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MATERIAL DO CURSO
A Genialidade Complexa e diferente de Freud e Lacan

APOSTILA 01
Freud X Lacan: Complexas diferenças
entre gênios.

A clínica freudiana foi relida por Lacan tanto como clínica da angústia, como clínica da
falta no Outro, ou ainda, como a clínica da transferência. Observa-se que a razão do
sujeito procurar um analista está no fato de ele supor que o analista saiba sobre sua
falta, saiba sobre a causa de seu sofrimento. Devido ao sujeito supor que o outro
tenha o que lhe falta, a clínica freudiana pode ser nomeada como clínica da
transferência, na medida em que o analista ocupará o lugar de saber sobre a falta.

Segundo Lacan, de acordo com a leitura que ele faz de Freud, haveria 3
possibilidades de o sujeito negar a falta no outro, o que seria uma releitura diferente
em relação à clínica psiquiátrica, pois Lacan não tomou as neuroses, as psicoses e as
perversões definidas somente com os critérios herdados da psiquiatria. Lacan
organizou a psicopatologia sustentado na observação da clínica psicanalítica,
referindo-se aos mecanismos de defesa elaborados por Freud.

O que possibilita o sujeito negar a falta no outro são operações psíquicas, descritas
por Freud como mecanismos de defesa. O recalque, por exemplo, é uma operação
psíquica que visa afastar uma representação do campo da consciência

NA OBRA DE FREUD É POSSÍVEL ENCONTRAR DUAS OUTRAS DESCRIÇÕES DO ESTILO


DO SUJEITO NEGAR A FALTA NO OUTRO: A PERVERSÃO, E A PSICOSE.
NESSA ORDENAÇÃO QUE LACAN FEZ DA CLÍNICA FREUDIANA, NÃO É POSSÍVEL
PORTANTO USAR-SE AS CATEGORIAS DE PSICOPATIA OU OUTRAS ENTIDADES
NOSOLÓGICAS QUE ÀS VEZES SE ENCONTRAM NA TEORIA PSICANALÍTICA POIS, NESTA
LÓGICA, A DEPRESSÃO NÃO SERIA UMA ESTRUTURA, MAS UM SINTOMA QUE PODERIA
SER DE UMA NEUROSE, OU DE UMA PSICOSE. ISSO PORQUE A DEPRESSÃO NÃO SERIA
UM MECANISMO DE DEFESA POIS, O QUE OCORRE NA DEPRESSÃO É UMA PERDA DE
OBJETO, DIFERENTEMENTE DA NEUROSE, ONDE O MECANISMO DE DEFESA É O
RECALQUE. NÃO HAVERIA NENHUM MECANISMO DE DEFESA PRÓPRIO À DEPRESSÃO,
E SUA ÚNICA CARACTERÍSTICA CLÍNICA PODE SER FORMALIZADA EM REFERÊNCIA À
PERDA DE OBJETO. DA MESMA FORMA, A PERVERSÃO NÃO SERIA UM SINTOMA
EXCLUSIVAMENTE SEXUAL. SERIA POSSÍVEL EXISTIR PERVERSÕES QUE, VISTAS COM
ESSA CATEGORIZAÇÃO PSICANALÍTICA, NÃO TIVESSEM ENVOLVIMENTO SEXUAL
NENHUM.
UM MÉRITO DE FREUD FOI O DE ORDENAR A PSICOPATOLOGIA, PRINCIPALMENTE
NO QUE SE REFERE ÀS NEUROSES. O FOCO DESTA ORGANIZAÇÃO SERIA A ANGÚSTIA,
POSTERIORMENTE FORMULADA COMO CAUSA DO RECALQUE E CONSEQÜÊNCIA DA
AMEAÇA DE CASTRAÇÃO. TUDO ISSO PARA DAR CONTA DO SINTOMA, EFEITO DA
DEFESA CONTRA A ANGÚSTIA. POR ISSO UM SINTOMA DETÉM UM SENTIDO PASSÍVEL
DE DECIFRAÇÃO PELA ANÁLISE, TENDO COMO CONSEQÜÊNCIA SUA MODIFICAÇÃO…
MARAVILHA, A CURA!
DENTRO DA PSIQUIATRIA USA-SE TAMBÉM A CATEGORIA DIAGNÓSTICA PSICOPATIA,
QUE GENERALIZADAMENTE, CERCA TODAS AS PATOLOGIAS DA MENTE, PORÉM HÁ NO
DIAGNÓSTICO DE PSICOPATIA UMA CONOTAÇÃO SOCIAL, ONDE O PSICOPATA SERIA
DEFINIDO COMO AQUELE QUE FAZ SOFRER E NÃO SOFRE.
ESCREVI ISSO TUDO PARA DIZER QUE A CLÍNICA PSICANALÍTICA É HERDEIRA DA
CLÍNICA PSIQUIÁTRICA E QUE A PSIQUIATRIA SE TRANSFORMA DENTRO
PSICANÁLISE, POIS OS TERMOS PSICOPATOLÓGICOS SÃO MODIFICADOS QUANDO
UTILIZADOS POR ELA. POR EXEMPLO, EM SUA PROPOSTA DE ORDENAÇÃO DAS
PSICOSES, MELANIE KLEIN FOCOU NO EIXO DA ESQUIZOFRENIA – -MELANCOLIA. JÁ
LACAN USOU O EIXO ESQUIZOFRENIA – PARANÓIA, E, AO PREFERIR ESTE EIXO DA
PSICOSE, A SIGNIFICOU DE MODO TOTALMENTE DIVERSO. APESAR DO AINDA
CONTROVERSO TEMA DA EXISTÊNCIA DO INSTINTO AGRESSIVO EM NOSSA ESPÉCIE,
PELO MENOS ENTRE AS TEORIAS PSICANALÍTICAS NÃO HÁ DÚVIDAS SOBRE A
NATUREZA DA COMPULSÃO À REPETIÇÃO E CARACTERÍSTICAS SÁDICAS DE SUAS
MANIFESTAÇÕES DESCRITAS POR FREUD NO ENSAIO: ALÉM DO PRINCÍPIO DO
PRAZER.

Freud escreveu um artigo chamado “Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho


psicanalítico”, no qual fala de 3 tipos de caráter. Um deles é: criminosos em
consequência de sentimento de culpa, no qual fala sobre o que conhecemos como
“psicopatia”. Segundo ele, há indivíduos que, sob pressão de um sentimento de culpa
inconsciente, buscam por meio de um ato criminoso o alívio e a justificação de tal
culpa. É um certo paradoxo dizer “sentimento de culpa inconsciente” já que o
sentimento não pode ser inconsciente quando faz parte daquele que o sente, mas na
verdade Freud deseja expor uma representação psíquica que estaria ligada a esse
sentimento que está fora da consciência do indivíduo.

Os atos ilícitos como furtos, fraudes, incêndios relatados por seus pacientes
começaram a chamar a sua atenção quando eram cometidos por pacientes durante o
tratamento e em idade muito posterior a puberdade. Com isso, ele constatou a
preexistência de um penoso sentimento de culpa anterior a transgressão real. Freud
faz a distinção deste tipo de caráter, dos delinquentes adultos que cometem delitos
sem sentimento de culpa, àqueles que não desenvolvem inibições morais, como
aqueles que creem justificada sua conduta por uma luta contra a sociedade. Neste
sentido, ele não chamou tal criminoso neurótico de psicopata, mas inaugurou toda
uma linha de pesquisa sobre os determinantes neuróticos de um ato criminoso.

Em “Tipos libidinais”, Freud traça um quadro de classificação definida pela


organização da libido, fazendo menção a um tipo que apresenta alguns dos fatores
essenciais que condicionam a criminalidade. Ele parte de três tipos principais: o
erótico (cuja libido é voltada, na maior parte, para a vida amorosa, com angústia da
perda do amor, dependências de objetos externos e tendo como principal necessidade
ser amado); o obsessivo (dominado pela ação do superego e pela angústia moral) e o
narcisista, que não apresenta tensão entre o ego e o superego nem predominância
das necessidades eróticas, orientado para a auto conservação, autônomo e pouco
intimidável; impõe-se como “personalidade” particularmente qualificada para servir de
sustento a outros, assegurar o papel de líder, dar desenvolvimento cultural a novas
pulsões ou atacar aquilo que está estabelecido. Nesta qualidade de ser transgressivo
às normas vigente, ele pode tanto se aproximar da imagem de “herói” quanto do
criminoso. Com esta caracterização, o criminoso se aproxima da figura de psicótico
em função dos destinos possíveis do narcisismo muito comum no cinema
Hollywoodiano, onde “seria-killers” são muitas vezes admirados pelo espectador.

Considerando os diferenciais teóricos, meus estudos são baseados nas obras de


Freud, e considero a Psicopatia o transtorno de personalidade mais disfarçável aos
olhos dos leigos, pois a princípio se trata de uma pessoa simpática, doce, inteligente,
mas por trás dessa máscara, encontra-se um ser macabro, calculista e frio, que
enfrenta as leis, transgride-as e tem prazer nisso e que poucas vezes se trai em uma
conversa. Ele tem consciência do seu transtorno, sabe exatamente o que fazer para
machucar alguém e faz o necessário para atingir seus objetivos. Resumindo muito a
teoria freudiana sobre este assunto, esse transtorno se desenvolve na infância, na
fase chamada fálica, quando a criança começa a ter consciência do seus órgão
genitais, e passa a se identificar com as figuras parentais e havendo a castração no
Complexo de Édipo. Caso isso não aconteça, essa criança vai crescer com a
consciência de que “tudo pode” e que não existem regras.
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A Genialidade Complexa e diferente de Freud e Lacan

APOSTILA 02
Psicanálise
A Psicanálise foi criada pelo neurologista austríaco Sigmund Freud, com o objetivo de
tratar desequilíbrios psíquicos. Este corpo teórico foi responsável pela descoberta do
inconsciente – antes já desbravado, porém em outro sentido, por Leibniz e Hegel -, e a
partir de então passou a abordar este território desconhecido, na tentativa de mapeá-lo
e de compreender seus mecanismos, originalmente conferindo-lhe uma realidade no
plano psíquico. Esta disciplina visa também analisar o comportamento humano,
decifrar a organização da mente e curar doenças carentes de causas orgânicas.

Sigmund Freud. Foto: Max Halberstadt (1882-1940) [Public domain],

Freud foi inspirado pelo trabalho do fisiologista Josef Breuer, por seus trabalhos
iniciais com a hipnose, que marcaram profundamente os métodos do psicanalista,
embora mais tarde ele abandone essa terapêutica e a substitua pela livre associação.
Ele também incorporou à sua teoria conhecimentos absorvidos de alguns filósofos,
principalmente de Platão e Schopenhauer. Freud interessou-se desde o início por
distúrbios emocionais que na época eram conhecidos como „histeria‟, e empenhou-se
para, através da Psicanálise, encontrar a cura para estes desajustes mentais. Desde
então ele passou a utilizar a arte da cura pela fala, descobrindo assim o reino onde os
desejos e as fantasias sexuais se perdem na mente humana, reprimidos, esquecidos,
até emergirem na consciência sob a forma de sintomas indesejáveis, por uma razão
qualquer – o Inconsciente.

Freud organiza em seu corpo teórico dados já conhecidos na época, como a idéia de
que a mente era dividida em três partes, as funções que lhe cabiam, as
personalidades que nasciam de cada categoria e a catarse. Essa espécie de
sincretismo científico deu origem a inúmeras concepções novas, como a sublimação, a
perversão, o narcisismo, a transferência, entre outras, algumas delas bem populares
em nossos dias, pois estes conceitos propiciaram o surgimento da Psicologia Clínica e
da Psiquiatria modernas. Para a Psicanálise, o sexo está no centro do comportamento
humano. Ele motiva sua realização pessoal e, por outro lado, seus distúrbios
emocionais mais profundos; reina absoluto no inconsciente. Freud, em plena era
vitoriana, tornou-se polêmico, e sua teoria não foi aceita facilmente. Com o tempo,
porém, seu pensamento tornou possível a entrada do tema sexual em ambientes
antes inacessíveis a esta ordem de debates.

A teoria psicanalítica está sintetizada essencialmente em três publicações:


Interpretação dos Sonhos, de 1900; Psicopatologia da Vida Cotidiana”, que contém os
primeiros princípios da Psicanálise; e “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”,
na qual estão os esboços básicos desta doutrina. No atendimento clínico, o paciente,
em repouso, é estimulado a verbalizar tudo que brota em sua mente – sonhos,
desejos, fantasias, expectativas, bem como as lembranças da infância. Cabe ao
psicanalista ouvir e interferir apenas quando julgar necessário, assim que perceber
uma ocasião de ajudar o analisando a trazer para a consciência seus desejos
reprimidos, deduzidos a partir da livre associação. No geral, o analista deve se manter
imparcial.

Para Freud toda perturbação de ordem emocional tem sua fonte em vivências sexuais
marcantes, que por se revelarem perturbadoras, são reprimidas no Inconsciente. Esta
energia contida, a libido, se expressa a partir dos sintomas, na tentativa de se
defender e de se preservar, este é o caminho que ela encontra para se comunicar com
o exterior. Através da livre associação e da interpretação dos sonhos do paciente, o
psicanalista revela a existência deste instinto sexual. Essa transferência de conteúdo
para o consciente, que provoca uma intensa desopressão emocional, traz a cura do
analisando. A mente, dividida em Id, Ego e Superego, revela-se uma caixinha de
surpresas nas mãos de Freud. No Id, governado pelo „princípio do prazer‟, estão os
desejos materiais e carnais, os impulsos reprodutores, de preservação da vida.

No Ego, ou Eu, regido pelo „princípio da realidade‟, está a consciência, pequeno ponto
na vastidão do inconsciente, que busca mediar e equilibrar as relações entre o Id e o
Superego; ele precisa saciar o Id sem violar as leis do Superego. Assim, o Ego tem
que se equilibrar constantemente em uma corda bamba, tentando não se deixar
dominar nem pelos desejos insaciáveis do Id, nem pelas exigências extremas do
Superego, lutando igualmente para não se deixar aniquilar pelas conveniências do
mundo exterior. Por esse motivo, segundo Freud, o homem vive dividido entre estes
dois princípios, o do Prazer e o da Realidade, em plena angústia existencial. O
Superego é a sentinela da mente, sempre vigilante e atenta a qualquer desvio moral.
Ele também age inconscientemente, censurando impulsos aqui, desejos ali,
especialmente o que for de natureza sexual. O Superego se expressa indiretamente,
através da moral e da educação.

Segundo a Psicanálise, o Inconsciente não é o subconsciente – nível mais passivo da


consciência, seu estágio não-reflexivo, mas que a qualquer momento pode se tornar
consciente – e só se revela através dos elementos que o estruturam, tais como atos
falhos – eles se expressam nas pessoas sãs, refletindo o conflito entre consciente,
subconsciente e inconsciente; são as famosas „traições da memória‟ -, sonhos, chistes
e sintomas. Freud também elaborou as fases do desenvolvimento sexual, cada uma
delas correspondente ao órgão que é estimulado pelo prazer e o objeto que provoca
esta excitação.

Na fase oral, o desejo está situado na boca, na deglutição dos alimentos e no seio da
mãe, durante a amamentação. Na fase anal, o prazer vem da excreção das fezes, das
brincadeiras envolvendo massas, tintas, barro, tudo que provoque sujeira. Na fase
genital ou fálica, o desejo e o prazer se direcionam para os órgãos genitais, bem como
para pontos do corpo que excitam esta parte do organismo. Nesse momento, os
meninos elegem a mãe como objeto de seu desejo – constituindo o Complexo de
Édipo, relação incestuosa que gera também uma rivalidade com o pai -, enquanto para
as garotas o pai se torna o alvo do desejo – Complexo de Eletra.

Outros pontos importantes da Psicanálise são os conceitos de perversão – ocorre


quando o Ego sucumbe às pressões do Id, escapa do controle do Superego e não
consegue se sublimar, e pode assim atingir uma dimensão social ou coletiva, como,
por exemplo, o Nazismo -, e de Narcisismo – o indivíduo se apaixona por sua própria
imagem, cultivando durante muito tempo uma auto-estima exagerada.
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A Genialidade Complexa e diferente de Freud e Lacan

APOSTILA 03
Sigmund Freud
Sigmund Freud, nascido Sigmund Schlomo Freud, a 06 de maio de 1856, em
Freiberg, na Moravia, tornou-se o fundador da Psicanálise. Era filho de um
comerciante, Jacob Freud, e de sua segunda esposa, bem mais jovem, Amália
Nathanson – a imagem materna influenciaria, mais tarde, muitos dos estudos de
Freud. Alguns de seus irmãos, do primeiro matrimônio, eram aproximadamente vinte
anos mais velhos que ele. Ao completar quatro anos, Freud mudou-se com a família
para Viena. Formado pela Universidade de Viena, optou a princípio por Filosofia,
campo que depois iluminaria sua produção teórica, decidindo-se depois pela Medicina,
especializando-se em Fisiologia Nervosa.
Desde cedo Freud demonstrou uma certa obsessão pela sexualidade, o que se
percebe na sua primeira pesquisa publicada, um estudo sobre órgãos sexuais de
enguias - "Observações sobre a configuração e estrutura fina dos órgãos lobados das
enguias descritos como testículos" -, trabalho realizado no Laboratório de Zoologia
Marinha de Trieste, em 1876, viés que marcaria suas preocupações na teoria
psicanalítica por ele criada posteriormente. Cabia a Freud nesta instituição estudar a
anatomia e a histologia do cérebro do homem. É durante estas investigações que ele
percebe elementos em comum entre a organização cerebral humana e a dos répteis.
A partir daí Freud, recorrendo à teoria de Charles Darwin sobre a evolução das
espécies, inicia o esboço de seu questionamento da supremacia do homem sobre
outros animais.

Ao se apaixonar por Martha Bernays, desejando se casar com ela, seus escassos
recursos monetários o levam a deixar o Laboratório e a trabalhar como médico interno
no Hospital Geral de Viena, onde conhece Josef Breuer, especializado em moléstias
nervosas, que lhe narra a história de uma paciente, Bertha Pappenheim - no
prontuário médico “Fraulein Anna O.” –, que era considerada depressiva e
hipocondríaca, distúrbios emocionais que naquele período eram conhecidos como
„histeria‟. Sob hipnose, ela revela a Breuer lembranças de sua infância, o que lhe
provoca uma melhora emocional significativa após o transe. Este caso influencia
intensamente as pesquisas de Freud, embora mais tarde ele abandone a hipnose ao
descobrir o método da livre associação. Mas fica como herança para o pesquisador a
idéia da cura pela fala e a reafirmação de sua crença nas motivações sexuais
reprimidas, que provocariam os sintomas da histeria, embora Breuer não
compartilhasse com Freud desta teoria de ordem sexual.

Após algumas tentativas de trabalhar com a cocaína para obter os efeitos terapêuticos
desejados, Freud se decepciona e vai para a França, depois de obter uma licença do
Hospital, e lá toma contato com Charcot, psiquiatra francês que trabalhava no Hospital
Psiquiátrico de Saltpêtriére. Ele também estudava a histeria. Assim, o criador da
psicanálise retorna para Viena mais animado e passa a atender pacientes portadoras
deste quadro histérico, em grande parte senhoras judias ainda jovens. Este tratamento
consistia de massagem, repouso e hipnose. Suas teorias e técnicas foram sempre
muito controversas na Viena desta época e Freud foi marginalizado por seus colegas
durante muito tempo. Seu único parceiro neste período é Wilhelm Fliess. O
psicanalista inicia então uma pesquisa sobre os sonhos, que servem de base para seu
livro “A Interpretação dos Sonhos”. Com o foco centrado em si mesmo, ele cria o
conceito de Complexo de Édipo, recorrendo à mitologia e à própria experiência com a
mãe, por quem supostamente ele seria apaixonado quando era criança,
desenvolvendo assim pela figura paterna uma certa agressividade. Este ponto se torna
o centro de sua teoria sobre as causas da neurose. A princípio suas publicações não
têm grande repercussão, mas logo vários médicos tornam-se seus discípulos, entre
eles Carl Jung, que mais tarde romperia com seu mestre.

Freud deixou para a Humanidade um grande legado, que engloba a revolução


provocada pela descoberta do inconsciente, que ao lado das revelações de Copérnico
e de Darwin – primeiro, o Homem descobre que a Terra não é o centro do Universo,
depois toma ciência de que tem um ancestral comum com os macacos, portanto não é
o centro da Natureza –, retira das mãos do indivíduo seu último trunfo, o Ego não reina
mais soberano na mente, pois há um vasto território nela que ele desconhece, e sobre
o qual não tem o controle absoluto. Ou seja, grande parte das ações humanas são
coordenadas pelo inconsciente, uma esfera que o homem mal conhece.

Além de Breuer, Freud foi também influenciado por Platão e por Schopenhauer. Eles
foram determinantes na criação da Psicanálise, teoria explicativa dos mecanismos que
regem a mente do homem. Ela tem por objetivo explorar esse espaço tão pouco
conhecido e assim tentar curar doenças de origem psíquica, sem causas orgânicas.
Freud criou um método que tem por finalidade resgatar os traumas e choques sofridos
em algum momento da vida, reprimidos no inconsciente. Através da verbalização, é
possível trazer essas experiências à luz da consciência, possibilitando assim a cura.
Freud mapeia a mente humana, criando as categorias de id, ego e superego.

Freud teve seis filhos, entre eles Anna Freud, que também se tornaria uma famosa
psicanalista. Durante o Nazismo, Freud, por ser de origem judia, teve que fugir para a
Inglaterra, mas quatro de suas irmãs não tiveram a mesma sorte e acabaram mortas
em um campo de concentração. Freud morre no dia 23 de setembro de 1939, vítima
de câncer na mandíbula, depois de ser submetido a trinta e três cirurgias. Há a
possibilidade de ter morrido de uma overdose de morfina, supostamente aplicada pelo
seu médico, a seu pedido, pois sentia dores excessivas.
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A Genialidade Complexa e diferente de Freud e Lacan

APOSTILA 04
Quem foi o psicanalista Jacques Lacan?
Jacques Lacan é um dos principais nomes no estudo e na intriga da psicanálise no
mundo da ciência e da própria filosofia, estando envolvido nas correntes de
intelectuais que nasceram e viveram em França nos anos 50 e 60. Controverso e
diverso no seu pensamento, o seu trabalho conceptual e investigativo chegou aos
ouvidos e olhos de vários, influindo até naqueles que hoje se afirmam como os
principais pensadores da atualidade. A sua visão da psicanálise é voltada para um
regresso (crítico) aos postulados de Sigmund Freud, mesmo sem descartar a
linguística de Ferdinand de Saussure e a filosofia de Georg Friedrich Hegel. Dos seus
estudos, ensaios e palestras, nasceu o próprio Lacanismo, onde está consagrada a
sua visão científica e filosófica da psicanálise, do estudo do ser e da própria realidade.

A influência (e as diferenças) de Freud

Jacques Marie Émile Lacan nasceu a 13 de abril de 1901, na cidade francesa de


Paris. A sua formação académica e profissional decorreu sempre à luz dos
documentos originais onde constam os conceitos e as propostas do austríaco
Sigmund Freud. Essa abordagem levou-o a discordar da visão tripartida da mente
freudiana, procurando voltar-se para a teoria da relação dos objetos na teoria da
psicanálise, influenciada pela visão psicodinâmica (introduzida também por Freud e
que estuda as forças psicológicas que influenciam o comportamento e o crescimento
humano).

O foco vai também para o desenvolvimento infantil, embora se concentre na


construção da psique na relação com os outros, em essencial com a família. Isto
formula, assim, em grande parte a forma como se relaciona com a sociedade e os
seus diversos constituintes. Um exemplo concreto disto é um adulto que tenha
experienciado situações negativas na sua infância e que espera que se repitam na sua
idade adulta. Estas imagens tornam-se os tais objetos, que, de forma inconsciente,
acompanham o ser humano até à plena fase do seu amadurecimento. Os objetos
acabam por funcionar como uma espécie de previdentes quanto àquilo que o outro irá
proporcionar ao eu. Estes representam, assim, imagens apreendidas dos agentes
educacionais de cada sujeito, e influenciam indelevelmente o presente e o futuro.

Também à luz disso, Lacan analisou o próprio conceito de objeto transitório,


popularizado pelo inglês Donald Woods Winnicott, consistindo num que é capaz de
transmitir conforto em situações perturbadoras ou instáveis às crianças. Acredita-se
que é desta fixação pelo elemento que traz paz num momento de agitação que tem
raízes o fetichismo. Estes conceitos foram questionados, assim como todos aqueles
que foram estudados no período entre 1930 e 1980, e que se cruzaram com as
próprias visões do francês.

Assim, Lacan, e partilhando a base conceptual de Freud, começa por refutá-la quando
assume a própria interpretação dos sonhos como uma constituição subjetiva, estando
o inconsciente disposto como uma língua. Assim, assume o próprio inconsciente como
uma formação complexa e sofisticada, comparando-se à própria consciência. No
entanto, o ser, perante a constituição da inconsciência, acaba por estar impedido de
estabelecer pontos de referência perante crises, fobias ou traumas e a respetiva
recuperação.

Para além disso, e quanto ao Complexo de Édipo, o francês não obsta à presença
deste no centro da psicanálise, embora o percecione como o início do entendimento
da criança de uma ordem simbólica. Nesta, o complexo acaba por ser derrubado
mesmo com o crescente entendimento daquilo que a simbologia representa, a partir
da mente que possui e da sua utilização, tanto pelos estruturados pensamentos como
pelas refreadas emoções.

O estado do espelho

O primeiro grande conceito introduzido por Lacan no seio da psicanálise foi este
“estado do espelho“, proeminente na formação do eu no âmbito do estudo e da
experiência psicanalítica. Providencial na infância, este estado diz respeito a um
fenómeno no qual a criança se torna consciente daquilo que é, à luz da dualidade
corpo-imagem, responsabilizando-se pelos primeiros conflitos no seio desta. Um
destes é precisamente a alienação, onde se confrontam a experiência emocional e a
aparência da criança, e onde os primeiros “méconnaissances” se vão dando, em que o
imaginário tem as suas próprias formulações. Esta etapa é, também, a primeira da
formação do ego, através da objetificação do corpo. O choque entre os movimentos
ainda desordenados com a imagem que é observada no espelho acaba por
desencadear uma fragmentação na própria interpretação que alcança o ego, em que a
identificação com aquilo que vê é responsável pela superação desta problemática. No
entanto, a comparação que vai estabelecendo com a imagem consolidada da mãe ou
do pai – o outro – pode também gerar alguma ira no seio da própria criança. No fundo,
o “estado do espelho” é decisiva para aquilo que é a tomada de conhecimento da
criança com o seu corpo e a eventual identificação com a sua estrutura física, levando
à formação do sentido integrado e completo do eu.

O outro

O francês, na conceção do outro, diverge da noção que Freud empreendeu, e


aproxima-se daquela que o filósofo alemão Georg Hegel apregoou. O piscanalista
destrinçava dois tipos de outro, em que um era o grande (A) e outro o pequeno (a).
Esta diferença permite um melhor posicionamento do eu na realidade, em relação
àquele que é o outro em concreto. Assim, e enquanto o grande representa o que se
transcende ao ilusório e que não se assimila através da identificação, o pequeno é
somente uma reflexo projetado pelo ego, remetido ao imaginário. O discurso constrói-
se, desta forma, no outro, podendo assumir-se secundariamente como um assunto
enquanto se assume em pleno discurso como tal. O discurso linguístico, assim como a
própria linguagem, partem de um lugar fora do próprio consciente e constroem-se a
partir do inconsciente, lugar em que o outro se cria e existe. Esta noção referencial
está numa cena que transcende aquilo que é visível e plenamente cognoscível,
estando nas estruturas assimiladas e recriadas. Este plano linguístico cruza-se com o
que o denominado “pai” da Linguística, o suíçoFerdinand de Saussure, conceptualiza.
Ainda sobre o outro, é a mãe a primeira a assumir esse papel, a primeira a ouvir os
choros do recém-nascido, embora seja também ela parte do complexo de castração,
no qual a criança descobre que falta sempre um significante para que o outro se se
molde na totalidade. Esta incompletude, analisada numa linguagem simbólica e
semiótica, leva a que se denomine de “Outro barrado”, que impede que esse outro vá
para além daquilo que o ego perceciona.

O falo

Este ponto da psicanálise de Lacan é aquele que tem gerado mais curiosidade no seio
da comunidade feminina, em especial nas teóricas feministas. O que o francês propôs
foi articular o haver do homem com o ser da mulher, estando a estas verbalizações
associada a presença e o conceito do falo. No entanto, as críticas são permanentes,
no sentido em que a tónica do estudo psicanalista volta a girar em torno do falo.
Apesar disso, outras pensadoras não descartam a abertura para a discussão dos
posicionamentos igualitários e a problematização dos que são impostos pela história e
pela cronologia da ciência que Lacan suscita.

As três ordens da psicanálise

O europeu, de forma a poder estruturar com mais minúcia e coerência o seu estudo
dentro da própria psicanálise, apresenta três ordens nas quais o indivíduo surge como
sujeito ativo e como potencial objeto de estudo. Tudo começa pelo imaginário,onde se
reúnem todas as imagens criadas e expectativas associadas. Esta dimensão cruza-se
com o supramencionado estado do espelho e que alimenta também o pendor
narcisista do eu, estimulado pelo ego. As representações geradas na mente,
essencialmente de cariz visual, vão de encontro às estruturas dosimbólico, levando à
criação da notação linguística.

Lacan considera que, no lado imaginário, a linguagem que prevalece é a mesma que
acaba por deturpar aquilo que o outro é, estando associado à relação intrapessoal
com o corpo e com a mente. Assim, o simbólico permite descodificar e regularizar
aquilo que o imaginário produz, tornando possível uma análise cuidada e precisa
quanto à verdadeira identificação do sujeito consigo mesmo. Algo que sustenta esta
noção é também a existência dos conceitos de lei e de estrutura, impossíveis de se
conferirem sem a própria linguagem, conceitos-chave para regulamentar aquilo que
são os desejos internos e os lapsos em relação ao outro.

O lado simbólico acaba por ser o reflexo da cultura em que o ser humano está
inserido, ao contrário do reflexo da natureza que o imaginário é. Elementos primordiais
do simbólico são a morte e a lacuna, providenciais naquilo que é a deteção de
necessidades ou tendências básicas e que podem estar mais ou menos ligadas ao
imaginário, sendo que alterações nas estruturas simbólicas não afetam as formulações
em bruto deste. Por último, existe o real, onde emana o verdadeiro e o ser-em-si. No
entanto, para Lacan, isto não é sinónimo de realidade, estando fora daquilo que são os
padrões simbólicos. O real é, sim, um plano onde não existem ausências, estando
sempre no seu lugar e não desencandeando as possibilidades da ausência e da
inexistência. O gaulês considera o real como “o impossível”, porque é inatingível pela
imaginação e incapacitado de ser integrado pelo simbólico. Desta forma, torna-se de
impossível alcance, e é precisamente o objeto usado pela ansiedade, ao qual o sujeito
não consegue associar palavras nem categorias e, por conseguinte, gerando essa
apoquentação.

O desejo

Para a noção de desejo, Lacan resgata a influência do filósofo alemão Hegel e salienta
a força continuada que está implícita no desejo, que se localiza no inconsciente e que
se torna na principal temática da psicanálise. Tomando como objetivo desta o
reconhecimento do desejo por parte de cada um e a verdade subjacente a este,
importa, na visão do psicanalista, dar ao desejo uma existência própria, passível de
ser identificada e materializada para um discurso linguístico. No entanto, o próprio
discurso não consegue inteirar-se de toda a verdade do desejo, deixando sempre algo
mais ou menos do que realmente o desejo é.

No entanto, é possível diferenciar o desejo da necessidade e de procura, sendo que a


necessidade está ligada ao instinto biológico que depende do outro para ser satisfeita,
vindo a procura alicerçar essa ligação entre a biologia e a entrada do outro no
processo da satisfação da própria necessidade. O desejo, por sua vez, não procura
satisfação ou amor, mas precisamente a diferença entre ambos, na separação entre a
satisfação e o amor de proveniência externa. Desta forma, é impossível satisfazer o
desejo, estando em constante pressão e concretizando-se somente na sua reprodução
como o próprio desejo reconhecido e identificado. As manifestações deste são
nomeados como os ímpetos, desencadeados a partir da relação do eu com uma
lacuna que existe no seu interior, e que serão explorados de seguida.

Após a delimitação daquilo que é o desejo, a sua noção em concreto é desejar o


desejo do outro (Désir de l’Autre), sendo que o objeto em si é o próprio objeto
desejado pelo ser humano e, logo, por reconhecimento. Aquilo que, segundo Lacan,
torna esse objeto desejável é mesmo ser pretendido por outros. Estando o próprio
desejo no campo do outro, está descortinada a razão pela qual ele é inconsciente.

O ímpeto

Num dos pontos em que concorda com Freud, Lacan afasta o ímpeto do instinto,
porque o primeiro nunca pode ser satisfeito e permanece como uma espécie de rota
para o sujeito seguir até à consolidação do desejo em redor de um dado objeto. Os
ímpetos, todos eles de cariz sexual, constituem as bases culturais e simbólicas do
desejo, sendo composto pela pressão, pelo fim, pela fonte e pelo objeto, o circuito de
condução dos próprios ímpetos. A linguística volta a ser importada e a trazer três
vozes na estruturação do circuito, havendo a voz ativa (o ver), a reflexiva (o ver a si
mesmo), e a passiva (ser visto). Apesar da presença desta última, o ímpeto é
praticamente todo ele ativo, sendo o circuito a única via disponível de ir para além do
princípio do mero prazer. Contudo, Lacan volta a divergir de Freud em pontos cruciais,
defendendo que ímpetos incompletos não conseguem obter uma organização
consolidada, sendo que a sua parcialidade concerne somente uma parte da impulsão
sexual. Desta forma, representam apenas aquilo a que se chama de “jouissance”
(fruição).
Nesses ímpetos parciais ou incompletos, o gaulês distingue quatro tipos, sendo eles o
oral (a zona erógena são os lábios, em relação aos seios), o anal (o ânus, em relação
ao expelir das fezes), o escópico (os olhos, em relação ao que vê) e o invocatório (os
ouvidos, em relação ao que é dito). Enquanto os primeiros dois derivam daquilo que se
definiu como procura, os restantes provêm do desejo. O dualismo que se afasta do
psicanalista austríaco (ímpetos sexuais e ímpetos do ego ligados à sobrevivência) mas
também é apologista daquilo que é uma ligação entre o imaginário e o simbólico.
Lacan conclui com a noção de que todas as pulsões são de morte, por serem
excessivas, destrutivas e repetitivas.

Outras considerações

O psicanalista teceu algumas teorias quanto a várias temáticas, entre elas sobre o teor
da verdade. Desta feita, Lacan olhou para esta como algo que se vai descobrindo
através das estruturas e da devida identificação e orientação do objeto em estudo.
Nisto, acaba por beber daquilo que é a noção de paradigma proposta pelo norte-
americano Thomas Kuhn, e acredita na existência de uma constelação de valores,
técnicas e crenças que se encontra no seio de cada comunidade. Este corpo permite
uma aproximação ao que é a verdade, questionando e visualizando a verosimilhança
dos diferentes símbolos.

No plano meramente clínico, apresentou a perspetiva de “sessão de psicanálise de


tempo variável”, flexibilizando consoante os diferentes casos que lhe passavam pelas
mãos e abdicando do previamente fixo de cinquenta minutos (acredita-se que foi uma
duração estipulada pelo próprio Freud). O fundamento dessa alteração consistiu em
sessões que se alargavam e que eram interrompidas em momentos fulcrais da própria
análise do psicanalista. Isso também lhe permitiu analisar mais casos, mais do que
quaisquer seguidores da doutrina freudiana.

No que toca ao seu volume escrito, este foi compilado em 1966 pelo francês Jacques-
Alain Miller e a própria obra (“Écrits“) tornou-se numa das cem mais influentes do
século XX, para o jornal Le Monde. Nos anos 70, a mesma obra foi dividida em dois
volumes e parte dela foi traduzida para o inglês – por Alan Sheridan – e publicada em
1977. Para além disso, também no jornal académico “Lacanian Ink” foram divulgados
alguns dos postulados do francês, em plena esfera académica norte-americana. O
registo é sobejamente diferente daquele que foi empreendido nos seminários e nas
palestras dadas, gerando até alguma polémica. Para além disso, torna-se algo
impercetível pelas constantes referências a Hegel e ao também filósofo mas franco-
russo Alexandre Kojève (estudou a relação entre o mestre e o escravo, com ligações
ao estado do espelho e o papel do outro neste), e por uma prosa que se fecha muito
nos conceitos científicos e psicoanalíticos.

Apesar do extenso trabalho de Lacan, interessa realçar que parte do seu contributo é
mais denotado nas artes e nas humanidades, nomeadamente na literatura e na
filosofia (o próprio papel do Outro é amiúde explorado nesta área do saber). Em
termos de legados institucionais, destacam-se a escola de Ljubliana, na Eslovénia, e
algumas sociedades de psicanálise que incorporam as suas ideias, tanto no Reino
Unido como na própria América do Norte.
Jacques Lacan foi, assim, um dos psicanalistas que, não obstante partilhar pontos de
partida com Sigmund Freud, assumiu várias dissensões em relação às suas ideias. Ao
inconsciente, conferiu uma outra estrutura; ao desejo, uma nova abordagem; ao ser
humano, uma nova perspetiva. A psicanálise tomou uma lufada de ar fresco, apesar
de não estar imune a críticas vindas dos vários foros da sociedade. Porém, o
repertório que os diferentes psicanalistas trazem para a realidade, que os lê, os
interpreta e lhes atribui significados e contextos, é seguramente valioso e impossível
de passar incólume. Lacan atendeu a pontos importantes e deixados em aberto e,
mesmo que não tenha conseguido respostas indiscutíveis a problemas intemporais,
não se coibiu de trazer a filosofia, a antropologia e a linguística como disciplinas
capazes de secundar este trabalho. De Freud, muitos partiram, mas poucos aqueles
que, sem concordar, permanecem como pontes para novas fontes.
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