UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA

SEMIÓTICA DOS JORNAIS Análise do Jornal Nacional, Folha de São Paulo, Jornal da CBN, Portal UOL, revista Veja

Nilton Hernandes

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Lingüística do Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Lingüística.

Orientadora: Profª. Drª. Diana Luz Pessoa de Barros

São Paulo 2005

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Aos jornalistas
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As histórias pessoais, além de acontecerem, também significam alguma coisa? Apesar de todo o meu ceticismo, sobrou-me um pouco de superstição irracional, como a curiosa convicção de que todo acontecimento que me sucede comporta também um sentido, que ele significa alguma coisa; que por sua própria ventura a vida nos fala, nos revela gradualmente um segredo, que se oferece como enigma a ser decifrado, que as histórias que vivemos formam ao mesmo tempo a mitologia de nossa vida e que essa mitologia detém a chave da verdade e do mistério. É uma ilusão? É possível, é mesmo verossímil, mas não posso reprimir essa necessidade de decifrar continuamente minha própria vida.
Milan Kundera, A Brincadeira

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AGRADECIMENTOS
A idéia de mestre e discípulo parece um pouco estranha. Lembra filme oriental. Mas o que é um mestre? Mais importante do que ter um grande saber, um mestre é exemplo de experiência. No dicionário, a palavra mestre também aparece no sentido de alguém “grande, extraordinário”. É assim que vejo minha querida orientadora, Diana Luz Pessoa de Barros (foto). Nesses anos todos, dedicados a fazer esta tese, ela leu cada linha das várias versões, discutiu comigo todos os problemas, mostrou-me as armadilhas, apontou rumos, incentivou reflexões, deu idéias. Tantas que a considero co-autora do que este trabalho tem de mais significativo. Nessa convivência com Diana, que começou já no mestrado, não obtive apenas saberes. Pude observar a intelectual dedicada, participante, íntegra, coerente. Ficou, para mim, esse exemplo de vida. De que não basta adquirir conhecimentos. É preciso sabedoria, ordenar sempre o que se sabe tendo em vista uma felicidade generosa. Tive ainda outros mestres. Não poderia deixar de citar José Luiz Fiorin (foto), também um modelo de intelectual, de educador dedicado, de rigor e seriedade, o primeiro professor que me recebeu na Letras, me apresentou à semiótica e me deu grande incentivo nesses anos. Também divido com ele tudo de bom que fiz na pós-graduação da Universidade de São Paulo. Minha experiência como doutorando da USP também não foi marcada somente pela forte presença de Diana Barros e Fiorin. Nem por um parto de idéias de 1000 dias, mediado por um Pentium 4, num quarto paulistano, que resultou nestas páginas. Agradeço aos amigos, aos colegas e aos outros professores todo o estímulo que tive. São vivências que já vão se tornando lembranças: as idéias sobre a tensividade do professor Luiz Tatit, a energia adolescente de Norma Discini, as piadas engraçadas e fora de hora de Ivã Lopes, as cutucadas no conservadorismo feitas por Antonio Vicente Pietroforte, a calma hjelmsleviana de José Roberto do Carmo Júnior, as coisas de menina anti-Xuxa de Roseli Novak, o bom humor musical de Ricardo Monteiro, as conversas sobre mulheres e política com Marcio Coelho, os incentivos de Peter Dietrich, a atenção de Marcelo Martins... E tantos outros afetos propiciados por colegas, principalmente do Grupo de Estudos Semióticos da Universidade de São Paulo, o GES-USP. Não posso deixar de agradecer ainda a minha esposa, Geni Marques, e ao meu amigo Hélcio de Pádua Lanzoni pela colaboração e pelas idéias. Vários jornalistas também contribuíram com este trabalho. Meu agradecimento especial a Heródoto Barbeiro e à equipe da Central Brasileira de Notícias, que cederam gravações do Jornal da CBN. Finalmente, cito a FAPESP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, pelo importante apoio na forma de bolsa de estudos.

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RESUMO
Este trabalho apresenta uma ampla investigação do jornalismo e dos principais jornais brasileiros e propõe um modelo de análise dos noticiários com base no aparato teórico da semiótica de Greimas. Há duas grandes divisões. Na primeira parte, de teorização geral, é estudada a relação entre semiótica, comunicação e jornalismo. São discutidos os conceitos de comunicação, notícia, ideologia, realidade, verdade, objetividade. Para obter maior audiência ou tiragem, base de sobrevivência das empresas, os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores, ouvintes, internautas ou leitores nos níveis sensorial, inteligível e passional. O exame desses procedimentos manifesta o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção, estratégia de persuasão que funda e sustenta a relação enunciadorenunciatário. Ainda na primeira parte, são mostradas as duas formas básicas de

organização textual jornalística. O manejo do espaço determina o modo de percepção nos jornais impressos e revistas assim como a administração do tempo organiza a atenção do público no rádio e na televisão. Na segunda parte, de teorização específica e aplicação, são examinadas características de cinco noticiários brasileiros, produzidos no período de quatro anos (2002/2005), que obtiveram maior audiência ou tiragem: Jornal da CBN, Jornal Nacional, revista Veja, Folha de São Paulo, Portal UOL. As ferramentas desenvolvidas, tanto gerais quanto específicas, são usadas e testadas na análise de um fato de repercussão mundial, a prisão de Saddam Hussein, em 13 de dezembro de 2003.

Palavras-chave: jornalismo, jornais, semiótica, Greimas, comunicação

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2003. both general and specific. In the first part. objectivity are discussed. Jornal Nacional. the radio listener. In the second part. Greimas. news. or the readers in the sensorial. communication 7 . a persuasion strategy that establishes and keeps the relation enunciatorenunciatee. The concepts of communication. semiotics. television and radio news programs). The manipulation of the space determines the way of perception in the newspapers and magazines as much as the time management organizes the public attention in the radio and the television. newspaper. which refers to specific theorization and application. intelligible and passional levels. communication and journalism. two basic forms of journalistic textual organization are also showed. Portal UOL. the internet users.ABSTRACT This work shows a wide investigation about journalism and the main Brazilian news media (newspaper. Key words: journalism. In order to obtain more audience or issue circulation – important for their survival – the news media need to manipulate the attention of the TV viewer. Folha de São Paulo. In the first part. There are two main divisions. are used and tested in the analysis of an important fact which gained world repercussion: the prison of Saddam Hussein in December 13. all of which obtained the highest audience or issue circulation: Jornal da CBN. websites. we study the relation among semiotics. revista Veja. It proposes a model to analyze the news media based on the general theoretical apparatus of Greimas semiotics. magazines. ideology. truth. The tools developed. reality. we examine characteristics of five Brazilian news media produced in a four-year period (2002/2005). The examination of these procedures shows what we are denominating the management of the attention level.

SUMÁRIO INTRODUÇÃO A revista Veja e a continuação do trabalho Uma síntese entre prática e teorização A semiótica como ligação entre várias visões sobre o jornalismo Objetivos e hipóteses Plano de trabalho PARTE 1 – TEORIZAÇÃO GERAL . âncoras. COMUNICAÇÃO E JORNALISMO Semiótica e teorias da comunicação Ponto de vista semiótico sobre a comunicação Cláusulas principais do contrato jornal-público Verdade e ideologia O recorte específico da realidade praticado pelo jornalismo: a notícia A isenção impossível: um mesmo acontecimento e três notícias distintas Enunciação e efeitos de objetividade O “efeito de neutralidade” A objetividade como dever-fazer: a ética jornalística O GERENCIAMENTO DO NÍVEL DE ATENÇÃO . efeitos sonoros. paixão e sentimento: a estrutura dos afetos Notícias e engajamento perceptivo Estratégias de arrebatamento e de sustentação A proximidade temporal: o efeito de atualidade A proximidade actancial e espacial: a empatia A proximidade imposta: o sensacionalismo A estratégia de fidelização Exemplo: Jornal da Tarde versus Diário de São Paulo ESTRATÉGIAS DE ORGANIZAÇÃO TEXTUAL: A ATENÇÃO MANIPULADA NO TEMPO E NO ESPAÇO Dois modos de textualização: espacial ou temporal Valorização ou desvalorização da notícia: o semi-simbolismo “cristalizado” Aspectualização: ritmo textual Textualização.O jornalismo e os jornais na perspectiva semiótica RELAÇÕES ENTRE SEMIÓTICA. repórteres e correspondentes: os actantes da enunciação Tempo e espaço: os efeitos de câmera e edição Montagem e o domínio do tempo 10 13 14 16 17 20 23 24 24 28 30 31 34 37 40 44 47 50 50 52 56 59 57 64 66 70 74 80 86 89 92 98 98 101 106 111 115 116 117 117 119 120 124 130 133 154 154 158 166 169 177 8 . ruídos e a relação com a fala A questão do tempo e do valor da notícia: a prisão de Saddam O TELEJORNALISMO Considerações gerais sobre o telejornalismo e o Jornal Nacional A estrutura do programa Marca.estratégias de persuasão dos jornais Enunciação jornalística como narrativa Formas de relacionamento entre jornais e público-alvo Sujeitos marcados nos jornais e modos de relacionamento O fenômeno da atenção A curiosidade e os percursos da atenção Emoção. aspectualização e sincretismo PARTE 2 – TEORIZAÇÃO ESPECÍFICA E APLICAÇÃO OBSERVAÇÕES GERAIS O RADIOJORNALISMO Considerações gerais sobre o radiojornalismo e o Jornal da CBN A sensação de “tempo real” A organização textual e a oscilação entre o ouvir e o escutar A locução como elemento organizador Música. inclinação.

A prisão de Saddam: um bloco inteiro dedicado ao assunto Relação entre fragmento e duração Uma única enunciação: a fala como elemento articulador Mais questões sobre a temporalização O controle da percepção: o uso ideológico da edição e dos planos de câmera JORNALISMO IMPRESSO Considerações gerais – Folha de São Paulo e revista Veja Organização textual: efeitos do projeto gráfico e da diagramação Divisões do jornal.JORNALISMO NA INTERNET Considerações gerais . pior é Atualização e citação Sucesso e crise A semiótica e a produção de estados mentais pelos noticiários BIBLIOGRAFIA 178 204 205 210 211 214 214 216 225 235 242 244 250 259 272 273 276 281 284 290 292 304 305 306 306 307 307 308 308 309 313 315 316 316 317 318 320 9 . suporte e atualidade da notícia Entre o essencial e o acessório: a construção de um leitor fragmentado Os cinco conjuntos significantes manejados pela diagramação Tipos gráficos e novo patamar de semi-simbolismos O fotojornalismo Análise de abordagem: a prisão de Saddam Hussein PORTAL.a Internet e o portal Formas de textualização O efeito de sentido de “infinitas possibilidades” O enunciatário impaciente Tudo é notícia A cobertura da prisão de Saddam CONCLUSÃO Teorização proposta reúne várias orientações dentro da própria semiótica Conceitos-chave a separação entre dever-fazer e fazer-crer jornalístico Uma teoria para o fenômeno da mobilização da atenção Estratégias de organização textual: tempo e espaço Os semi-simbolismos cristalizados Ritmo nos jornais Ethos e outros efeitos de proximidade Comparação entre os jornais analisados Uma analogia entre jornais e restaurantes Mais do mesmo Mais rápido.

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a melhor “linguagem” para usar no jornalismo de rádio. cujos autores se ocupam em sistematizar e repassar experiências. O primeiro inclui as chamadas obras técnicas. os jornais aparecem dentro de uma mesma classificação. análises críticas. os jornais. relatam discussões que renderam ou destruíram grandes pautas. em determinada época.são muito comuns na pós-graduação. Mostram redações por dentro. Seus autores. a governos e a grupos dominantes.as integradoras . Quem se propõe a analisar os noticiários vai verificar que esses estudos – que se concentram em detalhes específicos. Em diversas análises.Trabalhos sobre o jornalismo podem ser classificados. Os jornalistas oscilam entre vítimas e algozes de injustiças de todos os tipos. como o estudo dos títulos de um jornal. Ensinam como fazer um telejornal. levantamentos.que analisam o jornalismo e suas conseqüências com base no exame de suas manifestações concretas. geralmente sem grandes reflexões ou preocupações ideológicas. São os “manuais”. Nesses trabalhos. A atividade de noticiar aparece como algo mais ou menos mecânico. choques ou união de interesses entre empresas jornalísticas e grupos políticos que. Podemos chamar o segundo tipo de obras sobre jornalismo como histórias de bastidores. O terceiro tipo de obras – as segmentadoras – focam um aspecto bastante preciso e particular do jornalismo. famosos e respeitados. são acadêmicos. a argumentação de editoriais de um grande diário. em cinco grandes grupos. não puderam ser trazidos à tona por alguma razão. na maioria das vezes. Os autores geralmente são jornalistas experientes. geralmente o medo de o autor perder o cargo e o emprego. Este trabalho quer se incluir no quinto tipo de obra sobre essa forma de comunicação . não raras vezes o jornalista se vinga e se valoriza: deixa seu posto de testemunha e passa a ser personagem principal da história. quando 11 . As especificidades do jornalismo não são muito discutidas. Não raras vezes o jornalismo é marcado por um tom pessimista e linchado em generalizações polêmicas. de maneira geral. filosóficas ou sociológicas de enorme amplitude. Apresentam regras e “segredos” da profissão. A atividade jornalística é pensada como algo pernicioso socialmente em função do seu poder de persuasão e do serviço que presta ao capital. capas de revistas em época de eleição. em partes de um meio de comunicação ou de um determinado objeto . repensando e. grandes pensadores da comunicação. No quarto tipo de obras – as generalizantes – há estudos teóricos. Alguns estudiosos fazem a defesa dos aspectos éticos – e freqüentemente esquecidos – da comunicação das principais mídias. pressões. Eles contam o “outro lado” da profissão. como “meios de comunicação de massa”. Dão dicas para elaborar uma reportagem.

inclusive impressos. o trabalho de conclusão de curso de estudantes de uma faculdade de comunicação no Interior do Estado de São Paulo. como fizeram as tomadas de câmera do programa. o padrão de transmissão utilizado. é que o uso da palavra texto. porém. é importante perceber. As teorias da comunicação ou os diversos estudos sobre o jornalismo. de rádio. questões que serão discutidas nas próximas páginas. pelo menos até onde pudemos localizar. o Jornal Nacional. no entanto. da rede Globo. mesmo claramente definido como objeto de estudo semiótico. uma peça de teatro. Na medida do possível. O trabalho foi apresentado em forma de telejornal. Portanto. de TV. os interesses da família Marinho. É possível. por outro lado. Em 2002. que tem instrumentos para investigar os objetos jornalísticos1 e pode adequar outras contribuições ao seu modelo de análise. segmentadoras não dão contam das necessidades do estudo das manifestações cotidianas do jornalismo . como professor de jornalismo recém-contratado. via Internet. o Jornal Nacional. não produziram ferramentas para desvendar a produção de sentido dos jornais. no entanto. parece escapar. de histórias de bastidores. uma casa são exemplos de textos semióticos. É forçoso reconhecer que. O problema. técnicas. Nossa investigação sobre o assunto. Outra alternativa é uma investigação teórica abrangente. Em outras palavras. acompanhamos. Se todas essas formas de análise são valiosas. enfim – para usar o jargão jornalístico – para os autores se lançarem a outros assuntos. e o Jornal da Record. com movimentação de câmera e 1 Empregaremos a expressão “objeto jornalístico” praticamente como sinônimo de texto para a semiótica francesa.vários números de uma revista semanal que destacaram determinado assunto. palavra que utilizaremos neste trabalho para qualquer forma de noticiário: impresso. parece não ter sido realmente contemplado. um telejornal ou um programa de radiojornalismo – e seus efeitos no público. a edição. obras generalizantes. como as coerções e os desafios do telejornalismo no terceiro milênio. a teoria concebe texto como objeto de significação e objeto cultural de comunicação entre sujeitos. evitaremos esse termo que pode levar um leitor mais desatento a achar que estamos falando da parte verbal de um jornal. pode trazer alguma dificuldade em um trabalho que pretende analisar noticiários. que o objeto de pesquisa. um “gancho”. Um grupo comparou dois telejornais. incorporando conhecimentos úteis de cada um dos outros quatro tipos de estudos citados. um jornal. Pode-se analisar uma única edição do Jornal Nacional da Rede Globo do ponto de vista da técnica. 12 . Também se pode estudar o tom de voz dos apresentadores do JN. comandado pelo âncora Boris Casoy. quem manda em quem. Assumimos aqui uma perspectiva teórica clara. E mais: essas abordagens dão a entender que o programa é somente uma justificativa. se difere de outras que podem ser chamadas de integradoras. a da semiótica francesa. uma música. Como veremos depois.possível. apresentar os bastidores. sozinhas. a outra ordem de preocupações.

a ampliação e o aprofundamento de questões de nossa dissertação de mestrado “A revista Veja e o discurso do emprego na globalização – uma análise semiótica”. A conclusão. falar um pouco do estudo já realizado. como também entendendo o mecanismo que as produz. Mostraram. de tipo de argumentação. Tentou-se examinar e explicitar o funcionamento de mecanismos de conquista ideológica de um contingente importante da sociedade brasileira. constatamos que essa construção complexa. São escolhas de composição visual. Não são raros os estudantes e mesmo os jornalistas que confundem uma pesquisa de graduação ou até de pós-graduação com uma “grande reportagem” que prescinde de uma metodologia. Os estudantes perderam uma grande oportunidade de pensar sobre seus próprios valores e sua visão de mundo que deram ao Jornal Nacional o veredicto de “o melhor jornalismo da TV”. E que o Jornal Nacional fazia o “melhor jornalismo”. como conseguem transformar recortes e interpretações de acontecimentos em “fatos”. Com surpresa. muitas vezes. apesar de sua 13 . muito comuns no jornalismo. buscou-se investigar como os textos da publicação são construídos. em verdades aceitas que. por ter um âncora que analisava tudo dentro de um ponto de vista bem marcado. um grande e sincero esforço. Elucidar as estratégias persuasivas de Veja trouxe outros desafios. os mecanismos de construção de sentido. de fotografias. era “opinativo”. de tipologia. Os alunos entrevistaram jornalistas da Globo e da Record. enfim. O trabalho também revelou outros problemas bastante comuns. juntas. de certa forma. do que as opiniões e os bordões de Boris Casoy. e de jogos entre esses e outros elementos. portanto. Em vez disso. formam um simulacro sedutor da realidade que impele os leitores a determinadas crenças e ações. passionais e sensoriais. como se o analista fosse uma espécie de juiz. Enfim. A revista Veja e a continuação do trabalho Esta tese é a conseqüência e. inicialmente. nem sequer reconheciam a objetividade como um efeito de sentido que desarma o senso crítico de uma maneira mais eficiente. Convém. A revista é uma sofisticada engrenagem que transmite valores por meio de operações racionais. de infográficos. O formato do trabalho dos estudantes também merece comentários. um jornalismo “objetivo”. os estudantes caíram em uma armadilha. com julgamento. porém. Eles deveriam concluir o curso não só sabendo verificar essas formas de construção textual. foi a de que o Jornal da Record. O estudo foi confundido com opinião.edição impecáveis. manejados por uma das principais revistas de informação do mundo. as estratégias de persuasão utilizadas. Novamente. Na dissertação. faltou aos alunos um olhar sobre o objeto-jornal.

Esse conjunto de conhecimentos é chave para entender a força das empresas de comunicação. era pouco estudada. Estávamos diante daquele terceiro tipo de publicação discutida há pouco. Os estudos sobre Veja não davam conta do objeto jornalístico em sua complexidade. Nossa vida está sendo dominada por relações cada vez mais complexas de possibilidades de expressão e não pelo predomínio do “verbal” ou do “visual”. ou visual e sonoro. que efeitos de um projeto gráfico. o que mostrava maior interesse acadêmico nas “imagens”. As ferramentas teóricas à disposição dos analistas ainda são limitadas. Há uma justificativa para o problema. torna necessário incorporar diversas e importantes investigações que hoje se apresentam desconectadas. no reforço do hedonismo e da competitividade. principalmente de uma metodologia que dê conta do objeto jornalístico como um todo. no entanto.importância. contextuais. Para contrabalançar. estudantes e professores universitários. segmentadores ou generalizantes. Isso sem contar os que defendem a supremacia de uma certa “visualidade” em tudo e em todos os lugares. focado no objeto. 2 14 . Estudos técnicos. interessada somente no resultado. devem ser encarados como cosméticos e desimportantes. Também acreditamos que é vantajoso dar espaço a aspectos de marketing2 e a opiniões dos jornalistas para conhecer melhor o próprio objeto e construir meios de investigá-lo. Essa concepção traz desafios e dúvidas. Os jornais apresentam intrincadas e sofisticadas relações entre conjuntos significantes que. A utilização de reflexões de teóricos do marketing ajudam a desmontar e a refletir sobre seus próprios métodos de influência. Uma síntese entre prática e teorização Construir um trabalho analítico mais integral. apresentam diversas reflexões sobre a teoria e a prática jornalísticas que serão úteis para montar nosso estudo mais abrangente. É por isso que existe hoje uma certa avidez de ferramentas de estudo de meios de comunicação por parte de pesquisadores. que persiste. porém. não apenas de um dos seus aspectos ou pedaços. transformam jornais em coadjuvante e não no personagem principal de investigação. Por outro lado. de ritmo. São pontos de vista discutíveis. uma análise crítica também se faz sempre necessária sobre essa forma utilitarista de ver a comunicação. notadamente capas e fotografias. ainda são muitas vezes entendidas e analisadas por meio da classificação verbal x visual. O marketing instaura um sujeito consumidor de idéias e produtos como resultado de estratégias complexas. isoladamente. Esses trabalhos. certos analistas acham que um jornal é só “conteúdo”. cada vez mais sagazes e invasivos. por exemplo. As análises sobre a revista que conseguimos localizar se concentravam em partes específicas.

trazidos pela crescente ‘profissionalização’ das atividades de comunicação. O Observatório3 é um bom exemplo de convivência proveitosa entre quem produz reflexão e quem atua profissionalmente. Cláudio Abramo. Abramo fazia o seguinte comentário: “Quanto à semiologia. É possível estudar o jornalismo – entre outras formas de comunicação . projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Hoje.e fazer uma análise coerente e. Não faz muito tempo. Um das possibilidades é ultrapassar a dicotomia “teoria versus prática”. Por outro lado. conteúdos.. O que interessa Theodor Adorno e Walter Benjamim para o trabalho diário de jornal? (. um dos mais festejados. a existência do Observatório da Imprensa. por esse novo utilitarismo estimulador da pesquisa de ferramentas epistemológicas que permitam a neutralização das tensões via soluções técnicas. de outro. técnicas. só para relembrar. citados e influentes profissionais de jornalismo impresso no País afirmava: “As pessoas que escrevem em jornal têm apenas muita teoria – e. eu a gozo muito mas a conheço pouco”.br) 3 15 . as escolas de jornalismo influíram negativamente.ultimosegundo. Trata-se de Alberto Dines. ideologia. Neste trabalho.. mecanicamente. há os que estudam as formas. os profissionais que fazem tudo “intuitivamente” e. ou pesquisadores/teóricos versus profissionais. nesse sentido. como as relacionadas à objetividade. Felizmente.ig.com. Há vários caminhos para fazer a “tensão ressurgir” nas análises do jornalismo. Em outro trecho de seu livro “A regra do jogo”.) As pessoas que deveriam estar treinadas para um certo tipo de prática não estão mais. Observatório da Imprensa é conhecido por meio de um site: (http://observatorio. perto do dia-a-dia das redações e de seus profissionais. não raras vezes. por exemplo. Os efeitos do fortalecimento dos discursos especialistas. são cada vez mais perceptíveis” (2002: 186). Os saberes sobre a comunicação não escapam a essa tendência. dirigido por um jornalista elogiado pelo mesmo Cláudio Abramo. verdade. não sabem fazer as coisas” (1988: 138). De um lado. pode ser comemorado. a universidade tem cada vez mais se preocupado com o futuro profissional dos seus estudantes. ao mesmo tempo.Lembra o casal Mattelart que “todos os que trabalham com a mídia encontramse hoje afetados pelo positivismo administrativo. cuja função explícita é legitimar estratégias e modelos de organização empresarias e institucionais. utilizamos reflexões dos jornalistas para apresentar e aprofundar questões importantes. concepções cristalizadas tanto em certos setores das áreas de humanidades da universidade quanto nas redações estão sendo vencidas.

não a pode perder de vista. A semiótica como ligação entre várias visões sobre o jornalismo É evidente que reflexões sobre a comunicação jornalística partem muitas vezes de concepções diversas e nem sempre convergentes. Como Meditsch. Pretende investigar os principais noticiários brasileiros de um ponto de vista mais integral e. A teoria semiótica atual desenvolveu-se a partir do estruturalismo dos anos 60. Embora o trabalho teórico envolva um distanciamento dessa prática. E o que foi dito até agora parece apontar para uma certa complacência teórico-metodológica. são revistos nesse quadro teórico-metodológico dentro do objetivo de investigar o processo de significação dos programas de TV e de rádio. principalmente os técnicos. Queremos dar nossa contribuição. Não se quer dizer com isso que é preciso ser jornalista para fazer análise dos produtos jornalísticos. dos jornais impressos. dos sites ou portais de notícias.empatia. acreditamos que “o verdadeiro conhecimento depende da prática. J. mas para ajudar na construção de uma ponte cada vez mais indispensável entre as duas formas complementares de pensar e viver o jornalismo. uma vez que é nela que se encontra o seu fundamento. A base teórica da tese é a semiótica de A. Infelizmente. Os trabalhos citados. convivem com problemas e desafios que poderiam motivar pesquisas acadêmicas de maior interesse e repercussão social. de A. Longe disso. As redações e os jornalistas. a partir do objeto. na universidade. principalmente da Universidade de São Paulo. Greimas e seguidores. Esta tese aborda os jornais – sempre no sentido amplo já mencionado – na perspectiva da teoria semiótica. como é próprio dos estudos semióticos. aos sindicatos da categoria. critério de verdade e finalidade última. não só por pertencer a esses dois “lados”. sob pena de perder-se a si próprio na abstração” (2001: 57). A necessária integração entre teoria e prática tem aqui outras motivações. segmentadores e generalizantes. aos críticos e analistas de jornalismo. grandes avanços no conhecimento que não têm chegado às redações. há alguns professores e pesquisadores que desconhecem a evolução da semiótica e ainda a 16 . J. Greimas. ritmo e compor um modelo de estudo amplo e operacional. que desmonte e revele as estratégias de domínio de um grupo social sobre outros. aos professores de comunicação. O texto fundador é Semântica Estrutural. por sua vez. Há. das revistas.

apesar de a bibliografia ser pouco divulgada fora do ambiente acadêmico. mais “humano”. A construção de um modelo específico para a análise dos objetos jornalísticos impõe o desenvolvimento de alguns aspectos teóricos. por exemplo. Os semioticistas.associam somente a estudos pioneiros de quase quarenta anos. dinâmicos.4 Na busca por bibliografia atual sobre o jornalismo e a comunicação. cada vez mais enriquecidos. sobre o estético. encontramos certos autores que faziam questão de se mostrar apartados de qualquer concepção que julgavam “estruturalista”. aparece na escola de “semiologia contemporânea”. fugazes. A semiótica de origem francesa é uma das teorias que mais têm se preocupado. de enfrentar o chão menos seguro de objetos que não se apresentam claramente estabilizados. ao mesmo tempo. com questões ligadas às estratégias que apelam à emoção e aos aspectos sensíveis dos textos. com a produção de sentido em objetos que unem várias “linguagens” de manifestação. grande inspirador de Greimas. 4 17 . de abarcar cada vez mais questões em seus trabalhos. O desenvolvimento da semiótica. sobre o corpo e a percepção não deixam dúvidas de que o sujeito semiótico está cada vez mais complexo e. por exemplo. a eficácia do controle ideológico de populações inteiras fazem da semiótica uma ferramenta não só atualíssima como necessária. diversos livros de semioticistas do mundo inteiro foram publicados. esses mesmos pesquisadores se batiam com problemas para os quais a semiótica há décadas formulara propostas que poderiam ser úteis nos seus trabalhos. pensam hoje os objetos na sua vibração contextual. Nos últimos anos. das paixões. É o Em um quadro sobre “as escolas teóricas da comunicação”. Os estudos da enunciação. propostas que se mostrem mais operatórias para compor um modelo de investigação dos objetos jornalísticos. com reflexões relevantes para se entender a comunicação como teoria e como ato. o surgimento de novas mídias. Objetivos e hipóteses As reflexões anteriores justificam os objetivos principais de nosso trabalho: • Buscar. Hjelmslev. Ao mesmo tempo. as investigações sobre o plano de expressão e suas características sensíveis. A complexidade crescente dos fenômenos da comunicação. no aparato teórico geral da semiótica. revela a vontade crescente dos pesquisadores de aceitar os desafios. e o aponta como estudioso do “signo e dos sinais”. Ciro Marcondes Filho. na construção de uma gramática do sentido. da tensividade. na evolução da teoria. coloca Greimas em “Semiologia clássica”. em sua obra O espelho e a máscara (2002). cuja “filiação filosófica ou epistemológica é o estruturalismo”.

portal (Internet). Outro desafio do trabalho é mostrar a operacionalidade da teoria. Em vários momentos. Produtos jornalísticos são semióticas sincréticas. A semiótica. Dito de outro modo. pode estabelecer uma eficiente ligação entre diversas formas de abordagem do jornalismo e manter coerência metodológica. integrando diversas contribuições na busca de uma visão mais integral dos objetos jornalísticos. certos exemplos de reportagens. sobre os modos de textualização. as logomarcas e muitos outros elementos se relacionam para produzir sentido e servir ao propósito de persuadir o público. de caráter mais amplo. Serão apontadas as coerções e vantagens de construção textual de cada um dos grupos de noticiários analisados. portanto. já que a característica mais evidente de um texto jornalístico dos grandes meios de comunicação é o uso de diversos conjuntos significantes para manifestar um único conteúdo. quer unir reflexões mais maduras dentro da teoria com outras ainda instigantes para tentar uma apreensão mais global dos objetos jornalísticos. Ressaltamos que o modelo analítico buscado quer esclarecer e apresentar as estratégias mais comuns utilizadas pelos jornais para motivar consumo e fazer-crer em determinados valores. 2. alimenta o estudo geral. há maior interesse em investigar como o jornal veicula valores do que os valores transmitidos. de comentários. é a base para a segunda reflexão. • Desenvolver e divulgar a semiótica. A primeira investigação. divididos em quatro grupos: jornal e revista impressos. e relacionado a um contexto demarcado. • Desenvolver um modelo de análise semiótica: 1. por sua vez. a fotografia. a verdade. radiojornal e telejornal. e. notadamente. no entanto. 18 . determinado por formações ideológicas. a empatia.caso das reflexões sobre a objetividade.dos maiores noticiários brasileiros. de um lado. e de outras unidades dos noticiários estudados irão motivar e justificar uma discussão sobre conteúdos. de outro. O modelo proposto. • Construir conhecimento sobre o jornalismo e os principais noticiários brasileiros a partir das possibilidades teóricas da semiótica. Não se pretende desvendar os conteúdos dos jornais. por abordar o texto no seu aspecto estrutural. que se concentra em objetos concretos de cada um dos quatro grupos.do jornalismo. e como objeto de comunicação. É preciso entender como o verbal. O trabalho com produtos específicos. inserido numa sociedade de classes.

que esclarecem o funcionamento das estratégias de enunciação desses objetos. o tempo também determina o valor de uma reportagem ou comentário (mais tempo concedido – maior a importância). administrar e manter elevado o nível de atenção dos seus respectivos públicos para que exista sustentação e aumento de audiência (caso das TVs. Essa textualização se desenvolveu para guiar a percepção do público. passional e inteligível. Essa finalidade determina um conjunto de estratégias persuasivas reunidas no que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção. o que merece mais ou menos concentração e atenção. Nos primeiros meios de comunicação. Os produtos jornalísticos devem atrair. longe do controle remoto. os conteúdos diferenciados – se filiam e fazem parte dessa necessidade vital de manter o público sempre cativo. de outros concorrentes. Nas TVs.A partir dos objetivos listados. Como tentaremos mostrar no trabalho. O manejo do espaço determina o modo de percepção nos jornais impressos e revistas assim como a administração do tempo organiza a atenção do público no rádio e na televisão. No rádio. Produtos industriais. o Há duas formas básicas de organização textual jornalística que estabelecem modos distintos de apresentação de conteúdos e de gerenciamento da atenção. O objetivo maior de todo jornal é obter atenção e laços com o público. rádios e Internet) ou de tiragem (nos jornais e revistas). a importância de uma notícia acontece em função do espaço. os jornais construíram com o tempo mecanismos que comunicam o que é mais ou menos importante. base da lucratividade das empresas. o valor de uma notícia tem relação direta com o tempo concedido. apresentamos a seguir as principais hipóteses do trabalho: o Existe um ponto que aglutina e “costura” as principais investigações sobre o funcionamento do jornalismo e serve para construir uma hierarquia de análise. essa é a principal coerção dos noticiários. mostrar pontos de maior ou menor interesse nos níveis sensível. Todas as outras operações – como a busca de efeitos estéticos. de outro site. o jornalismo on-line e globalizado. Serve tanto para permitir um reconhecimento mais imediato dos valores em jogo como para organizar o próprio trabalho dos profissionais envolvidos no fechamento das edições. mais espaço – maior valor). 19 . o É possível estabelecer princípios de organização textual do jornalismo dos maiores meios de comunicação. direcionar as expectativas. do dial. do tamanho e da posição que ocupa nas páginas (por exemplo.

objetividade. são utilizados noticiários brasileiros produzidos no período de quatro anos (2002/2005) e que obtiveram maior audiência ou tiragem nesse intervalo de tempo. do jornalismo impresso. São contempladas as questões que envolvem todos os jornais estudados. tensividade e o potencial de curiosidade da notícia.Plano de trabalho A tese apresenta uma ampla discussão teórica. verdade. Cada um compra informações de 20 .teorização geral . estratégia de persuasão que funda e sustenta a relação enunciador-enunciatário. Para obter audiência ou tiragem. Obter dados sobre o posicionamento dos jornais não é tarefa fácil. No final.Estratégias de organização textual: a atenção manipulada no tempo e no espaço. que resultam em organizações textuais específicas. Há cinco produtos jornalísticos aqui analisados: 5 As informações que apresentamos sobre os jornais foram recolhidas junto aos sites das próprias empresas em dezembro de 2004. notícia. Apresentamos ainda uma relação entre aspectualidade. internautas ou leitores nos níveis sensorial. . cuja função é manipular a percepção do público. mostramos que os modos de relacionamento dos jornais com o público também são conseqüência do trabalho com os vários recursos que diferentes noticiários têm à disposição. realidade. ideologia. com exceção das relativas ao Jornal Nacional. . são feitas sugestões para o exame do sincretismo nos objetos jornalísticos. os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores.o jornalismo e os jornais na perspectiva semiótica. de base temporal ou espacial. incluindo um estudo sobre os tipos de semi-simbolismos gerados. PARTE 2 .Relações entre semiótica. Investigamos as estratégias que são próprias do telejornalismo. Nesse item. Como corpus. base da sobrevivência das empresas. Há três grandes tópicos: . são estudados os jornais que poderíamos chamar de “vencedores”.5 Em outras palavras. conceitos de comunicação. em duas grandes divisões: PARTE 1 . Em linhas bem gerais são mostradas relações entre a semiótica e as teorias da comunicação. Discute-se também. da perspectiva da semiótica de Greimas. O exame desses procedimentos revela o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção. do noticiário da Internet.teorização específica e aplicação. do radiojornalismo. comunicação e jornalismo.O gerenciamento do nível de atenção. passional e inteligível. ouvintes. com investigações e exemplos concretos.

O programa da Rede Globo é um dos telejornais mais vistos no mundo.com.7 Jornal da CBN Programa diário de rádio Jornal Nacional Programa diário de TV É líder de audiência desde sua fundação.OS CINCO OBJETOS JORNALÍSTICOS ANALISADOS Nome Tipo Característica e tiragem ou audiência O âncora.com.11 Esses cinco produtos jornalísticos geraram quatro grandes grupos de análise: radiojornalismo.000 leitores. Reúne mais de 200 jornalistas pelo País.701. divulga o programa como o de maior audiência de São Paulo. tinha média de 43 pontos do Ibope. São Paulo. texto de João Gabriel de Lima. telejornalismo. 6 Fonte: http://www. 9 Fonte: Conheça a Folha .uol.folha.br/ 21 .100 exemplares e 4. Em 2004.herodoto. Isso significa a sintonia de 68% dos televisores brasileiros. Em 2003. tornou-se na década de 80 o jornal mais vendido no País. “A guerra atrás das câmeras”.com.br 7 Fonte: http://radioclick. ou 31 milhões de telespectadores.com/cbn/ 8 Revista Veja.http://www1. número que lhe dá a primeira posição no ranking dos maiores portais de conteúdo brasileiros e representa cerca de 60% de alcance nesse mercado.131. a circulação média foi de 350 mil exemplares em dias úteis e 430 mil aos domingos. Heródoto Barbeiro.10 UOL – Universo On Line Portal Internet Principal portal de conteúdo e provedor pago de acesso à Internet do País. Newsweek e U.br – link “para anunciar”. o IBGE) e usa como acha conveniente. jornalismo impresso. que transmite via satélite 24 horas de jornalismo.S.9 Veja Revista semanal Quarta maior publicação do gênero “revista semanal de informação” no mundo (atrás de Time. em 1969.uol. com 1. edição 1869. 11 Fonte: http://sobre.8 Folha de São Paulo Diário impresso Fundada em 1921. Isso significa que de cada 10 pessoas que acessam a Internet a partir de casa.br/folha/conheca 10 Fonte: Midiakit Veja – acessível a partir do site www. Tem circulação nacional. 6 visitam o UOL regularmente.uol.234 milhões de visitantes mensais no Brasil entre janeiro e setembro de 2004. jornalismo de Internet (portal). Criada em 1º de outubro de 1991. Segundo o Ibope NetRatings.6 A Rádio CBN é a maior rede de emissoras all news. Belo Horizonte e Brasília.globo. 101 a 108. 1° de setembro de 2004. A Veja e a Folha de São Paulo foram reunidas em um só item em função de sua institutos de pesquisas (como o IVC.com.News) e a maior do Brasil. o UOL teve média de 7.vejaonline. págs. A maioria dos dados é confidencial. a CBN está presente nas principais cidades e em capitais como Rio de Janeiro.abril.

a prisão de Saddam Hussein. são comparados a fim de mostrar diferenças de abordagem. Os jornais. a partir desse mesmo fato. na conclusão.são usadas e testadas na análise de um fato de repercussão mundial. depois. mas apresentar as diferentes estratégias utilizadas pelos noticiários analisados. 22 . coerções e vantagens de cada um que esclarecem e exemplificam o funcionamento de determinadas estratégias discutidas durante todo o trabalho.textualização ser muito semelhante. mostramos as especificidades de cada noticiário e o funcionamento das estratégias particulares. As ferramentas – tanto gerais quanto específicas . em 13 de dezembro de 2003. para motivar laços e difundir determinados valores. Nesse corpus vasto. Não se pretende fazer uma exaustiva análise de conteúdo.

23 .

Hjelmslev. o formalismo russo. muitos dos quais do Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo. não toma a linguagem como 24 . verdade são revistas da perspectiva da semiótica. Herdeira de Saussure e de Hjelmslev. pela escola de Tartu. É realizada uma breve comparação com outras teorias também semióticas. na antiga União Soviética e pela semiótica funcionalista de Halliday” (2004: 27). COMUNICAÇÃO E JORNALISMO Neste item apresentamos de maneira rápida algumas bases da semiótica francesa. O jornalismo. a partir dessa questão. Como teoria da significação. a diferença entre a semiótica da chamada “Escola de Paris”. principalmente com Barthes. o círculo de Praga e o círculo de Bakhtin – foram seguidos por Charles Morris e Thomas Sebeok.RELAÇÕES ENTRE SEMIÓTICA. notadamente a pierciana. Em linhas bem gerais. ideologia. A partir desse exame. mostramos pontos que consideramos fundamentais para entender o fenômeno comunicacional. As concepções de fato. realidade. notícia. é não se articular a partir da investigação sobre o signo. Neste trabalho. a semiótica se interessa por tudo que faça sentido para o ser humano. em relação às outras teorias que se preocupam com o sentido. o estudo se concentra em expor as relações entre a semiótica de Greimas e as teorias da comunicação. como forma de comunicação utilizada por certos grupos sociais para exercer essa manipulação de maneira mais efetiva. criadora de relações intersubjetivas que geram e mantêm crenças que se revertem ou não em determinados atos. A semiótica de Greimas “tenta determinar as condições em que um objeto se torna objeto significante para o homem. mas principalmente a ação do homem sobre outros homens. A objetividade merece grande destaque e. como lembram Santaella e Nöth: “Os pais – Pierce. introduzimos os primeiros estudos sobre enunciação. Para os semioticistas. pela semiótica narratológica e discursiva de Greimas. pela semiologia de extração lingüística. Saussure. a orientação teórica é a semiótica de Greimas e seguidores. nos Estados Unidos. comunicar não é apenas uma forma de transmissão de saberes. Semiótica e teorias da comunicação O termo semiótica é usado em diferentes orientações teóricas. Depois. é inicialmente analisado por meio de temas sempre presentes sobre o assunto. ainda na França.

Lúcia Santaella e Winfried Nöth fazem um notável levantamento das teorias semióticas e sua relação com os estudos teóricos da comunicação. Em “Semiótica e Comunicação” (2004). a semiótica greimasiana desenha fronteiras em certos momentos. pode realizar diálogos úteis. sobre os textos. Isso alarga o objeto da comunicação. multi e transdiciplinar”. Em Dilemas da comunicação. Um texto não é uma “soma” de unidades ou signos. fotos. texto sobre epistemologia da Revista Fapesp (nº 82: 12 25 . segue outro caminho. que disse querer “limpar o lixão da área”. que dedica um capítulo inteiro à questão. é “a ação dos homens sobre outros homens. roupas. são exemplos de textos passíveis de estudo semiótico. aqui no sentido mais amplo. 2001:13).14 Não está no escopo desse trabalho definir e listar as teorias da comunicação. ver Marcondes Filho (2002). a semiótica apresenta-se com um objeto de estudo bem definido. pois a significação decorre da relação” (Barros. Em relação às chamadas teorias da comunicação12. as interações. a publicidade. Jornais. mas também por disputas de espaço institucional. sobre os meios de comunicação – as mídias -. e sim como sistema de significações. motivadas por desconhecimento. Existem pontos de investigação biológicos. o cinema. programas de rádio ou TV. 13 Santaella e Nöth (2004) lembram que a semiótica pode ser possível parte de uma teoria da comunicação. Pesquisa-se sobre o jornalismo. incluindo nele uma gama considerável de fenômenos. Os autores mostram a interconexão entre os dois campos. cidades. por exemplo. cibernéticos. Há estudos. supermercados.sistema de signos. esculturas. casas. O enfoque recai sobre as estruturas que engendram a significação. artísticos. Sobre o assunto. que vão desde a conversação cotidiana até a Internet” (2004: 14). paisagens. Em outros. Ao estudar a significação nessas relações. constituir como objeto da comunicação somente os meios de comunicação e. o teatro. E a semiótica francesa tem enormes contribuições para dar aos pesquisadores e estudantes da área. O resultado são objetos não raras vezes díspares. assim como a fase comunicacional é apenas um dos campos de trabalho da semiótica. para isso. Nossa defesa dessa relação. entretanto. José Luiz Fiorin discute a afirmação polêmica de Wilson Gomes.13 Para localizar esses pontos de divergência e de convergência é preciso inicialmente reforçar que a comunicação de interesse da semiótica. sociais. livros. e ressaltam as possibilidades de enriquecimento conceitual que a semiótica pode trazer para teorias da comunicação. psicológicos. Os teóricos da comunicação não produziram um método de análise consistente. ou melhor. a dança. Acreditamos que a semiótica tem melhores instrumentos teóricos para analisar os objetos concretos produzidos pela mídia. Decorre daí uma concepção fundamental: a de que um elemento de uma estrutura só adquire valor na medida em que se relaciona com as outras unidades e com o todo de que faz parte. Já as teorias da comunicação recortam as atividades comunicativas das mais diferentes formas e em perspectivas distintas. de relações. filmes. músicas. novelas. pois nesse ponto também há diversas possibilidades de recorte. como aponta Fiorin. criar uma teoria específica. Na obra Comunicação e semiótica (2004). representante da comunicação na CAPES. Ambas se apresentam com caráter “inter. criando relações intersubjetivas e fundando a sociedade. políticos. 14 Essas linhas poderiam ser totalmente dispensáveis se uma confusão entre semiótica e comunicação não fosse observada até em discussões acadêmicas. os suportes. receitas.

Este trabalho. senão a questão. não só para enfrentar antigos problemas. que não poderia ser utilizada em outro. É por isso que a teoria pode dar grandes contribuições para os estudos de comunicação. em termos acadêmicos.de filósofos. Esse ir-e-vir traz enormes vantagens em trabalhos que devem ter vocação científica. nesses casos. é claro.com todas as conseqüências previsíveis. hoje. Ao mesmo tempo. Na falta de instrumentos de análise. Observamos vários estudos jornalísticos que não conseguiram deixar de ser uma seqüência de comentários genéricos com fragmentos de discurso de autoridade . se falar em cisão da pequena e aguerrida comunidade científica vinculada a esse campo pode soar como hipérbole inadequada. que gerou a entrevista de Gomes e a reação de Fiorin. formam-se grupos de interesse. porém de grande amplitude.” 26 . O olhar sobre o objeto teria como conseqüência uma teorização específica demais. pelo menos uma questão crucial para o campo de estudos da comunicação no Brasil. para entender uma das formas de comunicação. Em torno dela. Parece que um problema enfrentado por certos teóricos e diversos pesquisadores diante de objetos concretos é o de se confrontar com a complexa singularidade de manifestação de cada jornal ou de um grupo de jornais. novos problemas teóricos e institucionais estão sendo criados. 2002).Estudiosos da comunicação podem lançar mão de uma ou mais teorias nas investigações. entre outras possíveis e igualmente válidas. a jornalística. há claramente uma disputa em curso entre os pesquisadores quanto ao status da comunicação. O estudo dos textos alimenta e enriquece as reflexões dos semioticistas. Há muito a ser construído. escolheu uma perspectiva teórica. os jornais são um enorme desafio para a semiótica. os semioticistas estão sempre em contato com seus objetos de investigação. Se os diversos estudiosos de comunicação não conseguem trabalhar diretamente com os produtos jornalísticos. quem se propõe a investigar 100 edições da Veja ou o Jornal Nacional de determinado dia se vê diante de várias dificuldades. no entanto. E as novas teorizações enfrentam novamente os objetos para que as propostas sejam constantemente testadas. cujo resultado pode ser até uma redefinição de seu espaço dentro das ciências humanas e sociais no país . político-institucionais e. de estudiosos da comunicação. que fazem considerações úteis. do jornalismo. A semiótica é uma das possibilidades de análise dos fenômenos comunicacionais. A análise desses textos suscita questões que fazem avançar a teoria. A semiótica francesa tem mostrado sua força exatamente em função de modelos de previsibilidade que nascem e são continuamente testados em práticas analíticas. das reflexões de autores consagrados. a autora Mariluce Moura expõe o debate: “Ser ou não ser ciência parece ser. de sociólogos. consolidam-se posições divergentes e. certos analistas valem-se principalmente das obras generalizantes. Como apontamos na Introdução. como ainda para encarar novíssimas questões. de disponibilidade de verbas para pesquisa.

“não há e nunca houve um pós-moderno. que ainda persiste. descomprometida com a militância política” (idem: 16). Muito pensadores assumiram uma postura combativa no debate na área nos anos 70 e parte dos 80. “a semiótica tendia a ser vista como mais uma área de subordinação à razão instrumental. explicam os autores. a não ser na fantasia daqueles que. na época. à busca de resistência dos intelectuais latino-americanos contra o imperialismo cultural que se realizava através da comunicação massiva. no entanto. enganar e oprimir a população. isso ainda não justifica uma época. e suas coerções ideológicas. visando à manutenção do domínio econômico e da hegemonia política sobre os países dependentes” afirmam Santaella e Nöth (2004: 14). 10. alguns estudiosos de comunicação.15 A semiótica. que não raras vezes degenerou no descompromisso intelectual. aprofundar estudos sobre os meios de comunicação. é uma caricatura da crítica aos meios de comunicação. Para Ciro Marcondes Filho. no Brasil. que até hoje persiste. pelos sites. uma moda”. pelo cruzamento de mídias. para aumentar o poder de nosso patrão. O Brasil estava dividido pela ditadura militar. ávidos por um novo ‘ismo’. Após o engajamento. buscavam encontrar algo para substituir o vazio intelectual que nos assolou nos anos 90. na arte. no máximo. entretanto. desmobilizar. Há quem imagina certas rotinas na redação de grandes empresas jornalísticas. senhores. O diretor ou o editor-chefe começa a reunião de pauta com a seguinte pergunta: “O que faremos hoje. Na sua epistemologia. Caderno Mais da Folha de São Paulo. 2/11/2003. 27 .como as apresentadas. na literatura. A teoria é também muito útil para evitar simplificações comuns na análise dos objetos jornalísticos. a semiótica é uma ferramenta que possibilita compreender melhor as estratégias de persuasão dos discursos jornalísticos. pela Internet. Como pretendemos mostrar durante o trabalho. surgiu a oportunidade para uma visão cética. por exemplo. “Não é difícil perceber o quanto essa concepção negativista da comunicação se ajustava. pág. na sua busca pelo 15 In “O conceito que nunca existiu”. serve como caminho também para se contrapor à crítica maniqueísta e superficial dos jornais. sob censura. Estudar discursos. se envolvem nos debates da chamada pós-modernidade. Nesse momento. Que tenha havido um ‘estilo’ pós-moderno na arquitetura. se contrapõe a qualquer niilismo que invade discussões sobre o jornalismo e a própria idéia de significação. que teve seu momento e sua história. seus produtos e conseqüências sociais. e impedir que os trabalhadores tenham consciência de que são explorados?” Essa visão. A partir dos anos 80.

ou seja. Até porque é de uma obviedade inquestionável. por exemplo. No entanto. o destinador e o destinatário E há quem rotule algumas dessas posturas intelectuais justamente como “pós-modernas”. uma determinada hierarquia de valores que. afirmar que o Jornal Nacional manipula a nossa emoção. Diana Luz Pessoa de Barros lembra que os antigos modelos lineares de comunicação – os que tratam da transmissão de mensagem de um emissor para um receptor – foram repensados por outros autores na forma de um sistema de interações (2003: 42). uma percepção do mundo. assim.entrevista da jornalista Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. é difícil usar esse rótulo diante da própria complexidade em cercar o fenômeno pós-moderno. Barros critica o caráter demasiadamente mecanicista de alguns modelos comunicacionais “mais apropriados à comunicação entre máquinas e que não levam em consideração.br/fsp/mais/fs1910200305. 16 28 . “é preciso.. Isso é pós-modernismo. acredita que não há nada a ser debatido. enfim. Nesse sentido. aliás. uma ideologia que se recusa a fazer julgamentos e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos e virtuosos. Os sujeitos da comunicação devem ser considerados.sentido. impõe a existência de simulacros. Grosso modo. em primeiro lugar. o texto (idem). telespectador ou internauta é de mera transmissão de informações. Para a autora. os participantes se constroem e constroem. Prefere. Outra questão é que não se pode negar a saudável polêmica que suscita a leitura dos textos instigantes de autores chamados pós-modernos. descarta a idéia de um tipo de regulamentação normativa da comunidade humana e assume que todos os tipos de vida humana se equivalem. Ou que os jornais estão a serviço dos interesses da elite dominante.folha. que todas as sociedades são igualmente boas ou más. O ato de comunicar. o “receptor” também participa da comunicação. a teoria só pode estranhar o relativismo absoluto que dominou e domina certas reflexões. ouvinte. no limite. como sujeitos competentes. pois. enfrentar um árduo caminho para compreendê-los. por exemplo.uol.com. Mais complicado é tentar responder: como fazem isso? Ponto de vista semiótico sobre a comunicação Os semioticistas discordam da idéia de que a relação entre autor e leitor. é coerente com algumas de suas teses. Folha Mais – 19 de outubro de 2003 – versão eletrônica (http://www1.” Em “A sociedade líquida” .16 A semiótica não nega a complexidade de muitos fenômenos. rever as noções e as denominações de ‘emissor’ e de ‘receptor’ da comunicação. juntos.) Os sujeitos da comunicação não podem mais ser pensados como casas ou caixas vazias de emissão e de recepção de mensagens.htm). por exemplo. dentro da definição de pós-modernismo proposta pelo sociólogo Zygmunt Bauman: “Ser um pós-modernista significa ter uma ideologia. contudo. o que. entre outras coisas. um autor leva em consideração as expectativas e as prováveis reações de quem vai receber o texto para construir um discurso com a eficiência desejada. a inserção sócio-histórica e ideológica dos sujeitos envolvidos” (2003: 47).. Na comunicação. (.

as estratégias que envolvem a competência modal e a competência 29 . entre destinador e destinatário. Qualquer destinatário dos jornais. mais adequados do que emissor e receptor) têm de ter certas qualidades que permitam que eles se comuniquem” (idem: 48). de valores e projetos em comum . Pesquisas têm mostrado que “para apreender o saber é necessário que o destinatário queira fazê-lo..(termos menos restritivos e.A primeira competência é chamada modal e inclui o querer ou o dever.) Interpretar. é necessário.. a divulgação de notícias (fazer-saber) está intimamente relacionada ao fazer-crer.) “uma operação de reconhecimento da verdade. Há duas qualidades ou competências que possibilitam a existência da comunicação: 1. ou melhor. de comprar um jornal a apoiar determinado candidato a presidente. No jornalismo. com a manipulação e têm ambas a mesma estrutura” (2003: 48).. (. lembra novamente que a comunicação como ato não pode ser entendida como um simples fazer-saber do destinador e um adquirir saber do destinatário. A comunicação confunde-se. o saber e o poder realizar a comunicação. diante do fazer persuasivo dos jornalistas. no fazer comunicativo do destinador não apenas como um fazer-saber. portanto. que os sujeitos partilhem de um mesmo sistema de valores. que consiste em comparar e identificar o que lhe é apresentado pelo sujeito do fazer persuasivo com o que ele já sabe ou com aquilo em que crê. por excelência. a partir de Greimas e Courtés (1983:69). 2. e no fazer comunicativo do destinatário essencialmente como um interpretar.A segunda competência é a semântica. com sistemas de valores que atribuem sentido aos fazeres e aos estados” (Barros: 2001:58).. Barros. Trata-se de verificar a adequação do novo e desconhecido ao velho e já sabido. para o sujeito é. com a partilha. Apontaremos depois.Para a manipulação funcionar. ou seja. (. de ver a peça de teatro comentada ou até mesmo de não fazer nada diante de alguma forma de injustiça. na parte do trabalho sobre o gerenciamento do nível de atenção. ou seja. dessa forma. mudar ou reforçar crenças que redundem em atitudes que podem ou não se converter em ações (fazerfazer ou fazer-agir) de diversas amplitudes. Isso nos obriga a pensar na comunicação. realiza um fazer receptivo ou interpretativo. mas principalmente como um fazer-crer e um fazer-fazer. confrontar a proposta recebida com o seu universo do saber e do crer. entre outros aspectos.

de fé. Em outras palavras. queremos abordar o que estamos chamando de cláusulas principais. Resolvemos discutir essas questões nesta primeira parte do trabalho por duas razões complementares. Afirmam Greimas e Courtés que. (.semântica dos destinatários dos jornais. de um lado.. uma espécie de crédito e de débito. “num sentido mais geral. mostraremos mais cláusulas também importantes. Nesta parte do trabalho. Por sua vez. contudo. convenções. sendo a distância que separa sua conclusão de sua execução preenchida por uma tensão que é. porém de abrangência um pouco mais limitada ou menos proeminentes.. de ‘contrair’ uma relação intersubjetiva que tem por efeito modificar o estatuto (o ser e/ou o parecer) de cada um dos sujeitos em presença. as cláusulas revelam uma série de expectativas mutuamente partilhadas que influenciam a produção e o consumo do discurso jornalístico dos grandes noticiários. Em outras 30 . Deve ser ressaltado que o contrato semiótico. Cláusulas principais do contrato jornal-público As duas competências – modal e semântica – necessárias para que a comunicação se estabeleça expõem a existência de acordos. semioticamente falando. que alicerçam a relação entre destinador-jornal e o destinatáriopúblico. de confiança e de obrigação” (1983:84 e 85).) O contrato aparece (. que terá conseqüências para toda a nossa análise. “ser objetivo e imparcial nos relatos”. Merecerá destaque o fazer-sentir na relação entre público e produtos jornalísticos. (. um “contrato”. Em outras partes do estudo. ao mesmo tempo. “Dizer a verdade”. A noção semiótica de contrato é um conceito-chave para pensar os relacionamentos entre os sujeitos jornal e público consumidor. coerções. uma abertura sobre o futuro e sobre as possibilidades da ação.. É nesse sentido que a semiótica fala de um contrato “fiduciário”.) como uma troca diferida. “separar fatos de opiniões e interpretações”. ou. A relação de um jornal com o público-alvo pressupõe um grande número de “cláusulas” nesse contrato.. Inicialmente. não é fundado em um acordo explícito. “mostrar a realidade” são cláusulas centrais no contrato do jornal com seu público. expectativas entre destinador e destinatário. não é possível começar um estudo sobre o jornalismo dos maiores veículos de comunicação sem desmistificar essas noções e apresentar o ponto de vista semiótico sobre o assunto. e do outro.) O fato é que o estabelecimento da estrutura intersubjetiva é. essas cláusulas do jornalismo atraem e motivam discussões sobre as bases teóricas da semiótica. pode-se entender por contrato o fato de estabelecer. ao mesmo tempo.. uma coerção que limita de uma certa forma a liberdade de cada um dos sujeitos. ou seja.. ou premissas da argumentação.

decorrentes de outros contratos de veridicção. mentiroso ou secreto. impõe reflexões bastante específicas. Verdade e ideologia Para a semiótica. que envolvem. o famoso exercício da objetividade do jornalista. de uma formação ideológica e da concepção. O contrato de veridicção determina as condições para o discurso ser considerado verdadeiro. Verdade. assim. portanto. de uma ideologia. assuma as posições cognitivas formuladas pelo enunciador. “Opinião”. ou seja.palavras. sem dúvida. próprios de uma cultura. de discurso e seus tipos. assuntos profundamente relacionados. realidade e ideologia são. o jornalismo e a comunicação. falso. feita por Clóvis Rossi em sua coluna da página 2. A interpretação depende. a verdade é um efeito do discurso. Isso é possível se destinador e destinatário. Há uma notável discussão sobre o assunto. questão que se relaciona à competência semântica e exige uma espécie de cumplicidade na maneira de recortar e dar sentido aos acontecimentos. Comecemos com a questão da verdade que. da persuasão do enunciador para que o enunciatário encontre as marcas de veridicção do discurso e as compare com seus conhecimentos e convicções. por exemplo. estabelece os parâmetros.” Um dos recursos do destinador para persuadir o destinatário a crer na verdade enunciada é elaborar uma representação da realidade que deve ser aceita pelo destinatário. a proclamada habilidade do profissional de ter acesso aos acontecimentos e reportar tudo de maneira fiel. na Folha de São Paulo de domingo. no jornalismo. e creia. por exemplo. à realidade. dentro de um sistema de valores. da aceitação do contrato fiduciário e. 21 de abril de 2002: 31 . a partir dos quais o enunciatário pode reconhecer as marcas da veridicção. das relações entre a teoria. No estudo do jornalismo. partilharem de uma mesma visão de mundo. abrem caminho para uma série de outras reflexões importantes. isto é. nos debates das próximas páginas também há uma pequena apresentação dos fundamentos da semiótica que mais nos interessam e o exame. E resultado de uma interpretação. Afirma Barros (2001:93 e 94) que o enunciador propõe um contrato que estipula como o enunciatário deve interpretar a verdade do discurso: “O reconhecimento do dizer-verdadeiro liga-se a uma série de contratos de veridicção anteriores. em outros termos. entre outros fatores.

Ideologia é entendida como “visão de mundo”. que explicita uma cláusula do contrato com o público consumidor de notícias. especialmente na visão dominante.Rossi afirma que um dos deveres maiores do repórter é “buscar a melhor versão da verdade possível de obter”. Para seguir em frente. frase de Carl Bernstein. Palestinos dizem que. É a ideologia que faz com que cada um tenha uma apreensão da realidade bastante distinta. e israelenses negam as mortes de civis. ao mostrar que há vários saberes ligados às diferentes classes. Essa é uma questão central do nosso estudo sobre o jornalismo. Fiorin completa que a ideologia.) a ideologia como visão de mundo permite relativizar a ‘verdade’. e reconhecer contradições em cada forma de ver o mundo. sim. Notemos como cada um dos grupos beligerantes estrutura seu discurso com base em ideologias opostas.. Essa categorização da realidade renova-se a partir dos conflitos de poder entre segmentos sociais . Barros afirma que “(.. criticando-a e a ela resistindo” (1988: 150). é “o ponto de vista de uma classe social a 32 . entendida como visão de mundo. houve massacre.motivados principalmente por fatores econômicos. é necessário definir o conceito de ideologia adotado neste trabalho.

no segundo caso. Percebe-se a fragmentação das disputas sociais e o surgimento de demandas corporativas (dos negros. dos bancários). como aponta o professor de sociologia da USP José de Souza Martins. Ele faz uma crítica dessa mudança no artigo “Demandas corporativas na modernidade”:19 “Há a acelerada difusão de uma racionalidade política e econômica que alcança. os valores são organizados em sistemas e se apresentam como taxionomias valorizadas que se podem designar pelo nome de axiologias. a maneira como uma classe ordena. essas axiologias se transformam em ideologias. aos acontecimentos. converter-se em discurso mitológico (ibidem).” 19 Tendências/Debates. pode ser mais ou menos figurativizado e. justifica e explica a ordem social” (1997: 20). those axiologies transform into ideologies. those values transform into axiologies. (…) When an individual or group adopts certain values as its own. Essa ampliação dá conta de diversos fenômenos sociais.respeito da realidade. which constitute more or less compatible colletions of values. dessa palavra)”. sem um horizonte de transformação social fora de limites estreitos. A ideologia é apresentada como atualização ou busca de valores. neste começo do milênio. Tarasti (2004: 35) lembra que quando um indivíduo ou grupo adota certos valores como seus. que podem ser consideradas como uma coleção de valores. assim. selecionados do interior dos sistemas axiológicos. notadamente na de Tarasti. O discurso ideológico. nessas últimas conceituações. esses valores se transformam em axiologias. do setor exportador. de ordem virtual (idem: 225). When ultimately an individual or a group tries to legitimize its axiologies to other subjects of its Dasein. há uma apresentação de valores de forma abstrata ou temática. no entanto. the difference between ideologies and axiologies is clear.17 Na mesma linha.18 É possível notar. Quando depois um grupo ou indivíduo tenta legitimar sua axiologia para outros sujeitos. Greimas e Courtés. 18 Fragmento original: “From an existential semiotic point of view. Folha de São Paulo. seu modo de articulação é sintáxico e são investidos em modelos que aparecem como potencialidades de processos semióticos: opondo-os às axiologias. É flagrante. dos sem-terra. o esvaziamento da luta política a partir de conflitos de classe. de curto prazo. geralmente. Esse ponto de vista de uma classe social é. Há uma produção cada vez maior e mais fragmentada de “versões” da realidade a partir de finalidades estratégicas. religiões e mesmo as Greimas e Cortés também afirmam que. podemos considerá-los como ideologia (no sentido restrito. uma atribuição de valores ao mundo. No primeiro caso. como a família. distinguem “duas formas fundamentais de organização do universo dos valores: as articulações paradigmática e sintagmática. a comunidade (.. semiótico. o entendimento da ideologia não apenas em uma concepção de classe.). A3-26/10/2004: 17 33 . suprime ou modifica núcleos sólidos de organização social. no Dicionário de Semiótica (1983: 224). na organização ideológica. dos gays. antes de tudo..

ou. quando um jornal constrói um discurso em que afirma mostrar a realidade.. sensacionalistas.. Cabe aos jornais fazer uma triagem dos acontecimentos. ele transforma fragmentos de realidade em notícia. Palestinos e israelenses não negam o acontecimento (as mortes e a destruição). mutilá-lo. Não é possível o acesso ao real sem um recorte ideológico.) Idéias como as do sociólogo alemão Ulrich Bech. é possível perceber que o jornalismo tem uma relação com a realidade bastante específica. já está utilizando um recurso de persuasão. Ciro Marcondes Filho (1989:29): “Todos os jornais são. ao provisório. É a ideologia que “filtra” a realidade. Tendemos ao precário. (. dirigi-lo. Para seguir adiante é importante diferenciar acontecimento .fato . sobre a sociedade de risco. é sempre um mediador.. por exemplo.notícia.)” afirmação merece um olhar semiótico. Essa 34 . Ele reporta o que acontece no mundo para o seu público. Vejamos o que diz.... contar as grandes histórias que podem repercutir na vida dos leitores. o recortam e o conceituam de maneira distinta: os primeiros falam em “massacre” e os segundos em “um combate feroz”. ajudam a pensar criticamente as demandas sociais no Brasil hoje. (. para ser mais preciso.classes sociais. portanto. ao fragmentário. porém. Nenhum foge dessa determinação.) Já não são as classes sociais as protagonistas dos conflitos e das demandas sociais e políticas.” Com o conceito de ideologia definido... A semiótica desenha fronteiras que são percebidas de modo diferente por outros pesquisadores. É por isso que a semiótica vê a afirmação da existência de uma dada “realidade” como mais um “efeito” de um texto. como em tantos outros abordados pelos noticiários. (.) As lutas corporativas não emancipam quem luta nem a sociedade iníqua em que a luta se desenrola. como a do regime de cotas para negros nas universidades e da partilha corporativa da terra na reforma agrária. Portanto. Um jornalista.) Essas demandas são cada vez mais corporativas. Transformar um fato em notícia é também alterá-lo... O próprio jornalista nota duas visões de mundo antagônicas que só podem gerar duas interpretações também radicalmente diferentes sobre o que “aconteceu”. (. Por meio da linguagem e da ideologia. que exibe mais uma vez certas cláusulas de seu contrato com o público. (. O recorte específico da realidade praticado pelo jornalismo: a notícia No caso de Jenin. Isso porque transformar um fato em notícia não é o mesmo que reproduzir singelamente o que ocorreu. outros menos. uns mais. sem atribuir valores ao que nos informam os nossos sentidos. pode-se voltar ao texto de Clóvis Rossi. enfim.

determinar-lhe valor. Significa. Um ponto de vista originário da teoria da argumentação desenha com nitidez essa fronteira. e fatos já são argumentos. diz que “o acordo repousa primeiramente sobre fatos. uma hierarquização de fatos. Le Monde. contra 75% de americanos (Vial. do ponto de vista argumentativo. sensações (fazer-sentir) e ações de consumo (um fazer-agir na forma de um fazer-comprar) do próprio meio de 35 . porém. contestando o valor argumentativo do fato. entre teóricos da comunicação. não controverso. se podemos postular a seu respeito um acordo universal. 4 de janeiro de 1985).76). Lembram Perelman e OlbrechtsTyteca que “a noção de ‘fato’ é caracterizada unicamente pela idéia que se tem de certo gênero de acordos a respeito de certos dados (. omitir ou esquecer outros aspectos envolvidos. selecionados por ter determinado valor argumentativo. é. por conseguinte. comprovados.. a nenhum enunciado é assegurada a fruição definitiva desse estatuto.)” (1996: 75. Mas. no entanto. muito menos com acontecimento. (. simultaneamente.. para outro aspecto da afirmação. de realidade. Fato .) Contudo. sua ‘interpretação’.. como todo argumento. dentro de um objetivo de despertar curiosidade (fazerquerer-saber). crenças (fazer-crer). Finalmente. confundir fato com realidade. É muito comum.Trata-se da primeira eleição e da apropriação que um determinado jornal faz de certos acontecimentos. Como? Primeiramente. também fruto de uma visão de mundo. Tornar algo visível. Por exemplo. Dar “presença” a um fato só tem sentido a partir de uma visão de mundo.). fato e notícia para expor o caráter persuasivo-argumentativo dessa apreensão da realidade efetuada pelos jornais: • • Acontecimento – É qualquer fenômeno manifestado semioticamente. presente. Depois. Devemos atentar.Concordamos com o autor que o ato de noticiar não é uma mera e inocente mediação entre os jornais e o mundo. antes de tudo. por sua vez. • Notícia . em nosso exemplo. recorrendo a pessoas competentes: especialistas mostraram que o fato em questão é apenas aparente. Não se deve. um jornalista que quer mostrar o caráter ‘antidemocrático’ do ensino cita uma estatística: 25% dos jovens franceses concluem o curso secundário. Essa relação “fato = realidade” também aparece no dicionário Aurélio.É.. por sua vez. Uma análise semiótica dos objetos jornalísticos precisa traçar uma fronteira entre acontecimento. mostrando que o fato em questão é incompatível com outros fatos. o fato pode ser contestado. Reboul. diremos que o nível do diploma do término do curso secundário nos Estados Unidos nada tem a ver com o nosso (…)” (1998:164).. Só estamos na presença de um fato. colocar fato como sinônimo de acontecimento.. assim como se provou que não é o Sol que gira em torno da Terra. pois o acordo sempre é suscetível de ser questionado (.

questão que será depois estudada. legenda. É a notícia que gera todos os outros tipos de abordagens jornalísticas aqui analisadas (editoriais.comunicação. se vincula a uma notícia. para o povo. 21 Observe-se. uma crítica. necessita contextualização. 2. não expõe com clareza o caráter mais óbvio de uma notícia. dentro do próprio ponto de vista da Folha de São Paulo. comentários. Proximidade (quanto maior a proximidade geográfica entre o fato gerador da notícia e o leitor. que é o de fazer crer na sua atualidade. pois não atende aos critérios expostos. Utilizaremos essa expressão para marcar os elementos de significação de qualquer jornal analisado. mais importante ela é)” (2001: 43). Caso os jornais se interessem pelo assunto. “Ineditismo (a notícia inédita é mais importante do que a já publicada). 3. Quase tudo o que aparece no jornal. Só que esse fato. para exemplificar. 5. Para reforçar essa vinculação. um editorial opina sobre ela. mais importante ela é). 36 . Uma reportagem a apresenta. O Manual de Redação da Folha de São Paulo expõe todos os critérios para “definir a importância de uma notícia”20. o significado histórico). Pode ser ainda um editorial. uma charge a ridiculariza. Se não é citada nos jornais. nessa definição. 20 É notável como a Folha. a incoerência em determinar tantas restrições para fazer a notícia e afirmar que a aplicação desses critérios deve redundar em “informação objetiva”. 4. direta ou indiretamente. fazer parte de uma determinada narrativa que o hierarquize em relação a outros fatos (o impacto da morte na classe política. é julgada como desimportante pelos meios de comunicação. matéria. virar notícia. por sua vez. uma crônica. um módulo de um diário com título. questão que abordaremos mais adiante. Empatia (quanto mais pessoas puderem se identificar com o personagem e a situação da notícia. Interesse (quanto mais pessoas puderem ter suas vidas afetadas pela notícia. não se constitui em fato.21 Do ponto de vista semiótico. uma nota. mais importante ela é). charges e segue a lista). ou seja. a morte de um político é um acontecimento. falaremos bastante em unidades noticiosas. foto. É o caso de uma reportagem na TV. que serão mais bem analisados na perspectiva semiótica durante o trabalho: 1. Essa ampliação se justifica. transformam o acontecimento em fato. Improbabilidade (a notícia menos provável é mais importante do que a esperada).

se contrapõe e freqüentemente se superpõe e domina a realidade real que ele vive e conhece” (2003:24). em nota mais discreta de duas colunas na primeira página. e alguns analistas da comunicação. pedindo a correção da tabela do Imposto de Renda. Na perspectiva da teoria. só existe acesso ao “real” por via de textos. não consegue deixar de eleger um acontecimento a partir de uma ideologia. de maneira alguma. Na página A5. Em uma foto de quatro colunas. Jornalistas. exibida ontem no ABC. afirma que “o público – a sociedade – é cotidiana e sistematicamente colocado diante de uma realidade artificialmente criada pela imprensa e que se contradiz. a Folha de São Paulo estampou a visita na primeira página (com um realce somente menor do que o do título da manchete principal): “No ABC. Utilizaremos outro exemplo para discutir como certas noções de realidade são concebidas no jornalismo e para iniciar as primeiras reflexões sobre a objetividade. jornalista respeitado. por mais cuidadoso que seja. a notícia recebeu grande relevância espacial (2/3 da área total da página interna). No dia seguinte. E chamou a atenção para o fato de o presidente “incluir a correção da tabela do Imposto de Renda no pacote preparado pelo governo para ser anunciado antes do Dia do Trabalho”.A isenção impossível: um mesmo acontecimento e três notícias distintas A semiótica não nega. acreditam na existência de uma realidade plenamente apreensível. Perseu Abramo. obra póstuma. professor universitário. Em 26 de abril de 2004. a existência da realidade. em geral. E temos aí uma outra questão importante que envolve a comunicação. em “Padrões de manipulação na grande imprensa”. de inseri-lo numa escala de valores para transformá-lo em fato e em unidade noticiosa. Na parte interna do jornal. submetido ou não aos valores da empresa onde trabalha. também com grande destaque espacial. porém. o presidente Lula foi até a cidade de São Bernardo e discursou para milhares de metalúrgicos. trouxe o seguinte título: “Lula acena com correção da tabela do Imposto de Renda”. Qualquer jornalista.” O jornal O Estado de São Paulo. destacou-se um operário que erguia um cartaz com os seguintes dizeres: “Basta de promessas – Queremos realizações – Chega de sermos enganados”. a semiótica e o jornalismo. Por meio dessa matéria. O título principal foi: “Metalúrgicos hostilizam Lula em visita a seu berço político”. depois de sua apreensão pelo homem. o leitor soube que Lula foi para a porta da Mercedes-Benz participar de um ato para entrega de ambulâncias. Lula ouve vaias e queixas de metalúrgicos”. Exibiu-se outra foto com uma legenda que era quase redundante em relação ao conteúdo da imagem: “Faixa de protesto. o jornal imprimiu como título principal a questão do IR. O jornal mostrou foto muito semelhante à imagem 37 .

“pediu mais empregos. Ninguém vaiou nem mesmo se indispôs com Lula na Tribuna Metalúrgica. O presidente surge como um político que não esqueceu sua antiga base. Para que essa construção ficasse ainda mais eloqüente. em um texto que tematiza a traição. diante de Lula. a publicação praticamente sonega a seu leitor a informação de que Lula esteve na Mercedes-Benz 22 Em nosso trabalho. Isso é ainda mais notável quando se constata que o Sindicato mais combativo do País na década de 80. 38 .interna da Folha.813. Podemos observar “ganchos” noticiosos distintos. parte do projeto Samu 192. cujas greves apressaram a democratização e o fim da ditadura militar. E também. seu ex-presidente. Ainda no dia 27. o leitor da Tribuna ficava sabendo que o presidente prometera uma resposta para a reivindicação da categoria de pagamento de menos Imposto de Renda. outra matéria. em outro texto. na qual se vê o mesmo cartaz que afirma que o salário não é renda. que ainda se submete a uma assembléia. mais contratações. A matéria da Folha garantiu que Feijó. Abaixo da foto. jornal da chamada grande imprensa. edição 1. havia mais um texto sobre a entrega de ambulâncias. a partir de um mesmo acontecimento central (a visita do presidente a São Bernardo) diferentes fatos. José Lopez Feijó. utilizou seu jornal para fazer um relato sóbrio e destituído de qualquer polêmica. instaura um presidente acuado por sua ex-base sindical. a humildade e a coerência como tema desse discurso. uma política de salário mínimo e a correção da tabela do IR”. Com destaque maior. Seu leitor ficou apenas sabendo que Lula esteve na porta da fábrica. o que era o projeto Samu. a quebra de expectativas. A mesma Folha. Não foi escrita uma linha sobre as vaias. o jornal do Sindicato. nem sobre as cobranças feitas pelo próprio presidente do Sindicato. o Tribuna Metalúrgica. o que gerou notícias que apresentaram realidades distintas.” Via-se uma foto do presidente com dirigentes do Sindicato em reunião numa sala. Gancho é uma gíria jornalística que indica diferentes abordagens que hierarquizam as informações – assunto de que trataremos melhor em outra parte do trabalho. “matéria” designa a parte verbal mais desenvolvida nas unidades noticiosas. A Folha. E nem mais uma palavra de explicação sobre o assunto. ouve seus “companheiros” e mostra que tem ação social. entretanto. ignorou o projeto Samu. “onde oficializou o programa de atendimento móvel de urgência no país”. Em duas matérias.22 com o título: “Lula encara protesto e vaia em seu berço político”. Cada reportagem elegeu e organizou. no palanque. colocou como título principal “Lula promete solução sobre tabela do IR até sexta-feira. Temos a gratidão.

para dar seqüência a um projeto social. Não existe nenhuma forma de falar de uma ocorrência qualquer de maneira “isenta”. teoricamente de maior interesse de seus leitores de bom poder aquisitivo. O jogo com a presença/ausência varia de jornal para jornal. como se tenta persuadir o público. Embora conhecida como possibilidade. Foram anotadas pelo autor deste trabalho e pela colega Kary Motta a partir da conferência de Tatit intitulada A deusa mídia. A “pinçagem”. se tornou “ausência”. injeta-lhe ‘presença’. na III Jornada Internacional do Centro de Pesquisas Sociossemióticas sobre Semiótica e a crítica das práticas mediáticas. é inerente a qualquer construção discursiva e ao próprio ato de apreensão do real a partir de uma ideologia. O importante é verificar. Luiz Tatit explica que a mídia – aqui no sentido de jornais . deve-se reforçar. mas de “uma das principais bandeiras do Ministério da Saúde”. que delimita o assunto. que mostra uma ou mais pessoas. Um enquadramento pode ser fechado. O Estado de São Paulo também faz um recorte específico. na PUC/SP. 39 . não se encontram publicadas. Não interessa para um semioticista estudar se essa apreensão foi ou não consciente. Com as observações de Tatit. Pensemos em uma tomada de câmera em uma reportagem de TV. o ouvinte. podemos notar que os jornais dão “densidade de presença” a certos aspectos da realidade e assim expõem sua visão de mundo. situações. ou aberto. com a divulgação dos resultados de suas investigações nesse sentido. objetos. uma ideologia. O Estadão lembra que não se tratou de uma ação qualquer. ou esse ato de pinçar e remontar determinados acontecimentos. é a mídia. a mídia faz esse fato existir. não selecionado. em agosto de 2001. O leitor.” Há outra questão importante sobre a “densidade de presença” que os meios de comunicação cedem a certos fatos. Esses três exemplos não podem ser analisados a partir de noções como “realidade real” e “realidade artificialmente criada” de Perseu Abramo. a entrega de ambulâncias. fazer-existir:23 “Assim podemos defini-la como um sujeito que faz-ser.. a partir de possibilidades de expressão diferentes. Ao revelar um determinado fato. na forma de um “close”. (. A construção de uma determinada realidade.) Um exemplo é o problema da corrupção no país. e se concentra na questão econômica relacionada à correção da tabela do IR. Reforcemos que cada tomada pressupõe ainda um esquecimento ou um apagamento de tudo mais o que se apresentou no mesmo espaço/tempo da filmagem e que. paisagens. Um texto jornalístico tem como função fazer o parecer real ser sentido como real. mostradas nesta parte da tese. sua ideologia.. se dá a partir de uma visão de mundo. na materialidade do texto. que realmente dá existência aos fatos.tem a função de fazer-acontecer. o telespectador ou o internauta não devem desconfiar de que certos aspectos da realidade são silenciados na triagem ideológica para que a 23 Essa e algumas outras reflexões do professor Luiz Tatit. Os jornais sempre reportam realidades filtradas.

As fotos harmonizam-se com o que é descrito. Esse fato nem merece ser citado. A Folha leva o efeito de realidade ao extremo. servindo como mais uma “prova” da veracidade do relato. Um jornal pode ser entendido como um texto que materializa e congela.“densidade de outros” seja ressaltada. partilha da idéia de que a entrega de ambulâncias é um “jogo de cena”.o que o presidente não faz e as promessas que não cumpre. atos e seus personagens. Não há acesso aos acontecimentos “concretos”. numa coordenada espaço-temporal específica. obviamente. Reafirma-se o tema da traição. Além de determinar o que é importante saber. Um discurso que se contrapõe a qualquer ação do governo não pode ver a maioria das atuações de Lula como relevantes. Há a utilização da terceira pessoa. Isso acontece geralmente quando jornalista e público. no sentido de tentar impor uma versão sobre certos acontecimentos. E também. Esses exemplos atestam a razão de a semiótica ser uma teoria que se volta para refletir sobre o “parecer do ser” que os textos manifestam. Não aparecem opiniões. a função do jornalismo também é a de apresentar conceitos sobre situações. e de dar presença a certos aspectos da realidade e não a outros. Enunciação e efeitos de objetividade Deve-se ressaltar ainda que todos os três conjuntos de textos citados – inclusive o do jornal do Sindicato – estão rigorosamente dentro das regras da chamada construção de um material jornalístico “objetivo”. a omissão não é mentirosa. Para a Folha. notícia é também – e. por exemplo. O leitor que a Folha de São Paulo constrói. por exemplo. portanto. com uma descrição minuciosa: “Logo que colocou o pé 40 . O resultado final apresentado pelos jornais deve ser sentido pelo público-alvo como a própria realidade. Os fatos surgem como se o próprio leitor tomasse contato com eles. Portanto. principalmente . nem compreensão das experiências. muitas vezes. fora dos quadros de uma linguagem e de uma categorização que acontece com base em um sistema de valores. quando o texto foi bem sucedido na maneira de apresentar argumentos que sustentam determinada tese. o recorte da realidade que um grupo social faz e julga mais conveniente legitimar para uma camada social mais ampla. Os depoimentos estão entre aspas. e não uma versão dela. partilham dos mesmos valores.

A segunda é a de que é possível um jornalismo “isento”. da verdade e da objetividade e também da imparcialidade como efeito de sentido. por exemplo. se ocupam fortemente com a produção jornalística. A objetividade. a partir de quem o faz e como o faz. pressupõe um ato de criação. Cada um dos três recortes da realidade. precisa ser claramente exposta em um trabalho de análise jornalística por meio da teoria semiótica. porém. salário não é renda’. da exclusão dos fatos extralingüísticos com o objetivo de buscar homogeneidade de descrição da língua (Greimas e Courtés: 226). de uma noção nem sempre bem assimilada por estudiosos da comunicação. assunto central deste trabalho. a enunciação. leão. Todos esses recursos para simular distanciamento e fidelidade ao real são estratégias de enunciação.no palanque montado no pátio da fábrica. ou “texto” no sentido mais amplo. induz seus leitores a uma determinada reação. A visão de mundo do jornal paira sobre seu produto e é indissociável de qualquer um dos seus recursos expressivos e de seus conteúdos. que podemos aqui utilizar na mesma acepção de objeto jornalístico. E é por isso que a semiótica só pode falar da realidade. ao invés de buscar explicações em um objeto específico. estava escrito: ‘Xô. a partir de Saussure. também na tentativa de interferir na própria dinâmica de criação por meio de uma crítica centrada na discussão ética. A Lingüística.24 O conceito de enunciação é fundamental para os objetivos da nossa análise. os metalúrgicos ostentavam a mensagem: ‘Tabela sem correção. Temos aí uma outra explicação para o fato de certos teóricos preferirem falar da comunicação de uma maneira ampla. Na primeira fila. a “produção real” do discurso jornalístico. no entanto. Todo enunciado. mais atrás.” Nota-se ainda no texto da Folha e do Estado um fazer crer nas regras de respeito à imparcialidade: todos os lados foram ouvidos. Isso acontece porque há uma tendência na área de se pensar o “autor real”. o que serve para reforçar a idéia de “independência” dos dois grandes jornais brasileiros. “as reais intenções”. no entanto. leva o meu salário. 24 41 . constituiu-se como ciência autônoma a partir do princípio da imanência. por outro lado. leão’. Landowski explica a enunciação como “ato pelo qual o sujeito faz ser o sentido” e o enunciado “o objeto cujo sentido faz ser o sujeito” (1989: 222). Em outra. O estudo semiótico da enunciação se interessa pelos efeitos que essa produção deixa apreender. generalista. Esse ato de criação não se confunde com a produção “real” do texto. Mesmo vozes criticadas aparecem também enunciando suas justificativas. Procuram entender o jornalismo. Muitos estudiosos de comunicação. A primeira ingenuidade que a análise dos noticiários desfaz é a de que a ideologia se encontra apenas na parte dos editoriais. Trata-se. Lula teve que encarar as faixas de protesto. questões em que Talvez essa seja uma das razões de os estudos da enunciação não terem o mesmo impacto entre teóricos da comunicação em relação aos estudiosos de linguagem. As concepções de Saussure também formaram a base da teoria semiótica.

É evidente também que a apresentadora Fátima Bernardes não é uma criação de computação gráfica. internautas ou ouvintes como “parcial”. essa apreensão do real não é sentida por leitores.a semiótica acertadamente não se envolve. discutida como uma maneira de relatar um fato com “distanciamento e frieza”. como afirma o Manual de Redação da Folha de São Paulo (2001: 45) e pensada. não é esse. porém. é que objeto jornalístico “JN” nos impõe modos de relacionamento com a apresentadora. na semiótica. O problema. se torna então uma personagem. a partir de uma 42 . Fátima Bernardes. por determinados profissionais. faria o mesmo recorte da realidade. a reflexão sobre a enunciação e seus efeitos tem enorme destaque porque se valoriza o objeto jornalístico como meio de conhecer e apontar as estratégias de manipulação. todas as noites. Só que o jornal sabe que seu público. em um determinado tempo. Sabemos que o Jornal Nacional. em um determinado espaço. tendenciosa. a intencionalidade de quem enuncia. mais interessada em buscar no texto as respostas para investigar. O que está em discussão. a esse ato produtor do texto. Por exemplo: o telespectador do Jornal Nacional tem a impressão de que o programa sempre acontece “ao vivo”. telespectadores. um outro espaço e outras personagens para a persuasão do público. porém. Retomemos a questão da objetividade. a objetividade descrita pela Folha. como efeito de sentido construído pelo texto jornalístico exatamente para fazer-crer que os relatos são a própria expressão do que acontece ou aconteceu. e comum a todos os noticiários aqui analisados. por exemplo. Essa estratégia argumentativo-persuasiva para criação de importantes crenças no destinatário acontece em dois patamares complementares: No primeiro. porém. Não temos acesso. A objetividade é um dos recursos para tentar “apagar” o modo pelo qual a realidade foi filtrada a partir do sistema de valores do jornal que. Como se verá neste trabalho. produto de um olhar “objetivo”. é uma estratégia de enunciação que instaura um efeito de sentido de adequação ao real. Desse modo. O programa elabora um outro tempo. Pode-se argumentar que o JN é realizado no Rio de Janeiro. não quer se revelar como um ator social atuante e interessado nos aspectos sócio-políticos do que noticia. como empresa ou parte de um conglomerado de informação. enviesada. é possível observar textos que têm um viés ideológico muito evidente. para citar um exemplo. de caráter geral. foi feito por alguém. um ser humano. diante de um acontecimento. mas como a própria realidade. quase alguém “da família”. A avaliação precisa das bases ideológicas do público-alvo na argumentação garante ao jornal estruturar esse discurso que se quer fazer-crer como “analíticoobjetivo” e armar uma ponte entre a objetividade e a verdade. no mesmo momento em que é visto. Do ponto de vista semiótico.

Há um efeito de realidade denominado de desembreagem enunciva pela semiótica. Quando a visão de mundo de um jornalista bate com a da empresa onde trabalha. 26 O rótulo de verdade ou de mentira colocado nos produtos dos jornais por determinados grupos sociais tem quase sempre motivação política. de lhes dar “significado”. Não raras vezes. na forma de sanção pública. que dizem respeito a estratégias enunciativas específicas.28 A sensação de objetividade não é algo que envolve apenas um contrato entre jornal e público. Um jornal palestino muito provavelmente apresentou as mortes de Jenin como resultado de um massacre. No segundo nível de construção de adequação ao real.26 O leitor construído pela Folha de São Paulo.25 Reforcemos que o parecer verdadeiro é sentido como verdade quando grupos ou pessoas que se comunicam compartilham de uma mesma maneira de categorizar os acontecimentos. ele se sente “livre”. Os jornais também procuram persuadir o público-alvo de que o recorte da realidade que efetuam ao noticiar é a própria realidade lançando mão de diálogos. ele se diz “cerceado”. O uso da terceira pessoa numa reportagem dá a impressão de que o próprio assunto se apresenta para o público. de opinião – subjetividade do destinador – mas de uma premissa que tem valor quase de “fato”. Só que. Houve patriotismo exacerbado e apelos belicistas dos meios de comunicação dos Estados Unidos após o ataque de 11 de setembro. Jornais e público se entendiam sobre o que estava ocorrendo e o que deveria ser feito. podem ser verificados nos textos certos efeitos de sentido de distanciamento. no nível discursivo. entendido com um dado “objetivo” para a maioria dos árabes que vivem em Israel. portanto. essa apreensão da realidade foi sentida como “objetiva”. Editora Contexto. 28 Uma análise exaustiva dessa questão encontra-se no estudo de editoriais realizado por Norma Discini em “O Estilo nos Textos”. o debate sobre a “veracidade” de um texto é muito mais a exposição de uma crítica de motivação ideológica do que resultado de um exercício analítico. filmagens e outras possibilidades de concretude discursiva. E quando há choque ideológico. de fotografias. sem exageros. sem a explicitação de um “eu”. por exemplo. partilha da idéia de que Lula é um traidor. 2003. 27 Esses procedimentos são mais necessários quando não há uma grande partilha de valores entre jornal e público-alvo.interpretação. Não se trata de julgamento. “objetivo” que serve de base de construção da argumentação. 25 43 . Indicam. de caráter mais delimitado. para a maioria dos norte-americanos. a técnica mais comum é fazer com que a notícia seja manifestada. o que é muito mais comum.27 Em jornalismo. de um dado “real”. que determinado recorte da realidade feito pelos jornais reforça ou nega suas visões de mundo e estratégias de manutenção ou busca de poder.

O jornalista deve evitar. Ainda que às vezes. A interpretação não é opinião. mas fatos. Cláudio Abramo explica que há outras divisões: “No jornal. diz que “o jornal expõe diariamente suas opiniões nos editoriais. Não exponha opiniões. de acordo com o entendimento prévio. como o do jornal O Estado de São Paulo. são taxativos. em que se permitirá ao autor manifestar seus pontos de vista. a concatenação dos fatos e o significado de certas coisas.O “efeito de neutralidade” Uma questão notável no jornalismo é que quase todos os textos são produzidos em terceira pessoa. Para os profissionais. É quando se diz: isso aconteceu e está errado” (1988: 117). A opinião fica um passo além. e matérias interpretativas. Há. a seguinte classificação de textos jornalísticos: • • • Objetivos/factuais Interpretativos Opinativos 44 . Pode se dizer: tal fato ocorreu porque antes havia ocorrido isto e amanhã pode ocorrer aquilo. Raramente alguém diz “eu”. Manuais de jornalismo. As únicas exceções possíveis: textos especiais assinados. Pode se interpretar o desencadeamento. intrometer-se no assunto reportado: “Faça textos imparciais e objetivos. não se confundem com o que os próprios jornalistas chamam de texto “objetivo”. os espaços consagrados às opiniões. no Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo. portanto. no texto verbal. a notícia tem aquela objetividade que foi optada pela empresa e cooptada pelo jornalista. em que o jornalista deverá registrar versões diferentes de um mesmo fato ou conduzir as notícias segundo linhas de raciocínio definidas a partir de dados fornecidos por fontes de informações não necessariamente expressas no texto” (1990:18). É possível apontar estratégias enunciativas de objetividade em partes do jornal assumidamente opinativas. Eduardo Martins. “objetividade” é não se envolver com a notícia. O negrito é de Martins. Só que o jornal não é feito apenas de textos “objetivos” nessa concepção dos jornalistas. É uma interpretação. para que o próprio leitor tire deles as próprias conclusões” (1990: 18). entre profissionais da área e alguns estudiosos. mesmo em editoriais. Isso acontece porque os recursos de objetivação de um texto. o repórter também possa interpretar a notícia. muito estudados pela lingüística e pela semiótica. dispensando comentários no material noticioso.

internauta ou telespectador sobre a forma de abordagem de um acontecimento. Podemos dizer que a própria idéia de significação é uma “opinião” sobre o mundo.As estratégias de enunciação discutidas no item anterior se relacionam com todas essas três formas de apresentação dos textos jornalísticos. é impossível ter acesso à realidade sem fazer escolhas. interpretativos e opinativos usam quase sempre as mesmas técnicas de criação de distanciamento da enunciação do enunciado. Estamos. esse procedimento é mais evidenciado. milhares de notícias chegam A única exceção fica para as revistas semanais. interpretativos e opinativos – bastante aceita até por teóricos do jornalismo – é. cotidianamente. outros encaixes precisam ser realizados. Ninguém consegue contestar. que é possível narrar um acontecimento qualquer de forma “objetiva” ou “factual”. principalmente na pretensa possibilidade de controle do leitor. 29 45 . não mais falando de uma mera montagem. E que o limite da interpretação e da opinião também são reconhecíveis.29 Nos diários. não importa o meio de comunicação e nem sequer as coerções de expressão e textualização. De nada valem certas obviedades. com textos carregados de opinião e interpretação. a valorizar ou desvalorizar diferentes unidades. Textos classificados como objetivos. uma atividade que se desenvolve a partir de uma visão de mundo. é preciso explicar a diferença que apresentam de um ponto de vista semiótico. e sim de um sujeito que é obrigado a fazer julgamentos e escolhas. Há uma justificativa para o sucesso dessa classificação. Não é exagero afirmar que. mais escolhas deverão ser feitas pelos jornalistas para que seja apresentado na forma de notícia e possa se adequar às necessidades de um jornal. principalmente o recurso da terceira pessoa. antes de tudo. do ponto de vista ideológico. A divisão entre textos objetivos. do ponto de vista semiótico. como a de dizer que um editorial emite uma opinião e um texto factual não a tem. Algo deve ficar de fora. quanto mais complexo for um assunto. e novamente se está diante de coerções ideológicas. Há ainda outros complicadores para abalar a crença na objetividade jornalística. sem determinar valor para alguns aspectos em detrimento de outros. do ouvinte. por exemplo. mais outra estratégia de criação de crenças. por exemplo. Relembremos que todas as narrativas citadas que contam como foi a visita de Lula a São Bernardo são exemplos de “texto jornalístico objetivo”. Pesar o que entra e o que sai é. Já discutimos que. Tenta-se fazer crer que a parte de opinião está nos editoriais ou nos comentários dos colunistas. portanto. O primeiro problema que surge para abalar essa divisão é que. Como os valores ideológicos são indissociáveis de qualquer um deles.

como diálogos entre aspas. portanto. que radicaliza o distanciamento entre enunciação e enunciado. O texto opinativo. Ao mesmo tempo. antes de tudo. Um texto interpretativo também produz efeito de objetividade. ou “objetivados”. é. Os adjetivos são evitados. Há uma moralização da história. A classificação dos textos jornalísticos entre opinativos. Podemos pensar. entre outros recursos de concretude discursiva. que o texto objetivo concebido pelos jornalistas deve ter um “efeito de neutralidade”. porém. Há. o que cria a ilusão de situações “reais” de diálogo. um texto de sanção. Se enunciador e 46 . Nesse caso. o único possível. ao “assunto”. e que vai “abalar as finanças da companhia aérea”. O fazer-crer na neutralidade reforça. com o efeito de objetividade no jornalismo. mecanismos de objetividade nos editoriais e nos outros tipos de textos de um jornal. que é produto de estratégias de afastamento da enunciação do enunciado. teoricamente. Isso quer dizer que o enunciatário deve ser conduzido a acreditar que o julgamento realizado pelo enunciador é “evidente”. do ponto de vista semiótico. Há o uso de adjetivos. Em um relato que se quer fazer crer como objetivo. filmagens. um outro filtro. quase sempre. Há um distanciamento constante no modo de enunciar. a parte mais subjetiva do texto deve ser avaliada pelo público como resultado dos dados apresentados. espacial e actancial. Cede-se a palavra a entrevistados. Há também grande ancoragem temporal. O que varia nos três tipos de textos é a tomada de posição em relação ao que se narra. O que a classificação entre textos opinativos. O texto é praticamente figurativo. o jornalista vai mostrar envolvimento com a história narrada por meio de certas marcas. A seleção editorial. Tentemos uma aproximação entre esses efeitos de neutralidade do discurso jornalístico e as estratégias de enunciação já citadas. em si mesma. porém bastante relacionados. interpretativos e factuais/objetivos inclui. É o caso da apresentação da queda de um avião que fez centenas de vítimas como um acidente “horrível”. mas não se confunde. Raramente há um “eu” assumindo a palavra. interpretativos e objetivos mostra é que se tenta fazer-crer na idéia de que existe uma maneira de expor a notícia de maneira “neutra”. São retomados apenas os detalhes mais contundentes para expor contradições e julgá-las. que não se envolveu com a notícia. fotos. discursos construídos em terceira pessoa. já analisados. Mesmo que. advérbios. existisse um jornal apenas com notícias “factuais”. que gerou “grande comoção”. da pauta ao resultado das reuniões entre editores é. Expliquemos melhor. o jornalista deve convencer o público de que ele permaneceu neutro na coleta e na apresentação da história reportada.às redações. esse conjunto seria o produto de uma impressionante triagem. tarefa já realizada em outras partes do jornal. por outro lado. Não há preocupação em contar a história. Podemos notar a existência de dois efeitos distintos.

No texto interpretativo existe um rompimento da neutralidade em determinados momentos. antes de ser uma questão ética. regra que envolve os aspectos éticos da profissão e. O efeito de neutralidade. (. é uma estratégia de legitimação social de um tipo de produto e deslegitimação de outros.enunciatário partilham dos mesmos valores. e também a verdade. No primeiro caso. O dever-fazer jornalístico mostra-se profundamente relacionado ao fazer-crer dos jornais. que só ressalta a complexidade dos conflitos entre grupos e classes na sociedade contemporânea. no qual um repórter narra suas sensações e o que viu sem expor julgamentos evidentes. Resolvemos abordar essa questão porque é preciso separar o estudo dos jornais – freqüentemente a análise do discurso das empresas de comunicação e seus efeitos – das coerções do jornalismo como atividade profissional. Diversos teóricos e analistas discutem os valores dos jornais e de seus produtos. a objetividade. de outra perspectiva.. é um objeto de luta social. Reforcemos que a busca de objetividade pelo jornalista – como dever e exercício que têm muitas características em comum com o trabalho realizado pelo cientista – não pode ser confundida com a objetividade “efeito de sentido” dos produtos jornalísticos. com a qual concluímos esta parte do trabalho. É notável observar que. é um texto em primeira pessoa. como não pode deixar de ser. Mais raro. portanto. vinculada ao direito social à informação. Inscrevendo-se num quadro de luta pela imposição deontológica (dos deveres) das funções legítimas 30 O editorial. ou seja. enquanto discurso sobre um dever-ser jornalístico socialmente interessado. justamente de buscar “a melhor versão” sobre o que ocorreu em Jenin. temos um dever-fazer. é exclusivo das unidades noticiosas que se querem fazer crer como factuais. da realidade. E no texto opinativo o jornal não pretende e não quer ser neutro.30 A objetividade como dever-fazer: a ética jornalística Estudaremos agora a objetividade de um outro ponto de vista. Como lembra Clóvis de Barros Filho na abertura de seu livro sobre ética na comunicação (2001: 9): “A representação do jornal ideal. a realidade e a imparcialidade fazem parte de um debate inesgotável. contudo. tem como característica principal um envolvimento com o que narra. a questão da verdade.) Da mesma forma. retoma. É por isso que a objetividade. carregado de subjetividade. um fazercrer. É o caso do texto de Clóvis Rossi citado anteriormente. os limites profissionais e as estratégias das empresas de comunicação de um ponto de vista ético. da imparcialidade. por exemplo. como deverfazer do jornalista. no outro. até um julgamento pode ser interpretado como “objetivo”.. 47 . Rossi confessa que sua neutralidade é incômoda. na sua coluna. O jornalista avalia que não realizou seu trabalho. contudo possível.

falar sobre o que a mídia deve fazer só tem sentido se conhecidos os efeitos junto à sociedade.do jornal. Devemos reforçar. (2003: 40). quais são os confrontos de várias visões de mundo nos diferentes textos e os valores em jogo dos grupos sociais e das empresas de comunicação. E aqui retomamos a discussão sobre a objetividade. bem como as interconexões internas dos elementos que o compõem.. não garante a “verdade dos fatos”. como testemunha ocular de um acontecimento.” A semiótica permite esse conhecimento sobre os jornais. mas pode apresentar outro ponto de vista importante para conhecer os atos humanos. Não podemos. entretanto. 48 . ou seja. Um jornalista respeitado como Clóvis Rossi não escapa dessa coerção. O estudo e a difusão maior das reflexões sobre objetos concretos da comunicação por meio da análise semiótica podem não só ajudar profissionais e pesquisadores como também auxiliar o público a entender os modos com os quais se concebem verdades e realidades de acordo com determinadas ideologias. que o jornalista não tem como produzir textos sem que estejam inseridos em uma visão de mundo. busca seus vínculos com o todo ao qual pertence. sob pretexto e obrigação de fazer ciência. Maior a intensidade da discussão. conhecendo-se o que a mídia efetivamente faz.. há mais de um século. não raras vezes. investiga os momentos antecedentes e conseqüentes no processo do qual o objeto faz parte. professores e deontólogos. mas bem que poderia ser direcionado aos cientistas em geral: “(. Por meio da teoria é possível estudar como os jornais apresentam pontos de vista distintos sobre um mesmo acontecimento ou conjunto de acontecimentos. Geralmente o pesquisador se dá o direito de afirmar ter uma certa objetividade no seu trabalho. Ele lembra ainda que. a objetividade. é tema de doutrina. de Perseu Abramo.) O conhecimento da realidade é tanto mais objetivo quanto mais o sujeito observador não se prende às aparências. No entanto. ele nega ao jornalista quando estuda a comunicação. da qual participam interessadamente empresários e profissionais de mídia. ou seja. E pode envolver-se não só nas análises das estruturas de manipulação (fazer-crer) como também nos aspectos éticos. uma ideologia. ainda que resvalando um pouco para o positivismo. procura envolver totalmente o objeto da observação. acadêmicos. fala aos jornalistas. entretanto. deixar de colocar um problema incômodo. reexamina o objeto de vários ângulos e várias perspectivas”. na reflexão sobre a própria atividade jornalística. “se se parte apenas da constatação de que a objetividade absoluta não existe e que. a história. O profissional. O trecho a seguir. Essa mesma busca pela objetividade. mais socialmente profícuo é o debate.

Relatar os atos humanos. não vale a pena procurar uma objetividade relativa. meramente retórica ou ilusória em um trabalho acadêmico sobre o jornalismo. não se sairá jamais da mais completa subjetividade” (idem).portanto. há questões para as quais esperamos o empenho desses profissionais. A profissão de jornalista. É evidente que as coerções de trabalho de um jornalista e de um pesquisador são muito. muito diferentes. das escolhas de todos os tipos que os jornalistas fazem e que desvelam suas visões da realidade. 49 . dos interesses das empresas. as motivações e as conseqüências é uma ação necessária. também tem uma função social importante. contudo. historicamente importante e uma outra maneira de interpretar a frase de Bernstein – a “reportagem é a melhor versão da verdade possível de obter” . Acima das ideologias.sem fazê-la parecer ingênua. os atores.

Os noticiários perseguem maior audiência (no caso dos programas de rádio ou TV.ou “cláusulas” do contrato entre jornais e público. serão retomadas nesta parte do trabalho. O exame desses procedimentos revela o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção. Os procedimentos específicos serão estudados na segunda parte. base da lucratividade e do poder das empresas de comunicação. As unidades noticiosas são histórias com seus sujeitos e conflitos. a relação dos jornais com o público-alvo também pode ser examinada como outra história que faz as narrativas das notícias existirem e delas depende. O foco maior. o fenômeno da atenção no jornalismo será abordado. dedicada à análise de cada um dos quatro grandes grupos de noticiários. passional e inteligível para que se instaurem e se perpetuem os tão necessários laços com o público-alvo. E também para que o público assuma determinados valores. ouvintes. internautas ou leitores nos níveis sensorial.O GERENCIAMENTO DO NÍVEL DE ATENÇÃO Estratégias de persuasão dos jornais No item anterior. em grande parte. Para apresentar e discutir o gerenciamento do nível de atenção torna-se necessário inicialmente determinar com mais exatidão alguns aspectos do texto jornalístico. Outras cláusulas. o relacionamento entre o contador de histórias – o jornal – e o público. investigaremos as estratégias gerais de gerenciamento do nível de atenção. além de sites na Internet) ou maior tiragem (a exemplo das revistas e diários). comuns a todos os jornais estudados. mais específicas. é o exame das estratégias de persuasão mobilizadas pelos jornais para fazer o público-alvo realizar principalmente a performance de consumir. constroem as unidades noticiosas e as organizam em edições também sedutoras. 50 . Examinaremos inicialmente quem são esses sujeitos instaurados nos objetos jornalísticos e os laços entre eles. no entanto. Os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores. Esclarecidos esses pontos. nesta parte do trabalho. A curiosidade sobre essas narrativas motiva. É preciso salientar que. que funda e sustenta a relação enunciador-enunciatário. Para atingir o objetivo. discutimos principalmente as grandes bases . Do ponto de vista analítico.

Queremos investigar como as notícias servem para infundir visões de mundo. bateu a arcada dentária numa cadeira e terminou o dia no pronto-socorro. É por isso que insistimos em falar de duas histórias muito ligadas. apesar de ordem contrária dos pais. Pode-se verificar que realizamos o estudo da enunciação como um tipo específico de narrativa. comentários). por exemplo. A segunda história aparece nas unidades noticiosas (reportagens. O relacionamento entre jornais e leitores. como já pôde ser notado nas páginas anteriores. Sua mãe pedia para que ele parasse.Enunciação jornalística como narrativa O exame de um objeto jornalístico mostra a existência de dois tipos de “histórias” que se inter-relacionam: • • A primeira história se manifesta na própria relação público-jornal. ouvintes ou telespectadores é encarado aqui como um tipo especial de história que faz uso de uma outra. com clara função persuasiva. a existência de uma história dentro de outra história. a não transgredir suas ordens. editoriais. Ela narra então que o menino pulava sobre a cama. o menino perdeu o equilíbrio. Ela tenta persuadi-lo a não fazer a mesma travessura e. charges. caiu. satisfazem a curiosidade sobre as notícias que criaram desde que o sujeito “público” realize o ato de consumo. suas relações e possibilidades de análise. Os jornais apresentam notícias que têm essa mesma função da história contada pela mãe: não apenas informam. Outro ponto importante é que o destinador obtém o que quer principalmente a partir da instauração de uma curiosidade (querer-saber) que só é satisfeita por meio da realização de uma ação. apresentada na forma de unidade noticiosa. Uma situação entre mãe e filho serve de exemplo. Essa é a razão. Podemos observar que há duas histórias que se relacionam: a da criança transgressora e a da mãe que conta a história ao filho. motivar o consumo – e a sobrevivência – do próprio jornal. mas também expõem a maneira como o público deve ver o mundo e enxergar-se nele (dever-ser). internautas. Vamos expor de maneira mais didática essa questão central de nosso trabalho. mas ele fingia não escutá-la. a mãe (destinadora) espera um efeito no filho (destinatário): não quer apenas “informá-lo”. de mostrar o enunciador e o 51 . principalmente. Só que. Os jornais. após brincar bastante. A mãe chama o filho e diz que o melhor amigo dele quebrou o dente e “levou vários pontos na boca” no hospital. ou uma análise narratológica da enunciação. artigos. Ao relatar essa história.

um querer (um desejo qualquer.32 Vamos tentar discutir esses Vale lembrar que a semiótica propõe duas concepções complementares de narrativa: “A narratividade como transformação de estados. 2001: 28). vamos pensar o produto jornalístico como destinador. telespectadores. de situações. actantes da enunciação. só inicia uma ação se o destinador. Ele manipula o sujeito (aqui no papel de destinatário) para a ação.” 2 – Intimidação: “Se você não comer.” 4 – Provocação: “O seu prato está cheio. Inicialmente. Estudaremos agora essas posições para uma apreensão mais completa das formas de relação dos noticiários com ouvintes. não consegue comer tudo. como uma curiosidade. por exemplo) ou impondo um dever (uma obrigação) de realizar a performance. Um sujeito. como destinatário. não vai ganhar doce nunca mais. 32 Quem maneja as crenças (ou o crer) do sujeito é o destinador. Essa interação se dá a partir de uma performance ou ação que coloca o enunciador jornal no papel de destinador e o enunciatário consumidor no papel de destinatário.” 31 52 .” 3 – Sedução: “Só uma criança bonita como você é capaz de comer tudo. leitores. sedução. nos papéis de destinador e destinatário. actantes que pertencem à análise da narrativa. ponto de vista mais comum em estudos do jornalismo. mas como eu sei que você ainda é pequeno.enunciatário. no entanto.31 Formas de relacionamento entre jornais e público-alvo Mostramos até agora o sujeito jornal no papel de destinador e o sujeito público no de destinatário. internautas. para depois verificar o que acontece quando se apresenta como destinatário. no papel de manipulador. intimidação e tentação. O jornal como destinador .Tentação: “Se você comer a carne. fonte de valores do sujeito. O público pode aparecer como destinador que determina as ações do destinatário jornal. deve ser ressaltado que o relacionamento entre sujeitos é sempre fortemente marcado pelo modo de apresentação das unidades noticiosas. a narratividade como sucessão de estabelecimentos e rupturas de contratos entre um destinador e um destinatário. Em qualquer arranjo. Dever e querer geram as quatro grandes classes de manipulação entre destinador e destinatário previstas pela semiótica: provocação. de que decorrem a comunicação e os conflitos entre sujeitos e a circulação de objetos-valor” (Barros. operada pelo fazer transformador de um sujeito que age no e sobre o mundo em busca de certos valores investidos nos objetos.Sabemos que o público precisa ser persuadido – sempre no sentido semiótico – a manter contato com o jornal. Há outra posição verificável nos textos jornalísticos do ponto de vista do estudo da enunciação como uma narrativa. ganha o doce. Os quatro grandes tipos de manipulação do destinador podem ser exemplificados na relação mãe e filho: 1 . conseguir persuadi-lo desencadeando uma vontade.

o sentido de um slogan também se constrói em função das relações estabelecidas com um texto – por exemplo. que se baseia o slogan da Folha: “Não dá pra não ler” (semioticamente um não poder não fazer). Há também uso do registro informal. uma publicidade do próprio jornal . O slogan como recurso do discurso publicitário tem um sentido vago justamente para que sua significação adquira um certo dinamismo e possa se adequar a um contexto específico. volta-se mais claramente para a tentação. O slogan da Globo. de maneira geral. também existe uma manipulação por intimidação bastante sutil: se não for por meio da Globo. Nos dois casos. É possível ainda pensar em uma manipulação por sedução. no planeta. Na sociedade capitalista. a imposição de um dever-fazer. a visão (ver reprodução do anúncio a seguir . Busca persuadir de que apresenta personagens e situações nos programas com os mesmos interesses do telespectador. à esq. esse aspecto é mais evidente. A intimidação. existe um dever. também existe uma tentação. uma vontade. promete-se a ele. Não se desconsidera. No slogan da Folha. o conhecimento (o saber) é sempre vendido como instrumento de vantagem competitiva.importantes conceitos. sujeito coletivo que inclui enunciador e enunciatário. base de um contrato social importante. pois comunicava ainda a um provável leitor: “Só quem não quer ter acesso a possibilidades profissionais interessantes não lê a Veja. Cada produto jornalístico. tem como característica mais evidente a tentativa de impor uma curiosidade. contudo. Em nosso trabalho sobre a Veja (Hernandes. Em outras palavras. 2004). que esclarecem o papel dos jornais como destinadores. por exemplo. que aparece. de relação entre iguais. 33 53 . a construção de um querer-fazer são as manipulações mais comuns e evidentes entre destinador jornal e público destinatário. É nesse sentido. principalmente entre profissionais que exercem funções criativas. ao falar em “a gente”. não há interação. na qual se tenta afirmar uma imagem positiva do destinatário. por exemplo. ou seja. entre outras recompensas. possibilidades de que a leitura seja motivada por algo que estimule a curiosidade. “indispensável”33 (não poder não ser). e a tentação. um querer-saber o que está sendo apresentado como notícia no País. pode ser observada uma estratégia de intimidação.no qual se insere. na propaganda do Jornal Nacional. A maior rede de TV do País cria assim um efeito de intimidade. um saber sobre o mundo e sobre si mesmo. também servia para manipular por provocação. Entretanto. uma obrigação de estar bem informado.). “a gente se vê por aqui”. “Não dá pra não ler” é também algo que se apresenta como irresistível. E nesse texto. e o da Veja. mostramos que o slogan aparecia em um anúncio que falava sobre emprego. por meio de uma pequena análise de alguns slogans de 2004. Para fazer o telespectador do Jornal Nacional sintonizar um programa e manter-se ligado à tela. De um lado. irmanados por meio do principal sentido manejado pela TV.” O destinatário era levado à ação para evitar que o destinador tivesse uma imagem negativa dele.o slogan está no canto inferior.

o telespectador. Trata-se. O Diário de São Paulo aposta na mobilização de uma racionalidade do leitor: “Informação que você usa”. grosso modo. Outros slogans de jornais e programas ilustram bem as cláusulas desse contrato fiduciário que se funda na criação de desejos. Os concorrentes aparecem como divulgadores de notícias sem utilidade. o internauta interpretam se o 54 . No Jornal da CBN. entre querer saber e dever saber: “As notícias que podem mudar o seu dia”. há um equilíbrio entre intimidação e tentação. A publicidade e os slogans dos jornais tentam predispor o público a avaliar positivamente as unidades noticiosas. do momento em que o leitor. ou obrigações. A revista Época enuncia no slogan: “O que realmente importa”. Temos um leitor manipulado por tentação: ele vai querer ler o jornal para obter a informação que tem uso prático. Sabemos que essa forma de manipulação é apenas uma parte do percurso que estamos analisando. O seu leitor é aquele que não perde tempo. a organização delas nas edições e o tipo de triagem que cada noticiário realiza. o ouvinte. Não só intimida e provoca como também seduz. ou ainda em ambas as estratégias. vão apelar para o lado mais pragmático do enunciatário para conquistá-lo. que sabe onde estão as coisas importantes. E quem não sintonizá-la pode ser surpreendido com alguma conseqüência dos acontecimentos.Jornais para grupos mais homogêneos. Deve-se ouvir a rádio porque lá se encontram as notícias mais importantes. em que o público-alvo como um todo tem maior nível de escolaridade.

“Esse destinador é identificado numericamente – e não qualitativamente -. conhecimentos. avalia principalmente o valor do valor da unidade noticiosa como objeto que funda a relação destinador/destinatário. Para Luiz Tatit. Parte desse interesse vincula-se principalmente ao valor relacionado ao objeto “notícia”. revistas. Na verdade. recursos financeiros para fazer uma assinatura de um jornal). precisa ter um saber (no caso do jornalismo. Dessa forma.jornal e as notícias são interessantes. Quanto mais 34 Em 2003. A satisfação conclui esse percurso do sujeito público como destinatário. O telespectador avalia se ficar diante da tela da TV vai lhe render algum benefício. como nível cultural para entender as notícias) e um poder (como. se o que foi mostrado desperta sua atenção. o desejo do destinador (mercado) é conhecido por pesquisas numéricas. por exemplo. É preciso lembrar que essa questão. envolve todos os jornais aqui analisados. se a manipulação for bem-sucedida) deve desencadear o consumo do jornal. contudo. ver as manchetes de um programa e julgar. a empresa tem o rabo preso com o ‘número’ de leitores. se faz pesquisa. ele passa a ser um sujeito que decidiu entrar em conjunção com o objeto “unidade noticiosa” para ter acesso aos valores prometidos pelo jornal. Podemos verificar que o telespectador. Por outro lado. a de consumir o programa. porém. programas de rádio. O jornal como destinatário - Vamos apresentar um outro ponto de vista complementar dos papéis do jornal e do público para obter.e não intenso – que tenderia ao ‘um’. 55 . Esse momento especial é a razão de ser das equipes de jornalismo. Vamos utilizar o JN como exemplo um pouco mais concreto. Note-se o (antigo)34 slogan da Folha de São Paulo: ‘De rabo preso com o leitor’. na realidade. o grande destinador dos meios de comunicação é o mercado. temos um destinador extenso .que espera do destinador por ter cumprido sua parte no acordo. uma visão mais abrangente dessas relações. Para ter acesso aos desejos dos destinadores. sites. ou seja. Se a instauração do querer e do dever no público-alvo aconteceu de maneira eficaz (em outras palavras. assim. para realizar a ação. Obter informação que considere útil e/ou que lhe dê alguma satisfação é um dos “prêmios” – uma sanção . programa de performance. Essa forma de relacionamento acontece também nos diários. Os profissionais da Globo querem que o telespectador sintonize o jornal e se mantenha concentrado enquanto o programa é exibido. o slogan era “Não dá para não ler”. nesse primeiro momento. quem produz jornalismo sabe que o provável telespectador vai ligar a TV. Se a manipulação for bem-sucedida. O sujeito público.

que estatizasse as próprias empresas de comunicação. mostrado por Tatit. telespectadores. que mostram o compromisso dos meios de comunicação com um determinado sistema econômico. antes de tudo. O jornal pode ser entendido como sujeito delegado. Os noticiários martelam certas idéias e criam padrões. A semiótica francesa vê os sujeitos como 35 Tatit. ou como o próprio destinador. internauta. se os consumidores quisessem uma sociedade de base socialista. recebem de volta muito do “desejo” que inspiraram. a mídia se torna sujeito delegado pela maioria. encomendadas ou divulgadas pelos jornais podem perfeitamente ser vistas sob esse aspecto. inclusive de consumo do próprio material que produzem. empresa capitalista. ouvinte. Nessa concepção. Palestra citada. e como destinatário. significando os detentores do grande capital. até porque é uma de suas mais poderosas criações. Mesquitas e Civitas (respectivamente proprietários das organizações Globo.leitores. Entretanto. é pouco provável que Marinhos. Luiz. desde que verificados certos limites. Há o componente “mercado-pesquisa-foco”. que tem sua razão de ser na manutenção dos valores. Nas duas concepções. O número de leitores. As pesquisas feitas. 56 . na de Tatit. como também existe o papel da mídia enquanto “aparelho ideológico do Estado”. a notícia é pensada. A noção de jornais como destinadores é bastante utilizada em estudos mais ideológicos. Grupo Estado e editora Abril) passivamente cedessem espaço e foco para as discussões e os desejos desse “mercado”. Quando medem em pesquisa o que o público quer. é o “mercado”. internautas ou ouvintes só funciona como destinador quando deseja aquilo que está autorizado a ser desejado.”35 Essa formulação de Tatit inverte um raciocínio comum de análise e que foi apresentado anteriormente: o de que os meios de comunicação são destinadores do leitor. já que é. Acreditamos que as duas formulações (o público como destinador. Com a consulta. hierarquizada e apresentada a partir de seu impacto. uma espécie de intermediário desse destinador. telespectador. mais autorização para fazer determinados focos sobre assuntos. que faz-fazer (ou faz-agir). Sujeitos marcados nos jornais e modos de relacionamento Estudemos agora os sujeitos instaurados pelos noticiários e outras formas mais específicas de relacionamento entre eles. atualmente o capitalismo neoliberal. nas análises mais comuns) devem ser entendidas como níveis complementares de uma mesma reflexão sobre o jornalismo dos principais meios de comunicação.

• Sujeito 4 . ajuda a compor o ethos do próprio jornal. formal. Os traços recorrentes de conteúdo e expressão produzem um efeito de individualidade e.. (. analistas. que aparecem nas narrativas.profissionais .Podemos citar o presidente Lula. o “jornal”. é importante ressaltar.Cada jornal se reporta a ele de maneira distinta: leitor. Há outros três sujeitos que nos interessam: “público”. • Sujeito 3 . O texto dos jornalistas que não aparece destacado – caso comum nos diários. essa presença dos profissionais é mais óbvia. • Sujeito 2 . um estilo (p. enfim. No rádio e na TV.deve ser incluído no primeiro grupo: o efeito obtido é o de parecer que a própria marca se comunica. fidedigna.personagens das histórias. Essa definição tem diversos pontos em comum com estudos de produtos de comunicação e a idéia de “personalidade de marca” pensada pelos profissionais de marketing. e assumem a enunciação. Aaker. um ethos. uma marca pode ser percebida como superior. Por exemplo: um jornal pode abrir espaço para a manifestação de diversas vozes. humorística. comentarista. jovem ou intelectual. casual. ou o consumidor do produto jornalístico . divertida. 57 . o atacante Rivaldo. marcante. Folha de São Paulo – aparecem como a figurativização do primeiro sujeito evidente. Obviamente. Cada apresentador. um jeito de se posicionar no mundo. reportagens. uma personalidade. competente. Vamos estudá-los com mais profundidade: • Sujeito 1 – jornal – Pensar em quem assume o discurso em um noticiário não é uma questão tão simples como parece. por exemplo.São os jornalistas. repórter. de diferentes posições ideológicas.criações e efeitos do discurso. estamos aqui falando outra vez em “efeito de sentido” do discurso.público. também constrói um ethos e. sugere desenvolver marcas como se fossem “gente”: “Tal como uma pessoa. As marcas – como Jornal Nacional. o palestino morto em um confronto com o exército de Israel. um tom de voz.. revistas e nos sites . na tentativa de marcar seu ethos como “democrático”. Nos impressos e na Internet. Norma Discini. David A. telespectador. É importante perceber que o consumidor se relaciona com marcas de veículos jornalísticos e se refere a elas quase como pessoas. análises . internauta. em O estilo nos textos (2003) analisa o ethos como um modo de presença de um sujeito que discursa. ativa.) Assim como as personalidades humanas afetam os relacionamentos entre pessoas. 31). podemos verificar essa participação notadamente na forma de artigos assinados. com um corpo. portanto. colaboradores que se mostram claramente marcados nos textos. “jornalista” e “personagem da notícia”. a personalidade da marca pode constituir a base do relacionamento entre o cliente e ela mesma” (1996: 96). portanto.

não esquece que acompanha o programa na Rede Globo. ou corpo oco. e pelo que a própria empresa que a detém enuncia sobre ela. Nesse sentido. Há também a “personalidade” da empresa. tornando-se “carne” pelo que enuncia. revistas e nos programas jornalísticos de TV). podem aparecer incluídos no item 2 . pelo modo de enunciar. são pensados como marcas para que possam assumir e ter identidades administradas. É comum o ethos do dono se relacionar com o ethos de seu veículo. abaixo do logo se lê: “Um jornal a serviço do Brasil”. trabalharemos com noções mais genéricas. ou no item 3 – como “personagens” de seus próprios meios de comunicação (caso de alguém do clã Marinho surgir no Jornal Nacional recebendo prêmios por algum tipo de trabalho filantrópico). Nossa hipótese é que a marca de um grande produto jornalístico precisa se apartar de seus proprietários para criar a sensação de que é a porta-voz da coletividade. CBN Brasil.“profissionais” (Otávio Frias. que vai se “enchendo”. 2 da Folha de São Paulo). Os donos aparecem como outra “voz” do próprio noticiário. Desse modo. é discursivizada de forma a estabelecer uma fronteira com o seu proprietário. Saliente-se que os proprietários. O telespectador do Jornal Nacional. por exemplo. O sujeito jornal inclui o proprietário ou proprietários. Jornais. talvez com exceção de produtos da TV. que fala em nome da “verdade”. é raramente exposta. Mesquita ou Civita. Jornal Nacional. não raras vezes. como Folha de São Paulo. 36 58 . não é relevante pensá-la como um quinto tipo de sujeito marcado pelos textos jornalísticos. como as famílias Marinho. Nessa parte do trabalho. que se vende como voz coletiva. A marca de um jornal pode até beneficiar-se dos sentidos agregados pela fama de seus proprietários (no caso de aparecerem claramente marcados nos jornais. por exemplo. entre outras. por meio de um logo . Uma marca. também marca administrável. Em função disso. como a figura de Roberto Marinho em relação ao Jornal Nacional. A construção do público-alvo varia de noticiário para noticiário. um indivíduo. Na primeira página da Folha de São Paulo. Já afirmamos que a relação do consumidor de notícias – o enunciatário – com seu jornal ou programa jornalístico preferido acontece por meio das marcas.36 A complexa construção e a manutenção das identidades de marca envolvem não apenas seus donos e a hierarquia de vozes dentro do próprio jornal. manteve uma coluna na pág.ouvinte. reforçada verbalmente por um slogan. A figura do proprietário. Carta Capital.sua representação visual -. é uma espécie de “casca”. contudo. retomaremos características do consumidor de notícias nas análises específicas. a marca. da “justiça”. notadamente por meio de publicidades. Ninguém se lembraria da editora da revista Isto É. como qualquer outro produto da sociedade moderna.

que caracteriza o momento da manipulação. Só que este “eu”. A partir dessa época. O ponto central da reflexão agora é o fenômeno da atenção. Jornal Nacional.38 O autor afirma que a busca de uma atenção coletiva é um fenômeno que começa entre 1930 e 1940. por sua vez.uqam. precisam desencadear desejos e curiosidades (querer-saber). Veja. simula um “ele”. Editora Sulina/Porto Alegre 2004. pelas outras forças presentes na 2ª Guerra Mundial. Apresentaremos. 2000.html .” 37 O fenômeno da atenção Explicamos até o momento o percurso do sujeito público. essas estratégias de persuasão mobilizadas pelos noticiários para que a ligação com o público aconteça. como na frase do pai para o filho: “Papai não gosta que você chore”. o cinema e a televisão se apoderam de uma parte cada vez maior da consciência coletiva. 38 "L'économie de l'attention" de Pierre Levy – disponível em World Philosophie. André. depois. cada vez com mais detalhes. Pode-se notar a troca de uma pessoa por outra (a primeira do singular pela terceira do singular) que neutraliza parte dos sentidos de proximidade. org. principalmente no papel de destinatário. O estudo da atenção aparece disperso e pouco desenvolvido em diversas análises de veículos de comunicação. l'attention du public était devenue un enjeu majeur des activités politiques et culturelles. um enunciado que simula o processo de criação do texto por meio da explicitação de um “eu” que se dirige a um “você”. as revistas. para isso. ou seja. immédiatement occupé par les batailles de propagandes engagées par les régimes fascistes et 59 .39 37 Do ponto de vista semiótico. imediatamente ocupado pelos regimes fascistas e totalitários e. com uma desembreagem actancial enunciativa. traduzida como “O ciberspaço e a economia da atenção”. Um dos raros teóricos que apresentam uma reflexão mais consistente sobre o assunto é Pierre Levy em “A economia da Atenção”. observa-se uma enunciação enunciada. La montée des médias imprimés. 39 Fragmento original: “Dès les années trente et quarante du XXe siècle.ca/cirasi/cirasi-levy. http://lajoie. ont ouvert un champ nouveau de la conscience collective. Os jornais buscam a atenção do público-alvo e. Fiorin (1996: 86) esclarece a razão desse efeito. estéticas e políticas da comunicação – Parente. portal UOL jamais aparecem em primeira pessoa. principalmente no jornalismo. a música. pode ser encontrada em Tramas da rede: novas dimensões filosóficas. Cada jornal refere-se a si mesmo como “ele”. se conserve e seja cada vez mais vigorosa. que só reforça nossos comentários sobre as marcas: “Quando se faz essa embreagem é como se o enunciador se esvaziasse de toda e qualquer subjetividade e se apresentasse apenas como papel social. puis la radio et le cinéma. Odile Jacob. O rádio e o cinema abrem novos campos para a manipulação das consciências.Outro ponto a destacar das marcas. Jornal da CBN.Uma versão em português desse texto. Folha de São Paulo. é que nunca assumem a posição de um “eu” que enuncia.

la chanson. Mais l'originalité des industries culturelles est de nous engager dans des voyages virtuels partagés avec des milliers ou des millions d'autres personnes qui ne vivent pas dans le même environnement spatio-temporel que nous. tout le décor de nos existences nous fait vivre des expériences. notadamente no mundo da terapia. que comercializam partes dessa consciência coletiva com vendedores de todos os tipos. O totalitaires. uma percepção. S'il est réussi. da moda. la direction et la fixation de l'attention s'obtenant d'autant mieux que l'expérience virtuelle proposée adhère aux appétits. E define consciência de maneira bastante ampla.dès les années quarante . notamment les magazines. la musique. portanto. uma energia criativa unitária” (idem). voit son cerveau directement pris en main par le réalisateur. Les ‘industries culturelles’. le cinéma et la télévision se sont progressivement emparé d'une fraction de plus en plus importante de la conscience et de l'attention collective. du football aux grandes expositions. tout ce qui nous entoure. qui a explosé dans les années cinquante. com um fenômeno de manipulação da consciência.40 Levy trata a atenção. Les deux grandes opérations des industries de la culture et de la communication sont donc : . certas emoções. du journalisme et du show business. A direção e a fixação da atenção se obtêm quanto mais a experiência virtual proposta adere aos apetites. . do jornalismo e do show business. les médias. políticos e aqueles cuja sobrevivência e poder dependem da qualidade e da intensidade da ligação com o público. por sua vez. des expériences virtuelles partageables et reproductibles à volonté. como estratégia de sobrevivência e crescimento é vender a atenção que cativam do público para os publicitários e “comunicadores”. Après la guerre et la politique. Les industries culturelles proposent à leur public des moments de conscience préfabriqués. le commerce a conquis ce nouvel espace par la publicité. le ‘spectacle’ ou les ‘médias’ conçoivent. da comunicação. uma sensibilidade. puis par toutes les forces en présence au cours de la seconde guerre mondiale.par l'école de Francfort (Adorno).Levy afirma que. nous payons un nombre croissant de professionnels pour nous faire ressentir " directement " certains états mentaux. Levy conclui então que as indústrias de cultura e de comunicação realizam duas operações: 1.” O que as mídias fazem. par exemple. aux hommes politiques et à tous ceux dont la survie et le pouvoir dépend de la qualité et de l'intensité de l'attention du public. Les publicitaires ou les " communicateurs ".A criação direta de estados mentais para a produção e distribuição de experiências virtuais. fabriquent et vendent directement des ‘contenus de conscience’. do desenvolvimento pessoal. les industries culturelles.la création directe d'états mentaux par la production et la distribution d'expériences virtuelles (1). du développement personnel. hoje. Le spectateur d'un film. Certes. En outre. à sensibilidade e aos estados de espírito do público.” 40 Trecho inteiro: “Aujourd'hui.la direction de l'attention du public (2). como “uma inteligência. un clip publicitaire réunit ces deux opérations. sont maintenant pris en main par des entreprises de vente de l'attention des auditoires aux publicitaires ou aux départements de communication des grandes entreprises.” 60 . Comme cela a été remarqué très tôt . et notamment dans le monde de la thérapie. à la sensibilité et aux états d'esprit du public. puis analysé par les situationnistes (Debord et Vanheigem) dans les années soixante. desembolsamos dinheiro para “um número crescente de profissionais nos fazer experimentar ‘diretamente’ certos estados mentais. de la communication. uma ação. à leur tour. de la mode. délivrent des parts de conscience collective aux vendeurs de toutes sortes. 2 – A direção da atenção do público. comme la plupart des centres d'intérêts du public. certaines émotions.

o fato social aqui é também acirrado. cuidado. em duração variada. caso de um jornal. E não só na rede mundial de computadores. qualquer objeto de comunicação é concebido para ser uma máquina eficiente de atração do público-alvo.. Nenhum grande jornal é exceção. como ocorre com outras mercadorias na prateleira para atrair a atenção do comprador. pintado de novo. não há consumo. Em termos semióticos. Ele não só é embelezado.) A própria produção da notícia significa a adaptação do fato social a alguma coisa mais rentável. concentração.. pode significar a perda de uma oportunidade que geraria mais satisfação. Acreditamos que o fenômeno da atenção também pode ser visto de outra forma complementar.41 a busca e a manutenção da atenção do consumidor se tornaram vitais para a sobrevivência de qualquer negócio. Uma boa definição de atenção está no dicionário Aurélio: “Aplicação cuidadosa da mente a alguma coisa. O público tem consciência das possibilidades crescentes de escolha. mudado para vender. por exemplo. um querer-saber). De qualquer maneira. Para se impor nesse cenário. limpado.autor aborda toda a problemática da atenção para justificar reflexões sobre o ciberespaço e como o comércio sofrerá mudanças na rede mundial de computadores. Manter-se fiel a um programa. a atividade de atenção tanto do ponto de vista sensorial (na forma de engajamento de um ou mais sentidos) como cognitivo (que demanda um posterior entendimento.” Em sociedades com crescentes ofertas de produtos e serviços. Marcondes Filho (1989: 29) faz uma reflexão sobre a notícia como construção jornalística cujo objetivo final é motivar o consumo: “(. reflexão. o jornal apresenta unidades noticiosas para consumo.” Estímulo significa aqui qualquer descontinuidade de expressão ou de conteúdo que motive. Para atrair a atenção. Sem obter e manter a atenção. as estratégias persuasivas (principalmente relacionadas ao querer-saber) devem ser cada vez mais desenvolvidas e utilizadas. A crescente oferta de informação e todos os contínuos avanços tecnológicos na área de comunicação têm tornado os consumidores mais e mais infiéis. 41 61 . saturadas de estímulos. exagerado. forçado.

se interessar pelas histórias das unidades noticiosas. os jornais precisam principalmente reter a atenção por meio da apresentação das unidades notíciosas. pela distribuição delas na edição e no conjunto de edições. a curiosidade do sujeito. em situação de comunicação. Finalmente. A importância de uma notícia . manifestado na forma de curiosidades e desejos. ele deve querer repetir a experiência nas edições seguintes (ou atualizações. o público só realiza a ação de entrar em contato com um noticiário se tiver a atenção despertada e manipulada.o É por meio da unidade noticiosa que circulam valores entre nossos dois sujeitos principais. em seguida. no caso da Internet). “fisgar”. o Relembremos que uma notícia deve reunir certas características. É importante insistir em um ponto. para serem consumidos. 3. o consumo deve desencadear um hábito. como já citado. Examinaremos agora o fenômeno da atenção como um desdobramento do querer-saber do público. criar empatia. Os fatos relatados devem afetar a vida do público de algum modo. jornal e público-alvo. e também a da edição e a do conjunto das edições que as inserem. A atenção se relaciona ao desencadeamento de certas formas de curiosidade – uma paixão simples. Ao ter o interesse despertado. o sujeito 62 . 2. Para existir o relacionamento enunciadorenunciatário deve-se obter a atenção em três níveis diferentes e complementares: 1. o Gerenciar a atenção tem como base a construção da atração das unidades noticiosas. ou seja. uma tensão. É preciso obter. ao viver a paixão da curiosidade. só acontece se o sujeito público for convencido de que o noticiário lhe apresenta alguma informação que considere útil e lhe dê alguma satisfação. Verificamos anteriormente como essa noção de utilidade e esse prazer envolvem o dever-saber e o querer-saber. A curiosidade e os percursos da atenção O ato de consumo do jornal. O sujeito deve. mesmo com a coerção social de informar-se.é proporcional ao preenchimento desses requisitos e ao impacto que o jornal acredita gerar no público-alvo. É o caso de apresentar uma situação “inédita”. Nossa hipótese é que. Em resumo. ter atualidade.que se relaciona ao seu potencial de despertar e manter a atenção .

o sujeito consumidor de notícia ilustra a atividade de busca da significação. como uma foto que atrai o olhar pelas cores. tem duas maneiras complementares de fisgar a atenção do ponto de vista das estratégias sensíveis e passionais: 1 .passa a sentir uma falta.A primeira é apresentar unidades para serem sentidas. também viva experiências. contrastes. As estratégias para gerar um enunciatário curioso não estão ligadas somente ao inteligível. afetos. nessa atividade. que também se revertem em outra forma de recompensa pelo consumo. portanto. por exemplo. 2 .” (2001: 314). a narrativa jornalística pudesse ser a sua narrativa vivida ou “vivenciável”. O poder de atração desse espelho parece ser proporcional ao grau de nitidez com que permite ao sujeito se enxergar na sua extensão. em formas decodificáveis. Fontanille e Zilberberg afirmam que “os valores passionais apresentar-se-iam em suma de duas maneiras diferentes e complementares: pelo viés do conteúdo e do saber. É preciso existir identificação entre público e personagens das histórias. A estratégia inicial para arrebatar a atenção de um sujeito é de ordem sensível. ou pelo da expressão e da sensibilidade. percebe. O entendimento dessa foto. sente. caso da foto anormalmente grande na primeira página de um jornal. intimidade. o enunciador jornal. de algum modo. como se a notícia fosse uma superfície refletora do próprio destinatário e de seus sentimentos. Discursivizado em leitor. 63 . ouvinte. São operações que envolvem a dimensão sensível e a passional. na forma de uma descontinuidade do plano de expressão. Um jornal. Os jornalistas sabem que o querer-saber também se fundamenta na projeção do sujeito sobre uma notícia como se. gestuais. não quer apenas que ele busque e tenha saberes. de proximidade. convicções.A segunda é a mobilização dos afetos por meio dos conteúdos. verbais. resultado de uma projeção axiológica a partir do que ele pressente. para atrair com mais eficiência o enunciatário. simulação de movimentos. é uma de suas recompensas. entre outras maneiras de obter a atenção. ao racional. A passagem do não-saber para o saber dá prazer ao sujeito. Obter o saber por meio da unidade noticiosa é o valor que passa a almejar. da passagem de substâncias visuais. musicais. como lembram os dois autores franceses. mas que. espaço. viver até mesmo uma insatisfação por não ter um saber. internauta ou telespectador. sonoras. Os sentidos são arrebatados em função de uma descontinuidade do plano de expressão. É o caso das histórias das notícias que são feitas para comover e contam com o engajamento empático do público. Em resumo. o que gera efeitos afetivos. tempo. conflitos.

ou “fases da afetividade” para investigar os sentidos dos “afetos”. para um objeto ou um fim” . Emoção. Eles estavam ali antes. quem veste tal etiqueta da moda. Ao se “alongar”. fica a questão de saber se a semiótica da emoção se conformará às aquisições já consolidadas. assunto que abordaremos depois. mas que desde o início tem sido excluída das reflexões. A única questão que nos parece incômoda em alguns estudos de semiótica tensiva e nos mais recentes trabalhos de semiótica que privilegiam uma abordagem a partir da percepção é a valorização de um sujeito sensível que. inclinação. nossos sentidos nos alertam a partir de uma visão de mundo que nos estrutura como indivíduos. 42 64 . ao ganhar extensidade na maioria das situações cotidianas. mas não eram percebidos. numa cultura. ocupando aí alguma lacuna. Não está nos limites desse trabalho discutir uma questão tão complexa cujos contornos. ou se levará a um reexame.42 Fontanille e Zilberberg (2001: 279)43 propõem um “esquema afetivo”. ao contrário.44 Os autores compararam diversos estados afetivos e mostraram que a emoção se delimita da paixão. pontual. capítulo 11. o sujeito passa a viver uma forma de insatisfação. uma tensão. O que fazem o jornalismo e a publicidade senão tentar condicionar nossa sensibilidade para que. ou seja. parte do mesmo sistema de coerções. É. nessa hipótese. só admite a tradução francesa – de “movimento afetivo. Esse é o sentido de inclinação utilizado neste trabalho. 44 Inclinação. espontâneo.no sentido figurado. O que o jornal faz é criar valor para determinados aspectos do cotidiano ou produtos para que. do sentimento. da disposição. 43 Em Tensão e Significação (2001). fazem muita gente perceber como os espaços públicos estão cheios de moradores de rua. paixão e finalmente sentimento. assim. O sentir não paira sobre as limitações ideológicas como algo “puro” ou inato. uma experiência que pode ser descrita e compreendida. paixão e sentimento: a estrutura dos afetos Para entender a importância da afetividade no processo de captura e de manutenção da atenção. depois. possamos perceber aquele novo carro. inclusive. possam ser distinguidos e ordenados nos sistemas de valores propostos. no meio da profusão de estímulos de nosso cotidiano. qual a extensão desse reexame” (idem). estaria no início. Se for “fisgado”. antes é preciso uma compreensão do afeto. não raras vezes. vira inclinação (ou afeição). psicológico ou mesmo biológico no momento em que se emociona ou sente tensões de qualquer ordem. A emoção. o de querer saber tudo o que aconteceu. como a cidade está melhor ou pior em determinado aspecto? Reportagens sobre assassinatos de mendigos. da inclinação. Os autores concebem o afeto como portador de significação. a captura da atenção está profundamente marcada por um sistema de valores que insere o indivíduo numa ordem social. notadamente se houver engajamento empático com os personagens de uma notícia. palavra aqui entendida como termo complexo que abrange todas as variações de estados de alma.deve mobilizar outro patamar de curiosidade. e. E perguntam: “Se mais ninguém pensa seriamente em negar a significação das emoções e das paixões. intensa. estão distantes das bases da semiótica. segundo o Aurélio. eles afirmam que a emoção é um dos “verdadeiros objetos” da teoria. proporcionada pelos estudos da chamada semiótica tensiva. do temperamento pela maneira súbita. O enunciatário inicialmente deve “ficar sabendo que não sabe” algo que lhe interessa e se sentir atraído para ler o texto inteiro. no português. Em outras palavras. De qualquer maneira. por exemplo. parece apartado – ou o que é mais problemático – acima de qualquer condicionamento social.

Perturbação ou variação do espírito advinda de situações diversas. abalo moral. emoção e paixão não estão em confronto. Estado de ânimo despertado por sentimento estético. Psicol. A emoção é como uma embriaguez que se dissipa. pode ser descrita como uma “explosão O texto citado é Les passions. 3. Essa redução. respectivamente fase emotiva.. a paixão como torrente que cava mais e mais profundamente seu leito. Reação intensa e breve do organismo a um lance inesperado. Admite-se que o sentido de um afeto se deixa identificar por meio da fase atravessada pelo sujeito. vamos encontrar as seguintes definições para emoção: 1. e que se manifesta como alegria. a paixão. A teoria. Liège. A emoção se transforma em paixão quando molda o percurso inteiro do sujeito. a qual se acompanha dum estado afetivo de conotação penosa ou agradável. desenha certas fronteiras entre estados afetivos que falantes do português. 4.45 Os dois semioticistas franceses mostram que. mas são momentos distintos de um mesmo percurso afetivo. Mardaga. Outro ponto importante é que não se impõem aos afetos durações e graus de intensidade rigidamente marcados. por exemplo. como uma doença resultante de uma constituição viciada ou de um veneno ingerido’” (2001: 282). De qualquer maneira. contudo. não é perfeita. raiva. A definição semiótica de emoção é mais restritiva do que a do dicionário. religioso. não raras vezes. portanto. 124-5. Eles citam uma observação de H. comoção. No dicionário Aurélio. Nesse esquema. etc. Comparando com o dicionário brasileiro. ensinam Fontanille e Zilberberg. como parece. etc. 1986. tristeza. passional ou permanente. a passagem da emoção para a fase seguinte. se falta “duratividade” à emoção. O clássico “amor à primeira vista”. Parret: “Menciona-se sempre a distinção entre a paixão e a emoção proveniente da Antropologia de Kant: ‘A emoção age como água que rompe seu dique. ela é encontrada na paixão. portanto. 45 65 . podemos perceber as características descritas por Zilberberg e Fontanille nas definições 2 e 3. denominam da mesma maneira ou misturam em diferentes gradações. pode unir todas essas fases num percurso instantâneo e. a de inclinação. aparecer como uma forma de afeto “concentrado”. “que podemos interpretar como ‘produto’ da rapidez e da intensidade” (2001: 284).repentina de ocorrer. pág. 2. Ato de mover (moralmente). tendencial. Essai sur la mise em discours de la subjectivité. Zilberberg e Fontanille lembram que o desejo de descobrir uma estrutura dos afetos levou pensadores a uma dualidade e a um confronto entre emoção e paixão.

Ou não. se vinculam a uma “resolução”. Afirma Fontanille que “essa ‘tomada de posição’ se declina em dois atos (. qui dirige et oriente le flux d’attention.. O sujeito poderá ser considerado “sensível” se se atém à emoção. com a inclinação é introduzida a duração..). é desprovida de duração.. a inclinação pode dar lugar à paixão.. de um lado o foco. que delimita o domínio de pertinência (.. Nesse momento.. da emoção e da inclinação. do corpo “agindo” e fazendo a mediação entre o sujeito e os fenômenos do mundo que se dão a sentir. no esquema proposto. à busca do objeto pelo sujeito e os conflitos que ele vai viver relacionados ao sucesso ou fracasso. e depois. disforia. ocupariam o lugar da “somação”. a emoção.controlada”: “Na perspectiva do tempo e da intensidade. que dirige e orienta o fluxo de atenção. em geometria. Nessa surpresa inicial não há nem atração nem repulsão. “passional” se cultiva a paixão e “terno” se atinge o sentimento (2001: 292). deve passar da situação de não ter um saber desejado (disjunção) para a de sujeito com esse saber (conjunção). A idéia de foco mostra engajamento perceptivo do sujeito. As fases posteriores. grosso modo. a foto.). Do ponto de vista da duração.46 Notícias e engajamento perceptivo Há outra reflexão teórica importante e complementar sobre esse sujeito atingido pela curiosidade.) La ‘prise de position’ que détermine le partage entre expression et contenu deviant le premier acte de l’instance de discours. atraído pelo texto. tensão. Dissemos que. Pensemos em um leitor que vê uma foto de uma cena de guerra e é tomado de emoção.47 conceitos rentáveis em um estudo do gerenciamento do nível de atenção. o leitor pode ser um sujeito que quer entrar em conjunção com um objeto. e de outro a apreensão. d’un côté la visée. atento. Caso persista na leitura. nem o ponto. et de l’autre la saisie. curiosidade. as fases iniciais. não apresenta espessura. qui délimite lê domaine de pertinence (. É importante ressaltar que um sujeito pode ficar apenas em uma fase e se recusar a ir para outra. tal como a linha. Quem recebe o impacto da emoção não consegue inicialmente nem distinguir se o que causou o choque gera necessidade de união com o objeto ou repulsa. par lequel elle instaure son champ d’enonciation et sa deixis. se a emoção comporta o traço /brusco/. ou seja. a inclinação comporta apenas o traço /espontâneo/. tenso.. comme nous l’avons déjà suggéré. ao sentimento.” 46 66 . ao processo vivido por um sujeito que. no impacto da emoção. A apreensão pode ser relacionada.)” (2003: 35). Se ele desejar apenas viver uma sensação forte (ou afeto intenso) provavelmente vai ver a foto com atenção e nem ler toda a matéria. definida pela ‘perturbação’. Basta retomar o exemplo do leitor. já que comporta o traço /movimento/” (2001: 289). no caso do nosso trabalho. 47 No original: “(. Ao obter a Os dois semioticistas franceses afirmam que. sujeito e objeto ainda se confundem. Cette ‘prise de position’ se décline em deux actes. A fase seguinte do esquema afetivo é a inclinação. da paixão e do sentimento.. extensão. “atraído” se sente inclinação.

Contrariamente. Tatit fez essas observações a partir do trabalho do semioticista Claude Zilberberg que. a reintegração permite retomar a forma expandida da euforia: o relaxamento (. Citamos jornais que atraem o sujeito inicialmente por meio de uma estratégia sensível que produz o engajamento perceptivo – o foco citado por Fontanille – para desencadear o processo cognitivo – a apreensão. caracterizadas por rupturas. torna-se plausível admitir que estas últimas já surgem conformadas por modulações tensivas. a retenção (expressa pelos antiprogramas narrativos desenvolvidos pelo sujeito) que. a disforia compreende a passagem das continuidades às descontinuidades que geram as tensões. de uma curiosidade não solucionada. A transgressão propriamente dita perfaz a forma expandida da disforia. parece ser sempre disfórico. por sua vez. ouvinte ou internauta é transformálo em sujeito tenso. as que restabelecem os elos contínuos entre os elementos. a integração traduz o maior relaxamento possível (algo que seria expresso pela aceitação passiva e pela manipulação inicial). O querer-saber. de um estado de insatisfação para o de alguma satisfação. de uma reportagem. porém. Obter a atenção de um leitor. imediatamente negado pela forma pontual da disforia: a contenção (expressa pela rejeição do contrato narrativo). telespectador. que quer passar de um estado de disforia. Desse modo. “afetivo”..). para uma situação de euforia e de relaxamento com o consumo do jornal ou.)” (2003:198). que incluem “modulações tensivas (ligadas à percepção) e fóricas (ligadas aos sentimentos) – (2001: 18). por exemplo. 48 67 . da insatisfação para a satisfação. Por fim.48 “Se tomarmos a foria como uma força que transporta as categorias semânticas. o estado de disforia do sujeito destinatário com um estado possível de disforia dos sujeitos da narrativa. não se deve confundir. às relações relaxadas. por se vincular a essa falta vivida pelo sujeito. Como estamos realizando uma análise narratológica da enunciação.. por sua vez. provocado pela falta de um saber.. Tatit sentida pelo sujeito ilustra a passagem de uma explica que uma disforia continuidade para uma descontinuidade que gera a tensão. como já foi analisado. o sujeito consegue passar da tensão para o relaxamento.. A euforia opera a passagem das relações tensivas. A notícia nem precisa ser disfórica (uma tragédia) para despertar a atenção e produzir curiosidade no público-alvo.compreensão que queria. A notícia é. pelo menos. a própria representação da descontinuidade. é negada pela forma pontual da euforia: a distensão (expressa pela desistência das ações transgressivas (. no entanto. apresentou a problemática da tensividade na obra Raison et poétique du sens. Luiz Tatit detalha as relações do contato do sujeito com descontinuidades ou diferenças.

49 A base deste quadrado é de Tatit (2003: 2000) 68 .é um momento de disforia que tende à euforia. Muitas não têm desfecho se pensadas de um ponto de vista histórico mais amplo. Há a curiosidade despertada por uma unidade noticiosa. solicitado a se manter em contato com o jornal para obter o saber necessário e a conseqüente satisfação. a uma espécie de situação prazerosa nessa passagem de um não saber para um saber. esgotam seu potencial de criação de um querer-saber no próprio consumo. notadamente a uma disforia. com matérias mais leves. porém. A edição inteira se apresenta como outro ponto de passagem de disforiaeuforia a mobilizar o sujeito. por exemplo. uma curiosidade (uma paixão simples – um querer-saber) do enunciatário. com suas manchetes principais. como. Algumas notícias. entre outros recursos. Ao ter a curiosidade satisfeita. Outras não. passa para o relaxamento. pode fazer o caminho da linha vermelha fina: passar da tensão disfórica (a retensão . como já vimos. O leitor. é um conjunto de unidades noticiosas. a divulgação do índice de inflação do mês. por exemplo.O consumo de um jornal pode ser pensado de dois modos complementares. teoricamente. o momento de máxima tensão disfórica. Para explicar melhor essa questão e visualizar esses percursos possíveis. e vão “relaxando” no final. são “pedaços” de narrativas maiores. Cada foco em uma unidade noticiosa – ou outro elemento do jornal . É notável que a maioria dos objetos jornalísticos analisados neste trabalho simulam inicialmente. No entanto. as notícias. O próprio jornal. utilizaremos o quadrado semiótico49: Percurso da notícia como unidade narrativa completa Percurso da notícia como parte de uma narrativa maior - Retensão (Disforia) Relaxamento (Euforia) Contensão (Não euforia) Distensão (Não disforia) Um leitor. em sua maioria. transpõe a retensão para a distensão. E também pelo conjunto de unidades que compõem o jornal. A atenção se relaciona. nesses casos.querer-saber o que aconteceu) para a distensão (momento de consumo da unidade noticiosa).

ao mesmo tempo em que satisfaz parte do desejo que incutiu no sujeito. No entanto. Parte das narrativas exploradas pelo jornalismo nunca se esgotam. como um fragmento de narrativa. Nesse sentido. A partir das discussões teóricas feitas. mas complementares de criação de laços por meio de manipulações de ordem sensorial. desenvolvem procedimentos distintos. Teoricamente. é possível propor um resumo dessas estratégias de gerenciamento do nível de atenção e. A própria notícia também cria as bases para que ele se mantenha curioso para o “próximo capítulo”. da tensão para o relaxamento. a do terrorismo. pode ser englobada por outra narrativa maior. Landowiski diz que o jornal cria expectativas pela simples distribuição de informação em seqüências. ao mesmo tempo.)? Quais lhe serão as conseqüências?”(1989: 119). da atenção para a distração. ele passa a saber mais. A ação de terroristas islâmicos em Beslan . que os números seguintes não poderão deixar de atualizar. para obter e manter relacionamentos com o público. gera mais curiosidade para a sua própria continuação.e será retomada nas próximas páginas para exemplificar questões relacionadas ao efeito de atualidade . se o número do dia relata ‘o acontecimento do dia’ (. meio e fim. depois. analisá-las em detalhes: 69 . momentos de máxima intensidade... reunida por sua vez na narrativa política. ao consumir a notícia.que durou três dias . ele determina. há vários fatores para considerar antes de se aceitar qualquer idéia de simplicidade nesse percurso do sujeito curioso e incitável.. o percurso do consumo da notícia pelo enunciatário que parece ser mais comum e desejável pelo enunciador jornal é o da linha vermelha mais espessa. todo um programa narrativo virtual..tem começo. obter a informação desejada é a passagem da disforia para a euforia.Em outras palavras. passional e racional. porém.). Entretanto. quais foram os antecedentes do acontecimento (. Esquematicamente. pela impetuosidade notadamente das tragédias. A unidade noticiosa. “Porque. submetida finalmente à própria história. o relato maior da vida. percurso que se constrói como extensão pontuada pelos conflitos humanos. fica sem saber tudo. e da observação de que os jornais.

Há manipulação por intimidação (dever-ser). sedução (querer-fazer) e tentação (querer-fazer). inusitadas. Toda essa operação não é 70 . diferente. um querer-ser e também querer-sentir. Podemos dar como exemplo ainda tipos gráficos mais espessos em manchetes. Tenta desencadear um hábito. O destinador jornal manipula o destinatário por tentação. 3.1. o jornal precisa produzir no sujeito uma curiosidade instantânea. Mostrar uma paisagem em cores fortes. se vê diante de detalhes de uma história e deve sentir vontade de conhecê-la por inteiro. As reações que os noticiários querem desencadear nessa fase de busca de atenção têm muito em comum com certas situações cotidianas. a de procurar a fonte do som para tentar descobrir seu significado. Há também uma manipulação por tentação. Estratégias de arrebatamento e de sustentação A estratégia de arrebatamento. momento chave que visa a atrair ou a fisgar a atenção de um sujeito e motivar o consumo. No primeiro contato. pressupõe a criação de descontinuidades que reclamam uma categorização. 2. inusitado. O sujeito deve ficar interessado em compreender um estímulo (o que gera um foco). um grande número de cortes em uma cena de pequena duração. uma narração tensa após um momento de maior tranqüilidade. por um querer-saber. de novidade. Envolve sentimentos. O sucesso das estratégias anteriores – como a de obter saberes e experiências. entre outras – deve gerar expectativas positivas no sujeito para os próximos contatos e a vontade de repeti-los. Estratégia de sustentação – objetiva transformar o sujeito atento em sujeito tenso que. porém é mais da ordem racional. quem ou o quê o produziu. que motive ou reforce um engajamento perceptivo voluntário. encoraja a decodificação (a apreensão). quase sempre tem a mesma reação. É mais da ordem das sensações e da definição de emoção de Zilberberg e Fontanille. não racionalizada. interessado em decodificar um estímulo. É mais da ordem passional. cujo caráter descontínuo. uma descontinuidade. fotos enormes numa página são estratégias de arrebatamento. Estratégia de fidelização – busca transformar o sujeito curioso em sujeito fiel. Estratégia de arrebatamento – visa a instaurar o sujeito por meio de algum estímulo. Quando alguém anda na rua e ouve um barulho estranho.

em conseqüência disso. precisa “segurá-lo”. ao ler a manchete. agora relacionado à história noticiada. Em alguns pontos do trabalho. Isso faz com que o sujeito. por exemplo. surpreendido por não ter um saber. além de atrair o sujeito. no caso de um diário. utilizamos manchete indistintamente para qualquer tipo de jornal. de uma novidade de ordem sensível. Manual de Radiojornalismo Jovem Pan – 3ª ed. Por meio desse recurso.51 que manipulam as duas formas de curiosidades: as provocadas pelas estratégias de arrebatamento.50 O sujeito arrebatado. Ática – 1993. e as desencadeadas pela estratégia de sustentação. fruto de um desejo consciente. E surge um laço entre o jornal e o leitor. sa précarité. Zilberberg afirma que a singularidade maior da atenção “é sua precariedade” (1990:136). São Paulo). que a principal arma de captura da atenção para as notícias são as manchetes ou chamadas. deve ficar à mercê da segunda estratégia. a de querer saber mais detalhes sobre a notícia. à savoir. Também chamaremos de “bloco de manchete” todos os outros elementos relacionados ao título. é quase automática. o olhar do leitor. Só que ele. É preciso ressaltar essa passagem entre estratégias de gerenciamento do nível de atenção: a atração de base sensorial precisa imediatamente ceder lugar a outra. porém. Vale notar o caráter impactante e pontual desse tipo de curiosidade. Exclusivamente na Joven Pan. Pelo contrário. Só que o destinador “jornal”. 50 71 . Já a chamada é um “flash” gravado sobre matéria ou programa transmitido várias vezes durante a programação para despertar o interesse do ouvinte (Porchat. Toda manchete ou chamada é concebida para “sensibilizar”. Devemos notar. Em outras palavras. por questões didáticas. que impõe ao sujeito um querer-saber na forma de um querer entender (que liga a fase da emoção à da inclinação). pelos noticiários. sustentada. a de sustentação. existem diversas maneiras de fisgar e manter a atenção do público. Esse momento praticamente não tem duração. ao sentir-se compelido a buscar o significado do estímulo. ao tentar entender a razão da existência do destaque dado pelo jornal. fique mais atento ao que o noticiário apresenta. para atrair sensorialmente e passionalmente. cada jornal veicula uma grande carga afetiva e pede concentração para o que destaca “Nous nous aprrochons progressivemente de ce qui fait la singularité de l’attention. sinta uma disforia. deve ter outra curiosidade despertada. as grandes letras de uma manchete devem atrair.pensada. Como citamos há pouco. Já manchete se vincula mais fortemente ao título em grandes letras dos jornais e revistas. ou arrebatar. de base passional. viva uma tensão e. um estímulo. ligadas ao plano de conteúdo. A atenção é então mantida.” 51 O significado do termo “chamada” varia bastante. A base da estratégia de arrebatamento é a instauração. estudada. algo que deve ser sentido como instigante. o termo manchete se refere a cada frase de uma notícia destacada e deve conter apenas uma informação. Revista – ed. que envolvem o plano de expressão. Maria Elisa.

o fazersentir é eficaz em desarmar a racionalidade do enunciador e sua possível negativa em aceitar os valores propostos. não devem ser confundidos. A primeira é que o enunciatário não precisa tomar contato com todo o relato para conhecer o aspecto mais relevante da unidade noticiosa. ou. 52 72 . Os dois procedimentos. o mais. O aspecto temporal é dos mais relevantes no estudo do jornalismo.. tinha a capacidade de. O jornal impõe seu ponto de vista sobre um acontecimento como “verdadeiro e objetivo” quando avalia que o público-alvo faria o mesmo recorte da realidade por partilhar a mesma ideologia. expor histórias para que se conheça o que ocorre cotidianamente. é importante ressaltar. também envolve uma identificação entre tempo e espaço da notícia e essas mesmas coordenadas do público-alvo. internauta. em outras palavras. nos discursos em público. o telespectador ou o ouvinte a buscar mais detalhes. para utilizar um exemplo extremo. Dizem que Hitler. envolver afetivamente até mesmo seus opositores..como o mais importante. O poder de mobilização afetiva das unidades noticiosas se A empatia gera outro efeito de verdade e realidade. o mais fabuloso. Os noticiários também precisam fazer-sentir. que a história de alguém apresentada nas notícias pode ser a do leitor. para prender a atenção. o mais prazeroso. estruturar modos de o público se perceber nas notícias. Como isso foi acontecer? O que acontecerá depois? Toda manchete implicitamente faz um convite: “Saiba agora!” Podemos dizer que a satisfação de conhecer a “história toda”. no entanto. pelo menos os detalhes da narrativa no momento específico da edição. deve corresponder outro tanto de mistério. Há duas razões para essa entrega do clímax da história. que será analisada nas próximas páginas. Quanto maior for a identificação. Já foi citado que os jornais. telespectador. a tentar saber o que motivou semelhante desfecho ou momento narrativo. discutimos um outro efeito que envolve essas questões. é uma das expectativas associadas à manchete. maior será a curiosidade e mais atenção o jornal irá obter. ouvinte. O público deve perceber que não conhece (ou não sabe em profundidade) os grandes destaques da edição.52 A eficácia da estratégia de sustentação do nível de atenção. o mais perigoso. A apresentação das manchetes mostra que. quase toda narrativa jornalística tem uma característica notável: a de começar literalmente pelo fim. o internauta. por exemplo. de fazer crer. Teóricos da comunicação lembram as conseqüências da identificação: quem se emociona com uma notícia já foi convencido de sua autenticidade. é o resultado da operação de fazer o público sentir o que o personagem da notícia vivencia ou vivenciou. Para o mesmo tanto de informação. Uma das chaves do sucesso da estratégia de sustentação é o estabelecimento de um sentido de identificação entre actante do enunciado e actante da enunciação. não querem apenas fazer-saber. No início do trabalho. porém. A empatia. Em certos momentos. A segunda é que essa estrutura narrativa invertida deve incitar o leitor. E precisa também ser “chacoalhado”. Uma boa manchete é um pedaço de uma narrativa que clama por completude. para construir laços com o público-alvo.

de um valor ‘ilocutório’ determinado – ao ato de enunciação considerado (. poderemos entender melhor algumas particularidades da estratégia de sustentação e das formas de fazer-sentir do enunciador. como complementa Fontanille. Portanto. como a questão da empatia.). que serão abordados a seguir. Ou. a semiótica pensa a questão na forma de “contexto semiótico”. etc. enormes desafios teóricos para o bom entendimento da estratégia de sustentação. proxemicamente.) no tempo e no espaço do seu interlocutor. como o de atualidade (proximidade temporal) e o de empatia (proximidade actancial-espacial). semiótico. Assim ele é pensado e produzido pelos jornalistas. tempo e espaço “reais”. Fora desse período. internautas. Pode-se reconhecer nessas duas formas de comunicação um conjunto significante vivo. claro. caso a caso. A mesma estratégia enunciativa é responsável pelos jornais. Essa formulação. telespectadores e ouvintes. principalmente temporal. Cada edição de um jornal apresenta um momento de consumo bem demarcado.vincula fortemente ao período da edição na qual estão inseridas. ao sentido de atualidade.. na colocação de tais formalismos eficazes: o próprio enunciado. pelo menos. 73 . Landowski (1992:170) entende com isso “o conjunto dos traços (lingüísticos ou não) pertinentes para a atribuição de uma significação – notadamente. submetido a uma enunciação global que as produz. importantes para a compreensão de certos efeitos. mas também a maneira como o enunciador se inscreve (gestualmente. A noção de que “jornal velho só serve para embrulhar peixe” traz. O que chamamos de contexto semiótico seleciona no ‘real’ (referencial) precisamente os elementos significantes que entram. tem o impacto afetivo bastante alterado. Uma peça de teatro ou uma ópera não resulta da adição do contexto de representação ao “texto” verbal ou musical. Os objetos jornalísticos têm características diferentes de outros textos (aqui no sentido amplo. porém.. um jornal é um arquivo histórico. O autor cita um exemplo. do termo). as estratégias mobilizadas para obter e manter a atenção são profundamente relacionadas à idéia e à vibração de uma edição. Noticiário antigo não emociona. É preciso entender o objeto jornalístico na sua efemeridade. tem outra utilidade. “não é uma adição do contexto ao texto” (2003:93). Com esse conceito. Cada edição também tem seu “contexto semiótico” específico. do mesmo modo que todas as determinações semânticas e sintáxicas que contribuem para forjar a ‘imagem’ que os parceiros enviam um ao outro no ato da comunicação” (idem: 171). Tempo e também atores e espaços citados devem ser compartilhados por leitores. Para não apelar para pessoas.

um agora partilhado entre personagens das histórias (actantes da narrativa) e leitores. Qualidade ou estado de atual. vibrante. Qualquer jornal precisa fazer seu consumidor acreditar que as notícias divulgadas são atuais. portanto. “Atual”. O componente temporal é um dos determinantes para a escolha de um acontecimento e sua transformação em fato e em notícia. Que está em ato. No Aurélio. no presente: acontecimento atual. O discurso do jornalismo se caracteriza pela dupla contemporaneidade. ensejo. pelo menos no período estipulado de consumo da edição do jornal. pelos jornais. É preciso adaptá-la aos rígidos intervalos das edições. que aparece na primeira página de quatro edições seqüências do Diário de São Paulo. por ser ‘relato atual de acontecimentos atuais’” (Weaver. Que ocorre no momento em que se fala. apud Meditsch. 4. Filos. 2001: 208).A proximidade temporal: o efeito de atualidade Para a estratégia de sustentação da atenção do público funcionar. de quintafeira. vamos examinar a cobertura da ação terrorista na escola de Beslan. Esses sentidos sobre atualidade mostram a existência de uma sensação de presente que pode ser pontual ou alargada. é necessário existir principalmente uma sensação de proximidade temporal. Imediato. Em nosso trabalho sobre a Veja (2004:95). encontramos a seguintes acepções para “atualidade”: 1. com diferentes durações. Uma história de interesse. 1975:295. 4 de setembro de 2004: 74 . do latim diurnalis-diário). relação esta que lhe é definidora e se expressa até etimologicamente (em português jornal-jornada. tem quatro sentidos: 1. que comanda como se deve dar o efeito de atualidade. 4. como se fosse possível “esticar” e moldar o “agora”. internautas. Oportunidade. efetivo. Interesse atual: obra sem atualidade. na Rússia. A época presente. por sua vez. Para mostrar esse ajuste. De sua época. de um presente “elástico”. afirmamos que o efeito de atualidade é essa instauração. até domingo. Só que esse alongamento do tempo tem uma missão clara: deve fazer uma unidade noticiosa parecer “presentificada”. telespectadores e ouvintes (actantes da enunciação). É o intervalo de tempo entre as edições. pode durar de segundos a meses. que não é antiquado. “O jornalismo tem uma relação específica com o tempo. 2. real. contudo. 2 de setembro. 3. 2. 3.

75 .

o que reduz o potencial de atração dessa notícia. que quase dobra o total de vítimas inicialmente anunciado. Comenta-se o que aconteceu e há especulações sobre o futuro.53A ação terrorista tem um começo. No jornalismo de rádio e TV é mais conhecido por “cabeça de matéria”.Há as seguintes manchetes: Quinta-feira. quando. O momento de máxima tensão narrativa do período reportado determina toda a montagem da notícia. por sua vez. No domingo. a da segunda-feira. pelo clímax. Esse fato hierarquizador é chamado “gancho”. O gancho. nesse intervalo de um dia. O trágico desfecho do seqüestro. Podemos verificar a já citada característica da narrativa jornalística começar pelo fim. Cada parte é tratada como uma pequena história. também motiva ainda a construção do chamado lead. quem. 3: Terror mantém reféns em escola da Rússia Sábado: Massacre em escola da Rússia deixa 200 mortos Domingo: Rússia chora 359 mortes O ataque durou cerca de três dias. no sábado. na Internet. além de se vincular totalmente ao período da edição na qual se insere e dar a sensação de que a notícia é atual.54 É notável que o seqüestro das crianças receba uma destacada manchete no jornal de quintafeira e. faz novamente o ato receber destaque. o parágrafo introdutório de uma unidade noticiosa. O assunto. deve responder às perguntas: o quê. Escolhe-se. 2 de setembro de 2004: Terror faz 400 reféns em escola da Rússia Sexta-feira. Somente as revistas semanais não utilizam plenamente o 53 76 . que impõe uma subordinação em relação a outros fatos de uma mesma história. hora após hora. onde. a narrativa precisou ser dividida. de impacto sobre o enunciatário. que é diário. 54 O lead. temos a repercussão da nova contagem de mortos. o fato mais importante para só então organizar a história temporalmente e construí-la como notícia. entretanto. É regra nos grandes diários brasileiros. um meio e um fim. Podemos comparar o gancho a uma locomotiva que tem como função puxar outros vagões e impor uma certa ordem. apenas três linhas no canto direito. A cronologia do acontecimento se submete a uma ordem de relevância. como e por quê. sumiu da primeira página da edição seguinte. no dia seguinte. Dentro do intervalo de 24 horas não é apresentado um relato cronológico. Isso ocorre porque não houve mudança narrativa. a repercussão mundial ainda gerou manchete. No quarto. Para ser encaixada na edição do jornal.

Os jornais contam certas histórias já ocorridas e. E as revistas semanais necessitam apagar o grande intervalo de tempo entre a coleta. a segunda manchete (“Terror mantém reféns em escola da Rússia”) só têm razão de ser porque pressupõe a possibilidade de desfecho iminente da história.Na ação terrorista. um momento de referência pretérito em relação ao presente do momento de enunciação. o recurso muito comum de apresentar os verbos das manchetes no presente. O Manual da Folha de São Paulo afirma que “o lead tem por objetivo introduzir o leitor na reportagem e despertar seu interesse pelo texto já nas linhas iniciais. Isso mostra que enunciador considerava decrescente o potencial de atração dessa notícia se o desfecho demorasse a acontecer. que permite situar aquela ação. é atual. Pressupõe que qualquer texto publicado no jornal disponha de um núcleo de interesse. do ponto de vista estritamente lingüístico. inclui o agora do enunciado. Uma estratégia também muito utilizada para “alongar o agora” de uma unidade noticiosa. Vê-se somente o título no canto da página. Nesse caso. a preparação e a divulgação de suas notícias. lead para evitar que a notícia pareça velha. podemos verificar um efeito de enunciação que se vale do poder do ethos do jornal e também de outros procedimentos. mas também está presente em todos os outros tipos de noticiários. da notícia. uma revelação. faz com que a enunciação se torne viva. A leitura atualiza o momento de enunciação. o aspecto mais curioso ou polêmico de um evento ou a declaração de maior impacto ou originalidade de um personagem” (2001: 28). 56 Na formulação de Fiorin. porém. acrescentamos. porém. 2004: 94 a 96).56 E. Deve-se notar. No caso da manchete “terror mantém reféns em escola russa”. Isso acontece porque o lead. importante. é encontrada principalmente nos meios de comunicação mais “lentos”. daquele “agora” fundamental para o efeito de atualidade. já investigada no nosso trabalho sobre a Veja (Hernandes. O enunciatário geralmente é tomado por uma sensação que o faz crer que até mesmo algo que ocorreu há muito tempo. Note-se. um “agora” – o verbo manter está no presente do indicativo. na maioria das vezes. O que justifica o destaque dessa notícia. a idéia mais significativa de um debate. obriga a mostrar um marco temporal claro. não escondem que o fato principal da notícia é passado. seja este o próprio fato. Lembra Fiorin que “o agora do enunciador é o agora do enunciatário” (1996: 143). Há um sentido de concomitância entre a narração e o que se narra. pertinente. 77 . como as revistas e jornais. Trata-se. como o jornal desvalorizou espacialmente a informação para marcar que o período de tensão narrativa permanecia sem desenlace.55 Só que existe um outro “tempo”. no exemplo. nesses casos. 55 Em outras palavras. paralelo. temos um tempo enunciativo. por ser contado na edição. no exemplo do Diário de São Paulo. o fato está em pleno andamento. na resposta ao “quando”. o que foi “esticado”. é nada acontecer quando se espera uma conclusão. o momento de referência é o presente.

cujo “agora” não pode ser muito alongado. mesmo em mídias “rápidas”. passam a sensação aos leitores de que estão mais preocupados com o futuro do que em reportar o que acontece no Na gíria jornalística. que começa após a partida e vai durar até os próximos jogos. se divulgado sem maior cuidado. a divulgação do índice de desemprego. Um elemento de atualização muito comum é uma conseqüência do próprio fato. sua repercussão. fica velho com rapidez e. O elemento de atualização é um assunto secundário. o fato principal ou gerador tem um período de consumo extremamente curto. a posse do novo presidente da Câmara. um fato gerador de vida curta. 112: “Quando as coisas dão errado – Desabamento em aeroporto francês surpreende o mundo. não só não atrai o público como compromete a credibilidade do jornal. segunda-feira é dia de fazer o balanço da rodada de futebol do final de semana. Ou seja. um gosto de novidade e atualidade. Ao ser relacionado ao fato gerador. Vejamos o caso dessa manchete e linha explicativa de reportagem sobre tecnologia da Veja 1856. E se opõe a outro “frio”. e os previsíveis: um jogo importante de futebol.” Se estampasse a notícia dos 2 a 2 entre Flamengo e Botafogo. 57 78 . Note-se ainda o verbo no presente. a manchete de primeira página de esportes do Jornal do Brasil era: “Empate no clássico embola a Taça Rio. o núcleo principal de uma notícia. deve-se observar que a maioria dos grandes fatos é noticiada depois de acontecer. O elemento de atualização também pode ser uma análise ou uma interpretação do fato gerador. que dá.57 Há diversos modos de atualizar um fato principal e construir uma notícia com sabor de novidade e que será interpretada como “atual”. Quase sempre. como a TV e o rádio. expande a própria “vida” da notícia. tem a propriedade de atualizá-lo. instaura como momento de referência um “nessa semana”. Em 7 de março de 2005. A tragédia de Beslan não foi exceção. ou os efeitos de uma tempestade. desse modo. Esses fatos principais são elementos geradores da unidade noticiosa. Devemos observar que diários e revistas constroem unidades noticiosas cada vez mais analíticas porque não podem competir com as mídias mais rápidas e. se vinculam a situações concretas. que não perde a atualidade com facilidade. Basta acrescentar um elemento de atualização ao fato gerador. como um acidente aéreo.” O elemento de atualização. de 2 de junho de 2004. Geralmente. ao que aconteceu. o comentário sobre as “falhas do progresso”. pág. E lembra que as falhas são parte do progresso. Nos diários impressos. Ao falar que o jogo “embola” o campeonato carioca. é “quente”. deixaria mais claro como momento de referência o “ontem” do fato. Há dois grandes tipos: os imprevisíveis.Inicialmente. que não envelhece rapidamente.

Os próprios jornais. por exemplo. Discutiremos melhor o assunto na análise sobre o jornalismo de TV. Muitos trechos. a promessa de um radiojornal. às 12h53: 79 . por exemplo.presente. De qualquer maneira. faz o jornalismo impresso ficar cada vez mais especulativo e evidencia o ponto de vista do enunciador. rádios e. que também envolve coerções e vantagens de cada jornal. Meios “rápidos”. no entanto. com o impacto da enunciação das mídias “rápidas”. portais e sites têm a possibilidade de enunciar em “tempo real”. Meios de comunicação “lentos”. não podem ser confundidas com o “ao vivo”. que enunciam na forma de um fluxo. O rádio. na página do Jornal do Brasil On Line de 8 de março de 2005. construção que visa a alargar o “agora” de uma notícia. A estratégia. são gravados. no entanto. O Jornal Nacional não raras vezes apresenta uma notícia e. a atualiza. não de deve confundir o efeito de atualidade. Telejornais. investem na confusão. a enunciação em “tempo real” é prometida com freqüência. Nos noticiários da Internet. podem inclusive enunciar enquanto algo que consideram importante está em pleno andamento. de um telejornal ou de um site de notícias de realizar o acompanhamento de um fato enquanto ele ocorre. dentro do próprio programa. A expressão aparecia. precisam de um tempo para a produção e distribuição de notícias. Essas duas sensações temporais. dá a sensação de que a produção acontece no mesmo momento em que se ouve os programas. como diários e revistas. ou seja. Há uma outra questão importante para abordar. radiojornais. na segunda parte do trabalho. por sua vez. no entanto. principalmente portais e sites com conteúdo jornalístico. por exemplo. apresentar uma produção simultânea à recepção. ou seja. de que tudo é atualíssimo. como TV.

internauta ou ouvinte. Essa concretude discursiva é geralmente associada ao sentido de objetividade e não ao de subjetividade. a mobilização apela para o indivíduo competitivo. O primeiro grande problema é refletir sobre o assunto sem cair num estudo ontológico. criticou – sem apontar saída . Nesses exemplos. Para isso. muito presente no discurso jornalístico. que podem emocionar. como na TV. efeitos de realidade. Há várias dificuldades para analisar esse procedimento. Discutir a empatia não deixa de ser uma das muitas conseqüências da opção teórica de um estudo da enunciação como narrativa. Nesse sentido. Quando um jornal mobiliza afetos do público ao noticiar. Busquemos como ponto de partida algumas considerações de um jornalista. nos mesmos textos que procuram mobilizar afetivamente. O jornal torna-se uma espécie de amigo que tudo sabe e procura cumplicidade com o leitor. e eufóricas no segundo. tais como “você também pode fazer isso e solucionar seus problemas”. A lista é enorme. já que expande questões do universo passional entre os actantes narrativos para os actantes da enunciação. obviamente. A proximidade actancial e espacial – a empatia Os jornais valorizam acontecimentos que mostram experiências “humanas”. como no rádio. Nos primeiros. mesmo que de poucos minutos. Vinicius Torres Freire. tenta obter uma identificação entre actante da enunciação (leitor. na página 2 – de Opinião – da Folha de São Paulo. gerar empatia. ouvinte. ainda precisam de um tempo para edição e lançamento no site.O JB. Podemos perceber a importância dos chamados textos de “serviço”. em outras palavras. como espetáculo. telespectador) e actante do enunciado. podemos notar dois apelos diferentes.a coerção 80 . ou pelas imagens. manejados por uma figurativização intensa. Problemas políticos e econômicos geram textos com saídas “criativas”. Há mobilização de paixões ligadas à disforia no primeiro grupo. O segundo é que há. que tem a oportunidade de se dar bem em relação a outros graças ao seu jornal. como a piedade e o terror. espectador. Catástrofes naturais e guerras sempre se apóiam nas vítimas “civis” e seus dramas. busca-se arregimentar o enunciatário pelo que poderíamos chamar de vínculo social. porém. o verdadeiro tempo real da Internet só pode se dar pelos mesmos tipos de transmissão por sons. como a da esperança. um processo ainda incipiente no meio em 2005. Notícias escritas. fez um notável mea culpa da imprensa em relação à indiferença da mídia por massacres pelo mundo. Em 15 de março de 2004. internauta. Os enterros de personalidades rendem espaço para “o lado frágil” dos poderosos. No segundo caso. faz apenas um simulacro.

nessa reflexão. lugares em que ele também poderia. parte violenta da miserável periferia da Zona Sul paulistana. por sua vez. Tenta- 81 . pode dar mais sentido de proximidade espacial do que o Jardim Ângela. é proporcional à projeção do público nos dramas mostrados. Além da identificação actancial. ou quase sempre quem vive em lugares que têm poderes e haveres bastantes para fazerem suas histórias terríveis serem midiáticas”. vive como a gente. Um shopping center dos Estados Unidos. Em outras palavras.que a empatia tem para os jornais. cuja isca é a manchete. Dito isso. viver. que abrem espaço somente para situações e problemas que permitem a identificação do público-alvo com as histórias noticiadas: No final do terceiro parágrafo. em tese. pelos efeitos de realidade que “humanizam” o texto. podemos perceber que o potencial de atração da notícia. outro ponto importante do comentário de Freire é que a empatia depende de o enunciatário reconhecer também como seu o espaço do personagem da notícia construída pelo jornal. O sujeito é manipulado. para o público padrão da Folha de São Paulo. ele afirma que tipo de empatia é importante para o jornalismo: “É para quem se parece conosco.

A iconicidade é uma de suas principais estratégias de elaboração de efeitos de realidade. mais viva a imagem que evocam. elementos ou partes do texto que um leitor identifica como existentes no mundo natural. Nem sempre o efeito de realidade dá lugar à empatia. que “para criar a emoção. os esquemas abstratos não atuam muito sobre a imaginação.. A abstração é uma racionalização por excelência. no Tratado da Argumentação.167). ou em uma cena.. trafegam entre esses dois extremos. analíticos. No extremo oposto.se fazer com que seja modalizado por um querer entrar em conjunção com a notícia. ou seja. com uma foto. Ver alguém ser citado com nome. um padrão fixo e grandezas variáveis com as quais ele é comparado. Perelman e Olbrechts-Tyteca descrevem o processo: “A presença atua de um modo direto sobre nossa sensibilidade. o que é visto de um modo melhor ou com mais freqüência é. por outro lado. não importa se a unidade é majoritariamente visual ou verbal.. O que podemos chamar de projeção empática do enunciatário está diretamente relacionada à manipulação de elementos que tenham concretude discursiva. Isso porque semelhante escolha confere a esses elementos uma presença. existe a já citada representação icônica. (. apenas por isso. em outras palavras. que tem dois extremos: em um deles. Os textos jornalísticos. busca o genérico.) O termo concreto aumenta a presença” (1996:166. original de 1959. alegrias e outros afetos mostrados nas histórias. (. uma visão ampla.) Quanto mais especiais os termos. O que um jornal faz é eleger e oferecer elementos concretos à consciência do enunciatário. Ensinam Perelman e Olbrechts-Tyteca. É um dado que. dependendo dos efeitos que querem infundir. é indispensável a especificação. não só atrás do cumprimento de obrigações (deveres). A semiótica trabalha essas idéias como um modo de figurativização. Vejamos como essa mobilização afetiva acontece. exerce uma ação já no nível da percepção: por ocasião do confronto de dois elementos. aliás.. como mostra Piaget. nega o particular e caracteriza os textos temáticos. As noções gerais. quanto mais gerais eles são. A abstração. endereço. mais fraca ela é. há a representação abstrata. inteligível da realidade. É importante que tenha a sensação de “estar no mundo” e possa “viver” dores. aquilo em que o olhar está centrado. Lembram ainda os autores que “o fato de selecionar certos elementos e de apresentá-los ao auditório já implica a importância e a pertinência deles no debate. como a mulher morta entre as ferragens do trem atacado por terroristas em Madri e citada por Vinícius Freire. pode não mobilizar nossa 82 . que é um fator essencial nas argumentações. por exemplo. supervalorizado” (ibidem). por demais menosprezado. ou de representação. nas concepções racionalistas do raciocínio” (idem: 132).

Vamos tentar aprofundar o entendimento da empatia por meio das reflexões do teatrólogo Augusto Boal. Barthes. A projeção do enunciatário na história contada é produto de um tipo de ação que vai expondo determinados estados afetivos. básicas. mais completo e atraente estará o texto. ombudsman da Folha de São Paulo leva-nos a perceber esse processo de criação de ilusão referencial em um texto jornalístico: “Todo bom repórter domina a técnica de extrair de seus entrevistados frases contundentes. porém.. o movimento. tem como base o efeito de realidade. mas funcionar apenas como “ilusão referencial”. vicariamente. Conferem-lhe autenticidade.. O espectador assume uma atitude passiva e delega o poder de ação ao personagem. na tragédia grega. Este sistema é amplamente utilizado até o dia de hoje. Devemos ressaltar essa característica: é importante notar a transformação de estados. nós vivemos. Para haver empatia.. Bernardo. Essas regras. de eliminação das ‘más’ tendências ou tendências ‘ilegais’ do público espectador.” (1980: 6). o repórter confere vida aos relatos com detalhes significativos. não somente no teatro convencional como também nos dramalhões em série da TV e nos filmes de farwest: cinema. A 6. a complexidade figurativa deve estar a serviço da maior concretude possível de uma narrativa em pleno desenrolar. As técnicas estão reunidas no que o teatrólogo chama de Sistema Trágico Coercitivo de Aristóletes.. 23/12/2001. Aspas e respeito. na qual apareçam certas paixões. Humanizam o texto. Ensejam uma ponte entre o personagem e o leitor. inusitadas. na proposta de R. Se o jornalismo é um espetáculo. é possível buscar semelhanças entre formas de arte. entretenimento e jornais. expressivas. pág. que particularizem cenários. contidas no livro Teatro do Oprimido e outras Poéticas Políticas. se tornam ainda mais importantes em textos produzidos em momentos ou locais de tensão e crise. contextos. que critica a tragédia grega: “Aristóteles constrói o primeiro sistema poderosíssimo poético-político de intimidação do espectador. sem o qual não se poder falar em empatia: “Como o personagem se parece a nós mesmos.” 58 Se o efeito de realidade não pressupõe identificação entre público e personagens das notícias.afetividade.) Além das declarações. Citações são a alma da boa reportagem. se estabelece uma relação entre o espectador e o personagem (especialmente o protagonista ou herói trágico). em situações desfavoráveis. sentimos que 58 Ajzenberg. (. tudo o que vive o personagem. como indica Aristóteles. Bernardo Ajzenberg. teatro e TV (. Boal lembra que. como tantas vezes é assinalado por seus críticos.). Sem agir. quando o espetáculo começa. sentimentos. toda empatia. dados precisos. Folha de São Paulo. 83 . Quanto mais êxito obtiver aí.

como (. ou seja. que exploraram sentimentos patrióticos e de vingança.. o pensamento que determina o ato” (ibidem: 38). porque ora tentam confundir-se com as narrativas da própria vida. Se na tragédia grega não havia happy end. para explicar o papel dos meios de comunicação dos Estados Unidos durante e após os atentados de 11 de setembro. em termos semióticos. (. algo imerecido acontece a um personagem que se parece a nós mesmos. ou uma forma de sincretismo entre actantes de dois níveis distintos – narrativo/discursivo e enunciativo de um mesmo texto que se associam por partilhar. que não vamos desenvolver. de atração por um mesmo objeto e as dificuldades colocadas por um mesmo anti-sujeito. mas que pode igualmente incluir outras emoções. aparentemente a emoção não seria e nem poderia ser intrínseca ao noticiário – que deve mostrar somente os “fatos” ou análises “racionais” desses mesmos fatos. constituem a ação desenvolvida pelo personagem..59 Diante da coerção jornalística de produção de textos objetivos. Vale lembrar que Boal define ethos de uma maneira um pouco distinta da tratada até agora no trabalho. geralmente. na obra citada. por exemplo. liga-se ao ethos em relação à ação do personagem e também em relação à dianóia. Boal. Juntos. o discurso. basicamente. de piedade e terror. “Para fins didáticos. afirma que os espectadores se ligam a seus heróis basicamente através da piedade e do terror porque. O teatrólogo explica a empatia como uma relação emocional entre o personagem e o espectador. por sua vez. do ponto de vista afetivo. (. como efeito perseguido pela tragédia grega. como diz Aristóteles. Nesse último caso. Ao analisar a catarse.estamos agindo. sem viver. Um estudo da empatia e da catarse seria muito útil. da continuidade.) A empatia opera fundamentalmente em relação ao que o personagem faz. Para ele. há uma mobilização pela piedade. Do ponto de vista semiótico. vivida por meio do personagem. o personagem apresenta dois aspectos.) Podemos igualmente definir o ethos como o conjunto de faculdades. podemos dizer que o ethos é a própria ação e a dianóia a justificação dessa ação. ao seu ethos”. da fome. mesmo que ilusória. a empatia é uma fusão afetiva sujeito-enunciatário e sujeito-personagem. “A empatia. Piedade e terror definem grande parte das paixões disfóricas mobilizadas diariamente pelos jornais na busca de projeção empática do enunciatário nos dramas dos personagens das notícias. paixões e hábitos” (ibidem: 36 e 37).o medo da violência e a impotência diante da ação dos governos – ora porque fazem aflorar sentimentos que irmanam leitores.. de tragédias naturais. de injustiças de todos os tipos. como sugere Aristóteles. ethos e dianóia. 59 84 . ou seja. ouvintes em relação aos dramas de famílias vítimas da guerra e do terrorismo. sentimos que estamos vivendo. O efeito de Outro ponto importante. na vida real a catarse não deixa de se constituir. telespectadores. mobilizando pelo temor . como a retomada do equilíbrio. internautas. o desejo sexual.. é o da catarse. As narrativas jornalísticas se impõem. em seu maior grau.. mas merece citação. “que pode ser constituída. Amamos e odiamos quando odeia e ama o personagem” (idem: 37).) o amor. a ternura. à sua ação..

a presença do mythos converte subversivamente o discurso racional em seu contrário. o triunfo da objetividade.60 Vale dizer que a empatia tem um importante papel no sucesso persuasivo de um texto: “A verdade está na realidade do corpo virtual que eu vejo morrer na tela ou na materialidade das lágrimas que esta visão suscita em mim? A ambigüidade é. que no Nordeste do Brasil morrem anualmente dezenas de milhares de crianças em conseqüência da subnutrição. bem real: pensa-se agora facilmente que pelo fato de as lágrimas serem verdadeiras. que a empatia é manejada pelo texto e estruturalmente determinável.br/fac/posgraduacao/prnarrativa. Marcondes Filho completa que “não há ação ou envolvimento possível do receptor das notícias se estas não forem associadas à sua realidade específica.unb. Um enunciatário. 2000: 98). no entanto. como expressão dos dramas e tragédias humanas (ethos e pathos). um reduto exacerbado do racionalismo. apup Marcondes Filho.ele expõe: “A princípio. “uma reportagem ilustrada sobre o assassinato de uma criança é suscetível de levantar a opinião pública pequeno-burguesa num momento de condenação ao ato brutal.acessado em outubro de 2004. Na contemporaneidade o jornalismo é o lugar por excelência de realização da ambigüidade e da complexidade da experiência do ser humano. Cremos que é justamente na linguagem jornalística. sem ilusões.“Análise da narrativa jornalística: a construção da identidade nacional nas notícias sobre a inserção do Brasil no mundo globalizado . porém. estes relatos não conseguem desvencilhar-se de figuras de linguagem que sugerem símbolos afetivos para a criação de imaginários culturais. de qualquer forma. a coincidência oppositorum do jornalismo. sem a vinculação ao contexto de vida. sem fantasias nem invenções. 60 85 . ao ignorar a importância da questão. Tentamos mostrar. nem tampouco a linguagem da notícia assumirá jamais a forma de um relato simbólico “puro”: nela se realiza continuamente.” Disponível no endereço: www. Ali onde a intenção é expressar com rigor a realidade tal como ela é. Mas. estaria vivendo relações afetivas como uma atividade além do texto – e parece ser esse o entendimento de diversos pesquisadores. Haveria uma razão para separar os procedimentos. à experiência imediata.pdf . ao se projetar no texto. seria incapaz de suscitar maiores comoções” (Costa. que os fantasmas. não há politização possível” (idem: 19). Blivar. nem se dará nunca. 1999: 63 apup Marcondes Filho. 1989: 18). Outro ponto importante sobre a questão é o uso ideológico da “humanização”. sob comando do professor Luiz Gonzaga Motta.objetividade. mas um estudo que demonstre. o acontecimento na sua origem também o é (Ramonet. Em projeto de pesquisa . Como lembra Costa. Um outro ponto de vista sobre a questão dos afetos e da objetividade jornalística era estudado em 2004 na Universidade de Brasília. ao se engajar empaticamente com a notícia. não se choca com as possibilidades de manipulação afetiva. pessoal. como um complexo oppositorum. No texto da reportagem não se dá. os relatos das notícias são redutos da racionalidade e da lógica. de forma expressiva. desejos e ilusões do ser humano e das sociedades vêm habitar. com dados estatísticos.

A foto. ou mais íntimo e cúmplice dos três jornais. No estudo do ethos desses três jornais. o sensacionalismo é uma estratégia de atração. no trabalho sobre o estilo nos jornais (2003).. Nos primeiros dois jornais. Individualiza-se. (.. se comparado àquele que se apóia num enunciador.A proximidade imposta: o sensacionalismo O Dicionário Aurélio define “sensacionalismo” com três entradas: 1.) o ator da enunciação referencializa-se como o menos sutil. com o mesmo fim. O sensacionalismo pode aparecer como uma quebra de uma cláusula do contrato enunciador-enunciatário em um momento muito específico. Há grande destaque visual. na literatura. que simula estar presente no enunciado. safando-se do efeito de intimidade.61 Na quarta-feira. Uso de escândalos. a dizer tu na manchete principal de primeira página.... entretanto.)” (idem: 124). a Folha de São Paulo estampou uma foto do “New York Times” nada sóbria para ilustrar um momento da guerra do Iraque. cujo trecho mais chocante é a cabeça esfacelada Há um tipo de público que assiste a determinados programas ditos telejornalísticos porque são sensacionalistas. Os telejornais chamados de populares. Nesse sentido. não fazem parte do escopo deste trabalho. de gestos calculados.) O ator mais sutil e “fino” figurativiza-se apoiado numa enunciação que. sintaticamente.. se opôs o estilo sóbrio da Folha e do Estado em comparação ao estilo que tem “uma voz que grita” (ibidem: 129) do Notícias Populares. esse ator. não instala as pessoas eu/tu no enunciado das primeiras páginas. 10 de novembro de 2004.. o jornal apresenta uma notícia que gera um sentimento de proximidade no enunciatário com uma situação ou com alguém que ele não desejava manter contato. Nesse último caso. 61 86 . da imprensa dita sensacionalista. etc. 3. de matéria capaz de emocionar ou escandalizar. na arte. de gestos atabalhoados. Exploração do que é sensacional (3). assim. o menos austero de todos (. em tom espalhafatoso.) que se constitui por oposição ao ator estouvado. etc. 2. ou no efeito de distância da enunciação em relação ao enunciado. Norma Discini. não uma quebra de contrato. (. apresentamos uma visão que julgamos complementar aos estudos de Discini. Em outras palavras. por meio do narrador explícito. enquanto permanece cravado nas distâncias. hábitos exóticos. compara a Folha de São Paulo. Divulgação e exploração. atitudes chocantes. (.. encontra um “ator sutil.. O Estado de São Paulo e o extinto Notícias Populares e faz uma análise da imprensa dita séria em relação à imprensa dita sensacionalista. Neste trabalho.

Essa foto. Em alguns momentos. ocupa três das seis colunas. Marcelo Beraba. Chegam até nós. por sua vez. vejo 87 . motivou reclamações ao jornal e comentário do ombudsman da Folha. Toni Pires. os leitores já decodificaram e não mais se chocam. que respondeu: “Realmente a foto é chocante e não é sempre que publicamos esse tipo de imagem. muitas imagens clichês da guerra. Essas. na coluna do domingo. diariamente.de um “suposto insurgente”. Ele levou a questão ao editor de fotografia. 14 de novembro: “Leitores que escreveram ou telefonaram chocados consideraram que a Folha foi ‘sensacionalista’ ao publicar a foto”. ou quase um quarto de página.

ao publicar. No caso. por sua vez. Os últimos acontecimentos no Iraque são a demonstração de atos bárbaros praticados por ambos os lados envolvidos. erra menos pelo excesso do que erraria pela omissão”. avalio. no entanto..). discute a questão e concorda com o editor: “O jornal poderia ter escolhido uma foto menos explícita? Poderia ter dado sem tanto destaque? Poderia. com ampla valorização espacial. os limites são mais regulados. O sensacionalismo aparece então como a quebra de uma cláusula do contrato sobre a dose de afetividade – notadamente negativa. De um ponto de vista mais generalizante. No caso de um mesmo jornal. 88 . no entanto. As poucas imagens diferentes que recebemos nos mostram um cenário de horror. porém. Há uma linha divisória marcada por uma visão de mundo (valores familiares. enfrentar o desagrado e o incômodo (. mas vejo a importância de. é nosso papel mostrar algo mais. Acredito que. disfórica . Não acho que devamos sair publicando esse tipo de imagem todos os dias. portanto. inclusive corporalmente. Não com o objetivo simplista de uma certa estética do horror.” Marcelo Beraba. O caso da Folha é exemplar por vários aspectos. políticos. que preza um determinado “equilíbrio”. em determinados momentos. o enunciador e suas escolhas se apresentam muito fortemente. os comentários servem para observar que o sensacionalismo pode ser motivado e gerar um tipo de conflito calculado entre enunciador e enunciatário. o que compromete a estratégia de “objetividade”. como mostra Norma Discini. Mas com o compromisso de levar até o leitor um pouco mais do que o simples comentário ilustrativo. Outro ponto notável é que os jornalistas acreditam que a construção de um “real” que consideram mais fiel aos horrores da guerra deve sobrepor-se em alguns momentos às cláusulas do contrato estipulado entre enunciador e enunciatário. mas um jogo entre efeitos de proximidade e afastamento da enunciação. religiosos). a Folha e o Estado são jornais que têm estratégias de enunciação em que esses “choques” não são comuns. por mais inquietante e doloroso que seja para o leitor. Do ponto de vista semiótico. o que força o leitor a se aproximar da foto. São fotografias que devem ser lidas e entendidas como a memória visual de nossa época..a necessidade de mostrar os fatos ‘mais de dentro’. que não há um único tom na maneira de enunciar. a foto que choca não deixa de ser um discurso forte contra a própria guerra. Ao utilizar esse recurso. O que é excessivo para uns pode ser perfeitamente aceitável para outros. Os limites são distintos de publicação para publicação. aparece ao leitor “opinando” sobre o conflito. O jornal. Mas. A “realidade da guerra” aparece na forma de uma figuratividade icônica. Mostra. inicialmente.que o público vivencia.

o jornal – como destinador . Deve também fazer-crer na necessidade ou conveniência de o enunciatário repetir a ação com as outras edições. vibrante. É como se o jornal. com repetidas ações de consumo. O destinatário realiza a performance de consumo e é recompensado. bonita. prometesse ser uma resposta definitiva a essa busca de saberes sobre o mundo. e por meio de uma solução muito especial: se consumido continuamente. Se as estratégias de arrebatamento e sustentação vinculam-se ao poder das unidades noticiosas. a estratégia de fidelização resulta do contato com a edição inteira. Ele encontra o que procura quando resolve ler determinado jornal. Uma edição específica precisa gerar consumo não só para as próprias notícias. O jornal deve convencer de que é “completo”. Como discutimos antes. tem o poder de transformar a obrigação cotidiana de informação em mais uma fonte contínua de prazer para o sujeito. A satisfação deve motivar o desejo de tomar contato com a edição seguinte. ver um certo programa de TV. possibilitando prazeres e um consumo fácil e eficiente. que garanta uma atenção incessante. questiona a competência do destinador e se o relacionamento é satisfatório. Mostra que o destinador é confiável. ou consultar o site com notícias de sua preferência. Precisa ser também chamativa. No entanto. o sentido de familiaridade que resulta na paixão da confiança. Mostra a existência de procedimentos para cativar consumidores com o objetivo de que mantenham uma relação contínua com um produto ou empresa. a cada edição. Qualquer veículo de comunicação almeja obter um público fiel. o que recomeça o ciclo. a persuasão dos jornais deve ser vista de maneira mais complexa. agradável. que tem “credibilidade”. eficiente. de longo prazo. A convivência vai dissipando receios. ouvir a rádio habitual. Semioticamente falando. a edição não é pensada apenas para manter um sujeito bem informado. “Fidelizar” é uma palavra muito usada no marketing. como o tempo. É possível notar que a estratégia de fidelização se apóia mais em uma dimensão do inteligível.A estratégia de fidelização É momento de analisar a última estratégia do gerenciamento do nível de atenção: a de fidelização. a cada edição. realiza uma eficaz triagem e organização da realidade na qual o enunciatário se insere e se apresenta de maneira clara. Há um destinatário que. Como decorrência. não se 89 .cumpre sua parte no contrato. Essa relação satisfatória gera.

Só que essa novidade deve encaixar-se em uma edição que pouco se altera no dia-a-dia. Em função disso. dia após dia. O leitor de O Estado de São Paulo. e dos sentidos a ela associados. tornar a situar o sensacional no fio de uma História que lhe dá sentido e o traz de volta à norma. “críticos” e “modernos”. Apontamos que o objetivo de qualquer veículo de comunicação é obter um público fiel. explorada anteriormente. A competência que justifica a existência de sua relação com o público é a de noticiar. como mais “jovens”. depois. A fidelização só tem razão de ser a partir do sucesso das estratégias já citadas de arrebatamento e sustentação. A questão da marca. Eleitores de O Estado de São Paulo gostam de se ver como mais “maduros”. Ler. sem modificação. do a-normal para. dessa vez por sedução. Afirma o autor que os jornais respondem. à questão: “Que há de novo hoje no mundo?” E completa: “A narrativa jornalística valoriza por princípio a irrupção do inesperado. “sérios”. podemos observar uma outra manipulação destinador/destinatário. ver ou ouvir um jornal pressupõe tomar contato com “as novas” do mundo. por exemplo. Já os da Folha de São Paulo. repetitivo. à ordem das coisas 90 . Nesse sentido. aparece com força. qualquer paradoxo. O hábito aparece como o aspecto mais derradeiro da estratégia de fidelização. A fidelização. Não há. contudo.deve esquecer das outras dimensões. ao primeiro contato. ele também se sente parte de um grupo social que ele admira. mais afetivas. se reverte em sustentação financeira das empresas. do ethos. geralmente quer comunicar que se reconhece no padrão de consumidor construído pelo seu veículo de comunicação predileto e partilha do tipo de recorte da “realidade” manifestado. A idéia de hábito remete a uma espécie de comportamento constante. do singular. o ethos de um produto jornalístico deve sempre ser identificado pelo público como competente para realizar sua função. apresentar e discutir as novidades do mundo. Identificação é também palavra-chave no vínculo de longo prazo entre jornais e público-alvo. implica identificação ideológica do público com o jornal e também uma satisfação contínua que gera um hábito. A atenção incessante. baseado na produção e apresentação incessante de novidade. Algumas considerações de Landowski sobre jornais franceses podem ser perfeitamente generalizadas para qualquer mídia e expõem melhor a questão. com um produto como o jornal. Ao consumir o “Estadão”. por exemplo. para ser bem-sucedida. vai consumir o jornal para que ele próprio seja visto como alguém que partilha dos mesmos valores do seu veículo de comunicação preferido. de longo prazo. Quando alguém diz que gosta de determinado jornal. e parece estranha. das quais é totalmente dependente. Há outros aspectos para analisar.

Ela pergunta o que faz uma mesma repetição ser percebida ora disforicamente ora euforicamente.vai produzindo a dessemantização. de retomar o tempo. Fechine (2003). disfóricos. parte integrante do mundo e da humanidade.. Pouca novidade pode desinteressá-lo. ao “cotidiano”. Podemos entender ainda o hábito como Vale relembrar que. Devemos lembrar que o jornal busca. fazer o sujeito viver emoções e paixões com seu recorte. A rotina – como um fenômeno de continuidade . portanto. o imperativo da repetição é.). faz uma diferenciação entre rotina. e o hábito. que faz com que a novidade nunca se esgote. disfórica. por meio do que Landowiski (1998: 161-162) chama de aprendizagem de busca de um valor estético. lhe é. com suas edições contínuas. a repetição é resultado de um dever-querer no qual o sujeito cumpre um programa determinado por destinador social. causar estranhamento. como que a antítese” (1989: 120). a perda de sentido.. de um querer-querer62 de um sujeito liberado de imposições exteriores ou anteriores..previsíveis – ou seja.. formada pela “rotina” e por suas “interrupções”. o próprio prazer do sujeito (.). ligados à acomodação. obviamente – não existe um sujeito tão livre assim. (. cujos momentos de controle permitidos aos sujeitos se tornam um hábito. com base em trabalhos de Landowski (1998). o jornal. 62 91 .. O discurso ocidental marca a rotina com valores negativos. ou o afrouxamento da relação de um sujeito com um objeto qualquer. portanto. na tentativa de satisfazer essa necessidade. Se pudermos afirmar que o ser humano precisa libertar-se da rotina para se sentir mais “vivo”. ressemantizando assim a própria vida. à falta de ambição material e espiritual. que é um trabalho progressivo de ajustamento entre sujeito e objeto. É produtivo pensar o cotidiano como categoria complexa. de um ponto de vista psicanalítico. antes de qualquer coisa. no entanto. sociológico e biológico . “Nesta última situação (a rotina). promete continuamente chacoalhar o cotidiano. um gosto de fruição” (2003:94). que. ordenamento e apresentação dos acontecimentos do mundo. que ressemantiza relações contínuas entre sujeito e objeto e. entre tantos outros. “ao contrário. O hábito é uma possibilidade ofertada ao sujeito de criar ou manejar as próprias descontinuidades. Novidade demais (tanto de expressão como de conteúdo) pode deixar o enunciatário sem referências. cultural. biológico quaisquer (.” No hábito. entendida como dessemantizadora das ações do sujeito.) Nesse caso. O cotidiano “pulsa” ao sabor de quebras e retomadas.. sobretudo. mostrar-se como enunciador que maneja o que pode ser pensado como uma “justa medida” entre o novo e o velho na conquista do enunciatário. a repetição é voluntária e fruto. a priori.que não iremos explorar. tem características eufóricas.

do restaurante aos domingos. quarta-feira.pelo reforço na própria identidade do sujeito – e pela possibilidade cotidiana de lhe dar meios de transcender a sua história vivendo. um sujeito que organiza o seu dia para ressemantizar. uma forma de fruição que ele pode administrar para criar essas ressemantizações cotidianas. se impõe pelas novidades . viver um hábito. O jornal. ao ter contato com um jornal. Ambos são do mesmo dia. Vejamos: 92 . através da projeção empática. seu cotidiano. na maior parte habitantes de classe média da Grande São Paulo: o Jornal da Tarde e seu concorrente. o Diário de São Paulo. na repetição de atos que lhe dão prazer. ao contrário de um café. e ilustrar algumas das reflexões sobre o gerenciamento do nível de atenção.o gerenciamento possível dos sentidos pelo sujeito. Exemplo: Jornal da Tarde versus Diário de São Paulo Para concluir esse item. os conflitos de quem foi retratado nas reportagens. entretanto.as unidades noticiosas . A estratégia de fidelização maneja essa possibilidade de o sujeito. e trazem o mesmo assunto na manchete: mortes como conseqüência de fortes chuvas que desabaram na região metropolitana. comparamos as primeiras páginas de dois jornais de público-alvo semelhante. Em outras palavras. 29 de janeiro de 2003.

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Do ponto de vista da primeira estratégia de atração, a sensorial, deve-se notar que o título principal e a foto dos dois jornais tomam grande parte da primeira página, o que não acontece todo dia. A estratégia de arrebatamento é clara: há uma tentativa de atrair o olhar em função do espaço ocupado pelos títulos e pela fotos. As duas manchetes utilizam uma fotografia muito semelhante, de grande contraste cromático em relação ao branco da página. Há praticamente o mesmo ângulo: um ponto de vista de cima para baixo, de alguém que vê tudo de um local alto e a certa distância. É possível perceber, inclusive, as mesmas personagens, como o rapaz de camisa verdeamarela. A foto do JT apresenta somente um corte de cena um pouco mais “fechado”. O que as duas manchetes têm de mais notável, contudo, são as diferentes estratégias dos editores para a apresentação de cada notícia, cujo fato gerador é o mesmo: as vítimas da chuva em Taboão da Serra. O JT, ao contrário do concorrente, vai buscar impacto, o que quer dizer, maior carga afetiva na cobertura. Mostra a foto de um bebê de um ano e quatro meses, Juninho, que aparece morto nos braços de um homem que ajudava na escavação. Pode-se observar a técnica da apresentação do clímax de uma narrativa na manchete. O leitor, que teve o olhar arrebatado pelo título e pela foto, obtém os primeiros dados da história e deve ficar curioso para saber como se chegou àquela situação. É a estratégia de sustentação em funcionamento. Lembramos a necessidade de os textos apresentarem “gente de carne e osso”, ou seja, discursos com grande carga figurativa icônica para provocar a empatia, a identificação do leitor com a história contada. Nos casos analisados, o exemplo mais claro é o da própria fotografia. que permite reconhecer os voluntários, a terra, as vítimas. Mas também percebemos que títulos e legendas trabalham com elementos que, por meio de uma ancoragem, atam o discurso a pessoas, espaços e datas que o leitor reconhece como “reais” ou “existentes”, como Juninho, seu pai Márcio, os mortos pela chuva em Taboão da Serra. Mas retornemos à discussão sobre a manipulação afetiva. O JT utilizou a foto de um bebê morto. Há uma aproximação entre os corpos do leitor e da vítima que o jornal torna possível notadamente por meio da fotografia, por sua vez, representação de uma ação frustrada de salvamento. Uma observação mais cuidadosa mostra que, desde o título, constrói-se um centro de máxima tensão. O jornal enuncia “os mortos da chuva” para levar o olhar para o bebê. Ou, no caso de um olhar inicial na foto, para ancorá-la e evitar qualquer outra leitura. O leitor pode armar-se de argumentos contra uma vítima que invadiu um terreno público em uma encosta perigosa. Ela se arriscou e morreu. Tinha alguma escolha, por mínima que fosse, e pagou por sua irresponsabilidade. O mesmo leitor,

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porém, não pode deixar de se envolver por inteiro no drama da morte de um bebê de pouco mais de um ano. O jornal fez uma escolha cuidadosa para obter a máxima carga de afetividade. Não é a apresentação de qualquer vítima, ou de mais uma vítima das chuvas, mas de uma criança, a mais frágil e inocente de todas. Ela não pode ser julgada de outra forma. Essa estratégia é comum nos discursos que denunciam absurdos de guerra, pois impedem racionalizações frias e distantes e forçam o destinatário a uma atividade de reflexão sobre o contexto que gerou a tragédia.63 A manchete do JT trabalha com um choque emocional de uma voltagem muito maior do que a do Diário de São Paulo. O concorrente do Jornal da Tarde, porém, também estampa a foto de uma vítima, só que enrolada em um cobertor. É preciso ressaltar a diferença de limites nos usos de materiais jornalísticos muito semelhantes. Há moderação no Diário de São Paulo e pleno uso de estratégias afetivas no Jornal da Tarde, que se empenha em criar impacto por meio da apresentação do cadáver de uma criança. Cada jornal satisfaz curiosidades e necessidades (dá saberes) e também coloca o sujeito diante de possibilidades de viver experiências afetivas – ou, como afirmam Zilberberg e Fontanille, valores para serem sentidos - que contrabalançam o aspecto trágico, disfórico da notícia. Relembremos que o leitor não é um sofredor compulsivo, mas alguém que, mesmo diante de uma narrativa de morte e fracasso, procura conhecimento e afetividade. Os dois diários buscam a empatia do público, principalmente por meio da paixão da piedade. Do ponto de vista passional, o leitor do JT é conduzido para viver mais fortemente a compaixão, segundo o Aurélio, o pesar que em nós desperta a infelicidade, a dor, o mal de outrem. A compaixão é um dos afetos mais mobilizados pelos jornais e um importante componente da projeção empática, como discutida anteriormente por Augusto Boal. Trata-se ainda de uma paixão conformista, ou seja, ao apenas lamentar a morte (a maior das disjunções sujeito/objeto), o leitor aceita a narrativa como um fato trágico, porém em grande parte inevitável. As duas manchetes colocam como vilão a chuva, ou seja, a própria natureza. A piedade, como paixão, só pode gerar mais piedade ou desaparecer. O uso da afetividade como estratégia maior da manchete do JT causa alguns estilhaços na possível busca de certa objetividade jornalística. A escolha da foto de um bebê morto para a primeira página torna muito mais perceptível, para o leitor, a
Durante a guerra entre EUA e Iraque pôde-se observar a mesma estratégia. A mídia norteamericana, pró-guerra, evitava ao máximo mostrar e fazer comentários sobre as vítimas. Já o discurso das emissoras árabes, contra a guerra, se concentrava no oposto: exibia-se a brutalidade contra a população civil, principalmente imagens de mulheres e crianças mortas, feridas ou mutiladas, gente que tinha nome, idade, endereço, história.
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presença de alguém que está fazendo a mediação entre ele e o mundo. Revela, portanto, um ponto de vista sobre uma ação e impede qualquer neutralidade do discurso. Maior a percepção de um desejo de emocionar, mais clara fica a presença do jornal – e das escolhas feitas – para o leitor. Na época, o JT estava construindo uma identidade mais presente, mais próxima e opinativa diante de seus leitores. Investir na maior carga de afetividade foi uma estratégia de diferenciação em relação ao seu concorrente, o Diário de São Paulo. Estamos, portanto, diante de uma tática de longo prazo do jornal, dentro da estratégia de fidelização. O JT procurava convencer seus prováveis leitores de que valia a pena ler o jornal todos os dias para ter acesso a notícias com um enfoque mais “humano”, “próximo”, “afetivo”.

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ESTRATÉGIAS DE ORGANIZAÇÃO TEXTUAL: A ATENÇÃO MANIPULADA NO TEMPO E NO ESPAÇO
No item anterior mostramos como funciona o gerenciamento do nível de atenção, separando alguns efeitos que se referem ao plano de expressão (como as estratégias de arrebatamento) de outros mais relacionados ao plano de conteúdo (como de sustentação e de fidelização), todos ligados à instauração de curiosidades, desejos, afetos. Agora, pretendemos ordenar melhor essas reflexões. O jornal manipula o público para que preste mais atenção numa notícia em relação à outra, atente para certos detalhes e não dê a mesma consideração a outros. Nossa investigação continua com o estudo das características da organização textual dos jornais, dos efeitos de edição (aqui como ato de editar ou relacionar expressão e conteúdo), da aspectualidade, da tensividade e do semi-simbolismo. Na segunda parte do trabalho, há uma análise mais detalhada da organização textual de cada um dos quatro grandes grupos de jornais. Devemos reiterar que continuamos a fazer uma análise da enunciação como narrativa, ou seja, mostrando como um enunciador concebe um jornal. Nosso interesse agora é mostrar as possibilidades de textualização, como o enunciador maneja o contato do enunciatário com o texto para que ele passe do foco para a apreensão, do sensível ao inteligível, do plano de expressão para o plano de conteúdo, da tensão para um certo relaxamento.

Dois modos de textualização: espacial ou temporal

Um texto manifesta-se quando um plano de conteúdo é relacionado a um plano de expressão, a uma manifestação material, grosso modo, um “suporte”. Temos, portanto, a textualização. O estudo desse ato de organização textual, desse “encaixe” entre o conteúdo e o modo de expressá-lo, permite melhor compreensão dos procedimentos já observados. Ao mesmo tempo, expõe outras estratégias importantes. Sabemos que, em um jornal, algumas unidades noticiosas são consideradas de maior interesse do que outras sem que os jornalistas tenham de fazer uma comparação explícita. Cada jornal aperfeiçoou mecanismos que “comunicam” o que é mais ou menos importante, o que merece mais ou menos atenção, fazendo uma verdadeira regência de uma enorme massa de estímulos – visuais, verbais, sonoros, conforme o meio de comunicação - no processo de organização textual. O enunciador

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maneja a curiosidade, guia a percepção do enunciatário no sentido do que deve ou não ser valorizado, direciona as expectativas, mostra pontos de maior ou menor interesse nos níveis sensível, inteligível e passional. Como temos contato com os jornais desde a infância, principalmente com a TV e o rádio, assimilamos essas regras de textualização. Todo objeto dos quatro grupos de meios de comunicação estudados pressupõe a edição (na acepção de ato ou efeito de editar), ou seja, a seleção, organização e montagem de todos os elementos que devem formar um programa, uma revista, as páginas de um site. A textualização, como estratégia global de enunciação, pode ser considerada como o “ato de editar” dos jornalistas: • No rádio e na TV, a textualização, ou a ação de editar, estabelece

principalmente intervalos de tempo e posições no fluxo temporal para a construção de sentidos. O manejo acontece em função de recursos de montagem. • Na revistas, diários e sites, a organização textual ocorre por meio da

administração do espaço, manejada pela diagramação nos impressos e pelo webdesign nas páginas da Internet.

Os recursos de montagem (rádio e TV), diagramação (diários e revistas) e webdesign (sites/portais) serão apresentados em detalhes e estudados depois, nas análises específicas. Interessa agora observar que o fluxo do tempo, no rádio e na TV, e a trama do espaço, nos jornais impressos, revistas e sites, criam o sustentáculo para as regras de textualização desses objetos e controlam a disposição das unidades noticiosas. Em função dessas coerções, os jornais estudados neste trabalho dividemse em dois grandes grupos, os de hierarquia de base temporal e os de hierarquia de base espacial. Queremos chamar a atenção para um aspecto importantíssimo: existem relações de espaço no rádio e na TV e de tempo nos jornais, revistas e sites. Estamos ressaltando o que consideramos mais relevante na organização textual desses meios de comunicação. O tempo, ou o espaço, permite que a textualização produza uma hierarquização de sistemas significantes64 diferentes. O resultado é o jornal como um único texto, um único “todo de sentido”, cuja missão maior é gerar laços com o público
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Preferimos falar em “sistema significante” ou “conjunto significante” no lugar de “linguagem”. Greimas e Courtés, no Dicionário de Semiótica I, afirmam que a busca por uma definição de linguagem “reflete uma atitude teórica que ordena a seu modo o conjunto dos ‘fatos semióticos’” (1983:259). Em outras palavras, vão ser os métodos e procedimentos utilizados por um analista que vão mostrar o que ele quer dizer por “linguagem”. Os dois autores afirmam que “o menos comprometedor é talvez substituir o termo linguagem pela expressão conjunto significante”, sugestão que aplicamos neste trabalho em alguns momentos.

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e consumo. Por meio da textualização, das coerções, e também vantagens, proporcionadas pela manifestação temporal ou espacial na construção dos jornais, revela-se uma enunciação que administra outras enunciações, um texto que engloba outros textos. Em um jornal impresso, por exemplo, podemos observar conjuntos significantes, como o verbal e os quadrinhos, as fotografias, as charges. O verbal, por sua vez, é manifestado visualmente por meio de tipos gráficos, em matérias, títulos, legendas. O traço de expressão comum no nível da manifestação textual de todos esses elementos verbais e não-verbais é a espacialidade, a adequação a um espaço determinado.65 Reger e hierarquizar essas diferentes semióticas no jornal impresso é, portanto, administrar o espaço que podem ocupar no papel. O mesmo acontece no rádio e na TV, só que envolvendo o tempo. A capacidade de o público entender rapidamente os sentidos da organização do texto de cada jornal é resultado de uma característica importante dessa forma de comunicação. Diários, revistas semanais, programas de rádio e de TV, sites têm uma articulação de expressão e conteúdo que apresenta certa rigidez. Isso acontece por que a produção jornalística é uma verdadeira linha de montagem. Cada jornal é obrigado a testar e a eleger formatos para dar conta de duas necessidades principais: é preciso não só motivar o consumo, como também facilitar o “fechamento” das edições. A organização textual rígida permite ajustar com rapidez os processos criativos – realizados pela redação – às imposições da operação industrial jornalística, de produção e reprodução dos noticiários. Dois procedimentos de organização textual serão estudados a seguir e relacionados às estratégias de gerenciamento do nível de atenção:

o O primeiro diz respeito à maneira de valorizar ou desvalorizar uma notícia em relação à outra a partir do manejo do tempo, no rádio e na TV, e do espaço, nos jornais, revistas e sites. Uma notícia que ocupa metade da página de um diário, por exemplo, é considerada mais importante, merece mais atenção do que outra que toma um quarto do mesmo espaço do papel. o O segundo procedimento refere-se ao estabelecimento de um ritmo textual que dá a sensação ao destinatário de entrar em contato com um jornal que apresenta as notícias de maneira vibrante, eficiente, rápida, fácil de entender.

Isso acontece porque o espaço é um traço geral de substância comum a todos esses sistemas de significação, uma coerção a que suas manifestações precisam se adequar para se tornarem forma de expressão. O mesmo ocorre com o tempo no rádio e na TV.

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Os jornalistas são apenas aconselhados a ter “soluções criativas” na união entre títulos. 1995: 97). Por exemplo: maior espaço ocupado na página significa notícia de maior valor. o tempo também determina o valor de uma reportagem ou comentário (mais tempo concedido – maior a importância). No radiojornalismo estudado. Com o desenvolvimento tecnológico. Essas operações constituem o que a semiótica chama de 101 . nesse verbete “acabamento”. infográficos. A importância da notícia é uma construção do texto. a edição está sujeita ao olhar crítico do leitor. sem perder a característica de ser um texto que hierarquiza seus conjuntos significantes por meio da administração do espaço. “do mesmo modo como ocorre com as reportagens. ainda travada pelas limitações das bandas de transmissão e pelas linguagens de programação utilizadas nos navegadores.” O Manual da Folha. sua importância jornalística. “O tempo da notícia no telejornalismo depende sempre da importância jornalística do assunto” (Squirra. porém. o valor que se pretende dar a uma unidade noticiosa na TV tem relação direta ao tempo a ela concedido. tem-se uma relação entre espaço de jornais impressos que. Ou dito de um ponto de vista semiótico. textos. Quando alguém percebe uma notícia que cobre um grande espaço de uma folha de jornal e entende que se trata de algo importante. Na fase atual da Internet. Essa semiótica do espaço jornalístico está ao alcance dos consumidores da cultura visual e não deve ser julgada um privilégio de jornalistas e profissionais que lidam com elementos imagéticos. está fazendo uma passagem do plano de expressão para o plano de conteúdo e estabelecendo relações entre categorias dos dois planos. Nos jornais. timidamente.Valorização ou desvalorização da notícia: o semi-simbolismo “cristalizado” Cada texto relaciona suas unidades noticiosas de modo a fazer com que o enunciatário possa entender seu valor. fotos. que desenvolveu um mecanismo de interpretação da forma como as notícias estão organizadas no espaço do jornal. Nas TVs e rádios. dá poucas pistas do que é essa organização. já convive com algumas relações de tempo de meios de comunicação como TV e rádio. o valor da notícia relaciona-se à sua duração no fluxo temporal. como os publicitários. a Internet tende a incorporar cada vez mais relações de “tempo”. revistas e sites a importância de uma notícia pode ser medida principalmente em função do tamanho e da posição ocupada na página e em determinadas páginas. Afirma o Manual de Redação da Folha de São Paulo (2001:35) que.

ou o verde da bandeira brasileira. de pureza: cor limpa x cor suja. Como temos dois tipos básicos de textualização no jornalismo. Temos o reconhecimento de um dispositivo que organiza espacialmente um texto e seus elementos por meio das relações: de dimensão: grande x pequeno. a topológica.66 A textualização jornalística é a construção de algumas ligações estáveis entre categorias de conteúdo e de expressão. e com a leitura. Floch e Thürlemann dividem os formantes plásticos em três categorias. como a cruz cristã. uma categoria topológica. para o leitor. portanto. Nos sistemas semióticos. a passagem de um não-saber para um saber. as cores do semáforo. desconhecemos trabalhos que façam um detalhamento do mesmo nível do plano de expressão. “forma”. revistas e sites – mídias organizadas por meio do espaço Relação entre ocupação espacial e valor da unidade noticiosa Plano de expressão Maior espaço ocupado x menor espaço ocupado67 Plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Foi Hjelmslev quem fez a diferenciação entre sistemas simbólicos e sistemas semióticos. 66 102 . ao ser assimilada pelo enunciatário. ligadas à posição. deve lhe dar também maior satisfação. Uma notícia que toma grande parte da página. de luminosidade: brilhante x opaco. de orientação: na frente x atrás. é possível conceber dois modelos amplos de organização que expõem semisimbolismos. o simulacro da leitura funciona assim: o enunciatário deve ter o olhar manejado em função das diferentes ocupações espaciais das unidades noticiosas. Em textos semisimbólicos. Nos meios de comunicação de textualização “espacial” pode-se falar em topologia como uma categoria do plano de expressão. por exemplo. a inexistência de conformidade entre os dois planos impõe a distinção e o estudo de expressão e conteúdo separadamente. explicar melhor a categoria que nos interessa no plano de expressão dos jornais impressos.Topos vem do grego e quer dizer “lugar”. Já no caso dos jornais de TV e rádio. revistas e sites. temporal e espacial. de posição: alto x baixo. categorias do plano da expressão e categorias do plano de conteúdo se relacionam criando uma espécie de micro-código.3 – Categoria eidética – Vem de eidos. Nos impressos. Discursivamente. E uma “grande notícia”. cria no enunciatário uma falta – um querersaber. ou determinadas homologações entre categorias de expressão e de conteúdo (caso de uma manchete com grandes letras que. Relações: reto x curvo. Esses estudos permitem. Categorias: de valor: claro x escuro. 67 Temos. 2 – Categoria cromática – Está relacionada às cores.Categoria topológica . gera sentido de máximo valor e potencial de atenção. no caso citado. Trabalhos de Greimas. formas e cores: 1 . de tonalidade: quente x frio . angular x arredondado. passa a sensação de “notícia muito importante”). Vejamos essas reflexões na forma de um esquema: Jornais. que significa “as nossas matas”. Greimas e Floch ensinam que no plano de expressão de semióticas de organização espacial podem ser reconhecidos formantes figurativos e formantes plásticos. Os sistemas simbólicos apresentam planos de expressão e de conteúdo em conformidade total.relações semi-simbólicas. a notícia deve provocar a paixão da curiosidade.

TVs e rádios – mídias organizadas por meio do tempo Relação entre ocupação temporal e valor da unidade noticiosa Plano de expressão Mais tempo ocupado x menor tempo ocupado Plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Existe. a categoria de duração no plano de expressão (que marca uma notícia com tempo maior de emissão em relação à outra) irá se relacionar com o valor e o potencial de atenção no plano de conteúdo. tem maior valor em relação à outra que é veiculada em menos tempo. de 2 de abril de 2004: 103 . A utilidade desse semi-simbolismo é fazer com que o destinatário saiba decodificar os sentidos da textualização do jornal com enorme rapidez. Essas relações que acabamos de apresentar. maior curiosidade. evidentemente. Um bom exemplo pode ser encontrado na capa da revista Veja. ou um “semi-simbolismo cristalizado”. Parece um “quase símbolo”. que Barros chama de “localizado”. maior complexidade dessas relações. um outro tipo de semi-simbolismo. em função de sua recorrência de edição em edição. manejadas pela textualização dos jornais dos principais meios de comunicação. deve gerar no enunciatário uma satisfação também proporcional ao seu tempo de apresentação. O consumo dessa notícia. por sua vez. Temos o que Diana Luz Pessoa de Barros chama de “semi-simbolismo de texto inteiro” (2004). Há. No caso dos jornais. no estudo específico. esse semi-simbolismo resultante da organização textual tem grande rigidez. são “motivadas”. que têm objetos organizados a partir de relações temporais.No caso do telejornalismo e do radiojornalismo. Uma notícia mais duradoura instaura maior falta de saber. no entanto. que serão mostradas e analisadas depois. Queremos agora apenas distinguir dois tipos bastante diferentes de semi-simbolismos presentes nos jornais.

É possível fazer relações com categorias do plano de expressão. No caso de Veja. temos semi-simbolismos completamente diferentes. A foto parece expor apenas gradações de marrom. a categoria topológica é proveitosa: pode-se observar a relação entre frente versus atrás (construção de uma perspectiva a partir da situação de destaque do militar iraquiano sem vida em relação ao soldado norte-americano que aparentemente o matou). Se em relação à categoria eidética (das formas) não há pontos de interesse. da morte. Em um esquema. disfórica (desvalorizada). A mais notável é a cromática. pudemos notar algumas relações semi- 104 . essas relações ficariam assim: Categoria cromática Monocromatismo em marrom x policromatismo (não manifestado) Plano de expressão Categorias topológicas Frente x atrás Horizontal x vertical Plano de conteúdo Morte x vida Em comparação com a discussão do início deste item. Isso cria a categoria monocromatismo em marrom versus policromia.Há. uma relação entre vida. eufórica (valorizada) versus morte. no nível fundamental do plano de conteúdo. Esta última não aparece manifestada. e horizontal versus vertical (o soldado no chão versus o que caminha). que identificamos como a cor da guerra.

por outro lado. A revista como um todo. em que a expressão cumpre apenas seu papel de expressar conteúdos. os mitos da vida cotidiana.que estão em uma unidade noticiosa específica. pois nada é completamente novo. o semi-simbolismo localizado. em que não há relações novas entre expressão e conteúdo. sobretudo). de um investimento do enunciador em novidades poéticas ou estéticas.. Devemos compreender essas diferenças. Um exemplo dessa tensão entre novidade e estereotipia. Há outra questão curiosa. de ‘linguagem’. aponta para fenômenos específicos. trabalha também com relações de expressão e de conteúdo de texto inteiro. razões diversas de uso (a repetição. “há passagem e graus intermediários entre o semi-simbolismo e o simbolismo. nos textos. entre sistemas semi-simbólicos e sistemas simbólicos: “Se há textos. como já disse Roland Barthes” (ibidem: 11 e 12)... Transforma-se a novidade em estereotipia e passa também a ser outro o seu papel nos textos: o de apontar os valores da sociedade.simbólicas localizadas – superficialmente analisadas . Há. que perpassa diferentes textos (. de 6 de março de 1991: 105 . as novas correlações que se estabelecem entre expressão e conteúdo vão desde a novidade poética do semi-simbolismo próprio de cada texto até o simbolismo culturalmente estabelecido. Se o semi-simbolismo constrói formas novas de sentir o mundo. entre semisimbolismo e simbolismo é essa outra capa da Veja. criando relações sensoriais novas com os objetos.. no entanto. Sempre existe um jogo entre novidade e estereotipia” (idem:11). entre esses pólos. a capa.). (. graus. ou estereotipado. Barros também aponta a existência de uma gradação.) os textos transformam relações semi-simbólicas em relações simbólicas e vice-versa. em um certo momento histórico e em uma dada cultura fazem dele um sistema de símbolos. Se o semi-simbolismo de texto inteiro mostra a existência de regras bastante rígidas de organização textual. raros. Para Barros.

Diana Luz Pessoa de Barros lembra que a aspectualização é inicialmente entendida como um “ponto de vista sobre a ação” que converte ações narrativas em processos discursivos. Pode-se observar como o semi-simbólico se apóia no simbólico principalmente para cumprir um papel essencial no jornalismo: fazer sentido rapidamente. entre outros efeitos. que produz. Aspectualização: ritmo textual Manejar o espaço ou o tempo. o ritmo. e no caso do espaço. contudo – devemos ressaltar . delimitado x ilimitado. ao tempo e aos atores (1994/1995: 69). Por meio da aspectualização. queremos mostrar um outro ponto de interesse do estudo da organização textual jornalística. A semioticista afirma que a aspectualização pode ser analisada “no 106 . que dizem respeito ao espaço. é aspectualizar. em semiótica. do espaço e dos atores das unidades noticiosas. a acepção de durativo ou pontual. “impactar” sem a necessidade de grandes racionalizações.Há praticamente as mesmas relações apontadas na capa anterior (de semisimbolismo localizado e de texto inteiro). no tempo. a sensação de aceleração ou a desaceleração do texto que é importante para obter e manter um enunciatário atento. mas de tempo e de espaço que se manifestam no objeto jornalístico por meio da manipulação do plano de expressão. Não se trata. por exemplo. A categoria base da descrição aspectual é continuidade x descontinuidade que gera.do tempo. do enunciado.

no jornalismo de rádio e TV. depois de lado e de frente novamente.68 Apresentemos agora essas discussões de maneira um pouco mais concreta. o sentido de tempo de percepção dessa entrevista: o efeito obtido pela inserção do contra-plano é de uma fragmentação do plano de expressão. A sensação de lentidão interfere na atenção do enunciatário. E que a “aspectualização constitui uma dimensão hierarquicamente superior à temporalização. geralmente sente que os programas são mais “lentos”. um grande recurso de montagem do texto. E não é difícil perceber que. Por fim. ao entrar em contato com jornais do mesmo nível de outras redes. o das estruturas narrativas e o das estruturas discursivas” (idem: 70). ao gerar um sentido de maior ou menor aceleração por causa de segmentações ou descontinuidades. ponto de maior interesse nesta parte do trabalho. com a aspectualidade. Alguém que está acostumado ao tipo de edição (na acepção de ato) do Jornal Nacional. o espaço e os atores do discurso e instala um observador que aspectualiza o tempo. como explica Fiorin (1996: 249). a aspectualização também “concerne tanto à organização do plano de conteúdo. 107 .nível das pré-condições e nos três patamares em que se organiza o percurso gerativo. da fragmentação do plano de expressão. em função da coerção máxima de manter a atenção do público. É nesse sentido ainda que a aspectualidade do plano de expressão. quanto à da expressão” (idem: 71). pode se inserir o chamado contra-plano. a mesma notícia de três minutos pode ser sentida pelo enunciatário como mais curta ou mais longa em função. entre outras razões. por exemplo. domina ou sobredetermina o tempo de apresentação (ou cronológico) de uma unidade noticiosa. à espacialização e à actorialização que são por ela determinadas (idem: 70)”. Trata-se de procedimento notável nos impressos e na Internet: a 68 É importante salientar que o “sujeito da enunciação projeta o tempo. Não houve mudança no tempo cronológico. no âmbito do texto. O público vê o entrevistado de frente. de que a cena está passando mais rapidamente em relação a uma outra sem o recurso. Nas reportagens de TV. quando um entrevistado tem uma fala longa. o que dá uma sensação de aceleração. Em outras palavras. o das estruturas fundamentais. Esse efeito de aspectualização do plano de expressão resulta no que é mais conhecido como “tempo psicológico”. Isso mostra a importância do papel desempenhado pelo manejo aspectual do plano de expressão na produção de um sentido de aceleração do texto. o espaço e os atores graças à categoria da continuidade versus descontinuidade”. via ato de edição. o enunciador tem. Mesmo jornais e revistas utilizam essa possibilidade de criação de segmentações das reportagens para dar a sensação de um material que pode ser lido com mais rapidez. “uma ênfase na aspectualidade em detrimento da temporalidade”. mas alterou-se.

“caixas”. como o presidente da república. mobiliza o sujeito muito mais sensorialmente. nesse caso. Um ritmo de cortes intenso no jornalismo – aspectualmente falando. administrar os cortes tem outras conseqüências. Por causa disso. A duratividade ou a pontualidade de um fragmento determina a possibilidade de uma unidade noticiosa ser entendida mais sensorialmente do que racionalmente. A maior ou menor aceleração do texto tem razão de ser como parte da estratégia de obter e manter a atenção do enunciatário. ou seja. ou “boxes”. Colocar a foto de alguém muito conhecido. tensividade e o potencial de curiosidade da notícia. Ao editar. No limite.uma operação sobre o espaço da página . ou seja. no entanto. O mesmíssimo texto sem segmentações parece demandar mais tempo de leitura.construção de um ritmo espacial. uma regência do texto pela pontualidade e não pela duratividade . Nas mídias de hierarquia temporal. que “dura”. e se desvincular do objeto “notícia”. Por outro lado. perder a atenção.simula uma sensação ligada ao tempo. isso sem contar uma série de outros recursos para romper a continuidade. contudo. remeter as experiências sensíveis a seu código de valores. Existe uma relação entre aspectualidade. os recursos de expressão. Há. Essa estratégia. impõe uma dimensão sensível. utilizados na estratégia de arrebatamento. um telespectador ou ouvinte também pode se cansar. vinculando-se aos conteúdos das histórias mostradas nas unidades noticiosas. Sem tempo para pensar. porém. é comum um mesmo assunto ser dividido em conjuntos menores. por meio de descontinuidades do plano de expressão .por exemplo. o que o torna menos atrativo. como dizem os jornalistas. a aspectualização é também uma das estratégias de manipulação ideológica. mantêm relações de união ou de compensação com a estratégia de sustentação. Ninguém consegue manter-se atento a um texto que só estimula os sentidos. o enunciador pode imprimir um ritmo que administre a própria inteligibilidade do texto pelo enunciatário. sem cortes. Emerge uma curiosidade ligada à estratégia de arrebatamento. também uma operação ligada à estratégia de sustentação. Nesse sentido. pode entediar o enunciatário se for descuidada. o que o jornal deve evitar. como a TV e o rádio. pode permitir que o enunciatário tenha tempo para atribuir valores ao que está sendo apresentado e armar toda uma complexa rede de causas e conseqüências. o enunciatário pode ter seu senso crítico manipulado e ser impedido de “axiologizar” o que sente. Uma reportagem com diversas divisões dá a impressão ao leitor de que pode ser consumida mais rapidamente. O que se procura é uma espécie de justa medida entre as curiosidades e as possibilidades de sensações 108 . como o uso de cores de fundo. não raras vezes só se justifica como meio de “arejar” a página. Em todos os casos. uma seqüência longa.

aqui no sentido de apresentar fragmentos de narrativas curtas. o telespectador iria se cansar por não conseguir acompanhar as histórias. como a que fecha geralmente o programa . Devemos ressaltar a existência dessa complementaridade entre diferentes procedimentos de organização textual. O enunciatário deve ser tomado por uma tal carga disfórica. Na apresentação das manchetes no Jornal da CBN. de conteúdo e expressão. também investem nessa organização textual vibrante no início para obter e manter os laços com o público-alvo. uma tal vontade de conhecer o que está ocorrendo no Brasil e no mundo. 69 Essa desaceleração. o jornal iniciaria heavy metal e terminaria bossa nova. que deve resultar em um certo “ritmo”. por exemplo. máxima tensão e finaliza mais relaxado. que só irá solucionar essa falta de saber se permanecer atento ao programa inteiro. utilizam todas as estratégias. entrada de músicas. Se fosse uma música. esse ritmo é bem demarcado. Nos jornais analisados (com exceção dos da Internet). O conteúdo também tem grande variação. no primeiro contato. Se o mais importante jornal da Rede Globo começasse com uma reportagem longa. há mudanças de vozes dos jornalistas. Qualquer jornal quer sempre um destinatário curioso e atento. ou entre o jornal de hoje e o de amanhã. Com o seu começo excitante. no entanto. jamais concebendo. podem desacelerar. um sujeito que atinge a completa tranqüilidade. Um ritmo adequado. trechos de entrevistas. no entanto. Obtida a atenção. mesmo que o grau da tensão varie do começo ao fim de um noticiário. o Jornal da CBN quer desencadear a máxima curiosidade do ouvinte. no ponto de maior tensão. É por isso que se tenta fazer uma passagem bem-sucedida entre a 69 Os sites jornalísticos são as únicas exceções. como mostraremos na análise dos portais. cada um a seu modo. Pode ser observada uma enorme quantidade de estímulos. que dá a sensação de grande aceleração textual para obter o primeiro contato com o destinatário. Os noticiários estudados neste trabalho. Todos os jornais examinados nesse trabalho.não sem razão apelidada de “boa noite” pelos profissionais do JN possivelmente não obteria a mesma audiência. porém. quase uma fórmula fixa. prevê momentos mais acelerados em relação a outros. ou seja. por exemplo. Se o Jornal Nacional mantivesse o tempo todo a segmentação de expressão que caracteriza seus 30 segundos iniciais. precisa ser compensada por outras estratégias. Isso significa um objeto que principia com máxima aceleração de expressão. resumos dos fatos mais importantes.obtidas via plano de expressão e as curiosidades despertadas por meio do plano de conteúdo. 109 . na hora da apresentação das manchetes. A tomada de consciência da desaceleração pelo público deve ser entendida como um problema a ser evitado nos noticiários.

110 .70 70 Esse esquema parte de reflexões do semioticista Luiz Tatit (1998). já que a tensão do enunciatário é mais manejável. sons. quanto pelas inteligíveis (e passionais) para obter a atenção. Podemos verificar o seguinte esquema aspectual do plano de expressão e as relações com o plano de conteúdo nos jornais: Descontinuidade – Aviva uma curiosidade sensorial. A menor segmentação do plano de expressão – segmentos mais “durativos” – deve ser compensada por estratégias do plano de conteúdo para manter o sujeito em contato com o jornal. maior a curiosidade despertada pelo conteúdo de uma notícia. Risco: perda da atenção em função da impossibilidade de o público acompanhar a evolução narrativa. que evidencia um enunciador que manipula recursos de expressão e de conteúdo para fabricar uma unidade noticiosa que gere a atenção desejada. ou seja. Tanto um momento acelerado quanto outro desacelerado deve ser tenso. Alguém que vive a disforia de uma curiosidade não sente um texto desacelerado.é o sujeito manter-se atento. Possibilita maior reflexão. apesar de serem bem pouco relevantes do ponto de vista do aprofundamento do conteúdo. Podemos notar a organização de cada jornal e das notícias como um verdadeiro sistema de compensação entre as possibilidades ofertadas tanto pelas estratégias sensíveis. Gera uma sensação de aceleração. a intercalação de subtítulos que divide a fala em assuntos. Trata-se de uma valorização das estratégias de sustentação e de fidelização em relação à de arrebatamento. tenso. a troca de uma curiosidade do nível sensível para outra. pelo menos no nível da expressão. Mostra a valorização da estratégia de arrebatamento em relação às de sustentação e fidelização. relacionada ao querer-saber o conteúdo de uma história. Podemos afirmar que. No limite. O que importa – sempre . impede a inteligibilidade do texto. Risco: perda de atenção por falta de novidade ou por impaciência.estratégia de arrebatamento e a de sustentação. entre muitos outros recursos para torná-la interessante. maiores segmentos o texto poderá ter. no sentido de “vagaroso”. A imposição de descontinuidades renova a curiosidade. Uma longa entrevista do presidente da República pode ser valorizada com a fragmentação da cena. Citemos um exemplo para mostrar esse sistema de complementaridade. ou “desacelerando”. elementos. relacionada com a variação de planos. Continuidade – gera mais contato sujeito/unidade noticiosa. Os acréscimos geram novas informações.

O espaço. das magnitudes manifestadas que dão a conhecer) se caracterizam pela aplicação de várias linguagens de manifestação. Um texto sincrético. cuja organização tem como base o tempo (na TV e no rádio) e o espaço (nos impressos e na Internet) expõe as escolhas enunciativas que relacionam. Floch “as semióticas sincréticas (no sentido de semióticas objetos. como um noticiário. em legendas – e de fotos. Não entendemos.Textualização. em um mesmo objeto jornalístico. no nosso trabalho. a partir das orientações do projeto gráfico do jornal ou da revista. em matérias. uma historieta. fixar os limites de cada unidade. de quadrinhos. quer dizer. e o tempo. Um ‘spot’ publicitário.. diferentes sistemas significantes. depois o som. É importante evidenciar que até agora separamos. a narração. Citamos anteriormente que. do principal resultado desse ato. a partir da textualização. no jornalismo do rádio e da TV são traços das substâncias de expressão das diferentes unidades de um texto que acabam sendo sincretizadas no processo de organização textual. constrói um “todo de sentido”. por assim dizer. Em um diário. nos jornais impressos e nos sites.. fazer uma pequena proposta na tentativa de pensar o funcionamento dessa engrenagem nos textos jornalísticos. a hierarquia entre os elementos.) Afirma-se assim a necessidade – e a possibilidade – de abordar estes objetos como ‘todos’ de significação (.. a cena. Queremos. um telejornal.. uma manifestação cultural ou política são. dentro de 111 . aspectualização e sincretismo O processo de textualização que discutimos até agora. o Jornal Nacional. entre outros. por exemplo.). de charges. (. que também pode ser entendido como um mecanismo de enunciação sincrética. distinguindo as tomadas de câmera.manifestado tipograficamente em títulos. apesar de mobilizar e relacionar elementos de diferentes “linguagens” ou sistemas significantes.” Uma questão não desenvolvida por Floch é como essas “linguagens” ou sistemas de significação se organizam para nos dar a sensação de que estamos diante de um “todo de sentido”. Para o semioticista Francês J-M. a diagramação é o elemento organizador do verbal . Expliquemos. são fotos. por exemplo. a textualização no jornalismo como ato ligado à ação de editar. que diz respeito à neutralização de certas diferenças entre elementos de um texto em favor de uma significação global. o chamado sincretismo semiótico. o verbal manifestado pela tipografia. no caso dos objetos jornalísticos impressos e dos sites. quadrinhos. exemplos de discursos sincréticos. Diagramar é. charges. A manipulação do tempo e do espaço dá pistas de como acontece a neutralização de algumas diferenças entre unidades que são sincretizadas.

que relaciona as unidades apresentado-as uma após a outra ou unidas. por isso. o que ela chama de “gradação da taxa de redundância” (2004: 233). os programas trazem uma ferramenta que é justamente chamada de “linha do tempo”. executada pelo enunciador com a função de manipular o enunciatário dentro da coerção maior de obter atenção e consumo. que produz sentido e.determinados efeitos que se espera obter. músicas. A organização textual. A montagem no radiojornalismo e também no telejornalismo manipula as relações entre unidades a partir das possibilidades ofertadas pela manifestação na linha do tempo. objeto de estudo da semiótica. o próprio Floch sistematizou o sincretismo semiótico como resultado de um plano de expressão que estabelece uma única forma a partir da organização de substâncias de linguagens distintas que geram assim um único todo de sentido. que articula a matéria sensível ou a matéria conceptual produzindo assim a significação”.72 indica modos de pensar o funcionamento do sincretismo nos textos. As páginas se apresentam como lugares de limites claros. O diagramador vai “colando” virtualmente cada pedaço. notadamente de expressão.dentro do efeito argumentativo-persuasivo que se quer obter. matérias. manipula seqüências de falas dos apresentadores. vinhetas. A semiótica se construiu como estudo das formas. Floch (1985: 191) explica que a forma “é a organização invariante e puramente relacional de um plano. O profissional de rádio.71 Podem aparecer justapostas ou separadas. gravações de repórteres. funciona como um grande “adesivo” dos elementos que a compõem. No rádio e na TV. como seu colega diagramador. Essas unidades. Isso é possível porque todos os elementos citados têm uma característica básica. temos o tempo como hierarquizador. Em outras palavras. que examina a questão do sincretismo. o sonoplasta também trabalha com unidades. In Design). a forma (do conteúdo e da expressão) que é significante.que destaca o efeito do texto sobre o enunciatário – e as reflexões sobre o contexto semiótico contribuem para tentar esclarecer o fenômeno do sincretismo sem nenhum rompimento epistemológico ao expor essa passagem das substâncias às formas. parte de seus sentidos submetidos e inter-relacionados com outras unidades em favor do texto maior e mais complexo. 72 Falar em atenção é expor algumas questões da ordem da substância. um após o outro. A página. Acreditamos que a análise narratológica da enunciação . como de rádio e TV (como o Premiere) têm exatamente essa lógica do tempo ou do espaço. o que aparece na tela do computador é uma página virtual cujos elementos podem ser relacionados como se fossem pedaços que vão sendo colados. são relacionadas numa linha de tempo. No primeiro caso. Num programa de radiojornalismo. tanto de impressos (como o PageMaker. É preciso saber “misturar”. como superfícies vazias que vão aos poucos sendo preenchidas por fotos. Quark. notadamente em textos artísticos e midiáticos. 71 112 . Nas mídias de fluxo. no entanto. portanto. por exemplo. assim. “relacionar” as unidades – ou produtos dessas “linguagens” ou conjuntos significantes . portanto. uma após a outra. Lúcia Teixeira. uma forma de expressão semiótica que se manifesta espacialmente. preocupa-se em mostrar que a idéia de “todo de sentido” de um texto sincrético comporta diferentes tipos de integração entre elementos. Anos depois. ela explica que a relação entre Os programas de edição por computador. É. Cada unidade tem. no entanto. títulos.

76 Textos jornalísticos impressos. uma após a outra. títulos e reportagens narram um acontecimento. de relacioná-los a ponto de criarem uma enorme coesão. em alguns casos. Citamos que uma notícia pode ser fracionada de tal maneira que não dê tempo para o enunciatário refletir sobre o assunto e o contexto que a gerou. Inicialmente. haveria uma enunciação para cada sistema envolvido. será fundamental considerar a estratégia enunciativa que sincretiza as diferentes linguagens numa totalidade significante. No caso dos jornais impressos e das revistas.73 Explica Lúcia Teixeira que. uma enunciação única confere ao arranjo das partes e às múltiplas manifestações de linguagem um caráter de unidade. o sincretismo parece ter menor possibilidade de anular certa identidade de um elemento. nesse sentido. portanto. como o do rádio e o da TV.76 A redundância. Numa página de jornal. Bertrand afirmou que quando uma unidade nega o sentido da outra em um mesmo texto. legendas. de um lado. a diagramação que põe em relação um editorial. acontece no tempo . e estruturados a partir do espaço. as cartas de leitores e uma charge pode justamente estar mostrando um choque de pontos de vista.74 numa página em que fotografias. A leitura – que. ao contrário dos publicitários.força o olhar a passar pelas unidades.”75 Vamos pensar essas contribuições a partir da manipulação da atenção.unidades pode causar interações originais. ou introduzir nuances ou correções. o que se considera é a estratégia global de comunicação sincrética que gera o discurso manifestado. preliminarmente. 75 Essa discussão consta do texto Síntese das Discussões do Subgrupo de Trabalho Sincretismo na Mídia – Grupo de Trabalho de Semiótica da ANPOLL. o que pode ser feito de modo contratual ou polêmico. as possibilidades de reiteração e de contraponto são um pouco diferentes em relação aos objetos organizados temporalmente. a idéia de que. Nos objetos organizados temporalmente. num texto sincrético. 73 113 . o efeito pretendido pelo enunciador pode ser o de mostrar-se “democrático”. Em curso na pós-graduação da USP em 2003. Esse adensamento de sentidos em textos organizados a partir do fluxo temporal pode resultar na dessemantização da carga sensorial de um elemento Essa reflexão também é partilhada pelo semioticista francês Denis Bertrand. 74 Em outro nível de análise. como sínteses ou discordâncias. Nos dois casos. não é tão absoluta como em relação. um “efeito estético”. por exemplo. “na análise de um objeto sincrético. é possível ter um controle mais efetivo da inteligibilidade de um texto. às possibilidades ofertadas pelos meios de comunicação nos quais o público tem acesso a uma espécie de “fluxo” que se dá temporalmente. de outro. trabalham pouco com a fusão de elementos. Podemos notar que o enunciador tem possibilidades diversas de dar mais ou menos presença a certos elementos. Rejeita-se. devemos lembrar. no entanto. pode-se obter. por exemplo. pode-se estar reiterando um sentido factual qualquer.

os jornais. se todos esses elementos forem ouvidos ao mesmo tempo. Haverá um efeito “x”.individualmente em favor de uma estratégia global. por exemplo. obviamente. Investe-se na inteligibilidade. que se voltam para cada um dos quatro grupos de jornais. sites e portais) e textos estruturados aspectualmente a partir da temporalidade (caso das TV e rádios). Se o sincretismo está ligado à neutralização de diferenças na manifestação textual. organização textual e aspectualização que acabamos de fazer mostram as vantagens de se pensar os objetos jornalísticos como textos sincréticos organizados aspectualmente a partir da espacialidade (como as revistas. não estamos dizendo que não existe temporalidade nos primeiros e espacialidade nos últimos. como se pode ver. se ouvem primeiramente alguns ruídos que informam. Entretanto. em seguida uma música de fundo (c). Nos próximos estudos. em uma notícia de rádio. tenta-se buscar maior entendimento do processo. podemos observar tipos distintos de sincretização que redundam em textualizações com significados diversos. 77 114 . um adensamento de sentido que provoca menor sensibilização do enunciatário para o reconhecimento das diferenças das unidades. Há um grande investimento na dimensão sensível. depois a voz de um repórter (b). No primeiro exemplo. em outras palavras. temos um efeito global que pode ser descrito como “a” adicionado a “b” adicionado a “c”. No segundo.77 Vale repetir: com isso. Acreditamos que as análises sobre as relações entre sincretismo. está longe de se esgotar. por exemplo. Se. O assunto. o impacto será completamente diferente. a significação vai ficando mais e mais complexa. que se está numa rua movimentada (a). a significação é resultado do relacionamento simultâneo das três unidades no mesmo fragmento de tempo. mas o que é mais determinante para a constituição desses objetos.

115 .

O jornalismo na Internet. Começamos com os impressos . Depois. Essa ordem não é aleatória. adaptadas para a análise do portal. concluímos esta segunda parte com o estudo do portal. também trabalha com unidades textuais de fluxo. realizamos o estudo de cada um dos quatro grupos de jornais: rádio.OBSERVAÇÕES GERAIS Nesta segunda parte do trabalho. desenhos animados. é a vez dos objetos jornalísticos de textualização marcadamente espacial. diversas reflexões dos outros noticiários serão então reutilizadas e. como vídeos. 116 . apesar de ter como base uma textualização de relações espaciais – como os impressos –. Por causa dessa característica. TV. Rádio e TV se incluem em um mesmo segmento. em alguns casos. Finalmente. impressos e portal (Internet). o dos jornais cuja textualização se dá temporalmente.as revistas e os diários. na forma de fluxo.

com transmissão via satélite ininterrupta de programas de jornalismo. E por vários motivos. a CBN caracterizava-se como a maior rede brasileira de emissoras all news.principalmente sobre o gerenciamento do nível de atenção -. jornalismo 24 horas” (2003: 48).O RADIOJORNALISMO A análise específica dos quatro grupos de noticiários começa com o radiojornalismo. nacional e internacional ao mesmo tempo. O Jornal da CBN. que comentaremos depois. São Paulo. no Brasil e no mundo. Para analisar mais de perto o noticiário do rádio. Parte do sistema Globo. estudamos o Jornal da CBN de segunda-feira. notadamente com a inclusão das estratégias afetivas e dos efeitos da modulação de voz de apresentadores. ou seja. de participantes do programa. é composto de vários pedaços “encaixáveis” que 117 . O ato de editar relaciona. Não se pode negar também a dificuldade de os pesquisadores teorizarem sobre o objeto radiofônico de um ponto de vista mais integral. por meio de posições no fluxo temporal. em função da necessidade de ser local. falas. Um é a emissão de alguns programas diários. com destaque para o Jornal da CBN. da captura de Saddam Hussein no Iraque. O assunto de maior destaque foi a repercussão. foi criada em 1º de outubro de 1991 e estava presente nas principais cidades e capitais como Rio de Janeiro. Considerações gerais sobre o radiojornalismo e o Jornal da CBN Barbeiro e Lima lembram que “existem basicamente dois modelos de redes de radiojornalismo. Em 2005. Há várias hipóteses para esse cenário. dos repórteres. testar hipóteses e ilustrar algumas considerações . O radiojornalismo tem ainda uma textualização complexa. geralmente jornais nas pontas do dia. dos âncoras. ruídos. músicas. silêncios. efeitos sonoros. A mais evidente é o desprestígio do rádio e do radiojornalismo. Consideramos o jornal de rádio o objeto mais desafiador deste trabalho. 15 de dezembro de 2003. o outro é o modelo all news. Existem poucos estudos sobre o assunto para servir de apoio. Belo Horizonte e Brasília.

mas com notícias de interesse geral. em um mesmo horário.globo/cbn). feita na Capital Paulista para todas as afiliadas.o Jornal da CBN cria um grande efeito de proximidade. Há publicidade de carros blindados. portanto. cuidando pessoalmente ou participando da elaboração do texto das informações e apresentando-as. na qual se destaca o trabalho do âncora Heródoto Barbeiro.78 Existem.79 O âncora Heródoto Barbeiro comandava o Jornal da CBN no “horário nobre” da rádio. inclusive publicitários. 78 118 . portanto. é utilizado na rádio CBN (consta do site do jornal: radioclick. E numa sociedade que valoriza também a “visualidade”. acima de 30 anos. o rádio só O âncora. marcada pela oralidade – que remete ao analfabetismo . No site da rádio. regionais. Há programa também aos sábados e domingos. as afiliadas têm duas alternativas. das 6 às 9h30.geram programas adaptados a áreas específicas. Meditsch (2001) lembra em sua obra dedicada ao rádio que esse meio de comunicação é geralmente relacionado a uma forma de cultura “inferior”.em oposição à escrita. os jornalistas da rádio calculam que 150 mil ouvintes estão sintonizados de minuto a minuto. de companhias aéreas. Os jornalistas da emissora apelidaram esse público indistintamente de “gerente”. Vale lembrar que a audiência tem enorme rotatividade. um programa “popular”. cada um adequado a um público específico. Há uma parte nacional. segundo o Dicionário Houaiss. Há. mostra todos os segmentos do programa. no entanto. no final desta parte do trabalho. gerado simultaneamente do mesmo estúdio em São Paulo. Essa característica de o Jornal da CBN ser um noticiário para os chamados formadores de opinião deve ser ressaltada. Durante a semana. economicamente ativos. Ou inserir notícias de produção própria. O ouvinte desconhece essa segmentação. Uma das conseqüências é o menor número de entrevistas ao vivo. Podem escolher um outro sinal. Quando entra a programação local paulista. O objeto de estudo não é. O programa examinado neste trabalho é uma “soma” da parte nacional com a que se refere aos acontecimentos da Grande São Paulo. de segunda a sexta. 79 Informações prestadas por Leonardo Stamillo – chefe de reportagem da Rádio CBN. afirmava-se que a CBN era direcionada para ouvintes das classes AB. de intimidade. freqüentemente com comentários opinativos”. A tabela 1. de oportunidades empresariais. Nas áreas onde há geração de programação local – como em certas capitais . vários Jornais da CBN. pois parece valorizar tudo o que acontece onde a vida dos ouvintes se desenrola. Por meio da tabela é possível observar e confirmar as características desses ouvintes também pelos anúncios. pedaços “locais”. com um rodízio de âncoras. é “o profissional de jornalismo televisivo que centraliza a emissão nos noticiários. O termo. Somente um terço da equipe trabalha nesses dias. mas a estrutura do final de semana é diferente. com o mesmo sentido. das 6 às 9h.

como normalmente o faz. Trata-se de característica marcante do texto jornalístico de meios de comunicação de fluxo. no qual os escritores Artur Xexéu Uma notável discussão dos preconceitos. emissor e receptor estão separados pelo tempo e o contexto não é compartilhado por eles. como o rádio e a TV. como outros que parecem ser produzidos em outros locais. ou ainda combinando estes dois elementos. obedece a uma série de convenções que o tornam manejável. o rádio transmite sempre no presente individual do seu ouvinte e no presente social em que está inserido. Esse é outro motivo da existência de um pequeno número de análises disponíveis sobre o assunto. Meditsch acredita que o radiojornalismo só tem sentido se analisado como “dando-se no discurso”. produzirá um texto fonográfico: “Seja transmitindo em direto. No Jornal da CBN. Há desde programetes realizados durante o próprio programa. A sensação de “tempo real” A sensação que o Jornal da CBN passa para o seu ouvinte é a de que é produzido no mesmo momento em que é apresentado. ou seja. como Meditsch. por exemplo. qualquer sensação de “tempo real” no radiojornalismo é tratada como efeito do discurso. 80 119 . seja transmitindo em diferido um produto fonográfico que assim atualiza. se retirado do seu contexto. como um sistema semiótico complexo... desconhecimentos e reducionismos que cercam o radiojornalismo pode ser encontrada no exaustivo levantamento de Eduardo Meditsch O rádio na era da informação – teoria e técnica do novo radiojornalismo. na CBN. acreditamos. a música e os efeitos sonoros ou ruídos. com começo. assim como a definição e o papel da cada um dos subsistemas dentro dele. designam certos quadros que têm “vida própria”. O funcionamento do sistema como um todo. 81 Programetes. Ao contrário. teoricamente. num contexto intersubjetivo compartilhado entre emissor e receptor: num tempo real. socialmente compartilhável. há um “programete”81 chamado “Liberdade de Expressão”.” Para a teoria semiótica. na fonografia. como o “Notícias da BBC Brasil”. 80 Para fazer o exame do programa.)” (2001:149). inclusive por meio de vinhetas. e desta forma eficaz e inteligível (.poderia acabar mesmo na situação de o menos estudado dos meios de comunicação de massa. que é preciso dar conta da emissão viva e vibrante do radiojornalismo: “A linguagem auditiva do rádio pode ser delimitada. Trata-se de uma das obras que foram guias desta parte do trabalho e que se incluem naquele quinto tipo de estudo que citamos no início: o que busca uma visão menos fragmentada do fenômeno jornalístico. meio e fim bem determinados. composto por subsistemas tais como a palavra. Uma característica do programete é poder ser reprisado em diversos momentos da programação da rádio. como no cinema. Caso contrário. como o “Linha Aberta” (de análise econômica) e o “Liberdade de Expressão”.

O rádio. que cita trabalhos de diversos autores para mostrar como o limite de conservação do tempo de atenção do ouvinte do rádio é cada vez menor. O próprio Heródoto Barbeiro. Os profissionais devem colocar no ar um programa com enorme número de apelos para competir com outras atividades 120 . realizada simultaneamente a outras atividades com que divide a atenção. ou boa-tarde. Na década de 50. quando a reportagem está gravada. Eles trocam um “olá” no primeiro contato com o âncora Heródoto Barbeiro. no sentido de mobilizar uma atenção absoluta do enunciatário. ressalte-se. optou-se por não simular o ao vivo. ao ponto dela ser repetida sistematicamente no rádio e ganhar caracteres na TV. segundo Meditsch. E a segunda edição ficaria “velha”. Nos jornais organizados temporalmente. está mais esquivo. “A recepção desse discurso é. não é uma mídia absorvente e excludente. mesmo sabendo-se que essa expressão confere aos veículos de comunicação credibilidade. Se falassem “bom-dia”. a aspectualização do plano de expressão (por meio da categoria durativo x pontual) e os semi-simbolismos manejados pela textualização são pensados para obter sempre mais audiência. Assim.” A organização textual e a oscilação entre o ouvir e o escutar O rádio (e também a TV) caracteriza-se por apresentar uma textualização manifestada a partir da ordenação e da hierarquização de elementos no fluxo temporal. como de qualquer jornal. 251). O público. muitas emissoras trabalhavam “com a hipótese de que a atenção média pode se manter por três minutos. esclarece algumas possibilidades. caracterizadamente. e banir o bom-dia. explicitariam o momento de produção do discurso. no prefácio do livro de Medistch.e Carlos Heitor Cony comentam notícias. efeitos e conseqüências dessas estratégias: “Na CBN. e algumas reduziram essa estimativa para 90 segundos” (2001: 183). nas reportagens gravadas para dar a impressão ao ouvinte de que a matéria é ao vivo. além do zoom auditivo entre o ouvir e o escutar. uma atividade secundária do ouvinte. Pesquisas posteriores observaram que o tempo tinha caído para oito minutos na década de 60 e para quatro minutos na de 70. A razão é simples: o mesmo fragmento é exibido durante a tarde. O mesmo autor lembra que há uma oscilação permanente de recepção entre o ouvir (nível pré-consciente) e o escutar (intencionado) do público. como os impressos. Nos anos 90. O jogo de mostra-esconde desses marcos temporais é uma característica importante não só da linguagem radiofônica. que também é teórico do assunto. a recepção do rádio é caracterizada por um zapping perceptivo entre essa atividade e a principal” (idem. porém. a RAI fez uma pesquisa na Itália e constatou que esse tempo era de 15 minutos.

“fisgada”. sustentação e fidelização que são possíveis no rádio. uma descontinuidade é tanto uma baixa estimulação sonora após muito barulho como o inverso. que não podem valorizar da mesma maneira todas as notícias. sentida pelo ouvinte como uma pequena surpresa. entrada de vinhetas. No rádio. alternância de vozes. entretanto. Relembremos que manipular aspectualmente o texto é também um meio de impedir ou permitir o exercício da reflexão. mostra irritação e abandona um tom mais ameno. o que vai acontecer no instante seguinte. no nível da unidade. 82 Vinheta. criaram ao microfone grandes variações no modo de falar para não perder a atenção do ouvinte. em cada segmento. com o objetivo de identificar o programa. Fracionar um texto é administrar sua inteligibilidade. Para o destinatário. principalmente a partir da quebra de continuidade entre unidades (como a passagem de uma voz do âncora para a do repórter em segmentos muito curtos) e. encerramento ou reinício de programa de rádio ou TV. no Aurélio. não é uma fórmula mágica. A segmentação. O que é mais perceptível para o ouvido é a passagem entre dois tipos de sons distintos. O público julga e interpreta o que os profissionais do rádio lhe propõem em uma velocidade que só rivaliza com a de um site de notícias na Internet. Portanto. O excesso de descontinuidades do plano de expressão. cada imposição de uma descontinuidade tira partido dessa renovação. É a estratégia de arrebatamento. no entanto. Os jornalistas sabem. de recursos sonoros impuseram mais de 600 segmentações no espaço de menos de três horas e meia do programa. Na edição do Jornal da CBN analisada. além da de arrebatar a atenção. O simulacro de enunciatário pensado pelo enunciador é de alguém que não escuta o programa com a cabeça vazia. E isso a partir das estratégias de arrebatamento. por alterações bruscas. Isso sem contar a própria locução dos profissionais da rádio que. a atenção é arrebatada.realizadas pelo enunciatário e ganhar a atenção dele. Foi apontado que a primeira imposição da curiosidade (querer-saber) ao público-alvo se vincula fortemente ao manejo dos aspectos sensíveis do texto por meio da aspectualização. contudo.82 de publicidades. o que surge pode ser sempre algo do maior interesse. No rádio. tem outras funções. Do ponto de vista sonoro. mesmo com a existência de partes fixas. em determinado momento. a estação ou o patrocinador”. ou a quebra de continuidade entre unidades em média a cada 20 segundos (ver Tabela 1). como um entrevistado que. 121 . é a “chamada de curta duração utilizada em abertura. ao impor uma dimensão mais sensível em diversos momentos. os profissionais se aproveitam ao máximo da impossibilidade de o público prever as seqüências. inclusive sobre a própria notícia e as escolhas do enunciador. cada mudança.

a astúcia do âncora: ele só não faz interrupções quando um entrevistado desenvolve uma fala de grande interesse em função da apresentação de novidades. O silêncio. Ao imaginar interrupções com perguntas do gênero ‘o quê?’. dos analistas. nesse ponto. se bem utilizado. A curiosidade. É o que chamamos de pausa de tensão que prepara uma palavra importante. gera dispersão e aceleração do discurso. ressalte-se. Possibilita maior reflexão. a entrevista. o silêncio.Como lembra Tatit (1998:22). Outros segmentos que chegam a mais de um minuto dizem respeito a histórias enviadas por ouvintes e comentadas pelo âncora. tem duas funções. Há sempre risco de perda da evolução narrativa. dos comentaristas. Este ouvinte a todo momento o interrompe para fazer perguntas. a partir das relações que estabelece com outras unidades do texto radiofônico. ou seja. foi um dos momentos do programa com os maiores segmentos. O Manual da Jovem Pan detalha esse efeito – ao relacionar a curiosidade do ouvinte. análises. ex-docente da ECA/USP: “Para enfatizar as palavras importantes. a tensão e a atenção – por meio de depoimento da professora de dicção e oratória Maria José de Carvalho. Mas há também situações nas quais nada acontecer tem sentido. principalmente da história da notícia. obtido o querer-saber por via do conteúdo. permite mais contato sujeito/notícia. ‘onde?’. Fica evidente que. Há um fragmento sobre a captura de Saddam que dura 45 segundos na parte inicial do programa. O excesso de continuidade. A primeira é de valorizar conteúdos. relatos. ‘por quê?’. de apresentação das principais chamadas. porém. na orientação de Maria José de Carvalho aos jornalistas. conhecidas. dos jornalistas. não devemos aumentar o volume da voz.mobiliza ainda outros recursos no rádio. etc. o locutor faz uma pausa de tensão. da utilização do humor. da perspicácia da análise. Não sem razão. Percebe-se. que os profissionais devem tirar proveito da curiosidade do ouvinte quando sentem que ele já está passionalmente envolvido com uma unidade noticiosa. Um dos mais poderosos. Nota-se. importante para a expressão” (1986:79). São momentos em que prevalecem as vozes institucionais. principalmente a divulgada como acontecendo “ao vivo”. que possibilita a concentração da atenção no que será dito a seguir. O locutor deve sempre imaginar um ouvinte ativo. Um entrevistado pode demorar um tempo para responder a uma pergunta que 122 . por outro lado. de unidades mais duradouras. é manejada via plano de conteúdo (estratégias de sustentação e fidelização) e não pelo plano de expressão (estratégia de arrebatamento). interlocutor. não é necessária grande variação de expressão por um certo período. informando a importância do que se apresenta no fluxo sonoro. é a pausa na locução. A atenção obtida via curiosidade para o conteúdo da notícia – estratégia de sustentação .

o jogo que se estabelece na organização textual do Jornal da CBN é o seguinte: o grande número de segmentações. mas com certos andamentos. um querer-saber.estratégia de arrebatamento . o público é “chacoalhado” novamente. Quando essa ligação tende a se afrouxar. Relembremos que a estratégia de sustentação se vale principalmente da capacidade de certos aspectos da notícia provocarem uma disforia no ouvinte. De um ponto de vista geral. Em outras palavras. são importantes no rádio. como o silêncio retórico. Se a alta estimulação de alguns momentos do programa.tem a função de despertar a atenção do ouvinte durante o fluxo noticioso. o excesso de continuidade pode desacelerar demais o discurso. faz com que cada programa crie seu próprio ritmo a partir do que os jornalistas avaliem como mais eficaz na maneira de obter audiência.o texto pode ter uma segmentação menor. Ouvir alguém falando continuamente cria problemas. em outros esse mesmo estado ocorre por meio da pausa de tensão. “A relação do ritmo musical com a edição radiofônica não é apenas retórica. assim como os jornais de outros veículos que estudamos neste trabalho. A edição de fato determina o ritmo do programa. Obtida a curiosidade para a história da notícia – estratégia de sustentação . monopoliza a atenção. relacionada ao querer-saber o conteúdo de uma história. como um segmento que dura. Alguém que vive a disforia de uma curiosidade não sente um texto desacelerando em função dos segmentos mais longos. O texto radiofônico se constrói tal qual uma música. Nesse caso.83 O que se observa. manter determinado laço. a troca de uma curiosidade do nível sensível para outra. do silêncio retórico. Descontinuidades. Pode trazer monotonia e perda de atenção por falta de novidade. é que o jornal. de variações e combinações entre elementos . Por isso é que se tenta fazer uma passagem bem-sucedida entre a estratégia de arrebatamento e a de sustentação. mesmo assim. é um problema no jornalismo. este é ainda um aspecto musical da linguagem radiofônica mais presente para os seus profissionais” (Meditsch. pode ser interpretado pelo ouvinte como um momento de elaboração de uma desculpa. 83 123 . por exemplo. entre segmentos que duram e outros mais pontuais. Essa é a principal característica de ritmo textual do programa. Como afirma Tatit. no entanto. portanto. deixa o enunciatário tenso. pode diminuir a estimulação e.o embaraça. vamos insistir. Esse jogo aspectual. ou seja. que para ser satisfeito. o Jornal da CBN começa com a apresentação das A tomada de consciência da desaceleração textual pelo público. esse silêncio. sem direção e. 2001: 161). do suspense. entre continuidades e descontinuidades. Ainda que a maior parte dos programas tenha o seu ritmo determinado de maneira mais instintiva do que consciente. uma vez tendo despertado seu ouvinte. que pode ficar “sem metas. sem sentido” (1998: 22).

o verbal oral. O modo de falar também é parte importante da estratégia de fidelização. em análise da locução do futebol. podemos observar como o Jornal da CBN é pensado muito mais para um enunciatário que ouve apenas algumas partes. apresentadores e repórteres é um grande desafio a ser vencido no entendimento do radiojornalismo. que manipula o dial e chega em pleno andamento do programa. como barulhos de carro captados numa reportagem na rua). sob um fundo musical que também acelera o discurso. a fala do âncora administra outras falas. pensamos a estrutura do noticiário do ponto de vista de um ouvinte que acompanha o programa do começo ao fim. relacionando seus sistemas significantes verbal e musical com elementos importantes dessa forma de comunicação. pela organização temporal do plano de expressão. geralmente com uma canção que ironiza uma notícia e seus personagens. como também cede e controla a voz de outros enunciadores. como os ruídos e os efeitos sonoros. e termina quase sempre com humor. Há leitura de textos curtos. dos comentaristas. Uma voz conhecida no rádio gera um sentido de “familiaridade”. Entre esses dois extremos existe até um “refrão”: a reapresentação das “notícias mais importantes” a cada meia hora. O estudo dos efeitos da fala dos âncoras. dos redatores.como a base desse complexo discurso marcado. de um tempo reconhecível como o do cotidiano. rápida. músicas. Carmo Júnior (2004: 141). mais do que em função das vinhetas. Consideramos a locução – notadamente a fala do âncora . como já vimos. outros sons que tanto podem ser efeitos de sonoplastia como a conseqüência involuntária da própria produção do texto. entre os objetos aqui estudados. Essas unidades são hierarquizadas e manejadas dentro de um fluxo por meio da montagem.84 No trecho anterior. ele se integra ao noticiário graças ao reconhecimento da voz do âncora. numa locução tensa. Um programa de rádio é uma sucessão de elementos (vozes. Ele não apenas apresenta e discute as principais notícias. chama o locutor esportivo de “encenador vocal”. termo que é possível ampliar para descrever o O jornal de rádio. relaxando um pouco nos instantes finais. A locução como elemento organizador Vamos analisar agora como o Jornal da CBN estrutura-se de um ponto de vista mais específico.principais chamadas. Inicialmente. No entanto. 84 124 . No Jornal da CBN. em tese. tanto profissionais como entrevistados. ser apresentado somente por meio de uma linguagem. Trata-se do Repórter CBN. dos repórteres. é o único que poderia. na busca de tensão.

como lembram Ducrot e Todorov (1972: 172). como os clientes pedem um café em uma padaria lotada. ao utilizar as mesmas palavras. “é a percepção que se tem de seu tempo de emissão.85 Pode-se notar. em fonética e fonologia. onde o serviço se mostra lento. por exemplo. como se o modo humilde do pedido fosse uma maneira de ele comunicar que compreende que o atendente está com serviço demais. por exemplo. e a mínima para o ‘i’ e para o ‘u’. as mais fechadas. a vogal mais aberta. É pelo timbre que distingue a voz de uma pessoa da voz de outra. um café” pode ser dita por alguém que queira sobrepor ao seu pedido o seguinte significado: “Eu não agüento mais esperar”. Muitos candidatos aos palcos fazem exercícios nos quais aprendem a dizer “algo a mais”. Armand Balsere (apup Meditsch. utilizar os recursos prosódicos. que envolvem o timbre. Um tom irritado (que enfatiza. a altura. Uma mesma frase – do 85 Referimo-nos aqui às técnicas para atores de Constantin Stanislavski. O timbre é efeito ou qualidade acústica que se obtém a partir dos diversos graus de abertura da cavidade bucal. a partir das mesmíssimas palavras. a intensidade e a duração. ensinam Ducrot e Todorov. A intensidade de um som vincula-se ao grau de força com que o som da fala é proferido. Percebe-se diferentes “subtextos” nesses dois casos. A oralidade dos âncoras acresce efeitos de expressão ao verbal escrito. Ou ainda por outro cliente que. médio e grave. dificilmente obtém-se uma tensão constante dos órgãos da fonação. em uma altura e intensidade pouco usual para a situação) mostra estratégias de enunciação que se valem da riqueza das possibilidades de entonação. 2001: 191) diz que esse segundo significado é próximo da idéia de “subtexto” do teatro. “componentes em geral reconhecidos nos estudos dos sons da linguagem”. e geralmente se assiste a uma modificação da qualidade de um som prolongado” (1972: 172). O estudo da modulação de voz é fundamental para entender como um fragmento de notícia pode ser desvalorizado ou valorizado pela maneira de o apresentador. a duração das sílabas e da frase. com significados distintos. isto é. é preciso apresentar algumas dessas possibilidades de efeitos da fala. por exemplo. A altura de um som é. 125 . A mesma frase: “Por favor.trabalho principalmente dos âncoras do radiojornalismo. da distância entre a língua e o céu da boca. A duração de um som. capricha no sentido de súplica. ao roteiro que é lido pelos jornalistas. ou agudo. No que se refere aos sons da fala. Essa distância é a máxima possível para o ‘a’. Antes de seguir em frente. a qualidade do som da fala relacionada com a freqüência das vibrações que têm como resultado o agudo e grave. O subtexto é resultado de uma complexa relação entre expressão e conteúdo.

“As sonoras devem ser o mais opinativas possíveis. O depoimento que termina com a entonação ‘para cima’. Quem opina é o entrevistado. A regra básica é dar sentido à fala. no entanto.ponto de vista do registro escrito . tudo é planejado de modo a parecer que não se subvertem certas coerções do jornalismo. que o café seja servido. O editor não opina no texto.. como destinador. dá a impressão de que o entrevistado foi cortado antes de completar o pensamento ou que foi alvo de censura” (..). destinatário. investe na intimidação (dever-fazer). Ao mesmo tempo. objetivo. Alguém que dá uma ríspida saudação também mostra uma outra característica notável de jogo entre o dito e o efeito proporcionado via entonação: um desacordo entre esses dois níveis da fala. efeitos de sentido afetivos que cumprem uma missão persuasivoargumentativa. Por essa afirmação. uma “sonora” – trecho gravado de entrevista . Barbeiro e Lima. além de desagradável. na sedução (querer-fazer) do balconista. no segundo. Há “acentos de expressividade” (Drucot e Todorov. uma notícia é composta de uma parte feita na redação.as sonoras – 126 . Notamos um caso mais comum no Jornal da CBN. Sonoras opinativas são sempre mais contundentes e chamam mais a atenção do ouvinte” (. o que se deseja é a realização de um ato. Isso significa que a notícia vai sendo exposta como “julgada” pelo enunciador. No primeiro exemplo. Podemos observar cotidianamente diversos exemplos de “acréscimos” de sentido por meio do uso dos recursos prosódicos. em seguida. Esse recurso euforiza ou disforiza o conteúdo das notícias em alguns momentos.que faz parte da notícia. no seu Manual de Radiojornalismo. O sentido primeiro. 1972: 175) que incidem em certas partes da emissão da notícia (uma administração de recursos de intensidade. o cliente da padaria. Um choro. da altura e da duração da voz). Um empregado pode prever como será sua jornada pela entonação do bom-dia do chefe. O contexto e o enredo devem estar no texto redigido pelo editor. uma gargalhada ou uma frase em tom de desabafo às vezes dizem mais do que uma declaração de 50 segundos” (2003:79). É o âncora que mais “sente” a notícia (modulando a voz) e tenta fazer com que o ouvinte partilhe desse tipo de sanção. É comum ouvirmos o âncora e. lida pelo locutor ou apresentada e comentada pelos repórteres. como a de manter distanciamento em relação às notícias apresentadas.. não foi prejudicado. encaixada em um universo de valores. de conteúdo imparcial. Em seguida.) “Sonoras que contêm emoção também rendem boas edições. A sonora deve terminar com a entonação ‘para baixo’. que se apresenta como outra especificidade do programa. a edição final adiciona os trechos gravados .se abre para estratégias de manipulação distintas na fala e. Nos dois casos. vale notar.. ensinam: “Os pontos ideais para os cortes e emendas são descobertos pelo editor com a prática e a sensibilidade.

Outro ponto que ajuda nesse efeito é o próprio sentido de “concretude discursiva” que a sonora apresenta. recurso comum no jornalismo. Uma tensão crescente ou decrescente da voz (fenômeno de intensidade de emissão. de sua voz. A interpretação sobre a enunciação – ou seja. O ouvinte parece ficar diante do “entrevistado”. ou seja. o que determina uma valorização em relação a outras. sem esses mesmos recursos de entonação. dos repórteres e até mesmo dos entrevistados. Há sonoras com os expulsos e também com os membros do partido que votaram pelo desligamento dos 127 . A apresentação da unidade noticiosa pode ser feita numa intensidade e numa altura maiores e numa duração mais rápida. notadamente por meio de uma desembreagem actancial enunciva.que devem servir como contraponto. A justificativa é que apresentam um conteúdo aparentemente mais impessoal. o âncora Heródoto Barbeiro apresenta a notícia da expulsão dos “radicais do PT”. ou seja. como discutimos no início do trabalho ao mostrar três versões distintas de jornais impressos em relação à visita de Lula a São Bernardo. mas podem eximir-se delas. que está por trás do subtexto do programa e das possibilidades ofertadas pela riqueza prosódica. e não de um fragmento cuidadosamente editado para se adequar a uma lógica de busca de audiência e de reafirmação de valores do enunciador. Os jornalistas levam o ouvinte a determinadas interpretações. Lembremos. mas que também pode incluir variação de duração e altura da fala) sobre certos detalhes pode conferir mais proximidade ou distanciamento afetivo que o locutor encena e espera que seja compartilhado pelo público. contendo valores que trafegam entre a repulsa e a atração na visão de mundo do enunciador. que a “pinchagem” e a montagem dos “fatos” para compor a notícia só têm sentido a partir de uma ideologia. sobre a forma de dizer do enunciador –. Do ponto de vista semiótico. No programa analisado. o uso da terceira pessoa nas frases. mais evidenciadas nas sonoras. o ouvinte toma contato com unidades que já se apresentam “sensibilizadas”. seu estado emocional. essas sugestões referem-se muito mais aos “efeitos” que se quer obter. no final das contas. sem certas marcas de subjetividade. A notícia aparece na forma de sucessão de fatos. aparece como de responsabilidade exclusiva do enunciatário. por exemplo. A idéia de “dizer sem dizer”. A encenação vocal é realizada a partir desse conteúdo editorial mais objetivado. tem assim grande valor para um jornalismo que precisa se expor como objetivo e imparcial. Essas escolhas sempre expõem a visão de mundo do enunciador. Por meio do movimento de entonação dos locutores. É comum na CBN. a locução se fazer a partir de um conteúdo verbal mais “objetivado”. inicialmente. em que aparece a subjetividade do entrevistado.

no entanto. a “algoz”. a frase “os infiéis tomaram outro caminho dentro do partido e irão se arrepender no futuro”. O âncora ainda desacelera o final de sua fala. de Aloísio Mercadante. Teoricamente. entre outras conseqüências. na apresentação das notícias. como a Eldorado. por exemplo. coloca acentos de expressividade em pontos bem determinados. é preciso salientar ainda que a maior parte da informação do rádio é lida pelos seus profissionais.parlamentares. podemos verificar a existência de uma fala mais sóbria (menor modulação).. por meio da entonação. a encenação vocal é uma coerção cada vez maior dessa forma de jornalismo. É notável ainda que a última afirmação de Heródoto não se confirma na fala do deputado petista. padrão de algumas rádios informativas. Todos esses recursos prosódicos ridicularizam a sonora que vem a seguir. partiram para construir um outro partido. de bela voz e que pouco modula a fala. Pode haver perda de atenção do ouvinte. O ouvinte. Depois enfatiza. é uma visão de partido. nesse sentido “sancionador”. a busca de um jeito neutro para apresentar as notícias é sempre um risco considerável. Dá grande destaque. Laerte Vieira. Essa intencionalidade evidente do enunciador faz pensar sobre a opção de uma fala neutra na apresentação de conteúdos jornalísticos. o líder do governo no Senado. O próprio Jornal da CBN tem um locutor “à moda antiga”. foi algoz dos radicais do PT durante a reunião do diretório. Nesse momento. Aluízio Mercadante. O senador afirmou que “os infiéis tomaram outro caminho dentro do partido e irão se arrepender no futuro”: Mercadante: “A divergência de fundo é um problema. Mercadante. o que é legítimo. Pode-se observar o efeito pretendido de imparcialidade. não tem tempo de realizar essa associação em função do ritmo da sucessão de falas. Nessa discussão sobre os efeitos da fala. é comum haver no rádio um texto escrito realizado oralmente que. 128 . No entanto. Heródoto: “Grande articulador no Congresso durante as reformas. trabalha cuidadosamente sua entonação. não estratégico. fazendo as vogais durarem. imita o timbre de um ator canastra de um filme de quinta categoria. não apresenta uma série de características da fala cotidiana.. Tudo indica que. E alguns. Como lembra Barros (2000: 74). Ele ressalta determinados conteúdos. ou de citar as diferentes versões. Sempre achou. Um setor da esquerda sempre achou o PT como (sic) um partido tático. nessa sonora. não fez nenhuma ameaça.” Heródoto. como o próprio PSTU. no rádio brasileiro. entretanto. aumentando ainda a intensidade e a altura da fala nesse momento. o que aumentaria o efeito de objetividade. no passado.

ligadas às segmentações do radiojornal. O programa cria assim um grande efeito de proximidade com o público.As de prefixo. um fazer crer na existência de um determinado nível de improvisação. Essa é a razão dos manuais de rádio. pausas. ruídos e a relação com a fala Mostramos alguns aspectos superficiais da locução. efeitos sonoros.como reformulações. É momento de investigar o papel da música. que partilha das gozações que quebram a “seriedade” das falas em alguns momentos.A música é parte essencial das vinhetas. O enunciatário. portanto. Sabemos que a oralidade dos profissionais do rádio é uma “espontaneidade treinada”. Em outras palavras. como se estivesse falando de improviso” (1986: 78). No entanto. as composições musicais têm quatro grandes possibilidades de aplicação: 1. por exemplo. Entretanto. Ele cria assim um sentido de “aspas” sonoras. o âncora Heródoto Barbeiro comenta jornais. Na análise do Jornal da CBN é possível notar que existem diferentes gradações na forma de modular a voz. os profissionais do radiojornalismo têm de enfrentar outra coerção: criar a sensação de que estão em pleno diálogo com o ouvinte. 129 . dos efeitos sonoros e dos ruídos. hesitações. E vice-versa. entre outras instruções para os locutores. O Manual de Radiojornalismo da Jovem Pan. como o “Liberdade de Expressão”. os ruídos e a música. uma unidade em si mesma sincrética.As que caracterizam o começo e o fim dos programetes. se tivermos em conta que as falhas. pausas. troca de informações não planejadas entre os próprios jornalistas. b. por exemplo. ou e-mails de ouvintes. No jornal da CBN. para dar a impressão da fragmentação típica da fala. ressalta: “Leia naturalmente. o jornalista separa sua enunciação de outra. Podemos observar dois tipos: a . Há brincadeiras. num tom que se contrapõe à apresentação de notícias. que relaciona o discurso oral. é mostrado como um “igual”. um amigo. e deixa claro que está lendo. redundâncias são marcas da fala menos premeditada. pode-se observar no Jornal da CBN um grande espaço para essa manifestação. e também de TV. e não lendo algum texto. frases incompletas. Em alguns momentos. retomadas. Música. comentários a partir das discussões com entrevistados. É muito comum Heródoto fazer graça com a derrota do time de um repórter. entendida como elemento que constrói a lógica do programa. insistirem na construção da informação em frases curtas.

O Jornal da CBN tem um trilha sonora (que não deve ser confundida com a vinheta) utilizada na apresentação e na valorização das chamadas em certos momentos da programação. portanto. instauram maior sentido de realidade por fazer com que os ouvintes reconheçam sons do cotidiano. Entra sonora de Paul Bremen: “Ladys and gentlemen. que não pode deixar de dar estímulos ao ouvinte sob pena de perdê-lo. à evocação de experiências anteriores – estratégia de fidelização. we got him”. Os ruídos. Trata-se de uma utilidade específica da música no Jornal da CBN. principalmente de locais onde os repórteres afirmam narrar. principalmente a fala do âncora.As vinhetas impõem descontinuidades na programação. Já os ruídos são interpretados como incidentais. o ouvinte pode localizar em que parte do fluxo radiofônico se encontra. que a prisão do ditador foi “anunciada com polpa e circunstância pelo administrador do Iraque. locutor ou repórter. 4 – Preenchimento do silêncio. A música dá a idéia de que o programa evolui mesmo quando não existe outro som. barulhos e interferências dão “concretude” ao discurso. Também criam um meio mais eficaz de reconhecimento. em tom de galhofa. Em uma mídia de fluxo. Por meio das vinhetas. Estudemos agora os efeitos sonoros e os ruídos. via manipulação sensorial do ouvinte. que analisaremos em seguida. a missão de arrebatar ou manter a atenção dos ouvintes. ou seja. portanto. Outro aspecto sempre destacado por diversos 130 . No Jornal da CBN. Estamos chamando de efeitos sonoros certos tipos de sons que os ouvintes acreditam que são manipulados em um estúdio. a idéia de que certas notícias são mais importantes e merecem mais atenção. vale a pena salientar o papel desses recursos na estratégia de arrebatamento. projetando. uma reportagem foi produzida em algum local fora do estúdio e os barulhos acabaram fazendo parte da gravação. 2 – A música sobredetermina conteúdos. dentro da estratégia de impedir qualquer possibilidade de monotonia discursiva. previamente gravados. há importantes efeitos de realidade. Antes. em que se ouve o som do helicóptero no momento em que a jornalista comenta o trânsito. 3 – Fechamento do programa com bom humor. um apelo à memória. se ouve o refrão de uma canção infantil: “Sou invencível/ somos amigos/unidos venceremos a semente do mal/Eu tenho a força/ sou invencível”. Nos dois casos. Em seguida. Paul Bremen”. ruído e efeitos sonoros cumprem bem a função de serem mais um meio de criar descontinuidades e de buscar a atenção do enunciatário. Têm. Há. A notícia é ironizada. É o caso do Repórter Aéreo CBN. No caso do programa analisado. o âncora Heródoto Barbeiro diz.

por isso mesmo. Com os efeitos sonoros.sugere maior valor afetivo da notícia. os ruídos. envolvido depois pelas manchetes. (Dito de outro modo. A fala.autores é que a baixa qualidade de emissão do som. da passividade para a atividade. e sobreposição. Já os efeitos sonoros têm grande utilidade no programa. deve ficar com vontade de saber o que motivou os acontecimentos citados. mais verdadeiro. Analisemos agora a relação entre a música. mais organizada. nunca a um estado: “A existência do som depende de 131 . ou seja. aparece acelerada: maior altura e intensidade. com interferências de todo o tipo. para que ele passe do vínculo do “ouvir” para o do “escutar”. menor duração na emissão das sílabas. editado e. ou em background – BG. Um dos mais ouvidos é um “tchom”. a voz humana não consegue chegar aos graves e agudos de diversos instrumentos musicais. mudanças de vozes entre jornalistas. o que soa para o ouvinte como algo menos mediado. quando se tenta despertar o ouvinte. nesses momentos. é o de sempre remeter a uma ação. uma alternância entre subposição. Nesse sentido. O manejo de recursos do plano de expressão deve produzir um ouvinte tenso que. buzinas de veículos. Além desse outro caso de concretude. Certos sons também podem adensar a emissão a ponto de impor uma modulação em relação à voz dos apresentadores. no fundo. O programa. de sentido de realidade. os efeitos sonoros e a fala no rádio. Nota-se a estratégia de arrebatamento. Durante a apresentação das manchetes. como lembra Meditsch. É a passagem da estratégia de arrebatamento para a de sustentação. O repórter parece estar em uma situação sem grandes possibilidades de controle. Temos um outro sistema semi-simbólico. Aparecem em vinhetas. principalmente a do âncora. tem como principal característica discursiva apresentar uma reunião de todos os seus recursos expressivos. com apresentação de manchetes. utilizado antes da apresentação da hora certa. Deve-se observar que existem momentos de maior imposição da atenção. Isso quer dizer que o Jornal da CBN é manifestado por um grande número de estímulos por segundo. que o faz parecer acelerado. o ouvinte também passa a saber o que será tratado no próximo segmento. há intercalação de sonoras. no qual o som “sujo” – com muitos ruídos e baixa qualidade de emissão . nas quais se ouvem sons de trânsito. que soa como um “ataque consonantal”. imediatismo. já que tem uma força e uma abrangência acústica que superam a da fala em função das possibilidades de amplitude sonora. cria um sentido de menor controle dos conteúdos. os efeitos sonoros também são importantes para criar descontinuidades. proximidade. para “despertar” a atenção. a música é uma aliada importante. que se contrapõe à locução do estúdio. literalmente “vibrante”. Um aspecto importante da natureza do som. em primeiro plano).

efeitos sonoros e ruídos). se posicione diante do que o enunciador valoriza e quer que também seja valorizado pelo enunciatário. a exposta pela própria notícia. necessariamente. ação em si mesma que remete a uma outra ação. música. como os diferentes formatos de letras e seu posicionamento espacial tentam reproduzir esses efeitos da locução. é manejada para que o ouvinte. Esse adensamento sonoro fisga a atenção do ouvinte para as “notícias importantes”. Essa interrelação de diferentes unidades sonoras (fala. a informação que a percepção sonora nos proporciona sobre o mundo refere-se. As presenças do mar e de um relógio podem ser facilmente captadas por meio auditivo. Em função dela. em linhas gerais.) O imparável movimento dos sons estabelece. para as linguagens estritamente auditivas. No rádio. “a hierarquização (dos conteúdos) deixa de ser feita pelo critério do que vem antes ou depois para assumir um critério compatível com a fluidez. (. o que resulta no semi-simbolismo de texto inteiro: o que tem maior valor é o que ocupa o maior tempo. No rádio. 86 87 Há. porque ele já introjetou as próprias regras da textualização.em maior altura e intensidade.. baseado na freqüência. Veremos depois. mas as de uma flor e de um vaso não podem ser adivinhadas. com emissão rápida87 -.um movimento e a sua simples presença indica que algo se move ou se modifica. como lembra Meditsch. a possibilidade de se criar a sensação de que o fluxo sonoro parou. Depois. essa organização de categorias do plano de conteúdo com categorias do plano de expressão determina relações de valor da notícia em função do tempo ocupado. na análise dos jornais impressos. senão pelo olfato. capitaneada pela locução. ou fazem sentido na cabeça do ouvinte. A questão do tempo e do valor da notícia: a prisão de Saddam Afirmamos em outras partes do trabalho a existência de um sistema semisimbólico de texto inteiro (ou um “semi-simbolismo cristalizado”) bastante evidente nos noticiários. No radiojornalismo. a visão ou o tato – a não ser pelo auxílio da ação da palavra.. contudo. É o caso da notícia sobre a detenção de Saddam Hussein no Iraque.86 Os sons transmitem principalmente a idéia de ações em plena execução. serão essas notícias que irão receber mais tempo no fluxo do programa. a alguma ação: o que permanece imóvel não soa. esse efeito se adiciona à locução jornalística . 132 .. durante a programação. Em conseqüência. que justamente “funcionam”. nesse ataque sensorial. a duração do enunciado e a repetição de sua enunciação passam a ser os recursos predominantemente utilizados para enfatizar a sua importância” (2001: 202). O texto jornalístico de rádio é montado para criar determinados efeitos. uma forma de estruturação espaço-temporal que é única” (2001: 157).

Vale salientar que as características que apontamos para a textualização jornalística do rádio. É concebido para atrair enunciatários distintos. como se o ouvinte partilhasse de uma conversa entre amigos. há pouquíssima redundância. a prisão é o fato desencadeador de maior atenção – e assim deveria ser entendido pelo enunciatário ouvinte. no entanto. Se o conteúdo é o mesmo. quem permanecer mais tempo terá a possibilidade de ouvir as informações principais serem aprofundadas. Não se pode negar ainda. Vale lembrar que esses enunciatários. entretanto. notadamente a questão da manipulação do tempo e sua relação com o nível de atenção e de tensão noticiosa. Não consideramos. por exemplo. 15 de dezembro de 2003. vamos retomar agora o programa em estudo. o ouvinte tem um verdadeiro resumo das posições obtidas em pouco mais de três horas de programa. Nos minutos finais. houve uma repetição completa da notícia. de maneira de apresentar a informação. É possível conhecer os assuntos mais importantes. Em outras palavras. no Jornal da CBN. o texto do radiojornalismo tem uma característica que o aproxima do da Internet. mostramos como o principal assunto.88 88 Até onde pudemos observar cotidianamente. As infindáveis conversas entre locutores. a cessão de tempo para um artista falar de uma peça de teatro de 133 . em nenhum momento. Outro aspecto do jornal é o seu dinamismo. há variação de frases. a utilização de um mesmo trecho. Foram buscados recursos diversos. o Jornal da CBN de segunda-feira. Vale observar como a notícia se “espalhou” pela edição. Saliente-se que. entretanto. os comentários de futebol que nada informam. Do ponto de vista do enunciador. principalmente de classe social e nível cultural. é a evolução da reportagem sobre o assunto durante o próprio jornal. A segmentação do programa e também as retomadas das notícias mais importantes. e notadamente as relações entre valor da notícia a partir do tempo de apresentação no fluxo informativo. Muitos programas de radiojornalismo no Brasil ocupam tempo com assuntos não jornalísticos.Para analisar melhor a questão. com diferentes objetivos e ofertas de tempo. mostram um enunciatário entendido de maneira dinâmica e fragmentada. que o único sentido investido em determinados momentos é o de proximidade. O que é mais notável. podem ser incluídos em um grupo mais amplo com certas características em comum. Podemos considerar que a edição do Jornal da CBN apresentou a captura de Saddam como a mais importante notícia em função do tempo cedido e da reiteração do assunto durante todo o programa. como a repercussão da prisão de Saddam. no sentido de repetição de trechos idênticos das mesmas notícias. O ouvinte não precisa participar do programa do começo ao fim. vinculam-se ao Jornal da CBN. a captura de Saddam Hussein no Iraque. apareceu durante o noticiário. inclusive em outros programas da própria CBN. a seguir. ou seja. Na tabela 1. Em compensação. muito mais interessados em manter e cultivar um laço do que em trocar novidades. numa audição de meia-hora. esses programas como essencialmente jornalísticos. atualizadas e oferecidas em diferentes perspectivas. entre outros recursos. geralmente leituras de roteiros com sutis diferenças para retomar a descrição da captura de Saddam e as conseqüências da prisão.

O potencial de atração das notícias. busca-se especular sobre o futuro. aliás. A captura ocorreu quase dois dias antes. que se seguiu a de outros jornais. assim. Desse modo. por meio da fala de Moreira Lima. Uma das conclusões do trabalho: “A emissora dá pouco pouco destaque só mostram os problemas do veículo. O jornalismo cria expectativas para se autoalimentar. e foi divulgada no domingo. A prisão de Saddam. Trabalhou-se com um efeito de enunciação enunciada – desembreagem enunciativa – numa tentativa de aproximar o ouvinte da notícia. na idéia de que as novidades têm de ser necessariamente ruins. a falta de investimentos na área e a baixa e deficiente profissionalização. sempre lembradas pelos próprios jornalistas e pelas entidades que os representam. E ressaltou que a entrevista era “ao vivo”. portanto. buscar tensão a partir de novas perguntas que passaram a não ter resposta. do ponto de vista da imprensa ocidental. Aliás. a partir daí. por exemplo. é um “aqui”. 134 . no sábado. Sérgio Moreira Lima. repercutiam a prisão do ditador . A dissertação de mestrado de Flávio Falciano (1999: 123) mostra essa característica da rádio.o fato gerador da notícia.O jornal analisado é o da segunda-feira. um acontecimento desejável. não está. o programa evita que a notícia seja interpretada como “velha”. no entanto. todo o trabalho jornalístico do programa pode ser resumido em uma única pergunta: “Como ficam o Brasil e o mundo após a prisão de Saddam?” Mais do que recuperar o que aconteceu. Falar em descontinuidade significa apontar uma quebra de rotina que tanto pode ser positiva (relação sujeito-objeto desejável) quanto negativa (relação indesejável). a repercussão é um “agora”. e o que estava acontecendo em Israel. Heródoto Barbeiro. questões. criou uma descontinuidade (ele estava desaparecido). mas era. É preciso instaurar uma curiosidade (querer-saber). entrevistou o embaixador do Brasil em Israel. sobre a repercussão da prisão de Saddam entre israelenses e palestinos. foi contextualizar a notícia e. notadamente por meio de entrevistas com autoridades e até mesmo com jornalistas de diversos países que. O efeito de atualidade era buscado por meio de análises e repercussões econômicas. O efeito de proximidade temporal e espacial não é o bastante para motivar o consumo de uma notícia. por exemplo. por exemplo. O que chama a atenção em uma narrativa são as alterações de continuidade. mas uma espécie de “aqui-mundo”. A estratégia do programa foi a de “esquentar” a notícia.os elementos de atualização. um desejo de conhecer toda a história. Entrevistados e âncora. O âncora da CBN fez do embaixador uma espécie de correspondente especial. Se a prisão aconteceu em um tempo anterior. Assuntos internacionais geralmente não têm maior destaque na programação rotineira da CBN. sociais e políticas . A estratégia da CBN. se questionam se a paz seria conquistada.

15 de dezembro de 2003 Trechos em laranja:falam. buscou verificar o que aconteceria com a detenção do ex-ditador do Iraque. Fica evidente que a manchete inicialmente prevista era a da expulsão dos “radicais do PT”. termina com uma música infantil que brinca com a posição de líderes dos Estados Unidos diante da prisão de Saddam. o Jornal da CBN apresentou a versão dos Estados Unidos sobre a prisão de Saddam. aumentar a carga de material internacional poderia significar queda de audiência. O Jornal da CBN. Paul Bremen. podia ser planejada. O que o Jornal da CBN faz. é ridicularizar a posição estadunidense. como já foi dito. Essa observação enfatiza ainda mais a importância que a prisão de Saddam Hussein adquiriu no Jornal da CBN. A análise do programa como um todo também dá uma boa indicação de como o radiojornalismo e a dinâmica das notícias funcionam. Essa crítica final ressoa e traz novas significações a todos os conteúdos veiculados na edição. mas zombou dos norte-americanos. Do ponto de vista ideológico. E fez com que toda a equipe corresse para os telefones em busca de autoridades para entrevistar. portanto. A maior parte das “sonoras” . cria um novo sentido. na conclusão da edição. a estrutura de happy end é clara. Todas as notícias e os comentários sobre o assunto durante o programa ganham outra leitura. A tabela a seguir mostra o cuidado na organização da reportagem. No programa analisado. portanto. especialmente do administrador do Iraque.trechos de entrevistas . de que não há interesse nesse tipo de notícia por parte do ouvinte CBN e que. ou seja. que tinha data para acontecer e. não comprovada. comentam ou citam a prisão de Saddam Hussein Trechos em cinza: publicidade (spot) Trechos em branco: restante do programa 135 . A prisão de Saddam jogou a notícia da expulsão para o segundo lugar na ordem de importância. Tabela 1 Programa Jornal da CBN – edição de segunda-feira.espaço ao noticiário internacional. caracterizando assim a CBN como uma emissora que difunde prioritariamente conteúdo jornalístico de cunho nacional”. sob a alegação.é de políticos que estavam envolvidos com a questão. com o deslocamento de repórteres. Essa utilização funciona como um desencadeador de isotopia.

jornalista português Sonora: comentário de Carlos Fina sobre captura de Saddam e alívio no Iraque Heródoto – hora .Rádio CBN. Paul Bremen: anuncia prisão de Saddam em inglês Heródoto explica que os gritos na gravação de Bremen são de jornalistas iraquianos Sonora: Fala de Bush sobre Saddam Heródoto comenta fala de Bush Sonora: nova fala de Bush Heródoto anuncia opinião de Marco Aurélio Garcia.Início do programa 6h03 da manhã 0s Total em segundos do fragmento 20s Recurso sonoro Música de entrada e música de acompanhamento Unidade Vinheta com os prefixos . sobre a prisão de Saddam Sonora: comentário de Garcia sobre o futuro de Saddam Heródoto apresenta Carlos Fina. AM e FM Voz feminina: Tempo e temperatura na cidade de São Paulo Patrocínio da próxima meia hora: Bradesco Heródoto: hora Vinheta: Jornal da CBN . assessor especial do governo Lula.Fala da expulsão dos “radicais do PT” .as notícias que podem mudar o seu dia – apresentação de Heródoto Barbeiro Heródoto: O assessor especial do presidente da República para assuntos internacionais. Sonora: deputado Genuíno Heródoto apresenta o deputado Aloísio Mercadante Sonora: deputado Mercadante Heródoto chama o apresentador Laerte Vieira Laerte: “bom-dia” e hora Heródoto: chama intervalos e diz que já volta com mais notícias Laerte: horário brasileiro de verão 20s 27s 34s 39h 7s 7s 5s 11s Som Música 50s 10s Música de fundo 1m 1m45s 45s 15s Música de fundo 2m 36s Música de fundo 2m36s 2m46s 3m 3m07s 10s 14s 7s 11s Música de fundo Música de fundo 3m18s 3h50s 4m01s 4m25s 5m 5m17s 5m23s 5m38s 5m45s 6m 6m08s 6m20s 6m28s 6h48s 7m02 7m18s 7m21s 7m24s 7m28s 32s 11s 24s 35s 17s 6s 15s 17s 15s 8s 12s 8s 20s 14s 16s 3s 3s 4s 5s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo 136 .contextualização Sonora: deputado Vavá fala da expulsão Heródoto diz que críticas dos “radicais” ao governo vão continuar Sonora: deputado Vavá faz mais comentários sobre expulsão Heródoto: possibilidade de criação de um novo partido pelos “radicais” Sonora: deputada Luciana Genro Heródoto apresenta deputada Heloísa Helena Sonora: deputada Heloísa Helena Heródoto diz que vai apresentar o “outro lado”. Marco Aurélio Garcia afirma que prisão de Saddam pode apressar a entrega do poder ao povo iraquiano Heródoto faz descrição “factual” da prisão de Saddam Sonora: administrador do Iraque.

oferecimento Bradesco” Heródoto: Hora Vinheta: “Trânsito na CBC. oferecimento Angra. Federal Laerte: hora Publicidade – Chester Perdigão Publicidade – Sabrico .. Sérgio Gomes da Silva Heródoto .” Heródoto pergunta temperatura na Paulista para Alexandra Dias.Rodízio Heródoto: Hora Publicidade – Transgênicos .Hora Publicidade .Esportes Voz não identificada: resultado da Rodada do Campeonato Brasileiro Publicidade – carro blindado Publicidade – leilão de imóveis Bradesco Vinheta: “Estamos apresentando Jornal da CBN” – oferecimento Bradesco Heródoto comenta e lê e-mail de ouvinte que critica academia Runner Laerte: hora Vinheta: “Jornal da CBN” Heródoto –hora e anúncio Heródoto: tentativa de reverter expulsão dos radicais Entrevista gravada: repórter Juliana Alvim fala da convenção em um hotel que decidiu a expulsão dos deputados do PT e da senadora Heloísa Helena contextualização Sonora com a deputada Heloísa Helena: 11m38s 11m42s 12m12 12m20 12m36 12m30 12m32s 12m49s 12m52s 13m22s 13m33s 13m38s 14m57s 14m58s 15m10s 15m39s 15m42s 4s 30s 8s 16s 6s 2s 17s 3s 30s 11s 5s 19s 1s 12s 29s 3s 1m25s Música Ruídos de buzina e Música Música Música 17m07s 17m08s 17m38s 18m08s 18m10s 18m15s 19m06s 19h36s 20m06s 20m16s 21m12s 21m13s 21m22s 21m26 21m40s 2s 30s 30s 2s 5s 1m9s 30s 30s 10s 56s 1s 9s 4s 14s 16s Só música Música e fala Som Música e fala Música no fundo Música de fundo 21m56s 22s 137 .hora Heródoto – Manutenção da prisão de suspeito da morte do prefeito Celso Daniel.veículos Laerte: hora Vinheta: estradas – oferecimento via Fácil Heródoto chama Telma Costa Trânsito com Telma Costa Heródoto .hora Publicidade – Leilão de Imóveis Vinheta “Estamos apresentado Jornal da CBN.hora Publicidade: Vale Alfabetizar Heródoto ..Radiotaxi Publicidade: doação de sangue – Ministério da Saúde Heródoto: hora Heródoto comenta e lê e-mail de ouvinte que critica abordagem do Discovery Channel sobre Santos Dumont Heródoto .hora Vinheta .Música sobe 7m33s 8h17s 8m20s 8m50s 9m20 9m21 9m36 9m37s 9m50s 9m52ss 10m36s 10m38s 44s 3s 30s 30s 1s 15s 1s 13s 2s 44s 2s 60s Ruídos de buzina e música no final Vinheta: Jornal da CBN Publicidade .hora Publicidade .Engov Publicidade – limpador de pára-brisa Dina Heródoto .Programa Primeiro Emprego – Gov.Monsanto Vinheta – tempo – patrocínio AES Eletropaulo Heródoto apresenta Laura Laura: tempo e temperatura Heródoto . Alexandra: Temperatura .

que se apresenta e anuncia que está em Brasília Heródoto .deputado Walter Pinheiro comenta expulsão Fala final da repórter Juliana Alvin.Bradesco Laerte – Tempo e temperatura Anúncio do patrocinador Chevrolet Hora Laerte: Hora Vinheta: “Jornal da CBN” Heródoto entrevista Rodolfo Pisoto.hora Jornal da CBN Vinheta – anuncia o patrocinador da última meia hora .deputada: “Consciência tranqüila” Repórter: deputados têm esperança de reverter a expulsão Sonora . Sonora .investigações Repórter: polícia não encontrou arma do crime – Genilson Araújo do Rio Laerte: horário brasileiro de verão Vinheta Repórter CBN – “As principais 89 notícias do dia a cada meia hora” oferecimento da Bradesco Seguros Laerte: data Laerte: aeroportos Laerte: expectativas da China em relação à prisão de Saddam Laerte: preço do barril de petróleo em função da captura de Saddam Laerte: Senado – projeto da Previdência Laerte: hora Vinheta – “Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora” Heródoto: “Daqui a pouco voltamos com outras informações sobre saúde” Laerte .22m18s 22m20s 22m28s 23m18s 23m42s 23m55s 24m07s 24m18s 24m19s 24m28s 25m47s 25m49s 2s 8s 10s 24s 13s 12s 11s 1s 9s 1m19s 2s 22s Música e fala 26m11s 26m12s 26m25s 26m38s 26m53s 27m11s 27m18s 27m24s 27m27s 27m31s 27m35s 27m45s 27m49s 27m58s 28m 28m02s 28m07s 1s 13s 13s 15s 42s 7s 6s 3s 4s 4s 10s 3s 9s 2s 2s 5s 8s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música Música Vinheta Efeito Sonoro Música e fala Entrevista termina com música da vinheta 28m15s 28m18s 28m24s 28m45s 28m50s 28m52s 28m57s 28m59s 3s 6s 21s 5s 2s 8s 2s 21s considera “crueldade” os pedidos para que ela se desculpasse com PT Repórter: Heloísa reafirmou as críticas Sonora com a deputada: “Estou a serviço da senzala. não da casa grande” Repórter: princípio de tumulto na convenção que decidiu a expulsão. Não é isso o que se ouve durante o programa. do SOS Estradas. falar que as principais notícias do dia são divulgadas a cada meia hora implica retomar o que de mais importante aconteceu em um grande período de tempo.hora Heródoto: assassinato de executivo da Shell e da mulher no Rio . e das principais chamadas. que fala de cinto de segurança em ônibus – entrevista Rodolfo – Bom-dia Heródoto – O que o Código diz sobre cinto de segurança em ônibus? Rodolfo – passageiros não usam cinto Heródoto – questiona se é para todos os ônibus terem cinto Rodolfo – Só rodoviários Heródoto – Só rodoviários? Rodolfo – Só rodoviários pois urbanos têm passageiros em pé Heródoto – O motorista do ônibus Teoricamente. Em outras palavras. 89 138 . haveria bastante repetição.

Corpos são projetados porque estão soltos Heródoto – como é o cinto de segurança dos ônibus Rodolfo – abdominal. mesmo não sendo visto com simpatia pelos passageiros. o que mostra que os ônibus andam com excesso de velocidade Heródoto agradece e faz o “pé”: conta trechos da entrevista. fala da importância do cinto nos ônibus rodoviários e chama intervalo. tempo Laerte: Hora Vinheta: Jornal da CBN Heródoto: admissão do Peru no Mercosul 139 . Repórter Paulo Massini e Heródoto conversam sobre futebol e fazem brincadeiras com o outro apresentador Laerte: hora Publicidade: Via Fácil Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Rede Chevrolet Laerte: hora – apresenta repórter Alexandra Dias Alexandra Dias: trânsito na cidade de São Paulo Laerte: Hora Publicidade: Seguro Auto Porto Seguro Publicidade: AES Eletropaulo Publicidade: cartucho de impressora Maxprint Laerte: anuncia Jornal da CBN. Comenta ainda companhias que fazem viagem sem paradas. Passageiro devia ser multado se não usar Heródoto – O sistema não poderia ser igual ao do avião: o avião não sai se todo o mundo não estiver com o cinto? Rodolfo – Passageiros não têm idéia do perigo – comenta o perigo maior envolvendo crianças. Heródoto – O motorista não pode verificar? Rodolfo – cinto deve ser imposto. Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – ABIM – Hospital Virtual Exporta Fácil Laerte: hora Publicidade: American Airlines Laerte: hora Heródoto chama Paulo Massini Trânsito em SP com Paulo Massini – diz que está na av. Rodolfo diz que não. 23 de maio.29m20s 59s 30m19s 30m24s 31m35s 5s 1m11s 13s 31m48s 1m18s 33m06s 33m12s 6s 12s 34m24s 34m27s 35m01s 35m03s 3s 34s 2s 22s 35m25s 18s Música de fundo 35m43s 35m45s 35m40s 36m46s 36m48s 37m18s 37m21s 37m23s 37m40s 2s 5s 1m6s 2s 30s 3s 2s 17s 24s Música de fundo Música e fala 38m04s 38m05s 38m34s 38m46s 38m49s 39m07s 39m08s 39m38s 40m08s 40m38s 40m46s 40m50s 40m55s 1s 29s 12s 3s 18s 1s 30s 30s 30s 8s 4s 5s 40s Música e fala Efeito sonoro Música e fala Início música de fundo também deve usar? Rodolfo – Nos ônibus rodoviários há grande número de vítimas. o que prejudica a saúde dos passageiros Heródoto questiona se não há legislação que obriga a parada Rodolfo – Só uma empresa no eixo RioSão Paulo cumpre a lei Heródoto questiona se a viagem pode ser feita em menos de quatro horas.

não. Noticia ato terrorista no Paquistão Heródoto: fala que o ouvinte está acompanhando as notícias mais importantes da manhã e comenta que a NHK japonesa faz novela no Brasil Laerte: hora Heródoto: narra a opinião do professor de literatura árabe da PUC Mamed Mustafá Giaruchi sobre o Iraque e Saddam. Âncora pergunta a repercussão no Paquistão Arantes: repercussão intensa Heródoto: há simpatia pelo regime? Arantes: a simpatia é pelo Iraque Heródoto: houve manifestação pública? Arantes: “No momento. Fala da captura de Saddam e apresenta Abelardo Arantes – embaixador do Brasil no Paquistão – fala “neste momento” – Começa a entrevista. retoma pontos da entrevista. não do público Heródoto agradece. Ele acredita que a insatisfação da população vai aumentar em relação às tropas dos EUA Sonora . Arantes: A expectativa de paz é do governo. da redação: incêndio em fábrica de plásticos em São Paulo Laerte: hora Publicidade: Pré-pago Tim Publicidade: operadora de celular Claro Heródoto: comenta opinião de outro leitor – continua polêmica sobre paternidade da invenção do avião Laerte: hora Publicidade: Compuware Laerte: hora – anuncia Alexandra Dias Alexandra Dias: morte de motociclista na cidade de São Paulo Laerte: temperatura e tempo Vinheta: Jornal da CBN 140 . chama comerciais e diz que em seguida haverá a participação de Juca Kfouri Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Primeiro Emprego Laerte: hora Publicidade: Título de Capitalização Ouro Cap Publicidade: celular Nokia Laerte: hora .41m35s 42m00s 25s 38s Música de fundo Música de fundo 42m38s 42m40s 2s 26s Música de fundo Música de fundo 43m06s 43m37s 29s 49s 44m26s 45m25s 45m36s 46m18s 46m23s 59s 11s 42s 5s 17s 46m40s 10s 46m50s 47m21s 29s 31s Sob música no final 47m47s 47m49s 48m36s 48m38s 49m08s 49m34s 49m42s 50m04s 50m05s 50m47s 51m18s 2s 47s 12s 30s 26s 6s 22s 1s 42s 29s 34s Música e fala 51m52s 51m53s 52m19s 52m22s 52m37s 52m48s 1s 26s 3s 15s 11s 5s Música e fala Laerte: hora.anuncia redatora Telma Costa Telma Costa.” Ele não crê que a captura seja vista com simpatia pelos paquistaneses Heródoto questiona se a imprensa local acredita em paz depois da captura de Saddam.Professor Giaruchi: o interesse dos EUA está nos poços de petróleo Heródoto: retoma a notícia.

Donald Rumsfeld Laerte: Taxa de juros Laerte: Hora Vinheta: repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto: “Nós já voltamos” Vinheta: patrocínio Chevrolet linha 2004 Laerte: Tempo e temperatura Vinheta: patrocínio da próxima meia hora: Estomazil Laerte: Hora Vinheta: Jornal da CBN – “As notícias que podem mudar o seu dia – apresentação Heródoto Barbeiro” Heródoto: mais informações sobre Saddam – Entrevista com o advogado Carlos Edueta.) Tem pequena duração e. (. Barbeiro e Lima afirmam que teaser é “uma declaração contundente e que pode chamar a atenção do ouvinte. ex-presidente da seção brasileira da Anistia Internacional trocam “bom-dia” . No jornal analisado. por isso. não se confunde com a sonora usada na edição” (2003: 80). mas diz que “todos têm direito a um julgamento isento” Heródoto: agradece a entrevista e retoma algumas respostas. 90 141 .. afirma secretário de defesa dos EUA. só encontramos esse recurso nesse trecho. Pode ser separada e usada na abertura e encerramento de programas. 9 mortos Laerte: Saddam será tratado como prisioneiro de guerra..52m52s 52m53s 1s 5s Teaser90 52m58s 14s Música e fala 53m12s 54m48s 54m50s 1m36s 2s 20s Som e fala 55m10s 55m34s 24s 22s Música de fundo Música de fundo 55m56s 56m08s 56m09s 56m23s 56m30s 56m40s 56m46s 57m00s 57m02s 12s 1s 14s 7s 10s 6s 14s 2s 2s Música de fundo Efeito sonoro Música e fala 57m04s 30s 57m34s 58m02s 28s 6s 58m08s 58m32s 58m38s 59m20 59m38s 24s 6s 44s 18s 34s 1h00m22s 1h00s32s 1h01m38 10s 6s 30s Laerte: hora Juca Kfuori: manchete de esporte: “Acabou o primeiro campeonato por pontos corridos” Vinheta: “Momento do Esporte com Juca Kfuori” – oferecimento AES Eletropaulo e limpador de pára-brisa Dina Juca Kfuori avalia a final do campeonato brasileiro Laerte: Hora Vinheta: “Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora” – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: estouro de carros-bomba em Bagdá. Apresentador questiona onde Saddam poderia ser julgado Edueta: sugere o Tribunal Penal Internacional Heródoto: pergunta se é o tribunal recentemente constituído pelo Tratado de Roma Edueta: espera que Bush cumpra a promessa de um julgamento isento Heródoto: pergunta se há uma juíza brasileira Edueta diz que sim e comenta a prisão de Saddam Heródoto: questiona se os EUA aceitam o Tribunal Edueta: diz que os EUA não aceitam o Tribunal. Acha que os EUA vão montar um outro fórum Heródoto: questiona se Saddam tem direito a julgamento isento Edueta comenta os crimes.

Diz que as gráficas não podem ficar longe do principal mercado consumidor Heródoto: Trânsito pesa como fator logístico? Camargo: Dificuldade de deslocamento implica custos Heródoto encerra entrevista e retoma pontos. Âncora questiona a razão de as gráficas deixarem a cidade de São Paulo Camargo fala do aumento de impostos e outros problemas da cidade Heródoto questiona se as cidades ao redor de São Paulo têm impostos menores Camargo explica que o redirecionamento das gráficas tirou sete mil postos de trabalho da cidade de São Paulo Heródoto questiona se esses postos não foram para outras cidades Camargo concorda Heródoto: É guerra fiscal? Camargo explica que a mudança acontece também na Alemanha.Angra Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Unidas Heródoto comenta rebaixamento do Grêmio com repórter Vanessa Vanessa comenta futebol com Heródoto e depois fala do trânsito Trânsito do helicóptero – cidade de São Paulo e tempo Heródoto: hora Heródoto entrevista o presidente da Abigraf. Heródoto: hora Publicidade: projeto Vale Alfabetizar da Cia. Mauro César Camargo – trocam bom-dia.1h02m08s 1h02m10s 1h02m13s 1h3m12s 1h3m58s 1h4m00s 1h4m22s 1h4m31s 1h4m33s 1h4m47s 1h4m48s 1h5m18s 1h5m33s 1h5m35s 2s 3s 59s 46s 2s 22s 9s 2s 2s 1s 30s 15s 2s 58s Música sobe Música e fala Música e fala Ruídos e música Música e fala 1h6m33s 1h7m00s 1h7m30s 1h7m42s 1h7m50s 1h8m24s 1h8m45s 1h8m46s 27s 30s 12s 8s 34s 21s 1s 22s Ruídos de helicóptero 1h9m08s 1h9m55s 47s 7s 1h10m02s 43s 1h10m45 1h10m50s 1h10m59s 1h11m03s 1h11m56s 5s 9s 4s 53s 4s 1h12m00s 18s 1h12m18s 1h12m20s 1h12m47s 1h13m04s 1h13m05s 1h13m48s 2s 27s 17s 1s 43s 13s Ruídos de Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Portal do Exportador Correio Publicidade: Programa Primeiro Emprego – Governo Federal Laerte: Hora Publicidade de Liberdade de Expressão – patrocínio Souza Cruz Vinheta Trânsito – patrocínio Angra Laerte apresenta Alexandra Dias Trânsito: repórter Alexandra Dias Laerte:Hora Publicidade .construção Publicidade: Instalação elétrica .Estomazil Vinheta Jornal da CBN – oferecimento Estomozil Laerte: hora Heródoto lê e comenta matéria da Folha de São Paulo sobre pessoas que mudaram de religião – tom de leitura Publicidade: Cavê . Vale do Rio Doce Vinheta: Notícia Aérea CBN – 142 . Heródoto questiona se o mercado das gráficas continua a ser o da cidade de São Paulo Camargo concorda.

Questiona repórter se o Feng chui ajuda a ver o trânsito no helicóptero Vanessa comenta piada de Heródoto Vanessa .Garcia acha que fato ajuda Bush. do helicóptero – mudanças no trânsito na cidade de São Paulo por causa de corredor de ônibus Publicidade: Aluguel de carros para empresas . de autoria de Arquimedes Messina Laerte: tempo e temperatura Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta – “Linha aberta com Carlos Alberto Sadenberg” – análise econômica Heródoto – trocam bom-dia – apresentador pede para Sademberg comentar a repercussão da prisão de Saddam Hussein nos mercados financeiros Sademberg – a análise dos mercados é que a instabilidade vai acabar – reação foi muito positiva – bolsas subiram.helicóptero e fala 1h14m01s 60s 1h15m01s 1h15m31 s 1h16m01s 1h16m15s 1h16m16s 1h17m15s 1h17m46s 1h17m48s 30s 30s 14s 1s 59s 31s 2s 20s Música e fala 1h18m08s 1h18m35s 1h19m12s 1h19m13s 1h19m43s 27s 37s 1s 30s 7s 1h19m50s 1h20m00s 1h20m05s 1h20m07s 1h20m20s 10s 5s 2s 13s 13s Som – depois música e fala Música oferecimento Top Unidas Repórter Alexandra Dias.Unidas Publicidade: bronzeador Cenoura e Bronze Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Estomazil Heródoto: hora Heródoto: morte de rapaz atacado por Skinheads em São Paulo Publicidade: cartucho de impressora Maxprint Heródoto: hora Heródoto: donas-de-casa aplicam na bolsa por meio de previsão da numerologia. Feng chui. sobre a prisão de Saddam. e chama repórter Repórter Estevão Danis retoma questão – Prisão deve agilizar o processo de reorganização do país Sonora: Garcia comenta momento para entrega de poder aos iraquianos Repórter – Como fica reeleição de Bush? Sonora . mas governo brasileiro não se preocupa com a questão Repórter comenta cautela de Marco Aurélio e justifica: governo Lula busca aproximação com países do Oriente 1h20m33s 35s 1h23m08s 1h23m19s 1h24m06s 1h24m17s 11s 47s 4s 3s Música e fala Sobe música Mantém música de fundo 1h24m20s 14s 1h24m34s 1h25m02s 1h25m12s 28s 10s 31s 1h25m43s 22s 143 .trânsito: primeiro dia de funcionamento do corredor de Pirituba Heródoto: hora Publicidade – Varig Heródoto comenta música do comercial da Varig. Marco Aurélio Garcia. dólar se fortaleceu – comenta explosão de bomba em Bagdá e que a instabilidade não terminou Vinheta: CBN – Responsabilidade Social Heródoto: comenta o Projeto Redescobrindo o Adolescente Heródoto: hora Heródoto: apresenta a opinião do assessor do governo.

as principais notícias do dia a cada meia hora Laerte: anuncia em instantes as notícias da BBC Brasil Vinheta: Jornal da CBN Anúncio de patrocínio: Estomazil patrocinou a última hora Laerte: tempo e temperatura Patrocínio da próxima meia hora: Interchange Laerte: hora Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um boletim BBC Brasil” “Direto de Londres – Márcia Freitas”: Saddam se recusa a dar informações – Bush diz que a prisão não significa o fim dos problemas. “direto de Badgá”. fala do impacto da captura de Saddam na população do Iraque.1h26m05s 1h26m12s 7s 16s Música e fala 1h26m28s 1h26m31s 1h26m49s 1h27m07s 3s 18s 18s 21s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo 1h27m28s 1h27m50s 1h27m59s 1h28m06s 1h28m10s 1h28m15s 1h28m27s 1h28m35s 1h28m46s 1h28m49s 1h28m54s 22s 1s 7s 4s 5s 12s 8s 11s 3s 5s 56s Música de fundo Música de fundo Música e fala Música e fala Som Efeitos sonoros e fala 1h29m50s 38s 1h30m28s 1h30m40s 1h30m45s 1h30m51s 1h30m54s 1h31m07s 1h33m54s 1h33m58s 1h34m00s 1h35m30s 1h36m03s 1h36m07s 1h36m17s 1h36m42s 1h37m11s 1h37m18s 12s 5s 6s 3s 13s 47s 4s 2s 1m30s 33s 4s 10s 35s 31s 7s 1m31s Música de fundo Música e fala Música de fundo Efeitos sonoros e fala Música e fala Ruídos e fala Música e fala Médio. as principais notícias do dia a cada meia hora. mas negocia Alca com os EUA Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN. Fala das dificuldades da população Márcia Freitas: vacina contra vírus Ebola funciona em macacos Márcia Freitas faz o encerramento: “Essas são as notícias da BBC Brasil” Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um Boletim da BBC Brasil” Laerte: Hora Vinheta: “Por dentro das reformas com Lucia Hipólito” Lúcia: Análise política da expulsão dos radicais Hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Sebrae – sucessão familiar Publicidade – Prefeito Empreendedor Laerte: hora Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Unidas Repórter comenta trânsito da marginal Pinheiros Publicidade . oferecimento Bradesco Laerte: data Laerte: Conselho Curador do FGTS discute aplicação de recursos Laerte: promotores investigam suspeitos da morte de Celso Daniel Laerte: governo prepara novo critério para cálculo da aposentadoria dos servidores públicos Laerte: senadora Heloisa Helena diz que não vai se filiar a outro partido Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN.apresenta a repórter espanhola Repórter espanhola Antonia Parabela. Ataque de bombas em Bagdá .Interchange Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Interchange Heródoto: comenta reportagem do jornal O Globo sobre novos suspeitos da morte do prefeito Celso Daniel 144 .

Os israelenses se sentem aliviados. sobre a repercussão da prisão de Saddam entre israelenses e palestinos.comunicação Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Interchange Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Top Executive Unidas Repórter no helicóptero comenta trânsito da Rebouças. na Capital Paulista Laerte: hora Heródoto comenta “questão de ciência” de Ana Lúcia Azevedo – pesquisas sobre esponjas brasileiras com compostos anticancerígenos Laerte: hora e temperatura na cidade de São Paulo Vinheta: Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta: Política em foco com Franklin Martins Heródoto pede para Franklin Martins comentar a saída dos “radicais” do PT Franklin Martins – comentário político – não acha que vai haver grandes crises dentro do PT Heródoto agradece a Franklin Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN . Sérgio Moreira Lima. Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: entrega de encomendas TL Express Publicidade: Programa Luz para Todos.1h38m49s 1h38m59s 1h39m01s 1h39m05s 10s 2s 4s 26s Efeito sonoro Música e fala Música de fundo diminui após três segundo 1h39m31s 55s 1h40m26s 1h40m28s 1h42m06s 1h42m14s 2s 22s 8s 31s 1h43m55s 60s 1h44m55s 1h44m57s 1h45m00s 1h45m30s 1h46m01s 1h46m03s 1h46m28s 1h46m55s 1h46m58s 1h47m22s 1h47m24s 1h47m53s 1h48m00s 1h48m12s 1h48m40s 1h48m42s 2s 3s 30s 31s 2s 25s 27s 3s 24s 2s 29s 7s 12s 28s 2s 7s Música e fala Música e fala Ruídos e fala 1h49m49s 1h49m56s 1h50m02s 1h50m03s 1h50m20s 1h50m31s 7s 6s 1s 17s 11s 2m49s Efeito sonoro no final Música e fala Música e fala 1h53m20s 1h53m24s 1h53m26s 4s 2s 21s Música e fala Laerte: tempo e temperatura Hora Vinheta: Jornal da CBN Heródoto entrevista o embaixador do Brasil em Israel.oferecimento Bradesco 145 . Arafat manifestou a tristeza com a humilhação de um líder árabe. Heródoto pergunta o que diz a imprensa de Israel Moreira Lima diz que a leitura é positiva.” Embaixador lembra que Saddam financiava homens-bomba Trocam despedidas – Heródoto fala que entrevista aconteceu ao vivo e retoma ponto principal da conversa. Eletrobrás Laerte: hora Publicidade: Goodyear Publicidade: Golden Cross – Plano de Saúde Laerte: hora e chama Alexandra Dias Trânsito na cidade de São Paulo com Alexandra Dias Laerte: hora Publicidade: Interchange . Trocam bom-dia. Heródoto: E a reação dos palestinos? Moreira Lima: “Totalmente diferente. Moreira Lima afirma que Sharon telefonou a Bush com uma mensagem de congratulações.

Jornal da CBN Heródoto: senadora Heloísa Helena vai tentar reverter a expulsão Sonora: deputado Vavá comenta expulsão Heródoto – Vavá avisou que as críticas vão continuar Sonora: deputado Vavá diz que governo está ao lado dos banqueiros Heródoto: “Rebeldes vão criar partido..vinheta Patrocínio da última meia hora Interchange Laerte: tempo-temperatura Próxima meia hora .1h53m47s 1h53m50s 1h54m04s 1h54m26s 1h54m52s 1h54m53s 1h55m07s 1h55m08s 1h55m12s 1h55m15s 1h55m24s 1h55m30s 1h55m40s 1h55m43s 1h55m48s 1h56m24s 1h56m44s 1h56m48s 1h57m02s 1h57m12s 3s 14s 22s 26s 1s 10s 1s 4s 3s 9s 6s 10s 3s 5s 36s 20s 8s 14s 10s 16s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música e fala Som Música e Fala Música sobe e é reduzida 1h57m28s 1h57m33s 1h57m46s 1h57m53s 5s 13s 6s 20s 1h58m13s 1h58m20s 7s 7s 1h58m35s 1h58m47s 1h59m00s 1h59m08s 1h59m22s 1h59m26 1h59m28s 1h59m48s 2h01m22s 2h01m25s 2h01m39s 2h3m22s 2h3m33s 2h3m35s 2h3m44s 2h3m45s 7s 3s 8s 14s 4s 2s 20s 34s 3s 14s 1m43s 13s 2s 9s 1s 30s Música e fala Música e fala Música e fala Música de fundo Música de fundo Música e fala Laerte: data Laerte: manifestação no Iraque Laerte: Peru irá se incorporar ao Mercosul Laerte: rentabilidade da caderneta de poupança – baixo retorno e saques Laerte: hora Vinheta Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto: “Daqui a pouco nós voltamos” Laerte: hora Jornal da CBN . Laerte: hora Vinheta: Boletim Seu dinheiro com Mauro Helfeld – oferecimento Banco do Brasil Mauro comenta taxas de juros nas prestações dos cartões de crédito Laerte: hora Vinheta: comentário de Arnaldo Jabor Comentário de Jabor que aborda a prisão de Saddam e a corrupção no Brasil Vinheta “O comentário de Arnaldo Jabor” Heródoto: “Daqui a pouco nós voltamos” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – Defesa dos Bingos 146 ..Patrocínio Fiat Laerte: Hora Vinheta .” Sonora : deputada Luciana Genro comenta que “um debate está sendo aberto para construir essa alternativa” Heródoto: introduz fala de Heloisa Helena Sonora:deputada Heloísa Helena comenta expulsão Heródoto e o “outro lado”: introduz fala do deputado Genoíno Sonora: deputado Genoíno diz que PT já nem computava os votos dos “radicais” nas votações do Congresso Heródoto: introduz fala do deputado Aloízio Mercadante Sonora: deputado Mercadante diz que a divergência de fundo é de visão de partido Heródoto: apresenta o “outro lado” e a fala da defesa feita por Eduardo Suplicy Sonora : Suplicy diz ter “afinidades” com os expulsos Heródoto complementa fala de Suplicy e comete erro Sonora: deputado Chico Alencar diz que expulsão foi “insensatez”. Heródoto corrige erro.

com Mirian Leitão 147 . música e fala Música e fala Publicidade – Programa Primeiro Emprego do Governo Federal Publicidade: Ourocard do Banco do Brasil Laerte: hora Vinheta Trânsito – patrocínio Angra Alexandra Dias – trânsito e temperatura na cidade de São Paulo Laerte: hora Publicidade: celular Tim Publicidade: aluguel de carros Unidas Heródoto: hora . o trânsito piora ou melhora Trânsito – Vanessa comenta o trânsito na cidade de São Paulo Publicidade – material elétrico . comenta notícia da CNN e entrevista a professora de direito internacional da USP Maria Estela Basso – trocam bom-dia. Heródoto questiona que crime ele teria cometido nos EUA Maria Estela diz que ele não poderia ser julgado por crimes contra os EUA. em função da aproximação do Natal. E diz que o julgamento no Iraque também seria um problema Heródoto agradece.Angra Publicidade – Cartão American Express Chamada para programete Liberdade de Expressão. já que não há provas. “O crime é contra a humanidade” Heródoto: “Isso afasta a hipótese dos EUA levarem Saddam para os Estados Unidos para julgá-lo lá?” Maria Estela acha que. Questiona o que os americanos vão fazer com Saddam Maria Estela: “Os americanos não sabem. de Bush.oferecimento Fiat Publicidade celular Nokia-Claro Heródoto pergunta para Vanessa se. cita a professora e o tema da entrevista Heródoto: hora Vinheta Jornal da CBN . com oferecimento Souza Cruz Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta: Dia-a-dia da Economia. mas os EUA não fazem parte desse fórum” Heródoto pergunta qual seria a acusação Maria Estela diz que terão que enquadrálo em algum crime para julgá-lo. pode-se esperar tudo Heródoto questiona se o julgamento de Saddam nos EUA seria mais uma manifestação de unilateralismo Maria Estela concorda. A alternativa mais adequada seria levar para o Tribunal Penal Internacional.2h4m15s 2h4m59s 2h5m29s 2h5m32s 2h5m42s 2h6m08s 2h6m11s 2h6m54s 2h7m25s 2h7m27s 2h7m54s 2h7m56s 2h8m04s 2h8m30s 2h8m31s 44s 30s 3s 10s 26s 3s 43s 31s 2s 27s 2s 8s 26s 1s 30s Ruídos e música Música e fala 2h9m01s 3m17s 2h12m18 2h12m32s 2h13m03s 2h13m09s 14s 31s 6s 33s 2h13m42s 15s 2h13m57s 2h14m42s 45s 4s 2h14m46s 1m32s 2h16m18s 2h16m29s 2h16m34s 2h16m40s 2h17m10s 21s 5s 6s 30s 5s Música e fala 2h17m15s 2h17m51s 2h18m19s 2h18m49s 2h19m15s 2h19m20s 2h19m22s 36 28s 30s 26 5s 2s 13s Música e fala Som.chama Vanessa di Sevo Vanessa comenta trânsito Heródoto: hora Vinheta Jornal da CBN -patrocínio concessionárias Fiat Publicidade: pneus Goodyear Heródoto: hora Heródoto fala da prisão de Saddam.

2h19m35s 9s 2h19m44s 2m50s 2h22m34s 2h22m40s 6s 2m16s 2h24m56s 2h24m58s 2h25m11s 2s 13s 30s Música e fala 2h25m41s 2h26m11s 2h26m14s 30s 3s 19s Música e fala 2h26m33s 2h26m38s 2h26h53s 5s 15s 35s Música de fundo Música de fundo Música de fundo 2h27m28s 2h27m29s 2h27m43s 2h27m48s 2h27m50s 2h27m58s 2h28m18s 2h28m20s 2h28m31s 2h28m50s 1s 14s 5s 2s 8s 20s 2s 11s 19s 29s Música de fundo Música e fala Música e fala Efeito sonoro 2h29m19s 2h29m36s 17s 21s 2h29m57s 18s 2h30m14s 2h30m16s 2h30m22s 2h30m27s 2s 6s 5s 8s Música Música e fala Música e fala Heródoto pergunta que tipo de conseqüência traz para a economia a prisão de Saddam Mirian Leitão: diz que acha cedo para comemorar. A esperança é que o país gaste menos com a guerra e possa combater o déficit público Heródoto pergunta se despesas dos EUA não incentivam a economia Mirian Leitão diz que bancos prevêem aumento da taxa de juros. Mas é um grande momento para George Bush.Lula diz que vai viajar à Índia e à China Reforma Universitária – governo propõe novos mecanismos de sustentação das universidades Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais noticias do dia a cada meia hora Laerte: “Voltamos em instantes com as notícias internacionais” Vinheta Jornal da CBN Patrocínio da última meia hora .Fiat Laerte: tempo – rodízio de veículos na cidade de São Paulo Laerte: hora Vinheta: Dois minutos pelo mundo – Boletim da BBC Brasil Márcia Freitas – “direto de Londres” Reunião do Mercosul em Montevidéu Repórter Denise Bacotina fala de Montevidéu: acordos de integração do Mercosul Márcia Freitas: três mortos em tiroteio em repúblicas russas Márcia Freitas: líderes de diversos países mostram satisfação com a prisão de Saddam Márcia Freitas: EUA dizem que Saddam não tem cooperado com novas informações Marcia Freitas: “Essas são as notícias da BBC Brasil”. Comenta o déficit fiscal dos EUA. não econômica Heródoto e Mirian se despedem Vinheta: Ética nos negócios – oferecimento Ético Heródoto: jovens alemães são investigados por gastos excessivos na Internet Publicidade: contra a pirataria – Instituto Ético Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: data Laerte . Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um boletim da BBC Brasil” Laerte: hora Vinheta: Comunidade – com Gilberto Dimenstein 148 . Retoma questão. de que a prisão de Saddam é uma vitória política. para finalizar.

Mas que o governo pode obter confissões de Saddam por tortura ou produtos químicos. Chama Vanessa di Sevo Vanessa e o trânsito na cidade de São Paulo Laerte: hora Publicidade: Projeto Vale Alfabetizar Heródoto: resultado da caderneta de poupança – forte movimento de saques Laerte: tempo . Passa trecho da fala de Paul Bremen falando da captura de Saddam Sonora de Paul Bremen Heródoto pergunta se não lembra espetáculo de Hollywood Cony: Concorda. Lembra que o réu é sagrado. Cita o exemplo dos ex-alunos dos EUA que doam muito dinheiro Heródoto. e recolhimento de contribuição de ex-alunos Heródoto: escolas poderiam aceitar doações? Gilberto: o problema é fazer uma lei de doação. assim.temperatura Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta Liberdade de Expressão – debate entre Artur Xexéu e Carlos Heitor Cony sobre assuntos do momento – oferecimento Souza Cruz Heródoto conversa com Cony – Xexéu está em férias.2h30m35s 2h30m40s 5s 4s 2h32m36s 2h32m50s 14s 1m14s 2h34m04s 2h34m11s 2h34m13s 2h34m20s 7s 2s 7s 45s Música e fala 2h35m05s 2h35m50s 2h35m53s 2h36m24s 2h36m28s 2h36m52s 2h36m54s 2h37m36s 2h38m58s 2h39m07s 2h39m15s 2h39m16s 45s 3s 31s 4s 24s 2s 42s 22s 51s 8s 1s 17s Ruído de helicóptero Heródoto: falência da Universidade pública Gilberto: medidas para arrumar dinheiro para as universidades públicas. música e fala Música e fala 2h39m31s 23s 2h39m54s 2h40m00s 2h40m06s 6s 6s 2m58s 2h43m04s 2h43m08s 4s 59s 2h44m07s 2h44m09s 2h44m28s 2h44m30s 2h44m36s 2h45m08s 2h45m52s 2s 19s 2s 6s 32s 44s 3s Música sobe e desce Música e fala 149 . E que. jamais pelos EUA Heródoto e Cony se despedem Vinheta: Liberdade de Expressão – oferecimento Souza Cruz Heródoto: “Daqui a pouco voltamos com mais notícias da prisão de Saddam” Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: defesa dos bingos Publicidade: Primeiro emprego – Gov.despedida. Liberdade de Expressão” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Informe Publicitário . “Daqui a pouco. pode-se obter confissões de Saddam que justifiquem políticas do governo Bush Heródoto pergunta onde Saddam pode ser julgado Cony justifica que só pode ser em um tribunal internacional ou por iraquianos. Federal Laerte: hora Som. Federal Laerte: hora Publicidade: Ourocap – Banco do Brasil Laerte: hora.Vinheta: Informe CNT – Confederação Nacional dos Transportes Publicidade – Primeiro Emprego – Gov. como uma Lei Roanet para o setor.

Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: data Laerte: termina prazo para a AES – controladora da Eletropaulo – e o BNDES fecharem acordo sobre dívida da companhia americana Laerte: Ministério Público pede abertura de inquérito contra sete deputados de Roraima Laerte: Principal avenida de acesso ao Vaticano terá interrupção na madrugada em função de risco de atentado a alvos cristãos Laerte: atentado suicida na Zona Norte de Badgá Laerte: Lula diz que fará novas viagens internacionais.trânsito Vanessa: comenta o trânsito na região do Morumbi Laerte: hora Publicidade: aluguel de veículos para empresas . Milton Jung Laerte: hora Publicidade: automóveis Sabrico Publicidade: American Airlines Laerte chama Vanessa di Sevo . “Você acompanha agora as notícias da cidade” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN 150 . à Índia e à China Laerte: hora Vinheta: Rádio CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto.Unidas Laerte: hora – chama Alexandra Dias na redação Trânsito com Alexandra Dias Laerte: hora Vinheta Jornal da CBN Heródoto – chama o correspondente em Nova York Expedito Filho Expedito: Repercussão da prisão de Saddam nos Estados Unidos – cita jornais que frisam bastante frase de comandante americano de que Saddam foi “preso como um rato” Heródoto diz que os jornais americanos não devem falar de outra coisa e que a cobertura deve estar intensa Expedito fala do renascimento de um certo nacionalismo. Âncora lembra que repórter “falava diretamente de Nova York”.2h45m55 2h45m58s 2h46m20s 2h46m27s 3s 22s 7s 52s 2h47m19s 2h47m20s 2h47m50s 2h48m19s 2h48m20s 2h48m38s 2h48m40s 2h49m10s 2h49m12s 2h49m40s 2h49m48s 2h49m50s 2h50m00s 1s 30s 29s 1s 18s 2s 30s 2s 28s 8s 2s 10s 1m51s Ruído de helicóptero som Música e fala Música de fundo 2h51m51s 7s 2h51m58s 1m56s 2h52m54s 2h53m01s 2h53m03s 2s 20s Música e fala 2h53m23s 2h53m25s 2s 11s Música de fundo Música de fundo 2h53m36s 21s Música de fundo 2h53m57s 20s Música de fundo 2h54m17s 2h54m26 2h54m43s 2h54m53s 2h54m57s 2h55m00s 2h55m01s 9s 17s 10s 4s 3s 3s 1s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música de fundo Música de fundo Música e fala Laerte chama repórter Vanessa Vanessa: trânsito do helicóptero Laerte: hora Heródoto comenta resultado do futebol e faz brincadeiras com o outro apresentador. Comenta repercussão no partido democrata. que sempre foi crítico da invasão do Iraque e está até elogiando Bush Heródoto – Despedem-se.

da Redação do Meio&Mensagem: Carta da Avap ao governo pedindo a regionalização das verbas de publicidades governamentais Heródoto – hora. Acha melhor aguardar desdobramentos Heródoto questiona que é a primeira vez que isso acontece com o PT no poder Roselfeld: “O ponto é o programa de governo não corresponder ao programa partidário” Heródoto pergunta se essa é a causa da 151 . que “está aqui na ponta da linha”. Fala da expulsão dos parlamentares do PT – Entrevista o professor de filosofia política da FRGS Denis Roselfeld. e tempo Laerte: Hora Vinheta Jornal da CBN Vinheta Minuto Meio e Mensagem – bastidores das empresas de publicidade Regina Augusto. Publicidade: compuware Vinheta: estradas – oferecimento Via Fácil Laerte chama Telma Costa Telma Costa – informação sobre trânsito da Dutra e Bandeirantes Laerte:hora Publicidade: Chester Perdigão Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Chester Perdigão Hora Heródoto lê e comenta notícia do Financial Times sobre prisão de Saddam e imagens Laerte: Hora – chama Alexandra Dias Alexandra Dias comenta informações de taxistas sobre trânsito e acidente Laerte: Hora Publicidade: Celular pré-pago Tim Publicidade: defesa dos transgênicos Monsanto Laerte: Hora.2h55m05 2h55m14s 2h55m25s 4s 13s 11s Música e fala 2h55m40s 2h56m46s 2h56m48s 2h57m20s 6s 2s 28s 2m40s 3h00m00s 3h00m27s 3h00m38s 3h00m39s 3h01m08s 3h01m09s 3h01m38s 3h01m49s 3h01m50s 27s 11s 1s 29 1s 29s 9s 1s 23s 3h04m13s 3h04m14s 3h04m54s 3h04m56s 3h05m33s 3h06m03s 3h06m17s 3h6m18s 3h06m22s 3h06m34s 1s 40s 2s 37s 30s 14s 1s 4s 12s 1m28s Efeito sonoro Música e voz 3h08m02s 33s 3h08m35s 1m27s 3h10m02s 3h10m23s 3h11m30s 3h11m42s 21s 57s 12s 6s 3h11m48s 8s Próxima meia hora oferecimento de Chester Perdigão Laerte: tempo e temperatura na Capital Vinheta: Mais São Paulo com Gilberto Dimenstein – oferecimento Porto Seguro Seguros e Cauê Dimenstein: concurso para criar bairro na Água Branca Laerte: hora Publicidade – Cartucho de impressora Max Print Heródoto – comenta a escolha cuidadosa das imagens de Saddam e da reação de Donald Rumsfeld de que o ditador poderá ter um julgamento no próprio Iraque. PT vive “esquizofrenia galopante” Heródoto questiona se a expulsão é um divisor de águas no PT Roselfeld acha que não. Pergunta se ele se surpreendeu com o fato de 27 membros do diretório do PT terem se colocado contra a expulsão Roselfeld – Diz que não se surpreendeu porque parte do PT é mais à esquerda. A pena de morte pode ser reintroduzida no país.

3h11m56s 3h12m40s 3h12m42s 44s 2s 46s 3h13m28s 17s 3h13m45s 3h13m47s 3h13m52s 3h14m21s 3h14m32s 3h14m33s 3h14m45s 2s 5s 29s 9s 1s 12s 29s Sob música Continua música Música Música 3h15m14s 3h15m22s 18s 20s Música 3h15m42s 6s 3h15m48s 9s Música 3h15m57s 3h16m30s 33s 26s Música 3h16m56s 3h17m23s 27s 3s Música 3h18m26s 30s 3h18m56s 3h19m00s 3h19m08s 3h19m15s 3h19m45s 4s 8s 7s 30s 14s Som Música e fala Música Música 3h19m59s 3h20m18s 19s 16s Música divergência que culminou com a expulsão Roselfeld acha que os dois grupos têm razão Heródoto: (brincando) “Vale quem tem mais força.. retoma assunto da entrevista e anuncia os “destaques da manhã” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – Chester Perdigão Vinheta Jornal da CBN – oferecimento Chester Perdigão Laerte: hora (Tempo de música) Heródoto: Forças Armadas americanas capturam Saddam. Antonio Celso Alves Pereira. Retoma fala da professora da USP. Sonora: Alves Pereira diz que a prisão de Saddam pouco representa na luta contra o terrorismo Laerte: hora Laerte: vinheta Jornal da CBN Heródoto fala do governo Lula e dos novos mercados de exportação Lula fala sobre sua decisão de ter mais ousadia nas exportações Heródoto: hora – retoma análise do correspondente de Nova York. lembra a repercussão do assunto na popularidade do presidente e a proximidade das eleições nos EUA Sonora: Bush fala que a prisão de Saddam não significa o fim da violência no Iraque Heródoto: retoma a opinião de Marco Aurélio Garcia. Apresenta fala de Bush sobre o assunto e considera que a prisão é um “presente de Natal” Sonora: Bush fala da captura de Saddam Heródoto: retoma fala de Bush. Ele lembra que Bin Laden continua solto e a guerra deve prosseguir.” Roselfeld (rindo) concorda e explica que o partido tem um projeto de poder que não compactua com alas radicais Heródoto despede-se. Expedito Filho. Maria Aparecida de Aquino Sonora: Maria Aparecida de Aquino comenta a prisão de Saddam Heródoto: retoma entrevista do professor de Relações Internacionais da UFRJ. que disse “agora há pouco” que a prisão de Saddam rendeu elogios a Bush até do partido democrata Fala do correspondente de Nova York sobre o apoio dos democratas Heródoto: hora e retoma trecho de entrevista da professora de direito internacional Maristela Bassos sobre as perspectivas do julgamento de Saddam 152 .. assessor da presidência da República Sonora: Marco Aurélio .Prisão facilita a organização política do Iraque Heródoto: Prisão é considerada pelos analistas uma grande vitória de Bush.

que fala em “alívio” Sonora: Lima diz que Israel sofreu com os mísseis de Saddam Heródoto: diz que a prisão do ditador foi “anunciada com polpa e circunstância pelo administrador do Iraque.retoma comentário do embaixador brasileiro no Paquistão. Paul Bremen” Sonora: Paul Bremen: “Ladys and gentlemen. Carlos Edueta. Abelardo Arantes.paquistaneses querem fim da ocupação dos EUA como saída para a paz Heródoto: hora – retoma fala do embaixador do Brasil em Israel.3h20m34s 28s 3h21m02s 13s Música 3h21m15s 3h21m52s 37s 13s Música 3h22m05s 9s 3h22m14s 9s 3h22m23s 3h22m59s 26s 13s Música 3h23m12s 3h23m19m 7s 27s Música infantil 3h23m46 3h24m02s 3h24m07s – 16s 5s 27s Música da CBN Música e fala Sonora da professora: “Pode-se esperar de tudo de Bush na hora do julgamento de Saddam” Heródoto: retoma trecho de entrevista com o ex-presidente da Anistia Internacional. Sérgio Moreira Lima. e a “grande repercussão” da prisão de Saddam naquele país Sonora: Abelardo . que acha que Saddam deve ser julgado com base em leis internacionais Sonora: Edueta fala de Saddam e da necessidade de um julgamento exemplar Heródoto: hora . we got him” Letra refrão da música: “Sou invencível/ somos amigos/unidos venceremos a semente do mal/Eu tenho a força/ sou invencível” Heródoto finaliza o programa apresentando equipe técnica e Laerte Laerte: “Apresentação Heródoto Barbeiro” Vinheta: Jornal da CBN – as notícias que podem mudar o seu dia 153 .

ao mesmo tempo. Antonio Brasil. Trata-se de um tema bastante estudado e comentado. O formato do JN merece atenção porque. texto disponível no site videotexto. A reportagem também permitiu uma série de outras reflexões sobre o funcionamento das estratégias utilizadas pelo JN para obter e manter a atenção do público-alvo. preconceituosa e ingenuamente ideológica”. A leitura de textos de acadêmicos e de profissionais sobre o assunto. A complexidade dos procedimentos e efeitos de montagem é discutida a partir do detalhamento da estrutura da notícia da prisão de Saddam Hussein. Questões sobre a temporalidade e o uso ideológico da montagem e dos planos de câmera concluem esta parte do trabalho.videotexto. famoso e criticado noticiário brasileiro. o mais antigo. faz com que seja difícil discordar do professor de telejornalismo da UERJ. a relação entre o JN e o público-alvo é examinada por meio de uma reflexão sobre o poder da marca e a organização de “vozes” autorizadas a enunciar. Em seguida.O TELEJORNALISMO Nosso estudo sobre o jornalismo de televisão tem como objeto o Jornal Nacional. Ele afirma que “boa parte das pesquisas ainda é pouco científica.91 “As universidades odeiam a televisão”.tv: http://www. Semiotizamos depois os recursos de textualização mais importantes. 91 154 . como antimodelo constantemente desafiado por profissionais de outras redes. há décadas. se impõe como modelo de telejornalismo de sucesso a ser copiado e. que incluem o manejo dos planos de câmera e da montagem (ou edição).tv/ab_uniodeiatv. Considerações gerais sobre o telejornalismo e o Jornal Nacional O telejornalismo – em especial o produzido pela Rede Globo – ilustra muito bem diversas considerações feitas na parte inicial do trabalho. entretanto.último acesso em março de 2005.html . Inicialmente. apresentamos a estrutura geral do programa.

tudo é esquecido. a rigor. “As redes de transmissão organizam os noticiários de forma tal a garantir um maior público porque seu interesse principal é a grande audiência. Entre seus exemplos. Para diversos teóricos e trabalhadores da comunicação. O fluxo telejornalístico inteiro não passa de outra coisa que uma sucessão de ‘versões’ do mesmo acontecimento. sem dúvida com toda a boa-fé. mas para a maioria das pessoas é o único lazer. a “superficialidade” do telejornalismo em relação aos outros tipos de noticiários tem uma justificativa.) expõe a um grande perigo as diferentes esferas da produção cultural. ela expõe a um perigo não menor a vida política e a democracia” (1997:9 e 10). literatura. filosofia. juntas. Essa característica.. por exemplo. Pierre Bourdieu. e não com uma audiência mais restrita que exige um aprofundamento dos fatos” – afirma Schwartz (1985: 78). O apresentador Sérgio Groisman explica: “Há uma questão delicada. Arlindo Machado afirma que o telejornalismo não tem ponto de vista. a única ‘leitura’ possível para o espectador é a de que se trata de diferentes ‘versões’ da guerra.) Uma máquina incessante de fazer o nada” (2000:89). ou tentamos fazer a cabeça com Caetano e Chico César ou damos 155 . Quando a CNN lança ao ar sucessivamente um material publicitário do Pentágono e outro da TV do Iraque. assevera que tudo o que o telejornalismo produz é rápido demais.. afastada do sistema significante do telejornal. por outro lado. Nenhuma notícia sobrevive. nenhum relato é suficientemente trabalhado para criar raiz. arte. seria uma coerção de qualquer programa de TV no País.. (. emocional e superficial: “Tudo vai direto para o lixo. não é com a verdade que ele trabalha. ciência. pois. fala de um incidente em uma ilha grega que gerou mobilização da TV do país e quase terminou em uma guerra contra a Turquia. que se satisfaz com apenas leves pinceladas sobre o título da notícia.. direito: creio mesmo que. que serve para algumas pessoas fazerem porcaria na TV: para nós da classe média. ao contrário do que pensam e dizem. marcado por profundas diferenças entre classes sociais. A questão da verdade está. tudo desaparece instantaneamente. o telejornal coloca em choque os diferentes enunciados e os relativiza ou os anula no mesmo momento em que lhes dá publicidade. acabam se anulando. Há dois públicos no Brasil. Ciro Marcondes Filho. os jornalistas mais conscientes de suas responsabilidades. mas com a enunciação de cada porta-voz sobre os eventos” (2000:111). acredita que o poder da televisão e seus produtos é ameaçador: “Penso que a televisão (. tudo evapora. portanto. a televisão é uma opção no sábado à noite. “Ao embaralhar no fluxo televisual os materiais originários de fontes diversas.A TV e o telejornalismo em especial podem dar margem a opiniões díspares. Note-se que as três afirmações. por sua vez. Para quem não tem outra opção.

O que parece ser indiscutível. As estratégias de gerenciamento de atenção do telejornalismo devem ser muito sofisticadas e de efeito imediato. é a existência de um laço tênue entre público e noticiários de TV em comparação com os outros jornais.TV Folha. da audiência. Suplemento Folha de São Paulo. aparece bem sintetizado no trabalho de Odair José Moreira da Silva. É um dilema. 2004.para prender a atenção. de qualquer modo. podem ser entendidos como armas possíveis – e sempre discutíveis . 10/02/02. dos seres humanos e de seus conflitos por esse veículo de comunicação. 14. a idéia de espetáculo se liga mais fortemente à TV do que a qualquer outro veículo: “Telejornais. o uso crescente de recursos visuais possibilitados pelas novas tecnologias de manipulação digital. mas não posso impor a transformação. tirando o peso das análises mais críticas e ideológicas. estamos diante de uma série de coerções de conteúdo e de expressão que. dissertação de mestrado. Se todas essas afirmações sobre a televisão e o telejornalismo estiverem corretas. Esse estigma tem sérias conseqüências. “A TV é muito superficial”. a transformação da vida de artistas em notícia. ou mesmo tivesse pretensões estéticas. e não como “características” inerentes – e imutáveis – do telejornalismo. sob um olhar semiótico. Quem quisesse ser mais “analítico” ou “sério”. portanto. Há quem tente convencer de que essa forma de discurso é comandada exclusivamente pelo “poder da imagem”. capítulo 1 – O cinema: das origens às teorias da linguagem cinematográfica. comuns notadamente até a metade do século passado. extraem dos fatos toda a sua explosividade e os transformam em variedade e diversão” (1989: 52).prazer com KLB e umas bundas. Para Marcondes Filho. É perceptível ainda que questões de textualização 92 Entrevista de Sérgio Groisman a Fernanda Dannemann. Nos estudos sobre o telejornalismo que encontramos. Percebe-se.”92 Outra idéia muito ligada à televisão e ao telejornalismo é a da “espetacularização”. um julgamento negativo pesando na análise sobre a TV.93 Outros buscam mostrar a primazia do “poder da palavra”. deveria utilizar outras mídias. teria como conseqüência a perda da atenção e. reduziriam drasticamente as possibilidades de abordagem noticiosa do mundo. por exemplo. o que é pior. como “shows da vida”. Esse último assunto. 156 . O necessário debate entre todos os que assistem ou fazem televisão sobre formas de superação dos atuais modelos surge como uma grande perda de tempo. O aspecto de “show”. que confunde modos de apresentação de conteúdos e certas escolhas do que divulgar com a própria maneira de “ser” do veículo. “A manifestação de Cronos em 35 mm – o tempo no cinema”. pág. Uma é particularmente funesta. Cada vez que tentasse ser “profundo”. FFLCH-USP. por sua vez. 93 São reproduzidas no estudo do telejornalismo certas discussões sobre o cinema. a dicotomia verbal x visual aparece com força. Quero que as pessoas se transformem.

Em resumo. 1° de setembro de 2004.97 Para Arlindo Machado. Ver.96 Nesse tempo. como as possibilidades de manejo sensorial proporcionadas pelos planos de câmera e pela edição. inclusive com depoimentos de todos profissionais envolvidos. a televisão é por natureza ‘má’.. mesmo se só existisse porcaria em suas telas. aliás. 97 Esse ponto de vista é partilhado por diversos teóricos. 95 O livro dedica ainda muitas páginas para descrever e analisar o assunto. falta ao estudo do noticiário de TV uma visão não só mais abrangente como também mais distanciada. “A guerra atrás das câmeras”. como construtores do discurso do telejornalismo é esquecido até no livro que comemora e conta os 35 anos do mais importante telejornal do Brasil. Há exemplos marcantes dessa força. Esquematicamente. admite que “a edição do debate provocou um inequívoco dano à imagem da TV Globo” (2004: 213). que mereçam ser considerados em sua singularidade” (idem:19). Em 1984. uma das fontes de consulta desta parte da tese. podemos distinguir duas maneiras principais de tratar a televisão. de João Gabriel de Lima. Isso que dizer que os adornianos atacam a televisão pelas mesmas razões que os mcluhanianos a defendem: por sua estrutura tecnológica e mercadológica ou por seu modelo abstrato genérico. O trabalho dos cinegrafistas. vamos denominá-las o modelo de Adorno e o modelo de McLuhan” (2000: 17). assim reconhecida pela própria direção da Globo .) “Para o grupo adorniano.94 No Brasil. As razões são simples: pobreza. O mais interessante é que a obra expõe enormes contradições entre os direta ou indiretamente envolvidos.. João Roberto Marinho. e sem maiores aprofundamentos. apareçam mais. mesmo que todos os trabalhos mostrados em suas telas fossem da melhor qualidade.do último debate entre os candidatos à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello. possivelmente a única. sempre foi a principal referência informativa para a maioria dos brasileiros. o vicepresidente das Organizações Globo. O candidato do Partido dos Trabalhadores foi prejudicado. do Jornal Nacional. 2000:143. Em 1989.bastante evidentes. apresentou uma edição tendenciosa – ação. Era um dos telejornais mais vistos no mundo. coincidindo ambos na defesa do postulado básico de que a televisão não é lugar para produtos ‘sérios’.95 Mesmo com esses deslizes. em meados de 2004 o principal noticiário da Rede Globo completava 35 anos como campeão de audiência no gênero no Brasil. uma das razões para tanta passionalidade – inclusive acadêmica – é o sucesso e o poder de mobilização e de desmobilização do telejornalismo e. em obras do tipo “manual”. No livro de comemoração dos 35 anos do JN. o JN foi acusado de esconder manifestações pela eleição direta para presidente da República. enquanto para o grupo mcluhaniano a televisão é por natureza ‘boa’. Trata-se de “Jornal Nacional – a notícia faz história” (2004). 94 157 . Tinha em média 31 milhões de espectadores e 68% dos televisores sintonizados no País. dias antes da eleição. Rezende. que se traduz em impossibilidade de consumo de outros tipos de jornais. 96 Fonte: revista Veja 1869. o telejornalismo sofre preconceito por ser parte da programação da televisão. a mais criticada mídia: “Numa rápida retrospectiva histórica. (. notadamente. por exemplo. e o grande número de analfabetos.

houve a tentativa de conquistar mais credibilidade para a notícia. uma modificação que criou uma nova etapa para JN. é quase uma coerção para que o principal noticiário da Globo mude muito pouco ano após ano. A estratégia de fidelização. o jornal surgiu com um novo cenário. colocar uma bancada em primeiro plano. filmes. além de locução. foram passando do cinza para o azul. fotografia. em sua longa existência. fazendo um telejornalismo que. mapas. que desse a idéia de que nós tínhamos um jornalismo agora com mais peso. gráficos. Arlindo Machado explica o que são essas unidades: “Tecnicamente falando.” No caso do JN. Os apresentadores de bela voz deram lugar aos âncoras. o noticiário de TV tem como característica principal a textualização manifestada por meio da organização de unidades no fluxo temporal. tanto na forma como no conteúdo. Houve. Na história do JN. os cenários também são importantes indicadores de mudanças não apenas cosméticas. As mudanças posteriores de cenário só intensificaram essa proposta de criar movimento. material de arquivo. um telejornal é composto de uma mistura de distintas fontes de imagem e som: gravações em fita. podemos ainda incluir animações. Por trás da mudança. Nós tínhamos sempre uma tapadeira atrás dos apresentadores. e fazer uma concepção cenográfica. Trata-se da substituição de Cid Moreira e Sergio Chapelin por William Bonner e Liliam Witte Fibe. Era aprofundar o cenário. no entanto. através de iluminação e de criptogramas. A estrutura do programa Assim como o radiojornalismo. nós chegamos à conclusão de que uma das maneiras de mostrar que estávamos fazendo um novo jornalismo era criar um cenário em três dimensões. textos. Armando Nogueira. precisa de mais e mais estímulo. aos poucos. música e ruídos (2000: 104). mais predominante. e o vermelho. era absolutamente ‘chapado’.O Jornal Nacional. Os novos apresentadores são jornalistas que participam ativamente da edição. Em 1989. dinamismo. para se manter atento. Os efeitos cênicos. O público. Existe uma grande consciência da importância do sentido de familiaridade. E quando veio a abertura. memória e segurança que o formato gera. tanto tradicionais (caso das charges 158 . explicou a mudança como decorrência da abertura política: “Nós passamos a vida inteira debaixo de um regime de exceção. O diretor da Central Globo de Jornalismo da época. de criação de um hábito. com mais densidade” (idem: 188). mas de conteúdo. O noticiário que analisaremos em detalhes a seguir está dentro dessa “nova fase”. em 1996 (Memória Globo. passou por raríssimas alterações bruscas. 2004: 287). que acabamos de analisar no item anterior.

98 A escalada – a apresentação das manchetes . política nacional etc. Esses indicadores podem ter um caráter permanente. o que lhes dá o sentido de um jornalismo de serviço.off – a narração do apresentador ou do repórter feita enquanto as imagens da notícia são exibidas na tela do televisor” (Maciel. Não tem imagens.. Mediante um estilo mais livre.) O pé é um texto curto. No trabalho de descrição. que está sendo transmitida para o telespectador. (. a reportagem incorpora todas as outras formas de apresentação da notícia em suas cinco partes básicas: 1. O primeiro tem como uma das principais matérias uma invasão de sem-terras.. 5 – pé.. o 98 159 . no começo da noite.. Boletim (stand-up) – “É a notícia de televisão completa. Tem texto.. Comentário – “Matéria jornalística em que um jornalista especializado em um determinado assunto (economia.. Nota ao vivo. 1995: 52). O segundo aborda a prisão de Saddam. ou temporário. do repórter e de entrevistados. imagens.)” (ibidem: 60 e 61). O repórter que vai apresentar o boletim costuma ser chamado do estúdio pelo apresentador do telejornal” (idem: 56). Em geral mais longa.sonoras. 3 – boletim. utilizado para encerramento da reportagem. Durante o boletim. se houver sonora. Indicador – “(. de utilidade para o telespectador em eventuais tomadas de decisão. Reportagem – “É a forma mais complexa e mais completa de apresentação da notícia na televisão. vai além da simples avaliação jornalística do real. nota simples ou nota pelada: apresentador lê a notícia. 2. adotamos a metalinguagem dos profissionais para nomear os diferentes tipos de segmentos jornalísticos. 2000. presença do apresentador. o repórter fica em quadro. estudaremos a estrutura mais geral e o contexto semiótico do programa. Ele é lido em quadro pelo apresentador e tem a função de fechar a matéria. é formada por duas partes (.resume todo o conteúdo mais importante e a própria estrutura do programa..): 1 – cabeça – texto que corresponde ao lead em jornal impresso e que é lido pelo apresentador em quadro. uma interpretação de fatos do cotidiano” (ibidem). apesar do tempo de duração ser quase constante. Mostraremos a seguir a estrutura de dois programas em dias diferentes. Antes de analisar a organização textual em detalhes.) faz uma análise. 2 – off. Editorial – “Texto lido geralmente pelo apresentador.) Indicam tendências ou resultados de natureza diversa. Ambos servem para mostrar como a estrutura interna é flexível. Esse tipo de apresentação de notícias costuma ser muito usado pelos jornalistas que trabalham em Brasília (. Reportagem especial – série de reportagens com o mesmo tema que se desenvolve em várias edições. mesmo que remeta a um acontecimento da realidade. apresentada e sustentada pelo repórter. de uma visão pessoal. Normalmente. a crônica é um gênero opinativo que. locais pobres em imagens para a televisão. Crônica – “No limite entre a informação jornalística e a produção literária. Nota coberta – “É a forma mais simples de apresentação de notícias com imagens na televisão. 4. esporte.televisivas de Chico Caruso) como as realizadas em programas que simulam terceira dimensão (3D). a exemplo dos resultados de pesquisas eleitorais” (Rezende..cabeça. Tudo isso é determinante para a estruturação do programa e das principais estratégias de gerenciamento de atenção do público-alvo. a câmera pode fazer um passeio para mostrar o que o repórter está narrando ou abrir em um entrevistado.) onde a maior parte das notícias se desenvolve em gabinetes. Durante toda a narrativa.. números do mercado financeiro e informações de condições de trânsito. O Jornal Nacional vai ao ar entre duas novelas. fornecendo ao telespectador uma informação complementar (.. caso das previsões meteorológicas. depois que grande parte dos telespectadores realizou as principais tarefas do dia. 158). que expressa a opinião da emissora sobre uma determinada questão” (idem).

TABELA 2 JORNAL NACIONAL – Edição de terça-feira, 29 de julho de 2003
1° bloco Tipo de segmento Escalada Tempo inicial 1s Duração 50s

Manchetes da escalada Fátima Bernardes: Vandalismo e violência – integrantes do MST invadem e destroem uma fazenda em Minas. Willian Bonner: Em São Paulo, colegas homenageiam o fotógrafo assassinado em frente do acampamento dos Sem-teto. Fátima Bernardes: Um crime até agora sem solução. Willian Bonner: Governo manda cortar o ponto de grevistas. Fátima Bernardes: Parlamentares governistas negociam com o judiciário mudanças na Reforma da Previdência. Willian Bonner: Mas ministros dizem que não querem modificação nenhuma. Fátima Bernardes: O ex-guarda-costas de Saddam Hussein é preso no Iraque. Willian Bonner: E em mais uma gravação atribuída a ele, o ex-ditador chama os filhos mortos de mártires. Fátima Bernardes: Presa uma quadrilha internacional de tráfico de crianças. Willian Bonner: O artilheiro do Santos é vendido para o futebol espanhol. Fátima Bernardes: Suspeita de doping pode tirar Maurren Maggi do Panamericano. Willian Bonner: E na série sobre fertilização, como a ciência está ajudando a maioria dos casais que não consegue ter filhos Fátima Bernardes: O Jornal Nacional está começando. Vinheta do JN 51s 2s 1 – Busca de remédios gratuitos em Reportagem 53s 2m postos de saúde por usuários de planos privados 2- Reajuste de remédios Reportagem 2m53s 2m17s 3 – Juros mais baixos Reportagem 5m10s 1m46s 4 – Tempo e temperatura Indicador 6m56s 28s 5 – Cheias no Paquistão Nota coberta 7m24s 19s 6 – Incêndio mata turistas na França Nota coberta 7m43s 20s 7 – Explosão e morte em prédio da Nota coberta 8m03s 18s China 8 – Acidente grave na BR-101 Nota coberta 8m21s 25 9 – Exposição sobre tecnologia em São Reportagem 8m46s 1m52s Paulo - Prisão de traficantes de crianças Chamadas + vinheta 10m38s 12s - Fertilidade artificial PUBLICIDADE Feira no Carrefour 10m50s 31s Banco Itaú Personnalité 11m21s 31s 2° bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta do início do bloco 11m52s 3s 10 – Tráfico de crianças - Inglaterra Reportagem 11m55s 1m47s 11- Criança Esperança – Jardim Ângela Reportagem institucional 13m42s 3m06s 12 – Técnicas mais avançadas de Reportagem especial sobre 16m48s 4m01s reprodução assistida fertilização artificial Sem terra Chamadas + vinheta 20m49s 12s Filas para vagas de auxiliar de limpeza PUBLICIDADE Dias dos Pais – celular Vivo 21m01 30s Bradesco na Internet 21m31s 30s Chamada para novela Mulheres Apaixonadas 22m01 30s 3° bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta do início do bloco 22m31s 3s 13 – Turista morto no RJ Nota simples 22m34s 12s 14 – Repercussão: morte de Marcinho Nota coberta 22m48s 1m12s

cronista projeta para a audiência a visão lírica ou irônica que tem do detalhe de algum acontecimento ou questão (...)” (ibidem: 159). Charge – animação humorística do cartunista Chico Caruso com base em alguma notícia apresentada.

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VP 15- Invasão dos Sem-terra 16 – Terreno invadido da Volks – “politização” do movimento 17 – Missa para fotógrafo assassinado 18 – Vagas para auxiliar de limpeza 19 - Nível de atividade industrial - Corte do ponto de servidores em greve - Preso segurança de Saddam - Saddam fala dos filhos mortos

Reportagem Reportagem Nota coberta Nota coberta Indicador Chamadas + vinheta

23m36s 26m04s 28m00s 28m26s 28m51s 29m08s

2m28s 2m04s 26s 25s 17s 12s

PUBLICIDADE Loteria - Jogada da Sorte Celular – Plano Incrível da Tim Institucional – Criança Esperança Agosto na Globo – chamada para o filme “O homem sem sombra” 4° bloco Tipo de segmento Vinheta do início do bloco 20 – Reforma da Previdência - corte de Nota simples ponto dos funcionários públicos em greve 21 – Reforma da Previdência – líderes Reportagem do governo tentam evitar greve do judiciário 22 – Animação de Chico Caruso Charge 23 – Dólar e Bovespa Indicadores 24 – Desabafo do presidente da GM Cabeça de matéria + sonora 25 – Segurança de Saddam preso - Fita Reportagem com Saddam sobre filhos mortos Recompensa para matar americanos no Iraque - Vendido artilheiro do Santos Chamadas + vinheta - Esportista suspeita de doping PUBLICIDADE Veículo – Honda Fit Casas Bahia Chamada – Copa Sul-Americana 5° bloco Tipo de segmento Vinheta de início do bloco 27 – Venda de jogador Nota simples 28 – Copa Sul-Americana Reportagem 29 – Novo técnico da Seleção Brasileira Nota simples de Vôlei 30 – Suspeita de doping em atleta Reportagem brasileira 31 – Pan-Americano Reportagem –Final – chamada para o programa “O Encerramento jogo” TEMPO TOTAL DA EDIÇÃO: 45m48s

29m20s 29m50s 30m21s 30m51s Tempo inicial 31m30s 31m33s

30s 30s 31s 30s Duração 3s 13s

31m46s

3m13s

34m57s 35m15s 35m25s 36m18s

18s 10s 53s 1m19s

37m37s

15s

37m52s 38m22s 39m24s Tempo inicial 39m50s 39m54s 40m03s 41m44s 42m02s 43m39s 45m23s

30s 1m26s 26s Duração 4s 9s 31s 18s 37s 1m44s 25s

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TABELA 3 JORNAL NACIONAL – Edição de segunda-feira, 15 de dezembro de 2003
1° bloco Publicidade especial da Claro Tipo de segmento Apresentação do patrocinador com som do JN ao fundo e passagem do logo Escalada Tempo inicial 0 Duração 10s

11s 1m03s Manchetes da escalada: Renato Machado (início da escalada): O destino de Saddam Hussein. Eraldo Pereira: O presidente Bush garante que o julgamento do ex-ditador vai ser aberto a observadores internacionais Renato Machado: E diz que iraquianos vão decidir como aplicar a justiça Eraldo Pereira: Os novos detalhes da captura. Saddam Hussein tentou negociar com os soldados no momento da prisão. Renato Machado: O presidente Lula recebe do presidente americano cumprimentos pelo primeiro ano de governo. Eraldo Pereira: Reforma da Previdência. Renato Machado: Depois do texto básico os assuntos mais polêmicos também são aprovados no Senado Eraldo Pereira: O provão das universidades. Renato Machado: Somente dois cursos passam no teste de avaliação de qualidade. Eraldo Pereira: E veja também. Renato Machado: O jeito próprio que cada cidade brasileira tem de festejar o Natal. Eraldo Pereira: O time de amigos de Ronaldo vence os amigos de Zidane no dia em que o francês é eleito o melhor jogador do mundo. Renato Machado: A seleção brasileira até 20 anos derrota a Argentina e vai disputar a final contra a Espanha. Eraldo: Agora, no Jornal Nacional. Abertura 1m 1- Matéria sobre Saddam Reportagem complexa, com 1m16 10m40s diversos recursos Encontro de corpo de integrante do Chamada para o segundo 11m56s 14s Greenpeace bloco Denúncia contra postos que enganam a fiscalização e vendem gasolina adulterada PUBLICIDADE Bronzeador cenoura e bronze 12m10s 30s Fazer o 21 - Embratel 12m40 60s Boticário - perfumes 13m41s 30s 2° Bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta de início do bloco 14m11s 2s 2- Encontro do corpo de ativista do Nota coberta 14m13s 1m4s Greenpeace 3- Investigações sobre a morte de casal Nota simples 15m15s 53s norte-americano assassinado no Rio 4 -Postos que vendem gasolina Reportagem 16m08s 2m5s adulterada desafiam autoridades 5 -Tempo e temperatura Indicador 18m03s 29s 6 -Doação de órgão de rapaz Reportagem 18m32 2m17s assassinado Sai resultado do provão Chamadas para o 3° bloco 20m15s 11s - Preparativos das cidades brasileiras mais vinheta para o Natal PUBLICIDADE Computador Intel 20m26s 30s Medicamento - Engov 20m56 30s Cerveja Kaiser 21m26s 30s Celular Claro 21m57s 31s Chamada para filme da Tela Quente 22h28s 31s 3° Bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta de início de bloco 22m56s 2s 7 - Provão - resultados Reportagem 22m58s 1m33s 8- Parlamentares Juvenis Reportagem 24m39s 2m1s

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9- Prêmio para sugestões que façam a Justiça mais rápida 10- Natal em Canela – tradição alemã Parlamentares aprovam temas polêmicos da Previdência. Presidente Lula fala dos desafios para 2004 DVD gradiente IBM – e-business Cerveja Nova Schin Casas Bahia - móveis Chamada - Fim de ano na Globo 4° Bloco Vinheta de início de bloco 11- Aprovação da emenda da Previdência no Senado 12- Prorrogação dos trabalhos no Congresso 13- Expulsão dos “radicais do PT” 14 -O triunfo da globalização 15- Balança comercial – dólar - bolsa 16- Prorrogação de acordo do FMI com o Brasil 17- Lula: avaliação do primeiro ano do governo por Lula 18 - Bush ligou para cumprimentar Lula pelo primeiro ano de governo. Presidente brasileiro diz que a prisão de Saddam contribui para uma nova fase de transição democrática no Iraque Brasil na final de futebol Jogo amistoso de Ronaldo e Zidane Koleston – tintura de cabelos Resgate roupas Celular: promoção celular TIM Koleston – tintura de cabelos 5° Bloco Vinheta de início de bloco 19- Final do mundial de futebol Sub 20 20- Regras no Campeonato Brasileiro – Clubes, rebaixados e vencedores 21- Zidane – melhor do mundo – Jogo beneficente de Zidane e Ronaldinho – Renda para o Criança Esperança

Reportagem Reportagem Chamadas para o 4° bloco + vinheta

26m40s 28m35s 31m15s

1m55s 2m40s 12s

PUBLICIDADE 31m27s 31m57s 32m27s 32m57s 33m27s Tempo inicial 34m17s 34m19s 36m26s 36m44s 38m34s 38m54s 39m14s 39m43s 40m36s 30s 30s 30s 30s 20s Duração 2s 2m7s 18s 1m50s 20s 20s 20s 53s 20s

Tipo de segmento Reportagem Nota simples Reportagem Charge Indicadores Nota simples Cabeça do apresentador + sonora Nota simples + vinheta

Chamadas para o 5° Bloco + vinheta PUBLICIDADE

40m55s

19s

Tipo de segmento Nota coberta Reportagem Reportagem

41m08s 41m39s 42m09s 42m29s Tempo inicial 43m10s 43m12s 43m32s 45m45s

31s 30s 30s 31s Duração 2s 20s 2m13s 2m41s

Encerramento TEMPO TOTAL DA EDIÇÃO: 48m40

48m26s

14s

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A publicidade é encarada como um momento de quebra da programação do canal. Há diversos meios para manter a atenção do telespectador para o telejornal. O primeiro é evitar comerciais entre o final da novela das 19h e o início do JN. O intenso número de recursos que o JN utiliza no começo do programa é outro claro indicador de que os minutos iniciais são os mais problemáticos para obter a adesão do telespectador. Logo no início, temos a leitura das manchetes da escalada. Os apresentadores estão em plano próximo. Sons, cortes rápidos, entonação vibrante, logo voador fazem parte da estratégia de arrebatamento – de ordem sensível. É como se o telespectador se perguntasse: “Vale a pena ver o JN hoje?” E o Jornal tentasse instigar sua curiosidade ao máximo. Ao mesmo tempo, impõe as notícias “mais importantes” sem dar tempo ao telespectador para um julgamento mais profundo. Na escalada, todo o conteúdo mais valorizado e a própria estrutura do programa aparecem resumidos. As chamadas e sua ordem de apresentação acontecem em função do impacto afetivo, do mais tenso, violento, ou seja, das notícias negativas, com relações disfóricas (sujeitos apartados de seus objetos-valor invasão, destruição, assassinato, corrupção) para as mais relaxadas, eufóricas, positivas (vitórias de um time de futebol, campanhas beneficentes), o que mostra certas características da estratégia de sustentação. Parece que os editores do JN raciocinam que, se o telespectador receber apenas manchetes com notícias que considere ruins, de impacto negativo, ele pode decidir ver algo mais “leve”. Como um todo, porém, as chamadas buscam desencadear a máxima curiosidade do telespectador. Se a escalada for eficiente, haverá curiosidade (o querer-saber disfórico) para conhecer em detalhes os assuntos mostrados nas manchetes. Basicamente, o Jornal Nacional é composto por cinco blocos. No programa de julho observamos 31 notícias. No JN dedicado à prisão de Saddam contamos 21. Em alguns momentos foi possível perceber um certo encaixe de notas dentro de notícias de reportagens de maior envergadura. Uma notícia pode ser um agrupamento de outras com algo em comum. Um exemplo é uma nota sobre a operação de extração de câncer de Collin Powell na notícia dedicada à prisão de Saddam (que veremos depois). Para se criar uma noção de unidade, falou-se que o comandante militar “acompanhou a captura de Saddam Hussein pelo telefone”. As tabelas 2 e 3 mostram relações entre unidades noticiosas em função do tempo de apresentação. Uma reportagem, o segmento mais trabalhado do programa, dura em média 2 minutos. Somente notícias consideradas muito importantes ganham ou ultrapassam esse tempo. A prisão de Saddan e suas repercussões ocupam 10m40s. Esse tempo indica muito bem como a notícia foi valorizada. Como veremos depois, essa unidade noticiosa é, na verdade, um conjunto de quatro reportagens

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interligadas. Quando o programa cede mais tempo para uma reportagem está comunicando que deu mais atenção a um assunto em relação a outro mostrado em menos tempo. É como se o enunciador dissesse para o enunciatário: “Preste atenção: isso é importante”. Simultaneamente, quer que o telespectador também interprete e aceite esse código, de que se trata de algo que também merece o mesmo nível de consideração dele. Em outras palavras, podemos verificar como a edição (no sentido de ato) no telejornalismo maneja a relação semi-simbólica de texto inteiro apresentada na análise do radiojornalismo: cessão de tempo – valor – nível de atenção. No final dos blocos, com exceção do último, há chamadas para avivar a memória em relação às notícias restantes. Tenta-se manter a curiosidade do telespectador para o programa enquanto ele vê os comerciais. Em algumas chamadas, usa-se um trecho de gravação junto com a vinheta. No bloco final, a chamada é geralmente feita para um programa da Globo. A passagem entre o primeiro e o segundo bloco de notícias conta com um número reduzido de anúncios. Isso reforça o raciocínio de que os minutos iniciais são os mais problemáticos para obter a adesão do telespectador. Há outro ponto que fortalece essa observação. O número de comerciais entre os blocos só aumenta a partir do primeiro terço do programa, para diminuir novamente no final. Também chama a atenção o fato de o JN misturar assuntos nos blocos. Há questões nacionais com internacionais, remédios com informação do tempo, um salto para a China, depois o retorno a um problema brasileiro. Fica bastante evidente que a ordem do jornal é pensada em termos de impacto das gravações, de curiosidade da notícia e de coerções de ritmo e não em função de mostrar uma organização temática, como a encontrada nos jornais diários, por exemplo. O mundo que emerge no JN é fragmentado e ordenado segundo as necessidades de manutenção de atenção. Em outras palavras, a estrutura privilegia mais a dimensão afetiva, sensível, do que a inteligível. O JN como um todo também “pulsa”, dosando curiosidade, disforia ou euforia, notícias curtas com outras longas, algumas vibrantes com outras mais lentas. O jornal, de qualquer maneira, com bastante freqüência termina com assuntos mais alegres, geralmente ligados ao esporte ou ao exercício da solidariedade, da cidadania. Podemos notar a estrutura “happy end”. No Jornal da CBN, como mostramos anteriormente, a tensão é quebrada apenas no finalzinho do programa,

repentinamente. No JN, essa passagem é mais trabalhada, menos brusca.

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dá mais concretude a um sujeito que enuncia. A dupla fixa é formada por Willian Bonner e Fátima Bernardes. verificaremos as possibilidades de manejo do tempo e do espaço. Depois.Marca. ou a imagem de quem fala é sugerida. todo o discurso surge hierarquizado.. essa reflexão cabe a qualquer jornal. O contato com a voz também particulariza. que cede a voz para os outros jornalistas. que sempre aparece “embreada”. testemunhas oculares e toda uma multidão de sujeitos falantes considerados competentes para construir ‘versões’ do que acontece” (2000: 103). No Jornal Nacional essa característica também é marcante. No caso do JN. As unidades noticiosas são “amarradas” e apresentadas por dois âncoras a cada programa. a locução do âncora estrutura todo o programa. notadamente pelo efeito da marca. que esclarecem principalmente o funcionamento da aspectualização do plano de expressão do telejornalismo. no modelo padrão de noticiário em TV. Observamos no telejornalismo o que Fiorin considera como debreagem interna (1996: 45) em que diversas instâncias enunciativas se subordinam. se contrapõem uns aos outros. se revezam. também da enunciação. por meio dos efeitos de câmera e de montagem. ou seja. porta-vozes. Para analisar com mais detalhes a estrutura do Jornal Nacional. para os entrevistados e controla essas enunciações. Para ele. não compartilha nossa afirmação anterior. na forma de um “ele” que está no lugar de um “eu”. mediados através de repórteres (literalmente: aqueles que reportam. “(.) Os eventos surgem para nós. assim. No jornalismo. geralmente se vê quem fala. na qual o evento é reportado através das falas de seus protagonistas e/ou dos enviados especiais da própria 166 .. Arlindo Machado. Na verdade. vale notar o grande poder do sujeito “marca” como um enunciador que tudo centraliza. âncoras. que acabam. Machado caracteriza o telejornalismo como um texto de forte “efeito de mediação”. repórteres e correspondentes: os actantes da enunciação No Jornal da CBN. “o relato telejornalístico é imaginado como uma estrutura destituída de entidade narradora central. reforçando seu ethos. espectadores. É a marca que “autoriza” qualquer apresentação. vamos neste trecho estudar a organização dessas vozes dos actantes da enunciação. aqueles que contam o que viram). praticando atos de fala que se colocam nitidamente com o seu discurso em relação aos fatos relatados” (idem:105). É a marca que “toma a palavra” inicialmente e vai cedendo lugar para outras vozes. em TV. “Sujeitos falantes diversos se sucedem. O público tem a sensação de que tudo se organiza a partir dele. Não podemos esquecer que. contudo. Tudo o que acontece no Jornal Nacional tem a marca como ponto de partida.

. de todos os sentidos de familiaridade que construiu com o tempo. qualquer coisa que aparece durante o programa é compreendida pelos telespectadores como enunciada pelo jornal. A fidelização também faz com que o público tenha expectativas positivas sobre o que esperar. Isso quer dizer que o JN.” ou o que o “JN mostrou”. audiência baseada em credibilidade.com. Ao mesmo tempo. A existência de um contrato enunciador-enunciatário de tamanha longevidade expõe o peso da estratégia de fidelização na forma de conceber e manter cada detalhe do programa. Cotidianamente. se beneficia.último acesso em fev/2005 167 . o logotipo que surge ostensivamente em todo o telejornal (principalmente no início. o peso da história do Jornal Nacional se impõe por meio de seu logo. no final e entre blocos) reforçam a existência da marca como regente de tantas vozes. 99 A informação sobre a música de abertura consta do site Telehistória: http://www. o JN subordina-se à marca maior.). A marca JN se constrói a partir do que os participantes enunciam e assim. Marca. a cada programa. A famosa música-tema (The Fuzz. como marca.br/canais/jornalisticos/jornalnacional_abertura. repórteres e apresentadores se tornam “confiáveis”. A questão do hábito aparece com força. A função do apresentador nessa estrutura consiste basicamente em ler as notícias e amarrar os vários enunciados.televisão. não se sustenta.htm . chamando os outros protagonistas (. Basta pensar que um enorme número de brasileiros com menos de 40 anos de idade praticamente teve contato com o JN a vida inteira.. As quase quatro décadas de existência do Jornal Nacional têm importantes conseqüências para o estudo do laço jornal-público. se renova e se atualiza. a longa história do JN como líder absoluto de audiência mostra a existência de um contrato enunciador-enunciatário sendo diariamente respeitado e gerando telespectadores fiéis.” (2000: 107). Temos o efeito de marca. Portanto. por exemplo. A idéia da ausência de um enunciador central. É a logomarca da rede que se vê nos microfones dos repórteres. Cada nota. ou seja. Portanto. Outro ponto a salientar é a influência da própria marca Globo. valorizada como “importante”.. portanto. A investigação sobre a significação manejada pelo Jornal Nacional não pode. de Frank Devol99). como “eleita” em função de algum tipo de relevância para o telespectador. Qualquer pessoa que fala pelos microfones do Jornal Nacional é.. De um ponto de vista semiótico. como simulacro dos “verdadeiros enunciadores”. por si só. Trata-se de uma marca literalmente familiar. no entanto. É através da Globo que o Jornal Nacional enuncia. a cada edição. comenta-se sobre o que “o JN disse.telehistoria. cada reportagem do noticiário beneficia-se desse sentido de credibilidade. deixar de considerar essa bem-sucedida estratégia de fidelização.

Raramente se ouve um “eu vi”. contudo. teoricamente. o JN está muito longe de ser um telejornal que preza um contato muito próximo. Tantas variáveis para levar em consideração justificam nossa insistência em um estudo mais global (sem trocadilho) dos objetos das grandes mídias. Os jornalistas retiram de suas falas. são tomados de alegria ou ódio extremos. No caso dos jornalistas. “eu conversei com”. Não é só esse estranho pleonasmo (existe verdade impura?) que o vice-presidente das 168 . Apaga-se a situação concreta de um sujeito que se dirige a uma enorme massa de telespectadores. o principal noticiário da Globo lança mão de uma série de recursos para “neutralizar” o que a proximidade pode ter de indesejável. refinada. Ao mesmo tempo. no fundo. O que se percebe é uma administração de elementos e de possibilidades discursivas cujo sentido geral transita entre esses dois extremos. Essa coerção.apresentam-se em um tom “na justa medida”. quando ouvidos. esses sim aparecem no auge da emoção. caso de sobreviventes de um acidente. são os que mais dizem “eu”. por exemplo. Os repórteres e correspondentes servem de ponte e contraponto para diversos entrevistados. Não há efeitos de objetividade ou subjetividade absolutos. Falar na frente das câmeras pode ser considerado uma debreagem actancial enunciativa. confiável e cordial. Para isso. título do prefácio do livro que relata os 35 anos do JN. projeta um efeito de subjetividade. Esse rápido estudo da categoria de pessoa mostra a enorme complexidade e a dificuldade de teorizar sobre a enunciação em objetos sincréticos. grevistas e manifestantes. escolhidos muitas vezes exatamente porque gritam de dor. por exemplo. Portanto. principalmente relacionados com a postura de repórteres e apresentadores. o JN precisa ainda persuadir o público de que é neutro diante das notícias. apresentadores. O tom de voz é professoral. Há um “eu” que assume o discurso e. democrática. os jornalistas encaram a lente da câmera e exercitam o “olho no olho” com quem os assiste. imparcial. de subjetividade. que serão analisados em seguida. no fundo. em um simulacro de competência para noticiar. Por causa disso. aparece na fala de João Roberto Marinho. comentaristas . compenetrada.repórteres. De qualquer modo. os atores institucionais . O resultado deve sempre construir a marca JN (seu ethos) como séria. para se apresentarem como mediadores mais neutros entre público e notícia. Em jogo está sempre a necessidade de fazer-crer. Ele afirma que todos os jornais das organizações Globo mostram “a pura verdade”.Entretanto. O figurino dos profissionais que aparecem na tela é clássico e discreto. Só que os profissionais do JN raramente exteriorizam emoções fortes. E os efeitos de actorialização também são influenciados por planos de câmera. Já os que tomam parte diretamente da notícia. esse mesmo sujeito que vemos na tela enuncia sem falar “eu”. qualquer característica enunciativa. Temos um dos mais comuns efeitos de particularização.

Eles apresentam notícias. 2 . Vamos examinar agora como a maneira específica de enunciá-las no telejornalismo determina o seu entendimento e o impacto não apenas inteligível e passional. Todos têm em comum “o zelo pelos atributos da qualidade jornalística: correção.como planos. nosso estudo se concentrou mais fortemente na estrutura geral do JN e nos enunciadores. a montagem aparece como a estratégia que acaba por reger todas as outras.Organizações Globo quer relacionar com seus jornais. focalização. da “linguagem cinematográfica”. Essa textualização é determinada pelo uso coordenado de dois procedimentos: 1 – Recursos de câmera . portanto. Vejamos: 169 . isenção” (2004:13). algumas considerações um pouco mais técnicas sobre as possibilidades de criar sentidos com a câmera. como a de despertar curiosidade e gerar laços entre enunciador e enunciatário. numa mídia de fluxo. de tempo e de espaço. Tempo e espaço: os efeitos de câmera e edição Até aqui. para depois nos concentrarmos na montagem (ou edição. Esse deve ser o efeito do “estilo JN”. como a televisão. A câmera tem a capacidade de simular uma interação do espectador com o que ele vê.Recursos de montagem. Nesta parte do texto. Sabemos que o texto do jornalismo de TV é manifestado por meio da hierarquização de unidades no fluxo temporal. mas também sensível. escolhidas em função de várias coerções. entre outras funções. há a tela e os procedimentos de expressão por meio do uso da câmera e da montagem. da marca e dos jornalistas. influencia a actorizalização e a espacialização. aqui na acepção de ato) e como esta age no sentido de tempo. Entendemos esses recursos como possibilidades de manejo aspectual do plano de expressão no telejornalismo. agilidade. Destacamos os efeitos das “vozes institucionais”. com a aspectualização do plano de expressão televisivo. Em comum. estudaremos alguns efeitos da câmera e a ação exercida na pessoa e no espaço. de criação de semi-simbolismos. Depois. esses efeitos serão discutidos do ponto de vista semiótico. Mostraremos. notadamente das histórias das reportagens. em seguida. Já a montagem. angulação. movimentos. influencia notadamente a sensação de passagem de tempo. Deixaremos para o final do trabalho o estudo de outros aspectos da montagem. relacionados à organização integral do texto e à manipulação perceptiva. É necessário destacar que. fragmentos de narrativas. A “linguagem do telejornalismo” é uma adaptação. e também como um meio de “complexificar” as categorias de pessoa. não raras vezes empobrecida.

novidade. “Provoca um achatamento da imagem. Pode ser de muito longe. Pode-se mostrar um objeto e toda a paisagem atrás dele ou desfocar esse mesmo fundo para ressaltar o que está em primeiro plano. por exemplo. urgência. quando se quer dar a idéia de que alguém está ‘olhando de baixo’. Temos ainda o efeito de profundidade de campo. No jornalismo. É utilizado “em situações inversas a da câmera alta. No travelling.A câmera também dispõe do recurso de mover-se. acontece um zoom in.referem-se às possibilidades de se mostrar um objeto. o deslocamento nos ombros do cinegrafista faz as imagens tremerem e pode redundar em um efeito de “pouca manipulação”.emocional. numa posição de inferioridade” (idem). Quando o movimento é de afastamento. há um enquadramento da imagem com a câmera focalizando a pessoa ou o objeto de cima para baixo. 1991: 202). No dia-a-dia. há um zoom out. o que geralmente leva a uma sensação de diminuição e inferioridade. Efeitos ópticos . Ângulos de filmagem – No ângulo alto. a ponto de exibirem-se todos os detalhes. Quando a câmera se aproxima de um objeto. se desloca para acompanhar uma cena. ao contrário. No ângulo baixo se faz enquadramento da imagem com a câmara focalizando a pessoa ou o objeto de baixo para cima. É muito usado para se criar a idéia de que alguém está ‘olhando de cima’ numa posição de superioridade” (Manual de Vídeo do SENAC). Em função de sua importância no nosso trabalho. O distanciamento promovido pelo equipamento. geralmente essa movimentação acontece sob trilhos. No cinema. a aproximação sujeito-objeto se relaciona a atos de intimidade e também ao que desperta curiosidade e atenção. tem outras 170 . A panorâmica é o “movimento horizontal da câmera sobre o seu eixo vertical” (Gage e Meyer. Geralmente a câmera está em ângulo plano e apresenta as pessoas ou objetos filmados num plano horizontal em relação à posição da câmara. dentro de um determinado contexto. ou de muito perto. tensão. os planos de câmera serão a seguir estudados detalhadamente. um objeto ou pessoas. Os planos de câmera simulam principalmente o contato de corpos do público com personagens ou objetos. Movimentos de câmera . Há ainda as gradações entre esses extremos. No cinema de terror.Enquadramento – Por exemplo. Planos de câmera . deixar um objeto dentro ou fora do quadro. passional ou sentimental. Tudo o que a câmera traz para perto mobiliza uma dimensão mais afetiva . ouvir um monstro e não vê-lo causa suspense e medo. objetos e cenários. Podemos notar semi-simbolismos.O zoom é o movimento de câmera para aproximar ou afastar a imagem de pessoas.

uma operação de caráter inteligível. Lembramos que a base da linguagem de câmera da TV veio do cinema. São Paulo. São elas O filme publicitário. tensão. 1990. como se um objeto que despertou uma atenção inicial tivesse exaurido a capacidade de atrair o sujeito. escancara a existência de um ponto de vista. Pode ser a de observar um “quadro completo”. O plano médio de Como filmar é o plano geral das outras duas publicações. Só que esse olhar do enunciador se impõe como o olhar do enunciatário. 2ªed. por exemplo. Harris. de Watts. Como filmar. de Gage. O telespectador. portanto. Foram encontradas enormes diferenças entre os nomes e os posicionamentos de planos de câmera. E os planos mais amplos. G. e geralmente passa a desconsiderar tudo o mais que não entra nos enquadramentos. aqui pensados tendo o corpo humano como parâmetro:100 Consultamos cinco publicações sobre planos de filmagem para fazer a ilustração. Um fato chamou a atenção. Leighton D. Adotamos conceitos de O filme publicitário. é necessário conhecer tipos de enquadramento de câmera. assim.. On camera – o curso de produção de filme e vídeo da BBC. por ser muito mais completo e produzido no Brasil. São Paulo. ao simular a aproximação do enunciatário com um elemento do enunciado. distensão e inteligibilidade. A câmera. que expõem essa mesma unidade como parte de um contexto. por exemplo. Prelo Editora. que não informa o autor ou os autores. Manual de Vídeo do Centro de Comunicação e Artes do SENAC – São Paulo. que um plano de câmera.. 3ªed. de Gage e Meyer. São Paulo. e Meyer. gera efeito de intimidade. da década de 90. Para avançar no estudo dos efeitos de distanciamento e aproximação. afetividade. O distanciamento também pode surgir como conseqüência. ao registrar uma ação ou um estado. Atlas. no qual se insere a parte no todo. É possível reparar. O filme publicitário. Brasiliense. de uma curiosidade satisfeita. de Wain. Summus Editorial. Cláudio. se vê obrigado a ver o que a lente vê. (não consta ano). 100 171 .funções. chama de plano americano o que On Camera diz ser plano de conjunto. Lisboa. 1991. 1990. e A Linguagem Cinematográfica. impõem certos efeitos de distanciamento.. de Marcel Martin. ed.

e é esse tipo de plano que constitui a primeira. pois aqui está um momento muito importante – e tenso . é no primeiro plano do rosto humano que se manifesta o poder de significação psicológico e dramático do filme. e afirma: “Sem dúvida. O close-up “é um dos recursos mais enfáticos na linguagem cinematográfica. Cotidianamente. Como exemplo. é deixar para o público essa investigação. Com isso. observar as expressões. a morte de animais. 1991:7-74). mostrando apenas os ombros e a cabeça do ator. Há um enquadramento em close-up do Sem-terra Francisco Alves no momento em que ele descreve a invasão. vale retomar a notícia 15 da Tabela 2. que gera uma proximidade afetiva do público com algo ou com alguém mostrado na tela. A câmera nos impõe a máxima atenção para a fala do personagem.da reportagem. Outro ponto sempre lembrado pelos teóricos do cinema é que um close-up de um rosto “acentua ao máximo a ação emocional”. Marcel Martin se refere a esse enquadramento como “primeiro plano”. sobre a destruição de uma fazenda praticada pelos Sem-terra. notadamente a dos olhos. Hugo Munsterberg (1982: 47). é uma maneira de investigar as “reais intenções” de alguém.” Observa-se um semi-simbolismo ou simbolismo “cristalizado”: qualquer coisa que a câmera destaque é e deve ser valorizada. ao dar um close-up no rosto do Sem-terra. O que a câmera faz. temos o close-up ou close. O olhar do telespectador não se dispersa. o cenário no qual se desenvolve a ação é praticamente eliminado. Esse plano leva a uma concentração de nossa atenção. como lembrava. É como se a câmera dissesse: “Preste atenção.No extremo da aproximação. E as expressões do ator tornam-se mais nítidas para o espectador” (Gage e Meyer. tentativa de cinema interior” (1990: 39). A câmera aproximase um pouco mais. e no fundo a mais válida. adquire-se um saber no 172 . Em outras palavras. no começo do século passado. a queima de tratores e a quebra da residência principal.

que maneja. o plano geral.close-up.101 O quadro apresentado em seguida mostra essas possibilidades de significação dos planos de câmera a partir dos dois “extremos”. que apresenta uma enorme área de ação. 1991:78). ‘objetiva-o’” (1990:38). Resumindo. O plano geral “normalmente (. em relação à “linguagem cinematográfica”. Acreditamos que esse comentário é válido para a TV. mas essa função é secundária em relação ao impacto afetivo e à valorização imposta ao telespectador pela aproximação com uma pessoa ou objeto apresentado nesse plano. O foco pressupõe 101 Uma diferença entre uma fita de cinema e o vídeo jornalístico é a inexistência de um grande plano geral. você consegue cobrir entradas e saídas das personagens e orientar o espectador sobre relacionamentos. por outro lado... Há um efeito de conjunto. filmada de longa distância.) é utilizado para apresentar todos os elementos da cena.)” (2003: 35). ENQUADRAMENTOS E EFEITOS DE CÂMERA + Intensidade + Foco + Afetividade PLANOS Close-up Plano próximo Plano médio Plano americano Plano de conjunto Plano geral + Extensidade + Apreensão + Inteligibilidade No limite. que delimita o domínio de pertinência (. ressalta o espaço e dissolve o ator Fontanille. relembremos. Na TV.. que “reduzindo o homem a uma silhueta minúscula. uma dimensão mais inteligível do que sensível. afirma que a tomada de posição de um sujeito acontece na forma de um “foco – que orienta o fluxo de atenção – e de uma apreensão. as pessoas e o espaço que ocupam. o contato do público com o que é apresentado é mais da ordem inteligível. o plano geral o reintegra ao mundo. Os detalhes desaparecem em uma tela pequena. Diz Marcel Martin. 173 . no plano geral. através de um plano geral. ressalta o ator e dissolve o espaço No limite. Somos solicitados a fazer relações entre os objetos. faz com que as coisas o devorem.. o grande plano geral tem utilização muito limitada. o close-up e o plano geral... (. movimentos e progressão dentro de cada cena do filme” (Gage e Meyer.) Além disso. Pensemos agora no plano oposto.

não só ao uso dos planos mais gerais como também ao processo inteiro vivido por um sujeito que. de uma maneira geral. no entanto. No JN. O efeito geral buscado é. no início do Jornal Nacional. um anel. depende totalmente das informações cedidas pela narrativa e por outros recursos. Se o público perceber qualquer imposição de olhar. Cada plano em uma tomada. 174 . enuncivo. As concepções de foco semiótico e de foco de câmera – o close-up – são perfeitamente compatíveis.um sujeito mais ou menos tenso. Ao mesmo tempo. Sem acesso à narrativa. o plano só vai cumprir sua missão de gerar informação (um saber) e alguma curiosidade (um querer saber). A câmera subjetiva instaura um actante da enunciação e mostra a existência de uma desembreagem actancial enunciativa bastante particular. Só assim esse tipo de plano tira o máximo proveito da tensão. o sujeito passa da tensão para o relaxamento. “Dizemos que uma câmera é subjetiva quando ela é colocada na posição que permite filmar do ponto de vista de uma personagem em ação durante determinada cena” (idem: 88). O enunciador está sempre interessado em uma decodificação rápida. Para entender como esse plano isolado é mais de ordem inteligível. A filmagem em câmera subjetiva. O impacto afetivo nesse caso. Em função dessa conexão. do ponto de vista dos planos de filmagem. ao contrário. da insatisfação para a satisfação. surgem novos complicadores na categoria de pessoa desse tipo de discurso. contudo.103 É possível notar que. na leitura da escalada.102 Os planos intermediários constroem sentidos de maneira proporcional. sem apoio de uma apresentação. a apreensão é o momento de passagem da percepção para a significação. Ambas mostram o engajamento perceptivo do sujeito na forma de curiosidade. no exercício teórico. mobilizado. hipoteticamente descontextualizadas. Ao obter a compreensão. ao ter o quadro todo. Para relacionar essas observações com a teoria da enunciação. O telejornalismo. sempre está conectado a outros. deve passar da situação de não ter um saber desejado (disjunção) para a de sujeito com esse saber (conjunção). disforia. é rara nos noticiários televisivos. uma sala). 1991:89). é possível até falar em um ângulo aberto de câmera com forte impacto afetivo. No cotidiano. os dois apresentadores se revezam em um plano próximo: 102 É importante dizer que nossa teorização sobre os planos de câmera se refere a formas de enquadramentos que são imaginadas. pode haver uma quebra nessa relação. por exemplo. O uso da câmera subjetiva é também pouco comum no telejornalismo porque afeta o sentido pretendido de o olhar da câmera ser o do telespectador. 103 Teóricos de cinema e de vídeo também falam da existência de uma câmera subjetiva e de uma câmera objetiva. basta imaginar um programa começando com um plano geral. como a narração do acontecimento por repórteres e apresentadores. por ter um formato bastante padronizado. trabalha com recursos bastante limitados de usos de câmera. afetado pela presença de algo que lhe reclama sentido. Esse é o recurso mais comum no telejornalismo. atraído pelo noticiário. é raro alguém se aproximar de algo antes de tê-lo visto a certa distância. no caso do nosso trabalho. A apreensão pode ser relacionada. também em relação ao afastamento ou à aproximação de um objeto (que pode ser uma pessoa. A câmera objetiva é “a filmagem da cena de um ponto de vista de um público imaginário” (Gage e Meyer. verificamos que geralmente não se mostra um close-up sem um plano médio ou geral anterior. tensão.

principalmente diante dos acontecimentos disfóricos. 105 O recurso do stand-up. Podemos observar que a narração em plano próximo é pensada para realçar a tensão desse conjunto de elementos da abertura do JN. não é utilizado pelos profissionais no programa. 1995: 113). Esse plano daria um tom de intimidade incompatível com o efeito de conjunto pretendido pelo telejornal.105 Nesses momentos. o jornalista aparece de pé. a tensão necessária é menor.O tom é nervoso. Um close-up.104 Na apresentação posterior de cada notícia. “designa a transmissão de informações pelo repórter do local dos acontecimentos” (Maciel. O plano médio também é muito utilizado pelos repórteres nos stand-ups. em destaque na tela. A fala é rápida e tensa. para relembrar. se vê um plano médio: O plano médio e o plano americano quase se apresentam como uma “justa medida” de enquadramento e simulam um tipo de contato mais neutro que temos com pessoas em nosso cotidiano. quase sempre a maioria. Portanto. 104 175 . apesar de acentuar mais a tensão.

claramente apontado (uma fazenda em Unaí. No caso do espaço. 107 É interessante observar que a categoria delimitado x ilimitado só pode ser aplicada ao uso da câmera se for considerado o efeito. aqui no caso espaciais. Em outras palavras. realiza diversos enquadramentos.como no caso a seguir. pode-se perfeitamente mostrar uma paisagem e obter o resultado de “horizonte sem fim”. Sabemos que a aspectualização do plano de expressão está relacionada à criação de continuidades e descontinuidades. cidade de Minas Gerais. só vemos o que a câmera mostra. Ao mesmo tempo. que fala de Washington. e também as pessoas da narrativa. Expliquemos. no decorrer da história. matéria sobre repercussão da prisão de Saddam Hussein nos Estados Unidos. Mesmo sabendo da existência de uma espécie de “espaço da história”.107 A citada reportagem dos Sem-terra tem como cenário uma fazenda de Minas Gerais. o simulacro. 106 176 . do repórter Luis Fernando Silva Pinto. no caso da reportagem dos Semterra). a categoria base é delimitado x ilimitado. que geram efeitos de proximidade ou de distanciamento. A câmera. por princípio. A câmera. O equipamento subordina esse espaço maior.106 Analisemos a relação dos planos de câmera com a aspectualização. aos efeitos de sentido pretendidos pelo enunciador. É por isso que afirmamos que a câmera sobredetermina efeitos importantes na categoria de pessoa e de espaço. pretendidos pelo enunciador. aproxima ou afasta os telespectadores das pessoas mostradas. é sempre uma delimitadora do espaço. No entanto. cada reportagem demarca as coordenadas principais da ação. Captura de frame do arquivo Jornal Nacional-2 (11m20s).

Chartier que mostra como fazer a montagem dos segmentos filmados: “Um plano não é percebido do início ao fim do mesmo modo. advém um instante de aborrecimento. Então intervém um momento de atenção máxima em que é captada a significação. converte a temporalidade da narrativa em um processo discursivo e cria o chamado “tempo psicológico”. como ato) de unidades. à exposição. portanto. ao chamado tempo aspectualilzado ou psicológico.” Em “Jornal Nacional – a notícia faz história”. sendo substituído por outro. O que chamamos ritmo cinematográfico não é. a sensação de que uma reportagem passa rapidamente. de como se relacionam as unidades e de quais as funções e os efeitos persuasivo-argumentativos 177 . palavra ou movimento -. no entanto. Recomendo a vocês – editores e apresentadores – o maior empenho para que os nossos telejornais estejam sempre no ritmo correto” (2004: 152). texto enxuto e leitura vibrante. As duas estratégias estão profundamente relacionadas. Comecemos pela importância do ritmo para o gerenciamento do nível de atenção. Alice Maria. Um bom ritmo se consegue com matérias editadas no tempo certo. há a reprodução de um memorando sem data (provavelmente do final da década de 80). Se cada plano for cortado exatamente no momento em que diminui a atenção. Diz a carta: “Os telejornais têm que ser vibrantes. impaciência. Não se trata de um ritmo temporal abstrato. Primeiramente é reconhecido e situado: corresponde. digamos. um ligado ao ritmo e o outro vinculado à duração de unidades.–P. Em seguida. a atenção diminui e. a mera relação do tempo entre planos. como foi citado. é a coincidência entre a duração de cada plano e os movimentos de atenção que desperta e satisfaz. Marcel Martin (1990: 148) cita uma reflexão de J. da diretora executiva da Central Globo de Jornalismo. Dois procedimentos precisam ser inicialmente destacados sobre o assunto. A montagem em meios de comunicação de fluxo. Ela dá uma definição “telejornalística” de ritmo. Eles retratam o dia-a-dia das notícias mais importantes do país e do mundo. que faz progredir a narrativa. mas de um ritmo de atenção. se o plano se prolonga. Para se ter uma idéia melhor do que é “montado”. O telejornal é resultado da montagem (ou edição. tem outras particularidades. precisam ter sempre um bom ritmo. o espectador permanecerá constantemente atento e diremos que o filme tem ritmo. Um das estratégias mais importantes para um “bom ritmo” se relaciona ao manejo do tempo que.Montagem e domínio do tempo Ressaltamos em outra parte do trabalho que a categoria temporal – e não a espacial – organiza a textualização na TV. ou seja. hierarquizadas em um fluxo no tempo. a razão de ser do plano – gesto. aspectualizado.

Para ilustrar. ligada à manipulação do nível sensível e ao ritmo. um quadro que melhor representa o fragmento. apresenta-se a narração: as falas. encontra-se a duração em segundos do segmento. dividida em cinco partes: fragmento. Essa reportagem dura quase o primeiro bloco inteiro do programa. Na segunda parte. quem narra. Depois. descrevemos o instante de ocorrência do fragmento e o tipo de plano (ou planos) de câmera utilizado(s) na tomada. como o da câmera acompanhar uma ação ou girar sobre o próprio eixo. ou seja. Utilizaremos ainda diversos termos comuns da “linguagem” do telejornal. duração em segundos. um estudo detalhado sobre a principal notícia da edição de segunda-feira. narração e observação.renova a atenção e se enquadra na estratégia de arrebatamento. a da prisão de Saddam Hussein e seus desdobramentos no mundo. Em outras palavras. Uma mesma tomada pode começar em plano geral e terminar em close-up. de observação. Finalmente. Quando há muita movimentação de câmera. Na terceira parte. Expliquemos o que significa cada parte da “decupagem”. examinamos como essa notícia se encaixa na edição e principalmente os efeitos de montagem.É um trecho de gravação rodado sem interrupção. 108 178 . Decidimos falar em fragmento ou segmento em vez de tomada por acreditarmos que o primeiro termo se vincula a um recurso de produção e não de edição. os efeitos sonoros. quando uma mesma fala se estende e é acompanhada por diferentes fragmentos. Qualquer mudança .no primeiro trecho da série. a partir de agora. somente haverá identificação do enunciador – quase sempre o repórter e os apresentadores . na quinta e última parte. há dois ou mais quadros com diferentes ângulos. a seguir.108 Tomada . Convencionamos que. 15 de dezembro de 2003. mostramos um frame da gravação. fazemos uma pequena análise do trecho ou do conjunto de trechos com todos os elementos em relação. Pretendemos dar mais destaque para recursos de plano de expressão e as relações com o conteúdo.principalmente um corte . Na quarta parte. A prisão de Saddam: um bloco inteiro dedicado ao assunto Apresentamos. uma mesma tomada pode gerar diferentes fragmentos. Outra função desse segmento é o de informar o que acontecia no fragmento e também o de mostrar outros efeitos da filmagem.que se podem obter. momento de início de apresentação e recurso de câmera. optamos por mostrar essa engrenagem por meio da análise da reportagem sobre a prisão de Saddam Hussein. momento de início de apresentação e recurso de câmera. Fragmento é um trecho de gravação que não apresenta corte. A Tabela 4. mostra uma espécie de “decupagem” da notícia.

2000: 149). 179 . Nas falas em que é necessária tradução. Uma cena pode ser fragmentada por meio do encaixe de uma outra.TABELA 4 MOMENTO DE INÍCIO DE APRESENTAÇÃO E RECURSO DE CÂMERA FRAGMENTO DURAÇÃO EM SEGUNDOS NARRAÇÃO OBSERVAÇÃO 1. que caracteriza uma pessoa. Esse termo. abrir ou fechar programas etc. Temos uma idéia de organização em relação à desorganização.” Renato Machado faz a cabeça de matéria. o “mundo”. na escalada. 10 Apresentador Renato Machado: “Os Estados Unidos vão decidir nos próximos dias em que tribunal Saddam Hussein será julgado. que pode ou não ser acompanhada por uma assinatura musical. uma fonte de informação de uma reportagem que não é identificada para o leitor. no mesmo ambiente” (Dic. focalizando uma certa situação em que aparecem as mesmas personagens. Background – “Também conhecido pela sigla BG. aparece atrás dos apresentadores e identifica um assunto ou um tema. Sonora . A estratégia de sustentação da atenção se baseia na criação da seguinte curiosidade: qual será o destino do ex-ditador? (Relembremos que a estratégia de arrebatamento principal aconteceu no início do programa.) Deve-se notar. a fala dos entrevistados nas reportagens” (Rezende. 1995: 104). Locução em off – Para relembrar: trata-se fala que acompanha a imagem de uma gravação.Em telejornalismo. Em geral. inicialmente. trata-se de “uma cena isolada de um filme ou uma animação feita com o nome ou a embalagem do produto. da televisão e principalmente do cinema. a vinheta é utilizada para anunciar patrocínios.” (Gage e Meyer: 1991: 202). Os iraquianos querem julgálo no Iraque e aparentemente contam com o apoio do presidente George Bush. Fusão . O “gancho” é a especulação em torno do julgamento de Saddam Hussein. A reportagem sobre a prisão de Saddam Hussein inclui um selo no qual se vê a foto do ex-ditador.“Parte de um filme que abrange diversos planos.Em telejornalismo. pronunciado por alguém que não aparece em cena. a primeira sobrepondo-se à segunda.(01m16s10) Plano próximo Surge o selo para as matérias de Saddam Hussein. “tem o sentido genérico de toda a gravação feita em externa e designa. Aurélio). Serve para mudar de cena ou enfatizar a relação entre elas. movimentando a cena inicial da reportagem. que corresponde ao lead do jornalismo impresso. assunto que aprofundaremos mais adiante. em particular. é costume deixar um BG da fala na língua original do entrevistado” (Maciel. que passa pelas costas do apresentador. Vinheta . não deve ser confundido com o “falar em off” da mídia impressa. O mesmo que off.Mistura de duas imagens. Selo . Cena .No Jornal Nacional o selo geralmente é uma ilustração que tem movimento. serve para designar o ruído ambiente ou música usada como fundo para a fala do repórter ou do apresentador. a diferença entre nitidez e cromatismo do estúdio e de tudo o que está fora dele. de curta duração (aproximadamente cinco segundos).

Vamos observar. que a ocupação espacial da primeira página de um jornal é o lugar dos assuntos principais. Há um cuidado com a enunciação do cidadão. 3..(1m49s26) – Plano próximo de Jornal. mesmo que a maioria dos telespectadores não saiba interpretá-la.. Pode-se observar.quer a pena de morte para Saddam Hussein. 6.(1m51s27) Câmera mostra plano geral de George Bush entrando na sala de imprensa. Uma característica que irá se manter nessa reportagem é comum no telejornalismo.. esse recurso será utilizado outras vezes..estava em todos os jornais americanos. Sabemos.” Cidadão: “Today is his day.. O telejornalismo utiliza todo o sistema de construção de valores da mídia impressa para afirmar a própria importância do que enuncia.2. 4 Voz feminina de correspondente em off: “A maioria dos norteamericanos. Novamente observa-se a preocupação do enunciador em mostrar os espaços onde se situam os atores antes de fechar o ângulo. A câmera parte de uma tomada mais aberta – um plano mais inteligível e menos tenso para ir fechando o quadro no que deve ser considerado mais tenso. 1 7. O jornal inicia a matéria com um “Povo Fala”. A voz dele é perfeitamente audível por uma fração de segundo. não o nome do jornal... Neste trecho. emocional e importante.(01m26s20) – Plano geral de rua de cidade norteamericana. o presidente George Bush traçou o destino mais provável para o exditador. 59%. 2 . por exemplo. o que deve merecer atenção do telespectador porque foi valorizado pelo JN.(1m48s19) – Plano próximo de jornal.” Correspondente em off sobre a voz do cidadão: “Para este outro. chegou a hora de Saddam pagar pelo que fez. Foca-se a manchete. Enfim.” Voz da correspondente em off: “A imagem de Saddam Hussein. a voz o conclui. segundo uma pesquisa de opinião Gallup-CNN.(01m30s19) – Tomada começa em plano geral na rua.”). Câmera se inclina para cima ângulo alto – e enquadra a bandeira norteamericana. 6 . por vários trechos da reportagem. Como se verá a seguir. 180 . imagens dos jornais.” 4. 5..” 8. a câmera apresentando o espaço (Estados Unidos) e outros actantes do enunciado. 5 Ouve-se a voz do cidadão (“He should be right. que vai a BG e é superposta pela voz da repórter em off: “Este americano diz que o exditador tem que ser julgado no Iraque. nas tomadas seguintes...(1m41s25) Plano próximo de outro cidadão. 7 No trecho anterior. a voz do cidadão iniciava o “Povo Fala”.(01m36s15) Close em cidadão norte-americano. A câmera o acompanha numa panorâmica e 10 Voz da correspondente em off: “Na primeira entrevista coletiva sobre Saddam Hussein.

(2m15s23) – Plano de conjunto de repórteres.. 8 Bush respondeu que a opinião pessoal dele não conta. Bush aparece como o destinador-julgador. O presidente diz que a verdadeira sanção quem vai aplicar são os iraquianos.depois fecha o ângulo até um plano próximo.” Bush: “The iraquees make their decisions. justo e submetido à verificação internacional. 10.. ainda mais porque é “longa” em relação aos outros trechos. Eles parecem enunciar pela voz dela. o que tem plena competência para a ação de julgar. como discurso “oficial”. e não a que vem a seguir. 4 Do ponto de vista semiótico.(02m05s04) Plano próximo de Bush. do Conselho do Iraque. 12. A função de ancoragem das imagens a seguir é evidente.” É evidente que. 11. O mais curioso dessa apresentação de Bush e de outras “sonoras” é ouvir as falas em inglês. a seguir.. O que importa é a opinião dos iraquianos. 9. todo este trecho da matéria é de sanção. Observe-se o aparente conflito entre enunciação e enunciado. há inserção dessa tomada em plano geral para depois retomar o mesmo plano próximo. a fala de Bush tem um potencial de atenção discutível. Não se vê ou se ouve ninguém do conselho fazendo afirmações. Mas o off da correspondente funciona como “porta-voz” dos conselheiros.(02m01s26) Plano geral da sala. 5 Voz da correspondente em off: “Para o Conselho do Iraque parece não haver dúvidas. 181 ..(02m27s15) Plano médio de líderes iraquianos – câmera faz uma panorâmica da esquerda para a direita para mostrar o Conselho do Iraque.(02m19s00) – Plano próximo do presidente. 4 Bush diz que ele deve ser julgado pelos iraquianos.” Voz da correspondente em off: “Ao ser perguntado se aprovaria a execução de Saddam.” 13. O Conselho espera.” Voz do presidente: “International (trecho não identificado) is the best way to put it. Para compensá-la. 10 Off da correspondente simulando voz de Bush: “Vamos trabalhar com os iraquianos para que Saddam tenha um julgamento público. Há a busca de um sentido de autenticidade e de valorização dessas enunciações. Saddam é o antisujeito. Mas o tempo dedicado a Bush pelo JN valorizou a sua opinião.

.(02m36s27) Novo plano geral dos líderes.(02m32s26) Plano geral dos líderes caminhando em direção à câmera. com gravações.14. mas a que aparece no vídeo. certas informações julgadas necessárias... O réu terá direito à defesa e a. no máximo. 4 . 3 Saddam será levado ao tribunal especial. Os fragmentos a seguir deixam bastante clara a dificuldade do telejornalismo em “preencher”. 182 . Temos um trabalho de aspectualização mais forte para gerar uma sensação de tempo que passa rápido. Para contrabalançar esse problema. 18.. 19. que identifica o grupo.. A falta de ação no conteúdo é compensada por uma espécie de ação no plano de expressão.. ou. Neste trecho. 15.(02m50s23) – Plano próximo do símbolo. há pouca ação que gere atenção.. a imagem também “ancora” o verbal. notadamente. os fragmentos são muito curtos. 17. 4 . limpo de sua polissemia e. meses. Um detalhe: a escolha do editor recaiu sobre o homem de roupas árabes. mas que servem de suporte à fala ao distrair o olhar do telespectador. 2 Se for julgado no Iraque. No telejornalismo.. 16.(02m47s06) – Plano geral da mesma sala. nesse caso da sala..... 6 Alguns integrantes afirmaram que pediriam a pena de morte para o exditador. Não é qualquer sala. Note-se que ele estava no fundo na tomada anterior. começar o julgamento de Saddam nas próximas semanas. Deve-se notar como se mostram diferentes ângulos da sala que pouco acrescentam de novidade ou de real informação. Vale notar que. limita suas possibilidades.(02m44s06) Plano de conjunto supostamente da mesma sala. cada fragmento aparece “ancorado”. 3 .. criado. ou seja.os cinco juízes..(02m42s06) Plano de conjunto de uma sala de justiça supostamente do Iraque.na semana passada. O Conselho de Governo é que vai escolher. euforizado ou disforizado pelo enunciador.

(02m54s05) – Plano geral. Se julgar necessário. à esq.os que foram criados pela ONU para julgar crimes de guerra. 24... há uma sucessão muito rápida.. Mais uma vez há uma ação de expressão que compensa a falta de ação no conteúdo. Do ponto de vista do conteúdo. por exemplo.. 3 . 26..recorrer a uma corte de apelação.. . o Iraque. A seqüência de fragmentos a seguir mostra novamente a dificuldade do enunciador de preencher as informações com gravações de arquivo. 4 ... Há fragmentos com menos de um segundo....em um momento em que a narração discute um julgamento.20. de novo. além da rapidez.. para compensar.. 183 .(03m12s20s) Transição entre tomadas é por fusão. 9 As organizações mais importantes de direitos humanos consideram que uma corte internacional daria legitimidade ao. onde se vê que ela faz parte de um monumento..julgamento. como... 25.(03m13s19) Transição entre tomadas é por fusão. o uso de recursos de movimentação de câmera. supostamente da mesma sala..(03m16s20) – Câmera faz uma panorâmica da dir. à esq..(03m17s29) – Plano Geral – Câmera faz panorâmica da dir.(03m03s22) Câmera foca bandeira do Iraque e faz um zoom out até um plano geral.. 23.... 21. 1 . E. com microfone em primeiro plano. 6 . estamos aqui às voltas com uma discussão sobre uma sanção pragmática que Saddam receberá e sobre quem será responsável por ela.um tribunal especial. e acompanha juízes. 22.o Conselho poderá convidar juristas internacionais para participar do julgamento. 3 Poderia ser criado.. Note-se.. Plano de conjunto. seu povo.. 1 . Distraem-se os olhos com imagens antigas que remetem a Saddam.(02m57s17) – Plano geral da sala do Conselho.

.na ex-Iugoslávia. Note-se. Fala-se em um “hoje”. Nem todo o público reconhece o ditador. Aqui há um dos raríssimos marcos temporais.Dead penalty”. 33.ser julgado por uma corte militar. 28. o que dá sentido de atualidade à notícia. em Ruanda.. 184 . à esq. o JN mostra que uma parte da audiência mais intelectualizada está sendo contemplada. – Voz de Anan sobe: “.27.. 3 Esses tribunais não prevêem a pena de morte.. 6 O secretário-geral da Onu. Mas a edição dá a impressão de que três mudanças acontecem.(03m21s19) – Passagem entre cenas por fusão – Plano Geral com perspectiva. faz uma panorâmica pela sala (da dir.) e termina focando outros cinegrafistas. o uso de mais gravações de arquivo do JN. que aparecem identificadas no canto inferior à direita.em Serra Leoa. 6 O que está fora de questão é a vinda de Saddam Hussein para os Estados Unidos para......(03m39s24) – Plano americano de Saddam tirando uma espada da bainha.. 29.(03m24s21) Câmera faz um zoom in e foca Saddam – ao fundo no primeiro quadro – em plano próximo..(03m22s28) – Plano próximo.(03m45s17) – Câmera faz uma panorâmica da sala – plano geral. parece fazer uma única tomada. 6 . 30.. Kofi Anan.. leis humanitárias internacionais e que a Onu não apóia a pena de morte. 32. a partir de agora.. Devemos observar o esforço em lutar contra a monotonia visual nas tomadas feitas na ONU. 2 . disse hoje que o julgamento de Saddam deveria seguir as. A câmera não sai do lugar. 31. e. Ao apresentar Milosevic sem identificá-lo.(03m27s27) – Câmera deixa o secretário.(03m33s11) Novo plano próximo no secretário.. 1 . 2 ..

. 3 . predominou o tom formal. A partir de agora. veremos as performances que foram consideradas condenáveis do ponto de vista do destinador. A imagem de Saddam.corte que Saddam será submetido.. teremos a exposição das ações do antisujeito Saddam..(03m51s11) Câmera faz uma pequena panorâmica pela sala. foca os cadáveres. principalmente de vingança... a partir de agora. O jornal busca agora justificar a prisão e a guerra contra Saddam em função de seus crimes.. . Só que.(03m54s27) – Plano de conjunto com um sutil zoom in no soldado. 37. a discussão “racional”. Saddam é acusado.. o.dramáticos da história da humanidade... 2 . Plano americano. como os curdos. Semioticamente falando... Lembramos que a pergunta sobre o destino de Saddam foi em parte respondida. Até este momento. quando pára.. 7 . . estamos ainda em plena fase da sanção..34.é relacionada a cenas de atrocidades que foram cometidas por ele... sem deixar a figura do exditador.. .. 36. A estratégia de sustentação da atenção do enunciatário pelo enunciador se vale agora da instauração ou do reforço de paixões.. 2 Seja qual for o tipo de.. serão retomados os crimes do ex-ditador. 185 . julgamento dele tem todos os componentes para se tornar um dos mais. mortos aos milhares.... em 88. Fim da tomada e é plano médio. 35. 4 .(03m49s02) – Plano de conjunto....(03m58s14) Câmera faz uma panorâmica no local do massacre da esquerda para a direita e..de autorizar o massacre de minorias étnicas..exercendo o poder. 38.. Do ponto de vista do conteúdo.cercado de seus soldados.(03m47s06) Câmera faz um zoom in e mostra imagem de Saddam.

2 ...” Com certeza.39. Adultos e crianças mortos pelo chão.. Nota-se o uso do plano geral e do plano de conjunto. 1 .e sobe o ângulo para enquadrar os demais em perspectiva e em plano geral. 44. 4 .(04m11s24) – Plano de conjunto. com muita movimentação. 3 ... 45. Para isso. Todo o choque dessas cenas é manipulado por uma edição que privilegia um contato muito rápido. para impedir um contato ainda mais tenso do enunciatário com o que é mostrado... 40... ...(04m17s15) Câmera faz uma panorâmica e acompanha homem de casaco atirar na cabeça de um e depois de outro prisioneiro. também são um. 43..(04m06s24) – Câmera faz panorâmica e acompanha. as cenas a seguir são fortes. com armas químicas. 186 ... essa é uma das cenas mais chocantes da matéria.. à dir..da guerra..(04m13s27) – Câmera faz uma panorâmica na sala da esq..e dezenas de covas clandestinas descobertas depois.. 42. 3 e sumariamente executados.. Imagens de extrema violência geralmente não são mostradas no JN por questões de ética. 41. como lembra Maciel (1995:91).(04m07s28) – Plano geral. 1 As prisões. 3 .testemunho de como os adversários do regime. Um dos poucos closes mostra uma corda... em primeiro plano.eram torturados...gente sendo presa e arrastada por soldados.(04m16s06) Câmera mostra corda no teto e faz um zoom in para terminar em close. .(04m05s04) – Câmera parte do primeiro cadáver que no quadro capturado aparece em primeiro plano .pessoas identificando cadáveres. Plano de conjunto. soldado carregar prisioneiro.

dependendo da posição dentro da reportagem. de Nova York): “Saddam Hussein aguarda seu destino em local secreto. Como veremos a seguir. Deve-se observar a repetição da estrutura anterior: uma cabeça de matéria (obviamente subordinada ao assunto principal). tivemos até agora uma cabeça – no estúdio – um pequeno off que precedeu as sonoras dos cidadãos americanos e do presidente Bush. a volta do off e. o segundo será o da performance da captura de Saddam. mas o mais provável é que ele esteja sendo mantido numa instalação militar perto do aeroporto de Badgá. sonoras. Há informações não confirmadas de que ele teria sido levado para uma base americana no Quatar.46. para fechar em detalhes e atores. Pode ser de abertura. A estratégia de sustentação da atenção do telespectador se apóia aqui na seguinte pergunta: como Saddam foi preso? 187 . Tikrit. Militares norteamericanos no Iraque se surpreenderam com a falta de reação do exditador no momento da prisão e com as condições do local em que ele estava escondido” 48. agora. Se o primeiro sub-bloco foi o da “sanção”. um “boletim de passagem”. Do ponto de vista da estrutura da matéria.(04m38s04) – Plano médio do apresentador. possivelmente de helicóptero. e outro boletim de passagem. O repórter utiliza o boletim para transmitir informações importantes que não têm imagem. Na definição de Maciel “o boletim é a narrativa do repórter feita em quadro. Filmagem é trêmula. A “volta ao estúdio” marca uma mudança de assunto..(04m54s18) – Plano geral em ângulo alto.” 47. narração em off do correspondente. Ou então o boletim é usado para. 3 Voz do correspondente: “Saddam Hussein iria passar a noite de sábado. conduzindo a narrativa.(4m20s07) plano próximo da repórter. a novidade nesse trecho é o uso de computação gráfica. Identificação surge e desaparece do vídeo.. da construção do espaço. a matéria apresenta o “cenário” da captura. Consideramos esse ponto como o começo do segundo sub-bloco. Identificação surge e desaparece do vídeo. de passagem ou encerramento. 16 Apresentador Heraldo Pereira: “Saddam Hussein queria negociar com os soldados perto de sua cidade Natal. mostrar ao telespectador aspectos da narrativa que de outra maneira não seriam suficientemente ressaltados” (1995: 60). 18 (Vê-se a correspondente Cristina Serra. Nos próximos fragmentos. Novamente uma seqüência de ângulos que vão do inteligível. Stand-up da correspondente – ficamos sabendo de quem era a voz em off. que os EUA não revelam por motivo de segurança.

no final.. não é a conclusão de uma ação que mantém a curiosidade do público. no jornalismo.49. a câmera acompanha a ação dos soldados e se concentra. o JN tenta de todas as formas fazer a simulação parecer presente. Saddam correu para o esconderijo subterrâneo do lado de fora...onde foram encontradas roupas e comida. As informações neste trecho e a seguir têm seu potencial de atenção garantido por construírem uma espécie de tematização da pobreza que se contrapõe ao luxo e ao poder demonstrados por Saddam no governo do Iraque. Ressaltamos.onde havia restos de uma refeição.. como se fosse uma pedra.. Do lado. Esse trecho da reportagem é um bom exemplo dessa afirmação. atual. 3 .. 52.(05m04s19) – Esse plano médio termina em close da panela com um zoom in. 51. uma cozinha ao ar livre..(04m57s29) – Câmera realiza um plano de conjunto e faz um zoom in suave. 2 .” Como não tem as gravações da captura. uma encenação da descoberta..” Após a apresentação do cenário. a câmera faz uma pequena panorâmica 4 .neste casebre de sapé. anteriormente.(05m03s01) – Plano de conjunto. 1 ...(05m07s00) – Plano médio.de fora. A narração do repórter atualiza essa cena e apela para a imaginação do público: “Saddam correu para o esconderijo. 10 Quando os soldados norte-americanos se aproximaram. 50. 53.. que.. Uma placa de isopor esculpida. 188 ...(04m59s19) – Mesmo nesse plano médio.. mas justamente saber em detalhes como se chegou àquele estado. tapou a entrada. na retirada do isopor que cobria o buraco onde estava Saddam. Nesta tomada...

Voz do correspondente: “O coronel James Rici. onde Saddam estava deitado de bruços. no centro do quadro. se afasta novamente para mostrar outro plano geral do esconderijo do ditador. 56.. Passa-se agora a mostrar detalhes da busca.(05m23s10) – Nesse plano geral. “Os soldados americanos vasculharam primeiro.”– incompreensível – voz do soldado vai à BG... As sonoras dos militares mostram detalhes “fortes”: como o fato de Saddam quase ter sido morto por uma granada e a ironia de um soldado diante da oferta de negociação do exditador.onde não acharam ninguém. 57. 4 (Ouve-se o som da porta se abrindo com violência).. comandante da operação. com dificuldade se vê um soldado chutando uma porta. em plano americano. 55. mas uma tampa que fecha o buraco na animação em 3D.54. No plano geral vêem-se soldados caminhando.” Descreve-se agora o esconderijo de Saddam. 2 Outro corte na história. 1 .dois outros locais próximos. disse que os soldados iam limpar o subterrâneo. Não é um isopor. Depois. . Note-se um erro aqui.(05m41s23) – Plano próximo para acompanhar a fala do coronel. 58.(05m17s26) – Nessa tomada.. quando viram um Retomam-se agora detalhes da captura.. jogar uma granada de mão. um esconderijo. soldados caminham contra a luz. a câmera sai de um plano geral e faz um zoom in no buraco.. que estava debaixo de um tapete. Lá no fundo. 17 Mas um tapete que cobria a entrada do buraco chamou a atenção dos soldados.(05m21s18) – Outra tomada noturna. Eles ergueram a tampa. ou seja.(05m24s25) Câmera virtual – Nessa tomada em ângulo alto.. 17 Voz do soldado : “We´re about. O buraco era estreito com uma chaminé de um metro e oitenta de altura... 189 .

O informante não vai receber a recompensa de 25 milhões de dólares porque não deu a informação voluntariamente. 62.(05m57s12) – Plano americano. Temos um enunciador que considerou seu potencial de atração relativo. 22 homem lá dentro. quase close de Saddam. Saddam parecia disposto a conversar ao ser examinado.59. a aproximação acontece em um momento muito especial. preso e interrogado em Badgá na sexta-feira.” Voz do soldado sobe: “The president Bush sends regards. Soldado à dir. entretanto. Um oficial norte-americano comentou: ‘Economizamos o dinheiro do contribuinte. novamente simulando um contato íntimo entre telespectador e Saddam.(06m38s25) – Plano próximo. E segundo este soldado. 4 Pontual: “Levado para uma base militar. Ele saiu com as mãos para cima. É uma segunda-feira. e quero negociar. que esses fragmentos “não duram” muito tempo.’” As sonoras terminam nesse fragmento do correspondente Jorge Pontual. aproxima-se depois da câmera. (ele) disse em inglês: “Eu sou Saddam Hussein. É notável. que faz outro boletim de passagem.(6m11s21) Plano próximo do correspondente. Temos outro instante de valorização da história. 190 . num raríssimo caso em que mídias impressas apresentaram algo antes do JN. mas o assunto foi abordado no Fantástico. Não podemos esquecer que as mesmas imagens apareceram nos jornais pela manhã. 16 60.(6m33s13) – Plano próximo. o da apresentação do estado atual do ex-presidente do Iraque.. A câmera faz um close do exditador.’ O presidente Bush manda lembranças. que faz depoimento. 61. Não houve JN no domingo. Mais uma vez.” (Correspondente Jorge Pontual surge no vídeo) – “Quem deu a informação sobre o local onde Saddam se escondia foi um parente dele. presidente do Iraque. 3 Mas depois a atitude dele mudou.

. diz um deles. 64.. 67. indo da esq.(7m08s09) – plano médio de Izzac que beija Saddam. 65. 4 . temos a descrição do “estado emocional do ex-ditador”.. à dir. O principal é o rei de paus..(06m55s09)Computação gráfica: carta em que Saddam aparece “cai” da tela.(6m41s12) Câmera faz uma panorâmica do Conselho.(06m50s27) – Plano médio para acompanhar depoimento.. os americanos esperam capturar os 13 homens que faltam no baralho dos seguidores de Saddam. Temos outro uso de computação gráfica para encerrar esse sub-bloco. 6 Quatro integrantes do Conselho de Governo do Iraque passaram meia hora na base interrogando Saddam.(6m47s01) Plano médio.que estaria comandando a resistência à ocupação do Iraque. O título poderia ser “os que ainda faltam prender”. 66. Tenta-se recuperar agora as primeiras reações de Saddam na prisão. Na seqüência de três fragmentos.(07m12s07) – Estúdio – Plano médio.e foram recebidos pelo ex-ditador com palavrões. Câmera virtual depois dá um zoom in até a carta de Izzac Ibrahim Al-Duri. 11 191 . e mantendo o plano próximo.63. A identidade deles não foi revelada. Surgem da parte de baixo as outras cartas. 3 . 13 Agora que o ás de espadas caiu... Izzac Ibrahim Al-Duri. 5 ‘Ele não demonstra nem arrependimento nem remorso’.” 68...” Eraldo: “Documentos encontrados numa pasta no esconderijo levaram à prisão hoje de dois importantes aliados do ex-ditador.

em relação à prisão de Saddam.. em mostrar o cenário e uma reação em particular se repete aqui. mas não merece sonoras.69. à esq.(07m32s10) – Plano geral de manifestantes. 74.. O cuidado da cena anterior. lamentando ou comemorando.(07m38s29) – Há um plano geral com foco em plano próximo. Começamos com as repercussões sociais.” 70. 2 . São apresentadas repercussões sociais. 192 . Voz de repórter em off: “Em Tikrit.(07m36s13) – Plano de conjunto com iraquiano em primeiro plano beijando a foto do ex-ditador. 9 (Som de manifestação é mantido por um segundo..enquanto um iraquiano beija a foto de Saddam Hussein. políticas e econômicas. 1 . 73. o retorno da narrativa no ponto da sanção. antes de ir a BG. Só que com uma diferença importante. 75. Depois é mantido nas próximas tomadas). 4 Eles param nas principais cidades do país. passionais. O plano foca o rosto do iraquiano. 1 do ex-ditador.cidade Natal. As tomadas gerais dos manifestantes vão aos poucos focando alguns dos seus personagens. Há os que não consideram Saddam um antisujeito por partilharem valores com o ex-ditador. Temos os árabes divididos. 71. de agora em diante. que resultou na prisão do exditador Saddam Hussein..(07m23s01) Estúdio – Plano médio. mas não fazendo análises.o outro chora (ouve-se os sons de choro).(07m35s14) – Plano americano.. e dá um zoom in no rosto da mulher chorando.(07m34s07) – Plano de conjunto de manifestantes.. Temos o terceiro sub-bloco: as reações mundiais. Observa-se mais uma vez o recurso enfático do close. Podemos observar. e especialmente árabes. 4 . 11 Renato: “A operação Aurora vermelha. no rosto do iraquiano. chorando.. 72. Note-se o cuidado com a mudança da posição do selo entre os apresentadores.... Os árabes aparecem como massa.(07m42s22) – Câmera realiza uma panorâmica da dir..... como um coletivo que fala pelas ações. inclusive Bagdá. gerou comemorações e protestos nas ruas do Iraque.. Eles surgem “emocionais”.. quase close-up. mas desloca-se para mostrar o local onde ele se encontra.

(07m56s04) – Novo Plano geral.duas delegacias são alvos de. mas utilizou poucos 193 . 82. Câmera está em ângulo alto.” (Som da manifestação fica em primeiro plano por menos de um segundo...(07m46s04) – Plano geral para acompanhar a ação de diferentes soldados. retomamse os planos gerais. Só aqui se busca mais aproximação do enunciatário com o fato.se as explosões. no entanto..carros-bomba. 2 . 1 .76. Os dois fragmentos.) 77. duram menos de dois segundos.(07m59s13) – Plano de conjunto..... Logo em seguida. 80. 2 Pelo menos nove policiais morreram.. 78.(08m01s02) – Plano geral. com detalhes da destruição em primeiro plano.. O telespectador tem uma visão de conjunto.(07m54s08) – Plano geral. discussão e busca.. 6 Até que os soldados chegam para acabar com a manifestação.(07m52s05) – Plano Geral para observar toda a destruição.. 81.. Essas cenas de repressão à manifestação dos árabes e dos estragos de bombas são feitas por plano geral. 2 “Enquanto isso.(07m57s24) – Plano de conjunto de cadáver. 2 Ninguém confirma. É notável como o JN cedeu tempo para a performance da prisão de Saddam. 79. 1 .. do outro lado da cidade..

(08m02s24) – Plano geral. 3 . 88. 86. Alguns assuntos dos outros sub-blocos são rapidamente retomados. 85. Há 1. na parte de baixo do vídeo.(08m04s14) – Plano geral. 2 .. nos territórios palestinos é clara. à esq.83. Al-Dayri: “A maioria do povo está..(08m16s03) – Temos a repetição da tomada que começa em 07m42s22 – Câmera realiza uma panorâmica da dir.. Para compensar. 89. e dá um zoom in no rosto da mulher chorando.. obviamente..com a prisão de Saddam Hussein. temos uma seqüência de fragmentos que nunca apresenta o mesmo ângulo de câmera. O principal problema. é a ausência de material visual..(08m05s26) – Plano próximo. segundos e um tom contido para mostrar o que as bombas fizeram no Iraque...(08m11s18) – Plano próximo de correspondente.têm ou não ligação. 5 Por telefone. o ritmo do jornal torna a repetição quase imperceptível. utilizam-se imagens das manifestações.diz que só uma minoria sunita chora pela prisão de Saddam Hussein. Como sempre. 2 Mas a indignação no Líbano.5 segundo e dois fragmentos para apresentar a reação de dois povos árabes. e transcrição da fala na faixa azul. 4 .. Podemos também notar a reprodução de uma mesma cena.” 4 Temos aqui o que alguns teóricos chamam de “rádio na TV”. 87. à dir... 194 .. de movimento. Awni Al-Dayri. em perspectiva. de manifestantes e cartazes. A única diferença são uns décimos de segundo a mais.(08m19s29) – Montagem de três elementos: o mapa do Iraque..(08m07m27) Plano geral de manifestação. o representante do governo brasileiro em Bagdá. Entretanto. cenas de manifestação. à esq... 1 . e também. 84. de onde fala o entrevistado. Cabe ao JN tenta transformar uma entrevista com dificuldades de som em algo atrativo.

a execução de 97... também com muita ação de manifestantes.. 3 Al-Dayri: “A maioria dos que. Intensa movimentação.. 92.. 1 ..90.... (Vê-se o correspondente Marcos Losekann): “Na Grã-Bretanha não existe pena capital e o governo daqui já deixou claro que não participará de um julgamento que possa resultar na morte de Saddam Hussein.. mostra manifestação em plano geral.. 96..” Correspondente: “Sobre o julgamento do exditador..(08m26s21) – Plano próximo..” (sobe som de manifestação)... 2 .(08m24s28) Quadro à dir.” 93.que será no Iraque. 3 . 94. 4 . mostra manifestação em plano geral 91. Intensa movimentação.sofreram no regime de Saddam.(08m23s04) – Quadro à dir... feliz. Para o primeiro ministro Tony Blair.(08m41s26) – Plano próximo..querem que.descansada.. 3 .ele seja condenado à morte. 95.(08m38s19) – Plano Geral.(08m36s02) – Plano médio..(08m30s17) – Plano americano.. Termina em plano de conjunto.alegre.(08m33s10) – Câmera foca bandeira em caixão e depois acompanha o afastamento. 20 195 .. 2 . Al-Dayri acha.

” (voz vai a BG). na década de 80..(09m22s17) – Plano próximo. Mais uma vez é utilizado o discurso dos jornais impressos para mostrar a importância da prisão de Saddam.. E quem diz isso é a mídia impressa... à esq. 2 Voz de Tony Blair: “The Iraque people want… 99. com leitor em primeiro plano.de línguas. o governo anunciou que vai preparar um processo pelos 300 mil iranianos mortos na guerra IrãIraque. 104..(09m21s21) – Plano americano.(09m03s05 – Plano médio de Blair.. O telespectador fica sabendo que o fato teve repercussão mundial. A reiteração valoriza o fato para o telespectador. their freedom.. continuamos na sanção. 1 ....(09m23s08) – Câmera faz uma panorâmica sobre os jornais da dir.(09m01s25) – Plano geral do parlamento britânico. Em termos de nível narrativo.. Note-se aqui novamente o tempo dado ao discurso dos vencedores e. 3 de frases e palavras. a prisão.(09m10s07) – Plano próximo de representante iraniano.. 196 . 100...fazer justiça.... 7 . Só que é uma repetição especial. são os jornais. mantendo o plano próximo. por meio de jornais diferentes e enquadramentos diferentes.. 103.Saddam criaria um mártir para os terroristas. Outro ponto importante é a imagem de Saddam. 1 .(09m20s17) – Close no jornal 1 Em centenas. um fantasma que poderia aterrorizar o mundo pra sempre.em milhões. Voz do repórter Losekan em off: “No discurso hoje no parlamento. o JN faz com que ele tenha contato com o mesmo conteúdo principal por meio de estratégias de expressão diferentes. Temos um caso de redundância.. também ser repetida. 10 101. Blair disse que está confiante na capacidade dos iraquianos de. quase um mendigo. Aqui as gravações dão literalmente a volta ao mundo. 102. Sem cansar o telespectador. .” 98. dos inimigos. no julgamento.. no caso do Irã. No Irã.

(09m28s11) Câmera está em plano médio..... 108. 112..(09m40s11) – Plano geral com suave zoom out.. Entramos aqui em um segundo tipo de repercussão: a econômica...nos Estados Unidos. 1 . 6 .os jornais do mundo. 1 .(09m31s08) – Plano de conjunto de painel.manchete em quase todos..... 1 E repercutiu nos. 1 .mercados.. à dir.. Plano Geral 6 .105. 111..(09m34s07) – Câmera faz uma panorâmica na bolsa de Nova York. E o preço do petróleo caiu com a expectativa de que o Iraque passe a exportar.. da esq. Na Ásia.(09m26s05) – Plano de conjunto dos jornais e leitores. 197 .. Caracteres se movem.. 1 . que se relaciona à tomada anterior. com leitor em primeiro plano.. O dólar também subiu em relação...de Saddam Hussein foi... Jornal aparece balançando.na Europa. Detalhe: o fragmento não corresponde à fala.. 110...(09m32s25) – Plano médio. As bolsas em geral fecharam em alta.(09m27s06) – Novo close nos jornais que mostram fotos de Saddam. 106. 107.(09m30s05) – Mesmo jornal da tomada anterior aparece agora em plano próximo... 109..ao euro. 2 .

.(10m12s00) Fusão de cenas. 8 Temos aqui o quarto e último sub-bloco: como fica a ocupação norte-americana no Iraque e os dividendos obtidos por Bush com a prisão de Saddam.. 2 ..(10m14s23) – Plano geral em perspectiva..... 2 ..(10m07s13) Câmera faz uma panorâmica e acompanha caminhada dos soldados – Plano geral.melhorar tão cedo. 3 Para Bush. Plano Geral.. agora para falar sobre os destinos do Iraque e os passos dos Estados Unidos no país. 117.And the citizens of Iraque need to know we´ll stay in the (trecho não identificado)…” Voz de correspondente em off: “George Bush disse que os militares americanos não vão sair do Iraque enquanto não houver segurança no país. são inseridas gravações das ações dos soldados norteamericanos no Iraque.. 119.diretamente os ataques contra alvos americanos e civis.(09m46s15) – Plano de conjunto.(10m08s25) Fusão de cenas. Plano de conjunto com soldados em primeiro plano.” (Sobe som de membros da bolsa batendo palmas.(09m48s20) – Plano médio.. com manifestantes em primeiro plano.que Saddam Hussein não estava comandando.. 118..(09m56s28) – Plano próximo. a situação no Iraque não vai. 198 . 120. 11 116. 115.113. 4 .) Eraldo: “O presidente George Bush deixou claro que a captura de Saddam Hussein não vai acelerar a retirada americana do Iraque. 1 .. A mesma coletiva de Bush é retomada.” Bush : “.mais daqui para frente. 1 . Para manter a atenção do espectador...Mas reconheceu.....(10m17s14) – Plano Geral com soldado em primeiro plano. Euforiza-se a ação com as palmas 114.

. Novamente vemos impressos na tela do JN. a coletiva de Bush. E ironizou:” Bush: “When he (não identificado) he got himself in a roll. “(trecho não identificado). O que o JN faz aqui é dar enorme destaque à fala de Bush. Saddam. O depoimento é interpretado pelo telespectador como o acontecimento mais importante da reportagem.“ (BG. 8 127-(10m53s04) Plano próximo.. 19 126-(10m45s36) Plano próximo. Chamou Saddam de assassino.. 199 .(10m21s18) – Close.. dividida em duas partes. 2 .. De torturador.Hussein nega que tenha produzido. em outra reiteração da importância da prisão de Saddam.(10m23s25) – Close. 123. é o mais longo da matéria. por meio de fusões. que mostra uma mesma tomada. com pouco mais de 50 segundos.interrogatório inicial. 4 . Bush mostrou desprezo. durante a entrevista. no total.. (Voz de Bush vai a BG). quase 10 minutos e 40 segundos. Bush aparece assim como o grande destinador.. quase um quarto do tempo total. você já vai tarde. pela terceira vez. Em uma reportagem que tem. 122.” (Voz de Bush vai a BG.) Correspondente em off: “Bush aproveitou a entrevista Tempo é valor em telejornalismo. 3 Segundo informações que já vazaram sobre o.” Bush: “The world is better (trecho não identificado) mister Saddam Hussein. O mundo é um lugar melhor sem você.. Esse conjunto de fragmentos. você se escondeu em um buraco. e depois. Os fragmentos a seguir foram gerados a partir de segmentações de uma mesma tomada e unidos.(10m26s80) Plano próximo.armas de destruição em massa.) Correspondente em off: “Quando a coisa ficou quente.(10m18s28) – Plano próximo. As afirmações do presidente dos Estados Unidos também praticamente servem como conclusão de tudo o que foi relatado.. para encaixar a fala de Bush nas afirmações do repórter. Saddam Hussein.” 125.. Correspondente em off: “O presidente americano diz que não confia no que o ex-presidente do Iraque diz.(10m25s12) – Plano médio. .121.... mais jornais. Note-se ainda o close nos fragmentos.. Classificou Saddam de enganador e mentiroso. 124. 2 . várias vezes. tomou dois minutos e 30 segundos.. Bush disse. sem contar com a apresentação e os comentários do correspondente em Washington. 10 Bush: “He is....

observou-se o JN utilizar quatro correspondentes internacionais. de Washington: “Bush não precisa esperar pela campanha. Ele foi operado hoje para a retirada de um câncer de próstata. Segundo uma pesquisa do jornal Washington Post e da rede de televisão ABC. Na conclusão.” Faremos agora alguns comentários mais amplos sobre a reportagem para depois discutir a importância da notícia na estrutura geral do programa e retomar a questão da montagem.128. passa bem e deve voltar ao trabalho no começo de 2004. uma redução de 50% no déficit do orçamento federal. todos fazendo stand-ups. 22 Renato Machado: “O Secretário de Estado Collin Powell acompanhou a captura de Saddam Hussein pelo telefone. 129. de 48% foi para 58%.(11m40s26) Plano próximo Término em 11m56s12. Powell.. Nota-se a relação professoral dos jornalistas com o público. Há também um encaixe de uma nota – a operação de retirada de um câncer de Collin Powell – no conjunto da reportagem. a idéia de um JN que está em todos os lugares.” Bush: “Forget politics. 15 . Apresentadores e correspondentes têm um “tom didático” e se mantêm na posição de donos do saber. ou seja. Salienta a informação “10 pontos” e cria um silêncio retórico antes de citar “foi para 58%. Segundo o porta-voz do governo americano. Ele faz um boletim de fechamento. Prometeu. 22 Vê-se o correspondente Luiz Fernando Silva Pinto. nos próximos cinco anos. dois de Nova York. o selo desapareceu.” 130. o que reforça.” Nessa matéria. Mas disse que na campanha de reeleição não vai tirar proveito da captura de Saddam. para fazer um pouco de campanha política. O jornalista usa recursos da entonação. de 66 anos. que se justifica por um fato em comum entre os dois acontecimentos. um de Londres e outro de Washington. o índice de aprovação à intervenção americana no Iraque já subiu 10 pontos em relação aos números de novembro.(11m03s44) Plano próximo. O benefício político já é uma realidade. por sua vez. valorizando o local da informação e o sentido de “estar onde os fatos estão”. Eles se dirigem a alguém que pouco sabe. Powell estava envolvido com a guerra do Iraque. Há uma clara razão mercadológica para 200 .(11m18s29) – Plano entre médio e próximo.” Stand up do correspondente Luis Fernando Silva Pinto..

) Pesquisa (com os telespectadores) sinalizou que o programa quase sempre é visto em família. soam como erro. Quando existem. edição 1869. como lembra reportagem de Veja sobre os 35 anos do programa: “A questão da linguagem é ainda mais premente quando se leva em consideração que três em cada quatro espectadores do Jornal Nacional são de classe C. O principal noticiário da Globo possui correspondentes em diversos países. um monitor de vídeo que fica acoplado à câmera. toma contato com notícias do Brasil inteiro e do mundo. principalmente a dos repórteres. em relação aos profissionais do Jornal da CBN. O JN é finalizado no Rio de Janeiro. Um dos grandes meios para compensar a fala mais distanciada dos jornalistas do JN é o “olho no olho” com o telespectador. tem menos variações. Não existem marcas de espontaneidade. com grande utilização das pausas retóricas para dar valor a certos aspectos da informação. Os “acentos de expressividade” (manejo de recursos de intensidade. A prisão de Saddam ocorreu no sábado e foi divulgada no Brasil no domingo. Esse efeito é produto. O JN não quer ser um jornal carioca. e é possível que no dia seguinte prefira assistir a outro canal. no entanto. local de coordenação do jornal e de onde falam os apresentadores.”109 A entonação dos jornalistas do JN. Na segunda-feira.. mas “mundial”. da altura e da duração da voz) são muito utilizados. Tudo isso sugere como espaço da enunciação o próprio planeta. 106 e 107. e as famílias costumam ter um ‘explicador’ – em geral o pai -. O uso das acelerações e desacelerações ao narrar (recurso de duração) é constante. caso da Folha de São Paulo. dia em que não há edição do Jornal Nacional. A linha do olhar de leitura do texto é muito próxima da posição da lente da câmera. apesar do nome.. notadamente na frase final dos relatos dos repórteres nos stand-ups. daí a simulação de que se está falando com o telespectador. Se o chefe de família não entende o significado das notícias.essa atitude. O público. como algo indesejado. da leitura de textos de frases curtas por meio do teleprompter. a foto do ex-ditador também apareceu pela manhã nos principais jornais brasileiros. D ou E. págs. que é quem traduz para os demais o teor das notícias mais complexas. A apresentação das manchetes da edição – a escalada – não deixa dúvidas sobre a solução pensada: 109 “A Guerra atrás das Câmeras”. reformulações e outros recursos típicos da fala. (. reportagem de João Gabriel de Lima. Praticamente não há interrupções. Mas era preciso dar sensação de atualidade. que simula uma conversação cordial. revista Veja. no caso dos âncoras. 201 . nem nacional. 1° de setembro de 2004. O JN sabia que a prisão de Saddam era ainda o grande fato do dia. fica constrangido.

porém com menos destaque. como fato 202 . Renato Machado: E diz que iraquianos vão decidir como aplicar a justiça. Observe-se o papel reservado a Bush. Saddam Hussein tentou negociar com os soldados no momento da prisão. Deve-se reforçar que a detenção do expresidente do Iraque é o grande fato gerador de toda a notícia. 3 – A repercussão social. que a captura do ex-ditador. faz o papel de satisfazer a curiosidade de um telespectador que ainda não sabia ao certo como tinha sido a prisão de Saddam ou queria revê-la. porém. nesse caso. política e econômica. falando em frente a um microfone. “Novos detalhes” sobre a captura são prometidos. 4 – As ações seguintes de Bush: como fica a ocupação do Iraque e os dividendos políticos advindos da captura.boletim do correspondente. Não se deve pensar. 2 – A performance da captura. Desse modo. O JN. É considerado mais importante tudo o que se vincula ao sentido de “agora” do telespectador. Ao mesmo tempo. O efeito de atualidade determina um modo de organização da matéria. principalmente no último. Esse recurso de montagem também preenche os offs dos correspondentes.Renato Machado (início da escalada): O destino de Saddam Hussein. Só que não rende bons teipes. Eraldo Pereira: O presidente Bush garante que o julgamento do ex-ditador vai ser aberto a observadores internacionais. isso corresponde a um homem parado. Do ponto de vista semiótico. modo de acrescentar novidade a um fato já sabido. de destinador julgador. pois há pouca movimentação. Como o final de um bloco e o ressurgimento do apresentador no estúdio podem dar sentido de término da matéria. O problema da monotonia é resolvido com o grande uso de gravações de arquivo intercaladas nessa fala.off do correspondente – sonoras . diz ter informações ainda não divulgadas. Ao falar do destino do ex-ditador. mas antecipando os passos futuros. Do ponto de vista televisivo. Cada um desses sub-blocos tem um esquema básico: “apresentador .” Só no terceiro bloco observamos uma entrevista. Questionar o futuro de Saddam é um elemento de atualização importante. Eraldo Pereira: Os novos detalhes da captura. o primeiro sub-bloco é de sanção ao exditador. apresenta-se o selo do assunto. Vale notar que esse fato também aparece nos outros sub-blocos. o telespectador sabe instantaneamente que a matéria tem continuação. Há quatro sub-blocos: 1 – O julgamento e o destino de Saddam – possibilidades e acusações. o JN não está mostrando um fato passado.

e outros “pontuais”. O público deve ficar tenso e atento para acompanhar todo o desenrolar da reportagem e do programa. É por essa razão que descrevemos as mudanças de planos. É a estratégia de sustentação. é que a matéria “pulsa”. precisa ser altamente estimulado. inicialmente. Inicialmente. O momento de referência não é mais o passado. tinha envelhecido. Há uma série de outras estratégias que também avivam a curiosidade no nível sensível. A notícia analisada tem 10 minutos e 40 segundos (começa em 1m16s e termina em 11m56s). O grande número de fragmentos indica que o simulacro do telespectador é pensado como o de alguém com reduzido potencial de atenção. ou seja. O efeito de atualidade da narração dos jornalistas se sobrepõe inclusive às cenas de arquivo. especialmente para o olhar. que chegam a ter menos de um segundo.que “duram” . Esse enunciatário. além de 130 fragmentos. ele muda de canal. trata-se do recurso mais facilmente verificável de montagem e mostra bem as conseqüências de estratégias ligadas ao manejo perceptivo. é preciso fazer um lembrete importante – notadamente em um trabalho cuja preocupação é considerar o objeto telejornalístico em seu caráter mais abrangente. São descontinuidades encontradas no interior de um mesmo fragmento. Discutem formas de julgar Saddam “neste momento” e o que acontecerá com o ditador nos próximos dias. que remete a uma média. Vejamos. no entanto. semanas. Há uma mudança a cada 4. que faz uma representação da duração dos fragmentos em segundos. desencadeadas pela aspectualização do plano de expressão. só que esse raciocínio. Justifiquemos nossa preocupação com a fragmentação textual. Os jornalistas comentam o presente e o futuro. O que podemos notar. não corresponde à realidade do programa. o constante ir e vir da câmera (categoria afastamento x aproximação) e também a quase obsessiva escolha dos editores em mostrar pessoas e objetos em movimento (categoria ativo x inativo). Manchetes e depois a cabeça da matéria têm a função de desencadear a curiosidade do telespectador. ou seja.9 segundos. Existem outros efeitos importantes da montagem. pelos efeitos obtidos com o jogo entre fragmentos “durativos” .jornalístico. Vejamos o gráfico a seguir. não pode existir monotonia para os sentidos. No entanto. Em TV. O que o JN faz é “re-atualizá-lo”. Não é mais o “sábado” da captura. nunca tem fragmentos com a mesma duração por muito tempo. Há momentos mais longos entremeados por outros com “pedaços” mais curtos: 203 . Sem uma enorme carga de estimulação. o que remete a uma estratégia de arrebatamento contínua. meses.

mostra que os primeiros segundos são entendidos como os que devem concentrar as principais estratégias de geração de laços enunciador-enunciatário. o do apresentador e do repórter na frente da câmera. mediá-los. Tão importante como mostrar os “fatos” é falar sobre eles. o lugar onde se dão atos de enunciação a respeito dos eventos” (2000: 104). O autor enfatiza que “o telejornal é. O mais antigo dos recursos. Entretanto. o que corrobora uma reflexão de Arlindo Machado. verificam-se trechos mais longos entremeados por momentos de retomada de fragmentos curtos com uma desaceleração no final. da característica mais pontual e menos durativa dos fragmentos. os correspondentes. Para compensar. Se a matéria for dividida em quatro partes iguais de tempo. os maiores tempos dos fragmentos são das vozes institucionais. Assim como pudemos notar no programa de rádio analisado anteriormente. faz com que o telespectador sinta que tudo passa muito rapidamente. por exemplo. Essa forte aceleração inicial. O telespectador vai julgar se uma matéria é pertinente principalmente no início da apresentação. continua a ser o que mais se prolonga. o primeiro trecho tem os menores segmentos. O gráfico mostra pelo menos cinco intervalos com fragmentos mais longos e representa essa idéia de um objeto “pulsante”. São fragmentos que apresentam alguém falando para a câmera em plano próximo ou plano médio – o enquadramento que simula uma situação de diálogo -. é o que menos causa um forte efeito de “novidade”. reunida a conteúdos informativos atualizados – portanto.Relação entre fragmento e duração Diversos fragmentos têm menos de um segundo. 204 . Apenas quatro ultrapassam 22 segundos. apresenta uma aspectualização mais intensa do plano de expressão que. ou seja. mais chamativos -. Existe uma característica notável em quase todos os “picos” de duração. antes de mais nada. Depois de um começo “tenso”. a duração máxima. em função das descontinuidades.

sustentação e fidelização diferenciado e.sonoras – boletim em stand up – revela que cada segmento é pensado para ter um potencial de arrebatamento. Uma única enunciação: a fala como elemento articulador Nossa primeira hipótese.” Essa mesma característica aparece nas intervenções dos outros correspondentes.aparecem nas ruas. A falta de grande impacto “imagético” também é compensada por estratégias como a de criação de curiosidades específicas relacionadas à notícia. seriam momentos de sensível perda de interesse. O esquema básico de uma reportagem de TV – cabeça de matéria – off do repórter (ou correspondente) . ao mesmo tempo. era a de que a reunião de um grande número de fragmentos com pouca duração correspondia a pontos altos. em grande relação. em cenários de cartão postal... Ele diz “Na Grã-Bretanha não existe pena capital e o governo daqui já deixou claro que não participará de um julgamento que possa resultar na morte de Saddam Hussein. mas estreitamente relacionados. mesmo com os recursos citados. pode-se dizer que cada uma dessas partes citadas tem “recursos próprios” para prender a atenção.. há enorme movimentação de elementos ou da câmera virtual. e dos correspondentes nos stand-ups. o enunciatário seria então apresentado a uma nova saraivada de pedaços de cenas. com certos momentos mais 205 . No caso da reportagem sobre Saddam. é ilustrativo dessa estratégia. mas necessários para “descansar” o telespectador após uma bateria de estímulos notadamente visuais. o que compensa a duração do segmento. pra sempre. O estudo do material mostra que não é exatamente assim que a estrutura funciona. O boletim de Marcos Losekann. o que dá ainda mais “peso” à sua enunciação “. Grosso modo.aterrorizar o mundo. há ainda dois pedaços longos que correspondem às duas animações em terceira dimensão. de maior atenção. As falas dos apresentadores. Ele praticamente cria reticências no final de sua frase. a execução de Saddam criaria um mártir para os terroristas. correspondente em Londres.. Entretanto. diante do material. um fantasma que poderia aterrorizar o mundo pra sempre. Há os selos junto aos âncoras. a entonação na hora de narrá-la ou comentá-la.” Além de uma informação com grande carga persuasiva – a possibilidade de mais atentados terroristas – há um efeito de desaceleração discursiva da fala do correspondente. o sentido de familiaridade que os profissionais despertam e até mesmo as expressões faciais deles. Menos tenso. Para o primeiro ministro Tony Blair. É evidente – e isso foi dito anteriormente – que há uma estrutura que busca máxima tensão no início e um certo relaxamento no final.

Na tela. sem a presença deles no vídeo. Essa possibilidade. caso de ações de guerra. No cinema. no fluxo temporal. Eles contam histórias. Arlindo Machado afirma que. Só que. há diversas formas de se contar uma história. Esse é o recurso mais usual. como mostra a notícia sobre a prisão de Saddam. como analisamos. não é possível voltar no tempo. é produto de uma articulação. O último recurso é bastante usado no telejornalismo. A essa narração são adicionados fragmentos existentes de filmagens. ruídos e efeitos sonoros.acelerados do que outros. Mostra-se alguém que conte a história. ou seja. Mais corriqueiro é o fato já ter acontecido e necessitar ser re-atualizado. A solução encontrada pelos telejornais é mais simples. no cinema. Esse ritmo é inerente a cada notícia e. que utiliza com muita parcimônia e somente em momentos bem definidos um grande número de diferentes estímulos verbais. no jornalismo de televisão existe intenso relacionamento entre diferentes substâncias de expressão na maior parte dos momentos. aparecer falando na frente das câmeras. contudo. é pouco utilizada no telejornalismo analisado. sem apoio do verbal. digamos “pura”. ao conjunto do programa. E por várias razões. 206 . não peças de ficção que simulam o “real”. A sensação de se ver diante de uma única enunciação. a câmera pode assumir o ponto de vista de um “sujeito narrador onividente e tomar todas as imagens e sons considerados importantes para a plena visualização e audição da história” (2000:101). com áudio e vídeo) que expõe alguns pontos de funcionamento da textualização nesse objeto. Alguém pode narrar diretamente. A câmera também pode fazer o papel de narradora. ou indiretamente. Analisemos a razão de o telespectador não se perder e ficar prestando atenção a tudo o que lhe é oferecido. o citado off. musicais. Ouvimos a voz do repórter ou do apresentador e vemos as gravações correspondentes. No noticiário da TV. Começam pelo momento de maior tensão. É comum uma história estar em pleno andamento e não ser totalmente acessível aos jornalistas que devem reportá-la. entre uma narrativa falada e segmentos (geralmente trechos de gravações. esse momento pode ser “recriado”. e tentam motivar a curiosidade do público para saber os detalhes. por sua vez. que podem ser complementares. o clímax. com tantos elementos. A fala dos apresentadores e correspondentes ocupa lugar privilegiado. Refilmar o acontecimento traz enormes problemas: custo de produção alto. muito tempo para tudo ficar pronto e até a quebra de uma das cláusulas do contrato entre jornal e público: o telespectador espera “a realidade”. ao contrário do radiojornalismo.

A trilha de áudio das narrações serve como ponto de organização discursiva e. além das pequenas falas em inglês de Bush. O número inclui os apresentadores. Ao contrário. Nem todas são “sonoras”. principalmente. explicando. dos militares americanos no Iraque. que analisou. entre 14 e 19 de agosto de 1996. Inicialmente. No total. “sem exceção. O que se detectou mesmo foi a função insubstituível da palavra. comentando. de instauração de um ponto de vista sobre o que se vê e ouve (como um som em segundo plano. portanto. seis edições do Jornal Nacional. pedaços de uma história mostrada em diferentes ângulos. os correspondentes. com ou sem som original. O mesmo não acontece com o áudio. O telejornalismo (. fragmentos que apresentam sincretismo. Alguns são pequenas seqüências. esclarecendo a informação visual ou até mesmo comandando o processo de composição jornalística na TV” (2000:272). de Tony Blair. Nenhuma informação foi transmitida apenas por imagens. a significação do telejornalismo não pode ser pensada em termos de oposição ou hierarquização simples entre o verbal e o “imagético”. do SBT (transformado depois em Jornal da Record. São. concluiu que. Chamar os fragmentos de “imagens”. e do extinto Telejornal Brasil.. que correspondem a 14 falantes. ficou muito longe da realidade. por exemplo. precisa se servir dessas observações com certo cuidado. é evidente que a base narrativa verbal foi construída também a partir do conjunto de informações e gravações obtidas. Por outro lado. com as falas. queremos apontar certas características do texto telejornalístico e de organização de suas unidades por meio dos recursos de montagem. por exemplo). O que a pesquisa de Rezende evidencia é a forma de organização do discurso telejornalístico. todas as matérias divulgadas nas seis edições dos três telejornais utilizaram-se da expressão verbal. Citamos que foram anotadas 130 fragmentações na reportagem sobre a prisão de Saddam. A análise semiótica..Guilherme Jorge Rezende. Trata-se da inútil tentativa de mostrar se o “verbal” é mais importante na TV do que o “visual” ou vice-versa. convém dizer que não estamos querendo retomar um assunto criticado no início desse estudo sobre o telejornalismo. comandado por Boris Casoy).) baseado apenas na capacidade informativa da imagem. Chamaremos de intercalação a correspondência entre uma fala (segmento de áudio) e os segmentos visuais que o acompanham. Antes de explicar melhor esse ponto. é muitas vezes um reducionismo. no entanto. Se 207 . de vozes. Pode-se notar que diversos segmentos têm som (fala e ruídos) além da imagem. do Jornal da Cultura (TV Cultura de São Paulo). existem apenas 36 fragmentações de áudio. As intercalações têm como base o que poderíamos chamar de uma trilha de áudio principal. os dois cidadãos norteamericanos ouvidos e a entrevista com o representante brasileiro em Bagdá.

com certas nuances. há a apresentação de um momento clímax. O maior número de intercalações.. agora do ponto inicial. É o caso das falas dos âncoras no estúdio e dos correspondentes em stand-ups. O telespectador é convidado para acompanhar o que motivou esse ponto da história. Saddam correu para o esconderijo subterrâneo do lado de fora. Exemplifiquemos. que vão sendo intercalados. o áudio principal se alterna ou cede lugar ao áudio secundário ou original em um mesmo fragmento ou conjunto de fragmentos. Em certos momentos. O desenvolvimento narrativo se dá por meio da fala. As gravações observáveis em seguida surgem como pedaços intercalados à história principal.observarmos atentamente.” Novamente. Tikrit.um efeito de realidade. porém..” Temos aí o áudio principal que determina a narrativa falada intercalante. E servem de “prova” ao que se fala . para ser novamente retomado. Militares norte-americanos no Iraque se surpreenderam com a falta de reação do ex-ditador no momento da prisão e com as condições do local em que ele estava escondido. acontece no momento em que se ouve a voz em off dos correspondentes. para contá-la em detalhes: “Saddam Hussein iria passar a noite de sábado. apresenta 18 fragmentos com imagem e som. Uma placa de isopor esculpida. Em alguns momentos específicos. obviamente. principalmente de fragmentos curtos. Os fragmentos audiovisuais são recursos de concretização discursiva. Eles enunciam a notícia na forma de uma narrativa falada. Ao iniciar o bloco sobre a prisão de Saddam. as vozes institucionais. ou intercalante. que retoma a mesma história. A alternância entre o áudio principal e as gravações é feita de modo a permitir que o telespectador possa acompanhar a progressão da notícia sem perder o enredo. tapou a entrada”. 208 . E o que se vê. Essas cenas. o apresentador Heraldo Pereira afirma: “Saddam Hussein queria negociar com os soldados perto de sua cidade Natal. principalmente dos jornalistas. Os jornalistas contam ou comentam as histórias que vão sendo mostradas nos fragmentos audiovisuais. Um dos segmentos de narração em off da correspondente em Nova York. a ser ouvida (caso dos correspondentes explicando manifestações) na sucessão de fragmentos. o áudio da trilha sonora principal corresponde à imagem que se vê na tela. não é Saddam correndo nem se jogando no buraco. ouvimos o off do correspondente. No segmento seguinte. como se fosse uma pedra. os maiores segmentos de áudio são dos correspondentes e dos apresentadores. Cristina Serra. Para que a atenção do telespectador não se perca diante de tanto estímulo. a trilha de áudio principal continua a se sobrepor. Diz o correspondente: “Quando os soldados norte-americanos se aproximaram. As gravações que se sucedem – com ou sem áudio próprio (ou secundário) surgem como fragmentos relacionados a essa narrativa principal (ou mostrada).

O “buraco verdadeiro” serve como subsídio e complemento à imaginação do telespectador. por exemplo. só pode ser verdade. 209 . O áudio principal é a voz do saber. a serventia é mais a de manter a atenção. não é qualquer buraco. controlando a polissemia ao determinar pessoa. no telejornalismo analisado. com seus pedaços de conflitos. que organiza e tira proveito dos sentidos gerados pela reunião das gravações. na tela. de um lado. não é o buraco que se imagina. E sua atenção é estimulada justamente porque ele quer ver o “verdadeiro buraco” onde se escondia Saddam. não remeteria a uma história com começo. Funcionam como ilustração do que é dito. mas também a de experimentar a vibração da história e a de verificar sua pretensa autenticidade. perceberá que tem pleno sentido. ser justamente a “imagem” de um acontecimento o fragmento mais curto. Não podemos esquecer que os planos de câmera e a montagem também controlam parte do nível de afetividade ou de inteligibilidade que se quer do enunciatário. a indignação ao se apresentar o assassinato de inocentes. A filmagem dos estragos de uma bomba tem um certo impacto. O correspondente Luiz Fernando Silva Pinto. Com certeza. meio e fim. como se fosse uma gravação de um programa de radiojornalismo. ou de registro da “ação”. o que parece cansar mais. 110 É notável. cumprem um papel de ancorar o verbal! Ou seja. O poder de atenção “imagético” parece estar relacionado ao fato de a cena gravada ser de “constatação” do acontecimento. Busca-se. Em alguns momentos. à narrativa intercalante. por exemplo: “Segundo informações que já vazaram sobre o interrogatório inicial. porém. Os fragmentos municiam. tempo e espaço do que é mostrado e relacionando tudo ao que está sendo dito verbalmente. de outro. mas o buraco mostrado. O estudo da reportagem mostra ainda que diversos fragmentos têm outras funções e relações.110 Pode-se observar essa situação. o vídeo que mostra a explosão será muito mais chamativo. Quem se der ao trabalho somente de ouvir a matéria analisada do JN. É isso o que ele espera do programa. A concretude mostrada nas gravações satisfaz a curiosidade de não apenas entender. de distrair o olhar do que de servir de “prova” ao que se narra. Já a reunião dos fragmentos audiovisuais não teria grande significado. Podemos notar como certas paixões são estimuladas. no regime de Saddam.” E o que vemos são os jornais mostrando a captura de Saddam na primeira página. de gente e até mesmo de salas vazias. por exemplo. comenta ou descreve tem uma correspondência no mundo real. aquele ali. que é provocada com a narração em off. no final da reportagem examinada. a idéia de que tudo o que alguém apresenta. Saddam Hussein nega que tenha produzido armas de destruição em massa. como mulheres e crianças.entretanto. comenta.

do efeito) e outro apresentado como previamente gravado. a idéia de uma notícia que teve um desenvolvimento até aquele instante. Fátima Bernardes diz: “O Jornal Nacional está começando”. É por isso que a programação temporal do JN. notadamente dos correspondentes. No primeiro caso. o aqui-e-agora do faiscar eletrônico” (2000: 139). Diante da estrutura do telejornal. por exemplo. por sua vez. estamos discutindo aqui o domínio do “parecer”. Inicialmente. Os apresentadores do estúdio. Esse efeito de atualidade é levado ao limite com a transmissão de acontecimentos “ao vivo”. podem ou não ser gravadas. Nos casos analisados. Seqüências como reportagens. Machado chama essa coincidência de “tempo presente” – preferimos a expressão “tempo real” . Os efeitos de atualidade se basearam mais na discussão de conseqüências do fato principal. se sobrepor 210 . o tempo da narração de um correspondente. do ponto de vista temporal. O telejornalismo tem outros recursos para simular que a recepção do telespectador se dá no mesmo momento de produção do programa. representam. Eraldo afirma. que serviram para ilustrar as falas. vale comentar que essa constatação. Resulta daí a marca de efemeridade que caracteriza muitos produtos televisuais: a transmissão direta desmoraliza a noção de ‘obra’ como algo perene. a prisão de Saddam. pois enquanto a fotografia e o cinema realizam congelamentos. é comandada do estúdio. Na edição de dezembro. durável e estocável. o que surge como transmissão direta mais cotidiana é o trabalho dos apresentadores no estúdio. como da maioria dos telejornais. mesmo com os problemas técnicos da rede. Note-se que a máxima sensação de proximidade com o público-alvo buscada em um telejornal é a do tempo. nesse sentido. petrificações de um tempo que. As narrações. atualizaram os próprios segmentos gravados.e diz que é “um procedimento exclusivo da televisão. Na edição analisada de julho. caso do acompanhamento jornalístico da longa agonia do presidente Tancredo Neves. uma vez obtido. do espaço que tem um tempo “agora”.Mais questões sobre a temporalização Uma das principais características dos jornais de fluxo é a possibilidade de parecer enunciar em “tempo real”. já é passado. muitos deles de arquivo. ter uma produção simultânea à recepção. o que pressupõe um “agora”. no Jornal Nacional”. também vale para o rádio e para a Internet. na realidade. também depois da escalada: “Agora. após a escalada. não houve segmentos “ao vivo”. ou seja. substituindo-a por uma entidade passante. a televisão apresenta o tempo da enunciação como um tempo presente ao espectador. o telespectador se defronta com dois tipos de segmentos: um sentido como uma operação em transmissão direta (e vamos insistir. Podemos notar.

Os dados chegariam do mesmo jeito e pelos menos canais. o certo é que há um elo entre o pensamento e o tempo. Mas este não é o lugar de discutir esse aspecto. do “ao vivo”. 211 . Bougnoux fala da dificuldade que ela traz de ‘fechamento do círculo semiótico’: o rápido impede o pensar sobre a coisa” (2000:82).C. é que os jornais de fluxo necessitam cada vez mais enunciar não só sobre o acontecimento. afirma que “a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento.. negativo.. entre a urgência e o pensamento.” Surgem duas imagens correspondentes. Diz Marcos Losekann: “. não se pode pensar. O controle da percepção: o uso ideológico da edição e dos planos de câmera Teóricos e críticos da televisão e do telejornalismo sempre citam o problema da reflexão diante do que é mostrado na tela da TV. (1997: 40). É um velho tópico do discurso filosófico: a oposição feita por Platão entre o filósofo que dispõe de tempo e as pessoas que estão na ágora.) É preciso notar que o rápido é sempre perigoso e pode facilmente levar a conseqüências desastrosas. Platão dizia que na urgência não se pode pensar. o fato já ocorreu.. Expliquemos: para acompanhar a eleição do presidente dos Estados Unidos em novembro de 2004. Só que o presente – o beijar e o chorar – é um presente histórico. É o ponto de vista do privilegiado que tem tempo. diz que “(. Ela transmitia as notícias de um estúdio no local. a Globo enviou a apresentadora Fátima Bernardes a Washington D. Pode-se pensar com velocidade?” Na mesma linha. e que se interroga muito sobre seu privilégio.) há algo de podre na eleição do rápido como categoria central do telejornalismo. como parte dele. Outro ponto interessante sobre a questão da atualidade. que. mas também “dentro” do acontecimento. Estabelece um elo. Ele diz. A mesma enunciação que remete ao presente nos informa.ou tentando se confundir com o tempo de uma seqüência.enquanto um iraquiano beija a foto de Saddam Hussein. Há diversas embreagens temporais.. Na verdade. é passado. não faria a menor diferença a jornalista apresentar o JN nos Estados Unidos ou no Brasil. e também citando Platão. quase como parte dele. (.. por exemplo. que o fato é gravado. Marcondes Filho.. de uma narração mostrada. a praça pública. mais ou menos. Bourdieu. exatamente pela ausência de uma identificação sobre um “ao vivo”. E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão entre pensamento e velocidade. na urgência. o outro chora. Do ponto de vista do conteúdo informativo. que inclui também estratégias espaciais. O que se pretendeu foi justamente o impacto dessa inserção: de que se estava no centro dos fatos. e que são tomadas pela urgência. É francamente aristocrático.

de acordo com os interesses ideológicos do enunciador. manipulados pelo enunciador e decodificados facilmente pelos enunciatários. ou no comercial. mas principalmente nesse tipo de objeto. o ritmo de cortes mostra o investimento na dimensão afetiva. ou seja. controlam o contato do público com os fragmentos e os conteúdos e têm a missão de também administrar como o público deve se sentir e reagir. já se está em outra notícia. em última instância. a montagem.Sem esquecer outros recursos. não só no telejornalismo. E pode-se cortar qualquer coisa: de planos a pedaços de narrativas. Em vez de falar do telejornalismo como um gênero televisual no qual é impossível a reflexão. acreditamos que é mais relevante notar como cada programa. Deixamos para o final do trabalho uma questão importante: com o manejo dos planos de câmera e da montagem manipula-se o tempo que o público precisa para pensar e dar ordem aos estímulos. É importante novamente ressaltar que as relações entre plano de conteúdo e plano de expressão se apóiam numa série de efeitos de sentido cristalizados. A montagem. depois de uma “longa” reportagem sobre a morte do traficante Marcinho VP e a invasão de um terreno na cidade de São Bernardo que foi palco do assassinato de um fotógrafo. esse contato é sobredeterminado pelo tempo de duração desse fragmento. Em cinema e TV. por exemplo. reforça ou coíbe certos momentos de reflexão. mas também na maneira de apresentá-lo. por fim. o ato editar. é fundamental para compreensão dos interesses. Uma estratégia notável. A montagem do Jornal Nacional cria um ritmo. na maior parte dos momentos. quando o líder do Sem-terra fala da invasão. evidenciando ou desvalorizando certos aspectos do discurso. as formas de percepção de valores e o tempo dos fragmentos. entretanto. vivenciar impactos afetivos. valores e objetivos do enunciador para persuadir e manipular o enunciatário. o espectador não tem muito tempo para “encaixar” o que vê e ouve ao seu código de valores na maioria das vezes. que o JN cede tempo para o telespectador. No Jornal Nacional. é sinônimo de cortar. Qualquer objeto que for focado pela câmera em detalhes imediatamente será entendido pelo público como “importante” para a trama. Entretanto. cada notícia. Quando tenta elaborar determinado estímulo. como o close-up citado. Devemos notar. O estudo das chamadas estratégias sensíveis. o acesso à ideologia não está apenas na análise do conteúdo. um tipo de sucessão de tomadas tão diverso e intenso que o público só consegue. como mostramos 212 . é colocar a matéria da invasão dos Sem-terra (Tabela 2. podemos dizer que câmera e edição. define as relações entre unidades. de criação de paixões e o grau de inteligibilidade do assunto quando lhe interessa. pelo seu aspecto ideológico. unidade 15) num bloco claramente “policial”. contudo. Em outras palavras. Em objetos de textualização complexa.

está claramente valorizando o discurso do presidente dos Estados Unidos e sua posição ideológica. principalmente quando se apresenta a reação negativa de palestinos. aparece em um quarto do tempo da matéria. Ou à enunciação do presidente Bush ao comentar a prisão de Saddam Hussein. ao dar um efeito de “presença” justamente a Bush e a sua fala “civilizada”. Vale notar. o que o valoriza do ponto de vista inteligível. que o impacto da captura do ex-ditador entre os árabes passa em ritmo frenético. que misturam povos e questões. se o JN cedeu tanto tempo para a fala de Bush. da performance vitoriosa do exército dos Estados Unidos na captura do ex-ditador. A figura de Bush. É dele ainda a palavra final e quase conclusiva. a cessão de tempo. isso sem contar o que os jornalistas comentam sobre ele. ao desacelerar. o plano da “justa medida”. não uma posição que queremos imputar ao JN em relação à guerra dos EUA no Iraque. na matéria sobre Saddam. mesmo com os questionamentos dos correspondentes. quem assiste ao programa entende que. tem clara função de valor no plano de conteúdo. 213 . É possível afirmar que a matéria. O pronunciamento de Bush é mais desacelerado. Seu tom de voz é cortês. do diálogo. iraquianos. Não podemos esquecer que a prisão de Saddam não deixa de ser o momento de comemoração de vitória de Bush. ao contrário. é porque o discurso deve ser entendido como o mais importante da matéria. o JN trata o mundo árabe em gravações e cenas carregadas de emocionalismos e destruição. Em outras palavras. interessa ao enunciador que o enunciatário elabore os dados da história. no plano de expressão.anteriormente. Nesses momentos. Na mesma matéria. e aparece depois da rememoração dos crimes de Saddam.111 111 É evidente que se trata de um dado dessa matéria específica. tudo sem porta-voz. Bush é filmado em plano próximo. No fluxo televisivo.

que já se cristalizou há 50 anos essa distinção entre aquele que é o veículo de 214 . Otávio Frias Filho. É um fato. Faremos. citaremos outras publicações para enriquecer a discussão. Para o estudo dos diários. este capítulo é o que mais tem amparo nas idéias de nossa dissertação de mestrado sobre o semanário de informação da editora Abril. principalmente a forma de textualização baseada no manejo do espaço do plano de expressão. verificaremos como foi feita a cobertura da prisão de Saddam Hussein pela Folha e pela Veja. Em alguns momentos. que estão num patamar um pouco acima da sociedade como um todo.JORNALISMO IMPRESSO Nesta parte do trabalho. como ponto de partida para reflexões de maior alcance. a base é a Folha de São Paulo. é analisada a produção de sentido dos diários e revistas. Considerações gerais – Folha de São Paulo e revista Veja Proprietários de jornais e revistas afirmam que seus produtos são para a “elite”. diz que “o consumidor da mercadoria jornal é um indivíduo que tem certas expectativas e certas exigências em termos intelectuais. Os dois meios de comunicação foram colocados em um único item em função de diversas semelhanças. a chamada mídia impressa. As reflexões sobre a significação nas revistas têm como objeto a Veja. tomada. O diretor de Redação da Folha de São Paulo. Como não poderia deixar de ser. não há o que discutir. no entanto. em diversos aspectos. Nos estudos mais específicos de construção textual. e para permitir algumas comparações com os outros noticiários também examinados neste trabalho. os chamados formadores de opinião. um levantamento minucioso das diferenças entre as publicações.

113 “O futuro dos grandes”. Folha de São Paulo.informação de massa. e o veículo de informação do conjunto das elites. A imprensa está em mutação. e principalmente a imprensa escrita. A8.Paulo explica por que o interesse jornalístico pela ciência tende a aumentar “ .3%. três meses depois. diante da grande concorrência com outros meios mais ágeis. que no seu auge alcançou 385 mil exemplares. A6. Como em 2003 tivera uma média de 315 mil exemplares diários. diz que a confiança dos diários é imensa no Brasil: “É uma surpresa para mim que a credibilidade dos jornais brasileiros esteja em alta. Os desempenhos do "Estado" e do "Globo" não são muito diferentes. Folha de São Paulo. Beraba culpa a concorrência principalmente com sites.br/entrevistas/otavio/entreotavio1.” No entanto. 13/03/2005. e foi o único. teve um crescimento pífio de 4. janeiro de 2004. 95. a venda dos grandes jornais. 114 “A confiança dos leitores”.htm . ele arrisca um palpite para a queda nas vendas: “Um dos pontos que as empresas e os jornalistas têm de se perguntar é se a desconfiança não é um dos fatores que estão corroendo a credibilidade e. Marcelo Beraba. revista Fapesp. 215 . em março de 2005. então? Em artigo sobre a renovação de seu mandato. Marcelo Beraba. coluna do ombudsman. vive um período de crise de definição.último acesso em maio/2005. essa mesma elite tem preferido revistas aos diários. Disponível no endereço: http://www. que é o jornal”. 5/06/2005. mostrou que os maiores diários do País enfrentavam quedas de tiragem sem interrupção desde 1996: “Em 1995. 10 mil a menos do que no ano anterior.”113 Na mesma coluna. a Folha chegou a vender uma média diária de 606 mil exemplares.000 exemplares por dia. O ombudsman da Folha. rádio e TV: “Acho que a imprensa em geral. O "Estado". a queda em um ano foi de 2. Se tomamos por base o ano 2000. Numa relação de 17 instituições e profissões avaliadas. ed. está 112 Trecho de entrevista – “Uma porta de entrada para novos leitores de jornal . que naquele mesmo longínquo 1995 chegou a vender 412 mil exemplares por dia.O diretor de redação da Folha de S. terminou 2004 com 233 mil. Marcelo Beraba. por tabela. os jornais só perdem em credibilidade para os médicos (85%) e as Forças Armadas (75%) e estão mais bem posicionados que dois de seus concorrentes diretos.masteremjornalismo. Pesquisa nacional realizada pelo Ibope em maio mostra que a confiança que a população tem nos diários subiu de 65% em setembro de 2003 para 74% no mês passado. o próprio Marcelo Beraba. encerrou 2004 com uma média de 257 mil.org. O jornal do Rio.”114 E qual a razão da crise. coluna do ombudsman. Em relação a 2003. o rádio (64%) e a televisão (61%).112 Nos últimos anos. os três jornais perderam juntos 31%. Terminou o ano passado com uma média de 308 mil. a televisão.Mariluce Moura. na mesma coluna.

”116 Organização textual: efeitos do projeto gráfico e da diagramação O estudo das especificidades de diários e revistas tem como ponto de partida o exame da administração de elementos no suporte de papel que mostra como funciona. Isso acontece porque jornais e revistas têm um projeto gráfico. geralmente ecoando padrões culturais da moda.vivendo uma mudança e não tem ainda uma clareza do tipo de modelo que deve adotar. sustentação e fidelização da atenção dos leitores. que aparecem na forma de receitas do gênero “vermelho significa paixão” e “Times New Roman é uma letra que sugere seriedade”. 24/04/2005. Folha de São Paulo. 216 . tipos e características de letras a serem utilizados na manifestação do verbal. nos impressos. Folha de São Paulo. crenças.117 Qualquer leitor que toma contato com diversos números de uma mesma publicação nota certas recorrências na maneira de as unidades noticiosas serem apresentadas. A6. finanças. capitaneadas pela Veja. tanto que as três revistas tiveram crescimento em relação a 2003. em que parte da publicação certos assuntos deverão ser tratados. os efeitos de projetos gráficos e de diagramação remetem aos trabalhos de profissionais ligados ao design. 116 “Três vezes Paulo Coelho”. 27/03/05. as estratégias de arrebatamento. diversos jornalistas. Essa estratégia vem dando certo sob o ponto de vista comercial. por exemplo. 117 O manejo de suportes. como a política e a economia. cada número de um jornal ou de uma revista é diferente de outro no aspecto visual. Nesta perspectiva. as capas com Paulo Coelho até que são coerentes.”115 As revistas semanais. tiveram uma circulação semanal em 2004 de quase 2 milhões de exemplares. foram trocando o noticiário pesado dos assuntos públicos. Tentaremos uma abordagem mais integral. “O Zahir”. o caminho do sensível ao inteligível. Alguns designers apresentam listas de significações rígidas para a confecção de projetos gráficos. que define com alguma rigidez a quantidade de colunas em cada página. Isso acontece porque o material 115 “Ombudsman tem mandato renovado por mais um ano”. A6. Em meados de março. Marcelo Beraba. Época. por seções mais leves e temas relativos à vida das pessoas. o gerenciamento do nível de atenção. Marcelo Beraba viu na coincidência uma das razões para o sucesso das publicações: “As revistas mudaram muito nos últimos anos. É o caso do uso das cores ou tipos gráficos. pesquisadores e teóricos do jornalismo parecem não valorizar os efeitos dos projetos gráficos nos seus estudos. As celebridades têm espaço valorizado. nem sempre interessados em discutir as produções de uma perspectiva teórica. comportamento. Ao mesmo tempo. Por outro lado. como deve ser o posicionamento de fotos e outros elementos. reportagem local (sem identificação de autor). como saúde. Aos poucos. Isto é e Veja deram capa para o novo livro de Paulo Coelho. coluna do ombudsman.

que o formato de um noticiário não é conseqüência somente de coerções de consumo. sobre a organização textual. adequar o projeto gráfico às necessidades do dia-a-dia do jornal. 119 Devemos relembrar. portanto. acontece por meio da diagramação. organizar e manifestar gráfica e plasticamente as unidades noticiosas a partir das necessidades da edição (aqui como ato ou efeito de editar). É preciso. por sua vez. a edição (como ação) é entendida como estratégia global de enunciação. A diagramação. está atrelada ao projeto editorial do jornal. 217 . somente a Folha de São Paulo torna público seu projeto editorial por meio de seu Manual de Redação. por exemplo. ou seja. A execução do projeto gráfico. Diagramar é. Outra importante contribuição é criar uma distinção clara entre a parte jornalística e a dos anúncios. para facilitar e agilizar os fechamentos das edições ao padronizar rotinas e modos de operacionalização dos editores. apontamos as principais funções da organização textual administrada pela diagramação e como se relacionam com as três estratégias de gerenciamento do nível de atenção.que chega às redações e o modo de organizá-lo sempre variam. mas de produção. A edição. Editar é textualizar (relacionar um plano de expressão com um plano de conteúdo). contudo. tem funções importantes para o processo industrial de confecção de um jornal. como aplicação cotidiana das diretrizes do projeto gráfico. sua aplicação e adaptação ao cotidiano de produção de um diário ou de uma revista. Na tabela a seguir.119 118 Dos jornais estudados. Serve.118 A organização espacial executada pela diagramação expõe uma série de regras que mostram como essas publicações valorizam e diferenciam as unidades noticiosas e como dirigem a percepção dos leitores para que realizem essa mesma operação de reconhecimento da importância das notícias. em termos gerais. Como já comentamos no item III. o conjunto de normas e recomendações que norteiam o trabalho dos jornalistas.

A identidade visual.Buscar construir uma publicação atraente. Ele é persuadido. portanto. o leitor pode transitar facilmente pela publicação e parar somente onde achar necessário. na repetição de determinados padrões. uma foto cuja cor crie contraste com o fundo branco. por conhecer o lugar onde é colocada. que se ligam às curiosidades despertadas pelos conteúdos das próprias notícias. também gera sentido de familiaridade.120 2 . é preciso leitura. o tipo de valorização de uma unidade noticiosa. topológicas e eidéticas). bonita. por causa da ocupação espacial. com o tempo saberá rapidamente como conseguir essa informação.Fazer-crer em uma fácil legibilidade. Uma comparação entre jornais de um certo intervalo de tempo já dá indicações importantes dos sentidos manejados pela diagramação e partilhados entre veículos e 120 As iscas da diagramação são de ordem gráfica e se relacionam com as estratégias de arrebatamento. 5 . completa. se o leitor precisa ver a cotação da bolsa. posição e forma (ou semioticamente falando. Em outras palavras. Em outras palavras. por exemplo. entre outras possibilidades. o que significa passar a sensação ao leitor de que ele pode ter acesso rápido a tudo o que interessa saber (o que é “importante”) na edição inteira. Concebe espacialmente uma unidade noticiosa para que tenha pontos de atração de curiosidade. 218 .Funções da organização textual 1 . é tornar elementos das unidades noticiosas (caso de um título. com o tempo. São. inicialmente.) Estratégia de fidelização – Nasce do contato rotineiro com diferentes edições e da satisfação de saber obter o que se quer com facilidade. O espaço é manipulado para se obter maior ou menor nível de atenção e a correspondente tensão do leitor. passagem do sensível para o inteligível.Instaurar uma comunicação de valores instantânea. Estratégia de sustentação – Há aqui uma mobilização mais passional do leitor. 4 . Ou seja. Essa familiaridade em relação ao suporte gráficoplástico é produto do uso contínuo das mesmas famílias de letras. que alie a beleza ao caráter prático exigido pelo leitor. uma administração de categorias cromáticas. Estratégia de gerenciamento da atenção mobilizada Estratégia de arrebatamento – As iscas estão relacionadas à criação de descontinuidades do plano de expressão com a função de obter o primeiro engajamento perceptivo do leitor. A tarefa do diagramador. 3. Nos textos mais longos. a partir das coerções do projeto gráfico. bonito. necessário. notas com grandes matérias. como um título com um corpo de letra maior em relação a outro. A prisão de Saddam Hussein determinou na Veja e na Folha de São Paulo uma grande ocupação espacial. dosando. A diagramação deve manejar assim um ritmo. O enunciatário consegue identificar. a função da diagramação é a de permitir que a importância desses conteúdos se torne visualmente evidente e chamativa por meio da ocupação espacial. pela forma de apresentação do jornal. uma foto. de que pode se informar de maneira rápida e eficiente.Criar um sentido de identidade ao material. divide o material para não cansar o leitor.Criar iscas para o olhar. Jornais e revistas apresentam-se como um tipo de objeto prático. Pressupõe contatos anteriores bem-sucedidos.estratégias de ordem sensível. certos modos de ocupação de espaços e divisões. Não devem ser confundidas com as estratégias de sustentação. como veremos depois. (Vale lembrar ainda que a “passionalização” do leitor é função principalmente dos conteúdos. maneiras rotineiras de valorizar ou desvalorizar conteúdos que criam um código comum entre enunciador e enunciatário. o que facilita cada vez mais a obtenção da informação buscada pelo enunciatário. Nesse sentido. “indispensável” ou que “não dá pra não ler”. uma matéria) visualmente atraentes por meio do manejo da cor. uma legenda. entre outros procedimentos.

Atentemos ao espaço preenchido pelo título do bloco de manchete principal: 219 .leitores. Vejamos essa seqüência de primeiras páginas da Folha de São Paulo de 10 a 21 de dezembro de 2003.

com nitidez. que recebeu o menor destaque entre as primeiras páginas.Em todas as primeiras páginas. assinalados em amarelo: 220 . Duas reportagens expõem os limites dessa estratégia: a da captura de Saddam Hussein. que toma o maior espaço. a Folha de São Paulo “comunica” qual é o seu assunto principal. Comparemos a seguir a ocupação espacial desses dois assuntos. destacando-o por meio de um título com um corpo de letra mais proeminente. Uma comparação entre as edições mostra que o jornal também dá pesos diferentes para alguns blocos de manchete. uma variação de ocupação espacial. entre outros recursos. Percebemos. e a do afastamento de dois juízes na Operação Anaconda.

ao plano de conteúdo. Os dois casos parecem indicar dois extremos na maneira de manifestar as manchetes principais. os recursos também valorizam. A administração dos espaços está atrelada a conceitos. Existe um contrato pressuposto entre leitor e jornal para que os assuntos abordados apareçam hierarquizados por ordem de importância. A diagramação está informando. O de Saddam é o maior entre as primeiras páginas comparadas. ineditismo. o seu valor ou importância em termos de impacto. por meio da aspectualização do espaço da página (criação de continuidades ou descontinuidades). comunicam a existência de uma manchete “fraca” e de uma manchete “forte”. principalmente a que o apresenta quase como um mendigo. As fotos de Saddam. também recebem destaque. para um reconhecimento imediato. que também se relaciona com a ocupação espacial. atualidade. A maioria dos títulos de manchetes tem seis colunas. o que o leitor pode esperar da notícia no plano de conteúdo. de maneira distinta. Nos exemplos citados. por meio das diferentes maneiras de ocupação espacial de uma unidade noticiosa. Analisaremos agora com mais profundidade como são homologados esses valores a 221 . A manchete menor conta apenas com um infográfico. “Traduz”. E essa hierarquização é mostrada visualmente. a principal notícia do jornal. o que é mais relevante e tem maior valor como informação. interesse.A diferença é muito acentuada. sem segmentação. no plano de expressão. entre outros. Deve-se observar a variação do corpo de letra dos títulos. Na comparação entre edições. com cerca de 40 toques.

O exemplo explorado até agora se relaciona à primeira lei. faz uma observação que serve para entender as técnicas utilizadas pela Folha e reforça um conceito básico de semiótica. to convey excitement.uma unidade noticiosa. Fica mais evidente. of course) may be all very well. parágrafo completo: “Now. Se a excitação é tentada em toda a parte.”121 Na comparação entre os blocos de manchetes. No nosso trabalho sobre a revista Veja (Hernandes. “Paradoxalmente. detalharemos o item 3 do gráfico anterior sobre funções da diagramação e do projeto gráfico (“instaurar uma comunicação de valores instantânea”). Três outras leis são válidas para todas as formas de noticiários impressos: No original. for excitement exists only in contrast. Em outras palavras. frenetic confusion (a visual babel) results. para transmitir excitação. O autor diz que é preciso criar uma espécie de sensação gráfica de “normalidade” para justamente poder valorizar momentos especiais. agora. Mountains get their drama from valleys. de descontinuidades. pudemos observar que a manipulação do espaço do jornal é uma forma de administrar a atenção do leitor. O diretor de arte Jan V.” 121 222 . That is why flamboyance in layout succeeds only when it is presented in the context of nonflamboyance. The best setting for excitement is a styling that creates a climate of normalness. apresentamos quatro “leis” de diagramação. de que a significação emerge a partir de diferenças. Isso responde por que a extravagância em um projeto só tem sucesso quando é apresentada em um contexto que não é extravagante. já que o excitamento existe somente em função do contraste. Todo o processo desdobra-se em outros semisimbolismos. O raciocínio também é válido para as revistas. Montanhas obtêm seu drama dos vales. 2004: 53). como o manejo das relações topológicas do plano de expressão dos diários e das revistas (categoria maior espaço ocupado x menor espaço ocupado) relaciona-se ao valor e ao potencial de atenção de uma notícia. If excitement is attempted everywhere. but what about situations that demand special handling? Those Special Reports and extra-exciting articles or issues? Paradoxically. normalness (of a distinctive kind. ao apresentar estudos e técnicas sobre projetos gráficos de publicações impressas. é preciso haver primeiramente enfado. isso resulta numa frenética confusão (uma babel visual). one has to have dullness first. White.

Categorias topológicas de expressão Maior área ocupada x menor área ocupada Correspondência no plano de conteúdo Parte de cima x parte de baixo Maior potencial de atenção x menor potencial de atenção Exterior x interior Inicial x final Devemos lembrar também que as leis de diagramação que citamos estão baseadas na maneira de um ocidental ler um texto verbal: uma seqüência de começo. da parte de cima para a parte de baixo. ao leitor.Estratégia do plano de expressão Primeira lei: o valor de uma unidade noticiosa é proporcional ao espaço a ela concedido. permitem visualizar as hierarquias e “leis” expostas. matérias. há um encaixe sem sobras. Dessa maneira. o enunciador informa o assunto ou assuntos que considera mais importantes na edição. Nesse espaço. Inicialmente. A lei também vale para os elementos. A lei é válida tanto para a relação entre unidades noticiosas numa mesma página (ou conjunto de páginas) quanto para elementos de uma única unidade noticiosa. Nessa situação. a primeira lei prevalece. portanto. Esses elementos quadrados e retangulares quase sempre aparecem meticulosamente reunidos em “módulos”. Diagramar é. Por exemplo. infográficos em uma ou mais páginas. literalmente. se as fotos ocupam mais espaço. Os módulos interessam ao trabalho por diversos motivos. legendas. a sensação de que o jornal apresenta os assuntos na forma de “blocos” encaixados. somos comunicados de que as imagens estão sendo mais valorizadas. Isso dá. da esquerda para a direita. dá a quase todos esses elementos uma forma quadrada ou retangular. expõem a existência de hierarquias internas e externas de 223 . Dar mais espaço valoriza. A diagramação de jornais e revistas. fotos. encaixar elementos pertencentes a um assunto dentro de um módulo e relacioná-lo ou separá-lo de outros. ao integrar títulos. como pode parecer. Essa lei leva à colocação das principais informações e dos elementos de mais impacto sempre no começo. meio e fim. Módulos. Existem outras formas de diagramar publicações com diferentes efeitos. em quadrados ou retângulos maiores. Nos diários. Dar menos espaço desvaloriza. já que são meios de organização espacial dos elementos. Quarta lei: o início de uma unidade noticiosa é o espaço mais valorizado. E que não se trata de algo “natural”. há raros casos em que há um bloco maior no meio da página do que em cima. sem espaços em branco na maior parte da área normalmente utilizável das páginas (conhecida por mancha gráfica). Cada página é um módulo formado por outros módulos menores. Segunda lei: tudo o que estiver na parte de cima tem mais valor do que na parte de baixo. Terceira lei: a máxima valorização espacial de uma revista ou diário acontece na capa ou na primeira página.

vejamos esse exemplo de uma página de abertura do caderno de esporte da Folha de 22 de março de 2005 (D1): Podemos notar que há somente dois blocos de textos: a matéria sobre a saída do técnico do Santos. realçada em roxo. que é mascote da Copa do Mundo 2006. Beckenbauer e um leão. destacada em rosa. Essa organização guia a atenção do leitor e informa o valor das notícias na visão do 224 . ou seja. além do infográfico “O Santos em números”. Todo jornal (e uma revista também) é constituído por esses módulos. apresenta sua própria “notícia principal”. A modulação de unidades (ou seja.unidades. Cada uma dessas divisões admite outras. Os diferentes elementos das notícias aparecerem hierarquizados pelos módulos. e uma panorâmica (nome que a Folha dá a uma parte com notas de assuntos diversos. título) dentro de um único tema. que fazem com que as unidades noticiosas apareçam na forma de blocos. no qual se vê Pelé. visualmente agrupadas em um bloco. Para esclarecer esse funcionamento. tem uma hierarquia interna. A panorâmica. A matéria principal sobre Oliveira é seguida de outras três. mas sobre um mesmo tema). a apresentação conjunta de fotos. torna rentável para a análise observar a categoria de expressão englobante x englobado. gráfico. que vai variar dependendo do recorte que se faça: da edição inteira a uma nota. matéria. por sua vez.

o de impor a inter-relação espacial entre elementos.disponível no endereço: http://www1. Dentro de um módulo. as citadas leis de diagramação. Os módulos produzidos pela diagramação dão pistas importantes sobre o funcionamento do sincretismo nos impressos. Esse ordenamento não se altera com a importância da notícia.último acesso em março de 2005. Maior o bloco. títulos. esse assunto só poderia aparecer. assim. principalmente dos diários.acessado em março de 2005.122 Cada módulo submete diferentes elementos (fotos. a gráfico-plástica. por exemplo. 17 de outubro de 2004. 122 Participamos de várias discussões sobre sincretismo em jornais e revistas com um tema recorrente.br/folha/conheca/projetos-1988-4. cria-se a idéia de um todo de sentido. colunas fixas. a prisão de Saddam ocupou um quarto do programa e apareceu logo no início. seções. no caso dos diários. há uma explicação para o projeto gráfico ter tantas divisões: “Segmentamos o jornal em cadernos e suplementos. até mesmo o encarte de revistas. dava margem ao que consideramos uma falsa polêmica: a de não se poder falar em “todo de sentido” nos impressos. Disponível em http://www1.uol. há suplementos. e força o olhar do leitor a relacioná-los visualmente.br/folha/80anos/futuro. que visava “a facilitar a leitura e tornar mais atraente o cardápio diário de informações” (A10). As leis de diagramação podem ser pensadas também como prescrições de como montar os módulos. O padrão modular de um jornal ou revista para o grande público. 123 No Jornal Nacional. e que vem necessariamente antes da editoria Brasil. Nas justificativas para mudanças do Projeto Editorial124 1988-1989. suporte e a atualidade da notícia Ao contrário do rádio e da TV. as coerções do projeto gráfico mostram que o enunciador maneja grupos de elementos determinando relações espaciais muito claras entre unidades e elementos. 125 Texto “Segmentação ou riqueza de detalhes” – sem autor . meios de comunicação impressos têm um ordenamento muito rígido de blocos de assuntos.shtml . dos editoriais e da primeira página. Praticamente as mesmas razões são invocadas pelo jornal O Estado de São Paulo para justificar sua mudança de projeto gráfico a partir de domingo. maior a importância da notícia.com.enunciador.folha.”125 Vamos agora analisar e verificar os efeitos dessa “organização da leitura” na Folha e na Veja. edições especiais e. de modo a organizar psicologicamente a leitura e atrair novas frações do leitorado.folha. dedicado aos assuntos internacionais. da Folha de São Paulo. É o módulo que faz o papel sincretizador mais importante. gráficos) a uma única forma semiótica. facilmente reconhecíveis pelo enunciatário.com.123 Além disso. na forma de editorias. mesmo com todo o destaque.uol. Divisões do jornal. em si mesmo. diferentes unidades são relacionadas espacialmente e. 124 O Projeto Editorial Folha é “uma série de documentos que o jornal começou a divulgar a partir de 1981 visando ordenar seus procedimentos e estabelecer suas prioridades editoriais” – In “Jornalismo em tempos de crise” – Fernando de Barros e Silva – um dos textos que discute os 80 anos da Folha de São Paulo. um dispositivo de sincretização manejado pelo diagramador. 225 . no caderno Mundo.shtml . A disposição de elementos facilmente reconhecíveis e separáveis. Na Folha. já que cada leitor faz o recorte que deseja. Cada módulo é. típica dos impressos. É nesse sentido que falamos em rigidez.

cadernos.” 126 226 . existe um outro.O diretor de redação da Folha de S. a edição de domingo. mensal. Sua pequena importância editorial não justifica. A reportagem completa sobre o mesmo evento. com níveis de credibilidade muito díspares. 127 O leitor de domingo é pensado como alguém que tem mais tempo para ler e merece “o melhor”. uma palestra organizada pelo próprio jornal. a Folha descreveu em poucas linhas as “sabatinas”. O diretor de redação da Folha de São Paulo. a mais vendida. Vejamos como o jornal se apresenta: Trecho da entrevista “Uma porta de entrada para novos leitores de jornal . cadernos especiais e revistas se repetem dentro desse segundo período.”126 Além do ciclo de 24 horas.Comecemos pelo diário.que pode ser tanto o papel quanto a tela . na medida em que existe uma oferta muito grande. há ainda um suplemento mensal.127 Na Folha. Uma página inteira foi editada sob o título: “Drauzio não vê sentido em lei próeutanásia. no mesmo caderno Cotidiano. O primeiro e mais evidente é o de 24 horas. Paulo explica por que o interesse jornalístico pela ciência tende a aumentar” – Revista da Fapesp – edição 95. Sessões. com os detalhes das considerações do médico e escritor Drauzio Varella só foi publicada no domingo seguinte. que é encartado no jornal toda última terçafeira do mês. janeiro de 2004 – autoria de Mariluce Moura. tem o maior número de páginas. afirma que esse período define inclusive o tipo de jornalismo realizado: “Na Folha fazemos uma análise de que. inassimilável de informação. que reúne os assuntos mais analíticos. no entanto. Entendemos que é esse ritmo de 24 horas e não o suporte . O título foi “Drauzio defende aborto legal para que deixe de ser matéria ‘de marginal’”. Cada número da Folha apresenta unidades noticiosas organizadas a partir de dois tipos básicos de intervalos de tempo. revistas. preocupado com o futuro do jornal diante de novas tecnologias de informação. dia 27. por parte de um contingente grande de pessoas. Consideramos que essa necessidade até se acentua. 23 de março de 2005. Na quarta-feira. mais suplementos. o Sinapse.que define o jornal.Folha de São Paulo . pensar em um terceiro ciclo. Otávio Frias Filho. continua e continuará havendo a demanda por um panorama noticioso que reflita o que aconteceu de essencial nas últimas 24 horas. marcado por um ápice. semanal. Isso gera situações curiosas.

Notícias sobre as últimas descobertas e pesquisas mais recentes e importantes no Brasil e no mundo. Ilustrada. Notícias locais. um instrumento fundamental para os formadores de opinião. a editoria se dedica à vida política.com. coluna de Luís Nassif (exceto às segundas) – Agrofolha (às terças). que nele encontram análises sobre os últimos acontecimentos. Mundo. na quinta. Procura prestar serviço ao leitor sobre temas como direito do consumidor. Cotidiano Oferece ao leitor informações úteis ao seu dia-a-dia nas áreas de segurança. Tem colunas de Jânio de Freitas. na sexta. Arte. Turismo. com Gilberto Dimenstein. Tudo. institucional e aos movimentos sociais. Na edição São Paulo. 227 . como o dedicado à mulher. na quarta. a edição paulista traz informações sobre tempo no Estado e rodízio de automóveis. Ciência. Guia da Folha. Folhinha. coluna de Gilberto Dimenstein. Traz diariamente notícias relativas às principais capitais do país. brasileira e internacional. inclui página sobre saúde. inclui Painel (notas) e Toda Mídia (análise de Nelson de Sá). Uma vez por semana. É. Cidade é Sua. Atmosfera. Letras Jurídicas. Mundo Ciência Notícias científicas Notícias econômicas. Além de notícias nacionais. sempre acompanhadas de análises precisas e enfoque didático. O que diz a própria Folha129 Primeira Página Opinião Brasil No primeiro caderno da Folha. A conjuntura econômica. com Pasquale Cipro Neto.último acesso em março 2005) – links Cadernos diários e Suplementos. Cotidiano. Folhateen. Élio Gaspari. Loterias. inclui “Entrevista da 2ª”. trânsito e meteorologia. Esportes. Imóveis. TV Folha. ao mesmo tempo. Mortes. Dinheiro Folha Mundo publica diariamente as principais notícias internacionais. o caderno orienta quanto a investimentos. Urbanidade. Editoriais. Notícias Internacionais. colunistas. Mercado Aberto. Dinheiro.br/folha/conheca/ . para que ele exerça sua cidadania. O leitor também tem acesso ao que é publicado nos mais influentes meios de comunicação do planeta. educação e direito do consumidor. Com informações precisas. Procura oferecer ao leitor informações pluralistas e apartidárias. 128 Base Folha de São Paulo do primeiro trimestre de 2005. Regionais. Falências. A seção Opinião Econômica tem como objetivo manter o pluralismo de opiniões.FOLHA DE SÃO PAULO – DIVISÃO Partes fixas – diárias – que aparecem em todas as edições128 Características Tem uma versão paulista e outra nacional. Câmbio. Na segunda. Mais!. Não vamos tratar aqui dos cadernos e revistas especiais. Esses cadernos são resultado da divisão espacial e do trabalho conjunto das diversas editorias da Folha de São Paulo: Brasil. Acompanhe seus Fundos. No domingo. linguagem clara e elucidativa. com Walter Cenevida. no sábado. Bárbara Gancia. Revista da Folha. no domingo.uol. concentra sua cobertura na capital paulista. Informática. saúde. encartado na Folha de 8 de março de 2005. português. Além das manchetes. traz indicadores econômicos e faz a cobertura de temas que mereçam atenção especial em função da conjuntura econômica. Erramos.folha. 129 Todas as informações dessa parte da tabela constam do site do jornal “Conheça a Folha” – (http://www1. Há 50 anos. Veículos. Tendências/Debates. com especial atenção para o didatismo e para o uso de recursos visuais na explicação de assuntos complexos. coluna de Moacyr Scliar. Opinião Econômica. Fotografia. inclui coluna do ombudsman. Painel do Leitor. Empregos. e o mundo dos negócios são o principal alvo do caderno Folha Dinheiro.

Meu Sábado. hospedagem. legislação e moda. Roteiro de lazer. Aborda o tema de forma diferenciada. Único suplemento mensal – circula na última terça-feira do mês. O Folha Informática auxilia os leitores a entender e a usar melhor a Internet e os computadores. O caderno se dirige ao leitor que quer sempre conhecer mais. Palavras Cruzadas. decoração. Toda quinta. É uma revista semanal de moda. região onde circula. Lançamentos. Além de acompanhar os principais campeonatos. Quadrinhos. Tem como grande diferencial a prestação de serviço. Circula às sextas. dança. passatempos. Curtas cartas. fotos e muito serviço. O objetivo do novo caderno é dar ao leitor instrumentos para o leitor (sic) que não quer ficar para trás numa sociedade que cada vez mais exige capacidade de reciclagem e atualização. Equilíbrio Suplemento de saúde. na análise esportiva. Inclui roteiros de restaurantes. + livros . comportamento. além de seções. Toda segunda. O Folha Esporte trata o esporte como espetáculo e fenômeno empresarial. sociologia. sexo e saúde. marketing. Filmes. sexo e muito mais. Com autores e colunistas conceituados. Toda quinta. Hardware. teatro. Programação de TV. Na Grande São Paulo. Televisão. Foi o primeiro a usar estatísticas. Procura orientar o leitor para comprar melhor. O foco do Folha Sinapse é o aprendizado contínuo. Notas. Cruzadas. guia de programação da região. Foco no desenvolvimento profissional. É Grátis. F. Com linguagem simplificada e objetiva.Esporte Notícias esportivas. Seções com quadros informativos e dicas de preços e lugares fazem deste caderno um roteiro útil para quem gosta de viajar. cadernos e revistas exclusivos do final de semana Mais Revista da Folha 228 . somente para a Grande S. traz assuntos relacionados à política. além de dicas precisas sobre cuidados com o corpo e a mente. É atualmente um dos cadernos mais lidos da Folha. Comida. cinema. coluna de Mônica Bergamo. Úteis e fúteis. família. Variedades. Ponto de fuga . Painel FC. traz encartado o suplemento Acontece.Jorge Coli Biblioteca básica. Criado em março de 97 o Guia cobre a programação de cultura e entretenimento da Grande São Paulo. casas noturnas e dicas para as crianças. Traz as últimas técnicas e terapias para quem quer viver mais e melhor. Um caderno especial para os leitores que procuram literatura. Turismo Folhinha Sinapse Guia da Folha Suplementos. Crítica e ousada. + poema. coluna de José Simão (exceto às segundas). Cultura e Variedades. Cada dia tem um colunista ou ensaísta na última página. Era uma vez na América. preparadas pelo Datafolha. shows. videogames. O Folha Turismo traz os principais destinos do Brasil e do mundo com coberturas exclusivas. Um caderno dedicado à busca da saúde e da qualidade de vida. brincadeiras e promoções. As reportagens e as seções procuram desfazer a fronteira entre o profissional. Plural. Ilustrada Suplementos durante a semana Folhateen Notícias para adolescentes. comportamento. Toda semana os adolescentes encontram no Folhateen os principais assuntos de seu interesse: música. passeios. A Folha Ilustrada traz a melhor cobertura do que há de mais original e relevante nas áreas de cultura e entretenimento. o caderno Mais! é referência internacional como caderno cultural. + cinema . além de seus personagens preferidos. atualidades e consumo. Placas. Informática Toda quarta. quadrinhos. Bárbara responde. o acadêmico. a Ilustrada fala sobre discos. Só circula na Grande São Paulo. a Folhinha publica reportagens e fotos em sintonia com os interesses das crianças. ganhar tempo e obter melhores resultados ao navegar na internet. Saúde. ensino. filosofia e artes. dirige-se tanto ao leitor iniciante quanto ao mais experiente. o pessoal.Todo sábado. Coluna de José Geraldo Couto. Cartas. exposições. Todo sábado. concertos. Para crianças. Caderno cultural. humor e diversidade de pontos de vista. Inclui Astrologia. Os dez +.log. Internet. quadrinhos com Hugo. gastronomia e muito mais. quadrinhos. Televisão. Colunistas especializados respondem às dúvidas e incentivam o adolescente a buscar informação.P. Notícias sobre viagens. gastar menos. bares. Seus colunistas garantem análise. cultura.

A crise financeira obrigou o jornal a fechar quase todas as redações locais. o do Vale do Ribeira. Feiras e Congressos. Folha Empregos não devem ser confundidos com espaços ou páginas de anúncios comuns. A edição nacional deve parecer menos paulista. secretária da redação da Folha. O caderno Imóveis é voltado não somente para quem está à procura da casa própria. tabelas e anúncios. Para permitir que o leitor converse com os profissionais da área. pode ter notícia mais atualizada. esses fechamentos distintos privilegiam principalmente a adequação da primeira página aos diferentes tipos de leitores. os setores em alta e a conjuntura econômica para que possa tomar decisões estratégicas precisas. Anos atrás. são temas do caderno comparativos entre vários modelos. indica oportunidades de emprego. legislação e tendências do setor são alguns dos temas apresentados. Folha Imóveis Há ainda duas seções semanais sobre lançamentos e soluções para problemas da vida em condomínio. o de Campinas. O Folha Veículos é uma fonte de consulta para o leitor na hora de vender. como o da região do ABCD. A conclusão da edição nacional acontece geralmente às 20h. produzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia. em 14 de setembro de 2005. Folha Construção Além de dicas sobre materiais e técnicas construtivas. Feiras e Congressos . e a da edição paulista às 23h15.131 Na Folha de São Paulo existem também dois “fechamentos”. comprar. venda e locação. Tem páginas de anúncios. Maioria das páginas é de anúncios. cursos e bolsas de estudo. questões comportamentais. A cargo do Datafolha. A característica marcante de todos eles é apresentar notícias. fazer a manutenção e tirar as dúvidas a respeito dos automóveis. Finanças. portanto. Notícias sobre imóveis e reformas. O caderno orienta quem quer entrar no mundo dos negócios. 229 . Reportagens deixam o empreendedor bem atualizado sobre as tendências de mercado. Seções internas como Gestão. motocicletas. abrir o próprio empreendimento e crescer. A segmentação rotineira do jornal ainda tem mais ramificações. e a Nacional. que aparecem durante a semana. Três seções se revezam semanalmente: uma que dá dicas para reformas. 130 Os cadernos Folha Veículos. acabamento e legislação. Empregos Folha Negócios Gestão. Finanças. a tabela de preços publicada no caderno é a mais atualizada do mercado. uma regional (Ribeirão Preto). Folha Imóveis. outra com exemplos práticos de bricolagem e uma que vasculha produtos diferenciados nas lojas paulistanas de construção e decoração. hidráulica. mercado de compra. Folha Construção. além dos anúncios. O Cotidiano têm três versões: a paulista. legislação e novidades da indústria automobilística. há a preocupação de "traduzir" a linguagem técnica em temas como eletricidade. Dá sugestões de aperfeiçoamento. mas também a todos que querem atualizar-se sobre assuntos desse mercado. Além de testes. Inclui reportagens.e investimento em imóveis residenciais e comerciais. comparativos e tabelas. o caderno engloba temas relacionados à decoração. O jornal que os paulistas recebem. 131 Informações prestadas por Aparecida Cordeiro. o jornal tinha mais cadernos regionais. A maioria das páginas é de anúncios.Folha Veículos130 Inclui reportagens.municiam o leitor de informações para administrar com eficiência. orienta sobre elaboração de currículo e processos de seleção. por exemplo. O caderno reúne reportagens e serviços direcionados aos profissionais que querem ampliar suas chances no mercado e aos que pretendem dar um impulso maior à carreira. Inclui reportagens. No entanto. Financiamento bancário à classe média.

Na versão de São Paulo. os habitantes da Grande São Paulo e do Grande Rio recebem duas revistas. O leitor paulista recebeu um jornal com notícias mais atuais. Já a notícia “Teatros fazem revitalização da praça Roosevelt”. vale notar o destaque maior para o Carnaval carioca. não é encontrada. Na prática. Na edição paulista. de ciclo semanal. o título era: “Escolas recorrem à nostalgia no 2° dia de desfiles no Rio”. nesse dia. portanto. em efeitos de atualidade diferentes. a Veja São Paulo e a Veja Rio. A primeira é da edição nacional. da edição paulista: Na edição nacional. Veja – a revista da editora Abril. há destaque – com foto – para um encontro de maracatus em Pernambuco. por exemplo.Comparemos. A diferença entre os fechamentos das edições resultou. tem uma estrutura menor. A segunda. há dois suplementos regionais encadernados toda semana junto com a revista. Periodicamente. com maior poder de despertar a atenção. da edição paulista. essas duas páginas iniciais de 8 de fevereiro de 2005. a manchete comentava o 1° dia de desfile. Inicialmente. Na edição nacional. Veja apresenta edições 230 .

Os jornalistas André Petry e Tales Alvarenga também têm espaços exclusivos. Veja Belo Horizonte. devemos observar que o leitor da Veja ou da Folha não tem como conhecer certos aspectos da segmentação dos noticiários. comida. além do Roteiro da Semana. Veja Recife. Veja Porto Alegre. 132 A fonte é o site da empresa: http://www. estaduais e nacionais. Há efeitos de proximidade. shows. Radar. conhecer trailer de filmes por meio de consulta ao site Veja On-line. e a seção Ponto de Vista. Neste trabalho. com cerca de 50 páginas de dicas de restaurantes. Na Veja São Paulo. Internacional. Geral. A edição de papel coloca à disposição dos leitores a possibilidade de saber mais de um assunto. Veja Brasília. Em Cartas. Há ainda uma área de serviços chamada Guia. Veja Curitiba. tecnologia. Gente. jovens. Datas. Veja Campinas. como apresentar uma receita para montar um computador. ouvir trechos inéditos de entrevistas. Veja Fortaleza. Há sempre uma entrevista em páginas amarelas. Contexto. ecologia e saúde e edições regionais que não têm periodicidade definida. oferece pouco mais de 100 páginas de jornalismo por semana (sem contar as informações do Roteiro da Semana). como Stephen Kanitz. compras e turismo. Colaboradores têm espaço fixo. Veja Recomenda. Economia e Negócios. e Artes e Espetáculos. É o caso da adaptação dos formatos às necessidades regionais. Veja Essa.especiais sobre crianças. o leitor encontra outras 20 páginas de reportagens – quase todas reservadas a consumo. Os leitores internacionais têm à disposição ainda uma assinatura da Veja em versão digital. os comentários de Diogo Mainardi. Lya Luft. homens. comportamento. Veja Goiânia. Veja Salvador. bares. Os livros mais vendidos. 133 Há também uma óbvia estratégia de marketing: suplementos regionais conquistam anunciantes que não se interessariam pela edição nacional.132 Podemos notar novamente a necessidade de buscar um sentido de proximidade espacial com o leitor. E a página final é sempre dedicada a um ensaio de Roberto Pompeu de Toledo. portanto. mulheres. filmes. que alterna vários autores. 134 Veja faz bastante uso da estratégia conhecida como cruzamento de mídias. para os leitores dos grandes centros paulistas ou fluminenses. que tanto pode dizer a uma futura mãe o que ela pode ou não fazer para ter uma gravidez saudável.133 A edição principal de Veja tem cerca de 80 páginas de jornalismo. consideramos que a base impressa da revista ainda se sobrepõe e comanda as outras formas de interação com o público-alvo. que pode ser de Walcyr Carrasco ou de Ivan Ângelo.abril. ver mais imagens.br/aempresa/areasdeatuacao/revistas/pgart_030102_28102002_111. a revista apresenta informação na forma de notas muito curtas. Holofote.com. exposições. como a página de humor de Millôr Fernandes. como Veja Nordeste. Existe também um grande número de seções. peças de teatro. A última página é reservada a uma crônica.134 Inicialmente.shl acessado em abril/2005. Veja. 231 . Podemos encontrar editorias comuns nos diários: Brasil.

Geral. ler uma história. A página inicial do semanário não tem. que pretendem mostrar que os impressos apresentam notícias do Brasil e do mundo. retomar 232 . de Esportes. O caderno B é somente o Folha Dinheiro. o que não acontece nos noticiários de rádio e de TV. Já a revista Veja apresenta na primeira página apenas a reportagem principal e.principalmente de ordem afetiva. Se na Folha há um relaxamento gradual e constante. decida o que ver. a característica de ser uma síntese da própria edição. Mundo. Nos grandes diários. na Veja a estratégia é um pouco diferente. às vezes. editoriais no Opinião. 1985: 78). Assuntos das editorias de Geral. depois. por meio da primeira página. página humorística do Millôr. quando se apresentam em manchete de primeira página. o Turismo vai tomar todo o caderno F. O caderno C trata do cotidiano. Se não levarmos em consideração o efeito da primeira página – que varia bastante ao apresentar assuntos de todos os pesos – podemos notar que Veja tenta. o leitor do diário toma contato inicial com os conteúdos mais “densos” até chegar aos cadernos com notícias mais “leves”. como a Folha. É preciso folheá-lo para conhecer o conteúdo. ler atentamente o noticiário econômico ou seu colunista preferido na área de esportes” (Schwartz. graças à divisão e à ordem dos cadernos. jornais diários e revistas semanais têm uma estrutura “happy end”. uma outra notícia em menor destaque. as duas páginas de frases de celebridades) obter a atenção do leitor. é possível notar. Se for uma quinta. apesar de ser também relaxante no final. que as notícias mais destacadas em blocos de manchete são as relativas às questões políticas de maneira geral. Economia e Negócios. mas colocam no mesmo nível de valorização espacial e editorial o que acontece no espaço considerado mais importante pelo leitor. tenta de alguma forma espalhar os assuntos de variedades e comportamento junto a outros das editorias Brasil. folhear a parte das histórias em quadrinhos. Geralmente. o raciocínio não é diferente. prepará-lo para os assuntos mais densos e. o “aqui” de suas práticas habituais. A revista. Cotidiano. Basta verificar a disposição de assuntos e dos respectivos cadernos. o do cotidiano. Ciência. Na Folha espera-se que o leitor tome conhecimento do resumo e da hierarquização das principais notícias por meio da primeira página e. Na revista. depois Brasil. como no jornal. Nos jornais e revistas. depois. O D. no final. Economia. são valorizados a partir do viés político. Internacional. A Ilustrada ocupa todo o caderno E. “O leitor de um jornal constrói seu próprio jornal: primeiramente pode dar uma olhada nas manchetes. Brasil. com temas leves (entrevistas. o leitor administra o contato com as notícias. no caderno A. Como quase todos os noticiários analisados. encontramos a capa. Na ordem normal de leitura.

como já citado. É por isso que algumas pessoas começam a leitura da Veja ou da Folha de São Paulo pelas páginas finais. quase sempre mobilizam paixões negativas. a disforia de querer-saber e a satisfação de obter o conhecimento desejado. sobre turismo. frustração. Expliquemos melhor a manipulação de estados de tensão e de relaxamento do leitor durante a leitura de uma edição. Devemos relembrar que a “temperatura” de uma notícia é ainda uma construção do texto. As notícias instauram paixões empáticas. lazer. Do ponto de vista da obtenção da curiosidade. são consideradas quentes. entretenimento. A solução encontrada era lembrar do último grande assassinato de 233 . como medo. que ficam nas partes finais. de esperança de junção sujeito-objeto. geral. Descrevemos que as estratégias de sustentação envolvem a projeção do enunciatário nas histórias reportadas. ou público. porém. E relacionam-se ao lado individualista. principalmente ligadas à esperança e à satisfação. comportamento. gastronomia. do leitor. Existem. as partes inicias têm notícias mais densas e que envelhecem rapidamente – notadamente das editorias de política. unidades noticiosas sobre saúde. Note-se que. Temos a já citada paixão da curiosidade. Por outro lado. em um diário. tanto unidades noticiosas de viés político como outras de serviços e diversão devem atrair o leitor. geram paixões empáticas eufóricas. beleza. ou seja. as outras paixões citadas instauradas pelos impressos. Se não forem consumidas imediatamente. não havia crimes que justificassem a abertura da página. Essas notícias.135 135 Falamos de notícias quentes ou frias vinculando esses termos ao efeito de atualidade (envelhecimento lento x envelhecimento rápido). planejar ações agradáveis. Como as notícias de política apelam mais para o lado “cidadão”. despertar desejos. Estão atrás do que consideram mais relaxante. Já as unidades noticiosas de cultura. Em certos dias. entretenimento. ou privado. com os serviços do Guia e os comentários sobre o mundo das artes e do entretenimento. relacionadas à manipulação de afetos e de outros níveis de relaxamento e de tensão do enunciatário. sexualidade promovem paixões eufóricas. obter saberes relacionados a “oportunidades” para se dar bem. Notícias de viés político geralmente produzem paixões empáticas disfóricas. não é preciso grande elucubração para verificar que. Observamos a seguinte situação em certo jornal diário que tinha uma página fixa diária dedicada a assuntos policiais. no caso do leitor brasileiro. Qualquer publicação faz um balanço entre notícias quentes e frias. Ele se serve delas para se entreter. do enunciatário. economia.o relaxamento. disfóricas. São notícias frias. Já as notícias leves. moda. apesar das diversas coerções que os jornalistas devem enfrentar. devem fazer o leitor se envolver afetivamente com as narrativas. perderão impacto. de disjunção sujeito-objeto. tristeza. de falta. moda. ou seja. geralmente podem ser publicadas em um intervalo de tempo mais longo. esportes.

mas cada um segue seu ritmo na hora da azaração. com o novo gancho. como isso. se existir. era um fator de atualização. Quase sempre não existia nenhuma. É por isso que. Folhateen. papai na pista – eles cruzam com os filhos na mesma balada. Já as notícias frias geram um enunciatário cuja única tensão. com algo que o leitor sinta que “está acontecendo”. um roteiro de férias são notícias de vida longa. Em qualquer parte do jornal existe a coerção de achar elementos de atualização para hierarquizar certos fatos (os “ganchos” jornalísticos) que construam uma ponte com o cotidiano. O tipo de papel vincula-se a uma publicação que pode ser guardada e lida o ano inteiro sem que muitos conteúdos envelheçam. com papel de qualidade. têm formatos mais fixos e com uma diagramação mais presa a regras do projeto gráfico. ligada a novos comportamentos familiares. Em outras palavras. É como se um conteúdo sobre questões inovadoras. branco. contudo. suplementos como Equilíbrio. essas editorias geralmente apresentam assuntos que despertam a atenção por bastante tempo. há uma vinculação entre a idéia de menor envelhecimento do conteúdo. na parte jornalística (há anúncios em papel jornal). A resposta. Em 13 de março de 2005. Mobiliza-se o sentido tátil. Sinapse têm formatos diferenciados. 234 . A temporada de uma peça de teatro ou de um show. O leitor tinha a sensação de informação nova. turismo trabalhem essencialmente com notícias frias. e também a durabilidade do papel. que editorias de cultura. mais resistente que o papel jornal. necessitassem de um plano de expressão arrojado. também tem notícias “frias”.” O assunto buscava certa atualidade. Unidades noticiosas mais quentes. Há outro ponto notável. muitas vezes exclusiva para cada notícia principal. é a de leitura com fins de relaxamento. pensadas para os cadernos iniciais. Com a informação da polícia. de viés político. de ciclo semanal. lazer. mas não utilizadas na primeira vez. Buscavam-se fotos feitas na época. tablóide. a manchete era “Cuidado. Mas era uma notícia essencialmente fria. a diagramação diferenciada. Já a queda de um avião deve ser abordada na edição mais próxima do acontecimento. o lançamento de um novo livro. Trata-se de um fato que esgota seu potencial de atenção rapidamente. apesar de a única novidade ser o fato de que não havia novidade. repercussão e ligar para a Polícia para saber se havia novidades. com uma diagramação variada. quente. desatrelados das grandes diretrizes do projeto gráfico. fazia-se uma manchete do tipo: “Crime x permanece sem solução”. por exemplo. na Folha. No entanto. Pode-se observar formatos mais livres. O formato assemelha-se ao da Veja. A Revista da Folha. ou seja. como as relacionadas a certos comportamentos. E contava-se a mesma história de outra forma.Não estamos querendo dizer. que é atual. A diagramação é mais arejada e aberta à experimentação.

71% . nessa abertura de matéria.136 A Veja. ao contrário. é tudo o que o escritor mineiro. a forma de diagramação e o formato do suporte.7% (1.Motins e promessas repetem crise de 1999 – sem assinatura – reportagem local): “Primeiro. suplementos tem profundas implicações na construção do leitor das publicações analisadas. do ‘tudo azul’.” Note-se. Depois internos enviados provisoriamente para presídios. A Folha não instaura um. fugas em massa. ‘Truque’ do fotógrafo.sem assinatura. o caderno A (inicial) e a Revista da Folha.” Há um apelo ao leitor – uma relação eu-tu. E o azul. uma matéria no Cotidiano (C3 . 19 de março de 2005. A Bolsa de Valores de São Paulo vira um ser com humores. CADERNO INICIAL Ciclo de 24h Papel jornal Diagramação fixa Notícia quente (maior Plano de conteúdo envelhecimento – assuntos mais densos) Efêmero FORMATO REVISTA Ciclo semanal Papel branco Diagramação flexível/diferenciada Notícia fria (menor envelhecimetno – assuntos mais leves) Durável Plano de expressão Entre o essencial e o acessório: a construção de um leitor fragmentado A segmentação das notícias em editorias. assunto que iremos discutir neste item. Luiz Ruffato. mas não encontrou ânimo para se sustentar e encerrou o dia com perdas de 1. A seqüência de fatos pode explicar a crise atual da Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do 235 . está diante de uma parede branca. mas vários enunciatários diferentes no mesmo texto. a cor do ‘tudo bem’. de um lead “disfarçado”. descontrole e destruição. mesmo com um início pouco usual. Outro exemplo na Ilustrada (E1 – Na boca do inferno – assinada por Cassiano Elek Machado – reportagem local): “Vê o azul da foto ao lado? Tudo mentira. não nos apresenta na sua nova e aguardada fornada de prosa. cadernos.71% na semana). por exemplo (B4 – Bovespa fecha dia com queda de 1. de 0. pacotes de medidas que priorizam a descentralização e promessa de criar unidades mesmo sem o consentimento dos municípios. e a construção. Há também uma relação entre essas categorias. 43. um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. projeta e dirige-se a apenas um 136 Cada parte do jornal tem uma construção textual diferente. Vejamos alguns exemplos de leads da edição de sábado. Neste estudo dos impressos. rebeliões.Toda essa diversidade na forma de apresentar as unidades noticiosas mostra que o jornal diário não apenas trabalha com uma categoria inicial x final para vincularse a notícias quentes x notícias frias. Comparemos dois extremos. reportagem local): “A Bovespa chegou a abrir suas operações em alta. o que mais chamou a atenção na hora da análise foi a enorme diferença entre o leitor apreensível da Folha de São Paulo e o de Veja.31%. de intimidade – a remissão a um aspecto de uma foto que acompanhava a reportagem. a antropomorfização da Bovespa. Em seguida. Na economia.

mas uma engenhosa construção que une o presente e passado por meio da existência de uma mesma série de eventos. Apesar de assunto que pode ser tratado como “quente”. o caderno de variedades foi chamado de Ilustrada por apresentar. Não afirma. Aliás. Havia a parte de notícias quentes. apenas o Menor) de São Paulo. em hipótese alguma. da Folha. sem nunca perder a identidade na hora de apresentar o que considera notícia. é claramente “interpretativo”. policiais e as “features”. como o Folhetim. reservou suas matérias frias para o Caderno 2. como o Infantil e o Feminino. 236 . por exemplo.” Praticamente não há lead. podia ser observado um enunciatário desdobrado em duas posições básicas: • Sujeito político. Essa classificação dá conta das características do enunciatário dos jornais do passado recente. Problemas técnicos também motivavam essa divisão. tanto na parte jornalística quanto na industrial. Décadas atrás. a posição do futebol é interessante. interessado em temas da coletividade. O que era mais atual e “sério”. é também diversão. inicialmente.leitor. que se importa com atividades que lhe dão prazer. Já existiam suplementos. Essencialmente. Procura oferecer ao leitor informações pluralistas e apartidárias. nessa concepção. um mesmo “estilo” e um modo único de escolher e apresentar notícias (Hernandes. A diagramação da Veja cria um ritmo entre notas e matérias mais longas. Já a diagramação da Folha ajusta-se ao perfil de seus diferentes enunciatários. mesmo que todos tenham como característica pertencer à “elite”. para que ele exerça sua cidadania.” • Sujeito lúdico. quase como uma passagem entre os cadernos de assuntos densos e os de temas mais leves. quando a fundação passava por outra grave crise. na tentativa de explicar as razões da crise atual na Febem. a peça bem cotada em cartaz. Podemos utilizá-lo para mostrar que é nessa parte do jornal que esse sujeito é construído com mais propriedade: “A editoria se dedica à vida política. grandes diários como a Folha e o Estado tinham duas divisões básicas. a inexistência de um sujeito político no caderno de cultura. com assuntos políticos. não tinha necessidade de muita imagem. mais fotos. mesmo sem assinatura. O texto. as notícias frias. e até culturais. pouco se alterou com o tempo. institucional e aos movimentos sociais. por sua vez. portanto. na divisão comum do jornalismo. O primeiro caderno da Folha. quadrinhos. sociais. do Estado. Na Folha. bem recortado e delimitado. O Estadão. 2004). Ressaltamos. porém. mas também descreve bem os últimos dias de 1999. com essa divisão. Não sem razão. do dia-a-dia. econômicos. já que as fotos tornavam a edição mais complexa. E a revista tem ainda um mesmo “tom”. entre o que é político e cultural. hoje chamado de Brasil. em um diário o esporte fica sempre próximo à parte de cultura e entretenimento. como o futebol.

ligado às descobertas de novos remédios e tratamentos médicos. Quando a rádio Eldorado. utiliza o jornal para fazer valer determinados direitos reconhecidos. entre outros exemplos. ou seja. por exemplo. ao verificar certos casos. essa situação é fruto da relação entre duas ou mais “posições de sujeito”. Ele pode ser tanto científico. mas não aplicados. que quer ter uma visão da coletividade e de seu papel nela. dos planetas. a partir da proliferação de cadernos. 2004). de indivíduo contra indivíduo. pragmático e harmonizador. como místico. ao mesmo tempo. ao mesmo tempo. • Sujeito harmonizador – É o que está interessado em “qualidade de vida”. meios de ter mais saúde. os momentos nos quais um leitor. de buscar equilíbrio. fez campanha pela despoluição do rio Tietê. a Folha Dinheiro mostra como aplicar bem os recursos. o sujeito político. na posição de sujeito político e pragmático. o pragmático e o harmonizador. o jornal humaniza sua imagem. Passemos agora para a análise que leva em consideração os efeitos das segmentações atuais. que incluem os interesses do sujeito lúdico. por exemplo. educação e direito do consumidor”. Alguém que usa um jornal como força de pressão está. da natureza. que atravessa o Estado de São Paulo. suplementos e revistas. de viver relações mais satisfatórias. chamamos a atenção para o fato de as matérias de serviço terem certas características: • • • A dinâmica social é apresentada como jogo de oportunidades. é que.137 Em nosso trabalho sobre a revista Veja (Hernandes. por exemplo. a Folha Turismo aponta a melhor e mais vantajosa viagem. para o leitor interessado em matérias de serviço. que percebe a vida regida por forças divinas. Os textos de serviços trabalham a idéia de que determinadas informações são fator decisivo de vantagem pessoal e até de sobrevivência pessoal. 237 . Nossa hipótese. Com matérias de serviço. A Folha Cotidiano. é que o jornal apela. a Folha Negócios orienta como abrir e gerir uma empresa. ao parecer uma espécie de amigo. o pragmático espera encontrar no jornal soluções rápidas para seus problemas práticos. Surgem dois novos sujeitos: • Sujeito pragmático – Ao contrário do sujeito político.que há de mais determinante nesses espaços. ou seja. cada vez mais. conselheiro ou cúmplice que vai doar o saber decisivo para o leitor satisfazer suas necessidades. 137 A única dúvida que tivemos ao tentar montar essa classificação foi onde colocar os “serviços de utilidade pública”. “oferece ao leitor informações úteis ao seu dia-a-dia nas áreas de segurança. na verdade. mobilizou. ou uma comunidade. O que pudemos notar.

Compensaria as paixões de falta. como a compra do melhor microcomputador do mercado pelo menor preço por meio de uma dica do Folha Informática. outros diários) tomou um caminho distinto do de Veja e do das outras revistas semanais de informação. Com as matérias de serviços. a Folha escolhe mostrar como vantagem justamente a segmentação: 238 . e no tratamento do que é manchete. ao que tudo indica. mas criaram cadernos e revistas para agradar a esses diferentes destinatários. um dever-ler. os jornais o fragmentaram. Essa procura de equilíbrio entre os assuntos abordados tem uma grande razão: o medo de perder o leitor. os assuntos políticos são colocados como “obrigatórios” aos leitores. por paixões de solução de falta. a vocação missionária dos impressos parece se chocar com o papel utilitarista e cada vez mais “prático” que precisam vender para parcela dos seus leitores. A Folha estampa na sua primeira página que é “um jornal a serviço do Brasil”. mesmo com todos os cuidados para buscar a curiosidade do leitor em função de estratégias de arrebatamento e sustentação. assumiram a pulverização. A busca pela satisfação dos leitores pragmáticos. Não abandonaram a ênfase política. não raras vezes. Em vez de pensar o enunciatário globalmente. uma base ideológica de concepção anticidadã ao deixar subentendido que a solução individual é mais importante e eficaz que a solução coletiva. vinculadas às satisfações individuais. a Folha estaria contrabalançando a disforia dos temas políticos com a euforia das notícias sobre serviços.• As matérias de serviços camuflam. É possível notar que a Folha (e. Como pudemos verificar na divisão de cadernos da Folha de São Paulo. Em publicidades institucionais veiculadas no próprio jornal. Em outras palavras. lúdicos e harmonizadores expõe a influência crescente do marketing sobre a tradição de guardiões da verdade e dos interesses coletivos que os noticiários impressos gostam de assumir. relacionadas às aflições coletivas dos brasileiros.

Investir no sujeito político e preocupado com a coletividade garante a credibilidade necessária para que o jornal mantenha-se como voz social. Veja passou a dar espaço de primeira página – o que significa grandes reportagens – para assuntos 239 . A estratégia de Veja foi diferente. A fragmentação do jornal mostra. diversas possibilidades de fruição dentro do seu próprio texto. Sem abandonar o político. adequada a um certo grupo de leitores. No canto esquerdo pode-se ler que “a Folha tem cadernos para tudo e para todos”. o que corrobora nosso estudo. construam caminhos individuais e cada vez mais atrelados à satisfação de necessidades de ordem lúdica. assim. no entanto. a Folha mostra o significado da sua enorme fragmentação: o de parecer um “jornal completo”. Nos diários.Nesse anúncio. esse direcionamento justifica a hierarquização de manchetes a partir de impactos de ações econômicas e políticas. Cada fragmento tem uma coerência discursiva diferente. O caminho adotado pelo jornal. O jornal cria. portanto. no final das contas. que cada edição é pensada para que diferentes leitores. pragmática e relacionadas com a “qualidade de vida”. foi o de apresentar várias publicações diferentes dentro de uma mesma edição ou de um ciclo de edições.

relacionados aos serviços. plena ditadura militar. e o primeiro semestre de 2005: CAPAS DE VEJA PRIMEIRO TRIMESTRE DE 1975 1° de janeiro 8 de janeiro 15 de janeiro 29 de janeiro 5 de fevereiro 12 de fevereiro 19 de fevereiro 26 de fevereiro 5 de março 12 de março 19 de março 26 de março 240 . Fizemos uma comparação entre as capas da revista no primeiro trimestre de 1975.

não é para divulgar shows. 241 . ao que tudo indica. Tudo é pensado em termos de impacto no leitor. pode receber o rótulo de “serviços”.CAPAS DE VEJA PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2005 5 de janeiro 12 de janeiro 19 de janeiro 26 de janeiro 2 de fevereiro 9 de fevereiro 16 de fevereiro 23 de fevereiro 2 de março 9 de março 16 de março 23 de março Há 30 anos. mas para uma análise cultural. 138 A capa dedicada aos sambistas (de 12 de fevereiro). constata-se somente uma matéria que. manchetes de saúde. entretenimento receberam grande espaço: há seis capas sobre esses assuntos. a que fala de férias (de 15 de janeiro). ao que tudo indica.138 Já no primeiro semestre de 2005.

Pode-se argumentar que. diagramar é uma tarefa de administração de quatro grandes conjuntos significantes. Jornal do Brasil como textos constituídos por elementos verbais e não verbais também não resolve o problema. Veja mudou. no sentido de criar uma separação entre essas pretensas unidades. Veja também participa ativamente. como cores. como veremos depois. apontar Folha de São Paulo. matérias. aos tipos gráficos e as suas possibilidades de concretização. Verbal. o sentido do tato é importante. Insistimos. enunciando que todos têm mesmo “peso” em termos informativos. deixa implícita a necessidade de reconhecimento dos conjuntos significantes. interessada em vender. Mas isso só mostra que a revista se pauta pelo que acredita ser a curiosidade do leitor. Na verdade. Tentaremos agora uma classificação. nesse momento. sobre a necessidade de romper a excessiva simplificação na abordagem do plano de expressão desses noticiários. E a revista. É importante esclarecer que essa tentativa de organizar os conjuntos significantes (unidades com expressão e conteúdo) tem conseqüências teóricas importantes e não serve apenas como mero detalhamento descritivo dos objetos. no início do trabalho. o que tentamos fazer.diz respeito às letras. O leitor que a revista constrói coloca no mesmo nível um lançamento do novo livro de Paulo Coelho. Questões sobre o plano de conteúdo são apresentadas ainda neste item. as partes que compõem um noticiário impresso foram chamadas indistintamente de “unidade” ou “elemento”. Nos impressos. classificados a seguir. é mais o impacto na página. tamanhos que geram títulos. em momento de grande efervescência política. Os cinco conjuntos significantes manejados pela diagramação Até agora. texturas. Em outras palavras. O verbal se dá a conhecer a partir de um suporte visual que tem uma significação claramente determinada nos projetos gráficos. a eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados. 139 Nosso interesse. a partir do plano de expressão:139 1. Finalmente. a corrupção do governo Lula. desenvolve capas e reportagens de fôlego sobre todos esses assuntos. Jornais e revistas também não podem ser pensados apenas como apresentando elementos verbais e visuais. legendas. manifestado tipograficamente . Os objetos jornalísticos não são apenas visuais. 242 . Veja. É o caso das capas seguidas relacionadas ao escândalo do chamado “mensalão” em meados de 2005. as possibilidades de fazer uma cirurgia plástica. Isto é. Nos jornais e revistas.

geralmente com o uso abundante da cor. quadrinhos. gráficos. demonstrações visuais de acontecimentos. 243 . O "Outro Lado" de uma notícia controversa passou a ser identificado por um fundo 140 A maioria desses recursos tem como função auxiliar na organização visual e não remetem a conteúdos. Na Folha de São Paulo. A diagramação também utiliza certos elementos com funções específicas. fundos. para representar figuras e situações. glossário de termos técnicos ou específicos. Ainda no caso do pictórico. os infográficos são os que têm ganhado espaço crescente na mídia impressa. No Aurélio. fusões que apresentam um todo de sentido com base na utilização dos outros conjuntos significantes citados. formas que vão do figurativo ao abstrato. Inclui charges. numa superfície. Fotográfico – inclui imagens fotográficas obtidas por meios convencionais ou digitais. explicações didáticas.” Note-se novamente que se está diante de um caso de sincretismo. 4. 2001: 23). no sentido de serem representações feitas à mão. para a apresentação visual dramatizada de dados e informações. é perceptível que o item pode ser desdobrado em outros conjuntos. que estamos chamando de Diagramáticos – linhas. Ele fez várias modificações. vinhetas. queremos chamar a atenção para o item 3. inclusive. a última grande alteração do projeto gráfico aconteceu em 2000 e teve como autor o designer gráfico italiano Vincenzo Scarpellini. Pictórico – abrange produtos de arte e de técnica de representar. gráficos. que compreende as unidades que denominamos “pictóricas”. dos quadrinhos. efeitos de terceira dimensão. a definição desse elemento é a seguinte: “Combinação de desenhos. ilustrações. indicações de leitura entre muitos outros recursos (Manual da Folha de São Paulo. caixas coloridas ou vazadas.140 Nesse primeiro esboço.2.. além de produções digitais que criam. das ilustrações. 3. Em relação aos elementos mistos. cujas matérias principais têm sempre uma apresentação diferente). fotos. Os infográficos são considerados textos de apoio e podem aparecer na forma de mapas. via computador ou essencialmente digitais. apresentação biográfica de personagens envolvidos na notícia. caso das charges. etc. Já os elementos diagramáticos fazem parte do projeto gráfico ou de uma diagramação específica (caso do Folhateen. como utilizar “cores sinalizadoras”. Misto – infográficos.

141 244 . lembra que “quando escrita. a escrita não pode ser reduzida a um sistema semiótico plástico. “embora formada por desenhos gráficos. no entanto. que parecem sempre ter certas atribuições. localizamos duas posições entre os semioticistas. em análise de poesias concretas. portanto. uma pessoa alfabetizada entra em contato com uma multiplicidade de textos escritos. detalharemos nos próximos itens somente a fotografia e a manifestação tipográfica do verbal. Para Pietroforte. pág. Nesses casos. não há uma manifestação que integra diferentes linguagens Essas informações constam do texto “ Novo projeto gráfico estréia terça para realçar informações essenciais e dar mais leveza ao jornal” – Folha de São Paulo. nesses objetos. 7 de maio de 2000. transcrever uma língua faz da escrita também uma semiótica verbal.. as letras cumprem uma função meramente utilitária. Não menciona autor. que consideramos mais relevantes em função do impacto e da maior utilização no jornalismo impresso. já que a letra é também imagem” (2004:143). Tendo em vista os objetivos de nosso trabalho. é a qualidade material gráfica da linguagem verbal que se exacerba. Em grande parte das vezes. Já para Lúcia Teixeira (2004: 236).. Por outro lado. Um olhar ingênuo sobre os tipos gráficos pode ser bastante útil para começar a reflexão sobre essa forma de manifestação do verbal. Em relação ao assunto.) numa poesia que desenha figuras numa página branca. 14. entretanto. queremos defender o estudo de cada um dos conjuntos significantes por meio de suas características mais importantes. há semi-simbolismos criados pelo projeto gráfico. Por isso. de veículo do verbal. A primeira é a de Antonio Vicente Pietroforte. Os textos didáticos têm apresentação sobre fundo ocre. O autor. Em outras palavras. a escrita participa desse tipo de semiótica. “(. à “mensagem”. há na escrita um sincretismo entre o verbal e o plástico.141 Com essas observações. é impossível ficar indiferente aos caracteres tipográficos de textos jornalísticos e publicitários. a palavra ganha dimensões plásticas. as letras são pensadas e reunidas para significar “algo mais”. Por esse ponto de vista. Devido a sua expressão plástica. a manifestação do verbal já é sincrética (ibidem: 142). Tipos gráficos e novo patamar de semi-simbolismos Nesta parte do trabalho.azul claro. O formato da letra pouco acrescenta ao plano de conteúdo.” Para a autora. que complexifica a expressão lingüística e a imagem” (idem:153). faremos um pequeno estudo sobre a significação produzida pelas letras nos diários e revistas. Cotidianamente.

que a característica plástica é inerente a qualquer forma de manifestação verbal.” Uma letra A Arial e outra A Times New Roman mostram a diferença. Para pensar o jornalismo impresso. a letra A em diversas famílias: A A A A A A A A A A A A A A Arial Times New Roman Verdana Impact Avant Gard Bauhaus Courier New Swiss921bt TypoUpright BT Zinjaro LET Vineta BT Bickley Script LET Ruach LET Alexei Copperplate Somos obrigados a reconhecer que todas as famílias de tipos gráficos são criadas a partir de uma letra que representaria um “grau zero”. em seguida. cores. uma letra sem serifas143. Aurélio. às vezes. e que pode ter a forma de filete. obviamente não há a mesma experiência radical da poesia concreta. o manejo de formantes plásticos do plano de expressão. simples espessamento.num único todo de sentido. Mesmo assim. ou.142 Podemos observar. “mas a exploração máxima das qualidades de visibilidade e sonoridade da própria linguagem verbal” (idem). variações de “peso” entre as linhas 142 Acreditamos que a reflexão de Vicente Pietroforte é mais pertinente na análise de letras com desenhos exclusivos. horizontais. posições. inclinações. é um “pequeno traço. ou. É inegável. que remata. 143 Serifa. A serifa aparece no segundo caso. diferenciados. sem desenhos. na base da letra. na forma de traços adicionais. barra. a proposta de Lúcia Teixeira nos parece mais adequada.. diz o Dic. contudo. remate. Apresentamos. 245 . de um ou de ambos os lados. A questão é se essa plasticidade é inerente à escrita ou produto de uma semiótica plástica que cria relação com uma semiótica verbal. por exemplo. etc. os terminais das letras não lineais de caixa-alta e caixabaixa. em termos mais semióticos. No uso gráfico-plástico das letras no jornalismo. o trabalho com formas.

antes de tudo. Uma perspectiva semiótica sobre o assunto pode ser encontrada em Barros. mais ou menos jovial a partir da exploração das possibilidades plásticas. Há uma certa tradução intersemiótica proporcionada pela tipografia (sempre subordinada à diagramação e ao projeto gráfico). Analisemos a relação entre formas. as formas de alinhamento e de entrelinhamento . São Paulo.). a distância entre unidades. A letra Arial. Humanitas. As letras nas páginas de jornais e revistas tentam simular alguns recursos próprios da oralidade e retomar certas possibilidades prosódicas perdidas na escrita. 246 . para melhor situar a discussão sobre o assunto. (2000) in Fala e escrita em questão volume 4 do Projetos Paralelos – NURC/SP – Núcleo USP. Da mesma maneira que a prosódia faz parte da fala. altura. O título é “Turcocircuito! Lula embarca na esfirra voadora!” 144 As relações entre fala e escrita são bastante complexas. é considerada “moderna”. diante da enorme complexidade da questão. na Folha de São Paulo. No jornalismo.144 Isso quer dizer que há uma relação entre o desenho e a apresentação das letras . justamente por seu caráter “limpo”. entretanto. Diana Luz Pessoa de. produto da variação na intensidade. PRETI. que pode parecer mais ou menos estridente.que a compõe não deixa de ter sentido plástico. mais ou menos sério. O fato de certas letras não terem significado no cotidiano não é uma falta de plasticidade. utilizada neste trabalho.com a entonação. Dino (org. que mostra que os tipos impressos estão longe de ser mero suporte dessemantizado do verbal. ocupação espacial e o simulacro da oralidade. Antes de determinar essas relações entre plano de expressão e plano de conteúdo que criam esse simulacro de fala na escrita. O uso contínuo anula o sentido plástico das letras porque cria um padrão de normalidade que as dessemantiza. “acrescentando sentidos”. “Entre a Fala e a escrita: algumas reflexões sobre as posições intermediárias”. 2 de dezembro de 2003. duração e ritmo da fala. produto de uma “saturação”. a plasticidade das letras enriquece a manifestação escrita no jornalismo. vale a pena analisar uma crônica de José Simão. arriscamos um caminho já delineado em nosso trabalho sobre a revista Veja: uma das principais funções das formas das letras nos jornais é construir um simulacro visual de um tom de voz.seu tamanho da página. de terça-feita. mas.

com isso. pelo contrário. Quando ele pergunta. Vamos analisar apenas algumas questões do plano de expressão. No entanto.Em princípio. ou seja. todos esses efeitos se referem à escrita. “a ortografia desde sempre descurou da prosódia. O conteúdo não nos interessa aqui. no texto. etc. no jargão da imprensa). ponto e vírgula. um “jeito de contar piada”. pouco importando como é dito. O arranjo gráfico das letras sugere uma forma de oralidade.funciona ou projeta uma substância que ele chama de “grafemática”: as letras e os outros sinais pertinentes. José Simão não quis perder nada. perde-se muito também” (2005: 46). O mais notável é simular – na escrita – o jeito da fala espalhafatoso esperado ao se concluir uma piada numa conversa. Teoricamente. cheia de pontos de exclamação. Na grande maioria das vezes o que buscamos registrar na escrita é apenas o conteúdo de um texto. como se o leitor pudesse ter acesso a toda a modulação de voz do autor. pois uma escrita que registrasse todas as inflexões e andamentos da fala seria complexíssima. como ponto. estamos diante de um texto verbal. que tem uma série de outros efeitos interessantes. em corpo de letra maior. mas. O humorista manejou de forma criativa certos elementos da escrita para simular a oralidade. cuja função é simular mesmo uma espécie de fala na nossa consciência. em letras maiúsculas (“caixa alta”. No exemplo. Nosso alfabeto é fonético e representa sons da fala. como lembra José Roberto do Carmo Júnior na análise da locução do futebol. Jornais e revistas criaram regras com esse mesmo propósito 247 . percebemos um tom excessivo. apenas o que é dito. Com isso se ganha muito.as regras de grafia das palavras e de pontuação . “QUEM VAI FICAR TOMANDO CONTA DA LOJINHA?”. e por uma razão bastante boa e justificável. já que retiramos a ilustração que o acompanha e até mesmo o título. O próprio Hjelmslev diz que uma ortografia . José Simão simula uma fala exaltada.

de algo fraco. Porém. contudo. quase símbolos. só existe a partir de leis de diagramação já citadas. • O tamanho do corpo de letra relaciona-se com a altura da voz. os tipos mais finos vinculamse a questões mais leves. em alguns quadros) só aparece na função de criar contraste. representar a enunciação oral nas páginas. por sua vez.para apresentar e chamar a atenção para as unidades noticiosas e. Esse simulacro. que é a de criar um sentido de familiaridade. pelo menos na comunicação ocidental. uma parte nobre do jornal. por sua vez. Essas considerações abrem caminho para abordar outra função importante dos tipos gráficos. Do mesmo modo. mais comum. ligado à estratégia de 248 . Podemos notar sua função na estratégia de arrebatamento. o itálico utilizado nos tipos gráficos (Times New Roman. que. Da perspectiva semiótica. opiniões. mais elegante ou mais austero. de enunciar. por exemplo). Os textos. mais sério ou mais leve. na Folha. itálico. Vejamos então como as letras simulam sonoridades. Convencionou-se. • O formato da letra . representa um tipo de valorização da notícia. leve (1974: 78). como se alguém quisesse despertar a atenção do outro. com ou sem serifa . determinadas não só pelo tipo de ocupação espacial como também pelo formato das letras (com mais ângulos retos ou arredondados. os caracteres gráficos mantêm relações especiais entre o plano do conteúdo e o plano de expressão. White ao sugerir escolhas de letras para as revistas. crônicas. e o Arial. próprio para a troca de informações. estão ligadas a assuntos mais sérios. de buscar a atenção por meio de descontinuidades.os traços mais finos ou mais grossos. por exemplo). para uma conversa. baseadas na disposição espacial que define a importância de uma unidade noticiosa. mas mostram diferentes formas de dizer. a inclinação da letra marca o espaço dos comentários. parecem reproduzir gritos. Já o corpo de letra menor das matérias retoma um tom mais sereno. inclinados ou não. Em Veja. no entanto.cria um simulacro de um tom da voz. rompendo com os estereótipos. Não se pode cometer o erro comum de achar que existem somente relações simbólicas envolvendo os tipos gráficos e suas possibilidades de apresentação (em negrito. alegres. Grandes manchetes. de sensibilização do olhar do leitor. o que é próprio dos sistemas semi-simbólicos. densas. Não apenas “dizem”. assim. portanto. Podemos notar novamente que estamos às voltas com sistemas semi-simbólicos cristalizados. podem manejar os sentidos das letras de maneiras diversas. que as letras mais grossas. Os títulos com letras grandes simulam exaltação. lembra que o itálico deve ser evitado por dar uma idéia de informalidade.

fidelização.145 A idéia de identidade nos impressos está relacionada ao fato de se enxergar elementos comuns. gere familiaridade. com o tempo. suplementos. 249 . Todo o resto varia. a única unidade recorrente em todo o jornal é a fonte Folha Minion e o entrelinhamento. Na Folha de São Paulo. há a Folha Serif e nas matérias o Folha Minion. que criou um padrão de uso para letras que ilustra as relações semi-simbólicas que acabamos de apresentar no esquema anterior. desaparece da Revista da Folha. O logotipo. Nos títulos. O jornal criou letras exclusivas. e a página inicial do Caderno 2. é preciso levar em consideração os diferentes cadernos. editor-adjunto. vamos utilizar O Estado de São Paulo. Editoria de Artes da Folha de São Paulo (março-2005). a partir do projeto gráfico. que remetam a um modelo conhecido que. Na Veja. de cultura e variedades. 145 Informações de Fábio Marra. A plasticidade das letras e sua organização espacial manipulada pelas leis de diagramação envolvem semi-simbolismos que podem ser assim representados: Letras e relações semi-simbólicas Formantes plásticos Plano de expressão Corpo de letra com traços grossos x corpo de letra com traços finos Maior espaço ocupado x menor espaço ocupado Mais intenso e disfórico x Mais distenso e não disfórico (Maior valor e potencial de atenção ) x (Menor valor e potencial de atenção) Plano de conteúdo Notícia quente x Notícia fria Respeito x Irreverência Dramaticidade x Prosaísmo Tom grave x Tom leve Para dar um exemplo. os padrões se repetem com mais constância. gerencia a identidade visual de uma publicação. A diagramação. A Folha é um caso notável. revistas. do mesmo dia. Nos jornais. A seguir. por exemplo. 4 de abril de 2005. o segundo elemento mais presente. há uma comparação entre a primeira página da segunda-feira.

“Incorporamos ao procedimento do fotojornalismo padrões que até então estavam reservados à fotografia artística: ângulos e enfoques diferenciados. Basta observar a grande ocupação espacial. como algo leve. O Caderno 2. já explicita as bases. As letras valorizam o assunto. como o prazer de assistir ao filme. Não deixam de caracterizá-lo. por exemplo. um filme do conjunto Demônios da Garoa. as perspectivas e até os problemas dos novos usos da fotografia no jornal. notadamente pelos diários. Já o Caderno 2 estampa uma notícia mais amena. o que dá grande leveza e uma identidade visual particular às páginas. porém.146 O fotojornalismo O estudo que fazemos da fotografia. 250 . que remete a questões individuais. de envelhecimento rápido.A forma dos títulos principais das duas páginas não deixa dúvida. predominando o corpo de letra com traços muito finos. ligado às nossas preocupações sobre o gerenciamento do nível de atenção. tem toda a tipologia dos títulos diferenciada. carregada de drama. O Projeto Editorial 1988-1989 da Folha de São Paulo. Isso significa que se aposta cada vez mais nas fotos para obter laços com os leitores. Trata-se da principal notícia do jornal. O corpo de letra mais denso do título da manchete comenta os preparativos do velório do papa. como não poderia deixar de ser. de grande dimensão pública. neste item é. ênfase no detalhe das fotos de esportes. Observamos uma crescente valorização da fotografia e do fotojornalismo. fórmulas para que as fotos de jornal expressem mais do 146 O novo projeto gráfico do Estado radicalizou esse uso das letras.

que mera imagem e se entrelacem com o significado do evento a que essa imagem está ligada; interesse maior por imagens de beleza plástica e de efeito inusitado, ainda que sua temperatura noticiosa seja baixa. Também aqui é preciso depurar os avanços realizados; evitar com igual energia tanto o retorno ao fotojornalismo convencional como o exagero que consiste em esquecer que num jornal tudo o que se publica deve ser informação.”147 O fotojornalismo nunca foi alheio à estética ou ao enfoque diferenciado. O que se nota no projeto da Folha é um novo patamar de coerção do discurso fotográfico, que deve romper o sentido de ser mero registro da realidade. A mesma preocupação é visível nos outros jornais. O Estado de São Paulo, em sua reforma gráfica de 2004, também cedeu um espaço muito maior para a fotografia. A busca dos efeitos de belo, de estranhamento, entre outros, ficou mais perceptível. Não queremos neste ponto do trabalho discutir novas maneiras de analisar a significação de fotos nos jornais e revistas. O objetivo, muito mais modesto, é apresentar alguns apontamentos sobre “antigas” e atuais estratégias do fotojornalismo para arrebatar e sustentar a curiosidade dos leitores.148 Também não há interesse aqui, como convém a um estudo de semiótica, em discutir ou explicitar a produção da fotografia. O que se quer é mostrar algumas estratégias persuasivas que essa forma de imagem mobiliza com base no estudo de sua utilização. Apresentaremos, a seguir, o papel da fotografia na construção dos sentidos do jornal:149

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Projeto Editorial 1988-1989, Agosto de 1988 - A hora das reformas - Aprendendo com as falhas. Disponível no endereço: http://www1.folha.uol.com.br/folha/conheca/projetos-1988-1.shtml - acessado em abril/2005. 148 No estudo sobre a imagem televisiva, falamos de planos de câmera e de como se relacionam com o gerenciamento do nível de atenção. Pode-se questionar se as mesmas observações valem para o fotojornalismo, já que ambas produzem sentidos por meio de recortes espaciais. Jornais e revistas trabalham com essas relações de maneira muito diferenciada. A principal distinção é o formato fixo da tela de TV. Os planos se sucedem a partir desse espaço determinado. Já os jornais e revistas trabalham as fotos de maneira completamente diferenciada. Um efeito de close-up na tela da TV só teria esse mesmo impacto se tomasse grande espaço no jornal. Isso raramente acontece. 149 Essas estratégias são pensadas como uma verdadeira lista de obrigações aos fotógrafos. Busca-se, sempre, a “grande foto”, que significa mais atenção, mais leitores, mais vendas. Só que o texto fotográfico depende de uma série de fatores, muitos imponderáveis, para ser bemsucedido. As crescentes cobranças pela “grande foto”, entretanto, esbarram na própria dinâmica da fotografia, dos fotógrafos, dos jornais. É preciso um fotógrafo estar presente na hora do acontecimento, por exemplo. O tsunami que varreu a Ásia no final de 2004 foi surpreendentemente pouco fotografado. Perdido o momento de ápice narrativo, só se registraram conseqüências. A fotografia tem ainda que dizer muito com apenas um enquadramento. O valor de uma foto também raramente se desvincula do potencial de atração de uma reportagem como um todo. A cobertura da posse de um prefeito vai render imagens de “peso” muito diferentes das proporcionadas pela queda de um avião em um bairro residencial.

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1 – Uma fotografia deve ser uma das principais iscas para o olhar em uma página, ou seja, uma das mais importantes armas na estratégia de arrebatamento e de sustentação. Com suas cores, contrastes, ocupação espacial, a foto precisa atrair a atenção do leitor para a unidade noticiosa da qual faz parte. O olhar deve ser fisgado. É a estratégia de arrebatamento. O leitor precisa ainda se interessar pelo conteúdo. A foto deve depois encaminhar o leitor para a parte verbal, ou seja, apresentar uma estratégia de sustentação geral que também tenha êxito. Para arrebatar e sustentar a atenção, o fotojornalismo busca cada vez mais os efeitos estéticos. É evidente que o estético - como manifestação sensível e também inteligível – sempre fez parte do discurso fotográfico e é inerente à própria atividade dos fotógrafos jornalistas. Queremos evidenciar, contudo, que a busca por um discurso visual plástico nos diários e nas revistas é hoje uma coerção cada vez mais forte para obter adesão à leitura e chamar a atenção para as próprias publicações. Uma justificativa para mostrar essa mudança de mentalidade é que as fotos tiveram uma valorização espacial inédita nos últimos anos, principalmente nos diários. A fotografia também passou a não ser mais preocupação apenas do fotógrafo. O Manual de Redação da Folha de São Paulo afirma que cabe aos profissionais da redação, e não apenas aos fotógrafos, a “elaboração da pauta já com uma perspectiva visual e plástica” (2001:33). Diz ainda que “o entendimento mínimo das técnicas fotográficas e de suas possibilidades estéticas é uma necessidade em todos os patamares da hierarquia de uma Redação, não apenas de fotógrafos e editores” (ibidem). Acreditamos que essa busca pelo belo, pelo estranho, pelo inusitado faz parte de outras publicações. Pode-se observar também que, do ponto de vista jornalístico, não é na TV, mas nos diários, e também nas revistas, que a imagem é um objeto de contemplação. Há possibilidade de maior fruição, de controle do tempo de consumo sem prejuízo do processo de obter e manter o nível de atenção. White explica que a fotografia apresenta uma vantagem em relação ao texto escrito na hora de arrebatar e sustentar a atenção. “Retratos atraem o olho, ganham a atenção, incitam a curiosidade. Retratos fazem o leitor ser receptivo à informação. Pessoas resistem ao esforço de ler: isso significa trabalho. Mas elas parecem não prestar atenção a isso quando olham retratos. Então, quanto mais informação puder ser acondicionada sem usar palavras, melhor. Retratos, ao substituir a descrição verbal por imagem visual, ajudam a diminuir o percurso do processo de leitura” (1974: 98).150
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Fragmento original: “Pictures attract the eye, gain attention, arouse curiosity. Pictures make the reader receptive to information. People resist the effort of reading: it means work. But they do not seem to mind looking at pictures. So, the more information that can be packaged in non-

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Essas observações abrem caminho para discutir a fotografia nos jornais e revistas a partir das estratégias de arrebatamento (ligadas ao sensível), de sustentação (uma forma de passionalização, instauração de curiosidade para saber “o que aconteceu”) e também de fidelização. Em outras palavras, um jornal que apresenta sempre fotos instigantes mobiliza o leitor a manter um relacionamento de longo prazo.

2 – A fotografia tem um papel de servir de prova ao que se reporta, de parecer mostrar fragmentos de uma realidade inquestionável. Ou como afirma Kossoy: “A informação visual do fato representado na imagem fotográfica nunca é posta em dúvida. Sua fidedignidade é em geral aceita a priori, e isto decorre do privilegiado grau de credibilidade de que a fotografia sempre foi merecedora desde seu advento. (...) Esta objetividade positivista creditada à fotografia tornou-se uma instituição alicerçada na aparência, no iconográfico enquanto expressão da verdade; um equívoco fundamental que ainda hoje persiste” (2001: 103). Falar de realidade em fotografia é analisar um “efeito de sentido” dessa forma de comunicação. Do ponto de vista do gerenciamento do nível de atenção, o caráter argumentativo-persuasivo do fotojornalismo está cada vez mais nitidamente dependente da estratégia de fidelização. Ou seja, é o cumprimento de um contrato enunciador-enunciatário por certo período, e a satisfação obtida nessa relação pelo leitor, que vai garantir à fotografia no jornal o seu status de “fragmento da realidade”. A credibilidade da fotografia depende da credibilidade do próprio jornal que a insere, principalmente quando leitores sabem das crescentes facilidades de manipulação digital das imagens.151
words, the better. Pictures, by substituting visual images for verbal description, help to shortcircuit some of the reading process.” 151 Ao contrário do que ingenuamente se pensa, a fotografia não é, necessariamente, um tipo de objeto cuja imagem resultante estabelece uma correspondência ponto por ponto entre as partes do referente submetidas à ação da luz. Há filtros, jogos de sombra, efeitos de lentes. A manipulação da imagem fotográfica também é tão antiga quanto a própria fotografia. Já há fotomontagem em 1857. Trata-se de “The two ways of life” (Os dois modos de vida), exibida em 1857 na exposição “Art Treasures”, em Manchester, Inglaterra, e de autoria de Oscar Rejlander, que usou mais de trinta negativos diferentes para compor a imagem. Entre outros detalhes, mostra-se um ancião de barbas brancas, vestido com um pesado manto, que conduz dois jovens para a vida adulta. Informação de “O que é fotografia”, de Kubrusly, Cláudio A., Edit. Brasiliense, São Paulo, 4ª ed., 1991, págs. 81 e 82. Com os avanços da fotografia digital, porém, houve enorme alargamento das possibilidades de alteração das imagens. Em fotos dos vagões destruídos por atentados terroristas em Madri, certos jornais apagaram, via manipulação digital, pedaços de carne e membros humanos espalhados pelos trilhos para que a imagem da tragédia ficasse menos chocante. Acreditamos que, com o advento da imagem computadorizada, a fotografia está perdendo o próprio status cultural de objeto que registra fragmentos de uma dada realidade. Em outras palavras, a manipulação no computador está abalando o senso comum de que fotos “congelam” momentos de uma maneira inocente, desvinculada dos propósitos de quem a clicou ou a encomendou. O mundo digital, por

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3 - A fotografia deve “transmitir a força das idéias expressas nas reportagens” - A frase consta do texto de apresentação do “novo visual” do jornal O Estado de São Paulo, edição de domingo, 17 de outubro de 2004, quando mostrou seu novo projeto gráfico, em que passou a destinar maior espaço às fotos (pág. A 10). Pode-se notar que a fotografia deve transcender seu papel de registro para ser uma espécie de resumo do que é apresentado nas outras unidades. 4 – O fotojornalismo valoriza o flagrante. Uma narração verbal, oral ou escrita, pode simular que os fatos estão acontecendo no momento da leitura. Já uma foto (e uma filmagem também) terá o valor de atenção proporcional à captura do “momento decisivo”, conceito formulado por Henri Cartier-Bresson: é o aprisionamento imagético do instante clímax de uma narrativa. Nesse sentido, as fotografias mais valorizadas são as de flagrante, não as posadas. Temos uma relação flagrante x posada que estabelece correspondência, respectivamente, com notícias quentes e frias. As fotos posadas são abundantes nas revistas e menos comuns, mas dignas até de primeira página, nos jornais diários. Quase sempre se relacionam com assuntos frios, que não perdem a atualidade facilmente. Podem ser despojadas ou, no limite, feitas em um estúdio, com condições especiais de luz, maquiagem, com elementos cênicos.

Essas estratégias redundam em diferentes tipos de fotos. O que vamos fazer agora é mostrar o resultado dessas demandas no dia-a-dia dos diários e revistas. É importante não esquecer que uma foto, na análise de uma reportagem, não deve ser encarada como texto, apesar de sua relativa independência semântica. Uma foto é sempre um elemento a mais, de maior ou de menor utilidade, no gerenciamento do nível de atenção de uma unidade noticiosa. É também parte de uma encenação que tenta convencer o leitor de que a notícia apresentada é um pedaço da realidade – e não um ponto de vista sobre o que acontece no mundo. Vamos apontar a seguir como as estratégias apresentadas geram diferentes tipos de fotos: das mais comuns – e portanto, com menor potencial de atenção – até as mais admiráveis e, por isso mesmo, mais envolventes:

massificar o controle individual sobre a captura e o tratamento de imagens, ao mesmo tempo em que torna o processo simples, rápido e facilmente reproduzível, vai contribuir para bombardear a fronteira entre ser e parecer no discurso fotográfico que, por mais de um século e meio, conseguiu vender-se para as multidões como “objetivo”. Toda essa discussão, no entanto, nos interessa por outro viés. Nos jornais e revistas, a questão da objetividade não é técnica, mas ética, o que retoma observações do início do trabalho.

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Fotos de registro - É produto da estratégia 2. São as fotos mais comuns encontradas na mídia impressa. A foto de registro é a que mais se aproxima do mero papel ancorador da fotografia nos textos. É utilizada ainda para “decorar” a página, buscar o olhar e tem grande valor na estratégia de fazer crer na objetividade da informação. Serve para mostrar o deputado de quem se fala na parte escrita da matéria, ou o jogador que fez determinado gol, ou ainda como ficou o carro destruído em um acidente. É de fácil decodificação. Pode-se retomar o exemplo da matéria sobre a demissão do técnico do Santos. Deve-se notar que a foto de Oliveira pouco acrescenta em termos de novidade, em acréscimo de informação:

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Foto de síntese – Satisfaz a estratégia 3 - é a mais adequada para representar o que é a “força expressiva” do assunto abordado. Resume toda uma situação tratada na parte escrita da matéria e geralmente apela para a passionalidade do observador (estratégia de sustentação). É o caso da foto a seguir, de Arko Datta, repórterfotográfico da Reuters, que mostra uma mulher chorando a morte de um parente morto pelo tsunami em Cuddalore, Índia, em 28 de dezembro de 2004.152 Fica evidente para o leitor que a realidade não está sendo mais mostrada de maneira “objetiva”, mas filtrada por um conjunto de valores que quer ressaltar determinados simbolismos.

Essa foto, “Tsunami Grief,” ficou em segundo lugar na Pictures of the Year International. Disponível no endereço: http://64.233.161.104/search?q=cache:yeOFsG6rim8J:www.poyi.org/62/15/02.php+Arko+Datta, +Reuters,+%22Tsunami+Grief%22&hl=pt-PT

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257 . mereceu o espaço de uma página inteira em caderno especial da Folha de São Paulo sobre a tragédia. A foto abaixo. Acreditamos que o ato do fotógrafo de captar um acontecimento no momento de maior tensão narrativa é a essência do fotojornalismo. uma das raríssimas do tsunami que varreu a Ásia no final de 2004.Capta o chamado “instante decisivo” (coerção 4) e tem enorme valor documental e impactante. curiosidade e tensão que o enunciador acreditou despertar no enunciatário.Foto de flagrante . o que ilustra muito bem o potencial de atenção.

mas pode ou não ter características de síntese e impacto estético. no Iraque.Foto plástica . é a que mais expõe o fotógrafo como enunciador. de um soldado morto por soldados norte-americanos em Tikrit. da agência AFT. Há um forte sentido de “autoria” da foto. elaborada. De qualquer maneira. mais preencher os requisitos enumerados. acreditamos que. O leitor é convidado a uma interpretação mais pausada.Busca efeito estético (estratégia 1) e. da representação do real. mais uma foto cumprirá a sua missão de engajar e manter o enunciatário na leitura no jornal. não raras vezes. de 13 de dezembro de 2003. 258 . determina a perda de parte da iconicidade. “Dead Iraq”. ficou em segundo lugar no Picture of the Year de 2004. quanto mais “completa”. Essa imagem será sempre uma foto de registro. ou seja. Já a foto de flagrante é um caso particular. Um exemplo notável é essa foto do fotógrafo brasileiro Maurício Lima. Vale notar que a busca por uma representação mais estetizada. dessa maneira. 153 Essa foto.153 Devemos notar que uma foto plástica pode ser também uma foto de síntese e de registro. A foto de síntese freqüentemente cumpre a função de ser um registro. de um ponto de vista subjetivo.

15 de dezembro de 2003. a análise permite investigar algumas estratégias ligadas ao plano de conteúdo e dar acesso às visões de mundo dos dois meios de comunicação. vamos comparar a cobertura da Folha de São Paulo e de Veja da prisão de Saddam Hussein. Folha .Análise de abordagem: a prisão de Saddam Hussein Neste item.O jornal de segunda-feira. Nenhum outro tema recebeu tamanho espaço no jornal daquele dia: 259 . que cobre assuntos internacionais. Além de fornecer mais um exemplo do que foi discutido até o momento. dedicou ao assunto cinco páginas e meia das seis da editoria Mundo.

260 .

Há enorme diferença na diagramação da página que antecede a da cobertura da prisão de Saddam. A estratégia de arrebatamento é evidente. assim. sentir a valorização do tema. na editoria Mundo.Deve-se notar como o jornal construiu. O leitor que folheava o jornal precisava ser surpreendido ao chegar na parte das notícias internacionais e. 261 . uma espécie de página de manchete exclusiva para que o assunto fosse introduzido.

e de outros líderes europeus 262 . dentro da estratégia de sustentação. Não podemos esquecer que o jornal já tinha dado ao tema um grande espaço na primeira página: O jornal apresenta a cobertura da prisão do ex-ditador do Iraque por meio da seguinte divisão entre páginas e assuntos: A11 – Performance da captura de Saddam e detalhes do esconderijo A12 – Sanção do presidente dos EUA e de outros políticos norte-americanos . Tony Blair.A Folha faz. Devem ser notados os títulos em letras maiúsculas (caixa alta). assim. e a repetição do mesmo infográfico utilizado na primeira página.Sanção do primeiro-ministro da Inglaterra. com destaque para o vermelho utilizado na metade inferior “nas mãos dos EUA”. dedicada a um só assunto e aos seus desdobramentos. dessa vez com mais detalhes. uma segunda página de manchete. ficar com vontade de ler detalhes da captura por meio das matérias. Busca-se atrair o olhar com o procedimento de fazer o leitor se interessar pelas fotos e infográficos e. já “arrebatado”. como se fosse a seqüência de um filme). dessa vez. o que o conduz para a necessidade de satisfazer curiosidades sobre o assunto. Dois terços da página inicial são ocupados por fotos (com detalhe para o conjunto de quatro imagens de Saddam justapostas.

separando sua enunciação da enunciação dos jornais e do governo dos Estados Unidos. É esse exercício de futurologia que faz com que o jornal garanta certa identidade para o material apresentado e a sensação de que a edição não é um mero relato de acontecimentos já sabidos pelo leitor. fica para a penúltima página.Esperança de analista na diminuição da resistência armada . Podemos notar que o jornal.“Comentário” sobre as imagens de Saddam . para as conseqüências da detenção de Saddam. passado – com análises e comentários sobre as repercussões da prisão do ditador. mostrouse errada.Comportamento de Saddam na prisão A14 – Como poderá ser o julgamento de Saddam . a Internet. por exemplo. depois o impacto no Iraque e no mundo Árabe. como já apontamos.. sempre no início. o relato da vida de Saddam. principalmente se ele teve acesso a meios mais rápidos. fato já acontecido.Avaliação de que a prisão é trunfo eleitoral de Bush . As armas mais importantes para prender a atenção estão. O 263 . faz com que se pise no perigoso terreno da especulação. A performance e as repercussões mundiais são apresentadas com grande afastamento enunciaçãoenunciado. O último assunto a ser abordado dentro do tema é o estouro de um carrobomba no Iraque. Busca-se fazer o leitor ficar curioso não só para os detalhes como também. para obter um efeito de atualidade do material. a TV. A notícia mais fria. a performance da prisão. O diário tenta não se envolver com o discurso norte-americano. como já apontado. como o rádio. distribui notícias envolvendo a performance principal – a captura. depois a repercussão nos EUA e no mundo. A análise de Sérgio Dávila. a divisão jornalística entre textos factuais ou “objetivos”.Divisão no mundo árabe A13 – Repercussão em Bagdá . à medida que a edição avança.bomba explode e mata 17 iraquianos A disposição das unidades noticiosas informa que a parte mais valorizada é a captura.Expectativa de abertura democrática no mundo árabe A16 – (Só principal matéria envolve o Iraque) . Essa necessidade de agregar ao fato principal ou gerador um elemento de atualização. É apresentado o clímax da história.Cálculo de mortos pelo regime A15 – Retrospectiva de Saddam no poder . de que a resistência armada contra os EUA deveria diminuir com a prisão de Saddam. Na Folha. interpretativos e opinativos também é bastante marcada.

Na própria cobertura da Folha. O lado emocional do leitor. espere nova onda de patriotismo americano. de modo a tirar dele reminiscências residuais de autoridade. Sérgio Dávila. há outros exemplos. recebe grande destaque. É o caso de “Chove tiro na antiga Saddam City” (A13). Por exemplo: fala-se em “ocupação do Iraque” em diversas unidades noticiosas. que busca simbolismos. é explorado por meio das fotografias. A imagem de Saddam como um mendigo é um grande exemplo de fotografia de síntese.mostra que.recurso mais comum são as aspas. com um raríssimo (no jornalismo) texto com um “eu” claramente marcado... no entanto. por exemplo.. João Batista Natali (“Imagens da TV desumanizam ditador deposto” – A14) faz comentários relevantes sobre o que ele chama de operação de mídia dos Estados Unidos: “(. usurpar. Ao dizer as palavras ‘We got him’ (nós o pegamos). ou de afastamento em relação ao que narra. o ponto de vista árabe. dignidade e respeito. de Robert Fisk. expressões como ‘fim do regime de terror’ e ‘grande vitória de Bush’ predominaram. esse cuidado está no título principal: “Acabou a ‘era de trevas’. No geral. Até mesmo o texto de Veja sobre o assunto. É o caso do trecho a seguir: “Na cobertura das televisões americanas. já demonstrado no anúncio da captura. de Nova York. há um efeito de intimidade. notadamente dos iraquianos em Bagdá. Nos textos interpretativos. que tem um sentido de “entrar à força. correspondente em Bagdá do “Independent”: “(.” Há espaço.) O propósito era o de destroná-lo energicamente no plano simbólico.” Na publicação como um todo. se refere à guerra também como uma “invasão”. Para as vítimas numerosas da ditadura ou para as lideranças muçulmanas reprimidas era o sinal de que o pós-saddanismo se tornava de uma vez por todas irreversível. em certos momentos. foram os disparos de armas de fogo que anunciaram a notícia. diz Bush”. com grande efeito de “neutralidade”. Na pág. Para mim. A12. E ainda sobrou para o consumo simbólico nos demais 264 . analisado depois.” Entretanto. a cobertura figurativa das matérias principais – um meio de investigar filiações ideológicas .) Vamos nos recordar de onde estávamos quando Saddam Hussein foi finalmente capturado. Aos partidários da ditadura deposta era um recado de que a resistência à ocupação militar norteamericana estava acéfala. o chefe americano no Iraque foi aplaudido. escrita por Cíntia Cardoso. inclusive. a Folha faz uma cobertura “escrita” com forte apelo racional. Eu estava sentado no chão de concreto da casa de um clérigo xiita morto por um tanque americano. para a subjetividade. para contrabalançar. Na matéria. o jornal privilegia o ponto de vista norte-americano. A imagem se destinava ao consumo interno iraquiano e com ao menos duas finalidades. na A14 (“Resistência deve diminuir”) fala diretamente ao leitor no trecho final da matéria: “De resto.. apoderar-se violentamente” (Aurélio) que “ocupação” não tem. por Paul Bremer.

Não menciona autor.154 Veja – A revista que tratou da prisão de Saddam na edição 1834. O objetivo é dar opção para o leitor que tem tempo de ler o jornal e para o que não tem.. A imagem que restará dele será agora a de um médico militar inimigo que o examina como se ele fosse um bicho. no entanto. 7 de maio de 2000. quase o tempo despendido para ler a Veja inteira ou para assistir a três edições do Jornal Nacional. porém. A imagem de Saddam barbudo e sujo é justamente a de sua humanização.países do mundo árabe. de 24 de dezembro de 2003... demonstração de sua fraqueza e fragilidade que se contrapõem à imagem de ditador besta-fera e assassino de centenas de milhares de iraquianos que ousaram desafiar o regime.. é um número especial. 265 .. (. por meio do excesso. e um suplemento especial. Não há edição na semana seguinte. com o bombardeio crescente da mídia. O grande número de unidades noticiosas (há. matérias especiais de temas amplos. é oferecido para que o leitor faça o caminho que achar mais conveniente. O resultado é um material que pode consumir de duas a três horas de leitura. 154 In “ Novo projeto gráfico estréia terça para realçar informações essenciais e dar mais leveza ao jornal” – Folha de São Paulo. A capa da edição 1834 foi sobre fé. pág. Como lembra Scarpellini. O jornal também insiste em explicar com enorme número de detalhes tudo o que aconteceu. é aquele que pode ser lido em 10 minutos ou três horas.) Saddam (. a revista sempre apresenta uma retrospectiva (o que garante certa atualidade para a leitura).. ou no máximo um prisioneiro sem vontade própria. em que é possível discordar de Natali na análise que ele faz da fotografia do ex-ditador. (. Para compensar.).. do Ano Novo. também de assuntos que não envelhecem facilmente. Fica evidente que a Folha quer mostrar-se como “jornal completo”. É costume a última Veja do ano ser mais “fria”. por exemplo.) procurou e conseguiu se impor como liderança regional. O leitor tem esse direito". autor do último projeto gráfico da Folha: "Um bom jornal.. três infográficos).” Há um ponto. 14.) Tentou ainda atropelar princípios da ONU (.

Há várias razões para o texto de Saddam não ocupar a primeira página. Os jornalistas da revista não poderiam apenas apresentar as mesmas informações e análises sobre a prisão já dadas pelos outros jornais. Uma discussão sobre fé parece ser mais palatável. com nove páginas: 266 . a prisão de Saddam recebeu grande destaque espacial. Inicialmente. Outras estratégias foram pensadas.Uma edição especial sobre Saúde. Apesar de não ser capa. com o título: “Como ficar mais bonito e saudável” foi encartada na publicação. Por outro lado. O assunto já tomara grande parte do tempo e do espaço de outros noticiários. Vejamos o que foi feito. Veja abordou a captura de Saddam quase uma semana depois de o fato ter acontecido. é possível pensar que se trata de um tema mais indigesto para os leitores. que iam receber a revista na véspera do Natal.

267 .

268 .

um “fazer-odiar”.000 dólares que guardava numa maleta. O tirano que dispunha de 23 palácios para uso pessoal tinha se escondido numa cova de 1. Esse tom aparece em todo o texto e se apresenta como o “diferencial” em relação aos outros noticiários: a busca da curiosidade – estratégia de sustentação . explicitado no terceiro parágrafo. no quesito covardia. coragem x covardia. que ocupa a maior parte dos espaços da reportagem. fotos diagramadas em clara oposição no espaço das duas primeiras páginas mostram o investimento inicial na estratégia de arrebatamento. em uma série de outras relações: luxo x miséria. o “galã”. Saddam.Grandes letras brancas em fundo preto. mortas por armas químicas. é “o fim melancólico de um dos tiranos mais sanguinários dos tempos modernos”. mãe e filha curdas. Presidente de seu Conselho de Comando da Revolução. imediatamente. liberdade x prisão. o ungido. cuidadosamente relacionadas para formar quase um paradoxo visual. quase mendicante. Temos os “dois” Saddam: o poderoso. Presidente do Iraque. O último conjunto de páginas duplas conclui a reportagem com a apresentação de cinco vítimas de Saddam. entre elas.” 269 . na noite de sábado. Grande Tio de todos os seus clãs e tribos. Descendente direto do Profeta. Chama a atenção. Tentou-se mostrar como a prisão exacerbou contrastes. quase todos sorridentes. como fez Adolf Hitler em situação similar em 1945. O conjunto mais evidente é encontrado logo no primeiro conjunto de páginas. Marechal-de-Campo de seus exércitos. ostentação x privação.80 por 2. é pior do que Hitler: “Saddam Hussein. suborná-los com os 750. nem atirou nos soldados. com uma tampa de concreto camuflada com lixo. força x fraqueza. e o vencido. para contrastar com as fotos dos cadáveres dos filhos do expresidente e para lembrar que os genros foram mortos pelo próprio ditador.do leitor. No segundo conjunto de páginas duplas mostra-se o palácio e também a cozinha do casebre onde o ditador foi encontrado. um infográfico toma quase as duas páginas com uma grande foto de Saddam com a família. que vai se desdobrar. Há imagens de conteúdos díspares. foi descoberto num buraco. Glorioso Líder. O “gancho” do texto como um todo. não se matou com um tiro. estava armado com dois fuzis AK-47 e uma pistola.40 metros. vida x morte. Há uma categoria de base. investe na passionalização do leitor. No terceiro conjunto. não exatamente por meio da apresentação de uma performance de captura do ex-ditador. de José Eduardo Barella. a escolha do material fotográfico e infográfico. 13. Tentou. O primeiro parágrafo é primoroso nesse procedimento e afirma que Saddam. que propalava ser a personificação da tradição guerreira árabe. isso sim. Não engoliu uma cápsula de cianeto. mas entregou-se sem resistência. Comandante-em-Chefe da Imortal Mãe de Todas as Batalhas. figurativamente. O texto.

o de parecer discutir o anterior em alguns momentos. sujeitos obrigados a manter relações com objetos que lhes causam repulsa. e portanto incapaz de produzir efeitos práticos?”. o de sanção. que tudo sabe. que desperte o nível de atenção esperado do leitor. o texto segue um tom comum na Veja. argumentos de autoridade (ONU. Mas a matéria é cuidadosa ao dosar o teoricamente já conhecido com o novo na busca do efeito de atualidade. que impunha sua vontade (fazer-fazer ou fazer-agir) na base do dever e sob pena de sanções pragmáticas severas. pode explicar por que ele preferiu o confronto. Há discussões sobre as formas de julgamento do ex-ditador e as conseqüências para a “ocupação norte-americana”. Há um aspecto notável desse texto. Agora. Tenta-se atenuar a forte carga opinativa com informações. “episódios documentados”. para Veja. jornal Sunday Times) e mostrar que tudo o que é apontado só pode ser a única conclusão possível. de tortura à morte. 51 foram assassinados sob acusação de traição. a reação de Saddam na prisão e. aliado à depravada indiferença para com a desgraça de seu povo. justifica a própria invasão norte-americana: “Só o delírio causado pelo poder absoluto. No total. Depois. retoma. Saddam. A quinta página da seqüência (número 37).) discute as razões do “tom sóbrio” adotado pelo presidente dos Estados Unidos ao fazer um pronunciamento ao povo norte-americano.) Ele acreditava que. explicitando as artimanhas da revista na busca da passionalização do leitor e sua relação com o ponto de vista norte- 270 . como as guerras. o relato sobre a “ambição” de Saddam que. “Será que a Casa Branca percebeu que a captura de Saddam é só um símbolo – forte. opressão. em um único parágrafo. como resumiu o secretário de Estado americano. assim. análises que também funcionam como elementos de atualização. mas um símbolo apenas. para não perder o tema. de autoria de André Petry (“E nem parecia Bush. pergunta. ‘como um detrito esperando para ser coletado’... dirigindo-se aos jurados.. após os bombardeios.” O último texto das nove páginas motivadas pela prisão do ex-ditador do Iraque. resta apenas jogá-lo na lata do lixo da história.. (. assassinatos. fortíssimo. A revista não esconde o papel de promotor da acusação. o presidente americano desistiria de derrubá-lo e ele poderia retomar sua rotina de ditador. O texto termina com uma especulação mais ampla. faz mais descrição de torturas. Colin Powell. Mais do que a figura de um anti-sujeito. com muitos detalhes. aparece como fonte de anti-valores: tirania.Como um todo. dirige foco para os próprios parentes de Saddam. Retoma-se. revista Forbes. ou dito de outra forma. estatísticas. crueldade. o que Veja faz é construir para o ex-presidente do Iraque o papel de anti-destinador. Os iraquianos são apresentados como vítimas. pela última vez. Os relatos das atrocidades do ex-ditador não são exatamente “fato novo”. Acabou. Há relatos de torturas. contudo.

nem a democracia no Iraque deve ser construída tão cedo. tudo fica mais complicado porque “há muita gente sem lugar no Iraque do pós-guerra”.. que “se ressente de estar sob as botas de um ocupante estrangeiro”. tem clara função ideológica. o relato de Veja serve para desencadear no leitor a paixão da vingança contra Saddam. autoritária. enterrada no século passado. a empatia do público com as vítimas. uma justificativa para convencer seus leitores da importância da guerra dos EUA contra o Iraque. (. É evidente que o leitor não pode ir à desforra contra o exditador.” No momento seguinte. a de despertar simpatia pelos norteamericanos e sua incursão no Iraque. a revista sai em defesa do governo Bush: “Nesses oito meses. O ano termina com as expectativas americanas e as de seus adversários bastante diluídas.) Nem toda a força econômica dos Estados Unidos é capaz de fazer valer sua cultura e modo de vida em um país derrotado e empobrecido como o Iraque. Em outro trecho. prática colonialista do século XIX. com amplo apelo às injustiças cometidas contra famílias. A transição de conquistadores para construtores de nações vai demandar ainda toda a energia criativa e muito da riqueza americana. Ele cita os militantes do partido de Saddam. Veja não esconde suas simpatias nem do que quer convencer. É interessante que o caminho buscado por Veja foi ver. os soldados fiéis ao ex-ditador. os sunitas. Mas a catarse tem possibilidade de acontecer via apoio à ação do governo dos Estados Unidos. “revoltado”. terroristas da Al Qaeda e até mesmo a classe média iraquiana. na prisão de Saddam. Veja cita a guerra do Iraque e lembra a seus leitores que a missão de Bush foi a de “implantar a democracia no país que foi de Saddam Hussein”. minoria da qual o ex-presidente do Iraque fazia parte e que perderam influência política. na mesma edição. o Baath. a Casa Branca precisou demonizar Saddam. facilitou amplamente a tarefa. Nem Bush e seus assessores neoconservadores têm planos de dominar o mundo. Busca-se. a ação armada americana no Oriente Médio prendeu a atenção do mundo e levantou suspeitas de ressurgimento do imperialismo de dominação territorial. como estratégia de sustentação.. que tem uma estratégia de sustentação particular. pág. ao criar um leitor tenso. continua o analista. 56. Na Retrospectiva 2003.americano: “No jogo de guerra. sangrenta. contra crianças massacradas para que pais confessassem crimes. cuja biografia. É nesse sentido que acreditamos que todo o emocionalismo do texto principal. Numa análise narratológica da enunciação.” 271 .

O próprio UOL acomoda versões eletrônicas da Folha de São Paulo. explicamos com mais detalhes algumas questões de ordem técnica para o entendimento do objeto de análise e seus impactos. adaptadas. Qualquer estudo corre o perigo de envelhecer precocemente.JORNALISMO NA INTERNET O último ponto de análise da tese é o jornalismo na Internet. Limites e vantagens tecnológicas sempre vão determinar formas de relacionamento entre um meio de comunicação e seu público. A rede também vive uma evolução muito mais rápida do que a experimentada por outros veículos de comunicação. a cobertura da prisão de Saddam Hussein servirá para mostrar alguns modos de textualização. porém. será o de recortar com mais precisão o próprio objeto. essa característica é mais perceptível do que na Internet. Uma teorização sobre o jornalismo e a Internet precisa enfrentar certas dificuldades. a ordem dos estudos específicos tem uma justificativa. foi escolhido o portal UOL para estudo. Diversas reflexões dos outros noticiários serão agora reaproveitadas e. tivemos a preocupação de apresentar reflexões que não fossem facilmente sepultadas com a descoberta de novos usos para as tecnologias de informação digital. uma comparação com as coberturas dos outros noticiários. Em nenhum veículo. portanto. Para enfrentar o problema. nesta parte do trabalho. Nosso primeiro procedimento.PORTAL. 272 . em certos momentos. notadamente das características do funcionamento do gerenciamento do nível de atenção em determinados objetos jornalísticos na rede mundial de computadores. apresentar formas de abordagem do assunto e permitir depois. Como o assunto é de enorme amplitude. Finalmente. de Veja e de inúmeras outras publicações jornalísticas. A investigação de um portal como veículo de jornalismo não deixa de trazer questionamentos e dúvidas. Em função disso. na conclusão. Como foi dito no início da segunda parte do trabalho.

jornais e revistas on-line. mas que na Internet assume caráter também de comunicação socializada. boletins. caso dos jogos on-line. sites 156 e portais. na forma de arquivos digitalizados. que são pequenos jornais ou newsletters em forma exclusivamente eletrônica. ampliando o leque de instrumentos de meios de transmissão que compreende também o telefone. uma modalidade de correio ou comunicação interpessoal. 273 . modifica e mesmo inaugura outras mídias. Também apresenta um amplo espaço para entretenimentos específicos. “como meio de comunicação social. Em todas essas formas. e. acolhe. A rede permite a compra de produtos. que não existiriam se não fosse a Internet. 157 O portal. Desse modo concilia algumas observações que acabamos de fazer e permite situar melhor nosso objeto de estudo. a de memória de toda produção intelectual. vídeo ou infográfico” (Ferrari. artística e científica. a de mídia. a de ferramenta de trabalho. blogs. deixando bastante complexa a questão do próprio suporte existente. ler jornais e publicações de todo o mundo e trabalhar com base nesse material. Há alguns reparos possíveis nessa classificação. 2004: 97). no entanto. finalmente. boletins. como a de meio de comércio eletrônico (e-commerce). Kuncinski refere-se à Internet como “mídia” no sentido mais geral. características que perpassam as quatro funções apontadas. que são versões às vezes resumidas ou seletivas de publicações que já existiam e continuam a existir em forma impressa. que pode vir em formato de texto. Conteúdo é “a informação disponibilizada pelos sites aos seus leitores. 157 É mais preciso dizer que a Internet. em sua maioria.a Internet e o portal Bernardo Kucinski afirma que a rede mundial (também conhecida por world wide web – daí o famoso “www”) exerce e combina quatro características principais relativamente distintas: “A função de transmissão de dados.Considerações gerais . foto. acessíveis de qualquer parte do mundo” (2005: 73). inclusive publicidade e programas de venda direta. como mídia. a mais nova depois da invenção da TV nos anos 1950. de “meio de comunicação”. o telégrafo e o fax. a Internet se apresenta em várias formas: blogs 155 pessoais. fazer entrevistas. que são amplos espaços com grande número de conteúdos e informações. vamos nos referir a essa definição como conteúdo-web. Como em um estudo semiótico a palavra pode causar problemas. facilita o acesso a serviços e exibe verdadeiros estabelecimentos virtuais. O autor explica que. sem contar a possibilidade de consumir ou “baixar” músicas e filmes. A Internet acumula outras funções importantes. os e-mails. que permite acessar bancos de dados. Beth Saad lembra que “as operações digitais brasileiras acabaram. não está no mesmo nível dos sites. sendo 155 156 Blogs são diários on-line. há uma superação dialética entre público e privado” (idem: 76).

acima da hierarquia e das regras impostas aos outros países. a Internet ganha sua grande característica: o internauta constrói seu próprio caminho dentro da rede. 158 274 . Além de um computador conectado a rede. chamadas para conteúdos díspares. Como veremos depois. por exemplo.uol. menos os Estados Unidos. “Os portais tentam atrair e manter a atenção do internauta ao apresentar. numérico. começou a ser usado em 1997 (2004:18). reunidas em torno de um determinado tema e interessadas no detalhamento do conteúdo em questão e seus respectivos hiperlinks em novas janelas de browser” 159 158 que surgem (idem: 30). . Existe um enunciador que precisa manipular um enunciatário para que se estabeleça um laço. Graças aos links. na página inicial. 159 Os sites ficam armazenados em provedores de acesso. Ferrari também aponta a questão que mais nos interessa: “O conteúdo jornalístico tem sido o principal chamariz dos portais”. Esse programa é o browser ou navegador (como o Explorer e o Netscape).frança. como significado de “porta de entrada”. sem indicação de país de origem. registrou seu principal domínio no Brasil. A solução ajuda a formar ‘comunidades’ de leitores digitais. Ponto de partida do internauta para que possa utilizar a Internet. Esse fato não é nada inocente do ponto de vista ideológico. é recoberto com siglas e nomes para ficar mais fácil de decorar. O endereço eletrônico já é produtor de sentido. sair do final de uma página e voltar ao início com um toque do mouse em um desenho). consideramos aqui o portal como “texto” na acepção semiótica.a passagem de um ponto a outro de um mesmo documento (como.globo. pausado. “navega” onde quer e quando quer. e tem o endereço www. Para ter acesso a um site. entre outras possibilidades. Esse endereço (ou URL). só para citar dois exemplos). 3 – O controle da ação de um elemento. como “invenção”. Isso é evidente Hiperlinks ou links são elos entre elementos de um site que possibilitam: 1. O UOL. como o do portal da Rede Globo: www. que pode ser colocado em funcionamento. Os Estados Unidos aparecem como espaço globalizado. seja por refletirem verdadeiramente uma estratégia de amplo acesso. que acaba por garantir a própria sobrevivência do serviço. que se auto-intitula “o maior provedor da América Latina”. não nasceu para ser um jornal digital.globo. caso de um vídeo. que mantêm computadores denominados servidores.com. o portal é ainda um filtro que hierarquiza o mundo caoticamente apresentado em formato digital. não deixa de ser também parte “englobada”. superior. uma convivência.br. é preciso ter ainda um programa que “puxe” e dê visibilidade às páginas de um site hospedado em determinado servidor. pois apresenta inclusive os recursos listados inicialmente como funções da rede. Ao mesmo tempo em que “engloba” tudo. seja por uma questão de marketing ou de status. supondo-se que um portal é mais importante que uma página web” (2003: 250). De qualquer maneira. como www.com.cunhadas como ‘portal’. 2.com.a passagem de um documento a outro. O portal. é preciso conhecer seu endereço na rede. Trata-se do domínio.fr . Fica agora mais claro o recorte proposto. Outro ponto interessante é que todos os países do mundo têm uma identificação com duas letras nos domínios (. por exemplo. Empresas que querem parecer globalizadas adotam um domínio internacional. registrado nos Estados Unidos.Reino Unido. Pollyana Ferrari afirma que o termo “portal”.uk . é notável também verificar que a página inicial do UOL é a própria síntese da Internet e de suas possibilidades. de várias áreas e de várias origens. nem mesmo para ter características jornalísticas.

mas existe. em pleno “desenrolar”. O formato repetia-se todos os dias e dava a impressão de enorme imobilidade. O jornalismo. as notícias vão sendo trocadas em intervalos curtos de tempo. antes do carregamento da homepage. deve reconhecer que está diante de informação “nova”. A tela. foi exibir os principais assuntos por meio de uma hierarquia que privilegia a sensação de máxima proximidade com o tempo presente – cronológico . Para completar os efeitos de atualidade e de sensação de “fluxo”. Alguns sites têm.quando se vê a homepage 160 do UOL de 1999. no seu processo interpretativo. Podemos observar ainda hoje as unidades noticiosas sendo apresentadas. ao enunciar o tempo todo sobre um conjunto de fatos. Cada portal. o internauta. hierarquizadas no espaço da página. característica dos textos de manifestação temporal. Foi preciso então encontrar meios de representar a idéia de fluxo. é o aparecimento de uma pequena propaganda ou chamada. A principal solução pensada. Só que se relacionam a acontecimentos que acabaram de ocorrer ou em pleno desenrolar. Desse modo. apresenta uma forma de textualização de base espacial. Percebeu-se que a maior coerção de um site ou um conjunto de sites que formam um portal era a de se mostrar em constante atualização. 160 275 . a homepage propriamente dita. no entanto. consegue o efeito de sentido de representação do A página inicial de um portal ou site geralmente é a homepage (ou casa-página). erroneamente confundida com o site. geralmente uma imagem em movimento. o pop-up. A razão é simples. uma pequena introdução. o carregamento simultâneo de duas páginas iniciais.do enunciatário. Um terceiro caso. e ainda válida. não foi somente escolhido pelo interesse do público nas notícias. É mais raro. predominantemente estática. e uma outra página que chama a atenção para um assunto de grande destaque. o jornalismo foi ganhando mais e mais espaço. Aos poucos. portanto. ou seja.

As agências. Aliás. é também o espaço ocupado e o posicionamento dos elementos que mostram os valores em jogo em relação às notícias. Em outras palavras. Basta ver. por exemplo. Grande hierarquizadora dos assuntos de um site. o público não só fica sabendo das “novidades” como também é manipulado para enxergar o próprio dinamismo do site e de seus donos. Podemos falar que. digitalmente. é preciso conhecer melhor a homepage. 2003: 259) denuncia que se fala de organização do texto por meio de relações espaciais. Um portal apresenta. podemos utilizar – com adaptações . em sua arquitetura. enfim. 276 . Trata-se do ponto inicial de visitação. Temos na página inicial de um site geralmente “notícias” que não passam de informação atualizada sobre os próprios enunciadores. por exemplo. 161 Formas de textualização Em um estudo sobre o portal. Por meio da primeira página. a homepage merece o maior empenho. sua visão de mundo. parte considerável de sua ideologia. manifestações gráficoplásticas que têm uma série de pontos em comum com as encontradas nos jornais impressos. por exemplo.os conceitos de espaço/nível de atenção propostos para as publicações de papel. a homepage também escancara os valores do enunciador.próprio pulsar da vida cotidiana e de inserção do internauta nesse movimento incessante. Saad. A textualização de uma home-page e a primeira página de um jornal têm procedimentos parecidos. o que valoriza e o que “esquece”. Como principal entrada. na home. Relembremos que estipulamos quatro “leis de diagramação” para os jornais e revistas impressos: 161 O recurso de apresentar “notícias” para dar impressão de atualidade a um site ou portal virou lugar comum na rede quando se percebeu seu potencial. bastante comum entre construtores de sites (ver. anunciam seus últimos contratos. Antes de apresentálas em detalhes. Dessa maneira. podemos conhecer o que ele considera mais – ou menos – importante. seus anúncios mais recentes. a palavra “arquitetura”. ou de grandes ONGs. As ONGs falam dos andamentos de seus projetos. apresenta as mais evidentes estratégias de gerenciamento do nível de atenção do internauta. os sites das principais agências de publicidade brasileiras.

Segunda lei: tudo o que estiver na parte de cima tem mais valor do que na parte de baixo.Estratégia do plano de expressão Primeira lei: o valor de uma unidade noticiosa é proporcional ao espaço a ela concedido. está na parte de cima. A manchete principal aparece com um corpo de letra maior. ocupa mais espaço. 10 de maio de 2005: Podemos verificar que as “leis” dos impressos são aplicáveis para o estudo da primeira página do portal. A página a seguir foi capturada às 10h30 da manhã da terça-feira. há pouca variação de corpos e espessuras de letras nas contínuas atualizações da homepage. Categorias topológicas de expressão Maior volume ocupado x menor volume ocupado Parte de cima x parte de baixo Exterior x interior Inicial x final Correspondência no plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Vejamos os elementos da homepage do UOL para verificar a pertinência dessas relações dos impressos no portal. Quarta lei: o início de uma unidade noticiosa é o espaço mais valorizado. O potencial gráfico- 277 . Terceira lei: a máxima valorização espacial acontece na capa ou primeira página. Entretanto. Essa lei obriga a colocação das principais informações e dos elementos de mais impacto sempre no começo.

Do ponto de vista da página inteira (parte exposta mais a parte oculta). que tem assim máxima visualização. de notícias. em cinza. A tela que aparece no computador é geralmente a metade superior (no gráfico. O olhar do internauta pousa no branco do retângulo das principais manchetes porque as outras partes do portal. como se autodefine o UOL. De qualquer maneira. A parte azul. Isso cria novas relações. de uma tragédia à vitória de um time de futebol. Esses conteúdos-web . mas também cromáticas. uma forma de construção de sentido por meio da aspectualização do espaço que. mas diversos objetos em movimento e simultaneamente. a divisão entre partes de “serviços” . Na terceira parte. e a disposição imóvel das letras. O “principal portal de conteúdo do país”. sexo. Os temas aparecem em caixas cujos títulos ficam em um retângulo vermelho escuro e com as chamadas em fundo bege. E há blocos de conteúdosweb distintos.de “notícias” e de “e-commerce”. Quase todas as manchetes. aparecem da mesma maneira. Analisemos um pouco mais a parte central. constata-se que a ocupação dos espaços da home do portal é bastante fixa. levando-se em conta somente a parte inicialmente exposta no carregamento da página.aqui no sentido de uma organização de assuntos que permite o acesso rápido do internauta ao que ele procura . O efeito pretendido. dá acesso principalmente ao que os administradores do UOL chamam de “estações”. ou seja. à esquerda e no topo. há o shopping UOL. é de organização e hierarquização. nos 278 . porém. tem uma organização muito semelhante à de um jornal impresso. Seu dinheiro.não são fixos. jornais. Só que. É nítida.Jornais e Revistas.exposto x oculto . Em outras palavras. A parte central também permite acessar as estações. o retângulo das manchetes está na parte de cima. São sites que organizam os principais conteúdos-web disponíveis: biblioteca. É notável como o verbal. principalmente para o material jornalístico. importantes e chamativas na ótica do enunciador. são conteúdos-web já em forma de manchete. O retângulo central branco é o principal ponto de valorização e captação da atenção para determinados assuntos. acabam por destacá-lo por contraste. mas sua característica maior é a de ser uma coletânea do que as estações têm de mais chamativo e atual. amigos virtuais. Deve-se notar que o internauta. A home tem três partes principais. O retângulo laranja mostra o conteúdo multimídia. Outro ponto a observar é a função não só das relações topológicas. entre outros . tendendo ao cinza. por serem coloridas.que é diferente da existente nos impressos. se impôs em um suporte que tem a possibilidade de apresentar não só um.plástico é pouco explorado. Lá estão as notícias mais quentes. precisa “rolar a página” com o mouse. portanto. para ter acesso a tudo o que há no portal. o mesmo bloco de manchetes está na parte central. Há uma categoria . essa porção visível aparece dentro do retângulo pontilhado).

diários, de maneira geral, pouco se alterou em décadas.

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Os elementos que se

movem – ou seja, apresentam relações também temporais - são quase sempre publicitários. Isso quer dizer que a estratégia de arrebatamento, quando a página é carregada na tela do computador, vincula-se principalmente às unidades de “ecommerce” e não às jornalísticas. A atenção inicial deve ser fisgada para que o enunciatário se interesse em realizar compras ou em adquirir serviços por meio do site. Podemos notar, no portal, a presença dos quatro grandes conjuntos significantes já mostrados nos jornais impressos: 1. Verbal, manifestado tipograficamente - Na home analisada, há pouca variação. 2. Fotográficos – Também aqui, há pouca variação de tamanhos na home. Como grande parte das fotos deve ser pequena, há uma profusão de “carinhas”, retratos.

Entre os autores consultados, é constante a observação de que a Internet, e notadamente o chamado webjornalismo ou jornalismo digital, ainda se apóia em modelos conhecidos porque todos os interessados na questão – empresários, jornalistas, acadêmicos – ainda não sabem muito bem como utilizar todas as potencialidades da rede. Em “Webjornalismo de Terceira Geração – continuidades e rupturas no jornalismo desenvolvido para a web”, Luciana Mielniczuk (http://www.adtevento.com.br/intercom/resumos/R08161-pdf - acessado em maio/2005) busca respostas, mas constata: “Navegando por webjornais, há alguns anos, tinhase a impressão de estar lendo o jornal impresso na tela do computador. Hoje, a situação mudou bastante, encontramos muito mais links e recursos de multimidialidade, mas não vemos nada de muito diferente do que já foi visto. A ‘novidade’, por enquanto, é que podemos ler o jornal impresso, assistir ao noticiário de televisão e ouvir o noticiário do rádio, na mesma tela do computador, de maneira quase simultânea.” Marcos Palácios, em “Jornalismo Online, Informação e Memória: Apontamentos para debate” (disponível em www.facom.ufba.br/jol/pdf/ 2002_palacios_informacaomemoria.pdf – último acesso em maio/2005) enumera as possibilidades – mal utilizadas - do jornalismo de Internet: multimidialidade/convergência, interactividade, hipertextualidade, personalização, memória, e a instantaneidade do acesso, que permitem a atualização contínua do material informativo. O autor, ao mesmo tempo, lembra que mesmo essas características, separadamente, não são privilégio do web jornalismo, que não apresenta uma grande ruptura em relação às outras maneiras de buscar, tratar e distribuir notícias, mas é, antes de tudo, uma continuidade e uma potencialização dessas mesmas formas: “A Multimidialidade do Jornalismo na Web é certamente uma Continuidade, se considerarmos que na TV já ocorre uma conjugação de formatos mediáticos (imagem, som e texto). No entanto, é igualmente evidente que a Web, pela facilidade de conjugação dos diferentes formatos, potencializa essa característica. O mesmo pode ser dito da Hipertextualidade, que pode ser encontrada não apenas em suportes digitais anteriores, como o CD-ROM, mas igualmente, e avant-la-lettre, num objecto impresso tão antigo quanto uma enciclopédia. A personalização é altamente potencializada na Web, mas já está presente em suportes anteriores, através da segmentação de audiência (públicos-alvos). No jornalismo impresso isso ocorre, por exemplo, através da produção de cadernos e suplementos especiais (cultural, infantil, feminino, rural, automobilístico, turístico, etc); no rádio e na TV a personalização tem lugar através da diversificação e especialização das grades de programação e até mesmo das emissoras, como no caso da RTP Internacional, totalmente voltada para a Comunidade Lusitana na Diáspora.” Para Palacios, o webjornalismo encontra sua especificidade potencializando e principalmente combinando as características descritas, notadamente a que envolve a memória, o acesso às informações acumuladas.

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3. Pictóricos - Na home, os recursos pictóricos também não são muito utilizados. 4. Mistos – Os infográficos, fusões são mais comuns nas estações, fora da home. Há também os diagramáticos – como as caixas coloridas ou vazadas, entre outros recursos. Ao contrário dos impressos, existe no portal grande uso dessas últimas possibilidades de expressão, principalmente para dar a idéia de organização de determinados assuntos e para valorizar outros. Os recursos diagramáticos também são responsáveis pela divisão da home em partes distintas, de conteúdos-web facilmente reconhecíveis. Temos semi-simbolismos “cristalizados” nos recursos diagramáticos, caso do azul representar a entrada para as estações e o espaço do assinante. Um outro conjunto significante (na verdade, um “conjunto de conjuntos”) é exclusivo da Internet: 5. Hipermidiáticos –referem-se à manifestação de informação de mídias de fluxo, como o rádio, a TV, ou quaisquer arquivos que tenham uma progressão temporal, como uma apresentação de fotos em programas de slides do tipo PowerPoint, desenhos animados, e até mesmo animações somente com letras.163 Quaisquer unidades dos cinco grandes grupos de conjuntos significantes podem ou não dar acesso a outras, ou ainda desencadear funções pré-programadas pelo enunciador, como a de movimentar uma foto quando o mouse simplesmente desliza sobre um elemento. A passagem às páginas e outras unidades do portal ou fora dele é feito por hiperlinks. Funções e links põem um fim à semelhança de um site com uma revista. Notadamente os links
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possibilitam um contato não linear,

personalizável, com os conteúdos-web da rede. É possível conhecer certas partes sem passar por outras. Via links, os conteúdos-web do site e de outros sites podem ficar disponíveis, acessíveis.
Para a construção de páginas web é preciso utilizar uma linguagem de programação. A mais básica é chamada de HTML (Hipertext Markup Language). Podemos comparar essas linguagens como uma cola. Os elementos são “grudados” e depois apresentados na forma de uma página, com fotos, texto verbal, links, ou até mesmo um filme. Tudo isso vira bit, ou seja, a unidade mínima de um sistema digital, que pode assumir apenas os valores 0 ou 1. O mundo digital, portanto, transforma tudo em 0 e 1. É interessante que mesmo os elementos hipermidiáticos também são entendidos como fragmentos agregados a uma página ou conjunto de páginas de modo que a organização espacial se imponha à temporal. 164 Os links também informam os valores do site. Se um site de música coloca links destacados para cada gênero de música popular (samba, rock, mpb, axé, etc) e insere gêneros como jazz, música erudita em um link chamado “outros”, mostra o que considera importante e o que considera menos importante. No caso, quer criar uma imagem de quem se identifica com o gosto popular.
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Sabemos que os elementos tipográficos são os preferidos para a construção de links. Teoricamente, no entanto, qualquer elemento citado pode apresentar um link ou um conjunto de links
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, ações, ou seja, ser um elo para mais conteúdos-web.

Observa-se uma categoria ativo x inativo que pode ser utilizada para determinar se um elemento de qualquer um dos seis conjuntos significantes citados é ou não uma ponte para um outro. A característica cada vez mais evidente de a Internet ser a “mídia de outras mídias” (a multimidialidade) faz com que a maioria das observações sobre outros tipos de jornais apresentados durante todo o trabalho tenha plena validade no ambiente virtual. Um programa de radiojornalismo ou telejornalismo na Internet também vai obedecer às características básicas – como efeitos da entonação no primeiro e de câmera e edição no segundo - apontadas nas outras partes do trabalho. As relações entre conjuntos significantes mostradas nos impressos – notadamente as que envolvem os tipos gráficos e o fotojornalismo – também podem ser aplicadas na análise de um portal como o UOL. Algumas adaptações são, porém, inevitáveis. Os conjuntos significantes hipermidiáticos, marcados por relações textuais temporais, como um programa de TV ou rádio que pode ser assistido por meio do portal, se submetem a uma estrutura espacial, que lhes atribui valor. Mesmo que diversas janelas pudessem ser abertas para diferentes elementos de hipermídia, as formas de visualização do fluxo precisariam ser hierarquizadas e topologicamente organizadas. Poderíamos em teoria entrar em uma home com, por exemplo, quatro programas de televisão passando simultaneamente. Se tivessem diferentes tamanhos de tela, tenderíamos a considerar que o mais importante é o apresentado no quadro maior. Se todos fossem mostrados em telas do mesmo tamanho, seríamos tentados a valorizar mais o programa que está na parte de cima.

O efeito de sentido de “infinitas possibilidades”

Há outros pontos instigantes relacionados ao modo de textualização de um portal. Pode-se questionar a validade de uma reflexão sobre “texto” diante de um meio de comunicação que apresenta “conteúdos” de maneira hipertextual. É preciso lembrar, inicialmente, que um portal não é um texto sem limites. O caminho hipertextual realizado pelo Internauta também é conseqüência de uma estratégia enunciativa que tenta organizar e tirar proveito da passagem do usuário pelas páginas, dentro da busca de audiência. As milhões de páginas disponíveis no UOL não

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Uma única foto, por exemplo, pode ter vários links.

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impedem o enunciador, por exemplo, de organizar todo o portal na famosa estratégia – entre webdesigners - dos “três cliques”. O portal inteiro é concebido para que o internauta “chegue” no lugar desejado passando por apenas três páginas: a home principal, a home da estação analisaremos no próximo item. Existem, no entanto, muitos caminhos possíveis dentro do portal. Só que é preciso discutir essa pretensa liberdade do internauta em construir seu próprio “texto”, ou seja, o que ele quer consumir. Vejamos como o usuário pode ter acesso às notícias. Há dois caminhos principais: clicar no link de alguma manchete na parte central, de notícias, ou ir diretamente às estações. No UOL, há oito estações dedicadas ao jornalismo. Todas têm funções específicas e, ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser na Internet, apresentam certa interligação: - UOL News – Em maio de 2005 é comandado pela ex-âncora do Jornal da Globo Lillian Witte Fibe. Trata-se de uma experiência de telejornalismo on-line. As notícias são oferecidas on demand (ficam disponíveis para serem consumidas a qualquer momento) em dois tipos de codificação: uma para banda larga e outra para banda estreita. Os conteúdos-web também são mostrados em diferentes mídias, apesar da ênfase em vídeos. É possível ler ou assistir a uma mesma entrevista. Grande parte dos vídeos é produzida pela Band News.
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, e a home do site relacionado na estação, como

- UOL Jornais – Apresenta uma lista dos sites de jornais brasileiros e internacionais. Abriga ainda o site Mídia Global, que faz uma seleção das principais manchetes de jornais, revistas e agências de notícias (Cox Newspapers, Der Spiegel, El País, Financial Times, Hearst Newspapers, Herald Tribune, La Vanguardia, Le Monde, Prospect Magazine, The Boston Globe, The New York Times, The NYT News Service, USA Today, Agências de Notícias AFP, EFE, Folha Online, Lusa, Reuters, Valor Online) e apresenta links para os respectivos sites. UOL Últimas notícias – É praticamente a apresentação de uma lista dos assuntos jornalísticos que vão entrando no site, às vezes de minuto em minuto. O material mais atual sempre encabeça a relação. Os títulos também têm a função de links e remetem para outras estações. O efeito de atualidade é tão perseguido que antes dos títulos se informa a hora em que a notícia foi colocada no portal.

No UOL, para relembrar e definir melhor, a palavra estação se refere a um site com conteúdo específico, mas de grande abrangência, hospedado pelo portal, marcado na barra de navegação à esquerda da home do portal. É o caso do UOL Notícias, UOL Sexo, UOL Jornais, entre outras opções. 167 “Lillian Witte Fibe estréia no comando do UOL News” - sem crédito. Disponível em http://noticias.uol.com.br/uolnews/2004/09/17/ult2528u8.jhtm - último acesso em maio de 2005.

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Folha Online – Site que mostra os conteúdos da Folha de São Paulo que são disponibilizados assim que produzidos pelo jornal. A Folha tem, portanto, dois sites distintos dentro do UOL, o que apresenta, na forma de conteúdo-web dentro do UOL Jornais, toda a sua edição do dia (praticamente o conteúdo verbal), e o Folha Online, com notícias que vão se renovando, e que irão, no dia seguinte, fazer parte da edição impressa. UOL Revistas - traz sites de dezenas de publicações nacionais, entre elas Caras, Trip, Atrevida, Herói, National Geographic, Fluir, Sexy, Próxima Viagem, PC World, Corpo a Corpo, Gula e Ciência Hoje, além de traduções de textos de revistas estrangeiras como a alemã Der Spiegel. UOL Televisão - traz ampla cobertura jornalística da programação e de celebridades do veículo. TV UOL – O destaque são os vídeos de entretenimento – músicas, entrevistas com artistas, trailer de filmes. Expõe os conteúdos em vídeo do UOL News e do UOL Esportes. UOL Esportes – Apresenta bastante conteúdo jornalístico, com cobertura de diversas modalidades esportivas, os grandes campeonatos nacionais e internacionais. Destaca futebol, automobilismo e tênis. Traz também tabelas, entrevistas, reportagens e imagens dos gols, além de transmitir em vídeo os jogos e melhores momentos dos principais campeonatos brasileiros.

Essa lista, reforcemos, inclui as estações com conteúdos mais jornalísticos. A maioria das estações, no entanto, utiliza o formato “notícia” para dar efeito de atualidade aos conteúdos-web particulares. Até o UOL Bichos estampa notícias. Uma análise um pouco mais cuidadosa mostra que uma mesma notícia pode aparecer em diversas estações, com formatos distintos (vídeo, texto verbal, conjunto de fotos). Em 18 de maio de 2005, por exemplo, estreou o filme “A vingança dos Sith”, último da cinesérie Star Wars. A parte central da home apresentava uma chamada. O mesmo assunto era tema de reportagens no UOL News, UOL Cinema, UOL Diversão e Arte, UOL Últimas Notícias, UOL Teen, Folha On Line, UOL Tecnologia. A mesma notícia: “‘Star Wars: Episódio 3’ estréia em 430 salas do Brasil” – era encontrada no UOL Cinema, UOL Diversão e Arte, UOL Últimas Notícias, Folha Online Busca. Percebe-se que a sensação de uma enormidade de notícias em um portal também é um efeito de sentido. E por vários motivos. O que o internauta tem é uma espécie de “mais do mesmo”, porém embalado de um jeito que dá a sensação de uma infinidade de possibilidades de consumo do mesmo assunto. Outro ponto é que a mesma notícia aparece em várias estações diferentes, pois é pouco provável que um

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internauta visite todas. Há maneiras de atraí-lo e de dar o que ele procura – ou seja, satisfazê-lo - por diferentes caminhos. Finalmente, também é possível verificar que as estações hierarquizam a notícia ao gosto do internauta. O mesmo filme para adolescentes pode merecer uma nota na home da Folha Online e um destaque maior na do Folha Teen. Cada estação pressupõe a existência de um diferente contrato enunciador-enunciatário, questão que vamos investigar.

O enunciatário impaciente
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Em uma conversa on-line com internautas

sobre a última grande mudança

no portal UOL, ocorrida no começo de 2004, a diretora de conteúdo, Márion Strecker, foi questionada sobre qual público-alvo pretendia atingir com a reformulação. “Pela contagem feita pela Tecnologia do UOL, temos perto de 17, 18 milhões de visitantes únicos por mês. É muita gente. A homepage do UOL é vista por gente de todas as idades e de todo o país. Somos um meio de comunicação de massa e não podemos mais eleger uma só fatia do público como alvo” – respondeu. O portal, como fica bastante visível na distribuição de assuntos em links ou manchetes, busca o maior número possível de visitas, ou, em termos mais técnicos, de “page-views”, uma das bases de medição de audiência. Para discutir melhor a questão do enunciatário instaurado pelo portal, devemos notar que o UOL divide seus visitantes em dois tipos distintos: 1 - os assinantes, que pagam e têm acesso irrestrito a milhões de páginas, e 2 - os visitantes, que devem ser conquistados para fazer parte do primeiro grupo e têm acesso restrito. A home, portanto, é não só o lugar para manter o internauta cativo. É também o espaço de busca pelo internauta desgarrado, que está zanzando pela rede. A dinâmica da rede mundial criou um sujeito nervoso, pouco paciente. Se não encontra o que quer com rapidez, tem sua auto-imagem afetada, se julga incompetente, assim como também passa a julgar o site “ruim”. Ele imagina que há um grande número de possibilidades para atingir determinados objetivos. Por isso, se irrita com qualquer demora ou obstáculo. Dos enunciatários de jornais analisados, ele é o mais volúvel e fragmentado (inclusive se comparado ao da Folha de São Paulo). Como tem opções demais, cada vez que navega em uma página, tem a sensação de que pode estar perdendo algo melhor, de que seu tempo precioso poderia ser utilizado para tomar contato com informações que lhe dessem mais satisfação.
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“Bate-papo com Márion Strecker” em 26/03/2004, às 20h – disponível no endereço: http://bp.tc.uol.com.br/convidados/arquivo/frames.jhtm?url=http://bp.tc.uol.com.br/convidados/ar quivo/midia/ult1666u117.jhtm - acessado em maio/2005

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a rapidez deve ser conseqüência de uma construção eficiente do portal. Uma investigação mais cuidadosa. como nos jornais impressos. cores. por sua vez. Mas as divisões. É preciso que as páginas e conteúdos não demorem a chegar ao internauta interessado. apressado. é mais reservada à publicidade. de novidades. Essas limitações. na home do UOL. faz do enunciatário na rede um sujeito que não quer pensar muito. que o internauta tende a se sentir mais seguro diante do que já conhece. nem mesmo os títulos aumentam ou diminuem ao sabor da importância das notícias. Analisemos com mais profundidade o primeiro problema: a coerção de um portal ou site. Mudam as manchetes e publicidades. existe a tentação de imaginar que. Em outras palavras. É precisamente pelo fato de a Internet vender-se como meio que disponibiliza bilhões de páginas. evita obstáculos de qualquer ordem. O internauta tem pressa. Em um estudo mais superficial. imensa variação e possibilidades. o UOL constrói uma home cuja apresentação gráfico-plástica pouco se altera.Um portal também deve disponibilizar as notícias o mais rapidamente possível. o chamado “carregamento” das páginas ou conteúdos-web nos navegadores dos internautas. Essa última questão será tratada na análise sobre a cobertura de Saddam. por exemplo. Como citamos. Como já dissemos. nas próximas páginas. em chegar onde se deseja rapidamente. veloz: 1 Inicialmente. as páginas devem ser apresentadas e ordenadas de modo a facilitar ao máximo a navegação do internauta. para arrebatar a atenção desse enunciatário instável. obviamente. Nesse sentido. por meio de animações nos banners (barra de anúncios). por exemplo. semi- 285 . principalmente da homepage. ou meses.O principal valor partilhado entre enunciador e enunciatário em um portal é a rapidez. Ele deve percorrer o menor caminho possível para chegar onde deseja. 2 . Para atingir esse objetivo. “caixinhas”. tamanhos das fotos. mostra pouquíssima variação de expressão. também são levadas em consideração na hora de construção de um site ou portal. uma homepage deveria ser cheia de surpresas. quase tudo permanece igual dia após dia.A Internet também apresenta uma série de limitações de ordem técnica que envolve. ou desenhos que surgem repentinamente e atravessam a tela. Outro ponto importante é que a ansiedade em navegar. porém. há três questões diferentes e complementares que envolvem essa sensação de que tudo é ligeiro. a estratégia de arrebatamento do portal é muito mais sutil. passar a sensação de “rapidez”. ser eficiente em dar ao internauta o que ele procura e. apresenta a avidez do enunciatário e a pouca mobilidade da home principal como outro falso paradoxo. Os acessos à maioria dos conteúdos-web são fixos e marcados por convenções entre enunciador e enunciatário (mais precisamente. Uma análise superficial da home do UOL por semanas. 3 . No entanto. assim.

ou seja. Um site que demora a carregar vai afugentar enunciatários sem paciência ou recursos para manter uma linha de banda larga. Mostra ainda grande investimento do enunciador na estratégia de arrebatamento do enunciatário. desenhos. fundos coloridos ou letras voando pela tela tornam um site mais atrativo. por meio da estratégia de sustentação. E aqui entramos na segunda questão que envolve a necessária sensação de rapidez na rede mundial de computadores. de carregamento quase instantâneo na tela do enunciatário. o portal é carregado de manchetes de diversos assuntos para instigar a curiosidade dos diversos segmentos do público-alvo 286 . Textos verbais não têm muitos bits. porém. que a lista dos mais “quentes” se encontra no citado quadrado laranja no meio da home. de grande pertinência na análise de um meio de comunicação marcado pela necessidade de parecer sempre mais e mais rápido. pode torná-lo “pesado”. fotos e desenhos podem consumir milhões de bits. como filmes. Se o construtor de um site. principalmente. O grande drama da Internet atualmente é a velocidade de tráfego de bits pelas linhas telefônicas e outras formas de transmissão (como cabo. não podem ser utilizadas na home. por exemplo. Quem gosta de ver os conteúdos multimídia do site UOL em 2005 sabe. imagens congeladas cuja apresentação em seqüência de quadros engana nossos olhos e simula movimentação).) com profundos impactos na maneira de conceber os sites. Até mesmo estratégias de arrebatamento comuns nos jornais diários. por exemplo. Isso tudo é importante do ponto de vista semiótico. na verdade. É evidente que a Internet. mais do que qualquer outro meio de comunicação. Tenta-se então instaurar e manter a curiosidade por meio da apresentação e da decodificação dos conteúdos. privilegiar mais e mais aspectos estéticos. vincula-se ao carregamento das páginas e às relações temporais lento x veloz. Um site com muitos recursos de hipermídia constrói um usuário que tem banda larga e maior poder aquisitivo. Como há muitos tipos de enunciatários. De maneira geral. O Internauta deve passar os olhos nos títulos e querer saber detalhes da história. Imagens em movimento (na verdade. podemos observar uma categoria site “pesado” x site “leve” . satélite. são “pesadas”. como o uso de fotos enormes de grande contraste de cores. que precisa satisfazer enunciatários díspares – dos que têm banda larga aos que ainda convivem com um modem ultrapassado no micro – também concebe as páginas-web em função desse aspecto técnico. são “leves”. O enunciador de um portal como o UOL. sofre de limitações técnicas de toda a ordem. etc. Músicas e. Cada uma das opções de concepção de um site também revela o tipo de público para o qual ele foi pensado. Isso significa que não é possível tirar proveito de uma série de opções de design gráfico. Fotos.que.simbolismos cristalizados).

tanto para encontrar o que se pretende quanto para o descarregamento de informações na tela de qualquer usuário. Portanto. Essa estratégia “racional”. Isso porque o internauta. Nenhum outro jornal estudado tem tantas manchetes. Em função disso. ao entrar na página inicial e escolher ir para a parte de “Corpo e Saúde”. A falta de variação gráfico-plástica do portal também indica a importância da estratégia de fidelização. A organização textual de pouca variação do UOL aponta que é muito mais vital dar acesso imediato ao que o internauta deseja do que “entretê-lo” durante a operação. Geralmente. de organização. de rapidez. ou “Criança” já mostrou certos interesses que permitem ao enunciador saber como “segmentá-lo”. “utilitarista” da home do portal é quebrada em diversas homes das “estações”. a home do portal é essencialmente utilitária. de investimento em uma relação na qual o internauta sempre tenha segurança de achar o que quer rapidamente porque conhece já os caminhos. Vejamos as homes dessas estações citadas: 287 . o efeito buscado pela principal página web do portal é o de simplicidade. há mais de 40 títulos. “Economia”.e compensar a falta de outros recursos.

288 .

ao contrário da home do portal.A home de cada estação. pode adequar-se ao seu público-alvo. com ícones junto à barra de navegação. além de apresentar menos assuntos. A estação Corpo e Saúde. o número de links e de informações é bem menor. Nas outras estações. também apresenta chamativos fundos laranja e verde. como o UOL Economia. continua privilegiando um contato “racional”. O UOL Criança. Percebe-se um simulacro de um internauta que quer “saber de tudo”. tem uma home construída em cores vibrantes. O internauta que acessa essas duas homes pela primeira vez está diante de estratégias 289 . o que projeta um enunciatário que está interessado em chegar rapidamente à informação desejada. Pode-se observar o volume de informação disponível nessa home. Um site de informações econômicas.

” Tudo é notícia As homes dos portais tornaram mais evidente a elasticidade do conceito de notícia. O investimento num modelo típico de comunicação massiva espelha a fé dos portais na passividade dos usuários. o portal investe na produção de escolhas viciadas. às vezes ideologicamente díspares. Percebe-se o destaque espacial para as “notícias”. uma contraposição às características inovadoras da comunicação on-line.. que quer fazer crer que é atual. de certa maneira. imaginada. A ‘interatividade’ configura-se como fabricação. encontram-se unidades noticiosas sobre a reunião dos presidentes da Argentina e Brasil. porém.de arrebatamento. o que o enunciador considera mais importante. Completa-se. E que deve dar a sensação de acesso rápido ao conteúdo desejado. continua a existir um certo limite técnico com a intenção de buscar e manter a atenção de qualquer enunciatário. ele trabalha basicamente para recompor a emissão centralizada. (. também não utilizam muitos recursos que as tornem pesadas. desse modo. sobre o UOL: “O portal configura-se como iniciativa de introdução do caráter massivo na web que.manchete principal) junto a outras como “Presos rebelados exigem 15 pizzas para libertar reféns”. Há também uma parte reservada para as “últimas notícias” que mostra a existência de um site com informação quente. ou que 169 As homes das estações. simulando ambientes de abordagem individualizada. 169 Nos três casos. Trata-se de tática de dissimulação de seu caráter massivo. transforma a homepage de um grande portal na mais concreta expressão da pós-modernidade. No exemplo citado de 10 de maio de 2005..) Se o hipertexto pressupõe alteração na relação de forças entre autor/leitor. A barra à esquerda remete a assuntos mais específicos ou a mais pontos de interesse do internauta. na maior parte das vezes. a teórica viagem dos “três cliques”. de diversidade de escolhas. 290 . Essas constatações corroboram a análise de Ricardo Augusto Silveira Orlando. A necessidade de satisfazer a públicos distintos. de elementos que atraem o olhar e se colocam para serem “sentidos”. utilizando-se de forte esquema valorativo para impor as alternativas ‘ideais’. de quantidade de alternativas. na mesma página do portal reservada aos assuntos que se querem fazer crer como jornalísticos. torna-se. (“Lula marca novas reuniões com Kirchner e Chávez” . Em outras palavras. em princípio. como um caminho do geral ao particular (home do portal – home da estação – home do assunto específico). mesmo as que apresentam mais estratégias de arrebatamento. Se a Internet abre um modelo todos-todos. pode ser observada a mesma arquitetura de construção.

O portal como um todo é dependente da temperatura das unidades noticiosas. como nos diários. Vale a pena estudar sites para verificar até onde cada um se ampara no prestígio de outras mídias mais “antigas”. Mantém-se desse modo a idéia de que um site. A convivência faz com que os assuntos densos (políticos. Enfim. Uma comparação com os outros jornais analisados torna possível verificar que grande parte da home do portal deve ser preenchida com notícia quente. Citamos o fato de qualquer jornal precisar fazer seu consumidor acreditar que as notícias divulgadas são atuais. a usuários com interesses desiguais que precisam se sentir contemplados no recorte de mundo disponibilizado na home. que dizem respeito a questões de ordem coletiva) percam sua força e as notícias leves (de diversão. o que é novidade ou mera 291 . que envolvem política e economia. Em nenhum outro meio de comunicação analisado essa dependência é tão crítica. para 170 Várias empresas jornalísticas também colocam no ar seus sites valendo-se do prestígio de suas marcas. a apresentadora da Rede Globo. recebe tanta atenção quanto o sujeito lúdico. Serve para gerar o efeito de proximidade temporal entre enunciador e enunciatário. de consumo imediato. que se importa com atividades que lhe dão prazer. Ressalte-se que há mais manchetes para os assuntos políticos do que para os de esportes. entretenimento. tradicionais. por exemplo. em corpo de letra maior em relação ao de outros títulos da home). O sujeito político. principalmente jogos de futebol. é que o portal se utiliza do prestígio de diversos outros jornais para obter autoridade na hora de enunciar as próprias notícias. a identidade já consagrada. as manchetes sobre assuntos “densos”. a cada punhado de segundos. é uma continuação do jornal. O “ineditismo” de um fato é um valor mais importante no portal do que em outros meios de comunicação. de de rápido envelhecimento. Há dois tipos de conteúdos mais valorizados – que ficam no quadrado branco – e recebem maior destaque visual (caso da manchete principal. O UOL também valoriza conteúdos esportivos. como o da Folha de São Paulo. dos mesmos recursos verbais. o UOL instaura um enunciatário que valoriza do mesmo modo os detalhes de um escândalo de corrupção no governo e o resultado de uma disputa entre Santos e Palmeiras. privado do internauta) adquiram respeitabilidade. De um lado. O portal tem o contrato com a cláusula mais rígida. que falam ao lado mais individualista.buscam a curiosidade sobre o “Futuro incerto de Angélica”. econômicos. A “face” virtual busca reproduzir. lembrado por Orlando (2001:244). pertinente. interessado em temas da coletividade. afirmar-se como atual. no uso das mesmas cores. persistem. Precisa. ou seja. numa estratégia de transferência de valor dos pedaços para o todo. 170 É preciso um enunciador autorizado. não uma mídia totalmente diferenciada. O grande destaque dado ao esporte diferencia o portal dos outros noticiários estudados. Nesse sentido. Outro ponto. que tenha credibilidade.

No texto. detalha matérias. com informações da Associated Press.com. e sim substituída a todo o instante. ficou sabendo da prisão de Saddam Hussein em primeira mão. mas a partir da informação de "agências internacionais". portanto.ultimosegundo. O UOL se vende ainda como mídia de outras mídias. correspondente do iG em Israel. Como os outros dois sítios. e não no sábado. O motivo é que a página inicial não é gravada no servidor.) reprodução para manter uma identidade de sucesso. há outras conseqüências desse grande número de vozes a noticiar. O site também apresenta conteúdo diferenciado. ou seja. Com essa reprodução. dentro de uma mesma marca. o que não deixa de ilustrar um pouco o próprio funcionamento do jornalismo na Internet. O efeito pretendido. A Veja. as notícias começaram a ocupar as telas no domingo pela manhã. é o de expansão hipermidiática do jornalismo impresso. da homepage do UOL. Em http://observatorio. A Folha Online anunciou às 8h26. porém. também com informações da IRNA. O Terra anunciou às 8h40. 24 horas após o anúncio da prisão. que a eles se sobrepõe. não pudemos localizar e reproduzir a primeira homepage do UOL que noticiou a prisão de Saddam Hussein. ou mais serviços e detalhes informativos à disposição dos leitores. principalmente. que tira proveito de cada um dos “ethos” dos jornais abrigados no seu servidor para compor um “ethos” próprio. de mídia “completa”. por exemplo. como veremos a seguir. 14 de dezembro. não foi só a de se beneficiar da credibilidade de veículos jornalísticos ao incorporá-los no interior do portal. fornece mais imagens.ig. sons e. 171 Infelizmente. Não há memória. utiliza o site para quebrar a limitação da revista. a página com a primeira notícia sobre o assunto no site. do Observatório da Imprensa. Já a GloboNews publicou a notícia exatamente no mesmo horário que o iG. 172 “Captura de Saddam> Ig foi o primeiro”.último acesso em maio/2005.” 172 (Um reparo: na verdade. mostrada nesse item. já que temos ainda o assunto como manchete principal. um novo canal. A página de notícias da edição online do Estado de S.noticiar.htm . 171 A cobertura da prisão de Saddam Quem acessou os grandes portais brasileiros na manhã de domingo. liga conteúdos de várias edições via links. o dia todo. registraram a corrida brasileira entre os sites para a divulgação da detenção do ex-ditador do Iraque: “Nahum Sirotsky. Ressalte-se que apresentamos. porém. cita a agência iraniana IRNA. é de a segunda-feira.Paulo deu a informação às 8h43. já que os subordina.br/artigos/mo161220031. no Folha Online. As atualizações na Internet são continuas. às 8h32. colheu informações junto a agências estrangeiras. A estratégia do UOL. foi o primeiro jornalista a serviço de um veículo brasileiro a dar a notícia da captura de Saddam. acreditamos que os objetivos do trabalho podem ser alcançados. nem todas positivas para o portal. No entanto. que é a de apresentar fatos com intervalo de uma semana. portanto. não informando quais lhe serviram. Beatriz Singer e Dennis Barbosa. como “nova mídia”. 292 . O Último Segundo saiu com a informação às 8h32 no sábado. A página capturada.

Pollyana Ferrari refere-se a essa lógica como de “empacotamento” e “empilhamento” de informações (2004: 19 e 50). ou a “disponibilização” rivaliza com o próprio impacto do que é divulgado. Devemos relembrar que o ethos da marca é beneficiado pelo valor da notícia e também pela forma de divulgá-la. o valor da notícia também se relaciona com o fato de a novidade estar rapidamente disponível para consumo. Aurélio) perde um pouco o sentido em função de seu caráter de enorme fragmentação. o “tornar consumível”. a apresentação de um menu de notícias em constante renovação é uma das estratégias para a dar sensação de máxima atualidade ao material divulgado. no jornalismo do UOL. O noticiário tem uma fragmentação enorme porque está submetido a um procedimento de edição (como ato) completamente diferente em relação ao realizado pelos outros jornais. não havia sequer a certeza de que a informação procedia: 293 . Retomamos a última questão sobre a sensação de rapidez do portal. mas também problemas. Na Internet. No UOL. Essa corrida pela “disponibilização” das novidades traz vantagens. Na Internet. A própria idéia de notícia como “resumo de um acontecimento” ou “exposição sucinta de um assunto qualquer” (Dic. pode-se observar que. Quando o UOL citou a prisão de Saddam pela primeira vez. o mais rápido é sancionado como o mais competente.Por esses comentários. por exemplo.

Às 9h53.Nem mesmo o departamento de defesa norte-americano confirmou a notícia. de terno e gravata. outra notícia: 294 . preparada muito antes para a ocasião: “Saiba mais sobre Saddam Hussein”. Às 9h08. E o portal foi publicando e empilhando as notícias por ordem de novidade. em 1937. Novidade mesmo. só nas primeiras linhas. Em seguida. a Folha Online liberou uma matéria de arquivo. nova manchete: “Governo provisório no Iraque anuncia captura de Saddam. Lia-se o lead sobre a prisão e todos os 11 parágrafos restantes contavam a trajetória do ex-ditador em ordem cronológica a partir do nascimento dele. Via-se uma foto de Saddam sorrindo. Mas já havia uma tentativa de contextualização. Às 9h36. o panorama mudou. EUA não confirmam”.

O ex-ditador terminou detido após se esconder em um buraco. o internauta ficou sabendo que Saddam foi preso dormindo. nova atualização do Folha Online: 295 .Nesse texto. informação que depois foi desmentida pelo exército dos EUA. Às 10h30. na versão dos militares norte-americanos.

desmentidos. a maioria já conhecida. a Folha Online dava destaque para a confirmação da notícia pelo governo norte-americano. a de que Saddam estava preso “sob forte vigilância”. As notícias mais atuais iam corrigindo as informações. foi disponibilizando informações sobre o assunto em outras estações. como a recompensa oferecida pela captura. com mais informações. Nesse último espaço. links para mais detalhes e imagens no final da página: 296 . o Internauta passa a conhecer a “nota oficial do governo provisório do Iraque”. anunciava a prisão. um texto da BBC Brasil também falava da captura e tinha um link para o site da agência. colocava um mapa. Às 10h08. às 9h59. Além de uma obviedade. porém.Dessa vez. ao mesmo tempo. Não houve. Às 10h12. ficava-se sabendo pelo relato da agência Reuters que o ex-presidente iraquiano “usava uma barba falsa” no momento da prisão. uma pequena nota de quatro linhas da agência France Presse. como no UOL Últimas Notícias. A informação não era verdadeira. no mesmo espaço. O portal.

297 .

em Washington 15/12/2003 03h35 .France Presse.Paulo 04h36 . de Nova York 03h52 . em Washington 18h01 . em Mossul (Iraque) 19h42 . A seguir.Veja os principais trechos do discurso de Bush após prisão de Saddam . em Dubai (Emirados Árabes Unidos) 22h50 .France Presse.France Presse 17h18 .SÉRGIO DÁVILA da Folha de S. 14/12/2003 09h53 . em Bogotá 298 .SÉRGIO DÁVILA da Folha de S. em Bagdá 16h44 . em Islamabad (Paquistão) 22h54 .Human Rights Watch defende julgamento de Saddam sem "vingança" .France Presse.France Presse.Folha de S.EUA confirmam prisão de Saddam Hussein .Acabou a "era de trevas". em Washington 21h06 .Paulo 04h49 .Veja a lista dos dirigentes iraquianos presos ou mortos pela coalizão .Canadá felicita forças da coalizão por captura de Saddam Hussein .France Presse. estão notícias sobre outros temas.Tribunal Penal iraquiano poderá julgar Saddam Hussein .Morre ministro filipino das Relações Exteriores .France Presse. em Washington 15h32 . o que ilustra bem a idéia de “empilhamento” na forma de um menu. mostramos todas as manchetes e a ordem de disponibilidade das notícias no site. em Lima 21h35 . diz Rumsfeld .France Presse.Veja a lista das pessoas mais procuradas no mundo . em Paris 21h33 .A partir daí.Iraque apresentará à ONU projeto de cessão de soberania .France Presse.Bush diz que prisão de Saddam não encerra guerra ao terrorismo . em Washington 13h32 . em Islamabad 19h02 . em Bagdá 10h03 .Bush fala sobre prisão de Saddam às 15h .Paulo 04h08 .SÉRGIO DÁVILA da Folha de S."Regime terrorista terminou" no Iraque.JEAN-LOUIS DOUBLET da France Presse. em Taipe 21h22 .France Presse.Presidente paquistanês escapa de atentado no norte do país . prisão de Saddam ajuda Bush na eleição .France Presse.France Presse.France Presse.Saddam dormia quando foi capturado. em Tóquio 22h45 . em Brasília . em Madri 17h05 . no qual o internauta tinha acesso aos detalhes.Especialista do Exército dos EUA é morto em explosão no Iraque . diz TV .Folha Online 10h48 .CÍNTIA CARDOSO da Folha de S. sensação é de alívio e medo . em Paris 20h17 .France Presse.JEAN-MICJEL CADIOT da France Presse.France Presse.Vídeo com imagens de Saddam Hussein é exibido . em Washington 16h32 .Análise: Resistência deve diminuir com captura de Saddam .Captura de Saddam Hussein beneficia governo Tony Blair .France Presse.France Presse 11h46 .Captura de Saddam pode ajudar Bush nas eleições de 2004 . Em vermelho.France Presse. diz Conselho de Governo . em Washington 23h25 . a Folha Online vai apresentando novos detalhes e as repercussões.CAROLINA VILA-NOVA da Folha de S.JOÃO SANDRINI .Prisão de Saddam causa euforia e descrença em iraquianos . em Bagdá 20h04 . afirma Rumsfeld . em Londres 20h55 . diz George W.Cálculo de mortos pelo regime de Saddam chega a um milhão .General da antiga Guarda Republicana de Saddam é morto a tiros . em Buenos Aires 19h25 .Veja a cronologia da Guerra do Iraque – Folha Online 11h25 .Líderes mundiais expressam satisfação pela prisão de Saddam Hussein .France Presse. em Bagdá 19h22 .France Presse.France Presse 19h19 .Negociações sobre a Coréia do Norte podem ser adiadas para 2004 . Cada título era também um link.EUA escolheram cuidadosamente imagens do vídeo de prisão de Saddam .France Presse.France Presse. diz revista .France Presse.Dois franceses morrem em acidente aéreo no noroeste da Colômbia .Rice questiona efeito da prisão de Saddam em ataques contra coalizão .Paulo 05h05 .France Presse. de Buenos Aires 05h37 . em Montreal 20h25 .Carro bomba explode no centro de Bagdá .Saddam Hussein será julgado por magistrados iraquianos .Quatro soldados americanos são feridos em ataque no Kuait .Folha Online 15h45 .Saddam Hussein será tratado como prisioneiro de guerra.Captura de Saddam é oportunidade para a paz.Folha de S.Folha Online 16h17 .Folha Online 18h55 .Saddam Hussein foi retirado do Iraque logo após captura.Ex-aliado aponta ação de De la Rúa em suborno .France Presse.Coalizão anglo-americana ainda procura 14 ex-dirigentes iraquianos . em Washington 18h07 . em Bagdá 17h29 .Para assessor brasileiro.Paulo.Igreja católica peruana pede perdão por violações de direitos humanos .Blair diz que prisão de Saddam traz "reconciliação e paz" ao Iraque . em Washington 15h52 .Em Bagdá. em Washington 19h05 .Alemanha e França cumprimentam Bush pela captura de Saddam .Reuters 10h12 .Folha Online 11h55 .Paulo 05h14 .France Presse.Paulo 05h36 . em Washington 05h46 .Cantora Lauryn Hill ataca Igreja no Vaticano .Presidente afegão defende manutenção de poderes na nova Constituição .France Presse.France Presse.Saddam Hussein será tratado como um prisioneiro de guerra.Membro do Conselho Iraquiano afirma que Saddam permanece no país 18h51 .Tumulto em show na Argentina deixa 20 feridos e 110 detidos .SÉRGIO MALBERGIER da Folha de S.France Presse. em Paris 21h14 . em Nova York 19h56 .Folha de S. em Paris 05h49 .Folha Online.France Presse.Site do Pentágono celebra a captura do "ás de espada" .EUA ofereciam recompensa de US$ 25 mi por Saddam Hussein .Al Arabiya volta ao Iraque sem permissão para cobrir prisão de Saddam .OLIVIER LUCAZEAU da France Presse.Códigos da operação para capturar Saddam foram inspirados em filme – France 20h15 . A prisão de Saddam dominou os assuntos do site. em Washington 22h58 .France Presse.Paulo 05h24 .Análise: Prisão do ex-ditador dá alento a abertura árabe .Saddam nega ter arsenal e não coopera em interrogatório. diz Kofi Annan . em Bagdá 11h02 . Bush .France Presse.Veja nota oficial do governo provisório no Iraque sobre a captura de Saddam .Sentimentos se dividem no mundo árabe após prisão de líder anti-EUA .Presidente do Paquistão confirma que foi alvo de atentado .Paulo. diz Rumsfeld .France Presse.France Presse.

mas circunstância inerente à urgência de informar. É preciso ressaltar que o internauta tinha na tela do computador o que de mais recente era divulgado sobre a prisão do ex-ditador. por exemplo. individualmente.agência Lusa.France Presse.Ataque suicida mata oito iraquianos em Bagdá .Paulo 07h17 .Saddam pediu para negociar sua prisão. Jornalismo Digital.Estudantes fazem manifestação pró-Saddam em Tikrit . infográficos e muitos outros recursos para contar detalhes de uma notícia. Percebe-se. dia de pouco jornalismo “quente”. remete às agências de notícias na maioria dos momentos. Não houve.Sem banheiro. O auge da divulgação aconteceu entre a manhã e a tarde de domingo. por sua vez.Saddam Hussein será levado a julgamento. 173 299 . É possível notar que o material mais factual. em Washington 15h39 . na acepção jornalística.Lula felicita Bush pela captura de Saddam Hussein . sons.Folha Online 12h48 .Cruz Vermelha pretende visitar Saddam Hussein .Folha Online 13h50 . um enunciador cedendo voz a outro que tem mais autoridade para cumprir o papel de informar. diz Bush .France Presse/Folha Online 08h12 . ao que tudo indica. em Lisboa 09h31 . em Wellington (Nova Zelândia)/Folha Online 08h32 . O portal UOL dá voz.France Presse.Colin Powell faz operação de câncer de próstata . à Folha de São Paulo em sua versão on line que. O contato do enunciatário com o empacotamento contínuo de notícias. Rádio e TV das grandes redes nem contam com edições de seus principais programas no final de semana.Folha Online 11h07 .France Presse.Após captura de Saddam.Folha Online Devemos lembrar que outras partes do portal também foram sendo atualizadas.Folha Online 07h41 . Não houve correções das informações conflitantes. poderia fazer. 173 Dito de outra maneira. O livro de Pollyana Ferrari.JOÃO BATISTA NATALI da Folha de S. em Ad Dawr (Iraque) . esconderijo de Saddam é decorado por arca de Noé .France Presse.Comentário: Imagens da TV desumanizam ditador deposto .Governo australiano apóia pena de morte para Saddam .05h41 .Irã prepara denúncia contra Saddam em tribunal internacional . diz UE . textos. Do ponto de vista do gerenciamento do nível de atenção.France Presse.France Presse.Detenção de Saddam é um "passo para a paz" no Iraque.Nova Zelândia se opõe à pena de morte para Saddam . um tipo de estratégia de sustentação que tem grande peso nos sites noticiosos. no caso da cobertura da prisão de Saddan. o de possibilitar o acesso a uma série de recursos de hipermídia para contextualizar a história de uma maneira que nenhum outro jornal.Folha Online 07h13 . porém.Prisão de Saddam fortalece Bush antes de eleição presidencial de 2004 . não é sentido como defeito. em Washington 13h40 . acredita a autora. EUA prendem antigos membros do regime . em Teerã (Irã) 12h31 . é uma fragmentação que contraria os prognósticos mais otimistas em relação ao chamado “web jornalismo”. apresenta justamente essas possibilidades que.Prefeitura de Fallujah é saqueada por partidários de Saddam .EUA dizem ter capturado outros ex-dirigentes iraquianos .France Presse. organização desses recursos para apresentar a prisão de Saddam em alguns casos.Saddam pode ser condenado à morte.Segurança é reforçada no Vaticano após advertência de Israel . em Washington 07h01 . em Bruxelas 10h36 .Folha Online 14h37 . foi dando lugar ao especulativo. diz comandante . como veremos depois. ainda não foram corretamente aproveitadas.France Presse/Folha Online 09h36 . em Fallujah (Iraque) 14h11 .France Presse. O preço. no entanto.Folha Online 15h29 . filmes. um site pode apresentar fotos. a fragmentação narrativa em dezenas de textos tem inúmeras conseqüências. diz líder iraquiano . Uma conseqüência da fragmentação narrativa é a curiosidade de acompanhar o desenrolar da história.

no Jornal Nacional. e de uma semana na revista Veja.Ao contrário. Percebemos também que. por sua vez. dava acesso a mais e mais dados sobre a prisão do ex-ditador. 300 . prisão de Saddam ajuda Bush na eleição” . serviços nas estações. A barra das estações está em vermelho. em azul. Enfim. que pode ser de alguns minutos ou de algumas horas. foi de mais e mais empilhamento. esse texto criava um outro texto maior que. na Folha de São Paulo. Saddam não resistiu à prisão Esses links. eram matérias anteriores. o que cria quatro regiões distintas (serviços para usuários. Essa hierarquia fica evidente no que aparece na primeira página do próprio portal. a contextualização significou somente apresentar ao internauta links que remetiam a outros textos da lista de notícias. é preciso escolher uma manchete que. Um portal. o seguinte conjunto de links: • Site do Pentágono celebra a captura do "ás de espada" • Veja a cronologia da Guerra do Iraque • Com barba e roupa de camponês. As manchetes da home têm como critério de escolha não somente o que é mais atual. tenha também maior repercussão em relação a outras notícias. em vermelho. por exemplo. Na matéria das 16h44 do dia 14 . mais o que é potencialmente mais atrativo num dado período.o final do texto apresentava em “Saiba mais sobre Saddam Hussein”. 14h54: 174 174 A primeira página mostra um estágio anterior em relação à home analisada. Há menos destaques cromáticos para os blocos de informação. de 24 no Jornal da CBN. notícias em branco e e-commerce em cinza e branco). Na Folha Online. por sua vez. a sensação. por mais que o empacotamento tenha como coerção um ordenamento temporal. é o único noticiário estudado que não se organiza na forma de edições. há espaço para o enunciador fazer escolhas do que o enunciatário deve valorizar. que tem um intervalo de tempo fixo. devemos relembrar.“Para assessor brasileiro. além de efeito de atualidade. A reprodução a seguir da primeira página do UOL foi feita na segunda-feira. Em um portal.

Tentavase atrair a curiosidade do internauta que queria saber as reações do ex-ditador já no cárcere.A notícia principal sobre um Saddam não cooperativo foi pinçada de uma série de outras possibilidades. estava sendo apresentado à novidade. ao chegar à home. Desse modo. o portal tentava conciliar os interesses de um público que já tinha tomado contato com a notícia e de outro que. que abordavam o julgamento do ex-ditador. uma escolha cuidadosa. no entanto. 301 . Pode-se notar. As outras notícias contextualizavam o assunto e mostravam os primeiros textos interpretativos.

e em outras partes do site. o internauta seria levado à parte de Mídia Global (a seguir) e ao site “Especial Iraque”. Obviamente havia ainda o empacotamento. O portal ainda apelava às estações UOL News. como a Folha de São Paulo. Temos um desdobramento da primeira lei de diagramação que é exclusiva do portal: a importância de uma notícia está ligada ao número de manchetes e links a ela associados. ouvintes e leitores dos outros noticiários analisados. A manchete principal e as três submanchetes no retângulo de destaque não deixam dúvidas sobre a valorização do assunto. o valor do assunto não ocorre somente porque o título tem um corpo de letra muito grande. algo muito diferente do que estava à disposição de telespectadores. Se clicasse no link da manchete principal. UOL Jornais e UOL Revistas para mostrar ao internauta que nesses espaços também a detenção do ex-ditador teria máximo destaque. Como esse seria o caminho natural do internauta que tomava o primeiro contato com a notícia.A home do portal apresentava sete possibilidades distintas de entrada para o assunto “prisão de Saddam”. Ao contrário de um jornal impresso. o usuário do UOL não encontrava na home do UOL Mídia Global. Pelo menos nessa seqüência de fragmentos sobre a prisão de Saddam. 302 . pode-se observar como a novidade aparece contextualizada.

foram buscar tudo na mesma fonte: o exército dos Estados Unidos. Encontramos a mesma cobertura figurativa. O internauta podia fazer as associações que desejasse entre os links à disposição. Bush como o destinador-julgador. Pode-se questionar. é possível observar as mesmas posições actancias já vistas nos outros noticiários estudados: Saddam como anti-sujeito. O presidente dos EUA também aparece como sujeito com plena competência para prender e aplicar sanções. No entanto. se uma análise desse tipo é possível na Internet. Não há links para visões contrárias. Mas o fato gerador. Para finalizar. por sua vez. a prisão de Saddam. Novamente surgem os Estados Unidos como paladinos da democracia e vingadores da maioria do povo iraquiano. principalmente fotos e filmes de maior impacto no público. A maior parte do material. examinemos a visão de mundo que emerge dos textos “empacotados”. as agências de notícias internacionais que. teve a mesma origem. começava a envelhecer. inicialmente. já que há diferentes enunciadores.as “últimas notícias”. 303 .

304 .

ao modelo de análise proposto. Com a semiótica. Um grupo procurava maior formalismo dos modelos da teoria. de “histórias de bastidores”. recorremos ao que já ficou definido como semiótica “clássica” (Greimas. 305 . ao mesmo tempo. persuadido de que a vocação da semiótica é contribuir com a metodologia das ciências humanas e sociais”. Outro se interessava pelo “dinamismo das estruturas”. inclusive de jornalistas. Fiorin. No jornalismo. Greimas e Courtés (1991: 9 e 10) afirmam que os pesquisadores da teoria que participaram da obra em meados da década de 80 mostravam três tendências principais de encarar o próprio fazer semiótico. Courtés. Já as questões afetivas motivaram incursões nos estudos da semiótica tensiva (Tatit. Discini. citamos certos estudos comuns: técnicos. por questões tensivas. 175 Trecho original da tradução espanhola: “Un sólido núcleo trabaja. a da semiótica francesa. segmentadores. trabalhava “na conquista de novos territórios no aprimoramento do instrumental. Essa busca de ferramentas de investigação de objetos jornalísticos norteou todo o nosso trabalho e foi possível graças à existência de uma perspectiva teórica clara. por uma contínua ampliação do campo de estudo. Zilberberg. generalizantes. em la conquista de nuevos territórios y en afinamiento del instrumental. atraentes. As várias maneiras de ver e de fazer a teoria são compatíveis e complementares. Essas análises são indispensáveis.Qualquer pesquisador escolhe um ponto de vista para conceber e analisar um objeto. mostrar estratégias gerais. Análises sobre o hábito e o consumo de longo prazo tiveram apoio nas reflexões da sociossemiótica (Landowski).175 O resultado final de nosso trabalho ilustra como o desenvolvimento da própria semiótica não se dá por rompimentos. persuadido como está de que la vocación de la semiótica es contribuir a la metodologia de las ciencias humanas y sociales”. dinâmicas. cotidianas. Na apresentação do segundo Dicionário de Semiótica. adequar outras contribuições. pudemos utilizar. desenvolver e adaptar elementos teóricos e metodológicos já existentes e. O último. por último. Floch. para adaptar conceitos comuns no jornalismo e na comunicação. Barros. Só que também é preciso construir conhecimento para examinar os jornais como instrumentos de persuasão e de poder em suas manifestações concretas. mas por novas aquisições. fugazes. Fontanille). entre outros). Teorização proposta reúne várias orientações dentro da própria semiótica A análise mais integral do objeto jornalístico que foi proposta se valeu de estudos de semiótica bastante distintos. No exame do conteúdo.

Fizemos também questão de separar os efeitos persuasivos mobilizados pelos jornais. eles devem exercitar a objetividade. Foi apresentado o conceito de “neutralidade” de uma outra perspectiva para evitar a confusão entre efeitos de objetividade mobilizados via enunciação com o que é considerado “texto objetivo” para jornalistas e pesquisadores. Investigar o fenômeno da atenção em um programa de rádio ou de TV. de uma análise mais integral dos maiores noticiários brasileiros. 306 . de um site. Sem atrair e manter a atenção de grandes fatias do público-alvo. das coerções do jornalismo como atividade. sustentação e fidelização) apontam um caminho proveitoso. O dever-fazer jornalístico não pode ser confundido com o fazer-crer das empresas de comunicação. como profissionais. na discussão sobre relações entre semiótica. impõe um olhar menos fragmentado a qualquer estudioso. comunicação e jornalismo. mostrou-se como a teoria pode dar contribuições ao jornalismo ao discutir seus conceitos-chave. as estratégias de gerenciamento do nível de atenção (arrebatamento.Conceitos-chave e separação entre dever-fazer e fazer-crer jornalístico Já no início do trabalho. parte integrante de uma sociedade que se quer democrática. de um jornal impresso ou de uma revista. qual o argumento de um professor de jornalismo para convencer seus alunos de que. Pensar como os jornais gerenciam o nível de atenção é tentar encontrar resposta à principal pergunta formulada cotidianamente pelos profissionais que criam e sustentam esses meios de comunicação: “O que fazer para que o público-alvo se interesse o tempo todo pelo que apresentamos?” Percebe-se a razão do reinado do marketing e de suas teorias no mundo atual. como o de objetividade. do cientista? Trata-se de uma falsa questão. Uma teoria para o fenômeno da mobilização da atenção Dentro da preocupação maior deste trabalho. relacionados aos interesses das empresas de comunicação. nos cursos de jornalismo. O estudo da atenção proposto é uma das contribuições teóricas desta pesquisa para exame do jornalismo. de verdade. a mesma do pesquisador. que inaugura e mantém a relação entre enunciador e enunciatário. Se tudo é manipulação. não pode legitimar seu recorte da realidade e seus valores ao conjunto da sociedade. de notícia. A separação das reflexões levou em consideração um problema que pode surgir em sala de aula. O jornal depende da tiragem ou da audiência para o exercício de seu poder como ator social.

de 307 . questão sempre citada por teóricos. outro ponto explorado no trabalho e que também pensamos ser uma contribuição teórica rentável para os estudos dos objetos jornalísticos. o webdesign (no portal). sob o comando da edição (como ato). nos dois primeiros. a sonoplastia (no rádio) e a montagem (na TV). Uma notícia que ocupa maior espaço em um diário. Entendemos a ação de editar como um procedimento que envolve todos os níveis de geração de sentido. portal. Semi-simbolismos cristalizados A análise dos modos de textualização dos jornais apontou uma série de acordos de atribuição de importância às notícias. revistas). de novidade. como mostramos. mas pouco investigada. Há semisimbolismos de texto inteiro.Pôde-se notar que o estudo da atenção também motivou um aprofundamento teórico sobre as formas de estruturação dos afetos mobilizados pelos jornais. que produz sentidos estéticos. e temporalmente. Essas convenções são partilhadas entre enunciador e enunciatário e têm como base a organização espacial (nos impressos e na Internet) ou temporal (no rádio e na TV) de elementos do texto. Estão no meio do caminho entre o que seria o semisimbolismo stricto sensu . O mais curioso. daí sua característica de ser o próprio mecanismo global de enunciação no jornalismo. nos dois últimos. profissionais e até pelo público. é produto de estratégias de organização textual complexas. Pudemos verificar que os quatro grupos de jornais analisados - impressos. revistos na perspectiva da semiótica.têm uma organização textual que se dá espacialmente. Separamos o ato de edição (entendido como um trabalho integral de produção de sentido comum a qualquer objeto jornalístico) dos recursos que permitem executar a edição.uma relação entre uma categoria do plano de expressão e outra do plano de conteúdo. por exemplo. Apresentamos o fazer-sentir principalmente ligado a efeitos de atualidade e de empatia. como mostramos. TV e rádio . é que esses semisimbolismos são muito especiais. Estratégias de organização textual: tempo e espaço A manipulação da atenção. e pode facilitar o entendimento da teoria por pesquisadores da comunicação. torná-la possível de diferentes maneiras em cada jornal estudado a partir de coerções de tempo ou de espaço: a diagramação (nos jornais. deve ser entendida como mais importante em relação à outra que toma uma área menor da página. Essa solução mantém termos da prática jornalística.

E que também tem limites. mostraram-se rentáveis para verificar os efeitos de ritmo nos jornais.uma conformidade termo a termo entre expressão e conteúdo. com destaque para as mídias de fluxo. devem parecer objetivos na maneira de noticiar. e do espaço. impede a inteligibilidade do texto. Há perda da atenção em função da impossibilidade de o público acompanhar a evolução narrativa. com a apresentação de textos em terceira pessoa. No limite. Basta que o programa lhe conceda bastante tempo de apresentação. encontrada. de sons. relacionada à variação de planos. por exemplo. Um certo suspense em determinado trecho da narrativa de uma notícia (estratégia de sustentação). o que impõe uma série de efeitos de construção textual. no caso dos programas de rádio e de TV. Trata-se de uma valorização das estratégias de sustentação e de fidelização em relação à de arrebatamento. Já a continuidade gera mais contato sujeito/unidade noticiosa. Ao mesmo tempo. De um lado. Willian Bonner não precisa afirmar a importância de uma notícia. Ritmo nos jornais As reflexões sobre o plano de expressão e a aspectualização do tempo do texto. porém. permite a desaceleração do plano de expressão sem perda de atenção do enunciatário. o que permite maior reflexão. 308 . A descontinuidade aviva uma curiosidade sensorial. foram observados nos jornais verdadeiros sistemas de compensação na hora de noticiar. nos sinais de trânsito. Ethos e outros efeitos de proximidade Os jornais analisados mostraram a necessidade de equilibrar duas coerções quase contraditórias.têm como função permitir a decodificação rápida e eficiente de certos valores em jogo no texto. Há uma sensação de aceleração. principalmente nos jornais e nas revistas. No Jornal Nacional. Muita descontinuidade de expressão mostra ainda valorização da estratégia de arrebatamento em relação às de sustentação e fidelização. fundamental na estratégia de arrebatamento.criatividade . sem um “eu” que assume a enunciação. Diante dessas possibilidades de construção textual para arrebatar e manter a atenção. entre outros recursos. Apresentamos um esquema aspectual do plano de expressão (criação de continuidades ou descontinuidades) e as relações com o plano de conteúdo nos jornais. Foram observados “quasesímbolos”. como a perda de atenção por falta de novidade ou por impaciência. que produzem sentido de convenção culturalmente estabelecida. de elementos. Esses “semi-simbolismos cristalizados” – outro nome possível .e o simbolismo . por exemplo.

mesmo caso do Portal UOL com as diferentes “estações”. vocabulário simples. assim como o próprio JN. Podemos citar como exemplos o Jornal Nacional e a revista Veja. Mais do que afirmar que existe um efeito de enunciação de objetividade (enuncivo) ou de subjetividade (enunciativo). O apresentador do JN Willian Bonner usa sempre terno e gravata. Essa forma de ligação é marcada por um didatismo que impõe uma construção textual que remete à posição de alguém que muito sabe em relação a outro que pouco sabe. o âncora faz brincadeiras com resultados do futebol. Não fala para os seus “iguais”. chega ao requinte de ter uma construção adequada a cada segmento do público. Já a Veja prefere mostrar que sabe mais. compreensivo. 2 . É o caso da Folha.O que simula uma relação professoral. dirige-se aos ouvintes como se fossem amigos. Ambos têm em comum o fato de se dirigirem a um público mais amplo se comparados aos jornais anteriores. como mostrado. no sentido de sujeitos que partilham uma posição sócio-cultural parecida. ao segmentar os leitores. do Jornal da CBN e do Portal UOL. Comparação entre os jornais analisados A tabela a seguir relaciona os jornais estudados e a textualização predominante com o ciclo de produção e a forma de interação: 309 . porém com uma atitude diferente. A revista se apresenta como juiz de tudo o que acontece. explica em detalhes nomes e situações complexas com voz pausada. A Folha. mesmo que o slogan da rede tente construir essa relação. o que significa investir em um ethos amigável.buscam obter e manter a atenção por meio de certa intimidade e confiança entre enunciador e enunciatário. que tentam fazer crer numa relação de mesmo nível com seu público. No Jornal da CBN. O enunciador está em um nível sócio-cultural superior. é importante notar que cada jornal faz uma verdadeira regência de todas as suas unidades e possibilidades discursivas para administrar sentidos que trafegam entre esses dois limites. O necessário equilíbrio entre os efeitos de distanciamento em relação às notícias e de proximidade com o público-alvo gerou dois ethos distintos dos jornais: 1 O que simula uma relação entre iguais.

um texto sincrético. isso sim. de repórteres e de apresentadores. mas tem a possibilidade de obter informações gerais consumindo apenas uma parte do programa Se cada jornal é obrigado a disputar a atenção do público-alvo. Na análise da edição do Jornal Nacional. O telespectador precisa de estimulação a cada segundo. Paulo e Veja De internet Portal UOL De televisão Textualização Ciclo de produção Forma de interação Espacial 24 horas no primeiro e semanal no segundo Usuário define forma de consumo de um número determinado de notícias Predomínio da espacialidade sobre a temporalidade Possibilidade de ser de minuto a minuto Usuário define forma de consumo de um número determinado de notícias Temporal Jornal Nacional De rádio Jornal da CBN Temporal 24 horas Usuário deve adequar-se ao horário e à programação 24 horas Usuário deve adequar-se ao horário e à programação. Se compararmos o que foi divulgado sobre a prisão de Saddam Hussein no Jornal Nacional e nos outros noticiários analisados. têm os laços mais tênues com a audiência. essa “falta de profundidade” não se verifica.Veículo e noticiário Impresso Folha de S. No JN constatou-se uma profusão de estímulos. o JN é bastante dependente da estratégia de arrebatamento. certos limites e vantagens de cada um ficaram demarcados na análise. Para não perder a atenção. O que pode ser observado é. com constante mudança de vozes. Os programas jornalísticos da TV. enquanto as mais de três horas do Jornal da CBN analisado tiveram cerca de 600. Os 10 minutos e 40 segundos da reportagem sobre o ex-ditador do Iraque apresentam 130 segmentações. em que vários conjuntos significantes se organizam para produzir um todo de sentido. de criação de atenção de base sensorial. Tão frágeis que. se aposta na narrativa verbal como procedimento organizador do texto. um impressionante resumo de todas as principais questões sobre o assunto abordadas nos outros noticiários. observou-se como o verbal assume um papel estratégico. por exemplo. certos teóricos acham impossível qualquer conteúdo mais “profundo” nesse veículo de comunicação. de cenas. Para manter o telespectador atento. como foi discutido. São apresentadas curiosidades da história que motivam o 310 .

caso dos impressos. mas prefere construir inicialmente uma lógica “verbal” na qual são intercalados trechos de vídeos. Também realiza outras atividades enquanto ouve o rádio. também impõe uma leitura. de conversa entre amigos. geralmente. Há. de desaceleração. Ambos “espalham” os assuntos. No Jornal Nacional um escândalo de corrupção ou a morte de alguém muito famoso pode ocupar grandes partes ou até o noticiário inteiro. Um noticiário de televisão. só que com elementos de atualização diferentes. a apresentação de uma edição cotidiana inteira dedicada a uma única notícia e a seus desdobramentos é impensável. brinca-se com um assunto do dia. apesar de ainda intenso. ao poucos. de sentidos. Os dois jornais podem começar com um assunto de saúde em um dia. Isso quer dizer que notícias longas devem ser colocadas junto de outras curtas. Falar sobre massacres de Saddam mostrando suas vítimas é muito mais do que redundância ou estratégia de ilusão referencial. O Jornal. Como a rotatividade de enunciatários é muito grande (a rádio chega a medir a audiência em minutos). Há um ir e vir das mesmas notícias. apresentando assuntos mais leves. muito mais preocupados em criar um ritmo do que em organizar rigidamente o material. Existe grande preocupação com a estratégia de arrebatamento. sim. Não há. mais partes do programa serão preenchidas. O enunciatário consome. O Jornal da CBN e o Jornal Nacional têm maior controle do contato do enunciador com a notícia. vê e “comprova” a existência de personagens e lugares citados. tem a possibilidade de fazer uma narrativa visual. Já nos impressos. como o Jornal Nacional. O ritmo acelerado não dá tempo de refletir sobre o que é dito e mostrado. também um noticiário que se desenvolve no tempo. assim. mais páginas para os 311 . valoriza-se um contato mais pessoal. Também precisam iniciar muito tensos e irem. que também inclui todos os outros noticiários estudados. Para tentar mantê-lo “ligado” à apresentação.engajamento do público para saber mais detalhes – estratégia de sustentação. no entanto. No Jornal da CBN. Trata-se da comentada estrutura “happy end”. Pode-se observar um “adensamento” de informações. Momentos de aceleração do plano de expressão são compensados por outros. Somente no Jornal da CBN esse relaxamento não é gradual. com a criação de descontinuidades do plano de expressão para avivar a curiosidade do ouvinte. de segurança pública no outro. Ao contrário do JN. predomínio do verbal diante de outras “linguagens”. e de política no seguinte. o programa é bastante segmentado. Maior o potencial de atenção. uma parte do programa. que tem duração fixa. Nos segundos finais. Uma canção ironiza alguns aspectos da história ou dos personagens. é preciso manter um nível de tensão quase sempre alto até os instantes finais. o ritmo é mais desacelerado. O telespectador ouve. contudo.

proporcionada pela possibilidade de organização dos elementos espacialmente. mais “profundidade”.assuntos considerados mais importantes. menos Veja. no caso de Saddam. a leitura do mesmo assunto nas cinco páginas e meia da Folha demandaria de duas a três horas. Um leitor pode se interessar sobre detalhes da captura. Como o leitor tem maior controle do que quer ler ou ver. as estratégias de sustentação e fidelização têm como base a promessa de apresentação de uma notícia em primeira mão. Se não aparecesse como “juiz”. Na Folha de São Paulo. o Portal UOL pode comercializar as novidades nos menores pedaços possíveis. é muito mais uma coerção do que uma escolha qualquer para construir o ethos do enunciador. fica evidente a necessidade de parecer “excessiva” aos leitores. Optou-se pela diagramação de fotos de conteúdos díspares. Ele espera uma “contextualização” e. É evidente que os jornalistas do diário sabem que poucos leitores vão gastar esse tempo. Veja perderia uma grande maneira de se diferenciar dos outros noticiários. O leitor instaurado pela revista não é o que nada sabe. ao contrário das outras mídias. Os impressos precisam “organizar o mundo” para os seus leitores. a Folha lhe dá mais detalhes. Podemos observar uma estratégia de sustentação específica da Folha. Podemos notar que. Sem ter a obrigação de organizar conteúdos na forma de edições com intervalo de tempo fixo. de edição semanal. Qualquer editoria. deve ter seus assuntos principais mostrados em todas as edições normais. O que está em jogo é tentar convencer o enunciatário de que. A 312 . tem tempo para refinar suas estratégias de arrebatamento e de sustentação. E todos devem encontrar alguma coisa de interesse nas páginas para manter laços com o diário. Buscou-se acirrar contrastes da vida do ex-ditador. o diário apresenta uma série de iscas diferentes para buscar a atenção de enunciatários distintos. ao mesmo tempo. Isso ficou evidente no texto sobre Saddam Hussein. lhes dar um pouco de tudo em uma mesma edição. Se o Jornal Nacional se esforça em resumir a prisão de Saddam em 10 minutos e 40 segundos. No Portal UOL. por saber o que pensa a população iraquiana. Daí a escolha cuidadosa do material fotográfico. Outro. o internauta teve como grande estímulo para manter a audiência ir acompanhando o desenrolar da própria notícia. Todos os noticiários estudados tentam construir efeitos de neutralidade em relação às notícias. mais possibilidades de escolha. Já a revista Veja. O que vale é a “rapidez”. E edições especiais. como a que representa a família unida e feliz de Saddam ao lado das que mostram os cadáveres dos filhos. Quem consulta o UOL tem a chance de ser o primeiro a saber algo “importante”. contudo. um “diferencial” na abordagem da notícia. A voz que tudo sanciona da revista. contudo.

não têm condição de oferecer uma espécie de “menu” de notícias em constante atualização. ele sabe que estará diante de uma hierarquia de notícias em constante atualização. ao contrário. coletivamente. caso da Globo News. Uma analogia entre jornais e restaurantes É possível fazer uma analogia entre restaurantes e jornais.curiosidade sobre a notícia é. ao portal UOL. Na Internet. A característica de fluxo das TVs força os canais de notícias a ocupar todo o tempo com o que for muito importante ou a fazer um rodízio de notícias de destaque. à Folha de São Paulo. criação de necessidades e de satisfação de desejos. mas ninguém é compelido a seguir o roteiro pré-determinado. No rádio e na TV. como no caso da TV e do rádio. um caminho a ser percorrido. Em função de sua importância. Só na Internet o usuário administra esse processo e o adapta às suas necessidades de consumo. Isso significa que o Internauta relaciona-se com a notícia de uma maneira diferente. como fazem portais do tipo UOL. ou ao programa de rádio CBN Brasil. com auto-serviço. Dito de outro modo. a agravar. As mesas de iguarias devem dar a impressão de uma enorme diversidade. O consumidor não tem de ficar adequando seu ritmo pessoal à grade de programação ou a um programa jornalístico específico. as novidades são organizadas em programas com horários fixos. Ao acessar um portal como o UOL. pode submeter-se ao consumo e às necessidades de qualquer usuário. O portal enuncia o tempo todo e. Nos impressos. principalmente na Internet. Quem estipula o horário de consumo é o próprio internauta. faz um “arquivo de novidades”.que traz vantagens a seus consumidores. não há o momento especial. Um olhar dirigido ao Jornal Nacional. É notável que. Inicialmente. O bufê tem um começo. um meio e um fim. Esses noticiários assemelham-se a um estabelecimento do tipo bufê. Basta entrar na home. Até mesmo os canais jornalísticos das TVs por assinatura. contudo. o UOL leva algumas vantagens. cada noticiário. mesmo sabendo-se que cada consumidor tem seus limites. relacionada à sua própria apresentação como “última novidade”. à Veja. Em relação aos noticiários “rápidos” analisados neste trabalho – como o Jornal Nacional e o Jornal da CBN -. os veículos de comunicação impõem um excesso de informação. individualmente. se vende como solução para um problema que ajuda. desse modo. a manipulação do espaço determina certas formas de consumo. É possível ainda 313 . mostra que cada um se vende como produto cujo grande apelo de consumo é apresentar um saber organizado sobre o mundo – mesmo com estratégias distintas . as notícias também podem ser divulgadas em boletins espaciais. juntos.

que pode ser imaginado com base no poder aquisitivo. 314 . deve permitir a escolha de maneira rápida e eficaz do que é considerado mais interessante para ser degustado. O serviço é muito rápido. além da impressão de grande variedade. Para compensar a massificação. Há quem encha o prato só com um item. não se pode escolher. Como ele não pode ir até a comida desejada. sem parar. Em outras palavras. apelar aos sentidos para que. chamar mais a atenção. pois tem outras atividades para realizar. degustam. exista mais consumo. no limite. Alguns vão direitamente para as alegrias das variedades de sobremesas. O arranjo geral. e deve esperar que o alimento venha até ele. Outros colocam grande quantidade da salada da política – sempre valorizada espacialmente. Essa arrumação. A comida vai passando na frente do cliente. A diagramação é justamente a arrumação no dia-a-dia. realiza outras tarefas. Não há muita variedade. pratos especiais. faixa etária. também precisam ficar em recipientes diferenciados. acessível a qualquer consumidor. se ele se distrair. espaços determinados que nunca se alteram para grupos diferentes de alimentos.equiparar o arranjo do bufê ao projeto gráfico de um jornal. e satisfaz a quem não tem tempo a perder. Vende-se também a idéia de que se trata de uma refeição gratuita. no entanto. mastigam mais vezes. em uma localização espacial privilegiada para. dos que querem emagrecer com uma porção diminuta e insossa até os que não têm a menor preocupação com colesterol. e ele não tem como prever quando entrará em contato com o que está buscando. Certos consumidores montam o prato com um pouco de tudo. no entanto. Assim. há partes fixas. O do rádio é no sistema de rodízio. As melhores iguarias são servidas no final. Pensemos as unidades noticiosas como um tipo de alimento específico que se coloca em cada recipiente do bufê. precisa não apenas ser prática. Os que dispõem de mais tempo vão e voltam ao bufê. Uma vantagem do rodízio do rádio é que dura horas. mas também bonita. O empreendimento. Porém. pode ter de esperar a próxima rodada para colocar no prato o item desejado. tudo é servido por gente bem-vestida e educada. Só que a variedade de pratos deve satisfazer desde vegetarianos até os amantes de carnes mal passadas. ou seja. O restaurante também tem um cliente padrão. e portanto. E que exige que o consumidor se adapte ao horário fixo de consumo. com os melhores conteúdos. O restaurante dos outros noticiários analisados seria um pouco diferente. O telejornalismo estudado proporciona um prato-feito em sistema de fast food. mas os ingredientes são pensados para dar conta das necessidades diárias. é montado para uma maioria que engole tudo com rapidez. assim. classe social.

mas arrumado sempre do mesmo jeito. parte interessadíssima em vender uma versão da prisão do ex-ditador iraquiano. tudo não altera o fato de 315 . O Jornal Nacional preferiu uma postura mais distanciada.Já o portal é um bufê sem fim. assim como o portal UOL. vídeos. de jornal para jornal. No principal. No Portal UOL. mas geralmente estão crus ou mal cozidos. e se achar. A função do editor é tornar tudo mais atrativo. Pollyana Ferrari (2004: 44) refere-se ao editor de jornalismo de um portal como um “empacotador”. A Veja construiu dois relatos diferentes. O Jornal da CBN não deixou de ironizá-lo. que muda a cada minuto. ironizou-se a ação norte-americana no final da edição. Saddam vira o bandido dos bandidos. enunciou que considerava a detenção do ex-ditador do Iraque uma notícia de enorme importância. o exército dos Estados Unidos. principalmente o da entrada do restaurante. o consumidor terá de experimentar um pouco de tudo. não foi diferente. O que se alterou. A Folha de São Paulo foi o único jornal que tinha jornalistas no Iraque. a forma de embalagem. Em comum. aparece a prisão como o único fato gerador. todos os jornais analisados foram empacotadores de um relato de uma única fonte. Tentou-se ainda confundir detalhamento com aprofundamento. O efeito de neutralidade buscado pela Folha de São Paulo também não a isentou de participação intensa nesse fazer-crer na importância da prisão de Saddam. Antes de achar. Fica patente que os jornais brasileiros utilizaram um relato principal que já chegou embalado nas redações. No Jornal da CBN. o que reforça ainda mais a posição de mocinho do presidente dos Estados Unidos. Só que o programa inteiro. O consumidor é obrigado a ficar procurando o que quer diante de um enorme número de possibilidades. ao dar grande realce para a prisão. Mais do mesmo O consumidor de informação no Brasil foi bombardeado por inúmeros detalhes sobre a prisão de Saddam Hussein. o que permitiu ouvir os iraquianos. Mudaram os detalhes. Para achar algo. Basta verificar o total de páginas construídas para abordar o assunto. E pode ficar saturado antes de localizar o que realmente deseja. fotos. mas um grupo de jornalistas que dá uma roupagem diferente ao que vem pronto. Ele não chefia uma equipe que corre atrás de notícias. No material sobre a prisão de Saddam. Os produtos são os mais frescos encontrados. é preciso procurar e procurar entre muita coisa ruim. os efeitos com animações. A notícia principal e seu destaque não variaram. foram os elementos de atualização. houve grande valorização do assunto. Nos noticiários. links e dezenas e dezenas de matérias com menor ou maior contextualização e comentários. por exemplo. A apresentação de imagens.

para valorizar o assunto. construir comentários e análises sobre o assunto. que tinha acontecido no sábado e sido divulgada no domingo. constroem um universo para si próprios e o colocam no lugar do mundo externo. dar a notícia da prisão de Saddam em primeira mão com detalhes absurdos. faturamento. Numa das matérias iniciais. como o que previa a pacificação do Iraque na Folha de São Paulo. O que se viu com a análise. em suma. principalmente do Portal UOL. afinal de contas. porém. laços. os jornais de segunda-feira buscaram. E o que se viu foi um espetáculo midiático cuidadosamente orquestrado pelo governo dos Estados Unidos correr o planeta e ser aceito de bom grado pelos jornais porque. pior é Durante as leituras de outros trabalhos para realizar a análise. ouvintes receberam “mais do mesmo”. informava-se que Saddam tinha sido preso com uma barba falsa. Há cada vez mais meios de comunicação lutando por uma fatia de público. mantêm-se num procedimento de se citarem mutuamente. Observou-se durante o estudo das reportagens uma série de exercícios de futurologia que se mostraram errados com o tempo. Ciro Marcondes Filho chama esse processo de auto-referência midiática: “A auto-referência é o mesmo que fechamento de círculo: os meios de comunicação falam de si mesmos. observou-se um certo encantamento com as novas tecnologias de informação. A Internet concentrou um grande número de esperançosos em um futuro de informação menos manipulada. telespectadores. Mais rápido. por exemplo. criam as notícias que de fato deveriam ser buscadas exteriormente. Eles não são a “garantia da verdade dos fatos”. da presença de jornalistas. gerava curiosidade. como a necessidade da reportagem. Muita rapidez e pouco jornalismo fizeram o UOL. mas produzem algo mais simples e não menos importante: outras visões de mundo que podem conflitar e questionar versões oficiais. Como filosofia do ‘eu me basto’. a auto-referência 316 . é que as possibilidades de uma nova mídia não podem prescindir das “antigas” práticas que parecem imutáveis no jornalismo. Outro ponto é que. como elementos de atualização.que houve uma única fonte de informação. transmissão e armazenagem de dados. A análise das reportagens da prisão do ex-ditador do Iraque não deixa de mostrar que leitores. os jornais citaram-se uns aos outros. Atualização e citação Para dar sensação de atualidade ao relato da prisão de Saddam. de todo mundo. internautas.

Demanda crescente de um leitor individualista. Os diários não abrem mão de. ao modo de cada um valorizar ou desvalorizar certas notícias. vive uma longa fase difícil. da imposição de certas obrigações aos leitores. as seitas. estão os assuntos políticos ou de viés político claro (como as mudanças ou rumos econômicos do País). a Folha lança cadernos e outras publicações sobre esses assuntos. Para compensar. A revista Veja. como voz social. ou de regimes inovadores de emagrecimento. em tudo o que é associado à construção de mundos paralelos” (2000:41). Nesse sentido. um assunto que envolve o governo federal pode ter o mesmo peso editorial das novas descobertas da cirurgia plástica. Já a revista Veja. tem sido um sucesso de vendas. temas impensáveis como manchetes principais da Folha de São Paulo. mesmo que os textos sejam carregados de opiniões. As posições extremas foram observadas no grupo dos impressos. ao contrário. Em um texto que fala dos 80 anos da Folha de São Paulo. Trata-se de um tipo de informação que serve ao egoísmo pragmático que caracteriza a mentalidade dominante dos nossos dias. De um lado. Na Veja. como os demais diários do País. E nesse dever. destaca o político quando parece haver curiosidade prévia sobre o assunto. as iniciativas da Folha nos últimos anos indicam uma expansão significativa de um novo jornalismo de serviços. Sucesso e crise Nossos estudos esbarraram na questão do sucesso ou da crise vivida pelos meios de comunicação analisados e a relação com suas escolhas de montagem textual. a publicação tira pleno benefício da condição de ser semanal. Mesmo com possíveis e justas ressalvas. acreditamos que é válido relacionar esses diferentes resultados às linhas editoriais adotadas pelos dois meios de comunicação. assunto que não tinha sido previsto inicialmente.é um processo que se vê em muitos outros campos da sociedade (as comunidades fechadas. o editor do jornal Fernando de Barros e Silva faz uma análise do “novo leitor” e de suas “novas necessidades”: “Vistas em conjunto. ao contrário. essa tendência se explica por uma dificuldade histórica anotada pelo 317 . e das perspectivas do futuro. Parece não haver um “dever-ler” bem marcado. temos a Folha de São Paulo que. que dizem respeito ao lado mais individualista do leitor. Seus jornalistas têm mais tempo para avaliar o está sendo valorizado pelo seu leitor. com uma tiragem que quase não se altera há anos. principalmente do que devem considerar como importante. que todos os dias são valorizados por meio das principais manchetes. as igrejinhas intelectuais). apresentarem-se essencialmente como um meio de comunicação do dever-fazer. em suma.

E o jornal acha necessário encontrar formas de interlocução com essas novíssimas formas de vida política. Freqüentemente. O colunista Clóvis Rossi tem chamado a atenção para o fato de que está sendo gestada uma sociedade civil diferente. quando tratadas como temas coletivos. O crítico julga ter acesso à verdade sobre determinado assunto e recrimina o jornal por não tê-la apresentado “fielmente”. lançando mão de instrumentos de análise que tentem dar conta das dimensões sensíveis. e até brindes. terreno em que o jornalismo sempre lastreou sua legitimidade. 318 . a opinião pública ganha unidade com a convergência geral de idéias. A semiótica e a produção de estados mentais pelos noticiários Os jornais são sempre objetos de muita crítica. também uma construção midiática.Projeto de 1997: ‘O espaço público. diz o texto. Texto faz parte de um site dedicado a comemorar 80 anos da Folha de São Paulo. pulverizada.folha.com. Disponível em http://www1. aparecem como disfóricas para o público. racionais e passionais mobilizadas pelos jornais no seu processo de persuasão. Já a Veja. que cresceu no período. entretanto. Parte dessa mesma concepção de mundo que o crítico jura ser produto de sua mais profunda reflexão pessoal é. ao apostar no “individualismo do leitor”. E como podem atrair o leitor para o jornal? Até agora. mesmo com os suplementos. E não é difícil criticar um programa de TV. A incipiente fragmentação do consenso ideológico dos anos 90 coloca a necessidade de que a exclusão social.” Na mesma análise.. é a quarta maior revista semanal de informação do mundo. portanto.shtml.uol. anômica e flexível. revistas. A crítica tem de ser construída em outro nível. As questões políticas e sociais. uma reportagem em um diário.. cadernos especiais.”176 O problema que se apresenta é realmente preocupante. são instrumentos de poder complexos. não acharam um caminho. o jornalista afirma que “um dos maiores desafios da Folha daqui em diante será compatibilizar os interesses de um leitor cada vez mais encerrado em seu universo individual com um jornalismo capaz de lançar nova luz sobre um espaço público hoje difícil de identificar. receba um tratamento jornalístico revigorado. passa por um terremoto que ainda não se assentou. 176 In “Jornalismo como crise permanente – Fernando de Barros e Silva (editor da seção Painel”). esse atrito é conseqüência de choques ideológicos. mas se dispersa numa segmentação de interesses que desafia a linguagem em comum’.br/folha/80anos/futuro. a Folha e os outros diários em geral. os comentários do âncora em um noticiário radiofônico.(. Os jornais.) Conceito sempre difuso. Último acesso em agosto/2005.

177 Temos convicção de que as investigações realizadas neste trabalho mostraram a operacionalidade e o potencial da semiótica para esclarecer certos procedimentos dos jornais para fazer os valores de seus proprietários e do grupo social ao qual pertencem se transformarem nos valores de toda a sociedade.fflch.usp. Afirmam os dois autores que “a liberdade política não pode se resumir no direito de exercer a própria vontade. Para isso.br/dl/semiotica/fap-fior.. é preciso compreender os mecanismos de que se vale o discurso para conseguir eficácia” – afirma José Luiz Fiorin. apresentado na USP em 19 de março de 2004. Ela reside igualmente no direito de dominar o processo de formação dessa vontade” (2202: 187). esclarece o funcionamento dessas estruturas de dominação. 177 A afirmação consta de resumo de trabalho apresentado pelo professor no Fórum de Atualização de Pesquisas semióticas.htm. disponível no endereço: www..“A compreensão crítica do discurso veiculado pelos meios de comunicação de massa é garantia de exercício pleno da cidadania (. 319 . na nossa concepção. Armand e Michèle Mattelart asseveram que “a era da chamada sociedade da informação é também a da produção de estados mentais”. A semiótica.).

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