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Parte 2 - A Igreja reformada e reavivada (1300-1789)

Capítulo 9 - A Igreja Medieval Entra em Declínio Com o final do século 13 quase todas as estruturas características da Igreja Católica Romana já estavam definidas até à Reforma, duzentos anos depois. Porém, essas instituições foram tanto um atraso como uma ajuda para o Cristianismo organizado durante os séculos 14 e 15 pois dependiam de uma sociedade estável e sem mudanças. Mas esse período foi repleto de rápidas transformações trazidas por guerras, pragas e crises econômicas.

O outono da Idade Média Quando os papas ficaram no lugar dos imperadores como líderes do Cristianismo, reis fortes estavam surgindo no oeste da Europa. Apesar de não poderem competir com o papa pela liderança européia, eles eram poderosos o suficiente para resistir à interferência papal dentro de seus reinos. A questão não era mais se o imperador ou o papa eram supremos, mas sim, se o Cristianismo em si podia ser mais do que uma expressão vaga para um conjunto de nações separadas. Os ingleses e franceses desenvolveram uma consciência nacional durante a longa e cansativa luta conhecida como Guerra dos Cem Anos (1337-1453). O conflito teve início com o desejo de Eduardo III de controlar a França bem como a Inglaterra. Suas palavras para os

franceses declarando que o trono na França era sustentado por direitos

legais muito frágeis e a resistência francesa levaram à guerra. Cavaleiros

e arqueiros ingleses invadiram a França repetidamente e a superioridade

tecnológica dos arcos foi demonstrada em suas grandes vitórias em Crécy, Poitiers e Agincourt. Em 1419 os ingleses controlavam a maior parte do norte da França e Henrique V era reconhecido como seu herdeiro ao trono. Mas então, ele faleceu e foi sucedido por seu filho de nove meses, o que deu ao rei francês Carlos VII a oportunidade de reascender o conflito. Ele foi impelido por Joana d’Arc, uma jovem camponesa analfabeta

e religiosa devota que foi convencida por visões que era seu dever derrotar os ingleses. Em 1429, aos 17 anos de idade, ela recebeu permissão para liderar um exército que não tardaria a reconquistar o controle de grande parte do norte da França, permitindo a coroação de Carlos em Rheims. Porém, os ingleses capturaram Joana e o ingrato Carlos não fez nenhum esforço para resgatá-la. Ela foi entregue à Inquisição que a julgou tendo como base falsas acusações de heresia e

bruxaria e ordenou que fosse queimada. A morte trágica da santa “Donzela de Orleans” em maio de 1431 deixou os franceses tão enraivecidos que seus exércitos continuaram os ataques. Em 1453 os ingleses haviam sido expulsos de toda a França, exceto Calais e a Guerra dos Cem Anos chegava ao fim. O conflito enfraqueceu a nobreza feudal de ambos os países, tendo

em vista que muitos deles morreram em combate e não deixaram herdeiros. De acordo com a lei feudal, suas terras eram passadas para o rei, que as concedia então para súditos leais e criava uma nova nobreza. Os novos métodos de guerra também desvalorizaram a cavalaria que era composta de aristocratas. Os reis franceses que consolidaram seu poder estendendo os domínios reais receberam o apoio de um povo que associou paz, ordem e a expulsão dos ingleses com a monarquia. Os impostos de guerra continuaram sendo cobrados a fim de financiar um exército permanente usado em campanhas contra os mercenários desempregados que vagavam pelo país. O povo não se importava de pagar pela proteção contra esses bandos foragidos. Na Inglaterra, por outro lado, a autoridade do Parlamento aumentou. Sempre que o rei precisava de dinheiro para a guerra, tinha que obter o consentimento dos representantes do povo sendo que estes exigiam certas concessões antes de votar sobre os fundos. A classe de barões da Inglaterra dividiu-se em duas facções: a casa de Lancaster e a casa de York. O emblema de Lancaster era a rosa vermelha e o de York a rosa branca. Ao lutarem pelo controle do parlamento e da monarquia na Guerra das Duas Rosas (1453-85), a nobreza feudal praticamente exterminou a si mesma. Isso permitiu que Henrique VII da família Tudor tomasse o poder e sua dinastia, através de Henrique VIII e Elizabeth I acabou transformando a Inglaterra num Estado forte.

1321

1378

1508 1508-1511

Guilherme de

Início do Grande Cisma

Michelangelo

Rafael pinta a

Ockham

começa a

Madonna Sistina

Controvéria

pintar a

realista-

Capela

nominalista

Sistina

1330-

1369-

1380-

1414-

1460-

1498

1513

1384

1414

1471

1417

1536

Leonardo da

Leão X torna-se

papa

 

John

Jun Jus

Thomas à

Concílio

Desidério

Vinci pinta a

Wicliffe

Kempis

de

Erasmo

Última Ceia

 

Constança

1300

1400

1500

1550

1337

1347-1348

1434

1450

1494

1494-1498

Começa a

Primeira onda

Começa

Invenção

Carlos

Savonarola em

Guerra dos Cem

da Peste Negra

em

dos tipos

VIII

Florença

anos

Florença

móveis

invade a

o período

Médici

1431

Execução de Joana

D'Arc

Itália

1453

Queda de

Constantinopla

Durante esse período a Alemanha desenvolveu-se de maneira bastante diferente da França e Inglaterra. Ao contrário da centralização e nacionalismo incipiente do Oeste, as forças do particularismo prevaleceram na Alemanha. O conflito medieval entre o império e o papado criou uma situação em que as unidades territoriais individuais da Alemanha e suas cidades cada vez maiores mantinham um alto grau de independência. Os príncipes dessas unidades regionais tinham direito de participar da escolha do imperador e eram, portanto, chamados de

“eleitores”. Durante a luta, vários imperadores preocuparam-se mais com o aumento de controle sobre a Itália do que com as condições da Alemanha, enquanto os papas por vezes apoiavam imperadores rivais num esforço de encontrar um líder com o qual pudessem entender-se politicamente. O hiato imperial entre 1254-73 foi crítico pois intensificou ainda mais a fragmentação política. Em 1273 os eleitores escolheram o príncipe suíço Rodolfo de Habsburgo pois este aparentava ser política e financeiramente fraco e, portanto, não ameaçaria sua independência. Rodolf sabiamente colocou de lado qualquer ambição de governar sobre a Itália e voltou sua atenção para a construção de um domínio real forte no sudeste da Alemanha através da apropriação de terras de senhores feudais que haviam morrido sem deixar herdeiros. Formou-se assim a base territorial para o futuro dinástico dos Habsburgos. Logo depois de sua morte em 1291 os herdeiros escolheram imperadores de várias casas. Em termos práticos isso significou uma paralisação do governo imperial e colocou o equilíbrio de poder de volta nas mãos dos príncipes. Para lidar com a situação caótica, o imperador Carlos IV introduziu um mecanismo eleitoral através da Bula de Ouro de 1356. (O título foi dado por causa do selo de ouro afixado no documento.) Ela designava sete indivíduos que iriam sempre escolher o imperador: os arcebispos de Mainz, Trier e Colônia; o rei da Boêmia; o duque da Saxônia, o margrave de Brandenburg e o conde palatino do Reno. Quando o imperador

falecesse, esses sete “eleitores” se reuniriam imediatamente para nomear um sucessor. Eles possuíam direitos soberanos dentro de seus domínios e cada território eleitoral deveria ser herdado como uma unidade e não dividido entre os herdeiros. Ao omitir qualquer referência ao direito do papa de confirmar ou vetar uma eleição ou de administrar o império durante um hiato, a Bula de Ouro eliminou eficazmente o envolvimento papal nos assuntos imperiais. Mas, ao reconhecer a soberania territorial dos estados, não existia nenhuma estrutura importante para manter a segurança interna e a paz. Nessa época, a Europa também entrou num período de mudança econômica e social. Na Alta Idade Média, juntamente com a expansão do comércio e da indústria ocorreu um aumento na disponibilidade de terras aráveis. Camponeses alemães foram para o Leste, para áreas escassamente assentadas por povos eslavos e derrubaram florestas e drenaram pântanos. Muitas dessas atividades foram organizadas, financiadas e realizadas por ordens religiosas, especialmente dos beneditinos e cistercianos, cujas regras estipulavam que eles deveriam ganhar a vida através do cultivo da terra. O reavivamento do comércio deu tanto a senhores quanto a camponeses um incentivo para produzir mais do que precisavam para si mesmos. A comutação, substituição de pagamentos em dinheiro por trabalhos braçais dos servos, começou a destruir o sistema senhorial e no século 13 muitos servos que não eram livres estavam tornando-se fazendeiros de terras arrendadas. Com a

valorização das terras e o aumento de preço dos produtos agrícolas, os pequenos servos livres saíram lucrando, mas os senhores que viviam de rendas fixas e cobrança de taxas tiveram uma redução no faturamento real.

Depois da metade do século 14, a agricultura européia caiu numa séria depressão que afetou senhores e camponeses. A expansão

econômica estacionou-se quando um declínio populacional reduziu tanto

a oferta de mão-de-obra quanto o mercado para os bens que eram

produzidos. Quando o preço dos produtos agrícolas caiu, os camponeses que pagavam uma taxa fixa aos senhores não conseguiram manter em dia

seus compromissos. Tendo em vista que o antigo laço que havia prendido

o camponês ao solo já não existia mais, muitos simplesmente se

mudaram e deixaram seus campos sem cultivo. Alguns foram para áreas mais prósperas e outros assentaram-se nas cidades. Como os preços dos produtos não-agrícolas tendiam a manter-se estáveis ou subir, a classe proprietária de terras viu-se num aperto causado pela grave crise da relação entre custo e preço. Alguns senhores contrataram trabalhadores para cultivar as terras, mas com a falta de mão-de-obra rural os salários tendiam a subir. As tentativas de cortar os custos com salários através da intervenção governamental fracassaram. Um fator-chave para o declínio da população foi a epidemia de peste bubônica — a “Peste Negra” — uma doença transmitida através de lêndeas de ratos e que foi trazida para a Europa do Oriente em 1347. A

peste manifestou-se primeiro na Sicília e então varreu a região central e o oeste da Europa, seguindo as principais rotas comerciais. A vítima apresentava febre alta, dores nas juntas, inchaço dos nódulos linfáticos e um escurecimento da pele causado por sangramentos subcutâneos. Depois de alguns dias de dores excruciantes a vítima morria. A peste negra acabou com trinta a quarenta por cento da população de algumas regiões. Depois de um breve intervalo, a peste voltou nas décadas de 1360 e 1370 e em intervalos regulares depois disso. Um dos resultados da peste foi o surgimento de flagelantes, um movimento bizarro que atraiu milhares de pessoas que viajavam de um lugar para outro se flagelando na esperança de obter o perdão divino e evitar a morte. Na Alemanha, a população em pânico desvairado culpou os judeus pela Peste Negra e quase metade deles morreu, vítima de ataques de seus vizinhos, bem como da própria doença. Por causa da morte de tantos camponeses, não havia gente suficiente para cultivar as terras e os sobreviventes cobravam salários mais altos. Assim, os resultados da peste, a miséria causada pela Guerra dos Cem Anos e as tentativas de reduzir os salários provocaram diversas revoltas de camponeses. Na França, a mais séria foi a Jacquerie, nome normalmente dado para o camponês francês. Nessa insurreição, multidões de trabalhadores rurais desesperados atacaram as mansões senhoriais e cometeram muitas atrocidades. A principal revolta camponesa da Inglaterra teve início em 1381.

Seu líder, Wat Tyler, foi ajudado por John Ball, um padre excomungado que muito tempo antes havia se tornado um ativista lutando pelos direitos do povo. Ball incitou o furor das multidões enraivecidas de Kent com seu discursos sobre a igualdade e sobre um dia em que não haveria ricos nem pobres. Eles marcharam para Londres e muitos cidadãos simpatizantes os receberam de braços abertos na cidade. Tendo em vista que o governo real estava desorganizado naquela época por causa dos conflitos no norte, o rei Ricardo II negociou com os revoltosos. Ele emitiu decretos dando emancipação civil e anistia para os revolucionários, mas seus ministros não tinham nenhuma intenção de honrar os acordos que ele havia feito. Depois que Wat Tyler foi morto traiçoeiramente, os rebeldes sem líder foram persuadidos a deixar Londres e sua revolta foi sufocada com enorme brutalidade. John Ball, o profeta do povo, foi enforcado, eviscerado e esquartejado. Na Alemanha as revoltas camponesas começaram aproximadamente um século depois, sendo que estas tiveram um forte efeito sobre a Reforma.

A decomposição do Escolasticismo

A incerteza e a conjuntura da época levaram a uma desintegração

da síntese medieval bem como de sua teologia, filosofia e arte. O início

desse processo foi marcado pela volta da discussão entre realistas e nominalistas em universidades como Oxford e Paris. O grande feito de Tomás de Aquino de conciliar Aristóteles com a fé cristã passou a ser

questionado por estudiosos como Guilherme de Ockham (falecido em 1349), que destruiu o sistema filosófico que havia dado base racional para a Teologia. Os platonistas medievais, conhecidos como “realistas”, ensinavam que há certas formas ou idéias imutáveis (universais) que existem na mente de Deus e podem ser percebidas através da iluminação divina, sem uma referência a coisas determinadas. Aquino afirmava que a fim de alcançar essas formas era preciso adquirir conhecimento através da apreensão de objetos. Ockham, porém, declarou que somente coisas individuais existem de fato e que os universais não tem uma existência real; são simplesmente nomes ou termos. Sua filosofia foi chamada de “nominalismo”, da palavra latina nomem (“nome”). Ele rejeitava as provas de Deus baseadas em dados observados, mas como franciscano devoto ele não desejava destruir a fé em Deus. Assim, ele insistia que estava libertando o Cristianismo dos grilhões da Razão. Deveria crer-se em Deus não por causa de uma necessidade lógica. Ockham também aplicou suas idéias à Igreja organizada de seu tempo. Ele procurou mostrar que o imperador deveria ser completamente independente do papa, que a única autoridade sobre assuntos espirituais era a Bíblia e que um concílio geral da Igreja era superior ao papado. Quando de sua morte, o nominalismo já estava firmemente estabelecido na ordem franciscana e crescia no meio dos fiéis a convicção de que era

necessário haver um concílio geral para reformar a Igreja. As críticas apresentadas por Marcílio de Pádua em sua obra Defensor Pacis (1324) eram mais radicais do que as de Ockham. Para ele, o inimigo não era a hierarquia clerical corrupta conforme Ockham ensinava, mas sim a influência exercida pelo clero nos assuntos seculares. Marcílio aplicou o nominalismo aos problemas de Estado e perguntou: “Onde encontra-se, de fato, a autoridade política?” Sua

resposta estava no cidadão individual, não na idéia de Estado (universal). Quanto à pergunta “O que é a Igreja?”, sua resposta era que compunha- se de cristãos individuais e não era uma instituição sobrenatural com vida própria.

O nominalismo foi o solo propício para o desenvolvimento de

idéias políticas que enfraqueceriam a autoridade do papado.

O declínio da Igreja institucional

A Igreja havia se transformado numa monarquia que rivalizava com

aquelas das nações-estados que estavam surgindo na época. O papa Bonifácio VIII (1294-1303) acendeu um conflito ao insistir que os governantes seculares deviam obediência à Igreja e ao proibir que cobrassem impostos do clero sem a permissão do papa. Tanto o rei da Inglaterra quanto o da França desafiaram essa postura. Eduardo I conseguiu que o Parlamento aprovasse uma lei proibindo o clero de reconhecer o suposto poder secular do papa enquanto Filipe IV proibiu a

saída de qualquer dinheiro da França. Essas ações forçaram o papa a rescindir suas ordens. Então, uma luta mordaz entre Filipe e Bonifácio irrompeu por causa da condenação de um bispo francês por traição e, em 1302, o papa desafiou o rei com a bula Unam Sanctam, talvez a argumentação mais radical da Idade Média em favor da autoridade papal. A bula declarava que “a sujeição ao pontífice romano é absolutamente necessária à salvação de cada ser humano”. Filipe reagiu enviando um agente à Itália para prender Bonifácio, mas seu tentativa não funcionou e o pontífice idoso morreu alguns dias depois. Nenhum governante europeu havia oferecido ajuda e nenhum papa sucessor puniu Filipe. Isso serviu para mostrar o quanto o poder das monarquias nacionais havia aumentado. Em 1305 um francês, Clemente V, foi escolhido para ser papa e foi residir nos ambientes mais confortáveis de Avignon, no sudeste da França. Posteriormente, críticos chamaram isso de “cativeiro babilônio da Igreja”. Os papados desse período foram franceses e suas políticas favoreceram a França. Finalmente, Gregório XI deixou Avignon em 1377 e voltou para Roma. Quando ele faleceu no ano seguinte, os romanos estavam decididos a manter o papado a todo custo. Sob a ameaça de violência das multidões, os cardeais escolheram um italiano, Urbano VI, mas ele os alienou a tal ponto com sua falta de tato e planos de reforma do colégio sagrado que sua eleição foi declarada inválida e ele foi substituído por Clemente VI, que voltou a Avignon.

Assim teve início o Grande Cisma que dividiu o Cristianismo durante quase quarenta anos e deferiu um golpe severo sobre o prestígio papal. Havia, então, dois papas, cada um afirmando ter o poder sobre as chaves do céu e ninguém tinha como saber ao certo se os sacramentos estavam sendo administrados por um sacerdote devidamente ordenado. O dinheiro necessário para manter duas cortes papais significava que era preciso haver um aumento da arrecadação e os governantes europeus tomavam o partido do papa que pudesse favorecer seus interesses políticos. Todos concordavam que o cisma precisava acabar, mas somente um papa podia convocar o concílio geral necessário. Nenhum dos papas queria fazer isso. Uma sugestão para resolver o dilema veio de alguns estudiosos da Universidade de Paris. Conhecidos como “conciliaristas”, eles insistiam que um concílio geral tinha autoridade superior à do papa e, portanto, podia agir independentemente. Eles lançaram mão da obra de Marcílio para apoiar a idéia de que o papado é uma instituição humana e todas as questões de fé importantes deve ser levadas a um concílio que represente a comunidade cristã como um todo. Cardeais de ambas as facções tentaram resolver o impasse num concílio em Pisa em 1409. Infelizmente nenhum dos pontífices concordou em renunciar em favor daquele que havia sido eleito por esse concílio e portanto havia três papas. O resultado desse fiasco foi que o imperador Sigismundo decidiu que era necessário um concílio geral e

forçou o papa escolhido em Pisa, João XXIII, a convocá-lo. O Concílio de Constance realizado entre 1414 e 1418, tinha três

tarefas a cumprir dar um fim ao cisma, reprimir as heresias e reformar

a Igreja. Ele depôs os três papas e colocou em seu lugar Martinho V

(1417-31), que passou a ser o único cabeça da Igreja. Ele tratou do problema de heresia ao executar os defensores boêmios da reforma de Jan Hus e Jerônimo de Praga, mas seus seguidores continuaram a lutar em favor dos seus ideais (ver adiante). Quanto à reforma, o concílio não conseguiu fazer absolutamente nada. Ele emitiu o decreto Sacrosanta Frequens, que determinava reuniões periódicas dos concílios das igrejas, mas os papas subseqüentes ignoraram completamente esses encontros. Eles não tinham intenção de permitir qualquer diminuição de seu poder, como era a intenção velada do movimento conciliar.

As pressões pela Reforma Nessa época, que recebeu dos historiadores o nome de Renascença (renascimento), a Igreja Católica enfrentou muitos problemas, mas talvez

o mais sério de todos tenha sido o fracasso dos papas em oferecer

liderança espiritual. Para todos os efeitos, eles haviam se transformado em príncipes da Renascença, com sua esperança de construir um Estado forte na região central da Itália para que o desastre de Avignon não se repetisse. Na época a idéia parecia sensata, mas na verdade ela preparou

P A P A D O

M E D I E V A L

P O S T E R I O R

Bonifácio VIII (1294-1330) Benedito XI (1303-4) Início do Papado em Avignon Clemente V (1305-14) João XXII (1316-34) Benedito XII (1334-42) Clemente VI (1342-52) Inocêncio VI (1352-62) Urbano V (1362-70) Gragório XI (1370-78) O GRANDE CISMA Papas em Pisa

Papas em Roma Urbano VI (1378-89) Bonifácio IX (1389-1404) Inocêncio VII (1404-6) Gregório XII (1406-15)

Papas em Avignon Clemente VII (1378-94)

Benedito XIII (1394-1423)

Alexandre V (1409-10) João XXIII (1410-15)

O CONCÍLIO DE CONSTANÇA REUNIFICA A IGREJA, 1415-17 Os papas da Renascença Martinho V (1417-31) Eugênio IV (1431-47) Nicolau V (1447-55) Calisto III (1455-58) Pio II (1458-64) Paulo II (1464-71) Sisto IV (1471-84) Inocêncio VIII (1484-92) Alexandre IV (1492-1503) Júlio II (1503-13) Leão X (1513-1521)

Alguns contemporâneos, de fato, protestaram contra o rumo que a Igreja estava tomando. Os mais importantes deles foram John Wycliffe, Jan Hus e místicos como os Irmãos da Vida em Comum. Wycliffe (1330-

84), um estudioso do final da Idade Média, é muitas vezes chamado de “Estrela d’Alva da Reforma”. Nascido em Yorkshire, passou a maior parte de sua vida na Universidade de Oxford. Em dois livros importantes, On Divine Dominion [Sobre o Domínio Divino] e On Civil Dominion [Sobre o Domínio Civil], ele declarou que o domínio (senhorio sobre todas as coisas) pertence somente a Deus. Apesar de Deus ter concedido um certo senhorio para os seres humanos em troca de serviços, a pessoa que peca perde esse direito. Um clérigo cuja vida demonstra uma falta de graça deve ser privado de seu cargo. Se a Igreja fracassar nessa ação disciplinar, então o Estado deve fazê-lo. Ao insistir que todos os poderes, civis e eclesiásticos, dependem daqueles que os exercem estarem num relacionamento correto com Deus, Wycliffe sugeriu que mesmo a autoridade do papa dependia de seu caráter pessoal. Em On the Church [Sobre a Igreja] Wycliffe afirmou que o fato de ser formalmente membro de uma igreja não garante a salvação. A Igreja é o conjunto espiritual de crentes, sendo Cristo o seu cabeça. A salvação é uma questão entre o indivíduo e Cristo e o papa dirige apenas a Igreja visível em Roma. Em seu último ano de vida, ele chegou à conclusão radical de que o papa era o Anticristo e a ensinar que a transubstanciação era errada e que a ceia era simplesmente a celebração da presença espiritual do corpo e sangue de Cristo. Wycliffe era um professor eloqüente e persuasivo e formou um grupo de “pregadores pobres” itinerantes que espalharam-se pela

Inglaterra propagando suas doutrinas. Além disso, como um

conhecimento da Bíblia era essencial para sua abordagem, ele incentivou

a tradução das Escrituras do latim para o inglês. Essa versão da Bíblia,

juntamente com seus estudos e tratados, foi amplamente difundida pelos

lolardos, como eram chamados os seguidores de Wycliffe. O parlamento declarou a ilegalidade dos lolardos em 1401, o que fez com que o

movimento se tornasse clandestino e alguns estudiosos argumentam que

a duradoura simpatia pelas idéias de Wycliffe explica porque a Reforma inglesa começou com tanta facilidade. 1 Seus ensinamentos tiveram influência especial na Boêmia. Carlos

IV (1346-73), Sacro Imperador Romano bem como, possivelmente, o

maior rei boêmio, havia feito de Praga o centro da cultura internacional

ao

fundar uma universidade em 1348 e ao ter incentivado o crescimento

da

consciência nacional checa. Quando sua filha Anne casou-se com

Ricardo II da Inglaterra em 1382, um grande número de checos a acompanharam. Entre eles havia estudantes que voltaram para a Boêmia com cópias dos escritos de Wycliffe e que encontraram uma recepção favorável. A personalidade marcante nesse caso foi Jan Hus (1369-1415). Pregador da capela de Belém e professor da universidade em Praga, ele aderiu às idéias de Wycliffe e começou a exigir reformas semelhantes. Também pregou contra a venda de indulgências, desafiou a primazia do papa e enfatizou a autoridade suprema das Escrituras. Ganhou muitos

seguidores ao atacar o papado e a detestada classe alta alemã. De fato, em 1409 ele induziu o rei boêmio a mudar a constituição da universidade de modo a dar aos professores checos a voz decisiva sobre assuntos acadêmicos e assim os professores e alunos alemães mudaram-se para a Saxônia onde fundaram a Universidade de Leipzig. Como reitor da universidade, Hus entrou em choque com a Igreja quando condenou a cruzada papal na Itália e foi excomungado pelo arcebispo de Praga em 1412. Isso custou-lhe o apoio do rei e ele passou os dois anos seguintes fora da capital, pregando, escrevendo e ganhando cada vez mais ouvintes. No desejo de resolver o conflito da Boêmia, o imperador Sigismundo convidou Hus para o concílio de Constance a fim de defender suas idéias. Apesar do imperador ter-lhe dado uma carta de salvo conduto, os cardeais o acusaram de heresia e o prenderam. Para não colocar em perigo o sucesso do concílio, Sigismundo decidiu sacrificar Hus, que foi então julgado, condenado e queimado na fogueira em 6 de julho de 1415. Ultrajados, os seguidores de Hus revoltaram-se contra o imperador e lançaram a Boêmia numa guerra religiosa. Sob a liderança de seu brilhante comandante Jan Zizka, os hussitas, que eram minoria, conquistaram várias vitórias seguidas. Porém, uma divisão entre a ala radical taborita e a maioria moderada (os calistinos) enfraqueceu a campanha dos hussitas contra as forças imperiais. Então, os moderados

derrotaram os taboritas e fizeram as pazes com Roma em 1436. Eles aceitaram a supremacia papal, mas em troca os leigos teriam permissão de receber tanto o pão quanto o vinho da ceia e os abusos no clero checo seriam eliminados. O movimento dos hussitas manteve viva a idéia de reforma na Igreja até que ela surgiu com força total entre os protestantes. Também foram importantes os movimentos de devoção popular, comumente agrupados sob o termo “misticismo”. Trabalhando fora da estrutura formal da Igreja, os místicos reagiram contra a rígida institucionalização de Roma, especialmente os ensinamentos de que a salvação se dá através dos sacramentos somente quando estes são administrados por um sacerdote ordenado. Ao invés disso, eles ressaltavam a moralidade pessoal e a vida interior do espírito. No lugar dos sacramentos e do sacerdócio, eles enfatizavam o próprio Cristo como mediador entre a alma e Deus. O movimento concentrou-se nas cidades onde a educação secular havia criado um público de leitores para seus sermões e livros de devocional. O principal místico alemão foi o dominicano Johannes Eckhars von Hochheim (1260-1337), normalmente conhecido como Meister Eckhart. De sua experiência pessoal e convicção nasceu uma capacidade de expressar suas idéias com clareza bem como sua convicção fizeram dele uma poderosa força espiritual. Seus sermões atingiam uma vasta audiência pois eram copiados por freiras que ouviram-no pregar nos conventos e trechos desses discursos foram incluídos em livros de

devocional. Através de Gerard Groote (1340-84), o misticismo tornou-se uma força vital na Holanda. Ele urgia o povo a lutar pela comunhão com Deus e alcançar a transformação pessoal ao imitar a vida de Cristo. Ao invés de complicadas especulações teológicas, ele enfatizava a moralidade, a devoção e as boas obras. Depois de sua morte, o grupo de seguidores que haviam se reunido ao seu redor formaram uma associação conhecida como os Irmãos da Vida em Comum. Era uma ordem de leigos que viviam sob regulamentos impostos por eles mesmos mas que não estavam presos a votos monásticos. Eles serviam os pobres e fundaram mais de duzentas escolas na Holanda e na Alemanha. Deventer, sua principal academia tinha o nível de ensino mais avançado a norte dos Alpes e grandes escritores como John Gerson, Desidério Erasmo e Thomas à Kempis foram alunos das escolas dos Irmãos. A expressão mais clara do misticismo dos Irmãs é o livro de devocionais A Imitação de Cristo escrito por Thomas à Kempis (1380- 1471). Ele ressaltava o estudo profundo da Bíblia, oração, introspeção e esforço sincero de levar uma vida santa. Só os puros de coração poderiam alcançar o objetivo de todo místico, a saber, a comunhão íntima com Deus que transcende as barreiras do intelecto humano. Apesar dos Irmãos da Vida em Comum e outros místicos por toda a Europa não criticarem as doutrinas ortodoxas em si, ainda assim eram uma ameaça à Igreja organizada. Sua ênfase sobre a ética e o desprezo pela teologia

especulativa reduziam a importância dos ensinamentos católicos oficiais e levavam a uma laicização da religião. Infelizmente, a devoção popular do século 15 também tinha um lado obscuro, isto é, a crença em bruxas. A maneira mais fácil de explicar os problemas da época era colocar a culpa sobre uma bruxa. Supunha-se que esses seres tinham pactos especiais com o diabo que lhes davam o poder de atormentar pessoas retas. Eles também possuíam imagens e amuletos que eram usados para destruir lavouras e matar rebanhos. Numa época em que a mortalidade infantil era alta, as parteiras muitas vezes eram acusadas de ser feiticeiras. Dizia-se que outras bruxas podiam transformar-se em animais ou possuir o corpo de homens a fim de seduzir mulheres. O papa Inocêncio VIII lançou uma bula em 1484 que definia a bruxaria como heresia e instruía a Inquisição a erradicá-la. Mais tarde, dois inquisidores publicaram um manual chamado O Martelo das Bruxas, que explicava como lidar com o fenômeno e milhares de pessoas morreram por supostamente praticarem bruxaria.

Os primórdios da Renascença Durante os séculos 13 e 14 a Itália era uma área geográfica sem unidade política. Enquanto a França e a Inglaterra estavam evoluindo para estados dinásticos à medida em que seus monarcas centralizavam sua autoridade às custas da nobreza, as cidades-estados territoriais da Itália prosperavam graças ao seu comércio com o leste do Mediterrâneo.

Essas áreas ricas também lucravam com a hostilidade entre o imperador alemão e o papa. Com o enfraquecimento do poder imperial e o transferência do papado para Avignon, o vácuo político na Itália foi preenchido pelas cidades-estados, sendo que cada uma governava uma certa região ao seu redor e brigava com seus vizinhos por terras e pelo controle das rotas de comércio. Na Idade Média, a maioria delas tinha uma forma de governo republicana. No início da Renascença, porém, passaram a ser governadas pelos regimes de déspotas. Normalmente, um líder agressivo tomava o poder por um certo tempo e então procurava estabelecer uma sucessão hereditária. Esses governantes muitas vezes tentavam expandir seu território, o que apelava para o orgulho dos cidadãos e também garantia hostilidades com os estados vizinhos. O resultado disso era uma situação de crise contínua que os ajudava a ficar no poder. Um bom exemplo desse padrão de desenvolvimento foi Milão, importante cidade no fértil vale do rio Pó. A economia em expansão criou uma nova aristocracia econômica que desafiou a antiga aristocracia agrária e exigiu uma parcela do poder político. Com o crescimento de sua força comercial e base territorial, Milão tornou-se rival em riqueza e prestígio tanto de Veneza como de Florença. Nos séculos 12 e 13 seu governo era baseado num grande concílio no qual todos os cidadãos livres eram representados e um grupo de doze homens servia de poder executivo. Em 1277, Otto Visconti deu um golpe no sistema republicano

e em 1395 o imperador havia feito de sua família os governantes hereditários de Milão. Florença, a principal cidade-Estado italiana da Renascença era uma república próspera com uma tradição política instável. Porém, o controle da cidade não passou para a mão de líderes militares, mas foi mantido pelos comerciantes de tecidos que aos poucos tornaram-se banqueiros internacionais. A produção e exportação de tecidos de lã era a atividade econômica mais importante da cidade e empregava em torno de um terço da população. Os grandes comerciantes de tecidos criaram uma constituição que destituía a nobreza de poder político significativo. Aqueles de posses um pouco mais modestas que pertenciam às guildas de artesãos apoiaram os comerciantes e em 1434 a família Médici, posando como representantes do povo, assumiu o poder sobre a cidade. Sob o governo dos Médici, especialmente de Cósimo (1434-64) e de Lorenzo o Magnífico (1478-92) Florença buscou uma política de diplomacia e manobras que fizeram dela o centro de uma sistema de equilíbrio do poder na Itália. Os Médici, que eram generosos patronos do ensino e das artes, também providenciaram para que sua próspera cidade tivesse o papel de liderança na cultura da Renascença. Localizados ao sul e estendendo-se como uma faixa transversal à península estavam os estados papais. Durante a residência dos papas em Avignon, esses territórios fragmentaram-se à medida em que as lutas cresceram entre cidades e famílias rivais. Em 1353 Inocêncio VI enviou

um representante para restabelecer a autoridade papal na região central da Itália e seu sucesso abriu caminho para a volta dos papas a Roma. Porém, só depois de terem superado o movimento conciliar é que eles poderiam voltar a dar atenção ao processo de formar uma administração forte nos Estados Papais. Essa foi a realização de um grupo de indivíduos conhecidos como “Os Papas Renascentistas”.

O crescimento do Humanismo Apesar das contribuições artísticas e culturais da região norte da Europa durante os séculos 14 e 15 terem sido substanciais, elas perdiam sua importância quando comparadas ao que vinha da Itália. Durante muitos anos historiadores têm procurado compreender esse período através de uma obra do historiador suíço Jacob Burckhardt, A Civilização da Renascença na Itália (1860). Ele afirmava que a Renascença foi criação espontânea do povo italiano durante o século 15. Era algo de novo, sem raízes no passado uma expressão de individualidade e uma explosão genial manifesta em obras artísticas brilhantes e literatura imortal. Porém, estudiosos mais recentes têm mostrado que a preocupação de Burckhardt com a cultura e as idéias o levaram a deixar de lado os fatores religiosos, políticos, sociais e econômicos da História e sua interpretação clássica da História exige uma certa restrição. Certamente o povo daquela época achava que havia ocorrido um renascimento das antigas civilizações da Grécia e Roma, mas os críticos

modernos tendem a enfatizar que aquele foi um período de transição entre os tempos medievais e modernos. Eles concordam que algumas idéias da Renascença foram tiradas do passado enquanto outras voltavam-se para o futuro e previam como seria a vida moderna, mas insistem que muitas coisas foram singulares a esse tempo. A maioria concorda que a Renascença caracterizou-se por uma irriquieta curiosidade, especialmente sobre a própria humanidade e foi dessa ênfase que surgiram as características mais distintivas desse período. Assim, Burckhardt estava certo em afirmar que a Renascença haviam explodido em criatividade e que seus artistas estavam entre os melhores que já existiram na civilização ocidental. Dante Alighieri (1265-1321) talvez tenha sido um dos primeiros indivíduos a mostrar características do individualismo renascentista, mas em sua complexa personalidade havia elementos do medievalismo bem como do mundo moderno. Ao que parece, Dante vinha de uma família florentina respeitável e era ativo na política local. Porém, quando seu partido perdeu ele foi banido de Florença e nunca mais voltou para casa. Sua principal obra, A Divina Comédia, foi completada durante os longos anos de exílio e viagens. Seu poema é uma alegoria da tentativa do homem de alcançar a salvação mas, ao contrário das obras medievais sobre o assunto, ele não se concentra na abstração personificada. Ao invés disso, Dante usa personagens históricas reais para descrever de maneira figurativa o que

ele considera como sendo as realidades do pensamento cristão pecado

e punição, remorso e arrependimento, e o amor e misericórdia de Deus.

No poema, ele passa sucessivamente pelo Inferno, Purgatório e Paraíso com três guias para orientá-lo. Nas duas primeiras regiões o poeta Virgílio dirige seus passos; em grande parte do Paraíso é Beatriz e, para a visão final de Deus, Bernardo de Clairveaux.

Na Divina Comédia Dante mostrou um surpreendente conhecimento de Ciências, Teologia, História e dos clássicos. Ele

essencialmente criou a língua italiana moderna através dessa obra de arte

e ela é considerada a síntese da vida e do pensamento medieval. Porém,

alguns elementos do poema não se encaixavam na cosmovisão medieval. Dante rejeitou a posição da Igreja em seu desejo de controlar todos os aspectos da vida do indivíduo e destemidamente lançou vários papas no inferno por heresia, simonia, covardia e avareza. O fato de tratar de elementos pagãos e cristãos lado a lado mostrava um respeito pela cultura clássica que não era característico dos escritores medievais. A Divina Comédia exerceu um efeito tão profundo sobre o povo do século

14 que, cem anos depois da morte de Dante, já havia grupos de estudiosos dedicando-se ao estudo do poema em Florença, Veneza, Bolonha e Pisa. O pioneiro do resgate da tradição clássica foi Petrarca (1304-74), muitas vezes chamado de pai do Humanismo. Nascido em Arezzo, uma pequena cidade próxima à Florença, ele estudou Direito nas

universidades de Montpellier e Bolonha. Depois da morte de seu pai desistiu dos estudos da lei e tornou-se um monge de modo a ter o direito a benefícios de patronos ricos. Ele viveu confortavelmente e viajou muito por toda a Europa central e ocidental antes de estabelecer-se na Itália. Petrarca já se interessava pelos clássicos desde a infância e compartilhou sua paixão com muitos de seus conhecidos e através deles, com um grupo cada vez mais surpreso de estudiosos. Descobriu manuscritos das obras de Virgílio, Horácio, Lívio, Olvídio, Cícero, Sêneca e Juvenal, entre outros e inspirou humanistas a procurar cópias dos clássicos. Seu poema épico África, que exaltava o conquistador de Aníbal Scípio Africanus deu-lhe a coroa de poeta em Roma e começou a moda de glorificação dos tempos clássicos. Ele também compilou esboços biográficos de romanos famosos em Sobre Homens Ilustres, a fim de mostrar seus grandes feitos e sabedoria e virtude superiores. O que indivíduos como Dante e Petrarca fizeram foi encorajar o crescimento do Humanismo. Essa termo teve origem em humanitas, a palavra latina usada para descrever a força civilizadora da arte e da literatura em seu sentido mais amplo. Estudiosos da Medicina conheciam os clássicos, mas a Renascença abordou esses textos de maneira diferente. Eles não serviam mais simplesmente como fonte de ilustração para sermões ou ferramentas para a lógica, mas passaram a ser apreciados por seus próprios méritos.

Antes que pudesse ter início o estudo dos clássicos, porém, era necessário haver um programa que fosse mais sistemático na coleta de manuscritos. Essa foi a contribuição dos governantes das cidades-estados da Itália que gastaram altíssimas somas de dinheiro para obter obras gregas e latinas. Muitas destas haviam sido copiados centenas de anos antes e estavam danificadas por fogo, água ou traças. Em diversos casos, os copistas medievais haviam feito adições e comentários que precisavam ser retirados. Por fim, dicionários e enciclopédias foram compostos para oferecer àqueles que estavam estudando os clássicos o material que os ajudaria a entender as várias referências e alusões.

O reavivamento dos estudos clássicos começou com a literatura

latina, tendo em vista que os primeiros humanistas não sabiam ler grego,

mas logo o pioneiro do ensino da língua grega entrou em cena. Ele era Manuel Chrysoloras, que em 1396 havia sido enviado como embaixador à Itália pelo governo bizantino a fim de pedir ajuda militar contra os turcos. No ano seguinte ele começou a lecionar em Florença e depois em Milão e Pávia antes de voltar para Constantinopla em 1403.

O contato com estudiosos gregos incentivou Cósimo de Médici a

fundar a Academia Platônica em Florença. Esta era um pequeno grupo que se encontrava para discutir a filosofia de Platão e os problemas contemporâneos à luz de seus ensinamentos. A fim de facilitar essa interatividade, Cósimo deu a Marsílio Ficino (1433-94) uma villa e um fundo permitindo que ele passasse o resto de sua vida traduzindo e

interpretando Platão. A Academia Platônica desenvolveu-se ao longo do século 15 e dentre seus estudiosos de destaque estava Pico Della Mirandola (1463-94) que introduziu o estudo do hebraico à Europa cristã e atraiu para Florença alunos de lugares distantes como a Alemanha e Inglaterra. A fundação dos Médici serviu de protótipo para academias semelhantes em outras partes da Itália e, mais tarde, em toda a Europa. Uma importante contribuição humanista foi a ciência da criticismo textual. O melhor exemplo dessa nova abordagem foi como Lorenzo Valla demonstrou as origens falsas da “Doação de Constantino”. Esse documento supostamente era um registro feito pelo imperador Constantino que passava o controle da parte oeste do império para o bispo de Roma e os papas medievais utilizaram-no como justificativa para seu poder “temporal” (posse de terras). Valla usou argumentos filológicos e históricos para mostrar que o documento não podia ter sido escrito no 4º século, mas sim que era de origem bem mais recente. Ao analisar as muitas palavras anacrônicas e os costumes no documento, ele convenceu seus contemporâneos de que se tratava de uma falsificação do século 8º. Seu método viria a ser amplamente utilizado na Alemanha durante o século 16 quando Lutero e outros adotaram a abordagem crítica da Renascença.

Cultura renascentista A Renascença não apenas recuperou a grande literatura da

Antigüidade como também produziu obras de gênios da Pintura, Escultura e Arquitetura. A nova abordagem artística começou com o trabalho de Giotto (1266-1336). Antes das inovações de Giotto a pintura italiana era de estilo plano e fluxo linear, baseada numa tradição que não havia mudado em quinhentos anos. Durante esse tempo, a pintura tinha sido uma arte da Igreja, que tinha como propósito ensinar aqueles que não sabiam ler. Para isso, porém, todos os detalhes desnecessários eram removidos a vim de evitar a distração do observador do tema central. Muitas vezes, três ou quatro acontecimentos eram colocados em uma mesma figura e os gestos eram exagerados para ressaltar uma determinada idéia. Tendo em vista que a pintura era uma tentativa de transmitir de forma bidimensional um mundo tridimensional, uma pessoa na Idade Média considerava o retrato de um homem como algo “real” no sentido de que lembrava um homem. Para apresentar uma ilusão mais precisa de realidade, os artistas tinham que aprender como dar uma sensação de perspectiva através do uso da proporção e de luz e sombra. Giotto, porém, rompeu o mundo simbólico medieval e adotou uma abordagem “naturalista” na qual os indivíduos eram pintados em posições e grupos iguais aos da vida real, relacionando-se entre si como normalmente fazem os seres humanos. Ainda assim, por não saber as leis de perspectiva, suas pessoas parecem arredondadas e sólidas como estátuas. Exemplos podem ser encontrados em muitas de suas figuras de São Francisco como as da igreja em Assis e na capela Bardi em Florença.

A arte da Renascença não avançou num ritmo constante. Quando a Peste Negra varreu a Itália, a ênfase de Giotto sobre o homem foi ignorada e a arte voltou aos tipos mais tradicionais de expressão. No final do século 14, porém, os artistas retomaram o realismo. O que reavivou o movimento iniciado por Giotto foi uma competição em 1401 para selecionar um artista para desenhar as novas portas de bronze do Batistério de São Giovanni em Florença. Dois dos mais respeitados escultores da cidade, Fillipo Brunelleschi (1377-1446) e Lorenzo Ghiberti (1378-1455) inscreveram-se no concurso. O painel da competição devia ser um retrato de Abraão prestes a sacrificar Isaque. Apesar do trabalho de Brunelleschi mostrar um sentimento religioso mais intenso, os juízes escolheram a obra de seu rival por causa da unidade de sensação e a maior atenção dedicada às linhas do corpo. Assim, Gilberto pôs-se a produzir a famosa Portas do Paraíso que até os dias de hoje surpreende o público com sua beleza indescritível. Os afrescos de Masaccio (1401-28) também reavivaram a abordagem realista de Giotto. Brunelleschi havia descoberto um princípio da perspectiva no qual o tamanho dos objetos podia ser reduzido ao fundo e Masaccio adotou-o em sua obra “Santa Trindade” nas paredes da igreja de Santa Maria Novella em Florença, uma obra excepcional por seu realismo físico e retrato de emoção e caráter. Ao mesmo tempo, Donatello (1386-1466) rompeu com o padrão tradicional de esculturas. Aluno de Ghiberti, ele libertou a escultura de sua função

medieval de embelezar a Arquitetura, reduziu a quantidade de detalhes em suas estátuas e deu a elas um ar sólido, pesado e determinado. Muita da inspiração para seu trabalho veio do estudo da anatomia do corpo humano, uma ciência que estava começando a se desenvolver. Quando os italianos já haviam dominado a arte de retratar a natureza através da pintura, passaram a buscar significados mais profundos. A princípio, os artistas da Renascença eram membros de guildas de artesanato e não tinham muita educação formal. Mas à medida em que garantiram patronos nas classes mais elevadas, eles começaram a ter contato com filósofos e humanistas e a captar idéias da elite intelectual. Na Academia Florentina os artistas aprendiam que o amor do mundo físico era um dos passos que levava ao amor de Deus e eles introduziram essa idéia em suas obras ao fazer o corpo humano parecer mais atraente do que era. Eles acreditavam que quanto mais bela a natureza ficasse, mais próxima de Deus estaria. Isso os levou a estudar o corpo humano com mais cuidado do que nunca e a colocar grande ênfase nos nus. Os três artistas mais conhecidos da Alta Renascença, Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelângelo (1475-1564) e Rafael (1483-1520), representam essa nova abordagem. Apesar de da Vinci estar mais interessado na ciência experimental, seu afresco A Última Ceia, em Milão e seu retrato da Mona Lisa são obras primas da arte ocidental. Mas com Michelângelo foi o platonismo que venceu, tendo em

vista que ele idealizou a forma humana em estátuas como a de Davi em Florença e na Pietá em Roma. Nascido em Florença e trazido para o

círculo familiar dos Médici quando ainda era jovem, ele deixou o lar para

ir a Roma em 1494 e lá passou grande parte do resto de sua vida. Um dos

maiores gênios artísticos de todos os tempos, além de esculpir, ele pintava, desenhava edificações (a nova Basílica de São Pedro) e escrevia poesia. Seu afresco no teto da Capela Sistina é, provavelmente, a pintura mais imponente da Renascença. É uma síntese magnífica de formas pagãs com pensamentos cristãos, um tema do Antigo Testamento que fascina o observador com seu uso vívido da cor. Rafael nasceu em Urbino mas estabeleceu-se em Roma em 1508. Em suas várias madonnas ele procurou atingir uma beleza maior do que aquela encontrada na natureza. Sua arte combina os objetivos naturalistas dos artistas do início do século 15 com a idealização da forma humana encontrada em Michelângelo.

O papado da Renascença Os papas da época estavam entre os mais importantes patronos da arte e cultura renascentista. Da ascensão de Nicolau V em 1447 até o saque de Roma em 1527, o trono papal foi ocupado por homens que preocupavam-se com aspectos mais mundanos dos estudos e da cultura e

com a construção de um Estado forte na região central da Itália. Nicolau

em Roma como também realizou a importante tarefa de colecionar livros. Ele usava agentes que procuravam os manuscritos raros de clássicos e humanistas que traduziam e corrigiam essas obras. Autores da Grécia antiga, incluindo os patriarcas gregos, foram traduzidos para o latim e assim tornaram-se acessíveis para o povo da Europa ocidental. Sua coleção de milhares de manuscritos formou a base para a nova biblioteca do Vaticano. Talvez o mais fascinante dos papas da Renascença tenha sido Pio II (1458-64), um competente humanista cujos Comentários oferecem uma visão penetrante da vida em sua época. De família nobre mas sem recursos, ele viajou incessantemente a serviço da Igreja e, antes de tornar-se papa, havia se destacado como ensaísta e orador ciceroniano. A corrupção cresceu assustadoramente no papado durante o reinado de Inocêncio VIII (1484-92). Depois de passar uma juventude devassa em Nápoles, ele foi ordenado sacerdote. Subindo de cargos dentro da Igreja, acabou tornando-se papa, mas seus hábitos não mudaram. Ele era pai de dezesseis filhos, que ele reconheceu abertamente e cujos casamentos ele então celebrou no Vaticano. Estava constantemente envolvido em guerras e disputas com outros estados italianos e o financiamento dessas campanhas deixava a Igreja endividada. Ao aproximar-se da morte, diz-se que ele implorou aos cardeais que escolhessem um sucessor melhor do que ele. Porém, eles ignoraram sua súplica e com o pontificado de Alexandre VI (1492-1503) o papado

chegou ao ponto espiritual mais baixo. Rodrigo Bórgia havia progredido rapidamente dentro da Igreja e feito cardeal aos 25 anos de idade. Um homem de negócios perspicaz, ele acumulou uma fortuna que usou então para ganhar o papado. Sua vida pessoal era tão imoral que na época de sua eleição ele já era pai de vários filhos. Apesar de ter administrado com prudência as finanças papais, seu objetivo era um fundar um principado para sua família na região central da Itália. Ele entregou o projeto ao seu filho, César Bórgia, que foi um assassino tão lendário quanto inescrupuloso. Alexandre deu o controle do palácio papal à sua filha Lucrécia que, aos 22 anos, já havia se casado três vezes. Depois da morte de Alexandre, César foi obrigado a deixar a Itália. Apesar de ter apoiado

o trabalho missionário dos portugueses em outras partes do mundo e ter

negociado a famosa linha de demarcação que evitou a guerra entre Espanha e Portugal por causa de questões imperiais (ver capítulo 12), ele foi uma completa desgraça para a Igreja. Seu sucessor Júlio II (1503-13) tentou reparar os danos ao refrear a prática da simonia e reduzir o nepotismo. Porém, ele pessoalmente

liderava o exército papal e era um homem de tamanha inquietação e temperamento colérico que as pessoas o chamavam de “terribilita”. O mais importante, porém, é que quando de seu pontificado, Roma havia

substituído Florença como centro da cultura renascentista. Para enfatizar

a grandiosidade de Roma, ele demoliu a antiga Basílica de São Pedro e

orientou Bramante para projetar a planta do que viria a ser a maior igreja

do Cristianismo. Ao longo do enorme projeto de construção, Júlio comissionou Michelângelo para fazer os afrescos da Capela Sistina e Rafael para decorar os aposentos papais. Leão X (1513-21), sucessor de Júlio, era o segundo filho de Lorenzo, o Magnífico, e havia sido feito arcebispo aos 8 anos de idade, cardeal aos 13 e papa aos 37. Um homem de gostos caros, ele estava convencido de que o cabeça da Igreja não devia ter a vida austera e simples como a de Cristo e seus apóstolos. Em sua coroação ele entrou em Roma com mantos deslumbrantes, passando por arcos erigidos em sua homenagem como se fosse uma antiga procissão triunfal. Durante seu pontificado, Leão abarrotou a cúria e a administração dos Estados Papais com membros da família Médici e justificou seu alto padrão de vida com a memorável frase: “Deus nos deu o papado, então vamos aproveitá-lo”. Seu amor pela arte, música e teatro fez de Roma o centro cultural da Europa, o que foi conseguido a um custo extremamente alto. Júlio II tinha sido um papa frugal, mas o dinheiro que ele juntou foi logo esgotado por Leão e o papado viu-se profundamente endividado. Conforme foi mostrado, a maioria dos papas da Renascença foi culpada de nepotismo. Parentes que com freqüência eram incompetentes ou não tinha idade suficiente recebiam cargos na Igreja. Por vezes, eles eram “sobrinhos” ou filhos bastardos como César Bórgia, enquanto muitos dos próprios papas começaram sua carreira na igreja por causa do nepotismo. Seus gostos exóticos, estilos de vida caros e envolvimentos

políticos levaram a muitos abusos fiscais. Cargos eclesiásticos eram comprados e vendidos. Júlio II e Alexandre V foram eleitos ao subornarem a maior parte do colégio de cardeais. As indulgências eram vendidas regularmente e alguns até tentavam forjar e vender bulas papais. Os papas da Renascença compartilhavam a cosmovisão de seus companheiros da nobreza que achavam que uma existência luxuosa traria mais respeito ao cargo. Enquanto isso possibilitou o melhor da arte renascentista, também levou a críticas gerais. Muitos, especialmente das classes mais baixas, não aprovavam o estilo de vida do alto clero. Pregadores do arrependimento que denunciavam os abusos tanto de leigos quanto do clero atraíam grandes multidões. Dentre esses evangelistas fervorosos, nenhum é mais conhecido do que Girolamo Savonarola (1452-98). Sua vida e ministério ilustram como a Renascença italiana não foi tão secular e mundana como já se afirmou. Nascido numa família de poucos recursos em Ferrara, educado na tradição humanista e destinado a uma carreira na Medicina, aos 22 anos de idade ele decidiu entrar para a ordem dos dominicanos. Em 1482 foi enviado a Florença e lá começou a clamar por arrependimento e conversão em seus sermões que eram repletos de profecias apocalípticas. A época era propícia para essa mensagem pois o governo dos Médici estava em guerra com a França e as condições econômicas encontravam-se seriamente deprimidas. Os Médici haviam se tornado poderosos demais e não só as classes mais baixas, mas também

as famílias de comerciantes passaram a reagir contra sua ostentação de riqueza e luxo. A igreja de São Marcos se enchia de pessoas ansiosas para ouvir Savonarola fazer seu mais recente pronunciamento contra os Médici e outros príncipes e eclesiásticos que viviam no luxo. Muitos penitentes entregavam símbolos de vaidade como livros indecentes, figuras de nus, bijuterias, perucas e roupas frívolas para serem queimados em grandes fogueiras. A popularidade de Savonarola chegou ao seu ápice quando ele convenceu o rei Carlos VIII da França, que havia invadido a Itália, a não saquear Florença. O governo dos Médici entrou em colapso e foi substituído por um novo regime republicano que era fortemente influenciado pelas pregações de Savonarola. Ele previu que um grande desastre atingiria a Itália, mas uma era dourada iria raiar sobre Florença e espalhar-se para o mundo todo. Os florentinos, incluindo os estudiosos humanistas Ficino e Pico Dela Mirandola, apoiavam essas profecias com entusiasmo. O papa Alexandre VI, preocupado com a amizade recente de Florença com a França não queria ter um aliado dos franceses como vizinho dos Estados Papais. Assim, o austero dominicano viu-se em oposição ao papa mais infame da Renascença. Alexandre tentou persuadir Savonarola a deixar a cidade e, quando não teve sucesso, ofereceu-lhe um suborno, a saber, um posto de cardeal. Quando falhou novamente, o papa excomungou Savonarola em 1497. O frade, porém, declarou que a excomunhão não tinha valor pois somente Deus podia

cortá-lo da comunhão. Ele continuou a pregar e a rezar missas, mas o governo da cidade, ameaçado de interdição pelo papa, pediu que ele suspendesse seus deveres clericais. Savonarola havia perdido o apoio dos cidadãos abastados de Florença e os franciscanos, que nunca se entenderam muito bem com os dominicanos, também voltaram-se contra ele. Em seguida, foi acusado de heresia, julgado e executado.

A Renascença no norte As idéias da Renascença italiana logo se espalharam para a região norte da Europa e o principal expoente desse novo aprendizado foi o “príncipe dos humanistas”, Desidério Erasmo (1469-1536). Como muitos outros de seus contemporâneos, ele acreditava que o estudo de um texto de fontes cristãs corretas juntamente com os clássicos gregos e latinos traria uma renovação do Cristianismo. Nascido em Roterdã, Erasmo viajou muito e estudou incessantemente. Aluno de uma escola dos Irmãos da Vida em Comum em Deventer, ele foi orientado para uma vida religiosa, mas uma breve experiência como monge o convenceu de que ele não era adequado para a vida monástica. Estudos posteriores em Paris e na Itália o levaram a voltar-se para o Humanismo. Sua amizade com John Colet e Thomas More na Inglaterra fortaleceram sua determinação de buscar a reconciliação entre a fé e a Razão, a devoção e os estudos, as Escrituras e a literatura. Assim, ele tornou-se símbolo e síntese da Renascença no norte.

Tanto os escritos de Erasmo como sua vida pessoal refletiam essa harmonia entre pensamento secular e religioso. Na obra Enchiridion ele suplicava ao povo que se preocupasse com o significado da devoção religiosa e que colocasse suas crenças em prática ao invés de simplesmente professá-las. Declarou: “Que sentido faz ser aspergido com água benta se a poluição interna do coração não é lavada?” Continuou dizendo: “Vocês veneram os santos e deleitam-se em tocar suas relíquias, mas desprezam o melhor daquilo que deixaram para trás, o exemplo de vida santificada”. Erasmo promoveu o estudo da Bíblia ao publicar em 1516 sua própria tradução e a primeira edição impressa do Novo Testamento em grego. Também editou as obras de vários Patriarcas da Igreja primitiva. As preocupações de Erasmo e de outros cristãos humanistas repercutiram por toda a Europa no início do século 16. Eles publicaram extensivamente, promoveram e influenciaram a educação na escola primária e até mesmo ocuparam cátedras de literatura, línguas e estudos clássicos nas universidades. Johannes Reuchlin, por exemplo, foi o principal estudioso da Bíblia em hebraico e lecionou na Universidade de Tübingen. Juan Luís Vives, o brilhante humanista espanhol foi, durante algum tempo professor da Universidade de Louvain e depois de Oxford. Outros humanistas espanhóis lecionaram na nova Universidade de Alcala, fundada em 1509 pelo Cardeal Ximénez de Cisneros. Assim também, John Colet fundou a escola St. Paul em Westminster, que era

dirigida para o ensino humanista. Talvez a contribuição mais importante da Renascença no norte da Europa tenha sido a descoberta da impressão com tipos móveis. Dois reavivamentos clássicos já haviam acontecido na Europa, um sob o reinado de Carlos Magno no século 8º e um durante o século 12 liderado por estudiosos como João de Salisbury. A Renascença teve um efeito duradouro, coisa que não aconteceu com os movimentos anteriores, porque o movimento clássico do século 15 foi disseminado através de material impresso. A impressão possibilitava livros mais baratos, um público leitor mais amplo e uma nova cosmovisão. Papel, tinta e a técnica de imprimir usando blocos de madeira entalhados ou tipos feitos de metal já eram conhecidos há tempo, mas o processo era lento e caro pois cada letra tinha que ser entalhada separadamente. Por volta de 1450, Johann Gutenberg de Mainz, na Alemanha começou a fazer letras de metal intercambiáveis ao invés dos blocos de madeira; como esses tipos feitos de metal podiam ser reutilizados muitas vezes, a produção de livros tornou-se relativamente barata. Essa técnica espalhou-se pela Europa com incrível rapidez e em 1500 havia impressoras funcionando em pelo menos cem comunidades. Mais de trinta mil obras haviam sido publicadas, totalizando por volta de seis a nove milhões de volumes. Com a chegada da Reforma protestante, a palavra impressa provou ser de valor incalculável para a disseminação das novas idéias religiosas.

Esses dois séculos foram um tempo de avaliação de paradigmas que haviam se mantido durante séculos. O conceito da Europa como Republica Christiana tendo o papado como seu governo espiritual e o Sacro Império Romano como governo secular havia se desintegrado; mesmo tentando redefinir o seu papel, a Igreja Católica Romana perdeu a liderança espiritual. Os novos estados dinásticos eram apoiados pela classe média que, com a ajuda de avanços tecnológicas e melhora dos procedimentos de crédito, tornou-se rapidamente a classe dominante. Na esfera não-material, a era preparou a sociedade para o futuro. Enquanto os humanistas lutavam para recuperar aquilo que acreditavam ser a grandeza intelectual e moral da antigüidade clássica, deixaram para a posteridade novas idéias e atitudes. Os métodos de governo articulados por eles foram a base das teorias modernas de constitucionalismo. A tentativa de pintores, escultores e arquitetos de reproduzir obras primas clássicas levou a importantes descobertas de técnicas e desenho. Em seu esforço para entender a obra da Antigüidade, os humanistas não apenas desenvolveram uma visão histórica moderna como também deram início a uma iniciativa paralela de volta às origens no Cristianismo. Assim, o caminho estava aberto para a Reforma.

Capítulo 10 - A Reforma atinge a Igreja Em 1500 ainda era possível se falar de cristandade no lugar de

Europa. Ao invés de ser uma descrição geográfica, esse termo era um conceito espiritual que envolvia sujeição a um conjunto de pensamentos. Ele expressava a unidade dos europeus sob a Igreja Católica Romana. Todo o povo, exceto alguns grupos minoritários judeus, muçulmanos, cristãos ortodoxos orientais e membros de seitas extremistas cultuavam de acordo com o mesmo ritual, aceitando a reivindicação da Igreja para si mesma do monopólio da salvação e reconhecendo o papa como autoridade suprema sobre a fé e a moral. Mas em cinqüenta anos, a Reforma protestante havia desintegrado essa unidade religiosa. Roma havia perdido para sempre o norte da Alemanha, a Escandinávia e partes da Suíça, Holanda, Escócia e Inglaterra, sendo que também havia grupos de tamanho considerável na França, Boêmia, Polônia e Hungria que aceitavam a nova visão de salvação ensinada pelos reformadores. Até mesmo a Igreja Católica Romana foi profundamente afetada pela Reforma e sobreviveu somente porque tornou-se uma organização bem diferente daquela que havia sido na Idade Média.

A Reforma luterana No dia 31 de outubro de 1517 um professor alemão de Teologia chamado Martinho Lutero (1483-1546) afixou uma folha de papel contendo noventa e cinco proposições, “teses” para discussão, na porta da Igreja do Castelo em Wittenberg. Na sua época esse era um procedimento normal pois aqueles que desejavam iniciar um debate culto

sobre um assunto, usavam a porta da igreja como quadro de avisos. As teses questionavam a validade das indulgências, uma prática que a Igreja medieval havia desenvolvido para ajudar na salvação das almas. Elas baseavam-se na crença de que Cristo, a Virgem Maria e os santos haviam acumulado um excedente de boas ações (o “tesouro de méritos”) do qual, de acordo com a Igreja, o papa podia lançar mão para perdoar a quantidade de castigo temporal (no purgatório) pelo pecado que as pessoas comuns teriam que sofrer. A princípio, essas reduções de tempo no purgatório antes de se entrar no céu eram oferecidas àqueles que haviam participado de cruzadas, peregrinações ou tinha realizado algum ato de grande mérito. Aos poucos, as condições para se conceder esses perdões forem relaxando e no final do século 15 eles podiam ser obtidos através da oferta de dinheiro para a Igreja. Para todos os efeitos, a distribuição de indulgência havia se tornado um negócio que empregava vendedores quase profissionais. As questões que Lutero levantou sobre essa prática não tinham a intenção de causar uma divisão na Igreja, mas foi o que aconteceu. Lutero era filho de um mineiro de cobre na Saxônia. Como seu pai desejava que ele seguisse uma carreira na área de Direito, Lutero começou a estudar na Universidade de Erfurt em 1501 e recebeu um Mestrado em Ciências Humanas em 1505. Porém, no último ano uma experiência aterradora durante uma tempestade levou o jovem Lutero a abandonar suas ambições seculares e entrar para um mosteiro de eremitas

agostinianos em Erfurt. Em 1507 ele foi ordenado para o sacerdócio, mas sua primeira missa foi uma experiência de tal modo intimidante que ele sentiu-se completamente inadequado. A natureza introspectiva e questionadora de Lutero era tal que seu superior monástico, Johann von Staupitz, recomendou que ele continuasse seus estudos na Universidade de Wittemberg e em 1512 ele recebeu o doutorado em Teologia. Foi então nomeado professor nessa universidade, uma instituição fundada pelo duque da Saxônia em 1502. Além de lecionar, Lutero trabalhava como pastor da igreja da cidade e como supervisor administrativo de um mosteiro agostiniano na Saxônia. Certa vez foi enviado para tratar de assuntos monásticos em Roma, onde o caráter mundano da cidade que ele acreditava ser o centro da espiritualidade o deixou profundamente desiludido e desgostoso.

 

1484-1531

1521

1497-1560

 

Ulrico

Dieta de

Melanchthon

Zuínglio

Worms

 

1466-1536

1483-1546

1513-21

1525

1491-1556

1509-64

1514-72

Erasmo

Martinho

Papado de

Execução

Inácio de

João

John Knox

 

Lutero

Leão X

de Thomas

Loyola

Calvino

 

Muntzer

1450

1500

1550

1600

 

1486-1525

1509-47

1519-56

1542-87

1558-87

Frederico da

Henrique

Carlos V

Maria da

Elizabeth I

 

Saxônia

VIII

Escócia

1515-47

Francisco I

As primeiras palestras teológicas de Lutero eram sobre Salmos,

Romanos, Gálatas e Hebreus. As anotações que fazia para estas indicam que ele havia abandonado a forma medieval tradicional de analisar o texto. Concentrando-se em questões de pecado, graça e retidão, ele seguia os ensinamentos de Agostinho de Hipona, rejeitando desse modo a abordagem escolástica. O que levou Lutero a repensar a Teologia foi o estado de desespero no qual ele se viu diante da presença de Deus. Ele queria a segurança da aceitação divina, mas consciente da enormidade do pecado, ele viu Deus apenas com uma justiça implacável que condenava todos os esforços da humanidade em encontrar perdão. Seu desejo de pagar o preço do pecado através das várias obras recomendadas pela Igreja e pela ordem agostiniana só fazia aumentar essa frustração. Por fim, a solução da crise espiritual de Lutero veio de sua sensação de total desamparo diante de Deus e dos escritos do apóstolo Paulo. Sua “descoberta evangélica” foi de que uma pessoa não é justificada pelas obras, mas sim pela fé na obra consumada de Cristo. Não há nada que um indivíduo possa fazer para merecer o perdão de Deus, mas se ele crer em Cristo, Deus lhe concederá a salvação e a vida eterna através do dom do Espírito Santo. Tudo isso acontece por meio da fé ao entregar-se completamente à mensagem do evangelho. Aqui, Lutero descreve sua experiência:

Eu ansiava compreender a epístola de Paulo aos Romanos e não havia nada que me impedisse a não ser aquela expressão “a justiça de Deus”, pois eu entendi que significava

que se havia justiça então Deus era justo e agia com justiça ao punir os injustos. Minha situação era tal que, apesar de ser um monge impecável,, eu estava diante de Deus como um pecador com a consciência perturbada e não tinha confiança de que meu mérito iria aplacar esse Deus. Ponderava dia e noite até que enxerguei a ligação entre a justiça de Deus e a declaração de que “o justo viverá pela fé”. Então, compreendi que a justiça de Deus é aquela retidão através da qual a graça e a misericórdia de Deus nos justificam pela fé. A partir de então senti que havia nascido de novo e passado por portas abertas para o paraíso. As Escrituras como um todo adquiriram um novo significado e se antes a “justiça de Deus” havia me enchido de ódio, agora tornara-se inexprimivelmente doce em maior amor. Essa passagem de Paulo tornou-se para mim o portal do céu. Se você tem uma fé verdadeira de que Cristo é seu Salvador, então imediatamente você tem um Deus cheio de graça, pois a fé o guia e abre o coração de Deus bem como sua vontade para que você possa ver a graça pura e transbordar de amor.

A descoberta de Lutero da justificação somente pela fé e a doutrina que a acompanhava o sacerdócio de todos os crentes foi um tanto revolucionária. Se uma pessoa podia ir diretamente a Deus e pedir perdão pelos pecados, então toda a estrutura da Igreja, que existia com o propósito fundamental de mediar os homens e Deus, tornava-se desnecessária. Apesar de rejeitar o sacerdócio e hierarquia da Igreja, Lutero nunca mudou sua visão conservadora de que a sociedade precisava de uma estrutura duradoura. Mas seu ataque à Igreja foi progredindo de uma questão para outra até que restava muito pouco da antiga instituição que fosse imune às críticas. Ele argumentava, por exemplo, que os pastores não eram sacerdotes, mas sim pessoas cujo

papel era de pregar a Palavra de Deus. Quanto aos diversos níveis de clero, eles eram vistos como uma forma dos italianos corruptos roubarem dinheiro dos alemães honestos. Lutero acabou mostrando ser um indivíduo extremamente competente que comunicava suas idéias de modo muito eficaz. Durante os trinta anos seguintes ele produziu uma quantidade inacreditável de livros, panfletos, sermões, cartas e hinos. Calcula-se que publicava alguma coisa a cada duas semanas e hoje a coletânea de suas obras (a edição oficial de Weimar) compreende mais de cem enormes volumes. Em certas ocasiões ele conseguia ser rude e malicioso, mas isso não diminui o apelo de seus escritos. Sem Lutero, a Reforma protestante não teria alcançado o sucesso. Foram as noventa e cinco teses que lançaram esse estudioso e monge desconhecido a uma posição de proeminência. Essas proposições não tinham a intenção de ser controversas, mas foram colocadas sob a forma de questionamento. Ele tocou, por exemplo nestes assuntos:

Esse abuso da pregação sobre os perdões não facilita nem para o mais cultos dos homens proteger das calúnias a reverência devida ao papa ou, de um modo geral, dos questionamentos perspicazes dos leigos. Como por exemplo: Por que o papa não esvazia o purgatório por amor à mais santa caridade e à suprema necessidade das almas sendo esta a mais justa de todas as razões se ele redime um número infinito de almas por amor àquela que é a mais fatal de todas as coisas, dinheiro para ser gasto na construção de uma basílica sendo esta uma razão tão pouco importante?

Apesar da cuidadosa escolha de palavras, as teses desencadearam uma grande controvérsia pois não concentravam-se apenas em assuntos morais e teológicos, mas também chamavam a atenção para os abusos econômicos e políticos da Igreja. Lutero enviou cópias das teses para vários conhecidos e para alguns líderes da igreja na Alemanha, incluindo Alberto de Hohenzollen que ele considerava responsável pelo abuso de indulgências. O que ele não sabia era que a campanha de venda de indulgências em 1517 era resultado de um acordo financeiro entre o papado e o príncipe alemão. Alberto era um típico aristocrata que progredia em sua carreira através da Igreja. Ele já era arcebispo de Magdeburg, mas queria acrescentar às suas conquistas a posição de arcebispo de Mainz pois quem tinha esse cargo também era um dos setes eleitores do Sacro Império Romano. Conforme foi observado anteriormente, o império não era governado por direito hereditário, mas sim através da escolha de um imperador dentre um grupo de candidatos. O problema de Alberto era que, ao ter mais de um cargo eclesiástico ele estava cometendo o pecado de pluralismo e portanto era necessário ter uma permissão especial de Roma. Como uma isenção dessa importância exigia o pagamento de uma enorme soma em dinheiro, Alberto e o papa Leão X concordaram que o príncipe da Alemanha faria uma generosa contribuição para a construção da Basílica de São Pedro em Roma. O papa autorizou Alberto a usar dos lucros de uma venda de indulgências

na Alemanha para cumprir sua contribuição. Johann Tetzel era frade dominicano e trabalhava como administrador da campanha. A abordagem extravagante de Tetzel deixava Lutero irado, tendo em vista que ele estava oferecendo às pessoas indulgências “plenárias”, ou seja, a remissão total do purgatório e entrada imediata no céu quando de sua morte. O lema da campanha era particularmente irritante e soava como o produto de uma agência de propaganda moderna: “Cada moeda que retine é uma alma que do purgatório se redime”. Foi para desafiar esse abuso que Lutero afixou as teses para debate. As indulgências eram uma contradição óbvia de sua descoberta que o justo viverá somente pela fé. Os representantes papais, porém, achavam que a prática de indulgências era valiosa demais para ser deixada e começaram a atacar Lutero. Daquele momento em diante o “reformador” alemão e seus oponentes conservadores entraram em rota de colisão. Convencido da veracidade de sua posição, Lutero agitou a opinião pública através de panfletos impressos e livretos escritos na linguagem popular e ilustrados com xilogravuras dramáticas. Em 1518 ele foi convocado a se apresentar diante de uma reunião geral de sua ordem e ganhou muitos de seus companheiros agostinianos para a usa “teologia da cruz”. Logo depois, foi chamado para ir a Roma e responder às acusações feitas contra ele, mas a pedido de Frederico da Saxônia essa solicitação não foi uma convocação obrigatória. Esse eleitor protegeu Lutero em

parte porque tinha orgulho de seu jovem professor de Teologia mas, principalmente porque não gostava da prática de vender indulgências. Isso porque ele queria manter o dinheiro em sua própria terra natal para que pudesse aumentar sua própria coleção de relíquias dos santos e fazer de Wittenberg um importante centro para peregrinos. Esse era um aspecto incomum no homem que apoiou Lutero contra a Igreja tradicional. Então, o caso foi apresentado a um embaixador do papa em Augsburg, mas isso não levou a nada tendo em vista que Lutero recusou retratar-se e ao invés disso apelou para um concílio geral da Igreja cristã. Em 1519, durante um debate com John Eck em Leipzig, Lutero foi forçado a admitir abertamente que muitas das idéias de Jan Hus não eram heréticas e que ele não deveria ter sido condenado. Assim, Lutero reconheceu que não apenas o papado mas também os concílios gerais da Igreja podiam estar errados e que a única base de autoridade oficial eram as Escrituras. Em 1520 uma bula papal condenou sua obra como sendo herética e Lutero respondeu queimando o documento em praça pública. Uma outra bula o excomungou e deixou sua punição por conta das autoridades locais. O imperador Carlos V permitiu que Lutero se defendesse na reunião (ou dieta) de príncipes da Alemanha e governantes territoriais que aconteceu em Worms em 1521. Na assembléia, Lutero reconheceu que alguns de seus livros eram abusivos e outros tratavam de assuntos discutíveis, mas recusou-se a negar suas convicções evangélicas mais

básicas.

A menos que eu seja convencido pelas Escrituras ou pela Razão não aceito a autoridade dos papas e concílios, pois um contradiz o outro minha consciência é cativa da Palavra de Deus. Eu não posso e não vou voltar atrás em nada, pois ir contra a consciência não é nem certo e nem seguro. Aqui estou, não posso agir de outra forma. Que Deus me ajude, amém. 2

Seu discurso foi um grande sucesso entre o povo alemão, mas depois de um período de deliberação, a dieta imperial declarou Lutero e seus seguidores foragidos políticos e ordenou a supressão dos seus ensinamentos. Carlos honrou o passe de salvo-conduto que havia dado a Lutero para que este comparecesse à dieta, mas Frederico, não querendo se arriscar, seqüestrou Lutero quando ele estava voltando para casa. Para sua proteção, foi levado para um castelo isolado em Wartburg, onde passou quase um ano escondido. O tempo livre do qual Lutero gozava depois de uma vida agitada o levou a ficar deprimido e a questionar sua posição contra a Igreja. Uma declaração de Eck voltou para perturbar Lutero: “Como você pode afirmar ser o único a entender as Escrituras? Será que tantos séculos estiveram errados? E se você está enganado e levando tantos outros junto para a perdição eterna? "3 Até o diabo apareceu para escarnecê-lo, pelo menos foi o que ele pensou e jogou no fantasma seu vidro de nanquim. Ao perceber que precisava de algum projeto para preencher suas horas de

solidão, ele transformou o período de dúvidas sobre si mesmo em um tempo de grande realização ao traduzir a Bíblia para o alemão. Lutero

baseou-se fortemente no Novo Testamento em grego anotado de Erasmo e trouxe a Bíblia para o leitor através de seu estilo vigoroso e clareza de

expressão. Como ele mesmo colocou: “Quando traduzo Moisés

fazê-lo tão alemão que ninguém saberá que ele era judeu”. O resultado foi uma versão que podia ser compreendida tanto pelo homem humilde do mercado quanto pelos estudiosos cultos da universidade e com eficácia ela consolidou o alemão como linguagem literária. Lutero foi confrontado por uma nova crise quando voltou a Wittenberg. Durante sua ausência seus seguidores haviam alterado radicalmente a forma dos cultos, destruído relíquias, imagens e quadros e danificado propriedades da Igreja tudo isso em nome do evangelho. Ele respondeu com uma série de sermões nos quais insistiu que pode-se continuar qualquer prática religiosa desde que ela não seja condenada especificamente pelas Escrituras. Seus discípulos mais zelosos reagiram negativamente a essa posição conservadora e disseram que era permitido

fazer o que era ordenado pela Bíblia. Essas discussões levaram Lutero a trabalhar mais junto com as autoridades locais a fim de construir uma nova Igreja para substituir o Catolicismo que estava desmoronando na Alemanha. A fim de oferecer pastores para as igrejas “evangélicas” (o termo usado pelos luteranos), ele contou com a Universidade de Wittenberg onde continuou a lecionar. Muitas pessoas ajudaram-no nessa

quero

tarefa, sendo a de maior destaque Paul Melanchthon (1497-1560), um estudioso clássico que foi seu mais leal apoio e companheiro constante. Melanchthon foi nomeado professor de grego e hebraico em Wittenberg quando tinha apenas 21 anos de idade e sua mente sistemática e analítica foi de grande utilidade no processo de esboçar as declarações da doutrina luterana, como a confissão de Augsburg de 1530. Em 1521 o desenvolvimento teológico de Lutero, em sua essência, estava completo; suas obras posteriores amplificavam e esclareciam as idéias originais. Os principais pontos de sua teologia foram resumidos em três obras escritas em 1520. A primeira Discurso à Nobreza Cristã da Nação Alemã, argumentava que as autoridades civis deveriam reformar a Igreja pois a hierarquia jamais permitiria mudanças que ameaçassem sua posição privilegiada. Ele não apenas apoiava a liderança leiga em geral como também fazia várias propostas específicas, incluindo a afirmação da necessidade do clero de se casar, ressaltando a necessidade do governo de alimentar os pobres, pedindo a paz com os hussitas e abolindo a prática ultrapassada das missas. Num comentário profético ele instou que os hereges deveriam ser convencidos a mudar suas idéias através de livros e discussões e não pela perseguição, de outro modo “o carrasco seria o homem mais culto do mundo e não haveria a necessidade de estudar”. O segundo tratado O Cativeiro Babilônio da Igreja era um ataque ao sistema sacramental da Igreja romana. Lutero aceitava apenas dois

sacramentos, o batismo e a ceia, e rejeitava os outros cinco pois seu cumprimento não era ordenado por Cristo numa declaração específica na Bíblia. No terceiro livro Liberdade de um Homem Cristão, ao mesmo tempo em que se opunha à tirania papal, Lutero advertia os crentes que não ignorassem os aspectos éticos da vida cristã. Lançando mão do ensinamento de Paulo aos Gálatas, ele aconselhava os cristãos a não cair em extremos de legalismo ou hedonismo. Explicava que a vida cristã deve ser caracterizada pela fé e o amor. Um crente é senhor de todos e não está sujeito a ninguém através da fé, mas é servo de todos e está sujeito a todos por causa do amor. A fé prende o cristão a Deus e o amor

o prende aos outros cristãos. Uma pessoa deve nascer de novo em Cristo

antes que possa fazer boas obras, pois elas são resultado de uma vida de

fé. Conforme está escrito em Mateus 7.18: “Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons”. O ano de 1525, quando Lutero envolveu-se em duas controvérsias uma com Erasmo e a outra com Thomas Müntzer foi um ponto crítico da Reforma. Durante vários anos, humanistas como Erasmo tinham recebido bem as atividades reformadoras de Lutero, mas depois de 1521 a maioria deles começou a pensar que ele havia ido longe demais e, de alguém que queria dar conselhos amigáveis à Igreja, havia se transformado em um inimigo da fé tradicional. Em 1524, o abismo

havia crescido tanto que Erasmo rejeitou o ponto de vista luterano sobre

a graça em seu Ensaio Sobre o Livre Arbítrio. Ele afirmou que as

Escrituras apoiavam a posição católica de que a salvação é alcançada através da fé e das obras; advertiu Lutero para que fosse menos dogmático e mais pronto a aceitar ser corrigido. Enfurecido, o reformador respondeu com sua obra Servidão do Arbítrio (1525), que enfatizava a depravação humana e condenava o humanista holandês. O debate mordaz com Erasmo sobre o livre arbítrio relevou exatamente quanto apoio dos humanistas Lutero havia perdido. O problema com Müntzer foi ainda mais sério para o futuro da Reforma. Essa controvérsia surgiu de uma iniciativa para melhorar as condições dos camponeses da Alemanha que, assim como seus iguais em outras parte da Europa do século 16, eram abusados e explorados sem piedade por seus senhores. Alguns desses pobres coitados escreveram suas frustrações na obra Os Doze Artigos dos Camponeses da Suábia. Eles exigiam o direito de escolher seus próprios pastores; de ser liberados de impostos exorbitantes, dízimos e aluguéis; de poder caçar, pescar e cortar lenhas das florestas comunitárias. Incentivados pela posição desafiadora de Lutero em relação às autoridades eclesiásticas e por suas declarações sobre a igualdade de todos diante de Deus, eles imaginaram equivocadamente que ele iria apoiar sua causa. Liderados por Thomas Müntzer (1489-1525) que havia sido seguidor de Lutero e que acreditava que a Segunda Vinda estava próxima e que os perversos precisavam ser destruídos a fim de preparar o caminho para o Senhor camponeses armados atacaram seus senhores da classe

alta como se fossem inimigos de Deus. Em sermões desafiadores e desvairados, Müntzer exortava os camponeses: “Ataquem enquanto o ferro está quente” e “não deixem suas espadas esfriar! Não deixem que enfraqueçam!” Movidos por esses conselhos eles saquearam igrejas, destruíram castelos e ameaçaram a própria estrutura da sociedade. À medida em que a rebelião se espalhava, os ânimos iam ficando ainda mais exaltados e muitos exigiam a propriedade comum de todas as terras. A reação ríspida de Lutero à revolta foi coerente com suas declarações anteriores. Apesar de ter acusado os senhores de corrupção e crueldade e havê-los instado a parar de oprimir os camponeses, ele jamais havia favorecido a revolução social. Ele não acreditava ser possível reformar a Igreja e a sociedade ao mesmo tempo. Só a idéia de uma conturbação social era suficiente para assustá-lo. Em sua ira, Lutero respondeu com um panfleto extremamente infeliz, Contra as Hordas de Camponeses Bandidos e Assassinos, no qual ele os acusou com declarações mordazes. Aconselhou os governantes a “espancar, apunhalar e matar, em segredo ou abertamente, lembrando que nada era mais venenoso, nocivo ou diabólico do que um rebelde. Era como quando deve-se matar um cão raivoso; se você não atingi-lo ele atacará você bem como todas as suas terras.” Os senhores, que dificilmente precisariam desses conselhos do reformador, reprimiram brutalmente a revolta em Frankenhausen em 1525. O massacre no campo de batalha e as represálias que se seguiram

resultaram na morte de vários milhares de pessoas humildes. Apesar de Lutero nunca ter balançado em sua posição de apoio à hierarquia social, os camponeses sentiram que ele os havia traído. Depois de 1525, o movimento evangélico passou a depender ainda mais dos governantes, que tornaram-se elementos de importância crucial para a continuação da Reforma na Alemanha. Eles até chegaram a dar o nome de “Protestantismo” ao novo movimento quando eles “protestaram” contra uma ação tomada pela dieta de Speyer (que era predominantemente católica) em 1529, a qual discriminava os praticantes da fé evangélica. O mesmo ano do rompimento com os humanistas e da Guerra dos Camponeses, foi decisivo para a vida pessoal de Lutero. Foi nessa época que ele casou-se com Katherine von Bora, uma ex-freira que ele ajudou a fugir do convento. Apesar de Lutero ter entrado nessa união com relutância, ele encontrou grande felicidade ao lado de “Katie”. Seu relacionamento serviu de padrão para a definição protestante de casamento, a qual ele chamou apropriadamente de “escola do caráter”. O período seguinte na vida do reformador foi tomado por uma discussão com Ulrico Zuínglio sobre o significado da Santa Ceia. Ela culminou no Colóquio de Marburg em 1529, que realizou-se com a intenção de eliminar o abismo que havia se formado dentro da Reforma, especialmente porque o Catolicismo estava voltando a ganhar forças. Lutero participou das reuniões com certa restrição, pois acreditava que as diferenças em relação ao reformador suíço eram irreconciliáveis. O

principal assunto envolvia a questão de Cristo estar ou não fisicamente presente na Eucaristia. Como já se esperava, eles não chegaram a um acordo e o princípio da divisão da Igreja, tão característico do Protestantismo mais tarde, havia mostrado seu rosto cruel. Durante as controvérsias, Lutero continuou a lecionar, escrever e exercer a liderança da Reforma alemã. Quando as negociações com os católicos foram rompidas depois da Dieta de Augsburg em 1530, os príncipes protestantes formaram uma aliança defensiva, a Liga de Smalkalda o que significou resistência armada ao imperador. Apesar da adulação de seus alunos, colegas e outros líderes da Igreja, em seus últimos anos estava sempre presente a sombra dos conflitos entre luteranos e as conseqüências de ter aconselhado Filipe de Hesse dizendo que a bigamia era permissível em certas épocas. A compreensão de que tomar as Escrituras como base não evitava diferenças acentuadas de interpretação, a contínua luta contra Roma e o impacto debilitante de uma doença levaram ao tom amargo de muitas de suas últimas publicações, especialmente aquelas contra o papado e os judeus. Na pior delas, Lutero recomendou que todos os judeus fossem deportados da Europa para a Palestina. Se isso não pudesse ser feito, então deveriam ser proibidos de dedicar-se ao comércio e forçados a ganhar a vida através da agricultura. Ele insistiu que as sinagogas deviam ser queimadas e os livros judaicos destruídos. Quando Lutero faleceu em 1546, a Reforma perdeu seu líder mais

prestigioso. Além disso, não só o Luteranismo havia fracassado em ganhar a Igreja, mas também os reformadores suíços, as cidades do sul da Alemanha e os anabatistas haviam criado sua própria versão da Reforma, enquanto os próprios luteranos se desintegravam por causa das divergências. Ainda assim, na metade do século o Luteranismo havia se tornado a principal fé na Escandinávia. Tendo em vista que esses povos deviam muito de seu legado cultural ao norte da Alemanha, não é de se surpreender que um movimento religioso alemão tivesse sido bem recebido por eles.

Protestantismo reformado Apesar de Lutero ter oferecido a faísca que acendeu o fogo da Reforma protestante, naquela época houve outros impulsos em direção às mudanças religiosas. Um deles foi na Suíça, que era então um conjunto flexível de cidades e pequenos estados chamados de “cantões”. Um dos primeiros suíços protestantes, Ulrico Zuínglio (1484-1531), estudou com alguns humanistas em Viena antes de tornar-se sacerdote em Zurique. Lá ele rejeitou os aspectos mais aristocráticos do Humanismo e começou a criticar os abusos em sua própria Igreja. Porém, nunca abandonou completamente sua antiga instrução e as mudanças que ele trouxe para a Igreja misturavam a devoção prática de Erasmo com o biblicismo de Lutero. Ele também estava mais disposto a deixar a tradição e agir política e militarmente a fim de defender a sua versão do Cristianismo.

Assim, Zuínglio combinou Humanismo, Teologia e radicalismo.

A ocasião para a sua ruptura com Roma apresentou-se quando ele

começou a defender que se comesse carne durante a Quaresma. Ao fazê- lo, levantou uma série de questões sobre as regras e práticas da Igreja e o concílio da cidade de Zurique convocou um debate formal para resolver a controvérsia. Realizado em 1523, o debate entre Zuínglio e os católicos

resultou numa vitória de Zuínglio. Uma segunda controvérsia naquele mesmo ano levou à destruição de imagens nas igrejas e ao fim da reza de missas. Apesar de ter sido inspirado por Lutero, conforme foi mencionado anteriormente, ele seguiu um caminho diferente do reformador alemão no tocante ao significado da Santa Ceia. Zuínglio não apenas exerceu influência na Suíça como também comandou um grupo de seguidores do sudoeste da Alemanha. Mas ele saiu repentinamente de cena quando em 1531 foi morto durante uma batalha entre os católicos e protestantes na Suíça. Apesar de seus sucessores terem sido pessoas competentes como Heinrich Bullinger em Zurique, John Oecolampadius e Oswald Myconius na Basiléia e Martin Bucer em Estrasburgo, a liderança da Reforma na Suíça e no sul da Alemanha foi passada para outro em Genebra: João Calvino.

A mais poderosa força da segunda geração de reformadores,

Calvino (1509-1564) não era de origem suíça, mas sim francesa. Filho de um tabelião em Noyon, na Picardia, ele começou a estudar Direito por insistência de seu pai. Mas então o pai faleceu e o jovem estava livre para

dedicar-se ao seu primeiro amor, a saber, os estudos literários humanistas. Ele chegou até a escrever um comentário da obra Sobre a Clemência do filósofo estóico Sêneca. A argumentação do livro em favor da existência de uma providência sobrenatural e onipotente havia impressionado profundamente o jovem estudioso. Por identificar-se com a causa da Reforma religiosa, a carreira de Calvino como acadêmico da Renascença não durou muito. Idéias luteranas haviam se espalhado entre os estudantes universitários franceses e, em 1553, desenvolveu-se uma importante controvérsia entre conservadores e reformadores. Depois de um período de indecisão, o rei Francisco I apoiou os conservadores pois ele temia que os protestantes fossem uma ameaça à segurança nacional. Como Calvino havia aderido ao novo movimento religioso, teve que deixar a França para morar na Basiléia. Nessa época ele já havia se convertido a Cristo, mas sua experiência parecia um tanto prosaica se comparada com a de Lutero. Não houve nenhum drama ou grande trauma emocional como o que acompanhou a mudança de rumo do reformador alemão. Calvino simplesmente desenvolveu uma convicção absoluta da onipotência de Deus e de que ele havia sido escolhido para fazer o reino de Deus crescer na terra. Porém, uma coisa estava clara. Mesmo depois de sua conversão, a combinação de educação legal e humanista que ele havia recebido seriam determinantes para a expressão escrita e para a metodologia de seu estudo da Bíblia.

Calvino foi profundamente influenciado por Lutero e concordava com grande parte de sua teologia. Suas diferenças surgiam da forma como Calvino se apoiava mais no Antigo Testamento e de sua crença na dupla predestinação. Seguindo os passos de Agostinho de Hipona, ele enfatizava a majestade de Deus e o completo desamparo da humanidade perante o Senhor. Numa tentativa de responder à pergunta feita por todo o cristão que já tentou compartilhar o evangelho com outros a saber, por que alguns crêem na Palavra e outros a rejeitam Calvino ensinava que Deus oferece o dom da fé para alguns e o nega para outros. De acordo com Efésios 1.4, essas decisões foram tomadas antes da fundação do mundo e não podem ser mudadas. Apesar de ser verdade que Cristo morreu por todos, ele intercede junto ao Pai apenas por aqueles que foram eleitos para a salvação. Para os que compartilhavam de tal segurança, a predestinação criava um senso de propósito missionário e um desejo de enfrentar qualquer poder do mundo que se opusesse aos planos dos eleitos de Deus. Com efeito, essa crença incentivou os povos da Holanda a rebelarem-se contra seu governante espanhol e levou a importantes transformações de religião e governo em vários outros países. Calvino apresentou sua teologia naquela que viria a ser a declaração clássica do pensamento protestante, as Institutas da Religião Cristã, 1 sendo que a primeira edição foi publicada em 1536. Ela revelava

1 Ou, A Instituição da Religião Cristã, obra publicada em português pela Editora Cultura Cristã (N. do E.).

que o Protestantismo tinha um novo líder que possuía um domínio impressionante das Escrituras e dos Patriarcas da Igreja. Ao longo dos anos, de tempos em tempos ele revisou e expandiu sua obra mas a estrutura básica não foi alterada. A obra oferecia uma firme declaração de fé à qual seus seguidores podiam voltar-se em sua luta contra os católicos. Durante uma breve anistia, Calvino voltou para a França mas foi logo forçado a fugir mais uma vez. Com a intenção de ir para Estrasburgo, onde os protestantes eram bem-vindos, ele parou rapidamente em Genebra em 1536. Guilherme Farel, um sacerdote local, reconheceu-o em um dos cultos e desafiou-o a ficar lá e ajudá-lo na reforma religiosa daquela cidade. Com exceção de uma estadia de três anos em Estrasburgo (1538-41), Calvino passou o resto de sua vida em Genebra onde realizou um amplo programa de reforma e consolidou uma comunidade protestante exemplar. A igreja de Genebra serviu de modelo para os calvinistas, que já possuíam centros na França, oeste da Alemanha, Países Baixos, Escócia, Inglaterra, Polônia e Hungria. O tipo de Protestantismo de Calvino era conhecido como “reformado”. Diferia do sistema luterano no sentido de que a Igreja era uma instituição paralela ao Estado e não subordinada a ele. A Igreja era uma organização independente que mantinha sua vida própria e usava sua posição para corrigir o Estado quando necessário. Calvino rejeitava o ofício de bispo (que foi mantido em várias formas de Luteranismo) e o

substituiu por um governo formado de um conjunto de assembléias cuidadosamente estruturadas (mais tarde chamadas de classes ou presbitérios) que incluía tanto ministros quanto leigos. As igrejas reformadas davam grande ênfase à disciplina eclesiástica pois reconheciam que a Igreja incluía a sociedade como um todo, os eleitos bem como os condenados. À medida em que refugiados protestantes foram reunindo-se em Genebra, Calvino começou a dar palestras para instruir esses indivíduos sobre a fé reformada. Essas aulas informais levaram à fundação da Universidade de Genebra, que tornou-se o centro intelectual do Protestantismo. Os pastores que ali recebiam treinamento eram enviados de volta para seus lugares de origem a fim de pregar o evangelho. Como disse Calvino: “Enviem madeira para mim e eu mandarei flechas de volta”. Um dos primeiros destinos dos missionários calvinistas foi a França e, em 1555, congregações de huguenotes, como eram chamados os reformadores franceses, já estavam presentes por toda a parte. Naquele mesmo ano eles encontraram-se em Paris para fundar uma organização nacional e fazer o esboço de uma confissão de fé. Em 1562 muitos nobres havia se tornado huguenotes, dando à fé uma característica aristocrática e subversiva, conforme as Guerras Religiosas logo demonstraram. Na Holanda o Calvinismo foi introduzido por missionários da França e de Genebra. A Confissão Belga foi adotada em 1566 e a

aceitação da fé reformada levou a uma longa guerra contra os espanhóis

pela independência. A Escócia foi ganha para o Calvinismo em grande

parte pelos esforços de John Knox (cerca de 1514-72). Treinado em Genebra pelo próprio Calvino, o “escocês trovejante” liderou uma incansável e, finalmente, vitoriosa cruzada contra os nobres católicos e o governo de Mary, Rainha dos Escoceses. Ele conseguiu alcançar um alto

grau de conversão à fé reformada em todo o reino. O Calvinismo também

influenciou profundamente a teologia da Igreja da Inglaterra e serviu de

base para o pensamento puritano.

A Reforma inglesa Em muitas aspectos, a Reforma inglesa foi um movimento independente, resultante da iniciativa do rei, apesar de que, durante a década de 1520, diversos estudiosos das Universidades de Oxford e Cambridge demonstraram grande interesse nas idéias de reforma de Lutero. Um dos mais importantes elos intelectuais entre a Inglaterra e os luteranos da Alemanha foi William Tyndale. Sua importância se deve aos muitos panfletos que escreveu e à sua brilhante tradução do Novo Testamento. Além disso, alguns remanescentes dos seguidores de Wycliffe tinham sobrevivido e continuavam a espalhar seus ensinamentos contra o papa. Porém, a Reforma na Inglaterra não foi, em

seus primeiros estágios, anticatólica, mas resultou do desejo de Henrique

rompimento com Roma, a seu próprio ver, ele era católico. Mas depois de 1534 não havia lugar para um papa em sua versão da fé cristã. Henrique desejava o divórcio de sua esposa, Catarina de Aragão, tendo em vista que depois de dezoito anos de casamento sua única criança era uma menina, Mary. Nenhuma mulher havia se assentado no trono da Inglaterra há séculos e tendo em mente as memórias de brutais guerras civis do século anterior, Henrique sentia que era essencial ter um governante masculino. Além de querer determinar uma sucessão ordeira, sua afeição por Catarina havia se transformado em aversão, tendo em vista que ele estava apaixonado por Ana Bolena, uma jovem dama de companhia da rainha. Talvez para racionalizar os seus atos, ele tinha passado a acreditar que seu casamento era errado. Catarina era viúva de seu irmão mais velho e eles haviam se casado por motivos diplomáticos. A Lei Eclesiástica, baseada em textos das Escrituras como Levítico 20.21, proibia esse tipo de união, mas o papa havia concedido permissão especial para o casamento. Em 1527 Henrique pediu ao papado uma anulação, mas pelo fato de Catarina ser tia de Carlos V, cujas tropas ocupavam Roma naquele tempo, nenhuma atitude foi tomada. Uma pessoa impaciente e determinada, Henrique decidiu que já havia esperado o suficiente. Crente de que a Inglaterra havia sido sempre um lugar onde o rei não tinha superiores a não ser o próprio Deus, ele considerou desnecessária a aprovação do papa para seu divórcio tendo em vista que ela podia ser

concedida pela igreja inglesa. Assim, em 1533, Thomas Crammer, arcebispo de Canterbury, anulou o casamento e validou a união secreta já existente com Ana Bolena. O papa reagiu declarando a excomunhão de Henrique. Por isso, os católicos também consideraram ilegítima a filha de Henrique e Ana Elizabeth. Em 1534, a adoção da Lei de Supremacia, que tornava o rei e não o papa — “o único líder supremo no mundo da Igreja da Inglaterra”, mostrou o rompimento definitivo com Roma. Apesar da maioria dos ingleses ter aceito a divisão sem protestos, alguns como Sir Thomas More, o brilhante humanista e autor de Utopia, recusaram-se a renunciar a lealdade a Roma e conseqüentemente foram decapitados por traição. Muitas das mudanças que se seguiram na Igreja tinha a aprovação das classes mais influentes, especialmente a dissolução dos mosteiros. Depois que um relatório os acusou de corrupção, em 1536 e 1537 eles foram fechados e suas propriedades confiscadas, dando assim ao governo uma fonte adicional de renda e eliminando possíveis núcleos de oposição católica. Muitas propriedades monásticas foram doadas ou vendidas por valores irrisórios para as classes mais altas fazendo delas, desse modo, simpatizantes do rompimento com Roma. Mesmo tendo o rei se tornado líder da Igreja da Inglaterra, suas doutrinas e práticas em grande parte continuaram as mesmas. Apesar de algumas inovações, como a existência de uma Bíblia em inglês em cada paróquia para ser usada pelos leigos, Henrique reafirmou a crença e as

práticas católicas na Lei dos Seis Artigos (1539). Essa lei aprovada pelo Parlamento a pedido do rei, confirmava a transubstanciação, o celibato do clero, as missas particulares e as confissões. Henrique continuou sua busca por um herdeiro e finalmente sua terceira esposa deu-lhe um filho, Eduardo VI, que o sucedeu no trono em 1547, com 10 anos de idade. Um garoto sempre doente, Eduardo governou através de conselheiros que eram predominantemente protestantes. O novo regime cancelou a Lei dos Seis Artigos, tornou o inglês a língua oficial dos cultos e permitiu o casamento do clero. Para substituir a liturgia católica, Cranmer produziu o Book of Common Prayer [Livro Comum de Orações]. Ele era escrito num inglês belo e imponente e, numa segunda edição, expressava claramente a doutrina protestante. No breve reinado de Eduardo, a Inglaterra mudou do Catolicismo para o Protestantismo reformado. Essa tendência, porém, foi revertida depois que Eduardo faleceu em 1553 e sua sucessora, Lady Jane Grey, foi executada. Mary Tudor subiu ao trono. Como filha de Catarina de Aragão, sua grande ambição era levar a Inglaterra de volta para a Igreja Católica. Ela forçou a aprovação de leis no Parlamento que revertiam as mudanças feitas por seu pai e seu irmão e, teoricamente, a Inglaterra voltou a ser católica. Na verdade, porém, a situação havia mudado de maneira tão drástica que Mary não conseguiu fazer voltar o relógio. Um dos grandes obstáculos era a falta de fundos para projetos como a reabertura dos mosteiros. Até mesmo a

rainha sabia que essas terras não podiam ser tomadas de seus proprietários influentes. Ela também perdeu o apoio dado aos monarcas Tudor quando casou-se com Filipe II da Espanha, o qual os ingleses repugnavam. Outro de seus erros foi perseguir os protestantes. Mais de trezentas pessoas, incluindo o arcebispo Cranmer, foram queimadas nas fogueiras. Essas execuções conferiram a ela o apelido de “Mary a Sanguinária”, como indicação do desprezo que seus súditos lhe votavam. Os protestantes que fugiram para o continente, os chamados exilados marianos como John Foxe, autor do Book of Martyrs [Livro dos Mártires] certificaram-se de que o povo jamais esquecesse daqueles que haviam perecido por causa de sua fé. Mary morreu em 1558, amarga e desanimada, sabendo que sua meia-irmã Elizabeth seria sua sucessora ao trono. Quer Elizabeth desejasse ser protestante ou não, as circunstâncias a forçaram a tomar uma posição reformada. Apesar dos católicos considerarem-na ilegítima e, portanto, sem direito de ser rainha da Inglaterra, ela permitiu uma pequena diversidade religiosa para o bem da unidade nacional. Quando os exilados marianos voltaram para casa e ajudaram a restaurar o Protestantismo, o rompimento com Roma foi renovado e o livro de orações de Cranmer voltou a ser usado. Porém, o acordo religioso de 1559 foi cuidadosamente ponderado de modo que aqueles de preferência católica não fossem deixados de fora

desnecessariamente. Elizabeth foi declarada “Suprema Governadora da Igreja” ao invés de “Suprema Líder” para evitar ofender aqueles que achavam que uma mulher não podia ser líder da igreja ou acreditavam que seu líder era o papa ou Cristo. Quanto ao ministério, os cargos tradicionais católicos de bispos, sacerdotes e diáconos foram mantidos. Em 1571 o Parlamento aprovou uma declaração de fé essencialmente protestante, os Trinta e Nove Artigos. Uma obra-prima de ambigüidade calculada, trata-se de um sumário das crenças anglicanas que continua sendo oficial até hoje. Em resumo, a Igreja da Reforma inglesa foi um tanto anômala devido à sua união da doutrina reformada com uma estrutura católica medieval não-reformada.

A Reforma radical Alguns entusiastas do movimento evangélico, pessoas que a princípio aprovavam as idéias de Lutero e Zuínglio, desejavam mudanças mais radicais do que aquelas que os principais reformadores haviam considerado sábias ou até mesmo possíveis. Eles eram normalmente chamados de anabatistas por causa de suas idéias sobre o batismo, mas na verdade faltava coesão aos grupos e eles constituíam uma porção de seitas pequenas e divergentes. Porém, pode-se fazer algumas generalizações úteis a seu respeito. Os anabatistas ensinavam que a Igreja “visível” deveria incluir somente aqueles que haviam experimentado a regeneração através da fé em Jesus Cristo e testemunhado publicamente

sua fé através do “batismo do crente”. Tendo em vista que é preciso compreender a mensagem cristã a fim crer, só eram batizados aqueles com idade suficiente para ter consciência do que estavam fazendo. Como eles já haviam sido batizados quando criança, os críticos os chamavam de anabatistas, pessoas que praticavam o re-batismo. Mas do ponto de vista desses crentes, o batismo infantil não tinha valor. Os anabatistas também eram pessoas profundamente morais e éticas que, em grande parte, insistiam na primazia das Escrituras e na separação entre a Igreja e o Estado. Além disso, repudiavam o conflito armado, a pena capital e prática de juramentos. A maioria dos cristãos dessa época ainda considerava o batismo das crianças como um sacramento muito importante e o rito de iniciação na Igreja que incluía todos dentro dos limites do Estado. Além disso, mesmo que alguns de seus líderes fossem extremamente cultos, a maioria dos anabatistas pertencia às classes mais baixas. Em decorrência disso, eram vistos como radicais anti-sociais e perseguidos tanto pelos luteranos e reformados como pelos católicos. Apesar do castigo cruel ao qual eram submetidos, eles continuaram a confessar sua fé pois acreditavam que os verdadeiros cristãos devem esperar ser maltratados pelas autoridades seculares. Os anabatistas apareceram pela primeira vez em 1523 entre os seguidores de Zuínglio em Zurique. Dois de seus líderes eram Conrad Grebel e Felix Manz cujo sucesso em ganhar convertidos exasperava os

líderes das cidades. Manz foi executado por afogamento (um cínico “re- bastismo”) e Grebel, juntamente com seus seguidores, foi exilado. Aqueles que ficaram na Suíça tornaram-se clandestinos, permitindo que o movimento sobrevivesse até o século seguinte, enquanto os refugiados espalhavam o anabatismo para o sul da Alemanha e Morávia. Estrasburgo foi o centro do movimento de 1527 a 1533 quando Martin Brucer, o líder da igreja protestante daquela cidade ficou apreensivo com os separatistas e ordenou que fossem expulsos. Um dos que trabalhavam lá era Melchior Hoffmann (1500-43), que afirmava ser uma das duas testemunhas de Apocalipse 11.3 e conclamava os anabatistas a deixar o pacifismo e estabelecer o reino de Cristo à força. Apesar de ele ter sido preso, um de seus discípulos Jan Matthys liderou um grupo até Münster, na Westphalia, onde sua pregação fez tanto sucesso que eles ganharam o controle da cidade inteira e forçaram o rebatismo dos moradores. Afirmando ser Enoque, enviado a fim de preparar o caminho para Cristo, Matthys fundou uma ordem comunitária e introduziu um novo código de leis. Depois de sua morte em combate em 1534, John de Leiden proclamou-se Rei de Sião, introduziu a poligamia e matou ou expulsou aqueles que não se submeteram a ele. Isso perturbou tanto os luteranos e também os católicos que eles uniram forças para sitiar a cidade. Apesar de uma defesa heróica, ela foi capturada em 1535 e a maioria dos habitantes de sexo masculino foi executada com uma crueldade reservada aos revolucionários sociais. Os

corpos dos líderes chegaram a ser colocados em jaulas de ferro e penduradas na torre da igreja. Esse episódio não só deu ao movimento má fama como também ofereceu uma desculpa para outras perseguições. Porém, o remanescente espalhado e desprezado renunciou a todas as formas de violência e passou a viver de modo simples, tranqüilo e humilde. Seu mais importante novo líder foi um sacerdote holandês, Menno Simons. Convertido em 1536, ele juntou os anabatistas desanimados que viviam nos Países Baixos e norte da Alemanha. Enfatizando o pacifismo e a demonstração de uma vida de fé através das boas obras, ele organizou seus seguidores em comunidades cristãs que eram separadas das instituições sociais e políticas seculares. Para ele, o foco da vida cristã era a Igreja e não o Estado; os cristãos deveriam estar no mundo, mas não ser do mundo. Eles ficaram conhecidos como menonitas e prosperaram apesar de seu sofrimento. Numa certa ocasião, constituíam dez por cento da população da Holanda. Então, migraram para a Europa oriental e mais tarde para a Rússia e o Novo Mundo. Outro núcleo de anabatistas foi a Morávia onde Balthasar Hubmaier e Jacob Hutter representavam as duas alas do movimento. Hubmaier, o mais importante intelectual entre os anabatistas, havia sido aluno de John Eck e professor na Universidade de Ingolstadt antes de sua conversão em 1525. Depois de deixar o sacerdócio ele assentou-se na Morávia. Lá ele converteu e batizou dois importantes nobres que, em troca, permitiram que ele pregasse em seus territórios. Ele ganhou centenas de convertidos

para Cristo e escreveu vários panfletos que mostravam de modo competente a posição dos anabatistas. Entre os que se juntaram a ele

estava Hans Hut, um defensor dos bens comunitários e do pacifismo. Pelo fato dos seguidores de Hubmaier não aceitarem o pacifismo de Hut

e sua rejeição da sociedade contemporânea, ocorreu uma cisão entre os

anabatistas morávios. Enquanto isso, os Habsburgos católicos assumiram

o controle da Morávia e eliminaram tudo o que consideravam heresia.

Com a execução tanto de Hubmaier quanto de Hut, parecia que o movimento estava acabado. Porém, Jacob Hutter, que ofereceu liderança durante os anos cruciais de 1533-36, salvou o assentamento morávio da destruição. Ele organizou os irmãos em congregações unidas, com a posse comum de bens baseada na prática da Igreja apostólica conforme registrado em Atos 5. Os hutteritas, como eram chamados, tornaram-se uma comunidade viável, socialmente coesa e ativa. Apesar do próprio Hutter ter sido martirizado e do movimento ter passado por tempos difíceis, ele continua sendo um dos sobreviventes dos anabatistas de mais sucesso. Da Morávia os hutteritas dirigiram-se para a Europa oriental e acabaram indo para a América do Norte, mantendo sempre suas instituições comunitárias. Dois outros grupos da Reforma radical dignos de menção foram os espiritualistas e os evangélicos racionalistas. Os primeiros rejeitavam as formas externas de religião e enfatizavam a comunhão interior com o Espírito Santo. Seu líder, o nobre silesiano Caspar Schwenkenfeld (1490-

1561) ensinava que os crentes autênticos deviam sair da Igreja e formar grupos de oração dos verdadeiramente regenerados. Ele pedia aos seus seguidores que se tornassem ávidos estudiosos da Bíblia apesar de não insistir que fossem batizados novamente. Um vestígio dos Schwenkenfelders ainda existe na Pensilvânia.

O segundo grupo, dos evangélicos racionalistas, rejeitava as

doutrinas tradicionais da Trindade e da Divindade de Cristo. Um adepto de destaque foi Miguel Servetus que foi executado por heresia em Genebra. Na Polônia e Europa oriental a teologia racionalista foi institucionalizada pela influência de Faustus Socinus (1539-1604). Os socianos organizaram suas igrejas dentro das linhas calvinistas, mas deram menos ênfase à disciplina eclesiástica. Perseguições lideradas pelos jesuítas levaram à sua expulsão da Polônia em 1658 mas um remanescente sobreviveu na Transilvânia sob o domínio turco. O unitarismo moderno está intelectualmente ligado aos socianos.

A Reforma católica

Na década de 1540 o Catolicismo romano parecia ser uma fé em extinção. Os protestantes haviam convertido a maior parte da Alemanha e aparentemente, governantes de outras partes da Europa estavam seguindo o exemplo de Henrique VIII e fundando igrejas nacionais. Mas, por causa da Reforma católica (também conhecida como Contra- Reforma), isso não aconteceu.

Ao invés disso, a renovação liderada por um papado regenerado que enfatizava a liderança espiritual e diversas novas ordens religiosas permitiram a Roma responder à altura ao desafio protestante. No redemoinho revolucionário causado por Lutero é fácil esquecer que o sucesso protestante nunca foi mais do que parcial. Apesar de ter ficado profundamente abalado, o papado era de uma resistência

surpreendente. Por ironia, o papa saiu dessa luta com mais controle sobre

o território que havia lhe restado do que seus predecessores haviam tido

sobre toda a igreja ocidental. A Reforma dividiu a Igreja mas forçou Roma a organizar-se para a guerra, o que significou dar mais poder para

seus líderes. Entre as ordens religiosas que trabalharam na reforma estavam os barnabitas, capuchinhos, teatinos, carmelitas (sendo seus principais destaques Teresa d’Ávila e João da Cruz, figuras excepcionais do

misticismo) e, acima de tudo, os jesuítas. Inácio de Loyola (1491-1556),

o fundador dos jesuítas (Sociedade de Jesus) que era do país basco no

noroeste da Espanha, entrou para o serviço militar do rei espanhol. Em

1521, enquanto lutava numa guerra contra a França, Loyola foi gravemente ferido na perna por uma bala de canhão. Durante sua recuperação, ele leu um livro de devocionais que mudou sua vida e o inspirou a tornar-se um soldado de Cristo. Ele entrou para um mosteiro onde passou quase um ano realizando práticas ascéticas, tendo visões místicas e compondo a essência de seu grande manual sobre a guerra

espiritual, Os Exercícios Espirituais. Depois de uma peregrinação em Jerusalém e de estudos na Espanha, em 1528 ele entrou para a Universidade de Paris onde atraiu diversos companheiros que estudaram os Exercícios e se empolgaram com seus ideais. Depois de completar seus estudos, Loyola e seis colegas fizeram votos de viver em pobreza, castidade e servindo na Terra Santa ou, se isso não fosse possível, ir a qualquer lugar aonde o papa os enviasse. Como uma guerra no Oriente os impediu de ir para Jerusalém, eles fizeram uma petição ao papa Paulo III que em 1540 aprovou seu pedido de tornar-se uma ordem da Igreja. Em 1548, eles escolheram Loyola como “general” da Sociedade de Jesus. Ele deu ao grupo uma “Constituição” que criava uma estrutura paramilitar tendo como principais idéias a obediência, disciplina e eficiência. Ao contrário de outras ordens religiosas, os jesuítas faziam um quarto voto que era de obediência incondicional ao papa e trabalhavam inseridos no mundo ao invés de retraírem-se na clausura. Colocavam muita ênfase na educação e no trabalho missionário como formas de fortalecer e propagar a fé católica. A Igreja também esclareceu e redefiniu seus ensinamentos. O processo foi complicado por divisões doutrinárias medievais, especialmente pelo conflito entre nominalistas e realistas. Os nominalistas, exemplificados por Guilherme de Ockham, tinham idéias muito semelhantes às de Lutero, enquanto os realistas, como Tomás de Aquino, seguiam uma teologia que oferecia prova lógica e baseava-se no

método e pensamento aristotélico. O esclarecimento doutrinário ocorreu no Concílio de Trento, que se reuniu periodicamente entre 1545 e 1563. Composto principalmente de bispos e abades italianos que tendiam a seguir a liderança do papa, ele foi presidido por dois representantes papais e totalmente influenciado pelos jesuítas. As Reformas Tridentinas (do nome latino de Trento) podem ser agrupadas em duas categorias, disciplinares e dogmáticas. As questões disciplinares incluíam luxúria, simonia, nepotismo e outros abusos clericais. Mais importantes, porém, foram as reformas dogmáticas. Eles seguiram as linhas traçadas por Tomás de Aquino que foi, com efeito, transformado em teólogo oficial da Igreja. Cada cânone doutrinário declarava o ponto de vista protestante e depois a refutação católica, que muitas vezes, pelo menos superficialmente, procurava agradar a ambas as partes. A autoridade deveria basear-se nas Escrituras e tradições, sendo a Vulgata incluindo os livros apócrifos do Antigo Testamento reconhecida como Bíblia oficial da Igreja. Traduções na linguagem popular só podiam ser usadas com a aprovação do papa. A salvação combinava as obras de Deus e do homem e incluía tanto a predestinação quanto o exercício do livre arbítrio. A justificação não era só pela fé mas também pelas boas obras. A prática das indulgências continuaria, mas com reformas para evitar abusos. O sistema de sete sacramentos também seria mantido. A aplicação dos decretos conciliares ficava nas mãos do Vaticano. Isso significava que a resistência da realeza ou de autoridades

locais iria impedir sua implantação em algumas áreas. A fim de disseminar o que havia sido decretado em Trento, todos os bispos foram orientados a fundar uma escola e um seminário em sua diocese. Os jesuítas mais que depressa tomaram a iniciativa de desenvolver esse sistema educacional e até hoje continuam sendo os principais educadores católicos. Uma ilustração da nova política foi o trabalho realizado na Suíça por Charles Borromeo (1538-84), arcebispo de Milão. Ele enviou dois representantes papais para aquela região, sendo que eles voltaram com relatos desanimadores sobre as condições da Igreja Católica lá. Eles acusaram o clero de ser preguiçoso, imoral e ignorante e afirmaram que os protestantes estavam lucrando com essas condições miseráveis. Borromeo prosseguiu fundando a Faculdade Helvética de Milão para treinar sacerdotes que iriam trabalhar nos cantões suíços. Criou então faculdades na própria Suíça, sendo que uma delas ainda existe em Lucerna. Em 1600 os esforços de Borromeo já haviam estacionado os avanços da Reforma no país dos Alpes. Como a imprensa havia espalhado o Protestantismo com tanta eficácia por toda a Europa, o papa Paulo IV decidiu estabelecer em 1559 um “Índice de Livros Proibidos”. O Concílio de Trento ratificou essa medida e ela tornou-se a famosa lista negra de obras cujas filosofias e doutrinas eram consideradas contrárias aos ensinamentos da Igreja romana. O Índice acabou incluindo de tudo, desde os escritos de Karl Marx e Martinho Lutero até romances de Albert Camus e só saiu de

circulação em 1966. O Vaticano também fundou sua própria imprensa que mais tarde teve um papel crucial na propagação da fé católica. Na Idade Média, a repressão dos desvios doutrinários era tratada pelo Santo Ofício da Inquisição romana. Em 1480 esse órgão foi reativado na Espanha para lutar contra a heresia. Fernando e Isabel patrocinaram a instituição que tinha como objetivo reagir às influências de judeus e mouros, tornando-a um fator chave na conversão e expulsão desses povos desafortunados. Durante a Reforma, a Inquisição espanhola concentrou-se nos erasmianos e até em místicos como Teresa d’Ávila. Em 1542 o Santo Ofício foi reativado nos Estados Papais por Paulo III e uma das vítimas do século seguinte foi Galileu. A Inquisição era uma corte eclesiástica que conduzia julgamentos de heresia sob a liderança de um Grão-Inquisidor. Na Espanha, essa pessoa era nomeada pelo rei e aprovada pelo papa. Ela, por sua vez, escolhia um supremo concílio de cinco homens que eram confirmados pelo rei. Havia também dezenove cortes locais em cada província. A Inquisição foi conduzida pelos ortodoxos e estudiosos dominicanos. As provas eram oferecidas por leigos devotos que recebiam recompensas por denunciar a heresia. Cada pessoa acusada tinha um mês para preparar sua defesa e alguém só podia ser mandado para a prisão pelo voto unânime dos inquisidores. O julgamento era conduzido em segredo e o acusado não ficava frente a frente com os acusadores, apesar de haver algumas

exceções ocasionais. A tortura era usada para extrair as confissões. Se o acusado se arrependesse logo no começo do processo, podia ser libertado e teria que fazer penitência pública. Se fosse declarado culpado ou tivesse voltado a praticar heresia, ele era entregue ao Estado para ser punido, normalmente pelo fogo. Na Espanha as execuções públicas aconteciam durante um grande espetáculo chamado auto-da-fé (ato de fé), ao qual o rei comparecia com freqüência. Por vezes, muitos acusados de heresia eram queimados ao mesmo tempo. A Inquisição mostrou-se um baluarte eficaz contra a expressão de opiniões divergentes. As muitas mudanças do século 16 tornaram a Igreja Católica Romana uma instituição mais disciplinada e governada com mais restrição. Além disso, apesar do Protestantismo ter trazido esperanças e um espírito de alegria a muitos, ele deixou outros sem instrumentos da graça como as peregrinações e a realização de pequenos atos concretos que são tão mais fáceis do que passar pelos conflitos interiores que trazem a nova vida em Cristo. A reação inicial de Roma tinha sido simplesmente de condenar os ensinamentos protestantes, mas uma vez que ficou claro o fracasso dessa abordagem, a antiga fé renovou-se internamente e começou sua própria reforma. Se suas ações foram uma “Contra-Reforma” ou uma “Reforma católica” é uma questão que fica aberta para discussão. Se a Igreja tivesse se contentado com uma simples rejeição dos ensinamentos “heréticos” dos reformadores, então tratar-se- ia apenas de uma Contra-Reforma. Porém, as decisões do Concílio de

Trento, a renovação da vida religiosa e o desenvolvimento de um melhor sistema de treinamento do clero apontaram para uma reação mais positiva ao Protestantismo e uma renovação do compromisso com a mensagem cristã. Nesse sentido, foi de fato uma Reforma que mudou a essência do Catolicismo e o transformou em uma instituição moderna. Ele estava pronto, então, para lutar contra as forças protestantes nas guerras religiosas.

Capítulo 11 - Conflitos religiosos assolam a Europa Os séculos 16 e 17 foram um período marcado por um redemoinho teológico intenso. Enquanto as lutas pelo poder e a rivalidade entre dinastias eram constantes na política européia, a adição do ódio religioso tornou os conflitos ainda mais terríveis e dolorosos. Em muitas guerras, católicos lutaram contra protestantes, protestantes contra protestantes e, por vezes, católicos contra católicos. Com freqüência, as lutas transformavam-se em guerras civis enquanto europeus combatiam uns aos outros acreditando ser “santos armados” chamados para eliminar aqueles que denominavam indiscriminadamente de “Anticristo”. Por causa do papel crucial que as questões religiosas tinham nesse extraordinário círculo de violência, os historiadores costumavam juntar todos os conflitos sob o nome não muito preciso de “guerras religiosas”.

Reações às guerras religiosas

Muitos dos monarcas da Europa cansaram-se das lutas incessantes e tentaram vários métodos para dar um basta a esses conflitos. Para isso dispunham de quatro opções separar, entrar em acordo, reprimir ou tolerar. Duas ilustrações da primeira dessas táticas foram as tentativas de pôr um fim nos conflitos entre luteranos e católicos no Sacro Império

Romano e na luta e entre huguenotes (protestantes) e católicos na França. A guerra havia chegado ao império em 1546 e, a princípio, Carlos

V e as forças imperiais católicas pareciam estar vencendo, mas quando os

protestantes conseguiram reagrupar-se, nenhum dos lados tinha como alcançar uma vitória decisiva. Os resultados foram a conclusão da Paz (religiosa) de Augsburg em 1555 e um ano depois, a aposentadoria de Carlos e a divisão do vasto reino entre seu filho Filipe e seu irmão Fernando. O acordo de Augsburg determinava que o governante de cada Estado territorial do império determinaria a fé de seus súditos luterana ou católica. Aqueles que discordassem da escolha do príncipe para seus territórios tinham permissão de mudar para territórios vizinhos onde sua

fé era reconhecida. O Calvinismo, porém, foi excluído como opção e os

senhores eclesiásticos (bispos e abades) que voltaram-se para o Protestantismo não podiam converter seus territórios em Estados seculares. Assim, as divisas de Estados serviam de fronteiras entre fés rivais o princípio da separação. Na França, uma forma semelhante de conflito surgiu em 1562.

Calvino vinha mandando pastores para lá há alguns anos e em 1562 pelo menos dez por cento da população tinha adotado o estilo reformado da fé protestante. Esse crescimento rápido juntamente com a conversão de muitos nobres importantes, assustou os católicos. Quando Henrique II faleceu em 1559, deixou a monarquia em ruínas. Três dos seus filhos ocuparam sucessivamente o trono durante os trinta anos seguintes e sob seu governo o prestígio da monarquia caiu ainda mais. A princípio a rainha-mãe, Catarina de Médici, conseguiu manter a paz entre católicos e huguenotes e até organizou uma reunião de representantes de ambas as fés a fim de criar um acordo (Colóquio de Poissy, 1562). Porém os diálogos não deram em nada e foram seguidos de hostilidades. A religião era apenas um dos fatores do conflito. Muitos nobres e habitantes das cidades estavam tentando livrar-se do controle real. Como em toda guerra civil, as lutas foram marcadas por grande crueldade. Cidades inteiras foram arrasadas, os assassinatos eram freqüentes e o número de refugiados, enorme. O poder real decaiu à medida em que as províncias passaram a ser controladas pelos grandes nobres. Um dos acontecimentos mais trágicos foi o massacre do Dia de São Bartolomeu (agosto de 1572). Ele aconteceu por ocasião do casamento de Henrique de Navarro (que também pertencia à família Bourbon, rival da dinastia Valois) com Margarete de Valois, irmã do então rei, Carlos IX. Esse relacionamento abria a possibilidade de que um protestante pudesse acabar tornando-se rei da França. Catarina, determinada a

impedir que isso acontecesse, tramou com a facção católica a matança dos protestantes que haviam se juntado para a celebração em Paris. Quando os nobres estavam reunidos, os católicos receberam um sinal combinado (o bater dos sinos da igreja) e começaram a matar todos os protestantes que encontravam. Multidões de parisienses não tardaram a entrar na luta e o massacre espalhou-se até para as províncias. Estimativas do número de mortos ficaram na casa das dezenas de milhares e, de acordo com as palavras de um observador da época: “As ruas ficaram cobertas com os corpos dos mortos, o rio foi tingido e portas e portões manchados de sangue. Carroças cheias de corpos de homens, mulheres, meninas e até mesmo bebês descarregavam no rio Sena enquanto riachos de sangue corriam pelos bairros”. 1

1572

1643-47

Massacre

Assembléia de

de São

Westminster

Bartolomeu

1519-1605

1542

1560-1609

1577

1618-19

1633-45

 

Theodoro

A Inquisição

Jacobus Arminius

Fórmula de

Sínodo de Dort

William Laud

Beza

reavivada

Concórdia

1500

1600

1700

 

1527-98

1555

1558-1603

1589

1598

1603-25

1618-48

1648

Filipe II

Paz de

Elizabeth I

Henrique

Édito de

James I

Guerra dos

Paz de

 

Augsburg

de Navarra

Nantes

Trinta

Westphalia

 

torna-se rei

Anos

1625-1649

Carlos I

1653-58

Oliver Cromwell

Isso desencadeou uma nova onda de lutas e os conflitos continuaram intermitentemente durante os dezessete anos seguintes.

Henrique de Navarra lutou com dois rivais católicos mutuamente antagônicos, o rei Henrique III e Henrique duque de Guise, mas então esses dois últimos foram assassinados e em 1589 restava apenas ele como pretendente ao trono. Com o título de Herique IV, o representante dos huguenotes reconheceu que não demoraria para que as guerras civis voltassem, mas ele evitou que isso acontecesse ao abrir mão de seu Protestantismo e tornar-se católico. Diz-se que ele afirmou: “Paris vale o preço de uma Missa”. Assim, a paz finalmente foi restabelecida na França tão cansada de guerras através da iniciativa de Henrique IV. Sua conversão ao Catolicismo garantiu a lealdade da maior parte dos franceses mas assustou os protestantes que se viram isolados e em grande perigo. Para tranqüilizá-los e manter sua lealdade, o rei lançou o Édito de Nantes em 1598. Este concedia direitos civis à minoria huguenote e permitia que tivessem suas próprias unidades militares e fortificassem duzentas cidades a fim de que pudessem sentir-se seguros. Os protestantes podiam cultuar no âmbito particular em todas as regiões da França e determinados lugares de culto público também foram oficialmente designados para eles, incluindo as propriedades de alguns nobres. Mais uma vez aplicava-se o princípio da separação. O segundo método usado para trazer a paz entre grupos religiosos rivais era o acordo, no qual o Estado elaborava um arranjo que satisfizesse o maior número possível de pessoas e todos os outros eram

obrigados a submeter-se a ele. Foi o que aconteceu com a Igreja da Inglaterra (Anglicana) sob o governo da rainha Elizabeth I. Na verdade, o acordo de Elizabeth foi, em parte, produto se sua própria personalidade. Como filha de Henrique VIII e Ana Bolena (que foi morta por suposto adultério e traição), ela cresceu num ambiente de medo e ansiedade. Apesar de muitos historiadores dizerem que ela teria preferido ser católica, Elizabeth não podia reinar sobre a Inglaterra sendo simpatizante de Roma. O seu apoio mais forte vinha dos protestantes e a Igreja Católica a considerava ilegítima pois havia nascido de um casamento não reconhecido. Elizabeth deu seu aval a uma declaração de fé da Igreja Anglicana, os Trinta e Nove Artigos, que era essencialmente protestante. Mas alguns pontos, como o artigo sobre a Santa Ceia, foram escritos de modo intencionalmente vago. A liturgia era semelhante a da Igreja Católica Romana, exceto pelo fato de que era em inglês. O monarca era o “governador supremo” da igreja que, por sua vez, era administrada por um grupo de bispos. Apesar de alguns membros do clero terem rejeitado o acordo, a maior partes das pessoas ficou satisfeita com ele. A oposição ao acordo anglicano veio dos católicos mais devotos liderados pelos jesuítas, enquanto os protestantes extremistas (conhecidos como puritanos) também ficaram descontentes com o arranjo. Como resultado, os dois grupos foram perseguidos por suas crenças dissidentes.

Uma terceira forma de lidar com o conflito religioso era a repressão. Um Estado escolhia um lado da disputa e então punha-se a eliminar o outro através do assassinato ou exílio de seus adeptos. Essa tática foi utilizada em muitos partes da Europa, mas especialmente na Espanha, onde Filipe II foi, de longe, o maior praticante do método. O governante mais poderoso da segunda metade do século 16, Filipe trabalhou incansavelmente para construir sua dinastia e fortalecer a Igreja Católica Romana diante do avanço protestante. O símbolo de seu reinado era o El Escorial, uma imenso edifício de pedra erigido na encosta árida de um morro a noroeste de Madri, uma combinação de palácio, mosteiro e mausoléu. Era uma residência real bastante incomum pois não tinha espaço para todos os oficiais de sua corte, mas continha residências para monges, túmulos reais e uma grande igreja central ao lado do quarto de dormir do rei. Filipe via a Igreja Católica Romana como sendo, essencialmente, uma agente do governo e supunha que ela devia ajudá-lo política e financeiramente. Como a maior parte dos governantes da época, ele considerava qualquer religião diferente da sua uma ameaça a seu poder. Filipe usou a Inquisição (ver capítulo 10) para pressionar todos aqueles que se desviavam da ortodoxia católica. A heresia era declarada um crime contra o Estado e os oficiais civis aplicavam as penalidades. Todos aqueles que se recusavam a renunciar sua fé, quer fossem protestantes, judeus ou muçulmanos, entravam automaticamente nessa

determinada categoria. A Inquisição os cassava sem piedade e eram aprisionados, torturados e executados. Judeus e muçulmanos eram forçados a se converter ao Cristianismo e aqueles que rejeitavam o batismo eram mortos ou banidos do reino de Filipe. Quanto aos protestantes, eles eram compelidos a voltar para a Igreja romana e seu movimento na Espanha foi totalmente erradicado. Apesar da política de repressão ter sido praticada com sucesso na Espanha, Filipe cometeu um erro enorme quando usou-a em seus domínios na Holanda. A fim de impedir a propagação do Calvinismo naquela região, Filipe ordenou um cumprimento rígido da lei contra a heresia. Foi ainda mais longe e excluiu os nobres locais de seu governo ou relegou-os a postos de pouca importância e os substituiu por aristocratas trazidos da Espanha. Essa política, cuja natureza já foi interpretada como racismo por alguns historiadores, enfraqueceu seriamente sua posição ali tanto com católicos como com protestantes. Então, em 1567, os protestantes se revoltaram e destruíram imagens religiosas, objetos de arte e vitrais das igrejas católicas. Filipe reagiu imediatamente, enviando um exército. Seu comandante, o duque de Alva, desencadeou um reino de terror contra os habitantes da Holanda, matando vários milhares de pessoas em apenas seis anos. Enquanto as lutas continuavam, os calvinistas mudaram-se para lugares mais seguros no norte do Reno, deixando as províncias do sul (a Bélgica nos dias de hoje) para os católicos. Em 1579 dez províncias do sul formaram uma

coalizão para defender o Catolicismo e, dois anos mais tarde, as sete províncias do norte declararam sua independência da Espanha. A nova entidade política chamava-se Províncias Unidas e escolheu Guilherme de Orange como seu líder. Apesar de alguns diplomatas franceses terem dado a ele o apelido de “o quieto”, na verdade Guilherme era uma pessoa extraordinariamente articulada e amigável. Sua forte determinação, paciência e crença no governo com apoio do povo ergueu o espírito de resistência entre os holandeses. Tendo em vista que cada uma das sete províncias era relativamente independente das outras, era preciso muito tato e esforço da sua parte para manter o todo funcionando em conjunto. Frustrado, Filipe ofereceu uma enorme recompensa a qualquer um que matasse o governante holandês e em 1584 um jovem católico fanático o assassinou. Apesar disso, a revolta continuou sob a liderança do filho de Guilherme e Filipe decidiu impedir que os ingleses ajudassem os holandeses enviando a famosa armada espanhola em 1558. Também era sua intenção eliminar Elizabeth a quem ele odiava e reconquistar a Inglaterra para a fé católica, mas a iniciativa fracassou. Depois da morte de Filipe, foi declarada uma trégua de doze anos com os holandeses, mas depois as lutas continuaram. Finalmente, sua independência foi reconhecida em 1648. O resultado da política de repressão foram décadas de guerra que esgotaram o tesouro nacional e levaram à perda de algumas das províncias mais ricas da Espanha.

O último método usado para lidar com as diferenças religiosas

dentro de um Estado era a tolerância. Nos séculos 16 e 17 essa não era uma alternativa bem recebida, como veio a ser em tempos mais recentes. Guilherme de Orange foi uma das poucas pessoas do começo da Europa moderna a adotar a idéia de que o Estado deveria permitir que diferentes fés coexistissem em liberdade dentro de seus limites. Através de sua

influência, a liberdade de consciência tornou-se norma na Holanda e durante o século 17 esse Estado tornou-se um refúgio para aqueles que eram perseguidos por toda a Europa. A tolerância, uma política que parece tão racional hoje em dia, era vista pela maioria dos governantes daquela época como uma fragilidade perigosa. Tolerar um ponto de vista religioso com o qual não se concordava certamente era prova de que a fé pessoal daquele indivíduo era fraca.

O que aconteceu de fato foi que, depois de todas as tentativas dos

governantes europeus de resolver os conflitos religiosos, eles não diminuíram. Finalmente, em 1618 todo o ódio e ressentimento que já vinham se multiplicando há tempo explodiram em toda a sua fúria irracional na mais sangrenta de todas as guerras religiosas da era da Reforma.

A Guerra dos Trinta Anos

De todas as regiões da Europa assoladas pelo conflito entre o Catolicismo reformado e o Protestantismo, a que sofreu maior devastação

foi o Sacro Império Romano. Há muito tempo os historiadores se debatem com a questão de por que o Protestantismo perdeu sua força no lugar onde originou-se, enquanto o Catolicismo tornou-se cada vez mais confiante. Um fator foi o declínio econômico da Alemanha resultante das mudanças de regras comerciais na Europa. Outro foi a desilusão com as condições sociais. Apesar da Reforma ter reafirmado a importância de uma doutrina sólida, ela teve menos impacto na sociedade em geral. Superstição, imoralidade e injustiça social cresceram por toda a parte na terra da Reforma e os seres humanos mostraram ser muito resistentes a mudanças. À medida em que a Igreja Católica Romana restabeleceu cada vez mais seu poder na Alemanha, foi aumentado a tensão em relação aos termos da Paz de Augsburg. Como já mencionamos anteriormente, os governantes de cada área escolhiam entre o Catolicismo romano e o Luteranismo e seus súditos tinham que estar em conformidade com a religião oficial ou deixar aquele território. Uma outra parte da Paz de Augsburg era a “reserva eclesiástica” que obrigava o líder espiritual de um território da Igreja a abrir mão de suas terras caso decidisse tornar-se protestante. Esse mecanismo foi criado para deter a “secularização” das propriedades eclesiásticas e manter os três votos eclesiásticos (Mainz, Colônia e Trier) da escolha do Sacro Imperador Romano nas mãos de eleitores católicos, assegurando assim uma permanente maioridade no colégio eleitoral. Mas como não havia nenhuma determinação legal

adequada para fazer cumprir a reserva eclesiástica, quando as disputas aconteciam, o resultado dependia da força das partes envolvidas. Um ótimo exemplo desse problema foi a conversão de Gebhard Truchsess (1547-1601) que em 1577 tinha sido nomeado arcebispo de Colônia. Em 1582 ele anunciou que se tornaria um protestante, se casaria e declararia tanto o Catolicismo como o Protestantismo legais em seu domínio. A reserva eclesiástica foi invocada e um exército foi enviado para expulsar Gebhart e substituí-lo pelo duque católico Ernesto da Bavária. Os protestantes haviam prometido apoiar Truchsess, mas apenas uma pequena força do palatinado foi ajudá-lo pois os príncipes luteranos suspeitavam que ele tinha preferência pelo Calvinismo. Em 1608, uma dieta imperial em Regensburg tentou sem sucesso diminuir a tensão entre protestantes e católicos. No mesmo ano foi formada a União Protestante (conhecida também como evangélica). Era composta pela maior parte dos príncipes alemães reformados e luteranos, liderados por Frederico IV o eleitor palatino do Reno. Em 1609 foi organizada a Liga Católica, uma rival liderada pelo duque Maximiliano da Bavária. Os ânimos se exaltaram prometendo guerra, mas indivíduos de boa vontade de ambas as partes tentaram chegar a um acordo sem ter que recorrer às armas. Porém, resolver as questões territoriais entre as duas confissões tornou-se ainda mais difícil. Apesar de cada lado considerar o conflito inevitável, a eclosão da Guerra dos Trinta Anos surpreendeu ambas as partes. Antes de traçar os

acontecimentos da luta, será de grande ajuda fazer um comentário geral. Em primeiro lugar, tratava-se de três conflitos englobados em um protestantes contra católicos na Alemanha, uma guerra civil no Sacro Império Romano entre o imperador e os príncipes e uma disputa internacional entre a França e os Habsburgos (austríacos e espanhóis) pela hegemonia européia e que muitas vezes envolvia outros poderes. Os historiadores costumam dividir a guerra em quatro fases principais:

Boêmia (1618-25), Dinamarquesa (1625-29), Sueca (1630-35) e Francesa (1635-48). As hostilidades aparentemente intermináveis e o envolvimento de centenas de milhares de soldados devastaram as áreas que foram palco das lutas. A guerra começou como um conflito religioso, mas durante as duas últimas fases tornou-se essencialmente uma disputa política na qual a casa católica dos Bourbons na França, assustada com crescimento do poder dos Habsburgos, enviou tropas e dinheiro para apoiar a causa protestante. O lado político ou dinástico da luta levou à conclusão da Paz de Westphalia em 1648, que acabou com a guerra na Alemanha apesar das hostilidades entre a Espanha e a França ainda terem continuado por mais uma década. Esse acordo foi o primeiro tratado de paz internacional moderno e foi o precursor de muitos outros que se seguiram. Certamente ele demonstrou o quanto a secularização havia progredido na Europa. No grande encontro internacional o Concílio de Constança mais de dois séculos antes, os assuntos em pauta eram questões de crença,

autoridade e estrutura da Igreja; em 1648 passaram a ser de Estado, poder dinástico e aquisição territorial. A Guerra dos Trinta Anos começou na Boêmia. Apesar de ser uma terra eslava, seu rei era um dos eleitores do Sacro Imperador Romano. A nobreza da Boêmia escolhia o rei e durante o último século a opção tinha sido um Habsburgo católico. Mas então, muitos checos (outro nome dado aos boêmios) tinham se tornado protestantes. Na verdade, a região havia sido uma área problemática para a Igreja Católica Romana desde o tempo do reformador Jan Hus. Os mais militantes dentre os protestantes checos eram aqueles que adotavam o Calvinismo. A igreja reformada na Alemanha e seus aliados na Boêmia estavam apreensivos com a extensão do poder dos Habsburgos e o fortalecimento da Igreja Católica. Seu medo pareceu confirmar-se quando em 1617 Matias, o imperador Habsburgo, garantiu a eleição de seu primo Ferdinando para rei da Boêmia. Educado pelos jesuítas dentro de um Catolicismo rígido, Ferdinando começou a perseguir os protestantes apesar de ter prometido não fazê-lo.

 

SOLUÇÕES PARA A QUESTÃO RELIGIOSA

 

Divisão

Acordo

Supressão

Tolerância

Um país é dividido em territórios católicos e protestantes e o governante da região determina a fé que será praticada pela população.

O Estado desenvolve um acordo que resolve as diferenças religiosas e todos têm de concordar.

O Estado escolhe um lado na questão religiosa e elimina todos os dissidentes pela execução ou exílio.

O

Estado permite que

diferentes crenças coexistam com liberdade em seu território.

Paz de Augsburg na

Elizabeth I e a

Maria Tudor na

A

Holanda no final

Alemanha, 1555

adoção dos Trinta e

Inglaterra

dos séculos 16 e 17.

Guerras religiosas na França, 1562-89, resultam em Henrique IV decidir ser católico mas conceder aos huguenotes liberdade para praticar a sua fé em áreas onde predominam.

Nove Artigos definindo a crença da Igreja Anglicana.

Filipe II suprime toda dissidência na Espanha mas não consegue impor o Catolicismo aos holandeses.

Roger Williams em Rhode Island e William Penn na Pensilvânia determinam que todas as crenças terão liberdade para adorar.

A primeira demonstração aberta de oposição foi a “defenestração de Praga”. No dia 23 de maio de 1618, dois representantes católicos do rei que tinham ido até lá a fim de pressionar os checos, foram jogados para fora por uma janela do castelo de Praga mas não ficaram gravemente feridos. Católicos cheios de júbilo consideraram o incidente um milagre; os protestantes disseram que os dois homens haviam caído sobre um monte de estrume. Depois do incidente, a União Protestante mandou ajuda para os rebeldes da Boêmia. Em 1619 a assembléia representativa da nobreza, clero e burguesia reuniu-se para depor Ferdinando e eleger Frederico V, eleitor do Palatinado, seu novo rei. Este era um jovem príncipe alemão calvinista de boa aparência e liderava a União Protestante. Poderia ter sido eleito Sacro Imperador Romano, tendo em vista que os protestantes naquele momento controlavam quatro dos sete votos, mas na realidade ele governou por tão pouco tempo que ficou conhecido como “o rei do inverno”. Quando os Habsburgos

atacaram a Boêmia, Frederico não recebeu a ajuda que esperava da comunidade calvinista internacional e da União Protestante. Ferdinando, que havia tornado-se imperador, por outro lado, recebeu apoio da Espanha, do papa, da Bavária e da Liga Católica. Em novembro de 1620, na Batalha da Montanha Branca a oeste de Praga, o conde de Tilly, comandando as forças da Liga Católica, aniquilou as tropas de Frederico

e o rei do inverno teve que fugir. Não tardou para que os jesuítas chegassem à Boêmia a fim de forçar o Catolicismo sobre o povo. Recusando curvar-se à política implacável de reconversão, 150 mil pessoas deixaram a Boêmia. As terras da antiga nobreza protestante foram confiscadas e entregues para católicos leais que apoiavam os Habsburgos. Depois dessa vitória, Tilly conquistou o Palatinado e forçou Frederico ao exílio. A União Protestante foi dissolvida e o imperador Ferdinando deu ao duque Maximiliano da Bavária a cátedra eleitoral do Palatinado. A grande vitória católica alarmou os outros príncipes protestantes da Alemanha que foram buscar a ajuda de Cristiano IV, rei da Dinamarca

e Noruega, iniciando assim a segunda fase da guerra. Como duque de

Holstein, o rei dinamarquês também era um príncipe do império. Havia construído seu poder e riqueza controlando a entrada do Mar Báltico. Ele decidiu então intervir em favor dos protestantes alemães como forma de ganhar mais territórios para si. Os holandeses e ingleses deram-lhe a ajuda econômica necessária para ir à guerra. O imperador Ferdinando,

sentido a necessidade de mais apoio para enfrentar o desafio dinamarquês, fez um acordo com Albrecht von Wallenstein, um estranho e sinistro soldado mercenário de ambições ilimitadas. Wallenstein, que havia enriquecido através de terras tomadas de protestantes da Boêmia, concordou em fornecer um exército com vinte mil homens sem nenhum custo para o império pois iria cobrir suas despesas através de assaltos. Numa brilhante campanha contra os dinamarqueses, ele subjugou a maior parte do norte da Alemanha e forçou o rei Cristiano a retirar-se da guerra em 1629. A maré de Habsburgos católicos encontrava-se em seu ponto mais alto e parecia que a conversão forçada seria inevitável para a maior parte dos alemães protestantes. As perdas entre os protestantes foram grandes, mas nenhuma delas mais simbólica ou duradoura do que a da biblioteca palatina. As tropas bávaras que conquistaram aquela área tomaram a biblioteca de Heidelberg, um grande tesouro de manuscritos e livros e enviaram tudo para Roma, onde continuam até hoje. Mais importante, porém, foi o Édito de Devolução, emitido pelo imperador poucas semanas antes do tratado com o rei dinamarquês. Ele decretava a devolução de todas as terras da Igreja que haviam sido tomadas por protestantes desde 1552. Isso incluía dois arcebispados, doze bispados e aproximadamente centro e vinte mosteiros e outras fundações. Além disso, só os adeptos da Confissão de Augsburg de 1530 teriam direito à liberdade religiosa e todas as outras “seitas” seriam reprimidas. Isso não

perturbou apenas os príncipes protestantes que encararam a determinação como uma garantia de sua destruição, mas também os governantes católicos que estavam apreensivos sobre a possibilidade de Ferdinando aproveitar-se da situação para aumentar o controle dos Habsburgos sobre a Alemanha. Além disso, os príncipes temiam Wallenstein, cujas extorsões e crueldades haviam causado muita animosidade e exigiam que seu exército fosse dispersado. Na tentativa de amenizar suas suspeitas, Ferdinando dispensou Wallenstein e ordenou que suas forças debandassem. Se o Édito da Devolução tivesse sido cumprido à risca, o Protestantismo na Alemanha poderia ter sido eliminado. Apesar das dificuldades com os príncipes terem atrapalhado Ferdinando, o golpe mortal contra seus sonhos veio quando Gustavo Adolfo, rei da Suécia chegou na Alemanha em 1630. Um soldado e estadista brilhante e luterano devoto, Gustavo era um dos governantes mais importantes da época. Antes de invadir a Alemanha ele já havia derrotado os dinamarqueses, russos e poloneses. Ele entrou na Guerra dos Trinta Anos não apenas para salvar os protestantes mas também para garantir o controle sueco sobre a região do Mar Báltico. Um indício de que o caráter da guerra estava mudando era o fato de que parte do financiamento da expedição sueca tinha vindo do rei católico da França, cujo conselheiro era o poderoso cardeal Richelieu (1585-1642). No início, os príncipes protestantes alemães ficaram assustados

com essa invasão estrangeira, mas depois que o exército de Tilly saqueou Magdeburg, eles começaram a apoiar os suecos. Em 1631 Gustavo derrotou as forças imperiais em Breitenfeld, na Saxônia. Ele prosseguiu com a captura de Praga e venceu novamente em Rain, no Danúbio em 1632, onde Tilly foi morto. Essas vitórias permitiram que ele restituísse a liberdade dos protestantes no sul da Alemanha. Desesperado, Ferdinando chamou de volta Wallenstein e lhe deu carta branca para impedir o avanço dos suecos. Na importante batalha de Lützen (perto de Leipzig) em 1632, os protestantes venceram, mas Gustavo foi morto no combate. O exército sueco permaneceu na Alemanha e as lutas continuaram, mas sua influência era cada vez menor. Wallenstein estava agindo sem restrições chegando até mesmo a adotar sua própria política externa. Quando ele pareceu estar querendo o controle político, o imperador o dispensou. Então, em fevereiro de 1634, Wallenstein foi assassinado sob circunstâncias misteriosas apesar de não se saber ao certo se foi Ferdinando quem deu a ordem. Em 1635 chegou-se a um acordo que incluía modificações do Édito de Devolução, mas os franceses decidiram continuar a guerra. Usando inicialmente mercenários e depois o exército francês, Richelieu estava decidido a reduzir o poder dos Habsburgos. A guerra havia perdido todo o significado religioso e tinha se transformado num conflito dinástico. Lutando contra a Áustria, Espanha e Bavária, a França conseguiu ganhar vantagem através de sua superioridade de recursos e liderança. Ao

mesmo tempo, a Dinamarca e a Suécia lutavam entre si enquanto a Suécia aliava-se à França. O resultado foi a derrota dos Habsburgos de forma tão completa que a Espanha afundou e tornou-se um poder de segunda categoria enquanto a França assumiu o primeiro lugar entre os estados europeus. Depois de quatro anos de diálogos em duas cidades da Westphalia Münster e Osnabrück o conflito finalmente foi encerrado em 1648 com uma série de tratados conhecidos como a Paz de Westphalia. Era uma vitória para o Protestantismo e para os príncipes alemães e uma derrota para o Catolicismo e os Habsburgos. Entre os termos do tratado, havia uma nova confirmação do princípio territorial da Paz de Augsburg e o acréscimo do Calvinismo como opção religiosa para um príncipe. O acordo também permitia que os protestantes ficassem com terras tomadas da Igreja Católica depois de 1624. Reconhecia a soberania de mais de trezentos principados, cidades-livre e bispados e exigia que o imperador tivesse seu consentimento antes de criar leis, aumentar impostos, convocar soldados ou decidir sobre guerra e paz. Tendo em vista que esses pequenos territórios estavam sempre brigando, um acordo sobre a maior parte das questões era praticamente impossível. A independência concedida a eles tornou praticamente impossível a unificação da Alemanha sob um único governante. Outros itens do acordo incluíam o reconhecimento da Holanda e Suíça como Estados independentes, aprovação do controle dos Habsburgos sobre a Boêmia (inclusive o

direito de reimplantação do Catolicismo na região), devolução de parte

do palatinado ao herdeiro de Frederico V, a concessão de direito de voto ao duque da Bavária (aumentando para oito o número de eleitores) e a ampliação dos territórios do duque de Brandenburg para compensar as terras que havia sido cedidas para a Suécia.

A guerra deixou a Alemanha tão exaurida a ponto da recuperação

levar quase um século. Os exércitos tinha vivido da agricultura e os soldados, em sua maioria mercenários, não tinham se apiedado dos civis, haviam saqueado as cidades e o campo e, por diversão, tinham violentado, queimado e torturado. As doenças e a fome contribuíram para uma redução populacional drástica. Um desânimo geral caiu sobre a Alemanha, tornando ainda mais fácil para a França mantê-la dividida.

A Paz de Westphalia acertou muitas diferenças religiosas que há

muito estavam pendentes. Católicos e protestantes perceberam que precisavam viver juntos tendo em vista que nenhum dos dois era forte o suficiente para destruir o outro. O acordo forçado abriu espaço caminho para a tolerância apesar de, na época, alguns não terem gostado disso e pedido uma nova guerra. Irado pelas concessões feitas aos protestantes em relação às propriedades secularizadas da Igreja, o papa Inocêncio X opôs-se fortemente ao tratado, enquanto entre os protestantes, os Irmãos Boêmios que haviam sido exilados exigiram que sua terra natal fosse devolvida. Como nenhum dos grupos conseguiu muitos aliados, ficou claro que as guerras religiosas na Europa haviam acabado.

A revolução inglesa

Um dos poucos países europeus importantes que não se envolveu diretamente com a Guerra dos Trinta Anos foi a Inglaterra. Problemas internos ocuparam tanto a atenção dos ingleses durante aquela tempo a ponto de tornar inviável um envolvimento com o continente. O século 17 começou com a morte da rainha Elizabeth I e a ascensão ao trono de uma nova família, os Stuarts, representados por James I (James VI da Escócia). Ele era bem estudado, com tendências intelectuais e autor de vários livros incluindo The True Laws of Free Monarchies [As Verdadeiras Leis das Monarquias Livres] mas era também ingênuo quanto às questões da Inglaterra. Antes deles, os Tudors haviam sido

déspotas rígidos, mas que cultivavam a popularidade junto aos súditos e envolviam o Parlamento em sua ações. James tentou seguir os seus passos, mas o seu autoritarismo entrou em choque com os ingleses.

O maior problema de seu reinado foi a luta com o Parlamento.

Apesar de não ser uma instituição democrática em si, era um grupo poderoso que representava a nobreza e o alto clero (Assembléia dos Lordes) e os comerciantes ricos das cidades e as principais famílias do país (Assembléia dos Comuns). O conflito que teve início no governo de James iria arrastar-se pelos quatro reinados dos Stuarts e terminaria com a Inglaterra transformando-se em monarquia parlamentar, tendo a Assembléia dos Comuns e não o rei como verdadeira governante do

Estado. Por trás da luta havia diferenças radicais nas filosofias de governo. A teoria da Coroa implicava no direito divino dos reis, a saber, que Deus havia colocado o soberano no trono como seu representante e qualquer um que resistisse ao rei estaria agindo contra Deus. O Parlamento, por outro lado, apoiava os direitos históricos dos ingleses e afirmava que o controle sobre as pessoas e propriedades não podia ser tomado sem o consentimento dos indivíduos envolvidos. Os tribunais legais ajudavam o Parlamento a proteger os direitos do povo comum e fiscalizar o poder do rei.

Os Stuarts e o Parlamento se desentenderam por causa de religião, economia e direitos civis, mas as questões religiosas pareciam ocupar o primeiro lugar nas brigas. O partido puritano, o grupo dentro da Igreja da Inglaterra que exigia cultos mais simples nas igrejas e uma teologia mais pronunciadamente protestante, era um grande obstáculo na Assembléia dos Comuns. Prevendo uma atitude protestante por parte do rei escocês calvinista, em abril de 1603 os protestantes apresentaram ao rei a Petição Milenar (da palavra latina para um milhar; seus autores afirmavam que esse era número de assinaturas contidas no documento). Esta pedia que ele acabasse com aquelas práticas da Igreja da Inglaterra que eles consideravam ofensivas, como se fazer o sinal da cruz no batismo, usar certas vestimentas e usar uma aliança no casamento. O documento também pedia que fosse permitido o casamento clerical e eliminados os

abusos eclesiásticos. Em 1604 o rei encontrou-se com eles no palácio de Hampton Court, mas sua única concessão foi determinar que se fizesse uma nova tradução da Bíblia. A Versão Autorizada (ou King James) que foi completada e publicada em 1611, teve um profundo efeito formativo na língua e na cultura da Inglaterra. Outro acontecimento importante de seu reinado foi o Assentamento de Ulster em 1611. Ele marcou o começo de um assentamento oficialmente organizado de presbiterianos escoceses na Irlanda do Norte como forma de diluir a força do Catolicismo na ilha irlandesa. Durante as duas décadas que se seguiram os puritanos no Parlamento lutaram continuamente com James. Eles pediram sua intervenção no lado protestante da Guerra dos Trinta Anos e queriam que seu filho Carlos se casasse com uma princesa protestante. O rei não aceitou nenhuma das duas sugestões. Apesar de James ter brigado com os protestantes mais radicais, ele não favorecia os católicos romanos. Os jesuítas incentivaram seu assassinato, sendo que a tentativa mais famosa foi a Conspiração da Pólvora em 1605. Os conspiradores, liderados por Guy Fawkes, planejavam explodir o rei e o Parlamento, mas a intriga foi descoberta. Na reação que se seguiu, muitos católicos foram executados e exigiu-se um juramento de lealdade daqueles que não foram presos. Os ingleses também foram assombrados pelo fantasma da “lenda negra”, um termo que os protestantes associavam a Filipe II e sua cruzada católica.

No reinado de Charles I, que teve início em 1625, os combates religiosos se intensificaram. Enquanto James era calvinista, Charles era arminiano (ver mais adiante). O crescimento do Arminianismo entre o clero havia contribuído para divisões dentro da igreja. Em 1633 Charles nomeou William Laud (1573-1645) arcebispo de Canterbury, com instruções para que ele impusesse uma liturgia uniforme mesmo que isso significasse a saída de puritanos da igreja. Em questões doutrinárias Laud era mais tolerante do que os puritanos, mas insistia na conformidade total com seus rituais litúrgicos. Para ele era muito importante que a mesa da Santa Ceia fosse colocada na extremidade leste de toda a igreja e que todos se curvassem quando o nome de Jesus era falado. Usando a Corte da Alta Comissão e a Corte da Câmara de Star (onde prevalecia o poder real), Laud certificou-se de que sentenças pesadas fossem dadas aos que se desviassem. Seu extremismo foi um fator importante por trás de imigração dos puritanos para a América na década de 1630. A economia também dividia a monarquia e o Parlamento. A Assembléia dos Comuns tinha um papel chave no sistema de coleta de renda dos reis ingleses, mas nem James e nem Charles tinham paciência para trabalhar com o Parlamento e tentaram levantar os fundos por contra própria através de empréstimos forçados, impostos para defesa costeira, multas sobre desflorestamento, venda de títulos de cavaleiro e concessão de monopólios. O ressentimento popular em relação a esses mecanismos

de aumento tributário muitos deles baseados em leis antigas que não eram usadas havia anos era cada vez maior. As questões relacionadas aos direitos civis eram variadas como, por exemplo, a liberdade de discurso no Parlamento, a resistência a empréstimos forçados e prisão arbitrária. Tendo em vista que precisava assegurar suas fontes de renda em 1628 Charles I primeiro concordou relutantemente com a Petição de Direitos, que resguardava os ingleses de impostos arbitrários (aqueles que não tinham o consentimento do Parlamento) e garantia outros direitos. Mas Charles logo entrou em conflito com o Parlamento por causas de outras questões financeiras, dispensou todos os seus membros e governou sem eles durante onze anos, desafiando a Petição de Direitos. Em 1640 Charles estava em guerra com os escoceses, que dois anos antes haviam concluído a Aliança Nacional afirmando a fé presbiteriana. Como precisava desesperadamente de dinheiro para pagar por um exército, ele acabou convocando o Parlamento, que exigiu imediatamente a resolução de várias queixas antes de votar em favor de quaisquer fundos. Depois de três semanas ele dispensou o “Parlamento curto”, mas após outro desastre no norte convocou-o novamente. Este segundo ficou conhecido como “Parlamento longo” pois tecnicamente ele funcionou até 1660 e foi o ponto de encontro da oposição ao absolutismo real. Forças puritanas do Parlamento aliaram-se aos escoceses em 1643 através da Liga e Aliança Solenes, cujos membros concordaram em fazer com que

as práticas religiosas na Inglaterra, Escócia e Irlanda fossem o mais uniformes possível e em reformar a religião “de acordo com a Palavra de Deus e os exemplos das melhores igrejas reformadas”. Essa adoção do presbiterianismo levou a Inglaterra à guerra. Um membro puritano pouco conhecido do Parlamento, Oliver Cromwell, criou seu próprio regimento, os lendários Ironsides, com soldados que eram cristãos dedicados e também valentes guerreiros. Ele mostrou-se um gênio militar ao liderar as forças do Parlamento (chamadas de “Roundheads” [cabeças rendondas] pois usavam cabelos curtos) na vitória contra os defensores da realeza (os “Cavaliers” [“Cavaleiros” partidários de Charles]). Depois de um longo período de conflito, negociações infrutíferas e traições, o rei foi capturado e executado por ordem dos radicais do Parlamento em 1649. A Inglaterra tornou-se então uma república (o “Commonwealth “ [Estado democrático]) liderada por Cromwell, que governou com um contingente de Congrecionalistas (Independentes) do grupo remanescente no Parlamento (conhecido como “Rump”). Com os Congrecionalistas numa posição de vantagem, a aliança com os presbiterianos escoceses já não tinha mais sentido. Quando os irlandeses e escoceses reconhecerem o Charles II filho do monarca assassinado como rei, em 1649 e 1650, as forças de Cromwell arrasaram suas rebeliões. Especialmente o massacre brutal em Drogheda nunca foi esquecido pelos católicos irlandeses. Por causa das contínuas

dificuldades com o Parlamento, Cromwell o dissolveu em 1653 e declarou-se “senhor protetor” sob o Instrumento de Governo, a única constituição escrita da história da Inglaterra. A Assembléia de Westminster, que reuniu-se durante o período de Guerra Civil, conseguiu fazer um acordo para substituir a instituição anglicana, mas o presbiterianismo formulado durante esse encontro não foi imposto depois que Cromwell subiu ao poder. A fragmentação da ala puritana na verdade levou-o a tornar-se mais tolerante em relação às diferenças religiosas entre os protestantes. Ele chegou a permitir que judeus voltassem à Inglaterra, mas nem eles e nem os católicos tinham verdadeira liberdade religiosa. Durante a década de 1650, a austeridade normalmente associada ao puritanismo estabeleceu-se na sociedade. As festividades de Natal foram abolidas, a cerimônia de casamento transformou-se num ato civil e os teatros foram fechados. Depois da morte de Cromwell em 1658, a inquietação cresceu tão rapidamente que em 1660 o Parlamento decidiu convidar Charles II para assumir o trono. Durante toda a década anterior ele havia vivido exilado na França, onde tinha passado a admirar o absolutismo e o Catolicismo de seu primo Luís XIV. Nenhuma dessas qualidades o tornariam bem aceito pelo povo inglês, mas mesmo assim ele concordou em governar com o Parlamento. O “Parlamento Cavaleiro” eleito em 1661 era composto em sua maioria de simpatizantes da realeza, dando o tom para a “Restauração”. Ele aprovou uma série de medidas o Código

Clarendon que ofereciam base legal para a perseguição dos puritanos.

Entre outras coisas, exigia-se que oficiais civis tomasse o sacramento de acordo com o rito anglicano e que os clérigos aceitassem tudo do Livro Comum de Orações. Os dissidentes eram chamados de “não- conformistas” e eram proibidos de realizar reuniões religiosas. Mais de

dois mil clérigos perderam seus cargos e cinco mil pessoas foram presas

por causa das leis. Os membros da Aliança Escocesa se rebelaram contra as restrições episcopais em 1668 e novamente em 1679, mas foram derrotados. No Tratado secreto de Dover em 1670, Charles prometeu a Luís

XIV restabelecer o Catolicismo na Inglaterra o mais rápido possível em

troca de um subsídio da França. Mas quando ele tentou cumprir sua promessa ao emitir a Declaração de Indulgência que permitia a liberdade de culto nos domicílios para católicos e protestantes não-conformistas, o Parlamento reagiu com tanta violência que ele abandonou o plano. Para reforçar sua vitória, em 1673 o Parlamento aprovou a Lei do Teste que exigia que todos os oficiais tomassem a Ceia na igreja estabelecida. A lei

teve como efeito prático a exclusão dos dissidentes da vida pública e não

foi suspensa até 1828. Depois de um episódio de anticatolicismo em 1678-79, aprovou-se uma lei que excluía os católicos romanos do Parlamento. O irmão do rei James, duque de York professava

publicamente ser católico e o Parlamento procurou tirá-lo da sucessão

real, mas não teve sucesso. Charles continuou sendo anglicano mas

confessou o Catolicismo em seu leito de morte. Quando James II subiu ao trono em 1685 ele tentou abertamente restaurar o Catolicismo. Nomeou católicos para postos de comando militar e para lecionar nas universidades. Para obter apoio entre os dissidentes, ele os inclui na sua Declaração de Liberdade de Consciência em 1687. Mas quando sete bispos anglicanos foram acusados de traição por não apoiarem a Declaração, uma corte os absolveu. Muitos estavam só esperando o reino do monarca de certa idade (tinha 55 anos) acabar, mas então ele teve um filho, o que significava certamente uma sucessão católica. No Parlamento, os partidos anglicano (Tory) e puritano (Whig) uniram-se contra o rei e em 1689 ofereceram formalmente a coroa a Guilherme de Orange na Holanda (neto de Charles I) e sua esposa Mary (filha de James II). Enquanto isso, James havia fugido para a França e os novos monarcas chegaram e logo ocuparam o trono sem oposição. Esse episódio ficou conhecido como a “Revolução Gloriosa”. Mais tarde naquele mesmo ano, o Parlamento aprovou o Lei de Tolerância e a Carta de Direitos, que garantiam certos direitos civis, a supremacia parlamentar e também a liberdade de culto para todos, exceto unitários, católicos romanos e judeus. Apesar de um artigo da Lei de Tolerância declarar que apenas os anglicanos podiam servir no governo e no exército, havia exceções a essa restrição. Leis adotadas em 1701 garantiam que nenhum católico poderia jamais ocupar o trono e que o monarca não poderia deixar a Inglaterra sem a permissão do Parlamento.

O novo regime parlamentar inglês encontrou justificativas nos escritos políticos de John Locke. Sua obra Two Treatises of Government [Dois Tratados de Governo] (1690) argumentava que o governo é um contrato entre o governante e os cidadãos e que a revolução é justificada quando esses contrato é quebrado ao negar ao povo seus direitos naturais de vida, liberdade e propriedade. Ele também dizia que a forma mais eficiente de governo é aquela baseada num sistema representativo. Numa ironia da História, a apologia da revolução de Locke foi usadas pelos colonos americanos em 1776 em sua revolta contra os britânicos. Ele também foi o principal porta-voz filosófico de sua época em favor da liberdade religiosa e em sua obra Letters Concerning Toleration [Cartas sobre a Tolerância] (1689-92) ele pedia a liberdade para todos menos os ateus e católicos romanos que eram vistos como um perigo para o Estado. James tentou um retorno em 1689 ao reunir seguidores na Irlanda e Escócia. Totalmente derrotado na Batalha de Boyrne na Irlanda em 1º de julho de 1690 (que passou depois disso a ser um feriado nacional para os protestantes escoceses e irlandeses) ele voltou para a França onde faleceu em 1701. Com o apoio francês seu filho James e seu neto Charles Edward, restauraram os Stuarts na Escócia e o chamado movimento jacobita se extinguiu depois de 1746. Para tornar permanente o laço com o norte, foi aprovada em 1707 a Lei de União. Dali em diante a Escócia seria representada no Parlamento em Londres, mantendo inalteradas suas leis e administração separadas e a Igreja Presbiteriana (Igreja da Escócia)

continuaria sendo oficial.

A controvérsia arminiana Mesmo enquanto soldados matavam-se uns aos outros em nome do evangelho de Cristo, os líderes de suas igrejas lutavam com palavras para definir a fé de modo mais preciso. As brigas doutrinárias eram muitas vezes misturadas com as lutas políticas e levavam a conflitos entre vários grupos dentro das igrejas. Um deles foi a disputa entre arminianos e calvinistas rígidos, sediados na Holanda. Os primeiros tomaram o nome de Jacobus Arminius (1560-1609), um teólogo que havia estudado em Leiden e Genebra antes de tornar-se pastor em Amsterdã. A teologia reformada de sua época havia sido desenvolvida a partir da visão de Calvino por Theodore Beza (1519-1605) e outros escolásticos reformados. Esses homens enfatizavam o literalismo bíblico, rígida dupla predestinação e governo da Igreja presbiteriana. Armínio reagiu contra esse sistema inflexível, proclamando que a oferta da graça de Deus era universal e que os indivíduos possuíam a liberdade de responder a Deus pela fé. Em 1603 ele foi nomeado professor de Teologia na Universidade de Leiden apesar do protesto de Francis Gomar (1563-1641), outro teólogo da instituição. A controvérsia entre os dois girou em torno do significado exato da predestinação. Armínio expressou de maneira clara e direta sua oposição a certos aspectos da teologia de Calvino e sugeriu

que Calvino tornava Deus o autor do pecado e negava a verdadeira liberdade do ser humano. Gomar, um rígido calvinista, contra-atacou essas idéias incansavelmente e o debate que se seguiu levou à divisão da igreja Reformada. Armínio queria a convocação de um sínodo nacional a fim de reunir os dois lados. Até políticos foram incluídos no debate, mas quando de sua morte, não havia se chegado a um acordo. Os seguidores de Armínio continuaram a propagar os seus ensinamentos e em 1610 emitiram um documento chamado “Objeção” que pedia tolerância e apresentava os cinco pontos principais do Arminianismo: (1) o decreto eterno da salvação aplica-se a todos que crêem e perseveram na fé; (2) Cristo morreu por todos; (3) o Espírito Santo deve ajudar o indivíduo a fazer aquelas coisas que são realmente boas como ter fé em Cristo para a salvação; (4) A graça salvadora de Deus não é irresistível; e (5) é possível cair da graça. Muitas personalidades proeminentes na Holanda, incluindo o teólogo Simão Epíscopo (1538-1640), o estadista Jan van Oldenbarneveldt e o principal acadêmico da época, Hugo Grotius, tomaram publicamente partido da causa arminiana. O Sínodo de Dort (Dordrecht) reuniu-se em 1618-19 para resolver a controvérsia. Foram enviados convites para todas as igrejas calvinistas da Europa e vinte e sete dentre os mais de cem representantes eram da Alemanha, Suíça, Inglaterra e Escócia. Os arminianos ou Opositores como eram muitas vezes chamados, foram condenados por um conjunto

de cinco cânones (decretos). Essa refutação de cada ítem da Objeção de 1610 definia os ensinamentos da fé calvinista ortodoxa como sendo a total pecaminosidade, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos na graça. Sínodos provinciais e presbitérios locais receberam ordens de expulsar as igrejas Opositoras que estivessem sob seus cuidados. Nos anos que se seguirem, a Igreja Reformada na Holanda aderiu com rigidez à doutrina definida em Dort e seus teólogos interpretaram essas declarações ao elaborar sobre seu significado de acordo com os elementos aristotélicos.

A controvérsia entre os arminianos e os calvinistas rígidos tinha

uma dimensão política. Os dois principais políticos holandeses da época tomaram partidos diferentes na disputa. Maurício de Nassau apoiava os gomaristas e Jan van Oldenbarneveldt favorecia os Opositores. Não era só a religião que separava os dois pois Maurício desejava que sua família (a Casa dos Orange) fizesse parte da monarquia enquanto Oldenbarneveldt queria que a aristocracia mercantil controlasse o país. A religiosidade sincera de Maurício era particularmente dúbia pois alega-se

que ele dizia não estar certo da predestinação, mas sua posição ortodoxa firme o colocou como aliado dos fortes calvinistas holandeses. Na época do Sínodo, Maurício agiu contra seus inimigos. Oldenbarneveldt foi preso, julgado por traição e executado; Episcópio foi exilado e outros como Grótio foram encarcerados.

O movimento parecia ter acabado na Holanda, mas quando

Maurício faleceu em 1625, os arminianos tiveram permissão de voltar. Episcópio foi o guia da nova fundação da Igreja Opositora que existe até hoje. Frederik Henry, sucessor de seu irmão Maurício como líder político, percebeu que uma ortodoxia rígida era inadequada para o país como também o era uma monarquia absolutista e que forçar os adeptos de várias cranças à conformidade poderia produzir a falência econômica. O resultado a longo prazo dessa luta mordaz foi uma política oficial de tolerância. Apesar da disputa arminiana na Holanda ter chegado ao fim, o debate continuou em outros lugares. A Inglaterra foi um solo fértil para o crescimento do Arminianismo. Muitos seguidores do arcebispo William Laud aceitaram a manifestação mais liberal do Calvinismo e passaram o ensinamento para os latitudinarianos (como aqueles que aceitavam a variação de doutrinas) que surgiram no começo do século 18. Os unitários ingleses também eram arminianos, como também o era o grande evangelista John Wesley. Através do Metodismo de Wesley, a doutrina chegou até o presente como uma importante corrente teológica e a discussão entre arminianos e reformados ainda é uma preocupação para muitos.

Controvérsias luteranas Os luteranos também foram assolados pelas controvérsias durante o final da era reformada. Assim como havia ocorrido no estágio inicial da Reforma, problemas políticos e teológicos estavam entretecidos. A Paz

de Augsburg (1555) foi concluída com a promessa de que um acordo definitivo seria feito posteriormente, mas isso deu aos protestantes alemães pouca segurança política e legal. Assim, quando os teólogos que representavam os luteranos e católicos se encontraram em Worms em 1557 para esclarecer diferenças confessionais, as divisões entre os protestantes incentivaram os católicos a postergar o acordo. A situação dos protestantes foi complicada por uma disseminação do Calvinismo na Alemanha, tendo em vista que vários governantes, sendo o mais importante Frederico III do Palatinado, haviam introduzido a fé em seus principados. Apesar de desviar da posição luterana, Frederico afirmava que seguia a Confissão de Augsburg para que pudesse ser protegido pelos direitos garantidos àqueles que aderiam a essa declaração. Outros teólogos alemães reformados e príncipes seguiram o seu exemplo. Outra divisão dentro do protestantismo alemão era a dos gnésio- luteranos (“verdadeiros luteranos”), um grupo que seguia Matthias Flacius Illyricus (1520-73), um conhecido estudioso e historiador da Igreja. Eles rejeitavam as idéias de Melanchthon e de seus seguidores que eram chamados de “filipistas” em função do nome de Melanchthon. Os gnésio-luteranos acusavam os filipistas de serem tolerantes demais em relação aos católicos romanos e puseram-se a desenvolver o ensinamento luterano de modo a distingui-lo tanto do Catolicismo como das idéias dos filipistas. Na controvérsia adiaforista eles acusaram seus oponentes de

fazer concessões ao Catolicismo em questões como as cerimônias de confirmação, extrema unção, veneração dos santos e a missa. Os “verdadeiros luteranos” afirmavam que nada é uma adiafora (uma questão de indiferença) no que diz respeito a qualquer aspecto da verdade cristã. Talvez o conflito luterano mais importante tenha sido aquele em torno da Ceia do Senhor. Apesar dos ensinamentos luteranos rejeitarem o dogma da transubstanciação, declaravam firmemente a presença real do corpo de Cristo dentro, com e sobre o pão e o vinho. Calvino tentou harmonizar as idéias de Lutero e Zuínglio ao declarar que o crente verdadeiramente recebia o corpo e o sangue de Cristo nos elementos da Ceia, mas de maneira espiritual. Numa controvérsia de idéias sobre a Eucaristia que teve início em 1552 e ocorreu entre o luterano Joachim Westphal e o próprio Calvino, as diferenças entre reformados e luteranos ficaram ainda mais claras. Melanchthon e seus seguidores, que recusaram-se a ser envolvidos no debate, foram acusados de simpatizar com a posição calvinista e foram denunciados por ser cripto-calvinistas. Assim, a presença de ensinamentos reformados na Alemanha foi além dos debates dentro do Luteranismo. Na verdade, calvinistas e luteranos concordava quanto a várias questões, mas os reformados normalmente rejeitavam o culto litúrgico, dando mais ênfase à participação na solução de problemas sociais e tinham posições diferentes quanto à cristologia e os

sacramentos. Um grupo de teólogos proeminentes das Universidades de Leipzig, Marburg e Tübingen procurou impedir a fragmentação do Luteranismo tomando uma posição intermediária entre os extremos. Sua iniciativa levou à adoção da Fórmula de Concórdia em 1577, uma declaração confessional criada para resolver as controvérsias ao substituir os credos separados que haviam sido adotados nas várias igrejas territoriais luteranas. A raiz do problema eram as muitas interpretações diferentes da Confissão de Augsburg. A Fórmula de Concórdia, com sua linguagem precisa e enfática procurava o meio termo entre essa diversidade a fim de declarar exatamente em que os luteranos acreditavam. Em 1580 a Fórmula foi publicada junto com três credos ecumênicos (dos Apóstolos, de Nicéia e de Atanásio), a Confissão de Augsburg (1530) e sua Apologia (1531), o Pequeno e o Grande Catecismo de Lutero, os Artigos da Smalkaldia (1537) e três dos primeiros esboços da Fórmula no Livro de Concórdia. Essa obra, que foi adotada por dois terços do Protestantismo luterano, definia claramente as diferenças entre os ensinamentos luteranos e católicos e também entre luteranos e reformados. Foi a declaração definitiva da ortodoxia luterana e correspondeu a um ato semelhante realizado por parte dos católicos no Concílio de Trento. A sistematização da doutrina dentro do Luteranismo podia então prosseguir e foi feita através de declarações elaboradas baseadas em

textos de esboço. Esse método, usado de uma forma mais simples pelos primeiros teólogos luteranos, desenvolveu-se nas obras dos estudiosos ortodoxos do século 17. Ao contrário dos luteranos, os reformados alemães não conseguiram elaborar sua própria fórmula de concórdia e continuaram voltando-se para o catecismo de Heidelberg de 1563 como sua principal declaração doutrinária. A essa altura, a Universidade de Heidelberg havia tornado-se o centro intelectual de um movimento que incluía diversos territórios e cidades em Rhineland e no oeste da Alemanha. Um marco importante na propagação da fé reformada foi a conversão do eleitor John Sigismund de Brandenburg do Luteranismo para o Calvinismo. Em parte como consequência dessa mudança, os laços do país com a Saxônia e os Habsburgos foram rompidos, o que seria um fato crucial na ascensão de Brandenburg e Prússia a uma elevada posição de poder depois da Guerra dos Trinta Anos.

A partir de então os governantes protestantes da Alemanha dividiram-se em dois grupos: os luteranos (liderados pelo eleitor da Saxônia, que procurava manter intacta a antiga ordem) e os reformados (liderados pelo eleitor Palatino, que desejava ter uma participação ativa nas lutas dos calvinistas da Europa ocidental). A animosidade entre esses dois grupos manteve as forças protestantes divididas e permitiu que a reforma católica fizesse progresso impressionante. Ao mesmo tempo, significou que a Alemanha não teria um papel na iniciativa expansionista

da Europa no além mar, ao contrário das nações católicas de Portugal, Espanha e França e das protestantes Holanda e Grã-Bretanha. Durante algum tempo, o Protestantismo definhou em sua ortodoxia introspectiva, mas a brisa fresca do Pietismo trouxe nova vida e uma visão mais ampla da missão da Igreja.

Capítulo 12 - A Igreja se expande para além da Europa A revitalização do comércio de longa distância e o conseqüente crescimento de um sistema econômico urbano e capitalista foram fatores que contribuíram para o início da expansão da igreja européia. Em conjunto com a dinâmica intelectual e espiritual da Renascença e Reforma, esses fatores produziram uma curiosidade enorme sobre as terras além da Europa. Progressos na tecnologia militar e especialmente naval, permitiram aos europeus aventurarem-se em mar aberto e envolverem-se em combate vitorioso com outros povos de lugares distantes. Enquanto muitos gastavam suas energias com os aparentemente infindáveis conflitos religiosos e corridas pelo poder, outros buscavam novas oportunidades de ganho econômico e conquista espiritual. Do final do século 15 até o começo do século 17, os europeus adquiriram domínio sobre os oceanos e estabeleceram-se em áreas costeiras de várias partes do mundo.

Expansão européia ultramarina: a fase ibérica

Os estados ibéricos Portugal e Espanha iniciaram o processo e, de certa forma, ele foi uma continuação das Cruzadas. Foi um confronto militante e violento dos cristãos ocidentais com povos que tinham cosmovisões completamente diferentes. Essa expansão do Cristianismo teve impacto transformador, porém nem sempre positivo, sobre a própria fé. A responsabilidade de propagar a fé foi assumida por países específicos e mais ou menos supervisionada por seus monarcas. A conquista portuguesa de Ceuta no Marrocos muçulmano em 1415 e, em 1492, a vitória dos espanhóis em Granada a última fortificação islâmica na península ibérica poderiam ser vistas como iniciativas de Cruzadas. Estas tornaram-se um impulso natural para outras expedições. Junto com a motivação material para a expansão ultramarina, havia uma obrigação claramente expressada de propagar o Cristianismo. A conversão era um aspecto da conquista. O primeiro passo para a expansão ultramarina foi a invasão portuguesa no Marrocos. Isso lhes deu um posto de escuta na África e estimulou o desejo de acesso ao lucrativo comércio de ouro com os povos ao sul do Saara. Os meios mais bem informados da Europa sabiam da fabulosa riqueza do reino de Mali, cujo governante Mansa Musa, havia feito cair o preço do ouro na metrópole islâmica do Cairo quando a visitou numa peregrinação para Meca em 1331. O príncipe Henrique, conhecido como “o Navegador” (1394-1460, um filho mais jovem do rei João I, havia participado da campanha de Ceuta e tinha se interessado na

exploração da costa oeste da África. Seu patrocínio a expedições navais e a fundação de um centro de pesquisas em seu castelo tornaram possível a hegemonia portuguesa no Oriente. Ele expressou o desejo de envolver-se no comércio com os africanos e levar a eles o Cristianismo. Porém, a perspectiva de uma rota marítima direta para “as Índias” começava a despontar no horizonte e em 1488 o primeiro navegante português chegou à ponta da África do Sul. Em 1497 Vasco da Gama contornou o Cabo da Boa Esperança e navegou para a Índia, voltando para casa dois anos mais tarde com um carregamento de mercadorias do Oriente. Expedições subseqüentes tomaram posse do Brasil e da costa leste da África, arrasaram as forças navais dos árabes (que tinham sido os intermediários no comércio entre o Ocidente e o Oriente) no Oceano Índico e fundaram uma cadeia de pontos de comércio. Alfonso de Albuquerque capturou Goa em 1510 e fez do lugar uma sede de governo português. Ele instituiu o controle das rotas marítimas como bases de poder de seu país. Com pontos fortificados no leste da África, Golfo Persa, Málaca na Malásia, Indonésia e em diversos lugares da Índia e Ceilão, os portugueses eram os senhores do Oceano Índico. Mais tarde, em 1557, eles fundaram a colônia de Macau na China. A manutenção desse sistema vasto e flexível foi confiada ao “governador” ou “vice-rei” em Goa.

1557

Missão espanhola nas Filipinas

1663

Formação da

Sociedade das Missões Estrangeiras

1445

1474-1556

1541-52

1582-

1622

1769

1794

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Francisco Xavier

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Montezuma

Durante a união de Portugal e Espanha entre 1580 e 1640, os holandeses destruíram completamente o monopólio português no Oceano Índico, levando Portugal a perder várias de suas bases. Porém, o Brasil, a Angola e o Moçambique continuarem sendo suas principais propriedades coloniais. Durante aproximadamente trinta anos os holandeses controlaram parte da Angola e do Brasil mas foram expulsos em 1661. Com a descoberta de ouro em 1693 e diamantes em 1728, a riqueza do Brasil constituía parte importante da renda da coroa. Angola e Moçambique serviam basicamente de fontes de escravos para o Brasil, mas alguns portugueses acabaram assentando-se na colônia. A Espanha entrou em cena alguns anos depois de Portugal. Através de um processo de estudo, meditação, intuição e cálculos, o navegante

genovês Cristóvão Colombo concluiu que a Ásia estava a uma distância razoável a oeste da Europa. Depois de oito anos de esforços inúteis em várias direções, ele finalmente convenceu a rainha Isabel de Castela a financiar sua expedição. No dia 12 de outubro de 1492 ele chegou em terra nas Bahamas e em viagens subseqüentes consolidou o poder espanhol em Hispaniola. Outros espanhóis conquistaram ilhas vizinhas e exploraram as regiões costeiras do Caribe.

O italiano Américo Vespúcio participou de uma expedição que

explorou a costa norte da América do Sul e, depois de ler suas descrições daquilo que claramente não era a Índia, mas sim um novo continente, o

famoso cartógrafo Martin Waldseemüller fez um mapa em 1507 que dava às novas terras o nome de Américo. Vasco Nuñez de Balboa cruzou o istmo panamenho em 1513 e viu o Oceano Pacífico; Hernando Cortez tomou a capital asteca do seu governante, Montezuma, em 1521; Francisco Pizzaro esmagou o império inca do Peru em 1533-35 e outros exploradores e conquistadores espalharam-se pela Flórida, México, América Central e América do Sul para consolidar o governo espanhol. Com a fundação de Buenos Aires em 1580 o estágio continental da expansão da Espanha chegava ao fim sendo que os espanhóis concentraram-se na ocupação de vastas áreas demarcadas anteriormente.

Porém, pioneiros continuaram a se mudar para as novas terras ao norte do Rio Grande e sul do rio da Prata.

O navegante português Fernando de Magalhães, que estava a

serviço da Espanha, partiu em 1519 para primeira viagem de circunavegação para tomar posse de terras do Oriente. Ele chegou às ilhas Filipinas em 1521, onde foi morto, mas a posse só foi estabelecida com uma outra expedição na década de 1560. Na América Latina, o poder do sistema colonial era centralizado no rei e a administração era feita pelo Concílio das Índias em seu nome. Era

o concílio que determinava as políticas, preparava os decretos, fazia

nomeações, supervisionava a Igreja e funcionava como corte judicial. As subdivisões na América Latina eram compostas de dois (e depois quatro) vice-reinos que por sua vez eram divididos em audiências, capitanias gerais, presidências e vários tipos de governo local. Muitos espanhóis mudaram-se para as colônias e aqueles que lá se

estabeleceram ficaram conhecidos como “crioulos”. Eles ocupavam uma posição inferior na pirâmide social em relação aos “peninsulares” que vinham diretamente da Europa e exerciam cargos administrativos. Em 1574 os espanhóis já haviam fundado mais de duzentas cidades e povoados cuja população de brancos chegava a mais de 160 mil pessoas. Os “mestiços”, filhos de homens espanhóis com mulheres índias,

adotaram a língua e a cultura espanhola mas eram considerados inferiores pelos brancos. Na base da pirâmide social estavam os nativos da América

e os escravos africanos. O sistema econômico baseava-se na posse de grandes propriedades espanholas e uso de trabalhadores próprios, chamado de sistema agrícola

de encomienda no qual os camponeses trabalhavam para o senhor em caráter perpétuo. Uma quantidade considerável de riqueza também era gerada pelo garimpo de ouro e prata, o comércio e alguns tipos de manufatura de pequeno porte. Através de sua posse de terras e empreendimentos econômicos, a Igreja Católica tornou-se a mais abastada instituição da América espanhola. No final da era colonial, estima-se que ela era dona de metade de todas as terras no México. Os empreendimentos espanhóis e portugueses representavam os dois tipos básicos de “colonialismo” praticado pelos europeus. Muitos espanhóis deixaram sua terra natal, assentaram-se nos territórios estrangeiros onde havia uma quantidade módica de controle político e introduziram sua cultura. Os portugueses, por outro lado, criaram enclaves coloniais que tanto podiam ser toleradas pelos governantes locais que lucravam economicamente com sua presença, como também podiam ser mantidas pelo uso de força armada. Eles estavam sempre susceptíveis a ataques de rivais europeus.

Expansão: as fases da Europa ocidental e da Rússia Apesar dos ingleses terem ocasionalmente se envolvido com as explorações (a viagem de John Cabot em 1497, a procura da Passagem Noroeste de Martin Frobisher em 1576-78) e de na era elizabetana terem atacado navios espanhóis (Francis Drake, John Hawkins), eles só começaram uma colonização mais séria depois da virada do século 17.

As colônias da América do Norte eram empreendimentos particulares com permissão real, mas tinham que competir com outros. Os holandeses chegaram a Nova York em 1626. Um assentamento comercial sueco instalou-se na parte baixa do rio Delaware entre 1638 e 1655. Mais para o norte ficavam os domínios dos franceses. Jacques Cartier havia visitado a parte baixa do rio São Lourenço em 1534-35 e tomado posse da mesma como “Nova França”. Samuel de Champlain fundou Quebec em 1609 e trabalhou arduamente nas décadas seguintes para desenvolver o Canadá como colônia. Os pioneiros receberam pouco apoio de sua terra natal até o reinado de Luís XIV, sendo que sob seus auspícios o território prosperou. O comércio de peles era a principal atividade econômica na fronteira dos Grandes Lagos e no final do século 17 a influência francesa estendia-se até o rio Mississippi. Com a chegada de mais colonos no século seguinte, a Nova França viveu um considerável crescimento econômico. O verdadeiro foco de interesse, porém, era o Caribe. A exploração espanhola dos povos nativos havia deixado as ilhas despopuladas e em ruínas. Foi o caso do povo Taino de Hispaniola que em 1492 tinha uma população em torno de quatrocentos mil e que havia diminuído para meros dezesseis mil em 1518. Então, no começo do século 17 foi introduzida a cultura de açúcar que resultou numa revolução econômica. O cultivo era feito em grandes plantações tendo à disposição a mão-de- obra aparentemente ilimitada vinda da África. Desenvolveu-se uma

grande rede de comércio de escravos sendo que pelo menos dez milhões de pessoas foram transportadas para o outro lado do Atlântico fazendo com que as ilhas se tornassem grandes fontes de riqueza. Os escravos também eram trazidos para o Brasil, onde tiveram um papel crucial no desenvolvimento e na mistura racial tão singular que hoje existe no país. O trabalho escravo também foi usado pelos britânicos na América do Norte e nas regiões costeiras do Caribe. Depois de terem ocupado anteriormente as Antilhas, em 1655 os ingleses tomaram a Jamaica da Espanha e juntaram-se à Holanda, Dinamarca e França na competição por pelo poder colonial e naval da região. Para facilitar as coisas do lado africano do comércio de escravos e de outras mercadorias, os europeus abriram centros de trocas ao longo da costa oeste da África. Esses centros comerciais, como o famoso forte de Elmina na Costa do Ouro mudavam constantemente de mãos e os governantes africanos locais dificultavam o trabalho dos europeus. No século 17 e começo do século 18 Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Holanda e até mesmo Brandenburg tinham negócios lá. O principal elemento novo da expansão européia desse período foi a presença dos holandeses. Depois de seu sucesso inicial na luta pela independência do governo espanhol, eles desenvolveram a marinha mercante mais eficiente da Europa. Seus navios entraram no Oceano Índico no final do século 16 e em 1602 formou-se a Companhia Holandesa das Índias Orientais. O centro da companhia era na Batávia

(Jacarta), em Java, e logo ultrapassou Portugal no controle do Oceano Índico. A Companhia controlou o Ceilão entre 1638 e 1658 e em 1652 fundou uma colônia no Cabo da Boa Esperança. Durante dois séculos a Holanda foi o único país ocidental a ter contato com o Japão. Uma Companhia das Índias Ocidentais (fundada em 1621) realizou comércio no Oceano Atlântico durante grande parte do século, manteve a colônia na América do Norte, adquiriu territórios no Caribe e governou temporariamente no norte do Brasil. Porém, sob a liderança de Oliver Cromwell, os ingleses dedicaram- se a um programa de expansão naval e comercial com o qual os holandeses não conseguiram se equiparar. A Lei de Navegação (1651) foi criado para impedir os holandeses de realizarem o comércio e em 1664 os ingleses os expulsaram de sua base na América do Norte e deram-lhe o nome de Nova York. À medida em que o poder dos holandeses se enfraquecia, preparava-se a cena para o duelo de titãs entre Inglaterra e França que dominou o século 18. A conquista russa de vastas regiões de floresta e tundra na Sibéria foi a única verdadeira ocupação a ocorrer no continente asiático nesse tempo. As forças do czar Ivan IV garantiram para si a bacia do Volga ao derrotar o último ponto de resistência dos tártaros muçulmanos (Kazan, 1552; Astrakhan, 1556) o que abriu caminho para a expansão russa a leste dos Montes Urais. Em 1581-82, um grupo de cossacos liderados por Ermak conquistaram os domínios do khan na Sibéria e, deslocando-se

rapidamente pelo sistema fluvial, fundaram cidades fortificadas em pontos estratégicos. Comerciantes de peles seguiam o rio e possibilitavam um comércio ágil. Durante um século a região de florestas da Sibéria ficou, em sua maior parte, sob o controle dos russos. Porém os chineses contiveram o avanço russo no leste e em 1685 o tratado de Nerchinsk demarcou uma fronteira no vale de Amur. A presença de fortes estados islâmicos nos campos e regiões de deserto ao sul tiveram sucesso em conter a expansão russa sobre essas áreas até o final do século 18 e começo do século 19. A atividade econômica da Sibéria dependia da coleta de peles que eram o principal produto no comércio com o Ocidente. No século 17, colonos muitos dos quais exilados começaram a se assentar nessas terras e dedicar-se à mineração e agricultura. A população de brancos da Sibéria cresceu de setenta mil pessoas em 1662 para um milhão em 1783. Depois de Nershinsk, a expansão para o Leste continuou e Kamchatka foi anexada em 1699. Então Vitus Bering foi enviado para explorar a área ainda mais a leste e foi seu trabalho que abriu caminho para o governo russo no Alasca no século 18.

O Cristianismo nos impérios ibéricos Baseados nos precedentes abertos pelos pontífices do século 13 que afirmavam ter soberania sobre toda a Terra, inclusive das regiões que ainda não eram cristãs, o papa Nicolau V apoiou a expansão portuguesa

no oeste da África através de uma bula de 1454. Esta autorizava o rei Afonso I a tomar o controle e explorar outras terras no futuro e o comissionava para realizar a cristianização desses territórios. A coroa de Portugal havia recebido a “patente missionária” (padroado), ou seja, deveria equipar, financiar e enviar missionários para a África e, conseqüentemente também para as Índias. Então, Colombo entrou em cena e ultrapassou os portugueses ao viajar para o sentido contrário e tomar posse para a Espanha dos territórios que encontrou. A fim de resolver o problema de qual país deveria ter a posse das novas terras, o papa Alexandre VI (que era espanhol) lançou uma bula em 1493 dividindo o mundo por uma linha no Atlântico indo de um polo até o outro e passando a leste dos Açores, dando para a Espanha todo o hemisfério Oeste. A bula também incluía uma patente missionária. Fernando e Isabel foram orientados a “enviar homens articulados, tementes a Deus, bem treinados e experientes que iriam instruir os habitantes de lá acerca da fé católica”. Os dois vizinhos confirmaram a decisão papal no Tratado de Tordesilhas (1494) que deslocou a linha um pouco mais para oeste, sem perceber que estavam dando à Espanha um direito de posse no Brasil. O Tratado de Saragossa (1529) demarcou uma linha a Leste que deixava as Ilhas Marianas dentro da jurisdição espanhola. O próprio Colombo estava profundamente envolvido na devoção do final da Idade Média. Seu conhecido Diário da Primeira Viagem à

América revela que ele dedicava-se a especulações proféticas e via sua missão como sendo de ganhar almas para Cristo nas terras recém- descobertas. Ele se considerava um “portador de Cristo” e escolhia nomes santificados na Igreja para os território que descobria. Outros espanhóis, porém, eram menos motivados por “Deus” e mais pelo “ouro” e a “glória”. Esses conquistadores criaram impérios relativamente extensos e com grande potencial para abusos. Ficava a cargo da Igreja conter os instintos básicos dos colonos brancos e a chave para isso estava em suas patentes. As coroas de ambos os países tinham o poder de exercer vasto controle sobre as iniciativas missionárias em seus respectivos impérios. Podiam, assim, dar à Igreja o poder de trabalhar no sentido de uma ordem colonial mais justa. Na Espanha o patrocínio baseado nas bulas papais de 1501 e 1508, tornava a coroa responsável pela manutenção da Igreja e conversão dos índios. Em troca, o governante escolhia missionários para as colônias na América (e mais tarde nas Filipinas), sendo que estes não podiam voltar para casa sem uma permissão real. O papado permitia que o Estado recolhesse os dízimos (impostos da Igreja) nas colônias, usando-os para sustentar a Igreja nesses locais. O rei tinha o direito de nomear pessoas para todos os cargos eclesiásticos bispos, líderes de mosteiros e até sacerdotes das paróquias e nenhuma igreja, convento ou escola podia ser fundado sem a autorização real. O clero em outras terras não podia comunicar-se com Roma a não ser pelos canais reais. Tudo o que o

sínodo fazia estava sujeito à aprovação do vice-rei colonial ou de outro oficial responsável que tinha poder de veto. Apesar de alguns sacerdotes seculares trabalharem como missionários, a principal fonte de obreiros eram as ordens religiosas tanto as mais antigas como os beneditinos, dominicanos, franciscanos, agostinianos e várias outras ordens menores, como as novas ordens que nasceram em decorrência da reforma católica como os capuchinhos e a Sociedade de Jesus (jesuítas). A ordem jesuíta, com seu compromisso de recuperar aqueles que haviam sido perdidos para o Protestantismo e também de levar a fé para além das fronteiras do Cristianismo, foi responsável por suprir o maior número de missionários nos séculos 16 e 17. Em 1542 o rei de Portugal permitiu que os jesuítas fundassem uma escola de treinamento missionário na Universidade de Coimbra, sendo que esta preparou mais de 1600 obreiros ao longo de dois séculos. Salvo umas poucas exceções como o “Fundo Pio”, um fundo privado oferecido por indivíduos para as missões da Califórnia, os católicos leigos não contribuíam com praticamente nada para o sustento financeiro das missões. Uma parcela dos fundos vinha diretamente do Estado, mas em grande parte as ordens religiosas maiores trabalhavam com seus próprios recursos. Além disso, muitas missões eram parcial ou completamente auto-suficientes. O trabalho do indígenas cristãos nas comunidades cobria os custos do empreendimento e alguns missionários, especialmente os jesuítas, dedicavam-se diretamente ao comércio.

O exemplo de missão auto-sustentável que mais chama atenção é o das missões jesuítas nas bacia dos rios Paraguai e Paraná. Lá os índios reuniam-se em vilas (reductiones) onde recebiam proteção, ensino cristão, aprendiam vários ofícios e podiam desenvolver sua consciência de identidade. A igreja era o centro da vida comunitária e o povo oferecia generosamente sua devoção à instituição e às missas. Dedicavam-se à agricultura, criação de rebanhos e faziam artesanato que era vendido para sustentar a vila. Os clérigos formaram uma força defensiva para resistir aos ataques de caçadores de escravos. Em 1767, quando os jesuítas foram expulsos, é possível que 106 mil índios estivessem morando em trinta vilas sob a supervisão de oitenta e três missionários. A retirada dos padres deixou os nativos à mercê dos colonos que destruíram grande parte do que os missionários haviam realizado. Tendo em vista que o papa havia concedido a eles tanto poder civil quanto eclesiástico, os monarcas espanhóis, teoricamente, eram responsáveis por proteger os índios da exploração de colonos brancos e oferecer-lhes ministérios espirituais. A realidade muitas vezes era bem diferente. Os conquistadores cruzavam o Atlântico para acumular riquezas para si mesmos e forçavam os índios a trabalhar em minas e nos campos. O resultado disso era uma crueldade indescritível e a destruição de povos indígenas por doenças, excesso de trabalho e brutalidade. Com a diminuição da população indígena, especialmente nas Índias Ocidentais, a mão-de-obra era complementada por escravos importados

da África. Apesar de alguns colonos verem os índios como inferiores aos humanos e incapazes de tornarem-se cristãos, o papado em particular era rígido quanto a suas exigências de obras missionárias. O resultado, foi um grande numero de conversões e batismos forçados. Apesar de alguns papas e reis terem se preocupado com os constantes maus tratos dos índios na América espanhola, os missionários foram os maiores defensores dos direitos dos nativos. Sem dúvida o mais conhecido desses obreiros e modelo de missionário foi Bartolomeu de las Cásas (1474-1566). Seu pai havia navegado com Colombo e em 1502 o próprio Bartolomeu assentou-se em Hispaniola. Depois de administrar uma plantação durante algum tempo, ele buscou a ordenação como sacerdote e participou da primeira expedição para a conquista de Cuba. Ele ficou tão preocupado com a forma que os aborígenes estavam sendo maltratados que foi para a Espanha defender sua causa. Conseguiu a simpatia do cardeal Ximenes que o nomeou protetor geral dos índios. Las Cásas voltou para o Novo Mundo com um grupo de monges para fazer cumprir as leis reais em favor dos índios. Os colonos convenceram seus companheiros de que ele era um tipo de visionário que estava arruinando a colônia e eles voltaram-se contra Bartolomeu. Ele foi para a Espanha a fim de conseguir ajuda e seus inimigos disseram ao rei que as colônias iriam à falência se o trabalho escravo fosse proibido. Bartolomeu reagiu propondo que tivesse permissão de fundar uma colônia onde os índios seria tratados decentemente. Ao voltar em 1520

ele colocou sua idéia em prática na costa da América do Sul (onde hoje é a Venezuela) mas não teve sucesso. Três anos depois juntou-se à ordem dominicana. Seguindo o caminho teológico de Tomás Aquino, o maior de todos os dominicanos, que havia ensinado que os descrentes não devem ser forçados a tornar-se cristãos pois a crença é uma questão de vontade e decisão própria, Las Cásas recusou-se a impor a conversão e exigiu que os índios tivessem o direito de escolher a Cristo de livre e espontânea vontade. Em 1535 ele fundou uma missão na Guatemala, apoiou publicamente a causa dos índios maltratados do Peru e do México e pregou a não-violência e o cumprimento da lei que proibia a escravização de índios. Aos 70 anos de idade foi nomeado bispo de Chiapa, no México e lançou-se em uma briga acirrada com os leigos brancos de sua diocese por estes abusarem dos índios. Em 1547, voltou à Espanha pela última vez para pedir ao monarca que defendesse os direitos dos índios. Em seguida aposentou-se, mas continuou lutando por aquela que era a causa do seu coração ao publicar diversos escritos importantes. Um de seus feitos mais famosos foi o debate com o teólogo espanhol Juan Ginés de Sepúlveda em Valadolid nos anos de 1550-51. O argumento de Sepúlveda tomava como base a teoria da guerra justa afirmando que era necessário subjugar os índios pela força e depois convertê-los. Para encerrar o assunto Las Cásas perguntou: “As pessoas não são todas humanas?” Apesar de seus esforços para deter a dominação dos índios

através do sistema de encomienda terem sido em vão, ele conseguiu formar uma legislação humanitária contida na obra Leis das Índias (1542). Sua influência também foi vista no desenvolvimento das estratégias missionárias com ênfase na organização dos índios em comunidades cristãs, povoados protetores que fossem separados da influência corruptora dos colonos brancos. 1 Apesar de muitos monges concordarem com Las Cásas, havia poucos clérigos espanhóis entre eles. Não tardou para que crioulos e, no século seguinte, até alguns mestiços e índios fossem ordenados para o ministério. À medida em que a sociedade da América Latina se estabilizava, ia surgindo uma estrutura eclesiástica sofisticada e que refletia o sistema político espanhol. Ainda é discutível o quanto a nova fé substituiu de fato os antigos sistemas de crenças. No México dos astecas e na América Central dos maias especialmente, muitas práticas e ritos pré-cristãos persistiram na forma de festivais, rituais e locais sagrados. Isso pode ser exemplificado pela adoração a Nossa Senhora de Guadalupe, que apareceu para um índio nas cercanias da Cidade do México em 1531. Uma forma de adoração com alguns ritos tradicionais desenvolveu-se ao redor do suposto poder miraculoso de uma imagem da virgem que ela mesma teria entregue ao índio e que já foi abrigada por várias edificações, incluindo a imensa basílica que agora ocupa o local da aparição. As atividades missionárias também se espalharam para as áreas

fronteiriças do norte, como fica evidente pelas missões franciscanas e jesuítas do final do século 17 e começo do século 18 no Texas e Novo México e aquelas da Califórnia fundadas por Junipero Serra (1713-84), um frade asceta com grande competência administrativa. Através do trabalho de 146 padres franciscanos entre 1769 e 1845, aproximadamente cem mil índios foram batizados, sendo que muitos deles viviam nas vinte e uma missões fundadas pelos frades. Esse talvez tenha sido o sistema combinando missão e comunidade que teve mais sucesso no Novo Mundo e eram de extrema importância econômica e social para a antiga Califórnia. No Brasil dos portugueses a propagação do Cristianismo foi semelhante à da América espanhola, mas havia algumas diferenças. Como não havia ali grandes civilizações pré-existentes, o trabalho era feito em grande parte com os povos das tribos. Os portugueses haviam se assentado de forma tão esparsa em seu vasto território ultramarino a ponto de não dar muita atenção à cristianização de toda a área. Assim, a propagação do Cristianismo foi muito mais incompleta do que aquela que ocorreu na América espanhola, apesar dos jesuítas terem se dedicado ao trabalho missionário, e a persistência de costumes pagãos poder ser observada lá em festivais como o Carnaval. Talvez o mais forte defensor dos direitos dos índios tenha sido o jesuíta Antônio Vieira (1608-97), que em 1655 obteve do rei um decreto criado para proteger os povos nativos da colônia. Em seus sermões ele condenava os colonos brancos pela

forma como tratavam índios e negros. Em resumo, a Igreja na América Latina teve que encarar o desafio triplo de manter o controle sobre colônias brancas cada vez mais indiferentes, evangelizar os índios e ministrar aos africanos que tinham sido trazidos como mão-de-obra escrava. O estilo da iniciativa de cristianização normalmente consistia em induzir os índios a levar uma vida mais sedentária, sob a tutela dos padres missionários que, em troca lutavam contra a exploração colonial dos povos indígenas e conseguiam da coroa medidas que os protegessem. Como resultado disso, muitos membros da população branca leiga não gostavam dos missionários.

As missões portuguesas na África Dentre os fatores que estimularam o interesse inicial dos europeus pela África, um deles foi a lenda do presbítero João, um governante que havia perdido o contato com o Ocidente. Acreditava-se que se fosse possível entrar em contato com ele novamente, os cristãos flanqueariam os impérios muçulmanos e poderiam partir para o ataque. Cada uma das muitas lendas medievais dizia que ele estava num lugar diferente, situando-o desde a Índia até o oeste da Ásia. Mas no meio do século 14 presumia-se que ele estivesse em algum lugar na África. Em 1487, o rei português João II enviou Bartolomeu Dias para o sul a fim de procurar o reino do presbítero João, mas o navegante voltou depois de ter passado pelo Cabo da Boa Esperança. Pero de Corvilhã foi por terra e chegou à

Etiópia, onde foi bem recebido. Em 1520 uma embaixada portuguesa da Índia chegou para uma estadia de seis anos e seu capelão, Francisco Álvares, publicou um relato detalhado da vida religiosa no reino cristão. Vários jesuítas trabalharam na Etiópia nos anos seguintes e tentaram levar a igreja monofisita a submeter-se ao Catolicismo romano. A lenda do presbítero João também chamou a atenção do rei Henrique, o Navegador e seu desejo de encontrar um aliado na África bem como de ganhar almas para Cristo estava entre os motivos que levaram à realizar sua expedição costeira. Tendo em vista que o papa havia dado ao rei de Portugal a incumbência de sustentar as missões na África, os navios também levavam padres que escreveram inúmeros relatos de conversões e batismos das Ilhas Canárias até a costa da Guiné. Nos 250 anos que se seguiram, várias ordens tentaram trabalhar na África mas nenhuma comunidade cristã duradoura conseguiu se estabelecer. Um fato importante foi o batismo do governante de Bakongo em 1491, que chegou a mudar o nome de sua capital de Mbanza para São Salvador. Apesar dele ter abandonado a fé, seu filho Alfonso continuou sendo cristão e ao suceder o pai no trono apoiou a cristianização do reino. Apesar de aculturações evidentes terem se seguido (adoção dos costumes portugueses bem como da religião), elas não chegaram à população geral. Alfonso enviou alguns homens a Portugal para estudar (inclusive para o sacerdócio) e mandou uma embaixada ao papa em 1513. Porém, não havia comprometimento suficiente e nos dois séculos

seguintes as iniciativas missionárias não foram significativas. Mais para o sul, em Angola, o trabalho missionário português resultou em muitos batismos e na suposta conversão da cidade inteira de Luanda, onde foi construída uma catedral. Com a ordenação de alguns padres africanos, a fé persistiu ali mais do que no Congo. No leste da África praticamente não havia trabalhos missionários, apesar de Portugal ter construído um enorme forte em Mombasa, chamado Forte Jesus, para proteger seus interesses comerciais. A primeira iniciativa foi em Moçambique, onde em 1560 o missionário jesuíta Gonçalo da Silveira converteu os principais membros de uma comunidade costeira e então embrenhou-se pelo interior (o Zimbabwe nos dias de hoje), onde batizou o governante mais poderoso do sul da África, o Monomotapa. Mas o rei teve medo de que o missionário fosse um agente português e mandou matá-lo no ano seguinte. Um século depois, várias missões se seguiram e um dominicano chegou a batizar um de seus reis em 1652, um acontecimento que foi recebido com grande alegria em Lisboa e Roma, mas, a longo prazo, o trabalho não conseguiu consolidar-se na região do Zambezi. Nenhum clérigo negro foi ordenado no Moçambique durante três séculos. Por outro lado, alguns clérigos europeus estavam até envolvidos com a administração dos prazos, grandes e rentáveis propriedades rurais que funcionavam num sistema semelhante ao feudal.

As missões no Oriente As missões eram parte integrante da expansão portuguesa. Como disse Diogo de Couto (1542-1616) o soldado e historiador do império — “Os reis de Portugal sempre tiveram como objetivo dessa conquista do Oriente a união dos dois poderes, o espiritual e o temporal, sendo que o primeiro não deve ser exercido sem o segundo”. 2 O patrocínio garantia a Portugal que outros países não iriam tentar dividir as terras do império sob o pretexto de fazer trabalho missionário. Assim, padres e freiras sustentados pela coroa acompanhavam os navios e eram parte do complexo de fortificações e postos de troca comercial. O arcebispo de Goa estava sob a autoridade do rei e era o primaz das regiões sul e leste da Ásia. As forças missionárias, a princípio, limitaram-se aos súditos portugueses, mas o caráter multinacional da ordem dos jesuítas e a intrusão do clero espanhol e francês logo mudaram esse quadro. Do ponto de vista espiritual, as missões eram, na melhor das hipóteses, operações paralelas, até a chegada de Francisco Xavier, um marco na propagação do Cristianismo. Nascido em 1506 numa família nobre em Navarra, Espanha, quando era aluno da universidade de Paris tornou-se discípulo de Loyola e ajudou a organizar a Sociedade de Jesus. Enquanto estava em Roma, respondeu ao chamado feito pelo monarca português pedindo missionários para o Oriente e embarcou em 1541. Um homem de energia inesgotável e grande comprometimento, nos onze anos seguintes ele viajou incessantemente pela Índia e Ceilão, visitou a

Malásia e as Índias Orientais, marcou o início da presença cristã no Japão e estava se preparando para abrir uma missão na China quando faleceu em 1552. Xavier abriu caminho para as iniciativas missionárias dos jesuítas na Ásia. Ele escolheu membros para a Sociedade, providenciou para que viessem da Europa, criou uma escola de treinamento para nativos cristãos em Goa e trabalhou pessoalmente em vários lugares no sul da Índia onde ganhou milhares de convertidos. O primeiro grupo de jesuítas chegou em 1545-46 e não tardou para que a Sociedade tivesse fundado postos em vários lugares no subcontinente. Sua tentativa de criar uma missão na corte do imperador Mogul em Déli foi notável mas teve muito pouco sucesso. A maioria dos missionárias acabava ministrando aos membros das castas mais baixas e aos europeus da Índia. As realizações no Japão foram mais dramáticas. Em 1547 Xavier encontrou um jovem japonês e levou-o para Goa onde foi batizado. Dois anos depois, Xavier viajou com o rapaz para sua casa em Kyushu, uma ilha no sul do Japão, onde ele serviu de intérprete. Xavier ficou lá durante dois anos, ganhou convertidos e começou uma missão. Outros jesuítas se seguiram e a nova fé espalhou-se rapidamente. Em 1582 havia duzentas igrejas e 150 mil cristãos, o que significava que a porcentagem de cristãos naquela época era maior do que a do século 20. Como a equipe missionária era pequena, foram feitas algumas tentativas de se treinar um clero japonês e em 1596 chegou um bispo apoiado pelos

portugueses. Apesar do papa ter reservado o Japão para os jesuítas, na década de 1590 os dominicanos e franciscanos também começaram a trabalhar no território e surgiram rivalidades entre as ordens. Em 1587 o xogum (governante militar do Japão) Hideoshy lançou um édito contra o Cristianismo, ordenando que os missionários deixassem o país, mas só uma década depois de começarem as brigas é que ele fez cumprir suas ordens ao mandar executar duas dúzias de cristãos. Depois de um ano de perseguição, as pressões diminuíram, o trabalho missionário pode continuar e a população cristã logo ultrapassou o marco dos quatrocentos mil. A própria cidade portuária de Nagasaki havia se tornado predominantemente cristã. Então, em 1614 os xoguns Tokugawa começaram uma vigorosa perseguição. Eles temiam que o Cristianismo abrisse caminho para o domínio europeu no Japão ou que os missionários e japoneses cristãos se tornassem um grupo contrário à dinastia. Durante os vinte e cinco anos seguintes todos os missionários cristãos foram expulsos ou executados enquanto os crentes nativos eram forçados a renunciar sua fé. Aqueles que se recusaram a fazê-lo foram sujeitos a horrores brutais crucificados, queimados lentamente ou decapitados. Pelo menos quatro mil pessoas sofreram o martírio. Depois de uma rebelião em 1637-38 na qual estavam envolvidos milhares de cristãos, o governo fechou as fronteiras do país para o

comércio europeu. Antigos cristãos foram caçados e forçados a pisotear a cruz e representações de Cristo para provar que haviam se arrependido. Os navios japoneses estavam proibidos de ir para outros países e pessoas voltando de qualquer viagem desse tipo eram mortas. O mesmo fim também seria dado a europeus que chegassem no Japão. Só os holandeses tinham permissão de mandar uma comitiva comercial por ano para Nagasaki e tinham que esconder todos os objetos ligados ao Cristianismo enquanto estava aportados. Porém, alguns cristãos sobreviveram em áreas remotas de Kyushu e secretamente passaram a fé adiante para seus filhos. Realizaram batismos e transmitiram os Dez Mandamentos, algumas orações e doutrinas. A existência dessa comunidade cristã remanescente que tinha mais de quinze mil membros foi descoberta depois que o Japão voltou a abrir suas fronteiras no final do século 19. Na China, assim como na Índia e no Japão, as primeiras missões foram portuguesas. Apesar do esforço inicial de Francisco Xavier de iniciar uma missão ter sido em vão, outros se seguiram. Os jesuítas começaram uma escola superior em Macau e em 1576 uma sé episcopal foi fundada lá com apoio financeiro do rei português. A união com a Espanha em 1580 garantiu que as Filipinas também seriam uma fonte de obreiros. Os jesuítas, porém, tomaram a iniciativa e 456 obreiros dessa ordem foram para a China entre 1552 e 1742. O líder da missão na Ásia,

Alessandro Valignano (1539-1606), havia promovido energicamente o trabalho no Japão e pode oferecer as bases teóricas daquele que foi o empreendimento cristão de maior sucesso na época. Seguindo o caminho aberto por Francisco Xavier, ele procurou formar igrejas verdadeiramente nativas no Japão e na China, igrejas totalmente separadas do controle ibérico inerente ao apoio do padroado. A intenção dos jesuítas era ganhar essas pessoas para Cristo e não para a cultura européia. Assim como havia feito no Japão, Valignano pediu que a religião cristã fosse adaptada às tradições e costumes chineses, tendo em vista que isso permitiria alcançar os escalões mais altos da sociedade o que, por sua vez, faria com que a fé chegasse a toda população. Seu protegido foi o marco da missão na China, Matteo Ricci (1152-1610), que depois de estudar Matemática, Astronomia e Cartografia, foi para Goa em 1577 e Macau em 1582. No ano seguinte ele e seu colega puseram-se a conquistar o respeito e a amizade da elite dominante como primeiro passo para introduzir o Cristianismo. Eles se instalaram na capital da província, próximo ao Cantão, mostraram para os estudiosos e burocratas seu conhecimento sobre relógios, calendários e desenho de mapas e através disso, ganharam acesso aos círculos mais elevados. Ricci também aprendeu sobre as obras clássicas chinesas e escreveu ensaios em chinês sobre a ciência ocidental e a fé cristã. Ele adotou o traje de estudioso confucionista e usou como nomes para Deus termos

que encontrou nos escritos clássicos. Ele considerava a veneração dos ancestrais familiares e de Confúcio como ritos culturais sem verdadeiro significado religioso e permitia aos convertidos que continuassem a observá-los. Seu desejo era mostrar que o Cristianismo não era contrário nem à família e nem ao Estado. Em 1601 Ricci chegou a Pequim e ganhou vários oficiais importantes e um príncipe imperial para o Cristianismo. Um decreto de 1611 autorizou os jesuítas a fazer uma correção do calendário chinês e dali em diante eles ofereceram várias contribuições científicas. Com efeito, ficaram responsáveis pela repartição governamental de astronomia. Tendo em vista que o respeito por eles na corte era tão grande, eles conseguiram suportar a mudança da dinastia Ming para Manchu. Johann Schall von Bell (1591-1661), um jesuíta alemão, não apenas dirigiu a repartição e foi conselheiro científico do imperador, como também construiu igrejas e pregou por todo o império. Em 1657 Ferdinand Verbeis (1623-88) da Bélgica, juntou-se a ele e no governo do brilhante imperador K’ang Hsi (que reinou de 1662 a 1722) fez instrumentos astronômicos, projetou canhões e ajudou no acordo diplomático feito com os russos em 1685. À medida em que a hostilidade contra os cristãos foi diminuindo, cresceu o número de ministérios e missionários de vários países da Europa e ordens religiosas entraram no país. Um exemplo é o caso do chinês cristão com o nome de batismo Gregório Lopez, que estudou em

Manila, tornou-se dominicano, foi ordenado sacerdote e depois voltou para servir em seu país de origem. Então, em 1690 ele foi nomeado bispo de Nanquim. Na realidade, em 1700 a equipe de missionários não passava de cem pessoas enquanto o número de cristãos chineses era de no máximo trezentos mil, de modo que o verdadeiro impacto da fé sobre essa vasta população foi mínimo. Mais para o sul, nas Ilhas Filipinas, o processo de cristianização ocorreu de forma análoga ao da América Latina. Em função do patrocínio real, missionários de várias ordens viajaram em navios espanhóis e receberam apoio oficial e proteção. Ao mesmo tempo, suas atividades estavam sujeitas ao controle real. Os primeiros missionários também procuraram proteger os povos indígenas da avidez dos colonos brancos. Um dos mais notórios foi Domingo de Salazar (1512-94), primeiro bispo de Manila e aluno de Las Cásas. Ele condenou as práticas usadas para subjugar a população local e lutou contra a ganância dos oficiais civis. Os missionários espanhóis seguiram métodos que haviam sido utilizados na América, a saber, principalmente uma ênfase da substituição de ritos pagãos com festivais cristãos e a fundação de escolas, hospitais e associações de oração e caridade. Porém, os portugueses foram hostis aos clérigos espanhóis quando estes conduziram trabalhos missionários na China e na Índia, pois achavam que o patrocínio real lhes dava exclusividade para evangelizar nessas

áreas. Isso foi fonte de muitas tensões no século 17 e começo do século

18.

Um importante missionário nativo na Ásia foi José Vaz (1651- 1711), um missionário indígena de Goa. Como já era sacerdote em sua terra, ele decidiu começar um trabalho no Ceilão (Sri Lanka) de onde os holandeses estavam tentando expulsar a Igreja Católica. Em 1689 ele entrou na ilha disfarçado e ministrou secretamente em casas até que as autoridades holandesas o descobriram. Então, fugiu para o reino independente do Kandy, cujo governante lhe deu liberdade de evangelizar. Ele trouxe um outro sacerdote nativo de Goa e logo a obra estava crescendo. Em 1696 ele foi nomeado vigário geral da ilha, o que significava que era líder da Igreja na Ásia, um acontecimento singular nessa época.

A expansão ortodoxa russa No século 16 a Igreja Ortodoxa Russa ligou-se ao programa expansionista do czar. Se os povos recém-conquistados fossem convertidos à fé russa, isso ajudaria na assimilação. Assim, as missões recebiam apoio do governo. Ao invés de monges individuais trabalhando por iniciativa própria, o trabalho era feito por grupos maiores, sob a direção das autoridades eclesiásticas. Por exemplo, um arcebispado foi criado em Kazan em 1555 sob a liderança do abade Gurij, que conseguiu a conversão dos tártaros queremissianos ao oferecer-lhes isenção de

impostos e liberdade da servidão. Esse padrão repetiu-se com outros povos ao longo dos dois séculos seguintes. Com a abertura da Sibéria, os sacerdotes e monges ortodoxos apoiados pelo regime vieram logo depois dos comerciantes de peles e soldados. Várias tribos locais foram convertidas e em 1620 foi criado um arcebispado em Tobolsk. Com o passar do século 17, mosteiros e pontos missionários foram fundados em diversos lugares. Por exemplo, depois da fundação da cidade de Irkutsk em 1652, missionários ortodoxos começaram a trabalhar entre os mongóis buriates que viviam na região em torno do lago Baikal. Porém, eles só converteram treze por cento da população. A maioria continuou com as crenças tradicionais do xamanismo e o do budismo lamdaístico. A vida nômade de muitas tribos siberianas tornava difícil o trabalho missionário. Assim como seus antecessores, o czar Pedro I usou as missões como uma forma de assimilar os povos que não eram russos e fortalecer sua autoridade. Seu principal aliado foi Filofei Leszcynski, prelado metropolitano de Tobolsk que fundou novas obras por toda a região norte das Sibéria. Ele possuía autorização imperial para suspender os impostos daqueles que fossem batizados. Novas igrejas muitas vezes eram erguidas nos lugares que haviam sido centros de culto tradicional. A maioria dos Kamchatka havia sido convertida na metade do século 18 e a primeira missão foi enviada para o Alasca em 1794. Uma diocese foi criada no Alasca tendo como seu primeiro bispo residente

Ivan Venyaminov (1797-1879). Em 1848 ele construiu uma catedral em Sitka, que foi uma das missões indígenas mais bem sucedidas ao norte do México.

O

Mediterrâneo e o Oriente Próximo

O

tratamento dos judeus é um dos capítulos mais desanimadores da

história do Cristianismo. O registro de perseguições realizadas desde os tempos dos Cruzadas até a expulsão da Europa ocidental e central é desesperador e os únicos refúgios que os judeus encontraram foram na Espanha muçulmana e na distante Polônia, onde vários governantes dos séculos 13 e 14 haviam concedido direitos de assentamento. Porém, na Reconquista eles perderam a Espanha e, logo em seguida, a pedido de Torquemada, em 1492 Fernando e Isabel ordenaram a expulsão de todos os judeus que não se tornassem cristãos (Portugal fez o mesmo em 1497). Isso deixou o país desprovido de 170 mil dos seus súditos mais produtivos num momento em que precisava de todos os seus recursos para sustentar seu poder europeu e o império ultramarino. Os judeus

ibéricos ou “sefárdicos” foram dispersados por todo o mundo mediterrâneo, sendo que alguns também foram para a Holanda e outros para a América. Aqueles que se converteram sob intensa pressão (os chamados marranos ou cristãos “novos”), eram vistos com desconfiança e foram perseguidos pela Inquisição. De tempos em tempos entre os séculos 16 e

18, houve iniciativas específicas de evangelização dos judeus na Itália. Na Polônia, missionários jesuítas trabalharam entre os judeus orientais ou “asquenázicos” a fim de ganhá-los para o Catolicismo enquanto, depois dos territórios poloneses terem sido anexados à Rússia em 1648 e 1795, a grande população de judeus foi sujeita a uma discriminação cada vez maior e a tentativas de convertê-los à ortodoxia russa. Em outras partes o Cristianismo estava em declínio. Os turcos otomanos dominaram de vez o enfraquecido império bizantino e em 1453 conquistaram seu último foco de resistência, Constantinopla. Eles continuaram a ofensiva durante grande parte do século 16, capturaram Belgrado, Rodes, Chipre e quase toda a Hungria e foram contidos pouco antes de entrar em Viena em 1526. Seus navios dominaram o Mediterrâneo e um segundo ataque a Viena ocorreu em 1683. A situação resultante foi desanimadora para a Igreja Ortodoxa Grega. Muitos converteram-se ao Islã e aqueles que continuaram cristãos sofreram com os impostos discriminatórios. Jovens cristãos eram tirados de seus lares e criados como muçulmanos para fazer parte das forças militares Janissary (elite turca). Muitas igrejas foram transformadas em mesquitas, sendo Santa Sofia em Constantinopla a mais conhecida. O único progresso significativo contra o Islã foi na Espanha, onde a Reconquista se completou em 1492 e os mouros restantes foram forçados a tornar-se cristãos. Aqueles que rejeitavam o batismo foram expulsos entre 1502 e 1524. A Inquisição foi usada para acabar com as antigas

crenças e práticas entre os mouriscos, como eram conhecidos os muçulmanos convertidos. Aqueles novos cristãos que continuaram a

praticar suas antigas tradições culturais foram finalmente expulsos em

1609.

A

propaganda

O

ritmo cada vez mais acelerado do trabalho missionário católico

levou à criação de uma agência especial na cúria romana para coordenar essa iniciativa tão abrangente. Não havia unidade na metodologia missionária das diversas ordens religiosas e o controle excessivo que as coroas espanhola e portuguesa exerciam através de seu patrocínio tinha impacto negativo sobre o alcance das missões. Além disso, uma falta de obreiros havia se desenvolvido porque as forças ibéricas normalmente excluíam do serviço missionário em seu território qualquer um que não fosse nascido na Espanha ou em Portugal. Apesar da idéia de Roma assumir um controle firme no lançamento e direção de iniciativas missionárias já vir sendo discutida desde a década

de 1560, foi em 1622 que Gregório XV criou a Congregação para a Propagação da Fé, mais conhecida por Propaganda, seu título abreviado em latim. A princípio, ela era composta de treze cardeais e outros oficiais inferiores. Tendo em vista que sua jurisdição englobava todos os assuntos relacionados à atividade missionária, a Propaganda tinha amplos poderes. Ela começou solicitando de todas as ordens missionárias e

núncios papais informação sobre as condições e o progresso da obra missionária, um resumo dos métodos usados para propagar a fé e uma lista dos missionários. Esse órgão passou então a separar, classificar e analisar os dados para determinar quais eram os principais problemas enfrentados pelas missões. Depois de identificar os obstáculos e insucessos, a Propaganda pôs-se a melhorar a metodologia, aumentar o número de obreiros e incentivar o desenvolvimento de clérigos nativos. A fim de assegurar que se fizesse um esforço unificado, a Congregação insistia que a autorização para os trabalhos missionários só fosse obtida dela mesma. Os missionários deveriam fazer relatórios regulares sobre as condições, perspectivas e recursos de suas iniciativas. Ela examinava candidatos para avaliar se eram adequados e encorajava as ordens a montarem escolas para aqueles que desejassem servir no Oriente. Em 1627, sob o papado de Urbano VIII, a Propaganda fundou um seminário em Roma, o Collegium Urbanum, para treinar homens de várias nações para o sacerdócio que iriam exercer em qualquer parte do mundo a pedido do papa para propagar ou defender a fé. Criou também sua própria imprensa em 1627 a fim de produzir literatura cristã para as obras missionárias e, no final do século 18, já publicava livros em quarenta e quatro línguas asiáticas e africanas, tornando-se a mais importante imprensa da Europa. Para contrabalancear o patrocínio ibérico, a Propaganda deu início à prática de fazer com que a Santa Sé nomeasse “vigários apostólicos”

para o Oriente. Estes eram bispos que exerciam o poder diretamente sob o papa. Como eles não eram bispos de dioceses no sentido comum, estavam menos vulneráveis às pressões dos governantes seculares. Na verdade eles eram missionários itinerantes que recebiam suas ordens através da Propaganda e esperava-se que trabalhassem em favor da preservação da autonomia cultural e social nas terras não-ocidentais onde serviam. Porém, a Propaganda nunca foi capaz de tirar todo o controle exercido pela coroa da Espanha e de Portugal sobre os missionários em suas colônias, mas foi responsável por obras no norte da Europa, na América do Norte (até 1908) e na maioria dos lugares na África, Ásia e Ilhas do Pacífico. Uma figura importante foi o jesuíta Alexandre de Rhodes (1591- 1660) que cultivou laços de amizade com a corte real no Vietnã e fundou uma igreja auto-sustentável. Ele criou a linguagem escrita do Vietnã com seu dicionário, gramática e catecismo anamita. Depois de voltar para Roma em 1645, ele encorajou a Propaganda a nomear vigários apostólicos para dar continuidade ao trabalho missionário no leste da Ásia. Também teve contato com um grupo de sacerdotes devotos em Paris, os chamados “bons amigos” e através de seu incentivo dois deles — François Pallu (1628-84) e Pierre Lambert de La Motte foram nomeados vigários apostólicos. Em 1664 eles começaram um trabalho no Sião e fundaram uma escola para treinar sacerdotes. Do crescimento desse círculo nasceu uma importante organização, a

Société des Missions Étrangère (Sociedade das Missões Estrangeiras), formada em Paris em 1663. Ela era diferente das outras ordens religiosas que se dedicavam ao trabalho missionário, pois propagar a fé entre os povos não-cristãos era seu único objetivo. Ela pôs em prática a visão de Pallu de criar um clero nativo secular para as jovens comunidades cristãs do sudeste da Ásia. A sociedade acreditava que padres “comuns”, membros de ordens religiosas dirigidas pela Europa não tinham como oferecer a liderança necessária para fazer a igreja criar raízes em solo fora da Europa. Mesmo quando ordenavam sacerdotes nativos seculares para suas missões, as ordens os controlavam e não permitiam que desenvolvessem suas aptidões naturais de liderança. Assim, a solução era que o clero paroquial fosse secular e escolhido entre nativos e sob a direção de bispos também nativos. Foi com esse fim que a sociedade abriu um seminário em Paris que treinava sacerdotes seculares para pregar o evangelho e desenvolver líderes cristãos nativos. Uma instituição parecida foi criada em Quebec em 1668, sendo que esta mantinha contato com a sociedade de Paris até que os ingleses conquistaram o Canadá francês. O grupo contava com alguns obreiros na China, mas seu principal foco de atenção era a Indochina, onde, de acordo com relatórios, no final do século 18 havia 150 mil cristãos. Porém, tanto a Espanha quanto Portugal criticaram a nomeação dos dois vigários apostólicos como sendo uma violação do direito de patrocínio concedido por Roma. Também temiam que isso

fosse abrir uma brecha para o imperialismo francês, o que obviamente foi

o caso. Em 1787 o vigário apostólico da sociedade Pigneau de Behaine

garantiu auxílio naval francês para restaurar ao cargo o monarca deposto de Annan em troca de concessões territoriais, fato que marcou o início de um longo envolvimento com a França nessas terras. Apesar dos esforços da Propaganda para desenvolver mais clérigos

nativos, o processo era tão lento nos territórios sob sua jurisdição quanto nos reinos onde prevalecia o governo ibérico. O clero europeu continuou

a ser predominante em todo o mundo.

Controvérsias sobre ritos O trabalho da Congregação para a Propagação da Fé na Ásia foi colocado em risco por causa das brigas sobre ritos na Índia e na China e a decisão do papa sobre isso, com efeito, fechou as portas para qualquer futura adaptação missionária à cultura local. A primeira controvérsia foi sobre os ritos malabares e surgiu por causa da decisão do jesuíta Robert de Nobili (1577-1656) de permitir que os cristãos da missão de Madura, na Costa do Malabar mantivessem seus costumes. Os missionários procurariam se adaptar ao modo de vida do povo e pregar dentro das práticas nativas ao invés de transformar o povo em europeus. O sistema de castas foi mantido e Nobili vivia e comia como um indiano e estudava

a Vedanta e outros escritos religiosos indianos a fim de poder alcançar os líderes do bramanismo, sendo que, de fato, ele converteu alguns deles.

Nobili foi o primeiro europeu a ter conhecimento de primeira mão sobre o sânscrito e as vedas. Ele insistia que havia uma diferença entre ritos religiosos e costumes culturais e justificava estes últimos removendo elementos da superstição e direcionando-os num sentindo cristão. Alguns suspeitavam de sua tolerância aos costumes existentes e temiam que ele também estivesse pondo em perigo a soberania portuguesa sobre a Índia. Ele foi levado perante a Inquisição em Goa, a qual ficou dividida sobre a questão que foi apresentada a Roma. Em 1623 o papado tomou o partido de Nobili, que pode então continuar seu trabalho e o Cristianismo propagou-se rapidamente pela região.

O assunto foi trazido novamente à baila no final do século por

inimigos franceses da missão jesuíta no sul da Índia, envolvendo a Propaganda na controvérsia. Depois de quatro décadas de disputas políticas e desentendimentos eclesiásticos, o papa Benedito XIV decidiu em 1744 que todos os missionários deveriam fazer um juramento com dezesseis itens que, em sua essência, repudiava quase todas as adaptações à cultura indiana. Só em 1940 é que a Santa Sé finalmente

anulou esse juramento.

O conflito sobre os ritos chineses foi ainda mais sério e abrangente.

Matteo Ricci havia permitido que os cristãos chineses observassem as práticas de homenagear Confúcio e os ancestrais familiares. Ele via a manutenção dessas práticas “não-religiosas” como sendo absolutamente necessária para que fosse possível a conversão em grande escala da

sociedade chinesa. Seus sucessores jesuítas deram continuidade a essa política, mas então os franciscanos e dominicanos começaram a trabalhar na China e a questionar os ritos confucionistas como sendo superstição e sincretismo com o paganismo. Uma disputa intensa persistiu entre as partes durante anos, tanto na China quanto na Europa e até o imperador K’ang Hsi entrou na controvérsia. Determinações do pontífice em 1704, 1715 e 1742 concluíram (sem levar em consideração o seu papel crucial na cultura chinesa) que os ritos eram incompatíveis com o modo cristão de vida e foi imposto um juramento de submissão às determinações papais para todos os missionários (sendo que estas foram suspensas em 1939). O resultado da rejeição dos ritos chineses foi a expulsão da maior parte dos missionários e uma grande perseguição dos cristãos.

Apesar de ter sido ativa nos séculos 16 e 17, a iniciativa missionária católica romana acabou estagnando-se diante da passagem do tempo e no final do século 18 estava completamente parada. A dependência do patrocínio e a ligação com a política eram sem dúvida as grandes falhas dessa iniciativa. As missões portuguesas ficaram particularmente enfraquecidas pela união com a Espanha, o que abriu caminho para as potências protestantes da Europa atacarem suas colônias. Além disso, eles também encontraram culturas religiosas nativas mais bem- estabelecidas e resistentes na Ásia do que havia ocorrido com os espanhóis nas Américas e nas Filipinas. O declínio do poder espanhol

nos séculos 17 e 18 deixou as missões mais vulneráveis aos colonos brancos, enquanto a repressão ou expulsão da ordem jesuíta de importantes países católicos e sua dissolução pelo papa em 1773 deixou

a Igreja sem sua mais eficaz força missionária. O ceticismo religioso e a indiferença da era do Iluminismo iriam abalar ainda mais o entusiasmo missionário. Apesar dos protestantes europeus ainda não representarem uma ameaça significativa para a hegemonia católica no além mar, as sementes começaram a ser lançadas pelo movimento pietista e mais tarde elas produziram uma explosão mundial de iniciativas missionárias protestantes.

Capítulo 13 - O absolutismo e a ortodoxia moldam a Igreja Depois da redescoberta do evangelho pelos reformadores, seguiu-se

um longo período de controvérsia e foi desses desentendimentos que veio

a definição do posicionamento protestante. Os participantes desse debate

com freqüência lançavam mão da filosofia de Aristóteles para expressar suas idéias e esse neo-aristotelianismo foi uma tendência tanto nos meios protestantes quanto católicos europeus no período pós-Reforma. Já bastante conhecido em universidades do sul da Europa como Pádua na Itália e Coimbra em Portugal, o movimento espalhou-se para as universidades protestantes da Alemanha no final do século. A questão cristológica entre os luteranos, as discussões sobre predestinação entre os reformados e os debates dos dois sobre a Ceia do Senhor levaram a

definições mais precisas da doutrina que era conhecida no século 17 como ortodoxia protestante.

Ortodoxia protestante Apesar de gerações posteriores terem estereotipado a ortodoxia como se estivesse morta, esse era um conceito equivocado. Dentro de ambas as comunidades pós-Reforma na Europa surgiram diversos pensadores teológicos cujas obras eram recebidas com grande consideração e cuja influência entre seus contemporâneos era considerável. Johann Gerdard (1582-1637), professor de Teologia em Jena era o principal dogmatista luterano daquela época. Sua obra Confessio Catholica (1634-37) era uma forte defesa da fé protestante e Loci Theologici (1610-22) uma obra excepcional sobre a Teologia dogmática luterana. Abraham Calov (1612-86), professor em Wittenberg, produziu dezenas de trabalhos tratando dos principais tópicos da Teologia. Além de conduzir uma luta contínua contra as tentativas de se unir as diversas igrejas reformadas e católicas, ele foi autor de um importante comentário bíblico e dos doze volumes de Systema locorum theologicorum, uma teologia sistemática que foi a principal expressão do Escolasticismo luterano. Johann Andreas Quenstedt (1617-88), também professor de Wittenberg, escreveu Theologia didactico-polemica, tão completa, concisa e sistemática que poucas obras teológicas luteranas posteriores se equipararam a ela.

A Igreja Reformada também contribui com estudiosos do mesmo

nível. Johann Heinrich Alsted (1588-1638), um estudioso em Rhineland e mais tarde na Transilvânia, procurou unificar todo o conhecimento através de uma abordagem que combinava o aristotelianismo com o Escolasticismo do filósofo francês Petrus Ramus (falecido em 1572) e outras correntes intelectuais. Numa única obra, Encyclopedia Septem Tomis Distincta, ele juntou toda a gama de conhecimentos Metafísica, Lógica, Geologia e outras ciências e esses volumes foram usados por todo o mundo acadêmico do século. Gisbert Voetius (1588-1676), um professor em Utrecht, foi o principal expoente do Calvinismo escolástico. Ele defendeu fervorosamente a independência e pureza da Igreja, argumentou que a verdade na religião e Filosofia começava com a Palavra, condenou a tolerância de doutrinas errôneas e insistiu numa vida pessoal de devoção e rígida moralidade. François Turretin (1623-87), professor em Genebra, publicou a obra Institutio Theologiae Elencticae, um importante texto sobre as Escrituras baseado em Calvino e nos Cânones de Dort que moldaram profundamente a teologia de Charles

Hodge em Princeton no século 19.

O objetivo da ortodoxia protestante era unificar toda a Teologia e

harmonizar todo o conhecimento com sua visão de Deus. Os teólogos ortodoxos produziram extensas obras literárias que eram cuidadosamente esboçadas com muitas divisões e subdivisões que as tornam de difícil leitura nos dias de hoje. Escritores ortodoxos normalmente apresentavam

seus pontos de vista num formato padronizado que se centrava na doutrina da salvação, passando pela história da salvação e concentrando- se sempre em como ela é obtida. Esses ensinamentos apoiavam-se fortemente em Aristóteles e certos lógicos medievais para a estruturação de seus argumentos mas suas bases eram sempre as Escrituras.

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A principal ênfase da ortodoxia era a Bíblia como fundamento da Teologia. Ela é a Palavra de Deus e portanto é confiável e a declaração externa (as palavras em si nas Escrituras) não é distinguível de seu significado mais profundo. A ortodoxia acreditava que Deus inspirou os profetas e apóstolos a escrever mensagens que recebiam dele. A Palavra divina foi, desta forma, preservada nas Escrituras sem erro, resultando numa Bíblia que era a norma infalível para os cristãos bem como o supremo tribunal para todas as disputas teológicas. Tendo em vista que

as Escrituras são o melhor intérprete de si mesmas, passagens difíceis poderiam ser compreendidas com a ajuda de outras mais claras. A ênfase era colocada na interpretação literal do texto sagrado, isto é, aceitando o seu significado mais simples e aparente. Com relação à Divindade, os ortodoxos interessavam-se pela união das naturezas humana e divina de Cristo em uma só Pessoa. Eles discutiram como uma natureza afetava a outra e como elas interagiam em Cristo. Crendo firmemente na criação divina, eles viam a humanidade como o ápice da obra de Deus. Mas Adão pecou e caiu e, por causa da unidade da raça, a corrupção do pecado foi passada de geração para geração. Os seres humanos estavam sob a ira de Deus e sujeitos tanto ao castigo temporal quanto ao eterno a menos que experimentassem a regeneração através de Cristo. Em sua definição de mal e pecado, porém, os ortodoxos luteranos e reformados tinham posições diferentes. A idéia calvinista de que Deus de alguma forma havia pré-ordenado o mal de acordo com sua vontade secreta (a base para a doutrina da dupla predestinação) era rejeitada pelos luteranos que afirmavam que Deus permite o mal e coloca limites para seu exercício mas não é responsável por ele. Os luteranos afirmavam uma única predestinação: os eleitos são aqueles que Deus ordenou à salvação enquanto os réprobos são aqueles que ele sabe de antemão que ao morrer não terão a fé salvadora. 1 Os luteranos afirmavam que era possível passar da morte para a

vida espiritual somente através da operação da lei e do evangelho. A lei é a sabedoria eterna e imutável de Deus para o viver em retidão. Resumida nos Dez Mandamentos, ela exige atos de bondade bem como um coração puro. Mas como a humanidade não pode obedecer a lei, seu papel não é de salvar, mas sim de condenar. O perdão só vem através do amor e sacrifício redentores de Cristo e é recebido pela fé penitente. Ao contrário do Cristianismo medieval, o ortodoxo afirmava que o arrependimento envolve apenas contrição e fé. (Confissão e absolvição foram descartadas.) A contrição é o efeito adequado da lei, que ameaça, acusa e condena; a fé é o efeito adequado do evangelho que conforta, edifica e salva. Ao ajudar as pessoas a compreender a importância do pecado e do castigo, a lei os leva ao arrependimento. O evangelho traz o perdão através de Cristo e as boas obras não têm nenhuma participação na salvação. Tendo em vista que a salvação não pode ser merecida, as boas obras são fruto da fé. Os atos realizados pelos cristãos são um meio de glorificar a Deus e ajudar o próximo. Os ortodoxos de ambas as confissões ensinavam que os sacramentos (batismo e Ceia do Senhor) eram, no Novo Testamento, o equivalente aos ritos hebraicos de circuncisão e Páscoa. Os sacrifícios do Antigo Testamento eram vistos como símbolos da vinda do Messias e a promessa de perdão de Deus era aplicada sobre o indivíduo através dos sacramentos. A Igreja invisível era a congregação de todos os santos e crentes, enquanto a Igreja visível incluía a todos que professavam a fé no

evangelho. Aqueles que e associavam a Cristo apenas de modo externo seriam separados dos verdadeiros crentes no Dia do Julgamento. Então, o mundo seria destruído pelo fogo e os fiéis receberiam vida eterna enquanto os perversos seriam lançados ao inferno.

A espiritualidade ortodoxa Ao observar-se os enormes tomos produzidos pelos teólogos ortodoxos pode-se ter a impressão de que era um movimento de intelectualismo morto, mas na verdade, sua época foi marcada por uma fé viva e vibrante. Do meio do redemoinho, do sofrimento e dos conflitos do século 17 fluíram algumas das declarações mais espirituais já vistas sobre a fé cristã. Phillip Nicolai (1556-1608) foi um pastor na Westphalia que enterrou mais de 1300 párocos durante a terrível praga e, ainda assim, escreveu dois dos hinos mais lindos do hinário luterano Desperta pois a Noite se Vai e Quão Brilhante é a Estrela D'Alva. Johann Heermann (1585-1647) era pastor na cidade de Koeben, na Silésia, que foi praticamente destruída por um incêndio, varrida pela peste e saqueada por exércitos na Guerra dos Trinta Anos. Durante essa época em ele perdeu todos os seus bens e fugiu para não ser morto, Johann escreveu o hino Querido Jesus, que a Lei Quebraste. Sem dúvida, o maior escritor de hinos desse período foi Paul Gerhardt (1607-76), cuja importância para a hinologa na Alemanha equipara-se a de Charles Wesley para a igreja de língua inglesa. Primeiro

ele foi tutor, depois diretor em Mittenwalde em Brandenburg e finalmente pastor da prestigiosa igreja de São Nicolau em Berlim. Então, perdeu sua posição com a queda do governante da Prússia por causa de sua forte posição luterana e recusa a adaptar-se ao Calvinismo. Depois de um tempo de grandes dificuldades ele acabou sendo nomeado arquidiácono em Lueben, na Saxônia, onde permaneceu até o fim de sua carreira. Seus últimos anos foram marcados pela tragédia pessoal: sua esposa e quatro de seus cinco filhos faleceram antes dele. Na fornalha da aflição Gerhard escreveu mais de 140 hinos. Eles refletiam sua experiência pessoal e a calamidade social de seu tempo. Ele venceu suas dúvidas através de uma forte fé baseada na obra de Deus na natureza, na Igreja e nas Escrituras. Tinha uma consciência profunda do pecado e ainda mais profunda da graça de Deus e do poder de seu perdão. Entre seus textos mais conhecidos estão: Ó, Fronte Ensagüentada; Jesus, Teu Amor Infinito por Mim e Senhor, Como Irei Encontrá-lo?. A hinologia calvinista diferia da luterana no sentido de que era dirigida quase que exclusivamente aos Salmos do Antigo Testamento. Escritores criativos produziram versões “métricas” dos textos sagrados, isto é, adaptavam em forma de verso poético, compunham a música e depois a cantavam sem o acompanhamento de instrumentos, exceto na Holanda onde o órgão continuou sendo usado. O Saltério de Genebra era uma coleção de salmos métricos em francês que foram traduzidos para o

alemão e holandês e durante muito tempo foi o único hinário usado pelas igrejas reformadas do continente. Em algumas igrejas escocesas e inglesas que não tinham condições de comprar livros ou onde os párocos eram, em sua maioria, analfabetos os salmos eram “declamados em linhas”. Um líder lia uma linha de cada vez e a congregação a cantava. Sentimentos religiosos profundos também foram expressos através das obras devocionais da época da ortodoxia. Estas eram apresentações populares da fé cristã voltadas para o uso individual ou em grupos para ajudar na oração e meditação. Muitas delas seguiam o modelo de A Imitação de Cristo escrita por Thomas à Kempis. Escritores luteranos chegaram a produzir livros de orações especiais para soldados, viajantes e gestantes. Sem dúvida, o autor mais influente de obras devocionais foi o pastor Johann Arndt (1555-1621). Seus quatro (mais tarde seis) Livros sobre o Verdadeiro Cristianismo e a obra Pequeno Jardim do Paraíso eram amplamente usados e o primeiro título foi um dos livros devocionais mais importantes da história cristã. Ele enfatizava a união mística do crente com Cristo isto é, não era suficiente simplesmente mostrar a fé através de uma crença correta, era preciso dedicar-se à purificação moral e a um viver de retidão. Assim, a penitência e um relacionamento íntimo com o Pai celeste que redimiu a humanidade também eram necessários. Outras obras devocionais importantes do século 17 incluem A Prática da Piedade de Lewis Bayly, Meditações

Sagradas de Johann Gerhard, Prática da Piedade de Johann Heermann e O Beijo de Amor do Céu de Heinrich Mueller.

O princípio da igreja territorial

A definição do princípio territorial pela Paz de Augsburg (1555) no

qual vários príncipes do Sacro Império Romano determinavam a confissão religiosa de seus súditos católica ou luterana e sua confirmação e extensão ao Calvinismo na Paz de Westphalia (1648) tiveram um impacto debilitante sobre a vitalidade das igrejas protestantes na Alemanha. A situação foi agravada pela adoção do absolutismo monárquico pela maior parte dos príncipes alemães no final do século 17 e começo do século 18. Isso significava não apenas uma uniformidade imposta de credo entre o povo de cada principado mas também que o chefe de Estado exercia o papel dominante da Igreja em si. Os governantes lançavam éditos tratando de questões religiosas em seus territórios da mesma forma como faziam com leis seculares e estendiam sua autoridade sobre quase todos os aspectos da vida da Igreja.

Bispos ou sínodos não tinham permissão de funcionar de maneira independente do poder real. Os soberanos normalmente nomeavam ou ratificavam os indivíduos que eram escolhidos e, através dessas estratégias, controlavam as finanças e disciplina da Igreja e a indicação dos clérigos. O líder clerical da igreja era um superintendente geral e cada diocese (ou unidade administrativa semelhante) tinha um diretor

que providenciava para que as políticas e desejos do governante fossem obedecidas. As disputas dentro da Igreja eram resolvidas por “inspeções” que o príncipe sancionava e cujos relatórios eram enviados a ele. Os príncipes também interferiam nas áreas doutrinárias, apesar de muitas vezes terem pouco conhecimento teológico e, na verdade, eles funcionavam como “papas protestantes” de seus súditos. Johann Gerhard justificou essa situação argumentando que a Igreja era dividida em três grupos: a autoridade civil, o clero e a hierarquia e conjunto de leigos. Cada um desses grupos tinha um papel divinamente ordenado: as autoridades civis eram responsáveis pelo governo; o clero devia aconselhar os governantes, disciplinar o povo e administrar os sacramentos; e os leigos deviam seguir a orientação do governante e do clero.

O verdadeiro poder estava claramente nas mãos do príncipe. Ele exercia autoridade sobre os outros dois grupos e considerava-se nomeado por Deus para ser o guardião tanto do bem-estar divino quanto material de seus súditos. Alguns escritores contemporâneos justificavam a autoridade do príncipe tomando por base os direitos legais que antes eram exercidos pela hierarquia na Igreja Católica e que passaram a recair sobre os governantes dos estados alemães protestantes, enquanto outros iam ainda mais longe e sugeriam que o papa e seus representantes haviam usurpado o poder que a princípio os governantes haviam recebido diretamente de Deus e que permitia que eles agissem em seu

favor estabelecendo um governo civil. Pastores em países protestantes do continente estavam basicamente sob o controle das autoridades civis e sua tarefa era explicar as doutrinas para os leigos. Porém, a situação política contribuiu para uma redução na posição e na qualidade do clero nesses lugares. Ao contrário das igrejas católicas e anglicanas, poucos aristocratas entravam para a profissão clerical. Os ministros vinham das classes mais baixas e eram considerados inferiores pela nobreza. Em muitas universidades alemãs, o curso de Teologia era o único aberto para pessoas de origens mais humildes e os clérigos protestantes consequentemente tinham menos polidez e capacidade de se adaptarem à alta sociedade do que seus colegas católicos. Mas o que lhes faltava em sofisticação era contrabalanceado por uma ênfase no estudo que por vezes beirava o pedantismo. A teologia escolástica enfatizava a loquacidade e o uso de frases em latim, grego e hebraico nos sermões, mesmo que poucos ouvintes tivessem alguma idéia do que se tratava tudo aquilo. Assim, para ajudar na comunicação, os pregadores muitas vezes usam fábulas, ilustrações, metáforas forçadas e estranhas imagens. A vida de um pastor típico não era fácil. Apesar de ter estudado numa universidade, com freqüência ele passava muitos anos trabalhando como tutor ou professor antes de finalmente ganhar o púlpito. E mesmo assim sua posição nunca era garantida pois ele poderia desagradar o príncipe ou algum dignitário local e ser dispensado. Os pastores de vilas

muitas vezes eram tão pobres que precisavam complementar sua renda continuando a lecionar ou dedicando-se a tarefas como a agricultura, fabricação ou venda de cerveja. Os membros mais favorecidos do clero eram os pregadores da corte e professores teológicos. Os luteranos tinham respeito especial pelos docentes de Teologia e desse contexto acabou surgindo o conceito de liberdade acadêmica que foi a contribuição distintiva das universidades alemãs para o ensino superior. Apesar do estilo de educação, das dificuldades de expressão nos sermões e de uma completa falta de qualquer ênfase profética em suas mensagens, muitos pastores da época eram homens profundamente espirituais que se sentiam responsáveis pelo cuidado das almas. Muitos luteranos dedicavam-se à instrução dos jovens através do catecismo e até mesmo ouviam confissões particulares dos párocos. Num livro conhecido, Voetius aconselhava os cristãos em como viver uma vida de retidão. Suas prescrições incluíam oração, jejuns, vigílias e exercícios devocionais na luta contra o mundo, a carne e o diabo. Ele dava conselhos sobre como visitar aqueles que precisavam de consolo e morrer com dignidade no final da peregrinação aqui na Terra.

A renovação católica

À medida em que a era da ortodoxia estabeleceu-se na Europa, o

zelo das duas confissões protestantes foi diminuindo e a fé tornou-se muito mais voltada para dentro. Até mesmo os calvinistas franceses aos

quais o Édito de Nantes havia concedido direitos legais e civis e liberdade de culto público, perderam muito de seu zelo e o mesmo aconteceu com os calvinistas holandeses que viviam num país que, naquela época já possuía políticas relativamente avançadas em relação à tolerância religiosa. Porém, paralelo ao declínio dos protestantes, ocorreu um importante reavivamento do Catolicismo e a condição revigorada da Igreja Católica e do clero na França coincidiu com realizações nacionais em outras áreas. O século 17 foi a era de ouro da literatura francesa, o que encorajou o clero a ser mais artístico em suas pregações e escritos religiosos.

A atmosfera política e social incentivada pelo rei Luís XIV também

foi um fator contribuinte. Ele expressava o prazer que sentia quando ouvia a pregação de um ministro que não era apenas eloqüente mas acreditava com todas as suas forças naquilo que dizia. O clero esperava fazer dele uma pessoa melhor e, através do rei, alcançar toda a nação e seu interesse pessoal pela religião tornou a freqüência às missas uma moda na corte, ajudando a igreja a exercer influência sobre a vida

francesa.

A liberdade que os huguenotes gozaram durante grande parte do

século (Luís começou a persegui-los no final da década de 1670) empurrou o clero católico da França no sentido de uma fidelidade maior. Tendo em vista que não podiam depender da perseguição para enfrentar os protestantes, eles foram forçados a usar a pregação e um ministério de

cuidado para ganhar as pessoas e encarar, assim, o desafio dos huguenotes. François de Sales (1567-1622) foi especialmente importante pois dedicou-se à obra missionária em Savóia, uma área de forte influência huguenote. Sua diligência em ganhar o povo de volta para o Catolicismo o levou a ser nomeado bispo de Genebra. Suas pregações e escritos especialmente a obra Introdução à Vida Devocional (1609) que

procurava mostrar a possibilidade de se levar uma vida de devoção cristã mesmo em meio às distrações do mundo, teve uma influência profunda na devoção católica. Ele foi o mentor espiritual de uma viúva profundamente devota, Jeanne Françoise de Chantal (1572-1641). Em

1610 ela formou a Ordem da Visitação (também conhecida como as

visitandinas ou irmãs salesianas), que dedicou-se à educação e ao

cuidado dos enfermos. João Bosco, um admirar do século 19, fundou em

1859 a Sociedade de São Francisco de Sales (Padres Salesianos) que

acabou tornando-se uma das três maiores ordens católicas missionárias e de ensino. Outra figura de grande devoção foi Vicente de Paulo (1580-1660) que logo no início de sua carreira como sacerdote resolveu dedicar sua vida aos pobres. Ele criou duas importantes ordens religiosas, os lazaristas (ou vicentinos) em 1625, uma congregação missionária e de pregação e as irmãs da caridade em 1633. Membros desta última dedicaram-se totalmente aos enfermos e pobres. Durante o conflito civil conhecido como Fronde, ele organizou amplos trabalhos de assistência

entre a população agonizante. Em sua pregação, ele enfatizava a encarnação e a dependência total dos méritos de Cristo.

A figura mais proeminente da renovação católica na França foi

Jacques-Béningne Bossuet (1627-1704). Ele não apenas foi o maior pregador do século 17 como também possuíam um conhecimento admirável da Bíblia, dos Patriarcas da Igreja e das tendências intelectuais

de sua época. Ele foi bispo em Meaux, tutor do príncipe e pregador da corte, teve um papel ativo nas controvérsias com os protestantes e alas fora dos padrões dentro do Catolicismo e foi autor de vários livros. Bossuet é lembrado especialmente por sua defesa vigorosa do direito divino dos reis. Ele afirmava que o rei (referindo-se, é claro, a Luís XIV) recebia do alto o seu mandato para governar e que seria responsável diante de Deus, e não dos representantes eclesiásticos na Terra, pela forma como conduziu sua missão. Como a instituição da monarquia era de origem divina, esperava-se que todos os súditos dedicassem sua lealdade ao soberano. Se ele não fosse capaz de governar com sabedoria, seria julgado por Deus. Não cabia ao povo ou a Igreja fazer tais avaliações. 2

O

absolutismo monárquico

O

caráter do Cristianismo europeu foi profundamente afetado pelos

governantes de seu tempo. O absolutismo monárquico surgiu no início do século 17 na França, chegou ao seu ápice durante o reinado de Luís XIV,

que durou até 1715 e foi imitado pela maioria dos soberanos do continente. A estratégia dos primeiros arquitetos do absolutismo era dar um fim às incessantes lutas que haviam rasgado a França durante as Guerras Religiosas ao sustentar o ideal de unidade nacional como sendo superior à unidade religiosa e o monarca como a única pessoa ao redor da qual o país poderia se reunir. Assim, conforme foi mencionado anteriormente, o Huguenote Henrique IV, que subiu ao trono em 1589, converteu-se formalmente ao Catolicismo pois essa era a fé da grande maioria de seus súditos. Mas em seguida ele deu liberdade religiosa e política para seus antigos correligionários com o Édito de Nantes. Ele era um “politique”, ou seja, ele via o Estado e a continuação de sua existência como sendo da maior importância e a questão religiosa simplesmente teve que ficar em segundo plano em relação às preocupações políticas seculares do Estado. Como resultado, o terrível conflito entre protestantes e católicos franceses arrefeceu. O cardeal Richelieu, cuja posição na Igreja foi resultado de influência política e cujas preocupações eram em sua grande maioria seculares, emergiu na metade da década de 1620 como ministro do sucessor de Henrique, Luís XIII e levou o processo ainda mais adiante. Como governante virtual da França, em nome do rei ele reduziu o poder da nobreza ao proibir o envolvimento em duelos e guerras particulares e a fortificação de suas residências (castelos). Ele também tirou dos

huguenotes o direito de usar armas em defesa própria depois de reprimir brutalmente sua rebelião em La Rochelle em 1628. Para diminuir a influência da nobreza, Richelieu deu início à prática de nomear oficiais para as províncias, os chamados intendentes que pertenciam à classe média e respondiam ao governo real. Depois da morte de Luís e Richelieu, outro líder eclesiástico político, o cardeal Jules Mazarin, tornou-se primeiro ministro. Os nobres apelaram para as armas em Fronde (1648-53) a fim de reconquistar sua posição de proeminência e Luís XIV, que tornou-se rei em 1643 aos cinco anos de idade, sujeitou-se à regência durante esse período desagradável, determinado a nunca mais tolerar tal situação. Em 1661 Mazarin faleceu e Luís obteve a maioridade. Pôs-se então a identificar-se totalmente com o Estado francês (seu famoso lema era “L'Etat cest moi" [Eu sou o Estado]) e implantar um governo absoluto. Ele escolhia intendentes e outros oficiais que eram fiéis a ele, dirigia grande parte das operações de governo através de concílios que reportavam-se pessoalmente a ele e tomava todas as decisões importantes. Legislava através de decretos que eram devidamente registrados pelas principais cortes da lei e até mesmo prendia pessoas por ordem real sem julgamento. O talentoso ministro das finanças de Luís, Jean Baptiste Colbert (1619-83) dirigia o comércio, a indústria, a agricultura e as finanças. Ele também administrava as colônias através do sistema de mercantilismo,

um conceito de nacionalismo econômico que envolvia uma cuidadosa regulamentação governamental. Sob sua liderança competente as rendas do governo triplicaram mas as guerras de Luís tornavam impossível um orçamento equilibrado. Os dois também incentivavam a literatura, as ciências e as artes e fundaram academias que levaram a expressão na língua francesa ao ápice de perfeição. O francês tomou o lugar do latim como língua do povo educado e culto da Europa. O emblema de Luís era o Sol, o centro do universo e seus súditos referiam-se a ele como o “Rei Sol” enquanto outros na Europa o chamavam de “Grande Monarca”. Ele apreciou a caracterização do bispo Bossuet na qual o rei era escolhido por Deus para governar e só respondia diretamente a ele. Como ele era o agente de Deus na Terra, o povo era obrigado a se submeter a ele sem questionamentos. Para garantir que a nobreza não seria mais uma fonte de resistência, Luís construiu um enorme complexo com um palácio e um parque em Versalhes, próximo a Paris. Foi o projeto arquitetônico mais magnífico do século e milhares de nobres viviam nos suntuosos cômodos e eram atendidos por quatro mil empregados. Tendo em vista que gostavam de cerimônias e ostentação, a vida da corte girava em torno do elaborado calendário social sendo o rei Sol o centro de todas as atividades. Os nobres passavam a vida no ócio participando de cerimônias reais, recepções, jogos, caça; indo a concertos, peças e bailes ou entregando-se à licenciosidade e fofocando sobre os outros. Lisonja e hipocrisia eram as chaves para o sucesso na

corte e as pessoas mais sensíveis eram desmoralizadas. Versalhes praticamente marcou a ruína da aristocracia francesa como classe social e, apesar dos nobres terem passado por um ressurgimento depois da morte de Luís, estavam num caminho que levaria ao declínio e teria como destino a grande revolução um século mais tarde. Em sua determinação de centralizar o controle, Luís decidiu abandonar a tolerância aos não-católicos. Os huguenotes, com seus direitos especiais, pareciam mais um Estado à parte dentro da França e os católicos pediam ao rei uma restauração da unidade religiosa no país. Mesmo que no período pós-Reforma o poder nas relações entre Igreja e Estado tivesse, sem dúvida, mudado para o lado do Estado, ainda assim persistia a idéia de que os dois eram inseparáveis e Luís via a existência dos huguenotes como uma ameaça tanto para seu governo como para a fé católica romana. Assim, a partir de 1679 foi tirando aos poucos os seus privilégios. Fechou igrejas e escolas e colocou soldados para viver em suas casas. Esta última ordem tornava a vida tão desagradável que alguns chegaram a converter-se ao Catolicismo para escapar dela. Finalmente, em 22 de outubro de 1685, uma ordem real revogou o Édito de Nantes. Ela exigia que todos os pastores reformados saíssem do país e que igrejas fossem destruídas. As escolas huguenotes não eram mais permitidas, as crianças deviam ser mandadas para a missa regularmente e qualquer um que nascesse numa família da “falsa religião” deveria ser batizado novamente. Não seria permitida nenhuma

outra prática religiosa formal fora da Igreja Católica Romana, mas os adultos ainda poderiam gozar de “liberdade de consciência”. Ao contrário do clero, os leigos foram proibidos de imigrar pois suas aptidões eram necessárias para fortalecer a economia nacional. Aqueles que fossem pegos tentando fugir teriam suas propriedades confiscadas e seriam sentenciados às galés. O resultado foi uma grande resistência. Muitos dos reformados continuaram adorando em silêncio ou fazendo cultos clandestinos em casas ou nas florestas. Os pastores que não partiram foram caçados e, na maioria das vezes, enforcados. Crianças huguenotes foram arrancadas de seu lar e entregues a pais católicos. Apesar da perseguição, uma igreja subterrânea começou a crescer. Místicos apocalípticos do sul da França conhecidos como camisards revoltaram-se em 1710. Eles foram inspirados pelos escritos do conhecido teólogo reformador Pierre Jurieu (1637-1713), um defensor da liberdade plena de consciência e do uso de armas para combater aqueles que recorriam à violência para negar a liberdade religiosa. Apesar da oposição oficial, Antoine Court (1696- 1760) reuniu o que restou dos franceses reformados no primeiro sínodo provincial em 1715. Não tardou para que uma escola de treinamento de ministros fosse fundada na Suíça e a disciplina e ordem voltassem nas congregações dispersadas. Com o surgimento do Iluminismo, as pressões diminuíram rapidamente, os huguenotes recuperaram direitos civis limitados e durante a Revolução Francesa e era napoleônica a total

liberdade religiosa foi concedida. Porém, cerca de duzentos mil franceses partiram depois que o Édito foi revogado em 1685, sendo a maioria deles artesãos competentes ou soldados e marinheiros experientes. Os refugiados foram cordialmente recebidos em terras protestantes como a Holanda, Prússia, Inglaterra e nas colônias da África do Sul e América do Norte e contribuíram imensuravelmente para a vida econômica e cultural de seus novos países de residência. A França perdeu apenas um por cento de sua população nessa imigração ilegal, mas estes estavam entre os cidadãos mais produtivos, o que danificou a estrutura social e econômica do país. Os gastos exagerados de Versalhes, os maus tratos aos huguenotes e a ambição insaciável de Luís por poder nacional fazendo com que a França se envolvesse numa sucessão de guerras (incluindo o primeiro conflito realmente global) desfizeram muito daquilo que tinha sido realizado no absolutismo francês.

Absolutismo alemão Os métodos de Luís XIV foram imitados em outras partes da Europa, especialmente na colcha de retalhos composta de vários estados que formava a Alemanha pós-Westphalia. Imitações de Versalhes surgiram em lugares como Potsdam, Dresden, Munique, Hanover e Ludwigsburg (próximo a Sttutgart). Os príncipes alemães estabeleceram o serviço público, introduziram

o mercantilismo e sistemas eficientes de coleta de impostos, criaram

exércitos permanentes, mantiveram a Igreja sob controle e, na corte, adotaram os modos, estilos e até a língua da França. A principal diferença nesse caso era que a nobreza estava incorporada no sistema e tinha recebido cargos proeminentes no serviço público. Em troca da submissão à autoridade absoluta do rei ou príncipe e fidelidade em seu

serviço, eles tinham liberdade administrativa sobre suas propriedades.

Assim, a posição social da classe média e dos camponeses deteriorou-se na era de absolutismo alemão.

A aplicação mais bem-sucedida dos métodos absolutistas foi feita

pela família Hohenzollern em Brandenburg-Prússia. O eleitor de Brandenburg, Frederico Guilherme, herdou em 1640 uma série de territórios arenosos espalhados pelo norte da Alemanha e indo do Reno até a Polônia. Conseguiu formar um exército tendo como base a pequena

nobreza (classe dos Junkers) que era eficiente e completamente leal a ele

e foi capaz de aumentar admiravelmente a base territorial e a força econômica de seu Estado.

A atitude de Guilherme em relação à religião foi particularmente

importante. Apesar do Calvinismo, ele reconheceu que muitos de seus súditos no oeste da Alemanha eram católicos e os de Brandenburg e do leste da Prússia eram luteranos. Tendo em vista que ele estava procurando infundir a unidade em seus domínios ao mudar de lugar oficiais e soldados, ele entendeu que qualquer iniciativa no sentido de

impor a uniformidade confessional iria enfraquecer seus esforços pela unidade. Frederico Guilherme seguiu o exemplo de Georg Calixtus (1586-1659), um professor da Universidade de Helmstedt que havia desenvolvida uma teoria chamada de “sincretismo”. A doutrina tinha sido criada para trazer a reconciliação entre luteranos, calvinistas e católicos tendo como base as Escrituras, o Credo dos Apóstolos e a fé aceita durante os cinco primeiros séculos da Igreja. Assim, o “Grande Eleitor” adotou uma política de tolerância forçada sobre seus súditos, quer o clero gostasse ou não. Isso também explica porque foi tão fácil integrar milhares de refugiados huguenotes no país em 1685, sendo que eles enriqueceram grandemente a economia. Seu filho, Frederico I (1688-1713) adquiriu o título de rei da Prússia e fundou uma nova universidade em Halle que estava para tornar-

se o principal centro do Pietismo alemão. Seu neto, Frederico Guilherme

I (1713-40) fez de seu exército o quarto maior da Europa, mesmo que a

Prússia só ocupasse o décimo segundo lugar em população. Aperfeiçoou

a idéia de limitar os grupos de oficiais à pequena nobreza proprietária de

terras, desenvolveu um esquema para alistar soldados dentre os camponeses e fundou, assim, o militarismo prussiano. Um governante profundamente devoto, ele detestava a preguiça e frivolidade e chegou a fechar teatros pois os considerava “templos de Satanás”. Assim como seus predecessores, porém, ele não tinha intenção de impor a hegemonia confessional em seus domínios. Para ele, as igrejas não eram apenas

lugares onde se pregava o evangelho, mas também instituições públicas de utilidade que podiam inculcar valores como integridade, lealdade, submissão e obediência. No seu reino também foi fundado o primeiro programa de escola primária sustentado pelo Estado. As matérias ensinadas eram Religião, Leitura, Escrita e Aritmética. Na verdade, Frederico Guilherme I era um disciplinador tão severo

e cruel, tão ávaro e sem profundidade espiritual que quando seu filho Frederico II (1740-86), conhecido como Frederico o Grande, assumiu o

poder, rejeitou a religião do pai e manteve o menor contato possível com

a Igreja. Ao mesmo tempo, ele usou o poderoso exército passado a ele

em duas grandes guerras que transformaram a Prússia numa grande potência e prepararam a cena para a manifestação posterior do nacionalismo alemão. Quanto à igreja na Prússia, ao contrário da França, ela claramente não ganhou nada com o absolutismo monárquico e como a religião era usada para apoiar a posição social, sua vitalidade dissipou-se. Em lugar algum isso ficou mais evidente do que na Rússia.

O Cristianismo e o absolutismo na Rússia Conforme foi mencionado anteriormente, o príncipe de Kiev tinha aceito o Cristianismo oriental, mas durante o período mongol o centro gravitacional mudou para Moscou, no norte. O governante moscovita Ivan III (1440-1505) exaltou a ortodoxia russa, declarou-se herdeiro do Império Romano Oriental, trouxe a cultura bizantina para seus domínios

e afirmou que a Rússia moscovita era a “Terceira Roma”. Seu neto, Ivan

IV (1538-84) lançou um programa de expansão para o Leste que, durante

o século seguinte, resultou no controle da Rússia sobre as regiões de florestas da Sibéria. Apesar de ser conhecido por sua extrema crueldade (era chamado

de Ivan o Terrível, reprimiu a nobreza sem piedade e matou seu próprio

filho num ataque de raiva) ele criou algumas ligações comerciais com o Oeste e patrocinou um plano de construção de igrejas em todas as comunidades para que o povo pudesse ouvir o evangelho. Além disso, esses eram lugares em que a gente simples podia aprender a ler e escrever. Os padres davam aos párocos aulas de ofícios básicos e ensinavam a Bíblia através de figuras, usando ícones e afrescos para que

até mesmo o analfabeto tivesse algum entendimento das Escrituras.

Assim, a fé ortodoxa lançou raízes profundas entre o povo. Em 1589 o czar elevou o líder da igreja russa à posição de patriarca, tornado-o igual aos outros quatro patriarcas da igreja do Oriente. Havia uma forte competição entre Roma e Moscou pela lealdade do

povo na vasta região leste da Europa. Apesar da maioria ser católica, muitos no oeste da Ucrânia (também conhecida como Rutênia) eram ortodoxos e estavam sob a jurisdição do prelado metropolitano de Kiev. Porém, em 1443 o papa providenciou para que o rei polonês que governava a região nomeasse um prelado católico romano. Dentro de um século, a maioria das igrejas havia mudado de volta para a ortodoxia, mas

em 1595 o papa Clemente VIII e o rei Sigismundo III concluíram a União de Brest-Litovsk, que declarava que os bispos de rito bizantino e as igrejas do oeste da Ucrânia aceitariam a supremacia papal mas manteriam sua liturgia e disciplina. Era a chamada igreja “uniata”, da palavra ucraniana para unidade. À medida em que o Estado russo se expandiu para dentro desses territórios nos séculos seguintes, os rutênios uniatas foram compelidos a voltar para a ortodoxia. Pelo fato da Rússia continuar isolada do Ocidente, ela praticamente não foi influenciada pelos acontecimentos entre 1400 e 1700 que transformaram a Europa e deram início à civilização moderna. Não havia classe média, ela não teve nenhuma revolução comercial, Renascença ou Reforma e não participou do surgimento da Ciência moderna. O governo perdeu forças durante um período de conflitos civis e guerras com outros países conhecido como “Tempo Tumultuoso” (1598-1613) que terminou com a união dos nobres apoiando Michael Romanov para restaurar a ordem. Porém, a tradição de uma monarquia forte continuava intacta e isso deu bases para a continuidade da expansão geográfica no leste europeu e Ásia e para a modernização promovida por Pedro o Grande. O patriarca Nikon (1652-60) realizou um reforma litúrgica de modo que houvesse conformidade com as práticas gregas e ucranianas, o que para seu aliado, o czar Alexis, foi útil na assimilação da Ucrânia. Muitos ficaram insatisfeitos com as mudanças no ritual, como por exemplo a quantidade de prostrações durante a leitura de uma oração ou o número

de dedos usados para fazer o sinal da cruz. Mas ficaram ainda mais descontentes com o fato de Nikon não tratar dos problemas de corrupção espiritual e moral. Por isso, separaram-se da igreja oficial. Ficaram conhecidos como os “Crentes Antigos”. O reinado de Pedro I (1689-1725) marcou uma virada na história russa. Um monarca tão absolutista quanto qualquer do Ocidente, colocou em prática um programa de modernização forçada e ocidentalização criado para fortalecer o Estado e fazer da Rússia uma potência mundial. O czar era cheio de contrastes. Por um lado, era um gigante cruel e selvagem, de maneiras e fala ásperas, com um temperamento violento que gostava do obsceno, das bebedeiras e orgias e de torturar seus inimigos. Por outro lado, possuía uma energia inesgotável e um desejo insaciável pela grandiosidade da Rússia. Nos primeiros anos de seu reinado ele chegou a viajar para outros países para saber em primeira mão sobre as idéias e a tecnologia européia. Contratou centenas de artesão, técnicos, engenheiros e professores para trabalhar na Rússia. Então, embarcou numa remodelação da sociedade russa. Ordenou que seu povo raspasse a barba e vestisse roupas de estilo ocidental. Defendeu o uso do tabaco que até então era considerado pecaminoso e tirou as mulheres de sua reclusão tradicional. Incentivou o ensino fundando escolas e imprensas e exigindo pessoas instruídas para os cargos públicos. O símbolo mais marcante de seu programa de ocidentalização foi a fundação, em 1703, de uma nova capital próxima à

entrada do mar Báltico, a qual ele chamou de São Petersburgo. Essa “Janela para o Ocidente” serviria para contrabalancear Moscou, que era vista como extremamente conservadora e rígida em seus costumes. Para aumentar o poder nacional ele reformou o exército e o serviço público. Introduziu um imposto que fornecia a base financeira necessária para manter os militares, implantou um sistema de recrutamento para que houvesse um grupo de soldados profissionais e criou a primeira marinha russa. Ele mudou a base da nobreza da simples ancestralidade para o serviço público. Homens de classe alta eram incentivados a tornar-se oficiais do governo e, se alcançavam cargos altos o suficiente, recebiam títulos. Até mesmo pessoas educadas mas de condição social mais baixa tinham a possibilidade de ascensão nesse sistema de “nobreza de serviço” que continuou na Rússia até 1917. Assim como os nobres da Prússia, ao invés de serem excluídos da administração do reino eles eram inseridos no sistema de modo a tornarem-se dependentes do czar. Ele promoveu o crescimento econômico através de acordos comerciais, subsídios para a construção de fábricas e melhorias na agricultura. O verdadeiro objetivo da reforma de Pedro era permitir que a Rússia realizasse guerras de expansão contra países vizinhos, especialmente a Suécia. A Igreja Ortodoxa Russa foi um alvo específico do czar. Tendo em vista que a Igreja havia discordado de muitas de suas reformas, Pedro decidiu não nomear um sucessor para o patriarca quando este faleceu em

1700. Ao invés disso, assumiu ele mesmo o controle e decretou que apenas uma parte da renda da Igreja seria revertida para ela. Em 1721 resolveu a questão da ausência de um patriarca ao criar o Colégio Espiritual (que mais tarde foi chamado de Santíssimo Sínodo) para governar a Igreja. Composto de doze clérigos nomeados pelo czar, seu presidente ou procurador era um oficial civil que respondia diretamente ao monarca. Assim, a Igreja Ortodoxa Russa foi transformada em pouco mais do que um departamento de Estado sendo os sacerdotes meros servidores públicos com pequenos salários. Eram até obrigados a relatar à polícia qualquer evidência de traição ou ação contrária ao governo que fosse relatada no confessionário. O alto clero estava sob a mão opressora do Estado. Pedro também desativou vários mosteiros, ordenou uma revisão da liturgia e reformou o ensino eclesiástico. Apesar dessa nacionalização da Igreja, a quantidade de fiéis entre as classes mais baixas do povo continuou grande. Isso seria um elemento essencial do nacionalismo conservador russo no século 19, mas a Igreja em si não tinha a iniciativa ou energia espiritual para deter o poder da autocracia czarista. Muitos russos que se opunham à ocidentalização e às novas práticas juntaram-se aos Crentes Antigos, mesmo que isso significasse a perseguição que incluía execução ou exílio em partes remotas do reino. Eles constantemente condenavam os oficiais da Igreja por apostasia e a ordem czarista como sendo pertencente ao Anticristo. Muitos dissidentes

fecharam-se em pequenas comunidades que prosperaram e contribuíram para o desenvolvimento econômico da Rússia. Eles chegaram a ser aproximadamente vinte por cento da população e o governo nunca foi capaz de eliminar completamente o movimento. Também houve o surgimento de seitas radicais milenaristas, sendo que alguns de seus membros apresentavam comportamentos bizarros. Um tratado assinado durante o reino de Catarina a Grande, dando fim à guerra contra os turcos (1174), declarava o direito do monarca russo intervir no império otomano em favor dos súditos ortodoxos do sultão. Catarina também decretou que as terras da Igreja e dos monarcas deveriam ser propriedade do Estado, o que custou à Igreja três quartos de sua renda. Dessa forma, a Igreja tornou-se ainda mais um instrumento do Estado. A principal adversária da Rússia no monopólio do Báltico era a Suécia. Lá, a rígida ortodoxia luterana havia tornado-se a religião oficial permitindo que os monarcas aumentassem seu controle. O carismático Gustavo Adolfo fez muita coisa no sentido de consolidar a identidade luterana da Suécia. Sua filha, a rainha Cristina (1644-54), uma das figuras mais fascinantes do século, tentou conter o crescimento da nobreza e, ao fracassar, converteu-se publicamente ao Catolicismo e foi a Roma. Carlos XII (1697-1718), o mais famoso rei escandinavo, esteve em conflito com Pedro I durante todo o seu reinado e sua morte marcou o fim da grandeza sueca.

O estilo barroco

A era da ortodoxia e do absolutismo viram o admirável desabrochar

do estilo barroco, um expressão artística que tomou rapidamente o lugar do classicismo renascentista e caracterizou-se pelas formas exageradas e adornos complexos. A principio, o termo era usado de maneira depreciativa pelos críticos, mas nesse meio tempo o estilo passou a ser reconhecido e apreciado. O efeito do barroco é estonteante por causa de sua extravagância e grandeza. Por exemplo, uma pintura dessa época retratando um grupo de pessoas é clara e natural, mas é impossível visualizar os indivíduos separadamente. Os movimentos sugeridos pelo corpo e a direção dos olhares mesclam-se para apresentar uma situação dramática e criar um todo que é maior do que a soma de suas partes. Na Arquitetura barroca, o interior de um edifício combinava pintura, escultura e características estruturais para criar uma grande unidade. Uma das primeiras expressões desse estilo pode ser vista em Il Gesu, uma igreja jesuíta em Roma. Lá, a pintura no teto (A Adoração do Santo

Nome de Jesus) é habilmente mesclada com os altares e o resto da estrutura de modo a criar um efeito grandioso.

O centro do novo estilo foi Roma. No século 17 a cidade foi

praticamente refeita em estilo barroco. As igrejas novas (ou redecoradas) e os edifícios públicos foram luxuosamente ornamentados e decorados com querubins e anjos, colunas retorcidas e desenhos complexos em

outro e mármore. O arquiteto mais proeminente dessa época foi Giovanni Lorenzo Bernini (1598-1680), cuja obra de arte foi a praça em frente à Basílica de São Pedro. Com seus dois semicírculos de colunatas, ela transmite ao observador de forma nítida quão imensa é a instituição religiosa. A Reforma Católica ajudou a espalhar o estilo barroco por toda a Europa. Na Espanha a ênfase era evidente especialmente nas cores e ornamentações. O principal artista foi José Churriguerra (1650-1723) que decorou a então recém-concluída catedral em sua cidade natal de Salamanca com cores vivas e também projetou a praça da cidade. O barroco espanhol teve grande influência sobre Portugal e nas colônias ibéricas na América, especialmente no México, Peru e Brasil. Depois da derrota dos turcos em 1683, Viena foi totalmente redesenhada e igrejas, palácios e monumentos foram construídos em estilo barroco enquanto as estruturas góticas foram reformadas para combinar com as construções novas. Palácios como o de Belvedere e Schönbrünn eram impressionantes obras de arte. Outras cidades austríacas como Salzburg e Innsbruck e o magnífico mosteiro de Melk são marcos do barroco. Na Alemanha em si houve uma explosão do novo estilo nas construções. Os governantes dos vários principados competiam na contratação de arquitetos e construção de palácios, igrejas e mosteiros impressionantes e com freqüência extrapolavam suas possibilidades

financeiras. O eleitor da Saxônia, Augustus II (1694-1733) pôs-se a transformar sua cidade de Dresden na “Florença do Elba” e o carro-chefe de seu ambicioso projeto foi o palácio de Zwingler que levou dez anos para ser construído. Os duques de Wittelsbach na Bavária encheram Munique de igrejas e palácios barrocos transformando-a num importante centro cultural. O novo estilo também afetou os franceses, apesar de sua tendência a incorporar mais o classicismo em suas construções. Além disso, eles davam atenção aos aspectos práticos do quotidiano e criavam uma disposição de cômodos mais conveniente. A influência do barroco foi particularmente óbvia em Versalhes. Não apenas a edificação em si é impressionante mas também foi calculada para mesclar-se com um ambiente de jardins, estátuas, fontes e um grande canal. O lugar todo era um símbolo da era do absolutismo, repleto de pompa e luxo. Os arquitetos franceses criaram vários outros palácios e igrejas, sendo o mais notável dentre eles a Invalides, Ste. Geneviève (Panthéon) e Fontainbleau. Na metade do século 18 surgiu uma variação extrema do barroco chamada de rococó. Tirado da palavra francesa rocaille, que quer dizer pedra ou encravado com pedraria, o termo referia-se ao estilo de decoração interior das construções francesas por volta de 1720-60, mas tornou-se um estilo internacional de arte cuja expressão mais forte foi na Bavária católica. Caracterizava-se por um sistema complexo de

ornamentação e decoração que enfatizava as linhas ao invés do espaço, o uso exuberante de cores e de materiais diferentes como pedras, afrescos, entalhes em madeira e até mesmo tapeçaria buscando um resultado geral delicado. Dentre os principais artistas do rococó destacava-se Giovanni Baptista Tiepolo (1696-1770) que era conhecido por seus afrescos em tetos que criavam a ilusão de céu, luz do Sol e nuvens. Outra figura importante foi Dominikus Zimmermann (1685-1766) que especializou-se em criar uma unidade de luz e cor que resultava num tom festivo. O estilo rococó pode ser visto hoje em estruturas magníficas no sul da Alemanha como é o caso da Residência Würzburg, da igreja na vila de Wies e da igreja do mosteiro em Ottobeuren. Outras formas de arte refletiram o barroco. O século 17 foi a era dos retratos e o grande mestre era, sem dúvida, Rembrandt van Rijn (1609-1669), o pintor holandês que usava fundos escuros e toques de luz para estudar as pessoas que pintava. Espaço e luz também eram dois elementos essenciais da maior parte dos exemplos de pinturas barrocas. Peter Paul Rubens (1577-1640) e seus muitos discípulos criavam uma ilusão de espaço interminável para que o observador pudesse pensar no infinito. Diego Velasquez (1599-1660), o principal pintor espanhol da época, produziu diversos retratos de membros da corte real. Bernini era o líder nas esculturas e na arquitetura e foi responsável por muitas obras feitas sob encomenda como igrejas, túmulos de papas e fontes que hoje embelezam a cidade de Roma. O barroco também foi um tempo de

grandes realizações musicais. Marcou o final de quinhentos anos de domínio da polifonia na música (em que uma parte não é mais importante do que as outras) e o surgimento da música harmônica. A música barroca consistia de um único elemento, a melodia, sustentada pela harmonia. Encontrou sua expressão especialmente na música instrumental, na ópera com seu esplendor e emoções exageradas e no oratório, uma arte sacra que combinava o trabalho de um solista, um coral e uma orquestra. Como não era parte da liturgia, o oratório era uma oportunidade ideal para a música experimental. Esse tipo de composição originou-se na metade do século 16 com as apresentações musicais no Oratório de Filipe Neri em Roma. Os jesuítas usavam esse novo gênero que foi logo assimilado pelos luteranos na Alemanha que já possuíam músicas para corais, cantatas e paixão e que não eram necessariamente apresentadas como parte do curto normal. O órgão dominou a era barroca. Projetistas como Gottfried Silbermann (1638-1753) construíram luxuosos órgãos de tubos para as novas igrejas instalando-os também nas construções góticas mais antigas. Os compositores barrocos compuseram músicas para o órgão e muitos eram excelentes organistas. Nesse período houve uma abundância de grandes figuras musicais. O veneziano Claudio Monteverdi (1567-1643) ligou a Renascença ao barroco, escreveu música de igreja brilhante e alguns o consideram o criador da música moderna. Seu aluno foi Heinrich Schütz (1585-1672),

diretor da corte em Dresden e mais importante compositor luterano depois de Bach. Sua música de coral ainda é importante e continua a ser cantada nos dias de hoje. Georg Phillip Telemann (1681-1767) e Dietrich Buxtehude (1637-1707) escreveram excelentes músicas para coral e órgão e este segundo influenciou Bach. Henry Purcell (1659-95) foi o maior compositor inglês entre a era elizabetana e o final do século 19. Ele era organista da abadia de Westminster e produziu obras de destaque para instrumentos e para coral. Dois indivíduos, porém, distinguem-se de seus colegas por sua maravilhosa habilidade técnica e gênio musical. George Frederic Handel ou, em alemão, Händel (1685-1759), um saxônico que já havia adquirido grande reputação na sua região natal de Halle, bem como em Hamburgo e Hannover, mudou-se no meio de sua carreira para a Inglaterra, onde seus patronos foram os reis de Hanover, George I e II. Escreveu principalmente para grandes públicos e até mesmo suas brilhantes composições religiosas como os oratórios Messias e Judas Macabeu eram voltados para apresentações públicas em anfiteatros e não em igrejas. Seus temas eram inspirados em aspectos do século 18 na Inglaterra como a música folclórica, danças nacionais, os gritos nas cidades de Londres, a tranqüilidade do campo e até tempestades no mar. Apesar de estrangeiro, Handel ainda é o compositor mais querido da Inglaterra. Johann Sebastian Bach (1685-1750) não foi apenas um dos maiores

compositores de todos os tempos mas também um cristão devoto. Passou quase toda a sua vida na região central da Alemanha na Turíngia e Saxônia e exceto quanto trabalhou para o príncipe de Anhalt, ele foi empregado por igrejas, especialmente a luterana de São Tomé, em Leipzig, onde trabalhou nos últimos vinte anos de sua vida como ministro da música. Apesar de ter escrito várias peças importantes da música secular, para ele sua vocação estava a serviço de Deus e de sua igreja. Seu amor às Escrituras e à Igreja traduziu-se numa fusão de fé,

música, teologia e liturgia. Para ele, compor uma música era um ato de fé

e tocá-la, um ato de adoração. Em suas grandes cantatas, oratórios,

paixões, composições para órgão e na Missa em Si Menor, ele pôs em prática essa percepção de chamado divino para criar música apropriada

para o louvor a Deus. Ele colocava a história bíblica em forma de música

a revelar a presença de Deus à congregação e proporcionar um diálogo com o Todo-Poderoso.

Nem a ortodoxia política e nem a religiosa contribuíram muito para

o progresso da Igreja na Europa. Ainda assim, a vitalidade cultural e

espiritual ficaram evidentes em várias partes e havia o potencial para uma expressão mais vibrante da fé cristã. Esse foi o caso especialmente na Grã-Bretanha e Alemanha, onde as energias espirituais puderam ser canalizadas em vários movimentos protestantes e na França onde havia a alternativa católica.

Capítulo 14 - O puritanismo e o Pietismo despertam a Igreja Durante mais de um século depois que Lutero havia desafiado a Igreja medieval, a Europa foi abalada por vários conflitos em torno da questão religiosa. Foi só à partir da metade do século 17 que começou a predominar o conceito de Estado moderno, com sua ênfase na soberania territorial e posição central do monarca. Daí em diante as lutas eram entre Estados e seus governantes e as preocupações espirituais ficaram em segundo plano em relação ao bem do Estado e equilíbrio do poder. Os monarcas desejavam controlar as igrejas dentro de seus domínios e a unidade religiosa era vista como um elemento na força do Estado. Apesar desses acontecimentos enfraquecerem a Igreja como instituição espiritual, ainda havia algumas concentrações de vigor religioso na era da ortodoxia e absolutismo.

Puritanismo inglês As idéias calvinistas haviam criado raízes profundas na Grã- Bretanha. O presbiterianismo escocês era uma fé cheia de vigor e líderes como Andrew Melville (1545-1622) desafiaram os reis Stuart a abandonar sua aliança com o sistema episcopal. No século 17 o presbiterianismo havia se tornado, para todos os efeitos, a igreja nacional da Escócia e teve imensa contribuição na formação do caráter desse povo robusto do norte. Pelo fato de terem unido-se em alianças em 1638 e

1643 para resistir à imposição do governo e liturgia da igreja episcopal, eles foram chamados de “cristãos da aliança”. Importantes teólogos como George Gillespie (1613-49) e Samuel Rutherford (1600-61) rejeitaram o exercício da autoridade real sobre as questões da Igreja. Dentro da Igreja da Inglaterra também havia um forte elemento reformado e seus representantes ficaram cada vez mais insatisfeitos com as concessões do Acordo Elizabetano. Eles desejavam “purificar” a igreja livrando-se dos “papistas” que ainda restavam e sua luta assumiu cada vez mais um caráter político. Conforme foi mencionado anteriormente, esses “puritanos” estavam intimamente envolvidos nos conflitos entre os Stuarts e o Parlamento que acabaram levando à guerra civil e ao regime ditatorial militar de Cromwell. Em resumo, os puritanos queriam excluir do culto anglicano qualquer coisa que não fosse ordenada pelas Escrituras. Eles enfatizavam a importância da conversão, que significava uma transformação fundamental de todo o ser e das atitudes e a expectativa de que o crente viveria de forma reta e disciplinada. Os puritanos também acreditavam que todo o trabalho estava dentro da esfera do Cristianismo e que pastores e sacerdotes não deveriam ser colocados em posição superior aos membros. Seu objetivo era que a Igreja da Inglaterra tivesse um pastor em cada paróquia que proclamaria fielmente a Palavra de Deus, administraria corretamente os sacramentos e disciplinaria os membros imorais da igreja. A aplicação da doutrina protestante à vida do crente era

tarefa da Igreja e aqueles que não alcançassem os altos padrões de fé e obediência à lei de Deus deviam ser excluídos da Igreja. Apesar de muitos terem condenado e ridicularizado o estilo de vida que era a marca distintiva do puritanismo, para indivíduos do século 17 tratava-se de uma experiência gratificante. Estava ligada à alegria que encontravam na adoração e numa vida a serviço de Deus. Os puritanos foram uma força profundamente disruptiva na Igreja da Inglaterra que, sob o governo de Elizabeth I havia sido constituída como uma hierarquia centralizada sob

o controle de bispos e uma instituição inclusiva. Os puritanos, por outro lado, defendiam a idéia de igreja “reunida”, composta somente de fiéis que estavam em aliança com Deus e uns com os outros. O puritanismo que havia começado como um movimento de reforma girando em torno das formas de adoração, pregação bíblica e conversão passou a enfatizar cada vez mais a “independência” (liberdade do controle episcopal) e a forma congregacional de governo dentro da Igreja. No final do século 16 alguns puritanos estavam convencidos de que

a única maneira de completar a Reforma era separando-se da Igreja Anglicana.

1647

1675

1698

É adotada a Confissão de Fé de

Philipp Jacob Spener

August Hermann

Westminster

 

publica Pia Desideria

Francke abre o primeiro orfanato em Halle

1600

1625

1650

1650

1675

1708

1722

Thomas Helwys

Cornelius

John

John

Joachin

Alexander Mack

N.L. von

estabelece a

Jansen

Owen

Bunyan

Neander

funda a Igreja

Zinzerdorf

primeira Igreja

Batista

1600

1629

Começa a

colonização

puritana em

Massachussets

1650

John

Milton

1642-1649

Guerra Civil

Inglesa

1670

Pascal

publica

Pensées

1700

dos Irmãos

1681

William Penn funda a

Pennsylvania

funda a

comunidade

Herrnhut

1800

Robert Brown (1550-1633) foi um dos primeiros separatistas. No começo da década de 1580 ele formou sua própria congregação e publicou tratados defendendo a reforma radical e o congregacionalismo reunido e de aliança. Um outro grupo de separatistas foi liderado por John Robinson (1572-1625). Na primeira década do novo século eles reuniam-se em Scrooby Manor e então mudaram-se para a Holanda para evitar perseguições. Muitos membros do grupo ficaram insatisfeitos com a vida numa terra estrangeira e, sob a liderança de dois leigos William Bradford (1589-1657) e William Brewster (1567-1644), alguns deles navegaram para o Novo Mundo no Mayflower em 1620, apesar de Robinson ter ficado em Leiden. Esses “pais pioneiros” foram os fundadores do congregacionalismo na América. O mais duradouro dos movimentos puritanos separatistas dessa época foi o dos batistas. Eles iam além dos outros reformadores da época

e chegavam a igualar o batismo infantil ao adultério espiritual e a insistir no batismo dos crentes adultos. John Smyth (1570-1612) era um sacerdote anglicano que voltou-se para o separatismo e em 1607, junto com um companheiro leigo, Thomas Hewlys (1550-1616) liderou uma congregação que foi para a Holanda. Em dois anos eles se reorganizaram dentro daquilo que consideravam ser as linhas do Novo Testamento, adotaram o batismo dos crentes e numa declaração retumbante de liberdade religiosa condenaram qualquer regulamentação ou crença ligada ao Estado. Em 1611 Hewlys levou alguns seguidores de volta para Londres e fundou a primeira igreja batista em solo inglês. Apesar de algumas tentativas de se estabelecer uma ligação firme entre os menonitas e os primeiros batistas ingleses, a maioria dos historiadores concorda que eles surgiram diretamente do puritanismo e separatismo inglês. O grupo mais antigo era conhecido como batista geral tendo em vista que possuíam uma visão arminiana da expiação. No final da década de 1630 surgiram os batistas particulares, assim chamados por aceitarem

o ensinamento calvinista de que a expiação limita-se aos eleitos. Cada

uma dessas divisões desenvolveu-se em separadamente em relação à outra. A primeira estava mais disposta a aceitar a Igreja da Inglaterra como sendo uma Igreja verdadeira. No final da década de 1640 os batistas já praticavam regularmente o batismo por imersão e na metade do século tinham começado a usar o nome “batista” para se distinguir.

Durante a Guerra Civil Inglesa muitos deles serviram com distinção ao exército do Parlamento. Cromwell os favoreceu enquanto estava no poder, mas depois da Restauração, eles foram classificados como dissidentes e perderam seus privilégios. Por volta de 1639 foi fundada a Primeira Igreja Batista na América do Norte, na colônia de Rhode Island. Durante a tumultuada década de 1640 multiplicaram-se as seitas puritanas radicais. Com a abolição do sistema episcopal na Igreja da Inglaterra, a Assembléia de Teólogos de Westminster reuniu-se em 1643 e continuou com atividades regulares até 1649 a fim de elaborar uma forma alternativa de igreja e orientar o Parlamento em suas decisões religiosas. A assembléia recomendou o estabelecimento do presbiterianismo e em 1647 adotou a famosa Confissão de Westminster como uma declaração de fé de origem presbiteriana, mas então ocorreu uma divisão dentro da assembléia entre os independentes (congregacionalistas) e os presbiterianos. Depois que Cromwell tomou o poder, ele seguiu o conselho do independente John Owen (1616-83) e foi permitida uma situação moderadamente pluralista na qual as igrejas podiam ser pastoreadas por presbiterianos, independentes ou batistas. As seitas mais extremistas, porém, não eram toleradas durante o governo de Cromwell. Os Niveladores liderados por John Liburne (1614- 57), um oficial do exército parlamentar, interpretavam a liberdade em Cristo como se esta incluísse a democracia política. Defendiam uma igualdade masculina geral perante a lei e liberdade religiosa (daí o nome

todos no mesmo nível perante a lei e a religião). Outras seitas dedicavam-se às especulações milenárias e esperavam a segunda vinda de Cristo. A revolução puritana e deposição da monarquia só colocou mais lenha no fogo da especulação profética. Os Cavadores, de acordo com os ensinamentos de Gerrard Winstanley (1609-52), acreditavam que a terra, por ser criação de Deus, era propriedade de todas as pessoas. Em 1649 eles ocuparam as terras da comunidade no monte St. George em Surrey, começaram a cultivar (daí o nome) e formaram uma comuna, mas as autoridades os dispersaram. Eram místicos religiosos que acreditavam na expiação universal e estavam preparando o caminho para a volta de Cristo. Muitos marxistas da atualidade consideram os Cavadores como precursores do Comunismo. O grupo apocalíptico mais radical era o dos Homens do Quinto Monarca. Eles baseavam-se na passagem profética de Daniel 2 sobre os quatro grande impérios que iriam governar o mundo e concluíam à partir de Apocalipse que o reino de Deus (a “quinta monarquia”) seria no milênio, o reinado de Cristo sobre a Terra durante mil anos. Apesar de muitos na época especularem sobre a volta de Cristo, os Homens da Quinta Monarquia acreditavam que ela era eminente e proclamavam que os santos não deviam fazer quaisquer concessões à velha ordem. Ao invés disso, deviam reunir-se em assembléias sob o controle de Jesus Cristo e criar uma nova forma de governo para a Inglaterra. A criação

dos Protetorados de Cromwell frustrou as esperanças por um reino milenar. Enquanto a maior parte do puritanismo moveu-se no sentido de sistematizar a doutrina e a vida da Igreja e alguns teólogos e pregadores proeminentes como John Owen e Richard Baxter (1615-91) produziram obras substanciais sobre os principais pontos do dogma e do viver em retidão, outros foram atraídos pela idéia da experiência mística com Cristo, a “luz interior”. Uma das figuras mais influentes do misticismo foi Jakob Boheme (1575-1624), um sapateiro alemão que escreveu vários livros muito lidos sobre o assuntos. Influenciado pelo pensamento boemista, George Fox (1624-91) foi um jovem inglês puritano que em 1646, depois de uma longa e dolorosa luta, passou a crer na “Luz Interior do Cristo Vivo”. Tornou-se um ministro itinerante, condenando a controvérsia religiosa e pregando que a verdade podia ser encontrada na voz de Cristo falando diretamente à alma — daí o nome “Amigos da Verdade”, que foi logo associado ao seu movimento. Seus seguidores contentavam-se em ser chamados apenas de “Amigos” ou “quakers” (Estremecedores, N. da T.), supostamente um apelido dado por um juiz em 1650 depois que Fox exortou o magistrado para que ele “estremecesse diante da Palavra de Deus”. Usando da crença na luz interior, eles ensinavam que o poder do Espírito Santo é dado a todas as pessoas e não está limitado às Escrituras. Tendo em vista que cada indivíduo recebia a luz interior, todos eram iguais na igreja. Em

suas “casas de reuniões” simples, eles adoravam sem ministros, sacramentos ou liturgia, levando ao extremo a idéia puritana de remover qualquer vestígio do Catolicismo. O clero e os cultos estruturados não eram necessários pois o Espírito daria inspiração àqueles que ele quisesse que falassem durante a reunião. A mensagem Quaker era de que as pessoas só precisam arrepender-se a adorar a Deus interiormente, com o coração. Apesar da perseguição, o grupo espalhou-se rapidamente entre as classes mais pobres, mas logo também entre os mais abastados (como por exemplo William Penn, filho de um proeminente almirante e fundador de uma colônia Quaker na América em 1681). Muitos convertidos vieram dos batistas gerais. Os quakers distinguiam-se por seu compromisso com o pacifismo, sua recusa em fazer juramentos, a informalidade no tratamento entre si com o uso do primeiro nome e o uso de roupas simples. Também ensinavam a igualdade de homens e mulheres e foram alguns dos primeiros a protestar contra as condições das prisões e o escravismo. A apresentação mais sistemática da teologia Quaker era a Apology for the True Christian Divinity [Apologia da Verdadeira Divindade Cristã] de Robert Barclay (1648-90). Tanto os batistas quanto os quakers davam oportunidade especial para as mulheres ministrarem. Na Holanda, Inglaterra e América do Norte os batistas tinham clérigas e numa congregação de Londres às vezes até mil pessoas freqüentavam os cultos especiais nos quais as

mulheres podiam pregar. Entre os “erros, heresias e blasfêmias” condenados num tratado antibatista do século 17, um deles era o uso de “pregadoras”. Na visão dos quakers todos eram iluminados pelo Espírito Santo e, portanto, livres para levantar-se e falar. Mulheres quakers saíam da Inglaterra em viagens missionárias para lugares distantes como a América do Norte e a Turquia. Foi o caso de Elizabeth Hooten que tinha mais de 60 anos de idade e viajou para a Nova Inglaterra na América, onde foi espancada, presa e exilada na floresta. As dificuldades que os puritanos passaram durante o governo dos Stuarts mais para o início do século levaram muitos deles a emigrar para

a América. Um grupo de puritanos ricos que havia aberto um negócio chamado Massachusetts Bay Company em 1629 decidiu mudar a

empresa toda para a América do Norte no ano seguinte. Em 1643 quando

o governo da Inglaterra havia passado para as mãos do Parlamento de

maioria puritana, mais de vinte mil pessoas tinha ido para a Nova Inglaterra. Sob a liderança de pessoas competentes como John Winthrop (1588-1649), o diretor da companhia, John Cotton (1584-1652), pastor

da igreja de Boston e Thomas Hooker (1586-1647) em Connecticut, a ala calvinista da Igreja Congregacional criou raízes profundas no Novo Mundo. Pedia-se que os membros fizessem publicamente uma “declaração de sua experiência de uma obra da graça”, e isso garantia que a Igreja estaria nas mãos de verdadeiros crentes. Somente membros da Igreja podiam votar ou ter um cargo oficial no governo da colônia.

Tendo em vista que um conhecimento da leitura e escrita era essencial para se compreender a Bíblia e ser cristãos maduros, toda vila tinha que abrir escolas para ensinar as crianças. A fim de garantir um suprimento confiável de ministros treinados, foi fundado em 1636 o Harvard College. Uma imprensa gráfica foi trazida para a colônia e em 1640 foi publicado o primeiro livro, uma versão métrica dos Salmos. Os puritanos da Nova Inglaterra debateram-se com questões teológicas controversas como a natureza do homem enquanto ser moral, a preparação da pessoa para receber a graça de Deus, as qualificações para tornar-se membro da Igreja e o relacionamento entre as diversas congregações. Os puritanos não estavam interessados apenas em construir uma sociedade mais justa, mas também contribuíram para o desenvolvimento da literatura inglesa. Duas das figuras mais importantes do século 17 foram John Bunyan (1628-88) e John Milton (1608-74). Preso durante as perseguições que se seguiram à Restauração em 1660, Bunyan sofreu no cárcere durante vários anos. Lá, escreveu diversas obras, incluindo The Pilgrim's Progress [O Peregrino], publicado em 1678 e que fez dele um dos escritores religiosos mais influentes de todos os tempos. Com sua imaginação vívida ele traçou a jornada de um homem chamado Christian [Cristão] da Cidade da Destruição para a Cidade Celeste. A alegoria de Bunyan era, basicamente, uma descrição de sua própria peregrinação espiritual, que assemelhava-se à jornada espiritual de todo o cristão ao longo da vida com uma jornada física cheia de perigos e aventuras.

As duas obras imortais de Milton,