria organica do Estado, em que mencionada entidade se- 7-8). O au-
tor, portanto, defende umateoria monista de Estad
organismonatural, como uma fase de um processo o, em que
ha de prevalecer 0 conhecimento juridico do Estad
histérico. A civilizac4o seria entendida como um desenvol- o: “OEs-
tado é uma ordem Juridica descentralizada” (1979
vimento gradual do espirito humano(cf. Gettel, 1937: 244). : 385) e,
também, a propria fonte do Direito. Quer dizer aqui 0 juris
O Estado (de seu tempo), em razdo de sua natureza ta
quase que mistica, seria, entéo, para este pensador, a perso-
que apenas por meio da compreensao do Estado enquanto
uma ordem de coacao, com 6rgaos especificos para
nalidade “mais elevada da vida” (cf. Gettel, 1937: 133 e 259), aplicar
normasgerais, é que se pode conceber o Estado. Prev
o “ultimo fim do individuo”(cf. Hassner, 2004: 690). Impor- iamente
a este fato, ha apenas uma ordem pré-estadual, em
que o
Direito é produzido de maneira descentralizada
, consuetu-
” Miguel Reale, contudo, aponta uma “perene oscilagdo entre a dinaria, cabendo ao proprio individuo execu tar o Direi to.
ordem e a liberdade, revelando uma diuturna preocupacdo no Cita o autor como exemplo o caso de uma familia que
tem
sentido de conciliar o direito inato de liberdade com o imperativo um membro assassinado. Quem aplicaraé a eventual pena
da obediéncia” (1984: 224).
74 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 75
costumeiramente prevista (vingan¢a) sera a propria familia,
e nado um Oorgao Estatal (cf. Kelsen, 1979: 386).
A partir desse seu prisma peculiar, os trés principais
elementos constitutivos do Estado (povo,territério e poder) UNIDADE4
serao vislumbrados através de um prisma juridico. Os indi-
viduos que pertencem a um Estado nao o fazem por uma Elementos Essenciais do Estado
questéo de amor ou deafinidadecultural (podendo,inclusi-
ve, ser o caso de deterem uma maior proximidadeafetiva ou
cultural com Estado diverso), mas em razdo de umaligacao 4.1. Teoria juridica classica acerca dos elementos
juridica: “A questao de saber se um individuo pertence a um constitutivos do Estado
Estado nao é uma questio psicol6gica, mas uma questdo
jpridica(...). A populacao do Estado é o dominio pessoa de Usualmente, apresentam-se como elementos caracteri-
vigéncia da ordem juridica estadual.” (Kelsen, 1979: 387). O zadores de um dadoEstado(cf.Jellinek, 2000: 368 e ss.):
mesmo ocorre com 0 territério, os quais ndo podem ser de-
terminados por quest6es meramente naturais, geograficas. i) Populacao (ou povo');
Um determinado espaco territorial por exemplo, pode per- li) territ6rio e;
tencer a um Estado que se encontra do outro lado do mundo iii) soberania (sendo queeste ultimo assume um sem-
(um exemplo banalseria 0 caso dos Estados do Alaska e do numero de outras nomenclaturas, tal como, por
Havai, que comp6em os E.U.A., mas que estao localizados a exemplo, poder, autoridade ou governo, cf. Dalla-
léguas de distancia do territério central dos EUA - 0 ultimo ri, 2000: 71).
se encontra 3.1 mil kilémetros afastado do resto do Pais).
Neste caso, a consideracgéo destes espacos territoriais como Ha, é certo, uma série de variacées quanto ao numero
pertencentes a um mesmo Estado decorre da sujeicao deste a de elementos constitutivos do Estado ou de suas notas carac-
uma dada ordem juridica (cf. Kelsen, 1979: 388). Por fim, em teristicas. Dallari (2000: 71-72), por exemplo, de maneira me-
relacgéo ao Poder do Estado, este nado seria a sua forca, em ramente explicativa, sem querer ser exaustivo, apresenta um
termosbélicos, ou instaéncia mistica, mas apenasa eficdcia de rol composto por autores que defendem a existéncia de ape-
sua ordem juridica (Kelsen, 1979: 389-390). nas dois elementos (Santi Romano: soberania territoriali-
Ressalte-se que no que se refere 4 origem do Estado, dade), os costumeiros trés (em geral divergentes), ou, ainda,
esta se dA com a Constituicao ou a “Constituicao em sentido quatro (Groppali, que arrola finalidade enquanto elemento
l6gico-juridico”, que sera a norma hipotética fundamental de essencial do Estado, no que é seguido por Dallari, 2000: 72.
um dadoEstado e que, por conseguinte, implicara a criacéo Heller —- 1934:257 ~ também identifica quatro elementos, em-
da Constituicéo “em sentido juridico-positivo” (Cf. Bercovi- bora nao tenha a pretensao de didatiz4-los: ordenamento
ci, 2004:7).
1 : :
Dallari opta por povo, uma vez que, seguindo Marcello Caetano,
populacdo seria uma mera expresséo numérica, demografica ou
econémica (2001: 95).
76 | Fiavianne Fernanda Bitencourt Nobrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 77
juridico, povo, territério e 6rgaos estatais) e, até mesmo,cin-
co elementos (Ataliba Nogueira). De qualquer maneira, para Politica como ciéncias auxiliares da Teoria do Estado? (1934:
fins eminentemente didaticos, reduziremos os elementos 157), tendo em vista que tanto o territério como o povoafi-
constitutivos do Estado em trés, como o faz Carré de Mal- gurar-se-iam para este como os elementos relativamente
berg (2001:21). permanentes da unidadeestatal. (1934: 158).
A opcao porestes trés elementos, para Malberg, é sim-
ples. Um Estado é, antes de tudo, uma comunidade humana, 4.2,/ 4.3. Povo e Nagao
um agrupamento social (2001: 22). No que se refere aoterri-
tério, sua essencialidade ao Estado decorreria de dois fato- Povo seria caracterizado como a reuniéo dos homens
res. Em primeiro, porquanto seria no -territ6rio que pertencem a um dado Estado (Jellinek, 2000: 378), ou,
viduospoderiam estabelecer uma vinculacdo nacional. Em ainda, como “o conjunto dos individuos que, através deum
segundo em razao de a soberania estatal somente poder ser momento juridico, se unem para constituir o Estado,estabe-
exercida sobre um dadoterritorio, no qual tanto estrangeiros lecendo com este um vinculo juridico de carater permanente,
quantonacionais estarao submetidos ao Poder estatal (cf. participando da formacao da vontade do Estadoe do exerci-
Malberg, 2001: 22-23). Por derradeiro, a_soberania seria es- cio do poder soberano”(Dallari, 2000: 99-100).
sencial, dada a necessidade de o Estado poder impor aos Jellinek (2000: 378), em sua Teoria Geral do Estado, divi-
particulares atos de autoridade emitidas em prol daquelas de povo em seu aspecto subjetivo, é dizer, enquanto um dos
Roo A OetANe ntoonenye erin ene
decisdes ou finalidades que um Estado deve buscar (2001: elementos da associacao estatal, sujeito do Poder Publico; e
2). EE em seu aspecto objetivo, enquanto objeto da atividade do
Ressalte-se que a leitura destes elementos variard de Estado. Nesse sentido, aduz o autor em apreco que a medida
acordo com a maneira que cada um dosautores vislumbra 0 que’ foréiii_objet6s do Poder’ Pablico, os individuos serao
Estado. Kelsen, com base em sua visao peculiar do fendémeno sujeitos de deveres; j4, ao serem membros do Estado, serao
estatal (sobre a qualja se discorreu nas unidadesanteriores), " sujeitos de direitos (Jellinek, 2000: 380).
buscara conceituar esses trés elementos a partir de uma visdo Um determinadoindividuose,tornara me do.
essencialmente juridica: “Todos estes trés elementos s6 po- tado nao por lita ativa, diretiva na coisa
dem ser definidos juridicamente” (Kelsen, 1979: 385, e, tam- estatal, mas sim a reconhecimento Q esso
bém, Malberg, 2001: 27). Outros autores, de outra banda, (Jellinek, 2000: 388), capaz de impor restrigdes a conduta
dependendo igualmente da maneira que vislumbram o Es- estatal, como de exigir que o Estado atue em prol de seus
tado, darao umaleitura menos juridica as notas caracteristi- interesses (Jellinek menciona o exemplo dos Tribunais de
cas do fenémeno Estatal. Heller, por exemplo, ainda que nao Justica a servico dos individuos, do direito penal e da policia,
adote, conformevisto, 0 triptico em apreco, sublinhara a im- 2000: 389).
portancia da Geografia Politica, bem como da Antropologia
? Estas ciéncias, dira o autor em apreco, somente deverao ser em-
“Pad pregadascaso possa ser demonstrado queos fatores geograficos ou
antropolé6gicos representem estimulos ou obstdculos para a vida
Tornidtoru 9
do Estado.
ob ronia.
78 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébre
ga
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Gerai
do Estado | 79
Um importante aspecto da teoria de Jellinek é a sua
identificacdo de um grupo de cidadaos ativos. Para Jelline se dominante, por sua cultura ou propriedade(cf. Heller,
k, 1934: 179).
todo Q seriam cidadaos(cf.
Dallari, 2000: 100), mas apenas aqueles que pudessem atuar De qualquer maneira, é correta a compreensdo deque
em nomedo Estado, participando, inclusive, da formacao de nao ha comoreduzir a ideia de povo a uma unidade cultura
l.
sua_vontade ostentariam esse cardter alivo (Jellinek, 2000: Este é 0 posicionamento de Kelsen, 0 qual, conformevisto,
391). afirma que os individuos que pertencem a um Estado nao o
Ressalte-se que povo, enquanto elemento pessoal do fazem por uma questao de amor ou de afinidade cultural
Estado, afigura-se como termo impreciso, havendo, por ve- (podendo,inclusive, ser 0 caso de deterem uma maior pro-
zes, sua identificagdo com outra expressdo, a saber, nacao. ximidade afetiva ou cultural com Estado diverso), mas em
Dallari, mencionando Miguel Reale, Del Vechio, Maritain, razao de umaligacdo juridica: “A questao de saber se um
Marcello Caetano e Ataliba Nogueira, diferenciara nacio individuo pertence a um Estado nao é uma questao psicol6-
de
povo. Para este apanhadode autores, “o termo nacaose apli- gica, mas uma questao juridica(...)” (Kelsen, 1979: 387). Ou
ca a uma comunidade de base histérico-cultural, perten seja, trata-se de uma concepcaojuridica de povo. Mas, mes-
cen-
do a ela, em regra, os que nascem num certo ambiente cultu- mo autores que se apartam deste “fetichismo” juridic o nao
ral feito de tradicdes e costumes, geralmente expresso numa reduzem povo a uma unidade cultural. Heller afirma que
o
lingua comum, tendo um conceito idénti povo ¢ uma “estrutura hist6rica” (1934: 178), afirmando que
co de vida e dina-
mizado pelas mesmasaspirac6es de futuro e os mesmoside apenas raramente um “povocultural” pode resultar em um
-
ais coletivos.” (Dallari, 2000: 96). Estado (Heller, 1934: 177-178). Este mesmo teérico segue
Nao ha, contudo, um consenso doutrindrio em torno adiante em seu rechaco a reducdo ora comentada ao
afirmar,
desta concepcao. Malberg, influenciado pelo sistema positi inclusive, que nao ha como falar em unidad e: “A realid
vo ade
de direito publico francés, arrola como eleme do povo e de uma nacdo nao revela, de forma alguma
nto consti tutivo , em
do Estado exatamente a ideia de Nacao (que teria preval geral, qualquer unidade, sendo um pluralismo de
én- direcdes
cia sobre os demais, a ponto de ser considerado como o politicas” (1934: 180), sendo que é, invariavelmente, o Estado
pro-
prio Estado, 2001: 22, n. 2, e 32; nesse
que transforma diversos povos diferentes em um tinico po-
sentido, igualm ente,
Heller, ao comentar a doutrina francesa, a qual tratav vo, e nao um povo que forma um Estado (1934: 181-182).
a Esta-
do e na¢&o como companheiros inseparaveis, 1934: 179).
Sem
embargo, 0 seu conceito de na¢ao nao esta apartado 4.4, Territ6rio
de um
enfoque juridico: “Assim, pois, a Nac&o nado tem podere
s,
nao € sujeito de direito, ndo aparece como soberana senao Como adverténcia inicial, tem-se que territério, en-
enquanto esteja juridicamente organizada e que atua segun- - quanto elemento constitutivo, nao esta simplesmente a signi-
do asleis de sua organizacao” (Malberg, 2001: ficar espacofisico, mas sim aquele espacofisico de(i) frontei-
32, trad.li vre).
Outra critica pertinente a essa concepcao assaz cultural tas estaveis e; (ii) sobre o qual ha afirmacdo da Soberaniad
de e
Nagao é a ideia de que Nagio, no principiar do século XIX, um dado Estado.
estava a significar, ainda que de maneira inconsciente,a Quanto 4a ideia de territ6rio como espaco fisico relati-
clas-
vamente pré-determinado, sua concepcao estd amplamente
80 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 81
vinculada a um dos marcos temporais referentes ao surgi- Nesse sentido, a importancia do territ6rio enquanto
mento do Estado moderno(cf. Jellinek, 2000: 369). Previa- espaco fisico estavel 6, de certa maneira, flexibilizada, tor-
mente ao Estado moderno,afirmara Jellinek que “nenhuma nando-se admissivel, inclusive, a perda temporaria doterri-
das definicdes de Estado que nos tenham sido transmitidas torio, por um dadoEstado, sem que isso implique a sua ne-
pela Antiguidade faz menc&oaoterritério. Sob a influéncia gacao. Apenas quando a perda é definitiva 6 que nao ha
dos antigos, a doutrina do Estado se preocupou principal- mais como se falar em Estado (cf. Jellinek, 2000: 370-371 e
mente com os elementos pessoais do Estado, em que ne- Dallari, 2000: 89-90).
nhumadefinicao quanto a este, desde 0 século XVIao século No queserefere (ii), é noterritérig ’
XIX, tenha feito mencdoaoterritorio enquanto nota essencial da ordem juridica de um Estado, determinando.direitos e
do Estado”(2000: 369, trad.livre). deveres sobre os seus membros.’ Jellinek dira que o territé-
Sob essa premissa, na verséo preambular da Unidade rio,-em-seuaspectojuridico, “significa 0 espaco em que o
UI, mencionou-se que Dallari (2001:53) identifica como mar- poder do Estado pode desenvolvera sua atividade especifi-
‘co do surgimento dos Estados modernos 0 ano de 1648, em
ca, ou seja, o Poder Publico” (2000: 368, trad. livre). Ou, para
que se celebrou a Paz de Westfalia, definindo-se os limites
citar, ainda, Kelsen, trata-se do “dominio espacial de vigén-
territoriais da Franca e da Alemanha. Modesto Florenzano
cia de uma ordem juridica estadual” (1979: 388). Por esse
(2007: n.6), por sua vez, conforme visto no texto destaca a
motivo, torna-se, para a concepcdo juridica de territério,
variedade de datas representando 0 momento atual de sur-
pouco relevante o fato de um dado. Estado n@o ter um terri-
gimento do Estado moderno. Dentre as apontadas, a de 1494,
t6rio com unidade natural. O Estado pode possuir dominios
data que marca a invasao daItdlia por Carlos VII, rei da
espaciais separados pelo mar(cf. Kelseri, 1979: 388), por ou-
Franca, levaria, em principio, em consideragéo o aspecto
tros Estados, mas, ainda assim, tais dominios espaciais serao
territorial. Contudo, diferentemente do que ocorreu em 1648
reputados comoterritério de um dado Estado, pois, reitera-
(celebrou-se paz), 0 inicio de umainvasdo n&o contribu Para
se uma vez mais, a unidadeterritorial nao ha de ser conside-
a estabilizacao de espacos-fisicos. Pelo contrario, inicia-se um
rada em termos naturais, geograficos, mas sim em termos
momento de instabilidade territorial. A data de 1494 é im-
juridicos, em que ha de ser levado em considerag&0, quase
portante para a histéria francesa, porquanto a invasdo da
que exclusivamente, a aplicacdo (vigéncia) de um determi-
Italia por um rei francés, Carlos VIL, bem expressara (sera
fruto da) a centralizacao do poder (unidade de poder) que
ocorreu nessépais (cf., de certo modo, Burckhardt, 2003:84). * A soberania de um Estado nfo é exercida somente sobre os seus
cidadaos. Estrangeiros que estejam noterrit6rio de um dado Esta-
As demais datas apresentadas por Florenzano igualmente se
do também estarao igualmente sujeitos a este. Esta cogéncia da
pautam nessa ideia de unidade de poder, algo raro no Esta- ordem juridica de um determinado Estado sobre membros de ou-
do medieval. Portanto, embora a ideia de estabilidade terri- tros Estados somente é possivel em face do elementoterritério (cf.
torial seja cara ao Estado, em especial ao Estado moderno, Jellinek, 2000: 371). Seria este elemento, inclusive, que possibilitaria
apenas uma das datas usualmente apontadas destacam este ao Estado impor seu ordenamento juridico aos seus nacionais que
elemento em especial (1648). estivessem em outros paises, ainda que as consequéncias juridicas
somente possam ser realizadas no proprio territério (cf. Jellinek,
2000: 371).

endsedie
82 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 83
nado ordenamento juridico sobre um ou mais espacos fisi- ~
cos. disciplinar sobre os seus membros, contudo, a soberania do
Ainda quanto a este ponto, pode-se, contudo, afirmar Estadolhesé superior.
que esta menor preocupacaéo com a unidade natural ou, me- Soberania, nesse sentido, 6 o poder que se encontra
lhor dizendo, continuidadeterritorial nao é monopolio da acima dos demais,inigualavel, ao menosnoterritério de um
concep¢ao juridica de territério. Heller, por exemplo, ao dado Estado. Naosignifica, contudo, poder absoluto, sendo
afirmar que os homens que vivem em umadeterminadater- um imperium limitatum.
ra estao submetidos a uma relativa semelhanca de condicées A origem da nogao de soberania surge com Jean Bodin,
espaciais de ordenacdo e de vida que pode superar dispari- em seu Lés sixes libres de la Republique (em francés: 1577; em
dades sociais, nacionais e de outras naturezas, menoscaba a latim: 1586). Neste, aparta-se o poder estatal de um determi-
questdo deterritérios separados(cf. Heller, 1934: 160). Para nado individuo, monarca ou cidadao. Mencionado pensador
ele, inobstante 0 fato de um dado espaco geografico estar findou por fazer com que a figura da soberania se consoli-
dividida, o Estado ainda assim mandaraé de maneira unitaria dasse como elemento essencial do Estado: “A Republica é
(cf. Heller, 1934: 160). um justo governo de varias familias e do comum a elas com
Voltando a concepcaode territorio enquanto espacofi- poder soberano” (Bodin, 1992: 147)
sico sobre o qual o Estado exerce 0 seu poder, Jellinek afirma Portanto, o poder deixa de ser um fendmenopessoal. E
que esta é a dimensao positiva doterritério. Haveria, para o o Estado que é soberano. Contudo, esta soberania sereflete,
autor em apreco, ainda, uma dimensao negativa do territorio, se canaliza em alguém, que a exercerd de fato. .
a qual impGe aos demais Estados um ndo-fazer (nesse senti- Soberania, em termossintéticos, esta a significar que o
do, também, Malberg, 2001: 22-23). Estes estado impossibilita- Estado,intestinamente, ocupa a mais alta posicao hierarqui-
dos de exercer fungdes de autoridade sobre o territério de ca. Jellinek, de maneira direta, afirma que esta “significou a
um dado Estado, salvo se obtiverem o consentimento deste negacao de toda subordinacdo ou limitacaéo do Estado por
ultimo (Jellinek, 2000: 368). Dallari alcunha esta dimensao qualquer outro poder” (2000: 432).
como principio da impenetrabilidade (2000: 90). Nessa toada, a negacaéo de subordinacao pode ser tanto
anatERse
a e interna como externa. Dai poder-se falar que a soberania se
4.5. Soberania divide em duas dimensées, umainterna e outra externa. So-
4.5.1. Dimensées da Soberania: interna e externa bre esta ultima, Bodin j4 apontava: “Um coisa certa 6 que um
Estado quese ha feito sujeito a outro nao forma uma Rept-
O ultimo elemento da composicao classica do Estado é blica, mas somentefaz parte dos suditos” (BODIN, 1992: 637).
a soberania, a qual consiste no poder.coercitivo que permite A soberania interna nada mais é do quea prerrogativa
que a organizacao estatal exerca sua vontade, de formairre- de o Estado, intestinamente, ocupar a mais alta posicao hie-
sistivel. Frise-se que sera este elemento que diferenciaré o rarquica. Nesse contexto, nenhum cidadao ou entidade (as-
Estado dos demais agrupamentos sociais. f bem verdade sociacao) rivaliza com ele. Poder-se-ia dizer que a soberania
que as sociedades privadas também podem deter um poder interna se identifica com o termo Supremacia, especialmente
no poder de comandoinerente a ideia de Direito. Ferrajoli
(2002:1) bem destaca esta nocdo de soberania “como suprema
84 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria
Geral do Estado | 85
potestas superiorem non recognoscens (poder supremo que nao
reconhece outro acima desi)”. organizac6es cuja atuacdo acaba impondo ao
Estado deter-
minadas atuacGes no cenério nacional, deses
Ja a soberania externa pressupée, segundo CARRE DE tabilizando-lhe a
MALBERG (2001: 82, trad.livre), “realidade sinénima de inde- supremacia tao propalada.
pendéncia”. Isto porque quando se menciona soberania em Tem-se o que Octavio Ianni (1997: 93) chama
de dester-
nitorializagao, o qual é “uma caracteristica essen
sua_dimensdo externa, nao quer-se_dizer que determinad
o cial da socie-
dade global em formacdo. Formam-se estru
Estado X é superior ao Estado Y, mas sim que nem o Estado turas de poder
econdémico, politico, social e cultural internacio
Y ou_o X encontra-se em posigdo mais elevada ou inferio
r. nais, mundi-
ais ou globais descentradas, sem qualquer local
Na relacdo entre Estados, todos se situam em um mesm
o izacao nitida
neste ou naquele lugar, regiao ou nacdo.
patamar hierarquico (ainda que unssejam mais influentes do Estao presentes em
ponto de vista econémico ou bélico). Em suma, quando se muitos lugares, nac6es, continentes, parecend
o flutuar por
alue 4 soberania Externa “se trata do principio da igualdade sobre Estadose fronteiras, moedas e linguas,
grupose clas-
soberana dos Estados.” (RIDRUEJO, 1992: 300, trad. livre). ses, movimentos sociais e partidos politicos.
”. Com efeito, “a
" Ainda que haja esta distingao didAtica entre soberania verdade é que declina 0 Estado-Nacdo, mesmo
o metropoli-
interna e externa, nado se pode considera-las comoantitéti tano, dispersando-se os centros decisérios
cas. por diferentes
Nesse sentido, aduz CARRE DE MALBERG (2001: 82, trad. li- lugares, empresas, corporacdes, conglome
rados, organiza-
vre): “Uma e outra [soberania interna e externa] se reduz cOes e agéncias transnacionais. Globaliz am-s
em e persp ectivas e
a este conceito tinico de um poder que nao reconhece a ne- dilemas sociais, politicos, econémicos e cultu
rais.” (Ianni,
nhum outro acima dele. Umae outra significam igualmente 1997; 89),
que o Estado é dono em seuterritério. (...) em definit ivo,
soberania interna e soberania externa nado sao sendo que 4.6/4.7, Poder coercitivo e Monopé6lio da forca
os
dois lados de uma mesma soberania.”.
Atualmente, percebe-se 0 faleci O Estado organizado se manifesta através
mento da sobera nia, de Rermas
tanto no ambito externo comonointerno. Porém, a queda juridicas postas no ordenamento e uma das
da Principais carac-
soberania interna, bem como os seus motivos, podem teristicas da normaé a sua imperatividade, ou
ser, seja, uma pre-
tapidamente, mencionadasaqui. visao dotada de coercibilidade.
No ambito interno da soberania, por exemplo, tem-se A normajuridica ¢ uma regra de conduta socia
l. Seu
como ameaga real a figura do governopara objetivo é regular a atividade dos homens em suas
lelo, regido pela relacdes
criminalidade, o qual finda por equivaler-se, em muitos sociais (cf. Montoro, 1997: 305). Contudo, tais
ca- normas de-
S08, ao proprio poder do Estado. O trafico de drogas perpe- mandam imperatividade para se fazer valer no
mundojuri-
trado por diversas organizacdes 6 um tipico exemplo da exis- dico, necessitando,desta feita, de algum poder que
obrigue o
téncia de poderes paralelos, inclusive com um sistema judi- seu cumprimento. Quando nos referimos a imperati
vidade
cial que, por vezes, rivaliza com 0 préprio Estado. No mes- da normanos referimosa trés de seus aspec
tos: Sanco, Coa-
mo sentido, as grandes empresas e poderios econémicos cao e Coercao (conceitos que sao objeto de outra disci
plina, a
resultantes da concentracdéo do capital desembocaram em ‘saber, IED).
86 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecgas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 87
Aose referir ao poder _coercitivo do Estado, estamos da coacao organizada e incondicionada, nao somente emite
nosremetendo_aopoder cogente que Estado possui de pro- regras de comportamento, senao que dispde dos meios mate-
duzirnormas juridicas imperativas, obrigando o seu cum- riais imprescindiveis com que impor a observancia dosprin-
primento, o que corresponde ao poder de sancao, coer¢gao e cipios porventura estatuidos de cénduta social (Bonavides,
coacao,. 1997: 107).6
Ressalte-se que, ademais desta prerrogativa de produ- Portanto, monopolio legitimo da forca ou monopélio
cdo de normas juridicas imperativas, torna-se necessario, da coac4o incondicionada significa esse poder tiltimo deagir
para que o Estado possa exercer 0 seu papel tutelar e de ge- do Estado, quando necessario, com a maxima imper ivida-
réncia das relacdes sociais (além do minimonecessario), que de e firmeza, com o intuito deformar um circulo de seguran-
este reclame para si o monopolio da coagao fisica legitima ca dentro da comunidade, e 0 faz, porque se contrario fosse,
(cf. Heller, 1934: 204), transformando-se em uma unidade a sociedade viveria em uma anarquia juridica, sem uma fon-
social suprema de deciséo e acao diante das demais instan- te supremaqueunificasse e detivesse legitimamente o poder
cias aut6nomas.* da forga.
Assim sendo, caso entendamos o Estado comoa orga-
nizacao da nacaéo em uma unidade de poder, a fim de que a 4.8. Personalidade Juridica do Estado
aplicagéo das sancgGes se verifique segundo uma proporcaéo
objetiva e transpessoal, torna-se necessério que o Estado de- Dallari (2000: 121 e ss) analisa trés teorias que explicam
tenha o monopolio da coacdo, no quese refere a distribuicao historicamente a personalidade juridica do Estado, a saber:
da justica (cf. Reale, 1996:157).5
O Estado, conforme visto, afigura-se como fonte iv) Teoria contratualista
emanadora de regras de comportamento, as quais sao cogen- v) Teoria ficcionista
tes e obrigatérias a todos os individuos da sociedade. Mas, vi) Teoria Realista
para além disso, o ente estatal dispde de condicées e poder
juridico para fazer valer a sua vontade acimade todo e qual- Ostedéricos do contratualismo (tendo Hobbes como um
quer preceito (respeitando sempre os limites de sua sobera- dos primeiros e mais importantes) concebiam o Estado como
nia em Ambito internacional, que pressupGe uma posicao de pessoa juridica entendendo este como uma uniao da coleti-
igualdade com os demais estados). Como nos ensina Bona- vidade, uma unido do povo, dotado de vontadee interesses
vides: “ao passo que as demais associacGes sao de participa- proprios que nao se confundiam com a vontade de cada um
cao voluntaria, conservando sempre livre aos seus membros de seus componentes. °
a porta de entradae saida, o Estado, que possui o monopélio A escola alema do século XIX muito contribuiu para o
assunto por meio de Savigny e Kelsen e da teoria ficcionista.
“Heller opta por utilizar 0 termo monopolio da coacaofisica, po-
rém com o sentido geral de monopolio daforg¢a. ae) importante neste texto, mais do que analisar a tecnicidade das
° Note-se que Reale utiliza mais uma vez o termo coacao em ter- express6es utilizadas, é reforgar o conceito de monopélio da utili-
mos gerais, representandoeste poder tiltimo e definido do Estado. zacgao legitima da forga por parte do Estado.
88 | Flavianne Fernanda Bitencourt Néobrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 89
Savigny concebe a existéncia da personalidade juridica do
Estado, emboraa classifique comoficcdo, umsujeitoartifici-
al, criado porlei (cf. Dallari, 2000: 122), pois entende que os
sujeitos de direito sao, na verdade, os individuosque o com- UNIDADE 5
poem. Assim, o Estado é detentor de personalidadejuridica
propria, ndo se confundindo com Os seus componentes. Estado e Instituicées
HansKelsen, seguindo a mesmalinhade raciocinio, entende
que o Estado é também dotado de personalidade juridica,
masé igualmente um sujeito artificial: ~:~ 5.1 Individuo, Instituicées e Estado
Os adeptos das Teorias Realistas (os principais sao: Al-
brecht, Gerber, Gierke;Laband e Jellinek, segundo Dallari, Ao introduzir o estudo sobre instituicdes e Estado, a
2000:123) concebem o Estado a partir de uma comparacao légica do debate, que até agora foi desenvolvida nas unida-
com umapessoa de maiores proporcées, sendo resultado de des anteriores, é invertida.
uma unido de varios individuos. Apartir desta concep¢aoa,0 Em primeiro lugar, porque a relacdo entre individuo e
Estado passa a ser compreendido como um organismo vivo e Estado vista a partir da andlise institucional esta preocupada
como as pecas e engrenagens dojogo real, ou seja, comoefe-
consequentemente detentor depersonalidade juridica. tivamente o Estado opera na realidade concreta. Trata-se,
Entende-se por,personalidade juridica aquelacaracte-
ristica por meio da qual se reconhece a umaentidade abstra- portanto, de uma abordagem mais devotada ao funciona-
ta uma capacidadejuridica suficiente para contrair direitos e mento do Estado, tendo comoprincipal objeto o papel das
obrigacées, para existir e possuir responsabilidades juridicas. instituigdes. Neste sentido, é diferente das abordagens ante-
Comoforaja analisado, o Estado é detentor de Soberania, ou riores mais abstratas. Vejamos, ent&o: na unidade 2, estuda-
seja, é dotado de poder e autoridade superiores aos grupos e mosa formacao do Estado partir da histéria; na unidade 3,
individuos que o compéem.Portanto, através do exercicio de a origem do Estado a partir dajustificacao politico-filos6fica;
sua soberania, do poder de obrigar e de se impor, é reconhe- na unidade 4, os elementos constitutivos do Estado a partir
cida a personalidade juridica do Estado. Em resumo, aceitar da teoria juridica classica.
o conceito de soberania equivale, em ultima andlise, a aceitar Em segundo lugar, ao invés de explorar uma investi-
a teoria que vislumbra, no Estado, umapessoajuridica (Mi- gacao mais retrospectiva, como predominou nas unidades
guel Reale, 1984: 347,), anteriores; a andlise do Estado a partir das instituicdes pre-
Em suma, é inegdvel e facilmente perceptivel o reco- tende ser na maior parte prospectiva, voltada para o futuro.
nhecimento da personalidadejuridica do Estado, na medida O pressuposto do analista institucional é conhecer a realida-
em que somente as pessoasfisicas ou juridicas podem ser de das instituicdes estatais e partir dai propor reformas para
titulares de direitos e de deveresjuridicos. Desta feita, tem-se 0 aperfeicoamento de suas funcdes. Por esta razao, a pesqui-
como premissa essencial, para que o Estado tenhadireitos e sa institucional ndo fala em origem ou formacao do Estado,
obrigacdes, que ele seja reconhecido comopessoajuridica. mas em construcao do Estado.
90 | Fiavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pegas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado |91
Nesta unidade, todavia, ndo vamos estudar nenh Adiante-se neste momento queinstituicdes informais
uma
instituicao em especifico, pois o objetivo 6 compreender nao se confundem com instituicdes fracas. O fato de a insti-
an-_
tes de tudo 0 queseja instituicao propr iamen te. O parad igma tuigao ser forte ou fraca diz respeito a uma relacdo de cor-
teorico utilizado comoreferéncia para definicao de instit respondéncia com a finalidade ao qualse destina. No contex-
ui-
goes é o do neoinstitucionalismo,cuja historia é relat ivame to das instituic6esestatais, cujo escopo é a promocaodointe-
n-
te recente, especialmente a partir dos anos 80, com desta resse publico, entende-se instituicao fraca como sendo aque-
que
para estudos na 4rea de sociologia, ciéncia politica, la que deixa de cumprir sua funcdo, a exemplo de uma ad-
econo -
mia, administracao e historia que resgatam a importanci ministracdo corrupta e ineficiente. (Huntington: 1975, 40).
a do
estudo das instituicdes, dando-lhe nova significacaé Ademais, poderemos encontrar instituicdes informais
o. Essa
abordagem foi reforcada nos anos 90, com prémi fortes que exercem um importante papel de “regras do jogo”
o Nobel
atribuido a Ronald Coase (1991) e ao economista Dougl estimulando a cooperacdo positiva entre os individuose cri-
ass
North (1993), que desenvolveram estudos naarea. ando redes de confianga que aumentem a capacidadeinsti-
Percebe-se de antemao a natureza interd iscipl inar da tucional do Estado e diminuem os custos de transacao. De
analise institucional. Ao se procurar conceituar 0 outra parte, poderemosverificar a existéncia de instituicdes
que seja
instituicdo convivemos com um pluralismo tedéric o forne informais fortes que competem com instituicdes formais do
cido
pelas diversas areas do conhecimen to. Mesm o em torno Estado, enfraquecendo-o (e.g. o crime organizado que impée
des-
sa multiplicidade, é possivel identificar um ponto de regras de comportamento que passam a valer para um grupo
con-
vergencia entre os doutrinadores, qual seja: a definicao de individuos que a eles se submetem). Por ultimo, pode
de
instituigGes como sendo as “regras do jogo” no ambie haver aindainstituicdes informais fracas que nao interferem
nte
estatal. Ao se falarem “regras do jogo” deve-se ter em con- e nao tem o poderdeinfluenciar na definicao das “regras do
sideracao tanto as regras formais comoas regras dadas jogo”estatal.
pela
informalidade, pois para se identificar a instituig¢éo Desse modo,a relacdo entre instituicdo e individuo no
o que
interessa sao as “regras do jogo” que operam na pratic espacoestatal se da da seguinte forma: As “regras do jogo”,
a.
Essa é uma das grandes contribuicées de Douglass North ou melhor, as instituicdes, sejam elas formais ou informais,
.E
a partir da interacdo entre as institui¢Ges formais atuam constrangendo os comportamentos dos individuos,
e as insti-
tuicdes informais que poderemos identificar o que é insti ora criando incentivos para estimular determinado compor-
-
tuicdo efetivamente. A informalidade vai repre senta tamento de cooperacéo em torno do bem comum,ora para
r a con-
sideracaéo dos elementos culturais que podem reforcar desencorajar comportamentos que tragam resultados noci-
posi-
tivamente o desenhoinstitucional formal (e.g. redes vos do ponto de vista coletivo. Da mesma forma queasinsti-
de coo-
peracao comunitarias que convergem espon tanea mente tuicgdes constrangem as ac6es individuais, os individuosali-
para
a realizacao do interesse publico), como também pode mentam as instituicdes com interesses particulares, bem co-
m es-
facelar e até mesmo competir negativamente com instit mo valores culturais, influenciando na definicao do desenho
uicdo
formal (e.g. clientelismo e paroquianismo que aflui institucional e das “regras do jogo”.
para a
realizacdo do interessa particular, privado) N6s tépicos. seguintes, esses conceitos serao trabalha-
dos de modo mais técnico.
92 | Flavianne Fernanda Bitencourt
Nobrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral
do Estado | 93
5.2 O paradigma do novoinstitucionalismo -
o desafio de enquadrar o circulo entre o padrao a priori de
o resgate dasinstituicdes informais
pensar individuo e Estado (social determinismo, marxismo)
e o padrao a posteriori (behaviorismo, utilitarismo).
Aotratarmos do conceito de institui¢d o no t6pic o ante- A palavra novo institucionalismo foi cunhada pela
rior, indicamos o paradigma teérico para abor
dagem - o primeira vez por James March e Johan Olsen em artigo se-
neoinstitucionalismo. Nao obstante a existéncia
de escolas minal de 1984, publicado em American Political Science
divergentes a identificar versdes distintas do Revi-
chamado neo- ew (March e Olsen, 1984: 734). Neste artigo foi enfati
institucionalismo (a citar as vers6es da escol zado
ha racional, so- que o principal componentepara se definir umainstituicdo é
ciolégico e histérico, cf. Hall e Taylor, 2003: 193),
este para- © conjunto de valores pelos quais as decisées e comporta-
digma compartilha elementos em comum,ao consi
derar ins- mentos de seus membros (individuos) séo formados e mode-
tituicGes como relevantes para o estudo das “regr
as do jogo” lados, e ndo qualquer estrutura, modelo ou procedimento
que interferem no comportamento das pess oas e na definicdo formal. A norma, aqui entendida como regra
do desenhoestatal. Como novo paradigmade inform al (cos-
anilise, o neo- tume), juntamente com os valores integrariam também
institucioalismo se contrapée a tradicao de pesq o
uisa anterior conceito de instituigao, j4 que definem o modo comoas
que compreendeinstituig6es ora a partir da persp or-
ectiva mais ganizacoes e individuos devem e podem se comportar. (cf.
determinista, como a do estruturalismo
marxista ora mais Goodin e Klingemann, 1998:208).
casuistica, comoa doindividualismo behavioris
ta. Observa-se de antemdo que a
O referencial tedrico que neoinstitucionalista virada _neo-
s compar- institucionalista esteve preocupada em capturar o elemén
tilham é a ideia de que as instituicdes importam to
para o estu- informal das instituicdes, trazendo-o para seu nucleo
do e compreensao dos principais fendmenos signifi -
da vida politica cativo. O novoinstitucionalismo caracteriza-se por se ocupa
e estatal. r
tanto com as convencées informais da vida politica e estatal
A literatura se refere a essa nova forma de ,
pensar as quanto as constituicdes formais e estrut
instituicdes como uma revolugaéo neoinstitu uras organi zacion ais.
cionalista que As instituigdes incorporam valores e relagdes de poder
procurareconciliar duas tradicg6es opostas nas e,
Ciénc ias Soci- desse modo, importa para o neo-institucionalista conhec
ais, qual seja: a estruturalista e a behaviorista er
(cf. Goodin e nao apenas o impacto das instituicdes sobre os individuos,
Klingemann, 1998: 208). Por esta razdo o neoinstitu
cionalis- mas principalmente a interacao entre instituicées e indivi
mo € também denominado de “virada
institucionalista”, -
como também “virada pragmiatica” (cf. Lown duos.
des, 2002:107), O novoinstitucionalismo, que teve vez nofinal da dé-
em queestrutura e individuo nao mais se isol
am nas explica- cada de 80, surgiu comoreacdo A tradicao de pesquisa
goes e estudos sobre comportamentoestatal, ja que que
passam a focava no behaviorismo e escolha raciona l, em queins
ser vistos a partir de umainteracdo dinamica. titui-
Nesse sentido, des eram nao mais do que simples agregacao das prefer
© neoinstitucionalista do ponto de vista teérico proc én-
ura de- cias individuais. A escolha racional fez parte da revolucdo
senvolver um trabalho de sintese entre as vers
6es de pesqui- behaviorista na Ciéncia Politica americana nas décadas de 50
sa anterior do estruturalismo e do behaviorismo
. Na expres- e 60 (cf. Ward, 2002: 65), mas acabou por ressurgir também
sao de Ellen Immergut (1 998:13), o neoinstitu
cionalismo tem como programa de pesquisa de uma nova versdo do neo-
94 | Fiavianne Fernanda Bitencourt Noébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 95
institucionalismo na década de 90, especialmente com o tem dela é de umarestricdo contingente que potencialmente
im-
pulso dado pelo resgate das andlises institucionais em Eco- pode limitar as possibilidades de os atores alcancarem seus
nomia (NIE - New Institutional Economics) . Os estud os objetivos, assumindo sempre queos atores pré-existem com
em
Ciéncia Politica sobre o comportamento do Congresso Norte suas identidades e interesses aos modelosestruturais de res-
-
americano também sao apontados como expoente dessa no- tricao. Ja perspectiva estruturalista adota a concepcao de que
va versao. a estrutura é um modelo generativo que define os interesses
Para o behaviorismo, instituicdes nao seriam mais que dos atores e determina diretamente seu comportamento de
0 resultado da agregacdo das preferéncias indiv modo necessario e nao contingente. (terminologia adaptada
iduai s
subjetivas e, consoante a tradicdo da escolha racional que cf. Mahoneye Snyder, 1999: 26)
a
influenciou na década de 50 e 60, instituicdo seria
ndo mais O novoinstitucionalismo procura superar a forma de
que a acumulacéo das escolhas individuais basea analisar dos behavioristas e dos estruturalistas, chamando a
da na
maximizacaoutilitaria dessas preferéncias individuais. atencao para a interacdo entre e instituicdes e individuos, do
Na visao estruturalista, as preferéncias sao seguinte modo: instituigdes limitam e influenciam o
objetiva-
mente determinadas pelo grupo, classe social, géner comportamento dos individuos, sem todavia obstruir ou
o. De
acordo com Ellen Immergut, este é identificado com
padra o determinar suas ac6es de modo inexoravel, mas tornando
essencialista ou aprioristico, em oposicao ao behavi orista disponivel um repertério finito de ferramentas para a aco,
que
se caracterizaria por ser um padrao a posteriori. Super que potencialmente pode ser modificado pelos proprios
ar esses
dois padrées - 0 a priori do determinismo social (inter individuos positiva ou negativamente.
esses
coletivos, estrutura social, democracia substantiva)
e o a Assim, o neoinstitucionalismo aparece como um
posteriori do behaviorismo (preferéncias subjetivas, agreg paradigma integrador em que as preferéncias individuais
a-
cao utilitéria das preferéncias individuais, nao sao tomadas simplesmente como subjetivas (micro-
democracia
formal) é 0 grande desafio do novoinstitucionalismo. andlise), nem sao dadas objetivamentepela estrutura (macro-
Interessa observar que a relacdo entre indiv iduo e a es- andlise); mas de modo reflexivo (meso-andlise), no qual
trutura estatal na abordagem behaviorista é distinta instituigdes modificam as preferéncias individuais e sAo por
da
abordagem estruturalista. A perspectiva behavioris ta elas modificadas.
tem
uma concepcdo subsocializada do individuo - interesses Em resumo, 0 novoinstitucionalismo esta preocupado
e
identidades dosatores sociais nao podem ser explicados em comoasinstituigdes funcionam, comoelas podem definir
pela
conjuntura social ou econémica; enquanto a perspectiva es- os interesses (como as instituicdes estatais influenciam o
truturalista adota, em Oposicdo, uma concepcao sobreso comportamento dos individuos modelando valores, inte-
ciali-
zada do individuo - identidadese interesses dos atores
Se neerear

soci- resses, normas, crengas...) e como os atores individuais


ais sdo definidos pela posi¢éo de acord o com as estrut podem influenciar o desenho institucional do Estatal e o
uras
sociais, em que as escolhas e acdes individuais apare funcionamento deinstituicdes politicas e juridicas, outrora
cem
comoresultado determinista dessas posicé es. tida como supostamente aut6nomas.
A perspectiva behaviorista nao nega de todo a existé A versao anterior do estudo das instituicdes, espe-
n-
cia de instituicdo como estrutura, mas a concepcdo cialmente sob a égide do behaviorismo, o qualé referido, por
que se
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 97
96 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega
atores individuais seriam os jogadores desse jogo. Nao
vezes, na literatura por velho institucionalismo, tinha como haveria mais uma identificacéo reducionista entre instituicao
foco as instituicdes formais (cf. Goodin e Klingemann, e organizacao. Apesar de nado serem iguais, as organizacdes
1998:206). Preferencialmente as regras formais e estruturas sao importantes para a analise neoinstitucional. Para-
oficiais eram as instituig¢Ges levadas em consideracgdo para fraseando Fox e Miller (cf. Lowndes, 2002:98), instituicdes
andlise. Nesse sentido esse paradigma conduzia uma sao um conjunto de regras que convivem dentro, entre, em
investigacao limitada, pois instituigdes informais ficavam de baixo e ao redor das organizacdes; mas nado sdo organi-
fora do estudo. Diversamente, a proposta do novo insti- zagoes. Segundo North e Weingast (2006:21), as organiza-
tucionalismo é ampliar a analise para além dasestruturas e goes, em oposicao 4 instituig¢ao, so entidades concretas de
regras formais e capturaras instituicdes informais. “came e osso”, compostas de grupos especificos de indivi-
Neste t6pico, interessa situar que a virada para- duos que possuem uma mistura de objetivos comuns e
digmatica dada pelo neoinstitucionalismo traz consigo individuais e tomam decisées.
também a novidade que é: o resgate das instituicdes infor- 2. O novo institucionalismo, como visto no tdépico
mais, além das formais, para a compreensao do Estado. Esse anterior, passa a focar também nas instituicdes informais.
pressuposto da informalidade é fundamental quandose esta Para compreender as instituicGes politicas e juridicas do
a falar em construcao de Estado. Estado é fundamental a atenc&o as convencées informais
tanto quanto as regras formais. Algumas regras informais da
5.3. Regras do jogo, informalidade, valores, dinamica vida politica tem um papel importante para modelar-o
e interacao comportamento dos atores. Ora aparecem reforcando outras
regras formais e ora conflitando com elas. Nesse sentido,
Depois de situar o paradigma doneoinstitucionalismo, importa investigar a interacdo entre as instituicdes formais e
iremosdefinir instituicdo a partir das caracteristicas que esse informais. Aqui interessa a distincéo de Helmke (2006:5) as
referencial te6rico nos informa. A enumeracdo abaixo nao instituigdes informais séo as regras compartilhas social-
pretende ser exaustiva, mas elucidativa. O objetivo é apre- mente, normalmente n&o escritas, que sao criadas, comu-
sentar alguns elementos fundamentais para se compreender nicadas e aplicadas (enforced) fora dos canais oficiais de
O que seja instituicao a partir do advento do paradigma do sancao; enquanto as formais seriam as regras e procedi-
neoinstitucionalismo. Trazemos a discussao 6 caracteristicas mentos criados, comunicados e aplicados (enforced) através
identificadas por Vivian Lowndes(2002: 90-108). dos canais que séo amplamente aceitos comooficiais.
1. O novoinstitucionalismo passa a focar nas regras 3. O novo institucionalismo passa a focar no aspecto
do jogo e nao se confunde com o conceito de organizacao. dinamico e nao mais estatico das instituicdes. Esta passa a
Isso significa que as instituigGes sao identificadas como as ser vista como um processo em andamento e nao como uma
regras do jogo que guiam e constrangem o comportamento coisa em si e parasi.
dos individuos. As instituigdes como regras sao importantes 4. O novoinstitucionalismo passa a focar em como as
porque provéem informacées acerca do possivel compor- instituigGes modelam os valores sociais e como esses
tamento futuro do outro ator social (individuo) e a sancdo mesmos valores entram no seu fluxo (na constituicéo ou
pelo seu descumprimento. As organizac6des, assim como os
98 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 99
construcao da instituicéo). O pressuposto és de que as 6. O novoinstitucionalismo enfatiza que as instituicdes
institui¢des estéo embebidas de valores e nao neutra a eles. nao sao entidades independentes, que existam fora do tempo
Assim, as estruturas de governo, ou melhor, as instituicG6es e espaco. Asinstituic¢des nado seriam ménadas, na expressao
que incluem e excluem diferentes individuos e selecionam do filésofo Leibniz, unidades atomizadas, isoladas ou
determinados instrumentos sao sustentadas por valores. E aprioristicas. De modo diverso,as instituicdes est&o inseridas
tanto que quando as instituigSes mudam isso significa em contextos econdmicos, sociais e culturais, estando por
muitas vezes que também ocorreu uma modificacdo de eles envolvidos. Além do mais, interagem com outras
valores (ou incompatibilidade com valores anteriores). Esses instituigdes, com a propria sociedade e com os individuos.
valores, por sua vez, podem atuar ora positivamente, Em sintese, pode-se observar que esses seis pontos
quando expressam o bem comum e colaboram para um trazem caracteristicas que estado intrinsecamente interligadas
desenho institucional voltado ao interesse publico; como na definicao de instituicéo. As regras do jogo que interessam
também podematuar negativamente, quandoos individuos, para a abordagem neoinstitucionalista sao as que envolvem
movidos por interesses particulares e pessoais, acabam elementos formais e informais. Dessa sorte, importam as
construindo umainstituicéo que privilegia grupos especi- efetivas regras do jogo que funcionam narealidade,seja ela
ficos. formal ou informal. Entender a instituicdéo numa perspectiva
5. O novo institucionalismo passa a focar numa dinamica e nao apenasestatica envolve considera-la numa
concepcao mais desagregada das instituicées, em oposicao a abordagem mais ampla para além do aspecto formal; bem
visao holistica tida anteriormente, que descrevia instituicdes como deixar de tomé-la de modoisolado ou independente,
em um todo perfeitamente agregado. O novo _institu- levando em consideracgdo 0 contexto e os individuos com os
cionalismo atenta para elementos institucionais da vida quais interage. O reconhecimento de que as instituicdes
estatal - a citar: sistemas eleitorais, regras contratuais, envolvem valores sociais, seja modelando-os ou sendo por
relagdes inter-governamentais etc. E cada uma dessas eles constituidas, define o aspecto particularizado que a
instituigdes séo tidas como diferenciadas, nao precisando institui¢déo pode assumir, ora incluindo e excluindo deter-
necessariamente se ajustar em conjunto para a formacdo de minadosatores sociais, privilegiando determinado curso de
um todo plenamente funcional. As instituicdes se distin- acao e incorporandorelacGes de poder.
guem umadas outras na pratica 4 medida que incorporam e
preservam relacdes de poder, privilegiando certos cursos de 5.4. A relacado entre as instituicgdes formais e
agao e prejudicando outros, incluindo e excluindo deter- informais na formacao do desenhoestatal
minados individuos. Ademais, instituicdes nao sdo total-
mente completas ou fechadas e podem se desenvolver para As seis caracteristicas apresentadas anteriormente
resultados nao previstos quando os atores buscam dar permitem identificar a ideia que a instituicaéo assume com o
sentido a situacSes ambiguas e ignorar ou se contrapor as novo institucionalismo. A auséncia, todavia, de um rigor
regras formais e adapta-las a seu proprio interesse. Esse é conceitual definitivo acerca do que sejam instituicdes, até
um problema com o qual o neoinstitucionalismo se mesmo em funcao das diferentes vertentes (escolha racional,
preocupa. hist6rica e sociolégica) que integram esse paradigma, nado
2 nemaneetaaaei nese
100 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega
RUA VERO| eaniarens
Pegas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado
| 101
impede que elas sejam estudadas; mas exigem um cuida
do existentes no papel sdo ignoradas. Isso nao implica neces-
maior, uma vez que as instituicdes passam a incorporar
a sariamente a presenca deinstituicées informais.
complexidade dos aspectos informais, dinamicos e axiolé-
Segundo, institui¢des informais sao diferentes da
gicos, os quais nao sao de facil investigacao e identi
ficacdo regularidade de comportamentos informais. Nem todos os
na pratica e muitas vezes se encontram ocultos.
comportamentos partilhados séo orientados por regras, ou
Exagerando a abordagem na complexidade informal
enraizados em crengas e expectativas compartilhadas pelo
no estudo dasinstituicdes e levando-a ao extremo,
Goodin e comportamento dos outros. O exemplo de Daniel Brinks
Klingemann (1998:215) apontam para o risco de se cair em (2003: 1-19) é ilustrativo - alguém retirar o chapéu aoentrar
uma tautologia. Na tradicdo filosdfica tautologia signif
ica na Igreja é umainstituicdo informal, mas tirar 0 casaco no
um argumento circular, um discurso vicioso, indtil,
que restaurante 6 uma simples regularidade de comportamento.
refere na sua consequéncia, no seu predi cado ou na sua Isso porqueneste ultimo ato de retirar ou ndo 0 casaco vai
definicaéo 0 conceito ja contido no primeiro membr
o(cf. causar apenas o desconforto fisico, enquanto que no pri-
Abbagnano, 1997:1117). Em termos l6gico s seria uma meiro caso 0 comportamento de naoretirar o chapéu provo-
proposicao que reproduz o principio da identidade,
no qual ca desaprovacdosocial e sancdo moral. Para ser considerada
© sujeito e predicado exprimem o mesmo concei
to (cf. instituic¢aéo informal, um comportamento regular deve
Lalande, 2006:1103), um ndo acrescenta nada
ao outro, sao responder a alguma regra, cuja violacdo gere alguma sancado
espelhosde si.
externa.
Segundo a consideracdo acima, nao podemos reduz
ir Terceiro, instituicdes informais ndo
informalidade a tudo aquilo que nao seja devem ser
formal. A confundidas com organizacGes informais. Aqui é repetida a
tautologia se daria da seguinte forma: ao se incor porar tudo mesma distinc&o que deve ser feita entre instituicdes formais
nas instituicdes, no seriamos capazes de dizer nada
sobre € organizagoes formais. No sentido apontado por North
elas. Importa atentar que nem todo e qualquer fato social
(2006:4-5), deve-se diferenciar as regras do jogo (instituicdes)
pode ser incluido no elemento informal das instit uicdes . de seus jogadores (organizacGes). As organizacGes sao
Gretchen Helmke aponta para o perigo de se coloca
r as formadas por individuos que se associam para alcancar um
instituigSes informais como uma categoria residu
al. O Proposito comum. Elas podemsercorpospoliticos (partidos
exagero que chamamosatencdo é o de igualar informalid
ade politicos, conselho municipal), corpos econémicos (firmas,
com tudo que nao fosse formal. Esse argumento circul
ar cooperativas, grupos de camponeses familiares), corpos
desvirtuaria a proposta do neoinstitucionalismo,
sociais (igrejas, clubes, associacdes atléticas), corpos educa-
Nesse ponto, a discriminacaéo de Gretchen Helm
ke cionais (escolas, universidades)
(2006: 6-7) do que nao € instituicdo informal mostra-se
Quarto, instituicdo informal e cultura nado sao a mesma
relevante para distingui-la de outros fendmenos inform
ais. coisa (cf. Helmke, 2006:7). Ambas se comunicam, mas nao se
Ela apresenta,assim, quatro distincées:
identificam. Normas informais podem estar enraizadas em
A primeira delas atenta para nao se confundir insti- elementos culturais. Essa relacdo entre instituicdo e contexto
tuic6es informais com instituicdes fracas. Muitas
instituic6es cultural ser4 melhor abordada em t6pico seguinte.
formais nado sao efetivas, no sentido de que as
regras
102 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrepga Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 103
Segundo Daniel Brinks (2006: 206), o prime iro passo modo convergente para reforcar a eficdcia da regras
para se investigar a existéncia de arranjos institucionais do jogo formais (instituicao formal), favorecendo a
in-
formais é: observar algumas regularidades que néo pode cooperacao. Os individuos agem tendo em conside-
m
ser explicadas tendoporreferéncia a norma formal (as regras racdo as regras formais escritas como parametro da
do jogo formais). Uma vez constatada essa dissociacao entre instituicdo real.
a regra formal e a realidade, deve ser observada se a regula- 2. Instituig6es por acomodagcao: neste caso, institui-
ridade informal, dada por hipotese, possui na pratica meca- cdes informais e instituicdes formais fortes intera-
nismos que reforcam sua aplicacéo, como a puni¢ao gem de modo divergente. As instituicdes informais
por par-
te dos atores envolvidos daqueles que violarem o arranj contrariam 0 espirito (a finalidade) das regras do
o
informal. Para tanto é preciso descer as instituicdes e obser- jogo formal, sem todavia violar a letra dalei (regras
var como elas se comportam narealidade e considerar do jogo formal).
in-
formacéesrelacionadas ao contexto cultural. 3. Instituig6es por substituicao: neste caso, institui-
O modo comoasinstituicdes formais e informais coes formais ineficazes (fracas) interagem de modo
inte-
ragem é dada pela combinacdo do grafico abaixo, propo convergente com instituigdes informais eficazes.
sto
por Helmke (2006:14): Apesarde asinstituicdes formais existirem, elas ndo
conseguem na pratica impor as regras do jogo a
Instituicées Instituicées serem obedecidas pelos individuos. As instituicdes
formais fortes formais fracas informais substituem, assim, as instituicdes formais
ineficazes colaborando positivamente para a conse-
Convergén- Complementacao Substituicdo cugaéo dos objetivos pretendidos pela instituicdo
cia
formal. Esse resultado surge normalmente em
Divergén- Estados, cuja estrutura administrativa seja muito
Acomodacao Competicao
cia fraca e deficiente.
4. Instituicgdes por competicdo: neste caso, instituicdes
formais fracas competem com instituicdes informais
Da andlise da figura acima, pode-se concluir em pri- fortes de modo divergente. As institui¢gdes informais
meiro lugar: As instituicdes formais e instituicdes violam as regras formais e estabelecem as regras do
informais
podem interagir ora convergindo entre si, ora diver jogo para o comportamento dos individuos. Helmke
gindo
entre si. O resultado dessa interacdo é que nosvai forne (2006:16) traz o exemplo da corrup¢do sistematica,
cer o
desenhoreal dainstituicdo na pratica. Da combinacao pode- na Italia pés-guerra. Esta se transformou em uma
remos ter 4 resultados: instituicao informal, pois as normas de corrupcdo
eram mais fortes que as leis formais do Estado, as
1. Instituigdes complementares: neste caso, insti- quais eram constantemente violadas. O sistema de
tuigdes informais coexistem com instituicdes impunidade assegurava a eficacia dessa instituicdo
for-
mais eficazes (fortes). A instituicdo informal atua de informal. Pode-se trazer ainda como exemplo, as
104 | Fiavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 105
normasparticularistas como as doclientelismo e do A ideia de Daniel Etounga Manguelle “A cultura é a
patrimonialismo. Daniel Brink (2006: 202) cita o caso miee as instituicdes sdo os filhos” (cf. Harrison, 2002: 30) é
da violéncia policial como umainstituicgéo informal um pressuposto subjacente ao neoinstitucionalismo. <A
por competicéo no Brasil. Mesmo a lei formal cultura é colocada em destaque. Esta da vida e alimenta os
proibindo os policiais de matarem suspeitos de artefatos estruturais que formam asinstituicdes e tem um
crime, existe uma norma informal que os estimula a papel essencial nfo apenas para modelar as escolhas
fazerem isso. individuais imediatas dos individuos na sociedade, mas
também para prover pistas e auxiliar a compreensdo da
5.5. O pressuposto da cultura na definicao das dindmica do sucesso e do fracasso institucional em algumas
instituicgdes sociedades no tempo. Segundo North (2005:36), quanto mais
rico o contexto cultural em termos de proporcionar expe-
Ao destacarmos a importancia da informalidade rimentacdo multipla e competicdo criativa, maiores 0 sucesso
apontamosa dificuldade de se capturar o que efetivamente da sobrevivéncia da sociedade. Na esséncia, quanto mais os
sao instituicGes na pratica, diferenciandoa instituicdo real da artefatos estruturais (instituicdes) estiverem fortalecidos pela
instituigao meramente aparente. Essa preocupacdo é trazida heranca cultural, maior a reducdo da incerteza na tomada de
por Douglass North (2005, Prefacio), em especial no seu decis6es ao longo do tempo.
escrito recente - “Understanding the Process of Economic O modo comose percebe 0 mundo e se constroem as
Change”. Nesta obra, o autorprivilegia 0 enfoque no aspecto explicagdes sobre este mundo envolve uma investigacao
compreensivo (cognitivo) dasinstituicdes, resgatando, assim, acerca de como o pensamento funciona. E este n&o opera
a necessidadedese investigar a cultura. como uma mdéquina ou computador. O pensamento do
North (2005:23) destaca que a utilizacdo ndo critica do individuo é o ponto de partida para se compreenderas cren-
pressuposto da racionalidade por muitos cientistas sociais cas e culturas sociais. Segundo North (2005:27), é possivel
esta a bloquear o progresso na pesquisa futura. Aponta, compreender quest6es que sdo suficientemente similares a
ainda, que o pressuposto daracionalidade (escolha racional) outros eventos, porque reconhecidas pela experiéncia de
nao é equivocado, mas serve para analisar apenas alguns cada um. De outra sorte, ideias que estéo muito distantes da
fendmenos especificos de modo simplificado. A consciéncia cultura na qual o individuo se insere nado podem ser inse-
acerca disso é fundamental. Ele destaca que se deve descer ridas facilmente nessa cultura. As ideias s6 so reconhecidas
mais a fundo no problema para se compreender o processo se elas compartilham alguma coesdo que nao se afaste muito
cognitivo, o qual envolve a investigacfo dos sistemas de das normas que regem o comportamento dos individuos.
ae

crencas e da cultura. Pde a questéo nos seguintes termos: Assim, para capturar efetivamente o que seja insti-
como as crencas individuais relacionadas com o contexto tuicdo, é fundamental considerar o contexto sécio-cultural no
social provéem uma série de mecanismos pelos quais a qual se encontra inserido. A importacg&éo de instituigdes
cultura entra mais diretamente na explicacéo da mudanca estrangeiras também é algo problematico. Podem ter
institucional. formalmente 0 mesmodesenhoinstitucional nos Estados X e
Z, mas assumem contornos distintos pelo modo como os
106 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 107
individuos 0 compreendem e o percebem. A cultura e os podem modelar a informacao que o grupo de pessoas tem
valores sociais sao relevantes na investigacaéo dessa sobre como as outras vao se comportar. E de se atentar que
informalidade. O que importa para o novo instit uciona lismo, nem todas as crencas tém essa funcionalidade e, portanto,
como paradigma em consideracao, é investigar os desen nao tem sentido identificad-las comoinstituicao (nado fazem o
hos
institucionais reais e ndo simplesmente os aparentes. papel de regras do jogo).
A ideia de consciéncia cognitiva é central na preocu- Lawrence Harisson (2002:30) na Introducao “Por que a
pacao de North na relacdo entre cultura e instituicdes cultura importa” destaca que a relacdo entre instituicdes e
. A
consciéncia possibilita expandir o potencial criativo cultura é abordada repetidamente por Douglass North. Na
do
homem e em combinacdo com a cultura pode promover sua obra “Institutions, Institucional Change and Economic
respostas produtivas para os problemas. O aumento Performance”, North ja aponta as coacdes informais na
da
consciéncia pode conduzir os homens a um esforco mais evolucao institucional como oriundas de informacéestrans-
elaborado para estruturar 0 ambiente em volta que torne mitidas socialmente, parte da heranca do que se chama de
possiveis formas de organizacdo mais compl exas e apri- cultura.
moradas. Alerta, todavia, que nem sempre 0 resultado Inspirado na analise de North sobre a evoluc&o
vai
ser criativo ou produtivo. Segundo North (2005:44), as vezes divergente das colénias da Gra-Bretanha e da Espanha no
0 modo como a experiéncia interage com a consciéncia pode Novo Mundo,! Lawrence Harisson (2002:31) poe a seguinte
conduzira instituicgdes que resultem estagnadas, frustradas. questao: “Por que a América Latina demorou mais de 150
O sucessoinstitucional depende dessefator consciéncia. anos para se chegar A democracia, especialmente
A preocupacao com aspecto cognitivo ~ compreensd considerando-se o fato de que a América Latina é um ramo
o
acerca do que asinstituicGes sao efetivamente - é encon do Ocidente (se ele importou as mesmas instituigdes ao
trada
também no trabalho conjunto de North, Weingast e Wallis menos formalmente)?” Para Harisson, as ideias de North sao
(2006:19). Entendem por instituicdo as regras do jogo pertinentes para se entender a fragilidade da experiéncia
e
modelo _de_interacdéo gue governam e const range democratica na América Latina.
m _as
relac6es individuais. O maior problema est4, todavia,
em
definir as regras sob os quais as pessoas interagem, o
qual é
extremamente dificil. Esse é 0 grande desafio de quem se
* “No primeiro caso (colénias da gra-bretanha), desenvolveu-se
propoe a estudar instituicdes. E complicado defini -la e um arcabouco institucional que permitiu o complexo intercambio
identificd-la precisamente porque incluem normasescr impessoal necessdrio a estabilidade politica e a captura de lucros
itas,
convencoes sociais, normas informais de compo potenciais da tecnologia moderna. No ultimo (colénias da Espanha
rtamento,
crencas compartilhadas. e Ibéricas), as relacdes personalistas ainda sao a chave para amaior
North e Weingast (2006:19) chamam atencdo para o parte do intercdambio politico e econdédmico. Elas sao conseqiténcia
papel das crencas quando sefala em instit de um arcabouco institucional em desenvolvimento que nao pro-
uicdo. Nao é apro-
priado dizer que crencas sao instituicées. Coerente é duz nem estabilidade politica nem a realizacaéo consistente da tec-
dizer nologia moderna.” North, Douglass. Institutions, Institutional
que crencas compartilhadas por um grupo pode m fazer par- Change and Economic Performance. New York: Cambridge Uni-
te da estrutura institucional. Essas crengas compartilh
adas versity Press, 2006.
SainccoseancaeitedtdasumamncetshsatAcsduaicain i ees Rs ate nee
108 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 109
Isso significa que a consideracao da cultural importa associa 4 ideia de capital social, no sentido dado por
para a compreensao dasefetivas regras do jogo que definem Tocqueville para a democracia americana e aplicado por
o real desenhoinstitucional. Putnam ao caso italiano. Segundo Putnam (2005:180) a
acumulacdo de capital social (confianca, normas, cadeias de
5.6 Capital social, cooperacao e instituigdes informais relagdes sociais) 6 uma das principais responsaveis pelos
circulos virtuosos da Italia civica. “Quanto mais elevado o
Foi visto no tépico anterior a importancia da cultura nivel de confianca numa comunidade, maior a probabilidade
para a compreensao do quesejam instituicdes efetivamente. de haver cooperacéo”. A confianga promove redes de coope-
Trazemos aqui um exemplo concreto, através da ilustracao racdo e a propria cooperacao gera confianga. O capital social
abaixo sobre a velocidade limite (cf. North, Weingast e atuaria, assim, comoinstituicao informal (Straub, 2007).
Wallis: 2006:20), para ajudar o alunoa terclara a definicaéo Fukuyama (2002:155), no mesmo sentido, define o
quea instituicao assumeao incorporar elementos complexos capital social como “conjunto de valores ou normas infor-
*

da informalidade, comovalores e cultura. mais partilhados por membros de um grupo que lhes permi-
Segundo North, Weingast e Wallis, normalmente se te cooperar entre si. Se esperam que outros se comportem
pensa em instituigSes como constrangimento do compor- confidvel e honestamente, os membros do grupo acabarao
tamento individual como este operasse de modo indivi- confiando uns nos outros.”
dualizado (isolado). Nesses termos, a questao é assim posta: A confianga, por sua vez, emanaria de duas fontes co-
se a velocidade limite é 60 mph, com qual velocidade se deve nexas - as regras de reciprocidadee os sistemasde participa-
dirigir? Para melhor compreender o papel das instituicdes cao civica (Putnam, 2005: 182). Estes reduziriam os incenti-
para com o comportamento humano,todavia, ha de se consi- vos de transgredir, diminuindo a incerteza e forneceria mo-
derar que os individuos formam suas crencas e opinides delos de cooperacao futura. Assim, por exemplo, as normas
sobre como as outras pessoas vdo se comportar. Ainda no de participacdo civica contribuem para a prosperidadee sao
mesmo exemplo, a questéo seria melhor colocada nos também porela reforcadas.
seguintes termos: se o limite de velocidade é 60 mph, qual a O capital social, concebido comoinstituicao informal é
velocidade que os outros motoristas devem adotar? Essa algo que gera externalidades positivas para os membros do
questao complexa sugere que instituicdes abarcam as repras grupo, através de normas compartilhadas (confianca, crenc¢a,
formais (leis), normas informais de comportamento e crencas valores) e afeta 0 comportamento dos individuos. Esta
compartilhadas pelos individuos. Individuos numa mesma decorre de organizacGes informais, baseada em redessociais
cultura retém ideias comuns de como os outros individuos e associacées. As pessoas confiam e acreditam que as outras
vao se comportar. A cultura envolve essas ideias sobre o vao cumprir a norma formal e cooperam (Straub, 2007).
comportamento humano que sao passadas em geracdes Todavia, em outro contexto cultural diferenciado onde
sucessivas pela educacao e experiéncia. o capital social é baixo e as pessoas tém razdes para
As redes e lacos de confianca, uma vez existen
desconfiar uma das outras e ha a crenca de que a maioria das
tes na
sociedade, podem compor a norma ou convencao inform pessoas nao vai cumprir a norma escrita (como o caso dos
al
que constrange o comportamento dos individuos, Isso se motoritas no exemplo da velocidade de 60 mph), o sistema
110 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado } 111
de regras formais é nao mais do que aparente. Segundo confiam que as outras também o fardéo. O desenho institu-
Gambetta (1993:224), sem confianca é impossivel se estabe- cional formal dado nao é capaz de garantir, por si s0, a
lecer um equilibrio cooperativo. Instituicdes formais nado s4o cooperacao.
capazesde porsi so assegurar e induzir a cooperacdo entre A identificagdo das efetivas regras do jogo que con-
os individuos, por mais sofisticado e eficiente que seja o substanciam as instituicdes depende da consideracdo desses
desenho institucional tido em abstrato. elementos da informalidade.
Bo Rothstein (2005: 5-7) cita, por exemplo, o caso
estudado por Gambetta, em Palermo,naItélia, como uma 5.7 Finalidade e Escopo dasatividadesestatais
situacao na qualas instituic6es formais nado s4o suficientes
para induzir a cooperacéo. Nessa cidade foi criada uma Umavez definido e compreendido 0 que é instituicao,
instituicao que iria trazer beneficio para todos que coope- seguimosao estudodasfinalidades e escopo do Estado.
rassem com a nova regra - foi desenvolvido um sistema A finalidade foi apresentada como um dos elementos
central de radio-taxi, para o qual o consumidor pudesse ligar constitutivos do Estado, na unidade IV. Dallari e Groppali
e usufruir do servigo do taxi que estivesse mais proximo foram indicados comoreferenciais te6ricos que incorporam a
dele, economizando assim tempo. Os taxistas seriam bene- finalidade como elemento essencial do Estado, indo além da
ficiados por pegarem mais corridas e rotas com percurso teoria juridica classica, baseado no tripé: povo, territdrio e
mais curto. O que aconteceu? Para auferir mais dinheiro os soberania. ;
taxistas mentiram sobre o local em que se encontravam Na unidadeIII, ao explorarmosa justificacao politico-
(perto ou longe de determinado ponto). Como os taxistas filoséfica do Estado, a finalidade também foi abordada, sé
nao confiavam uns nos outros, eles mentiam para a radio- que numa perspectiva mais abstrata. Assim, por exemplo,
central dizendo: “ja estou perto da esquina” para pegar mais em Maquiavel pudemos observar que finalidade do Estado é
corridas. A questao é que nao havia evidéncia incontroversa a sua propria conservacdo, a garantia da estabilidade politica
de que a maioria dos taxistas de fato violou a regra e manutencado da ordem; em Hobbes, a finalidade é¢ garantir
estabelecida, mas a crenca da maioria deles de que maioria a seguranca e preservar a vida dos stiditos; em Locke, temos
violava ja foi suficiente para que eles nao cooperassem. A 4 protecdo da propriedade privada e em Rousseau,a realiza-
auséncia de confianga de um em relacao aos outros conduziu cao da vontade geral e do bem comum. —
a uma situacao de perda-perda, mesmo eles sabendo que Interessa nesta unidade resgatar o conceito de finali-
todos seriam beneficiados, se eles tivessem cooperado, Essa dadeestatal numaperspectiva institucionalista. Dessa forma,
situacgao na qual pessoas, grupos e organizacées sao tenha em consideracdo a definicao abaixo sobre bem comum:
incapazes de cooperar, em funcdo de desconfianca mitua e “0 neocontratualismo mostra como se deve deduzir
falta de capital social, mesmo que a cooperacdo fosse do contrato social um conceito universal de justica, um bem
beneficiar a todos, ¢é denominada por Bo Rothstein de “social comum, que consiste na maximizacdo das condicg6es mini-
trap”, armadilha social; terminologia essa cunhada, pela mas dos individuos, ou como se devem reformularas regras
primeira vez, em 1973, pelo psicédlogo John Platt. Isso do jogo para obter uma acao nao competitiva, mas coopera-
significa que as pessoas s6 v4o cooperar se elas acreditam e tiva, que maximize, além dointeresse individual, o bem cole-
—_
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado } 113
112 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
das em trés categorias: escopos “minimos”, escopos inter
Ce " ths =
tivo, que 6 uma coisa bem diferente da simples soma dos
interesses individuais” (Bobbio, 2007: 107). medidrios” e escopo “ativista”. Cada um desses escopos ira
Observe que essa explicacdo sobre bem comum conce- variar de acordo com finalidade de cada Estado estabele-
bido comofinalidadeestatal incorpora 0 conceito deinstitui- ceu. Dessa sorte tem-se:
oes trazido pelo neoinstitucionalismo e estudado nos topi-
cos anteriores. As instituicdes estatais sao as regras do jogo A. Escopo minimo: prover bens publicos puros; defe-
que criam incentivos para os individuos cooperarem e nao sa, lei e ordem; direitos de propriedade; gerencia-
competirem em si. Desse modo,as instituicdes estatais nao mento macroeconémico; saide ptiblica; melhorar
sao um mero agregado deinteresses privados, mas diversa- a equidade; proteger os pobres; programas contra
mente um conjunto de regras que devem constranger o a pobreza; auxilio em caso de desastre.
comportamento individual para a realizacdo do interesse B. Escopo intermedidrio: cuidar de fatores externos,
publico. educacaéo, protecio do meio ambiente; regula-
Governos e organizacdes altamente institucionaliza- mentar monopolio, antitruste; regulamentacao de
dos, que se manifestam através de instituicdes fortes e que servicos publicos; superar informacgdes imper-
conseguem fazer valer as regras do jogo estabelecidas no feitas, seguros, regulamentacaéo financeira, prote-
texto legal, teriam a capacidade dearticular e promover o c4o ao consumidor; promover seguro social, pen-
interesse ptiblico de sorte a eliminar os excessos pessoais e ses redistributivas, subsidios familiares, seguro-
paroquiais. Huntington (1975:36) aponta que a capacidade desemprego. ‘
de dar substancia ao interesse publico é um critério de dis- C. Escopo ativista: Coordenar atividades privadas,
tingao entre as sociedades politicamente desenvolvidas das promoverpolitica industrial, promover mercados,
subdesenvolvidas. agrupariniciativas; redistribuicdo de riquezas.
Os interesses e finalidades da instituicgéo devem, ade-
mais, se prolongar através dos tempos, independente de Esses escopos do Estado foram definidos pelo Banco
quem a dirija ou a governe. Ao definir 0 que seja interesse Mundial por critérios politico-econémicos e nao juridicos.
publico, este deve ser considerado no longo prazo e nao no Esses exemplos seréo levados em consideracao para a com-
curto. Quanto mais independente e diferenciada da esfera preensao do conceito de Estadoforte e fraco a ser trabalhado
privada fora instituicdéo, menos vulneravel estara a no tdépico seguinte.
influén-
cias externas e a interesses de grupos sociais determinados.
(cf. Huntington 1975:38). 5.8 Estados fortes e Estados fracos
Além dessa ideia mais geral de bem comum interesse
publico, a finalidade do Estado podeservista por uma pers- Estudamos até agora o conceito de instituigGes para
pectiva mais concreta, a partir da identificacdo de escopo poder compreendero conceito de Estado forte e Estado fra-
s co. A forma como iremosdefinir essa condicao do Estado faz
especificos. O Banco Mundial (World Development Report,
1997), por exemplo, traz umalista nao exaustiva dos escopos parte da agenda de pesquisa do neoinstitucionalismo. Nesse
do Estado. Segundo Fukuyama(2005: 23) elas seriam dividi-
114 | Flavianne Fernanda Bitencourt
Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado ] 115
sentido, y utilizamos o referencial teéri
bri co de F
(2005:22).
aan
; Estado forte e Estadofraco seria o resu
ltado da correla-
cao de duasvariaveis:
1. Escopo das atividades estat ais. Este corr espo Quadrante| Quadrante II
nde as
diferentes atividades e metas assumida
s pelo
>
governo, como finalidade estatal. 2
Os tipos de D
escopos elencados pelo Banco Mundial na x
parte wo
final do Noe anterior podem servir de refer
éncia, ao
SD
como)exemplos
p p para estudo. (cf. Fukuyama, & Quadrante Ill Quadrante lV
o
Ls
2. Capacidade institucional do Estado ou
forca_do
poder do Estado. Este se refere a capacida
de de o
Estado fazer cumprir suas leis, ou Escopo das funcdes do Estado
melhor, de
assegurar as regras do jogo. Para isso
precisa
administrar com eficiéncia, ter um
minimo de
burocracia, controlar a corrupcao, o
suborno Observe que no eixo vertical dispusemos a forga da
manter a transparéncia e a responsa
bilidade instituigéo estatal, ou seja, a sua capacidade de atuar efeti-
governamental. Aqui a ideia de forca é
tomada no vamente como a regra do jogo. Ja no eixo horizontal dispu-
o
sente
ido de capacidadeinstitucional. . (cf.
(cf. FFukuyama, semos 0 escopo das funcées do Estado.
Quanto mais nos afastamos do zero da func&o no eixo
horizontal, mais o Estado assumiu escopos, metase finalida-
i Ao combinarmos o Escopo e a capacidadein
stitucional des. Por exemplo, no quadrante II e IV estariam situados os
o Estado na fungao abaixo, como fez Fuk
uyama (2005:27) Estados que avocaram para si tarefas ambiciosas, desde as
poderemosvisualizar quando 0 Estadoé forte
ou fraco. mais essenciais até mais abrangentes, as quais envolveriam
normalmente escopos minimos, intermediarios e ativistas,
consoanteclassificacdo do Banco Mundial.
Por outro lado, quando mais se afasta do zero no eixo
vertical, maior é a capacidade institucional do Estado em
fazer cumprir asleis estabelecidas. Para a realizagaéo de seus
objetivos, metas e escopos, o Estado precisa de instituicdes
fortes que coordenem o comportamento dos individuos na
sociedade e atuem comoasregras do jogo para a realizacao
da finalidade ao qual se destinam.
116 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 117
A partir da correlacao entre as dimensées escopo e
capaci- seria um Estado com escopos menos extensos e com grau
dadeinstitucional, 6 possivel perceber a forca e a debilidade
moderado de forca em capacidade administrativa. No Qua-
do Estado. Vejamos alguns exemplostrazidos por Fukuyama
drante IIL, teriamos instituicdes fracas e um Estado limitado
(2005:28) e reproduzido nografico a seguir.
em suas finalidades, como o caso de Serra Leoa. Aofinal,
temos o caso dos que se situam no Quadrante IV. Para Fu-
kuyama(2005:27-28) este é pior lugar para se estar, em ter-
+ mos econémicos, pois se trata de um Estado ineficaz (fraco)
Frafica “que assume uma gama ambiciosa de atividades que nao
Estados Unidos consegue desempenhar bem.Infelizmente, este é exatamente
Japao
o lugar em que estao muitos paises em desenvolvimento”. O
caso do Brasil poderia ser inserido nesse QuadranteIV.
URSS
De uma breve anélise da Constituicéo da Republica
° Federativa do Brasil é possivel perceber um nimero elevado
GS
8 de escopos e objetivos. O Estado avoca para si um conjunto
wn
LL muito extenso de finalidades e funcdes. Por outro lado, as
°o
ae] instituicdes estatais existentes ndo séo capazes de realizar
oO
& todas as finalidades para as quais foram destinadas. Com
e Turquia baixa capacidadeinstitucional nao conseguem fazer o papel
Serra Leda Brasil
de regras do jogo e assegurar o cumprimento dosdispositi-
vos legais de modo efetivo. Da auséncia de instituicao capa-
zes de concretizar os escoposestatais, tem-se como resultado
Escopo das funcées do Estado um Estadofraco. Vale observar que esse conceito é dindmico
0 que permite o Estado transitar para a condicado de Estado
forte, especialmente com o aprimorado de sua capacidade
Assim, temos Estados fortes quando observamos a institucional.
combinacao do Quadrante I, em que o escopo é mais Na avaliacdo dessa capacidade institucional, nfo se
modes- deveolvidar o resultado da interacdo com a informalidade e
to (limitado) e a capacidade institucio nal é eleva da. Eo caso a cultura. Segundo Huntington (1975:40), um Estado “com
dos EUA, por exemplo. Do ponto de vista econémico
este baixo nivel de institucionalizacao nado é apenas um governo
seria 0 modelo de Estado maiseficiente. Tamb

ém encontra- fraco, 6 também um mau governo. A funcdo do governo é


riamos Estados fortes no Quadrante II, que comb
inam um governar. Um governo fraco, um governo que carece de au-
escopo abrangente com alta capacidade institucional
(insti- toridade, deixa de cumprir sua fungao e é tao imoral quanto
tuigGes fortes e Estado extenso em suas finalidades)
. Fuku- um juiz corrupto, um soldado covarde...”
yamasitua o caso dos Estados europeus e traz como
extremo
o exemplo da antiga Unido Soviética. Hoje, todav
ia, a Russia
118 | Fiavianne Fernanda Bitencourt
Nébrepa
A afirmacao reproduzida acima é provocativa para
re- Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 119
fletir acerca do papel dasinstituicées na realizacao
das fina-
lidades (funcdes) estatais.
UNIDADE6
Controle do Estado
6.1. Limitacao do Poder
Viu-se na Unidade IV que a soberania afigura-se como
um dos elementos centrais do Estado. Esta, em seu ambito
interno, pressupG6e a ideia de supremacia em face das demais
associag6es ou entes presentes noterrit6rio de um dado Es-
tado, de forma que, conforme j4 mencionado em licdo especi-
fica, a soberania, em sua dimensdo interna, seja reconhecida
como a “suprema potestas superiorem non recogoscens(Fer-
rajoli, 2002:1).
Contudo, o fato de o Estado ser soberano, conforme
bem lembra Fernandodelos Rios, nao esta a significar que 0
Estado “esteja desligado das relacées de obrigatoriedade, é
dizer das relacGes juridicas” (in. Jellinek, 2000: 28, vide, tam-
bém, Malberg, 2001: 222).
Em outras palavras, o Poder do Império do Estado ha
de estar limitado (imperium limitatum), principalmente no
quese refere aos direitos e liberdades de seus membros, de
seu povo. O Estado, desta feita, ha de reconhecer os seus
membros (anteriormente, stiditos; hodiernamente, cidadaos)
enquanto sujeitos de direitos, natureza esta que havera de
imporlimites 4 atuacdo do Estado(cf. Malberg, 2001: 244).
Nas pr6ximas paginas, o aluno se depararé com uma
série de construcdes erigidas, exatamente, para limitar, res-
tringir, o Ambito de atuacao do Estado. Embora Estado de
Direito, Separacdo de Poderes, Constitucionalismo, Direitos
e liberdades individuais, tenham um mesmoe idéntico pro-
eae
122 [ Flavianne Fernan
da Bitencourt Noébrega
i Geral do Estado | 1 2 3
Pecas e Engrenagens de uma Teoria
dosdireitos e liberdades de seus mem
brosha deser formali- 6.1.2 Separacdo de Poderes e Pesos e Contrapesos
zada porlei. Esta dimensao do Est
ado de Direito encontra
guarida, no Estado brasileiro pos-Cons
tituicao de 1988, no
art. 5°, II, da Constituicdo, em que
se prevé que “ninguém
sera obrigado a fazer ou deixar de fazer algumacoisa sendo
em virtudedelei.” (principio da lega
lidade).
Ressalte-se que a contraparte do Est
ado de Direito 6 0
Estado de Policia, também denominad
o como “Estado ilumi-
nista” ou “ Estado de absolutismo ilum inis ta” (cf. Canotilho,
2002: 91). No Estado de Policia, pautad
o pela busca cons tan-
te da salus publica, as restricGes
aos direitos dos particulares
eram legitimadas exatamente em raz
ao do bem estar da cole-
tividade. Nocaso destas intromiss6es
nos direitos individu-
ais dos stiditos, caberia a este ult
imo apenas exigir uma in-
denizacao, conforme bem aponta Cano
tilho: “Suporta, mas
exige dinheiro’ (Dulde et liquidere), ‘aceita
a privacao dedirei-
tos mas exige a indemnizacao pelo
s actos de gestao priva-
da’” (2002: 92),
Dramiatica é a afirma cdo de Cabral Moncada sobre
Estado de Policia: “No periodo do o
Estado-de-Policia nao ha A origem doutrinaria da separacao de poderes nao€
legalidade administrativa” (2002: 31). pacifica. HA autores que identificam seu marco teenie| i
obra intitulada “A Politica”, de Aristoteles, em que 0 au
teorizava as funcdes deliberativa, executiva e jurisdicional.
John Locke também foi identificado como um dos Pas 3
teoria da separacao dos poderes, em seu Segundo a nae
sobre o governo. Contudo, a sua triparticao era vers ae
diernamente apregoada. Havia o Poder Executivo, 0 sie
tivo e o Federativo. Cabia ao primeiro a execugao as
naturais da sociedade. Jé competia ao Poder Federative 2
gestao de seguranca e do interesse publico da socie adee"
relacéo aos demais paises. O PoderLegislativo, por suaver
seria o responsdvel por estabelecer como a forca lac ae
dadeseria utilizada, no sentido de sua preservacao e a °
seus membros. Na doutrina de Locke, Separavacse© § oc
Legislativo do Executivo. Ja o Poder Executivo e o Feder
124 | Flavianne Fernanda Bitencou
rt Nébrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 125
vo haveriam que ficar nas maos de um
mesmo 6rgao. Sua ruptiveis. Basta lhes dar a oportunidade. Portanto, o Estado
separacao Seria, enfim, dual.
De qualquer forma, pode-se considerar que ha de ser sempre controlado, inobstante a forma de governo
o principal adotada, se mondrquica ou republicana. 7
divulgadordesta teoria foi o Bardo de Montesqu
ieu, em sua Em termos praticos, a Separacdo de Poderes foi im-
obra, O Espirito das Leis, a qualteria como
exemplo paradig- plementada, de forma inovadora, nos Estados Unidos, pela
miatico a realidadeinglesa. Para ele (2000:
167), ha trés espé- Constituicaéo de 1787, que efetivaram uma concep¢aopropria
cies de Poder: o Poder Legislativo, o Pode
r Executivo das deste instituto Separacado de Poderes, apartada da ideia de
coisas que dependem dodireito das gent
es, e o Executivo uma suposta independéncia entre os trés poderes. Ao con-
das coisas que dependem dodireito civil
. Por meio do se- trario, seria necessdria uma imbricacdo entre estes. Cada um
gundo, o Estado almejaria manter a seguranc
a publica e evi- controlaria o outro. Dai o porqué de a doutrina da separacao
tar a ocorréncia de invasées estrangeiras.
O Poder Executivo de poderes, neste contexto, ser alcunhada comoa teoria dos
das coisas que dependem dodireito civil
envolve a punicao freios e contrapesos (checks and balances), em que cada um
de crimes e 0 julgamento das querelas.
Em termosfinais, dos Poderesinterfere e deve interferir no outro.
pode-se identificar esta dimensdo do Pode
r Executivo ao Inobstante o fato de a Separacdo de Poderes ser um
PoderJudiciario,
A finalidade desta teoria residiria na instituto antigo, a tarefa de definir o seu contetdo afigura-se
manutencaéo da como uma das mais 4rduas. Conforme bem aponta Ls
liberdade individual do ser humano.
Nesse sentido, Montes-
quieu bem afirmava que: Wittgenstein: “aquilo que sabemos quando ninguém ms
pergunta, mas nao sabemos quando o pretendemos expli-
“Tudo estaria perdido se o mesmo car.” (apud Suordem, 1995: 13). ; ad
homem, ou o mesmo
corpo dos principais, ou dos nobres, ou do Em regra, se associa a separacao depoderes a reoria a
Povo exercesse os
trés poderes: o defazer asleis, 0 de exec triparticdo de poderes. Esta associacao nao esta equivocada,
utar as resolucées
publicase o de julgar os crimes ou as quer
elas entre os parti- mas, nao podemosreduzir a separacao de poderes a tiparte
culares” (2000: 168) cao de poderes, sob o risco de negarmos a qualificagao 0s
regimes parlamentares enquanto regimespoliticos passiveis
Deinicio, cumpre apontar que a separaca de adotara teoria da separacao de poderes.
o de poderes
foi uma construcao tedrica contrari Quanto ao que vem a ser a separacao de poderes, tal
a ao Estado absolutista,
aquele centralizado na figura real. Contudo, implica, sim, umatriparticao funcional. E dizer, ha trés fun-
se formosanali-
Sar sua existéncia moderna, percebe- c6es materiats:
se que consiste em uma
pratica recorrente em sistemas democraticos
.
Dai pode-se considerar que o embasamentoi 1. Fungao Legislativa:cria leis
deolégico
desta doutrina nao é, exatamente, uma 2. Funcdo Executiva: executaasleis;
negacdo ao modelo
absolutista de governo. Mas, sim, o pess Funcaéo Jurisdicional: dirime controvérsias e

as
imismo antropol6gi-
co. E dizer, a base ideolégica da separaca aplica as leis.
o esta na conscién-
cia de que o poder humano corrompe, de
que todos sAo cor-
126 | Flavianne Fernanda Bitencourt
Nébrega
Pegas e Engrenagens de uma Teoria Geral dao Estado | 127
E recorrente, contudo, a triparticao organica, é dizer,
a 6.1.3 Constitucionalismo
criacao de trés poderesinstitucionais para realizar as
funcdes
acima:
A proposta do Constitucionalismo, enquanto movi-
mento voltado a limitacdo do poder do Estado, por meio da
1: Poder Legislativo: responsavel pela funcao legisla- criagdo de uma Constituicdo, a qual vincularia a forma de
tiva; atuacado do Estado, bem como as matérias que poderiam ser
2.: Poder Executivo: responsavel pela funcao executi- por ele abordadas, é idéntica 4 do Estado do Direito. Contu-
va; do, ha uma diferenca de intensidade de controle entre este mo-
3. Poder Judicidrio: responsavel pela funcdo jurisdi- vimento, cuja criagao dileta é a Constituicdo, e o Estado de
cional. Direito.
Bem ilustra esta diferenca a parabola proposta por Ri-
E a partir desta triparticao subjetiva quese torna usual char Kay, pautada na historia de dois naufragos, em uma
a realizacdo de um juizo de identidadeentre separ dadailha deserta, Caliban e Prospero. Segue-a, abaixo, na
acao de integra, embora modificado em alguns pontos aos fins do
poderese triparticao de poderes,
presente tema dalicao:
Costuma-se, também, defender que a Separacao de
Poderes implica a independéncia entre elesambos. A bem
da “Caliban é poderoso. Ele também é impulsivo, violento e
verdade, esta confusdo é motivada pela redacado doart. 2°, egoista. Prospero, por sua vez, é fraco e velho, sentindo-se,
caput, da CB: “Sao Poderes da Unido, independen usualmente, aterrorizado por seu companheiro. Ele vive sua
tes e har-
ménicos entre si, o Legislativo, o Executivo eo Judici vida sob a vontade de Caliban. Aondeele vai, aquilo que ele
ario.”.
Sem embargo, separacdo de poderes quase sempre faz, que ele possui, tudo isto esta sujeito 4 interrupcdo e des-
im- truicaéo, por Caliban, a qualquer tempo. Imagine, contudo,
plica interdependéncia entre os trés poderes, ideia
(chec ks que Caliban tem uma unica capacidade moral, qual seja, a
and balances) consolidada pelos elaboradores da Const
itui- habilidade de manter suas promessas. Se Caliban puder ser
¢ao norte-americana. convencido, em um momento de simpatia por Prospero, a
O proprio Montesquieuja fazia menc¢ ao a esta inter prometer que nao entrara em determinado espacofisico ou
de-
pendéncia entre os poderes: “Eis, assim, a constituic que nado machucara Prospero, em certos momentosou situa-
ao fun-
damental do governo de que falamos. O corpolegisl ¢6es, ou que ele anunciard sua aproximacao quando estiver
ativo perto, ou, ainda, que evitara cometer esta ou aquela conduta
sendo composto de duas partes, uma paralisara
a outra por ofensiva, a vida de Prospero ira melhorar de maneira expo-
sua mutua faculdade de impedir. Todas as duas serao
parali- nencial. Isto ocorreré mesmo que Caliban, naquilo que nado
sadas pelo Poder Executivo, que o sera, por sua tiver prometido, continue a ser maldoso, como semprefoi.
vez, pelo
Poder Legislativo. Estes trés poderes deveriam forma Esta melhora seré, de qualquer maneira, superior aquela de-
r uma
pausa ou umainacao. Mas como, pelo moviment o neces corrente de uma promessa em que Caliban resolva, apenas,
sério
das coisas, eles sao obrigados a caminhar, seraéo forca levar em consideracdo os interesses de Prospero antes de
dos a agir, de forma que seja possivel que, em face destes interes-
caminharde acordo.” (2000: 176). Contudo, foram os Estad
os ses, Caliban naofaca nada[e, ainda, resolva, sempre quefor
Unidos o primeiro pais a efetivar este modelo,
demonstran- agir, avisar Prospero quanto aquilo que ira fazer].” [Kay, in.
do sua pragmaticidade ao mundo. Alexander(ed), 2005: 23].
128 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 129
O Estado de Direito se ajustaria mais ao segundo tipo Nesse sentido, constitucionalismo e Estado de Direito se
de promessa. O Estado (Caliban), antes de agir, estaria ape- aproximariam.
nas obrigado a levar em consideracao os interesses de seus Para Matteucci (1986: 255), ndo se pode negar a in-
membros (Prospero) e, por fim, avisd-los daquilo que ira fluéncia do principio da primazia dalei para a definicao de
fazer. Esta é a preocupacdo central do Estado de Direito. O constitucionalismo/ de forma que seja possivel dizer, entao,
constitucionalismo, por meio de seu produto, Constituicdo, que o fenédmeno do constitucionalismo carreia em seu bojo
por sua vez, retira, de antem4o, certos bens Juridicos da in- os elementos centrais do Estado de Direito, distinguindo-se
tromissao estatal. A lei, veiculo da atuacdoestatal, simples- deste, sem embargo, na medida em que passa a prever for-
mente nao podera autorizar o Estado a se intrometer neste masefetivas de se assegurar o respeito a certos direitos pre-
ou naquele direito que seja assegurado ao membro de um vistos na Constituicgéo, uma vez que nem mesmoa lei podera
dado Estado pela Constituicao. contraria-los. Supera-se, aqui, portanto, a principal falha do
proprio Estado de Direito, o qual se encontra amplamente
*
a Portanto, se o Estado de Direito apenas limita a maneira
como o Estado agee esta autorizado a agir, a saber, sempre centralizado na figura do Parlamento ou das Assembleias
porlei, que ha de ser prévia a condutaestatal; 0 constitucio- Gerais, entes responsaveis por editar as leis que nortearao a
nalismo é uma formade controle do Estado que se preocupa condutaestatal.
em estabelecer limites ao proprio contetdo da atuacdoesta- Tal falha, na definicao precisa de Matteucci (1986: 252),
tal. é a possibilidade de se alcancar um despotismojuridico:“se o
No quese refere a origem do fenémenodoconstituci- Estado de direito é s6 um modo de exercer o poder, o direito nao
onalismo dito moderno, em razao de uma pratica reducionis- constituird um verdadeiro e eficaz limite a tal poder, mas sera ape-
ta, tal é invariavelmente relacionada a ideais antiabsolutistas. nas o modo dele se externar, podendo-se chegar, assim, sem para-
Paulo Bonavides, por exemplo,ao tratar da génese da figura doxos a uma forma de despotismo juridico.”.
do direito constitucional, ou diritto costituzionale,3? precisou O constitucionalismo busca, portanto, superar o despo-
que tal é “criacao dileta das ideologias antiabsolutistas” tismo juridico por meio de uma forma especifica, a saber, a
(2004: 37). Trilha esta mesma senda Dalmo de Abreu Dallari, criagéo de umalei superior 4 decorrente do Poder Legislati-
ao afirmar que a origem doconstitucionalismo pode ser sen- vo, de uma paramount law, que dara ensejo as Constitui¢des
tida em 1215, quandose assinou a MagnaCarta, aproximan- escritas, detentoras de maior rigidez, estabilidade, e que tra-
do-se de uma concepc¢ao de Estado submetido a um “gover- zem, em seu bojo, certos direitos e liberdades que nao pode-
no deleis, nao de homens” (Dallari, 2000: 198). rao ser extirpadosinclusive porlei.
A partir deste magistério, tem-se que o propésito do
constitucionalismo é exatamente o de limitar os Estados. Mas
como? Igualmente por meio da ideia de uma primazia dalei.
“ Nesse sentido, também, RICHARD Kay, conforme LARRY ALEXAN-
DER (2005: 4): “Constitucionalismo implementa a primazia dalei
[rule of law]: traz a predicabilidade e a seguranca para a relacao
entre individuo e governo, ao definir, previamente, os poderes e
3 . .
Italianismo utilizado em razao
“a oe
de o termo, segundo autor, ter
nascido ao norte da Peninsulaitaliana. limites do governo.”.
130 | Flavianne Fernanda Bitencourt
Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 131
6.1.3.1. Supremacia da Constituicgdo
Aqui, também, percebe-se qual 6rgao assumiria papel cen-
O principio da supremacia da Constituicao, tral no controle do respeito da Constituigdéo pelas demais
como o leis, a saber, o Poder Judiciario. . a
proprio nomedenota,esta a significar o posicionam
ento pri- Em sintese, tem-se que, ao se atribuir supremacia a
vilegiado da Constituicado, em face das demais
normasjuri- Constituicao em face das demaisleis, o controle do Estado é
dicas que compdem determinado sistema legal . E, de certa aprimorado, no quese refere ao Estado de Direito. isto Por
forma, 0 surgimento deste principio coincide
com o nasci- que o constitucionalismo, por carrear em seu bojo, a ideia le
mento do pr6prio constitucionalismo, A medida
que, se o pro- Supremacia da Constituicao, possibilita que um tipo especi-
posito da Constituicao é€ controlar inclusive
aquilo que é fico de conduta estatal previamente imune ao controle seja
previsto em lei (0 seu contetido e a sua forma de
elaboracao), igualmente limitado, qual seja, a atribuicao deelaborarleis.
a Constituicéo devera ser necessariamente umal
ei superior
as demais, para que possa exercer de maneira
adequada o 6.1.3.2. Direitos e liberdades individuais
seu proposito de controleestatal.
Ressalte-se que a ideia de umalei superior as
demais, Viu-se acima que o maior éxito do constitucionalisme,
condicionando-as quanto a sua forma de
aprovacaéo, bem em comparacéo ao Estado de Direito e o tipo de controle
como quanto ao seu contetido, nado era
encarado com nature- perpetrado poresta instituicdo, residia no fato de o proprio
za. Nesse sentido, 0 comentario de Sir Robert
Filmer: “Nunca Poder Legislativo, no ato de elaborar leis, se encontrar limi-
houve, e nunca podera ocorrer que pessoas seja
das sem um poder de fazerleis, e todo o poder
m governa- tado (umalimitac&o que se referia tanto 4 forma de elabora-
defazerleis cao das leis como ao contetido destas). Natarefa de se cone
deveser arbitrario: pois fazer leis de acordo com
leis é uma trolar o proprio contetido dasleis, afigurou-se essencial a
contradictio in adjecto.” (apud Schochet, In. Penn
ock; Cha- existéncia e a criacaéo de um rol de direitos e liberdades indi-
pman,1979: 12).
viduais, imunizados da interferéncia estatal e, principalmen-
Um dosprimeiros casos indicando a existéncia
de uma te, do Poder Legislativo (sobre esta pretensdo, na historia
distingaéo dentro do sistema legal, em que certa
s regrasseri- norte-americana, vide Storing, 1981: 39-40).
am superiores a outras é o Bonham’s Case, de 1610,
em que o Com efeito, o propdésito de uma Carta contendo os
Juiz Coke declarou uma lei (estatute) invdlida,
por ser ela principais direitos e liberdades individuais era O de retirar
atentatoria 4 Commonwealth. Nos Estados
Unidos, na déca- da agenda do Poder Legislativo determinadas matérias. Por
da de 80 do século XVIII, algumas colénias,
de forma espar- exemplo, nao poderia o Estado se imiscuir ou interferir na
sa, declararam inconstitucionais algumas normasle
gais con- liberdade de expressdo, locomogao, no direito a vida, a pro-
trarias 4s suas Constituicdes. E 0 caso de Holm
esv. Walton, priedade de seus membros, quer seja administrativamente,
de 1780, em New Jersey, e da Commonwe
alth v. Caton, de querseja legislativamente. aod
1782, em Virginia. Em 1803, no famoso caso
Marbury vs. O aluno ha deatentar, nesse ponto, que a previsao de
Madison, a concepcao da Constituicao, enqu
anto documento uma Carta de Direitos e Liberdades, imunes a interferéncia
supremo de um determinado ordenamento jurid
ico é conso- estatal, acentua ainda mais o controle sobre o agit do Estado,
lidada pelo Justice Marshall, da Suprema Cort
e dos EUA. estabelecendo limites 4 extensdo do Poder Puablico.
en peanieidenii AR si
132 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébre
ga
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 133
Historicamente, aponta-se usualmente como o princi-
pal exemplo de Carta de Direitos individuais a Magna senta como umaimportante baliza a realizacdo, por parte do
Carta Estado, de umade suas atividades essenciais, a saber, a ela-
de Joao Sem-Terra, de 1.215. Esta, contudo,
se destinava a
um grupo especifico de destinatarios, a saber, os borac&o de leis. Nao por outro motivo € que o preceito cons-
nobres in- titucional mencionadocita a igualdadeperantea lei.
gleses, nado atingindo, por exemplo, os comuns.
Posteriormente, passou-se a proteger todos os Sob o direito 4 igualdade enquanto elemento norteador
“ho- da atividadelegislativa do Estado, tem-se o pontual magisté-
menslivres”, termo que ditou a ténica da Petit
ion of Rights
de 1.628, o Habeas Corpus Act, de 1679, e Bill rio de Canotilho sobre a forma comodeveriam ser elaborada
of Rights, de
1.689. Em 1.789, surge a mais importante as leis: “como produto da vontade geral, as leis eram neces-
carta de direitos, a
Declaragao de Direitos do Homem e do Cidad sariamente gerais (generalidade da let) garantindo, deste mo-
ao, fruto da
Revolucao Francesa, e cuja caracteristica mais do, a observancia do principio da igualdade perante lei e
marcante era a
sua nota de universalidade. A Declaracaéo dos consequentemente reptidio das velhas leges privatae (privilé-
Direito dos
Estados Unidos, de 1791, foi amplamente influencia gios) caracteristicas do Ancien Régime.” (2002: 96).
da por Em outras palavras, sob o postulado da igualdade, as
esta ultima.
Recentemente, tem-se como principais exemplos leis emanadas do Estado haveriam de se destinar a toda a
de coletividade, e nado apenas beneficiar grupo x ou z, ou, ainda,
Cartas de direitos humanos a Declaracéo Unive
rsal dos Di-
reitos do Homem, da ONU,de 1948, e a Carta dos prejudicar apenas o grupo y ou w.Asleis hao de ser gerais,
Direitos aplicando-se a todos. Reitera-se, aqui, que a Carta Magna de
Fundamentais da Unido Europeia, de 07/12/2000.
Por derradeiro, h4 que destacar que os direitos libe 1.215 se destinava apenas aos nobres, nao abarcando todos
r- os stditos do reino do entao Rei Jodo Sem-Terra.
dades individuais se afiguram como uma das princ
ipais se- O aluno poderd, quanto a este ponto, indagar se leis
goes das Constituigdes contemporaneas, sendo
impos sivel que privilegiam determinados grupos nao seriam, nesse sen-
imaginar uma Constitui¢ao que nao preveja a prote
céo dos tido, contraérias ao postulado da igualdade, que imp6e a nota
direitos e liberdades individuais.
da generalidade as leis. Quanto a este ponto, menciona-se
6.1.3.2.1. Igualdade que a igualdade nao impde uma conduta neutra ao Estado,
de forma gue este nao possa privilegiar certos segmentos
O direito a igualdade, hodiernamente, afigura-se sociais, por exemplo.
como O Estado pode buscar privilegiar apenas um determi-
um direito recorrente em toda Carta de Direitos
e Liber da- nado segmento social, desde que o fim almejado por este
des. O art. 5°, caput, da CB, por exemp lo, estab elece que “To- privilégio seja uma finalidade constitucional, como consta,
dos aa0 iguais perante a lei, sem distincdo de qualquer
natu- por exemplo, do art. 7°, XX, da Constituicgaéo, o qual afirma
reza.”. E, assim como os demais direitos e liber dades indi vi- quea protecao do mercado de trabalho da mulher, mediante incen-
duais, se apresenta como um importante limite ou
freio ao tivos especificos, configura-se como um direito do trabalhador
Estado. Contudo,diferentemente dos demais direit
os indivi- urbanoe rural.
duais, e € este motivo que impoe que este seja tratado,
indi- Portanto, sob o postulado da igualdade, ao Estado é
vidualmente, nesta unidade, o direito A igualdades
e apre- franqueada a prerrogativa de criar diferenciacées, privilegi-
134 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 135
ando uma determinada minoria e, em contrapartida, one-
rando uma maioria, desde que, mediante esta conduta, finde
por atender a um dado fim constitucionalmente previsto,
como, por exemplo, a reducdo das desigualdades sociais e UNIDADE7
regionais (art. 3°, III, da CB). Nao pode, contudo, umalei
dispor o seguinte: “ Art. X. As amigas, primas e conhecidas Estado e Democracia
da Primeira-Dama Marisa teraéo seu lugar no mercado de
trabalho protegido, mediante...”.
Ainda que as amigas, primas e conhecidas de Dona 7.1. Estado de Direito e Democracia Politica
Marisa sejam mulheres, umalei estabelecendo incentivos,
com vistas a proteger o mercado de trabalho havera de ser Como vimos na Unidade6, 0 conceito Estado de Direi-
genérica, nao se atendo a um grupo especifico de pessoas, to (Rule of Law) assume na literatura nuances distintas. A
beneficiadas pela sua proximidade a umadadafigura central propria nomenclatura sofre variagdes em diversos idiomas -
do governo. Este exemplo esdruxulo trazido a lume quer Rechsstaat, Etat de Droit, Estado de Derecho. Nao possui uma
apenas ilustrar aquela vedacéo mencionada por Canotilho, acep¢ao univoca, assim como o conceito de democracia tam-
quanto as leges privatae. bém nao o possui. Interessa observar que esses dois concei-
tos (Estado de Direito e Democracia) aparecem em tensdo
constante na tradicao da Ciéncia Politica, nado obstante a exis-
téncia de teorias contemporaneas que proclamem a sua con-
ciliagao, a citar as teorias juridicas sobre o Estado Democrati-
co de Direito (Streck; Bolzan, 2000, 88).
Tradicionalmente, 0 Estado de Direito (Rule of Law) é
colocado em oposicado ao conceito de Rule of Majority (Regra
da Maioria). Esse ultimo consubstancia a ideia de Democra-
cia no sentido minimalista, entendida como governo da mai-
oria (Elster, 1999, 33). A concepcao minimalista é compreen-
dida como a que resume o conceito de democracia 4 mera
competicao eleitoral (cf. Przeworski e Schumpeter). Segundo
essa perspectiva, a relacéo entre o Estado de Direito (Rule of
law) e a Democracia (Rule of Majority) reproduziria a relacdo
entre duas instituicdes respectivamente: os Tribunais e o
Parlamento (Przeworski e Maravall, 2003: 13).
Nessa abordagem, o Estado de Direito é situado como
instituigao que imp6e limites as decisGes majoritdrias, ou
melhor, a tirania da maioria. O Estado de Direito representa-
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 137
136 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
ria, assim, um controle normativo sobre a democracia politi- engloba dimensées republicanase liberais, além da concep-
ca - regra da maioria. cao puramente eleitoral; o Estado de Direito é concebido
Importa perceber, todavia, a caracterizacao de outrasi- como um mecanismo de aperfeicoamento e garantidor dessa
tuacdo bastante préxima ao Estado de Direito (Rule of Law), Democracia. Segundo O’Donnell (1998:30), 0 componente
mas que dele se diferencia, que ¢ o Rule by Law ( governo liberal estaria relacionado a alguns direitos que nao poderi-
pelalei). Este ultimo se refere ao Estado de Direito que existe am ser usurpados por nenhum podere a republicana associ-
apenas formalmente, mas nao defato. Esta definicado é elabo- ada ao cumprimento dos deveres ptiblicos que exige cuida-
rada por Stephen Holmes(2003, 21). Segundoele, o Rule by dosa sujeicao lei.
Law remete a situacdo em quea lei 6 usada de modooportu- O Estado de Direito que engloba as caracteristicas de
nistico como instrumento para garantir o interesse de deter- previsibilidade e igualdade de todos os individuos perante
minados grupos. Ou seja, a lei produz os efeitos que deveria uma lei previamenteestabelecida, assume maiorsignificacao
*

em tese produzir quando é interesse para esse grupo que em correlacéo com a teoria democratica nao minimalista. O
possui influéncia politica ou econémica em relagéo as insti- Estado de Direito propriamente efetivo representaria, assim,
tuig6es estatais. Esses grupos atingem primeiro seus objeti- uma dimensado dessa Democracia, com o papel relevante de
vos por meio de métodos extralegais (no caso, recorrendo a assegurar os direitos politicos, liberdades civis, mecanismos
informalidade), que séo, entéo, subsumidas dentro da lega- de acountabilidade, controle e monitoramento a fim de tor-
lidade, logrando,desta sorte, o direito pretendido. nar efetiva a igualdade desses direitos (cidadaos), além do
No contexto do Rule by Law ha aparente cumprimento constrangimento coercitivo a potenciais abusos do poder
da lei, das regras formais do jogo, enquanto quenarealidade estatal (cf. O’Donnell, 1998: 30).
a lei é descumprida em suafinalidade(telos) e esséncia. Des- Umdosindicadores para que a dimensao do Estado de
sa sorte, a regra formal aparece apenas como uma casca a Direito na Democracia funcione efetivamente é a existéncia
justificar o suposto cumprimento de umaregra que de fato de um Judicidrio independente, sem a obstrucao ou intimi-
esta sendo violada, mesmo que indiretamente. Isso remete dacdo de outros agente ou instituicGes estatais. Nesse mesmo
ao conceito de Estado que nao é de Direito, mas quesejusti- contexto, poder-se-ia citar a importancia do Tribunal de
fica pelo Direito, o que na expresséo de Stephen Holmesé Contas independente e um Ministério Publico independente,
dadotanto por Rule by Law ou Rule through Law. como instituicdes de controle que fiscalizam o cumprimento
Para a vertente teérica que supera a tensao entre Rule of dalei do Estado de Direito.
Law e Rule ofMajority, o Estado de Direito é uma das dimen- Importa ao final reforcar nas palavras de Zaverucha
sdes da Democracia e com ela nao conflita (O’Donnell, 2004, (2005:29) o papel de um Estado de Direito que seja efetivo e
3). E possivel se pensar nessa conciliagdo quandose afasta o nao meramente aparente: “cabe ao Estado de Direito dimi-
pressuposto da teoria democratica minimalista (em que o nuir o fosso juridico entre o pais legal e o pais real caso quei-
Estado é avaliado como democratico pelo critério eleitoral, ta se erguer uma solida democracia. Um sistemalegal cujas
ou seja, pela existéncia de eleicGes competitivaslivres e lim- regras sao ignoradas pelos agentes estatais torna-se incapaz
pas para o Legislativo e o Executivo). Assim, ao se ter em de obter a adesdo dos cidadaos”.
consideracéo um conceito de Democracia mais amplo que
138 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado { 139
7.2. Acountabilidade eleitoral e acountabilidade
A palavra acountabilidade assume acepcdes diversas
intra-estatal
na teoria politica. Importa, todavia, situar ao menos duas
categorias fundamentais, que comumente aparece em oposi-
O conceito de acountabilidade, derivado do anglicismo
yao e/ou complementacao (Mainwaring, 2003: 23):
accountability (controle, responsabilizacao, prestacao de con-
tas) é de interesse fundamental para melhor se compreender
a) acountabilidadeeleitoral
a interacao entre Estado de Direito e Democracia a fim de
b) acountabilidadeintra-estatal
dirimir o hiato entre representantes e representados (pro-
blema principal-agente). A primeira(a. eleitoral) esta relacionada com a ideia de
Em especifico, a acountabilidade assume um significa-
acountabilidade vertical, controle externo exercida pelos
do especial na teoria democratica por balancear distorcdes e
cidadaos, através das eleicdes, em face das autoridades pt-
corrigir deficiéncias de uma democracia representativa, atra-
blicas eleitas. No caso brasileiro, apenas o Poder Legislativo
vés de mecanismos que O’Donnell (1998:40) denominou de
e o Poder Executivo sofrem o controle da acountabilidade
acountabilidade horizontal. Entende-se por accountability
eleitoral. As eleicdes sao apontadas como umainstancia de
horizontal: “a existéncia de agénciasestatais que tém o direi-
controle que permite aos cidadéos punir ou recompensar os
to e o poder legal e que estado de fato dispostas e capacitadas
representantes eleitos periodicamente com seu voto. Ja a
para realizar ages, que vao desde a supervisdo de rotina a
segunda(a. intra-estatal), aproxima-se da ideia de acountabi-
sancgoes legais ou até o impeachment contra acdes ou emis-
lidade horizontal, tratada por O’Donnell, na qual as institui-
sdes de outros agentes ou agéncias do Estado que possam
cées estatais podem atuar como ponto de veto no controle
ser qualificadas como delituosas” (cf. O’Donnell, 1998:40).
das acdes de outras agénciasestatais.
Nesse sentido, as instituigdes de controle como Judiciario,
Observe no diagrama abaixo (Kenney, 2003: 62) a inte-
Ministério Publico, Tribunal de Contas incrementam os me-
racao entre a acountabilidade eleitoral (vertical) e a acounta-
canismos de accountability, tornando-os efetivos, reforcando
bilidade intra-estatal (horizontal):
a aplicacao das leis e incentivando a coordenacao de toda
umarede deinstituigdes. Corresponderia ao checks and balan-
ces da teoria dos poderes de Madison.
A acepcao de O'Donnell sobre a acountabilidade hori-
zontal interessa a investigacéo das instituicdes reais, pois
leva em consideracao nao a existéncia de instituicdes toma-
das de modoisolado; mas de umaredede instituicdes capa-
zes de garantir a aplicacao dalei e, por consequéncia, forta-
lecer o Estado de Direito. Seu conceito engloba interacdo e se
coaduna com a captura de relacdes institucionais informais
que atuem cooperativamente.
140 | Flavianne Fernanda Bitencou Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 141
rt Nébrega
oianeeTeettca reduzir o hiato entre representantes (cidadao) e representa-
dos (governo); acrescido das instituicdes de deliberacado, do
ee
constitucionalismo e de uma representacdo descritiva. Sua
proposta conceitual nao é desconsiderar 0 conceito de acoun-
tabilidade eleitoral, pois a considera uma importante expres-
sio politica, de caracter retrospectivo, realizado pelos eleito-
Se
i a res. A sua ideia foi chamar atencdo para a importancia da
acountabilidade juridica a ser exercida no ambito intra-
ee, estatal (horizontal). Esta seria trazida como mecanismo de
garantia da soberania popular, na medida em que limita a
ae- io atuacdo do governo,legitima a democracia representativa e
: S Os
EX
assegura as regras do jogo. Atuaria, assim, reforgando possi-
veis deficiéncias na acountabilidade vertical.
*
Sy
NM 3Pa
TH Sociedade 7.3. Pontos de veto e governabilidade
Ne Bereta
BLaigate
Acountabilidade horizontal Para explorar a questao da governabilidadeestatal, a
temAtica em torno da separacdo de poderes é aqui resgatada
Acountabilidadevertical
sob umaperspectiva mais dinamica.
Nesse contexto, as teorias acerca da separacdo de po-
Além dessas duas classificacdes tradicio
nais (horizo deres - como uma forma de divisdo de trabalho para frear e
tal e vertical), hodiernamente também
se agrega a ace Ac; limitar 0 poder - objetivam impedir usurpacgoes que 0 go-
de Peruzzotti e Smulovitz (2002: 41) sobre verno da maioria (tirania democratica) poderia representar.
a acountabilidade
societaria, que € caracterizada como
um controle do ti 5 Incorpora um aspecto negativo, por ser um limitador, um
vertical, mas nao através da dimensdo
eleitoral Envoly freio, um controle ao Estado despético; mas também um
acdes da sociedade civil, em asso
ciacgoes, em mobiliza 6 ; aspecto positivo para uma organizacao mais eficiente das
socials, na midia que objetivam expor
erros das atividades funcdes governamentais. Nesse sentido o arranjo institucio-
g0vernamentais e pressionar as agéncias
estatais para que o nal pode melhorar 0 desempenho de cada um dos poderes
submetam a sancao dalei. Colabora,
assim para ativ envolvidos e aumentar a capacidade de governar (Elster,
an :
mecanismos de acountabilidadehorizonta 1999:250).
le vertical ~
oko Andrew Arato (2002:55), por sua
vez, adota a expres- Montesquieu (2002:90), por exemplo, ja apontava que
acountabilidade juridica para tratar do um rei delega para 0 juiz o poder de condenare aplicar as
controle realiza
do pelo Direito (sangao), das limitag6es
que o Estado de Di- sancOes para aumentar, narealidade, seu poder geral e sua
reito impGe aos governantes frente aos
cidadaos Apont a autoridade, dissipando, assim, os ressentimentos e as pres-
acountabilidade juridica como um dos elem sdes de quem sofre a aplicacao da lei. O modelo de Madison
entos Giares de
142 | Flavianne Fernanda Bitencou
rt Nébrega i Geral do Estado |:143
Pecas e Engrenagens de uma Teoria
e Hamilton (2003:205), em o Federalista,
enfatiza um sistema Toma-se como referéncia 0 trabalho de agate° Me
de pesos e contrapesos (checks and balances
), cujos freios (con- cCubbins (2000:4) que recupera o conceito de Tse e see
trole) e equilibr
ios podem contribuir diretamente a ques
tao associa com a contribuic&o de Madison sobre a teoria teks
da soberania popular. A checagem de um
em relacdo ao ou- and balances. O seu projeto € procurar investigar o numer *
tro € necessario parase evitar a influénc
ia preponderante de pontos de veto que efetivamente existem e ExGIEeR Ble ae
um Poder sobre os outros, bem como defe
ndé-los de usurpa- pel de controle na realidade concreta. Aestratégia u i iz a
coes reciprocas. A independéncia (aut
onomia na tomada de por MacCubbins para capturar a interacao ame oi Pre
decisao) das instituicdes envolvidas 6 tam
bém tomada como meiro distinguir entre “Separacao de poderes e para:‘
pressuposto na teoria da separacdo de
poderes a fim de que de propositos”. Esses dois conceitos foram wee OS, en \
check and balances seja efetivo.
Consoante destaca Elster, a teoria da sepa ortogonalmente comose pode observar na tabela a seguir:
racao de po-
deres de Madison é tomada normalmen
te pela Ciéncia Poli-
tica e Juridica como um equilibrio esse Separacado de Poderes
ncialmente imével e
estavel (1999:151). Interessa, todavia,
recuperar seu aspecto (formal)
dinamico, tendo em consideracao os
arranjos institucionais Separado
que se desenvolvem na realidade e Unificado
nao apenas através da
construcéo de mod elos perfeitos. A proposta é ir alé
m da
aplicacéo do desenhoprevisto formalmente Separacdo Unificado Reino Unido Mexico
no texto consti-
tucional escrito. Desvendar e compre Taiwan
ender as engrenagens
de como essasinstituicdes funcionam Japao Argentina
de fato representa é 0 = Separado
grande desafio doanalista estatal. Republica Polonia
PrapOSIOS |” Chile
O conceito desenvolvido por Tsebelis sobr (informal) Tsheca
e veto pla-
yers, ou pontos de veto, ajuda a com
preender a interacado
dinamica entre os poderes. Segund
o Tsebelis (2002:19) os
pontos de veto podem ser tanto agen
tes individuais como Da matriz acima, depreendem-se as Eeeouactode
instituicdes. O seu papel é de obstruir
, dificultar, fiscalizar a nac6es entre a “Separacao de Poderes e2 pa °c
mudanca pretendida pelo outro agen
te de poder. O veto pla- Propositos”. Essas duas dimensGes podem in erag ote
yer atua, por exemplo, como ponto
de veto em varias politi- rentes formas. Assim, é possivel existir Sitar na a
cas publicas, dificultando e controlando a acao governamen-
ha legalmente (formalmente) uma separacao ©Poe res
tal. Por essa raz4o a discussao sobr
e pontos de veto sempre mas inexiste separacdo de anne essesPOCeetee
esta relacionada com a questao da
estabilidade estatal (a é na pratica, propositos distintos, LOS.
quantidade de pontos de veto que
atuam afetivamente vai Oeatenna whaagin na qual formalmente existe
interferir positiva ou negativamente
no desempenho do Es- uma separacdo de poderes, mas Prelapseque posseum
tado em suasatividades institucionais).
dsitos na pratica, como caso do ,
Petemaparlarentas unicameral, mas o poder de fato encon-
144 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 145
tra-se dividido em varias faccées partidarias que se distin
- modo, se houver divergéncia de propdésitos para atuarem em
guem pelos seus objetivos e atuam como pontos deveto
se- separado havera mais pontosde veto. .
parados. Os outros exemplos dos paises acima foram trazi-
Segundo a avaliacao de MacCubbins, quanto maior for
dos por MacCubbins (2000:36) ilustrativamente.
o numero de veto players, maiores serao os custos de transa-
A partir da interacdo entre a separacdo de poder es e de cao e maior a dificuldade de governar e de tomar decisoes
propésitos é possivel se contar o nttmero de veto players
efe- politicas. Ja um numero reduzido de veto players conduz a
tivos. Enquanto a separacdo de poderes multiplica formal
- irresolutividade estatal, ou melhor, volatilidade, j4 que ha
mente o numero de vetos, a separacdo de propés itos aumen - auséncia de checks and balances. O grande desafio é encontrar
ta a diversidade de preferéncia dos atores que controlam
os o ponto de equilibrio, j4 que um ntimero excessivo de penitos
pontos de veto. Dessa sorte, dependendo de comoe les se de veto tende a engessar o Estado, bem com um numero
comportam a partir de propésitos distintos ou nao, tem-s
eo reduzido de pontos de veto torna o Estado volatil, sem con-
numero efetivo de veto players, que pode ser um ator indivi
- —
*

trole e fiscalizacao.
dualmente considerado ou umacolecdo dele (MacC ubbin s, Dessa sorte, a finalidade desse referencial te6rico é
2000:24). Como exemplo,cite-se a Nova Zelandia que tem
o permitir incorporar elementos da informalidade (separacado
sistema parlamentar unicameral e trés partidos que assegu
- ou unificagaéo de propésitos) para se investigar o desenho
ram a maioria das cadeiras no parlamento e dependendo da
institucional da separacdo de poderes que efetivamente ope-
unidade ou da diferenca de propésitos de cada um dos
trés ra na realidade. A dicotomia entre “Separacao de Propési-
partidos, ter-se-4 um outrés veto players.
tos” (aspectos informais) e Separacgaéo de Poderes” (aspectos
A separacao institucional do poder e de propésitos
formais) é assumida como ponto decritica para que nao se
implicam 2 tipos trade-offs , no que diz respeito ao result ado confundam aspectos que podem se apresentar distintos.
democratico. O primeiro esta relacionado a governabilid
ade, Nem todo desenhoinstitucional previsto na norma escrita se
a qual depende sobretudo do numero de veto players efetiv
os reproduz efetivamente na pratica. Neste ponto, InLeressa:
no sistema politico que acarretam proble masd e resolu tivi- recuperara critica de O’Donnell (2002:98) as conclusées que
dade (estabilidade) e decisividade (volatilidade) estatal
. O Przeworski sobre a separacado de poderes em paises na Amé-
segundotrade-off liga-se a questdo das politicas ptiblicas
e rica Latina, por ter este ultimo contabilizado em sua anilise
sua referéncia a interesses particulares ou coletivos.
A preo- pontos de veto que nado funcionavam efetivamente comotais
cupacaéo é com risco da influéncia de determinados
grupo s na realidade, detendo-se exclusivamente ao aspecto formal.
de interesses que direcionam as politicas publicas para
aten-
der desejos particulares.
7.4. Diferenciagao dos regimes politicos
O naimero de pontos de veto s6 podeser identificado 7.4.1 Democracia
na andlise do caso concreto, pois se trata de um 7.4.2 Autoritarismo
dado diné-
mico e mutavel. Basta haver a mudanga de prefer
éncia dos 7.4.3. Semidemocracia
atores politicos e juridicos para aturem como propos
itos uni-
ficados que se ter4 apenas um tinico ponto de veto. Os regimespoliticos sao tradicionalmente classificados
De outro
em democraticos ou autoritarios (cf. Przeworski). Essa dife-
146 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega | 147
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado
renciacao é apresentada naliteratura de modo dicotémico, governam e os militares estao sob o controle civil.” (cf.
ou seja, um representando a negacao do outro. Dessasorte, a Mainwaring, 2001).
nao identificagéo da democracia corresponde a identificacao
com um regime politico de carater autoritério. O autorita- Observe que 0 primeiro critério 6 o da competicao elei-
rismo é, assim, a antitese da democracia. toral, mas a ele aderem mais outros 3 critérios. Mainwaring
No ponto 1, observamos autores como Przeworski e propde umaclassificacao gradativa com base nesses novos 4
Schumpter que abordam a perspectiva minimalista, compre- critérios. Assim, abandonaa divisdo dicot6émica entre demo-
endem o regime politico como uma democracia em funcdo cracia e autoritarismo para propor umaclassificacao trico-
da existéncia de competicao eleitoral para a alternancia de tOmica em: i. democracia, quando os governos nao cometem
poder. Essecritério exerceu influéncia na definicao da dico- nenhuma violacéo de nenhum dos quatros critério;
tomia entre democracia e autoritarismo. O Estado que nao ii.autoritarismo, quando os governos mostram uma ou mais
possui competicao eleitoral nado é democratico, mas autorita- violacdes graves de algum dos quatro critérios; ili. semide-
rio. mocracia, quando os governos apresentam apenasviolac6es
Apesarde eficaz, 0 critério acima da competicaoeleito- parciais em uma ou maiscritérios. oo
ral usado para diferenciar os regimes democraticos dos auto- A proposta de Mainwaring com a escala tricot6mica
ritarios acaba simplificando algumas questdes, uma vez que ordinal, que varia de mais democratico a menos demo-
questao procedimental das eleicdes aparece como o tinico cratico, 6 superar 0 problema entre a diferenciagao insufi-
divisor de Aguas. Outros doutrinadores do Estado e Cientis- ciente das medidas dicoté6micas, pois estas nao permitem
tas Politicos entendem que além do critério formal e proce- revelar certas informacGes relevantes, referentes a situacao
dimental da competicao eleitoral, outras caracteristicas de intermedidria da semidemocracia. Suas regras de codificacgéo
conteddo substancial devem ser consideradas para distinguir avaliam o grau de violacéo dos quatro critérios que definem
o regime democratico do autoritério. (cf. Zaverucha, a democracia.
Mainwaring, Stephan). Atente-se que Mainwaring nao faz uma distincao entre
Sob essa nova 6tica, a competicaoeleitoral seria uma os regimes ndo-democraticos, distintamente de outros auto-
condicAo necessaria, mas nao suficiente para definir a demo- res como Linz e Stephan que distinguem detalhadamente
cracia. Outros fatores se mostrariam essenciais paracaracte- quatro tipos de regimes nao-democraticos (Autoritarismo,
rizar o regime democratico. De acordo com a sugestao de Totalitarismo, Pés-totalitarismo, Sultanismo). Para essa Uni-
Mainwaring e Daniel Brinks (2001), existiriam quatro crité- dade 7, interessa a classificacéo basica anterior.
rios para identificar a existéncia de uma democracia. Assim, Retomando os4 critérios de Mainwaring (2001), teria-
é democracia aquele regimepolitico: mos como violac¢do grave e violacdo parcial as seguintes si-
tuacdes:
“1) que promoveeleicdes competitivaslivres e limpas para 0
Legislativo e o Executivo; 2) que pressupde uma cidadania
adulta abrangente; 3) que protege as liberdades civis e os
direitos politicos; 4) na qual os governos eleitos de fato
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 149
148 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
dicdes que provavelmente nao influem de modo significati-
- Critério 1: ha Eleigdes para o Legislativo e o
vo nosresultadoseleitorais.
Executivo?
- Critério 3: as Liberdadescivis sao respeitadas?
Na democracia, 0 chefe de governo e os membros do
Legislativo sao escolhidos em eleicées livres e limpos.
Numa democracia, as violacées aos direitos humanos
No autoritarismo, ha violaca&o grave desse principio
democratico. Isso ocorre quando: a) o chefe de governo ou os ndo sdo comuns. Ospartidos saolivres para se organizar e 0
governorespeita as garantias constitucionais.
membros do Legislativo nao sao eleitos; b) 0 governo lanea
Ha violacdo grave e autoritarismo quando ha graves
mao de certos recursos politicos (patronagem e/ou repres-
violacdes aos direitos humanos, a exemplo da censura aos
sao) para assegurara vitoria eleitoral - isto é, existem quei-
meios de comunicacao e auséncia de liberdade de organiza-
‘, Xas sistematicas de fraudes ou de repressdéo, e uma quase
cdo dos partidos.
certeza antecipada sobre o resultado daseleicdes presidenci-
Ha violacdo parcial e semidemocracia quandoas vio-
ais; c) por intermédio de fraude, da manipulacdo ou da re-
lacGes aos direitos humanos sao menos generalizadas, como
pressao, 0 governo inviabiliza a participacdo nas eleicdes de
no caso de censura intermitente aos meios de comunicacao,
uma ampla gamadepartidos.
interdicéo eventual de um partido entre outros.
Na semidemocracia, tem-se violacao parcial desse cri-
tério. Isso ocorre quando: a) ha queixas sistemAéticas sobre
- Critério 4: as autoridadeseleitas tém reais condi--
fraudeseleitorais e/ou perseguicOes a oposicao, mas, apesar
cdes de exercer o governo?
disso existe uma margem deincerteza quantoaos resultados
das eleicées e governo nao conseguem formar amplas maio-
Numa democracia, os lideres militares ou os militares
rias no Legislativo; ou b) os militares vetam alguns candida-
comoinstituicdo tém influéncia insignificante ou negligenci-
tos presidenciais como “inaceitaveis”, c) a fraude influi mas
Avel em ares de politicas que nao se relacionam com as For-
nao distorce completamente os resultadoseleitorais.
cas Armadase suaspreferéncias nao afetam substancialmen-
te as chances dos candidatos presidenciais.
- Critério 2: o direito de voto é inclusivo?
HA violacdo grave e autoritarismo, quandooslideres
militares ou os militares como instituicéo dominam aberta-
Em uma democracia, 0 direito de voto é amplo e as ca-
mente Areas de politicas pablicas nao relacionadas com as
tegorias sociais nao sao privadasdodireito de votar.
Forcas Armadas; quando o chefe de governo é um fantoche e
Haviolacao grave e autoritarismo quando uma grande
realmente nado governa.
parcela adulta é privada do direito de voto por motivosétni-
Ha violacao parcial e semidemocracia, quandoos lide-
cos, de classe, de género ou de nivel de instrucdo de modo a
res militares ou Forcas Armadas comoinstituicéo tém poder
influir nos resultadoseleitorais.
de veto sobre politicas importantes em Areas nao relaciona-
Ha violacao parcial e semidemocracia quandoa priva-
das com militares.
cdo do direito de voto a alguns grupossociais se d4 em con-
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 151
UNIDADE8
Formas de Governo e
Organizacao do Estado
8.1 Formas de governo
Forma de governo podeser definida como a maneira
da estruturacdo das instituigdes em que o Estado atua (cf.
Dallari, 2000: 223), bem como a relagao entre governantes e
governados(Silva, 2002: 102). Convém ressaltar ainda que a
terminologia nao é unissona, sendo, invariavelmente, no-
menclaturas distintas, como forma de governo, regime poli-
tico e regime de governo para classificar fenémenos idénti-
cos.
Nessa linha, Celso Bastos utiliza a denominacgao regi-
me de governo (2002: 126), ao passo que José Afonso daSilva
e Dallari defendem o termo forma de governo (2002:102;
2000: 223),
JA que citamos Dallari e Bastos, ambos usam o termo
regime e forma de governopara classificar a instituigao poli-
tica a partir do nimero de governantes.
Nesse sentido, usando-se de classificacgéo vetusta de
Aristoteles, as formas de governo sao: (i) Monarquia ou Mo-
nocracia, pautado pela existéncia de um Unico governante;
(ii) Aristocracia, governo realizado por um grupo reduzido
de pessoas; (iii) Democracia ou reptblica (vide, nesse senti-
do, Dallari, 2000: 224), sustentado por um nimero conside-
ravel de pessoas.
152 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecgas e Engrenagens de uma TeoriaGeral do Estado | 153
Ainda com Aristételes, tais formas de governo poderi- Aproveitando-se desta classificacao, cumpre destacar
am ser corrompidas: a Monarquia, em Tirania; a Aristocra- as caracteristicas da Monarquia e da Repdblica, na medida
cia, em Oligarquia, e a Democracia, em Demagogia. em que atualmente sao as formas de governo recorrentemen-
Voltando ao tema da classificacao das formas de go- te encontradas.
verno, de acordo com o ntimero de governantes, é possivel
agregar, igualmente, um elemento qualitativo a separacdo 8.1.1 Monarquia
entre Aristocracia e Democracia, a saber, 0 critério capacida-
de. Na democracia, a capacidade pouco importa. Certamente A monarquia foi adotada praticamente em todosos pa-
que ha certas concepgdes democraticas, como a
norte- ises do mundo, tendo sido enfraquecida com o passar dos
americana, dos founding fathers, que pretendiam conciliar a anos. Assim, iniciou-se como monarquia absoluta, sem qual-
aristocracia com a democracia, é a denominada naturalaristo- quer limitacao juridica ao poder, visto que, na época, 05 Es-
cracy, mas que, contudo, destoam do carater mais populista tados necessitavam de governo forte. No final do século
que impregna a democracia, em seu sentido recorrente. XVIIL surgiu a monarquia constitucional, que limitava o
Ainda quanto as formas de governo, cumpre ressaltar poder do rei pela Constituicéo, que deveria ser observada
a teoria de ciclos de governo, de Maquiavel, que, a bem da pelos cidadaos e pelo soberano. .
verdade, nada mais é do que umareiteracdo dos ciclos pro- Outrossim, em virtude da adocao do parlamentarismo
postosporPlatdo, em sua obra, a Reptiblica, salvo pela inser- pelos Estados monarquicos, a monarquia enfraqueceu-se
cao do momento anarquico. ainda mais, na medida em que © rei nao mais governava,
Neste ciclo, da anarquia, passava-se a monocracia, em mantendo-se somente as atribuicdes de representagaéo, como
que a comunidadeescolhia 0 lider mais carismatico, apto e Chefe de Estado, relegando o governo para o Gabinete de
valoroso. Este, contudo, se corrompia. Logo, um grupo de Ministros (Dallari, 2000: 226). .
cidadaos, composto pelos mais aptos, tomar-lhe-ia o poder. Dallari elenca trés caracteristicas fundamentais da mo-
Estes, contudo, também se corromperiam. Ato continuo, o narquia: a vitaliciedade, a hereditariedade e a irresponsabili-
povo desconfiado findava por tomar o poder, sendo res- dade (2000: 226-227). A primeira seria a vitaliciedade, em que
ponsavel pelo seu exercicio. O povo, também,caia na licen- nado ha termo certo para o término do mandato de determi-
ciosidadee, assim, instaurava-se novamente a anarquia. nado Rei. _
Por fim, tem-se a classificacao de Maquiavel, em seu A segundacaracteristica é a Hereditariedade. O critério
De L'Esprit des Lois, que, em seu Livro II, classifica o governo de escolha do futuro monarca seguea linha de sucessao. ;
em trés espécies: Republicano, Monarquico e o Despotico. A Irresponsabilidade. Segundo esta teoria, © monarca nao
forma republicana seria 0 governo democratico (aplicavel, tem responsabilidade politica, sob o brocardo inglés The King
apenas, em Estados de pequenoporte). can do no wrong. Embora Montesquieu vislumbre na Monar-
A monarquia, por sua vez, seria 0 governo exercido quia um governoregido porleis, ao contrario do que ocorre
por uma tinica pessoa, masregidapor leis previamentefixa- no despotismo, a configuracéo da monarquia enquanto um
das e estabelecidas. O despotismo é uma corrupcao desta. sistema irresponsdvel nao deixa de ter seus fundamentos.
Explica-se melhor. Na Monarquia, embora 0 Rei estivesse
Teoria Geral do Estado | 155
154 | Flavianne Fernanda Bitencourt Noébrega Pecas e Engrenagens de uma
nos seus com-
vinculado 4a lei, eventual conduta estatal equivocadaseria sistemas de governo diversos com a variacdo
uns nos outros
atribuida a um de seus conselheiros. Vide, nesse sentido, o ponentes e no modo como eles se combinam
comentario do James Iridell, federalista, e posterior fustice (Cintra, 2007: 35).
ala Suprema Corte dos EUA, ao modelo monarquico inglés: defini-
Tudo aquilo, desta feita, que o rei faz, deve sé-lo feito por Nesse sentido, sistemas de governo podem ser
o e Legislativo se
meio de algum conselho, e o conselheiro, obviamente, ha de dos como a forma em que o Poder Executiv
al. Na mesma linha
ser passivel de responsabilizacao” (JamesIridell, in. in Kur- relaciona, dentro de uma estrutura estat
lmente, ndéo vamos
land & Lerner,vol. 2, 1987:14). ) do estudo das formas de governo, igua
a terminologia.
encontrar unanimidade na utilizacao dess
David Aratjo, por
8.1.2 Republica Vidal Serrano Nunes Jr. e Luiz Alberto
para defi-
exemplo, utilizam a expressdo regime de governo
so da Silva, por
A Republica, em termossintéticos, 6 0 governo oposto nir a mesmasituacdo (2006: 319). José Afon
“sistemas de
a monarquia. O ideal republicano ganhou forcga na luta con- sua vez, defende a utilizacao da terminologia
tra a monarquia absoluta, pela consolidacao da afirmacao da governo” (2002: 104).
2°, do ato das
soberania popular, e pela exigéncia de maior participacao do A propria Constituicao brasileira, no art.
as, utiliza a terminolo-
Povo no governo. disposicoes constitucionais transitéri
relagao entre o
Nesse sentido, a repablica era considerada a expresséo gia sistemas de governo para identificar a
.
democratica de governo,limitando o poder dos governantes Executivo e o Legislativo, nos seguintes termos:
pormeio da responsabilizacao de suas condutas. Além disso,
0 eleitorado definira,
a alternancia dos governantes a i “ Art. 2° No dia 7 de setembro de 1993
rquia cons-
no (Dallari, 2003: 98), pronimava © Povo Go gover: através de plebiscito, a forma (repiblica ou mona
ntarismo ou
titucionalista) e o sistema de governo (parlame
Segundo Dallari, as caracteristicas da reptblica sao a (grifo nosso).
presidencialismo que devem vigorar noPais.”
temporariedade, eletividade e responsabilidade.
A Temporariedade. O Chefe de governo recebe um aci-
Nesse sentido, verifica-se pela propria disposicao
mandato, com prazo de duracao predeterminado. m serclassifi-
matranscrita, que os sistemas de governo pode
Eletividade. A eleicao é feita pelo povo. o, conforme
cados como parlamentarismo ou presidencialism
Reponsabilidade. O chefe de governo é politicamente (e r.
serA analisado, de forma pormenorizada,a segui
diretamente) responsabilizavel, ao contrario do que ocorreria
na monarquia.
8.2.1. Parlamentarismo
sa, em
8.2. Sistemas de governo decorrentes da relacao entre O parlamentarismo surge com a Revolucao Ingle
Executivo e Legislativo lers), mas, mais
que os nobres e, também os populares (level
am contra 0 Te-
propriamente os nobres ingleses, se revoltar
Nao ha um tinico e rigido modelo de organizacao do gover- linhagem Tu-
no nas democracias contemporaneas, que podem configurar
gime Monarquico dos Stuarts (sucessores da
dor).
156 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nébrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 157
Frise-se, contudo, de inicio, que parlamentarismo nao 8.2.2. Presidencialismo
se confunde com a existéncia de parlamento. A monarquia
pode ter um parlamento, que lhe assessora. O parlamenta- O Presidencialismo é uma criacéo norte-americana,
rismo é um regime focado no Parlamento. tendo como propésito, ademais da relativacao da importan-
Haquese lembrar que, no parlamentarismo, legislati- cia do Parlamento, criar uma fonte centralizada de poder.
voe executivo se confundem. Portanto, nado ha a reducao, Nesse sentido, ha que se ter em vista que a propria criagao
tipica do sistema presidencialista, em queparlamento éa do sistema presidencialista, pelos Framers da Constituicgao
mesma coisa quelegislativo. Na Inglaterra, por exemplo, o estadounidense de 1787, encontrou o seu gatilho inicial em
parlamento era composto peloRei, pelos lordes (upper house) um contexto de desconfianca - desunido, guerra civil, amea-
e pelos commons. ca externa, crise econémica - (cf. Hamilton, Federalista # 70,
O Parlamentarismo se caracteriza pela distincdo entre in. The Federalist Papers, 1987: 402), o qual findou por desa-
Chefe de Estado, umafigura quase que simbolica e represen- guar na necessidade de um governo central dominante, de
tativa do Estado, propriamente dito, e o Chefe de Governo, “uma energia na administracdo do governo”(cf. Kramnick,
que é quem conduz a maquinaEstatal. citando Benjamin Franklin, em sua Introducao ao The Fede-
O parlamentarismo, em relagéo ao Chefe de Estado, ralist Papers, 1987: 17). Nao por outro motivo é queo siste-
pode ser monarquico, nocaso de este ser um rei ou umarai- ma Presidencial foi reputado, por diversos Antifederalistas,
nha, como é 0 caso da Inglaterra, ou, igualmente, ser repu- como um verdadeiro sistema mondrquico, embora com ou-
blicano, caso o Chefe de Estado seja um Presidente da Repa- tro nome (cf. Luther Martin, Genuine Information, in. Kur-
blica, como é 0 casoda Franca. land & Lerner, vol. 4, 1987: 98).
Importante, aqui, a partir do estudo do Parlamenta- Inicialmente, houve diversos modelos de presidencia-
rismo, destacar que tal nao respeita um doscritérios classifi- lismo, na concepc¢&o norte-americana, sendo que um dos
catorios da republica, a saber, a temporariedade. principais federalistas, Alexander Hamilton, chegou,inclusi-
Veja-se bem, o chefe do governo, é dizer, o Primeiro- ve, a defender a auséncia da temporariedade de seu manda-
Ministro ndotem_mandato fixo. Sua manuten¢ao nachefia~ to. E dizer, o presidente da reptablica ocuparia um cargovita-
depende da obtencdo de maioria parlamentar ou da inexistén- licio, sendo eleito pelo Senado (Plano Hamilton).
as de qualquer voto de desconfianca, aprovado pelo parlamen- O Presidente, ademais, teria (como atualmente tem)
O. uma importante prerrogativa em face do Legislativo: O veto,
Em contrapartida, o Primeiro-Ministro pode solicitar a que, a principio, seria absoluto (como nao o é, hodiernamen-
dissolucado do Parlamento, caso entenda que possaobter, por te).
meio de novas eleigdes, uma maioria mais consistente ou Ainda considerando a origem norte-americana, a ma-
caso, na hipotese de propositura de um voto de desconfian- xima da Separacao de Poderes elaborada por Madison, em
ca, acredite que a vontade do parlamento destoe da vontade que um poder imp6e um freio ao outro através da checagem
popular. mitua, é caracteristica do sistema presidencialista. Isso, to-
davia, nao significa que a separacdo de poderes seja exclusi-
va do presidencialismo, podendo,existir, inclusive, no par-
158 [ Flavianne Fernanda Bitencourt Noébrega | 159
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado
lamentarismo. Porém, o inverso 6 verdadeiro: 0 regime pre-
Nopresidencialismo, a chefia de Governo e chefia de
sidencialista implica separacao de poderes. (Grohmann,
Estado sao exercidas por uma s6 pessoa - 0 presidente, que é
2001:84).
eleito pelo povo em mandato predeterminadoe distinto dos
parlamentares. J4 no parlamentarismo, a legitimacao do go-
8.2.3. Formacao histérica e caracteristicas distintivas
verno é indireta, uma vez que nado decorre de votacao popu-
O regime parlamentarista, conforme visto anterior- lar, mas da maioria do parlamento, que pode ser formado
mente, surgiu na Inglaterra. Neste pais, apesar da existéncia
por um partido ou por umacoalizao de partidos. (Cintra,
da monarquia absoluta, existia um érgao denominado Con- 2007: 41).
selho Privado, em que os membros da nobreza eram indica-
8.3 Formasde organizacao dos Estados
dos pelo rei. Com o passar dos anos, este conselho foi au-
mentandosuasatribuicdes, ganhando maiorrelevancia.
As formas de Estado, nas palavras de Jorge Miranda,
Diante disso, segundo Rosah Russomano, o soberano
“& o modo de o Estado dispor o seu poder em face de outros
“como medida habil, recorreu, entdo, ao expediente de cons-
poderes de igual natureza (em termos de coordenacao e su-
tituir seu Gabinete com os homens mais eminentes e presti-
bordinacdo) e quanto ao povoe ao territério (que ficam sujei-
giosos do partido que possuisse a maioria do parlamento”
tos a um ou a mais de um poderpolitico” (2002: 298-299).
(1976: 182), criando a estrutura de identidade do ministério
Assim, neste topico, estudaremosa divisao espacial do
com 0 partido que detém a maioria parlamentar.
poder, ou seja, como ocorre a projecao do poder dentro da
A figura do primeiro ministro surgiu com a ascensdo
esfera territorial, analisando a existéncia, a intensidade e o
do alemdo Jorge [, com a morte do Rei Guilherme IIL, ao tro-
contetdo de descentralizac4o politico-administrativa de ca-
no da Inglaterra, que nao conhecia o idioma inglés. Diante
da um (Serrano e Aratijo, 2006: 258).
desse cenario, as deliberacdes eram tomadas sem a presenga
A doutrina classifica as formas de Estado em duasca-
do Rei, que era comunicado posteriormente, por meio do
tegorias. Estado Unitario e Estado Federal, que passaremosa
membro mais ilustre do Parlamento, surgindo a figura do
estudar a seguir.
Primeiro-Ministro (1976: 182).
Em relacdo ao presidencialismo, conformevisto no té-
8.3.1 Estados Unitarios
pico anterior, este sistema surgiu, na realidade, dos Estados
Unidos. Deste cendrio histérico, surge a caracteristicas distin- Estado unitario se caracteriza pela centralizacéo do
tivas entre os dois sistemas de governo. poder em um anico ente, que detém a exclusividade da ca-
No parlamentarismo, encontramos uma fusdo entre o pacidade normativa. Como bem lembrado por André Ramos
Executivo e o Legislativo, tendo estes dois poderes surgidos Tavares a existéncia de outras entidades nao descaracteriza 0
de uma mesmabase, o parlamento. Em sentido contrario, Estado Unitario, na medida em quetais entidades nao pos-
como o Poder Executivo, historicamente, originou-se tam- suem autonomia, agindo por delegacdo do érgao central
bém para limitar o Poder Legislativo, verificamos a separa- (Tavares, 2002:727).
cao entre este dois poderes.
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 161
160 | Fiavianne Fernanda Bitencourt Nébrega
palavras, s6 se pode falar em descentralizacaéo administrativa
8.3.2 Estados Federados
e politica, com a devida reparticaéo de competéncias.
Por outro lado, em nadaadianta a Constituicao delegar
A origem do Estado federal remonta a experiéncia his-
intimeras tarefas para determinado ente, sem a devida con-
torica dos Estados Unidos, apés sua independéncia em 1776,
traprestacdo material, que possa concretizar as competéncias.
com a transformacao das treze colénias inglesas em Estados
Assim, “nao basta estarmos diante de uma reparticao consti-
livres e soberanos.
tucional de competéncias (encargos) sem o devido acompa-
Como os Estados queriam instituir um novo patamar
nhamento do suporte financeiro (por via de arrecadacao ou
de relacionamentoentre eles, por meio de umadirecdo unifi-
repasse de verbas) para a consecug4o dos objetivos fixados
cante, sem descaracterizar suas, respectivas, independéncia e
na Lei Maior” (Serrano e Aratijo, 2006: 262).
individualidade (Serrano e Aratijo, 2006: 259), foi formulada
Outra caracteristica é a autonomia, que pode serdefi-
* umaalternativa com 0 escopo de concretizar esta situacao, o
nida como a admissibilidade de Constituicdes elaboradas
que ocorreu com a instituicaéo da federacao, por meio daela-
pelos proprios entes federativos (Tavares, 2002: 728). No
boracao da Constituicao de 1787.
Brasil, trata-se das ConstituicGes estaduais.
Esse modelo estadounidense sofreu inameras modifi-
A indissolubilidade do vinculo, por sua vez, é a veda-
cagdes com a evolucdo historica do federalismo, e com a
adaptacao deste instituto 4 realidade econémica, social e
cao ao direito de secessdo, ou seja, separacao dos entes fede-
rados. Por 6bvio, se aos entes fosse dado esta prerrogativa
politica de cada Estado. No entanto, mesmo com diversas
nao existiria federacdo.,As unidades federativas devem par-
particularidades, ¢ possivel tracar algumas caracteristicas
ticipar do poderlegislativo central, 0 que, invariavelmente,
entre todos os Estados que adotam o modelo federativo.
parficipacao esta consolidada na figuradoSenado,
O Estado federal pode ser definido como a associacao ———oo ee wes
de entidades auténomas, que aderem a um pacto indissolti-
vel, sem qualquer hierarquia entre eles, criando umaentida-
de central, que corporifica o vinculo federativo.
Comocaracteristicas comuns a todos os Estados fede-
rais podemoscitar: (i) repartigao de competéncias e de ren-
das pela Constituicdo;(ii) autonomia;(iii) rigidez constituci-
onal; (iv) indissolubilidade do vinculo;(v) representacao das
idades federativas no Poder Legislativo central; (vi) exis-
téncia de um tribunal constitucional, (vil) inter encdo para
manutencao da federacao (Tavares, 2002: 728-729).
A reparticao constitucional de competéncias e de ren-
das 6 o primeiro requisito para verificar a forma de federa-
cao. Isso porque inexiste entidade auténoma, sem a existén-
cia de determinadas matérias, em que referidos entes tém
competéncia legislativa e administrativa absoluta. Em outras
Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 163
a) Soberania

Democracia

8 &
uw
—) Tarritdrio

2 2
—wOMétoda

Referéncias
poo POV

S 8
ca——------#€FObIeto

ue

- a
=
5 S885
Eecer %
Regras do jogo

5 8886
3 rae O
2
= ABBAGNANO,Nicola. Diccionario de Filosofia. Colombia: Fondo de
a2 4 Cultura Econémica, 1997
Sa:
3
3
ARATO, Andrew. Accountability y sociedad civil. In: Controlando
O IC)

£3 |
Geverno

@
Elementos
emYOTAQO
ee p————) L_s@antigo

a3 |
a a la politica: ctudadanos y Medios en las nuevas democracias Latino-
2 3
ae

americanas. Org. Peruzzoti y Smulovitz. Buenos Aires: Temas


z a
Hien R

au "
=oO S Grupo Editorial, 2002
2 Bg
&
AZAMBUJA,Darcy. Teoria Geral do Estado. So Paulo: Globo, 1998
Polissermnia

ta

i i 2
: 2 o oa 2 eye BARBOSA, Rui. Teoria Politica, vol. XXXVI. Rio de Janeiro: W.M.
[ ig 398
a 1D Seige Jackson, 1957.
Auto

[og
se
ig
at

|i 3 Eis BASTOS, Celso Ribeiro. Teoria Geral do Estado. Sao Paulo: Celso
=
(18a BF oe
:o8
eS
i
[8 Bastos Editor, 2002.
BERCOVICI, Gilberto. “Constituicéo e Politica: uma relacéo difi-
WNomenciatura

ot |
e

; a
3s |
rigem - TGE

Hoge (5
Evolucaol [e

cil”. Lua Nova. n. 61. 2004.


Tee 8 [E S$ foe BOBBIO, Noberto. Diciondrio de Politica. Trad. Cramen Varriale.
a 08 08
+O

Teoria Juridica Classica

ge 7% (obTs YES
8 ¢ Os e
¥368
Brasilia: Unb, 2007.
5.5 Boe BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da politica: a filosofia politica e as
Lewes
a

ia .
oy Le
wh 6 Lo licdes dos classicos. Campinas: Elsevier, 2000.
& ©
(6 SE ae
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional, 14° ed. Sao
Etimolog lia

G O18 6
8 i
PiCg

10 £5
Paulo: Malheiros, 2004.
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional, 14° ed. Sao
nner, SEO
Prot

Oo elo fo
BE
a a CG
Paulo: Malheiros, 2004.
'
aa
j Me a 4a =f:
BRINKS, Daniel. The Rule of Non (Law): Prosecuting Police Kill-
¢ 9
Ew | ings in Brazil and Argentina.. In: Informal institutions and Democra-
wo cy. Org. Helmke, Gretchen and Levitsky. John Hopkins University
az Press, Baltomire, 2006
uJ
BRINKS, David. Informal Institutions and the Rule of law: The
02‘LL
judicial response to State Killings in Buenos Aires and Sao Paulo in
the 1990s. Comparative Politics, n. 1, 2003,p. 1-19, Apud Helmke,
cptfgporado pela Professora
<{FBianne Bitencourt Nébrega Gretchen and Levitsky. Informal institutions and Democracy. John
ti burgo, inverno de 2009 Hopkins University Press, Baltomire, 2006
Of ul CANOTILHO,J.J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Consti-
tuicéo, 5* ed. Coimbra: Almedina, 2002.
CARNOY, Martin. “Gramsci e o Estado”. In: Estado e Teoria Politica,
Campinas: Papirus, 1988.
hy
164 | Flavianne Fernanda Bitencourt Nobrega Pecas e Engrenagens de uma Teoria Geral do Estado | 165
CINTRA, Anténio Octavio. “Presidencialismo e parlamentarism
o: GROPPALI, Alexandre. Doutrina do Estado. Sao Paulo: Saraiva,
sao importantes as instituic6es?”, In sistema politico brasileiro: uma 1962. ;
introducao. 2 ed. Sdo Paulo, editora Unesp, 2007. HALL, Peter A.; Taylor, Rosemary C. R. As trés verses do neo-
DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado, 21° institucionalismo. Lua Nova, n. 58, 2003.
ed. Sao Paulo: Malheiros, 2000. HAMILTON,Madisone Jay. O federalista. trad. Hiltomar Martins
DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 23? Oliveira. Belo Horizonte: Ed. Lider, 2003
ed. Sao Paulo, Saraiva, 2003. HARRISON, Lawrence; Huntington. A cultura importa: os valores
DANTAS,Ivo. Teoria do Estado Contempordneo. Rio de Janeiro: Fo- que definem 0 progresso humano. Sao Paulo: Record, 2002
rense, 2008. HELLER, Hermann. Teoria del Estado, 7a reimp. México: FCE, 1971.
ELSTER, Jon y Rune Slagstad. Constitucionalismo y Democracia. HELMKE, Gretchen and Levitsky. Informal institutions and Democ-
Fonde de Cultura Econémica: México, 1999 racy. John Hopkins University Press, Baltomire, 2006
*. FERRAJOLI, Luigi. A Soberania no Mundo Moderno. Sao Paulo: Mar- HOLMES,Stephen. Lineages ofthe rule of law. In: Democracy and
tins Fontes, 2002. le of law. Cambridge, 2003.
FLEINER-GERSTER, Thomas. Teoria Geral do Estado. Sao Paulo: HME Cid “Of theOriginal Contract”. In. STEWART, Robert
Martins Fontes, 2006. M.Readings in Social & Political Philosophy, New York: Oxford, 1996.
FUKUYAMA,Francis. Capital Social. In: A cultura importa:os valores HUNTINGTON, Samuel P. A Ordem Politica nas Sociedades em
que definemo progresso humano. Sao Paulo: Record, 2002 Mudangea. Trad. Pinheira de Lemos. Rio de Janeiro: Forense, 1975.
FUKUYAMA,Francis. Construcao dos Estados. trad. Nivaldo Mon- IMMERGUT, Ellen M. The Theoretical Core of the New Institu-
tingelli. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. : ionalism. Politics and Society, 26 (1), 1998
GAMBETTA, Diego. The Sicilian Mafia: the Business of private ELLINEK, Georg. Teoria Genera del Estado. México: FCE, 2000.
protection. Cambridge, MA: Harvard University press, 1993. p. KANTOROWICZ, Ernst. Os Dois Corpos do Rei. Sao Paulo: Cia das
224. Apud Rothstein, Bo. Social Traps and the problem of trust. Cam- as, 1998.
bridge: Cambridge University Press, 2005 KAY. Richard S. “American Constitutionalism”. In. ALEXANDER,
GETTEL, Raymond G. Historia de las Ideas Politicas If, Barcelona: Larry (ed.). Constitutionalism: Philosophical Foundations. Cam-
Labor, 1937. bridge: Cambridge University Press, 2005. Bibliografia: 16-63.
GILISSEN,John. Introdugdo Histérica ao Direito. Trad. Malheiros e KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. Sao Paulo: Martins Fontes,
Hespanha. Lisboa: Fundacao Calouste Gulbenkian, 2003. 1999.
GOODIN,Robert E., Klingemann , Hans-Dieter. A New Handbook of KENNEY, Charles D. Horizontal Accountability: Concepts and
Political Science. Oxford: Oxford University Press, 1998 Conflicts. In: In: Democratic Accountability in Latin America. Ed. Scott
GREY, ThomasC. “Constitutionalism: an analytic framework”. In. Mainwaring e Christopher Welna.Oxford: Oxford University
PENNOCK,J. Roland; CHAPMAN, John W.(ed.). Constitutional- Press, 2003 . _
ism, Nomos XX. New York: New York University Press, 1979. Bib- KIRK, G.S.; RAVEN, J.E; SCHOFIELD, M. Os Fildsofos Pré-
liografia: 189-209. Socraticos, 4° ed. Lisboa: Fundacéo Calouste Gulbenkian, 1994.
GROHMANN,Luis Gustavo Mello A Separacdo de Poderes em KRAMNICK,Isaac, “Editor’s Introduction”. In. MADISON, James;
Paises Presidencialistas: A América Latina em Perspectiva Compa- HAMILTON,Alexander; JAY, John. The Federalist Papers, London:
rada. Revista de Sociologia e Politica, n° 17 : 75-106, Nov, 2001 Penguin Books, 1987.
eaee
Bitencourt Nébrega
i Geral do Estado | 167
OF
Pecas e Engrenagens de uma Teoria
KURLAND,Philip B, LERNER, Ralph (ed.).
The Founders’ Constitu- : Forense,
tion, vol. 2. Indianapolis: Liberty Fund, 1987. MENEZES, Aderson. Teoria Geral do Estado. Rio de Janeiro
. The Founders’ Constitution, vol. 4. India
napolis: Liberty Rio de Ja
_ we . €s
MaRANDA Jorge. Teoria do Estado e da Constituicéo.
.
Fund, 1987.
4.
LALANDE, André. Vocabulaire techenique iro: Forense, 2007. a
et critique de la philo- a
sophie. Paris: Quadrige Puf, 2006 MONCADA Luis Cabral de. Lei e Regulamento. Coimbra: Coimbr
002. . .
LOWENTHAL, David. “Montesquieu”. i
In. STRAUSS,
eReoom Charles-Lous de Secondat. O Espirito das Leis.
Leo;
CROPSEY,Joseph (Ed.). Historia de la Filoso
fia politica. México: FCE,
2004. ao Paulo: Martins Fontes, 2000.
pow -
LOWNDES,Vivien. Institutionalism. In: MONTESOUIEU. Quais os governos em que o soberano
Theory and methods in Mar
Political Science. 2-4 Edition. Edited by Davi juiz. In: Do Espirito das Leis. Trad. Jean Melville. Séo Paulo:
d Marsh and Gerry ;
Stoker.Palgrave Macmillan, 2002. p.90-108 Claret, 2002
MACCUBBINS, Mathew; Haggard,
Stephan. Presidents, Parlia-
NORTH Douglass, John Joseph Wallis, Barryr. ial ae A con
msti
ments, and Policy. Cambridge University
Press, 2000. ceptual framework for interpreting recorded human
er .
MAHONEY; Snyder. Rethinking Agency National bureau of economic research. Cambridge, decemb
and Structure in the |
Study of Regime Change. Studies in Comp :/ /www.nber.org/papers/w12 795 .
arative International
Development. Summer,vol 34 (2), 1999 NORTH Douglass. Institutions, Institutional Change and Econom
ity
MAINWARING,Scott. BRINK, Danie
l; et alli. Classificando Re- ic performance. 224 edition. New York: Cambridge Univers
gimes Politicos na América Latina, 1945- Press, 2006 .
1999, DADOS— Revista de
Ciencias Sociais, Rio de Janeiro, Vol. 44, NORTH Douglass. Understanding the Process of Economic
n° 4, 2001, pp. 645 a 687.
MAINWARING,Scott. Introduction. Pri
e. New Jersey:: Princet on, 20 05
In: Democratic Accountabil- ee Curso
ity in Latin America. Ed. Scott Main NUNES JR., Vidal Serrano e ARAUJO,Luiz Alberto
waring e Christopher 4 cetado
Welna.Oxford: Oxford University Press, de Direito Constitucional. 10 ed. Sao Paulo, saraiva, 200
2003 oO iS °
MALBERG, R. Carré de. Teoria Gener O’DONNEL, Guilhermo. “Anotagdes para uma teonia
al del Estado. México: FCE,
2001. (1)”, in: Revista de Cultura e Sociedade, n° 3, nov./jan., 1981, pag.
MALJUEF,Sahid. Teoria geral do Estado.
Saraiva: Sao Paulo, 2008.
MARCH,JamesG.; Johan P. Olsen.
The New Institutionalism:
ODOMNELL Guilhermo. Accountability Horizontal e novas Poli-
Or- ias. Lua nova, n 44, 1998.
_
ganizational Factors in Political Life. The Amer ican Political Sci-
ence Review, Vol. 78, No. 3 (Sep., 1984), pp. ODONNELL Guilhermo. Acerca de varias accountabilitiesyes
734-749 ;
MATTEUCCLNicola. “Constitucional i joness. In: Controlando la po litica: ciudadanos y Medios
lacione
ismo”. In. BOBBIO, Norber- y
to; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO onlas nuevas democracias Latinoamericanas. Org. Peruzzoti
, Gianfranco. Diciondrio de . val
Politica, 2° ed. Brasilia: Editora Universi Smulovitz. Buenos Aires: Temas Grupo Editorial, 2002
dade de Brasilia, 1986.
MCILWAIN, Charles Howard. Constituti O'DONNELL, Guillermo. Why the rule of law matters. In: oe
onalism: Ancient and Mod- sity Press,qi :
ern, Ithaca: Cornell University, 1977, f Democracy. Vol. 15, n.4, Johns Hopkins Univerversil
MELLO, Celso. Curso de Direito Inter PAGLIARINI Alexandre Coutinho. A Constituicao Européia come
nacional Piiblico. Vol.1. Sao Lu
Paulo: Renovar: 2002. signo: da superacao dos dogmas do estado nacional. Rio de Janeiro:
men Juris, 2005.
168 | Flavianne Fernanda Bitencou i Geral do Estado |
Pecas e Engrenagens de uma Teoria
169
oy
rt Nobrega
POCOCK,J. G. A. The Ancient Constituti
on and the Feudal Law. STRECK, Lenio Luiz; MORAIS,José Luis Bolzan de. cence onne
Cambridge: Cambridge University Press, 2004. e Teoria Geral do Estado. Porto Alegre: Livraria do aeae : ono
PRZEWORSKI; Maravall. Introduction. In: SUNDFELD, Carlos Ari. Fundamentos de Direito Publico, ed.
Democracyandthe rule
of law. New York University., 2003,p. 1 : i 0. ;
PUTNAM,Robert D. Comunidade e Democracia
: a experiéncia da SOORDEN,Hemant Paulo da Silva. O Principio da Sepanecto de
Italia moderna. Trad. Luiz Alberto Monjardi
m. Rio de Janeiro: Poderes e os Novos Movimentos Sociats. Coimbra: Aimedini ms at
FGV, 2005 TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional. 5ao
RADBRUCH, Gustav. Introdugao a Ciénc lo, Saraiva, 2002. - _
ia do Direito. Sao Paulo:
Martins Fontes, 1999, TSEBELIS George. Veto players: How Political Institutions Work.
REALE, Miguel. Teoria do Direito e do i
Princenton: Princent i
on Universiityty Press, , 2002. . a
Estado. Sao Paulo: Saraiva,
1984, WARD Hugh. Rational Choice. In: Theory and methods in Too
ROTHSTEIN,Bo. Social Traps and the prob
lem of trust. Cambrid- cal Science. 2"4 Edition. Edited by David Marsh and Gerry Sto
ge: Cambridge University Press, 2005 -Palerave Macmillan, 2002. 7 _
RUSSOMANO,Rosah. Dos Poderes Legislativo
e Executivo. Freitas ZAVERUCEA, Jorge. FHC, forgas armadas e policia. Record: Rio
Bastos, 1976, | . . /
de Janeiro, 2005
SCHOCHET, Gordon J. “Introduction:
constitutionalism, liberal- OIPPELTUS Reinhold. Teoria Geral do Estado. Lisboa: Calouste Gul
ism, and the study of politics”. In. PENN benkian, 1997.
OCK,J. Roland; CHAP-
MAN,John (ed.). Constitutionalism, Nomos
XX. New York: New
York University Press, 1979, Bibliografia:
1-15.
SCHOCHET, Gordon J. “Introduction:
constitutionalism, liberal- '
ism, and the study of politics”. In. PENN
OCK,J. Roland; CHAP- ]
MAN,John W (ed.). Constitutionalism, Nomo
s XX. New York: New
York University Press, 1979. Bibliografia: 1-15.
SILVA, José Afonso. Curso de Direito Const {
itucional Positivo. 20 ed. i
Sao Paulo, Malheiros, 2002.
SMULOVITZ,Catalina; Peruzzotti Enrique.
Accountability social:
la outra cara Del control. In: Controlando la politi
ca: ciudadanos y
Medios en las nuevas democracias Latinoamer
icanas. Org. Peruz-
zoti y Smulovitz. Buenos Aires: Temas Grup
o Editorial, 2002
STORING, Herbert J. What the Anti-Federalist
s Were For: the political
thought of the opponents of the Constitution. Chica
go: The University
of Chicago Press, 1981.
STRAUB, Sthéfan. “Coordination and
institutions: A review of
game-theoretic contributions” In: ESNIE,
Corsica, 2007
STRECK, Lenio Luiz; Bolzan, José Luis.
Ciéncia Politica e Teoria
Geral do Estado.Livraria do Advogado: Porto
Alegre, 2000.