UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA

SEMIÓTICA DOS JORNAIS Análise do Jornal Nacional, Folha de São Paulo, Jornal da CBN, Portal UOL, revista Veja

Nilton Hernandes

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Lingüística do Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Lingüística.

Orientadora: Profª. Drª. Diana Luz Pessoa de Barros

São Paulo 2005

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Aos jornalistas
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As histórias pessoais, além de acontecerem, também significam alguma coisa? Apesar de todo o meu ceticismo, sobrou-me um pouco de superstição irracional, como a curiosa convicção de que todo acontecimento que me sucede comporta também um sentido, que ele significa alguma coisa; que por sua própria ventura a vida nos fala, nos revela gradualmente um segredo, que se oferece como enigma a ser decifrado, que as histórias que vivemos formam ao mesmo tempo a mitologia de nossa vida e que essa mitologia detém a chave da verdade e do mistério. É uma ilusão? É possível, é mesmo verossímil, mas não posso reprimir essa necessidade de decifrar continuamente minha própria vida.
Milan Kundera, A Brincadeira

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AGRADECIMENTOS
A idéia de mestre e discípulo parece um pouco estranha. Lembra filme oriental. Mas o que é um mestre? Mais importante do que ter um grande saber, um mestre é exemplo de experiência. No dicionário, a palavra mestre também aparece no sentido de alguém “grande, extraordinário”. É assim que vejo minha querida orientadora, Diana Luz Pessoa de Barros (foto). Nesses anos todos, dedicados a fazer esta tese, ela leu cada linha das várias versões, discutiu comigo todos os problemas, mostrou-me as armadilhas, apontou rumos, incentivou reflexões, deu idéias. Tantas que a considero co-autora do que este trabalho tem de mais significativo. Nessa convivência com Diana, que começou já no mestrado, não obtive apenas saberes. Pude observar a intelectual dedicada, participante, íntegra, coerente. Ficou, para mim, esse exemplo de vida. De que não basta adquirir conhecimentos. É preciso sabedoria, ordenar sempre o que se sabe tendo em vista uma felicidade generosa. Tive ainda outros mestres. Não poderia deixar de citar José Luiz Fiorin (foto), também um modelo de intelectual, de educador dedicado, de rigor e seriedade, o primeiro professor que me recebeu na Letras, me apresentou à semiótica e me deu grande incentivo nesses anos. Também divido com ele tudo de bom que fiz na pós-graduação da Universidade de São Paulo. Minha experiência como doutorando da USP também não foi marcada somente pela forte presença de Diana Barros e Fiorin. Nem por um parto de idéias de 1000 dias, mediado por um Pentium 4, num quarto paulistano, que resultou nestas páginas. Agradeço aos amigos, aos colegas e aos outros professores todo o estímulo que tive. São vivências que já vão se tornando lembranças: as idéias sobre a tensividade do professor Luiz Tatit, a energia adolescente de Norma Discini, as piadas engraçadas e fora de hora de Ivã Lopes, as cutucadas no conservadorismo feitas por Antonio Vicente Pietroforte, a calma hjelmsleviana de José Roberto do Carmo Júnior, as coisas de menina anti-Xuxa de Roseli Novak, o bom humor musical de Ricardo Monteiro, as conversas sobre mulheres e política com Marcio Coelho, os incentivos de Peter Dietrich, a atenção de Marcelo Martins... E tantos outros afetos propiciados por colegas, principalmente do Grupo de Estudos Semióticos da Universidade de São Paulo, o GES-USP. Não posso deixar de agradecer ainda a minha esposa, Geni Marques, e ao meu amigo Hélcio de Pádua Lanzoni pela colaboração e pelas idéias. Vários jornalistas também contribuíram com este trabalho. Meu agradecimento especial a Heródoto Barbeiro e à equipe da Central Brasileira de Notícias, que cederam gravações do Jornal da CBN. Finalmente, cito a FAPESP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, pelo importante apoio na forma de bolsa de estudos.

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RESUMO
Este trabalho apresenta uma ampla investigação do jornalismo e dos principais jornais brasileiros e propõe um modelo de análise dos noticiários com base no aparato teórico da semiótica de Greimas. Há duas grandes divisões. Na primeira parte, de teorização geral, é estudada a relação entre semiótica, comunicação e jornalismo. São discutidos os conceitos de comunicação, notícia, ideologia, realidade, verdade, objetividade. Para obter maior audiência ou tiragem, base de sobrevivência das empresas, os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores, ouvintes, internautas ou leitores nos níveis sensorial, inteligível e passional. O exame desses procedimentos manifesta o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção, estratégia de persuasão que funda e sustenta a relação enunciadorenunciatário. Ainda na primeira parte, são mostradas as duas formas básicas de

organização textual jornalística. O manejo do espaço determina o modo de percepção nos jornais impressos e revistas assim como a administração do tempo organiza a atenção do público no rádio e na televisão. Na segunda parte, de teorização específica e aplicação, são examinadas características de cinco noticiários brasileiros, produzidos no período de quatro anos (2002/2005), que obtiveram maior audiência ou tiragem: Jornal da CBN, Jornal Nacional, revista Veja, Folha de São Paulo, Portal UOL. As ferramentas desenvolvidas, tanto gerais quanto específicas, são usadas e testadas na análise de um fato de repercussão mundial, a prisão de Saddam Hussein, em 13 de dezembro de 2003.

Palavras-chave: jornalismo, jornais, semiótica, Greimas, comunicação

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Key words: journalism. objectivity are discussed. we study the relation among semiotics. two basic forms of journalistic textual organization are also showed. newspaper. Greimas. In order to obtain more audience or issue circulation – important for their survival – the news media need to manipulate the attention of the TV viewer. truth. Portal UOL. intelligible and passional levels. a persuasion strategy that establishes and keeps the relation enunciatorenunciatee. It proposes a model to analyze the news media based on the general theoretical apparatus of Greimas semiotics. ideology. Folha de São Paulo. revista Veja. The examination of these procedures shows what we are denominating the management of the attention level. reality. are used and tested in the analysis of an important fact which gained world repercussion: the prison of Saddam Hussein in December 13. The manipulation of the space determines the way of perception in the newspapers and magazines as much as the time management organizes the public attention in the radio and the television. websites. which refers to specific theorization and application. In the first part. The concepts of communication. The tools developed. we examine characteristics of five Brazilian news media produced in a four-year period (2002/2005). communication and journalism. 2003. communication 7 . both general and specific. magazines.ABSTRACT This work shows a wide investigation about journalism and the main Brazilian news media (newspaper. There are two main divisions. In the second part. news. the radio listener. semiotics. or the readers in the sensorial. Jornal Nacional. television and radio news programs). all of which obtained the highest audience or issue circulation: Jornal da CBN. the internet users. In the first part.

efeitos sonoros.O jornalismo e os jornais na perspectiva semiótica RELAÇÕES ENTRE SEMIÓTICA.estratégias de persuasão dos jornais Enunciação jornalística como narrativa Formas de relacionamento entre jornais e público-alvo Sujeitos marcados nos jornais e modos de relacionamento O fenômeno da atenção A curiosidade e os percursos da atenção Emoção.SUMÁRIO INTRODUÇÃO A revista Veja e a continuação do trabalho Uma síntese entre prática e teorização A semiótica como ligação entre várias visões sobre o jornalismo Objetivos e hipóteses Plano de trabalho PARTE 1 – TEORIZAÇÃO GERAL . repórteres e correspondentes: os actantes da enunciação Tempo e espaço: os efeitos de câmera e edição Montagem e o domínio do tempo 10 13 14 16 17 20 23 24 24 28 30 31 34 37 40 44 47 50 50 52 56 59 57 64 66 70 74 80 86 89 92 98 98 101 106 111 115 116 117 117 119 120 124 130 133 154 154 158 166 169 177 8 . ruídos e a relação com a fala A questão do tempo e do valor da notícia: a prisão de Saddam O TELEJORNALISMO Considerações gerais sobre o telejornalismo e o Jornal Nacional A estrutura do programa Marca. âncoras. paixão e sentimento: a estrutura dos afetos Notícias e engajamento perceptivo Estratégias de arrebatamento e de sustentação A proximidade temporal: o efeito de atualidade A proximidade actancial e espacial: a empatia A proximidade imposta: o sensacionalismo A estratégia de fidelização Exemplo: Jornal da Tarde versus Diário de São Paulo ESTRATÉGIAS DE ORGANIZAÇÃO TEXTUAL: A ATENÇÃO MANIPULADA NO TEMPO E NO ESPAÇO Dois modos de textualização: espacial ou temporal Valorização ou desvalorização da notícia: o semi-simbolismo “cristalizado” Aspectualização: ritmo textual Textualização. COMUNICAÇÃO E JORNALISMO Semiótica e teorias da comunicação Ponto de vista semiótico sobre a comunicação Cláusulas principais do contrato jornal-público Verdade e ideologia O recorte específico da realidade praticado pelo jornalismo: a notícia A isenção impossível: um mesmo acontecimento e três notícias distintas Enunciação e efeitos de objetividade O “efeito de neutralidade” A objetividade como dever-fazer: a ética jornalística O GERENCIAMENTO DO NÍVEL DE ATENÇÃO . inclinação. aspectualização e sincretismo PARTE 2 – TEORIZAÇÃO ESPECÍFICA E APLICAÇÃO OBSERVAÇÕES GERAIS O RADIOJORNALISMO Considerações gerais sobre o radiojornalismo e o Jornal da CBN A sensação de “tempo real” A organização textual e a oscilação entre o ouvir e o escutar A locução como elemento organizador Música.

JORNALISMO NA INTERNET Considerações gerais . suporte e atualidade da notícia Entre o essencial e o acessório: a construção de um leitor fragmentado Os cinco conjuntos significantes manejados pela diagramação Tipos gráficos e novo patamar de semi-simbolismos O fotojornalismo Análise de abordagem: a prisão de Saddam Hussein PORTAL.a Internet e o portal Formas de textualização O efeito de sentido de “infinitas possibilidades” O enunciatário impaciente Tudo é notícia A cobertura da prisão de Saddam CONCLUSÃO Teorização proposta reúne várias orientações dentro da própria semiótica Conceitos-chave a separação entre dever-fazer e fazer-crer jornalístico Uma teoria para o fenômeno da mobilização da atenção Estratégias de organização textual: tempo e espaço Os semi-simbolismos cristalizados Ritmo nos jornais Ethos e outros efeitos de proximidade Comparação entre os jornais analisados Uma analogia entre jornais e restaurantes Mais do mesmo Mais rápido.A prisão de Saddam: um bloco inteiro dedicado ao assunto Relação entre fragmento e duração Uma única enunciação: a fala como elemento articulador Mais questões sobre a temporalização O controle da percepção: o uso ideológico da edição e dos planos de câmera JORNALISMO IMPRESSO Considerações gerais – Folha de São Paulo e revista Veja Organização textual: efeitos do projeto gráfico e da diagramação Divisões do jornal. pior é Atualização e citação Sucesso e crise A semiótica e a produção de estados mentais pelos noticiários BIBLIOGRAFIA 178 204 205 210 211 214 214 216 225 235 242 244 250 259 272 273 276 281 284 290 292 304 305 306 306 307 307 308 308 309 313 315 316 316 317 318 320 9 .

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Apresentam regras e “segredos” da profissão. choques ou união de interesses entre empresas jornalísticas e grupos políticos que. na maioria das vezes. As especificidades do jornalismo não são muito discutidas. Seus autores. No quarto tipo de obras – as generalizantes – há estudos teóricos.são muito comuns na pós-graduação. Quem se propõe a analisar os noticiários vai verificar que esses estudos – que se concentram em detalhes específicos. como o estudo dos títulos de um jornal. não puderam ser trazidos à tona por alguma razão. de maneira geral. cujos autores se ocupam em sistematizar e repassar experiências. filosóficas ou sociológicas de enorme amplitude. capas de revistas em época de eleição. geralmente o medo de o autor perder o cargo e o emprego. São os “manuais”.Trabalhos sobre o jornalismo podem ser classificados. em determinada época. O primeiro inclui as chamadas obras técnicas. famosos e respeitados. Os autores geralmente são jornalistas experientes. em partes de um meio de comunicação ou de um determinado objeto . A atividade jornalística é pensada como algo pernicioso socialmente em função do seu poder de persuasão e do serviço que presta ao capital. a argumentação de editoriais de um grande diário. Eles contam o “outro lado” da profissão. Nesses trabalhos. quando 11 . Este trabalho quer se incluir no quinto tipo de obra sobre essa forma de comunicação . Não raras vezes o jornalismo é marcado por um tom pessimista e linchado em generalizações polêmicas. Podemos chamar o segundo tipo de obras sobre jornalismo como histórias de bastidores. repensando e. análises críticas. Dão dicas para elaborar uma reportagem. em cinco grandes grupos. os jornais aparecem dentro de uma mesma classificação. como “meios de comunicação de massa”. geralmente sem grandes reflexões ou preocupações ideológicas. levantamentos. O terceiro tipo de obras – as segmentadoras – focam um aspecto bastante preciso e particular do jornalismo. Alguns estudiosos fazem a defesa dos aspectos éticos – e freqüentemente esquecidos – da comunicação das principais mídias.as integradoras . relatam discussões que renderam ou destruíram grandes pautas. a governos e a grupos dominantes. grandes pensadores da comunicação. A atividade de noticiar aparece como algo mais ou menos mecânico. Em diversas análises. não raras vezes o jornalista se vinga e se valoriza: deixa seu posto de testemunha e passa a ser personagem principal da história. são acadêmicos. pressões. Os jornalistas oscilam entre vítimas e algozes de injustiças de todos os tipos. os jornais. Ensinam como fazer um telejornal. a melhor “linguagem” para usar no jornalismo de rádio.que analisam o jornalismo e suas conseqüências com base no exame de suas manifestações concretas. Mostram redações por dentro.

a outra ordem de preocupações. Pode-se analisar uma única edição do Jornal Nacional da Rede Globo do ponto de vista da técnica. é que o uso da palavra texto. o Jornal Nacional. As teorias da comunicação ou os diversos estudos sobre o jornalismo. os interesses da família Marinho. É forçoso reconhecer que. Um grupo comparou dois telejornais. incorporando conhecimentos úteis de cada um dos outros quatro tipos de estudos citados. questões que serão discutidas nas próximas páginas. como professor de jornalismo recém-contratado. mesmo claramente definido como objeto de estudo semiótico. inclusive impressos.possível. da rede Globo. uma casa são exemplos de textos semióticos. palavra que utilizaremos neste trabalho para qualquer forma de noticiário: impresso. O trabalho foi apresentado em forma de telejornal. Nossa investigação sobre o assunto. uma peça de teatro. porém. e o Jornal da Record. é importante perceber. a edição. Na medida do possível. como as coerções e os desafios do telejornalismo no terceiro milênio. segmentadoras não dão contam das necessidades do estudo das manifestações cotidianas do jornalismo . Se todas essas formas de análise são valiosas. não produziram ferramentas para desvendar a produção de sentido dos jornais. Em outras palavras. o Jornal Nacional. por outro lado. no entanto. uma música. Portanto. comandado pelo âncora Boris Casoy. com movimentação de câmera e 1 Empregaremos a expressão “objeto jornalístico” praticamente como sinônimo de texto para a semiótica francesa. se difere de outras que podem ser chamadas de integradoras. acompanhamos. enfim – para usar o jargão jornalístico – para os autores se lançarem a outros assuntos. quem manda em quem. o trabalho de conclusão de curso de estudantes de uma faculdade de comunicação no Interior do Estado de São Paulo. parece não ter sido realmente contemplado. E mais: essas abordagens dão a entender que o programa é somente uma justificativa. O problema. apresentar os bastidores. evitaremos esse termo que pode levar um leitor mais desatento a achar que estamos falando da parte verbal de um jornal. pelo menos até onde pudemos localizar. a teoria concebe texto como objeto de significação e objeto cultural de comunicação entre sujeitos. de histórias de bastidores.vários números de uma revista semanal que destacaram determinado assunto. Assumimos aqui uma perspectiva teórica clara. que o objeto de pesquisa. sozinhas. no entanto. técnicas. a da semiótica francesa. de TV. de rádio. 12 . pode trazer alguma dificuldade em um trabalho que pretende analisar noticiários. um telejornal ou um programa de radiojornalismo – e seus efeitos no público. Outra alternativa é uma investigação teórica abrangente. um jornal. via Internet. o padrão de transmissão utilizado. Também se pode estudar o tom de voz dos apresentadores do JN. parece escapar. que tem instrumentos para investigar os objetos jornalísticos1 e pode adequar outras contribuições ao seu modelo de análise. obras generalizantes. um “gancho”. Como veremos depois. Em 2002. É possível. como fizeram as tomadas de câmera do programa.

Na dissertação. portanto. Novamente. falar um pouco do estudo já realizado. de certa forma. O trabalho também revelou outros problemas bastante comuns. Com surpresa. a ampliação e o aprofundamento de questões de nossa dissertação de mestrado “A revista Veja e o discurso do emprego na globalização – uma análise semiótica”. por ter um âncora que analisava tudo dentro de um ponto de vista bem marcado. os mecanismos de construção de sentido. e de jogos entre esses e outros elementos. um jornalismo “objetivo”. de tipologia. formam um simulacro sedutor da realidade que impele os leitores a determinadas crenças e ações. Tentou-se examinar e explicitar o funcionamento de mecanismos de conquista ideológica de um contingente importante da sociedade brasileira. de tipo de argumentação. um grande e sincero esforço.edição impecáveis. era “opinativo”. Elucidar as estratégias persuasivas de Veja trouxe outros desafios. Em vez disso. de infográficos. A conclusão. de fotografias. A revista Veja e a continuação do trabalho Esta tese é a conseqüência e. Não são raros os estudantes e mesmo os jornalistas que confundem uma pesquisa de graduação ou até de pós-graduação com uma “grande reportagem” que prescinde de uma metodologia. como se o analista fosse uma espécie de juiz. O estudo foi confundido com opinião. juntas. inicialmente. A revista é uma sofisticada engrenagem que transmite valores por meio de operações racionais. em verdades aceitas que. os estudantes caíram em uma armadilha. enfim. Eles deveriam concluir o curso não só sabendo verificar essas formas de construção textual. porém. como também entendendo o mecanismo que as produz. Convém. O formato do trabalho dos estudantes também merece comentários. São escolhas de composição visual. nem sequer reconheciam a objetividade como um efeito de sentido que desarma o senso crítico de uma maneira mais eficiente. Mostraram. constatamos que essa construção complexa. as estratégias de persuasão utilizadas. buscou-se investigar como os textos da publicação são construídos. passionais e sensoriais. manejados por uma das principais revistas de informação do mundo. como conseguem transformar recortes e interpretações de acontecimentos em “fatos”. Os alunos entrevistaram jornalistas da Globo e da Record. E que o Jornal Nacional fazia o “melhor jornalismo”. muitas vezes. faltou aos alunos um olhar sobre o objeto-jornal. com julgamento. do que as opiniões e os bordões de Boris Casoy. Enfim. apesar de sua 13 . Os estudantes perderam uma grande oportunidade de pensar sobre seus próprios valores e sua visão de mundo que deram ao Jornal Nacional o veredicto de “o melhor jornalismo da TV”. muito comuns no jornalismo. foi a de que o Jornal da Record.

Essa concepção traz desafios e dúvidas. certos analistas acham que um jornal é só “conteúdo”. Também acreditamos que é vantajoso dar espaço a aspectos de marketing2 e a opiniões dos jornalistas para conhecer melhor o próprio objeto e construir meios de investigá-lo. A utilização de reflexões de teóricos do marketing ajudam a desmontar e a refletir sobre seus próprios métodos de influência. no entanto. o que mostrava maior interesse acadêmico nas “imagens”. Esse conjunto de conhecimentos é chave para entender a força das empresas de comunicação. É por isso que existe hoje uma certa avidez de ferramentas de estudo de meios de comunicação por parte de pesquisadores. Para contrabalançar. principalmente de uma metodologia que dê conta do objeto jornalístico como um todo. que efeitos de um projeto gráfico. As ferramentas teóricas à disposição dos analistas ainda são limitadas. Por outro lado. torna necessário incorporar diversas e importantes investigações que hoje se apresentam desconectadas. Estávamos diante daquele terceiro tipo de publicação discutida há pouco. não apenas de um dos seus aspectos ou pedaços.importância. focado no objeto. transformam jornais em coadjuvante e não no personagem principal de investigação. Estudos técnicos. notadamente capas e fotografias. que persiste. Há uma justificativa para o problema. era pouco estudada. estudantes e professores universitários. uma análise crítica também se faz sempre necessária sobre essa forma utilitarista de ver a comunicação. 2 14 . no reforço do hedonismo e da competitividade. Os jornais apresentam intrincadas e sofisticadas relações entre conjuntos significantes que. devem ser encarados como cosméticos e desimportantes. segmentadores ou generalizantes. por exemplo. As análises sobre a revista que conseguimos localizar se concentravam em partes específicas. isoladamente. Isso sem contar os que defendem a supremacia de uma certa “visualidade” em tudo e em todos os lugares. Nossa vida está sendo dominada por relações cada vez mais complexas de possibilidades de expressão e não pelo predomínio do “verbal” ou do “visual”. Esses trabalhos. ainda são muitas vezes entendidas e analisadas por meio da classificação verbal x visual. O marketing instaura um sujeito consumidor de idéias e produtos como resultado de estratégias complexas. Os estudos sobre Veja não davam conta do objeto jornalístico em sua complexidade. São pontos de vista discutíveis. ou visual e sonoro. porém. interessada somente no resultado. contextuais. de ritmo. apresentam diversas reflexões sobre a teoria e a prática jornalísticas que serão úteis para montar nosso estudo mais abrangente. cada vez mais sagazes e invasivos. Uma síntese entre prática e teorização Construir um trabalho analítico mais integral.

a universidade tem cada vez mais se preocupado com o futuro profissional dos seus estudantes. pode ser comemorado. por exemplo. dirigido por um jornalista elogiado pelo mesmo Cláudio Abramo. são cada vez mais perceptíveis” (2002: 186). os profissionais que fazem tudo “intuitivamente” e. projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Não faz muito tempo.ig. como as relacionadas à objetividade. há os que estudam as formas. Por outro lado. Abramo fazia o seguinte comentário: “Quanto à semiologia. Neste trabalho. Cláudio Abramo. Os saberes sobre a comunicação não escapam a essa tendência. ideologia. De um lado. O que interessa Theodor Adorno e Walter Benjamim para o trabalho diário de jornal? (. utilizamos reflexões dos jornalistas para apresentar e aprofundar questões importantes. concepções cristalizadas tanto em certos setores das áreas de humanidades da universidade quanto nas redações estão sendo vencidas. perto do dia-a-dia das redações e de seus profissionais. ao mesmo tempo. Observatório da Imprensa é conhecido por meio de um site: (http://observatorio. Felizmente. verdade. mecanicamente. eu a gozo muito mas a conheço pouco”. nesse sentido.com. É possível estudar o jornalismo – entre outras formas de comunicação .e fazer uma análise coerente e. Os efeitos do fortalecimento dos discursos especialistas.Lembra o casal Mattelart que “todos os que trabalham com a mídia encontramse hoje afetados pelo positivismo administrativo. técnicas. por esse novo utilitarismo estimulador da pesquisa de ferramentas epistemológicas que permitam a neutralização das tensões via soluções técnicas. O Observatório3 é um bom exemplo de convivência proveitosa entre quem produz reflexão e quem atua profissionalmente. Há vários caminhos para fazer a “tensão ressurgir” nas análises do jornalismo. a existência do Observatório da Imprensa. Hoje. citados e influentes profissionais de jornalismo impresso no País afirmava: “As pessoas que escrevem em jornal têm apenas muita teoria – e.. de outro. ou pesquisadores/teóricos versus profissionais. cuja função explícita é legitimar estratégias e modelos de organização empresarias e institucionais. Em outro trecho de seu livro “A regra do jogo”. só para relembrar. não raras vezes.) As pessoas que deveriam estar treinadas para um certo tipo de prática não estão mais. conteúdos. trazidos pela crescente ‘profissionalização’ das atividades de comunicação.ultimosegundo. não sabem fazer as coisas” (1988: 138).br) 3 15 . Trata-se de Alberto Dines. um dos mais festejados.. as escolas de jornalismo influíram negativamente. Um das possibilidades é ultrapassar a dicotomia “teoria versus prática”.

E o que foi dito até agora parece apontar para uma certa complacência teórico-metodológica. Longe disso. Como Meditsch. As redações e os jornalistas. Há. Greimas. sob pena de perder-se a si próprio na abstração” (2001: 57). Não se quer dizer com isso que é preciso ser jornalista para fazer análise dos produtos jornalísticos. não a pode perder de vista. Infelizmente. que desmonte e revele as estratégias de domínio de um grupo social sobre outros. das revistas. A base teórica da tese é a semiótica de A.empatia. A necessária integração entre teoria e prática tem aqui outras motivações. O texto fundador é Semântica Estrutural. Esta tese aborda os jornais – sempre no sentido amplo já mencionado – na perspectiva da teoria semiótica. não só por pertencer a esses dois “lados”. dos sites ou portais de notícias. convivem com problemas e desafios que poderiam motivar pesquisas acadêmicas de maior interesse e repercussão social. por sua vez. aos críticos e analistas de jornalismo. grandes avanços no conhecimento que não têm chegado às redações. há alguns professores e pesquisadores que desconhecem a evolução da semiótica e ainda a 16 . mas para ajudar na construção de uma ponte cada vez mais indispensável entre as duas formas complementares de pensar e viver o jornalismo. aos professores de comunicação. principalmente os técnicos. de A. critério de verdade e finalidade última. principalmente da Universidade de São Paulo. J. segmentadores e generalizantes. Os trabalhos citados. na universidade. Pretende investigar os principais noticiários brasileiros de um ponto de vista mais integral e. A teoria semiótica atual desenvolveu-se a partir do estruturalismo dos anos 60. A semiótica como ligação entre várias visões sobre o jornalismo É evidente que reflexões sobre a comunicação jornalística partem muitas vezes de concepções diversas e nem sempre convergentes. Greimas e seguidores. são revistos nesse quadro teórico-metodológico dentro do objetivo de investigar o processo de significação dos programas de TV e de rádio. ritmo e compor um modelo de estudo amplo e operacional. J. Embora o trabalho teórico envolva um distanciamento dessa prática. aos sindicatos da categoria. como é próprio dos estudos semióticos. acreditamos que “o verdadeiro conhecimento depende da prática. Queremos dar nossa contribuição. a partir do objeto. uma vez que é nela que se encontra o seu fundamento. dos jornais impressos.

e o aponta como estudioso do “signo e dos sinais”. dinâmicos. A construção de um modelo específico para a análise dos objetos jornalísticos impõe o desenvolvimento de alguns aspectos teóricos. grande inspirador de Greimas. por exemplo. com questões ligadas às estratégias que apelam à emoção e aos aspectos sensíveis dos textos. com a produção de sentido em objetos que unem várias “linguagens” de manifestação. Os estudos da enunciação. A semiótica de origem francesa é uma das teorias que mais têm se preocupado. da tensividade. cuja “filiação filosófica ou epistemológica é o estruturalismo”. apesar de a bibliografia ser pouco divulgada fora do ambiente acadêmico. Objetivos e hipóteses As reflexões anteriores justificam os objetivos principais de nosso trabalho: • Buscar. por exemplo. diversos livros de semioticistas do mundo inteiro foram publicados. com reflexões relevantes para se entender a comunicação como teoria e como ato. ao mesmo tempo. O desenvolvimento da semiótica. das paixões. de enfrentar o chão menos seguro de objetos que não se apresentam claramente estabilizados. em sua obra O espelho e a máscara (2002). Ao mesmo tempo. a eficácia do controle ideológico de populações inteiras fazem da semiótica uma ferramenta não só atualíssima como necessária. revela a vontade crescente dos pesquisadores de aceitar os desafios. A complexidade crescente dos fenômenos da comunicação. Ciro Marcondes Filho. fugazes. aparece na escola de “semiologia contemporânea”. as investigações sobre o plano de expressão e suas características sensíveis. de abarcar cada vez mais questões em seus trabalhos. pensam hoje os objetos na sua vibração contextual. sobre o estético. cada vez mais enriquecidos.4 Na busca por bibliografia atual sobre o jornalismo e a comunicação. Hjelmslev. Os semioticistas. 4 17 . encontramos certos autores que faziam questão de se mostrar apartados de qualquer concepção que julgavam “estruturalista”. Nos últimos anos. propostas que se mostrem mais operatórias para compor um modelo de investigação dos objetos jornalísticos. É o Em um quadro sobre “as escolas teóricas da comunicação”. na evolução da teoria. sobre o corpo e a percepção não deixam dúvidas de que o sujeito semiótico está cada vez mais complexo e. mais “humano”. no aparato teórico geral da semiótica.associam somente a estudos pioneiros de quase quarenta anos. esses mesmos pesquisadores se batiam com problemas para os quais a semiótica há décadas formulara propostas que poderiam ser úteis nos seus trabalhos. coloca Greimas em “Semiologia clássica”. o surgimento de novas mídias. na construção de uma gramática do sentido.

O modelo proposto. sobre os modos de textualização. já que a característica mais evidente de um texto jornalístico dos grandes meios de comunicação é o uso de diversos conjuntos significantes para manifestar um único conteúdo. É preciso entender como o verbal. certos exemplos de reportagens. é a base para a segunda reflexão. Outro desafio do trabalho é mostrar a operacionalidade da teoria. notadamente. • Desenvolver um modelo de análise semiótica: 1. por sua vez.dos maiores noticiários brasileiros. de comentários. pode estabelecer uma eficiente ligação entre diversas formas de abordagem do jornalismo e manter coerência metodológica. portanto. de outro. a verdade. por abordar o texto no seu aspecto estrutural. as logomarcas e muitos outros elementos se relacionam para produzir sentido e servir ao propósito de persuadir o público. Não se pretende desvendar os conteúdos dos jornais. e.do jornalismo. a empatia. • Construir conhecimento sobre o jornalismo e os principais noticiários brasileiros a partir das possibilidades teóricas da semiótica. portal (Internet). há maior interesse em investigar como o jornal veicula valores do que os valores transmitidos. e de outras unidades dos noticiários estudados irão motivar e justificar uma discussão sobre conteúdos. de caráter mais amplo. e relacionado a um contexto demarcado. de um lado. divididos em quatro grupos: jornal e revista impressos. e como objeto de comunicação. Produtos jornalísticos são semióticas sincréticas. que se concentra em objetos concretos de cada um dos quatro grupos. Dito de outro modo. O trabalho com produtos específicos. 18 . A semiótica. inserido numa sociedade de classes. integrando diversas contribuições na busca de uma visão mais integral dos objetos jornalísticos. determinado por formações ideológicas. A primeira investigação. Serão apontadas as coerções e vantagens de construção textual de cada um dos grupos de noticiários analisados. Ressaltamos que o modelo analítico buscado quer esclarecer e apresentar as estratégias mais comuns utilizadas pelos jornais para motivar consumo e fazer-crer em determinados valores. quer unir reflexões mais maduras dentro da teoria com outras ainda instigantes para tentar uma apreensão mais global dos objetos jornalísticos. no entanto. alimenta o estudo geral. Em vários momentos. • Desenvolver e divulgar a semiótica. radiojornal e telejornal. a fotografia. 2.caso das reflexões sobre a objetividade.

de outros concorrentes. o Há duas formas básicas de organização textual jornalística que estabelecem modos distintos de apresentação de conteúdos e de gerenciamento da atenção. do dial. o valor de uma notícia tem relação direta com o tempo concedido. mais espaço – maior valor). Os produtos jornalísticos devem atrair. Como tentaremos mostrar no trabalho. Essa textualização se desenvolveu para guiar a percepção do público. do tamanho e da posição que ocupa nas páginas (por exemplo. Produtos industriais. O manejo do espaço determina o modo de percepção nos jornais impressos e revistas assim como a administração do tempo organiza a atenção do público no rádio e na televisão. mostrar pontos de maior ou menor interesse nos níveis sensível. longe do controle remoto. de outro site. base da lucratividade das empresas. O objetivo maior de todo jornal é obter atenção e laços com o público. apresentamos a seguir as principais hipóteses do trabalho: o Existe um ponto que aglutina e “costura” as principais investigações sobre o funcionamento do jornalismo e serve para construir uma hierarquia de análise. essa é a principal coerção dos noticiários.A partir dos objetivos listados. Nas TVs. passional e inteligível. Todas as outras operações – como a busca de efeitos estéticos. Serve tanto para permitir um reconhecimento mais imediato dos valores em jogo como para organizar o próprio trabalho dos profissionais envolvidos no fechamento das edições. rádios e Internet) ou de tiragem (nos jornais e revistas). o É possível estabelecer princípios de organização textual do jornalismo dos maiores meios de comunicação. direcionar as expectativas. a importância de uma notícia acontece em função do espaço. Essa finalidade determina um conjunto de estratégias persuasivas reunidas no que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção. Nos primeiros meios de comunicação. o tempo também determina o valor de uma reportagem ou comentário (mais tempo concedido – maior a importância). No rádio. o que merece mais ou menos concentração e atenção. administrar e manter elevado o nível de atenção dos seus respectivos públicos para que exista sustentação e aumento de audiência (caso das TVs. os conteúdos diferenciados – se filiam e fazem parte dessa necessidade vital de manter o público sempre cativo. os jornais construíram com o tempo mecanismos que comunicam o que é mais ou menos importante. 19 . que esclarecem o funcionamento das estratégias de enunciação desses objetos. o jornalismo on-line e globalizado.

Nesse item. os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores. com exceção das relativas ao Jornal Nacional. do radiojornalismo. do noticiário da Internet. incluindo um estudo sobre os tipos de semi-simbolismos gerados. notícia.teorização específica e aplicação.Relações entre semiótica. em duas grandes divisões: PARTE 1 . com investigações e exemplos concretos. cuja função é manipular a percepção do público. Obter dados sobre o posicionamento dos jornais não é tarefa fácil. conceitos de comunicação.O gerenciamento do nível de atenção. O exame desses procedimentos revela o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção. Discute-se também. são utilizados noticiários brasileiros produzidos no período de quatro anos (2002/2005) e que obtiveram maior audiência ou tiragem nesse intervalo de tempo. Há cinco produtos jornalísticos aqui analisados: 5 As informações que apresentamos sobre os jornais foram recolhidas junto aos sites das próprias empresas em dezembro de 2004. do jornalismo impresso. mostramos que os modos de relacionamento dos jornais com o público também são conseqüência do trabalho com os vários recursos que diferentes noticiários têm à disposição. estratégia de persuasão que funda e sustenta a relação enunciador-enunciatário.o jornalismo e os jornais na perspectiva semiótica. ideologia. objetividade.Plano de trabalho A tese apresenta uma ampla discussão teórica. No final. Há três grandes tópicos: . Cada um compra informações de 20 . ouvintes.Estratégias de organização textual: a atenção manipulada no tempo e no espaço. Apresentamos ainda uma relação entre aspectualidade. Investigamos as estratégias que são próprias do telejornalismo. São contempladas as questões que envolvem todos os jornais estudados. verdade. que resultam em organizações textuais específicas. base da sobrevivência das empresas. tensividade e o potencial de curiosidade da notícia. . . são estudados os jornais que poderíamos chamar de “vencedores”. Em linhas bem gerais são mostradas relações entre a semiótica e as teorias da comunicação. são feitas sugestões para o exame do sincretismo nos objetos jornalísticos. internautas ou leitores nos níveis sensorial. PARTE 2 . de base temporal ou espacial. passional e inteligível. comunicação e jornalismo. Como corpus. Para obter audiência ou tiragem. realidade. da perspectiva da semiótica de Greimas.5 Em outras palavras.teorização geral .

News) e a maior do Brasil. tornou-se na década de 80 o jornal mais vendido no País. 9 Fonte: Conheça a Folha . 6 visitam o UOL regularmente.uol.br/ 21 .com/cbn/ 8 Revista Veja. a CBN está presente nas principais cidades e em capitais como Rio de Janeiro.br – link “para anunciar”. jornalismo de Internet (portal). A Veja e a Folha de São Paulo foram reunidas em um só item em função de sua institutos de pesquisas (como o IVC. tinha média de 43 pontos do Ibope. divulga o programa como o de maior audiência de São Paulo.com.11 Esses cinco produtos jornalísticos geraram quatro grandes grupos de análise: radiojornalismo.000 leitores.uol. Isso significa que de cada 10 pessoas que acessam a Internet a partir de casa. Isso significa a sintonia de 68% dos televisores brasileiros.globo. Em 2004. Tem circulação nacional.131.herodoto. telejornalismo. que transmite via satélite 24 horas de jornalismo.com. São Paulo. Segundo o Ibope NetRatings. em 1969.7 Jornal da CBN Programa diário de rádio Jornal Nacional Programa diário de TV É líder de audiência desde sua fundação. Reúne mais de 200 jornalistas pelo País. o IBGE) e usa como acha conveniente. Em 2003. edição 1869.abril. A maioria dos dados é confidencial. a circulação média foi de 350 mil exemplares em dias úteis e 430 mil aos domingos. O programa da Rede Globo é um dos telejornais mais vistos no mundo.OS CINCO OBJETOS JORNALÍSTICOS ANALISADOS Nome Tipo Característica e tiragem ou audiência O âncora. págs. jornalismo impresso.br/folha/conheca 10 Fonte: Midiakit Veja – acessível a partir do site www.6 A Rádio CBN é a maior rede de emissoras all news. “A guerra atrás das câmeras”. com 1.folha.br 7 Fonte: http://radioclick.234 milhões de visitantes mensais no Brasil entre janeiro e setembro de 2004.com. 101 a 108. número que lhe dá a primeira posição no ranking dos maiores portais de conteúdo brasileiros e representa cerca de 60% de alcance nesse mercado.10 UOL – Universo On Line Portal Internet Principal portal de conteúdo e provedor pago de acesso à Internet do País.701. texto de João Gabriel de Lima.http://www1. 1° de setembro de 2004.uol. Heródoto Barbeiro.8 Folha de São Paulo Diário impresso Fundada em 1921. 11 Fonte: http://sobre.100 exemplares e 4.9 Veja Revista semanal Quarta maior publicação do gênero “revista semanal de informação” no mundo (atrás de Time. Criada em 1º de outubro de 1991.vejaonline. Newsweek e U. o UOL teve média de 7.S. Belo Horizonte e Brasília.com. ou 31 milhões de telespectadores. 6 Fonte: http://www.

a partir desse mesmo fato. Os jornais. a prisão de Saddam Hussein. Não se pretende fazer uma exaustiva análise de conteúdo. são comparados a fim de mostrar diferenças de abordagem. 22 . mas apresentar as diferentes estratégias utilizadas pelos noticiários analisados.textualização ser muito semelhante. na conclusão. depois. As ferramentas – tanto gerais quanto específicas . mostramos as especificidades de cada noticiário e o funcionamento das estratégias particulares. Nesse corpus vasto. para motivar laços e difundir determinados valores.são usadas e testadas na análise de um fato de repercussão mundial. em 13 de dezembro de 2003. coerções e vantagens de cada um que esclarecem e exemplificam o funcionamento de determinadas estratégias discutidas durante todo o trabalho.

23 .

notícia.RELAÇÕES ENTRE SEMIÓTICA. a orientação teórica é a semiótica de Greimas e seguidores. O jornalismo. a diferença entre a semiótica da chamada “Escola de Paris”. Neste trabalho. principalmente com Barthes. A objetividade merece grande destaque e. A partir desse exame. Para os semioticistas. em relação às outras teorias que se preocupam com o sentido. notadamente a pierciana. Saussure. As concepções de fato. pela semiologia de extração lingüística. realidade. pela escola de Tartu. o formalismo russo. Herdeira de Saussure e de Hjelmslev. criadora de relações intersubjetivas que geram e mantêm crenças que se revertem ou não em determinados atos. É realizada uma breve comparação com outras teorias também semióticas. o círculo de Praga e o círculo de Bakhtin – foram seguidos por Charles Morris e Thomas Sebeok. mostramos pontos que consideramos fundamentais para entender o fenômeno comunicacional. Hjelmslev. não toma a linguagem como 24 . Como teoria da significação. na antiga União Soviética e pela semiótica funcionalista de Halliday” (2004: 27). muitos dos quais do Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo. como lembram Santaella e Nöth: “Os pais – Pierce. Em linhas bem gerais. a semiótica se interessa por tudo que faça sentido para o ser humano. Semiótica e teorias da comunicação O termo semiótica é usado em diferentes orientações teóricas. COMUNICAÇÃO E JORNALISMO Neste item apresentamos de maneira rápida algumas bases da semiótica francesa. introduzimos os primeiros estudos sobre enunciação. é não se articular a partir da investigação sobre o signo. Depois. nos Estados Unidos. pela semiótica narratológica e discursiva de Greimas. A semiótica de Greimas “tenta determinar as condições em que um objeto se torna objeto significante para o homem. verdade são revistas da perspectiva da semiótica. a partir dessa questão. mas principalmente a ação do homem sobre outros homens. o estudo se concentra em expor as relações entre a semiótica de Greimas e as teorias da comunicação. comunicar não é apenas uma forma de transmissão de saberes. é inicialmente analisado por meio de temas sempre presentes sobre o assunto. ideologia. ainda na França. como forma de comunicação utilizada por certos grupos sociais para exercer essa manipulação de maneira mais efetiva.

e sim como sistema de significações. pois nesse ponto também há diversas possibilidades de recorte. que dedica um capítulo inteiro à questão. Lúcia Santaella e Winfried Nöth fazem um notável levantamento das teorias semióticas e sua relação com os estudos teóricos da comunicação. roupas. criando relações intersubjetivas e fundando a sociedade. a dança. receitas. psicológicos. E a semiótica francesa tem enormes contribuições para dar aos pesquisadores e estudantes da área. são exemplos de textos passíveis de estudo semiótico. constituir como objeto da comunicação somente os meios de comunicação e. mas também por disputas de espaço institucional. esculturas. filmes. Pesquisa-se sobre o jornalismo. incluindo nele uma gama considerável de fenômenos. paisagens. que vão desde a conversação cotidiana até a Internet” (2004: 14). fotos. artísticos. as interações.14 Não está no escopo desse trabalho definir e listar as teorias da comunicação. a semiótica apresenta-se com um objeto de estudo bem definido. por exemplo. casas. ou melhor. pois a significação decorre da relação” (Barros. 2001:13). o cinema. Acreditamos que a semiótica tem melhores instrumentos teóricos para analisar os objetos concretos produzidos pela mídia. pode realizar diálogos úteis. Os autores mostram a interconexão entre os dois campos. e ressaltam as possibilidades de enriquecimento conceitual que a semiótica pode trazer para teorias da comunicação. Ao estudar a significação nessas relações. assim como a fase comunicacional é apenas um dos campos de trabalho da semiótica. livros. os suportes. 14 Essas linhas poderiam ser totalmente dispensáveis se uma confusão entre semiótica e comunicação não fosse observada até em discussões acadêmicas. sobre os textos. Há estudos. de relações. políticos. sociais. ver Marcondes Filho (2002). supermercados. José Luiz Fiorin discute a afirmação polêmica de Wilson Gomes. aqui no sentido mais amplo. segue outro caminho. 13 Santaella e Nöth (2004) lembram que a semiótica pode ser possível parte de uma teoria da comunicação. Em Dilemas da comunicação. representante da comunicação na CAPES. cidades. para isso. Existem pontos de investigação biológicos. Ambas se apresentam com caráter “inter. O resultado são objetos não raras vezes díspares. O enfoque recai sobre as estruturas que engendram a significação. texto sobre epistemologia da Revista Fapesp (nº 82: 12 25 . criar uma teoria específica. Em “Semiótica e Comunicação” (2004). que disse querer “limpar o lixão da área”. Jornais. sobre os meios de comunicação – as mídias -. Sobre o assunto. Um texto não é uma “soma” de unidades ou signos. entretanto. Em outros. Decorre daí uma concepção fundamental: a de que um elemento de uma estrutura só adquire valor na medida em que se relaciona com as outras unidades e com o todo de que faz parte. cibernéticos. Em relação às chamadas teorias da comunicação12. programas de rádio ou TV. Nossa defesa dessa relação. Isso alarga o objeto da comunicação. músicas. novelas. Já as teorias da comunicação recortam as atividades comunicativas das mais diferentes formas e em perspectivas distintas. a publicidade. motivadas por desconhecimento.13 Para localizar esses pontos de divergência e de convergência é preciso inicialmente reforçar que a comunicação de interesse da semiótica. multi e transdiciplinar”. Na obra Comunicação e semiótica (2004). a semiótica greimasiana desenha fronteiras em certos momentos. é “a ação dos homens sobre outros homens. o teatro. Os teóricos da comunicação não produziram um método de análise consistente.sistema de signos. como aponta Fiorin.

pelo menos uma questão crucial para o campo de estudos da comunicação no Brasil. Parece que um problema enfrentado por certos teóricos e diversos pesquisadores diante de objetos concretos é o de se confrontar com a complexa singularidade de manifestação de cada jornal ou de um grupo de jornais. Na falta de instrumentos de análise. a autora Mariluce Moura expõe o debate: “Ser ou não ser ciência parece ser. Ao mesmo tempo. em termos acadêmicos. A semiótica é uma das possibilidades de análise dos fenômenos comunicacionais. quem se propõe a investigar 100 edições da Veja ou o Jornal Nacional de determinado dia se vê diante de várias dificuldades. 2002).com todas as conseqüências previsíveis. das reflexões de autores consagrados.” 26 . nesses casos. é claro.Estudiosos da comunicação podem lançar mão de uma ou mais teorias nas investigações. entre outras possíveis e igualmente válidas. novos problemas teóricos e institucionais estão sendo criados. Como apontamos na Introdução. se falar em cisão da pequena e aguerrida comunidade científica vinculada a esse campo pode soar como hipérbole inadequada. de estudiosos da comunicação. não só para enfrentar antigos problemas. Há muito a ser construído. os jornais são um enorme desafio para a semiótica. político-institucionais e. de disponibilidade de verbas para pesquisa. que não poderia ser utilizada em outro. certos analistas valem-se principalmente das obras generalizantes. É por isso que a teoria pode dar grandes contribuições para os estudos de comunicação. Observamos vários estudos jornalísticos que não conseguiram deixar de ser uma seqüência de comentários genéricos com fragmentos de discurso de autoridade . A semiótica francesa tem mostrado sua força exatamente em função de modelos de previsibilidade que nascem e são continuamente testados em práticas analíticas. do jornalismo. E as novas teorizações enfrentam novamente os objetos para que as propostas sejam constantemente testadas. de sociólogos. O olhar sobre o objeto teria como conseqüência uma teorização específica demais. porém de grande amplitude. os semioticistas estão sempre em contato com seus objetos de investigação. hoje. para entender uma das formas de comunicação. escolheu uma perspectiva teórica. há claramente uma disputa em curso entre os pesquisadores quanto ao status da comunicação. A análise desses textos suscita questões que fazem avançar a teoria. Em torno dela. que gerou a entrevista de Gomes e a reação de Fiorin. no entanto. Se os diversos estudiosos de comunicação não conseguem trabalhar diretamente com os produtos jornalísticos. cujo resultado pode ser até uma redefinição de seu espaço dentro das ciências humanas e sociais no país . senão a questão. Esse ir-e-vir traz enormes vantagens em trabalhos que devem ter vocação científica. O estudo dos textos alimenta e enriquece as reflexões dos semioticistas. que fazem considerações úteis. Este trabalho. como ainda para encarar novíssimas questões.de filósofos. formam-se grupos de interesse. a jornalística. consolidam-se posições divergentes e.

O Brasil estava dividido pela ditadura militar. O diretor ou o editor-chefe começa a reunião de pauta com a seguinte pergunta: “O que faremos hoje. na literatura. aprofundar estudos sobre os meios de comunicação. Estudar discursos. Na sua epistemologia. Após o engajamento.15 A semiótica. A teoria é também muito útil para evitar simplificações comuns na análise dos objetos jornalísticos. pelo cruzamento de mídias. por exemplo. na arte. alguns estudiosos de comunicação. “a semiótica tendia a ser vista como mais uma área de subordinação à razão instrumental. que teve seu momento e sua história. Que tenha havido um ‘estilo’ pós-moderno na arquitetura. “não há e nunca houve um pós-moderno. A partir dos anos 80. seus produtos e conseqüências sociais. desmobilizar. 27 . a não ser na fantasia daqueles que. no Brasil. visando à manutenção do domínio econômico e da hegemonia política sobre os países dependentes” afirmam Santaella e Nöth (2004: 14). e impedir que os trabalhadores tenham consciência de que são explorados?” Essa visão. ávidos por um novo ‘ismo’. entretanto. é uma caricatura da crítica aos meios de comunicação. a semiótica é uma ferramenta que possibilita compreender melhor as estratégias de persuasão dos discursos jornalísticos. enganar e oprimir a população. pelos sites. explicam os autores. na sua busca pelo 15 In “O conceito que nunca existiu”. que até hoje persiste. na época. Caderno Mais da Folha de São Paulo. isso ainda não justifica uma época. e suas coerções ideológicas.como as apresentadas. descomprometida com a militância política” (idem: 16). pág. 2/11/2003. Muito pensadores assumiram uma postura combativa no debate na área nos anos 70 e parte dos 80. senhores. Como pretendemos mostrar durante o trabalho. pela Internet. surgiu a oportunidade para uma visão cética. “Não é difícil perceber o quanto essa concepção negativista da comunicação se ajustava. à busca de resistência dos intelectuais latino-americanos contra o imperialismo cultural que se realizava através da comunicação massiva. Para Ciro Marcondes Filho. no entanto. se envolvem nos debates da chamada pós-modernidade. Há quem imagina certas rotinas na redação de grandes empresas jornalísticas. no máximo. que ainda persiste. serve como caminho também para se contrapor à crítica maniqueísta e superficial dos jornais. para aumentar o poder de nosso patrão. que não raras vezes degenerou no descompromisso intelectual. buscavam encontrar algo para substituir o vazio intelectual que nos assolou nos anos 90. 10. Nesse momento. uma moda”. se contrapõe a qualquer niilismo que invade discussões sobre o jornalismo e a própria idéia de significação. sob censura.

folha. Os sujeitos da comunicação devem ser considerados. o que. impõe a existência de simulacros. Isso é pós-modernismo. juntos. uma determinada hierarquia de valores que. em primeiro lugar. pois. Ou que os jornais estão a serviço dos interesses da elite dominante. é coerente com algumas de suas teses. ou seja. um autor leva em consideração as expectativas e as prováveis reações de quem vai receber o texto para construir um discurso com a eficiência desejada. Prefere.htm). uma ideologia que se recusa a fazer julgamentos e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos e virtuosos. uma percepção do mundo. é difícil usar esse rótulo diante da própria complexidade em cercar o fenômeno pós-moderno. entre outras coisas. contudo. ouvinte. telespectador ou internauta é de mera transmissão de informações. Até porque é de uma obviedade inquestionável. assim. por exemplo.sentido. enfrentar um árduo caminho para compreendê-los.com. a inserção sócio-histórica e ideológica dos sujeitos envolvidos” (2003: 47). os participantes se constroem e constroem.) Os sujeitos da comunicação não podem mais ser pensados como casas ou caixas vazias de emissão e de recepção de mensagens. por exemplo. aliás. dentro da definição de pós-modernismo proposta pelo sociólogo Zygmunt Bauman: “Ser um pós-modernista significa ter uma ideologia. rever as noções e as denominações de ‘emissor’ e de ‘receptor’ da comunicação. acredita que não há nada a ser debatido. Mais complicado é tentar responder: como fazem isso? Ponto de vista semiótico sobre a comunicação Os semioticistas discordam da idéia de que a relação entre autor e leitor. o destinador e o destinatário E há quem rotule algumas dessas posturas intelectuais justamente como “pós-modernas”. que todas as sociedades são igualmente boas ou más.16 A semiótica não nega a complexidade de muitos fenômenos. No entanto. Grosso modo. no limite. Folha Mais – 19 de outubro de 2003 – versão eletrônica (http://www1. 16 28 . Na comunicação.uol. Barros critica o caráter demasiadamente mecanicista de alguns modelos comunicacionais “mais apropriados à comunicação entre máquinas e que não levam em consideração. O ato de comunicar. Nesse sentido. Para a autora. Outra questão é que não se pode negar a saudável polêmica que suscita a leitura dos textos instigantes de autores chamados pós-modernos. o “receptor” também participa da comunicação.. (. a teoria só pode estranhar o relativismo absoluto que dominou e domina certas reflexões. como sujeitos competentes.” Em “A sociedade líquida” . afirmar que o Jornal Nacional manipula a nossa emoção. descarta a idéia de um tipo de regulamentação normativa da comunidade humana e assume que todos os tipos de vida humana se equivalem. “é preciso. por exemplo. enfim..entrevista da jornalista Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. Diana Luz Pessoa de Barros lembra que os antigos modelos lineares de comunicação – os que tratam da transmissão de mensagem de um emissor para um receptor – foram repensados por outros autores na forma de um sistema de interações (2003: 42). o texto (idem).br/fsp/mais/fs1910200305.

(termos menos restritivos e. diante do fazer persuasivo dos jornalistas. lembra novamente que a comunicação como ato não pode ser entendida como um simples fazer-saber do destinador e um adquirir saber do destinatário. no fazer comunicativo do destinador não apenas como um fazer-saber. mais adequados do que emissor e receptor) têm de ter certas qualidades que permitam que eles se comuniquem” (idem: 48). na parte do trabalho sobre o gerenciamento do nível de atenção. dessa forma. entre outros aspectos. entre destinador e destinatário. Pesquisas têm mostrado que “para apreender o saber é necessário que o destinatário queira fazê-lo. com a partilha. de valores e projetos em comum . (. No jornalismo. o saber e o poder realizar a comunicação. Há duas qualidades ou competências que possibilitam a existência da comunicação: 1. a divulgação de notícias (fazer-saber) está intimamente relacionada ao fazer-crer. 2. realiza um fazer receptivo ou interpretativo. que os sujeitos partilhem de um mesmo sistema de valores. ou melhor. para o sujeito é. com a manipulação e têm ambas a mesma estrutura” (2003: 48). e no fazer comunicativo do destinatário essencialmente como um interpretar. A comunicação confunde-se. as estratégias que envolvem a competência modal e a competência 29 .) “uma operação de reconhecimento da verdade. que consiste em comparar e identificar o que lhe é apresentado pelo sujeito do fazer persuasivo com o que ele já sabe ou com aquilo em que crê.. por excelência. é necessário. portanto. de comprar um jornal a apoiar determinado candidato a presidente. ou seja. mas principalmente como um fazer-crer e um fazer-fazer. Apontaremos depois.. Qualquer destinatário dos jornais.Para a manipulação funcionar. Barros. (. de ver a peça de teatro comentada ou até mesmo de não fazer nada diante de alguma forma de injustiça. a partir de Greimas e Courtés (1983:69).. com sistemas de valores que atribuem sentido aos fazeres e aos estados” (Barros: 2001:58).A primeira competência é chamada modal e inclui o querer ou o dever.A segunda competência é a semântica. ou seja. Trata-se de verificar a adequação do novo e desconhecido ao velho e já sabido. confrontar a proposta recebida com o seu universo do saber e do crer.) Interpretar. mudar ou reforçar crenças que redundem em atitudes que podem ou não se converter em ações (fazerfazer ou fazer-agir) de diversas amplitudes.. Isso nos obriga a pensar na comunicação.

“ser objetivo e imparcial nos relatos”. que terá conseqüências para toda a nossa análise. ao mesmo tempo.. “Dizer a verdade”. É nesse sentido que a semiótica fala de um contrato “fiduciário”. as cláusulas revelam uma série de expectativas mutuamente partilhadas que influenciam a produção e o consumo do discurso jornalístico dos grandes noticiários. ou seja. “num sentido mais geral. de ‘contrair’ uma relação intersubjetiva que tem por efeito modificar o estatuto (o ser e/ou o parecer) de cada um dos sujeitos em presença.) O contrato aparece (.. (. expectativas entre destinador e destinatário. “separar fatos de opiniões e interpretações”. não é fundado em um acordo explícito. porém de abrangência um pouco mais limitada ou menos proeminentes. A relação de um jornal com o público-alvo pressupõe um grande número de “cláusulas” nesse contrato. convenções. Deve ser ressaltado que o contrato semiótico. (. Em outras palavras. “mostrar a realidade” são cláusulas centrais no contrato do jornal com seu público. Cláusulas principais do contrato jornal-público As duas competências – modal e semântica – necessárias para que a comunicação se estabeleça expõem a existência de acordos. ao mesmo tempo. um “contrato”. Merecerá destaque o fazer-sentir na relação entre público e produtos jornalísticos. que alicerçam a relação entre destinador-jornal e o destinatáriopúblico. de fé.) O fato é que o estabelecimento da estrutura intersubjetiva é.) como uma troca diferida. uma coerção que limita de uma certa forma a liberdade de cada um dos sujeitos. Inicialmente. de um lado. Em outras partes do estudo. essas cláusulas do jornalismo atraem e motivam discussões sobre as bases teóricas da semiótica.. de confiança e de obrigação” (1983:84 e 85).. mostraremos mais cláusulas também importantes. pode-se entender por contrato o fato de estabelecer. Por sua vez. sendo a distância que separa sua conclusão de sua execução preenchida por uma tensão que é. Nesta parte do trabalho.. Em outras 30 . uma abertura sobre o futuro e sobre as possibilidades da ação.semântica dos destinatários dos jornais.. ou premissas da argumentação. contudo. Resolvemos discutir essas questões nesta primeira parte do trabalho por duas razões complementares. e do outro. queremos abordar o que estamos chamando de cláusulas principais. uma espécie de crédito e de débito. coerções. ou. semioticamente falando. Afirmam Greimas e Courtés que. não é possível começar um estudo sobre o jornalismo dos maiores veículos de comunicação sem desmistificar essas noções e apresentar o ponto de vista semiótico sobre o assunto. A noção semiótica de contrato é um conceito-chave para pensar os relacionamentos entre os sujeitos jornal e público consumidor.

realidade e ideologia são. à realidade. Afirma Barros (2001:93 e 94) que o enunciador propõe um contrato que estipula como o enunciatário deve interpretar a verdade do discurso: “O reconhecimento do dizer-verdadeiro liga-se a uma série de contratos de veridicção anteriores. No estudo do jornalismo. de discurso e seus tipos. 21 de abril de 2002: 31 . por exemplo. de uma ideologia. A interpretação depende. sem dúvida.palavras. nos debates das próximas páginas também há uma pequena apresentação dos fundamentos da semiótica que mais nos interessam e o exame. Verdade e ideologia Para a semiótica. próprios de uma cultura. a proclamada habilidade do profissional de ter acesso aos acontecimentos e reportar tudo de maneira fiel. na Folha de São Paulo de domingo. Verdade. o jornalismo e a comunicação. portanto. isto é. assuma as posições cognitivas formuladas pelo enunciador. ou seja. no jornalismo.” Um dos recursos do destinador para persuadir o destinatário a crer na verdade enunciada é elaborar uma representação da realidade que deve ser aceita pelo destinatário. em outros termos. a verdade é um efeito do discurso. feita por Clóvis Rossi em sua coluna da página 2. falso. impõe reflexões bastante específicas. que envolvem. O contrato de veridicção determina as condições para o discurso ser considerado verdadeiro. e creia. Há uma notável discussão sobre o assunto. E resultado de uma interpretação. entre outros fatores. Comecemos com a questão da verdade que. questão que se relaciona à competência semântica e exige uma espécie de cumplicidade na maneira de recortar e dar sentido aos acontecimentos. assuntos profundamente relacionados. assim. o famoso exercício da objetividade do jornalista. mentiroso ou secreto. estabelece os parâmetros. a partir dos quais o enunciatário pode reconhecer as marcas da veridicção. “Opinião”. Isso é possível se destinador e destinatário. dentro de um sistema de valores. partilharem de uma mesma visão de mundo. da persuasão do enunciador para que o enunciatário encontre as marcas de veridicção do discurso e as compare com seus conhecimentos e convicções. por exemplo. de uma formação ideológica e da concepção. abrem caminho para uma série de outras reflexões importantes. das relações entre a teoria. decorrentes de outros contratos de veridicção. da aceitação do contrato fiduciário e.

Fiorin completa que a ideologia. Barros afirma que “(.. é necessário definir o conceito de ideologia adotado neste trabalho. sim. entendida como visão de mundo. Notemos como cada um dos grupos beligerantes estrutura seu discurso com base em ideologias opostas. Essa é uma questão central do nosso estudo sobre o jornalismo. Essa categorização da realidade renova-se a partir dos conflitos de poder entre segmentos sociais . Palestinos dizem que. e israelenses negam as mortes de civis. É a ideologia que faz com que cada um tenha uma apreensão da realidade bastante distinta. houve massacre. e reconhecer contradições em cada forma de ver o mundo. especialmente na visão dominante. é “o ponto de vista de uma classe social a 32 .) a ideologia como visão de mundo permite relativizar a ‘verdade’.. frase de Carl Bernstein. Ideologia é entendida como “visão de mundo”. criticando-a e a ela resistindo” (1988: 150).Rossi afirma que um dos deveres maiores do repórter é “buscar a melhor versão da verdade possível de obter”. que explicita uma cláusula do contrato com o público consumidor de notícias. ao mostrar que há vários saberes ligados às diferentes classes. Para seguir em frente.motivados principalmente por fatores econômicos.

” 19 Tendências/Debates. those values transform into axiologies. aos acontecimentos. dos gays. essas axiologias se transformam em ideologias. antes de tudo. dessa palavra)”. a maneira como uma classe ordena. geralmente. na organização ideológica. dos bancários).. Esse ponto de vista de uma classe social é.17 Na mesma linha. no entanto.18 É possível notar. como aponta o professor de sociologia da USP José de Souza Martins. semiótico. esses valores se transformam em axiologias. nessas últimas conceituações. neste começo do milênio. de ordem virtual (idem: 225). the difference between ideologies and axiologies is clear. Quando depois um grupo ou indivíduo tenta legitimar sua axiologia para outros sujeitos. distinguem “duas formas fundamentais de organização do universo dos valores: as articulações paradigmática e sintagmática. O discurso ideológico. A3-26/10/2004: 17 33 . Folha de São Paulo. no Dicionário de Semiótica (1983: 224). de curto prazo. É flagrante. assim. o esvaziamento da luta política a partir de conflitos de classe. converter-se em discurso mitológico (ibidem). dos sem-terra.). Há uma produção cada vez maior e mais fragmentada de “versões” da realidade a partir de finalidades estratégicas. pode ser mais ou menos figurativizado e. no segundo caso. o entendimento da ideologia não apenas em uma concepção de classe. podemos considerá-los como ideologia (no sentido restrito. que podem ser consideradas como uma coleção de valores. sem um horizonte de transformação social fora de limites estreitos. (…) When an individual or group adopts certain values as its own. those axiologies transform into ideologies. Essa ampliação dá conta de diversos fenômenos sociais. uma atribuição de valores ao mundo. A ideologia é apresentada como atualização ou busca de valores. suprime ou modifica núcleos sólidos de organização social. justifica e explica a ordem social” (1997: 20). os valores são organizados em sistemas e se apresentam como taxionomias valorizadas que se podem designar pelo nome de axiologias. When ultimately an individual or a group tries to legitimize its axiologies to other subjects of its Dasein.respeito da realidade.. No primeiro caso. selecionados do interior dos sistemas axiológicos. 18 Fragmento original: “From an existential semiotic point of view. há uma apresentação de valores de forma abstrata ou temática. seu modo de articulação é sintáxico e são investidos em modelos que aparecem como potencialidades de processos semióticos: opondo-os às axiologias. do setor exportador. Greimas e Courtés. Tarasti (2004: 35) lembra que quando um indivíduo ou grupo adota certos valores como seus. which constitute more or less compatible colletions of values. Ele faz uma crítica dessa mudança no artigo “Demandas corporativas na modernidade”:19 “Há a acelerada difusão de uma racionalidade política e econômica que alcança. Percebe-se a fragmentação das disputas sociais e o surgimento de demandas corporativas (dos negros. como a família. a comunidade (. notadamente na de Tarasti. religiões e mesmo as Greimas e Cortés também afirmam que.

) As lutas corporativas não emancipam quem luta nem a sociedade iníqua em que a luta se desenrola. uns mais. já está utilizando um recurso de persuasão.) Essas demandas são cada vez mais corporativas.) Já não são as classes sociais as protagonistas dos conflitos e das demandas sociais e políticas. (... portanto.) Idéias como as do sociólogo alemão Ulrich Bech. Palestinos e israelenses não negam o acontecimento (as mortes e a destruição). sensacionalistas. Um jornalista.. Por meio da linguagem e da ideologia. Ciro Marcondes Filho (1989:29): “Todos os jornais são. como em tantos outros abordados pelos noticiários.. (. Não é possível o acesso ao real sem um recorte ideológico. pode-se voltar ao texto de Clóvis Rossi. para ser mais preciso.notícia. é sempre um mediador. (. enfim. O recorte específico da realidade praticado pelo jornalismo: a notícia No caso de Jenin. dirigi-lo. ele transforma fragmentos de realidade em notícia. como a do regime de cotas para negros nas universidades e da partilha corporativa da terra na reforma agrária. Nenhum foge dessa determinação. o recortam e o conceituam de maneira distinta: os primeiros falam em “massacre” e os segundos em “um combate feroz”.. (. contar as grandes histórias que podem repercutir na vida dos leitores. ou. Ele reporta o que acontece no mundo para o seu público. (.)” afirmação merece um olhar semiótico.classes sociais. que exibe mais uma vez certas cláusulas de seu contrato com o público. O próprio jornalista nota duas visões de mundo antagônicas que só podem gerar duas interpretações também radicalmente diferentes sobre o que “aconteceu”.. Portanto. ao fragmentário. ajudam a pensar criticamente as demandas sociais no Brasil hoje.. Para seguir adiante é importante diferenciar acontecimento . Vejamos o que diz.fato . mutilá-lo. quando um jornal constrói um discurso em que afirma mostrar a realidade. Transformar um fato em notícia é também alterá-lo. Cabe aos jornais fazer uma triagem dos acontecimentos.. É a ideologia que “filtra” a realidade.” Com o conceito de ideologia definido.. é possível perceber que o jornalismo tem uma relação com a realidade bastante específica. ao provisório. sobre a sociedade de risco. Isso porque transformar um fato em notícia não é o mesmo que reproduzir singelamente o que ocorreu.. por exemplo. Essa 34 . Tendemos ao precário. porém. outros menos. sem atribuir valores ao que nos informam os nossos sentidos. É por isso que a semiótica vê a afirmação da existência de uma dada “realidade” como mais um “efeito” de um texto. A semiótica desenha fronteiras que são percebidas de modo diferente por outros pesquisadores.

. Significa. dentro de um objetivo de despertar curiosidade (fazerquerer-saber).É.Concordamos com o autor que o ato de noticiar não é uma mera e inocente mediação entre os jornais e o mundo. o fato pode ser contestado.Trata-se da primeira eleição e da apropriação que um determinado jornal faz de certos acontecimentos. contestando o valor argumentativo do fato. Fato . Tornar algo visível. assim como se provou que não é o Sol que gira em torno da Terra. Finalmente.)” (1996: 75. comprovados. por sua vez. a nenhum enunciado é assegurada a fruição definitiva desse estatuto. Depois. como todo argumento. Uma análise semiótica dos objetos jornalísticos precisa traçar uma fronteira entre acontecimento.. antes de tudo. pois o acordo sempre é suscetível de ser questionado (. selecionados por ter determinado valor argumentativo. Essa relação “fato = realidade” também aparece no dicionário Aurélio. diremos que o nível do diploma do término do curso secundário nos Estados Unidos nada tem a ver com o nosso (…)” (1998:164). sensações (fazer-sentir) e ações de consumo (um fazer-agir na forma de um fazer-comprar) do próprio meio de 35 . • Notícia . Por exemplo.. por sua vez. não controverso. entre teóricos da comunicação. fato e notícia para expor o caráter persuasivo-argumentativo dessa apreensão da realidade efetuada pelos jornais: • • Acontecimento – É qualquer fenômeno manifestado semioticamente. mostrando que o fato em questão é incompatível com outros fatos. diz que “o acordo repousa primeiramente sobre fatos. 4 de janeiro de 1985). do ponto de vista argumentativo.. para outro aspecto da afirmação. em nosso exemplo. de realidade. (. simultaneamente. Reboul. e fatos já são argumentos. porém. no entanto. crenças (fazer-crer). também fruto de uma visão de mundo. determinar-lhe valor. é. presente. Dar “presença” a um fato só tem sentido a partir de uma visão de mundo. uma hierarquização de fatos. Devemos atentar.).. se podemos postular a seu respeito um acordo universal. colocar fato como sinônimo de acontecimento.) Contudo.. omitir ou esquecer outros aspectos envolvidos.76). por conseguinte. Mas. muito menos com acontecimento. Não se deve. Como? Primeiramente. sua ‘interpretação’. contra 75% de americanos (Vial. Le Monde. Só estamos na presença de um fato. recorrendo a pessoas competentes: especialistas mostraram que o fato em questão é apenas aparente. Lembram Perelman e OlbrechtsTyteca que “a noção de ‘fato’ é caracterizada unicamente pela idéia que se tem de certo gênero de acordos a respeito de certos dados (. Um ponto de vista originário da teoria da argumentação desenha com nitidez essa fronteira. É muito comum. um jornalista que quer mostrar o caráter ‘antidemocrático’ do ensino cita uma estatística: 25% dos jovens franceses concluem o curso secundário. confundir fato com realidade.

20 É notável como a Folha. por sua vez. uma crítica. 36 . Improbabilidade (a notícia menos provável é mais importante do que a esperada). uma crônica. mais importante ela é)” (2001: 43). ou seja.21 Do ponto de vista semiótico. que serão mais bem analisados na perspectiva semiótica durante o trabalho: 1. Uma reportagem a apresenta. comentários. pois não atende aos critérios expostos. falaremos bastante em unidades noticiosas. questão que será depois estudada. Utilizaremos essa expressão para marcar os elementos de significação de qualquer jornal analisado. É o caso de uma reportagem na TV. a incoerência em determinar tantas restrições para fazer a notícia e afirmar que a aplicação desses critérios deve redundar em “informação objetiva”. Interesse (quanto mais pessoas puderem ter suas vidas afetadas pela notícia. foto. O Manual de Redação da Folha de São Paulo expõe todos os critérios para “definir a importância de uma notícia”20. uma nota. Caso os jornais se interessem pelo assunto. Quase tudo o que aparece no jornal. mais importante ela é). direta ou indiretamente. mais importante ela é). o significado histórico). dentro do próprio ponto de vista da Folha de São Paulo. 5. 4. virar notícia. a morte de um político é um acontecimento. Para reforçar essa vinculação.comunicação. uma charge a ridiculariza. Essa ampliação se justifica. é julgada como desimportante pelos meios de comunicação. que é o de fazer crer na sua atualidade. fazer parte de uma determinada narrativa que o hierarquize em relação a outros fatos (o impacto da morte na classe política. matéria. charges e segue a lista). um editorial opina sobre ela. não se constitui em fato. legenda. Pode ser ainda um editorial. 3. Proximidade (quanto maior a proximidade geográfica entre o fato gerador da notícia e o leitor. questão que abordaremos mais adiante. 21 Observe-se. para exemplificar. Se não é citada nos jornais. Empatia (quanto mais pessoas puderem se identificar com o personagem e a situação da notícia. É a notícia que gera todos os outros tipos de abordagens jornalísticas aqui analisadas (editoriais. nessa definição. Só que esse fato. transformam o acontecimento em fato. necessita contextualização. “Ineditismo (a notícia inédita é mais importante do que a já publicada). um módulo de um diário com título. 2. não expõe com clareza o caráter mais óbvio de uma notícia. se vincula a uma notícia. para o povo.

Jornalistas. o presidente Lula foi até a cidade de São Bernardo e discursou para milhares de metalúrgicos. Utilizaremos outro exemplo para discutir como certas noções de realidade são concebidas no jornalismo e para iniciar as primeiras reflexões sobre a objetividade. só existe acesso ao “real” por via de textos. trouxe o seguinte título: “Lula acena com correção da tabela do Imposto de Renda”. exibida ontem no ABC. e alguns analistas da comunicação. E chamou a atenção para o fato de o presidente “incluir a correção da tabela do Imposto de Renda no pacote preparado pelo governo para ser anunciado antes do Dia do Trabalho”. Em uma foto de quatro colunas. O título principal foi: “Metalúrgicos hostilizam Lula em visita a seu berço político”. por mais cuidadoso que seja. o leitor soube que Lula foi para a porta da Mercedes-Benz participar de um ato para entrega de ambulâncias. não consegue deixar de eleger um acontecimento a partir de uma ideologia. Exibiu-se outra foto com uma legenda que era quase redundante em relação ao conteúdo da imagem: “Faixa de protesto. a Folha de São Paulo estampou a visita na primeira página (com um realce somente menor do que o do título da manchete principal): “No ABC. também com grande destaque espacial. E temos aí uma outra questão importante que envolve a comunicação. obra póstuma. Na parte interna do jornal.A isenção impossível: um mesmo acontecimento e três notícias distintas A semiótica não nega. Lula ouve vaias e queixas de metalúrgicos”. a existência da realidade. se contrapõe e freqüentemente se superpõe e domina a realidade real que ele vive e conhece” (2003:24). em “Padrões de manipulação na grande imprensa”. Em 26 de abril de 2004. Por meio dessa matéria. afirma que “o público – a sociedade – é cotidiana e sistematicamente colocado diante de uma realidade artificialmente criada pela imprensa e que se contradiz. depois de sua apreensão pelo homem. a semiótica e o jornalismo. No dia seguinte. jornalista respeitado.” O jornal O Estado de São Paulo. porém. Na perspectiva da teoria. a notícia recebeu grande relevância espacial (2/3 da área total da página interna). pedindo a correção da tabela do Imposto de Renda. destacou-se um operário que erguia um cartaz com os seguintes dizeres: “Basta de promessas – Queremos realizações – Chega de sermos enganados”. de maneira alguma. submetido ou não aos valores da empresa onde trabalha. acreditam na existência de uma realidade plenamente apreensível. Na página A5. em geral. o jornal imprimiu como título principal a questão do IR. O jornal mostrou foto muito semelhante à imagem 37 . Qualquer jornalista. Perseu Abramo. de inseri-lo numa escala de valores para transformá-lo em fato e em unidade noticiosa. em nota mais discreta de duas colunas na primeira página. professor universitário.

813.” Via-se uma foto do presidente com dirigentes do Sindicato em reunião numa sala. A matéria da Folha garantiu que Feijó. Em duas matérias. diante de Lula. na qual se vê o mesmo cartaz que afirma que o salário não é renda. o Tribuna Metalúrgica. Seu leitor ficou apenas sabendo que Lula esteve na porta da fábrica. Para que essa construção ficasse ainda mais eloqüente. Abaixo da foto. seu ex-presidente. o que gerou notícias que apresentaram realidades distintas. que ainda se submete a uma assembléia. a humildade e a coerência como tema desse discurso. E também. instaura um presidente acuado por sua ex-base sindical.22 com o título: “Lula encara protesto e vaia em seu berço político”. em um texto que tematiza a traição. Ainda no dia 27. ouve seus “companheiros” e mostra que tem ação social.interna da Folha. colocou como título principal “Lula promete solução sobre tabela do IR até sexta-feira. A mesma Folha. o leitor da Tribuna ficava sabendo que o presidente prometera uma resposta para a reivindicação da categoria de pagamento de menos Imposto de Renda. E nem mais uma palavra de explicação sobre o assunto. “onde oficializou o programa de atendimento móvel de urgência no país”. a quebra de expectativas. no palanque. Com destaque maior. uma política de salário mínimo e a correção da tabela do IR”. “matéria” designa a parte verbal mais desenvolvida nas unidades noticiosas. em outro texto. A Folha. utilizou seu jornal para fazer um relato sóbrio e destituído de qualquer polêmica. o que era o projeto Samu. o jornal do Sindicato. Ninguém vaiou nem mesmo se indispôs com Lula na Tribuna Metalúrgica. Temos a gratidão. Não foi escrita uma linha sobre as vaias. entretanto. a publicação praticamente sonega a seu leitor a informação de que Lula esteve na Mercedes-Benz 22 Em nosso trabalho. Gancho é uma gíria jornalística que indica diferentes abordagens que hierarquizam as informações – assunto de que trataremos melhor em outra parte do trabalho. jornal da chamada grande imprensa. José Lopez Feijó. “pediu mais empregos. a partir de um mesmo acontecimento central (a visita do presidente a São Bernardo) diferentes fatos. edição 1. cujas greves apressaram a democratização e o fim da ditadura militar. parte do projeto Samu 192. outra matéria. mais contratações. havia mais um texto sobre a entrega de ambulâncias. Cada reportagem elegeu e organizou. nem sobre as cobranças feitas pelo próprio presidente do Sindicato. Podemos observar “ganchos” noticiosos distintos. ignorou o projeto Samu. Isso é ainda mais notável quando se constata que o Sindicato mais combativo do País na década de 80. 38 . O presidente surge como um político que não esqueceu sua antiga base.

Embora conhecida como possibilidade.para dar seqüência a um projeto social. paisagens. se dá a partir de uma visão de mundo. que realmente dá existência aos fatos. Reforcemos que cada tomada pressupõe ainda um esquecimento ou um apagamento de tudo mais o que se apresentou no mesmo espaço/tempo da filmagem e que.tem a função de fazer-acontecer. O Estado de São Paulo também faz um recorte específico. o ouvinte. podemos notar que os jornais dão “densidade de presença” a certos aspectos da realidade e assim expõem sua visão de mundo. Um enquadramento pode ser fechado. deve-se reforçar. e se concentra na questão econômica relacionada à correção da tabela do IR. na forma de um “close”. Com as observações de Tatit. é inerente a qualquer construção discursiva e ao próprio ato de apreensão do real a partir de uma ideologia. Não interessa para um semioticista estudar se essa apreensão foi ou não consciente. uma ideologia. Foram anotadas pelo autor deste trabalho e pela colega Kary Motta a partir da conferência de Tatit intitulada A deusa mídia. com a divulgação dos resultados de suas investigações nesse sentido. situações. (. é a mídia. A construção de uma determinada realidade. Pensemos em uma tomada de câmera em uma reportagem de TV.” Há outra questão importante sobre a “densidade de presença” que os meios de comunicação cedem a certos fatos. O leitor. o telespectador ou o internauta não devem desconfiar de que certos aspectos da realidade são silenciados na triagem ideológica para que a 23 Essa e algumas outras reflexões do professor Luiz Tatit. a entrega de ambulâncias. em agosto de 2001. não se encontram publicadas. A “pinçagem”. a mídia faz esse fato existir. não selecionado. mas de “uma das principais bandeiras do Ministério da Saúde”. teoricamente de maior interesse de seus leitores de bom poder aquisitivo. Um texto jornalístico tem como função fazer o parecer real ser sentido como real. Esses três exemplos não podem ser analisados a partir de noções como “realidade real” e “realidade artificialmente criada” de Perseu Abramo. injeta-lhe ‘presença’. como se tenta persuadir o público.. ou aberto. 39 . O Estadão lembra que não se tratou de uma ação qualquer.. na III Jornada Internacional do Centro de Pesquisas Sociossemióticas sobre Semiótica e a crítica das práticas mediáticas. a partir de possibilidades de expressão diferentes. na materialidade do texto. que delimita o assunto. objetos. se tornou “ausência”.) Um exemplo é o problema da corrupção no país. Ao revelar um determinado fato. Não existe nenhuma forma de falar de uma ocorrência qualquer de maneira “isenta”. O importante é verificar. ou esse ato de pinçar e remontar determinados acontecimentos. fazer-existir:23 “Assim podemos defini-la como um sujeito que faz-ser. Luiz Tatit explica que a mídia – aqui no sentido de jornais . mostradas nesta parte da tese. sua ideologia. na PUC/SP. Os jornais sempre reportam realidades filtradas. O jogo com a presença/ausência varia de jornal para jornal. que mostra uma ou mais pessoas.

a função do jornalismo também é a de apresentar conceitos sobre situações. Esse fato nem merece ser citado. principalmente . no sentido de tentar impor uma versão sobre certos acontecimentos. O leitor que a Folha de São Paulo constrói. atos e seus personagens. nem compreensão das experiências. Um jornal pode ser entendido como um texto que materializa e congela. As fotos harmonizam-se com o que é descrito. Isso acontece geralmente quando jornalista e público. Há a utilização da terceira pessoa. Um discurso que se contrapõe a qualquer ação do governo não pode ver a maioria das atuações de Lula como relevantes. muitas vezes. Reafirma-se o tema da traição. quando o texto foi bem sucedido na maneira de apresentar argumentos que sustentam determinada tese. Enunciação e efeitos de objetividade Deve-se ressaltar ainda que todos os três conjuntos de textos citados – inclusive o do jornal do Sindicato – estão rigorosamente dentro das regras da chamada construção de um material jornalístico “objetivo”. e de dar presença a certos aspectos da realidade e não a outros. Não aparecem opiniões. partilham dos mesmos valores. a omissão não é mentirosa. E também.o que o presidente não faz e as promessas que não cumpre. o recorte da realidade que um grupo social faz e julga mais conveniente legitimar para uma camada social mais ampla. A Folha leva o efeito de realidade ao extremo. Não há acesso aos acontecimentos “concretos”. O resultado final apresentado pelos jornais deve ser sentido pelo público-alvo como a própria realidade. fora dos quadros de uma linguagem e de uma categorização que acontece com base em um sistema de valores. Portanto. Os depoimentos estão entre aspas. Além de determinar o que é importante saber. portanto. Esses exemplos atestam a razão de a semiótica ser uma teoria que se volta para refletir sobre o “parecer do ser” que os textos manifestam. servindo como mais uma “prova” da veracidade do relato. notícia é também – e. Os fatos surgem como se o próprio leitor tomasse contato com eles. Para a Folha. por exemplo. com uma descrição minuciosa: “Logo que colocou o pé 40 . partilha da idéia de que a entrega de ambulâncias é um “jogo de cena”. e não uma versão dela. numa coordenada espaço-temporal específica. por exemplo. obviamente.“densidade de outros” seja ressaltada.

Cada um dos três recortes da realidade. da exclusão dos fatos extralingüísticos com o objetivo de buscar homogeneidade de descrição da língua (Greimas e Courtés: 226). se ocupam fortemente com a produção jornalística. E é por isso que a semiótica só pode falar da realidade. precisa ser claramente exposta em um trabalho de análise jornalística por meio da teoria semiótica. A segunda é a de que é possível um jornalismo “isento”. ou “texto” no sentido mais amplo. Todo enunciado. estava escrito: ‘Xô. Isso acontece porque há uma tendência na área de se pensar o “autor real”. a partir de Saussure. que podemos aqui utilizar na mesma acepção de objeto jornalístico. de uma noção nem sempre bem assimilada por estudiosos da comunicação. o que serve para reforçar a idéia de “independência” dos dois grandes jornais brasileiros. Trata-se.” Nota-se ainda no texto da Folha e do Estado um fazer crer nas regras de respeito à imparcialidade: todos os lados foram ouvidos. mais atrás. leva o meu salário. no entanto. A primeira ingenuidade que a análise dos noticiários desfaz é a de que a ideologia se encontra apenas na parte dos editoriais. Lula teve que encarar as faixas de protesto. a “produção real” do discurso jornalístico. da verdade e da objetividade e também da imparcialidade como efeito de sentido. A Lingüística. O estudo semiótico da enunciação se interessa pelos efeitos que essa produção deixa apreender. porém. Landowski explica a enunciação como “ato pelo qual o sujeito faz ser o sentido” e o enunciado “o objeto cujo sentido faz ser o sujeito” (1989: 222). salário não é renda’. ao invés de buscar explicações em um objeto específico. constituiu-se como ciência autônoma a partir do princípio da imanência. Procuram entender o jornalismo.no palanque montado no pátio da fábrica. “as reais intenções”. leão’. Temos aí uma outra explicação para o fato de certos teóricos preferirem falar da comunicação de uma maneira ampla. também na tentativa de interferir na própria dinâmica de criação por meio de uma crítica centrada na discussão ética. leão. os metalúrgicos ostentavam a mensagem: ‘Tabela sem correção. no entanto. Mesmo vozes criticadas aparecem também enunciando suas justificativas. Todos esses recursos para simular distanciamento e fidelidade ao real são estratégias de enunciação. assunto central deste trabalho. por exemplo. A objetividade. 24 41 . pressupõe um ato de criação. Muitos estudiosos de comunicação. A visão de mundo do jornal paira sobre seu produto e é indissociável de qualquer um dos seus recursos expressivos e de seus conteúdos. por outro lado.24 O conceito de enunciação é fundamental para os objetivos da nossa análise. induz seus leitores a uma determinada reação. Na primeira fila. a partir de quem o faz e como o faz. As concepções de Saussure também formaram a base da teoria semiótica. questões em que Talvez essa seja uma das razões de os estudos da enunciação não terem o mesmo impacto entre teóricos da comunicação em relação aos estudiosos de linguagem. generalista. Em outra. Esse ato de criação não se confunde com a produção “real” do texto. a enunciação.

Não temos acesso. a objetividade descrita pela Folha. O programa elabora um outro tempo. produto de um olhar “objetivo”. um outro espaço e outras personagens para a persuasão do público. Fátima Bernardes. por determinados profissionais. Do ponto de vista semiótico. a partir de uma 42 . Desse modo. enviesada. mais interessada em buscar no texto as respostas para investigar. faria o mesmo recorte da realidade. se torna então uma personagem. é uma estratégia de enunciação que instaura um efeito de sentido de adequação ao real. Essa estratégia argumentativo-persuasiva para criação de importantes crenças no destinatário acontece em dois patamares complementares: No primeiro.a semiótica acertadamente não se envolve. Por exemplo: o telespectador do Jornal Nacional tem a impressão de que o programa sempre acontece “ao vivo”. e comum a todos os noticiários aqui analisados. como empresa ou parte de um conglomerado de informação. O que está em discussão. de caráter geral. no mesmo momento em que é visto. como afirma o Manual de Redação da Folha de São Paulo (2001: 45) e pensada. O problema. é que objeto jornalístico “JN” nos impõe modos de relacionamento com a apresentadora. diante de um acontecimento. na semiótica. em um determinado espaço. um ser humano. porém. não é esse. porém. mas como a própria realidade. A objetividade é um dos recursos para tentar “apagar” o modo pelo qual a realidade foi filtrada a partir do sistema de valores do jornal que. discutida como uma maneira de relatar um fato com “distanciamento e frieza”. Como se verá neste trabalho. foi feito por alguém. Só que o jornal sabe que seu público. a reflexão sobre a enunciação e seus efeitos tem enorme destaque porque se valoriza o objeto jornalístico como meio de conhecer e apontar as estratégias de manipulação. Pode-se argumentar que o JN é realizado no Rio de Janeiro. A avaliação precisa das bases ideológicas do público-alvo na argumentação garante ao jornal estruturar esse discurso que se quer fazer-crer como “analíticoobjetivo” e armar uma ponte entre a objetividade e a verdade. por exemplo. porém. todas as noites. É evidente também que a apresentadora Fátima Bernardes não é uma criação de computação gráfica. essa apreensão do real não é sentida por leitores. telespectadores. em um determinado tempo. tendenciosa. internautas ou ouvintes como “parcial”. é possível observar textos que têm um viés ideológico muito evidente. a intencionalidade de quem enuncia. Retomemos a questão da objetividade. Sabemos que o Jornal Nacional. não quer se revelar como um ator social atuante e interessado nos aspectos sócio-políticos do que noticia. como efeito de sentido construído pelo texto jornalístico exatamente para fazer-crer que os relatos são a própria expressão do que acontece ou aconteceu. quase alguém “da família”. para citar um exemplo. a esse ato produtor do texto.

Editora Contexto. ele se diz “cerceado”. 26 O rótulo de verdade ou de mentira colocado nos produtos dos jornais por determinados grupos sociais tem quase sempre motivação política. que dizem respeito a estratégias enunciativas específicas. de caráter mais delimitado. para a maioria dos norte-americanos.28 A sensação de objetividade não é algo que envolve apenas um contrato entre jornal e público. Quando a visão de mundo de um jornalista bate com a da empresa onde trabalha. portanto. 25 43 . que determinado recorte da realidade feito pelos jornais reforça ou nega suas visões de mundo e estratégias de manutenção ou busca de poder. de opinião – subjetividade do destinador – mas de uma premissa que tem valor quase de “fato”. sem a explicitação de um “eu”. de lhes dar “significado”. filmagens e outras possibilidades de concretude discursiva. a técnica mais comum é fazer com que a notícia seja manifestada. no nível discursivo. 2003. 27 Esses procedimentos são mais necessários quando não há uma grande partilha de valores entre jornal e público-alvo. Não se trata de julgamento. essa apreensão da realidade foi sentida como “objetiva”.interpretação. partilha da idéia de que Lula é um traidor. podem ser verificados nos textos certos efeitos de sentido de distanciamento. No segundo nível de construção de adequação ao real. E quando há choque ideológico. Jornais e público se entendiam sobre o que estava ocorrendo e o que deveria ser feito. 28 Uma análise exaustiva dessa questão encontra-se no estudo de editoriais realizado por Norma Discini em “O Estilo nos Textos”. de fotografias. O uso da terceira pessoa numa reportagem dá a impressão de que o próprio assunto se apresenta para o público. “objetivo” que serve de base de construção da argumentação. Um jornal palestino muito provavelmente apresentou as mortes de Jenin como resultado de um massacre. ele se sente “livre”. entendido com um dado “objetivo” para a maioria dos árabes que vivem em Israel.27 Em jornalismo. por exemplo. o que é muito mais comum. na forma de sanção pública. de um dado “real”. o debate sobre a “veracidade” de um texto é muito mais a exposição de uma crítica de motivação ideológica do que resultado de um exercício analítico. Há um efeito de realidade denominado de desembreagem enunciva pela semiótica. sem exageros. Houve patriotismo exacerbado e apelos belicistas dos meios de comunicação dos Estados Unidos após o ataque de 11 de setembro.25 Reforcemos que o parecer verdadeiro é sentido como verdade quando grupos ou pessoas que se comunicam compartilham de uma mesma maneira de categorizar os acontecimentos.26 O leitor construído pela Folha de São Paulo. Indicam. Só que. Os jornais também procuram persuadir o público-alvo de que o recorte da realidade que efetuam ao noticiar é a própria realidade lançando mão de diálogos. Não raras vezes.

a concatenação dos fatos e o significado de certas coisas. O negrito é de Martins. no texto verbal. são taxativos. diz que “o jornal expõe diariamente suas opiniões nos editoriais. É possível apontar estratégias enunciativas de objetividade em partes do jornal assumidamente opinativas. Isso acontece porque os recursos de objetivação de um texto. não se confundem com o que os próprios jornalistas chamam de texto “objetivo”. como o do jornal O Estado de São Paulo. o repórter também possa interpretar a notícia. os espaços consagrados às opiniões. O jornalista deve evitar. em que se permitirá ao autor manifestar seus pontos de vista.O “efeito de neutralidade” Uma questão notável no jornalismo é que quase todos os textos são produzidos em terceira pessoa. Pode se dizer: tal fato ocorreu porque antes havia ocorrido isto e amanhã pode ocorrer aquilo. a seguinte classificação de textos jornalísticos: • • • Objetivos/factuais Interpretativos Opinativos 44 . Não exponha opiniões. em que o jornalista deverá registrar versões diferentes de um mesmo fato ou conduzir as notícias segundo linhas de raciocínio definidas a partir de dados fornecidos por fontes de informações não necessariamente expressas no texto” (1990:18). intrometer-se no assunto reportado: “Faça textos imparciais e objetivos. É quando se diz: isso aconteceu e está errado” (1988: 117). mesmo em editoriais. Para os profissionais. no Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo. Cláudio Abramo explica que há outras divisões: “No jornal. A interpretação não é opinião. e matérias interpretativas. Pode se interpretar o desencadeamento. Raramente alguém diz “eu”. É uma interpretação. dispensando comentários no material noticioso. Manuais de jornalismo. Eduardo Martins. portanto. entre profissionais da área e alguns estudiosos. Só que o jornal não é feito apenas de textos “objetivos” nessa concepção dos jornalistas. Há. As únicas exceções possíveis: textos especiais assinados. muito estudados pela lingüística e pela semiótica. para que o próprio leitor tire deles as próprias conclusões” (1990: 18). de acordo com o entendimento prévio. Ainda que às vezes. mas fatos. “objetividade” é não se envolver com a notícia. a notícia tem aquela objetividade que foi optada pela empresa e cooptada pelo jornalista. A opinião fica um passo além.

do ponto de vista ideológico. O primeiro problema que surge para abalar essa divisão é que. Estamos. não importa o meio de comunicação e nem sequer as coerções de expressão e textualização. uma atividade que se desenvolve a partir de uma visão de mundo. Não é exagero afirmar que. esse procedimento é mais evidenciado. Pesar o que entra e o que sai é. De nada valem certas obviedades. por exemplo. por exemplo. Já discutimos que. principalmente na pretensa possibilidade de controle do leitor. outros encaixes precisam ser realizados. Podemos dizer que a própria idéia de significação é uma “opinião” sobre o mundo. Relembremos que todas as narrativas citadas que contam como foi a visita de Lula a São Bernardo são exemplos de “texto jornalístico objetivo”. A divisão entre textos objetivos. mais outra estratégia de criação de crenças. quanto mais complexo for um assunto. antes de tudo. que é possível narrar um acontecimento qualquer de forma “objetiva” ou “factual”. milhares de notícias chegam A única exceção fica para as revistas semanais. como a de dizer que um editorial emite uma opinião e um texto factual não a tem. Tenta-se fazer crer que a parte de opinião está nos editoriais ou nos comentários dos colunistas. Há uma justificativa para o sucesso dessa classificação. Textos classificados como objetivos. não mais falando de uma mera montagem. sem determinar valor para alguns aspectos em detrimento de outros. cotidianamente. principalmente o recurso da terceira pessoa. interpretativos e opinativos – bastante aceita até por teóricos do jornalismo – é. 29 45 . interpretativos e opinativos usam quase sempre as mesmas técnicas de criação de distanciamento da enunciação do enunciado. é preciso explicar a diferença que apresentam de um ponto de vista semiótico. e novamente se está diante de coerções ideológicas. E que o limite da interpretação e da opinião também são reconhecíveis.As estratégias de enunciação discutidas no item anterior se relacionam com todas essas três formas de apresentação dos textos jornalísticos. portanto. com textos carregados de opinião e interpretação. Há ainda outros complicadores para abalar a crença na objetividade jornalística.29 Nos diários. Ninguém consegue contestar. Como os valores ideológicos são indissociáveis de qualquer um deles. internauta ou telespectador sobre a forma de abordagem de um acontecimento. a valorizar ou desvalorizar diferentes unidades. do ouvinte. e sim de um sujeito que é obrigado a fazer julgamentos e escolhas. do ponto de vista semiótico. Algo deve ficar de fora. é impossível ter acesso à realidade sem fazer escolhas. mais escolhas deverão ser feitas pelos jornalistas para que seja apresentado na forma de notícia e possa se adequar às necessidades de um jornal.

que não se envolveu com a notícia. mas não se confunde. tarefa já realizada em outras partes do jornal. já analisados. Há também grande ancoragem temporal. da pauta ao resultado das reuniões entre editores é. advérbios. filmagens. Há o uso de adjetivos. é. o jornalista vai mostrar envolvimento com a história narrada por meio de certas marcas. ao “assunto”. e que vai “abalar as finanças da companhia aérea”. espacial e actancial. que o texto objetivo concebido pelos jornalistas deve ter um “efeito de neutralidade”. O que varia nos três tipos de textos é a tomada de posição em relação ao que se narra. um texto de sanção. em si mesma. A classificação dos textos jornalísticos entre opinativos. quase sempre. o único possível. como diálogos entre aspas. Podemos pensar. Os adjetivos são evitados. do ponto de vista semiótico. fotos. O texto opinativo. que é produto de estratégias de afastamento da enunciação do enunciado. Ao mesmo tempo. o que cria a ilusão de situações “reais” de diálogo. Expliquemos melhor. Mesmo que. Um texto interpretativo também produz efeito de objetividade. Nesse caso. Tentemos uma aproximação entre esses efeitos de neutralidade do discurso jornalístico e as estratégias de enunciação já citadas. antes de tudo. Há uma moralização da história. que gerou “grande comoção”. teoricamente. que radicaliza o distanciamento entre enunciação e enunciado. interpretativos e factuais/objetivos inclui. a parte mais subjetiva do texto deve ser avaliada pelo público como resultado dos dados apresentados. existisse um jornal apenas com notícias “factuais”. porém bastante relacionados. A seleção editorial. por outro lado. porém. Isso quer dizer que o enunciatário deve ser conduzido a acreditar que o julgamento realizado pelo enunciador é “evidente”. o jornalista deve convencer o público de que ele permaneceu neutro na coleta e na apresentação da história reportada. Podemos notar a existência de dois efeitos distintos. Raramente há um “eu” assumindo a palavra. discursos construídos em terceira pessoa. esse conjunto seria o produto de uma impressionante triagem. Em um relato que se quer fazer crer como objetivo. Se enunciador e 46 . O fazer-crer na neutralidade reforça. interpretativos e objetivos mostra é que se tenta fazer-crer na idéia de que existe uma maneira de expor a notícia de maneira “neutra”. mecanismos de objetividade nos editoriais e nos outros tipos de textos de um jornal. portanto. O texto é praticamente figurativo. Não há preocupação em contar a história. São retomados apenas os detalhes mais contundentes para expor contradições e julgá-las. um outro filtro. com o efeito de objetividade no jornalismo. Há. É o caso da apresentação da queda de um avião que fez centenas de vítimas como um acidente “horrível”.às redações. Há um distanciamento constante no modo de enunciar. Cede-se a palavra a entrevistados. entre outros recursos de concretude discursiva. O que a classificação entre textos opinativos. ou “objetivados”.

. carregado de subjetividade. No primeiro caso. No texto interpretativo existe um rompimento da neutralidade em determinados momentos. que só ressalta a complexidade dos conflitos entre grupos e classes na sociedade contemporânea. É o caso do texto de Clóvis Rossi citado anteriormente. a realidade e a imparcialidade fazem parte de um debate inesgotável. da imparcialidade. antes de ser uma questão ética. Inscrevendo-se num quadro de luta pela imposição deontológica (dos deveres) das funções legítimas 30 O editorial. Rossi confessa que sua neutralidade é incômoda. regra que envolve os aspectos éticos da profissão e. e também a verdade. ou seja. É por isso que a objetividade. É notável observar que.) Da mesma forma. enquanto discurso sobre um dever-ser jornalístico socialmente interessado. Mais raro. é um objeto de luta social. Resolvemos abordar essa questão porque é preciso separar o estudo dos jornais – freqüentemente a análise do discurso das empresas de comunicação e seus efeitos – das coerções do jornalismo como atividade profissional. temos um dever-fazer. O jornalista avalia que não realizou seu trabalho. como não pode deixar de ser. é uma estratégia de legitimação social de um tipo de produto e deslegitimação de outros. E no texto opinativo o jornal não pretende e não quer ser neutro. um fazercrer. contudo possível. contudo.30 A objetividade como dever-fazer: a ética jornalística Estudaremos agora a objetividade de um outro ponto de vista. é exclusivo das unidades noticiosas que se querem fazer crer como factuais. retoma. a objetividade. de outra perspectiva. tem como característica principal um envolvimento com o que narra. no outro. (. por exemplo. Diversos teóricos e analistas discutem os valores dos jornais e de seus produtos.enunciatário partilham dos mesmos valores. vinculada ao direito social à informação. justamente de buscar “a melhor versão” sobre o que ocorreu em Jenin. portanto. O dever-fazer jornalístico mostra-se profundamente relacionado ao fazer-crer dos jornais. da realidade. é um texto em primeira pessoa. O efeito de neutralidade. os limites profissionais e as estratégias das empresas de comunicação de um ponto de vista ético. até um julgamento pode ser interpretado como “objetivo”. a questão da verdade. como deverfazer do jornalista. Como lembra Clóvis de Barros Filho na abertura de seu livro sobre ética na comunicação (2001: 9): “A representação do jornal ideal. na sua coluna. no qual um repórter narra suas sensações e o que viu sem expor julgamentos evidentes. com a qual concluímos esta parte do trabalho. 47 .. Reforcemos que a busca de objetividade pelo jornalista – como dever e exercício que têm muitas características em comum com o trabalho realizado pelo cientista – não pode ser confundida com a objetividade “efeito de sentido” dos produtos jornalísticos.

uma ideologia. entretanto. quais são os confrontos de várias visões de mundo nos diferentes textos e os valores em jogo dos grupos sociais e das empresas de comunicação. mas bem que poderia ser direcionado aos cientistas em geral: “(. O trecho a seguir. busca seus vínculos com o todo ao qual pertence. mais socialmente profícuo é o debate. 48 . mas pode apresentar outro ponto de vista importante para conhecer os atos humanos. que o jornalista não tem como produzir textos sem que estejam inseridos em uma visão de mundo. acadêmicos. sob pretexto e obrigação de fazer ciência. E pode envolver-se não só nas análises das estruturas de manipulação (fazer-crer) como também nos aspectos éticos. procura envolver totalmente o objeto da observação. é tema de doutrina. Por meio da teoria é possível estudar como os jornais apresentam pontos de vista distintos sobre um mesmo acontecimento ou conjunto de acontecimentos. deixar de colocar um problema incômodo. O estudo e a difusão maior das reflexões sobre objetos concretos da comunicação por meio da análise semiótica podem não só ajudar profissionais e pesquisadores como também auxiliar o público a entender os modos com os quais se concebem verdades e realidades de acordo com determinadas ideologias.. na reflexão sobre a própria atividade jornalística. investiga os momentos antecedentes e conseqüentes no processo do qual o objeto faz parte. não raras vezes. reexamina o objeto de vários ângulos e várias perspectivas”.do jornal. bem como as interconexões internas dos elementos que o compõem. “se se parte apenas da constatação de que a objetividade absoluta não existe e que. ele nega ao jornalista quando estuda a comunicação. Ele lembra ainda que. conhecendo-se o que a mídia efetivamente faz. a história. Essa mesma busca pela objetividade. não garante a “verdade dos fatos”.) O conhecimento da realidade é tanto mais objetivo quanto mais o sujeito observador não se prende às aparências. como testemunha ocular de um acontecimento. ainda que resvalando um pouco para o positivismo. de Perseu Abramo. ou seja. Não podemos. No entanto. E aqui retomamos a discussão sobre a objetividade. professores e deontólogos. ou seja. Maior a intensidade da discussão. Um jornalista respeitado como Clóvis Rossi não escapa dessa coerção. fala aos jornalistas. Geralmente o pesquisador se dá o direito de afirmar ter uma certa objetividade no seu trabalho.” A semiótica permite esse conhecimento sobre os jornais. da qual participam interessadamente empresários e profissionais de mídia. entretanto. há mais de um século. O profissional. (2003: 40). Devemos reforçar.. falar sobre o que a mídia deve fazer só tem sentido se conhecidos os efeitos junto à sociedade. a objetividade.

os atores. também tem uma função social importante. dos interesses das empresas. A profissão de jornalista. as motivações e as conseqüências é uma ação necessária.portanto. há questões para as quais esperamos o empenho desses profissionais. muito diferentes. Acima das ideologias.sem fazê-la parecer ingênua. não vale a pena procurar uma objetividade relativa. não se sairá jamais da mais completa subjetividade” (idem). Relatar os atos humanos. meramente retórica ou ilusória em um trabalho acadêmico sobre o jornalismo. das escolhas de todos os tipos que os jornalistas fazem e que desvelam suas visões da realidade. historicamente importante e uma outra maneira de interpretar a frase de Bernstein – a “reportagem é a melhor versão da verdade possível de obter” . 49 . É evidente que as coerções de trabalho de um jornalista e de um pesquisador são muito. contudo.

passional e inteligível para que se instaurem e se perpetuem os tão necessários laços com o público-alvo. 50 . Os procedimentos específicos serão estudados na segunda parte. Examinaremos inicialmente quem são esses sujeitos instaurados nos objetos jornalísticos e os laços entre eles. É preciso salientar que. Os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores. ouvintes. Outras cláusulas. nesta parte do trabalho. Do ponto de vista analítico. A curiosidade sobre essas narrativas motiva. base da lucratividade e do poder das empresas de comunicação. em grande parte. Os noticiários perseguem maior audiência (no caso dos programas de rádio ou TV.O GERENCIAMENTO DO NÍVEL DE ATENÇÃO Estratégias de persuasão dos jornais No item anterior. O foco maior. As unidades noticiosas são histórias com seus sujeitos e conflitos. dedicada à análise de cada um dos quatro grandes grupos de noticiários. Para atingir o objetivo.ou “cláusulas” do contrato entre jornais e público. além de sites na Internet) ou maior tiragem (a exemplo das revistas e diários). o relacionamento entre o contador de histórias – o jornal – e o público. no entanto. é o exame das estratégias de persuasão mobilizadas pelos jornais para fazer o público-alvo realizar principalmente a performance de consumir. que funda e sustenta a relação enunciador-enunciatário. mais específicas. O exame desses procedimentos revela o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção. a relação dos jornais com o público-alvo também pode ser examinada como outra história que faz as narrativas das notícias existirem e delas depende. serão retomadas nesta parte do trabalho. discutimos principalmente as grandes bases . comuns a todos os jornais estudados. constroem as unidades noticiosas e as organizam em edições também sedutoras. investigaremos as estratégias gerais de gerenciamento do nível de atenção. o fenômeno da atenção no jornalismo será abordado. Para apresentar e discutir o gerenciamento do nível de atenção torna-se necessário inicialmente determinar com mais exatidão alguns aspectos do texto jornalístico. E também para que o público assuma determinados valores. Esclarecidos esses pontos. internautas ou leitores nos níveis sensorial.

A segunda história aparece nas unidades noticiosas (reportagens. O relacionamento entre jornais e leitores. internautas. Ela narra então que o menino pulava sobre a cama. a não transgredir suas ordens. É por isso que insistimos em falar de duas histórias muito ligadas. bateu a arcada dentária numa cadeira e terminou o dia no pronto-socorro. Essa é a razão. apesar de ordem contrária dos pais. Podemos observar que há duas histórias que se relacionam: a da criança transgressora e a da mãe que conta a história ao filho. Ao relatar essa história.Enunciação jornalística como narrativa O exame de um objeto jornalístico mostra a existência de dois tipos de “histórias” que se inter-relacionam: • • A primeira história se manifesta na própria relação público-jornal. principalmente. Outro ponto importante é que o destinador obtém o que quer principalmente a partir da instauração de uma curiosidade (querer-saber) que só é satisfeita por meio da realização de uma ação. Os jornais. Vamos expor de maneira mais didática essa questão central de nosso trabalho. artigos. após brincar bastante. como já pôde ser notado nas páginas anteriores. A mãe chama o filho e diz que o melhor amigo dele quebrou o dente e “levou vários pontos na boca” no hospital. a mãe (destinadora) espera um efeito no filho (destinatário): não quer apenas “informá-lo”. apresentada na forma de unidade noticiosa. Ela tenta persuadi-lo a não fazer a mesma travessura e. comentários). a existência de uma história dentro de outra história. o menino perdeu o equilíbrio. satisfazem a curiosidade sobre as notícias que criaram desde que o sujeito “público” realize o ato de consumo. caiu. ouvintes ou telespectadores é encarado aqui como um tipo especial de história que faz uso de uma outra. mas ele fingia não escutá-la. motivar o consumo – e a sobrevivência – do próprio jornal. de mostrar o enunciador e o 51 . Só que. Os jornais apresentam notícias que têm essa mesma função da história contada pela mãe: não apenas informam. com clara função persuasiva. mas também expõem a maneira como o público deve ver o mundo e enxergar-se nele (dever-ser). Uma situação entre mãe e filho serve de exemplo. ou uma análise narratológica da enunciação. Pode-se verificar que realizamos o estudo da enunciação como um tipo específico de narrativa. editoriais. Sua mãe pedia para que ele parasse. charges. suas relações e possibilidades de análise. por exemplo. Queremos investigar como as notícias servem para infundir visões de mundo.

Sabemos que o público precisa ser persuadido – sempre no sentido semiótico – a manter contato com o jornal.31 Formas de relacionamento entre jornais e público-alvo Mostramos até agora o sujeito jornal no papel de destinador e o sujeito público no de destinatário. não vai ganhar doce nunca mais. sedução. Um sujeito. não consegue comer tudo. só inicia uma ação se o destinador. 2001: 28). telespectadores. de situações. para depois verificar o que acontece quando se apresenta como destinatário. como uma curiosidade. vamos pensar o produto jornalístico como destinador. no papel de manipulador. O público pode aparecer como destinador que determina as ações do destinatário jornal. conseguir persuadi-lo desencadeando uma vontade.” 4 – Provocação: “O seu prato está cheio. O jornal como destinador . Em qualquer arranjo. actantes que pertencem à análise da narrativa. deve ser ressaltado que o relacionamento entre sujeitos é sempre fortemente marcado pelo modo de apresentação das unidades noticiosas. Os quatro grandes tipos de manipulação do destinador podem ser exemplificados na relação mãe e filho: 1 . Estudaremos agora essas posições para uma apreensão mais completa das formas de relação dos noticiários com ouvintes. como destinatário. internautas. Há outra posição verificável nos textos jornalísticos do ponto de vista do estudo da enunciação como uma narrativa. actantes da enunciação.32 Vamos tentar discutir esses Vale lembrar que a semiótica propõe duas concepções complementares de narrativa: “A narratividade como transformação de estados. por exemplo) ou impondo um dever (uma obrigação) de realizar a performance. 32 Quem maneja as crenças (ou o crer) do sujeito é o destinador. intimidação e tentação. de que decorrem a comunicação e os conflitos entre sujeitos e a circulação de objetos-valor” (Barros.Tentação: “Se você comer a carne. no entanto. Dever e querer geram as quatro grandes classes de manipulação entre destinador e destinatário previstas pela semiótica: provocação. a narratividade como sucessão de estabelecimentos e rupturas de contratos entre um destinador e um destinatário. operada pelo fazer transformador de um sujeito que age no e sobre o mundo em busca de certos valores investidos nos objetos.” 3 – Sedução: “Só uma criança bonita como você é capaz de comer tudo. fonte de valores do sujeito. ganha o doce. Ele manipula o sujeito (aqui no papel de destinatário) para a ação. ponto de vista mais comum em estudos do jornalismo.” 2 – Intimidação: “Se você não comer.enunciatário. Essa interação se dá a partir de uma performance ou ação que coloca o enunciador jornal no papel de destinador e o enunciatário consumidor no papel de destinatário. nos papéis de destinador e destinatário. Inicialmente. um querer (um desejo qualquer. leitores. mas como eu sei que você ainda é pequeno.” 31 52 .

volta-se mais claramente para a tentação. na qual se tenta afirmar uma imagem positiva do destinatário. entre outras recompensas. por exemplo. uma obrigação de estar bem informado. que se baseia o slogan da Folha: “Não dá pra não ler” (semioticamente um não poder não fazer). Na sociedade capitalista. Entretanto. Para fazer o telespectador do Jornal Nacional sintonizar um programa e manter-se ligado à tela. não há interação. de maneira geral.). também servia para manipular por provocação. No slogan da Folha. também existe uma tentação. E nesse texto. também existe uma manipulação por intimidação bastante sutil: se não for por meio da Globo. Não se desconsidera. É possível ainda pensar em uma manipulação por sedução. Há também uso do registro informal. O slogan como recurso do discurso publicitário tem um sentido vago justamente para que sua significação adquira um certo dinamismo e possa se adequar a um contexto específico. Nos dois casos. mostramos que o slogan aparecia em um anúncio que falava sobre emprego. promete-se a ele. A intimidação. e a tentação. de relação entre iguais. Em outras palavras. e o da Veja. contudo. uma vontade. o conhecimento (o saber) é sempre vendido como instrumento de vantagem competitiva. Busca persuadir de que apresenta personagens e situações nos programas com os mesmos interesses do telespectador.no qual se insere. Cada produto jornalístico. à esq. tem como característica mais evidente a tentativa de impor uma curiosidade. 33 53 . É nesse sentido. um saber sobre o mundo e sobre si mesmo. Em nosso trabalho sobre a Veja (Hernandes.” O destinatário era levado à ação para evitar que o destinador tivesse uma imagem negativa dele. “Não dá pra não ler” é também algo que se apresenta como irresistível. esse aspecto é mais evidente. no planeta. possibilidades de que a leitura seja motivada por algo que estimule a curiosidade. “a gente se vê por aqui”. na propaganda do Jornal Nacional. pode ser observada uma estratégia de intimidação. pois comunicava ainda a um provável leitor: “Só quem não quer ter acesso a possibilidades profissionais interessantes não lê a Veja. um querer-saber o que está sendo apresentado como notícia no País. ao falar em “a gente”. a imposição de um dever-fazer. “indispensável”33 (não poder não ser). por exemplo.o slogan está no canto inferior. por meio de uma pequena análise de alguns slogans de 2004. uma publicidade do próprio jornal . irmanados por meio do principal sentido manejado pela TV. a construção de um querer-fazer são as manipulações mais comuns e evidentes entre destinador jornal e público destinatário. existe um dever. O slogan da Globo. sujeito coletivo que inclui enunciador e enunciatário. De um lado. que aparece. base de um contrato social importante. A maior rede de TV do País cria assim um efeito de intimidade. que esclarecem o papel dos jornais como destinadores. ou seja. principalmente entre profissionais que exercem funções criativas. a visão (ver reprodução do anúncio a seguir .importantes conceitos. o sentido de um slogan também se constrói em função das relações estabelecidas com um texto – por exemplo. 2004).

grosso modo. ou obrigações. Trata-se. que sabe onde estão as coisas importantes. o ouvinte. Temos um leitor manipulado por tentação: ele vai querer ler o jornal para obter a informação que tem uso prático. Os concorrentes aparecem como divulgadores de notícias sem utilidade. a organização delas nas edições e o tipo de triagem que cada noticiário realiza. No Jornal da CBN. o internauta interpretam se o 54 . em que o público-alvo como um todo tem maior nível de escolaridade. A revista Época enuncia no slogan: “O que realmente importa”. entre querer saber e dever saber: “As notícias que podem mudar o seu dia”.Jornais para grupos mais homogêneos. Deve-se ouvir a rádio porque lá se encontram as notícias mais importantes. o telespectador. ou ainda em ambas as estratégias. O seu leitor é aquele que não perde tempo. E quem não sintonizá-la pode ser surpreendido com alguma conseqüência dos acontecimentos. Sabemos que essa forma de manipulação é apenas uma parte do percurso que estamos analisando. há um equilíbrio entre intimidação e tentação. O Diário de São Paulo aposta na mobilização de uma racionalidade do leitor: “Informação que você usa”. A publicidade e os slogans dos jornais tentam predispor o público a avaliar positivamente as unidades noticiosas. Não só intimida e provoca como também seduz. vão apelar para o lado mais pragmático do enunciatário para conquistá-lo. Outros slogans de jornais e programas ilustram bem as cláusulas desse contrato fiduciário que se funda na criação de desejos. do momento em que o leitor.

o grande destinador dos meios de comunicação é o mercado. a de consumir o programa. se faz pesquisa.jornal e as notícias são interessantes. O telespectador avalia se ficar diante da tela da TV vai lhe render algum benefício. na realidade. temos um destinador extenso . por exemplo. Note-se o (antigo)34 slogan da Folha de São Paulo: ‘De rabo preso com o leitor’. nesse primeiro momento. programas de rádio. como nível cultural para entender as notícias) e um poder (como. o desejo do destinador (mercado) é conhecido por pesquisas numéricas. porém. quem produz jornalismo sabe que o provável telespectador vai ligar a TV. a empresa tem o rabo preso com o ‘número’ de leitores. Para ter acesso aos desejos dos destinadores. O sujeito público. Esse momento especial é a razão de ser das equipes de jornalismo. Por outro lado. o slogan era “Não dá para não ler”. “Esse destinador é identificado numericamente – e não qualitativamente -. assim. Se a manipulação for bem-sucedida. se a manipulação for bem-sucedida) deve desencadear o consumo do jornal. uma visão mais abrangente dessas relações. Para Luiz Tatit. Dessa forma. O jornal como destinatário - Vamos apresentar um outro ponto de vista complementar dos papéis do jornal e do público para obter. Na verdade. Podemos verificar que o telespectador. 55 . precisa ter um saber (no caso do jornalismo. Essa forma de relacionamento acontece também nos diários. Se a instauração do querer e do dever no público-alvo aconteceu de maneira eficaz (em outras palavras. revistas. Parte desse interesse vincula-se principalmente ao valor relacionado ao objeto “notícia”.que espera do destinador por ter cumprido sua parte no acordo. para realizar a ação. recursos financeiros para fazer uma assinatura de um jornal). ver as manchetes de um programa e julgar. Obter informação que considere útil e/ou que lhe dê alguma satisfação é um dos “prêmios” – uma sanção . Os profissionais da Globo querem que o telespectador sintonize o jornal e se mantenha concentrado enquanto o programa é exibido. É preciso lembrar que essa questão. sites. envolve todos os jornais aqui analisados. A satisfação conclui esse percurso do sujeito público como destinatário.e não intenso – que tenderia ao ‘um’. ele passa a ser um sujeito que decidiu entrar em conjunção com o objeto “unidade noticiosa” para ter acesso aos valores prometidos pelo jornal. Quanto mais 34 Em 2003. avalia principalmente o valor do valor da unidade noticiosa como objeto que funda a relação destinador/destinatário. conhecimentos. se o que foi mostrado desperta sua atenção. contudo. Vamos utilizar o JN como exemplo um pouco mais concreto. ou seja. programa de performance.

O número de leitores. se os consumidores quisessem uma sociedade de base socialista. uma espécie de intermediário desse destinador. Sujeitos marcados nos jornais e modos de relacionamento Estudemos agora os sujeitos instaurados pelos noticiários e outras formas mais específicas de relacionamento entre eles. A noção de jornais como destinadores é bastante utilizada em estudos mais ideológicos. que mostram o compromisso dos meios de comunicação com um determinado sistema econômico. O jornal pode ser entendido como sujeito delegado. Luiz. Acreditamos que as duas formulações (o público como destinador. As pesquisas feitas. A semiótica francesa vê os sujeitos como 35 Tatit. é pouco provável que Marinhos. já que é. antes de tudo. Nas duas concepções. que estatizasse as próprias empresas de comunicação. empresa capitalista. atualmente o capitalismo neoliberal. desde que verificados certos limites. ouvinte. telespectador. nas análises mais comuns) devem ser entendidas como níveis complementares de uma mesma reflexão sobre o jornalismo dos principais meios de comunicação. internauta. Quando medem em pesquisa o que o público quer. mostrado por Tatit. hierarquizada e apresentada a partir de seu impacto. Grupo Estado e editora Abril) passivamente cedessem espaço e foco para as discussões e os desejos desse “mercado”. Entretanto. até porque é uma de suas mais poderosas criações. que faz-fazer (ou faz-agir). a mídia se torna sujeito delegado pela maioria. Mesquitas e Civitas (respectivamente proprietários das organizações Globo. Palestra citada. como também existe o papel da mídia enquanto “aparelho ideológico do Estado”. na de Tatit. inclusive de consumo do próprio material que produzem. e como destinatário. Com a consulta. que tem sua razão de ser na manutenção dos valores. internautas ou ouvintes só funciona como destinador quando deseja aquilo que está autorizado a ser desejado. Há o componente “mercado-pesquisa-foco”. encomendadas ou divulgadas pelos jornais podem perfeitamente ser vistas sob esse aspecto. ou como o próprio destinador. mais autorização para fazer determinados focos sobre assuntos. telespectadores.leitores. é o “mercado”. Os noticiários martelam certas idéias e criam padrões. Nessa concepção. a notícia é pensada. significando os detentores do grande capital. 56 .”35 Essa formulação de Tatit inverte um raciocínio comum de análise e que foi apresentado anteriormente: o de que os meios de comunicação são destinadores do leitor. recebem de volta muito do “desejo” que inspiraram.

casual. Folha de São Paulo – aparecem como a figurativização do primeiro sujeito evidente. enfim. Nos impressos e na Internet. fidedigna. comentarista. um estilo (p. o atacante Rivaldo. de diferentes posições ideológicas.) Assim como as personalidades humanas afetam os relacionamentos entre pessoas. análises . é importante ressaltar.profissionais . também constrói um ethos e. em O estilo nos textos (2003) analisa o ethos como um modo de presença de um sujeito que discursa. Essa definição tem diversos pontos em comum com estudos de produtos de comunicação e a idéia de “personalidade de marca” pensada pelos profissionais de marketing.público. portanto.. As marcas – como Jornal Nacional. uma personalidade. analistas. sugere desenvolver marcas como se fossem “gente”: “Tal como uma pessoa. formal. Os traços recorrentes de conteúdo e expressão produzem um efeito de individualidade e. No rádio e na TV. um tom de voz.personagens das histórias. Por exemplo: um jornal pode abrir espaço para a manifestação de diversas vozes. divertida. Vamos estudá-los com mais profundidade: • Sujeito 1 – jornal – Pensar em quem assume o discurso em um noticiário não é uma questão tão simples como parece. ajuda a compor o ethos do próprio jornal. telespectador. jovem ou intelectual. Aaker.deve ser incluído no primeiro grupo: o efeito obtido é o de parecer que a própria marca se comunica. por exemplo. internauta. (. • Sujeito 3 .criações e efeitos do discurso. podemos verificar essa participação notadamente na forma de artigos assinados. • Sujeito 4 . Obviamente. Norma Discini. O texto dos jornalistas que não aparece destacado – caso comum nos diários. essa presença dos profissionais é mais óbvia. É importante perceber que o consumidor se relaciona com marcas de veículos jornalísticos e se refere a elas quase como pessoas. humorística. o “jornal”.São os jornalistas. um jeito de se posicionar no mundo. um ethos. com um corpo. “jornalista” e “personagem da notícia”. Há outros três sujeitos que nos interessam: “público”. ou o consumidor do produto jornalístico . e assumem a enunciação. reportagens. competente.Cada jornal se reporta a ele de maneira distinta: leitor.. ativa. colaboradores que se mostram claramente marcados nos textos. o palestino morto em um confronto com o exército de Israel. revistas e nos sites .Podemos citar o presidente Lula. a personalidade da marca pode constituir a base do relacionamento entre o cliente e ela mesma” (1996: 96). David A. 57 . que aparecem nas narrativas. 31). uma marca pode ser percebida como superior. repórter. Cada apresentador. na tentativa de marcar seu ethos como “democrático”. portanto. • Sujeito 2 . estamos aqui falando outra vez em “efeito de sentido” do discurso. marcante.

2 da Folha de São Paulo). entre outras. Jornais. por exemplo. Carta Capital. como Folha de São Paulo. não é relevante pensá-la como um quinto tipo de sujeito marcado pelos textos jornalísticos. retomaremos características do consumidor de notícias nas análises específicas. Na primeira página da Folha de São Paulo. podem aparecer incluídos no item 2 . manteve uma coluna na pág. Nesse sentido. e pelo que a própria empresa que a detém enuncia sobre ela. é raramente exposta. revistas e nos programas jornalísticos de TV). O sujeito jornal inclui o proprietário ou proprietários. Mesquita ou Civita. ou no item 3 – como “personagens” de seus próprios meios de comunicação (caso de alguém do clã Marinho surgir no Jornal Nacional recebendo prêmios por algum tipo de trabalho filantrópico). um indivíduo. que se vende como voz coletiva. talvez com exceção de produtos da TV. Os donos aparecem como outra “voz” do próprio noticiário. como as famílias Marinho. Nessa parte do trabalho. A figura do proprietário. também marca administrável. trabalharemos com noções mais genéricas. É comum o ethos do dono se relacionar com o ethos de seu veículo. Desse modo. é discursivizada de forma a estabelecer uma fronteira com o seu proprietário. Jornal Nacional. tornando-se “carne” pelo que enuncia. A construção do público-alvo varia de noticiário para noticiário. reforçada verbalmente por um slogan. 36 58 . são pensados como marcas para que possam assumir e ter identidades administradas.ouvinte. Já afirmamos que a relação do consumidor de notícias – o enunciatário – com seu jornal ou programa jornalístico preferido acontece por meio das marcas. CBN Brasil. ou corpo oco. como qualquer outro produto da sociedade moderna. Ninguém se lembraria da editora da revista Isto É. O telespectador do Jornal Nacional. Saliente-se que os proprietários.36 A complexa construção e a manutenção das identidades de marca envolvem não apenas seus donos e a hierarquia de vozes dentro do próprio jornal. abaixo do logo se lê: “Um jornal a serviço do Brasil”. Há também a “personalidade” da empresa.“profissionais” (Otávio Frias. não raras vezes. da “justiça”. por meio de um logo . por exemplo. A marca de um jornal pode até beneficiar-se dos sentidos agregados pela fama de seus proprietários (no caso de aparecerem claramente marcados nos jornais. a marca. contudo. notadamente por meio de publicidades. como a figura de Roberto Marinho em relação ao Jornal Nacional. é uma espécie de “casca”. que vai se “enchendo”. Em função disso. pelo modo de enunciar. que fala em nome da “verdade”.sua representação visual -. não esquece que acompanha o programa na Rede Globo. Nossa hipótese é que a marca de um grande produto jornalístico precisa se apartar de seus proprietários para criar a sensação de que é a porta-voz da coletividade. Uma marca.

uqam. immédiatement occupé par les batailles de propagandes engagées par les régimes fascistes et 59 . ont ouvert un champ nouveau de la conscience collective. 39 Fragmento original: “Dès les années trente et quarante du XXe siècle. o cinema e a televisão se apoderam de uma parte cada vez maior da consciência coletiva. as revistas. imediatamente ocupado pelos regimes fascistas e totalitários e. Os jornais buscam a atenção do público-alvo e.ca/cirasi/cirasi-levy. precisam desencadear desejos e curiosidades (querer-saber). principalmente no papel de destinatário. http://lajoie.Uma versão em português desse texto. O rádio e o cinema abrem novos campos para a manipulação das consciências. ou seja. Veja. um enunciado que simula o processo de criação do texto por meio da explicitação de um “eu” que se dirige a um “você”. é que nunca assumem a posição de um “eu” que enuncia. 2000. Folha de São Paulo. como na frase do pai para o filho: “Papai não gosta que você chore”. La montée des médias imprimés. depois. Editora Sulina/Porto Alegre 2004. que caracteriza o momento da manipulação. 38 "L'économie de l'attention" de Pierre Levy – disponível em World Philosophie. para isso. Odile Jacob. Um dos raros teóricos que apresentam uma reflexão mais consistente sobre o assunto é Pierre Levy em “A economia da Atenção”. cada vez com mais detalhes. org. portal UOL jamais aparecem em primeira pessoa. com uma desembreagem actancial enunciativa.Outro ponto a destacar das marcas. Pode-se notar a troca de uma pessoa por outra (a primeira do singular pela terceira do singular) que neutraliza parte dos sentidos de proximidade. se conserve e seja cada vez mais vigorosa.38 O autor afirma que a busca de uma atenção coletiva é um fenômeno que começa entre 1930 e 1940. pelas outras forças presentes na 2ª Guerra Mundial. A partir dessa época. principalmente no jornalismo. André. a música.” 37 O fenômeno da atenção Explicamos até o momento o percurso do sujeito público. Apresentaremos. Fiorin (1996: 86) esclarece a razão desse efeito. O ponto central da reflexão agora é o fenômeno da atenção. O estudo da atenção aparece disperso e pouco desenvolvido em diversas análises de veículos de comunicação. l'attention du public était devenue un enjeu majeur des activités politiques et culturelles. puis la radio et le cinéma. Cada jornal refere-se a si mesmo como “ele”.39 37 Do ponto de vista semiótico. Só que este “eu”. traduzida como “O ciberspaço e a economia da atenção”. Jornal da CBN. estéticas e políticas da comunicação – Parente. que só reforça nossos comentários sobre as marcas: “Quando se faz essa embreagem é como se o enunciador se esvaziasse de toda e qualquer subjetividade e se apresentasse apenas como papel social.html . Jornal Nacional. essas estratégias de persuasão mobilizadas pelos noticiários para que a ligação com o público aconteça. simula um “ele”. pode ser encontrada em Tramas da rede: novas dimensões filosóficas. observa-se uma enunciação enunciada. por sua vez.

da moda.par l'école de Francfort (Adorno). Après la guerre et la politique. da comunicação.la direction de l'attention du public (2). de la communication. du développement personnel. uma percepção. Levy conclui então que as indústrias de cultura e de comunicação realizam duas operações: 1. les médias. desembolsamos dinheiro para “um número crescente de profissionais nos fazer experimentar ‘diretamente’ certos estados mentais. portanto. du football aux grandes expositions. le ‘spectacle’ ou les ‘médias’ conçoivent. notadamente no mundo da terapia. políticos e aqueles cuja sobrevivência e poder dependem da qualidade e da intensidade da ligação com o público. par exemple. En outre. Le spectateur d'un film. . certaines émotions. des expériences virtuelles partageables et reproductibles à volonté.A criação direta de estados mentais para a produção e distribuição de experiências virtuais. hoje.la création directe d'états mentaux par la production et la distribution d'expériences virtuelles (1).” 60 . como estratégia de sobrevivência e crescimento é vender a atenção que cativam do público para os publicitários e “comunicadores”. uma ação. fabriquent et vendent directement des ‘contenus de conscience’. à sensibilidade e aos estados de espírito do público. tout ce qui nous entoure. de la mode. la direction et la fixation de l'attention s'obtenant d'autant mieux que l'expérience virtuelle proposée adhère aux appétits. Les industries culturelles proposent à leur public des moments de conscience préfabriqués. à leur tour. O totalitaires. que comercializam partes dessa consciência coletiva com vendedores de todos os tipos. Les deux grandes opérations des industries de la culture et de la communication sont donc : . la chanson. por sua vez. qui a explosé dans les années cinquante. Certes. do jornalismo e do show business. E define consciência de maneira bastante ampla. uma sensibilidade. do desenvolvimento pessoal. comme la plupart des centres d'intérêts du public. Mais l'originalité des industries culturelles est de nous engager dans des voyages virtuels partagés avec des milliers ou des millions d'autres personnes qui ne vivent pas dans le même environnement spatio-temporel que nous. S'il est réussi. uma energia criativa unitária” (idem). puis analysé par les situationnistes (Debord et Vanheigem) dans les années soixante.Levy afirma que. le cinéma et la télévision se sont progressivement emparé d'une fraction de plus en plus importante de la conscience et de l'attention collective. certas emoções. les industries culturelles.” 40 Trecho inteiro: “Aujourd'hui. notamment les magazines.dès les années quarante . A direção e a fixação da atenção se obtêm quanto mais a experiência virtual proposta adere aos apetites. voit son cerveau directement pris en main par le réalisateur. aux hommes politiques et à tous ceux dont la survie et le pouvoir dépend de la qualité et de l'intensité de l'attention du public. nous payons un nombre croissant de professionnels pour nous faire ressentir " directement " certains états mentaux. un clip publicitaire réunit ces deux opérations. 2 – A direção da atenção do público. Les ‘industries culturelles’.” O que as mídias fazem.40 Levy trata a atenção. du journalisme et du show business. puis par toutes les forces en présence au cours de la seconde guerre mondiale. como “uma inteligência. et notamment dans le monde de la thérapie. le commerce a conquis ce nouvel espace par la publicité. à la sensibilité et aux états d'esprit du public. com um fenômeno de manipulação da consciência. délivrent des parts de conscience collective aux vendeurs de toutes sortes. tout le décor de nos existences nous fait vivre des expériences. Comme cela a été remarqué très tôt . la musique. Les publicitaires ou les " communicateurs ". sont maintenant pris en main par des entreprises de vente de l'attention des auditoires aux publicitaires ou aux départements de communication des grandes entreprises.

De qualquer maneira. não há consumo.” Estímulo significa aqui qualquer descontinuidade de expressão ou de conteúdo que motive.autor aborda toda a problemática da atenção para justificar reflexões sobre o ciberespaço e como o comércio sofrerá mudanças na rede mundial de computadores. por exemplo.. Em termos semióticos. mudado para vender. cuidado. O público tem consciência das possibilidades crescentes de escolha. Manter-se fiel a um programa. limpado.” Em sociedades com crescentes ofertas de produtos e serviços. o jornal apresenta unidades noticiosas para consumo.. Nenhum grande jornal é exceção. E não só na rede mundial de computadores. saturadas de estímulos. forçado. Sem obter e manter a atenção. como ocorre com outras mercadorias na prateleira para atrair a atenção do comprador. em duração variada. A crescente oferta de informação e todos os contínuos avanços tecnológicos na área de comunicação têm tornado os consumidores mais e mais infiéis. 41 61 . um querer-saber). a atividade de atenção tanto do ponto de vista sensorial (na forma de engajamento de um ou mais sentidos) como cognitivo (que demanda um posterior entendimento. Para atrair a atenção.) A própria produção da notícia significa a adaptação do fato social a alguma coisa mais rentável. Uma boa definição de atenção está no dicionário Aurélio: “Aplicação cuidadosa da mente a alguma coisa. o fato social aqui é também acirrado. pintado de novo. Acreditamos que o fenômeno da atenção também pode ser visto de outra forma complementar. reflexão. as estratégias persuasivas (principalmente relacionadas ao querer-saber) devem ser cada vez mais desenvolvidas e utilizadas. Marcondes Filho (1989: 29) faz uma reflexão sobre a notícia como construção jornalística cujo objetivo final é motivar o consumo: “(. caso de um jornal. qualquer objeto de comunicação é concebido para ser uma máquina eficiente de atração do público-alvo. Ele não só é embelezado. concentração. pode significar a perda de uma oportunidade que geraria mais satisfação. Para se impor nesse cenário. exagerado.41 a busca e a manutenção da atenção do consumidor se tornaram vitais para a sobrevivência de qualquer negócio.

É o caso de apresentar uma situação “inédita”. em seguida. se interessar pelas histórias das unidades noticiosas. Verificamos anteriormente como essa noção de utilidade e esse prazer envolvem o dever-saber e o querer-saber. mesmo com a coerção social de informar-se. Para existir o relacionamento enunciadorenunciatário deve-se obter a atenção em três níveis diferentes e complementares: 1. O sujeito deve. 3. o sujeito 62 .o É por meio da unidade noticiosa que circulam valores entre nossos dois sujeitos principais. criar empatia. só acontece se o sujeito público for convencido de que o noticiário lhe apresenta alguma informação que considere útil e lhe dê alguma satisfação. e também a da edição e a do conjunto das edições que as inserem. o Gerenciar a atenção tem como base a construção da atração das unidades noticiosas. Examinaremos agora o fenômeno da atenção como um desdobramento do querer-saber do público. Ao ter o interesse despertado. em situação de comunicação. o Relembremos que uma notícia deve reunir certas características. A importância de uma notícia . É importante insistir em um ponto. Em resumo. manifestado na forma de curiosidades e desejos. Os fatos relatados devem afetar a vida do público de algum modo. o público só realiza a ação de entrar em contato com um noticiário se tiver a atenção despertada e manipulada. ao viver a paixão da curiosidade. ou seja. ele deve querer repetir a experiência nas edições seguintes (ou atualizações.que se relaciona ao seu potencial de despertar e manter a atenção . A atenção se relaciona ao desencadeamento de certas formas de curiosidade – uma paixão simples.é proporcional ao preenchimento desses requisitos e ao impacto que o jornal acredita gerar no público-alvo. o consumo deve desencadear um hábito. uma tensão. 2. para serem consumidos. no caso da Internet). “fisgar”. É preciso obter. A curiosidade e os percursos da atenção O ato de consumo do jornal. como já citado. os jornais precisam principalmente reter a atenção por meio da apresentação das unidades notíciosas. Nossa hipótese é que. a curiosidade do sujeito. Finalmente. pela distribuição delas na edição e no conjunto de edições. ter atualidade. jornal e público-alvo.

é uma de suas recompensas. afetos. Os sentidos são arrebatados em função de uma descontinuidade do plano de expressão. tem duas maneiras complementares de fisgar a atenção do ponto de vista das estratégias sensíveis e passionais: 1 . Em resumo. por exemplo.passa a sentir uma falta. gestuais. como se a notícia fosse uma superfície refletora do próprio destinatário e de seus sentimentos. simulação de movimentos. na forma de uma descontinuidade do plano de expressão. sonoras. ao racional. também viva experiências. São operações que envolvem a dimensão sensível e a passional. viver até mesmo uma insatisfação por não ter um saber. Os jornalistas sabem que o querer-saber também se fundamenta na projeção do sujeito sobre uma notícia como se. que também se revertem em outra forma de recompensa pelo consumo.A segunda é a mobilização dos afetos por meio dos conteúdos. entre outras maneiras de obter a atenção. mas que. o enunciador jornal. musicais. ouvinte. o que gera efeitos afetivos. da passagem de substâncias visuais. 63 . Discursivizado em leitor. não quer apenas que ele busque e tenha saberes. como uma foto que atrai o olhar pelas cores. nessa atividade. Um jornal. internauta ou telespectador. espaço. portanto. tempo. para atrair com mais eficiência o enunciatário. convicções. percebe. Fontanille e Zilberberg afirmam que “os valores passionais apresentar-se-iam em suma de duas maneiras diferentes e complementares: pelo viés do conteúdo e do saber. 2 . conflitos. A passagem do não-saber para o saber dá prazer ao sujeito. caso da foto anormalmente grande na primeira página de um jornal. resultado de uma projeção axiológica a partir do que ele pressente. O poder de atração desse espelho parece ser proporcional ao grau de nitidez com que permite ao sujeito se enxergar na sua extensão. sente. ou pelo da expressão e da sensibilidade. a narrativa jornalística pudesse ser a sua narrativa vivida ou “vivenciável”. verbais. o sujeito consumidor de notícia ilustra a atividade de busca da significação. O entendimento dessa foto. A estratégia inicial para arrebatar a atenção de um sujeito é de ordem sensível. As estratégias para gerar um enunciatário curioso não estão ligadas somente ao inteligível.A primeira é apresentar unidades para serem sentidas. intimidade. como lembram os dois autores franceses. de proximidade. Obter o saber por meio da unidade noticiosa é o valor que passa a almejar. de algum modo. em formas decodificáveis.” (2001: 314). É preciso existir identificação entre público e personagens das histórias. É o caso das histórias das notícias que são feitas para comover e contam com o engajamento empático do público. contrastes.

deve mobilizar outro patamar de curiosidade. intensa. paixão e sentimento: a estrutura dos afetos Para entender a importância da afetividade no processo de captura e de manutenção da atenção. só admite a tradução francesa – de “movimento afetivo. uma experiência que pode ser descrita e compreendida.44 Os autores compararam diversos estados afetivos e mostraram que a emoção se delimita da paixão. O enunciatário inicialmente deve “ficar sabendo que não sabe” algo que lhe interessa e se sentir atraído para ler o texto inteiro. A única questão que nos parece incômoda em alguns estudos de semiótica tensiva e nos mais recentes trabalhos de semiótica que privilegiam uma abordagem a partir da percepção é a valorização de um sujeito sensível que. fica a questão de saber se a semiótica da emoção se conformará às aquisições já consolidadas. o sujeito passa a viver uma forma de insatisfação. inclusive. 42 64 . como a cidade está melhor ou pior em determinado aspecto? Reportagens sobre assassinatos de mendigos. mas que desde o início tem sido excluída das reflexões. De qualquer maneira. pontual. a captura da atenção está profundamente marcada por um sistema de valores que insere o indivíduo numa ordem social. fazem muita gente perceber como os espaços públicos estão cheios de moradores de rua. mas não eram percebidos. ou se levará a um reexame. estaria no início. assim. numa cultura. depois. parece apartado – ou o que é mais problemático – acima de qualquer condicionamento social. segundo o Aurélio. paixão e finalmente sentimento. qual a extensão desse reexame” (idem). proporcionada pelos estudos da chamada semiótica tensiva. Não está nos limites desse trabalho discutir uma questão tão complexa cujos contornos. parte do mesmo sistema de coerções. capítulo 11. no meio da profusão de estímulos de nosso cotidiano. ao contrário. por exemplo. para um objeto ou um fim” . do temperamento pela maneira súbita. uma tensão. nossos sentidos nos alertam a partir de uma visão de mundo que nos estrutura como indivíduos. E perguntam: “Se mais ninguém pensa seriamente em negar a significação das emoções e das paixões. da disposição. notadamente se houver engajamento empático com os personagens de uma notícia. palavra aqui entendida como termo complexo que abrange todas as variações de estados de alma. 44 Inclinação. Ao se “alongar”. possam ser distinguidos e ordenados nos sistemas de valores propostos. no português. psicológico ou mesmo biológico no momento em que se emociona ou sente tensões de qualquer ordem. ou “fases da afetividade” para investigar os sentidos dos “afetos”. É. Esse é o sentido de inclinação utilizado neste trabalho. antes é preciso uma compreensão do afeto. Os autores concebem o afeto como portador de significação. quem veste tal etiqueta da moda. eles afirmam que a emoção é um dos “verdadeiros objetos” da teoria. assunto que abordaremos depois. Eles estavam ali antes. vira inclinação (ou afeição). O que o jornal faz é criar valor para determinados aspectos do cotidiano ou produtos para que. o de querer saber tudo o que aconteceu. A emoção. ao ganhar extensidade na maioria das situações cotidianas. O que fazem o jornalismo e a publicidade senão tentar condicionar nossa sensibilidade para que. O sentir não paira sobre as limitações ideológicas como algo “puro” ou inato. não raras vezes. espontâneo. Em outras palavras. ocupando aí alguma lacuna.no sentido figurado. 43 Em Tensão e Significação (2001).42 Fontanille e Zilberberg (2001: 279)43 propõem um “esquema afetivo”. Emoção. inclinação. e. da inclinação. do sentimento. estão distantes das bases da semiótica. possamos perceber aquele novo carro. Se for “fisgado”. nessa hipótese. ou seja.

Admite-se que o sentido de um afeto se deixa identificar por meio da fase atravessada pelo sujeito. abalo moral. e que se manifesta como alegria. A definição semiótica de emoção é mais restritiva do que a do dicionário. a qual se acompanha dum estado afetivo de conotação penosa ou agradável. como parece. Parret: “Menciona-se sempre a distinção entre a paixão e a emoção proveniente da Antropologia de Kant: ‘A emoção age como água que rompe seu dique. pode ser descrita como uma “explosão O texto citado é Les passions. respectivamente fase emotiva. pode unir todas essas fases num percurso instantâneo e. 1986. por exemplo. etc. passional ou permanente. raiva. Nesse esquema. se falta “duratividade” à emoção. Estado de ânimo despertado por sentimento estético. 3. ensinam Fontanille e Zilberberg. etc. emoção e paixão não estão em confronto. 4. A emoção se transforma em paixão quando molda o percurso inteiro do sujeito. Ato de mover (moralmente). contudo. 124-5. De qualquer maneira. Reação intensa e breve do organismo a um lance inesperado. Mardaga. “que podemos interpretar como ‘produto’ da rapidez e da intensidade” (2001: 284).repentina de ocorrer. não raras vezes. denominam da mesma maneira ou misturam em diferentes gradações. Eles citam uma observação de H. 45 65 . portanto. tristeza. aparecer como uma forma de afeto “concentrado”. comoção. A emoção é como uma embriaguez que se dissipa. Comparando com o dicionário brasileiro. ela é encontrada na paixão. a passagem da emoção para a fase seguinte. Psicol. podemos perceber as características descritas por Zilberberg e Fontanille nas definições 2 e 3. Perturbação ou variação do espírito advinda de situações diversas. desenha certas fronteiras entre estados afetivos que falantes do português. Outro ponto importante é que não se impõem aos afetos durações e graus de intensidade rigidamente marcados. não é perfeita. O clássico “amor à primeira vista”. como uma doença resultante de uma constituição viciada ou de um veneno ingerido’” (2001: 282). No dicionário Aurélio. Essai sur la mise em discours de la subjectivité. a paixão como torrente que cava mais e mais profundamente seu leito. religioso.. tendencial. portanto. Zilberberg e Fontanille lembram que o desejo de descobrir uma estrutura dos afetos levou pensadores a uma dualidade e a um confronto entre emoção e paixão. Essa redução. a paixão. 2. A teoria. mas são momentos distintos de um mesmo percurso afetivo.45 Os dois semioticistas franceses mostram que. Liège. a de inclinação. pág. vamos encontrar as seguintes definições para emoção: 1.

par lequel elle instaure son champ d’enonciation et sa deixis. atento. Nessa surpresa inicial não há nem atração nem repulsão. tal como a linha. Nesse momento. A idéia de foco mostra engajamento perceptivo do sujeito. já que comporta o traço /movimento/” (2001: 289). extensão.controlada”: “Na perspectiva do tempo e da intensidade.” 46 66 . disforia. do corpo “agindo” e fazendo a mediação entre o sujeito e os fenômenos do mundo que se dão a sentir. e de outro a apreensão. “atraído” se sente inclinação. deve passar da situação de não ter um saber desejado (disjunção) para a de sujeito com esse saber (conjunção). curiosidade. É importante ressaltar que um sujeito pode ficar apenas em uma fase e se recusar a ir para outra. e depois.. ao sentimento. Cette ‘prise de position’ se décline em deux actes.)” (2003: 35).. Se ele desejar apenas viver uma sensação forte (ou afeto intenso) provavelmente vai ver a foto com atenção e nem ler toda a matéria. d’un côté la visée. ou seja.. que dirige e orienta o fluxo de atenção. ao processo vivido por um sujeito que.) La ‘prise de position’ que détermine le partage entre expression et contenu deviant le premier acte de l’instance de discours. qui dirige et oriente le flux d’attention. grosso modo. A fase seguinte do esquema afetivo é a inclinação.).47 conceitos rentáveis em um estudo do gerenciamento do nível de atenção. “passional” se cultiva a paixão e “terno” se atinge o sentimento (2001: 292). sujeito e objeto ainda se confundem. da emoção e da inclinação.46 Notícias e engajamento perceptivo Há outra reflexão teórica importante e complementar sobre esse sujeito atingido pela curiosidade. que delimita o domínio de pertinência (. é desprovida de duração. à busca do objeto pelo sujeito e os conflitos que ele vai viver relacionados ao sucesso ou fracasso. se a emoção comporta o traço /brusco/. atraído pelo texto. a inclinação pode dar lugar à paixão. O sujeito poderá ser considerado “sensível” se se atém à emoção.. as fases iniciais. Dissemos que. Pensemos em um leitor que vê uma foto de uma cena de guerra e é tomado de emoção. et de l’autre la saisie. a foto.. tensão. com a inclinação é introduzida a duração. ocupariam o lugar da “somação”. nem o ponto. o leitor pode ser um sujeito que quer entrar em conjunção com um objeto. 47 No original: “(. Quem recebe o impacto da emoção não consegue inicialmente nem distinguir se o que causou o choque gera necessidade de união com o objeto ou repulsa. A apreensão pode ser relacionada. no esquema proposto. Basta retomar o exemplo do leitor. definida pela ‘perturbação’. a emoção. tenso..). se vinculam a uma “resolução”. Ou não. no impacto da emoção. no caso do nosso trabalho. Caso persista na leitura. As fases posteriores. qui délimite lê domaine de pertinence (. em geometria. da paixão e do sentimento. Do ponto de vista da duração. não apresenta espessura.. Ao obter a Os dois semioticistas franceses afirmam que.. Afirma Fontanille que “essa ‘tomada de posição’ se declina em dois atos (. de um lado o foco. a inclinação comporta apenas o traço /espontâneo/. comme nous l’avons déjà suggéré.

que quer passar de um estado de disforia. o estado de disforia do sujeito destinatário com um estado possível de disforia dos sujeitos da narrativa. por exemplo. 48 67 . para uma situação de euforia e de relaxamento com o consumo do jornal ou. A notícia é.. Tatit sentida pelo sujeito ilustra a passagem de uma explica que uma disforia continuidade para uma descontinuidade que gera a tensão. por sua vez. Contrariamente. não se deve confundir. no entanto. caracterizadas por rupturas. imediatamente negado pela forma pontual da disforia: a contenção (expressa pela rejeição do contrato narrativo).. apresentou a problemática da tensividade na obra Raison et poétique du sens.. é negada pela forma pontual da euforia: a distensão (expressa pela desistência das ações transgressivas (.compreensão que queria. da insatisfação para a satisfação.. às relações relaxadas.). A notícia nem precisa ser disfórica (uma tragédia) para despertar a atenção e produzir curiosidade no público-alvo. a integração traduz o maior relaxamento possível (algo que seria expresso pela aceitação passiva e pela manipulação inicial). provocado pela falta de um saber. Citamos jornais que atraem o sujeito inicialmente por meio de uma estratégia sensível que produz o engajamento perceptivo – o foco citado por Fontanille – para desencadear o processo cognitivo – a apreensão. de uma reportagem. pelo menos. que incluem “modulações tensivas (ligadas à percepção) e fóricas (ligadas aos sentimentos) – (2001: 18). porém. Obter a atenção de um leitor.)” (2003:198). A transgressão propriamente dita perfaz a forma expandida da disforia. as que restabelecem os elos contínuos entre os elementos. torna-se plausível admitir que estas últimas já surgem conformadas por modulações tensivas. como já foi analisado. de um estado de insatisfação para o de alguma satisfação. a reintegração permite retomar a forma expandida da euforia: o relaxamento (. a disforia compreende a passagem das continuidades às descontinuidades que geram as tensões. Desse modo. a retenção (expressa pelos antiprogramas narrativos desenvolvidos pelo sujeito) que. Luiz Tatit detalha as relações do contato do sujeito com descontinuidades ou diferenças. parece ser sempre disfórico. Por fim. por sua vez. de uma curiosidade não solucionada. O querer-saber. a própria representação da descontinuidade. por se vincular a essa falta vivida pelo sujeito. “afetivo”. ouvinte ou internauta é transformálo em sujeito tenso. o sujeito consegue passar da tensão para o relaxamento. A euforia opera a passagem das relações tensivas. Como estamos realizando uma análise narratológica da enunciação. telespectador.48 “Se tomarmos a foria como uma força que transporta as categorias semânticas. Tatit fez essas observações a partir do trabalho do semioticista Claude Zilberberg que.

como. com suas manchetes principais. Há a curiosidade despertada por uma unidade noticiosa. como já vimos. É notável que a maioria dos objetos jornalísticos analisados neste trabalho simulam inicialmente. o momento de máxima tensão disfórica. esgotam seu potencial de criação de um querer-saber no próprio consumo. A edição inteira se apresenta como outro ponto de passagem de disforiaeuforia a mobilizar o sujeito. porém. No entanto. E também pelo conjunto de unidades que compõem o jornal. A atenção se relaciona. Algumas notícias. Muitas não têm desfecho se pensadas de um ponto de vista histórico mais amplo. a divulgação do índice de inflação do mês. teoricamente. transpõe a retensão para a distensão. por exemplo.O consumo de um jornal pode ser pensado de dois modos complementares.é um momento de disforia que tende à euforia. e vão “relaxando” no final. O leitor. notadamente a uma disforia. uma curiosidade (uma paixão simples – um querer-saber) do enunciatário. Para explicar melhor essa questão e visualizar esses percursos possíveis. utilizaremos o quadrado semiótico49: Percurso da notícia como unidade narrativa completa Percurso da notícia como parte de uma narrativa maior - Retensão (Disforia) Relaxamento (Euforia) Contensão (Não euforia) Distensão (Não disforia) Um leitor. as notícias. Ao ter a curiosidade satisfeita. por exemplo. 49 A base deste quadrado é de Tatit (2003: 2000) 68 . solicitado a se manter em contato com o jornal para obter o saber necessário e a conseqüente satisfação. são “pedaços” de narrativas maiores. O próprio jornal. é um conjunto de unidades noticiosas. a uma espécie de situação prazerosa nessa passagem de um não saber para um saber. passa para o relaxamento. Outras não. em sua maioria. nesses casos. entre outros recursos. Cada foco em uma unidade noticiosa – ou outro elemento do jornal . pode fazer o caminho da linha vermelha fina: passar da tensão disfórica (a retensão . com matérias mais leves.querer-saber o que aconteceu) para a distensão (momento de consumo da unidade noticiosa).

para obter e manter relacionamentos com o público. e da observação de que os jornais. o relato maior da vida.. passional e racional. é possível propor um resumo dessas estratégias de gerenciamento do nível de atenção e. reunida por sua vez na narrativa política. Nesse sentido.e será retomada nas próximas páginas para exemplificar questões relacionadas ao efeito de atualidade . percurso que se constrói como extensão pontuada pelos conflitos humanos.). depois. ele determina. da tensão para o relaxamento. fica sem saber tudo. mas complementares de criação de laços por meio de manipulações de ordem sensorial.. A partir das discussões teóricas feitas. pela impetuosidade notadamente das tragédias. como um fragmento de narrativa. analisá-las em detalhes: 69 . há vários fatores para considerar antes de se aceitar qualquer idéia de simplicidade nesse percurso do sujeito curioso e incitável. quais foram os antecedentes do acontecimento (. ele passa a saber mais. meio e fim. pode ser englobada por outra narrativa maior. ao mesmo tempo em que satisfaz parte do desejo que incutiu no sujeito. gera mais curiosidade para a sua própria continuação. momentos de máxima intensidade. obter a informação desejada é a passagem da disforia para a euforia.que durou três dias . A própria notícia também cria as bases para que ele se mantenha curioso para o “próximo capítulo”. ao consumir a notícia. A unidade noticiosa. porém. Teoricamente. “Porque. Parte das narrativas exploradas pelo jornalismo nunca se esgotam. Landowiski diz que o jornal cria expectativas pela simples distribuição de informação em seqüências. Entretanto. ao mesmo tempo. o percurso do consumo da notícia pelo enunciatário que parece ser mais comum e desejável pelo enunciador jornal é o da linha vermelha mais espessa.Em outras palavras. desenvolvem procedimentos distintos. da atenção para a distração. Esquematicamente. a do terrorismo. que os números seguintes não poderão deixar de atualizar.)? Quais lhe serão as conseqüências?”(1989: 119). todo um programa narrativo virtual.. se o número do dia relata ‘o acontecimento do dia’ (. No entanto..tem começo. A ação de terroristas islâmicos em Beslan . submetida finalmente à própria história.

não racionalizada. Há manipulação por intimidação (dever-ser). Tenta desencadear um hábito. Estratégia de fidelização – busca transformar o sujeito curioso em sujeito fiel. o jornal precisa produzir no sujeito uma curiosidade instantânea. por um querer-saber. momento chave que visa a atrair ou a fisgar a atenção de um sujeito e motivar o consumo. a de procurar a fonte do som para tentar descobrir seu significado. se vê diante de detalhes de uma história e deve sentir vontade de conhecê-la por inteiro. Estratégia de sustentação – objetiva transformar o sujeito atento em sujeito tenso que. O sujeito deve ficar interessado em compreender um estímulo (o que gera um foco). um grande número de cortes em uma cena de pequena duração. fotos enormes numa página são estratégias de arrebatamento. uma descontinuidade. O sucesso das estratégias anteriores – como a de obter saberes e experiências. No primeiro contato. encoraja a decodificação (a apreensão). 3. É mais da ordem passional. sedução (querer-fazer) e tentação (querer-fazer). interessado em decodificar um estímulo. Estratégias de arrebatamento e de sustentação A estratégia de arrebatamento. que motive ou reforce um engajamento perceptivo voluntário. As reações que os noticiários querem desencadear nessa fase de busca de atenção têm muito em comum com certas situações cotidianas. entre outras – deve gerar expectativas positivas no sujeito para os próximos contatos e a vontade de repeti-los. Mostrar uma paisagem em cores fortes. quem ou o quê o produziu. diferente. pressupõe a criação de descontinuidades que reclamam uma categorização. 2. cujo caráter descontínuo. inusitadas. Quando alguém anda na rua e ouve um barulho estranho. inusitado. Envolve sentimentos. quase sempre tem a mesma reação. de novidade.1. O destinador jornal manipula o destinatário por tentação. Podemos dar como exemplo ainda tipos gráficos mais espessos em manchetes. porém é mais da ordem racional. Toda essa operação não é 70 . Há também uma manipulação por tentação. um querer-ser e também querer-sentir. uma narração tensa após um momento de maior tranqüilidade. Estratégia de arrebatamento – visa a instaurar o sujeito por meio de algum estímulo. É mais da ordem das sensações e da definição de emoção de Zilberberg e Fontanille.

Isso faz com que o sujeito. de base passional. em conseqüência disso.” 51 O significado do termo “chamada” varia bastante. no caso de um diário. Também chamaremos de “bloco de manchete” todos os outros elementos relacionados ao título. algo que deve ser sentido como instigante. sinta uma disforia. por questões didáticas. 50 71 .50 O sujeito arrebatado. precisa “segurá-lo”. A atenção é então mantida.51 que manipulam as duas formas de curiosidades: as provocadas pelas estratégias de arrebatamento. ao sentir-se compelido a buscar o significado do estímulo. ao ler a manchete. que a principal arma de captura da atenção para as notícias são as manchetes ou chamadas. deve ter outra curiosidade despertada. as grandes letras de uma manchete devem atrair. estudada. a de sustentação. sa précarité. é quase automática. o termo manchete se refere a cada frase de uma notícia destacada e deve conter apenas uma informação. ou arrebatar. Como citamos há pouco. para atrair sensorialmente e passionalmente. existem diversas maneiras de fisgar e manter a atenção do público. Esse momento praticamente não tem duração. ligadas ao plano de conteúdo. viva uma tensão e. Pelo contrário. à savoir. Só que o destinador “jornal”. cada jornal veicula uma grande carga afetiva e pede concentração para o que destaca “Nous nous aprrochons progressivemente de ce qui fait la singularité de l’attention. Por meio desse recurso. além de atrair o sujeito. utilizamos manchete indistintamente para qualquer tipo de jornal. Zilberberg afirma que a singularidade maior da atenção “é sua precariedade” (1990:136). Ática – 1993. a de querer saber mais detalhes sobre a notícia. deve ficar à mercê da segunda estratégia.pensada. É preciso ressaltar essa passagem entre estratégias de gerenciamento do nível de atenção: a atração de base sensorial precisa imediatamente ceder lugar a outra. Em alguns pontos do trabalho. de uma novidade de ordem sensível. Toda manchete ou chamada é concebida para “sensibilizar”. Só que ele. Manual de Radiojornalismo Jovem Pan – 3ª ed. agora relacionado à história noticiada. Devemos notar. que envolvem o plano de expressão. fruto de um desejo consciente. ao tentar entender a razão da existência do destaque dado pelo jornal. Revista – ed. Vale notar o caráter impactante e pontual desse tipo de curiosidade. São Paulo). Já a chamada é um “flash” gravado sobre matéria ou programa transmitido várias vezes durante a programação para despertar o interesse do ouvinte (Porchat. Já manchete se vincula mais fortemente ao título em grandes letras dos jornais e revistas. E surge um laço entre o jornal e o leitor. e as desencadeadas pela estratégia de sustentação. Maria Elisa. A base da estratégia de arrebatamento é a instauração. pelos noticiários. que impõe ao sujeito um querer-saber na forma de um querer entender (que liga a fase da emoção à da inclinação). um estímulo. porém. Em outras palavras. o olhar do leitor. surpreendido por não ter um saber. sustentada. por exemplo. Exclusivamente na Joven Pan. fique mais atento ao que o noticiário apresenta.

que a história de alguém apresentada nas notícias pode ser a do leitor. expor histórias para que se conheça o que ocorre cotidianamente. O jornal impõe seu ponto de vista sobre um acontecimento como “verdadeiro e objetivo” quando avalia que o público-alvo faria o mesmo recorte da realidade por partilhar a mesma ideologia. o internauta. de fazer crer. estruturar modos de o público se perceber nas notícias. porém. Já foi citado que os jornais. A apresentação das manchetes mostra que. é o resultado da operação de fazer o público sentir o que o personagem da notícia vivencia ou vivenciou. A segunda é que essa estrutura narrativa invertida deve incitar o leitor. telespectador. Como isso foi acontecer? O que acontecerá depois? Toda manchete implicitamente faz um convite: “Saiba agora!” Podemos dizer que a satisfação de conhecer a “história toda”. é importante ressaltar. No início do trabalho. Os dois procedimentos. discutimos um outro efeito que envolve essas questões. O público deve perceber que não conhece (ou não sabe em profundidade) os grandes destaques da edição. Para o mesmo tanto de informação. Em certos momentos. não querem apenas fazer-saber. o fazersentir é eficaz em desarmar a racionalidade do enunciador e sua possível negativa em aceitar os valores propostos. a tentar saber o que motivou semelhante desfecho ou momento narrativo. O aspecto temporal é dos mais relevantes no estudo do jornalismo. Os noticiários também precisam fazer-sentir. E precisa também ser “chacoalhado”. Teóricos da comunicação lembram as conseqüências da identificação: quem se emociona com uma notícia já foi convencido de sua autenticidade. ouvinte. pelo menos os detalhes da narrativa no momento específico da edição. Uma boa manchete é um pedaço de uma narrativa que clama por completude.52 A eficácia da estratégia de sustentação do nível de atenção. para utilizar um exemplo extremo. 52 72 . o mais fabuloso. quase toda narrativa jornalística tem uma característica notável: a de começar literalmente pelo fim. Uma das chaves do sucesso da estratégia de sustentação é o estabelecimento de um sentido de identificação entre actante do enunciado e actante da enunciação.. Há duas razões para essa entrega do clímax da história. A empatia. Quanto maior for a identificação. o mais. tinha a capacidade de. para prender a atenção. A primeira é que o enunciatário não precisa tomar contato com todo o relato para conhecer o aspecto mais relevante da unidade noticiosa. nos discursos em público. internauta. não devem ser confundidos. também envolve uma identificação entre tempo e espaço da notícia e essas mesmas coordenadas do público-alvo. em outras palavras. no entanto. Dizem que Hitler. ou. deve corresponder outro tanto de mistério.. maior será a curiosidade e mais atenção o jornal irá obter. por exemplo. para construir laços com o público-alvo. o telespectador ou o ouvinte a buscar mais detalhes. é uma das expectativas associadas à manchete. o mais prazeroso. envolver afetivamente até mesmo seus opositores. que será analisada nas próximas páginas.como o mais importante. O poder de mobilização afetiva das unidades noticiosas se A empatia gera outro efeito de verdade e realidade. o mais perigoso.

de um valor ‘ilocutório’ determinado – ao ato de enunciação considerado (. Uma peça de teatro ou uma ópera não resulta da adição do contexto de representação ao “texto” verbal ou musical. um jornal é um arquivo histórico. claro.vincula fortemente ao período da edição na qual estão inseridas. tempo e espaço “reais”. submetido a uma enunciação global que as produz. poderemos entender melhor algumas particularidades da estratégia de sustentação e das formas de fazer-sentir do enunciador. a semiótica pensa a questão na forma de “contexto semiótico”. Fora desse período. como o de atualidade (proximidade temporal) e o de empatia (proximidade actancial-espacial). semiótico. O autor cita um exemplo. importantes para a compreensão de certos efeitos.). principalmente temporal. “não é uma adição do contexto ao texto” (2003:93).) no tempo e no espaço do seu interlocutor. A mesma estratégia enunciativa é responsável pelos jornais. tem outra utilidade. enormes desafios teóricos para o bom entendimento da estratégia de sustentação.. que serão abordados a seguir. porém. do mesmo modo que todas as determinações semânticas e sintáxicas que contribuem para forjar a ‘imagem’ que os parceiros enviam um ao outro no ato da comunicação” (idem: 171). pelo menos. Cada edição também tem seu “contexto semiótico” específico. ao sentido de atualidade. caso a caso. Portanto. do termo). tem o impacto afetivo bastante alterado. mas também a maneira como o enunciador se inscreve (gestualmente. Noticiário antigo não emociona. etc. Ou. Assim ele é pensado e produzido pelos jornalistas. Essa formulação. Tempo e também atores e espaços citados devem ser compartilhados por leitores. É preciso entender o objeto jornalístico na sua efemeridade. Com esse conceito. Pode-se reconhecer nessas duas formas de comunicação um conjunto significante vivo. internautas. Os objetos jornalísticos têm características diferentes de outros textos (aqui no sentido amplo. as estratégias mobilizadas para obter e manter a atenção são profundamente relacionadas à idéia e à vibração de uma edição.. como a questão da empatia. 73 . telespectadores e ouvintes. na colocação de tais formalismos eficazes: o próprio enunciado. Landowski (1992:170) entende com isso “o conjunto dos traços (lingüísticos ou não) pertinentes para a atribuição de uma significação – notadamente. proxemicamente. O que chamamos de contexto semiótico seleciona no ‘real’ (referencial) precisamente os elementos significantes que entram. Cada edição de um jornal apresenta um momento de consumo bem demarcado. A noção de que “jornal velho só serve para embrulhar peixe” traz. Para não apelar para pessoas. como complementa Fontanille.

de quintafeira. O componente temporal é um dos determinantes para a escolha de um acontecimento e sua transformação em fato e em notícia. apud Meditsch. pelo menos no período estipulado de consumo da edição do jornal. que comanda como se deve dar o efeito de atualidade. 1975:295. Para mostrar esse ajuste. 4 de setembro de 2004: 74 . relação esta que lhe é definidora e se expressa até etimologicamente (em português jornal-jornada. no presente: acontecimento atual. é necessário existir principalmente uma sensação de proximidade temporal. Qualquer jornal precisa fazer seu consumidor acreditar que as notícias divulgadas são atuais. Que ocorre no momento em que se fala. É o intervalo de tempo entre as edições. Imediato. de um presente “elástico”. Qualidade ou estado de atual. De sua época. internautas. tem quatro sentidos: 1. por sua vez. A época presente. como se fosse possível “esticar” e moldar o “agora”. que aparece na primeira página de quatro edições seqüências do Diário de São Paulo. pelos jornais. 2. efetivo. portanto. 2001: 208). Só que esse alongamento do tempo tem uma missão clara: deve fazer uma unidade noticiosa parecer “presentificada”. 3. afirmamos que o efeito de atualidade é essa instauração. ensejo. contudo. “O jornalismo tem uma relação específica com o tempo. real. 2. No Aurélio. vibrante. um agora partilhado entre personagens das histórias (actantes da narrativa) e leitores. Esses sentidos sobre atualidade mostram a existência de uma sensação de presente que pode ser pontual ou alargada. Filos. Em nosso trabalho sobre a Veja (2004:95). 3. É preciso adaptá-la aos rígidos intervalos das edições. na Rússia. pode durar de segundos a meses. Oportunidade. encontramos a seguintes acepções para “atualidade”: 1. Interesse atual: obra sem atualidade. vamos examinar a cobertura da ação terrorista na escola de Beslan. 4. Que está em ato. até domingo. 4. do latim diurnalis-diário). que não é antiquado. Uma história de interesse. por ser ‘relato atual de acontecimentos atuais’” (Weaver. telespectadores e ouvintes (actantes da enunciação). “Atual”. 2 de setembro. O discurso do jornalismo se caracteriza pela dupla contemporaneidade.A proximidade temporal: o efeito de atualidade Para a estratégia de sustentação da atenção do público funcionar. com diferentes durações.

75 .

quem. que quase dobra o total de vítimas inicialmente anunciado. pelo clímax. entretanto. a narrativa precisou ser dividida. onde. no sábado. É regra nos grandes diários brasileiros. como e por quê. que impõe uma subordinação em relação a outros fatos de uma mesma história. o parágrafo introdutório de uma unidade noticiosa. O momento de máxima tensão narrativa do período reportado determina toda a montagem da notícia. por sua vez. O gancho. Escolhe-se. um meio e um fim. quando. Para ser encaixada na edição do jornal. A cronologia do acontecimento se submete a uma ordem de relevância. Isso ocorre porque não houve mudança narrativa. Esse fato hierarquizador é chamado “gancho”. Podemos comparar o gancho a uma locomotiva que tem como função puxar outros vagões e impor uma certa ordem. 54 O lead. na Internet. que é diário. O assunto. no dia seguinte. No jornalismo de rádio e TV é mais conhecido por “cabeça de matéria”. a repercussão mundial ainda gerou manchete. o fato mais importante para só então organizar a história temporalmente e construí-la como notícia. faz novamente o ato receber destaque. a da segunda-feira. o que reduz o potencial de atração dessa notícia. também motiva ainda a construção do chamado lead.53A ação terrorista tem um começo. O trágico desfecho do seqüestro. de impacto sobre o enunciatário. Cada parte é tratada como uma pequena história. 2 de setembro de 2004: Terror faz 400 reféns em escola da Rússia Sexta-feira. Podemos verificar a já citada característica da narrativa jornalística começar pelo fim. sumiu da primeira página da edição seguinte. Dentro do intervalo de 24 horas não é apresentado um relato cronológico. No domingo. apenas três linhas no canto direito. Comenta-se o que aconteceu e há especulações sobre o futuro. temos a repercussão da nova contagem de mortos.Há as seguintes manchetes: Quinta-feira. além de se vincular totalmente ao período da edição na qual se insere e dar a sensação de que a notícia é atual. hora após hora. 3: Terror mantém reféns em escola da Rússia Sábado: Massacre em escola da Rússia deixa 200 mortos Domingo: Rússia chora 359 mortes O ataque durou cerca de três dias. deve responder às perguntas: o quê. No quarto. Somente as revistas semanais não utilizam plenamente o 53 76 .54 É notável que o seqüestro das crianças receba uma destacada manchete no jornal de quintafeira e. nesse intervalo de um dia.

o recurso muito comum de apresentar os verbos das manchetes no presente. não escondem que o fato principal da notícia é passado. seja este o próprio fato. um momento de referência pretérito em relação ao presente do momento de enunciação. no exemplo do Diário de São Paulo. 55 Em outras palavras. Uma estratégia também muito utilizada para “alongar o agora” de uma unidade noticiosa. Note-se. a segunda manchete (“Terror mantém reféns em escola da Rússia”) só têm razão de ser porque pressupõe a possibilidade de desfecho iminente da história. na resposta ao “quando”. um “agora” – o verbo manter está no presente do indicativo. na maioria das vezes. temos um tempo enunciativo. Nesse caso.56 E. 56 Na formulação de Fiorin. pertinente. acrescentamos. A leitura atualiza o momento de enunciação. No caso da manchete “terror mantém reféns em escola russa”. é nada acontecer quando se espera uma conclusão. obriga a mostrar um marco temporal claro. Há um sentido de concomitância entre a narração e o que se narra. inclui o agora do enunciado. uma revelação. E as revistas semanais necessitam apagar o grande intervalo de tempo entre a coleta. podemos verificar um efeito de enunciação que se vale do poder do ethos do jornal e também de outros procedimentos. Os jornais contam certas histórias já ocorridas e. O Manual da Folha de São Paulo afirma que “o lead tem por objetivo introduzir o leitor na reportagem e despertar seu interesse pelo texto já nas linhas iniciais. daquele “agora” fundamental para o efeito de atualidade. por ser contado na edição. como as revistas e jornais. O enunciatário geralmente é tomado por uma sensação que o faz crer que até mesmo algo que ocorreu há muito tempo. Trata-se. faz com que a enunciação se torne viva. nesses casos.55 Só que existe um outro “tempo”. o fato está em pleno andamento. importante. Isso acontece porque o lead.Na ação terrorista. 77 . Pressupõe que qualquer texto publicado no jornal disponha de um núcleo de interesse. porém. a preparação e a divulgação de suas notícias. o momento de referência é o presente. porém. é encontrada principalmente nos meios de comunicação mais “lentos”. como o jornal desvalorizou espacialmente a informação para marcar que o período de tensão narrativa permanecia sem desenlace. é atual. a idéia mais significativa de um debate. que permite situar aquela ação. o que foi “esticado”. no exemplo. paralelo. da notícia. já investigada no nosso trabalho sobre a Veja (Hernandes. O que justifica o destaque dessa notícia. Vê-se somente o título no canto da página. Isso mostra que enunciador considerava decrescente o potencial de atração dessa notícia se o desfecho demorasse a acontecer. 2004: 94 a 96). lead para evitar que a notícia pareça velha. Lembra Fiorin que “o agora do enunciador é o agora do enunciatário” (1996: 143). mas também está presente em todos os outros tipos de noticiários. Deve-se notar. o aspecto mais curioso ou polêmico de um evento ou a declaração de maior impacto ou originalidade de um personagem” (2001: 28). do ponto de vista estritamente lingüístico.

fica velho com rapidez e. se divulgado sem maior cuidado. ou os efeitos de uma tempestade. que dá.” Se estampasse a notícia dos 2 a 2 entre Flamengo e Botafogo. o fato principal ou gerador tem um período de consumo extremamente curto. que não envelhece rapidamente. de 2 de junho de 2004. A tragédia de Beslan não foi exceção. não só não atrai o público como compromete a credibilidade do jornal. desse modo. como um acidente aéreo. o núcleo principal de uma notícia. Ou seja. mesmo em mídias “rápidas”. expande a própria “vida” da notícia. Basta acrescentar um elemento de atualização ao fato gerador. a posse do novo presidente da Câmara. Em 7 de março de 2005. Geralmente. a divulgação do índice de desemprego. segunda-feira é dia de fazer o balanço da rodada de futebol do final de semana. e os previsíveis: um jogo importante de futebol. o comentário sobre as “falhas do progresso”. Quase sempre. como a TV e o rádio. Nos diários impressos. se vinculam a situações concretas. O elemento de atualização também pode ser uma análise ou uma interpretação do fato gerador. Note-se ainda o verbo no presente. Um elemento de atualização muito comum é uma conseqüência do próprio fato.” O elemento de atualização. E lembra que as falhas são parte do progresso. Ao ser relacionado ao fato gerador. que começa após a partida e vai durar até os próximos jogos. 112: “Quando as coisas dão errado – Desabamento em aeroporto francês surpreende o mundo. um gosto de novidade e atualidade. deixaria mais claro como momento de referência o “ontem” do fato. tem a propriedade de atualizá-lo. cujo “agora” não pode ser muito alongado. um fato gerador de vida curta. ao que aconteceu. sua repercussão.57 Há diversos modos de atualizar um fato principal e construir uma notícia com sabor de novidade e que será interpretada como “atual”. passam a sensação aos leitores de que estão mais preocupados com o futuro do que em reportar o que acontece no Na gíria jornalística. deve-se observar que a maioria dos grandes fatos é noticiada depois de acontecer. pág. O elemento de atualização é um assunto secundário. E se opõe a outro “frio”. Vejamos o caso dessa manchete e linha explicativa de reportagem sobre tecnologia da Veja 1856. é “quente”. 57 78 . que não perde a atualidade com facilidade. Há dois grandes tipos: os imprevisíveis. a manchete de primeira página de esportes do Jornal do Brasil era: “Empate no clássico embola a Taça Rio. Esses fatos principais são elementos geradores da unidade noticiosa. Ao falar que o jogo “embola” o campeonato carioca. instaura como momento de referência um “nessa semana”. Devemos observar que diários e revistas constroem unidades noticiosas cada vez mais analíticas porque não podem competir com as mídias mais rápidas e.Inicialmente.

por exemplo. investem na confusão. Telejornais. a promessa de um radiojornal. A expressão aparecia. são gravados. às 12h53: 79 . dá a sensação de que a produção acontece no mesmo momento em que se ouve os programas. como TV. construção que visa a alargar o “agora” de uma notícia. Meios “rápidos”. Nos noticiários da Internet. Essas duas sensações temporais. por sua vez. apresentar uma produção simultânea à recepção. Discutiremos melhor o assunto na análise sobre o jornalismo de TV. no entanto. O rádio. por exemplo. a enunciação em “tempo real” é prometida com freqüência. ou seja. Meios de comunicação “lentos”. não podem ser confundidas com o “ao vivo”. dentro do próprio programa. principalmente portais e sites com conteúdo jornalístico. de um telejornal ou de um site de notícias de realizar o acompanhamento de um fato enquanto ele ocorre. radiojornais. que enunciam na forma de um fluxo. O Jornal Nacional não raras vezes apresenta uma notícia e. no entanto. a atualiza. portais e sites têm a possibilidade de enunciar em “tempo real”. por exemplo. como diários e revistas. de que tudo é atualíssimo. faz o jornalismo impresso ficar cada vez mais especulativo e evidencia o ponto de vista do enunciador. no entanto. podem inclusive enunciar enquanto algo que consideram importante está em pleno andamento. De qualquer maneira. A estratégia. com o impacto da enunciação das mídias “rápidas”. na página do Jornal do Brasil On Line de 8 de março de 2005. rádios e. Os próprios jornais. precisam de um tempo para a produção e distribuição de notícias. na segunda parte do trabalho. Há uma outra questão importante para abordar.presente. não de deve confundir o efeito de atualidade. que também envolve coerções e vantagens de cada jornal. ou seja. Muitos trechos.

O primeiro grande problema é refletir sobre o assunto sem cair num estudo ontológico. Discutir a empatia não deixa de ser uma das muitas conseqüências da opção teórica de um estudo da enunciação como narrativa. porém. Vinicius Torres Freire. como espetáculo. Para isso. manejados por uma figurativização intensa. busca-se arregimentar o enunciatário pelo que poderíamos chamar de vínculo social. como a piedade e o terror. que podem emocionar. Problemas políticos e econômicos geram textos com saídas “criativas”. já que expande questões do universo passional entre os actantes narrativos para os actantes da enunciação. A proximidade actancial e espacial – a empatia Os jornais valorizam acontecimentos que mostram experiências “humanas”. Podemos perceber a importância dos chamados textos de “serviço”. como na TV. internauta. Há mobilização de paixões ligadas à disforia no primeiro grupo. um processo ainda incipiente no meio em 2005. podemos notar dois apelos diferentes. Notícias escritas. O segundo é que há. A lista é enorme. Nos primeiros. na página 2 – de Opinião – da Folha de São Paulo. Nesse sentido. como no rádio. como a da esperança. Há várias dificuldades para analisar esse procedimento.a coerção 80 . o verdadeiro tempo real da Internet só pode se dar pelos mesmos tipos de transmissão por sons. tenta obter uma identificação entre actante da enunciação (leitor. fez um notável mea culpa da imprensa em relação à indiferença da mídia por massacres pelo mundo. em outras palavras. e eufóricas no segundo.O JB. Quando um jornal mobiliza afetos do público ao noticiar. Em 15 de março de 2004. efeitos de realidade. obviamente. criticou – sem apontar saída . tais como “você também pode fazer isso e solucionar seus problemas”. telespectador) e actante do enunciado. espectador. Busquemos como ponto de partida algumas considerações de um jornalista. internauta ou ouvinte. ainda precisam de um tempo para edição e lançamento no site. No segundo caso. gerar empatia. O jornal torna-se uma espécie de amigo que tudo sabe e procura cumplicidade com o leitor. ouvinte. Nesses exemplos. muito presente no discurso jornalístico. que tem a oportunidade de se dar bem em relação a outros graças ao seu jornal. ou pelas imagens. Catástrofes naturais e guerras sempre se apóiam nas vítimas “civis” e seus dramas. Os enterros de personalidades rendem espaço para “o lado frágil” dos poderosos. Essa concretude discursiva é geralmente associada ao sentido de objetividade e não ao de subjetividade. mesmo que de poucos minutos. a mobilização apela para o indivíduo competitivo. faz apenas um simulacro. nos mesmos textos que procuram mobilizar afetivamente.

vive como a gente. Dito isso. ele afirma que tipo de empatia é importante para o jornalismo: “É para quem se parece conosco. podemos perceber que o potencial de atração da notícia. Além da identificação actancial. outro ponto importante do comentário de Freire é que a empatia depende de o enunciatário reconhecer também como seu o espaço do personagem da notícia construída pelo jornal. viver. O sujeito é manipulado. por sua vez. em tese. ou quase sempre quem vive em lugares que têm poderes e haveres bastantes para fazerem suas histórias terríveis serem midiáticas”. para o público padrão da Folha de São Paulo. que abrem espaço somente para situações e problemas que permitem a identificação do público-alvo com as histórias noticiadas: No final do terceiro parágrafo.que a empatia tem para os jornais. parte violenta da miserável periferia da Zona Sul paulistana. Em outras palavras. nessa reflexão. Tenta- 81 . lugares em que ele também poderia. pelos efeitos de realidade que “humanizam” o texto. cuja isca é a manchete. pode dar mais sentido de proximidade espacial do que o Jardim Ângela. Um shopping center dos Estados Unidos. é proporcional à projeção do público nos dramas mostrados.

As noções gerais. analíticos. existe a já citada representação icônica. Ver alguém ser citado com nome. o que é visto de um modo melhor ou com mais freqüência é. A abstração é uma racionalização por excelência. No extremo oposto. elementos ou partes do texto que um leitor identifica como existentes no mundo natural. os esquemas abstratos não atuam muito sobre a imaginação. que “para criar a emoção. por exemplo.) O termo concreto aumenta a presença” (1996:166. Perelman e Olbrechts-Tyteca descrevem o processo: “A presença atua de um modo direto sobre nossa sensibilidade. ou seja. (.. que tem dois extremos: em um deles. exerce uma ação já no nível da percepção: por ocasião do confronto de dois elementos. Os textos jornalísticos.167). por outro lado. trafegam entre esses dois extremos. O que um jornal faz é eleger e oferecer elementos concretos à consciência do enunciatário. busca o genérico.. que é um fator essencial nas argumentações. por demais menosprezado. não só atrás do cumprimento de obrigações (deveres)..se fazer com que seja modalizado por um querer entrar em conjunção com a notícia. Nem sempre o efeito de realidade dá lugar à empatia. Ensinam Perelman e Olbrechts-Tyteca. O que podemos chamar de projeção empática do enunciatário está diretamente relacionada à manipulação de elementos que tenham concretude discursiva. como a mulher morta entre as ferragens do trem atacado por terroristas em Madri e citada por Vinícius Freire. Isso porque semelhante escolha confere a esses elementos uma presença. apenas por isso. dependendo dos efeitos que querem infundir. supervalorizado” (ibidem). não importa se a unidade é majoritariamente visual ou verbal. ou de representação. uma visão ampla. inteligível da realidade. É importante que tenha a sensação de “estar no mundo” e possa “viver” dores. com uma foto. nas concepções racionalistas do raciocínio” (idem: 132). em outras palavras. original de 1959. como mostra Piaget. um padrão fixo e grandezas variáveis com as quais ele é comparado. é indispensável a especificação. Vejamos como essa mobilização afetiva acontece. (. É um dado que. A semiótica trabalha essas idéias como um modo de figurativização. A iconicidade é uma de suas principais estratégias de elaboração de efeitos de realidade. no Tratado da Argumentação. pode não mobilizar nossa 82 . A abstração.) Quanto mais especiais os termos. quanto mais gerais eles são. alegrias e outros afetos mostrados nas histórias. ou em uma cena. endereço. há a representação abstrata. mais fraca ela é. Lembram ainda os autores que “o fato de selecionar certos elementos e de apresentá-los ao auditório já implica a importância e a pertinência deles no debate. aliás. aquilo em que o olhar está centrado. nega o particular e caracteriza os textos temáticos. mais viva a imagem que evocam..

23/12/2001. o movimento. o repórter confere vida aos relatos com detalhes significativos.. O espectador assume uma atitude passiva e delega o poder de ação ao personagem. é possível buscar semelhanças entre formas de arte. contextos.afetividade. As técnicas estão reunidas no que o teatrólogo chama de Sistema Trágico Coercitivo de Aristóletes. ombudsman da Folha de São Paulo leva-nos a perceber esse processo de criação de ilusão referencial em um texto jornalístico: “Todo bom repórter domina a técnica de extrair de seus entrevistados frases contundentes. Folha de São Paulo. que particularizem cenários. vicariamente. que critica a tragédia grega: “Aristóteles constrói o primeiro sistema poderosíssimo poético-político de intimidação do espectador. A 6.. Barthes.. porém.. mais completo e atraente estará o texto. Aspas e respeito. Bernardo. Este sistema é amplamente utilizado até o dia de hoje. (. Bernardo Ajzenberg. a complexidade figurativa deve estar a serviço da maior concretude possível de uma narrativa em pleno desenrolar. não somente no teatro convencional como também nos dramalhões em série da TV e nos filmes de farwest: cinema. em situações desfavoráveis. nós vivemos. sem o qual não se poder falar em empatia: “Como o personagem se parece a nós mesmos. tudo o que vive o personagem. Ensejam uma ponte entre o personagem e o leitor. toda empatia. Essas regras. sentimos que 58 Ajzenberg. Boal lembra que. entretenimento e jornais. teatro e TV (. se estabelece uma relação entre o espectador e o personagem (especialmente o protagonista ou herói trágico). na tragédia grega. Quanto mais êxito obtiver aí. como tantas vezes é assinalado por seus críticos.).) Além das declarações. tem como base o efeito de realidade. 83 .” (1980: 6). inusitadas. de eliminação das ‘más’ tendências ou tendências ‘ilegais’ do público espectador. como indica Aristóteles. Para haver empatia. A projeção do enunciatário na história contada é produto de um tipo de ação que vai expondo determinados estados afetivos. básicas. Vamos tentar aprofundar o entendimento da empatia por meio das reflexões do teatrólogo Augusto Boal. na qual apareçam certas paixões. expressivas. na proposta de R. sentimentos. Conferem-lhe autenticidade. pág. Humanizam o texto. contidas no livro Teatro do Oprimido e outras Poéticas Políticas. Citações são a alma da boa reportagem. Devemos ressaltar essa característica: é importante notar a transformação de estados. dados precisos. Sem agir. quando o espetáculo começa. mas funcionar apenas como “ilusão referencial”. Se o jornalismo é um espetáculo. se tornam ainda mais importantes em textos produzidos em momentos ou locais de tensão e crise.” 58 Se o efeito de realidade não pressupõe identificação entre público e personagens das notícias.

porque ora tentam confundir-se com as narrativas da própria vida. do ponto de vista afetivo. aparentemente a emoção não seria e nem poderia ser intrínseca ao noticiário – que deve mostrar somente os “fatos” ou análises “racionais” desses mesmos fatos. Nesse último caso. Boal. ou seja. o personagem apresenta dois aspectos. Vale lembrar que Boal define ethos de uma maneira um pouco distinta da tratada até agora no trabalho. como a retomada do equilíbrio. mas que pode igualmente incluir outras emoções.) o amor. ouvintes em relação aos dramas de famílias vítimas da guerra e do terrorismo. Juntos. basicamente. da continuidade. O teatrólogo explica a empatia como uma relação emocional entre o personagem e o espectador. de atração por um mesmo objeto e as dificuldades colocadas por um mesmo anti-sujeito. constituem a ação desenvolvida pelo personagem. em seu maior grau. por exemplo. é o da catarse. algo imerecido acontece a um personagem que se parece a nós mesmos. Ao analisar a catarse.) A empatia opera fundamentalmente em relação ao que o personagem faz. a ternura. como diz Aristóteles. a empatia é uma fusão afetiva sujeito-enunciatário e sujeito-personagem. “Para fins didáticos. “A empatia. internautas. sentimos que estamos vivendo. As narrativas jornalísticas se impõem. geralmente. ao seu ethos”. que exploraram sentimentos patrióticos e de vingança. na obra citada. o pensamento que determina o ato” (ibidem: 38). Piedade e terror definem grande parte das paixões disfóricas mobilizadas diariamente pelos jornais na busca de projeção empática do enunciatário nos dramas dos personagens das notícias.) Podemos igualmente definir o ethos como o conjunto de faculdades. Do ponto de vista semiótico. o desejo sexual. Se na tragédia grega não havia happy end. (. de piedade e terror.. mobilizando pelo temor . paixões e hábitos” (ibidem: 36 e 37).. há uma mobilização pela piedade. como (. que não vamos desenvolver. por sua vez.. o discurso. como sugere Aristóteles.59 Diante da coerção jornalística de produção de textos objetivos. podemos dizer que o ethos é a própria ação e a dianóia a justificação dessa ação. Amamos e odiamos quando odeia e ama o personagem” (idem: 37). sem viver. em termos semióticos. mesmo que ilusória. como efeito perseguido pela tragédia grega. “que pode ser constituída. para explicar o papel dos meios de comunicação dos Estados Unidos durante e após os atentados de 11 de setembro. (. na vida real a catarse não deixa de se constituir. ethos e dianóia. de tragédias naturais. à sua ação. ou seja.estamos agindo. O efeito de Outro ponto importante. ou uma forma de sincretismo entre actantes de dois níveis distintos – narrativo/discursivo e enunciativo de um mesmo texto que se associam por partilhar. 59 84 . Para ele. da fome. liga-se ao ethos em relação à ação do personagem e também em relação à dianóia. mas merece citação... afirma que os espectadores se ligam a seus heróis basicamente através da piedade e do terror porque.. Um estudo da empatia e da catarse seria muito útil.o medo da violência e a impotência diante da ação dos governos – ora porque fazem aflorar sentimentos que irmanam leitores. de injustiças de todos os tipos. vivida por meio do personagem. telespectadores.

Como lembra Costa. de qualquer forma. 1999: 63 apup Marcondes Filho. mas um estudo que demonstre. Ali onde a intenção é expressar com rigor a realidade tal como ela é.60 Vale dizer que a empatia tem um importante papel no sucesso persuasivo de um texto: “A verdade está na realidade do corpo virtual que eu vejo morrer na tela ou na materialidade das lágrimas que esta visão suscita em mim? A ambigüidade é. Na contemporaneidade o jornalismo é o lugar por excelência de realização da ambigüidade e da complexidade da experiência do ser humano. Um enunciatário. como um complexo oppositorum. os relatos das notícias são redutos da racionalidade e da lógica. Blivar.ele expõe: “A princípio. seria incapaz de suscitar maiores comoções” (Costa. “uma reportagem ilustrada sobre o assassinato de uma criança é suscetível de levantar a opinião pública pequeno-burguesa num momento de condenação ao ato brutal. bem real: pensa-se agora facilmente que pelo fato de as lágrimas serem verdadeiras. 1989: 18). de forma expressiva. estaria vivendo relações afetivas como uma atividade além do texto – e parece ser esse o entendimento de diversos pesquisadores. 60 85 . no entanto. ao se engajar empaticamente com a notícia. Outro ponto importante sobre a questão é o uso ideológico da “humanização”. que no Nordeste do Brasil morrem anualmente dezenas de milhares de crianças em conseqüência da subnutrição. porém. ao ignorar a importância da questão. No texto da reportagem não se dá. Tentamos mostrar. apup Marcondes Filho. Marcondes Filho completa que “não há ação ou envolvimento possível do receptor das notícias se estas não forem associadas à sua realidade específica. estes relatos não conseguem desvencilhar-se de figuras de linguagem que sugerem símbolos afetivos para a criação de imaginários culturais. sem fantasias nem invenções. a coincidência oppositorum do jornalismo. Haveria uma razão para separar os procedimentos.br/fac/posgraduacao/prnarrativa. Cremos que é justamente na linguagem jornalística. como expressão dos dramas e tragédias humanas (ethos e pathos). nem tampouco a linguagem da notícia assumirá jamais a forma de um relato simbólico “puro”: nela se realiza continuamente.pdf .“Análise da narrativa jornalística: a construção da identidade nacional nas notícias sobre a inserção do Brasil no mundo globalizado . pessoal. com dados estatísticos.acessado em outubro de 2004. à experiência imediata.” Disponível no endereço: www. desejos e ilusões do ser humano e das sociedades vêm habitar. sem ilusões. Em projeto de pesquisa . 2000: 98). a presença do mythos converte subversivamente o discurso racional em seu contrário.objetividade. nem se dará nunca. Um outro ponto de vista sobre a questão dos afetos e da objetividade jornalística era estudado em 2004 na Universidade de Brasília. não se choca com as possibilidades de manipulação afetiva. o triunfo da objetividade.unb. que a empatia é manejada pelo texto e estruturalmente determinável. ao se projetar no texto. sem a vinculação ao contexto de vida. um reduto exacerbado do racionalismo. o acontecimento na sua origem também o é (Ramonet. que os fantasmas. não há politização possível” (idem: 19). sob comando do professor Luiz Gonzaga Motta. Mas.

Norma Discini. Exploração do que é sensacional (3). sintaticamente.. O sensacionalismo pode aparecer como uma quebra de uma cláusula do contrato enunciador-enunciatário em um momento muito específico. Divulgação e exploração. 2. o menos austero de todos (.A proximidade imposta: o sensacionalismo O Dicionário Aurélio define “sensacionalismo” com três entradas: 1. na arte. não uma quebra de contrato. Em outras palavras. hábitos exóticos. Há grande destaque visual. O Estado de São Paulo e o extinto Notícias Populares e faz uma análise da imprensa dita séria em relação à imprensa dita sensacionalista. encontra um “ator sutil. da imprensa dita sensacionalista. entretanto. Nos primeiros dois jornais.. Nesse último caso. Uso de escândalos. ou mais íntimo e cúmplice dos três jornais. a Folha de São Paulo estampou uma foto do “New York Times” nada sóbria para ilustrar um momento da guerra do Iraque. (. de gestos atabalhoados. se opôs o estilo sóbrio da Folha e do Estado em comparação ao estilo que tem “uma voz que grita” (ibidem: 129) do Notícias Populares. Individualiza-se. ou no efeito de distância da enunciação em relação ao enunciado.)” (idem: 124). 61 86 . se comparado àquele que se apóia num enunciador. 3. etc. (. em tom espalhafatoso. cujo trecho mais chocante é a cabeça esfacelada Há um tipo de público que assiste a determinados programas ditos telejornalísticos porque são sensacionalistas. que simula estar presente no enunciado. Neste trabalho. Os telejornais chamados de populares.. No estudo do ethos desses três jornais. Nesse sentido. esse ator. assim. compara a Folha de São Paulo.) o ator da enunciação referencializa-se como o menos sutil. o sensacionalismo é uma estratégia de atração. de gestos calculados. apresentamos uma visão que julgamos complementar aos estudos de Discini. safando-se do efeito de intimidade.) O ator mais sutil e “fino” figurativiza-se apoiado numa enunciação que. de matéria capaz de emocionar ou escandalizar. com o mesmo fim. por meio do narrador explícito. (.. não instala as pessoas eu/tu no enunciado das primeiras páginas. A foto..) que se constitui por oposição ao ator estouvado. etc. a dizer tu na manchete principal de primeira página. na literatura. enquanto permanece cravado nas distâncias.61 Na quarta-feira.. 10 de novembro de 2004.. não fazem parte do escopo deste trabalho. no trabalho sobre o estilo nos jornais (2003). o jornal apresenta uma notícia que gera um sentimento de proximidade no enunciatário com uma situação ou com alguém que ele não desejava manter contato. atitudes chocantes...

Em alguns momentos. na coluna do domingo. ocupa três das seis colunas. diariamente. Essas. muitas imagens clichês da guerra. motivou reclamações ao jornal e comentário do ombudsman da Folha. Essa foto.de um “suposto insurgente”. por sua vez. ou quase um quarto de página. Ele levou a questão ao editor de fotografia. que respondeu: “Realmente a foto é chocante e não é sempre que publicamos esse tipo de imagem. Toni Pires. Chegam até nós. Marcelo Beraba. os leitores já decodificaram e não mais se chocam. 14 de novembro: “Leitores que escreveram ou telefonaram chocados consideraram que a Folha foi ‘sensacionalista’ ao publicar a foto”. vejo 87 .

o enunciador e suas escolhas se apresentam muito fortemente. Mas. Os limites são distintos de publicação para publicação. portanto. é nosso papel mostrar algo mais. Acredito que. De um ponto de vista mais generalizante. Mostra.” Marcelo Beraba. religiosos). inclusive corporalmente.). ao publicar. inicialmente. que preza um determinado “equilíbrio”. A “realidade da guerra” aparece na forma de uma figuratividade icônica. As poucas imagens diferentes que recebemos nos mostram um cenário de horror. Ao utilizar esse recurso. O sensacionalismo aparece então como a quebra de uma cláusula do contrato sobre a dose de afetividade – notadamente negativa. o que compromete a estratégia de “objetividade”. No caso.que o público vivencia. São fotografias que devem ser lidas e entendidas como a memória visual de nossa época. Mas com o compromisso de levar até o leitor um pouco mais do que o simples comentário ilustrativo. Do ponto de vista semiótico. O caso da Folha é exemplar por vários aspectos. Há uma linha divisória marcada por uma visão de mundo (valores familiares.. Os últimos acontecimentos no Iraque são a demonstração de atos bárbaros praticados por ambos os lados envolvidos. O jornal. a foto que choca não deixa de ser um discurso forte contra a própria guerra. como mostra Norma Discini. os comentários servem para observar que o sensacionalismo pode ser motivado e gerar um tipo de conflito calculado entre enunciador e enunciatário. aparece ao leitor “opinando” sobre o conflito. o que força o leitor a se aproximar da foto.. por sua vez. políticos. no entanto. disfórica . mas um jogo entre efeitos de proximidade e afastamento da enunciação. Outro ponto notável é que os jornalistas acreditam que a construção de um “real” que consideram mais fiel aos horrores da guerra deve sobrepor-se em alguns momentos às cláusulas do contrato estipulado entre enunciador e enunciatário. os limites são mais regulados. erra menos pelo excesso do que erraria pela omissão”. mas vejo a importância de. em determinados momentos. enfrentar o desagrado e o incômodo (.a necessidade de mostrar os fatos ‘mais de dentro’. que não há um único tom na maneira de enunciar. No caso de um mesmo jornal. porém. O que é excessivo para uns pode ser perfeitamente aceitável para outros. no entanto. 88 . discute a questão e concorda com o editor: “O jornal poderia ter escolhido uma foto menos explícita? Poderia ter dado sem tanto destaque? Poderia. a Folha e o Estado são jornais que têm estratégias de enunciação em que esses “choques” não são comuns. Não com o objetivo simplista de uma certa estética do horror. avalio. com ampla valorização espacial. Não acho que devamos sair publicando esse tipo de imagem todos os dias. por mais inquietante e doloroso que seja para o leitor.

ou consultar o site com notícias de sua preferência. realiza uma eficaz triagem e organização da realidade na qual o enunciatário se insere e se apresenta de maneira clara. Mostra que o destinador é confiável. que tem “credibilidade”. a cada edição. eficiente. Há um destinatário que. A satisfação deve motivar o desejo de tomar contato com a edição seguinte. a estratégia de fidelização resulta do contato com a edição inteira. Precisa ser também chamativa. o que recomeça o ciclo. ouvir a rádio habitual. ver um certo programa de TV. O destinatário realiza a performance de consumo e é recompensado. de longo prazo. que garanta uma atenção incessante. No entanto. e por meio de uma solução muito especial: se consumido continuamente. “Fidelizar” é uma palavra muito usada no marketing. tem o poder de transformar a obrigação cotidiana de informação em mais uma fonte contínua de prazer para o sujeito. É como se o jornal. Deve também fazer-crer na necessidade ou conveniência de o enunciatário repetir a ação com as outras edições. prometesse ser uma resposta definitiva a essa busca de saberes sobre o mundo. Semioticamente falando. a persuasão dos jornais deve ser vista de maneira mais complexa. Qualquer veículo de comunicação almeja obter um público fiel. bonita. Como discutimos antes. Como decorrência. o sentido de familiaridade que resulta na paixão da confiança. Mostra a existência de procedimentos para cativar consumidores com o objetivo de que mantenham uma relação contínua com um produto ou empresa. a edição não é pensada apenas para manter um sujeito bem informado. a cada edição. A convivência vai dissipando receios. não se 89 . vibrante. com repetidas ações de consumo. O jornal deve convencer de que é “completo”.A estratégia de fidelização É momento de analisar a última estratégia do gerenciamento do nível de atenção: a de fidelização. É possível notar que a estratégia de fidelização se apóia mais em uma dimensão do inteligível. possibilitando prazeres e um consumo fácil e eficiente. Essa relação satisfatória gera. questiona a competência do destinador e se o relacionamento é satisfatório. agradável. o jornal – como destinador . Uma edição específica precisa gerar consumo não só para as próprias notícias. Se as estratégias de arrebatamento e sustentação vinculam-se ao poder das unidades noticiosas.cumpre sua parte no contrato. como o tempo. Ele encontra o que procura quando resolve ler determinado jornal.

A atenção incessante. ver ou ouvir um jornal pressupõe tomar contato com “as novas” do mundo. das quais é totalmente dependente. dia após dia. depois. Apontamos que o objetivo de qualquer veículo de comunicação é obter um público fiel. e parece estranha. à questão: “Que há de novo hoje no mundo?” E completa: “A narrativa jornalística valoriza por princípio a irrupção do inesperado. dessa vez por sedução. O hábito aparece como o aspecto mais derradeiro da estratégia de fidelização. o ethos de um produto jornalístico deve sempre ser identificado pelo público como competente para realizar sua função. podemos observar uma outra manipulação destinador/destinatário. A fidelização. do a-normal para. Não há. por exemplo. geralmente quer comunicar que se reconhece no padrão de consumidor construído pelo seu veículo de comunicação predileto e partilha do tipo de recorte da “realidade” manifestado. baseado na produção e apresentação incessante de novidade. Quando alguém diz que gosta de determinado jornal. Só que essa novidade deve encaixar-se em uma edição que pouco se altera no dia-a-dia. ele também se sente parte de um grupo social que ele admira. repetitivo. de longo prazo. contudo. explorada anteriormente. mais afetivas. ao primeiro contato. A questão da marca.deve esquecer das outras dimensões. A competência que justifica a existência de sua relação com o público é a de noticiar. Ao consumir o “Estadão”. do singular. do ethos. Ler. Eleitores de O Estado de São Paulo gostam de se ver como mais “maduros”. com um produto como o jornal. sem modificação. tornar a situar o sensacional no fio de uma História que lhe dá sentido e o traz de volta à norma. Já os da Folha de São Paulo. Em função disso. qualquer paradoxo. Há outros aspectos para analisar. se reverte em sustentação financeira das empresas. à ordem das coisas 90 . “críticos” e “modernos”. implica identificação ideológica do público com o jornal e também uma satisfação contínua que gera um hábito. para ser bem-sucedida. Algumas considerações de Landowski sobre jornais franceses podem ser perfeitamente generalizadas para qualquer mídia e expõem melhor a questão. apresentar e discutir as novidades do mundo. O leitor de O Estado de São Paulo. Identificação é também palavra-chave no vínculo de longo prazo entre jornais e público-alvo. A fidelização só tem razão de ser a partir do sucesso das estratégias já citadas de arrebatamento e sustentação. vai consumir o jornal para que ele próprio seja visto como alguém que partilha dos mesmos valores do seu veículo de comunicação preferido. por exemplo. e dos sentidos a ela associados. “sérios”. Afirma o autor que os jornais respondem. como mais “jovens”. Nesse sentido. aparece com força. A idéia de hábito remete a uma espécie de comportamento constante.

e o hábito. “ao contrário..” No hábito.. Ela pergunta o que faz uma mesma repetição ser percebida ora disforicamente ora euforicamente.. Novidade demais (tanto de expressão como de conteúdo) pode deixar o enunciatário sem referências. O hábito é uma possibilidade ofertada ao sujeito de criar ou manejar as próprias descontinuidades.). 62 91 . (. ou o afrouxamento da relação de um sujeito com um objeto qualquer. um gosto de fruição” (2003:94). tem características eufóricas. a priori. fazer o sujeito viver emoções e paixões com seu recorte. entre tantos outros. de um querer-querer62 de um sujeito liberado de imposições exteriores ou anteriores. com base em trabalhos de Landowski (1998). por meio do que Landowiski (1998: 161-162) chama de aprendizagem de busca de um valor estético. a perda de sentido. ordenamento e apresentação dos acontecimentos do mundo. à falta de ambição material e espiritual. entendida como dessemantizadora das ações do sujeito. ressemantizando assim a própria vida. Pouca novidade pode desinteressá-lo. disfóricos. Fechine (2003). “Nesta última situação (a rotina). Devemos lembrar que o jornal busca. no entanto. de retomar o tempo. faz uma diferenciação entre rotina.vai produzindo a dessemantização. que ressemantiza relações contínuas entre sujeito e objeto e. que faz com que a novidade nunca se esgote. o jornal. sociológico e biológico . formada pela “rotina” e por suas “interrupções”. como que a antítese” (1989: 120). parte integrante do mundo e da humanidade..). de um ponto de vista psicanalítico. disfórica. mostrar-se como enunciador que maneja o que pode ser pensado como uma “justa medida” entre o novo e o velho na conquista do enunciatário. o próprio prazer do sujeito (. lhe é. causar estranhamento. o imperativo da repetição é. que é um trabalho progressivo de ajustamento entre sujeito e objeto. promete continuamente chacoalhar o cotidiano. obviamente – não existe um sujeito tão livre assim..previsíveis – ou seja. sobretudo. a repetição é resultado de um dever-querer no qual o sujeito cumpre um programa determinado por destinador social. antes de qualquer coisa. O discurso ocidental marca a rotina com valores negativos. na tentativa de satisfazer essa necessidade. portanto. Se pudermos afirmar que o ser humano precisa libertar-se da rotina para se sentir mais “vivo”.. ligados à acomodação. que.que não iremos explorar. biológico quaisquer (. A rotina – como um fenômeno de continuidade . Podemos entender ainda o hábito como Vale relembrar que. portanto. cujos momentos de controle permitidos aos sujeitos se tornam um hábito. com suas edições contínuas. É produtivo pensar o cotidiano como categoria complexa. ao “cotidiano”. cultural. a repetição é voluntária e fruto. O cotidiano “pulsa” ao sabor de quebras e retomadas.) Nesse caso.

do restaurante aos domingos. ao ter contato com um jornal. seu cotidiano. através da projeção empática. se impõe pelas novidades . Em outras palavras. e ilustrar algumas das reflexões sobre o gerenciamento do nível de atenção. na repetição de atos que lhe dão prazer. o Diário de São Paulo. um sujeito que organiza o seu dia para ressemantizar. viver um hábito. Exemplo: Jornal da Tarde versus Diário de São Paulo Para concluir esse item. Ambos são do mesmo dia. e trazem o mesmo assunto na manchete: mortes como conseqüência de fortes chuvas que desabaram na região metropolitana. uma forma de fruição que ele pode administrar para criar essas ressemantizações cotidianas. O jornal. 29 de janeiro de 2003. ao contrário de um café. os conflitos de quem foi retratado nas reportagens. entretanto.pelo reforço na própria identidade do sujeito – e pela possibilidade cotidiana de lhe dar meios de transcender a sua história vivendo. comparamos as primeiras páginas de dois jornais de público-alvo semelhante. A estratégia de fidelização maneja essa possibilidade de o sujeito. quarta-feira.as unidades noticiosas . Vejamos: 92 .o gerenciamento possível dos sentidos pelo sujeito. na maior parte habitantes de classe média da Grande São Paulo: o Jornal da Tarde e seu concorrente.

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Do ponto de vista da primeira estratégia de atração, a sensorial, deve-se notar que o título principal e a foto dos dois jornais tomam grande parte da primeira página, o que não acontece todo dia. A estratégia de arrebatamento é clara: há uma tentativa de atrair o olhar em função do espaço ocupado pelos títulos e pela fotos. As duas manchetes utilizam uma fotografia muito semelhante, de grande contraste cromático em relação ao branco da página. Há praticamente o mesmo ângulo: um ponto de vista de cima para baixo, de alguém que vê tudo de um local alto e a certa distância. É possível perceber, inclusive, as mesmas personagens, como o rapaz de camisa verdeamarela. A foto do JT apresenta somente um corte de cena um pouco mais “fechado”. O que as duas manchetes têm de mais notável, contudo, são as diferentes estratégias dos editores para a apresentação de cada notícia, cujo fato gerador é o mesmo: as vítimas da chuva em Taboão da Serra. O JT, ao contrário do concorrente, vai buscar impacto, o que quer dizer, maior carga afetiva na cobertura. Mostra a foto de um bebê de um ano e quatro meses, Juninho, que aparece morto nos braços de um homem que ajudava na escavação. Pode-se observar a técnica da apresentação do clímax de uma narrativa na manchete. O leitor, que teve o olhar arrebatado pelo título e pela foto, obtém os primeiros dados da história e deve ficar curioso para saber como se chegou àquela situação. É a estratégia de sustentação em funcionamento. Lembramos a necessidade de os textos apresentarem “gente de carne e osso”, ou seja, discursos com grande carga figurativa icônica para provocar a empatia, a identificação do leitor com a história contada. Nos casos analisados, o exemplo mais claro é o da própria fotografia. que permite reconhecer os voluntários, a terra, as vítimas. Mas também percebemos que títulos e legendas trabalham com elementos que, por meio de uma ancoragem, atam o discurso a pessoas, espaços e datas que o leitor reconhece como “reais” ou “existentes”, como Juninho, seu pai Márcio, os mortos pela chuva em Taboão da Serra. Mas retornemos à discussão sobre a manipulação afetiva. O JT utilizou a foto de um bebê morto. Há uma aproximação entre os corpos do leitor e da vítima que o jornal torna possível notadamente por meio da fotografia, por sua vez, representação de uma ação frustrada de salvamento. Uma observação mais cuidadosa mostra que, desde o título, constrói-se um centro de máxima tensão. O jornal enuncia “os mortos da chuva” para levar o olhar para o bebê. Ou, no caso de um olhar inicial na foto, para ancorá-la e evitar qualquer outra leitura. O leitor pode armar-se de argumentos contra uma vítima que invadiu um terreno público em uma encosta perigosa. Ela se arriscou e morreu. Tinha alguma escolha, por mínima que fosse, e pagou por sua irresponsabilidade. O mesmo leitor,

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porém, não pode deixar de se envolver por inteiro no drama da morte de um bebê de pouco mais de um ano. O jornal fez uma escolha cuidadosa para obter a máxima carga de afetividade. Não é a apresentação de qualquer vítima, ou de mais uma vítima das chuvas, mas de uma criança, a mais frágil e inocente de todas. Ela não pode ser julgada de outra forma. Essa estratégia é comum nos discursos que denunciam absurdos de guerra, pois impedem racionalizações frias e distantes e forçam o destinatário a uma atividade de reflexão sobre o contexto que gerou a tragédia.63 A manchete do JT trabalha com um choque emocional de uma voltagem muito maior do que a do Diário de São Paulo. O concorrente do Jornal da Tarde, porém, também estampa a foto de uma vítima, só que enrolada em um cobertor. É preciso ressaltar a diferença de limites nos usos de materiais jornalísticos muito semelhantes. Há moderação no Diário de São Paulo e pleno uso de estratégias afetivas no Jornal da Tarde, que se empenha em criar impacto por meio da apresentação do cadáver de uma criança. Cada jornal satisfaz curiosidades e necessidades (dá saberes) e também coloca o sujeito diante de possibilidades de viver experiências afetivas – ou, como afirmam Zilberberg e Fontanille, valores para serem sentidos - que contrabalançam o aspecto trágico, disfórico da notícia. Relembremos que o leitor não é um sofredor compulsivo, mas alguém que, mesmo diante de uma narrativa de morte e fracasso, procura conhecimento e afetividade. Os dois diários buscam a empatia do público, principalmente por meio da paixão da piedade. Do ponto de vista passional, o leitor do JT é conduzido para viver mais fortemente a compaixão, segundo o Aurélio, o pesar que em nós desperta a infelicidade, a dor, o mal de outrem. A compaixão é um dos afetos mais mobilizados pelos jornais e um importante componente da projeção empática, como discutida anteriormente por Augusto Boal. Trata-se ainda de uma paixão conformista, ou seja, ao apenas lamentar a morte (a maior das disjunções sujeito/objeto), o leitor aceita a narrativa como um fato trágico, porém em grande parte inevitável. As duas manchetes colocam como vilão a chuva, ou seja, a própria natureza. A piedade, como paixão, só pode gerar mais piedade ou desaparecer. O uso da afetividade como estratégia maior da manchete do JT causa alguns estilhaços na possível busca de certa objetividade jornalística. A escolha da foto de um bebê morto para a primeira página torna muito mais perceptível, para o leitor, a
Durante a guerra entre EUA e Iraque pôde-se observar a mesma estratégia. A mídia norteamericana, pró-guerra, evitava ao máximo mostrar e fazer comentários sobre as vítimas. Já o discurso das emissoras árabes, contra a guerra, se concentrava no oposto: exibia-se a brutalidade contra a população civil, principalmente imagens de mulheres e crianças mortas, feridas ou mutiladas, gente que tinha nome, idade, endereço, história.
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presença de alguém que está fazendo a mediação entre ele e o mundo. Revela, portanto, um ponto de vista sobre uma ação e impede qualquer neutralidade do discurso. Maior a percepção de um desejo de emocionar, mais clara fica a presença do jornal – e das escolhas feitas – para o leitor. Na época, o JT estava construindo uma identidade mais presente, mais próxima e opinativa diante de seus leitores. Investir na maior carga de afetividade foi uma estratégia de diferenciação em relação ao seu concorrente, o Diário de São Paulo. Estamos, portanto, diante de uma tática de longo prazo do jornal, dentro da estratégia de fidelização. O JT procurava convencer seus prováveis leitores de que valia a pena ler o jornal todos os dias para ter acesso a notícias com um enfoque mais “humano”, “próximo”, “afetivo”.

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ESTRATÉGIAS DE ORGANIZAÇÃO TEXTUAL: A ATENÇÃO MANIPULADA NO TEMPO E NO ESPAÇO
No item anterior mostramos como funciona o gerenciamento do nível de atenção, separando alguns efeitos que se referem ao plano de expressão (como as estratégias de arrebatamento) de outros mais relacionados ao plano de conteúdo (como de sustentação e de fidelização), todos ligados à instauração de curiosidades, desejos, afetos. Agora, pretendemos ordenar melhor essas reflexões. O jornal manipula o público para que preste mais atenção numa notícia em relação à outra, atente para certos detalhes e não dê a mesma consideração a outros. Nossa investigação continua com o estudo das características da organização textual dos jornais, dos efeitos de edição (aqui como ato de editar ou relacionar expressão e conteúdo), da aspectualidade, da tensividade e do semi-simbolismo. Na segunda parte do trabalho, há uma análise mais detalhada da organização textual de cada um dos quatro grandes grupos de jornais. Devemos reiterar que continuamos a fazer uma análise da enunciação como narrativa, ou seja, mostrando como um enunciador concebe um jornal. Nosso interesse agora é mostrar as possibilidades de textualização, como o enunciador maneja o contato do enunciatário com o texto para que ele passe do foco para a apreensão, do sensível ao inteligível, do plano de expressão para o plano de conteúdo, da tensão para um certo relaxamento.

Dois modos de textualização: espacial ou temporal

Um texto manifesta-se quando um plano de conteúdo é relacionado a um plano de expressão, a uma manifestação material, grosso modo, um “suporte”. Temos, portanto, a textualização. O estudo desse ato de organização textual, desse “encaixe” entre o conteúdo e o modo de expressá-lo, permite melhor compreensão dos procedimentos já observados. Ao mesmo tempo, expõe outras estratégias importantes. Sabemos que, em um jornal, algumas unidades noticiosas são consideradas de maior interesse do que outras sem que os jornalistas tenham de fazer uma comparação explícita. Cada jornal aperfeiçoou mecanismos que “comunicam” o que é mais ou menos importante, o que merece mais ou menos atenção, fazendo uma verdadeira regência de uma enorme massa de estímulos – visuais, verbais, sonoros, conforme o meio de comunicação - no processo de organização textual. O enunciador

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maneja a curiosidade, guia a percepção do enunciatário no sentido do que deve ou não ser valorizado, direciona as expectativas, mostra pontos de maior ou menor interesse nos níveis sensível, inteligível e passional. Como temos contato com os jornais desde a infância, principalmente com a TV e o rádio, assimilamos essas regras de textualização. Todo objeto dos quatro grupos de meios de comunicação estudados pressupõe a edição (na acepção de ato ou efeito de editar), ou seja, a seleção, organização e montagem de todos os elementos que devem formar um programa, uma revista, as páginas de um site. A textualização, como estratégia global de enunciação, pode ser considerada como o “ato de editar” dos jornalistas: • No rádio e na TV, a textualização, ou a ação de editar, estabelece

principalmente intervalos de tempo e posições no fluxo temporal para a construção de sentidos. O manejo acontece em função de recursos de montagem. • Na revistas, diários e sites, a organização textual ocorre por meio da

administração do espaço, manejada pela diagramação nos impressos e pelo webdesign nas páginas da Internet.

Os recursos de montagem (rádio e TV), diagramação (diários e revistas) e webdesign (sites/portais) serão apresentados em detalhes e estudados depois, nas análises específicas. Interessa agora observar que o fluxo do tempo, no rádio e na TV, e a trama do espaço, nos jornais impressos, revistas e sites, criam o sustentáculo para as regras de textualização desses objetos e controlam a disposição das unidades noticiosas. Em função dessas coerções, os jornais estudados neste trabalho dividemse em dois grandes grupos, os de hierarquia de base temporal e os de hierarquia de base espacial. Queremos chamar a atenção para um aspecto importantíssimo: existem relações de espaço no rádio e na TV e de tempo nos jornais, revistas e sites. Estamos ressaltando o que consideramos mais relevante na organização textual desses meios de comunicação. O tempo, ou o espaço, permite que a textualização produza uma hierarquização de sistemas significantes64 diferentes. O resultado é o jornal como um único texto, um único “todo de sentido”, cuja missão maior é gerar laços com o público
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Preferimos falar em “sistema significante” ou “conjunto significante” no lugar de “linguagem”. Greimas e Courtés, no Dicionário de Semiótica I, afirmam que a busca por uma definição de linguagem “reflete uma atitude teórica que ordena a seu modo o conjunto dos ‘fatos semióticos’” (1983:259). Em outras palavras, vão ser os métodos e procedimentos utilizados por um analista que vão mostrar o que ele quer dizer por “linguagem”. Os dois autores afirmam que “o menos comprometedor é talvez substituir o termo linguagem pela expressão conjunto significante”, sugestão que aplicamos neste trabalho em alguns momentos.

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e consumo. Por meio da textualização, das coerções, e também vantagens, proporcionadas pela manifestação temporal ou espacial na construção dos jornais, revela-se uma enunciação que administra outras enunciações, um texto que engloba outros textos. Em um jornal impresso, por exemplo, podemos observar conjuntos significantes, como o verbal e os quadrinhos, as fotografias, as charges. O verbal, por sua vez, é manifestado visualmente por meio de tipos gráficos, em matérias, títulos, legendas. O traço de expressão comum no nível da manifestação textual de todos esses elementos verbais e não-verbais é a espacialidade, a adequação a um espaço determinado.65 Reger e hierarquizar essas diferentes semióticas no jornal impresso é, portanto, administrar o espaço que podem ocupar no papel. O mesmo acontece no rádio e na TV, só que envolvendo o tempo. A capacidade de o público entender rapidamente os sentidos da organização do texto de cada jornal é resultado de uma característica importante dessa forma de comunicação. Diários, revistas semanais, programas de rádio e de TV, sites têm uma articulação de expressão e conteúdo que apresenta certa rigidez. Isso acontece por que a produção jornalística é uma verdadeira linha de montagem. Cada jornal é obrigado a testar e a eleger formatos para dar conta de duas necessidades principais: é preciso não só motivar o consumo, como também facilitar o “fechamento” das edições. A organização textual rígida permite ajustar com rapidez os processos criativos – realizados pela redação – às imposições da operação industrial jornalística, de produção e reprodução dos noticiários. Dois procedimentos de organização textual serão estudados a seguir e relacionados às estratégias de gerenciamento do nível de atenção:

o O primeiro diz respeito à maneira de valorizar ou desvalorizar uma notícia em relação à outra a partir do manejo do tempo, no rádio e na TV, e do espaço, nos jornais, revistas e sites. Uma notícia que ocupa metade da página de um diário, por exemplo, é considerada mais importante, merece mais atenção do que outra que toma um quarto do mesmo espaço do papel. o O segundo procedimento refere-se ao estabelecimento de um ritmo textual que dá a sensação ao destinatário de entrar em contato com um jornal que apresenta as notícias de maneira vibrante, eficiente, rápida, fácil de entender.

Isso acontece porque o espaço é um traço geral de substância comum a todos esses sistemas de significação, uma coerção a que suas manifestações precisam se adequar para se tornarem forma de expressão. O mesmo ocorre com o tempo no rádio e na TV.

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revistas e sites a importância de uma notícia pode ser medida principalmente em função do tamanho e da posição ocupada na página e em determinadas páginas. timidamente. a edição está sujeita ao olhar crítico do leitor. a Internet tende a incorporar cada vez mais relações de “tempo”. infográficos.Valorização ou desvalorização da notícia: o semi-simbolismo “cristalizado” Cada texto relaciona suas unidades noticiosas de modo a fazer com que o enunciatário possa entender seu valor. 1995: 97). fotos. o valor da notícia relaciona-se à sua duração no fluxo temporal. tem-se uma relação entre espaço de jornais impressos que. porém. Na fase atual da Internet. o tempo também determina o valor de uma reportagem ou comentário (mais tempo concedido – maior a importância). sem perder a característica de ser um texto que hierarquiza seus conjuntos significantes por meio da administração do espaço. como os publicitários. “O tempo da notícia no telejornalismo depende sempre da importância jornalística do assunto” (Squirra. está fazendo uma passagem do plano de expressão para o plano de conteúdo e estabelecendo relações entre categorias dos dois planos. textos. nesse verbete “acabamento”. Essa semiótica do espaço jornalístico está ao alcance dos consumidores da cultura visual e não deve ser julgada um privilégio de jornalistas e profissionais que lidam com elementos imagéticos. Com o desenvolvimento tecnológico. A importância da notícia é uma construção do texto. “do mesmo modo como ocorre com as reportagens. Ou dito de um ponto de vista semiótico. Nas TVs e rádios. Quando alguém percebe uma notícia que cobre um grande espaço de uma folha de jornal e entende que se trata de algo importante. Os jornalistas são apenas aconselhados a ter “soluções criativas” na união entre títulos. ainda travada pelas limitações das bandas de transmissão e pelas linguagens de programação utilizadas nos navegadores. o valor que se pretende dar a uma unidade noticiosa na TV tem relação direta ao tempo a ela concedido. sua importância jornalística. No radiojornalismo estudado. que desenvolveu um mecanismo de interpretação da forma como as notícias estão organizadas no espaço do jornal. dá poucas pistas do que é essa organização. já convive com algumas relações de tempo de meios de comunicação como TV e rádio. Por exemplo: maior espaço ocupado na página significa notícia de maior valor. Afirma o Manual de Redação da Folha de São Paulo (2001:35) que. Nos jornais. Essas operações constituem o que a semiótica chama de 101 .” O Manual da Folha.

Uma notícia que toma grande parte da página. a notícia deve provocar a paixão da curiosidade. no caso citado.relações semi-simbólicas. explicar melhor a categoria que nos interessa no plano de expressão dos jornais impressos. revistas e sites – mídias organizadas por meio do espaço Relação entre ocupação espacial e valor da unidade noticiosa Plano de expressão Maior espaço ocupado x menor espaço ocupado67 Plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Foi Hjelmslev quem fez a diferenciação entre sistemas simbólicos e sistemas semióticos. revistas e sites. uma categoria topológica. Discursivamente. Trabalhos de Greimas. é possível conceber dois modelos amplos de organização que expõem semisimbolismos. Nos meios de comunicação de textualização “espacial” pode-se falar em topologia como uma categoria do plano de expressão.3 – Categoria eidética – Vem de eidos. deve lhe dar também maior satisfação. categorias do plano da expressão e categorias do plano de conteúdo se relacionam criando uma espécie de micro-código. Greimas e Floch ensinam que no plano de expressão de semióticas de organização espacial podem ser reconhecidos formantes figurativos e formantes plásticos. a topológica.Categoria topológica .Topos vem do grego e quer dizer “lugar”. 67 Temos. ao ser assimilada pelo enunciatário. Nos sistemas semióticos. “forma”. ligadas à posição. de posição: alto x baixo. Como temos dois tipos básicos de textualização no jornalismo. 2 – Categoria cromática – Está relacionada às cores. o simulacro da leitura funciona assim: o enunciatário deve ter o olhar manejado em função das diferentes ocupações espaciais das unidades noticiosas. Já no caso dos jornais de TV e rádio. Nos impressos. cria no enunciatário uma falta – um querersaber. Os sistemas simbólicos apresentam planos de expressão e de conteúdo em conformidade total. por exemplo. como a cruz cristã. de tonalidade: quente x frio . portanto. Vejamos essas reflexões na forma de um esquema: Jornais. para o leitor. ou o verde da bandeira brasileira. de orientação: na frente x atrás. Temos o reconhecimento de um dispositivo que organiza espacialmente um texto e seus elementos por meio das relações: de dimensão: grande x pequeno. Categorias: de valor: claro x escuro. ou determinadas homologações entre categorias de expressão e de conteúdo (caso de uma manchete com grandes letras que. as cores do semáforo.66 A textualização jornalística é a construção de algumas ligações estáveis entre categorias de conteúdo e de expressão. e com a leitura. 66 102 . formas e cores: 1 . Em textos semisimbólicos. angular x arredondado. temporal e espacial. E uma “grande notícia”. que significa “as nossas matas”. passa a sensação de “notícia muito importante”). desconhecemos trabalhos que façam um detalhamento do mesmo nível do plano de expressão. gera sentido de máximo valor e potencial de atenção. Relações: reto x curvo. de pureza: cor limpa x cor suja. a inexistência de conformidade entre os dois planos impõe a distinção e o estudo de expressão e conteúdo separadamente. Floch e Thürlemann dividem os formantes plásticos em três categorias. de luminosidade: brilhante x opaco. Esses estudos permitem. a passagem de um não-saber para um saber.

que serão mostradas e analisadas depois. esse semi-simbolismo resultante da organização textual tem grande rigidez. por sua vez. de 2 de abril de 2004: 103 . deve gerar no enunciatário uma satisfação também proporcional ao seu tempo de apresentação. manejadas pela textualização dos jornais dos principais meios de comunicação. evidentemente. em função de sua recorrência de edição em edição. A utilidade desse semi-simbolismo é fazer com que o destinatário saiba decodificar os sentidos da textualização do jornal com enorme rapidez. maior complexidade dessas relações. a categoria de duração no plano de expressão (que marca uma notícia com tempo maior de emissão em relação à outra) irá se relacionar com o valor e o potencial de atenção no plano de conteúdo. Parece um “quase símbolo”. Essas relações que acabamos de apresentar. maior curiosidade.No caso do telejornalismo e do radiojornalismo. Um bom exemplo pode ser encontrado na capa da revista Veja. Temos o que Diana Luz Pessoa de Barros chama de “semi-simbolismo de texto inteiro” (2004). No caso dos jornais. tem maior valor em relação à outra que é veiculada em menos tempo. são “motivadas”. que têm objetos organizados a partir de relações temporais. O consumo dessa notícia. Uma notícia mais duradoura instaura maior falta de saber. TVs e rádios – mídias organizadas por meio do tempo Relação entre ocupação temporal e valor da unidade noticiosa Plano de expressão Mais tempo ocupado x menor tempo ocupado Plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Existe. Há. no entanto. um outro tipo de semi-simbolismo. que Barros chama de “localizado”. no estudo específico. Queremos agora apenas distinguir dois tipos bastante diferentes de semi-simbolismos presentes nos jornais. ou um “semi-simbolismo cristalizado”.

Isso cria a categoria monocromatismo em marrom versus policromia. pudemos notar algumas relações semi- 104 . Em um esquema. da morte. no nível fundamental do plano de conteúdo. e horizontal versus vertical (o soldado no chão versus o que caminha). No caso de Veja. A mais notável é a cromática. essas relações ficariam assim: Categoria cromática Monocromatismo em marrom x policromatismo (não manifestado) Plano de expressão Categorias topológicas Frente x atrás Horizontal x vertical Plano de conteúdo Morte x vida Em comparação com a discussão do início deste item.Há. disfórica (desvalorizada). Esta última não aparece manifestada. que identificamos como a cor da guerra. Se em relação à categoria eidética (das formas) não há pontos de interesse. É possível fazer relações com categorias do plano de expressão. uma relação entre vida. a categoria topológica é proveitosa: pode-se observar a relação entre frente versus atrás (construção de uma perspectiva a partir da situação de destaque do militar iraquiano sem vida em relação ao soldado norte-americano que aparentemente o matou). temos semi-simbolismos completamente diferentes. eufórica (valorizada) versus morte. A foto parece expor apenas gradações de marrom.

em que não há relações novas entre expressão e conteúdo. Há outra questão curiosa.).simbólicas localizadas – superficialmente analisadas . pois nada é completamente novo. Sempre existe um jogo entre novidade e estereotipia” (idem:11). os mitos da vida cotidiana. (. Para Barros. o semi-simbolismo localizado.. ou estereotipado. Se o semi-simbolismo constrói formas novas de sentir o mundo. Transforma-se a novidade em estereotipia e passa também a ser outro o seu papel nos textos: o de apontar os valores da sociedade. a capa.. Um exemplo dessa tensão entre novidade e estereotipia.. A revista como um todo. graus.) os textos transformam relações semi-simbólicas em relações simbólicas e vice-versa. Se o semi-simbolismo de texto inteiro mostra a existência de regras bastante rígidas de organização textual. Devemos compreender essas diferenças. de 6 de março de 1991: 105 .. Barros também aponta a existência de uma gradação. raros. no entanto. trabalha também com relações de expressão e de conteúdo de texto inteiro. como já disse Roland Barthes” (ibidem: 11 e 12). entre esses pólos. razões diversas de uso (a repetição. “há passagem e graus intermediários entre o semi-simbolismo e o simbolismo. nos textos. que perpassa diferentes textos (. as novas correlações que se estabelecem entre expressão e conteúdo vão desde a novidade poética do semi-simbolismo próprio de cada texto até o simbolismo culturalmente estabelecido. de ‘linguagem’. sobretudo). de um investimento do enunciador em novidades poéticas ou estéticas. em um certo momento histórico e em uma dada cultura fazem dele um sistema de símbolos. criando relações sensoriais novas com os objetos. entre semisimbolismo e simbolismo é essa outra capa da Veja.que estão em uma unidade noticiosa específica. entre sistemas semi-simbólicos e sistemas simbólicos: “Se há textos. em que a expressão cumpre apenas seu papel de expressar conteúdos. por outro lado. aponta para fenômenos específicos. Há.

“impactar” sem a necessidade de grandes racionalizações. A categoria base da descrição aspectual é continuidade x descontinuidade que gera. queremos mostrar um outro ponto de interesse do estudo da organização textual jornalística. que dizem respeito ao espaço. mas de tempo e de espaço que se manifestam no objeto jornalístico por meio da manipulação do plano de expressão. Não se trata. o ritmo. a sensação de aceleração ou a desaceleração do texto que é importante para obter e manter um enunciatário atento. é aspectualizar. entre outros efeitos. delimitado x ilimitado. Por meio da aspectualização. do espaço e dos atores das unidades noticiosas. Pode-se observar como o semi-simbólico se apóia no simbólico principalmente para cumprir um papel essencial no jornalismo: fazer sentido rapidamente. em semiótica. por exemplo. e no caso do espaço. do enunciado.do tempo. que produz. a acepção de durativo ou pontual. A semioticista afirma que a aspectualização pode ser analisada “no 106 . ao tempo e aos atores (1994/1995: 69). Diana Luz Pessoa de Barros lembra que a aspectualização é inicialmente entendida como um “ponto de vista sobre a ação” que converte ações narrativas em processos discursivos. contudo – devemos ressaltar .Há praticamente as mesmas relações apontadas na capa anterior (de semisimbolismo localizado e de texto inteiro). no tempo. Aspectualização: ritmo textual Manejar o espaço ou o tempo.

E que a “aspectualização constitui uma dimensão hierarquicamente superior à temporalização. o das estruturas narrativas e o das estruturas discursivas” (idem: 70).nível das pré-condições e nos três patamares em que se organiza o percurso gerativo. ao entrar em contato com jornais do mesmo nível de outras redes. mas alterou-se. Em outras palavras. pode se inserir o chamado contra-plano. Trata-se de procedimento notável nos impressos e na Internet: a 68 É importante salientar que o “sujeito da enunciação projeta o tempo. o espaço e os atores do discurso e instala um observador que aspectualiza o tempo. por exemplo. É nesse sentido ainda que a aspectualidade do plano de expressão. 107 . quando um entrevistado tem uma fala longa. o das estruturas fundamentais. ao gerar um sentido de maior ou menor aceleração por causa de segmentações ou descontinuidades. Esse efeito de aspectualização do plano de expressão resulta no que é mais conhecido como “tempo psicológico”. Isso mostra a importância do papel desempenhado pelo manejo aspectual do plano de expressão na produção de um sentido de aceleração do texto. O público vê o entrevistado de frente. o sentido de tempo de percepção dessa entrevista: o efeito obtido pela inserção do contra-plano é de uma fragmentação do plano de expressão. o espaço e os atores graças à categoria da continuidade versus descontinuidade”. o que dá uma sensação de aceleração. a aspectualização também “concerne tanto à organização do plano de conteúdo. um grande recurso de montagem do texto. no âmbito do texto. a mesma notícia de três minutos pode ser sentida pelo enunciatário como mais curta ou mais longa em função. no jornalismo de rádio e TV. quanto à da expressão” (idem: 71). ponto de maior interesse nesta parte do trabalho. como explica Fiorin (1996: 249). “uma ênfase na aspectualidade em detrimento da temporalidade”. Nas reportagens de TV. Não houve mudança no tempo cronológico. A sensação de lentidão interfere na atenção do enunciatário. Alguém que está acostumado ao tipo de edição (na acepção de ato) do Jornal Nacional. via ato de edição. Mesmo jornais e revistas utilizam essa possibilidade de criação de segmentações das reportagens para dar a sensação de um material que pode ser lido com mais rapidez. entre outras razões. à espacialização e à actorialização que são por ela determinadas (idem: 70)”. em função da coerção máxima de manter a atenção do público. geralmente sente que os programas são mais “lentos”. o enunciador tem. da fragmentação do plano de expressão. de que a cena está passando mais rapidamente em relação a uma outra sem o recurso. E não é difícil perceber que. Por fim. com a aspectualidade.68 Apresentemos agora essas discussões de maneira um pouco mais concreta. domina ou sobredetermina o tempo de apresentação (ou cronológico) de uma unidade noticiosa. depois de lado e de frente novamente.

utilizados na estratégia de arrebatamento. perder a atenção. Uma reportagem com diversas divisões dá a impressão ao leitor de que pode ser consumida mais rapidamente. e se desvincular do objeto “notícia”. como o presidente da república. ou seja. uma regência do texto pela pontualidade e não pela duratividade . pode permitir que o enunciatário tenha tempo para atribuir valores ao que está sendo apresentado e armar toda uma complexa rede de causas e conseqüências. Um ritmo de cortes intenso no jornalismo – aspectualmente falando. Existe uma relação entre aspectualidade. Há. Por causa disso. ou “boxes”. como a TV e o rádio. no entanto. Ninguém consegue manter-se atento a um texto que só estimula os sentidos. Em todos os casos. Nas mídias de hierarquia temporal. os recursos de expressão. impõe uma dimensão sensível. Emerge uma curiosidade ligada à estratégia de arrebatamento. é comum um mesmo assunto ser dividido em conjuntos menores.simula uma sensação ligada ao tempo. também uma operação ligada à estratégia de sustentação. No limite. A duratividade ou a pontualidade de um fragmento determina a possibilidade de uma unidade noticiosa ser entendida mais sensorialmente do que racionalmente. que “dura”. mobiliza o sujeito muito mais sensorialmente. Sem tempo para pensar.por exemplo. pode entediar o enunciatário se for descuidada. o enunciador pode imprimir um ritmo que administre a própria inteligibilidade do texto pelo enunciatário. como dizem os jornalistas. Nesse sentido. tensividade e o potencial de curiosidade da notícia. Ao editar. A maior ou menor aceleração do texto tem razão de ser como parte da estratégia de obter e manter a atenção do enunciatário. administrar os cortes tem outras conseqüências. mantêm relações de união ou de compensação com a estratégia de sustentação. uma seqüência longa. não raras vezes só se justifica como meio de “arejar” a página. ou seja. o que o jornal deve evitar. contudo.uma operação sobre o espaço da página . Por outro lado. sem cortes. vinculando-se aos conteúdos das histórias mostradas nas unidades noticiosas. isso sem contar uma série de outros recursos para romper a continuidade. como o uso de cores de fundo. “caixas”. o enunciatário pode ter seu senso crítico manipulado e ser impedido de “axiologizar” o que sente. O que se procura é uma espécie de justa medida entre as curiosidades e as possibilidades de sensações 108 . um telespectador ou ouvinte também pode se cansar. O mesmíssimo texto sem segmentações parece demandar mais tempo de leitura. Colocar a foto de alguém muito conhecido. Essa estratégia. o que o torna menos atrativo. por meio de descontinuidades do plano de expressão . remeter as experiências sensíveis a seu código de valores. nesse caso. a aspectualização é também uma das estratégias de manipulação ideológica.construção de um ritmo espacial. porém.

não sem razão apelidada de “boa noite” pelos profissionais do JN possivelmente não obteria a mesma audiência. um sujeito que atinge a completa tranqüilidade. entrada de músicas. Um ritmo adequado. por exemplo. Isso significa um objeto que principia com máxima aceleração de expressão. ou entre o jornal de hoje e o de amanhã. no entanto. no ponto de maior tensão. Todos os jornais examinados nesse trabalho. prevê momentos mais acelerados em relação a outros. O conteúdo também tem grande variação. que só irá solucionar essa falta de saber se permanecer atento ao programa inteiro. cada um a seu modo. quase uma fórmula fixa. na hora da apresentação das manchetes. há mudanças de vozes dos jornalistas. Se fosse uma música. A tomada de consciência da desaceleração pelo público deve ser entendida como um problema a ser evitado nos noticiários. O enunciatário deve ser tomado por uma tal carga disfórica. o telespectador iria se cansar por não conseguir acompanhar as histórias. resumos dos fatos mais importantes. Nos jornais analisados (com exceção dos da Internet).obtidas via plano de expressão e as curiosidades despertadas por meio do plano de conteúdo. Na apresentação das manchetes no Jornal da CBN. Pode ser observada uma enorme quantidade de estímulos. Devemos ressaltar a existência dessa complementaridade entre diferentes procedimentos de organização textual. Se o mais importante jornal da Rede Globo começasse com uma reportagem longa. Com o seu começo excitante. que dá a sensação de grande aceleração textual para obter o primeiro contato com o destinatário. Se o Jornal Nacional mantivesse o tempo todo a segmentação de expressão que caracteriza seus 30 segundos iniciais. como mostraremos na análise dos portais. no primeiro contato. de conteúdo e expressão. no entanto. Qualquer jornal quer sempre um destinatário curioso e atento. precisa ser compensada por outras estratégias. podem desacelerar. 69 Essa desaceleração. máxima tensão e finaliza mais relaxado. aqui no sentido de apresentar fragmentos de narrativas curtas. Obtida a atenção. o Jornal da CBN quer desencadear a máxima curiosidade do ouvinte. que deve resultar em um certo “ritmo”. jamais concebendo. o jornal iniciaria heavy metal e terminaria bossa nova. por exemplo. como a que fecha geralmente o programa . É por isso que se tenta fazer uma passagem bem-sucedida entre a 69 Os sites jornalísticos são as únicas exceções. mesmo que o grau da tensão varie do começo ao fim de um noticiário. Os noticiários estudados neste trabalho. também investem nessa organização textual vibrante no início para obter e manter os laços com o público-alvo. ou seja. esse ritmo é bem demarcado. uma tal vontade de conhecer o que está ocorrendo no Brasil e no mundo. utilizam todas as estratégias. trechos de entrevistas. 109 . porém.

ou “desacelerando”. maior a curiosidade despertada pelo conteúdo de uma notícia. A menor segmentação do plano de expressão – segmentos mais “durativos” – deve ser compensada por estratégias do plano de conteúdo para manter o sujeito em contato com o jornal. Trata-se de uma valorização das estratégias de sustentação e de fidelização em relação à de arrebatamento. Podemos afirmar que. Risco: perda da atenção em função da impossibilidade de o público acompanhar a evolução narrativa. pelo menos no nível da expressão.é o sujeito manter-se atento. Mostra a valorização da estratégia de arrebatamento em relação às de sustentação e fidelização. A imposição de descontinuidades renova a curiosidade. Possibilita maior reflexão. O que importa – sempre . Tanto um momento acelerado quanto outro desacelerado deve ser tenso. Podemos verificar o seguinte esquema aspectual do plano de expressão e as relações com o plano de conteúdo nos jornais: Descontinuidade – Aviva uma curiosidade sensorial. que evidencia um enunciador que manipula recursos de expressão e de conteúdo para fabricar uma unidade noticiosa que gere a atenção desejada. 110 . ou seja. maiores segmentos o texto poderá ter. a intercalação de subtítulos que divide a fala em assuntos. Continuidade – gera mais contato sujeito/unidade noticiosa. impede a inteligibilidade do texto. entre muitos outros recursos para torná-la interessante. apesar de serem bem pouco relevantes do ponto de vista do aprofundamento do conteúdo. quanto pelas inteligíveis (e passionais) para obter a atenção.estratégia de arrebatamento e a de sustentação. Os acréscimos geram novas informações. Gera uma sensação de aceleração. Alguém que vive a disforia de uma curiosidade não sente um texto desacelerado.70 70 Esse esquema parte de reflexões do semioticista Luiz Tatit (1998). elementos. relacionada ao querer-saber o conteúdo de uma história. já que a tensão do enunciatário é mais manejável. tenso. relacionada com a variação de planos. sons. No limite. a troca de uma curiosidade do nível sensível para outra. no sentido de “vagaroso”. Citemos um exemplo para mostrar esse sistema de complementaridade. Risco: perda de atenção por falta de novidade ou por impaciência. Uma longa entrevista do presidente da República pode ser valorizada com a fragmentação da cena. Podemos notar a organização de cada jornal e das notícias como um verdadeiro sistema de compensação entre as possibilidades ofertadas tanto pelas estratégias sensíveis.

no jornalismo do rádio e da TV são traços das substâncias de expressão das diferentes unidades de um texto que acabam sendo sincretizadas no processo de organização textual. por exemplo. Citamos anteriormente que.. uma manifestação cultural ou política são. que também pode ser entendido como um mecanismo de enunciação sincrética. a partir da textualização. a cena. que diz respeito à neutralização de certas diferenças entre elementos de um texto em favor de uma significação global. a diagramação é o elemento organizador do verbal . no caso dos objetos jornalísticos impressos e dos sites. Um texto sincrético. uma historieta.manifestado tipograficamente em títulos.. aspectualização e sincretismo O processo de textualização que discutimos até agora. Expliquemos. a partir das orientações do projeto gráfico do jornal ou da revista. Para o semioticista Francês J-M. das magnitudes manifestadas que dão a conhecer) se caracterizam pela aplicação de várias linguagens de manifestação. cuja organização tem como base o tempo (na TV e no rádio) e o espaço (nos impressos e na Internet) expõe as escolhas enunciativas que relacionam. entre outros. Diagramar é. de quadrinhos. quadrinhos. e o tempo. a hierarquia entre os elementos. são fotos. como um noticiário. Queremos. de charges. a textualização no jornalismo como ato ligado à ação de editar. em matérias. em legendas – e de fotos. do principal resultado desse ato. por exemplo. por assim dizer. no nosso trabalho. fazer uma pequena proposta na tentativa de pensar o funcionamento dessa engrenagem nos textos jornalísticos. fixar os limites de cada unidade. a narração. É importante evidenciar que até agora separamos.. um telejornal. quer dizer. o Jornal Nacional..) Afirma-se assim a necessidade – e a possibilidade – de abordar estes objetos como ‘todos’ de significação (.” Uma questão não desenvolvida por Floch é como essas “linguagens” ou sistemas de significação se organizam para nos dar a sensação de que estamos diante de um “todo de sentido”. depois o som. A manipulação do tempo e do espaço dá pistas de como acontece a neutralização de algumas diferenças entre unidades que são sincretizadas.). Floch “as semióticas sincréticas (no sentido de semióticas objetos. Um ‘spot’ publicitário. nos jornais impressos e nos sites.Textualização. em um mesmo objeto jornalístico. distinguindo as tomadas de câmera. (. o verbal manifestado pela tipografia. charges. O espaço. dentro de 111 . Em um diário. o chamado sincretismo semiótico. diferentes sistemas significantes. apesar de mobilizar e relacionar elementos de diferentes “linguagens” ou sistemas significantes. exemplos de discursos sincréticos. constrói um “todo de sentido”. Não entendemos.

tanto de impressos (como o PageMaker. no entanto. ela explica que a relação entre Os programas de edição por computador. matérias. Nas mídias de fluxo. Cada unidade tem. Floch (1985: 191) explica que a forma “é a organização invariante e puramente relacional de um plano. o que ela chama de “gradação da taxa de redundância” (2004: 233). que articula a matéria sensível ou a matéria conceptual produzindo assim a significação”. o próprio Floch sistematizou o sincretismo semiótico como resultado de um plano de expressão que estabelece uma única forma a partir da organização de substâncias de linguagens distintas que geram assim um único todo de sentido. Num programa de radiojornalismo. que examina a questão do sincretismo. o que aparece na tela do computador é uma página virtual cujos elementos podem ser relacionados como se fossem pedaços que vão sendo colados. assim. temos o tempo como hierarquizador. A semiótica se construiu como estudo das formas. vinhetas. por isso. parte de seus sentidos submetidos e inter-relacionados com outras unidades em favor do texto maior e mais complexo. como de rádio e TV (como o Premiere) têm exatamente essa lógica do tempo ou do espaço.72 indica modos de pensar o funcionamento do sincretismo nos textos. são relacionadas numa linha de tempo. 72 Falar em atenção é expor algumas questões da ordem da substância. No primeiro caso. Quark. como seu colega diagramador.que destaca o efeito do texto sobre o enunciatário – e as reflexões sobre o contexto semiótico contribuem para tentar esclarecer o fenômeno do sincretismo sem nenhum rompimento epistemológico ao expor essa passagem das substâncias às formas. A organização textual. por exemplo. objeto de estudo da semiótica. funciona como um grande “adesivo” dos elementos que a compõem. “relacionar” as unidades – ou produtos dessas “linguagens” ou conjuntos significantes . As páginas se apresentam como lugares de limites claros. o sonoplasta também trabalha com unidades. Isso é possível porque todos os elementos citados têm uma característica básica. manipula seqüências de falas dos apresentadores. Em outras palavras. Lúcia Teixeira. portanto. executada pelo enunciador com a função de manipular o enunciatário dentro da coerção maior de obter atenção e consumo. O diagramador vai “colando” virtualmente cada pedaço. notadamente de expressão. É preciso saber “misturar”. gravações de repórteres. Essas unidades. Acreditamos que a análise narratológica da enunciação . In Design). Anos depois. O profissional de rádio. A página.dentro do efeito argumentativo-persuasivo que se quer obter. uma forma de expressão semiótica que se manifesta espacialmente. como superfícies vazias que vão aos poucos sendo preenchidas por fotos. a forma (do conteúdo e da expressão) que é significante.determinados efeitos que se espera obter. notadamente em textos artísticos e midiáticos. que relaciona as unidades apresentado-as uma após a outra ou unidas. No rádio e na TV. A montagem no radiojornalismo e também no telejornalismo manipula as relações entre unidades a partir das possibilidades ofertadas pela manifestação na linha do tempo. É.71 Podem aparecer justapostas ou separadas. uma após a outra. músicas. portanto. um após o outro. títulos. 71 112 . os programas trazem uma ferramenta que é justamente chamada de “linha do tempo”. preocupa-se em mostrar que a idéia de “todo de sentido” de um texto sincrético comporta diferentes tipos de integração entre elementos. que produz sentido e. no entanto.

Esse adensamento de sentidos em textos organizados a partir do fluxo temporal pode resultar na dessemantização da carga sensorial de um elemento Essa reflexão também é partilhada pelo semioticista francês Denis Bertrand. 75 Essa discussão consta do texto Síntese das Discussões do Subgrupo de Trabalho Sincretismo na Mídia – Grupo de Trabalho de Semiótica da ANPOLL. Nos objetos organizados temporalmente. Podemos notar que o enunciador tem possibilidades diversas de dar mais ou menos presença a certos elementos. o efeito pretendido pelo enunciador pode ser o de mostrar-se “democrático”. como o do rádio e o da TV. Nos dois casos. por exemplo. o que se considera é a estratégia global de comunicação sincrética que gera o discurso manifestado. como sínteses ou discordâncias. 76 Textos jornalísticos impressos. em alguns casos. acontece no tempo .73 Explica Lúcia Teixeira que. num texto sincrético.76 A redundância. Bertrand afirmou que quando uma unidade nega o sentido da outra em um mesmo texto. é possível ter um controle mais efetivo da inteligibilidade de um texto. portanto. No caso dos jornais impressos e das revistas. e estruturados a partir do espaço. títulos e reportagens narram um acontecimento. Inicialmente. de relacioná-los a ponto de criarem uma enorme coesão. “na análise de um objeto sincrético.força o olhar a passar pelas unidades. devemos lembrar. legendas. no entanto. uma após a outra. trabalham pouco com a fusão de elementos. 73 113 . Em curso na pós-graduação da USP em 2003. pode-se obter.74 numa página em que fotografias. por exemplo. às possibilidades ofertadas pelos meios de comunicação nos quais o público tem acesso a uma espécie de “fluxo” que se dá temporalmente. ou introduzir nuances ou correções. ao contrário dos publicitários. não é tão absoluta como em relação. A leitura – que. uma enunciação única confere ao arranjo das partes e às múltiplas manifestações de linguagem um caráter de unidade. a idéia de que. as possibilidades de reiteração e de contraponto são um pouco diferentes em relação aos objetos organizados temporalmente. preliminarmente. nesse sentido.unidades pode causar interações originais. as cartas de leitores e uma charge pode justamente estar mostrando um choque de pontos de vista. um “efeito estético”. pode-se estar reiterando um sentido factual qualquer.”75 Vamos pensar essas contribuições a partir da manipulação da atenção. o sincretismo parece ter menor possibilidade de anular certa identidade de um elemento. Rejeita-se. 74 Em outro nível de análise. haveria uma enunciação para cada sistema envolvido. de um lado. de outro. o que pode ser feito de modo contratual ou polêmico. Numa página de jornal. Citamos que uma notícia pode ser fracionada de tal maneira que não dê tempo para o enunciatário refletir sobre o assunto e o contexto que a gerou. a diagramação que põe em relação um editorial. será fundamental considerar a estratégia enunciativa que sincretiza as diferentes linguagens numa totalidade significante.

tenta-se buscar maior entendimento do processo. por exemplo. sites e portais) e textos estruturados aspectualmente a partir da temporalidade (caso das TV e rádios). temos um efeito global que pode ser descrito como “a” adicionado a “b” adicionado a “c”. Se o sincretismo está ligado à neutralização de diferenças na manifestação textual. O assunto.individualmente em favor de uma estratégia global. podemos observar tipos distintos de sincretização que redundam em textualizações com significados diversos. em seguida uma música de fundo (c). mas o que é mais determinante para a constituição desses objetos. em uma notícia de rádio. Investe-se na inteligibilidade. se ouvem primeiramente alguns ruídos que informam. Acreditamos que as análises sobre as relações entre sincretismo. um adensamento de sentido que provoca menor sensibilização do enunciatário para o reconhecimento das diferenças das unidades. os jornais. a significação vai ficando mais e mais complexa. Nos próximos estudos. não estamos dizendo que não existe temporalidade nos primeiros e espacialidade nos últimos. No segundo. organização textual e aspectualização que acabamos de fazer mostram as vantagens de se pensar os objetos jornalísticos como textos sincréticos organizados aspectualmente a partir da espacialidade (como as revistas. Há um grande investimento na dimensão sensível. em outras palavras. que se está numa rua movimentada (a). depois a voz de um repórter (b). obviamente. No primeiro exemplo. Se. Entretanto.77 Vale repetir: com isso. Haverá um efeito “x”. que se voltam para cada um dos quatro grupos de jornais. está longe de se esgotar. 77 114 . se todos esses elementos forem ouvidos ao mesmo tempo. a significação é resultado do relacionamento simultâneo das três unidades no mesmo fragmento de tempo. por exemplo. como se pode ver. o impacto será completamente diferente.

115 .

O jornalismo na Internet. apesar de ter como base uma textualização de relações espaciais – como os impressos –. também trabalha com unidades textuais de fluxo. adaptadas para a análise do portal. é a vez dos objetos jornalísticos de textualização marcadamente espacial. Essa ordem não é aleatória. desenhos animados. na forma de fluxo.OBSERVAÇÕES GERAIS Nesta segunda parte do trabalho. diversas reflexões dos outros noticiários serão então reutilizadas e. 116 . Começamos com os impressos . Por causa dessa característica. Depois. o dos jornais cuja textualização se dá temporalmente. realizamos o estudo de cada um dos quatro grupos de jornais: rádio. em alguns casos.as revistas e os diários. Rádio e TV se incluem em um mesmo segmento. como vídeos. concluímos esta segunda parte com o estudo do portal. Finalmente. TV. impressos e portal (Internet).

Não se pode negar também a dificuldade de os pesquisadores teorizarem sobre o objeto radiofônico de um ponto de vista mais integral. O radiojornalismo tem ainda uma textualização complexa. Existem poucos estudos sobre o assunto para servir de apoio. no Brasil e no mundo. com transmissão via satélite ininterrupta de programas de jornalismo. falas. O ato de editar relaciona. em função da necessidade de ser local. Há várias hipóteses para esse cenário. o outro é o modelo all news. é composto de vários pedaços “encaixáveis” que 117 . O Jornal da CBN. da captura de Saddam Hussein no Iraque. nacional e internacional ao mesmo tempo. a CBN caracterizava-se como a maior rede brasileira de emissoras all news.O RADIOJORNALISMO A análise específica dos quatro grupos de noticiários começa com o radiojornalismo. de participantes do programa. estudamos o Jornal da CBN de segunda-feira. jornalismo 24 horas” (2003: 48). notadamente com a inclusão das estratégias afetivas e dos efeitos da modulação de voz de apresentadores. Belo Horizonte e Brasília. A mais evidente é o desprestígio do rádio e do radiojornalismo. 15 de dezembro de 2003. foi criada em 1º de outubro de 1991 e estava presente nas principais cidades e capitais como Rio de Janeiro. testar hipóteses e ilustrar algumas considerações . dos âncoras. com destaque para o Jornal da CBN. geralmente jornais nas pontas do dia. músicas. que comentaremos depois. São Paulo. Considerações gerais sobre o radiojornalismo e o Jornal da CBN Barbeiro e Lima lembram que “existem basicamente dois modelos de redes de radiojornalismo. dos repórteres. Parte do sistema Globo. ou seja. Um é a emissão de alguns programas diários. ruídos. Para analisar mais de perto o noticiário do rádio. efeitos sonoros. O assunto de maior destaque foi a repercussão. por meio de posições no fluxo temporal. silêncios. Em 2005. Consideramos o jornal de rádio o objeto mais desafiador deste trabalho.principalmente sobre o gerenciamento do nível de atenção -. E por vários motivos.

das 6 às 9h30. Quando entra a programação local paulista. em um mesmo horário. pedaços “locais”. marcada pela oralidade – que remete ao analfabetismo . Vale lembrar que a audiência tem enorme rotatividade. Durante a semana. Por meio da tabela é possível observar e confirmar as características desses ouvintes também pelos anúncios. vários Jornais da CBN. acima de 30 anos. Ou inserir notícias de produção própria. mas com notícias de interesse geral. regionais. pois parece valorizar tudo o que acontece onde a vida dos ouvintes se desenrola. Nas áreas onde há geração de programação local – como em certas capitais . segundo o Dicionário Houaiss. um programa “popular”. com o mesmo sentido. mas a estrutura do final de semana é diferente.78 Existem. afirmava-se que a CBN era direcionada para ouvintes das classes AB. Os jornalistas da emissora apelidaram esse público indistintamente de “gerente”. com um rodízio de âncoras. de intimidade. Há. os jornalistas da rádio calculam que 150 mil ouvintes estão sintonizados de minuto a minuto. O termo. No site da rádio. Podem escolher um outro sinal. 79 Informações prestadas por Leonardo Stamillo – chefe de reportagem da Rádio CBN. Há uma parte nacional.geram programas adaptados a áreas específicas. é utilizado na rádio CBN (consta do site do jornal: radioclick.globo/cbn). cada um adequado a um público específico. mostra todos os segmentos do programa. Meditsch (2001) lembra em sua obra dedicada ao rádio que esse meio de comunicação é geralmente relacionado a uma forma de cultura “inferior”.o Jornal da CBN cria um grande efeito de proximidade. E numa sociedade que valoriza também a “visualidade”. de oportunidades empresariais. de companhias aéreas. O ouvinte desconhece essa segmentação. gerado simultaneamente do mesmo estúdio em São Paulo. cuidando pessoalmente ou participando da elaboração do texto das informações e apresentando-as. portanto. O objeto de estudo não é. Há programa também aos sábados e domingos. Somente um terço da equipe trabalha nesses dias. Uma das conseqüências é o menor número de entrevistas ao vivo. no entanto. inclusive publicitários. freqüentemente com comentários opinativos”. O programa examinado neste trabalho é uma “soma” da parte nacional com a que se refere aos acontecimentos da Grande São Paulo. portanto. de segunda a sexta. economicamente ativos. as afiliadas têm duas alternativas. na qual se destaca o trabalho do âncora Heródoto Barbeiro.em oposição à escrita. das 6 às 9h. A tabela 1. o rádio só O âncora. é “o profissional de jornalismo televisivo que centraliza a emissão nos noticiários. Há publicidade de carros blindados. no final desta parte do trabalho. Essa característica de o Jornal da CBN ser um noticiário para os chamados formadores de opinião deve ser ressaltada.79 O âncora Heródoto Barbeiro comandava o Jornal da CBN no “horário nobre” da rádio. feita na Capital Paulista para todas as afiliadas. 78 118 .

81 Programetes. assim como a definição e o papel da cada um dos subsistemas dentro dele. como o rádio e a TV. qualquer sensação de “tempo real” no radiojornalismo é tratada como efeito do discurso. com começo. como Meditsch. se retirado do seu contexto. Meditsch acredita que o radiojornalismo só tem sentido se analisado como “dando-se no discurso”. como o “Notícias da BBC Brasil”. emissor e receptor estão separados pelo tempo e o contexto não é compartilhado por eles..)” (2001:149). desconhecimentos e reducionismos que cercam o radiojornalismo pode ser encontrada no exaustivo levantamento de Eduardo Meditsch O rádio na era da informação – teoria e técnica do novo radiojornalismo. num contexto intersubjetivo compartilhado entre emissor e receptor: num tempo real. e desta forma eficaz e inteligível (. por exemplo. Esse é outro motivo da existência de um pequeno número de análises disponíveis sobre o assunto. inclusive por meio de vinhetas. o rádio transmite sempre no presente individual do seu ouvinte e no presente social em que está inserido. composto por subsistemas tais como a palavra. como um sistema semiótico complexo. No Jornal da CBN. ou seja. ou ainda combinando estes dois elementos. na fonografia. designam certos quadros que têm “vida própria”. Trata-se de uma das obras que foram guias desta parte do trabalho e que se incluem naquele quinto tipo de estudo que citamos no início: o que busca uma visão menos fragmentada do fenômeno jornalístico. obedece a uma série de convenções que o tornam manejável. Há desde programetes realizados durante o próprio programa.. Uma característica do programete é poder ser reprisado em diversos momentos da programação da rádio. teoricamente.” Para a teoria semiótica. como normalmente o faz. Caso contrário. 80 Para fazer o exame do programa.poderia acabar mesmo na situação de o menos estudado dos meios de comunicação de massa. Ao contrário. seja transmitindo em diferido um produto fonográfico que assim atualiza. há um “programete”81 chamado “Liberdade de Expressão”. que é preciso dar conta da emissão viva e vibrante do radiojornalismo: “A linguagem auditiva do rádio pode ser delimitada. como no cinema. acreditamos. O funcionamento do sistema como um todo. no qual os escritores Artur Xexéu Uma notável discussão dos preconceitos. socialmente compartilhável. Trata-se de característica marcante do texto jornalístico de meios de comunicação de fluxo. como o “Linha Aberta” (de análise econômica) e o “Liberdade de Expressão”. produzirá um texto fonográfico: “Seja transmitindo em direto. na CBN. meio e fim bem determinados. a música e os efeitos sonoros ou ruídos. como outros que parecem ser produzidos em outros locais. 80 119 . A sensação de “tempo real” A sensação que o Jornal da CBN passa para o seu ouvinte é a de que é produzido no mesmo momento em que é apresentado.

efeitos e conseqüências dessas estratégias: “Na CBN. realizada simultaneamente a outras atividades com que divide a atenção. esclarece algumas possibilidades. no prefácio do livro de Medistch. porém. Pesquisas posteriores observaram que o tempo tinha caído para oito minutos na década de 60 e para quatro minutos na de 70. Assim. não é uma mídia absorvente e excludente. a recepção do rádio é caracterizada por um zapping perceptivo entre essa atividade e a principal” (idem. no sentido de mobilizar uma atenção absoluta do enunciatário. caracterizadamente. e algumas reduziram essa estimativa para 90 segundos” (2001: 183). além do zoom auditivo entre o ouvir e o escutar. está mais esquivo. E a segunda edição ficaria “velha”. nas reportagens gravadas para dar a impressão ao ouvinte de que a matéria é ao vivo. optou-se por não simular o ao vivo. que cita trabalhos de diversos autores para mostrar como o limite de conservação do tempo de atenção do ouvinte do rádio é cada vez menor. que também é teórico do assunto. O mesmo autor lembra que há uma oscilação permanente de recepção entre o ouvir (nível pré-consciente) e o escutar (intencionado) do público. muitas emissoras trabalhavam “com a hipótese de que a atenção média pode se manter por três minutos. A razão é simples: o mesmo fragmento é exibido durante a tarde. explicitariam o momento de produção do discurso. uma atividade secundária do ouvinte. ressalte-se.e Carlos Heitor Cony comentam notícias. mesmo sabendo-se que essa expressão confere aos veículos de comunicação credibilidade. O próprio Heródoto Barbeiro. como os impressos. segundo Meditsch. O jogo de mostra-esconde desses marcos temporais é uma característica importante não só da linguagem radiofônica. e banir o bom-dia. O rádio. “A recepção desse discurso é. Os profissionais devem colocar no ar um programa com enorme número de apelos para competir com outras atividades 120 . a aspectualização do plano de expressão (por meio da categoria durativo x pontual) e os semi-simbolismos manejados pela textualização são pensados para obter sempre mais audiência. Nos anos 90. quando a reportagem está gravada. ao ponto dela ser repetida sistematicamente no rádio e ganhar caracteres na TV. Eles trocam um “olá” no primeiro contato com o âncora Heródoto Barbeiro. Na década de 50. Se falassem “bom-dia”. a RAI fez uma pesquisa na Itália e constatou que esse tempo era de 15 minutos. ou boa-tarde.” A organização textual e a oscilação entre o ouvir e o escutar O rádio (e também a TV) caracteriza-se por apresentar uma textualização manifestada a partir da ordenação e da hierarquização de elementos no fluxo temporal. como de qualquer jornal. Nos jornais organizados temporalmente. O público. 251).

cada mudança. A segmentação. uma descontinuidade é tanto uma baixa estimulação sonora após muito barulho como o inverso. além da de arrebatar a atenção. No rádio. entretanto. Do ponto de vista sonoro. em determinado momento. É a estratégia de arrebatamento. não é uma fórmula mágica. como um entrevistado que. que não podem valorizar da mesma maneira todas as notícias. O simulacro de enunciatário pensado pelo enunciador é de alguém que não escuta o programa com a cabeça vazia. sustentação e fidelização que são possíveis no rádio. mesmo com a existência de partes fixas. cada imposição de uma descontinuidade tira partido dessa renovação. principalmente a partir da quebra de continuidade entre unidades (como a passagem de uma voz do âncora para a do repórter em segmentos muito curtos) e. de recursos sonoros impuseram mais de 600 segmentações no espaço de menos de três horas e meia do programa. é a “chamada de curta duração utilizada em abertura. entrada de vinhetas. E isso a partir das estratégias de arrebatamento. por alterações bruscas. O excesso de descontinuidades do plano de expressão. O que é mais perceptível para o ouvido é a passagem entre dois tipos de sons distintos. O público julga e interpreta o que os profissionais do rádio lhe propõem em uma velocidade que só rivaliza com a de um site de notícias na Internet. inclusive sobre a própria notícia e as escolhas do enunciador. encerramento ou reinício de programa de rádio ou TV. com o objetivo de identificar o programa. ao impor uma dimensão mais sensível em diversos momentos. mostra irritação e abandona um tom mais ameno. no Aurélio.realizadas pelo enunciatário e ganhar a atenção dele. Portanto. criaram ao microfone grandes variações no modo de falar para não perder a atenção do ouvinte. no nível da unidade. tem outras funções. em cada segmento. Foi apontado que a primeira imposição da curiosidade (querer-saber) ao público-alvo se vincula fortemente ao manejo dos aspectos sensíveis do texto por meio da aspectualização. No rádio. a estação ou o patrocinador”. Os jornalistas sabem. Para o destinatário. alternância de vozes. 121 .82 de publicidades. ou a quebra de continuidade entre unidades em média a cada 20 segundos (ver Tabela 1). sentida pelo ouvinte como uma pequena surpresa. Relembremos que manipular aspectualmente o texto é também um meio de impedir ou permitir o exercício da reflexão. o que surge pode ser sempre algo do maior interesse. a atenção é arrebatada. Fracionar um texto é administrar sua inteligibilidade. “fisgada”. o que vai acontecer no instante seguinte. contudo. Na edição do Jornal da CBN analisada. 82 Vinheta. no entanto. os profissionais se aproveitam ao máximo da impossibilidade de o público prever as seqüências. Isso sem contar a própria locução dos profissionais da rádio que.

O Manual da Jovem Pan detalha esse efeito – ao relacionar a curiosidade do ouvinte. A curiosidade. análises. porém. etc. principalmente da história da notícia. de apresentação das principais chamadas. Possibilita maior reflexão. a tensão e a atenção – por meio de depoimento da professora de dicção e oratória Maria José de Carvalho. ex-docente da ECA/USP: “Para enfatizar as palavras importantes. não devemos aumentar o volume da voz. tem duas funções. dos comentaristas. o silêncio. que os profissionais devem tirar proveito da curiosidade do ouvinte quando sentem que ele já está passionalmente envolvido com uma unidade noticiosa. não é necessária grande variação de expressão por um certo período. gera dispersão e aceleração do discurso. Fica evidente que. Este ouvinte a todo momento o interrompe para fazer perguntas. É o que chamamos de pausa de tensão que prepara uma palavra importante. da perspicácia da análise. a partir das relações que estabelece com outras unidades do texto radiofônico. se bem utilizado. ressalte-se. Há um fragmento sobre a captura de Saddam que dura 45 segundos na parte inicial do programa. de unidades mais duradouras.mobiliza ainda outros recursos no rádio. O locutor deve sempre imaginar um ouvinte ativo. dos analistas. na orientação de Maria José de Carvalho aos jornalistas. Um dos mais poderosos. informando a importância do que se apresenta no fluxo sonoro. Há sempre risco de perda da evolução narrativa. que possibilita a concentração da atenção no que será dito a seguir. é a pausa na locução. ‘por quê?’. ‘onde?’. O silêncio. A primeira é de valorizar conteúdos. Outros segmentos que chegam a mais de um minuto dizem respeito a histórias enviadas por ouvintes e comentadas pelo âncora. o locutor faz uma pausa de tensão. a entrevista. importante para a expressão” (1986:79). Um entrevistado pode demorar um tempo para responder a uma pergunta que 122 . dos jornalistas. a astúcia do âncora: ele só não faz interrupções quando um entrevistado desenvolve uma fala de grande interesse em função da apresentação de novidades. interlocutor.Como lembra Tatit (1998:22). A atenção obtida via curiosidade para o conteúdo da notícia – estratégia de sustentação . Ao imaginar interrupções com perguntas do gênero ‘o quê?’. O excesso de continuidade. foi um dos momentos do programa com os maiores segmentos. obtido o querer-saber por via do conteúdo. relatos. Nota-se. permite mais contato sujeito/notícia. ou seja. principalmente a divulgada como acontecendo “ao vivo”. Percebe-se. São momentos em que prevalecem as vozes institucionais. da utilização do humor. Mas há também situações nas quais nada acontecer tem sentido. conhecidas. por outro lado. nesse ponto. Não sem razão. é manejada via plano de conteúdo (estratégias de sustentação e fidelização) e não pelo plano de expressão (estratégia de arrebatamento).

relacionada ao querer-saber o conteúdo de uma história. que pode ficar “sem metas. é que o jornal. Nesse caso. como o silêncio retórico. assim como os jornais de outros veículos que estudamos neste trabalho. sem sentido” (1998: 22). esse silêncio. pode ser interpretado pelo ouvinte como um momento de elaboração de uma desculpa. deixa o enunciatário tenso. entre continuidades e descontinuidades. Relembremos que a estratégia de sustentação se vale principalmente da capacidade de certos aspectos da notícia provocarem uma disforia no ouvinte. portanto. “A relação do ritmo musical com a edição radiofônica não é apenas retórica. como um segmento que dura. este é ainda um aspecto musical da linguagem radiofônica mais presente para os seus profissionais” (Meditsch. mesmo assim. manter determinado laço. no entanto. Descontinuidades. Se a alta estimulação de alguns momentos do programa. sem direção e. Esse jogo aspectual. que para ser satisfeito. de variações e combinações entre elementos .estratégia de arrebatamento . monopoliza a atenção. 2001: 161). em outros esse mesmo estado ocorre por meio da pausa de tensão. um querer-saber. por exemplo. são importantes no rádio. o Jornal da CBN começa com a apresentação das A tomada de consciência da desaceleração textual pelo público. do suspense. entre segmentos que duram e outros mais pontuais.o embaraça. Alguém que vive a disforia de uma curiosidade não sente um texto desacelerando em função dos segmentos mais longos. Ouvir alguém falando continuamente cria problemas. Como afirma Tatit. Em outras palavras.83 O que se observa. a troca de uma curiosidade do nível sensível para outra.tem a função de despertar a atenção do ouvinte durante o fluxo noticioso. Obtida a curiosidade para a história da notícia – estratégia de sustentação . vamos insistir. faz com que cada programa crie seu próprio ritmo a partir do que os jornalistas avaliem como mais eficaz na maneira de obter audiência. Ainda que a maior parte dos programas tenha o seu ritmo determinado de maneira mais instintiva do que consciente. ou seja. mas com certos andamentos. é um problema no jornalismo. Quando essa ligação tende a se afrouxar. pode diminuir a estimulação e. O texto radiofônico se constrói tal qual uma música. o jogo que se estabelece na organização textual do Jornal da CBN é o seguinte: o grande número de segmentações. Por isso é que se tenta fazer uma passagem bem-sucedida entre a estratégia de arrebatamento e a de sustentação. uma vez tendo despertado seu ouvinte.o texto pode ter uma segmentação menor. A edição de fato determina o ritmo do programa. do silêncio retórico. o excesso de continuidade pode desacelerar demais o discurso. o público é “chacoalhado” novamente. 83 123 . De um ponto de vista geral. Pode trazer monotonia e perda de atenção por falta de novidade. Essa é a principal característica de ritmo textual do programa.

o verbal oral. a fala do âncora administra outras falas. Trata-se do Repórter CBN. Carmo Júnior (2004: 141). A locução como elemento organizador Vamos analisar agora como o Jornal da CBN estrutura-se de um ponto de vista mais específico. geralmente com uma canção que ironiza uma notícia e seus personagens. em tese. Inicialmente. numa locução tensa. termo que é possível ampliar para descrever o O jornal de rádio. Uma voz conhecida no rádio gera um sentido de “familiaridade”. tanto profissionais como entrevistados. de um tempo reconhecível como o do cotidiano. relaxando um pouco nos instantes finais. ser apresentado somente por meio de uma linguagem. dos repórteres.como a base desse complexo discurso marcado. músicas. ele se integra ao noticiário graças ao reconhecimento da voz do âncora. Essas unidades são hierarquizadas e manejadas dentro de um fluxo por meio da montagem. No Jornal da CBN. que manipula o dial e chega em pleno andamento do programa. Entre esses dois extremos existe até um “refrão”: a reapresentação das “notícias mais importantes” a cada meia hora. pensamos a estrutura do noticiário do ponto de vista de um ouvinte que acompanha o programa do começo ao fim. pela organização temporal do plano de expressão. O modo de falar também é parte importante da estratégia de fidelização. como também cede e controla a voz de outros enunciadores. dos redatores. como os ruídos e os efeitos sonoros. No entanto. como barulhos de carro captados numa reportagem na rua). e termina quase sempre com humor. dos comentaristas. Um programa de rádio é uma sucessão de elementos (vozes. Ele não apenas apresenta e discute as principais notícias.principais chamadas. rápida. Há leitura de textos curtos. mais do que em função das vinhetas. apresentadores e repórteres é um grande desafio a ser vencido no entendimento do radiojornalismo. O estudo dos efeitos da fala dos âncoras. relacionando seus sistemas significantes verbal e musical com elementos importantes dessa forma de comunicação.84 No trecho anterior. como já vimos. chama o locutor esportivo de “encenador vocal”. na busca de tensão. podemos observar como o Jornal da CBN é pensado muito mais para um enunciatário que ouve apenas algumas partes. 84 124 . outros sons que tanto podem ser efeitos de sonoplastia como a conseqüência involuntária da própria produção do texto. entre os objetos aqui estudados. em análise da locução do futebol. é o único que poderia. sob um fundo musical que também acelera o discurso. Consideramos a locução – notadamente a fala do âncora .

que envolvem o timbre. a partir das mesmíssimas palavras. O subtexto é resultado de uma complexa relação entre expressão e conteúdo. ensinam Ducrot e Todorov. isto é.trabalho principalmente dos âncoras do radiojornalismo. e geralmente se assiste a uma modificação da qualidade de um som prolongado” (1972: 172). em uma altura e intensidade pouco usual para a situação) mostra estratégias de enunciação que se valem da riqueza das possibilidades de entonação. como os clientes pedem um café em uma padaria lotada. 2001: 191) diz que esse segundo significado é próximo da idéia de “subtexto” do teatro. a intensidade e a duração. Essa distância é a máxima possível para o ‘a’. A mesma frase: “Por favor. a altura. Armand Balsere (apup Meditsch. 125 . ao roteiro que é lido pelos jornalistas. com significados distintos. por exemplo. médio e grave. Um tom irritado (que enfatiza. A duração de um som. ao utilizar as mesmas palavras. Uma mesma frase – do 85 Referimo-nos aqui às técnicas para atores de Constantin Stanislavski. Muitos candidatos aos palcos fazem exercícios nos quais aprendem a dizer “algo a mais”. a duração das sílabas e da frase. É pelo timbre que distingue a voz de uma pessoa da voz de outra. a vogal mais aberta. utilizar os recursos prosódicos. as mais fechadas. dificilmente obtém-se uma tensão constante dos órgãos da fonação.85 Pode-se notar. e a mínima para o ‘i’ e para o ‘u’. ou agudo. como se o modo humilde do pedido fosse uma maneira de ele comunicar que compreende que o atendente está com serviço demais. A intensidade de um som vincula-se ao grau de força com que o som da fala é proferido. “é a percepção que se tem de seu tempo de emissão. capricha no sentido de súplica. a qualidade do som da fala relacionada com a freqüência das vibrações que têm como resultado o agudo e grave. onde o serviço se mostra lento. A altura de um som é. O timbre é efeito ou qualidade acústica que se obtém a partir dos diversos graus de abertura da cavidade bucal. por exemplo. Antes de seguir em frente. “componentes em geral reconhecidos nos estudos dos sons da linguagem”. Percebe-se diferentes “subtextos” nesses dois casos. da distância entre a língua e o céu da boca. em fonética e fonologia. No que se refere aos sons da fala. um café” pode ser dita por alguém que queira sobrepor ao seu pedido o seguinte significado: “Eu não agüento mais esperar”. Ou ainda por outro cliente que. é preciso apresentar algumas dessas possibilidades de efeitos da fala. como lembram Ducrot e Todorov (1972: 172). O estudo da modulação de voz é fundamental para entender como um fragmento de notícia pode ser desvalorizado ou valorizado pela maneira de o apresentador. por exemplo. A oralidade dos âncoras acresce efeitos de expressão ao verbal escrito.

na sedução (querer-fazer) do balconista. Um empregado pode prever como será sua jornada pela entonação do bom-dia do chefe. o cliente da padaria.) “Sonoras que contêm emoção também rendem boas edições. vale notar. que o café seja servido.. em seguida. da altura e da duração da voz). não foi prejudicado. no entanto. uma gargalhada ou uma frase em tom de desabafo às vezes dizem mais do que uma declaração de 50 segundos” (2003:79). Esse recurso euforiza ou disforiza o conteúdo das notícias em alguns momentos. A regra básica é dar sentido à fala. Podemos observar cotidianamente diversos exemplos de “acréscimos” de sentido por meio do uso dos recursos prosódicos. tudo é planejado de modo a parecer que não se subvertem certas coerções do jornalismo. lida pelo locutor ou apresentada e comentada pelos repórteres. uma “sonora” – trecho gravado de entrevista . Nos dois casos.ponto de vista do registro escrito ..as sonoras – 126 . a edição final adiciona os trechos gravados . Por essa afirmação. Há “acentos de expressividade” (Drucot e Todorov. no segundo. Ao mesmo tempo. Em seguida. uma notícia é composta de uma parte feita na redação. dá a impressão de que o entrevistado foi cortado antes de completar o pensamento ou que foi alvo de censura” (. investe na intimidação (dever-fazer). O editor não opina no texto. efeitos de sentido afetivos que cumprem uma missão persuasivoargumentativa. objetivo. Um choro. destinatário. É comum ouvirmos o âncora e. Sonoras opinativas são sempre mais contundentes e chamam mais a atenção do ouvinte” (. Quem opina é o entrevistado.. como destinador. A sonora deve terminar com a entonação ‘para baixo’.). Alguém que dá uma ríspida saudação também mostra uma outra característica notável de jogo entre o dito e o efeito proporcionado via entonação: um desacordo entre esses dois níveis da fala. o que se deseja é a realização de um ato. “As sonoras devem ser o mais opinativas possíveis. como a de manter distanciamento em relação às notícias apresentadas. No primeiro exemplo. 1972: 175) que incidem em certas partes da emissão da notícia (uma administração de recursos de intensidade. Notamos um caso mais comum no Jornal da CBN. O contexto e o enredo devem estar no texto redigido pelo editor. encaixada em um universo de valores. É o âncora que mais “sente” a notícia (modulando a voz) e tenta fazer com que o ouvinte partilhe desse tipo de sanção. no seu Manual de Radiojornalismo. O sentido primeiro.que faz parte da notícia.se abre para estratégias de manipulação distintas na fala e. Isso significa que a notícia vai sendo exposta como “julgada” pelo enunciador. além de desagradável.. ensinam: “Os pontos ideais para os cortes e emendas são descobertos pelo editor com a prática e a sensibilidade. Barbeiro e Lima. O depoimento que termina com a entonação ‘para cima’. de conteúdo imparcial. que se apresenta como outra especificidade do programa.

sem esses mesmos recursos de entonação. de sua voz. Do ponto de vista semiótico. No programa analisado. Os jornalistas levam o ouvinte a determinadas interpretações. o âncora Heródoto Barbeiro apresenta a notícia da expulsão dos “radicais do PT”. e não de um fragmento cuidadosamente editado para se adequar a uma lógica de busca de audiência e de reafirmação de valores do enunciador. A notícia aparece na forma de sucessão de fatos. em que aparece a subjetividade do entrevistado. A interpretação sobre a enunciação – ou seja. a locução se fazer a partir de um conteúdo verbal mais “objetivado”. A apresentação da unidade noticiosa pode ser feita numa intensidade e numa altura maiores e numa duração mais rápida. Lembremos. o que determina uma valorização em relação a outras. Há sonoras com os expulsos e também com os membros do partido que votaram pelo desligamento dos 127 .que devem servir como contraponto. mas podem eximir-se delas. Outro ponto que ajuda nesse efeito é o próprio sentido de “concretude discursiva” que a sonora apresenta. mas que também pode incluir variação de duração e altura da fala) sobre certos detalhes pode conferir mais proximidade ou distanciamento afetivo que o locutor encena e espera que seja compartilhado pelo público. ou seja. Essas escolhas sempre expõem a visão de mundo do enunciador. essas sugestões referem-se muito mais aos “efeitos” que se quer obter. por exemplo. seu estado emocional. aparece como de responsabilidade exclusiva do enunciatário. recurso comum no jornalismo. o ouvinte toma contato com unidades que já se apresentam “sensibilizadas”. dos repórteres e até mesmo dos entrevistados. A encenação vocal é realizada a partir desse conteúdo editorial mais objetivado. sem certas marcas de subjetividade. inicialmente. sobre a forma de dizer do enunciador –. A idéia de “dizer sem dizer”. ou seja. contendo valores que trafegam entre a repulsa e a atração na visão de mundo do enunciador. É comum na CBN. O ouvinte parece ficar diante do “entrevistado”. como discutimos no início do trabalho ao mostrar três versões distintas de jornais impressos em relação à visita de Lula a São Bernardo. que a “pinchagem” e a montagem dos “fatos” para compor a notícia só têm sentido a partir de uma ideologia. Por meio do movimento de entonação dos locutores. que está por trás do subtexto do programa e das possibilidades ofertadas pela riqueza prosódica. A justificativa é que apresentam um conteúdo aparentemente mais impessoal. notadamente por meio de uma desembreagem actancial enunciva. Uma tensão crescente ou decrescente da voz (fenômeno de intensidade de emissão. mais evidenciadas nas sonoras. no final das contas. tem assim grande valor para um jornalismo que precisa se expor como objetivo e imparcial. o uso da terceira pessoa nas frases.

Como lembra Barros (2000: 74). Heródoto: “Grande articulador no Congresso durante as reformas. a encenação vocal é uma coerção cada vez maior dessa forma de jornalismo. nessa sonora. de Aloísio Mercadante. O âncora ainda desacelera o final de sua fala. Um setor da esquerda sempre achou o PT como (sic) um partido tático. coloca acentos de expressividade em pontos bem determinados. Depois enfatiza. Pode haver perda de atenção do ouvinte. o que aumentaria o efeito de objetividade. de bela voz e que pouco modula a fala. Sempre achou.” Heródoto. foi algoz dos radicais do PT durante a reunião do diretório. entretanto. E alguns. a “algoz”. 128 . por exemplo. Mercadante. como a Eldorado. padrão de algumas rádios informativas... Tudo indica que. não estratégico. podemos verificar a existência de uma fala mais sóbria (menor modulação). não apresenta uma série de características da fala cotidiana. O ouvinte. fazendo as vogais durarem. Pode-se observar o efeito pretendido de imparcialidade. partiram para construir um outro partido. é comum haver no rádio um texto escrito realizado oralmente que. ou de citar as diferentes versões. a frase “os infiéis tomaram outro caminho dentro do partido e irão se arrepender no futuro”. trabalha cuidadosamente sua entonação. No entanto. Nesse momento. Laerte Vieira. É notável ainda que a última afirmação de Heródoto não se confirma na fala do deputado petista. o líder do governo no Senado. na apresentação das notícias. Nessa discussão sobre os efeitos da fala. é uma visão de partido. não fez nenhuma ameaça. nesse sentido “sancionador”. por meio da entonação. a busca de um jeito neutro para apresentar as notícias é sempre um risco considerável. não tem tempo de realizar essa associação em função do ritmo da sucessão de falas. Ele ressalta determinados conteúdos. O senador afirmou que “os infiéis tomaram outro caminho dentro do partido e irão se arrepender no futuro”: Mercadante: “A divergência de fundo é um problema. imita o timbre de um ator canastra de um filme de quinta categoria. aumentando ainda a intensidade e a altura da fala nesse momento. no entanto. no rádio brasileiro. Essa intencionalidade evidente do enunciador faz pensar sobre a opção de uma fala neutra na apresentação de conteúdos jornalísticos. Teoricamente. Todos esses recursos prosódicos ridicularizam a sonora que vem a seguir. no passado. Aluízio Mercadante. entre outras conseqüências. O próprio Jornal da CBN tem um locutor “à moda antiga”.parlamentares. Dá grande destaque. o que é legítimo. é preciso salientar ainda que a maior parte da informação do rádio é lida pelos seus profissionais. como o próprio PSTU.

As que caracterizam o começo e o fim dos programetes.As de prefixo. Sabemos que a oralidade dos profissionais do rádio é uma “espontaneidade treinada”. um amigo.A música é parte essencial das vinhetas. dos efeitos sonoros e dos ruídos. entendida como elemento que constrói a lógica do programa. ruídos e a relação com a fala Mostramos alguns aspectos superficiais da locução. que relaciona o discurso oral. os ruídos e a música. Há brincadeiras. Podemos observar dois tipos: a . frases incompletas. um fazer crer na existência de um determinado nível de improvisação. pausas. as composições musicais têm quatro grandes possibilidades de aplicação: 1. troca de informações não planejadas entre os próprios jornalistas. como se estivesse falando de improviso” (1986: 78). os profissionais do radiojornalismo têm de enfrentar outra coerção: criar a sensação de que estão em pleno diálogo com o ouvinte. 129 . retomadas. ressalta: “Leia naturalmente. que partilha das gozações que quebram a “seriedade” das falas em alguns momentos. O programa cria assim um grande efeito de proximidade com o público. E vice-versa. b. e deixa claro que está lendo. é mostrado como um “igual”. O Manual de Radiojornalismo da Jovem Pan. e também de TV. hesitações.como reformulações. Essa é a razão dos manuais de rádio. pode-se observar no Jornal da CBN um grande espaço para essa manifestação. para dar a impressão da fragmentação típica da fala. o jornalista separa sua enunciação de outra. É momento de investigar o papel da música. pausas. Música. num tom que se contrapõe à apresentação de notícias. portanto. se tivermos em conta que as falhas. Ele cria assim um sentido de “aspas” sonoras. No jornal da CBN. e não lendo algum texto. como o “Liberdade de Expressão”. entre outras instruções para os locutores. É muito comum Heródoto fazer graça com a derrota do time de um repórter. por exemplo. redundâncias são marcas da fala menos premeditada. comentários a partir das discussões com entrevistados. ligadas às segmentações do radiojornal. O enunciatário. insistirem na construção da informação em frases curtas. ou e-mails de ouvintes. Em outras palavras. Entretanto. No entanto. por exemplo. Na análise do Jornal da CBN é possível notar que existem diferentes gradações na forma de modular a voz. uma unidade em si mesma sincrética. o âncora Heródoto Barbeiro comenta jornais. efeitos sonoros. Em alguns momentos.

a missão de arrebatar ou manter a atenção dos ouvintes. Antes. uma reportagem foi produzida em algum local fora do estúdio e os barulhos acabaram fazendo parte da gravação. que não pode deixar de dar estímulos ao ouvinte sob pena de perdê-lo. instauram maior sentido de realidade por fazer com que os ouvintes reconheçam sons do cotidiano. um apelo à memória. portanto. dentro da estratégia de impedir qualquer possibilidade de monotonia discursiva. Também criam um meio mais eficaz de reconhecimento. Estamos chamando de efeitos sonoros certos tipos de sons que os ouvintes acreditam que são manipulados em um estúdio. à evocação de experiências anteriores – estratégia de fidelização. Entra sonora de Paul Bremen: “Ladys and gentlemen. há importantes efeitos de realidade. que a prisão do ditador foi “anunciada com polpa e circunstância pelo administrador do Iraque. Paul Bremen”. locutor ou repórter. o âncora Heródoto Barbeiro diz. que analisaremos em seguida. 3 – Fechamento do programa com bom humor. Por meio das vinhetas. 4 – Preenchimento do silêncio. barulhos e interferências dão “concretude” ao discurso. se ouve o refrão de uma canção infantil: “Sou invencível/ somos amigos/unidos venceremos a semente do mal/Eu tenho a força/ sou invencível”. No Jornal da CBN. previamente gravados. Os ruídos. Têm. Nos dois casos. a idéia de que certas notícias são mais importantes e merecem mais atenção. vale a pena salientar o papel desses recursos na estratégia de arrebatamento. Estudemos agora os efeitos sonoros e os ruídos. Em seguida. Trata-se de uma utilidade específica da música no Jornal da CBN. o ouvinte pode localizar em que parte do fluxo radiofônico se encontra. É o caso do Repórter Aéreo CBN. portanto. 2 – A música sobredetermina conteúdos.As vinhetas impõem descontinuidades na programação. Outro aspecto sempre destacado por diversos 130 . principalmente a fala do âncora. Há. O Jornal da CBN tem um trilha sonora (que não deve ser confundida com a vinheta) utilizada na apresentação e na valorização das chamadas em certos momentos da programação. em tom de galhofa. principalmente de locais onde os repórteres afirmam narrar. ruído e efeitos sonoros cumprem bem a função de serem mais um meio de criar descontinuidades e de buscar a atenção do enunciatário. A música dá a idéia de que o programa evolui mesmo quando não existe outro som. Já os ruídos são interpretados como incidentais. A notícia é ironizada. Em uma mídia de fluxo. we got him”. ou seja. via manipulação sensorial do ouvinte. No caso do programa analisado. em que se ouve o som do helicóptero no momento em que a jornalista comenta o trânsito. projetando.

uma alternância entre subposição. Aparecem em vinhetas. nunca a um estado: “A existência do som depende de 131 .autores é que a baixa qualidade de emissão do som. no qual o som “sujo” – com muitos ruídos e baixa qualidade de emissão .sugere maior valor afetivo da notícia. para “despertar” a atenção. editado e. Nota-se a estratégia de arrebatamento. cria um sentido de menor controle dos conteúdos. mais organizada. Isso quer dizer que o Jornal da CBN é manifestado por um grande número de estímulos por segundo. com interferências de todo o tipo. Um aspecto importante da natureza do som. mais verdadeiro. Já os efeitos sonoros têm grande utilidade no programa. a voz humana não consegue chegar aos graves e agudos de diversos instrumentos musicais. os efeitos sonoros também são importantes para criar descontinuidades. é o de sempre remeter a uma ação. Durante a apresentação das manchetes. a música é uma aliada importante. principalmente a do âncora. já que tem uma força e uma abrangência acústica que superam a da fala em função das possibilidades de amplitude sonora. Além desse outro caso de concretude. menor duração na emissão das sílabas. ou em background – BG. literalmente “vibrante”. proximidade. tem como principal característica discursiva apresentar uma reunião de todos os seus recursos expressivos. o ouvinte também passa a saber o que será tratado no próximo segmento. (Dito de outro modo. o que soa para o ouvinte como algo menos mediado. em primeiro plano). e sobreposição. no fundo. os efeitos sonoros e a fala no rádio. deve ficar com vontade de saber o que motivou os acontecimentos citados. quando se tenta despertar o ouvinte. como lembra Meditsch. ou seja. que o faz parecer acelerado. O programa. por isso mesmo. Com os efeitos sonoros. os ruídos. nesses momentos. A fala. Temos um outro sistema semi-simbólico. da passividade para a atividade. É a passagem da estratégia de arrebatamento para a de sustentação. Deve-se observar que existem momentos de maior imposição da atenção. nas quais se ouvem sons de trânsito. que se contrapõe à locução do estúdio. buzinas de veículos. imediatismo. com apresentação de manchetes. aparece acelerada: maior altura e intensidade. Analisemos agora a relação entre a música. para que ele passe do vínculo do “ouvir” para o do “escutar”. Certos sons também podem adensar a emissão a ponto de impor uma modulação em relação à voz dos apresentadores. envolvido depois pelas manchetes. utilizado antes da apresentação da hora certa. Um dos mais ouvidos é um “tchom”. mudanças de vozes entre jornalistas. O manejo de recursos do plano de expressão deve produzir um ouvinte tenso que. há intercalação de sonoras. Nesse sentido. que soa como um “ataque consonantal”. de sentido de realidade. O repórter parece estar em uma situação sem grandes possibilidades de controle.

As presenças do mar e de um relógio podem ser facilmente captadas por meio auditivo. a informação que a percepção sonora nos proporciona sobre o mundo refere-se. ou fazem sentido na cabeça do ouvinte. a possibilidade de se criar a sensação de que o fluxo sonoro parou. No radiojornalismo. nesse ataque sensorial. como os diferentes formatos de letras e seu posicionamento espacial tentam reproduzir esses efeitos da locução. 86 87 Há. Essa interrelação de diferentes unidades sonoras (fala. Em conseqüência. necessariamente. É o caso da notícia sobre a detenção de Saddam Hussein no Iraque. Veremos depois..) O imparável movimento dos sons estabelece. em linhas gerais. senão pelo olfato. mas as de uma flor e de um vaso não podem ser adivinhadas. é manejada para que o ouvinte. (. se posicione diante do que o enunciador valoriza e quer que também seja valorizado pelo enunciatário. como lembra Meditsch. esse efeito se adiciona à locução jornalística . A questão do tempo e do valor da notícia: a prisão de Saddam Afirmamos em outras partes do trabalho a existência de um sistema semisimbólico de texto inteiro (ou um “semi-simbolismo cristalizado”) bastante evidente nos noticiários. a visão ou o tato – a não ser pelo auxílio da ação da palavra. serão essas notícias que irão receber mais tempo no fluxo do programa. porque ele já introjetou as próprias regras da textualização. No rádio. capitaneada pela locução. para as linguagens estritamente auditivas.86 Os sons transmitem principalmente a idéia de ações em plena execução. a exposta pela própria notícia. Depois. efeitos sonoros e ruídos). Esse adensamento sonoro fisga a atenção do ouvinte para as “notícias importantes”. “a hierarquização (dos conteúdos) deixa de ser feita pelo critério do que vem antes ou depois para assumir um critério compatível com a fluidez. baseado na freqüência.. a alguma ação: o que permanece imóvel não soa.. o que resulta no semi-simbolismo de texto inteiro: o que tem maior valor é o que ocupa o maior tempo. 132 . essa organização de categorias do plano de conteúdo com categorias do plano de expressão determina relações de valor da notícia em função do tempo ocupado. com emissão rápida87 -. durante a programação.um movimento e a sua simples presença indica que algo se move ou se modifica. uma forma de estruturação espaço-temporal que é única” (2001: 157). Em função dela. que justamente “funcionam”. música. O texto jornalístico de rádio é montado para criar determinados efeitos.em maior altura e intensidade. na análise dos jornais impressos. No rádio. contudo. a duração do enunciado e a repetição de sua enunciação passam a ser os recursos predominantemente utilizados para enfatizar a sua importância” (2001: 202). ação em si mesma que remete a uma outra ação.

mostram um enunciatário entendido de maneira dinâmica e fragmentada. no Jornal da CBN. houve uma repetição completa da notícia. Não consideramos. entre outros recursos. e notadamente as relações entre valor da notícia a partir do tempo de apresentação no fluxo informativo. O ouvinte não precisa participar do programa do começo ao fim. o ouvinte tem um verdadeiro resumo das posições obtidas em pouco mais de três horas de programa. mostramos como o principal assunto. O que é mais notável. o texto do radiojornalismo tem uma característica que o aproxima do da Internet. 15 de dezembro de 2003. inclusive em outros programas da própria CBN. como se o ouvinte partilhasse de uma conversa entre amigos. o Jornal da CBN de segunda-feira. Outro aspecto do jornal é o seu dinamismo. ou seja. a cessão de tempo para um artista falar de uma peça de teatro de 133 . quem permanecer mais tempo terá a possibilidade de ouvir as informações principais serem aprofundadas. é a evolução da reportagem sobre o assunto durante o próprio jornal. Vale observar como a notícia se “espalhou” pela edição. Se o conteúdo é o mesmo. há variação de frases. Não se pode negar ainda. principalmente de classe social e nível cultural. no entanto. há pouquíssima redundância. Do ponto de vista do enunciador. Em compensação. Nos minutos finais. por exemplo. a utilização de um mesmo trecho.88 88 Até onde pudemos observar cotidianamente. vamos retomar agora o programa em estudo. Na tabela 1. a prisão é o fato desencadeador de maior atenção – e assim deveria ser entendido pelo enunciatário ouvinte. podem ser incluídos em um grupo mais amplo com certas características em comum. Vale salientar que as características que apontamos para a textualização jornalística do rádio. que o único sentido investido em determinados momentos é o de proximidade. a seguir. Foram buscados recursos diversos. numa audição de meia-hora. Vale lembrar que esses enunciatários. É possível conhecer os assuntos mais importantes. apareceu durante o noticiário. esses programas como essencialmente jornalísticos. Em outras palavras. É concebido para atrair enunciatários distintos.Para analisar melhor a questão. vinculam-se ao Jornal da CBN. os comentários de futebol que nada informam. com diferentes objetivos e ofertas de tempo. Saliente-se que. como a repercussão da prisão de Saddam. notadamente a questão da manipulação do tempo e sua relação com o nível de atenção e de tensão noticiosa. atualizadas e oferecidas em diferentes perspectivas. entretanto. a captura de Saddam Hussein no Iraque. em nenhum momento. Podemos considerar que a edição do Jornal da CBN apresentou a captura de Saddam como a mais importante notícia em função do tempo cedido e da reiteração do assunto durante todo o programa. As infindáveis conversas entre locutores. geralmente leituras de roteiros com sutis diferenças para retomar a descrição da captura de Saddam e as conseqüências da prisão. de maneira de apresentar a informação. Muitos programas de radiojornalismo no Brasil ocupam tempo com assuntos não jornalísticos. A segmentação do programa e também as retomadas das notícias mais importantes. entretanto. muito mais interessados em manter e cultivar um laço do que em trocar novidades. no sentido de repetição de trechos idênticos das mesmas notícias.

Assuntos internacionais geralmente não têm maior destaque na programação rotineira da CBN. busca-se especular sobre o futuro. Se a prisão aconteceu em um tempo anterior. por meio da fala de Moreira Lima. e o que estava acontecendo em Israel. Heródoto Barbeiro. A dissertação de mestrado de Flávio Falciano (1999: 123) mostra essa característica da rádio. não está. um acontecimento desejável. a partir daí. aliás. a falta de investimentos na área e a baixa e deficiente profissionalização. O jornalismo cria expectativas para se autoalimentar. mas uma espécie de “aqui-mundo”. sobre a repercussão da prisão de Saddam entre israelenses e palestinos. sempre lembradas pelos próprios jornalistas e pelas entidades que os representam. Aliás. O efeito de atualidade era buscado por meio de análises e repercussões econômicas. e foi divulgada no domingo. O efeito de proximidade temporal e espacial não é o bastante para motivar o consumo de uma notícia. sociais e políticas . E ressaltou que a entrevista era “ao vivo”. assim. por exemplo. O que chama a atenção em uma narrativa são as alterações de continuidade. A prisão de Saddam. Trabalhou-se com um efeito de enunciação enunciada – desembreagem enunciativa – numa tentativa de aproximar o ouvinte da notícia. A estratégia da CBN. foi contextualizar a notícia e. É preciso instaurar uma curiosidade (querer-saber). questões. entrevistou o embaixador do Brasil em Israel. Sérgio Moreira Lima. buscar tensão a partir de novas perguntas que passaram a não ter resposta. Desse modo. Falar em descontinuidade significa apontar uma quebra de rotina que tanto pode ser positiva (relação sujeito-objeto desejável) quanto negativa (relação indesejável). a repercussão é um “agora”. 134 .O jornal analisado é o da segunda-feira. Uma das conclusões do trabalho: “A emissora dá pouco pouco destaque só mostram os problemas do veículo.os elementos de atualização. A captura ocorreu quase dois dias antes. repercutiam a prisão do ditador . mas era. se questionam se a paz seria conquistada. portanto.o fato gerador da notícia. na idéia de que as novidades têm de ser necessariamente ruins. o programa evita que a notícia seja interpretada como “velha”. no entanto. O âncora da CBN fez do embaixador uma espécie de correspondente especial. por exemplo. um desejo de conhecer toda a história. todo o trabalho jornalístico do programa pode ser resumido em uma única pergunta: “Como ficam o Brasil e o mundo após a prisão de Saddam?” Mais do que recuperar o que aconteceu. A estratégia do programa foi a de “esquentar” a notícia. no sábado. que se seguiu a de outros jornais. é um “aqui”. por exemplo. do ponto de vista da imprensa ocidental. O potencial de atração das notícias. criou uma descontinuidade (ele estava desaparecido). notadamente por meio de entrevistas com autoridades e até mesmo com jornalistas de diversos países que. Entrevistados e âncora.

Essa utilização funciona como um desencadeador de isotopia. especialmente do administrador do Iraque. sob a alegação. Essa crítica final ressoa e traz novas significações a todos os conteúdos veiculados na edição.é de políticos que estavam envolvidos com a questão. podia ser planejada. portanto. Tabela 1 Programa Jornal da CBN – edição de segunda-feira. Todas as notícias e os comentários sobre o assunto durante o programa ganham outra leitura. termina com uma música infantil que brinca com a posição de líderes dos Estados Unidos diante da prisão de Saddam. Do ponto de vista ideológico. buscou verificar o que aconteceria com a detenção do ex-ditador do Iraque. portanto. 15 de dezembro de 2003 Trechos em laranja:falam. aumentar a carga de material internacional poderia significar queda de audiência.espaço ao noticiário internacional. A tabela a seguir mostra o cuidado na organização da reportagem. Paul Bremen. o Jornal da CBN apresentou a versão dos Estados Unidos sobre a prisão de Saddam.trechos de entrevistas . caracterizando assim a CBN como uma emissora que difunde prioritariamente conteúdo jornalístico de cunho nacional”. não comprovada. a estrutura de happy end é clara. como já foi dito. na conclusão da edição. A maior parte das “sonoras” . A prisão de Saddam jogou a notícia da expulsão para o segundo lugar na ordem de importância. é ridicularizar a posição estadunidense. Essa observação enfatiza ainda mais a importância que a prisão de Saddam Hussein adquiriu no Jornal da CBN. O Jornal da CBN. comentam ou citam a prisão de Saddam Hussein Trechos em cinza: publicidade (spot) Trechos em branco: restante do programa 135 . mas zombou dos norte-americanos. A análise do programa como um todo também dá uma boa indicação de como o radiojornalismo e a dinâmica das notícias funcionam. E fez com que toda a equipe corresse para os telefones em busca de autoridades para entrevistar. ou seja. Fica evidente que a manchete inicialmente prevista era a da expulsão dos “radicais do PT”. No programa analisado. cria um novo sentido. de que não há interesse nesse tipo de notícia por parte do ouvinte CBN e que. O que o Jornal da CBN faz. com o deslocamento de repórteres. que tinha data para acontecer e.

jornalista português Sonora: comentário de Carlos Fina sobre captura de Saddam e alívio no Iraque Heródoto – hora . assessor especial do governo Lula. Sonora: deputado Genuíno Heródoto apresenta o deputado Aloísio Mercadante Sonora: deputado Mercadante Heródoto chama o apresentador Laerte Vieira Laerte: “bom-dia” e hora Heródoto: chama intervalos e diz que já volta com mais notícias Laerte: horário brasileiro de verão 20s 27s 34s 39h 7s 7s 5s 11s Som Música 50s 10s Música de fundo 1m 1m45s 45s 15s Música de fundo 2m 36s Música de fundo 2m36s 2m46s 3m 3m07s 10s 14s 7s 11s Música de fundo Música de fundo 3m18s 3h50s 4m01s 4m25s 5m 5m17s 5m23s 5m38s 5m45s 6m 6m08s 6m20s 6m28s 6h48s 7m02 7m18s 7m21s 7m24s 7m28s 32s 11s 24s 35s 17s 6s 15s 17s 15s 8s 12s 8s 20s 14s 16s 3s 3s 4s 5s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo 136 . Marco Aurélio Garcia afirma que prisão de Saddam pode apressar a entrega do poder ao povo iraquiano Heródoto faz descrição “factual” da prisão de Saddam Sonora: administrador do Iraque.as notícias que podem mudar o seu dia – apresentação de Heródoto Barbeiro Heródoto: O assessor especial do presidente da República para assuntos internacionais.Início do programa 6h03 da manhã 0s Total em segundos do fragmento 20s Recurso sonoro Música de entrada e música de acompanhamento Unidade Vinheta com os prefixos .contextualização Sonora: deputado Vavá fala da expulsão Heródoto diz que críticas dos “radicais” ao governo vão continuar Sonora: deputado Vavá faz mais comentários sobre expulsão Heródoto: possibilidade de criação de um novo partido pelos “radicais” Sonora: deputada Luciana Genro Heródoto apresenta deputada Heloísa Helena Sonora: deputada Heloísa Helena Heródoto diz que vai apresentar o “outro lado”.Rádio CBN. sobre a prisão de Saddam Sonora: comentário de Garcia sobre o futuro de Saddam Heródoto apresenta Carlos Fina. Paul Bremen: anuncia prisão de Saddam em inglês Heródoto explica que os gritos na gravação de Bremen são de jornalistas iraquianos Sonora: Fala de Bush sobre Saddam Heródoto comenta fala de Bush Sonora: nova fala de Bush Heródoto anuncia opinião de Marco Aurélio Garcia. AM e FM Voz feminina: Tempo e temperatura na cidade de São Paulo Patrocínio da próxima meia hora: Bradesco Heródoto: hora Vinheta: Jornal da CBN .Fala da expulsão dos “radicais do PT” .

Sérgio Gomes da Silva Heródoto .Esportes Voz não identificada: resultado da Rodada do Campeonato Brasileiro Publicidade – carro blindado Publicidade – leilão de imóveis Bradesco Vinheta: “Estamos apresentando Jornal da CBN” – oferecimento Bradesco Heródoto comenta e lê e-mail de ouvinte que critica academia Runner Laerte: hora Vinheta: “Jornal da CBN” Heródoto –hora e anúncio Heródoto: tentativa de reverter expulsão dos radicais Entrevista gravada: repórter Juliana Alvim fala da convenção em um hotel que decidiu a expulsão dos deputados do PT e da senadora Heloísa Helena contextualização Sonora com a deputada Heloísa Helena: 11m38s 11m42s 12m12 12m20 12m36 12m30 12m32s 12m49s 12m52s 13m22s 13m33s 13m38s 14m57s 14m58s 15m10s 15m39s 15m42s 4s 30s 8s 16s 6s 2s 17s 3s 30s 11s 5s 19s 1s 12s 29s 3s 1m25s Música Ruídos de buzina e Música Música Música 17m07s 17m08s 17m38s 18m08s 18m10s 18m15s 19m06s 19h36s 20m06s 20m16s 21m12s 21m13s 21m22s 21m26 21m40s 2s 30s 30s 2s 5s 1m9s 30s 30s 10s 56s 1s 9s 4s 14s 16s Só música Música e fala Som Música e fala Música no fundo Música de fundo 21m56s 22s 137 ..Monsanto Vinheta – tempo – patrocínio AES Eletropaulo Heródoto apresenta Laura Laura: tempo e temperatura Heródoto . Alexandra: Temperatura .hora Vinheta .Radiotaxi Publicidade: doação de sangue – Ministério da Saúde Heródoto: hora Heródoto comenta e lê e-mail de ouvinte que critica abordagem do Discovery Channel sobre Santos Dumont Heródoto .. Federal Laerte: hora Publicidade – Chester Perdigão Publicidade – Sabrico .Programa Primeiro Emprego – Gov.Hora Publicidade .Música sobe 7m33s 8h17s 8m20s 8m50s 9m20 9m21 9m36 9m37s 9m50s 9m52ss 10m36s 10m38s 44s 3s 30s 30s 1s 15s 1s 13s 2s 44s 2s 60s Ruídos de buzina e música no final Vinheta: Jornal da CBN Publicidade .Engov Publicidade – limpador de pára-brisa Dina Heródoto .hora Publicidade – Leilão de Imóveis Vinheta “Estamos apresentado Jornal da CBN.hora Heródoto – Manutenção da prisão de suspeito da morte do prefeito Celso Daniel. oferecimento Bradesco” Heródoto: Hora Vinheta: “Trânsito na CBC.hora Publicidade: Vale Alfabetizar Heródoto .” Heródoto pergunta temperatura na Paulista para Alexandra Dias.Rodízio Heródoto: Hora Publicidade – Transgênicos .veículos Laerte: hora Vinheta: estradas – oferecimento via Fácil Heródoto chama Telma Costa Trânsito com Telma Costa Heródoto . oferecimento Angra.hora Publicidade .

hora Heródoto: assassinato de executivo da Shell e da mulher no Rio . não da casa grande” Repórter: princípio de tumulto na convenção que decidiu a expulsão.deputada: “Consciência tranqüila” Repórter: deputados têm esperança de reverter a expulsão Sonora .22m18s 22m20s 22m28s 23m18s 23m42s 23m55s 24m07s 24m18s 24m19s 24m28s 25m47s 25m49s 2s 8s 10s 24s 13s 12s 11s 1s 9s 1m19s 2s 22s Música e fala 26m11s 26m12s 26m25s 26m38s 26m53s 27m11s 27m18s 27m24s 27m27s 27m31s 27m35s 27m45s 27m49s 27m58s 28m 28m02s 28m07s 1s 13s 13s 15s 42s 7s 6s 3s 4s 4s 10s 3s 9s 2s 2s 5s 8s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música Música Vinheta Efeito Sonoro Música e fala Entrevista termina com música da vinheta 28m15s 28m18s 28m24s 28m45s 28m50s 28m52s 28m57s 28m59s 3s 6s 21s 5s 2s 8s 2s 21s considera “crueldade” os pedidos para que ela se desculpasse com PT Repórter: Heloísa reafirmou as críticas Sonora com a deputada: “Estou a serviço da senzala. do SOS Estradas. Em outras palavras.deputado Walter Pinheiro comenta expulsão Fala final da repórter Juliana Alvin. Não é isso o que se ouve durante o programa. que fala de cinto de segurança em ônibus – entrevista Rodolfo – Bom-dia Heródoto – O que o Código diz sobre cinto de segurança em ônibus? Rodolfo – passageiros não usam cinto Heródoto – questiona se é para todos os ônibus terem cinto Rodolfo – Só rodoviários Heródoto – Só rodoviários? Rodolfo – Só rodoviários pois urbanos têm passageiros em pé Heródoto – O motorista do ônibus Teoricamente.Bradesco Laerte – Tempo e temperatura Anúncio do patrocinador Chevrolet Hora Laerte: Hora Vinheta: “Jornal da CBN” Heródoto entrevista Rodolfo Pisoto. haveria bastante repetição. e das principais chamadas.investigações Repórter: polícia não encontrou arma do crime – Genilson Araújo do Rio Laerte: horário brasileiro de verão Vinheta Repórter CBN – “As principais 89 notícias do dia a cada meia hora” oferecimento da Bradesco Seguros Laerte: data Laerte: aeroportos Laerte: expectativas da China em relação à prisão de Saddam Laerte: preço do barril de petróleo em função da captura de Saddam Laerte: Senado – projeto da Previdência Laerte: hora Vinheta – “Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora” Heródoto: “Daqui a pouco voltamos com outras informações sobre saúde” Laerte . que se apresenta e anuncia que está em Brasília Heródoto . falar que as principais notícias do dia são divulgadas a cada meia hora implica retomar o que de mais importante aconteceu em um grande período de tempo. 89 138 . Sonora .hora Jornal da CBN Vinheta – anuncia o patrocinador da última meia hora .

Heródoto – O motorista não pode verificar? Rodolfo – cinto deve ser imposto. o que prejudica a saúde dos passageiros Heródoto questiona se não há legislação que obriga a parada Rodolfo – Só uma empresa no eixo RioSão Paulo cumpre a lei Heródoto questiona se a viagem pode ser feita em menos de quatro horas. 23 de maio. tempo Laerte: Hora Vinheta: Jornal da CBN Heródoto: admissão do Peru no Mercosul 139 . Comenta ainda companhias que fazem viagem sem paradas.29m20s 59s 30m19s 30m24s 31m35s 5s 1m11s 13s 31m48s 1m18s 33m06s 33m12s 6s 12s 34m24s 34m27s 35m01s 35m03s 3s 34s 2s 22s 35m25s 18s Música de fundo 35m43s 35m45s 35m40s 36m46s 36m48s 37m18s 37m21s 37m23s 37m40s 2s 5s 1m6s 2s 30s 3s 2s 17s 24s Música de fundo Música e fala 38m04s 38m05s 38m34s 38m46s 38m49s 39m07s 39m08s 39m38s 40m08s 40m38s 40m46s 40m50s 40m55s 1s 29s 12s 3s 18s 1s 30s 30s 30s 8s 4s 5s 40s Música e fala Efeito sonoro Música e fala Início música de fundo também deve usar? Rodolfo – Nos ônibus rodoviários há grande número de vítimas. o que mostra que os ônibus andam com excesso de velocidade Heródoto agradece e faz o “pé”: conta trechos da entrevista. Rodolfo diz que não. Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – ABIM – Hospital Virtual Exporta Fácil Laerte: hora Publicidade: American Airlines Laerte: hora Heródoto chama Paulo Massini Trânsito em SP com Paulo Massini – diz que está na av. Repórter Paulo Massini e Heródoto conversam sobre futebol e fazem brincadeiras com o outro apresentador Laerte: hora Publicidade: Via Fácil Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Rede Chevrolet Laerte: hora – apresenta repórter Alexandra Dias Alexandra Dias: trânsito na cidade de São Paulo Laerte: Hora Publicidade: Seguro Auto Porto Seguro Publicidade: AES Eletropaulo Publicidade: cartucho de impressora Maxprint Laerte: anuncia Jornal da CBN. Passageiro devia ser multado se não usar Heródoto – O sistema não poderia ser igual ao do avião: o avião não sai se todo o mundo não estiver com o cinto? Rodolfo – Passageiros não têm idéia do perigo – comenta o perigo maior envolvendo crianças. mesmo não sendo visto com simpatia pelos passageiros. fala da importância do cinto nos ônibus rodoviários e chama intervalo. Corpos são projetados porque estão soltos Heródoto – como é o cinto de segurança dos ônibus Rodolfo – abdominal.

anuncia redatora Telma Costa Telma Costa.” Ele não crê que a captura seja vista com simpatia pelos paquistaneses Heródoto questiona se a imprensa local acredita em paz depois da captura de Saddam. não.Professor Giaruchi: o interesse dos EUA está nos poços de petróleo Heródoto: retoma a notícia. Noticia ato terrorista no Paquistão Heródoto: fala que o ouvinte está acompanhando as notícias mais importantes da manhã e comenta que a NHK japonesa faz novela no Brasil Laerte: hora Heródoto: narra a opinião do professor de literatura árabe da PUC Mamed Mustafá Giaruchi sobre o Iraque e Saddam. Ele acredita que a insatisfação da população vai aumentar em relação às tropas dos EUA Sonora . Fala da captura de Saddam e apresenta Abelardo Arantes – embaixador do Brasil no Paquistão – fala “neste momento” – Começa a entrevista. chama comerciais e diz que em seguida haverá a participação de Juca Kfouri Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Primeiro Emprego Laerte: hora Publicidade: Título de Capitalização Ouro Cap Publicidade: celular Nokia Laerte: hora .41m35s 42m00s 25s 38s Música de fundo Música de fundo 42m38s 42m40s 2s 26s Música de fundo Música de fundo 43m06s 43m37s 29s 49s 44m26s 45m25s 45m36s 46m18s 46m23s 59s 11s 42s 5s 17s 46m40s 10s 46m50s 47m21s 29s 31s Sob música no final 47m47s 47m49s 48m36s 48m38s 49m08s 49m34s 49m42s 50m04s 50m05s 50m47s 51m18s 2s 47s 12s 30s 26s 6s 22s 1s 42s 29s 34s Música e fala 51m52s 51m53s 52m19s 52m22s 52m37s 52m48s 1s 26s 3s 15s 11s 5s Música e fala Laerte: hora. Arantes: A expectativa de paz é do governo. Âncora pergunta a repercussão no Paquistão Arantes: repercussão intensa Heródoto: há simpatia pelo regime? Arantes: a simpatia é pelo Iraque Heródoto: houve manifestação pública? Arantes: “No momento. da redação: incêndio em fábrica de plásticos em São Paulo Laerte: hora Publicidade: Pré-pago Tim Publicidade: operadora de celular Claro Heródoto: comenta opinião de outro leitor – continua polêmica sobre paternidade da invenção do avião Laerte: hora Publicidade: Compuware Laerte: hora – anuncia Alexandra Dias Alexandra Dias: morte de motociclista na cidade de São Paulo Laerte: temperatura e tempo Vinheta: Jornal da CBN 140 . retoma pontos da entrevista. não do público Heródoto agradece.

Donald Rumsfeld Laerte: Taxa de juros Laerte: Hora Vinheta: repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto: “Nós já voltamos” Vinheta: patrocínio Chevrolet linha 2004 Laerte: Tempo e temperatura Vinheta: patrocínio da próxima meia hora: Estomazil Laerte: Hora Vinheta: Jornal da CBN – “As notícias que podem mudar o seu dia – apresentação Heródoto Barbeiro” Heródoto: mais informações sobre Saddam – Entrevista com o advogado Carlos Edueta. não se confunde com a sonora usada na edição” (2003: 80). Pode ser separada e usada na abertura e encerramento de programas. por isso. afirma secretário de defesa dos EUA..) Tem pequena duração e. 90 141 .. ex-presidente da seção brasileira da Anistia Internacional trocam “bom-dia” . 9 mortos Laerte: Saddam será tratado como prisioneiro de guerra. (. só encontramos esse recurso nesse trecho. Barbeiro e Lima afirmam que teaser é “uma declaração contundente e que pode chamar a atenção do ouvinte. Acha que os EUA vão montar um outro fórum Heródoto: questiona se Saddam tem direito a julgamento isento Edueta comenta os crimes.52m52s 52m53s 1s 5s Teaser90 52m58s 14s Música e fala 53m12s 54m48s 54m50s 1m36s 2s 20s Som e fala 55m10s 55m34s 24s 22s Música de fundo Música de fundo 55m56s 56m08s 56m09s 56m23s 56m30s 56m40s 56m46s 57m00s 57m02s 12s 1s 14s 7s 10s 6s 14s 2s 2s Música de fundo Efeito sonoro Música e fala 57m04s 30s 57m34s 58m02s 28s 6s 58m08s 58m32s 58m38s 59m20 59m38s 24s 6s 44s 18s 34s 1h00m22s 1h00s32s 1h01m38 10s 6s 30s Laerte: hora Juca Kfuori: manchete de esporte: “Acabou o primeiro campeonato por pontos corridos” Vinheta: “Momento do Esporte com Juca Kfuori” – oferecimento AES Eletropaulo e limpador de pára-brisa Dina Juca Kfuori avalia a final do campeonato brasileiro Laerte: Hora Vinheta: “Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora” – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: estouro de carros-bomba em Bagdá. Apresentador questiona onde Saddam poderia ser julgado Edueta: sugere o Tribunal Penal Internacional Heródoto: pergunta se é o tribunal recentemente constituído pelo Tratado de Roma Edueta: espera que Bush cumpra a promessa de um julgamento isento Heródoto: pergunta se há uma juíza brasileira Edueta diz que sim e comenta a prisão de Saddam Heródoto: questiona se os EUA aceitam o Tribunal Edueta: diz que os EUA não aceitam o Tribunal. mas diz que “todos têm direito a um julgamento isento” Heródoto: agradece a entrevista e retoma algumas respostas. No jornal analisado.

Âncora questiona a razão de as gráficas deixarem a cidade de São Paulo Camargo fala do aumento de impostos e outros problemas da cidade Heródoto questiona se as cidades ao redor de São Paulo têm impostos menores Camargo explica que o redirecionamento das gráficas tirou sete mil postos de trabalho da cidade de São Paulo Heródoto questiona se esses postos não foram para outras cidades Camargo concorda Heródoto: É guerra fiscal? Camargo explica que a mudança acontece também na Alemanha.1h02m08s 1h02m10s 1h02m13s 1h3m12s 1h3m58s 1h4m00s 1h4m22s 1h4m31s 1h4m33s 1h4m47s 1h4m48s 1h5m18s 1h5m33s 1h5m35s 2s 3s 59s 46s 2s 22s 9s 2s 2s 1s 30s 15s 2s 58s Música sobe Música e fala Música e fala Ruídos e música Música e fala 1h6m33s 1h7m00s 1h7m30s 1h7m42s 1h7m50s 1h8m24s 1h8m45s 1h8m46s 27s 30s 12s 8s 34s 21s 1s 22s Ruídos de helicóptero 1h9m08s 1h9m55s 47s 7s 1h10m02s 43s 1h10m45 1h10m50s 1h10m59s 1h11m03s 1h11m56s 5s 9s 4s 53s 4s 1h12m00s 18s 1h12m18s 1h12m20s 1h12m47s 1h13m04s 1h13m05s 1h13m48s 2s 27s 17s 1s 43s 13s Ruídos de Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Portal do Exportador Correio Publicidade: Programa Primeiro Emprego – Governo Federal Laerte: Hora Publicidade de Liberdade de Expressão – patrocínio Souza Cruz Vinheta Trânsito – patrocínio Angra Laerte apresenta Alexandra Dias Trânsito: repórter Alexandra Dias Laerte:Hora Publicidade . Mauro César Camargo – trocam bom-dia.Estomazil Vinheta Jornal da CBN – oferecimento Estomozil Laerte: hora Heródoto lê e comenta matéria da Folha de São Paulo sobre pessoas que mudaram de religião – tom de leitura Publicidade: Cavê .construção Publicidade: Instalação elétrica . Heródoto: hora Publicidade: projeto Vale Alfabetizar da Cia. Vale do Rio Doce Vinheta: Notícia Aérea CBN – 142 .Angra Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Unidas Heródoto comenta rebaixamento do Grêmio com repórter Vanessa Vanessa comenta futebol com Heródoto e depois fala do trânsito Trânsito do helicóptero – cidade de São Paulo e tempo Heródoto: hora Heródoto entrevista o presidente da Abigraf. Diz que as gráficas não podem ficar longe do principal mercado consumidor Heródoto: Trânsito pesa como fator logístico? Camargo: Dificuldade de deslocamento implica custos Heródoto encerra entrevista e retoma pontos. Heródoto questiona se o mercado das gráficas continua a ser o da cidade de São Paulo Camargo concorda.

mas governo brasileiro não se preocupa com a questão Repórter comenta cautela de Marco Aurélio e justifica: governo Lula busca aproximação com países do Oriente 1h20m33s 35s 1h23m08s 1h23m19s 1h24m06s 1h24m17s 11s 47s 4s 3s Música e fala Sobe música Mantém música de fundo 1h24m20s 14s 1h24m34s 1h25m02s 1h25m12s 28s 10s 31s 1h25m43s 22s 143 .Garcia acha que fato ajuda Bush. do helicóptero – mudanças no trânsito na cidade de São Paulo por causa de corredor de ônibus Publicidade: Aluguel de carros para empresas . Feng chui.trânsito: primeiro dia de funcionamento do corredor de Pirituba Heródoto: hora Publicidade – Varig Heródoto comenta música do comercial da Varig. dólar se fortaleceu – comenta explosão de bomba em Bagdá e que a instabilidade não terminou Vinheta: CBN – Responsabilidade Social Heródoto: comenta o Projeto Redescobrindo o Adolescente Heródoto: hora Heródoto: apresenta a opinião do assessor do governo. de autoria de Arquimedes Messina Laerte: tempo e temperatura Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta – “Linha aberta com Carlos Alberto Sadenberg” – análise econômica Heródoto – trocam bom-dia – apresentador pede para Sademberg comentar a repercussão da prisão de Saddam Hussein nos mercados financeiros Sademberg – a análise dos mercados é que a instabilidade vai acabar – reação foi muito positiva – bolsas subiram.Unidas Publicidade: bronzeador Cenoura e Bronze Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Estomazil Heródoto: hora Heródoto: morte de rapaz atacado por Skinheads em São Paulo Publicidade: cartucho de impressora Maxprint Heródoto: hora Heródoto: donas-de-casa aplicam na bolsa por meio de previsão da numerologia. Marco Aurélio Garcia.helicóptero e fala 1h14m01s 60s 1h15m01s 1h15m31 s 1h16m01s 1h16m15s 1h16m16s 1h17m15s 1h17m46s 1h17m48s 30s 30s 14s 1s 59s 31s 2s 20s Música e fala 1h18m08s 1h18m35s 1h19m12s 1h19m13s 1h19m43s 27s 37s 1s 30s 7s 1h19m50s 1h20m00s 1h20m05s 1h20m07s 1h20m20s 10s 5s 2s 13s 13s Som – depois música e fala Música oferecimento Top Unidas Repórter Alexandra Dias. e chama repórter Repórter Estevão Danis retoma questão – Prisão deve agilizar o processo de reorganização do país Sonora: Garcia comenta momento para entrega de poder aos iraquianos Repórter – Como fica reeleição de Bush? Sonora . Questiona repórter se o Feng chui ajuda a ver o trânsito no helicóptero Vanessa comenta piada de Heródoto Vanessa . sobre a prisão de Saddam.

oferecimento Bradesco Laerte: data Laerte: Conselho Curador do FGTS discute aplicação de recursos Laerte: promotores investigam suspeitos da morte de Celso Daniel Laerte: governo prepara novo critério para cálculo da aposentadoria dos servidores públicos Laerte: senadora Heloisa Helena diz que não vai se filiar a outro partido Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN. fala do impacto da captura de Saddam na população do Iraque. Fala das dificuldades da população Márcia Freitas: vacina contra vírus Ebola funciona em macacos Márcia Freitas faz o encerramento: “Essas são as notícias da BBC Brasil” Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um Boletim da BBC Brasil” Laerte: Hora Vinheta: “Por dentro das reformas com Lucia Hipólito” Lúcia: Análise política da expulsão dos radicais Hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Sebrae – sucessão familiar Publicidade – Prefeito Empreendedor Laerte: hora Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Unidas Repórter comenta trânsito da marginal Pinheiros Publicidade . mas negocia Alca com os EUA Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN. as principais notícias do dia a cada meia hora Laerte: anuncia em instantes as notícias da BBC Brasil Vinheta: Jornal da CBN Anúncio de patrocínio: Estomazil patrocinou a última hora Laerte: tempo e temperatura Patrocínio da próxima meia hora: Interchange Laerte: hora Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um boletim BBC Brasil” “Direto de Londres – Márcia Freitas”: Saddam se recusa a dar informações – Bush diz que a prisão não significa o fim dos problemas. “direto de Badgá”. Ataque de bombas em Bagdá .apresenta a repórter espanhola Repórter espanhola Antonia Parabela.Interchange Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Interchange Heródoto: comenta reportagem do jornal O Globo sobre novos suspeitos da morte do prefeito Celso Daniel 144 .1h26m05s 1h26m12s 7s 16s Música e fala 1h26m28s 1h26m31s 1h26m49s 1h27m07s 3s 18s 18s 21s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo 1h27m28s 1h27m50s 1h27m59s 1h28m06s 1h28m10s 1h28m15s 1h28m27s 1h28m35s 1h28m46s 1h28m49s 1h28m54s 22s 1s 7s 4s 5s 12s 8s 11s 3s 5s 56s Música de fundo Música de fundo Música e fala Música e fala Som Efeitos sonoros e fala 1h29m50s 38s 1h30m28s 1h30m40s 1h30m45s 1h30m51s 1h30m54s 1h31m07s 1h33m54s 1h33m58s 1h34m00s 1h35m30s 1h36m03s 1h36m07s 1h36m17s 1h36m42s 1h37m11s 1h37m18s 12s 5s 6s 3s 13s 47s 4s 2s 1m30s 33s 4s 10s 35s 31s 7s 1m31s Música de fundo Música e fala Música de fundo Efeitos sonoros e fala Música e fala Ruídos e fala Música e fala Médio. as principais notícias do dia a cada meia hora.

Arafat manifestou a tristeza com a humilhação de um líder árabe. na Capital Paulista Laerte: hora Heródoto comenta “questão de ciência” de Ana Lúcia Azevedo – pesquisas sobre esponjas brasileiras com compostos anticancerígenos Laerte: hora e temperatura na cidade de São Paulo Vinheta: Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta: Política em foco com Franklin Martins Heródoto pede para Franklin Martins comentar a saída dos “radicais” do PT Franklin Martins – comentário político – não acha que vai haver grandes crises dentro do PT Heródoto agradece a Franklin Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN . Moreira Lima afirma que Sharon telefonou a Bush com uma mensagem de congratulações.comunicação Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Interchange Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Top Executive Unidas Repórter no helicóptero comenta trânsito da Rebouças.” Embaixador lembra que Saddam financiava homens-bomba Trocam despedidas – Heródoto fala que entrevista aconteceu ao vivo e retoma ponto principal da conversa. Sérgio Moreira Lima. Heródoto: E a reação dos palestinos? Moreira Lima: “Totalmente diferente. Trocam bom-dia. Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: entrega de encomendas TL Express Publicidade: Programa Luz para Todos. Os israelenses se sentem aliviados. Eletrobrás Laerte: hora Publicidade: Goodyear Publicidade: Golden Cross – Plano de Saúde Laerte: hora e chama Alexandra Dias Trânsito na cidade de São Paulo com Alexandra Dias Laerte: hora Publicidade: Interchange .oferecimento Bradesco 145 . Heródoto pergunta o que diz a imprensa de Israel Moreira Lima diz que a leitura é positiva.1h38m49s 1h38m59s 1h39m01s 1h39m05s 10s 2s 4s 26s Efeito sonoro Música e fala Música de fundo diminui após três segundo 1h39m31s 55s 1h40m26s 1h40m28s 1h42m06s 1h42m14s 2s 22s 8s 31s 1h43m55s 60s 1h44m55s 1h44m57s 1h45m00s 1h45m30s 1h46m01s 1h46m03s 1h46m28s 1h46m55s 1h46m58s 1h47m22s 1h47m24s 1h47m53s 1h48m00s 1h48m12s 1h48m40s 1h48m42s 2s 3s 30s 31s 2s 25s 27s 3s 24s 2s 29s 7s 12s 28s 2s 7s Música e fala Música e fala Ruídos e fala 1h49m49s 1h49m56s 1h50m02s 1h50m03s 1h50m20s 1h50m31s 7s 6s 1s 17s 11s 2m49s Efeito sonoro no final Música e fala Música e fala 1h53m20s 1h53m24s 1h53m26s 4s 2s 21s Música e fala Laerte: tempo e temperatura Hora Vinheta: Jornal da CBN Heródoto entrevista o embaixador do Brasil em Israel. sobre a repercussão da prisão de Saddam entre israelenses e palestinos.

Patrocínio Fiat Laerte: Hora Vinheta . Heródoto corrige erro..” Sonora : deputada Luciana Genro comenta que “um debate está sendo aberto para construir essa alternativa” Heródoto: introduz fala de Heloisa Helena Sonora:deputada Heloísa Helena comenta expulsão Heródoto e o “outro lado”: introduz fala do deputado Genoíno Sonora: deputado Genoíno diz que PT já nem computava os votos dos “radicais” nas votações do Congresso Heródoto: introduz fala do deputado Aloízio Mercadante Sonora: deputado Mercadante diz que a divergência de fundo é de visão de partido Heródoto: apresenta o “outro lado” e a fala da defesa feita por Eduardo Suplicy Sonora : Suplicy diz ter “afinidades” com os expulsos Heródoto complementa fala de Suplicy e comete erro Sonora: deputado Chico Alencar diz que expulsão foi “insensatez”. Laerte: hora Vinheta: Boletim Seu dinheiro com Mauro Helfeld – oferecimento Banco do Brasil Mauro comenta taxas de juros nas prestações dos cartões de crédito Laerte: hora Vinheta: comentário de Arnaldo Jabor Comentário de Jabor que aborda a prisão de Saddam e a corrupção no Brasil Vinheta “O comentário de Arnaldo Jabor” Heródoto: “Daqui a pouco nós voltamos” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – Defesa dos Bingos 146 .Jornal da CBN Heródoto: senadora Heloísa Helena vai tentar reverter a expulsão Sonora: deputado Vavá comenta expulsão Heródoto – Vavá avisou que as críticas vão continuar Sonora: deputado Vavá diz que governo está ao lado dos banqueiros Heródoto: “Rebeldes vão criar partido.vinheta Patrocínio da última meia hora Interchange Laerte: tempo-temperatura Próxima meia hora .1h53m47s 1h53m50s 1h54m04s 1h54m26s 1h54m52s 1h54m53s 1h55m07s 1h55m08s 1h55m12s 1h55m15s 1h55m24s 1h55m30s 1h55m40s 1h55m43s 1h55m48s 1h56m24s 1h56m44s 1h56m48s 1h57m02s 1h57m12s 3s 14s 22s 26s 1s 10s 1s 4s 3s 9s 6s 10s 3s 5s 36s 20s 8s 14s 10s 16s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música e fala Som Música e Fala Música sobe e é reduzida 1h57m28s 1h57m33s 1h57m46s 1h57m53s 5s 13s 6s 20s 1h58m13s 1h58m20s 7s 7s 1h58m35s 1h58m47s 1h59m00s 1h59m08s 1h59m22s 1h59m26 1h59m28s 1h59m48s 2h01m22s 2h01m25s 2h01m39s 2h3m22s 2h3m33s 2h3m35s 2h3m44s 2h3m45s 7s 3s 8s 14s 4s 2s 20s 34s 3s 14s 1m43s 13s 2s 9s 1s 30s Música e fala Música e fala Música e fala Música de fundo Música de fundo Música e fala Laerte: data Laerte: manifestação no Iraque Laerte: Peru irá se incorporar ao Mercosul Laerte: rentabilidade da caderneta de poupança – baixo retorno e saques Laerte: hora Vinheta Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto: “Daqui a pouco nós voltamos” Laerte: hora Jornal da CBN ..

Angra Publicidade – Cartão American Express Chamada para programete Liberdade de Expressão. cita a professora e o tema da entrevista Heródoto: hora Vinheta Jornal da CBN . A alternativa mais adequada seria levar para o Tribunal Penal Internacional. mas os EUA não fazem parte desse fórum” Heródoto pergunta qual seria a acusação Maria Estela diz que terão que enquadrálo em algum crime para julgá-lo. com oferecimento Souza Cruz Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta: Dia-a-dia da Economia. música e fala Música e fala Publicidade – Programa Primeiro Emprego do Governo Federal Publicidade: Ourocard do Banco do Brasil Laerte: hora Vinheta Trânsito – patrocínio Angra Alexandra Dias – trânsito e temperatura na cidade de São Paulo Laerte: hora Publicidade: celular Tim Publicidade: aluguel de carros Unidas Heródoto: hora . Heródoto questiona que crime ele teria cometido nos EUA Maria Estela diz que ele não poderia ser julgado por crimes contra os EUA. pode-se esperar tudo Heródoto questiona se o julgamento de Saddam nos EUA seria mais uma manifestação de unilateralismo Maria Estela concorda. com Mirian Leitão 147 .chama Vanessa di Sevo Vanessa comenta trânsito Heródoto: hora Vinheta Jornal da CBN -patrocínio concessionárias Fiat Publicidade: pneus Goodyear Heródoto: hora Heródoto fala da prisão de Saddam. Questiona o que os americanos vão fazer com Saddam Maria Estela: “Os americanos não sabem.oferecimento Fiat Publicidade celular Nokia-Claro Heródoto pergunta para Vanessa se. E diz que o julgamento no Iraque também seria um problema Heródoto agradece. “O crime é contra a humanidade” Heródoto: “Isso afasta a hipótese dos EUA levarem Saddam para os Estados Unidos para julgá-lo lá?” Maria Estela acha que. comenta notícia da CNN e entrevista a professora de direito internacional da USP Maria Estela Basso – trocam bom-dia.2h4m15s 2h4m59s 2h5m29s 2h5m32s 2h5m42s 2h6m08s 2h6m11s 2h6m54s 2h7m25s 2h7m27s 2h7m54s 2h7m56s 2h8m04s 2h8m30s 2h8m31s 44s 30s 3s 10s 26s 3s 43s 31s 2s 27s 2s 8s 26s 1s 30s Ruídos e música Música e fala 2h9m01s 3m17s 2h12m18 2h12m32s 2h13m03s 2h13m09s 14s 31s 6s 33s 2h13m42s 15s 2h13m57s 2h14m42s 45s 4s 2h14m46s 1m32s 2h16m18s 2h16m29s 2h16m34s 2h16m40s 2h17m10s 21s 5s 6s 30s 5s Música e fala 2h17m15s 2h17m51s 2h18m19s 2h18m49s 2h19m15s 2h19m20s 2h19m22s 36 28s 30s 26 5s 2s 13s Música e fala Som. de Bush. já que não há provas. o trânsito piora ou melhora Trânsito – Vanessa comenta o trânsito na cidade de São Paulo Publicidade – material elétrico . em função da aproximação do Natal.

Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um boletim da BBC Brasil” Laerte: hora Vinheta: Comunidade – com Gilberto Dimenstein 148 .Lula diz que vai viajar à Índia e à China Reforma Universitária – governo propõe novos mecanismos de sustentação das universidades Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais noticias do dia a cada meia hora Laerte: “Voltamos em instantes com as notícias internacionais” Vinheta Jornal da CBN Patrocínio da última meia hora .Fiat Laerte: tempo – rodízio de veículos na cidade de São Paulo Laerte: hora Vinheta: Dois minutos pelo mundo – Boletim da BBC Brasil Márcia Freitas – “direto de Londres” Reunião do Mercosul em Montevidéu Repórter Denise Bacotina fala de Montevidéu: acordos de integração do Mercosul Márcia Freitas: três mortos em tiroteio em repúblicas russas Márcia Freitas: líderes de diversos países mostram satisfação com a prisão de Saddam Márcia Freitas: EUA dizem que Saddam não tem cooperado com novas informações Marcia Freitas: “Essas são as notícias da BBC Brasil”. não econômica Heródoto e Mirian se despedem Vinheta: Ética nos negócios – oferecimento Ético Heródoto: jovens alemães são investigados por gastos excessivos na Internet Publicidade: contra a pirataria – Instituto Ético Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: data Laerte . para finalizar. A esperança é que o país gaste menos com a guerra e possa combater o déficit público Heródoto pergunta se despesas dos EUA não incentivam a economia Mirian Leitão diz que bancos prevêem aumento da taxa de juros. Comenta o déficit fiscal dos EUA. Mas é um grande momento para George Bush.2h19m35s 9s 2h19m44s 2m50s 2h22m34s 2h22m40s 6s 2m16s 2h24m56s 2h24m58s 2h25m11s 2s 13s 30s Música e fala 2h25m41s 2h26m11s 2h26m14s 30s 3s 19s Música e fala 2h26m33s 2h26m38s 2h26h53s 5s 15s 35s Música de fundo Música de fundo Música de fundo 2h27m28s 2h27m29s 2h27m43s 2h27m48s 2h27m50s 2h27m58s 2h28m18s 2h28m20s 2h28m31s 2h28m50s 1s 14s 5s 2s 8s 20s 2s 11s 19s 29s Música de fundo Música e fala Música e fala Efeito sonoro 2h29m19s 2h29m36s 17s 21s 2h29m57s 18s 2h30m14s 2h30m16s 2h30m22s 2h30m27s 2s 6s 5s 8s Música Música e fala Música e fala Heródoto pergunta que tipo de conseqüência traz para a economia a prisão de Saddam Mirian Leitão: diz que acha cedo para comemorar. Retoma questão. de que a prisão de Saddam é uma vitória política.

e recolhimento de contribuição de ex-alunos Heródoto: escolas poderiam aceitar doações? Gilberto: o problema é fazer uma lei de doação. “Daqui a pouco.Vinheta: Informe CNT – Confederação Nacional dos Transportes Publicidade – Primeiro Emprego – Gov. Mas que o governo pode obter confissões de Saddam por tortura ou produtos químicos. E que. música e fala Música e fala 2h39m31s 23s 2h39m54s 2h40m00s 2h40m06s 6s 6s 2m58s 2h43m04s 2h43m08s 4s 59s 2h44m07s 2h44m09s 2h44m28s 2h44m30s 2h44m36s 2h45m08s 2h45m52s 2s 19s 2s 6s 32s 44s 3s Música sobe e desce Música e fala 149 . Chama Vanessa di Sevo Vanessa e o trânsito na cidade de São Paulo Laerte: hora Publicidade: Projeto Vale Alfabetizar Heródoto: resultado da caderneta de poupança – forte movimento de saques Laerte: tempo . assim.despedida. Passa trecho da fala de Paul Bremen falando da captura de Saddam Sonora de Paul Bremen Heródoto pergunta se não lembra espetáculo de Hollywood Cony: Concorda. Lembra que o réu é sagrado. Liberdade de Expressão” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Informe Publicitário . Cita o exemplo dos ex-alunos dos EUA que doam muito dinheiro Heródoto. Federal Laerte: hora Som.2h30m35s 2h30m40s 5s 4s 2h32m36s 2h32m50s 14s 1m14s 2h34m04s 2h34m11s 2h34m13s 2h34m20s 7s 2s 7s 45s Música e fala 2h35m05s 2h35m50s 2h35m53s 2h36m24s 2h36m28s 2h36m52s 2h36m54s 2h37m36s 2h38m58s 2h39m07s 2h39m15s 2h39m16s 45s 3s 31s 4s 24s 2s 42s 22s 51s 8s 1s 17s Ruído de helicóptero Heródoto: falência da Universidade pública Gilberto: medidas para arrumar dinheiro para as universidades públicas. jamais pelos EUA Heródoto e Cony se despedem Vinheta: Liberdade de Expressão – oferecimento Souza Cruz Heródoto: “Daqui a pouco voltamos com mais notícias da prisão de Saddam” Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: defesa dos bingos Publicidade: Primeiro emprego – Gov. Federal Laerte: hora Publicidade: Ourocap – Banco do Brasil Laerte: hora. como uma Lei Roanet para o setor. pode-se obter confissões de Saddam que justifiquem políticas do governo Bush Heródoto pergunta onde Saddam pode ser julgado Cony justifica que só pode ser em um tribunal internacional ou por iraquianos.temperatura Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta Liberdade de Expressão – debate entre Artur Xexéu e Carlos Heitor Cony sobre assuntos do momento – oferecimento Souza Cruz Heródoto conversa com Cony – Xexéu está em férias.

trânsito Vanessa: comenta o trânsito na região do Morumbi Laerte: hora Publicidade: aluguel de veículos para empresas . Comenta repercussão no partido democrata. Âncora lembra que repórter “falava diretamente de Nova York”. “Você acompanha agora as notícias da cidade” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN 150 . à Índia e à China Laerte: hora Vinheta: Rádio CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto.2h45m55 2h45m58s 2h46m20s 2h46m27s 3s 22s 7s 52s 2h47m19s 2h47m20s 2h47m50s 2h48m19s 2h48m20s 2h48m38s 2h48m40s 2h49m10s 2h49m12s 2h49m40s 2h49m48s 2h49m50s 2h50m00s 1s 30s 29s 1s 18s 2s 30s 2s 28s 8s 2s 10s 1m51s Ruído de helicóptero som Música e fala Música de fundo 2h51m51s 7s 2h51m58s 1m56s 2h52m54s 2h53m01s 2h53m03s 2s 20s Música e fala 2h53m23s 2h53m25s 2s 11s Música de fundo Música de fundo 2h53m36s 21s Música de fundo 2h53m57s 20s Música de fundo 2h54m17s 2h54m26 2h54m43s 2h54m53s 2h54m57s 2h55m00s 2h55m01s 9s 17s 10s 4s 3s 3s 1s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música de fundo Música de fundo Música e fala Laerte chama repórter Vanessa Vanessa: trânsito do helicóptero Laerte: hora Heródoto comenta resultado do futebol e faz brincadeiras com o outro apresentador. Milton Jung Laerte: hora Publicidade: automóveis Sabrico Publicidade: American Airlines Laerte chama Vanessa di Sevo . que sempre foi crítico da invasão do Iraque e está até elogiando Bush Heródoto – Despedem-se.Unidas Laerte: hora – chama Alexandra Dias na redação Trânsito com Alexandra Dias Laerte: hora Vinheta Jornal da CBN Heródoto – chama o correspondente em Nova York Expedito Filho Expedito: Repercussão da prisão de Saddam nos Estados Unidos – cita jornais que frisam bastante frase de comandante americano de que Saddam foi “preso como um rato” Heródoto diz que os jornais americanos não devem falar de outra coisa e que a cobertura deve estar intensa Expedito fala do renascimento de um certo nacionalismo. Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: data Laerte: termina prazo para a AES – controladora da Eletropaulo – e o BNDES fecharem acordo sobre dívida da companhia americana Laerte: Ministério Público pede abertura de inquérito contra sete deputados de Roraima Laerte: Principal avenida de acesso ao Vaticano terá interrupção na madrugada em função de risco de atentado a alvos cristãos Laerte: atentado suicida na Zona Norte de Badgá Laerte: Lula diz que fará novas viagens internacionais.

Acha melhor aguardar desdobramentos Heródoto questiona que é a primeira vez que isso acontece com o PT no poder Roselfeld: “O ponto é o programa de governo não corresponder ao programa partidário” Heródoto pergunta se essa é a causa da 151 . e tempo Laerte: Hora Vinheta Jornal da CBN Vinheta Minuto Meio e Mensagem – bastidores das empresas de publicidade Regina Augusto. que “está aqui na ponta da linha”. Publicidade: compuware Vinheta: estradas – oferecimento Via Fácil Laerte chama Telma Costa Telma Costa – informação sobre trânsito da Dutra e Bandeirantes Laerte:hora Publicidade: Chester Perdigão Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Chester Perdigão Hora Heródoto lê e comenta notícia do Financial Times sobre prisão de Saddam e imagens Laerte: Hora – chama Alexandra Dias Alexandra Dias comenta informações de taxistas sobre trânsito e acidente Laerte: Hora Publicidade: Celular pré-pago Tim Publicidade: defesa dos transgênicos Monsanto Laerte: Hora. da Redação do Meio&Mensagem: Carta da Avap ao governo pedindo a regionalização das verbas de publicidades governamentais Heródoto – hora. Pergunta se ele se surpreendeu com o fato de 27 membros do diretório do PT terem se colocado contra a expulsão Roselfeld – Diz que não se surpreendeu porque parte do PT é mais à esquerda.2h55m05 2h55m14s 2h55m25s 4s 13s 11s Música e fala 2h55m40s 2h56m46s 2h56m48s 2h57m20s 6s 2s 28s 2m40s 3h00m00s 3h00m27s 3h00m38s 3h00m39s 3h01m08s 3h01m09s 3h01m38s 3h01m49s 3h01m50s 27s 11s 1s 29 1s 29s 9s 1s 23s 3h04m13s 3h04m14s 3h04m54s 3h04m56s 3h05m33s 3h06m03s 3h06m17s 3h6m18s 3h06m22s 3h06m34s 1s 40s 2s 37s 30s 14s 1s 4s 12s 1m28s Efeito sonoro Música e voz 3h08m02s 33s 3h08m35s 1m27s 3h10m02s 3h10m23s 3h11m30s 3h11m42s 21s 57s 12s 6s 3h11m48s 8s Próxima meia hora oferecimento de Chester Perdigão Laerte: tempo e temperatura na Capital Vinheta: Mais São Paulo com Gilberto Dimenstein – oferecimento Porto Seguro Seguros e Cauê Dimenstein: concurso para criar bairro na Água Branca Laerte: hora Publicidade – Cartucho de impressora Max Print Heródoto – comenta a escolha cuidadosa das imagens de Saddam e da reação de Donald Rumsfeld de que o ditador poderá ter um julgamento no próprio Iraque. Fala da expulsão dos parlamentares do PT – Entrevista o professor de filosofia política da FRGS Denis Roselfeld. A pena de morte pode ser reintroduzida no país. PT vive “esquizofrenia galopante” Heródoto questiona se a expulsão é um divisor de águas no PT Roselfeld acha que não.

Expedito Filho. retoma assunto da entrevista e anuncia os “destaques da manhã” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – Chester Perdigão Vinheta Jornal da CBN – oferecimento Chester Perdigão Laerte: hora (Tempo de música) Heródoto: Forças Armadas americanas capturam Saddam. que disse “agora há pouco” que a prisão de Saddam rendeu elogios a Bush até do partido democrata Fala do correspondente de Nova York sobre o apoio dos democratas Heródoto: hora e retoma trecho de entrevista da professora de direito internacional Maristela Bassos sobre as perspectivas do julgamento de Saddam 152 . Maria Aparecida de Aquino Sonora: Maria Aparecida de Aquino comenta a prisão de Saddam Heródoto: retoma entrevista do professor de Relações Internacionais da UFRJ.3h11m56s 3h12m40s 3h12m42s 44s 2s 46s 3h13m28s 17s 3h13m45s 3h13m47s 3h13m52s 3h14m21s 3h14m32s 3h14m33s 3h14m45s 2s 5s 29s 9s 1s 12s 29s Sob música Continua música Música Música 3h15m14s 3h15m22s 18s 20s Música 3h15m42s 6s 3h15m48s 9s Música 3h15m57s 3h16m30s 33s 26s Música 3h16m56s 3h17m23s 27s 3s Música 3h18m26s 30s 3h18m56s 3h19m00s 3h19m08s 3h19m15s 3h19m45s 4s 8s 7s 30s 14s Som Música e fala Música Música 3h19m59s 3h20m18s 19s 16s Música divergência que culminou com a expulsão Roselfeld acha que os dois grupos têm razão Heródoto: (brincando) “Vale quem tem mais força. lembra a repercussão do assunto na popularidade do presidente e a proximidade das eleições nos EUA Sonora: Bush fala que a prisão de Saddam não significa o fim da violência no Iraque Heródoto: retoma a opinião de Marco Aurélio Garcia. Retoma fala da professora da USP.. Ele lembra que Bin Laden continua solto e a guerra deve prosseguir. Sonora: Alves Pereira diz que a prisão de Saddam pouco representa na luta contra o terrorismo Laerte: hora Laerte: vinheta Jornal da CBN Heródoto fala do governo Lula e dos novos mercados de exportação Lula fala sobre sua decisão de ter mais ousadia nas exportações Heródoto: hora – retoma análise do correspondente de Nova York.” Roselfeld (rindo) concorda e explica que o partido tem um projeto de poder que não compactua com alas radicais Heródoto despede-se. Antonio Celso Alves Pereira. Apresenta fala de Bush sobre o assunto e considera que a prisão é um “presente de Natal” Sonora: Bush fala da captura de Saddam Heródoto: retoma fala de Bush. assessor da presidência da República Sonora: Marco Aurélio .Prisão facilita a organização política do Iraque Heródoto: Prisão é considerada pelos analistas uma grande vitória de Bush..

paquistaneses querem fim da ocupação dos EUA como saída para a paz Heródoto: hora – retoma fala do embaixador do Brasil em Israel. Abelardo Arantes. que fala em “alívio” Sonora: Lima diz que Israel sofreu com os mísseis de Saddam Heródoto: diz que a prisão do ditador foi “anunciada com polpa e circunstância pelo administrador do Iraque. que acha que Saddam deve ser julgado com base em leis internacionais Sonora: Edueta fala de Saddam e da necessidade de um julgamento exemplar Heródoto: hora . we got him” Letra refrão da música: “Sou invencível/ somos amigos/unidos venceremos a semente do mal/Eu tenho a força/ sou invencível” Heródoto finaliza o programa apresentando equipe técnica e Laerte Laerte: “Apresentação Heródoto Barbeiro” Vinheta: Jornal da CBN – as notícias que podem mudar o seu dia 153 . Sérgio Moreira Lima. Carlos Edueta. e a “grande repercussão” da prisão de Saddam naquele país Sonora: Abelardo .retoma comentário do embaixador brasileiro no Paquistão. Paul Bremen” Sonora: Paul Bremen: “Ladys and gentlemen.3h20m34s 28s 3h21m02s 13s Música 3h21m15s 3h21m52s 37s 13s Música 3h22m05s 9s 3h22m14s 9s 3h22m23s 3h22m59s 26s 13s Música 3h23m12s 3h23m19m 7s 27s Música infantil 3h23m46 3h24m02s 3h24m07s – 16s 5s 27s Música da CBN Música e fala Sonora da professora: “Pode-se esperar de tudo de Bush na hora do julgamento de Saddam” Heródoto: retoma trecho de entrevista com o ex-presidente da Anistia Internacional.

entretanto. o mais antigo. Ele afirma que “boa parte das pesquisas ainda é pouco científica. A complexidade dos procedimentos e efeitos de montagem é discutida a partir do detalhamento da estrutura da notícia da prisão de Saddam Hussein.O TELEJORNALISMO Nosso estudo sobre o jornalismo de televisão tem como objeto o Jornal Nacional. famoso e criticado noticiário brasileiro. há décadas. Inicialmente. apresentamos a estrutura geral do programa.tv/ab_uniodeiatv. Questões sobre a temporalidade e o uso ideológico da montagem e dos planos de câmera concluem esta parte do trabalho. como antimodelo constantemente desafiado por profissionais de outras redes.html . O formato do JN merece atenção porque. Trata-se de um tema bastante estudado e comentado. se impõe como modelo de telejornalismo de sucesso a ser copiado e. preconceituosa e ingenuamente ideológica”. 91 154 . que incluem o manejo dos planos de câmera e da montagem (ou edição). A reportagem também permitiu uma série de outras reflexões sobre o funcionamento das estratégias utilizadas pelo JN para obter e manter a atenção do público-alvo. A leitura de textos de acadêmicos e de profissionais sobre o assunto. ao mesmo tempo. texto disponível no site videotexto.último acesso em março de 2005. Antonio Brasil. Semiotizamos depois os recursos de textualização mais importantes. a relação entre o JN e o público-alvo é examinada por meio de uma reflexão sobre o poder da marca e a organização de “vozes” autorizadas a enunciar.tv: http://www.videotexto. faz com que seja difícil discordar do professor de telejornalismo da UERJ. Considerações gerais sobre o telejornalismo e o Jornal Nacional O telejornalismo – em especial o produzido pela Rede Globo – ilustra muito bem diversas considerações feitas na parte inicial do trabalho.91 “As universidades odeiam a televisão”. Em seguida.

afastada do sistema significante do telejornal. A questão da verdade está. por outro lado. ciência. mas com a enunciação de cada porta-voz sobre os eventos” (2000:111). Pierre Bourdieu. tudo desaparece instantaneamente. Nenhuma notícia sobrevive. ela expõe a um perigo não menor a vida política e a democracia” (1997:9 e 10). filosofia. fala de um incidente em uma ilha grega que gerou mobilização da TV do país e quase terminou em uma guerra contra a Turquia. nenhum relato é suficientemente trabalhado para criar raiz. acabam se anulando.) expõe a um grande perigo as diferentes esferas da produção cultural.. a televisão é uma opção no sábado à noite. por sua vez. sem dúvida com toda a boa-fé. o telejornal coloca em choque os diferentes enunciados e os relativiza ou os anula no mesmo momento em que lhes dá publicidade. acredita que o poder da televisão e seus produtos é ameaçador: “Penso que a televisão (. por exemplo. não é com a verdade que ele trabalha. Há dois públicos no Brasil. Para diversos teóricos e trabalhadores da comunicação. Arlindo Machado afirma que o telejornalismo não tem ponto de vista. assevera que tudo o que o telejornalismo produz é rápido demais. Essa característica. a “superficialidade” do telejornalismo em relação aos outros tipos de noticiários tem uma justificativa. O apresentador Sérgio Groisman explica: “Há uma questão delicada. e não com uma audiência mais restrita que exige um aprofundamento dos fatos” – afirma Schwartz (1985: 78). “Ao embaralhar no fluxo televisual os materiais originários de fontes diversas. “As redes de transmissão organizam os noticiários de forma tal a garantir um maior público porque seu interesse principal é a grande audiência. direito: creio mesmo que. os jornalistas mais conscientes de suas responsabilidades. portanto.. Note-se que as três afirmações. Quando a CNN lança ao ar sucessivamente um material publicitário do Pentágono e outro da TV do Iraque. Ciro Marcondes Filho. tudo evapora. tudo é esquecido. Entre seus exemplos. que se satisfaz com apenas leves pinceladas sobre o título da notícia. que serve para algumas pessoas fazerem porcaria na TV: para nós da classe média. mas para a maioria das pessoas é o único lazer. emocional e superficial: “Tudo vai direto para o lixo. a rigor. a única ‘leitura’ possível para o espectador é a de que se trata de diferentes ‘versões’ da guerra. seria uma coerção de qualquer programa de TV no País.. (. juntas.. ao contrário do que pensam e dizem.A TV e o telejornalismo em especial podem dar margem a opiniões díspares. marcado por profundas diferenças entre classes sociais. pois. literatura. O fluxo telejornalístico inteiro não passa de outra coisa que uma sucessão de ‘versões’ do mesmo acontecimento. arte. Para quem não tem outra opção. ou tentamos fazer a cabeça com Caetano e Chico César ou damos 155 .) Uma máquina incessante de fazer o nada” (2000:89).

dos seres humanos e de seus conflitos por esse veículo de comunicação. capítulo 1 – O cinema: das origens às teorias da linguagem cinematográfica. O necessário debate entre todos os que assistem ou fazem televisão sobre formas de superação dos atuais modelos surge como uma grande perda de tempo. Se todas essas afirmações sobre a televisão e o telejornalismo estiverem corretas. o que é pior. por exemplo. Suplemento Folha de São Paulo.para prender a atenção. “A TV é muito superficial”. de qualquer modo. a dicotomia verbal x visual aparece com força. Há quem tente convencer de que essa forma de discurso é comandada exclusivamente pelo “poder da imagem”. é a existência de um laço tênue entre público e noticiários de TV em comparação com os outros jornais. da audiência. ou mesmo tivesse pretensões estéticas. Percebe-se. 2004. Para Marcondes Filho. FFLCH-USP. mas não posso impor a transformação. um julgamento negativo pesando na análise sobre a TV. tirando o peso das análises mais críticas e ideológicas. Esse último assunto. Quem quisesse ser mais “analítico” ou “sério”. Quero que as pessoas se transformem. pág. O aspecto de “show”. 14. a transformação da vida de artistas em notícia. estamos diante de uma série de coerções de conteúdo e de expressão que.TV Folha. que confunde modos de apresentação de conteúdos e certas escolhas do que divulgar com a própria maneira de “ser” do veículo. 93 São reproduzidas no estudo do telejornalismo certas discussões sobre o cinema. O que parece ser indiscutível. “A manifestação de Cronos em 35 mm – o tempo no cinema”. sob um olhar semiótico. As estratégias de gerenciamento de atenção do telejornalismo devem ser muito sofisticadas e de efeito imediato. É perceptível ainda que questões de textualização 92 Entrevista de Sérgio Groisman a Fernanda Dannemann. extraem dos fatos toda a sua explosividade e os transformam em variedade e diversão” (1989: 52).93 Outros buscam mostrar a primazia do “poder da palavra”. o uso crescente de recursos visuais possibilitados pelas novas tecnologias de manipulação digital. Uma é particularmente funesta. Cada vez que tentasse ser “profundo”.prazer com KLB e umas bundas. 10/02/02. podem ser entendidos como armas possíveis – e sempre discutíveis . Nos estudos sobre o telejornalismo que encontramos. deveria utilizar outras mídias. aparece bem sintetizado no trabalho de Odair José Moreira da Silva. como “shows da vida”. reduziriam drasticamente as possibilidades de abordagem noticiosa do mundo. por sua vez. a idéia de espetáculo se liga mais fortemente à TV do que a qualquer outro veículo: “Telejornais. portanto. comuns notadamente até a metade do século passado.”92 Outra idéia muito ligada à televisão e ao telejornalismo é a da “espetacularização”. Esse estigma tem sérias conseqüências. teria como conseqüência a perda da atenção e. dissertação de mestrado. 156 . É um dilema. e não como “características” inerentes – e imutáveis – do telejornalismo.

O mais interessante é que a obra expõe enormes contradições entre os direta ou indiretamente envolvidos. assim reconhecida pela própria direção da Globo . dias antes da eleição. Tinha em média 31 milhões de espectadores e 68% dos televisores sintonizados no País. Isso que dizer que os adornianos atacam a televisão pelas mesmas razões que os mcluhanianos a defendem: por sua estrutura tecnológica e mercadológica ou por seu modelo abstrato genérico.do último debate entre os candidatos à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello. Em 1989. falta ao estudo do noticiário de TV uma visão não só mais abrangente como também mais distanciada. possivelmente a única. Trata-se de “Jornal Nacional – a notícia faz história” (2004). Era um dos telejornais mais vistos no mundo. vamos denominá-las o modelo de Adorno e o modelo de McLuhan” (2000: 17). Há exemplos marcantes dessa força. a televisão é por natureza ‘má’. 2000:143. o vicepresidente das Organizações Globo.97 Para Arlindo Machado. por exemplo. coincidindo ambos na defesa do postulado básico de que a televisão não é lugar para produtos ‘sérios’. João Roberto Marinho. sempre foi a principal referência informativa para a maioria dos brasileiros. mesmo se só existisse porcaria em suas telas. Esquematicamente. uma das fontes de consulta desta parte da tese. Rezende. em obras do tipo “manual”. podemos distinguir duas maneiras principais de tratar a televisão. uma das razões para tanta passionalidade – inclusive acadêmica – é o sucesso e o poder de mobilização e de desmobilização do telejornalismo e.94 No Brasil. em meados de 2004 o principal noticiário da Rede Globo completava 35 anos como campeão de audiência no gênero no Brasil. apareçam mais. 95 O livro dedica ainda muitas páginas para descrever e analisar o assunto. de João Gabriel de Lima.. aliás. inclusive com depoimentos de todos profissionais envolvidos. 96 Fonte: revista Veja 1869.bastante evidentes. enquanto para o grupo mcluhaniano a televisão é por natureza ‘boa’. 97 Esse ponto de vista é partilhado por diversos teóricos. que mereçam ser considerados em sua singularidade” (idem:19). Em 1984. o telejornalismo sofre preconceito por ser parte da programação da televisão. do Jornal Nacional. O trabalho dos cinegrafistas.95 Mesmo com esses deslizes.. “A guerra atrás das câmeras”. 94 157 .96 Nesse tempo. mesmo que todos os trabalhos mostrados em suas telas fossem da melhor qualidade. No livro de comemoração dos 35 anos do JN.) “Para o grupo adorniano. notadamente. Ver. o JN foi acusado de esconder manifestações pela eleição direta para presidente da República. e o grande número de analfabetos. que se traduz em impossibilidade de consumo de outros tipos de jornais. O candidato do Partido dos Trabalhadores foi prejudicado. (. admite que “a edição do debate provocou um inequívoco dano à imagem da TV Globo” (2004: 213). 1° de setembro de 2004. Em resumo. a mais criticada mídia: “Numa rápida retrospectiva histórica. e sem maiores aprofundamentos. As razões são simples: pobreza. apresentou uma edição tendenciosa – ação. como construtores do discurso do telejornalismo é esquecido até no livro que comemora e conta os 35 anos do mais importante telejornal do Brasil. como as possibilidades de manejo sensorial proporcionadas pelos planos de câmera e pela edição.

Arlindo Machado explica o que são essas unidades: “Tecnicamente falando. passou por raríssimas alterações bruscas. O público. para se manter atento. tanto tradicionais (caso das charges 158 . A estratégia de fidelização. colocar uma bancada em primeiro plano. Era aprofundar o cenário. era absolutamente ‘chapado’.” No caso do JN. precisa de mais e mais estímulo. mapas. um telejornal é composto de uma mistura de distintas fontes de imagem e som: gravações em fita. que desse a idéia de que nós tínhamos um jornalismo agora com mais peso. houve a tentativa de conquistar mais credibilidade para a notícia. material de arquivo. nós chegamos à conclusão de que uma das maneiras de mostrar que estávamos fazendo um novo jornalismo era criar um cenário em três dimensões. tanto na forma como no conteúdo. o noticiário de TV tem como característica principal a textualização manifestada por meio da organização de unidades no fluxo temporal. gráficos. O diretor da Central Globo de Jornalismo da época. mas de conteúdo. Os novos apresentadores são jornalistas que participam ativamente da edição. Houve. além de locução. Os efeitos cênicos. Na história do JN. mais predominante. com mais densidade” (idem: 188). é quase uma coerção para que o principal noticiário da Globo mude muito pouco ano após ano. e fazer uma concepção cenográfica. uma modificação que criou uma nova etapa para JN. Em 1989. Trata-se da substituição de Cid Moreira e Sergio Chapelin por William Bonner e Liliam Witte Fibe. As mudanças posteriores de cenário só intensificaram essa proposta de criar movimento. foram passando do cinza para o azul. através de iluminação e de criptogramas. explicou a mudança como decorrência da abertura política: “Nós passamos a vida inteira debaixo de um regime de exceção. no entanto. fotografia. Por trás da mudança. fazendo um telejornalismo que.O Jornal Nacional. O noticiário que analisaremos em detalhes a seguir está dentro dessa “nova fase”. 2004: 287). os cenários também são importantes indicadores de mudanças não apenas cosméticas. Nós tínhamos sempre uma tapadeira atrás dos apresentadores. filmes. que acabamos de analisar no item anterior. em 1996 (Memória Globo. e o vermelho. textos. E quando veio a abertura. dinamismo. música e ruídos (2000: 104). aos poucos. podemos ainda incluir animações. Armando Nogueira. de criação de um hábito. A estrutura do programa Assim como o radiojornalismo. memória e segurança que o formato gera. Existe uma grande consciência da importância do sentido de familiaridade. em sua longa existência. o jornal surgiu com um novo cenário. Os apresentadores de bela voz deram lugar aos âncoras.

de utilidade para o telespectador em eventuais tomadas de decisão. locais pobres em imagens para a televisão. Indicador – “(. estudaremos a estrutura mais geral e o contexto semiótico do programa.. No trabalho de descrição. Esses indicadores podem ter um caráter permanente. depois que grande parte dos telespectadores realizou as principais tarefas do dia. de uma visão pessoal. Reportagem – “É a forma mais complexa e mais completa de apresentação da notícia na televisão. adotamos a metalinguagem dos profissionais para nomear os diferentes tipos de segmentos jornalísticos. Antes de analisar a organização textual em detalhes.. Crônica – “No limite entre a informação jornalística e a produção literária. Boletim (stand-up) – “É a notícia de televisão completa. se houver sonora. imagens.) faz uma análise. caso das previsões meteorológicas.): 1 – cabeça – texto que corresponde ao lead em jornal impresso e que é lido pelo apresentador em quadro.) Indicam tendências ou resultados de natureza diversa.)” (ibidem: 60 e 61). 2.off – a narração do apresentador ou do repórter feita enquanto as imagens da notícia são exibidas na tela do televisor” (Maciel. a câmera pode fazer um passeio para mostrar o que o repórter está narrando ou abrir em um entrevistado. Nota coberta – “É a forma mais simples de apresentação de notícias com imagens na televisão. a crônica é um gênero opinativo que.. presença do apresentador.sonoras.) onde a maior parte das notícias se desenvolve em gabinetes. números do mercado financeiro e informações de condições de trânsito. Tem texto. Durante toda a narrativa. uma interpretação de fatos do cotidiano” (ibidem). Esse tipo de apresentação de notícias costuma ser muito usado pelos jornalistas que trabalham em Brasília (. vai além da simples avaliação jornalística do real. Ele é lido em quadro pelo apresentador e tem a função de fechar a matéria. Durante o boletim.98 A escalada – a apresentação das manchetes .) O pé é um texto curto. no começo da noite. que está sendo transmitida para o telespectador. O Jornal Nacional vai ao ar entre duas novelas.. 2 – off. fornecendo ao telespectador uma informação complementar (. que expressa a opinião da emissora sobre uma determinada questão” (idem). a exemplo dos resultados de pesquisas eleitorais” (Rezende. Comentário – “Matéria jornalística em que um jornalista especializado em um determinado assunto (economia. 1995: 52). esporte. o repórter fica em quadro... 3 – boletim.cabeça.. a reportagem incorpora todas as outras formas de apresentação da notícia em suas cinco partes básicas: 1. Não tem imagens. O segundo aborda a prisão de Saddam. O repórter que vai apresentar o boletim costuma ser chamado do estúdio pelo apresentador do telejornal” (idem: 56). ou temporário. Nota ao vivo. apesar do tempo de duração ser quase constante. o 98 159 .. Tudo isso é determinante para a estruturação do programa e das principais estratégias de gerenciamento de atenção do público-alvo. 158). (. Ambos servem para mostrar como a estrutura interna é flexível. nota simples ou nota pelada: apresentador lê a notícia. utilizado para encerramento da reportagem. Normalmente. O primeiro tem como uma das principais matérias uma invasão de sem-terras. apresentada e sustentada pelo repórter... Mediante um estilo mais livre. 4. política nacional etc. o que lhes dá o sentido de um jornalismo de serviço. do repórter e de entrevistados. Em geral mais longa. Editorial – “Texto lido geralmente pelo apresentador. 2000.televisivas de Chico Caruso) como as realizadas em programas que simulam terceira dimensão (3D). Reportagem especial – série de reportagens com o mesmo tema que se desenvolve em várias edições.resume todo o conteúdo mais importante e a própria estrutura do programa. é formada por duas partes (. 5 – pé. Mostraremos a seguir a estrutura de dois programas em dias diferentes. mesmo que remeta a um acontecimento da realidade.

TABELA 2 JORNAL NACIONAL – Edição de terça-feira, 29 de julho de 2003
1° bloco Tipo de segmento Escalada Tempo inicial 1s Duração 50s

Manchetes da escalada Fátima Bernardes: Vandalismo e violência – integrantes do MST invadem e destroem uma fazenda em Minas. Willian Bonner: Em São Paulo, colegas homenageiam o fotógrafo assassinado em frente do acampamento dos Sem-teto. Fátima Bernardes: Um crime até agora sem solução. Willian Bonner: Governo manda cortar o ponto de grevistas. Fátima Bernardes: Parlamentares governistas negociam com o judiciário mudanças na Reforma da Previdência. Willian Bonner: Mas ministros dizem que não querem modificação nenhuma. Fátima Bernardes: O ex-guarda-costas de Saddam Hussein é preso no Iraque. Willian Bonner: E em mais uma gravação atribuída a ele, o ex-ditador chama os filhos mortos de mártires. Fátima Bernardes: Presa uma quadrilha internacional de tráfico de crianças. Willian Bonner: O artilheiro do Santos é vendido para o futebol espanhol. Fátima Bernardes: Suspeita de doping pode tirar Maurren Maggi do Panamericano. Willian Bonner: E na série sobre fertilização, como a ciência está ajudando a maioria dos casais que não consegue ter filhos Fátima Bernardes: O Jornal Nacional está começando. Vinheta do JN 51s 2s 1 – Busca de remédios gratuitos em Reportagem 53s 2m postos de saúde por usuários de planos privados 2- Reajuste de remédios Reportagem 2m53s 2m17s 3 – Juros mais baixos Reportagem 5m10s 1m46s 4 – Tempo e temperatura Indicador 6m56s 28s 5 – Cheias no Paquistão Nota coberta 7m24s 19s 6 – Incêndio mata turistas na França Nota coberta 7m43s 20s 7 – Explosão e morte em prédio da Nota coberta 8m03s 18s China 8 – Acidente grave na BR-101 Nota coberta 8m21s 25 9 – Exposição sobre tecnologia em São Reportagem 8m46s 1m52s Paulo - Prisão de traficantes de crianças Chamadas + vinheta 10m38s 12s - Fertilidade artificial PUBLICIDADE Feira no Carrefour 10m50s 31s Banco Itaú Personnalité 11m21s 31s 2° bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta do início do bloco 11m52s 3s 10 – Tráfico de crianças - Inglaterra Reportagem 11m55s 1m47s 11- Criança Esperança – Jardim Ângela Reportagem institucional 13m42s 3m06s 12 – Técnicas mais avançadas de Reportagem especial sobre 16m48s 4m01s reprodução assistida fertilização artificial Sem terra Chamadas + vinheta 20m49s 12s Filas para vagas de auxiliar de limpeza PUBLICIDADE Dias dos Pais – celular Vivo 21m01 30s Bradesco na Internet 21m31s 30s Chamada para novela Mulheres Apaixonadas 22m01 30s 3° bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta do início do bloco 22m31s 3s 13 – Turista morto no RJ Nota simples 22m34s 12s 14 – Repercussão: morte de Marcinho Nota coberta 22m48s 1m12s

cronista projeta para a audiência a visão lírica ou irônica que tem do detalhe de algum acontecimento ou questão (...)” (ibidem: 159). Charge – animação humorística do cartunista Chico Caruso com base em alguma notícia apresentada.

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VP 15- Invasão dos Sem-terra 16 – Terreno invadido da Volks – “politização” do movimento 17 – Missa para fotógrafo assassinado 18 – Vagas para auxiliar de limpeza 19 - Nível de atividade industrial - Corte do ponto de servidores em greve - Preso segurança de Saddam - Saddam fala dos filhos mortos

Reportagem Reportagem Nota coberta Nota coberta Indicador Chamadas + vinheta

23m36s 26m04s 28m00s 28m26s 28m51s 29m08s

2m28s 2m04s 26s 25s 17s 12s

PUBLICIDADE Loteria - Jogada da Sorte Celular – Plano Incrível da Tim Institucional – Criança Esperança Agosto na Globo – chamada para o filme “O homem sem sombra” 4° bloco Tipo de segmento Vinheta do início do bloco 20 – Reforma da Previdência - corte de Nota simples ponto dos funcionários públicos em greve 21 – Reforma da Previdência – líderes Reportagem do governo tentam evitar greve do judiciário 22 – Animação de Chico Caruso Charge 23 – Dólar e Bovespa Indicadores 24 – Desabafo do presidente da GM Cabeça de matéria + sonora 25 – Segurança de Saddam preso - Fita Reportagem com Saddam sobre filhos mortos Recompensa para matar americanos no Iraque - Vendido artilheiro do Santos Chamadas + vinheta - Esportista suspeita de doping PUBLICIDADE Veículo – Honda Fit Casas Bahia Chamada – Copa Sul-Americana 5° bloco Tipo de segmento Vinheta de início do bloco 27 – Venda de jogador Nota simples 28 – Copa Sul-Americana Reportagem 29 – Novo técnico da Seleção Brasileira Nota simples de Vôlei 30 – Suspeita de doping em atleta Reportagem brasileira 31 – Pan-Americano Reportagem –Final – chamada para o programa “O Encerramento jogo” TEMPO TOTAL DA EDIÇÃO: 45m48s

29m20s 29m50s 30m21s 30m51s Tempo inicial 31m30s 31m33s

30s 30s 31s 30s Duração 3s 13s

31m46s

3m13s

34m57s 35m15s 35m25s 36m18s

18s 10s 53s 1m19s

37m37s

15s

37m52s 38m22s 39m24s Tempo inicial 39m50s 39m54s 40m03s 41m44s 42m02s 43m39s 45m23s

30s 1m26s 26s Duração 4s 9s 31s 18s 37s 1m44s 25s

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TABELA 3 JORNAL NACIONAL – Edição de segunda-feira, 15 de dezembro de 2003
1° bloco Publicidade especial da Claro Tipo de segmento Apresentação do patrocinador com som do JN ao fundo e passagem do logo Escalada Tempo inicial 0 Duração 10s

11s 1m03s Manchetes da escalada: Renato Machado (início da escalada): O destino de Saddam Hussein. Eraldo Pereira: O presidente Bush garante que o julgamento do ex-ditador vai ser aberto a observadores internacionais Renato Machado: E diz que iraquianos vão decidir como aplicar a justiça Eraldo Pereira: Os novos detalhes da captura. Saddam Hussein tentou negociar com os soldados no momento da prisão. Renato Machado: O presidente Lula recebe do presidente americano cumprimentos pelo primeiro ano de governo. Eraldo Pereira: Reforma da Previdência. Renato Machado: Depois do texto básico os assuntos mais polêmicos também são aprovados no Senado Eraldo Pereira: O provão das universidades. Renato Machado: Somente dois cursos passam no teste de avaliação de qualidade. Eraldo Pereira: E veja também. Renato Machado: O jeito próprio que cada cidade brasileira tem de festejar o Natal. Eraldo Pereira: O time de amigos de Ronaldo vence os amigos de Zidane no dia em que o francês é eleito o melhor jogador do mundo. Renato Machado: A seleção brasileira até 20 anos derrota a Argentina e vai disputar a final contra a Espanha. Eraldo: Agora, no Jornal Nacional. Abertura 1m 1- Matéria sobre Saddam Reportagem complexa, com 1m16 10m40s diversos recursos Encontro de corpo de integrante do Chamada para o segundo 11m56s 14s Greenpeace bloco Denúncia contra postos que enganam a fiscalização e vendem gasolina adulterada PUBLICIDADE Bronzeador cenoura e bronze 12m10s 30s Fazer o 21 - Embratel 12m40 60s Boticário - perfumes 13m41s 30s 2° Bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta de início do bloco 14m11s 2s 2- Encontro do corpo de ativista do Nota coberta 14m13s 1m4s Greenpeace 3- Investigações sobre a morte de casal Nota simples 15m15s 53s norte-americano assassinado no Rio 4 -Postos que vendem gasolina Reportagem 16m08s 2m5s adulterada desafiam autoridades 5 -Tempo e temperatura Indicador 18m03s 29s 6 -Doação de órgão de rapaz Reportagem 18m32 2m17s assassinado Sai resultado do provão Chamadas para o 3° bloco 20m15s 11s - Preparativos das cidades brasileiras mais vinheta para o Natal PUBLICIDADE Computador Intel 20m26s 30s Medicamento - Engov 20m56 30s Cerveja Kaiser 21m26s 30s Celular Claro 21m57s 31s Chamada para filme da Tela Quente 22h28s 31s 3° Bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta de início de bloco 22m56s 2s 7 - Provão - resultados Reportagem 22m58s 1m33s 8- Parlamentares Juvenis Reportagem 24m39s 2m1s

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9- Prêmio para sugestões que façam a Justiça mais rápida 10- Natal em Canela – tradição alemã Parlamentares aprovam temas polêmicos da Previdência. Presidente Lula fala dos desafios para 2004 DVD gradiente IBM – e-business Cerveja Nova Schin Casas Bahia - móveis Chamada - Fim de ano na Globo 4° Bloco Vinheta de início de bloco 11- Aprovação da emenda da Previdência no Senado 12- Prorrogação dos trabalhos no Congresso 13- Expulsão dos “radicais do PT” 14 -O triunfo da globalização 15- Balança comercial – dólar - bolsa 16- Prorrogação de acordo do FMI com o Brasil 17- Lula: avaliação do primeiro ano do governo por Lula 18 - Bush ligou para cumprimentar Lula pelo primeiro ano de governo. Presidente brasileiro diz que a prisão de Saddam contribui para uma nova fase de transição democrática no Iraque Brasil na final de futebol Jogo amistoso de Ronaldo e Zidane Koleston – tintura de cabelos Resgate roupas Celular: promoção celular TIM Koleston – tintura de cabelos 5° Bloco Vinheta de início de bloco 19- Final do mundial de futebol Sub 20 20- Regras no Campeonato Brasileiro – Clubes, rebaixados e vencedores 21- Zidane – melhor do mundo – Jogo beneficente de Zidane e Ronaldinho – Renda para o Criança Esperança

Reportagem Reportagem Chamadas para o 4° bloco + vinheta

26m40s 28m35s 31m15s

1m55s 2m40s 12s

PUBLICIDADE 31m27s 31m57s 32m27s 32m57s 33m27s Tempo inicial 34m17s 34m19s 36m26s 36m44s 38m34s 38m54s 39m14s 39m43s 40m36s 30s 30s 30s 30s 20s Duração 2s 2m7s 18s 1m50s 20s 20s 20s 53s 20s

Tipo de segmento Reportagem Nota simples Reportagem Charge Indicadores Nota simples Cabeça do apresentador + sonora Nota simples + vinheta

Chamadas para o 5° Bloco + vinheta PUBLICIDADE

40m55s

19s

Tipo de segmento Nota coberta Reportagem Reportagem

41m08s 41m39s 42m09s 42m29s Tempo inicial 43m10s 43m12s 43m32s 45m45s

31s 30s 30s 31s Duração 2s 20s 2m13s 2m41s

Encerramento TEMPO TOTAL DA EDIÇÃO: 48m40

48m26s

14s

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A publicidade é encarada como um momento de quebra da programação do canal. Há diversos meios para manter a atenção do telespectador para o telejornal. O primeiro é evitar comerciais entre o final da novela das 19h e o início do JN. O intenso número de recursos que o JN utiliza no começo do programa é outro claro indicador de que os minutos iniciais são os mais problemáticos para obter a adesão do telespectador. Logo no início, temos a leitura das manchetes da escalada. Os apresentadores estão em plano próximo. Sons, cortes rápidos, entonação vibrante, logo voador fazem parte da estratégia de arrebatamento – de ordem sensível. É como se o telespectador se perguntasse: “Vale a pena ver o JN hoje?” E o Jornal tentasse instigar sua curiosidade ao máximo. Ao mesmo tempo, impõe as notícias “mais importantes” sem dar tempo ao telespectador para um julgamento mais profundo. Na escalada, todo o conteúdo mais valorizado e a própria estrutura do programa aparecem resumidos. As chamadas e sua ordem de apresentação acontecem em função do impacto afetivo, do mais tenso, violento, ou seja, das notícias negativas, com relações disfóricas (sujeitos apartados de seus objetos-valor invasão, destruição, assassinato, corrupção) para as mais relaxadas, eufóricas, positivas (vitórias de um time de futebol, campanhas beneficentes), o que mostra certas características da estratégia de sustentação. Parece que os editores do JN raciocinam que, se o telespectador receber apenas manchetes com notícias que considere ruins, de impacto negativo, ele pode decidir ver algo mais “leve”. Como um todo, porém, as chamadas buscam desencadear a máxima curiosidade do telespectador. Se a escalada for eficiente, haverá curiosidade (o querer-saber disfórico) para conhecer em detalhes os assuntos mostrados nas manchetes. Basicamente, o Jornal Nacional é composto por cinco blocos. No programa de julho observamos 31 notícias. No JN dedicado à prisão de Saddam contamos 21. Em alguns momentos foi possível perceber um certo encaixe de notas dentro de notícias de reportagens de maior envergadura. Uma notícia pode ser um agrupamento de outras com algo em comum. Um exemplo é uma nota sobre a operação de extração de câncer de Collin Powell na notícia dedicada à prisão de Saddam (que veremos depois). Para se criar uma noção de unidade, falou-se que o comandante militar “acompanhou a captura de Saddam Hussein pelo telefone”. As tabelas 2 e 3 mostram relações entre unidades noticiosas em função do tempo de apresentação. Uma reportagem, o segmento mais trabalhado do programa, dura em média 2 minutos. Somente notícias consideradas muito importantes ganham ou ultrapassam esse tempo. A prisão de Saddan e suas repercussões ocupam 10m40s. Esse tempo indica muito bem como a notícia foi valorizada. Como veremos depois, essa unidade noticiosa é, na verdade, um conjunto de quatro reportagens

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interligadas. Quando o programa cede mais tempo para uma reportagem está comunicando que deu mais atenção a um assunto em relação a outro mostrado em menos tempo. É como se o enunciador dissesse para o enunciatário: “Preste atenção: isso é importante”. Simultaneamente, quer que o telespectador também interprete e aceite esse código, de que se trata de algo que também merece o mesmo nível de consideração dele. Em outras palavras, podemos verificar como a edição (no sentido de ato) no telejornalismo maneja a relação semi-simbólica de texto inteiro apresentada na análise do radiojornalismo: cessão de tempo – valor – nível de atenção. No final dos blocos, com exceção do último, há chamadas para avivar a memória em relação às notícias restantes. Tenta-se manter a curiosidade do telespectador para o programa enquanto ele vê os comerciais. Em algumas chamadas, usa-se um trecho de gravação junto com a vinheta. No bloco final, a chamada é geralmente feita para um programa da Globo. A passagem entre o primeiro e o segundo bloco de notícias conta com um número reduzido de anúncios. Isso reforça o raciocínio de que os minutos iniciais são os mais problemáticos para obter a adesão do telespectador. Há outro ponto que fortalece essa observação. O número de comerciais entre os blocos só aumenta a partir do primeiro terço do programa, para diminuir novamente no final. Também chama a atenção o fato de o JN misturar assuntos nos blocos. Há questões nacionais com internacionais, remédios com informação do tempo, um salto para a China, depois o retorno a um problema brasileiro. Fica bastante evidente que a ordem do jornal é pensada em termos de impacto das gravações, de curiosidade da notícia e de coerções de ritmo e não em função de mostrar uma organização temática, como a encontrada nos jornais diários, por exemplo. O mundo que emerge no JN é fragmentado e ordenado segundo as necessidades de manutenção de atenção. Em outras palavras, a estrutura privilegia mais a dimensão afetiva, sensível, do que a inteligível. O JN como um todo também “pulsa”, dosando curiosidade, disforia ou euforia, notícias curtas com outras longas, algumas vibrantes com outras mais lentas. O jornal, de qualquer maneira, com bastante freqüência termina com assuntos mais alegres, geralmente ligados ao esporte ou ao exercício da solidariedade, da cidadania. Podemos notar a estrutura “happy end”. No Jornal da CBN, como mostramos anteriormente, a tensão é quebrada apenas no finalzinho do programa,

repentinamente. No JN, essa passagem é mais trabalhada, menos brusca.

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Para analisar com mais detalhes a estrutura do Jornal Nacional. ou a imagem de quem fala é sugerida. contudo. reforçando seu ethos. repórteres e correspondentes: os actantes da enunciação No Jornal da CBN. A dupla fixa é formada por Willian Bonner e Fátima Bernardes. se revezam. notadamente pelo efeito da marca. para os entrevistados e controla essas enunciações. aqueles que contam o que viram). praticando atos de fala que se colocam nitidamente com o seu discurso em relação aos fatos relatados” (idem:105). Para ele. Na verdade. que sempre aparece “embreada”. vale notar o grande poder do sujeito “marca” como um enunciador que tudo centraliza. por meio dos efeitos de câmera e de montagem. verificaremos as possibilidades de manejo do tempo e do espaço. “Sujeitos falantes diversos se sucedem. geralmente se vê quem fala. também da enunciação. “o relato telejornalístico é imaginado como uma estrutura destituída de entidade narradora central. testemunhas oculares e toda uma multidão de sujeitos falantes considerados competentes para construir ‘versões’ do que acontece” (2000: 103). que esclarecem principalmente o funcionamento da aspectualização do plano de expressão do telejornalismo. em TV. no modelo padrão de noticiário em TV. âncoras. a locução do âncora estrutura todo o programa. É a marca que “toma a palavra” inicialmente e vai cedendo lugar para outras vozes. todo o discurso surge hierarquizado. assim. As unidades noticiosas são “amarradas” e apresentadas por dois âncoras a cada programa. O público tem a sensação de que tudo se organiza a partir dele. vamos neste trecho estudar a organização dessas vozes dos actantes da enunciação. na qual o evento é reportado através das falas de seus protagonistas e/ou dos enviados especiais da própria 166 . que cede a voz para os outros jornalistas. Arlindo Machado. espectadores. No caso do JN. Machado caracteriza o telejornalismo como um texto de forte “efeito de mediação”. O contato com a voz também particulariza.) Os eventos surgem para nós. que acabam. porta-vozes. No Jornal Nacional essa característica também é marcante. Depois. mediados através de repórteres (literalmente: aqueles que reportam. não compartilha nossa afirmação anterior. Observamos no telejornalismo o que Fiorin considera como debreagem interna (1996: 45) em que diversas instâncias enunciativas se subordinam. É a marca que “autoriza” qualquer apresentação. No jornalismo... ou seja. “(. Não podemos esquecer que. dá mais concretude a um sujeito que enuncia. na forma de um “ele” que está no lugar de um “eu”. Tudo o que acontece no Jornal Nacional tem a marca como ponto de partida. se contrapõem uns aos outros. essa reflexão cabe a qualquer jornal.Marca.

A existência de um contrato enunciador-enunciatário de tamanha longevidade expõe o peso da estratégia de fidelização na forma de conceber e manter cada detalhe do programa. por exemplo. É a logomarca da rede que se vê nos microfones dos repórteres. A investigação sobre a significação manejada pelo Jornal Nacional não pode. de todos os sentidos de familiaridade que construiu com o tempo. Portanto.. comenta-se sobre o que “o JN disse. deixar de considerar essa bem-sucedida estratégia de fidelização. por si só. cada reportagem do noticiário beneficia-se desse sentido de credibilidade. A fidelização também faz com que o público tenha expectativas positivas sobre o que esperar.com.” (2000: 107).telehistoria. Cada nota. de Frank Devol99). Marca. As quase quatro décadas de existência do Jornal Nacional têm importantes conseqüências para o estudo do laço jornal-público.último acesso em fev/2005 167 . Isso quer dizer que o JN. A questão do hábito aparece com força. A marca JN se constrói a partir do que os participantes enunciam e assim.. ou seja. 99 A informação sobre a música de abertura consta do site Telehistória: http://www. valorizada como “importante”.br/canais/jornalisticos/jornalnacional_abertura. A idéia da ausência de um enunciador central. qualquer coisa que aparece durante o programa é compreendida pelos telespectadores como enunciada pelo jornal. no final e entre blocos) reforçam a existência da marca como regente de tantas vozes. como “eleita” em função de algum tipo de relevância para o telespectador. Outro ponto a salientar é a influência da própria marca Globo. A função do apresentador nessa estrutura consiste basicamente em ler as notícias e amarrar os vários enunciados. A famosa música-tema (The Fuzz. É através da Globo que o Jornal Nacional enuncia. Temos o efeito de marca. não se sustenta.htm . a longa história do JN como líder absoluto de audiência mostra a existência de um contrato enunciador-enunciatário sendo diariamente respeitado e gerando telespectadores fiéis. audiência baseada em credibilidade. como marca. o peso da história do Jornal Nacional se impõe por meio de seu logo. a cada edição. chamando os outros protagonistas (. a cada programa. Ao mesmo tempo.televisão. o JN subordina-se à marca maior.. Portanto. Cotidianamente.). como simulacro dos “verdadeiros enunciadores”. repórteres e apresentadores se tornam “confiáveis”. portanto. no entanto. o logotipo que surge ostensivamente em todo o telejornal (principalmente no início..” ou o que o “JN mostrou”. Basta pensar que um enorme número de brasileiros com menos de 40 anos de idade praticamente teve contato com o JN a vida inteira. se beneficia. De um ponto de vista semiótico. se renova e se atualiza. Trata-se de uma marca literalmente familiar. Qualquer pessoa que fala pelos microfones do Jornal Nacional é.

os jornalistas encaram a lente da câmera e exercitam o “olho no olho” com quem os assiste. Não é só esse estranho pleonasmo (existe verdade impura?) que o vice-presidente das 168 . que serão analisados em seguida. esses sim aparecem no auge da emoção. compenetrada. Ao mesmo tempo. aparece na fala de João Roberto Marinho. caso de sobreviventes de um acidente. são tomados de alegria ou ódio extremos. qualquer característica enunciativa. Ele afirma que todos os jornais das organizações Globo mostram “a pura verdade”. Em jogo está sempre a necessidade de fazer-crer. Não há efeitos de objetividade ou subjetividade absolutos.repórteres. contudo. confiável e cordial. no fundo. O resultado deve sempre construir a marca JN (seu ethos) como séria. de subjetividade. o JN está muito longe de ser um telejornal que preza um contato muito próximo. projeta um efeito de subjetividade. o JN precisa ainda persuadir o público de que é neutro diante das notícias. comentaristas . os atores institucionais . por exemplo. democrática. o principal noticiário da Globo lança mão de uma série de recursos para “neutralizar” o que a proximidade pode ter de indesejável. quando ouvidos. O que se percebe é uma administração de elementos e de possibilidades discursivas cujo sentido geral transita entre esses dois extremos. De qualquer modo. Os repórteres e correspondentes servem de ponte e contraponto para diversos entrevistados. O tom de voz é professoral. título do prefácio do livro que relata os 35 anos do JN. Já os que tomam parte diretamente da notícia.apresentam-se em um tom “na justa medida”. por exemplo. grevistas e manifestantes. Tantas variáveis para levar em consideração justificam nossa insistência em um estudo mais global (sem trocadilho) dos objetos das grandes mídias. Esse rápido estudo da categoria de pessoa mostra a enorme complexidade e a dificuldade de teorizar sobre a enunciação em objetos sincréticos. apresentadores. Para isso. são os que mais dizem “eu”. esse mesmo sujeito que vemos na tela enuncia sem falar “eu”. Há um “eu” que assume o discurso e. Raramente se ouve um “eu vi”. Só que os profissionais do JN raramente exteriorizam emoções fortes. refinada. imparcial. Os jornalistas retiram de suas falas. Temos um dos mais comuns efeitos de particularização. Falar na frente das câmeras pode ser considerado uma debreagem actancial enunciativa. Portanto. O figurino dos profissionais que aparecem na tela é clássico e discreto. principalmente relacionados com a postura de repórteres e apresentadores. “eu conversei com”. E os efeitos de actorialização também são influenciados por planos de câmera. Por causa disso. Essa coerção. escolhidos muitas vezes exatamente porque gritam de dor. para se apresentarem como mediadores mais neutros entre público e notícia. No caso dos jornalistas.Entretanto. Apaga-se a situação concreta de um sujeito que se dirige a uma enorme massa de telespectadores. teoricamente. no fundo. em um simulacro de competência para noticiar.

fragmentos de narrativas. há a tela e os procedimentos de expressão por meio do uso da câmera e da montagem. estudaremos alguns efeitos da câmera e a ação exercida na pessoa e no espaço.Recursos de montagem.Organizações Globo quer relacionar com seus jornais. nosso estudo se concentrou mais fortemente na estrutura geral do JN e nos enunciadores. escolhidas em função de várias coerções. mas também sensível. numa mídia de fluxo. portanto. de tempo e de espaço. Nesta parte do texto. A “linguagem do telejornalismo” é uma adaptação. influencia a actorizalização e a espacialização. da marca e dos jornalistas. É necessário destacar que. 2 . Em comum. como a televisão. Todos têm em comum “o zelo pelos atributos da qualidade jornalística: correção. Já a montagem. não raras vezes empobrecida.como planos. Vamos examinar agora como a maneira específica de enunciá-las no telejornalismo determina o seu entendimento e o impacto não apenas inteligível e passional. esses efeitos serão discutidos do ponto de vista semiótico. da “linguagem cinematográfica”. A câmera tem a capacidade de simular uma interação do espectador com o que ele vê. agilidade. com a aspectualização do plano de expressão televisivo. Entendemos esses recursos como possibilidades de manejo aspectual do plano de expressão no telejornalismo. Vejamos: 169 . focalização. Esse deve ser o efeito do “estilo JN”. Tempo e espaço: os efeitos de câmera e edição Até aqui. algumas considerações um pouco mais técnicas sobre as possibilidades de criar sentidos com a câmera. Essa textualização é determinada pelo uso coordenado de dois procedimentos: 1 – Recursos de câmera . relacionados à organização integral do texto e à manipulação perceptiva. angulação. Deixaremos para o final do trabalho o estudo de outros aspectos da montagem. como a de despertar curiosidade e gerar laços entre enunciador e enunciatário. aqui na acepção de ato) e como esta age no sentido de tempo. para depois nos concentrarmos na montagem (ou edição. isenção” (2004:13). Mostraremos. Destacamos os efeitos das “vozes institucionais”. em seguida. Sabemos que o texto do jornalismo de TV é manifestado por meio da hierarquização de unidades no fluxo temporal. de criação de semi-simbolismos. Depois. entre outras funções. movimentos. influencia notadamente a sensação de passagem de tempo. Eles apresentam notícias. notadamente das histórias das reportagens. a montagem aparece como a estratégia que acaba por reger todas as outras. e também como um meio de “complexificar” as categorias de pessoa.

No travelling. há um zoom out. acontece um zoom in. No ângulo baixo se faz enquadramento da imagem com a câmara focalizando a pessoa ou o objeto de baixo para cima. Planos de câmera . Temos ainda o efeito de profundidade de campo. Quando a câmera se aproxima de um objeto.Enquadramento – Por exemplo. passional ou sentimental. No jornalismo. Quando o movimento é de afastamento. se desloca para acompanhar uma cena. Ângulos de filmagem – No ângulo alto. quando se quer dar a idéia de que alguém está ‘olhando de baixo’. geralmente essa movimentação acontece sob trilhos. Pode ser de muito longe.O zoom é o movimento de câmera para aproximar ou afastar a imagem de pessoas. deixar um objeto dentro ou fora do quadro. No cinema de terror. Em função de sua importância no nosso trabalho. a ponto de exibirem-se todos os detalhes. Efeitos ópticos . novidade. “Provoca um achatamento da imagem. objetos e cenários. Os planos de câmera simulam principalmente o contato de corpos do público com personagens ou objetos. numa posição de inferioridade” (idem). ao contrário. os planos de câmera serão a seguir estudados detalhadamente. há um enquadramento da imagem com a câmera focalizando a pessoa ou o objeto de cima para baixo. Pode-se mostrar um objeto e toda a paisagem atrás dele ou desfocar esse mesmo fundo para ressaltar o que está em primeiro plano. Geralmente a câmera está em ângulo plano e apresenta as pessoas ou objetos filmados num plano horizontal em relação à posição da câmara. tensão. A panorâmica é o “movimento horizontal da câmera sobre o seu eixo vertical” (Gage e Meyer. um objeto ou pessoas.referem-se às possibilidades de se mostrar um objeto. ouvir um monstro e não vê-lo causa suspense e medo. tem outras 170 . por exemplo. dentro de um determinado contexto. o que geralmente leva a uma sensação de diminuição e inferioridade. ou de muito perto. Movimentos de câmera . No cinema. o deslocamento nos ombros do cinegrafista faz as imagens tremerem e pode redundar em um efeito de “pouca manipulação”. urgência. É muito usado para se criar a idéia de que alguém está ‘olhando de cima’ numa posição de superioridade” (Manual de Vídeo do SENAC). Podemos notar semi-simbolismos.A câmera também dispõe do recurso de mover-se. É utilizado “em situações inversas a da câmera alta. O distanciamento promovido pelo equipamento. No dia-a-dia. Tudo o que a câmera traz para perto mobiliza uma dimensão mais afetiva . Há ainda as gradações entre esses extremos. a aproximação sujeito-objeto se relaciona a atos de intimidade e também ao que desperta curiosidade e atenção. 1991: 202).emocional.

O distanciamento também pode surgir como conseqüência. E os planos mais amplos. por ser muito mais completo e produzido no Brasil. 1991. É possível reparar. e Meyer. como se um objeto que despertou uma atenção inicial tivesse exaurido a capacidade de atrair o sujeito. Summus Editorial. gera efeito de intimidade. 1990. se vê obrigado a ver o que a lente vê. O filme publicitário. ao simular a aproximação do enunciatário com um elemento do enunciado. no qual se insere a parte no todo. Como filmar. Leighton D. de Wain. de Gage. distensão e inteligibilidade. Para avançar no estudo dos efeitos de distanciamento e aproximação. e geralmente passa a desconsiderar tudo o mais que não entra nos enquadramentos. ed. São Paulo. de Gage e Meyer. Foram encontradas enormes diferenças entre os nomes e os posicionamentos de planos de câmera. que um plano de câmera. uma operação de caráter inteligível. Prelo Editora. escancara a existência de um ponto de vista. Atlas. que não informa o autor ou os autores. 3ªed. O plano médio de Como filmar é o plano geral das outras duas publicações.. é necessário conhecer tipos de enquadramento de câmera. São Paulo. afetividade. de Marcel Martin. Cláudio. chama de plano americano o que On Camera diz ser plano de conjunto. que expõem essa mesma unidade como parte de um contexto. portanto. São Paulo. Um fato chamou a atenção. Pode ser a de observar um “quadro completo”. por exemplo.. (não consta ano). 2ªed. Manual de Vídeo do Centro de Comunicação e Artes do SENAC – São Paulo. Lisboa. O telespectador. de Watts. por exemplo. G. Lembramos que a base da linguagem de câmera da TV veio do cinema.funções. Brasiliense. impõem certos efeitos de distanciamento. Harris. de uma curiosidade satisfeita. A câmera. e A Linguagem Cinematográfica. On camera – o curso de produção de filme e vídeo da BBC. aqui pensados tendo o corpo humano como parâmetro:100 Consultamos cinco publicações sobre planos de filmagem para fazer a ilustração. Só que esse olhar do enunciador se impõe como o olhar do enunciatário. ao registrar uma ação ou um estado. assim. 100 171 . São elas O filme publicitário. Adotamos conceitos de O filme publicitário.. da década de 90. tensão. 1990.

temos o close-up ou close. é uma maneira de investigar as “reais intenções” de alguém. o cenário no qual se desenvolve a ação é praticamente eliminado. A câmera nos impõe a máxima atenção para a fala do personagem. Há um enquadramento em close-up do Sem-terra Francisco Alves no momento em que ele descreve a invasão. é deixar para o público essa investigação. que gera uma proximidade afetiva do público com algo ou com alguém mostrado na tela. Como exemplo. vale retomar a notícia 15 da Tabela 2. a queima de tratores e a quebra da residência principal. observar as expressões. adquire-se um saber no 172 . e é esse tipo de plano que constitui a primeira. tentativa de cinema interior” (1990: 39). é no primeiro plano do rosto humano que se manifesta o poder de significação psicológico e dramático do filme. mostrando apenas os ombros e a cabeça do ator. O close-up “é um dos recursos mais enfáticos na linguagem cinematográfica. Com isso.da reportagem. sobre a destruição de uma fazenda praticada pelos Sem-terra. O que a câmera faz. A câmera aproximase um pouco mais. Esse plano leva a uma concentração de nossa atenção. e no fundo a mais válida. O olhar do telespectador não se dispersa. ao dar um close-up no rosto do Sem-terra. 1991:7-74). a morte de animais. notadamente a dos olhos.No extremo da aproximação. Hugo Munsterberg (1982: 47). É como se a câmera dissesse: “Preste atenção.” Observa-se um semi-simbolismo ou simbolismo “cristalizado”: qualquer coisa que a câmera destaque é e deve ser valorizada. E as expressões do ator tornam-se mais nítidas para o espectador” (Gage e Meyer. e afirma: “Sem dúvida. Em outras palavras. no começo do século passado. pois aqui está um momento muito importante – e tenso . Cotidianamente. Outro ponto sempre lembrado pelos teóricos do cinema é que um close-up de um rosto “acentua ao máximo a ação emocional”. como lembrava. Marcel Martin se refere a esse enquadramento como “primeiro plano”.

uma dimensão mais inteligível do que sensível. mas essa função é secundária em relação ao impacto afetivo e à valorização imposta ao telespectador pela aproximação com uma pessoa ou objeto apresentado nesse plano. filmada de longa distância. as pessoas e o espaço que ocupam. Há um efeito de conjunto. o grande plano geral tem utilização muito limitada. Diz Marcel Martin.. faz com que as coisas o devorem. ‘objetiva-o’” (1990:38)..) Além disso. ressalta o espaço e dissolve o ator Fontanille. afirma que a tomada de posição de um sujeito acontece na forma de um “foco – que orienta o fluxo de atenção – e de uma apreensão. o plano geral o reintegra ao mundo. Somos solicitados a fazer relações entre os objetos. ressalta o ator e dissolve o espaço No limite. o close-up e o plano geral. Resumindo.)” (2003: 35). o plano geral. 173 . O plano geral “normalmente (. que apresenta uma enorme área de ação. O foco pressupõe 101 Uma diferença entre uma fita de cinema e o vídeo jornalístico é a inexistência de um grande plano geral. em relação à “linguagem cinematográfica”. Acreditamos que esse comentário é válido para a TV... relembremos. Os detalhes desaparecem em uma tela pequena. por outro lado. Na TV. que maneja. o contato do público com o que é apresentado é mais da ordem inteligível. que delimita o domínio de pertinência (..close-up. através de um plano geral. movimentos e progressão dentro de cada cena do filme” (Gage e Meyer. você consegue cobrir entradas e saídas das personagens e orientar o espectador sobre relacionamentos. ENQUADRAMENTOS E EFEITOS DE CÂMERA + Intensidade + Foco + Afetividade PLANOS Close-up Plano próximo Plano médio Plano americano Plano de conjunto Plano geral + Extensidade + Apreensão + Inteligibilidade No limite.. no plano geral. (. 1991:78).) é utilizado para apresentar todos os elementos da cena. Pensemos agora no plano oposto.101 O quadro apresentado em seguida mostra essas possibilidades de significação dos planos de câmera a partir dos dois “extremos”. que “reduzindo o homem a uma silhueta minúscula.

sempre está conectado a outros. como a narração do acontecimento por repórteres e apresentadores. hipoteticamente descontextualizadas. Para entender como esse plano isolado é mais de ordem inteligível. No JN. os dois apresentadores se revezam em um plano próximo: 102 É importante dizer que nossa teorização sobre os planos de câmera se refere a formas de enquadramentos que são imaginadas. uma sala). ao contrário. tensão. afetado pela presença de algo que lhe reclama sentido. é possível até falar em um ângulo aberto de câmera com forte impacto afetivo. atraído pelo noticiário. O efeito geral buscado é. 1991:89). 103 Teóricos de cinema e de vídeo também falam da existência de uma câmera subjetiva e de uma câmera objetiva.102 Os planos intermediários constroem sentidos de maneira proporcional. no entanto. O enunciador está sempre interessado em uma decodificação rápida. também em relação ao afastamento ou à aproximação de um objeto (que pode ser uma pessoa. Em função dessa conexão. do ponto de vista dos planos de filmagem. é rara nos noticiários televisivos. A câmera objetiva é “a filmagem da cena de um ponto de vista de um público imaginário” (Gage e Meyer. é raro alguém se aproximar de algo antes de tê-lo visto a certa distância. O impacto afetivo nesse caso. ao ter o quadro todo. um anel.um sujeito mais ou menos tenso. Só assim esse tipo de plano tira o máximo proveito da tensão. O telejornalismo. no exercício teórico. Para relacionar essas observações com a teoria da enunciação. basta imaginar um programa começando com um plano geral. disforia. Cada plano em uma tomada. Sem acesso à narrativa. No cotidiano. A câmera subjetiva instaura um actante da enunciação e mostra a existência de uma desembreagem actancial enunciativa bastante particular. Ao mesmo tempo. sem apoio de uma apresentação. não só ao uso dos planos mais gerais como também ao processo inteiro vivido por um sujeito que. Se o público perceber qualquer imposição de olhar. A apreensão pode ser relacionada. Ao obter a compreensão. As concepções de foco semiótico e de foco de câmera – o close-up – são perfeitamente compatíveis. 174 . deve passar da situação de não ter um saber desejado (disjunção) para a de sujeito com esse saber (conjunção). por ter um formato bastante padronizado. da insatisfação para a satisfação. trabalha com recursos bastante limitados de usos de câmera. Ambas mostram o engajamento perceptivo do sujeito na forma de curiosidade. contudo. no caso do nosso trabalho. Esse é o recurso mais comum no telejornalismo. de uma maneira geral. na leitura da escalada. surgem novos complicadores na categoria de pessoa desse tipo de discurso. enuncivo. verificamos que geralmente não se mostra um close-up sem um plano médio ou geral anterior. pode haver uma quebra nessa relação. depende totalmente das informações cedidas pela narrativa e por outros recursos.103 É possível notar que. mobilizado. o sujeito passa da tensão para o relaxamento. “Dizemos que uma câmera é subjetiva quando ela é colocada na posição que permite filmar do ponto de vista de uma personagem em ação durante determinada cena” (idem: 88). no início do Jornal Nacional. O uso da câmera subjetiva é também pouco comum no telejornalismo porque afeta o sentido pretendido de o olhar da câmera ser o do telespectador. a apreensão é o momento de passagem da percepção para a significação. A filmagem em câmera subjetiva. por exemplo. o plano só vai cumprir sua missão de gerar informação (um saber) e alguma curiosidade (um querer saber).

105 O recurso do stand-up. para relembrar. o jornalista aparece de pé. se vê um plano médio: O plano médio e o plano americano quase se apresentam como uma “justa medida” de enquadramento e simulam um tipo de contato mais neutro que temos com pessoas em nosso cotidiano. apesar de acentuar mais a tensão. O plano médio também é muito utilizado pelos repórteres nos stand-ups. “designa a transmissão de informações pelo repórter do local dos acontecimentos” (Maciel. a tensão necessária é menor.O tom é nervoso. em destaque na tela. 1995: 113). A fala é rápida e tensa. 104 175 . não é utilizado pelos profissionais no programa. quase sempre a maioria. principalmente diante dos acontecimentos disfóricos. Um close-up.105 Nesses momentos. Portanto.104 Na apresentação posterior de cada notícia. Esse plano daria um tom de intimidade incompatível com o efeito de conjunto pretendido pelo telejornal. Podemos observar que a narração em plano próximo é pensada para realçar a tensão desse conjunto de elementos da abertura do JN.

Em outras palavras. o simulacro. No entanto. Captura de frame do arquivo Jornal Nacional-2 (11m20s). no decorrer da história. cidade de Minas Gerais. 106 176 . Mesmo sabendo da existência de uma espécie de “espaço da história”. é sempre uma delimitadora do espaço. pretendidos pelo enunciador. que fala de Washington.106 Analisemos a relação dos planos de câmera com a aspectualização. e também as pessoas da narrativa. O equipamento subordina esse espaço maior. aproxima ou afasta os telespectadores das pessoas mostradas. A câmera. claramente apontado (uma fazenda em Unaí. Expliquemos. É por isso que afirmamos que a câmera sobredetermina efeitos importantes na categoria de pessoa e de espaço. Ao mesmo tempo. por princípio. que geram efeitos de proximidade ou de distanciamento. aos efeitos de sentido pretendidos pelo enunciador. do repórter Luis Fernando Silva Pinto. pode-se perfeitamente mostrar uma paisagem e obter o resultado de “horizonte sem fim”. no caso da reportagem dos Semterra).como no caso a seguir. a categoria base é delimitado x ilimitado. realiza diversos enquadramentos. No caso do espaço. matéria sobre repercussão da prisão de Saddam Hussein nos Estados Unidos. 107 É interessante observar que a categoria delimitado x ilimitado só pode ser aplicada ao uso da câmera se for considerado o efeito. aqui no caso espaciais. Sabemos que a aspectualização do plano de expressão está relacionada à criação de continuidades e descontinuidades. A câmera. só vemos o que a câmera mostra.107 A citada reportagem dos Sem-terra tem como cenário uma fazenda de Minas Gerais. cada reportagem demarca as coordenadas principais da ação.

Diz a carta: “Os telejornais têm que ser vibrantes. ou seja. palavra ou movimento -. As duas estratégias estão profundamente relacionadas. Primeiramente é reconhecido e situado: corresponde.–P. Eles retratam o dia-a-dia das notícias mais importantes do país e do mundo. Ela dá uma definição “telejornalística” de ritmo. o espectador permanecerá constantemente atento e diremos que o filme tem ritmo. texto enxuto e leitura vibrante. Um das estratégias mais importantes para um “bom ritmo” se relaciona ao manejo do tempo que.” Em “Jornal Nacional – a notícia faz história”. ao chamado tempo aspectualilzado ou psicológico. sendo substituído por outro. se o plano se prolonga. a mera relação do tempo entre planos. Marcel Martin (1990: 148) cita uma reflexão de J. Se cada plano for cortado exatamente no momento em que diminui a atenção. que faz progredir a narrativa. advém um instante de aborrecimento. portanto. como foi citado. impaciência. Recomendo a vocês – editores e apresentadores – o maior empenho para que os nossos telejornais estejam sempre no ritmo correto” (2004: 152). Comecemos pela importância do ritmo para o gerenciamento do nível de atenção. da diretora executiva da Central Globo de Jornalismo. mas de um ritmo de atenção. a atenção diminui e. a sensação de que uma reportagem passa rapidamente. à exposição. O que chamamos ritmo cinematográfico não é. há a reprodução de um memorando sem data (provavelmente do final da década de 80). é a coincidência entre a duração de cada plano e os movimentos de atenção que desperta e satisfaz. Não se trata de um ritmo temporal abstrato. de como se relacionam as unidades e de quais as funções e os efeitos persuasivo-argumentativos 177 . A montagem em meios de comunicação de fluxo. um ligado ao ritmo e o outro vinculado à duração de unidades. Dois procedimentos precisam ser inicialmente destacados sobre o assunto. aspectualizado. hierarquizadas em um fluxo no tempo. Alice Maria.Montagem e domínio do tempo Ressaltamos em outra parte do trabalho que a categoria temporal – e não a espacial – organiza a textualização na TV. Então intervém um momento de atenção máxima em que é captada a significação. Chartier que mostra como fazer a montagem dos segmentos filmados: “Um plano não é percebido do início ao fim do mesmo modo. tem outras particularidades. como ato) de unidades. Um bom ritmo se consegue com matérias editadas no tempo certo. digamos. precisam ter sempre um bom ritmo. Em seguida. Para se ter uma idéia melhor do que é “montado”. a razão de ser do plano – gesto. O telejornal é resultado da montagem (ou edição. no entanto. converte a temporalidade da narrativa em um processo discursivo e cria o chamado “tempo psicológico”.

Fragmento é um trecho de gravação que não apresenta corte. um estudo detalhado sobre a principal notícia da edição de segunda-feira. fazemos uma pequena análise do trecho ou do conjunto de trechos com todos os elementos em relação. Outra função desse segmento é o de informar o que acontecia no fragmento e também o de mostrar outros efeitos da filmagem. dividida em cinco partes: fragmento. Na terceira parte. Qualquer mudança . duração em segundos. quem narra. Expliquemos o que significa cada parte da “decupagem”. a seguir. momento de início de apresentação e recurso de câmera. optamos por mostrar essa engrenagem por meio da análise da reportagem sobre a prisão de Saddam Hussein. os efeitos sonoros. mostramos um frame da gravação. mostra uma espécie de “decupagem” da notícia. como o da câmera acompanhar uma ação ou girar sobre o próprio eixo. a partir de agora. apresenta-se a narração: as falas. 108 178 .no primeiro trecho da série. narração e observação. descrevemos o instante de ocorrência do fragmento e o tipo de plano (ou planos) de câmera utilizado(s) na tomada. A prisão de Saddam: um bloco inteiro dedicado ao assunto Apresentamos.que se podem obter. Para ilustrar. Uma mesma tomada pode começar em plano geral e terminar em close-up. examinamos como essa notícia se encaixa na edição e principalmente os efeitos de montagem. Decidimos falar em fragmento ou segmento em vez de tomada por acreditarmos que o primeiro termo se vincula a um recurso de produção e não de edição. momento de início de apresentação e recurso de câmera. ou seja. a da prisão de Saddam Hussein e seus desdobramentos no mundo. Em outras palavras. Convencionamos que.108 Tomada . Pretendemos dar mais destaque para recursos de plano de expressão e as relações com o conteúdo.É um trecho de gravação rodado sem interrupção.renova a atenção e se enquadra na estratégia de arrebatamento. Na quarta parte. Essa reportagem dura quase o primeiro bloco inteiro do programa. na quinta e última parte. encontra-se a duração em segundos do segmento. Quando há muita movimentação de câmera. ligada à manipulação do nível sensível e ao ritmo. quando uma mesma fala se estende e é acompanhada por diferentes fragmentos. há dois ou mais quadros com diferentes ângulos. um quadro que melhor representa o fragmento. de observação. uma mesma tomada pode gerar diferentes fragmentos. Finalmente. Na segunda parte. somente haverá identificação do enunciador – quase sempre o repórter e os apresentadores . Utilizaremos ainda diversos termos comuns da “linguagem” do telejornal. Depois. 15 de dezembro de 2003. A Tabela 4.principalmente um corte .

o “mundo”. “tem o sentido genérico de toda a gravação feita em externa e designa. em particular. movimentando a cena inicial da reportagem. Em geral. uma fonte de informação de uma reportagem que não é identificada para o leitor. Selo . abrir ou fechar programas etc. que pode ou não ser acompanhada por uma assinatura musical. é costume deixar um BG da fala na língua original do entrevistado” (Maciel.” (Gage e Meyer: 1991: 202). Fusão . 1995: 104). A reportagem sobre a prisão de Saddam Hussein inclui um selo no qual se vê a foto do ex-ditador. que corresponde ao lead do jornalismo impresso.TABELA 4 MOMENTO DE INÍCIO DE APRESENTAÇÃO E RECURSO DE CÂMERA FRAGMENTO DURAÇÃO EM SEGUNDOS NARRAÇÃO OBSERVAÇÃO 1. a fala dos entrevistados nas reportagens” (Rezende.Em telejornalismo. Uma cena pode ser fragmentada por meio do encaixe de uma outra. de curta duração (aproximadamente cinco segundos). 10 Apresentador Renato Machado: “Os Estados Unidos vão decidir nos próximos dias em que tribunal Saddam Hussein será julgado. O mesmo que off. da televisão e principalmente do cinema. Locução em off – Para relembrar: trata-se fala que acompanha a imagem de uma gravação. Os iraquianos querem julgálo no Iraque e aparentemente contam com o apoio do presidente George Bush. Sonora . não deve ser confundido com o “falar em off” da mídia impressa. Aurélio). aparece atrás dos apresentadores e identifica um assunto ou um tema. Temos uma idéia de organização em relação à desorganização. Background – “Também conhecido pela sigla BG.(01m16s10) Plano próximo Surge o selo para as matérias de Saddam Hussein. inicialmente. serve para designar o ruído ambiente ou música usada como fundo para a fala do repórter ou do apresentador. Cena .) Deve-se notar. O “gancho” é a especulação em torno do julgamento de Saddam Hussein. 179 . trata-se de “uma cena isolada de um filme ou uma animação feita com o nome ou a embalagem do produto. Nas falas em que é necessária tradução. Esse termo. a vinheta é utilizada para anunciar patrocínios.Em telejornalismo. no mesmo ambiente” (Dic. a diferença entre nitidez e cromatismo do estúdio e de tudo o que está fora dele. assunto que aprofundaremos mais adiante. que passa pelas costas do apresentador. que caracteriza uma pessoa.No Jornal Nacional o selo geralmente é uma ilustração que tem movimento.“Parte de um filme que abrange diversos planos. focalizando uma certa situação em que aparecem as mesmas personagens. a primeira sobrepondo-se à segunda. 2000: 149).Mistura de duas imagens. Vinheta .” Renato Machado faz a cabeça de matéria. na escalada. Serve para mudar de cena ou enfatizar a relação entre elas. pronunciado por alguém que não aparece em cena. A estratégia de sustentação da atenção se baseia na criação da seguinte curiosidade: qual será o destino do ex-ditador? (Relembremos que a estratégia de arrebatamento principal aconteceu no início do programa.

(1m41s25) Plano próximo de outro cidadão. que a ocupação espacial da primeira página de um jornal é o lugar dos assuntos principais.” Voz da correspondente em off: “A imagem de Saddam Hussein. 7 No trecho anterior. 1 7.” Correspondente em off sobre a voz do cidadão: “Para este outro. O telejornalismo utiliza todo o sistema de construção de valores da mídia impressa para afirmar a própria importância do que enuncia. imagens dos jornais.. 6.(01m30s19) – Tomada começa em plano geral na rua. a câmera apresentando o espaço (Estados Unidos) e outros actantes do enunciado. Enfim. que vai a BG e é superposta pela voz da repórter em off: “Este americano diz que o exditador tem que ser julgado no Iraque. mesmo que a maioria dos telespectadores não saiba interpretá-la.quer a pena de morte para Saddam Hussein. a voz do cidadão iniciava o “Povo Fala”. Novamente observa-se a preocupação do enunciador em mostrar os espaços onde se situam os atores antes de fechar o ângulo.” 8. 3. Câmera se inclina para cima ângulo alto – e enquadra a bandeira norteamericana. Há um cuidado com a enunciação do cidadão.. nas tomadas seguintes. esse recurso será utilizado outras vezes.(01m26s20) – Plano geral de rua de cidade norteamericana.(1m51s27) Câmera mostra plano geral de George Bush entrando na sala de imprensa. Vamos observar.. Uma característica que irá se manter nessa reportagem é comum no telejornalismo.. a voz o conclui. Foca-se a manchete. Como se verá a seguir.”). 5 Ouve-se a voz do cidadão (“He should be right. Neste trecho..(1m48s19) – Plano próximo de jornal. segundo uma pesquisa de opinião Gallup-CNN. Pode-se observar. 59%. O jornal inicia a matéria com um “Povo Fala”. o presidente George Bush traçou o destino mais provável para o exditador.. A câmera parte de uma tomada mais aberta – um plano mais inteligível e menos tenso para ir fechando o quadro no que deve ser considerado mais tenso.(01m36s15) Close em cidadão norte-americano. 6 . chegou a hora de Saddam pagar pelo que fez. emocional e importante. A câmera o acompanha numa panorâmica e 10 Voz da correspondente em off: “Na primeira entrevista coletiva sobre Saddam Hussein.2.estava em todos os jornais americanos.” 4. 180 . 2 ... não o nome do jornal. por vários trechos da reportagem.. A voz dele é perfeitamente audível por uma fração de segundo. por exemplo. 4 Voz feminina de correspondente em off: “A maioria dos norteamericanos. Sabemos.(1m49s26) – Plano próximo de Jornal.. o que deve merecer atenção do telespectador porque foi valorizado pelo JN.” Cidadão: “Today is his day. 5.

” Bush: “The iraquees make their decisions. 10 Off da correspondente simulando voz de Bush: “Vamos trabalhar com os iraquianos para que Saddam tenha um julgamento público. a fala de Bush tem um potencial de atenção discutível. 9.(02m05s04) Plano próximo de Bush. O mais curioso dessa apresentação de Bush e de outras “sonoras” é ouvir as falas em inglês. 4 Bush diz que ele deve ser julgado pelos iraquianos. Mas o tempo dedicado a Bush pelo JN valorizou a sua opinião.(02m01s26) Plano geral da sala.depois fecha o ângulo até um plano próximo. Saddam é o antisujeito.(02m27s15) Plano médio de líderes iraquianos – câmera faz uma panorâmica da esquerda para a direita para mostrar o Conselho do Iraque.. O que importa é a opinião dos iraquianos.” Voz da correspondente em off: “Ao ser perguntado se aprovaria a execução de Saddam. Observe-se o aparente conflito entre enunciação e enunciado. 8 Bush respondeu que a opinião pessoal dele não conta. Bush aparece como o destinador-julgador.(02m19s00) – Plano próximo do presidente. do Conselho do Iraque.” Voz do presidente: “International (trecho não identificado) is the best way to put it. 181 ..” 13. todo este trecho da matéria é de sanção. O Conselho espera. Há a busca de um sentido de autenticidade e de valorização dessas enunciações.(2m15s23) – Plano de conjunto de repórteres. 5 Voz da correspondente em off: “Para o Conselho do Iraque parece não haver dúvidas. 11. como discurso “oficial”. ainda mais porque é “longa” em relação aos outros trechos. Para compensá-la. Eles parecem enunciar pela voz dela. Mas o off da correspondente funciona como “porta-voz” dos conselheiros.. 12. 10. Não se vê ou se ouve ninguém do conselho fazendo afirmações. a seguir. e não a que vem a seguir. o que tem plena competência para a ação de julgar. justo e submetido à verificação internacional. O presidente diz que a verdadeira sanção quem vai aplicar são os iraquianos. A função de ancoragem das imagens a seguir é evidente. há inserção dessa tomada em plano geral para depois retomar o mesmo plano próximo. 4 Do ponto de vista semiótico.” É evidente que..

(02m44s06) Plano de conjunto supostamente da mesma sala...os cinco juízes. Deve-se notar como se mostram diferentes ângulos da sala que pouco acrescentam de novidade ou de real informação. no máximo. 18... A falta de ação no conteúdo é compensada por uma espécie de ação no plano de expressão. nesse caso da sala. Não é qualquer sala. 16. O Conselho de Governo é que vai escolher. Os fragmentos a seguir deixam bastante clara a dificuldade do telejornalismo em “preencher”.. No telejornalismo.. Um detalhe: a escolha do editor recaiu sobre o homem de roupas árabes.(02m36s27) Novo plano geral dos líderes. certas informações julgadas necessárias. Para contrabalançar esse problema.. Note-se que ele estava no fundo na tomada anterior. os fragmentos são muito curtos. Neste trecho.. cada fragmento aparece “ancorado”. ou.. meses. que identifica o grupo. euforizado ou disforizado pelo enunciador. 15. 3 Saddam será levado ao tribunal especial.14.. ou seja. 6 Alguns integrantes afirmaram que pediriam a pena de morte para o exditador. 4 . Vale notar que. começar o julgamento de Saddam nas próximas semanas. criado. a imagem também “ancora” o verbal. mas que servem de suporte à fala ao distrair o olhar do telespectador.(02m32s26) Plano geral dos líderes caminhando em direção à câmera. com gravações.(02m42s06) Plano de conjunto de uma sala de justiça supostamente do Iraque.. limpo de sua polissemia e.na semana passada. Temos um trabalho de aspectualização mais forte para gerar uma sensação de tempo que passa rápido.. 4 . 3 . limita suas possibilidades. 17. 19. 182 . há pouca ação que gere atenção.(02m47s06) – Plano geral da mesma sala. O réu terá direito à defesa e a... mas a que aparece no vídeo. 2 Se for julgado no Iraque.(02m50s23) – Plano próximo do símbolo. notadamente.

.. 22. 26.... 4 .(03m16s20) – Câmera faz uma panorâmica da dir. como. estamos aqui às voltas com uma discussão sobre uma sanção pragmática que Saddam receberá e sobre quem será responsável por ela. 25.. o uso de recursos de movimentação de câmera.o Conselho poderá convidar juristas internacionais para participar do julgamento.. 1 .um tribunal especial..os que foram criados pela ONU para julgar crimes de guerra. supostamente da mesma sala. para compensar. além da rapidez. Mais uma vez há uma ação de expressão que compensa a falta de ação no conteúdo.(03m12s20s) Transição entre tomadas é por fusão..julgamento.(03m17s29) – Plano Geral – Câmera faz panorâmica da dir. A seqüência de fragmentos a seguir mostra novamente a dificuldade do enunciador de preencher as informações com gravações de arquivo.(03m03s22) Câmera foca bandeira do Iraque e faz um zoom out até um plano geral. 3 Poderia ser criado.. há uma sucessão muito rápida. 3 . onde se vê que ela faz parte de um monumento. 23. à esq... à esq. e acompanha juízes. . 6 . 24. 21. o Iraque. Plano de conjunto. Se julgar necessário..20.. seu povo..... 1 . por exemplo... de novo. 9 As organizações mais importantes de direitos humanos consideram que uma corte internacional daria legitimidade ao.. com microfone em primeiro plano.. Há fragmentos com menos de um segundo.(03m13s19) Transição entre tomadas é por fusão. Distraem-se os olhos com imagens antigas que remetem a Saddam.. 183 . E.(02m54s05) – Plano geral..em um momento em que a narração discute um julgamento. Do ponto de vista do conteúdo..recorrer a uma corte de apelação. Note-se.(02m57s17) – Plano geral da sala do Conselho.

(03m33s11) Novo plano próximo no secretário. 30. parece fazer uma única tomada. em Ruanda. 33. e. 28. faz uma panorâmica pela sala (da dir. 2 .. – Voz de Anan sobe: “.. 6 . 1 . 31. A câmera não sai do lugar. à esq.. 6 O que está fora de questão é a vinda de Saddam Hussein para os Estados Unidos para. 6 O secretário-geral da Onu. 32. Note-se.. Devemos observar o esforço em lutar contra a monotonia visual nas tomadas feitas na ONU. que aparecem identificadas no canto inferior à direita..(03m21s19) – Passagem entre cenas por fusão – Plano Geral com perspectiva..) e termina focando outros cinegrafistas. disse hoje que o julgamento de Saddam deveria seguir as.. Nem todo o público reconhece o ditador.(03m45s17) – Câmera faz uma panorâmica da sala – plano geral. o JN mostra que uma parte da audiência mais intelectualizada está sendo contemplada.27.. 2 .. a partir de agora.. o que dá sentido de atualidade à notícia. Mas a edição dá a impressão de que três mudanças acontecem.em Serra Leoa. leis humanitárias internacionais e que a Onu não apóia a pena de morte...(03m27s27) – Câmera deixa o secretário.(03m24s21) Câmera faz um zoom in e foca Saddam – ao fundo no primeiro quadro – em plano próximo.. 29. 184 .. Kofi Anan. o uso de mais gravações de arquivo do JN. Aqui há um dos raríssimos marcos temporais...ser julgado por uma corte militar. Ao apresentar Milosevic sem identificá-lo. 3 Esses tribunais não prevêem a pena de morte.(03m39s24) – Plano americano de Saddam tirando uma espada da bainha.(03m22s28) – Plano próximo.Dead penalty”. Fala-se em um “hoje”.na ex-Iugoslávia.

como os curdos. mortos aos milhares.. 2 . 35. veremos as performances que foram consideradas condenáveis do ponto de vista do destinador.(03m58s14) Câmera faz uma panorâmica no local do massacre da esquerda para a direita e. O jornal busca agora justificar a prisão e a guerra contra Saddam em função de seus crimes.. Saddam é acusado. em 88.. Até este momento. 7 . julgamento dele tem todos os componentes para se tornar um dos mais.. Do ponto de vista do conteúdo. a discussão “racional”.. Plano americano. . teremos a exposição das ações do antisujeito Saddam.. 3 . 4 . . Semioticamente falando... 37.. A partir de agora.é relacionada a cenas de atrocidades que foram cometidas por ele...34. predominou o tom formal. o.. Lembramos que a pergunta sobre o destino de Saddam foi em parte respondida.. A estratégia de sustentação da atenção do enunciatário pelo enunciador se vale agora da instauração ou do reforço de paixões.. . foca os cadáveres. sem deixar a figura do exditador.(03m49s02) – Plano de conjunto. serão retomados os crimes do ex-ditador..dramáticos da história da humanidade.(03m51s11) Câmera faz uma pequena panorâmica pela sala.(03m47s06) Câmera faz um zoom in e mostra imagem de Saddam.corte que Saddam será submetido.(03m54s27) – Plano de conjunto com um sutil zoom in no soldado. Só que..exercendo o poder.de autorizar o massacre de minorias étnicas. a partir de agora.. 38...cercado de seus soldados. 36. principalmente de vingança.. estamos ainda em plena fase da sanção. quando pára....... 185 . A imagem de Saddam. 2 Seja qual for o tipo de.. Fim da tomada e é plano médio..

Nota-se o uso do plano geral e do plano de conjunto. Imagens de extrema violência geralmente não são mostradas no JN por questões de ética.(04m13s27) – Câmera faz uma panorâmica na sala da esq.. 186 . .(04m06s24) – Câmera faz panorâmica e acompanha.(04m11s24) – Plano de conjunto. 3 ..... com muita movimentação... 45...e sobe o ângulo para enquadrar os demais em perspectiva e em plano geral. como lembra Maciel (1995:91). 1 .. Plano de conjunto.. Para isso..(04m05s04) – Câmera parte do primeiro cadáver que no quadro capturado aparece em primeiro plano .testemunho de como os adversários do regime.. Adultos e crianças mortos pelo chão.. para impedir um contato ainda mais tenso do enunciatário com o que é mostrado. 44. 3 . 43.. 42... também são um.(04m16s06) Câmera mostra corda no teto e faz um zoom in para terminar em close.(04m17s15) Câmera faz uma panorâmica e acompanha homem de casaco atirar na cabeça de um e depois de outro prisioneiro. essa é uma das cenas mais chocantes da matéria. 3 e sumariamente executados. 41. as cenas a seguir são fortes.. com armas químicas.pessoas identificando cadáveres. 4 . em primeiro plano. soldado carregar prisioneiro..... Todo o choque dessas cenas é manipulado por uma edição que privilegia um contato muito rápido.39.(04m07s28) – Plano geral.da guerra. 2 ..eram torturados. 40.gente sendo presa e arrastada por soldados.e dezenas de covas clandestinas descobertas depois. Um dos poucos closes mostra uma corda. à dir. .. 1 As prisões.” Com certeza.

dependendo da posição dentro da reportagem. Como veremos a seguir. para fechar em detalhes e atores. Filmagem é trêmula. Nos próximos fragmentos. A “volta ao estúdio” marca uma mudança de assunto.. de Nova York): “Saddam Hussein aguarda seu destino em local secreto. 3 Voz do correspondente: “Saddam Hussein iria passar a noite de sábado. 16 Apresentador Heraldo Pereira: “Saddam Hussein queria negociar com os soldados perto de sua cidade Natal. Tikrit. a volta do off e. Há informações não confirmadas de que ele teria sido levado para uma base americana no Quatar. Identificação surge e desaparece do vídeo. Na definição de Maciel “o boletim é a narrativa do repórter feita em quadro. Deve-se observar a repetição da estrutura anterior: uma cabeça de matéria (obviamente subordinada ao assunto principal). a novidade nesse trecho é o uso de computação gráfica. A estratégia de sustentação da atenção do telespectador se apóia aqui na seguinte pergunta: como Saddam foi preso? 187 . que os EUA não revelam por motivo de segurança. Identificação surge e desaparece do vídeo.(4m20s07) plano próximo da repórter. Do ponto de vista da estrutura da matéria. da construção do espaço. 18 (Vê-se a correspondente Cristina Serra. mas o mais provável é que ele esteja sendo mantido numa instalação militar perto do aeroporto de Badgá. O repórter utiliza o boletim para transmitir informações importantes que não têm imagem. Se o primeiro sub-bloco foi o da “sanção”. de passagem ou encerramento. Ou então o boletim é usado para. Pode ser de abertura. Stand-up da correspondente – ficamos sabendo de quem era a voz em off.(04m38s04) – Plano médio do apresentador. conduzindo a narrativa. Novamente uma seqüência de ângulos que vão do inteligível.(04m54s18) – Plano geral em ângulo alto. narração em off do correspondente. Militares norteamericanos no Iraque se surpreenderam com a falta de reação do exditador no momento da prisão e com as condições do local em que ele estava escondido” 48. tivemos até agora uma cabeça – no estúdio – um pequeno off que precedeu as sonoras dos cidadãos americanos e do presidente Bush. possivelmente de helicóptero.” 47. a matéria apresenta o “cenário” da captura. mostrar ao telespectador aspectos da narrativa que de outra maneira não seriam suficientemente ressaltados” (1995: 60).. e outro boletim de passagem. o segundo será o da performance da captura de Saddam.46. Consideramos esse ponto como o começo do segundo sub-bloco. um “boletim de passagem”. agora. sonoras.

10 Quando os soldados norte-americanos se aproximaram. Esse trecho da reportagem é um bom exemplo dessa afirmação. no jornalismo. 188 ..de fora. tapou a entrada.(04m59s19) – Mesmo nesse plano médio. Do lado..onde havia restos de uma refeição.” Como não tem as gravações da captura.. A narração do repórter atualiza essa cena e apela para a imaginação do público: “Saddam correu para o esconderijo. a câmera faz uma pequena panorâmica 4 . Nesta tomada...(04m57s29) – Câmera realiza um plano de conjunto e faz um zoom in suave.. uma encenação da descoberta...onde foram encontradas roupas e comida.. que. Saddam correu para o esconderijo subterrâneo do lado de fora. 50. o JN tenta de todas as formas fazer a simulação parecer presente. atual. mas justamente saber em detalhes como se chegou àquele estado... 3 . 52.. como se fosse uma pedra.(05m07s00) – Plano médio. uma cozinha ao ar livre.(05m04s19) – Esse plano médio termina em close da panela com um zoom in. a câmera acompanha a ação dos soldados e se concentra. não é a conclusão de uma ação que mantém a curiosidade do público. 51.. na retirada do isopor que cobria o buraco onde estava Saddam..(05m03s01) – Plano de conjunto.neste casebre de sapé.. no final. 53. 2 .” Após a apresentação do cenário. Uma placa de isopor esculpida. 1 .. As informações neste trecho e a seguir têm seu potencial de atenção garantido por construírem uma espécie de tematização da pobreza que se contrapõe ao luxo e ao poder demonstrados por Saddam no governo do Iraque. Ressaltamos.. anteriormente.49.

ou seja. Depois. 17 Voz do soldado : “We´re about.54. 55.. se afasta novamente para mostrar outro plano geral do esconderijo do ditador.. Passa-se agora a mostrar detalhes da busca.. a câmera sai de um plano geral e faz um zoom in no buraco. em plano americano.. onde Saddam estava deitado de bruços. comandante da operação.. 2 Outro corte na história. quando viram um Retomam-se agora detalhes da captura. Não é um isopor.. mas uma tampa que fecha o buraco na animação em 3D. “Os soldados americanos vasculharam primeiro.onde não acharam ninguém. 189 . no centro do quadro.(05m17s26) – Nessa tomada. jogar uma granada de mão. Note-se um erro aqui. com dificuldade se vê um soldado chutando uma porta.(05m21s18) – Outra tomada noturna. 4 (Ouve-se o som da porta se abrindo com violência).” Descreve-se agora o esconderijo de Saddam.. 58. O buraco era estreito com uma chaminé de um metro e oitenta de altura. Lá no fundo. soldados caminham contra a luz. 17 Mas um tapete que cobria a entrada do buraco chamou a atenção dos soldados. .. 57. um esconderijo.(05m23s10) – Nesse plano geral.”– incompreensível – voz do soldado vai à BG. No plano geral vêem-se soldados caminhando. Eles ergueram a tampa... disse que os soldados iam limpar o subterrâneo. 56. As sonoras dos militares mostram detalhes “fortes”: como o fato de Saddam quase ter sido morto por uma granada e a ironia de um soldado diante da oferta de negociação do exditador.dois outros locais próximos. Voz do correspondente: “O coronel James Rici.(05m41s23) – Plano próximo para acompanhar a fala do coronel. que estava debaixo de um tapete. 1 .(05m24s25) Câmera virtual – Nessa tomada em ângulo alto.

É notável.’ O presidente Bush manda lembranças. E segundo este soldado. entretanto. 4 Pontual: “Levado para uma base militar. 62. O informante não vai receber a recompensa de 25 milhões de dólares porque não deu a informação voluntariamente. Não houve JN no domingo.(6m11s21) Plano próximo do correspondente. Não podemos esquecer que as mesmas imagens apareceram nos jornais pela manhã. (ele) disse em inglês: “Eu sou Saddam Hussein. 3 Mas depois a atitude dele mudou. Temos um enunciador que considerou seu potencial de atração relativo. aproxima-se depois da câmera.” Voz do soldado sobe: “The president Bush sends regards. Saddam parecia disposto a conversar ao ser examinado. Ele saiu com as mãos para cima. Um oficial norte-americano comentou: ‘Economizamos o dinheiro do contribuinte. 190 . e quero negociar. 16 60. É uma segunda-feira. novamente simulando um contato íntimo entre telespectador e Saddam.. Temos outro instante de valorização da história. Mais uma vez. 22 homem lá dentro. a aproximação acontece em um momento muito especial.” (Correspondente Jorge Pontual surge no vídeo) – “Quem deu a informação sobre o local onde Saddam se escondia foi um parente dele. A câmera faz um close do exditador.59.’” As sonoras terminam nesse fragmento do correspondente Jorge Pontual. num raríssimo caso em que mídias impressas apresentaram algo antes do JN. que faz depoimento. mas o assunto foi abordado no Fantástico. 61. preso e interrogado em Badgá na sexta-feira. o da apresentação do estado atual do ex-presidente do Iraque. que esses fragmentos “não duram” muito tempo.(6m33s13) – Plano próximo.(06m38s25) – Plano próximo. presidente do Iraque. quase close de Saddam.(05m57s12) – Plano americano. Soldado à dir. que faz outro boletim de passagem.

Câmera virtual depois dá um zoom in até a carta de Izzac Ibrahim Al-Duri.(07m12s07) – Estúdio – Plano médio. Temos outro uso de computação gráfica para encerrar esse sub-bloco..(06m50s27) – Plano médio para acompanhar depoimento.e foram recebidos pelo ex-ditador com palavrões. 3 .. à dir. O título poderia ser “os que ainda faltam prender”.(6m41s12) Câmera faz uma panorâmica do Conselho.. 67. 6 Quatro integrantes do Conselho de Governo do Iraque passaram meia hora na base interrogando Saddam.. 66. Na seqüência de três fragmentos.. Tenta-se recuperar agora as primeiras reações de Saddam na prisão. Surgem da parte de baixo as outras cartas.que estaria comandando a resistência à ocupação do Iraque.(06m55s09)Computação gráfica: carta em que Saddam aparece “cai” da tela..” Eraldo: “Documentos encontrados numa pasta no esconderijo levaram à prisão hoje de dois importantes aliados do ex-ditador. e mantendo o plano próximo. os americanos esperam capturar os 13 homens que faltam no baralho dos seguidores de Saddam. O principal é o rei de paus. 65. 11 191 .(6m47s01) Plano médio. 64.63. diz um deles. A identidade deles não foi revelada..(7m08s09) – plano médio de Izzac que beija Saddam. indo da esq.. 4 . temos a descrição do “estado emocional do ex-ditador”. 13 Agora que o ás de espadas caiu.. Izzac Ibrahim Al-Duri.” 68. 5 ‘Ele não demonstra nem arrependimento nem remorso’.

73. mas não fazendo análises. Voz de repórter em off: “Em Tikrit.(07m36s13) – Plano de conjunto com iraquiano em primeiro plano beijando a foto do ex-ditador. 4 Eles param nas principais cidades do país. e dá um zoom in no rosto da mulher chorando.(07m38s29) – Há um plano geral com foco em plano próximo. Só que com uma diferença importante.(07m23s01) Estúdio – Plano médio.69. gerou comemorações e protestos nas ruas do Iraque.. 1 do ex-ditador. chorando. de agora em diante. quase close-up. lamentando ou comemorando. 9 (Som de manifestação é mantido por um segundo. Eles surgem “emocionais”.. mas não merece sonoras..(07m32s10) – Plano geral de manifestantes. inclusive Bagdá. que resultou na prisão do exditador Saddam Hussein.. 11 Renato: “A operação Aurora vermelha.(07m35s14) – Plano americano. 192 . Observa-se mais uma vez o recurso enfático do close.o outro chora (ouve-se os sons de choro).. Há os que não consideram Saddam um antisujeito por partilharem valores com o ex-ditador. no rosto do iraquiano.. 71... Podemos observar. 1 . o retorno da narrativa no ponto da sanção. 4 ..” 70. O plano foca o rosto do iraquiano. em relação à prisão de Saddam. Os árabes aparecem como massa. como um coletivo que fala pelas ações. antes de ir a BG. e especialmente árabes.(07m34s07) – Plano de conjunto de manifestantes. Note-se o cuidado com a mudança da posição do selo entre os apresentadores. 75.. Depois é mantido nas próximas tomadas). em mostrar o cenário e uma reação em particular se repete aqui.. mas desloca-se para mostrar o local onde ele se encontra..(07m42s22) – Câmera realiza uma panorâmica da dir. à esq. 74..enquanto um iraquiano beija a foto de Saddam Hussein. políticas e econômicas. 2 . 72. passionais. Temos os árabes divididos. São apresentadas repercussões sociais. Temos o terceiro sub-bloco: as reações mundiais.. O cuidado da cena anterior. As tomadas gerais dos manifestantes vão aos poucos focando alguns dos seus personagens.. Começamos com as repercussões sociais..cidade Natal.

79. 2 “Enquanto isso.carros-bomba..duas delegacias são alvos de.. 1 .. 80.. Essas cenas de repressão à manifestação dos árabes e dos estragos de bombas são feitas por plano geral. 2 Pelo menos nove policiais morreram. duram menos de dois segundos. Só aqui se busca mais aproximação do enunciatário com o fato. mas utilizou poucos 193 . Câmera está em ângulo alto.(08m01s02) – Plano geral.(07m54s08) – Plano geral.76..(07m52s05) – Plano Geral para observar toda a destruição. 1 ... 82..(07m57s24) – Plano de conjunto de cadáver. Logo em seguida.(07m59s13) – Plano de conjunto. Os dois fragmentos. com detalhes da destruição em primeiro plano. 6 Até que os soldados chegam para acabar com a manifestação.. 2 . 81.(07m56s04) – Novo Plano geral. O telespectador tem uma visão de conjunto..se as explosões.(07m46s04) – Plano geral para acompanhar a ação de diferentes soldados.. retomamse os planos gerais. no entanto. discussão e busca. do outro lado da cidade.... 2 Ninguém confirma. É notável como o JN cedeu tempo para a performance da prisão de Saddam.) 77.” (Som da manifestação fica em primeiro plano por menos de um segundo. 78.

3 . segundos e um tom contido para mostrar o que as bombas fizeram no Iraque. temos uma seqüência de fragmentos que nunca apresenta o mesmo ângulo de câmera. em perspectiva. 5 Por telefone. é a ausência de material visual.. O principal problema. 2 Mas a indignação no Líbano. cenas de manifestação.. 84.diz que só uma minoria sunita chora pela prisão de Saddam Hussein.(08m07m27) Plano geral de manifestação. Como sempre.. e dá um zoom in no rosto da mulher chorando.83. de movimento.(08m19s29) – Montagem de três elementos: o mapa do Iraque.(08m02s24) – Plano geral. e transcrição da fala na faixa azul. 88. 1 . nos territórios palestinos é clara.5 segundo e dois fragmentos para apresentar a reação de dois povos árabes. Al-Dayri: “A maioria do povo está. utilizam-se imagens das manifestações.(08m16s03) – Temos a repetição da tomada que começa em 07m42s22 – Câmera realiza uma panorâmica da dir.. Alguns assuntos dos outros sub-blocos são rapidamente retomados.com a prisão de Saddam Hussein. à dir.. à esq. de onde fala o entrevistado. Para compensar. 85. 4 .têm ou não ligação. de manifestantes e cartazes. 87.. obviamente.. Awni Al-Dayri. Há 1... 89....(08m11s18) – Plano próximo de correspondente. à esq. Podemos também notar a reprodução de uma mesma cena. o representante do governo brasileiro em Bagdá. e também..(08m04s14) – Plano geral. o ritmo do jornal torna a repetição quase imperceptível.(08m05s26) – Plano próximo.” 4 Temos aqui o que alguns teóricos chamam de “rádio na TV”. 86. A única diferença são uns décimos de segundo a mais. na parte de baixo do vídeo. 194 . 2 .. Cabe ao JN tenta transformar uma entrevista com dificuldades de som em algo atrativo. Entretanto..

..(08m36s02) – Plano médio.(08m24s28) Quadro à dir.. (Vê-se o correspondente Marcos Losekann): “Na Grã-Bretanha não existe pena capital e o governo daqui já deixou claro que não participará de um julgamento que possa resultar na morte de Saddam Hussein.” (sobe som de manifestação).descansada. 20 195 . a execução de 97..sofreram no regime de Saddam.. Al-Dayri acha. 3 Al-Dayri: “A maioria dos que. 95. feliz.. 3 . Termina em plano de conjunto.” 93.querem que. Para o primeiro ministro Tony Blair. 2 ..... 3 .que será no Iraque.(08m23s04) – Quadro à dir..(08m41s26) – Plano próximo.” Correspondente: “Sobre o julgamento do exditador..(08m33s10) – Câmera foca bandeira em caixão e depois acompanha o afastamento... Intensa movimentação.. mostra manifestação em plano geral 91. mostra manifestação em plano geral.90... 1 . 94. 4 . 96.(08m38s19) – Plano Geral.alegre. 2 .ele seja condenado à morte..(08m30s17) – Plano americano.(08m26s21) – Plano próximo. Intensa movimentação... também com muita ação de manifestantes... 92..

o governo anunciou que vai preparar um processo pelos 300 mil iranianos mortos na guerra IrãIraque.. a prisão..Saddam criaria um mártir para os terroristas..(09m01s25) – Plano geral do parlamento britânico... também ser repetida. Sem cansar o telespectador. No Irã. Aqui as gravações dão literalmente a volta ao mundo.. 103. . E quem diz isso é a mídia impressa. Note-se aqui novamente o tempo dado ao discurso dos vencedores e.. continuamos na sanção. um fantasma que poderia aterrorizar o mundo pra sempre. 2 Voz de Tony Blair: “The Iraque people want… 99. 10 101. Temos um caso de redundância. O telespectador fica sabendo que o fato teve repercussão mundial. Blair disse que está confiante na capacidade dos iraquianos de. 7 . 100. Em termos de nível narrativo.em milhões.(09m20s17) – Close no jornal 1 Em centenas.” 98. no julgamento...(09m10s07) – Plano próximo de representante iraniano.. o JN faz com que ele tenha contato com o mesmo conteúdo principal por meio de estratégias de expressão diferentes. Só que é uma repetição especial.(09m22s17) – Plano próximo.. dos inimigos. 104. mantendo o plano próximo.. 196 ..(09m23s08) – Câmera faz uma panorâmica sobre os jornais da dir.de línguas. 102.” (voz vai a BG).fazer justiça.. 3 de frases e palavras. their freedom.. Mais uma vez é utilizado o discurso dos jornais impressos para mostrar a importância da prisão de Saddam.. 1 .(09m21s21) – Plano americano. na década de 80. 1 . por meio de jornais diferentes e enquadramentos diferentes... Voz do repórter Losekan em off: “No discurso hoje no parlamento. quase um mendigo. A reiteração valoriza o fato para o telespectador.. no caso do Irã. com leitor em primeiro plano. à esq. Outro ponto importante é a imagem de Saddam.. são os jornais.(09m03s05 – Plano médio de Blair.

... que se relaciona à tomada anterior.(09m28s11) Câmera está em plano médio.mercados.. da esq.(09m31s08) – Plano de conjunto de painel.. Jornal aparece balançando.105.(09m32s25) – Plano médio. 109...(09m27s06) – Novo close nos jornais que mostram fotos de Saddam. 197 . Entramos aqui em um segundo tipo de repercussão: a econômica. Caracteres se movem. 108.(09m26s05) – Plano de conjunto dos jornais e leitores. 110.. à dir..(09m40s11) – Plano geral com suave zoom out. com leitor em primeiro plano...os jornais do mundo...na Europa.. 1 E repercutiu nos.. Na Ásia.. 106.(09m34s07) – Câmera faz uma panorâmica na bolsa de Nova York... 107. 1 . 1 ... As bolsas em geral fecharam em alta...manchete em quase todos.. 2 . Plano Geral 6 ..ao euro. E o preço do petróleo caiu com a expectativa de que o Iraque passe a exportar... 112.. 6 .nos Estados Unidos.. 1 .. Detalhe: o fragmento não corresponde à fala. O dólar também subiu em relação. 1 .de Saddam Hussein foi.(09m30s05) – Mesmo jornal da tomada anterior aparece agora em plano próximo. 111.

.” Bush : “. 119.Mas reconheceu. Plano Geral.(10m12s00) Fusão de cenas.. a situação no Iraque não vai.(09m56s28) – Plano próximo.. 3 Para Bush.. 11 116.(09m48s20) – Plano médio.(10m08s25) Fusão de cenas. 1 .(10m17s14) – Plano Geral com soldado em primeiro plano. 4 . Euforiza-se a ação com as palmas 114..mais daqui para frente.que Saddam Hussein não estava comandando.. 115. 118. agora para falar sobre os destinos do Iraque e os passos dos Estados Unidos no país. 2 ..) Eraldo: “O presidente George Bush deixou claro que a captura de Saddam Hussein não vai acelerar a retirada americana do Iraque. Plano de conjunto com soldados em primeiro plano. 8 Temos aqui o quarto e último sub-bloco: como fica a ocupação norte-americana no Iraque e os dividendos obtidos por Bush com a prisão de Saddam.... com manifestantes em primeiro plano.And the citizens of Iraque need to know we´ll stay in the (trecho não identificado)…” Voz de correspondente em off: “George Bush disse que os militares americanos não vão sair do Iraque enquanto não houver segurança no país. 198 . A mesma coletiva de Bush é retomada..(09m46s15) – Plano de conjunto.. 2 .melhorar tão cedo..diretamente os ataques contra alvos americanos e civis.. 120..113.(10m07s13) Câmera faz uma panorâmica e acompanha caminhada dos soldados – Plano geral. são inseridas gravações das ações dos soldados norteamericanos no Iraque.. 117..” (Sobe som de membros da bolsa batendo palmas... Para manter a atenção do espectador..(10m14s23) – Plano geral em perspectiva. 1 .

(Voz de Bush vai a BG).. e depois. dividida em duas partes. Chamou Saddam de assassino....(10m26s80) Plano próximo.. no total.(10m18s28) – Plano próximo. Correspondente em off: “O presidente americano diz que não confia no que o ex-presidente do Iraque diz. 10 Bush: “He is. várias vezes.(10m25s12) – Plano médio.. pela terceira vez. em outra reiteração da importância da prisão de Saddam.armas de destruição em massa.) Correspondente em off: “Quando a coisa ficou quente. 123. a coletiva de Bush. com pouco mais de 50 segundos. 199 . você já vai tarde. Saddam. O que o JN faz aqui é dar enorme destaque à fala de Bush. Bush disse... 122. Bush mostrou desprezo.. O depoimento é interpretado pelo telespectador como o acontecimento mais importante da reportagem. mais jornais. As afirmações do presidente dos Estados Unidos também praticamente servem como conclusão de tudo o que foi relatado.(10m21s18) – Close..” 125.. Novamente vemos impressos na tela do JN. De torturador. E ironizou:” Bush: “When he (não identificado) he got himself in a roll. 3 Segundo informações que já vazaram sobre o.. “(trecho não identificado).Hussein nega que tenha produzido.“ (BG.121.. 4 . durante a entrevista.. 2 .) Correspondente em off: “Bush aproveitou a entrevista Tempo é valor em telejornalismo. . quase um quarto do tempo total. 124. Classificou Saddam de enganador e mentiroso. para encaixar a fala de Bush nas afirmações do repórter. é o mais longo da matéria. 8 127-(10m53s04) Plano próximo. você se escondeu em um buraco.interrogatório inicial.. por meio de fusões. O mundo é um lugar melhor sem você... Esse conjunto de fragmentos. Em uma reportagem que tem. Note-se ainda o close nos fragmentos.” (Voz de Bush vai a BG. que mostra uma mesma tomada. Os fragmentos a seguir foram gerados a partir de segmentações de uma mesma tomada e unidos. Saddam Hussein. 2 . quase 10 minutos e 40 segundos.” Bush: “The world is better (trecho não identificado) mister Saddam Hussein. 19 126-(10m45s36) Plano próximo. sem contar com a apresentação e os comentários do correspondente em Washington.. tomou dois minutos e 30 segundos. Bush aparece assim como o grande destinador.(10m23s25) – Close.

” Bush: “Forget politics. dois de Nova York. Powell. Há também um encaixe de uma nota – a operação de retirada de um câncer de Collin Powell – no conjunto da reportagem. Eles se dirigem a alguém que pouco sabe. de Washington: “Bush não precisa esperar pela campanha. de 48% foi para 58%. o que reforça.” Nessa matéria. Prometeu. o índice de aprovação à intervenção americana no Iraque já subiu 10 pontos em relação aos números de novembro. Powell estava envolvido com a guerra do Iraque. observou-se o JN utilizar quatro correspondentes internacionais. 22 Renato Machado: “O Secretário de Estado Collin Powell acompanhou a captura de Saddam Hussein pelo telefone. valorizando o local da informação e o sentido de “estar onde os fatos estão”. ou seja. por sua vez.” Stand up do correspondente Luis Fernando Silva Pinto. 129.(11m40s26) Plano próximo Término em 11m56s12. Ele faz um boletim de fechamento. Salienta a informação “10 pontos” e cria um silêncio retórico antes de citar “foi para 58%. O jornalista usa recursos da entonação. passa bem e deve voltar ao trabalho no começo de 2004.. a idéia de um JN que está em todos os lugares. todos fazendo stand-ups. um de Londres e outro de Washington.” 130. Na conclusão. para fazer um pouco de campanha política.(11m03s44) Plano próximo. uma redução de 50% no déficit do orçamento federal. de 66 anos. O benefício político já é uma realidade. Há uma clara razão mercadológica para 200 .” Faremos agora alguns comentários mais amplos sobre a reportagem para depois discutir a importância da notícia na estrutura geral do programa e retomar a questão da montagem.128. Segundo uma pesquisa do jornal Washington Post e da rede de televisão ABC. 15 . Mas disse que na campanha de reeleição não vai tirar proveito da captura de Saddam. Segundo o porta-voz do governo americano. Nota-se a relação professoral dos jornalistas com o público. o selo desapareceu..(11m18s29) – Plano entre médio e próximo. Apresentadores e correspondentes têm um “tom didático” e se mantêm na posição de donos do saber. Ele foi operado hoje para a retirada de um câncer de próstata. 22 Vê-se o correspondente Luiz Fernando Silva Pinto. nos próximos cinco anos. que se justifica por um fato em comum entre os dois acontecimentos.

no caso dos âncoras. daí a simulação de que se está falando com o telespectador.essa atitude.”109 A entonação dos jornalistas do JN. notadamente na frase final dos relatos dos repórteres nos stand-ups. que simula uma conversação cordial. nem nacional.. págs. no entanto. em relação aos profissionais do Jornal da CBN. 106 e 107. Um dos grandes meios para compensar a fala mais distanciada dos jornalistas do JN é o “olho no olho” com o telespectador. da altura e da duração da voz) são muito utilizados. Quando existem. caso da Folha de São Paulo. tem menos variações. Os “acentos de expressividade” (manejo de recursos de intensidade.) Pesquisa (com os telespectadores) sinalizou que o programa quase sempre é visto em família. e é possível que no dia seguinte prefira assistir a outro canal. O JN sabia que a prisão de Saddam era ainda o grande fato do dia. local de coordenação do jornal e de onde falam os apresentadores. com grande utilização das pausas retóricas para dar valor a certos aspectos da informação. e as famílias costumam ter um ‘explicador’ – em geral o pai -. fica constrangido. A apresentação das manchetes da edição – a escalada – não deixa dúvidas sobre a solução pensada: 109 “A Guerra atrás das Câmeras”. Não existem marcas de espontaneidade. como algo indesejado. mas “mundial”. um monitor de vídeo que fica acoplado à câmera. Mas era preciso dar sensação de atualidade. 201 . revista Veja. O JN é finalizado no Rio de Janeiro. apesar do nome. toma contato com notícias do Brasil inteiro e do mundo. D ou E. como lembra reportagem de Veja sobre os 35 anos do programa: “A questão da linguagem é ainda mais premente quando se leva em consideração que três em cada quatro espectadores do Jornal Nacional são de classe C. soam como erro. principalmente a dos repórteres. Tudo isso sugere como espaço da enunciação o próprio planeta. Praticamente não há interrupções. reportagem de João Gabriel de Lima. O uso das acelerações e desacelerações ao narrar (recurso de duração) é constante. O principal noticiário da Globo possui correspondentes em diversos países. dia em que não há edição do Jornal Nacional. 1° de setembro de 2004. Esse efeito é produto. A linha do olhar de leitura do texto é muito próxima da posição da lente da câmera. A prisão de Saddam ocorreu no sábado e foi divulgada no Brasil no domingo. da leitura de textos de frases curtas por meio do teleprompter. O JN não quer ser um jornal carioca. edição 1869. Na segunda-feira. que é quem traduz para os demais o teor das notícias mais complexas. Se o chefe de família não entende o significado das notícias. reformulações e outros recursos típicos da fala.. O público. a foto do ex-ditador também apareceu pela manhã nos principais jornais brasileiros. (.

apresenta-se o selo do assunto. porém. Observe-se o papel reservado a Bush. principalmente no último.” Só no terceiro bloco observamos uma entrevista. mas antecipando os passos futuros. Eraldo Pereira: O presidente Bush garante que o julgamento do ex-ditador vai ser aberto a observadores internacionais. Eraldo Pereira: Os novos detalhes da captura. Ao falar do destino do ex-ditador. O JN. O problema da monotonia é resolvido com o grande uso de gravações de arquivo intercaladas nessa fala. “Novos detalhes” sobre a captura são prometidos. Como o final de um bloco e o ressurgimento do apresentador no estúdio podem dar sentido de término da matéria. nesse caso. Há quatro sub-blocos: 1 – O julgamento e o destino de Saddam – possibilidades e acusações. O efeito de atualidade determina um modo de organização da matéria. falando em frente a um microfone. Renato Machado: E diz que iraquianos vão decidir como aplicar a justiça. faz o papel de satisfazer a curiosidade de um telespectador que ainda não sabia ao certo como tinha sido a prisão de Saddam ou queria revê-la.boletim do correspondente. Esse recurso de montagem também preenche os offs dos correspondentes. 3 – A repercussão social. É considerado mais importante tudo o que se vincula ao sentido de “agora” do telespectador. diz ter informações ainda não divulgadas.off do correspondente – sonoras . o JN não está mostrando um fato passado. que a captura do ex-ditador. porém com menos destaque. de destinador julgador. isso corresponde a um homem parado. Do ponto de vista semiótico.Renato Machado (início da escalada): O destino de Saddam Hussein. Questionar o futuro de Saddam é um elemento de atualização importante. Ao mesmo tempo. Do ponto de vista televisivo. pois há pouca movimentação. Não se deve pensar. política e econômica. Desse modo. Só que não rende bons teipes. Saddam Hussein tentou negociar com os soldados no momento da prisão. Vale notar que esse fato também aparece nos outros sub-blocos. 4 – As ações seguintes de Bush: como fica a ocupação do Iraque e os dividendos políticos advindos da captura. o primeiro sub-bloco é de sanção ao exditador. modo de acrescentar novidade a um fato já sabido. Deve-se reforçar que a detenção do expresidente do Iraque é o grande fato gerador de toda a notícia. como fato 202 . o telespectador sabe instantaneamente que a matéria tem continuação. 2 – A performance da captura. Cada um desses sub-blocos tem um esquema básico: “apresentador .

que faz uma representação da duração dos fragmentos em segundos. Os jornalistas comentam o presente e o futuro. desencadeadas pela aspectualização do plano de expressão. O público deve ficar tenso e atento para acompanhar todo o desenrolar da reportagem e do programa. O momento de referência não é mais o passado. pelos efeitos obtidos com o jogo entre fragmentos “durativos” . Há uma série de outras estratégias que também avivam a curiosidade no nível sensível. Discutem formas de julgar Saddam “neste momento” e o que acontecerá com o ditador nos próximos dias. Justifiquemos nossa preocupação com a fragmentação textual. ou seja. não corresponde à realidade do programa. não pode existir monotonia para os sentidos. No entanto. O efeito de atualidade da narração dos jornalistas se sobrepõe inclusive às cenas de arquivo. ele muda de canal. semanas. Sem uma enorme carga de estimulação. inicialmente.jornalístico. Há momentos mais longos entremeados por outros com “pedaços” mais curtos: 203 . Vejamos o gráfico a seguir. especialmente para o olhar. Manchetes e depois a cabeça da matéria têm a função de desencadear a curiosidade do telespectador. O que podemos notar. o que remete a uma estratégia de arrebatamento contínua. Existem outros efeitos importantes da montagem. O que o JN faz é “re-atualizá-lo”. nunca tem fragmentos com a mesma duração por muito tempo.9 segundos.e outros “pontuais”. A notícia analisada tem 10 minutos e 40 segundos (começa em 1m16s e termina em 11m56s).que “duram” . que chegam a ter menos de um segundo. precisa ser altamente estimulado. Inicialmente. É a estratégia de sustentação. Não é mais o “sábado” da captura. além de 130 fragmentos. Há uma mudança a cada 4. meses. tinha envelhecido. é preciso fazer um lembrete importante – notadamente em um trabalho cuja preocupação é considerar o objeto telejornalístico em seu caráter mais abrangente. no entanto. São descontinuidades encontradas no interior de um mesmo fragmento. é que a matéria “pulsa”. que remete a uma média. É por essa razão que descrevemos as mudanças de planos. O grande número de fragmentos indica que o simulacro do telespectador é pensado como o de alguém com reduzido potencial de atenção. Em TV. ou seja. Vejamos. só que esse raciocínio. o constante ir e vir da câmera (categoria afastamento x aproximação) e também a quase obsessiva escolha dos editores em mostrar pessoas e objetos em movimento (categoria ativo x inativo). trata-se do recurso mais facilmente verificável de montagem e mostra bem as conseqüências de estratégias ligadas ao manejo perceptivo. Esse enunciatário.

Essa forte aceleração inicial. O telespectador vai julgar se uma matéria é pertinente principalmente no início da apresentação. o do apresentador e do repórter na frente da câmera. O mais antigo dos recursos. Assim como pudemos notar no programa de rádio analisado anteriormente. O gráfico mostra pelo menos cinco intervalos com fragmentos mais longos e representa essa idéia de um objeto “pulsante”. mais chamativos -.Relação entre fragmento e duração Diversos fragmentos têm menos de um segundo. São fragmentos que apresentam alguém falando para a câmera em plano próximo ou plano médio – o enquadramento que simula uma situação de diálogo -. O autor enfatiza que “o telejornal é. o lugar onde se dão atos de enunciação a respeito dos eventos” (2000: 104). da característica mais pontual e menos durativa dos fragmentos. faz com que o telespectador sinta que tudo passa muito rapidamente. Tão importante como mostrar os “fatos” é falar sobre eles. em função das descontinuidades. por exemplo. os correspondentes. mostra que os primeiros segundos são entendidos como os que devem concentrar as principais estratégias de geração de laços enunciador-enunciatário. Depois de um começo “tenso”. Apenas quatro ultrapassam 22 segundos. o primeiro trecho tem os menores segmentos. 204 . verificam-se trechos mais longos entremeados por momentos de retomada de fragmentos curtos com uma desaceleração no final. Entretanto. os maiores tempos dos fragmentos são das vozes institucionais. Existe uma característica notável em quase todos os “picos” de duração. o que corrobora uma reflexão de Arlindo Machado. apresenta uma aspectualização mais intensa do plano de expressão que. antes de mais nada. a duração máxima. Se a matéria for dividida em quatro partes iguais de tempo. ou seja. reunida a conteúdos informativos atualizados – portanto. é o que menos causa um forte efeito de “novidade”. mediá-los. continua a ser o que mais se prolonga. Para compensar.

A falta de grande impacto “imagético” também é compensada por estratégias como a de criação de curiosidades específicas relacionadas à notícia. seriam momentos de sensível perda de interesse. a entonação na hora de narrá-la ou comentá-la. em grande relação.aparecem nas ruas. As falas dos apresentadores. e dos correspondentes nos stand-ups. correspondente em Londres.. com certos momentos mais 205 . em cenários de cartão postal. pode-se dizer que cada uma dessas partes citadas tem “recursos próprios” para prender a atenção.sonoras – boletim em stand up – revela que cada segmento é pensado para ter um potencial de arrebatamento. pra sempre. Para o primeiro ministro Tony Blair. o que compensa a duração do segmento. a execução de Saddam criaria um mártir para os terroristas. No caso da reportagem sobre Saddam..” Essa mesma característica aparece nas intervenções dos outros correspondentes. o sentido de familiaridade que os profissionais despertam e até mesmo as expressões faciais deles. mas necessários para “descansar” o telespectador após uma bateria de estímulos notadamente visuais. Há os selos junto aos âncoras. O estudo do material mostra que não é exatamente assim que a estrutura funciona. Ele diz “Na Grã-Bretanha não existe pena capital e o governo daqui já deixou claro que não participará de um julgamento que possa resultar na morte de Saddam Hussein. Ele praticamente cria reticências no final de sua frase. era a de que a reunião de um grande número de fragmentos com pouca duração correspondia a pontos altos. de maior atenção. Uma única enunciação: a fala como elemento articulador Nossa primeira hipótese. há enorme movimentação de elementos ou da câmera virtual. O esquema básico de uma reportagem de TV – cabeça de matéria – off do repórter (ou correspondente) . é ilustrativo dessa estratégia. diante do material. ao mesmo tempo.aterrorizar o mundo. É evidente – e isso foi dito anteriormente – que há uma estrutura que busca máxima tensão no início e um certo relaxamento no final. sustentação e fidelização diferenciado e..” Além de uma informação com grande carga persuasiva – a possibilidade de mais atentados terroristas – há um efeito de desaceleração discursiva da fala do correspondente. um fantasma que poderia aterrorizar o mundo pra sempre. O boletim de Marcos Losekann. mesmo com os recursos citados. Menos tenso. Entretanto. o enunciatário seria então apresentado a uma nova saraivada de pedaços de cenas. mas estreitamente relacionados. o que dá ainda mais “peso” à sua enunciação “. há ainda dois pedaços longos que correspondem às duas animações em terceira dimensão. Grosso modo..

como analisamos. sem a presença deles no vídeo. ao conjunto do programa. No noticiário da TV. aparecer falando na frente das câmeras. ruídos e efeitos sonoros. ou indiretamente. A câmera também pode fazer o papel de narradora. Na tela. Alguém pode narrar diretamente. é produto de uma articulação. Eles contam histórias. musicais. E por várias razões. É comum uma história estar em pleno andamento e não ser totalmente acessível aos jornalistas que devem reportá-la. que utiliza com muita parcimônia e somente em momentos bem definidos um grande número de diferentes estímulos verbais. Analisemos a razão de o telespectador não se perder e ficar prestando atenção a tudo o que lhe é oferecido. sem apoio do verbal. Esse é o recurso mais usual. a câmera pode assumir o ponto de vista de um “sujeito narrador onividente e tomar todas as imagens e sons considerados importantes para a plena visualização e audição da história” (2000:101). Arlindo Machado afirma que. digamos “pura”. no jornalismo de televisão existe intenso relacionamento entre diferentes substâncias de expressão na maior parte dos momentos. há diversas formas de se contar uma história. A sensação de se ver diante de uma única enunciação. Começam pelo momento de maior tensão. Ouvimos a voz do repórter ou do apresentador e vemos as gravações correspondentes. o citado off. Esse ritmo é inerente a cada notícia e. A essa narração são adicionados fragmentos existentes de filmagens. 206 . e tentam motivar a curiosidade do público para saber os detalhes. Refilmar o acontecimento traz enormes problemas: custo de produção alto.acelerados do que outros. ou seja. no fluxo temporal. A fala dos apresentadores e correspondentes ocupa lugar privilegiado. entre uma narrativa falada e segmentos (geralmente trechos de gravações. caso de ações de guerra. No cinema. Mais corriqueiro é o fato já ter acontecido e necessitar ser re-atualizado. o clímax. com tantos elementos. O último recurso é bastante usado no telejornalismo. Só que. como mostra a notícia sobre a prisão de Saddam. por sua vez. Essa possibilidade. não é possível voltar no tempo. esse momento pode ser “recriado”. muito tempo para tudo ficar pronto e até a quebra de uma das cláusulas do contrato entre jornal e público: o telespectador espera “a realidade”. ao contrário do radiojornalismo. é pouco utilizada no telejornalismo analisado. no cinema. A solução encontrada pelos telejornais é mais simples. Mostra-se alguém que conte a história. com áudio e vídeo) que expõe alguns pontos de funcionamento da textualização nesse objeto. contudo. não peças de ficção que simulam o “real”. que podem ser complementares.

Inicialmente.. principalmente. portanto. a significação do telejornalismo não pode ser pensada em termos de oposição ou hierarquização simples entre o verbal e o “imagético”. A trilha de áudio das narrações serve como ponto de organização discursiva e. Chamaremos de intercalação a correspondência entre uma fala (segmento de áudio) e os segmentos visuais que o acompanham. No total. Pode-se notar que diversos segmentos têm som (fala e ruídos) além da imagem. O que a pesquisa de Rezende evidencia é a forma de organização do discurso telejornalístico. comandado por Boris Casoy). O mesmo não acontece com o áudio. Nenhuma informação foi transmitida apenas por imagens. de Tony Blair.. explicando. por exemplo). com ou sem som original. Nem todas são “sonoras”. Alguns são pequenas seqüências. concluiu que. todas as matérias divulgadas nas seis edições dos três telejornais utilizaram-se da expressão verbal. por exemplo. A análise semiótica. queremos apontar certas características do texto telejornalístico e de organização de suas unidades por meio dos recursos de montagem. Citamos que foram anotadas 130 fragmentações na reportagem sobre a prisão de Saddam.) baseado apenas na capacidade informativa da imagem. os correspondentes. ficou muito longe da realidade. São. e do extinto Telejornal Brasil. de instauração de um ponto de vista sobre o que se vê e ouve (como um som em segundo plano. de vozes. precisa se servir dessas observações com certo cuidado. no entanto. Trata-se da inútil tentativa de mostrar se o “verbal” é mais importante na TV do que o “visual” ou vice-versa. existem apenas 36 fragmentações de áudio. do SBT (transformado depois em Jornal da Record. Antes de explicar melhor esse ponto. “sem exceção. pedaços de uma história mostrada em diferentes ângulos. O que se detectou mesmo foi a função insubstituível da palavra. entre 14 e 19 de agosto de 1996.Guilherme Jorge Rezende. é muitas vezes um reducionismo. dos militares americanos no Iraque. do Jornal da Cultura (TV Cultura de São Paulo). com as falas. esclarecendo a informação visual ou até mesmo comandando o processo de composição jornalística na TV” (2000:272). Se 207 . que analisou. é evidente que a base narrativa verbal foi construída também a partir do conjunto de informações e gravações obtidas. além das pequenas falas em inglês de Bush. Chamar os fragmentos de “imagens”. O telejornalismo (. fragmentos que apresentam sincretismo. O número inclui os apresentadores. convém dizer que não estamos querendo retomar um assunto criticado no início desse estudo sobre o telejornalismo. Ao contrário. comentando. que correspondem a 14 falantes. os dois cidadãos norteamericanos ouvidos e a entrevista com o representante brasileiro em Bagdá. Por outro lado. As intercalações têm como base o que poderíamos chamar de uma trilha de áudio principal. seis edições do Jornal Nacional.

A alternância entre o áudio principal e as gravações é feita de modo a permitir que o telespectador possa acompanhar a progressão da notícia sem perder o enredo. para contá-la em detalhes: “Saddam Hussein iria passar a noite de sábado. Os jornalistas contam ou comentam as histórias que vão sendo mostradas nos fragmentos audiovisuais. a trilha de áudio principal continua a se sobrepor. Diz o correspondente: “Quando os soldados norte-americanos se aproximaram. Em alguns momentos específicos. tapou a entrada”. para ser novamente retomado. Uma placa de isopor esculpida. Eles enunciam a notícia na forma de uma narrativa falada. a ser ouvida (caso dos correspondentes explicando manifestações) na sucessão de fragmentos. agora do ponto inicial.” Novamente. como se fosse uma pedra.. O desenvolvimento narrativo se dá por meio da fala. obviamente. Exemplifiquemos. não é Saddam correndo nem se jogando no buraco. O telespectador é convidado para acompanhar o que motivou esse ponto da história. apresenta 18 fragmentos com imagem e som. Militares norte-americanos no Iraque se surpreenderam com a falta de reação do ex-ditador no momento da prisão e com as condições do local em que ele estava escondido. que vão sendo intercalados. o apresentador Heraldo Pereira afirma: “Saddam Hussein queria negociar com os soldados perto de sua cidade Natal. porém. com certas nuances. Essas cenas. principalmente dos jornalistas. Para que a atenção do telespectador não se perca diante de tanto estímulo.observarmos atentamente. o áudio principal se alterna ou cede lugar ao áudio secundário ou original em um mesmo fragmento ou conjunto de fragmentos. acontece no momento em que se ouve a voz em off dos correspondentes. 208 . O maior número de intercalações. que retoma a mesma história. Ao iniciar o bloco sobre a prisão de Saddam. Os fragmentos audiovisuais são recursos de concretização discursiva. Cristina Serra. É o caso das falas dos âncoras no estúdio e dos correspondentes em stand-ups. ou intercalante.. o áudio da trilha sonora principal corresponde à imagem que se vê na tela. No segmento seguinte. E o que se vê. E servem de “prova” ao que se fala . há a apresentação de um momento clímax. as vozes institucionais. Tikrit.um efeito de realidade. principalmente de fragmentos curtos. Em certos momentos.” Temos aí o áudio principal que determina a narrativa falada intercalante. ouvimos o off do correspondente. os maiores segmentos de áudio são dos correspondentes e dos apresentadores. As gravações que se sucedem – com ou sem áudio próprio (ou secundário) surgem como fragmentos relacionados a essa narrativa principal (ou mostrada). Um dos segmentos de narração em off da correspondente em Nova York. Saddam correu para o esconderijo subterrâneo do lado de fora. As gravações observáveis em seguida surgem como pedaços intercalados à história principal.

com seus pedaços de conflitos. tempo e espaço do que é mostrado e relacionando tudo ao que está sendo dito verbalmente. não remeteria a uma história com começo. 110 É notável. cumprem um papel de ancorar o verbal! Ou seja. a serventia é mais a de manter a atenção. só pode ser verdade. Saddam Hussein nega que tenha produzido armas de destruição em massa. É isso o que ele espera do programa. aquele ali. de distrair o olhar do que de servir de “prova” ao que se narra. o vídeo que mostra a explosão será muito mais chamativo. como mulheres e crianças. E sua atenção é estimulada justamente porque ele quer ver o “verdadeiro buraco” onde se escondia Saddam. Já a reunião dos fragmentos audiovisuais não teria grande significado. à narrativa intercalante. no telejornalismo analisado. comenta ou descreve tem uma correspondência no mundo real. não é o buraco que se imagina. 209 . Os fragmentos municiam. Podemos notar como certas paixões são estimuladas. por exemplo: “Segundo informações que já vazaram sobre o interrogatório inicial. O poder de atenção “imagético” parece estar relacionado ao fato de a cena gravada ser de “constatação” do acontecimento. perceberá que tem pleno sentido. como se fosse uma gravação de um programa de radiojornalismo. no regime de Saddam. na tela. O áudio principal é a voz do saber. meio e fim. no final da reportagem examinada. Busca-se. A filmagem dos estragos de uma bomba tem um certo impacto. ou de registro da “ação”. Funcionam como ilustração do que é dito. de gente e até mesmo de salas vazias. Não podemos esquecer que os planos de câmera e a montagem também controlam parte do nível de afetividade ou de inteligibilidade que se quer do enunciatário.entretanto. Em alguns momentos. que organiza e tira proveito dos sentidos gerados pela reunião das gravações. de outro. porém. O estudo da reportagem mostra ainda que diversos fragmentos têm outras funções e relações. A concretude mostrada nas gravações satisfaz a curiosidade de não apenas entender. por exemplo. O correspondente Luiz Fernando Silva Pinto. a indignação ao se apresentar o assassinato de inocentes. ser justamente a “imagem” de um acontecimento o fragmento mais curto. O “buraco verdadeiro” serve como subsídio e complemento à imaginação do telespectador.” E o que vemos são os jornais mostrando a captura de Saddam na primeira página. o que parece cansar mais. mas o buraco mostrado. mas também a de experimentar a vibração da história e a de verificar sua pretensa autenticidade. não é qualquer buraco. por exemplo. Quem se der ao trabalho somente de ouvir a matéria analisada do JN.110 Pode-se observar essa situação. a idéia de que tudo o que alguém apresenta. comenta. controlando a polissemia ao determinar pessoa. de um lado. que é provocada com a narração em off. Com certeza.

representam. no Jornal Nacional”. caso do acompanhamento jornalístico da longa agonia do presidente Tancredo Neves. No primeiro caso. também vale para o rádio e para a Internet. Podemos notar. Nos casos analisados.e diz que é “um procedimento exclusivo da televisão. a televisão apresenta o tempo da enunciação como um tempo presente ao espectador. Seqüências como reportagens. durável e estocável. estamos discutindo aqui o domínio do “parecer”. É por isso que a programação temporal do JN. se sobrepor 210 . ter uma produção simultânea à recepção. não houve segmentos “ao vivo”. é comandada do estúdio. o tempo da narração de um correspondente. do ponto de vista temporal.Mais questões sobre a temporalização Uma das principais características dos jornais de fluxo é a possibilidade de parecer enunciar em “tempo real”. podem ou não ser gravadas. Resulta daí a marca de efemeridade que caracteriza muitos produtos televisuais: a transmissão direta desmoraliza a noção de ‘obra’ como algo perene. Na edição de dezembro. Eraldo afirma. o telespectador se defronta com dois tipos de segmentos: um sentido como uma operação em transmissão direta (e vamos insistir. por sua vez. petrificações de um tempo que. na realidade. substituindo-a por uma entidade passante. vale comentar que essa constatação. do espaço que tem um tempo “agora”. o aqui-e-agora do faiscar eletrônico” (2000: 139). muitos deles de arquivo. Fátima Bernardes diz: “O Jornal Nacional está começando”. atualizaram os próprios segmentos gravados. a idéia de uma notícia que teve um desenvolvimento até aquele instante. por exemplo. Note-se que a máxima sensação de proximidade com o público-alvo buscada em um telejornal é a do tempo. Diante da estrutura do telejornal. uma vez obtido. Os apresentadores do estúdio. Esse efeito de atualidade é levado ao limite com a transmissão de acontecimentos “ao vivo”. a prisão de Saddam. o que pressupõe um “agora”. notadamente dos correspondentes. já é passado. após a escalada. mesmo com os problemas técnicos da rede. como da maioria dos telejornais. nesse sentido. o que surge como transmissão direta mais cotidiana é o trabalho dos apresentadores no estúdio. que serviram para ilustrar as falas. Inicialmente. ou seja. pois enquanto a fotografia e o cinema realizam congelamentos. do efeito) e outro apresentado como previamente gravado. Machado chama essa coincidência de “tempo presente” – preferimos a expressão “tempo real” . também depois da escalada: “Agora. Na edição analisada de julho. Os efeitos de atualidade se basearam mais na discussão de conseqüências do fato principal. As narrações. O telejornalismo tem outros recursos para simular que a recepção do telespectador se dá no mesmo momento de produção do programa.

Pode-se pensar com velocidade?” Na mesma linha. e que são tomadas pela urgência. O que se pretendeu foi justamente o impacto dessa inserção: de que se estava no centro dos fatos. não se pode pensar. e que se interroga muito sobre seu privilégio.. (1997: 40). Diz Marcos Losekann: “. Bougnoux fala da dificuldade que ela traz de ‘fechamento do círculo semiótico’: o rápido impede o pensar sobre a coisa” (2000:82). Do ponto de vista do conteúdo informativo. o fato já ocorreu. a praça pública. a Globo enviou a apresentadora Fátima Bernardes a Washington D. que o fato é gravado. Outro ponto interessante sobre a questão da atualidade. o outro chora. O controle da percepção: o uso ideológico da edição e dos planos de câmera Teóricos e críticos da televisão e do telejornalismo sempre citam o problema da reflexão diante do que é mostrado na tela da TV. negativo. entre a urgência e o pensamento. 211 . É o ponto de vista do privilegiado que tem tempo. é passado. de uma narração mostrada.. é que os jornais de fluxo necessitam cada vez mais enunciar não só sobre o acontecimento. e também citando Platão. Bourdieu. que inclui também estratégias espaciais. não faria a menor diferença a jornalista apresentar o JN nos Estados Unidos ou no Brasil... E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão entre pensamento e velocidade.) há algo de podre na eleição do rápido como categoria central do telejornalismo. Ela transmitia as notícias de um estúdio no local. como parte dele. (.. mas também “dentro” do acontecimento.. afirma que “a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento. que. Platão dizia que na urgência não se pode pensar. Na verdade.ou tentando se confundir com o tempo de uma seqüência. Mas este não é o lugar de discutir esse aspecto. quase como parte dele. Marcondes Filho. A mesma enunciação que remete ao presente nos informa. Os dados chegariam do mesmo jeito e pelos menos canais. Só que o presente – o beijar e o chorar – é um presente histórico. Ele diz. Estabelece um elo. exatamente pela ausência de uma identificação sobre um “ao vivo”. Expliquemos: para acompanhar a eleição do presidente dos Estados Unidos em novembro de 2004. Há diversas embreagens temporais.enquanto um iraquiano beija a foto de Saddam Hussein. mais ou menos.C. o certo é que há um elo entre o pensamento e o tempo. diz que “(. na urgência.) É preciso notar que o rápido é sempre perigoso e pode facilmente levar a conseqüências desastrosas. por exemplo. É francamente aristocrático.” Surgem duas imagens correspondentes. do “ao vivo”. É um velho tópico do discurso filosófico: a oposição feita por Platão entre o filósofo que dispõe de tempo e as pessoas que estão na ágora.

por exemplo. controlam o contato do público com os fragmentos e os conteúdos e têm a missão de também administrar como o público deve se sentir e reagir. No Jornal Nacional. A montagem. valores e objetivos do enunciador para persuadir e manipular o enunciatário. contudo. é colocar a matéria da invasão dos Sem-terra (Tabela 2. O estudo das chamadas estratégias sensíveis. vivenciar impactos afetivos. de acordo com os interesses ideológicos do enunciador. Em objetos de textualização complexa. não só no telejornalismo. o espectador não tem muito tempo para “encaixar” o que vê e ouve ao seu código de valores na maioria das vezes. como mostramos 212 . A montagem do Jornal Nacional cria um ritmo. por fim. esse contato é sobredeterminado pelo tempo de duração desse fragmento. a montagem.Sem esquecer outros recursos. como o close-up citado. unidade 15) num bloco claramente “policial”. quando o líder do Sem-terra fala da invasão. o ato editar. na maior parte dos momentos. Deixamos para o final do trabalho uma questão importante: com o manejo dos planos de câmera e da montagem manipula-se o tempo que o público precisa para pensar e dar ordem aos estímulos. Em outras palavras. o ritmo de cortes mostra o investimento na dimensão afetiva. reforça ou coíbe certos momentos de reflexão. o acesso à ideologia não está apenas na análise do conteúdo. É importante novamente ressaltar que as relações entre plano de conteúdo e plano de expressão se apóiam numa série de efeitos de sentido cristalizados. pelo seu aspecto ideológico. um tipo de sucessão de tomadas tão diverso e intenso que o público só consegue. cada notícia. Em cinema e TV. que o JN cede tempo para o telespectador. depois de uma “longa” reportagem sobre a morte do traficante Marcinho VP e a invasão de um terreno na cidade de São Bernardo que foi palco do assassinato de um fotógrafo. é fundamental para compreensão dos interesses. evidenciando ou desvalorizando certos aspectos do discurso. é sinônimo de cortar. Em vez de falar do telejornalismo como um gênero televisual no qual é impossível a reflexão. em última instância. Uma estratégia notável. mas principalmente nesse tipo de objeto. ou no comercial. Quando tenta elaborar determinado estímulo. mas também na maneira de apresentá-lo. podemos dizer que câmera e edição. E pode-se cortar qualquer coisa: de planos a pedaços de narrativas. entretanto. as formas de percepção de valores e o tempo dos fragmentos. já se está em outra notícia. Qualquer objeto que for focado pela câmera em detalhes imediatamente será entendido pelo público como “importante” para a trama. de criação de paixões e o grau de inteligibilidade do assunto quando lhe interessa. acreditamos que é mais relevante notar como cada programa. Devemos notar. define as relações entre unidades. manipulados pelo enunciador e decodificados facilmente pelos enunciatários. Entretanto. ou seja.

anteriormente. 213 . iraquianos. Ou à enunciação do presidente Bush ao comentar a prisão de Saddam Hussein. tudo sem porta-voz. Seu tom de voz é cortês. quem assiste ao programa entende que. Não podemos esquecer que a prisão de Saddam não deixa de ser o momento de comemoração de vitória de Bush. Nesses momentos. É possível afirmar que a matéria. Vale notar.111 111 É evidente que se trata de um dado dessa matéria específica. que misturam povos e questões. tem clara função de valor no plano de conteúdo. o plano da “justa medida”. da performance vitoriosa do exército dos Estados Unidos na captura do ex-ditador. isso sem contar o que os jornalistas comentam sobre ele. O pronunciamento de Bush é mais desacelerado. Na mesma matéria. principalmente quando se apresenta a reação negativa de palestinos. e aparece depois da rememoração dos crimes de Saddam. se o JN cedeu tanto tempo para a fala de Bush. A figura de Bush. está claramente valorizando o discurso do presidente dos Estados Unidos e sua posição ideológica. na matéria sobre Saddam. no plano de expressão. No fluxo televisivo. do diálogo. o JN trata o mundo árabe em gravações e cenas carregadas de emocionalismos e destruição. ao dar um efeito de “presença” justamente a Bush e a sua fala “civilizada”. ao desacelerar. ao contrário. aparece em um quarto do tempo da matéria. o que o valoriza do ponto de vista inteligível. não uma posição que queremos imputar ao JN em relação à guerra dos EUA no Iraque. É dele ainda a palavra final e quase conclusiva. que o impacto da captura do ex-ditador entre os árabes passa em ritmo frenético. Em outras palavras. é porque o discurso deve ser entendido como o mais importante da matéria. a cessão de tempo. mesmo com os questionamentos dos correspondentes. Bush é filmado em plano próximo. interessa ao enunciador que o enunciatário elabore os dados da história.

Faremos. não há o que discutir. este capítulo é o que mais tem amparo nas idéias de nossa dissertação de mestrado sobre o semanário de informação da editora Abril. Os dois meios de comunicação foram colocados em um único item em função de diversas semelhanças. Otávio Frias Filho. que já se cristalizou há 50 anos essa distinção entre aquele que é o veículo de 214 . como ponto de partida para reflexões de maior alcance. e para permitir algumas comparações com os outros noticiários também examinados neste trabalho. é analisada a produção de sentido dos diários e revistas. diz que “o consumidor da mercadoria jornal é um indivíduo que tem certas expectativas e certas exigências em termos intelectuais. É um fato. um levantamento minucioso das diferenças entre as publicações. verificaremos como foi feita a cobertura da prisão de Saddam Hussein pela Folha e pela Veja. citaremos outras publicações para enriquecer a discussão. Nos estudos mais específicos de construção textual. As reflexões sobre a significação nas revistas têm como objeto a Veja. que estão num patamar um pouco acima da sociedade como um todo. a chamada mídia impressa. a base é a Folha de São Paulo. O diretor de Redação da Folha de São Paulo. Como não poderia deixar de ser. Considerações gerais – Folha de São Paulo e revista Veja Proprietários de jornais e revistas afirmam que seus produtos são para a “elite”. no entanto. Em alguns momentos. tomada. os chamados formadores de opinião. Para o estudo dos diários. principalmente a forma de textualização baseada no manejo do espaço do plano de expressão. em diversos aspectos.JORNALISMO IMPRESSO Nesta parte do trabalho.

Folha de São Paulo.último acesso em maio/2005. a Folha chegou a vender uma média diária de 606 mil exemplares. a queda em um ano foi de 2. diante da grande concorrência com outros meios mais ágeis. na mesma coluna.masteremjornalismo. rádio e TV: “Acho que a imprensa em geral. janeiro de 2004. O "Estado". Beraba culpa a concorrência principalmente com sites.br/entrevistas/otavio/entreotavio1. ed. os três jornais perderam juntos 31%. O jornal do Rio. por tabela. ele arrisca um palpite para a queda nas vendas: “Um dos pontos que as empresas e os jornalistas têm de se perguntar é se a desconfiança não é um dos fatores que estão corroendo a credibilidade e. Marcelo Beraba. revista Fapesp. o rádio (64%) e a televisão (61%). está 112 Trecho de entrevista – “Uma porta de entrada para novos leitores de jornal . os jornais só perdem em credibilidade para os médicos (85%) e as Forças Armadas (75%) e estão mais bem posicionados que dois de seus concorrentes diretos.Paulo explica por que o interesse jornalístico pela ciência tende a aumentar “ .112 Nos últimos anos. diz que a confiança dos diários é imensa no Brasil: “É uma surpresa para mim que a credibilidade dos jornais brasileiros esteja em alta.Mariluce Moura. Como em 2003 tivera uma média de 315 mil exemplares diários.3%. teve um crescimento pífio de 4. o próprio Marcelo Beraba. A6. 5/06/2005. 13/03/2005.htm . vive um período de crise de definição. e foi o único. encerrou 2004 com uma média de 257 mil. a venda dos grandes jornais.”113 Na mesma coluna.000 exemplares por dia. que no seu auge alcançou 385 mil exemplares. que é o jornal”. 215 . Se tomamos por base o ano 2000. a televisão. três meses depois. 113 “O futuro dos grandes”. Numa relação de 17 instituições e profissões avaliadas. A8. 10 mil a menos do que no ano anterior. mostrou que os maiores diários do País enfrentavam quedas de tiragem sem interrupção desde 1996: “Em 1995. O ombudsman da Folha.informação de massa. Marcelo Beraba. Terminou o ano passado com uma média de 308 mil. 95.”114 E qual a razão da crise. Disponível no endereço: http://www. e principalmente a imprensa escrita. terminou 2004 com 233 mil. Em relação a 2003. então? Em artigo sobre a renovação de seu mandato. A imprensa está em mutação.” No entanto. que naquele mesmo longínquo 1995 chegou a vender 412 mil exemplares por dia. coluna do ombudsman. 114 “A confiança dos leitores”.O diretor de redação da Folha de S. em março de 2005. Folha de São Paulo. Marcelo Beraba. Os desempenhos do "Estado" e do "Globo" não são muito diferentes. essa mesma elite tem preferido revistas aos diários. coluna do ombudsman. Pesquisa nacional realizada pelo Ibope em maio mostra que a confiança que a população tem nos diários subiu de 65% em setembro de 2003 para 74% no mês passado. e o veículo de informação do conjunto das elites.org.

o caminho do sensível ao inteligível. Isso acontece porque o material 115 “Ombudsman tem mandato renovado por mais um ano”. Por outro lado. Isto é e Veja deram capa para o novo livro de Paulo Coelho. o gerenciamento do nível de atenção. Isso acontece porque jornais e revistas têm um projeto gráfico. Marcelo Beraba viu na coincidência uma das razões para o sucesso das publicações: “As revistas mudaram muito nos últimos anos. Essa estratégia vem dando certo sob o ponto de vista comercial.117 Qualquer leitor que toma contato com diversos números de uma mesma publicação nota certas recorrências na maneira de as unidades noticiosas serem apresentadas. Nesta perspectiva. A6. A6. capitaneadas pela Veja. sustentação e fidelização da atenção dos leitores. pesquisadores e teóricos do jornalismo parecem não valorizar os efeitos dos projetos gráficos nos seus estudos. coluna do ombudsman. Ao mesmo tempo. as capas com Paulo Coelho até que são coerentes.”115 As revistas semanais. diversos jornalistas. tiveram uma circulação semanal em 2004 de quase 2 milhões de exemplares. por seções mais leves e temas relativos à vida das pessoas. como deve ser o posicionamento de fotos e outros elementos. Aos poucos. 116 “Três vezes Paulo Coelho”. as estratégias de arrebatamento. como saúde. “O Zahir”. geralmente ecoando padrões culturais da moda. Época. cada número de um jornal ou de uma revista é diferente de outro no aspecto visual. foram trocando o noticiário pesado dos assuntos públicos. Marcelo Beraba. que define com alguma rigidez a quantidade de colunas em cada página. As celebridades têm espaço valorizado. 117 O manejo de suportes. tanto que as três revistas tiveram crescimento em relação a 2003. finanças. Folha de São Paulo. Em meados de março. por exemplo. nos impressos. 216 . que aparecem na forma de receitas do gênero “vermelho significa paixão” e “Times New Roman é uma letra que sugere seriedade”. os efeitos de projetos gráficos e de diagramação remetem aos trabalhos de profissionais ligados ao design. comportamento. reportagem local (sem identificação de autor). como a política e a economia.”116 Organização textual: efeitos do projeto gráfico e da diagramação O estudo das especificidades de diários e revistas tem como ponto de partida o exame da administração de elementos no suporte de papel que mostra como funciona. nem sempre interessados em discutir as produções de uma perspectiva teórica. Folha de São Paulo. 27/03/05. Tentaremos uma abordagem mais integral. crenças.vivendo uma mudança e não tem ainda uma clareza do tipo de modelo que deve adotar. tipos e características de letras a serem utilizados na manifestação do verbal. Alguns designers apresentam listas de significações rígidas para a confecção de projetos gráficos. 24/04/2005. em que parte da publicação certos assuntos deverão ser tratados. É o caso do uso das cores ou tipos gráficos.

portanto. por exemplo. mas de produção. A diagramação. Na tabela a seguir. É preciso. tem funções importantes para o processo industrial de confecção de um jornal. por sua vez. 119 Devemos relembrar. em termos gerais. contudo. A edição. a edição (como ação) é entendida como estratégia global de enunciação.que chega às redações e o modo de organizá-lo sempre variam. 217 . ou seja. adequar o projeto gráfico às necessidades do dia-a-dia do jornal.119 118 Dos jornais estudados. apontamos as principais funções da organização textual administrada pela diagramação e como se relacionam com as três estratégias de gerenciamento do nível de atenção. organizar e manifestar gráfica e plasticamente as unidades noticiosas a partir das necessidades da edição (aqui como ato ou efeito de editar). como aplicação cotidiana das diretrizes do projeto gráfico. Editar é textualizar (relacionar um plano de expressão com um plano de conteúdo). o conjunto de normas e recomendações que norteiam o trabalho dos jornalistas. Diagramar é.118 A organização espacial executada pela diagramação expõe uma série de regras que mostram como essas publicações valorizam e diferenciam as unidades noticiosas e como dirigem a percepção dos leitores para que realizem essa mesma operação de reconhecimento da importância das notícias. somente a Folha de São Paulo torna público seu projeto editorial por meio de seu Manual de Redação. está atrelada ao projeto editorial do jornal. sobre a organização textual. que o formato de um noticiário não é conseqüência somente de coerções de consumo. Outra importante contribuição é criar uma distinção clara entre a parte jornalística e a dos anúncios. sua aplicação e adaptação ao cotidiano de produção de um diário ou de uma revista. Como já comentamos no item III. Serve. A execução do projeto gráfico. acontece por meio da diagramação. para facilitar e agilizar os fechamentos das edições ao padronizar rotinas e modos de operacionalização dos editores.

dosando. maneiras rotineiras de valorizar ou desvalorizar conteúdos que criam um código comum entre enunciador e enunciatário. como veremos depois. com o tempo. notas com grandes matérias. (Vale lembrar ainda que a “passionalização” do leitor é função principalmente dos conteúdos. 3. a função da diagramação é a de permitir que a importância desses conteúdos se torne visualmente evidente e chamativa por meio da ocupação espacial. Uma comparação entre jornais de um certo intervalo de tempo já dá indicações importantes dos sentidos manejados pela diagramação e partilhados entre veículos e 120 As iscas da diagramação são de ordem gráfica e se relacionam com as estratégias de arrebatamento. certos modos de ocupação de espaços e divisões.Instaurar uma comunicação de valores instantânea. uma legenda. uma matéria) visualmente atraentes por meio do manejo da cor.Buscar construir uma publicação atraente.Fazer-crer em uma fácil legibilidade. com o tempo saberá rapidamente como conseguir essa informação. O espaço é manipulado para se obter maior ou menor nível de atenção e a correspondente tensão do leitor. necessário. Em outras palavras. entre outros procedimentos. pela forma de apresentação do jornal. Ou seja. completa. o leitor pode transitar facilmente pela publicação e parar somente onde achar necessário. inicialmente. Essa familiaridade em relação ao suporte gráficoplástico é produto do uso contínuo das mesmas famílias de letras. uma foto.120 2 . 4 . O enunciatário consegue identificar. Nesse sentido. se o leitor precisa ver a cotação da bolsa.) Estratégia de fidelização – Nasce do contato rotineiro com diferentes edições e da satisfação de saber obter o que se quer com facilidade. divide o material para não cansar o leitor. bonita.Funções da organização textual 1 . é preciso leitura. uma administração de categorias cromáticas. é tornar elementos das unidades noticiosas (caso de um título.Criar iscas para o olhar. por conhecer o lugar onde é colocada. Nos textos mais longos. uma foto cuja cor crie contraste com o fundo branco. passagem do sensível para o inteligível. topológicas e eidéticas). Concebe espacialmente uma unidade noticiosa para que tenha pontos de atração de curiosidade.Criar um sentido de identidade ao material. que se ligam às curiosidades despertadas pelos conteúdos das próprias notícias. A diagramação deve manejar assim um ritmo. Pressupõe contatos anteriores bem-sucedidos. por causa da ocupação espacial. o que significa passar a sensação ao leitor de que ele pode ter acesso rápido a tudo o que interessa saber (o que é “importante”) na edição inteira. que alie a beleza ao caráter prático exigido pelo leitor. por exemplo. de que pode se informar de maneira rápida e eficiente. A identidade visual. Jornais e revistas apresentam-se como um tipo de objeto prático. 5 . 218 . posição e forma (ou semioticamente falando. na repetição de determinados padrões. o tipo de valorização de uma unidade noticiosa. portanto. “indispensável” ou que “não dá pra não ler”. também gera sentido de familiaridade. bonito. entre outras possibilidades. Estratégia de gerenciamento da atenção mobilizada Estratégia de arrebatamento – As iscas estão relacionadas à criação de descontinuidades do plano de expressão com a função de obter o primeiro engajamento perceptivo do leitor. São. A prisão de Saddam Hussein determinou na Veja e na Folha de São Paulo uma grande ocupação espacial. A tarefa do diagramador. Estratégia de sustentação – Há aqui uma mobilização mais passional do leitor. Ele é persuadido.estratégias de ordem sensível. Não devem ser confundidas com as estratégias de sustentação. a partir das coerções do projeto gráfico. como um título com um corpo de letra maior em relação a outro. o que facilita cada vez mais a obtenção da informação buscada pelo enunciatário. Em outras palavras.

Vejamos essa seqüência de primeiras páginas da Folha de São Paulo de 10 a 21 de dezembro de 2003.leitores. Atentemos ao espaço preenchido pelo título do bloco de manchete principal: 219 .

e a do afastamento de dois juízes na Operação Anaconda. com nitidez. Duas reportagens expõem os limites dessa estratégia: a da captura de Saddam Hussein. Comparemos a seguir a ocupação espacial desses dois assuntos. assinalados em amarelo: 220 . que recebeu o menor destaque entre as primeiras páginas. destacando-o por meio de um título com um corpo de letra mais proeminente. a Folha de São Paulo “comunica” qual é o seu assunto principal. que toma o maior espaço. uma variação de ocupação espacial. Percebemos. entre outros recursos. Uma comparação entre as edições mostra que o jornal também dá pesos diferentes para alguns blocos de manchete.Em todas as primeiras páginas.

principalmente a que o apresenta quase como um mendigo. por meio da aspectualização do espaço da página (criação de continuidades ou descontinuidades). ineditismo. o seu valor ou importância em termos de impacto. ao plano de conteúdo. também recebem destaque. a principal notícia do jornal. A manchete menor conta apenas com um infográfico. O de Saddam é o maior entre as primeiras páginas comparadas. de maneira distinta. A maioria dos títulos de manchetes tem seis colunas. entre outros. sem segmentação. “Traduz”. atualidade. no plano de expressão. os recursos também valorizam. comunicam a existência de uma manchete “fraca” e de uma manchete “forte”.A diferença é muito acentuada. o que é mais relevante e tem maior valor como informação. Os dois casos parecem indicar dois extremos na maneira de manifestar as manchetes principais. Deve-se observar a variação do corpo de letra dos títulos. para um reconhecimento imediato. o que o leitor pode esperar da notícia no plano de conteúdo. Existe um contrato pressuposto entre leitor e jornal para que os assuntos abordados apareçam hierarquizados por ordem de importância. A administração dos espaços está atrelada a conceitos. com cerca de 40 toques. Nos exemplos citados. A diagramação está informando. E essa hierarquização é mostrada visualmente. Analisaremos agora com mais profundidade como são homologados esses valores a 221 . interesse. por meio das diferentes maneiras de ocupação espacial de uma unidade noticiosa. Na comparação entre edições. que também se relaciona com a ocupação espacial. As fotos de Saddam.

to convey excitement. de que a significação emerge a partir de diferenças. é preciso haver primeiramente enfado. faz uma observação que serve para entender as técnicas utilizadas pela Folha e reforça um conceito básico de semiótica. já que o excitamento existe somente em função do contraste. detalharemos o item 3 do gráfico anterior sobre funções da diagramação e do projeto gráfico (“instaurar uma comunicação de valores instantânea”). The best setting for excitement is a styling that creates a climate of normalness. O raciocínio também é válido para as revistas. Mountains get their drama from valleys. de descontinuidades. pudemos observar que a manipulação do espaço do jornal é uma forma de administrar a atenção do leitor. O autor diz que é preciso criar uma espécie de sensação gráfica de “normalidade” para justamente poder valorizar momentos especiais. O diretor de arte Jan V.uma unidade noticiosa. Fica mais evidente. 2004: 53). That is why flamboyance in layout succeeds only when it is presented in the context of nonflamboyance. frenetic confusion (a visual babel) results. O exemplo explorado até agora se relaciona à primeira lei. como o manejo das relações topológicas do plano de expressão dos diários e das revistas (categoria maior espaço ocupado x menor espaço ocupado) relaciona-se ao valor e ao potencial de atenção de uma notícia. Três outras leis são válidas para todas as formas de noticiários impressos: No original. apresentamos quatro “leis” de diagramação. Todo o processo desdobra-se em outros semisimbolismos. one has to have dullness first. of course) may be all very well. No nosso trabalho sobre a revista Veja (Hernandes. Se a excitação é tentada em toda a parte. “Paradoxalmente. ao apresentar estudos e técnicas sobre projetos gráficos de publicações impressas. isso resulta numa frenética confusão (uma babel visual). para transmitir excitação. parágrafo completo: “Now. White. but what about situations that demand special handling? Those Special Reports and extra-exciting articles or issues? Paradoxically. Isso responde por que a extravagância em um projeto só tem sucesso quando é apresentada em um contexto que não é extravagante.”121 Na comparação entre os blocos de manchetes. If excitement is attempted everywhere. for excitement exists only in contrast. normalness (of a distinctive kind. agora. Montanhas obtêm seu drama dos vales.” 121 222 . Em outras palavras.

Essa lei leva à colocação das principais informações e dos elementos de mais impacto sempre no começo. A lei é válida tanto para a relação entre unidades noticiosas numa mesma página (ou conjunto de páginas) quanto para elementos de uma única unidade noticiosa. legendas. somos comunicados de que as imagens estão sendo mais valorizadas. sem espaços em branco na maior parte da área normalmente utilizável das páginas (conhecida por mancha gráfica). Terceira lei: a máxima valorização espacial de uma revista ou diário acontece na capa ou na primeira página. Cada página é um módulo formado por outros módulos menores. como pode parecer. Existem outras formas de diagramar publicações com diferentes efeitos. o enunciador informa o assunto ou assuntos que considera mais importantes na edição. Inicialmente. meio e fim. Isso dá. Dar menos espaço desvaloriza. há raros casos em que há um bloco maior no meio da página do que em cima. Módulos. expõem a existência de hierarquias internas e externas de 223 . Diagramar é. já que são meios de organização espacial dos elementos. A diagramação de jornais e revistas. ao integrar títulos. Categorias topológicas de expressão Maior área ocupada x menor área ocupada Correspondência no plano de conteúdo Parte de cima x parte de baixo Maior potencial de atenção x menor potencial de atenção Exterior x interior Inicial x final Devemos lembrar também que as leis de diagramação que citamos estão baseadas na maneira de um ocidental ler um texto verbal: uma seqüência de começo.Estratégia do plano de expressão Primeira lei: o valor de uma unidade noticiosa é proporcional ao espaço a ela concedido. se as fotos ocupam mais espaço. Por exemplo. infográficos em uma ou mais páginas. A lei também vale para os elementos. E que não se trata de algo “natural”. Segunda lei: tudo o que estiver na parte de cima tem mais valor do que na parte de baixo. da esquerda para a direita. a sensação de que o jornal apresenta os assuntos na forma de “blocos” encaixados. permitem visualizar as hierarquias e “leis” expostas. em quadrados ou retângulos maiores. dá a quase todos esses elementos uma forma quadrada ou retangular. há um encaixe sem sobras. Os módulos interessam ao trabalho por diversos motivos. Quarta lei: o início de uma unidade noticiosa é o espaço mais valorizado. Esses elementos quadrados e retangulares quase sempre aparecem meticulosamente reunidos em “módulos”. portanto. da parte de cima para a parte de baixo. matérias. Dessa maneira. Nessa situação. a primeira lei prevalece. literalmente. fotos. encaixar elementos pertencentes a um assunto dentro de um módulo e relacioná-lo ou separá-lo de outros. Dar mais espaço valoriza. Nesse espaço. ao leitor. Nos diários.

Beckenbauer e um leão. Todo jornal (e uma revista também) é constituído por esses módulos. ou seja. A modulação de unidades (ou seja.unidades. e uma panorâmica (nome que a Folha dá a uma parte com notas de assuntos diversos. que vai variar dependendo do recorte que se faça: da edição inteira a uma nota. A panorâmica. vejamos esse exemplo de uma página de abertura do caderno de esporte da Folha de 22 de março de 2005 (D1): Podemos notar que há somente dois blocos de textos: a matéria sobre a saída do técnico do Santos. destacada em rosa. título) dentro de um único tema. a apresentação conjunta de fotos. Os diferentes elementos das notícias aparecerem hierarquizados pelos módulos. realçada em roxo. torna rentável para a análise observar a categoria de expressão englobante x englobado. além do infográfico “O Santos em números”. Essa organização guia a atenção do leitor e informa o valor das notícias na visão do 224 . que é mascote da Copa do Mundo 2006. que fazem com que as unidades noticiosas apareçam na forma de blocos. por sua vez. Para esclarecer esse funcionamento. apresenta sua própria “notícia principal”. matéria. mas sobre um mesmo tema). visualmente agrupadas em um bloco. no qual se vê Pelé. A matéria principal sobre Oliveira é seguida de outras três. Cada uma dessas divisões admite outras. gráfico. tem uma hierarquia interna.

122 Cada módulo submete diferentes elementos (fotos. na forma de editorias. de modo a organizar psicologicamente a leitura e atrair novas frações do leitorado. as coerções do projeto gráfico mostram que o enunciador maneja grupos de elementos determinando relações espaciais muito claras entre unidades e elementos. a gráfico-plástica.com. já que cada leitor faz o recorte que deseja. 225 . principalmente dos diários. As leis de diagramação podem ser pensadas também como prescrições de como montar os módulos. da Folha de São Paulo. Divisões do jornal. o de impor a inter-relação espacial entre elementos.uol. colunas fixas. 123 No Jornal Nacional. e que vem necessariamente antes da editoria Brasil.br/folha/80anos/futuro. até mesmo o encarte de revistas. no caso dos diários. dava margem ao que consideramos uma falsa polêmica: a de não se poder falar em “todo de sentido” nos impressos. e força o olhar do leitor a relacioná-los visualmente. seções. típica dos impressos.”125 Vamos agora analisar e verificar os efeitos dessa “organização da leitura” na Folha e na Veja. meios de comunicação impressos têm um ordenamento muito rígido de blocos de assuntos. edições especiais e. 124 O Projeto Editorial Folha é “uma série de documentos que o jornal começou a divulgar a partir de 1981 visando ordenar seus procedimentos e estabelecer suas prioridades editoriais” – In “Jornalismo em tempos de crise” – Fernando de Barros e Silva – um dos textos que discute os 80 anos da Folha de São Paulo. por exemplo. a prisão de Saddam ocupou um quarto do programa e apareceu logo no início.shtml . assim. Disponível em http://www1. gráficos) a uma única forma semiótica.br/folha/conheca/projetos-1988-4. Nas justificativas para mudanças do Projeto Editorial124 1988-1989. maior a importância da notícia. um dispositivo de sincretização manejado pelo diagramador. A disposição de elementos facilmente reconhecíveis e separáveis. É o módulo que faz o papel sincretizador mais importante. as citadas leis de diagramação.acessado em março de 2005. que visava “a facilitar a leitura e tornar mais atraente o cardápio diário de informações” (A10). O padrão modular de um jornal ou revista para o grande público. Dentro de um módulo.uol.shtml .com. esse assunto só poderia aparecer.folha. 122 Participamos de várias discussões sobre sincretismo em jornais e revistas com um tema recorrente.folha. facilmente reconhecíveis pelo enunciatário. 17 de outubro de 2004. Praticamente as mesmas razões são invocadas pelo jornal O Estado de São Paulo para justificar sua mudança de projeto gráfico a partir de domingo. Os módulos produzidos pela diagramação dão pistas importantes sobre o funcionamento do sincretismo nos impressos. É nesse sentido que falamos em rigidez.disponível no endereço: http://www1. há uma explicação para o projeto gráfico ter tantas divisões: “Segmentamos o jornal em cadernos e suplementos.último acesso em março de 2005.enunciador. no caderno Mundo. Esse ordenamento não se altera com a importância da notícia. cria-se a idéia de um todo de sentido. há suplementos.123 Além disso. Cada módulo é. títulos. dedicado aos assuntos internacionais. suporte e a atualidade da notícia Ao contrário do rádio e da TV. 125 Texto “Segmentação ou riqueza de detalhes” – sem autor . Maior o bloco. diferentes unidades são relacionadas espacialmente e. em si mesmo. mesmo com todo o destaque. Na Folha. dos editoriais e da primeira página.

23 de março de 2005.” 126 226 . cadernos especiais e revistas se repetem dentro desse segundo período. pensar em um terceiro ciclo. O primeiro e mais evidente é o de 24 horas.127 Na Folha. Na quarta-feira. mais suplementos. o Sinapse. Paulo explica por que o interesse jornalístico pela ciência tende a aumentar” – Revista da Fapesp – edição 95. Entendemos que é esse ritmo de 24 horas e não o suporte . a Folha descreveu em poucas linhas as “sabatinas”. no mesmo caderno Cotidiano.”126 Além do ciclo de 24 horas. a edição de domingo. A reportagem completa sobre o mesmo evento.que define o jornal. no entanto. na medida em que existe uma oferta muito grande. afirma que esse período define inclusive o tipo de jornalismo realizado: “Na Folha fazemos uma análise de que.Folha de São Paulo . tem o maior número de páginas.O diretor de redação da Folha de S. Uma página inteira foi editada sob o título: “Drauzio não vê sentido em lei próeutanásia. Isso gera situações curiosas. existe um outro. há ainda um suplemento mensal. semanal. a mais vendida. continua e continuará havendo a demanda por um panorama noticioso que reflita o que aconteceu de essencial nas últimas 24 horas. Otávio Frias Filho. Consideramos que essa necessidade até se acentua. marcado por um ápice. janeiro de 2004 – autoria de Mariluce Moura. uma palestra organizada pelo próprio jornal. inassimilável de informação. Sessões. com os detalhes das considerações do médico e escritor Drauzio Varella só foi publicada no domingo seguinte. Vejamos como o jornal se apresenta: Trecho da entrevista “Uma porta de entrada para novos leitores de jornal . revistas. mensal. por parte de um contingente grande de pessoas. dia 27. que reúne os assuntos mais analíticos. Cada número da Folha apresenta unidades noticiosas organizadas a partir de dois tipos básicos de intervalos de tempo. cadernos. que é encartado no jornal toda última terçafeira do mês.que pode ser tanto o papel quanto a tela . com níveis de credibilidade muito díspares. 127 O leitor de domingo é pensado como alguém que tem mais tempo para ler e merece “o melhor”. O título foi “Drauzio defende aborto legal para que deixe de ser matéria ‘de marginal’”. preocupado com o futuro do jornal diante de novas tecnologias de informação. O diretor de redação da Folha de São Paulo.Comecemos pelo diário. Sua pequena importância editorial não justifica.

folha. Na segunda.com. inclui página sobre saúde. Arte. Empregos. na quinta. 129 Todas as informações dessa parte da tabela constam do site do jornal “Conheça a Folha” – (http://www1.br/folha/conheca/ . Cotidiano. Acompanhe seus Fundos. coluna de Moacyr Scliar. O que diz a própria Folha129 Primeira Página Opinião Brasil No primeiro caderno da Folha. educação e direito do consumidor. Mais!. Guia da Folha. concentra sua cobertura na capital paulista. Além das manchetes. Ciência. Regionais. Urbanidade. Falências.FOLHA DE SÃO PAULO – DIVISÃO Partes fixas – diárias – que aparecem em todas as edições128 Características Tem uma versão paulista e outra nacional. Procura oferecer ao leitor informações pluralistas e apartidárias. no sábado. Mundo. português. inclui coluna do ombudsman. com Gilberto Dimenstein. Atmosfera. A seção Opinião Econômica tem como objetivo manter o pluralismo de opiniões. Tudo. brasileira e internacional. Notícias locais. coluna de Luís Nassif (exceto às segundas) – Agrofolha (às terças). Dinheiro. Letras Jurídicas. para que ele exerça sua cidadania. encartado na Folha de 8 de março de 2005. Ilustrada. Élio Gaspari. Loterias. Cotidiano Oferece ao leitor informações úteis ao seu dia-a-dia nas áreas de segurança. 227 . Notícias sobre as últimas descobertas e pesquisas mais recentes e importantes no Brasil e no mundo. O leitor também tem acesso ao que é publicado nos mais influentes meios de comunicação do planeta. Dinheiro Folha Mundo publica diariamente as principais notícias internacionais. com especial atenção para o didatismo e para o uso de recursos visuais na explicação de assuntos complexos. um instrumento fundamental para os formadores de opinião.último acesso em março 2005) – links Cadernos diários e Suplementos.uol. Notícias Internacionais. inclui “Entrevista da 2ª”. coluna de Gilberto Dimenstein. Mortes. Há 50 anos. Esportes. institucional e aos movimentos sociais. Traz diariamente notícias relativas às principais capitais do país. Opinião Econômica. ao mesmo tempo. a edição paulista traz informações sobre tempo no Estado e rodízio de automóveis. saúde. Turismo. Mercado Aberto. o caderno orienta quanto a investimentos. como o dedicado à mulher. Tem colunas de Jânio de Freitas. linguagem clara e elucidativa. inclui Painel (notas) e Toda Mídia (análise de Nelson de Sá). traz indicadores econômicos e faz a cobertura de temas que mereçam atenção especial em função da conjuntura econômica. Esses cadernos são resultado da divisão espacial e do trabalho conjunto das diversas editorias da Folha de São Paulo: Brasil. É. Mundo Ciência Notícias científicas Notícias econômicas. Cidade é Sua. Informática. e o mundo dos negócios são o principal alvo do caderno Folha Dinheiro. TV Folha. que nele encontram análises sobre os últimos acontecimentos. Imóveis. Veículos. Folhateen. Folhinha. Além de notícias nacionais. Revista da Folha. sempre acompanhadas de análises precisas e enfoque didático. Câmbio. A conjuntura econômica. com Walter Cenevida. 128 Base Folha de São Paulo do primeiro trimestre de 2005. no domingo. a editoria se dedica à vida política. Bárbara Gancia. Painel do Leitor. Tendências/Debates. na sexta. na quarta. Editoriais. Na edição São Paulo. trânsito e meteorologia. Com informações precisas. colunistas. com Pasquale Cipro Neto. Procura prestar serviço ao leitor sobre temas como direito do consumidor. No domingo. Erramos. Não vamos tratar aqui dos cadernos e revistas especiais. Uma vez por semana. Fotografia.

O Folha Turismo traz os principais destinos do Brasil e do mundo com coberturas exclusivas. o acadêmico. o pessoal. além de seções. F. Palavras Cruzadas. Cartas.Todo sábado. Equilíbrio Suplemento de saúde. sexo e muito mais. a Ilustrada fala sobre discos. Para crianças. a Folhinha publica reportagens e fotos em sintonia com os interesses das crianças. exposições. Circula às sextas. coluna de Mônica Bergamo. + poema. concertos. Toda quinta. região onde circula. Úteis e fúteis. As reportagens e as seções procuram desfazer a fronteira entre o profissional. atualidades e consumo.Jorge Coli Biblioteca básica. O Folha Informática auxilia os leitores a entender e a usar melhor a Internet e os computadores. passatempos. Seus colunistas garantem análise. + cinema . cultura. Toda semana os adolescentes encontram no Folhateen os principais assuntos de seu interesse: música. sexo e saúde. Ponto de fuga . Foi o primeiro a usar estatísticas. O objetivo do novo caderno é dar ao leitor instrumentos para o leitor (sic) que não quer ficar para trás numa sociedade que cada vez mais exige capacidade de reciclagem e atualização. Inclui Astrologia. dança. quadrinhos. gastar menos. Quadrinhos. Plural. Com linguagem simplificada e objetiva. comportamento. Hardware. quadrinhos. Único suplemento mensal – circula na última terça-feira do mês. cadernos e revistas exclusivos do final de semana Mais Revista da Folha 228 . Televisão. brincadeiras e promoções. o caderno Mais! é referência internacional como caderno cultural. Caderno cultural. na análise esportiva. Notícias sobre viagens. passeios. Crítica e ousada. Foco no desenvolvimento profissional.Esporte Notícias esportivas. Era uma vez na América. Todo sábado. traz assuntos relacionados à política. Painel FC. Inclui roteiros de restaurantes. sociologia. dirige-se tanto ao leitor iniciante quanto ao mais experiente. Tem como grande diferencial a prestação de serviço. decoração. Televisão. É atualmente um dos cadernos mais lidos da Folha. comportamento. Ilustrada Suplementos durante a semana Folhateen Notícias para adolescentes. guia de programação da região. Programação de TV. Meu Sábado. Internet. É Grátis. O caderno se dirige ao leitor que quer sempre conhecer mais. Na Grande São Paulo. Lançamentos. Toda segunda. Seções com quadros informativos e dicas de preços e lugares fazem deste caderno um roteiro útil para quem gosta de viajar. Colunistas especializados respondem às dúvidas e incentivam o adolescente a buscar informação. bares. casas noturnas e dicas para as crianças. Coluna de José Geraldo Couto. O Folha Esporte trata o esporte como espetáculo e fenômeno empresarial. Bárbara responde.log. Criado em março de 97 o Guia cobre a programação de cultura e entretenimento da Grande São Paulo. ganhar tempo e obter melhores resultados ao navegar na internet. Cruzadas. Curtas cartas. shows. Só circula na Grande São Paulo. Filmes. Placas. Os dez +. Com autores e colunistas conceituados. Cada dia tem um colunista ou ensaísta na última página. Comida. além de seus personagens preferidos. gastronomia e muito mais. Cultura e Variedades. Informática Toda quarta. videogames. legislação e moda. quadrinhos com Hugo. preparadas pelo Datafolha. Roteiro de lazer. além de dicas precisas sobre cuidados com o corpo e a mente. fotos e muito serviço. Turismo Folhinha Sinapse Guia da Folha Suplementos. ensino. Aborda o tema de forma diferenciada. Toda quinta. traz encartado o suplemento Acontece. Procura orientar o leitor para comprar melhor. cinema. Um caderno especial para os leitores que procuram literatura. + livros . Além de acompanhar os principais campeonatos. família. hospedagem. coluna de José Simão (exceto às segundas). filosofia e artes. Notas. É uma revista semanal de moda. A Folha Ilustrada traz a melhor cobertura do que há de mais original e relevante nas áreas de cultura e entretenimento.P. humor e diversidade de pontos de vista. Saúde. Um caderno dedicado à busca da saúde e da qualidade de vida. somente para a Grande S. marketing. Variedades. Traz as últimas técnicas e terapias para quem quer viver mais e melhor. teatro. O foco do Folha Sinapse é o aprendizado contínuo.

Reportagens deixam o empreendedor bem atualizado sobre as tendências de mercado. Dá sugestões de aperfeiçoamento. outra com exemplos práticos de bricolagem e uma que vasculha produtos diferenciados nas lojas paulistanas de construção e decoração. mas também a todos que querem atualizar-se sobre assuntos desse mercado. fazer a manutenção e tirar as dúvidas a respeito dos automóveis. secretária da redação da Folha. a tabela de preços publicada no caderno é a mais atualizada do mercado. Maioria das páginas é de anúncios. O caderno reúne reportagens e serviços direcionados aos profissionais que querem ampliar suas chances no mercado e aos que pretendem dar um impulso maior à carreira.e investimento em imóveis residenciais e comerciais. Feiras e Congressos. motocicletas.municiam o leitor de informações para administrar com eficiência. A edição nacional deve parecer menos paulista. e a Nacional. Notícias sobre imóveis e reformas. O Cotidiano têm três versões: a paulista. questões comportamentais. Além de testes. os setores em alta e a conjuntura econômica para que possa tomar decisões estratégicas precisas. Para permitir que o leitor converse com os profissionais da área. O jornal que os paulistas recebem. indica oportunidades de emprego. Finanças. Folha Construção. o jornal tinha mais cadernos regionais. por exemplo. A cargo do Datafolha. Finanças. venda e locação. 229 . que aparecem durante a semana. Feiras e Congressos . uma regional (Ribeirão Preto). legislação e novidades da indústria automobilística. o do Vale do Ribeira. Folha Imóveis. A segmentação rotineira do jornal ainda tem mais ramificações. cursos e bolsas de estudo. Financiamento bancário à classe média. A crise financeira obrigou o jornal a fechar quase todas as redações locais. A característica marcante de todos eles é apresentar notícias. No entanto. Empregos Folha Negócios Gestão. legislação e tendências do setor são alguns dos temas apresentados. comprar. 130 Os cadernos Folha Veículos. em 14 de setembro de 2005. Três seções se revezam semanalmente: uma que dá dicas para reformas. Folha Imóveis Há ainda duas seções semanais sobre lançamentos e soluções para problemas da vida em condomínio. abrir o próprio empreendimento e crescer. além dos anúncios. O Folha Veículos é uma fonte de consulta para o leitor na hora de vender. comparativos e tabelas. 131 Informações prestadas por Aparecida Cordeiro. pode ter notícia mais atualizada. esses fechamentos distintos privilegiam principalmente a adequação da primeira página aos diferentes tipos de leitores. O caderno Imóveis é voltado não somente para quem está à procura da casa própria. A conclusão da edição nacional acontece geralmente às 20h. tabelas e anúncios. o caderno engloba temas relacionados à decoração. há a preocupação de "traduzir" a linguagem técnica em temas como eletricidade. orienta sobre elaboração de currículo e processos de seleção. Tem páginas de anúncios. como o da região do ABCD. hidráulica. Inclui reportagens. portanto. Seções internas como Gestão.Folha Veículos130 Inclui reportagens. A maioria das páginas é de anúncios. produzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia. mercado de compra. o de Campinas. Folha Construção Além de dicas sobre materiais e técnicas construtivas.131 Na Folha de São Paulo existem também dois “fechamentos”. e a da edição paulista às 23h15. acabamento e legislação. O caderno orienta quem quer entrar no mundo dos negócios. Anos atrás. são temas do caderno comparativos entre vários modelos. Inclui reportagens. Folha Empregos não devem ser confundidos com espaços ou páginas de anúncios comuns.

não é encontrada. O leitor paulista recebeu um jornal com notícias mais atuais. com maior poder de despertar a atenção. portanto. Na edição paulista. Na edição nacional. Periodicamente. há destaque – com foto – para um encontro de maracatus em Pernambuco. de ciclo semanal. tem uma estrutura menor. Veja apresenta edições 230 . Veja – a revista da editora Abril. A diferença entre os fechamentos das edições resultou. A segunda. por exemplo. da edição paulista. em efeitos de atualidade diferentes. a Veja São Paulo e a Veja Rio.Comparemos. a manchete comentava o 1° dia de desfile. da edição paulista: Na edição nacional. A primeira é da edição nacional. essas duas páginas iniciais de 8 de fevereiro de 2005. os habitantes da Grande São Paulo e do Grande Rio recebem duas revistas. nesse dia. Na prática. Inicialmente. vale notar o destaque maior para o Carnaval carioca. Na versão de São Paulo. o título era: “Escolas recorrem à nostalgia no 2° dia de desfiles no Rio”. há dois suplementos regionais encadernados toda semana junto com a revista. Já a notícia “Teatros fazem revitalização da praça Roosevelt”.

que alterna vários autores.br/aempresa/areasdeatuacao/revistas/pgart_030102_28102002_111. compras e turismo. conhecer trailer de filmes por meio de consulta ao site Veja On-line. Há sempre uma entrevista em páginas amarelas. Holofote. Veja Porto Alegre. Colaboradores têm espaço fixo. Veja Goiânia. E a página final é sempre dedicada a um ensaio de Roberto Pompeu de Toledo.134 Inicialmente. ecologia e saúde e edições regionais que não têm periodicidade definida. 134 Veja faz bastante uso da estratégia conhecida como cruzamento de mídias. estaduais e nacionais. o leitor encontra outras 20 páginas de reportagens – quase todas reservadas a consumo. Em Cartas. Datas. 133 Há também uma óbvia estratégia de marketing: suplementos regionais conquistam anunciantes que não se interessariam pela edição nacional. 132 A fonte é o site da empresa: http://www. exposições. Veja Campinas. mulheres. peças de teatro. consideramos que a base impressa da revista ainda se sobrepõe e comanda as outras formas de interação com o público-alvo. jovens. Veja Salvador. além do Roteiro da Semana. e Artes e Espetáculos. A edição de papel coloca à disposição dos leitores a possibilidade de saber mais de um assunto. shows. Contexto.133 A edição principal de Veja tem cerca de 80 páginas de jornalismo. devemos observar que o leitor da Veja ou da Folha não tem como conhecer certos aspectos da segmentação dos noticiários. 231 .132 Podemos notar novamente a necessidade de buscar um sentido de proximidade espacial com o leitor. Veja Brasília. os comentários de Diogo Mainardi. como Veja Nordeste. bares. como a página de humor de Millôr Fernandes. Os leitores internacionais têm à disposição ainda uma assinatura da Veja em versão digital. Gente.especiais sobre crianças. com cerca de 50 páginas de dicas de restaurantes. Veja. comida. para os leitores dos grandes centros paulistas ou fluminenses. oferece pouco mais de 100 páginas de jornalismo por semana (sem contar as informações do Roteiro da Semana). Radar. Lya Luft. a revista apresenta informação na forma de notas muito curtas. Os jornalistas André Petry e Tales Alvarenga também têm espaços exclusivos. homens. É o caso da adaptação dos formatos às necessidades regionais. tecnologia. ouvir trechos inéditos de entrevistas. como apresentar uma receita para montar um computador. que pode ser de Walcyr Carrasco ou de Ivan Ângelo. Existe também um grande número de seções. que tanto pode dizer a uma futura mãe o que ela pode ou não fazer para ter uma gravidez saudável. ver mais imagens. Economia e Negócios. Veja Fortaleza. e a seção Ponto de Vista. A última página é reservada a uma crônica. Veja Recife. filmes. Geral. Veja Belo Horizonte. Na Veja São Paulo. Há ainda uma área de serviços chamada Guia. Veja Recomenda.shl acessado em abril/2005.abril. Podemos encontrar editorias comuns nos diários: Brasil. como Stephen Kanitz. Neste trabalho. portanto. Internacional. Veja Essa. comportamento. Há efeitos de proximidade. Veja Curitiba. Os livros mais vendidos.com.

jornais diários e revistas semanais têm uma estrutura “happy end”. de Esportes. Se não levarmos em consideração o efeito da primeira página – que varia bastante ao apresentar assuntos de todos os pesos – podemos notar que Veja tenta. quando se apresentam em manchete de primeira página. Na ordem normal de leitura. Geral. O D. A revista. O caderno C trata do cotidiano. Basta verificar a disposição de assuntos e dos respectivos cadernos. 1985: 78). o leitor do diário toma contato inicial com os conteúdos mais “densos” até chegar aos cadernos com notícias mais “leves”. Se na Folha há um relaxamento gradual e constante. Internacional. o “aqui” de suas práticas habituais. como a Folha. graças à divisão e à ordem dos cadernos. O caderno B é somente o Folha Dinheiro. o raciocínio não é diferente. página humorística do Millôr. Economia. Como quase todos os noticiários analisados. às vezes. Mundo. é possível notar. prepará-lo para os assuntos mais densos e. mas colocam no mesmo nível de valorização espacial e editorial o que acontece no espaço considerado mais importante pelo leitor. as duas páginas de frases de celebridades) obter a atenção do leitor. “O leitor de um jornal constrói seu próprio jornal: primeiramente pode dar uma olhada nas manchetes. Na Folha espera-se que o leitor tome conhecimento do resumo e da hierarquização das principais notícias por meio da primeira página e. o leitor administra o contato com as notícias. Na revista. Se for uma quinta. Geralmente. no final. decida o que ver. ler atentamente o noticiário econômico ou seu colunista preferido na área de esportes” (Schwartz. É preciso folheá-lo para conhecer o conteúdo. Assuntos das editorias de Geral. a característica de ser uma síntese da própria edição. Nos grandes diários. depois. Brasil. A Ilustrada ocupa todo o caderno E. na Veja a estratégia é um pouco diferente. depois Brasil. ler uma história. como no jornal. Ciência. o que não acontece nos noticiários de rádio e de TV. A página inicial do semanário não tem. que pretendem mostrar que os impressos apresentam notícias do Brasil e do mundo. Economia e Negócios. com temas leves (entrevistas. que as notícias mais destacadas em blocos de manchete são as relativas às questões políticas de maneira geral. apesar de ser também relaxante no final. retomar 232 . Já a revista Veja apresenta na primeira página apenas a reportagem principal e. uma outra notícia em menor destaque. no caderno A. Cotidiano.principalmente de ordem afetiva. editoriais no Opinião. depois. tenta de alguma forma espalhar os assuntos de variedades e comportamento junto a outros das editorias Brasil. folhear a parte das histórias em quadrinhos. por meio da primeira página. Nos jornais e revistas. encontramos a capa. são valorizados a partir do viés político. o do cotidiano. o Turismo vai tomar todo o caderno F.

Se não forem consumidas imediatamente. obter saberes relacionados a “oportunidades” para se dar bem. geram paixões empáticas eufóricas. Existem. economia. Por outro lado. Observamos a seguinte situação em certo jornal diário que tinha uma página fixa diária dedicada a assuntos policiais. lazer. sexualidade promovem paixões eufóricas. Note-se que. planejar ações agradáveis. Já as unidades noticiosas de cultura. Ele se serve delas para se entreter. do leitor. de falta. Em certos dias. gastronomia.135 135 Falamos de notícias quentes ou frias vinculando esses termos ao efeito de atualidade (envelhecimento lento x envelhecimento rápido). Como as notícias de política apelam mais para o lado “cidadão”. moda. quase sempre mobilizam paixões negativas. como já citado. não é preciso grande elucubração para verificar que. não havia crimes que justificassem a abertura da página. entretenimento. Do ponto de vista da obtenção da curiosidade. relacionadas à manipulação de afetos e de outros níveis de relaxamento e de tensão do enunciatário. Já as notícias leves. Devemos relembrar que a “temperatura” de uma notícia é ainda uma construção do texto. São notícias frias. são consideradas quentes. apesar das diversas coerções que os jornalistas devem enfrentar. geral. no caso do leitor brasileiro. beleza. ou seja. sobre turismo. em um diário. de esperança de junção sujeito-objeto. que ficam nas partes finais. com os serviços do Guia e os comentários sobre o mundo das artes e do entretenimento. devem fazer o leitor se envolver afetivamente com as narrativas. É por isso que algumas pessoas começam a leitura da Veja ou da Folha de São Paulo pelas páginas finais. a disforia de querer-saber e a satisfação de obter o conhecimento desejado. ou público. Descrevemos que as estratégias de sustentação envolvem a projeção do enunciatário nas histórias reportadas. as outras paixões citadas instauradas pelos impressos. frustração. E relacionam-se ao lado individualista. entretenimento. Qualquer publicação faz um balanço entre notícias quentes e frias. porém. tristeza. Temos a já citada paixão da curiosidade. como medo. Expliquemos melhor a manipulação de estados de tensão e de relaxamento do leitor durante a leitura de uma edição. do enunciatário. de disjunção sujeito-objeto. comportamento. perderão impacto. unidades noticiosas sobre saúde. disfóricas. ou privado. moda. Essas notícias. principalmente ligadas à esperança e à satisfação. As notícias instauram paixões empáticas. as partes inicias têm notícias mais densas e que envelhecem rapidamente – notadamente das editorias de política. despertar desejos. tanto unidades noticiosas de viés político como outras de serviços e diversão devem atrair o leitor. esportes. Estão atrás do que consideram mais relaxante. A solução encontrada era lembrar do último grande assassinato de 233 .o relaxamento. geralmente podem ser publicadas em um intervalo de tempo mais longo. ou seja. Notícias de viés político geralmente produzem paixões empáticas disfóricas.

mas cada um segue seu ritmo na hora da azaração. Pode-se observar formatos mais livres. Mobiliza-se o sentido tátil. de viés político. desatrelados das grandes diretrizes do projeto gráfico. têm formatos mais fixos e com uma diagramação mais presa a regras do projeto gráfico. por exemplo. ligada a novos comportamentos familiares. mas não utilizadas na primeira vez. que é atual. No entanto. essas editorias geralmente apresentam assuntos que despertam a atenção por bastante tempo. turismo trabalhem essencialmente com notícias frias.” O assunto buscava certa atualidade. E contava-se a mesma história de outra forma. Trata-se de um fato que esgota seu potencial de atenção rapidamente. na Folha. como isso. se existir. O leitor tinha a sensação de informação nova. É por isso que. como as relacionadas a certos comportamentos. apesar de a única novidade ser o fato de que não havia novidade. 234 . Já as notícias frias geram um enunciatário cuja única tensão. Folhateen. lazer. com algo que o leitor sinta que “está acontecendo”. de ciclo semanal. Em qualquer parte do jornal existe a coerção de achar elementos de atualização para hierarquizar certos fatos (os “ganchos” jornalísticos) que construam uma ponte com o cotidiano. contudo. A Revista da Folha. É como se um conteúdo sobre questões inovadoras. há uma vinculação entre a idéia de menor envelhecimento do conteúdo. um roteiro de férias são notícias de vida longa. quente. Buscavam-se fotos feitas na época. pensadas para os cadernos iniciais. Sinapse têm formatos diferenciados. A diagramação é mais arejada e aberta à experimentação. O formato assemelha-se ao da Veja. Em 13 de março de 2005. muitas vezes exclusiva para cada notícia principal. Já a queda de um avião deve ser abordada na edição mais próxima do acontecimento. fazia-se uma manchete do tipo: “Crime x permanece sem solução”. Há outro ponto notável. necessitassem de um plano de expressão arrojado.Não estamos querendo dizer. a manchete era “Cuidado. repercussão e ligar para a Polícia para saber se havia novidades. Com a informação da polícia. Quase sempre não existia nenhuma. Unidades noticiosas mais quentes. que editorias de cultura. Mas era uma notícia essencialmente fria. com uma diagramação variada. ou seja. branco. o lançamento de um novo livro. com papel de qualidade. A resposta. tablóide. Em outras palavras. também tem notícias “frias”. O tipo de papel vincula-se a uma publicação que pode ser guardada e lida o ano inteiro sem que muitos conteúdos envelheçam. é a de leitura com fins de relaxamento. na parte jornalística (há anúncios em papel jornal). mais resistente que o papel jornal. A temporada de uma peça de teatro ou de um show. a diagramação diferenciada. com o novo gancho. e também a durabilidade do papel. suplementos como Equilíbrio. era um fator de atualização. papai na pista – eles cruzam com os filhos na mesma balada.

E o azul. o que mais chamou a atenção na hora da análise foi a enorme diferença entre o leitor apreensível da Folha de São Paulo e o de Veja. e a construção. é tudo o que o escritor mineiro. nessa abertura de matéria.sem assinatura. Há também uma relação entre essas categorias. mesmo com um início pouco usual. Depois internos enviados provisoriamente para presídios. reportagem local): “A Bovespa chegou a abrir suas operações em alta.Toda essa diversidade na forma de apresentar as unidades noticiosas mostra que o jornal diário não apenas trabalha com uma categoria inicial x final para vincularse a notícias quentes x notícias frias. assunto que iremos discutir neste item. CADERNO INICIAL Ciclo de 24h Papel jornal Diagramação fixa Notícia quente (maior Plano de conteúdo envelhecimento – assuntos mais densos) Efêmero FORMATO REVISTA Ciclo semanal Papel branco Diagramação flexível/diferenciada Notícia fria (menor envelhecimetno – assuntos mais leves) Durável Plano de expressão Entre o essencial e o acessório: a construção de um leitor fragmentado A segmentação das notícias em editorias. ao contrário. do ‘tudo azul’. pacotes de medidas que priorizam a descentralização e promessa de criar unidades mesmo sem o consentimento dos municípios. rebeliões. mas não encontrou ânimo para se sustentar e encerrou o dia com perdas de 1. de um lead “disfarçado”.136 A Veja. a forma de diagramação e o formato do suporte. mas vários enunciatários diferentes no mesmo texto. Comparemos dois extremos. de 0. a cor do ‘tudo bem’.Motins e promessas repetem crise de 1999 – sem assinatura – reportagem local): “Primeiro. Na economia. um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. de intimidade – a remissão a um aspecto de uma foto que acompanhava a reportagem. cadernos.71% . Neste estudo dos impressos. 43. Vejamos alguns exemplos de leads da edição de sábado. Outro exemplo na Ilustrada (E1 – Na boca do inferno – assinada por Cassiano Elek Machado – reportagem local): “Vê o azul da foto ao lado? Tudo mentira. 19 de março de 2005. por exemplo (B4 – Bovespa fecha dia com queda de 1. fugas em massa. o caderno A (inicial) e a Revista da Folha. projeta e dirige-se a apenas um 136 Cada parte do jornal tem uma construção textual diferente. A seqüência de fatos pode explicar a crise atual da Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do 235 . a antropomorfização da Bovespa.” Note-se.7% (1. ‘Truque’ do fotógrafo.” Há um apelo ao leitor – uma relação eu-tu. Em seguida. não nos apresenta na sua nova e aguardada fornada de prosa. A Bolsa de Valores de São Paulo vira um ser com humores. descontrole e destruição. uma matéria no Cotidiano (C3 .31%. Luiz Ruffato.71% na semana). suplementos tem profundas implicações na construção do leitor das publicações analisadas. está diante de uma parede branca. A Folha não instaura um.

bem recortado e delimitado. como o Infantil e o Feminino. já que as fotos tornavam a edição mais complexa. e até culturais. Não afirma. Na Folha. Problemas técnicos também motivavam essa divisão. O texto.” • Sujeito lúdico. O que era mais atual e “sério”. em um diário o esporte fica sempre próximo à parte de cultura e entretenimento. inicialmente. O Estadão. o caderno de variedades foi chamado de Ilustrada por apresentar. Havia a parte de notícias quentes. em hipótese alguma. podia ser observado um enunciatário desdobrado em duas posições básicas: • Sujeito político. quadrinhos.” Praticamente não há lead. nessa concepção. pouco se alterou com o tempo. 2004). é claramente “interpretativo”.leitor. a peça bem cotada em cartaz. Procura oferecer ao leitor informações pluralistas e apartidárias. interessado em temas da coletividade. 236 . a posição do futebol é interessante. portanto. como o futebol. da Folha. é também diversão. A diagramação da Veja cria um ritmo entre notas e matérias mais longas. na tentativa de explicar as razões da crise atual na Febem. apenas o Menor) de São Paulo. Não sem razão. Décadas atrás. não tinha necessidade de muita imagem. tanto na parte jornalística quanto na industrial. as notícias frias. grandes diários como a Folha e o Estado tinham duas divisões básicas. hoje chamado de Brasil. Apesar de assunto que pode ser tratado como “quente”. Ressaltamos. Já a diagramação da Folha ajusta-se ao perfil de seus diferentes enunciatários. do dia-a-dia. quando a fundação passava por outra grave crise. Podemos utilizá-lo para mostrar que é nessa parte do jornal que esse sujeito é construído com mais propriedade: “A editoria se dedica à vida política. E a revista tem ainda um mesmo “tom”. com essa divisão. quase como uma passagem entre os cadernos de assuntos densos e os de temas mais leves. mesmo que todos tenham como característica pertencer à “elite”. por sua vez. sociais. mais fotos. policiais e as “features”. por exemplo. institucional e aos movimentos sociais. O primeiro caderno da Folha. porém. Essa classificação dá conta das características do enunciatário dos jornais do passado recente. entre o que é político e cultural. econômicos. um mesmo “estilo” e um modo único de escolher e apresentar notícias (Hernandes. que se importa com atividades que lhe dão prazer. Essencialmente. sem nunca perder a identidade na hora de apresentar o que considera notícia. reservou suas matérias frias para o Caderno 2. Já existiam suplementos. mas também descreve bem os últimos dias de 1999. do Estado. como o Folhetim. para que ele exerça sua cidadania. a inexistência de um sujeito político no caderno de cultura. na divisão comum do jornalismo. com assuntos políticos. Aliás. mas uma engenhosa construção que une o presente e passado por meio da existência de uma mesma série de eventos. mesmo sem assinatura.

chamamos a atenção para o fato de as matérias de serviço terem certas características: • • • A dinâmica social é apresentada como jogo de oportunidades. de buscar equilíbrio. essa situação é fruto da relação entre duas ou mais “posições de sujeito”. Os textos de serviços trabalham a idéia de que determinadas informações são fator decisivo de vantagem pessoal e até de sobrevivência pessoal. meios de ter mais saúde. ou seja. Passemos agora para a análise que leva em consideração os efeitos das segmentações atuais. suplementos e revistas. de viver relações mais satisfatórias. ao verificar certos casos. Ele pode ser tanto científico. ou seja. que atravessa o Estado de São Paulo. na verdade. que incluem os interesses do sujeito lúdico. “oferece ao leitor informações úteis ao seu dia-a-dia nas áreas de segurança. mas não aplicados. na posição de sujeito político e pragmático. a partir da proliferação de cadernos.que há de mais determinante nesses espaços. 2004). a Folha Dinheiro mostra como aplicar bem os recursos. que percebe a vida regida por forças divinas. conselheiro ou cúmplice que vai doar o saber decisivo para o leitor satisfazer suas necessidades. que quer ter uma visão da coletividade e de seu papel nela. a Folha Turismo aponta a melhor e mais vantajosa viagem. ligado às descobertas de novos remédios e tratamentos médicos. por exemplo. dos planetas. o pragmático espera encontrar no jornal soluções rápidas para seus problemas práticos. cada vez mais. ao mesmo tempo. entre outros exemplos. Surgem dois novos sujeitos: • Sujeito pragmático – Ao contrário do sujeito político. como místico. o pragmático e o harmonizador. ou uma comunidade. por exemplo. da natureza. o sujeito político. educação e direito do consumidor”. Alguém que usa um jornal como força de pressão está. é que. fez campanha pela despoluição do rio Tietê. Nossa hipótese. por exemplo. os momentos nos quais um leitor. a Folha Negócios orienta como abrir e gerir uma empresa. utiliza o jornal para fazer valer determinados direitos reconhecidos. Com matérias de serviço. de indivíduo contra indivíduo. A Folha Cotidiano. o jornal humaniza sua imagem. pragmático e harmonizador. O que pudemos notar. Quando a rádio Eldorado. para o leitor interessado em matérias de serviço.137 Em nosso trabalho sobre a revista Veja (Hernandes. 237 . ao parecer uma espécie de amigo. • Sujeito harmonizador – É o que está interessado em “qualidade de vida”. é que o jornal apela. ao mesmo tempo. mobilizou. 137 A única dúvida que tivemos ao tentar montar essa classificação foi onde colocar os “serviços de utilidade pública”.

É possível notar que a Folha (e. a Folha estaria contrabalançando a disforia dos temas políticos com a euforia das notícias sobre serviços. os jornais o fragmentaram. assumiram a pulverização. uma base ideológica de concepção anticidadã ao deixar subentendido que a solução individual é mais importante e eficaz que a solução coletiva. A Folha estampa na sua primeira página que é “um jornal a serviço do Brasil”. mas criaram cadernos e revistas para agradar a esses diferentes destinatários. mesmo com todos os cuidados para buscar a curiosidade do leitor em função de estratégias de arrebatamento e sustentação. Em publicidades institucionais veiculadas no próprio jornal. ao que tudo indica.• As matérias de serviços camuflam. Como pudemos verificar na divisão de cadernos da Folha de São Paulo. não raras vezes. um dever-ler. relacionadas às aflições coletivas dos brasileiros. Compensaria as paixões de falta. A busca pela satisfação dos leitores pragmáticos. os assuntos políticos são colocados como “obrigatórios” aos leitores. a Folha escolhe mostrar como vantagem justamente a segmentação: 238 . Em vez de pensar o enunciatário globalmente. vinculadas às satisfações individuais. por paixões de solução de falta. Essa procura de equilíbrio entre os assuntos abordados tem uma grande razão: o medo de perder o leitor. a vocação missionária dos impressos parece se chocar com o papel utilitarista e cada vez mais “prático” que precisam vender para parcela dos seus leitores. Não abandonaram a ênfase política. outros diários) tomou um caminho distinto do de Veja e do das outras revistas semanais de informação. lúdicos e harmonizadores expõe a influência crescente do marketing sobre a tradição de guardiões da verdade e dos interesses coletivos que os noticiários impressos gostam de assumir. Em outras palavras. e no tratamento do que é manchete. como a compra do melhor microcomputador do mercado pelo menor preço por meio de uma dica do Folha Informática. Com as matérias de serviços.

Nos diários. Cada fragmento tem uma coerência discursiva diferente. foi o de apresentar várias publicações diferentes dentro de uma mesma edição ou de um ciclo de edições. Veja passou a dar espaço de primeira página – o que significa grandes reportagens – para assuntos 239 . Sem abandonar o político. O caminho adotado pelo jornal. A fragmentação do jornal mostra. portanto. no final das contas. diversas possibilidades de fruição dentro do seu próprio texto. A estratégia de Veja foi diferente. adequada a um certo grupo de leitores. o que corrobora nosso estudo. No canto esquerdo pode-se ler que “a Folha tem cadernos para tudo e para todos”. pragmática e relacionadas com a “qualidade de vida”. construam caminhos individuais e cada vez mais atrelados à satisfação de necessidades de ordem lúdica. no entanto. esse direcionamento justifica a hierarquização de manchetes a partir de impactos de ações econômicas e políticas. O jornal cria. a Folha mostra o significado da sua enorme fragmentação: o de parecer um “jornal completo”. que cada edição é pensada para que diferentes leitores. assim.Nesse anúncio. Investir no sujeito político e preocupado com a coletividade garante a credibilidade necessária para que o jornal mantenha-se como voz social.

e o primeiro semestre de 2005: CAPAS DE VEJA PRIMEIRO TRIMESTRE DE 1975 1° de janeiro 8 de janeiro 15 de janeiro 29 de janeiro 5 de fevereiro 12 de fevereiro 19 de fevereiro 26 de fevereiro 5 de março 12 de março 19 de março 26 de março 240 . Fizemos uma comparação entre as capas da revista no primeiro trimestre de 1975.relacionados aos serviços. plena ditadura militar.

não é para divulgar shows. entretenimento receberam grande espaço: há seis capas sobre esses assuntos. a que fala de férias (de 15 de janeiro).CAPAS DE VEJA PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2005 5 de janeiro 12 de janeiro 19 de janeiro 26 de janeiro 2 de fevereiro 9 de fevereiro 16 de fevereiro 23 de fevereiro 2 de março 9 de março 16 de março 23 de março Há 30 anos.138 Já no primeiro semestre de 2005. 138 A capa dedicada aos sambistas (de 12 de fevereiro). mas para uma análise cultural. pode receber o rótulo de “serviços”. ao que tudo indica. ao que tudo indica. Tudo é pensado em termos de impacto no leitor. manchetes de saúde. constata-se somente uma matéria que. 241 .

diz respeito às letras. no sentido de criar uma separação entre essas pretensas unidades. é mais o impacto na página. Jornal do Brasil como textos constituídos por elementos verbais e não verbais também não resolve o problema. no início do trabalho. como veremos depois. as possibilidades de fazer uma cirurgia plástica. Mas isso só mostra que a revista se pauta pelo que acredita ser a curiosidade do leitor. nesse momento. Nos jornais e revistas. a corrupção do governo Lula. a eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados. o sentido do tato é importante. Tentaremos agora uma classificação. É o caso das capas seguidas relacionadas ao escândalo do chamado “mensalão” em meados de 2005. É importante esclarecer que essa tentativa de organizar os conjuntos significantes (unidades com expressão e conteúdo) tem conseqüências teóricas importantes e não serve apenas como mero detalhamento descritivo dos objetos. Finalmente. Os cinco conjuntos significantes manejados pela diagramação Até agora. tamanhos que geram títulos. Nos impressos. desenvolve capas e reportagens de fôlego sobre todos esses assuntos. O leitor que a revista constrói coloca no mesmo nível um lançamento do novo livro de Paulo Coelho. texturas. E a revista. Os objetos jornalísticos não são apenas visuais. a partir do plano de expressão:139 1. Veja. Veja mudou. como cores. O verbal se dá a conhecer a partir de um suporte visual que tem uma significação claramente determinada nos projetos gráficos. Jornais e revistas também não podem ser pensados apenas como apresentando elementos verbais e visuais. Em outras palavras. legendas. em momento de grande efervescência política. Isto é. Na verdade. deixa implícita a necessidade de reconhecimento dos conjuntos significantes. matérias. manifestado tipograficamente . diagramar é uma tarefa de administração de quatro grandes conjuntos significantes. enunciando que todos têm mesmo “peso” em termos informativos. as partes que compõem um noticiário impresso foram chamadas indistintamente de “unidade” ou “elemento”. classificados a seguir. 139 Nosso interesse. Insistimos. apontar Folha de São Paulo. Questões sobre o plano de conteúdo são apresentadas ainda neste item. sobre a necessidade de romper a excessiva simplificação na abordagem do plano de expressão desses noticiários.Pode-se argumentar que. Veja também participa ativamente. aos tipos gráficos e as suas possibilidades de concretização. 242 . interessada em vender. o que tentamos fazer. Verbal.

ilustrações. a última grande alteração do projeto gráfico aconteceu em 2000 e teve como autor o designer gráfico italiano Vincenzo Scarpellini. geralmente com o uso abundante da cor. 243 . quadrinhos. Em relação aos elementos mistos. além de produções digitais que criam. no sentido de serem representações feitas à mão. gráficos. Pictórico – abrange produtos de arte e de técnica de representar. apresentação biográfica de personagens envolvidos na notícia. A diagramação também utiliza certos elementos com funções específicas. etc. efeitos de terceira dimensão. Na Folha de São Paulo. caso das charges. cujas matérias principais têm sempre uma apresentação diferente). vinhetas. que compreende as unidades que denominamos “pictóricas”. formas que vão do figurativo ao abstrato. os infográficos são os que têm ganhado espaço crescente na mídia impressa. é perceptível que o item pode ser desdobrado em outros conjuntos. Inclui charges.2. Já os elementos diagramáticos fazem parte do projeto gráfico ou de uma diagramação específica (caso do Folhateen. inclusive. Fotográfico – inclui imagens fotográficas obtidas por meios convencionais ou digitais. via computador ou essencialmente digitais. gráficos. a definição desse elemento é a seguinte: “Combinação de desenhos. 2001: 23). numa superfície. para a apresentação visual dramatizada de dados e informações. para representar figuras e situações. como utilizar “cores sinalizadoras”. caixas coloridas ou vazadas. demonstrações visuais de acontecimentos. Ele fez várias modificações. Misto – infográficos. 4. das ilustrações. Os infográficos são considerados textos de apoio e podem aparecer na forma de mapas. dos quadrinhos. queremos chamar a atenção para o item 3. O "Outro Lado" de uma notícia controversa passou a ser identificado por um fundo 140 A maioria desses recursos tem como função auxiliar na organização visual e não remetem a conteúdos.” Note-se novamente que se está diante de um caso de sincretismo. glossário de termos técnicos ou específicos. indicações de leitura entre muitos outros recursos (Manual da Folha de São Paulo. fundos. explicações didáticas. fotos.. No Aurélio. fusões que apresentam um todo de sentido com base na utilização dos outros conjuntos significantes citados. 3. que estamos chamando de Diagramáticos – linhas.140 Nesse primeiro esboço. Ainda no caso do pictórico.

que complexifica a expressão lingüística e a imagem” (idem:153). a escrita não pode ser reduzida a um sistema semiótico plástico. Os textos didáticos têm apresentação sobre fundo ocre. que consideramos mais relevantes em função do impacto e da maior utilização no jornalismo impresso. há na escrita um sincretismo entre o verbal e o plástico. não há uma manifestação que integra diferentes linguagens Essas informações constam do texto “ Novo projeto gráfico estréia terça para realçar informações essenciais e dar mais leveza ao jornal” – Folha de São Paulo.141 Com essas observações. à “mensagem”. lembra que “quando escrita. Por isso. é impossível ficar indiferente aos caracteres tipográficos de textos jornalísticos e publicitários. que parecem sempre ter certas atribuições. transcrever uma língua faz da escrita também uma semiótica verbal. uma pessoa alfabetizada entra em contato com uma multiplicidade de textos escritos.. 7 de maio de 2000. localizamos duas posições entre os semioticistas. de veículo do verbal. há semi-simbolismos criados pelo projeto gráfico.” Para a autora.. detalharemos nos próximos itens somente a fotografia e a manifestação tipográfica do verbal. Em relação ao assunto.) numa poesia que desenha figuras numa página branca. a escrita participa desse tipo de semiótica. Devido a sua expressão plástica. 141 244 . Tendo em vista os objetivos de nosso trabalho. no entanto. Por outro lado. O formato da letra pouco acrescenta ao plano de conteúdo. “embora formada por desenhos gráficos. queremos defender o estudo de cada um dos conjuntos significantes por meio de suas características mais importantes. Um olhar ingênuo sobre os tipos gráficos pode ser bastante útil para começar a reflexão sobre essa forma de manifestação do verbal. as letras são pensadas e reunidas para significar “algo mais”. Em grande parte das vezes. a palavra ganha dimensões plásticas. Para Pietroforte. O autor. A primeira é a de Antonio Vicente Pietroforte. Cotidianamente. Não menciona autor. Em outras palavras. “(. a manifestação do verbal já é sincrética (ibidem: 142). entretanto. 14. Tipos gráficos e novo patamar de semi-simbolismos Nesta parte do trabalho. faremos um pequeno estudo sobre a significação produzida pelas letras nos diários e revistas. em análise de poesias concretas. já que a letra é também imagem” (2004:143). Por esse ponto de vista. as letras cumprem uma função meramente utilitária. pág. Já para Lúcia Teixeira (2004: 236). é a qualidade material gráfica da linguagem verbal que se exacerba. portanto. nesses objetos. Nesses casos.azul claro.

em seguida. A serifa aparece no segundo caso. diz o Dic. de um ou de ambos os lados. remate. por exemplo. o trabalho com formas. a proposta de Lúcia Teixeira nos parece mais adequada. às vezes. o manejo de formantes plásticos do plano de expressão. Mesmo assim. No uso gráfico-plástico das letras no jornalismo. contudo. A questão é se essa plasticidade é inerente à escrita ou produto de uma semiótica plástica que cria relação com uma semiótica verbal. 245 . e que pode ter a forma de filete. é um “pequeno traço. simples espessamento. etc. posições. “mas a exploração máxima das qualidades de visibilidade e sonoridade da própria linguagem verbal” (idem).142 Podemos observar. É inegável. horizontais. 143 Serifa. obviamente não há a mesma experiência radical da poesia concreta. em termos mais semióticos. sem desenhos. que a característica plástica é inerente a qualquer forma de manifestação verbal.. a letra A em diversas famílias: A A A A A A A A A A A A A A Arial Times New Roman Verdana Impact Avant Gard Bauhaus Courier New Swiss921bt TypoUpright BT Zinjaro LET Vineta BT Bickley Script LET Ruach LET Alexei Copperplate Somos obrigados a reconhecer que todas as famílias de tipos gráficos são criadas a partir de uma letra que representaria um “grau zero”. ou. cores. inclinações. na base da letra. na forma de traços adicionais. diferenciados.num único todo de sentido. uma letra sem serifas143. variações de “peso” entre as linhas 142 Acreditamos que a reflexão de Vicente Pietroforte é mais pertinente na análise de letras com desenhos exclusivos. que remata. Aurélio. Para pensar o jornalismo impresso. Apresentamos. ou. barra.” Uma letra A Arial e outra A Times New Roman mostram a diferença. os terminais das letras não lineais de caixa-alta e caixabaixa.

O uso contínuo anula o sentido plástico das letras porque cria um padrão de normalidade que as dessemantiza.). a plasticidade das letras enriquece a manifestação escrita no jornalismo. é considerada “moderna”. utilizada neste trabalho. mais ou menos sério. duração e ritmo da fala.com a entonação. As letras nas páginas de jornais e revistas tentam simular alguns recursos próprios da oralidade e retomar certas possibilidades prosódicas perdidas na escrita. PRETI. Analisemos a relação entre formas. arriscamos um caminho já delineado em nosso trabalho sobre a revista Veja: uma das principais funções das formas das letras nos jornais é construir um simulacro visual de um tom de voz. que pode parecer mais ou menos estridente. a distância entre unidades. Antes de determinar essas relações entre plano de expressão e plano de conteúdo que criam esse simulacro de fala na escrita. Uma perspectiva semiótica sobre o assunto pode ser encontrada em Barros. Humanitas. para melhor situar a discussão sobre o assunto. 2 de dezembro de 2003. produto de uma “saturação”. 246 . Diana Luz Pessoa de.seu tamanho da página. ocupação espacial e o simulacro da oralidade. São Paulo. Há uma certa tradução intersemiótica proporcionada pela tipografia (sempre subordinada à diagramação e ao projeto gráfico). entretanto. “Entre a Fala e a escrita: algumas reflexões sobre as posições intermediárias”. “acrescentando sentidos”. diante da enorme complexidade da questão. O fato de certas letras não terem significado no cotidiano não é uma falta de plasticidade. Dino (org. de terça-feita. A letra Arial. vale a pena analisar uma crônica de José Simão. (2000) in Fala e escrita em questão volume 4 do Projetos Paralelos – NURC/SP – Núcleo USP. Da mesma maneira que a prosódia faz parte da fala. na Folha de São Paulo.144 Isso quer dizer que há uma relação entre o desenho e a apresentação das letras . justamente por seu caráter “limpo”. mais ou menos jovial a partir da exploração das possibilidades plásticas.que a compõe não deixa de ter sentido plástico. antes de tudo. produto da variação na intensidade. altura. O título é “Turcocircuito! Lula embarca na esfirra voadora!” 144 As relações entre fala e escrita são bastante complexas. que mostra que os tipos impressos estão longe de ser mero suporte dessemantizado do verbal. as formas de alinhamento e de entrelinhamento . mas. No jornalismo.

em corpo de letra maior. ou seja. Com isso se ganha muito. cuja função é simular mesmo uma espécie de fala na nossa consciência. com isso. Na grande maioria das vezes o que buscamos registrar na escrita é apenas o conteúdo de um texto. Vamos analisar apenas algumas questões do plano de expressão.funciona ou projeta uma substância que ele chama de “grafemática”: as letras e os outros sinais pertinentes. ponto e vírgula. Teoricamente. No entanto. José Simão simula uma fala exaltada. mas. Quando ele pergunta. pelo contrário. em letras maiúsculas (“caixa alta”. que tem uma série de outros efeitos interessantes. como ponto. todos esses efeitos se referem à escrita. percebemos um tom excessivo. como se o leitor pudesse ter acesso a toda a modulação de voz do autor. como lembra José Roberto do Carmo Júnior na análise da locução do futebol. O arranjo gráfico das letras sugere uma forma de oralidade. No exemplo. O conteúdo não nos interessa aqui. O mais notável é simular – na escrita – o jeito da fala espalhafatoso esperado ao se concluir uma piada numa conversa. perde-se muito também” (2005: 46). “a ortografia desde sempre descurou da prosódia. etc.Em princípio. pouco importando como é dito. pois uma escrita que registrasse todas as inflexões e andamentos da fala seria complexíssima. “QUEM VAI FICAR TOMANDO CONTA DA LOJINHA?”. apenas o que é dito. Nosso alfabeto é fonético e representa sons da fala. no texto. estamos diante de um texto verbal. e por uma razão bastante boa e justificável. no jargão da imprensa).as regras de grafia das palavras e de pontuação . um “jeito de contar piada”. José Simão não quis perder nada. Jornais e revistas criaram regras com esse mesmo propósito 247 . O humorista manejou de forma criativa certos elementos da escrita para simular a oralidade. cheia de pontos de exclamação. O próprio Hjelmslev diz que uma ortografia . já que retiramos a ilustração que o acompanha e até mesmo o título.

por sua vez. mais sério ou mais leve.para apresentar e chamar a atenção para as unidades noticiosas e. itálico. de algo fraco. a inclinação da letra marca o espaço dos comentários. quase símbolos. como se alguém quisesse despertar a atenção do outro. Grandes manchetes. que é a de criar um sentido de familiaridade. contudo. Já o corpo de letra menor das matérias retoma um tom mais sereno. com ou sem serifa . lembra que o itálico deve ser evitado por dar uma idéia de informalidade. mais elegante ou mais austero. Da perspectiva semiótica. opiniões. Os títulos com letras grandes simulam exaltação. mais comum. que as letras mais grossas. Do mesmo modo. ligado à estratégia de 248 . crônicas. por sua vez. Convencionou-se. em alguns quadros) só aparece na função de criar contraste. • O tamanho do corpo de letra relaciona-se com a altura da voz. Podemos notar novamente que estamos às voltas com sistemas semi-simbólicos cristalizados. e o Arial. parecem reproduzir gritos. só existe a partir de leis de diagramação já citadas. de buscar a atenção por meio de descontinuidades. Esse simulacro. baseadas na disposição espacial que define a importância de uma unidade noticiosa. inclinados ou não. representa um tipo de valorização da notícia. os tipos mais finos vinculamse a questões mais leves. uma parte nobre do jornal. no entanto. mas mostram diferentes formas de dizer. estão ligadas a assuntos mais sérios. na Folha. de enunciar. alegres. representar a enunciação oral nas páginas. portanto. determinadas não só pelo tipo de ocupação espacial como também pelo formato das letras (com mais ângulos retos ou arredondados. Não se pode cometer o erro comum de achar que existem somente relações simbólicas envolvendo os tipos gráficos e suas possibilidades de apresentação (em negrito. próprio para a troca de informações. Os textos. Em Veja. rompendo com os estereótipos. para uma conversa. Vejamos então como as letras simulam sonoridades. leve (1974: 78). Não apenas “dizem”. • O formato da letra . por exemplo).os traços mais finos ou mais grossos. Porém. o itálico utilizado nos tipos gráficos (Times New Roman. Podemos notar sua função na estratégia de arrebatamento. os caracteres gráficos mantêm relações especiais entre o plano do conteúdo e o plano de expressão. White ao sugerir escolhas de letras para as revistas. Essas considerações abrem caminho para abordar outra função importante dos tipos gráficos. pelo menos na comunicação ocidental. que. de sensibilização do olhar do leitor. o que é próprio dos sistemas semi-simbólicos. assim.cria um simulacro de um tom da voz. podem manejar os sentidos das letras de maneiras diversas. por exemplo). densas.

Na Folha de São Paulo. A diagramação. os padrões se repetem com mais constância. Editoria de Artes da Folha de São Paulo (março-2005). gere familiaridade. editor-adjunto. que criou um padrão de uso para letras que ilustra as relações semi-simbólicas que acabamos de apresentar no esquema anterior. Nos títulos. A plasticidade das letras e sua organização espacial manipulada pelas leis de diagramação envolvem semi-simbolismos que podem ser assim representados: Letras e relações semi-simbólicas Formantes plásticos Plano de expressão Corpo de letra com traços grossos x corpo de letra com traços finos Maior espaço ocupado x menor espaço ocupado Mais intenso e disfórico x Mais distenso e não disfórico (Maior valor e potencial de atenção ) x (Menor valor e potencial de atenção) Plano de conteúdo Notícia quente x Notícia fria Respeito x Irreverência Dramaticidade x Prosaísmo Tom grave x Tom leve Para dar um exemplo. Na Veja. desaparece da Revista da Folha. a única unidade recorrente em todo o jornal é a fonte Folha Minion e o entrelinhamento.145 A idéia de identidade nos impressos está relacionada ao fato de se enxergar elementos comuns. 249 . há uma comparação entre a primeira página da segunda-feira. com o tempo. de cultura e variedades. do mesmo dia. 4 de abril de 2005. é preciso levar em consideração os diferentes cadernos. por exemplo. O logotipo. que remetam a um modelo conhecido que. o segundo elemento mais presente. A Folha é um caso notável. e a página inicial do Caderno 2. Todo o resto varia. revistas. O jornal criou letras exclusivas.fidelização. A seguir. vamos utilizar O Estado de São Paulo. há a Folha Serif e nas matérias o Folha Minion. a partir do projeto gráfico. suplementos. Nos jornais. 145 Informações de Fábio Marra. gerencia a identidade visual de uma publicação.

por exemplo. as perspectivas e até os problemas dos novos usos da fotografia no jornal.146 O fotojornalismo O estudo que fazemos da fotografia. de envelhecimento rápido. fórmulas para que as fotos de jornal expressem mais do 146 O novo projeto gráfico do Estado radicalizou esse uso das letras. ligado às nossas preocupações sobre o gerenciamento do nível de atenção. como o prazer de assistir ao filme. como não poderia deixar de ser. O Projeto Editorial 1988-1989 da Folha de São Paulo. ênfase no detalhe das fotos de esportes. “Incorporamos ao procedimento do fotojornalismo padrões que até então estavam reservados à fotografia artística: ângulos e enfoques diferenciados. Já o Caderno 2 estampa uma notícia mais amena. porém. Isso significa que se aposta cada vez mais nas fotos para obter laços com os leitores. notadamente pelos diários. o que dá grande leveza e uma identidade visual particular às páginas.A forma dos títulos principais das duas páginas não deixa dúvida. 250 . Não deixam de caracterizá-lo. Observamos uma crescente valorização da fotografia e do fotojornalismo. tem toda a tipologia dos títulos diferenciada. neste item é. já explicita as bases. um filme do conjunto Demônios da Garoa. O Caderno 2. como algo leve. Trata-se da principal notícia do jornal. que remete a questões individuais. Basta observar a grande ocupação espacial. de grande dimensão pública. O corpo de letra mais denso do título da manchete comenta os preparativos do velório do papa. carregada de drama. predominando o corpo de letra com traços muito finos. As letras valorizam o assunto.

que mera imagem e se entrelacem com o significado do evento a que essa imagem está ligada; interesse maior por imagens de beleza plástica e de efeito inusitado, ainda que sua temperatura noticiosa seja baixa. Também aqui é preciso depurar os avanços realizados; evitar com igual energia tanto o retorno ao fotojornalismo convencional como o exagero que consiste em esquecer que num jornal tudo o que se publica deve ser informação.”147 O fotojornalismo nunca foi alheio à estética ou ao enfoque diferenciado. O que se nota no projeto da Folha é um novo patamar de coerção do discurso fotográfico, que deve romper o sentido de ser mero registro da realidade. A mesma preocupação é visível nos outros jornais. O Estado de São Paulo, em sua reforma gráfica de 2004, também cedeu um espaço muito maior para a fotografia. A busca dos efeitos de belo, de estranhamento, entre outros, ficou mais perceptível. Não queremos neste ponto do trabalho discutir novas maneiras de analisar a significação de fotos nos jornais e revistas. O objetivo, muito mais modesto, é apresentar alguns apontamentos sobre “antigas” e atuais estratégias do fotojornalismo para arrebatar e sustentar a curiosidade dos leitores.148 Também não há interesse aqui, como convém a um estudo de semiótica, em discutir ou explicitar a produção da fotografia. O que se quer é mostrar algumas estratégias persuasivas que essa forma de imagem mobiliza com base no estudo de sua utilização. Apresentaremos, a seguir, o papel da fotografia na construção dos sentidos do jornal:149

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Projeto Editorial 1988-1989, Agosto de 1988 - A hora das reformas - Aprendendo com as falhas. Disponível no endereço: http://www1.folha.uol.com.br/folha/conheca/projetos-1988-1.shtml - acessado em abril/2005. 148 No estudo sobre a imagem televisiva, falamos de planos de câmera e de como se relacionam com o gerenciamento do nível de atenção. Pode-se questionar se as mesmas observações valem para o fotojornalismo, já que ambas produzem sentidos por meio de recortes espaciais. Jornais e revistas trabalham com essas relações de maneira muito diferenciada. A principal distinção é o formato fixo da tela de TV. Os planos se sucedem a partir desse espaço determinado. Já os jornais e revistas trabalham as fotos de maneira completamente diferenciada. Um efeito de close-up na tela da TV só teria esse mesmo impacto se tomasse grande espaço no jornal. Isso raramente acontece. 149 Essas estratégias são pensadas como uma verdadeira lista de obrigações aos fotógrafos. Busca-se, sempre, a “grande foto”, que significa mais atenção, mais leitores, mais vendas. Só que o texto fotográfico depende de uma série de fatores, muitos imponderáveis, para ser bemsucedido. As crescentes cobranças pela “grande foto”, entretanto, esbarram na própria dinâmica da fotografia, dos fotógrafos, dos jornais. É preciso um fotógrafo estar presente na hora do acontecimento, por exemplo. O tsunami que varreu a Ásia no final de 2004 foi surpreendentemente pouco fotografado. Perdido o momento de ápice narrativo, só se registraram conseqüências. A fotografia tem ainda que dizer muito com apenas um enquadramento. O valor de uma foto também raramente se desvincula do potencial de atração de uma reportagem como um todo. A cobertura da posse de um prefeito vai render imagens de “peso” muito diferentes das proporcionadas pela queda de um avião em um bairro residencial.

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1 – Uma fotografia deve ser uma das principais iscas para o olhar em uma página, ou seja, uma das mais importantes armas na estratégia de arrebatamento e de sustentação. Com suas cores, contrastes, ocupação espacial, a foto precisa atrair a atenção do leitor para a unidade noticiosa da qual faz parte. O olhar deve ser fisgado. É a estratégia de arrebatamento. O leitor precisa ainda se interessar pelo conteúdo. A foto deve depois encaminhar o leitor para a parte verbal, ou seja, apresentar uma estratégia de sustentação geral que também tenha êxito. Para arrebatar e sustentar a atenção, o fotojornalismo busca cada vez mais os efeitos estéticos. É evidente que o estético - como manifestação sensível e também inteligível – sempre fez parte do discurso fotográfico e é inerente à própria atividade dos fotógrafos jornalistas. Queremos evidenciar, contudo, que a busca por um discurso visual plástico nos diários e nas revistas é hoje uma coerção cada vez mais forte para obter adesão à leitura e chamar a atenção para as próprias publicações. Uma justificativa para mostrar essa mudança de mentalidade é que as fotos tiveram uma valorização espacial inédita nos últimos anos, principalmente nos diários. A fotografia também passou a não ser mais preocupação apenas do fotógrafo. O Manual de Redação da Folha de São Paulo afirma que cabe aos profissionais da redação, e não apenas aos fotógrafos, a “elaboração da pauta já com uma perspectiva visual e plástica” (2001:33). Diz ainda que “o entendimento mínimo das técnicas fotográficas e de suas possibilidades estéticas é uma necessidade em todos os patamares da hierarquia de uma Redação, não apenas de fotógrafos e editores” (ibidem). Acreditamos que essa busca pelo belo, pelo estranho, pelo inusitado faz parte de outras publicações. Pode-se observar também que, do ponto de vista jornalístico, não é na TV, mas nos diários, e também nas revistas, que a imagem é um objeto de contemplação. Há possibilidade de maior fruição, de controle do tempo de consumo sem prejuízo do processo de obter e manter o nível de atenção. White explica que a fotografia apresenta uma vantagem em relação ao texto escrito na hora de arrebatar e sustentar a atenção. “Retratos atraem o olho, ganham a atenção, incitam a curiosidade. Retratos fazem o leitor ser receptivo à informação. Pessoas resistem ao esforço de ler: isso significa trabalho. Mas elas parecem não prestar atenção a isso quando olham retratos. Então, quanto mais informação puder ser acondicionada sem usar palavras, melhor. Retratos, ao substituir a descrição verbal por imagem visual, ajudam a diminuir o percurso do processo de leitura” (1974: 98).150
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Fragmento original: “Pictures attract the eye, gain attention, arouse curiosity. Pictures make the reader receptive to information. People resist the effort of reading: it means work. But they do not seem to mind looking at pictures. So, the more information that can be packaged in non-

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Essas observações abrem caminho para discutir a fotografia nos jornais e revistas a partir das estratégias de arrebatamento (ligadas ao sensível), de sustentação (uma forma de passionalização, instauração de curiosidade para saber “o que aconteceu”) e também de fidelização. Em outras palavras, um jornal que apresenta sempre fotos instigantes mobiliza o leitor a manter um relacionamento de longo prazo.

2 – A fotografia tem um papel de servir de prova ao que se reporta, de parecer mostrar fragmentos de uma realidade inquestionável. Ou como afirma Kossoy: “A informação visual do fato representado na imagem fotográfica nunca é posta em dúvida. Sua fidedignidade é em geral aceita a priori, e isto decorre do privilegiado grau de credibilidade de que a fotografia sempre foi merecedora desde seu advento. (...) Esta objetividade positivista creditada à fotografia tornou-se uma instituição alicerçada na aparência, no iconográfico enquanto expressão da verdade; um equívoco fundamental que ainda hoje persiste” (2001: 103). Falar de realidade em fotografia é analisar um “efeito de sentido” dessa forma de comunicação. Do ponto de vista do gerenciamento do nível de atenção, o caráter argumentativo-persuasivo do fotojornalismo está cada vez mais nitidamente dependente da estratégia de fidelização. Ou seja, é o cumprimento de um contrato enunciador-enunciatário por certo período, e a satisfação obtida nessa relação pelo leitor, que vai garantir à fotografia no jornal o seu status de “fragmento da realidade”. A credibilidade da fotografia depende da credibilidade do próprio jornal que a insere, principalmente quando leitores sabem das crescentes facilidades de manipulação digital das imagens.151
words, the better. Pictures, by substituting visual images for verbal description, help to shortcircuit some of the reading process.” 151 Ao contrário do que ingenuamente se pensa, a fotografia não é, necessariamente, um tipo de objeto cuja imagem resultante estabelece uma correspondência ponto por ponto entre as partes do referente submetidas à ação da luz. Há filtros, jogos de sombra, efeitos de lentes. A manipulação da imagem fotográfica também é tão antiga quanto a própria fotografia. Já há fotomontagem em 1857. Trata-se de “The two ways of life” (Os dois modos de vida), exibida em 1857 na exposição “Art Treasures”, em Manchester, Inglaterra, e de autoria de Oscar Rejlander, que usou mais de trinta negativos diferentes para compor a imagem. Entre outros detalhes, mostra-se um ancião de barbas brancas, vestido com um pesado manto, que conduz dois jovens para a vida adulta. Informação de “O que é fotografia”, de Kubrusly, Cláudio A., Edit. Brasiliense, São Paulo, 4ª ed., 1991, págs. 81 e 82. Com os avanços da fotografia digital, porém, houve enorme alargamento das possibilidades de alteração das imagens. Em fotos dos vagões destruídos por atentados terroristas em Madri, certos jornais apagaram, via manipulação digital, pedaços de carne e membros humanos espalhados pelos trilhos para que a imagem da tragédia ficasse menos chocante. Acreditamos que, com o advento da imagem computadorizada, a fotografia está perdendo o próprio status cultural de objeto que registra fragmentos de uma dada realidade. Em outras palavras, a manipulação no computador está abalando o senso comum de que fotos “congelam” momentos de uma maneira inocente, desvinculada dos propósitos de quem a clicou ou a encomendou. O mundo digital, por

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3 - A fotografia deve “transmitir a força das idéias expressas nas reportagens” - A frase consta do texto de apresentação do “novo visual” do jornal O Estado de São Paulo, edição de domingo, 17 de outubro de 2004, quando mostrou seu novo projeto gráfico, em que passou a destinar maior espaço às fotos (pág. A 10). Pode-se notar que a fotografia deve transcender seu papel de registro para ser uma espécie de resumo do que é apresentado nas outras unidades. 4 – O fotojornalismo valoriza o flagrante. Uma narração verbal, oral ou escrita, pode simular que os fatos estão acontecendo no momento da leitura. Já uma foto (e uma filmagem também) terá o valor de atenção proporcional à captura do “momento decisivo”, conceito formulado por Henri Cartier-Bresson: é o aprisionamento imagético do instante clímax de uma narrativa. Nesse sentido, as fotografias mais valorizadas são as de flagrante, não as posadas. Temos uma relação flagrante x posada que estabelece correspondência, respectivamente, com notícias quentes e frias. As fotos posadas são abundantes nas revistas e menos comuns, mas dignas até de primeira página, nos jornais diários. Quase sempre se relacionam com assuntos frios, que não perdem a atualidade facilmente. Podem ser despojadas ou, no limite, feitas em um estúdio, com condições especiais de luz, maquiagem, com elementos cênicos.

Essas estratégias redundam em diferentes tipos de fotos. O que vamos fazer agora é mostrar o resultado dessas demandas no dia-a-dia dos diários e revistas. É importante não esquecer que uma foto, na análise de uma reportagem, não deve ser encarada como texto, apesar de sua relativa independência semântica. Uma foto é sempre um elemento a mais, de maior ou de menor utilidade, no gerenciamento do nível de atenção de uma unidade noticiosa. É também parte de uma encenação que tenta convencer o leitor de que a notícia apresentada é um pedaço da realidade – e não um ponto de vista sobre o que acontece no mundo. Vamos apontar a seguir como as estratégias apresentadas geram diferentes tipos de fotos: das mais comuns – e portanto, com menor potencial de atenção – até as mais admiráveis e, por isso mesmo, mais envolventes:

massificar o controle individual sobre a captura e o tratamento de imagens, ao mesmo tempo em que torna o processo simples, rápido e facilmente reproduzível, vai contribuir para bombardear a fronteira entre ser e parecer no discurso fotográfico que, por mais de um século e meio, conseguiu vender-se para as multidões como “objetivo”. Toda essa discussão, no entanto, nos interessa por outro viés. Nos jornais e revistas, a questão da objetividade não é técnica, mas ética, o que retoma observações do início do trabalho.

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Fotos de registro - É produto da estratégia 2. São as fotos mais comuns encontradas na mídia impressa. A foto de registro é a que mais se aproxima do mero papel ancorador da fotografia nos textos. É utilizada ainda para “decorar” a página, buscar o olhar e tem grande valor na estratégia de fazer crer na objetividade da informação. Serve para mostrar o deputado de quem se fala na parte escrita da matéria, ou o jogador que fez determinado gol, ou ainda como ficou o carro destruído em um acidente. É de fácil decodificação. Pode-se retomar o exemplo da matéria sobre a demissão do técnico do Santos. Deve-se notar que a foto de Oliveira pouco acrescenta em termos de novidade, em acréscimo de informação:

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Foto de síntese – Satisfaz a estratégia 3 - é a mais adequada para representar o que é a “força expressiva” do assunto abordado. Resume toda uma situação tratada na parte escrita da matéria e geralmente apela para a passionalidade do observador (estratégia de sustentação). É o caso da foto a seguir, de Arko Datta, repórterfotográfico da Reuters, que mostra uma mulher chorando a morte de um parente morto pelo tsunami em Cuddalore, Índia, em 28 de dezembro de 2004.152 Fica evidente para o leitor que a realidade não está sendo mais mostrada de maneira “objetiva”, mas filtrada por um conjunto de valores que quer ressaltar determinados simbolismos.

Essa foto, “Tsunami Grief,” ficou em segundo lugar na Pictures of the Year International. Disponível no endereço: http://64.233.161.104/search?q=cache:yeOFsG6rim8J:www.poyi.org/62/15/02.php+Arko+Datta, +Reuters,+%22Tsunami+Grief%22&hl=pt-PT

152

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A foto abaixo.Foto de flagrante . curiosidade e tensão que o enunciador acreditou despertar no enunciatário. 257 . mereceu o espaço de uma página inteira em caderno especial da Folha de São Paulo sobre a tragédia. Acreditamos que o ato do fotógrafo de captar um acontecimento no momento de maior tensão narrativa é a essência do fotojornalismo.Capta o chamado “instante decisivo” (coerção 4) e tem enorme valor documental e impactante. o que ilustra muito bem o potencial de atenção. uma das raríssimas do tsunami que varreu a Ásia no final de 2004.

acreditamos que. no Iraque. Há um forte sentido de “autoria” da foto. “Dead Iraq”. quanto mais “completa”. Vale notar que a busca por uma representação mais estetizada. da representação do real. A foto de síntese freqüentemente cumpre a função de ser um registro. De qualquer maneira.Busca efeito estético (estratégia 1) e. mais uma foto cumprirá a sua missão de engajar e manter o enunciatário na leitura no jornal. de um ponto de vista subjetivo. de um soldado morto por soldados norte-americanos em Tikrit. ou seja. 153 Essa foto. 258 .153 Devemos notar que uma foto plástica pode ser também uma foto de síntese e de registro. Um exemplo notável é essa foto do fotógrafo brasileiro Maurício Lima. mas pode ou não ter características de síntese e impacto estético. mais preencher os requisitos enumerados. dessa maneira. determina a perda de parte da iconicidade. elaborada. não raras vezes. é a que mais expõe o fotógrafo como enunciador.Foto plástica . ficou em segundo lugar no Picture of the Year de 2004. Essa imagem será sempre uma foto de registro. O leitor é convidado a uma interpretação mais pausada. Já a foto de flagrante é um caso particular. da agência AFT. de 13 de dezembro de 2003.

Nenhum outro tema recebeu tamanho espaço no jornal daquele dia: 259 . Além de fornecer mais um exemplo do que foi discutido até o momento. dedicou ao assunto cinco páginas e meia das seis da editoria Mundo. que cobre assuntos internacionais. a análise permite investigar algumas estratégias ligadas ao plano de conteúdo e dar acesso às visões de mundo dos dois meios de comunicação. Folha .O jornal de segunda-feira. vamos comparar a cobertura da Folha de São Paulo e de Veja da prisão de Saddam Hussein. 15 de dezembro de 2003.Análise de abordagem: a prisão de Saddam Hussein Neste item.

260 .

uma espécie de página de manchete exclusiva para que o assunto fosse introduzido. assim.Deve-se notar como o jornal construiu. na editoria Mundo. sentir a valorização do tema. 261 . Há enorme diferença na diagramação da página que antecede a da cobertura da prisão de Saddam. A estratégia de arrebatamento é evidente. O leitor que folheava o jornal precisava ser surpreendido ao chegar na parte das notícias internacionais e.

com destaque para o vermelho utilizado na metade inferior “nas mãos dos EUA”.A Folha faz. e a repetição do mesmo infográfico utilizado na primeira página. já “arrebatado”. como se fosse a seqüência de um filme). dessa vez. assim. o que o conduz para a necessidade de satisfazer curiosidades sobre o assunto. e de outros líderes europeus 262 . Não podemos esquecer que o jornal já tinha dado ao tema um grande espaço na primeira página: O jornal apresenta a cobertura da prisão do ex-ditador do Iraque por meio da seguinte divisão entre páginas e assuntos: A11 – Performance da captura de Saddam e detalhes do esconderijo A12 – Sanção do presidente dos EUA e de outros políticos norte-americanos . ficar com vontade de ler detalhes da captura por meio das matérias. uma segunda página de manchete. Devem ser notados os títulos em letras maiúsculas (caixa alta). dentro da estratégia de sustentação. Tony Blair. Busca-se atrair o olhar com o procedimento de fazer o leitor se interessar pelas fotos e infográficos e.Sanção do primeiro-ministro da Inglaterra. dessa vez com mais detalhes. Dois terços da página inicial são ocupados por fotos (com detalhe para o conjunto de quatro imagens de Saddam justapostas. dedicada a um só assunto e aos seus desdobramentos.

à medida que a edição avança. O diário tenta não se envolver com o discurso norte-americano. por exemplo.“Comentário” sobre as imagens de Saddam . sempre no início. como já apontado. A análise de Sérgio Dávila. A performance e as repercussões mundiais são apresentadas com grande afastamento enunciaçãoenunciado. O último assunto a ser abordado dentro do tema é o estouro de um carrobomba no Iraque. Busca-se fazer o leitor ficar curioso não só para os detalhes como também. a TV. principalmente se ele teve acesso a meios mais rápidos. distribui notícias envolvendo a performance principal – a captura. É esse exercício de futurologia que faz com que o jornal garanta certa identidade para o material apresentado e a sensação de que a edição não é um mero relato de acontecimentos já sabidos pelo leitor.Avaliação de que a prisão é trunfo eleitoral de Bush .Cálculo de mortos pelo regime A15 – Retrospectiva de Saddam no poder .. interpretativos e opinativos também é bastante marcada. como já apontamos. A notícia mais fria. Na Folha.bomba explode e mata 17 iraquianos A disposição das unidades noticiosas informa que a parte mais valorizada é a captura.Divisão no mundo árabe A13 – Repercussão em Bagdá . a Internet. depois o impacto no Iraque e no mundo Árabe. fica para a penúltima página. As armas mais importantes para prender a atenção estão. mostrouse errada. o relato da vida de Saddam. Essa necessidade de agregar ao fato principal ou gerador um elemento de atualização. fato já acontecido. de que a resistência armada contra os EUA deveria diminuir com a prisão de Saddam. passado – com análises e comentários sobre as repercussões da prisão do ditador. É apresentado o clímax da história.Expectativa de abertura democrática no mundo árabe A16 – (Só principal matéria envolve o Iraque) . como o rádio. para as conseqüências da detenção de Saddam. a divisão jornalística entre textos factuais ou “objetivos”. depois a repercussão nos EUA e no mundo.Comportamento de Saddam na prisão A14 – Como poderá ser o julgamento de Saddam . para obter um efeito de atualidade do material. faz com que se pise no perigoso terreno da especulação. O 263 . a performance da prisão. Podemos notar que o jornal. separando sua enunciação da enunciação dos jornais e do governo dos Estados Unidos.Esperança de analista na diminuição da resistência armada .

inclusive. E ainda sobrou para o consumo simbólico nos demais 264 .. Ao dizer as palavras ‘We got him’ (nós o pegamos). em certos momentos. Até mesmo o texto de Veja sobre o assunto. de Robert Fisk. Para mim. espere nova onda de patriotismo americano. foram os disparos de armas de fogo que anunciaram a notícia. para contrabalançar. há outros exemplos. esse cuidado está no título principal: “Acabou a ‘era de trevas’. diz Bush”. correspondente em Bagdá do “Independent”: “(.recurso mais comum são as aspas. usurpar..) Vamos nos recordar de onde estávamos quando Saddam Hussein foi finalmente capturado. dignidade e respeito. é explorado por meio das fotografias. de Nova York. Na matéria. É o caso de “Chove tiro na antiga Saddam City” (A13).” Na publicação como um todo. Nos textos interpretativos. para a subjetividade. apoderar-se violentamente” (Aurélio) que “ocupação” não tem. Para as vítimas numerosas da ditadura ou para as lideranças muçulmanas reprimidas era o sinal de que o pós-saddanismo se tornava de uma vez por todas irreversível. Na pág. Sérgio Dávila.” Entretanto. João Batista Natali (“Imagens da TV desumanizam ditador deposto” – A14) faz comentários relevantes sobre o que ele chama de operação de mídia dos Estados Unidos: “(. escrita por Cíntia Cardoso. por Paul Bremer. há um efeito de intimidade. por exemplo. A imagem de Saddam como um mendigo é um grande exemplo de fotografia de síntese.” Há espaço.. Na própria cobertura da Folha. que busca simbolismos. o chefe americano no Iraque foi aplaudido. de modo a tirar dele reminiscências residuais de autoridade. na A14 (“Resistência deve diminuir”) fala diretamente ao leitor no trecho final da matéria: “De resto. ou de afastamento em relação ao que narra. se refere à guerra também como uma “invasão”. no entanto.mostra que.. notadamente dos iraquianos em Bagdá. o jornal privilegia o ponto de vista norte-americano. A imagem se destinava ao consumo interno iraquiano e com ao menos duas finalidades. o ponto de vista árabe. A12. expressões como ‘fim do regime de terror’ e ‘grande vitória de Bush’ predominaram. É o caso do trecho a seguir: “Na cobertura das televisões americanas. No geral. com grande efeito de “neutralidade”.) O propósito era o de destroná-lo energicamente no plano simbólico. a cobertura figurativa das matérias principais – um meio de investigar filiações ideológicas . Aos partidários da ditadura deposta era um recado de que a resistência à ocupação militar norteamericana estava acéfala. analisado depois. a Folha faz uma cobertura “escrita” com forte apelo racional. Por exemplo: fala-se em “ocupação do Iraque” em diversas unidades noticiosas. já demonstrado no anúncio da captura. que tem um sentido de “entrar à força. recebe grande destaque. O lado emocional do leitor. com um raríssimo (no jornalismo) texto com um “eu” claramente marcado. Eu estava sentado no chão de concreto da casa de um clérigo xiita morto por um tanque americano.

países do mundo árabe. 265 . é um número especial. também de assuntos que não envelhecem facilmente.) Tentou ainda atropelar princípios da ONU (. por exemplo. (. por meio do excesso. A imagem que restará dele será agora a de um médico militar inimigo que o examina como se ele fosse um bicho.. ou no máximo um prisioneiro sem vontade própria... quase o tempo despendido para ler a Veja inteira ou para assistir a três edições do Jornal Nacional. é aquele que pode ser lido em 10 minutos ou três horas.154 Veja – A revista que tratou da prisão de Saddam na edição 1834. Não há edição na semana seguinte.. 14. a revista sempre apresenta uma retrospectiva (o que garante certa atualidade para a leitura). O grande número de unidades noticiosas (há. (. O resultado é um material que pode consumir de duas a três horas de leitura. matérias especiais de temas amplos. 7 de maio de 2000..) Saddam (. O leitor tem esse direito". do Ano Novo. A imagem de Saddam barbudo e sujo é justamente a de sua humanização. com o bombardeio crescente da mídia. É costume a última Veja do ano ser mais “fria”.). 154 In “ Novo projeto gráfico estréia terça para realçar informações essenciais e dar mais leveza ao jornal” – Folha de São Paulo. pág.. autor do último projeto gráfico da Folha: "Um bom jornal. A capa da edição 1834 foi sobre fé. Como lembra Scarpellini.” Há um ponto.) procurou e conseguiu se impor como liderança regional.. Fica evidente que a Folha quer mostrar-se como “jornal completo”. demonstração de sua fraqueza e fragilidade que se contrapõem à imagem de ditador besta-fera e assassino de centenas de milhares de iraquianos que ousaram desafiar o regime. no entanto. Para compensar. é oferecido para que o leitor faça o caminho que achar mais conveniente. de 24 de dezembro de 2003.. O jornal também insiste em explicar com enorme número de detalhes tudo o que aconteceu. em que é possível discordar de Natali na análise que ele faz da fotografia do ex-ditador. três infográficos). O objetivo é dar opção para o leitor que tem tempo de ler o jornal e para o que não tem. Não menciona autor. porém. e um suplemento especial.

Por outro lado. Vejamos o que foi feito. que iam receber a revista na véspera do Natal. O assunto já tomara grande parte do tempo e do espaço de outros noticiários. é possível pensar que se trata de um tema mais indigesto para os leitores. Uma discussão sobre fé parece ser mais palatável. Apesar de não ser capa. Há várias razões para o texto de Saddam não ocupar a primeira página. Veja abordou a captura de Saddam quase uma semana depois de o fato ter acontecido. Os jornalistas da revista não poderiam apenas apresentar as mesmas informações e análises sobre a prisão já dadas pelos outros jornais. com o título: “Como ficar mais bonito e saudável” foi encartada na publicação. Inicialmente. a prisão de Saddam recebeu grande destaque espacial. com nove páginas: 266 .Uma edição especial sobre Saúde. Outras estratégias foram pensadas.

267 .

268 .

Não engoliu uma cápsula de cianeto. no quesito covardia. isso sim. Saddam. e o vencido. que vai se desdobrar. Glorioso Líder. imediatamente. Esse tom aparece em todo o texto e se apresenta como o “diferencial” em relação aos outros noticiários: a busca da curiosidade – estratégia de sustentação . O “gancho” do texto como um todo. em uma série de outras relações: luxo x miséria. mas entregou-se sem resistência. com uma tampa de concreto camuflada com lixo. quase mendicante. Presidente de seu Conselho de Comando da Revolução. não exatamente por meio da apresentação de uma performance de captura do ex-ditador. Há imagens de conteúdos díspares. não se matou com um tiro. Há uma categoria de base. O tirano que dispunha de 23 palácios para uso pessoal tinha se escondido numa cova de 1. quase todos sorridentes. No terceiro conjunto. Marechal-de-Campo de seus exércitos. investe na passionalização do leitor. nem atirou nos soldados. na noite de sábado. fotos diagramadas em clara oposição no espaço das duas primeiras páginas mostram o investimento inicial na estratégia de arrebatamento. O último conjunto de páginas duplas conclui a reportagem com a apresentação de cinco vítimas de Saddam. liberdade x prisão. Descendente direto do Profeta. Tentou. é “o fim melancólico de um dos tiranos mais sanguinários dos tempos modernos”.80 por 2. mortas por armas químicas. mãe e filha curdas. No segundo conjunto de páginas duplas mostra-se o palácio e também a cozinha do casebre onde o ditador foi encontrado. foi descoberto num buraco. o ungido. de José Eduardo Barella. um infográfico toma quase as duas páginas com uma grande foto de Saddam com a família.” 269 . coragem x covardia. estava armado com dois fuzis AK-47 e uma pistola. Temos os “dois” Saddam: o poderoso. O conjunto mais evidente é encontrado logo no primeiro conjunto de páginas. que propalava ser a personificação da tradição guerreira árabe. para contrastar com as fotos dos cadáveres dos filhos do expresidente e para lembrar que os genros foram mortos pelo próprio ditador. O primeiro parágrafo é primoroso nesse procedimento e afirma que Saddam. o “galã”. O texto. Chama a atenção.Grandes letras brancas em fundo preto. como fez Adolf Hitler em situação similar em 1945. vida x morte. um “fazer-odiar”. a escolha do material fotográfico e infográfico. 13.000 dólares que guardava numa maleta. entre elas. força x fraqueza. é pior do que Hitler: “Saddam Hussein.do leitor. ostentação x privação.40 metros. Presidente do Iraque. que ocupa a maior parte dos espaços da reportagem. Grande Tio de todos os seus clãs e tribos. explicitado no terceiro parágrafo. Tentou-se mostrar como a prisão exacerbou contrastes. Comandante-em-Chefe da Imortal Mãe de Todas as Batalhas. figurativamente. cuidadosamente relacionadas para formar quase um paradoxo visual. suborná-los com os 750.

o presidente americano desistiria de derrubá-lo e ele poderia retomar sua rotina de ditador. pela última vez. o de sanção.. Há discussões sobre as formas de julgamento do ex-ditador e as conseqüências para a “ocupação norte-americana”. (.) discute as razões do “tom sóbrio” adotado pelo presidente dos Estados Unidos ao fazer um pronunciamento ao povo norte-americano. A revista não esconde o papel de promotor da acusação. Há um aspecto notável desse texto. o de parecer discutir o anterior em alguns momentos. revista Forbes. jornal Sunday Times) e mostrar que tudo o que é apontado só pode ser a única conclusão possível. Tenta-se atenuar a forte carga opinativa com informações. dirigindo-se aos jurados. ou dito de outra forma. faz mais descrição de torturas. sujeitos obrigados a manter relações com objetos que lhes causam repulsa. argumentos de autoridade (ONU.Como um todo. após os bombardeios. explicitando as artimanhas da revista na busca da passionalização do leitor e sua relação com o ponto de vista norte- 270 . “Será que a Casa Branca percebeu que a captura de Saddam é só um símbolo – forte. aliado à depravada indiferença para com a desgraça de seu povo. pode explicar por que ele preferiu o confronto. justifica a própria invasão norte-americana: “Só o delírio causado pelo poder absoluto.” O último texto das nove páginas motivadas pela prisão do ex-ditador do Iraque. e portanto incapaz de produzir efeitos práticos?”. resta apenas jogá-lo na lata do lixo da história. Os relatos das atrocidades do ex-ditador não são exatamente “fato novo”. Depois. ‘como um detrito esperando para ser coletado’. que impunha sua vontade (fazer-fazer ou fazer-agir) na base do dever e sob pena de sanções pragmáticas severas. Mas a matéria é cuidadosa ao dosar o teoricamente já conhecido com o novo na busca do efeito de atualidade. No total... Agora. O texto termina com uma especulação mais ampla. “episódios documentados”. em um único parágrafo. crueldade. Acabou. o texto segue um tom comum na Veja. A quinta página da seqüência (número 37). Os iraquianos são apresentados como vítimas. Colin Powell. retoma. a reação de Saddam na prisão e.. como as guerras. mas um símbolo apenas. análises que também funcionam como elementos de atualização. aparece como fonte de anti-valores: tirania. assassinatos. 51 foram assassinados sob acusação de traição. opressão. Saddam. o que Veja faz é construir para o ex-presidente do Iraque o papel de anti-destinador. Há relatos de torturas. fortíssimo. como resumiu o secretário de Estado americano. contudo. estatísticas.) Ele acreditava que. dirige foco para os próprios parentes de Saddam. Mais do que a figura de um anti-sujeito. de tortura à morte. Retoma-se. o relato sobre a “ambição” de Saddam que. para não perder o tema. que tudo sabe. para Veja. com muitos detalhes. que desperte o nível de atenção esperado do leitor. pergunta. de autoria de André Petry (“E nem parecia Bush. assim.

como estratégia de sustentação. É nesse sentido que acreditamos que todo o emocionalismo do texto principal. ao criar um leitor tenso. Na Retrospectiva 2003. Veja não esconde suas simpatias nem do que quer convencer. a de despertar simpatia pelos norteamericanos e sua incursão no Iraque. o Baath. A transição de conquistadores para construtores de nações vai demandar ainda toda a energia criativa e muito da riqueza americana. na prisão de Saddam.” No momento seguinte. terroristas da Al Qaeda e até mesmo a classe média iraquiana.” 271 . a Casa Branca precisou demonizar Saddam. que “se ressente de estar sob as botas de um ocupante estrangeiro”. sangrenta. que tem uma estratégia de sustentação particular. “revoltado”. facilitou amplamente a tarefa. O ano termina com as expectativas americanas e as de seus adversários bastante diluídas. Busca-se. a empatia do público com as vítimas. Em outro trecho. tudo fica mais complicado porque “há muita gente sem lugar no Iraque do pós-guerra”.) Nem toda a força econômica dos Estados Unidos é capaz de fazer valer sua cultura e modo de vida em um país derrotado e empobrecido como o Iraque.americano: “No jogo de guerra. (. com amplo apelo às injustiças cometidas contra famílias. autoritária. uma justificativa para convencer seus leitores da importância da guerra dos EUA contra o Iraque. Nem Bush e seus assessores neoconservadores têm planos de dominar o mundo. a ação armada americana no Oriente Médio prendeu a atenção do mundo e levantou suspeitas de ressurgimento do imperialismo de dominação territorial. minoria da qual o ex-presidente do Iraque fazia parte e que perderam influência política. na mesma edição. continua o analista. tem clara função ideológica. enterrada no século passado. o relato de Veja serve para desencadear no leitor a paixão da vingança contra Saddam. Mas a catarse tem possibilidade de acontecer via apoio à ação do governo dos Estados Unidos. É evidente que o leitor não pode ir à desforra contra o exditador. a revista sai em defesa do governo Bush: “Nesses oito meses. os sunitas. pág. Ele cita os militantes do partido de Saddam. cuja biografia.. contra crianças massacradas para que pais confessassem crimes. Numa análise narratológica da enunciação. nem a democracia no Iraque deve ser construída tão cedo. prática colonialista do século XIX. Veja cita a guerra do Iraque e lembra a seus leitores que a missão de Bush foi a de “implantar a democracia no país que foi de Saddam Hussein”. 56. os soldados fiéis ao ex-ditador.. É interessante que o caminho buscado por Veja foi ver.

em certos momentos. Como o assunto é de enorme amplitude. Para enfrentar o problema. Uma teorização sobre o jornalismo e a Internet precisa enfrentar certas dificuldades. explicamos com mais detalhes algumas questões de ordem técnica para o entendimento do objeto de análise e seus impactos. Nosso primeiro procedimento. Em nenhum veículo. apresentar formas de abordagem do assunto e permitir depois. Como foi dito no início da segunda parte do trabalho. A investigação de um portal como veículo de jornalismo não deixa de trazer questionamentos e dúvidas. essa característica é mais perceptível do que na Internet. porém. será o de recortar com mais precisão o próprio objeto. nesta parte do trabalho. portanto. Limites e vantagens tecnológicas sempre vão determinar formas de relacionamento entre um meio de comunicação e seu público. O próprio UOL acomoda versões eletrônicas da Folha de São Paulo. A rede também vive uma evolução muito mais rápida do que a experimentada por outros veículos de comunicação. uma comparação com as coberturas dos outros noticiários. adaptadas. na conclusão.PORTAL. a ordem dos estudos específicos tem uma justificativa. 272 . tivemos a preocupação de apresentar reflexões que não fossem facilmente sepultadas com a descoberta de novos usos para as tecnologias de informação digital.JORNALISMO NA INTERNET O último ponto de análise da tese é o jornalismo na Internet. Qualquer estudo corre o perigo de envelhecer precocemente. Em função disso. Diversas reflexões dos outros noticiários serão agora reaproveitadas e. Finalmente. a cobertura da prisão de Saddam Hussein servirá para mostrar alguns modos de textualização. notadamente das características do funcionamento do gerenciamento do nível de atenção em determinados objetos jornalísticos na rede mundial de computadores. foi escolhido o portal UOL para estudo. de Veja e de inúmeras outras publicações jornalísticas.

Como em um estudo semiótico a palavra pode causar problemas. boletins. na forma de arquivos digitalizados. como mídia. 2004: 97). A rede permite a compra de produtos. facilita o acesso a serviços e exibe verdadeiros estabelecimentos virtuais. artística e científica. modifica e mesmo inaugura outras mídias. caso dos jogos on-line. 157 O portal. A Internet acumula outras funções importantes. ler jornais e publicações de todo o mundo e trabalhar com base nesse material. fazer entrevistas. a mais nova depois da invenção da TV nos anos 1950. Também apresenta um amplo espaço para entretenimentos específicos. como a de meio de comércio eletrônico (e-commerce). em sua maioria. no entanto. vídeo ou infográfico” (Ferrari. o telégrafo e o fax. características que perpassam as quatro funções apontadas. que são pequenos jornais ou newsletters em forma exclusivamente eletrônica. Beth Saad lembra que “as operações digitais brasileiras acabaram. deixando bastante complexa a questão do próprio suporte existente. boletins. jornais e revistas on-line. a de memória de toda produção intelectual. que não existiriam se não fosse a Internet. a de ferramenta de trabalho. uma modalidade de correio ou comunicação interpessoal. que pode vir em formato de texto. mas que na Internet assume caráter também de comunicação socializada. Conteúdo é “a informação disponibilizada pelos sites aos seus leitores. que são amplos espaços com grande número de conteúdos e informações. Há alguns reparos possíveis nessa classificação. 273 . não está no mesmo nível dos sites. a Internet se apresenta em várias formas: blogs 155 pessoais. acessíveis de qualquer parte do mundo” (2005: 73). “como meio de comunicação social.a Internet e o portal Bernardo Kucinski afirma que a rede mundial (também conhecida por world wide web – daí o famoso “www”) exerce e combina quatro características principais relativamente distintas: “A função de transmissão de dados. 157 É mais preciso dizer que a Internet. Em todas essas formas. a de mídia. inclusive publicidade e programas de venda direta. que permite acessar bancos de dados. há uma superação dialética entre público e privado” (idem: 76). blogs. Desse modo concilia algumas observações que acabamos de fazer e permite situar melhor nosso objeto de estudo. sem contar a possibilidade de consumir ou “baixar” músicas e filmes. sendo 155 156 Blogs são diários on-line. os e-mails. acolhe. sites 156 e portais. foto. que são versões às vezes resumidas ou seletivas de publicações que já existiam e continuam a existir em forma impressa. vamos nos referir a essa definição como conteúdo-web. Kuncinski refere-se à Internet como “mídia” no sentido mais geral. de “meio de comunicação”. e. O autor explica que. finalmente.Considerações gerais . ampliando o leque de instrumentos de meios de transmissão que compreende também o telefone.

não deixa de ser também parte “englobada”. como significado de “porta de entrada”. superior. “Os portais tentam atrair e manter a atenção do internauta ao apresentar. seja por refletirem verdadeiramente uma estratégia de amplo acesso. Graças aos links. menos os Estados Unidos. começou a ser usado em 1997 (2004:18). . entre outras possibilidades. como www. caso de um vídeo.cunhadas como ‘portal’. 3 – O controle da ação de um elemento. Esse programa é o browser ou navegador (como o Explorer e o Netscape).uk . Esse fato não é nada inocente do ponto de vista ideológico. só para citar dois exemplos). sair do final de uma página e voltar ao início com um toque do mouse em um desenho). Esse endereço (ou URL). 2. registrou seu principal domínio no Brasil. é recoberto com siglas e nomes para ficar mais fácil de decorar. por exemplo. pois apresenta inclusive os recursos listados inicialmente como funções da rede.a passagem de um documento a outro. Ponto de partida do internauta para que possa utilizar a Internet.frança.fr . Pollyana Ferrari afirma que o termo “portal”. registrado nos Estados Unidos. como “invenção”. O endereço eletrônico já é produtor de sentido. que se auto-intitula “o maior provedor da América Latina”. reunidas em torno de um determinado tema e interessadas no detalhamento do conteúdo em questão e seus respectivos hiperlinks em novas janelas de browser” 159 158 que surgem (idem: 30). chamadas para conteúdos díspares. é preciso conhecer seu endereço na rede.Reino Unido. como o do portal da Rede Globo: www. pausado.com. Trata-se do domínio.com.br. Ferrari também aponta a questão que mais nos interessa: “O conteúdo jornalístico tem sido o principal chamariz dos portais”. Fica agora mais claro o recorte proposto. uma convivência. A solução ajuda a formar ‘comunidades’ de leitores digitais. que pode ser colocado em funcionamento. Existe um enunciador que precisa manipular um enunciatário para que se estabeleça um laço. sem indicação de país de origem. Além de um computador conectado a rede.globo. é preciso ter ainda um programa que “puxe” e dê visibilidade às páginas de um site hospedado em determinado servidor. O UOL. supondo-se que um portal é mais importante que uma página web” (2003: 250). De qualquer maneira. “navega” onde quer e quando quer. Como veremos depois. 158 274 . Outro ponto interessante é que todos os países do mundo têm uma identificação com duas letras nos domínios (. de várias áreas e de várias origens.a passagem de um ponto a outro de um mesmo documento (como. nem mesmo para ter características jornalísticas. por exemplo. Isso é evidente Hiperlinks ou links são elos entre elementos de um site que possibilitam: 1. acima da hierarquia e das regras impostas aos outros países. é notável também verificar que a página inicial do UOL é a própria síntese da Internet e de suas possibilidades. Empresas que querem parecer globalizadas adotam um domínio internacional. 159 Os sites ficam armazenados em provedores de acesso. não nasceu para ser um jornal digital. Ao mesmo tempo em que “engloba” tudo. que acaba por garantir a própria sobrevivência do serviço. O portal. na página inicial. numérico. seja por uma questão de marketing ou de status. o portal é ainda um filtro que hierarquiza o mundo caoticamente apresentado em formato digital. consideramos aqui o portal como “texto” na acepção semiótica.globo.com. Os Estados Unidos aparecem como espaço globalizado. a Internet ganha sua grande característica: o internauta constrói seu próprio caminho dentro da rede.uol. Para ter acesso a um site. que mantêm computadores denominados servidores. e tem o endereço www.

O formato repetia-se todos os dias e dava a impressão de enorme imobilidade. 160 275 . antes do carregamento da homepage. portanto. o jornalismo foi ganhando mais e mais espaço. no entanto. O jornalismo.do enunciatário. uma pequena introdução. Só que se relacionam a acontecimentos que acabaram de ocorrer ou em pleno desenrolar. A tela. e ainda válida. deve reconhecer que está diante de informação “nova”. o pop-up. foi exibir os principais assuntos por meio de uma hierarquia que privilegia a sensação de máxima proximidade com o tempo presente – cronológico . Aos poucos. Desse modo. mas existe. geralmente uma imagem em movimento. ao enunciar o tempo todo sobre um conjunto de fatos. Alguns sites têm. ou seja. é o aparecimento de uma pequena propaganda ou chamada. no seu processo interpretativo. A razão é simples. A principal solução pensada. em pleno “desenrolar”. o carregamento simultâneo de duas páginas iniciais. hierarquizadas no espaço da página. a homepage propriamente dita. Cada portal. erroneamente confundida com o site. e uma outra página que chama a atenção para um assunto de grande destaque.quando se vê a homepage 160 do UOL de 1999. Foi preciso então encontrar meios de representar a idéia de fluxo. predominantemente estática. as notícias vão sendo trocadas em intervalos curtos de tempo. característica dos textos de manifestação temporal. apresenta uma forma de textualização de base espacial. Para completar os efeitos de atualidade e de sensação de “fluxo”. Um terceiro caso. o internauta. não foi somente escolhido pelo interesse do público nas notícias. consegue o efeito de sentido de representação do A página inicial de um portal ou site geralmente é a homepage (ou casa-página). Percebeu-se que a maior coerção de um site ou um conjunto de sites que formam um portal era a de se mostrar em constante atualização. É mais raro. Podemos observar ainda hoje as unidades noticiosas sendo apresentadas.

por exemplo. anunciam seus últimos contratos. As agências. Relembremos que estipulamos quatro “leis de diagramação” para os jornais e revistas impressos: 161 O recurso de apresentar “notícias” para dar impressão de atualidade a um site ou portal virou lugar comum na rede quando se percebeu seu potencial. Antes de apresentálas em detalhes. os sites das principais agências de publicidade brasileiras. Como principal entrada. ou de grandes ONGs.próprio pulsar da vida cotidiana e de inserção do internauta nesse movimento incessante. Trata-se do ponto inicial de visitação. enfim. sua visão de mundo. é também o espaço ocupado e o posicionamento dos elementos que mostram os valores em jogo em relação às notícias. podemos conhecer o que ele considera mais – ou menos – importante. 276 . Temos na página inicial de um site geralmente “notícias” que não passam de informação atualizada sobre os próprios enunciadores. 2003: 259) denuncia que se fala de organização do texto por meio de relações espaciais. na home. digitalmente. o público não só fica sabendo das “novidades” como também é manipulado para enxergar o próprio dinamismo do site e de seus donos. apresenta as mais evidentes estratégias de gerenciamento do nível de atenção do internauta. o que valoriza e o que “esquece”. manifestações gráficoplásticas que têm uma série de pontos em comum com as encontradas nos jornais impressos. A textualização de uma home-page e a primeira página de um jornal têm procedimentos parecidos. em sua arquitetura. Por meio da primeira página. seus anúncios mais recentes. é preciso conhecer melhor a homepage. por exemplo. parte considerável de sua ideologia. Um portal apresenta. bastante comum entre construtores de sites (ver. Em outras palavras. 161 Formas de textualização Em um estudo sobre o portal. por exemplo. Saad. a homepage também escancara os valores do enunciador. Grande hierarquizadora dos assuntos de um site. Dessa maneira.os conceitos de espaço/nível de atenção propostos para as publicações de papel. Basta ver. Podemos falar que. a palavra “arquitetura”. Aliás. a homepage merece o maior empenho. podemos utilizar – com adaptações . As ONGs falam dos andamentos de seus projetos.

há pouca variação de corpos e espessuras de letras nas contínuas atualizações da homepage. 10 de maio de 2005: Podemos verificar que as “leis” dos impressos são aplicáveis para o estudo da primeira página do portal. Entretanto. Terceira lei: a máxima valorização espacial acontece na capa ou primeira página. Segunda lei: tudo o que estiver na parte de cima tem mais valor do que na parte de baixo. Essa lei obriga a colocação das principais informações e dos elementos de mais impacto sempre no começo. Categorias topológicas de expressão Maior volume ocupado x menor volume ocupado Parte de cima x parte de baixo Exterior x interior Inicial x final Correspondência no plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Vejamos os elementos da homepage do UOL para verificar a pertinência dessas relações dos impressos no portal. A página a seguir foi capturada às 10h30 da manhã da terça-feira.Estratégia do plano de expressão Primeira lei: o valor de uma unidade noticiosa é proporcional ao espaço a ela concedido. está na parte de cima. O potencial gráfico- 277 . Quarta lei: o início de uma unidade noticiosa é o espaço mais valorizado. A manchete principal aparece com um corpo de letra maior. ocupa mais espaço.

O “principal portal de conteúdo do país”. mas também cromáticas. Seu dinheiro. precisa “rolar a página” com o mouse.plástico é pouco explorado. são conteúdos-web já em forma de manchete. aparecem da mesma maneira. amigos virtuais. Analisemos um pouco mais a parte central.aqui no sentido de uma organização de assuntos que permite o acesso rápido do internauta ao que ele procura . A tela que aparece no computador é geralmente a metade superior (no gráfico. para ter acesso a tudo o que há no portal. à esquerda e no topo. acabam por destacá-lo por contraste. a divisão entre partes de “serviços” .de “notícias” e de “e-commerce”. A home tem três partes principais. Em outras palavras. Na terceira parte. de notícias. São sites que organizam os principais conteúdos-web disponíveis: biblioteca. Quase todas as manchetes. Esses conteúdos-web . há o shopping UOL. como se autodefine o UOL. importantes e chamativas na ótica do enunciador. ou seja. que tem assim máxima visualização. uma forma de construção de sentido por meio da aspectualização do espaço que. Isso cria novas relações. sexo. É nítida. o retângulo das manchetes está na parte de cima. E há blocos de conteúdosweb distintos. Deve-se notar que o internauta. O retângulo central branco é o principal ponto de valorização e captação da atenção para determinados assuntos. nos 278 . A parte central também permite acessar as estações.que é diferente da existente nos impressos. tendendo ao cinza. portanto. Lá estão as notícias mais quentes. Outro ponto a observar é a função não só das relações topológicas. jornais. o mesmo bloco de manchetes está na parte central.exposto x oculto . por serem coloridas. levando-se em conta somente a parte inicialmente exposta no carregamento da página. Os temas aparecem em caixas cujos títulos ficam em um retângulo vermelho escuro e com as chamadas em fundo bege. A parte azul. O olhar do internauta pousa no branco do retângulo das principais manchetes porque as outras partes do portal. De qualquer maneira.não são fixos. entre outros . Do ponto de vista da página inteira (parte exposta mais a parte oculta). mas diversos objetos em movimento e simultaneamente. dá acesso principalmente ao que os administradores do UOL chamam de “estações”. É notável como o verbal. e a disposição imóvel das letras.Jornais e Revistas. de uma tragédia à vitória de um time de futebol. mas sua característica maior é a de ser uma coletânea do que as estações têm de mais chamativo e atual. se impôs em um suporte que tem a possibilidade de apresentar não só um. Só que. porém. em cinza. Há uma categoria . é de organização e hierarquização. constata-se que a ocupação dos espaços da home do portal é bastante fixa. tem uma organização muito semelhante à de um jornal impresso. principalmente para o material jornalístico. O efeito pretendido. O retângulo laranja mostra o conteúdo multimídia. essa porção visível aparece dentro do retângulo pontilhado).

diários, de maneira geral, pouco se alterou em décadas.

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Os elementos que se

movem – ou seja, apresentam relações também temporais - são quase sempre publicitários. Isso quer dizer que a estratégia de arrebatamento, quando a página é carregada na tela do computador, vincula-se principalmente às unidades de “ecommerce” e não às jornalísticas. A atenção inicial deve ser fisgada para que o enunciatário se interesse em realizar compras ou em adquirir serviços por meio do site. Podemos notar, no portal, a presença dos quatro grandes conjuntos significantes já mostrados nos jornais impressos: 1. Verbal, manifestado tipograficamente - Na home analisada, há pouca variação. 2. Fotográficos – Também aqui, há pouca variação de tamanhos na home. Como grande parte das fotos deve ser pequena, há uma profusão de “carinhas”, retratos.

Entre os autores consultados, é constante a observação de que a Internet, e notadamente o chamado webjornalismo ou jornalismo digital, ainda se apóia em modelos conhecidos porque todos os interessados na questão – empresários, jornalistas, acadêmicos – ainda não sabem muito bem como utilizar todas as potencialidades da rede. Em “Webjornalismo de Terceira Geração – continuidades e rupturas no jornalismo desenvolvido para a web”, Luciana Mielniczuk (http://www.adtevento.com.br/intercom/resumos/R08161-pdf - acessado em maio/2005) busca respostas, mas constata: “Navegando por webjornais, há alguns anos, tinhase a impressão de estar lendo o jornal impresso na tela do computador. Hoje, a situação mudou bastante, encontramos muito mais links e recursos de multimidialidade, mas não vemos nada de muito diferente do que já foi visto. A ‘novidade’, por enquanto, é que podemos ler o jornal impresso, assistir ao noticiário de televisão e ouvir o noticiário do rádio, na mesma tela do computador, de maneira quase simultânea.” Marcos Palácios, em “Jornalismo Online, Informação e Memória: Apontamentos para debate” (disponível em www.facom.ufba.br/jol/pdf/ 2002_palacios_informacaomemoria.pdf – último acesso em maio/2005) enumera as possibilidades – mal utilizadas - do jornalismo de Internet: multimidialidade/convergência, interactividade, hipertextualidade, personalização, memória, e a instantaneidade do acesso, que permitem a atualização contínua do material informativo. O autor, ao mesmo tempo, lembra que mesmo essas características, separadamente, não são privilégio do web jornalismo, que não apresenta uma grande ruptura em relação às outras maneiras de buscar, tratar e distribuir notícias, mas é, antes de tudo, uma continuidade e uma potencialização dessas mesmas formas: “A Multimidialidade do Jornalismo na Web é certamente uma Continuidade, se considerarmos que na TV já ocorre uma conjugação de formatos mediáticos (imagem, som e texto). No entanto, é igualmente evidente que a Web, pela facilidade de conjugação dos diferentes formatos, potencializa essa característica. O mesmo pode ser dito da Hipertextualidade, que pode ser encontrada não apenas em suportes digitais anteriores, como o CD-ROM, mas igualmente, e avant-la-lettre, num objecto impresso tão antigo quanto uma enciclopédia. A personalização é altamente potencializada na Web, mas já está presente em suportes anteriores, através da segmentação de audiência (públicos-alvos). No jornalismo impresso isso ocorre, por exemplo, através da produção de cadernos e suplementos especiais (cultural, infantil, feminino, rural, automobilístico, turístico, etc); no rádio e na TV a personalização tem lugar através da diversificação e especialização das grades de programação e até mesmo das emissoras, como no caso da RTP Internacional, totalmente voltada para a Comunidade Lusitana na Diáspora.” Para Palacios, o webjornalismo encontra sua especificidade potencializando e principalmente combinando as características descritas, notadamente a que envolve a memória, o acesso às informações acumuladas.

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3. Pictóricos - Na home, os recursos pictóricos também não são muito utilizados. 4. Mistos – Os infográficos, fusões são mais comuns nas estações, fora da home. Há também os diagramáticos – como as caixas coloridas ou vazadas, entre outros recursos. Ao contrário dos impressos, existe no portal grande uso dessas últimas possibilidades de expressão, principalmente para dar a idéia de organização de determinados assuntos e para valorizar outros. Os recursos diagramáticos também são responsáveis pela divisão da home em partes distintas, de conteúdos-web facilmente reconhecíveis. Temos semi-simbolismos “cristalizados” nos recursos diagramáticos, caso do azul representar a entrada para as estações e o espaço do assinante. Um outro conjunto significante (na verdade, um “conjunto de conjuntos”) é exclusivo da Internet: 5. Hipermidiáticos –referem-se à manifestação de informação de mídias de fluxo, como o rádio, a TV, ou quaisquer arquivos que tenham uma progressão temporal, como uma apresentação de fotos em programas de slides do tipo PowerPoint, desenhos animados, e até mesmo animações somente com letras.163 Quaisquer unidades dos cinco grandes grupos de conjuntos significantes podem ou não dar acesso a outras, ou ainda desencadear funções pré-programadas pelo enunciador, como a de movimentar uma foto quando o mouse simplesmente desliza sobre um elemento. A passagem às páginas e outras unidades do portal ou fora dele é feito por hiperlinks. Funções e links põem um fim à semelhança de um site com uma revista. Notadamente os links
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possibilitam um contato não linear,

personalizável, com os conteúdos-web da rede. É possível conhecer certas partes sem passar por outras. Via links, os conteúdos-web do site e de outros sites podem ficar disponíveis, acessíveis.
Para a construção de páginas web é preciso utilizar uma linguagem de programação. A mais básica é chamada de HTML (Hipertext Markup Language). Podemos comparar essas linguagens como uma cola. Os elementos são “grudados” e depois apresentados na forma de uma página, com fotos, texto verbal, links, ou até mesmo um filme. Tudo isso vira bit, ou seja, a unidade mínima de um sistema digital, que pode assumir apenas os valores 0 ou 1. O mundo digital, portanto, transforma tudo em 0 e 1. É interessante que mesmo os elementos hipermidiáticos também são entendidos como fragmentos agregados a uma página ou conjunto de páginas de modo que a organização espacial se imponha à temporal. 164 Os links também informam os valores do site. Se um site de música coloca links destacados para cada gênero de música popular (samba, rock, mpb, axé, etc) e insere gêneros como jazz, música erudita em um link chamado “outros”, mostra o que considera importante e o que considera menos importante. No caso, quer criar uma imagem de quem se identifica com o gosto popular.
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Sabemos que os elementos tipográficos são os preferidos para a construção de links. Teoricamente, no entanto, qualquer elemento citado pode apresentar um link ou um conjunto de links
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, ações, ou seja, ser um elo para mais conteúdos-web.

Observa-se uma categoria ativo x inativo que pode ser utilizada para determinar se um elemento de qualquer um dos seis conjuntos significantes citados é ou não uma ponte para um outro. A característica cada vez mais evidente de a Internet ser a “mídia de outras mídias” (a multimidialidade) faz com que a maioria das observações sobre outros tipos de jornais apresentados durante todo o trabalho tenha plena validade no ambiente virtual. Um programa de radiojornalismo ou telejornalismo na Internet também vai obedecer às características básicas – como efeitos da entonação no primeiro e de câmera e edição no segundo - apontadas nas outras partes do trabalho. As relações entre conjuntos significantes mostradas nos impressos – notadamente as que envolvem os tipos gráficos e o fotojornalismo – também podem ser aplicadas na análise de um portal como o UOL. Algumas adaptações são, porém, inevitáveis. Os conjuntos significantes hipermidiáticos, marcados por relações textuais temporais, como um programa de TV ou rádio que pode ser assistido por meio do portal, se submetem a uma estrutura espacial, que lhes atribui valor. Mesmo que diversas janelas pudessem ser abertas para diferentes elementos de hipermídia, as formas de visualização do fluxo precisariam ser hierarquizadas e topologicamente organizadas. Poderíamos em teoria entrar em uma home com, por exemplo, quatro programas de televisão passando simultaneamente. Se tivessem diferentes tamanhos de tela, tenderíamos a considerar que o mais importante é o apresentado no quadro maior. Se todos fossem mostrados em telas do mesmo tamanho, seríamos tentados a valorizar mais o programa que está na parte de cima.

O efeito de sentido de “infinitas possibilidades”

Há outros pontos instigantes relacionados ao modo de textualização de um portal. Pode-se questionar a validade de uma reflexão sobre “texto” diante de um meio de comunicação que apresenta “conteúdos” de maneira hipertextual. É preciso lembrar, inicialmente, que um portal não é um texto sem limites. O caminho hipertextual realizado pelo Internauta também é conseqüência de uma estratégia enunciativa que tenta organizar e tirar proveito da passagem do usuário pelas páginas, dentro da busca de audiência. As milhões de páginas disponíveis no UOL não

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Uma única foto, por exemplo, pode ter vários links.

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impedem o enunciador, por exemplo, de organizar todo o portal na famosa estratégia – entre webdesigners - dos “três cliques”. O portal inteiro é concebido para que o internauta “chegue” no lugar desejado passando por apenas três páginas: a home principal, a home da estação analisaremos no próximo item. Existem, no entanto, muitos caminhos possíveis dentro do portal. Só que é preciso discutir essa pretensa liberdade do internauta em construir seu próprio “texto”, ou seja, o que ele quer consumir. Vejamos como o usuário pode ter acesso às notícias. Há dois caminhos principais: clicar no link de alguma manchete na parte central, de notícias, ou ir diretamente às estações. No UOL, há oito estações dedicadas ao jornalismo. Todas têm funções específicas e, ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser na Internet, apresentam certa interligação: - UOL News – Em maio de 2005 é comandado pela ex-âncora do Jornal da Globo Lillian Witte Fibe. Trata-se de uma experiência de telejornalismo on-line. As notícias são oferecidas on demand (ficam disponíveis para serem consumidas a qualquer momento) em dois tipos de codificação: uma para banda larga e outra para banda estreita. Os conteúdos-web também são mostrados em diferentes mídias, apesar da ênfase em vídeos. É possível ler ou assistir a uma mesma entrevista. Grande parte dos vídeos é produzida pela Band News.
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, e a home do site relacionado na estação, como

- UOL Jornais – Apresenta uma lista dos sites de jornais brasileiros e internacionais. Abriga ainda o site Mídia Global, que faz uma seleção das principais manchetes de jornais, revistas e agências de notícias (Cox Newspapers, Der Spiegel, El País, Financial Times, Hearst Newspapers, Herald Tribune, La Vanguardia, Le Monde, Prospect Magazine, The Boston Globe, The New York Times, The NYT News Service, USA Today, Agências de Notícias AFP, EFE, Folha Online, Lusa, Reuters, Valor Online) e apresenta links para os respectivos sites. UOL Últimas notícias – É praticamente a apresentação de uma lista dos assuntos jornalísticos que vão entrando no site, às vezes de minuto em minuto. O material mais atual sempre encabeça a relação. Os títulos também têm a função de links e remetem para outras estações. O efeito de atualidade é tão perseguido que antes dos títulos se informa a hora em que a notícia foi colocada no portal.

No UOL, para relembrar e definir melhor, a palavra estação se refere a um site com conteúdo específico, mas de grande abrangência, hospedado pelo portal, marcado na barra de navegação à esquerda da home do portal. É o caso do UOL Notícias, UOL Sexo, UOL Jornais, entre outras opções. 167 “Lillian Witte Fibe estréia no comando do UOL News” - sem crédito. Disponível em http://noticias.uol.com.br/uolnews/2004/09/17/ult2528u8.jhtm - último acesso em maio de 2005.

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Folha Online – Site que mostra os conteúdos da Folha de São Paulo que são disponibilizados assim que produzidos pelo jornal. A Folha tem, portanto, dois sites distintos dentro do UOL, o que apresenta, na forma de conteúdo-web dentro do UOL Jornais, toda a sua edição do dia (praticamente o conteúdo verbal), e o Folha Online, com notícias que vão se renovando, e que irão, no dia seguinte, fazer parte da edição impressa. UOL Revistas - traz sites de dezenas de publicações nacionais, entre elas Caras, Trip, Atrevida, Herói, National Geographic, Fluir, Sexy, Próxima Viagem, PC World, Corpo a Corpo, Gula e Ciência Hoje, além de traduções de textos de revistas estrangeiras como a alemã Der Spiegel. UOL Televisão - traz ampla cobertura jornalística da programação e de celebridades do veículo. TV UOL – O destaque são os vídeos de entretenimento – músicas, entrevistas com artistas, trailer de filmes. Expõe os conteúdos em vídeo do UOL News e do UOL Esportes. UOL Esportes – Apresenta bastante conteúdo jornalístico, com cobertura de diversas modalidades esportivas, os grandes campeonatos nacionais e internacionais. Destaca futebol, automobilismo e tênis. Traz também tabelas, entrevistas, reportagens e imagens dos gols, além de transmitir em vídeo os jogos e melhores momentos dos principais campeonatos brasileiros.

Essa lista, reforcemos, inclui as estações com conteúdos mais jornalísticos. A maioria das estações, no entanto, utiliza o formato “notícia” para dar efeito de atualidade aos conteúdos-web particulares. Até o UOL Bichos estampa notícias. Uma análise um pouco mais cuidadosa mostra que uma mesma notícia pode aparecer em diversas estações, com formatos distintos (vídeo, texto verbal, conjunto de fotos). Em 18 de maio de 2005, por exemplo, estreou o filme “A vingança dos Sith”, último da cinesérie Star Wars. A parte central da home apresentava uma chamada. O mesmo assunto era tema de reportagens no UOL News, UOL Cinema, UOL Diversão e Arte, UOL Últimas Notícias, UOL Teen, Folha On Line, UOL Tecnologia. A mesma notícia: “‘Star Wars: Episódio 3’ estréia em 430 salas do Brasil” – era encontrada no UOL Cinema, UOL Diversão e Arte, UOL Últimas Notícias, Folha Online Busca. Percebe-se que a sensação de uma enormidade de notícias em um portal também é um efeito de sentido. E por vários motivos. O que o internauta tem é uma espécie de “mais do mesmo”, porém embalado de um jeito que dá a sensação de uma infinidade de possibilidades de consumo do mesmo assunto. Outro ponto é que a mesma notícia aparece em várias estações diferentes, pois é pouco provável que um

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internauta visite todas. Há maneiras de atraí-lo e de dar o que ele procura – ou seja, satisfazê-lo - por diferentes caminhos. Finalmente, também é possível verificar que as estações hierarquizam a notícia ao gosto do internauta. O mesmo filme para adolescentes pode merecer uma nota na home da Folha Online e um destaque maior na do Folha Teen. Cada estação pressupõe a existência de um diferente contrato enunciador-enunciatário, questão que vamos investigar.

O enunciatário impaciente
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Em uma conversa on-line com internautas

sobre a última grande mudança

no portal UOL, ocorrida no começo de 2004, a diretora de conteúdo, Márion Strecker, foi questionada sobre qual público-alvo pretendia atingir com a reformulação. “Pela contagem feita pela Tecnologia do UOL, temos perto de 17, 18 milhões de visitantes únicos por mês. É muita gente. A homepage do UOL é vista por gente de todas as idades e de todo o país. Somos um meio de comunicação de massa e não podemos mais eleger uma só fatia do público como alvo” – respondeu. O portal, como fica bastante visível na distribuição de assuntos em links ou manchetes, busca o maior número possível de visitas, ou, em termos mais técnicos, de “page-views”, uma das bases de medição de audiência. Para discutir melhor a questão do enunciatário instaurado pelo portal, devemos notar que o UOL divide seus visitantes em dois tipos distintos: 1 - os assinantes, que pagam e têm acesso irrestrito a milhões de páginas, e 2 - os visitantes, que devem ser conquistados para fazer parte do primeiro grupo e têm acesso restrito. A home, portanto, é não só o lugar para manter o internauta cativo. É também o espaço de busca pelo internauta desgarrado, que está zanzando pela rede. A dinâmica da rede mundial criou um sujeito nervoso, pouco paciente. Se não encontra o que quer com rapidez, tem sua auto-imagem afetada, se julga incompetente, assim como também passa a julgar o site “ruim”. Ele imagina que há um grande número de possibilidades para atingir determinados objetivos. Por isso, se irrita com qualquer demora ou obstáculo. Dos enunciatários de jornais analisados, ele é o mais volúvel e fragmentado (inclusive se comparado ao da Folha de São Paulo). Como tem opções demais, cada vez que navega em uma página, tem a sensação de que pode estar perdendo algo melhor, de que seu tempo precioso poderia ser utilizado para tomar contato com informações que lhe dessem mais satisfação.
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“Bate-papo com Márion Strecker” em 26/03/2004, às 20h – disponível no endereço: http://bp.tc.uol.com.br/convidados/arquivo/frames.jhtm?url=http://bp.tc.uol.com.br/convidados/ar quivo/midia/ult1666u117.jhtm - acessado em maio/2005

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semi- 285 . quase tudo permanece igual dia após dia. ou meses. mostra pouquíssima variação de expressão. cores. o chamado “carregamento” das páginas ou conteúdos-web nos navegadores dos internautas. Como já dissemos. 3 . evita obstáculos de qualquer ordem. que o internauta tende a se sentir mais seguro diante do que já conhece. Essas limitações. “caixinhas”. faz do enunciatário na rede um sujeito que não quer pensar muito.Um portal também deve disponibilizar as notícias o mais rapidamente possível. apressado. ou desenhos que surgem repentinamente e atravessam a tela. tamanhos das fotos. Os acessos à maioria dos conteúdos-web são fixos e marcados por convenções entre enunciador e enunciatário (mais precisamente. apresenta a avidez do enunciatário e a pouca mobilidade da home principal como outro falso paradoxo. porém. como nos jornais impressos. Nesse sentido. uma homepage deveria ser cheia de surpresas. É preciso que as páginas e conteúdos não demorem a chegar ao internauta interessado. principalmente da homepage. passar a sensação de “rapidez”. há três questões diferentes e complementares que envolvem essa sensação de que tudo é ligeiro. Uma investigação mais cuidadosa. imensa variação e possibilidades. No entanto. veloz: 1 Inicialmente. Uma análise superficial da home do UOL por semanas. Outro ponto importante é que a ansiedade em navegar. Ele deve percorrer o menor caminho possível para chegar onde deseja. o UOL constrói uma home cuja apresentação gráfico-plástica pouco se altera. por meio de animações nos banners (barra de anúncios). por exemplo. Mas as divisões. as páginas devem ser apresentadas e ordenadas de modo a facilitar ao máximo a navegação do internauta. nas próximas páginas. nem mesmo os títulos aumentam ou diminuem ao sabor da importância das notícias. Essa última questão será tratada na análise sobre a cobertura de Saddam. a estratégia de arrebatamento do portal é muito mais sutil. Em um estudo mais superficial. Como citamos. existe a tentação de imaginar que. 2 . na home do UOL. obviamente. também são levadas em consideração na hora de construção de um site ou portal. O internauta tem pressa. por sua vez. ser eficiente em dar ao internauta o que ele procura e. Para atingir esse objetivo. por exemplo. É precisamente pelo fato de a Internet vender-se como meio que disponibiliza bilhões de páginas. Em outras palavras. assim. em chegar onde se deseja rapidamente. de novidades.O principal valor partilhado entre enunciador e enunciatário em um portal é a rapidez. a rapidez deve ser conseqüência de uma construção eficiente do portal. Analisemos com mais profundidade o primeiro problema: a coerção de um portal ou site. é mais reservada à publicidade. para arrebatar a atenção desse enunciatário instável.A Internet também apresenta uma série de limitações de ordem técnica que envolve. Mudam as manchetes e publicidades.

O Internauta deve passar os olhos nos títulos e querer saber detalhes da história. desenhos. na verdade. por exemplo. Até mesmo estratégias de arrebatamento comuns nos jornais diários. de grande pertinência na análise de um meio de comunicação marcado pela necessidade de parecer sempre mais e mais rápido. principalmente. pode torná-lo “pesado”. Isso significa que não é possível tirar proveito de uma série de opções de design gráfico. são “pesadas”. satélite. são “leves”.que. não podem ser utilizadas na home. porém. ou seja. fotos e desenhos podem consumir milhões de bits. privilegiar mais e mais aspectos estéticos. vincula-se ao carregamento das páginas e às relações temporais lento x veloz. Um site com muitos recursos de hipermídia constrói um usuário que tem banda larga e maior poder aquisitivo. Como há muitos tipos de enunciatários. Textos verbais não têm muitos bits. que precisa satisfazer enunciatários díspares – dos que têm banda larga aos que ainda convivem com um modem ultrapassado no micro – também concebe as páginas-web em função desse aspecto técnico. Isso tudo é importante do ponto de vista semiótico. imagens congeladas cuja apresentação em seqüência de quadros engana nossos olhos e simula movimentação). Fotos. Se o construtor de um site. de carregamento quase instantâneo na tela do enunciatário. fundos coloridos ou letras voando pela tela tornam um site mais atrativo. Tenta-se então instaurar e manter a curiosidade por meio da apresentação e da decodificação dos conteúdos. O enunciador de um portal como o UOL. Um site que demora a carregar vai afugentar enunciatários sem paciência ou recursos para manter uma linha de banda larga. Quem gosta de ver os conteúdos multimídia do site UOL em 2005 sabe. mais do que qualquer outro meio de comunicação.) com profundos impactos na maneira de conceber os sites. E aqui entramos na segunda questão que envolve a necessária sensação de rapidez na rede mundial de computadores. O grande drama da Internet atualmente é a velocidade de tráfego de bits pelas linhas telefônicas e outras formas de transmissão (como cabo. por exemplo. por meio da estratégia de sustentação.simbolismos cristalizados). o portal é carregado de manchetes de diversos assuntos para instigar a curiosidade dos diversos segmentos do público-alvo 286 . podemos observar uma categoria site “pesado” x site “leve” . Mostra ainda grande investimento do enunciador na estratégia de arrebatamento do enunciatário. etc. Cada uma das opções de concepção de um site também revela o tipo de público para o qual ele foi pensado. sofre de limitações técnicas de toda a ordem. que a lista dos mais “quentes” se encontra no citado quadrado laranja no meio da home. De maneira geral. Imagens em movimento (na verdade. como filmes. Músicas e. como o uso de fotos enormes de grande contraste de cores. É evidente que a Internet.

tanto para encontrar o que se pretende quanto para o descarregamento de informações na tela de qualquer usuário. de organização. “Economia”. a home do portal é essencialmente utilitária. Em função disso. ou “Criança” já mostrou certos interesses que permitem ao enunciador saber como “segmentá-lo”. “utilitarista” da home do portal é quebrada em diversas homes das “estações”. A falta de variação gráfico-plástica do portal também indica a importância da estratégia de fidelização. há mais de 40 títulos. o efeito buscado pela principal página web do portal é o de simplicidade. de rapidez. Portanto. A organização textual de pouca variação do UOL aponta que é muito mais vital dar acesso imediato ao que o internauta deseja do que “entretê-lo” durante a operação. ao entrar na página inicial e escolher ir para a parte de “Corpo e Saúde”. de investimento em uma relação na qual o internauta sempre tenha segurança de achar o que quer rapidamente porque conhece já os caminhos. Essa estratégia “racional”.e compensar a falta de outros recursos. Nenhum outro jornal estudado tem tantas manchetes. Geralmente. Isso porque o internauta. Vejamos as homes dessas estações citadas: 287 .

288 .

continua privilegiando um contato “racional”. tem uma home construída em cores vibrantes. O internauta que acessa essas duas homes pela primeira vez está diante de estratégias 289 . Pode-se observar o volume de informação disponível nessa home. o que projeta um enunciatário que está interessado em chegar rapidamente à informação desejada. ao contrário da home do portal. como o UOL Economia. O UOL Criança. Percebe-se um simulacro de um internauta que quer “saber de tudo”. o número de links e de informações é bem menor. Um site de informações econômicas. A estação Corpo e Saúde. além de apresentar menos assuntos.A home de cada estação. com ícones junto à barra de navegação. pode adequar-se ao seu público-alvo. também apresenta chamativos fundos laranja e verde. Nas outras estações.

desse modo. No exemplo citado de 10 de maio de 2005. 290 .. Há também uma parte reservada para as “últimas notícias” que mostra a existência de um site com informação quente. o portal investe na produção de escolhas viciadas. 169 Nos três casos. mesmo as que apresentam mais estratégias de arrebatamento. continua a existir um certo limite técnico com a intenção de buscar e manter a atenção de qualquer enunciatário. ou que 169 As homes das estações. O investimento num modelo típico de comunicação massiva espelha a fé dos portais na passividade dos usuários. a teórica viagem dos “três cliques”. porém. A barra à esquerda remete a assuntos mais específicos ou a mais pontos de interesse do internauta. em princípio. pode ser observada a mesma arquitetura de construção. A ‘interatividade’ configura-se como fabricação. E que deve dar a sensação de acesso rápido ao conteúdo desejado. Se a Internet abre um modelo todos-todos. também não utilizam muitos recursos que as tornem pesadas. (. Em outras palavras. de diversidade de escolhas. encontram-se unidades noticiosas sobre a reunião dos presidentes da Argentina e Brasil. que quer fazer crer que é atual. Essas constatações corroboram a análise de Ricardo Augusto Silveira Orlando.manchete principal) junto a outras como “Presos rebelados exigem 15 pizzas para libertar reféns”. às vezes ideologicamente díspares. Trata-se de tática de dissimulação de seu caráter massivo. Completa-se.. torna-se. de quantidade de alternativas. transforma a homepage de um grande portal na mais concreta expressão da pós-modernidade.” Tudo é notícia As homes dos portais tornaram mais evidente a elasticidade do conceito de notícia. como um caminho do geral ao particular (home do portal – home da estação – home do assunto específico). (“Lula marca novas reuniões com Kirchner e Chávez” . de elementos que atraem o olhar e se colocam para serem “sentidos”. utilizando-se de forte esquema valorativo para impor as alternativas ‘ideais’. de certa maneira. o que o enunciador considera mais importante. ele trabalha basicamente para recompor a emissão centralizada. imaginada. A necessidade de satisfazer a públicos distintos. sobre o UOL: “O portal configura-se como iniciativa de introdução do caráter massivo na web que. Percebe-se o destaque espacial para as “notícias”. simulando ambientes de abordagem individualizada. uma contraposição às características inovadoras da comunicação on-line. na maior parte das vezes. na mesma página do portal reservada aos assuntos que se querem fazer crer como jornalísticos.) Se o hipertexto pressupõe alteração na relação de forças entre autor/leitor.de arrebatamento.

de de rápido envelhecimento. O grande destaque dado ao esporte diferencia o portal dos outros noticiários estudados. que tenha credibilidade. a identidade já consagrada. no uso das mesmas cores. pertinente. Outro ponto. O “ineditismo” de um fato é um valor mais importante no portal do que em outros meios de comunicação. Uma comparação com os outros jornais analisados torna possível verificar que grande parte da home do portal deve ser preenchida com notícia quente. que se importa com atividades que lhe dão prazer. interessado em temas da coletividade. as manchetes sobre assuntos “densos”. privado do internauta) adquiram respeitabilidade. Vale a pena estudar sites para verificar até onde cada um se ampara no prestígio de outras mídias mais “antigas”. como nos diários. o que é novidade ou mera 291 . recebe tanta atenção quanto o sujeito lúdico. Ressalte-se que há mais manchetes para os assuntos políticos do que para os de esportes. que envolvem política e economia. é uma continuação do jornal. Nesse sentido. a cada punhado de segundos. numa estratégia de transferência de valor dos pedaços para o todo. A convivência faz com que os assuntos densos (políticos. Há dois tipos de conteúdos mais valorizados – que ficam no quadrado branco – e recebem maior destaque visual (caso da manchete principal. em corpo de letra maior em relação ao de outros títulos da home). para 170 Várias empresas jornalísticas também colocam no ar seus sites valendo-se do prestígio de suas marcas. a apresentadora da Rede Globo. que dizem respeito a questões de ordem coletiva) percam sua força e as notícias leves (de diversão. de consumo imediato. O sujeito político. ou seja. econômicos. como o da Folha de São Paulo. tradicionais. Citamos o fato de qualquer jornal precisar fazer seu consumidor acreditar que as notícias divulgadas são atuais. Serve para gerar o efeito de proximidade temporal entre enunciador e enunciatário. 170 É preciso um enunciador autorizado. lembrado por Orlando (2001:244). Enfim. o UOL instaura um enunciatário que valoriza do mesmo modo os detalhes de um escândalo de corrupção no governo e o resultado de uma disputa entre Santos e Palmeiras. persistem. Em nenhum outro meio de comunicação analisado essa dependência é tão crítica. a usuários com interesses desiguais que precisam se sentir contemplados no recorte de mundo disponibilizado na home. por exemplo. não uma mídia totalmente diferenciada. O UOL também valoriza conteúdos esportivos. De um lado. afirmar-se como atual. Precisa. entretenimento. O portal tem o contrato com a cláusula mais rígida.buscam a curiosidade sobre o “Futuro incerto de Angélica”. O portal como um todo é dependente da temperatura das unidades noticiosas. principalmente jogos de futebol. dos mesmos recursos verbais. A “face” virtual busca reproduzir. que falam ao lado mais individualista. Mantém-se desse modo a idéia de que um site. é que o portal se utiliza do prestígio de diversos outros jornais para obter autoridade na hora de enunciar as próprias notícias.

portanto. Beatriz Singer e Dennis Barbosa. liga conteúdos de várias edições via links. A Veja. da homepage do UOL. é o de expansão hipermidiática do jornalismo impresso. um novo canal. O efeito pretendido.último acesso em maio/2005. No entanto. Não há memória. A página capturada. há outras conseqüências desse grande número de vozes a noticiar. As atualizações na Internet são continuas. A página de notícias da edição online do Estado de S. 171 A cobertura da prisão de Saddam Quem acessou os grandes portais brasileiros na manhã de domingo. por exemplo. utiliza o site para quebrar a limitação da revista. O Último Segundo saiu com a informação às 8h32 no sábado.” 172 (Um reparo: na verdade. é de a segunda-feira. O Terra anunciou às 8h40. 292 . Já a GloboNews publicou a notícia exatamente no mesmo horário que o iG. de mídia “completa”. ou mais serviços e detalhes informativos à disposição dos leitores. a página com a primeira notícia sobre o assunto no site. acreditamos que os objetivos do trabalho podem ser alcançados. 24 horas após o anúncio da prisão.ultimosegundo. principalmente. cita a agência iraniana IRNA. com informações da Associated Press. O site também apresenta conteúdo diferenciado.com. não foi só a de se beneficiar da credibilidade de veículos jornalísticos ao incorporá-los no interior do portal. mostrada nesse item. não informando quais lhe serviram. mas a partir da informação de "agências internacionais". porém. A Folha Online anunciou às 8h26. Como os outros dois sítios. o que não deixa de ilustrar um pouco o próprio funcionamento do jornalismo na Internet. nem todas positivas para o portal. não pudemos localizar e reproduzir a primeira homepage do UOL que noticiou a prisão de Saddam Hussein. 14 de dezembro.br/artigos/mo161220031. Em http://observatorio. já que os subordina.noticiar. dentro de uma mesma marca.ig. A estratégia do UOL. correspondente do iG em Israel. e sim substituída a todo o instante. 172 “Captura de Saddam> Ig foi o primeiro”. que é a de apresentar fatos com intervalo de uma semana. No texto. sons e. no Folha Online. já que temos ainda o assunto como manchete principal. do Observatório da Imprensa. fornece mais imagens. como “nova mídia”. ficou sabendo da prisão de Saddam Hussein em primeira mão. também com informações da IRNA. foi o primeiro jornalista a serviço de um veículo brasileiro a dar a notícia da captura de Saddam. colheu informações junto a agências estrangeiras. portanto.) reprodução para manter uma identidade de sucesso. detalha matérias.htm . O UOL se vende ainda como mídia de outras mídias. registraram a corrida brasileira entre os sites para a divulgação da detenção do ex-ditador do Iraque: “Nahum Sirotsky. que tira proveito de cada um dos “ethos” dos jornais abrigados no seu servidor para compor um “ethos” próprio. que a eles se sobrepõe. às 8h32. porém. como veremos a seguir. Ressalte-se que apresentamos.Paulo deu a informação às 8h43. o dia todo. 171 Infelizmente. ou seja. as notícias começaram a ocupar as telas no domingo pela manhã. Com essa reprodução. e não no sábado. O motivo é que a página inicial não é gravada no servidor.

Aurélio) perde um pouco o sentido em função de seu caráter de enorme fragmentação. Retomamos a última questão sobre a sensação de rapidez do portal. Na Internet. ou a “disponibilização” rivaliza com o próprio impacto do que é divulgado. a apresentação de um menu de notícias em constante renovação é uma das estratégias para a dar sensação de máxima atualidade ao material divulgado. Quando o UOL citou a prisão de Saddam pela primeira vez. Pollyana Ferrari refere-se a essa lógica como de “empacotamento” e “empilhamento” de informações (2004: 19 e 50).Por esses comentários. o valor da notícia também se relaciona com o fato de a novidade estar rapidamente disponível para consumo. Na Internet. No UOL. Essa corrida pela “disponibilização” das novidades traz vantagens. o mais rápido é sancionado como o mais competente. pode-se observar que. no jornalismo do UOL. o “tornar consumível”. O noticiário tem uma fragmentação enorme porque está submetido a um procedimento de edição (como ato) completamente diferente em relação ao realizado pelos outros jornais. não havia sequer a certeza de que a informação procedia: 293 . A própria idéia de notícia como “resumo de um acontecimento” ou “exposição sucinta de um assunto qualquer” (Dic. mas também problemas. por exemplo. Devemos relembrar que o ethos da marca é beneficiado pelo valor da notícia e também pela forma de divulgá-la.

Em seguida. Novidade mesmo.Nem mesmo o departamento de defesa norte-americano confirmou a notícia. preparada muito antes para a ocasião: “Saiba mais sobre Saddam Hussein”. Às 9h08. EUA não confirmam”. só nas primeiras linhas. Às 9h53. em 1937. outra notícia: 294 . Via-se uma foto de Saddam sorrindo. nova manchete: “Governo provisório no Iraque anuncia captura de Saddam. Às 9h36. Lia-se o lead sobre a prisão e todos os 11 parágrafos restantes contavam a trajetória do ex-ditador em ordem cronológica a partir do nascimento dele. E o portal foi publicando e empilhando as notícias por ordem de novidade. a Folha Online liberou uma matéria de arquivo. de terno e gravata. Mas já havia uma tentativa de contextualização. o panorama mudou.

Às 10h30. na versão dos militares norte-americanos. informação que depois foi desmentida pelo exército dos EUA. nova atualização do Folha Online: 295 . O ex-ditador terminou detido após se esconder em um buraco. o internauta ficou sabendo que Saddam foi preso dormindo.Nesse texto.

ao mesmo tempo. Às 10h08. Não houve. a maioria já conhecida. o Internauta passa a conhecer a “nota oficial do governo provisório do Iraque”. links para mais detalhes e imagens no final da página: 296 . anunciava a prisão. Nesse último espaço. porém. ficava-se sabendo pelo relato da agência Reuters que o ex-presidente iraquiano “usava uma barba falsa” no momento da prisão. Além de uma obviedade. como no UOL Últimas Notícias.Dessa vez. com mais informações. como a recompensa oferecida pela captura. a Folha Online dava destaque para a confirmação da notícia pelo governo norte-americano. As notícias mais atuais iam corrigindo as informações. às 9h59. uma pequena nota de quatro linhas da agência France Presse. foi disponibilizando informações sobre o assunto em outras estações. A informação não era verdadeira. colocava um mapa. no mesmo espaço. um texto da BBC Brasil também falava da captura e tinha um link para o site da agência. desmentidos. Às 10h12. O portal. a de que Saddam estava preso “sob forte vigilância”.

297 .

Cantora Lauryn Hill ataca Igreja no Vaticano . o que ilustra bem a idéia de “empilhamento” na forma de um menu. em Dubai (Emirados Árabes Unidos) 22h50 .Em Bagdá.France Presse 11h46 .SÉRGIO DÁVILA da Folha de S. em Taipe 21h22 .Quatro soldados americanos são feridos em ataque no Kuait .Análise: Resistência deve diminuir com captura de Saddam . Bush .Líderes mundiais expressam satisfação pela prisão de Saddam Hussein .France Presse.Igreja católica peruana pede perdão por violações de direitos humanos . A seguir.France Presse.JOÃO SANDRINI .Paulo 04h08 . em Washington 15/12/2003 03h35 . em Washington 05h46 .France Presse.Coalizão anglo-americana ainda procura 14 ex-dirigentes iraquianos .France Presse.Tribunal Penal iraquiano poderá julgar Saddam Hussein .Análise: Prisão do ex-ditador dá alento a abertura árabe . em Madri 17h05 .Captura de Saddam pode ajudar Bush nas eleições de 2004 .Prisão de Saddam causa euforia e descrença em iraquianos . sensação é de alívio e medo .Presidente do Paquistão confirma que foi alvo de atentado . a Folha Online vai apresentando novos detalhes e as repercussões.Saddam Hussein será tratado como um prisioneiro de guerra. diz Rumsfeld . em Buenos Aires 19h25 . diz Conselho de Governo . em Bagdá 10h03 .Reuters 10h12 . em Nova York 19h56 . A prisão de Saddam dominou os assuntos do site. em Washington 13h32 .France Presse.France Presse. diz revista .Folha Online 16h17 .France Presse.France Presse. em Tóquio 22h45 . diz Kofi Annan .Presidente afegão defende manutenção de poderes na nova Constituição .France Presse.EUA ofereciam recompensa de US$ 25 mi por Saddam Hussein .Veja a lista dos dirigentes iraquianos presos ou mortos pela coalizão .Folha Online 10h48 .France Presse. em Paris 21h14 . em Bagdá 19h22 .Folha de S. em Washington 16h32 . estão notícias sobre outros temas.SÉRGIO DÁVILA da Folha de S.Site do Pentágono celebra a captura do "ás de espada" .Códigos da operação para capturar Saddam foram inspirados em filme – France 20h15 .CAROLINA VILA-NOVA da Folha de S.Morre ministro filipino das Relações Exteriores .France Presse.France Presse.Especialista do Exército dos EUA é morto em explosão no Iraque .France Presse.France Presse.France Presse.Ex-aliado aponta ação de De la Rúa em suborno . diz George W. em Washington 15h52 .Saddam Hussein será julgado por magistrados iraquianos .Human Rights Watch defende julgamento de Saddam sem "vingança" . mostramos todas as manchetes e a ordem de disponibilidade das notícias no site.Folha Online 11h55 .Paulo 04h49 . em Lima 21h35 .Vídeo com imagens de Saddam Hussein é exibido .France Presse.France Presse.France Presse 17h18 .Paulo. Em vermelho. 14/12/2003 09h53 .France Presse.France Presse.Saddam nega ter arsenal e não coopera em interrogatório.France Presse.Paulo 05h05 .Folha de S.SÉRGIO MALBERGIER da Folha de S.Folha Online. em Brasília .Veja a cronologia da Guerra do Iraque – Folha Online 11h25 .France Presse.Bush fala sobre prisão de Saddam às 15h . em Washington 23h25 .JEAN-LOUIS DOUBLET da France Presse. diz Rumsfeld .CÍNTIA CARDOSO da Folha de S.Iraque apresentará à ONU projeto de cessão de soberania .Captura de Saddam é oportunidade para a paz.Bush diz que prisão de Saddam não encerra guerra ao terrorismo .France Presse. em Washington 18h01 ."Regime terrorista terminou" no Iraque.EUA escolheram cuidadosamente imagens do vídeo de prisão de Saddam . em Mossul (Iraque) 19h42 . Cada título era também um link.France Presse.France Presse.Captura de Saddam Hussein beneficia governo Tony Blair .Dois franceses morrem em acidente aéreo no noroeste da Colômbia .Paulo 05h14 . em Paris 20h17 .Presidente paquistanês escapa de atentado no norte do país . em Bagdá 11h02 .Canadá felicita forças da coalizão por captura de Saddam Hussein .France Presse.Tumulto em show na Argentina deixa 20 feridos e 110 detidos . no qual o internauta tinha acesso aos detalhes. de Buenos Aires 05h37 .France Presse.France Presse. em Islamabad 19h02 .Para assessor brasileiro.Al Arabiya volta ao Iraque sem permissão para cobrir prisão de Saddam .Negociações sobre a Coréia do Norte podem ser adiadas para 2004 . diz TV .Sentimentos se dividem no mundo árabe após prisão de líder anti-EUA .Membro do Conselho Iraquiano afirma que Saddam permanece no país 18h51 .France Presse.A partir daí.France Presse. em Islamabad (Paquistão) 22h54 .Paulo 04h36 . em Montreal 20h25 . de Nova York 03h52 .France Presse.Saddam Hussein será tratado como prisioneiro de guerra.Folha Online 18h55 .Alemanha e França cumprimentam Bush pela captura de Saddam . em Paris 05h49 . em Londres 20h55 .Paulo 05h24 .France Presse 19h19 .Veja a lista das pessoas mais procuradas no mundo .SÉRGIO DÁVILA da Folha de S.Saddam dormia quando foi capturado. em Washington 22h58 .Folha de S.Folha Online 15h45 .Veja nota oficial do governo provisório no Iraque sobre a captura de Saddam .EUA confirmam prisão de Saddam Hussein . em Bagdá 17h29 . em Paris 21h33 . em Washington 21h06 .Paulo.JEAN-MICJEL CADIOT da France Presse.Acabou a "era de trevas". em Washington 15h32 . afirma Rumsfeld .France Presse.Rice questiona efeito da prisão de Saddam em ataques contra coalizão . em Bogotá 298 .General da antiga Guarda Republicana de Saddam é morto a tiros .France Presse.Cálculo de mortos pelo regime de Saddam chega a um milhão . em Washington 18h07 .Blair diz que prisão de Saddam traz "reconciliação e paz" ao Iraque . em Bagdá 16h44 .Carro bomba explode no centro de Bagdá . prisão de Saddam ajuda Bush na eleição .Saddam Hussein foi retirado do Iraque logo após captura. em Washington 19h05 .Veja os principais trechos do discurso de Bush após prisão de Saddam .Paulo 05h36 . em Bagdá 20h04 .OLIVIER LUCAZEAU da France Presse.

France Presse.Saddam pediu para negociar sua prisão.France Presse. Não houve correções das informações conflitantes. em Bruxelas 10h36 .Prisão de Saddam fortalece Bush antes de eleição presidencial de 2004 . não é sentido como defeito.France Presse. 173 299 .France Presse. em Washington 07h01 .Folha Online 13h50 . 173 Dito de outra maneira. no entanto.Governo australiano apóia pena de morte para Saddam .Folha Online 07h41 . O contato do enunciatário com o empacotamento contínuo de notícias. Do ponto de vista do gerenciamento do nível de atenção. é uma fragmentação que contraria os prognósticos mais otimistas em relação ao chamado “web jornalismo”. como veremos depois.Estudantes fazem manifestação pró-Saddam em Tikrit .France Presse. Jornalismo Digital.France Presse. no caso da cobertura da prisão de Saddan. em Fallujah (Iraque) 14h11 .agência Lusa. individualmente. EUA prendem antigos membros do regime .JOÃO BATISTA NATALI da Folha de S. um site pode apresentar fotos.Lula felicita Bush pela captura de Saddam Hussein . diz UE .Nova Zelândia se opõe à pena de morte para Saddam .Colin Powell faz operação de câncer de próstata .France Presse/Folha Online 08h12 . O portal UOL dá voz.Após captura de Saddam.France Presse. por sua vez. foi dando lugar ao especulativo.Paulo 07h17 . mas circunstância inerente à urgência de informar.Detenção de Saddam é um "passo para a paz" no Iraque.France Presse/Folha Online 09h36 . ainda não foram corretamente aproveitadas.05h41 . a fragmentação narrativa em dezenas de textos tem inúmeras conseqüências. infográficos e muitos outros recursos para contar detalhes de uma notícia. Uma conseqüência da fragmentação narrativa é a curiosidade de acompanhar o desenrolar da história. ao que tudo indica.Folha Online 07h13 . em Washington 15h39 . filmes. diz comandante .Folha Online 11h07 . em Washington 13h40 .Sem banheiro. Percebe-se. acredita a autora.Comentário: Imagens da TV desumanizam ditador deposto .Ataque suicida mata oito iraquianos em Bagdá . o de possibilitar o acesso a uma série de recursos de hipermídia para contextualizar a história de uma maneira que nenhum outro jornal. dia de pouco jornalismo “quente”. em Teerã (Irã) 12h31 . diz líder iraquiano . porém.Folha Online 14h37 . um tipo de estratégia de sustentação que tem grande peso nos sites noticiosos. Rádio e TV das grandes redes nem contam com edições de seus principais programas no final de semana. esconderijo de Saddam é decorado por arca de Noé . por exemplo.Folha Online Devemos lembrar que outras partes do portal também foram sendo atualizadas. apresenta justamente essas possibilidades que. poderia fazer.Cruz Vermelha pretende visitar Saddam Hussein .Folha Online 15h29 . organização desses recursos para apresentar a prisão de Saddam em alguns casos. diz Bush . em Wellington (Nova Zelândia)/Folha Online 08h32 . É possível notar que o material mais factual.Segurança é reforçada no Vaticano após advertência de Israel . É preciso ressaltar que o internauta tinha na tela do computador o que de mais recente era divulgado sobre a prisão do ex-ditador.Saddam pode ser condenado à morte.Folha Online 12h48 .Prefeitura de Fallujah é saqueada por partidários de Saddam . na acepção jornalística.EUA dizem ter capturado outros ex-dirigentes iraquianos . textos. O livro de Pollyana Ferrari. em Ad Dawr (Iraque) . remete às agências de notícias na maioria dos momentos. O auge da divulgação aconteceu entre a manhã e a tarde de domingo.Irã prepara denúncia contra Saddam em tribunal internacional . sons. em Lisboa 09h31 . à Folha de São Paulo em sua versão on line que.France Presse.Saddam Hussein será levado a julgamento. O preço. Não houve. um enunciador cedendo voz a outro que tem mais autoridade para cumprir o papel de informar.

no Jornal Nacional. 14h54: 174 174 A primeira página mostra um estágio anterior em relação à home analisada.Ao contrário. dava acesso a mais e mais dados sobre a prisão do ex-ditador. mais o que é potencialmente mais atrativo num dado período. Na Folha Online. em vermelho. em azul. tenha também maior repercussão em relação a outras notícias. o seguinte conjunto de links: • Site do Pentágono celebra a captura do "ás de espada" • Veja a cronologia da Guerra do Iraque • Com barba e roupa de camponês. A reprodução a seguir da primeira página do UOL foi feita na segunda-feira. há espaço para o enunciador fazer escolhas do que o enunciatário deve valorizar. A barra das estações está em vermelho. que pode ser de alguns minutos ou de algumas horas. foi de mais e mais empilhamento. Na matéria das 16h44 do dia 14 . esse texto criava um outro texto maior que. é o único noticiário estudado que não se organiza na forma de edições. a sensação. eram matérias anteriores. As manchetes da home têm como critério de escolha não somente o que é mais atual. e de uma semana na revista Veja. Percebemos também que. na Folha de São Paulo. por sua vez. Em um portal. Saddam não resistiu à prisão Esses links. de 24 no Jornal da CBN. Há menos destaques cromáticos para os blocos de informação. 300 .o final do texto apresentava em “Saiba mais sobre Saddam Hussein”.“Para assessor brasileiro. prisão de Saddam ajuda Bush na eleição” . além de efeito de atualidade. devemos relembrar. que tem um intervalo de tempo fixo. Essa hierarquia fica evidente no que aparece na primeira página do próprio portal. serviços nas estações. por mais que o empacotamento tenha como coerção um ordenamento temporal. Um portal. Enfim. o que cria quatro regiões distintas (serviços para usuários. por sua vez. notícias em branco e e-commerce em cinza e branco). por exemplo. a contextualização significou somente apresentar ao internauta links que remetiam a outros textos da lista de notícias. é preciso escolher uma manchete que.

no entanto. que abordavam o julgamento do ex-ditador. Tentavase atrair a curiosidade do internauta que queria saber as reações do ex-ditador já no cárcere. As outras notícias contextualizavam o assunto e mostravam os primeiros textos interpretativos. 301 . ao chegar à home. o portal tentava conciliar os interesses de um público que já tinha tomado contato com a notícia e de outro que. uma escolha cuidadosa. Desse modo.A notícia principal sobre um Saddam não cooperativo foi pinçada de uma série de outras possibilidades. Pode-se notar. estava sendo apresentado à novidade.

pode-se observar como a novidade aparece contextualizada. como a Folha de São Paulo. ouvintes e leitores dos outros noticiários analisados. A manchete principal e as três submanchetes no retângulo de destaque não deixam dúvidas sobre a valorização do assunto. Ao contrário de um jornal impresso.A home do portal apresentava sete possibilidades distintas de entrada para o assunto “prisão de Saddam”. 302 . Como esse seria o caminho natural do internauta que tomava o primeiro contato com a notícia. algo muito diferente do que estava à disposição de telespectadores. Obviamente havia ainda o empacotamento. Se clicasse no link da manchete principal. o valor do assunto não ocorre somente porque o título tem um corpo de letra muito grande. Temos um desdobramento da primeira lei de diagramação que é exclusiva do portal: a importância de uma notícia está ligada ao número de manchetes e links a ela associados. Pelo menos nessa seqüência de fragmentos sobre a prisão de Saddam. UOL Jornais e UOL Revistas para mostrar ao internauta que nesses espaços também a detenção do ex-ditador teria máximo destaque. O portal ainda apelava às estações UOL News. o usuário do UOL não encontrava na home do UOL Mídia Global. o internauta seria levado à parte de Mídia Global (a seguir) e ao site “Especial Iraque”. e em outras partes do site.

a prisão de Saddam. se uma análise desse tipo é possível na Internet. Bush como o destinador-julgador. já que há diferentes enunciadores. foram buscar tudo na mesma fonte: o exército dos Estados Unidos. Para finalizar. A maior parte do material. O internauta podia fazer as associações que desejasse entre os links à disposição. examinemos a visão de mundo que emerge dos textos “empacotados”. Pode-se questionar. Mas o fato gerador. teve a mesma origem. Não há links para visões contrárias. O presidente dos EUA também aparece como sujeito com plena competência para prender e aplicar sanções. começava a envelhecer. Encontramos a mesma cobertura figurativa. inicialmente. 303 . por sua vez. principalmente fotos e filmes de maior impacto no público.as “últimas notícias”. é possível observar as mesmas posições actancias já vistas nos outros noticiários estudados: Saddam como anti-sujeito. No entanto. Novamente surgem os Estados Unidos como paladinos da democracia e vingadores da maioria do povo iraquiano. as agências de notícias internacionais que.

304 .

ao modelo de análise proposto. O último. citamos certos estudos comuns: técnicos. pudemos utilizar. Só que também é preciso construir conhecimento para examinar os jornais como instrumentos de persuasão e de poder em suas manifestações concretas. Floch. inclusive de jornalistas. por uma contínua ampliação do campo de estudo. generalizantes. Teorização proposta reúne várias orientações dentro da própria semiótica A análise mais integral do objeto jornalístico que foi proposta se valeu de estudos de semiótica bastante distintos. Com a semiótica. fugazes. Um grupo procurava maior formalismo dos modelos da teoria. persuadido de que a vocação da semiótica é contribuir com a metodologia das ciências humanas e sociais”.175 O resultado final de nosso trabalho ilustra como o desenvolvimento da própria semiótica não se dá por rompimentos. Greimas e Courtés (1991: 9 e 10) afirmam que os pesquisadores da teoria que participaram da obra em meados da década de 80 mostravam três tendências principais de encarar o próprio fazer semiótico. Barros. dinâmicas. As várias maneiras de ver e de fazer a teoria são compatíveis e complementares. recorremos ao que já ficou definido como semiótica “clássica” (Greimas. persuadido como está de que la vocación de la semiótica es contribuir a la metodologia de las ciencias humanas y sociales”. entre outros). Zilberberg. Essa busca de ferramentas de investigação de objetos jornalísticos norteou todo o nosso trabalho e foi possível graças à existência de uma perspectiva teórica clara. desenvolver e adaptar elementos teóricos e metodológicos já existentes e. Na apresentação do segundo Dicionário de Semiótica. em la conquista de nuevos territórios y en afinamiento del instrumental. No jornalismo. cotidianas. Análises sobre o hábito e o consumo de longo prazo tiveram apoio nas reflexões da sociossemiótica (Landowski). Fiorin. Courtés. mostrar estratégias gerais. de “histórias de bastidores”. 175 Trecho original da tradução espanhola: “Un sólido núcleo trabaja. Outro se interessava pelo “dinamismo das estruturas”. atraentes. 305 . Discini. a da semiótica francesa. mas por novas aquisições. Já as questões afetivas motivaram incursões nos estudos da semiótica tensiva (Tatit. adequar outras contribuições. para adaptar conceitos comuns no jornalismo e na comunicação. Essas análises são indispensáveis. por questões tensivas. por último. trabalhava “na conquista de novos territórios no aprimoramento do instrumental. ao mesmo tempo. segmentadores. Fontanille). No exame do conteúdo.Qualquer pesquisador escolhe um ponto de vista para conceber e analisar um objeto.

Se tudo é manipulação. a mesma do pesquisador. de notícia. Investigar o fenômeno da atenção em um programa de rádio ou de TV. sustentação e fidelização) apontam um caminho proveitoso. mostrou-se como a teoria pode dar contribuições ao jornalismo ao discutir seus conceitos-chave. como o de objetividade. 306 . comunicação e jornalismo. Sem atrair e manter a atenção de grandes fatias do público-alvo. que inaugura e mantém a relação entre enunciador e enunciatário. O estudo da atenção proposto é uma das contribuições teóricas desta pesquisa para exame do jornalismo. como profissionais. A separação das reflexões levou em consideração um problema que pode surgir em sala de aula. Foi apresentado o conceito de “neutralidade” de uma outra perspectiva para evitar a confusão entre efeitos de objetividade mobilizados via enunciação com o que é considerado “texto objetivo” para jornalistas e pesquisadores. de uma análise mais integral dos maiores noticiários brasileiros. O dever-fazer jornalístico não pode ser confundido com o fazer-crer das empresas de comunicação. nos cursos de jornalismo. eles devem exercitar a objetividade. Pensar como os jornais gerenciam o nível de atenção é tentar encontrar resposta à principal pergunta formulada cotidianamente pelos profissionais que criam e sustentam esses meios de comunicação: “O que fazer para que o público-alvo se interesse o tempo todo pelo que apresentamos?” Percebe-se a razão do reinado do marketing e de suas teorias no mundo atual. qual o argumento de um professor de jornalismo para convencer seus alunos de que. Uma teoria para o fenômeno da mobilização da atenção Dentro da preocupação maior deste trabalho. impõe um olhar menos fragmentado a qualquer estudioso. O jornal depende da tiragem ou da audiência para o exercício de seu poder como ator social. não pode legitimar seu recorte da realidade e seus valores ao conjunto da sociedade. de verdade. na discussão sobre relações entre semiótica.Conceitos-chave e separação entre dever-fazer e fazer-crer jornalístico Já no início do trabalho. das coerções do jornalismo como atividade. as estratégias de gerenciamento do nível de atenção (arrebatamento. relacionados aos interesses das empresas de comunicação. de um site. de um jornal impresso ou de uma revista. do cientista? Trata-se de uma falsa questão. parte integrante de uma sociedade que se quer democrática. Fizemos também questão de separar os efeitos persuasivos mobilizados pelos jornais.

Entendemos a ação de editar como um procedimento que envolve todos os níveis de geração de sentido. Semi-simbolismos cristalizados A análise dos modos de textualização dos jornais apontou uma série de acordos de atribuição de importância às notícias. Estão no meio do caminho entre o que seria o semisimbolismo stricto sensu . Apresentamos o fazer-sentir principalmente ligado a efeitos de atualidade e de empatia.têm uma organização textual que se dá espacialmente. sob o comando da edição (como ato). torná-la possível de diferentes maneiras em cada jornal estudado a partir de coerções de tempo ou de espaço: a diagramação (nos jornais. e pode facilitar o entendimento da teoria por pesquisadores da comunicação. deve ser entendida como mais importante em relação à outra que toma uma área menor da página. o webdesign (no portal). Estratégias de organização textual: tempo e espaço A manipulação da atenção. nos dois últimos. mas pouco investigada. é que esses semisimbolismos são muito especiais. portal. questão sempre citada por teóricos. Pudemos verificar que os quatro grupos de jornais analisados - impressos. como mostramos.uma relação entre uma categoria do plano de expressão e outra do plano de conteúdo. e temporalmente.Pôde-se notar que o estudo da atenção também motivou um aprofundamento teórico sobre as formas de estruturação dos afetos mobilizados pelos jornais. Separamos o ato de edição (entendido como um trabalho integral de produção de sentido comum a qualquer objeto jornalístico) dos recursos que permitem executar a edição. Essa solução mantém termos da prática jornalística. Essas convenções são partilhadas entre enunciador e enunciatário e têm como base a organização espacial (nos impressos e na Internet) ou temporal (no rádio e na TV) de elementos do texto. outro ponto explorado no trabalho e que também pensamos ser uma contribuição teórica rentável para os estudos dos objetos jornalísticos. a sonoplastia (no rádio) e a montagem (na TV). TV e rádio . daí sua característica de ser o próprio mecanismo global de enunciação no jornalismo. O mais curioso. nos dois primeiros. revistas). Uma notícia que ocupa maior espaço em um diário. por exemplo. de novidade. revistos na perspectiva da semiótica. é produto de estratégias de organização textual complexas. que produz sentidos estéticos. profissionais e até pelo público. de 307 . Há semisimbolismos de texto inteiro. como mostramos.

fundamental na estratégia de arrebatamento.criatividade . entre outros recursos. por exemplo. o que permite maior reflexão. Muita descontinuidade de expressão mostra ainda valorização da estratégia de arrebatamento em relação às de sustentação e fidelização. sem um “eu” que assume a enunciação. Ethos e outros efeitos de proximidade Os jornais analisados mostraram a necessidade de equilibrar duas coerções quase contraditórias. Há uma sensação de aceleração. No limite. nos sinais de trânsito. de sons. A descontinuidade aviva uma curiosidade sensorial. De um lado. com destaque para as mídias de fluxo. Diante dessas possibilidades de construção textual para arrebatar e manter a atenção. Há perda da atenção em função da impossibilidade de o público acompanhar a evolução narrativa.uma conformidade termo a termo entre expressão e conteúdo. como a perda de atenção por falta de novidade ou por impaciência. Foram observados “quasesímbolos”. que produzem sentido de convenção culturalmente estabelecida. Um certo suspense em determinado trecho da narrativa de uma notícia (estratégia de sustentação). principalmente nos jornais e nas revistas. por exemplo. Apresentamos um esquema aspectual do plano de expressão (criação de continuidades ou descontinuidades) e as relações com o plano de conteúdo nos jornais. permite a desaceleração do plano de expressão sem perda de atenção do enunciatário. Willian Bonner não precisa afirmar a importância de uma notícia. Ao mesmo tempo. com a apresentação de textos em terceira pessoa. no caso dos programas de rádio e de TV.têm como função permitir a decodificação rápida e eficiente de certos valores em jogo no texto. porém. o que impõe uma série de efeitos de construção textual. E que também tem limites. devem parecer objetivos na maneira de noticiar. 308 . Esses “semi-simbolismos cristalizados” – outro nome possível . Trata-se de uma valorização das estratégias de sustentação e de fidelização em relação à de arrebatamento.e o simbolismo . foram observados nos jornais verdadeiros sistemas de compensação na hora de noticiar. No Jornal Nacional. mostraram-se rentáveis para verificar os efeitos de ritmo nos jornais. Basta que o programa lhe conceda bastante tempo de apresentação. Ritmo nos jornais As reflexões sobre o plano de expressão e a aspectualização do tempo do texto. relacionada à variação de planos. encontrada. Já a continuidade gera mais contato sujeito/unidade noticiosa. impede a inteligibilidade do texto. e do espaço. de elementos.

mesmo que o slogan da rede tente construir essa relação. é importante notar que cada jornal faz uma verdadeira regência de todas as suas unidades e possibilidades discursivas para administrar sentidos que trafegam entre esses dois limites. como mostrado. mesmo caso do Portal UOL com as diferentes “estações”. O apresentador do JN Willian Bonner usa sempre terno e gravata. 2 . o que significa investir em um ethos amigável. O necessário equilíbrio entre os efeitos de distanciamento em relação às notícias e de proximidade com o público-alvo gerou dois ethos distintos dos jornais: 1 O que simula uma relação entre iguais. compreensivo. A revista se apresenta como juiz de tudo o que acontece. É o caso da Folha. ao segmentar os leitores.O que simula uma relação professoral. Já a Veja prefere mostrar que sabe mais. do Jornal da CBN e do Portal UOL. Mais do que afirmar que existe um efeito de enunciação de objetividade (enuncivo) ou de subjetividade (enunciativo). Não fala para os seus “iguais”. Ambos têm em comum o fato de se dirigirem a um público mais amplo se comparados aos jornais anteriores. No Jornal da CBN. A Folha. Essa forma de ligação é marcada por um didatismo que impõe uma construção textual que remete à posição de alguém que muito sabe em relação a outro que pouco sabe. o âncora faz brincadeiras com resultados do futebol. O enunciador está em um nível sócio-cultural superior. no sentido de sujeitos que partilham uma posição sócio-cultural parecida. Comparação entre os jornais analisados A tabela a seguir relaciona os jornais estudados e a textualização predominante com o ciclo de produção e a forma de interação: 309 . que tentam fazer crer numa relação de mesmo nível com seu público. Podemos citar como exemplos o Jornal Nacional e a revista Veja. vocabulário simples. dirige-se aos ouvintes como se fossem amigos. porém com uma atitude diferente. chega ao requinte de ter uma construção adequada a cada segmento do público. explica em detalhes nomes e situações complexas com voz pausada. assim como o próprio JN.buscam obter e manter a atenção por meio de certa intimidade e confiança entre enunciador e enunciatário.

Os programas jornalísticos da TV. certos limites e vantagens de cada um ficaram demarcados na análise. Se compararmos o que foi divulgado sobre a prisão de Saddam Hussein no Jornal Nacional e nos outros noticiários analisados. um texto sincrético. Na análise da edição do Jornal Nacional. isso sim. São apresentadas curiosidades da história que motivam o 310 . de cenas. No JN constatou-se uma profusão de estímulos. Paulo e Veja De internet Portal UOL De televisão Textualização Ciclo de produção Forma de interação Espacial 24 horas no primeiro e semanal no segundo Usuário define forma de consumo de um número determinado de notícias Predomínio da espacialidade sobre a temporalidade Possibilidade de ser de minuto a minuto Usuário define forma de consumo de um número determinado de notícias Temporal Jornal Nacional De rádio Jornal da CBN Temporal 24 horas Usuário deve adequar-se ao horário e à programação 24 horas Usuário deve adequar-se ao horário e à programação. o JN é bastante dependente da estratégia de arrebatamento.Veículo e noticiário Impresso Folha de S. têm os laços mais tênues com a audiência. essa “falta de profundidade” não se verifica. com constante mudança de vozes. O que pode ser observado é. em que vários conjuntos significantes se organizam para produzir um todo de sentido. O telespectador precisa de estimulação a cada segundo. por exemplo. se aposta na narrativa verbal como procedimento organizador do texto. mas tem a possibilidade de obter informações gerais consumindo apenas uma parte do programa Se cada jornal é obrigado a disputar a atenção do público-alvo. Para manter o telespectador atento. como foi discutido. de repórteres e de apresentadores. de criação de atenção de base sensorial. observou-se como o verbal assume um papel estratégico. Os 10 minutos e 40 segundos da reportagem sobre o ex-ditador do Iraque apresentam 130 segmentações. um impressionante resumo de todas as principais questões sobre o assunto abordadas nos outros noticiários. Para não perder a atenção. enquanto as mais de três horas do Jornal da CBN analisado tiveram cerca de 600. Tão frágeis que. certos teóricos acham impossível qualquer conteúdo mais “profundo” nesse veículo de comunicação.

mas prefere construir inicialmente uma lógica “verbal” na qual são intercalados trechos de vídeos. que também inclui todos os outros noticiários estudados. muito mais preocupados em criar um ritmo do que em organizar rigidamente o material. Maior o potencial de atenção. Um noticiário de televisão. Trata-se da comentada estrutura “happy end”. uma parte do programa. mais partes do programa serão preenchidas. ao poucos. brinca-se com um assunto do dia. tem a possibilidade de fazer uma narrativa visual. com a criação de descontinuidades do plano de expressão para avivar a curiosidade do ouvinte. O enunciatário consome. No Jornal da CBN. Somente no Jornal da CBN esse relaxamento não é gradual. o programa é bastante segmentado. contudo. O telespectador ouve. Isso quer dizer que notícias longas devem ser colocadas junto de outras curtas. Pode-se observar um “adensamento” de informações. como o Jornal Nacional. Momentos de aceleração do plano de expressão são compensados por outros. Nos segundos finais. caso dos impressos.engajamento do público para saber mais detalhes – estratégia de sustentação. no entanto. O Jornal da CBN e o Jornal Nacional têm maior controle do contato do enunciador com a notícia. de segurança pública no outro. de desaceleração. Não há. assim. geralmente. Falar sobre massacres de Saddam mostrando suas vítimas é muito mais do que redundância ou estratégia de ilusão referencial. No Jornal Nacional um escândalo de corrupção ou a morte de alguém muito famoso pode ocupar grandes partes ou até o noticiário inteiro. Também precisam iniciar muito tensos e irem. de conversa entre amigos. e de política no seguinte. apresentando assuntos mais leves. a apresentação de uma edição cotidiana inteira dedicada a uma única notícia e a seus desdobramentos é impensável. Como a rotatividade de enunciatários é muito grande (a rádio chega a medir a audiência em minutos). Os dois jornais podem começar com um assunto de saúde em um dia. Uma canção ironiza alguns aspectos da história ou dos personagens. Existe grande preocupação com a estratégia de arrebatamento. Há um ir e vir das mesmas notícias. Já nos impressos. de sentidos. O ritmo acelerado não dá tempo de refletir sobre o que é dito e mostrado. só que com elementos de atualização diferentes. vê e “comprova” a existência de personagens e lugares citados. Há. também impõe uma leitura. Também realiza outras atividades enquanto ouve o rádio. valoriza-se um contato mais pessoal. o ritmo é mais desacelerado. O Jornal. predomínio do verbal diante de outras “linguagens”. Para tentar mantê-lo “ligado” à apresentação. mais páginas para os 311 . que tem duração fixa. Ao contrário do JN. Ambos “espalham” os assuntos. é preciso manter um nível de tensão quase sempre alto até os instantes finais. também um noticiário que se desenvolve no tempo. sim. apesar de ainda intenso.

O leitor instaurado pela revista não é o que nada sabe. Um leitor pode se interessar sobre detalhes da captura. Os impressos precisam “organizar o mundo” para os seus leitores. E todos devem encontrar alguma coisa de interesse nas páginas para manter laços com o diário. No Portal UOL. lhes dar um pouco de tudo em uma mesma edição. tem tempo para refinar suas estratégias de arrebatamento e de sustentação. Sem ter a obrigação de organizar conteúdos na forma de edições com intervalo de tempo fixo. o diário apresenta uma série de iscas diferentes para buscar a atenção de enunciatários distintos. fica evidente a necessidade de parecer “excessiva” aos leitores. um “diferencial” na abordagem da notícia. por saber o que pensa a população iraquiana. Já a revista Veja. como a que representa a família unida e feliz de Saddam ao lado das que mostram os cadáveres dos filhos. no caso de Saddam. mais “profundidade”. mais possibilidades de escolha. Na Folha de São Paulo. o Portal UOL pode comercializar as novidades nos menores pedaços possíveis. contudo. Buscou-se acirrar contrastes da vida do ex-ditador. a Folha lhe dá mais detalhes. ao mesmo tempo. Outro. Podemos notar que. Isso ficou evidente no texto sobre Saddam Hussein. ao contrário das outras mídias. Se o Jornal Nacional se esforça em resumir a prisão de Saddam em 10 minutos e 40 segundos.assuntos considerados mais importantes. A 312 . Se não aparecesse como “juiz”. O que está em jogo é tentar convencer o enunciatário de que. Veja perderia uma grande maneira de se diferenciar dos outros noticiários. E edições especiais. Daí a escolha cuidadosa do material fotográfico. deve ter seus assuntos principais mostrados em todas as edições normais. Todos os noticiários estudados tentam construir efeitos de neutralidade em relação às notícias. O que vale é a “rapidez”. a leitura do mesmo assunto nas cinco páginas e meia da Folha demandaria de duas a três horas. É evidente que os jornalistas do diário sabem que poucos leitores vão gastar esse tempo. é muito mais uma coerção do que uma escolha qualquer para construir o ethos do enunciador. o internauta teve como grande estímulo para manter a audiência ir acompanhando o desenrolar da própria notícia. proporcionada pela possibilidade de organização dos elementos espacialmente. A voz que tudo sanciona da revista. Podemos observar uma estratégia de sustentação específica da Folha. Ele espera uma “contextualização” e. Como o leitor tem maior controle do que quer ler ou ver. menos Veja. Quem consulta o UOL tem a chance de ser o primeiro a saber algo “importante”. as estratégias de sustentação e fidelização têm como base a promessa de apresentação de uma notícia em primeira mão. contudo. Optou-se pela diagramação de fotos de conteúdos díspares. Qualquer editoria. de edição semanal.

individualmente. A característica de fluxo das TVs força os canais de notícias a ocupar todo o tempo com o que for muito importante ou a fazer um rodízio de notícias de destaque. juntos. criação de necessidades e de satisfação de desejos. as novidades são organizadas em programas com horários fixos. faz um “arquivo de novidades”. as notícias também podem ser divulgadas em boletins espaciais. a agravar. As mesas de iguarias devem dar a impressão de uma enorme diversidade. Quem estipula o horário de consumo é o próprio internauta. pode submeter-se ao consumo e às necessidades de qualquer usuário. ao contrário. contudo. É possível ainda 313 . com auto-serviço. mas ninguém é compelido a seguir o roteiro pré-determinado. relacionada à sua própria apresentação como “última novidade”. Em função de sua importância. ou ao programa de rádio CBN Brasil. desse modo. Só na Internet o usuário administra esse processo e o adapta às suas necessidades de consumo. Basta entrar na home. Inicialmente.curiosidade sobre a notícia é. mesmo sabendo-se que cada consumidor tem seus limites. Até mesmo os canais jornalísticos das TVs por assinatura. O bufê tem um começo. coletivamente. Nos impressos. um meio e um fim. o UOL leva algumas vantagens. Uma analogia entre jornais e restaurantes É possível fazer uma analogia entre restaurantes e jornais. não têm condição de oferecer uma espécie de “menu” de notícias em constante atualização. No rádio e na TV. como fazem portais do tipo UOL. Isso significa que o Internauta relaciona-se com a notícia de uma maneira diferente. Ao acessar um portal como o UOL. como no caso da TV e do rádio. principalmente na Internet. cada noticiário.que traz vantagens a seus consumidores. a manipulação do espaço determina certas formas de consumo. se vende como solução para um problema que ajuda. Em relação aos noticiários “rápidos” analisados neste trabalho – como o Jornal Nacional e o Jornal da CBN -. O portal enuncia o tempo todo e. os veículos de comunicação impõem um excesso de informação. Um olhar dirigido ao Jornal Nacional. Esses noticiários assemelham-se a um estabelecimento do tipo bufê. ao portal UOL. não há o momento especial. mostra que cada um se vende como produto cujo grande apelo de consumo é apresentar um saber organizado sobre o mundo – mesmo com estratégias distintas . O consumidor não tem de ficar adequando seu ritmo pessoal à grade de programação ou a um programa jornalístico específico. ele sabe que estará diante de uma hierarquia de notícias em constante atualização. um caminho a ser percorrido. Dito de outro modo. caso da Globo News. É notável que. Na Internet. à Veja. à Folha de São Paulo.

pode ter de esperar a próxima rodada para colocar no prato o item desejado. Há quem encha o prato só com um item. Uma vantagem do rodízio do rádio é que dura horas. O telejornalismo estudado proporciona um prato-feito em sistema de fast food. assim. espaços determinados que nunca se alteram para grupos diferentes de alimentos. O serviço é muito rápido. mas também bonita. O empreendimento. chamar mais a atenção. que pode ser imaginado com base no poder aquisitivo. Para compensar a massificação. não se pode escolher. Porém. e ele não tem como prever quando entrará em contato com o que está buscando. Vende-se também a idéia de que se trata de uma refeição gratuita. pois tem outras atividades para realizar. As melhores iguarias são servidas no final. ou seja. Em outras palavras. tudo é servido por gente bem-vestida e educada. e deve esperar que o alimento venha até ele. O restaurante também tem um cliente padrão. é montado para uma maioria que engole tudo com rapidez. se ele se distrair.equiparar o arranjo do bufê ao projeto gráfico de um jornal. O restaurante dos outros noticiários analisados seria um pouco diferente. Como ele não pode ir até a comida desejada. deve permitir a escolha de maneira rápida e eficaz do que é considerado mais interessante para ser degustado. além da impressão de grande variedade. classe social. Pensemos as unidades noticiosas como um tipo de alimento específico que se coloca em cada recipiente do bufê. em uma localização espacial privilegiada para. no entanto. precisa não apenas ser prática. dos que querem emagrecer com uma porção diminuta e insossa até os que não têm a menor preocupação com colesterol. há partes fixas. Só que a variedade de pratos deve satisfazer desde vegetarianos até os amantes de carnes mal passadas. mas os ingredientes são pensados para dar conta das necessidades diárias. Assim. no entanto. realiza outras tarefas. exista mais consumo. Não há muita variedade. e portanto. 314 . Certos consumidores montam o prato com um pouco de tudo. pratos especiais. O arranjo geral. com os melhores conteúdos. E que exige que o consumidor se adapte ao horário fixo de consumo. O do rádio é no sistema de rodízio. também precisam ficar em recipientes diferenciados. e satisfaz a quem não tem tempo a perder. degustam. A diagramação é justamente a arrumação no dia-a-dia. Essa arrumação. A comida vai passando na frente do cliente. Outros colocam grande quantidade da salada da política – sempre valorizada espacialmente. mastigam mais vezes. Os que dispõem de mais tempo vão e voltam ao bufê. faixa etária. apelar aos sentidos para que. acessível a qualquer consumidor. no limite. sem parar. Alguns vão direitamente para as alegrias das variedades de sobremesas.

o que permitiu ouvir os iraquianos. aparece a prisão como o único fato gerador. Mais do mesmo O consumidor de informação no Brasil foi bombardeado por inúmeros detalhes sobre a prisão de Saddam Hussein. foram os elementos de atualização. links e dezenas e dezenas de matérias com menor ou maior contextualização e comentários. o exército dos Estados Unidos. No Portal UOL. A Veja construiu dois relatos diferentes. Só que o programa inteiro. ao dar grande realce para a prisão. No principal. de jornal para jornal. Tentou-se ainda confundir detalhamento com aprofundamento. A apresentação de imagens. que muda a cada minuto. No Jornal da CBN. todos os jornais analisados foram empacotadores de um relato de uma única fonte. vídeos. Ele não chefia uma equipe que corre atrás de notícias. Para achar algo. Saddam vira o bandido dos bandidos. Os produtos são os mais frescos encontrados. houve grande valorização do assunto. principalmente o da entrada do restaurante. fotos. O Jornal Nacional preferiu uma postura mais distanciada. enunciou que considerava a detenção do ex-ditador do Iraque uma notícia de enorme importância. A notícia principal e seu destaque não variaram. mas arrumado sempre do mesmo jeito. parte interessadíssima em vender uma versão da prisão do ex-ditador iraquiano. O consumidor é obrigado a ficar procurando o que quer diante de um enorme número de possibilidades. mas um grupo de jornalistas que dá uma roupagem diferente ao que vem pronto. Fica patente que os jornais brasileiros utilizaram um relato principal que já chegou embalado nas redações. Pollyana Ferrari (2004: 44) refere-se ao editor de jornalismo de um portal como um “empacotador”. Antes de achar. Em comum. a forma de embalagem. O que se alterou. A função do editor é tornar tudo mais atrativo.Já o portal é um bufê sem fim. O efeito de neutralidade buscado pela Folha de São Paulo também não a isentou de participação intensa nesse fazer-crer na importância da prisão de Saddam. E pode ficar saturado antes de localizar o que realmente deseja. mas geralmente estão crus ou mal cozidos. tudo não altera o fato de 315 . por exemplo. No material sobre a prisão de Saddam. o que reforça ainda mais a posição de mocinho do presidente dos Estados Unidos. Basta verificar o total de páginas construídas para abordar o assunto. ironizou-se a ação norte-americana no final da edição. O Jornal da CBN não deixou de ironizá-lo. Mudaram os detalhes. Nos noticiários. o consumidor terá de experimentar um pouco de tudo. A Folha de São Paulo foi o único jornal que tinha jornalistas no Iraque. os efeitos com animações. não foi diferente. é preciso procurar e procurar entre muita coisa ruim. assim como o portal UOL. e se achar.

Muita rapidez e pouco jornalismo fizeram o UOL. Há cada vez mais meios de comunicação lutando por uma fatia de público. para valorizar o assunto. afinal de contas. A Internet concentrou um grande número de esperançosos em um futuro de informação menos manipulada. Numa das matérias iniciais. como elementos de atualização. faturamento. Outro ponto é que. os jornais de segunda-feira buscaram. de todo mundo. construir comentários e análises sobre o assunto.que houve uma única fonte de informação. por exemplo. Eles não são a “garantia da verdade dos fatos”. a auto-referência 316 . Ciro Marcondes Filho chama esse processo de auto-referência midiática: “A auto-referência é o mesmo que fechamento de círculo: os meios de comunicação falam de si mesmos. Como filosofia do ‘eu me basto’. gerava curiosidade. Observou-se durante o estudo das reportagens uma série de exercícios de futurologia que se mostraram errados com o tempo. transmissão e armazenagem de dados. mantêm-se num procedimento de se citarem mutuamente. Mais rápido. que tinha acontecido no sábado e sido divulgada no domingo. da presença de jornalistas. Atualização e citação Para dar sensação de atualidade ao relato da prisão de Saddam. ouvintes receberam “mais do mesmo”. O que se viu com a análise. principalmente do Portal UOL. pior é Durante as leituras de outros trabalhos para realizar a análise. A análise das reportagens da prisão do ex-ditador do Iraque não deixa de mostrar que leitores. criam as notícias que de fato deveriam ser buscadas exteriormente. internautas. em suma. como a necessidade da reportagem. porém. os jornais citaram-se uns aos outros. dar a notícia da prisão de Saddam em primeira mão com detalhes absurdos. observou-se um certo encantamento com as novas tecnologias de informação. como o que previa a pacificação do Iraque na Folha de São Paulo. laços. E o que se viu foi um espetáculo midiático cuidadosamente orquestrado pelo governo dos Estados Unidos correr o planeta e ser aceito de bom grado pelos jornais porque. telespectadores. constroem um universo para si próprios e o colocam no lugar do mundo externo. mas produzem algo mais simples e não menos importante: outras visões de mundo que podem conflitar e questionar versões oficiais. é que as possibilidades de uma nova mídia não podem prescindir das “antigas” práticas que parecem imutáveis no jornalismo. informava-se que Saddam tinha sido preso com uma barba falsa.

Mesmo com possíveis e justas ressalvas. as iniciativas da Folha nos últimos anos indicam uma expansão significativa de um novo jornalismo de serviços. A revista Veja. assunto que não tinha sido previsto inicialmente. Parece não haver um “dever-ler” bem marcado. que todos os dias são valorizados por meio das principais manchetes. Os diários não abrem mão de. estão os assuntos políticos ou de viés político claro (como as mudanças ou rumos econômicos do País). o editor do jornal Fernando de Barros e Silva faz uma análise do “novo leitor” e de suas “novas necessidades”: “Vistas em conjunto. que dizem respeito ao lado mais individualista do leitor. tem sido um sucesso de vendas. e das perspectivas do futuro. essa tendência se explica por uma dificuldade histórica anotada pelo 317 . em suma. acreditamos que é válido relacionar esses diferentes resultados às linhas editoriais adotadas pelos dois meios de comunicação. com uma tiragem que quase não se altera há anos. Seus jornalistas têm mais tempo para avaliar o está sendo valorizado pelo seu leitor. da imposição de certas obrigações aos leitores. As posições extremas foram observadas no grupo dos impressos. principalmente do que devem considerar como importante. E nesse dever. a publicação tira pleno benefício da condição de ser semanal. como voz social. Para compensar. apresentarem-se essencialmente como um meio de comunicação do dever-fazer. as seitas. Em um texto que fala dos 80 anos da Folha de São Paulo. como os demais diários do País. ao contrário. ou de regimes inovadores de emagrecimento. Demanda crescente de um leitor individualista.é um processo que se vê em muitos outros campos da sociedade (as comunidades fechadas. ao contrário. em tudo o que é associado à construção de mundos paralelos” (2000:41). vive uma longa fase difícil. temos a Folha de São Paulo que. Já a revista Veja. a Folha lança cadernos e outras publicações sobre esses assuntos. ao modo de cada um valorizar ou desvalorizar certas notícias. destaca o político quando parece haver curiosidade prévia sobre o assunto. De um lado. temas impensáveis como manchetes principais da Folha de São Paulo. as igrejinhas intelectuais). mesmo que os textos sejam carregados de opiniões. Trata-se de um tipo de informação que serve ao egoísmo pragmático que caracteriza a mentalidade dominante dos nossos dias. Na Veja. Nesse sentido. um assunto que envolve o governo federal pode ter o mesmo peso editorial das novas descobertas da cirurgia plástica. Sucesso e crise Nossos estudos esbarraram na questão do sucesso ou da crise vivida pelos meios de comunicação analisados e a relação com suas escolhas de montagem textual.

E como podem atrair o leitor para o jornal? Até agora. Os jornais. mesmo com os suplementos.folha. O colunista Clóvis Rossi tem chamado a atenção para o fato de que está sendo gestada uma sociedade civil diferente. Já a Veja. A incipiente fragmentação do consenso ideológico dos anos 90 coloca a necessidade de que a exclusão social. A semiótica e a produção de estados mentais pelos noticiários Os jornais são sempre objetos de muita crítica.(. Parte dessa mesma concepção de mundo que o crítico jura ser produto de sua mais profunda reflexão pessoal é.Projeto de 1997: ‘O espaço público.” Na mesma análise.) Conceito sempre difuso. são instrumentos de poder complexos. a Folha e os outros diários em geral. 176 In “Jornalismo como crise permanente – Fernando de Barros e Silva (editor da seção Painel”). racionais e passionais mobilizadas pelos jornais no seu processo de persuasão. diz o texto. portanto.”176 O problema que se apresenta é realmente preocupante.. que cresceu no período. receba um tratamento jornalístico revigorado. anômica e flexível. aparecem como disfóricas para o público. mas se dispersa numa segmentação de interesses que desafia a linguagem em comum’. e até brindes. terreno em que o jornalismo sempre lastreou sua legitimidade.shtml. Disponível em http://www1. uma reportagem em um diário. A crítica tem de ser construída em outro nível. ao apostar no “individualismo do leitor”. o jornalista afirma que “um dos maiores desafios da Folha daqui em diante será compatibilizar os interesses de um leitor cada vez mais encerrado em seu universo individual com um jornalismo capaz de lançar nova luz sobre um espaço público hoje difícil de identificar.com. pulverizada. passa por um terremoto que ainda não se assentou.br/folha/80anos/futuro. os comentários do âncora em um noticiário radiofônico. também uma construção midiática. quando tratadas como temas coletivos. 318 . revistas. a opinião pública ganha unidade com a convergência geral de idéias.uol. não acharam um caminho.. As questões políticas e sociais. Freqüentemente. Texto faz parte de um site dedicado a comemorar 80 anos da Folha de São Paulo. E o jornal acha necessário encontrar formas de interlocução com essas novíssimas formas de vida política. lançando mão de instrumentos de análise que tentem dar conta das dimensões sensíveis. esse atrito é conseqüência de choques ideológicos. cadernos especiais. entretanto. Último acesso em agosto/2005. O crítico julga ter acesso à verdade sobre determinado assunto e recrimina o jornal por não tê-la apresentado “fielmente”. é a quarta maior revista semanal de informação do mundo. E não é difícil criticar um programa de TV.

fflch..htm. Para isso. 177 A afirmação consta de resumo de trabalho apresentado pelo professor no Fórum de Atualização de Pesquisas semióticas.“A compreensão crítica do discurso veiculado pelos meios de comunicação de massa é garantia de exercício pleno da cidadania (. A semiótica. na nossa concepção. Armand e Michèle Mattelart asseveram que “a era da chamada sociedade da informação é também a da produção de estados mentais”. disponível no endereço: www.usp. Ela reside igualmente no direito de dominar o processo de formação dessa vontade” (2202: 187).177 Temos convicção de que as investigações realizadas neste trabalho mostraram a operacionalidade e o potencial da semiótica para esclarecer certos procedimentos dos jornais para fazer os valores de seus proprietários e do grupo social ao qual pertencem se transformarem nos valores de toda a sociedade.. apresentado na USP em 19 de março de 2004. Afirmam os dois autores que “a liberdade política não pode se resumir no direito de exercer a própria vontade. esclarece o funcionamento dessas estruturas de dominação. 319 .). é preciso compreender os mecanismos de que se vale o discurso para conseguir eficácia” – afirma José Luiz Fiorin.br/dl/semiotica/fap-fior.

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