UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA

SEMIÓTICA DOS JORNAIS Análise do Jornal Nacional, Folha de São Paulo, Jornal da CBN, Portal UOL, revista Veja

Nilton Hernandes

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Lingüística do Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Lingüística.

Orientadora: Profª. Drª. Diana Luz Pessoa de Barros

São Paulo 2005

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Aos jornalistas
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As histórias pessoais, além de acontecerem, também significam alguma coisa? Apesar de todo o meu ceticismo, sobrou-me um pouco de superstição irracional, como a curiosa convicção de que todo acontecimento que me sucede comporta também um sentido, que ele significa alguma coisa; que por sua própria ventura a vida nos fala, nos revela gradualmente um segredo, que se oferece como enigma a ser decifrado, que as histórias que vivemos formam ao mesmo tempo a mitologia de nossa vida e que essa mitologia detém a chave da verdade e do mistério. É uma ilusão? É possível, é mesmo verossímil, mas não posso reprimir essa necessidade de decifrar continuamente minha própria vida.
Milan Kundera, A Brincadeira

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AGRADECIMENTOS
A idéia de mestre e discípulo parece um pouco estranha. Lembra filme oriental. Mas o que é um mestre? Mais importante do que ter um grande saber, um mestre é exemplo de experiência. No dicionário, a palavra mestre também aparece no sentido de alguém “grande, extraordinário”. É assim que vejo minha querida orientadora, Diana Luz Pessoa de Barros (foto). Nesses anos todos, dedicados a fazer esta tese, ela leu cada linha das várias versões, discutiu comigo todos os problemas, mostrou-me as armadilhas, apontou rumos, incentivou reflexões, deu idéias. Tantas que a considero co-autora do que este trabalho tem de mais significativo. Nessa convivência com Diana, que começou já no mestrado, não obtive apenas saberes. Pude observar a intelectual dedicada, participante, íntegra, coerente. Ficou, para mim, esse exemplo de vida. De que não basta adquirir conhecimentos. É preciso sabedoria, ordenar sempre o que se sabe tendo em vista uma felicidade generosa. Tive ainda outros mestres. Não poderia deixar de citar José Luiz Fiorin (foto), também um modelo de intelectual, de educador dedicado, de rigor e seriedade, o primeiro professor que me recebeu na Letras, me apresentou à semiótica e me deu grande incentivo nesses anos. Também divido com ele tudo de bom que fiz na pós-graduação da Universidade de São Paulo. Minha experiência como doutorando da USP também não foi marcada somente pela forte presença de Diana Barros e Fiorin. Nem por um parto de idéias de 1000 dias, mediado por um Pentium 4, num quarto paulistano, que resultou nestas páginas. Agradeço aos amigos, aos colegas e aos outros professores todo o estímulo que tive. São vivências que já vão se tornando lembranças: as idéias sobre a tensividade do professor Luiz Tatit, a energia adolescente de Norma Discini, as piadas engraçadas e fora de hora de Ivã Lopes, as cutucadas no conservadorismo feitas por Antonio Vicente Pietroforte, a calma hjelmsleviana de José Roberto do Carmo Júnior, as coisas de menina anti-Xuxa de Roseli Novak, o bom humor musical de Ricardo Monteiro, as conversas sobre mulheres e política com Marcio Coelho, os incentivos de Peter Dietrich, a atenção de Marcelo Martins... E tantos outros afetos propiciados por colegas, principalmente do Grupo de Estudos Semióticos da Universidade de São Paulo, o GES-USP. Não posso deixar de agradecer ainda a minha esposa, Geni Marques, e ao meu amigo Hélcio de Pádua Lanzoni pela colaboração e pelas idéias. Vários jornalistas também contribuíram com este trabalho. Meu agradecimento especial a Heródoto Barbeiro e à equipe da Central Brasileira de Notícias, que cederam gravações do Jornal da CBN. Finalmente, cito a FAPESP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, pelo importante apoio na forma de bolsa de estudos.

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RESUMO
Este trabalho apresenta uma ampla investigação do jornalismo e dos principais jornais brasileiros e propõe um modelo de análise dos noticiários com base no aparato teórico da semiótica de Greimas. Há duas grandes divisões. Na primeira parte, de teorização geral, é estudada a relação entre semiótica, comunicação e jornalismo. São discutidos os conceitos de comunicação, notícia, ideologia, realidade, verdade, objetividade. Para obter maior audiência ou tiragem, base de sobrevivência das empresas, os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores, ouvintes, internautas ou leitores nos níveis sensorial, inteligível e passional. O exame desses procedimentos manifesta o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção, estratégia de persuasão que funda e sustenta a relação enunciadorenunciatário. Ainda na primeira parte, são mostradas as duas formas básicas de

organização textual jornalística. O manejo do espaço determina o modo de percepção nos jornais impressos e revistas assim como a administração do tempo organiza a atenção do público no rádio e na televisão. Na segunda parte, de teorização específica e aplicação, são examinadas características de cinco noticiários brasileiros, produzidos no período de quatro anos (2002/2005), que obtiveram maior audiência ou tiragem: Jornal da CBN, Jornal Nacional, revista Veja, Folha de São Paulo, Portal UOL. As ferramentas desenvolvidas, tanto gerais quanto específicas, são usadas e testadas na análise de um fato de repercussão mundial, a prisão de Saddam Hussein, em 13 de dezembro de 2003.

Palavras-chave: jornalismo, jornais, semiótica, Greimas, comunicação

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intelligible and passional levels. are used and tested in the analysis of an important fact which gained world repercussion: the prison of Saddam Hussein in December 13. Portal UOL. objectivity are discussed. revista Veja. communication and journalism. two basic forms of journalistic textual organization are also showed. communication 7 . In the first part. Folha de São Paulo. websites. ideology. television and radio news programs). magazines. It proposes a model to analyze the news media based on the general theoretical apparatus of Greimas semiotics. both general and specific. newspaper. or the readers in the sensorial. In order to obtain more audience or issue circulation – important for their survival – the news media need to manipulate the attention of the TV viewer. the internet users. a persuasion strategy that establishes and keeps the relation enunciatorenunciatee. reality. we study the relation among semiotics. news. In the first part. all of which obtained the highest audience or issue circulation: Jornal da CBN. Jornal Nacional. truth.ABSTRACT This work shows a wide investigation about journalism and the main Brazilian news media (newspaper. semiotics. which refers to specific theorization and application. Key words: journalism. we examine characteristics of five Brazilian news media produced in a four-year period (2002/2005). There are two main divisions. The concepts of communication. In the second part. 2003. The tools developed. The examination of these procedures shows what we are denominating the management of the attention level. the radio listener. The manipulation of the space determines the way of perception in the newspapers and magazines as much as the time management organizes the public attention in the radio and the television. Greimas.

paixão e sentimento: a estrutura dos afetos Notícias e engajamento perceptivo Estratégias de arrebatamento e de sustentação A proximidade temporal: o efeito de atualidade A proximidade actancial e espacial: a empatia A proximidade imposta: o sensacionalismo A estratégia de fidelização Exemplo: Jornal da Tarde versus Diário de São Paulo ESTRATÉGIAS DE ORGANIZAÇÃO TEXTUAL: A ATENÇÃO MANIPULADA NO TEMPO E NO ESPAÇO Dois modos de textualização: espacial ou temporal Valorização ou desvalorização da notícia: o semi-simbolismo “cristalizado” Aspectualização: ritmo textual Textualização. âncoras. aspectualização e sincretismo PARTE 2 – TEORIZAÇÃO ESPECÍFICA E APLICAÇÃO OBSERVAÇÕES GERAIS O RADIOJORNALISMO Considerações gerais sobre o radiojornalismo e o Jornal da CBN A sensação de “tempo real” A organização textual e a oscilação entre o ouvir e o escutar A locução como elemento organizador Música. repórteres e correspondentes: os actantes da enunciação Tempo e espaço: os efeitos de câmera e edição Montagem e o domínio do tempo 10 13 14 16 17 20 23 24 24 28 30 31 34 37 40 44 47 50 50 52 56 59 57 64 66 70 74 80 86 89 92 98 98 101 106 111 115 116 117 117 119 120 124 130 133 154 154 158 166 169 177 8 . inclinação.estratégias de persuasão dos jornais Enunciação jornalística como narrativa Formas de relacionamento entre jornais e público-alvo Sujeitos marcados nos jornais e modos de relacionamento O fenômeno da atenção A curiosidade e os percursos da atenção Emoção. efeitos sonoros. COMUNICAÇÃO E JORNALISMO Semiótica e teorias da comunicação Ponto de vista semiótico sobre a comunicação Cláusulas principais do contrato jornal-público Verdade e ideologia O recorte específico da realidade praticado pelo jornalismo: a notícia A isenção impossível: um mesmo acontecimento e três notícias distintas Enunciação e efeitos de objetividade O “efeito de neutralidade” A objetividade como dever-fazer: a ética jornalística O GERENCIAMENTO DO NÍVEL DE ATENÇÃO . ruídos e a relação com a fala A questão do tempo e do valor da notícia: a prisão de Saddam O TELEJORNALISMO Considerações gerais sobre o telejornalismo e o Jornal Nacional A estrutura do programa Marca.SUMÁRIO INTRODUÇÃO A revista Veja e a continuação do trabalho Uma síntese entre prática e teorização A semiótica como ligação entre várias visões sobre o jornalismo Objetivos e hipóteses Plano de trabalho PARTE 1 – TEORIZAÇÃO GERAL .O jornalismo e os jornais na perspectiva semiótica RELAÇÕES ENTRE SEMIÓTICA.

JORNALISMO NA INTERNET Considerações gerais .a Internet e o portal Formas de textualização O efeito de sentido de “infinitas possibilidades” O enunciatário impaciente Tudo é notícia A cobertura da prisão de Saddam CONCLUSÃO Teorização proposta reúne várias orientações dentro da própria semiótica Conceitos-chave a separação entre dever-fazer e fazer-crer jornalístico Uma teoria para o fenômeno da mobilização da atenção Estratégias de organização textual: tempo e espaço Os semi-simbolismos cristalizados Ritmo nos jornais Ethos e outros efeitos de proximidade Comparação entre os jornais analisados Uma analogia entre jornais e restaurantes Mais do mesmo Mais rápido. suporte e atualidade da notícia Entre o essencial e o acessório: a construção de um leitor fragmentado Os cinco conjuntos significantes manejados pela diagramação Tipos gráficos e novo patamar de semi-simbolismos O fotojornalismo Análise de abordagem: a prisão de Saddam Hussein PORTAL.A prisão de Saddam: um bloco inteiro dedicado ao assunto Relação entre fragmento e duração Uma única enunciação: a fala como elemento articulador Mais questões sobre a temporalização O controle da percepção: o uso ideológico da edição e dos planos de câmera JORNALISMO IMPRESSO Considerações gerais – Folha de São Paulo e revista Veja Organização textual: efeitos do projeto gráfico e da diagramação Divisões do jornal. pior é Atualização e citação Sucesso e crise A semiótica e a produção de estados mentais pelos noticiários BIBLIOGRAFIA 178 204 205 210 211 214 214 216 225 235 242 244 250 259 272 273 276 281 284 290 292 304 305 306 306 307 307 308 308 309 313 315 316 316 317 318 320 9 .

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A atividade jornalística é pensada como algo pernicioso socialmente em função do seu poder de persuasão e do serviço que presta ao capital. repensando e. grandes pensadores da comunicação. relatam discussões que renderam ou destruíram grandes pautas. Quem se propõe a analisar os noticiários vai verificar que esses estudos – que se concentram em detalhes específicos. levantamentos. como o estudo dos títulos de um jornal. choques ou união de interesses entre empresas jornalísticas e grupos políticos que. cujos autores se ocupam em sistematizar e repassar experiências. não raras vezes o jornalista se vinga e se valoriza: deixa seu posto de testemunha e passa a ser personagem principal da história. em partes de um meio de comunicação ou de um determinado objeto . Mostram redações por dentro. Os autores geralmente são jornalistas experientes. não puderam ser trazidos à tona por alguma razão. geralmente o medo de o autor perder o cargo e o emprego.são muito comuns na pós-graduação. quando 11 . Nesses trabalhos. Dão dicas para elaborar uma reportagem. Os jornalistas oscilam entre vítimas e algozes de injustiças de todos os tipos. O terceiro tipo de obras – as segmentadoras – focam um aspecto bastante preciso e particular do jornalismo. Eles contam o “outro lado” da profissão. filosóficas ou sociológicas de enorme amplitude. em determinada época. os jornais aparecem dentro de uma mesma classificação. capas de revistas em época de eleição.que analisam o jornalismo e suas conseqüências com base no exame de suas manifestações concretas. a melhor “linguagem” para usar no jornalismo de rádio. No quarto tipo de obras – as generalizantes – há estudos teóricos.Trabalhos sobre o jornalismo podem ser classificados. Este trabalho quer se incluir no quinto tipo de obra sobre essa forma de comunicação . a governos e a grupos dominantes. de maneira geral. Ensinam como fazer um telejornal. O primeiro inclui as chamadas obras técnicas. São os “manuais”. os jornais. Seus autores. como “meios de comunicação de massa”. famosos e respeitados. a argumentação de editoriais de um grande diário. pressões. em cinco grandes grupos. na maioria das vezes. são acadêmicos. geralmente sem grandes reflexões ou preocupações ideológicas. Não raras vezes o jornalismo é marcado por um tom pessimista e linchado em generalizações polêmicas. análises críticas. A atividade de noticiar aparece como algo mais ou menos mecânico. Apresentam regras e “segredos” da profissão. Podemos chamar o segundo tipo de obras sobre jornalismo como histórias de bastidores.as integradoras . Alguns estudiosos fazem a defesa dos aspectos éticos – e freqüentemente esquecidos – da comunicação das principais mídias. Em diversas análises. As especificidades do jornalismo não são muito discutidas.

que o objeto de pesquisa.vários números de uma revista semanal que destacaram determinado assunto. incorporando conhecimentos úteis de cada um dos outros quatro tipos de estudos citados. Em 2002. porém. com movimentação de câmera e 1 Empregaremos a expressão “objeto jornalístico” praticamente como sinônimo de texto para a semiótica francesa. é que o uso da palavra texto. de rádio. 12 . Pode-se analisar uma única edição do Jornal Nacional da Rede Globo do ponto de vista da técnica. um “gancho”. Assumimos aqui uma perspectiva teórica clara. a outra ordem de preocupações. uma música. a edição. de TV. acompanhamos. pode trazer alguma dificuldade em um trabalho que pretende analisar noticiários. mesmo claramente definido como objeto de estudo semiótico. Também se pode estudar o tom de voz dos apresentadores do JN. a teoria concebe texto como objeto de significação e objeto cultural de comunicação entre sujeitos. o padrão de transmissão utilizado. É forçoso reconhecer que. de histórias de bastidores. Nossa investigação sobre o assunto. comandado pelo âncora Boris Casoy. Se todas essas formas de análise são valiosas. evitaremos esse termo que pode levar um leitor mais desatento a achar que estamos falando da parte verbal de um jornal. se difere de outras que podem ser chamadas de integradoras. um jornal. palavra que utilizaremos neste trabalho para qualquer forma de noticiário: impresso. um telejornal ou um programa de radiojornalismo – e seus efeitos no público. parece não ter sido realmente contemplado. enfim – para usar o jargão jornalístico – para os autores se lançarem a outros assuntos. Outra alternativa é uma investigação teórica abrangente. no entanto. segmentadoras não dão contam das necessidades do estudo das manifestações cotidianas do jornalismo . sozinhas. apresentar os bastidores. como fizeram as tomadas de câmera do programa. Em outras palavras. é importante perceber. questões que serão discutidas nas próximas páginas. os interesses da família Marinho. E mais: essas abordagens dão a entender que o programa é somente uma justificativa. inclusive impressos. parece escapar. O problema. da rede Globo. uma peça de teatro. como as coerções e os desafios do telejornalismo no terceiro milênio. e o Jornal da Record.possível. pelo menos até onde pudemos localizar. o Jornal Nacional. Na medida do possível. Como veremos depois. como professor de jornalismo recém-contratado. não produziram ferramentas para desvendar a produção de sentido dos jornais. a da semiótica francesa. As teorias da comunicação ou os diversos estudos sobre o jornalismo. Portanto. técnicas. uma casa são exemplos de textos semióticos. Um grupo comparou dois telejornais. via Internet. É possível. que tem instrumentos para investigar os objetos jornalísticos1 e pode adequar outras contribuições ao seu modelo de análise. obras generalizantes. quem manda em quem. por outro lado. O trabalho foi apresentado em forma de telejornal. o Jornal Nacional. no entanto. o trabalho de conclusão de curso de estudantes de uma faculdade de comunicação no Interior do Estado de São Paulo.

os estudantes caíram em uma armadilha. um grande e sincero esforço. A conclusão. muito comuns no jornalismo.edição impecáveis. Convém. São escolhas de composição visual. A revista Veja e a continuação do trabalho Esta tese é a conseqüência e. formam um simulacro sedutor da realidade que impele os leitores a determinadas crenças e ações. Os estudantes perderam uma grande oportunidade de pensar sobre seus próprios valores e sua visão de mundo que deram ao Jornal Nacional o veredicto de “o melhor jornalismo da TV”. porém. Tentou-se examinar e explicitar o funcionamento de mecanismos de conquista ideológica de um contingente importante da sociedade brasileira. faltou aos alunos um olhar sobre o objeto-jornal. um jornalismo “objetivo”. juntas. como conseguem transformar recortes e interpretações de acontecimentos em “fatos”. com julgamento. portanto. em verdades aceitas que. O estudo foi confundido com opinião. como se o analista fosse uma espécie de juiz. enfim. Com surpresa. Em vez disso. os mecanismos de construção de sentido. muitas vezes. A revista é uma sofisticada engrenagem que transmite valores por meio de operações racionais. por ter um âncora que analisava tudo dentro de um ponto de vista bem marcado. E que o Jornal Nacional fazia o “melhor jornalismo”. O formato do trabalho dos estudantes também merece comentários. de tipo de argumentação. era “opinativo”. Os alunos entrevistaram jornalistas da Globo e da Record. passionais e sensoriais. como também entendendo o mecanismo que as produz. as estratégias de persuasão utilizadas. de infográficos. buscou-se investigar como os textos da publicação são construídos. Mostraram. Enfim. Não são raros os estudantes e mesmo os jornalistas que confundem uma pesquisa de graduação ou até de pós-graduação com uma “grande reportagem” que prescinde de uma metodologia. de tipologia. falar um pouco do estudo já realizado. do que as opiniões e os bordões de Boris Casoy. e de jogos entre esses e outros elementos. nem sequer reconheciam a objetividade como um efeito de sentido que desarma o senso crítico de uma maneira mais eficiente. constatamos que essa construção complexa. inicialmente. O trabalho também revelou outros problemas bastante comuns. foi a de que o Jornal da Record. Elucidar as estratégias persuasivas de Veja trouxe outros desafios. manejados por uma das principais revistas de informação do mundo. apesar de sua 13 . a ampliação e o aprofundamento de questões de nossa dissertação de mestrado “A revista Veja e o discurso do emprego na globalização – uma análise semiótica”. Na dissertação. Novamente. de certa forma. de fotografias. Eles deveriam concluir o curso não só sabendo verificar essas formas de construção textual.

Esses trabalhos. não apenas de um dos seus aspectos ou pedaços. Também acreditamos que é vantajoso dar espaço a aspectos de marketing2 e a opiniões dos jornalistas para conhecer melhor o próprio objeto e construir meios de investigá-lo. Essa concepção traz desafios e dúvidas. O marketing instaura um sujeito consumidor de idéias e produtos como resultado de estratégias complexas.importância. notadamente capas e fotografias. Por outro lado. Esse conjunto de conhecimentos é chave para entender a força das empresas de comunicação. interessada somente no resultado. cada vez mais sagazes e invasivos. estudantes e professores universitários. Estudos técnicos. que efeitos de um projeto gráfico. São pontos de vista discutíveis. que persiste. focado no objeto. o que mostrava maior interesse acadêmico nas “imagens”. certos analistas acham que um jornal é só “conteúdo”. As análises sobre a revista que conseguimos localizar se concentravam em partes específicas. ainda são muitas vezes entendidas e analisadas por meio da classificação verbal x visual. isoladamente. Estávamos diante daquele terceiro tipo de publicação discutida há pouco. devem ser encarados como cosméticos e desimportantes. Os estudos sobre Veja não davam conta do objeto jornalístico em sua complexidade. uma análise crítica também se faz sempre necessária sobre essa forma utilitarista de ver a comunicação. no reforço do hedonismo e da competitividade. Isso sem contar os que defendem a supremacia de uma certa “visualidade” em tudo e em todos os lugares. Uma síntese entre prática e teorização Construir um trabalho analítico mais integral. 2 14 . de ritmo. Há uma justificativa para o problema. principalmente de uma metodologia que dê conta do objeto jornalístico como um todo. Para contrabalançar. É por isso que existe hoje uma certa avidez de ferramentas de estudo de meios de comunicação por parte de pesquisadores. segmentadores ou generalizantes. por exemplo. As ferramentas teóricas à disposição dos analistas ainda são limitadas. contextuais. no entanto. Nossa vida está sendo dominada por relações cada vez mais complexas de possibilidades de expressão e não pelo predomínio do “verbal” ou do “visual”. A utilização de reflexões de teóricos do marketing ajudam a desmontar e a refletir sobre seus próprios métodos de influência. porém. apresentam diversas reflexões sobre a teoria e a prática jornalísticas que serão úteis para montar nosso estudo mais abrangente. ou visual e sonoro. torna necessário incorporar diversas e importantes investigações que hoje se apresentam desconectadas. transformam jornais em coadjuvante e não no personagem principal de investigação. era pouco estudada. Os jornais apresentam intrincadas e sofisticadas relações entre conjuntos significantes que.

Em outro trecho de seu livro “A regra do jogo”. É possível estudar o jornalismo – entre outras formas de comunicação . conteúdos. os profissionais que fazem tudo “intuitivamente” e. não sabem fazer as coisas” (1988: 138). um dos mais festejados. O Observatório3 é um bom exemplo de convivência proveitosa entre quem produz reflexão e quem atua profissionalmente. Hoje. as escolas de jornalismo influíram negativamente. ou pesquisadores/teóricos versus profissionais. Por outro lado. técnicas. não raras vezes. cuja função explícita é legitimar estratégias e modelos de organização empresarias e institucionais. De um lado. concepções cristalizadas tanto em certos setores das áreas de humanidades da universidade quanto nas redações estão sendo vencidas. mecanicamente. Neste trabalho.) As pessoas que deveriam estar treinadas para um certo tipo de prática não estão mais. por exemplo. verdade. perto do dia-a-dia das redações e de seus profissionais.e fazer uma análise coerente e. Um das possibilidades é ultrapassar a dicotomia “teoria versus prática”. são cada vez mais perceptíveis” (2002: 186). Trata-se de Alberto Dines. Há vários caminhos para fazer a “tensão ressurgir” nas análises do jornalismo. a universidade tem cada vez mais se preocupado com o futuro profissional dos seus estudantes. O que interessa Theodor Adorno e Walter Benjamim para o trabalho diário de jornal? (. ao mesmo tempo. há os que estudam as formas. pode ser comemorado. Os saberes sobre a comunicação não escapam a essa tendência. só para relembrar.br) 3 15 . por esse novo utilitarismo estimulador da pesquisa de ferramentas epistemológicas que permitam a neutralização das tensões via soluções técnicas. projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os efeitos do fortalecimento dos discursos especialistas. a existência do Observatório da Imprensa.ig. Abramo fazia o seguinte comentário: “Quanto à semiologia. dirigido por um jornalista elogiado pelo mesmo Cláudio Abramo. Observatório da Imprensa é conhecido por meio de um site: (http://observatorio.. trazidos pela crescente ‘profissionalização’ das atividades de comunicação. eu a gozo muito mas a conheço pouco”.. citados e influentes profissionais de jornalismo impresso no País afirmava: “As pessoas que escrevem em jornal têm apenas muita teoria – e. ideologia.com. Cláudio Abramo. de outro. utilizamos reflexões dos jornalistas para apresentar e aprofundar questões importantes. Felizmente.Lembra o casal Mattelart que “todos os que trabalham com a mídia encontramse hoje afetados pelo positivismo administrativo.ultimosegundo. nesse sentido. como as relacionadas à objetividade. Não faz muito tempo.

há alguns professores e pesquisadores que desconhecem a evolução da semiótica e ainda a 16 . segmentadores e generalizantes. Embora o trabalho teórico envolva um distanciamento dessa prática. a partir do objeto. principalmente da Universidade de São Paulo. E o que foi dito até agora parece apontar para uma certa complacência teórico-metodológica. Não se quer dizer com isso que é preciso ser jornalista para fazer análise dos produtos jornalísticos. grandes avanços no conhecimento que não têm chegado às redações. principalmente os técnicos. A semiótica como ligação entre várias visões sobre o jornalismo É evidente que reflexões sobre a comunicação jornalística partem muitas vezes de concepções diversas e nem sempre convergentes. As redações e os jornalistas. Greimas. não só por pertencer a esses dois “lados”. são revistos nesse quadro teórico-metodológico dentro do objetivo de investigar o processo de significação dos programas de TV e de rádio. aos professores de comunicação. Esta tese aborda os jornais – sempre no sentido amplo já mencionado – na perspectiva da teoria semiótica. A teoria semiótica atual desenvolveu-se a partir do estruturalismo dos anos 60. ritmo e compor um modelo de estudo amplo e operacional. Queremos dar nossa contribuição. Como Meditsch. por sua vez. O texto fundador é Semântica Estrutural. convivem com problemas e desafios que poderiam motivar pesquisas acadêmicas de maior interesse e repercussão social. sob pena de perder-se a si próprio na abstração” (2001: 57). A necessária integração entre teoria e prática tem aqui outras motivações. na universidade. J. como é próprio dos estudos semióticos. de A. critério de verdade e finalidade última.empatia. aos sindicatos da categoria. Infelizmente. Os trabalhos citados. acreditamos que “o verdadeiro conhecimento depende da prática. das revistas. mas para ajudar na construção de uma ponte cada vez mais indispensável entre as duas formas complementares de pensar e viver o jornalismo. Há. A base teórica da tese é a semiótica de A. dos sites ou portais de notícias. aos críticos e analistas de jornalismo. J. não a pode perder de vista. Greimas e seguidores. dos jornais impressos. que desmonte e revele as estratégias de domínio de um grupo social sobre outros. Pretende investigar os principais noticiários brasileiros de um ponto de vista mais integral e. Longe disso. uma vez que é nela que se encontra o seu fundamento.

dinâmicos. Os semioticistas. mais “humano”. É o Em um quadro sobre “as escolas teóricas da comunicação”. em sua obra O espelho e a máscara (2002). na construção de uma gramática do sentido. encontramos certos autores que faziam questão de se mostrar apartados de qualquer concepção que julgavam “estruturalista”. A semiótica de origem francesa é uma das teorias que mais têm se preocupado.4 Na busca por bibliografia atual sobre o jornalismo e a comunicação. com questões ligadas às estratégias que apelam à emoção e aos aspectos sensíveis dos textos. sobre o corpo e a percepção não deixam dúvidas de que o sujeito semiótico está cada vez mais complexo e. sobre o estético. A complexidade crescente dos fenômenos da comunicação. a eficácia do controle ideológico de populações inteiras fazem da semiótica uma ferramenta não só atualíssima como necessária. diversos livros de semioticistas do mundo inteiro foram publicados. da tensividade. de abarcar cada vez mais questões em seus trabalhos. de enfrentar o chão menos seguro de objetos que não se apresentam claramente estabilizados. pensam hoje os objetos na sua vibração contextual. coloca Greimas em “Semiologia clássica”. com reflexões relevantes para se entender a comunicação como teoria e como ato. ao mesmo tempo. por exemplo. cuja “filiação filosófica ou epistemológica é o estruturalismo”. no aparato teórico geral da semiótica. e o aponta como estudioso do “signo e dos sinais”. na evolução da teoria. Hjelmslev.associam somente a estudos pioneiros de quase quarenta anos. Ao mesmo tempo. cada vez mais enriquecidos. o surgimento de novas mídias. das paixões. fugazes. Objetivos e hipóteses As reflexões anteriores justificam os objetivos principais de nosso trabalho: • Buscar. revela a vontade crescente dos pesquisadores de aceitar os desafios. com a produção de sentido em objetos que unem várias “linguagens” de manifestação. Nos últimos anos. por exemplo. aparece na escola de “semiologia contemporânea”. 4 17 . O desenvolvimento da semiótica. propostas que se mostrem mais operatórias para compor um modelo de investigação dos objetos jornalísticos. esses mesmos pesquisadores se batiam com problemas para os quais a semiótica há décadas formulara propostas que poderiam ser úteis nos seus trabalhos. A construção de um modelo específico para a análise dos objetos jornalísticos impõe o desenvolvimento de alguns aspectos teóricos. Os estudos da enunciação. grande inspirador de Greimas. apesar de a bibliografia ser pouco divulgada fora do ambiente acadêmico. as investigações sobre o plano de expressão e suas características sensíveis. Ciro Marcondes Filho.

alimenta o estudo geral. É preciso entender como o verbal. 18 . e de outras unidades dos noticiários estudados irão motivar e justificar uma discussão sobre conteúdos. Ressaltamos que o modelo analítico buscado quer esclarecer e apresentar as estratégias mais comuns utilizadas pelos jornais para motivar consumo e fazer-crer em determinados valores. 2. de outro. O modelo proposto. • Desenvolver e divulgar a semiótica. há maior interesse em investigar como o jornal veicula valores do que os valores transmitidos. O trabalho com produtos específicos. a empatia. já que a característica mais evidente de um texto jornalístico dos grandes meios de comunicação é o uso de diversos conjuntos significantes para manifestar um único conteúdo. sobre os modos de textualização. pode estabelecer uma eficiente ligação entre diversas formas de abordagem do jornalismo e manter coerência metodológica. portal (Internet).caso das reflexões sobre a objetividade. integrando diversas contribuições na busca de uma visão mais integral dos objetos jornalísticos. que se concentra em objetos concretos de cada um dos quatro grupos.dos maiores noticiários brasileiros. A primeira investigação. as logomarcas e muitos outros elementos se relacionam para produzir sentido e servir ao propósito de persuadir o público.do jornalismo. a fotografia. inserido numa sociedade de classes. divididos em quatro grupos: jornal e revista impressos. e relacionado a um contexto demarcado. no entanto. Dito de outro modo. Produtos jornalísticos são semióticas sincréticas. é a base para a segunda reflexão. quer unir reflexões mais maduras dentro da teoria com outras ainda instigantes para tentar uma apreensão mais global dos objetos jornalísticos. radiojornal e telejornal. a verdade. determinado por formações ideológicas. • Desenvolver um modelo de análise semiótica: 1. Em vários momentos. Outro desafio do trabalho é mostrar a operacionalidade da teoria. por sua vez. notadamente. por abordar o texto no seu aspecto estrutural. A semiótica. de caráter mais amplo. de comentários. Serão apontadas as coerções e vantagens de construção textual de cada um dos grupos de noticiários analisados. Não se pretende desvendar os conteúdos dos jornais. de um lado. • Construir conhecimento sobre o jornalismo e os principais noticiários brasileiros a partir das possibilidades teóricas da semiótica. certos exemplos de reportagens. portanto. e como objeto de comunicação. e.

mostrar pontos de maior ou menor interesse nos níveis sensível. o É possível estabelecer princípios de organização textual do jornalismo dos maiores meios de comunicação. O objetivo maior de todo jornal é obter atenção e laços com o público. No rádio. o valor de uma notícia tem relação direta com o tempo concedido. o jornalismo on-line e globalizado. administrar e manter elevado o nível de atenção dos seus respectivos públicos para que exista sustentação e aumento de audiência (caso das TVs. base da lucratividade das empresas.A partir dos objetivos listados. essa é a principal coerção dos noticiários. o tempo também determina o valor de uma reportagem ou comentário (mais tempo concedido – maior a importância). Serve tanto para permitir um reconhecimento mais imediato dos valores em jogo como para organizar o próprio trabalho dos profissionais envolvidos no fechamento das edições. passional e inteligível. direcionar as expectativas. Os produtos jornalísticos devem atrair. que esclarecem o funcionamento das estratégias de enunciação desses objetos. de outros concorrentes. Produtos industriais. O manejo do espaço determina o modo de percepção nos jornais impressos e revistas assim como a administração do tempo organiza a atenção do público no rádio e na televisão. Nas TVs. de outro site. os conteúdos diferenciados – se filiam e fazem parte dessa necessidade vital de manter o público sempre cativo. Como tentaremos mostrar no trabalho. os jornais construíram com o tempo mecanismos que comunicam o que é mais ou menos importante. mais espaço – maior valor). Essa finalidade determina um conjunto de estratégias persuasivas reunidas no que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção. do tamanho e da posição que ocupa nas páginas (por exemplo. a importância de uma notícia acontece em função do espaço. do dial. 19 . o que merece mais ou menos concentração e atenção. rádios e Internet) ou de tiragem (nos jornais e revistas). Essa textualização se desenvolveu para guiar a percepção do público. Nos primeiros meios de comunicação. longe do controle remoto. o Há duas formas básicas de organização textual jornalística que estabelecem modos distintos de apresentação de conteúdos e de gerenciamento da atenção. apresentamos a seguir as principais hipóteses do trabalho: o Existe um ponto que aglutina e “costura” as principais investigações sobre o funcionamento do jornalismo e serve para construir uma hierarquia de análise. Todas as outras operações – como a busca de efeitos estéticos.

notícia. Há cinco produtos jornalísticos aqui analisados: 5 As informações que apresentamos sobre os jornais foram recolhidas junto aos sites das próprias empresas em dezembro de 2004. tensividade e o potencial de curiosidade da notícia.Estratégias de organização textual: a atenção manipulada no tempo e no espaço. Obter dados sobre o posicionamento dos jornais não é tarefa fácil.Plano de trabalho A tese apresenta uma ampla discussão teórica.o jornalismo e os jornais na perspectiva semiótica. Cada um compra informações de 20 . Em linhas bem gerais são mostradas relações entre a semiótica e as teorias da comunicação. objetividade. de base temporal ou espacial. do noticiário da Internet. Há três grandes tópicos: . São contempladas as questões que envolvem todos os jornais estudados. com investigações e exemplos concretos. Apresentamos ainda uma relação entre aspectualidade. conceitos de comunicação. são utilizados noticiários brasileiros produzidos no período de quatro anos (2002/2005) e que obtiveram maior audiência ou tiragem nesse intervalo de tempo.teorização específica e aplicação. comunicação e jornalismo. internautas ou leitores nos níveis sensorial. cuja função é manipular a percepção do público. da perspectiva da semiótica de Greimas. O exame desses procedimentos revela o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção.5 Em outras palavras. No final. do jornalismo impresso. os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores. são estudados os jornais que poderíamos chamar de “vencedores”. mostramos que os modos de relacionamento dos jornais com o público também são conseqüência do trabalho com os vários recursos que diferentes noticiários têm à disposição.Relações entre semiótica.teorização geral . estratégia de persuasão que funda e sustenta a relação enunciador-enunciatário. que resultam em organizações textuais específicas. são feitas sugestões para o exame do sincretismo nos objetos jornalísticos. ouvintes. em duas grandes divisões: PARTE 1 . passional e inteligível. Como corpus. . Discute-se também.O gerenciamento do nível de atenção. PARTE 2 . Nesse item. Investigamos as estratégias que são próprias do telejornalismo. base da sobrevivência das empresas. Para obter audiência ou tiragem. com exceção das relativas ao Jornal Nacional. incluindo um estudo sobre os tipos de semi-simbolismos gerados. ideologia. verdade. . do radiojornalismo. realidade.

Em 2003. o UOL teve média de 7. 11 Fonte: http://sobre.10 UOL – Universo On Line Portal Internet Principal portal de conteúdo e provedor pago de acesso à Internet do País.globo. tornou-se na década de 80 o jornal mais vendido no País.9 Veja Revista semanal Quarta maior publicação do gênero “revista semanal de informação” no mundo (atrás de Time.folha.br/ 21 . a CBN está presente nas principais cidades e em capitais como Rio de Janeiro.br – link “para anunciar”. São Paulo.131. Criada em 1º de outubro de 1991.News) e a maior do Brasil. com 1. texto de João Gabriel de Lima. Isso significa que de cada 10 pessoas que acessam a Internet a partir de casa. A Veja e a Folha de São Paulo foram reunidas em um só item em função de sua institutos de pesquisas (como o IVC.com. ou 31 milhões de telespectadores.br/folha/conheca 10 Fonte: Midiakit Veja – acessível a partir do site www.OS CINCO OBJETOS JORNALÍSTICOS ANALISADOS Nome Tipo Característica e tiragem ou audiência O âncora. que transmite via satélite 24 horas de jornalismo. Heródoto Barbeiro.abril. telejornalismo. 6 visitam o UOL regularmente. Reúne mais de 200 jornalistas pelo País. Belo Horizonte e Brasília. jornalismo de Internet (portal). o IBGE) e usa como acha conveniente. 101 a 108.herodoto. 6 Fonte: http://www. “A guerra atrás das câmeras”.7 Jornal da CBN Programa diário de rádio Jornal Nacional Programa diário de TV É líder de audiência desde sua fundação. A maioria dos dados é confidencial. edição 1869.701.uol.com.br 7 Fonte: http://radioclick.vejaonline. Isso significa a sintonia de 68% dos televisores brasileiros. jornalismo impresso. em 1969. Tem circulação nacional.8 Folha de São Paulo Diário impresso Fundada em 1921. a circulação média foi de 350 mil exemplares em dias úteis e 430 mil aos domingos.uol. 1° de setembro de 2004.000 leitores. O programa da Rede Globo é um dos telejornais mais vistos no mundo. tinha média de 43 pontos do Ibope.uol.com.100 exemplares e 4.11 Esses cinco produtos jornalísticos geraram quatro grandes grupos de análise: radiojornalismo.S.234 milhões de visitantes mensais no Brasil entre janeiro e setembro de 2004.6 A Rádio CBN é a maior rede de emissoras all news.com.com/cbn/ 8 Revista Veja. divulga o programa como o de maior audiência de São Paulo.http://www1. 9 Fonte: Conheça a Folha . Em 2004. págs. número que lhe dá a primeira posição no ranking dos maiores portais de conteúdo brasileiros e representa cerca de 60% de alcance nesse mercado. Segundo o Ibope NetRatings. Newsweek e U.

textualização ser muito semelhante. Não se pretende fazer uma exaustiva análise de conteúdo. Nesse corpus vasto. são comparados a fim de mostrar diferenças de abordagem. As ferramentas – tanto gerais quanto específicas . depois. a partir desse mesmo fato. em 13 de dezembro de 2003.são usadas e testadas na análise de um fato de repercussão mundial. coerções e vantagens de cada um que esclarecem e exemplificam o funcionamento de determinadas estratégias discutidas durante todo o trabalho. 22 . na conclusão. Os jornais. a prisão de Saddam Hussein. mostramos as especificidades de cada noticiário e o funcionamento das estratégias particulares. para motivar laços e difundir determinados valores. mas apresentar as diferentes estratégias utilizadas pelos noticiários analisados.

23 .

Neste trabalho. pela semiótica narratológica e discursiva de Greimas. introduzimos os primeiros estudos sobre enunciação. criadora de relações intersubjetivas que geram e mantêm crenças que se revertem ou não em determinados atos. É realizada uma breve comparação com outras teorias também semióticas. o formalismo russo. Para os semioticistas. A objetividade merece grande destaque e. Depois. comunicar não é apenas uma forma de transmissão de saberes. A semiótica de Greimas “tenta determinar as condições em que um objeto se torna objeto significante para o homem.RELAÇÕES ENTRE SEMIÓTICA. como forma de comunicação utilizada por certos grupos sociais para exercer essa manipulação de maneira mais efetiva. é não se articular a partir da investigação sobre o signo. A partir desse exame. pela escola de Tartu. o círculo de Praga e o círculo de Bakhtin – foram seguidos por Charles Morris e Thomas Sebeok. a partir dessa questão. Hjelmslev. como lembram Santaella e Nöth: “Os pais – Pierce. verdade são revistas da perspectiva da semiótica. mostramos pontos que consideramos fundamentais para entender o fenômeno comunicacional. notícia. ideologia. ainda na França. não toma a linguagem como 24 . Semiótica e teorias da comunicação O termo semiótica é usado em diferentes orientações teóricas. Em linhas bem gerais. mas principalmente a ação do homem sobre outros homens. principalmente com Barthes. Herdeira de Saussure e de Hjelmslev. Saussure. As concepções de fato. a semiótica se interessa por tudo que faça sentido para o ser humano. Como teoria da significação. pela semiologia de extração lingüística. notadamente a pierciana. nos Estados Unidos. é inicialmente analisado por meio de temas sempre presentes sobre o assunto. realidade. COMUNICAÇÃO E JORNALISMO Neste item apresentamos de maneira rápida algumas bases da semiótica francesa. muitos dos quais do Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo. na antiga União Soviética e pela semiótica funcionalista de Halliday” (2004: 27). o estudo se concentra em expor as relações entre a semiótica de Greimas e as teorias da comunicação. O jornalismo. a orientação teórica é a semiótica de Greimas e seguidores. em relação às outras teorias que se preocupam com o sentido. a diferença entre a semiótica da chamada “Escola de Paris”.

incluindo nele uma gama considerável de fenômenos. esculturas. artísticos. Acreditamos que a semiótica tem melhores instrumentos teóricos para analisar os objetos concretos produzidos pela mídia. roupas. são exemplos de textos passíveis de estudo semiótico. o teatro. políticos. por exemplo. Em Dilemas da comunicação. Pesquisa-se sobre o jornalismo. Os autores mostram a interconexão entre os dois campos.14 Não está no escopo desse trabalho definir e listar as teorias da comunicação. a semiótica apresenta-se com um objeto de estudo bem definido. ou melhor. os suportes. as interações. criar uma teoria específica. que dedica um capítulo inteiro à questão. aqui no sentido mais amplo. cidades. programas de rádio ou TV. o cinema. Ao estudar a significação nessas relações. Há estudos. casas. a publicidade. Existem pontos de investigação biológicos. a dança.13 Para localizar esses pontos de divergência e de convergência é preciso inicialmente reforçar que a comunicação de interesse da semiótica. Em outros. Lúcia Santaella e Winfried Nöth fazem um notável levantamento das teorias semióticas e sua relação com os estudos teóricos da comunicação. Já as teorias da comunicação recortam as atividades comunicativas das mais diferentes formas e em perspectivas distintas. sociais. Um texto não é uma “soma” de unidades ou signos. filmes. representante da comunicação na CAPES. fotos. receitas. que disse querer “limpar o lixão da área”. multi e transdiciplinar”. O enfoque recai sobre as estruturas que engendram a significação. novelas. Em relação às chamadas teorias da comunicação12. ver Marcondes Filho (2002). mas também por disputas de espaço institucional. 13 Santaella e Nöth (2004) lembram que a semiótica pode ser possível parte de uma teoria da comunicação. pode realizar diálogos úteis. segue outro caminho. sobre os textos. livros. e ressaltam as possibilidades de enriquecimento conceitual que a semiótica pode trazer para teorias da comunicação. texto sobre epistemologia da Revista Fapesp (nº 82: 12 25 . e sim como sistema de significações. motivadas por desconhecimento. paisagens.sistema de signos. a semiótica greimasiana desenha fronteiras em certos momentos. assim como a fase comunicacional é apenas um dos campos de trabalho da semiótica. sobre os meios de comunicação – as mídias -. Nossa defesa dessa relação. criando relações intersubjetivas e fundando a sociedade. como aponta Fiorin. Jornais. pois a significação decorre da relação” (Barros. músicas. psicológicos. E a semiótica francesa tem enormes contribuições para dar aos pesquisadores e estudantes da área. Sobre o assunto. 14 Essas linhas poderiam ser totalmente dispensáveis se uma confusão entre semiótica e comunicação não fosse observada até em discussões acadêmicas. constituir como objeto da comunicação somente os meios de comunicação e. Os teóricos da comunicação não produziram um método de análise consistente. Decorre daí uma concepção fundamental: a de que um elemento de uma estrutura só adquire valor na medida em que se relaciona com as outras unidades e com o todo de que faz parte. 2001:13). que vão desde a conversação cotidiana até a Internet” (2004: 14). para isso. cibernéticos. pois nesse ponto também há diversas possibilidades de recorte. Ambas se apresentam com caráter “inter. Em “Semiótica e Comunicação” (2004). O resultado são objetos não raras vezes díspares. é “a ação dos homens sobre outros homens. Na obra Comunicação e semiótica (2004). entretanto. Isso alarga o objeto da comunicação. de relações. supermercados. José Luiz Fiorin discute a afirmação polêmica de Wilson Gomes.

escolheu uma perspectiva teórica. nesses casos. A semiótica francesa tem mostrado sua força exatamente em função de modelos de previsibilidade que nascem e são continuamente testados em práticas analíticas. porém de grande amplitude. A semiótica é uma das possibilidades de análise dos fenômenos comunicacionais. de sociólogos. no entanto. para entender uma das formas de comunicação. Ao mesmo tempo. de estudiosos da comunicação. Parece que um problema enfrentado por certos teóricos e diversos pesquisadores diante de objetos concretos é o de se confrontar com a complexa singularidade de manifestação de cada jornal ou de um grupo de jornais. quem se propõe a investigar 100 edições da Veja ou o Jornal Nacional de determinado dia se vê diante de várias dificuldades. é claro.Estudiosos da comunicação podem lançar mão de uma ou mais teorias nas investigações. pelo menos uma questão crucial para o campo de estudos da comunicação no Brasil. a jornalística. senão a questão. Em torno dela. que gerou a entrevista de Gomes e a reação de Fiorin. em termos acadêmicos. 2002). Como apontamos na Introdução. não só para enfrentar antigos problemas. Na falta de instrumentos de análise. certos analistas valem-se principalmente das obras generalizantes. Este trabalho. entre outras possíveis e igualmente válidas. os jornais são um enorme desafio para a semiótica. O estudo dos textos alimenta e enriquece as reflexões dos semioticistas. Observamos vários estudos jornalísticos que não conseguiram deixar de ser uma seqüência de comentários genéricos com fragmentos de discurso de autoridade . os semioticistas estão sempre em contato com seus objetos de investigação. cujo resultado pode ser até uma redefinição de seu espaço dentro das ciências humanas e sociais no país .” 26 . das reflexões de autores consagrados. Esse ir-e-vir traz enormes vantagens em trabalhos que devem ter vocação científica. hoje.com todas as conseqüências previsíveis. consolidam-se posições divergentes e. político-institucionais e. se falar em cisão da pequena e aguerrida comunidade científica vinculada a esse campo pode soar como hipérbole inadequada. A análise desses textos suscita questões que fazem avançar a teoria. É por isso que a teoria pode dar grandes contribuições para os estudos de comunicação. novos problemas teóricos e institucionais estão sendo criados.de filósofos. como ainda para encarar novíssimas questões. a autora Mariluce Moura expõe o debate: “Ser ou não ser ciência parece ser. E as novas teorizações enfrentam novamente os objetos para que as propostas sejam constantemente testadas. Há muito a ser construído. O olhar sobre o objeto teria como conseqüência uma teorização específica demais. formam-se grupos de interesse. que não poderia ser utilizada em outro. Se os diversos estudiosos de comunicação não conseguem trabalhar diretamente com os produtos jornalísticos. do jornalismo. de disponibilidade de verbas para pesquisa. que fazem considerações úteis. há claramente uma disputa em curso entre os pesquisadores quanto ao status da comunicação.

Muito pensadores assumiram uma postura combativa no debate na área nos anos 70 e parte dos 80. pelo cruzamento de mídias. Caderno Mais da Folha de São Paulo. que teve seu momento e sua história. explicam os autores. na arte. pela Internet. que ainda persiste. para aumentar o poder de nosso patrão. Nesse momento. pág. seus produtos e conseqüências sociais. uma moda”.como as apresentadas. Como pretendemos mostrar durante o trabalho. Na sua epistemologia. desmobilizar. a não ser na fantasia daqueles que. “a semiótica tendia a ser vista como mais uma área de subordinação à razão instrumental. pelos sites.15 A semiótica. no entanto. A teoria é também muito útil para evitar simplificações comuns na análise dos objetos jornalísticos. buscavam encontrar algo para substituir o vazio intelectual que nos assolou nos anos 90. se contrapõe a qualquer niilismo que invade discussões sobre o jornalismo e a própria idéia de significação. no máximo. no Brasil. Estudar discursos. à busca de resistência dos intelectuais latino-americanos contra o imperialismo cultural que se realizava através da comunicação massiva. serve como caminho também para se contrapor à crítica maniqueísta e superficial dos jornais. O diretor ou o editor-chefe começa a reunião de pauta com a seguinte pergunta: “O que faremos hoje. se envolvem nos debates da chamada pós-modernidade. “Não é difícil perceber o quanto essa concepção negativista da comunicação se ajustava. 27 . aprofundar estudos sobre os meios de comunicação. visando à manutenção do domínio econômico e da hegemonia política sobre os países dependentes” afirmam Santaella e Nöth (2004: 14). na época. que não raras vezes degenerou no descompromisso intelectual. enganar e oprimir a população. ávidos por um novo ‘ismo’. Há quem imagina certas rotinas na redação de grandes empresas jornalísticas. A partir dos anos 80. e impedir que os trabalhadores tenham consciência de que são explorados?” Essa visão. 10. a semiótica é uma ferramenta que possibilita compreender melhor as estratégias de persuasão dos discursos jornalísticos. O Brasil estava dividido pela ditadura militar. Para Ciro Marcondes Filho. senhores. na sua busca pelo 15 In “O conceito que nunca existiu”. isso ainda não justifica uma época. “não há e nunca houve um pós-moderno. por exemplo. é uma caricatura da crítica aos meios de comunicação. surgiu a oportunidade para uma visão cética. alguns estudiosos de comunicação. e suas coerções ideológicas. sob censura. descomprometida com a militância política” (idem: 16). 2/11/2003. Que tenha havido um ‘estilo’ pós-moderno na arquitetura. na literatura. Após o engajamento. entretanto. que até hoje persiste.

em primeiro lugar. como sujeitos competentes. Outra questão é que não se pode negar a saudável polêmica que suscita a leitura dos textos instigantes de autores chamados pós-modernos.. Até porque é de uma obviedade inquestionável. um autor leva em consideração as expectativas e as prováveis reações de quem vai receber o texto para construir um discurso com a eficiência desejada. o “receptor” também participa da comunicação.br/fsp/mais/fs1910200305. telespectador ou internauta é de mera transmissão de informações. 16 28 . ouvinte.folha. (. enfim. assim.uol. Isso é pós-modernismo. o texto (idem). o destinador e o destinatário E há quem rotule algumas dessas posturas intelectuais justamente como “pós-modernas”. rever as noções e as denominações de ‘emissor’ e de ‘receptor’ da comunicação. aliás. pois. Folha Mais – 19 de outubro de 2003 – versão eletrônica (http://www1. uma determinada hierarquia de valores que. enfrentar um árduo caminho para compreendê-los.entrevista da jornalista Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke.” Em “A sociedade líquida” . Na comunicação. juntos. acredita que não há nada a ser debatido. os participantes se constroem e constroem.16 A semiótica não nega a complexidade de muitos fenômenos. a inserção sócio-histórica e ideológica dos sujeitos envolvidos” (2003: 47). O ato de comunicar. Os sujeitos da comunicação devem ser considerados. Para a autora. impõe a existência de simulacros. afirmar que o Jornal Nacional manipula a nossa emoção. Barros critica o caráter demasiadamente mecanicista de alguns modelos comunicacionais “mais apropriados à comunicação entre máquinas e que não levam em consideração. uma percepção do mundo.com. por exemplo. Grosso modo. que todas as sociedades são igualmente boas ou más. Mais complicado é tentar responder: como fazem isso? Ponto de vista semiótico sobre a comunicação Os semioticistas discordam da idéia de que a relação entre autor e leitor. uma ideologia que se recusa a fazer julgamentos e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos e virtuosos. o que.. por exemplo. Diana Luz Pessoa de Barros lembra que os antigos modelos lineares de comunicação – os que tratam da transmissão de mensagem de um emissor para um receptor – foram repensados por outros autores na forma de um sistema de interações (2003: 42). “é preciso.sentido.htm). por exemplo.) Os sujeitos da comunicação não podem mais ser pensados como casas ou caixas vazias de emissão e de recepção de mensagens. Prefere. entre outras coisas. é difícil usar esse rótulo diante da própria complexidade em cercar o fenômeno pós-moderno. Ou que os jornais estão a serviço dos interesses da elite dominante. descarta a idéia de um tipo de regulamentação normativa da comunidade humana e assume que todos os tipos de vida humana se equivalem. Nesse sentido. contudo. é coerente com algumas de suas teses. ou seja. no limite. dentro da definição de pós-modernismo proposta pelo sociólogo Zygmunt Bauman: “Ser um pós-modernista significa ter uma ideologia. No entanto. a teoria só pode estranhar o relativismo absoluto que dominou e domina certas reflexões.

de valores e projetos em comum .. com sistemas de valores que atribuem sentido aos fazeres e aos estados” (Barros: 2001:58). entre destinador e destinatário.Para a manipulação funcionar. confrontar a proposta recebida com o seu universo do saber e do crer. no fazer comunicativo do destinador não apenas como um fazer-saber. na parte do trabalho sobre o gerenciamento do nível de atenção. Há duas qualidades ou competências que possibilitam a existência da comunicação: 1. ou seja.A segunda competência é a semântica. Apontaremos depois. Qualquer destinatário dos jornais. entre outros aspectos. Barros. é necessário. portanto. o saber e o poder realizar a comunicação. A comunicação confunde-se. as estratégias que envolvem a competência modal e a competência 29 . diante do fazer persuasivo dos jornalistas. que os sujeitos partilhem de um mesmo sistema de valores. No jornalismo. com a manipulação e têm ambas a mesma estrutura” (2003: 48).(termos menos restritivos e.) Interpretar. Pesquisas têm mostrado que “para apreender o saber é necessário que o destinatário queira fazê-lo. para o sujeito é. 2. Trata-se de verificar a adequação do novo e desconhecido ao velho e já sabido. lembra novamente que a comunicação como ato não pode ser entendida como um simples fazer-saber do destinador e um adquirir saber do destinatário. mais adequados do que emissor e receptor) têm de ter certas qualidades que permitam que eles se comuniquem” (idem: 48). mudar ou reforçar crenças que redundem em atitudes que podem ou não se converter em ações (fazerfazer ou fazer-agir) de diversas amplitudes.) “uma operação de reconhecimento da verdade. a partir de Greimas e Courtés (1983:69). Isso nos obriga a pensar na comunicação. por excelência.. e no fazer comunicativo do destinatário essencialmente como um interpretar. (.. dessa forma. de ver a peça de teatro comentada ou até mesmo de não fazer nada diante de alguma forma de injustiça. ou melhor. com a partilha. (. de comprar um jornal a apoiar determinado candidato a presidente. realiza um fazer receptivo ou interpretativo. mas principalmente como um fazer-crer e um fazer-fazer. ou seja.. a divulgação de notícias (fazer-saber) está intimamente relacionada ao fazer-crer.A primeira competência é chamada modal e inclui o querer ou o dever. que consiste em comparar e identificar o que lhe é apresentado pelo sujeito do fazer persuasivo com o que ele já sabe ou com aquilo em que crê.

ou. que alicerçam a relação entre destinador-jornal e o destinatáriopúblico. uma abertura sobre o futuro e sobre as possibilidades da ação. não é fundado em um acordo explícito. ou premissas da argumentação. Em outras 30 .. contudo.. Deve ser ressaltado que o contrato semiótico. Por sua vez. que terá conseqüências para toda a nossa análise. “Dizer a verdade”. Afirmam Greimas e Courtés que..semântica dos destinatários dos jornais. de confiança e de obrigação” (1983:84 e 85). Resolvemos discutir essas questões nesta primeira parte do trabalho por duas razões complementares. de ‘contrair’ uma relação intersubjetiva que tem por efeito modificar o estatuto (o ser e/ou o parecer) de cada um dos sujeitos em presença. É nesse sentido que a semiótica fala de um contrato “fiduciário”... expectativas entre destinador e destinatário. Em outras palavras. semioticamente falando. e do outro. “num sentido mais geral. Merecerá destaque o fazer-sentir na relação entre público e produtos jornalísticos. ou seja. (. não é possível começar um estudo sobre o jornalismo dos maiores veículos de comunicação sem desmistificar essas noções e apresentar o ponto de vista semiótico sobre o assunto. Nesta parte do trabalho. um “contrato”. “separar fatos de opiniões e interpretações”. uma espécie de crédito e de débito. queremos abordar o que estamos chamando de cláusulas principais. ao mesmo tempo. A noção semiótica de contrato é um conceito-chave para pensar os relacionamentos entre os sujeitos jornal e público consumidor. essas cláusulas do jornalismo atraem e motivam discussões sobre as bases teóricas da semiótica. as cláusulas revelam uma série de expectativas mutuamente partilhadas que influenciam a produção e o consumo do discurso jornalístico dos grandes noticiários. (. uma coerção que limita de uma certa forma a liberdade de cada um dos sujeitos.. mostraremos mais cláusulas também importantes. “mostrar a realidade” são cláusulas centrais no contrato do jornal com seu público.) O fato é que o estabelecimento da estrutura intersubjetiva é. de um lado. Em outras partes do estudo. Inicialmente. sendo a distância que separa sua conclusão de sua execução preenchida por uma tensão que é.) O contrato aparece (. coerções. “ser objetivo e imparcial nos relatos”. porém de abrangência um pouco mais limitada ou menos proeminentes. pode-se entender por contrato o fato de estabelecer.) como uma troca diferida. A relação de um jornal com o público-alvo pressupõe um grande número de “cláusulas” nesse contrato. Cláusulas principais do contrato jornal-público As duas competências – modal e semântica – necessárias para que a comunicação se estabeleça expõem a existência de acordos. ao mesmo tempo. convenções. de fé.

E resultado de uma interpretação. Verdade e ideologia Para a semiótica. de uma formação ideológica e da concepção. de uma ideologia. de discurso e seus tipos. da persuasão do enunciador para que o enunciatário encontre as marcas de veridicção do discurso e as compare com seus conhecimentos e convicções. nos debates das próximas páginas também há uma pequena apresentação dos fundamentos da semiótica que mais nos interessam e o exame. a verdade é um efeito do discurso. da aceitação do contrato fiduciário e. “Opinião”. próprios de uma cultura. Isso é possível se destinador e destinatário. questão que se relaciona à competência semântica e exige uma espécie de cumplicidade na maneira de recortar e dar sentido aos acontecimentos. ou seja. em outros termos. por exemplo. à realidade. Verdade. Há uma notável discussão sobre o assunto. abrem caminho para uma série de outras reflexões importantes. O contrato de veridicção determina as condições para o discurso ser considerado verdadeiro. portanto.palavras. dentro de um sistema de valores.” Um dos recursos do destinador para persuadir o destinatário a crer na verdade enunciada é elaborar uma representação da realidade que deve ser aceita pelo destinatário. feita por Clóvis Rossi em sua coluna da página 2. assuntos profundamente relacionados. mentiroso ou secreto. das relações entre a teoria. a partir dos quais o enunciatário pode reconhecer as marcas da veridicção. isto é. impõe reflexões bastante específicas. 21 de abril de 2002: 31 . falso. no jornalismo. sem dúvida. o famoso exercício da objetividade do jornalista. realidade e ideologia são. assim. por exemplo. o jornalismo e a comunicação. estabelece os parâmetros. assuma as posições cognitivas formuladas pelo enunciador. decorrentes de outros contratos de veridicção. e creia. A interpretação depende. que envolvem. na Folha de São Paulo de domingo. Comecemos com a questão da verdade que. partilharem de uma mesma visão de mundo. No estudo do jornalismo. Afirma Barros (2001:93 e 94) que o enunciador propõe um contrato que estipula como o enunciatário deve interpretar a verdade do discurso: “O reconhecimento do dizer-verdadeiro liga-se a uma série de contratos de veridicção anteriores. a proclamada habilidade do profissional de ter acesso aos acontecimentos e reportar tudo de maneira fiel. entre outros fatores.

entendida como visão de mundo. é “o ponto de vista de uma classe social a 32 . Essa é uma questão central do nosso estudo sobre o jornalismo..Rossi afirma que um dos deveres maiores do repórter é “buscar a melhor versão da verdade possível de obter”. é necessário definir o conceito de ideologia adotado neste trabalho.motivados principalmente por fatores econômicos. Para seguir em frente. especialmente na visão dominante. houve massacre. Barros afirma que “(. É a ideologia que faz com que cada um tenha uma apreensão da realidade bastante distinta. e reconhecer contradições em cada forma de ver o mundo. que explicita uma cláusula do contrato com o público consumidor de notícias. Ideologia é entendida como “visão de mundo”. frase de Carl Bernstein. Fiorin completa que a ideologia. Essa categorização da realidade renova-se a partir dos conflitos de poder entre segmentos sociais . criticando-a e a ela resistindo” (1988: 150). e israelenses negam as mortes de civis. Notemos como cada um dos grupos beligerantes estrutura seu discurso com base em ideologias opostas. Palestinos dizem que.) a ideologia como visão de mundo permite relativizar a ‘verdade’.. ao mostrar que há vários saberes ligados às diferentes classes. sim.

). neste começo do milênio. which constitute more or less compatible colletions of values. dos gays. Essa ampliação dá conta de diversos fenômenos sociais. those axiologies transform into ideologies. religiões e mesmo as Greimas e Cortés também afirmam que. A3-26/10/2004: 17 33 . a maneira como uma classe ordena. na organização ideológica. os valores são organizados em sistemas e se apresentam como taxionomias valorizadas que se podem designar pelo nome de axiologias. o entendimento da ideologia não apenas em uma concepção de classe. É flagrante. esses valores se transformam em axiologias. do setor exportador. Greimas e Courtés. no Dicionário de Semiótica (1983: 224). nessas últimas conceituações.18 É possível notar. Percebe-se a fragmentação das disputas sociais e o surgimento de demandas corporativas (dos negros. Tarasti (2004: 35) lembra que quando um indivíduo ou grupo adota certos valores como seus. Esse ponto de vista de uma classe social é. aos acontecimentos. essas axiologias se transformam em ideologias. no entanto. sem um horizonte de transformação social fora de limites estreitos. de ordem virtual (idem: 225). A ideologia é apresentada como atualização ou busca de valores. Há uma produção cada vez maior e mais fragmentada de “versões” da realidade a partir de finalidades estratégicas. há uma apresentação de valores de forma abstrata ou temática. Ele faz uma crítica dessa mudança no artigo “Demandas corporativas na modernidade”:19 “Há a acelerada difusão de uma racionalidade política e econômica que alcança. O discurso ideológico. selecionados do interior dos sistemas axiológicos. geralmente. que podem ser consideradas como uma coleção de valores. justifica e explica a ordem social” (1997: 20).. como a família.. podemos considerá-los como ideologia (no sentido restrito.17 Na mesma linha. antes de tudo. notadamente na de Tarasti. the difference between ideologies and axiologies is clear. semiótico. pode ser mais ou menos figurativizado e. suprime ou modifica núcleos sólidos de organização social. converter-se em discurso mitológico (ibidem). no segundo caso. dessa palavra)”. When ultimately an individual or a group tries to legitimize its axiologies to other subjects of its Dasein. No primeiro caso.respeito da realidade. uma atribuição de valores ao mundo. a comunidade (. como aponta o professor de sociologia da USP José de Souza Martins. dos sem-terra. Quando depois um grupo ou indivíduo tenta legitimar sua axiologia para outros sujeitos. seu modo de articulação é sintáxico e são investidos em modelos que aparecem como potencialidades de processos semióticos: opondo-os às axiologias.” 19 Tendências/Debates. o esvaziamento da luta política a partir de conflitos de classe. assim. (…) When an individual or group adopts certain values as its own. de curto prazo. 18 Fragmento original: “From an existential semiotic point of view. those values transform into axiologies. distinguem “duas formas fundamentais de organização do universo dos valores: as articulações paradigmática e sintagmática. Folha de São Paulo. dos bancários).

ajudam a pensar criticamente as demandas sociais no Brasil hoje. sensacionalistas. (..fato .. sem atribuir valores ao que nos informam os nossos sentidos.. mutilá-lo.) As lutas corporativas não emancipam quem luta nem a sociedade iníqua em que a luta se desenrola. (.classes sociais. Cabe aos jornais fazer uma triagem dos acontecimentos. por exemplo. Palestinos e israelenses não negam o acontecimento (as mortes e a destruição). portanto. Não é possível o acesso ao real sem um recorte ideológico. O próprio jornalista nota duas visões de mundo antagônicas que só podem gerar duas interpretações também radicalmente diferentes sobre o que “aconteceu”. Portanto.notícia. Transformar um fato em notícia é também alterá-lo. enfim.) Essas demandas são cada vez mais corporativas. O recorte específico da realidade praticado pelo jornalismo: a notícia No caso de Jenin. Ciro Marcondes Filho (1989:29): “Todos os jornais são.” Com o conceito de ideologia definido. sobre a sociedade de risco. Nenhum foge dessa determinação.)” afirmação merece um olhar semiótico. é possível perceber que o jornalismo tem uma relação com a realidade bastante específica... como a do regime de cotas para negros nas universidades e da partilha corporativa da terra na reforma agrária.) Idéias como as do sociólogo alemão Ulrich Bech. É por isso que a semiótica vê a afirmação da existência de uma dada “realidade” como mais um “efeito” de um texto. A semiótica desenha fronteiras que são percebidas de modo diferente por outros pesquisadores. que exibe mais uma vez certas cláusulas de seu contrato com o público. é sempre um mediador.. Ele reporta o que acontece no mundo para o seu público. É a ideologia que “filtra” a realidade.. já está utilizando um recurso de persuasão. ao fragmentário.. (. Tendemos ao precário.. Por meio da linguagem e da ideologia. porém. contar as grandes histórias que podem repercutir na vida dos leitores. ou. o recortam e o conceituam de maneira distinta: os primeiros falam em “massacre” e os segundos em “um combate feroz”. (. (. quando um jornal constrói um discurso em que afirma mostrar a realidade. ele transforma fragmentos de realidade em notícia. uns mais. Vejamos o que diz. Para seguir adiante é importante diferenciar acontecimento .) Já não são as classes sociais as protagonistas dos conflitos e das demandas sociais e políticas. pode-se voltar ao texto de Clóvis Rossi. Isso porque transformar um fato em notícia não é o mesmo que reproduzir singelamente o que ocorreu. como em tantos outros abordados pelos noticiários.. Um jornalista. Essa 34 . outros menos. para ser mais preciso. ao provisório. dirigi-lo.

por sua vez. e fatos já são argumentos. do ponto de vista argumentativo. entre teóricos da comunicação..) Contudo. no entanto. confundir fato com realidade. também fruto de uma visão de mundo. Reboul. Significa. Mas. Dar “presença” a um fato só tem sentido a partir de uma visão de mundo. para outro aspecto da afirmação. como todo argumento. (. diz que “o acordo repousa primeiramente sobre fatos. crenças (fazer-crer). • Notícia . diremos que o nível do diploma do término do curso secundário nos Estados Unidos nada tem a ver com o nosso (…)” (1998:164).. Uma análise semiótica dos objetos jornalísticos precisa traçar uma fronteira entre acontecimento. Fato . se podemos postular a seu respeito um acordo universal.Concordamos com o autor que o ato de noticiar não é uma mera e inocente mediação entre os jornais e o mundo.)” (1996: 75.76). simultaneamente. contra 75% de americanos (Vial. de realidade. Só estamos na presença de um fato. por sua vez. 4 de janeiro de 1985).. Finalmente. presente. Tornar algo visível. assim como se provou que não é o Sol que gira em torno da Terra. a nenhum enunciado é assegurada a fruição definitiva desse estatuto.Trata-se da primeira eleição e da apropriação que um determinado jornal faz de certos acontecimentos. o fato pode ser contestado. determinar-lhe valor. recorrendo a pessoas competentes: especialistas mostraram que o fato em questão é apenas aparente. Um ponto de vista originário da teoria da argumentação desenha com nitidez essa fronteira. selecionados por ter determinado valor argumentativo. dentro de um objetivo de despertar curiosidade (fazerquerer-saber). porém. Depois. Devemos atentar. comprovados. mostrando que o fato em questão é incompatível com outros fatos. sua ‘interpretação’. É muito comum. Lembram Perelman e OlbrechtsTyteca que “a noção de ‘fato’ é caracterizada unicamente pela idéia que se tem de certo gênero de acordos a respeito de certos dados (. antes de tudo. fato e notícia para expor o caráter persuasivo-argumentativo dessa apreensão da realidade efetuada pelos jornais: • • Acontecimento – É qualquer fenômeno manifestado semioticamente. Le Monde. omitir ou esquecer outros aspectos envolvidos. um jornalista que quer mostrar o caráter ‘antidemocrático’ do ensino cita uma estatística: 25% dos jovens franceses concluem o curso secundário. uma hierarquização de fatos. Por exemplo. é. muito menos com acontecimento. sensações (fazer-sentir) e ações de consumo (um fazer-agir na forma de um fazer-comprar) do próprio meio de 35 . contestando o valor argumentativo do fato.. Essa relação “fato = realidade” também aparece no dicionário Aurélio..). Como? Primeiramente.É. pois o acordo sempre é suscetível de ser questionado (. por conseguinte. colocar fato como sinônimo de acontecimento.. em nosso exemplo. não controverso. Não se deve.

Uma reportagem a apresenta. 21 Observe-se.comunicação. charges e segue a lista). Empatia (quanto mais pessoas puderem se identificar com o personagem e a situação da notícia. mais importante ela é). dentro do próprio ponto de vista da Folha de São Paulo. uma charge a ridiculariza. se vincula a uma notícia. “Ineditismo (a notícia inédita é mais importante do que a já publicada). Essa ampliação se justifica. Proximidade (quanto maior a proximidade geográfica entre o fato gerador da notícia e o leitor. mais importante ela é). que é o de fazer crer na sua atualidade. falaremos bastante em unidades noticiosas. necessita contextualização. o significado histórico). para exemplificar. direta ou indiretamente. mais importante ela é)” (2001: 43). Quase tudo o que aparece no jornal. 36 . 20 É notável como a Folha. pois não atende aos critérios expostos. um editorial opina sobre ela. comentários. O Manual de Redação da Folha de São Paulo expõe todos os critérios para “definir a importância de uma notícia”20. é julgada como desimportante pelos meios de comunicação. 5. virar notícia. Pode ser ainda um editorial. legenda. uma nota. que serão mais bem analisados na perspectiva semiótica durante o trabalho: 1. Para reforçar essa vinculação. 2. Improbabilidade (a notícia menos provável é mais importante do que a esperada). fazer parte de uma determinada narrativa que o hierarquize em relação a outros fatos (o impacto da morte na classe política. a morte de um político é um acontecimento. matéria. questão que será depois estudada. 3. Interesse (quanto mais pessoas puderem ter suas vidas afetadas pela notícia. para o povo. Utilizaremos essa expressão para marcar os elementos de significação de qualquer jornal analisado. 4.21 Do ponto de vista semiótico. transformam o acontecimento em fato. É o caso de uma reportagem na TV. Só que esse fato. nessa definição. Caso os jornais se interessem pelo assunto. uma crônica. Se não é citada nos jornais. um módulo de um diário com título. por sua vez. não expõe com clareza o caráter mais óbvio de uma notícia. É a notícia que gera todos os outros tipos de abordagens jornalísticas aqui analisadas (editoriais. foto. uma crítica. ou seja. a incoerência em determinar tantas restrições para fazer a notícia e afirmar que a aplicação desses critérios deve redundar em “informação objetiva”. não se constitui em fato. questão que abordaremos mais adiante.

a existência da realidade. destacou-se um operário que erguia um cartaz com os seguintes dizeres: “Basta de promessas – Queremos realizações – Chega de sermos enganados”. afirma que “o público – a sociedade – é cotidiana e sistematicamente colocado diante de uma realidade artificialmente criada pela imprensa e que se contradiz. a Folha de São Paulo estampou a visita na primeira página (com um realce somente menor do que o do título da manchete principal): “No ABC. por mais cuidadoso que seja. professor universitário. Em uma foto de quatro colunas. O título principal foi: “Metalúrgicos hostilizam Lula em visita a seu berço político”. exibida ontem no ABC. Na página A5. o presidente Lula foi até a cidade de São Bernardo e discursou para milhares de metalúrgicos. em nota mais discreta de duas colunas na primeira página. trouxe o seguinte título: “Lula acena com correção da tabela do Imposto de Renda”. Na perspectiva da teoria. Jornalistas.A isenção impossível: um mesmo acontecimento e três notícias distintas A semiótica não nega. Qualquer jornalista. E chamou a atenção para o fato de o presidente “incluir a correção da tabela do Imposto de Renda no pacote preparado pelo governo para ser anunciado antes do Dia do Trabalho”. o leitor soube que Lula foi para a porta da Mercedes-Benz participar de um ato para entrega de ambulâncias. O jornal mostrou foto muito semelhante à imagem 37 . Exibiu-se outra foto com uma legenda que era quase redundante em relação ao conteúdo da imagem: “Faixa de protesto. também com grande destaque espacial. submetido ou não aos valores da empresa onde trabalha. a semiótica e o jornalismo. E temos aí uma outra questão importante que envolve a comunicação. obra póstuma. No dia seguinte. Em 26 de abril de 2004. só existe acesso ao “real” por via de textos. em “Padrões de manipulação na grande imprensa”. Na parte interna do jornal. depois de sua apreensão pelo homem. de maneira alguma. de inseri-lo numa escala de valores para transformá-lo em fato e em unidade noticiosa. acreditam na existência de uma realidade plenamente apreensível. a notícia recebeu grande relevância espacial (2/3 da área total da página interna). em geral. o jornal imprimiu como título principal a questão do IR. porém. Perseu Abramo. jornalista respeitado.” O jornal O Estado de São Paulo. não consegue deixar de eleger um acontecimento a partir de uma ideologia. Utilizaremos outro exemplo para discutir como certas noções de realidade são concebidas no jornalismo e para iniciar as primeiras reflexões sobre a objetividade. se contrapõe e freqüentemente se superpõe e domina a realidade real que ele vive e conhece” (2003:24). e alguns analistas da comunicação. Lula ouve vaias e queixas de metalúrgicos”. pedindo a correção da tabela do Imposto de Renda. Por meio dessa matéria.

“matéria” designa a parte verbal mais desenvolvida nas unidades noticiosas. E também. instaura um presidente acuado por sua ex-base sindical. o jornal do Sindicato.813. José Lopez Feijó. Cada reportagem elegeu e organizou. 38 . no palanque. Abaixo da foto. A mesma Folha. entretanto. E nem mais uma palavra de explicação sobre o assunto. o leitor da Tribuna ficava sabendo que o presidente prometera uma resposta para a reivindicação da categoria de pagamento de menos Imposto de Renda. colocou como título principal “Lula promete solução sobre tabela do IR até sexta-feira. Ainda no dia 27. a quebra de expectativas. a humildade e a coerência como tema desse discurso. “onde oficializou o programa de atendimento móvel de urgência no país”. Isso é ainda mais notável quando se constata que o Sindicato mais combativo do País na década de 80. mais contratações. edição 1. que ainda se submete a uma assembléia.22 com o título: “Lula encara protesto e vaia em seu berço político”.” Via-se uma foto do presidente com dirigentes do Sindicato em reunião numa sala. a publicação praticamente sonega a seu leitor a informação de que Lula esteve na Mercedes-Benz 22 Em nosso trabalho. cujas greves apressaram a democratização e o fim da ditadura militar. na qual se vê o mesmo cartaz que afirma que o salário não é renda. Para que essa construção ficasse ainda mais eloqüente. Gancho é uma gíria jornalística que indica diferentes abordagens que hierarquizam as informações – assunto de que trataremos melhor em outra parte do trabalho. A Folha. havia mais um texto sobre a entrega de ambulâncias. a partir de um mesmo acontecimento central (a visita do presidente a São Bernardo) diferentes fatos. ignorou o projeto Samu. jornal da chamada grande imprensa. Podemos observar “ganchos” noticiosos distintos. uma política de salário mínimo e a correção da tabela do IR”. Ninguém vaiou nem mesmo se indispôs com Lula na Tribuna Metalúrgica. outra matéria. “pediu mais empregos. O presidente surge como um político que não esqueceu sua antiga base. Com destaque maior. ouve seus “companheiros” e mostra que tem ação social. utilizou seu jornal para fazer um relato sóbrio e destituído de qualquer polêmica. A matéria da Folha garantiu que Feijó. Seu leitor ficou apenas sabendo que Lula esteve na porta da fábrica. o Tribuna Metalúrgica. diante de Lula.interna da Folha. em um texto que tematiza a traição. Não foi escrita uma linha sobre as vaias. nem sobre as cobranças feitas pelo próprio presidente do Sindicato. Temos a gratidão. em outro texto. parte do projeto Samu 192. o que gerou notícias que apresentaram realidades distintas. Em duas matérias. seu ex-presidente. o que era o projeto Samu.

A construção de uma determinada realidade. sua ideologia. 39 . Reforcemos que cada tomada pressupõe ainda um esquecimento ou um apagamento de tudo mais o que se apresentou no mesmo espaço/tempo da filmagem e que. situações. Luiz Tatit explica que a mídia – aqui no sentido de jornais . fazer-existir:23 “Assim podemos defini-la como um sujeito que faz-ser. mas de “uma das principais bandeiras do Ministério da Saúde”. O jogo com a presença/ausência varia de jornal para jornal. mostradas nesta parte da tese. que delimita o assunto. na III Jornada Internacional do Centro de Pesquisas Sociossemióticas sobre Semiótica e a crítica das práticas mediáticas. ou aberto. na materialidade do texto.. paisagens. é a mídia. O Estado de São Paulo também faz um recorte específico. objetos. se dá a partir de uma visão de mundo. que mostra uma ou mais pessoas. na forma de um “close”. deve-se reforçar. Embora conhecida como possibilidade. com a divulgação dos resultados de suas investigações nesse sentido.) Um exemplo é o problema da corrupção no país. a mídia faz esse fato existir. (. o telespectador ou o internauta não devem desconfiar de que certos aspectos da realidade são silenciados na triagem ideológica para que a 23 Essa e algumas outras reflexões do professor Luiz Tatit. Um enquadramento pode ser fechado. se tornou “ausência”. Não interessa para um semioticista estudar se essa apreensão foi ou não consciente. o ouvinte. como se tenta persuadir o público. Os jornais sempre reportam realidades filtradas. Esses três exemplos não podem ser analisados a partir de noções como “realidade real” e “realidade artificialmente criada” de Perseu Abramo. na PUC/SP. Um texto jornalístico tem como função fazer o parecer real ser sentido como real. uma ideologia. em agosto de 2001. é inerente a qualquer construção discursiva e ao próprio ato de apreensão do real a partir de uma ideologia.tem a função de fazer-acontecer. a entrega de ambulâncias.. Pensemos em uma tomada de câmera em uma reportagem de TV. Não existe nenhuma forma de falar de uma ocorrência qualquer de maneira “isenta”. ou esse ato de pinçar e remontar determinados acontecimentos.” Há outra questão importante sobre a “densidade de presença” que os meios de comunicação cedem a certos fatos. O leitor.para dar seqüência a um projeto social. O importante é verificar. Com as observações de Tatit. não selecionado. que realmente dá existência aos fatos. teoricamente de maior interesse de seus leitores de bom poder aquisitivo. A “pinçagem”. injeta-lhe ‘presença’. não se encontram publicadas. e se concentra na questão econômica relacionada à correção da tabela do IR. a partir de possibilidades de expressão diferentes. Foram anotadas pelo autor deste trabalho e pela colega Kary Motta a partir da conferência de Tatit intitulada A deusa mídia. podemos notar que os jornais dão “densidade de presença” a certos aspectos da realidade e assim expõem sua visão de mundo. O Estadão lembra que não se tratou de uma ação qualquer. Ao revelar um determinado fato.

notícia é também – e. nem compreensão das experiências. muitas vezes. Esses exemplos atestam a razão de a semiótica ser uma teoria que se volta para refletir sobre o “parecer do ser” que os textos manifestam. Além de determinar o que é importante saber. no sentido de tentar impor uma versão sobre certos acontecimentos. com uma descrição minuciosa: “Logo que colocou o pé 40 . Enunciação e efeitos de objetividade Deve-se ressaltar ainda que todos os três conjuntos de textos citados – inclusive o do jornal do Sindicato – estão rigorosamente dentro das regras da chamada construção de um material jornalístico “objetivo”. a omissão não é mentirosa. servindo como mais uma “prova” da veracidade do relato. principalmente . e não uma versão dela. partilham dos mesmos valores. quando o texto foi bem sucedido na maneira de apresentar argumentos que sustentam determinada tese. por exemplo. Não aparecem opiniões. Os depoimentos estão entre aspas. Há a utilização da terceira pessoa. Para a Folha. Esse fato nem merece ser citado. Os fatos surgem como se o próprio leitor tomasse contato com eles. por exemplo. e de dar presença a certos aspectos da realidade e não a outros.“densidade de outros” seja ressaltada. Um discurso que se contrapõe a qualquer ação do governo não pode ver a maioria das atuações de Lula como relevantes. Não há acesso aos acontecimentos “concretos”. A Folha leva o efeito de realidade ao extremo. fora dos quadros de uma linguagem e de uma categorização que acontece com base em um sistema de valores. a função do jornalismo também é a de apresentar conceitos sobre situações. E também. portanto. As fotos harmonizam-se com o que é descrito. Isso acontece geralmente quando jornalista e público. O resultado final apresentado pelos jornais deve ser sentido pelo público-alvo como a própria realidade. numa coordenada espaço-temporal específica. Reafirma-se o tema da traição. Um jornal pode ser entendido como um texto que materializa e congela. atos e seus personagens.o que o presidente não faz e as promessas que não cumpre. partilha da idéia de que a entrega de ambulâncias é um “jogo de cena”. Portanto. O leitor que a Folha de São Paulo constrói. o recorte da realidade que um grupo social faz e julga mais conveniente legitimar para uma camada social mais ampla. obviamente.

A objetividade. leva o meu salário. leão. também na tentativa de interferir na própria dinâmica de criação por meio de uma crítica centrada na discussão ética. precisa ser claramente exposta em um trabalho de análise jornalística por meio da teoria semiótica. Na primeira fila. A segunda é a de que é possível um jornalismo “isento”. da exclusão dos fatos extralingüísticos com o objetivo de buscar homogeneidade de descrição da língua (Greimas e Courtés: 226). Todos esses recursos para simular distanciamento e fidelidade ao real são estratégias de enunciação. porém. a “produção real” do discurso jornalístico. salário não é renda’. Isso acontece porque há uma tendência na área de se pensar o “autor real”.” Nota-se ainda no texto da Folha e do Estado um fazer crer nas regras de respeito à imparcialidade: todos os lados foram ouvidos. A primeira ingenuidade que a análise dos noticiários desfaz é a de que a ideologia se encontra apenas na parte dos editoriais. a partir de quem o faz e como o faz. Landowski explica a enunciação como “ato pelo qual o sujeito faz ser o sentido” e o enunciado “o objeto cujo sentido faz ser o sujeito” (1989: 222). se ocupam fortemente com a produção jornalística. de uma noção nem sempre bem assimilada por estudiosos da comunicação. questões em que Talvez essa seja uma das razões de os estudos da enunciação não terem o mesmo impacto entre teóricos da comunicação em relação aos estudiosos de linguagem. assunto central deste trabalho. leão’. 24 41 . mais atrás. pressupõe um ato de criação. Em outra. ao invés de buscar explicações em um objeto específico. os metalúrgicos ostentavam a mensagem: ‘Tabela sem correção. da verdade e da objetividade e também da imparcialidade como efeito de sentido. “as reais intenções”. Lula teve que encarar as faixas de protesto. ou “texto” no sentido mais amplo. As concepções de Saussure também formaram a base da teoria semiótica. Trata-se. induz seus leitores a uma determinada reação.24 O conceito de enunciação é fundamental para os objetivos da nossa análise. generalista. estava escrito: ‘Xô. por exemplo. Todo enunciado. no entanto. por outro lado. Muitos estudiosos de comunicação. Cada um dos três recortes da realidade. Mesmo vozes criticadas aparecem também enunciando suas justificativas. constituiu-se como ciência autônoma a partir do princípio da imanência. A visão de mundo do jornal paira sobre seu produto e é indissociável de qualquer um dos seus recursos expressivos e de seus conteúdos. que podemos aqui utilizar na mesma acepção de objeto jornalístico. O estudo semiótico da enunciação se interessa pelos efeitos que essa produção deixa apreender. o que serve para reforçar a idéia de “independência” dos dois grandes jornais brasileiros. no entanto. Temos aí uma outra explicação para o fato de certos teóricos preferirem falar da comunicação de uma maneira ampla. Esse ato de criação não se confunde com a produção “real” do texto. a enunciação.no palanque montado no pátio da fábrica. Procuram entender o jornalismo. A Lingüística. E é por isso que a semiótica só pode falar da realidade. a partir de Saussure.

mais interessada em buscar no texto as respostas para investigar. internautas ou ouvintes como “parcial”. todas as noites. Não temos acesso. por exemplo. O que está em discussão. a objetividade descrita pela Folha. foi feito por alguém. Pode-se argumentar que o JN é realizado no Rio de Janeiro. como efeito de sentido construído pelo texto jornalístico exatamente para fazer-crer que os relatos são a própria expressão do que acontece ou aconteceu. Essa estratégia argumentativo-persuasiva para criação de importantes crenças no destinatário acontece em dois patamares complementares: No primeiro. a reflexão sobre a enunciação e seus efeitos tem enorme destaque porque se valoriza o objeto jornalístico como meio de conhecer e apontar as estratégias de manipulação. enviesada. na semiótica.a semiótica acertadamente não se envolve. A objetividade é um dos recursos para tentar “apagar” o modo pelo qual a realidade foi filtrada a partir do sistema de valores do jornal que. O problema. como afirma o Manual de Redação da Folha de São Paulo (2001: 45) e pensada. Fátima Bernardes. a partir de uma 42 . Retomemos a questão da objetividade. Como se verá neste trabalho. Sabemos que o Jornal Nacional. quase alguém “da família”. se torna então uma personagem. um outro espaço e outras personagens para a persuasão do público. O programa elabora um outro tempo. mas como a própria realidade. de caráter geral. telespectadores. e comum a todos os noticiários aqui analisados. É evidente também que a apresentadora Fátima Bernardes não é uma criação de computação gráfica. discutida como uma maneira de relatar um fato com “distanciamento e frieza”. para citar um exemplo. em um determinado espaço. porém. tendenciosa. essa apreensão do real não é sentida por leitores. A avaliação precisa das bases ideológicas do público-alvo na argumentação garante ao jornal estruturar esse discurso que se quer fazer-crer como “analíticoobjetivo” e armar uma ponte entre a objetividade e a verdade. é que objeto jornalístico “JN” nos impõe modos de relacionamento com a apresentadora. a intencionalidade de quem enuncia. a esse ato produtor do texto. Desse modo. Por exemplo: o telespectador do Jornal Nacional tem a impressão de que o programa sempre acontece “ao vivo”. é uma estratégia de enunciação que instaura um efeito de sentido de adequação ao real. porém. produto de um olhar “objetivo”. não quer se revelar como um ator social atuante e interessado nos aspectos sócio-políticos do que noticia. diante de um acontecimento. é possível observar textos que têm um viés ideológico muito evidente. no mesmo momento em que é visto. Do ponto de vista semiótico. um ser humano. como empresa ou parte de um conglomerado de informação. porém. por determinados profissionais. em um determinado tempo. faria o mesmo recorte da realidade. Só que o jornal sabe que seu público. não é esse.

de caráter mais delimitado. podem ser verificados nos textos certos efeitos de sentido de distanciamento.interpretação. de um dado “real”. E quando há choque ideológico. No segundo nível de construção de adequação ao real. “objetivo” que serve de base de construção da argumentação. sem a explicitação de um “eu”. Jornais e público se entendiam sobre o que estava ocorrendo e o que deveria ser feito. Houve patriotismo exacerbado e apelos belicistas dos meios de comunicação dos Estados Unidos após o ataque de 11 de setembro. 27 Esses procedimentos são mais necessários quando não há uma grande partilha de valores entre jornal e público-alvo. Não se trata de julgamento. que determinado recorte da realidade feito pelos jornais reforça ou nega suas visões de mundo e estratégias de manutenção ou busca de poder. Os jornais também procuram persuadir o público-alvo de que o recorte da realidade que efetuam ao noticiar é a própria realidade lançando mão de diálogos. no nível discursivo. Indicam. a técnica mais comum é fazer com que a notícia seja manifestada. 2003. para a maioria dos norte-americanos. Um jornal palestino muito provavelmente apresentou as mortes de Jenin como resultado de um massacre.27 Em jornalismo. O uso da terceira pessoa numa reportagem dá a impressão de que o próprio assunto se apresenta para o público.26 O leitor construído pela Folha de São Paulo. que dizem respeito a estratégias enunciativas específicas. o debate sobre a “veracidade” de um texto é muito mais a exposição de uma crítica de motivação ideológica do que resultado de um exercício analítico. sem exageros. ele se diz “cerceado”. 26 O rótulo de verdade ou de mentira colocado nos produtos dos jornais por determinados grupos sociais tem quase sempre motivação política. filmagens e outras possibilidades de concretude discursiva. Há um efeito de realidade denominado de desembreagem enunciva pela semiótica. partilha da idéia de que Lula é um traidor. por exemplo. na forma de sanção pública. de fotografias. ele se sente “livre”. 28 Uma análise exaustiva dessa questão encontra-se no estudo de editoriais realizado por Norma Discini em “O Estilo nos Textos”.28 A sensação de objetividade não é algo que envolve apenas um contrato entre jornal e público. Quando a visão de mundo de um jornalista bate com a da empresa onde trabalha. entendido com um dado “objetivo” para a maioria dos árabes que vivem em Israel. de opinião – subjetividade do destinador – mas de uma premissa que tem valor quase de “fato”. de lhes dar “significado”. essa apreensão da realidade foi sentida como “objetiva”. o que é muito mais comum. Só que. Editora Contexto. 25 43 . portanto.25 Reforcemos que o parecer verdadeiro é sentido como verdade quando grupos ou pessoas que se comunicam compartilham de uma mesma maneira de categorizar os acontecimentos. Não raras vezes.

no texto verbal. dispensando comentários no material noticioso. O jornalista deve evitar. são taxativos. Manuais de jornalismo. em que se permitirá ao autor manifestar seus pontos de vista. Cláudio Abramo explica que há outras divisões: “No jornal. intrometer-se no assunto reportado: “Faça textos imparciais e objetivos. a seguinte classificação de textos jornalísticos: • • • Objetivos/factuais Interpretativos Opinativos 44 . no Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo. muito estudados pela lingüística e pela semiótica. não se confundem com o que os próprios jornalistas chamam de texto “objetivo”. o repórter também possa interpretar a notícia. “objetividade” é não se envolver com a notícia. mesmo em editoriais. É quando se diz: isso aconteceu e está errado” (1988: 117). Para os profissionais. Raramente alguém diz “eu”. É possível apontar estratégias enunciativas de objetividade em partes do jornal assumidamente opinativas. Não exponha opiniões. A opinião fica um passo além. Isso acontece porque os recursos de objetivação de um texto. portanto. As únicas exceções possíveis: textos especiais assinados. O negrito é de Martins. diz que “o jornal expõe diariamente suas opiniões nos editoriais. Só que o jornal não é feito apenas de textos “objetivos” nessa concepção dos jornalistas. É uma interpretação.O “efeito de neutralidade” Uma questão notável no jornalismo é que quase todos os textos são produzidos em terceira pessoa. a notícia tem aquela objetividade que foi optada pela empresa e cooptada pelo jornalista. os espaços consagrados às opiniões. Pode se dizer: tal fato ocorreu porque antes havia ocorrido isto e amanhã pode ocorrer aquilo. para que o próprio leitor tire deles as próprias conclusões” (1990: 18). Ainda que às vezes. de acordo com o entendimento prévio. como o do jornal O Estado de São Paulo. entre profissionais da área e alguns estudiosos. a concatenação dos fatos e o significado de certas coisas. mas fatos. em que o jornalista deverá registrar versões diferentes de um mesmo fato ou conduzir as notícias segundo linhas de raciocínio definidas a partir de dados fornecidos por fontes de informações não necessariamente expressas no texto” (1990:18). Eduardo Martins. Pode se interpretar o desencadeamento. Há. e matérias interpretativas. A interpretação não é opinião.

Tenta-se fazer crer que a parte de opinião está nos editoriais ou nos comentários dos colunistas. Como os valores ideológicos são indissociáveis de qualquer um deles. Não é exagero afirmar que. que é possível narrar um acontecimento qualquer de forma “objetiva” ou “factual”. antes de tudo. milhares de notícias chegam A única exceção fica para as revistas semanais. internauta ou telespectador sobre a forma de abordagem de um acontecimento. O primeiro problema que surge para abalar essa divisão é que. interpretativos e opinativos – bastante aceita até por teóricos do jornalismo – é. quanto mais complexo for um assunto.29 Nos diários. esse procedimento é mais evidenciado. sem determinar valor para alguns aspectos em detrimento de outros. é preciso explicar a diferença que apresentam de um ponto de vista semiótico. por exemplo. A divisão entre textos objetivos. Já discutimos que. Ninguém consegue contestar. Podemos dizer que a própria idéia de significação é uma “opinião” sobre o mundo. outros encaixes precisam ser realizados. Há ainda outros complicadores para abalar a crença na objetividade jornalística. do ouvinte. do ponto de vista semiótico. Relembremos que todas as narrativas citadas que contam como foi a visita de Lula a São Bernardo são exemplos de “texto jornalístico objetivo”. principalmente o recurso da terceira pessoa. 29 45 . não importa o meio de comunicação e nem sequer as coerções de expressão e textualização. não mais falando de uma mera montagem. mais outra estratégia de criação de crenças. com textos carregados de opinião e interpretação. Há uma justificativa para o sucesso dessa classificação. De nada valem certas obviedades.As estratégias de enunciação discutidas no item anterior se relacionam com todas essas três formas de apresentação dos textos jornalísticos. Algo deve ficar de fora. portanto. mais escolhas deverão ser feitas pelos jornalistas para que seja apresentado na forma de notícia e possa se adequar às necessidades de um jornal. é impossível ter acesso à realidade sem fazer escolhas. interpretativos e opinativos usam quase sempre as mesmas técnicas de criação de distanciamento da enunciação do enunciado. E que o limite da interpretação e da opinião também são reconhecíveis. e novamente se está diante de coerções ideológicas. e sim de um sujeito que é obrigado a fazer julgamentos e escolhas. Textos classificados como objetivos. Estamos. Pesar o que entra e o que sai é. do ponto de vista ideológico. cotidianamente. a valorizar ou desvalorizar diferentes unidades. como a de dizer que um editorial emite uma opinião e um texto factual não a tem. por exemplo. uma atividade que se desenvolve a partir de uma visão de mundo. principalmente na pretensa possibilidade de controle do leitor.

O que varia nos três tipos de textos é a tomada de posição em relação ao que se narra. e que vai “abalar as finanças da companhia aérea”. advérbios. um outro filtro. interpretativos e objetivos mostra é que se tenta fazer-crer na idéia de que existe uma maneira de expor a notícia de maneira “neutra”. entre outros recursos de concretude discursiva. Um texto interpretativo também produz efeito de objetividade. que não se envolveu com a notícia. A classificação dos textos jornalísticos entre opinativos. o único possível. fotos. teoricamente. A seleção editorial. São retomados apenas os detalhes mais contundentes para expor contradições e julgá-las. esse conjunto seria o produto de uma impressionante triagem. portanto. que o texto objetivo concebido pelos jornalistas deve ter um “efeito de neutralidade”. Há. quase sempre. porém. Cede-se a palavra a entrevistados. Nesse caso. Não há preocupação em contar a história. que é produto de estratégias de afastamento da enunciação do enunciado. porém bastante relacionados. Expliquemos melhor. mas não se confunde. o jornalista deve convencer o público de que ele permaneceu neutro na coleta e na apresentação da história reportada. o jornalista vai mostrar envolvimento com a história narrada por meio de certas marcas. antes de tudo. Mesmo que. do ponto de vista semiótico. Os adjetivos são evitados. Raramente há um “eu” assumindo a palavra. O texto é praticamente figurativo. existisse um jornal apenas com notícias “factuais”. discursos construídos em terceira pessoa. que radicaliza o distanciamento entre enunciação e enunciado. O fazer-crer na neutralidade reforça. O texto opinativo. Se enunciador e 46 . O que a classificação entre textos opinativos. como diálogos entre aspas. espacial e actancial. Podemos pensar. já analisados. tarefa já realizada em outras partes do jornal. Há um distanciamento constante no modo de enunciar. o que cria a ilusão de situações “reais” de diálogo. Isso quer dizer que o enunciatário deve ser conduzido a acreditar que o julgamento realizado pelo enunciador é “evidente”. ou “objetivados”. com o efeito de objetividade no jornalismo. Há uma moralização da história. mecanismos de objetividade nos editoriais e nos outros tipos de textos de um jornal. É o caso da apresentação da queda de um avião que fez centenas de vítimas como um acidente “horrível”. Ao mesmo tempo. em si mesma. Há também grande ancoragem temporal. ao “assunto”. filmagens. Tentemos uma aproximação entre esses efeitos de neutralidade do discurso jornalístico e as estratégias de enunciação já citadas. a parte mais subjetiva do texto deve ser avaliada pelo público como resultado dos dados apresentados. interpretativos e factuais/objetivos inclui. da pauta ao resultado das reuniões entre editores é. que gerou “grande comoção”. um texto de sanção. Em um relato que se quer fazer crer como objetivo. Podemos notar a existência de dois efeitos distintos.às redações. por outro lado. é. Há o uso de adjetivos.

47 .) Da mesma forma.. como não pode deixar de ser. de outra perspectiva. no outro. justamente de buscar “a melhor versão” sobre o que ocorreu em Jenin. a questão da verdade. E no texto opinativo o jornal não pretende e não quer ser neutro. tem como característica principal um envolvimento com o que narra. antes de ser uma questão ética. por exemplo. Mais raro. contudo. como deverfazer do jornalista.. ou seja. É o caso do texto de Clóvis Rossi citado anteriormente. no qual um repórter narra suas sensações e o que viu sem expor julgamentos evidentes. é um objeto de luta social. Rossi confessa que sua neutralidade é incômoda. Como lembra Clóvis de Barros Filho na abertura de seu livro sobre ética na comunicação (2001: 9): “A representação do jornal ideal. que só ressalta a complexidade dos conflitos entre grupos e classes na sociedade contemporânea. é exclusivo das unidades noticiosas que se querem fazer crer como factuais.enunciatário partilham dos mesmos valores. O dever-fazer jornalístico mostra-se profundamente relacionado ao fazer-crer dos jornais. contudo possível. É por isso que a objetividade. um fazercrer. enquanto discurso sobre um dever-ser jornalístico socialmente interessado. Resolvemos abordar essa questão porque é preciso separar o estudo dos jornais – freqüentemente a análise do discurso das empresas de comunicação e seus efeitos – das coerções do jornalismo como atividade profissional. temos um dever-fazer. é um texto em primeira pessoa. é uma estratégia de legitimação social de um tipo de produto e deslegitimação de outros. No texto interpretativo existe um rompimento da neutralidade em determinados momentos. O jornalista avalia que não realizou seu trabalho. No primeiro caso. É notável observar que. (. da realidade. carregado de subjetividade. a objetividade. regra que envolve os aspectos éticos da profissão e. até um julgamento pode ser interpretado como “objetivo”. a realidade e a imparcialidade fazem parte de um debate inesgotável. e também a verdade.30 A objetividade como dever-fazer: a ética jornalística Estudaremos agora a objetividade de um outro ponto de vista. os limites profissionais e as estratégias das empresas de comunicação de um ponto de vista ético. O efeito de neutralidade. com a qual concluímos esta parte do trabalho. Inscrevendo-se num quadro de luta pela imposição deontológica (dos deveres) das funções legítimas 30 O editorial. portanto. vinculada ao direito social à informação. retoma. na sua coluna. Diversos teóricos e analistas discutem os valores dos jornais e de seus produtos. Reforcemos que a busca de objetividade pelo jornalista – como dever e exercício que têm muitas características em comum com o trabalho realizado pelo cientista – não pode ser confundida com a objetividade “efeito de sentido” dos produtos jornalísticos. da imparcialidade.

na reflexão sobre a própria atividade jornalística. uma ideologia. não raras vezes. mas pode apresentar outro ponto de vista importante para conhecer os atos humanos. mais socialmente profícuo é o debate. Geralmente o pesquisador se dá o direito de afirmar ter uma certa objetividade no seu trabalho. Um jornalista respeitado como Clóvis Rossi não escapa dessa coerção. Devemos reforçar. procura envolver totalmente o objeto da observação. a história. No entanto. quais são os confrontos de várias visões de mundo nos diferentes textos e os valores em jogo dos grupos sociais e das empresas de comunicação. de Perseu Abramo. “se se parte apenas da constatação de que a objetividade absoluta não existe e que. entretanto.. O estudo e a difusão maior das reflexões sobre objetos concretos da comunicação por meio da análise semiótica podem não só ajudar profissionais e pesquisadores como também auxiliar o público a entender os modos com os quais se concebem verdades e realidades de acordo com determinadas ideologias. professores e deontólogos. E aqui retomamos a discussão sobre a objetividade. ou seja. busca seus vínculos com o todo ao qual pertence. entretanto. não garante a “verdade dos fatos”. Não podemos. Por meio da teoria é possível estudar como os jornais apresentam pontos de vista distintos sobre um mesmo acontecimento ou conjunto de acontecimentos. Maior a intensidade da discussão.do jornal. O trecho a seguir. investiga os momentos antecedentes e conseqüentes no processo do qual o objeto faz parte.. deixar de colocar um problema incômodo. Essa mesma busca pela objetividade. fala aos jornalistas. a objetividade. ou seja. E pode envolver-se não só nas análises das estruturas de manipulação (fazer-crer) como também nos aspectos éticos. é tema de doutrina. ele nega ao jornalista quando estuda a comunicação. 48 .” A semiótica permite esse conhecimento sobre os jornais. (2003: 40). mas bem que poderia ser direcionado aos cientistas em geral: “(. conhecendo-se o que a mídia efetivamente faz. como testemunha ocular de um acontecimento. acadêmicos. há mais de um século. bem como as interconexões internas dos elementos que o compõem. ainda que resvalando um pouco para o positivismo. reexamina o objeto de vários ângulos e várias perspectivas”. que o jornalista não tem como produzir textos sem que estejam inseridos em uma visão de mundo.) O conhecimento da realidade é tanto mais objetivo quanto mais o sujeito observador não se prende às aparências. falar sobre o que a mídia deve fazer só tem sentido se conhecidos os efeitos junto à sociedade. sob pretexto e obrigação de fazer ciência. da qual participam interessadamente empresários e profissionais de mídia. Ele lembra ainda que. O profissional.

as motivações e as conseqüências é uma ação necessária. não se sairá jamais da mais completa subjetividade” (idem). também tem uma função social importante. meramente retórica ou ilusória em um trabalho acadêmico sobre o jornalismo.portanto. Acima das ideologias. A profissão de jornalista. contudo. os atores.sem fazê-la parecer ingênua. historicamente importante e uma outra maneira de interpretar a frase de Bernstein – a “reportagem é a melhor versão da verdade possível de obter” . não vale a pena procurar uma objetividade relativa. há questões para as quais esperamos o empenho desses profissionais. 49 . Relatar os atos humanos. dos interesses das empresas. muito diferentes. das escolhas de todos os tipos que os jornalistas fazem e que desvelam suas visões da realidade. É evidente que as coerções de trabalho de um jornalista e de um pesquisador são muito.

a relação dos jornais com o público-alvo também pode ser examinada como outra história que faz as narrativas das notícias existirem e delas depende. serão retomadas nesta parte do trabalho. Os noticiários perseguem maior audiência (no caso dos programas de rádio ou TV. internautas ou leitores nos níveis sensorial. É preciso salientar que. O foco maior. Do ponto de vista analítico. nesta parte do trabalho. Esclarecidos esses pontos. o relacionamento entre o contador de histórias – o jornal – e o público. comuns a todos os jornais estudados. Para apresentar e discutir o gerenciamento do nível de atenção torna-se necessário inicialmente determinar com mais exatidão alguns aspectos do texto jornalístico. investigaremos as estratégias gerais de gerenciamento do nível de atenção. no entanto. As unidades noticiosas são histórias com seus sujeitos e conflitos.O GERENCIAMENTO DO NÍVEL DE ATENÇÃO Estratégias de persuasão dos jornais No item anterior. além de sites na Internet) ou maior tiragem (a exemplo das revistas e diários). A curiosidade sobre essas narrativas motiva. dedicada à análise de cada um dos quatro grandes grupos de noticiários. Outras cláusulas. Examinaremos inicialmente quem são esses sujeitos instaurados nos objetos jornalísticos e os laços entre eles. discutimos principalmente as grandes bases . 50 . Os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores. constroem as unidades noticiosas e as organizam em edições também sedutoras. mais específicas. é o exame das estratégias de persuasão mobilizadas pelos jornais para fazer o público-alvo realizar principalmente a performance de consumir. O exame desses procedimentos revela o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção. passional e inteligível para que se instaurem e se perpetuem os tão necessários laços com o público-alvo. o fenômeno da atenção no jornalismo será abordado. ouvintes. Para atingir o objetivo. base da lucratividade e do poder das empresas de comunicação.ou “cláusulas” do contrato entre jornais e público. que funda e sustenta a relação enunciador-enunciatário. em grande parte. E também para que o público assuma determinados valores. Os procedimentos específicos serão estudados na segunda parte.

Queremos investigar como as notícias servem para infundir visões de mundo. a não transgredir suas ordens. Sua mãe pedia para que ele parasse. apesar de ordem contrária dos pais. Uma situação entre mãe e filho serve de exemplo. A mãe chama o filho e diz que o melhor amigo dele quebrou o dente e “levou vários pontos na boca” no hospital. Os jornais. Só que.Enunciação jornalística como narrativa O exame de um objeto jornalístico mostra a existência de dois tipos de “histórias” que se inter-relacionam: • • A primeira história se manifesta na própria relação público-jornal. comentários). por exemplo. Vamos expor de maneira mais didática essa questão central de nosso trabalho. mas ele fingia não escutá-la. mas também expõem a maneira como o público deve ver o mundo e enxergar-se nele (dever-ser). Ela tenta persuadi-lo a não fazer a mesma travessura e. Ao relatar essa história. Ela narra então que o menino pulava sobre a cama. É por isso que insistimos em falar de duas histórias muito ligadas. o menino perdeu o equilíbrio. Essa é a razão. apresentada na forma de unidade noticiosa. Outro ponto importante é que o destinador obtém o que quer principalmente a partir da instauração de uma curiosidade (querer-saber) que só é satisfeita por meio da realização de uma ação. a mãe (destinadora) espera um efeito no filho (destinatário): não quer apenas “informá-lo”. motivar o consumo – e a sobrevivência – do próprio jornal. de mostrar o enunciador e o 51 . caiu. ouvintes ou telespectadores é encarado aqui como um tipo especial de história que faz uso de uma outra. após brincar bastante. suas relações e possibilidades de análise. a existência de uma história dentro de outra história. Pode-se verificar que realizamos o estudo da enunciação como um tipo específico de narrativa. ou uma análise narratológica da enunciação. satisfazem a curiosidade sobre as notícias que criaram desde que o sujeito “público” realize o ato de consumo. bateu a arcada dentária numa cadeira e terminou o dia no pronto-socorro. principalmente. artigos. internautas. O relacionamento entre jornais e leitores. A segunda história aparece nas unidades noticiosas (reportagens. Os jornais apresentam notícias que têm essa mesma função da história contada pela mãe: não apenas informam. com clara função persuasiva. charges. editoriais. Podemos observar que há duas histórias que se relacionam: a da criança transgressora e a da mãe que conta a história ao filho. como já pôde ser notado nas páginas anteriores.

no papel de manipulador. como destinatário. um querer (um desejo qualquer. só inicia uma ação se o destinador. Estudaremos agora essas posições para uma apreensão mais completa das formas de relação dos noticiários com ouvintes. Dever e querer geram as quatro grandes classes de manipulação entre destinador e destinatário previstas pela semiótica: provocação. O público pode aparecer como destinador que determina as ações do destinatário jornal.31 Formas de relacionamento entre jornais e público-alvo Mostramos até agora o sujeito jornal no papel de destinador e o sujeito público no de destinatário. ponto de vista mais comum em estudos do jornalismo. de situações.32 Vamos tentar discutir esses Vale lembrar que a semiótica propõe duas concepções complementares de narrativa: “A narratividade como transformação de estados. 32 Quem maneja as crenças (ou o crer) do sujeito é o destinador. de que decorrem a comunicação e os conflitos entre sujeitos e a circulação de objetos-valor” (Barros. Inicialmente. Essa interação se dá a partir de uma performance ou ação que coloca o enunciador jornal no papel de destinador e o enunciatário consumidor no papel de destinatário. Há outra posição verificável nos textos jornalísticos do ponto de vista do estudo da enunciação como uma narrativa. não consegue comer tudo. não vai ganhar doce nunca mais. actantes da enunciação. Um sujeito. Ele manipula o sujeito (aqui no papel de destinatário) para a ação.” 2 – Intimidação: “Se você não comer. intimidação e tentação. fonte de valores do sujeito. telespectadores. por exemplo) ou impondo um dever (uma obrigação) de realizar a performance. como uma curiosidade. deve ser ressaltado que o relacionamento entre sujeitos é sempre fortemente marcado pelo modo de apresentação das unidades noticiosas. a narratividade como sucessão de estabelecimentos e rupturas de contratos entre um destinador e um destinatário. operada pelo fazer transformador de um sujeito que age no e sobre o mundo em busca de certos valores investidos nos objetos. actantes que pertencem à análise da narrativa. 2001: 28). internautas.Sabemos que o público precisa ser persuadido – sempre no sentido semiótico – a manter contato com o jornal.Tentação: “Se você comer a carne.enunciatário. conseguir persuadi-lo desencadeando uma vontade. para depois verificar o que acontece quando se apresenta como destinatário. O jornal como destinador . no entanto. mas como eu sei que você ainda é pequeno. nos papéis de destinador e destinatário.” 4 – Provocação: “O seu prato está cheio. sedução.” 31 52 . ganha o doce. vamos pensar o produto jornalístico como destinador. leitores. Os quatro grandes tipos de manipulação do destinador podem ser exemplificados na relação mãe e filho: 1 . Em qualquer arranjo.” 3 – Sedução: “Só uma criança bonita como você é capaz de comer tudo.

volta-se mais claramente para a tentação. que esclarecem o papel dos jornais como destinadores. 33 53 . No slogan da Folha. também existe uma manipulação por intimidação bastante sutil: se não for por meio da Globo.” O destinatário era levado à ação para evitar que o destinador tivesse uma imagem negativa dele. por exemplo. O slogan como recurso do discurso publicitário tem um sentido vago justamente para que sua significação adquira um certo dinamismo e possa se adequar a um contexto específico. De um lado. uma obrigação de estar bem informado. mostramos que o slogan aparecia em um anúncio que falava sobre emprego. Cada produto jornalístico. base de um contrato social importante. entre outras recompensas.importantes conceitos. É nesse sentido. contudo.). a imposição de um dever-fazer. o conhecimento (o saber) é sempre vendido como instrumento de vantagem competitiva. possibilidades de que a leitura seja motivada por algo que estimule a curiosidade. É possível ainda pensar em uma manipulação por sedução. por exemplo. uma publicidade do próprio jornal . de relação entre iguais. no planeta. Busca persuadir de que apresenta personagens e situações nos programas com os mesmos interesses do telespectador. E nesse texto. “indispensável”33 (não poder não ser). também servia para manipular por provocação. Não se desconsidera. Nos dois casos. que se baseia o slogan da Folha: “Não dá pra não ler” (semioticamente um não poder não fazer). um saber sobre o mundo e sobre si mesmo. tem como característica mais evidente a tentativa de impor uma curiosidade. “Não dá pra não ler” é também algo que se apresenta como irresistível. existe um dever.no qual se insere. ou seja. irmanados por meio do principal sentido manejado pela TV. à esq. a construção de um querer-fazer são as manipulações mais comuns e evidentes entre destinador jornal e público destinatário. Em nosso trabalho sobre a Veja (Hernandes. Na sociedade capitalista. e a tentação. na propaganda do Jornal Nacional. um querer-saber o que está sendo apresentado como notícia no País. Em outras palavras. que aparece. de maneira geral. por meio de uma pequena análise de alguns slogans de 2004. Há também uso do registro informal. sujeito coletivo que inclui enunciador e enunciatário. na qual se tenta afirmar uma imagem positiva do destinatário. Entretanto. também existe uma tentação. ao falar em “a gente”.o slogan está no canto inferior. 2004). a visão (ver reprodução do anúncio a seguir . não há interação. o sentido de um slogan também se constrói em função das relações estabelecidas com um texto – por exemplo. uma vontade. pois comunicava ainda a um provável leitor: “Só quem não quer ter acesso a possibilidades profissionais interessantes não lê a Veja. A maior rede de TV do País cria assim um efeito de intimidade. “a gente se vê por aqui”. e o da Veja. Para fazer o telespectador do Jornal Nacional sintonizar um programa e manter-se ligado à tela. promete-se a ele. pode ser observada uma estratégia de intimidação. principalmente entre profissionais que exercem funções criativas. O slogan da Globo. A intimidação. esse aspecto é mais evidente.

grosso modo. ou obrigações. E quem não sintonizá-la pode ser surpreendido com alguma conseqüência dos acontecimentos. Os concorrentes aparecem como divulgadores de notícias sem utilidade. A publicidade e os slogans dos jornais tentam predispor o público a avaliar positivamente as unidades noticiosas. Deve-se ouvir a rádio porque lá se encontram as notícias mais importantes. No Jornal da CBN.Jornais para grupos mais homogêneos. Temos um leitor manipulado por tentação: ele vai querer ler o jornal para obter a informação que tem uso prático. vão apelar para o lado mais pragmático do enunciatário para conquistá-lo. Outros slogans de jornais e programas ilustram bem as cláusulas desse contrato fiduciário que se funda na criação de desejos. o telespectador. o ouvinte. o internauta interpretam se o 54 . Sabemos que essa forma de manipulação é apenas uma parte do percurso que estamos analisando. O seu leitor é aquele que não perde tempo. Não só intimida e provoca como também seduz. do momento em que o leitor. a organização delas nas edições e o tipo de triagem que cada noticiário realiza. Trata-se. O Diário de São Paulo aposta na mobilização de uma racionalidade do leitor: “Informação que você usa”. há um equilíbrio entre intimidação e tentação. ou ainda em ambas as estratégias. em que o público-alvo como um todo tem maior nível de escolaridade. entre querer saber e dever saber: “As notícias que podem mudar o seu dia”. A revista Época enuncia no slogan: “O que realmente importa”. que sabe onde estão as coisas importantes.

55 . contudo. se o que foi mostrado desperta sua atenção. quem produz jornalismo sabe que o provável telespectador vai ligar a TV. a empresa tem o rabo preso com o ‘número’ de leitores.que espera do destinador por ter cumprido sua parte no acordo. o desejo do destinador (mercado) é conhecido por pesquisas numéricas. como nível cultural para entender as notícias) e um poder (como. Dessa forma. Vamos utilizar o JN como exemplo um pouco mais concreto. Essa forma de relacionamento acontece também nos diários. uma visão mais abrangente dessas relações. Note-se o (antigo)34 slogan da Folha de São Paulo: ‘De rabo preso com o leitor’. na realidade. porém. o grande destinador dos meios de comunicação é o mercado. ou seja. Quanto mais 34 Em 2003.jornal e as notícias são interessantes. avalia principalmente o valor do valor da unidade noticiosa como objeto que funda a relação destinador/destinatário.e não intenso – que tenderia ao ‘um’. Os profissionais da Globo querem que o telespectador sintonize o jornal e se mantenha concentrado enquanto o programa é exibido. Na verdade. A satisfação conclui esse percurso do sujeito público como destinatário. envolve todos os jornais aqui analisados. programa de performance. Para ter acesso aos desejos dos destinadores. Esse momento especial é a razão de ser das equipes de jornalismo. a de consumir o programa. assim. ver as manchetes de um programa e julgar. programas de rádio. para realizar a ação. Podemos verificar que o telespectador. “Esse destinador é identificado numericamente – e não qualitativamente -. temos um destinador extenso . se faz pesquisa. Se a manipulação for bem-sucedida. se a manipulação for bem-sucedida) deve desencadear o consumo do jornal. o slogan era “Não dá para não ler”. precisa ter um saber (no caso do jornalismo. Para Luiz Tatit. O jornal como destinatário - Vamos apresentar um outro ponto de vista complementar dos papéis do jornal e do público para obter. recursos financeiros para fazer uma assinatura de um jornal). É preciso lembrar que essa questão. O sujeito público. Por outro lado. por exemplo. revistas. sites. Obter informação que considere útil e/ou que lhe dê alguma satisfação é um dos “prêmios” – uma sanção . Parte desse interesse vincula-se principalmente ao valor relacionado ao objeto “notícia”. Se a instauração do querer e do dever no público-alvo aconteceu de maneira eficaz (em outras palavras. conhecimentos. ele passa a ser um sujeito que decidiu entrar em conjunção com o objeto “unidade noticiosa” para ter acesso aos valores prometidos pelo jornal. O telespectador avalia se ficar diante da tela da TV vai lhe render algum benefício. nesse primeiro momento.

que estatizasse as próprias empresas de comunicação. Palestra citada. encomendadas ou divulgadas pelos jornais podem perfeitamente ser vistas sob esse aspecto. O jornal pode ser entendido como sujeito delegado.”35 Essa formulação de Tatit inverte um raciocínio comum de análise e que foi apresentado anteriormente: o de que os meios de comunicação são destinadores do leitor. Nas duas concepções. telespectadores. significando os detentores do grande capital. A noção de jornais como destinadores é bastante utilizada em estudos mais ideológicos. atualmente o capitalismo neoliberal. e como destinatário. que mostram o compromisso dos meios de comunicação com um determinado sistema econômico. é pouco provável que Marinhos. Com a consulta. 56 . Mesquitas e Civitas (respectivamente proprietários das organizações Globo. inclusive de consumo do próprio material que produzem. já que é. Entretanto. mais autorização para fazer determinados focos sobre assuntos. que tem sua razão de ser na manutenção dos valores. telespectador. Quando medem em pesquisa o que o público quer. mostrado por Tatit. uma espécie de intermediário desse destinador. A semiótica francesa vê os sujeitos como 35 Tatit. a mídia se torna sujeito delegado pela maioria. Nessa concepção. Sujeitos marcados nos jornais e modos de relacionamento Estudemos agora os sujeitos instaurados pelos noticiários e outras formas mais específicas de relacionamento entre eles. que faz-fazer (ou faz-agir). até porque é uma de suas mais poderosas criações. a notícia é pensada. desde que verificados certos limites. como também existe o papel da mídia enquanto “aparelho ideológico do Estado”. se os consumidores quisessem uma sociedade de base socialista.leitores. O número de leitores. Luiz. internauta. Há o componente “mercado-pesquisa-foco”. na de Tatit. ou como o próprio destinador. ouvinte. nas análises mais comuns) devem ser entendidas como níveis complementares de uma mesma reflexão sobre o jornalismo dos principais meios de comunicação. é o “mercado”. Grupo Estado e editora Abril) passivamente cedessem espaço e foco para as discussões e os desejos desse “mercado”. hierarquizada e apresentada a partir de seu impacto. antes de tudo. recebem de volta muito do “desejo” que inspiraram. As pesquisas feitas. Os noticiários martelam certas idéias e criam padrões. empresa capitalista. internautas ou ouvintes só funciona como destinador quando deseja aquilo que está autorizado a ser desejado. Acreditamos que as duas formulações (o público como destinador.

essa presença dos profissionais é mais óbvia. “jornalista” e “personagem da notícia”. que aparecem nas narrativas. colaboradores que se mostram claramente marcados nos textos. uma marca pode ser percebida como superior. Há outros três sujeitos que nos interessam: “público”. marcante. divertida.profissionais . de diferentes posições ideológicas. comentarista. Vamos estudá-los com mais profundidade: • Sujeito 1 – jornal – Pensar em quem assume o discurso em um noticiário não é uma questão tão simples como parece. Norma Discini. e assumem a enunciação. fidedigna. o atacante Rivaldo. um tom de voz. competente.personagens das histórias. Nos impressos e na Internet. uma personalidade. também constrói um ethos e.criações e efeitos do discurso. análises . portanto. ajuda a compor o ethos do próprio jornal. a personalidade da marca pode constituir a base do relacionamento entre o cliente e ela mesma” (1996: 96). na tentativa de marcar seu ethos como “democrático”. em O estilo nos textos (2003) analisa o ethos como um modo de presença de um sujeito que discursa. 57 . podemos verificar essa participação notadamente na forma de artigos assinados. um ethos. um estilo (p. formal. Folha de São Paulo – aparecem como a figurativização do primeiro sujeito evidente. David A. enfim. Por exemplo: um jornal pode abrir espaço para a manifestação de diversas vozes. É importante perceber que o consumidor se relaciona com marcas de veículos jornalísticos e se refere a elas quase como pessoas. No rádio e na TV. reportagens. sugere desenvolver marcas como se fossem “gente”: “Tal como uma pessoa. revistas e nos sites . Essa definição tem diversos pontos em comum com estudos de produtos de comunicação e a idéia de “personalidade de marca” pensada pelos profissionais de marketing. O texto dos jornalistas que não aparece destacado – caso comum nos diários. (. telespectador. • Sujeito 4 ... estamos aqui falando outra vez em “efeito de sentido” do discurso. um jeito de se posicionar no mundo.Cada jornal se reporta a ele de maneira distinta: leitor.Podemos citar o presidente Lula.) Assim como as personalidades humanas afetam os relacionamentos entre pessoas. Cada apresentador. ou o consumidor do produto jornalístico . o palestino morto em um confronto com o exército de Israel. é importante ressaltar. analistas. Os traços recorrentes de conteúdo e expressão produzem um efeito de individualidade e. internauta. por exemplo.São os jornalistas. As marcas – como Jornal Nacional. com um corpo. o “jornal”. • Sujeito 2 .deve ser incluído no primeiro grupo: o efeito obtido é o de parecer que a própria marca se comunica. jovem ou intelectual. casual. Obviamente. Aaker.público. • Sujeito 3 . 31). ativa. repórter. portanto. humorística.

Há também a “personalidade” da empresa. Em função disso. ou corpo oco. O telespectador do Jornal Nacional. A figura do proprietário. são pensados como marcas para que possam assumir e ter identidades administradas. É comum o ethos do dono se relacionar com o ethos de seu veículo. podem aparecer incluídos no item 2 . como qualquer outro produto da sociedade moderna. como a figura de Roberto Marinho em relação ao Jornal Nacional. Jornal Nacional. retomaremos características do consumidor de notícias nas análises específicas. 2 da Folha de São Paulo). Mesquita ou Civita. talvez com exceção de produtos da TV. Nessa parte do trabalho. da “justiça”. é discursivizada de forma a estabelecer uma fronteira com o seu proprietário. Carta Capital. é uma espécie de “casca”. tornando-se “carne” pelo que enuncia. que vai se “enchendo”. Na primeira página da Folha de São Paulo. A marca de um jornal pode até beneficiar-se dos sentidos agregados pela fama de seus proprietários (no caso de aparecerem claramente marcados nos jornais. notadamente por meio de publicidades.36 A complexa construção e a manutenção das identidades de marca envolvem não apenas seus donos e a hierarquia de vozes dentro do próprio jornal. revistas e nos programas jornalísticos de TV). manteve uma coluna na pág. que se vende como voz coletiva. O sujeito jornal inclui o proprietário ou proprietários. por exemplo. Nesse sentido. é raramente exposta. Os donos aparecem como outra “voz” do próprio noticiário. também marca administrável. Nossa hipótese é que a marca de um grande produto jornalístico precisa se apartar de seus proprietários para criar a sensação de que é a porta-voz da coletividade.ouvinte. que fala em nome da “verdade”. por meio de um logo . A construção do público-alvo varia de noticiário para noticiário. a marca. e pelo que a própria empresa que a detém enuncia sobre ela. como Folha de São Paulo. Jornais.“profissionais” (Otávio Frias. Desse modo. não raras vezes. reforçada verbalmente por um slogan. contudo. Ninguém se lembraria da editora da revista Isto É. entre outras. não é relevante pensá-la como um quinto tipo de sujeito marcado pelos textos jornalísticos. abaixo do logo se lê: “Um jornal a serviço do Brasil”. por exemplo. Saliente-se que os proprietários.sua representação visual -. Já afirmamos que a relação do consumidor de notícias – o enunciatário – com seu jornal ou programa jornalístico preferido acontece por meio das marcas. trabalharemos com noções mais genéricas. não esquece que acompanha o programa na Rede Globo. pelo modo de enunciar. um indivíduo. CBN Brasil. Uma marca. ou no item 3 – como “personagens” de seus próprios meios de comunicação (caso de alguém do clã Marinho surgir no Jornal Nacional recebendo prêmios por algum tipo de trabalho filantrópico). 36 58 . como as famílias Marinho.

que só reforça nossos comentários sobre as marcas: “Quando se faz essa embreagem é como se o enunciador se esvaziasse de toda e qualquer subjetividade e se apresentasse apenas como papel social. Cada jornal refere-se a si mesmo como “ele”. 2000. ont ouvert un champ nouveau de la conscience collective. La montée des médias imprimés.uqam. como na frase do pai para o filho: “Papai não gosta que você chore”. Um dos raros teóricos que apresentam uma reflexão mais consistente sobre o assunto é Pierre Levy em “A economia da Atenção”. org. O ponto central da reflexão agora é o fenômeno da atenção. Jornal Nacional. A partir dessa época. Apresentaremos. Folha de São Paulo. O rádio e o cinema abrem novos campos para a manipulação das consciências. immédiatement occupé par les batailles de propagandes engagées par les régimes fascistes et 59 . se conserve e seja cada vez mais vigorosa. pode ser encontrada em Tramas da rede: novas dimensões filosóficas. estéticas e políticas da comunicação – Parente.39 37 Do ponto de vista semiótico. Jornal da CBN. cada vez com mais detalhes. Os jornais buscam a atenção do público-alvo e. observa-se uma enunciação enunciada. http://lajoie. essas estratégias de persuasão mobilizadas pelos noticiários para que a ligação com o público aconteça.ca/cirasi/cirasi-levy. Veja. por sua vez. a música.Uma versão em português desse texto.” 37 O fenômeno da atenção Explicamos até o momento o percurso do sujeito público. pelas outras forças presentes na 2ª Guerra Mundial. traduzida como “O ciberspaço e a economia da atenção”. precisam desencadear desejos e curiosidades (querer-saber). principalmente no papel de destinatário.Outro ponto a destacar das marcas. imediatamente ocupado pelos regimes fascistas e totalitários e. Editora Sulina/Porto Alegre 2004. um enunciado que simula o processo de criação do texto por meio da explicitação de um “eu” que se dirige a um “você”. que caracteriza o momento da manipulação. 39 Fragmento original: “Dès les années trente et quarante du XXe siècle. 38 "L'économie de l'attention" de Pierre Levy – disponível em World Philosophie.html . as revistas. depois. Fiorin (1996: 86) esclarece a razão desse efeito. com uma desembreagem actancial enunciativa. O estudo da atenção aparece disperso e pouco desenvolvido em diversas análises de veículos de comunicação. simula um “ele”. o cinema e a televisão se apoderam de uma parte cada vez maior da consciência coletiva. ou seja. para isso. puis la radio et le cinéma. portal UOL jamais aparecem em primeira pessoa. Só que este “eu”.38 O autor afirma que a busca de uma atenção coletiva é um fenômeno que começa entre 1930 e 1940. l'attention du public était devenue un enjeu majeur des activités politiques et culturelles. é que nunca assumem a posição de um “eu” que enuncia. Pode-se notar a troca de uma pessoa por outra (a primeira do singular pela terceira do singular) que neutraliza parte dos sentidos de proximidade. principalmente no jornalismo. André. Odile Jacob.

puis par toutes les forces en présence au cours de la seconde guerre mondiale. Comme cela a été remarqué très tôt . voit son cerveau directement pris en main par le réalisateur. comme la plupart des centres d'intérêts du public. uma energia criativa unitária” (idem). Certes. la chanson. certas emoções. la direction et la fixation de l'attention s'obtenant d'autant mieux que l'expérience virtuelle proposée adhère aux appétits. do desenvolvimento pessoal. aux hommes politiques et à tous ceux dont la survie et le pouvoir dépend de la qualité et de l'intensité de l'attention du public. le ‘spectacle’ ou les ‘médias’ conçoivent. Le spectateur d'un film. Après la guerre et la politique. fabriquent et vendent directement des ‘contenus de conscience’. du développement personnel. Les ‘industries culturelles’. les industries culturelles. .par l'école de Francfort (Adorno). puis analysé par les situationnistes (Debord et Vanheigem) dans les années soixante. por sua vez. à la sensibilité et aux états d'esprit du public. le cinéma et la télévision se sont progressivement emparé d'une fraction de plus en plus importante de la conscience et de l'attention collective. hoje.dès les années quarante . desembolsamos dinheiro para “um número crescente de profissionais nos fazer experimentar ‘diretamente’ certos estados mentais. que comercializam partes dessa consciência coletiva com vendedores de todos os tipos. uma percepção.” 60 . délivrent des parts de conscience collective aux vendeurs de toutes sortes.” 40 Trecho inteiro: “Aujourd'hui. como “uma inteligência. políticos e aqueles cuja sobrevivência e poder dependem da qualidade e da intensidade da ligação com o público. 2 – A direção da atenção do público. Les industries culturelles proposent à leur public des moments de conscience préfabriqués. uma sensibilidade. des expériences virtuelles partageables et reproductibles à volonté. Les publicitaires ou les " communicateurs ". à leur tour. Les deux grandes opérations des industries de la culture et de la communication sont donc : . certaines émotions. par exemple.40 Levy trata a atenção. tout le décor de nos existences nous fait vivre des expériences. En outre. sont maintenant pris en main par des entreprises de vente de l'attention des auditoires aux publicitaires ou aux départements de communication des grandes entreprises.Levy afirma que. le commerce a conquis ce nouvel espace par la publicité. notamment les magazines.” O que as mídias fazem. da comunicação. notadamente no mundo da terapia. E define consciência de maneira bastante ampla. nous payons un nombre croissant de professionnels pour nous faire ressentir " directement " certains états mentaux. do jornalismo e do show business. un clip publicitaire réunit ces deux opérations. como estratégia de sobrevivência e crescimento é vender a atenção que cativam do público para os publicitários e “comunicadores”. les médias. da moda. O totalitaires. à sensibilidade e aos estados de espírito do público.la direction de l'attention du public (2). com um fenômeno de manipulação da consciência. la musique. Levy conclui então que as indústrias de cultura e de comunicação realizam duas operações: 1. uma ação. du football aux grandes expositions. et notamment dans le monde de la thérapie.A criação direta de estados mentais para a produção e distribuição de experiências virtuais. de la mode. A direção e a fixação da atenção se obtêm quanto mais a experiência virtual proposta adere aos apetites. du journalisme et du show business. qui a explosé dans les années cinquante. tout ce qui nous entoure. Mais l'originalité des industries culturelles est de nous engager dans des voyages virtuels partagés avec des milliers ou des millions d'autres personnes qui ne vivent pas dans le même environnement spatio-temporel que nous.la création directe d'états mentaux par la production et la distribution d'expériences virtuelles (1). de la communication. portanto. S'il est réussi.

O público tem consciência das possibilidades crescentes de escolha. E não só na rede mundial de computadores. não há consumo. Acreditamos que o fenômeno da atenção também pode ser visto de outra forma complementar. Marcondes Filho (1989: 29) faz uma reflexão sobre a notícia como construção jornalística cujo objetivo final é motivar o consumo: “(.) A própria produção da notícia significa a adaptação do fato social a alguma coisa mais rentável. Manter-se fiel a um programa. 41 61 . em duração variada. Uma boa definição de atenção está no dicionário Aurélio: “Aplicação cuidadosa da mente a alguma coisa. concentração. o jornal apresenta unidades noticiosas para consumo. Para se impor nesse cenário. pintado de novo. pode significar a perda de uma oportunidade que geraria mais satisfação. limpado.autor aborda toda a problemática da atenção para justificar reflexões sobre o ciberespaço e como o comércio sofrerá mudanças na rede mundial de computadores. Em termos semióticos. Nenhum grande jornal é exceção. Sem obter e manter a atenção. as estratégias persuasivas (principalmente relacionadas ao querer-saber) devem ser cada vez mais desenvolvidas e utilizadas. mudado para vender. Ele não só é embelezado. forçado.. como ocorre com outras mercadorias na prateleira para atrair a atenção do comprador.” Estímulo significa aqui qualquer descontinuidade de expressão ou de conteúdo que motive. Para atrair a atenção. saturadas de estímulos. qualquer objeto de comunicação é concebido para ser uma máquina eficiente de atração do público-alvo. a atividade de atenção tanto do ponto de vista sensorial (na forma de engajamento de um ou mais sentidos) como cognitivo (que demanda um posterior entendimento. exagerado. reflexão.. cuidado. De qualquer maneira.” Em sociedades com crescentes ofertas de produtos e serviços. um querer-saber). por exemplo. caso de um jornal. A crescente oferta de informação e todos os contínuos avanços tecnológicos na área de comunicação têm tornado os consumidores mais e mais infiéis. o fato social aqui é também acirrado.41 a busca e a manutenção da atenção do consumidor se tornaram vitais para a sobrevivência de qualquer negócio.

ter atualidade. em situação de comunicação. em seguida. É importante insistir em um ponto. ao viver a paixão da curiosidade. Ao ter o interesse despertado. e também a da edição e a do conjunto das edições que as inserem. o sujeito 62 . É preciso obter. Examinaremos agora o fenômeno da atenção como um desdobramento do querer-saber do público. criar empatia. o público só realiza a ação de entrar em contato com um noticiário se tiver a atenção despertada e manipulada.que se relaciona ao seu potencial de despertar e manter a atenção . Finalmente. uma tensão. “fisgar”. só acontece se o sujeito público for convencido de que o noticiário lhe apresenta alguma informação que considere útil e lhe dê alguma satisfação. Para existir o relacionamento enunciadorenunciatário deve-se obter a atenção em três níveis diferentes e complementares: 1. no caso da Internet). os jornais precisam principalmente reter a atenção por meio da apresentação das unidades notíciosas. o Relembremos que uma notícia deve reunir certas características. 2. Os fatos relatados devem afetar a vida do público de algum modo. Verificamos anteriormente como essa noção de utilidade e esse prazer envolvem o dever-saber e o querer-saber. o consumo deve desencadear um hábito. É o caso de apresentar uma situação “inédita”. A atenção se relaciona ao desencadeamento de certas formas de curiosidade – uma paixão simples. manifestado na forma de curiosidades e desejos. ele deve querer repetir a experiência nas edições seguintes (ou atualizações. a curiosidade do sujeito. O sujeito deve. 3. como já citado. pela distribuição delas na edição e no conjunto de edições. o Gerenciar a atenção tem como base a construção da atração das unidades noticiosas.é proporcional ao preenchimento desses requisitos e ao impacto que o jornal acredita gerar no público-alvo. Em resumo. ou seja. para serem consumidos. A importância de uma notícia . se interessar pelas histórias das unidades noticiosas. mesmo com a coerção social de informar-se. jornal e público-alvo. Nossa hipótese é que. A curiosidade e os percursos da atenção O ato de consumo do jornal.o É por meio da unidade noticiosa que circulam valores entre nossos dois sujeitos principais.

gestuais.” (2001: 314). o sujeito consumidor de notícia ilustra a atividade de busca da significação.passa a sentir uma falta. também viva experiências. nessa atividade. simulação de movimentos. mas que. verbais. entre outras maneiras de obter a atenção. Obter o saber por meio da unidade noticiosa é o valor que passa a almejar. musicais. contrastes. As estratégias para gerar um enunciatário curioso não estão ligadas somente ao inteligível. a narrativa jornalística pudesse ser a sua narrativa vivida ou “vivenciável”. como lembram os dois autores franceses.A segunda é a mobilização dos afetos por meio dos conteúdos. sonoras. Discursivizado em leitor. não quer apenas que ele busque e tenha saberes. Em resumo. O entendimento dessa foto. tempo. tem duas maneiras complementares de fisgar a atenção do ponto de vista das estratégias sensíveis e passionais: 1 . É o caso das histórias das notícias que são feitas para comover e contam com o engajamento empático do público. Os jornalistas sabem que o querer-saber também se fundamenta na projeção do sujeito sobre uma notícia como se. de algum modo. o que gera efeitos afetivos. Um jornal. na forma de uma descontinuidade do plano de expressão. de proximidade. viver até mesmo uma insatisfação por não ter um saber. da passagem de substâncias visuais. ou pelo da expressão e da sensibilidade. A estratégia inicial para arrebatar a atenção de um sujeito é de ordem sensível. intimidade. convicções. portanto. caso da foto anormalmente grande na primeira página de um jornal. A passagem do não-saber para o saber dá prazer ao sujeito. como se a notícia fosse uma superfície refletora do próprio destinatário e de seus sentimentos. espaço. Fontanille e Zilberberg afirmam que “os valores passionais apresentar-se-iam em suma de duas maneiras diferentes e complementares: pelo viés do conteúdo e do saber. afetos. É preciso existir identificação entre público e personagens das histórias. conflitos. por exemplo. percebe. ao racional. em formas decodificáveis. para atrair com mais eficiência o enunciatário. o enunciador jornal. O poder de atração desse espelho parece ser proporcional ao grau de nitidez com que permite ao sujeito se enxergar na sua extensão. Os sentidos são arrebatados em função de uma descontinuidade do plano de expressão. é uma de suas recompensas. internauta ou telespectador. resultado de uma projeção axiológica a partir do que ele pressente. que também se revertem em outra forma de recompensa pelo consumo. 2 . São operações que envolvem a dimensão sensível e a passional.A primeira é apresentar unidades para serem sentidas. sente. 63 . ouvinte. como uma foto que atrai o olhar pelas cores.

ocupando aí alguma lacuna. O sentir não paira sobre as limitações ideológicas como algo “puro” ou inato. Ao se “alongar”. mas não eram percebidos. o de querer saber tudo o que aconteceu. O que fazem o jornalismo e a publicidade senão tentar condicionar nossa sensibilidade para que. Se for “fisgado”. uma experiência que pode ser descrita e compreendida. 43 Em Tensão e Significação (2001). A emoção. segundo o Aurélio. De qualquer maneira.deve mobilizar outro patamar de curiosidade. antes é preciso uma compreensão do afeto. Os autores concebem o afeto como portador de significação. intensa. só admite a tradução francesa – de “movimento afetivo. e. É. assunto que abordaremos depois. no meio da profusão de estímulos de nosso cotidiano. para um objeto ou um fim” . parte do mesmo sistema de coerções. psicológico ou mesmo biológico no momento em que se emociona ou sente tensões de qualquer ordem. O enunciatário inicialmente deve “ficar sabendo que não sabe” algo que lhe interessa e se sentir atraído para ler o texto inteiro. estaria no início. 44 Inclinação. como a cidade está melhor ou pior em determinado aspecto? Reportagens sobre assassinatos de mendigos. do temperamento pela maneira súbita. possamos perceber aquele novo carro.42 Fontanille e Zilberberg (2001: 279)43 propõem um “esquema afetivo”. nessa hipótese. qual a extensão desse reexame” (idem). o sujeito passa a viver uma forma de insatisfação. A única questão que nos parece incômoda em alguns estudos de semiótica tensiva e nos mais recentes trabalhos de semiótica que privilegiam uma abordagem a partir da percepção é a valorização de um sujeito sensível que. do sentimento. proporcionada pelos estudos da chamada semiótica tensiva. fazem muita gente perceber como os espaços públicos estão cheios de moradores de rua. por exemplo. estão distantes das bases da semiótica. depois. Emoção. uma tensão. ao contrário. fica a questão de saber se a semiótica da emoção se conformará às aquisições já consolidadas.44 Os autores compararam diversos estados afetivos e mostraram que a emoção se delimita da paixão. nossos sentidos nos alertam a partir de uma visão de mundo que nos estrutura como indivíduos. numa cultura. notadamente se houver engajamento empático com os personagens de uma notícia. ou “fases da afetividade” para investigar os sentidos dos “afetos”. no português. espontâneo. 42 64 . paixão e sentimento: a estrutura dos afetos Para entender a importância da afetividade no processo de captura e de manutenção da atenção. mas que desde o início tem sido excluída das reflexões. paixão e finalmente sentimento. a captura da atenção está profundamente marcada por um sistema de valores que insere o indivíduo numa ordem social. inclinação. ou se levará a um reexame. possam ser distinguidos e ordenados nos sistemas de valores propostos. Em outras palavras. Eles estavam ali antes. capítulo 11. pontual. ao ganhar extensidade na maioria das situações cotidianas. E perguntam: “Se mais ninguém pensa seriamente em negar a significação das emoções e das paixões. vira inclinação (ou afeição). parece apartado – ou o que é mais problemático – acima de qualquer condicionamento social. da inclinação. quem veste tal etiqueta da moda. assim. Não está nos limites desse trabalho discutir uma questão tão complexa cujos contornos. O que o jornal faz é criar valor para determinados aspectos do cotidiano ou produtos para que. palavra aqui entendida como termo complexo que abrange todas as variações de estados de alma. eles afirmam que a emoção é um dos “verdadeiros objetos” da teoria. ou seja.no sentido figurado. Esse é o sentido de inclinação utilizado neste trabalho. inclusive. da disposição. não raras vezes.

No dicionário Aurélio. 2. a paixão como torrente que cava mais e mais profundamente seu leito. vamos encontrar as seguintes definições para emoção: 1. Outro ponto importante é que não se impõem aos afetos durações e graus de intensidade rigidamente marcados. ela é encontrada na paixão. 3. comoção. por exemplo. pode ser descrita como uma “explosão O texto citado é Les passions. Essa redução. Mardaga.45 Os dois semioticistas franceses mostram que. emoção e paixão não estão em confronto. a de inclinação. Parret: “Menciona-se sempre a distinção entre a paixão e a emoção proveniente da Antropologia de Kant: ‘A emoção age como água que rompe seu dique. 124-5. Eles citam uma observação de H. Psicol. 1986. desenha certas fronteiras entre estados afetivos que falantes do português. A emoção se transforma em paixão quando molda o percurso inteiro do sujeito. a qual se acompanha dum estado afetivo de conotação penosa ou agradável. aparecer como uma forma de afeto “concentrado”. podemos perceber as características descritas por Zilberberg e Fontanille nas definições 2 e 3. Comparando com o dicionário brasileiro. Perturbação ou variação do espírito advinda de situações diversas. A teoria. etc. ensinam Fontanille e Zilberberg. tristeza. raiva.. Zilberberg e Fontanille lembram que o desejo de descobrir uma estrutura dos afetos levou pensadores a uma dualidade e a um confronto entre emoção e paixão. A emoção é como uma embriaguez que se dissipa. não é perfeita. 45 65 . mas são momentos distintos de um mesmo percurso afetivo. O clássico “amor à primeira vista”. Liège. como uma doença resultante de uma constituição viciada ou de um veneno ingerido’” (2001: 282). Essai sur la mise em discours de la subjectivité. A definição semiótica de emoção é mais restritiva do que a do dicionário. e que se manifesta como alegria. Reação intensa e breve do organismo a um lance inesperado. Admite-se que o sentido de um afeto se deixa identificar por meio da fase atravessada pelo sujeito. pode unir todas essas fases num percurso instantâneo e. pág. religioso. respectivamente fase emotiva. contudo. “que podemos interpretar como ‘produto’ da rapidez e da intensidade” (2001: 284). portanto. Ato de mover (moralmente).repentina de ocorrer. tendencial. Nesse esquema. não raras vezes. Estado de ânimo despertado por sentimento estético. como parece. se falta “duratividade” à emoção. passional ou permanente. 4. etc. abalo moral. portanto. denominam da mesma maneira ou misturam em diferentes gradações. De qualquer maneira. a passagem da emoção para a fase seguinte. a paixão.

. Do ponto de vista da duração. que dirige e orienta o fluxo de atenção. não apresenta espessura. Se ele desejar apenas viver uma sensação forte (ou afeto intenso) provavelmente vai ver a foto com atenção e nem ler toda a matéria.. que delimita o domínio de pertinência (. de um lado o foco. “atraído” se sente inclinação.. Cette ‘prise de position’ se décline em deux actes. par lequel elle instaure son champ d’enonciation et sa deixis. à busca do objeto pelo sujeito e os conflitos que ele vai viver relacionados ao sucesso ou fracasso. qui dirige et oriente le flux d’attention. tal como a linha. Dissemos que. ao processo vivido por um sujeito que. É importante ressaltar que um sujeito pode ficar apenas em uma fase e se recusar a ir para outra. deve passar da situação de não ter um saber desejado (disjunção) para a de sujeito com esse saber (conjunção). com a inclinação é introduzida a duração. curiosidade. Nesse momento. atento. já que comporta o traço /movimento/” (2001: 289). é desprovida de duração. d’un côté la visée.)” (2003: 35).. A idéia de foco mostra engajamento perceptivo do sujeito. disforia.47 conceitos rentáveis em um estudo do gerenciamento do nível de atenção. Basta retomar o exemplo do leitor. tenso. a inclinação pode dar lugar à paixão. da paixão e do sentimento. em geometria. Caso persista na leitura. o leitor pode ser um sujeito que quer entrar em conjunção com um objeto. 47 No original: “(. no caso do nosso trabalho. no impacto da emoção.). Ao obter a Os dois semioticistas franceses afirmam que. Pensemos em um leitor que vê uma foto de uma cena de guerra e é tomado de emoção.. et de l’autre la saisie. nem o ponto. da emoção e da inclinação. Quem recebe o impacto da emoção não consegue inicialmente nem distinguir se o que causou o choque gera necessidade de união com o objeto ou repulsa.” 46 66 . do corpo “agindo” e fazendo a mediação entre o sujeito e os fenômenos do mundo que se dão a sentir. Afirma Fontanille que “essa ‘tomada de posição’ se declina em dois atos (.) La ‘prise de position’ que détermine le partage entre expression et contenu deviant le premier acte de l’instance de discours. a emoção. ou seja. comme nous l’avons déjà suggéré. sujeito e objeto ainda se confundem. Ou não. no esquema proposto. A fase seguinte do esquema afetivo é a inclinação. tensão. ao sentimento.. a inclinação comporta apenas o traço /espontâneo/. e de outro a apreensão. grosso modo.46 Notícias e engajamento perceptivo Há outra reflexão teórica importante e complementar sobre esse sujeito atingido pela curiosidade. se vinculam a uma “resolução”. A apreensão pode ser relacionada. Nessa surpresa inicial não há nem atração nem repulsão. O sujeito poderá ser considerado “sensível” se se atém à emoção. a foto. “passional” se cultiva a paixão e “terno” se atinge o sentimento (2001: 292). qui délimite lê domaine de pertinence (. definida pela ‘perturbação’. ocupariam o lugar da “somação”.). se a emoção comporta o traço /brusco/. as fases iniciais. atraído pelo texto. e depois. extensão.controlada”: “Na perspectiva do tempo e da intensidade... As fases posteriores.

Contrariamente. torna-se plausível admitir que estas últimas já surgem conformadas por modulações tensivas. 48 67 . por se vincular a essa falta vivida pelo sujeito.. que quer passar de um estado de disforia. por exemplo. porém. Obter a atenção de um leitor. A euforia opera a passagem das relações tensivas. apresentou a problemática da tensividade na obra Raison et poétique du sens. no entanto. provocado pela falta de um saber.)” (2003:198). Luiz Tatit detalha as relações do contato do sujeito com descontinuidades ou diferenças. Tatit sentida pelo sujeito ilustra a passagem de uma explica que uma disforia continuidade para uma descontinuidade que gera a tensão. de um estado de insatisfação para o de alguma satisfação.compreensão que queria. não se deve confundir. para uma situação de euforia e de relaxamento com o consumo do jornal ou. o sujeito consegue passar da tensão para o relaxamento. telespectador.. a integração traduz o maior relaxamento possível (algo que seria expresso pela aceitação passiva e pela manipulação inicial). de uma curiosidade não solucionada. Como estamos realizando uma análise narratológica da enunciação. de uma reportagem. a reintegração permite retomar a forma expandida da euforia: o relaxamento (. A notícia é. as que restabelecem os elos contínuos entre os elementos. pelo menos.). o estado de disforia do sujeito destinatário com um estado possível de disforia dos sujeitos da narrativa. A notícia nem precisa ser disfórica (uma tragédia) para despertar a atenção e produzir curiosidade no público-alvo. imediatamente negado pela forma pontual da disforia: a contenção (expressa pela rejeição do contrato narrativo). caracterizadas por rupturas.48 “Se tomarmos a foria como uma força que transporta as categorias semânticas. da insatisfação para a satisfação. a retenção (expressa pelos antiprogramas narrativos desenvolvidos pelo sujeito) que. A transgressão propriamente dita perfaz a forma expandida da disforia. que incluem “modulações tensivas (ligadas à percepção) e fóricas (ligadas aos sentimentos) – (2001: 18). Tatit fez essas observações a partir do trabalho do semioticista Claude Zilberberg que. é negada pela forma pontual da euforia: a distensão (expressa pela desistência das ações transgressivas (. O querer-saber. a própria representação da descontinuidade. Desse modo. Por fim. parece ser sempre disfórico. como já foi analisado.. ouvinte ou internauta é transformálo em sujeito tenso. “afetivo”. por sua vez. a disforia compreende a passagem das continuidades às descontinuidades que geram as tensões. às relações relaxadas. Citamos jornais que atraem o sujeito inicialmente por meio de uma estratégia sensível que produz o engajamento perceptivo – o foco citado por Fontanille – para desencadear o processo cognitivo – a apreensão. por sua vez..

A edição inteira se apresenta como outro ponto de passagem de disforiaeuforia a mobilizar o sujeito. as notícias. são “pedaços” de narrativas maiores.querer-saber o que aconteceu) para a distensão (momento de consumo da unidade noticiosa). nesses casos. como já vimos. passa para o relaxamento. Algumas notícias. por exemplo. e vão “relaxando” no final. em sua maioria. como. a uma espécie de situação prazerosa nessa passagem de um não saber para um saber. No entanto. A atenção se relaciona. por exemplo. 49 A base deste quadrado é de Tatit (2003: 2000) 68 .O consumo de um jornal pode ser pensado de dois modos complementares. Outras não. o momento de máxima tensão disfórica. com matérias mais leves. é um conjunto de unidades noticiosas. Muitas não têm desfecho se pensadas de um ponto de vista histórico mais amplo. entre outros recursos. solicitado a se manter em contato com o jornal para obter o saber necessário e a conseqüente satisfação.é um momento de disforia que tende à euforia. teoricamente. O próprio jornal. porém. transpõe a retensão para a distensão. É notável que a maioria dos objetos jornalísticos analisados neste trabalho simulam inicialmente. notadamente a uma disforia. utilizaremos o quadrado semiótico49: Percurso da notícia como unidade narrativa completa Percurso da notícia como parte de uma narrativa maior - Retensão (Disforia) Relaxamento (Euforia) Contensão (Não euforia) Distensão (Não disforia) Um leitor. Cada foco em uma unidade noticiosa – ou outro elemento do jornal . O leitor. E também pelo conjunto de unidades que compõem o jornal. com suas manchetes principais. Para explicar melhor essa questão e visualizar esses percursos possíveis. Ao ter a curiosidade satisfeita. Há a curiosidade despertada por uma unidade noticiosa. a divulgação do índice de inflação do mês. esgotam seu potencial de criação de um querer-saber no próprio consumo. uma curiosidade (uma paixão simples – um querer-saber) do enunciatário. pode fazer o caminho da linha vermelha fina: passar da tensão disfórica (a retensão .

a do terrorismo. No entanto. momentos de máxima intensidade. mas complementares de criação de laços por meio de manipulações de ordem sensorial.. Nesse sentido.). obter a informação desejada é a passagem da disforia para a euforia. e da observação de que os jornais. reunida por sua vez na narrativa política. submetida finalmente à própria história. Parte das narrativas exploradas pelo jornalismo nunca se esgotam. ao mesmo tempo. passional e racional. que os números seguintes não poderão deixar de atualizar. analisá-las em detalhes: 69 . Entretanto. o percurso do consumo da notícia pelo enunciatário que parece ser mais comum e desejável pelo enunciador jornal é o da linha vermelha mais espessa.que durou três dias . percurso que se constrói como extensão pontuada pelos conflitos humanos. da atenção para a distração. gera mais curiosidade para a sua própria continuação. para obter e manter relacionamentos com o público. pode ser englobada por outra narrativa maior.e será retomada nas próximas páginas para exemplificar questões relacionadas ao efeito de atualidade .. ao consumir a notícia.Em outras palavras. A partir das discussões teóricas feitas. fica sem saber tudo. Teoricamente. A ação de terroristas islâmicos em Beslan . “Porque. A unidade noticiosa. A própria notícia também cria as bases para que ele se mantenha curioso para o “próximo capítulo”. ao mesmo tempo em que satisfaz parte do desejo que incutiu no sujeito. Landowiski diz que o jornal cria expectativas pela simples distribuição de informação em seqüências.)? Quais lhe serão as conseqüências?”(1989: 119). da tensão para o relaxamento.tem começo. desenvolvem procedimentos distintos. é possível propor um resumo dessas estratégias de gerenciamento do nível de atenção e. porém.. meio e fim.. quais foram os antecedentes do acontecimento (. ele determina. como um fragmento de narrativa. Esquematicamente. todo um programa narrativo virtual. o relato maior da vida. há vários fatores para considerar antes de se aceitar qualquer idéia de simplicidade nesse percurso do sujeito curioso e incitável. pela impetuosidade notadamente das tragédias. depois. ele passa a saber mais. se o número do dia relata ‘o acontecimento do dia’ (.

Mostrar uma paisagem em cores fortes. não racionalizada. uma narração tensa após um momento de maior tranqüilidade. Estratégia de fidelização – busca transformar o sujeito curioso em sujeito fiel. Podemos dar como exemplo ainda tipos gráficos mais espessos em manchetes. um querer-ser e também querer-sentir. Toda essa operação não é 70 . No primeiro contato. cujo caráter descontínuo. Tenta desencadear um hábito. a de procurar a fonte do som para tentar descobrir seu significado. Há também uma manipulação por tentação. diferente.1. por um querer-saber. Envolve sentimentos. encoraja a decodificação (a apreensão). entre outras – deve gerar expectativas positivas no sujeito para os próximos contatos e a vontade de repeti-los. de novidade. Estratégia de arrebatamento – visa a instaurar o sujeito por meio de algum estímulo. Estratégias de arrebatamento e de sustentação A estratégia de arrebatamento. sedução (querer-fazer) e tentação (querer-fazer). fotos enormes numa página são estratégias de arrebatamento. Quando alguém anda na rua e ouve um barulho estranho. o jornal precisa produzir no sujeito uma curiosidade instantânea. 2. uma descontinuidade. O destinador jornal manipula o destinatário por tentação. As reações que os noticiários querem desencadear nessa fase de busca de atenção têm muito em comum com certas situações cotidianas. É mais da ordem das sensações e da definição de emoção de Zilberberg e Fontanille. porém é mais da ordem racional. O sucesso das estratégias anteriores – como a de obter saberes e experiências. que motive ou reforce um engajamento perceptivo voluntário. momento chave que visa a atrair ou a fisgar a atenção de um sujeito e motivar o consumo. quem ou o quê o produziu. É mais da ordem passional. pressupõe a criação de descontinuidades que reclamam uma categorização. 3. Há manipulação por intimidação (dever-ser). interessado em decodificar um estímulo. quase sempre tem a mesma reação. um grande número de cortes em uma cena de pequena duração. inusitadas. Estratégia de sustentação – objetiva transformar o sujeito atento em sujeito tenso que. O sujeito deve ficar interessado em compreender um estímulo (o que gera um foco). se vê diante de detalhes de uma história e deve sentir vontade de conhecê-la por inteiro. inusitado.

porém. ao sentir-se compelido a buscar o significado do estímulo. sustentada. Também chamaremos de “bloco de manchete” todos os outros elementos relacionados ao título. deve ter outra curiosidade despertada. a de querer saber mais detalhes sobre a notícia. as grandes letras de uma manchete devem atrair. 50 71 . a de sustentação. algo que deve ser sentido como instigante. viva uma tensão e. o termo manchete se refere a cada frase de uma notícia destacada e deve conter apenas uma informação. Só que ele.51 que manipulam as duas formas de curiosidades: as provocadas pelas estratégias de arrebatamento. Ática – 1993. fique mais atento ao que o noticiário apresenta. que impõe ao sujeito um querer-saber na forma de um querer entender (que liga a fase da emoção à da inclinação). Vale notar o caráter impactante e pontual desse tipo de curiosidade. ao tentar entender a razão da existência do destaque dado pelo jornal. Devemos notar.pensada.” 51 O significado do termo “chamada” varia bastante. Exclusivamente na Joven Pan. Pelo contrário. e as desencadeadas pela estratégia de sustentação. utilizamos manchete indistintamente para qualquer tipo de jornal. no caso de um diário. deve ficar à mercê da segunda estratégia. à savoir. pelos noticiários. que envolvem o plano de expressão. ou arrebatar. estudada. A base da estratégia de arrebatamento é a instauração. de base passional. além de atrair o sujeito. em conseqüência disso. Maria Elisa. Por meio desse recurso. o olhar do leitor. A atenção é então mantida. sinta uma disforia. ligadas ao plano de conteúdo. que a principal arma de captura da atenção para as notícias são as manchetes ou chamadas. Só que o destinador “jornal”. existem diversas maneiras de fisgar e manter a atenção do público. um estímulo. Em outras palavras. Isso faz com que o sujeito. São Paulo). por exemplo. fruto de um desejo consciente. por questões didáticas. de uma novidade de ordem sensível. Revista – ed.50 O sujeito arrebatado. ao ler a manchete. surpreendido por não ter um saber. Já a chamada é um “flash” gravado sobre matéria ou programa transmitido várias vezes durante a programação para despertar o interesse do ouvinte (Porchat. Esse momento praticamente não tem duração. É preciso ressaltar essa passagem entre estratégias de gerenciamento do nível de atenção: a atração de base sensorial precisa imediatamente ceder lugar a outra. Como citamos há pouco. Toda manchete ou chamada é concebida para “sensibilizar”. sa précarité. precisa “segurá-lo”. cada jornal veicula uma grande carga afetiva e pede concentração para o que destaca “Nous nous aprrochons progressivemente de ce qui fait la singularité de l’attention. Já manchete se vincula mais fortemente ao título em grandes letras dos jornais e revistas. E surge um laço entre o jornal e o leitor. Zilberberg afirma que a singularidade maior da atenção “é sua precariedade” (1990:136). Em alguns pontos do trabalho. agora relacionado à história noticiada. Manual de Radiojornalismo Jovem Pan – 3ª ed. para atrair sensorialmente e passionalmente. é quase automática.

O público deve perceber que não conhece (ou não sabe em profundidade) os grandes destaques da edição. o fazersentir é eficaz em desarmar a racionalidade do enunciador e sua possível negativa em aceitar os valores propostos.. o mais fabuloso. para prender a atenção. discutimos um outro efeito que envolve essas questões. 52 72 . é importante ressaltar. Dizem que Hitler. para construir laços com o público-alvo. Já foi citado que os jornais. tinha a capacidade de. pelo menos os detalhes da narrativa no momento específico da edição. ouvinte. o internauta. que será analisada nas próximas páginas. envolver afetivamente até mesmo seus opositores. não devem ser confundidos. de fazer crer. para utilizar um exemplo extremo.. O jornal impõe seu ponto de vista sobre um acontecimento como “verdadeiro e objetivo” quando avalia que o público-alvo faria o mesmo recorte da realidade por partilhar a mesma ideologia. também envolve uma identificação entre tempo e espaço da notícia e essas mesmas coordenadas do público-alvo. o telespectador ou o ouvinte a buscar mais detalhes. nos discursos em público. expor histórias para que se conheça o que ocorre cotidianamente. A empatia. Uma boa manchete é um pedaço de uma narrativa que clama por completude. A segunda é que essa estrutura narrativa invertida deve incitar o leitor. No início do trabalho. A apresentação das manchetes mostra que. Teóricos da comunicação lembram as conseqüências da identificação: quem se emociona com uma notícia já foi convencido de sua autenticidade. internauta. O aspecto temporal é dos mais relevantes no estudo do jornalismo. Os noticiários também precisam fazer-sentir. no entanto. telespectador. a tentar saber o que motivou semelhante desfecho ou momento narrativo. quase toda narrativa jornalística tem uma característica notável: a de começar literalmente pelo fim. é o resultado da operação de fazer o público sentir o que o personagem da notícia vivencia ou vivenciou. por exemplo. Como isso foi acontecer? O que acontecerá depois? Toda manchete implicitamente faz um convite: “Saiba agora!” Podemos dizer que a satisfação de conhecer a “história toda”. E precisa também ser “chacoalhado”. o mais perigoso. O poder de mobilização afetiva das unidades noticiosas se A empatia gera outro efeito de verdade e realidade. A primeira é que o enunciatário não precisa tomar contato com todo o relato para conhecer o aspecto mais relevante da unidade noticiosa. Para o mesmo tanto de informação. não querem apenas fazer-saber. que a história de alguém apresentada nas notícias pode ser a do leitor. o mais. Em certos momentos. deve corresponder outro tanto de mistério.52 A eficácia da estratégia de sustentação do nível de atenção. Os dois procedimentos.como o mais importante. porém. Há duas razões para essa entrega do clímax da história. o mais prazeroso. em outras palavras. é uma das expectativas associadas à manchete. estruturar modos de o público se perceber nas notícias. Uma das chaves do sucesso da estratégia de sustentação é o estabelecimento de um sentido de identificação entre actante do enunciado e actante da enunciação. maior será a curiosidade e mais atenção o jornal irá obter. ou. Quanto maior for a identificação.

tem outra utilidade. as estratégias mobilizadas para obter e manter a atenção são profundamente relacionadas à idéia e à vibração de uma edição. principalmente temporal. Tempo e também atores e espaços citados devem ser compartilhados por leitores.. Os objetos jornalísticos têm características diferentes de outros textos (aqui no sentido amplo. Essa formulação. 73 . É preciso entender o objeto jornalístico na sua efemeridade. semiótico. enormes desafios teóricos para o bom entendimento da estratégia de sustentação. Para não apelar para pessoas.vincula fortemente ao período da edição na qual estão inseridas.. submetido a uma enunciação global que as produz. Cada edição de um jornal apresenta um momento de consumo bem demarcado. Ou. de um valor ‘ilocutório’ determinado – ao ato de enunciação considerado (. Landowski (1992:170) entende com isso “o conjunto dos traços (lingüísticos ou não) pertinentes para a atribuição de uma significação – notadamente. como complementa Fontanille. “não é uma adição do contexto ao texto” (2003:93). proxemicamente. importantes para a compreensão de certos efeitos. Assim ele é pensado e produzido pelos jornalistas. do termo). Uma peça de teatro ou uma ópera não resulta da adição do contexto de representação ao “texto” verbal ou musical. ao sentido de atualidade. telespectadores e ouvintes. a semiótica pensa a questão na forma de “contexto semiótico”. na colocação de tais formalismos eficazes: o próprio enunciado. que serão abordados a seguir. poderemos entender melhor algumas particularidades da estratégia de sustentação e das formas de fazer-sentir do enunciador. Noticiário antigo não emociona. como o de atualidade (proximidade temporal) e o de empatia (proximidade actancial-espacial). claro. O que chamamos de contexto semiótico seleciona no ‘real’ (referencial) precisamente os elementos significantes que entram. Com esse conceito. Cada edição também tem seu “contexto semiótico” específico. porém. um jornal é um arquivo histórico. Portanto. como a questão da empatia. caso a caso. pelo menos. A mesma estratégia enunciativa é responsável pelos jornais.). tem o impacto afetivo bastante alterado. A noção de que “jornal velho só serve para embrulhar peixe” traz. etc. mas também a maneira como o enunciador se inscreve (gestualmente. Fora desse período. tempo e espaço “reais”. Pode-se reconhecer nessas duas formas de comunicação um conjunto significante vivo.) no tempo e no espaço do seu interlocutor. O autor cita um exemplo. do mesmo modo que todas as determinações semânticas e sintáxicas que contribuem para forjar a ‘imagem’ que os parceiros enviam um ao outro no ato da comunicação” (idem: 171). internautas.

apud Meditsch. vamos examinar a cobertura da ação terrorista na escola de Beslan. efetivo. 4. “O jornalismo tem uma relação específica com o tempo. telespectadores e ouvintes (actantes da enunciação). Para mostrar esse ajuste. Interesse atual: obra sem atualidade. A época presente. com diferentes durações. Qualquer jornal precisa fazer seu consumidor acreditar que as notícias divulgadas são atuais. por sua vez. ensejo. 2. real. na Rússia. pode durar de segundos a meses. “Atual”. que aparece na primeira página de quatro edições seqüências do Diário de São Paulo. Uma história de interesse. portanto. é necessário existir principalmente uma sensação de proximidade temporal. Esses sentidos sobre atualidade mostram a existência de uma sensação de presente que pode ser pontual ou alargada. como se fosse possível “esticar” e moldar o “agora”. 3. Oportunidade. do latim diurnalis-diário). 3. um agora partilhado entre personagens das histórias (actantes da narrativa) e leitores. afirmamos que o efeito de atualidade é essa instauração. 2 de setembro. encontramos a seguintes acepções para “atualidade”: 1. no presente: acontecimento atual. No Aurélio. contudo. 4. pelo menos no período estipulado de consumo da edição do jornal.A proximidade temporal: o efeito de atualidade Para a estratégia de sustentação da atenção do público funcionar. É o intervalo de tempo entre as edições. 1975:295. Filos. que não é antiquado. O discurso do jornalismo se caracteriza pela dupla contemporaneidade. de quintafeira. Que está em ato. pelos jornais. Imediato. 2001: 208). O componente temporal é um dos determinantes para a escolha de um acontecimento e sua transformação em fato e em notícia. que comanda como se deve dar o efeito de atualidade. por ser ‘relato atual de acontecimentos atuais’” (Weaver. Qualidade ou estado de atual. tem quatro sentidos: 1. Que ocorre no momento em que se fala. Em nosso trabalho sobre a Veja (2004:95). até domingo. De sua época. Só que esse alongamento do tempo tem uma missão clara: deve fazer uma unidade noticiosa parecer “presentificada”. de um presente “elástico”. vibrante. internautas. É preciso adaptá-la aos rígidos intervalos das edições. 4 de setembro de 2004: 74 . relação esta que lhe é definidora e se expressa até etimologicamente (em português jornal-jornada. 2.

75 .

Há as seguintes manchetes: Quinta-feira. A cronologia do acontecimento se submete a uma ordem de relevância. temos a repercussão da nova contagem de mortos. o que reduz o potencial de atração dessa notícia. de impacto sobre o enunciatário. 54 O lead. É regra nos grandes diários brasileiros. como e por quê. Para ser encaixada na edição do jornal. a narrativa precisou ser dividida. No quarto. o fato mais importante para só então organizar a história temporalmente e construí-la como notícia. deve responder às perguntas: o quê.53A ação terrorista tem um começo. Esse fato hierarquizador é chamado “gancho”. apenas três linhas no canto direito. sumiu da primeira página da edição seguinte. no dia seguinte. faz novamente o ato receber destaque. nesse intervalo de um dia. que quase dobra o total de vítimas inicialmente anunciado. quando. um meio e um fim. No jornalismo de rádio e TV é mais conhecido por “cabeça de matéria”. na Internet. Cada parte é tratada como uma pequena história. Isso ocorre porque não houve mudança narrativa. no sábado. No domingo. entretanto. Podemos verificar a já citada característica da narrativa jornalística começar pelo fim. O assunto. O gancho. hora após hora. pelo clímax. Comenta-se o que aconteceu e há especulações sobre o futuro. Escolhe-se. Somente as revistas semanais não utilizam plenamente o 53 76 . a da segunda-feira. onde. O trágico desfecho do seqüestro. O momento de máxima tensão narrativa do período reportado determina toda a montagem da notícia. Podemos comparar o gancho a uma locomotiva que tem como função puxar outros vagões e impor uma certa ordem. a repercussão mundial ainda gerou manchete. Dentro do intervalo de 24 horas não é apresentado um relato cronológico. por sua vez. também motiva ainda a construção do chamado lead. 2 de setembro de 2004: Terror faz 400 reféns em escola da Rússia Sexta-feira. 3: Terror mantém reféns em escola da Rússia Sábado: Massacre em escola da Rússia deixa 200 mortos Domingo: Rússia chora 359 mortes O ataque durou cerca de três dias. que impõe uma subordinação em relação a outros fatos de uma mesma história. o parágrafo introdutório de uma unidade noticiosa.54 É notável que o seqüestro das crianças receba uma destacada manchete no jornal de quintafeira e. que é diário. além de se vincular totalmente ao período da edição na qual se insere e dar a sensação de que a notícia é atual. quem.

faz com que a enunciação se torne viva. nesses casos. um momento de referência pretérito em relação ao presente do momento de enunciação. o que foi “esticado”. Nesse caso. importante. O que justifica o destaque dessa notícia. a preparação e a divulgação de suas notícias.Na ação terrorista. mas também está presente em todos os outros tipos de noticiários. lead para evitar que a notícia pareça velha. o aspecto mais curioso ou polêmico de um evento ou a declaração de maior impacto ou originalidade de um personagem” (2001: 28). como as revistas e jornais. 55 Em outras palavras. Há um sentido de concomitância entre a narração e o que se narra. pertinente. seja este o próprio fato.55 Só que existe um outro “tempo”. porém. obriga a mostrar um marco temporal claro. a idéia mais significativa de um debate. que permite situar aquela ação. 2004: 94 a 96). temos um tempo enunciativo. inclui o agora do enunciado. é atual. a segunda manchete (“Terror mantém reféns em escola da Rússia”) só têm razão de ser porque pressupõe a possibilidade de desfecho iminente da história. Note-se. do ponto de vista estritamente lingüístico. Pressupõe que qualquer texto publicado no jornal disponha de um núcleo de interesse. já investigada no nosso trabalho sobre a Veja (Hernandes. é encontrada principalmente nos meios de comunicação mais “lentos”. O Manual da Folha de São Paulo afirma que “o lead tem por objetivo introduzir o leitor na reportagem e despertar seu interesse pelo texto já nas linhas iniciais. podemos verificar um efeito de enunciação que se vale do poder do ethos do jornal e também de outros procedimentos. No caso da manchete “terror mantém reféns em escola russa”. Deve-se notar. por ser contado na edição. não escondem que o fato principal da notícia é passado. é nada acontecer quando se espera uma conclusão. na resposta ao “quando”. Isso mostra que enunciador considerava decrescente o potencial de atração dessa notícia se o desfecho demorasse a acontecer. um “agora” – o verbo manter está no presente do indicativo. no exemplo do Diário de São Paulo. no exemplo. 77 . o fato está em pleno andamento. Lembra Fiorin que “o agora do enunciador é o agora do enunciatário” (1996: 143). O enunciatário geralmente é tomado por uma sensação que o faz crer que até mesmo algo que ocorreu há muito tempo. uma revelação. o momento de referência é o presente. paralelo. acrescentamos. A leitura atualiza o momento de enunciação. da notícia. E as revistas semanais necessitam apagar o grande intervalo de tempo entre a coleta. daquele “agora” fundamental para o efeito de atualidade. Isso acontece porque o lead. Uma estratégia também muito utilizada para “alongar o agora” de uma unidade noticiosa. na maioria das vezes. porém.56 E. Vê-se somente o título no canto da página. 56 Na formulação de Fiorin. Trata-se. o recurso muito comum de apresentar os verbos das manchetes no presente. como o jornal desvalorizou espacialmente a informação para marcar que o período de tensão narrativa permanecia sem desenlace. Os jornais contam certas histórias já ocorridas e.

Em 7 de março de 2005. o comentário sobre as “falhas do progresso”. a posse do novo presidente da Câmara. a manchete de primeira página de esportes do Jornal do Brasil era: “Empate no clássico embola a Taça Rio. segunda-feira é dia de fazer o balanço da rodada de futebol do final de semana. um fato gerador de vida curta. Esses fatos principais são elementos geradores da unidade noticiosa. Basta acrescentar um elemento de atualização ao fato gerador.Inicialmente. O elemento de atualização é um assunto secundário. fica velho com rapidez e. pág.” O elemento de atualização. é “quente”. ou os efeitos de uma tempestade. ao que aconteceu. 112: “Quando as coisas dão errado – Desabamento em aeroporto francês surpreende o mundo. 57 78 . Vejamos o caso dessa manchete e linha explicativa de reportagem sobre tecnologia da Veja 1856. expande a própria “vida” da notícia. a divulgação do índice de desemprego. instaura como momento de referência um “nessa semana”. E se opõe a outro “frio”. Devemos observar que diários e revistas constroem unidades noticiosas cada vez mais analíticas porque não podem competir com as mídias mais rápidas e. E lembra que as falhas são parte do progresso. Quase sempre. passam a sensação aos leitores de que estão mais preocupados com o futuro do que em reportar o que acontece no Na gíria jornalística. Note-se ainda o verbo no presente. Ou seja. de 2 de junho de 2004. um gosto de novidade e atualidade. como um acidente aéreo. Um elemento de atualização muito comum é uma conseqüência do próprio fato. e os previsíveis: um jogo importante de futebol. o núcleo principal de uma notícia. O elemento de atualização também pode ser uma análise ou uma interpretação do fato gerador. deixaria mais claro como momento de referência o “ontem” do fato. Ao ser relacionado ao fato gerador. mesmo em mídias “rápidas”. Há dois grandes tipos: os imprevisíveis. que não perde a atualidade com facilidade. que dá. sua repercussão.” Se estampasse a notícia dos 2 a 2 entre Flamengo e Botafogo. que começa após a partida e vai durar até os próximos jogos. o fato principal ou gerador tem um período de consumo extremamente curto. Nos diários impressos.57 Há diversos modos de atualizar um fato principal e construir uma notícia com sabor de novidade e que será interpretada como “atual”. que não envelhece rapidamente. tem a propriedade de atualizá-lo. se vinculam a situações concretas. A tragédia de Beslan não foi exceção. Ao falar que o jogo “embola” o campeonato carioca. se divulgado sem maior cuidado. Geralmente. não só não atrai o público como compromete a credibilidade do jornal. desse modo. deve-se observar que a maioria dos grandes fatos é noticiada depois de acontecer. como a TV e o rádio. cujo “agora” não pode ser muito alongado.

Telejornais. que enunciam na forma de um fluxo. a atualiza. são gravados. no entanto. construção que visa a alargar o “agora” de uma notícia. De qualquer maneira. O Jornal Nacional não raras vezes apresenta uma notícia e. Há uma outra questão importante para abordar. com o impacto da enunciação das mídias “rápidas”.presente. dentro do próprio programa. Essas duas sensações temporais. apresentar uma produção simultânea à recepção. a promessa de um radiojornal. precisam de um tempo para a produção e distribuição de notícias. no entanto. dá a sensação de que a produção acontece no mesmo momento em que se ouve os programas. rádios e. ou seja. Os próprios jornais. principalmente portais e sites com conteúdo jornalístico. por sua vez. Discutiremos melhor o assunto na análise sobre o jornalismo de TV. ou seja. Meios de comunicação “lentos”. no entanto. às 12h53: 79 . investem na confusão. por exemplo. O rádio. podem inclusive enunciar enquanto algo que consideram importante está em pleno andamento. não de deve confundir o efeito de atualidade. por exemplo. Meios “rápidos”. não podem ser confundidas com o “ao vivo”. na segunda parte do trabalho. portais e sites têm a possibilidade de enunciar em “tempo real”. A expressão aparecia. como diários e revistas. de que tudo é atualíssimo. a enunciação em “tempo real” é prometida com freqüência. por exemplo. Nos noticiários da Internet. de um telejornal ou de um site de notícias de realizar o acompanhamento de um fato enquanto ele ocorre. radiojornais. na página do Jornal do Brasil On Line de 8 de março de 2005. Muitos trechos. A estratégia. como TV. que também envolve coerções e vantagens de cada jornal. faz o jornalismo impresso ficar cada vez mais especulativo e evidencia o ponto de vista do enunciador.

como a piedade e o terror. ou pelas imagens. manejados por uma figurativização intensa. internauta. Os enterros de personalidades rendem espaço para “o lado frágil” dos poderosos. já que expande questões do universo passional entre os actantes narrativos para os actantes da enunciação. Catástrofes naturais e guerras sempre se apóiam nas vítimas “civis” e seus dramas. efeitos de realidade. como na TV. como espetáculo. como a da esperança. Há mobilização de paixões ligadas à disforia no primeiro grupo. tais como “você também pode fazer isso e solucionar seus problemas”. nos mesmos textos que procuram mobilizar afetivamente. mesmo que de poucos minutos. Vinicius Torres Freire. telespectador) e actante do enunciado. tenta obter uma identificação entre actante da enunciação (leitor. Há várias dificuldades para analisar esse procedimento. faz apenas um simulacro. Para isso. muito presente no discurso jornalístico. No segundo caso. em outras palavras. Quando um jornal mobiliza afetos do público ao noticiar.O JB. que tem a oportunidade de se dar bem em relação a outros graças ao seu jornal. um processo ainda incipiente no meio em 2005. O jornal torna-se uma espécie de amigo que tudo sabe e procura cumplicidade com o leitor. na página 2 – de Opinião – da Folha de São Paulo. Problemas políticos e econômicos geram textos com saídas “criativas”. obviamente. ainda precisam de um tempo para edição e lançamento no site. gerar empatia. Busquemos como ponto de partida algumas considerações de um jornalista. fez um notável mea culpa da imprensa em relação à indiferença da mídia por massacres pelo mundo. Nos primeiros. busca-se arregimentar o enunciatário pelo que poderíamos chamar de vínculo social. Podemos perceber a importância dos chamados textos de “serviço”. que podem emocionar. o verdadeiro tempo real da Internet só pode se dar pelos mesmos tipos de transmissão por sons. Nesses exemplos. Nesse sentido. O primeiro grande problema é refletir sobre o assunto sem cair num estudo ontológico. criticou – sem apontar saída . e eufóricas no segundo. internauta ou ouvinte. porém. Notícias escritas. como no rádio. podemos notar dois apelos diferentes. A lista é enorme. ouvinte. A proximidade actancial e espacial – a empatia Os jornais valorizam acontecimentos que mostram experiências “humanas”. Em 15 de março de 2004. O segundo é que há. a mobilização apela para o indivíduo competitivo. Essa concretude discursiva é geralmente associada ao sentido de objetividade e não ao de subjetividade. espectador.a coerção 80 . Discutir a empatia não deixa de ser uma das muitas conseqüências da opção teórica de um estudo da enunciação como narrativa.

parte violenta da miserável periferia da Zona Sul paulistana. ele afirma que tipo de empatia é importante para o jornalismo: “É para quem se parece conosco. O sujeito é manipulado. viver. que abrem espaço somente para situações e problemas que permitem a identificação do público-alvo com as histórias noticiadas: No final do terceiro parágrafo. por sua vez. em tese. vive como a gente. Um shopping center dos Estados Unidos.que a empatia tem para os jornais. outro ponto importante do comentário de Freire é que a empatia depende de o enunciatário reconhecer também como seu o espaço do personagem da notícia construída pelo jornal. é proporcional à projeção do público nos dramas mostrados. Além da identificação actancial. pelos efeitos de realidade que “humanizam” o texto. Tenta- 81 . podemos perceber que o potencial de atração da notícia. para o público padrão da Folha de São Paulo. pode dar mais sentido de proximidade espacial do que o Jardim Ângela. lugares em que ele também poderia. nessa reflexão. cuja isca é a manchete. ou quase sempre quem vive em lugares que têm poderes e haveres bastantes para fazerem suas histórias terríveis serem midiáticas”. Em outras palavras. Dito isso.

Perelman e Olbrechts-Tyteca descrevem o processo: “A presença atua de um modo direto sobre nossa sensibilidade. que “para criar a emoção. mais fraca ela é. Isso porque semelhante escolha confere a esses elementos uma presença. ou em uma cena.167). endereço. O que podemos chamar de projeção empática do enunciatário está diretamente relacionada à manipulação de elementos que tenham concretude discursiva. como a mulher morta entre as ferragens do trem atacado por terroristas em Madri e citada por Vinícius Freire. No extremo oposto. por demais menosprezado. como mostra Piaget. com uma foto. É importante que tenha a sensação de “estar no mundo” e possa “viver” dores. supervalorizado” (ibidem). no Tratado da Argumentação. Nem sempre o efeito de realidade dá lugar à empatia. alegrias e outros afetos mostrados nas histórias. não importa se a unidade é majoritariamente visual ou verbal. o que é visto de um modo melhor ou com mais freqüência é. apenas por isso. O que um jornal faz é eleger e oferecer elementos concretos à consciência do enunciatário. analíticos. Vejamos como essa mobilização afetiva acontece. os esquemas abstratos não atuam muito sobre a imaginação. uma visão ampla. pode não mobilizar nossa 82 . elementos ou partes do texto que um leitor identifica como existentes no mundo natural. ou de representação. existe a já citada representação icônica. (.. Ver alguém ser citado com nome. As noções gerais. que é um fator essencial nas argumentações. A abstração.. mais viva a imagem que evocam. (. aliás. um padrão fixo e grandezas variáveis com as quais ele é comparado. quanto mais gerais eles são. em outras palavras. não só atrás do cumprimento de obrigações (deveres). A semiótica trabalha essas idéias como um modo de figurativização. inteligível da realidade.. busca o genérico. É um dado que. nega o particular e caracteriza os textos temáticos. há a representação abstrata. aquilo em que o olhar está centrado. exerce uma ação já no nível da percepção: por ocasião do confronto de dois elementos. por exemplo.. Ensinam Perelman e Olbrechts-Tyteca. original de 1959. que tem dois extremos: em um deles. Lembram ainda os autores que “o fato de selecionar certos elementos e de apresentá-los ao auditório já implica a importância e a pertinência deles no debate. nas concepções racionalistas do raciocínio” (idem: 132).) O termo concreto aumenta a presença” (1996:166. é indispensável a especificação. A abstração é uma racionalização por excelência.) Quanto mais especiais os termos. dependendo dos efeitos que querem infundir. trafegam entre esses dois extremos. ou seja. por outro lado.se fazer com que seja modalizado por um querer entrar em conjunção com a notícia. Os textos jornalísticos. A iconicidade é uma de suas principais estratégias de elaboração de efeitos de realidade.

Conferem-lhe autenticidade.. que critica a tragédia grega: “Aristóteles constrói o primeiro sistema poderosíssimo poético-político de intimidação do espectador. dados precisos. O espectador assume uma atitude passiva e delega o poder de ação ao personagem.” (1980: 6). como indica Aristóteles. Aspas e respeito.. de eliminação das ‘más’ tendências ou tendências ‘ilegais’ do público espectador. Bernardo. expressivas. Vamos tentar aprofundar o entendimento da empatia por meio das reflexões do teatrólogo Augusto Boal.) Além das declarações. Para haver empatia. toda empatia. Humanizam o texto.. ombudsman da Folha de São Paulo leva-nos a perceber esse processo de criação de ilusão referencial em um texto jornalístico: “Todo bom repórter domina a técnica de extrair de seus entrevistados frases contundentes. Folha de São Paulo. a complexidade figurativa deve estar a serviço da maior concretude possível de uma narrativa em pleno desenrolar. A 6. Sem agir. básicas. entretenimento e jornais. é possível buscar semelhanças entre formas de arte. Essas regras. se tornam ainda mais importantes em textos produzidos em momentos ou locais de tensão e crise. Boal lembra que. Bernardo Ajzenberg. porém. As técnicas estão reunidas no que o teatrólogo chama de Sistema Trágico Coercitivo de Aristóletes. tem como base o efeito de realidade. que particularizem cenários. o repórter confere vida aos relatos com detalhes significativos. sentimentos. vicariamente. Se o jornalismo é um espetáculo. tudo o que vive o personagem. Citações são a alma da boa reportagem. na proposta de R. o movimento. Barthes. mais completo e atraente estará o texto. se estabelece uma relação entre o espectador e o personagem (especialmente o protagonista ou herói trágico). A projeção do enunciatário na história contada é produto de um tipo de ação que vai expondo determinados estados afetivos. contextos. Ensejam uma ponte entre o personagem e o leitor. Quanto mais êxito obtiver aí. sentimos que 58 Ajzenberg.. sem o qual não se poder falar em empatia: “Como o personagem se parece a nós mesmos. não somente no teatro convencional como também nos dramalhões em série da TV e nos filmes de farwest: cinema. pág.afetividade. 83 .” 58 Se o efeito de realidade não pressupõe identificação entre público e personagens das notícias. 23/12/2001. inusitadas. em situações desfavoráveis.). como tantas vezes é assinalado por seus críticos. na qual apareçam certas paixões. teatro e TV (. quando o espetáculo começa. nós vivemos. na tragédia grega. mas funcionar apenas como “ilusão referencial”. Este sistema é amplamente utilizado até o dia de hoje. Devemos ressaltar essa característica: é importante notar a transformação de estados. contidas no livro Teatro do Oprimido e outras Poéticas Políticas. (.

(. da fome. aparentemente a emoção não seria e nem poderia ser intrínseca ao noticiário – que deve mostrar somente os “fatos” ou análises “racionais” desses mesmos fatos. Boal. em seu maior grau. sentimos que estamos vivendo. internautas. Nesse último caso. como sugere Aristóteles. Juntos. na vida real a catarse não deixa de se constituir. ou uma forma de sincretismo entre actantes de dois níveis distintos – narrativo/discursivo e enunciativo de um mesmo texto que se associam por partilhar. de injustiças de todos os tipos. afirma que os espectadores se ligam a seus heróis basicamente através da piedade e do terror porque. como efeito perseguido pela tragédia grega. vivida por meio do personagem. liga-se ao ethos em relação à ação do personagem e também em relação à dianóia. ou seja. Vale lembrar que Boal define ethos de uma maneira um pouco distinta da tratada até agora no trabalho.) Podemos igualmente definir o ethos como o conjunto de faculdades. a empatia é uma fusão afetiva sujeito-enunciatário e sujeito-personagem. como diz Aristóteles. Do ponto de vista semiótico. Um estudo da empatia e da catarse seria muito útil. é o da catarse. ao seu ethos”.... Se na tragédia grega não havia happy end. algo imerecido acontece a um personagem que se parece a nós mesmos. porque ora tentam confundir-se com as narrativas da própria vida.59 Diante da coerção jornalística de produção de textos objetivos. Ao analisar a catarse. O teatrólogo explica a empatia como uma relação emocional entre o personagem e o espectador. mesmo que ilusória. como (. telespectadores. paixões e hábitos” (ibidem: 36 e 37). como a retomada do equilíbrio. que exploraram sentimentos patrióticos e de vingança. geralmente. da continuidade.) A empatia opera fundamentalmente em relação ao que o personagem faz. “A empatia. “que pode ser constituída. ou seja. o discurso. ouvintes em relação aos dramas de famílias vítimas da guerra e do terrorismo. que não vamos desenvolver.. mobilizando pelo temor . de atração por um mesmo objeto e as dificuldades colocadas por um mesmo anti-sujeito. mas merece citação.o medo da violência e a impotência diante da ação dos governos – ora porque fazem aflorar sentimentos que irmanam leitores. por sua vez. para explicar o papel dos meios de comunicação dos Estados Unidos durante e após os atentados de 11 de setembro.) o amor. (. As narrativas jornalísticas se impõem. O efeito de Outro ponto importante. constituem a ação desenvolvida pelo personagem. em termos semióticos. sem viver. Amamos e odiamos quando odeia e ama o personagem” (idem: 37).. por exemplo. de piedade e terror. mas que pode igualmente incluir outras emoções. basicamente. podemos dizer que o ethos é a própria ação e a dianóia a justificação dessa ação. 59 84 . o personagem apresenta dois aspectos. Piedade e terror definem grande parte das paixões disfóricas mobilizadas diariamente pelos jornais na busca de projeção empática do enunciatário nos dramas dos personagens das notícias.estamos agindo. à sua ação. “Para fins didáticos. Para ele. na obra citada. do ponto de vista afetivo. a ternura. o pensamento que determina o ato” (ibidem: 38). o desejo sexual. há uma mobilização pela piedade. ethos e dianóia. de tragédias naturais..

a presença do mythos converte subversivamente o discurso racional em seu contrário. mas um estudo que demonstre. “uma reportagem ilustrada sobre o assassinato de uma criança é suscetível de levantar a opinião pública pequeno-burguesa num momento de condenação ao ato brutal. de forma expressiva.objetividade. não se choca com as possibilidades de manipulação afetiva. ao se engajar empaticamente com a notícia. 1989: 18). bem real: pensa-se agora facilmente que pelo fato de as lágrimas serem verdadeiras. Ali onde a intenção é expressar com rigor a realidade tal como ela é. ao se projetar no texto. 60 85 . Tentamos mostrar. não há politização possível” (idem: 19). 2000: 98). Em projeto de pesquisa . ao ignorar a importância da questão. seria incapaz de suscitar maiores comoções” (Costa. como expressão dos dramas e tragédias humanas (ethos e pathos). nem se dará nunca. que no Nordeste do Brasil morrem anualmente dezenas de milhares de crianças em conseqüência da subnutrição. que os fantasmas. a coincidência oppositorum do jornalismo. Marcondes Filho completa que “não há ação ou envolvimento possível do receptor das notícias se estas não forem associadas à sua realidade específica. apup Marcondes Filho. Como lembra Costa. nem tampouco a linguagem da notícia assumirá jamais a forma de um relato simbólico “puro”: nela se realiza continuamente. porém. desejos e ilusões do ser humano e das sociedades vêm habitar. os relatos das notícias são redutos da racionalidade e da lógica.unb. Outro ponto importante sobre a questão é o uso ideológico da “humanização”. sem ilusões. estaria vivendo relações afetivas como uma atividade além do texto – e parece ser esse o entendimento de diversos pesquisadores. à experiência imediata. estes relatos não conseguem desvencilhar-se de figuras de linguagem que sugerem símbolos afetivos para a criação de imaginários culturais. de qualquer forma.acessado em outubro de 2004.ele expõe: “A princípio.“Análise da narrativa jornalística: a construção da identidade nacional nas notícias sobre a inserção do Brasil no mundo globalizado . 1999: 63 apup Marcondes Filho.” Disponível no endereço: www.60 Vale dizer que a empatia tem um importante papel no sucesso persuasivo de um texto: “A verdade está na realidade do corpo virtual que eu vejo morrer na tela ou na materialidade das lágrimas que esta visão suscita em mim? A ambigüidade é. um reduto exacerbado do racionalismo. com dados estatísticos. sem a vinculação ao contexto de vida. que a empatia é manejada pelo texto e estruturalmente determinável. Na contemporaneidade o jornalismo é o lugar por excelência de realização da ambigüidade e da complexidade da experiência do ser humano. sob comando do professor Luiz Gonzaga Motta. Cremos que é justamente na linguagem jornalística. o acontecimento na sua origem também o é (Ramonet. como um complexo oppositorum. sem fantasias nem invenções. Mas. Haveria uma razão para separar os procedimentos. Blivar.br/fac/posgraduacao/prnarrativa. no entanto. o triunfo da objetividade.pdf . No texto da reportagem não se dá. Um outro ponto de vista sobre a questão dos afetos e da objetividade jornalística era estudado em 2004 na Universidade de Brasília. pessoal. Um enunciatário.

ou no efeito de distância da enunciação em relação ao enunciado. atitudes chocantes..) o ator da enunciação referencializa-se como o menos sutil. a dizer tu na manchete principal de primeira página. Nesse sentido. com o mesmo fim. o jornal apresenta uma notícia que gera um sentimento de proximidade no enunciatário com uma situação ou com alguém que ele não desejava manter contato. hábitos exóticos. cujo trecho mais chocante é a cabeça esfacelada Há um tipo de público que assiste a determinados programas ditos telejornalísticos porque são sensacionalistas. Uso de escândalos. 10 de novembro de 2004.. apresentamos uma visão que julgamos complementar aos estudos de Discini. Nesse último caso.61 Na quarta-feira. Neste trabalho. o menos austero de todos (. de gestos atabalhoados. em tom espalhafatoso. que simula estar presente no enunciado. na literatura. enquanto permanece cravado nas distâncias. Divulgação e exploração. se comparado àquele que se apóia num enunciador. (..) O ator mais sutil e “fino” figurativiza-se apoiado numa enunciação que. não instala as pessoas eu/tu no enunciado das primeiras páginas. esse ator. O sensacionalismo pode aparecer como uma quebra de uma cláusula do contrato enunciador-enunciatário em um momento muito específico. Exploração do que é sensacional (3). de gestos calculados. sintaticamente. Norma Discini.A proximidade imposta: o sensacionalismo O Dicionário Aurélio define “sensacionalismo” com três entradas: 1. o sensacionalismo é uma estratégia de atração. não uma quebra de contrato. entretanto.. etc. na arte. Os telejornais chamados de populares. Em outras palavras. 61 86 . no trabalho sobre o estilo nos jornais (2003). safando-se do efeito de intimidade. se opôs o estilo sóbrio da Folha e do Estado em comparação ao estilo que tem “uma voz que grita” (ibidem: 129) do Notícias Populares.)” (idem: 124). 2. Nos primeiros dois jornais. 3. não fazem parte do escopo deste trabalho.) que se constitui por oposição ao ator estouvado. No estudo do ethos desses três jornais. Individualiza-se.. por meio do narrador explícito.. assim. compara a Folha de São Paulo. encontra um “ator sutil. a Folha de São Paulo estampou uma foto do “New York Times” nada sóbria para ilustrar um momento da guerra do Iraque. (. A foto. ou mais íntimo e cúmplice dos três jornais.. Há grande destaque visual. etc. O Estado de São Paulo e o extinto Notícias Populares e faz uma análise da imprensa dita séria em relação à imprensa dita sensacionalista... da imprensa dita sensacionalista. (. de matéria capaz de emocionar ou escandalizar.

de um “suposto insurgente”. muitas imagens clichês da guerra. ocupa três das seis colunas. Em alguns momentos. 14 de novembro: “Leitores que escreveram ou telefonaram chocados consideraram que a Folha foi ‘sensacionalista’ ao publicar a foto”. Marcelo Beraba. ou quase um quarto de página. que respondeu: “Realmente a foto é chocante e não é sempre que publicamos esse tipo de imagem. os leitores já decodificaram e não mais se chocam. vejo 87 . Ele levou a questão ao editor de fotografia. Essas. motivou reclamações ao jornal e comentário do ombudsman da Folha. por sua vez. na coluna do domingo. Chegam até nós. diariamente. Toni Pires. Essa foto.

Os limites são distintos de publicação para publicação.” Marcelo Beraba. ao publicar. O sensacionalismo aparece então como a quebra de uma cláusula do contrato sobre a dose de afetividade – notadamente negativa. inicialmente.. Não acho que devamos sair publicando esse tipo de imagem todos os dias. como mostra Norma Discini. Mas com o compromisso de levar até o leitor um pouco mais do que o simples comentário ilustrativo. São fotografias que devem ser lidas e entendidas como a memória visual de nossa época. No caso de um mesmo jornal. avalio. no entanto.. porém. que preza um determinado “equilíbrio”. mas um jogo entre efeitos de proximidade e afastamento da enunciação. religiosos).que o público vivencia. os limites são mais regulados. Não com o objetivo simplista de uma certa estética do horror. no entanto. em determinados momentos. a Folha e o Estado são jornais que têm estratégias de enunciação em que esses “choques” não são comuns. Do ponto de vista semiótico. a foto que choca não deixa de ser um discurso forte contra a própria guerra. inclusive corporalmente. O jornal. o que compromete a estratégia de “objetividade”. Ao utilizar esse recurso. enfrentar o desagrado e o incômodo (. portanto. os comentários servem para observar que o sensacionalismo pode ser motivado e gerar um tipo de conflito calculado entre enunciador e enunciatário. De um ponto de vista mais generalizante. é nosso papel mostrar algo mais. mas vejo a importância de. disfórica .a necessidade de mostrar os fatos ‘mais de dentro’. Mostra. O caso da Folha é exemplar por vários aspectos. As poucas imagens diferentes que recebemos nos mostram um cenário de horror. o enunciador e suas escolhas se apresentam muito fortemente. erra menos pelo excesso do que erraria pela omissão”. por sua vez. discute a questão e concorda com o editor: “O jornal poderia ter escolhido uma foto menos explícita? Poderia ter dado sem tanto destaque? Poderia. Outro ponto notável é que os jornalistas acreditam que a construção de um “real” que consideram mais fiel aos horrores da guerra deve sobrepor-se em alguns momentos às cláusulas do contrato estipulado entre enunciador e enunciatário. Mas. com ampla valorização espacial. 88 . O que é excessivo para uns pode ser perfeitamente aceitável para outros. A “realidade da guerra” aparece na forma de uma figuratividade icônica. por mais inquietante e doloroso que seja para o leitor. o que força o leitor a se aproximar da foto. Acredito que. Os últimos acontecimentos no Iraque são a demonstração de atos bárbaros praticados por ambos os lados envolvidos. No caso.). políticos. Há uma linha divisória marcada por uma visão de mundo (valores familiares. que não há um único tom na maneira de enunciar. aparece ao leitor “opinando” sobre o conflito.

A convivência vai dissipando receios. possibilitando prazeres e um consumo fácil e eficiente. agradável. a cada edição. o jornal – como destinador . Ele encontra o que procura quando resolve ler determinado jornal. É possível notar que a estratégia de fidelização se apóia mais em uma dimensão do inteligível. Qualquer veículo de comunicação almeja obter um público fiel. a persuasão dos jornais deve ser vista de maneira mais complexa. ouvir a rádio habitual. Semioticamente falando. como o tempo.A estratégia de fidelização É momento de analisar a última estratégia do gerenciamento do nível de atenção: a de fidelização. vibrante. tem o poder de transformar a obrigação cotidiana de informação em mais uma fonte contínua de prazer para o sujeito. que tem “credibilidade”. eficiente. bonita. Deve também fazer-crer na necessidade ou conveniência de o enunciatário repetir a ação com as outras edições. questiona a competência do destinador e se o relacionamento é satisfatório. e por meio de uma solução muito especial: se consumido continuamente. não se 89 . a cada edição. Há um destinatário que. realiza uma eficaz triagem e organização da realidade na qual o enunciatário se insere e se apresenta de maneira clara. o que recomeça o ciclo. A satisfação deve motivar o desejo de tomar contato com a edição seguinte. o sentido de familiaridade que resulta na paixão da confiança. a edição não é pensada apenas para manter um sujeito bem informado. a estratégia de fidelização resulta do contato com a edição inteira. No entanto. Essa relação satisfatória gera. “Fidelizar” é uma palavra muito usada no marketing. Como discutimos antes. ou consultar o site com notícias de sua preferência. Mostra que o destinador é confiável. Se as estratégias de arrebatamento e sustentação vinculam-se ao poder das unidades noticiosas. O jornal deve convencer de que é “completo”. ver um certo programa de TV.cumpre sua parte no contrato. Como decorrência. Precisa ser também chamativa. com repetidas ações de consumo. de longo prazo. Uma edição específica precisa gerar consumo não só para as próprias notícias. O destinatário realiza a performance de consumo e é recompensado. prometesse ser uma resposta definitiva a essa busca de saberes sobre o mundo. Mostra a existência de procedimentos para cativar consumidores com o objetivo de que mantenham uma relação contínua com um produto ou empresa. É como se o jornal. que garanta uma atenção incessante.

geralmente quer comunicar que se reconhece no padrão de consumidor construído pelo seu veículo de comunicação predileto e partilha do tipo de recorte da “realidade” manifestado.deve esquecer das outras dimensões. repetitivo. à ordem das coisas 90 . depois. Afirma o autor que os jornais respondem. e dos sentidos a ela associados. mais afetivas. podemos observar uma outra manipulação destinador/destinatário. A idéia de hábito remete a uma espécie de comportamento constante. O hábito aparece como o aspecto mais derradeiro da estratégia de fidelização. o ethos de um produto jornalístico deve sempre ser identificado pelo público como competente para realizar sua função. explorada anteriormente. A fidelização. do a-normal para. ele também se sente parte de um grupo social que ele admira. ver ou ouvir um jornal pressupõe tomar contato com “as novas” do mundo. baseado na produção e apresentação incessante de novidade. contudo. A competência que justifica a existência de sua relação com o público é a de noticiar. qualquer paradoxo. com um produto como o jornal. “sérios”. vai consumir o jornal para que ele próprio seja visto como alguém que partilha dos mesmos valores do seu veículo de comunicação preferido. O leitor de O Estado de São Paulo. Há outros aspectos para analisar. Não há. de longo prazo. para ser bem-sucedida. ao primeiro contato. das quais é totalmente dependente. Eleitores de O Estado de São Paulo gostam de se ver como mais “maduros”. A atenção incessante. à questão: “Que há de novo hoje no mundo?” E completa: “A narrativa jornalística valoriza por princípio a irrupção do inesperado. Identificação é também palavra-chave no vínculo de longo prazo entre jornais e público-alvo. dessa vez por sedução. Algumas considerações de Landowski sobre jornais franceses podem ser perfeitamente generalizadas para qualquer mídia e expõem melhor a questão. implica identificação ideológica do público com o jornal e também uma satisfação contínua que gera um hábito. por exemplo. A fidelização só tem razão de ser a partir do sucesso das estratégias já citadas de arrebatamento e sustentação. sem modificação. Quando alguém diz que gosta de determinado jornal. Ler. dia após dia. A questão da marca. Nesse sentido. do singular. Ao consumir o “Estadão”. Já os da Folha de São Paulo. aparece com força. e parece estranha. do ethos. “críticos” e “modernos”. Apontamos que o objetivo de qualquer veículo de comunicação é obter um público fiel. como mais “jovens”. se reverte em sustentação financeira das empresas. por exemplo. Só que essa novidade deve encaixar-se em uma edição que pouco se altera no dia-a-dia. tornar a situar o sensacional no fio de uma História que lhe dá sentido e o traz de volta à norma. Em função disso. apresentar e discutir as novidades do mundo.

O discurso ocidental marca a rotina com valores negativos. parte integrante do mundo e da humanidade. de retomar o tempo. Devemos lembrar que o jornal busca. com suas edições contínuas.vai produzindo a dessemantização. obviamente – não existe um sujeito tão livre assim. cujos momentos de controle permitidos aos sujeitos se tornam um hábito. que. Pouca novidade pode desinteressá-lo. a repetição é voluntária e fruto. promete continuamente chacoalhar o cotidiano. que é um trabalho progressivo de ajustamento entre sujeito e objeto. portanto. a repetição é resultado de um dever-querer no qual o sujeito cumpre um programa determinado por destinador social. a priori. de um ponto de vista psicanalítico. de um querer-querer62 de um sujeito liberado de imposições exteriores ou anteriores.. na tentativa de satisfazer essa necessidade. cultural. lhe é. É produtivo pensar o cotidiano como categoria complexa. como que a antítese” (1989: 120). formada pela “rotina” e por suas “interrupções”. entre tantos outros. faz uma diferenciação entre rotina. o jornal. 62 91 . Podemos entender ainda o hábito como Vale relembrar que. um gosto de fruição” (2003:94). sobretudo. que ressemantiza relações contínuas entre sujeito e objeto e. por meio do que Landowiski (1998: 161-162) chama de aprendizagem de busca de um valor estético. disfóricos. Novidade demais (tanto de expressão como de conteúdo) pode deixar o enunciatário sem referências. A rotina – como um fenômeno de continuidade . ligados à acomodação. “ao contrário.) Nesse caso. portanto. ressemantizando assim a própria vida. disfórica. fazer o sujeito viver emoções e paixões com seu recorte. sociológico e biológico . O hábito é uma possibilidade ofertada ao sujeito de criar ou manejar as próprias descontinuidades. Se pudermos afirmar que o ser humano precisa libertar-se da rotina para se sentir mais “vivo”. que faz com que a novidade nunca se esgote. biológico quaisquer (. antes de qualquer coisa. “Nesta última situação (a rotina).. causar estranhamento. ou o afrouxamento da relação de um sujeito com um objeto qualquer. o imperativo da repetição é. (..que não iremos explorar. com base em trabalhos de Landowski (1998). Fechine (2003).” No hábito. tem características eufóricas. o próprio prazer do sujeito (. no entanto.previsíveis – ou seja... a perda de sentido. à falta de ambição material e espiritual. Ela pergunta o que faz uma mesma repetição ser percebida ora disforicamente ora euforicamente. ordenamento e apresentação dos acontecimentos do mundo.). entendida como dessemantizadora das ações do sujeito. mostrar-se como enunciador que maneja o que pode ser pensado como uma “justa medida” entre o novo e o velho na conquista do enunciatário.). ao “cotidiano”. O cotidiano “pulsa” ao sabor de quebras e retomadas.. e o hábito.

A estratégia de fidelização maneja essa possibilidade de o sujeito. entretanto. o Diário de São Paulo. quarta-feira. através da projeção empática. Ambos são do mesmo dia. do restaurante aos domingos. na repetição de atos que lhe dão prazer.pelo reforço na própria identidade do sujeito – e pela possibilidade cotidiana de lhe dar meios de transcender a sua história vivendo. um sujeito que organiza o seu dia para ressemantizar. viver um hábito. ao contrário de um café. Vejamos: 92 . Em outras palavras. 29 de janeiro de 2003. seu cotidiano. uma forma de fruição que ele pode administrar para criar essas ressemantizações cotidianas.as unidades noticiosas .o gerenciamento possível dos sentidos pelo sujeito. na maior parte habitantes de classe média da Grande São Paulo: o Jornal da Tarde e seu concorrente. e trazem o mesmo assunto na manchete: mortes como conseqüência de fortes chuvas que desabaram na região metropolitana. comparamos as primeiras páginas de dois jornais de público-alvo semelhante. e ilustrar algumas das reflexões sobre o gerenciamento do nível de atenção. O jornal. ao ter contato com um jornal. Exemplo: Jornal da Tarde versus Diário de São Paulo Para concluir esse item. os conflitos de quem foi retratado nas reportagens. se impõe pelas novidades .

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Do ponto de vista da primeira estratégia de atração, a sensorial, deve-se notar que o título principal e a foto dos dois jornais tomam grande parte da primeira página, o que não acontece todo dia. A estratégia de arrebatamento é clara: há uma tentativa de atrair o olhar em função do espaço ocupado pelos títulos e pela fotos. As duas manchetes utilizam uma fotografia muito semelhante, de grande contraste cromático em relação ao branco da página. Há praticamente o mesmo ângulo: um ponto de vista de cima para baixo, de alguém que vê tudo de um local alto e a certa distância. É possível perceber, inclusive, as mesmas personagens, como o rapaz de camisa verdeamarela. A foto do JT apresenta somente um corte de cena um pouco mais “fechado”. O que as duas manchetes têm de mais notável, contudo, são as diferentes estratégias dos editores para a apresentação de cada notícia, cujo fato gerador é o mesmo: as vítimas da chuva em Taboão da Serra. O JT, ao contrário do concorrente, vai buscar impacto, o que quer dizer, maior carga afetiva na cobertura. Mostra a foto de um bebê de um ano e quatro meses, Juninho, que aparece morto nos braços de um homem que ajudava na escavação. Pode-se observar a técnica da apresentação do clímax de uma narrativa na manchete. O leitor, que teve o olhar arrebatado pelo título e pela foto, obtém os primeiros dados da história e deve ficar curioso para saber como se chegou àquela situação. É a estratégia de sustentação em funcionamento. Lembramos a necessidade de os textos apresentarem “gente de carne e osso”, ou seja, discursos com grande carga figurativa icônica para provocar a empatia, a identificação do leitor com a história contada. Nos casos analisados, o exemplo mais claro é o da própria fotografia. que permite reconhecer os voluntários, a terra, as vítimas. Mas também percebemos que títulos e legendas trabalham com elementos que, por meio de uma ancoragem, atam o discurso a pessoas, espaços e datas que o leitor reconhece como “reais” ou “existentes”, como Juninho, seu pai Márcio, os mortos pela chuva em Taboão da Serra. Mas retornemos à discussão sobre a manipulação afetiva. O JT utilizou a foto de um bebê morto. Há uma aproximação entre os corpos do leitor e da vítima que o jornal torna possível notadamente por meio da fotografia, por sua vez, representação de uma ação frustrada de salvamento. Uma observação mais cuidadosa mostra que, desde o título, constrói-se um centro de máxima tensão. O jornal enuncia “os mortos da chuva” para levar o olhar para o bebê. Ou, no caso de um olhar inicial na foto, para ancorá-la e evitar qualquer outra leitura. O leitor pode armar-se de argumentos contra uma vítima que invadiu um terreno público em uma encosta perigosa. Ela se arriscou e morreu. Tinha alguma escolha, por mínima que fosse, e pagou por sua irresponsabilidade. O mesmo leitor,

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porém, não pode deixar de se envolver por inteiro no drama da morte de um bebê de pouco mais de um ano. O jornal fez uma escolha cuidadosa para obter a máxima carga de afetividade. Não é a apresentação de qualquer vítima, ou de mais uma vítima das chuvas, mas de uma criança, a mais frágil e inocente de todas. Ela não pode ser julgada de outra forma. Essa estratégia é comum nos discursos que denunciam absurdos de guerra, pois impedem racionalizações frias e distantes e forçam o destinatário a uma atividade de reflexão sobre o contexto que gerou a tragédia.63 A manchete do JT trabalha com um choque emocional de uma voltagem muito maior do que a do Diário de São Paulo. O concorrente do Jornal da Tarde, porém, também estampa a foto de uma vítima, só que enrolada em um cobertor. É preciso ressaltar a diferença de limites nos usos de materiais jornalísticos muito semelhantes. Há moderação no Diário de São Paulo e pleno uso de estratégias afetivas no Jornal da Tarde, que se empenha em criar impacto por meio da apresentação do cadáver de uma criança. Cada jornal satisfaz curiosidades e necessidades (dá saberes) e também coloca o sujeito diante de possibilidades de viver experiências afetivas – ou, como afirmam Zilberberg e Fontanille, valores para serem sentidos - que contrabalançam o aspecto trágico, disfórico da notícia. Relembremos que o leitor não é um sofredor compulsivo, mas alguém que, mesmo diante de uma narrativa de morte e fracasso, procura conhecimento e afetividade. Os dois diários buscam a empatia do público, principalmente por meio da paixão da piedade. Do ponto de vista passional, o leitor do JT é conduzido para viver mais fortemente a compaixão, segundo o Aurélio, o pesar que em nós desperta a infelicidade, a dor, o mal de outrem. A compaixão é um dos afetos mais mobilizados pelos jornais e um importante componente da projeção empática, como discutida anteriormente por Augusto Boal. Trata-se ainda de uma paixão conformista, ou seja, ao apenas lamentar a morte (a maior das disjunções sujeito/objeto), o leitor aceita a narrativa como um fato trágico, porém em grande parte inevitável. As duas manchetes colocam como vilão a chuva, ou seja, a própria natureza. A piedade, como paixão, só pode gerar mais piedade ou desaparecer. O uso da afetividade como estratégia maior da manchete do JT causa alguns estilhaços na possível busca de certa objetividade jornalística. A escolha da foto de um bebê morto para a primeira página torna muito mais perceptível, para o leitor, a
Durante a guerra entre EUA e Iraque pôde-se observar a mesma estratégia. A mídia norteamericana, pró-guerra, evitava ao máximo mostrar e fazer comentários sobre as vítimas. Já o discurso das emissoras árabes, contra a guerra, se concentrava no oposto: exibia-se a brutalidade contra a população civil, principalmente imagens de mulheres e crianças mortas, feridas ou mutiladas, gente que tinha nome, idade, endereço, história.
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presença de alguém que está fazendo a mediação entre ele e o mundo. Revela, portanto, um ponto de vista sobre uma ação e impede qualquer neutralidade do discurso. Maior a percepção de um desejo de emocionar, mais clara fica a presença do jornal – e das escolhas feitas – para o leitor. Na época, o JT estava construindo uma identidade mais presente, mais próxima e opinativa diante de seus leitores. Investir na maior carga de afetividade foi uma estratégia de diferenciação em relação ao seu concorrente, o Diário de São Paulo. Estamos, portanto, diante de uma tática de longo prazo do jornal, dentro da estratégia de fidelização. O JT procurava convencer seus prováveis leitores de que valia a pena ler o jornal todos os dias para ter acesso a notícias com um enfoque mais “humano”, “próximo”, “afetivo”.

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ESTRATÉGIAS DE ORGANIZAÇÃO TEXTUAL: A ATENÇÃO MANIPULADA NO TEMPO E NO ESPAÇO
No item anterior mostramos como funciona o gerenciamento do nível de atenção, separando alguns efeitos que se referem ao plano de expressão (como as estratégias de arrebatamento) de outros mais relacionados ao plano de conteúdo (como de sustentação e de fidelização), todos ligados à instauração de curiosidades, desejos, afetos. Agora, pretendemos ordenar melhor essas reflexões. O jornal manipula o público para que preste mais atenção numa notícia em relação à outra, atente para certos detalhes e não dê a mesma consideração a outros. Nossa investigação continua com o estudo das características da organização textual dos jornais, dos efeitos de edição (aqui como ato de editar ou relacionar expressão e conteúdo), da aspectualidade, da tensividade e do semi-simbolismo. Na segunda parte do trabalho, há uma análise mais detalhada da organização textual de cada um dos quatro grandes grupos de jornais. Devemos reiterar que continuamos a fazer uma análise da enunciação como narrativa, ou seja, mostrando como um enunciador concebe um jornal. Nosso interesse agora é mostrar as possibilidades de textualização, como o enunciador maneja o contato do enunciatário com o texto para que ele passe do foco para a apreensão, do sensível ao inteligível, do plano de expressão para o plano de conteúdo, da tensão para um certo relaxamento.

Dois modos de textualização: espacial ou temporal

Um texto manifesta-se quando um plano de conteúdo é relacionado a um plano de expressão, a uma manifestação material, grosso modo, um “suporte”. Temos, portanto, a textualização. O estudo desse ato de organização textual, desse “encaixe” entre o conteúdo e o modo de expressá-lo, permite melhor compreensão dos procedimentos já observados. Ao mesmo tempo, expõe outras estratégias importantes. Sabemos que, em um jornal, algumas unidades noticiosas são consideradas de maior interesse do que outras sem que os jornalistas tenham de fazer uma comparação explícita. Cada jornal aperfeiçoou mecanismos que “comunicam” o que é mais ou menos importante, o que merece mais ou menos atenção, fazendo uma verdadeira regência de uma enorme massa de estímulos – visuais, verbais, sonoros, conforme o meio de comunicação - no processo de organização textual. O enunciador

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maneja a curiosidade, guia a percepção do enunciatário no sentido do que deve ou não ser valorizado, direciona as expectativas, mostra pontos de maior ou menor interesse nos níveis sensível, inteligível e passional. Como temos contato com os jornais desde a infância, principalmente com a TV e o rádio, assimilamos essas regras de textualização. Todo objeto dos quatro grupos de meios de comunicação estudados pressupõe a edição (na acepção de ato ou efeito de editar), ou seja, a seleção, organização e montagem de todos os elementos que devem formar um programa, uma revista, as páginas de um site. A textualização, como estratégia global de enunciação, pode ser considerada como o “ato de editar” dos jornalistas: • No rádio e na TV, a textualização, ou a ação de editar, estabelece

principalmente intervalos de tempo e posições no fluxo temporal para a construção de sentidos. O manejo acontece em função de recursos de montagem. • Na revistas, diários e sites, a organização textual ocorre por meio da

administração do espaço, manejada pela diagramação nos impressos e pelo webdesign nas páginas da Internet.

Os recursos de montagem (rádio e TV), diagramação (diários e revistas) e webdesign (sites/portais) serão apresentados em detalhes e estudados depois, nas análises específicas. Interessa agora observar que o fluxo do tempo, no rádio e na TV, e a trama do espaço, nos jornais impressos, revistas e sites, criam o sustentáculo para as regras de textualização desses objetos e controlam a disposição das unidades noticiosas. Em função dessas coerções, os jornais estudados neste trabalho dividemse em dois grandes grupos, os de hierarquia de base temporal e os de hierarquia de base espacial. Queremos chamar a atenção para um aspecto importantíssimo: existem relações de espaço no rádio e na TV e de tempo nos jornais, revistas e sites. Estamos ressaltando o que consideramos mais relevante na organização textual desses meios de comunicação. O tempo, ou o espaço, permite que a textualização produza uma hierarquização de sistemas significantes64 diferentes. O resultado é o jornal como um único texto, um único “todo de sentido”, cuja missão maior é gerar laços com o público
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Preferimos falar em “sistema significante” ou “conjunto significante” no lugar de “linguagem”. Greimas e Courtés, no Dicionário de Semiótica I, afirmam que a busca por uma definição de linguagem “reflete uma atitude teórica que ordena a seu modo o conjunto dos ‘fatos semióticos’” (1983:259). Em outras palavras, vão ser os métodos e procedimentos utilizados por um analista que vão mostrar o que ele quer dizer por “linguagem”. Os dois autores afirmam que “o menos comprometedor é talvez substituir o termo linguagem pela expressão conjunto significante”, sugestão que aplicamos neste trabalho em alguns momentos.

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e consumo. Por meio da textualização, das coerções, e também vantagens, proporcionadas pela manifestação temporal ou espacial na construção dos jornais, revela-se uma enunciação que administra outras enunciações, um texto que engloba outros textos. Em um jornal impresso, por exemplo, podemos observar conjuntos significantes, como o verbal e os quadrinhos, as fotografias, as charges. O verbal, por sua vez, é manifestado visualmente por meio de tipos gráficos, em matérias, títulos, legendas. O traço de expressão comum no nível da manifestação textual de todos esses elementos verbais e não-verbais é a espacialidade, a adequação a um espaço determinado.65 Reger e hierarquizar essas diferentes semióticas no jornal impresso é, portanto, administrar o espaço que podem ocupar no papel. O mesmo acontece no rádio e na TV, só que envolvendo o tempo. A capacidade de o público entender rapidamente os sentidos da organização do texto de cada jornal é resultado de uma característica importante dessa forma de comunicação. Diários, revistas semanais, programas de rádio e de TV, sites têm uma articulação de expressão e conteúdo que apresenta certa rigidez. Isso acontece por que a produção jornalística é uma verdadeira linha de montagem. Cada jornal é obrigado a testar e a eleger formatos para dar conta de duas necessidades principais: é preciso não só motivar o consumo, como também facilitar o “fechamento” das edições. A organização textual rígida permite ajustar com rapidez os processos criativos – realizados pela redação – às imposições da operação industrial jornalística, de produção e reprodução dos noticiários. Dois procedimentos de organização textual serão estudados a seguir e relacionados às estratégias de gerenciamento do nível de atenção:

o O primeiro diz respeito à maneira de valorizar ou desvalorizar uma notícia em relação à outra a partir do manejo do tempo, no rádio e na TV, e do espaço, nos jornais, revistas e sites. Uma notícia que ocupa metade da página de um diário, por exemplo, é considerada mais importante, merece mais atenção do que outra que toma um quarto do mesmo espaço do papel. o O segundo procedimento refere-se ao estabelecimento de um ritmo textual que dá a sensação ao destinatário de entrar em contato com um jornal que apresenta as notícias de maneira vibrante, eficiente, rápida, fácil de entender.

Isso acontece porque o espaço é um traço geral de substância comum a todos esses sistemas de significação, uma coerção a que suas manifestações precisam se adequar para se tornarem forma de expressão. O mesmo ocorre com o tempo no rádio e na TV.

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A importância da notícia é uma construção do texto. que desenvolveu um mecanismo de interpretação da forma como as notícias estão organizadas no espaço do jornal. No radiojornalismo estudado. o tempo também determina o valor de uma reportagem ou comentário (mais tempo concedido – maior a importância). nesse verbete “acabamento”. Os jornalistas são apenas aconselhados a ter “soluções criativas” na união entre títulos. ainda travada pelas limitações das bandas de transmissão e pelas linguagens de programação utilizadas nos navegadores. infográficos. Essa semiótica do espaço jornalístico está ao alcance dos consumidores da cultura visual e não deve ser julgada um privilégio de jornalistas e profissionais que lidam com elementos imagéticos. Quando alguém percebe uma notícia que cobre um grande espaço de uma folha de jornal e entende que se trata de algo importante. o valor que se pretende dar a uma unidade noticiosa na TV tem relação direta ao tempo a ela concedido. timidamente. textos. Ou dito de um ponto de vista semiótico. revistas e sites a importância de uma notícia pode ser medida principalmente em função do tamanho e da posição ocupada na página e em determinadas páginas. porém. a edição está sujeita ao olhar crítico do leitor.” O Manual da Folha. Com o desenvolvimento tecnológico. Na fase atual da Internet. 1995: 97). Por exemplo: maior espaço ocupado na página significa notícia de maior valor. está fazendo uma passagem do plano de expressão para o plano de conteúdo e estabelecendo relações entre categorias dos dois planos. “do mesmo modo como ocorre com as reportagens.Valorização ou desvalorização da notícia: o semi-simbolismo “cristalizado” Cada texto relaciona suas unidades noticiosas de modo a fazer com que o enunciatário possa entender seu valor. tem-se uma relação entre espaço de jornais impressos que. sua importância jornalística. dá poucas pistas do que é essa organização. Essas operações constituem o que a semiótica chama de 101 . Nas TVs e rádios. Nos jornais. “O tempo da notícia no telejornalismo depende sempre da importância jornalística do assunto” (Squirra. Afirma o Manual de Redação da Folha de São Paulo (2001:35) que. sem perder a característica de ser um texto que hierarquiza seus conjuntos significantes por meio da administração do espaço. já convive com algumas relações de tempo de meios de comunicação como TV e rádio. como os publicitários. o valor da notícia relaciona-se à sua duração no fluxo temporal. fotos. a Internet tende a incorporar cada vez mais relações de “tempo”.

Como temos dois tipos básicos de textualização no jornalismo. temporal e espacial. como a cruz cristã. Trabalhos de Greimas. Esses estudos permitem. Categorias: de valor: claro x escuro. gera sentido de máximo valor e potencial de atenção. uma categoria topológica. para o leitor. por exemplo. ao ser assimilada pelo enunciatário. ou determinadas homologações entre categorias de expressão e de conteúdo (caso de uma manchete com grandes letras que. Vejamos essas reflexões na forma de um esquema: Jornais.Topos vem do grego e quer dizer “lugar”. Em textos semisimbólicos. explicar melhor a categoria que nos interessa no plano de expressão dos jornais impressos. Os sistemas simbólicos apresentam planos de expressão e de conteúdo em conformidade total. formas e cores: 1 . o simulacro da leitura funciona assim: o enunciatário deve ter o olhar manejado em função das diferentes ocupações espaciais das unidades noticiosas. ou o verde da bandeira brasileira. portanto. revistas e sites – mídias organizadas por meio do espaço Relação entre ocupação espacial e valor da unidade noticiosa Plano de expressão Maior espaço ocupado x menor espaço ocupado67 Plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Foi Hjelmslev quem fez a diferenciação entre sistemas simbólicos e sistemas semióticos. Já no caso dos jornais de TV e rádio. a passagem de um não-saber para um saber.66 A textualização jornalística é a construção de algumas ligações estáveis entre categorias de conteúdo e de expressão. de orientação: na frente x atrás. 67 Temos.relações semi-simbólicas. as cores do semáforo. é possível conceber dois modelos amplos de organização que expõem semisimbolismos. no caso citado. cria no enunciatário uma falta – um querersaber. e com a leitura. de tonalidade: quente x frio . Relações: reto x curvo. que significa “as nossas matas”. passa a sensação de “notícia muito importante”). deve lhe dar também maior satisfação. de luminosidade: brilhante x opaco. 66 102 . Discursivamente.Categoria topológica . “forma”. revistas e sites. de posição: alto x baixo. ligadas à posição. de pureza: cor limpa x cor suja. a inexistência de conformidade entre os dois planos impõe a distinção e o estudo de expressão e conteúdo separadamente. categorias do plano da expressão e categorias do plano de conteúdo se relacionam criando uma espécie de micro-código. Greimas e Floch ensinam que no plano de expressão de semióticas de organização espacial podem ser reconhecidos formantes figurativos e formantes plásticos. Nos meios de comunicação de textualização “espacial” pode-se falar em topologia como uma categoria do plano de expressão. E uma “grande notícia”. Temos o reconhecimento de um dispositivo que organiza espacialmente um texto e seus elementos por meio das relações: de dimensão: grande x pequeno. Floch e Thürlemann dividem os formantes plásticos em três categorias. angular x arredondado. Nos sistemas semióticos. desconhecemos trabalhos que façam um detalhamento do mesmo nível do plano de expressão. 2 – Categoria cromática – Está relacionada às cores. a notícia deve provocar a paixão da curiosidade. Nos impressos. Uma notícia que toma grande parte da página.3 – Categoria eidética – Vem de eidos. a topológica.

Há. no estudo específico. Parece um “quase símbolo”. Essas relações que acabamos de apresentar. Um bom exemplo pode ser encontrado na capa da revista Veja. ou um “semi-simbolismo cristalizado”. em função de sua recorrência de edição em edição. que têm objetos organizados a partir de relações temporais. maior curiosidade. um outro tipo de semi-simbolismo. manejadas pela textualização dos jornais dos principais meios de comunicação. deve gerar no enunciatário uma satisfação também proporcional ao seu tempo de apresentação. Queremos agora apenas distinguir dois tipos bastante diferentes de semi-simbolismos presentes nos jornais. são “motivadas”. TVs e rádios – mídias organizadas por meio do tempo Relação entre ocupação temporal e valor da unidade noticiosa Plano de expressão Mais tempo ocupado x menor tempo ocupado Plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Existe. esse semi-simbolismo resultante da organização textual tem grande rigidez. a categoria de duração no plano de expressão (que marca uma notícia com tempo maior de emissão em relação à outra) irá se relacionar com o valor e o potencial de atenção no plano de conteúdo. que Barros chama de “localizado”. de 2 de abril de 2004: 103 . evidentemente. tem maior valor em relação à outra que é veiculada em menos tempo. por sua vez. Temos o que Diana Luz Pessoa de Barros chama de “semi-simbolismo de texto inteiro” (2004). O consumo dessa notícia. No caso dos jornais. A utilidade desse semi-simbolismo é fazer com que o destinatário saiba decodificar os sentidos da textualização do jornal com enorme rapidez. que serão mostradas e analisadas depois. Uma notícia mais duradoura instaura maior falta de saber. no entanto. maior complexidade dessas relações.No caso do telejornalismo e do radiojornalismo.

eufórica (valorizada) versus morte. Em um esquema. que identificamos como a cor da guerra. Esta última não aparece manifestada. essas relações ficariam assim: Categoria cromática Monocromatismo em marrom x policromatismo (não manifestado) Plano de expressão Categorias topológicas Frente x atrás Horizontal x vertical Plano de conteúdo Morte x vida Em comparação com a discussão do início deste item. temos semi-simbolismos completamente diferentes. Se em relação à categoria eidética (das formas) não há pontos de interesse. É possível fazer relações com categorias do plano de expressão. A foto parece expor apenas gradações de marrom. Isso cria a categoria monocromatismo em marrom versus policromia.Há. disfórica (desvalorizada). A mais notável é a cromática. a categoria topológica é proveitosa: pode-se observar a relação entre frente versus atrás (construção de uma perspectiva a partir da situação de destaque do militar iraquiano sem vida em relação ao soldado norte-americano que aparentemente o matou). e horizontal versus vertical (o soldado no chão versus o que caminha). no nível fundamental do plano de conteúdo. da morte. uma relação entre vida. No caso de Veja. pudemos notar algumas relações semi- 104 .

raros. em que não há relações novas entre expressão e conteúdo.simbólicas localizadas – superficialmente analisadas . Transforma-se a novidade em estereotipia e passa também a ser outro o seu papel nos textos: o de apontar os valores da sociedade. de ‘linguagem’. Se o semi-simbolismo constrói formas novas de sentir o mundo.). ou estereotipado.. de 6 de março de 1991: 105 . o semi-simbolismo localizado. a capa.que estão em uma unidade noticiosa específica. as novas correlações que se estabelecem entre expressão e conteúdo vão desde a novidade poética do semi-simbolismo próprio de cada texto até o simbolismo culturalmente estabelecido. trabalha também com relações de expressão e de conteúdo de texto inteiro. em um certo momento histórico e em uma dada cultura fazem dele um sistema de símbolos.. Há. graus.) os textos transformam relações semi-simbólicas em relações simbólicas e vice-versa. pois nada é completamente novo. aponta para fenômenos específicos. no entanto. (. em que a expressão cumpre apenas seu papel de expressar conteúdos. “há passagem e graus intermediários entre o semi-simbolismo e o simbolismo. Para Barros. entre semisimbolismo e simbolismo é essa outra capa da Veja. de um investimento do enunciador em novidades poéticas ou estéticas. Se o semi-simbolismo de texto inteiro mostra a existência de regras bastante rígidas de organização textual. Sempre existe um jogo entre novidade e estereotipia” (idem:11). que perpassa diferentes textos (. A revista como um todo.. razões diversas de uso (a repetição. entre sistemas semi-simbólicos e sistemas simbólicos: “Se há textos. Há outra questão curiosa. Barros também aponta a existência de uma gradação. nos textos. os mitos da vida cotidiana. entre esses pólos. sobretudo).. por outro lado. criando relações sensoriais novas com os objetos. como já disse Roland Barthes” (ibidem: 11 e 12). Um exemplo dessa tensão entre novidade e estereotipia. Devemos compreender essas diferenças.

a acepção de durativo ou pontual. delimitado x ilimitado. entre outros efeitos. que produz. no tempo. Aspectualização: ritmo textual Manejar o espaço ou o tempo. A semioticista afirma que a aspectualização pode ser analisada “no 106 . ao tempo e aos atores (1994/1995: 69). Por meio da aspectualização.Há praticamente as mesmas relações apontadas na capa anterior (de semisimbolismo localizado e de texto inteiro). que dizem respeito ao espaço. A categoria base da descrição aspectual é continuidade x descontinuidade que gera. contudo – devemos ressaltar . Diana Luz Pessoa de Barros lembra que a aspectualização é inicialmente entendida como um “ponto de vista sobre a ação” que converte ações narrativas em processos discursivos. Não se trata. e no caso do espaço.do tempo. por exemplo. do enunciado. queremos mostrar um outro ponto de interesse do estudo da organização textual jornalística. o ritmo. em semiótica. “impactar” sem a necessidade de grandes racionalizações. mas de tempo e de espaço que se manifestam no objeto jornalístico por meio da manipulação do plano de expressão. Pode-se observar como o semi-simbólico se apóia no simbólico principalmente para cumprir um papel essencial no jornalismo: fazer sentido rapidamente. a sensação de aceleração ou a desaceleração do texto que é importante para obter e manter um enunciatário atento. é aspectualizar. do espaço e dos atores das unidades noticiosas.

o sentido de tempo de percepção dessa entrevista: o efeito obtido pela inserção do contra-plano é de uma fragmentação do plano de expressão. quanto à da expressão” (idem: 71). como explica Fiorin (1996: 249). Alguém que está acostumado ao tipo de edição (na acepção de ato) do Jornal Nacional. ponto de maior interesse nesta parte do trabalho. depois de lado e de frente novamente. no jornalismo de rádio e TV. o que dá uma sensação de aceleração. a aspectualização também “concerne tanto à organização do plano de conteúdo. E não é difícil perceber que. o espaço e os atores graças à categoria da continuidade versus descontinuidade”. Nas reportagens de TV.68 Apresentemos agora essas discussões de maneira um pouco mais concreta. a mesma notícia de três minutos pode ser sentida pelo enunciatário como mais curta ou mais longa em função. o das estruturas fundamentais. ao entrar em contato com jornais do mesmo nível de outras redes. A sensação de lentidão interfere na atenção do enunciatário. Isso mostra a importância do papel desempenhado pelo manejo aspectual do plano de expressão na produção de um sentido de aceleração do texto. Por fim. em função da coerção máxima de manter a atenção do público. mas alterou-se. O público vê o entrevistado de frente. ao gerar um sentido de maior ou menor aceleração por causa de segmentações ou descontinuidades. à espacialização e à actorialização que são por ela determinadas (idem: 70)”. um grande recurso de montagem do texto.nível das pré-condições e nos três patamares em que se organiza o percurso gerativo. Não houve mudança no tempo cronológico. Mesmo jornais e revistas utilizam essa possibilidade de criação de segmentações das reportagens para dar a sensação de um material que pode ser lido com mais rapidez. entre outras razões. o das estruturas narrativas e o das estruturas discursivas” (idem: 70). É nesse sentido ainda que a aspectualidade do plano de expressão. quando um entrevistado tem uma fala longa. via ato de edição. de que a cena está passando mais rapidamente em relação a uma outra sem o recurso. pode se inserir o chamado contra-plano. o enunciador tem. no âmbito do texto. geralmente sente que os programas são mais “lentos”. E que a “aspectualização constitui uma dimensão hierarquicamente superior à temporalização. o espaço e os atores do discurso e instala um observador que aspectualiza o tempo. por exemplo. Esse efeito de aspectualização do plano de expressão resulta no que é mais conhecido como “tempo psicológico”. 107 . da fragmentação do plano de expressão. com a aspectualidade. “uma ênfase na aspectualidade em detrimento da temporalidade”. Em outras palavras. domina ou sobredetermina o tempo de apresentação (ou cronológico) de uma unidade noticiosa. Trata-se de procedimento notável nos impressos e na Internet: a 68 É importante salientar que o “sujeito da enunciação projeta o tempo.

tensividade e o potencial de curiosidade da notícia. também uma operação ligada à estratégia de sustentação. O que se procura é uma espécie de justa medida entre as curiosidades e as possibilidades de sensações 108 . Uma reportagem com diversas divisões dá a impressão ao leitor de que pode ser consumida mais rapidamente. ou seja. Essa estratégia. o enunciador pode imprimir um ritmo que administre a própria inteligibilidade do texto pelo enunciatário. Um ritmo de cortes intenso no jornalismo – aspectualmente falando. no entanto. como a TV e o rádio. perder a atenção. vinculando-se aos conteúdos das histórias mostradas nas unidades noticiosas. A duratividade ou a pontualidade de um fragmento determina a possibilidade de uma unidade noticiosa ser entendida mais sensorialmente do que racionalmente. No limite. utilizados na estratégia de arrebatamento.por exemplo. o que o torna menos atrativo. como o presidente da república.construção de um ritmo espacial. administrar os cortes tem outras conseqüências. o enunciatário pode ter seu senso crítico manipulado e ser impedido de “axiologizar” o que sente. A maior ou menor aceleração do texto tem razão de ser como parte da estratégia de obter e manter a atenção do enunciatário. Ninguém consegue manter-se atento a um texto que só estimula os sentidos. ou seja. pode permitir que o enunciatário tenha tempo para atribuir valores ao que está sendo apresentado e armar toda uma complexa rede de causas e conseqüências. por meio de descontinuidades do plano de expressão . e se desvincular do objeto “notícia”. como o uso de cores de fundo.uma operação sobre o espaço da página . mantêm relações de união ou de compensação com a estratégia de sustentação. Nesse sentido. é comum um mesmo assunto ser dividido em conjuntos menores. remeter as experiências sensíveis a seu código de valores. Por causa disso. Ao editar. sem cortes. nesse caso. “caixas”. isso sem contar uma série de outros recursos para romper a continuidade. impõe uma dimensão sensível. Sem tempo para pensar. contudo. uma regência do texto pela pontualidade e não pela duratividade . os recursos de expressão. um telespectador ou ouvinte também pode se cansar. Existe uma relação entre aspectualidade. mobiliza o sujeito muito mais sensorialmente. como dizem os jornalistas.simula uma sensação ligada ao tempo. Por outro lado. a aspectualização é também uma das estratégias de manipulação ideológica. o que o jornal deve evitar. não raras vezes só se justifica como meio de “arejar” a página. Há. Em todos os casos. que “dura”. Emerge uma curiosidade ligada à estratégia de arrebatamento. porém. Colocar a foto de alguém muito conhecido. O mesmíssimo texto sem segmentações parece demandar mais tempo de leitura. Nas mídias de hierarquia temporal. uma seqüência longa. pode entediar o enunciatário se for descuidada. ou “boxes”.

que dá a sensação de grande aceleração textual para obter o primeiro contato com o destinatário. o Jornal da CBN quer desencadear a máxima curiosidade do ouvinte. ou seja. no ponto de maior tensão. entrada de músicas. 109 . no entanto. A tomada de consciência da desaceleração pelo público deve ser entendida como um problema a ser evitado nos noticiários. O conteúdo também tem grande variação. Devemos ressaltar a existência dessa complementaridade entre diferentes procedimentos de organização textual. quase uma fórmula fixa. por exemplo. Obtida a atenção. ou entre o jornal de hoje e o de amanhã. Com o seu começo excitante. como mostraremos na análise dos portais. resumos dos fatos mais importantes. trechos de entrevistas. É por isso que se tenta fazer uma passagem bem-sucedida entre a 69 Os sites jornalísticos são as únicas exceções. aqui no sentido de apresentar fragmentos de narrativas curtas. Um ritmo adequado. Qualquer jornal quer sempre um destinatário curioso e atento. Os noticiários estudados neste trabalho. também investem nessa organização textual vibrante no início para obter e manter os laços com o público-alvo. Todos os jornais examinados nesse trabalho. há mudanças de vozes dos jornalistas. no primeiro contato. 69 Essa desaceleração. o telespectador iria se cansar por não conseguir acompanhar as histórias. de conteúdo e expressão. Se o Jornal Nacional mantivesse o tempo todo a segmentação de expressão que caracteriza seus 30 segundos iniciais. um sujeito que atinge a completa tranqüilidade. porém. como a que fecha geralmente o programa . prevê momentos mais acelerados em relação a outros. mesmo que o grau da tensão varie do começo ao fim de um noticiário. Se o mais importante jornal da Rede Globo começasse com uma reportagem longa. Isso significa um objeto que principia com máxima aceleração de expressão. esse ritmo é bem demarcado. precisa ser compensada por outras estratégias. no entanto. que só irá solucionar essa falta de saber se permanecer atento ao programa inteiro. cada um a seu modo.não sem razão apelidada de “boa noite” pelos profissionais do JN possivelmente não obteria a mesma audiência. máxima tensão e finaliza mais relaxado. Na apresentação das manchetes no Jornal da CBN. que deve resultar em um certo “ritmo”. Se fosse uma música. o jornal iniciaria heavy metal e terminaria bossa nova. Nos jornais analisados (com exceção dos da Internet). uma tal vontade de conhecer o que está ocorrendo no Brasil e no mundo. podem desacelerar. O enunciatário deve ser tomado por uma tal carga disfórica. Pode ser observada uma enorme quantidade de estímulos. na hora da apresentação das manchetes. utilizam todas as estratégias.obtidas via plano de expressão e as curiosidades despertadas por meio do plano de conteúdo. por exemplo. jamais concebendo.

Risco: perda da atenção em função da impossibilidade de o público acompanhar a evolução narrativa.estratégia de arrebatamento e a de sustentação. impede a inteligibilidade do texto. tenso. quanto pelas inteligíveis (e passionais) para obter a atenção. sons. Continuidade – gera mais contato sujeito/unidade noticiosa. Podemos afirmar que. no sentido de “vagaroso”. Gera uma sensação de aceleração.70 70 Esse esquema parte de reflexões do semioticista Luiz Tatit (1998). Podemos notar a organização de cada jornal e das notícias como um verdadeiro sistema de compensação entre as possibilidades ofertadas tanto pelas estratégias sensíveis. ou seja. pelo menos no nível da expressão.é o sujeito manter-se atento. maiores segmentos o texto poderá ter. Citemos um exemplo para mostrar esse sistema de complementaridade. Possibilita maior reflexão. A imposição de descontinuidades renova a curiosidade. Tanto um momento acelerado quanto outro desacelerado deve ser tenso. Uma longa entrevista do presidente da República pode ser valorizada com a fragmentação da cena. O que importa – sempre . relacionada com a variação de planos. relacionada ao querer-saber o conteúdo de uma história. apesar de serem bem pouco relevantes do ponto de vista do aprofundamento do conteúdo. a troca de uma curiosidade do nível sensível para outra. maior a curiosidade despertada pelo conteúdo de uma notícia. Os acréscimos geram novas informações. Mostra a valorização da estratégia de arrebatamento em relação às de sustentação e fidelização. que evidencia um enunciador que manipula recursos de expressão e de conteúdo para fabricar uma unidade noticiosa que gere a atenção desejada. 110 . Alguém que vive a disforia de uma curiosidade não sente um texto desacelerado. A menor segmentação do plano de expressão – segmentos mais “durativos” – deve ser compensada por estratégias do plano de conteúdo para manter o sujeito em contato com o jornal. Podemos verificar o seguinte esquema aspectual do plano de expressão e as relações com o plano de conteúdo nos jornais: Descontinuidade – Aviva uma curiosidade sensorial. a intercalação de subtítulos que divide a fala em assuntos. ou “desacelerando”. Trata-se de uma valorização das estratégias de sustentação e de fidelização em relação à de arrebatamento. entre muitos outros recursos para torná-la interessante. Risco: perda de atenção por falta de novidade ou por impaciência. No limite. elementos. já que a tensão do enunciatário é mais manejável.

fazer uma pequena proposta na tentativa de pensar o funcionamento dessa engrenagem nos textos jornalísticos. cuja organização tem como base o tempo (na TV e no rádio) e o espaço (nos impressos e na Internet) expõe as escolhas enunciativas que relacionam. do principal resultado desse ato. Expliquemos. Um texto sincrético. É importante evidenciar que até agora separamos. Queremos.Textualização. Não entendemos. Em um diário. dentro de 111 . o verbal manifestado pela tipografia. fixar os limites de cada unidade. Um ‘spot’ publicitário. nos jornais impressos e nos sites. uma manifestação cultural ou política são. no nosso trabalho. Citamos anteriormente que.. no jornalismo do rádio e da TV são traços das substâncias de expressão das diferentes unidades de um texto que acabam sendo sincretizadas no processo de organização textual. por assim dizer. quer dizer. exemplos de discursos sincréticos. de quadrinhos. em matérias. A manipulação do tempo e do espaço dá pistas de como acontece a neutralização de algumas diferenças entre unidades que são sincretizadas. a hierarquia entre os elementos.). a cena. e o tempo. a partir das orientações do projeto gráfico do jornal ou da revista. O espaço. são fotos. aspectualização e sincretismo O processo de textualização que discutimos até agora. como um noticiário. a diagramação é o elemento organizador do verbal . por exemplo. constrói um “todo de sentido”. de charges. diferentes sistemas significantes. a partir da textualização. em um mesmo objeto jornalístico. quadrinhos.manifestado tipograficamente em títulos. (. depois o som..” Uma questão não desenvolvida por Floch é como essas “linguagens” ou sistemas de significação se organizam para nos dar a sensação de que estamos diante de um “todo de sentido”. entre outros. que também pode ser entendido como um mecanismo de enunciação sincrética. das magnitudes manifestadas que dão a conhecer) se caracterizam pela aplicação de várias linguagens de manifestação. Para o semioticista Francês J-M. o chamado sincretismo semiótico.. um telejornal. que diz respeito à neutralização de certas diferenças entre elementos de um texto em favor de uma significação global.) Afirma-se assim a necessidade – e a possibilidade – de abordar estes objetos como ‘todos’ de significação (. distinguindo as tomadas de câmera. o Jornal Nacional. charges. por exemplo.. no caso dos objetos jornalísticos impressos e dos sites. apesar de mobilizar e relacionar elementos de diferentes “linguagens” ou sistemas significantes. a textualização no jornalismo como ato ligado à ação de editar. a narração. Floch “as semióticas sincréticas (no sentido de semióticas objetos. em legendas – e de fotos. uma historieta. Diagramar é.

o que aparece na tela do computador é uma página virtual cujos elementos podem ser relacionados como se fossem pedaços que vão sendo colados. como seu colega diagramador. tanto de impressos (como o PageMaker. no entanto. 72 Falar em atenção é expor algumas questões da ordem da substância. A organização textual. Anos depois. vinhetas. que produz sentido e. que relaciona as unidades apresentado-as uma após a outra ou unidas. gravações de repórteres. manipula seqüências de falas dos apresentadores. os programas trazem uma ferramenta que é justamente chamada de “linha do tempo”. parte de seus sentidos submetidos e inter-relacionados com outras unidades em favor do texto maior e mais complexo. Essas unidades. por isso. notadamente de expressão. portanto. In Design). títulos. um após o outro. funciona como um grande “adesivo” dos elementos que a compõem.que destaca o efeito do texto sobre o enunciatário – e as reflexões sobre o contexto semiótico contribuem para tentar esclarecer o fenômeno do sincretismo sem nenhum rompimento epistemológico ao expor essa passagem das substâncias às formas. uma forma de expressão semiótica que se manifesta espacialmente. como de rádio e TV (como o Premiere) têm exatamente essa lógica do tempo ou do espaço. “relacionar” as unidades – ou produtos dessas “linguagens” ou conjuntos significantes . ela explica que a relação entre Os programas de edição por computador. Lúcia Teixeira.dentro do efeito argumentativo-persuasivo que se quer obter. a forma (do conteúdo e da expressão) que é significante. executada pelo enunciador com a função de manipular o enunciatário dentro da coerção maior de obter atenção e consumo. portanto. Acreditamos que a análise narratológica da enunciação . 71 112 . A montagem no radiojornalismo e também no telejornalismo manipula as relações entre unidades a partir das possibilidades ofertadas pela manifestação na linha do tempo. matérias. o próprio Floch sistematizou o sincretismo semiótico como resultado de um plano de expressão que estabelece uma única forma a partir da organização de substâncias de linguagens distintas que geram assim um único todo de sentido. o sonoplasta também trabalha com unidades. Floch (1985: 191) explica que a forma “é a organização invariante e puramente relacional de um plano. O diagramador vai “colando” virtualmente cada pedaço. O profissional de rádio. por exemplo. As páginas se apresentam como lugares de limites claros. temos o tempo como hierarquizador. objeto de estudo da semiótica.71 Podem aparecer justapostas ou separadas. Cada unidade tem. como superfícies vazias que vão aos poucos sendo preenchidas por fotos. A página. Em outras palavras. Isso é possível porque todos os elementos citados têm uma característica básica. preocupa-se em mostrar que a idéia de “todo de sentido” de um texto sincrético comporta diferentes tipos de integração entre elementos. o que ela chama de “gradação da taxa de redundância” (2004: 233).determinados efeitos que se espera obter. No rádio e na TV. que examina a questão do sincretismo. no entanto. É. Num programa de radiojornalismo. músicas. É preciso saber “misturar”. uma após a outra. Nas mídias de fluxo. No primeiro caso. Quark. notadamente em textos artísticos e midiáticos. A semiótica se construiu como estudo das formas. são relacionadas numa linha de tempo. que articula a matéria sensível ou a matéria conceptual produzindo assim a significação”. assim.72 indica modos de pensar o funcionamento do sincretismo nos textos.

Numa página de jornal. Nos objetos organizados temporalmente. não é tão absoluta como em relação. preliminarmente. Esse adensamento de sentidos em textos organizados a partir do fluxo temporal pode resultar na dessemantização da carga sensorial de um elemento Essa reflexão também é partilhada pelo semioticista francês Denis Bertrand. haveria uma enunciação para cada sistema envolvido. em alguns casos. as possibilidades de reiteração e de contraponto são um pouco diferentes em relação aos objetos organizados temporalmente. e estruturados a partir do espaço. o efeito pretendido pelo enunciador pode ser o de mostrar-se “democrático”. como sínteses ou discordâncias. pode-se estar reiterando um sentido factual qualquer. Bertrand afirmou que quando uma unidade nega o sentido da outra em um mesmo texto. Citamos que uma notícia pode ser fracionada de tal maneira que não dê tempo para o enunciatário refletir sobre o assunto e o contexto que a gerou. de outro. o sincretismo parece ter menor possibilidade de anular certa identidade de um elemento. A leitura – que. de um lado. as cartas de leitores e uma charge pode justamente estar mostrando um choque de pontos de vista. no entanto.73 Explica Lúcia Teixeira que. será fundamental considerar a estratégia enunciativa que sincretiza as diferentes linguagens numa totalidade significante. trabalham pouco com a fusão de elementos.força o olhar a passar pelas unidades.”75 Vamos pensar essas contribuições a partir da manipulação da atenção. uma após a outra. por exemplo. Nos dois casos. uma enunciação única confere ao arranjo das partes e às múltiplas manifestações de linguagem um caráter de unidade. 73 113 . a idéia de que. como o do rádio e o da TV.74 numa página em que fotografias. ao contrário dos publicitários. nesse sentido. legendas.76 A redundância. 75 Essa discussão consta do texto Síntese das Discussões do Subgrupo de Trabalho Sincretismo na Mídia – Grupo de Trabalho de Semiótica da ANPOLL. “na análise de um objeto sincrético. No caso dos jornais impressos e das revistas. o que se considera é a estratégia global de comunicação sincrética que gera o discurso manifestado. às possibilidades ofertadas pelos meios de comunicação nos quais o público tem acesso a uma espécie de “fluxo” que se dá temporalmente. um “efeito estético”. devemos lembrar. de relacioná-los a ponto de criarem uma enorme coesão. por exemplo. num texto sincrético. 76 Textos jornalísticos impressos.unidades pode causar interações originais. o que pode ser feito de modo contratual ou polêmico. Inicialmente. acontece no tempo . títulos e reportagens narram um acontecimento. pode-se obter. Em curso na pós-graduação da USP em 2003. Rejeita-se. Podemos notar que o enunciador tem possibilidades diversas de dar mais ou menos presença a certos elementos. é possível ter um controle mais efetivo da inteligibilidade de um texto. a diagramação que põe em relação um editorial. portanto. ou introduzir nuances ou correções. 74 Em outro nível de análise.

individualmente em favor de uma estratégia global. por exemplo. obviamente. Acreditamos que as análises sobre as relações entre sincretismo. Há um grande investimento na dimensão sensível. em outras palavras. que se está numa rua movimentada (a). sites e portais) e textos estruturados aspectualmente a partir da temporalidade (caso das TV e rádios). os jornais. O assunto. 77 114 . como se pode ver. podemos observar tipos distintos de sincretização que redundam em textualizações com significados diversos. está longe de se esgotar. se ouvem primeiramente alguns ruídos que informam. que se voltam para cada um dos quatro grupos de jornais. depois a voz de um repórter (b). Nos próximos estudos. No segundo. um adensamento de sentido que provoca menor sensibilização do enunciatário para o reconhecimento das diferenças das unidades. Se. a significação vai ficando mais e mais complexa. organização textual e aspectualização que acabamos de fazer mostram as vantagens de se pensar os objetos jornalísticos como textos sincréticos organizados aspectualmente a partir da espacialidade (como as revistas. em uma notícia de rádio. mas o que é mais determinante para a constituição desses objetos. o impacto será completamente diferente. a significação é resultado do relacionamento simultâneo das três unidades no mesmo fragmento de tempo. por exemplo. não estamos dizendo que não existe temporalidade nos primeiros e espacialidade nos últimos. Se o sincretismo está ligado à neutralização de diferenças na manifestação textual. se todos esses elementos forem ouvidos ao mesmo tempo. tenta-se buscar maior entendimento do processo. No primeiro exemplo. Investe-se na inteligibilidade. temos um efeito global que pode ser descrito como “a” adicionado a “b” adicionado a “c”. em seguida uma música de fundo (c). Entretanto. Haverá um efeito “x”.77 Vale repetir: com isso.

115 .

também trabalha com unidades textuais de fluxo. Por causa dessa característica. realizamos o estudo de cada um dos quatro grupos de jornais: rádio. Depois. Finalmente. em alguns casos. o dos jornais cuja textualização se dá temporalmente.OBSERVAÇÕES GERAIS Nesta segunda parte do trabalho. 116 . concluímos esta segunda parte com o estudo do portal. como vídeos. adaptadas para a análise do portal. desenhos animados. impressos e portal (Internet).as revistas e os diários. Começamos com os impressos . na forma de fluxo. Essa ordem não é aleatória. Rádio e TV se incluem em um mesmo segmento. diversas reflexões dos outros noticiários serão então reutilizadas e. TV. O jornalismo na Internet. apesar de ter como base uma textualização de relações espaciais – como os impressos –. é a vez dos objetos jornalísticos de textualização marcadamente espacial.

dos âncoras. silêncios. E por vários motivos. Para analisar mais de perto o noticiário do rádio. que comentaremos depois. de participantes do programa. O Jornal da CBN. testar hipóteses e ilustrar algumas considerações . músicas. estudamos o Jornal da CBN de segunda-feira. 15 de dezembro de 2003. Considerações gerais sobre o radiojornalismo e o Jornal da CBN Barbeiro e Lima lembram que “existem basicamente dois modelos de redes de radiojornalismo. efeitos sonoros. a CBN caracterizava-se como a maior rede brasileira de emissoras all news. Não se pode negar também a dificuldade de os pesquisadores teorizarem sobre o objeto radiofônico de um ponto de vista mais integral. dos repórteres. O ato de editar relaciona. da captura de Saddam Hussein no Iraque.O RADIOJORNALISMO A análise específica dos quatro grupos de noticiários começa com o radiojornalismo.principalmente sobre o gerenciamento do nível de atenção -. é composto de vários pedaços “encaixáveis” que 117 . Em 2005. Consideramos o jornal de rádio o objeto mais desafiador deste trabalho. Parte do sistema Globo. com transmissão via satélite ininterrupta de programas de jornalismo. ruídos. Belo Horizonte e Brasília. por meio de posições no fluxo temporal. São Paulo. o outro é o modelo all news. Um é a emissão de alguns programas diários. ou seja. falas. O assunto de maior destaque foi a repercussão. Há várias hipóteses para esse cenário. com destaque para o Jornal da CBN. Existem poucos estudos sobre o assunto para servir de apoio. no Brasil e no mundo. foi criada em 1º de outubro de 1991 e estava presente nas principais cidades e capitais como Rio de Janeiro. notadamente com a inclusão das estratégias afetivas e dos efeitos da modulação de voz de apresentadores. em função da necessidade de ser local. nacional e internacional ao mesmo tempo. O radiojornalismo tem ainda uma textualização complexa. geralmente jornais nas pontas do dia. A mais evidente é o desprestígio do rádio e do radiojornalismo. jornalismo 24 horas” (2003: 48).

79 Informações prestadas por Leonardo Stamillo – chefe de reportagem da Rádio CBN. em um mesmo horário. um programa “popular”. cada um adequado a um público específico. Há publicidade de carros blindados. os jornalistas da rádio calculam que 150 mil ouvintes estão sintonizados de minuto a minuto.globo/cbn). com um rodízio de âncoras.o Jornal da CBN cria um grande efeito de proximidade. A tabela 1. Por meio da tabela é possível observar e confirmar as características desses ouvintes também pelos anúncios. Quando entra a programação local paulista. E numa sociedade que valoriza também a “visualidade”. Durante a semana. feita na Capital Paulista para todas as afiliadas. de oportunidades empresariais. Uma das conseqüências é o menor número de entrevistas ao vivo. as afiliadas têm duas alternativas. No site da rádio. acima de 30 anos. Vale lembrar que a audiência tem enorme rotatividade. Podem escolher um outro sinal. economicamente ativos. Há programa também aos sábados e domingos. Nas áreas onde há geração de programação local – como em certas capitais . no final desta parte do trabalho. O termo. das 6 às 9h. o rádio só O âncora.79 O âncora Heródoto Barbeiro comandava o Jornal da CBN no “horário nobre” da rádio. regionais. portanto. vários Jornais da CBN. na qual se destaca o trabalho do âncora Heródoto Barbeiro. segundo o Dicionário Houaiss. freqüentemente com comentários opinativos”.78 Existem. O ouvinte desconhece essa segmentação. O programa examinado neste trabalho é uma “soma” da parte nacional com a que se refere aos acontecimentos da Grande São Paulo. de segunda a sexta. Há. marcada pela oralidade – que remete ao analfabetismo . Há uma parte nacional. Essa característica de o Jornal da CBN ser um noticiário para os chamados formadores de opinião deve ser ressaltada. de intimidade. de companhias aéreas. gerado simultaneamente do mesmo estúdio em São Paulo. é “o profissional de jornalismo televisivo que centraliza a emissão nos noticiários. mas com notícias de interesse geral. inclusive publicitários. mas a estrutura do final de semana é diferente. com o mesmo sentido. Meditsch (2001) lembra em sua obra dedicada ao rádio que esse meio de comunicação é geralmente relacionado a uma forma de cultura “inferior”. afirmava-se que a CBN era direcionada para ouvintes das classes AB. cuidando pessoalmente ou participando da elaboração do texto das informações e apresentando-as. mostra todos os segmentos do programa. pedaços “locais”. é utilizado na rádio CBN (consta do site do jornal: radioclick. das 6 às 9h30. Os jornalistas da emissora apelidaram esse público indistintamente de “gerente”. portanto. Ou inserir notícias de produção própria.geram programas adaptados a áreas específicas. pois parece valorizar tudo o que acontece onde a vida dos ouvintes se desenrola. no entanto.em oposição à escrita. 78 118 . O objeto de estudo não é. Somente um terço da equipe trabalha nesses dias.

qualquer sensação de “tempo real” no radiojornalismo é tratada como efeito do discurso. como Meditsch. acreditamos.. Trata-se de característica marcante do texto jornalístico de meios de comunicação de fluxo. no qual os escritores Artur Xexéu Uma notável discussão dos preconceitos. na CBN. emissor e receptor estão separados pelo tempo e o contexto não é compartilhado por eles. A sensação de “tempo real” A sensação que o Jornal da CBN passa para o seu ouvinte é a de que é produzido no mesmo momento em que é apresentado. como no cinema. O funcionamento do sistema como um todo. como o “Linha Aberta” (de análise econômica) e o “Liberdade de Expressão”. Esse é outro motivo da existência de um pequeno número de análises disponíveis sobre o assunto. como normalmente o faz.” Para a teoria semiótica. produzirá um texto fonográfico: “Seja transmitindo em direto. ou ainda combinando estes dois elementos. na fonografia. Há desde programetes realizados durante o próprio programa. num contexto intersubjetivo compartilhado entre emissor e receptor: num tempo real. Ao contrário.)” (2001:149). a música e os efeitos sonoros ou ruídos. há um “programete”81 chamado “Liberdade de Expressão”. como o “Notícias da BBC Brasil”. Meditsch acredita que o radiojornalismo só tem sentido se analisado como “dando-se no discurso”. 80 119 . por exemplo. e desta forma eficaz e inteligível (. Trata-se de uma das obras que foram guias desta parte do trabalho e que se incluem naquele quinto tipo de estudo que citamos no início: o que busca uma visão menos fragmentada do fenômeno jornalístico. socialmente compartilhável. ou seja. 81 Programetes. obedece a uma série de convenções que o tornam manejável. se retirado do seu contexto. desconhecimentos e reducionismos que cercam o radiojornalismo pode ser encontrada no exaustivo levantamento de Eduardo Meditsch O rádio na era da informação – teoria e técnica do novo radiojornalismo. seja transmitindo em diferido um produto fonográfico que assim atualiza. como outros que parecem ser produzidos em outros locais. teoricamente. como o rádio e a TV. No Jornal da CBN. inclusive por meio de vinhetas. o rádio transmite sempre no presente individual do seu ouvinte e no presente social em que está inserido. meio e fim bem determinados. Caso contrário. que é preciso dar conta da emissão viva e vibrante do radiojornalismo: “A linguagem auditiva do rádio pode ser delimitada.poderia acabar mesmo na situação de o menos estudado dos meios de comunicação de massa. 80 Para fazer o exame do programa. como um sistema semiótico complexo. assim como a definição e o papel da cada um dos subsistemas dentro dele. designam certos quadros que têm “vida própria”. com começo. Uma característica do programete é poder ser reprisado em diversos momentos da programação da rádio.. composto por subsistemas tais como a palavra.

Nos anos 90. Assim. e banir o bom-dia. quando a reportagem está gravada. ao ponto dela ser repetida sistematicamente no rádio e ganhar caracteres na TV. muitas emissoras trabalhavam “com a hipótese de que a atenção média pode se manter por três minutos. E a segunda edição ficaria “velha”.” A organização textual e a oscilação entre o ouvir e o escutar O rádio (e também a TV) caracteriza-se por apresentar uma textualização manifestada a partir da ordenação e da hierarquização de elementos no fluxo temporal. ressalte-se. a aspectualização do plano de expressão (por meio da categoria durativo x pontual) e os semi-simbolismos manejados pela textualização são pensados para obter sempre mais audiência. A razão é simples: o mesmo fragmento é exibido durante a tarde. a RAI fez uma pesquisa na Itália e constatou que esse tempo era de 15 minutos. caracterizadamente. Os profissionais devem colocar no ar um programa com enorme número de apelos para competir com outras atividades 120 . O público. e algumas reduziram essa estimativa para 90 segundos” (2001: 183). O rádio. esclarece algumas possibilidades. porém. no sentido de mobilizar uma atenção absoluta do enunciatário. explicitariam o momento de produção do discurso. como os impressos. O jogo de mostra-esconde desses marcos temporais é uma característica importante não só da linguagem radiofônica. mesmo sabendo-se que essa expressão confere aos veículos de comunicação credibilidade.e Carlos Heitor Cony comentam notícias. O próprio Heródoto Barbeiro. O mesmo autor lembra que há uma oscilação permanente de recepção entre o ouvir (nível pré-consciente) e o escutar (intencionado) do público. não é uma mídia absorvente e excludente. “A recepção desse discurso é. efeitos e conseqüências dessas estratégias: “Na CBN. realizada simultaneamente a outras atividades com que divide a atenção. ou boa-tarde. segundo Meditsch. Na década de 50. está mais esquivo. que cita trabalhos de diversos autores para mostrar como o limite de conservação do tempo de atenção do ouvinte do rádio é cada vez menor. que também é teórico do assunto. no prefácio do livro de Medistch. a recepção do rádio é caracterizada por um zapping perceptivo entre essa atividade e a principal” (idem. Nos jornais organizados temporalmente. nas reportagens gravadas para dar a impressão ao ouvinte de que a matéria é ao vivo. optou-se por não simular o ao vivo. Pesquisas posteriores observaram que o tempo tinha caído para oito minutos na década de 60 e para quatro minutos na de 70. Eles trocam um “olá” no primeiro contato com o âncora Heródoto Barbeiro. uma atividade secundária do ouvinte. como de qualquer jornal. 251). Se falassem “bom-dia”. além do zoom auditivo entre o ouvir e o escutar.

que não podem valorizar da mesma maneira todas as notícias. O público julga e interpreta o que os profissionais do rádio lhe propõem em uma velocidade que só rivaliza com a de um site de notícias na Internet. contudo. Relembremos que manipular aspectualmente o texto é também um meio de impedir ou permitir o exercício da reflexão. mostra irritação e abandona um tom mais ameno. No rádio. uma descontinuidade é tanto uma baixa estimulação sonora após muito barulho como o inverso. é a “chamada de curta duração utilizada em abertura. E isso a partir das estratégias de arrebatamento. em determinado momento.82 de publicidades. Portanto. entrada de vinhetas. No rádio. mesmo com a existência de partes fixas. além da de arrebatar a atenção. com o objetivo de identificar o programa. de recursos sonoros impuseram mais de 600 segmentações no espaço de menos de três horas e meia do programa. Isso sem contar a própria locução dos profissionais da rádio que. criaram ao microfone grandes variações no modo de falar para não perder a atenção do ouvinte. “fisgada”. O que é mais perceptível para o ouvido é a passagem entre dois tipos de sons distintos. Os jornalistas sabem. A segmentação. encerramento ou reinício de programa de rádio ou TV. no Aurélio. Para o destinatário. entretanto. Foi apontado que a primeira imposição da curiosidade (querer-saber) ao público-alvo se vincula fortemente ao manejo dos aspectos sensíveis do texto por meio da aspectualização. a estação ou o patrocinador”. os profissionais se aproveitam ao máximo da impossibilidade de o público prever as seqüências. cada imposição de uma descontinuidade tira partido dessa renovação. sustentação e fidelização que são possíveis no rádio. inclusive sobre a própria notícia e as escolhas do enunciador. ou a quebra de continuidade entre unidades em média a cada 20 segundos (ver Tabela 1). cada mudança. alternância de vozes. tem outras funções. principalmente a partir da quebra de continuidade entre unidades (como a passagem de uma voz do âncora para a do repórter em segmentos muito curtos) e. a atenção é arrebatada. não é uma fórmula mágica. como um entrevistado que. ao impor uma dimensão mais sensível em diversos momentos. É a estratégia de arrebatamento. 121 . 82 Vinheta.realizadas pelo enunciatário e ganhar a atenção dele. no entanto. Do ponto de vista sonoro. no nível da unidade. o que vai acontecer no instante seguinte. sentida pelo ouvinte como uma pequena surpresa. O simulacro de enunciatário pensado pelo enunciador é de alguém que não escuta o programa com a cabeça vazia. por alterações bruscas. O excesso de descontinuidades do plano de expressão. o que surge pode ser sempre algo do maior interesse. em cada segmento. Na edição do Jornal da CBN analisada. Fracionar um texto é administrar sua inteligibilidade.

O locutor deve sempre imaginar um ouvinte ativo. por outro lado. a entrevista. Não sem razão. permite mais contato sujeito/notícia. Fica evidente que. a tensão e a atenção – por meio de depoimento da professora de dicção e oratória Maria José de Carvalho. gera dispersão e aceleração do discurso. não devemos aumentar o volume da voz. principalmente da história da notícia. principalmente a divulgada como acontecendo “ao vivo”. É o que chamamos de pausa de tensão que prepara uma palavra importante. ‘onde?’. Este ouvinte a todo momento o interrompe para fazer perguntas. Um dos mais poderosos. foi um dos momentos do programa com os maiores segmentos. São momentos em que prevalecem as vozes institucionais. a astúcia do âncora: ele só não faz interrupções quando um entrevistado desenvolve uma fala de grande interesse em função da apresentação de novidades. análises. da perspicácia da análise. interlocutor. informando a importância do que se apresenta no fluxo sonoro. de apresentação das principais chamadas. obtido o querer-saber por via do conteúdo. dos comentaristas. o locutor faz uma pausa de tensão. o silêncio. O Manual da Jovem Pan detalha esse efeito – ao relacionar a curiosidade do ouvinte. A curiosidade.mobiliza ainda outros recursos no rádio. conhecidas. importante para a expressão” (1986:79). etc. na orientação de Maria José de Carvalho aos jornalistas. tem duas funções. da utilização do humor. Nota-se. O excesso de continuidade. não é necessária grande variação de expressão por um certo período. é manejada via plano de conteúdo (estratégias de sustentação e fidelização) e não pelo plano de expressão (estratégia de arrebatamento). a partir das relações que estabelece com outras unidades do texto radiofônico. de unidades mais duradouras. ou seja. é a pausa na locução. A atenção obtida via curiosidade para o conteúdo da notícia – estratégia de sustentação . porém. Há sempre risco de perda da evolução narrativa. O silêncio. Percebe-se. dos analistas. relatos. se bem utilizado. A primeira é de valorizar conteúdos. Ao imaginar interrupções com perguntas do gênero ‘o quê?’. ex-docente da ECA/USP: “Para enfatizar as palavras importantes. dos jornalistas.Como lembra Tatit (1998:22). ressalte-se. Um entrevistado pode demorar um tempo para responder a uma pergunta que 122 . Possibilita maior reflexão. ‘por quê?’. Mas há também situações nas quais nada acontecer tem sentido. Outros segmentos que chegam a mais de um minuto dizem respeito a histórias enviadas por ouvintes e comentadas pelo âncora. que possibilita a concentração da atenção no que será dito a seguir. que os profissionais devem tirar proveito da curiosidade do ouvinte quando sentem que ele já está passionalmente envolvido com uma unidade noticiosa. nesse ponto. Há um fragmento sobre a captura de Saddam que dura 45 segundos na parte inicial do programa.

o Jornal da CBN começa com a apresentação das A tomada de consciência da desaceleração textual pelo público. sem sentido” (1998: 22). pode ser interpretado pelo ouvinte como um momento de elaboração de uma desculpa. em outros esse mesmo estado ocorre por meio da pausa de tensão. é um problema no jornalismo. o excesso de continuidade pode desacelerar demais o discurso. esse silêncio. relacionada ao querer-saber o conteúdo de uma história. deixa o enunciatário tenso. um querer-saber. do silêncio retórico. Ouvir alguém falando continuamente cria problemas. Nesse caso. uma vez tendo despertado seu ouvinte.estratégia de arrebatamento .o texto pode ter uma segmentação menor. Quando essa ligação tende a se afrouxar. é que o jornal. Descontinuidades. mesmo assim. assim como os jornais de outros veículos que estudamos neste trabalho. O texto radiofônico se constrói tal qual uma música. este é ainda um aspecto musical da linguagem radiofônica mais presente para os seus profissionais” (Meditsch. A edição de fato determina o ritmo do programa. como o silêncio retórico. faz com que cada programa crie seu próprio ritmo a partir do que os jornalistas avaliem como mais eficaz na maneira de obter audiência. ou seja. como um segmento que dura. vamos insistir. 2001: 161). a troca de uma curiosidade do nível sensível para outra. que pode ficar “sem metas. pode diminuir a estimulação e. Pode trazer monotonia e perda de atenção por falta de novidade. De um ponto de vista geral. Como afirma Tatit. entre continuidades e descontinuidades.tem a função de despertar a atenção do ouvinte durante o fluxo noticioso.o embaraça. o público é “chacoalhado” novamente. 83 123 . Obtida a curiosidade para a história da notícia – estratégia de sustentação . que para ser satisfeito. Relembremos que a estratégia de sustentação se vale principalmente da capacidade de certos aspectos da notícia provocarem uma disforia no ouvinte. monopoliza a atenção. portanto. por exemplo. mas com certos andamentos. Por isso é que se tenta fazer uma passagem bem-sucedida entre a estratégia de arrebatamento e a de sustentação. do suspense. são importantes no rádio. sem direção e. Se a alta estimulação de alguns momentos do programa. o jogo que se estabelece na organização textual do Jornal da CBN é o seguinte: o grande número de segmentações. entre segmentos que duram e outros mais pontuais. Essa é a principal característica de ritmo textual do programa.83 O que se observa. Esse jogo aspectual. no entanto. “A relação do ritmo musical com a edição radiofônica não é apenas retórica. Ainda que a maior parte dos programas tenha o seu ritmo determinado de maneira mais instintiva do que consciente. Em outras palavras. Alguém que vive a disforia de uma curiosidade não sente um texto desacelerando em função dos segmentos mais longos. manter determinado laço. de variações e combinações entre elementos .

na busca de tensão. O estudo dos efeitos da fala dos âncoras. rápida. Uma voz conhecida no rádio gera um sentido de “familiaridade”. pensamos a estrutura do noticiário do ponto de vista de um ouvinte que acompanha o programa do começo ao fim. ele se integra ao noticiário graças ao reconhecimento da voz do âncora. 84 124 . e termina quase sempre com humor. tanto profissionais como entrevistados. dos redatores. Trata-se do Repórter CBN. como também cede e controla a voz de outros enunciadores. entre os objetos aqui estudados. O modo de falar também é parte importante da estratégia de fidelização. geralmente com uma canção que ironiza uma notícia e seus personagens. Um programa de rádio é uma sucessão de elementos (vozes. como já vimos.84 No trecho anterior. termo que é possível ampliar para descrever o O jornal de rádio. No entanto. ser apresentado somente por meio de uma linguagem.como a base desse complexo discurso marcado. Consideramos a locução – notadamente a fala do âncora . é o único que poderia. Entre esses dois extremos existe até um “refrão”: a reapresentação das “notícias mais importantes” a cada meia hora. sob um fundo musical que também acelera o discurso. pela organização temporal do plano de expressão. de um tempo reconhecível como o do cotidiano. Inicialmente. o verbal oral. relacionando seus sistemas significantes verbal e musical com elementos importantes dessa forma de comunicação. dos repórteres. como os ruídos e os efeitos sonoros. Ele não apenas apresenta e discute as principais notícias. que manipula o dial e chega em pleno andamento do programa. a fala do âncora administra outras falas. Essas unidades são hierarquizadas e manejadas dentro de um fluxo por meio da montagem. relaxando um pouco nos instantes finais. em análise da locução do futebol. em tese. Há leitura de textos curtos. podemos observar como o Jornal da CBN é pensado muito mais para um enunciatário que ouve apenas algumas partes. A locução como elemento organizador Vamos analisar agora como o Jornal da CBN estrutura-se de um ponto de vista mais específico. No Jornal da CBN.principais chamadas. Carmo Júnior (2004: 141). outros sons que tanto podem ser efeitos de sonoplastia como a conseqüência involuntária da própria produção do texto. numa locução tensa. mais do que em função das vinhetas. músicas. como barulhos de carro captados numa reportagem na rua). apresentadores e repórteres é um grande desafio a ser vencido no entendimento do radiojornalismo. dos comentaristas. chama o locutor esportivo de “encenador vocal”.

como lembram Ducrot e Todorov (1972: 172). por exemplo. A intensidade de um som vincula-se ao grau de força com que o som da fala é proferido. um café” pode ser dita por alguém que queira sobrepor ao seu pedido o seguinte significado: “Eu não agüento mais esperar”. da distância entre a língua e o céu da boca. a intensidade e a duração. Armand Balsere (apup Meditsch.trabalho principalmente dos âncoras do radiojornalismo. onde o serviço se mostra lento. como se o modo humilde do pedido fosse uma maneira de ele comunicar que compreende que o atendente está com serviço demais. utilizar os recursos prosódicos. ou agudo. em fonética e fonologia. as mais fechadas. “componentes em geral reconhecidos nos estudos dos sons da linguagem”. A altura de um som é. A oralidade dos âncoras acresce efeitos de expressão ao verbal escrito. em uma altura e intensidade pouco usual para a situação) mostra estratégias de enunciação que se valem da riqueza das possibilidades de entonação. Muitos candidatos aos palcos fazem exercícios nos quais aprendem a dizer “algo a mais”. a partir das mesmíssimas palavras. Essa distância é a máxima possível para o ‘a’. O estudo da modulação de voz é fundamental para entender como um fragmento de notícia pode ser desvalorizado ou valorizado pela maneira de o apresentador. Uma mesma frase – do 85 Referimo-nos aqui às técnicas para atores de Constantin Stanislavski. 2001: 191) diz que esse segundo significado é próximo da idéia de “subtexto” do teatro. a qualidade do som da fala relacionada com a freqüência das vibrações que têm como resultado o agudo e grave. dificilmente obtém-se uma tensão constante dos órgãos da fonação. O subtexto é resultado de uma complexa relação entre expressão e conteúdo. a altura. a vogal mais aberta. por exemplo. capricha no sentido de súplica. isto é. Um tom irritado (que enfatiza. é preciso apresentar algumas dessas possibilidades de efeitos da fala. A duração de um som. com significados distintos. ao roteiro que é lido pelos jornalistas. 125 . que envolvem o timbre. Antes de seguir em frente. Percebe-se diferentes “subtextos” nesses dois casos. a duração das sílabas e da frase. A mesma frase: “Por favor. e geralmente se assiste a uma modificação da qualidade de um som prolongado” (1972: 172). ensinam Ducrot e Todorov. e a mínima para o ‘i’ e para o ‘u’. É pelo timbre que distingue a voz de uma pessoa da voz de outra. “é a percepção que se tem de seu tempo de emissão. médio e grave.85 Pode-se notar. O timbre é efeito ou qualidade acústica que se obtém a partir dos diversos graus de abertura da cavidade bucal. como os clientes pedem um café em uma padaria lotada. Ou ainda por outro cliente que. No que se refere aos sons da fala. por exemplo. ao utilizar as mesmas palavras.

destinatário. Notamos um caso mais comum no Jornal da CBN.. que o café seja servido. em seguida. Alguém que dá uma ríspida saudação também mostra uma outra característica notável de jogo entre o dito e o efeito proporcionado via entonação: um desacordo entre esses dois níveis da fala. O sentido primeiro. Isso significa que a notícia vai sendo exposta como “julgada” pelo enunciador. no seu Manual de Radiojornalismo.ponto de vista do registro escrito . Há “acentos de expressividade” (Drucot e Todorov.se abre para estratégias de manipulação distintas na fala e. uma notícia é composta de uma parte feita na redação.). como destinador. A regra básica é dar sentido à fala. Quem opina é o entrevistado. o que se deseja é a realização de um ato. objetivo. além de desagradável. vale notar. Ao mesmo tempo. É o âncora que mais “sente” a notícia (modulando a voz) e tenta fazer com que o ouvinte partilhe desse tipo de sanção.as sonoras – 126 . da altura e da duração da voz). 1972: 175) que incidem em certas partes da emissão da notícia (uma administração de recursos de intensidade. no entanto.. É comum ouvirmos o âncora e. não foi prejudicado. Nos dois casos. Barbeiro e Lima. no segundo. uma “sonora” – trecho gravado de entrevista . Sonoras opinativas são sempre mais contundentes e chamam mais a atenção do ouvinte” (. como a de manter distanciamento em relação às notícias apresentadas. O depoimento que termina com a entonação ‘para cima’. lida pelo locutor ou apresentada e comentada pelos repórteres... Um empregado pode prever como será sua jornada pela entonação do bom-dia do chefe. O contexto e o enredo devem estar no texto redigido pelo editor. Podemos observar cotidianamente diversos exemplos de “acréscimos” de sentido por meio do uso dos recursos prosódicos.que faz parte da notícia. o cliente da padaria. Por essa afirmação. investe na intimidação (dever-fazer). tudo é planejado de modo a parecer que não se subvertem certas coerções do jornalismo. dá a impressão de que o entrevistado foi cortado antes de completar o pensamento ou que foi alvo de censura” (. Um choro. Esse recurso euforiza ou disforiza o conteúdo das notícias em alguns momentos. No primeiro exemplo. O editor não opina no texto. efeitos de sentido afetivos que cumprem uma missão persuasivoargumentativa. de conteúdo imparcial. encaixada em um universo de valores. a edição final adiciona os trechos gravados . “As sonoras devem ser o mais opinativas possíveis. na sedução (querer-fazer) do balconista. ensinam: “Os pontos ideais para os cortes e emendas são descobertos pelo editor com a prática e a sensibilidade. Em seguida.) “Sonoras que contêm emoção também rendem boas edições. que se apresenta como outra especificidade do programa. A sonora deve terminar com a entonação ‘para baixo’. uma gargalhada ou uma frase em tom de desabafo às vezes dizem mais do que uma declaração de 50 segundos” (2003:79).

o ouvinte toma contato com unidades que já se apresentam “sensibilizadas”. recurso comum no jornalismo. ou seja. como discutimos no início do trabalho ao mostrar três versões distintas de jornais impressos em relação à visita de Lula a São Bernardo. e não de um fragmento cuidadosamente editado para se adequar a uma lógica de busca de audiência e de reafirmação de valores do enunciador. Uma tensão crescente ou decrescente da voz (fenômeno de intensidade de emissão. contendo valores que trafegam entre a repulsa e a atração na visão de mundo do enunciador. Outro ponto que ajuda nesse efeito é o próprio sentido de “concretude discursiva” que a sonora apresenta. No programa analisado. A idéia de “dizer sem dizer”. de sua voz. no final das contas. sem esses mesmos recursos de entonação.que devem servir como contraponto. o que determina uma valorização em relação a outras. inicialmente. Lembremos. ou seja. dos repórteres e até mesmo dos entrevistados. Do ponto de vista semiótico. por exemplo. Há sonoras com os expulsos e também com os membros do partido que votaram pelo desligamento dos 127 . o âncora Heródoto Barbeiro apresenta a notícia da expulsão dos “radicais do PT”. A apresentação da unidade noticiosa pode ser feita numa intensidade e numa altura maiores e numa duração mais rápida. Por meio do movimento de entonação dos locutores. O ouvinte parece ficar diante do “entrevistado”. A encenação vocal é realizada a partir desse conteúdo editorial mais objetivado. seu estado emocional. tem assim grande valor para um jornalismo que precisa se expor como objetivo e imparcial. A interpretação sobre a enunciação – ou seja. mas podem eximir-se delas. sem certas marcas de subjetividade. Essas escolhas sempre expõem a visão de mundo do enunciador. Os jornalistas levam o ouvinte a determinadas interpretações. mas que também pode incluir variação de duração e altura da fala) sobre certos detalhes pode conferir mais proximidade ou distanciamento afetivo que o locutor encena e espera que seja compartilhado pelo público. a locução se fazer a partir de um conteúdo verbal mais “objetivado”. o uso da terceira pessoa nas frases. que a “pinchagem” e a montagem dos “fatos” para compor a notícia só têm sentido a partir de uma ideologia. notadamente por meio de uma desembreagem actancial enunciva. mais evidenciadas nas sonoras. A notícia aparece na forma de sucessão de fatos. sobre a forma de dizer do enunciador –. aparece como de responsabilidade exclusiva do enunciatário. em que aparece a subjetividade do entrevistado. É comum na CBN. A justificativa é que apresentam um conteúdo aparentemente mais impessoal. essas sugestões referem-se muito mais aos “efeitos” que se quer obter. que está por trás do subtexto do programa e das possibilidades ofertadas pela riqueza prosódica.

no rádio brasileiro. podemos verificar a existência de uma fala mais sóbria (menor modulação). o que é legítimo. nessa sonora. Nesse momento. Todos esses recursos prosódicos ridicularizam a sonora que vem a seguir. por meio da entonação. O próprio Jornal da CBN tem um locutor “à moda antiga”. como a Eldorado. Ele ressalta determinados conteúdos. O âncora ainda desacelera o final de sua fala. como o próprio PSTU. foi algoz dos radicais do PT durante a reunião do diretório. a encenação vocal é uma coerção cada vez maior dessa forma de jornalismo. Pode-se observar o efeito pretendido de imparcialidade. No entanto. Tudo indica que. não fez nenhuma ameaça. a busca de um jeito neutro para apresentar as notícias é sempre um risco considerável. Nessa discussão sobre os efeitos da fala. Como lembra Barros (2000: 74). nesse sentido “sancionador”. na apresentação das notícias. Heródoto: “Grande articulador no Congresso durante as reformas. de bela voz e que pouco modula a fala. Aluízio Mercadante. O senador afirmou que “os infiéis tomaram outro caminho dentro do partido e irão se arrepender no futuro”: Mercadante: “A divergência de fundo é um problema. no passado. é uma visão de partido. partiram para construir um outro partido. entre outras conseqüências.” Heródoto. ou de citar as diferentes versões. Teoricamente. Laerte Vieira. o líder do governo no Senado. Pode haver perda de atenção do ouvinte. Um setor da esquerda sempre achou o PT como (sic) um partido tático. 128 . É notável ainda que a última afirmação de Heródoto não se confirma na fala do deputado petista. Sempre achou. não apresenta uma série de características da fala cotidiana. é preciso salientar ainda que a maior parte da informação do rádio é lida pelos seus profissionais. imita o timbre de um ator canastra de um filme de quinta categoria. padrão de algumas rádios informativas.parlamentares. trabalha cuidadosamente sua entonação. o que aumentaria o efeito de objetividade. a frase “os infiéis tomaram outro caminho dentro do partido e irão se arrepender no futuro”.. aumentando ainda a intensidade e a altura da fala nesse momento. é comum haver no rádio um texto escrito realizado oralmente que. coloca acentos de expressividade em pontos bem determinados. fazendo as vogais durarem. Dá grande destaque. de Aloísio Mercadante. entretanto. E alguns.. a “algoz”. no entanto. Depois enfatiza. não tem tempo de realizar essa associação em função do ritmo da sucessão de falas. Mercadante. Essa intencionalidade evidente do enunciador faz pensar sobre a opção de uma fala neutra na apresentação de conteúdos jornalísticos. não estratégico. por exemplo. O ouvinte.

hesitações. Em alguns momentos. Ele cria assim um sentido de “aspas” sonoras. 129 . Sabemos que a oralidade dos profissionais do rádio é uma “espontaneidade treinada”. ruídos e a relação com a fala Mostramos alguns aspectos superficiais da locução. pausas. E vice-versa. Na análise do Jornal da CBN é possível notar que existem diferentes gradações na forma de modular a voz. um fazer crer na existência de um determinado nível de improvisação. dos efeitos sonoros e dos ruídos. ou e-mails de ouvintes. troca de informações não planejadas entre os próprios jornalistas. Há brincadeiras. e também de TV. é mostrado como um “igual”. comentários a partir das discussões com entrevistados. No entanto. e não lendo algum texto. uma unidade em si mesma sincrética. portanto. O Manual de Radiojornalismo da Jovem Pan. como o “Liberdade de Expressão”. Entretanto. O programa cria assim um grande efeito de proximidade com o público. Essa é a razão dos manuais de rádio. que partilha das gozações que quebram a “seriedade” das falas em alguns momentos. insistirem na construção da informação em frases curtas.As de prefixo. retomadas. No jornal da CBN. num tom que se contrapõe à apresentação de notícias. efeitos sonoros. por exemplo. para dar a impressão da fragmentação típica da fala. como se estivesse falando de improviso” (1986: 78). o âncora Heródoto Barbeiro comenta jornais. por exemplo. que relaciona o discurso oral. O enunciatário. entendida como elemento que constrói a lógica do programa. o jornalista separa sua enunciação de outra. ligadas às segmentações do radiojornal. Podemos observar dois tipos: a . entre outras instruções para os locutores. b. os ruídos e a música. ressalta: “Leia naturalmente. um amigo. e deixa claro que está lendo. Em outras palavras. pode-se observar no Jornal da CBN um grande espaço para essa manifestação. É muito comum Heródoto fazer graça com a derrota do time de um repórter. É momento de investigar o papel da música. frases incompletas.A música é parte essencial das vinhetas. os profissionais do radiojornalismo têm de enfrentar outra coerção: criar a sensação de que estão em pleno diálogo com o ouvinte. Música.como reformulações. as composições musicais têm quatro grandes possibilidades de aplicação: 1. se tivermos em conta que as falhas. pausas. redundâncias são marcas da fala menos premeditada.As que caracterizam o começo e o fim dos programetes.

locutor ou repórter. Já os ruídos são interpretados como incidentais. barulhos e interferências dão “concretude” ao discurso. Estamos chamando de efeitos sonoros certos tipos de sons que os ouvintes acreditam que são manipulados em um estúdio. se ouve o refrão de uma canção infantil: “Sou invencível/ somos amigos/unidos venceremos a semente do mal/Eu tenho a força/ sou invencível”. à evocação de experiências anteriores – estratégia de fidelização. via manipulação sensorial do ouvinte.As vinhetas impõem descontinuidades na programação. ruído e efeitos sonoros cumprem bem a função de serem mais um meio de criar descontinuidades e de buscar a atenção do enunciatário. principalmente a fala do âncora. que analisaremos em seguida. ou seja. 3 – Fechamento do programa com bom humor. que não pode deixar de dar estímulos ao ouvinte sob pena de perdê-lo. há importantes efeitos de realidade. instauram maior sentido de realidade por fazer com que os ouvintes reconheçam sons do cotidiano. o ouvinte pode localizar em que parte do fluxo radiofônico se encontra. uma reportagem foi produzida em algum local fora do estúdio e os barulhos acabaram fazendo parte da gravação. Há. Em seguida. a idéia de que certas notícias são mais importantes e merecem mais atenção. Antes. Em uma mídia de fluxo. Nos dois casos. previamente gravados. Têm. Trata-se de uma utilidade específica da música no Jornal da CBN. projetando. A notícia é ironizada. No caso do programa analisado. o âncora Heródoto Barbeiro diz. vale a pena salientar o papel desses recursos na estratégia de arrebatamento. que a prisão do ditador foi “anunciada com polpa e circunstância pelo administrador do Iraque. 4 – Preenchimento do silêncio. O Jornal da CBN tem um trilha sonora (que não deve ser confundida com a vinheta) utilizada na apresentação e na valorização das chamadas em certos momentos da programação. um apelo à memória. Outro aspecto sempre destacado por diversos 130 . a missão de arrebatar ou manter a atenção dos ouvintes. É o caso do Repórter Aéreo CBN. Por meio das vinhetas. 2 – A música sobredetermina conteúdos. portanto. Os ruídos. we got him”. Entra sonora de Paul Bremen: “Ladys and gentlemen. Estudemos agora os efeitos sonoros e os ruídos. em que se ouve o som do helicóptero no momento em que a jornalista comenta o trânsito. No Jornal da CBN. Paul Bremen”. principalmente de locais onde os repórteres afirmam narrar. dentro da estratégia de impedir qualquer possibilidade de monotonia discursiva. A música dá a idéia de que o programa evolui mesmo quando não existe outro som. em tom de galhofa. Também criam um meio mais eficaz de reconhecimento. portanto.

sugere maior valor afetivo da notícia. Aparecem em vinhetas. imediatismo. Um aspecto importante da natureza do som. Um dos mais ouvidos é um “tchom”. uma alternância entre subposição. os efeitos sonoros também são importantes para criar descontinuidades. que se contrapõe à locução do estúdio. mais organizada.autores é que a baixa qualidade de emissão do som. o ouvinte também passa a saber o que será tratado no próximo segmento. Com os efeitos sonoros. nesses momentos. Já os efeitos sonoros têm grande utilidade no programa. editado e. e sobreposição. que o faz parecer acelerado. Analisemos agora a relação entre a música. por isso mesmo. buzinas de veículos. cria um sentido de menor controle dos conteúdos. (Dito de outro modo. quando se tenta despertar o ouvinte. mais verdadeiro. que soa como um “ataque consonantal”. ou seja. para que ele passe do vínculo do “ouvir” para o do “escutar”. Certos sons também podem adensar a emissão a ponto de impor uma modulação em relação à voz dos apresentadores. literalmente “vibrante”. Temos um outro sistema semi-simbólico. Nesse sentido. Isso quer dizer que o Jornal da CBN é manifestado por um grande número de estímulos por segundo. O manejo de recursos do plano de expressão deve produzir um ouvinte tenso que. É a passagem da estratégia de arrebatamento para a de sustentação. é o de sempre remeter a uma ação. a voz humana não consegue chegar aos graves e agudos de diversos instrumentos musicais. o que soa para o ouvinte como algo menos mediado. Durante a apresentação das manchetes. ou em background – BG. Deve-se observar que existem momentos de maior imposição da atenção. envolvido depois pelas manchetes. como lembra Meditsch. Nota-se a estratégia de arrebatamento. deve ficar com vontade de saber o que motivou os acontecimentos citados. mudanças de vozes entre jornalistas. nunca a um estado: “A existência do som depende de 131 . principalmente a do âncora. há intercalação de sonoras. tem como principal característica discursiva apresentar uma reunião de todos os seus recursos expressivos. O repórter parece estar em uma situação sem grandes possibilidades de controle. utilizado antes da apresentação da hora certa. os ruídos. no qual o som “sujo” – com muitos ruídos e baixa qualidade de emissão . A fala. os efeitos sonoros e a fala no rádio. com apresentação de manchetes. para “despertar” a atenção. no fundo. com interferências de todo o tipo. da passividade para a atividade. a música é uma aliada importante. em primeiro plano). aparece acelerada: maior altura e intensidade. proximidade. Além desse outro caso de concretude. O programa. de sentido de realidade. já que tem uma força e uma abrangência acústica que superam a da fala em função das possibilidades de amplitude sonora. menor duração na emissão das sílabas. nas quais se ouvem sons de trânsito.

que justamente “funcionam”. “a hierarquização (dos conteúdos) deixa de ser feita pelo critério do que vem antes ou depois para assumir um critério compatível com a fluidez..em maior altura e intensidade. música. ou fazem sentido na cabeça do ouvinte. ação em si mesma que remete a uma outra ação. necessariamente.. Em conseqüência. durante a programação. No rádio. como lembra Meditsch. a visão ou o tato – a não ser pelo auxílio da ação da palavra. com emissão rápida87 -.) O imparável movimento dos sons estabelece. uma forma de estruturação espaço-temporal que é única” (2001: 157). a possibilidade de se criar a sensação de que o fluxo sonoro parou. essa organização de categorias do plano de conteúdo com categorias do plano de expressão determina relações de valor da notícia em função do tempo ocupado. serão essas notícias que irão receber mais tempo no fluxo do programa. se posicione diante do que o enunciador valoriza e quer que também seja valorizado pelo enunciatário. Essa interrelação de diferentes unidades sonoras (fala. 86 87 Há. esse efeito se adiciona à locução jornalística . Depois. Veremos depois. capitaneada pela locução. O texto jornalístico de rádio é montado para criar determinados efeitos. a alguma ação: o que permanece imóvel não soa. As presenças do mar e de um relógio podem ser facilmente captadas por meio auditivo. é manejada para que o ouvinte. para as linguagens estritamente auditivas. porque ele já introjetou as próprias regras da textualização. o que resulta no semi-simbolismo de texto inteiro: o que tem maior valor é o que ocupa o maior tempo. senão pelo olfato. a informação que a percepção sonora nos proporciona sobre o mundo refere-se.. A questão do tempo e do valor da notícia: a prisão de Saddam Afirmamos em outras partes do trabalho a existência de um sistema semisimbólico de texto inteiro (ou um “semi-simbolismo cristalizado”) bastante evidente nos noticiários. contudo. No radiojornalismo. mas as de uma flor e de um vaso não podem ser adivinhadas. na análise dos jornais impressos. a exposta pela própria notícia. Esse adensamento sonoro fisga a atenção do ouvinte para as “notícias importantes”. em linhas gerais. 132 . como os diferentes formatos de letras e seu posicionamento espacial tentam reproduzir esses efeitos da locução. No rádio. efeitos sonoros e ruídos).um movimento e a sua simples presença indica que algo se move ou se modifica.86 Os sons transmitem principalmente a idéia de ações em plena execução. É o caso da notícia sobre a detenção de Saddam Hussein no Iraque. baseado na freqüência. a duração do enunciado e a repetição de sua enunciação passam a ser os recursos predominantemente utilizados para enfatizar a sua importância” (2001: 202). Em função dela. (. nesse ataque sensorial.

houve uma repetição completa da notícia.88 88 Até onde pudemos observar cotidianamente. muito mais interessados em manter e cultivar um laço do que em trocar novidades. em nenhum momento. Muitos programas de radiojornalismo no Brasil ocupam tempo com assuntos não jornalísticos. é a evolução da reportagem sobre o assunto durante o próprio jornal. quem permanecer mais tempo terá a possibilidade de ouvir as informações principais serem aprofundadas. Não se pode negar ainda. Do ponto de vista do enunciador. os comentários de futebol que nada informam. que o único sentido investido em determinados momentos é o de proximidade. Vale observar como a notícia se “espalhou” pela edição. Vale salientar que as características que apontamos para a textualização jornalística do rádio. podem ser incluídos em um grupo mais amplo com certas características em comum. Na tabela 1. como a repercussão da prisão de Saddam. Em compensação. inclusive em outros programas da própria CBN. apareceu durante o noticiário. a captura de Saddam Hussein no Iraque. vamos retomar agora o programa em estudo. o texto do radiojornalismo tem uma característica que o aproxima do da Internet. entre outros recursos. a cessão de tempo para um artista falar de uma peça de teatro de 133 . no sentido de repetição de trechos idênticos das mesmas notícias. mostram um enunciatário entendido de maneira dinâmica e fragmentada. Saliente-se que. esses programas como essencialmente jornalísticos. por exemplo. Foram buscados recursos diversos.Para analisar melhor a questão. e notadamente as relações entre valor da notícia a partir do tempo de apresentação no fluxo informativo. a prisão é o fato desencadeador de maior atenção – e assim deveria ser entendido pelo enunciatário ouvinte. 15 de dezembro de 2003. Em outras palavras. como se o ouvinte partilhasse de uma conversa entre amigos. Vale lembrar que esses enunciatários. mostramos como o principal assunto. principalmente de classe social e nível cultural. numa audição de meia-hora. geralmente leituras de roteiros com sutis diferenças para retomar a descrição da captura de Saddam e as conseqüências da prisão. ou seja. As infindáveis conversas entre locutores. o ouvinte tem um verdadeiro resumo das posições obtidas em pouco mais de três horas de programa. Podemos considerar que a edição do Jornal da CBN apresentou a captura de Saddam como a mais importante notícia em função do tempo cedido e da reiteração do assunto durante todo o programa. Não consideramos. de maneira de apresentar a informação. atualizadas e oferecidas em diferentes perspectivas. O ouvinte não precisa participar do programa do começo ao fim. O que é mais notável. há pouquíssima redundância. a seguir. a utilização de um mesmo trecho. no entanto. no Jornal da CBN. notadamente a questão da manipulação do tempo e sua relação com o nível de atenção e de tensão noticiosa. entretanto. Nos minutos finais. com diferentes objetivos e ofertas de tempo. vinculam-se ao Jornal da CBN. Se o conteúdo é o mesmo. entretanto. A segmentação do programa e também as retomadas das notícias mais importantes. É concebido para atrair enunciatários distintos. Outro aspecto do jornal é o seu dinamismo. o Jornal da CBN de segunda-feira. É possível conhecer os assuntos mais importantes. há variação de frases.

A prisão de Saddam. buscar tensão a partir de novas perguntas que passaram a não ter resposta. notadamente por meio de entrevistas com autoridades e até mesmo com jornalistas de diversos países que. criou uma descontinuidade (ele estava desaparecido). não está. O âncora da CBN fez do embaixador uma espécie de correspondente especial. na idéia de que as novidades têm de ser necessariamente ruins. Aliás. a repercussão é um “agora”.os elementos de atualização. o programa evita que a notícia seja interpretada como “velha”. no sábado. A estratégia da CBN. mas uma espécie de “aqui-mundo”. é um “aqui”. entrevistou o embaixador do Brasil em Israel. sobre a repercussão da prisão de Saddam entre israelenses e palestinos. se questionam se a paz seria conquistada. Uma das conclusões do trabalho: “A emissora dá pouco pouco destaque só mostram os problemas do veículo. O efeito de proximidade temporal e espacial não é o bastante para motivar o consumo de uma notícia. A estratégia do programa foi a de “esquentar” a notícia. e foi divulgada no domingo. É preciso instaurar uma curiosidade (querer-saber). A captura ocorreu quase dois dias antes. a falta de investimentos na área e a baixa e deficiente profissionalização. sempre lembradas pelos próprios jornalistas e pelas entidades que os representam. sociais e políticas . por exemplo. Entrevistados e âncora. foi contextualizar a notícia e.O jornal analisado é o da segunda-feira. questões.o fato gerador da notícia. Desse modo. um acontecimento desejável. E ressaltou que a entrevista era “ao vivo”. Heródoto Barbeiro. repercutiam a prisão do ditador . e o que estava acontecendo em Israel. assim. todo o trabalho jornalístico do programa pode ser resumido em uma única pergunta: “Como ficam o Brasil e o mundo após a prisão de Saddam?” Mais do que recuperar o que aconteceu. Falar em descontinuidade significa apontar uma quebra de rotina que tanto pode ser positiva (relação sujeito-objeto desejável) quanto negativa (relação indesejável). Se a prisão aconteceu em um tempo anterior. Trabalhou-se com um efeito de enunciação enunciada – desembreagem enunciativa – numa tentativa de aproximar o ouvinte da notícia. a partir daí. por meio da fala de Moreira Lima. O efeito de atualidade era buscado por meio de análises e repercussões econômicas. por exemplo. Sérgio Moreira Lima. mas era. O jornalismo cria expectativas para se autoalimentar. busca-se especular sobre o futuro. O que chama a atenção em uma narrativa são as alterações de continuidade. 134 . um desejo de conhecer toda a história. no entanto. do ponto de vista da imprensa ocidental. Assuntos internacionais geralmente não têm maior destaque na programação rotineira da CBN. que se seguiu a de outros jornais. A dissertação de mestrado de Flávio Falciano (1999: 123) mostra essa característica da rádio. O potencial de atração das notícias. aliás. por exemplo. portanto.

o Jornal da CBN apresentou a versão dos Estados Unidos sobre a prisão de Saddam. comentam ou citam a prisão de Saddam Hussein Trechos em cinza: publicidade (spot) Trechos em branco: restante do programa 135 . Tabela 1 Programa Jornal da CBN – edição de segunda-feira. podia ser planejada. No programa analisado. O que o Jornal da CBN faz. Paul Bremen. caracterizando assim a CBN como uma emissora que difunde prioritariamente conteúdo jornalístico de cunho nacional”. com o deslocamento de repórteres. buscou verificar o que aconteceria com a detenção do ex-ditador do Iraque. especialmente do administrador do Iraque. cria um novo sentido. A prisão de Saddam jogou a notícia da expulsão para o segundo lugar na ordem de importância. sob a alegação. O Jornal da CBN. Todas as notícias e os comentários sobre o assunto durante o programa ganham outra leitura. de que não há interesse nesse tipo de notícia por parte do ouvinte CBN e que. A análise do programa como um todo também dá uma boa indicação de como o radiojornalismo e a dinâmica das notícias funcionam. A tabela a seguir mostra o cuidado na organização da reportagem. ou seja. A maior parte das “sonoras” . termina com uma música infantil que brinca com a posição de líderes dos Estados Unidos diante da prisão de Saddam. a estrutura de happy end é clara. Essa crítica final ressoa e traz novas significações a todos os conteúdos veiculados na edição. portanto. não comprovada. aumentar a carga de material internacional poderia significar queda de audiência. Fica evidente que a manchete inicialmente prevista era a da expulsão dos “radicais do PT”. na conclusão da edição. é ridicularizar a posição estadunidense.trechos de entrevistas . Essa observação enfatiza ainda mais a importância que a prisão de Saddam Hussein adquiriu no Jornal da CBN. portanto. Essa utilização funciona como um desencadeador de isotopia. mas zombou dos norte-americanos. como já foi dito. 15 de dezembro de 2003 Trechos em laranja:falam.é de políticos que estavam envolvidos com a questão. E fez com que toda a equipe corresse para os telefones em busca de autoridades para entrevistar.espaço ao noticiário internacional. Do ponto de vista ideológico. que tinha data para acontecer e.

assessor especial do governo Lula. AM e FM Voz feminina: Tempo e temperatura na cidade de São Paulo Patrocínio da próxima meia hora: Bradesco Heródoto: hora Vinheta: Jornal da CBN . Marco Aurélio Garcia afirma que prisão de Saddam pode apressar a entrega do poder ao povo iraquiano Heródoto faz descrição “factual” da prisão de Saddam Sonora: administrador do Iraque. Paul Bremen: anuncia prisão de Saddam em inglês Heródoto explica que os gritos na gravação de Bremen são de jornalistas iraquianos Sonora: Fala de Bush sobre Saddam Heródoto comenta fala de Bush Sonora: nova fala de Bush Heródoto anuncia opinião de Marco Aurélio Garcia.Fala da expulsão dos “radicais do PT” . jornalista português Sonora: comentário de Carlos Fina sobre captura de Saddam e alívio no Iraque Heródoto – hora . Sonora: deputado Genuíno Heródoto apresenta o deputado Aloísio Mercadante Sonora: deputado Mercadante Heródoto chama o apresentador Laerte Vieira Laerte: “bom-dia” e hora Heródoto: chama intervalos e diz que já volta com mais notícias Laerte: horário brasileiro de verão 20s 27s 34s 39h 7s 7s 5s 11s Som Música 50s 10s Música de fundo 1m 1m45s 45s 15s Música de fundo 2m 36s Música de fundo 2m36s 2m46s 3m 3m07s 10s 14s 7s 11s Música de fundo Música de fundo 3m18s 3h50s 4m01s 4m25s 5m 5m17s 5m23s 5m38s 5m45s 6m 6m08s 6m20s 6m28s 6h48s 7m02 7m18s 7m21s 7m24s 7m28s 32s 11s 24s 35s 17s 6s 15s 17s 15s 8s 12s 8s 20s 14s 16s 3s 3s 4s 5s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo 136 .as notícias que podem mudar o seu dia – apresentação de Heródoto Barbeiro Heródoto: O assessor especial do presidente da República para assuntos internacionais.Início do programa 6h03 da manhã 0s Total em segundos do fragmento 20s Recurso sonoro Música de entrada e música de acompanhamento Unidade Vinheta com os prefixos .Rádio CBN.contextualização Sonora: deputado Vavá fala da expulsão Heródoto diz que críticas dos “radicais” ao governo vão continuar Sonora: deputado Vavá faz mais comentários sobre expulsão Heródoto: possibilidade de criação de um novo partido pelos “radicais” Sonora: deputada Luciana Genro Heródoto apresenta deputada Heloísa Helena Sonora: deputada Heloísa Helena Heródoto diz que vai apresentar o “outro lado”. sobre a prisão de Saddam Sonora: comentário de Garcia sobre o futuro de Saddam Heródoto apresenta Carlos Fina.

Alexandra: Temperatura . Sérgio Gomes da Silva Heródoto .veículos Laerte: hora Vinheta: estradas – oferecimento via Fácil Heródoto chama Telma Costa Trânsito com Telma Costa Heródoto .hora Heródoto – Manutenção da prisão de suspeito da morte do prefeito Celso Daniel. Federal Laerte: hora Publicidade – Chester Perdigão Publicidade – Sabrico .Esportes Voz não identificada: resultado da Rodada do Campeonato Brasileiro Publicidade – carro blindado Publicidade – leilão de imóveis Bradesco Vinheta: “Estamos apresentando Jornal da CBN” – oferecimento Bradesco Heródoto comenta e lê e-mail de ouvinte que critica academia Runner Laerte: hora Vinheta: “Jornal da CBN” Heródoto –hora e anúncio Heródoto: tentativa de reverter expulsão dos radicais Entrevista gravada: repórter Juliana Alvim fala da convenção em um hotel que decidiu a expulsão dos deputados do PT e da senadora Heloísa Helena contextualização Sonora com a deputada Heloísa Helena: 11m38s 11m42s 12m12 12m20 12m36 12m30 12m32s 12m49s 12m52s 13m22s 13m33s 13m38s 14m57s 14m58s 15m10s 15m39s 15m42s 4s 30s 8s 16s 6s 2s 17s 3s 30s 11s 5s 19s 1s 12s 29s 3s 1m25s Música Ruídos de buzina e Música Música Música 17m07s 17m08s 17m38s 18m08s 18m10s 18m15s 19m06s 19h36s 20m06s 20m16s 21m12s 21m13s 21m22s 21m26 21m40s 2s 30s 30s 2s 5s 1m9s 30s 30s 10s 56s 1s 9s 4s 14s 16s Só música Música e fala Som Música e fala Música no fundo Música de fundo 21m56s 22s 137 .hora Publicidade: Vale Alfabetizar Heródoto ..hora Publicidade .hora Vinheta . oferecimento Bradesco” Heródoto: Hora Vinheta: “Trânsito na CBC.Música sobe 7m33s 8h17s 8m20s 8m50s 9m20 9m21 9m36 9m37s 9m50s 9m52ss 10m36s 10m38s 44s 3s 30s 30s 1s 15s 1s 13s 2s 44s 2s 60s Ruídos de buzina e música no final Vinheta: Jornal da CBN Publicidade ..Monsanto Vinheta – tempo – patrocínio AES Eletropaulo Heródoto apresenta Laura Laura: tempo e temperatura Heródoto . oferecimento Angra.Programa Primeiro Emprego – Gov.Engov Publicidade – limpador de pára-brisa Dina Heródoto .” Heródoto pergunta temperatura na Paulista para Alexandra Dias.Rodízio Heródoto: Hora Publicidade – Transgênicos .Radiotaxi Publicidade: doação de sangue – Ministério da Saúde Heródoto: hora Heródoto comenta e lê e-mail de ouvinte que critica abordagem do Discovery Channel sobre Santos Dumont Heródoto .hora Publicidade – Leilão de Imóveis Vinheta “Estamos apresentado Jornal da CBN.Hora Publicidade .

investigações Repórter: polícia não encontrou arma do crime – Genilson Araújo do Rio Laerte: horário brasileiro de verão Vinheta Repórter CBN – “As principais 89 notícias do dia a cada meia hora” oferecimento da Bradesco Seguros Laerte: data Laerte: aeroportos Laerte: expectativas da China em relação à prisão de Saddam Laerte: preço do barril de petróleo em função da captura de Saddam Laerte: Senado – projeto da Previdência Laerte: hora Vinheta – “Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora” Heródoto: “Daqui a pouco voltamos com outras informações sobre saúde” Laerte .hora Jornal da CBN Vinheta – anuncia o patrocinador da última meia hora . e das principais chamadas. que se apresenta e anuncia que está em Brasília Heródoto . 89 138 .Bradesco Laerte – Tempo e temperatura Anúncio do patrocinador Chevrolet Hora Laerte: Hora Vinheta: “Jornal da CBN” Heródoto entrevista Rodolfo Pisoto.deputada: “Consciência tranqüila” Repórter: deputados têm esperança de reverter a expulsão Sonora . Não é isso o que se ouve durante o programa. haveria bastante repetição. do SOS Estradas.hora Heródoto: assassinato de executivo da Shell e da mulher no Rio .22m18s 22m20s 22m28s 23m18s 23m42s 23m55s 24m07s 24m18s 24m19s 24m28s 25m47s 25m49s 2s 8s 10s 24s 13s 12s 11s 1s 9s 1m19s 2s 22s Música e fala 26m11s 26m12s 26m25s 26m38s 26m53s 27m11s 27m18s 27m24s 27m27s 27m31s 27m35s 27m45s 27m49s 27m58s 28m 28m02s 28m07s 1s 13s 13s 15s 42s 7s 6s 3s 4s 4s 10s 3s 9s 2s 2s 5s 8s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música Música Vinheta Efeito Sonoro Música e fala Entrevista termina com música da vinheta 28m15s 28m18s 28m24s 28m45s 28m50s 28m52s 28m57s 28m59s 3s 6s 21s 5s 2s 8s 2s 21s considera “crueldade” os pedidos para que ela se desculpasse com PT Repórter: Heloísa reafirmou as críticas Sonora com a deputada: “Estou a serviço da senzala. Sonora .deputado Walter Pinheiro comenta expulsão Fala final da repórter Juliana Alvin. Em outras palavras. falar que as principais notícias do dia são divulgadas a cada meia hora implica retomar o que de mais importante aconteceu em um grande período de tempo. que fala de cinto de segurança em ônibus – entrevista Rodolfo – Bom-dia Heródoto – O que o Código diz sobre cinto de segurança em ônibus? Rodolfo – passageiros não usam cinto Heródoto – questiona se é para todos os ônibus terem cinto Rodolfo – Só rodoviários Heródoto – Só rodoviários? Rodolfo – Só rodoviários pois urbanos têm passageiros em pé Heródoto – O motorista do ônibus Teoricamente. não da casa grande” Repórter: princípio de tumulto na convenção que decidiu a expulsão.

29m20s 59s 30m19s 30m24s 31m35s 5s 1m11s 13s 31m48s 1m18s 33m06s 33m12s 6s 12s 34m24s 34m27s 35m01s 35m03s 3s 34s 2s 22s 35m25s 18s Música de fundo 35m43s 35m45s 35m40s 36m46s 36m48s 37m18s 37m21s 37m23s 37m40s 2s 5s 1m6s 2s 30s 3s 2s 17s 24s Música de fundo Música e fala 38m04s 38m05s 38m34s 38m46s 38m49s 39m07s 39m08s 39m38s 40m08s 40m38s 40m46s 40m50s 40m55s 1s 29s 12s 3s 18s 1s 30s 30s 30s 8s 4s 5s 40s Música e fala Efeito sonoro Música e fala Início música de fundo também deve usar? Rodolfo – Nos ônibus rodoviários há grande número de vítimas. Repórter Paulo Massini e Heródoto conversam sobre futebol e fazem brincadeiras com o outro apresentador Laerte: hora Publicidade: Via Fácil Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Rede Chevrolet Laerte: hora – apresenta repórter Alexandra Dias Alexandra Dias: trânsito na cidade de São Paulo Laerte: Hora Publicidade: Seguro Auto Porto Seguro Publicidade: AES Eletropaulo Publicidade: cartucho de impressora Maxprint Laerte: anuncia Jornal da CBN. Rodolfo diz que não. Comenta ainda companhias que fazem viagem sem paradas. o que prejudica a saúde dos passageiros Heródoto questiona se não há legislação que obriga a parada Rodolfo – Só uma empresa no eixo RioSão Paulo cumpre a lei Heródoto questiona se a viagem pode ser feita em menos de quatro horas. Passageiro devia ser multado se não usar Heródoto – O sistema não poderia ser igual ao do avião: o avião não sai se todo o mundo não estiver com o cinto? Rodolfo – Passageiros não têm idéia do perigo – comenta o perigo maior envolvendo crianças. mesmo não sendo visto com simpatia pelos passageiros. 23 de maio. Corpos são projetados porque estão soltos Heródoto – como é o cinto de segurança dos ônibus Rodolfo – abdominal. Heródoto – O motorista não pode verificar? Rodolfo – cinto deve ser imposto. Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – ABIM – Hospital Virtual Exporta Fácil Laerte: hora Publicidade: American Airlines Laerte: hora Heródoto chama Paulo Massini Trânsito em SP com Paulo Massini – diz que está na av. tempo Laerte: Hora Vinheta: Jornal da CBN Heródoto: admissão do Peru no Mercosul 139 . fala da importância do cinto nos ônibus rodoviários e chama intervalo. o que mostra que os ônibus andam com excesso de velocidade Heródoto agradece e faz o “pé”: conta trechos da entrevista.

” Ele não crê que a captura seja vista com simpatia pelos paquistaneses Heródoto questiona se a imprensa local acredita em paz depois da captura de Saddam. Noticia ato terrorista no Paquistão Heródoto: fala que o ouvinte está acompanhando as notícias mais importantes da manhã e comenta que a NHK japonesa faz novela no Brasil Laerte: hora Heródoto: narra a opinião do professor de literatura árabe da PUC Mamed Mustafá Giaruchi sobre o Iraque e Saddam. não.Professor Giaruchi: o interesse dos EUA está nos poços de petróleo Heródoto: retoma a notícia.41m35s 42m00s 25s 38s Música de fundo Música de fundo 42m38s 42m40s 2s 26s Música de fundo Música de fundo 43m06s 43m37s 29s 49s 44m26s 45m25s 45m36s 46m18s 46m23s 59s 11s 42s 5s 17s 46m40s 10s 46m50s 47m21s 29s 31s Sob música no final 47m47s 47m49s 48m36s 48m38s 49m08s 49m34s 49m42s 50m04s 50m05s 50m47s 51m18s 2s 47s 12s 30s 26s 6s 22s 1s 42s 29s 34s Música e fala 51m52s 51m53s 52m19s 52m22s 52m37s 52m48s 1s 26s 3s 15s 11s 5s Música e fala Laerte: hora. não do público Heródoto agradece. da redação: incêndio em fábrica de plásticos em São Paulo Laerte: hora Publicidade: Pré-pago Tim Publicidade: operadora de celular Claro Heródoto: comenta opinião de outro leitor – continua polêmica sobre paternidade da invenção do avião Laerte: hora Publicidade: Compuware Laerte: hora – anuncia Alexandra Dias Alexandra Dias: morte de motociclista na cidade de São Paulo Laerte: temperatura e tempo Vinheta: Jornal da CBN 140 . Arantes: A expectativa de paz é do governo. retoma pontos da entrevista. Ele acredita que a insatisfação da população vai aumentar em relação às tropas dos EUA Sonora . Fala da captura de Saddam e apresenta Abelardo Arantes – embaixador do Brasil no Paquistão – fala “neste momento” – Começa a entrevista. chama comerciais e diz que em seguida haverá a participação de Juca Kfouri Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Primeiro Emprego Laerte: hora Publicidade: Título de Capitalização Ouro Cap Publicidade: celular Nokia Laerte: hora .anuncia redatora Telma Costa Telma Costa. Âncora pergunta a repercussão no Paquistão Arantes: repercussão intensa Heródoto: há simpatia pelo regime? Arantes: a simpatia é pelo Iraque Heródoto: houve manifestação pública? Arantes: “No momento.

9 mortos Laerte: Saddam será tratado como prisioneiro de guerra.) Tem pequena duração e. não se confunde com a sonora usada na edição” (2003: 80). mas diz que “todos têm direito a um julgamento isento” Heródoto: agradece a entrevista e retoma algumas respostas. Barbeiro e Lima afirmam que teaser é “uma declaração contundente e que pode chamar a atenção do ouvinte. ex-presidente da seção brasileira da Anistia Internacional trocam “bom-dia” . por isso. Apresentador questiona onde Saddam poderia ser julgado Edueta: sugere o Tribunal Penal Internacional Heródoto: pergunta se é o tribunal recentemente constituído pelo Tratado de Roma Edueta: espera que Bush cumpra a promessa de um julgamento isento Heródoto: pergunta se há uma juíza brasileira Edueta diz que sim e comenta a prisão de Saddam Heródoto: questiona se os EUA aceitam o Tribunal Edueta: diz que os EUA não aceitam o Tribunal. Acha que os EUA vão montar um outro fórum Heródoto: questiona se Saddam tem direito a julgamento isento Edueta comenta os crimes. (. só encontramos esse recurso nesse trecho. afirma secretário de defesa dos EUA. No jornal analisado. 90 141 ... Pode ser separada e usada na abertura e encerramento de programas.52m52s 52m53s 1s 5s Teaser90 52m58s 14s Música e fala 53m12s 54m48s 54m50s 1m36s 2s 20s Som e fala 55m10s 55m34s 24s 22s Música de fundo Música de fundo 55m56s 56m08s 56m09s 56m23s 56m30s 56m40s 56m46s 57m00s 57m02s 12s 1s 14s 7s 10s 6s 14s 2s 2s Música de fundo Efeito sonoro Música e fala 57m04s 30s 57m34s 58m02s 28s 6s 58m08s 58m32s 58m38s 59m20 59m38s 24s 6s 44s 18s 34s 1h00m22s 1h00s32s 1h01m38 10s 6s 30s Laerte: hora Juca Kfuori: manchete de esporte: “Acabou o primeiro campeonato por pontos corridos” Vinheta: “Momento do Esporte com Juca Kfuori” – oferecimento AES Eletropaulo e limpador de pára-brisa Dina Juca Kfuori avalia a final do campeonato brasileiro Laerte: Hora Vinheta: “Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora” – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: estouro de carros-bomba em Bagdá. Donald Rumsfeld Laerte: Taxa de juros Laerte: Hora Vinheta: repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto: “Nós já voltamos” Vinheta: patrocínio Chevrolet linha 2004 Laerte: Tempo e temperatura Vinheta: patrocínio da próxima meia hora: Estomazil Laerte: Hora Vinheta: Jornal da CBN – “As notícias que podem mudar o seu dia – apresentação Heródoto Barbeiro” Heródoto: mais informações sobre Saddam – Entrevista com o advogado Carlos Edueta.

Âncora questiona a razão de as gráficas deixarem a cidade de São Paulo Camargo fala do aumento de impostos e outros problemas da cidade Heródoto questiona se as cidades ao redor de São Paulo têm impostos menores Camargo explica que o redirecionamento das gráficas tirou sete mil postos de trabalho da cidade de São Paulo Heródoto questiona se esses postos não foram para outras cidades Camargo concorda Heródoto: É guerra fiscal? Camargo explica que a mudança acontece também na Alemanha. Heródoto questiona se o mercado das gráficas continua a ser o da cidade de São Paulo Camargo concorda.Angra Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Unidas Heródoto comenta rebaixamento do Grêmio com repórter Vanessa Vanessa comenta futebol com Heródoto e depois fala do trânsito Trânsito do helicóptero – cidade de São Paulo e tempo Heródoto: hora Heródoto entrevista o presidente da Abigraf.construção Publicidade: Instalação elétrica . Diz que as gráficas não podem ficar longe do principal mercado consumidor Heródoto: Trânsito pesa como fator logístico? Camargo: Dificuldade de deslocamento implica custos Heródoto encerra entrevista e retoma pontos. Vale do Rio Doce Vinheta: Notícia Aérea CBN – 142 .Estomazil Vinheta Jornal da CBN – oferecimento Estomozil Laerte: hora Heródoto lê e comenta matéria da Folha de São Paulo sobre pessoas que mudaram de religião – tom de leitura Publicidade: Cavê .1h02m08s 1h02m10s 1h02m13s 1h3m12s 1h3m58s 1h4m00s 1h4m22s 1h4m31s 1h4m33s 1h4m47s 1h4m48s 1h5m18s 1h5m33s 1h5m35s 2s 3s 59s 46s 2s 22s 9s 2s 2s 1s 30s 15s 2s 58s Música sobe Música e fala Música e fala Ruídos e música Música e fala 1h6m33s 1h7m00s 1h7m30s 1h7m42s 1h7m50s 1h8m24s 1h8m45s 1h8m46s 27s 30s 12s 8s 34s 21s 1s 22s Ruídos de helicóptero 1h9m08s 1h9m55s 47s 7s 1h10m02s 43s 1h10m45 1h10m50s 1h10m59s 1h11m03s 1h11m56s 5s 9s 4s 53s 4s 1h12m00s 18s 1h12m18s 1h12m20s 1h12m47s 1h13m04s 1h13m05s 1h13m48s 2s 27s 17s 1s 43s 13s Ruídos de Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Portal do Exportador Correio Publicidade: Programa Primeiro Emprego – Governo Federal Laerte: Hora Publicidade de Liberdade de Expressão – patrocínio Souza Cruz Vinheta Trânsito – patrocínio Angra Laerte apresenta Alexandra Dias Trânsito: repórter Alexandra Dias Laerte:Hora Publicidade . Heródoto: hora Publicidade: projeto Vale Alfabetizar da Cia. Mauro César Camargo – trocam bom-dia.

do helicóptero – mudanças no trânsito na cidade de São Paulo por causa de corredor de ônibus Publicidade: Aluguel de carros para empresas . e chama repórter Repórter Estevão Danis retoma questão – Prisão deve agilizar o processo de reorganização do país Sonora: Garcia comenta momento para entrega de poder aos iraquianos Repórter – Como fica reeleição de Bush? Sonora .Unidas Publicidade: bronzeador Cenoura e Bronze Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Estomazil Heródoto: hora Heródoto: morte de rapaz atacado por Skinheads em São Paulo Publicidade: cartucho de impressora Maxprint Heródoto: hora Heródoto: donas-de-casa aplicam na bolsa por meio de previsão da numerologia.trânsito: primeiro dia de funcionamento do corredor de Pirituba Heródoto: hora Publicidade – Varig Heródoto comenta música do comercial da Varig.helicóptero e fala 1h14m01s 60s 1h15m01s 1h15m31 s 1h16m01s 1h16m15s 1h16m16s 1h17m15s 1h17m46s 1h17m48s 30s 30s 14s 1s 59s 31s 2s 20s Música e fala 1h18m08s 1h18m35s 1h19m12s 1h19m13s 1h19m43s 27s 37s 1s 30s 7s 1h19m50s 1h20m00s 1h20m05s 1h20m07s 1h20m20s 10s 5s 2s 13s 13s Som – depois música e fala Música oferecimento Top Unidas Repórter Alexandra Dias. mas governo brasileiro não se preocupa com a questão Repórter comenta cautela de Marco Aurélio e justifica: governo Lula busca aproximação com países do Oriente 1h20m33s 35s 1h23m08s 1h23m19s 1h24m06s 1h24m17s 11s 47s 4s 3s Música e fala Sobe música Mantém música de fundo 1h24m20s 14s 1h24m34s 1h25m02s 1h25m12s 28s 10s 31s 1h25m43s 22s 143 . sobre a prisão de Saddam. Feng chui. de autoria de Arquimedes Messina Laerte: tempo e temperatura Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta – “Linha aberta com Carlos Alberto Sadenberg” – análise econômica Heródoto – trocam bom-dia – apresentador pede para Sademberg comentar a repercussão da prisão de Saddam Hussein nos mercados financeiros Sademberg – a análise dos mercados é que a instabilidade vai acabar – reação foi muito positiva – bolsas subiram. Questiona repórter se o Feng chui ajuda a ver o trânsito no helicóptero Vanessa comenta piada de Heródoto Vanessa .Garcia acha que fato ajuda Bush. Marco Aurélio Garcia. dólar se fortaleceu – comenta explosão de bomba em Bagdá e que a instabilidade não terminou Vinheta: CBN – Responsabilidade Social Heródoto: comenta o Projeto Redescobrindo o Adolescente Heródoto: hora Heródoto: apresenta a opinião do assessor do governo.

Interchange Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Interchange Heródoto: comenta reportagem do jornal O Globo sobre novos suspeitos da morte do prefeito Celso Daniel 144 . Fala das dificuldades da população Márcia Freitas: vacina contra vírus Ebola funciona em macacos Márcia Freitas faz o encerramento: “Essas são as notícias da BBC Brasil” Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um Boletim da BBC Brasil” Laerte: Hora Vinheta: “Por dentro das reformas com Lucia Hipólito” Lúcia: Análise política da expulsão dos radicais Hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Sebrae – sucessão familiar Publicidade – Prefeito Empreendedor Laerte: hora Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Unidas Repórter comenta trânsito da marginal Pinheiros Publicidade . “direto de Badgá”. Ataque de bombas em Bagdá .apresenta a repórter espanhola Repórter espanhola Antonia Parabela. as principais notícias do dia a cada meia hora. as principais notícias do dia a cada meia hora Laerte: anuncia em instantes as notícias da BBC Brasil Vinheta: Jornal da CBN Anúncio de patrocínio: Estomazil patrocinou a última hora Laerte: tempo e temperatura Patrocínio da próxima meia hora: Interchange Laerte: hora Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um boletim BBC Brasil” “Direto de Londres – Márcia Freitas”: Saddam se recusa a dar informações – Bush diz que a prisão não significa o fim dos problemas. oferecimento Bradesco Laerte: data Laerte: Conselho Curador do FGTS discute aplicação de recursos Laerte: promotores investigam suspeitos da morte de Celso Daniel Laerte: governo prepara novo critério para cálculo da aposentadoria dos servidores públicos Laerte: senadora Heloisa Helena diz que não vai se filiar a outro partido Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN. mas negocia Alca com os EUA Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN. fala do impacto da captura de Saddam na população do Iraque.1h26m05s 1h26m12s 7s 16s Música e fala 1h26m28s 1h26m31s 1h26m49s 1h27m07s 3s 18s 18s 21s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo 1h27m28s 1h27m50s 1h27m59s 1h28m06s 1h28m10s 1h28m15s 1h28m27s 1h28m35s 1h28m46s 1h28m49s 1h28m54s 22s 1s 7s 4s 5s 12s 8s 11s 3s 5s 56s Música de fundo Música de fundo Música e fala Música e fala Som Efeitos sonoros e fala 1h29m50s 38s 1h30m28s 1h30m40s 1h30m45s 1h30m51s 1h30m54s 1h31m07s 1h33m54s 1h33m58s 1h34m00s 1h35m30s 1h36m03s 1h36m07s 1h36m17s 1h36m42s 1h37m11s 1h37m18s 12s 5s 6s 3s 13s 47s 4s 2s 1m30s 33s 4s 10s 35s 31s 7s 1m31s Música de fundo Música e fala Música de fundo Efeitos sonoros e fala Música e fala Ruídos e fala Música e fala Médio.

” Embaixador lembra que Saddam financiava homens-bomba Trocam despedidas – Heródoto fala que entrevista aconteceu ao vivo e retoma ponto principal da conversa. Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: entrega de encomendas TL Express Publicidade: Programa Luz para Todos.1h38m49s 1h38m59s 1h39m01s 1h39m05s 10s 2s 4s 26s Efeito sonoro Música e fala Música de fundo diminui após três segundo 1h39m31s 55s 1h40m26s 1h40m28s 1h42m06s 1h42m14s 2s 22s 8s 31s 1h43m55s 60s 1h44m55s 1h44m57s 1h45m00s 1h45m30s 1h46m01s 1h46m03s 1h46m28s 1h46m55s 1h46m58s 1h47m22s 1h47m24s 1h47m53s 1h48m00s 1h48m12s 1h48m40s 1h48m42s 2s 3s 30s 31s 2s 25s 27s 3s 24s 2s 29s 7s 12s 28s 2s 7s Música e fala Música e fala Ruídos e fala 1h49m49s 1h49m56s 1h50m02s 1h50m03s 1h50m20s 1h50m31s 7s 6s 1s 17s 11s 2m49s Efeito sonoro no final Música e fala Música e fala 1h53m20s 1h53m24s 1h53m26s 4s 2s 21s Música e fala Laerte: tempo e temperatura Hora Vinheta: Jornal da CBN Heródoto entrevista o embaixador do Brasil em Israel. Sérgio Moreira Lima.oferecimento Bradesco 145 . Eletrobrás Laerte: hora Publicidade: Goodyear Publicidade: Golden Cross – Plano de Saúde Laerte: hora e chama Alexandra Dias Trânsito na cidade de São Paulo com Alexandra Dias Laerte: hora Publicidade: Interchange . Heródoto pergunta o que diz a imprensa de Israel Moreira Lima diz que a leitura é positiva. Heródoto: E a reação dos palestinos? Moreira Lima: “Totalmente diferente. Trocam bom-dia. Arafat manifestou a tristeza com a humilhação de um líder árabe. sobre a repercussão da prisão de Saddam entre israelenses e palestinos. Moreira Lima afirma que Sharon telefonou a Bush com uma mensagem de congratulações.comunicação Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Interchange Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Top Executive Unidas Repórter no helicóptero comenta trânsito da Rebouças. Os israelenses se sentem aliviados. na Capital Paulista Laerte: hora Heródoto comenta “questão de ciência” de Ana Lúcia Azevedo – pesquisas sobre esponjas brasileiras com compostos anticancerígenos Laerte: hora e temperatura na cidade de São Paulo Vinheta: Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta: Política em foco com Franklin Martins Heródoto pede para Franklin Martins comentar a saída dos “radicais” do PT Franklin Martins – comentário político – não acha que vai haver grandes crises dentro do PT Heródoto agradece a Franklin Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN .

vinheta Patrocínio da última meia hora Interchange Laerte: tempo-temperatura Próxima meia hora .Jornal da CBN Heródoto: senadora Heloísa Helena vai tentar reverter a expulsão Sonora: deputado Vavá comenta expulsão Heródoto – Vavá avisou que as críticas vão continuar Sonora: deputado Vavá diz que governo está ao lado dos banqueiros Heródoto: “Rebeldes vão criar partido.1h53m47s 1h53m50s 1h54m04s 1h54m26s 1h54m52s 1h54m53s 1h55m07s 1h55m08s 1h55m12s 1h55m15s 1h55m24s 1h55m30s 1h55m40s 1h55m43s 1h55m48s 1h56m24s 1h56m44s 1h56m48s 1h57m02s 1h57m12s 3s 14s 22s 26s 1s 10s 1s 4s 3s 9s 6s 10s 3s 5s 36s 20s 8s 14s 10s 16s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música e fala Som Música e Fala Música sobe e é reduzida 1h57m28s 1h57m33s 1h57m46s 1h57m53s 5s 13s 6s 20s 1h58m13s 1h58m20s 7s 7s 1h58m35s 1h58m47s 1h59m00s 1h59m08s 1h59m22s 1h59m26 1h59m28s 1h59m48s 2h01m22s 2h01m25s 2h01m39s 2h3m22s 2h3m33s 2h3m35s 2h3m44s 2h3m45s 7s 3s 8s 14s 4s 2s 20s 34s 3s 14s 1m43s 13s 2s 9s 1s 30s Música e fala Música e fala Música e fala Música de fundo Música de fundo Música e fala Laerte: data Laerte: manifestação no Iraque Laerte: Peru irá se incorporar ao Mercosul Laerte: rentabilidade da caderneta de poupança – baixo retorno e saques Laerte: hora Vinheta Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto: “Daqui a pouco nós voltamos” Laerte: hora Jornal da CBN .Patrocínio Fiat Laerte: Hora Vinheta .” Sonora : deputada Luciana Genro comenta que “um debate está sendo aberto para construir essa alternativa” Heródoto: introduz fala de Heloisa Helena Sonora:deputada Heloísa Helena comenta expulsão Heródoto e o “outro lado”: introduz fala do deputado Genoíno Sonora: deputado Genoíno diz que PT já nem computava os votos dos “radicais” nas votações do Congresso Heródoto: introduz fala do deputado Aloízio Mercadante Sonora: deputado Mercadante diz que a divergência de fundo é de visão de partido Heródoto: apresenta o “outro lado” e a fala da defesa feita por Eduardo Suplicy Sonora : Suplicy diz ter “afinidades” com os expulsos Heródoto complementa fala de Suplicy e comete erro Sonora: deputado Chico Alencar diz que expulsão foi “insensatez”.. Heródoto corrige erro.. Laerte: hora Vinheta: Boletim Seu dinheiro com Mauro Helfeld – oferecimento Banco do Brasil Mauro comenta taxas de juros nas prestações dos cartões de crédito Laerte: hora Vinheta: comentário de Arnaldo Jabor Comentário de Jabor que aborda a prisão de Saddam e a corrupção no Brasil Vinheta “O comentário de Arnaldo Jabor” Heródoto: “Daqui a pouco nós voltamos” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – Defesa dos Bingos 146 .

pode-se esperar tudo Heródoto questiona se o julgamento de Saddam nos EUA seria mais uma manifestação de unilateralismo Maria Estela concorda. com Mirian Leitão 147 . “O crime é contra a humanidade” Heródoto: “Isso afasta a hipótese dos EUA levarem Saddam para os Estados Unidos para julgá-lo lá?” Maria Estela acha que. de Bush. Heródoto questiona que crime ele teria cometido nos EUA Maria Estela diz que ele não poderia ser julgado por crimes contra os EUA.chama Vanessa di Sevo Vanessa comenta trânsito Heródoto: hora Vinheta Jornal da CBN -patrocínio concessionárias Fiat Publicidade: pneus Goodyear Heródoto: hora Heródoto fala da prisão de Saddam. cita a professora e o tema da entrevista Heródoto: hora Vinheta Jornal da CBN . Questiona o que os americanos vão fazer com Saddam Maria Estela: “Os americanos não sabem.oferecimento Fiat Publicidade celular Nokia-Claro Heródoto pergunta para Vanessa se. o trânsito piora ou melhora Trânsito – Vanessa comenta o trânsito na cidade de São Paulo Publicidade – material elétrico . em função da aproximação do Natal. música e fala Música e fala Publicidade – Programa Primeiro Emprego do Governo Federal Publicidade: Ourocard do Banco do Brasil Laerte: hora Vinheta Trânsito – patrocínio Angra Alexandra Dias – trânsito e temperatura na cidade de São Paulo Laerte: hora Publicidade: celular Tim Publicidade: aluguel de carros Unidas Heródoto: hora .2h4m15s 2h4m59s 2h5m29s 2h5m32s 2h5m42s 2h6m08s 2h6m11s 2h6m54s 2h7m25s 2h7m27s 2h7m54s 2h7m56s 2h8m04s 2h8m30s 2h8m31s 44s 30s 3s 10s 26s 3s 43s 31s 2s 27s 2s 8s 26s 1s 30s Ruídos e música Música e fala 2h9m01s 3m17s 2h12m18 2h12m32s 2h13m03s 2h13m09s 14s 31s 6s 33s 2h13m42s 15s 2h13m57s 2h14m42s 45s 4s 2h14m46s 1m32s 2h16m18s 2h16m29s 2h16m34s 2h16m40s 2h17m10s 21s 5s 6s 30s 5s Música e fala 2h17m15s 2h17m51s 2h18m19s 2h18m49s 2h19m15s 2h19m20s 2h19m22s 36 28s 30s 26 5s 2s 13s Música e fala Som. E diz que o julgamento no Iraque também seria um problema Heródoto agradece. já que não há provas. com oferecimento Souza Cruz Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta: Dia-a-dia da Economia. A alternativa mais adequada seria levar para o Tribunal Penal Internacional. comenta notícia da CNN e entrevista a professora de direito internacional da USP Maria Estela Basso – trocam bom-dia. mas os EUA não fazem parte desse fórum” Heródoto pergunta qual seria a acusação Maria Estela diz que terão que enquadrálo em algum crime para julgá-lo.Angra Publicidade – Cartão American Express Chamada para programete Liberdade de Expressão.

Fiat Laerte: tempo – rodízio de veículos na cidade de São Paulo Laerte: hora Vinheta: Dois minutos pelo mundo – Boletim da BBC Brasil Márcia Freitas – “direto de Londres” Reunião do Mercosul em Montevidéu Repórter Denise Bacotina fala de Montevidéu: acordos de integração do Mercosul Márcia Freitas: três mortos em tiroteio em repúblicas russas Márcia Freitas: líderes de diversos países mostram satisfação com a prisão de Saddam Márcia Freitas: EUA dizem que Saddam não tem cooperado com novas informações Marcia Freitas: “Essas são as notícias da BBC Brasil”. Retoma questão.2h19m35s 9s 2h19m44s 2m50s 2h22m34s 2h22m40s 6s 2m16s 2h24m56s 2h24m58s 2h25m11s 2s 13s 30s Música e fala 2h25m41s 2h26m11s 2h26m14s 30s 3s 19s Música e fala 2h26m33s 2h26m38s 2h26h53s 5s 15s 35s Música de fundo Música de fundo Música de fundo 2h27m28s 2h27m29s 2h27m43s 2h27m48s 2h27m50s 2h27m58s 2h28m18s 2h28m20s 2h28m31s 2h28m50s 1s 14s 5s 2s 8s 20s 2s 11s 19s 29s Música de fundo Música e fala Música e fala Efeito sonoro 2h29m19s 2h29m36s 17s 21s 2h29m57s 18s 2h30m14s 2h30m16s 2h30m22s 2h30m27s 2s 6s 5s 8s Música Música e fala Música e fala Heródoto pergunta que tipo de conseqüência traz para a economia a prisão de Saddam Mirian Leitão: diz que acha cedo para comemorar. Mas é um grande momento para George Bush. A esperança é que o país gaste menos com a guerra e possa combater o déficit público Heródoto pergunta se despesas dos EUA não incentivam a economia Mirian Leitão diz que bancos prevêem aumento da taxa de juros.Lula diz que vai viajar à Índia e à China Reforma Universitária – governo propõe novos mecanismos de sustentação das universidades Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais noticias do dia a cada meia hora Laerte: “Voltamos em instantes com as notícias internacionais” Vinheta Jornal da CBN Patrocínio da última meia hora . de que a prisão de Saddam é uma vitória política. para finalizar. Comenta o déficit fiscal dos EUA. não econômica Heródoto e Mirian se despedem Vinheta: Ética nos negócios – oferecimento Ético Heródoto: jovens alemães são investigados por gastos excessivos na Internet Publicidade: contra a pirataria – Instituto Ético Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: data Laerte . Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um boletim da BBC Brasil” Laerte: hora Vinheta: Comunidade – com Gilberto Dimenstein 148 .

jamais pelos EUA Heródoto e Cony se despedem Vinheta: Liberdade de Expressão – oferecimento Souza Cruz Heródoto: “Daqui a pouco voltamos com mais notícias da prisão de Saddam” Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: defesa dos bingos Publicidade: Primeiro emprego – Gov. Lembra que o réu é sagrado.despedida.temperatura Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta Liberdade de Expressão – debate entre Artur Xexéu e Carlos Heitor Cony sobre assuntos do momento – oferecimento Souza Cruz Heródoto conversa com Cony – Xexéu está em férias. e recolhimento de contribuição de ex-alunos Heródoto: escolas poderiam aceitar doações? Gilberto: o problema é fazer uma lei de doação. Liberdade de Expressão” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Informe Publicitário . Federal Laerte: hora Som. E que.Vinheta: Informe CNT – Confederação Nacional dos Transportes Publicidade – Primeiro Emprego – Gov. Mas que o governo pode obter confissões de Saddam por tortura ou produtos químicos. “Daqui a pouco. assim.2h30m35s 2h30m40s 5s 4s 2h32m36s 2h32m50s 14s 1m14s 2h34m04s 2h34m11s 2h34m13s 2h34m20s 7s 2s 7s 45s Música e fala 2h35m05s 2h35m50s 2h35m53s 2h36m24s 2h36m28s 2h36m52s 2h36m54s 2h37m36s 2h38m58s 2h39m07s 2h39m15s 2h39m16s 45s 3s 31s 4s 24s 2s 42s 22s 51s 8s 1s 17s Ruído de helicóptero Heródoto: falência da Universidade pública Gilberto: medidas para arrumar dinheiro para as universidades públicas. pode-se obter confissões de Saddam que justifiquem políticas do governo Bush Heródoto pergunta onde Saddam pode ser julgado Cony justifica que só pode ser em um tribunal internacional ou por iraquianos. Cita o exemplo dos ex-alunos dos EUA que doam muito dinheiro Heródoto. como uma Lei Roanet para o setor. Federal Laerte: hora Publicidade: Ourocap – Banco do Brasil Laerte: hora. música e fala Música e fala 2h39m31s 23s 2h39m54s 2h40m00s 2h40m06s 6s 6s 2m58s 2h43m04s 2h43m08s 4s 59s 2h44m07s 2h44m09s 2h44m28s 2h44m30s 2h44m36s 2h45m08s 2h45m52s 2s 19s 2s 6s 32s 44s 3s Música sobe e desce Música e fala 149 . Passa trecho da fala de Paul Bremen falando da captura de Saddam Sonora de Paul Bremen Heródoto pergunta se não lembra espetáculo de Hollywood Cony: Concorda. Chama Vanessa di Sevo Vanessa e o trânsito na cidade de São Paulo Laerte: hora Publicidade: Projeto Vale Alfabetizar Heródoto: resultado da caderneta de poupança – forte movimento de saques Laerte: tempo .

Milton Jung Laerte: hora Publicidade: automóveis Sabrico Publicidade: American Airlines Laerte chama Vanessa di Sevo . Comenta repercussão no partido democrata. “Você acompanha agora as notícias da cidade” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN 150 .2h45m55 2h45m58s 2h46m20s 2h46m27s 3s 22s 7s 52s 2h47m19s 2h47m20s 2h47m50s 2h48m19s 2h48m20s 2h48m38s 2h48m40s 2h49m10s 2h49m12s 2h49m40s 2h49m48s 2h49m50s 2h50m00s 1s 30s 29s 1s 18s 2s 30s 2s 28s 8s 2s 10s 1m51s Ruído de helicóptero som Música e fala Música de fundo 2h51m51s 7s 2h51m58s 1m56s 2h52m54s 2h53m01s 2h53m03s 2s 20s Música e fala 2h53m23s 2h53m25s 2s 11s Música de fundo Música de fundo 2h53m36s 21s Música de fundo 2h53m57s 20s Música de fundo 2h54m17s 2h54m26 2h54m43s 2h54m53s 2h54m57s 2h55m00s 2h55m01s 9s 17s 10s 4s 3s 3s 1s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música de fundo Música de fundo Música e fala Laerte chama repórter Vanessa Vanessa: trânsito do helicóptero Laerte: hora Heródoto comenta resultado do futebol e faz brincadeiras com o outro apresentador. que sempre foi crítico da invasão do Iraque e está até elogiando Bush Heródoto – Despedem-se.trânsito Vanessa: comenta o trânsito na região do Morumbi Laerte: hora Publicidade: aluguel de veículos para empresas .Unidas Laerte: hora – chama Alexandra Dias na redação Trânsito com Alexandra Dias Laerte: hora Vinheta Jornal da CBN Heródoto – chama o correspondente em Nova York Expedito Filho Expedito: Repercussão da prisão de Saddam nos Estados Unidos – cita jornais que frisam bastante frase de comandante americano de que Saddam foi “preso como um rato” Heródoto diz que os jornais americanos não devem falar de outra coisa e que a cobertura deve estar intensa Expedito fala do renascimento de um certo nacionalismo. Âncora lembra que repórter “falava diretamente de Nova York”. à Índia e à China Laerte: hora Vinheta: Rádio CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto. Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: data Laerte: termina prazo para a AES – controladora da Eletropaulo – e o BNDES fecharem acordo sobre dívida da companhia americana Laerte: Ministério Público pede abertura de inquérito contra sete deputados de Roraima Laerte: Principal avenida de acesso ao Vaticano terá interrupção na madrugada em função de risco de atentado a alvos cristãos Laerte: atentado suicida na Zona Norte de Badgá Laerte: Lula diz que fará novas viagens internacionais.

e tempo Laerte: Hora Vinheta Jornal da CBN Vinheta Minuto Meio e Mensagem – bastidores das empresas de publicidade Regina Augusto.2h55m05 2h55m14s 2h55m25s 4s 13s 11s Música e fala 2h55m40s 2h56m46s 2h56m48s 2h57m20s 6s 2s 28s 2m40s 3h00m00s 3h00m27s 3h00m38s 3h00m39s 3h01m08s 3h01m09s 3h01m38s 3h01m49s 3h01m50s 27s 11s 1s 29 1s 29s 9s 1s 23s 3h04m13s 3h04m14s 3h04m54s 3h04m56s 3h05m33s 3h06m03s 3h06m17s 3h6m18s 3h06m22s 3h06m34s 1s 40s 2s 37s 30s 14s 1s 4s 12s 1m28s Efeito sonoro Música e voz 3h08m02s 33s 3h08m35s 1m27s 3h10m02s 3h10m23s 3h11m30s 3h11m42s 21s 57s 12s 6s 3h11m48s 8s Próxima meia hora oferecimento de Chester Perdigão Laerte: tempo e temperatura na Capital Vinheta: Mais São Paulo com Gilberto Dimenstein – oferecimento Porto Seguro Seguros e Cauê Dimenstein: concurso para criar bairro na Água Branca Laerte: hora Publicidade – Cartucho de impressora Max Print Heródoto – comenta a escolha cuidadosa das imagens de Saddam e da reação de Donald Rumsfeld de que o ditador poderá ter um julgamento no próprio Iraque. Fala da expulsão dos parlamentares do PT – Entrevista o professor de filosofia política da FRGS Denis Roselfeld. Publicidade: compuware Vinheta: estradas – oferecimento Via Fácil Laerte chama Telma Costa Telma Costa – informação sobre trânsito da Dutra e Bandeirantes Laerte:hora Publicidade: Chester Perdigão Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Chester Perdigão Hora Heródoto lê e comenta notícia do Financial Times sobre prisão de Saddam e imagens Laerte: Hora – chama Alexandra Dias Alexandra Dias comenta informações de taxistas sobre trânsito e acidente Laerte: Hora Publicidade: Celular pré-pago Tim Publicidade: defesa dos transgênicos Monsanto Laerte: Hora. Pergunta se ele se surpreendeu com o fato de 27 membros do diretório do PT terem se colocado contra a expulsão Roselfeld – Diz que não se surpreendeu porque parte do PT é mais à esquerda. que “está aqui na ponta da linha”. Acha melhor aguardar desdobramentos Heródoto questiona que é a primeira vez que isso acontece com o PT no poder Roselfeld: “O ponto é o programa de governo não corresponder ao programa partidário” Heródoto pergunta se essa é a causa da 151 . PT vive “esquizofrenia galopante” Heródoto questiona se a expulsão é um divisor de águas no PT Roselfeld acha que não. A pena de morte pode ser reintroduzida no país. da Redação do Meio&Mensagem: Carta da Avap ao governo pedindo a regionalização das verbas de publicidades governamentais Heródoto – hora.

.” Roselfeld (rindo) concorda e explica que o partido tem um projeto de poder que não compactua com alas radicais Heródoto despede-se.3h11m56s 3h12m40s 3h12m42s 44s 2s 46s 3h13m28s 17s 3h13m45s 3h13m47s 3h13m52s 3h14m21s 3h14m32s 3h14m33s 3h14m45s 2s 5s 29s 9s 1s 12s 29s Sob música Continua música Música Música 3h15m14s 3h15m22s 18s 20s Música 3h15m42s 6s 3h15m48s 9s Música 3h15m57s 3h16m30s 33s 26s Música 3h16m56s 3h17m23s 27s 3s Música 3h18m26s 30s 3h18m56s 3h19m00s 3h19m08s 3h19m15s 3h19m45s 4s 8s 7s 30s 14s Som Música e fala Música Música 3h19m59s 3h20m18s 19s 16s Música divergência que culminou com a expulsão Roselfeld acha que os dois grupos têm razão Heródoto: (brincando) “Vale quem tem mais força.. Antonio Celso Alves Pereira. assessor da presidência da República Sonora: Marco Aurélio . lembra a repercussão do assunto na popularidade do presidente e a proximidade das eleições nos EUA Sonora: Bush fala que a prisão de Saddam não significa o fim da violência no Iraque Heródoto: retoma a opinião de Marco Aurélio Garcia. Sonora: Alves Pereira diz que a prisão de Saddam pouco representa na luta contra o terrorismo Laerte: hora Laerte: vinheta Jornal da CBN Heródoto fala do governo Lula e dos novos mercados de exportação Lula fala sobre sua decisão de ter mais ousadia nas exportações Heródoto: hora – retoma análise do correspondente de Nova York. Apresenta fala de Bush sobre o assunto e considera que a prisão é um “presente de Natal” Sonora: Bush fala da captura de Saddam Heródoto: retoma fala de Bush. Ele lembra que Bin Laden continua solto e a guerra deve prosseguir.Prisão facilita a organização política do Iraque Heródoto: Prisão é considerada pelos analistas uma grande vitória de Bush. Retoma fala da professora da USP. retoma assunto da entrevista e anuncia os “destaques da manhã” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – Chester Perdigão Vinheta Jornal da CBN – oferecimento Chester Perdigão Laerte: hora (Tempo de música) Heródoto: Forças Armadas americanas capturam Saddam. Expedito Filho. que disse “agora há pouco” que a prisão de Saddam rendeu elogios a Bush até do partido democrata Fala do correspondente de Nova York sobre o apoio dos democratas Heródoto: hora e retoma trecho de entrevista da professora de direito internacional Maristela Bassos sobre as perspectivas do julgamento de Saddam 152 . Maria Aparecida de Aquino Sonora: Maria Aparecida de Aquino comenta a prisão de Saddam Heródoto: retoma entrevista do professor de Relações Internacionais da UFRJ.

que fala em “alívio” Sonora: Lima diz que Israel sofreu com os mísseis de Saddam Heródoto: diz que a prisão do ditador foi “anunciada com polpa e circunstância pelo administrador do Iraque. we got him” Letra refrão da música: “Sou invencível/ somos amigos/unidos venceremos a semente do mal/Eu tenho a força/ sou invencível” Heródoto finaliza o programa apresentando equipe técnica e Laerte Laerte: “Apresentação Heródoto Barbeiro” Vinheta: Jornal da CBN – as notícias que podem mudar o seu dia 153 . Carlos Edueta. Paul Bremen” Sonora: Paul Bremen: “Ladys and gentlemen.retoma comentário do embaixador brasileiro no Paquistão. que acha que Saddam deve ser julgado com base em leis internacionais Sonora: Edueta fala de Saddam e da necessidade de um julgamento exemplar Heródoto: hora . Sérgio Moreira Lima. Abelardo Arantes.paquistaneses querem fim da ocupação dos EUA como saída para a paz Heródoto: hora – retoma fala do embaixador do Brasil em Israel.3h20m34s 28s 3h21m02s 13s Música 3h21m15s 3h21m52s 37s 13s Música 3h22m05s 9s 3h22m14s 9s 3h22m23s 3h22m59s 26s 13s Música 3h23m12s 3h23m19m 7s 27s Música infantil 3h23m46 3h24m02s 3h24m07s – 16s 5s 27s Música da CBN Música e fala Sonora da professora: “Pode-se esperar de tudo de Bush na hora do julgamento de Saddam” Heródoto: retoma trecho de entrevista com o ex-presidente da Anistia Internacional. e a “grande repercussão” da prisão de Saddam naquele país Sonora: Abelardo .

Semiotizamos depois os recursos de textualização mais importantes. famoso e criticado noticiário brasileiro. O formato do JN merece atenção porque. Antonio Brasil. apresentamos a estrutura geral do programa. preconceituosa e ingenuamente ideológica”.tv/ab_uniodeiatv. o mais antigo. entretanto.tv: http://www. Inicialmente. como antimodelo constantemente desafiado por profissionais de outras redes. que incluem o manejo dos planos de câmera e da montagem (ou edição). faz com que seja difícil discordar do professor de telejornalismo da UERJ. Trata-se de um tema bastante estudado e comentado.último acesso em março de 2005.html . A leitura de textos de acadêmicos e de profissionais sobre o assunto. texto disponível no site videotexto. A complexidade dos procedimentos e efeitos de montagem é discutida a partir do detalhamento da estrutura da notícia da prisão de Saddam Hussein. Em seguida.O TELEJORNALISMO Nosso estudo sobre o jornalismo de televisão tem como objeto o Jornal Nacional. a relação entre o JN e o público-alvo é examinada por meio de uma reflexão sobre o poder da marca e a organização de “vozes” autorizadas a enunciar. Questões sobre a temporalidade e o uso ideológico da montagem e dos planos de câmera concluem esta parte do trabalho. A reportagem também permitiu uma série de outras reflexões sobre o funcionamento das estratégias utilizadas pelo JN para obter e manter a atenção do público-alvo. há décadas.91 “As universidades odeiam a televisão”. se impõe como modelo de telejornalismo de sucesso a ser copiado e.videotexto. Ele afirma que “boa parte das pesquisas ainda é pouco científica. ao mesmo tempo. Considerações gerais sobre o telejornalismo e o Jornal Nacional O telejornalismo – em especial o produzido pela Rede Globo – ilustra muito bem diversas considerações feitas na parte inicial do trabalho. 91 154 .

Para diversos teóricos e trabalhadores da comunicação. Entre seus exemplos. os jornalistas mais conscientes de suas responsabilidades. tudo desaparece instantaneamente. tudo evapora. portanto. ela expõe a um perigo não menor a vida política e a democracia” (1997:9 e 10). Pierre Bourdieu. a rigor.A TV e o telejornalismo em especial podem dar margem a opiniões díspares. arte. Nenhuma notícia sobrevive. “Ao embaralhar no fluxo televisual os materiais originários de fontes diversas. A questão da verdade está. Arlindo Machado afirma que o telejornalismo não tem ponto de vista. mas para a maioria das pessoas é o único lazer. Para quem não tem outra opção. acabam se anulando. não é com a verdade que ele trabalha. emocional e superficial: “Tudo vai direto para o lixo. ou tentamos fazer a cabeça com Caetano e Chico César ou damos 155 . assevera que tudo o que o telejornalismo produz é rápido demais. Quando a CNN lança ao ar sucessivamente um material publicitário do Pentágono e outro da TV do Iraque. acredita que o poder da televisão e seus produtos é ameaçador: “Penso que a televisão (. Há dois públicos no Brasil. afastada do sistema significante do telejornal. que se satisfaz com apenas leves pinceladas sobre o título da notícia. por outro lado. seria uma coerção de qualquer programa de TV no País. a televisão é uma opção no sábado à noite. literatura. sem dúvida com toda a boa-fé.. o telejornal coloca em choque os diferentes enunciados e os relativiza ou os anula no mesmo momento em que lhes dá publicidade. direito: creio mesmo que. a única ‘leitura’ possível para o espectador é a de que se trata de diferentes ‘versões’ da guerra.. nenhum relato é suficientemente trabalhado para criar raiz. Essa característica. tudo é esquecido. (.. por sua vez.) Uma máquina incessante de fazer o nada” (2000:89). juntas. fala de um incidente em uma ilha grega que gerou mobilização da TV do país e quase terminou em uma guerra contra a Turquia. pois. e não com uma audiência mais restrita que exige um aprofundamento dos fatos” – afirma Schwartz (1985: 78).. marcado por profundas diferenças entre classes sociais. a “superficialidade” do telejornalismo em relação aos outros tipos de noticiários tem uma justificativa. “As redes de transmissão organizam os noticiários de forma tal a garantir um maior público porque seu interesse principal é a grande audiência. por exemplo.) expõe a um grande perigo as diferentes esferas da produção cultural. O apresentador Sérgio Groisman explica: “Há uma questão delicada. que serve para algumas pessoas fazerem porcaria na TV: para nós da classe média. mas com a enunciação de cada porta-voz sobre os eventos” (2000:111). ao contrário do que pensam e dizem. ciência. Note-se que as três afirmações. Ciro Marcondes Filho. filosofia. O fluxo telejornalístico inteiro não passa de outra coisa que uma sucessão de ‘versões’ do mesmo acontecimento.

que confunde modos de apresentação de conteúdos e certas escolhas do que divulgar com a própria maneira de “ser” do veículo. Esse último assunto. a transformação da vida de artistas em notícia. O aspecto de “show”. O necessário debate entre todos os que assistem ou fazem televisão sobre formas de superação dos atuais modelos surge como uma grande perda de tempo. o que é pior. Quem quisesse ser mais “analítico” ou “sério”. Se todas essas afirmações sobre a televisão e o telejornalismo estiverem corretas. por sua vez. O que parece ser indiscutível. Cada vez que tentasse ser “profundo”. tirando o peso das análises mais críticas e ideológicas. como “shows da vida”. pág. dissertação de mestrado. É perceptível ainda que questões de textualização 92 Entrevista de Sérgio Groisman a Fernanda Dannemann. dos seres humanos e de seus conflitos por esse veículo de comunicação.prazer com KLB e umas bundas. 93 São reproduzidas no estudo do telejornalismo certas discussões sobre o cinema.para prender a atenção. Percebe-se. É um dilema. portanto. Esse estigma tem sérias conseqüências. é a existência de um laço tênue entre público e noticiários de TV em comparação com os outros jornais. 156 . As estratégias de gerenciamento de atenção do telejornalismo devem ser muito sofisticadas e de efeito imediato.”92 Outra idéia muito ligada à televisão e ao telejornalismo é a da “espetacularização”. sob um olhar semiótico. “A TV é muito superficial”. Suplemento Folha de São Paulo. ou mesmo tivesse pretensões estéticas. Nos estudos sobre o telejornalismo que encontramos. o uso crescente de recursos visuais possibilitados pelas novas tecnologias de manipulação digital. Uma é particularmente funesta. extraem dos fatos toda a sua explosividade e os transformam em variedade e diversão” (1989: 52). por exemplo. da audiência. comuns notadamente até a metade do século passado.TV Folha. mas não posso impor a transformação. estamos diante de uma série de coerções de conteúdo e de expressão que. teria como conseqüência a perda da atenção e.93 Outros buscam mostrar a primazia do “poder da palavra”. de qualquer modo. Há quem tente convencer de que essa forma de discurso é comandada exclusivamente pelo “poder da imagem”. reduziriam drasticamente as possibilidades de abordagem noticiosa do mundo. podem ser entendidos como armas possíveis – e sempre discutíveis . Quero que as pessoas se transformem. aparece bem sintetizado no trabalho de Odair José Moreira da Silva. Para Marcondes Filho. deveria utilizar outras mídias. a idéia de espetáculo se liga mais fortemente à TV do que a qualquer outro veículo: “Telejornais. a dicotomia verbal x visual aparece com força. capítulo 1 – O cinema: das origens às teorias da linguagem cinematográfica. 10/02/02. 14. FFLCH-USP. e não como “características” inerentes – e imutáveis – do telejornalismo. 2004. um julgamento negativo pesando na análise sobre a TV. “A manifestação de Cronos em 35 mm – o tempo no cinema”.

o telejornalismo sofre preconceito por ser parte da programação da televisão..96 Nesse tempo. como construtores do discurso do telejornalismo é esquecido até no livro que comemora e conta os 35 anos do mais importante telejornal do Brasil. inclusive com depoimentos de todos profissionais envolvidos. por exemplo.95 Mesmo com esses deslizes. Ver. do Jornal Nacional. enquanto para o grupo mcluhaniano a televisão é por natureza ‘boa’. notadamente. O candidato do Partido dos Trabalhadores foi prejudicado. e sem maiores aprofundamentos. Era um dos telejornais mais vistos no mundo. 95 O livro dedica ainda muitas páginas para descrever e analisar o assunto.. aliás. em obras do tipo “manual”. 96 Fonte: revista Veja 1869. admite que “a edição do debate provocou um inequívoco dano à imagem da TV Globo” (2004: 213). Em resumo. (. apresentou uma edição tendenciosa – ação. Isso que dizer que os adornianos atacam a televisão pelas mesmas razões que os mcluhanianos a defendem: por sua estrutura tecnológica e mercadológica ou por seu modelo abstrato genérico. coincidindo ambos na defesa do postulado básico de que a televisão não é lugar para produtos ‘sérios’. como as possibilidades de manejo sensorial proporcionadas pelos planos de câmera e pela edição. que se traduz em impossibilidade de consumo de outros tipos de jornais. Em 1989. uma das razões para tanta passionalidade – inclusive acadêmica – é o sucesso e o poder de mobilização e de desmobilização do telejornalismo e. Rezende. podemos distinguir duas maneiras principais de tratar a televisão. Tinha em média 31 milhões de espectadores e 68% dos televisores sintonizados no País. O trabalho dos cinegrafistas.94 No Brasil. de João Gabriel de Lima. que mereçam ser considerados em sua singularidade” (idem:19). mesmo que todos os trabalhos mostrados em suas telas fossem da melhor qualidade. o vicepresidente das Organizações Globo. possivelmente a única. 94 157 . em meados de 2004 o principal noticiário da Rede Globo completava 35 anos como campeão de audiência no gênero no Brasil.97 Para Arlindo Machado. 2000:143. Em 1984. “A guerra atrás das câmeras”. No livro de comemoração dos 35 anos do JN. Trata-se de “Jornal Nacional – a notícia faz história” (2004). mesmo se só existisse porcaria em suas telas. a televisão é por natureza ‘má’. uma das fontes de consulta desta parte da tese.) “Para o grupo adorniano. sempre foi a principal referência informativa para a maioria dos brasileiros. Esquematicamente. e o grande número de analfabetos. As razões são simples: pobreza. assim reconhecida pela própria direção da Globo .bastante evidentes. 1° de setembro de 2004.do último debate entre os candidatos à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello. 97 Esse ponto de vista é partilhado por diversos teóricos. O mais interessante é que a obra expõe enormes contradições entre os direta ou indiretamente envolvidos. João Roberto Marinho. apareçam mais. a mais criticada mídia: “Numa rápida retrospectiva histórica. Há exemplos marcantes dessa força. o JN foi acusado de esconder manifestações pela eleição direta para presidente da República. dias antes da eleição. vamos denominá-las o modelo de Adorno e o modelo de McLuhan” (2000: 17). falta ao estudo do noticiário de TV uma visão não só mais abrangente como também mais distanciada.

tanto tradicionais (caso das charges 158 . memória e segurança que o formato gera. que acabamos de analisar no item anterior. para se manter atento. O diretor da Central Globo de Jornalismo da época.O Jornal Nacional. Os novos apresentadores são jornalistas que participam ativamente da edição. Era aprofundar o cenário. explicou a mudança como decorrência da abertura política: “Nós passamos a vida inteira debaixo de um regime de exceção. Existe uma grande consciência da importância do sentido de familiaridade. houve a tentativa de conquistar mais credibilidade para a notícia. Armando Nogueira. era absolutamente ‘chapado’. um telejornal é composto de uma mistura de distintas fontes de imagem e som: gravações em fita. fazendo um telejornalismo que. mapas. material de arquivo. Trata-se da substituição de Cid Moreira e Sergio Chapelin por William Bonner e Liliam Witte Fibe. 2004: 287). Por trás da mudança. música e ruídos (2000: 104). Os efeitos cênicos. é quase uma coerção para que o principal noticiário da Globo mude muito pouco ano após ano. precisa de mais e mais estímulo. Arlindo Machado explica o que são essas unidades: “Tecnicamente falando. A estratégia de fidelização. em 1996 (Memória Globo. tanto na forma como no conteúdo. foram passando do cinza para o azul. e fazer uma concepção cenográfica. no entanto. Na história do JN. o noticiário de TV tem como característica principal a textualização manifestada por meio da organização de unidades no fluxo temporal. O público. os cenários também são importantes indicadores de mudanças não apenas cosméticas. E quando veio a abertura. podemos ainda incluir animações. colocar uma bancada em primeiro plano. A estrutura do programa Assim como o radiojornalismo. mas de conteúdo. Em 1989. e o vermelho. nós chegamos à conclusão de que uma das maneiras de mostrar que estávamos fazendo um novo jornalismo era criar um cenário em três dimensões. uma modificação que criou uma nova etapa para JN. além de locução. através de iluminação e de criptogramas. que desse a idéia de que nós tínhamos um jornalismo agora com mais peso. com mais densidade” (idem: 188). mais predominante. As mudanças posteriores de cenário só intensificaram essa proposta de criar movimento. o jornal surgiu com um novo cenário. passou por raríssimas alterações bruscas.” No caso do JN. de criação de um hábito. Houve. filmes. aos poucos. em sua longa existência. Os apresentadores de bela voz deram lugar aos âncoras. gráficos. O noticiário que analisaremos em detalhes a seguir está dentro dessa “nova fase”. Nós tínhamos sempre uma tapadeira atrás dos apresentadores. dinamismo. textos. fotografia.

política nacional etc. Boletim (stand-up) – “É a notícia de televisão completa.98 A escalada – a apresentação das manchetes . Normalmente. Ambos servem para mostrar como a estrutura interna é flexível.. mesmo que remeta a um acontecimento da realidade. (.) faz uma análise. Esses indicadores podem ter um caráter permanente.. Durante toda a narrativa. 2 – off. nota simples ou nota pelada: apresentador lê a notícia. Crônica – “No limite entre a informação jornalística e a produção literária. o que lhes dá o sentido de um jornalismo de serviço. uma interpretação de fatos do cotidiano” (ibidem). No trabalho de descrição. O Jornal Nacional vai ao ar entre duas novelas. 158).. a reportagem incorpora todas as outras formas de apresentação da notícia em suas cinco partes básicas: 1. Tudo isso é determinante para a estruturação do programa e das principais estratégias de gerenciamento de atenção do público-alvo.. Nota coberta – “É a forma mais simples de apresentação de notícias com imagens na televisão. que expressa a opinião da emissora sobre uma determinada questão” (idem). 2.) Indicam tendências ou resultados de natureza diversa.cabeça. Ele é lido em quadro pelo apresentador e tem a função de fechar a matéria. adotamos a metalinguagem dos profissionais para nomear os diferentes tipos de segmentos jornalísticos. locais pobres em imagens para a televisão. presença do apresentador. O segundo aborda a prisão de Saddam. Indicador – “(.) O pé é um texto curto.televisivas de Chico Caruso) como as realizadas em programas que simulam terceira dimensão (3D). 3 – boletim. de uma visão pessoal. se houver sonora. 4. Comentário – “Matéria jornalística em que um jornalista especializado em um determinado assunto (economia.off – a narração do apresentador ou do repórter feita enquanto as imagens da notícia são exibidas na tela do televisor” (Maciel. Mostraremos a seguir a estrutura de dois programas em dias diferentes. Tem texto. esporte. 1995: 52). no começo da noite. de utilidade para o telespectador em eventuais tomadas de decisão. ou temporário. do repórter e de entrevistados. Editorial – “Texto lido geralmente pelo apresentador. a crônica é um gênero opinativo que. Esse tipo de apresentação de notícias costuma ser muito usado pelos jornalistas que trabalham em Brasília (. que está sendo transmitida para o telespectador. Nota ao vivo. números do mercado financeiro e informações de condições de trânsito. utilizado para encerramento da reportagem. Durante o boletim. estudaremos a estrutura mais geral e o contexto semiótico do programa.. 2000.. o 98 159 . vai além da simples avaliação jornalística do real.. depois que grande parte dos telespectadores realizou as principais tarefas do dia. é formada por duas partes (. Antes de analisar a organização textual em detalhes. Em geral mais longa. fornecendo ao telespectador uma informação complementar (. O primeiro tem como uma das principais matérias uma invasão de sem-terras. apesar do tempo de duração ser quase constante. o repórter fica em quadro.. Reportagem especial – série de reportagens com o mesmo tema que se desenvolve em várias edições.sonoras. caso das previsões meteorológicas. a câmera pode fazer um passeio para mostrar o que o repórter está narrando ou abrir em um entrevistado. Reportagem – “É a forma mais complexa e mais completa de apresentação da notícia na televisão...) onde a maior parte das notícias se desenvolve em gabinetes.resume todo o conteúdo mais importante e a própria estrutura do programa.)” (ibidem: 60 e 61). Mediante um estilo mais livre. O repórter que vai apresentar o boletim costuma ser chamado do estúdio pelo apresentador do telejornal” (idem: 56). apresentada e sustentada pelo repórter. Não tem imagens. imagens. 5 – pé.): 1 – cabeça – texto que corresponde ao lead em jornal impresso e que é lido pelo apresentador em quadro. a exemplo dos resultados de pesquisas eleitorais” (Rezende.

TABELA 2 JORNAL NACIONAL – Edição de terça-feira, 29 de julho de 2003
1° bloco Tipo de segmento Escalada Tempo inicial 1s Duração 50s

Manchetes da escalada Fátima Bernardes: Vandalismo e violência – integrantes do MST invadem e destroem uma fazenda em Minas. Willian Bonner: Em São Paulo, colegas homenageiam o fotógrafo assassinado em frente do acampamento dos Sem-teto. Fátima Bernardes: Um crime até agora sem solução. Willian Bonner: Governo manda cortar o ponto de grevistas. Fátima Bernardes: Parlamentares governistas negociam com o judiciário mudanças na Reforma da Previdência. Willian Bonner: Mas ministros dizem que não querem modificação nenhuma. Fátima Bernardes: O ex-guarda-costas de Saddam Hussein é preso no Iraque. Willian Bonner: E em mais uma gravação atribuída a ele, o ex-ditador chama os filhos mortos de mártires. Fátima Bernardes: Presa uma quadrilha internacional de tráfico de crianças. Willian Bonner: O artilheiro do Santos é vendido para o futebol espanhol. Fátima Bernardes: Suspeita de doping pode tirar Maurren Maggi do Panamericano. Willian Bonner: E na série sobre fertilização, como a ciência está ajudando a maioria dos casais que não consegue ter filhos Fátima Bernardes: O Jornal Nacional está começando. Vinheta do JN 51s 2s 1 – Busca de remédios gratuitos em Reportagem 53s 2m postos de saúde por usuários de planos privados 2- Reajuste de remédios Reportagem 2m53s 2m17s 3 – Juros mais baixos Reportagem 5m10s 1m46s 4 – Tempo e temperatura Indicador 6m56s 28s 5 – Cheias no Paquistão Nota coberta 7m24s 19s 6 – Incêndio mata turistas na França Nota coberta 7m43s 20s 7 – Explosão e morte em prédio da Nota coberta 8m03s 18s China 8 – Acidente grave na BR-101 Nota coberta 8m21s 25 9 – Exposição sobre tecnologia em São Reportagem 8m46s 1m52s Paulo - Prisão de traficantes de crianças Chamadas + vinheta 10m38s 12s - Fertilidade artificial PUBLICIDADE Feira no Carrefour 10m50s 31s Banco Itaú Personnalité 11m21s 31s 2° bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta do início do bloco 11m52s 3s 10 – Tráfico de crianças - Inglaterra Reportagem 11m55s 1m47s 11- Criança Esperança – Jardim Ângela Reportagem institucional 13m42s 3m06s 12 – Técnicas mais avançadas de Reportagem especial sobre 16m48s 4m01s reprodução assistida fertilização artificial Sem terra Chamadas + vinheta 20m49s 12s Filas para vagas de auxiliar de limpeza PUBLICIDADE Dias dos Pais – celular Vivo 21m01 30s Bradesco na Internet 21m31s 30s Chamada para novela Mulheres Apaixonadas 22m01 30s 3° bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta do início do bloco 22m31s 3s 13 – Turista morto no RJ Nota simples 22m34s 12s 14 – Repercussão: morte de Marcinho Nota coberta 22m48s 1m12s

cronista projeta para a audiência a visão lírica ou irônica que tem do detalhe de algum acontecimento ou questão (...)” (ibidem: 159). Charge – animação humorística do cartunista Chico Caruso com base em alguma notícia apresentada.

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VP 15- Invasão dos Sem-terra 16 – Terreno invadido da Volks – “politização” do movimento 17 – Missa para fotógrafo assassinado 18 – Vagas para auxiliar de limpeza 19 - Nível de atividade industrial - Corte do ponto de servidores em greve - Preso segurança de Saddam - Saddam fala dos filhos mortos

Reportagem Reportagem Nota coberta Nota coberta Indicador Chamadas + vinheta

23m36s 26m04s 28m00s 28m26s 28m51s 29m08s

2m28s 2m04s 26s 25s 17s 12s

PUBLICIDADE Loteria - Jogada da Sorte Celular – Plano Incrível da Tim Institucional – Criança Esperança Agosto na Globo – chamada para o filme “O homem sem sombra” 4° bloco Tipo de segmento Vinheta do início do bloco 20 – Reforma da Previdência - corte de Nota simples ponto dos funcionários públicos em greve 21 – Reforma da Previdência – líderes Reportagem do governo tentam evitar greve do judiciário 22 – Animação de Chico Caruso Charge 23 – Dólar e Bovespa Indicadores 24 – Desabafo do presidente da GM Cabeça de matéria + sonora 25 – Segurança de Saddam preso - Fita Reportagem com Saddam sobre filhos mortos Recompensa para matar americanos no Iraque - Vendido artilheiro do Santos Chamadas + vinheta - Esportista suspeita de doping PUBLICIDADE Veículo – Honda Fit Casas Bahia Chamada – Copa Sul-Americana 5° bloco Tipo de segmento Vinheta de início do bloco 27 – Venda de jogador Nota simples 28 – Copa Sul-Americana Reportagem 29 – Novo técnico da Seleção Brasileira Nota simples de Vôlei 30 – Suspeita de doping em atleta Reportagem brasileira 31 – Pan-Americano Reportagem –Final – chamada para o programa “O Encerramento jogo” TEMPO TOTAL DA EDIÇÃO: 45m48s

29m20s 29m50s 30m21s 30m51s Tempo inicial 31m30s 31m33s

30s 30s 31s 30s Duração 3s 13s

31m46s

3m13s

34m57s 35m15s 35m25s 36m18s

18s 10s 53s 1m19s

37m37s

15s

37m52s 38m22s 39m24s Tempo inicial 39m50s 39m54s 40m03s 41m44s 42m02s 43m39s 45m23s

30s 1m26s 26s Duração 4s 9s 31s 18s 37s 1m44s 25s

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TABELA 3 JORNAL NACIONAL – Edição de segunda-feira, 15 de dezembro de 2003
1° bloco Publicidade especial da Claro Tipo de segmento Apresentação do patrocinador com som do JN ao fundo e passagem do logo Escalada Tempo inicial 0 Duração 10s

11s 1m03s Manchetes da escalada: Renato Machado (início da escalada): O destino de Saddam Hussein. Eraldo Pereira: O presidente Bush garante que o julgamento do ex-ditador vai ser aberto a observadores internacionais Renato Machado: E diz que iraquianos vão decidir como aplicar a justiça Eraldo Pereira: Os novos detalhes da captura. Saddam Hussein tentou negociar com os soldados no momento da prisão. Renato Machado: O presidente Lula recebe do presidente americano cumprimentos pelo primeiro ano de governo. Eraldo Pereira: Reforma da Previdência. Renato Machado: Depois do texto básico os assuntos mais polêmicos também são aprovados no Senado Eraldo Pereira: O provão das universidades. Renato Machado: Somente dois cursos passam no teste de avaliação de qualidade. Eraldo Pereira: E veja também. Renato Machado: O jeito próprio que cada cidade brasileira tem de festejar o Natal. Eraldo Pereira: O time de amigos de Ronaldo vence os amigos de Zidane no dia em que o francês é eleito o melhor jogador do mundo. Renato Machado: A seleção brasileira até 20 anos derrota a Argentina e vai disputar a final contra a Espanha. Eraldo: Agora, no Jornal Nacional. Abertura 1m 1- Matéria sobre Saddam Reportagem complexa, com 1m16 10m40s diversos recursos Encontro de corpo de integrante do Chamada para o segundo 11m56s 14s Greenpeace bloco Denúncia contra postos que enganam a fiscalização e vendem gasolina adulterada PUBLICIDADE Bronzeador cenoura e bronze 12m10s 30s Fazer o 21 - Embratel 12m40 60s Boticário - perfumes 13m41s 30s 2° Bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta de início do bloco 14m11s 2s 2- Encontro do corpo de ativista do Nota coberta 14m13s 1m4s Greenpeace 3- Investigações sobre a morte de casal Nota simples 15m15s 53s norte-americano assassinado no Rio 4 -Postos que vendem gasolina Reportagem 16m08s 2m5s adulterada desafiam autoridades 5 -Tempo e temperatura Indicador 18m03s 29s 6 -Doação de órgão de rapaz Reportagem 18m32 2m17s assassinado Sai resultado do provão Chamadas para o 3° bloco 20m15s 11s - Preparativos das cidades brasileiras mais vinheta para o Natal PUBLICIDADE Computador Intel 20m26s 30s Medicamento - Engov 20m56 30s Cerveja Kaiser 21m26s 30s Celular Claro 21m57s 31s Chamada para filme da Tela Quente 22h28s 31s 3° Bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta de início de bloco 22m56s 2s 7 - Provão - resultados Reportagem 22m58s 1m33s 8- Parlamentares Juvenis Reportagem 24m39s 2m1s

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9- Prêmio para sugestões que façam a Justiça mais rápida 10- Natal em Canela – tradição alemã Parlamentares aprovam temas polêmicos da Previdência. Presidente Lula fala dos desafios para 2004 DVD gradiente IBM – e-business Cerveja Nova Schin Casas Bahia - móveis Chamada - Fim de ano na Globo 4° Bloco Vinheta de início de bloco 11- Aprovação da emenda da Previdência no Senado 12- Prorrogação dos trabalhos no Congresso 13- Expulsão dos “radicais do PT” 14 -O triunfo da globalização 15- Balança comercial – dólar - bolsa 16- Prorrogação de acordo do FMI com o Brasil 17- Lula: avaliação do primeiro ano do governo por Lula 18 - Bush ligou para cumprimentar Lula pelo primeiro ano de governo. Presidente brasileiro diz que a prisão de Saddam contribui para uma nova fase de transição democrática no Iraque Brasil na final de futebol Jogo amistoso de Ronaldo e Zidane Koleston – tintura de cabelos Resgate roupas Celular: promoção celular TIM Koleston – tintura de cabelos 5° Bloco Vinheta de início de bloco 19- Final do mundial de futebol Sub 20 20- Regras no Campeonato Brasileiro – Clubes, rebaixados e vencedores 21- Zidane – melhor do mundo – Jogo beneficente de Zidane e Ronaldinho – Renda para o Criança Esperança

Reportagem Reportagem Chamadas para o 4° bloco + vinheta

26m40s 28m35s 31m15s

1m55s 2m40s 12s

PUBLICIDADE 31m27s 31m57s 32m27s 32m57s 33m27s Tempo inicial 34m17s 34m19s 36m26s 36m44s 38m34s 38m54s 39m14s 39m43s 40m36s 30s 30s 30s 30s 20s Duração 2s 2m7s 18s 1m50s 20s 20s 20s 53s 20s

Tipo de segmento Reportagem Nota simples Reportagem Charge Indicadores Nota simples Cabeça do apresentador + sonora Nota simples + vinheta

Chamadas para o 5° Bloco + vinheta PUBLICIDADE

40m55s

19s

Tipo de segmento Nota coberta Reportagem Reportagem

41m08s 41m39s 42m09s 42m29s Tempo inicial 43m10s 43m12s 43m32s 45m45s

31s 30s 30s 31s Duração 2s 20s 2m13s 2m41s

Encerramento TEMPO TOTAL DA EDIÇÃO: 48m40

48m26s

14s

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A publicidade é encarada como um momento de quebra da programação do canal. Há diversos meios para manter a atenção do telespectador para o telejornal. O primeiro é evitar comerciais entre o final da novela das 19h e o início do JN. O intenso número de recursos que o JN utiliza no começo do programa é outro claro indicador de que os minutos iniciais são os mais problemáticos para obter a adesão do telespectador. Logo no início, temos a leitura das manchetes da escalada. Os apresentadores estão em plano próximo. Sons, cortes rápidos, entonação vibrante, logo voador fazem parte da estratégia de arrebatamento – de ordem sensível. É como se o telespectador se perguntasse: “Vale a pena ver o JN hoje?” E o Jornal tentasse instigar sua curiosidade ao máximo. Ao mesmo tempo, impõe as notícias “mais importantes” sem dar tempo ao telespectador para um julgamento mais profundo. Na escalada, todo o conteúdo mais valorizado e a própria estrutura do programa aparecem resumidos. As chamadas e sua ordem de apresentação acontecem em função do impacto afetivo, do mais tenso, violento, ou seja, das notícias negativas, com relações disfóricas (sujeitos apartados de seus objetos-valor invasão, destruição, assassinato, corrupção) para as mais relaxadas, eufóricas, positivas (vitórias de um time de futebol, campanhas beneficentes), o que mostra certas características da estratégia de sustentação. Parece que os editores do JN raciocinam que, se o telespectador receber apenas manchetes com notícias que considere ruins, de impacto negativo, ele pode decidir ver algo mais “leve”. Como um todo, porém, as chamadas buscam desencadear a máxima curiosidade do telespectador. Se a escalada for eficiente, haverá curiosidade (o querer-saber disfórico) para conhecer em detalhes os assuntos mostrados nas manchetes. Basicamente, o Jornal Nacional é composto por cinco blocos. No programa de julho observamos 31 notícias. No JN dedicado à prisão de Saddam contamos 21. Em alguns momentos foi possível perceber um certo encaixe de notas dentro de notícias de reportagens de maior envergadura. Uma notícia pode ser um agrupamento de outras com algo em comum. Um exemplo é uma nota sobre a operação de extração de câncer de Collin Powell na notícia dedicada à prisão de Saddam (que veremos depois). Para se criar uma noção de unidade, falou-se que o comandante militar “acompanhou a captura de Saddam Hussein pelo telefone”. As tabelas 2 e 3 mostram relações entre unidades noticiosas em função do tempo de apresentação. Uma reportagem, o segmento mais trabalhado do programa, dura em média 2 minutos. Somente notícias consideradas muito importantes ganham ou ultrapassam esse tempo. A prisão de Saddan e suas repercussões ocupam 10m40s. Esse tempo indica muito bem como a notícia foi valorizada. Como veremos depois, essa unidade noticiosa é, na verdade, um conjunto de quatro reportagens

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interligadas. Quando o programa cede mais tempo para uma reportagem está comunicando que deu mais atenção a um assunto em relação a outro mostrado em menos tempo. É como se o enunciador dissesse para o enunciatário: “Preste atenção: isso é importante”. Simultaneamente, quer que o telespectador também interprete e aceite esse código, de que se trata de algo que também merece o mesmo nível de consideração dele. Em outras palavras, podemos verificar como a edição (no sentido de ato) no telejornalismo maneja a relação semi-simbólica de texto inteiro apresentada na análise do radiojornalismo: cessão de tempo – valor – nível de atenção. No final dos blocos, com exceção do último, há chamadas para avivar a memória em relação às notícias restantes. Tenta-se manter a curiosidade do telespectador para o programa enquanto ele vê os comerciais. Em algumas chamadas, usa-se um trecho de gravação junto com a vinheta. No bloco final, a chamada é geralmente feita para um programa da Globo. A passagem entre o primeiro e o segundo bloco de notícias conta com um número reduzido de anúncios. Isso reforça o raciocínio de que os minutos iniciais são os mais problemáticos para obter a adesão do telespectador. Há outro ponto que fortalece essa observação. O número de comerciais entre os blocos só aumenta a partir do primeiro terço do programa, para diminuir novamente no final. Também chama a atenção o fato de o JN misturar assuntos nos blocos. Há questões nacionais com internacionais, remédios com informação do tempo, um salto para a China, depois o retorno a um problema brasileiro. Fica bastante evidente que a ordem do jornal é pensada em termos de impacto das gravações, de curiosidade da notícia e de coerções de ritmo e não em função de mostrar uma organização temática, como a encontrada nos jornais diários, por exemplo. O mundo que emerge no JN é fragmentado e ordenado segundo as necessidades de manutenção de atenção. Em outras palavras, a estrutura privilegia mais a dimensão afetiva, sensível, do que a inteligível. O JN como um todo também “pulsa”, dosando curiosidade, disforia ou euforia, notícias curtas com outras longas, algumas vibrantes com outras mais lentas. O jornal, de qualquer maneira, com bastante freqüência termina com assuntos mais alegres, geralmente ligados ao esporte ou ao exercício da solidariedade, da cidadania. Podemos notar a estrutura “happy end”. No Jornal da CBN, como mostramos anteriormente, a tensão é quebrada apenas no finalzinho do programa,

repentinamente. No JN, essa passagem é mais trabalhada, menos brusca.

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na qual o evento é reportado através das falas de seus protagonistas e/ou dos enviados especiais da própria 166 . verificaremos as possibilidades de manejo do tempo e do espaço. também da enunciação. Tudo o que acontece no Jornal Nacional tem a marca como ponto de partida. É a marca que “autoriza” qualquer apresentação. geralmente se vê quem fala. por meio dos efeitos de câmera e de montagem. A dupla fixa é formada por Willian Bonner e Fátima Bernardes. “Sujeitos falantes diversos se sucedem. que cede a voz para os outros jornalistas. Arlindo Machado. Para ele. mediados através de repórteres (literalmente: aqueles que reportam. essa reflexão cabe a qualquer jornal. Machado caracteriza o telejornalismo como um texto de forte “efeito de mediação”. que esclarecem principalmente o funcionamento da aspectualização do plano de expressão do telejornalismo. que sempre aparece “embreada”. ou seja. vamos neste trecho estudar a organização dessas vozes dos actantes da enunciação.. praticando atos de fala que se colocam nitidamente com o seu discurso em relação aos fatos relatados” (idem:105). se contrapõem uns aos outros. não compartilha nossa afirmação anterior. “(. na forma de um “ele” que está no lugar de um “eu”.Marca. No Jornal Nacional essa característica também é marcante. As unidades noticiosas são “amarradas” e apresentadas por dois âncoras a cada programa. âncoras. Não podemos esquecer que. reforçando seu ethos. O público tem a sensação de que tudo se organiza a partir dele. No caso do JN. dá mais concretude a um sujeito que enuncia. É a marca que “toma a palavra” inicialmente e vai cedendo lugar para outras vozes. “o relato telejornalístico é imaginado como uma estrutura destituída de entidade narradora central. espectadores. todo o discurso surge hierarquizado. notadamente pelo efeito da marca. vale notar o grande poder do sujeito “marca” como um enunciador que tudo centraliza. O contato com a voz também particulariza. que acabam. contudo. assim. Para analisar com mais detalhes a estrutura do Jornal Nacional.. em TV. Observamos no telejornalismo o que Fiorin considera como debreagem interna (1996: 45) em que diversas instâncias enunciativas se subordinam. Depois. porta-vozes. ou a imagem de quem fala é sugerida. para os entrevistados e controla essas enunciações. No jornalismo. a locução do âncora estrutura todo o programa. Na verdade. testemunhas oculares e toda uma multidão de sujeitos falantes considerados competentes para construir ‘versões’ do que acontece” (2000: 103). repórteres e correspondentes: os actantes da enunciação No Jornal da CBN. aqueles que contam o que viram). se revezam.) Os eventos surgem para nós. no modelo padrão de noticiário em TV.

Cotidianamente.. Marca. valorizada como “importante”. É através da Globo que o Jornal Nacional enuncia. por exemplo. como simulacro dos “verdadeiros enunciadores”. no final e entre blocos) reforçam a existência da marca como regente de tantas vozes. Trata-se de uma marca literalmente familiar. comenta-se sobre o que “o JN disse. A questão do hábito aparece com força. se renova e se atualiza. se beneficia. Ao mesmo tempo. no entanto. Basta pensar que um enorme número de brasileiros com menos de 40 anos de idade praticamente teve contato com o JN a vida inteira. A existência de um contrato enunciador-enunciatário de tamanha longevidade expõe o peso da estratégia de fidelização na forma de conceber e manter cada detalhe do programa. repórteres e apresentadores se tornam “confiáveis”. As quase quatro décadas de existência do Jornal Nacional têm importantes conseqüências para o estudo do laço jornal-público. A função do apresentador nessa estrutura consiste basicamente em ler as notícias e amarrar os vários enunciados. por si só. cada reportagem do noticiário beneficia-se desse sentido de credibilidade. deixar de considerar essa bem-sucedida estratégia de fidelização.. A fidelização também faz com que o público tenha expectativas positivas sobre o que esperar.htm . A famosa música-tema (The Fuzz. o peso da história do Jornal Nacional se impõe por meio de seu logo.” (2000: 107). Isso quer dizer que o JN.br/canais/jornalisticos/jornalnacional_abertura. Outro ponto a salientar é a influência da própria marca Globo. a cada edição. chamando os outros protagonistas (. audiência baseada em credibilidade.). de Frank Devol99). de todos os sentidos de familiaridade que construiu com o tempo. Temos o efeito de marca. não se sustenta. A investigação sobre a significação manejada pelo Jornal Nacional não pode. o logotipo que surge ostensivamente em todo o telejornal (principalmente no início. Cada nota.” ou o que o “JN mostrou”.. A idéia da ausência de um enunciador central. como “eleita” em função de algum tipo de relevância para o telespectador.telehistoria. portanto. Portanto. a longa história do JN como líder absoluto de audiência mostra a existência de um contrato enunciador-enunciatário sendo diariamente respeitado e gerando telespectadores fiéis.televisão. É a logomarca da rede que se vê nos microfones dos repórteres. como marca. De um ponto de vista semiótico. o JN subordina-se à marca maior.último acesso em fev/2005 167 ..com. Qualquer pessoa que fala pelos microfones do Jornal Nacional é. ou seja. A marca JN se constrói a partir do que os participantes enunciam e assim. 99 A informação sobre a música de abertura consta do site Telehistória: http://www. Portanto. qualquer coisa que aparece durante o programa é compreendida pelos telespectadores como enunciada pelo jornal. a cada programa.

Há um “eu” que assume o discurso e. os atores institucionais . quando ouvidos. contudo. os jornalistas encaram a lente da câmera e exercitam o “olho no olho” com quem os assiste. projeta um efeito de subjetividade. escolhidos muitas vezes exatamente porque gritam de dor.apresentam-se em um tom “na justa medida”. em um simulacro de competência para noticiar.Entretanto. Por causa disso. refinada. Tantas variáveis para levar em consideração justificam nossa insistência em um estudo mais global (sem trocadilho) dos objetos das grandes mídias.repórteres. caso de sobreviventes de um acidente. de subjetividade. comentaristas . esses sim aparecem no auge da emoção. Os repórteres e correspondentes servem de ponte e contraponto para diversos entrevistados. confiável e cordial. Ele afirma que todos os jornais das organizações Globo mostram “a pura verdade”. por exemplo. Só que os profissionais do JN raramente exteriorizam emoções fortes. Temos um dos mais comuns efeitos de particularização. Falar na frente das câmeras pode ser considerado uma debreagem actancial enunciativa. Portanto. o JN está muito longe de ser um telejornal que preza um contato muito próximo. teoricamente. Esse rápido estudo da categoria de pessoa mostra a enorme complexidade e a dificuldade de teorizar sobre a enunciação em objetos sincréticos. Apaga-se a situação concreta de um sujeito que se dirige a uma enorme massa de telespectadores. o JN precisa ainda persuadir o público de que é neutro diante das notícias. Não há efeitos de objetividade ou subjetividade absolutos. no fundo. E os efeitos de actorialização também são influenciados por planos de câmera. aparece na fala de João Roberto Marinho. esse mesmo sujeito que vemos na tela enuncia sem falar “eu”. principalmente relacionados com a postura de repórteres e apresentadores. Em jogo está sempre a necessidade de fazer-crer. O tom de voz é professoral. Ao mesmo tempo. Os jornalistas retiram de suas falas. O que se percebe é uma administração de elementos e de possibilidades discursivas cujo sentido geral transita entre esses dois extremos. Essa coerção. “eu conversei com”. no fundo. O figurino dos profissionais que aparecem na tela é clássico e discreto. imparcial. para se apresentarem como mediadores mais neutros entre público e notícia. o principal noticiário da Globo lança mão de uma série de recursos para “neutralizar” o que a proximidade pode ter de indesejável. são tomados de alegria ou ódio extremos. apresentadores. compenetrada. qualquer característica enunciativa. são os que mais dizem “eu”. O resultado deve sempre construir a marca JN (seu ethos) como séria. título do prefácio do livro que relata os 35 anos do JN. De qualquer modo. por exemplo. Não é só esse estranho pleonasmo (existe verdade impura?) que o vice-presidente das 168 . Para isso. Raramente se ouve um “eu vi”. democrática. No caso dos jornalistas. que serão analisados em seguida. grevistas e manifestantes. Já os que tomam parte diretamente da notícia.

isenção” (2004:13). Vamos examinar agora como a maneira específica de enunciá-las no telejornalismo determina o seu entendimento e o impacto não apenas inteligível e passional. Entendemos esses recursos como possibilidades de manejo aspectual do plano de expressão no telejornalismo. movimentos. influencia notadamente a sensação de passagem de tempo. a montagem aparece como a estratégia que acaba por reger todas as outras. portanto. angulação. não raras vezes empobrecida. para depois nos concentrarmos na montagem (ou edição. da “linguagem cinematográfica”. É necessário destacar que. Destacamos os efeitos das “vozes institucionais”. Eles apresentam notícias. A “linguagem do telejornalismo” é uma adaptação. agilidade. influencia a actorizalização e a espacialização. estudaremos alguns efeitos da câmera e a ação exercida na pessoa e no espaço. relacionados à organização integral do texto e à manipulação perceptiva. focalização. nosso estudo se concentrou mais fortemente na estrutura geral do JN e nos enunciadores. escolhidas em função de várias coerções. há a tela e os procedimentos de expressão por meio do uso da câmera e da montagem. A câmera tem a capacidade de simular uma interação do espectador com o que ele vê. numa mídia de fluxo.Recursos de montagem. de criação de semi-simbolismos. notadamente das histórias das reportagens. com a aspectualização do plano de expressão televisivo. como a de despertar curiosidade e gerar laços entre enunciador e enunciatário. como a televisão. e também como um meio de “complexificar” as categorias de pessoa. algumas considerações um pouco mais técnicas sobre as possibilidades de criar sentidos com a câmera. 2 . Tempo e espaço: os efeitos de câmera e edição Até aqui. fragmentos de narrativas. Esse deve ser o efeito do “estilo JN”. de tempo e de espaço. em seguida. Todos têm em comum “o zelo pelos atributos da qualidade jornalística: correção. entre outras funções. Nesta parte do texto. Em comum. mas também sensível. Vejamos: 169 . Essa textualização é determinada pelo uso coordenado de dois procedimentos: 1 – Recursos de câmera . Mostraremos. Deixaremos para o final do trabalho o estudo de outros aspectos da montagem. da marca e dos jornalistas. Já a montagem. Depois.Organizações Globo quer relacionar com seus jornais. esses efeitos serão discutidos do ponto de vista semiótico. aqui na acepção de ato) e como esta age no sentido de tempo. Sabemos que o texto do jornalismo de TV é manifestado por meio da hierarquização de unidades no fluxo temporal.como planos.

a ponto de exibirem-se todos os detalhes. No travelling. Geralmente a câmera está em ângulo plano e apresenta as pessoas ou objetos filmados num plano horizontal em relação à posição da câmara. tem outras 170 . os planos de câmera serão a seguir estudados detalhadamente. urgência. Quando a câmera se aproxima de um objeto. Ângulos de filmagem – No ângulo alto. No dia-a-dia. tensão. “Provoca um achatamento da imagem. Os planos de câmera simulam principalmente o contato de corpos do público com personagens ou objetos.referem-se às possibilidades de se mostrar um objeto. 1991: 202).A câmera também dispõe do recurso de mover-se. Há ainda as gradações entre esses extremos. há um enquadramento da imagem com a câmera focalizando a pessoa ou o objeto de cima para baixo. geralmente essa movimentação acontece sob trilhos. quando se quer dar a idéia de que alguém está ‘olhando de baixo’. a aproximação sujeito-objeto se relaciona a atos de intimidade e também ao que desperta curiosidade e atenção. Temos ainda o efeito de profundidade de campo. ouvir um monstro e não vê-lo causa suspense e medo.O zoom é o movimento de câmera para aproximar ou afastar a imagem de pessoas. Movimentos de câmera . A panorâmica é o “movimento horizontal da câmera sobre o seu eixo vertical” (Gage e Meyer. Pode ser de muito longe. passional ou sentimental. acontece um zoom in. Pode-se mostrar um objeto e toda a paisagem atrás dele ou desfocar esse mesmo fundo para ressaltar o que está em primeiro plano. numa posição de inferioridade” (idem). Planos de câmera . Tudo o que a câmera traz para perto mobiliza uma dimensão mais afetiva . É utilizado “em situações inversas a da câmera alta. Quando o movimento é de afastamento. deixar um objeto dentro ou fora do quadro. Efeitos ópticos . por exemplo. se desloca para acompanhar uma cena.emocional. dentro de um determinado contexto. há um zoom out. objetos e cenários. ou de muito perto. No cinema de terror. Em função de sua importância no nosso trabalho. No jornalismo. O distanciamento promovido pelo equipamento. novidade.Enquadramento – Por exemplo. ao contrário. um objeto ou pessoas. No ângulo baixo se faz enquadramento da imagem com a câmara focalizando a pessoa ou o objeto de baixo para cima. É muito usado para se criar a idéia de que alguém está ‘olhando de cima’ numa posição de superioridade” (Manual de Vídeo do SENAC). o que geralmente leva a uma sensação de diminuição e inferioridade. No cinema. Podemos notar semi-simbolismos. o deslocamento nos ombros do cinegrafista faz as imagens tremerem e pode redundar em um efeito de “pouca manipulação”.

ao simular a aproximação do enunciatário com um elemento do enunciado. chama de plano americano o que On Camera diz ser plano de conjunto. Harris. que expõem essa mesma unidade como parte de um contexto. que um plano de câmera. 100 171 . por ser muito mais completo e produzido no Brasil. Cláudio. e geralmente passa a desconsiderar tudo o mais que não entra nos enquadramentos. que não informa o autor ou os autores. de Marcel Martin. 3ªed. São Paulo. da década de 90. e Meyer. de Watts. no qual se insere a parte no todo. Lisboa. On camera – o curso de produção de filme e vídeo da BBC.. Brasiliense. e A Linguagem Cinematográfica. uma operação de caráter inteligível. Manual de Vídeo do Centro de Comunicação e Artes do SENAC – São Paulo. Um fato chamou a atenção. Atlas. 1991. por exemplo. Para avançar no estudo dos efeitos de distanciamento e aproximação. 2ªed. assim. O plano médio de Como filmar é o plano geral das outras duas publicações. 1990. distensão e inteligibilidade. Prelo Editora. O telespectador. São elas O filme publicitário.. Adotamos conceitos de O filme publicitário. como se um objeto que despertou uma atenção inicial tivesse exaurido a capacidade de atrair o sujeito. portanto. Summus Editorial. ao registrar uma ação ou um estado. se vê obrigado a ver o que a lente vê. escancara a existência de um ponto de vista. aqui pensados tendo o corpo humano como parâmetro:100 Consultamos cinco publicações sobre planos de filmagem para fazer a ilustração. Pode ser a de observar um “quadro completo”. (não consta ano). de Gage. Lembramos que a base da linguagem de câmera da TV veio do cinema. Como filmar. ed. Só que esse olhar do enunciador se impõe como o olhar do enunciatário.funções. São Paulo. O filme publicitário. de Gage e Meyer. gera efeito de intimidade. de Wain.. O distanciamento também pode surgir como conseqüência. G. é necessário conhecer tipos de enquadramento de câmera. Leighton D. tensão. São Paulo. de uma curiosidade satisfeita. afetividade. 1990. impõem certos efeitos de distanciamento. E os planos mais amplos. por exemplo. É possível reparar. Foram encontradas enormes diferenças entre os nomes e os posicionamentos de planos de câmera. A câmera.

observar as expressões.da reportagem. pois aqui está um momento muito importante – e tenso . é uma maneira de investigar as “reais intenções” de alguém. a queima de tratores e a quebra da residência principal. Como exemplo. A câmera aproximase um pouco mais. que gera uma proximidade afetiva do público com algo ou com alguém mostrado na tela. vale retomar a notícia 15 da Tabela 2. tentativa de cinema interior” (1990: 39). Com isso. Em outras palavras. O que a câmera faz. Hugo Munsterberg (1982: 47). O close-up “é um dos recursos mais enfáticos na linguagem cinematográfica. é deixar para o público essa investigação. o cenário no qual se desenvolve a ação é praticamente eliminado. Esse plano leva a uma concentração de nossa atenção. É como se a câmera dissesse: “Preste atenção. a morte de animais.” Observa-se um semi-simbolismo ou simbolismo “cristalizado”: qualquer coisa que a câmera destaque é e deve ser valorizada. Marcel Martin se refere a esse enquadramento como “primeiro plano”.No extremo da aproximação. como lembrava. Cotidianamente. temos o close-up ou close. E as expressões do ator tornam-se mais nítidas para o espectador” (Gage e Meyer. é no primeiro plano do rosto humano que se manifesta o poder de significação psicológico e dramático do filme. e é esse tipo de plano que constitui a primeira. A câmera nos impõe a máxima atenção para a fala do personagem. adquire-se um saber no 172 . e afirma: “Sem dúvida. sobre a destruição de uma fazenda praticada pelos Sem-terra. notadamente a dos olhos. ao dar um close-up no rosto do Sem-terra. Outro ponto sempre lembrado pelos teóricos do cinema é que um close-up de um rosto “acentua ao máximo a ação emocional”. 1991:7-74). O olhar do telespectador não se dispersa. mostrando apenas os ombros e a cabeça do ator. no começo do século passado. e no fundo a mais válida. Há um enquadramento em close-up do Sem-terra Francisco Alves no momento em que ele descreve a invasão.

que apresenta uma enorme área de ação. as pessoas e o espaço que ocupam. Pensemos agora no plano oposto. Somos solicitados a fazer relações entre os objetos. filmada de longa distância. movimentos e progressão dentro de cada cena do filme” (Gage e Meyer. no plano geral. que “reduzindo o homem a uma silhueta minúscula. por outro lado. 173 . em relação à “linguagem cinematográfica”.)” (2003: 35). você consegue cobrir entradas e saídas das personagens e orientar o espectador sobre relacionamentos. Diz Marcel Martin. o plano geral o reintegra ao mundo. o contato do público com o que é apresentado é mais da ordem inteligível. Na TV. através de um plano geral.. o close-up e o plano geral. Há um efeito de conjunto. o grande plano geral tem utilização muito limitada. uma dimensão mais inteligível do que sensível. Acreditamos que esse comentário é válido para a TV. o plano geral. ‘objetiva-o’” (1990:38).101 O quadro apresentado em seguida mostra essas possibilidades de significação dos planos de câmera a partir dos dois “extremos”.) Além disso. O foco pressupõe 101 Uma diferença entre uma fita de cinema e o vídeo jornalístico é a inexistência de um grande plano geral. relembremos. mas essa função é secundária em relação ao impacto afetivo e à valorização imposta ao telespectador pela aproximação com uma pessoa ou objeto apresentado nesse plano. faz com que as coisas o devorem.. Os detalhes desaparecem em uma tela pequena. O plano geral “normalmente (.) é utilizado para apresentar todos os elementos da cena.. ENQUADRAMENTOS E EFEITOS DE CÂMERA + Intensidade + Foco + Afetividade PLANOS Close-up Plano próximo Plano médio Plano americano Plano de conjunto Plano geral + Extensidade + Apreensão + Inteligibilidade No limite.. ressalta o ator e dissolve o espaço No limite. que maneja. 1991:78)... Resumindo. que delimita o domínio de pertinência (. ressalta o espaço e dissolve o ator Fontanille. (.close-up. afirma que a tomada de posição de um sujeito acontece na forma de um “foco – que orienta o fluxo de atenção – e de uma apreensão.

disforia. Ao obter a compreensão. A apreensão pode ser relacionada. Para relacionar essas observações com a teoria da enunciação. não só ao uso dos planos mais gerais como também ao processo inteiro vivido por um sujeito que. de uma maneira geral. Cada plano em uma tomada. O impacto afetivo nesse caso. O enunciador está sempre interessado em uma decodificação rápida. trabalha com recursos bastante limitados de usos de câmera. A câmera subjetiva instaura um actante da enunciação e mostra a existência de uma desembreagem actancial enunciativa bastante particular. sem apoio de uma apresentação. do ponto de vista dos planos de filmagem. Só assim esse tipo de plano tira o máximo proveito da tensão. Sem acesso à narrativa.103 É possível notar que. O telejornalismo. depende totalmente das informações cedidas pela narrativa e por outros recursos. verificamos que geralmente não se mostra um close-up sem um plano médio ou geral anterior. ao contrário.um sujeito mais ou menos tenso. por ter um formato bastante padronizado. o sujeito passa da tensão para o relaxamento. uma sala). contudo. surgem novos complicadores na categoria de pessoa desse tipo de discurso. como a narração do acontecimento por repórteres e apresentadores. enuncivo. 1991:89). “Dizemos que uma câmera é subjetiva quando ela é colocada na posição que permite filmar do ponto de vista de uma personagem em ação durante determinada cena” (idem: 88). pode haver uma quebra nessa relação. Se o público perceber qualquer imposição de olhar. ao ter o quadro todo. O uso da câmera subjetiva é também pouco comum no telejornalismo porque afeta o sentido pretendido de o olhar da câmera ser o do telespectador.102 Os planos intermediários constroem sentidos de maneira proporcional. A câmera objetiva é “a filmagem da cena de um ponto de vista de um público imaginário” (Gage e Meyer. Para entender como esse plano isolado é mais de ordem inteligível. a apreensão é o momento de passagem da percepção para a significação. O efeito geral buscado é. deve passar da situação de não ter um saber desejado (disjunção) para a de sujeito com esse saber (conjunção). no caso do nosso trabalho. afetado pela presença de algo que lhe reclama sentido. no exercício teórico. atraído pelo noticiário. no entanto. hipoteticamente descontextualizadas. o plano só vai cumprir sua missão de gerar informação (um saber) e alguma curiosidade (um querer saber). é rara nos noticiários televisivos. No cotidiano. por exemplo. A filmagem em câmera subjetiva. No JN. na leitura da escalada. 103 Teóricos de cinema e de vídeo também falam da existência de uma câmera subjetiva e de uma câmera objetiva. Ao mesmo tempo. é raro alguém se aproximar de algo antes de tê-lo visto a certa distância. é possível até falar em um ângulo aberto de câmera com forte impacto afetivo. os dois apresentadores se revezam em um plano próximo: 102 É importante dizer que nossa teorização sobre os planos de câmera se refere a formas de enquadramentos que são imaginadas. um anel. também em relação ao afastamento ou à aproximação de um objeto (que pode ser uma pessoa. Em função dessa conexão. mobilizado. tensão. sempre está conectado a outros. basta imaginar um programa começando com um plano geral. As concepções de foco semiótico e de foco de câmera – o close-up – são perfeitamente compatíveis. no início do Jornal Nacional. da insatisfação para a satisfação. Esse é o recurso mais comum no telejornalismo. 174 . Ambas mostram o engajamento perceptivo do sujeito na forma de curiosidade.

105 O recurso do stand-up. para relembrar. em destaque na tela.105 Nesses momentos. “designa a transmissão de informações pelo repórter do local dos acontecimentos” (Maciel. o jornalista aparece de pé. O plano médio também é muito utilizado pelos repórteres nos stand-ups. apesar de acentuar mais a tensão.O tom é nervoso. A fala é rápida e tensa. quase sempre a maioria. não é utilizado pelos profissionais no programa. Portanto. 104 175 . 1995: 113). se vê um plano médio: O plano médio e o plano americano quase se apresentam como uma “justa medida” de enquadramento e simulam um tipo de contato mais neutro que temos com pessoas em nosso cotidiano.104 Na apresentação posterior de cada notícia. Podemos observar que a narração em plano próximo é pensada para realçar a tensão desse conjunto de elementos da abertura do JN. a tensão necessária é menor. Esse plano daria um tom de intimidade incompatível com o efeito de conjunto pretendido pelo telejornal. principalmente diante dos acontecimentos disfóricos. Um close-up.

só vemos o que a câmera mostra. aos efeitos de sentido pretendidos pelo enunciador. é sempre uma delimitadora do espaço. a categoria base é delimitado x ilimitado. Mesmo sabendo da existência de uma espécie de “espaço da história”. Expliquemos. realiza diversos enquadramentos. pode-se perfeitamente mostrar uma paisagem e obter o resultado de “horizonte sem fim”. 107 É interessante observar que a categoria delimitado x ilimitado só pode ser aplicada ao uso da câmera se for considerado o efeito.106 Analisemos a relação dos planos de câmera com a aspectualização. por princípio. cada reportagem demarca as coordenadas principais da ação.como no caso a seguir. que fala de Washington. e também as pessoas da narrativa. do repórter Luis Fernando Silva Pinto. Em outras palavras. Sabemos que a aspectualização do plano de expressão está relacionada à criação de continuidades e descontinuidades. que geram efeitos de proximidade ou de distanciamento. É por isso que afirmamos que a câmera sobredetermina efeitos importantes na categoria de pessoa e de espaço. No entanto. o simulacro. claramente apontado (uma fazenda em Unaí. no caso da reportagem dos Semterra). no decorrer da história. aqui no caso espaciais. 106 176 . matéria sobre repercussão da prisão de Saddam Hussein nos Estados Unidos. O equipamento subordina esse espaço maior. A câmera. Ao mesmo tempo.107 A citada reportagem dos Sem-terra tem como cenário uma fazenda de Minas Gerais. pretendidos pelo enunciador. A câmera. cidade de Minas Gerais. No caso do espaço. Captura de frame do arquivo Jornal Nacional-2 (11m20s). aproxima ou afasta os telespectadores das pessoas mostradas.

hierarquizadas em um fluxo no tempo. Em seguida. como ato) de unidades.” Em “Jornal Nacional – a notícia faz história”. Primeiramente é reconhecido e situado: corresponde. como foi citado. impaciência. à exposição. a mera relação do tempo entre planos.–P. texto enxuto e leitura vibrante. O telejornal é resultado da montagem (ou edição. Eles retratam o dia-a-dia das notícias mais importantes do país e do mundo. O que chamamos ritmo cinematográfico não é. tem outras particularidades. digamos. converte a temporalidade da narrativa em um processo discursivo e cria o chamado “tempo psicológico”. Diz a carta: “Os telejornais têm que ser vibrantes. a sensação de que uma reportagem passa rapidamente. mas de um ritmo de atenção. palavra ou movimento -. Recomendo a vocês – editores e apresentadores – o maior empenho para que os nossos telejornais estejam sempre no ritmo correto” (2004: 152). um ligado ao ritmo e o outro vinculado à duração de unidades. ou seja. Ela dá uma definição “telejornalística” de ritmo. sendo substituído por outro. Um bom ritmo se consegue com matérias editadas no tempo certo. de como se relacionam as unidades e de quais as funções e os efeitos persuasivo-argumentativos 177 . advém um instante de aborrecimento. Comecemos pela importância do ritmo para o gerenciamento do nível de atenção. aspectualizado. Não se trata de um ritmo temporal abstrato. se o plano se prolonga. portanto. da diretora executiva da Central Globo de Jornalismo. A montagem em meios de comunicação de fluxo. Então intervém um momento de atenção máxima em que é captada a significação. Chartier que mostra como fazer a montagem dos segmentos filmados: “Um plano não é percebido do início ao fim do mesmo modo. Marcel Martin (1990: 148) cita uma reflexão de J. Dois procedimentos precisam ser inicialmente destacados sobre o assunto. Um das estratégias mais importantes para um “bom ritmo” se relaciona ao manejo do tempo que. precisam ter sempre um bom ritmo.Montagem e domínio do tempo Ressaltamos em outra parte do trabalho que a categoria temporal – e não a espacial – organiza a textualização na TV. no entanto. Para se ter uma idéia melhor do que é “montado”. a atenção diminui e. ao chamado tempo aspectualilzado ou psicológico. Se cada plano for cortado exatamente no momento em que diminui a atenção. é a coincidência entre a duração de cada plano e os movimentos de atenção que desperta e satisfaz. que faz progredir a narrativa. As duas estratégias estão profundamente relacionadas. o espectador permanecerá constantemente atento e diremos que o filme tem ritmo. Alice Maria. a razão de ser do plano – gesto. há a reprodução de um memorando sem data (provavelmente do final da década de 80).

Pretendemos dar mais destaque para recursos de plano de expressão e as relações com o conteúdo. apresenta-se a narração: as falas. A Tabela 4.É um trecho de gravação rodado sem interrupção. momento de início de apresentação e recurso de câmera. a partir de agora. um quadro que melhor representa o fragmento. a da prisão de Saddam Hussein e seus desdobramentos no mundo.principalmente um corte . 108 178 . descrevemos o instante de ocorrência do fragmento e o tipo de plano (ou planos) de câmera utilizado(s) na tomada. mostra uma espécie de “decupagem” da notícia. encontra-se a duração em segundos do segmento.renova a atenção e se enquadra na estratégia de arrebatamento.108 Tomada . quando uma mesma fala se estende e é acompanhada por diferentes fragmentos.que se podem obter. de observação. há dois ou mais quadros com diferentes ângulos. Utilizaremos ainda diversos termos comuns da “linguagem” do telejornal. Na terceira parte. Convencionamos que. dividida em cinco partes: fragmento. Para ilustrar. Quando há muita movimentação de câmera. Expliquemos o que significa cada parte da “decupagem”. na quinta e última parte. 15 de dezembro de 2003. somente haverá identificação do enunciador – quase sempre o repórter e os apresentadores . examinamos como essa notícia se encaixa na edição e principalmente os efeitos de montagem. uma mesma tomada pode gerar diferentes fragmentos.no primeiro trecho da série. Em outras palavras. os efeitos sonoros. Uma mesma tomada pode começar em plano geral e terminar em close-up. Essa reportagem dura quase o primeiro bloco inteiro do programa. optamos por mostrar essa engrenagem por meio da análise da reportagem sobre a prisão de Saddam Hussein. um estudo detalhado sobre a principal notícia da edição de segunda-feira. Finalmente. A prisão de Saddam: um bloco inteiro dedicado ao assunto Apresentamos. ligada à manipulação do nível sensível e ao ritmo. momento de início de apresentação e recurso de câmera. Na quarta parte. ou seja. Decidimos falar em fragmento ou segmento em vez de tomada por acreditarmos que o primeiro termo se vincula a um recurso de produção e não de edição. como o da câmera acompanhar uma ação ou girar sobre o próprio eixo. Na segunda parte. Outra função desse segmento é o de informar o que acontecia no fragmento e também o de mostrar outros efeitos da filmagem. Fragmento é um trecho de gravação que não apresenta corte. mostramos um frame da gravação. a seguir. narração e observação. duração em segundos. Qualquer mudança . quem narra. fazemos uma pequena análise do trecho ou do conjunto de trechos com todos os elementos em relação. Depois.

serve para designar o ruído ambiente ou música usada como fundo para a fala do repórter ou do apresentador. A estratégia de sustentação da atenção se baseia na criação da seguinte curiosidade: qual será o destino do ex-ditador? (Relembremos que a estratégia de arrebatamento principal aconteceu no início do programa. aparece atrás dos apresentadores e identifica um assunto ou um tema. 1995: 104). pronunciado por alguém que não aparece em cena. assunto que aprofundaremos mais adiante. Locução em off – Para relembrar: trata-se fala que acompanha a imagem de uma gravação. Uma cena pode ser fragmentada por meio do encaixe de uma outra. Serve para mudar de cena ou enfatizar a relação entre elas. em particular. O “gancho” é a especulação em torno do julgamento de Saddam Hussein. que caracteriza uma pessoa. Selo . na escalada. Background – “Também conhecido pela sigla BG. Vinheta . Esse termo. 2000: 149). A reportagem sobre a prisão de Saddam Hussein inclui um selo no qual se vê a foto do ex-ditador. Fusão .(01m16s10) Plano próximo Surge o selo para as matérias de Saddam Hussein. que pode ou não ser acompanhada por uma assinatura musical. trata-se de “uma cena isolada de um filme ou uma animação feita com o nome ou a embalagem do produto. uma fonte de informação de uma reportagem que não é identificada para o leitor. inicialmente. 179 . Os iraquianos querem julgálo no Iraque e aparentemente contam com o apoio do presidente George Bush. a primeira sobrepondo-se à segunda. 10 Apresentador Renato Machado: “Os Estados Unidos vão decidir nos próximos dias em que tribunal Saddam Hussein será julgado.Mistura de duas imagens. é costume deixar um BG da fala na língua original do entrevistado” (Maciel. da televisão e principalmente do cinema. que passa pelas costas do apresentador. no mesmo ambiente” (Dic. Sonora . o “mundo”. abrir ou fechar programas etc.” Renato Machado faz a cabeça de matéria. que corresponde ao lead do jornalismo impresso. Temos uma idéia de organização em relação à desorganização. focalizando uma certa situação em que aparecem as mesmas personagens.No Jornal Nacional o selo geralmente é uma ilustração que tem movimento.” (Gage e Meyer: 1991: 202).TABELA 4 MOMENTO DE INÍCIO DE APRESENTAÇÃO E RECURSO DE CÂMERA FRAGMENTO DURAÇÃO EM SEGUNDOS NARRAÇÃO OBSERVAÇÃO 1. Cena .“Parte de um filme que abrange diversos planos. a vinheta é utilizada para anunciar patrocínios. movimentando a cena inicial da reportagem. a fala dos entrevistados nas reportagens” (Rezende. “tem o sentido genérico de toda a gravação feita em externa e designa. de curta duração (aproximadamente cinco segundos).) Deve-se notar. O mesmo que off. a diferença entre nitidez e cromatismo do estúdio e de tudo o que está fora dele. não deve ser confundido com o “falar em off” da mídia impressa. Em geral.Em telejornalismo.Em telejornalismo. Nas falas em que é necessária tradução. Aurélio).

” Voz da correspondente em off: “A imagem de Saddam Hussein. a voz do cidadão iniciava o “Povo Fala”.. Sabemos.” Cidadão: “Today is his day. nas tomadas seguintes. 5. 5 Ouve-se a voz do cidadão (“He should be right.. Câmera se inclina para cima ângulo alto – e enquadra a bandeira norteamericana.”).. a voz o conclui. Foca-se a manchete. por vários trechos da reportagem.. chegou a hora de Saddam pagar pelo que fez.(01m26s20) – Plano geral de rua de cidade norteamericana.(01m36s15) Close em cidadão norte-americano.(1m41s25) Plano próximo de outro cidadão. Há um cuidado com a enunciação do cidadão. A câmera parte de uma tomada mais aberta – um plano mais inteligível e menos tenso para ir fechando o quadro no que deve ser considerado mais tenso. que vai a BG e é superposta pela voz da repórter em off: “Este americano diz que o exditador tem que ser julgado no Iraque. 180 .estava em todos os jornais americanos. Vamos observar. A câmera o acompanha numa panorâmica e 10 Voz da correspondente em off: “Na primeira entrevista coletiva sobre Saddam Hussein.2. O telejornalismo utiliza todo o sistema de construção de valores da mídia impressa para afirmar a própria importância do que enuncia.” Correspondente em off sobre a voz do cidadão: “Para este outro. 59%. A voz dele é perfeitamente audível por uma fração de segundo. o que deve merecer atenção do telespectador porque foi valorizado pelo JN. 3. mesmo que a maioria dos telespectadores não saiba interpretá-la. esse recurso será utilizado outras vezes.. 2 .. Enfim. que a ocupação espacial da primeira página de um jornal é o lugar dos assuntos principais.” 4. emocional e importante. o presidente George Bush traçou o destino mais provável para o exditador. O jornal inicia a matéria com um “Povo Fala”. por exemplo.(1m51s27) Câmera mostra plano geral de George Bush entrando na sala de imprensa.. Como se verá a seguir. Pode-se observar. imagens dos jornais.” 8... a câmera apresentando o espaço (Estados Unidos) e outros actantes do enunciado.(1m49s26) – Plano próximo de Jornal. segundo uma pesquisa de opinião Gallup-CNN. Novamente observa-se a preocupação do enunciador em mostrar os espaços onde se situam os atores antes de fechar o ângulo.(01m30s19) – Tomada começa em plano geral na rua. 6 . 6.(1m48s19) – Plano próximo de jornal. Uma característica que irá se manter nessa reportagem é comum no telejornalismo.quer a pena de morte para Saddam Hussein. 7 No trecho anterior. Neste trecho. 1 7. 4 Voz feminina de correspondente em off: “A maioria dos norteamericanos.. não o nome do jornal.

a seguir. Eles parecem enunciar pela voz dela.(2m15s23) – Plano de conjunto de repórteres.” É evidente que. justo e submetido à verificação internacional.. 5 Voz da correspondente em off: “Para o Conselho do Iraque parece não haver dúvidas. 11. O mais curioso dessa apresentação de Bush e de outras “sonoras” é ouvir as falas em inglês. O presidente diz que a verdadeira sanção quem vai aplicar são os iraquianos. O que importa é a opinião dos iraquianos.(02m01s26) Plano geral da sala.” 13.(02m27s15) Plano médio de líderes iraquianos – câmera faz uma panorâmica da esquerda para a direita para mostrar o Conselho do Iraque. do Conselho do Iraque. 8 Bush respondeu que a opinião pessoal dele não conta. Saddam é o antisujeito. Mas o tempo dedicado a Bush pelo JN valorizou a sua opinião. Mas o off da correspondente funciona como “porta-voz” dos conselheiros. 10 Off da correspondente simulando voz de Bush: “Vamos trabalhar com os iraquianos para que Saddam tenha um julgamento público. todo este trecho da matéria é de sanção.” Bush: “The iraquees make their decisions. A função de ancoragem das imagens a seguir é evidente. e não a que vem a seguir.depois fecha o ângulo até um plano próximo. Há a busca de um sentido de autenticidade e de valorização dessas enunciações.. 4 Do ponto de vista semiótico. a fala de Bush tem um potencial de atenção discutível. Observe-se o aparente conflito entre enunciação e enunciado. 181 . 9. como discurso “oficial”. Não se vê ou se ouve ninguém do conselho fazendo afirmações. 4 Bush diz que ele deve ser julgado pelos iraquianos.(02m05s04) Plano próximo de Bush. Para compensá-la.” Voz do presidente: “International (trecho não identificado) is the best way to put it. há inserção dessa tomada em plano geral para depois retomar o mesmo plano próximo. ainda mais porque é “longa” em relação aos outros trechos. O Conselho espera. 10. Bush aparece como o destinador-julgador. 12.(02m19s00) – Plano próximo do presidente. o que tem plena competência para a ação de julgar.” Voz da correspondente em off: “Ao ser perguntado se aprovaria a execução de Saddam...

.os cinco juízes. 16. Um detalhe: a escolha do editor recaiu sobre o homem de roupas árabes.. os fragmentos são muito curtos. criado.. 2 Se for julgado no Iraque. 4 .... Temos um trabalho de aspectualização mais forte para gerar uma sensação de tempo que passa rápido. 17. Não é qualquer sala. Para contrabalançar esse problema. euforizado ou disforizado pelo enunciador. certas informações julgadas necessárias. mas que servem de suporte à fala ao distrair o olhar do telespectador. a imagem também “ancora” o verbal. O Conselho de Governo é que vai escolher. limita suas possibilidades. 3 Saddam será levado ao tribunal especial. 15. Vale notar que.na semana passada.(02m32s26) Plano geral dos líderes caminhando em direção à câmera. ou. Note-se que ele estava no fundo na tomada anterior. no máximo.(02m47s06) – Plano geral da mesma sala. há pouca ação que gere atenção.. mas a que aparece no vídeo. meses. 6 Alguns integrantes afirmaram que pediriam a pena de morte para o exditador. 3 . nesse caso da sala. 4 . A falta de ação no conteúdo é compensada por uma espécie de ação no plano de expressão. O réu terá direito à defesa e a.. Deve-se notar como se mostram diferentes ângulos da sala que pouco acrescentam de novidade ou de real informação.. com gravações. No telejornalismo. começar o julgamento de Saddam nas próximas semanas.(02m42s06) Plano de conjunto de uma sala de justiça supostamente do Iraque. 18. Os fragmentos a seguir deixam bastante clara a dificuldade do telejornalismo em “preencher”. notadamente. cada fragmento aparece “ancorado”.(02m36s27) Novo plano geral dos líderes. que identifica o grupo.(02m50s23) – Plano próximo do símbolo. ou seja. 182 .14. 19.. limpo de sua polissemia e.. Neste trecho....(02m44s06) Plano de conjunto supostamente da mesma sala.

julgamento..20. Mais uma vez há uma ação de expressão que compensa a falta de ação no conteúdo. onde se vê que ela faz parte de um monumento. 9 As organizações mais importantes de direitos humanos consideram que uma corte internacional daria legitimidade ao. 26.... Plano de conjunto.o Conselho poderá convidar juristas internacionais para participar do julgamento. o Iraque. 183 .(03m03s22) Câmera foca bandeira do Iraque e faz um zoom out até um plano geral.recorrer a uma corte de apelação.. e acompanha juízes..(03m12s20s) Transição entre tomadas é por fusão.. de novo..(03m16s20) – Câmera faz uma panorâmica da dir. 1 .. 6 . 25. 1 .. Há fragmentos com menos de um segundo. . 21. 3 Poderia ser criado.. E. 4 .(02m57s17) – Plano geral da sala do Conselho. 23.. seu povo..(03m13s19) Transição entre tomadas é por fusão. Do ponto de vista do conteúdo... A seqüência de fragmentos a seguir mostra novamente a dificuldade do enunciador de preencher as informações com gravações de arquivo.. Se julgar necessário. como. 3 .. Note-se.um tribunal especial. além da rapidez. à esq. Distraem-se os olhos com imagens antigas que remetem a Saddam. 22.(03m17s29) – Plano Geral – Câmera faz panorâmica da dir.. há uma sucessão muito rápida.... supostamente da mesma sala..(02m54s05) – Plano geral.em um momento em que a narração discute um julgamento. com microfone em primeiro plano. o uso de recursos de movimentação de câmera. à esq. para compensar.os que foram criados pela ONU para julgar crimes de guerra. estamos aqui às voltas com uma discussão sobre uma sanção pragmática que Saddam receberá e sobre quem será responsável por ela. por exemplo. 24....

. 6 .(03m24s21) Câmera faz um zoom in e foca Saddam – ao fundo no primeiro quadro – em plano próximo.(03m27s27) – Câmera deixa o secretário.. parece fazer uma única tomada. 32. 2 .) e termina focando outros cinegrafistas.. 6 O secretário-geral da Onu. à esq. em Ruanda. Note-se.. o que dá sentido de atualidade à notícia.. Mas a edição dá a impressão de que três mudanças acontecem.Dead penalty”.em Serra Leoa.. 6 O que está fora de questão é a vinda de Saddam Hussein para os Estados Unidos para. que aparecem identificadas no canto inferior à direita. Aqui há um dos raríssimos marcos temporais. 1 ..27. – Voz de Anan sobe: “.. 31.(03m39s24) – Plano americano de Saddam tirando uma espada da bainha. Devemos observar o esforço em lutar contra a monotonia visual nas tomadas feitas na ONU. 33. Kofi Anan. 3 Esses tribunais não prevêem a pena de morte.(03m21s19) – Passagem entre cenas por fusão – Plano Geral com perspectiva. faz uma panorâmica pela sala (da dir..na ex-Iugoslávia. a partir de agora.(03m45s17) – Câmera faz uma panorâmica da sala – plano geral. 28. leis humanitárias internacionais e que a Onu não apóia a pena de morte...(03m22s28) – Plano próximo. 30. o JN mostra que uma parte da audiência mais intelectualizada está sendo contemplada.(03m33s11) Novo plano próximo no secretário. e.. Ao apresentar Milosevic sem identificá-lo. 2 . 184 . disse hoje que o julgamento de Saddam deveria seguir as. Nem todo o público reconhece o ditador. Fala-se em um “hoje”.ser julgado por uma corte militar... A câmera não sai do lugar.. 29. o uso de mais gravações de arquivo do JN..

Fim da tomada e é plano médio. A partir de agora. Lembramos que a pergunta sobre o destino de Saddam foi em parte respondida. 7 . 37.. 35. 4 . .de autorizar o massacre de minorias étnicas. teremos a exposição das ações do antisujeito Saddam.corte que Saddam será submetido.. quando pára..(03m58s14) Câmera faz uma panorâmica no local do massacre da esquerda para a direita e. veremos as performances que foram consideradas condenáveis do ponto de vista do destinador. a discussão “racional”... . julgamento dele tem todos os componentes para se tornar um dos mais.34.cercado de seus soldados. 2 Seja qual for o tipo de.. foca os cadáveres. mortos aos milhares. Até este momento. A estratégia de sustentação da atenção do enunciatário pelo enunciador se vale agora da instauração ou do reforço de paixões. Do ponto de vista do conteúdo. O jornal busca agora justificar a prisão e a guerra contra Saddam em função de seus crimes.exercendo o poder. 185 ....é relacionada a cenas de atrocidades que foram cometidas por ele. 36. o... 3 . Saddam é acusado..(03m51s11) Câmera faz uma pequena panorâmica pela sala. a partir de agora... 38... A imagem de Saddam. sem deixar a figura do exditador..(03m54s27) – Plano de conjunto com um sutil zoom in no soldado. serão retomados os crimes do ex-ditador. Plano americano.. 2 . Semioticamente falando.. como os curdos... predominou o tom formal.(03m49s02) – Plano de conjunto.. ...dramáticos da história da humanidade.. estamos ainda em plena fase da sanção. Só que. em 88...(03m47s06) Câmera faz um zoom in e mostra imagem de Saddam. principalmente de vingança..

.. essa é uma das cenas mais chocantes da matéria. Um dos poucos closes mostra uma corda..(04m06s24) – Câmera faz panorâmica e acompanha. .(04m17s15) Câmera faz uma panorâmica e acompanha homem de casaco atirar na cabeça de um e depois de outro prisioneiro. 41. Adultos e crianças mortos pelo chão.eram torturados.(04m16s06) Câmera mostra corda no teto e faz um zoom in para terminar em close.. as cenas a seguir são fortes. 42. 1 . com muita movimentação. 3 . 4 .. 186 .. como lembra Maciel (1995:91). 1 As prisões.gente sendo presa e arrastada por soldados. também são um. em primeiro plano.(04m05s04) – Câmera parte do primeiro cadáver que no quadro capturado aparece em primeiro plano . 2 .(04m07s28) – Plano geral. à dir. 44.pessoas identificando cadáveres... com armas químicas. Nota-se o uso do plano geral e do plano de conjunto....testemunho de como os adversários do regime. 40.da guerra... 3 e sumariamente executados. 45.. 3 .. 43.. soldado carregar prisioneiro. Plano de conjunto...(04m11s24) – Plano de conjunto. Para isso.. para impedir um contato ainda mais tenso do enunciatário com o que é mostrado.(04m13s27) – Câmera faz uma panorâmica na sala da esq.e dezenas de covas clandestinas descobertas depois..” Com certeza... Imagens de extrema violência geralmente não são mostradas no JN por questões de ética.39. Todo o choque dessas cenas é manipulado por uma edição que privilegia um contato muito rápido..e sobe o ângulo para enquadrar os demais em perspectiva e em plano geral. ..

16 Apresentador Heraldo Pereira: “Saddam Hussein queria negociar com os soldados perto de sua cidade Natal. um “boletim de passagem”.” 47. de Nova York): “Saddam Hussein aguarda seu destino em local secreto. para fechar em detalhes e atores.46. que os EUA não revelam por motivo de segurança. Stand-up da correspondente – ficamos sabendo de quem era a voz em off. a matéria apresenta o “cenário” da captura. sonoras. Militares norteamericanos no Iraque se surpreenderam com a falta de reação do exditador no momento da prisão e com as condições do local em que ele estava escondido” 48. a novidade nesse trecho é o uso de computação gráfica. Identificação surge e desaparece do vídeo. tivemos até agora uma cabeça – no estúdio – um pequeno off que precedeu as sonoras dos cidadãos americanos e do presidente Bush. Há informações não confirmadas de que ele teria sido levado para uma base americana no Quatar. da construção do espaço. possivelmente de helicóptero. mostrar ao telespectador aspectos da narrativa que de outra maneira não seriam suficientemente ressaltados” (1995: 60).. O repórter utiliza o boletim para transmitir informações importantes que não têm imagem. Ou então o boletim é usado para. 18 (Vê-se a correspondente Cristina Serra. Consideramos esse ponto como o começo do segundo sub-bloco. A “volta ao estúdio” marca uma mudança de assunto. Pode ser de abertura. A estratégia de sustentação da atenção do telespectador se apóia aqui na seguinte pergunta: como Saddam foi preso? 187 .(4m20s07) plano próximo da repórter. Deve-se observar a repetição da estrutura anterior: uma cabeça de matéria (obviamente subordinada ao assunto principal). mas o mais provável é que ele esteja sendo mantido numa instalação militar perto do aeroporto de Badgá. Como veremos a seguir.(04m54s18) – Plano geral em ângulo alto. Nos próximos fragmentos. Tikrit. conduzindo a narrativa. Se o primeiro sub-bloco foi o da “sanção”.(04m38s04) – Plano médio do apresentador. a volta do off e. Filmagem é trêmula. e outro boletim de passagem. Do ponto de vista da estrutura da matéria. de passagem ou encerramento. Novamente uma seqüência de ângulos que vão do inteligível.. o segundo será o da performance da captura de Saddam. dependendo da posição dentro da reportagem. Na definição de Maciel “o boletim é a narrativa do repórter feita em quadro. 3 Voz do correspondente: “Saddam Hussein iria passar a noite de sábado. Identificação surge e desaparece do vídeo. narração em off do correspondente. agora.

.. 2 . Do lado. na retirada do isopor que cobria o buraco onde estava Saddam.. no jornalismo. 10 Quando os soldados norte-americanos se aproximaram...(05m04s19) – Esse plano médio termina em close da panela com um zoom in. Ressaltamos. no final. 51. como se fosse uma pedra. mas justamente saber em detalhes como se chegou àquele estado.... 188 . Saddam correu para o esconderijo subterrâneo do lado de fora.(05m03s01) – Plano de conjunto. Nesta tomada.(04m57s29) – Câmera realiza um plano de conjunto e faz um zoom in suave.. anteriormente. 3 ... uma encenação da descoberta..49.de fora. 1 ..(04m59s19) – Mesmo nesse plano médio. Esse trecho da reportagem é um bom exemplo dessa afirmação.” Como não tem as gravações da captura.” Após a apresentação do cenário. 52. o JN tenta de todas as formas fazer a simulação parecer presente. não é a conclusão de uma ação que mantém a curiosidade do público.. tapou a entrada. 50.onde havia restos de uma refeição. que.. Uma placa de isopor esculpida. A narração do repórter atualiza essa cena e apela para a imaginação do público: “Saddam correu para o esconderijo..onde foram encontradas roupas e comida.(05m07s00) – Plano médio. atual..neste casebre de sapé. As informações neste trecho e a seguir têm seu potencial de atenção garantido por construírem uma espécie de tematização da pobreza que se contrapõe ao luxo e ao poder demonstrados por Saddam no governo do Iraque. 53. a câmera acompanha a ação dos soldados e se concentra. a câmera faz uma pequena panorâmica 4 . uma cozinha ao ar livre.

dois outros locais próximos.. Eles ergueram a tampa. .”– incompreensível – voz do soldado vai à BG. Note-se um erro aqui.(05m24s25) Câmera virtual – Nessa tomada em ângulo alto. 189 . um esconderijo.(05m23s10) – Nesse plano geral. 58. 2 Outro corte na história. 57. mas uma tampa que fecha o buraco na animação em 3D.54..(05m17s26) – Nessa tomada. ou seja... 17 Voz do soldado : “We´re about. 56.onde não acharam ninguém.(05m21s18) – Outra tomada noturna. O buraco era estreito com uma chaminé de um metro e oitenta de altura. Voz do correspondente: “O coronel James Rici.. disse que os soldados iam limpar o subterrâneo. Lá no fundo. comandante da operação. com dificuldade se vê um soldado chutando uma porta. onde Saddam estava deitado de bruços... 1 ... Não é um isopor. jogar uma granada de mão. 17 Mas um tapete que cobria a entrada do buraco chamou a atenção dos soldados. que estava debaixo de um tapete.(05m41s23) – Plano próximo para acompanhar a fala do coronel. No plano geral vêem-se soldados caminhando. se afasta novamente para mostrar outro plano geral do esconderijo do ditador. quando viram um Retomam-se agora detalhes da captura. no centro do quadro. em plano americano. soldados caminham contra a luz. “Os soldados americanos vasculharam primeiro.” Descreve-se agora o esconderijo de Saddam. As sonoras dos militares mostram detalhes “fortes”: como o fato de Saddam quase ter sido morto por uma granada e a ironia de um soldado diante da oferta de negociação do exditador. a câmera sai de um plano geral e faz um zoom in no buraco. 55. 4 (Ouve-se o som da porta se abrindo com violência). Depois. Passa-se agora a mostrar detalhes da busca..

’” As sonoras terminam nesse fragmento do correspondente Jorge Pontual. Ele saiu com as mãos para cima. o da apresentação do estado atual do ex-presidente do Iraque.(6m33s13) – Plano próximo. Mais uma vez. (ele) disse em inglês: “Eu sou Saddam Hussein. a aproximação acontece em um momento muito especial. que faz depoimento.. Temos um enunciador que considerou seu potencial de atração relativo. Não podemos esquecer que as mesmas imagens apareceram nos jornais pela manhã. aproxima-se depois da câmera. O informante não vai receber a recompensa de 25 milhões de dólares porque não deu a informação voluntariamente.’ O presidente Bush manda lembranças.” Voz do soldado sobe: “The president Bush sends regards. presidente do Iraque. 62. novamente simulando um contato íntimo entre telespectador e Saddam. E segundo este soldado. que esses fragmentos “não duram” muito tempo. que faz outro boletim de passagem. preso e interrogado em Badgá na sexta-feira. entretanto. 3 Mas depois a atitude dele mudou. 61. Soldado à dir. mas o assunto foi abordado no Fantástico. num raríssimo caso em que mídias impressas apresentaram algo antes do JN. É uma segunda-feira. quase close de Saddam. 16 60.59. 22 homem lá dentro. A câmera faz um close do exditador. e quero negociar. Não houve JN no domingo. Um oficial norte-americano comentou: ‘Economizamos o dinheiro do contribuinte. Temos outro instante de valorização da história.(6m11s21) Plano próximo do correspondente. 4 Pontual: “Levado para uma base militar. 190 . Saddam parecia disposto a conversar ao ser examinado. É notável.(05m57s12) – Plano americano.” (Correspondente Jorge Pontual surge no vídeo) – “Quem deu a informação sobre o local onde Saddam se escondia foi um parente dele.(06m38s25) – Plano próximo.

(6m41s12) Câmera faz uma panorâmica do Conselho.63. indo da esq.(06m55s09)Computação gráfica: carta em que Saddam aparece “cai” da tela. 3 ..” 68. O título poderia ser “os que ainda faltam prender”. 5 ‘Ele não demonstra nem arrependimento nem remorso’. 64.(06m50s27) – Plano médio para acompanhar depoimento.. Temos outro uso de computação gráfica para encerrar esse sub-bloco. Izzac Ibrahim Al-Duri. diz um deles. 13 Agora que o ás de espadas caiu.(07m12s07) – Estúdio – Plano médio.. 11 191 . Surgem da parte de baixo as outras cartas.(7m08s09) – plano médio de Izzac que beija Saddam.. O principal é o rei de paus. 65. Câmera virtual depois dá um zoom in até a carta de Izzac Ibrahim Al-Duri.” Eraldo: “Documentos encontrados numa pasta no esconderijo levaram à prisão hoje de dois importantes aliados do ex-ditador. A identidade deles não foi revelada.. 4 ... os americanos esperam capturar os 13 homens que faltam no baralho dos seguidores de Saddam. 67. temos a descrição do “estado emocional do ex-ditador”.. e mantendo o plano próximo.(6m47s01) Plano médio.. 6 Quatro integrantes do Conselho de Governo do Iraque passaram meia hora na base interrogando Saddam. Tenta-se recuperar agora as primeiras reações de Saddam na prisão. Na seqüência de três fragmentos. à dir.que estaria comandando a resistência à ocupação do Iraque. 66.e foram recebidos pelo ex-ditador com palavrões.

.. em mostrar o cenário e uma reação em particular se repete aqui. à esq.cidade Natal. São apresentadas repercussões sociais.69. mas não fazendo análises.(07m38s29) – Há um plano geral com foco em plano próximo. 4 .(07m35s14) – Plano americano.. 1 do ex-ditador.(07m32s10) – Plano geral de manifestantes. 11 Renato: “A operação Aurora vermelha. 72. de agora em diante.. Note-se o cuidado com a mudança da posição do selo entre os apresentadores. lamentando ou comemorando. Voz de repórter em off: “Em Tikrit. inclusive Bagdá. no rosto do iraquiano. O cuidado da cena anterior.(07m42s22) – Câmera realiza uma panorâmica da dir. gerou comemorações e protestos nas ruas do Iraque. Observa-se mais uma vez o recurso enfático do close. Temos o terceiro sub-bloco: as reações mundiais. e dá um zoom in no rosto da mulher chorando. Podemos observar. 75..(07m36s13) – Plano de conjunto com iraquiano em primeiro plano beijando a foto do ex-ditador. o retorno da narrativa no ponto da sanção. quase close-up. políticas e econômicas.(07m23s01) Estúdio – Plano médio.. Depois é mantido nas próximas tomadas). chorando. mas não merece sonoras.. 71.(07m34s07) – Plano de conjunto de manifestantes. que resultou na prisão do exditador Saddam Hussein. Eles surgem “emocionais”. antes de ir a BG. passionais.” 70. 74. 4 Eles param nas principais cidades do país.. 1 ... em relação à prisão de Saddam. e especialmente árabes. O plano foca o rosto do iraquiano. Só que com uma diferença importante.... As tomadas gerais dos manifestantes vão aos poucos focando alguns dos seus personagens. 9 (Som de manifestação é mantido por um segundo. como um coletivo que fala pelas ações. Começamos com as repercussões sociais. Temos os árabes divididos.. Há os que não consideram Saddam um antisujeito por partilharem valores com o ex-ditador.o outro chora (ouve-se os sons de choro). 73. 192 .. mas desloca-se para mostrar o local onde ele se encontra.enquanto um iraquiano beija a foto de Saddam Hussein. 2 . Os árabes aparecem como massa..

.(07m52s05) – Plano Geral para observar toda a destruição.” (Som da manifestação fica em primeiro plano por menos de um segundo. 6 Até que os soldados chegam para acabar com a manifestação. duram menos de dois segundos. É notável como o JN cedeu tempo para a performance da prisão de Saddam. 2 .. 2 Ninguém confirma....(08m01s02) – Plano geral.(07m54s08) – Plano geral. 1 .76.. 80..duas delegacias são alvos de. retomamse os planos gerais. mas utilizou poucos 193 . discussão e busca.. 2 “Enquanto isso. Logo em seguida. 82.(07m46s04) – Plano geral para acompanhar a ação de diferentes soldados. 78.(07m56s04) – Novo Plano geral.(07m59s13) – Plano de conjunto. 1 . 2 Pelo menos nove policiais morreram.se as explosões... Só aqui se busca mais aproximação do enunciatário com o fato. 81. no entanto. Câmera está em ângulo alto. 79. Os dois fragmentos. com detalhes da destruição em primeiro plano.(07m57s24) – Plano de conjunto de cadáver.. O telespectador tem uma visão de conjunto.carros-bomba. do outro lado da cidade....) 77. Essas cenas de repressão à manifestação dos árabes e dos estragos de bombas são feitas por plano geral.

o ritmo do jornal torna a repetição quase imperceptível.(08m11s18) – Plano próximo de correspondente. em perspectiva..(08m16s03) – Temos a repetição da tomada que começa em 07m42s22 – Câmera realiza uma panorâmica da dir. 3 .(08m19s29) – Montagem de três elementos: o mapa do Iraque. 85. de onde fala o entrevistado. Como sempre. Alguns assuntos dos outros sub-blocos são rapidamente retomados. é a ausência de material visual.. utilizam-se imagens das manifestações. 2 .com a prisão de Saddam Hussein. A única diferença são uns décimos de segundo a mais..83. Awni Al-Dayri. à esq. o representante do governo brasileiro em Bagdá. Para compensar.. obviamente. Cabe ao JN tenta transformar uma entrevista com dificuldades de som em algo atrativo.5 segundo e dois fragmentos para apresentar a reação de dois povos árabes.. 1 . segundos e um tom contido para mostrar o que as bombas fizeram no Iraque.. cenas de manifestação. de movimento. 89. Podemos também notar a reprodução de uma mesma cena. 194 . 86... e transcrição da fala na faixa azul. Entretanto. e também.” 4 Temos aqui o que alguns teóricos chamam de “rádio na TV”.têm ou não ligação. 5 Por telefone.(08m02s24) – Plano geral.(08m04s14) – Plano geral..(08m05s26) – Plano próximo.. nos territórios palestinos é clara. Al-Dayri: “A maioria do povo está.. de manifestantes e cartazes. e dá um zoom in no rosto da mulher chorando.. 84. à esq.diz que só uma minoria sunita chora pela prisão de Saddam Hussein. O principal problema. 2 Mas a indignação no Líbano.. à dir. 87.(08m07m27) Plano geral de manifestação. na parte de baixo do vídeo... Há 1. 88. 4 . temos uma seqüência de fragmentos que nunca apresenta o mesmo ângulo de câmera.

20 195 .... 2 .” 93. Intensa movimentação.(08m23s04) – Quadro à dir.” Correspondente: “Sobre o julgamento do exditador..(08m41s26) – Plano próximo.que será no Iraque. (Vê-se o correspondente Marcos Losekann): “Na Grã-Bretanha não existe pena capital e o governo daqui já deixou claro que não participará de um julgamento que possa resultar na morte de Saddam Hussein. Termina em plano de conjunto.(08m24s28) Quadro à dir. Intensa movimentação.(08m26s21) – Plano próximo.90. mostra manifestação em plano geral. 94.(08m33s10) – Câmera foca bandeira em caixão e depois acompanha o afastamento. 95..querem que.” (sobe som de manifestação)...(08m30s17) – Plano americano.. também com muita ação de manifestantes.ele seja condenado à morte. 1 . 3 Al-Dayri: “A maioria dos que.... 2 ...descansada. a execução de 97. Para o primeiro ministro Tony Blair. 92.(08m38s19) – Plano Geral...(08m36s02) – Plano médio...sofreram no regime de Saddam. feliz.. mostra manifestação em plano geral 91.. Al-Dayri acha. 4 . 3 .. 3 ..alegre.. 96..

” 98. 1 . No Irã. Temos um caso de redundância..(09m01s25) – Plano geral do parlamento britânico...(09m22s17) – Plano próximo. 100.(09m03s05 – Plano médio de Blair... Mais uma vez é utilizado o discurso dos jornais impressos para mostrar a importância da prisão de Saddam... their freedom. são os jornais. Note-se aqui novamente o tempo dado ao discurso dos vencedores e. por meio de jornais diferentes e enquadramentos diferentes.. Só que é uma repetição especial. o governo anunciou que vai preparar um processo pelos 300 mil iranianos mortos na guerra IrãIraque. 196 . E quem diz isso é a mídia impressa.. Sem cansar o telespectador. Blair disse que está confiante na capacidade dos iraquianos de. 1 . 7 . O telespectador fica sabendo que o fato teve repercussão mundial. 104. mantendo o plano próximo. no julgamento.(09m21s21) – Plano americano. um fantasma que poderia aterrorizar o mundo pra sempre.fazer justiça. Em termos de nível narrativo... 3 de frases e palavras.Saddam criaria um mártir para os terroristas. à esq. a prisão. o JN faz com que ele tenha contato com o mesmo conteúdo principal por meio de estratégias de expressão diferentes. quase um mendigo.de línguas. no caso do Irã. 10 101.. . 103. também ser repetida. 102.(09m23s08) – Câmera faz uma panorâmica sobre os jornais da dir. dos inimigos.. A reiteração valoriza o fato para o telespectador.em milhões. continuamos na sanção.. com leitor em primeiro plano.” (voz vai a BG). Outro ponto importante é a imagem de Saddam.. Aqui as gravações dão literalmente a volta ao mundo...(09m20s17) – Close no jornal 1 Em centenas.... na década de 80. 2 Voz de Tony Blair: “The Iraque people want… 99.(09m10s07) – Plano próximo de representante iraniano. Voz do repórter Losekan em off: “No discurso hoje no parlamento.

(09m31s08) – Plano de conjunto de painel. 107... 1 ...de Saddam Hussein foi..ao euro. Jornal aparece balançando...(09m28s11) Câmera está em plano médio. que se relaciona à tomada anterior.(09m32s25) – Plano médio. da esq. 112. Entramos aqui em um segundo tipo de repercussão: a econômica. 1 . 110. Detalhe: o fragmento não corresponde à fala.manchete em quase todos.105... 106.na Europa...(09m26s05) – Plano de conjunto dos jornais e leitores. Na Ásia.. 111.... 1 . 109. 1 . Plano Geral 6 .(09m40s11) – Plano geral com suave zoom out. com leitor em primeiro plano.. O dólar também subiu em relação.. 6 .. Caracteres se movem.(09m34s07) – Câmera faz uma panorâmica na bolsa de Nova York..nos Estados Unidos.. 197 . 2 ..mercados... 1 E repercutiu nos.. à dir. E o preço do petróleo caiu com a expectativa de que o Iraque passe a exportar...(09m27s06) – Novo close nos jornais que mostram fotos de Saddam.. As bolsas em geral fecharam em alta.os jornais do mundo. 108..(09m30s05) – Mesmo jornal da tomada anterior aparece agora em plano próximo..

. a situação no Iraque não vai...And the citizens of Iraque need to know we´ll stay in the (trecho não identificado)…” Voz de correspondente em off: “George Bush disse que os militares americanos não vão sair do Iraque enquanto não houver segurança no país. Plano Geral. 3 Para Bush. com manifestantes em primeiro plano. 2 . 1 . A mesma coletiva de Bush é retomada. Plano de conjunto com soldados em primeiro plano. 11 116..” Bush : “.(09m48s20) – Plano médio.113..(10m08s25) Fusão de cenas...... agora para falar sobre os destinos do Iraque e os passos dos Estados Unidos no país.(10m07s13) Câmera faz uma panorâmica e acompanha caminhada dos soldados – Plano geral.mais daqui para frente.” (Sobe som de membros da bolsa batendo palmas.(10m14s23) – Plano geral em perspectiva..que Saddam Hussein não estava comandando...(10m12s00) Fusão de cenas. Para manter a atenção do espectador. 1 . 198 . 2 . Euforiza-se a ação com as palmas 114. 8 Temos aqui o quarto e último sub-bloco: como fica a ocupação norte-americana no Iraque e os dividendos obtidos por Bush com a prisão de Saddam. 119. 120. 115. 118....(09m46s15) – Plano de conjunto. 117.. 4 ...melhorar tão cedo.Mas reconheceu. são inseridas gravações das ações dos soldados norteamericanos no Iraque.diretamente os ataques contra alvos americanos e civis.(09m56s28) – Plano próximo.) Eraldo: “O presidente George Bush deixou claro que a captura de Saddam Hussein não vai acelerar a retirada americana do Iraque.(10m17s14) – Plano Geral com soldado em primeiro plano..

.. Note-se ainda o close nos fragmentos.(10m21s18) – Close. sem contar com a apresentação e os comentários do correspondente em Washington. tomou dois minutos e 30 segundos. As afirmações do presidente dos Estados Unidos também praticamente servem como conclusão de tudo o que foi relatado. Os fragmentos a seguir foram gerados a partir de segmentações de uma mesma tomada e unidos. “(trecho não identificado). 2 . 2 . Classificou Saddam de enganador e mentiroso.) Correspondente em off: “Bush aproveitou a entrevista Tempo é valor em telejornalismo. O mundo é um lugar melhor sem você.(10m25s12) – Plano médio. (Voz de Bush vai a BG). 10 Bush: “He is..” (Voz de Bush vai a BG. 19 126-(10m45s36) Plano próximo. 123.Hussein nega que tenha produzido. mais jornais... Correspondente em off: “O presidente americano diz que não confia no que o ex-presidente do Iraque diz. 199 . Novamente vemos impressos na tela do JN.. O depoimento é interpretado pelo telespectador como o acontecimento mais importante da reportagem..(10m26s80) Plano próximo. para encaixar a fala de Bush nas afirmações do repórter.. no total.. . 122. Saddam Hussein. dividida em duas partes.” 125. De torturador. por meio de fusões. com pouco mais de 50 segundos.(10m18s28) – Plano próximo. 3 Segundo informações que já vazaram sobre o. Chamou Saddam de assassino. pela terceira vez.) Correspondente em off: “Quando a coisa ficou quente. a coletiva de Bush.armas de destruição em massa. você se escondeu em um buraco. Esse conjunto de fragmentos.. 8 127-(10m53s04) Plano próximo. várias vezes.. que mostra uma mesma tomada.. Bush mostrou desprezo.. 124. 4 . você já vai tarde.. Saddam.. Bush aparece assim como o grande destinador... E ironizou:” Bush: “When he (não identificado) he got himself in a roll. quase 10 minutos e 40 segundos.“ (BG.(10m23s25) – Close. O que o JN faz aqui é dar enorme destaque à fala de Bush. é o mais longo da matéria. quase um quarto do tempo total.121. e depois.” Bush: “The world is better (trecho não identificado) mister Saddam Hussein. durante a entrevista. Bush disse..interrogatório inicial. em outra reiteração da importância da prisão de Saddam. Em uma reportagem que tem.

Há também um encaixe de uma nota – a operação de retirada de um câncer de Collin Powell – no conjunto da reportagem. de 66 anos. a idéia de um JN que está em todos os lugares.” Nessa matéria. Ele foi operado hoje para a retirada de um câncer de próstata. O benefício político já é uma realidade. nos próximos cinco anos. Ele faz um boletim de fechamento.” Bush: “Forget politics. Nota-se a relação professoral dos jornalistas com o público. Mas disse que na campanha de reeleição não vai tirar proveito da captura de Saddam.(11m18s29) – Plano entre médio e próximo. O jornalista usa recursos da entonação.(11m40s26) Plano próximo Término em 11m56s12. Powell estava envolvido com a guerra do Iraque. valorizando o local da informação e o sentido de “estar onde os fatos estão”. o que reforça. 129. para fazer um pouco de campanha política. dois de Nova York. Powell.(11m03s44) Plano próximo. Apresentadores e correspondentes têm um “tom didático” e se mantêm na posição de donos do saber. 22 Vê-se o correspondente Luiz Fernando Silva Pinto. uma redução de 50% no déficit do orçamento federal. todos fazendo stand-ups. Segundo uma pesquisa do jornal Washington Post e da rede de televisão ABC. por sua vez. 22 Renato Machado: “O Secretário de Estado Collin Powell acompanhou a captura de Saddam Hussein pelo telefone. o índice de aprovação à intervenção americana no Iraque já subiu 10 pontos em relação aos números de novembro. Salienta a informação “10 pontos” e cria um silêncio retórico antes de citar “foi para 58%. ou seja.” Faremos agora alguns comentários mais amplos sobre a reportagem para depois discutir a importância da notícia na estrutura geral do programa e retomar a questão da montagem.. observou-se o JN utilizar quatro correspondentes internacionais.” Stand up do correspondente Luis Fernando Silva Pinto.” 130. o selo desapareceu. passa bem e deve voltar ao trabalho no começo de 2004. um de Londres e outro de Washington. Na conclusão. Segundo o porta-voz do governo americano. de Washington: “Bush não precisa esperar pela campanha. 15 . Prometeu. de 48% foi para 58%. Eles se dirigem a alguém que pouco sabe.128.. que se justifica por um fato em comum entre os dois acontecimentos. Há uma clara razão mercadológica para 200 .

da altura e da duração da voz) são muito utilizados. Um dos grandes meios para compensar a fala mais distanciada dos jornalistas do JN é o “olho no olho” com o telespectador. (. um monitor de vídeo que fica acoplado à câmera. Os “acentos de expressividade” (manejo de recursos de intensidade. O JN não quer ser um jornal carioca.) Pesquisa (com os telespectadores) sinalizou que o programa quase sempre é visto em família. reformulações e outros recursos típicos da fala. principalmente a dos repórteres. O principal noticiário da Globo possui correspondentes em diversos países. reportagem de João Gabriel de Lima. O JN sabia que a prisão de Saddam era ainda o grande fato do dia. daí a simulação de que se está falando com o telespectador. Se o chefe de família não entende o significado das notícias.”109 A entonação dos jornalistas do JN. revista Veja. Mas era preciso dar sensação de atualidade. local de coordenação do jornal e de onde falam os apresentadores. toma contato com notícias do Brasil inteiro e do mundo. dia em que não há edição do Jornal Nacional. O público. nem nacional. notadamente na frase final dos relatos dos repórteres nos stand-ups. como algo indesejado. e as famílias costumam ter um ‘explicador’ – em geral o pai -. no caso dos âncoras. Na segunda-feira. Praticamente não há interrupções. O JN é finalizado no Rio de Janeiro. a foto do ex-ditador também apareceu pela manhã nos principais jornais brasileiros. caso da Folha de São Paulo. A prisão de Saddam ocorreu no sábado e foi divulgada no Brasil no domingo. fica constrangido. A apresentação das manchetes da edição – a escalada – não deixa dúvidas sobre a solução pensada: 109 “A Guerra atrás das Câmeras”. O uso das acelerações e desacelerações ao narrar (recurso de duração) é constante. que simula uma conversação cordial. como lembra reportagem de Veja sobre os 35 anos do programa: “A questão da linguagem é ainda mais premente quando se leva em consideração que três em cada quatro espectadores do Jornal Nacional são de classe C. Quando existem. soam como erro. e é possível que no dia seguinte prefira assistir a outro canal. D ou E. edição 1869. mas “mundial”. 106 e 107.essa atitude. em relação aos profissionais do Jornal da CBN. apesar do nome.. págs. Não existem marcas de espontaneidade. tem menos variações. A linha do olhar de leitura do texto é muito próxima da posição da lente da câmera. Tudo isso sugere como espaço da enunciação o próprio planeta. da leitura de textos de frases curtas por meio do teleprompter. que é quem traduz para os demais o teor das notícias mais complexas. com grande utilização das pausas retóricas para dar valor a certos aspectos da informação.. 201 . no entanto. Esse efeito é produto. 1° de setembro de 2004.

Do ponto de vista semiótico. “Novos detalhes” sobre a captura são prometidos. Observe-se o papel reservado a Bush. mas antecipando os passos futuros. Há quatro sub-blocos: 1 – O julgamento e o destino de Saddam – possibilidades e acusações. apresenta-se o selo do assunto. porém.off do correspondente – sonoras . Como o final de um bloco e o ressurgimento do apresentador no estúdio podem dar sentido de término da matéria. Desse modo. O problema da monotonia é resolvido com o grande uso de gravações de arquivo intercaladas nessa fala. faz o papel de satisfazer a curiosidade de um telespectador que ainda não sabia ao certo como tinha sido a prisão de Saddam ou queria revê-la.Renato Machado (início da escalada): O destino de Saddam Hussein.” Só no terceiro bloco observamos uma entrevista. Cada um desses sub-blocos tem um esquema básico: “apresentador . É considerado mais importante tudo o que se vincula ao sentido de “agora” do telespectador. modo de acrescentar novidade a um fato já sabido. Do ponto de vista televisivo. 3 – A repercussão social. de destinador julgador. Só que não rende bons teipes. Saddam Hussein tentou negociar com os soldados no momento da prisão. como fato 202 . pois há pouca movimentação. Ao falar do destino do ex-ditador. Renato Machado: E diz que iraquianos vão decidir como aplicar a justiça. que a captura do ex-ditador. Esse recurso de montagem também preenche os offs dos correspondentes. Ao mesmo tempo. Não se deve pensar. O JN. o telespectador sabe instantaneamente que a matéria tem continuação. 2 – A performance da captura. política e econômica. Vale notar que esse fato também aparece nos outros sub-blocos. Deve-se reforçar que a detenção do expresidente do Iraque é o grande fato gerador de toda a notícia. o primeiro sub-bloco é de sanção ao exditador. o JN não está mostrando um fato passado. O efeito de atualidade determina um modo de organização da matéria. nesse caso.boletim do correspondente. diz ter informações ainda não divulgadas. Questionar o futuro de Saddam é um elemento de atualização importante. falando em frente a um microfone. isso corresponde a um homem parado. Eraldo Pereira: O presidente Bush garante que o julgamento do ex-ditador vai ser aberto a observadores internacionais. 4 – As ações seguintes de Bush: como fica a ocupação do Iraque e os dividendos políticos advindos da captura. porém com menos destaque. Eraldo Pereira: Os novos detalhes da captura. principalmente no último.

no entanto. precisa ser altamente estimulado. Não é mais o “sábado” da captura. É a estratégia de sustentação. tinha envelhecido. É por essa razão que descrevemos as mudanças de planos. Justifiquemos nossa preocupação com a fragmentação textual. No entanto. não corresponde à realidade do programa. Há uma mudança a cada 4. é preciso fazer um lembrete importante – notadamente em um trabalho cuja preocupação é considerar o objeto telejornalístico em seu caráter mais abrangente. Manchetes e depois a cabeça da matéria têm a função de desencadear a curiosidade do telespectador. O momento de referência não é mais o passado. Vejamos. pelos efeitos obtidos com o jogo entre fragmentos “durativos” . O efeito de atualidade da narração dos jornalistas se sobrepõe inclusive às cenas de arquivo. é que a matéria “pulsa”.que “duram” . que faz uma representação da duração dos fragmentos em segundos. que chegam a ter menos de um segundo. Existem outros efeitos importantes da montagem. nunca tem fragmentos com a mesma duração por muito tempo. ou seja. O que o JN faz é “re-atualizá-lo”.jornalístico. São descontinuidades encontradas no interior de um mesmo fragmento. trata-se do recurso mais facilmente verificável de montagem e mostra bem as conseqüências de estratégias ligadas ao manejo perceptivo. não pode existir monotonia para os sentidos. só que esse raciocínio. especialmente para o olhar. O grande número de fragmentos indica que o simulacro do telespectador é pensado como o de alguém com reduzido potencial de atenção. Há uma série de outras estratégias que também avivam a curiosidade no nível sensível. o constante ir e vir da câmera (categoria afastamento x aproximação) e também a quase obsessiva escolha dos editores em mostrar pessoas e objetos em movimento (categoria ativo x inativo). Sem uma enorme carga de estimulação. Esse enunciatário. Vejamos o gráfico a seguir. Em TV. Inicialmente. além de 130 fragmentos. A notícia analisada tem 10 minutos e 40 segundos (começa em 1m16s e termina em 11m56s). O público deve ficar tenso e atento para acompanhar todo o desenrolar da reportagem e do programa. meses. semanas. ele muda de canal. que remete a uma média. desencadeadas pela aspectualização do plano de expressão. Os jornalistas comentam o presente e o futuro. ou seja.9 segundos.e outros “pontuais”. Discutem formas de julgar Saddam “neste momento” e o que acontecerá com o ditador nos próximos dias. O que podemos notar. Há momentos mais longos entremeados por outros com “pedaços” mais curtos: 203 . inicialmente. o que remete a uma estratégia de arrebatamento contínua.

Tão importante como mostrar os “fatos” é falar sobre eles. O mais antigo dos recursos. Entretanto. O autor enfatiza que “o telejornal é. os correspondentes. Apenas quatro ultrapassam 22 segundos. antes de mais nada. continua a ser o que mais se prolonga. faz com que o telespectador sinta que tudo passa muito rapidamente. 204 . Essa forte aceleração inicial. São fragmentos que apresentam alguém falando para a câmera em plano próximo ou plano médio – o enquadramento que simula uma situação de diálogo -.Relação entre fragmento e duração Diversos fragmentos têm menos de um segundo. o primeiro trecho tem os menores segmentos. o lugar onde se dão atos de enunciação a respeito dos eventos” (2000: 104). Se a matéria for dividida em quatro partes iguais de tempo. o do apresentador e do repórter na frente da câmera. os maiores tempos dos fragmentos são das vozes institucionais. verificam-se trechos mais longos entremeados por momentos de retomada de fragmentos curtos com uma desaceleração no final. é o que menos causa um forte efeito de “novidade”. reunida a conteúdos informativos atualizados – portanto. mediá-los. ou seja. o que corrobora uma reflexão de Arlindo Machado. por exemplo. Para compensar. Depois de um começo “tenso”. da característica mais pontual e menos durativa dos fragmentos. Existe uma característica notável em quase todos os “picos” de duração. mais chamativos -. Assim como pudemos notar no programa de rádio analisado anteriormente. O telespectador vai julgar se uma matéria é pertinente principalmente no início da apresentação. mostra que os primeiros segundos são entendidos como os que devem concentrar as principais estratégias de geração de laços enunciador-enunciatário. O gráfico mostra pelo menos cinco intervalos com fragmentos mais longos e representa essa idéia de um objeto “pulsante”. apresenta uma aspectualização mais intensa do plano de expressão que. a duração máxima. em função das descontinuidades.

O estudo do material mostra que não é exatamente assim que a estrutura funciona... mas necessários para “descansar” o telespectador após uma bateria de estímulos notadamente visuais. O esquema básico de uma reportagem de TV – cabeça de matéria – off do repórter (ou correspondente) . Ele diz “Na Grã-Bretanha não existe pena capital e o governo daqui já deixou claro que não participará de um julgamento que possa resultar na morte de Saddam Hussein. correspondente em Londres. o sentido de familiaridade que os profissionais despertam e até mesmo as expressões faciais deles. Grosso modo.. com certos momentos mais 205 . era a de que a reunião de um grande número de fragmentos com pouca duração correspondia a pontos altos. a entonação na hora de narrá-la ou comentá-la.” Essa mesma característica aparece nas intervenções dos outros correspondentes.aparecem nas ruas. o que compensa a duração do segmento.” Além de uma informação com grande carga persuasiva – a possibilidade de mais atentados terroristas – há um efeito de desaceleração discursiva da fala do correspondente. Menos tenso. um fantasma que poderia aterrorizar o mundo pra sempre. de maior atenção. sustentação e fidelização diferenciado e. Para o primeiro ministro Tony Blair.sonoras – boletim em stand up – revela que cada segmento é pensado para ter um potencial de arrebatamento. ao mesmo tempo. As falas dos apresentadores. em grande relação. pra sempre. e dos correspondentes nos stand-ups. O boletim de Marcos Losekann. É evidente – e isso foi dito anteriormente – que há uma estrutura que busca máxima tensão no início e um certo relaxamento no final. mesmo com os recursos citados. Há os selos junto aos âncoras. diante do material. o que dá ainda mais “peso” à sua enunciação “. há enorme movimentação de elementos ou da câmera virtual. Entretanto. mas estreitamente relacionados. em cenários de cartão postal. a execução de Saddam criaria um mártir para os terroristas. Uma única enunciação: a fala como elemento articulador Nossa primeira hipótese. Ele praticamente cria reticências no final de sua frase. pode-se dizer que cada uma dessas partes citadas tem “recursos próprios” para prender a atenção.aterrorizar o mundo. é ilustrativo dessa estratégia. há ainda dois pedaços longos que correspondem às duas animações em terceira dimensão. o enunciatário seria então apresentado a uma nova saraivada de pedaços de cenas. No caso da reportagem sobre Saddam.. seriam momentos de sensível perda de interesse. A falta de grande impacto “imagético” também é compensada por estratégias como a de criação de curiosidades específicas relacionadas à notícia.

com áudio e vídeo) que expõe alguns pontos de funcionamento da textualização nesse objeto. No noticiário da TV. Esse ritmo é inerente a cada notícia e. muito tempo para tudo ficar pronto e até a quebra de uma das cláusulas do contrato entre jornal e público: o telespectador espera “a realidade”. Na tela. como analisamos. Arlindo Machado afirma que. Ouvimos a voz do repórter ou do apresentador e vemos as gravações correspondentes. 206 . Eles contam histórias. ou indiretamente. contudo. o citado off. É comum uma história estar em pleno andamento e não ser totalmente acessível aos jornalistas que devem reportá-la. no jornalismo de televisão existe intenso relacionamento entre diferentes substâncias de expressão na maior parte dos momentos. musicais. O último recurso é bastante usado no telejornalismo. como mostra a notícia sobre a prisão de Saddam. ao conjunto do programa. No cinema. Essa possibilidade. A câmera também pode fazer o papel de narradora. que podem ser complementares. A essa narração são adicionados fragmentos existentes de filmagens. sem a presença deles no vídeo. ao contrário do radiojornalismo. esse momento pode ser “recriado”.acelerados do que outros. é produto de uma articulação. no cinema. Esse é o recurso mais usual. é pouco utilizada no telejornalismo analisado. o clímax. Mais corriqueiro é o fato já ter acontecido e necessitar ser re-atualizado. que utiliza com muita parcimônia e somente em momentos bem definidos um grande número de diferentes estímulos verbais. Mostra-se alguém que conte a história. Alguém pode narrar diretamente. Refilmar o acontecimento traz enormes problemas: custo de produção alto. e tentam motivar a curiosidade do público para saber os detalhes. entre uma narrativa falada e segmentos (geralmente trechos de gravações. sem apoio do verbal. Começam pelo momento de maior tensão. no fluxo temporal. ruídos e efeitos sonoros. não é possível voltar no tempo. com tantos elementos. por sua vez. a câmera pode assumir o ponto de vista de um “sujeito narrador onividente e tomar todas as imagens e sons considerados importantes para a plena visualização e audição da história” (2000:101). digamos “pura”. Só que. há diversas formas de se contar uma história. aparecer falando na frente das câmeras. não peças de ficção que simulam o “real”. Analisemos a razão de o telespectador não se perder e ficar prestando atenção a tudo o que lhe é oferecido. A solução encontrada pelos telejornais é mais simples. ou seja. A fala dos apresentadores e correspondentes ocupa lugar privilegiado. A sensação de se ver diante de uma única enunciação. caso de ações de guerra. E por várias razões.

comentando. que correspondem a 14 falantes. de Tony Blair. com as falas.) baseado apenas na capacidade informativa da imagem. A análise semiótica. os correspondentes. dos militares americanos no Iraque. Se 207 . todas as matérias divulgadas nas seis edições dos três telejornais utilizaram-se da expressão verbal. e do extinto Telejornal Brasil. é muitas vezes um reducionismo. O que a pesquisa de Rezende evidencia é a forma de organização do discurso telejornalístico. Citamos que foram anotadas 130 fragmentações na reportagem sobre a prisão de Saddam. Por outro lado. Nem todas são “sonoras”. do SBT (transformado depois em Jornal da Record. Trata-se da inútil tentativa de mostrar se o “verbal” é mais importante na TV do que o “visual” ou vice-versa. precisa se servir dessas observações com certo cuidado. Antes de explicar melhor esse ponto.Guilherme Jorge Rezende. no entanto. queremos apontar certas características do texto telejornalístico e de organização de suas unidades por meio dos recursos de montagem. de instauração de um ponto de vista sobre o que se vê e ouve (como um som em segundo plano. portanto. No total. esclarecendo a informação visual ou até mesmo comandando o processo de composição jornalística na TV” (2000:272). O mesmo não acontece com o áudio. concluiu que. existem apenas 36 fragmentações de áudio. do Jornal da Cultura (TV Cultura de São Paulo). A trilha de áudio das narrações serve como ponto de organização discursiva e. Chamar os fragmentos de “imagens”. seis edições do Jornal Nacional. As intercalações têm como base o que poderíamos chamar de uma trilha de áudio principal. que analisou. Alguns são pequenas seqüências. São. pedaços de uma história mostrada em diferentes ângulos. fragmentos que apresentam sincretismo. além das pequenas falas em inglês de Bush. é evidente que a base narrativa verbal foi construída também a partir do conjunto de informações e gravações obtidas. por exemplo). de vozes. “sem exceção. Inicialmente. principalmente. O telejornalismo (. com ou sem som original. por exemplo. O número inclui os apresentadores. os dois cidadãos norteamericanos ouvidos e a entrevista com o representante brasileiro em Bagdá. explicando. Pode-se notar que diversos segmentos têm som (fala e ruídos) além da imagem.. comandado por Boris Casoy). a significação do telejornalismo não pode ser pensada em termos de oposição ou hierarquização simples entre o verbal e o “imagético”. Chamaremos de intercalação a correspondência entre uma fala (segmento de áudio) e os segmentos visuais que o acompanham. O que se detectou mesmo foi a função insubstituível da palavra. convém dizer que não estamos querendo retomar um assunto criticado no início desse estudo sobre o telejornalismo.. Ao contrário. Nenhuma informação foi transmitida apenas por imagens. entre 14 e 19 de agosto de 1996. ficou muito longe da realidade.

principalmente dos jornalistas. principalmente de fragmentos curtos. Uma placa de isopor esculpida. O desenvolvimento narrativo se dá por meio da fala. os maiores segmentos de áudio são dos correspondentes e dos apresentadores. Em alguns momentos específicos. Militares norte-americanos no Iraque se surpreenderam com a falta de reação do ex-ditador no momento da prisão e com as condições do local em que ele estava escondido.” Temos aí o áudio principal que determina a narrativa falada intercalante.” Novamente. as vozes institucionais. Exemplifiquemos. ouvimos o off do correspondente. o apresentador Heraldo Pereira afirma: “Saddam Hussein queria negociar com os soldados perto de sua cidade Natal. Para que a atenção do telespectador não se perca diante de tanto estímulo. apresenta 18 fragmentos com imagem e som. o áudio da trilha sonora principal corresponde à imagem que se vê na tela. a ser ouvida (caso dos correspondentes explicando manifestações) na sucessão de fragmentos. 208 . não é Saddam correndo nem se jogando no buraco. que retoma a mesma história. E o que se vê.observarmos atentamente.um efeito de realidade. Diz o correspondente: “Quando os soldados norte-americanos se aproximaram. agora do ponto inicial. o áudio principal se alterna ou cede lugar ao áudio secundário ou original em um mesmo fragmento ou conjunto de fragmentos. Ao iniciar o bloco sobre a prisão de Saddam. As gravações observáveis em seguida surgem como pedaços intercalados à história principal... No segmento seguinte. como se fosse uma pedra. Saddam correu para o esconderijo subterrâneo do lado de fora. Um dos segmentos de narração em off da correspondente em Nova York. Em certos momentos. E servem de “prova” ao que se fala . Os fragmentos audiovisuais são recursos de concretização discursiva. obviamente. para contá-la em detalhes: “Saddam Hussein iria passar a noite de sábado. para ser novamente retomado. a trilha de áudio principal continua a se sobrepor. ou intercalante. acontece no momento em que se ouve a voz em off dos correspondentes. As gravações que se sucedem – com ou sem áudio próprio (ou secundário) surgem como fragmentos relacionados a essa narrativa principal (ou mostrada). com certas nuances. Cristina Serra. A alternância entre o áudio principal e as gravações é feita de modo a permitir que o telespectador possa acompanhar a progressão da notícia sem perder o enredo. Essas cenas. O telespectador é convidado para acompanhar o que motivou esse ponto da história. que vão sendo intercalados. É o caso das falas dos âncoras no estúdio e dos correspondentes em stand-ups. O maior número de intercalações. há a apresentação de um momento clímax. Eles enunciam a notícia na forma de uma narrativa falada. tapou a entrada”. Tikrit. porém. Os jornalistas contam ou comentam as histórias que vão sendo mostradas nos fragmentos audiovisuais.

mas o buraco mostrado. meio e fim. E sua atenção é estimulada justamente porque ele quer ver o “verdadeiro buraco” onde se escondia Saddam. Em alguns momentos. controlando a polissemia ao determinar pessoa. só pode ser verdade. o que parece cansar mais. ser justamente a “imagem” de um acontecimento o fragmento mais curto. que é provocada com a narração em off. Funcionam como ilustração do que é dito. aquele ali. A filmagem dos estragos de uma bomba tem um certo impacto. a idéia de que tudo o que alguém apresenta. como mulheres e crianças. a indignação ao se apresentar o assassinato de inocentes. O estudo da reportagem mostra ainda que diversos fragmentos têm outras funções e relações. como se fosse uma gravação de um programa de radiojornalismo. 209 . O “buraco verdadeiro” serve como subsídio e complemento à imaginação do telespectador. Podemos notar como certas paixões são estimuladas. O correspondente Luiz Fernando Silva Pinto. Os fragmentos municiam. O áudio principal é a voz do saber. de distrair o olhar do que de servir de “prova” ao que se narra. tempo e espaço do que é mostrado e relacionando tudo ao que está sendo dito verbalmente.entretanto. 110 É notável. A concretude mostrada nas gravações satisfaz a curiosidade de não apenas entender. que organiza e tira proveito dos sentidos gerados pela reunião das gravações. É isso o que ele espera do programa. a serventia é mais a de manter a atenção. ou de registro da “ação”. à narrativa intercalante. por exemplo: “Segundo informações que já vazaram sobre o interrogatório inicial. por exemplo. Não podemos esquecer que os planos de câmera e a montagem também controlam parte do nível de afetividade ou de inteligibilidade que se quer do enunciatário. não é o buraco que se imagina. porém. de outro. perceberá que tem pleno sentido. Saddam Hussein nega que tenha produzido armas de destruição em massa. Quem se der ao trabalho somente de ouvir a matéria analisada do JN. cumprem um papel de ancorar o verbal! Ou seja. O poder de atenção “imagético” parece estar relacionado ao fato de a cena gravada ser de “constatação” do acontecimento. no regime de Saddam. mas também a de experimentar a vibração da história e a de verificar sua pretensa autenticidade. na tela. não remeteria a uma história com começo. o vídeo que mostra a explosão será muito mais chamativo. no telejornalismo analisado. comenta ou descreve tem uma correspondência no mundo real. com seus pedaços de conflitos. não é qualquer buraco. de um lado. de gente e até mesmo de salas vazias.110 Pode-se observar essa situação. Já a reunião dos fragmentos audiovisuais não teria grande significado. por exemplo. no final da reportagem examinada. Busca-se.” E o que vemos são os jornais mostrando a captura de Saddam na primeira página. Com certeza. comenta.

o que pressupõe um “agora”. o que surge como transmissão direta mais cotidiana é o trabalho dos apresentadores no estúdio. Esse efeito de atualidade é levado ao limite com a transmissão de acontecimentos “ao vivo”. representam. Os apresentadores do estúdio. atualizaram os próprios segmentos gravados. o tempo da narração de um correspondente. substituindo-a por uma entidade passante. como da maioria dos telejornais. caso do acompanhamento jornalístico da longa agonia do presidente Tancredo Neves. Eraldo afirma. Diante da estrutura do telejornal. do ponto de vista temporal. ter uma produção simultânea à recepção. Podemos notar. também vale para o rádio e para a Internet.Mais questões sobre a temporalização Uma das principais características dos jornais de fluxo é a possibilidade de parecer enunciar em “tempo real”. Seqüências como reportagens. por sua vez. já é passado. Machado chama essa coincidência de “tempo presente” – preferimos a expressão “tempo real” . É por isso que a programação temporal do JN. se sobrepor 210 . Fátima Bernardes diz: “O Jornal Nacional está começando”. pois enquanto a fotografia e o cinema realizam congelamentos. petrificações de um tempo que. podem ou não ser gravadas. As narrações. a idéia de uma notícia que teve um desenvolvimento até aquele instante. na realidade. Inicialmente. o aqui-e-agora do faiscar eletrônico” (2000: 139). a prisão de Saddam. Resulta daí a marca de efemeridade que caracteriza muitos produtos televisuais: a transmissão direta desmoraliza a noção de ‘obra’ como algo perene. mesmo com os problemas técnicos da rede.e diz que é “um procedimento exclusivo da televisão. Note-se que a máxima sensação de proximidade com o público-alvo buscada em um telejornal é a do tempo. O telejornalismo tem outros recursos para simular que a recepção do telespectador se dá no mesmo momento de produção do programa. Na edição de dezembro. não houve segmentos “ao vivo”. a televisão apresenta o tempo da enunciação como um tempo presente ao espectador. nesse sentido. Nos casos analisados. do espaço que tem um tempo “agora”. o telespectador se defronta com dois tipos de segmentos: um sentido como uma operação em transmissão direta (e vamos insistir. notadamente dos correspondentes. também depois da escalada: “Agora. é comandada do estúdio. Os efeitos de atualidade se basearam mais na discussão de conseqüências do fato principal. ou seja. estamos discutindo aqui o domínio do “parecer”. durável e estocável. muitos deles de arquivo. no Jornal Nacional”. vale comentar que essa constatação. por exemplo. do efeito) e outro apresentado como previamente gravado. No primeiro caso. que serviram para ilustrar as falas. uma vez obtido. Na edição analisada de julho. após a escalada.

não faria a menor diferença a jornalista apresentar o JN nos Estados Unidos ou no Brasil. Mas este não é o lugar de discutir esse aspecto. Os dados chegariam do mesmo jeito e pelos menos canais. entre a urgência e o pensamento.. que. quase como parte dele. não se pode pensar. que o fato é gravado. negativo.. Do ponto de vista do conteúdo informativo. É francamente aristocrático. a praça pública. Ele diz. de uma narração mostrada.. E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão entre pensamento e velocidade. É o ponto de vista do privilegiado que tem tempo. o fato já ocorreu. Na verdade..) há algo de podre na eleição do rápido como categoria central do telejornalismo. é passado. e que são tomadas pela urgência. do “ao vivo”. Expliquemos: para acompanhar a eleição do presidente dos Estados Unidos em novembro de 2004. Estabelece um elo.” Surgem duas imagens correspondentes. Bougnoux fala da dificuldade que ela traz de ‘fechamento do círculo semiótico’: o rápido impede o pensar sobre a coisa” (2000:82). que inclui também estratégias espaciais. e também citando Platão. 211 . por exemplo.ou tentando se confundir com o tempo de uma seqüência. afirma que “a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento. Bourdieu. mas também “dentro” do acontecimento. e que se interroga muito sobre seu privilégio. Platão dizia que na urgência não se pode pensar. Pode-se pensar com velocidade?” Na mesma linha. Marcondes Filho. como parte dele. O controle da percepção: o uso ideológico da edição e dos planos de câmera Teóricos e críticos da televisão e do telejornalismo sempre citam o problema da reflexão diante do que é mostrado na tela da TV. Diz Marcos Losekann: “. Ela transmitia as notícias de um estúdio no local. na urgência. é que os jornais de fluxo necessitam cada vez mais enunciar não só sobre o acontecimento. a Globo enviou a apresentadora Fátima Bernardes a Washington D. diz que “(. (. O que se pretendeu foi justamente o impacto dessa inserção: de que se estava no centro dos fatos. É um velho tópico do discurso filosófico: a oposição feita por Platão entre o filósofo que dispõe de tempo e as pessoas que estão na ágora. Outro ponto interessante sobre a questão da atualidade.) É preciso notar que o rápido é sempre perigoso e pode facilmente levar a conseqüências desastrosas. Há diversas embreagens temporais.. o certo é que há um elo entre o pensamento e o tempo. Só que o presente – o beijar e o chorar – é um presente histórico. exatamente pela ausência de uma identificação sobre um “ao vivo”.enquanto um iraquiano beija a foto de Saddam Hussein. mais ou menos. (1997: 40). A mesma enunciação que remete ao presente nos informa.C.. o outro chora.

Uma estratégia notável. é fundamental para compreensão dos interesses. o acesso à ideologia não está apenas na análise do conteúdo. como o close-up citado. cada notícia. Devemos notar. Em vez de falar do telejornalismo como um gênero televisual no qual é impossível a reflexão. reforça ou coíbe certos momentos de reflexão. quando o líder do Sem-terra fala da invasão. O estudo das chamadas estratégias sensíveis. as formas de percepção de valores e o tempo dos fragmentos. unidade 15) num bloco claramente “policial”. ou no comercial. Qualquer objeto que for focado pela câmera em detalhes imediatamente será entendido pelo público como “importante” para a trama. contudo. a montagem. Em cinema e TV. acreditamos que é mais relevante notar como cada programa. como mostramos 212 . em última instância. é sinônimo de cortar. o ritmo de cortes mostra o investimento na dimensão afetiva. mas principalmente nesse tipo de objeto. Entretanto. um tipo de sucessão de tomadas tão diverso e intenso que o público só consegue. pelo seu aspecto ideológico. A montagem. mas também na maneira de apresentá-lo. já se está em outra notícia. que o JN cede tempo para o telespectador. o espectador não tem muito tempo para “encaixar” o que vê e ouve ao seu código de valores na maioria das vezes. na maior parte dos momentos. por exemplo. manipulados pelo enunciador e decodificados facilmente pelos enunciatários. o ato editar. de acordo com os interesses ideológicos do enunciador. não só no telejornalismo. E pode-se cortar qualquer coisa: de planos a pedaços de narrativas. Em objetos de textualização complexa. esse contato é sobredeterminado pelo tempo de duração desse fragmento. entretanto. por fim. é colocar a matéria da invasão dos Sem-terra (Tabela 2. É importante novamente ressaltar que as relações entre plano de conteúdo e plano de expressão se apóiam numa série de efeitos de sentido cristalizados. controlam o contato do público com os fragmentos e os conteúdos e têm a missão de também administrar como o público deve se sentir e reagir. A montagem do Jornal Nacional cria um ritmo.Sem esquecer outros recursos. vivenciar impactos afetivos. evidenciando ou desvalorizando certos aspectos do discurso. define as relações entre unidades. ou seja. No Jornal Nacional. podemos dizer que câmera e edição. depois de uma “longa” reportagem sobre a morte do traficante Marcinho VP e a invasão de um terreno na cidade de São Bernardo que foi palco do assassinato de um fotógrafo. Quando tenta elaborar determinado estímulo. de criação de paixões e o grau de inteligibilidade do assunto quando lhe interessa. Em outras palavras. Deixamos para o final do trabalho uma questão importante: com o manejo dos planos de câmera e da montagem manipula-se o tempo que o público precisa para pensar e dar ordem aos estímulos. valores e objetivos do enunciador para persuadir e manipular o enunciatário.

que o impacto da captura do ex-ditador entre os árabes passa em ritmo frenético. ao desacelerar. Vale notar. Não podemos esquecer que a prisão de Saddam não deixa de ser o momento de comemoração de vitória de Bush. principalmente quando se apresenta a reação negativa de palestinos. É dele ainda a palavra final e quase conclusiva. o plano da “justa medida”. tem clara função de valor no plano de conteúdo.111 111 É evidente que se trata de um dado dessa matéria específica. o que o valoriza do ponto de vista inteligível. interessa ao enunciador que o enunciatário elabore os dados da história. 213 . Em outras palavras. que misturam povos e questões. a cessão de tempo. e aparece depois da rememoração dos crimes de Saddam. aparece em um quarto do tempo da matéria. iraquianos. no plano de expressão. ao dar um efeito de “presença” justamente a Bush e a sua fala “civilizada”. Seu tom de voz é cortês. O pronunciamento de Bush é mais desacelerado. se o JN cedeu tanto tempo para a fala de Bush. está claramente valorizando o discurso do presidente dos Estados Unidos e sua posição ideológica. Na mesma matéria. Nesses momentos.anteriormente. ao contrário. Ou à enunciação do presidente Bush ao comentar a prisão de Saddam Hussein. Bush é filmado em plano próximo. da performance vitoriosa do exército dos Estados Unidos na captura do ex-ditador. tudo sem porta-voz. é porque o discurso deve ser entendido como o mais importante da matéria. do diálogo. É possível afirmar que a matéria. não uma posição que queremos imputar ao JN em relação à guerra dos EUA no Iraque. isso sem contar o que os jornalistas comentam sobre ele. No fluxo televisivo. A figura de Bush. o JN trata o mundo árabe em gravações e cenas carregadas de emocionalismos e destruição. quem assiste ao programa entende que. na matéria sobre Saddam. mesmo com os questionamentos dos correspondentes.

que estão num patamar um pouco acima da sociedade como um todo. O diretor de Redação da Folha de São Paulo. Os dois meios de comunicação foram colocados em um único item em função de diversas semelhanças. no entanto. principalmente a forma de textualização baseada no manejo do espaço do plano de expressão. Otávio Frias Filho. em diversos aspectos. como ponto de partida para reflexões de maior alcance. diz que “o consumidor da mercadoria jornal é um indivíduo que tem certas expectativas e certas exigências em termos intelectuais. Nos estudos mais específicos de construção textual. a chamada mídia impressa. os chamados formadores de opinião. e para permitir algumas comparações com os outros noticiários também examinados neste trabalho. Como não poderia deixar de ser. É um fato. tomada. não há o que discutir.JORNALISMO IMPRESSO Nesta parte do trabalho. Para o estudo dos diários. verificaremos como foi feita a cobertura da prisão de Saddam Hussein pela Folha e pela Veja. que já se cristalizou há 50 anos essa distinção entre aquele que é o veículo de 214 . um levantamento minucioso das diferenças entre as publicações. As reflexões sobre a significação nas revistas têm como objeto a Veja. Em alguns momentos. Faremos. a base é a Folha de São Paulo. este capítulo é o que mais tem amparo nas idéias de nossa dissertação de mestrado sobre o semanário de informação da editora Abril. é analisada a produção de sentido dos diários e revistas. citaremos outras publicações para enriquecer a discussão. Considerações gerais – Folha de São Paulo e revista Veja Proprietários de jornais e revistas afirmam que seus produtos são para a “elite”.

informação de massa. Marcelo Beraba. Como em 2003 tivera uma média de 315 mil exemplares diários. 95. a venda dos grandes jornais. terminou 2004 com 233 mil.Paulo explica por que o interesse jornalístico pela ciência tende a aumentar “ . O ombudsman da Folha. Terminou o ano passado com uma média de 308 mil.”114 E qual a razão da crise. 113 “O futuro dos grandes”.último acesso em maio/2005. Disponível no endereço: http://www. coluna do ombudsman.000 exemplares por dia. A6.”113 Na mesma coluna. mostrou que os maiores diários do País enfrentavam quedas de tiragem sem interrupção desde 1996: “Em 1995. encerrou 2004 com uma média de 257 mil. revista Fapesp.112 Nos últimos anos. O jornal do Rio. ed. os jornais só perdem em credibilidade para os médicos (85%) e as Forças Armadas (75%) e estão mais bem posicionados que dois de seus concorrentes diretos. e foi o único. Numa relação de 17 instituições e profissões avaliadas. 215 . Beraba culpa a concorrência principalmente com sites. então? Em artigo sobre a renovação de seu mandato. Se tomamos por base o ano 2000. o rádio (64%) e a televisão (61%). 13/03/2005. que é o jornal”. o próprio Marcelo Beraba. na mesma coluna. janeiro de 2004. 114 “A confiança dos leitores”.Mariluce Moura. em março de 2005.br/entrevistas/otavio/entreotavio1. está 112 Trecho de entrevista – “Uma porta de entrada para novos leitores de jornal . Em relação a 2003. Marcelo Beraba. vive um período de crise de definição. que naquele mesmo longínquo 1995 chegou a vender 412 mil exemplares por dia.3%. a televisão. a queda em um ano foi de 2. 5/06/2005. e o veículo de informação do conjunto das elites. diz que a confiança dos diários é imensa no Brasil: “É uma surpresa para mim que a credibilidade dos jornais brasileiros esteja em alta.masteremjornalismo.htm . ele arrisca um palpite para a queda nas vendas: “Um dos pontos que as empresas e os jornalistas têm de se perguntar é se a desconfiança não é um dos fatores que estão corroendo a credibilidade e. teve um crescimento pífio de 4. diante da grande concorrência com outros meios mais ágeis. A imprensa está em mutação.” No entanto. Os desempenhos do "Estado" e do "Globo" não são muito diferentes. três meses depois. por tabela. que no seu auge alcançou 385 mil exemplares. coluna do ombudsman. 10 mil a menos do que no ano anterior. os três jornais perderam juntos 31%. essa mesma elite tem preferido revistas aos diários. O "Estado". Marcelo Beraba. e principalmente a imprensa escrita. Folha de São Paulo. rádio e TV: “Acho que a imprensa em geral. Folha de São Paulo. Pesquisa nacional realizada pelo Ibope em maio mostra que a confiança que a população tem nos diários subiu de 65% em setembro de 2003 para 74% no mês passado. a Folha chegou a vender uma média diária de 606 mil exemplares.O diretor de redação da Folha de S. A8.org.

”116 Organização textual: efeitos do projeto gráfico e da diagramação O estudo das especificidades de diários e revistas tem como ponto de partida o exame da administração de elementos no suporte de papel que mostra como funciona. nos impressos. sustentação e fidelização da atenção dos leitores. como saúde. A6.117 Qualquer leitor que toma contato com diversos números de uma mesma publicação nota certas recorrências na maneira de as unidades noticiosas serem apresentadas. o caminho do sensível ao inteligível. como a política e a economia. Folha de São Paulo. finanças. foram trocando o noticiário pesado dos assuntos públicos. Aos poucos. “O Zahir”. as capas com Paulo Coelho até que são coerentes. como deve ser o posicionamento de fotos e outros elementos. tipos e características de letras a serem utilizados na manifestação do verbal. diversos jornalistas. Época. por seções mais leves e temas relativos à vida das pessoas. crenças.”115 As revistas semanais. cada número de um jornal ou de uma revista é diferente de outro no aspecto visual. tiveram uma circulação semanal em 2004 de quase 2 milhões de exemplares. É o caso do uso das cores ou tipos gráficos. as estratégias de arrebatamento. Marcelo Beraba. Isto é e Veja deram capa para o novo livro de Paulo Coelho. 116 “Três vezes Paulo Coelho”. nem sempre interessados em discutir as produções de uma perspectiva teórica.vivendo uma mudança e não tem ainda uma clareza do tipo de modelo que deve adotar. A6. 27/03/05. pesquisadores e teóricos do jornalismo parecem não valorizar os efeitos dos projetos gráficos nos seus estudos. que aparecem na forma de receitas do gênero “vermelho significa paixão” e “Times New Roman é uma letra que sugere seriedade”. reportagem local (sem identificação de autor). 117 O manejo de suportes. os efeitos de projetos gráficos e de diagramação remetem aos trabalhos de profissionais ligados ao design. 24/04/2005. capitaneadas pela Veja. que define com alguma rigidez a quantidade de colunas em cada página. coluna do ombudsman. o gerenciamento do nível de atenção. 216 . Folha de São Paulo. Isso acontece porque o material 115 “Ombudsman tem mandato renovado por mais um ano”. Tentaremos uma abordagem mais integral. Marcelo Beraba viu na coincidência uma das razões para o sucesso das publicações: “As revistas mudaram muito nos últimos anos. Por outro lado. As celebridades têm espaço valorizado. Nesta perspectiva. Ao mesmo tempo. comportamento. Em meados de março. Essa estratégia vem dando certo sob o ponto de vista comercial. por exemplo. geralmente ecoando padrões culturais da moda. Isso acontece porque jornais e revistas têm um projeto gráfico. em que parte da publicação certos assuntos deverão ser tratados. tanto que as três revistas tiveram crescimento em relação a 2003. Alguns designers apresentam listas de significações rígidas para a confecção de projetos gráficos.

em termos gerais. A execução do projeto gráfico. Editar é textualizar (relacionar um plano de expressão com um plano de conteúdo). 217 . organizar e manifestar gráfica e plasticamente as unidades noticiosas a partir das necessidades da edição (aqui como ato ou efeito de editar).118 A organização espacial executada pela diagramação expõe uma série de regras que mostram como essas publicações valorizam e diferenciam as unidades noticiosas e como dirigem a percepção dos leitores para que realizem essa mesma operação de reconhecimento da importância das notícias. sobre a organização textual. o conjunto de normas e recomendações que norteiam o trabalho dos jornalistas.119 118 Dos jornais estudados. A edição. contudo. Serve. como aplicação cotidiana das diretrizes do projeto gráfico. por exemplo. Na tabela a seguir. tem funções importantes para o processo industrial de confecção de um jornal. 119 Devemos relembrar. somente a Folha de São Paulo torna público seu projeto editorial por meio de seu Manual de Redação. acontece por meio da diagramação.que chega às redações e o modo de organizá-lo sempre variam. para facilitar e agilizar os fechamentos das edições ao padronizar rotinas e modos de operacionalização dos editores. mas de produção. Outra importante contribuição é criar uma distinção clara entre a parte jornalística e a dos anúncios. sua aplicação e adaptação ao cotidiano de produção de um diário ou de uma revista. Como já comentamos no item III. a edição (como ação) é entendida como estratégia global de enunciação. adequar o projeto gráfico às necessidades do dia-a-dia do jornal. Diagramar é. É preciso. por sua vez. ou seja. A diagramação. apontamos as principais funções da organização textual administrada pela diagramação e como se relacionam com as três estratégias de gerenciamento do nível de atenção. que o formato de um noticiário não é conseqüência somente de coerções de consumo. portanto. está atrelada ao projeto editorial do jornal.

posição e forma (ou semioticamente falando. Estratégia de gerenciamento da atenção mobilizada Estratégia de arrebatamento – As iscas estão relacionadas à criação de descontinuidades do plano de expressão com a função de obter o primeiro engajamento perceptivo do leitor. maneiras rotineiras de valorizar ou desvalorizar conteúdos que criam um código comum entre enunciador e enunciatário. A tarefa do diagramador. Ou seja. topológicas e eidéticas). A identidade visual. que se ligam às curiosidades despertadas pelos conteúdos das próprias notícias. Em outras palavras. Ele é persuadido. por causa da ocupação espacial. Uma comparação entre jornais de um certo intervalo de tempo já dá indicações importantes dos sentidos manejados pela diagramação e partilhados entre veículos e 120 As iscas da diagramação são de ordem gráfica e se relacionam com as estratégias de arrebatamento. entre outras possibilidades. O enunciatário consegue identificar. inicialmente. passagem do sensível para o inteligível. a função da diagramação é a de permitir que a importância desses conteúdos se torne visualmente evidente e chamativa por meio da ocupação espacial. 4 . Em outras palavras. com o tempo. Não devem ser confundidas com as estratégias de sustentação. bonita.estratégias de ordem sensível. pela forma de apresentação do jornal. é tornar elementos das unidades noticiosas (caso de um título. como veremos depois. O espaço é manipulado para se obter maior ou menor nível de atenção e a correspondente tensão do leitor. é preciso leitura. por conhecer o lugar onde é colocada. uma foto cuja cor crie contraste com o fundo branco.120 2 . Essa familiaridade em relação ao suporte gráficoplástico é produto do uso contínuo das mesmas famílias de letras. (Vale lembrar ainda que a “passionalização” do leitor é função principalmente dos conteúdos. uma legenda. o leitor pode transitar facilmente pela publicação e parar somente onde achar necessário. na repetição de determinados padrões. Concebe espacialmente uma unidade noticiosa para que tenha pontos de atração de curiosidade. como um título com um corpo de letra maior em relação a outro. a partir das coerções do projeto gráfico. de que pode se informar de maneira rápida e eficiente. uma matéria) visualmente atraentes por meio do manejo da cor.) Estratégia de fidelização – Nasce do contato rotineiro com diferentes edições e da satisfação de saber obter o que se quer com facilidade. 5 .Buscar construir uma publicação atraente. o que facilita cada vez mais a obtenção da informação buscada pelo enunciatário. notas com grandes matérias. que alie a beleza ao caráter prático exigido pelo leitor. certos modos de ocupação de espaços e divisões. por exemplo. entre outros procedimentos. com o tempo saberá rapidamente como conseguir essa informação. necessário. A diagramação deve manejar assim um ritmo.Criar iscas para o olhar. bonito. Estratégia de sustentação – Há aqui uma mobilização mais passional do leitor.Criar um sentido de identidade ao material. uma administração de categorias cromáticas.Fazer-crer em uma fácil legibilidade. A prisão de Saddam Hussein determinou na Veja e na Folha de São Paulo uma grande ocupação espacial. Nesse sentido. Jornais e revistas apresentam-se como um tipo de objeto prático. “indispensável” ou que “não dá pra não ler”.Instaurar uma comunicação de valores instantânea. também gera sentido de familiaridade. portanto. Nos textos mais longos. São. se o leitor precisa ver a cotação da bolsa. completa. dosando. 218 . o tipo de valorização de uma unidade noticiosa. o que significa passar a sensação ao leitor de que ele pode ter acesso rápido a tudo o que interessa saber (o que é “importante”) na edição inteira. uma foto. divide o material para não cansar o leitor. 3.Funções da organização textual 1 . Pressupõe contatos anteriores bem-sucedidos.

Atentemos ao espaço preenchido pelo título do bloco de manchete principal: 219 . Vejamos essa seqüência de primeiras páginas da Folha de São Paulo de 10 a 21 de dezembro de 2003.leitores.

destacando-o por meio de um título com um corpo de letra mais proeminente. a Folha de São Paulo “comunica” qual é o seu assunto principal. com nitidez. que toma o maior espaço. Uma comparação entre as edições mostra que o jornal também dá pesos diferentes para alguns blocos de manchete. Duas reportagens expõem os limites dessa estratégia: a da captura de Saddam Hussein. entre outros recursos. assinalados em amarelo: 220 . uma variação de ocupação espacial. Percebemos.Em todas as primeiras páginas. que recebeu o menor destaque entre as primeiras páginas. e a do afastamento de dois juízes na Operação Anaconda. Comparemos a seguir a ocupação espacial desses dois assuntos.

interesse. comunicam a existência de uma manchete “fraca” e de uma manchete “forte”. Deve-se observar a variação do corpo de letra dos títulos. também recebem destaque. ao plano de conteúdo. Existe um contrato pressuposto entre leitor e jornal para que os assuntos abordados apareçam hierarquizados por ordem de importância. ineditismo. que também se relaciona com a ocupação espacial. Na comparação entre edições. por meio da aspectualização do espaço da página (criação de continuidades ou descontinuidades). Analisaremos agora com mais profundidade como são homologados esses valores a 221 . Nos exemplos citados. o que o leitor pode esperar da notícia no plano de conteúdo. A diagramação está informando. o que é mais relevante e tem maior valor como informação. As fotos de Saddam. atualidade. entre outros. sem segmentação. com cerca de 40 toques. por meio das diferentes maneiras de ocupação espacial de uma unidade noticiosa. principalmente a que o apresenta quase como um mendigo. Os dois casos parecem indicar dois extremos na maneira de manifestar as manchetes principais. A maioria dos títulos de manchetes tem seis colunas. no plano de expressão. de maneira distinta. a principal notícia do jornal. A administração dos espaços está atrelada a conceitos. “Traduz”. para um reconhecimento imediato. os recursos também valorizam. o seu valor ou importância em termos de impacto. A manchete menor conta apenas com um infográfico.A diferença é muito acentuada. E essa hierarquização é mostrada visualmente. O de Saddam é o maior entre as primeiras páginas comparadas.

Montanhas obtêm seu drama dos vales. The best setting for excitement is a styling that creates a climate of normalness. but what about situations that demand special handling? Those Special Reports and extra-exciting articles or issues? Paradoxically. O diretor de arte Jan V. Três outras leis são válidas para todas as formas de noticiários impressos: No original. já que o excitamento existe somente em função do contraste. of course) may be all very well. de descontinuidades. como o manejo das relações topológicas do plano de expressão dos diários e das revistas (categoria maior espaço ocupado x menor espaço ocupado) relaciona-se ao valor e ao potencial de atenção de uma notícia. Em outras palavras. Todo o processo desdobra-se em outros semisimbolismos. detalharemos o item 3 do gráfico anterior sobre funções da diagramação e do projeto gráfico (“instaurar uma comunicação de valores instantânea”).”121 Na comparação entre os blocos de manchetes. White. de que a significação emerge a partir de diferenças. “Paradoxalmente. That is why flamboyance in layout succeeds only when it is presented in the context of nonflamboyance. Se a excitação é tentada em toda a parte. for excitement exists only in contrast.uma unidade noticiosa. pudemos observar que a manipulação do espaço do jornal é uma forma de administrar a atenção do leitor. ao apresentar estudos e técnicas sobre projetos gráficos de publicações impressas. normalness (of a distinctive kind. Fica mais evidente. No nosso trabalho sobre a revista Veja (Hernandes.” 121 222 . 2004: 53). O exemplo explorado até agora se relaciona à primeira lei. para transmitir excitação. é preciso haver primeiramente enfado. If excitement is attempted everywhere. to convey excitement. parágrafo completo: “Now. O autor diz que é preciso criar uma espécie de sensação gráfica de “normalidade” para justamente poder valorizar momentos especiais. isso resulta numa frenética confusão (uma babel visual). agora. Mountains get their drama from valleys. apresentamos quatro “leis” de diagramação. Isso responde por que a extravagância em um projeto só tem sucesso quando é apresentada em um contexto que não é extravagante. frenetic confusion (a visual babel) results. one has to have dullness first. O raciocínio também é válido para as revistas. faz uma observação que serve para entender as técnicas utilizadas pela Folha e reforça um conceito básico de semiótica.

infográficos em uma ou mais páginas. Essa lei leva à colocação das principais informações e dos elementos de mais impacto sempre no começo. Quarta lei: o início de uma unidade noticiosa é o espaço mais valorizado. Por exemplo. da esquerda para a direita. ao integrar títulos. como pode parecer. Categorias topológicas de expressão Maior área ocupada x menor área ocupada Correspondência no plano de conteúdo Parte de cima x parte de baixo Maior potencial de atenção x menor potencial de atenção Exterior x interior Inicial x final Devemos lembrar também que as leis de diagramação que citamos estão baseadas na maneira de um ocidental ler um texto verbal: uma seqüência de começo. Dessa maneira. somos comunicados de que as imagens estão sendo mais valorizadas. A diagramação de jornais e revistas. Isso dá. da parte de cima para a parte de baixo. expõem a existência de hierarquias internas e externas de 223 . legendas. há um encaixe sem sobras. Terceira lei: a máxima valorização espacial de uma revista ou diário acontece na capa ou na primeira página. sem espaços em branco na maior parte da área normalmente utilizável das páginas (conhecida por mancha gráfica). permitem visualizar as hierarquias e “leis” expostas. Módulos. Os módulos interessam ao trabalho por diversos motivos. portanto. se as fotos ocupam mais espaço. a sensação de que o jornal apresenta os assuntos na forma de “blocos” encaixados. A lei é válida tanto para a relação entre unidades noticiosas numa mesma página (ou conjunto de páginas) quanto para elementos de uma única unidade noticiosa. ao leitor. Nesse espaço. Segunda lei: tudo o que estiver na parte de cima tem mais valor do que na parte de baixo. Dar mais espaço valoriza. há raros casos em que há um bloco maior no meio da página do que em cima. Diagramar é. em quadrados ou retângulos maiores. Existem outras formas de diagramar publicações com diferentes efeitos. literalmente. encaixar elementos pertencentes a um assunto dentro de um módulo e relacioná-lo ou separá-lo de outros. matérias. o enunciador informa o assunto ou assuntos que considera mais importantes na edição. dá a quase todos esses elementos uma forma quadrada ou retangular. a primeira lei prevalece. Nos diários. fotos. A lei também vale para os elementos. meio e fim. já que são meios de organização espacial dos elementos. Dar menos espaço desvaloriza. Esses elementos quadrados e retangulares quase sempre aparecem meticulosamente reunidos em “módulos”. E que não se trata de algo “natural”. Inicialmente. Nessa situação. Cada página é um módulo formado por outros módulos menores.Estratégia do plano de expressão Primeira lei: o valor de uma unidade noticiosa é proporcional ao espaço a ela concedido.

apresenta sua própria “notícia principal”. a apresentação conjunta de fotos. A matéria principal sobre Oliveira é seguida de outras três. ou seja. matéria. e uma panorâmica (nome que a Folha dá a uma parte com notas de assuntos diversos. no qual se vê Pelé. torna rentável para a análise observar a categoria de expressão englobante x englobado. Todo jornal (e uma revista também) é constituído por esses módulos. Para esclarecer esse funcionamento.unidades. que é mascote da Copa do Mundo 2006. visualmente agrupadas em um bloco. realçada em roxo. gráfico. que fazem com que as unidades noticiosas apareçam na forma de blocos. Essa organização guia a atenção do leitor e informa o valor das notícias na visão do 224 . por sua vez. destacada em rosa. vejamos esse exemplo de uma página de abertura do caderno de esporte da Folha de 22 de março de 2005 (D1): Podemos notar que há somente dois blocos de textos: a matéria sobre a saída do técnico do Santos. título) dentro de um único tema. A panorâmica. Beckenbauer e um leão. que vai variar dependendo do recorte que se faça: da edição inteira a uma nota. além do infográfico “O Santos em números”. A modulação de unidades (ou seja. Os diferentes elementos das notícias aparecerem hierarquizados pelos módulos. mas sobre um mesmo tema). tem uma hierarquia interna. Cada uma dessas divisões admite outras.

Maior o bloco. por exemplo. 122 Participamos de várias discussões sobre sincretismo em jornais e revistas com um tema recorrente. A disposição de elementos facilmente reconhecíveis e separáveis. a gráfico-plástica. suporte e a atualidade da notícia Ao contrário do rádio e da TV. facilmente reconhecíveis pelo enunciatário. meios de comunicação impressos têm um ordenamento muito rígido de blocos de assuntos. dava margem ao que consideramos uma falsa polêmica: a de não se poder falar em “todo de sentido” nos impressos. cria-se a idéia de um todo de sentido.uol. assim. em si mesmo.br/folha/conheca/projetos-1988-4. As leis de diagramação podem ser pensadas também como prescrições de como montar os módulos. colunas fixas. as coerções do projeto gráfico mostram que o enunciador maneja grupos de elementos determinando relações espaciais muito claras entre unidades e elementos. típica dos impressos. 17 de outubro de 2004.123 Além disso. na forma de editorias.uol. Divisões do jornal. seções. no caso dos diários. que visava “a facilitar a leitura e tornar mais atraente o cardápio diário de informações” (A10).shtml . 225 . maior a importância da notícia.acessado em março de 2005.com. 123 No Jornal Nacional. Disponível em http://www1. Os módulos produzidos pela diagramação dão pistas importantes sobre o funcionamento do sincretismo nos impressos. há uma explicação para o projeto gráfico ter tantas divisões: “Segmentamos o jornal em cadernos e suplementos. dos editoriais e da primeira página. É o módulo que faz o papel sincretizador mais importante. há suplementos.disponível no endereço: http://www1.folha. um dispositivo de sincretização manejado pelo diagramador. títulos. no caderno Mundo.último acesso em março de 2005. 124 O Projeto Editorial Folha é “uma série de documentos que o jornal começou a divulgar a partir de 1981 visando ordenar seus procedimentos e estabelecer suas prioridades editoriais” – In “Jornalismo em tempos de crise” – Fernando de Barros e Silva – um dos textos que discute os 80 anos da Folha de São Paulo. principalmente dos diários. mesmo com todo o destaque. esse assunto só poderia aparecer. Cada módulo é. Esse ordenamento não se altera com a importância da notícia. 125 Texto “Segmentação ou riqueza de detalhes” – sem autor . Na Folha. as citadas leis de diagramação. É nesse sentido que falamos em rigidez.”125 Vamos agora analisar e verificar os efeitos dessa “organização da leitura” na Folha e na Veja. de modo a organizar psicologicamente a leitura e atrair novas frações do leitorado.enunciador. Dentro de um módulo. edições especiais e.com.122 Cada módulo submete diferentes elementos (fotos.folha. a prisão de Saddam ocupou um quarto do programa e apareceu logo no início. e que vem necessariamente antes da editoria Brasil. diferentes unidades são relacionadas espacialmente e. o de impor a inter-relação espacial entre elementos. gráficos) a uma única forma semiótica. O padrão modular de um jornal ou revista para o grande público.shtml . até mesmo o encarte de revistas. Nas justificativas para mudanças do Projeto Editorial124 1988-1989. e força o olhar do leitor a relacioná-los visualmente. já que cada leitor faz o recorte que deseja. Praticamente as mesmas razões são invocadas pelo jornal O Estado de São Paulo para justificar sua mudança de projeto gráfico a partir de domingo. dedicado aos assuntos internacionais.br/folha/80anos/futuro. da Folha de São Paulo.

”126 Além do ciclo de 24 horas.O diretor de redação da Folha de S. mais suplementos. O título foi “Drauzio defende aborto legal para que deixe de ser matéria ‘de marginal’”. a mais vendida. janeiro de 2004 – autoria de Mariluce Moura. Vejamos como o jornal se apresenta: Trecho da entrevista “Uma porta de entrada para novos leitores de jornal . que é encartado no jornal toda última terçafeira do mês. mensal. Na quarta-feira. Entendemos que é esse ritmo de 24 horas e não o suporte . inassimilável de informação. tem o maior número de páginas. continua e continuará havendo a demanda por um panorama noticioso que reflita o que aconteceu de essencial nas últimas 24 horas. no entanto.Folha de São Paulo . que reúne os assuntos mais analíticos. no mesmo caderno Cotidiano.Comecemos pelo diário. Uma página inteira foi editada sob o título: “Drauzio não vê sentido em lei próeutanásia. cadernos. a Folha descreveu em poucas linhas as “sabatinas”. com os detalhes das considerações do médico e escritor Drauzio Varella só foi publicada no domingo seguinte. 23 de março de 2005. Isso gera situações curiosas. semanal. Sessões. Sua pequena importância editorial não justifica. a edição de domingo. marcado por um ápice. cadernos especiais e revistas se repetem dentro desse segundo período.” 126 226 . O diretor de redação da Folha de São Paulo. 127 O leitor de domingo é pensado como alguém que tem mais tempo para ler e merece “o melhor”. dia 27. por parte de um contingente grande de pessoas.127 Na Folha. pensar em um terceiro ciclo. revistas. Cada número da Folha apresenta unidades noticiosas organizadas a partir de dois tipos básicos de intervalos de tempo. há ainda um suplemento mensal.que define o jornal. afirma que esse período define inclusive o tipo de jornalismo realizado: “Na Folha fazemos uma análise de que. Otávio Frias Filho. com níveis de credibilidade muito díspares. uma palestra organizada pelo próprio jornal. preocupado com o futuro do jornal diante de novas tecnologias de informação.que pode ser tanto o papel quanto a tela . O primeiro e mais evidente é o de 24 horas. A reportagem completa sobre o mesmo evento. existe um outro. Consideramos que essa necessidade até se acentua. na medida em que existe uma oferta muito grande. Paulo explica por que o interesse jornalístico pela ciência tende a aumentar” – Revista da Fapesp – edição 95. o Sinapse.

que nele encontram análises sobre os últimos acontecimentos. Bárbara Gancia. encartado na Folha de 8 de março de 2005. Mundo Ciência Notícias científicas Notícias econômicas. com Gilberto Dimenstein. na quinta. inclui Painel (notas) e Toda Mídia (análise de Nelson de Sá). português. Esportes. Ilustrada. Além das manchetes. Revista da Folha. 129 Todas as informações dessa parte da tabela constam do site do jornal “Conheça a Folha” – (http://www1. Além de notícias nacionais. com especial atenção para o didatismo e para o uso de recursos visuais na explicação de assuntos complexos. coluna de Gilberto Dimenstein. concentra sua cobertura na capital paulista.último acesso em março 2005) – links Cadernos diários e Suplementos. Não vamos tratar aqui dos cadernos e revistas especiais. É. Uma vez por semana. Procura prestar serviço ao leitor sobre temas como direito do consumidor. A seção Opinião Econômica tem como objetivo manter o pluralismo de opiniões. Há 50 anos. Com informações precisas. linguagem clara e elucidativa. Letras Jurídicas. Élio Gaspari. Cotidiano Oferece ao leitor informações úteis ao seu dia-a-dia nas áreas de segurança. Notícias sobre as últimas descobertas e pesquisas mais recentes e importantes no Brasil e no mundo. saúde. brasileira e internacional. um instrumento fundamental para os formadores de opinião. 227 . Câmbio. a edição paulista traz informações sobre tempo no Estado e rodízio de automóveis. Opinião Econômica. colunistas. Procura oferecer ao leitor informações pluralistas e apartidárias. Esses cadernos são resultado da divisão espacial e do trabalho conjunto das diversas editorias da Folha de São Paulo: Brasil. Loterias. Notícias locais. Falências. o caderno orienta quanto a investimentos. Acompanhe seus Fundos. Tendências/Debates. No domingo. no sábado. Cidade é Sua. a editoria se dedica à vida política. coluna de Moacyr Scliar. com Pasquale Cipro Neto. Painel do Leitor. Notícias Internacionais. inclui página sobre saúde. Mais!. Folhinha. na sexta. Tudo. TV Folha. Erramos. ao mesmo tempo. Dinheiro Folha Mundo publica diariamente as principais notícias internacionais. Ciência. com Walter Cenevida. Mundo. Imóveis. Dinheiro. Veículos.uol. na quarta. Regionais. Informática. inclui coluna do ombudsman.com. Atmosfera. Tem colunas de Jânio de Freitas. O leitor também tem acesso ao que é publicado nos mais influentes meios de comunicação do planeta. Cotidiano. Turismo. 128 Base Folha de São Paulo do primeiro trimestre de 2005. inclui “Entrevista da 2ª”. Urbanidade. institucional e aos movimentos sociais. Na edição São Paulo. no domingo. Na segunda. trânsito e meteorologia. Guia da Folha. traz indicadores econômicos e faz a cobertura de temas que mereçam atenção especial em função da conjuntura econômica. Empregos. educação e direito do consumidor. O que diz a própria Folha129 Primeira Página Opinião Brasil No primeiro caderno da Folha. Mercado Aberto. e o mundo dos negócios são o principal alvo do caderno Folha Dinheiro.FOLHA DE SÃO PAULO – DIVISÃO Partes fixas – diárias – que aparecem em todas as edições128 Características Tem uma versão paulista e outra nacional.br/folha/conheca/ . para que ele exerça sua cidadania. como o dedicado à mulher. Mortes. A conjuntura econômica. Arte. sempre acompanhadas de análises precisas e enfoque didático. coluna de Luís Nassif (exceto às segundas) – Agrofolha (às terças). Editoriais. Folhateen. Fotografia.folha. Traz diariamente notícias relativas às principais capitais do país.

coluna de Mônica Bergamo. + poema. Inclui roteiros de restaurantes. fotos e muito serviço. Era uma vez na América. região onde circula. o pessoal. Todo sábado. Variedades. É atualmente um dos cadernos mais lidos da Folha. Toda quinta. coluna de José Simão (exceto às segundas). Curtas cartas. o acadêmico. passatempos. Só circula na Grande São Paulo. família. Um caderno especial para os leitores que procuram literatura. Bárbara responde. Hardware. O caderno se dirige ao leitor que quer sempre conhecer mais. Aborda o tema de forma diferenciada.Esporte Notícias esportivas. Roteiro de lazer. Placas. Toda semana os adolescentes encontram no Folhateen os principais assuntos de seu interesse: música. Notícias sobre viagens. atualidades e consumo. Além de acompanhar os principais campeonatos. o caderno Mais! é referência internacional como caderno cultural. É uma revista semanal de moda. Na Grande São Paulo. Cultura e Variedades. Traz as últimas técnicas e terapias para quem quer viver mais e melhor. além de seções. além de dicas precisas sobre cuidados com o corpo e a mente. na análise esportiva. Único suplemento mensal – circula na última terça-feira do mês. Um caderno dedicado à busca da saúde e da qualidade de vida. Seus colunistas garantem análise. concertos. marketing. Os dez +. Cada dia tem um colunista ou ensaísta na última página. Toda quinta. Coluna de José Geraldo Couto. além de seus personagens preferidos. Lançamentos. O Folha Turismo traz os principais destinos do Brasil e do mundo com coberturas exclusivas. Informática Toda quarta. cultura. Internet.Todo sábado. O Folha Informática auxilia os leitores a entender e a usar melhor a Internet e os computadores. shows. a Ilustrada fala sobre discos. teatro. quadrinhos com Hugo. cadernos e revistas exclusivos do final de semana Mais Revista da Folha 228 . Cruzadas. + cinema . quadrinhos. gastar menos. filosofia e artes. casas noturnas e dicas para as crianças. Cartas. Meu Sábado. guia de programação da região. Procura orientar o leitor para comprar melhor. Televisão. gastronomia e muito mais. cinema. Comida. videogames. ensino. sociologia. Programação de TV.log. Plural. Ilustrada Suplementos durante a semana Folhateen Notícias para adolescentes. dirige-se tanto ao leitor iniciante quanto ao mais experiente. comportamento. Notas. Palavras Cruzadas. preparadas pelo Datafolha. a Folhinha publica reportagens e fotos em sintonia com os interesses das crianças. Inclui Astrologia. Equilíbrio Suplemento de saúde. Com linguagem simplificada e objetiva. decoração. exposições. Turismo Folhinha Sinapse Guia da Folha Suplementos. Painel FC. Ponto de fuga . Filmes. bares. sexo e saúde. É Grátis. ganhar tempo e obter melhores resultados ao navegar na internet. passeios. Criado em março de 97 o Guia cobre a programação de cultura e entretenimento da Grande São Paulo. sexo e muito mais. brincadeiras e promoções. Crítica e ousada. Seções com quadros informativos e dicas de preços e lugares fazem deste caderno um roteiro útil para quem gosta de viajar. Foco no desenvolvimento profissional. humor e diversidade de pontos de vista. Colunistas especializados respondem às dúvidas e incentivam o adolescente a buscar informação. Foi o primeiro a usar estatísticas. A Folha Ilustrada traz a melhor cobertura do que há de mais original e relevante nas áreas de cultura e entretenimento. Quadrinhos. dança. + livros . Tem como grande diferencial a prestação de serviço. comportamento. O Folha Esporte trata o esporte como espetáculo e fenômeno empresarial. traz assuntos relacionados à política. Caderno cultural. Televisão. Úteis e fúteis. hospedagem. Saúde. Toda segunda. As reportagens e as seções procuram desfazer a fronteira entre o profissional. traz encartado o suplemento Acontece.P. F. legislação e moda. O foco do Folha Sinapse é o aprendizado contínuo. quadrinhos. Com autores e colunistas conceituados. Circula às sextas. Para crianças. O objetivo do novo caderno é dar ao leitor instrumentos para o leitor (sic) que não quer ficar para trás numa sociedade que cada vez mais exige capacidade de reciclagem e atualização.Jorge Coli Biblioteca básica. somente para a Grande S.

Além de testes. A conclusão da edição nacional acontece geralmente às 20h. Folha Construção Além de dicas sobre materiais e técnicas construtivas. o de Campinas. Feiras e Congressos. os setores em alta e a conjuntura econômica para que possa tomar decisões estratégicas precisas.Folha Veículos130 Inclui reportagens. Folha Construção. são temas do caderno comparativos entre vários modelos. Anos atrás. orienta sobre elaboração de currículo e processos de seleção. A segmentação rotineira do jornal ainda tem mais ramificações. Feiras e Congressos . Financiamento bancário à classe média. Maioria das páginas é de anúncios.e investimento em imóveis residenciais e comerciais. o jornal tinha mais cadernos regionais. mas também a todos que querem atualizar-se sobre assuntos desse mercado. acabamento e legislação. Folha Imóveis. Folha Imóveis Há ainda duas seções semanais sobre lançamentos e soluções para problemas da vida em condomínio. abrir o próprio empreendimento e crescer. o caderno engloba temas relacionados à decoração. A característica marcante de todos eles é apresentar notícias. Reportagens deixam o empreendedor bem atualizado sobre as tendências de mercado. fazer a manutenção e tirar as dúvidas a respeito dos automóveis. mercado de compra. O caderno Imóveis é voltado não somente para quem está à procura da casa própria. motocicletas. a tabela de preços publicada no caderno é a mais atualizada do mercado. Dá sugestões de aperfeiçoamento. O Folha Veículos é uma fonte de consulta para o leitor na hora de vender. A cargo do Datafolha. uma regional (Ribeirão Preto). Finanças. Três seções se revezam semanalmente: uma que dá dicas para reformas. e a da edição paulista às 23h15. em 14 de setembro de 2005. esses fechamentos distintos privilegiam principalmente a adequação da primeira página aos diferentes tipos de leitores. 229 . questões comportamentais. tabelas e anúncios. e a Nacional. legislação e novidades da indústria automobilística. outra com exemplos práticos de bricolagem e uma que vasculha produtos diferenciados nas lojas paulistanas de construção e decoração. Inclui reportagens. comparativos e tabelas. hidráulica. O caderno reúne reportagens e serviços direcionados aos profissionais que querem ampliar suas chances no mercado e aos que pretendem dar um impulso maior à carreira. cursos e bolsas de estudo. O caderno orienta quem quer entrar no mundo dos negócios. portanto. Seções internas como Gestão. 131 Informações prestadas por Aparecida Cordeiro. A maioria das páginas é de anúncios. Inclui reportagens. Para permitir que o leitor converse com os profissionais da área. além dos anúncios. indica oportunidades de emprego. há a preocupação de "traduzir" a linguagem técnica em temas como eletricidade. A crise financeira obrigou o jornal a fechar quase todas as redações locais.131 Na Folha de São Paulo existem também dois “fechamentos”. O jornal que os paulistas recebem. Finanças. comprar. Notícias sobre imóveis e reformas. Folha Empregos não devem ser confundidos com espaços ou páginas de anúncios comuns. A edição nacional deve parecer menos paulista. Tem páginas de anúncios. venda e locação. por exemplo. No entanto. secretária da redação da Folha. que aparecem durante a semana. O Cotidiano têm três versões: a paulista. pode ter notícia mais atualizada. produzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia. 130 Os cadernos Folha Veículos. como o da região do ABCD. o do Vale do Ribeira. legislação e tendências do setor são alguns dos temas apresentados. Empregos Folha Negócios Gestão.municiam o leitor de informações para administrar com eficiência.

de ciclo semanal. há destaque – com foto – para um encontro de maracatus em Pernambuco. essas duas páginas iniciais de 8 de fevereiro de 2005. o título era: “Escolas recorrem à nostalgia no 2° dia de desfiles no Rio”. por exemplo. A primeira é da edição nacional. O leitor paulista recebeu um jornal com notícias mais atuais. não é encontrada. a manchete comentava o 1° dia de desfile. Já a notícia “Teatros fazem revitalização da praça Roosevelt”. Inicialmente. Na prática. há dois suplementos regionais encadernados toda semana junto com a revista. os habitantes da Grande São Paulo e do Grande Rio recebem duas revistas. A diferença entre os fechamentos das edições resultou. com maior poder de despertar a atenção. A segunda. da edição paulista: Na edição nacional. portanto.Comparemos. Veja apresenta edições 230 . Na versão de São Paulo. nesse dia. Veja – a revista da editora Abril. a Veja São Paulo e a Veja Rio. da edição paulista. tem uma estrutura menor. Periodicamente. Na edição paulista. Na edição nacional. vale notar o destaque maior para o Carnaval carioca. em efeitos de atualidade diferentes.

comportamento. que pode ser de Walcyr Carrasco ou de Ivan Ângelo. Internacional. homens. como a página de humor de Millôr Fernandes. para os leitores dos grandes centros paulistas ou fluminenses. filmes. além do Roteiro da Semana. Economia e Negócios. Holofote. bares. os comentários de Diogo Mainardi. Os jornalistas André Petry e Tales Alvarenga também têm espaços exclusivos.134 Inicialmente. Veja Fortaleza. como Veja Nordeste. Veja Recomenda. ecologia e saúde e edições regionais que não têm periodicidade definida. consideramos que a base impressa da revista ainda se sobrepõe e comanda as outras formas de interação com o público-alvo. e a seção Ponto de Vista. A última página é reservada a uma crônica. tecnologia. Veja Recife. o leitor encontra outras 20 páginas de reportagens – quase todas reservadas a consumo. jovens. Os livros mais vendidos. mulheres. Datas. exposições. Há efeitos de proximidade. Veja Goiânia. conhecer trailer de filmes por meio de consulta ao site Veja On-line. Há sempre uma entrevista em páginas amarelas. Lya Luft. ver mais imagens. Neste trabalho. A edição de papel coloca à disposição dos leitores a possibilidade de saber mais de um assunto. Veja Porto Alegre.com.especiais sobre crianças. peças de teatro. É o caso da adaptação dos formatos às necessidades regionais.abril. que tanto pode dizer a uma futura mãe o que ela pode ou não fazer para ter uma gravidez saudável. Geral. Contexto. como Stephen Kanitz. estaduais e nacionais. comida. Veja Belo Horizonte. Veja. Veja Curitiba.br/aempresa/areasdeatuacao/revistas/pgart_030102_28102002_111. oferece pouco mais de 100 páginas de jornalismo por semana (sem contar as informações do Roteiro da Semana).132 Podemos notar novamente a necessidade de buscar um sentido de proximidade espacial com o leitor. ouvir trechos inéditos de entrevistas. Veja Campinas. Colaboradores têm espaço fixo. devemos observar que o leitor da Veja ou da Folha não tem como conhecer certos aspectos da segmentação dos noticiários. Há ainda uma área de serviços chamada Guia. compras e turismo. 133 Há também uma óbvia estratégia de marketing: suplementos regionais conquistam anunciantes que não se interessariam pela edição nacional. Gente. que alterna vários autores. Em Cartas. Os leitores internacionais têm à disposição ainda uma assinatura da Veja em versão digital. a revista apresenta informação na forma de notas muito curtas. Podemos encontrar editorias comuns nos diários: Brasil. Veja Salvador.133 A edição principal de Veja tem cerca de 80 páginas de jornalismo. como apresentar uma receita para montar um computador. portanto. 132 A fonte é o site da empresa: http://www. Radar. Na Veja São Paulo. Veja Essa. shows. E a página final é sempre dedicada a um ensaio de Roberto Pompeu de Toledo. Veja Brasília. com cerca de 50 páginas de dicas de restaurantes. 134 Veja faz bastante uso da estratégia conhecida como cruzamento de mídias.shl acessado em abril/2005. Existe também um grande número de seções. 231 . e Artes e Espetáculos.

tenta de alguma forma espalhar os assuntos de variedades e comportamento junto a outros das editorias Brasil. retomar 232 . Na ordem normal de leitura. Na Folha espera-se que o leitor tome conhecimento do resumo e da hierarquização das principais notícias por meio da primeira página e. as duas páginas de frases de celebridades) obter a atenção do leitor. depois. O D. o raciocínio não é diferente. no caderno A. “O leitor de um jornal constrói seu próprio jornal: primeiramente pode dar uma olhada nas manchetes. o que não acontece nos noticiários de rádio e de TV. como a Folha. Assuntos das editorias de Geral. quando se apresentam em manchete de primeira página. 1985: 78). É preciso folheá-lo para conhecer o conteúdo.principalmente de ordem afetiva. A Ilustrada ocupa todo o caderno E. Nos grandes diários. A revista. na Veja a estratégia é um pouco diferente. como no jornal. apesar de ser também relaxante no final. O caderno B é somente o Folha Dinheiro. Já a revista Veja apresenta na primeira página apenas a reportagem principal e. uma outra notícia em menor destaque. o leitor do diário toma contato inicial com os conteúdos mais “densos” até chegar aos cadernos com notícias mais “leves”. graças à divisão e à ordem dos cadernos. depois Brasil. Se na Folha há um relaxamento gradual e constante. às vezes. são valorizados a partir do viés político. por meio da primeira página. depois. Geralmente. editoriais no Opinião. o leitor administra o contato com as notícias. folhear a parte das histórias em quadrinhos. a característica de ser uma síntese da própria edição. jornais diários e revistas semanais têm uma estrutura “happy end”. o Turismo vai tomar todo o caderno F. página humorística do Millôr. prepará-lo para os assuntos mais densos e. é possível notar. o “aqui” de suas práticas habituais. ler atentamente o noticiário econômico ou seu colunista preferido na área de esportes” (Schwartz. Mundo. A página inicial do semanário não tem. que as notícias mais destacadas em blocos de manchete são as relativas às questões políticas de maneira geral. mas colocam no mesmo nível de valorização espacial e editorial o que acontece no espaço considerado mais importante pelo leitor. ler uma história. Como quase todos os noticiários analisados. Ciência. que pretendem mostrar que os impressos apresentam notícias do Brasil e do mundo. Se for uma quinta. Cotidiano. O caderno C trata do cotidiano. Economia e Negócios. Basta verificar a disposição de assuntos e dos respectivos cadernos. no final. encontramos a capa. Geral. Economia. de Esportes. decida o que ver. Se não levarmos em consideração o efeito da primeira página – que varia bastante ao apresentar assuntos de todos os pesos – podemos notar que Veja tenta. Nos jornais e revistas. Na revista. o do cotidiano. Internacional. com temas leves (entrevistas. Brasil.

É por isso que algumas pessoas começam a leitura da Veja ou da Folha de São Paulo pelas páginas finais. Se não forem consumidas imediatamente. tanto unidades noticiosas de viés político como outras de serviços e diversão devem atrair o leitor. lazer. Notícias de viés político geralmente produzem paixões empáticas disfóricas. perderão impacto. entretenimento. Essas notícias. como já citado. como medo. Já as unidades noticiosas de cultura. Qualquer publicação faz um balanço entre notícias quentes e frias. frustração. Já as notícias leves. gastronomia. não é preciso grande elucubração para verificar que. Ele se serve delas para se entreter. sobre turismo.o relaxamento. unidades noticiosas sobre saúde. Por outro lado. as outras paixões citadas instauradas pelos impressos. quase sempre mobilizam paixões negativas. despertar desejos. ou seja. ou privado. principalmente ligadas à esperança e à satisfação. planejar ações agradáveis. tristeza. ou público. moda. sexualidade promovem paixões eufóricas. Existem. de esperança de junção sujeito-objeto. As notícias instauram paixões empáticas. com os serviços do Guia e os comentários sobre o mundo das artes e do entretenimento. as partes inicias têm notícias mais densas e que envelhecem rapidamente – notadamente das editorias de política. São notícias frias. relacionadas à manipulação de afetos e de outros níveis de relaxamento e de tensão do enunciatário. no caso do leitor brasileiro. A solução encontrada era lembrar do último grande assassinato de 233 . de falta. Expliquemos melhor a manipulação de estados de tensão e de relaxamento do leitor durante a leitura de uma edição. Note-se que. de disjunção sujeito-objeto. do enunciatário. não havia crimes que justificassem a abertura da página. disfóricas. que ficam nas partes finais. Como as notícias de política apelam mais para o lado “cidadão”. porém. E relacionam-se ao lado individualista. são consideradas quentes. Estão atrás do que consideram mais relaxante. apesar das diversas coerções que os jornalistas devem enfrentar. Em certos dias. Observamos a seguinte situação em certo jornal diário que tinha uma página fixa diária dedicada a assuntos policiais. Temos a já citada paixão da curiosidade. devem fazer o leitor se envolver afetivamente com as narrativas. moda. Devemos relembrar que a “temperatura” de uma notícia é ainda uma construção do texto. em um diário. Do ponto de vista da obtenção da curiosidade. a disforia de querer-saber e a satisfação de obter o conhecimento desejado. obter saberes relacionados a “oportunidades” para se dar bem. geram paixões empáticas eufóricas. geralmente podem ser publicadas em um intervalo de tempo mais longo. entretenimento. economia. comportamento. esportes. beleza.135 135 Falamos de notícias quentes ou frias vinculando esses termos ao efeito de atualidade (envelhecimento lento x envelhecimento rápido). do leitor. geral. Descrevemos que as estratégias de sustentação envolvem a projeção do enunciatário nas histórias reportadas. ou seja.

O formato assemelha-se ao da Veja. muitas vezes exclusiva para cada notícia principal. A diagramação é mais arejada e aberta à experimentação. na Folha. como as relacionadas a certos comportamentos. A Revista da Folha. o lançamento de um novo livro. Já as notícias frias geram um enunciatário cuja única tensão. um roteiro de férias são notícias de vida longa. na parte jornalística (há anúncios em papel jornal). mais resistente que o papel jornal. era um fator de atualização. Mas era uma notícia essencialmente fria. por exemplo. fazia-se uma manchete do tipo: “Crime x permanece sem solução”. há uma vinculação entre a idéia de menor envelhecimento do conteúdo. 234 . necessitassem de um plano de expressão arrojado. Pode-se observar formatos mais livres. suplementos como Equilíbrio. turismo trabalhem essencialmente com notícias frias. e também a durabilidade do papel. mas não utilizadas na primeira vez. E contava-se a mesma história de outra forma. Mobiliza-se o sentido tátil. A resposta. contudo. Em outras palavras. O tipo de papel vincula-se a uma publicação que pode ser guardada e lida o ano inteiro sem que muitos conteúdos envelheçam. tablóide. é a de leitura com fins de relaxamento. ligada a novos comportamentos familiares. Já a queda de um avião deve ser abordada na edição mais próxima do acontecimento. com algo que o leitor sinta que “está acontecendo”. Há outro ponto notável. com uma diagramação variada. O leitor tinha a sensação de informação nova. Em 13 de março de 2005. branco. que editorias de cultura. quente. também tem notícias “frias”. de viés político.” O assunto buscava certa atualidade. com papel de qualidade. a diagramação diferenciada. a manchete era “Cuidado. se existir. Em qualquer parte do jornal existe a coerção de achar elementos de atualização para hierarquizar certos fatos (os “ganchos” jornalísticos) que construam uma ponte com o cotidiano. que é atual. essas editorias geralmente apresentam assuntos que despertam a atenção por bastante tempo. papai na pista – eles cruzam com os filhos na mesma balada.Não estamos querendo dizer. mas cada um segue seu ritmo na hora da azaração. A temporada de uma peça de teatro ou de um show. desatrelados das grandes diretrizes do projeto gráfico. de ciclo semanal. Trata-se de um fato que esgota seu potencial de atenção rapidamente. apesar de a única novidade ser o fato de que não havia novidade. É por isso que. No entanto. lazer. É como se um conteúdo sobre questões inovadoras. Sinapse têm formatos diferenciados. repercussão e ligar para a Polícia para saber se havia novidades. Quase sempre não existia nenhuma. ou seja. pensadas para os cadernos iniciais. Folhateen. Com a informação da polícia. têm formatos mais fixos e com uma diagramação mais presa a regras do projeto gráfico. como isso. Unidades noticiosas mais quentes. Buscavam-se fotos feitas na época. com o novo gancho.

71% . está diante de uma parede branca. 19 de março de 2005. Outro exemplo na Ilustrada (E1 – Na boca do inferno – assinada por Cassiano Elek Machado – reportagem local): “Vê o azul da foto ao lado? Tudo mentira.” Note-se. mesmo com um início pouco usual. suplementos tem profundas implicações na construção do leitor das publicações analisadas. CADERNO INICIAL Ciclo de 24h Papel jornal Diagramação fixa Notícia quente (maior Plano de conteúdo envelhecimento – assuntos mais densos) Efêmero FORMATO REVISTA Ciclo semanal Papel branco Diagramação flexível/diferenciada Notícia fria (menor envelhecimetno – assuntos mais leves) Durável Plano de expressão Entre o essencial e o acessório: a construção de um leitor fragmentado A segmentação das notícias em editorias. a antropomorfização da Bovespa. mas vários enunciatários diferentes no mesmo texto. A Folha não instaura um. mas não encontrou ânimo para se sustentar e encerrou o dia com perdas de 1. é tudo o que o escritor mineiro. e a construção. do ‘tudo azul’. por exemplo (B4 – Bovespa fecha dia com queda de 1. reportagem local): “A Bovespa chegou a abrir suas operações em alta. Luiz Ruffato.sem assinatura. o caderno A (inicial) e a Revista da Folha. ‘Truque’ do fotógrafo.136 A Veja. projeta e dirige-se a apenas um 136 Cada parte do jornal tem uma construção textual diferente. a cor do ‘tudo bem’. de 0. A Bolsa de Valores de São Paulo vira um ser com humores. fugas em massa. pacotes de medidas que priorizam a descentralização e promessa de criar unidades mesmo sem o consentimento dos municípios. a forma de diagramação e o formato do suporte. Depois internos enviados provisoriamente para presídios.Toda essa diversidade na forma de apresentar as unidades noticiosas mostra que o jornal diário não apenas trabalha com uma categoria inicial x final para vincularse a notícias quentes x notícias frias.7% (1. um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea.71% na semana). Há também uma relação entre essas categorias. não nos apresenta na sua nova e aguardada fornada de prosa. rebeliões.” Há um apelo ao leitor – uma relação eu-tu.Motins e promessas repetem crise de 1999 – sem assinatura – reportagem local): “Primeiro. 43.31%. ao contrário. A seqüência de fatos pode explicar a crise atual da Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do 235 . de um lead “disfarçado”. cadernos. Vejamos alguns exemplos de leads da edição de sábado. Em seguida. descontrole e destruição. Neste estudo dos impressos. Comparemos dois extremos. nessa abertura de matéria. o que mais chamou a atenção na hora da análise foi a enorme diferença entre o leitor apreensível da Folha de São Paulo e o de Veja. de intimidade – a remissão a um aspecto de uma foto que acompanhava a reportagem. Na economia. E o azul. uma matéria no Cotidiano (C3 . assunto que iremos discutir neste item.

Na Folha. como o futebol. reservou suas matérias frias para o Caderno 2. Podemos utilizá-lo para mostrar que é nessa parte do jornal que esse sujeito é construído com mais propriedade: “A editoria se dedica à vida política. é também diversão. Não sem razão. interessado em temas da coletividade. quando a fundação passava por outra grave crise.” • Sujeito lúdico. policiais e as “features”. O texto. já que as fotos tornavam a edição mais complexa. quadrinhos. o caderno de variedades foi chamado de Ilustrada por apresentar. na tentativa de explicar as razões da crise atual na Febem. as notícias frias. bem recortado e delimitado. Ressaltamos. Essencialmente. em um diário o esporte fica sempre próximo à parte de cultura e entretenimento. como o Folhetim. E a revista tem ainda um mesmo “tom”. para que ele exerça sua cidadania. grandes diários como a Folha e o Estado tinham duas divisões básicas. mesmo que todos tenham como característica pertencer à “elite”. Problemas técnicos também motivavam essa divisão. que se importa com atividades que lhe dão prazer. O que era mais atual e “sério”. portanto. por exemplo. O Estadão. institucional e aos movimentos sociais. mesmo sem assinatura. hoje chamado de Brasil. por sua vez. Havia a parte de notícias quentes. A diagramação da Veja cria um ritmo entre notas e matérias mais longas.” Praticamente não há lead. sem nunca perder a identidade na hora de apresentar o que considera notícia. tanto na parte jornalística quanto na industrial. mas uma engenhosa construção que une o presente e passado por meio da existência de uma mesma série de eventos. mas também descreve bem os últimos dias de 1999. um mesmo “estilo” e um modo único de escolher e apresentar notícias (Hernandes. com essa divisão. nessa concepção. inicialmente. do Estado. sociais. Décadas atrás. apenas o Menor) de São Paulo. Já existiam suplementos. quase como uma passagem entre os cadernos de assuntos densos e os de temas mais leves. em hipótese alguma. a inexistência de um sujeito político no caderno de cultura. entre o que é político e cultural. e até culturais. da Folha. Aliás. mais fotos. O primeiro caderno da Folha. podia ser observado um enunciatário desdobrado em duas posições básicas: • Sujeito político. como o Infantil e o Feminino.leitor. do dia-a-dia. Não afirma. econômicos. 236 . a peça bem cotada em cartaz. é claramente “interpretativo”. Procura oferecer ao leitor informações pluralistas e apartidárias. não tinha necessidade de muita imagem. na divisão comum do jornalismo. pouco se alterou com o tempo. Essa classificação dá conta das características do enunciatário dos jornais do passado recente. com assuntos políticos. porém. Já a diagramação da Folha ajusta-se ao perfil de seus diferentes enunciatários. a posição do futebol é interessante. Apesar de assunto que pode ser tratado como “quente”. 2004).

a Folha Dinheiro mostra como aplicar bem os recursos. o jornal humaniza sua imagem. Com matérias de serviço. pragmático e harmonizador. Ele pode ser tanto científico. meios de ter mais saúde. como místico. utiliza o jornal para fazer valer determinados direitos reconhecidos. o pragmático e o harmonizador. mas não aplicados. ao verificar certos casos. na posição de sujeito político e pragmático. ligado às descobertas de novos remédios e tratamentos médicos. Quando a rádio Eldorado. ou seja. na verdade. da natureza. o pragmático espera encontrar no jornal soluções rápidas para seus problemas práticos. é que. Os textos de serviços trabalham a idéia de que determinadas informações são fator decisivo de vantagem pessoal e até de sobrevivência pessoal. ao mesmo tempo. Passemos agora para a análise que leva em consideração os efeitos das segmentações atuais. ou seja. 2004). para o leitor interessado em matérias de serviço. mobilizou. ao parecer uma espécie de amigo. educação e direito do consumidor”. ao mesmo tempo. entre outros exemplos. que quer ter uma visão da coletividade e de seu papel nela. • Sujeito harmonizador – É o que está interessado em “qualidade de vida”. essa situação é fruto da relação entre duas ou mais “posições de sujeito”. o sujeito político. a partir da proliferação de cadernos. A Folha Cotidiano. a Folha Turismo aponta a melhor e mais vantajosa viagem. Surgem dois novos sujeitos: • Sujeito pragmático – Ao contrário do sujeito político. fez campanha pela despoluição do rio Tietê. conselheiro ou cúmplice que vai doar o saber decisivo para o leitor satisfazer suas necessidades. a Folha Negócios orienta como abrir e gerir uma empresa. suplementos e revistas. dos planetas. os momentos nos quais um leitor. chamamos a atenção para o fato de as matérias de serviço terem certas características: • • • A dinâmica social é apresentada como jogo de oportunidades. por exemplo. de indivíduo contra indivíduo. 237 . O que pudemos notar. cada vez mais. de buscar equilíbrio.137 Em nosso trabalho sobre a revista Veja (Hernandes. de viver relações mais satisfatórias.que há de mais determinante nesses espaços. Alguém que usa um jornal como força de pressão está. Nossa hipótese. 137 A única dúvida que tivemos ao tentar montar essa classificação foi onde colocar os “serviços de utilidade pública”. por exemplo. por exemplo. que percebe a vida regida por forças divinas. que atravessa o Estado de São Paulo. que incluem os interesses do sujeito lúdico. ou uma comunidade. “oferece ao leitor informações úteis ao seu dia-a-dia nas áreas de segurança. é que o jornal apela.

Em vez de pensar o enunciatário globalmente. lúdicos e harmonizadores expõe a influência crescente do marketing sobre a tradição de guardiões da verdade e dos interesses coletivos que os noticiários impressos gostam de assumir. Não abandonaram a ênfase política. Compensaria as paixões de falta. É possível notar que a Folha (e. outros diários) tomou um caminho distinto do de Veja e do das outras revistas semanais de informação. Como pudemos verificar na divisão de cadernos da Folha de São Paulo. mesmo com todos os cuidados para buscar a curiosidade do leitor em função de estratégias de arrebatamento e sustentação. uma base ideológica de concepção anticidadã ao deixar subentendido que a solução individual é mais importante e eficaz que a solução coletiva. Em publicidades institucionais veiculadas no próprio jornal. por paixões de solução de falta. a vocação missionária dos impressos parece se chocar com o papel utilitarista e cada vez mais “prático” que precisam vender para parcela dos seus leitores. os jornais o fragmentaram. assumiram a pulverização. um dever-ler. A Folha estampa na sua primeira página que é “um jornal a serviço do Brasil”. a Folha estaria contrabalançando a disforia dos temas políticos com a euforia das notícias sobre serviços. Em outras palavras. Essa procura de equilíbrio entre os assuntos abordados tem uma grande razão: o medo de perder o leitor. a Folha escolhe mostrar como vantagem justamente a segmentação: 238 . como a compra do melhor microcomputador do mercado pelo menor preço por meio de uma dica do Folha Informática. não raras vezes. os assuntos políticos são colocados como “obrigatórios” aos leitores. Com as matérias de serviços. A busca pela satisfação dos leitores pragmáticos. vinculadas às satisfações individuais. e no tratamento do que é manchete. ao que tudo indica. relacionadas às aflições coletivas dos brasileiros.• As matérias de serviços camuflam. mas criaram cadernos e revistas para agradar a esses diferentes destinatários.

A estratégia de Veja foi diferente. esse direcionamento justifica a hierarquização de manchetes a partir de impactos de ações econômicas e políticas. O caminho adotado pelo jornal. adequada a um certo grupo de leitores. no final das contas. Cada fragmento tem uma coerência discursiva diferente.Nesse anúncio. Investir no sujeito político e preocupado com a coletividade garante a credibilidade necessária para que o jornal mantenha-se como voz social. O jornal cria. assim. Sem abandonar o político. No canto esquerdo pode-se ler que “a Folha tem cadernos para tudo e para todos”. o que corrobora nosso estudo. no entanto. a Folha mostra o significado da sua enorme fragmentação: o de parecer um “jornal completo”. construam caminhos individuais e cada vez mais atrelados à satisfação de necessidades de ordem lúdica. A fragmentação do jornal mostra. portanto. diversas possibilidades de fruição dentro do seu próprio texto. Veja passou a dar espaço de primeira página – o que significa grandes reportagens – para assuntos 239 . foi o de apresentar várias publicações diferentes dentro de uma mesma edição ou de um ciclo de edições. Nos diários. pragmática e relacionadas com a “qualidade de vida”. que cada edição é pensada para que diferentes leitores.

e o primeiro semestre de 2005: CAPAS DE VEJA PRIMEIRO TRIMESTRE DE 1975 1° de janeiro 8 de janeiro 15 de janeiro 29 de janeiro 5 de fevereiro 12 de fevereiro 19 de fevereiro 26 de fevereiro 5 de março 12 de março 19 de março 26 de março 240 .relacionados aos serviços. Fizemos uma comparação entre as capas da revista no primeiro trimestre de 1975. plena ditadura militar.

138 A capa dedicada aos sambistas (de 12 de fevereiro). entretenimento receberam grande espaço: há seis capas sobre esses assuntos. Tudo é pensado em termos de impacto no leitor. não é para divulgar shows. a que fala de férias (de 15 de janeiro). mas para uma análise cultural. manchetes de saúde.138 Já no primeiro semestre de 2005. ao que tudo indica. 241 . ao que tudo indica. constata-se somente uma matéria que. pode receber o rótulo de “serviços”.CAPAS DE VEJA PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2005 5 de janeiro 12 de janeiro 19 de janeiro 26 de janeiro 2 de fevereiro 9 de fevereiro 16 de fevereiro 23 de fevereiro 2 de março 9 de março 16 de março 23 de março Há 30 anos.

Os cinco conjuntos significantes manejados pela diagramação Até agora. 242 . 139 Nosso interesse. texturas. apontar Folha de São Paulo. interessada em vender. as partes que compõem um noticiário impresso foram chamadas indistintamente de “unidade” ou “elemento”. sobre a necessidade de romper a excessiva simplificação na abordagem do plano de expressão desses noticiários.diz respeito às letras. classificados a seguir. Mas isso só mostra que a revista se pauta pelo que acredita ser a curiosidade do leitor. É importante esclarecer que essa tentativa de organizar os conjuntos significantes (unidades com expressão e conteúdo) tem conseqüências teóricas importantes e não serve apenas como mero detalhamento descritivo dos objetos. tamanhos que geram títulos. Jornal do Brasil como textos constituídos por elementos verbais e não verbais também não resolve o problema. no sentido de criar uma separação entre essas pretensas unidades. o que tentamos fazer. E a revista. Em outras palavras. em momento de grande efervescência política. É o caso das capas seguidas relacionadas ao escândalo do chamado “mensalão” em meados de 2005. a corrupção do governo Lula. Os objetos jornalísticos não são apenas visuais. Questões sobre o plano de conteúdo são apresentadas ainda neste item. O verbal se dá a conhecer a partir de um suporte visual que tem uma significação claramente determinada nos projetos gráficos. Na verdade. no início do trabalho. matérias. como veremos depois. Veja mudou. Finalmente. a eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados. Veja também participa ativamente. manifestado tipograficamente . Verbal. Isto é. desenvolve capas e reportagens de fôlego sobre todos esses assuntos. deixa implícita a necessidade de reconhecimento dos conjuntos significantes. legendas. enunciando que todos têm mesmo “peso” em termos informativos. o sentido do tato é importante. Jornais e revistas também não podem ser pensados apenas como apresentando elementos verbais e visuais. como cores. as possibilidades de fazer uma cirurgia plástica. diagramar é uma tarefa de administração de quatro grandes conjuntos significantes. aos tipos gráficos e as suas possibilidades de concretização. Insistimos. Veja. Nos jornais e revistas.Pode-se argumentar que. O leitor que a revista constrói coloca no mesmo nível um lançamento do novo livro de Paulo Coelho. Nos impressos. é mais o impacto na página. Tentaremos agora uma classificação. a partir do plano de expressão:139 1. nesse momento.

para a apresentação visual dramatizada de dados e informações. caixas coloridas ou vazadas. indicações de leitura entre muitos outros recursos (Manual da Folha de São Paulo. gráficos. 2001: 23). apresentação biográfica de personagens envolvidos na notícia. no sentido de serem representações feitas à mão. Os infográficos são considerados textos de apoio e podem aparecer na forma de mapas. das ilustrações. fotos. Fotográfico – inclui imagens fotográficas obtidas por meios convencionais ou digitais. quadrinhos. numa superfície. queremos chamar a atenção para o item 3. Misto – infográficos. A diagramação também utiliza certos elementos com funções específicas. efeitos de terceira dimensão.2. inclusive. etc.” Note-se novamente que se está diante de um caso de sincretismo. vinhetas. fundos. glossário de termos técnicos ou específicos. cujas matérias principais têm sempre uma apresentação diferente). além de produções digitais que criam. gráficos. que estamos chamando de Diagramáticos – linhas. ilustrações. explicações didáticas. a definição desse elemento é a seguinte: “Combinação de desenhos. 4. via computador ou essencialmente digitais. Inclui charges. que compreende as unidades que denominamos “pictóricas”. Pictórico – abrange produtos de arte e de técnica de representar. Na Folha de São Paulo. geralmente com o uso abundante da cor. Já os elementos diagramáticos fazem parte do projeto gráfico ou de uma diagramação específica (caso do Folhateen. como utilizar “cores sinalizadoras”. a última grande alteração do projeto gráfico aconteceu em 2000 e teve como autor o designer gráfico italiano Vincenzo Scarpellini. para representar figuras e situações. No Aurélio. os infográficos são os que têm ganhado espaço crescente na mídia impressa. Em relação aos elementos mistos. 3.. formas que vão do figurativo ao abstrato. O "Outro Lado" de uma notícia controversa passou a ser identificado por um fundo 140 A maioria desses recursos tem como função auxiliar na organização visual e não remetem a conteúdos. dos quadrinhos. é perceptível que o item pode ser desdobrado em outros conjuntos.140 Nesse primeiro esboço. Ainda no caso do pictórico. 243 . Ele fez várias modificações. demonstrações visuais de acontecimentos. caso das charges. fusões que apresentam um todo de sentido com base na utilização dos outros conjuntos significantes citados.

Nesses casos. lembra que “quando escrita. a escrita não pode ser reduzida a um sistema semiótico plástico. Em relação ao assunto. O formato da letra pouco acrescenta ao plano de conteúdo. nesses objetos.azul claro. “(. “embora formada por desenhos gráficos. que consideramos mais relevantes em função do impacto e da maior utilização no jornalismo impresso. O autor. no entanto. à “mensagem”. as letras cumprem uma função meramente utilitária. A primeira é a de Antonio Vicente Pietroforte. detalharemos nos próximos itens somente a fotografia e a manifestação tipográfica do verbal. uma pessoa alfabetizada entra em contato com uma multiplicidade de textos escritos.) numa poesia que desenha figuras numa página branca. há na escrita um sincretismo entre o verbal e o plástico. 141 244 . Não menciona autor. Em outras palavras. que complexifica a expressão lingüística e a imagem” (idem:153). de veículo do verbal. pág. Tipos gráficos e novo patamar de semi-simbolismos Nesta parte do trabalho. portanto. Devido a sua expressão plástica. a escrita participa desse tipo de semiótica. transcrever uma língua faz da escrita também uma semiótica verbal. há semi-simbolismos criados pelo projeto gráfico. queremos defender o estudo de cada um dos conjuntos significantes por meio de suas características mais importantes. localizamos duas posições entre os semioticistas.. não há uma manifestação que integra diferentes linguagens Essas informações constam do texto “ Novo projeto gráfico estréia terça para realçar informações essenciais e dar mais leveza ao jornal” – Folha de São Paulo. Já para Lúcia Teixeira (2004: 236). que parecem sempre ter certas atribuições. Em grande parte das vezes. é impossível ficar indiferente aos caracteres tipográficos de textos jornalísticos e publicitários. 14. Por esse ponto de vista. Por isso. 7 de maio de 2000. as letras são pensadas e reunidas para significar “algo mais”. Um olhar ingênuo sobre os tipos gráficos pode ser bastante útil para começar a reflexão sobre essa forma de manifestação do verbal.141 Com essas observações. Tendo em vista os objetivos de nosso trabalho. é a qualidade material gráfica da linguagem verbal que se exacerba. em análise de poesias concretas. Os textos didáticos têm apresentação sobre fundo ocre. Para Pietroforte. entretanto.” Para a autora. a palavra ganha dimensões plásticas. Por outro lado. Cotidianamente. faremos um pequeno estudo sobre a significação produzida pelas letras nos diários e revistas.. já que a letra é também imagem” (2004:143). a manifestação do verbal já é sincrética (ibidem: 142).

contudo. remate. Mesmo assim. obviamente não há a mesma experiência radical da poesia concreta. em termos mais semióticos. 245 . que a característica plástica é inerente a qualquer forma de manifestação verbal. cores.num único todo de sentido. etc. às vezes. “mas a exploração máxima das qualidades de visibilidade e sonoridade da própria linguagem verbal” (idem). inclinações. Para pensar o jornalismo impresso. que remata. sem desenhos. A serifa aparece no segundo caso. uma letra sem serifas143. por exemplo. A questão é se essa plasticidade é inerente à escrita ou produto de uma semiótica plástica que cria relação com uma semiótica verbal. ou. é um “pequeno traço. o manejo de formantes plásticos do plano de expressão. o trabalho com formas. e que pode ter a forma de filete. na base da letra. ou. variações de “peso” entre as linhas 142 Acreditamos que a reflexão de Vicente Pietroforte é mais pertinente na análise de letras com desenhos exclusivos. No uso gráfico-plástico das letras no jornalismo.. 143 Serifa. Aurélio. de um ou de ambos os lados.” Uma letra A Arial e outra A Times New Roman mostram a diferença.142 Podemos observar. horizontais. diferenciados. barra. simples espessamento. posições. diz o Dic. na forma de traços adicionais. Apresentamos. a proposta de Lúcia Teixeira nos parece mais adequada. a letra A em diversas famílias: A A A A A A A A A A A A A A Arial Times New Roman Verdana Impact Avant Gard Bauhaus Courier New Swiss921bt TypoUpright BT Zinjaro LET Vineta BT Bickley Script LET Ruach LET Alexei Copperplate Somos obrigados a reconhecer que todas as famílias de tipos gráficos são criadas a partir de uma letra que representaria um “grau zero”. os terminais das letras não lineais de caixa-alta e caixabaixa. em seguida. É inegável.

mas. PRETI. Uma perspectiva semiótica sobre o assunto pode ser encontrada em Barros.144 Isso quer dizer que há uma relação entre o desenho e a apresentação das letras .que a compõe não deixa de ter sentido plástico. Diana Luz Pessoa de. O fato de certas letras não terem significado no cotidiano não é uma falta de plasticidade. 2 de dezembro de 2003. é considerada “moderna”. produto de uma “saturação”. Há uma certa tradução intersemiótica proporcionada pela tipografia (sempre subordinada à diagramação e ao projeto gráfico). “Entre a Fala e a escrita: algumas reflexões sobre as posições intermediárias”. Antes de determinar essas relações entre plano de expressão e plano de conteúdo que criam esse simulacro de fala na escrita.). Da mesma maneira que a prosódia faz parte da fala. mais ou menos sério. na Folha de São Paulo. que mostra que os tipos impressos estão longe de ser mero suporte dessemantizado do verbal. que pode parecer mais ou menos estridente. “acrescentando sentidos”. mais ou menos jovial a partir da exploração das possibilidades plásticas. entretanto. de terça-feita. a distância entre unidades. São Paulo. utilizada neste trabalho. As letras nas páginas de jornais e revistas tentam simular alguns recursos próprios da oralidade e retomar certas possibilidades prosódicas perdidas na escrita. produto da variação na intensidade.seu tamanho da página.com a entonação. antes de tudo. as formas de alinhamento e de entrelinhamento . Analisemos a relação entre formas. justamente por seu caráter “limpo”. No jornalismo. arriscamos um caminho já delineado em nosso trabalho sobre a revista Veja: uma das principais funções das formas das letras nos jornais é construir um simulacro visual de um tom de voz. para melhor situar a discussão sobre o assunto. O título é “Turcocircuito! Lula embarca na esfirra voadora!” 144 As relações entre fala e escrita são bastante complexas. (2000) in Fala e escrita em questão volume 4 do Projetos Paralelos – NURC/SP – Núcleo USP. Dino (org. duração e ritmo da fala. altura. ocupação espacial e o simulacro da oralidade. O uso contínuo anula o sentido plástico das letras porque cria um padrão de normalidade que as dessemantiza. vale a pena analisar uma crônica de José Simão. a plasticidade das letras enriquece a manifestação escrita no jornalismo. A letra Arial. 246 . Humanitas. diante da enorme complexidade da questão.

cuja função é simular mesmo uma espécie de fala na nossa consciência. estamos diante de um texto verbal. apenas o que é dito. em letras maiúsculas (“caixa alta”. cheia de pontos de exclamação. todos esses efeitos se referem à escrita. pois uma escrita que registrasse todas as inflexões e andamentos da fala seria complexíssima. pelo contrário. como lembra José Roberto do Carmo Júnior na análise da locução do futebol. Com isso se ganha muito. como ponto. pouco importando como é dito. No exemplo.Em princípio. no texto. O arranjo gráfico das letras sugere uma forma de oralidade. O humorista manejou de forma criativa certos elementos da escrita para simular a oralidade. que tem uma série de outros efeitos interessantes.as regras de grafia das palavras e de pontuação . Jornais e revistas criaram regras com esse mesmo propósito 247 . Nosso alfabeto é fonético e representa sons da fala. O mais notável é simular – na escrita – o jeito da fala espalhafatoso esperado ao se concluir uma piada numa conversa. Quando ele pergunta. perde-se muito também” (2005: 46). Teoricamente.funciona ou projeta uma substância que ele chama de “grafemática”: as letras e os outros sinais pertinentes. um “jeito de contar piada”. Na grande maioria das vezes o que buscamos registrar na escrita é apenas o conteúdo de um texto. em corpo de letra maior. Vamos analisar apenas algumas questões do plano de expressão. “QUEM VAI FICAR TOMANDO CONTA DA LOJINHA?”. No entanto. José Simão simula uma fala exaltada. percebemos um tom excessivo. “a ortografia desde sempre descurou da prosódia. já que retiramos a ilustração que o acompanha e até mesmo o título. e por uma razão bastante boa e justificável. ou seja. etc. mas. José Simão não quis perder nada. no jargão da imprensa). como se o leitor pudesse ter acesso a toda a modulação de voz do autor. com isso. O conteúdo não nos interessa aqui. O próprio Hjelmslev diz que uma ortografia . ponto e vírgula.

Os títulos com letras grandes simulam exaltação. que as letras mais grossas. mais elegante ou mais austero. por sua vez. rompendo com os estereótipos. de buscar a atenção por meio de descontinuidades. Podemos notar novamente que estamos às voltas com sistemas semi-simbólicos cristalizados. ligado à estratégia de 248 . parecem reproduzir gritos. Os textos. de enunciar. itálico. mais sério ou mais leve. em alguns quadros) só aparece na função de criar contraste. na Folha. com ou sem serifa . crônicas. contudo.cria um simulacro de um tom da voz. representa um tipo de valorização da notícia. • O formato da letra . como se alguém quisesse despertar a atenção do outro. Porém. só existe a partir de leis de diagramação já citadas. de sensibilização do olhar do leitor. próprio para a troca de informações. mas mostram diferentes formas de dizer. Vejamos então como as letras simulam sonoridades. que.para apresentar e chamar a atenção para as unidades noticiosas e. o itálico utilizado nos tipos gráficos (Times New Roman. inclinados ou não. Esse simulacro. de algo fraco. uma parte nobre do jornal. baseadas na disposição espacial que define a importância de uma unidade noticiosa. e o Arial. a inclinação da letra marca o espaço dos comentários. • O tamanho do corpo de letra relaciona-se com a altura da voz. por exemplo). os caracteres gráficos mantêm relações especiais entre o plano do conteúdo e o plano de expressão. por sua vez. Em Veja. portanto. determinadas não só pelo tipo de ocupação espacial como também pelo formato das letras (com mais ângulos retos ou arredondados. lembra que o itálico deve ser evitado por dar uma idéia de informalidade. representar a enunciação oral nas páginas. Do mesmo modo. Não se pode cometer o erro comum de achar que existem somente relações simbólicas envolvendo os tipos gráficos e suas possibilidades de apresentação (em negrito. estão ligadas a assuntos mais sérios. para uma conversa. o que é próprio dos sistemas semi-simbólicos. White ao sugerir escolhas de letras para as revistas. Grandes manchetes. que é a de criar um sentido de familiaridade. assim. por exemplo). Essas considerações abrem caminho para abordar outra função importante dos tipos gráficos. Podemos notar sua função na estratégia de arrebatamento. Convencionou-se. leve (1974: 78). Da perspectiva semiótica. opiniões. Não apenas “dizem”. no entanto. quase símbolos.os traços mais finos ou mais grossos. os tipos mais finos vinculamse a questões mais leves. mais comum. podem manejar os sentidos das letras de maneiras diversas. Já o corpo de letra menor das matérias retoma um tom mais sereno. densas. pelo menos na comunicação ocidental. alegres.

Editoria de Artes da Folha de São Paulo (março-2005). de cultura e variedades. a única unidade recorrente em todo o jornal é a fonte Folha Minion e o entrelinhamento. 4 de abril de 2005. o segundo elemento mais presente. e a página inicial do Caderno 2. os padrões se repetem com mais constância. que criou um padrão de uso para letras que ilustra as relações semi-simbólicas que acabamos de apresentar no esquema anterior. revistas. editor-adjunto. por exemplo. A seguir. a partir do projeto gráfico. que remetam a um modelo conhecido que. 145 Informações de Fábio Marra. vamos utilizar O Estado de São Paulo. gerencia a identidade visual de uma publicação. Na Veja. O jornal criou letras exclusivas. desaparece da Revista da Folha. Na Folha de São Paulo. há a Folha Serif e nas matérias o Folha Minion. Nos títulos. A Folha é um caso notável. com o tempo. há uma comparação entre a primeira página da segunda-feira.fidelização. gere familiaridade.145 A idéia de identidade nos impressos está relacionada ao fato de se enxergar elementos comuns. suplementos. Todo o resto varia. 249 . do mesmo dia. é preciso levar em consideração os diferentes cadernos. O logotipo. A diagramação. A plasticidade das letras e sua organização espacial manipulada pelas leis de diagramação envolvem semi-simbolismos que podem ser assim representados: Letras e relações semi-simbólicas Formantes plásticos Plano de expressão Corpo de letra com traços grossos x corpo de letra com traços finos Maior espaço ocupado x menor espaço ocupado Mais intenso e disfórico x Mais distenso e não disfórico (Maior valor e potencial de atenção ) x (Menor valor e potencial de atenção) Plano de conteúdo Notícia quente x Notícia fria Respeito x Irreverência Dramaticidade x Prosaísmo Tom grave x Tom leve Para dar um exemplo. Nos jornais.

por exemplo. as perspectivas e até os problemas dos novos usos da fotografia no jornal. Observamos uma crescente valorização da fotografia e do fotojornalismo. carregada de drama. “Incorporamos ao procedimento do fotojornalismo padrões que até então estavam reservados à fotografia artística: ângulos e enfoques diferenciados. Já o Caderno 2 estampa uma notícia mais amena. Trata-se da principal notícia do jornal. ligado às nossas preocupações sobre o gerenciamento do nível de atenção.A forma dos títulos principais das duas páginas não deixa dúvida. já explicita as bases. que remete a questões individuais. o que dá grande leveza e uma identidade visual particular às páginas. O corpo de letra mais denso do título da manchete comenta os preparativos do velório do papa. de grande dimensão pública. 250 . O Caderno 2. As letras valorizam o assunto. de envelhecimento rápido. fórmulas para que as fotos de jornal expressem mais do 146 O novo projeto gráfico do Estado radicalizou esse uso das letras. tem toda a tipologia dos títulos diferenciada. predominando o corpo de letra com traços muito finos. O Projeto Editorial 1988-1989 da Folha de São Paulo. neste item é. como algo leve.146 O fotojornalismo O estudo que fazemos da fotografia. Não deixam de caracterizá-lo. como o prazer de assistir ao filme. Isso significa que se aposta cada vez mais nas fotos para obter laços com os leitores. como não poderia deixar de ser. ênfase no detalhe das fotos de esportes. um filme do conjunto Demônios da Garoa. porém. notadamente pelos diários. Basta observar a grande ocupação espacial.

que mera imagem e se entrelacem com o significado do evento a que essa imagem está ligada; interesse maior por imagens de beleza plástica e de efeito inusitado, ainda que sua temperatura noticiosa seja baixa. Também aqui é preciso depurar os avanços realizados; evitar com igual energia tanto o retorno ao fotojornalismo convencional como o exagero que consiste em esquecer que num jornal tudo o que se publica deve ser informação.”147 O fotojornalismo nunca foi alheio à estética ou ao enfoque diferenciado. O que se nota no projeto da Folha é um novo patamar de coerção do discurso fotográfico, que deve romper o sentido de ser mero registro da realidade. A mesma preocupação é visível nos outros jornais. O Estado de São Paulo, em sua reforma gráfica de 2004, também cedeu um espaço muito maior para a fotografia. A busca dos efeitos de belo, de estranhamento, entre outros, ficou mais perceptível. Não queremos neste ponto do trabalho discutir novas maneiras de analisar a significação de fotos nos jornais e revistas. O objetivo, muito mais modesto, é apresentar alguns apontamentos sobre “antigas” e atuais estratégias do fotojornalismo para arrebatar e sustentar a curiosidade dos leitores.148 Também não há interesse aqui, como convém a um estudo de semiótica, em discutir ou explicitar a produção da fotografia. O que se quer é mostrar algumas estratégias persuasivas que essa forma de imagem mobiliza com base no estudo de sua utilização. Apresentaremos, a seguir, o papel da fotografia na construção dos sentidos do jornal:149

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Projeto Editorial 1988-1989, Agosto de 1988 - A hora das reformas - Aprendendo com as falhas. Disponível no endereço: http://www1.folha.uol.com.br/folha/conheca/projetos-1988-1.shtml - acessado em abril/2005. 148 No estudo sobre a imagem televisiva, falamos de planos de câmera e de como se relacionam com o gerenciamento do nível de atenção. Pode-se questionar se as mesmas observações valem para o fotojornalismo, já que ambas produzem sentidos por meio de recortes espaciais. Jornais e revistas trabalham com essas relações de maneira muito diferenciada. A principal distinção é o formato fixo da tela de TV. Os planos se sucedem a partir desse espaço determinado. Já os jornais e revistas trabalham as fotos de maneira completamente diferenciada. Um efeito de close-up na tela da TV só teria esse mesmo impacto se tomasse grande espaço no jornal. Isso raramente acontece. 149 Essas estratégias são pensadas como uma verdadeira lista de obrigações aos fotógrafos. Busca-se, sempre, a “grande foto”, que significa mais atenção, mais leitores, mais vendas. Só que o texto fotográfico depende de uma série de fatores, muitos imponderáveis, para ser bemsucedido. As crescentes cobranças pela “grande foto”, entretanto, esbarram na própria dinâmica da fotografia, dos fotógrafos, dos jornais. É preciso um fotógrafo estar presente na hora do acontecimento, por exemplo. O tsunami que varreu a Ásia no final de 2004 foi surpreendentemente pouco fotografado. Perdido o momento de ápice narrativo, só se registraram conseqüências. A fotografia tem ainda que dizer muito com apenas um enquadramento. O valor de uma foto também raramente se desvincula do potencial de atração de uma reportagem como um todo. A cobertura da posse de um prefeito vai render imagens de “peso” muito diferentes das proporcionadas pela queda de um avião em um bairro residencial.

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1 – Uma fotografia deve ser uma das principais iscas para o olhar em uma página, ou seja, uma das mais importantes armas na estratégia de arrebatamento e de sustentação. Com suas cores, contrastes, ocupação espacial, a foto precisa atrair a atenção do leitor para a unidade noticiosa da qual faz parte. O olhar deve ser fisgado. É a estratégia de arrebatamento. O leitor precisa ainda se interessar pelo conteúdo. A foto deve depois encaminhar o leitor para a parte verbal, ou seja, apresentar uma estratégia de sustentação geral que também tenha êxito. Para arrebatar e sustentar a atenção, o fotojornalismo busca cada vez mais os efeitos estéticos. É evidente que o estético - como manifestação sensível e também inteligível – sempre fez parte do discurso fotográfico e é inerente à própria atividade dos fotógrafos jornalistas. Queremos evidenciar, contudo, que a busca por um discurso visual plástico nos diários e nas revistas é hoje uma coerção cada vez mais forte para obter adesão à leitura e chamar a atenção para as próprias publicações. Uma justificativa para mostrar essa mudança de mentalidade é que as fotos tiveram uma valorização espacial inédita nos últimos anos, principalmente nos diários. A fotografia também passou a não ser mais preocupação apenas do fotógrafo. O Manual de Redação da Folha de São Paulo afirma que cabe aos profissionais da redação, e não apenas aos fotógrafos, a “elaboração da pauta já com uma perspectiva visual e plástica” (2001:33). Diz ainda que “o entendimento mínimo das técnicas fotográficas e de suas possibilidades estéticas é uma necessidade em todos os patamares da hierarquia de uma Redação, não apenas de fotógrafos e editores” (ibidem). Acreditamos que essa busca pelo belo, pelo estranho, pelo inusitado faz parte de outras publicações. Pode-se observar também que, do ponto de vista jornalístico, não é na TV, mas nos diários, e também nas revistas, que a imagem é um objeto de contemplação. Há possibilidade de maior fruição, de controle do tempo de consumo sem prejuízo do processo de obter e manter o nível de atenção. White explica que a fotografia apresenta uma vantagem em relação ao texto escrito na hora de arrebatar e sustentar a atenção. “Retratos atraem o olho, ganham a atenção, incitam a curiosidade. Retratos fazem o leitor ser receptivo à informação. Pessoas resistem ao esforço de ler: isso significa trabalho. Mas elas parecem não prestar atenção a isso quando olham retratos. Então, quanto mais informação puder ser acondicionada sem usar palavras, melhor. Retratos, ao substituir a descrição verbal por imagem visual, ajudam a diminuir o percurso do processo de leitura” (1974: 98).150
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Fragmento original: “Pictures attract the eye, gain attention, arouse curiosity. Pictures make the reader receptive to information. People resist the effort of reading: it means work. But they do not seem to mind looking at pictures. So, the more information that can be packaged in non-

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Essas observações abrem caminho para discutir a fotografia nos jornais e revistas a partir das estratégias de arrebatamento (ligadas ao sensível), de sustentação (uma forma de passionalização, instauração de curiosidade para saber “o que aconteceu”) e também de fidelização. Em outras palavras, um jornal que apresenta sempre fotos instigantes mobiliza o leitor a manter um relacionamento de longo prazo.

2 – A fotografia tem um papel de servir de prova ao que se reporta, de parecer mostrar fragmentos de uma realidade inquestionável. Ou como afirma Kossoy: “A informação visual do fato representado na imagem fotográfica nunca é posta em dúvida. Sua fidedignidade é em geral aceita a priori, e isto decorre do privilegiado grau de credibilidade de que a fotografia sempre foi merecedora desde seu advento. (...) Esta objetividade positivista creditada à fotografia tornou-se uma instituição alicerçada na aparência, no iconográfico enquanto expressão da verdade; um equívoco fundamental que ainda hoje persiste” (2001: 103). Falar de realidade em fotografia é analisar um “efeito de sentido” dessa forma de comunicação. Do ponto de vista do gerenciamento do nível de atenção, o caráter argumentativo-persuasivo do fotojornalismo está cada vez mais nitidamente dependente da estratégia de fidelização. Ou seja, é o cumprimento de um contrato enunciador-enunciatário por certo período, e a satisfação obtida nessa relação pelo leitor, que vai garantir à fotografia no jornal o seu status de “fragmento da realidade”. A credibilidade da fotografia depende da credibilidade do próprio jornal que a insere, principalmente quando leitores sabem das crescentes facilidades de manipulação digital das imagens.151
words, the better. Pictures, by substituting visual images for verbal description, help to shortcircuit some of the reading process.” 151 Ao contrário do que ingenuamente se pensa, a fotografia não é, necessariamente, um tipo de objeto cuja imagem resultante estabelece uma correspondência ponto por ponto entre as partes do referente submetidas à ação da luz. Há filtros, jogos de sombra, efeitos de lentes. A manipulação da imagem fotográfica também é tão antiga quanto a própria fotografia. Já há fotomontagem em 1857. Trata-se de “The two ways of life” (Os dois modos de vida), exibida em 1857 na exposição “Art Treasures”, em Manchester, Inglaterra, e de autoria de Oscar Rejlander, que usou mais de trinta negativos diferentes para compor a imagem. Entre outros detalhes, mostra-se um ancião de barbas brancas, vestido com um pesado manto, que conduz dois jovens para a vida adulta. Informação de “O que é fotografia”, de Kubrusly, Cláudio A., Edit. Brasiliense, São Paulo, 4ª ed., 1991, págs. 81 e 82. Com os avanços da fotografia digital, porém, houve enorme alargamento das possibilidades de alteração das imagens. Em fotos dos vagões destruídos por atentados terroristas em Madri, certos jornais apagaram, via manipulação digital, pedaços de carne e membros humanos espalhados pelos trilhos para que a imagem da tragédia ficasse menos chocante. Acreditamos que, com o advento da imagem computadorizada, a fotografia está perdendo o próprio status cultural de objeto que registra fragmentos de uma dada realidade. Em outras palavras, a manipulação no computador está abalando o senso comum de que fotos “congelam” momentos de uma maneira inocente, desvinculada dos propósitos de quem a clicou ou a encomendou. O mundo digital, por

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3 - A fotografia deve “transmitir a força das idéias expressas nas reportagens” - A frase consta do texto de apresentação do “novo visual” do jornal O Estado de São Paulo, edição de domingo, 17 de outubro de 2004, quando mostrou seu novo projeto gráfico, em que passou a destinar maior espaço às fotos (pág. A 10). Pode-se notar que a fotografia deve transcender seu papel de registro para ser uma espécie de resumo do que é apresentado nas outras unidades. 4 – O fotojornalismo valoriza o flagrante. Uma narração verbal, oral ou escrita, pode simular que os fatos estão acontecendo no momento da leitura. Já uma foto (e uma filmagem também) terá o valor de atenção proporcional à captura do “momento decisivo”, conceito formulado por Henri Cartier-Bresson: é o aprisionamento imagético do instante clímax de uma narrativa. Nesse sentido, as fotografias mais valorizadas são as de flagrante, não as posadas. Temos uma relação flagrante x posada que estabelece correspondência, respectivamente, com notícias quentes e frias. As fotos posadas são abundantes nas revistas e menos comuns, mas dignas até de primeira página, nos jornais diários. Quase sempre se relacionam com assuntos frios, que não perdem a atualidade facilmente. Podem ser despojadas ou, no limite, feitas em um estúdio, com condições especiais de luz, maquiagem, com elementos cênicos.

Essas estratégias redundam em diferentes tipos de fotos. O que vamos fazer agora é mostrar o resultado dessas demandas no dia-a-dia dos diários e revistas. É importante não esquecer que uma foto, na análise de uma reportagem, não deve ser encarada como texto, apesar de sua relativa independência semântica. Uma foto é sempre um elemento a mais, de maior ou de menor utilidade, no gerenciamento do nível de atenção de uma unidade noticiosa. É também parte de uma encenação que tenta convencer o leitor de que a notícia apresentada é um pedaço da realidade – e não um ponto de vista sobre o que acontece no mundo. Vamos apontar a seguir como as estratégias apresentadas geram diferentes tipos de fotos: das mais comuns – e portanto, com menor potencial de atenção – até as mais admiráveis e, por isso mesmo, mais envolventes:

massificar o controle individual sobre a captura e o tratamento de imagens, ao mesmo tempo em que torna o processo simples, rápido e facilmente reproduzível, vai contribuir para bombardear a fronteira entre ser e parecer no discurso fotográfico que, por mais de um século e meio, conseguiu vender-se para as multidões como “objetivo”. Toda essa discussão, no entanto, nos interessa por outro viés. Nos jornais e revistas, a questão da objetividade não é técnica, mas ética, o que retoma observações do início do trabalho.

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Fotos de registro - É produto da estratégia 2. São as fotos mais comuns encontradas na mídia impressa. A foto de registro é a que mais se aproxima do mero papel ancorador da fotografia nos textos. É utilizada ainda para “decorar” a página, buscar o olhar e tem grande valor na estratégia de fazer crer na objetividade da informação. Serve para mostrar o deputado de quem se fala na parte escrita da matéria, ou o jogador que fez determinado gol, ou ainda como ficou o carro destruído em um acidente. É de fácil decodificação. Pode-se retomar o exemplo da matéria sobre a demissão do técnico do Santos. Deve-se notar que a foto de Oliveira pouco acrescenta em termos de novidade, em acréscimo de informação:

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Foto de síntese – Satisfaz a estratégia 3 - é a mais adequada para representar o que é a “força expressiva” do assunto abordado. Resume toda uma situação tratada na parte escrita da matéria e geralmente apela para a passionalidade do observador (estratégia de sustentação). É o caso da foto a seguir, de Arko Datta, repórterfotográfico da Reuters, que mostra uma mulher chorando a morte de um parente morto pelo tsunami em Cuddalore, Índia, em 28 de dezembro de 2004.152 Fica evidente para o leitor que a realidade não está sendo mais mostrada de maneira “objetiva”, mas filtrada por um conjunto de valores que quer ressaltar determinados simbolismos.

Essa foto, “Tsunami Grief,” ficou em segundo lugar na Pictures of the Year International. Disponível no endereço: http://64.233.161.104/search?q=cache:yeOFsG6rim8J:www.poyi.org/62/15/02.php+Arko+Datta, +Reuters,+%22Tsunami+Grief%22&hl=pt-PT

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Foto de flagrante . A foto abaixo. mereceu o espaço de uma página inteira em caderno especial da Folha de São Paulo sobre a tragédia. o que ilustra muito bem o potencial de atenção.Capta o chamado “instante decisivo” (coerção 4) e tem enorme valor documental e impactante. Acreditamos que o ato do fotógrafo de captar um acontecimento no momento de maior tensão narrativa é a essência do fotojornalismo. uma das raríssimas do tsunami que varreu a Ásia no final de 2004. 257 . curiosidade e tensão que o enunciador acreditou despertar no enunciatário.

da agência AFT. acreditamos que. não raras vezes. quanto mais “completa”. da representação do real. dessa maneira. de um ponto de vista subjetivo. mas pode ou não ter características de síntese e impacto estético. mais uma foto cumprirá a sua missão de engajar e manter o enunciatário na leitura no jornal. ficou em segundo lugar no Picture of the Year de 2004. Já a foto de flagrante é um caso particular. de 13 de dezembro de 2003. Essa imagem será sempre uma foto de registro. Um exemplo notável é essa foto do fotógrafo brasileiro Maurício Lima. no Iraque. 153 Essa foto. elaborada. determina a perda de parte da iconicidade. mais preencher os requisitos enumerados. A foto de síntese freqüentemente cumpre a função de ser um registro. ou seja. de um soldado morto por soldados norte-americanos em Tikrit. 258 . é a que mais expõe o fotógrafo como enunciador.Busca efeito estético (estratégia 1) e. De qualquer maneira. Há um forte sentido de “autoria” da foto. O leitor é convidado a uma interpretação mais pausada.153 Devemos notar que uma foto plástica pode ser também uma foto de síntese e de registro.Foto plástica . Vale notar que a busca por uma representação mais estetizada. “Dead Iraq”.

Folha .Análise de abordagem: a prisão de Saddam Hussein Neste item. a análise permite investigar algumas estratégias ligadas ao plano de conteúdo e dar acesso às visões de mundo dos dois meios de comunicação. Nenhum outro tema recebeu tamanho espaço no jornal daquele dia: 259 . 15 de dezembro de 2003. Além de fornecer mais um exemplo do que foi discutido até o momento. dedicou ao assunto cinco páginas e meia das seis da editoria Mundo. que cobre assuntos internacionais. vamos comparar a cobertura da Folha de São Paulo e de Veja da prisão de Saddam Hussein.O jornal de segunda-feira.

260 .

261 . na editoria Mundo. A estratégia de arrebatamento é evidente. uma espécie de página de manchete exclusiva para que o assunto fosse introduzido. Há enorme diferença na diagramação da página que antecede a da cobertura da prisão de Saddam. O leitor que folheava o jornal precisava ser surpreendido ao chegar na parte das notícias internacionais e.Deve-se notar como o jornal construiu. assim. sentir a valorização do tema.

A Folha faz. dessa vez com mais detalhes. ficar com vontade de ler detalhes da captura por meio das matérias. com destaque para o vermelho utilizado na metade inferior “nas mãos dos EUA”. dentro da estratégia de sustentação. o que o conduz para a necessidade de satisfazer curiosidades sobre o assunto. dedicada a um só assunto e aos seus desdobramentos. Tony Blair. dessa vez. Busca-se atrair o olhar com o procedimento de fazer o leitor se interessar pelas fotos e infográficos e. assim. e a repetição do mesmo infográfico utilizado na primeira página. já “arrebatado”. e de outros líderes europeus 262 . Devem ser notados os títulos em letras maiúsculas (caixa alta). uma segunda página de manchete. como se fosse a seqüência de um filme). Dois terços da página inicial são ocupados por fotos (com detalhe para o conjunto de quatro imagens de Saddam justapostas.Sanção do primeiro-ministro da Inglaterra. Não podemos esquecer que o jornal já tinha dado ao tema um grande espaço na primeira página: O jornal apresenta a cobertura da prisão do ex-ditador do Iraque por meio da seguinte divisão entre páginas e assuntos: A11 – Performance da captura de Saddam e detalhes do esconderijo A12 – Sanção do presidente dos EUA e de outros políticos norte-americanos .

a TV. interpretativos e opinativos também é bastante marcada. passado – com análises e comentários sobre as repercussões da prisão do ditador. Busca-se fazer o leitor ficar curioso não só para os detalhes como também. a Internet. como já apontado. de que a resistência armada contra os EUA deveria diminuir com a prisão de Saddam.Esperança de analista na diminuição da resistência armada .Cálculo de mortos pelo regime A15 – Retrospectiva de Saddam no poder . para obter um efeito de atualidade do material. a divisão jornalística entre textos factuais ou “objetivos”. O 263 . a performance da prisão.. por exemplo. É apresentado o clímax da história. A notícia mais fria. para as conseqüências da detenção de Saddam. O diário tenta não se envolver com o discurso norte-americano.Comportamento de Saddam na prisão A14 – Como poderá ser o julgamento de Saddam . como já apontamos. distribui notícias envolvendo a performance principal – a captura.“Comentário” sobre as imagens de Saddam . como o rádio. Podemos notar que o jornal. separando sua enunciação da enunciação dos jornais e do governo dos Estados Unidos. As armas mais importantes para prender a atenção estão. fica para a penúltima página.Avaliação de que a prisão é trunfo eleitoral de Bush . Na Folha. A análise de Sérgio Dávila.Expectativa de abertura democrática no mundo árabe A16 – (Só principal matéria envolve o Iraque) . É esse exercício de futurologia que faz com que o jornal garanta certa identidade para o material apresentado e a sensação de que a edição não é um mero relato de acontecimentos já sabidos pelo leitor. o relato da vida de Saddam.Divisão no mundo árabe A13 – Repercussão em Bagdá . depois o impacto no Iraque e no mundo Árabe. fato já acontecido. Essa necessidade de agregar ao fato principal ou gerador um elemento de atualização. mostrouse errada.bomba explode e mata 17 iraquianos A disposição das unidades noticiosas informa que a parte mais valorizada é a captura. sempre no início. principalmente se ele teve acesso a meios mais rápidos. A performance e as repercussões mundiais são apresentadas com grande afastamento enunciaçãoenunciado. à medida que a edição avança. depois a repercussão nos EUA e no mundo. faz com que se pise no perigoso terreno da especulação. O último assunto a ser abordado dentro do tema é o estouro de um carrobomba no Iraque.

mostra que. no entanto. espere nova onda de patriotismo americano.) O propósito era o de destroná-lo energicamente no plano simbólico. expressões como ‘fim do regime de terror’ e ‘grande vitória de Bush’ predominaram. Para as vítimas numerosas da ditadura ou para as lideranças muçulmanas reprimidas era o sinal de que o pós-saddanismo se tornava de uma vez por todas irreversível. de Nova York. inclusive. E ainda sobrou para o consumo simbólico nos demais 264 . correspondente em Bagdá do “Independent”: “(.) Vamos nos recordar de onde estávamos quando Saddam Hussein foi finalmente capturado. Na própria cobertura da Folha. a cobertura figurativa das matérias principais – um meio de investigar filiações ideológicas . apoderar-se violentamente” (Aurélio) que “ocupação” não tem. Na matéria. Na pág. se refere à guerra também como uma “invasão”. há outros exemplos. por Paul Bremer. Para mim. É o caso de “Chove tiro na antiga Saddam City” (A13). escrita por Cíntia Cardoso. João Batista Natali (“Imagens da TV desumanizam ditador deposto” – A14) faz comentários relevantes sobre o que ele chama de operação de mídia dos Estados Unidos: “(..” Na publicação como um todo. o jornal privilegia o ponto de vista norte-americano. usurpar. Eu estava sentado no chão de concreto da casa de um clérigo xiita morto por um tanque americano. A12. em certos momentos. com grande efeito de “neutralidade”. A imagem de Saddam como um mendigo é um grande exemplo de fotografia de síntese. há um efeito de intimidade. o chefe americano no Iraque foi aplaudido. No geral. já demonstrado no anúncio da captura. notadamente dos iraquianos em Bagdá. Ao dizer as palavras ‘We got him’ (nós o pegamos). analisado depois.. É o caso do trecho a seguir: “Na cobertura das televisões americanas.” Há espaço.. foram os disparos de armas de fogo que anunciaram a notícia. Por exemplo: fala-se em “ocupação do Iraque” em diversas unidades noticiosas. que busca simbolismos. O lado emocional do leitor. com um raríssimo (no jornalismo) texto com um “eu” claramente marcado. recebe grande destaque. na A14 (“Resistência deve diminuir”) fala diretamente ao leitor no trecho final da matéria: “De resto.recurso mais comum são as aspas. Aos partidários da ditadura deposta era um recado de que a resistência à ocupação militar norteamericana estava acéfala. a Folha faz uma cobertura “escrita” com forte apelo racional..” Entretanto. o ponto de vista árabe. que tem um sentido de “entrar à força. por exemplo. diz Bush”. de modo a tirar dele reminiscências residuais de autoridade. para a subjetividade. Nos textos interpretativos. esse cuidado está no título principal: “Acabou a ‘era de trevas’. ou de afastamento em relação ao que narra. para contrabalançar. dignidade e respeito. Até mesmo o texto de Veja sobre o assunto. Sérgio Dávila. de Robert Fisk. é explorado por meio das fotografias. A imagem se destinava ao consumo interno iraquiano e com ao menos duas finalidades.

265 . Não há edição na semana seguinte. O jornal também insiste em explicar com enorme número de detalhes tudo o que aconteceu.. três infográficos).. A imagem que restará dele será agora a de um médico militar inimigo que o examina como se ele fosse um bicho. A capa da edição 1834 foi sobre fé.. por meio do excesso.).154 Veja – A revista que tratou da prisão de Saddam na edição 1834. ou no máximo um prisioneiro sem vontade própria. em que é possível discordar de Natali na análise que ele faz da fotografia do ex-ditador. É costume a última Veja do ano ser mais “fria”. é aquele que pode ser lido em 10 minutos ou três horas..países do mundo árabe. O resultado é um material que pode consumir de duas a três horas de leitura.) Tentou ainda atropelar princípios da ONU (.) Saddam (.. por exemplo. de 24 de dezembro de 2003. Para compensar. (. Como lembra Scarpellini. 154 In “ Novo projeto gráfico estréia terça para realçar informações essenciais e dar mais leveza ao jornal” – Folha de São Paulo. porém. 14. autor do último projeto gráfico da Folha: "Um bom jornal. também de assuntos que não envelhecem facilmente. é um número especial. A imagem de Saddam barbudo e sujo é justamente a de sua humanização. é oferecido para que o leitor faça o caminho que achar mais conveniente.. no entanto. e um suplemento especial. pág. (. 7 de maio de 2000.. demonstração de sua fraqueza e fragilidade que se contrapõem à imagem de ditador besta-fera e assassino de centenas de milhares de iraquianos que ousaram desafiar o regime. matérias especiais de temas amplos.) procurou e conseguiu se impor como liderança regional. com o bombardeio crescente da mídia.” Há um ponto. O objetivo é dar opção para o leitor que tem tempo de ler o jornal e para o que não tem. O leitor tem esse direito". Não menciona autor. Fica evidente que a Folha quer mostrar-se como “jornal completo”. O grande número de unidades noticiosas (há. a revista sempre apresenta uma retrospectiva (o que garante certa atualidade para a leitura). quase o tempo despendido para ler a Veja inteira ou para assistir a três edições do Jornal Nacional. do Ano Novo..

Inicialmente. Vejamos o que foi feito.Uma edição especial sobre Saúde. Outras estratégias foram pensadas. a prisão de Saddam recebeu grande destaque espacial. Há várias razões para o texto de Saddam não ocupar a primeira página. Os jornalistas da revista não poderiam apenas apresentar as mesmas informações e análises sobre a prisão já dadas pelos outros jornais. Veja abordou a captura de Saddam quase uma semana depois de o fato ter acontecido. é possível pensar que se trata de um tema mais indigesto para os leitores. Uma discussão sobre fé parece ser mais palatável. que iam receber a revista na véspera do Natal. O assunto já tomara grande parte do tempo e do espaço de outros noticiários. Apesar de não ser capa. com nove páginas: 266 . Por outro lado. com o título: “Como ficar mais bonito e saudável” foi encartada na publicação.

267 .

268 .

Saddam. força x fraqueza. liberdade x prisão. figurativamente. O tirano que dispunha de 23 palácios para uso pessoal tinha se escondido numa cova de 1. No terceiro conjunto. Grande Tio de todos os seus clãs e tribos.Grandes letras brancas em fundo preto. é “o fim melancólico de um dos tiranos mais sanguinários dos tempos modernos”. vida x morte. investe na passionalização do leitor. a escolha do material fotográfico e infográfico. e o vencido. que vai se desdobrar. mãe e filha curdas. é pior do que Hitler: “Saddam Hussein. foi descoberto num buraco. em uma série de outras relações: luxo x miséria. Há imagens de conteúdos díspares. para contrastar com as fotos dos cadáveres dos filhos do expresidente e para lembrar que os genros foram mortos pelo próprio ditador. ostentação x privação. Há uma categoria de base. nem atirou nos soldados. Tentou-se mostrar como a prisão exacerbou contrastes. Descendente direto do Profeta. Tentou.000 dólares que guardava numa maleta. O primeiro parágrafo é primoroso nesse procedimento e afirma que Saddam. cuidadosamente relacionadas para formar quase um paradoxo visual. entre elas. Esse tom aparece em todo o texto e se apresenta como o “diferencial” em relação aos outros noticiários: a busca da curiosidade – estratégia de sustentação . Marechal-de-Campo de seus exércitos.” 269 . não exatamente por meio da apresentação de uma performance de captura do ex-ditador. no quesito covardia. O conjunto mais evidente é encontrado logo no primeiro conjunto de páginas. Presidente de seu Conselho de Comando da Revolução. Chama a atenção. Não engoliu uma cápsula de cianeto. Temos os “dois” Saddam: o poderoso. Presidente do Iraque. o “galã”. mortas por armas químicas. O último conjunto de páginas duplas conclui a reportagem com a apresentação de cinco vítimas de Saddam. Glorioso Líder. suborná-los com os 750. 13. com uma tampa de concreto camuflada com lixo. que ocupa a maior parte dos espaços da reportagem. quase todos sorridentes. mas entregou-se sem resistência. quase mendicante. Comandante-em-Chefe da Imortal Mãe de Todas as Batalhas. um infográfico toma quase as duas páginas com uma grande foto de Saddam com a família. como fez Adolf Hitler em situação similar em 1945. que propalava ser a personificação da tradição guerreira árabe. estava armado com dois fuzis AK-47 e uma pistola. não se matou com um tiro. O “gancho” do texto como um todo. imediatamente. o ungido.do leitor. explicitado no terceiro parágrafo. isso sim. No segundo conjunto de páginas duplas mostra-se o palácio e também a cozinha do casebre onde o ditador foi encontrado. de José Eduardo Barella. O texto. coragem x covardia. fotos diagramadas em clara oposição no espaço das duas primeiras páginas mostram o investimento inicial na estratégia de arrebatamento. um “fazer-odiar”.80 por 2. na noite de sábado.40 metros.

51 foram assassinados sob acusação de traição. explicitando as artimanhas da revista na busca da passionalização do leitor e sua relação com o ponto de vista norte- 270 . A revista não esconde o papel de promotor da acusação. Acabou. jornal Sunday Times) e mostrar que tudo o que é apontado só pode ser a única conclusão possível.) Ele acreditava que.Como um todo. com muitos detalhes. análises que também funcionam como elementos de atualização. dirigindo-se aos jurados. e portanto incapaz de produzir efeitos práticos?”. Há um aspecto notável desse texto. mas um símbolo apenas. assim. Mais do que a figura de um anti-sujeito. justifica a própria invasão norte-americana: “Só o delírio causado pelo poder absoluto.... como resumiu o secretário de Estado americano. Retoma-se. “Será que a Casa Branca percebeu que a captura de Saddam é só um símbolo – forte. o de parecer discutir o anterior em alguns momentos. para não perder o tema. Os iraquianos são apresentados como vítimas. o presidente americano desistiria de derrubá-lo e ele poderia retomar sua rotina de ditador. para Veja. Colin Powell. de autoria de André Petry (“E nem parecia Bush. assassinatos. que impunha sua vontade (fazer-fazer ou fazer-agir) na base do dever e sob pena de sanções pragmáticas severas.) discute as razões do “tom sóbrio” adotado pelo presidente dos Estados Unidos ao fazer um pronunciamento ao povo norte-americano. Tenta-se atenuar a forte carga opinativa com informações. que tudo sabe. como as guerras. A quinta página da seqüência (número 37). Mas a matéria é cuidadosa ao dosar o teoricamente já conhecido com o novo na busca do efeito de atualidade.. que desperte o nível de atenção esperado do leitor. Há discussões sobre as formas de julgamento do ex-ditador e as conseqüências para a “ocupação norte-americana”. resta apenas jogá-lo na lata do lixo da história. em um único parágrafo. ‘como um detrito esperando para ser coletado’. aliado à depravada indiferença para com a desgraça de seu povo. aparece como fonte de anti-valores: tirania. Os relatos das atrocidades do ex-ditador não são exatamente “fato novo”. “episódios documentados”. o que Veja faz é construir para o ex-presidente do Iraque o papel de anti-destinador. faz mais descrição de torturas. No total. (. argumentos de autoridade (ONU. pode explicar por que ele preferiu o confronto. o texto segue um tom comum na Veja. o de sanção. Depois. estatísticas. Agora. pergunta. ou dito de outra forma.” O último texto das nove páginas motivadas pela prisão do ex-ditador do Iraque. retoma. Há relatos de torturas. após os bombardeios. Saddam. sujeitos obrigados a manter relações com objetos que lhes causam repulsa. fortíssimo. revista Forbes. o relato sobre a “ambição” de Saddam que. O texto termina com uma especulação mais ampla. pela última vez. opressão. de tortura à morte. crueldade. dirige foco para os próprios parentes de Saddam. contudo. a reação de Saddam na prisão e.

Ele cita os militantes do partido de Saddam. autoritária. contra crianças massacradas para que pais confessassem crimes. tem clara função ideológica. A transição de conquistadores para construtores de nações vai demandar ainda toda a energia criativa e muito da riqueza americana. É interessante que o caminho buscado por Veja foi ver. uma justificativa para convencer seus leitores da importância da guerra dos EUA contra o Iraque. Busca-se. nem a democracia no Iraque deve ser construída tão cedo. É evidente que o leitor não pode ir à desforra contra o exditador. na prisão de Saddam. facilitou amplamente a tarefa. Numa análise narratológica da enunciação. a Casa Branca precisou demonizar Saddam. “revoltado”. prática colonialista do século XIX. os sunitas. Veja não esconde suas simpatias nem do que quer convencer. ao criar um leitor tenso. com amplo apelo às injustiças cometidas contra famílias. a ação armada americana no Oriente Médio prendeu a atenção do mundo e levantou suspeitas de ressurgimento do imperialismo de dominação territorial.” No momento seguinte. na mesma edição. (. que “se ressente de estar sob as botas de um ocupante estrangeiro”. os soldados fiéis ao ex-ditador. a revista sai em defesa do governo Bush: “Nesses oito meses.” 271 . 56. continua o analista. Em outro trecho.. enterrada no século passado.. o Baath.) Nem toda a força econômica dos Estados Unidos é capaz de fazer valer sua cultura e modo de vida em um país derrotado e empobrecido como o Iraque. O ano termina com as expectativas americanas e as de seus adversários bastante diluídas. o relato de Veja serve para desencadear no leitor a paixão da vingança contra Saddam. a empatia do público com as vítimas. minoria da qual o ex-presidente do Iraque fazia parte e que perderam influência política. Veja cita a guerra do Iraque e lembra a seus leitores que a missão de Bush foi a de “implantar a democracia no país que foi de Saddam Hussein”.americano: “No jogo de guerra. É nesse sentido que acreditamos que todo o emocionalismo do texto principal. terroristas da Al Qaeda e até mesmo a classe média iraquiana. cuja biografia. a de despertar simpatia pelos norteamericanos e sua incursão no Iraque. Mas a catarse tem possibilidade de acontecer via apoio à ação do governo dos Estados Unidos. que tem uma estratégia de sustentação particular. Nem Bush e seus assessores neoconservadores têm planos de dominar o mundo. como estratégia de sustentação. tudo fica mais complicado porque “há muita gente sem lugar no Iraque do pós-guerra”. sangrenta. Na Retrospectiva 2003. pág.

será o de recortar com mais precisão o próprio objeto. essa característica é mais perceptível do que na Internet. notadamente das características do funcionamento do gerenciamento do nível de atenção em determinados objetos jornalísticos na rede mundial de computadores. O próprio UOL acomoda versões eletrônicas da Folha de São Paulo. Em função disso. Qualquer estudo corre o perigo de envelhecer precocemente. explicamos com mais detalhes algumas questões de ordem técnica para o entendimento do objeto de análise e seus impactos. A rede também vive uma evolução muito mais rápida do que a experimentada por outros veículos de comunicação. foi escolhido o portal UOL para estudo. a cobertura da prisão de Saddam Hussein servirá para mostrar alguns modos de textualização. uma comparação com as coberturas dos outros noticiários. Uma teorização sobre o jornalismo e a Internet precisa enfrentar certas dificuldades. adaptadas. de Veja e de inúmeras outras publicações jornalísticas. 272 . tivemos a preocupação de apresentar reflexões que não fossem facilmente sepultadas com a descoberta de novos usos para as tecnologias de informação digital. apresentar formas de abordagem do assunto e permitir depois. Em nenhum veículo. Como o assunto é de enorme amplitude. Como foi dito no início da segunda parte do trabalho. nesta parte do trabalho. porém. A investigação de um portal como veículo de jornalismo não deixa de trazer questionamentos e dúvidas. Nosso primeiro procedimento.PORTAL. portanto. Limites e vantagens tecnológicas sempre vão determinar formas de relacionamento entre um meio de comunicação e seu público. Para enfrentar o problema. Diversas reflexões dos outros noticiários serão agora reaproveitadas e. a ordem dos estudos específicos tem uma justificativa. na conclusão. em certos momentos.JORNALISMO NA INTERNET O último ponto de análise da tese é o jornalismo na Internet. Finalmente.

no entanto. A Internet acumula outras funções importantes. acessíveis de qualquer parte do mundo” (2005: 73).a Internet e o portal Bernardo Kucinski afirma que a rede mundial (também conhecida por world wide web – daí o famoso “www”) exerce e combina quatro características principais relativamente distintas: “A função de transmissão de dados. que permite acessar bancos de dados. ampliando o leque de instrumentos de meios de transmissão que compreende também o telefone. Também apresenta um amplo espaço para entretenimentos específicos. fazer entrevistas. que não existiriam se não fosse a Internet. que são amplos espaços com grande número de conteúdos e informações. Como em um estudo semiótico a palavra pode causar problemas. a de memória de toda produção intelectual. o telégrafo e o fax. Conteúdo é “a informação disponibilizada pelos sites aos seus leitores. não está no mesmo nível dos sites. sendo 155 156 Blogs são diários on-line. boletins. 273 . jornais e revistas on-line. vídeo ou infográfico” (Ferrari. finalmente. como mídia. Em todas essas formas. em sua maioria. a de mídia. Kuncinski refere-se à Internet como “mídia” no sentido mais geral. facilita o acesso a serviços e exibe verdadeiros estabelecimentos virtuais. a de ferramenta de trabalho. acolhe. artística e científica. modifica e mesmo inaugura outras mídias. 2004: 97). características que perpassam as quatro funções apontadas. sem contar a possibilidade de consumir ou “baixar” músicas e filmes. inclusive publicidade e programas de venda direta. e. os e-mails. uma modalidade de correio ou comunicação interpessoal. de “meio de comunicação”. Beth Saad lembra que “as operações digitais brasileiras acabaram. foto. boletins. ler jornais e publicações de todo o mundo e trabalhar com base nesse material. Desse modo concilia algumas observações que acabamos de fazer e permite situar melhor nosso objeto de estudo. A rede permite a compra de produtos. 157 É mais preciso dizer que a Internet.Considerações gerais . como a de meio de comércio eletrônico (e-commerce). na forma de arquivos digitalizados. O autor explica que. 157 O portal. sites 156 e portais. que são versões às vezes resumidas ou seletivas de publicações que já existiam e continuam a existir em forma impressa. Há alguns reparos possíveis nessa classificação. blogs. deixando bastante complexa a questão do próprio suporte existente. há uma superação dialética entre público e privado” (idem: 76). mas que na Internet assume caráter também de comunicação socializada. que pode vir em formato de texto. a Internet se apresenta em várias formas: blogs 155 pessoais. vamos nos referir a essa definição como conteúdo-web. caso dos jogos on-line. que são pequenos jornais ou newsletters em forma exclusivamente eletrônica. a mais nova depois da invenção da TV nos anos 1950. “como meio de comunicação social.

a passagem de um documento a outro. O endereço eletrônico já é produtor de sentido. uma convivência. é notável também verificar que a página inicial do UOL é a própria síntese da Internet e de suas possibilidades. por exemplo. é preciso conhecer seu endereço na rede.uol. O UOL. Esse fato não é nada inocente do ponto de vista ideológico. chamadas para conteúdos díspares.a passagem de um ponto a outro de um mesmo documento (como. numérico. entre outras possibilidades. o portal é ainda um filtro que hierarquiza o mundo caoticamente apresentado em formato digital. que pode ser colocado em funcionamento. não nasceu para ser um jornal digital. Trata-se do domínio.cunhadas como ‘portal’. superior. seja por refletirem verdadeiramente uma estratégia de amplo acesso.br. é preciso ter ainda um programa que “puxe” e dê visibilidade às páginas de um site hospedado em determinado servidor. Além de um computador conectado a rede. A solução ajuda a formar ‘comunidades’ de leitores digitais. não deixa de ser também parte “englobada”. 3 – O controle da ação de um elemento. consideramos aqui o portal como “texto” na acepção semiótica. seja por uma questão de marketing ou de status. como o do portal da Rede Globo: www. nem mesmo para ter características jornalísticas. acima da hierarquia e das regras impostas aos outros países. começou a ser usado em 1997 (2004:18). como significado de “porta de entrada”. pausado. Outro ponto interessante é que todos os países do mundo têm uma identificação com duas letras nos domínios (. Fica agora mais claro o recorte proposto. reunidas em torno de um determinado tema e interessadas no detalhamento do conteúdo em questão e seus respectivos hiperlinks em novas janelas de browser” 159 158 que surgem (idem: 30). que se auto-intitula “o maior provedor da América Latina”. caso de um vídeo.frança. e tem o endereço www. é recoberto com siglas e nomes para ficar mais fácil de decorar. “Os portais tentam atrair e manter a atenção do internauta ao apresentar.fr . Esse programa é o browser ou navegador (como o Explorer e o Netscape). Os Estados Unidos aparecem como espaço globalizado. Ferrari também aponta a questão que mais nos interessa: “O conteúdo jornalístico tem sido o principal chamariz dos portais”. na página inicial. de várias áreas e de várias origens. pois apresenta inclusive os recursos listados inicialmente como funções da rede. sair do final de uma página e voltar ao início com um toque do mouse em um desenho). registrou seu principal domínio no Brasil. Para ter acesso a um site. 158 274 . Existe um enunciador que precisa manipular um enunciatário para que se estabeleça um laço. Ao mesmo tempo em que “engloba” tudo. 2. que acaba por garantir a própria sobrevivência do serviço. “navega” onde quer e quando quer. Pollyana Ferrari afirma que o termo “portal”. como www.Reino Unido. 159 Os sites ficam armazenados em provedores de acesso.uk . Esse endereço (ou URL).globo. Como veremos depois. supondo-se que um portal é mais importante que uma página web” (2003: 250). . Graças aos links.com. Isso é evidente Hiperlinks ou links são elos entre elementos de um site que possibilitam: 1. sem indicação de país de origem. menos os Estados Unidos. só para citar dois exemplos). registrado nos Estados Unidos. De qualquer maneira. Empresas que querem parecer globalizadas adotam um domínio internacional.com. como “invenção”.globo. O portal.com. a Internet ganha sua grande característica: o internauta constrói seu próprio caminho dentro da rede. que mantêm computadores denominados servidores. Ponto de partida do internauta para que possa utilizar a Internet. por exemplo.

O jornalismo. e uma outra página que chama a atenção para um assunto de grande destaque. antes do carregamento da homepage. Cada portal. Aos poucos. Para completar os efeitos de atualidade e de sensação de “fluxo”. característica dos textos de manifestação temporal. geralmente uma imagem em movimento. A principal solução pensada. a homepage propriamente dita. Só que se relacionam a acontecimentos que acabaram de ocorrer ou em pleno desenrolar. foi exibir os principais assuntos por meio de uma hierarquia que privilegia a sensação de máxima proximidade com o tempo presente – cronológico . portanto. Alguns sites têm. no entanto. em pleno “desenrolar”. Um terceiro caso.do enunciatário. o jornalismo foi ganhando mais e mais espaço. Desse modo. o pop-up. É mais raro. apresenta uma forma de textualização de base espacial. é o aparecimento de uma pequena propaganda ou chamada. no seu processo interpretativo. mas existe. ou seja. hierarquizadas no espaço da página. o carregamento simultâneo de duas páginas iniciais. consegue o efeito de sentido de representação do A página inicial de um portal ou site geralmente é a homepage (ou casa-página). ao enunciar o tempo todo sobre um conjunto de fatos.quando se vê a homepage 160 do UOL de 1999. A tela. erroneamente confundida com o site. deve reconhecer que está diante de informação “nova”. as notícias vão sendo trocadas em intervalos curtos de tempo. Podemos observar ainda hoje as unidades noticiosas sendo apresentadas. 160 275 . o internauta. Foi preciso então encontrar meios de representar a idéia de fluxo. não foi somente escolhido pelo interesse do público nas notícias. uma pequena introdução. O formato repetia-se todos os dias e dava a impressão de enorme imobilidade. Percebeu-se que a maior coerção de um site ou um conjunto de sites que formam um portal era a de se mostrar em constante atualização. predominantemente estática. e ainda válida. A razão é simples.

Relembremos que estipulamos quatro “leis de diagramação” para os jornais e revistas impressos: 161 O recurso de apresentar “notícias” para dar impressão de atualidade a um site ou portal virou lugar comum na rede quando se percebeu seu potencial. Trata-se do ponto inicial de visitação. Saad. 276 . por exemplo. os sites das principais agências de publicidade brasileiras. manifestações gráficoplásticas que têm uma série de pontos em comum com as encontradas nos jornais impressos. Por meio da primeira página. 161 Formas de textualização Em um estudo sobre o portal. é também o espaço ocupado e o posicionamento dos elementos que mostram os valores em jogo em relação às notícias. A textualização de uma home-page e a primeira página de um jornal têm procedimentos parecidos. As ONGs falam dos andamentos de seus projetos. ou de grandes ONGs. As agências. Grande hierarquizadora dos assuntos de um site. Basta ver. digitalmente. sua visão de mundo. na home. Temos na página inicial de um site geralmente “notícias” que não passam de informação atualizada sobre os próprios enunciadores. a homepage também escancara os valores do enunciador. Um portal apresenta. Aliás. podemos conhecer o que ele considera mais – ou menos – importante. enfim. por exemplo. Podemos falar que. bastante comum entre construtores de sites (ver. apresenta as mais evidentes estratégias de gerenciamento do nível de atenção do internauta. é preciso conhecer melhor a homepage. anunciam seus últimos contratos. o que valoriza e o que “esquece”.os conceitos de espaço/nível de atenção propostos para as publicações de papel. parte considerável de sua ideologia. a palavra “arquitetura”.próprio pulsar da vida cotidiana e de inserção do internauta nesse movimento incessante. a homepage merece o maior empenho. 2003: 259) denuncia que se fala de organização do texto por meio de relações espaciais. Em outras palavras. seus anúncios mais recentes. Dessa maneira. podemos utilizar – com adaptações . Como principal entrada. o público não só fica sabendo das “novidades” como também é manipulado para enxergar o próprio dinamismo do site e de seus donos. por exemplo. em sua arquitetura. Antes de apresentálas em detalhes.

A página a seguir foi capturada às 10h30 da manhã da terça-feira. A manchete principal aparece com um corpo de letra maior. Categorias topológicas de expressão Maior volume ocupado x menor volume ocupado Parte de cima x parte de baixo Exterior x interior Inicial x final Correspondência no plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Vejamos os elementos da homepage do UOL para verificar a pertinência dessas relações dos impressos no portal. há pouca variação de corpos e espessuras de letras nas contínuas atualizações da homepage. Essa lei obriga a colocação das principais informações e dos elementos de mais impacto sempre no começo. Quarta lei: o início de uma unidade noticiosa é o espaço mais valorizado. Entretanto. ocupa mais espaço. O potencial gráfico- 277 . 10 de maio de 2005: Podemos verificar que as “leis” dos impressos são aplicáveis para o estudo da primeira página do portal.Estratégia do plano de expressão Primeira lei: o valor de uma unidade noticiosa é proporcional ao espaço a ela concedido. está na parte de cima. Terceira lei: a máxima valorização espacial acontece na capa ou primeira página. Segunda lei: tudo o que estiver na parte de cima tem mais valor do que na parte de baixo.

que é diferente da existente nos impressos. essa porção visível aparece dentro do retângulo pontilhado). o mesmo bloco de manchetes está na parte central. uma forma de construção de sentido por meio da aspectualização do espaço que. precisa “rolar a página” com o mouse.de “notícias” e de “e-commerce”. Em outras palavras. à esquerda e no topo. mas também cromáticas. Do ponto de vista da página inteira (parte exposta mais a parte oculta). Deve-se notar que o internauta. são conteúdos-web já em forma de manchete. De qualquer maneira. se impôs em um suporte que tem a possibilidade de apresentar não só um. acabam por destacá-lo por contraste. de notícias. entre outros . importantes e chamativas na ótica do enunciador. Quase todas as manchetes. Isso cria novas relações. há o shopping UOL. constata-se que a ocupação dos espaços da home do portal é bastante fixa. mas diversos objetos em movimento e simultaneamente.Jornais e Revistas.exposto x oculto . E há blocos de conteúdosweb distintos. como se autodefine o UOL.não são fixos. O retângulo central branco é o principal ponto de valorização e captação da atenção para determinados assuntos. Esses conteúdos-web . a divisão entre partes de “serviços” . A parte azul. tendendo ao cinza. principalmente para o material jornalístico. porém. Na terceira parte. Lá estão as notícias mais quentes. mas sua característica maior é a de ser uma coletânea do que as estações têm de mais chamativo e atual. amigos virtuais. por serem coloridas. É nítida. Seu dinheiro. dá acesso principalmente ao que os administradores do UOL chamam de “estações”. portanto. o retângulo das manchetes está na parte de cima. A parte central também permite acessar as estações. O retângulo laranja mostra o conteúdo multimídia. tem uma organização muito semelhante à de um jornal impresso.plástico é pouco explorado. O efeito pretendido. O “principal portal de conteúdo do país”. levando-se em conta somente a parte inicialmente exposta no carregamento da página. é de organização e hierarquização. Os temas aparecem em caixas cujos títulos ficam em um retângulo vermelho escuro e com as chamadas em fundo bege. nos 278 . ou seja. em cinza. O olhar do internauta pousa no branco do retângulo das principais manchetes porque as outras partes do portal. A home tem três partes principais. aparecem da mesma maneira. sexo. jornais. e a disposição imóvel das letras. Há uma categoria . São sites que organizam os principais conteúdos-web disponíveis: biblioteca. que tem assim máxima visualização. É notável como o verbal. Analisemos um pouco mais a parte central. de uma tragédia à vitória de um time de futebol. Outro ponto a observar é a função não só das relações topológicas. Só que. para ter acesso a tudo o que há no portal. A tela que aparece no computador é geralmente a metade superior (no gráfico.aqui no sentido de uma organização de assuntos que permite o acesso rápido do internauta ao que ele procura .

diários, de maneira geral, pouco se alterou em décadas.

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Os elementos que se

movem – ou seja, apresentam relações também temporais - são quase sempre publicitários. Isso quer dizer que a estratégia de arrebatamento, quando a página é carregada na tela do computador, vincula-se principalmente às unidades de “ecommerce” e não às jornalísticas. A atenção inicial deve ser fisgada para que o enunciatário se interesse em realizar compras ou em adquirir serviços por meio do site. Podemos notar, no portal, a presença dos quatro grandes conjuntos significantes já mostrados nos jornais impressos: 1. Verbal, manifestado tipograficamente - Na home analisada, há pouca variação. 2. Fotográficos – Também aqui, há pouca variação de tamanhos na home. Como grande parte das fotos deve ser pequena, há uma profusão de “carinhas”, retratos.

Entre os autores consultados, é constante a observação de que a Internet, e notadamente o chamado webjornalismo ou jornalismo digital, ainda se apóia em modelos conhecidos porque todos os interessados na questão – empresários, jornalistas, acadêmicos – ainda não sabem muito bem como utilizar todas as potencialidades da rede. Em “Webjornalismo de Terceira Geração – continuidades e rupturas no jornalismo desenvolvido para a web”, Luciana Mielniczuk (http://www.adtevento.com.br/intercom/resumos/R08161-pdf - acessado em maio/2005) busca respostas, mas constata: “Navegando por webjornais, há alguns anos, tinhase a impressão de estar lendo o jornal impresso na tela do computador. Hoje, a situação mudou bastante, encontramos muito mais links e recursos de multimidialidade, mas não vemos nada de muito diferente do que já foi visto. A ‘novidade’, por enquanto, é que podemos ler o jornal impresso, assistir ao noticiário de televisão e ouvir o noticiário do rádio, na mesma tela do computador, de maneira quase simultânea.” Marcos Palácios, em “Jornalismo Online, Informação e Memória: Apontamentos para debate” (disponível em www.facom.ufba.br/jol/pdf/ 2002_palacios_informacaomemoria.pdf – último acesso em maio/2005) enumera as possibilidades – mal utilizadas - do jornalismo de Internet: multimidialidade/convergência, interactividade, hipertextualidade, personalização, memória, e a instantaneidade do acesso, que permitem a atualização contínua do material informativo. O autor, ao mesmo tempo, lembra que mesmo essas características, separadamente, não são privilégio do web jornalismo, que não apresenta uma grande ruptura em relação às outras maneiras de buscar, tratar e distribuir notícias, mas é, antes de tudo, uma continuidade e uma potencialização dessas mesmas formas: “A Multimidialidade do Jornalismo na Web é certamente uma Continuidade, se considerarmos que na TV já ocorre uma conjugação de formatos mediáticos (imagem, som e texto). No entanto, é igualmente evidente que a Web, pela facilidade de conjugação dos diferentes formatos, potencializa essa característica. O mesmo pode ser dito da Hipertextualidade, que pode ser encontrada não apenas em suportes digitais anteriores, como o CD-ROM, mas igualmente, e avant-la-lettre, num objecto impresso tão antigo quanto uma enciclopédia. A personalização é altamente potencializada na Web, mas já está presente em suportes anteriores, através da segmentação de audiência (públicos-alvos). No jornalismo impresso isso ocorre, por exemplo, através da produção de cadernos e suplementos especiais (cultural, infantil, feminino, rural, automobilístico, turístico, etc); no rádio e na TV a personalização tem lugar através da diversificação e especialização das grades de programação e até mesmo das emissoras, como no caso da RTP Internacional, totalmente voltada para a Comunidade Lusitana na Diáspora.” Para Palacios, o webjornalismo encontra sua especificidade potencializando e principalmente combinando as características descritas, notadamente a que envolve a memória, o acesso às informações acumuladas.

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3. Pictóricos - Na home, os recursos pictóricos também não são muito utilizados. 4. Mistos – Os infográficos, fusões são mais comuns nas estações, fora da home. Há também os diagramáticos – como as caixas coloridas ou vazadas, entre outros recursos. Ao contrário dos impressos, existe no portal grande uso dessas últimas possibilidades de expressão, principalmente para dar a idéia de organização de determinados assuntos e para valorizar outros. Os recursos diagramáticos também são responsáveis pela divisão da home em partes distintas, de conteúdos-web facilmente reconhecíveis. Temos semi-simbolismos “cristalizados” nos recursos diagramáticos, caso do azul representar a entrada para as estações e o espaço do assinante. Um outro conjunto significante (na verdade, um “conjunto de conjuntos”) é exclusivo da Internet: 5. Hipermidiáticos –referem-se à manifestação de informação de mídias de fluxo, como o rádio, a TV, ou quaisquer arquivos que tenham uma progressão temporal, como uma apresentação de fotos em programas de slides do tipo PowerPoint, desenhos animados, e até mesmo animações somente com letras.163 Quaisquer unidades dos cinco grandes grupos de conjuntos significantes podem ou não dar acesso a outras, ou ainda desencadear funções pré-programadas pelo enunciador, como a de movimentar uma foto quando o mouse simplesmente desliza sobre um elemento. A passagem às páginas e outras unidades do portal ou fora dele é feito por hiperlinks. Funções e links põem um fim à semelhança de um site com uma revista. Notadamente os links
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possibilitam um contato não linear,

personalizável, com os conteúdos-web da rede. É possível conhecer certas partes sem passar por outras. Via links, os conteúdos-web do site e de outros sites podem ficar disponíveis, acessíveis.
Para a construção de páginas web é preciso utilizar uma linguagem de programação. A mais básica é chamada de HTML (Hipertext Markup Language). Podemos comparar essas linguagens como uma cola. Os elementos são “grudados” e depois apresentados na forma de uma página, com fotos, texto verbal, links, ou até mesmo um filme. Tudo isso vira bit, ou seja, a unidade mínima de um sistema digital, que pode assumir apenas os valores 0 ou 1. O mundo digital, portanto, transforma tudo em 0 e 1. É interessante que mesmo os elementos hipermidiáticos também são entendidos como fragmentos agregados a uma página ou conjunto de páginas de modo que a organização espacial se imponha à temporal. 164 Os links também informam os valores do site. Se um site de música coloca links destacados para cada gênero de música popular (samba, rock, mpb, axé, etc) e insere gêneros como jazz, música erudita em um link chamado “outros”, mostra o que considera importante e o que considera menos importante. No caso, quer criar uma imagem de quem se identifica com o gosto popular.
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Sabemos que os elementos tipográficos são os preferidos para a construção de links. Teoricamente, no entanto, qualquer elemento citado pode apresentar um link ou um conjunto de links
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, ações, ou seja, ser um elo para mais conteúdos-web.

Observa-se uma categoria ativo x inativo que pode ser utilizada para determinar se um elemento de qualquer um dos seis conjuntos significantes citados é ou não uma ponte para um outro. A característica cada vez mais evidente de a Internet ser a “mídia de outras mídias” (a multimidialidade) faz com que a maioria das observações sobre outros tipos de jornais apresentados durante todo o trabalho tenha plena validade no ambiente virtual. Um programa de radiojornalismo ou telejornalismo na Internet também vai obedecer às características básicas – como efeitos da entonação no primeiro e de câmera e edição no segundo - apontadas nas outras partes do trabalho. As relações entre conjuntos significantes mostradas nos impressos – notadamente as que envolvem os tipos gráficos e o fotojornalismo – também podem ser aplicadas na análise de um portal como o UOL. Algumas adaptações são, porém, inevitáveis. Os conjuntos significantes hipermidiáticos, marcados por relações textuais temporais, como um programa de TV ou rádio que pode ser assistido por meio do portal, se submetem a uma estrutura espacial, que lhes atribui valor. Mesmo que diversas janelas pudessem ser abertas para diferentes elementos de hipermídia, as formas de visualização do fluxo precisariam ser hierarquizadas e topologicamente organizadas. Poderíamos em teoria entrar em uma home com, por exemplo, quatro programas de televisão passando simultaneamente. Se tivessem diferentes tamanhos de tela, tenderíamos a considerar que o mais importante é o apresentado no quadro maior. Se todos fossem mostrados em telas do mesmo tamanho, seríamos tentados a valorizar mais o programa que está na parte de cima.

O efeito de sentido de “infinitas possibilidades”

Há outros pontos instigantes relacionados ao modo de textualização de um portal. Pode-se questionar a validade de uma reflexão sobre “texto” diante de um meio de comunicação que apresenta “conteúdos” de maneira hipertextual. É preciso lembrar, inicialmente, que um portal não é um texto sem limites. O caminho hipertextual realizado pelo Internauta também é conseqüência de uma estratégia enunciativa que tenta organizar e tirar proveito da passagem do usuário pelas páginas, dentro da busca de audiência. As milhões de páginas disponíveis no UOL não

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Uma única foto, por exemplo, pode ter vários links.

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impedem o enunciador, por exemplo, de organizar todo o portal na famosa estratégia – entre webdesigners - dos “três cliques”. O portal inteiro é concebido para que o internauta “chegue” no lugar desejado passando por apenas três páginas: a home principal, a home da estação analisaremos no próximo item. Existem, no entanto, muitos caminhos possíveis dentro do portal. Só que é preciso discutir essa pretensa liberdade do internauta em construir seu próprio “texto”, ou seja, o que ele quer consumir. Vejamos como o usuário pode ter acesso às notícias. Há dois caminhos principais: clicar no link de alguma manchete na parte central, de notícias, ou ir diretamente às estações. No UOL, há oito estações dedicadas ao jornalismo. Todas têm funções específicas e, ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser na Internet, apresentam certa interligação: - UOL News – Em maio de 2005 é comandado pela ex-âncora do Jornal da Globo Lillian Witte Fibe. Trata-se de uma experiência de telejornalismo on-line. As notícias são oferecidas on demand (ficam disponíveis para serem consumidas a qualquer momento) em dois tipos de codificação: uma para banda larga e outra para banda estreita. Os conteúdos-web também são mostrados em diferentes mídias, apesar da ênfase em vídeos. É possível ler ou assistir a uma mesma entrevista. Grande parte dos vídeos é produzida pela Band News.
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, e a home do site relacionado na estação, como

- UOL Jornais – Apresenta uma lista dos sites de jornais brasileiros e internacionais. Abriga ainda o site Mídia Global, que faz uma seleção das principais manchetes de jornais, revistas e agências de notícias (Cox Newspapers, Der Spiegel, El País, Financial Times, Hearst Newspapers, Herald Tribune, La Vanguardia, Le Monde, Prospect Magazine, The Boston Globe, The New York Times, The NYT News Service, USA Today, Agências de Notícias AFP, EFE, Folha Online, Lusa, Reuters, Valor Online) e apresenta links para os respectivos sites. UOL Últimas notícias – É praticamente a apresentação de uma lista dos assuntos jornalísticos que vão entrando no site, às vezes de minuto em minuto. O material mais atual sempre encabeça a relação. Os títulos também têm a função de links e remetem para outras estações. O efeito de atualidade é tão perseguido que antes dos títulos se informa a hora em que a notícia foi colocada no portal.

No UOL, para relembrar e definir melhor, a palavra estação se refere a um site com conteúdo específico, mas de grande abrangência, hospedado pelo portal, marcado na barra de navegação à esquerda da home do portal. É o caso do UOL Notícias, UOL Sexo, UOL Jornais, entre outras opções. 167 “Lillian Witte Fibe estréia no comando do UOL News” - sem crédito. Disponível em http://noticias.uol.com.br/uolnews/2004/09/17/ult2528u8.jhtm - último acesso em maio de 2005.

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Folha Online – Site que mostra os conteúdos da Folha de São Paulo que são disponibilizados assim que produzidos pelo jornal. A Folha tem, portanto, dois sites distintos dentro do UOL, o que apresenta, na forma de conteúdo-web dentro do UOL Jornais, toda a sua edição do dia (praticamente o conteúdo verbal), e o Folha Online, com notícias que vão se renovando, e que irão, no dia seguinte, fazer parte da edição impressa. UOL Revistas - traz sites de dezenas de publicações nacionais, entre elas Caras, Trip, Atrevida, Herói, National Geographic, Fluir, Sexy, Próxima Viagem, PC World, Corpo a Corpo, Gula e Ciência Hoje, além de traduções de textos de revistas estrangeiras como a alemã Der Spiegel. UOL Televisão - traz ampla cobertura jornalística da programação e de celebridades do veículo. TV UOL – O destaque são os vídeos de entretenimento – músicas, entrevistas com artistas, trailer de filmes. Expõe os conteúdos em vídeo do UOL News e do UOL Esportes. UOL Esportes – Apresenta bastante conteúdo jornalístico, com cobertura de diversas modalidades esportivas, os grandes campeonatos nacionais e internacionais. Destaca futebol, automobilismo e tênis. Traz também tabelas, entrevistas, reportagens e imagens dos gols, além de transmitir em vídeo os jogos e melhores momentos dos principais campeonatos brasileiros.

Essa lista, reforcemos, inclui as estações com conteúdos mais jornalísticos. A maioria das estações, no entanto, utiliza o formato “notícia” para dar efeito de atualidade aos conteúdos-web particulares. Até o UOL Bichos estampa notícias. Uma análise um pouco mais cuidadosa mostra que uma mesma notícia pode aparecer em diversas estações, com formatos distintos (vídeo, texto verbal, conjunto de fotos). Em 18 de maio de 2005, por exemplo, estreou o filme “A vingança dos Sith”, último da cinesérie Star Wars. A parte central da home apresentava uma chamada. O mesmo assunto era tema de reportagens no UOL News, UOL Cinema, UOL Diversão e Arte, UOL Últimas Notícias, UOL Teen, Folha On Line, UOL Tecnologia. A mesma notícia: “‘Star Wars: Episódio 3’ estréia em 430 salas do Brasil” – era encontrada no UOL Cinema, UOL Diversão e Arte, UOL Últimas Notícias, Folha Online Busca. Percebe-se que a sensação de uma enormidade de notícias em um portal também é um efeito de sentido. E por vários motivos. O que o internauta tem é uma espécie de “mais do mesmo”, porém embalado de um jeito que dá a sensação de uma infinidade de possibilidades de consumo do mesmo assunto. Outro ponto é que a mesma notícia aparece em várias estações diferentes, pois é pouco provável que um

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internauta visite todas. Há maneiras de atraí-lo e de dar o que ele procura – ou seja, satisfazê-lo - por diferentes caminhos. Finalmente, também é possível verificar que as estações hierarquizam a notícia ao gosto do internauta. O mesmo filme para adolescentes pode merecer uma nota na home da Folha Online e um destaque maior na do Folha Teen. Cada estação pressupõe a existência de um diferente contrato enunciador-enunciatário, questão que vamos investigar.

O enunciatário impaciente
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Em uma conversa on-line com internautas

sobre a última grande mudança

no portal UOL, ocorrida no começo de 2004, a diretora de conteúdo, Márion Strecker, foi questionada sobre qual público-alvo pretendia atingir com a reformulação. “Pela contagem feita pela Tecnologia do UOL, temos perto de 17, 18 milhões de visitantes únicos por mês. É muita gente. A homepage do UOL é vista por gente de todas as idades e de todo o país. Somos um meio de comunicação de massa e não podemos mais eleger uma só fatia do público como alvo” – respondeu. O portal, como fica bastante visível na distribuição de assuntos em links ou manchetes, busca o maior número possível de visitas, ou, em termos mais técnicos, de “page-views”, uma das bases de medição de audiência. Para discutir melhor a questão do enunciatário instaurado pelo portal, devemos notar que o UOL divide seus visitantes em dois tipos distintos: 1 - os assinantes, que pagam e têm acesso irrestrito a milhões de páginas, e 2 - os visitantes, que devem ser conquistados para fazer parte do primeiro grupo e têm acesso restrito. A home, portanto, é não só o lugar para manter o internauta cativo. É também o espaço de busca pelo internauta desgarrado, que está zanzando pela rede. A dinâmica da rede mundial criou um sujeito nervoso, pouco paciente. Se não encontra o que quer com rapidez, tem sua auto-imagem afetada, se julga incompetente, assim como também passa a julgar o site “ruim”. Ele imagina que há um grande número de possibilidades para atingir determinados objetivos. Por isso, se irrita com qualquer demora ou obstáculo. Dos enunciatários de jornais analisados, ele é o mais volúvel e fragmentado (inclusive se comparado ao da Folha de São Paulo). Como tem opções demais, cada vez que navega em uma página, tem a sensação de que pode estar perdendo algo melhor, de que seu tempo precioso poderia ser utilizado para tomar contato com informações que lhe dessem mais satisfação.
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“Bate-papo com Márion Strecker” em 26/03/2004, às 20h – disponível no endereço: http://bp.tc.uol.com.br/convidados/arquivo/frames.jhtm?url=http://bp.tc.uol.com.br/convidados/ar quivo/midia/ult1666u117.jhtm - acessado em maio/2005

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por meio de animações nos banners (barra de anúncios). ou meses. na home do UOL. mostra pouquíssima variação de expressão. Uma investigação mais cuidadosa. O internauta tem pressa. principalmente da homepage. Essas limitações. 2 . Analisemos com mais profundidade o primeiro problema: a coerção de um portal ou site. ou desenhos que surgem repentinamente e atravessam a tela. nas próximas páginas. porém. No entanto. Em um estudo mais superficial. também são levadas em consideração na hora de construção de um site ou portal. ser eficiente em dar ao internauta o que ele procura e. nem mesmo os títulos aumentam ou diminuem ao sabor da importância das notícias. uma homepage deveria ser cheia de surpresas. a rapidez deve ser conseqüência de uma construção eficiente do portal. a estratégia de arrebatamento do portal é muito mais sutil. Em outras palavras. para arrebatar a atenção desse enunciatário instável.O principal valor partilhado entre enunciador e enunciatário em um portal é a rapidez. apressado. Mas as divisões. Outro ponto importante é que a ansiedade em navegar. Uma análise superficial da home do UOL por semanas. é mais reservada à publicidade. faz do enunciatário na rede um sujeito que não quer pensar muito. obviamente. Como já dissemos. as páginas devem ser apresentadas e ordenadas de modo a facilitar ao máximo a navegação do internauta. semi- 285 . 3 . como nos jornais impressos. quase tudo permanece igual dia após dia. assim. evita obstáculos de qualquer ordem. Como citamos. há três questões diferentes e complementares que envolvem essa sensação de que tudo é ligeiro. É preciso que as páginas e conteúdos não demorem a chegar ao internauta interessado. que o internauta tende a se sentir mais seguro diante do que já conhece. o chamado “carregamento” das páginas ou conteúdos-web nos navegadores dos internautas. cores. É precisamente pelo fato de a Internet vender-se como meio que disponibiliza bilhões de páginas. Nesse sentido. Essa última questão será tratada na análise sobre a cobertura de Saddam. Ele deve percorrer o menor caminho possível para chegar onde deseja. Para atingir esse objetivo. passar a sensação de “rapidez”. veloz: 1 Inicialmente. por exemplo. existe a tentação de imaginar que. “caixinhas”. Mudam as manchetes e publicidades. em chegar onde se deseja rapidamente. imensa variação e possibilidades. tamanhos das fotos. apresenta a avidez do enunciatário e a pouca mobilidade da home principal como outro falso paradoxo.A Internet também apresenta uma série de limitações de ordem técnica que envolve. o UOL constrói uma home cuja apresentação gráfico-plástica pouco se altera. por sua vez. de novidades. por exemplo.Um portal também deve disponibilizar as notícias o mais rapidamente possível. Os acessos à maioria dos conteúdos-web são fixos e marcados por convenções entre enunciador e enunciatário (mais precisamente.

não podem ser utilizadas na home. O grande drama da Internet atualmente é a velocidade de tráfego de bits pelas linhas telefônicas e outras formas de transmissão (como cabo. que a lista dos mais “quentes” se encontra no citado quadrado laranja no meio da home. como filmes. etc. Imagens em movimento (na verdade. Um site que demora a carregar vai afugentar enunciatários sem paciência ou recursos para manter uma linha de banda larga. desenhos. porém. fundos coloridos ou letras voando pela tela tornam um site mais atrativo. De maneira geral. por exemplo. o portal é carregado de manchetes de diversos assuntos para instigar a curiosidade dos diversos segmentos do público-alvo 286 . na verdade. Cada uma das opções de concepção de um site também revela o tipo de público para o qual ele foi pensado. de grande pertinência na análise de um meio de comunicação marcado pela necessidade de parecer sempre mais e mais rápido. Um site com muitos recursos de hipermídia constrói um usuário que tem banda larga e maior poder aquisitivo. imagens congeladas cuja apresentação em seqüência de quadros engana nossos olhos e simula movimentação). Músicas e. Tenta-se então instaurar e manter a curiosidade por meio da apresentação e da decodificação dos conteúdos. E aqui entramos na segunda questão que envolve a necessária sensação de rapidez na rede mundial de computadores. Isso significa que não é possível tirar proveito de uma série de opções de design gráfico. Isso tudo é importante do ponto de vista semiótico. vincula-se ao carregamento das páginas e às relações temporais lento x veloz. O Internauta deve passar os olhos nos títulos e querer saber detalhes da história. pode torná-lo “pesado”. Se o construtor de um site. Quem gosta de ver os conteúdos multimídia do site UOL em 2005 sabe. por meio da estratégia de sustentação. fotos e desenhos podem consumir milhões de bits. O enunciador de um portal como o UOL. são “leves”. satélite.simbolismos cristalizados). sofre de limitações técnicas de toda a ordem. Textos verbais não têm muitos bits. são “pesadas”. Mostra ainda grande investimento do enunciador na estratégia de arrebatamento do enunciatário. principalmente.que. Até mesmo estratégias de arrebatamento comuns nos jornais diários.) com profundos impactos na maneira de conceber os sites. que precisa satisfazer enunciatários díspares – dos que têm banda larga aos que ainda convivem com um modem ultrapassado no micro – também concebe as páginas-web em função desse aspecto técnico. Como há muitos tipos de enunciatários. privilegiar mais e mais aspectos estéticos. Fotos. por exemplo. como o uso de fotos enormes de grande contraste de cores. podemos observar uma categoria site “pesado” x site “leve” . ou seja. mais do que qualquer outro meio de comunicação. É evidente que a Internet. de carregamento quase instantâneo na tela do enunciatário.

e compensar a falta de outros recursos. de organização. o efeito buscado pela principal página web do portal é o de simplicidade. Geralmente. ao entrar na página inicial e escolher ir para a parte de “Corpo e Saúde”. a home do portal é essencialmente utilitária. ou “Criança” já mostrou certos interesses que permitem ao enunciador saber como “segmentá-lo”. de rapidez. Em função disso. Portanto. há mais de 40 títulos. Isso porque o internauta. A organização textual de pouca variação do UOL aponta que é muito mais vital dar acesso imediato ao que o internauta deseja do que “entretê-lo” durante a operação. Essa estratégia “racional”. Nenhum outro jornal estudado tem tantas manchetes. A falta de variação gráfico-plástica do portal também indica a importância da estratégia de fidelização. tanto para encontrar o que se pretende quanto para o descarregamento de informações na tela de qualquer usuário. “Economia”. de investimento em uma relação na qual o internauta sempre tenha segurança de achar o que quer rapidamente porque conhece já os caminhos. Vejamos as homes dessas estações citadas: 287 . “utilitarista” da home do portal é quebrada em diversas homes das “estações”.

288 .

Nas outras estações. o que projeta um enunciatário que está interessado em chegar rapidamente à informação desejada. Pode-se observar o volume de informação disponível nessa home. ao contrário da home do portal. O UOL Criança. O internauta que acessa essas duas homes pela primeira vez está diante de estratégias 289 . tem uma home construída em cores vibrantes. continua privilegiando um contato “racional”. pode adequar-se ao seu público-alvo.A home de cada estação. Um site de informações econômicas. como o UOL Economia. além de apresentar menos assuntos. A estação Corpo e Saúde. com ícones junto à barra de navegação. Percebe-se um simulacro de um internauta que quer “saber de tudo”. também apresenta chamativos fundos laranja e verde. o número de links e de informações é bem menor.

às vezes ideologicamente díspares. em princípio. utilizando-se de forte esquema valorativo para impor as alternativas ‘ideais’. a teórica viagem dos “três cliques”. de quantidade de alternativas. (“Lula marca novas reuniões com Kirchner e Chávez” . No exemplo citado de 10 de maio de 2005. de diversidade de escolhas. A ‘interatividade’ configura-se como fabricação. A necessidade de satisfazer a públicos distintos. (. 169 Nos três casos. imaginada. na maior parte das vezes. de elementos que atraem o olhar e se colocam para serem “sentidos”. Percebe-se o destaque espacial para as “notícias”. como um caminho do geral ao particular (home do portal – home da estação – home do assunto específico). uma contraposição às características inovadoras da comunicação on-line. transforma a homepage de um grande portal na mais concreta expressão da pós-modernidade. ele trabalha basicamente para recompor a emissão centralizada.. 290 . continua a existir um certo limite técnico com a intenção de buscar e manter a atenção de qualquer enunciatário. Trata-se de tática de dissimulação de seu caráter massivo. Se a Internet abre um modelo todos-todos. sobre o UOL: “O portal configura-se como iniciativa de introdução do caráter massivo na web que.manchete principal) junto a outras como “Presos rebelados exigem 15 pizzas para libertar reféns”. mesmo as que apresentam mais estratégias de arrebatamento. de certa maneira. encontram-se unidades noticiosas sobre a reunião dos presidentes da Argentina e Brasil. Completa-se. o que o enunciador considera mais importante. desse modo. na mesma página do portal reservada aos assuntos que se querem fazer crer como jornalísticos. simulando ambientes de abordagem individualizada. pode ser observada a mesma arquitetura de construção. também não utilizam muitos recursos que as tornem pesadas.) Se o hipertexto pressupõe alteração na relação de forças entre autor/leitor.” Tudo é notícia As homes dos portais tornaram mais evidente a elasticidade do conceito de notícia. E que deve dar a sensação de acesso rápido ao conteúdo desejado.de arrebatamento. torna-se. Essas constatações corroboram a análise de Ricardo Augusto Silveira Orlando. Há também uma parte reservada para as “últimas notícias” que mostra a existência de um site com informação quente. o portal investe na produção de escolhas viciadas. A barra à esquerda remete a assuntos mais específicos ou a mais pontos de interesse do internauta. que quer fazer crer que é atual. Em outras palavras. O investimento num modelo típico de comunicação massiva espelha a fé dos portais na passividade dos usuários.. porém. ou que 169 As homes das estações.

numa estratégia de transferência de valor dos pedaços para o todo. lembrado por Orlando (2001:244). que tenha credibilidade. O portal como um todo é dependente da temperatura das unidades noticiosas. que falam ao lado mais individualista. A “face” virtual busca reproduzir. O sujeito político. principalmente jogos de futebol. não uma mídia totalmente diferenciada. privado do internauta) adquiram respeitabilidade. ou seja. persistem. para 170 Várias empresas jornalísticas também colocam no ar seus sites valendo-se do prestígio de suas marcas. dos mesmos recursos verbais. de de rápido envelhecimento. Enfim. em corpo de letra maior em relação ao de outros títulos da home). Em nenhum outro meio de comunicação analisado essa dependência é tão crítica. 170 É preciso um enunciador autorizado. Outro ponto. Vale a pena estudar sites para verificar até onde cada um se ampara no prestígio de outras mídias mais “antigas”. Ressalte-se que há mais manchetes para os assuntos políticos do que para os de esportes. o UOL instaura um enunciatário que valoriza do mesmo modo os detalhes de um escândalo de corrupção no governo e o resultado de uma disputa entre Santos e Palmeiras. a cada punhado de segundos. no uso das mesmas cores. econômicos. O UOL também valoriza conteúdos esportivos. O grande destaque dado ao esporte diferencia o portal dos outros noticiários estudados. Há dois tipos de conteúdos mais valorizados – que ficam no quadrado branco – e recebem maior destaque visual (caso da manchete principal. que dizem respeito a questões de ordem coletiva) percam sua força e as notícias leves (de diversão. a usuários com interesses desiguais que precisam se sentir contemplados no recorte de mundo disponibilizado na home. Serve para gerar o efeito de proximidade temporal entre enunciador e enunciatário. que se importa com atividades que lhe dão prazer. interessado em temas da coletividade. Uma comparação com os outros jornais analisados torna possível verificar que grande parte da home do portal deve ser preenchida com notícia quente. o que é novidade ou mera 291 . recebe tanta atenção quanto o sujeito lúdico. O portal tem o contrato com a cláusula mais rígida. como nos diários.buscam a curiosidade sobre o “Futuro incerto de Angélica”. O “ineditismo” de um fato é um valor mais importante no portal do que em outros meios de comunicação. a apresentadora da Rede Globo. Nesse sentido. A convivência faz com que os assuntos densos (políticos. que envolvem política e economia. é que o portal se utiliza do prestígio de diversos outros jornais para obter autoridade na hora de enunciar as próprias notícias. por exemplo. Mantém-se desse modo a idéia de que um site. afirmar-se como atual. como o da Folha de São Paulo. as manchetes sobre assuntos “densos”. De um lado. tradicionais. Citamos o fato de qualquer jornal precisar fazer seu consumidor acreditar que as notícias divulgadas são atuais. é uma continuação do jornal. Precisa. entretenimento. a identidade já consagrada. de consumo imediato. pertinente.

do Observatório da Imprensa. principalmente.com. O UOL se vende ainda como mídia de outras mídias.último acesso em maio/2005. é o de expansão hipermidiática do jornalismo impresso. 24 horas após o anúncio da prisão. mas a partir da informação de "agências internacionais". no Folha Online.ultimosegundo. 171 Infelizmente. portanto. o que não deixa de ilustrar um pouco o próprio funcionamento do jornalismo na Internet. o dia todo. por exemplo. e sim substituída a todo o instante. as notícias começaram a ocupar as telas no domingo pela manhã. Não há memória. também com informações da IRNA. e não no sábado. não pudemos localizar e reproduzir a primeira homepage do UOL que noticiou a prisão de Saddam Hussein. é de a segunda-feira. portanto. que tira proveito de cada um dos “ethos” dos jornais abrigados no seu servidor para compor um “ethos” próprio. colheu informações junto a agências estrangeiras. um novo canal. A Veja.ig. registraram a corrida brasileira entre os sites para a divulgação da detenção do ex-ditador do Iraque: “Nahum Sirotsky. que a eles se sobrepõe. O Terra anunciou às 8h40. ou seja. O motivo é que a página inicial não é gravada no servidor. às 8h32. Já a GloboNews publicou a notícia exatamente no mesmo horário que o iG. detalha matérias.noticiar. A página capturada. de mídia “completa”. com informações da Associated Press. 172 “Captura de Saddam> Ig foi o primeiro”. mostrada nesse item. A página de notícias da edição online do Estado de S. que é a de apresentar fatos com intervalo de uma semana. O site também apresenta conteúdo diferenciado. Com essa reprodução. não informando quais lhe serviram. foi o primeiro jornalista a serviço de um veículo brasileiro a dar a notícia da captura de Saddam. liga conteúdos de várias edições via links. ou mais serviços e detalhes informativos à disposição dos leitores. A Folha Online anunciou às 8h26. como “nova mídia”.Paulo deu a informação às 8h43. cita a agência iraniana IRNA. acreditamos que os objetivos do trabalho podem ser alcançados. utiliza o site para quebrar a limitação da revista. como veremos a seguir. A estratégia do UOL. já que temos ainda o assunto como manchete principal. dentro de uma mesma marca. O efeito pretendido. fornece mais imagens. nem todas positivas para o portal. Em http://observatorio. correspondente do iG em Israel. não foi só a de se beneficiar da credibilidade de veículos jornalísticos ao incorporá-los no interior do portal. porém. porém.” 172 (Um reparo: na verdade. da homepage do UOL.htm . O Último Segundo saiu com a informação às 8h32 no sábado. ficou sabendo da prisão de Saddam Hussein em primeira mão. 171 A cobertura da prisão de Saddam Quem acessou os grandes portais brasileiros na manhã de domingo. As atualizações na Internet são continuas. 292 . já que os subordina. No entanto. Como os outros dois sítios.br/artigos/mo161220031. há outras conseqüências desse grande número de vozes a noticiar.) reprodução para manter uma identidade de sucesso. Beatriz Singer e Dennis Barbosa. 14 de dezembro. Ressalte-se que apresentamos. sons e. a página com a primeira notícia sobre o assunto no site. No texto.

O noticiário tem uma fragmentação enorme porque está submetido a um procedimento de edição (como ato) completamente diferente em relação ao realizado pelos outros jornais. ou a “disponibilização” rivaliza com o próprio impacto do que é divulgado. Essa corrida pela “disponibilização” das novidades traz vantagens. não havia sequer a certeza de que a informação procedia: 293 . A própria idéia de notícia como “resumo de um acontecimento” ou “exposição sucinta de um assunto qualquer” (Dic. Quando o UOL citou a prisão de Saddam pela primeira vez. No UOL. Devemos relembrar que o ethos da marca é beneficiado pelo valor da notícia e também pela forma de divulgá-la. mas também problemas. a apresentação de um menu de notícias em constante renovação é uma das estratégias para a dar sensação de máxima atualidade ao material divulgado. o valor da notícia também se relaciona com o fato de a novidade estar rapidamente disponível para consumo. Pollyana Ferrari refere-se a essa lógica como de “empacotamento” e “empilhamento” de informações (2004: 19 e 50). no jornalismo do UOL. o “tornar consumível”. Na Internet. o mais rápido é sancionado como o mais competente. por exemplo. Aurélio) perde um pouco o sentido em função de seu caráter de enorme fragmentação. pode-se observar que.Por esses comentários. Na Internet. Retomamos a última questão sobre a sensação de rapidez do portal.

Às 9h36. de terno e gravata. preparada muito antes para a ocasião: “Saiba mais sobre Saddam Hussein”. Mas já havia uma tentativa de contextualização. Em seguida. em 1937. E o portal foi publicando e empilhando as notícias por ordem de novidade. nova manchete: “Governo provisório no Iraque anuncia captura de Saddam. outra notícia: 294 . Às 9h08. Novidade mesmo. Lia-se o lead sobre a prisão e todos os 11 parágrafos restantes contavam a trajetória do ex-ditador em ordem cronológica a partir do nascimento dele.Nem mesmo o departamento de defesa norte-americano confirmou a notícia. EUA não confirmam”. a Folha Online liberou uma matéria de arquivo. Via-se uma foto de Saddam sorrindo. o panorama mudou. Às 9h53. só nas primeiras linhas.

nova atualização do Folha Online: 295 . informação que depois foi desmentida pelo exército dos EUA. Às 10h30. O ex-ditador terminou detido após se esconder em um buraco. o internauta ficou sabendo que Saddam foi preso dormindo.Nesse texto. na versão dos militares norte-americanos.

a Folha Online dava destaque para a confirmação da notícia pelo governo norte-americano. como no UOL Últimas Notícias. um texto da BBC Brasil também falava da captura e tinha um link para o site da agência. a maioria já conhecida. no mesmo espaço. Nesse último espaço. ao mesmo tempo. desmentidos. como a recompensa oferecida pela captura. anunciava a prisão. Além de uma obviedade. Não houve. Às 10h08. uma pequena nota de quatro linhas da agência France Presse. ficava-se sabendo pelo relato da agência Reuters que o ex-presidente iraquiano “usava uma barba falsa” no momento da prisão.Dessa vez. a de que Saddam estava preso “sob forte vigilância”. colocava um mapa. links para mais detalhes e imagens no final da página: 296 . às 9h59. Às 10h12. porém. A informação não era verdadeira. o Internauta passa a conhecer a “nota oficial do governo provisório do Iraque”. O portal. As notícias mais atuais iam corrigindo as informações. foi disponibilizando informações sobre o assunto em outras estações. com mais informações.

297 .

Especialista do Exército dos EUA é morto em explosão no Iraque .France Presse.France Presse.France Presse. em Washington 23h25 .Veja a cronologia da Guerra do Iraque – Folha Online 11h25 . em Mossul (Iraque) 19h42 .France Presse. estão notícias sobre outros temas. diz TV .Acabou a "era de trevas".Iraque apresentará à ONU projeto de cessão de soberania .Prisão de Saddam causa euforia e descrença em iraquianos .France Presse.Análise: Prisão do ex-ditador dá alento a abertura árabe .France Presse.France Presse.Saddam Hussein será julgado por magistrados iraquianos .Veja a lista dos dirigentes iraquianos presos ou mortos pela coalizão .Human Rights Watch defende julgamento de Saddam sem "vingança" . Cada título era também um link.EUA confirmam prisão de Saddam Hussein . em Washington 16h32 .Paulo 05h14 . diz revista .Saddam Hussein será tratado como um prisioneiro de guerra. em Bagdá 11h02 .France Presse.Paulo 05h24 . A seguir.Rice questiona efeito da prisão de Saddam em ataques contra coalizão . em Buenos Aires 19h25 .France Presse.France Presse.Captura de Saddam é oportunidade para a paz. diz Conselho de Governo .EUA ofereciam recompensa de US$ 25 mi por Saddam Hussein .Paulo.Bush diz que prisão de Saddam não encerra guerra ao terrorismo . em Paris 05h49 .France Presse.France Presse. em Washington 05h46 .Paulo 04h36 .Canadá felicita forças da coalizão por captura de Saddam Hussein .Tribunal Penal iraquiano poderá julgar Saddam Hussein . em Bagdá 16h44 . em Islamabad (Paquistão) 22h54 .France Presse.Presidente afegão defende manutenção de poderes na nova Constituição .Folha Online 10h48 .France Presse.Cálculo de mortos pelo regime de Saddam chega a um milhão .Líderes mundiais expressam satisfação pela prisão de Saddam Hussein .Dois franceses morrem em acidente aéreo no noroeste da Colômbia .Presidente paquistanês escapa de atentado no norte do país .Sentimentos se dividem no mundo árabe após prisão de líder anti-EUA . em Washington 15h32 . em Londres 20h55 .CÍNTIA CARDOSO da Folha de S."Regime terrorista terminou" no Iraque.France Presse.Carro bomba explode no centro de Bagdá .OLIVIER LUCAZEAU da France Presse. em Washington 22h58 . em Paris 21h14 . mostramos todas as manchetes e a ordem de disponibilidade das notícias no site.Folha Online 11h55 .Morre ministro filipino das Relações Exteriores .Membro do Conselho Iraquiano afirma que Saddam permanece no país 18h51 .France Presse. em Paris 21h33 . diz George W.Paulo.Folha de S. em Paris 20h17 . 14/12/2003 09h53 .France Presse.Captura de Saddam Hussein beneficia governo Tony Blair . em Lima 21h35 . diz Rumsfeld .Códigos da operação para capturar Saddam foram inspirados em filme – France 20h15 . a Folha Online vai apresentando novos detalhes e as repercussões. em Bogotá 298 . em Washington 18h01 .France Presse.France Presse.Reuters 10h12 .France Presse. em Washington 15/12/2003 03h35 . em Dubai (Emirados Árabes Unidos) 22h50 .Veja os principais trechos do discurso de Bush após prisão de Saddam .Análise: Resistência deve diminuir com captura de Saddam .France Presse 11h46 .Cantora Lauryn Hill ataca Igreja no Vaticano .JEAN-LOUIS DOUBLET da France Presse. o que ilustra bem a idéia de “empilhamento” na forma de um menu. em Bagdá 20h04 .Coalizão anglo-americana ainda procura 14 ex-dirigentes iraquianos .France Presse.Folha de S. em Washington 19h05 .Captura de Saddam pode ajudar Bush nas eleições de 2004 .France Presse.General da antiga Guarda Republicana de Saddam é morto a tiros .France Presse. em Bagdá 17h29 . sensação é de alívio e medo . afirma Rumsfeld .JOÃO SANDRINI .A partir daí.JEAN-MICJEL CADIOT da France Presse.France Presse.France Presse. em Washington 21h06 . em Bagdá 10h03 .France Presse. em Washington 13h32 .Blair diz que prisão de Saddam traz "reconciliação e paz" ao Iraque .France Presse 17h18 .Negociações sobre a Coréia do Norte podem ser adiadas para 2004 .France Presse.Veja a lista das pessoas mais procuradas no mundo .Tumulto em show na Argentina deixa 20 feridos e 110 detidos .CAROLINA VILA-NOVA da Folha de S.Folha Online 15h45 .Saddam dormia quando foi capturado.Para assessor brasileiro. A prisão de Saddam dominou os assuntos do site. em Brasília . de Buenos Aires 05h37 . em Washington 18h07 .SÉRGIO DÁVILA da Folha de S.France Presse 19h19 .SÉRGIO MALBERGIER da Folha de S.Paulo 04h08 .Folha Online. Em vermelho.Saddam nega ter arsenal e não coopera em interrogatório. prisão de Saddam ajuda Bush na eleição . em Tóquio 22h45 .Paulo 04h49 . em Bagdá 19h22 .SÉRGIO DÁVILA da Folha de S.Saddam Hussein será tratado como prisioneiro de guerra.Site do Pentágono celebra a captura do "ás de espada" .Al Arabiya volta ao Iraque sem permissão para cobrir prisão de Saddam . diz Kofi Annan . diz Rumsfeld .Em Bagdá.Presidente do Paquistão confirma que foi alvo de atentado .Quatro soldados americanos são feridos em ataque no Kuait .Paulo 05h05 . em Taipe 21h22 . em Islamabad 19h02 .France Presse.France Presse. de Nova York 03h52 . em Montreal 20h25 .Saddam Hussein foi retirado do Iraque logo após captura.Ex-aliado aponta ação de De la Rúa em suborno .Alemanha e França cumprimentam Bush pela captura de Saddam .Folha de S. no qual o internauta tinha acesso aos detalhes.Veja nota oficial do governo provisório no Iraque sobre a captura de Saddam .France Presse.France Presse. Bush . em Nova York 19h56 .Folha Online 16h17 .Vídeo com imagens de Saddam Hussein é exibido .Paulo 05h36 .EUA escolheram cuidadosamente imagens do vídeo de prisão de Saddam .France Presse.Folha Online 18h55 . em Madri 17h05 . em Washington 15h52 .Bush fala sobre prisão de Saddam às 15h .Igreja católica peruana pede perdão por violações de direitos humanos .SÉRGIO DÁVILA da Folha de S.

Após captura de Saddam. mas circunstância inerente à urgência de informar. por sua vez.Comentário: Imagens da TV desumanizam ditador deposto . como veremos depois. O livro de Pollyana Ferrari. em Washington 07h01 .Nova Zelândia se opõe à pena de morte para Saddam .Folha Online 07h13 .Folha Online 13h50 . no entanto.Saddam pode ser condenado à morte. em Bruxelas 10h36 . diz líder iraquiano . na acepção jornalística. é uma fragmentação que contraria os prognósticos mais otimistas em relação ao chamado “web jornalismo”.Ataque suicida mata oito iraquianos em Bagdá . É possível notar que o material mais factual. um enunciador cedendo voz a outro que tem mais autoridade para cumprir o papel de informar. organização desses recursos para apresentar a prisão de Saddam em alguns casos. em Ad Dawr (Iraque) . Jornalismo Digital. O preço. em Teerã (Irã) 12h31 .Sem banheiro.Colin Powell faz operação de câncer de próstata . diz Bush .05h41 . ao que tudo indica. textos. O portal UOL dá voz.Irã prepara denúncia contra Saddam em tribunal internacional .France Presse. a fragmentação narrativa em dezenas de textos tem inúmeras conseqüências. EUA prendem antigos membros do regime . É preciso ressaltar que o internauta tinha na tela do computador o que de mais recente era divulgado sobre a prisão do ex-ditador. filmes. foi dando lugar ao especulativo. esconderijo de Saddam é decorado por arca de Noé .Cruz Vermelha pretende visitar Saddam Hussein .Prisão de Saddam fortalece Bush antes de eleição presidencial de 2004 . em Wellington (Nova Zelândia)/Folha Online 08h32 .France Presse. Rádio e TV das grandes redes nem contam com edições de seus principais programas no final de semana. 173 Dito de outra maneira. Não houve correções das informações conflitantes.Folha Online Devemos lembrar que outras partes do portal também foram sendo atualizadas.France Presse.Segurança é reforçada no Vaticano após advertência de Israel . acredita a autora. O auge da divulgação aconteceu entre a manhã e a tarde de domingo. Não houve.Estudantes fazem manifestação pró-Saddam em Tikrit . em Washington 13h40 . Uma conseqüência da fragmentação narrativa é a curiosidade de acompanhar o desenrolar da história. em Fallujah (Iraque) 14h11 .Governo australiano apóia pena de morte para Saddam . ainda não foram corretamente aproveitadas. dia de pouco jornalismo “quente”. o de possibilitar o acesso a uma série de recursos de hipermídia para contextualizar a história de uma maneira que nenhum outro jornal. infográficos e muitos outros recursos para contar detalhes de uma notícia.Folha Online 07h41 .JOÃO BATISTA NATALI da Folha de S.Lula felicita Bush pela captura de Saddam Hussein . no caso da cobertura da prisão de Saddan. não é sentido como defeito.France Presse.Detenção de Saddam é um "passo para a paz" no Iraque.Folha Online 14h37 .agência Lusa. Do ponto de vista do gerenciamento do nível de atenção.Saddam pediu para negociar sua prisão. poderia fazer. diz comandante .Saddam Hussein será levado a julgamento.France Presse.France Presse/Folha Online 09h36 .France Presse. diz UE . Percebe-se. um tipo de estratégia de sustentação que tem grande peso nos sites noticiosos.Paulo 07h17 .France Presse. porém.Prefeitura de Fallujah é saqueada por partidários de Saddam . por exemplo. O contato do enunciatário com o empacotamento contínuo de notícias.France Presse/Folha Online 08h12 . 173 299 .EUA dizem ter capturado outros ex-dirigentes iraquianos . em Lisboa 09h31 .Folha Online 15h29 . à Folha de São Paulo em sua versão on line que.Folha Online 11h07 .France Presse. apresenta justamente essas possibilidades que. remete às agências de notícias na maioria dos momentos. individualmente.Folha Online 12h48 . em Washington 15h39 . sons. um site pode apresentar fotos.

dava acesso a mais e mais dados sobre a prisão do ex-ditador. que pode ser de alguns minutos ou de algumas horas. 14h54: 174 174 A primeira página mostra um estágio anterior em relação à home analisada. além de efeito de atualidade. é preciso escolher uma manchete que. Há menos destaques cromáticos para os blocos de informação. A barra das estações está em vermelho. e de uma semana na revista Veja. há espaço para o enunciador fazer escolhas do que o enunciatário deve valorizar. que tem um intervalo de tempo fixo. Um portal. prisão de Saddam ajuda Bush na eleição” . Saddam não resistiu à prisão Esses links. por sua vez. notícias em branco e e-commerce em cinza e branco). a sensação. Em um portal. Percebemos também que.Ao contrário. em vermelho. por exemplo. mais o que é potencialmente mais atrativo num dado período. de 24 no Jornal da CBN. no Jornal Nacional. devemos relembrar. por sua vez. Na matéria das 16h44 do dia 14 . Essa hierarquia fica evidente no que aparece na primeira página do próprio portal. por mais que o empacotamento tenha como coerção um ordenamento temporal. esse texto criava um outro texto maior que. a contextualização significou somente apresentar ao internauta links que remetiam a outros textos da lista de notícias.“Para assessor brasileiro. A reprodução a seguir da primeira página do UOL foi feita na segunda-feira. na Folha de São Paulo. o que cria quatro regiões distintas (serviços para usuários. 300 . Na Folha Online. Enfim. em azul. serviços nas estações. eram matérias anteriores. tenha também maior repercussão em relação a outras notícias. foi de mais e mais empilhamento. é o único noticiário estudado que não se organiza na forma de edições.o final do texto apresentava em “Saiba mais sobre Saddam Hussein”. o seguinte conjunto de links: • Site do Pentágono celebra a captura do "ás de espada" • Veja a cronologia da Guerra do Iraque • Com barba e roupa de camponês. As manchetes da home têm como critério de escolha não somente o que é mais atual.

o portal tentava conciliar os interesses de um público que já tinha tomado contato com a notícia e de outro que.A notícia principal sobre um Saddam não cooperativo foi pinçada de uma série de outras possibilidades. Tentavase atrair a curiosidade do internauta que queria saber as reações do ex-ditador já no cárcere. Desse modo. Pode-se notar. estava sendo apresentado à novidade. que abordavam o julgamento do ex-ditador. no entanto. ao chegar à home. As outras notícias contextualizavam o assunto e mostravam os primeiros textos interpretativos. uma escolha cuidadosa. 301 .

e em outras partes do site. Pelo menos nessa seqüência de fragmentos sobre a prisão de Saddam. o usuário do UOL não encontrava na home do UOL Mídia Global. o valor do assunto não ocorre somente porque o título tem um corpo de letra muito grande. Obviamente havia ainda o empacotamento.A home do portal apresentava sete possibilidades distintas de entrada para o assunto “prisão de Saddam”. Ao contrário de um jornal impresso. o internauta seria levado à parte de Mídia Global (a seguir) e ao site “Especial Iraque”. ouvintes e leitores dos outros noticiários analisados. 302 . Temos um desdobramento da primeira lei de diagramação que é exclusiva do portal: a importância de uma notícia está ligada ao número de manchetes e links a ela associados. Como esse seria o caminho natural do internauta que tomava o primeiro contato com a notícia. O portal ainda apelava às estações UOL News. pode-se observar como a novidade aparece contextualizada. como a Folha de São Paulo. algo muito diferente do que estava à disposição de telespectadores. A manchete principal e as três submanchetes no retângulo de destaque não deixam dúvidas sobre a valorização do assunto. Se clicasse no link da manchete principal. UOL Jornais e UOL Revistas para mostrar ao internauta que nesses espaços também a detenção do ex-ditador teria máximo destaque.

inicialmente. Encontramos a mesma cobertura figurativa. 303 . as agências de notícias internacionais que. examinemos a visão de mundo que emerge dos textos “empacotados”. Não há links para visões contrárias. teve a mesma origem.as “últimas notícias”. Pode-se questionar. Para finalizar. Bush como o destinador-julgador. A maior parte do material. principalmente fotos e filmes de maior impacto no público. a prisão de Saddam. por sua vez. é possível observar as mesmas posições actancias já vistas nos outros noticiários estudados: Saddam como anti-sujeito. Novamente surgem os Estados Unidos como paladinos da democracia e vingadores da maioria do povo iraquiano. O presidente dos EUA também aparece como sujeito com plena competência para prender e aplicar sanções. Mas o fato gerador. No entanto. foram buscar tudo na mesma fonte: o exército dos Estados Unidos. O internauta podia fazer as associações que desejasse entre os links à disposição. já que há diferentes enunciadores. começava a envelhecer. se uma análise desse tipo é possível na Internet.

304 .

Só que também é preciso construir conhecimento para examinar os jornais como instrumentos de persuasão e de poder em suas manifestações concretas. No jornalismo. fugazes. generalizantes. Essas análises são indispensáveis. desenvolver e adaptar elementos teóricos e metodológicos já existentes e. inclusive de jornalistas. persuadido de que a vocação da semiótica é contribuir com a metodologia das ciências humanas e sociais”. Fiorin. citamos certos estudos comuns: técnicos.175 O resultado final de nosso trabalho ilustra como o desenvolvimento da própria semiótica não se dá por rompimentos. pudemos utilizar. atraentes. Discini. em la conquista de nuevos territórios y en afinamiento del instrumental. por questões tensivas.Qualquer pesquisador escolhe um ponto de vista para conceber e analisar um objeto. mostrar estratégias gerais. Courtés. ao modelo de análise proposto. 305 . entre outros). de “histórias de bastidores”. segmentadores. Já as questões afetivas motivaram incursões nos estudos da semiótica tensiva (Tatit. por uma contínua ampliação do campo de estudo. Fontanille). persuadido como está de que la vocación de la semiótica es contribuir a la metodologia de las ciencias humanas y sociales”. Floch. Barros. No exame do conteúdo. adequar outras contribuições. Outro se interessava pelo “dinamismo das estruturas”. Teorização proposta reúne várias orientações dentro da própria semiótica A análise mais integral do objeto jornalístico que foi proposta se valeu de estudos de semiótica bastante distintos. O último. a da semiótica francesa. por último. As várias maneiras de ver e de fazer a teoria são compatíveis e complementares. Na apresentação do segundo Dicionário de Semiótica. Com a semiótica. cotidianas. Um grupo procurava maior formalismo dos modelos da teoria. para adaptar conceitos comuns no jornalismo e na comunicação. ao mesmo tempo. trabalhava “na conquista de novos territórios no aprimoramento do instrumental. Análises sobre o hábito e o consumo de longo prazo tiveram apoio nas reflexões da sociossemiótica (Landowski). recorremos ao que já ficou definido como semiótica “clássica” (Greimas. 175 Trecho original da tradução espanhola: “Un sólido núcleo trabaja. mas por novas aquisições. Zilberberg. Greimas e Courtés (1991: 9 e 10) afirmam que os pesquisadores da teoria que participaram da obra em meados da década de 80 mostravam três tendências principais de encarar o próprio fazer semiótico. Essa busca de ferramentas de investigação de objetos jornalísticos norteou todo o nosso trabalho e foi possível graças à existência de uma perspectiva teórica clara. dinâmicas.

comunicação e jornalismo. de verdade. as estratégias de gerenciamento do nível de atenção (arrebatamento. sustentação e fidelização) apontam um caminho proveitoso. nos cursos de jornalismo. não pode legitimar seu recorte da realidade e seus valores ao conjunto da sociedade. na discussão sobre relações entre semiótica. como o de objetividade. Uma teoria para o fenômeno da mobilização da atenção Dentro da preocupação maior deste trabalho. que inaugura e mantém a relação entre enunciador e enunciatário. como profissionais. Pensar como os jornais gerenciam o nível de atenção é tentar encontrar resposta à principal pergunta formulada cotidianamente pelos profissionais que criam e sustentam esses meios de comunicação: “O que fazer para que o público-alvo se interesse o tempo todo pelo que apresentamos?” Percebe-se a razão do reinado do marketing e de suas teorias no mundo atual. 306 . A separação das reflexões levou em consideração um problema que pode surgir em sala de aula. O estudo da atenção proposto é uma das contribuições teóricas desta pesquisa para exame do jornalismo. Foi apresentado o conceito de “neutralidade” de uma outra perspectiva para evitar a confusão entre efeitos de objetividade mobilizados via enunciação com o que é considerado “texto objetivo” para jornalistas e pesquisadores.Conceitos-chave e separação entre dever-fazer e fazer-crer jornalístico Já no início do trabalho. mostrou-se como a teoria pode dar contribuições ao jornalismo ao discutir seus conceitos-chave. O dever-fazer jornalístico não pode ser confundido com o fazer-crer das empresas de comunicação. a mesma do pesquisador. de um site. das coerções do jornalismo como atividade. de um jornal impresso ou de uma revista. Investigar o fenômeno da atenção em um programa de rádio ou de TV. O jornal depende da tiragem ou da audiência para o exercício de seu poder como ator social. Fizemos também questão de separar os efeitos persuasivos mobilizados pelos jornais. relacionados aos interesses das empresas de comunicação. Sem atrair e manter a atenção de grandes fatias do público-alvo. eles devem exercitar a objetividade. parte integrante de uma sociedade que se quer democrática. qual o argumento de um professor de jornalismo para convencer seus alunos de que. Se tudo é manipulação. impõe um olhar menos fragmentado a qualquer estudioso. de notícia. do cientista? Trata-se de uma falsa questão. de uma análise mais integral dos maiores noticiários brasileiros.

portal. Essa solução mantém termos da prática jornalística. de novidade. O mais curioso. outro ponto explorado no trabalho e que também pensamos ser uma contribuição teórica rentável para os estudos dos objetos jornalísticos. nos dois primeiros. Apresentamos o fazer-sentir principalmente ligado a efeitos de atualidade e de empatia. mas pouco investigada. e pode facilitar o entendimento da teoria por pesquisadores da comunicação. deve ser entendida como mais importante em relação à outra que toma uma área menor da página. Separamos o ato de edição (entendido como um trabalho integral de produção de sentido comum a qualquer objeto jornalístico) dos recursos que permitem executar a edição. Estratégias de organização textual: tempo e espaço A manipulação da atenção. Há semisimbolismos de texto inteiro. questão sempre citada por teóricos. como mostramos. o webdesign (no portal). que produz sentidos estéticos. Entendemos a ação de editar como um procedimento que envolve todos os níveis de geração de sentido. revistos na perspectiva da semiótica. revistas). Estão no meio do caminho entre o que seria o semisimbolismo stricto sensu . profissionais e até pelo público.Pôde-se notar que o estudo da atenção também motivou um aprofundamento teórico sobre as formas de estruturação dos afetos mobilizados pelos jornais. de 307 .têm uma organização textual que se dá espacialmente. TV e rádio . Semi-simbolismos cristalizados A análise dos modos de textualização dos jornais apontou uma série de acordos de atribuição de importância às notícias. é que esses semisimbolismos são muito especiais. nos dois últimos. daí sua característica de ser o próprio mecanismo global de enunciação no jornalismo. sob o comando da edição (como ato). como mostramos. Uma notícia que ocupa maior espaço em um diário. é produto de estratégias de organização textual complexas. por exemplo. e temporalmente. Pudemos verificar que os quatro grupos de jornais analisados - impressos.uma relação entre uma categoria do plano de expressão e outra do plano de conteúdo. torná-la possível de diferentes maneiras em cada jornal estudado a partir de coerções de tempo ou de espaço: a diagramação (nos jornais. Essas convenções são partilhadas entre enunciador e enunciatário e têm como base a organização espacial (nos impressos e na Internet) ou temporal (no rádio e na TV) de elementos do texto. a sonoplastia (no rádio) e a montagem (na TV).

por exemplo. que produzem sentido de convenção culturalmente estabelecida. No limite. com destaque para as mídias de fluxo.e o simbolismo . permite a desaceleração do plano de expressão sem perda de atenção do enunciatário. sem um “eu” que assume a enunciação. Ao mesmo tempo. foram observados nos jornais verdadeiros sistemas de compensação na hora de noticiar. nos sinais de trânsito. no caso dos programas de rádio e de TV. com a apresentação de textos em terceira pessoa. devem parecer objetivos na maneira de noticiar. impede a inteligibilidade do texto. como a perda de atenção por falta de novidade ou por impaciência. relacionada à variação de planos. Esses “semi-simbolismos cristalizados” – outro nome possível . o que impõe uma série de efeitos de construção textual. A descontinuidade aviva uma curiosidade sensorial. Apresentamos um esquema aspectual do plano de expressão (criação de continuidades ou descontinuidades) e as relações com o plano de conteúdo nos jornais. Há uma sensação de aceleração. E que também tem limites. principalmente nos jornais e nas revistas. Diante dessas possibilidades de construção textual para arrebatar e manter a atenção. o que permite maior reflexão. e do espaço. Muita descontinuidade de expressão mostra ainda valorização da estratégia de arrebatamento em relação às de sustentação e fidelização. Trata-se de uma valorização das estratégias de sustentação e de fidelização em relação à de arrebatamento. Há perda da atenção em função da impossibilidade de o público acompanhar a evolução narrativa. de sons. Já a continuidade gera mais contato sujeito/unidade noticiosa. mostraram-se rentáveis para verificar os efeitos de ritmo nos jornais. fundamental na estratégia de arrebatamento. Willian Bonner não precisa afirmar a importância de uma notícia. por exemplo. porém. 308 . Um certo suspense em determinado trecho da narrativa de uma notícia (estratégia de sustentação).criatividade . Foram observados “quasesímbolos”. De um lado. Ritmo nos jornais As reflexões sobre o plano de expressão e a aspectualização do tempo do texto. Basta que o programa lhe conceda bastante tempo de apresentação.têm como função permitir a decodificação rápida e eficiente de certos valores em jogo no texto. encontrada. de elementos. entre outros recursos. Ethos e outros efeitos de proximidade Os jornais analisados mostraram a necessidade de equilibrar duas coerções quase contraditórias. No Jornal Nacional.uma conformidade termo a termo entre expressão e conteúdo.

dirige-se aos ouvintes como se fossem amigos. assim como o próprio JN. 2 . no sentido de sujeitos que partilham uma posição sócio-cultural parecida. vocabulário simples. mesmo caso do Portal UOL com as diferentes “estações”. o que significa investir em um ethos amigável. ao segmentar os leitores. compreensivo. Não fala para os seus “iguais”. que tentam fazer crer numa relação de mesmo nível com seu público. Mais do que afirmar que existe um efeito de enunciação de objetividade (enuncivo) ou de subjetividade (enunciativo). Essa forma de ligação é marcada por um didatismo que impõe uma construção textual que remete à posição de alguém que muito sabe em relação a outro que pouco sabe. Podemos citar como exemplos o Jornal Nacional e a revista Veja. do Jornal da CBN e do Portal UOL. Ambos têm em comum o fato de se dirigirem a um público mais amplo se comparados aos jornais anteriores. No Jornal da CBN. como mostrado. o âncora faz brincadeiras com resultados do futebol. mesmo que o slogan da rede tente construir essa relação. é importante notar que cada jornal faz uma verdadeira regência de todas as suas unidades e possibilidades discursivas para administrar sentidos que trafegam entre esses dois limites. Já a Veja prefere mostrar que sabe mais. O necessário equilíbrio entre os efeitos de distanciamento em relação às notícias e de proximidade com o público-alvo gerou dois ethos distintos dos jornais: 1 O que simula uma relação entre iguais. chega ao requinte de ter uma construção adequada a cada segmento do público. O apresentador do JN Willian Bonner usa sempre terno e gravata. A Folha. porém com uma atitude diferente. explica em detalhes nomes e situações complexas com voz pausada. É o caso da Folha. Comparação entre os jornais analisados A tabela a seguir relaciona os jornais estudados e a textualização predominante com o ciclo de produção e a forma de interação: 309 .buscam obter e manter a atenção por meio de certa intimidade e confiança entre enunciador e enunciatário.O que simula uma relação professoral. O enunciador está em um nível sócio-cultural superior. A revista se apresenta como juiz de tudo o que acontece.

um impressionante resumo de todas as principais questões sobre o assunto abordadas nos outros noticiários.Veículo e noticiário Impresso Folha de S. como foi discutido. Paulo e Veja De internet Portal UOL De televisão Textualização Ciclo de produção Forma de interação Espacial 24 horas no primeiro e semanal no segundo Usuário define forma de consumo de um número determinado de notícias Predomínio da espacialidade sobre a temporalidade Possibilidade de ser de minuto a minuto Usuário define forma de consumo de um número determinado de notícias Temporal Jornal Nacional De rádio Jornal da CBN Temporal 24 horas Usuário deve adequar-se ao horário e à programação 24 horas Usuário deve adequar-se ao horário e à programação. de cenas. se aposta na narrativa verbal como procedimento organizador do texto. um texto sincrético. Os 10 minutos e 40 segundos da reportagem sobre o ex-ditador do Iraque apresentam 130 segmentações. Se compararmos o que foi divulgado sobre a prisão de Saddam Hussein no Jornal Nacional e nos outros noticiários analisados. certos limites e vantagens de cada um ficaram demarcados na análise. com constante mudança de vozes. São apresentadas curiosidades da história que motivam o 310 . Tão frágeis que. certos teóricos acham impossível qualquer conteúdo mais “profundo” nesse veículo de comunicação. O que pode ser observado é. O telespectador precisa de estimulação a cada segundo. o JN é bastante dependente da estratégia de arrebatamento. em que vários conjuntos significantes se organizam para produzir um todo de sentido. observou-se como o verbal assume um papel estratégico. Para manter o telespectador atento. essa “falta de profundidade” não se verifica. isso sim. Os programas jornalísticos da TV. de repórteres e de apresentadores. por exemplo. de criação de atenção de base sensorial. têm os laços mais tênues com a audiência. mas tem a possibilidade de obter informações gerais consumindo apenas uma parte do programa Se cada jornal é obrigado a disputar a atenção do público-alvo. Na análise da edição do Jornal Nacional. No JN constatou-se uma profusão de estímulos. enquanto as mais de três horas do Jornal da CBN analisado tiveram cerca de 600. Para não perder a atenção.

Há um ir e vir das mesmas notícias. Há. O telespectador ouve. tem a possibilidade de fazer uma narrativa visual. O Jornal. apesar de ainda intenso. O enunciatário consome. geralmente. a apresentação de uma edição cotidiana inteira dedicada a uma única notícia e a seus desdobramentos é impensável. de sentidos. No Jornal da CBN. como o Jornal Nacional. mas prefere construir inicialmente uma lógica “verbal” na qual são intercalados trechos de vídeos. Momentos de aceleração do plano de expressão são compensados por outros. também um noticiário que se desenvolve no tempo. vê e “comprova” a existência de personagens e lugares citados. Maior o potencial de atenção. Isso quer dizer que notícias longas devem ser colocadas junto de outras curtas. de conversa entre amigos. Também realiza outras atividades enquanto ouve o rádio. O ritmo acelerado não dá tempo de refletir sobre o que é dito e mostrado. também impõe uma leitura. contudo. que tem duração fixa. mais partes do programa serão preenchidas. Já nos impressos. Os dois jornais podem começar com um assunto de saúde em um dia. é preciso manter um nível de tensão quase sempre alto até os instantes finais. valoriza-se um contato mais pessoal. que também inclui todos os outros noticiários estudados. O Jornal da CBN e o Jornal Nacional têm maior controle do contato do enunciador com a notícia. Não há. com a criação de descontinuidades do plano de expressão para avivar a curiosidade do ouvinte. apresentando assuntos mais leves. só que com elementos de atualização diferentes. Para tentar mantê-lo “ligado” à apresentação. Uma canção ironiza alguns aspectos da história ou dos personagens. Também precisam iniciar muito tensos e irem. No Jornal Nacional um escândalo de corrupção ou a morte de alguém muito famoso pode ocupar grandes partes ou até o noticiário inteiro. assim. o ritmo é mais desacelerado. muito mais preocupados em criar um ritmo do que em organizar rigidamente o material. de desaceleração. predomínio do verbal diante de outras “linguagens”.engajamento do público para saber mais detalhes – estratégia de sustentação. Existe grande preocupação com a estratégia de arrebatamento. brinca-se com um assunto do dia. sim. de segurança pública no outro. Ambos “espalham” os assuntos. Falar sobre massacres de Saddam mostrando suas vítimas é muito mais do que redundância ou estratégia de ilusão referencial. Um noticiário de televisão. no entanto. Ao contrário do JN. Trata-se da comentada estrutura “happy end”. uma parte do programa. caso dos impressos. o programa é bastante segmentado. ao poucos. Nos segundos finais. mais páginas para os 311 . Pode-se observar um “adensamento” de informações. Como a rotatividade de enunciatários é muito grande (a rádio chega a medir a audiência em minutos). e de política no seguinte. Somente no Jornal da CBN esse relaxamento não é gradual.

Como o leitor tem maior controle do que quer ler ou ver. E todos devem encontrar alguma coisa de interesse nas páginas para manter laços com o diário. menos Veja. O leitor instaurado pela revista não é o que nada sabe. lhes dar um pouco de tudo em uma mesma edição. deve ter seus assuntos principais mostrados em todas as edições normais. Os impressos precisam “organizar o mundo” para os seus leitores. o diário apresenta uma série de iscas diferentes para buscar a atenção de enunciatários distintos. Optou-se pela diagramação de fotos de conteúdos díspares. mais “profundidade”. o Portal UOL pode comercializar as novidades nos menores pedaços possíveis. Isso ficou evidente no texto sobre Saddam Hussein. Quem consulta o UOL tem a chance de ser o primeiro a saber algo “importante”. No Portal UOL. Já a revista Veja. E edições especiais. ao contrário das outras mídias. Daí a escolha cuidadosa do material fotográfico. O que está em jogo é tentar convencer o enunciatário de que. Todos os noticiários estudados tentam construir efeitos de neutralidade em relação às notícias. de edição semanal. como a que representa a família unida e feliz de Saddam ao lado das que mostram os cadáveres dos filhos. É evidente que os jornalistas do diário sabem que poucos leitores vão gastar esse tempo. Podemos notar que. fica evidente a necessidade de parecer “excessiva” aos leitores. A voz que tudo sanciona da revista. O que vale é a “rapidez”. o internauta teve como grande estímulo para manter a audiência ir acompanhando o desenrolar da própria notícia. Se o Jornal Nacional se esforça em resumir a prisão de Saddam em 10 minutos e 40 segundos. é muito mais uma coerção do que uma escolha qualquer para construir o ethos do enunciador. a Folha lhe dá mais detalhes. Um leitor pode se interessar sobre detalhes da captura.assuntos considerados mais importantes. A 312 . proporcionada pela possibilidade de organização dos elementos espacialmente. mais possibilidades de escolha. no caso de Saddam. a leitura do mesmo assunto nas cinco páginas e meia da Folha demandaria de duas a três horas. Veja perderia uma grande maneira de se diferenciar dos outros noticiários. Se não aparecesse como “juiz”. Qualquer editoria. um “diferencial” na abordagem da notícia. contudo. contudo. Outro. ao mesmo tempo. Ele espera uma “contextualização” e. tem tempo para refinar suas estratégias de arrebatamento e de sustentação. Buscou-se acirrar contrastes da vida do ex-ditador. por saber o que pensa a população iraquiana. Podemos observar uma estratégia de sustentação específica da Folha. as estratégias de sustentação e fidelização têm como base a promessa de apresentação de uma notícia em primeira mão. Na Folha de São Paulo. Sem ter a obrigação de organizar conteúdos na forma de edições com intervalo de tempo fixo.

O consumidor não tem de ficar adequando seu ritmo pessoal à grade de programação ou a um programa jornalístico específico. É possível ainda 313 . cada noticiário. Uma analogia entre jornais e restaurantes É possível fazer uma analogia entre restaurantes e jornais. como fazem portais do tipo UOL. Nos impressos. ao portal UOL. criação de necessidades e de satisfação de desejos.que traz vantagens a seus consumidores. não têm condição de oferecer uma espécie de “menu” de notícias em constante atualização. caso da Globo News. Ao acessar um portal como o UOL. à Folha de São Paulo. Em relação aos noticiários “rápidos” analisados neste trabalho – como o Jornal Nacional e o Jornal da CBN -. Quem estipula o horário de consumo é o próprio internauta. se vende como solução para um problema que ajuda. mostra que cada um se vende como produto cujo grande apelo de consumo é apresentar um saber organizado sobre o mundo – mesmo com estratégias distintas . o UOL leva algumas vantagens. individualmente. É notável que. Isso significa que o Internauta relaciona-se com a notícia de uma maneira diferente. a agravar. relacionada à sua própria apresentação como “última novidade”. coletivamente. as novidades são organizadas em programas com horários fixos. ele sabe que estará diante de uma hierarquia de notícias em constante atualização. desse modo. No rádio e na TV. um meio e um fim. a manipulação do espaço determina certas formas de consumo. não há o momento especial. um caminho a ser percorrido. com auto-serviço. mas ninguém é compelido a seguir o roteiro pré-determinado. ou ao programa de rádio CBN Brasil. Só na Internet o usuário administra esse processo e o adapta às suas necessidades de consumo. os veículos de comunicação impõem um excesso de informação. ao contrário. à Veja. Dito de outro modo. pode submeter-se ao consumo e às necessidades de qualquer usuário. O portal enuncia o tempo todo e.curiosidade sobre a notícia é. As mesas de iguarias devem dar a impressão de uma enorme diversidade. juntos. O bufê tem um começo. Na Internet. Um olhar dirigido ao Jornal Nacional. mesmo sabendo-se que cada consumidor tem seus limites. como no caso da TV e do rádio. Esses noticiários assemelham-se a um estabelecimento do tipo bufê. as notícias também podem ser divulgadas em boletins espaciais. Basta entrar na home. faz um “arquivo de novidades”. contudo. Até mesmo os canais jornalísticos das TVs por assinatura. Inicialmente. A característica de fluxo das TVs força os canais de notícias a ocupar todo o tempo com o que for muito importante ou a fazer um rodízio de notícias de destaque. principalmente na Internet. Em função de sua importância.

realiza outras tarefas. pois tem outras atividades para realizar. Para compensar a massificação. Não há muita variedade. Há quem encha o prato só com um item. Porém. 314 . A diagramação é justamente a arrumação no dia-a-dia. faixa etária. no entanto. pratos especiais. classe social. Só que a variedade de pratos deve satisfazer desde vegetarianos até os amantes de carnes mal passadas. O do rádio é no sistema de rodízio. no limite. mas também bonita. em uma localização espacial privilegiada para. chamar mais a atenção. O restaurante também tem um cliente padrão. A comida vai passando na frente do cliente. e deve esperar que o alimento venha até ele. Uma vantagem do rodízio do rádio é que dura horas. mas os ingredientes são pensados para dar conta das necessidades diárias. O empreendimento. O serviço é muito rápido. espaços determinados que nunca se alteram para grupos diferentes de alimentos. degustam. também precisam ficar em recipientes diferenciados. acessível a qualquer consumidor. precisa não apenas ser prática. exista mais consumo. Outros colocam grande quantidade da salada da política – sempre valorizada espacialmente. Alguns vão direitamente para as alegrias das variedades de sobremesas. Os que dispõem de mais tempo vão e voltam ao bufê. e portanto. não se pode escolher. pode ter de esperar a próxima rodada para colocar no prato o item desejado. ou seja. Certos consumidores montam o prato com um pouco de tudo. Pensemos as unidades noticiosas como um tipo de alimento específico que se coloca em cada recipiente do bufê.equiparar o arranjo do bufê ao projeto gráfico de um jornal. no entanto. se ele se distrair. sem parar. além da impressão de grande variedade. Como ele não pode ir até a comida desejada. com os melhores conteúdos. apelar aos sentidos para que. há partes fixas. e ele não tem como prever quando entrará em contato com o que está buscando. deve permitir a escolha de maneira rápida e eficaz do que é considerado mais interessante para ser degustado. O telejornalismo estudado proporciona um prato-feito em sistema de fast food. O arranjo geral. O restaurante dos outros noticiários analisados seria um pouco diferente. é montado para uma maioria que engole tudo com rapidez. tudo é servido por gente bem-vestida e educada. E que exige que o consumidor se adapte ao horário fixo de consumo. que pode ser imaginado com base no poder aquisitivo. As melhores iguarias são servidas no final. e satisfaz a quem não tem tempo a perder. Em outras palavras. assim. Vende-se também a idéia de que se trata de uma refeição gratuita. mastigam mais vezes. Assim. dos que querem emagrecer com uma porção diminuta e insossa até os que não têm a menor preocupação com colesterol. Essa arrumação.

Em comum. aparece a prisão como o único fato gerador. A Veja construiu dois relatos diferentes. e se achar. No Portal UOL. os efeitos com animações. Os produtos são os mais frescos encontrados. tudo não altera o fato de 315 . principalmente o da entrada do restaurante. mas um grupo de jornalistas que dá uma roupagem diferente ao que vem pronto. foram os elementos de atualização. A notícia principal e seu destaque não variaram. O que se alterou. é preciso procurar e procurar entre muita coisa ruim. que muda a cada minuto. a forma de embalagem. o exército dos Estados Unidos. fotos. O consumidor é obrigado a ficar procurando o que quer diante de um enorme número de possibilidades. ao dar grande realce para a prisão. enunciou que considerava a detenção do ex-ditador do Iraque uma notícia de enorme importância. Basta verificar o total de páginas construídas para abordar o assunto. Mais do mesmo O consumidor de informação no Brasil foi bombardeado por inúmeros detalhes sobre a prisão de Saddam Hussein. Só que o programa inteiro. o que reforça ainda mais a posição de mocinho do presidente dos Estados Unidos. Fica patente que os jornais brasileiros utilizaram um relato principal que já chegou embalado nas redações. Mudaram os detalhes. links e dezenas e dezenas de matérias com menor ou maior contextualização e comentários. não foi diferente. E pode ficar saturado antes de localizar o que realmente deseja. O efeito de neutralidade buscado pela Folha de São Paulo também não a isentou de participação intensa nesse fazer-crer na importância da prisão de Saddam. todos os jornais analisados foram empacotadores de um relato de uma única fonte. A apresentação de imagens. de jornal para jornal. ironizou-se a ação norte-americana no final da edição. Ele não chefia uma equipe que corre atrás de notícias. por exemplo. o que permitiu ouvir os iraquianos. assim como o portal UOL. Tentou-se ainda confundir detalhamento com aprofundamento. houve grande valorização do assunto. No principal. No Jornal da CBN. mas arrumado sempre do mesmo jeito. O Jornal Nacional preferiu uma postura mais distanciada. Saddam vira o bandido dos bandidos. O Jornal da CBN não deixou de ironizá-lo. vídeos. o consumidor terá de experimentar um pouco de tudo. mas geralmente estão crus ou mal cozidos. Antes de achar. Pollyana Ferrari (2004: 44) refere-se ao editor de jornalismo de um portal como um “empacotador”.Já o portal é um bufê sem fim. No material sobre a prisão de Saddam. A Folha de São Paulo foi o único jornal que tinha jornalistas no Iraque. Para achar algo. Nos noticiários. parte interessadíssima em vender uma versão da prisão do ex-ditador iraquiano. A função do editor é tornar tudo mais atrativo.

Como filosofia do ‘eu me basto’. pior é Durante as leituras de outros trabalhos para realizar a análise. como o que previa a pacificação do Iraque na Folha de São Paulo. por exemplo. transmissão e armazenagem de dados. mantêm-se num procedimento de se citarem mutuamente. porém. Eles não são a “garantia da verdade dos fatos”. Observou-se durante o estudo das reportagens uma série de exercícios de futurologia que se mostraram errados com o tempo. que tinha acontecido no sábado e sido divulgada no domingo. Atualização e citação Para dar sensação de atualidade ao relato da prisão de Saddam. ouvintes receberam “mais do mesmo”. a auto-referência 316 . faturamento. Muita rapidez e pouco jornalismo fizeram o UOL. informava-se que Saddam tinha sido preso com uma barba falsa. os jornais citaram-se uns aos outros. A Internet concentrou um grande número de esperançosos em um futuro de informação menos manipulada. observou-se um certo encantamento com as novas tecnologias de informação. construir comentários e análises sobre o assunto. Ciro Marcondes Filho chama esse processo de auto-referência midiática: “A auto-referência é o mesmo que fechamento de círculo: os meios de comunicação falam de si mesmos. mas produzem algo mais simples e não menos importante: outras visões de mundo que podem conflitar e questionar versões oficiais. O que se viu com a análise. como a necessidade da reportagem. de todo mundo. A análise das reportagens da prisão do ex-ditador do Iraque não deixa de mostrar que leitores. como elementos de atualização. telespectadores. gerava curiosidade. afinal de contas. Outro ponto é que. laços. principalmente do Portal UOL. Há cada vez mais meios de comunicação lutando por uma fatia de público.que houve uma única fonte de informação. internautas. é que as possibilidades de uma nova mídia não podem prescindir das “antigas” práticas que parecem imutáveis no jornalismo. os jornais de segunda-feira buscaram. Numa das matérias iniciais. constroem um universo para si próprios e o colocam no lugar do mundo externo. em suma. dar a notícia da prisão de Saddam em primeira mão com detalhes absurdos. E o que se viu foi um espetáculo midiático cuidadosamente orquestrado pelo governo dos Estados Unidos correr o planeta e ser aceito de bom grado pelos jornais porque. para valorizar o assunto. criam as notícias que de fato deveriam ser buscadas exteriormente. Mais rápido. da presença de jornalistas.

temos a Folha de São Paulo que. Nesse sentido. ao contrário. assunto que não tinha sido previsto inicialmente. Trata-se de um tipo de informação que serve ao egoísmo pragmático que caracteriza a mentalidade dominante dos nossos dias. em tudo o que é associado à construção de mundos paralelos” (2000:41). um assunto que envolve o governo federal pode ter o mesmo peso editorial das novas descobertas da cirurgia plástica. tem sido um sucesso de vendas. a publicação tira pleno benefício da condição de ser semanal. as iniciativas da Folha nos últimos anos indicam uma expansão significativa de um novo jornalismo de serviços. Já a revista Veja. As posições extremas foram observadas no grupo dos impressos. principalmente do que devem considerar como importante.é um processo que se vê em muitos outros campos da sociedade (as comunidades fechadas. e das perspectivas do futuro. que todos os dias são valorizados por meio das principais manchetes. em suma. ou de regimes inovadores de emagrecimento. ao modo de cada um valorizar ou desvalorizar certas notícias. Sucesso e crise Nossos estudos esbarraram na questão do sucesso ou da crise vivida pelos meios de comunicação analisados e a relação com suas escolhas de montagem textual. as seitas. ao contrário. apresentarem-se essencialmente como um meio de comunicação do dever-fazer. com uma tiragem que quase não se altera há anos. vive uma longa fase difícil. Para compensar. temas impensáveis como manchetes principais da Folha de São Paulo. que dizem respeito ao lado mais individualista do leitor. Seus jornalistas têm mais tempo para avaliar o está sendo valorizado pelo seu leitor. Parece não haver um “dever-ler” bem marcado. Demanda crescente de um leitor individualista. mesmo que os textos sejam carregados de opiniões. E nesse dever. o editor do jornal Fernando de Barros e Silva faz uma análise do “novo leitor” e de suas “novas necessidades”: “Vistas em conjunto. essa tendência se explica por uma dificuldade histórica anotada pelo 317 . Os diários não abrem mão de. acreditamos que é válido relacionar esses diferentes resultados às linhas editoriais adotadas pelos dois meios de comunicação. da imposição de certas obrigações aos leitores. estão os assuntos políticos ou de viés político claro (como as mudanças ou rumos econômicos do País). Mesmo com possíveis e justas ressalvas. Na Veja. De um lado. as igrejinhas intelectuais). Em um texto que fala dos 80 anos da Folha de São Paulo. destaca o político quando parece haver curiosidade prévia sobre o assunto. como os demais diários do País. como voz social. a Folha lança cadernos e outras publicações sobre esses assuntos. A revista Veja.

receba um tratamento jornalístico revigorado. esse atrito é conseqüência de choques ideológicos. portanto. os comentários do âncora em um noticiário radiofônico. aparecem como disfóricas para o público. uma reportagem em um diário. e até brindes.br/folha/80anos/futuro.Projeto de 1997: ‘O espaço público. Já a Veja. não acharam um caminho. é a quarta maior revista semanal de informação do mundo. 318 . A semiótica e a produção de estados mentais pelos noticiários Os jornais são sempre objetos de muita crítica.) Conceito sempre difuso. o jornalista afirma que “um dos maiores desafios da Folha daqui em diante será compatibilizar os interesses de um leitor cada vez mais encerrado em seu universo individual com um jornalismo capaz de lançar nova luz sobre um espaço público hoje difícil de identificar. lançando mão de instrumentos de análise que tentem dar conta das dimensões sensíveis. revistas.com.. passa por um terremoto que ainda não se assentou.shtml. 176 In “Jornalismo como crise permanente – Fernando de Barros e Silva (editor da seção Painel”). mas se dispersa numa segmentação de interesses que desafia a linguagem em comum’. quando tratadas como temas coletivos. ao apostar no “individualismo do leitor”. Os jornais. cadernos especiais.” Na mesma análise. E o jornal acha necessário encontrar formas de interlocução com essas novíssimas formas de vida política. racionais e passionais mobilizadas pelos jornais no seu processo de persuasão. Parte dessa mesma concepção de mundo que o crítico jura ser produto de sua mais profunda reflexão pessoal é. O crítico julga ter acesso à verdade sobre determinado assunto e recrimina o jornal por não tê-la apresentado “fielmente”. terreno em que o jornalismo sempre lastreou sua legitimidade. são instrumentos de poder complexos. entretanto. que cresceu no período. O colunista Clóvis Rossi tem chamado a atenção para o fato de que está sendo gestada uma sociedade civil diferente. As questões políticas e sociais. Texto faz parte de um site dedicado a comemorar 80 anos da Folha de São Paulo.(. E não é difícil criticar um programa de TV. E como podem atrair o leitor para o jornal? Até agora. anômica e flexível. A incipiente fragmentação do consenso ideológico dos anos 90 coloca a necessidade de que a exclusão social. a Folha e os outros diários em geral. a opinião pública ganha unidade com a convergência geral de idéias.folha.uol. Freqüentemente. mesmo com os suplementos.. A crítica tem de ser construída em outro nível.”176 O problema que se apresenta é realmente preocupante. diz o texto. Último acesso em agosto/2005. também uma construção midiática. Disponível em http://www1. pulverizada.

A semiótica. Afirmam os dois autores que “a liberdade política não pode se resumir no direito de exercer a própria vontade. apresentado na USP em 19 de março de 2004.usp. é preciso compreender os mecanismos de que se vale o discurso para conseguir eficácia” – afirma José Luiz Fiorin.htm. Para isso. Armand e Michèle Mattelart asseveram que “a era da chamada sociedade da informação é também a da produção de estados mentais”. Ela reside igualmente no direito de dominar o processo de formação dessa vontade” (2202: 187). disponível no endereço: www. 177 A afirmação consta de resumo de trabalho apresentado pelo professor no Fórum de Atualização de Pesquisas semióticas. esclarece o funcionamento dessas estruturas de dominação. na nossa concepção.br/dl/semiotica/fap-fior.).177 Temos convicção de que as investigações realizadas neste trabalho mostraram a operacionalidade e o potencial da semiótica para esclarecer certos procedimentos dos jornais para fazer os valores de seus proprietários e do grupo social ao qual pertencem se transformarem nos valores de toda a sociedade.fflch..“A compreensão crítica do discurso veiculado pelos meios de comunicação de massa é garantia de exercício pleno da cidadania (.. 319 .

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