UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA

SEMIÓTICA DOS JORNAIS Análise do Jornal Nacional, Folha de São Paulo, Jornal da CBN, Portal UOL, revista Veja

Nilton Hernandes

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Lingüística do Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Lingüística.

Orientadora: Profª. Drª. Diana Luz Pessoa de Barros

São Paulo 2005

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Aos jornalistas
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As histórias pessoais, além de acontecerem, também significam alguma coisa? Apesar de todo o meu ceticismo, sobrou-me um pouco de superstição irracional, como a curiosa convicção de que todo acontecimento que me sucede comporta também um sentido, que ele significa alguma coisa; que por sua própria ventura a vida nos fala, nos revela gradualmente um segredo, que se oferece como enigma a ser decifrado, que as histórias que vivemos formam ao mesmo tempo a mitologia de nossa vida e que essa mitologia detém a chave da verdade e do mistério. É uma ilusão? É possível, é mesmo verossímil, mas não posso reprimir essa necessidade de decifrar continuamente minha própria vida.
Milan Kundera, A Brincadeira

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AGRADECIMENTOS
A idéia de mestre e discípulo parece um pouco estranha. Lembra filme oriental. Mas o que é um mestre? Mais importante do que ter um grande saber, um mestre é exemplo de experiência. No dicionário, a palavra mestre também aparece no sentido de alguém “grande, extraordinário”. É assim que vejo minha querida orientadora, Diana Luz Pessoa de Barros (foto). Nesses anos todos, dedicados a fazer esta tese, ela leu cada linha das várias versões, discutiu comigo todos os problemas, mostrou-me as armadilhas, apontou rumos, incentivou reflexões, deu idéias. Tantas que a considero co-autora do que este trabalho tem de mais significativo. Nessa convivência com Diana, que começou já no mestrado, não obtive apenas saberes. Pude observar a intelectual dedicada, participante, íntegra, coerente. Ficou, para mim, esse exemplo de vida. De que não basta adquirir conhecimentos. É preciso sabedoria, ordenar sempre o que se sabe tendo em vista uma felicidade generosa. Tive ainda outros mestres. Não poderia deixar de citar José Luiz Fiorin (foto), também um modelo de intelectual, de educador dedicado, de rigor e seriedade, o primeiro professor que me recebeu na Letras, me apresentou à semiótica e me deu grande incentivo nesses anos. Também divido com ele tudo de bom que fiz na pós-graduação da Universidade de São Paulo. Minha experiência como doutorando da USP também não foi marcada somente pela forte presença de Diana Barros e Fiorin. Nem por um parto de idéias de 1000 dias, mediado por um Pentium 4, num quarto paulistano, que resultou nestas páginas. Agradeço aos amigos, aos colegas e aos outros professores todo o estímulo que tive. São vivências que já vão se tornando lembranças: as idéias sobre a tensividade do professor Luiz Tatit, a energia adolescente de Norma Discini, as piadas engraçadas e fora de hora de Ivã Lopes, as cutucadas no conservadorismo feitas por Antonio Vicente Pietroforte, a calma hjelmsleviana de José Roberto do Carmo Júnior, as coisas de menina anti-Xuxa de Roseli Novak, o bom humor musical de Ricardo Monteiro, as conversas sobre mulheres e política com Marcio Coelho, os incentivos de Peter Dietrich, a atenção de Marcelo Martins... E tantos outros afetos propiciados por colegas, principalmente do Grupo de Estudos Semióticos da Universidade de São Paulo, o GES-USP. Não posso deixar de agradecer ainda a minha esposa, Geni Marques, e ao meu amigo Hélcio de Pádua Lanzoni pela colaboração e pelas idéias. Vários jornalistas também contribuíram com este trabalho. Meu agradecimento especial a Heródoto Barbeiro e à equipe da Central Brasileira de Notícias, que cederam gravações do Jornal da CBN. Finalmente, cito a FAPESP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, pelo importante apoio na forma de bolsa de estudos.

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RESUMO
Este trabalho apresenta uma ampla investigação do jornalismo e dos principais jornais brasileiros e propõe um modelo de análise dos noticiários com base no aparato teórico da semiótica de Greimas. Há duas grandes divisões. Na primeira parte, de teorização geral, é estudada a relação entre semiótica, comunicação e jornalismo. São discutidos os conceitos de comunicação, notícia, ideologia, realidade, verdade, objetividade. Para obter maior audiência ou tiragem, base de sobrevivência das empresas, os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores, ouvintes, internautas ou leitores nos níveis sensorial, inteligível e passional. O exame desses procedimentos manifesta o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção, estratégia de persuasão que funda e sustenta a relação enunciadorenunciatário. Ainda na primeira parte, são mostradas as duas formas básicas de

organização textual jornalística. O manejo do espaço determina o modo de percepção nos jornais impressos e revistas assim como a administração do tempo organiza a atenção do público no rádio e na televisão. Na segunda parte, de teorização específica e aplicação, são examinadas características de cinco noticiários brasileiros, produzidos no período de quatro anos (2002/2005), que obtiveram maior audiência ou tiragem: Jornal da CBN, Jornal Nacional, revista Veja, Folha de São Paulo, Portal UOL. As ferramentas desenvolvidas, tanto gerais quanto específicas, são usadas e testadas na análise de um fato de repercussão mundial, a prisão de Saddam Hussein, em 13 de dezembro de 2003.

Palavras-chave: jornalismo, jornais, semiótica, Greimas, comunicação

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Portal UOL. communication and journalism. newspaper. There are two main divisions. or the readers in the sensorial. 2003. In the second part. The examination of these procedures shows what we are denominating the management of the attention level. semiotics. ideology. news. websites. It proposes a model to analyze the news media based on the general theoretical apparatus of Greimas semiotics. magazines. Greimas.ABSTRACT This work shows a wide investigation about journalism and the main Brazilian news media (newspaper. the internet users. The concepts of communication. objectivity are discussed. all of which obtained the highest audience or issue circulation: Jornal da CBN. Jornal Nacional. Key words: journalism. intelligible and passional levels. are used and tested in the analysis of an important fact which gained world repercussion: the prison of Saddam Hussein in December 13. The tools developed. In the first part. we examine characteristics of five Brazilian news media produced in a four-year period (2002/2005). a persuasion strategy that establishes and keeps the relation enunciatorenunciatee. the radio listener. reality. revista Veja. The manipulation of the space determines the way of perception in the newspapers and magazines as much as the time management organizes the public attention in the radio and the television. two basic forms of journalistic textual organization are also showed. which refers to specific theorization and application. truth. communication 7 . we study the relation among semiotics. television and radio news programs). Folha de São Paulo. both general and specific. In the first part. In order to obtain more audience or issue circulation – important for their survival – the news media need to manipulate the attention of the TV viewer.

âncoras. ruídos e a relação com a fala A questão do tempo e do valor da notícia: a prisão de Saddam O TELEJORNALISMO Considerações gerais sobre o telejornalismo e o Jornal Nacional A estrutura do programa Marca. aspectualização e sincretismo PARTE 2 – TEORIZAÇÃO ESPECÍFICA E APLICAÇÃO OBSERVAÇÕES GERAIS O RADIOJORNALISMO Considerações gerais sobre o radiojornalismo e o Jornal da CBN A sensação de “tempo real” A organização textual e a oscilação entre o ouvir e o escutar A locução como elemento organizador Música. efeitos sonoros. COMUNICAÇÃO E JORNALISMO Semiótica e teorias da comunicação Ponto de vista semiótico sobre a comunicação Cláusulas principais do contrato jornal-público Verdade e ideologia O recorte específico da realidade praticado pelo jornalismo: a notícia A isenção impossível: um mesmo acontecimento e três notícias distintas Enunciação e efeitos de objetividade O “efeito de neutralidade” A objetividade como dever-fazer: a ética jornalística O GERENCIAMENTO DO NÍVEL DE ATENÇÃO . inclinação.estratégias de persuasão dos jornais Enunciação jornalística como narrativa Formas de relacionamento entre jornais e público-alvo Sujeitos marcados nos jornais e modos de relacionamento O fenômeno da atenção A curiosidade e os percursos da atenção Emoção. repórteres e correspondentes: os actantes da enunciação Tempo e espaço: os efeitos de câmera e edição Montagem e o domínio do tempo 10 13 14 16 17 20 23 24 24 28 30 31 34 37 40 44 47 50 50 52 56 59 57 64 66 70 74 80 86 89 92 98 98 101 106 111 115 116 117 117 119 120 124 130 133 154 154 158 166 169 177 8 . paixão e sentimento: a estrutura dos afetos Notícias e engajamento perceptivo Estratégias de arrebatamento e de sustentação A proximidade temporal: o efeito de atualidade A proximidade actancial e espacial: a empatia A proximidade imposta: o sensacionalismo A estratégia de fidelização Exemplo: Jornal da Tarde versus Diário de São Paulo ESTRATÉGIAS DE ORGANIZAÇÃO TEXTUAL: A ATENÇÃO MANIPULADA NO TEMPO E NO ESPAÇO Dois modos de textualização: espacial ou temporal Valorização ou desvalorização da notícia: o semi-simbolismo “cristalizado” Aspectualização: ritmo textual Textualização.O jornalismo e os jornais na perspectiva semiótica RELAÇÕES ENTRE SEMIÓTICA.SUMÁRIO INTRODUÇÃO A revista Veja e a continuação do trabalho Uma síntese entre prática e teorização A semiótica como ligação entre várias visões sobre o jornalismo Objetivos e hipóteses Plano de trabalho PARTE 1 – TEORIZAÇÃO GERAL .

a Internet e o portal Formas de textualização O efeito de sentido de “infinitas possibilidades” O enunciatário impaciente Tudo é notícia A cobertura da prisão de Saddam CONCLUSÃO Teorização proposta reúne várias orientações dentro da própria semiótica Conceitos-chave a separação entre dever-fazer e fazer-crer jornalístico Uma teoria para o fenômeno da mobilização da atenção Estratégias de organização textual: tempo e espaço Os semi-simbolismos cristalizados Ritmo nos jornais Ethos e outros efeitos de proximidade Comparação entre os jornais analisados Uma analogia entre jornais e restaurantes Mais do mesmo Mais rápido. pior é Atualização e citação Sucesso e crise A semiótica e a produção de estados mentais pelos noticiários BIBLIOGRAFIA 178 204 205 210 211 214 214 216 225 235 242 244 250 259 272 273 276 281 284 290 292 304 305 306 306 307 307 308 308 309 313 315 316 316 317 318 320 9 . suporte e atualidade da notícia Entre o essencial e o acessório: a construção de um leitor fragmentado Os cinco conjuntos significantes manejados pela diagramação Tipos gráficos e novo patamar de semi-simbolismos O fotojornalismo Análise de abordagem: a prisão de Saddam Hussein PORTAL.JORNALISMO NA INTERNET Considerações gerais .A prisão de Saddam: um bloco inteiro dedicado ao assunto Relação entre fragmento e duração Uma única enunciação: a fala como elemento articulador Mais questões sobre a temporalização O controle da percepção: o uso ideológico da edição e dos planos de câmera JORNALISMO IMPRESSO Considerações gerais – Folha de São Paulo e revista Veja Organização textual: efeitos do projeto gráfico e da diagramação Divisões do jornal.

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Os autores geralmente são jornalistas experientes. Quem se propõe a analisar os noticiários vai verificar que esses estudos – que se concentram em detalhes específicos. São os “manuais”. famosos e respeitados. grandes pensadores da comunicação. Apresentam regras e “segredos” da profissão. O primeiro inclui as chamadas obras técnicas. em determinada época. em cinco grandes grupos. O terceiro tipo de obras – as segmentadoras – focam um aspecto bastante preciso e particular do jornalismo.são muito comuns na pós-graduação. repensando e. capas de revistas em época de eleição. Em diversas análises. os jornais aparecem dentro de uma mesma classificação. relatam discussões que renderam ou destruíram grandes pautas. geralmente o medo de o autor perder o cargo e o emprego. a argumentação de editoriais de um grande diário. levantamentos. não raras vezes o jornalista se vinga e se valoriza: deixa seu posto de testemunha e passa a ser personagem principal da história. de maneira geral. A atividade de noticiar aparece como algo mais ou menos mecânico. filosóficas ou sociológicas de enorme amplitude. como o estudo dos títulos de um jornal. em partes de um meio de comunicação ou de um determinado objeto . como “meios de comunicação de massa”. Não raras vezes o jornalismo é marcado por um tom pessimista e linchado em generalizações polêmicas.Trabalhos sobre o jornalismo podem ser classificados. análises críticas. Os jornalistas oscilam entre vítimas e algozes de injustiças de todos os tipos. Mostram redações por dentro. As especificidades do jornalismo não são muito discutidas. Seus autores. os jornais. a governos e a grupos dominantes. Podemos chamar o segundo tipo de obras sobre jornalismo como histórias de bastidores. Alguns estudiosos fazem a defesa dos aspectos éticos – e freqüentemente esquecidos – da comunicação das principais mídias. No quarto tipo de obras – as generalizantes – há estudos teóricos. pressões. cujos autores se ocupam em sistematizar e repassar experiências. são acadêmicos. geralmente sem grandes reflexões ou preocupações ideológicas.as integradoras . quando 11 . Ensinam como fazer um telejornal. A atividade jornalística é pensada como algo pernicioso socialmente em função do seu poder de persuasão e do serviço que presta ao capital. Eles contam o “outro lado” da profissão. Este trabalho quer se incluir no quinto tipo de obra sobre essa forma de comunicação . a melhor “linguagem” para usar no jornalismo de rádio.que analisam o jornalismo e suas conseqüências com base no exame de suas manifestações concretas. Nesses trabalhos. choques ou união de interesses entre empresas jornalísticas e grupos políticos que. Dão dicas para elaborar uma reportagem. na maioria das vezes. não puderam ser trazidos à tona por alguma razão.

uma música. É possível. como fizeram as tomadas de câmera do programa. o padrão de transmissão utilizado.vários números de uma revista semanal que destacaram determinado assunto. o Jornal Nacional. mesmo claramente definido como objeto de estudo semiótico. de histórias de bastidores. um telejornal ou um programa de radiojornalismo – e seus efeitos no público. da rede Globo. apresentar os bastidores. um “gancho”. a outra ordem de preocupações. que o objeto de pesquisa. É forçoso reconhecer que. como professor de jornalismo recém-contratado. comandado pelo âncora Boris Casoy.possível. Portanto. não produziram ferramentas para desvendar a produção de sentido dos jornais. se difere de outras que podem ser chamadas de integradoras. enfim – para usar o jargão jornalístico – para os autores se lançarem a outros assuntos. a edição. no entanto. uma peça de teatro. evitaremos esse termo que pode levar um leitor mais desatento a achar que estamos falando da parte verbal de um jornal. de rádio. pode trazer alguma dificuldade em um trabalho que pretende analisar noticiários. segmentadoras não dão contam das necessidades do estudo das manifestações cotidianas do jornalismo . porém. de TV. Também se pode estudar o tom de voz dos apresentadores do JN. é que o uso da palavra texto. Nossa investigação sobre o assunto. Outra alternativa é uma investigação teórica abrangente. O problema. E mais: essas abordagens dão a entender que o programa é somente uma justificativa. O trabalho foi apresentado em forma de telejornal. com movimentação de câmera e 1 Empregaremos a expressão “objeto jornalístico” praticamente como sinônimo de texto para a semiótica francesa. questões que serão discutidas nas próximas páginas. Um grupo comparou dois telejornais. técnicas. o Jornal Nacional. por outro lado. Se todas essas formas de análise são valiosas. Em 2002. e o Jornal da Record. Como veremos depois. Pode-se analisar uma única edição do Jornal Nacional da Rede Globo do ponto de vista da técnica. como as coerções e os desafios do telejornalismo no terceiro milênio. o trabalho de conclusão de curso de estudantes de uma faculdade de comunicação no Interior do Estado de São Paulo. a teoria concebe texto como objeto de significação e objeto cultural de comunicação entre sujeitos. parece não ter sido realmente contemplado. sozinhas. um jornal. uma casa são exemplos de textos semióticos. inclusive impressos. As teorias da comunicação ou os diversos estudos sobre o jornalismo. a da semiótica francesa. acompanhamos. palavra que utilizaremos neste trabalho para qualquer forma de noticiário: impresso. os interesses da família Marinho. obras generalizantes. no entanto. incorporando conhecimentos úteis de cada um dos outros quatro tipos de estudos citados. Na medida do possível. quem manda em quem. é importante perceber. pelo menos até onde pudemos localizar. parece escapar. 12 . Em outras palavras. Assumimos aqui uma perspectiva teórica clara. via Internet. que tem instrumentos para investigar os objetos jornalísticos1 e pode adequar outras contribuições ao seu modelo de análise.

Enfim. os estudantes caíram em uma armadilha. como também entendendo o mecanismo que as produz. buscou-se investigar como os textos da publicação são construídos. Em vez disso. falar um pouco do estudo já realizado. O trabalho também revelou outros problemas bastante comuns. por ter um âncora que analisava tudo dentro de um ponto de vista bem marcado. constatamos que essa construção complexa. os mecanismos de construção de sentido. a ampliação e o aprofundamento de questões de nossa dissertação de mestrado “A revista Veja e o discurso do emprego na globalização – uma análise semiótica”. Eles deveriam concluir o curso não só sabendo verificar essas formas de construção textual. Novamente. como conseguem transformar recortes e interpretações de acontecimentos em “fatos”. portanto. O formato do trabalho dos estudantes também merece comentários. Não são raros os estudantes e mesmo os jornalistas que confundem uma pesquisa de graduação ou até de pós-graduação com uma “grande reportagem” que prescinde de uma metodologia. E que o Jornal Nacional fazia o “melhor jornalismo”. Os alunos entrevistaram jornalistas da Globo e da Record. A conclusão. juntas. manejados por uma das principais revistas de informação do mundo. Com surpresa. de tipologia. Os estudantes perderam uma grande oportunidade de pensar sobre seus próprios valores e sua visão de mundo que deram ao Jornal Nacional o veredicto de “o melhor jornalismo da TV”. de infográficos. Tentou-se examinar e explicitar o funcionamento de mecanismos de conquista ideológica de um contingente importante da sociedade brasileira. um jornalismo “objetivo”. inicialmente. um grande e sincero esforço. nem sequer reconheciam a objetividade como um efeito de sentido que desarma o senso crítico de uma maneira mais eficiente. faltou aos alunos um olhar sobre o objeto-jornal. porém. em verdades aceitas que. e de jogos entre esses e outros elementos. como se o analista fosse uma espécie de juiz. Convém. O estudo foi confundido com opinião. Na dissertação.edição impecáveis. muito comuns no jornalismo. A revista é uma sofisticada engrenagem que transmite valores por meio de operações racionais. passionais e sensoriais. as estratégias de persuasão utilizadas. São escolhas de composição visual. era “opinativo”. Mostraram. de tipo de argumentação. formam um simulacro sedutor da realidade que impele os leitores a determinadas crenças e ações. apesar de sua 13 . Elucidar as estratégias persuasivas de Veja trouxe outros desafios. foi a de que o Jornal da Record. A revista Veja e a continuação do trabalho Esta tese é a conseqüência e. de certa forma. com julgamento. muitas vezes. enfim. do que as opiniões e os bordões de Boris Casoy. de fotografias.

Isso sem contar os que defendem a supremacia de uma certa “visualidade” em tudo e em todos os lugares. As análises sobre a revista que conseguimos localizar se concentravam em partes específicas. no entanto. transformam jornais em coadjuvante e não no personagem principal de investigação. interessada somente no resultado. Os estudos sobre Veja não davam conta do objeto jornalístico em sua complexidade. uma análise crítica também se faz sempre necessária sobre essa forma utilitarista de ver a comunicação. que efeitos de um projeto gráfico. Também acreditamos que é vantajoso dar espaço a aspectos de marketing2 e a opiniões dos jornalistas para conhecer melhor o próprio objeto e construir meios de investigá-lo. devem ser encarados como cosméticos e desimportantes. principalmente de uma metodologia que dê conta do objeto jornalístico como um todo. ou visual e sonoro. São pontos de vista discutíveis. era pouco estudada. contextuais. As ferramentas teóricas à disposição dos analistas ainda são limitadas. notadamente capas e fotografias. cada vez mais sagazes e invasivos. É por isso que existe hoje uma certa avidez de ferramentas de estudo de meios de comunicação por parte de pesquisadores. ainda são muitas vezes entendidas e analisadas por meio da classificação verbal x visual. segmentadores ou generalizantes. de ritmo. focado no objeto. Esse conjunto de conhecimentos é chave para entender a força das empresas de comunicação. Há uma justificativa para o problema.importância. Essa concepção traz desafios e dúvidas. apresentam diversas reflexões sobre a teoria e a prática jornalísticas que serão úteis para montar nosso estudo mais abrangente. porém. Nossa vida está sendo dominada por relações cada vez mais complexas de possibilidades de expressão e não pelo predomínio do “verbal” ou do “visual”. não apenas de um dos seus aspectos ou pedaços. Uma síntese entre prática e teorização Construir um trabalho analítico mais integral. Estávamos diante daquele terceiro tipo de publicação discutida há pouco. Estudos técnicos. por exemplo. Para contrabalançar. estudantes e professores universitários. o que mostrava maior interesse acadêmico nas “imagens”. isoladamente. torna necessário incorporar diversas e importantes investigações que hoje se apresentam desconectadas. que persiste. A utilização de reflexões de teóricos do marketing ajudam a desmontar e a refletir sobre seus próprios métodos de influência. no reforço do hedonismo e da competitividade. certos analistas acham que um jornal é só “conteúdo”. 2 14 . Esses trabalhos. Por outro lado. O marketing instaura um sujeito consumidor de idéias e produtos como resultado de estratégias complexas. Os jornais apresentam intrincadas e sofisticadas relações entre conjuntos significantes que.

verdade.ig. a existência do Observatório da Imprensa. mecanicamente. conteúdos. Os efeitos do fortalecimento dos discursos especialistas. concepções cristalizadas tanto em certos setores das áreas de humanidades da universidade quanto nas redações estão sendo vencidas. Observatório da Imprensa é conhecido por meio de um site: (http://observatorio. nesse sentido. De um lado. há os que estudam as formas. não raras vezes.Lembra o casal Mattelart que “todos os que trabalham com a mídia encontramse hoje afetados pelo positivismo administrativo. eu a gozo muito mas a conheço pouco”.) As pessoas que deveriam estar treinadas para um certo tipo de prática não estão mais. É possível estudar o jornalismo – entre outras formas de comunicação .com. técnicas. Neste trabalho. cuja função explícita é legitimar estratégias e modelos de organização empresarias e institucionais. Não faz muito tempo. Cláudio Abramo. perto do dia-a-dia das redações e de seus profissionais. por exemplo. ao mesmo tempo. O Observatório3 é um bom exemplo de convivência proveitosa entre quem produz reflexão e quem atua profissionalmente. O que interessa Theodor Adorno e Walter Benjamim para o trabalho diário de jornal? (. um dos mais festejados. Trata-se de Alberto Dines. citados e influentes profissionais de jornalismo impresso no País afirmava: “As pessoas que escrevem em jornal têm apenas muita teoria – e. ideologia. não sabem fazer as coisas” (1988: 138). ou pesquisadores/teóricos versus profissionais. a universidade tem cada vez mais se preocupado com o futuro profissional dos seus estudantes. os profissionais que fazem tudo “intuitivamente” e. Um das possibilidades é ultrapassar a dicotomia “teoria versus prática”. dirigido por um jornalista elogiado pelo mesmo Cláudio Abramo.e fazer uma análise coerente e.br) 3 15 .. Felizmente. só para relembrar. Hoje. como as relacionadas à objetividade. trazidos pela crescente ‘profissionalização’ das atividades de comunicação. Em outro trecho de seu livro “A regra do jogo”. Há vários caminhos para fazer a “tensão ressurgir” nas análises do jornalismo. Por outro lado. de outro.. por esse novo utilitarismo estimulador da pesquisa de ferramentas epistemológicas que permitam a neutralização das tensões via soluções técnicas. são cada vez mais perceptíveis” (2002: 186). pode ser comemorado. as escolas de jornalismo influíram negativamente. utilizamos reflexões dos jornalistas para apresentar e aprofundar questões importantes. Abramo fazia o seguinte comentário: “Quanto à semiologia. projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os saberes sobre a comunicação não escapam a essa tendência.ultimosegundo.

Queremos dar nossa contribuição. acreditamos que “o verdadeiro conhecimento depende da prática. Esta tese aborda os jornais – sempre no sentido amplo já mencionado – na perspectiva da teoria semiótica. de A. aos professores de comunicação. uma vez que é nela que se encontra o seu fundamento. a partir do objeto. Há. como é próprio dos estudos semióticos. mas para ajudar na construção de uma ponte cada vez mais indispensável entre as duas formas complementares de pensar e viver o jornalismo. principalmente da Universidade de São Paulo. J. A necessária integração entre teoria e prática tem aqui outras motivações. Os trabalhos citados. Embora o trabalho teórico envolva um distanciamento dessa prática. há alguns professores e pesquisadores que desconhecem a evolução da semiótica e ainda a 16 . Greimas e seguidores. Infelizmente. J. dos jornais impressos. grandes avanços no conhecimento que não têm chegado às redações. ritmo e compor um modelo de estudo amplo e operacional. Longe disso. Greimas. dos sites ou portais de notícias. na universidade. Não se quer dizer com isso que é preciso ser jornalista para fazer análise dos produtos jornalísticos. O texto fundador é Semântica Estrutural. E o que foi dito até agora parece apontar para uma certa complacência teórico-metodológica. aos críticos e analistas de jornalismo. A base teórica da tese é a semiótica de A. critério de verdade e finalidade última. convivem com problemas e desafios que poderiam motivar pesquisas acadêmicas de maior interesse e repercussão social. segmentadores e generalizantes. por sua vez. A teoria semiótica atual desenvolveu-se a partir do estruturalismo dos anos 60.empatia. não a pode perder de vista. das revistas. As redações e os jornalistas. Pretende investigar os principais noticiários brasileiros de um ponto de vista mais integral e. Como Meditsch. são revistos nesse quadro teórico-metodológico dentro do objetivo de investigar o processo de significação dos programas de TV e de rádio. aos sindicatos da categoria. que desmonte e revele as estratégias de domínio de um grupo social sobre outros. principalmente os técnicos. A semiótica como ligação entre várias visões sobre o jornalismo É evidente que reflexões sobre a comunicação jornalística partem muitas vezes de concepções diversas e nem sempre convergentes. sob pena de perder-se a si próprio na abstração” (2001: 57). não só por pertencer a esses dois “lados”.

com reflexões relevantes para se entender a comunicação como teoria e como ato. no aparato teórico geral da semiótica. 4 17 . ao mesmo tempo. as investigações sobre o plano de expressão e suas características sensíveis. pensam hoje os objetos na sua vibração contextual.associam somente a estudos pioneiros de quase quarenta anos. na evolução da teoria. e o aponta como estudioso do “signo e dos sinais”. Hjelmslev. A construção de um modelo específico para a análise dos objetos jornalísticos impõe o desenvolvimento de alguns aspectos teóricos. cuja “filiação filosófica ou epistemológica é o estruturalismo”. O desenvolvimento da semiótica. a eficácia do controle ideológico de populações inteiras fazem da semiótica uma ferramenta não só atualíssima como necessária. por exemplo. aparece na escola de “semiologia contemporânea”. sobre o corpo e a percepção não deixam dúvidas de que o sujeito semiótico está cada vez mais complexo e. revela a vontade crescente dos pesquisadores de aceitar os desafios. Os estudos da enunciação. na construção de uma gramática do sentido. apesar de a bibliografia ser pouco divulgada fora do ambiente acadêmico. sobre o estético. diversos livros de semioticistas do mundo inteiro foram publicados. A semiótica de origem francesa é uma das teorias que mais têm se preocupado. fugazes. com questões ligadas às estratégias que apelam à emoção e aos aspectos sensíveis dos textos. mais “humano”. por exemplo.4 Na busca por bibliografia atual sobre o jornalismo e a comunicação. em sua obra O espelho e a máscara (2002). grande inspirador de Greimas. propostas que se mostrem mais operatórias para compor um modelo de investigação dos objetos jornalísticos. da tensividade. encontramos certos autores que faziam questão de se mostrar apartados de qualquer concepção que julgavam “estruturalista”. Objetivos e hipóteses As reflexões anteriores justificam os objetivos principais de nosso trabalho: • Buscar. A complexidade crescente dos fenômenos da comunicação. Nos últimos anos. de abarcar cada vez mais questões em seus trabalhos. coloca Greimas em “Semiologia clássica”. Ao mesmo tempo. dinâmicos. com a produção de sentido em objetos que unem várias “linguagens” de manifestação. É o Em um quadro sobre “as escolas teóricas da comunicação”. o surgimento de novas mídias. cada vez mais enriquecidos. esses mesmos pesquisadores se batiam com problemas para os quais a semiótica há décadas formulara propostas que poderiam ser úteis nos seus trabalhos. das paixões. de enfrentar o chão menos seguro de objetos que não se apresentam claramente estabilizados. Os semioticistas. Ciro Marcondes Filho.

18 . O trabalho com produtos específicos. e relacionado a um contexto demarcado. O modelo proposto. inserido numa sociedade de classes. Não se pretende desvendar os conteúdos dos jornais. Serão apontadas as coerções e vantagens de construção textual de cada um dos grupos de noticiários analisados. É preciso entender como o verbal. portal (Internet). quer unir reflexões mais maduras dentro da teoria com outras ainda instigantes para tentar uma apreensão mais global dos objetos jornalísticos. pode estabelecer uma eficiente ligação entre diversas formas de abordagem do jornalismo e manter coerência metodológica. é a base para a segunda reflexão. de outro. por sua vez. alimenta o estudo geral. e de outras unidades dos noticiários estudados irão motivar e justificar uma discussão sobre conteúdos.caso das reflexões sobre a objetividade. portanto. e. • Construir conhecimento sobre o jornalismo e os principais noticiários brasileiros a partir das possibilidades teóricas da semiótica. a fotografia. certos exemplos de reportagens. por abordar o texto no seu aspecto estrutural. Em vários momentos. Produtos jornalísticos são semióticas sincréticas. radiojornal e telejornal. a verdade. A semiótica. determinado por formações ideológicas. 2. a empatia. notadamente. A primeira investigação. Ressaltamos que o modelo analítico buscado quer esclarecer e apresentar as estratégias mais comuns utilizadas pelos jornais para motivar consumo e fazer-crer em determinados valores. divididos em quatro grupos: jornal e revista impressos.dos maiores noticiários brasileiros. • Desenvolver e divulgar a semiótica. e como objeto de comunicação. as logomarcas e muitos outros elementos se relacionam para produzir sentido e servir ao propósito de persuadir o público. de comentários. Outro desafio do trabalho é mostrar a operacionalidade da teoria. sobre os modos de textualização. já que a característica mais evidente de um texto jornalístico dos grandes meios de comunicação é o uso de diversos conjuntos significantes para manifestar um único conteúdo. Dito de outro modo.do jornalismo. de caráter mais amplo. que se concentra em objetos concretos de cada um dos quatro grupos. • Desenvolver um modelo de análise semiótica: 1. de um lado. integrando diversas contribuições na busca de uma visão mais integral dos objetos jornalísticos. há maior interesse em investigar como o jornal veicula valores do que os valores transmitidos. no entanto.

a importância de uma notícia acontece em função do espaço. Todas as outras operações – como a busca de efeitos estéticos. os conteúdos diferenciados – se filiam e fazem parte dessa necessidade vital de manter o público sempre cativo. Produtos industriais. Os produtos jornalísticos devem atrair. Essa textualização se desenvolveu para guiar a percepção do público. No rádio. o É possível estabelecer princípios de organização textual do jornalismo dos maiores meios de comunicação. 19 . de outros concorrentes. Serve tanto para permitir um reconhecimento mais imediato dos valores em jogo como para organizar o próprio trabalho dos profissionais envolvidos no fechamento das edições. que esclarecem o funcionamento das estratégias de enunciação desses objetos. de outro site. longe do controle remoto. O manejo do espaço determina o modo de percepção nos jornais impressos e revistas assim como a administração do tempo organiza a atenção do público no rádio e na televisão. o jornalismo on-line e globalizado. Como tentaremos mostrar no trabalho. O objetivo maior de todo jornal é obter atenção e laços com o público. mais espaço – maior valor). base da lucratividade das empresas. passional e inteligível. o Há duas formas básicas de organização textual jornalística que estabelecem modos distintos de apresentação de conteúdos e de gerenciamento da atenção. Nos primeiros meios de comunicação. do tamanho e da posição que ocupa nas páginas (por exemplo. o tempo também determina o valor de uma reportagem ou comentário (mais tempo concedido – maior a importância). o valor de uma notícia tem relação direta com o tempo concedido. o que merece mais ou menos concentração e atenção. rádios e Internet) ou de tiragem (nos jornais e revistas). essa é a principal coerção dos noticiários.A partir dos objetivos listados. Essa finalidade determina um conjunto de estratégias persuasivas reunidas no que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção. do dial. Nas TVs. apresentamos a seguir as principais hipóteses do trabalho: o Existe um ponto que aglutina e “costura” as principais investigações sobre o funcionamento do jornalismo e serve para construir uma hierarquia de análise. mostrar pontos de maior ou menor interesse nos níveis sensível. os jornais construíram com o tempo mecanismos que comunicam o que é mais ou menos importante. direcionar as expectativas. administrar e manter elevado o nível de atenção dos seus respectivos públicos para que exista sustentação e aumento de audiência (caso das TVs.

notícia. da perspectiva da semiótica de Greimas. realidade.O gerenciamento do nível de atenção. São contempladas as questões que envolvem todos os jornais estudados. são estudados os jornais que poderíamos chamar de “vencedores”. do radiojornalismo. Há cinco produtos jornalísticos aqui analisados: 5 As informações que apresentamos sobre os jornais foram recolhidas junto aos sites das próprias empresas em dezembro de 2004. que resultam em organizações textuais específicas. são feitas sugestões para o exame do sincretismo nos objetos jornalísticos. do jornalismo impresso. incluindo um estudo sobre os tipos de semi-simbolismos gerados. ouvintes. com exceção das relativas ao Jornal Nacional. base da sobrevivência das empresas. No final. Como corpus. . Para obter audiência ou tiragem. cuja função é manipular a percepção do público. conceitos de comunicação. Apresentamos ainda uma relação entre aspectualidade. objetividade. com investigações e exemplos concretos. passional e inteligível.5 Em outras palavras. PARTE 2 . estratégia de persuasão que funda e sustenta a relação enunciador-enunciatário. tensividade e o potencial de curiosidade da notícia. Investigamos as estratégias que são próprias do telejornalismo. Em linhas bem gerais são mostradas relações entre a semiótica e as teorias da comunicação. . ideologia. em duas grandes divisões: PARTE 1 . comunicação e jornalismo. mostramos que os modos de relacionamento dos jornais com o público também são conseqüência do trabalho com os vários recursos que diferentes noticiários têm à disposição. internautas ou leitores nos níveis sensorial. do noticiário da Internet. de base temporal ou espacial. Discute-se também. Cada um compra informações de 20 . Obter dados sobre o posicionamento dos jornais não é tarefa fácil. Há três grandes tópicos: .Estratégias de organização textual: a atenção manipulada no tempo e no espaço. são utilizados noticiários brasileiros produzidos no período de quatro anos (2002/2005) e que obtiveram maior audiência ou tiragem nesse intervalo de tempo.teorização específica e aplicação.Plano de trabalho A tese apresenta uma ampla discussão teórica. os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores. O exame desses procedimentos revela o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção.Relações entre semiótica. Nesse item. verdade.o jornalismo e os jornais na perspectiva semiótica.teorização geral .

OS CINCO OBJETOS JORNALÍSTICOS ANALISADOS Nome Tipo Característica e tiragem ou audiência O âncora.7 Jornal da CBN Programa diário de rádio Jornal Nacional Programa diário de TV É líder de audiência desde sua fundação. Tem circulação nacional. o UOL teve média de 7.com/cbn/ 8 Revista Veja.com.131. A Veja e a Folha de São Paulo foram reunidas em um só item em função de sua institutos de pesquisas (como o IVC. jornalismo impresso. jornalismo de Internet (portal).News) e a maior do Brasil.8 Folha de São Paulo Diário impresso Fundada em 1921.11 Esses cinco produtos jornalísticos geraram quatro grandes grupos de análise: radiojornalismo. Isso significa a sintonia de 68% dos televisores brasileiros.com. Newsweek e U.uol.vejaonline. O programa da Rede Globo é um dos telejornais mais vistos no mundo.folha.http://www1. 101 a 108.9 Veja Revista semanal Quarta maior publicação do gênero “revista semanal de informação” no mundo (atrás de Time.abril.br/ 21 . tornou-se na década de 80 o jornal mais vendido no País. ou 31 milhões de telespectadores. Em 2004. 1° de setembro de 2004. o IBGE) e usa como acha conveniente. 6 Fonte: http://www. Criada em 1º de outubro de 1991. número que lhe dá a primeira posição no ranking dos maiores portais de conteúdo brasileiros e representa cerca de 60% de alcance nesse mercado. que transmite via satélite 24 horas de jornalismo. 9 Fonte: Conheça a Folha . Segundo o Ibope NetRatings.br 7 Fonte: http://radioclick.globo.br/folha/conheca 10 Fonte: Midiakit Veja – acessível a partir do site www.uol.com. 6 visitam o UOL regularmente. tinha média de 43 pontos do Ibope.uol. Heródoto Barbeiro. texto de João Gabriel de Lima. edição 1869. págs. 11 Fonte: http://sobre. a CBN está presente nas principais cidades e em capitais como Rio de Janeiro. A maioria dos dados é confidencial. em 1969.100 exemplares e 4.701.herodoto.S.br – link “para anunciar”.com. Belo Horizonte e Brasília.10 UOL – Universo On Line Portal Internet Principal portal de conteúdo e provedor pago de acesso à Internet do País. “A guerra atrás das câmeras”.6 A Rádio CBN é a maior rede de emissoras all news.000 leitores. divulga o programa como o de maior audiência de São Paulo. a circulação média foi de 350 mil exemplares em dias úteis e 430 mil aos domingos. São Paulo. com 1.234 milhões de visitantes mensais no Brasil entre janeiro e setembro de 2004. Reúne mais de 200 jornalistas pelo País. Em 2003. telejornalismo. Isso significa que de cada 10 pessoas que acessam a Internet a partir de casa.

são usadas e testadas na análise de um fato de repercussão mundial. a partir desse mesmo fato. mas apresentar as diferentes estratégias utilizadas pelos noticiários analisados. depois. Nesse corpus vasto. As ferramentas – tanto gerais quanto específicas . Os jornais. para motivar laços e difundir determinados valores. a prisão de Saddam Hussein. 22 . Não se pretende fazer uma exaustiva análise de conteúdo. na conclusão.textualização ser muito semelhante. são comparados a fim de mostrar diferenças de abordagem. mostramos as especificidades de cada noticiário e o funcionamento das estratégias particulares. coerções e vantagens de cada um que esclarecem e exemplificam o funcionamento de determinadas estratégias discutidas durante todo o trabalho. em 13 de dezembro de 2003.

23 .

Herdeira de Saussure e de Hjelmslev. como forma de comunicação utilizada por certos grupos sociais para exercer essa manipulação de maneira mais efetiva. principalmente com Barthes. introduzimos os primeiros estudos sobre enunciação. verdade são revistas da perspectiva da semiótica. ideologia. mas principalmente a ação do homem sobre outros homens. o formalismo russo. comunicar não é apenas uma forma de transmissão de saberes. como lembram Santaella e Nöth: “Os pais – Pierce.RELAÇÕES ENTRE SEMIÓTICA. a semiótica se interessa por tudo que faça sentido para o ser humano. nos Estados Unidos. Para os semioticistas. criadora de relações intersubjetivas que geram e mantêm crenças que se revertem ou não em determinados atos. a orientação teórica é a semiótica de Greimas e seguidores. é inicialmente analisado por meio de temas sempre presentes sobre o assunto. o círculo de Praga e o círculo de Bakhtin – foram seguidos por Charles Morris e Thomas Sebeok. A semiótica de Greimas “tenta determinar as condições em que um objeto se torna objeto significante para o homem. muitos dos quais do Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo. Em linhas bem gerais. Hjelmslev. As concepções de fato. pela semiologia de extração lingüística. em relação às outras teorias que se preocupam com o sentido. é não se articular a partir da investigação sobre o signo. pela semiótica narratológica e discursiva de Greimas. Neste trabalho. notadamente a pierciana. mostramos pontos que consideramos fundamentais para entender o fenômeno comunicacional. Semiótica e teorias da comunicação O termo semiótica é usado em diferentes orientações teóricas. COMUNICAÇÃO E JORNALISMO Neste item apresentamos de maneira rápida algumas bases da semiótica francesa. É realizada uma breve comparação com outras teorias também semióticas. notícia. pela escola de Tartu. Depois. a diferença entre a semiótica da chamada “Escola de Paris”. A partir desse exame. realidade. Como teoria da significação. não toma a linguagem como 24 . a partir dessa questão. Saussure. ainda na França. O jornalismo. A objetividade merece grande destaque e. na antiga União Soviética e pela semiótica funcionalista de Halliday” (2004: 27). o estudo se concentra em expor as relações entre a semiótica de Greimas e as teorias da comunicação.

a semiótica greimasiana desenha fronteiras em certos momentos. Jornais. incluindo nele uma gama considerável de fenômenos. E a semiótica francesa tem enormes contribuições para dar aos pesquisadores e estudantes da área. cibernéticos. sociais. que disse querer “limpar o lixão da área”. aqui no sentido mais amplo. que dedica um capítulo inteiro à questão. a semiótica apresenta-se com um objeto de estudo bem definido. pois nesse ponto também há diversas possibilidades de recorte. Isso alarga o objeto da comunicação.sistema de signos. paisagens. multi e transdiciplinar”. por exemplo. são exemplos de textos passíveis de estudo semiótico. O resultado são objetos não raras vezes díspares. que vão desde a conversação cotidiana até a Internet” (2004: 14). casas. o teatro. entretanto. Em Dilemas da comunicação. Nossa defesa dessa relação. motivadas por desconhecimento. texto sobre epistemologia da Revista Fapesp (nº 82: 12 25 . supermercados. e ressaltam as possibilidades de enriquecimento conceitual que a semiótica pode trazer para teorias da comunicação. Acreditamos que a semiótica tem melhores instrumentos teóricos para analisar os objetos concretos produzidos pela mídia. receitas. segue outro caminho. cidades. O enfoque recai sobre as estruturas que engendram a significação. 13 Santaella e Nöth (2004) lembram que a semiótica pode ser possível parte de uma teoria da comunicação. Os autores mostram a interconexão entre os dois campos. Há estudos. criando relações intersubjetivas e fundando a sociedade. Na obra Comunicação e semiótica (2004). esculturas. Ao estudar a significação nessas relações. programas de rádio ou TV. Em “Semiótica e Comunicação” (2004). filmes. as interações. a publicidade. pode realizar diálogos úteis. e sim como sistema de significações. para isso. mas também por disputas de espaço institucional. representante da comunicação na CAPES. de relações. os suportes. sobre os meios de comunicação – as mídias -. pois a significação decorre da relação” (Barros. ver Marcondes Filho (2002). Ambas se apresentam com caráter “inter. políticos. criar uma teoria específica. livros. músicas. Em relação às chamadas teorias da comunicação12. Em outros. José Luiz Fiorin discute a afirmação polêmica de Wilson Gomes. roupas. novelas. Lúcia Santaella e Winfried Nöth fazem um notável levantamento das teorias semióticas e sua relação com os estudos teóricos da comunicação. sobre os textos. como aponta Fiorin. o cinema. Decorre daí uma concepção fundamental: a de que um elemento de uma estrutura só adquire valor na medida em que se relaciona com as outras unidades e com o todo de que faz parte. é “a ação dos homens sobre outros homens. psicológicos. Já as teorias da comunicação recortam as atividades comunicativas das mais diferentes formas e em perspectivas distintas. fotos. Sobre o assunto. 2001:13). Existem pontos de investigação biológicos. Um texto não é uma “soma” de unidades ou signos. 14 Essas linhas poderiam ser totalmente dispensáveis se uma confusão entre semiótica e comunicação não fosse observada até em discussões acadêmicas.14 Não está no escopo desse trabalho definir e listar as teorias da comunicação. ou melhor. Pesquisa-se sobre o jornalismo. constituir como objeto da comunicação somente os meios de comunicação e. Os teóricos da comunicação não produziram um método de análise consistente. a dança.13 Para localizar esses pontos de divergência e de convergência é preciso inicialmente reforçar que a comunicação de interesse da semiótica. artísticos. assim como a fase comunicacional é apenas um dos campos de trabalho da semiótica.

A análise desses textos suscita questões que fazem avançar a teoria. a jornalística. O estudo dos textos alimenta e enriquece as reflexões dos semioticistas. nesses casos. das reflexões de autores consagrados. E as novas teorizações enfrentam novamente os objetos para que as propostas sejam constantemente testadas. é claro. hoje. os jornais são um enorme desafio para a semiótica. não só para enfrentar antigos problemas. escolheu uma perspectiva teórica. 2002). certos analistas valem-se principalmente das obras generalizantes. cujo resultado pode ser até uma redefinição de seu espaço dentro das ciências humanas e sociais no país . formam-se grupos de interesse. Há muito a ser construído.Estudiosos da comunicação podem lançar mão de uma ou mais teorias nas investigações. entre outras possíveis e igualmente válidas. a autora Mariluce Moura expõe o debate: “Ser ou não ser ciência parece ser. Na falta de instrumentos de análise. como ainda para encarar novíssimas questões. em termos acadêmicos. É por isso que a teoria pode dar grandes contribuições para os estudos de comunicação. Ao mesmo tempo. pelo menos uma questão crucial para o campo de estudos da comunicação no Brasil. do jornalismo. há claramente uma disputa em curso entre os pesquisadores quanto ao status da comunicação. de disponibilidade de verbas para pesquisa. Este trabalho.de filósofos. político-institucionais e.com todas as conseqüências previsíveis.” 26 . Esse ir-e-vir traz enormes vantagens em trabalhos que devem ter vocação científica. consolidam-se posições divergentes e. O olhar sobre o objeto teria como conseqüência uma teorização específica demais. Em torno dela. A semiótica é uma das possibilidades de análise dos fenômenos comunicacionais. no entanto. senão a questão. de sociólogos. novos problemas teóricos e institucionais estão sendo criados. que gerou a entrevista de Gomes e a reação de Fiorin. A semiótica francesa tem mostrado sua força exatamente em função de modelos de previsibilidade que nascem e são continuamente testados em práticas analíticas. se falar em cisão da pequena e aguerrida comunidade científica vinculada a esse campo pode soar como hipérbole inadequada. para entender uma das formas de comunicação. Parece que um problema enfrentado por certos teóricos e diversos pesquisadores diante de objetos concretos é o de se confrontar com a complexa singularidade de manifestação de cada jornal ou de um grupo de jornais. Se os diversos estudiosos de comunicação não conseguem trabalhar diretamente com os produtos jornalísticos. que não poderia ser utilizada em outro. Como apontamos na Introdução. porém de grande amplitude. de estudiosos da comunicação. os semioticistas estão sempre em contato com seus objetos de investigação. quem se propõe a investigar 100 edições da Veja ou o Jornal Nacional de determinado dia se vê diante de várias dificuldades. que fazem considerações úteis. Observamos vários estudos jornalísticos que não conseguiram deixar de ser uma seqüência de comentários genéricos com fragmentos de discurso de autoridade .

“não há e nunca houve um pós-moderno. Após o engajamento.como as apresentadas. sob censura. Como pretendemos mostrar durante o trabalho. pág. e impedir que os trabalhadores tenham consciência de que são explorados?” Essa visão. na arte. A partir dos anos 80. isso ainda não justifica uma época. no máximo. no Brasil. na literatura. desmobilizar. Há quem imagina certas rotinas na redação de grandes empresas jornalísticas. é uma caricatura da crítica aos meios de comunicação. 2/11/2003. O diretor ou o editor-chefe começa a reunião de pauta com a seguinte pergunta: “O que faremos hoje. 10. que ainda persiste. explicam os autores. surgiu a oportunidade para uma visão cética. no entanto. que até hoje persiste. pelos sites. alguns estudiosos de comunicação. na época.15 A semiótica. buscavam encontrar algo para substituir o vazio intelectual que nos assolou nos anos 90. Na sua epistemologia. Para Ciro Marcondes Filho. pelo cruzamento de mídias. “Não é difícil perceber o quanto essa concepção negativista da comunicação se ajustava. Caderno Mais da Folha de São Paulo. aprofundar estudos sobre os meios de comunicação. Muito pensadores assumiram uma postura combativa no debate na área nos anos 70 e parte dos 80. senhores. visando à manutenção do domínio econômico e da hegemonia política sobre os países dependentes” afirmam Santaella e Nöth (2004: 14). a não ser na fantasia daqueles que. para aumentar o poder de nosso patrão. que não raras vezes degenerou no descompromisso intelectual. “a semiótica tendia a ser vista como mais uma área de subordinação à razão instrumental. Que tenha havido um ‘estilo’ pós-moderno na arquitetura. serve como caminho também para se contrapor à crítica maniqueísta e superficial dos jornais. que teve seu momento e sua história. à busca de resistência dos intelectuais latino-americanos contra o imperialismo cultural que se realizava através da comunicação massiva. pela Internet. se envolvem nos debates da chamada pós-modernidade. uma moda”. Nesse momento. por exemplo. na sua busca pelo 15 In “O conceito que nunca existiu”. seus produtos e conseqüências sociais. entretanto. A teoria é também muito útil para evitar simplificações comuns na análise dos objetos jornalísticos. ávidos por um novo ‘ismo’. enganar e oprimir a população. e suas coerções ideológicas. descomprometida com a militância política” (idem: 16). O Brasil estava dividido pela ditadura militar. a semiótica é uma ferramenta que possibilita compreender melhor as estratégias de persuasão dos discursos jornalísticos. Estudar discursos. 27 . se contrapõe a qualquer niilismo que invade discussões sobre o jornalismo e a própria idéia de significação.

. a teoria só pode estranhar o relativismo absoluto que dominou e domina certas reflexões.” Em “A sociedade líquida” . rever as noções e as denominações de ‘emissor’ e de ‘receptor’ da comunicação. Até porque é de uma obviedade inquestionável. como sujeitos competentes. Mais complicado é tentar responder: como fazem isso? Ponto de vista semiótico sobre a comunicação Os semioticistas discordam da idéia de que a relação entre autor e leitor. a inserção sócio-histórica e ideológica dos sujeitos envolvidos” (2003: 47). contudo. um autor leva em consideração as expectativas e as prováveis reações de quem vai receber o texto para construir um discurso com a eficiência desejada. é coerente com algumas de suas teses. os participantes se constroem e constroem. o “receptor” também participa da comunicação.sentido. no limite. acredita que não há nada a ser debatido. Nesse sentido.com.. é difícil usar esse rótulo diante da própria complexidade em cercar o fenômeno pós-moderno. Para a autora.folha. ouvinte. que todas as sociedades são igualmente boas ou más. Folha Mais – 19 de outubro de 2003 – versão eletrônica (http://www1. telespectador ou internauta é de mera transmissão de informações. uma determinada hierarquia de valores que. (. afirmar que o Jornal Nacional manipula a nossa emoção. ou seja. Isso é pós-modernismo.uol.entrevista da jornalista Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. pois.br/fsp/mais/fs1910200305. entre outras coisas. Outra questão é que não se pode negar a saudável polêmica que suscita a leitura dos textos instigantes de autores chamados pós-modernos. descarta a idéia de um tipo de regulamentação normativa da comunidade humana e assume que todos os tipos de vida humana se equivalem. Barros critica o caráter demasiadamente mecanicista de alguns modelos comunicacionais “mais apropriados à comunicação entre máquinas e que não levam em consideração. Ou que os jornais estão a serviço dos interesses da elite dominante. O ato de comunicar. o que. o destinador e o destinatário E há quem rotule algumas dessas posturas intelectuais justamente como “pós-modernas”.) Os sujeitos da comunicação não podem mais ser pensados como casas ou caixas vazias de emissão e de recepção de mensagens. dentro da definição de pós-modernismo proposta pelo sociólogo Zygmunt Bauman: “Ser um pós-modernista significa ter uma ideologia. o texto (idem). impõe a existência de simulacros. Os sujeitos da comunicação devem ser considerados. Prefere.htm). em primeiro lugar. aliás. Na comunicação. 16 28 . Grosso modo. enfrentar um árduo caminho para compreendê-los. “é preciso. Diana Luz Pessoa de Barros lembra que os antigos modelos lineares de comunicação – os que tratam da transmissão de mensagem de um emissor para um receptor – foram repensados por outros autores na forma de um sistema de interações (2003: 42).16 A semiótica não nega a complexidade de muitos fenômenos. juntos. uma ideologia que se recusa a fazer julgamentos e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos e virtuosos. uma percepção do mundo. por exemplo. por exemplo. No entanto. assim. por exemplo. enfim.

no fazer comunicativo do destinador não apenas como um fazer-saber. a divulgação de notícias (fazer-saber) está intimamente relacionada ao fazer-crer. Apontaremos depois. e no fazer comunicativo do destinatário essencialmente como um interpretar. ou melhor. ou seja. Trata-se de verificar a adequação do novo e desconhecido ao velho e já sabido. a partir de Greimas e Courtés (1983:69). mais adequados do que emissor e receptor) têm de ter certas qualidades que permitam que eles se comuniquem” (idem: 48). confrontar a proposta recebida com o seu universo do saber e do crer. (. com a partilha. mudar ou reforçar crenças que redundem em atitudes que podem ou não se converter em ações (fazerfazer ou fazer-agir) de diversas amplitudes. No jornalismo. para o sujeito é. (. de ver a peça de teatro comentada ou até mesmo de não fazer nada diante de alguma forma de injustiça. na parte do trabalho sobre o gerenciamento do nível de atenção.) “uma operação de reconhecimento da verdade. A comunicação confunde-se. Há duas qualidades ou competências que possibilitam a existência da comunicação: 1. por excelência. ou seja. Isso nos obriga a pensar na comunicação. Pesquisas têm mostrado que “para apreender o saber é necessário que o destinatário queira fazê-lo. realiza um fazer receptivo ou interpretativo.A primeira competência é chamada modal e inclui o querer ou o dever. as estratégias que envolvem a competência modal e a competência 29 .) Interpretar. entre outros aspectos. entre destinador e destinatário. com sistemas de valores que atribuem sentido aos fazeres e aos estados” (Barros: 2001:58). Barros. diante do fazer persuasivo dos jornalistas. de comprar um jornal a apoiar determinado candidato a presidente. de valores e projetos em comum . o saber e o poder realizar a comunicação. mas principalmente como um fazer-crer e um fazer-fazer. é necessário... com a manipulação e têm ambas a mesma estrutura” (2003: 48). portanto.Para a manipulação funcionar.A segunda competência é a semântica. Qualquer destinatário dos jornais. dessa forma. que consiste em comparar e identificar o que lhe é apresentado pelo sujeito do fazer persuasivo com o que ele já sabe ou com aquilo em que crê.(termos menos restritivos e. 2.. lembra novamente que a comunicação como ato não pode ser entendida como um simples fazer-saber do destinador e um adquirir saber do destinatário.. que os sujeitos partilhem de um mesmo sistema de valores.

coerções. uma coerção que limita de uma certa forma a liberdade de cada um dos sujeitos. uma abertura sobre o futuro e sobre as possibilidades da ação. de confiança e de obrigação” (1983:84 e 85). Merecerá destaque o fazer-sentir na relação entre público e produtos jornalísticos. “mostrar a realidade” são cláusulas centrais no contrato do jornal com seu público. de fé. pode-se entender por contrato o fato de estabelecer. uma espécie de crédito e de débito. ou. mostraremos mais cláusulas também importantes. ou seja. semioticamente falando. “separar fatos de opiniões e interpretações”. sendo a distância que separa sua conclusão de sua execução preenchida por uma tensão que é.) O contrato aparece (. Deve ser ressaltado que o contrato semiótico. porém de abrangência um pouco mais limitada ou menos proeminentes. e do outro. que alicerçam a relação entre destinador-jornal e o destinatáriopúblico... de ‘contrair’ uma relação intersubjetiva que tem por efeito modificar o estatuto (o ser e/ou o parecer) de cada um dos sujeitos em presença.) O fato é que o estabelecimento da estrutura intersubjetiva é. A relação de um jornal com o público-alvo pressupõe um grande número de “cláusulas” nesse contrato. ao mesmo tempo. Afirmam Greimas e Courtés que. “ser objetivo e imparcial nos relatos”.. (. Em outras 30 . não é fundado em um acordo explícito. Nesta parte do trabalho. Resolvemos discutir essas questões nesta primeira parte do trabalho por duas razões complementares.) como uma troca diferida. convenções. essas cláusulas do jornalismo atraem e motivam discussões sobre as bases teóricas da semiótica. Por sua vez. de um lado. as cláusulas revelam uma série de expectativas mutuamente partilhadas que influenciam a produção e o consumo do discurso jornalístico dos grandes noticiários.. Cláusulas principais do contrato jornal-público As duas competências – modal e semântica – necessárias para que a comunicação se estabeleça expõem a existência de acordos. que terá conseqüências para toda a nossa análise. “Dizer a verdade”.semântica dos destinatários dos jornais. ou premissas da argumentação. Inicialmente. ao mesmo tempo.. expectativas entre destinador e destinatário. não é possível começar um estudo sobre o jornalismo dos maiores veículos de comunicação sem desmistificar essas noções e apresentar o ponto de vista semiótico sobre o assunto. um “contrato”. contudo. (. Em outras partes do estudo. Em outras palavras. É nesse sentido que a semiótica fala de um contrato “fiduciário”. “num sentido mais geral. queremos abordar o que estamos chamando de cláusulas principais. A noção semiótica de contrato é um conceito-chave para pensar os relacionamentos entre os sujeitos jornal e público consumidor..

palavras. da aceitação do contrato fiduciário e. No estudo do jornalismo. entre outros fatores. no jornalismo. de uma ideologia. em outros termos. próprios de uma cultura. na Folha de São Paulo de domingo. impõe reflexões bastante específicas. partilharem de uma mesma visão de mundo. Afirma Barros (2001:93 e 94) que o enunciador propõe um contrato que estipula como o enunciatário deve interpretar a verdade do discurso: “O reconhecimento do dizer-verdadeiro liga-se a uma série de contratos de veridicção anteriores. E resultado de uma interpretação. de discurso e seus tipos. por exemplo. de uma formação ideológica e da concepção. ou seja. Há uma notável discussão sobre o assunto. Comecemos com a questão da verdade que. feita por Clóvis Rossi em sua coluna da página 2. abrem caminho para uma série de outras reflexões importantes.” Um dos recursos do destinador para persuadir o destinatário a crer na verdade enunciada é elaborar uma representação da realidade que deve ser aceita pelo destinatário. sem dúvida. Verdade. falso. a proclamada habilidade do profissional de ter acesso aos acontecimentos e reportar tudo de maneira fiel. a partir dos quais o enunciatário pode reconhecer as marcas da veridicção. assuntos profundamente relacionados. assuma as posições cognitivas formuladas pelo enunciador. decorrentes de outros contratos de veridicção. que envolvem. portanto. nos debates das próximas páginas também há uma pequena apresentação dos fundamentos da semiótica que mais nos interessam e o exame. realidade e ideologia são. A interpretação depende. isto é. O contrato de veridicção determina as condições para o discurso ser considerado verdadeiro. o jornalismo e a comunicação. por exemplo. dentro de um sistema de valores. Isso é possível se destinador e destinatário. mentiroso ou secreto. “Opinião”. assim. a verdade é um efeito do discurso. 21 de abril de 2002: 31 . Verdade e ideologia Para a semiótica. estabelece os parâmetros. o famoso exercício da objetividade do jornalista. e creia. questão que se relaciona à competência semântica e exige uma espécie de cumplicidade na maneira de recortar e dar sentido aos acontecimentos. à realidade. da persuasão do enunciador para que o enunciatário encontre as marcas de veridicção do discurso e as compare com seus conhecimentos e convicções. das relações entre a teoria.

que explicita uma cláusula do contrato com o público consumidor de notícias. sim.Rossi afirma que um dos deveres maiores do repórter é “buscar a melhor versão da verdade possível de obter”. Essa categorização da realidade renova-se a partir dos conflitos de poder entre segmentos sociais . Notemos como cada um dos grupos beligerantes estrutura seu discurso com base em ideologias opostas. Ideologia é entendida como “visão de mundo”. Essa é uma questão central do nosso estudo sobre o jornalismo. especialmente na visão dominante. entendida como visão de mundo. é necessário definir o conceito de ideologia adotado neste trabalho. frase de Carl Bernstein. houve massacre.. É a ideologia que faz com que cada um tenha uma apreensão da realidade bastante distinta. é “o ponto de vista de uma classe social a 32 . Para seguir em frente..motivados principalmente por fatores econômicos. e reconhecer contradições em cada forma de ver o mundo. ao mostrar que há vários saberes ligados às diferentes classes. Fiorin completa que a ideologia.) a ideologia como visão de mundo permite relativizar a ‘verdade’. Palestinos dizem que. criticando-a e a ela resistindo” (1988: 150). e israelenses negam as mortes de civis. Barros afirma que “(.

notadamente na de Tarasti. the difference between ideologies and axiologies is clear. podemos considerá-los como ideologia (no sentido restrito. de curto prazo. os valores são organizados em sistemas e se apresentam como taxionomias valorizadas que se podem designar pelo nome de axiologias. dessa palavra)”. Tarasti (2004: 35) lembra que quando um indivíduo ou grupo adota certos valores como seus. semiótico. Essa ampliação dá conta de diversos fenômenos sociais. Ele faz uma crítica dessa mudança no artigo “Demandas corporativas na modernidade”:19 “Há a acelerada difusão de uma racionalidade política e econômica que alcança. Folha de São Paulo. Esse ponto de vista de uma classe social é. que podem ser consideradas como uma coleção de valores. É flagrante.respeito da realidade. sem um horizonte de transformação social fora de limites estreitos. A3-26/10/2004: 17 33 . dos gays. há uma apresentação de valores de forma abstrata ou temática.. Quando depois um grupo ou indivíduo tenta legitimar sua axiologia para outros sujeitos. 18 Fragmento original: “From an existential semiotic point of view. na organização ideológica.. o entendimento da ideologia não apenas em uma concepção de classe. de ordem virtual (idem: 225). como aponta o professor de sociologia da USP José de Souza Martins. distinguem “duas formas fundamentais de organização do universo dos valores: as articulações paradigmática e sintagmática. When ultimately an individual or a group tries to legitimize its axiologies to other subjects of its Dasein.” 19 Tendências/Debates. geralmente. essas axiologias se transformam em ideologias. antes de tudo. Há uma produção cada vez maior e mais fragmentada de “versões” da realidade a partir de finalidades estratégicas. those values transform into axiologies. O discurso ideológico. pode ser mais ou menos figurativizado e. nessas últimas conceituações. como a família. o esvaziamento da luta política a partir de conflitos de classe. dos bancários). A ideologia é apresentada como atualização ou busca de valores. converter-se em discurso mitológico (ibidem). do setor exportador. neste começo do milênio. Percebe-se a fragmentação das disputas sociais e o surgimento de demandas corporativas (dos negros. no segundo caso. no entanto. dos sem-terra.). seu modo de articulação é sintáxico e são investidos em modelos que aparecem como potencialidades de processos semióticos: opondo-os às axiologias. religiões e mesmo as Greimas e Cortés também afirmam que. justifica e explica a ordem social” (1997: 20). esses valores se transformam em axiologias. (…) When an individual or group adopts certain values as its own. aos acontecimentos. uma atribuição de valores ao mundo. No primeiro caso.18 É possível notar. selecionados do interior dos sistemas axiológicos.17 Na mesma linha. suprime ou modifica núcleos sólidos de organização social. assim. Greimas e Courtés. a maneira como uma classe ordena. which constitute more or less compatible colletions of values. those axiologies transform into ideologies. no Dicionário de Semiótica (1983: 224). a comunidade (.

que exibe mais uma vez certas cláusulas de seu contrato com o público. O recorte específico da realidade praticado pelo jornalismo: a notícia No caso de Jenin. como em tantos outros abordados pelos noticiários.” Com o conceito de ideologia definido. Vejamos o que diz. Nenhum foge dessa determinação.. Palestinos e israelenses não negam o acontecimento (as mortes e a destruição). Portanto. o recortam e o conceituam de maneira distinta: os primeiros falam em “massacre” e os segundos em “um combate feroz”. ou. como a do regime de cotas para negros nas universidades e da partilha corporativa da terra na reforma agrária.. Isso porque transformar um fato em notícia não é o mesmo que reproduzir singelamente o que ocorreu. sem atribuir valores ao que nos informam os nossos sentidos.. (. pode-se voltar ao texto de Clóvis Rossi. ele transforma fragmentos de realidade em notícia. Por meio da linguagem e da ideologia.. enfim. Ciro Marcondes Filho (1989:29): “Todos os jornais são. Cabe aos jornais fazer uma triagem dos acontecimentos. uns mais.. outros menos.)” afirmação merece um olhar semiótico. É a ideologia que “filtra” a realidade. Tendemos ao precário. Um jornalista. Não é possível o acesso ao real sem um recorte ideológico. (. dirigi-lo. ao provisório. Essa 34 .notícia. (. sobre a sociedade de risco. A semiótica desenha fronteiras que são percebidas de modo diferente por outros pesquisadores.) Já não são as classes sociais as protagonistas dos conflitos e das demandas sociais e políticas. Ele reporta o que acontece no mundo para o seu público. porém.. ao fragmentário.. O próprio jornalista nota duas visões de mundo antagônicas que só podem gerar duas interpretações também radicalmente diferentes sobre o que “aconteceu”. é possível perceber que o jornalismo tem uma relação com a realidade bastante específica.) As lutas corporativas não emancipam quem luta nem a sociedade iníqua em que a luta se desenrola. (. Para seguir adiante é importante diferenciar acontecimento .classes sociais. Transformar um fato em notícia é também alterá-lo. já está utilizando um recurso de persuasão. sensacionalistas...) Idéias como as do sociólogo alemão Ulrich Bech. quando um jornal constrói um discurso em que afirma mostrar a realidade. contar as grandes histórias que podem repercutir na vida dos leitores. (. por exemplo. É por isso que a semiótica vê a afirmação da existência de uma dada “realidade” como mais um “efeito” de um texto.. mutilá-lo.fato . portanto. ajudam a pensar criticamente as demandas sociais no Brasil hoje.) Essas demandas são cada vez mais corporativas. é sempre um mediador. para ser mais preciso.

do ponto de vista argumentativo.É.) Contudo. a nenhum enunciado é assegurada a fruição definitiva desse estatuto. Tornar algo visível. uma hierarquização de fatos. É muito comum. como todo argumento.. dentro de um objetivo de despertar curiosidade (fazerquerer-saber). Por exemplo. presente. Um ponto de vista originário da teoria da argumentação desenha com nitidez essa fronteira. não controverso. antes de tudo.. Uma análise semiótica dos objetos jornalísticos precisa traçar uma fronteira entre acontecimento. em nosso exemplo. se podemos postular a seu respeito um acordo universal.. contra 75% de americanos (Vial. Não se deve. recorrendo a pessoas competentes: especialistas mostraram que o fato em questão é apenas aparente. diz que “o acordo repousa primeiramente sobre fatos. colocar fato como sinônimo de acontecimento. fato e notícia para expor o caráter persuasivo-argumentativo dessa apreensão da realidade efetuada pelos jornais: • • Acontecimento – É qualquer fenômeno manifestado semioticamente. Mas. Essa relação “fato = realidade” também aparece no dicionário Aurélio. entre teóricos da comunicação. sua ‘interpretação’. porém. Fato .. confundir fato com realidade. Só estamos na presença de um fato. Finalmente. contestando o valor argumentativo do fato. o fato pode ser contestado. omitir ou esquecer outros aspectos envolvidos. e fatos já são argumentos. comprovados.Trata-se da primeira eleição e da apropriação que um determinado jornal faz de certos acontecimentos. simultaneamente. Reboul.. diremos que o nível do diploma do término do curso secundário nos Estados Unidos nada tem a ver com o nosso (…)” (1998:164).)” (1996: 75. pois o acordo sempre é suscetível de ser questionado (. mostrando que o fato em questão é incompatível com outros fatos. de realidade. Como? Primeiramente. Dar “presença” a um fato só tem sentido a partir de uma visão de mundo. para outro aspecto da afirmação. • Notícia . Lembram Perelman e OlbrechtsTyteca que “a noção de ‘fato’ é caracterizada unicamente pela idéia que se tem de certo gênero de acordos a respeito de certos dados (. por sua vez. sensações (fazer-sentir) e ações de consumo (um fazer-agir na forma de um fazer-comprar) do próprio meio de 35 .).76). Devemos atentar. também fruto de uma visão de mundo. muito menos com acontecimento. Significa. determinar-lhe valor.Concordamos com o autor que o ato de noticiar não é uma mera e inocente mediação entre os jornais e o mundo. Depois. (. no entanto. Le Monde. 4 de janeiro de 1985).. um jornalista que quer mostrar o caráter ‘antidemocrático’ do ensino cita uma estatística: 25% dos jovens franceses concluem o curso secundário. crenças (fazer-crer). por conseguinte. é. selecionados por ter determinado valor argumentativo. assim como se provou que não é o Sol que gira em torno da Terra. por sua vez.

É a notícia que gera todos os outros tipos de abordagens jornalísticas aqui analisadas (editoriais. uma charge a ridiculariza. se vincula a uma notícia. Empatia (quanto mais pessoas puderem se identificar com o personagem e a situação da notícia. foto. Para reforçar essa vinculação. Proximidade (quanto maior a proximidade geográfica entre o fato gerador da notícia e o leitor. legenda. não se constitui em fato. uma crônica. que é o de fazer crer na sua atualidade. ou seja. nessa definição. Improbabilidade (a notícia menos provável é mais importante do que a esperada). o significado histórico). virar notícia. charges e segue a lista).comunicação. fazer parte de uma determinada narrativa que o hierarquize em relação a outros fatos (o impacto da morte na classe política. falaremos bastante em unidades noticiosas. mais importante ela é). uma nota. não expõe com clareza o caráter mais óbvio de uma notícia. Caso os jornais se interessem pelo assunto. 2. é julgada como desimportante pelos meios de comunicação.21 Do ponto de vista semiótico. transformam o acontecimento em fato. 5. Pode ser ainda um editorial. Se não é citada nos jornais. direta ou indiretamente. uma crítica. 3. mais importante ela é)” (2001: 43). a incoerência em determinar tantas restrições para fazer a notícia e afirmar que a aplicação desses critérios deve redundar em “informação objetiva”. comentários. para exemplificar. Interesse (quanto mais pessoas puderem ter suas vidas afetadas pela notícia. 4. mais importante ela é). um editorial opina sobre ela. Uma reportagem a apresenta. O Manual de Redação da Folha de São Paulo expõe todos os critérios para “definir a importância de uma notícia”20. questão que será depois estudada. Utilizaremos essa expressão para marcar os elementos de significação de qualquer jornal analisado. por sua vez. 20 É notável como a Folha. que serão mais bem analisados na perspectiva semiótica durante o trabalho: 1. pois não atende aos critérios expostos. para o povo. necessita contextualização. “Ineditismo (a notícia inédita é mais importante do que a já publicada). Quase tudo o que aparece no jornal. 21 Observe-se. Essa ampliação se justifica. 36 . É o caso de uma reportagem na TV. um módulo de um diário com título. questão que abordaremos mais adiante. matéria. Só que esse fato. dentro do próprio ponto de vista da Folha de São Paulo. a morte de um político é um acontecimento.

E temos aí uma outra questão importante que envolve a comunicação. Lula ouve vaias e queixas de metalúrgicos”.A isenção impossível: um mesmo acontecimento e três notícias distintas A semiótica não nega. a Folha de São Paulo estampou a visita na primeira página (com um realce somente menor do que o do título da manchete principal): “No ABC. se contrapõe e freqüentemente se superpõe e domina a realidade real que ele vive e conhece” (2003:24). obra póstuma. porém. a existência da realidade. Perseu Abramo. No dia seguinte. a semiótica e o jornalismo. e alguns analistas da comunicação. não consegue deixar de eleger um acontecimento a partir de uma ideologia. Jornalistas. submetido ou não aos valores da empresa onde trabalha. professor universitário. a notícia recebeu grande relevância espacial (2/3 da área total da página interna). depois de sua apreensão pelo homem. E chamou a atenção para o fato de o presidente “incluir a correção da tabela do Imposto de Renda no pacote preparado pelo governo para ser anunciado antes do Dia do Trabalho”. O jornal mostrou foto muito semelhante à imagem 37 . o presidente Lula foi até a cidade de São Bernardo e discursou para milhares de metalúrgicos. o jornal imprimiu como título principal a questão do IR. Em uma foto de quatro colunas. Na perspectiva da teoria. exibida ontem no ABC. Exibiu-se outra foto com uma legenda que era quase redundante em relação ao conteúdo da imagem: “Faixa de protesto. pedindo a correção da tabela do Imposto de Renda.” O jornal O Estado de São Paulo. jornalista respeitado. Qualquer jornalista. trouxe o seguinte título: “Lula acena com correção da tabela do Imposto de Renda”. o leitor soube que Lula foi para a porta da Mercedes-Benz participar de um ato para entrega de ambulâncias. Por meio dessa matéria. de maneira alguma. de inseri-lo numa escala de valores para transformá-lo em fato e em unidade noticiosa. Na página A5. também com grande destaque espacial. em nota mais discreta de duas colunas na primeira página. O título principal foi: “Metalúrgicos hostilizam Lula em visita a seu berço político”. por mais cuidadoso que seja. afirma que “o público – a sociedade – é cotidiana e sistematicamente colocado diante de uma realidade artificialmente criada pela imprensa e que se contradiz. Na parte interna do jornal. destacou-se um operário que erguia um cartaz com os seguintes dizeres: “Basta de promessas – Queremos realizações – Chega de sermos enganados”. acreditam na existência de uma realidade plenamente apreensível. em geral. Utilizaremos outro exemplo para discutir como certas noções de realidade são concebidas no jornalismo e para iniciar as primeiras reflexões sobre a objetividade. em “Padrões de manipulação na grande imprensa”. só existe acesso ao “real” por via de textos. Em 26 de abril de 2004.

edição 1. na qual se vê o mesmo cartaz que afirma que o salário não é renda. Em duas matérias. entretanto. A matéria da Folha garantiu que Feijó. o que gerou notícias que apresentaram realidades distintas. Temos a gratidão. A mesma Folha. o Tribuna Metalúrgica. o que era o projeto Samu. E nem mais uma palavra de explicação sobre o assunto. nem sobre as cobranças feitas pelo próprio presidente do Sindicato. Não foi escrita uma linha sobre as vaias. jornal da chamada grande imprensa. a publicação praticamente sonega a seu leitor a informação de que Lula esteve na Mercedes-Benz 22 Em nosso trabalho. Isso é ainda mais notável quando se constata que o Sindicato mais combativo do País na década de 80. “matéria” designa a parte verbal mais desenvolvida nas unidades noticiosas. em outro texto. “pediu mais empregos. ignorou o projeto Samu. o jornal do Sindicato. José Lopez Feijó. a partir de um mesmo acontecimento central (a visita do presidente a São Bernardo) diferentes fatos. a humildade e a coerência como tema desse discurso. seu ex-presidente. outra matéria.interna da Folha. Com destaque maior. utilizou seu jornal para fazer um relato sóbrio e destituído de qualquer polêmica. Cada reportagem elegeu e organizou. Ainda no dia 27. colocou como título principal “Lula promete solução sobre tabela do IR até sexta-feira. “onde oficializou o programa de atendimento móvel de urgência no país”. cujas greves apressaram a democratização e o fim da ditadura militar. instaura um presidente acuado por sua ex-base sindical. Ninguém vaiou nem mesmo se indispôs com Lula na Tribuna Metalúrgica. Podemos observar “ganchos” noticiosos distintos.22 com o título: “Lula encara protesto e vaia em seu berço político”. no palanque. o leitor da Tribuna ficava sabendo que o presidente prometera uma resposta para a reivindicação da categoria de pagamento de menos Imposto de Renda.” Via-se uma foto do presidente com dirigentes do Sindicato em reunião numa sala.813. Para que essa construção ficasse ainda mais eloqüente. E também. a quebra de expectativas. A Folha. que ainda se submete a uma assembléia. diante de Lula. parte do projeto Samu 192. ouve seus “companheiros” e mostra que tem ação social. O presidente surge como um político que não esqueceu sua antiga base. uma política de salário mínimo e a correção da tabela do IR”. Gancho é uma gíria jornalística que indica diferentes abordagens que hierarquizam as informações – assunto de que trataremos melhor em outra parte do trabalho. em um texto que tematiza a traição. mais contratações. 38 . Abaixo da foto. Seu leitor ficou apenas sabendo que Lula esteve na porta da fábrica. havia mais um texto sobre a entrega de ambulâncias.

uma ideologia. se dá a partir de uma visão de mundo.) Um exemplo é o problema da corrupção no país. Não existe nenhuma forma de falar de uma ocorrência qualquer de maneira “isenta”. Ao revelar um determinado fato. objetos. que delimita o assunto. deve-se reforçar. Um enquadramento pode ser fechado. na PUC/SP. 39 . com a divulgação dos resultados de suas investigações nesse sentido. teoricamente de maior interesse de seus leitores de bom poder aquisitivo. fazer-existir:23 “Assim podemos defini-la como um sujeito que faz-ser..para dar seqüência a um projeto social. ou esse ato de pinçar e remontar determinados acontecimentos. como se tenta persuadir o público. O importante é verificar. é a mídia. a mídia faz esse fato existir. mas de “uma das principais bandeiras do Ministério da Saúde”.. Foram anotadas pelo autor deste trabalho e pela colega Kary Motta a partir da conferência de Tatit intitulada A deusa mídia. podemos notar que os jornais dão “densidade de presença” a certos aspectos da realidade e assim expõem sua visão de mundo. A construção de uma determinada realidade.tem a função de fazer-acontecer. Reforcemos que cada tomada pressupõe ainda um esquecimento ou um apagamento de tudo mais o que se apresentou no mesmo espaço/tempo da filmagem e que. O leitor. o telespectador ou o internauta não devem desconfiar de que certos aspectos da realidade são silenciados na triagem ideológica para que a 23 Essa e algumas outras reflexões do professor Luiz Tatit. situações. O jogo com a presença/ausência varia de jornal para jornal. na materialidade do texto. que realmente dá existência aos fatos. a entrega de ambulâncias. Não interessa para um semioticista estudar se essa apreensão foi ou não consciente. Pensemos em uma tomada de câmera em uma reportagem de TV. Os jornais sempre reportam realidades filtradas. ou aberto. (. não selecionado. é inerente a qualquer construção discursiva e ao próprio ato de apreensão do real a partir de uma ideologia.” Há outra questão importante sobre a “densidade de presença” que os meios de comunicação cedem a certos fatos. não se encontram publicadas. paisagens. o ouvinte. Luiz Tatit explica que a mídia – aqui no sentido de jornais . Esses três exemplos não podem ser analisados a partir de noções como “realidade real” e “realidade artificialmente criada” de Perseu Abramo. na III Jornada Internacional do Centro de Pesquisas Sociossemióticas sobre Semiótica e a crítica das práticas mediáticas. O Estado de São Paulo também faz um recorte específico. em agosto de 2001. e se concentra na questão econômica relacionada à correção da tabela do IR. sua ideologia. na forma de um “close”. Embora conhecida como possibilidade. Um texto jornalístico tem como função fazer o parecer real ser sentido como real. A “pinçagem”. se tornou “ausência”. injeta-lhe ‘presença’. a partir de possibilidades de expressão diferentes. Com as observações de Tatit. que mostra uma ou mais pessoas. O Estadão lembra que não se tratou de uma ação qualquer. mostradas nesta parte da tese.

Há a utilização da terceira pessoa. a função do jornalismo também é a de apresentar conceitos sobre situações. Os fatos surgem como se o próprio leitor tomasse contato com eles. O resultado final apresentado pelos jornais deve ser sentido pelo público-alvo como a própria realidade. Um discurso que se contrapõe a qualquer ação do governo não pode ver a maioria das atuações de Lula como relevantes. a omissão não é mentirosa. atos e seus personagens. Além de determinar o que é importante saber. quando o texto foi bem sucedido na maneira de apresentar argumentos que sustentam determinada tese. notícia é também – e. muitas vezes. obviamente. A Folha leva o efeito de realidade ao extremo. Não aparecem opiniões. e de dar presença a certos aspectos da realidade e não a outros. Isso acontece geralmente quando jornalista e público. Enunciação e efeitos de objetividade Deve-se ressaltar ainda que todos os três conjuntos de textos citados – inclusive o do jornal do Sindicato – estão rigorosamente dentro das regras da chamada construção de um material jornalístico “objetivo”. fora dos quadros de uma linguagem e de uma categorização que acontece com base em um sistema de valores. por exemplo. Um jornal pode ser entendido como um texto que materializa e congela. servindo como mais uma “prova” da veracidade do relato. O leitor que a Folha de São Paulo constrói. Esses exemplos atestam a razão de a semiótica ser uma teoria que se volta para refletir sobre o “parecer do ser” que os textos manifestam. com uma descrição minuciosa: “Logo que colocou o pé 40 . Esse fato nem merece ser citado. no sentido de tentar impor uma versão sobre certos acontecimentos. Portanto. partilha da idéia de que a entrega de ambulâncias é um “jogo de cena”. nem compreensão das experiências.“densidade de outros” seja ressaltada. partilham dos mesmos valores. Para a Folha. As fotos harmonizam-se com o que é descrito. E também. portanto. Reafirma-se o tema da traição. e não uma versão dela. Não há acesso aos acontecimentos “concretos”. Os depoimentos estão entre aspas. por exemplo.o que o presidente não faz e as promessas que não cumpre. principalmente . o recorte da realidade que um grupo social faz e julga mais conveniente legitimar para uma camada social mais ampla. numa coordenada espaço-temporal específica.

por outro lado. leão. a partir de Saussure. se ocupam fortemente com a produção jornalística. Todo enunciado. no entanto. Em outra. de uma noção nem sempre bem assimilada por estudiosos da comunicação. A objetividade. precisa ser claramente exposta em um trabalho de análise jornalística por meio da teoria semiótica. “as reais intenções”. também na tentativa de interferir na própria dinâmica de criação por meio de uma crítica centrada na discussão ética. Cada um dos três recortes da realidade. Muitos estudiosos de comunicação. A Lingüística. que podemos aqui utilizar na mesma acepção de objeto jornalístico. Mesmo vozes criticadas aparecem também enunciando suas justificativas. leva o meu salário. generalista. a enunciação. a “produção real” do discurso jornalístico. a partir de quem o faz e como o faz. O estudo semiótico da enunciação se interessa pelos efeitos que essa produção deixa apreender. As concepções de Saussure também formaram a base da teoria semiótica. A primeira ingenuidade que a análise dos noticiários desfaz é a de que a ideologia se encontra apenas na parte dos editoriais.no palanque montado no pátio da fábrica. no entanto. constituiu-se como ciência autônoma a partir do princípio da imanência. leão’. 24 41 . pressupõe um ato de criação. E é por isso que a semiótica só pode falar da realidade. Procuram entender o jornalismo. da exclusão dos fatos extralingüísticos com o objetivo de buscar homogeneidade de descrição da língua (Greimas e Courtés: 226). Todos esses recursos para simular distanciamento e fidelidade ao real são estratégias de enunciação. salário não é renda’. estava escrito: ‘Xô. Temos aí uma outra explicação para o fato de certos teóricos preferirem falar da comunicação de uma maneira ampla. Trata-se. A segunda é a de que é possível um jornalismo “isento”. induz seus leitores a uma determinada reação. mais atrás. ou “texto” no sentido mais amplo. A visão de mundo do jornal paira sobre seu produto e é indissociável de qualquer um dos seus recursos expressivos e de seus conteúdos. Na primeira fila. Esse ato de criação não se confunde com a produção “real” do texto. Isso acontece porque há uma tendência na área de se pensar o “autor real”. questões em que Talvez essa seja uma das razões de os estudos da enunciação não terem o mesmo impacto entre teóricos da comunicação em relação aos estudiosos de linguagem. porém.” Nota-se ainda no texto da Folha e do Estado um fazer crer nas regras de respeito à imparcialidade: todos os lados foram ouvidos. Landowski explica a enunciação como “ato pelo qual o sujeito faz ser o sentido” e o enunciado “o objeto cujo sentido faz ser o sujeito” (1989: 222). assunto central deste trabalho. por exemplo. o que serve para reforçar a idéia de “independência” dos dois grandes jornais brasileiros. ao invés de buscar explicações em um objeto específico. da verdade e da objetividade e também da imparcialidade como efeito de sentido. Lula teve que encarar as faixas de protesto.24 O conceito de enunciação é fundamental para os objetivos da nossa análise. os metalúrgicos ostentavam a mensagem: ‘Tabela sem correção.

a semiótica acertadamente não se envolve. a partir de uma 42 . porém. não quer se revelar como um ator social atuante e interessado nos aspectos sócio-políticos do que noticia. Do ponto de vista semiótico. Só que o jornal sabe que seu público. O que está em discussão. não é esse. é que objeto jornalístico “JN” nos impõe modos de relacionamento com a apresentadora. em um determinado espaço. em um determinado tempo. Fátima Bernardes. como afirma o Manual de Redação da Folha de São Paulo (2001: 45) e pensada. foi feito por alguém. na semiótica. como empresa ou parte de um conglomerado de informação. Retomemos a questão da objetividade. um outro espaço e outras personagens para a persuasão do público. se torna então uma personagem. tendenciosa. Essa estratégia argumentativo-persuasiva para criação de importantes crenças no destinatário acontece em dois patamares complementares: No primeiro. a esse ato produtor do texto. O problema. A avaliação precisa das bases ideológicas do público-alvo na argumentação garante ao jornal estruturar esse discurso que se quer fazer-crer como “analíticoobjetivo” e armar uma ponte entre a objetividade e a verdade. por determinados profissionais. essa apreensão do real não é sentida por leitores. a reflexão sobre a enunciação e seus efeitos tem enorme destaque porque se valoriza o objeto jornalístico como meio de conhecer e apontar as estratégias de manipulação. Não temos acesso. Como se verá neste trabalho. porém. todas as noites. porém. faria o mesmo recorte da realidade. um ser humano. para citar um exemplo. telespectadores. a intencionalidade de quem enuncia. é uma estratégia de enunciação que instaura um efeito de sentido de adequação ao real. produto de um olhar “objetivo”. Sabemos que o Jornal Nacional. A objetividade é um dos recursos para tentar “apagar” o modo pelo qual a realidade foi filtrada a partir do sistema de valores do jornal que. Por exemplo: o telespectador do Jornal Nacional tem a impressão de que o programa sempre acontece “ao vivo”. quase alguém “da família”. enviesada. internautas ou ouvintes como “parcial”. no mesmo momento em que é visto. de caráter geral. por exemplo. e comum a todos os noticiários aqui analisados. Pode-se argumentar que o JN é realizado no Rio de Janeiro. mas como a própria realidade. como efeito de sentido construído pelo texto jornalístico exatamente para fazer-crer que os relatos são a própria expressão do que acontece ou aconteceu. a objetividade descrita pela Folha. diante de um acontecimento. mais interessada em buscar no texto as respostas para investigar. É evidente também que a apresentadora Fátima Bernardes não é uma criação de computação gráfica. Desse modo. O programa elabora um outro tempo. discutida como uma maneira de relatar um fato com “distanciamento e frieza”. é possível observar textos que têm um viés ideológico muito evidente.

o que é muito mais comum. Os jornais também procuram persuadir o público-alvo de que o recorte da realidade que efetuam ao noticiar é a própria realidade lançando mão de diálogos. Só que.interpretação. o debate sobre a “veracidade” de um texto é muito mais a exposição de uma crítica de motivação ideológica do que resultado de um exercício analítico. Houve patriotismo exacerbado e apelos belicistas dos meios de comunicação dos Estados Unidos após o ataque de 11 de setembro. 28 Uma análise exaustiva dessa questão encontra-se no estudo de editoriais realizado por Norma Discini em “O Estilo nos Textos”. ele se diz “cerceado”. sem a explicitação de um “eu”. Há um efeito de realidade denominado de desembreagem enunciva pela semiótica. Um jornal palestino muito provavelmente apresentou as mortes de Jenin como resultado de um massacre.28 A sensação de objetividade não é algo que envolve apenas um contrato entre jornal e público. O uso da terceira pessoa numa reportagem dá a impressão de que o próprio assunto se apresenta para o público.27 Em jornalismo. para a maioria dos norte-americanos. de fotografias. 26 O rótulo de verdade ou de mentira colocado nos produtos dos jornais por determinados grupos sociais tem quase sempre motivação política. E quando há choque ideológico. que determinado recorte da realidade feito pelos jornais reforça ou nega suas visões de mundo e estratégias de manutenção ou busca de poder. “objetivo” que serve de base de construção da argumentação. de caráter mais delimitado. 25 43 . Não raras vezes. por exemplo. Indicam. podem ser verificados nos textos certos efeitos de sentido de distanciamento. sem exageros. filmagens e outras possibilidades de concretude discursiva. a técnica mais comum é fazer com que a notícia seja manifestada. 2003. ele se sente “livre”. no nível discursivo. Não se trata de julgamento. de um dado “real”. 27 Esses procedimentos são mais necessários quando não há uma grande partilha de valores entre jornal e público-alvo. de lhes dar “significado”. No segundo nível de construção de adequação ao real. partilha da idéia de que Lula é um traidor. de opinião – subjetividade do destinador – mas de uma premissa que tem valor quase de “fato”.25 Reforcemos que o parecer verdadeiro é sentido como verdade quando grupos ou pessoas que se comunicam compartilham de uma mesma maneira de categorizar os acontecimentos. Jornais e público se entendiam sobre o que estava ocorrendo e o que deveria ser feito. Editora Contexto. entendido com um dado “objetivo” para a maioria dos árabes que vivem em Israel.26 O leitor construído pela Folha de São Paulo. que dizem respeito a estratégias enunciativas específicas. portanto. na forma de sanção pública. essa apreensão da realidade foi sentida como “objetiva”. Quando a visão de mundo de um jornalista bate com a da empresa onde trabalha.

para que o próprio leitor tire deles as próprias conclusões” (1990: 18). Ainda que às vezes. mesmo em editoriais. Há. portanto. muito estudados pela lingüística e pela semiótica. Manuais de jornalismo.O “efeito de neutralidade” Uma questão notável no jornalismo é que quase todos os textos são produzidos em terceira pessoa. mas fatos. O negrito é de Martins. Não exponha opiniões. diz que “o jornal expõe diariamente suas opiniões nos editoriais. É possível apontar estratégias enunciativas de objetividade em partes do jornal assumidamente opinativas. As únicas exceções possíveis: textos especiais assinados. Isso acontece porque os recursos de objetivação de um texto. como o do jornal O Estado de São Paulo. a seguinte classificação de textos jornalísticos: • • • Objetivos/factuais Interpretativos Opinativos 44 . são taxativos. no Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo. no texto verbal. Pode se dizer: tal fato ocorreu porque antes havia ocorrido isto e amanhã pode ocorrer aquilo. Cláudio Abramo explica que há outras divisões: “No jornal. É quando se diz: isso aconteceu e está errado” (1988: 117). É uma interpretação. entre profissionais da área e alguns estudiosos. Pode se interpretar o desencadeamento. Só que o jornal não é feito apenas de textos “objetivos” nessa concepção dos jornalistas. o repórter também possa interpretar a notícia. intrometer-se no assunto reportado: “Faça textos imparciais e objetivos. Raramente alguém diz “eu”. Para os profissionais. a notícia tem aquela objetividade que foi optada pela empresa e cooptada pelo jornalista. e matérias interpretativas. dispensando comentários no material noticioso. de acordo com o entendimento prévio. os espaços consagrados às opiniões. em que o jornalista deverá registrar versões diferentes de um mesmo fato ou conduzir as notícias segundo linhas de raciocínio definidas a partir de dados fornecidos por fontes de informações não necessariamente expressas no texto” (1990:18). a concatenação dos fatos e o significado de certas coisas. A interpretação não é opinião. A opinião fica um passo além. em que se permitirá ao autor manifestar seus pontos de vista. Eduardo Martins. O jornalista deve evitar. não se confundem com o que os próprios jornalistas chamam de texto “objetivo”. “objetividade” é não se envolver com a notícia.

Há uma justificativa para o sucesso dessa classificação. interpretativos e opinativos usam quase sempre as mesmas técnicas de criação de distanciamento da enunciação do enunciado. não mais falando de uma mera montagem. Ninguém consegue contestar. portanto.As estratégias de enunciação discutidas no item anterior se relacionam com todas essas três formas de apresentação dos textos jornalísticos. do ponto de vista semiótico. uma atividade que se desenvolve a partir de uma visão de mundo. do ouvinte. mais outra estratégia de criação de crenças. principalmente na pretensa possibilidade de controle do leitor. é preciso explicar a diferença que apresentam de um ponto de vista semiótico. por exemplo. Relembremos que todas as narrativas citadas que contam como foi a visita de Lula a São Bernardo são exemplos de “texto jornalístico objetivo”. milhares de notícias chegam A única exceção fica para as revistas semanais. Algo deve ficar de fora. que é possível narrar um acontecimento qualquer de forma “objetiva” ou “factual”. Pesar o que entra e o que sai é. antes de tudo. outros encaixes precisam ser realizados. a valorizar ou desvalorizar diferentes unidades. principalmente o recurso da terceira pessoa. com textos carregados de opinião e interpretação. Há ainda outros complicadores para abalar a crença na objetividade jornalística. E que o limite da interpretação e da opinião também são reconhecíveis. e sim de um sujeito que é obrigado a fazer julgamentos e escolhas. Tenta-se fazer crer que a parte de opinião está nos editoriais ou nos comentários dos colunistas. interpretativos e opinativos – bastante aceita até por teóricos do jornalismo – é. O primeiro problema que surge para abalar essa divisão é que.29 Nos diários. sem determinar valor para alguns aspectos em detrimento de outros. como a de dizer que um editorial emite uma opinião e um texto factual não a tem. Estamos. De nada valem certas obviedades. por exemplo. e novamente se está diante de coerções ideológicas. é impossível ter acesso à realidade sem fazer escolhas. internauta ou telespectador sobre a forma de abordagem de um acontecimento. não importa o meio de comunicação e nem sequer as coerções de expressão e textualização. cotidianamente. A divisão entre textos objetivos. 29 45 . esse procedimento é mais evidenciado. Podemos dizer que a própria idéia de significação é uma “opinião” sobre o mundo. do ponto de vista ideológico. Textos classificados como objetivos. Não é exagero afirmar que. mais escolhas deverão ser feitas pelos jornalistas para que seja apresentado na forma de notícia e possa se adequar às necessidades de um jornal. Como os valores ideológicos são indissociáveis de qualquer um deles. Já discutimos que. quanto mais complexo for um assunto.

O fazer-crer na neutralidade reforça. da pauta ao resultado das reuniões entre editores é. O que varia nos três tipos de textos é a tomada de posição em relação ao que se narra. existisse um jornal apenas com notícias “factuais”. É o caso da apresentação da queda de um avião que fez centenas de vítimas como um acidente “horrível”. interpretativos e objetivos mostra é que se tenta fazer-crer na idéia de que existe uma maneira de expor a notícia de maneira “neutra”.às redações. O que a classificação entre textos opinativos. Tentemos uma aproximação entre esses efeitos de neutralidade do discurso jornalístico e as estratégias de enunciação já citadas. Há. teoricamente. esse conjunto seria o produto de uma impressionante triagem. o único possível. entre outros recursos de concretude discursiva. porém bastante relacionados. Podemos pensar. com o efeito de objetividade no jornalismo. Não há preocupação em contar a história. Um texto interpretativo também produz efeito de objetividade. Nesse caso. já analisados. que radicaliza o distanciamento entre enunciação e enunciado. Há também grande ancoragem temporal. Se enunciador e 46 . filmagens. mecanismos de objetividade nos editoriais e nos outros tipos de textos de um jornal. Há um distanciamento constante no modo de enunciar. interpretativos e factuais/objetivos inclui. o jornalista vai mostrar envolvimento com a história narrada por meio de certas marcas. fotos. que é produto de estratégias de afastamento da enunciação do enunciado. A seleção editorial. Os adjetivos são evitados. um outro filtro. portanto. que não se envolveu com a notícia. Há uma moralização da história. que gerou “grande comoção”. como diálogos entre aspas. Podemos notar a existência de dois efeitos distintos. Expliquemos melhor. porém. discursos construídos em terceira pessoa. espacial e actancial. ou “objetivados”. o que cria a ilusão de situações “reais” de diálogo. é. ao “assunto”. Mesmo que. O texto é praticamente figurativo. por outro lado. Raramente há um “eu” assumindo a palavra. O texto opinativo. Ao mesmo tempo. São retomados apenas os detalhes mais contundentes para expor contradições e julgá-las. advérbios. do ponto de vista semiótico. Em um relato que se quer fazer crer como objetivo. antes de tudo. e que vai “abalar as finanças da companhia aérea”. A classificação dos textos jornalísticos entre opinativos. a parte mais subjetiva do texto deve ser avaliada pelo público como resultado dos dados apresentados. Há o uso de adjetivos. tarefa já realizada em outras partes do jornal. que o texto objetivo concebido pelos jornalistas deve ter um “efeito de neutralidade”. mas não se confunde. em si mesma. quase sempre. o jornalista deve convencer o público de que ele permaneceu neutro na coleta e na apresentação da história reportada. Isso quer dizer que o enunciatário deve ser conduzido a acreditar que o julgamento realizado pelo enunciador é “evidente”. um texto de sanção. Cede-se a palavra a entrevistados.

ou seja. (. é um texto em primeira pessoa. no outro.. antes de ser uma questão ética. É por isso que a objetividade. No primeiro caso. da realidade. vinculada ao direito social à informação. O jornalista avalia que não realizou seu trabalho. contudo possível. é um objeto de luta social. E no texto opinativo o jornal não pretende e não quer ser neutro. como não pode deixar de ser. Como lembra Clóvis de Barros Filho na abertura de seu livro sobre ética na comunicação (2001: 9): “A representação do jornal ideal. Rossi confessa que sua neutralidade é incômoda. tem como característica principal um envolvimento com o que narra. Inscrevendo-se num quadro de luta pela imposição deontológica (dos deveres) das funções legítimas 30 O editorial. É notável observar que. a questão da verdade.) Da mesma forma. No texto interpretativo existe um rompimento da neutralidade em determinados momentos.enunciatário partilham dos mesmos valores.. e também a verdade. carregado de subjetividade. da imparcialidade. Mais raro. 47 . a objetividade. com a qual concluímos esta parte do trabalho. a realidade e a imparcialidade fazem parte de um debate inesgotável. regra que envolve os aspectos éticos da profissão e. no qual um repórter narra suas sensações e o que viu sem expor julgamentos evidentes.30 A objetividade como dever-fazer: a ética jornalística Estudaremos agora a objetividade de um outro ponto de vista. um fazercrer. de outra perspectiva. na sua coluna. os limites profissionais e as estratégias das empresas de comunicação de um ponto de vista ético. enquanto discurso sobre um dever-ser jornalístico socialmente interessado. Diversos teóricos e analistas discutem os valores dos jornais e de seus produtos. O dever-fazer jornalístico mostra-se profundamente relacionado ao fazer-crer dos jornais. Resolvemos abordar essa questão porque é preciso separar o estudo dos jornais – freqüentemente a análise do discurso das empresas de comunicação e seus efeitos – das coerções do jornalismo como atividade profissional. por exemplo. retoma. é uma estratégia de legitimação social de um tipo de produto e deslegitimação de outros. contudo. temos um dever-fazer. O efeito de neutralidade. até um julgamento pode ser interpretado como “objetivo”. É o caso do texto de Clóvis Rossi citado anteriormente. justamente de buscar “a melhor versão” sobre o que ocorreu em Jenin. Reforcemos que a busca de objetividade pelo jornalista – como dever e exercício que têm muitas características em comum com o trabalho realizado pelo cientista – não pode ser confundida com a objetividade “efeito de sentido” dos produtos jornalísticos. como deverfazer do jornalista. que só ressalta a complexidade dos conflitos entre grupos e classes na sociedade contemporânea. portanto. é exclusivo das unidades noticiosas que se querem fazer crer como factuais.

O estudo e a difusão maior das reflexões sobre objetos concretos da comunicação por meio da análise semiótica podem não só ajudar profissionais e pesquisadores como também auxiliar o público a entender os modos com os quais se concebem verdades e realidades de acordo com determinadas ideologias. busca seus vínculos com o todo ao qual pertence. deixar de colocar um problema incômodo. sob pretexto e obrigação de fazer ciência.) O conhecimento da realidade é tanto mais objetivo quanto mais o sujeito observador não se prende às aparências. investiga os momentos antecedentes e conseqüentes no processo do qual o objeto faz parte. mas pode apresentar outro ponto de vista importante para conhecer os atos humanos. falar sobre o que a mídia deve fazer só tem sentido se conhecidos os efeitos junto à sociedade. ou seja. ainda que resvalando um pouco para o positivismo. ou seja. entretanto. entretanto. procura envolver totalmente o objeto da observação. de Perseu Abramo.do jornal. acadêmicos. bem como as interconexões internas dos elementos que o compõem. O profissional. Um jornalista respeitado como Clóvis Rossi não escapa dessa coerção. não raras vezes. na reflexão sobre a própria atividade jornalística. é tema de doutrina. 48 . Por meio da teoria é possível estudar como os jornais apresentam pontos de vista distintos sobre um mesmo acontecimento ou conjunto de acontecimentos. uma ideologia.” A semiótica permite esse conhecimento sobre os jornais. (2003: 40). não garante a “verdade dos fatos”. Maior a intensidade da discussão. reexamina o objeto de vários ângulos e várias perspectivas”. E pode envolver-se não só nas análises das estruturas de manipulação (fazer-crer) como também nos aspectos éticos. da qual participam interessadamente empresários e profissionais de mídia. mas bem que poderia ser direcionado aos cientistas em geral: “(. Essa mesma busca pela objetividade. professores e deontólogos. O trecho a seguir. ele nega ao jornalista quando estuda a comunicação. quais são os confrontos de várias visões de mundo nos diferentes textos e os valores em jogo dos grupos sociais e das empresas de comunicação. E aqui retomamos a discussão sobre a objetividade. Geralmente o pesquisador se dá o direito de afirmar ter uma certa objetividade no seu trabalho. conhecendo-se o que a mídia efetivamente faz. No entanto. como testemunha ocular de um acontecimento. a objetividade. mais socialmente profícuo é o debate. fala aos jornalistas. “se se parte apenas da constatação de que a objetividade absoluta não existe e que.. há mais de um século. que o jornalista não tem como produzir textos sem que estejam inseridos em uma visão de mundo. Ele lembra ainda que. Devemos reforçar. a história.. Não podemos.

portanto. A profissão de jornalista. as motivações e as conseqüências é uma ação necessária. historicamente importante e uma outra maneira de interpretar a frase de Bernstein – a “reportagem é a melhor versão da verdade possível de obter” . Relatar os atos humanos. meramente retórica ou ilusória em um trabalho acadêmico sobre o jornalismo. 49 . não vale a pena procurar uma objetividade relativa. dos interesses das empresas. muito diferentes.sem fazê-la parecer ingênua. contudo. há questões para as quais esperamos o empenho desses profissionais. não se sairá jamais da mais completa subjetividade” (idem). os atores. das escolhas de todos os tipos que os jornalistas fazem e que desvelam suas visões da realidade. É evidente que as coerções de trabalho de um jornalista e de um pesquisador são muito. Acima das ideologias. também tem uma função social importante.

Outras cláusulas. a relação dos jornais com o público-alvo também pode ser examinada como outra história que faz as narrativas das notícias existirem e delas depende. Os noticiários perseguem maior audiência (no caso dos programas de rádio ou TV. o fenômeno da atenção no jornalismo será abordado. base da lucratividade e do poder das empresas de comunicação.O GERENCIAMENTO DO NÍVEL DE ATENÇÃO Estratégias de persuasão dos jornais No item anterior. investigaremos as estratégias gerais de gerenciamento do nível de atenção. Esclarecidos esses pontos. Os jornais precisam manipular a atenção de telespectadores. comuns a todos os jornais estudados. passional e inteligível para que se instaurem e se perpetuem os tão necessários laços com o público-alvo. em grande parte. é o exame das estratégias de persuasão mobilizadas pelos jornais para fazer o público-alvo realizar principalmente a performance de consumir. internautas ou leitores nos níveis sensorial. constroem as unidades noticiosas e as organizam em edições também sedutoras. o relacionamento entre o contador de histórias – o jornal – e o público. serão retomadas nesta parte do trabalho. além de sites na Internet) ou maior tiragem (a exemplo das revistas e diários). Examinaremos inicialmente quem são esses sujeitos instaurados nos objetos jornalísticos e os laços entre eles. discutimos principalmente as grandes bases . As unidades noticiosas são histórias com seus sujeitos e conflitos. dedicada à análise de cada um dos quatro grandes grupos de noticiários. A curiosidade sobre essas narrativas motiva. Do ponto de vista analítico. Os procedimentos específicos serão estudados na segunda parte. ouvintes.ou “cláusulas” do contrato entre jornais e público. E também para que o público assuma determinados valores. É preciso salientar que. que funda e sustenta a relação enunciador-enunciatário. O foco maior. nesta parte do trabalho. Para atingir o objetivo. O exame desses procedimentos revela o que estamos chamando de gerenciamento do nível de atenção. Para apresentar e discutir o gerenciamento do nível de atenção torna-se necessário inicialmente determinar com mais exatidão alguns aspectos do texto jornalístico. mais específicas. no entanto. 50 .

de mostrar o enunciador e o 51 . a não transgredir suas ordens. comentários). ou uma análise narratológica da enunciação. Vamos expor de maneira mais didática essa questão central de nosso trabalho. A mãe chama o filho e diz que o melhor amigo dele quebrou o dente e “levou vários pontos na boca” no hospital. Outro ponto importante é que o destinador obtém o que quer principalmente a partir da instauração de uma curiosidade (querer-saber) que só é satisfeita por meio da realização de uma ação. satisfazem a curiosidade sobre as notícias que criaram desde que o sujeito “público” realize o ato de consumo. a existência de uma história dentro de outra história. motivar o consumo – e a sobrevivência – do próprio jornal. por exemplo. internautas. bateu a arcada dentária numa cadeira e terminou o dia no pronto-socorro. É por isso que insistimos em falar de duas histórias muito ligadas. ouvintes ou telespectadores é encarado aqui como um tipo especial de história que faz uso de uma outra. apesar de ordem contrária dos pais. Ao relatar essa história. charges. Ela narra então que o menino pulava sobre a cama. artigos. Podemos observar que há duas histórias que se relacionam: a da criança transgressora e a da mãe que conta a história ao filho.Enunciação jornalística como narrativa O exame de um objeto jornalístico mostra a existência de dois tipos de “histórias” que se inter-relacionam: • • A primeira história se manifesta na própria relação público-jornal. mas ele fingia não escutá-la. O relacionamento entre jornais e leitores. caiu. Uma situação entre mãe e filho serve de exemplo. A segunda história aparece nas unidades noticiosas (reportagens. Queremos investigar como as notícias servem para infundir visões de mundo. o menino perdeu o equilíbrio. suas relações e possibilidades de análise. Sua mãe pedia para que ele parasse. Só que. Essa é a razão. a mãe (destinadora) espera um efeito no filho (destinatário): não quer apenas “informá-lo”. com clara função persuasiva. Pode-se verificar que realizamos o estudo da enunciação como um tipo específico de narrativa. mas também expõem a maneira como o público deve ver o mundo e enxergar-se nele (dever-ser). Ela tenta persuadi-lo a não fazer a mesma travessura e. editoriais. Os jornais apresentam notícias que têm essa mesma função da história contada pela mãe: não apenas informam. após brincar bastante. principalmente. como já pôde ser notado nas páginas anteriores. Os jornais. apresentada na forma de unidade noticiosa.

um querer (um desejo qualquer. como uma curiosidade.” 3 – Sedução: “Só uma criança bonita como você é capaz de comer tudo. conseguir persuadi-lo desencadeando uma vontade. vamos pensar o produto jornalístico como destinador. Em qualquer arranjo. ponto de vista mais comum em estudos do jornalismo.Tentação: “Se você comer a carne.Sabemos que o público precisa ser persuadido – sempre no sentido semiótico – a manter contato com o jornal. O público pode aparecer como destinador que determina as ações do destinatário jornal.32 Vamos tentar discutir esses Vale lembrar que a semiótica propõe duas concepções complementares de narrativa: “A narratividade como transformação de estados. Há outra posição verificável nos textos jornalísticos do ponto de vista do estudo da enunciação como uma narrativa. sedução. operada pelo fazer transformador de um sujeito que age no e sobre o mundo em busca de certos valores investidos nos objetos. de que decorrem a comunicação e os conflitos entre sujeitos e a circulação de objetos-valor” (Barros. não consegue comer tudo. não vai ganhar doce nunca mais. Os quatro grandes tipos de manipulação do destinador podem ser exemplificados na relação mãe e filho: 1 . actantes que pertencem à análise da narrativa. mas como eu sei que você ainda é pequeno. para depois verificar o que acontece quando se apresenta como destinatário. actantes da enunciação. O jornal como destinador . deve ser ressaltado que o relacionamento entre sujeitos é sempre fortemente marcado pelo modo de apresentação das unidades noticiosas. por exemplo) ou impondo um dever (uma obrigação) de realizar a performance. telespectadores. Estudaremos agora essas posições para uma apreensão mais completa das formas de relação dos noticiários com ouvintes.” 4 – Provocação: “O seu prato está cheio. ganha o doce. Dever e querer geram as quatro grandes classes de manipulação entre destinador e destinatário previstas pela semiótica: provocação.” 2 – Intimidação: “Se você não comer. fonte de valores do sujeito.enunciatário. 2001: 28). Ele manipula o sujeito (aqui no papel de destinatário) para a ação.” 31 52 . 32 Quem maneja as crenças (ou o crer) do sujeito é o destinador. leitores. de situações. nos papéis de destinador e destinatário. no entanto. internautas. Essa interação se dá a partir de uma performance ou ação que coloca o enunciador jornal no papel de destinador e o enunciatário consumidor no papel de destinatário. intimidação e tentação. no papel de manipulador. Inicialmente. só inicia uma ação se o destinador.31 Formas de relacionamento entre jornais e público-alvo Mostramos até agora o sujeito jornal no papel de destinador e o sujeito público no de destinatário. Um sujeito. como destinatário. a narratividade como sucessão de estabelecimentos e rupturas de contratos entre um destinador e um destinatário.

e o da Veja. uma vontade. o sentido de um slogan também se constrói em função das relações estabelecidas com um texto – por exemplo. De um lado. por meio de uma pequena análise de alguns slogans de 2004. Para fazer o telespectador do Jornal Nacional sintonizar um programa e manter-se ligado à tela. O slogan como recurso do discurso publicitário tem um sentido vago justamente para que sua significação adquira um certo dinamismo e possa se adequar a um contexto específico.). que aparece. também servia para manipular por provocação. sujeito coletivo que inclui enunciador e enunciatário. “a gente se vê por aqui”. ou seja. E nesse texto. principalmente entre profissionais que exercem funções criativas. ao falar em “a gente”. Busca persuadir de que apresenta personagens e situações nos programas com os mesmos interesses do telespectador. de maneira geral.” O destinatário era levado à ação para evitar que o destinador tivesse uma imagem negativa dele. tem como característica mais evidente a tentativa de impor uma curiosidade. promete-se a ele. possibilidades de que a leitura seja motivada por algo que estimule a curiosidade. mostramos que o slogan aparecia em um anúncio que falava sobre emprego. entre outras recompensas. É possível ainda pensar em uma manipulação por sedução. uma publicidade do próprio jornal . Na sociedade capitalista. A maior rede de TV do País cria assim um efeito de intimidade. à esq. uma obrigação de estar bem informado. na qual se tenta afirmar uma imagem positiva do destinatário. existe um dever. Em outras palavras. também existe uma tentação. a visão (ver reprodução do anúncio a seguir . de relação entre iguais. irmanados por meio do principal sentido manejado pela TV. e a tentação. pois comunicava ainda a um provável leitor: “Só quem não quer ter acesso a possibilidades profissionais interessantes não lê a Veja. um querer-saber o que está sendo apresentado como notícia no País. a construção de um querer-fazer são as manipulações mais comuns e evidentes entre destinador jornal e público destinatário. que esclarecem o papel dos jornais como destinadores. Em nosso trabalho sobre a Veja (Hernandes. volta-se mais claramente para a tentação. base de um contrato social importante. esse aspecto é mais evidente. 33 53 . 2004). por exemplo. que se baseia o slogan da Folha: “Não dá pra não ler” (semioticamente um não poder não fazer). no planeta. pode ser observada uma estratégia de intimidação. Nos dois casos. por exemplo. não há interação. No slogan da Folha. contudo. Não se desconsidera. “Não dá pra não ler” é também algo que se apresenta como irresistível. O slogan da Globo.o slogan está no canto inferior. o conhecimento (o saber) é sempre vendido como instrumento de vantagem competitiva. É nesse sentido.no qual se insere. também existe uma manipulação por intimidação bastante sutil: se não for por meio da Globo. Cada produto jornalístico. a imposição de um dever-fazer. na propaganda do Jornal Nacional. um saber sobre o mundo e sobre si mesmo.importantes conceitos. Há também uso do registro informal. A intimidação. “indispensável”33 (não poder não ser). Entretanto.

Temos um leitor manipulado por tentação: ele vai querer ler o jornal para obter a informação que tem uso prático. E quem não sintonizá-la pode ser surpreendido com alguma conseqüência dos acontecimentos. Deve-se ouvir a rádio porque lá se encontram as notícias mais importantes. ou ainda em ambas as estratégias. o internauta interpretam se o 54 . em que o público-alvo como um todo tem maior nível de escolaridade. Sabemos que essa forma de manipulação é apenas uma parte do percurso que estamos analisando. vão apelar para o lado mais pragmático do enunciatário para conquistá-lo. há um equilíbrio entre intimidação e tentação. Outros slogans de jornais e programas ilustram bem as cláusulas desse contrato fiduciário que se funda na criação de desejos. A revista Época enuncia no slogan: “O que realmente importa”. No Jornal da CBN. Trata-se. Os concorrentes aparecem como divulgadores de notícias sem utilidade. grosso modo. Não só intimida e provoca como também seduz. ou obrigações. o telespectador. O Diário de São Paulo aposta na mobilização de uma racionalidade do leitor: “Informação que você usa”. entre querer saber e dever saber: “As notícias que podem mudar o seu dia”. A publicidade e os slogans dos jornais tentam predispor o público a avaliar positivamente as unidades noticiosas. O seu leitor é aquele que não perde tempo. a organização delas nas edições e o tipo de triagem que cada noticiário realiza.Jornais para grupos mais homogêneos. que sabe onde estão as coisas importantes. do momento em que o leitor. o ouvinte.

Para ter acesso aos desejos dos destinadores. programas de rádio. avalia principalmente o valor do valor da unidade noticiosa como objeto que funda a relação destinador/destinatário. uma visão mais abrangente dessas relações. Podemos verificar que o telespectador. a de consumir o programa. o slogan era “Não dá para não ler”. programa de performance.que espera do destinador por ter cumprido sua parte no acordo. Vamos utilizar o JN como exemplo um pouco mais concreto. porém. quem produz jornalismo sabe que o provável telespectador vai ligar a TV. como nível cultural para entender as notícias) e um poder (como. o desejo do destinador (mercado) é conhecido por pesquisas numéricas. Se a instauração do querer e do dever no público-alvo aconteceu de maneira eficaz (em outras palavras. temos um destinador extenso . É preciso lembrar que essa questão. para realizar a ação. Dessa forma. ou seja. ver as manchetes de um programa e julgar. “Esse destinador é identificado numericamente – e não qualitativamente -.jornal e as notícias são interessantes. Obter informação que considere útil e/ou que lhe dê alguma satisfação é um dos “prêmios” – uma sanção . Essa forma de relacionamento acontece também nos diários. Parte desse interesse vincula-se principalmente ao valor relacionado ao objeto “notícia”. se o que foi mostrado desperta sua atenção. Para Luiz Tatit. se a manipulação for bem-sucedida) deve desencadear o consumo do jornal. contudo. Esse momento especial é a razão de ser das equipes de jornalismo. assim. Se a manipulação for bem-sucedida. Note-se o (antigo)34 slogan da Folha de São Paulo: ‘De rabo preso com o leitor’.e não intenso – que tenderia ao ‘um’. ele passa a ser um sujeito que decidiu entrar em conjunção com o objeto “unidade noticiosa” para ter acesso aos valores prometidos pelo jornal. sites. 55 . o grande destinador dos meios de comunicação é o mercado. recursos financeiros para fazer uma assinatura de um jornal). nesse primeiro momento. Quanto mais 34 Em 2003. precisa ter um saber (no caso do jornalismo. O jornal como destinatário - Vamos apresentar um outro ponto de vista complementar dos papéis do jornal e do público para obter. na realidade. conhecimentos. a empresa tem o rabo preso com o ‘número’ de leitores. envolve todos os jornais aqui analisados. O telespectador avalia se ficar diante da tela da TV vai lhe render algum benefício. por exemplo. revistas. Na verdade. A satisfação conclui esse percurso do sujeito público como destinatário. se faz pesquisa. O sujeito público. Os profissionais da Globo querem que o telespectador sintonize o jornal e se mantenha concentrado enquanto o programa é exibido. Por outro lado.

Entretanto. e como destinatário. ou como o próprio destinador. que estatizasse as próprias empresas de comunicação. internautas ou ouvintes só funciona como destinador quando deseja aquilo que está autorizado a ser desejado. internauta. mostrado por Tatit. telespectadores. como também existe o papel da mídia enquanto “aparelho ideológico do Estado”. a notícia é pensada. Grupo Estado e editora Abril) passivamente cedessem espaço e foco para as discussões e os desejos desse “mercado”. Acreditamos que as duas formulações (o público como destinador. que tem sua razão de ser na manutenção dos valores. A noção de jornais como destinadores é bastante utilizada em estudos mais ideológicos. até porque é uma de suas mais poderosas criações. Palestra citada. Há o componente “mercado-pesquisa-foco”. encomendadas ou divulgadas pelos jornais podem perfeitamente ser vistas sob esse aspecto. Sujeitos marcados nos jornais e modos de relacionamento Estudemos agora os sujeitos instaurados pelos noticiários e outras formas mais específicas de relacionamento entre eles. significando os detentores do grande capital. já que é. se os consumidores quisessem uma sociedade de base socialista. As pesquisas feitas. que mostram o compromisso dos meios de comunicação com um determinado sistema econômico.leitores. atualmente o capitalismo neoliberal. é pouco provável que Marinhos. uma espécie de intermediário desse destinador. é o “mercado”. A semiótica francesa vê os sujeitos como 35 Tatit. Com a consulta. mais autorização para fazer determinados focos sobre assuntos. Quando medem em pesquisa o que o público quer. empresa capitalista. recebem de volta muito do “desejo” que inspiraram. a mídia se torna sujeito delegado pela maioria. que faz-fazer (ou faz-agir). nas análises mais comuns) devem ser entendidas como níveis complementares de uma mesma reflexão sobre o jornalismo dos principais meios de comunicação. Nas duas concepções.”35 Essa formulação de Tatit inverte um raciocínio comum de análise e que foi apresentado anteriormente: o de que os meios de comunicação são destinadores do leitor. ouvinte. Os noticiários martelam certas idéias e criam padrões. inclusive de consumo do próprio material que produzem. antes de tudo. O jornal pode ser entendido como sujeito delegado. O número de leitores. hierarquizada e apresentada a partir de seu impacto. Luiz. Nessa concepção. Mesquitas e Civitas (respectivamente proprietários das organizações Globo. desde que verificados certos limites. telespectador. 56 . na de Tatit.

uma personalidade. Norma Discini. • Sujeito 3 . competente. a personalidade da marca pode constituir a base do relacionamento entre o cliente e ela mesma” (1996: 96). Obviamente. (. em O estilo nos textos (2003) analisa o ethos como um modo de presença de um sujeito que discursa. 31).profissionais . na tentativa de marcar seu ethos como “democrático”. Vamos estudá-los com mais profundidade: • Sujeito 1 – jornal – Pensar em quem assume o discurso em um noticiário não é uma questão tão simples como parece. portanto.personagens das histórias. Os traços recorrentes de conteúdo e expressão produzem um efeito de individualidade e. humorística. essa presença dos profissionais é mais óbvia..deve ser incluído no primeiro grupo: o efeito obtido é o de parecer que a própria marca se comunica. 57 . um tom de voz. um estilo (p. é importante ressaltar. Essa definição tem diversos pontos em comum com estudos de produtos de comunicação e a idéia de “personalidade de marca” pensada pelos profissionais de marketing. sugere desenvolver marcas como se fossem “gente”: “Tal como uma pessoa.Podemos citar o presidente Lula.Cada jornal se reporta a ele de maneira distinta: leitor. Cada apresentador. colaboradores que se mostram claramente marcados nos textos. portanto. Há outros três sujeitos que nos interessam: “público”. reportagens. também constrói um ethos e. uma marca pode ser percebida como superior. comentarista.São os jornalistas. jovem ou intelectual. o “jornal”. enfim. divertida. Nos impressos e na Internet. que aparecem nas narrativas. fidedigna. Aaker. por exemplo. estamos aqui falando outra vez em “efeito de sentido” do discurso. David A. o atacante Rivaldo. É importante perceber que o consumidor se relaciona com marcas de veículos jornalísticos e se refere a elas quase como pessoas. o palestino morto em um confronto com o exército de Israel. • Sujeito 4 . repórter. casual. ou o consumidor do produto jornalístico . podemos verificar essa participação notadamente na forma de artigos assinados. No rádio e na TV. com um corpo. de diferentes posições ideológicas. Folha de São Paulo – aparecem como a figurativização do primeiro sujeito evidente. ativa. As marcas – como Jornal Nacional. revistas e nos sites . O texto dos jornalistas que não aparece destacado – caso comum nos diários. “jornalista” e “personagem da notícia”. um jeito de se posicionar no mundo. marcante. Por exemplo: um jornal pode abrir espaço para a manifestação de diversas vozes.) Assim como as personalidades humanas afetam os relacionamentos entre pessoas. ajuda a compor o ethos do próprio jornal. um ethos.. telespectador. análises .criações e efeitos do discurso. formal. analistas. • Sujeito 2 .público. e assumem a enunciação. internauta.

Em função disso. talvez com exceção de produtos da TV. Os donos aparecem como outra “voz” do próprio noticiário. são pensados como marcas para que possam assumir e ter identidades administradas. abaixo do logo se lê: “Um jornal a serviço do Brasil”. A construção do público-alvo varia de noticiário para noticiário. Há também a “personalidade” da empresa. por exemplo. Nessa parte do trabalho. é uma espécie de “casca”. retomaremos características do consumidor de notícias nas análises específicas. Já afirmamos que a relação do consumidor de notícias – o enunciatário – com seu jornal ou programa jornalístico preferido acontece por meio das marcas.“profissionais” (Otávio Frias. CBN Brasil. ou corpo oco. Uma marca. Na primeira página da Folha de São Paulo. como a figura de Roberto Marinho em relação ao Jornal Nacional. ou no item 3 – como “personagens” de seus próprios meios de comunicação (caso de alguém do clã Marinho surgir no Jornal Nacional recebendo prêmios por algum tipo de trabalho filantrópico).36 A complexa construção e a manutenção das identidades de marca envolvem não apenas seus donos e a hierarquia de vozes dentro do próprio jornal. podem aparecer incluídos no item 2 . Jornal Nacional. que vai se “enchendo”. Nossa hipótese é que a marca de um grande produto jornalístico precisa se apartar de seus proprietários para criar a sensação de que é a porta-voz da coletividade. A marca de um jornal pode até beneficiar-se dos sentidos agregados pela fama de seus proprietários (no caso de aparecerem claramente marcados nos jornais. O sujeito jornal inclui o proprietário ou proprietários. também marca administrável. como as famílias Marinho. como qualquer outro produto da sociedade moderna. Mesquita ou Civita.ouvinte. não raras vezes. 36 58 . pelo modo de enunciar. como Folha de São Paulo. não esquece que acompanha o programa na Rede Globo. entre outras. trabalharemos com noções mais genéricas. por meio de um logo . por exemplo. Jornais. reforçada verbalmente por um slogan. Ninguém se lembraria da editora da revista Isto É. contudo. e pelo que a própria empresa que a detém enuncia sobre ela. um indivíduo. manteve uma coluna na pág. que fala em nome da “verdade”. 2 da Folha de São Paulo). A figura do proprietário. Carta Capital. a marca. que se vende como voz coletiva. tornando-se “carne” pelo que enuncia. É comum o ethos do dono se relacionar com o ethos de seu veículo. Nesse sentido. da “justiça”. Saliente-se que os proprietários. Desse modo. O telespectador do Jornal Nacional. é raramente exposta. revistas e nos programas jornalísticos de TV).sua representação visual -. não é relevante pensá-la como um quinto tipo de sujeito marcado pelos textos jornalísticos. é discursivizada de forma a estabelecer uma fronteira com o seu proprietário. notadamente por meio de publicidades.

portal UOL jamais aparecem em primeira pessoa. depois. Os jornais buscam a atenção do público-alvo e. Um dos raros teóricos que apresentam uma reflexão mais consistente sobre o assunto é Pierre Levy em “A economia da Atenção”. por sua vez. essas estratégias de persuasão mobilizadas pelos noticiários para que a ligação com o público aconteça. O estudo da atenção aparece disperso e pouco desenvolvido em diversas análises de veículos de comunicação. como na frase do pai para o filho: “Papai não gosta que você chore”. com uma desembreagem actancial enunciativa. é que nunca assumem a posição de um “eu” que enuncia. puis la radio et le cinéma. um enunciado que simula o processo de criação do texto por meio da explicitação de um “eu” que se dirige a um “você”. observa-se uma enunciação enunciada. http://lajoie.ca/cirasi/cirasi-levy. imediatamente ocupado pelos regimes fascistas e totalitários e. cada vez com mais detalhes. Folha de São Paulo. para isso. Só que este “eu”.38 O autor afirma que a busca de uma atenção coletiva é um fenômeno que começa entre 1930 e 1940. Apresentaremos. Jornal da CBN. l'attention du public était devenue un enjeu majeur des activités politiques et culturelles. 38 "L'économie de l'attention" de Pierre Levy – disponível em World Philosophie. O rádio e o cinema abrem novos campos para a manipulação das consciências. org. que caracteriza o momento da manipulação.39 37 Do ponto de vista semiótico. ou seja. que só reforça nossos comentários sobre as marcas: “Quando se faz essa embreagem é como se o enunciador se esvaziasse de toda e qualquer subjetividade e se apresentasse apenas como papel social. Odile Jacob.uqam. estéticas e políticas da comunicação – Parente. A partir dessa época. pode ser encontrada em Tramas da rede: novas dimensões filosóficas. Pode-se notar a troca de uma pessoa por outra (a primeira do singular pela terceira do singular) que neutraliza parte dos sentidos de proximidade. O ponto central da reflexão agora é o fenômeno da atenção. principalmente no jornalismo. André. La montée des médias imprimés. o cinema e a televisão se apoderam de uma parte cada vez maior da consciência coletiva. 39 Fragmento original: “Dès les années trente et quarante du XXe siècle. Veja. pelas outras forças presentes na 2ª Guerra Mundial. ont ouvert un champ nouveau de la conscience collective.Outro ponto a destacar das marcas.” 37 O fenômeno da atenção Explicamos até o momento o percurso do sujeito público. Editora Sulina/Porto Alegre 2004. immédiatement occupé par les batailles de propagandes engagées par les régimes fascistes et 59 . se conserve e seja cada vez mais vigorosa. 2000. Cada jornal refere-se a si mesmo como “ele”. traduzida como “O ciberspaço e a economia da atenção”. simula um “ele”. principalmente no papel de destinatário. Jornal Nacional.Uma versão em português desse texto. precisam desencadear desejos e curiosidades (querer-saber).html . as revistas. a música. Fiorin (1996: 86) esclarece a razão desse efeito.

E define consciência de maneira bastante ampla. como estratégia de sobrevivência e crescimento é vender a atenção que cativam do público para os publicitários e “comunicadores”. aux hommes politiques et à tous ceux dont la survie et le pouvoir dépend de la qualité et de l'intensité de l'attention du public. da moda. Les industries culturelles proposent à leur public des moments de conscience préfabriqués. Mais l'originalité des industries culturelles est de nous engager dans des voyages virtuels partagés avec des milliers ou des millions d'autres personnes qui ne vivent pas dans le même environnement spatio-temporel que nous. de la communication. Levy conclui então que as indústrias de cultura e de comunicação realizam duas operações: 1. le ‘spectacle’ ou les ‘médias’ conçoivent. notamment les magazines. uma energia criativa unitária” (idem). par exemple.par l'école de Francfort (Adorno). du football aux grandes expositions. En outre. políticos e aqueles cuja sobrevivência e poder dependem da qualidade e da intensidade da ligação com o público. como “uma inteligência. un clip publicitaire réunit ces deux opérations.” 60 . sont maintenant pris en main par des entreprises de vente de l'attention des auditoires aux publicitaires ou aux départements de communication des grandes entreprises. certaines émotions. puis analysé par les situationnistes (Debord et Vanheigem) dans les années soixante. Les publicitaires ou les " communicateurs ". comme la plupart des centres d'intérêts du public. O totalitaires. du journalisme et du show business.A criação direta de estados mentais para a produção e distribuição de experiências virtuais. 2 – A direção da atenção do público. voit son cerveau directement pris en main par le réalisateur. le commerce a conquis ce nouvel espace par la publicité. la musique. do jornalismo e do show business.dès les années quarante .40 Levy trata a atenção. Après la guerre et la politique. Comme cela a été remarqué très tôt . hoje.” 40 Trecho inteiro: “Aujourd'hui. Les deux grandes opérations des industries de la culture et de la communication sont donc : . uma ação. à la sensibilité et aux états d'esprit du public. da comunicação. nous payons un nombre croissant de professionnels pour nous faire ressentir " directement " certains états mentaux. des expériences virtuelles partageables et reproductibles à volonté.” O que as mídias fazem. . tout le décor de nos existences nous fait vivre des expériences. desembolsamos dinheiro para “um número crescente de profissionais nos fazer experimentar ‘diretamente’ certos estados mentais. de la mode. à sensibilidade e aos estados de espírito do público. du développement personnel. à leur tour. les médias. que comercializam partes dessa consciência coletiva com vendedores de todos os tipos. com um fenômeno de manipulação da consciência. la direction et la fixation de l'attention s'obtenant d'autant mieux que l'expérience virtuelle proposée adhère aux appétits. fabriquent et vendent directement des ‘contenus de conscience’. uma sensibilidade. qui a explosé dans les années cinquante. la chanson.la création directe d'états mentaux par la production et la distribution d'expériences virtuelles (1). certas emoções. uma percepção. les industries culturelles. portanto.la direction de l'attention du public (2). Certes. et notamment dans le monde de la thérapie.Levy afirma que. délivrent des parts de conscience collective aux vendeurs de toutes sortes. Les ‘industries culturelles’. S'il est réussi. tout ce qui nous entoure. puis par toutes les forces en présence au cours de la seconde guerre mondiale. Le spectateur d'un film. le cinéma et la télévision se sont progressivement emparé d'une fraction de plus en plus importante de la conscience et de l'attention collective. do desenvolvimento pessoal. A direção e a fixação da atenção se obtêm quanto mais a experiência virtual proposta adere aos apetites. por sua vez. notadamente no mundo da terapia.

” Estímulo significa aqui qualquer descontinuidade de expressão ou de conteúdo que motive. E não só na rede mundial de computadores. pintado de novo. Sem obter e manter a atenção. Para atrair a atenção. limpado. a atividade de atenção tanto do ponto de vista sensorial (na forma de engajamento de um ou mais sentidos) como cognitivo (que demanda um posterior entendimento. um querer-saber). 41 61 . concentração. Marcondes Filho (1989: 29) faz uma reflexão sobre a notícia como construção jornalística cujo objetivo final é motivar o consumo: “(. exagerado. pode significar a perda de uma oportunidade que geraria mais satisfação. O público tem consciência das possibilidades crescentes de escolha. saturadas de estímulos. Uma boa definição de atenção está no dicionário Aurélio: “Aplicação cuidadosa da mente a alguma coisa. mudado para vender. em duração variada. cuidado. o fato social aqui é também acirrado. Ele não só é embelezado.) A própria produção da notícia significa a adaptação do fato social a alguma coisa mais rentável. Para se impor nesse cenário. reflexão.. forçado.41 a busca e a manutenção da atenção do consumidor se tornaram vitais para a sobrevivência de qualquer negócio.autor aborda toda a problemática da atenção para justificar reflexões sobre o ciberespaço e como o comércio sofrerá mudanças na rede mundial de computadores. qualquer objeto de comunicação é concebido para ser uma máquina eficiente de atração do público-alvo. Acreditamos que o fenômeno da atenção também pode ser visto de outra forma complementar. o jornal apresenta unidades noticiosas para consumo.. como ocorre com outras mercadorias na prateleira para atrair a atenção do comprador.” Em sociedades com crescentes ofertas de produtos e serviços. as estratégias persuasivas (principalmente relacionadas ao querer-saber) devem ser cada vez mais desenvolvidas e utilizadas. caso de um jornal. De qualquer maneira. Em termos semióticos. Nenhum grande jornal é exceção. A crescente oferta de informação e todos os contínuos avanços tecnológicos na área de comunicação têm tornado os consumidores mais e mais infiéis. por exemplo. não há consumo. Manter-se fiel a um programa.

jornal e público-alvo.é proporcional ao preenchimento desses requisitos e ao impacto que o jornal acredita gerar no público-alvo. ou seja. se interessar pelas histórias das unidades noticiosas. É o caso de apresentar uma situação “inédita”. Nossa hipótese é que. pela distribuição delas na edição e no conjunto de edições. o sujeito 62 . e também a da edição e a do conjunto das edições que as inserem. É importante insistir em um ponto. O sujeito deve. o público só realiza a ação de entrar em contato com um noticiário se tiver a atenção despertada e manipulada. ter atualidade. mesmo com a coerção social de informar-se. 3. Para existir o relacionamento enunciadorenunciatário deve-se obter a atenção em três níveis diferentes e complementares: 1. A curiosidade e os percursos da atenção O ato de consumo do jornal. Finalmente. ao viver a paixão da curiosidade. os jornais precisam principalmente reter a atenção por meio da apresentação das unidades notíciosas. Ao ter o interesse despertado. em situação de comunicação.o É por meio da unidade noticiosa que circulam valores entre nossos dois sujeitos principais. a curiosidade do sujeito. A atenção se relaciona ao desencadeamento de certas formas de curiosidade – uma paixão simples.que se relaciona ao seu potencial de despertar e manter a atenção . criar empatia. o Relembremos que uma notícia deve reunir certas características. como já citado. A importância de uma notícia . 2. manifestado na forma de curiosidades e desejos. em seguida. o Gerenciar a atenção tem como base a construção da atração das unidades noticiosas. “fisgar”. Os fatos relatados devem afetar a vida do público de algum modo. É preciso obter. Verificamos anteriormente como essa noção de utilidade e esse prazer envolvem o dever-saber e o querer-saber. para serem consumidos. Examinaremos agora o fenômeno da atenção como um desdobramento do querer-saber do público. o consumo deve desencadear um hábito. só acontece se o sujeito público for convencido de que o noticiário lhe apresenta alguma informação que considere útil e lhe dê alguma satisfação. uma tensão. ele deve querer repetir a experiência nas edições seguintes (ou atualizações. Em resumo. no caso da Internet).

resultado de uma projeção axiológica a partir do que ele pressente. simulação de movimentos. É o caso das histórias das notícias que são feitas para comover e contam com o engajamento empático do público. Obter o saber por meio da unidade noticiosa é o valor que passa a almejar. o enunciador jornal. ao racional.” (2001: 314). espaço. Fontanille e Zilberberg afirmam que “os valores passionais apresentar-se-iam em suma de duas maneiras diferentes e complementares: pelo viés do conteúdo e do saber. contrastes. de algum modo. caso da foto anormalmente grande na primeira página de um jornal. tem duas maneiras complementares de fisgar a atenção do ponto de vista das estratégias sensíveis e passionais: 1 . As estratégias para gerar um enunciatário curioso não estão ligadas somente ao inteligível. mas que. A passagem do não-saber para o saber dá prazer ao sujeito. verbais. o sujeito consumidor de notícia ilustra a atividade de busca da significação. Um jornal. O poder de atração desse espelho parece ser proporcional ao grau de nitidez com que permite ao sujeito se enxergar na sua extensão. É preciso existir identificação entre público e personagens das histórias. nessa atividade. não quer apenas que ele busque e tenha saberes. tempo. de proximidade. viver até mesmo uma insatisfação por não ter um saber. Os jornalistas sabem que o querer-saber também se fundamenta na projeção do sujeito sobre uma notícia como se. 63 . por exemplo. ou pelo da expressão e da sensibilidade. que também se revertem em outra forma de recompensa pelo consumo. percebe. como uma foto que atrai o olhar pelas cores. o que gera efeitos afetivos. intimidade. convicções.A segunda é a mobilização dos afetos por meio dos conteúdos. como lembram os dois autores franceses. conflitos. sente. na forma de uma descontinuidade do plano de expressão. entre outras maneiras de obter a atenção. afetos. é uma de suas recompensas. 2 . O entendimento dessa foto. como se a notícia fosse uma superfície refletora do próprio destinatário e de seus sentimentos. portanto. A estratégia inicial para arrebatar a atenção de um sujeito é de ordem sensível. sonoras.passa a sentir uma falta. internauta ou telespectador. da passagem de substâncias visuais. Discursivizado em leitor. Os sentidos são arrebatados em função de uma descontinuidade do plano de expressão. ouvinte. a narrativa jornalística pudesse ser a sua narrativa vivida ou “vivenciável”. para atrair com mais eficiência o enunciatário. gestuais. também viva experiências. São operações que envolvem a dimensão sensível e a passional.A primeira é apresentar unidades para serem sentidas. Em resumo. em formas decodificáveis. musicais.

proporcionada pelos estudos da chamada semiótica tensiva. estaria no início.42 Fontanille e Zilberberg (2001: 279)43 propõem um “esquema afetivo”. ocupando aí alguma lacuna. no meio da profusão de estímulos de nosso cotidiano.deve mobilizar outro patamar de curiosidade. O enunciatário inicialmente deve “ficar sabendo que não sabe” algo que lhe interessa e se sentir atraído para ler o texto inteiro. A única questão que nos parece incômoda em alguns estudos de semiótica tensiva e nos mais recentes trabalhos de semiótica que privilegiam uma abordagem a partir da percepção é a valorização de um sujeito sensível que. numa cultura. nessa hipótese. parte do mesmo sistema de coerções. para um objeto ou um fim” . inclusive. ao contrário. quem veste tal etiqueta da moda. Em outras palavras. antes é preciso uma compreensão do afeto. e. ou se levará a um reexame. capítulo 11. intensa. pontual. 42 64 . psicológico ou mesmo biológico no momento em que se emociona ou sente tensões de qualquer ordem. por exemplo. paixão e finalmente sentimento. De qualquer maneira. Os autores concebem o afeto como portador de significação. eles afirmam que a emoção é um dos “verdadeiros objetos” da teoria. inclinação. não raras vezes. possamos perceber aquele novo carro. da disposição. fica a questão de saber se a semiótica da emoção se conformará às aquisições já consolidadas. nossos sentidos nos alertam a partir de uma visão de mundo que nos estrutura como indivíduos. espontâneo. do sentimento. Esse é o sentido de inclinação utilizado neste trabalho. estão distantes das bases da semiótica. O que fazem o jornalismo e a publicidade senão tentar condicionar nossa sensibilidade para que. mas não eram percebidos. uma tensão. O sentir não paira sobre as limitações ideológicas como algo “puro” ou inato. no português. assunto que abordaremos depois. só admite a tradução francesa – de “movimento afetivo.44 Os autores compararam diversos estados afetivos e mostraram que a emoção se delimita da paixão. ou “fases da afetividade” para investigar os sentidos dos “afetos”. possam ser distinguidos e ordenados nos sistemas de valores propostos. 43 Em Tensão e Significação (2001). do temperamento pela maneira súbita. ou seja. Ao se “alongar”. Eles estavam ali antes. A emoção. a captura da atenção está profundamente marcada por um sistema de valores que insere o indivíduo numa ordem social. segundo o Aurélio. como a cidade está melhor ou pior em determinado aspecto? Reportagens sobre assassinatos de mendigos.no sentido figurado. palavra aqui entendida como termo complexo que abrange todas as variações de estados de alma. o de querer saber tudo o que aconteceu. notadamente se houver engajamento empático com os personagens de uma notícia. É. parece apartado – ou o que é mais problemático – acima de qualquer condicionamento social. vira inclinação (ou afeição). depois. fazem muita gente perceber como os espaços públicos estão cheios de moradores de rua. o sujeito passa a viver uma forma de insatisfação. qual a extensão desse reexame” (idem). uma experiência que pode ser descrita e compreendida. Emoção. Não está nos limites desse trabalho discutir uma questão tão complexa cujos contornos. Se for “fisgado”. 44 Inclinação. assim. da inclinação. paixão e sentimento: a estrutura dos afetos Para entender a importância da afetividade no processo de captura e de manutenção da atenção. E perguntam: “Se mais ninguém pensa seriamente em negar a significação das emoções e das paixões. ao ganhar extensidade na maioria das situações cotidianas. O que o jornal faz é criar valor para determinados aspectos do cotidiano ou produtos para que. mas que desde o início tem sido excluída das reflexões.

por exemplo. Comparando com o dicionário brasileiro. Eles citam uma observação de H. O clássico “amor à primeira vista”. “que podemos interpretar como ‘produto’ da rapidez e da intensidade” (2001: 284). a qual se acompanha dum estado afetivo de conotação penosa ou agradável. Estado de ânimo despertado por sentimento estético. não raras vezes. contudo. passional ou permanente. vamos encontrar as seguintes definições para emoção: 1. Liège. mas são momentos distintos de um mesmo percurso afetivo. Admite-se que o sentido de um afeto se deixa identificar por meio da fase atravessada pelo sujeito. não é perfeita. ela é encontrada na paixão. 3. tristeza. tendencial.repentina de ocorrer. Essa redução. portanto. etc. a paixão como torrente que cava mais e mais profundamente seu leito. 124-5.. Zilberberg e Fontanille lembram que o desejo de descobrir uma estrutura dos afetos levou pensadores a uma dualidade e a um confronto entre emoção e paixão. 2. se falta “duratividade” à emoção. No dicionário Aurélio. religioso. pág. respectivamente fase emotiva. denominam da mesma maneira ou misturam em diferentes gradações. Mardaga. 45 65 . a de inclinação. Ato de mover (moralmente). pode unir todas essas fases num percurso instantâneo e. etc. A teoria. emoção e paixão não estão em confronto. comoção. como parece. como uma doença resultante de uma constituição viciada ou de um veneno ingerido’” (2001: 282). a paixão. abalo moral.45 Os dois semioticistas franceses mostram que. A definição semiótica de emoção é mais restritiva do que a do dicionário. Nesse esquema. aparecer como uma forma de afeto “concentrado”. Essai sur la mise em discours de la subjectivité. raiva. Parret: “Menciona-se sempre a distinção entre a paixão e a emoção proveniente da Antropologia de Kant: ‘A emoção age como água que rompe seu dique. De qualquer maneira. e que se manifesta como alegria. desenha certas fronteiras entre estados afetivos que falantes do português. ensinam Fontanille e Zilberberg. A emoção se transforma em paixão quando molda o percurso inteiro do sujeito. A emoção é como uma embriaguez que se dissipa. Perturbação ou variação do espírito advinda de situações diversas. a passagem da emoção para a fase seguinte. Outro ponto importante é que não se impõem aos afetos durações e graus de intensidade rigidamente marcados. Psicol. 4. podemos perceber as características descritas por Zilberberg e Fontanille nas definições 2 e 3. pode ser descrita como uma “explosão O texto citado é Les passions. portanto. 1986. Reação intensa e breve do organismo a um lance inesperado.

47 No original: “(. tensão. É importante ressaltar que um sujeito pode ficar apenas em uma fase e se recusar a ir para outra. deve passar da situação de não ter um saber desejado (disjunção) para a de sujeito com esse saber (conjunção). ou seja. Cette ‘prise de position’ se décline em deux actes.). da emoção e da inclinação. as fases iniciais. Nessa surpresa inicial não há nem atração nem repulsão.. Ou não. ao processo vivido por um sujeito que. em geometria. de um lado o foco. par lequel elle instaure son champ d’enonciation et sa deixis. se a emoção comporta o traço /brusco/.46 Notícias e engajamento perceptivo Há outra reflexão teórica importante e complementar sobre esse sujeito atingido pela curiosidade. A apreensão pode ser relacionada. se vinculam a uma “resolução”. As fases posteriores. A idéia de foco mostra engajamento perceptivo do sujeito.. “passional” se cultiva a paixão e “terno” se atinge o sentimento (2001: 292).. Ao obter a Os dois semioticistas franceses afirmam que. atraído pelo texto. d’un côté la visée. ocupariam o lugar da “somação”. Caso persista na leitura. Pensemos em um leitor que vê uma foto de uma cena de guerra e é tomado de emoção. que delimita o domínio de pertinência (. o leitor pode ser um sujeito que quer entrar em conjunção com um objeto. a inclinação comporta apenas o traço /espontâneo/. qui dirige et oriente le flux d’attention. no impacto da emoção..) La ‘prise de position’ que détermine le partage entre expression et contenu deviant le premier acte de l’instance de discours.47 conceitos rentáveis em um estudo do gerenciamento do nível de atenção. Afirma Fontanille que “essa ‘tomada de posição’ se declina em dois atos (. à busca do objeto pelo sujeito e os conflitos que ele vai viver relacionados ao sucesso ou fracasso. Se ele desejar apenas viver uma sensação forte (ou afeto intenso) provavelmente vai ver a foto com atenção e nem ler toda a matéria. curiosidade. do corpo “agindo” e fazendo a mediação entre o sujeito e os fenômenos do mundo que se dão a sentir. Quem recebe o impacto da emoção não consegue inicialmente nem distinguir se o que causou o choque gera necessidade de união com o objeto ou repulsa. “atraído” se sente inclinação. a foto. Do ponto de vista da duração. A fase seguinte do esquema afetivo é a inclinação. e depois. extensão. sujeito e objeto ainda se confundem. tenso. comme nous l’avons déjà suggéré.controlada”: “Na perspectiva do tempo e da intensidade. Basta retomar o exemplo do leitor. não apresenta espessura. que dirige e orienta o fluxo de atenção. definida pela ‘perturbação’. é desprovida de duração. a emoção. O sujeito poderá ser considerado “sensível” se se atém à emoção.). da paixão e do sentimento. et de l’autre la saisie. e de outro a apreensão. Nesse momento. ao sentimento.. nem o ponto.” 46 66 . grosso modo.. disforia.. no caso do nosso trabalho. Dissemos que.. a inclinação pode dar lugar à paixão. com a inclinação é introduzida a duração. atento.)” (2003: 35). qui délimite lê domaine de pertinence (. tal como a linha. já que comporta o traço /movimento/” (2001: 289). no esquema proposto.

de um estado de insatisfação para o de alguma satisfação. ouvinte ou internauta é transformálo em sujeito tenso. torna-se plausível admitir que estas últimas já surgem conformadas por modulações tensivas. Citamos jornais que atraem o sujeito inicialmente por meio de uma estratégia sensível que produz o engajamento perceptivo – o foco citado por Fontanille – para desencadear o processo cognitivo – a apreensão.. da insatisfação para a satisfação. as que restabelecem os elos contínuos entre os elementos.. o estado de disforia do sujeito destinatário com um estado possível de disforia dos sujeitos da narrativa. Luiz Tatit detalha as relações do contato do sujeito com descontinuidades ou diferenças. no entanto.). por sua vez. “afetivo”. como já foi analisado. Tatit fez essas observações a partir do trabalho do semioticista Claude Zilberberg que. A notícia nem precisa ser disfórica (uma tragédia) para despertar a atenção e produzir curiosidade no público-alvo. para uma situação de euforia e de relaxamento com o consumo do jornal ou. a integração traduz o maior relaxamento possível (algo que seria expresso pela aceitação passiva e pela manipulação inicial). que quer passar de um estado de disforia. A transgressão propriamente dita perfaz a forma expandida da disforia. A euforia opera a passagem das relações tensivas. de uma curiosidade não solucionada. às relações relaxadas.48 “Se tomarmos a foria como uma força que transporta as categorias semânticas. é negada pela forma pontual da euforia: a distensão (expressa pela desistência das ações transgressivas (. a disforia compreende a passagem das continuidades às descontinuidades que geram as tensões. por exemplo. telespectador. A notícia é. o sujeito consegue passar da tensão para o relaxamento. 48 67 . Como estamos realizando uma análise narratológica da enunciação. apresentou a problemática da tensividade na obra Raison et poétique du sens.. a própria representação da descontinuidade. parece ser sempre disfórico. Contrariamente. a reintegração permite retomar a forma expandida da euforia: o relaxamento (. provocado pela falta de um saber. porém. por sua vez. Tatit sentida pelo sujeito ilustra a passagem de uma explica que uma disforia continuidade para uma descontinuidade que gera a tensão. Por fim. por se vincular a essa falta vivida pelo sujeito. pelo menos.)” (2003:198).compreensão que queria.. que incluem “modulações tensivas (ligadas à percepção) e fóricas (ligadas aos sentimentos) – (2001: 18). a retenção (expressa pelos antiprogramas narrativos desenvolvidos pelo sujeito) que. O querer-saber. de uma reportagem. não se deve confundir. imediatamente negado pela forma pontual da disforia: a contenção (expressa pela rejeição do contrato narrativo). Desse modo. caracterizadas por rupturas. Obter a atenção de um leitor.

nesses casos. transpõe a retensão para a distensão. Algumas notícias. utilizaremos o quadrado semiótico49: Percurso da notícia como unidade narrativa completa Percurso da notícia como parte de uma narrativa maior - Retensão (Disforia) Relaxamento (Euforia) Contensão (Não euforia) Distensão (Não disforia) Um leitor. esgotam seu potencial de criação de um querer-saber no próprio consumo. Há a curiosidade despertada por uma unidade noticiosa. Muitas não têm desfecho se pensadas de um ponto de vista histórico mais amplo. No entanto. a divulgação do índice de inflação do mês. entre outros recursos. pode fazer o caminho da linha vermelha fina: passar da tensão disfórica (a retensão . E também pelo conjunto de unidades que compõem o jornal. as notícias. Outras não. em sua maioria. são “pedaços” de narrativas maiores. 49 A base deste quadrado é de Tatit (2003: 2000) 68 . A atenção se relaciona. e vão “relaxando” no final. porém. por exemplo.querer-saber o que aconteceu) para a distensão (momento de consumo da unidade noticiosa). como já vimos.é um momento de disforia que tende à euforia. com matérias mais leves. uma curiosidade (uma paixão simples – um querer-saber) do enunciatário. Ao ter a curiosidade satisfeita. É notável que a maioria dos objetos jornalísticos analisados neste trabalho simulam inicialmente. teoricamente. como. passa para o relaxamento. o momento de máxima tensão disfórica. Cada foco em uma unidade noticiosa – ou outro elemento do jornal . A edição inteira se apresenta como outro ponto de passagem de disforiaeuforia a mobilizar o sujeito. Para explicar melhor essa questão e visualizar esses percursos possíveis. por exemplo. solicitado a se manter em contato com o jornal para obter o saber necessário e a conseqüente satisfação. notadamente a uma disforia. é um conjunto de unidades noticiosas. O leitor. O próprio jornal.O consumo de um jornal pode ser pensado de dois modos complementares. com suas manchetes principais. a uma espécie de situação prazerosa nessa passagem de um não saber para um saber.

pela impetuosidade notadamente das tragédias. passional e racional. a do terrorismo. todo um programa narrativo virtual. submetida finalmente à própria história.Em outras palavras. da atenção para a distração. ao consumir a notícia. Parte das narrativas exploradas pelo jornalismo nunca se esgotam.e será retomada nas próximas páginas para exemplificar questões relacionadas ao efeito de atualidade .que durou três dias . ele determina. que os números seguintes não poderão deixar de atualizar. analisá-las em detalhes: 69 . o relato maior da vida. para obter e manter relacionamentos com o público. se o número do dia relata ‘o acontecimento do dia’ (.). é possível propor um resumo dessas estratégias de gerenciamento do nível de atenção e. e da observação de que os jornais.. ele passa a saber mais. como um fragmento de narrativa. mas complementares de criação de laços por meio de manipulações de ordem sensorial. A ação de terroristas islâmicos em Beslan . Nesse sentido. ao mesmo tempo em que satisfaz parte do desejo que incutiu no sujeito. porém.tem começo. percurso que se constrói como extensão pontuada pelos conflitos humanos.. gera mais curiosidade para a sua própria continuação. fica sem saber tudo. quais foram os antecedentes do acontecimento (. desenvolvem procedimentos distintos. momentos de máxima intensidade. o percurso do consumo da notícia pelo enunciatário que parece ser mais comum e desejável pelo enunciador jornal é o da linha vermelha mais espessa. Esquematicamente.. Landowiski diz que o jornal cria expectativas pela simples distribuição de informação em seqüências. reunida por sua vez na narrativa política. depois. No entanto.. obter a informação desejada é a passagem da disforia para a euforia.)? Quais lhe serão as conseqüências?”(1989: 119). ao mesmo tempo. da tensão para o relaxamento. A própria notícia também cria as bases para que ele se mantenha curioso para o “próximo capítulo”. “Porque. há vários fatores para considerar antes de se aceitar qualquer idéia de simplicidade nesse percurso do sujeito curioso e incitável. A partir das discussões teóricas feitas. A unidade noticiosa. Teoricamente. meio e fim. pode ser englobada por outra narrativa maior. Entretanto.

Envolve sentimentos. um querer-ser e também querer-sentir. Estratégia de fidelização – busca transformar o sujeito curioso em sujeito fiel. fotos enormes numa página são estratégias de arrebatamento. que motive ou reforce um engajamento perceptivo voluntário. de novidade. porém é mais da ordem racional. 3. inusitado. quem ou o quê o produziu. o jornal precisa produzir no sujeito uma curiosidade instantânea. Toda essa operação não é 70 . interessado em decodificar um estímulo. É mais da ordem das sensações e da definição de emoção de Zilberberg e Fontanille. Tenta desencadear um hábito. por um querer-saber. cujo caráter descontínuo. quase sempre tem a mesma reação. Estratégia de arrebatamento – visa a instaurar o sujeito por meio de algum estímulo.1. O sujeito deve ficar interessado em compreender um estímulo (o que gera um foco). Estratégia de sustentação – objetiva transformar o sujeito atento em sujeito tenso que. Podemos dar como exemplo ainda tipos gráficos mais espessos em manchetes. diferente. O sucesso das estratégias anteriores – como a de obter saberes e experiências. Mostrar uma paisagem em cores fortes. momento chave que visa a atrair ou a fisgar a atenção de um sujeito e motivar o consumo. Estratégias de arrebatamento e de sustentação A estratégia de arrebatamento. Há também uma manipulação por tentação. 2. As reações que os noticiários querem desencadear nessa fase de busca de atenção têm muito em comum com certas situações cotidianas. sedução (querer-fazer) e tentação (querer-fazer). entre outras – deve gerar expectativas positivas no sujeito para os próximos contatos e a vontade de repeti-los. uma narração tensa após um momento de maior tranqüilidade. Quando alguém anda na rua e ouve um barulho estranho. a de procurar a fonte do som para tentar descobrir seu significado. inusitadas. não racionalizada. encoraja a decodificação (a apreensão). Há manipulação por intimidação (dever-ser). O destinador jornal manipula o destinatário por tentação. se vê diante de detalhes de uma história e deve sentir vontade de conhecê-la por inteiro. uma descontinuidade. É mais da ordem passional. pressupõe a criação de descontinuidades que reclamam uma categorização. No primeiro contato. um grande número de cortes em uma cena de pequena duração.

a de querer saber mais detalhes sobre a notícia. ou arrebatar. sinta uma disforia. sa précarité. Ática – 1993. e as desencadeadas pela estratégia de sustentação. além de atrair o sujeito. no caso de um diário. deve ter outra curiosidade despertada. Manual de Radiojornalismo Jovem Pan – 3ª ed. Só que ele.pensada. A atenção é então mantida. Em alguns pontos do trabalho. é quase automática. Exclusivamente na Joven Pan.51 que manipulam as duas formas de curiosidades: as provocadas pelas estratégias de arrebatamento. ao tentar entender a razão da existência do destaque dado pelo jornal. ao sentir-se compelido a buscar o significado do estímulo. que envolvem o plano de expressão.” 51 O significado do termo “chamada” varia bastante. precisa “segurá-lo”. em conseqüência disso. Já manchete se vincula mais fortemente ao título em grandes letras dos jornais e revistas. sustentada. fruto de um desejo consciente. agora relacionado à história noticiada. que a principal arma de captura da atenção para as notícias são as manchetes ou chamadas.50 O sujeito arrebatado. Como citamos há pouco. existem diversas maneiras de fisgar e manter a atenção do público. cada jornal veicula uma grande carga afetiva e pede concentração para o que destaca “Nous nous aprrochons progressivemente de ce qui fait la singularité de l’attention. surpreendido por não ter um saber. pelos noticiários. Já a chamada é um “flash” gravado sobre matéria ou programa transmitido várias vezes durante a programação para despertar o interesse do ouvinte (Porchat. São Paulo). Vale notar o caráter impactante e pontual desse tipo de curiosidade. à savoir. o olhar do leitor. utilizamos manchete indistintamente para qualquer tipo de jornal. A base da estratégia de arrebatamento é a instauração. para atrair sensorialmente e passionalmente. ao ler a manchete. viva uma tensão e. Esse momento praticamente não tem duração. por questões didáticas. Maria Elisa. de uma novidade de ordem sensível. porém. deve ficar à mercê da segunda estratégia. Também chamaremos de “bloco de manchete” todos os outros elementos relacionados ao título. a de sustentação. Pelo contrário. algo que deve ser sentido como instigante. Revista – ed. fique mais atento ao que o noticiário apresenta. Em outras palavras. Toda manchete ou chamada é concebida para “sensibilizar”. de base passional. um estímulo. Zilberberg afirma que a singularidade maior da atenção “é sua precariedade” (1990:136). estudada. por exemplo. Só que o destinador “jornal”. que impõe ao sujeito um querer-saber na forma de um querer entender (que liga a fase da emoção à da inclinação). as grandes letras de uma manchete devem atrair. o termo manchete se refere a cada frase de uma notícia destacada e deve conter apenas uma informação. 50 71 . E surge um laço entre o jornal e o leitor. Por meio desse recurso. Devemos notar. Isso faz com que o sujeito. É preciso ressaltar essa passagem entre estratégias de gerenciamento do nível de atenção: a atração de base sensorial precisa imediatamente ceder lugar a outra. ligadas ao plano de conteúdo.

deve corresponder outro tanto de mistério.. para construir laços com o público-alvo. não querem apenas fazer-saber. o mais perigoso. de fazer crer. Há duas razões para essa entrega do clímax da história. o mais fabuloso. para utilizar um exemplo extremo. o telespectador ou o ouvinte a buscar mais detalhes. Teóricos da comunicação lembram as conseqüências da identificação: quem se emociona com uma notícia já foi convencido de sua autenticidade. Para o mesmo tanto de informação.. Dizem que Hitler. A primeira é que o enunciatário não precisa tomar contato com todo o relato para conhecer o aspecto mais relevante da unidade noticiosa. expor histórias para que se conheça o que ocorre cotidianamente. pelo menos os detalhes da narrativa no momento específico da edição. 52 72 . maior será a curiosidade e mais atenção o jornal irá obter. ouvinte. O público deve perceber que não conhece (ou não sabe em profundidade) os grandes destaques da edição. estruturar modos de o público se perceber nas notícias.52 A eficácia da estratégia de sustentação do nível de atenção. ou. O aspecto temporal é dos mais relevantes no estudo do jornalismo. o fazersentir é eficaz em desarmar a racionalidade do enunciador e sua possível negativa em aceitar os valores propostos. no entanto. discutimos um outro efeito que envolve essas questões. é o resultado da operação de fazer o público sentir o que o personagem da notícia vivencia ou vivenciou. para prender a atenção. No início do trabalho. o mais. E precisa também ser “chacoalhado”. é uma das expectativas associadas à manchete. A apresentação das manchetes mostra que. em outras palavras. a tentar saber o que motivou semelhante desfecho ou momento narrativo. internauta. Os noticiários também precisam fazer-sentir. o internauta. Como isso foi acontecer? O que acontecerá depois? Toda manchete implicitamente faz um convite: “Saiba agora!” Podemos dizer que a satisfação de conhecer a “história toda”. envolver afetivamente até mesmo seus opositores. A segunda é que essa estrutura narrativa invertida deve incitar o leitor. Já foi citado que os jornais. Os dois procedimentos. quase toda narrativa jornalística tem uma característica notável: a de começar literalmente pelo fim. que a história de alguém apresentada nas notícias pode ser a do leitor. é importante ressaltar. por exemplo. Uma das chaves do sucesso da estratégia de sustentação é o estabelecimento de um sentido de identificação entre actante do enunciado e actante da enunciação. tinha a capacidade de.como o mais importante. telespectador. que será analisada nas próximas páginas. A empatia. não devem ser confundidos. Uma boa manchete é um pedaço de uma narrativa que clama por completude. O poder de mobilização afetiva das unidades noticiosas se A empatia gera outro efeito de verdade e realidade. porém. Em certos momentos. o mais prazeroso. Quanto maior for a identificação. também envolve uma identificação entre tempo e espaço da notícia e essas mesmas coordenadas do público-alvo. nos discursos em público. O jornal impõe seu ponto de vista sobre um acontecimento como “verdadeiro e objetivo” quando avalia que o público-alvo faria o mesmo recorte da realidade por partilhar a mesma ideologia.

na colocação de tais formalismos eficazes: o próprio enunciado.. como complementa Fontanille. um jornal é um arquivo histórico. ao sentido de atualidade. Uma peça de teatro ou uma ópera não resulta da adição do contexto de representação ao “texto” verbal ou musical.. submetido a uma enunciação global que as produz. enormes desafios teóricos para o bom entendimento da estratégia de sustentação.) no tempo e no espaço do seu interlocutor. Cada edição de um jornal apresenta um momento de consumo bem demarcado. como o de atualidade (proximidade temporal) e o de empatia (proximidade actancial-espacial). telespectadores e ouvintes.). A mesma estratégia enunciativa é responsável pelos jornais. como a questão da empatia. Com esse conceito. do mesmo modo que todas as determinações semânticas e sintáxicas que contribuem para forjar a ‘imagem’ que os parceiros enviam um ao outro no ato da comunicação” (idem: 171). É preciso entender o objeto jornalístico na sua efemeridade. Pode-se reconhecer nessas duas formas de comunicação um conjunto significante vivo. pelo menos.vincula fortemente ao período da edição na qual estão inseridas. as estratégias mobilizadas para obter e manter a atenção são profundamente relacionadas à idéia e à vibração de uma edição. tem o impacto afetivo bastante alterado. A noção de que “jornal velho só serve para embrulhar peixe” traz. 73 . mas também a maneira como o enunciador se inscreve (gestualmente. poderemos entender melhor algumas particularidades da estratégia de sustentação e das formas de fazer-sentir do enunciador. Tempo e também atores e espaços citados devem ser compartilhados por leitores. Noticiário antigo não emociona. tem outra utilidade. de um valor ‘ilocutório’ determinado – ao ato de enunciação considerado (. proxemicamente. Os objetos jornalísticos têm características diferentes de outros textos (aqui no sentido amplo. Assim ele é pensado e produzido pelos jornalistas. Ou. Para não apelar para pessoas. do termo). a semiótica pensa a questão na forma de “contexto semiótico”. Portanto. que serão abordados a seguir. Fora desse período. Landowski (1992:170) entende com isso “o conjunto dos traços (lingüísticos ou não) pertinentes para a atribuição de uma significação – notadamente. O que chamamos de contexto semiótico seleciona no ‘real’ (referencial) precisamente os elementos significantes que entram. semiótico. caso a caso. porém. claro. O autor cita um exemplo. Essa formulação. etc. Cada edição também tem seu “contexto semiótico” específico. importantes para a compreensão de certos efeitos. internautas. “não é uma adição do contexto ao texto” (2003:93). principalmente temporal. tempo e espaço “reais”.

pelos jornais. “O jornalismo tem uma relação específica com o tempo. Oportunidade. O discurso do jornalismo se caracteriza pela dupla contemporaneidade. portanto. vamos examinar a cobertura da ação terrorista na escola de Beslan. Interesse atual: obra sem atualidade. que não é antiquado. é necessário existir principalmente uma sensação de proximidade temporal. por sua vez. apud Meditsch. A época presente. tem quatro sentidos: 1. Que está em ato. efetivo. vibrante. Que ocorre no momento em que se fala. O componente temporal é um dos determinantes para a escolha de um acontecimento e sua transformação em fato e em notícia. Só que esse alongamento do tempo tem uma missão clara: deve fazer uma unidade noticiosa parecer “presentificada”. afirmamos que o efeito de atualidade é essa instauração. No Aurélio. na Rússia. Imediato. Qualidade ou estado de atual. Para mostrar esse ajuste. telespectadores e ouvintes (actantes da enunciação). como se fosse possível “esticar” e moldar o “agora”. 4. Filos. De sua época. 3. pode durar de segundos a meses. Esses sentidos sobre atualidade mostram a existência de uma sensação de presente que pode ser pontual ou alargada. real. ensejo. com diferentes durações.A proximidade temporal: o efeito de atualidade Para a estratégia de sustentação da atenção do público funcionar. Em nosso trabalho sobre a Veja (2004:95). 2. um agora partilhado entre personagens das histórias (actantes da narrativa) e leitores. 4. 2. 3. que aparece na primeira página de quatro edições seqüências do Diário de São Paulo. até domingo. encontramos a seguintes acepções para “atualidade”: 1. internautas. contudo. 4 de setembro de 2004: 74 . de quintafeira. Uma história de interesse. 2001: 208). É o intervalo de tempo entre as edições. de um presente “elástico”. 1975:295. “Atual”. que comanda como se deve dar o efeito de atualidade. pelo menos no período estipulado de consumo da edição do jornal. É preciso adaptá-la aos rígidos intervalos das edições. por ser ‘relato atual de acontecimentos atuais’” (Weaver. 2 de setembro. relação esta que lhe é definidora e se expressa até etimologicamente (em português jornal-jornada. do latim diurnalis-diário). Qualquer jornal precisa fazer seu consumidor acreditar que as notícias divulgadas são atuais. no presente: acontecimento atual.

75 .

um meio e um fim. na Internet. hora após hora. 3: Terror mantém reféns em escola da Rússia Sábado: Massacre em escola da Rússia deixa 200 mortos Domingo: Rússia chora 359 mortes O ataque durou cerca de três dias. O gancho. onde. que quase dobra o total de vítimas inicialmente anunciado. faz novamente o ato receber destaque. por sua vez. como e por quê. de impacto sobre o enunciatário. O assunto. pelo clímax. que é diário. no dia seguinte. Podemos verificar a já citada característica da narrativa jornalística começar pelo fim. no sábado. Esse fato hierarquizador é chamado “gancho”.53A ação terrorista tem um começo. É regra nos grandes diários brasileiros. entretanto. Escolhe-se. No domingo. Comenta-se o que aconteceu e há especulações sobre o futuro. o fato mais importante para só então organizar a história temporalmente e construí-la como notícia. No jornalismo de rádio e TV é mais conhecido por “cabeça de matéria”. nesse intervalo de um dia. quem. No quarto. a repercussão mundial ainda gerou manchete. Para ser encaixada na edição do jornal. 54 O lead.54 É notável que o seqüestro das crianças receba uma destacada manchete no jornal de quintafeira e. apenas três linhas no canto direito. o que reduz o potencial de atração dessa notícia. Isso ocorre porque não houve mudança narrativa. além de se vincular totalmente ao período da edição na qual se insere e dar a sensação de que a notícia é atual. a narrativa precisou ser dividida. Podemos comparar o gancho a uma locomotiva que tem como função puxar outros vagões e impor uma certa ordem. também motiva ainda a construção do chamado lead. A cronologia do acontecimento se submete a uma ordem de relevância. O trágico desfecho do seqüestro. o parágrafo introdutório de uma unidade noticiosa. 2 de setembro de 2004: Terror faz 400 reféns em escola da Rússia Sexta-feira. Cada parte é tratada como uma pequena história. quando. sumiu da primeira página da edição seguinte. que impõe uma subordinação em relação a outros fatos de uma mesma história. O momento de máxima tensão narrativa do período reportado determina toda a montagem da notícia. Dentro do intervalo de 24 horas não é apresentado um relato cronológico. deve responder às perguntas: o quê. a da segunda-feira.Há as seguintes manchetes: Quinta-feira. temos a repercussão da nova contagem de mortos. Somente as revistas semanais não utilizam plenamente o 53 76 .

No caso da manchete “terror mantém reféns em escola russa”. pertinente. nesses casos. Lembra Fiorin que “o agora do enunciador é o agora do enunciatário” (1996: 143). uma revelação. um “agora” – o verbo manter está no presente do indicativo. o aspecto mais curioso ou polêmico de um evento ou a declaração de maior impacto ou originalidade de um personagem” (2001: 28). um momento de referência pretérito em relação ao presente do momento de enunciação. importante. já investigada no nosso trabalho sobre a Veja (Hernandes. o momento de referência é o presente. acrescentamos. obriga a mostrar um marco temporal claro. como o jornal desvalorizou espacialmente a informação para marcar que o período de tensão narrativa permanecia sem desenlace. 56 Na formulação de Fiorin. E as revistas semanais necessitam apagar o grande intervalo de tempo entre a coleta. O enunciatário geralmente é tomado por uma sensação que o faz crer que até mesmo algo que ocorreu há muito tempo. lead para evitar que a notícia pareça velha. que permite situar aquela ação. porém. paralelo. não escondem que o fato principal da notícia é passado. Vê-se somente o título no canto da página. inclui o agora do enunciado. a idéia mais significativa de um debate. Isso mostra que enunciador considerava decrescente o potencial de atração dessa notícia se o desfecho demorasse a acontecer. Há um sentido de concomitância entre a narração e o que se narra. faz com que a enunciação se torne viva. o que foi “esticado”. na maioria das vezes. como as revistas e jornais. mas também está presente em todos os outros tipos de noticiários. Pressupõe que qualquer texto publicado no jornal disponha de um núcleo de interesse. é encontrada principalmente nos meios de comunicação mais “lentos”. é atual. temos um tempo enunciativo. a preparação e a divulgação de suas notícias. do ponto de vista estritamente lingüístico. Deve-se notar. Uma estratégia também muito utilizada para “alongar o agora” de uma unidade noticiosa. A leitura atualiza o momento de enunciação. é nada acontecer quando se espera uma conclusão. Os jornais contam certas histórias já ocorridas e.56 E.55 Só que existe um outro “tempo”. seja este o próprio fato. 2004: 94 a 96). 77 . porém. Note-se. O que justifica o destaque dessa notícia. por ser contado na edição. da notícia. Trata-se. Nesse caso. O Manual da Folha de São Paulo afirma que “o lead tem por objetivo introduzir o leitor na reportagem e despertar seu interesse pelo texto já nas linhas iniciais. no exemplo. 55 Em outras palavras. Isso acontece porque o lead. daquele “agora” fundamental para o efeito de atualidade. o recurso muito comum de apresentar os verbos das manchetes no presente. no exemplo do Diário de São Paulo. o fato está em pleno andamento.Na ação terrorista. a segunda manchete (“Terror mantém reféns em escola da Rússia”) só têm razão de ser porque pressupõe a possibilidade de desfecho iminente da história. podemos verificar um efeito de enunciação que se vale do poder do ethos do jornal e também de outros procedimentos. na resposta ao “quando”.

57 78 . se vinculam a situações concretas. o comentário sobre as “falhas do progresso”. como a TV e o rádio. E se opõe a outro “frio”. Vejamos o caso dessa manchete e linha explicativa de reportagem sobre tecnologia da Veja 1856. o fato principal ou gerador tem um período de consumo extremamente curto. Ao ser relacionado ao fato gerador. como um acidente aéreo. se divulgado sem maior cuidado. que dá. 112: “Quando as coisas dão errado – Desabamento em aeroporto francês surpreende o mundo. Ou seja.” O elemento de atualização.57 Há diversos modos de atualizar um fato principal e construir uma notícia com sabor de novidade e que será interpretada como “atual”. o núcleo principal de uma notícia. expande a própria “vida” da notícia. que não envelhece rapidamente. desse modo. deve-se observar que a maioria dos grandes fatos é noticiada depois de acontecer. Um elemento de atualização muito comum é uma conseqüência do próprio fato. a posse do novo presidente da Câmara. A tragédia de Beslan não foi exceção. Ao falar que o jogo “embola” o campeonato carioca. Geralmente.Inicialmente. O elemento de atualização é um assunto secundário. tem a propriedade de atualizá-lo. Quase sempre. que não perde a atualidade com facilidade. Devemos observar que diários e revistas constroem unidades noticiosas cada vez mais analíticas porque não podem competir com as mídias mais rápidas e. cujo “agora” não pode ser muito alongado. Note-se ainda o verbo no presente. um gosto de novidade e atualidade. um fato gerador de vida curta. a divulgação do índice de desemprego. é “quente”. passam a sensação aos leitores de que estão mais preocupados com o futuro do que em reportar o que acontece no Na gíria jornalística. pág. Em 7 de março de 2005. Esses fatos principais são elementos geradores da unidade noticiosa. Há dois grandes tipos: os imprevisíveis. a manchete de primeira página de esportes do Jornal do Brasil era: “Empate no clássico embola a Taça Rio. O elemento de atualização também pode ser uma análise ou uma interpretação do fato gerador. deixaria mais claro como momento de referência o “ontem” do fato. Nos diários impressos. mesmo em mídias “rápidas”. E lembra que as falhas são parte do progresso. ao que aconteceu.” Se estampasse a notícia dos 2 a 2 entre Flamengo e Botafogo. não só não atrai o público como compromete a credibilidade do jornal. Basta acrescentar um elemento de atualização ao fato gerador. sua repercussão. fica velho com rapidez e. instaura como momento de referência um “nessa semana”. de 2 de junho de 2004. ou os efeitos de uma tempestade. segunda-feira é dia de fazer o balanço da rodada de futebol do final de semana. e os previsíveis: um jogo importante de futebol. que começa após a partida e vai durar até os próximos jogos.

não podem ser confundidas com o “ao vivo”. na página do Jornal do Brasil On Line de 8 de março de 2005. a atualiza. dá a sensação de que a produção acontece no mesmo momento em que se ouve os programas. por exemplo. A expressão aparecia. construção que visa a alargar o “agora” de uma notícia. O rádio. ou seja. O Jornal Nacional não raras vezes apresenta uma notícia e. Nos noticiários da Internet. investem na confusão. principalmente portais e sites com conteúdo jornalístico. Meios de comunicação “lentos”. faz o jornalismo impresso ficar cada vez mais especulativo e evidencia o ponto de vista do enunciador. de um telejornal ou de um site de notícias de realizar o acompanhamento de um fato enquanto ele ocorre. como TV. por sua vez. podem inclusive enunciar enquanto algo que consideram importante está em pleno andamento. portais e sites têm a possibilidade de enunciar em “tempo real”. no entanto. a enunciação em “tempo real” é prometida com freqüência. apresentar uma produção simultânea à recepção. rádios e. Os próprios jornais. por exemplo. dentro do próprio programa. de que tudo é atualíssimo. Discutiremos melhor o assunto na análise sobre o jornalismo de TV. na segunda parte do trabalho. A estratégia. como diários e revistas. a promessa de um radiojornal. que também envolve coerções e vantagens de cada jornal. precisam de um tempo para a produção e distribuição de notícias. De qualquer maneira. Essas duas sensações temporais. por exemplo. Há uma outra questão importante para abordar. radiojornais. às 12h53: 79 . não de deve confundir o efeito de atualidade. Muitos trechos. com o impacto da enunciação das mídias “rápidas”.presente. que enunciam na forma de um fluxo. Telejornais. no entanto. são gravados. no entanto. Meios “rápidos”. ou seja.

ainda precisam de um tempo para edição e lançamento no site. Para isso. como na TV. Quando um jornal mobiliza afetos do público ao noticiar. Catástrofes naturais e guerras sempre se apóiam nas vítimas “civis” e seus dramas. O segundo é que há. Problemas políticos e econômicos geram textos com saídas “criativas”. que podem emocionar. na página 2 – de Opinião – da Folha de São Paulo. fez um notável mea culpa da imprensa em relação à indiferença da mídia por massacres pelo mundo. Vinicius Torres Freire. ou pelas imagens. Discutir a empatia não deixa de ser uma das muitas conseqüências da opção teórica de um estudo da enunciação como narrativa. Nos primeiros. o verdadeiro tempo real da Internet só pode se dar pelos mesmos tipos de transmissão por sons. como a da esperança. O jornal torna-se uma espécie de amigo que tudo sabe e procura cumplicidade com o leitor. Busquemos como ponto de partida algumas considerações de um jornalista. tais como “você também pode fazer isso e solucionar seus problemas”. a mobilização apela para o indivíduo competitivo. um processo ainda incipiente no meio em 2005. obviamente. que tem a oportunidade de se dar bem em relação a outros graças ao seu jornal. efeitos de realidade. como a piedade e o terror. No segundo caso. A proximidade actancial e espacial – a empatia Os jornais valorizam acontecimentos que mostram experiências “humanas”. em outras palavras. Há mobilização de paixões ligadas à disforia no primeiro grupo. internauta ou ouvinte. O primeiro grande problema é refletir sobre o assunto sem cair num estudo ontológico. criticou – sem apontar saída . porém. como no rádio. já que expande questões do universo passional entre os actantes narrativos para os actantes da enunciação. Essa concretude discursiva é geralmente associada ao sentido de objetividade e não ao de subjetividade. A lista é enorme. Os enterros de personalidades rendem espaço para “o lado frágil” dos poderosos. e eufóricas no segundo. muito presente no discurso jornalístico. manejados por uma figurativização intensa. podemos notar dois apelos diferentes. internauta. como espetáculo. Notícias escritas.O JB. espectador.a coerção 80 . telespectador) e actante do enunciado. Nesses exemplos. tenta obter uma identificação entre actante da enunciação (leitor. mesmo que de poucos minutos. Nesse sentido. gerar empatia. Há várias dificuldades para analisar esse procedimento. nos mesmos textos que procuram mobilizar afetivamente. Em 15 de março de 2004. Podemos perceber a importância dos chamados textos de “serviço”. faz apenas um simulacro. ouvinte. busca-se arregimentar o enunciatário pelo que poderíamos chamar de vínculo social.

outro ponto importante do comentário de Freire é que a empatia depende de o enunciatário reconhecer também como seu o espaço do personagem da notícia construída pelo jornal. Um shopping center dos Estados Unidos. pode dar mais sentido de proximidade espacial do que o Jardim Ângela. por sua vez. viver. Dito isso. Além da identificação actancial. parte violenta da miserável periferia da Zona Sul paulistana. lugares em que ele também poderia. Tenta- 81 . ele afirma que tipo de empatia é importante para o jornalismo: “É para quem se parece conosco. em tese. pelos efeitos de realidade que “humanizam” o texto. podemos perceber que o potencial de atração da notícia. O sujeito é manipulado. para o público padrão da Folha de São Paulo. vive como a gente. ou quase sempre quem vive em lugares que têm poderes e haveres bastantes para fazerem suas histórias terríveis serem midiáticas”. é proporcional à projeção do público nos dramas mostrados. Em outras palavras. que abrem espaço somente para situações e problemas que permitem a identificação do público-alvo com as histórias noticiadas: No final do terceiro parágrafo.que a empatia tem para os jornais. cuja isca é a manchete. nessa reflexão.

mais fraca ela é. nega o particular e caracteriza os textos temáticos. É importante que tenha a sensação de “estar no mundo” e possa “viver” dores.. aquilo em que o olhar está centrado. como a mulher morta entre as ferragens do trem atacado por terroristas em Madri e citada por Vinícius Freire. supervalorizado” (ibidem). ou de representação. é indispensável a especificação. original de 1959. em outras palavras. pode não mobilizar nossa 82 . os esquemas abstratos não atuam muito sobre a imaginação. não só atrás do cumprimento de obrigações (deveres). apenas por isso. (. que é um fator essencial nas argumentações. ou seja.) Quanto mais especiais os termos. existe a já citada representação icônica. Nem sempre o efeito de realidade dá lugar à empatia. no Tratado da Argumentação. elementos ou partes do texto que um leitor identifica como existentes no mundo natural. Ensinam Perelman e Olbrechts-Tyteca. inteligível da realidade. Lembram ainda os autores que “o fato de selecionar certos elementos e de apresentá-los ao auditório já implica a importância e a pertinência deles no debate. que tem dois extremos: em um deles. busca o genérico. Perelman e Olbrechts-Tyteca descrevem o processo: “A presença atua de um modo direto sobre nossa sensibilidade. dependendo dos efeitos que querem infundir.) O termo concreto aumenta a presença” (1996:166. O que um jornal faz é eleger e oferecer elementos concretos à consciência do enunciatário. Ver alguém ser citado com nome.. mais viva a imagem que evocam. É um dado que..167). endereço. Vejamos como essa mobilização afetiva acontece. As noções gerais. A iconicidade é uma de suas principais estratégias de elaboração de efeitos de realidade. analíticos. Os textos jornalísticos. nas concepções racionalistas do raciocínio” (idem: 132). alegrias e outros afetos mostrados nas histórias..se fazer com que seja modalizado por um querer entrar em conjunção com a notícia. não importa se a unidade é majoritariamente visual ou verbal. ou em uma cena. A abstração. Isso porque semelhante escolha confere a esses elementos uma presença. (. uma visão ampla. por outro lado. aliás. A abstração é uma racionalização por excelência. exerce uma ação já no nível da percepção: por ocasião do confronto de dois elementos. No extremo oposto. quanto mais gerais eles são. com uma foto. por demais menosprezado. o que é visto de um modo melhor ou com mais freqüência é. há a representação abstrata. um padrão fixo e grandezas variáveis com as quais ele é comparado. A semiótica trabalha essas idéias como um modo de figurativização. que “para criar a emoção. O que podemos chamar de projeção empática do enunciatário está diretamente relacionada à manipulação de elementos que tenham concretude discursiva. como mostra Piaget. trafegam entre esses dois extremos. por exemplo.

Vamos tentar aprofundar o entendimento da empatia por meio das reflexões do teatrólogo Augusto Boal. sentimentos. a complexidade figurativa deve estar a serviço da maior concretude possível de uma narrativa em pleno desenrolar.. dados precisos. tudo o que vive o personagem.) Além das declarações. contidas no livro Teatro do Oprimido e outras Poéticas Políticas. Humanizam o texto. mais completo e atraente estará o texto. não somente no teatro convencional como também nos dramalhões em série da TV e nos filmes de farwest: cinema. Conferem-lhe autenticidade. Quanto mais êxito obtiver aí. Devemos ressaltar essa característica: é importante notar a transformação de estados. que critica a tragédia grega: “Aristóteles constrói o primeiro sistema poderosíssimo poético-político de intimidação do espectador. Ensejam uma ponte entre o personagem e o leitor. O espectador assume uma atitude passiva e delega o poder de ação ao personagem. Barthes. Se o jornalismo é um espetáculo. As técnicas estão reunidas no que o teatrólogo chama de Sistema Trágico Coercitivo de Aristóletes.. de eliminação das ‘más’ tendências ou tendências ‘ilegais’ do público espectador. mas funcionar apenas como “ilusão referencial”.. inusitadas. (. contextos. Bernardo Ajzenberg. como tantas vezes é assinalado por seus críticos. porém.afetividade. o movimento. que particularizem cenários. o repórter confere vida aos relatos com detalhes significativos. Bernardo. teatro e TV (.” (1980: 6). Para haver empatia. quando o espetáculo começa. Essas regras. em situações desfavoráveis. sentimos que 58 Ajzenberg. ombudsman da Folha de São Paulo leva-nos a perceber esse processo de criação de ilusão referencial em um texto jornalístico: “Todo bom repórter domina a técnica de extrair de seus entrevistados frases contundentes.” 58 Se o efeito de realidade não pressupõe identificação entre público e personagens das notícias. entretenimento e jornais.). Folha de São Paulo. básicas. nós vivemos. Citações são a alma da boa reportagem. Boal lembra que. na proposta de R. tem como base o efeito de realidade. na tragédia grega.. Aspas e respeito. vicariamente. A projeção do enunciatário na história contada é produto de um tipo de ação que vai expondo determinados estados afetivos. sem o qual não se poder falar em empatia: “Como o personagem se parece a nós mesmos. como indica Aristóteles. Este sistema é amplamente utilizado até o dia de hoje. 23/12/2001. 83 . na qual apareçam certas paixões. se tornam ainda mais importantes em textos produzidos em momentos ou locais de tensão e crise. se estabelece uma relação entre o espectador e o personagem (especialmente o protagonista ou herói trágico). Sem agir. pág. A 6. toda empatia. é possível buscar semelhanças entre formas de arte. expressivas.

“Para fins didáticos. ao seu ethos”. “que pode ser constituída. sem viver. como efeito perseguido pela tragédia grega.. Vale lembrar que Boal define ethos de uma maneira um pouco distinta da tratada até agora no trabalho. que exploraram sentimentos patrióticos e de vingança. 59 84 . sentimos que estamos vivendo. internautas. de tragédias naturais. o desejo sexual. Ao analisar a catarse. ethos e dianóia. podemos dizer que o ethos é a própria ação e a dianóia a justificação dessa ação. Se na tragédia grega não havia happy end. por exemplo. o discurso. a empatia é uma fusão afetiva sujeito-enunciatário e sujeito-personagem. Para ele. em termos semióticos. como a retomada do equilíbrio. mobilizando pelo temor . aparentemente a emoção não seria e nem poderia ser intrínseca ao noticiário – que deve mostrar somente os “fatos” ou análises “racionais” desses mesmos fatos. porque ora tentam confundir-se com as narrativas da própria vida. Juntos.) Podemos igualmente definir o ethos como o conjunto de faculdades. liga-se ao ethos em relação à ação do personagem e também em relação à dianóia. de atração por um mesmo objeto e as dificuldades colocadas por um mesmo anti-sujeito. é o da catarse. Nesse último caso.. o pensamento que determina o ato” (ibidem: 38). (... o personagem apresenta dois aspectos.. ou seja. As narrativas jornalísticas se impõem. mas merece citação. em seu maior grau. vivida por meio do personagem. na obra citada. Um estudo da empatia e da catarse seria muito útil. (. da continuidade. por sua vez. paixões e hábitos” (ibidem: 36 e 37). ou seja. de piedade e terror.o medo da violência e a impotência diante da ação dos governos – ora porque fazem aflorar sentimentos que irmanam leitores. mas que pode igualmente incluir outras emoções.. algo imerecido acontece a um personagem que se parece a nós mesmos. “A empatia. na vida real a catarse não deixa de se constituir. mesmo que ilusória.) A empatia opera fundamentalmente em relação ao que o personagem faz. como diz Aristóteles. geralmente. ou uma forma de sincretismo entre actantes de dois níveis distintos – narrativo/discursivo e enunciativo de um mesmo texto que se associam por partilhar. Amamos e odiamos quando odeia e ama o personagem” (idem: 37). Piedade e terror definem grande parte das paixões disfóricas mobilizadas diariamente pelos jornais na busca de projeção empática do enunciatário nos dramas dos personagens das notícias. constituem a ação desenvolvida pelo personagem.estamos agindo.59 Diante da coerção jornalística de produção de textos objetivos. do ponto de vista afetivo. Boal. telespectadores. como (. O efeito de Outro ponto importante. há uma mobilização pela piedade. de injustiças de todos os tipos. ouvintes em relação aos dramas de famílias vítimas da guerra e do terrorismo.) o amor. para explicar o papel dos meios de comunicação dos Estados Unidos durante e após os atentados de 11 de setembro. que não vamos desenvolver. à sua ação. a ternura. afirma que os espectadores se ligam a seus heróis basicamente através da piedade e do terror porque. basicamente. da fome. como sugere Aristóteles. Do ponto de vista semiótico. O teatrólogo explica a empatia como uma relação emocional entre o personagem e o espectador.

que os fantasmas. um reduto exacerbado do racionalismo. bem real: pensa-se agora facilmente que pelo fato de as lágrimas serem verdadeiras.acessado em outubro de 2004. No texto da reportagem não se dá.pdf . sem ilusões. Marcondes Filho completa que “não há ação ou envolvimento possível do receptor das notícias se estas não forem associadas à sua realidade específica. os relatos das notícias são redutos da racionalidade e da lógica. sem a vinculação ao contexto de vida. Mas. o triunfo da objetividade.br/fac/posgraduacao/prnarrativa. à experiência imediata. Em projeto de pesquisa . ao ignorar a importância da questão. Como lembra Costa. Outro ponto importante sobre a questão é o uso ideológico da “humanização”. de forma expressiva. ao se projetar no texto. Tentamos mostrar. com dados estatísticos.“Análise da narrativa jornalística: a construção da identidade nacional nas notícias sobre a inserção do Brasil no mundo globalizado . 1999: 63 apup Marcondes Filho. sob comando do professor Luiz Gonzaga Motta. como um complexo oppositorum. no entanto. não se choca com as possibilidades de manipulação afetiva. 2000: 98). ao se engajar empaticamente com a notícia. Cremos que é justamente na linguagem jornalística. Um outro ponto de vista sobre a questão dos afetos e da objetividade jornalística era estudado em 2004 na Universidade de Brasília.” Disponível no endereço: www. Um enunciatário. 1989: 18). estes relatos não conseguem desvencilhar-se de figuras de linguagem que sugerem símbolos afetivos para a criação de imaginários culturais. “uma reportagem ilustrada sobre o assassinato de uma criança é suscetível de levantar a opinião pública pequeno-burguesa num momento de condenação ao ato brutal. porém. Na contemporaneidade o jornalismo é o lugar por excelência de realização da ambigüidade e da complexidade da experiência do ser humano. a coincidência oppositorum do jornalismo. mas um estudo que demonstre. estaria vivendo relações afetivas como uma atividade além do texto – e parece ser esse o entendimento de diversos pesquisadores. que no Nordeste do Brasil morrem anualmente dezenas de milhares de crianças em conseqüência da subnutrição. a presença do mythos converte subversivamente o discurso racional em seu contrário. seria incapaz de suscitar maiores comoções” (Costa. pessoal. Haveria uma razão para separar os procedimentos. de qualquer forma. que a empatia é manejada pelo texto e estruturalmente determinável. nem se dará nunca. desejos e ilusões do ser humano e das sociedades vêm habitar. Ali onde a intenção é expressar com rigor a realidade tal como ela é.objetividade. como expressão dos dramas e tragédias humanas (ethos e pathos). nem tampouco a linguagem da notícia assumirá jamais a forma de um relato simbólico “puro”: nela se realiza continuamente. sem fantasias nem invenções. não há politização possível” (idem: 19). 60 85 .ele expõe: “A princípio.unb. o acontecimento na sua origem também o é (Ramonet. Blivar. apup Marcondes Filho.60 Vale dizer que a empatia tem um importante papel no sucesso persuasivo de um texto: “A verdade está na realidade do corpo virtual que eu vejo morrer na tela ou na materialidade das lágrimas que esta visão suscita em mim? A ambigüidade é.

Individualiza-se. não fazem parte do escopo deste trabalho.. se opôs o estilo sóbrio da Folha e do Estado em comparação ao estilo que tem “uma voz que grita” (ibidem: 129) do Notícias Populares. (. de matéria capaz de emocionar ou escandalizar. (. sintaticamente... a Folha de São Paulo estampou uma foto do “New York Times” nada sóbria para ilustrar um momento da guerra do Iraque. safando-se do efeito de intimidade. Nesse último caso. Exploração do que é sensacional (3). o jornal apresenta uma notícia que gera um sentimento de proximidade no enunciatário com uma situação ou com alguém que ele não desejava manter contato. se comparado àquele que se apóia num enunciador. por meio do narrador explícito. cujo trecho mais chocante é a cabeça esfacelada Há um tipo de público que assiste a determinados programas ditos telejornalísticos porque são sensacionalistas. No estudo do ethos desses três jornais.)” (idem: 124). Em outras palavras.) o ator da enunciação referencializa-se como o menos sutil. O sensacionalismo pode aparecer como uma quebra de uma cláusula do contrato enunciador-enunciatário em um momento muito específico. 61 86 .61 Na quarta-feira.) que se constitui por oposição ao ator estouvado. ou mais íntimo e cúmplice dos três jornais. o menos austero de todos (. 2. encontra um “ator sutil. Divulgação e exploração. no trabalho sobre o estilo nos jornais (2003).) O ator mais sutil e “fino” figurativiza-se apoiado numa enunciação que. ou no efeito de distância da enunciação em relação ao enunciado. de gestos calculados. Nesse sentido. da imprensa dita sensacionalista. atitudes chocantes. Neste trabalho. esse ator. o sensacionalismo é uma estratégia de atração. assim. compara a Folha de São Paulo. (. enquanto permanece cravado nas distâncias.. não instala as pessoas eu/tu no enunciado das primeiras páginas. a dizer tu na manchete principal de primeira página.. 10 de novembro de 2004. com o mesmo fim. A foto. Norma Discini.. na literatura.A proximidade imposta: o sensacionalismo O Dicionário Aurélio define “sensacionalismo” com três entradas: 1. 3.. hábitos exóticos. etc. de gestos atabalhoados. em tom espalhafatoso. etc. O Estado de São Paulo e o extinto Notícias Populares e faz uma análise da imprensa dita séria em relação à imprensa dita sensacionalista... que simula estar presente no enunciado. entretanto. Uso de escândalos. na arte. Nos primeiros dois jornais. Os telejornais chamados de populares. Há grande destaque visual. apresentamos uma visão que julgamos complementar aos estudos de Discini. não uma quebra de contrato.

de um “suposto insurgente”. diariamente. vejo 87 . na coluna do domingo. Ele levou a questão ao editor de fotografia. por sua vez. os leitores já decodificaram e não mais se chocam. ocupa três das seis colunas. muitas imagens clichês da guerra. Marcelo Beraba. Essa foto. Em alguns momentos. Chegam até nós. motivou reclamações ao jornal e comentário do ombudsman da Folha. ou quase um quarto de página. Toni Pires. Essas. que respondeu: “Realmente a foto é chocante e não é sempre que publicamos esse tipo de imagem. 14 de novembro: “Leitores que escreveram ou telefonaram chocados consideraram que a Folha foi ‘sensacionalista’ ao publicar a foto”.

em determinados momentos. a foto que choca não deixa de ser um discurso forte contra a própria guerra.. erra menos pelo excesso do que erraria pela omissão”. Há uma linha divisória marcada por uma visão de mundo (valores familiares. As poucas imagens diferentes que recebemos nos mostram um cenário de horror. mas um jogo entre efeitos de proximidade e afastamento da enunciação. portanto. No caso de um mesmo jornal. Ao utilizar esse recurso. religiosos). o que compromete a estratégia de “objetividade”. que preza um determinado “equilíbrio”. os limites são mais regulados. discute a questão e concorda com o editor: “O jornal poderia ter escolhido uma foto menos explícita? Poderia ter dado sem tanto destaque? Poderia. políticos. aparece ao leitor “opinando” sobre o conflito. ao publicar.). enfrentar o desagrado e o incômodo (. Do ponto de vista semiótico. Mas com o compromisso de levar até o leitor um pouco mais do que o simples comentário ilustrativo.” Marcelo Beraba. o que força o leitor a se aproximar da foto. O que é excessivo para uns pode ser perfeitamente aceitável para outros. Não com o objetivo simplista de uma certa estética do horror. 88 .que o público vivencia.. mas vejo a importância de. como mostra Norma Discini. Mas. disfórica . São fotografias que devem ser lidas e entendidas como a memória visual de nossa época. no entanto. avalio. é nosso papel mostrar algo mais. O caso da Folha é exemplar por vários aspectos. porém. No caso. Os limites são distintos de publicação para publicação. A “realidade da guerra” aparece na forma de uma figuratividade icônica. O sensacionalismo aparece então como a quebra de uma cláusula do contrato sobre a dose de afetividade – notadamente negativa. Os últimos acontecimentos no Iraque são a demonstração de atos bárbaros praticados por ambos os lados envolvidos. por sua vez. no entanto. com ampla valorização espacial. os comentários servem para observar que o sensacionalismo pode ser motivado e gerar um tipo de conflito calculado entre enunciador e enunciatário. De um ponto de vista mais generalizante. que não há um único tom na maneira de enunciar. a Folha e o Estado são jornais que têm estratégias de enunciação em que esses “choques” não são comuns. por mais inquietante e doloroso que seja para o leitor. O jornal.a necessidade de mostrar os fatos ‘mais de dentro’. inclusive corporalmente. inicialmente. Mostra. Não acho que devamos sair publicando esse tipo de imagem todos os dias. Outro ponto notável é que os jornalistas acreditam que a construção de um “real” que consideram mais fiel aos horrores da guerra deve sobrepor-se em alguns momentos às cláusulas do contrato estipulado entre enunciador e enunciatário. Acredito que. o enunciador e suas escolhas se apresentam muito fortemente.

Mostra que o destinador é confiável.cumpre sua parte no contrato. agradável. “Fidelizar” é uma palavra muito usada no marketing. Ele encontra o que procura quando resolve ler determinado jornal. de longo prazo. não se 89 . o jornal – como destinador . É possível notar que a estratégia de fidelização se apóia mais em uma dimensão do inteligível. a edição não é pensada apenas para manter um sujeito bem informado. A convivência vai dissipando receios. bonita. questiona a competência do destinador e se o relacionamento é satisfatório. Mostra a existência de procedimentos para cativar consumidores com o objetivo de que mantenham uma relação contínua com um produto ou empresa. e por meio de uma solução muito especial: se consumido continuamente. tem o poder de transformar a obrigação cotidiana de informação em mais uma fonte contínua de prazer para o sujeito. Como decorrência. a cada edição. Uma edição específica precisa gerar consumo não só para as próprias notícias. Precisa ser também chamativa. com repetidas ações de consumo. a cada edição. prometesse ser uma resposta definitiva a essa busca de saberes sobre o mundo. ouvir a rádio habitual. Como discutimos antes. No entanto. a estratégia de fidelização resulta do contato com a edição inteira. É como se o jornal. Essa relação satisfatória gera. Deve também fazer-crer na necessidade ou conveniência de o enunciatário repetir a ação com as outras edições. como o tempo. ver um certo programa de TV. o que recomeça o ciclo. ou consultar o site com notícias de sua preferência. Qualquer veículo de comunicação almeja obter um público fiel. vibrante. O destinatário realiza a performance de consumo e é recompensado. possibilitando prazeres e um consumo fácil e eficiente.A estratégia de fidelização É momento de analisar a última estratégia do gerenciamento do nível de atenção: a de fidelização. realiza uma eficaz triagem e organização da realidade na qual o enunciatário se insere e se apresenta de maneira clara. Há um destinatário que. a persuasão dos jornais deve ser vista de maneira mais complexa. Semioticamente falando. que tem “credibilidade”. que garanta uma atenção incessante. O jornal deve convencer de que é “completo”. A satisfação deve motivar o desejo de tomar contato com a edição seguinte. o sentido de familiaridade que resulta na paixão da confiança. eficiente. Se as estratégias de arrebatamento e sustentação vinculam-se ao poder das unidades noticiosas.

à ordem das coisas 90 . para ser bem-sucedida. Nesse sentido. Quando alguém diz que gosta de determinado jornal. A fidelização só tem razão de ser a partir do sucesso das estratégias já citadas de arrebatamento e sustentação. Há outros aspectos para analisar. Algumas considerações de Landowski sobre jornais franceses podem ser perfeitamente generalizadas para qualquer mídia e expõem melhor a questão. qualquer paradoxo. A questão da marca. por exemplo. mais afetivas. Apontamos que o objetivo de qualquer veículo de comunicação é obter um público fiel. sem modificação. implica identificação ideológica do público com o jornal e também uma satisfação contínua que gera um hábito. contudo. depois. Só que essa novidade deve encaixar-se em uma edição que pouco se altera no dia-a-dia.deve esquecer das outras dimensões. baseado na produção e apresentação incessante de novidade. tornar a situar o sensacional no fio de uma História que lhe dá sentido e o traz de volta à norma. e dos sentidos a ela associados. explorada anteriormente. do singular. aparece com força. o ethos de um produto jornalístico deve sempre ser identificado pelo público como competente para realizar sua função. O leitor de O Estado de São Paulo. como mais “jovens”. dia após dia. do a-normal para. com um produto como o jornal. ver ou ouvir um jornal pressupõe tomar contato com “as novas” do mundo. por exemplo. geralmente quer comunicar que se reconhece no padrão de consumidor construído pelo seu veículo de comunicação predileto e partilha do tipo de recorte da “realidade” manifestado. Identificação é também palavra-chave no vínculo de longo prazo entre jornais e público-alvo. Não há. das quais é totalmente dependente. vai consumir o jornal para que ele próprio seja visto como alguém que partilha dos mesmos valores do seu veículo de comunicação preferido. podemos observar uma outra manipulação destinador/destinatário. A atenção incessante. Eleitores de O Estado de São Paulo gostam de se ver como mais “maduros”. ele também se sente parte de um grupo social que ele admira. Ler. Em função disso. e parece estranha. à questão: “Que há de novo hoje no mundo?” E completa: “A narrativa jornalística valoriza por princípio a irrupção do inesperado. apresentar e discutir as novidades do mundo. A fidelização. “críticos” e “modernos”. A idéia de hábito remete a uma espécie de comportamento constante. Afirma o autor que os jornais respondem. dessa vez por sedução. Já os da Folha de São Paulo. se reverte em sustentação financeira das empresas. repetitivo. de longo prazo. ao primeiro contato. “sérios”. A competência que justifica a existência de sua relação com o público é a de noticiar. do ethos. O hábito aparece como o aspecto mais derradeiro da estratégia de fidelização. Ao consumir o “Estadão”.

ao “cotidiano”. ordenamento e apresentação dos acontecimentos do mundo. A rotina – como um fenômeno de continuidade . Pouca novidade pode desinteressá-lo. “ao contrário. um gosto de fruição” (2003:94). Fechine (2003). parte integrante do mundo e da humanidade.vai produzindo a dessemantização. que é um trabalho progressivo de ajustamento entre sujeito e objeto.que não iremos explorar. com suas edições contínuas. que faz com que a novidade nunca se esgote. É produtivo pensar o cotidiano como categoria complexa. como que a antítese” (1989: 120).. Podemos entender ainda o hábito como Vale relembrar que. ressemantizando assim a própria vida. ou o afrouxamento da relação de um sujeito com um objeto qualquer. à falta de ambição material e espiritual. portanto.. e o hábito. Se pudermos afirmar que o ser humano precisa libertar-se da rotina para se sentir mais “vivo”. Devemos lembrar que o jornal busca. cujos momentos de controle permitidos aos sujeitos se tornam um hábito. no entanto. a repetição é voluntária e fruto. que ressemantiza relações contínuas entre sujeito e objeto e. de um querer-querer62 de um sujeito liberado de imposições exteriores ou anteriores. formada pela “rotina” e por suas “interrupções”.” No hábito. entre tantos outros. mostrar-se como enunciador que maneja o que pode ser pensado como uma “justa medida” entre o novo e o velho na conquista do enunciatário. obviamente – não existe um sujeito tão livre assim. antes de qualquer coisa. sobretudo. o imperativo da repetição é. (. disfórica. portanto. “Nesta última situação (a rotina).). a priori.. sociológico e biológico . o jornal. 62 91 . ligados à acomodação. O hábito é uma possibilidade ofertada ao sujeito de criar ou manejar as próprias descontinuidades. de um ponto de vista psicanalítico. na tentativa de satisfazer essa necessidade.). que..) Nesse caso. o próprio prazer do sujeito (. entendida como dessemantizadora das ações do sujeito. de retomar o tempo. fazer o sujeito viver emoções e paixões com seu recorte. a repetição é resultado de um dever-querer no qual o sujeito cumpre um programa determinado por destinador social. promete continuamente chacoalhar o cotidiano. Ela pergunta o que faz uma mesma repetição ser percebida ora disforicamente ora euforicamente. faz uma diferenciação entre rotina. com base em trabalhos de Landowski (1998). O discurso ocidental marca a rotina com valores negativos. a perda de sentido. tem características eufóricas.. O cotidiano “pulsa” ao sabor de quebras e retomadas. por meio do que Landowiski (1998: 161-162) chama de aprendizagem de busca de um valor estético. cultural. lhe é. Novidade demais (tanto de expressão como de conteúdo) pode deixar o enunciatário sem referências.previsíveis – ou seja. causar estranhamento.. biológico quaisquer (. disfóricos.

através da projeção empática. viver um hábito. Ambos são do mesmo dia. O jornal. comparamos as primeiras páginas de dois jornais de público-alvo semelhante. Em outras palavras. os conflitos de quem foi retratado nas reportagens.o gerenciamento possível dos sentidos pelo sujeito.pelo reforço na própria identidade do sujeito – e pela possibilidade cotidiana de lhe dar meios de transcender a sua história vivendo. do restaurante aos domingos. se impõe pelas novidades .as unidades noticiosas . 29 de janeiro de 2003. o Diário de São Paulo. e ilustrar algumas das reflexões sobre o gerenciamento do nível de atenção. quarta-feira. e trazem o mesmo assunto na manchete: mortes como conseqüência de fortes chuvas que desabaram na região metropolitana. Vejamos: 92 . entretanto. na maior parte habitantes de classe média da Grande São Paulo: o Jornal da Tarde e seu concorrente. seu cotidiano. ao ter contato com um jornal. ao contrário de um café. A estratégia de fidelização maneja essa possibilidade de o sujeito. Exemplo: Jornal da Tarde versus Diário de São Paulo Para concluir esse item. um sujeito que organiza o seu dia para ressemantizar. uma forma de fruição que ele pode administrar para criar essas ressemantizações cotidianas. na repetição de atos que lhe dão prazer.

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Do ponto de vista da primeira estratégia de atração, a sensorial, deve-se notar que o título principal e a foto dos dois jornais tomam grande parte da primeira página, o que não acontece todo dia. A estratégia de arrebatamento é clara: há uma tentativa de atrair o olhar em função do espaço ocupado pelos títulos e pela fotos. As duas manchetes utilizam uma fotografia muito semelhante, de grande contraste cromático em relação ao branco da página. Há praticamente o mesmo ângulo: um ponto de vista de cima para baixo, de alguém que vê tudo de um local alto e a certa distância. É possível perceber, inclusive, as mesmas personagens, como o rapaz de camisa verdeamarela. A foto do JT apresenta somente um corte de cena um pouco mais “fechado”. O que as duas manchetes têm de mais notável, contudo, são as diferentes estratégias dos editores para a apresentação de cada notícia, cujo fato gerador é o mesmo: as vítimas da chuva em Taboão da Serra. O JT, ao contrário do concorrente, vai buscar impacto, o que quer dizer, maior carga afetiva na cobertura. Mostra a foto de um bebê de um ano e quatro meses, Juninho, que aparece morto nos braços de um homem que ajudava na escavação. Pode-se observar a técnica da apresentação do clímax de uma narrativa na manchete. O leitor, que teve o olhar arrebatado pelo título e pela foto, obtém os primeiros dados da história e deve ficar curioso para saber como se chegou àquela situação. É a estratégia de sustentação em funcionamento. Lembramos a necessidade de os textos apresentarem “gente de carne e osso”, ou seja, discursos com grande carga figurativa icônica para provocar a empatia, a identificação do leitor com a história contada. Nos casos analisados, o exemplo mais claro é o da própria fotografia. que permite reconhecer os voluntários, a terra, as vítimas. Mas também percebemos que títulos e legendas trabalham com elementos que, por meio de uma ancoragem, atam o discurso a pessoas, espaços e datas que o leitor reconhece como “reais” ou “existentes”, como Juninho, seu pai Márcio, os mortos pela chuva em Taboão da Serra. Mas retornemos à discussão sobre a manipulação afetiva. O JT utilizou a foto de um bebê morto. Há uma aproximação entre os corpos do leitor e da vítima que o jornal torna possível notadamente por meio da fotografia, por sua vez, representação de uma ação frustrada de salvamento. Uma observação mais cuidadosa mostra que, desde o título, constrói-se um centro de máxima tensão. O jornal enuncia “os mortos da chuva” para levar o olhar para o bebê. Ou, no caso de um olhar inicial na foto, para ancorá-la e evitar qualquer outra leitura. O leitor pode armar-se de argumentos contra uma vítima que invadiu um terreno público em uma encosta perigosa. Ela se arriscou e morreu. Tinha alguma escolha, por mínima que fosse, e pagou por sua irresponsabilidade. O mesmo leitor,

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porém, não pode deixar de se envolver por inteiro no drama da morte de um bebê de pouco mais de um ano. O jornal fez uma escolha cuidadosa para obter a máxima carga de afetividade. Não é a apresentação de qualquer vítima, ou de mais uma vítima das chuvas, mas de uma criança, a mais frágil e inocente de todas. Ela não pode ser julgada de outra forma. Essa estratégia é comum nos discursos que denunciam absurdos de guerra, pois impedem racionalizações frias e distantes e forçam o destinatário a uma atividade de reflexão sobre o contexto que gerou a tragédia.63 A manchete do JT trabalha com um choque emocional de uma voltagem muito maior do que a do Diário de São Paulo. O concorrente do Jornal da Tarde, porém, também estampa a foto de uma vítima, só que enrolada em um cobertor. É preciso ressaltar a diferença de limites nos usos de materiais jornalísticos muito semelhantes. Há moderação no Diário de São Paulo e pleno uso de estratégias afetivas no Jornal da Tarde, que se empenha em criar impacto por meio da apresentação do cadáver de uma criança. Cada jornal satisfaz curiosidades e necessidades (dá saberes) e também coloca o sujeito diante de possibilidades de viver experiências afetivas – ou, como afirmam Zilberberg e Fontanille, valores para serem sentidos - que contrabalançam o aspecto trágico, disfórico da notícia. Relembremos que o leitor não é um sofredor compulsivo, mas alguém que, mesmo diante de uma narrativa de morte e fracasso, procura conhecimento e afetividade. Os dois diários buscam a empatia do público, principalmente por meio da paixão da piedade. Do ponto de vista passional, o leitor do JT é conduzido para viver mais fortemente a compaixão, segundo o Aurélio, o pesar que em nós desperta a infelicidade, a dor, o mal de outrem. A compaixão é um dos afetos mais mobilizados pelos jornais e um importante componente da projeção empática, como discutida anteriormente por Augusto Boal. Trata-se ainda de uma paixão conformista, ou seja, ao apenas lamentar a morte (a maior das disjunções sujeito/objeto), o leitor aceita a narrativa como um fato trágico, porém em grande parte inevitável. As duas manchetes colocam como vilão a chuva, ou seja, a própria natureza. A piedade, como paixão, só pode gerar mais piedade ou desaparecer. O uso da afetividade como estratégia maior da manchete do JT causa alguns estilhaços na possível busca de certa objetividade jornalística. A escolha da foto de um bebê morto para a primeira página torna muito mais perceptível, para o leitor, a
Durante a guerra entre EUA e Iraque pôde-se observar a mesma estratégia. A mídia norteamericana, pró-guerra, evitava ao máximo mostrar e fazer comentários sobre as vítimas. Já o discurso das emissoras árabes, contra a guerra, se concentrava no oposto: exibia-se a brutalidade contra a população civil, principalmente imagens de mulheres e crianças mortas, feridas ou mutiladas, gente que tinha nome, idade, endereço, história.
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presença de alguém que está fazendo a mediação entre ele e o mundo. Revela, portanto, um ponto de vista sobre uma ação e impede qualquer neutralidade do discurso. Maior a percepção de um desejo de emocionar, mais clara fica a presença do jornal – e das escolhas feitas – para o leitor. Na época, o JT estava construindo uma identidade mais presente, mais próxima e opinativa diante de seus leitores. Investir na maior carga de afetividade foi uma estratégia de diferenciação em relação ao seu concorrente, o Diário de São Paulo. Estamos, portanto, diante de uma tática de longo prazo do jornal, dentro da estratégia de fidelização. O JT procurava convencer seus prováveis leitores de que valia a pena ler o jornal todos os dias para ter acesso a notícias com um enfoque mais “humano”, “próximo”, “afetivo”.

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ESTRATÉGIAS DE ORGANIZAÇÃO TEXTUAL: A ATENÇÃO MANIPULADA NO TEMPO E NO ESPAÇO
No item anterior mostramos como funciona o gerenciamento do nível de atenção, separando alguns efeitos que se referem ao plano de expressão (como as estratégias de arrebatamento) de outros mais relacionados ao plano de conteúdo (como de sustentação e de fidelização), todos ligados à instauração de curiosidades, desejos, afetos. Agora, pretendemos ordenar melhor essas reflexões. O jornal manipula o público para que preste mais atenção numa notícia em relação à outra, atente para certos detalhes e não dê a mesma consideração a outros. Nossa investigação continua com o estudo das características da organização textual dos jornais, dos efeitos de edição (aqui como ato de editar ou relacionar expressão e conteúdo), da aspectualidade, da tensividade e do semi-simbolismo. Na segunda parte do trabalho, há uma análise mais detalhada da organização textual de cada um dos quatro grandes grupos de jornais. Devemos reiterar que continuamos a fazer uma análise da enunciação como narrativa, ou seja, mostrando como um enunciador concebe um jornal. Nosso interesse agora é mostrar as possibilidades de textualização, como o enunciador maneja o contato do enunciatário com o texto para que ele passe do foco para a apreensão, do sensível ao inteligível, do plano de expressão para o plano de conteúdo, da tensão para um certo relaxamento.

Dois modos de textualização: espacial ou temporal

Um texto manifesta-se quando um plano de conteúdo é relacionado a um plano de expressão, a uma manifestação material, grosso modo, um “suporte”. Temos, portanto, a textualização. O estudo desse ato de organização textual, desse “encaixe” entre o conteúdo e o modo de expressá-lo, permite melhor compreensão dos procedimentos já observados. Ao mesmo tempo, expõe outras estratégias importantes. Sabemos que, em um jornal, algumas unidades noticiosas são consideradas de maior interesse do que outras sem que os jornalistas tenham de fazer uma comparação explícita. Cada jornal aperfeiçoou mecanismos que “comunicam” o que é mais ou menos importante, o que merece mais ou menos atenção, fazendo uma verdadeira regência de uma enorme massa de estímulos – visuais, verbais, sonoros, conforme o meio de comunicação - no processo de organização textual. O enunciador

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maneja a curiosidade, guia a percepção do enunciatário no sentido do que deve ou não ser valorizado, direciona as expectativas, mostra pontos de maior ou menor interesse nos níveis sensível, inteligível e passional. Como temos contato com os jornais desde a infância, principalmente com a TV e o rádio, assimilamos essas regras de textualização. Todo objeto dos quatro grupos de meios de comunicação estudados pressupõe a edição (na acepção de ato ou efeito de editar), ou seja, a seleção, organização e montagem de todos os elementos que devem formar um programa, uma revista, as páginas de um site. A textualização, como estratégia global de enunciação, pode ser considerada como o “ato de editar” dos jornalistas: • No rádio e na TV, a textualização, ou a ação de editar, estabelece

principalmente intervalos de tempo e posições no fluxo temporal para a construção de sentidos. O manejo acontece em função de recursos de montagem. • Na revistas, diários e sites, a organização textual ocorre por meio da

administração do espaço, manejada pela diagramação nos impressos e pelo webdesign nas páginas da Internet.

Os recursos de montagem (rádio e TV), diagramação (diários e revistas) e webdesign (sites/portais) serão apresentados em detalhes e estudados depois, nas análises específicas. Interessa agora observar que o fluxo do tempo, no rádio e na TV, e a trama do espaço, nos jornais impressos, revistas e sites, criam o sustentáculo para as regras de textualização desses objetos e controlam a disposição das unidades noticiosas. Em função dessas coerções, os jornais estudados neste trabalho dividemse em dois grandes grupos, os de hierarquia de base temporal e os de hierarquia de base espacial. Queremos chamar a atenção para um aspecto importantíssimo: existem relações de espaço no rádio e na TV e de tempo nos jornais, revistas e sites. Estamos ressaltando o que consideramos mais relevante na organização textual desses meios de comunicação. O tempo, ou o espaço, permite que a textualização produza uma hierarquização de sistemas significantes64 diferentes. O resultado é o jornal como um único texto, um único “todo de sentido”, cuja missão maior é gerar laços com o público
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Preferimos falar em “sistema significante” ou “conjunto significante” no lugar de “linguagem”. Greimas e Courtés, no Dicionário de Semiótica I, afirmam que a busca por uma definição de linguagem “reflete uma atitude teórica que ordena a seu modo o conjunto dos ‘fatos semióticos’” (1983:259). Em outras palavras, vão ser os métodos e procedimentos utilizados por um analista que vão mostrar o que ele quer dizer por “linguagem”. Os dois autores afirmam que “o menos comprometedor é talvez substituir o termo linguagem pela expressão conjunto significante”, sugestão que aplicamos neste trabalho em alguns momentos.

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e consumo. Por meio da textualização, das coerções, e também vantagens, proporcionadas pela manifestação temporal ou espacial na construção dos jornais, revela-se uma enunciação que administra outras enunciações, um texto que engloba outros textos. Em um jornal impresso, por exemplo, podemos observar conjuntos significantes, como o verbal e os quadrinhos, as fotografias, as charges. O verbal, por sua vez, é manifestado visualmente por meio de tipos gráficos, em matérias, títulos, legendas. O traço de expressão comum no nível da manifestação textual de todos esses elementos verbais e não-verbais é a espacialidade, a adequação a um espaço determinado.65 Reger e hierarquizar essas diferentes semióticas no jornal impresso é, portanto, administrar o espaço que podem ocupar no papel. O mesmo acontece no rádio e na TV, só que envolvendo o tempo. A capacidade de o público entender rapidamente os sentidos da organização do texto de cada jornal é resultado de uma característica importante dessa forma de comunicação. Diários, revistas semanais, programas de rádio e de TV, sites têm uma articulação de expressão e conteúdo que apresenta certa rigidez. Isso acontece por que a produção jornalística é uma verdadeira linha de montagem. Cada jornal é obrigado a testar e a eleger formatos para dar conta de duas necessidades principais: é preciso não só motivar o consumo, como também facilitar o “fechamento” das edições. A organização textual rígida permite ajustar com rapidez os processos criativos – realizados pela redação – às imposições da operação industrial jornalística, de produção e reprodução dos noticiários. Dois procedimentos de organização textual serão estudados a seguir e relacionados às estratégias de gerenciamento do nível de atenção:

o O primeiro diz respeito à maneira de valorizar ou desvalorizar uma notícia em relação à outra a partir do manejo do tempo, no rádio e na TV, e do espaço, nos jornais, revistas e sites. Uma notícia que ocupa metade da página de um diário, por exemplo, é considerada mais importante, merece mais atenção do que outra que toma um quarto do mesmo espaço do papel. o O segundo procedimento refere-se ao estabelecimento de um ritmo textual que dá a sensação ao destinatário de entrar em contato com um jornal que apresenta as notícias de maneira vibrante, eficiente, rápida, fácil de entender.

Isso acontece porque o espaço é um traço geral de substância comum a todos esses sistemas de significação, uma coerção a que suas manifestações precisam se adequar para se tornarem forma de expressão. O mesmo ocorre com o tempo no rádio e na TV.

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a Internet tende a incorporar cada vez mais relações de “tempo”. Nas TVs e rádios. tem-se uma relação entre espaço de jornais impressos que. o valor que se pretende dar a uma unidade noticiosa na TV tem relação direta ao tempo a ela concedido.Valorização ou desvalorização da notícia: o semi-simbolismo “cristalizado” Cada texto relaciona suas unidades noticiosas de modo a fazer com que o enunciatário possa entender seu valor. porém. infográficos. No radiojornalismo estudado. como os publicitários. timidamente. está fazendo uma passagem do plano de expressão para o plano de conteúdo e estabelecendo relações entre categorias dos dois planos. 1995: 97). Os jornalistas são apenas aconselhados a ter “soluções criativas” na união entre títulos. Essas operações constituem o que a semiótica chama de 101 . Afirma o Manual de Redação da Folha de São Paulo (2001:35) que. Na fase atual da Internet.” O Manual da Folha. a edição está sujeita ao olhar crítico do leitor. revistas e sites a importância de uma notícia pode ser medida principalmente em função do tamanho e da posição ocupada na página e em determinadas páginas. ainda travada pelas limitações das bandas de transmissão e pelas linguagens de programação utilizadas nos navegadores. dá poucas pistas do que é essa organização. sem perder a característica de ser um texto que hierarquiza seus conjuntos significantes por meio da administração do espaço. Nos jornais. Essa semiótica do espaço jornalístico está ao alcance dos consumidores da cultura visual e não deve ser julgada um privilégio de jornalistas e profissionais que lidam com elementos imagéticos. Ou dito de um ponto de vista semiótico. nesse verbete “acabamento”. “do mesmo modo como ocorre com as reportagens. Quando alguém percebe uma notícia que cobre um grande espaço de uma folha de jornal e entende que se trata de algo importante. que desenvolveu um mecanismo de interpretação da forma como as notícias estão organizadas no espaço do jornal. sua importância jornalística. o valor da notícia relaciona-se à sua duração no fluxo temporal. já convive com algumas relações de tempo de meios de comunicação como TV e rádio. textos. o tempo também determina o valor de uma reportagem ou comentário (mais tempo concedido – maior a importância). “O tempo da notícia no telejornalismo depende sempre da importância jornalística do assunto” (Squirra. A importância da notícia é uma construção do texto. Por exemplo: maior espaço ocupado na página significa notícia de maior valor. fotos. Com o desenvolvimento tecnológico.

para o leitor. ou determinadas homologações entre categorias de expressão e de conteúdo (caso de uma manchete com grandes letras que. ligadas à posição. a topológica. Os sistemas simbólicos apresentam planos de expressão e de conteúdo em conformidade total. de pureza: cor limpa x cor suja. cria no enunciatário uma falta – um querersaber. revistas e sites. como a cruz cristã. categorias do plano da expressão e categorias do plano de conteúdo se relacionam criando uma espécie de micro-código. as cores do semáforo. Floch e Thürlemann dividem os formantes plásticos em três categorias. Uma notícia que toma grande parte da página. deve lhe dar também maior satisfação. portanto. desconhecemos trabalhos que façam um detalhamento do mesmo nível do plano de expressão. Esses estudos permitem. 66 102 . de orientação: na frente x atrás. Temos o reconhecimento de um dispositivo que organiza espacialmente um texto e seus elementos por meio das relações: de dimensão: grande x pequeno. Relações: reto x curvo. uma categoria topológica. por exemplo. 67 Temos. Categorias: de valor: claro x escuro. é possível conceber dois modelos amplos de organização que expõem semisimbolismos. e com a leitura. a notícia deve provocar a paixão da curiosidade. de posição: alto x baixo.3 – Categoria eidética – Vem de eidos. explicar melhor a categoria que nos interessa no plano de expressão dos jornais impressos. a passagem de um não-saber para um saber. gera sentido de máximo valor e potencial de atenção. de tonalidade: quente x frio . o simulacro da leitura funciona assim: o enunciatário deve ter o olhar manejado em função das diferentes ocupações espaciais das unidades noticiosas.Categoria topológica . Greimas e Floch ensinam que no plano de expressão de semióticas de organização espacial podem ser reconhecidos formantes figurativos e formantes plásticos. Vejamos essas reflexões na forma de um esquema: Jornais. passa a sensação de “notícia muito importante”). formas e cores: 1 . no caso citado. Como temos dois tipos básicos de textualização no jornalismo. de luminosidade: brilhante x opaco. ao ser assimilada pelo enunciatário. 2 – Categoria cromática – Está relacionada às cores. Discursivamente. Nos meios de comunicação de textualização “espacial” pode-se falar em topologia como uma categoria do plano de expressão. ou o verde da bandeira brasileira. “forma”.Topos vem do grego e quer dizer “lugar”.66 A textualização jornalística é a construção de algumas ligações estáveis entre categorias de conteúdo e de expressão.relações semi-simbólicas. Trabalhos de Greimas. Nos impressos. que significa “as nossas matas”. temporal e espacial. Em textos semisimbólicos. a inexistência de conformidade entre os dois planos impõe a distinção e o estudo de expressão e conteúdo separadamente. Nos sistemas semióticos. angular x arredondado. Já no caso dos jornais de TV e rádio. E uma “grande notícia”. revistas e sites – mídias organizadas por meio do espaço Relação entre ocupação espacial e valor da unidade noticiosa Plano de expressão Maior espaço ocupado x menor espaço ocupado67 Plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Foi Hjelmslev quem fez a diferenciação entre sistemas simbólicos e sistemas semióticos.

no estudo específico. Parece um “quase símbolo”. um outro tipo de semi-simbolismo. deve gerar no enunciatário uma satisfação também proporcional ao seu tempo de apresentação. TVs e rádios – mídias organizadas por meio do tempo Relação entre ocupação temporal e valor da unidade noticiosa Plano de expressão Mais tempo ocupado x menor tempo ocupado Plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Existe. Um bom exemplo pode ser encontrado na capa da revista Veja. de 2 de abril de 2004: 103 . maior complexidade dessas relações. esse semi-simbolismo resultante da organização textual tem grande rigidez. a categoria de duração no plano de expressão (que marca uma notícia com tempo maior de emissão em relação à outra) irá se relacionar com o valor e o potencial de atenção no plano de conteúdo. que têm objetos organizados a partir de relações temporais. em função de sua recorrência de edição em edição. no entanto. No caso dos jornais. que serão mostradas e analisadas depois. Temos o que Diana Luz Pessoa de Barros chama de “semi-simbolismo de texto inteiro” (2004). Queremos agora apenas distinguir dois tipos bastante diferentes de semi-simbolismos presentes nos jornais. A utilidade desse semi-simbolismo é fazer com que o destinatário saiba decodificar os sentidos da textualização do jornal com enorme rapidez. maior curiosidade. manejadas pela textualização dos jornais dos principais meios de comunicação. ou um “semi-simbolismo cristalizado”. são “motivadas”. evidentemente. O consumo dessa notícia. tem maior valor em relação à outra que é veiculada em menos tempo. por sua vez. Há. Uma notícia mais duradoura instaura maior falta de saber. Essas relações que acabamos de apresentar. que Barros chama de “localizado”.No caso do telejornalismo e do radiojornalismo.

disfórica (desvalorizada). da morte. É possível fazer relações com categorias do plano de expressão. uma relação entre vida. essas relações ficariam assim: Categoria cromática Monocromatismo em marrom x policromatismo (não manifestado) Plano de expressão Categorias topológicas Frente x atrás Horizontal x vertical Plano de conteúdo Morte x vida Em comparação com a discussão do início deste item. eufórica (valorizada) versus morte. Esta última não aparece manifestada. e horizontal versus vertical (o soldado no chão versus o que caminha). Em um esquema. Se em relação à categoria eidética (das formas) não há pontos de interesse.Há. temos semi-simbolismos completamente diferentes. A foto parece expor apenas gradações de marrom. a categoria topológica é proveitosa: pode-se observar a relação entre frente versus atrás (construção de uma perspectiva a partir da situação de destaque do militar iraquiano sem vida em relação ao soldado norte-americano que aparentemente o matou). No caso de Veja. que identificamos como a cor da guerra. Isso cria a categoria monocromatismo em marrom versus policromia. pudemos notar algumas relações semi- 104 . A mais notável é a cromática. no nível fundamental do plano de conteúdo.

aponta para fenômenos específicos. de ‘linguagem’. de 6 de março de 1991: 105 . a capa. por outro lado. os mitos da vida cotidiana. como já disse Roland Barthes” (ibidem: 11 e 12). Há. Se o semi-simbolismo constrói formas novas de sentir o mundo. Barros também aponta a existência de uma gradação. razões diversas de uso (a repetição. A revista como um todo. criando relações sensoriais novas com os objetos.que estão em uma unidade noticiosa específica. entre esses pólos... o semi-simbolismo localizado. (. Para Barros. que perpassa diferentes textos (. sobretudo). Sempre existe um jogo entre novidade e estereotipia” (idem:11). Se o semi-simbolismo de texto inteiro mostra a existência de regras bastante rígidas de organização textual. nos textos. Transforma-se a novidade em estereotipia e passa também a ser outro o seu papel nos textos: o de apontar os valores da sociedade..simbólicas localizadas – superficialmente analisadas . em um certo momento histórico e em uma dada cultura fazem dele um sistema de símbolos.) os textos transformam relações semi-simbólicas em relações simbólicas e vice-versa. Um exemplo dessa tensão entre novidade e estereotipia. Há outra questão curiosa. no entanto. de um investimento do enunciador em novidades poéticas ou estéticas. em que não há relações novas entre expressão e conteúdo. entre semisimbolismo e simbolismo é essa outra capa da Veja..). ou estereotipado. raros. entre sistemas semi-simbólicos e sistemas simbólicos: “Se há textos. as novas correlações que se estabelecem entre expressão e conteúdo vão desde a novidade poética do semi-simbolismo próprio de cada texto até o simbolismo culturalmente estabelecido. em que a expressão cumpre apenas seu papel de expressar conteúdos. trabalha também com relações de expressão e de conteúdo de texto inteiro. pois nada é completamente novo. “há passagem e graus intermediários entre o semi-simbolismo e o simbolismo. graus. Devemos compreender essas diferenças.

que produz. Pode-se observar como o semi-simbólico se apóia no simbólico principalmente para cumprir um papel essencial no jornalismo: fazer sentido rapidamente. o ritmo. do enunciado. no tempo. Não se trata. é aspectualizar. Diana Luz Pessoa de Barros lembra que a aspectualização é inicialmente entendida como um “ponto de vista sobre a ação” que converte ações narrativas em processos discursivos.do tempo. a sensação de aceleração ou a desaceleração do texto que é importante para obter e manter um enunciatário atento. A categoria base da descrição aspectual é continuidade x descontinuidade que gera. “impactar” sem a necessidade de grandes racionalizações. delimitado x ilimitado. e no caso do espaço. por exemplo. A semioticista afirma que a aspectualização pode ser analisada “no 106 . ao tempo e aos atores (1994/1995: 69). Aspectualização: ritmo textual Manejar o espaço ou o tempo. Por meio da aspectualização. mas de tempo e de espaço que se manifestam no objeto jornalístico por meio da manipulação do plano de expressão.Há praticamente as mesmas relações apontadas na capa anterior (de semisimbolismo localizado e de texto inteiro). contudo – devemos ressaltar . entre outros efeitos. em semiótica. do espaço e dos atores das unidades noticiosas. a acepção de durativo ou pontual. que dizem respeito ao espaço. queremos mostrar um outro ponto de interesse do estudo da organização textual jornalística.

Isso mostra a importância do papel desempenhado pelo manejo aspectual do plano de expressão na produção de um sentido de aceleração do texto. E não é difícil perceber que. à espacialização e à actorialização que são por ela determinadas (idem: 70)”. 107 . Não houve mudança no tempo cronológico. por exemplo.68 Apresentemos agora essas discussões de maneira um pouco mais concreta. domina ou sobredetermina o tempo de apresentação (ou cronológico) de uma unidade noticiosa. pode se inserir o chamado contra-plano. o que dá uma sensação de aceleração. o sentido de tempo de percepção dessa entrevista: o efeito obtido pela inserção do contra-plano é de uma fragmentação do plano de expressão. o espaço e os atores graças à categoria da continuidade versus descontinuidade”. Alguém que está acostumado ao tipo de edição (na acepção de ato) do Jornal Nacional. o das estruturas fundamentais. Nas reportagens de TV. ponto de maior interesse nesta parte do trabalho. no jornalismo de rádio e TV. quando um entrevistado tem uma fala longa. O público vê o entrevistado de frente. como explica Fiorin (1996: 249). depois de lado e de frente novamente. a mesma notícia de três minutos pode ser sentida pelo enunciatário como mais curta ou mais longa em função. via ato de edição. quanto à da expressão” (idem: 71). um grande recurso de montagem do texto. geralmente sente que os programas são mais “lentos”. em função da coerção máxima de manter a atenção do público. Por fim. de que a cena está passando mais rapidamente em relação a uma outra sem o recurso. Esse efeito de aspectualização do plano de expressão resulta no que é mais conhecido como “tempo psicológico”. mas alterou-se. E que a “aspectualização constitui uma dimensão hierarquicamente superior à temporalização. Mesmo jornais e revistas utilizam essa possibilidade de criação de segmentações das reportagens para dar a sensação de um material que pode ser lido com mais rapidez. da fragmentação do plano de expressão. com a aspectualidade. no âmbito do texto. Trata-se de procedimento notável nos impressos e na Internet: a 68 É importante salientar que o “sujeito da enunciação projeta o tempo. Em outras palavras. o espaço e os atores do discurso e instala um observador que aspectualiza o tempo. É nesse sentido ainda que a aspectualidade do plano de expressão. A sensação de lentidão interfere na atenção do enunciatário.nível das pré-condições e nos três patamares em que se organiza o percurso gerativo. o das estruturas narrativas e o das estruturas discursivas” (idem: 70). a aspectualização também “concerne tanto à organização do plano de conteúdo. ao gerar um sentido de maior ou menor aceleração por causa de segmentações ou descontinuidades. o enunciador tem. “uma ênfase na aspectualidade em detrimento da temporalidade”. entre outras razões. ao entrar em contato com jornais do mesmo nível de outras redes.

e se desvincular do objeto “notícia”. no entanto. Nas mídias de hierarquia temporal. Colocar a foto de alguém muito conhecido. Sem tempo para pensar. Ninguém consegue manter-se atento a um texto que só estimula os sentidos. o que o jornal deve evitar. O mesmíssimo texto sem segmentações parece demandar mais tempo de leitura.por exemplo. uma seqüência longa. ou seja. também uma operação ligada à estratégia de sustentação. o enunciatário pode ter seu senso crítico manipulado e ser impedido de “axiologizar” o que sente.simula uma sensação ligada ao tempo. administrar os cortes tem outras conseqüências. O que se procura é uma espécie de justa medida entre as curiosidades e as possibilidades de sensações 108 . ou “boxes”. nesse caso. pode permitir que o enunciatário tenha tempo para atribuir valores ao que está sendo apresentado e armar toda uma complexa rede de causas e conseqüências. que “dura”. a aspectualização é também uma das estratégias de manipulação ideológica. A duratividade ou a pontualidade de um fragmento determina a possibilidade de uma unidade noticiosa ser entendida mais sensorialmente do que racionalmente. porém. utilizados na estratégia de arrebatamento. “caixas”. A maior ou menor aceleração do texto tem razão de ser como parte da estratégia de obter e manter a atenção do enunciatário.construção de um ritmo espacial. remeter as experiências sensíveis a seu código de valores. como o uso de cores de fundo. No limite. Por outro lado. Ao editar. contudo. mantêm relações de união ou de compensação com a estratégia de sustentação. tensividade e o potencial de curiosidade da notícia. vinculando-se aos conteúdos das histórias mostradas nas unidades noticiosas. por meio de descontinuidades do plano de expressão . é comum um mesmo assunto ser dividido em conjuntos menores. Uma reportagem com diversas divisões dá a impressão ao leitor de que pode ser consumida mais rapidamente. os recursos de expressão. um telespectador ou ouvinte também pode se cansar.uma operação sobre o espaço da página . o que o torna menos atrativo. Há. como dizem os jornalistas. como a TV e o rádio. Existe uma relação entre aspectualidade. Por causa disso. não raras vezes só se justifica como meio de “arejar” a página. perder a atenção. impõe uma dimensão sensível. Um ritmo de cortes intenso no jornalismo – aspectualmente falando. mobiliza o sujeito muito mais sensorialmente. pode entediar o enunciatário se for descuidada. como o presidente da república. ou seja. isso sem contar uma série de outros recursos para romper a continuidade. o enunciador pode imprimir um ritmo que administre a própria inteligibilidade do texto pelo enunciatário. uma regência do texto pela pontualidade e não pela duratividade . Nesse sentido. Emerge uma curiosidade ligada à estratégia de arrebatamento. sem cortes. Essa estratégia. Em todos os casos.

Pode ser observada uma enorme quantidade de estímulos. 109 . podem desacelerar. porém. Devemos ressaltar a existência dessa complementaridade entre diferentes procedimentos de organização textual. Se o mais importante jornal da Rede Globo começasse com uma reportagem longa. no entanto. o telespectador iria se cansar por não conseguir acompanhar as histórias. como a que fecha geralmente o programa . ou seja. Se fosse uma música. Nos jornais analisados (com exceção dos da Internet). por exemplo. aqui no sentido de apresentar fragmentos de narrativas curtas. O enunciatário deve ser tomado por uma tal carga disfórica. também investem nessa organização textual vibrante no início para obter e manter os laços com o público-alvo. por exemplo. quase uma fórmula fixa. A tomada de consciência da desaceleração pelo público deve ser entendida como um problema a ser evitado nos noticiários. trechos de entrevistas. que dá a sensação de grande aceleração textual para obter o primeiro contato com o destinatário.obtidas via plano de expressão e as curiosidades despertadas por meio do plano de conteúdo. mesmo que o grau da tensão varie do começo ao fim de um noticiário. O conteúdo também tem grande variação. há mudanças de vozes dos jornalistas. Os noticiários estudados neste trabalho. Se o Jornal Nacional mantivesse o tempo todo a segmentação de expressão que caracteriza seus 30 segundos iniciais. entrada de músicas. cada um a seu modo. utilizam todas as estratégias. 69 Essa desaceleração. É por isso que se tenta fazer uma passagem bem-sucedida entre a 69 Os sites jornalísticos são as únicas exceções. o Jornal da CBN quer desencadear a máxima curiosidade do ouvinte. o jornal iniciaria heavy metal e terminaria bossa nova. Na apresentação das manchetes no Jornal da CBN. uma tal vontade de conhecer o que está ocorrendo no Brasil e no mundo. esse ritmo é bem demarcado. máxima tensão e finaliza mais relaxado. resumos dos fatos mais importantes. como mostraremos na análise dos portais. no entanto. Todos os jornais examinados nesse trabalho. no ponto de maior tensão. Com o seu começo excitante. que deve resultar em um certo “ritmo”. que só irá solucionar essa falta de saber se permanecer atento ao programa inteiro. de conteúdo e expressão. Isso significa um objeto que principia com máxima aceleração de expressão. Qualquer jornal quer sempre um destinatário curioso e atento. precisa ser compensada por outras estratégias. ou entre o jornal de hoje e o de amanhã. Obtida a atenção. jamais concebendo.não sem razão apelidada de “boa noite” pelos profissionais do JN possivelmente não obteria a mesma audiência. na hora da apresentação das manchetes. no primeiro contato. um sujeito que atinge a completa tranqüilidade. prevê momentos mais acelerados em relação a outros. Um ritmo adequado.

maior a curiosidade despertada pelo conteúdo de uma notícia. impede a inteligibilidade do texto. elementos. tenso. a troca de uma curiosidade do nível sensível para outra. Risco: perda da atenção em função da impossibilidade de o público acompanhar a evolução narrativa. no sentido de “vagaroso”. Tanto um momento acelerado quanto outro desacelerado deve ser tenso. Gera uma sensação de aceleração. Mostra a valorização da estratégia de arrebatamento em relação às de sustentação e fidelização. Trata-se de uma valorização das estratégias de sustentação e de fidelização em relação à de arrebatamento. Os acréscimos geram novas informações. já que a tensão do enunciatário é mais manejável. entre muitos outros recursos para torná-la interessante. Podemos afirmar que. relacionada com a variação de planos. Risco: perda de atenção por falta de novidade ou por impaciência. O que importa – sempre . ou seja. A menor segmentação do plano de expressão – segmentos mais “durativos” – deve ser compensada por estratégias do plano de conteúdo para manter o sujeito em contato com o jornal. A imposição de descontinuidades renova a curiosidade. No limite. 110 . Alguém que vive a disforia de uma curiosidade não sente um texto desacelerado. que evidencia um enunciador que manipula recursos de expressão e de conteúdo para fabricar uma unidade noticiosa que gere a atenção desejada. ou “desacelerando”. Citemos um exemplo para mostrar esse sistema de complementaridade.é o sujeito manter-se atento. apesar de serem bem pouco relevantes do ponto de vista do aprofundamento do conteúdo. maiores segmentos o texto poderá ter. pelo menos no nível da expressão. a intercalação de subtítulos que divide a fala em assuntos. Continuidade – gera mais contato sujeito/unidade noticiosa.70 70 Esse esquema parte de reflexões do semioticista Luiz Tatit (1998). Uma longa entrevista do presidente da República pode ser valorizada com a fragmentação da cena. quanto pelas inteligíveis (e passionais) para obter a atenção. Podemos verificar o seguinte esquema aspectual do plano de expressão e as relações com o plano de conteúdo nos jornais: Descontinuidade – Aviva uma curiosidade sensorial. relacionada ao querer-saber o conteúdo de uma história.estratégia de arrebatamento e a de sustentação. sons. Possibilita maior reflexão. Podemos notar a organização de cada jornal e das notícias como um verdadeiro sistema de compensação entre as possibilidades ofertadas tanto pelas estratégias sensíveis.

em um mesmo objeto jornalístico.manifestado tipograficamente em títulos.). no caso dos objetos jornalísticos impressos e dos sites. no jornalismo do rádio e da TV são traços das substâncias de expressão das diferentes unidades de um texto que acabam sendo sincretizadas no processo de organização textual. por assim dizer. entre outros. O espaço. como um noticiário. Em um diário. A manipulação do tempo e do espaço dá pistas de como acontece a neutralização de algumas diferenças entre unidades que são sincretizadas. Floch “as semióticas sincréticas (no sentido de semióticas objetos.. a cena. a narração.. um telejornal. apesar de mobilizar e relacionar elementos de diferentes “linguagens” ou sistemas significantes.. dentro de 111 .” Uma questão não desenvolvida por Floch é como essas “linguagens” ou sistemas de significação se organizam para nos dar a sensação de que estamos diante de um “todo de sentido”. o verbal manifestado pela tipografia. quer dizer. Para o semioticista Francês J-M. a hierarquia entre os elementos. a partir das orientações do projeto gráfico do jornal ou da revista. o Jornal Nacional. e o tempo. fixar os limites de cada unidade. (. uma historieta. em matérias. Queremos. são fotos. distinguindo as tomadas de câmera.) Afirma-se assim a necessidade – e a possibilidade – de abordar estes objetos como ‘todos’ de significação (. É importante evidenciar que até agora separamos. constrói um “todo de sentido”. a partir da textualização. que também pode ser entendido como um mecanismo de enunciação sincrética. o chamado sincretismo semiótico. nos jornais impressos e nos sites. charges. depois o som. a textualização no jornalismo como ato ligado à ação de editar.. por exemplo. exemplos de discursos sincréticos. Um ‘spot’ publicitário.Textualização. por exemplo. quadrinhos. de quadrinhos. Citamos anteriormente que. do principal resultado desse ato. Diagramar é. Um texto sincrético. das magnitudes manifestadas que dão a conhecer) se caracterizam pela aplicação de várias linguagens de manifestação. no nosso trabalho. Expliquemos. Não entendemos. em legendas – e de fotos. fazer uma pequena proposta na tentativa de pensar o funcionamento dessa engrenagem nos textos jornalísticos. a diagramação é o elemento organizador do verbal . de charges. que diz respeito à neutralização de certas diferenças entre elementos de um texto em favor de uma significação global. cuja organização tem como base o tempo (na TV e no rádio) e o espaço (nos impressos e na Internet) expõe as escolhas enunciativas que relacionam. diferentes sistemas significantes. aspectualização e sincretismo O processo de textualização que discutimos até agora. uma manifestação cultural ou política são.

por exemplo.determinados efeitos que se espera obter. “relacionar” as unidades – ou produtos dessas “linguagens” ou conjuntos significantes .72 indica modos de pensar o funcionamento do sincretismo nos textos. A organização textual. que produz sentido e.que destaca o efeito do texto sobre o enunciatário – e as reflexões sobre o contexto semiótico contribuem para tentar esclarecer o fenômeno do sincretismo sem nenhum rompimento epistemológico ao expor essa passagem das substâncias às formas. no entanto. como seu colega diagramador. um após o outro. Anos depois. Lúcia Teixeira. como de rádio e TV (como o Premiere) têm exatamente essa lógica do tempo ou do espaço. por isso. 72 Falar em atenção é expor algumas questões da ordem da substância. ela explica que a relação entre Os programas de edição por computador. os programas trazem uma ferramenta que é justamente chamada de “linha do tempo”. portanto. In Design). uma após a outra. preocupa-se em mostrar que a idéia de “todo de sentido” de um texto sincrético comporta diferentes tipos de integração entre elementos. notadamente de expressão. É. parte de seus sentidos submetidos e inter-relacionados com outras unidades em favor do texto maior e mais complexo. objeto de estudo da semiótica. títulos. são relacionadas numa linha de tempo. funciona como um grande “adesivo” dos elementos que a compõem. uma forma de expressão semiótica que se manifesta espacialmente. notadamente em textos artísticos e midiáticos. temos o tempo como hierarquizador. no entanto. Quark. No primeiro caso. executada pelo enunciador com a função de manipular o enunciatário dentro da coerção maior de obter atenção e consumo. É preciso saber “misturar”.71 Podem aparecer justapostas ou separadas. o próprio Floch sistematizou o sincretismo semiótico como resultado de um plano de expressão que estabelece uma única forma a partir da organização de substâncias de linguagens distintas que geram assim um único todo de sentido. portanto. matérias. como superfícies vazias que vão aos poucos sendo preenchidas por fotos. o que ela chama de “gradação da taxa de redundância” (2004: 233). manipula seqüências de falas dos apresentadores. O diagramador vai “colando” virtualmente cada pedaço. que relaciona as unidades apresentado-as uma após a outra ou unidas. Isso é possível porque todos os elementos citados têm uma característica básica. que examina a questão do sincretismo. A montagem no radiojornalismo e também no telejornalismo manipula as relações entre unidades a partir das possibilidades ofertadas pela manifestação na linha do tempo. tanto de impressos (como o PageMaker.dentro do efeito argumentativo-persuasivo que se quer obter. que articula a matéria sensível ou a matéria conceptual produzindo assim a significação”. Acreditamos que a análise narratológica da enunciação . músicas. gravações de repórteres. O profissional de rádio. A página. As páginas se apresentam como lugares de limites claros. Cada unidade tem. vinhetas. No rádio e na TV. Essas unidades. Num programa de radiojornalismo. a forma (do conteúdo e da expressão) que é significante. assim. Em outras palavras. o sonoplasta também trabalha com unidades. o que aparece na tela do computador é uma página virtual cujos elementos podem ser relacionados como se fossem pedaços que vão sendo colados. Floch (1985: 191) explica que a forma “é a organização invariante e puramente relacional de um plano. 71 112 . Nas mídias de fluxo. A semiótica se construiu como estudo das formas.

Rejeita-se. portanto. por exemplo. Citamos que uma notícia pode ser fracionada de tal maneira que não dê tempo para o enunciatário refletir sobre o assunto e o contexto que a gerou. títulos e reportagens narram um acontecimento. como o do rádio e o da TV. 75 Essa discussão consta do texto Síntese das Discussões do Subgrupo de Trabalho Sincretismo na Mídia – Grupo de Trabalho de Semiótica da ANPOLL. será fundamental considerar a estratégia enunciativa que sincretiza as diferentes linguagens numa totalidade significante. é possível ter um controle mais efetivo da inteligibilidade de um texto. Em curso na pós-graduação da USP em 2003. uma enunciação única confere ao arranjo das partes e às múltiplas manifestações de linguagem um caráter de unidade.73 Explica Lúcia Teixeira que. haveria uma enunciação para cada sistema envolvido. Inicialmente. o efeito pretendido pelo enunciador pode ser o de mostrar-se “democrático”. ao contrário dos publicitários. como sínteses ou discordâncias. ou introduzir nuances ou correções. no entanto. devemos lembrar. trabalham pouco com a fusão de elementos. às possibilidades ofertadas pelos meios de comunicação nos quais o público tem acesso a uma espécie de “fluxo” que se dá temporalmente. o que se considera é a estratégia global de comunicação sincrética que gera o discurso manifestado.força o olhar a passar pelas unidades.74 numa página em que fotografias. A leitura – que. 76 Textos jornalísticos impressos. as cartas de leitores e uma charge pode justamente estar mostrando um choque de pontos de vista. acontece no tempo .76 A redundância. pode-se obter. No caso dos jornais impressos e das revistas. legendas.”75 Vamos pensar essas contribuições a partir da manipulação da atenção. de outro. de um lado. uma após a outra. de relacioná-los a ponto de criarem uma enorme coesão. Nos dois casos. o que pode ser feito de modo contratual ou polêmico. a diagramação que põe em relação um editorial. a idéia de que. as possibilidades de reiteração e de contraponto são um pouco diferentes em relação aos objetos organizados temporalmente. em alguns casos. Numa página de jornal. Esse adensamento de sentidos em textos organizados a partir do fluxo temporal pode resultar na dessemantização da carga sensorial de um elemento Essa reflexão também é partilhada pelo semioticista francês Denis Bertrand. Podemos notar que o enunciador tem possibilidades diversas de dar mais ou menos presença a certos elementos. 73 113 . nesse sentido. não é tão absoluta como em relação. e estruturados a partir do espaço. pode-se estar reiterando um sentido factual qualquer. preliminarmente. Nos objetos organizados temporalmente. Bertrand afirmou que quando uma unidade nega o sentido da outra em um mesmo texto.unidades pode causar interações originais. um “efeito estético”. por exemplo. o sincretismo parece ter menor possibilidade de anular certa identidade de um elemento. num texto sincrético. “na análise de um objeto sincrético. 74 Em outro nível de análise.

os jornais. Acreditamos que as análises sobre as relações entre sincretismo. Investe-se na inteligibilidade. No primeiro exemplo. Há um grande investimento na dimensão sensível. não estamos dizendo que não existe temporalidade nos primeiros e espacialidade nos últimos. por exemplo.individualmente em favor de uma estratégia global. sites e portais) e textos estruturados aspectualmente a partir da temporalidade (caso das TV e rádios). que se está numa rua movimentada (a). 77 114 . organização textual e aspectualização que acabamos de fazer mostram as vantagens de se pensar os objetos jornalísticos como textos sincréticos organizados aspectualmente a partir da espacialidade (como as revistas. o impacto será completamente diferente. No segundo. Se. Haverá um efeito “x”. tenta-se buscar maior entendimento do processo. por exemplo. a significação vai ficando mais e mais complexa. se todos esses elementos forem ouvidos ao mesmo tempo. está longe de se esgotar. em uma notícia de rádio. Entretanto. a significação é resultado do relacionamento simultâneo das três unidades no mesmo fragmento de tempo. Se o sincretismo está ligado à neutralização de diferenças na manifestação textual. que se voltam para cada um dos quatro grupos de jornais. como se pode ver. um adensamento de sentido que provoca menor sensibilização do enunciatário para o reconhecimento das diferenças das unidades. mas o que é mais determinante para a constituição desses objetos. O assunto. em outras palavras. obviamente. em seguida uma música de fundo (c).77 Vale repetir: com isso. temos um efeito global que pode ser descrito como “a” adicionado a “b” adicionado a “c”. podemos observar tipos distintos de sincretização que redundam em textualizações com significados diversos. Nos próximos estudos. se ouvem primeiramente alguns ruídos que informam. depois a voz de um repórter (b).

115 .

Começamos com os impressos . como vídeos. também trabalha com unidades textuais de fluxo. Por causa dessa característica. na forma de fluxo. apesar de ter como base uma textualização de relações espaciais – como os impressos –. Essa ordem não é aleatória. em alguns casos. concluímos esta segunda parte com o estudo do portal. TV. 116 . Finalmente. impressos e portal (Internet). adaptadas para a análise do portal.as revistas e os diários. realizamos o estudo de cada um dos quatro grupos de jornais: rádio. Depois. o dos jornais cuja textualização se dá temporalmente.OBSERVAÇÕES GERAIS Nesta segunda parte do trabalho. diversas reflexões dos outros noticiários serão então reutilizadas e. desenhos animados. Rádio e TV se incluem em um mesmo segmento. O jornalismo na Internet. é a vez dos objetos jornalísticos de textualização marcadamente espacial.

silêncios. foi criada em 1º de outubro de 1991 e estava presente nas principais cidades e capitais como Rio de Janeiro. A mais evidente é o desprestígio do rádio e do radiojornalismo.O RADIOJORNALISMO A análise específica dos quatro grupos de noticiários começa com o radiojornalismo. Em 2005. ruídos. falas. com destaque para o Jornal da CBN. Belo Horizonte e Brasília. geralmente jornais nas pontas do dia. Existem poucos estudos sobre o assunto para servir de apoio. a CBN caracterizava-se como a maior rede brasileira de emissoras all news. Para analisar mais de perto o noticiário do rádio. 15 de dezembro de 2003. O Jornal da CBN. São Paulo. que comentaremos depois. dos âncoras. jornalismo 24 horas” (2003: 48). no Brasil e no mundo. dos repórteres. por meio de posições no fluxo temporal. E por vários motivos. O radiojornalismo tem ainda uma textualização complexa. músicas. notadamente com a inclusão das estratégias afetivas e dos efeitos da modulação de voz de apresentadores. o outro é o modelo all news. efeitos sonoros. estudamos o Jornal da CBN de segunda-feira. Um é a emissão de alguns programas diários. de participantes do programa. Não se pode negar também a dificuldade de os pesquisadores teorizarem sobre o objeto radiofônico de um ponto de vista mais integral. nacional e internacional ao mesmo tempo.principalmente sobre o gerenciamento do nível de atenção -. ou seja. testar hipóteses e ilustrar algumas considerações . Parte do sistema Globo. Há várias hipóteses para esse cenário. com transmissão via satélite ininterrupta de programas de jornalismo. da captura de Saddam Hussein no Iraque. Considerações gerais sobre o radiojornalismo e o Jornal da CBN Barbeiro e Lima lembram que “existem basicamente dois modelos de redes de radiojornalismo. em função da necessidade de ser local. O ato de editar relaciona. O assunto de maior destaque foi a repercussão. é composto de vários pedaços “encaixáveis” que 117 . Consideramos o jornal de rádio o objeto mais desafiador deste trabalho.

marcada pela oralidade – que remete ao analfabetismo . no entanto.78 Existem. Somente um terço da equipe trabalha nesses dias. mostra todos os segmentos do programa. Ou inserir notícias de produção própria. O ouvinte desconhece essa segmentação. A tabela 1. O termo. Os jornalistas da emissora apelidaram esse público indistintamente de “gerente”. O objeto de estudo não é. vários Jornais da CBN. das 6 às 9h. no final desta parte do trabalho. Há uma parte nacional. economicamente ativos.geram programas adaptados a áreas específicas. Vale lembrar que a audiência tem enorme rotatividade. Durante a semana. mas com notícias de interesse geral. acima de 30 anos. Podem escolher um outro sinal. inclusive publicitários. O programa examinado neste trabalho é uma “soma” da parte nacional com a que se refere aos acontecimentos da Grande São Paulo. Por meio da tabela é possível observar e confirmar as características desses ouvintes também pelos anúncios. de intimidade. de segunda a sexta. é utilizado na rádio CBN (consta do site do jornal: radioclick. 79 Informações prestadas por Leonardo Stamillo – chefe de reportagem da Rádio CBN. pedaços “locais”. é “o profissional de jornalismo televisivo que centraliza a emissão nos noticiários. de oportunidades empresariais. Há publicidade de carros blindados. de companhias aéreas. em um mesmo horário. pois parece valorizar tudo o que acontece onde a vida dos ouvintes se desenrola.globo/cbn). com o mesmo sentido. 78 118 . freqüentemente com comentários opinativos”. regionais. Há programa também aos sábados e domingos. com um rodízio de âncoras. No site da rádio. segundo o Dicionário Houaiss. Meditsch (2001) lembra em sua obra dedicada ao rádio que esse meio de comunicação é geralmente relacionado a uma forma de cultura “inferior”. Uma das conseqüências é o menor número de entrevistas ao vivo. feita na Capital Paulista para todas as afiliadas. na qual se destaca o trabalho do âncora Heródoto Barbeiro. o rádio só O âncora. Essa característica de o Jornal da CBN ser um noticiário para os chamados formadores de opinião deve ser ressaltada. E numa sociedade que valoriza também a “visualidade”. portanto. cuidando pessoalmente ou participando da elaboração do texto das informações e apresentando-as.em oposição à escrita. cada um adequado a um público específico.o Jornal da CBN cria um grande efeito de proximidade. das 6 às 9h30. gerado simultaneamente do mesmo estúdio em São Paulo. os jornalistas da rádio calculam que 150 mil ouvintes estão sintonizados de minuto a minuto.79 O âncora Heródoto Barbeiro comandava o Jornal da CBN no “horário nobre” da rádio. um programa “popular”. Nas áreas onde há geração de programação local – como em certas capitais . as afiliadas têm duas alternativas. portanto. afirmava-se que a CBN era direcionada para ouvintes das classes AB. Há. mas a estrutura do final de semana é diferente. Quando entra a programação local paulista.

como normalmente o faz. A sensação de “tempo real” A sensação que o Jornal da CBN passa para o seu ouvinte é a de que é produzido no mesmo momento em que é apresentado.. num contexto intersubjetivo compartilhado entre emissor e receptor: num tempo real. 80 Para fazer o exame do programa.” Para a teoria semiótica. e desta forma eficaz e inteligível (. composto por subsistemas tais como a palavra. na CBN. como no cinema. seja transmitindo em diferido um produto fonográfico que assim atualiza. Caso contrário. ou seja. Esse é outro motivo da existência de um pequeno número de análises disponíveis sobre o assunto. teoricamente. o rádio transmite sempre no presente individual do seu ouvinte e no presente social em que está inserido. com começo. a música e os efeitos sonoros ou ruídos. como o “Linha Aberta” (de análise econômica) e o “Liberdade de Expressão”. Há desde programetes realizados durante o próprio programa. emissor e receptor estão separados pelo tempo e o contexto não é compartilhado por eles. ou ainda combinando estes dois elementos. Meditsch acredita que o radiojornalismo só tem sentido se analisado como “dando-se no discurso”. se retirado do seu contexto. como Meditsch. que é preciso dar conta da emissão viva e vibrante do radiojornalismo: “A linguagem auditiva do rádio pode ser delimitada. na fonografia.poderia acabar mesmo na situação de o menos estudado dos meios de comunicação de massa. Ao contrário. produzirá um texto fonográfico: “Seja transmitindo em direto. como um sistema semiótico complexo. como o rádio e a TV. meio e fim bem determinados. como o “Notícias da BBC Brasil”. desconhecimentos e reducionismos que cercam o radiojornalismo pode ser encontrada no exaustivo levantamento de Eduardo Meditsch O rádio na era da informação – teoria e técnica do novo radiojornalismo.)” (2001:149). O funcionamento do sistema como um todo. No Jornal da CBN. no qual os escritores Artur Xexéu Uma notável discussão dos preconceitos. Uma característica do programete é poder ser reprisado em diversos momentos da programação da rádio. há um “programete”81 chamado “Liberdade de Expressão”. qualquer sensação de “tempo real” no radiojornalismo é tratada como efeito do discurso. 81 Programetes. assim como a definição e o papel da cada um dos subsistemas dentro dele. inclusive por meio de vinhetas. Trata-se de característica marcante do texto jornalístico de meios de comunicação de fluxo. como outros que parecem ser produzidos em outros locais. Trata-se de uma das obras que foram guias desta parte do trabalho e que se incluem naquele quinto tipo de estudo que citamos no início: o que busca uma visão menos fragmentada do fenômeno jornalístico. por exemplo. obedece a uma série de convenções que o tornam manejável. acreditamos.. designam certos quadros que têm “vida própria”. socialmente compartilhável. 80 119 .

esclarece algumas possibilidades. que cita trabalhos de diversos autores para mostrar como o limite de conservação do tempo de atenção do ouvinte do rádio é cada vez menor. O mesmo autor lembra que há uma oscilação permanente de recepção entre o ouvir (nível pré-consciente) e o escutar (intencionado) do público. caracterizadamente. ou boa-tarde. O público. Nos anos 90. A razão é simples: o mesmo fragmento é exibido durante a tarde. e banir o bom-dia. como de qualquer jornal. além do zoom auditivo entre o ouvir e o escutar. a aspectualização do plano de expressão (por meio da categoria durativo x pontual) e os semi-simbolismos manejados pela textualização são pensados para obter sempre mais audiência. segundo Meditsch. está mais esquivo. Se falassem “bom-dia”. quando a reportagem está gravada. uma atividade secundária do ouvinte. Eles trocam um “olá” no primeiro contato com o âncora Heródoto Barbeiro. 251). O próprio Heródoto Barbeiro. O jogo de mostra-esconde desses marcos temporais é uma característica importante não só da linguagem radiofônica. Nos jornais organizados temporalmente. nas reportagens gravadas para dar a impressão ao ouvinte de que a matéria é ao vivo. que também é teórico do assunto. ao ponto dela ser repetida sistematicamente no rádio e ganhar caracteres na TV. e algumas reduziram essa estimativa para 90 segundos” (2001: 183). no sentido de mobilizar uma atenção absoluta do enunciatário. realizada simultaneamente a outras atividades com que divide a atenção. muitas emissoras trabalhavam “com a hipótese de que a atenção média pode se manter por três minutos. Assim. efeitos e conseqüências dessas estratégias: “Na CBN. Na década de 50. “A recepção desse discurso é. a RAI fez uma pesquisa na Itália e constatou que esse tempo era de 15 minutos. E a segunda edição ficaria “velha”. mesmo sabendo-se que essa expressão confere aos veículos de comunicação credibilidade.e Carlos Heitor Cony comentam notícias. não é uma mídia absorvente e excludente. Pesquisas posteriores observaram que o tempo tinha caído para oito minutos na década de 60 e para quatro minutos na de 70. optou-se por não simular o ao vivo. no prefácio do livro de Medistch. O rádio. Os profissionais devem colocar no ar um programa com enorme número de apelos para competir com outras atividades 120 . ressalte-se. como os impressos. porém. a recepção do rádio é caracterizada por um zapping perceptivo entre essa atividade e a principal” (idem.” A organização textual e a oscilação entre o ouvir e o escutar O rádio (e também a TV) caracteriza-se por apresentar uma textualização manifestada a partir da ordenação e da hierarquização de elementos no fluxo temporal. explicitariam o momento de produção do discurso.

121 . tem outras funções. entretanto. Os jornalistas sabem. Na edição do Jornal da CBN analisada. os profissionais se aproveitam ao máximo da impossibilidade de o público prever as seqüências. Relembremos que manipular aspectualmente o texto é também um meio de impedir ou permitir o exercício da reflexão. Foi apontado que a primeira imposição da curiosidade (querer-saber) ao público-alvo se vincula fortemente ao manejo dos aspectos sensíveis do texto por meio da aspectualização. No rádio. principalmente a partir da quebra de continuidade entre unidades (como a passagem de uma voz do âncora para a do repórter em segmentos muito curtos) e. Fracionar um texto é administrar sua inteligibilidade. O simulacro de enunciatário pensado pelo enunciador é de alguém que não escuta o programa com a cabeça vazia. uma descontinuidade é tanto uma baixa estimulação sonora após muito barulho como o inverso. criaram ao microfone grandes variações no modo de falar para não perder a atenção do ouvinte. Isso sem contar a própria locução dos profissionais da rádio que. além da de arrebatar a atenção. contudo. inclusive sobre a própria notícia e as escolhas do enunciador. sentida pelo ouvinte como uma pequena surpresa.82 de publicidades. No rádio. a atenção é arrebatada. com o objetivo de identificar o programa. mesmo com a existência de partes fixas. ao impor uma dimensão mais sensível em diversos momentos. cada mudança. O excesso de descontinuidades do plano de expressão. cada imposição de uma descontinuidade tira partido dessa renovação. O público julga e interpreta o que os profissionais do rádio lhe propõem em uma velocidade que só rivaliza com a de um site de notícias na Internet. É a estratégia de arrebatamento. alternância de vozes. no entanto. Do ponto de vista sonoro. E isso a partir das estratégias de arrebatamento. não é uma fórmula mágica. por alterações bruscas. Portanto. em determinado momento. a estação ou o patrocinador”. encerramento ou reinício de programa de rádio ou TV. de recursos sonoros impuseram mais de 600 segmentações no espaço de menos de três horas e meia do programa. que não podem valorizar da mesma maneira todas as notícias. o que vai acontecer no instante seguinte. é a “chamada de curta duração utilizada em abertura. sustentação e fidelização que são possíveis no rádio.realizadas pelo enunciatário e ganhar a atenção dele. O que é mais perceptível para o ouvido é a passagem entre dois tipos de sons distintos. Para o destinatário. mostra irritação e abandona um tom mais ameno. 82 Vinheta. como um entrevistado que. no Aurélio. no nível da unidade. A segmentação. entrada de vinhetas. em cada segmento. o que surge pode ser sempre algo do maior interesse. “fisgada”. ou a quebra de continuidade entre unidades em média a cada 20 segundos (ver Tabela 1).

interlocutor. Não sem razão. a astúcia do âncora: ele só não faz interrupções quando um entrevistado desenvolve uma fala de grande interesse em função da apresentação de novidades. principalmente da história da notícia. Nota-se. A primeira é de valorizar conteúdos. a partir das relações que estabelece com outras unidades do texto radiofônico. gera dispersão e aceleração do discurso. Há um fragmento sobre a captura de Saddam que dura 45 segundos na parte inicial do programa. ‘por quê?’. na orientação de Maria José de Carvalho aos jornalistas. ou seja. São momentos em que prevalecem as vozes institucionais. conhecidas. a tensão e a atenção – por meio de depoimento da professora de dicção e oratória Maria José de Carvalho. obtido o querer-saber por via do conteúdo. O Manual da Jovem Pan detalha esse efeito – ao relacionar a curiosidade do ouvinte. Há sempre risco de perda da evolução narrativa. Um entrevistado pode demorar um tempo para responder a uma pergunta que 122 . porém. Possibilita maior reflexão.Como lembra Tatit (1998:22). o silêncio. não é necessária grande variação de expressão por um certo período. de unidades mais duradouras. se bem utilizado. A curiosidade. a entrevista. Fica evidente que. da utilização do humor. não devemos aumentar o volume da voz. tem duas funções. etc. é manejada via plano de conteúdo (estratégias de sustentação e fidelização) e não pelo plano de expressão (estratégia de arrebatamento). O locutor deve sempre imaginar um ouvinte ativo. foi um dos momentos do programa com os maiores segmentos. Um dos mais poderosos. Este ouvinte a todo momento o interrompe para fazer perguntas. ‘onde?’. O excesso de continuidade. importante para a expressão” (1986:79). É o que chamamos de pausa de tensão que prepara uma palavra importante. é a pausa na locução. análises. relatos. A atenção obtida via curiosidade para o conteúdo da notícia – estratégia de sustentação . dos jornalistas. da perspicácia da análise. por outro lado. que possibilita a concentração da atenção no que será dito a seguir. Mas há também situações nas quais nada acontecer tem sentido. ressalte-se. principalmente a divulgada como acontecendo “ao vivo”. nesse ponto. dos comentaristas. dos analistas. Percebe-se. que os profissionais devem tirar proveito da curiosidade do ouvinte quando sentem que ele já está passionalmente envolvido com uma unidade noticiosa. Outros segmentos que chegam a mais de um minuto dizem respeito a histórias enviadas por ouvintes e comentadas pelo âncora. O silêncio. informando a importância do que se apresenta no fluxo sonoro. de apresentação das principais chamadas. ex-docente da ECA/USP: “Para enfatizar as palavras importantes. o locutor faz uma pausa de tensão. Ao imaginar interrupções com perguntas do gênero ‘o quê?’. permite mais contato sujeito/notícia.mobiliza ainda outros recursos no rádio.

o texto pode ter uma segmentação menor.tem a função de despertar a atenção do ouvinte durante o fluxo noticioso. entre segmentos que duram e outros mais pontuais. Ouvir alguém falando continuamente cria problemas. do silêncio retórico.estratégia de arrebatamento . pode ser interpretado pelo ouvinte como um momento de elaboração de uma desculpa. Essa é a principal característica de ritmo textual do programa. manter determinado laço. entre continuidades e descontinuidades. é um problema no jornalismo. são importantes no rádio. no entanto. como um segmento que dura. O texto radiofônico se constrói tal qual uma música. Ainda que a maior parte dos programas tenha o seu ritmo determinado de maneira mais instintiva do que consciente. Nesse caso. “A relação do ritmo musical com a edição radiofônica não é apenas retórica. Em outras palavras. Se a alta estimulação de alguns momentos do programa. de variações e combinações entre elementos . Alguém que vive a disforia de uma curiosidade não sente um texto desacelerando em função dos segmentos mais longos. deixa o enunciatário tenso. A edição de fato determina o ritmo do programa. Esse jogo aspectual. que para ser satisfeito. esse silêncio. relacionada ao querer-saber o conteúdo de uma história. 83 123 . Pode trazer monotonia e perda de atenção por falta de novidade. sem sentido” (1998: 22). uma vez tendo despertado seu ouvinte. portanto. Por isso é que se tenta fazer uma passagem bem-sucedida entre a estratégia de arrebatamento e a de sustentação. De um ponto de vista geral. 2001: 161). a troca de uma curiosidade do nível sensível para outra. assim como os jornais de outros veículos que estudamos neste trabalho. é que o jornal. que pode ficar “sem metas. sem direção e. em outros esse mesmo estado ocorre por meio da pausa de tensão. Descontinuidades. o Jornal da CBN começa com a apresentação das A tomada de consciência da desaceleração textual pelo público. este é ainda um aspecto musical da linguagem radiofônica mais presente para os seus profissionais” (Meditsch. mas com certos andamentos. Quando essa ligação tende a se afrouxar. o excesso de continuidade pode desacelerar demais o discurso. vamos insistir. pode diminuir a estimulação e. Como afirma Tatit. do suspense. mesmo assim.83 O que se observa. Relembremos que a estratégia de sustentação se vale principalmente da capacidade de certos aspectos da notícia provocarem uma disforia no ouvinte. o público é “chacoalhado” novamente. monopoliza a atenção. ou seja. por exemplo. como o silêncio retórico. um querer-saber. o jogo que se estabelece na organização textual do Jornal da CBN é o seguinte: o grande número de segmentações. Obtida a curiosidade para a história da notícia – estratégia de sustentação . faz com que cada programa crie seu próprio ritmo a partir do que os jornalistas avaliem como mais eficaz na maneira de obter audiência.o embaraça.

rápida. Consideramos a locução – notadamente a fala do âncora . 84 124 . pensamos a estrutura do noticiário do ponto de vista de um ouvinte que acompanha o programa do começo ao fim. podemos observar como o Jornal da CBN é pensado muito mais para um enunciatário que ouve apenas algumas partes. em análise da locução do futebol. Um programa de rádio é uma sucessão de elementos (vozes. No Jornal da CBN. Ele não apenas apresenta e discute as principais notícias. termo que é possível ampliar para descrever o O jornal de rádio. geralmente com uma canção que ironiza uma notícia e seus personagens. sob um fundo musical que também acelera o discurso. ele se integra ao noticiário graças ao reconhecimento da voz do âncora. Essas unidades são hierarquizadas e manejadas dentro de um fluxo por meio da montagem. No entanto. a fala do âncora administra outras falas. músicas. como os ruídos e os efeitos sonoros.84 No trecho anterior. tanto profissionais como entrevistados.como a base desse complexo discurso marcado. Uma voz conhecida no rádio gera um sentido de “familiaridade”. entre os objetos aqui estudados. Carmo Júnior (2004: 141). o verbal oral. Há leitura de textos curtos. relacionando seus sistemas significantes verbal e musical com elementos importantes dessa forma de comunicação. na busca de tensão. mais do que em função das vinhetas. dos comentaristas. como também cede e controla a voz de outros enunciadores. numa locução tensa. relaxando um pouco nos instantes finais. Inicialmente. O estudo dos efeitos da fala dos âncoras. que manipula o dial e chega em pleno andamento do programa. como já vimos. apresentadores e repórteres é um grande desafio a ser vencido no entendimento do radiojornalismo. ser apresentado somente por meio de uma linguagem.principais chamadas. Entre esses dois extremos existe até um “refrão”: a reapresentação das “notícias mais importantes” a cada meia hora. O modo de falar também é parte importante da estratégia de fidelização. Trata-se do Repórter CBN. é o único que poderia. de um tempo reconhecível como o do cotidiano. chama o locutor esportivo de “encenador vocal”. como barulhos de carro captados numa reportagem na rua). outros sons que tanto podem ser efeitos de sonoplastia como a conseqüência involuntária da própria produção do texto. pela organização temporal do plano de expressão. e termina quase sempre com humor. dos repórteres. em tese. A locução como elemento organizador Vamos analisar agora como o Jornal da CBN estrutura-se de um ponto de vista mais específico. dos redatores.

capricha no sentido de súplica. ao roteiro que é lido pelos jornalistas. e geralmente se assiste a uma modificação da qualidade de um som prolongado” (1972: 172). A oralidade dos âncoras acresce efeitos de expressão ao verbal escrito. as mais fechadas. e a mínima para o ‘i’ e para o ‘u’. é preciso apresentar algumas dessas possibilidades de efeitos da fala.trabalho principalmente dos âncoras do radiojornalismo. por exemplo. ensinam Ducrot e Todorov. No que se refere aos sons da fala. Antes de seguir em frente. a vogal mais aberta. com significados distintos.85 Pode-se notar. “componentes em geral reconhecidos nos estudos dos sons da linguagem”. 125 . utilizar os recursos prosódicos. um café” pode ser dita por alguém que queira sobrepor ao seu pedido o seguinte significado: “Eu não agüento mais esperar”. como se o modo humilde do pedido fosse uma maneira de ele comunicar que compreende que o atendente está com serviço demais. Armand Balsere (apup Meditsch. Ou ainda por outro cliente que. em uma altura e intensidade pouco usual para a situação) mostra estratégias de enunciação que se valem da riqueza das possibilidades de entonação. dificilmente obtém-se uma tensão constante dos órgãos da fonação. É pelo timbre que distingue a voz de uma pessoa da voz de outra. Muitos candidatos aos palcos fazem exercícios nos quais aprendem a dizer “algo a mais”. a partir das mesmíssimas palavras. isto é. a altura. ou agudo. O subtexto é resultado de uma complexa relação entre expressão e conteúdo. O estudo da modulação de voz é fundamental para entender como um fragmento de notícia pode ser desvalorizado ou valorizado pela maneira de o apresentador. A duração de um som. como os clientes pedem um café em uma padaria lotada. O timbre é efeito ou qualidade acústica que se obtém a partir dos diversos graus de abertura da cavidade bucal. Um tom irritado (que enfatiza. que envolvem o timbre. Uma mesma frase – do 85 Referimo-nos aqui às técnicas para atores de Constantin Stanislavski. Essa distância é a máxima possível para o ‘a’. A intensidade de um som vincula-se ao grau de força com que o som da fala é proferido. A mesma frase: “Por favor. a duração das sílabas e da frase. por exemplo. A altura de um som é. onde o serviço se mostra lento. médio e grave. 2001: 191) diz que esse segundo significado é próximo da idéia de “subtexto” do teatro. como lembram Ducrot e Todorov (1972: 172). “é a percepção que se tem de seu tempo de emissão. a intensidade e a duração. Percebe-se diferentes “subtextos” nesses dois casos. por exemplo. ao utilizar as mesmas palavras. em fonética e fonologia. a qualidade do som da fala relacionada com a freqüência das vibrações que têm como resultado o agudo e grave. da distância entre a língua e o céu da boca.

que faz parte da notícia. no segundo. Em seguida. Há “acentos de expressividade” (Drucot e Todorov. O sentido primeiro. ensinam: “Os pontos ideais para os cortes e emendas são descobertos pelo editor com a prática e a sensibilidade. objetivo. Por essa afirmação. 1972: 175) que incidem em certas partes da emissão da notícia (uma administração de recursos de intensidade.. da altura e da duração da voz). a edição final adiciona os trechos gravados . Um choro. Notamos um caso mais comum no Jornal da CBN. na sedução (querer-fazer) do balconista. Isso significa que a notícia vai sendo exposta como “julgada” pelo enunciador. A sonora deve terminar com a entonação ‘para baixo’. Nos dois casos. tudo é planejado de modo a parecer que não se subvertem certas coerções do jornalismo. encaixada em um universo de valores. que se apresenta como outra especificidade do programa. uma notícia é composta de uma parte feita na redação. O contexto e o enredo devem estar no texto redigido pelo editor. dá a impressão de que o entrevistado foi cortado antes de completar o pensamento ou que foi alvo de censura” (. destinatário. vale notar. investe na intimidação (dever-fazer). lida pelo locutor ou apresentada e comentada pelos repórteres.ponto de vista do registro escrito . É o âncora que mais “sente” a notícia (modulando a voz) e tenta fazer com que o ouvinte partilhe desse tipo de sanção.) “Sonoras que contêm emoção também rendem boas edições. no seu Manual de Radiojornalismo. como a de manter distanciamento em relação às notícias apresentadas. A regra básica é dar sentido à fala. Podemos observar cotidianamente diversos exemplos de “acréscimos” de sentido por meio do uso dos recursos prosódicos. como destinador. É comum ouvirmos o âncora e. além de desagradável. No primeiro exemplo. O editor não opina no texto. não foi prejudicado.).se abre para estratégias de manipulação distintas na fala e. que o café seja servido. Esse recurso euforiza ou disforiza o conteúdo das notícias em alguns momentos.as sonoras – 126 . em seguida. uma “sonora” – trecho gravado de entrevista . Quem opina é o entrevistado.. de conteúdo imparcial. Alguém que dá uma ríspida saudação também mostra uma outra característica notável de jogo entre o dito e o efeito proporcionado via entonação: um desacordo entre esses dois níveis da fala. Ao mesmo tempo.. o cliente da padaria. Um empregado pode prever como será sua jornada pela entonação do bom-dia do chefe. O depoimento que termina com a entonação ‘para cima’.. uma gargalhada ou uma frase em tom de desabafo às vezes dizem mais do que uma declaração de 50 segundos” (2003:79). efeitos de sentido afetivos que cumprem uma missão persuasivoargumentativa. no entanto. “As sonoras devem ser o mais opinativas possíveis. Barbeiro e Lima. Sonoras opinativas são sempre mais contundentes e chamam mais a atenção do ouvinte” (. o que se deseja é a realização de um ato.

o ouvinte toma contato com unidades que já se apresentam “sensibilizadas”. que a “pinchagem” e a montagem dos “fatos” para compor a notícia só têm sentido a partir de uma ideologia. dos repórteres e até mesmo dos entrevistados. o que determina uma valorização em relação a outras. o âncora Heródoto Barbeiro apresenta a notícia da expulsão dos “radicais do PT”. Outro ponto que ajuda nesse efeito é o próprio sentido de “concretude discursiva” que a sonora apresenta.que devem servir como contraponto. seu estado emocional. recurso comum no jornalismo. O ouvinte parece ficar diante do “entrevistado”. Do ponto de vista semiótico. Essas escolhas sempre expõem a visão de mundo do enunciador. A interpretação sobre a enunciação – ou seja. aparece como de responsabilidade exclusiva do enunciatário. em que aparece a subjetividade do entrevistado. Por meio do movimento de entonação dos locutores. ou seja. tem assim grande valor para um jornalismo que precisa se expor como objetivo e imparcial. ou seja. mas que também pode incluir variação de duração e altura da fala) sobre certos detalhes pode conferir mais proximidade ou distanciamento afetivo que o locutor encena e espera que seja compartilhado pelo público. A notícia aparece na forma de sucessão de fatos. A idéia de “dizer sem dizer”. inicialmente. mas podem eximir-se delas. Os jornalistas levam o ouvinte a determinadas interpretações. No programa analisado. sobre a forma de dizer do enunciador –. o uso da terceira pessoa nas frases. Lembremos. como discutimos no início do trabalho ao mostrar três versões distintas de jornais impressos em relação à visita de Lula a São Bernardo. A apresentação da unidade noticiosa pode ser feita numa intensidade e numa altura maiores e numa duração mais rápida. que está por trás do subtexto do programa e das possibilidades ofertadas pela riqueza prosódica. essas sugestões referem-se muito mais aos “efeitos” que se quer obter. A justificativa é que apresentam um conteúdo aparentemente mais impessoal. notadamente por meio de uma desembreagem actancial enunciva. por exemplo. no final das contas. contendo valores que trafegam entre a repulsa e a atração na visão de mundo do enunciador. e não de um fragmento cuidadosamente editado para se adequar a uma lógica de busca de audiência e de reafirmação de valores do enunciador. sem certas marcas de subjetividade. Há sonoras com os expulsos e também com os membros do partido que votaram pelo desligamento dos 127 . É comum na CBN. A encenação vocal é realizada a partir desse conteúdo editorial mais objetivado. Uma tensão crescente ou decrescente da voz (fenômeno de intensidade de emissão. sem esses mesmos recursos de entonação. a locução se fazer a partir de um conteúdo verbal mais “objetivado”. de sua voz. mais evidenciadas nas sonoras.

E alguns. O senador afirmou que “os infiéis tomaram outro caminho dentro do partido e irão se arrepender no futuro”: Mercadante: “A divergência de fundo é um problema. Tudo indica que. Mercadante. aumentando ainda a intensidade e a altura da fala nesse momento. 128 . é comum haver no rádio um texto escrito realizado oralmente que. imita o timbre de um ator canastra de um filme de quinta categoria. ou de citar as diferentes versões.” Heródoto. coloca acentos de expressividade em pontos bem determinados. Depois enfatiza. É notável ainda que a última afirmação de Heródoto não se confirma na fala do deputado petista. a “algoz”. no entanto. No entanto. Ele ressalta determinados conteúdos. por exemplo. Como lembra Barros (2000: 74). entre outras conseqüências. Teoricamente. como a Eldorado. Laerte Vieira. não tem tempo de realizar essa associação em função do ritmo da sucessão de falas. Heródoto: “Grande articulador no Congresso durante as reformas. a encenação vocal é uma coerção cada vez maior dessa forma de jornalismo. por meio da entonação. Essa intencionalidade evidente do enunciador faz pensar sobre a opção de uma fala neutra na apresentação de conteúdos jornalísticos. Aluízio Mercadante. a frase “os infiéis tomaram outro caminho dentro do partido e irão se arrepender no futuro”. entretanto. fazendo as vogais durarem. não estratégico. foi algoz dos radicais do PT durante a reunião do diretório. o líder do governo no Senado. O âncora ainda desacelera o final de sua fala. Nessa discussão sobre os efeitos da fala. o que é legítimo. como o próprio PSTU. podemos verificar a existência de uma fala mais sóbria (menor modulação). O próprio Jornal da CBN tem um locutor “à moda antiga”. é uma visão de partido. Pode haver perda de atenção do ouvinte. Sempre achou. não apresenta uma série de características da fala cotidiana. Todos esses recursos prosódicos ridicularizam a sonora que vem a seguir. a busca de um jeito neutro para apresentar as notícias é sempre um risco considerável. na apresentação das notícias... o que aumentaria o efeito de objetividade. no passado. nessa sonora. Pode-se observar o efeito pretendido de imparcialidade. partiram para construir um outro partido. nesse sentido “sancionador”. Dá grande destaque. O ouvinte. padrão de algumas rádios informativas. de bela voz e que pouco modula a fala. não fez nenhuma ameaça. é preciso salientar ainda que a maior parte da informação do rádio é lida pelos seus profissionais.parlamentares. no rádio brasileiro. Um setor da esquerda sempre achou o PT como (sic) um partido tático. Nesse momento. de Aloísio Mercadante. trabalha cuidadosamente sua entonação.

ligadas às segmentações do radiojornal. que partilha das gozações que quebram a “seriedade” das falas em alguns momentos. efeitos sonoros. O programa cria assim um grande efeito de proximidade com o público. e deixa claro que está lendo. Em alguns momentos. dos efeitos sonoros e dos ruídos. No entanto. entendida como elemento que constrói a lógica do programa. ruídos e a relação com a fala Mostramos alguns aspectos superficiais da locução. retomadas.As que caracterizam o começo e o fim dos programetes. ressalta: “Leia naturalmente. redundâncias são marcas da fala menos premeditada. Podemos observar dois tipos: a . Sabemos que a oralidade dos profissionais do rádio é uma “espontaneidade treinada”. que relaciona o discurso oral. Ele cria assim um sentido de “aspas” sonoras. pode-se observar no Jornal da CBN um grande espaço para essa manifestação. pausas. Música. O Manual de Radiojornalismo da Jovem Pan. É muito comum Heródoto fazer graça com a derrota do time de um repórter. como se estivesse falando de improviso” (1986: 78). se tivermos em conta que as falhas. por exemplo. insistirem na construção da informação em frases curtas. é mostrado como um “igual”.A música é parte essencial das vinhetas. b. uma unidade em si mesma sincrética. um fazer crer na existência de um determinado nível de improvisação. como o “Liberdade de Expressão”. as composições musicais têm quatro grandes possibilidades de aplicação: 1. num tom que se contrapõe à apresentação de notícias. um amigo. Entretanto. e não lendo algum texto. comentários a partir das discussões com entrevistados. Essa é a razão dos manuais de rádio.como reformulações. Há brincadeiras. É momento de investigar o papel da música. o âncora Heródoto Barbeiro comenta jornais. e também de TV. os profissionais do radiojornalismo têm de enfrentar outra coerção: criar a sensação de que estão em pleno diálogo com o ouvinte. ou e-mails de ouvintes. Na análise do Jornal da CBN é possível notar que existem diferentes gradações na forma de modular a voz.As de prefixo. os ruídos e a música. portanto. E vice-versa. troca de informações não planejadas entre os próprios jornalistas. o jornalista separa sua enunciação de outra. Em outras palavras. pausas. frases incompletas. hesitações. 129 . entre outras instruções para os locutores. para dar a impressão da fragmentação típica da fala. por exemplo. No jornal da CBN. O enunciatário.

que não pode deixar de dar estímulos ao ouvinte sob pena de perdê-lo. Estamos chamando de efeitos sonoros certos tipos de sons que os ouvintes acreditam que são manipulados em um estúdio. barulhos e interferências dão “concretude” ao discurso. à evocação de experiências anteriores – estratégia de fidelização. Têm. 3 – Fechamento do programa com bom humor. o ouvinte pode localizar em que parte do fluxo radiofônico se encontra. portanto. Entra sonora de Paul Bremen: “Ladys and gentlemen. há importantes efeitos de realidade. No caso do programa analisado. uma reportagem foi produzida em algum local fora do estúdio e os barulhos acabaram fazendo parte da gravação. previamente gravados. Paul Bremen”. a idéia de que certas notícias são mais importantes e merecem mais atenção. É o caso do Repórter Aéreo CBN. No Jornal da CBN. we got him”. a missão de arrebatar ou manter a atenção dos ouvintes. ou seja. um apelo à memória. Nos dois casos. Antes. Também criam um meio mais eficaz de reconhecimento. Trata-se de uma utilidade específica da música no Jornal da CBN. A notícia é ironizada. 4 – Preenchimento do silêncio. se ouve o refrão de uma canção infantil: “Sou invencível/ somos amigos/unidos venceremos a semente do mal/Eu tenho a força/ sou invencível”. Em seguida. Os ruídos. Estudemos agora os efeitos sonoros e os ruídos. principalmente de locais onde os repórteres afirmam narrar. via manipulação sensorial do ouvinte. Em uma mídia de fluxo. em que se ouve o som do helicóptero no momento em que a jornalista comenta o trânsito. portanto. principalmente a fala do âncora. em tom de galhofa. dentro da estratégia de impedir qualquer possibilidade de monotonia discursiva. projetando. o âncora Heródoto Barbeiro diz. Por meio das vinhetas. que analisaremos em seguida. Há. Já os ruídos são interpretados como incidentais. instauram maior sentido de realidade por fazer com que os ouvintes reconheçam sons do cotidiano. O Jornal da CBN tem um trilha sonora (que não deve ser confundida com a vinheta) utilizada na apresentação e na valorização das chamadas em certos momentos da programação. ruído e efeitos sonoros cumprem bem a função de serem mais um meio de criar descontinuidades e de buscar a atenção do enunciatário. 2 – A música sobredetermina conteúdos. locutor ou repórter. vale a pena salientar o papel desses recursos na estratégia de arrebatamento. A música dá a idéia de que o programa evolui mesmo quando não existe outro som.As vinhetas impõem descontinuidades na programação. Outro aspecto sempre destacado por diversos 130 . que a prisão do ditador foi “anunciada com polpa e circunstância pelo administrador do Iraque.

Temos um outro sistema semi-simbólico. Aparecem em vinhetas. Certos sons também podem adensar a emissão a ponto de impor uma modulação em relação à voz dos apresentadores. editado e. ou seja. é o de sempre remeter a uma ação. nunca a um estado: “A existência do som depende de 131 . Com os efeitos sonoros. com interferências de todo o tipo. Um dos mais ouvidos é um “tchom”. uma alternância entre subposição. Nota-se a estratégia de arrebatamento. quando se tenta despertar o ouvinte. O programa. principalmente a do âncora. buzinas de veículos. da passividade para a atividade. que o faz parecer acelerado. literalmente “vibrante”. Já os efeitos sonoros têm grande utilidade no programa. os efeitos sonoros e a fala no rádio. a voz humana não consegue chegar aos graves e agudos de diversos instrumentos musicais. envolvido depois pelas manchetes. Um aspecto importante da natureza do som. Nesse sentido. que soa como um “ataque consonantal”. para que ele passe do vínculo do “ouvir” para o do “escutar”. com apresentação de manchetes. aparece acelerada: maior altura e intensidade. o ouvinte também passa a saber o que será tratado no próximo segmento. o que soa para o ouvinte como algo menos mediado. A fala. como lembra Meditsch. utilizado antes da apresentação da hora certa. os efeitos sonoros também são importantes para criar descontinuidades. nesses momentos. nas quais se ouvem sons de trânsito. Durante a apresentação das manchetes. que se contrapõe à locução do estúdio. O manejo de recursos do plano de expressão deve produzir um ouvinte tenso que. no fundo. a música é uma aliada importante.autores é que a baixa qualidade de emissão do som.sugere maior valor afetivo da notícia. em primeiro plano). mais organizada. para “despertar” a atenção. Isso quer dizer que o Jornal da CBN é manifestado por um grande número de estímulos por segundo. cria um sentido de menor controle dos conteúdos. O repórter parece estar em uma situação sem grandes possibilidades de controle. (Dito de outro modo. e sobreposição. já que tem uma força e uma abrangência acústica que superam a da fala em função das possibilidades de amplitude sonora. É a passagem da estratégia de arrebatamento para a de sustentação. os ruídos. por isso mesmo. ou em background – BG. há intercalação de sonoras. imediatismo. tem como principal característica discursiva apresentar uma reunião de todos os seus recursos expressivos. mudanças de vozes entre jornalistas. deve ficar com vontade de saber o que motivou os acontecimentos citados. de sentido de realidade. Além desse outro caso de concretude. mais verdadeiro. no qual o som “sujo” – com muitos ruídos e baixa qualidade de emissão . Analisemos agora a relação entre a música. proximidade. menor duração na emissão das sílabas. Deve-se observar que existem momentos de maior imposição da atenção.

A questão do tempo e do valor da notícia: a prisão de Saddam Afirmamos em outras partes do trabalho a existência de um sistema semisimbólico de texto inteiro (ou um “semi-simbolismo cristalizado”) bastante evidente nos noticiários.) O imparável movimento dos sons estabelece. esse efeito se adiciona à locução jornalística . ação em si mesma que remete a uma outra ação. Essa interrelação de diferentes unidades sonoras (fala. As presenças do mar e de um relógio podem ser facilmente captadas por meio auditivo..um movimento e a sua simples presença indica que algo se move ou se modifica. No rádio. baseado na freqüência. mas as de uma flor e de um vaso não podem ser adivinhadas. contudo. “a hierarquização (dos conteúdos) deixa de ser feita pelo critério do que vem antes ou depois para assumir um critério compatível com a fluidez. essa organização de categorias do plano de conteúdo com categorias do plano de expressão determina relações de valor da notícia em função do tempo ocupado. É o caso da notícia sobre a detenção de Saddam Hussein no Iraque. Veremos depois. a visão ou o tato – a não ser pelo auxílio da ação da palavra. Em conseqüência. Esse adensamento sonoro fisga a atenção do ouvinte para as “notícias importantes”. durante a programação. O texto jornalístico de rádio é montado para criar determinados efeitos. 132 . é manejada para que o ouvinte. senão pelo olfato. a informação que a percepção sonora nos proporciona sobre o mundo refere-se.em maior altura e intensidade. capitaneada pela locução. necessariamente. em linhas gerais. que justamente “funcionam”. No radiojornalismo. serão essas notícias que irão receber mais tempo no fluxo do programa. porque ele já introjetou as próprias regras da textualização.. a exposta pela própria notícia. nesse ataque sensorial. No rádio. uma forma de estruturação espaço-temporal que é única” (2001: 157). para as linguagens estritamente auditivas. o que resulta no semi-simbolismo de texto inteiro: o que tem maior valor é o que ocupa o maior tempo. a alguma ação: o que permanece imóvel não soa. (. como lembra Meditsch. Depois. música.86 Os sons transmitem principalmente a idéia de ações em plena execução. a possibilidade de se criar a sensação de que o fluxo sonoro parou. Em função dela. ou fazem sentido na cabeça do ouvinte. com emissão rápida87 -. se posicione diante do que o enunciador valoriza e quer que também seja valorizado pelo enunciatário. como os diferentes formatos de letras e seu posicionamento espacial tentam reproduzir esses efeitos da locução. efeitos sonoros e ruídos). a duração do enunciado e a repetição de sua enunciação passam a ser os recursos predominantemente utilizados para enfatizar a sua importância” (2001: 202). 86 87 Há.. na análise dos jornais impressos.

atualizadas e oferecidas em diferentes perspectivas. quem permanecer mais tempo terá a possibilidade de ouvir as informações principais serem aprofundadas. os comentários de futebol que nada informam. As infindáveis conversas entre locutores. no Jornal da CBN. Do ponto de vista do enunciador. Na tabela 1. mostramos como o principal assunto. a captura de Saddam Hussein no Iraque. muito mais interessados em manter e cultivar um laço do que em trocar novidades. a utilização de um mesmo trecho. A segmentação do programa e também as retomadas das notícias mais importantes. O que é mais notável. podem ser incluídos em um grupo mais amplo com certas características em comum. Outro aspecto do jornal é o seu dinamismo. a cessão de tempo para um artista falar de uma peça de teatro de 133 . Se o conteúdo é o mesmo. numa audição de meia-hora. O ouvinte não precisa participar do programa do começo ao fim. o ouvinte tem um verdadeiro resumo das posições obtidas em pouco mais de três horas de programa. Nos minutos finais. geralmente leituras de roteiros com sutis diferenças para retomar a descrição da captura de Saddam e as conseqüências da prisão. esses programas como essencialmente jornalísticos. como se o ouvinte partilhasse de uma conversa entre amigos. de maneira de apresentar a informação. por exemplo. Não consideramos.88 88 Até onde pudemos observar cotidianamente. como a repercussão da prisão de Saddam. que o único sentido investido em determinados momentos é o de proximidade. no sentido de repetição de trechos idênticos das mesmas notícias. 15 de dezembro de 2003. é a evolução da reportagem sobre o assunto durante o próprio jornal. apareceu durante o noticiário. Podemos considerar que a edição do Jornal da CBN apresentou a captura de Saddam como a mais importante notícia em função do tempo cedido e da reiteração do assunto durante todo o programa. notadamente a questão da manipulação do tempo e sua relação com o nível de atenção e de tensão noticiosa. a seguir. vinculam-se ao Jornal da CBN. Vale salientar que as características que apontamos para a textualização jornalística do rádio. principalmente de classe social e nível cultural. Vale observar como a notícia se “espalhou” pela edição. entretanto. há pouquíssima redundância. Vale lembrar que esses enunciatários. entretanto. Em outras palavras. o Jornal da CBN de segunda-feira. Muitos programas de radiojornalismo no Brasil ocupam tempo com assuntos não jornalísticos. entre outros recursos. há variação de frases. o texto do radiojornalismo tem uma característica que o aproxima do da Internet. vamos retomar agora o programa em estudo. Foram buscados recursos diversos. com diferentes objetivos e ofertas de tempo. houve uma repetição completa da notícia.Para analisar melhor a questão. Não se pode negar ainda. a prisão é o fato desencadeador de maior atenção – e assim deveria ser entendido pelo enunciatário ouvinte. ou seja. mostram um enunciatário entendido de maneira dinâmica e fragmentada. É possível conhecer os assuntos mais importantes. em nenhum momento. É concebido para atrair enunciatários distintos. Em compensação. inclusive em outros programas da própria CBN. Saliente-se que. e notadamente as relações entre valor da notícia a partir do tempo de apresentação no fluxo informativo. no entanto.

o fato gerador da notícia. todo o trabalho jornalístico do programa pode ser resumido em uma única pergunta: “Como ficam o Brasil e o mundo após a prisão de Saddam?” Mais do que recuperar o que aconteceu. buscar tensão a partir de novas perguntas que passaram a não ter resposta. entrevistou o embaixador do Brasil em Israel. repercutiam a prisão do ditador .os elementos de atualização. Sérgio Moreira Lima. assim. o programa evita que a notícia seja interpretada como “velha”. criou uma descontinuidade (ele estava desaparecido). a partir daí. A captura ocorreu quase dois dias antes. na idéia de que as novidades têm de ser necessariamente ruins. questões. a falta de investimentos na área e a baixa e deficiente profissionalização. é um “aqui”. por meio da fala de Moreira Lima. mas uma espécie de “aqui-mundo”. e foi divulgada no domingo. A estratégia da CBN. Uma das conclusões do trabalho: “A emissora dá pouco pouco destaque só mostram os problemas do veículo. O que chama a atenção em uma narrativa são as alterações de continuidade.O jornal analisado é o da segunda-feira. sociais e políticas . A estratégia do programa foi a de “esquentar” a notícia. por exemplo. sobre a repercussão da prisão de Saddam entre israelenses e palestinos. foi contextualizar a notícia e. aliás. O jornalismo cria expectativas para se autoalimentar. O efeito de proximidade temporal e espacial não é o bastante para motivar o consumo de uma notícia. Aliás. Desse modo. 134 . um acontecimento desejável. não está. Assuntos internacionais geralmente não têm maior destaque na programação rotineira da CBN. se questionam se a paz seria conquistada. Entrevistados e âncora. O potencial de atração das notícias. notadamente por meio de entrevistas com autoridades e até mesmo com jornalistas de diversos países que. Falar em descontinuidade significa apontar uma quebra de rotina que tanto pode ser positiva (relação sujeito-objeto desejável) quanto negativa (relação indesejável). O âncora da CBN fez do embaixador uma espécie de correspondente especial. E ressaltou que a entrevista era “ao vivo”. busca-se especular sobre o futuro. Se a prisão aconteceu em um tempo anterior. Heródoto Barbeiro. sempre lembradas pelos próprios jornalistas e pelas entidades que os representam. que se seguiu a de outros jornais. do ponto de vista da imprensa ocidental. por exemplo. mas era. por exemplo. e o que estava acontecendo em Israel. A prisão de Saddam. a repercussão é um “agora”. É preciso instaurar uma curiosidade (querer-saber). Trabalhou-se com um efeito de enunciação enunciada – desembreagem enunciativa – numa tentativa de aproximar o ouvinte da notícia. O efeito de atualidade era buscado por meio de análises e repercussões econômicas. portanto. no entanto. no sábado. A dissertação de mestrado de Flávio Falciano (1999: 123) mostra essa característica da rádio. um desejo de conhecer toda a história.

caracterizando assim a CBN como uma emissora que difunde prioritariamente conteúdo jornalístico de cunho nacional”. E fez com que toda a equipe corresse para os telefones em busca de autoridades para entrevistar. a estrutura de happy end é clara. aumentar a carga de material internacional poderia significar queda de audiência. A tabela a seguir mostra o cuidado na organização da reportagem. podia ser planejada. portanto. portanto. A maior parte das “sonoras” . o Jornal da CBN apresentou a versão dos Estados Unidos sobre a prisão de Saddam. é ridicularizar a posição estadunidense. na conclusão da edição.é de políticos que estavam envolvidos com a questão. Do ponto de vista ideológico. A prisão de Saddam jogou a notícia da expulsão para o segundo lugar na ordem de importância. cria um novo sentido. No programa analisado. Essa crítica final ressoa e traz novas significações a todos os conteúdos veiculados na edição. termina com uma música infantil que brinca com a posição de líderes dos Estados Unidos diante da prisão de Saddam. ou seja. que tinha data para acontecer e. Paul Bremen. mas zombou dos norte-americanos. como já foi dito. comentam ou citam a prisão de Saddam Hussein Trechos em cinza: publicidade (spot) Trechos em branco: restante do programa 135 . especialmente do administrador do Iraque. O que o Jornal da CBN faz. A análise do programa como um todo também dá uma boa indicação de como o radiojornalismo e a dinâmica das notícias funcionam. Tabela 1 Programa Jornal da CBN – edição de segunda-feira.espaço ao noticiário internacional. Todas as notícias e os comentários sobre o assunto durante o programa ganham outra leitura. com o deslocamento de repórteres. Essa observação enfatiza ainda mais a importância que a prisão de Saddam Hussein adquiriu no Jornal da CBN. de que não há interesse nesse tipo de notícia por parte do ouvinte CBN e que. buscou verificar o que aconteceria com a detenção do ex-ditador do Iraque. sob a alegação. Fica evidente que a manchete inicialmente prevista era a da expulsão dos “radicais do PT”.trechos de entrevistas . não comprovada. Essa utilização funciona como um desencadeador de isotopia. O Jornal da CBN. 15 de dezembro de 2003 Trechos em laranja:falam.

Rádio CBN. assessor especial do governo Lula.contextualização Sonora: deputado Vavá fala da expulsão Heródoto diz que críticas dos “radicais” ao governo vão continuar Sonora: deputado Vavá faz mais comentários sobre expulsão Heródoto: possibilidade de criação de um novo partido pelos “radicais” Sonora: deputada Luciana Genro Heródoto apresenta deputada Heloísa Helena Sonora: deputada Heloísa Helena Heródoto diz que vai apresentar o “outro lado”. jornalista português Sonora: comentário de Carlos Fina sobre captura de Saddam e alívio no Iraque Heródoto – hora .Fala da expulsão dos “radicais do PT” .Início do programa 6h03 da manhã 0s Total em segundos do fragmento 20s Recurso sonoro Música de entrada e música de acompanhamento Unidade Vinheta com os prefixos . AM e FM Voz feminina: Tempo e temperatura na cidade de São Paulo Patrocínio da próxima meia hora: Bradesco Heródoto: hora Vinheta: Jornal da CBN . Paul Bremen: anuncia prisão de Saddam em inglês Heródoto explica que os gritos na gravação de Bremen são de jornalistas iraquianos Sonora: Fala de Bush sobre Saddam Heródoto comenta fala de Bush Sonora: nova fala de Bush Heródoto anuncia opinião de Marco Aurélio Garcia. sobre a prisão de Saddam Sonora: comentário de Garcia sobre o futuro de Saddam Heródoto apresenta Carlos Fina. Sonora: deputado Genuíno Heródoto apresenta o deputado Aloísio Mercadante Sonora: deputado Mercadante Heródoto chama o apresentador Laerte Vieira Laerte: “bom-dia” e hora Heródoto: chama intervalos e diz que já volta com mais notícias Laerte: horário brasileiro de verão 20s 27s 34s 39h 7s 7s 5s 11s Som Música 50s 10s Música de fundo 1m 1m45s 45s 15s Música de fundo 2m 36s Música de fundo 2m36s 2m46s 3m 3m07s 10s 14s 7s 11s Música de fundo Música de fundo 3m18s 3h50s 4m01s 4m25s 5m 5m17s 5m23s 5m38s 5m45s 6m 6m08s 6m20s 6m28s 6h48s 7m02 7m18s 7m21s 7m24s 7m28s 32s 11s 24s 35s 17s 6s 15s 17s 15s 8s 12s 8s 20s 14s 16s 3s 3s 4s 5s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo 136 . Marco Aurélio Garcia afirma que prisão de Saddam pode apressar a entrega do poder ao povo iraquiano Heródoto faz descrição “factual” da prisão de Saddam Sonora: administrador do Iraque.as notícias que podem mudar o seu dia – apresentação de Heródoto Barbeiro Heródoto: O assessor especial do presidente da República para assuntos internacionais.

” Heródoto pergunta temperatura na Paulista para Alexandra Dias.Hora Publicidade . Alexandra: Temperatura .Esportes Voz não identificada: resultado da Rodada do Campeonato Brasileiro Publicidade – carro blindado Publicidade – leilão de imóveis Bradesco Vinheta: “Estamos apresentando Jornal da CBN” – oferecimento Bradesco Heródoto comenta e lê e-mail de ouvinte que critica academia Runner Laerte: hora Vinheta: “Jornal da CBN” Heródoto –hora e anúncio Heródoto: tentativa de reverter expulsão dos radicais Entrevista gravada: repórter Juliana Alvim fala da convenção em um hotel que decidiu a expulsão dos deputados do PT e da senadora Heloísa Helena contextualização Sonora com a deputada Heloísa Helena: 11m38s 11m42s 12m12 12m20 12m36 12m30 12m32s 12m49s 12m52s 13m22s 13m33s 13m38s 14m57s 14m58s 15m10s 15m39s 15m42s 4s 30s 8s 16s 6s 2s 17s 3s 30s 11s 5s 19s 1s 12s 29s 3s 1m25s Música Ruídos de buzina e Música Música Música 17m07s 17m08s 17m38s 18m08s 18m10s 18m15s 19m06s 19h36s 20m06s 20m16s 21m12s 21m13s 21m22s 21m26 21m40s 2s 30s 30s 2s 5s 1m9s 30s 30s 10s 56s 1s 9s 4s 14s 16s Só música Música e fala Som Música e fala Música no fundo Música de fundo 21m56s 22s 137 .hora Publicidade .veículos Laerte: hora Vinheta: estradas – oferecimento via Fácil Heródoto chama Telma Costa Trânsito com Telma Costa Heródoto .hora Heródoto – Manutenção da prisão de suspeito da morte do prefeito Celso Daniel.hora Vinheta .Monsanto Vinheta – tempo – patrocínio AES Eletropaulo Heródoto apresenta Laura Laura: tempo e temperatura Heródoto .Radiotaxi Publicidade: doação de sangue – Ministério da Saúde Heródoto: hora Heródoto comenta e lê e-mail de ouvinte que critica abordagem do Discovery Channel sobre Santos Dumont Heródoto .Rodízio Heródoto: Hora Publicidade – Transgênicos .. oferecimento Angra. Sérgio Gomes da Silva Heródoto ..Engov Publicidade – limpador de pára-brisa Dina Heródoto . Federal Laerte: hora Publicidade – Chester Perdigão Publicidade – Sabrico . oferecimento Bradesco” Heródoto: Hora Vinheta: “Trânsito na CBC.Programa Primeiro Emprego – Gov.hora Publicidade: Vale Alfabetizar Heródoto .Música sobe 7m33s 8h17s 8m20s 8m50s 9m20 9m21 9m36 9m37s 9m50s 9m52ss 10m36s 10m38s 44s 3s 30s 30s 1s 15s 1s 13s 2s 44s 2s 60s Ruídos de buzina e música no final Vinheta: Jornal da CBN Publicidade .hora Publicidade – Leilão de Imóveis Vinheta “Estamos apresentado Jornal da CBN.

Em outras palavras. e das principais chamadas. falar que as principais notícias do dia são divulgadas a cada meia hora implica retomar o que de mais importante aconteceu em um grande período de tempo. que fala de cinto de segurança em ônibus – entrevista Rodolfo – Bom-dia Heródoto – O que o Código diz sobre cinto de segurança em ônibus? Rodolfo – passageiros não usam cinto Heródoto – questiona se é para todos os ônibus terem cinto Rodolfo – Só rodoviários Heródoto – Só rodoviários? Rodolfo – Só rodoviários pois urbanos têm passageiros em pé Heródoto – O motorista do ônibus Teoricamente. Sonora . 89 138 . Não é isso o que se ouve durante o programa. haveria bastante repetição.hora Heródoto: assassinato de executivo da Shell e da mulher no Rio .deputada: “Consciência tranqüila” Repórter: deputados têm esperança de reverter a expulsão Sonora .hora Jornal da CBN Vinheta – anuncia o patrocinador da última meia hora .Bradesco Laerte – Tempo e temperatura Anúncio do patrocinador Chevrolet Hora Laerte: Hora Vinheta: “Jornal da CBN” Heródoto entrevista Rodolfo Pisoto. não da casa grande” Repórter: princípio de tumulto na convenção que decidiu a expulsão. do SOS Estradas. que se apresenta e anuncia que está em Brasília Heródoto .deputado Walter Pinheiro comenta expulsão Fala final da repórter Juliana Alvin.22m18s 22m20s 22m28s 23m18s 23m42s 23m55s 24m07s 24m18s 24m19s 24m28s 25m47s 25m49s 2s 8s 10s 24s 13s 12s 11s 1s 9s 1m19s 2s 22s Música e fala 26m11s 26m12s 26m25s 26m38s 26m53s 27m11s 27m18s 27m24s 27m27s 27m31s 27m35s 27m45s 27m49s 27m58s 28m 28m02s 28m07s 1s 13s 13s 15s 42s 7s 6s 3s 4s 4s 10s 3s 9s 2s 2s 5s 8s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música Música Vinheta Efeito Sonoro Música e fala Entrevista termina com música da vinheta 28m15s 28m18s 28m24s 28m45s 28m50s 28m52s 28m57s 28m59s 3s 6s 21s 5s 2s 8s 2s 21s considera “crueldade” os pedidos para que ela se desculpasse com PT Repórter: Heloísa reafirmou as críticas Sonora com a deputada: “Estou a serviço da senzala.investigações Repórter: polícia não encontrou arma do crime – Genilson Araújo do Rio Laerte: horário brasileiro de verão Vinheta Repórter CBN – “As principais 89 notícias do dia a cada meia hora” oferecimento da Bradesco Seguros Laerte: data Laerte: aeroportos Laerte: expectativas da China em relação à prisão de Saddam Laerte: preço do barril de petróleo em função da captura de Saddam Laerte: Senado – projeto da Previdência Laerte: hora Vinheta – “Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora” Heródoto: “Daqui a pouco voltamos com outras informações sobre saúde” Laerte .

o que mostra que os ônibus andam com excesso de velocidade Heródoto agradece e faz o “pé”: conta trechos da entrevista.29m20s 59s 30m19s 30m24s 31m35s 5s 1m11s 13s 31m48s 1m18s 33m06s 33m12s 6s 12s 34m24s 34m27s 35m01s 35m03s 3s 34s 2s 22s 35m25s 18s Música de fundo 35m43s 35m45s 35m40s 36m46s 36m48s 37m18s 37m21s 37m23s 37m40s 2s 5s 1m6s 2s 30s 3s 2s 17s 24s Música de fundo Música e fala 38m04s 38m05s 38m34s 38m46s 38m49s 39m07s 39m08s 39m38s 40m08s 40m38s 40m46s 40m50s 40m55s 1s 29s 12s 3s 18s 1s 30s 30s 30s 8s 4s 5s 40s Música e fala Efeito sonoro Música e fala Início música de fundo também deve usar? Rodolfo – Nos ônibus rodoviários há grande número de vítimas. Comenta ainda companhias que fazem viagem sem paradas. Passageiro devia ser multado se não usar Heródoto – O sistema não poderia ser igual ao do avião: o avião não sai se todo o mundo não estiver com o cinto? Rodolfo – Passageiros não têm idéia do perigo – comenta o perigo maior envolvendo crianças. Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – ABIM – Hospital Virtual Exporta Fácil Laerte: hora Publicidade: American Airlines Laerte: hora Heródoto chama Paulo Massini Trânsito em SP com Paulo Massini – diz que está na av. Rodolfo diz que não. o que prejudica a saúde dos passageiros Heródoto questiona se não há legislação que obriga a parada Rodolfo – Só uma empresa no eixo RioSão Paulo cumpre a lei Heródoto questiona se a viagem pode ser feita em menos de quatro horas. 23 de maio. tempo Laerte: Hora Vinheta: Jornal da CBN Heródoto: admissão do Peru no Mercosul 139 . Corpos são projetados porque estão soltos Heródoto – como é o cinto de segurança dos ônibus Rodolfo – abdominal. Heródoto – O motorista não pode verificar? Rodolfo – cinto deve ser imposto. fala da importância do cinto nos ônibus rodoviários e chama intervalo. mesmo não sendo visto com simpatia pelos passageiros. Repórter Paulo Massini e Heródoto conversam sobre futebol e fazem brincadeiras com o outro apresentador Laerte: hora Publicidade: Via Fácil Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Rede Chevrolet Laerte: hora – apresenta repórter Alexandra Dias Alexandra Dias: trânsito na cidade de São Paulo Laerte: Hora Publicidade: Seguro Auto Porto Seguro Publicidade: AES Eletropaulo Publicidade: cartucho de impressora Maxprint Laerte: anuncia Jornal da CBN.

chama comerciais e diz que em seguida haverá a participação de Juca Kfouri Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Primeiro Emprego Laerte: hora Publicidade: Título de Capitalização Ouro Cap Publicidade: celular Nokia Laerte: hora . não. Ele acredita que a insatisfação da população vai aumentar em relação às tropas dos EUA Sonora .anuncia redatora Telma Costa Telma Costa. Arantes: A expectativa de paz é do governo. Fala da captura de Saddam e apresenta Abelardo Arantes – embaixador do Brasil no Paquistão – fala “neste momento” – Começa a entrevista.” Ele não crê que a captura seja vista com simpatia pelos paquistaneses Heródoto questiona se a imprensa local acredita em paz depois da captura de Saddam. Âncora pergunta a repercussão no Paquistão Arantes: repercussão intensa Heródoto: há simpatia pelo regime? Arantes: a simpatia é pelo Iraque Heródoto: houve manifestação pública? Arantes: “No momento. Noticia ato terrorista no Paquistão Heródoto: fala que o ouvinte está acompanhando as notícias mais importantes da manhã e comenta que a NHK japonesa faz novela no Brasil Laerte: hora Heródoto: narra a opinião do professor de literatura árabe da PUC Mamed Mustafá Giaruchi sobre o Iraque e Saddam. retoma pontos da entrevista.Professor Giaruchi: o interesse dos EUA está nos poços de petróleo Heródoto: retoma a notícia.41m35s 42m00s 25s 38s Música de fundo Música de fundo 42m38s 42m40s 2s 26s Música de fundo Música de fundo 43m06s 43m37s 29s 49s 44m26s 45m25s 45m36s 46m18s 46m23s 59s 11s 42s 5s 17s 46m40s 10s 46m50s 47m21s 29s 31s Sob música no final 47m47s 47m49s 48m36s 48m38s 49m08s 49m34s 49m42s 50m04s 50m05s 50m47s 51m18s 2s 47s 12s 30s 26s 6s 22s 1s 42s 29s 34s Música e fala 51m52s 51m53s 52m19s 52m22s 52m37s 52m48s 1s 26s 3s 15s 11s 5s Música e fala Laerte: hora. da redação: incêndio em fábrica de plásticos em São Paulo Laerte: hora Publicidade: Pré-pago Tim Publicidade: operadora de celular Claro Heródoto: comenta opinião de outro leitor – continua polêmica sobre paternidade da invenção do avião Laerte: hora Publicidade: Compuware Laerte: hora – anuncia Alexandra Dias Alexandra Dias: morte de motociclista na cidade de São Paulo Laerte: temperatura e tempo Vinheta: Jornal da CBN 140 . não do público Heródoto agradece.

) Tem pequena duração e. por isso. (. não se confunde com a sonora usada na edição” (2003: 80). Barbeiro e Lima afirmam que teaser é “uma declaração contundente e que pode chamar a atenção do ouvinte.. 9 mortos Laerte: Saddam será tratado como prisioneiro de guerra.. Acha que os EUA vão montar um outro fórum Heródoto: questiona se Saddam tem direito a julgamento isento Edueta comenta os crimes. mas diz que “todos têm direito a um julgamento isento” Heródoto: agradece a entrevista e retoma algumas respostas. Apresentador questiona onde Saddam poderia ser julgado Edueta: sugere o Tribunal Penal Internacional Heródoto: pergunta se é o tribunal recentemente constituído pelo Tratado de Roma Edueta: espera que Bush cumpra a promessa de um julgamento isento Heródoto: pergunta se há uma juíza brasileira Edueta diz que sim e comenta a prisão de Saddam Heródoto: questiona se os EUA aceitam o Tribunal Edueta: diz que os EUA não aceitam o Tribunal. só encontramos esse recurso nesse trecho. Pode ser separada e usada na abertura e encerramento de programas. ex-presidente da seção brasileira da Anistia Internacional trocam “bom-dia” .52m52s 52m53s 1s 5s Teaser90 52m58s 14s Música e fala 53m12s 54m48s 54m50s 1m36s 2s 20s Som e fala 55m10s 55m34s 24s 22s Música de fundo Música de fundo 55m56s 56m08s 56m09s 56m23s 56m30s 56m40s 56m46s 57m00s 57m02s 12s 1s 14s 7s 10s 6s 14s 2s 2s Música de fundo Efeito sonoro Música e fala 57m04s 30s 57m34s 58m02s 28s 6s 58m08s 58m32s 58m38s 59m20 59m38s 24s 6s 44s 18s 34s 1h00m22s 1h00s32s 1h01m38 10s 6s 30s Laerte: hora Juca Kfuori: manchete de esporte: “Acabou o primeiro campeonato por pontos corridos” Vinheta: “Momento do Esporte com Juca Kfuori” – oferecimento AES Eletropaulo e limpador de pára-brisa Dina Juca Kfuori avalia a final do campeonato brasileiro Laerte: Hora Vinheta: “Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora” – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: estouro de carros-bomba em Bagdá. No jornal analisado. Donald Rumsfeld Laerte: Taxa de juros Laerte: Hora Vinheta: repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto: “Nós já voltamos” Vinheta: patrocínio Chevrolet linha 2004 Laerte: Tempo e temperatura Vinheta: patrocínio da próxima meia hora: Estomazil Laerte: Hora Vinheta: Jornal da CBN – “As notícias que podem mudar o seu dia – apresentação Heródoto Barbeiro” Heródoto: mais informações sobre Saddam – Entrevista com o advogado Carlos Edueta. afirma secretário de defesa dos EUA. 90 141 .

1h02m08s 1h02m10s 1h02m13s 1h3m12s 1h3m58s 1h4m00s 1h4m22s 1h4m31s 1h4m33s 1h4m47s 1h4m48s 1h5m18s 1h5m33s 1h5m35s 2s 3s 59s 46s 2s 22s 9s 2s 2s 1s 30s 15s 2s 58s Música sobe Música e fala Música e fala Ruídos e música Música e fala 1h6m33s 1h7m00s 1h7m30s 1h7m42s 1h7m50s 1h8m24s 1h8m45s 1h8m46s 27s 30s 12s 8s 34s 21s 1s 22s Ruídos de helicóptero 1h9m08s 1h9m55s 47s 7s 1h10m02s 43s 1h10m45 1h10m50s 1h10m59s 1h11m03s 1h11m56s 5s 9s 4s 53s 4s 1h12m00s 18s 1h12m18s 1h12m20s 1h12m47s 1h13m04s 1h13m05s 1h13m48s 2s 27s 17s 1s 43s 13s Ruídos de Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Portal do Exportador Correio Publicidade: Programa Primeiro Emprego – Governo Federal Laerte: Hora Publicidade de Liberdade de Expressão – patrocínio Souza Cruz Vinheta Trânsito – patrocínio Angra Laerte apresenta Alexandra Dias Trânsito: repórter Alexandra Dias Laerte:Hora Publicidade .Estomazil Vinheta Jornal da CBN – oferecimento Estomozil Laerte: hora Heródoto lê e comenta matéria da Folha de São Paulo sobre pessoas que mudaram de religião – tom de leitura Publicidade: Cavê . Âncora questiona a razão de as gráficas deixarem a cidade de São Paulo Camargo fala do aumento de impostos e outros problemas da cidade Heródoto questiona se as cidades ao redor de São Paulo têm impostos menores Camargo explica que o redirecionamento das gráficas tirou sete mil postos de trabalho da cidade de São Paulo Heródoto questiona se esses postos não foram para outras cidades Camargo concorda Heródoto: É guerra fiscal? Camargo explica que a mudança acontece também na Alemanha. Heródoto questiona se o mercado das gráficas continua a ser o da cidade de São Paulo Camargo concorda.construção Publicidade: Instalação elétrica . Vale do Rio Doce Vinheta: Notícia Aérea CBN – 142 . Heródoto: hora Publicidade: projeto Vale Alfabetizar da Cia.Angra Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Unidas Heródoto comenta rebaixamento do Grêmio com repórter Vanessa Vanessa comenta futebol com Heródoto e depois fala do trânsito Trânsito do helicóptero – cidade de São Paulo e tempo Heródoto: hora Heródoto entrevista o presidente da Abigraf. Diz que as gráficas não podem ficar longe do principal mercado consumidor Heródoto: Trânsito pesa como fator logístico? Camargo: Dificuldade de deslocamento implica custos Heródoto encerra entrevista e retoma pontos. Mauro César Camargo – trocam bom-dia.

Marco Aurélio Garcia.helicóptero e fala 1h14m01s 60s 1h15m01s 1h15m31 s 1h16m01s 1h16m15s 1h16m16s 1h17m15s 1h17m46s 1h17m48s 30s 30s 14s 1s 59s 31s 2s 20s Música e fala 1h18m08s 1h18m35s 1h19m12s 1h19m13s 1h19m43s 27s 37s 1s 30s 7s 1h19m50s 1h20m00s 1h20m05s 1h20m07s 1h20m20s 10s 5s 2s 13s 13s Som – depois música e fala Música oferecimento Top Unidas Repórter Alexandra Dias. do helicóptero – mudanças no trânsito na cidade de São Paulo por causa de corredor de ônibus Publicidade: Aluguel de carros para empresas . de autoria de Arquimedes Messina Laerte: tempo e temperatura Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta – “Linha aberta com Carlos Alberto Sadenberg” – análise econômica Heródoto – trocam bom-dia – apresentador pede para Sademberg comentar a repercussão da prisão de Saddam Hussein nos mercados financeiros Sademberg – a análise dos mercados é que a instabilidade vai acabar – reação foi muito positiva – bolsas subiram. sobre a prisão de Saddam. dólar se fortaleceu – comenta explosão de bomba em Bagdá e que a instabilidade não terminou Vinheta: CBN – Responsabilidade Social Heródoto: comenta o Projeto Redescobrindo o Adolescente Heródoto: hora Heródoto: apresenta a opinião do assessor do governo.trânsito: primeiro dia de funcionamento do corredor de Pirituba Heródoto: hora Publicidade – Varig Heródoto comenta música do comercial da Varig. Feng chui.Unidas Publicidade: bronzeador Cenoura e Bronze Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Estomazil Heródoto: hora Heródoto: morte de rapaz atacado por Skinheads em São Paulo Publicidade: cartucho de impressora Maxprint Heródoto: hora Heródoto: donas-de-casa aplicam na bolsa por meio de previsão da numerologia. mas governo brasileiro não se preocupa com a questão Repórter comenta cautela de Marco Aurélio e justifica: governo Lula busca aproximação com países do Oriente 1h20m33s 35s 1h23m08s 1h23m19s 1h24m06s 1h24m17s 11s 47s 4s 3s Música e fala Sobe música Mantém música de fundo 1h24m20s 14s 1h24m34s 1h25m02s 1h25m12s 28s 10s 31s 1h25m43s 22s 143 .Garcia acha que fato ajuda Bush. Questiona repórter se o Feng chui ajuda a ver o trânsito no helicóptero Vanessa comenta piada de Heródoto Vanessa . e chama repórter Repórter Estevão Danis retoma questão – Prisão deve agilizar o processo de reorganização do país Sonora: Garcia comenta momento para entrega de poder aos iraquianos Repórter – Como fica reeleição de Bush? Sonora .

mas negocia Alca com os EUA Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN. as principais notícias do dia a cada meia hora Laerte: anuncia em instantes as notícias da BBC Brasil Vinheta: Jornal da CBN Anúncio de patrocínio: Estomazil patrocinou a última hora Laerte: tempo e temperatura Patrocínio da próxima meia hora: Interchange Laerte: hora Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um boletim BBC Brasil” “Direto de Londres – Márcia Freitas”: Saddam se recusa a dar informações – Bush diz que a prisão não significa o fim dos problemas. Fala das dificuldades da população Márcia Freitas: vacina contra vírus Ebola funciona em macacos Márcia Freitas faz o encerramento: “Essas são as notícias da BBC Brasil” Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um Boletim da BBC Brasil” Laerte: Hora Vinheta: “Por dentro das reformas com Lucia Hipólito” Lúcia: Análise política da expulsão dos radicais Hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: Sebrae – sucessão familiar Publicidade – Prefeito Empreendedor Laerte: hora Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Unidas Repórter comenta trânsito da marginal Pinheiros Publicidade . as principais notícias do dia a cada meia hora. oferecimento Bradesco Laerte: data Laerte: Conselho Curador do FGTS discute aplicação de recursos Laerte: promotores investigam suspeitos da morte de Celso Daniel Laerte: governo prepara novo critério para cálculo da aposentadoria dos servidores públicos Laerte: senadora Heloisa Helena diz que não vai se filiar a outro partido Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN. “direto de Badgá”. fala do impacto da captura de Saddam na população do Iraque. Ataque de bombas em Bagdá .apresenta a repórter espanhola Repórter espanhola Antonia Parabela.Interchange Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Interchange Heródoto: comenta reportagem do jornal O Globo sobre novos suspeitos da morte do prefeito Celso Daniel 144 .1h26m05s 1h26m12s 7s 16s Música e fala 1h26m28s 1h26m31s 1h26m49s 1h27m07s 3s 18s 18s 21s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo 1h27m28s 1h27m50s 1h27m59s 1h28m06s 1h28m10s 1h28m15s 1h28m27s 1h28m35s 1h28m46s 1h28m49s 1h28m54s 22s 1s 7s 4s 5s 12s 8s 11s 3s 5s 56s Música de fundo Música de fundo Música e fala Música e fala Som Efeitos sonoros e fala 1h29m50s 38s 1h30m28s 1h30m40s 1h30m45s 1h30m51s 1h30m54s 1h31m07s 1h33m54s 1h33m58s 1h34m00s 1h35m30s 1h36m03s 1h36m07s 1h36m17s 1h36m42s 1h37m11s 1h37m18s 12s 5s 6s 3s 13s 47s 4s 2s 1m30s 33s 4s 10s 35s 31s 7s 1m31s Música de fundo Música e fala Música de fundo Efeitos sonoros e fala Música e fala Ruídos e fala Música e fala Médio.

na Capital Paulista Laerte: hora Heródoto comenta “questão de ciência” de Ana Lúcia Azevedo – pesquisas sobre esponjas brasileiras com compostos anticancerígenos Laerte: hora e temperatura na cidade de São Paulo Vinheta: Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta: Política em foco com Franklin Martins Heródoto pede para Franklin Martins comentar a saída dos “radicais” do PT Franklin Martins – comentário político – não acha que vai haver grandes crises dentro do PT Heródoto agradece a Franklin Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN . Trocam bom-dia. Heródoto: E a reação dos palestinos? Moreira Lima: “Totalmente diferente. Moreira Lima afirma que Sharon telefonou a Bush com uma mensagem de congratulações.1h38m49s 1h38m59s 1h39m01s 1h39m05s 10s 2s 4s 26s Efeito sonoro Música e fala Música de fundo diminui após três segundo 1h39m31s 55s 1h40m26s 1h40m28s 1h42m06s 1h42m14s 2s 22s 8s 31s 1h43m55s 60s 1h44m55s 1h44m57s 1h45m00s 1h45m30s 1h46m01s 1h46m03s 1h46m28s 1h46m55s 1h46m58s 1h47m22s 1h47m24s 1h47m53s 1h48m00s 1h48m12s 1h48m40s 1h48m42s 2s 3s 30s 31s 2s 25s 27s 3s 24s 2s 29s 7s 12s 28s 2s 7s Música e fala Música e fala Ruídos e fala 1h49m49s 1h49m56s 1h50m02s 1h50m03s 1h50m20s 1h50m31s 7s 6s 1s 17s 11s 2m49s Efeito sonoro no final Música e fala Música e fala 1h53m20s 1h53m24s 1h53m26s 4s 2s 21s Música e fala Laerte: tempo e temperatura Hora Vinheta: Jornal da CBN Heródoto entrevista o embaixador do Brasil em Israel. sobre a repercussão da prisão de Saddam entre israelenses e palestinos. Os israelenses se sentem aliviados. Sérgio Moreira Lima.” Embaixador lembra que Saddam financiava homens-bomba Trocam despedidas – Heródoto fala que entrevista aconteceu ao vivo e retoma ponto principal da conversa. Heródoto pergunta o que diz a imprensa de Israel Moreira Lima diz que a leitura é positiva.comunicação Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Interchange Vinheta: Notícia Aérea CBN – oferecimento Top Executive Unidas Repórter no helicóptero comenta trânsito da Rebouças. Eletrobrás Laerte: hora Publicidade: Goodyear Publicidade: Golden Cross – Plano de Saúde Laerte: hora e chama Alexandra Dias Trânsito na cidade de São Paulo com Alexandra Dias Laerte: hora Publicidade: Interchange . Arafat manifestou a tristeza com a humilhação de um líder árabe. Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: entrega de encomendas TL Express Publicidade: Programa Luz para Todos.oferecimento Bradesco 145 .

. Laerte: hora Vinheta: Boletim Seu dinheiro com Mauro Helfeld – oferecimento Banco do Brasil Mauro comenta taxas de juros nas prestações dos cartões de crédito Laerte: hora Vinheta: comentário de Arnaldo Jabor Comentário de Jabor que aborda a prisão de Saddam e a corrupção no Brasil Vinheta “O comentário de Arnaldo Jabor” Heródoto: “Daqui a pouco nós voltamos” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – Defesa dos Bingos 146 .vinheta Patrocínio da última meia hora Interchange Laerte: tempo-temperatura Próxima meia hora .” Sonora : deputada Luciana Genro comenta que “um debate está sendo aberto para construir essa alternativa” Heródoto: introduz fala de Heloisa Helena Sonora:deputada Heloísa Helena comenta expulsão Heródoto e o “outro lado”: introduz fala do deputado Genoíno Sonora: deputado Genoíno diz que PT já nem computava os votos dos “radicais” nas votações do Congresso Heródoto: introduz fala do deputado Aloízio Mercadante Sonora: deputado Mercadante diz que a divergência de fundo é de visão de partido Heródoto: apresenta o “outro lado” e a fala da defesa feita por Eduardo Suplicy Sonora : Suplicy diz ter “afinidades” com os expulsos Heródoto complementa fala de Suplicy e comete erro Sonora: deputado Chico Alencar diz que expulsão foi “insensatez”.1h53m47s 1h53m50s 1h54m04s 1h54m26s 1h54m52s 1h54m53s 1h55m07s 1h55m08s 1h55m12s 1h55m15s 1h55m24s 1h55m30s 1h55m40s 1h55m43s 1h55m48s 1h56m24s 1h56m44s 1h56m48s 1h57m02s 1h57m12s 3s 14s 22s 26s 1s 10s 1s 4s 3s 9s 6s 10s 3s 5s 36s 20s 8s 14s 10s 16s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música e fala Som Música e Fala Música sobe e é reduzida 1h57m28s 1h57m33s 1h57m46s 1h57m53s 5s 13s 6s 20s 1h58m13s 1h58m20s 7s 7s 1h58m35s 1h58m47s 1h59m00s 1h59m08s 1h59m22s 1h59m26 1h59m28s 1h59m48s 2h01m22s 2h01m25s 2h01m39s 2h3m22s 2h3m33s 2h3m35s 2h3m44s 2h3m45s 7s 3s 8s 14s 4s 2s 20s 34s 3s 14s 1m43s 13s 2s 9s 1s 30s Música e fala Música e fala Música e fala Música de fundo Música de fundo Música e fala Laerte: data Laerte: manifestação no Iraque Laerte: Peru irá se incorporar ao Mercosul Laerte: rentabilidade da caderneta de poupança – baixo retorno e saques Laerte: hora Vinheta Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto: “Daqui a pouco nós voltamos” Laerte: hora Jornal da CBN ..Jornal da CBN Heródoto: senadora Heloísa Helena vai tentar reverter a expulsão Sonora: deputado Vavá comenta expulsão Heródoto – Vavá avisou que as críticas vão continuar Sonora: deputado Vavá diz que governo está ao lado dos banqueiros Heródoto: “Rebeldes vão criar partido. Heródoto corrige erro.Patrocínio Fiat Laerte: Hora Vinheta .

comenta notícia da CNN e entrevista a professora de direito internacional da USP Maria Estela Basso – trocam bom-dia.chama Vanessa di Sevo Vanessa comenta trânsito Heródoto: hora Vinheta Jornal da CBN -patrocínio concessionárias Fiat Publicidade: pneus Goodyear Heródoto: hora Heródoto fala da prisão de Saddam. já que não há provas. com oferecimento Souza Cruz Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta: Dia-a-dia da Economia.Angra Publicidade – Cartão American Express Chamada para programete Liberdade de Expressão. “O crime é contra a humanidade” Heródoto: “Isso afasta a hipótese dos EUA levarem Saddam para os Estados Unidos para julgá-lo lá?” Maria Estela acha que.oferecimento Fiat Publicidade celular Nokia-Claro Heródoto pergunta para Vanessa se. cita a professora e o tema da entrevista Heródoto: hora Vinheta Jornal da CBN . com Mirian Leitão 147 . Questiona o que os americanos vão fazer com Saddam Maria Estela: “Os americanos não sabem. o trânsito piora ou melhora Trânsito – Vanessa comenta o trânsito na cidade de São Paulo Publicidade – material elétrico . A alternativa mais adequada seria levar para o Tribunal Penal Internacional. Heródoto questiona que crime ele teria cometido nos EUA Maria Estela diz que ele não poderia ser julgado por crimes contra os EUA.2h4m15s 2h4m59s 2h5m29s 2h5m32s 2h5m42s 2h6m08s 2h6m11s 2h6m54s 2h7m25s 2h7m27s 2h7m54s 2h7m56s 2h8m04s 2h8m30s 2h8m31s 44s 30s 3s 10s 26s 3s 43s 31s 2s 27s 2s 8s 26s 1s 30s Ruídos e música Música e fala 2h9m01s 3m17s 2h12m18 2h12m32s 2h13m03s 2h13m09s 14s 31s 6s 33s 2h13m42s 15s 2h13m57s 2h14m42s 45s 4s 2h14m46s 1m32s 2h16m18s 2h16m29s 2h16m34s 2h16m40s 2h17m10s 21s 5s 6s 30s 5s Música e fala 2h17m15s 2h17m51s 2h18m19s 2h18m49s 2h19m15s 2h19m20s 2h19m22s 36 28s 30s 26 5s 2s 13s Música e fala Som. mas os EUA não fazem parte desse fórum” Heródoto pergunta qual seria a acusação Maria Estela diz que terão que enquadrálo em algum crime para julgá-lo. música e fala Música e fala Publicidade – Programa Primeiro Emprego do Governo Federal Publicidade: Ourocard do Banco do Brasil Laerte: hora Vinheta Trânsito – patrocínio Angra Alexandra Dias – trânsito e temperatura na cidade de São Paulo Laerte: hora Publicidade: celular Tim Publicidade: aluguel de carros Unidas Heródoto: hora . de Bush. em função da aproximação do Natal. E diz que o julgamento no Iraque também seria um problema Heródoto agradece. pode-se esperar tudo Heródoto questiona se o julgamento de Saddam nos EUA seria mais uma manifestação de unilateralismo Maria Estela concorda.

2h19m35s 9s 2h19m44s 2m50s 2h22m34s 2h22m40s 6s 2m16s 2h24m56s 2h24m58s 2h25m11s 2s 13s 30s Música e fala 2h25m41s 2h26m11s 2h26m14s 30s 3s 19s Música e fala 2h26m33s 2h26m38s 2h26h53s 5s 15s 35s Música de fundo Música de fundo Música de fundo 2h27m28s 2h27m29s 2h27m43s 2h27m48s 2h27m50s 2h27m58s 2h28m18s 2h28m20s 2h28m31s 2h28m50s 1s 14s 5s 2s 8s 20s 2s 11s 19s 29s Música de fundo Música e fala Música e fala Efeito sonoro 2h29m19s 2h29m36s 17s 21s 2h29m57s 18s 2h30m14s 2h30m16s 2h30m22s 2h30m27s 2s 6s 5s 8s Música Música e fala Música e fala Heródoto pergunta que tipo de conseqüência traz para a economia a prisão de Saddam Mirian Leitão: diz que acha cedo para comemorar. Vinheta: “Dois minutos pelo mundo – um boletim da BBC Brasil” Laerte: hora Vinheta: Comunidade – com Gilberto Dimenstein 148 . de que a prisão de Saddam é uma vitória política.Lula diz que vai viajar à Índia e à China Reforma Universitária – governo propõe novos mecanismos de sustentação das universidades Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais noticias do dia a cada meia hora Laerte: “Voltamos em instantes com as notícias internacionais” Vinheta Jornal da CBN Patrocínio da última meia hora . Mas é um grande momento para George Bush. Comenta o déficit fiscal dos EUA. não econômica Heródoto e Mirian se despedem Vinheta: Ética nos negócios – oferecimento Ético Heródoto: jovens alemães são investigados por gastos excessivos na Internet Publicidade: contra a pirataria – Instituto Ético Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: data Laerte . Retoma questão. A esperança é que o país gaste menos com a guerra e possa combater o déficit público Heródoto pergunta se despesas dos EUA não incentivam a economia Mirian Leitão diz que bancos prevêem aumento da taxa de juros.Fiat Laerte: tempo – rodízio de veículos na cidade de São Paulo Laerte: hora Vinheta: Dois minutos pelo mundo – Boletim da BBC Brasil Márcia Freitas – “direto de Londres” Reunião do Mercosul em Montevidéu Repórter Denise Bacotina fala de Montevidéu: acordos de integração do Mercosul Márcia Freitas: três mortos em tiroteio em repúblicas russas Márcia Freitas: líderes de diversos países mostram satisfação com a prisão de Saddam Márcia Freitas: EUA dizem que Saddam não tem cooperado com novas informações Marcia Freitas: “Essas são as notícias da BBC Brasil”. para finalizar.

Chama Vanessa di Sevo Vanessa e o trânsito na cidade de São Paulo Laerte: hora Publicidade: Projeto Vale Alfabetizar Heródoto: resultado da caderneta de poupança – forte movimento de saques Laerte: tempo . assim. “Daqui a pouco. Passa trecho da fala de Paul Bremen falando da captura de Saddam Sonora de Paul Bremen Heródoto pergunta se não lembra espetáculo de Hollywood Cony: Concorda. Federal Laerte: hora Som. Liberdade de Expressão” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Informe Publicitário . E que. jamais pelos EUA Heródoto e Cony se despedem Vinheta: Liberdade de Expressão – oferecimento Souza Cruz Heródoto: “Daqui a pouco voltamos com mais notícias da prisão de Saddam” Vinheta: Jornal da CBN Publicidade: defesa dos bingos Publicidade: Primeiro emprego – Gov. música e fala Música e fala 2h39m31s 23s 2h39m54s 2h40m00s 2h40m06s 6s 6s 2m58s 2h43m04s 2h43m08s 4s 59s 2h44m07s 2h44m09s 2h44m28s 2h44m30s 2h44m36s 2h45m08s 2h45m52s 2s 19s 2s 6s 32s 44s 3s Música sobe e desce Música e fala 149 . Mas que o governo pode obter confissões de Saddam por tortura ou produtos químicos. como uma Lei Roanet para o setor. e recolhimento de contribuição de ex-alunos Heródoto: escolas poderiam aceitar doações? Gilberto: o problema é fazer uma lei de doação.despedida. pode-se obter confissões de Saddam que justifiquem políticas do governo Bush Heródoto pergunta onde Saddam pode ser julgado Cony justifica que só pode ser em um tribunal internacional ou por iraquianos.2h30m35s 2h30m40s 5s 4s 2h32m36s 2h32m50s 14s 1m14s 2h34m04s 2h34m11s 2h34m13s 2h34m20s 7s 2s 7s 45s Música e fala 2h35m05s 2h35m50s 2h35m53s 2h36m24s 2h36m28s 2h36m52s 2h36m54s 2h37m36s 2h38m58s 2h39m07s 2h39m15s 2h39m16s 45s 3s 31s 4s 24s 2s 42s 22s 51s 8s 1s 17s Ruído de helicóptero Heródoto: falência da Universidade pública Gilberto: medidas para arrumar dinheiro para as universidades públicas.temperatura Vinheta Jornal da CBN Laerte: hora Vinheta Liberdade de Expressão – debate entre Artur Xexéu e Carlos Heitor Cony sobre assuntos do momento – oferecimento Souza Cruz Heródoto conversa com Cony – Xexéu está em férias.Vinheta: Informe CNT – Confederação Nacional dos Transportes Publicidade – Primeiro Emprego – Gov. Lembra que o réu é sagrado. Federal Laerte: hora Publicidade: Ourocap – Banco do Brasil Laerte: hora. Cita o exemplo dos ex-alunos dos EUA que doam muito dinheiro Heródoto.

Milton Jung Laerte: hora Publicidade: automóveis Sabrico Publicidade: American Airlines Laerte chama Vanessa di Sevo . “Você acompanha agora as notícias da cidade” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN 150 . que sempre foi crítico da invasão do Iraque e está até elogiando Bush Heródoto – Despedem-se.trânsito Vanessa: comenta o trânsito na região do Morumbi Laerte: hora Publicidade: aluguel de veículos para empresas . Âncora lembra que repórter “falava diretamente de Nova York”.2h45m55 2h45m58s 2h46m20s 2h46m27s 3s 22s 7s 52s 2h47m19s 2h47m20s 2h47m50s 2h48m19s 2h48m20s 2h48m38s 2h48m40s 2h49m10s 2h49m12s 2h49m40s 2h49m48s 2h49m50s 2h50m00s 1s 30s 29s 1s 18s 2s 30s 2s 28s 8s 2s 10s 1m51s Ruído de helicóptero som Música e fala Música de fundo 2h51m51s 7s 2h51m58s 1m56s 2h52m54s 2h53m01s 2h53m03s 2s 20s Música e fala 2h53m23s 2h53m25s 2s 11s Música de fundo Música de fundo 2h53m36s 21s Música de fundo 2h53m57s 20s Música de fundo 2h54m17s 2h54m26 2h54m43s 2h54m53s 2h54m57s 2h55m00s 2h55m01s 9s 17s 10s 4s 3s 3s 1s Música de fundo Música de fundo Música de fundo Música e fala Música de fundo Música de fundo Música e fala Laerte chama repórter Vanessa Vanessa: trânsito do helicóptero Laerte: hora Heródoto comenta resultado do futebol e faz brincadeiras com o outro apresentador. Laerte: hora Vinheta: Repórter CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora – oferecimento Bradesco Seguros Laerte: data Laerte: termina prazo para a AES – controladora da Eletropaulo – e o BNDES fecharem acordo sobre dívida da companhia americana Laerte: Ministério Público pede abertura de inquérito contra sete deputados de Roraima Laerte: Principal avenida de acesso ao Vaticano terá interrupção na madrugada em função de risco de atentado a alvos cristãos Laerte: atentado suicida na Zona Norte de Badgá Laerte: Lula diz que fará novas viagens internacionais. à Índia e à China Laerte: hora Vinheta: Rádio CBN – as principais notícias do dia a cada meia hora Heródoto.Unidas Laerte: hora – chama Alexandra Dias na redação Trânsito com Alexandra Dias Laerte: hora Vinheta Jornal da CBN Heródoto – chama o correspondente em Nova York Expedito Filho Expedito: Repercussão da prisão de Saddam nos Estados Unidos – cita jornais que frisam bastante frase de comandante americano de que Saddam foi “preso como um rato” Heródoto diz que os jornais americanos não devem falar de outra coisa e que a cobertura deve estar intensa Expedito fala do renascimento de um certo nacionalismo. Comenta repercussão no partido democrata.

2h55m05 2h55m14s 2h55m25s 4s 13s 11s Música e fala 2h55m40s 2h56m46s 2h56m48s 2h57m20s 6s 2s 28s 2m40s 3h00m00s 3h00m27s 3h00m38s 3h00m39s 3h01m08s 3h01m09s 3h01m38s 3h01m49s 3h01m50s 27s 11s 1s 29 1s 29s 9s 1s 23s 3h04m13s 3h04m14s 3h04m54s 3h04m56s 3h05m33s 3h06m03s 3h06m17s 3h6m18s 3h06m22s 3h06m34s 1s 40s 2s 37s 30s 14s 1s 4s 12s 1m28s Efeito sonoro Música e voz 3h08m02s 33s 3h08m35s 1m27s 3h10m02s 3h10m23s 3h11m30s 3h11m42s 21s 57s 12s 6s 3h11m48s 8s Próxima meia hora oferecimento de Chester Perdigão Laerte: tempo e temperatura na Capital Vinheta: Mais São Paulo com Gilberto Dimenstein – oferecimento Porto Seguro Seguros e Cauê Dimenstein: concurso para criar bairro na Água Branca Laerte: hora Publicidade – Cartucho de impressora Max Print Heródoto – comenta a escolha cuidadosa das imagens de Saddam e da reação de Donald Rumsfeld de que o ditador poderá ter um julgamento no próprio Iraque. PT vive “esquizofrenia galopante” Heródoto questiona se a expulsão é um divisor de águas no PT Roselfeld acha que não. que “está aqui na ponta da linha”. Pergunta se ele se surpreendeu com o fato de 27 membros do diretório do PT terem se colocado contra a expulsão Roselfeld – Diz que não se surpreendeu porque parte do PT é mais à esquerda. A pena de morte pode ser reintroduzida no país. e tempo Laerte: Hora Vinheta Jornal da CBN Vinheta Minuto Meio e Mensagem – bastidores das empresas de publicidade Regina Augusto. Acha melhor aguardar desdobramentos Heródoto questiona que é a primeira vez que isso acontece com o PT no poder Roselfeld: “O ponto é o programa de governo não corresponder ao programa partidário” Heródoto pergunta se essa é a causa da 151 . Publicidade: compuware Vinheta: estradas – oferecimento Via Fácil Laerte chama Telma Costa Telma Costa – informação sobre trânsito da Dutra e Bandeirantes Laerte:hora Publicidade: Chester Perdigão Vinheta: Jornal da CBN – oferecimento Chester Perdigão Hora Heródoto lê e comenta notícia do Financial Times sobre prisão de Saddam e imagens Laerte: Hora – chama Alexandra Dias Alexandra Dias comenta informações de taxistas sobre trânsito e acidente Laerte: Hora Publicidade: Celular pré-pago Tim Publicidade: defesa dos transgênicos Monsanto Laerte: Hora. Fala da expulsão dos parlamentares do PT – Entrevista o professor de filosofia política da FRGS Denis Roselfeld. da Redação do Meio&Mensagem: Carta da Avap ao governo pedindo a regionalização das verbas de publicidades governamentais Heródoto – hora.

assessor da presidência da República Sonora: Marco Aurélio . Antonio Celso Alves Pereira.. Sonora: Alves Pereira diz que a prisão de Saddam pouco representa na luta contra o terrorismo Laerte: hora Laerte: vinheta Jornal da CBN Heródoto fala do governo Lula e dos novos mercados de exportação Lula fala sobre sua decisão de ter mais ousadia nas exportações Heródoto: hora – retoma análise do correspondente de Nova York. Maria Aparecida de Aquino Sonora: Maria Aparecida de Aquino comenta a prisão de Saddam Heródoto: retoma entrevista do professor de Relações Internacionais da UFRJ.” Roselfeld (rindo) concorda e explica que o partido tem um projeto de poder que não compactua com alas radicais Heródoto despede-se. Retoma fala da professora da USP. que disse “agora há pouco” que a prisão de Saddam rendeu elogios a Bush até do partido democrata Fala do correspondente de Nova York sobre o apoio dos democratas Heródoto: hora e retoma trecho de entrevista da professora de direito internacional Maristela Bassos sobre as perspectivas do julgamento de Saddam 152 . Ele lembra que Bin Laden continua solto e a guerra deve prosseguir..3h11m56s 3h12m40s 3h12m42s 44s 2s 46s 3h13m28s 17s 3h13m45s 3h13m47s 3h13m52s 3h14m21s 3h14m32s 3h14m33s 3h14m45s 2s 5s 29s 9s 1s 12s 29s Sob música Continua música Música Música 3h15m14s 3h15m22s 18s 20s Música 3h15m42s 6s 3h15m48s 9s Música 3h15m57s 3h16m30s 33s 26s Música 3h16m56s 3h17m23s 27s 3s Música 3h18m26s 30s 3h18m56s 3h19m00s 3h19m08s 3h19m15s 3h19m45s 4s 8s 7s 30s 14s Som Música e fala Música Música 3h19m59s 3h20m18s 19s 16s Música divergência que culminou com a expulsão Roselfeld acha que os dois grupos têm razão Heródoto: (brincando) “Vale quem tem mais força. retoma assunto da entrevista e anuncia os “destaques da manhã” Laerte: hora Vinheta: Jornal da CBN Publicidade – Chester Perdigão Vinheta Jornal da CBN – oferecimento Chester Perdigão Laerte: hora (Tempo de música) Heródoto: Forças Armadas americanas capturam Saddam. Expedito Filho. Apresenta fala de Bush sobre o assunto e considera que a prisão é um “presente de Natal” Sonora: Bush fala da captura de Saddam Heródoto: retoma fala de Bush. lembra a repercussão do assunto na popularidade do presidente e a proximidade das eleições nos EUA Sonora: Bush fala que a prisão de Saddam não significa o fim da violência no Iraque Heródoto: retoma a opinião de Marco Aurélio Garcia.Prisão facilita a organização política do Iraque Heródoto: Prisão é considerada pelos analistas uma grande vitória de Bush.

3h20m34s 28s 3h21m02s 13s Música 3h21m15s 3h21m52s 37s 13s Música 3h22m05s 9s 3h22m14s 9s 3h22m23s 3h22m59s 26s 13s Música 3h23m12s 3h23m19m 7s 27s Música infantil 3h23m46 3h24m02s 3h24m07s – 16s 5s 27s Música da CBN Música e fala Sonora da professora: “Pode-se esperar de tudo de Bush na hora do julgamento de Saddam” Heródoto: retoma trecho de entrevista com o ex-presidente da Anistia Internacional. Paul Bremen” Sonora: Paul Bremen: “Ladys and gentlemen.paquistaneses querem fim da ocupação dos EUA como saída para a paz Heródoto: hora – retoma fala do embaixador do Brasil em Israel. Carlos Edueta. we got him” Letra refrão da música: “Sou invencível/ somos amigos/unidos venceremos a semente do mal/Eu tenho a força/ sou invencível” Heródoto finaliza o programa apresentando equipe técnica e Laerte Laerte: “Apresentação Heródoto Barbeiro” Vinheta: Jornal da CBN – as notícias que podem mudar o seu dia 153 . Sérgio Moreira Lima. e a “grande repercussão” da prisão de Saddam naquele país Sonora: Abelardo .retoma comentário do embaixador brasileiro no Paquistão. que acha que Saddam deve ser julgado com base em leis internacionais Sonora: Edueta fala de Saddam e da necessidade de um julgamento exemplar Heródoto: hora . que fala em “alívio” Sonora: Lima diz que Israel sofreu com os mísseis de Saddam Heródoto: diz que a prisão do ditador foi “anunciada com polpa e circunstância pelo administrador do Iraque. Abelardo Arantes.

Em seguida. há décadas. 91 154 .tv/ab_uniodeiatv. o mais antigo. apresentamos a estrutura geral do programa. famoso e criticado noticiário brasileiro.91 “As universidades odeiam a televisão”. preconceituosa e ingenuamente ideológica”. entretanto. ao mesmo tempo. faz com que seja difícil discordar do professor de telejornalismo da UERJ. A complexidade dos procedimentos e efeitos de montagem é discutida a partir do detalhamento da estrutura da notícia da prisão de Saddam Hussein.tv: http://www.último acesso em março de 2005. que incluem o manejo dos planos de câmera e da montagem (ou edição). texto disponível no site videotexto. A leitura de textos de acadêmicos e de profissionais sobre o assunto. O formato do JN merece atenção porque. como antimodelo constantemente desafiado por profissionais de outras redes. Questões sobre a temporalidade e o uso ideológico da montagem e dos planos de câmera concluem esta parte do trabalho. Ele afirma que “boa parte das pesquisas ainda é pouco científica. Trata-se de um tema bastante estudado e comentado. a relação entre o JN e o público-alvo é examinada por meio de uma reflexão sobre o poder da marca e a organização de “vozes” autorizadas a enunciar. Semiotizamos depois os recursos de textualização mais importantes.O TELEJORNALISMO Nosso estudo sobre o jornalismo de televisão tem como objeto o Jornal Nacional. A reportagem também permitiu uma série de outras reflexões sobre o funcionamento das estratégias utilizadas pelo JN para obter e manter a atenção do público-alvo. Inicialmente.html . se impõe como modelo de telejornalismo de sucesso a ser copiado e. Considerações gerais sobre o telejornalismo e o Jornal Nacional O telejornalismo – em especial o produzido pela Rede Globo – ilustra muito bem diversas considerações feitas na parte inicial do trabalho.videotexto. Antonio Brasil.

o telejornal coloca em choque os diferentes enunciados e os relativiza ou os anula no mesmo momento em que lhes dá publicidade. literatura. Para quem não tem outra opção. ela expõe a um perigo não menor a vida política e a democracia” (1997:9 e 10). Há dois públicos no Brasil. e não com uma audiência mais restrita que exige um aprofundamento dos fatos” – afirma Schwartz (1985: 78). os jornalistas mais conscientes de suas responsabilidades. (. filosofia. fala de um incidente em uma ilha grega que gerou mobilização da TV do país e quase terminou em uma guerra contra a Turquia. por exemplo. não é com a verdade que ele trabalha. Pierre Bourdieu. A questão da verdade está. arte.. ao contrário do que pensam e dizem. que serve para algumas pessoas fazerem porcaria na TV: para nós da classe média. a televisão é uma opção no sábado à noite. Nenhuma notícia sobrevive. sem dúvida com toda a boa-fé. Quando a CNN lança ao ar sucessivamente um material publicitário do Pentágono e outro da TV do Iraque. Note-se que as três afirmações. mas para a maioria das pessoas é o único lazer. por sua vez. direito: creio mesmo que. afastada do sistema significante do telejornal.A TV e o telejornalismo em especial podem dar margem a opiniões díspares. a única ‘leitura’ possível para o espectador é a de que se trata de diferentes ‘versões’ da guerra. nenhum relato é suficientemente trabalhado para criar raiz.) Uma máquina incessante de fazer o nada” (2000:89). ou tentamos fazer a cabeça com Caetano e Chico César ou damos 155 . “Ao embaralhar no fluxo televisual os materiais originários de fontes diversas. tudo é esquecido. que se satisfaz com apenas leves pinceladas sobre o título da notícia. portanto. O apresentador Sérgio Groisman explica: “Há uma questão delicada. acredita que o poder da televisão e seus produtos é ameaçador: “Penso que a televisão (. acabam se anulando. emocional e superficial: “Tudo vai direto para o lixo. Arlindo Machado afirma que o telejornalismo não tem ponto de vista. Ciro Marcondes Filho. Essa característica. “As redes de transmissão organizam os noticiários de forma tal a garantir um maior público porque seu interesse principal é a grande audiência. seria uma coerção de qualquer programa de TV no País.. assevera que tudo o que o telejornalismo produz é rápido demais. tudo desaparece instantaneamente. O fluxo telejornalístico inteiro não passa de outra coisa que uma sucessão de ‘versões’ do mesmo acontecimento. Entre seus exemplos.) expõe a um grande perigo as diferentes esferas da produção cultural. ciência. juntas.. mas com a enunciação de cada porta-voz sobre os eventos” (2000:111).. por outro lado. a rigor. pois. a “superficialidade” do telejornalismo em relação aos outros tipos de noticiários tem uma justificativa. Para diversos teóricos e trabalhadores da comunicação. marcado por profundas diferenças entre classes sociais. tudo evapora.

14. Nos estudos sobre o telejornalismo que encontramos. O necessário debate entre todos os que assistem ou fazem televisão sobre formas de superação dos atuais modelos surge como uma grande perda de tempo. tirando o peso das análises mais críticas e ideológicas. teria como conseqüência a perda da atenção e. “A TV é muito superficial”. por exemplo. pág. comuns notadamente até a metade do século passado. Quero que as pessoas se transformem. O que parece ser indiscutível. As estratégias de gerenciamento de atenção do telejornalismo devem ser muito sofisticadas e de efeito imediato.93 Outros buscam mostrar a primazia do “poder da palavra”. Há quem tente convencer de que essa forma de discurso é comandada exclusivamente pelo “poder da imagem”. por sua vez. um julgamento negativo pesando na análise sobre a TV. Quem quisesse ser mais “analítico” ou “sério”. Se todas essas afirmações sobre a televisão e o telejornalismo estiverem corretas.”92 Outra idéia muito ligada à televisão e ao telejornalismo é a da “espetacularização”. 156 .prazer com KLB e umas bundas. a transformação da vida de artistas em notícia. O aspecto de “show”. portanto. aparece bem sintetizado no trabalho de Odair José Moreira da Silva. Esse estigma tem sérias conseqüências. Percebe-se. da audiência. 93 São reproduzidas no estudo do telejornalismo certas discussões sobre o cinema. como “shows da vida”. É perceptível ainda que questões de textualização 92 Entrevista de Sérgio Groisman a Fernanda Dannemann. extraem dos fatos toda a sua explosividade e os transformam em variedade e diversão” (1989: 52). é a existência de um laço tênue entre público e noticiários de TV em comparação com os outros jornais.TV Folha. 10/02/02. 2004. a idéia de espetáculo se liga mais fortemente à TV do que a qualquer outro veículo: “Telejornais. de qualquer modo. deveria utilizar outras mídias. Para Marcondes Filho. Esse último assunto. dos seres humanos e de seus conflitos por esse veículo de comunicação. capítulo 1 – O cinema: das origens às teorias da linguagem cinematográfica. o uso crescente de recursos visuais possibilitados pelas novas tecnologias de manipulação digital. sob um olhar semiótico. Uma é particularmente funesta. Cada vez que tentasse ser “profundo”. a dicotomia verbal x visual aparece com força. podem ser entendidos como armas possíveis – e sempre discutíveis . dissertação de mestrado. reduziriam drasticamente as possibilidades de abordagem noticiosa do mundo. o que é pior. “A manifestação de Cronos em 35 mm – o tempo no cinema”. É um dilema. ou mesmo tivesse pretensões estéticas. mas não posso impor a transformação.para prender a atenção. e não como “características” inerentes – e imutáveis – do telejornalismo. Suplemento Folha de São Paulo. estamos diante de uma série de coerções de conteúdo e de expressão que. FFLCH-USP. que confunde modos de apresentação de conteúdos e certas escolhas do que divulgar com a própria maneira de “ser” do veículo.

96 Nesse tempo. (.95 Mesmo com esses deslizes. e o grande número de analfabetos. falta ao estudo do noticiário de TV uma visão não só mais abrangente como também mais distanciada. que se traduz em impossibilidade de consumo de outros tipos de jornais. “A guerra atrás das câmeras”. aliás. coincidindo ambos na defesa do postulado básico de que a televisão não é lugar para produtos ‘sérios’. a televisão é por natureza ‘má’.. inclusive com depoimentos de todos profissionais envolvidos. em meados de 2004 o principal noticiário da Rede Globo completava 35 anos como campeão de audiência no gênero no Brasil. a mais criticada mídia: “Numa rápida retrospectiva histórica. Era um dos telejornais mais vistos no mundo. admite que “a edição do debate provocou um inequívoco dano à imagem da TV Globo” (2004: 213). O mais interessante é que a obra expõe enormes contradições entre os direta ou indiretamente envolvidos. Em resumo. O candidato do Partido dos Trabalhadores foi prejudicado. e sem maiores aprofundamentos. assim reconhecida pela própria direção da Globo . Em 1984. Isso que dizer que os adornianos atacam a televisão pelas mesmas razões que os mcluhanianos a defendem: por sua estrutura tecnológica e mercadológica ou por seu modelo abstrato genérico. sempre foi a principal referência informativa para a maioria dos brasileiros.) “Para o grupo adorniano. como as possibilidades de manejo sensorial proporcionadas pelos planos de câmera e pela edição. dias antes da eleição.bastante evidentes.97 Para Arlindo Machado. enquanto para o grupo mcluhaniano a televisão é por natureza ‘boa’. em obras do tipo “manual”.94 No Brasil. podemos distinguir duas maneiras principais de tratar a televisão. No livro de comemoração dos 35 anos do JN. o vicepresidente das Organizações Globo. Tinha em média 31 milhões de espectadores e 68% dos televisores sintonizados no País. O trabalho dos cinegrafistas. As razões são simples: pobreza. como construtores do discurso do telejornalismo é esquecido até no livro que comemora e conta os 35 anos do mais importante telejornal do Brasil. 1° de setembro de 2004. de João Gabriel de Lima. por exemplo. 94 157 . mesmo se só existisse porcaria em suas telas. 97 Esse ponto de vista é partilhado por diversos teóricos. Esquematicamente. Trata-se de “Jornal Nacional – a notícia faz história” (2004). mesmo que todos os trabalhos mostrados em suas telas fossem da melhor qualidade. o telejornalismo sofre preconceito por ser parte da programação da televisão. 96 Fonte: revista Veja 1869. o JN foi acusado de esconder manifestações pela eleição direta para presidente da República. 2000:143. 95 O livro dedica ainda muitas páginas para descrever e analisar o assunto. apareçam mais. possivelmente a única. do Jornal Nacional.. uma das fontes de consulta desta parte da tese. Há exemplos marcantes dessa força. apresentou uma edição tendenciosa – ação. João Roberto Marinho. Rezende. que mereçam ser considerados em sua singularidade” (idem:19).do último debate entre os candidatos à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello. notadamente. Ver. vamos denominá-las o modelo de Adorno e o modelo de McLuhan” (2000: 17). uma das razões para tanta passionalidade – inclusive acadêmica – é o sucesso e o poder de mobilização e de desmobilização do telejornalismo e. Em 1989.

mas de conteúdo. com mais densidade” (idem: 188). houve a tentativa de conquistar mais credibilidade para a notícia. tanto na forma como no conteúdo. Por trás da mudança. de criação de um hábito. nós chegamos à conclusão de que uma das maneiras de mostrar que estávamos fazendo um novo jornalismo era criar um cenário em três dimensões. textos. no entanto. música e ruídos (2000: 104). filmes.O Jornal Nacional. o noticiário de TV tem como característica principal a textualização manifestada por meio da organização de unidades no fluxo temporal. em 1996 (Memória Globo. Era aprofundar o cenário. Os novos apresentadores são jornalistas que participam ativamente da edição. em sua longa existência. além de locução. A estrutura do programa Assim como o radiojornalismo. Em 1989. fazendo um telejornalismo que. Trata-se da substituição de Cid Moreira e Sergio Chapelin por William Bonner e Liliam Witte Fibe. As mudanças posteriores de cenário só intensificaram essa proposta de criar movimento. Na história do JN. precisa de mais e mais estímulo. é quase uma coerção para que o principal noticiário da Globo mude muito pouco ano após ano. tanto tradicionais (caso das charges 158 .” No caso do JN. mapas. Arlindo Machado explica o que são essas unidades: “Tecnicamente falando. os cenários também são importantes indicadores de mudanças não apenas cosméticas. aos poucos. O noticiário que analisaremos em detalhes a seguir está dentro dessa “nova fase”. Os apresentadores de bela voz deram lugar aos âncoras. para se manter atento. Nós tínhamos sempre uma tapadeira atrás dos apresentadores. foram passando do cinza para o azul. passou por raríssimas alterações bruscas. que desse a idéia de que nós tínhamos um jornalismo agora com mais peso. que acabamos de analisar no item anterior. podemos ainda incluir animações. e o vermelho. era absolutamente ‘chapado’. Os efeitos cênicos. através de iluminação e de criptogramas. uma modificação que criou uma nova etapa para JN. dinamismo. explicou a mudança como decorrência da abertura política: “Nós passamos a vida inteira debaixo de um regime de exceção. O público. mais predominante. e fazer uma concepção cenográfica. um telejornal é composto de uma mistura de distintas fontes de imagem e som: gravações em fita. Armando Nogueira. 2004: 287). A estratégia de fidelização. O diretor da Central Globo de Jornalismo da época. E quando veio a abertura. material de arquivo. gráficos. colocar uma bancada em primeiro plano. Houve. o jornal surgiu com um novo cenário. fotografia. Existe uma grande consciência da importância do sentido de familiaridade. memória e segurança que o formato gera.

) O pé é um texto curto. caso das previsões meteorológicas. imagens. nota simples ou nota pelada: apresentador lê a notícia. Boletim (stand-up) – “É a notícia de televisão completa. Ambos servem para mostrar como a estrutura interna é flexível. Nota coberta – “É a forma mais simples de apresentação de notícias com imagens na televisão. Esses indicadores podem ter um caráter permanente..resume todo o conteúdo mais importante e a própria estrutura do programa. Reportagem especial – série de reportagens com o mesmo tema que se desenvolve em várias edições. O Jornal Nacional vai ao ar entre duas novelas. no começo da noite.) Indicam tendências ou resultados de natureza diversa... Ele é lido em quadro pelo apresentador e tem a função de fechar a matéria.)” (ibidem: 60 e 61). Indicador – “(. esporte. Normalmente. depois que grande parte dos telespectadores realizou as principais tarefas do dia. Tudo isso é determinante para a estruturação do programa e das principais estratégias de gerenciamento de atenção do público-alvo. 158).. Comentário – “Matéria jornalística em que um jornalista especializado em um determinado assunto (economia.cabeça. do repórter e de entrevistados. Antes de analisar a organização textual em detalhes. fornecendo ao telespectador uma informação complementar (. o 98 159 . é formada por duas partes (. 5 – pé. adotamos a metalinguagem dos profissionais para nomear os diferentes tipos de segmentos jornalísticos. 4. 2 – off. a exemplo dos resultados de pesquisas eleitorais” (Rezende. Esse tipo de apresentação de notícias costuma ser muito usado pelos jornalistas que trabalham em Brasília (.. 1995: 52). a crônica é um gênero opinativo que. Editorial – “Texto lido geralmente pelo apresentador.. o repórter fica em quadro. Não tem imagens. Reportagem – “É a forma mais complexa e mais completa de apresentação da notícia na televisão. que expressa a opinião da emissora sobre uma determinada questão” (idem). a câmera pode fazer um passeio para mostrar o que o repórter está narrando ou abrir em um entrevistado. a reportagem incorpora todas as outras formas de apresentação da notícia em suas cinco partes básicas: 1. Crônica – “No limite entre a informação jornalística e a produção literária.): 1 – cabeça – texto que corresponde ao lead em jornal impresso e que é lido pelo apresentador em quadro.. Durante o boletim. que está sendo transmitida para o telespectador. ou temporário. Durante toda a narrativa. locais pobres em imagens para a televisão. Mostraremos a seguir a estrutura de dois programas em dias diferentes. (.televisivas de Chico Caruso) como as realizadas em programas que simulam terceira dimensão (3D). Em geral mais longa. se houver sonora. de utilidade para o telespectador em eventuais tomadas de decisão. estudaremos a estrutura mais geral e o contexto semiótico do programa. O repórter que vai apresentar o boletim costuma ser chamado do estúdio pelo apresentador do telejornal” (idem: 56). números do mercado financeiro e informações de condições de trânsito. apresentada e sustentada pelo repórter.98 A escalada – a apresentação das manchetes .. 2.. política nacional etc. 2000. utilizado para encerramento da reportagem. Mediante um estilo mais livre. Tem texto. mesmo que remeta a um acontecimento da realidade. o que lhes dá o sentido de um jornalismo de serviço. Nota ao vivo. vai além da simples avaliação jornalística do real.off – a narração do apresentador ou do repórter feita enquanto as imagens da notícia são exibidas na tela do televisor” (Maciel. 3 – boletim. No trabalho de descrição. de uma visão pessoal. O segundo aborda a prisão de Saddam.) faz uma análise. uma interpretação de fatos do cotidiano” (ibidem). apesar do tempo de duração ser quase constante.) onde a maior parte das notícias se desenvolve em gabinetes. O primeiro tem como uma das principais matérias uma invasão de sem-terras.sonoras. presença do apresentador..

TABELA 2 JORNAL NACIONAL – Edição de terça-feira, 29 de julho de 2003
1° bloco Tipo de segmento Escalada Tempo inicial 1s Duração 50s

Manchetes da escalada Fátima Bernardes: Vandalismo e violência – integrantes do MST invadem e destroem uma fazenda em Minas. Willian Bonner: Em São Paulo, colegas homenageiam o fotógrafo assassinado em frente do acampamento dos Sem-teto. Fátima Bernardes: Um crime até agora sem solução. Willian Bonner: Governo manda cortar o ponto de grevistas. Fátima Bernardes: Parlamentares governistas negociam com o judiciário mudanças na Reforma da Previdência. Willian Bonner: Mas ministros dizem que não querem modificação nenhuma. Fátima Bernardes: O ex-guarda-costas de Saddam Hussein é preso no Iraque. Willian Bonner: E em mais uma gravação atribuída a ele, o ex-ditador chama os filhos mortos de mártires. Fátima Bernardes: Presa uma quadrilha internacional de tráfico de crianças. Willian Bonner: O artilheiro do Santos é vendido para o futebol espanhol. Fátima Bernardes: Suspeita de doping pode tirar Maurren Maggi do Panamericano. Willian Bonner: E na série sobre fertilização, como a ciência está ajudando a maioria dos casais que não consegue ter filhos Fátima Bernardes: O Jornal Nacional está começando. Vinheta do JN 51s 2s 1 – Busca de remédios gratuitos em Reportagem 53s 2m postos de saúde por usuários de planos privados 2- Reajuste de remédios Reportagem 2m53s 2m17s 3 – Juros mais baixos Reportagem 5m10s 1m46s 4 – Tempo e temperatura Indicador 6m56s 28s 5 – Cheias no Paquistão Nota coberta 7m24s 19s 6 – Incêndio mata turistas na França Nota coberta 7m43s 20s 7 – Explosão e morte em prédio da Nota coberta 8m03s 18s China 8 – Acidente grave na BR-101 Nota coberta 8m21s 25 9 – Exposição sobre tecnologia em São Reportagem 8m46s 1m52s Paulo - Prisão de traficantes de crianças Chamadas + vinheta 10m38s 12s - Fertilidade artificial PUBLICIDADE Feira no Carrefour 10m50s 31s Banco Itaú Personnalité 11m21s 31s 2° bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta do início do bloco 11m52s 3s 10 – Tráfico de crianças - Inglaterra Reportagem 11m55s 1m47s 11- Criança Esperança – Jardim Ângela Reportagem institucional 13m42s 3m06s 12 – Técnicas mais avançadas de Reportagem especial sobre 16m48s 4m01s reprodução assistida fertilização artificial Sem terra Chamadas + vinheta 20m49s 12s Filas para vagas de auxiliar de limpeza PUBLICIDADE Dias dos Pais – celular Vivo 21m01 30s Bradesco na Internet 21m31s 30s Chamada para novela Mulheres Apaixonadas 22m01 30s 3° bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta do início do bloco 22m31s 3s 13 – Turista morto no RJ Nota simples 22m34s 12s 14 – Repercussão: morte de Marcinho Nota coberta 22m48s 1m12s

cronista projeta para a audiência a visão lírica ou irônica que tem do detalhe de algum acontecimento ou questão (...)” (ibidem: 159). Charge – animação humorística do cartunista Chico Caruso com base em alguma notícia apresentada.

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VP 15- Invasão dos Sem-terra 16 – Terreno invadido da Volks – “politização” do movimento 17 – Missa para fotógrafo assassinado 18 – Vagas para auxiliar de limpeza 19 - Nível de atividade industrial - Corte do ponto de servidores em greve - Preso segurança de Saddam - Saddam fala dos filhos mortos

Reportagem Reportagem Nota coberta Nota coberta Indicador Chamadas + vinheta

23m36s 26m04s 28m00s 28m26s 28m51s 29m08s

2m28s 2m04s 26s 25s 17s 12s

PUBLICIDADE Loteria - Jogada da Sorte Celular – Plano Incrível da Tim Institucional – Criança Esperança Agosto na Globo – chamada para o filme “O homem sem sombra” 4° bloco Tipo de segmento Vinheta do início do bloco 20 – Reforma da Previdência - corte de Nota simples ponto dos funcionários públicos em greve 21 – Reforma da Previdência – líderes Reportagem do governo tentam evitar greve do judiciário 22 – Animação de Chico Caruso Charge 23 – Dólar e Bovespa Indicadores 24 – Desabafo do presidente da GM Cabeça de matéria + sonora 25 – Segurança de Saddam preso - Fita Reportagem com Saddam sobre filhos mortos Recompensa para matar americanos no Iraque - Vendido artilheiro do Santos Chamadas + vinheta - Esportista suspeita de doping PUBLICIDADE Veículo – Honda Fit Casas Bahia Chamada – Copa Sul-Americana 5° bloco Tipo de segmento Vinheta de início do bloco 27 – Venda de jogador Nota simples 28 – Copa Sul-Americana Reportagem 29 – Novo técnico da Seleção Brasileira Nota simples de Vôlei 30 – Suspeita de doping em atleta Reportagem brasileira 31 – Pan-Americano Reportagem –Final – chamada para o programa “O Encerramento jogo” TEMPO TOTAL DA EDIÇÃO: 45m48s

29m20s 29m50s 30m21s 30m51s Tempo inicial 31m30s 31m33s

30s 30s 31s 30s Duração 3s 13s

31m46s

3m13s

34m57s 35m15s 35m25s 36m18s

18s 10s 53s 1m19s

37m37s

15s

37m52s 38m22s 39m24s Tempo inicial 39m50s 39m54s 40m03s 41m44s 42m02s 43m39s 45m23s

30s 1m26s 26s Duração 4s 9s 31s 18s 37s 1m44s 25s

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TABELA 3 JORNAL NACIONAL – Edição de segunda-feira, 15 de dezembro de 2003
1° bloco Publicidade especial da Claro Tipo de segmento Apresentação do patrocinador com som do JN ao fundo e passagem do logo Escalada Tempo inicial 0 Duração 10s

11s 1m03s Manchetes da escalada: Renato Machado (início da escalada): O destino de Saddam Hussein. Eraldo Pereira: O presidente Bush garante que o julgamento do ex-ditador vai ser aberto a observadores internacionais Renato Machado: E diz que iraquianos vão decidir como aplicar a justiça Eraldo Pereira: Os novos detalhes da captura. Saddam Hussein tentou negociar com os soldados no momento da prisão. Renato Machado: O presidente Lula recebe do presidente americano cumprimentos pelo primeiro ano de governo. Eraldo Pereira: Reforma da Previdência. Renato Machado: Depois do texto básico os assuntos mais polêmicos também são aprovados no Senado Eraldo Pereira: O provão das universidades. Renato Machado: Somente dois cursos passam no teste de avaliação de qualidade. Eraldo Pereira: E veja também. Renato Machado: O jeito próprio que cada cidade brasileira tem de festejar o Natal. Eraldo Pereira: O time de amigos de Ronaldo vence os amigos de Zidane no dia em que o francês é eleito o melhor jogador do mundo. Renato Machado: A seleção brasileira até 20 anos derrota a Argentina e vai disputar a final contra a Espanha. Eraldo: Agora, no Jornal Nacional. Abertura 1m 1- Matéria sobre Saddam Reportagem complexa, com 1m16 10m40s diversos recursos Encontro de corpo de integrante do Chamada para o segundo 11m56s 14s Greenpeace bloco Denúncia contra postos que enganam a fiscalização e vendem gasolina adulterada PUBLICIDADE Bronzeador cenoura e bronze 12m10s 30s Fazer o 21 - Embratel 12m40 60s Boticário - perfumes 13m41s 30s 2° Bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta de início do bloco 14m11s 2s 2- Encontro do corpo de ativista do Nota coberta 14m13s 1m4s Greenpeace 3- Investigações sobre a morte de casal Nota simples 15m15s 53s norte-americano assassinado no Rio 4 -Postos que vendem gasolina Reportagem 16m08s 2m5s adulterada desafiam autoridades 5 -Tempo e temperatura Indicador 18m03s 29s 6 -Doação de órgão de rapaz Reportagem 18m32 2m17s assassinado Sai resultado do provão Chamadas para o 3° bloco 20m15s 11s - Preparativos das cidades brasileiras mais vinheta para o Natal PUBLICIDADE Computador Intel 20m26s 30s Medicamento - Engov 20m56 30s Cerveja Kaiser 21m26s 30s Celular Claro 21m57s 31s Chamada para filme da Tela Quente 22h28s 31s 3° Bloco Tipo de segmento Tempo inicial Duração Vinheta de início de bloco 22m56s 2s 7 - Provão - resultados Reportagem 22m58s 1m33s 8- Parlamentares Juvenis Reportagem 24m39s 2m1s

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9- Prêmio para sugestões que façam a Justiça mais rápida 10- Natal em Canela – tradição alemã Parlamentares aprovam temas polêmicos da Previdência. Presidente Lula fala dos desafios para 2004 DVD gradiente IBM – e-business Cerveja Nova Schin Casas Bahia - móveis Chamada - Fim de ano na Globo 4° Bloco Vinheta de início de bloco 11- Aprovação da emenda da Previdência no Senado 12- Prorrogação dos trabalhos no Congresso 13- Expulsão dos “radicais do PT” 14 -O triunfo da globalização 15- Balança comercial – dólar - bolsa 16- Prorrogação de acordo do FMI com o Brasil 17- Lula: avaliação do primeiro ano do governo por Lula 18 - Bush ligou para cumprimentar Lula pelo primeiro ano de governo. Presidente brasileiro diz que a prisão de Saddam contribui para uma nova fase de transição democrática no Iraque Brasil na final de futebol Jogo amistoso de Ronaldo e Zidane Koleston – tintura de cabelos Resgate roupas Celular: promoção celular TIM Koleston – tintura de cabelos 5° Bloco Vinheta de início de bloco 19- Final do mundial de futebol Sub 20 20- Regras no Campeonato Brasileiro – Clubes, rebaixados e vencedores 21- Zidane – melhor do mundo – Jogo beneficente de Zidane e Ronaldinho – Renda para o Criança Esperança

Reportagem Reportagem Chamadas para o 4° bloco + vinheta

26m40s 28m35s 31m15s

1m55s 2m40s 12s

PUBLICIDADE 31m27s 31m57s 32m27s 32m57s 33m27s Tempo inicial 34m17s 34m19s 36m26s 36m44s 38m34s 38m54s 39m14s 39m43s 40m36s 30s 30s 30s 30s 20s Duração 2s 2m7s 18s 1m50s 20s 20s 20s 53s 20s

Tipo de segmento Reportagem Nota simples Reportagem Charge Indicadores Nota simples Cabeça do apresentador + sonora Nota simples + vinheta

Chamadas para o 5° Bloco + vinheta PUBLICIDADE

40m55s

19s

Tipo de segmento Nota coberta Reportagem Reportagem

41m08s 41m39s 42m09s 42m29s Tempo inicial 43m10s 43m12s 43m32s 45m45s

31s 30s 30s 31s Duração 2s 20s 2m13s 2m41s

Encerramento TEMPO TOTAL DA EDIÇÃO: 48m40

48m26s

14s

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A publicidade é encarada como um momento de quebra da programação do canal. Há diversos meios para manter a atenção do telespectador para o telejornal. O primeiro é evitar comerciais entre o final da novela das 19h e o início do JN. O intenso número de recursos que o JN utiliza no começo do programa é outro claro indicador de que os minutos iniciais são os mais problemáticos para obter a adesão do telespectador. Logo no início, temos a leitura das manchetes da escalada. Os apresentadores estão em plano próximo. Sons, cortes rápidos, entonação vibrante, logo voador fazem parte da estratégia de arrebatamento – de ordem sensível. É como se o telespectador se perguntasse: “Vale a pena ver o JN hoje?” E o Jornal tentasse instigar sua curiosidade ao máximo. Ao mesmo tempo, impõe as notícias “mais importantes” sem dar tempo ao telespectador para um julgamento mais profundo. Na escalada, todo o conteúdo mais valorizado e a própria estrutura do programa aparecem resumidos. As chamadas e sua ordem de apresentação acontecem em função do impacto afetivo, do mais tenso, violento, ou seja, das notícias negativas, com relações disfóricas (sujeitos apartados de seus objetos-valor invasão, destruição, assassinato, corrupção) para as mais relaxadas, eufóricas, positivas (vitórias de um time de futebol, campanhas beneficentes), o que mostra certas características da estratégia de sustentação. Parece que os editores do JN raciocinam que, se o telespectador receber apenas manchetes com notícias que considere ruins, de impacto negativo, ele pode decidir ver algo mais “leve”. Como um todo, porém, as chamadas buscam desencadear a máxima curiosidade do telespectador. Se a escalada for eficiente, haverá curiosidade (o querer-saber disfórico) para conhecer em detalhes os assuntos mostrados nas manchetes. Basicamente, o Jornal Nacional é composto por cinco blocos. No programa de julho observamos 31 notícias. No JN dedicado à prisão de Saddam contamos 21. Em alguns momentos foi possível perceber um certo encaixe de notas dentro de notícias de reportagens de maior envergadura. Uma notícia pode ser um agrupamento de outras com algo em comum. Um exemplo é uma nota sobre a operação de extração de câncer de Collin Powell na notícia dedicada à prisão de Saddam (que veremos depois). Para se criar uma noção de unidade, falou-se que o comandante militar “acompanhou a captura de Saddam Hussein pelo telefone”. As tabelas 2 e 3 mostram relações entre unidades noticiosas em função do tempo de apresentação. Uma reportagem, o segmento mais trabalhado do programa, dura em média 2 minutos. Somente notícias consideradas muito importantes ganham ou ultrapassam esse tempo. A prisão de Saddan e suas repercussões ocupam 10m40s. Esse tempo indica muito bem como a notícia foi valorizada. Como veremos depois, essa unidade noticiosa é, na verdade, um conjunto de quatro reportagens

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interligadas. Quando o programa cede mais tempo para uma reportagem está comunicando que deu mais atenção a um assunto em relação a outro mostrado em menos tempo. É como se o enunciador dissesse para o enunciatário: “Preste atenção: isso é importante”. Simultaneamente, quer que o telespectador também interprete e aceite esse código, de que se trata de algo que também merece o mesmo nível de consideração dele. Em outras palavras, podemos verificar como a edição (no sentido de ato) no telejornalismo maneja a relação semi-simbólica de texto inteiro apresentada na análise do radiojornalismo: cessão de tempo – valor – nível de atenção. No final dos blocos, com exceção do último, há chamadas para avivar a memória em relação às notícias restantes. Tenta-se manter a curiosidade do telespectador para o programa enquanto ele vê os comerciais. Em algumas chamadas, usa-se um trecho de gravação junto com a vinheta. No bloco final, a chamada é geralmente feita para um programa da Globo. A passagem entre o primeiro e o segundo bloco de notícias conta com um número reduzido de anúncios. Isso reforça o raciocínio de que os minutos iniciais são os mais problemáticos para obter a adesão do telespectador. Há outro ponto que fortalece essa observação. O número de comerciais entre os blocos só aumenta a partir do primeiro terço do programa, para diminuir novamente no final. Também chama a atenção o fato de o JN misturar assuntos nos blocos. Há questões nacionais com internacionais, remédios com informação do tempo, um salto para a China, depois o retorno a um problema brasileiro. Fica bastante evidente que a ordem do jornal é pensada em termos de impacto das gravações, de curiosidade da notícia e de coerções de ritmo e não em função de mostrar uma organização temática, como a encontrada nos jornais diários, por exemplo. O mundo que emerge no JN é fragmentado e ordenado segundo as necessidades de manutenção de atenção. Em outras palavras, a estrutura privilegia mais a dimensão afetiva, sensível, do que a inteligível. O JN como um todo também “pulsa”, dosando curiosidade, disforia ou euforia, notícias curtas com outras longas, algumas vibrantes com outras mais lentas. O jornal, de qualquer maneira, com bastante freqüência termina com assuntos mais alegres, geralmente ligados ao esporte ou ao exercício da solidariedade, da cidadania. Podemos notar a estrutura “happy end”. No Jornal da CBN, como mostramos anteriormente, a tensão é quebrada apenas no finalzinho do programa,

repentinamente. No JN, essa passagem é mais trabalhada, menos brusca.

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No Jornal Nacional essa característica também é marcante. na qual o evento é reportado através das falas de seus protagonistas e/ou dos enviados especiais da própria 166 . na forma de um “ele” que está no lugar de um “eu”. dá mais concretude a um sujeito que enuncia. se contrapõem uns aos outros. “Sujeitos falantes diversos se sucedem. por meio dos efeitos de câmera e de montagem. No caso do JN. ou a imagem de quem fala é sugerida. que esclarecem principalmente o funcionamento da aspectualização do plano de expressão do telejornalismo. Machado caracteriza o telejornalismo como um texto de forte “efeito de mediação”. vale notar o grande poder do sujeito “marca” como um enunciador que tudo centraliza. Depois. geralmente se vê quem fala. notadamente pelo efeito da marca. É a marca que “toma a palavra” inicialmente e vai cedendo lugar para outras vozes. A dupla fixa é formada por Willian Bonner e Fátima Bernardes.. a locução do âncora estrutura todo o programa. também da enunciação. “(. Não podemos esquecer que.. No jornalismo. Na verdade. Para analisar com mais detalhes a estrutura do Jornal Nacional. O público tem a sensação de que tudo se organiza a partir dele. no modelo padrão de noticiário em TV. O contato com a voz também particulariza.Marca. As unidades noticiosas são “amarradas” e apresentadas por dois âncoras a cada programa. espectadores. que sempre aparece “embreada”.) Os eventos surgem para nós. se revezam. aqueles que contam o que viram). mediados através de repórteres (literalmente: aqueles que reportam. essa reflexão cabe a qualquer jornal. Tudo o que acontece no Jornal Nacional tem a marca como ponto de partida. que acabam. Para ele. reforçando seu ethos. vamos neste trecho estudar a organização dessas vozes dos actantes da enunciação. É a marca que “autoriza” qualquer apresentação. Arlindo Machado. porta-vozes. ou seja. todo o discurso surge hierarquizado. testemunhas oculares e toda uma multidão de sujeitos falantes considerados competentes para construir ‘versões’ do que acontece” (2000: 103). assim. que cede a voz para os outros jornalistas. não compartilha nossa afirmação anterior. praticando atos de fala que se colocam nitidamente com o seu discurso em relação aos fatos relatados” (idem:105). para os entrevistados e controla essas enunciações. em TV. “o relato telejornalístico é imaginado como uma estrutura destituída de entidade narradora central. verificaremos as possibilidades de manejo do tempo e do espaço. Observamos no telejornalismo o que Fiorin considera como debreagem interna (1996: 45) em que diversas instâncias enunciativas se subordinam. contudo. âncoras. repórteres e correspondentes: os actantes da enunciação No Jornal da CBN.

A fidelização também faz com que o público tenha expectativas positivas sobre o que esperar.. repórteres e apresentadores se tornam “confiáveis”. o JN subordina-se à marca maior. se renova e se atualiza. a cada programa.com.telehistoria. portanto. por si só. de Frank Devol99).último acesso em fev/2005 167 . Ao mesmo tempo. como marca. no final e entre blocos) reforçam a existência da marca como regente de tantas vozes. o logotipo que surge ostensivamente em todo o telejornal (principalmente no início. audiência baseada em credibilidade. chamando os outros protagonistas (.. É a logomarca da rede que se vê nos microfones dos repórteres. As quase quatro décadas de existência do Jornal Nacional têm importantes conseqüências para o estudo do laço jornal-público. como “eleita” em função de algum tipo de relevância para o telespectador. comenta-se sobre o que “o JN disse..” (2000: 107). A idéia da ausência de um enunciador central. A marca JN se constrói a partir do que os participantes enunciam e assim. Trata-se de uma marca literalmente familiar. Cada nota. Marca. ou seja. De um ponto de vista semiótico.htm . a longa história do JN como líder absoluto de audiência mostra a existência de um contrato enunciador-enunciatário sendo diariamente respeitado e gerando telespectadores fiéis. A questão do hábito aparece com força. deixar de considerar essa bem-sucedida estratégia de fidelização. A investigação sobre a significação manejada pelo Jornal Nacional não pode. por exemplo. É através da Globo que o Jornal Nacional enuncia. Outro ponto a salientar é a influência da própria marca Globo. Isso quer dizer que o JN. de todos os sentidos de familiaridade que construiu com o tempo. Portanto. no entanto. A função do apresentador nessa estrutura consiste basicamente em ler as notícias e amarrar os vários enunciados. 99 A informação sobre a música de abertura consta do site Telehistória: http://www. Qualquer pessoa que fala pelos microfones do Jornal Nacional é. a cada edição. não se sustenta. como simulacro dos “verdadeiros enunciadores”. cada reportagem do noticiário beneficia-se desse sentido de credibilidade. o peso da história do Jornal Nacional se impõe por meio de seu logo.br/canais/jornalisticos/jornalnacional_abertura. Portanto. Temos o efeito de marca. valorizada como “importante”. A famosa música-tema (The Fuzz.televisão. qualquer coisa que aparece durante o programa é compreendida pelos telespectadores como enunciada pelo jornal.). se beneficia. Cotidianamente. Basta pensar que um enorme número de brasileiros com menos de 40 anos de idade praticamente teve contato com o JN a vida inteira..” ou o que o “JN mostrou”. A existência de um contrato enunciador-enunciatário de tamanha longevidade expõe o peso da estratégia de fidelização na forma de conceber e manter cada detalhe do programa.

No caso dos jornalistas. esses sim aparecem no auge da emoção. Não há efeitos de objetividade ou subjetividade absolutos. principalmente relacionados com a postura de repórteres e apresentadores. para se apresentarem como mediadores mais neutros entre público e notícia. no fundo. Por causa disso. Tantas variáveis para levar em consideração justificam nossa insistência em um estudo mais global (sem trocadilho) dos objetos das grandes mídias. Temos um dos mais comuns efeitos de particularização. comentaristas . teoricamente.repórteres. por exemplo. o JN está muito longe de ser um telejornal que preza um contato muito próximo. De qualquer modo. democrática. O resultado deve sempre construir a marca JN (seu ethos) como séria. Portanto. o JN precisa ainda persuadir o público de que é neutro diante das notícias. O figurino dos profissionais que aparecem na tela é clássico e discreto. título do prefácio do livro que relata os 35 anos do JN. em um simulacro de competência para noticiar. Ele afirma que todos os jornais das organizações Globo mostram “a pura verdade”.Entretanto. são os que mais dizem “eu”. os atores institucionais . no fundo. apresentadores. os jornalistas encaram a lente da câmera e exercitam o “olho no olho” com quem os assiste. Só que os profissionais do JN raramente exteriorizam emoções fortes. confiável e cordial. Os repórteres e correspondentes servem de ponte e contraponto para diversos entrevistados. Esse rápido estudo da categoria de pessoa mostra a enorme complexidade e a dificuldade de teorizar sobre a enunciação em objetos sincréticos. Não é só esse estranho pleonasmo (existe verdade impura?) que o vice-presidente das 168 . o principal noticiário da Globo lança mão de uma série de recursos para “neutralizar” o que a proximidade pode ter de indesejável. esse mesmo sujeito que vemos na tela enuncia sem falar “eu”. Falar na frente das câmeras pode ser considerado uma debreagem actancial enunciativa. O tom de voz é professoral. aparece na fala de João Roberto Marinho. Essa coerção. caso de sobreviventes de um acidente. Os jornalistas retiram de suas falas. Há um “eu” que assume o discurso e. por exemplo. contudo. escolhidos muitas vezes exatamente porque gritam de dor. qualquer característica enunciativa. Em jogo está sempre a necessidade de fazer-crer. Já os que tomam parte diretamente da notícia. refinada. Ao mesmo tempo. Raramente se ouve um “eu vi”. quando ouvidos. são tomados de alegria ou ódio extremos. que serão analisados em seguida. grevistas e manifestantes. E os efeitos de actorialização também são influenciados por planos de câmera. compenetrada. Para isso. Apaga-se a situação concreta de um sujeito que se dirige a uma enorme massa de telespectadores.apresentam-se em um tom “na justa medida”. “eu conversei com”. O que se percebe é uma administração de elementos e de possibilidades discursivas cujo sentido geral transita entre esses dois extremos. de subjetividade. imparcial. projeta um efeito de subjetividade.

agilidade. escolhidas em função de várias coerções. A câmera tem a capacidade de simular uma interação do espectador com o que ele vê. angulação. focalização. Destacamos os efeitos das “vozes institucionais”. Vamos examinar agora como a maneira específica de enunciá-las no telejornalismo determina o seu entendimento e o impacto não apenas inteligível e passional. Sabemos que o texto do jornalismo de TV é manifestado por meio da hierarquização de unidades no fluxo temporal. influencia a actorizalização e a espacialização. numa mídia de fluxo. notadamente das histórias das reportagens. Mostraremos. É necessário destacar que. algumas considerações um pouco mais técnicas sobre as possibilidades de criar sentidos com a câmera. para depois nos concentrarmos na montagem (ou edição. entre outras funções. e também como um meio de “complexificar” as categorias de pessoa. 2 . mas também sensível. como a televisão. isenção” (2004:13). portanto. Entendemos esses recursos como possibilidades de manejo aspectual do plano de expressão no telejornalismo.Organizações Globo quer relacionar com seus jornais. fragmentos de narrativas. influencia notadamente a sensação de passagem de tempo. Vejamos: 169 . com a aspectualização do plano de expressão televisivo. Essa textualização é determinada pelo uso coordenado de dois procedimentos: 1 – Recursos de câmera .como planos.Recursos de montagem. da “linguagem cinematográfica”. da marca e dos jornalistas. como a de despertar curiosidade e gerar laços entre enunciador e enunciatário. movimentos. relacionados à organização integral do texto e à manipulação perceptiva. não raras vezes empobrecida. Esse deve ser o efeito do “estilo JN”. Eles apresentam notícias. Já a montagem. Depois. em seguida. de tempo e de espaço. a montagem aparece como a estratégia que acaba por reger todas as outras. estudaremos alguns efeitos da câmera e a ação exercida na pessoa e no espaço. esses efeitos serão discutidos do ponto de vista semiótico. Todos têm em comum “o zelo pelos atributos da qualidade jornalística: correção. nosso estudo se concentrou mais fortemente na estrutura geral do JN e nos enunciadores. Tempo e espaço: os efeitos de câmera e edição Até aqui. Deixaremos para o final do trabalho o estudo de outros aspectos da montagem. aqui na acepção de ato) e como esta age no sentido de tempo. A “linguagem do telejornalismo” é uma adaptação. de criação de semi-simbolismos. há a tela e os procedimentos de expressão por meio do uso da câmera e da montagem. Em comum. Nesta parte do texto.

É utilizado “em situações inversas a da câmera alta.A câmera também dispõe do recurso de mover-se. o que geralmente leva a uma sensação de diminuição e inferioridade. Pode-se mostrar um objeto e toda a paisagem atrás dele ou desfocar esse mesmo fundo para ressaltar o que está em primeiro plano. “Provoca um achatamento da imagem. No jornalismo. o deslocamento nos ombros do cinegrafista faz as imagens tremerem e pode redundar em um efeito de “pouca manipulação”. tensão. Há ainda as gradações entre esses extremos. dentro de um determinado contexto.Enquadramento – Por exemplo. Geralmente a câmera está em ângulo plano e apresenta as pessoas ou objetos filmados num plano horizontal em relação à posição da câmara. ao contrário. No ângulo baixo se faz enquadramento da imagem com a câmara focalizando a pessoa ou o objeto de baixo para cima. Em função de sua importância no nosso trabalho. a ponto de exibirem-se todos os detalhes. um objeto ou pessoas. Tudo o que a câmera traz para perto mobiliza uma dimensão mais afetiva .emocional. por exemplo. Pode ser de muito longe. Quando a câmera se aproxima de um objeto.referem-se às possibilidades de se mostrar um objeto. 1991: 202). deixar um objeto dentro ou fora do quadro. a aproximação sujeito-objeto se relaciona a atos de intimidade e também ao que desperta curiosidade e atenção. No dia-a-dia. acontece um zoom in. No travelling. A panorâmica é o “movimento horizontal da câmera sobre o seu eixo vertical” (Gage e Meyer. os planos de câmera serão a seguir estudados detalhadamente. objetos e cenários. passional ou sentimental. Quando o movimento é de afastamento. ou de muito perto. Podemos notar semi-simbolismos. há um enquadramento da imagem com a câmera focalizando a pessoa ou o objeto de cima para baixo.O zoom é o movimento de câmera para aproximar ou afastar a imagem de pessoas. Temos ainda o efeito de profundidade de campo. numa posição de inferioridade” (idem). No cinema. tem outras 170 . Ângulos de filmagem – No ângulo alto. quando se quer dar a idéia de que alguém está ‘olhando de baixo’. Planos de câmera . Movimentos de câmera . É muito usado para se criar a idéia de que alguém está ‘olhando de cima’ numa posição de superioridade” (Manual de Vídeo do SENAC). se desloca para acompanhar uma cena. O distanciamento promovido pelo equipamento. há um zoom out. Efeitos ópticos . ouvir um monstro e não vê-lo causa suspense e medo. geralmente essa movimentação acontece sob trilhos. urgência. No cinema de terror. Os planos de câmera simulam principalmente o contato de corpos do público com personagens ou objetos. novidade.

Um fato chamou a atenção. Só que esse olhar do enunciador se impõe como o olhar do enunciatário. Foram encontradas enormes diferenças entre os nomes e os posicionamentos de planos de câmera. G.. por exemplo. O plano médio de Como filmar é o plano geral das outras duas publicações. assim. portanto. E os planos mais amplos. Atlas. que expõem essa mesma unidade como parte de um contexto. ao registrar uma ação ou um estado. impõem certos efeitos de distanciamento.funções. Lisboa. São elas O filme publicitário. Adotamos conceitos de O filme publicitário. Lembramos que a base da linguagem de câmera da TV veio do cinema. (não consta ano). 100 171 . afetividade. no qual se insere a parte no todo. Brasiliense. se vê obrigado a ver o que a lente vê. Para avançar no estudo dos efeitos de distanciamento e aproximação. por ser muito mais completo e produzido no Brasil. e Meyer. On camera – o curso de produção de filme e vídeo da BBC. chama de plano americano o que On Camera diz ser plano de conjunto.. ao simular a aproximação do enunciatário com um elemento do enunciado. O distanciamento também pode surgir como conseqüência. de Gage e Meyer. distensão e inteligibilidade. São Paulo. gera efeito de intimidade. 2ªed. tensão. Cláudio. O telespectador. escancara a existência de um ponto de vista. 1990. Pode ser a de observar um “quadro completo”. É possível reparar. 3ªed. aqui pensados tendo o corpo humano como parâmetro:100 Consultamos cinco publicações sobre planos de filmagem para fazer a ilustração. de Gage. da década de 90. que não informa o autor ou os autores. Harris.. como se um objeto que despertou uma atenção inicial tivesse exaurido a capacidade de atrair o sujeito. São Paulo. Manual de Vídeo do Centro de Comunicação e Artes do SENAC – São Paulo. e A Linguagem Cinematográfica. Summus Editorial. O filme publicitário. 1990. é necessário conhecer tipos de enquadramento de câmera. de Watts. ed. A câmera. por exemplo. Prelo Editora. Leighton D. de uma curiosidade satisfeita. São Paulo. e geralmente passa a desconsiderar tudo o mais que não entra nos enquadramentos. uma operação de caráter inteligível. que um plano de câmera. de Marcel Martin. de Wain. 1991. Como filmar.

mostrando apenas os ombros e a cabeça do ator. no começo do século passado. O olhar do telespectador não se dispersa. É como se a câmera dissesse: “Preste atenção. a morte de animais. Em outras palavras.da reportagem. e no fundo a mais válida. adquire-se um saber no 172 . Esse plano leva a uma concentração de nossa atenção. que gera uma proximidade afetiva do público com algo ou com alguém mostrado na tela. A câmera nos impõe a máxima atenção para a fala do personagem. notadamente a dos olhos. A câmera aproximase um pouco mais. temos o close-up ou close. E as expressões do ator tornam-se mais nítidas para o espectador” (Gage e Meyer. observar as expressões. 1991:7-74). o cenário no qual se desenvolve a ação é praticamente eliminado. Como exemplo. Cotidianamente. ao dar um close-up no rosto do Sem-terra. Há um enquadramento em close-up do Sem-terra Francisco Alves no momento em que ele descreve a invasão. O que a câmera faz. vale retomar a notícia 15 da Tabela 2. pois aqui está um momento muito importante – e tenso . é deixar para o público essa investigação. e afirma: “Sem dúvida. a queima de tratores e a quebra da residência principal. Com isso. Outro ponto sempre lembrado pelos teóricos do cinema é que um close-up de um rosto “acentua ao máximo a ação emocional”.” Observa-se um semi-simbolismo ou simbolismo “cristalizado”: qualquer coisa que a câmera destaque é e deve ser valorizada. sobre a destruição de uma fazenda praticada pelos Sem-terra. O close-up “é um dos recursos mais enfáticos na linguagem cinematográfica. como lembrava. e é esse tipo de plano que constitui a primeira. Hugo Munsterberg (1982: 47).No extremo da aproximação. tentativa de cinema interior” (1990: 39). é uma maneira de investigar as “reais intenções” de alguém. é no primeiro plano do rosto humano que se manifesta o poder de significação psicológico e dramático do filme. Marcel Martin se refere a esse enquadramento como “primeiro plano”.

por outro lado. as pessoas e o espaço que ocupam. Resumindo. o plano geral o reintegra ao mundo.. você consegue cobrir entradas e saídas das personagens e orientar o espectador sobre relacionamentos. o plano geral. ressalta o espaço e dissolve o ator Fontanille. uma dimensão mais inteligível do que sensível. Há um efeito de conjunto. que “reduzindo o homem a uma silhueta minúscula. ‘objetiva-o’” (1990:38). o close-up e o plano geral. ENQUADRAMENTOS E EFEITOS DE CÂMERA + Intensidade + Foco + Afetividade PLANOS Close-up Plano próximo Plano médio Plano americano Plano de conjunto Plano geral + Extensidade + Apreensão + Inteligibilidade No limite. movimentos e progressão dentro de cada cena do filme” (Gage e Meyer. ressalta o ator e dissolve o espaço No limite..close-up. relembremos. faz com que as coisas o devorem. Na TV.. Pensemos agora no plano oposto. 1991:78). no plano geral. o contato do público com o que é apresentado é mais da ordem inteligível. O foco pressupõe 101 Uma diferença entre uma fita de cinema e o vídeo jornalístico é a inexistência de um grande plano geral. 173 .. Diz Marcel Martin. Somos solicitados a fazer relações entre os objetos. que delimita o domínio de pertinência (. que maneja. Acreditamos que esse comentário é válido para a TV. mas essa função é secundária em relação ao impacto afetivo e à valorização imposta ao telespectador pela aproximação com uma pessoa ou objeto apresentado nesse plano.)” (2003: 35).. o grande plano geral tem utilização muito limitada. em relação à “linguagem cinematográfica”.101 O quadro apresentado em seguida mostra essas possibilidades de significação dos planos de câmera a partir dos dois “extremos”. afirma que a tomada de posição de um sujeito acontece na forma de um “foco – que orienta o fluxo de atenção – e de uma apreensão. (. através de um plano geral. filmada de longa distância. Os detalhes desaparecem em uma tela pequena. O plano geral “normalmente (.) Além disso. que apresenta uma enorme área de ação..) é utilizado para apresentar todos os elementos da cena.

A filmagem em câmera subjetiva. o sujeito passa da tensão para o relaxamento. Em função dessa conexão. no caso do nosso trabalho. por exemplo. O impacto afetivo nesse caso. O telejornalismo. Cada plano em uma tomada. contudo. “Dizemos que uma câmera é subjetiva quando ela é colocada na posição que permite filmar do ponto de vista de uma personagem em ação durante determinada cena” (idem: 88). também em relação ao afastamento ou à aproximação de um objeto (que pode ser uma pessoa. 174 .103 É possível notar que. Para relacionar essas observações com a teoria da enunciação. não só ao uso dos planos mais gerais como também ao processo inteiro vivido por um sujeito que. A câmera objetiva é “a filmagem da cena de um ponto de vista de um público imaginário” (Gage e Meyer. Se o público perceber qualquer imposição de olhar. A apreensão pode ser relacionada. afetado pela presença de algo que lhe reclama sentido. por ter um formato bastante padronizado.102 Os planos intermediários constroem sentidos de maneira proporcional. Sem acesso à narrativa. no início do Jornal Nacional. como a narração do acontecimento por repórteres e apresentadores. Ao mesmo tempo. de uma maneira geral. os dois apresentadores se revezam em um plano próximo: 102 É importante dizer que nossa teorização sobre os planos de câmera se refere a formas de enquadramentos que são imaginadas. hipoteticamente descontextualizadas. uma sala). O uso da câmera subjetiva é também pouco comum no telejornalismo porque afeta o sentido pretendido de o olhar da câmera ser o do telespectador. um anel. depende totalmente das informações cedidas pela narrativa e por outros recursos. ao contrário. As concepções de foco semiótico e de foco de câmera – o close-up – são perfeitamente compatíveis. trabalha com recursos bastante limitados de usos de câmera. Só assim esse tipo de plano tira o máximo proveito da tensão. Ambas mostram o engajamento perceptivo do sujeito na forma de curiosidade. pode haver uma quebra nessa relação. 103 Teóricos de cinema e de vídeo também falam da existência de uma câmera subjetiva e de uma câmera objetiva. o plano só vai cumprir sua missão de gerar informação (um saber) e alguma curiosidade (um querer saber). tensão. sem apoio de uma apresentação. surgem novos complicadores na categoria de pessoa desse tipo de discurso. é possível até falar em um ângulo aberto de câmera com forte impacto afetivo. Esse é o recurso mais comum no telejornalismo. na leitura da escalada. 1991:89). Ao obter a compreensão. ao ter o quadro todo.um sujeito mais ou menos tenso. a apreensão é o momento de passagem da percepção para a significação. No JN. Para entender como esse plano isolado é mais de ordem inteligível. enuncivo. disforia. atraído pelo noticiário. é raro alguém se aproximar de algo antes de tê-lo visto a certa distância. verificamos que geralmente não se mostra um close-up sem um plano médio ou geral anterior. O efeito geral buscado é. no entanto. mobilizado. basta imaginar um programa começando com um plano geral. é rara nos noticiários televisivos. deve passar da situação de não ter um saber desejado (disjunção) para a de sujeito com esse saber (conjunção). A câmera subjetiva instaura um actante da enunciação e mostra a existência de uma desembreagem actancial enunciativa bastante particular. sempre está conectado a outros. no exercício teórico. da insatisfação para a satisfação. do ponto de vista dos planos de filmagem. O enunciador está sempre interessado em uma decodificação rápida. No cotidiano.

104 Na apresentação posterior de cada notícia. se vê um plano médio: O plano médio e o plano americano quase se apresentam como uma “justa medida” de enquadramento e simulam um tipo de contato mais neutro que temos com pessoas em nosso cotidiano. quase sempre a maioria. Esse plano daria um tom de intimidade incompatível com o efeito de conjunto pretendido pelo telejornal. Podemos observar que a narração em plano próximo é pensada para realçar a tensão desse conjunto de elementos da abertura do JN. a tensão necessária é menor.O tom é nervoso. “designa a transmissão de informações pelo repórter do local dos acontecimentos” (Maciel. principalmente diante dos acontecimentos disfóricos. em destaque na tela. não é utilizado pelos profissionais no programa. apesar de acentuar mais a tensão. 104 175 .105 Nesses momentos. Portanto. Um close-up. 105 O recurso do stand-up. o jornalista aparece de pé. para relembrar. A fala é rápida e tensa. O plano médio também é muito utilizado pelos repórteres nos stand-ups. 1995: 113).

107 É interessante observar que a categoria delimitado x ilimitado só pode ser aplicada ao uso da câmera se for considerado o efeito. cidade de Minas Gerais. aproxima ou afasta os telespectadores das pessoas mostradas. Ao mesmo tempo. pretendidos pelo enunciador. No entanto. No caso do espaço. e também as pessoas da narrativa.como no caso a seguir. Em outras palavras. só vemos o que a câmera mostra. Sabemos que a aspectualização do plano de expressão está relacionada à criação de continuidades e descontinuidades. cada reportagem demarca as coordenadas principais da ação. no caso da reportagem dos Semterra). do repórter Luis Fernando Silva Pinto.107 A citada reportagem dos Sem-terra tem como cenário uma fazenda de Minas Gerais. o simulacro. A câmera. que geram efeitos de proximidade ou de distanciamento. que fala de Washington. a categoria base é delimitado x ilimitado. 106 176 . no decorrer da história. é sempre uma delimitadora do espaço. Expliquemos.106 Analisemos a relação dos planos de câmera com a aspectualização. Mesmo sabendo da existência de uma espécie de “espaço da história”. realiza diversos enquadramentos. matéria sobre repercussão da prisão de Saddam Hussein nos Estados Unidos. pode-se perfeitamente mostrar uma paisagem e obter o resultado de “horizonte sem fim”. aos efeitos de sentido pretendidos pelo enunciador. claramente apontado (uma fazenda em Unaí. Captura de frame do arquivo Jornal Nacional-2 (11m20s). A câmera. aqui no caso espaciais. por princípio. É por isso que afirmamos que a câmera sobredetermina efeitos importantes na categoria de pessoa e de espaço. O equipamento subordina esse espaço maior.

Em seguida.” Em “Jornal Nacional – a notícia faz história”. Se cada plano for cortado exatamente no momento em que diminui a atenção. é a coincidência entre a duração de cada plano e os movimentos de atenção que desperta e satisfaz. Eles retratam o dia-a-dia das notícias mais importantes do país e do mundo. a razão de ser do plano – gesto. portanto. Então intervém um momento de atenção máxima em que é captada a significação. como foi citado. Recomendo a vocês – editores e apresentadores – o maior empenho para que os nossos telejornais estejam sempre no ritmo correto” (2004: 152). a atenção diminui e. se o plano se prolonga. digamos. A montagem em meios de comunicação de fluxo. Dois procedimentos precisam ser inicialmente destacados sobre o assunto. advém um instante de aborrecimento. no entanto. hierarquizadas em um fluxo no tempo.Montagem e domínio do tempo Ressaltamos em outra parte do trabalho que a categoria temporal – e não a espacial – organiza a textualização na TV. impaciência. precisam ter sempre um bom ritmo. ou seja. As duas estratégias estão profundamente relacionadas. Não se trata de um ritmo temporal abstrato. Alice Maria. palavra ou movimento -. converte a temporalidade da narrativa em um processo discursivo e cria o chamado “tempo psicológico”. mas de um ritmo de atenção. aspectualizado. à exposição. sendo substituído por outro. Um bom ritmo se consegue com matérias editadas no tempo certo. um ligado ao ritmo e o outro vinculado à duração de unidades. Primeiramente é reconhecido e situado: corresponde. o espectador permanecerá constantemente atento e diremos que o filme tem ritmo. Ela dá uma definição “telejornalística” de ritmo. texto enxuto e leitura vibrante. a mera relação do tempo entre planos. há a reprodução de um memorando sem data (provavelmente do final da década de 80). Diz a carta: “Os telejornais têm que ser vibrantes. O telejornal é resultado da montagem (ou edição. Para se ter uma idéia melhor do que é “montado”. Chartier que mostra como fazer a montagem dos segmentos filmados: “Um plano não é percebido do início ao fim do mesmo modo. de como se relacionam as unidades e de quais as funções e os efeitos persuasivo-argumentativos 177 . Marcel Martin (1990: 148) cita uma reflexão de J. Comecemos pela importância do ritmo para o gerenciamento do nível de atenção. da diretora executiva da Central Globo de Jornalismo. a sensação de que uma reportagem passa rapidamente. tem outras particularidades.–P. O que chamamos ritmo cinematográfico não é. como ato) de unidades. Um das estratégias mais importantes para um “bom ritmo” se relaciona ao manejo do tempo que. que faz progredir a narrativa. ao chamado tempo aspectualilzado ou psicológico.

quem narra. Na terceira parte. 15 de dezembro de 2003. descrevemos o instante de ocorrência do fragmento e o tipo de plano (ou planos) de câmera utilizado(s) na tomada. encontra-se a duração em segundos do segmento.que se podem obter. Uma mesma tomada pode começar em plano geral e terminar em close-up. A Tabela 4. Para ilustrar. como o da câmera acompanhar uma ação ou girar sobre o próprio eixo. a partir de agora. a seguir. Finalmente.renova a atenção e se enquadra na estratégia de arrebatamento. momento de início de apresentação e recurso de câmera. Fragmento é um trecho de gravação que não apresenta corte. Utilizaremos ainda diversos termos comuns da “linguagem” do telejornal. Convencionamos que.É um trecho de gravação rodado sem interrupção. optamos por mostrar essa engrenagem por meio da análise da reportagem sobre a prisão de Saddam Hussein. apresenta-se a narração: as falas. Decidimos falar em fragmento ou segmento em vez de tomada por acreditarmos que o primeiro termo se vincula a um recurso de produção e não de edição. dividida em cinco partes: fragmento. os efeitos sonoros. Qualquer mudança .no primeiro trecho da série. mostra uma espécie de “decupagem” da notícia. fazemos uma pequena análise do trecho ou do conjunto de trechos com todos os elementos em relação. quando uma mesma fala se estende e é acompanhada por diferentes fragmentos. momento de início de apresentação e recurso de câmera. um quadro que melhor representa o fragmento.108 Tomada . na quinta e última parte. ligada à manipulação do nível sensível e ao ritmo. mostramos um frame da gravação. 108 178 . Quando há muita movimentação de câmera. Essa reportagem dura quase o primeiro bloco inteiro do programa. Em outras palavras. Expliquemos o que significa cada parte da “decupagem”. A prisão de Saddam: um bloco inteiro dedicado ao assunto Apresentamos. Na quarta parte. examinamos como essa notícia se encaixa na edição e principalmente os efeitos de montagem. uma mesma tomada pode gerar diferentes fragmentos. ou seja. duração em segundos. narração e observação. um estudo detalhado sobre a principal notícia da edição de segunda-feira. a da prisão de Saddam Hussein e seus desdobramentos no mundo.principalmente um corte . Na segunda parte. Depois. há dois ou mais quadros com diferentes ângulos. Pretendemos dar mais destaque para recursos de plano de expressão e as relações com o conteúdo. somente haverá identificação do enunciador – quase sempre o repórter e os apresentadores . de observação. Outra função desse segmento é o de informar o que acontecia no fragmento e também o de mostrar outros efeitos da filmagem.

a diferença entre nitidez e cromatismo do estúdio e de tudo o que está fora dele. Background – “Também conhecido pela sigla BG. Fusão . Em geral. que pode ou não ser acompanhada por uma assinatura musical.Em telejornalismo. o “mundo”.Em telejornalismo. A estratégia de sustentação da atenção se baseia na criação da seguinte curiosidade: qual será o destino do ex-ditador? (Relembremos que a estratégia de arrebatamento principal aconteceu no início do programa. que corresponde ao lead do jornalismo impresso. 1995: 104).TABELA 4 MOMENTO DE INÍCIO DE APRESENTAÇÃO E RECURSO DE CÂMERA FRAGMENTO DURAÇÃO EM SEGUNDOS NARRAÇÃO OBSERVAÇÃO 1. O mesmo que off. Aurélio). da televisão e principalmente do cinema. 2000: 149). Os iraquianos querem julgálo no Iraque e aparentemente contam com o apoio do presidente George Bush. focalizando uma certa situação em que aparecem as mesmas personagens. trata-se de “uma cena isolada de um filme ou uma animação feita com o nome ou a embalagem do produto. pronunciado por alguém que não aparece em cena. Locução em off – Para relembrar: trata-se fala que acompanha a imagem de uma gravação. que caracteriza uma pessoa. a fala dos entrevistados nas reportagens” (Rezende. uma fonte de informação de uma reportagem que não é identificada para o leitor. que passa pelas costas do apresentador. movimentando a cena inicial da reportagem. no mesmo ambiente” (Dic. em particular. na escalada.No Jornal Nacional o selo geralmente é uma ilustração que tem movimento.(01m16s10) Plano próximo Surge o selo para as matérias de Saddam Hussein. Esse termo. Nas falas em que é necessária tradução. Uma cena pode ser fragmentada por meio do encaixe de uma outra. aparece atrás dos apresentadores e identifica um assunto ou um tema. assunto que aprofundaremos mais adiante. não deve ser confundido com o “falar em off” da mídia impressa. serve para designar o ruído ambiente ou música usada como fundo para a fala do repórter ou do apresentador. 10 Apresentador Renato Machado: “Os Estados Unidos vão decidir nos próximos dias em que tribunal Saddam Hussein será julgado.) Deve-se notar. Selo . Vinheta . de curta duração (aproximadamente cinco segundos). O “gancho” é a especulação em torno do julgamento de Saddam Hussein. a vinheta é utilizada para anunciar patrocínios.” Renato Machado faz a cabeça de matéria. 179 . a primeira sobrepondo-se à segunda. é costume deixar um BG da fala na língua original do entrevistado” (Maciel. Sonora . inicialmente. abrir ou fechar programas etc. A reportagem sobre a prisão de Saddam Hussein inclui um selo no qual se vê a foto do ex-ditador. Serve para mudar de cena ou enfatizar a relação entre elas. Cena .Mistura de duas imagens.” (Gage e Meyer: 1991: 202).“Parte de um filme que abrange diversos planos. “tem o sentido genérico de toda a gravação feita em externa e designa. Temos uma idéia de organização em relação à desorganização.

” Voz da correspondente em off: “A imagem de Saddam Hussein...quer a pena de morte para Saddam Hussein.estava em todos os jornais americanos. 3. 5 Ouve-se a voz do cidadão (“He should be right. 6. a voz o conclui. Neste trecho.. A câmera o acompanha numa panorâmica e 10 Voz da correspondente em off: “Na primeira entrevista coletiva sobre Saddam Hussein. O jornal inicia a matéria com um “Povo Fala”. esse recurso será utilizado outras vezes. 5. o presidente George Bush traçou o destino mais provável para o exditador. A câmera parte de uma tomada mais aberta – um plano mais inteligível e menos tenso para ir fechando o quadro no que deve ser considerado mais tenso. Há um cuidado com a enunciação do cidadão. O telejornalismo utiliza todo o sistema de construção de valores da mídia impressa para afirmar a própria importância do que enuncia. 4 Voz feminina de correspondente em off: “A maioria dos norteamericanos. 6 .(01m26s20) – Plano geral de rua de cidade norteamericana. a câmera apresentando o espaço (Estados Unidos) e outros actantes do enunciado.. 59%.. que vai a BG e é superposta pela voz da repórter em off: “Este americano diz que o exditador tem que ser julgado no Iraque. Como se verá a seguir. chegou a hora de Saddam pagar pelo que fez. 180 . A voz dele é perfeitamente audível por uma fração de segundo. Vamos observar. por vários trechos da reportagem. 1 7. nas tomadas seguintes. Câmera se inclina para cima ângulo alto – e enquadra a bandeira norteamericana. Uma característica que irá se manter nessa reportagem é comum no telejornalismo.(1m49s26) – Plano próximo de Jornal. 7 No trecho anterior.. Foca-se a manchete. por exemplo. emocional e importante.(1m51s27) Câmera mostra plano geral de George Bush entrando na sala de imprensa. Novamente observa-se a preocupação do enunciador em mostrar os espaços onde se situam os atores antes de fechar o ângulo. Pode-se observar.” Correspondente em off sobre a voz do cidadão: “Para este outro. que a ocupação espacial da primeira página de um jornal é o lugar dos assuntos principais. Sabemos. não o nome do jornal. 2 ..” 4. a voz do cidadão iniciava o “Povo Fala”.2.” Cidadão: “Today is his day.” 8.(01m30s19) – Tomada começa em plano geral na rua. segundo uma pesquisa de opinião Gallup-CNN.(1m48s19) – Plano próximo de jornal. imagens dos jornais...”).(01m36s15) Close em cidadão norte-americano. Enfim.(1m41s25) Plano próximo de outro cidadão. mesmo que a maioria dos telespectadores não saiba interpretá-la.. o que deve merecer atenção do telespectador porque foi valorizado pelo JN.

4 Bush diz que ele deve ser julgado pelos iraquianos.. 5 Voz da correspondente em off: “Para o Conselho do Iraque parece não haver dúvidas. Eles parecem enunciar pela voz dela. como discurso “oficial”. há inserção dessa tomada em plano geral para depois retomar o mesmo plano próximo. O presidente diz que a verdadeira sanção quem vai aplicar são os iraquianos. 181 .(02m19s00) – Plano próximo do presidente.” Voz da correspondente em off: “Ao ser perguntado se aprovaria a execução de Saddam. a seguir.(2m15s23) – Plano de conjunto de repórteres. justo e submetido à verificação internacional. 12. Não se vê ou se ouve ninguém do conselho fazendo afirmações. 10 Off da correspondente simulando voz de Bush: “Vamos trabalhar com os iraquianos para que Saddam tenha um julgamento público. 10. A função de ancoragem das imagens a seguir é evidente. Há a busca de um sentido de autenticidade e de valorização dessas enunciações. Mas o tempo dedicado a Bush pelo JN valorizou a sua opinião.(02m01s26) Plano geral da sala. a fala de Bush tem um potencial de atenção discutível.. 11.depois fecha o ângulo até um plano próximo. O que importa é a opinião dos iraquianos. O mais curioso dessa apresentação de Bush e de outras “sonoras” é ouvir as falas em inglês.” 13. O Conselho espera. o que tem plena competência para a ação de julgar.. Observe-se o aparente conflito entre enunciação e enunciado. Mas o off da correspondente funciona como “porta-voz” dos conselheiros. 9.. ainda mais porque é “longa” em relação aos outros trechos.(02m27s15) Plano médio de líderes iraquianos – câmera faz uma panorâmica da esquerda para a direita para mostrar o Conselho do Iraque.(02m05s04) Plano próximo de Bush. 8 Bush respondeu que a opinião pessoal dele não conta. 4 Do ponto de vista semiótico. Para compensá-la. Bush aparece como o destinador-julgador.” Bush: “The iraquees make their decisions. todo este trecho da matéria é de sanção.” Voz do presidente: “International (trecho não identificado) is the best way to put it. Saddam é o antisujeito. e não a que vem a seguir. do Conselho do Iraque.” É evidente que.

... a imagem também “ancora” o verbal.(02m44s06) Plano de conjunto supostamente da mesma sala. 2 Se for julgado no Iraque. cada fragmento aparece “ancorado”.. notadamente. Os fragmentos a seguir deixam bastante clara a dificuldade do telejornalismo em “preencher”. O Conselho de Governo é que vai escolher. 3 . nesse caso da sala. Um detalhe: a escolha do editor recaiu sobre o homem de roupas árabes.. Neste trecho. Vale notar que. 182 .14. Para contrabalançar esse problema. 19. No telejornalismo.na semana passada.os cinco juízes.(02m32s26) Plano geral dos líderes caminhando em direção à câmera.(02m36s27) Novo plano geral dos líderes... 3 Saddam será levado ao tribunal especial. criado. 16. A falta de ação no conteúdo é compensada por uma espécie de ação no plano de expressão. O réu terá direito à defesa e a..(02m47s06) – Plano geral da mesma sala. 17.. mas que servem de suporte à fala ao distrair o olhar do telespectador. ou.. Não é qualquer sala. ou seja. 18.. começar o julgamento de Saddam nas próximas semanas.(02m50s23) – Plano próximo do símbolo. que identifica o grupo. 15. os fragmentos são muito curtos. com gravações. certas informações julgadas necessárias. Note-se que ele estava no fundo na tomada anterior.(02m42s06) Plano de conjunto de uma sala de justiça supostamente do Iraque. limita suas possibilidades. limpo de sua polissemia e... 6 Alguns integrantes afirmaram que pediriam a pena de morte para o exditador. Temos um trabalho de aspectualização mais forte para gerar uma sensação de tempo que passa rápido. meses. 4 . há pouca ação que gere atenção.. no máximo. mas a que aparece no vídeo. Deve-se notar como se mostram diferentes ângulos da sala que pouco acrescentam de novidade ou de real informação. euforizado ou disforizado pelo enunciador. 4 .

... de novo... Plano de conjunto.um tribunal especial. 4 .. o uso de recursos de movimentação de câmera.o Conselho poderá convidar juristas internacionais para participar do julgamento. 21. seu povo. como. 23. 26. 6 . o Iraque. à esq. 183 .. Note-se.. estamos aqui às voltas com uma discussão sobre uma sanção pragmática que Saddam receberá e sobre quem será responsável por ela. E.. há uma sucessão muito rápida.julgamento. 1 ..(03m16s20) – Câmera faz uma panorâmica da dir.. 22. Do ponto de vista do conteúdo..(03m12s20s) Transição entre tomadas é por fusão. por exemplo.(03m03s22) Câmera foca bandeira do Iraque e faz um zoom out até um plano geral. 25.. Se julgar necessário.. 9 As organizações mais importantes de direitos humanos consideram que uma corte internacional daria legitimidade ao. 24. Há fragmentos com menos de um segundo.. 3 Poderia ser criado. para compensar. Mais uma vez há uma ação de expressão que compensa a falta de ação no conteúdo. supostamente da mesma sala.(03m17s29) – Plano Geral – Câmera faz panorâmica da dir. com microfone em primeiro plano.(02m57s17) – Plano geral da sala do Conselho..em um momento em que a narração discute um julgamento. A seqüência de fragmentos a seguir mostra novamente a dificuldade do enunciador de preencher as informações com gravações de arquivo. além da rapidez..20.(03m13s19) Transição entre tomadas é por fusão.(02m54s05) – Plano geral... . Distraem-se os olhos com imagens antigas que remetem a Saddam..recorrer a uma corte de apelação. e acompanha juízes.... 1 . onde se vê que ela faz parte de um monumento. 3 .os que foram criados pela ONU para julgar crimes de guerra.. à esq..

32. em Ruanda.(03m39s24) – Plano americano de Saddam tirando uma espada da bainha..(03m45s17) – Câmera faz uma panorâmica da sala – plano geral. 28. faz uma panorâmica pela sala (da dir.(03m24s21) Câmera faz um zoom in e foca Saddam – ao fundo no primeiro quadro – em plano próximo... 2 .. 29. A câmera não sai do lugar. 3 Esses tribunais não prevêem a pena de morte..na ex-Iugoslávia.(03m21s19) – Passagem entre cenas por fusão – Plano Geral com perspectiva.. 30. Ao apresentar Milosevic sem identificá-lo.. a partir de agora. o uso de mais gravações de arquivo do JN. Kofi Anan. o que dá sentido de atualidade à notícia. Fala-se em um “hoje”..em Serra Leoa.(03m27s27) – Câmera deixa o secretário. Note-se.ser julgado por uma corte militar..(03m22s28) – Plano próximo. 6 . Mas a edição dá a impressão de que três mudanças acontecem.) e termina focando outros cinegrafistas. Devemos observar o esforço em lutar contra a monotonia visual nas tomadas feitas na ONU.(03m33s11) Novo plano próximo no secretário... 6 O secretário-geral da Onu. leis humanitárias internacionais e que a Onu não apóia a pena de morte. Nem todo o público reconhece o ditador.. 31. Aqui há um dos raríssimos marcos temporais. 2 . o JN mostra que uma parte da audiência mais intelectualizada está sendo contemplada. e. 1 . à esq. 184 . disse hoje que o julgamento de Saddam deveria seguir as.27. parece fazer uma única tomada.. 33. – Voz de Anan sobe: “. que aparecem identificadas no canto inferior à direita.Dead penalty”. 6 O que está fora de questão é a vinda de Saddam Hussein para os Estados Unidos para....

(03m47s06) Câmera faz um zoom in e mostra imagem de Saddam. mortos aos milhares. A imagem de Saddam.... Lembramos que a pergunta sobre o destino de Saddam foi em parte respondida. teremos a exposição das ações do antisujeito Saddam. Semioticamente falando.. . Do ponto de vista do conteúdo. 35. o.(03m51s11) Câmera faz uma pequena panorâmica pela sala.(03m54s27) – Plano de conjunto com um sutil zoom in no soldado.. 2 ... A estratégia de sustentação da atenção do enunciatário pelo enunciador se vale agora da instauração ou do reforço de paixões..(03m58s14) Câmera faz uma panorâmica no local do massacre da esquerda para a direita e. 2 Seja qual for o tipo de. sem deixar a figura do exditador. Plano americano. a discussão “racional”.é relacionada a cenas de atrocidades que foram cometidas por ele..(03m49s02) – Plano de conjunto.. quando pára. serão retomados os crimes do ex-ditador. 185 . Só que. Fim da tomada e é plano médio.. 3 ..exercendo o poder. a partir de agora. Saddam é acusado.de autorizar o massacre de minorias étnicas. predominou o tom formal.. foca os cadáveres...corte que Saddam será submetido. principalmente de vingança. ..34.... como os curdos.. estamos ainda em plena fase da sanção.. 36.. em 88.dramáticos da história da humanidade. 4 . A partir de agora. O jornal busca agora justificar a prisão e a guerra contra Saddam em função de seus crimes.cercado de seus soldados. Até este momento.... 37.. 38.. veremos as performances que foram consideradas condenáveis do ponto de vista do destinador. .. julgamento dele tem todos os componentes para se tornar um dos mais. 7 .

4 ..39. soldado carregar prisioneiro.testemunho de como os adversários do regime. as cenas a seguir são fortes. 45..gente sendo presa e arrastada por soldados. como lembra Maciel (1995:91).(04m11s24) – Plano de conjunto. 41.. .. 44.. com armas químicas. 3 . 1 As prisões.(04m16s06) Câmera mostra corda no teto e faz um zoom in para terminar em close. 42..(04m05s04) – Câmera parte do primeiro cadáver que no quadro capturado aparece em primeiro plano . .pessoas identificando cadáveres. também são um. Imagens de extrema violência geralmente não são mostradas no JN por questões de ética. 3 . Um dos poucos closes mostra uma corda. em primeiro plano.da guerra... 2 . 186 ... para impedir um contato ainda mais tenso do enunciatário com o que é mostrado.(04m17s15) Câmera faz uma panorâmica e acompanha homem de casaco atirar na cabeça de um e depois de outro prisioneiro. 43. essa é uma das cenas mais chocantes da matéria.(04m13s27) – Câmera faz uma panorâmica na sala da esq.eram torturados... Nota-se o uso do plano geral e do plano de conjunto. à dir... Todo o choque dessas cenas é manipulado por uma edição que privilegia um contato muito rápido.(04m06s24) – Câmera faz panorâmica e acompanha. Adultos e crianças mortos pelo chão.” Com certeza. 1 ... 3 e sumariamente executados. 40.e dezenas de covas clandestinas descobertas depois.(04m07s28) – Plano geral..e sobe o ângulo para enquadrar os demais em perspectiva e em plano geral.. Plano de conjunto. Para isso....... com muita movimentação.

Ou então o boletim é usado para. possivelmente de helicóptero.. Stand-up da correspondente – ficamos sabendo de quem era a voz em off.(4m20s07) plano próximo da repórter. a volta do off e. 3 Voz do correspondente: “Saddam Hussein iria passar a noite de sábado. Deve-se observar a repetição da estrutura anterior: uma cabeça de matéria (obviamente subordinada ao assunto principal). que os EUA não revelam por motivo de segurança. um “boletim de passagem”. A “volta ao estúdio” marca uma mudança de assunto. Se o primeiro sub-bloco foi o da “sanção”. Do ponto de vista da estrutura da matéria. Na definição de Maciel “o boletim é a narrativa do repórter feita em quadro. de passagem ou encerramento. Identificação surge e desaparece do vídeo. Nos próximos fragmentos. de Nova York): “Saddam Hussein aguarda seu destino em local secreto.(04m38s04) – Plano médio do apresentador. Há informações não confirmadas de que ele teria sido levado para uma base americana no Quatar. a matéria apresenta o “cenário” da captura. 18 (Vê-se a correspondente Cristina Serra.” 47.. Filmagem é trêmula. tivemos até agora uma cabeça – no estúdio – um pequeno off que precedeu as sonoras dos cidadãos americanos e do presidente Bush. a novidade nesse trecho é o uso de computação gráfica. mostrar ao telespectador aspectos da narrativa que de outra maneira não seriam suficientemente ressaltados” (1995: 60). Consideramos esse ponto como o começo do segundo sub-bloco. Novamente uma seqüência de ângulos que vão do inteligível. Pode ser de abertura. A estratégia de sustentação da atenção do telespectador se apóia aqui na seguinte pergunta: como Saddam foi preso? 187 . mas o mais provável é que ele esteja sendo mantido numa instalação militar perto do aeroporto de Badgá. narração em off do correspondente. para fechar em detalhes e atores. e outro boletim de passagem. o segundo será o da performance da captura de Saddam. sonoras. O repórter utiliza o boletim para transmitir informações importantes que não têm imagem. dependendo da posição dentro da reportagem.(04m54s18) – Plano geral em ângulo alto. da construção do espaço. agora. 16 Apresentador Heraldo Pereira: “Saddam Hussein queria negociar com os soldados perto de sua cidade Natal.46. Militares norteamericanos no Iraque se surpreenderam com a falta de reação do exditador no momento da prisão e com as condições do local em que ele estava escondido” 48. Tikrit. Como veremos a seguir. Identificação surge e desaparece do vídeo. conduzindo a narrativa.

. mas justamente saber em detalhes como se chegou àquele estado. 52. A narração do repórter atualiza essa cena e apela para a imaginação do público: “Saddam correu para o esconderijo.. Uma placa de isopor esculpida.. o JN tenta de todas as formas fazer a simulação parecer presente... 53.onde foram encontradas roupas e comida. uma encenação da descoberta.de fora. como se fosse uma pedra.” Após a apresentação do cenário..... no final.. na retirada do isopor que cobria o buraco onde estava Saddam. a câmera acompanha a ação dos soldados e se concentra..(05m03s01) – Plano de conjunto. 3 .(04m59s19) – Mesmo nesse plano médio. 2 .(05m04s19) – Esse plano médio termina em close da panela com um zoom in. Saddam correu para o esconderijo subterrâneo do lado de fora..neste casebre de sapé. As informações neste trecho e a seguir têm seu potencial de atenção garantido por construírem uma espécie de tematização da pobreza que se contrapõe ao luxo e ao poder demonstrados por Saddam no governo do Iraque. 51. atual. anteriormente. Do lado. uma cozinha ao ar livre..(05m07s00) – Plano médio.49. Esse trecho da reportagem é um bom exemplo dessa afirmação. 1 . Nesta tomada. 10 Quando os soldados norte-americanos se aproximaram... não é a conclusão de uma ação que mantém a curiosidade do público. a câmera faz uma pequena panorâmica 4 . Ressaltamos. que. no jornalismo. 188 . 50. tapou a entrada.(04m57s29) – Câmera realiza um plano de conjunto e faz um zoom in suave.” Como não tem as gravações da captura..onde havia restos de uma refeição..

58. Voz do correspondente: “O coronel James Rici. “Os soldados americanos vasculharam primeiro.. ..(05m41s23) – Plano próximo para acompanhar a fala do coronel. 2 Outro corte na história. 4 (Ouve-se o som da porta se abrindo com violência). 17 Voz do soldado : “We´re about. em plano americano. 189 . se afasta novamente para mostrar outro plano geral do esconderijo do ditador. comandante da operação..dois outros locais próximos.(05m23s10) – Nesse plano geral. quando viram um Retomam-se agora detalhes da captura. As sonoras dos militares mostram detalhes “fortes”: como o fato de Saddam quase ter sido morto por uma granada e a ironia de um soldado diante da oferta de negociação do exditador.(05m21s18) – Outra tomada noturna.”– incompreensível – voz do soldado vai à BG. disse que os soldados iam limpar o subterrâneo.. Lá no fundo. jogar uma granada de mão.. Depois. O buraco era estreito com uma chaminé de um metro e oitenta de altura. 1 . um esconderijo. Passa-se agora a mostrar detalhes da busca. 55.(05m17s26) – Nessa tomada.. com dificuldade se vê um soldado chutando uma porta.. Não é um isopor. ou seja. Eles ergueram a tampa. mas uma tampa que fecha o buraco na animação em 3D. 56.. soldados caminham contra a luz.” Descreve-se agora o esconderijo de Saddam. 17 Mas um tapete que cobria a entrada do buraco chamou a atenção dos soldados. a câmera sai de um plano geral e faz um zoom in no buraco. no centro do quadro.(05m24s25) Câmera virtual – Nessa tomada em ângulo alto. No plano geral vêem-se soldados caminhando.54.onde não acharam ninguém.. que estava debaixo de um tapete.. onde Saddam estava deitado de bruços. 57. Note-se um erro aqui.

o da apresentação do estado atual do ex-presidente do Iraque. Não podemos esquecer que as mesmas imagens apareceram nos jornais pela manhã. É notável. A câmera faz um close do exditador. Temos outro instante de valorização da história.. 190 .’” As sonoras terminam nesse fragmento do correspondente Jorge Pontual.(05m57s12) – Plano americano. Não houve JN no domingo. preso e interrogado em Badgá na sexta-feira. novamente simulando um contato íntimo entre telespectador e Saddam. num raríssimo caso em que mídias impressas apresentaram algo antes do JN. Saddam parecia disposto a conversar ao ser examinado. que esses fragmentos “não duram” muito tempo.(6m33s13) – Plano próximo. Um oficial norte-americano comentou: ‘Economizamos o dinheiro do contribuinte. que faz outro boletim de passagem. mas o assunto foi abordado no Fantástico. aproxima-se depois da câmera. (ele) disse em inglês: “Eu sou Saddam Hussein. presidente do Iraque. e quero negociar. 22 homem lá dentro. E segundo este soldado.59. Mais uma vez. É uma segunda-feira. 61. O informante não vai receber a recompensa de 25 milhões de dólares porque não deu a informação voluntariamente.” Voz do soldado sobe: “The president Bush sends regards. a aproximação acontece em um momento muito especial. Ele saiu com as mãos para cima.(6m11s21) Plano próximo do correspondente.(06m38s25) – Plano próximo. 16 60. 3 Mas depois a atitude dele mudou. 4 Pontual: “Levado para uma base militar. 62. Temos um enunciador que considerou seu potencial de atração relativo. que faz depoimento.” (Correspondente Jorge Pontual surge no vídeo) – “Quem deu a informação sobre o local onde Saddam se escondia foi um parente dele.’ O presidente Bush manda lembranças. Soldado à dir. entretanto. quase close de Saddam.

4 . 6 Quatro integrantes do Conselho de Governo do Iraque passaram meia hora na base interrogando Saddam. Tenta-se recuperar agora as primeiras reações de Saddam na prisão. Na seqüência de três fragmentos.(6m41s12) Câmera faz uma panorâmica do Conselho. 64..que estaria comandando a resistência à ocupação do Iraque.. Izzac Ibrahim Al-Duri. Câmera virtual depois dá um zoom in até a carta de Izzac Ibrahim Al-Duri... 3 .. O principal é o rei de paus. A identidade deles não foi revelada. 67. diz um deles. 65... à dir.(07m12s07) – Estúdio – Plano médio.. 13 Agora que o ás de espadas caiu.(06m55s09)Computação gráfica: carta em que Saddam aparece “cai” da tela. e mantendo o plano próximo.” 68.(06m50s27) – Plano médio para acompanhar depoimento. 11 191 . 66. os americanos esperam capturar os 13 homens que faltam no baralho dos seguidores de Saddam. Surgem da parte de baixo as outras cartas.(6m47s01) Plano médio.e foram recebidos pelo ex-ditador com palavrões.63. Temos outro uso de computação gráfica para encerrar esse sub-bloco. 5 ‘Ele não demonstra nem arrependimento nem remorso’.” Eraldo: “Documentos encontrados numa pasta no esconderijo levaram à prisão hoje de dois importantes aliados do ex-ditador.(7m08s09) – plano médio de Izzac que beija Saddam. indo da esq. temos a descrição do “estado emocional do ex-ditador”. O título poderia ser “os que ainda faltam prender”..

As tomadas gerais dos manifestantes vão aos poucos focando alguns dos seus personagens. 1 do ex-ditador. lamentando ou comemorando. de agora em diante. antes de ir a BG. Os árabes aparecem como massa. 4 Eles param nas principais cidades do país.. Começamos com as repercussões sociais.. como um coletivo que fala pelas ações. 192 . no rosto do iraquiano. mas não merece sonoras. 2 . Voz de repórter em off: “Em Tikrit. mas não fazendo análises..69. Temos os árabes divididos.o outro chora (ouve-se os sons de choro).” 70.. o retorno da narrativa no ponto da sanção.. Só que com uma diferença importante. em mostrar o cenário e uma reação em particular se repete aqui.(07m42s22) – Câmera realiza uma panorâmica da dir. 11 Renato: “A operação Aurora vermelha.(07m32s10) – Plano geral de manifestantes. O cuidado da cena anterior.. Podemos observar. e dá um zoom in no rosto da mulher chorando. à esq. mas desloca-se para mostrar o local onde ele se encontra.. chorando. São apresentadas repercussões sociais. inclusive Bagdá. 71...(07m36s13) – Plano de conjunto com iraquiano em primeiro plano beijando a foto do ex-ditador.(07m23s01) Estúdio – Plano médio. em relação à prisão de Saddam. 4 . Observa-se mais uma vez o recurso enfático do close. Depois é mantido nas próximas tomadas).cidade Natal. O plano foca o rosto do iraquiano..(07m38s29) – Há um plano geral com foco em plano próximo. 74.. 75... 73. e especialmente árabes. 9 (Som de manifestação é mantido por um segundo.(07m34s07) – Plano de conjunto de manifestantes.. Há os que não consideram Saddam um antisujeito por partilharem valores com o ex-ditador. Temos o terceiro sub-bloco: as reações mundiais. 72. 1 ..enquanto um iraquiano beija a foto de Saddam Hussein. Eles surgem “emocionais”. políticas e econômicas. quase close-up. passionais.. gerou comemorações e protestos nas ruas do Iraque.(07m35s14) – Plano americano. que resultou na prisão do exditador Saddam Hussein. Note-se o cuidado com a mudança da posição do selo entre os apresentadores.

. 2 Pelo menos nove policiais morreram.se as explosões. do outro lado da cidade..(07m54s08) – Plano geral. Logo em seguida. Câmera está em ângulo alto.(08m01s02) – Plano geral. mas utilizou poucos 193 . 82.. Os dois fragmentos. retomamse os planos gerais. duram menos de dois segundos. 1 ..76..” (Som da manifestação fica em primeiro plano por menos de um segundo.) 77.(07m59s13) – Plano de conjunto.. 2 “Enquanto isso. 81. Só aqui se busca mais aproximação do enunciatário com o fato. Essas cenas de repressão à manifestação dos árabes e dos estragos de bombas são feitas por plano geral. 2 . 79...(07m46s04) – Plano geral para acompanhar a ação de diferentes soldados.duas delegacias são alvos de. É notável como o JN cedeu tempo para a performance da prisão de Saddam.(07m52s05) – Plano Geral para observar toda a destruição.. 80.(07m56s04) – Novo Plano geral.... discussão e busca.. 1 .carros-bomba.(07m57s24) – Plano de conjunto de cadáver. no entanto. com detalhes da destruição em primeiro plano. 78. 2 Ninguém confirma. O telespectador tem uma visão de conjunto. 6 Até que os soldados chegam para acabar com a manifestação..

. utilizam-se imagens das manifestações. nos territórios palestinos é clara.(08m11s18) – Plano próximo de correspondente. é a ausência de material visual. Alguns assuntos dos outros sub-blocos são rapidamente retomados. 194 .(08m05s26) – Plano próximo. 5 Por telefone. 86. Al-Dayri: “A maioria do povo está. 87. 85. obviamente... 3 .. na parte de baixo do vídeo.. e dá um zoom in no rosto da mulher chorando. 88. à esq. 89.com a prisão de Saddam Hussein. à esq.têm ou não ligação. Como sempre.(08m19s29) – Montagem de três elementos: o mapa do Iraque.(08m02s24) – Plano geral.... Para compensar.(08m04s14) – Plano geral.. 84. à dir. segundos e um tom contido para mostrar o que as bombas fizeram no Iraque. o ritmo do jornal torna a repetição quase imperceptível. A única diferença são uns décimos de segundo a mais.” 4 Temos aqui o que alguns teóricos chamam de “rádio na TV”.. e também. o representante do governo brasileiro em Bagdá. de movimento. Cabe ao JN tenta transformar uma entrevista com dificuldades de som em algo atrativo.83. Entretanto... 4 .(08m07m27) Plano geral de manifestação.(08m16s03) – Temos a repetição da tomada que começa em 07m42s22 – Câmera realiza uma panorâmica da dir. O principal problema. e transcrição da fala na faixa azul. 1 . 2 Mas a indignação no Líbano. de manifestantes e cartazes.. Há 1. temos uma seqüência de fragmentos que nunca apresenta o mesmo ângulo de câmera. de onde fala o entrevistado. cenas de manifestação.diz que só uma minoria sunita chora pela prisão de Saddam Hussein. 2 .5 segundo e dois fragmentos para apresentar a reação de dois povos árabes.. Awni Al-Dayri. Podemos também notar a reprodução de uma mesma cena. em perspectiva..

.(08m36s02) – Plano médio. mostra manifestação em plano geral 91.. 1 . 3 .(08m23s04) – Quadro à dir. mostra manifestação em plano geral. também com muita ação de manifestantes..descansada. 96. (Vê-se o correspondente Marcos Losekann): “Na Grã-Bretanha não existe pena capital e o governo daqui já deixou claro que não participará de um julgamento que possa resultar na morte de Saddam Hussein..ele seja condenado à morte. 3 ... Al-Dayri acha. a execução de 97..” Correspondente: “Sobre o julgamento do exditador.90.que será no Iraque. Para o primeiro ministro Tony Blair..... 3 Al-Dayri: “A maioria dos que..sofreram no regime de Saddam.. 2 .. Intensa movimentação.(08m33s10) – Câmera foca bandeira em caixão e depois acompanha o afastamento.” 93. 4 . 92. feliz.(08m24s28) Quadro à dir. Termina em plano de conjunto..querem que. 2 ..(08m26s21) – Plano próximo.alegre...(08m30s17) – Plano americano. 95.” (sobe som de manifestação).(08m38s19) – Plano Geral... 94.(08m41s26) – Plano próximo... 20 195 . Intensa movimentação..

por meio de jornais diferentes e enquadramentos diferentes.. 104.” 98...” (voz vai a BG). na década de 80. 7 . a prisão... 10 101..Saddam criaria um mártir para os terroristas.(09m01s25) – Plano geral do parlamento britânico. 102.. no caso do Irã. 1 .(09m10s07) – Plano próximo de representante iraniano. Temos um caso de redundância.. Voz do repórter Losekan em off: “No discurso hoje no parlamento. 100. o JN faz com que ele tenha contato com o mesmo conteúdo principal por meio de estratégias de expressão diferentes. o governo anunciou que vai preparar um processo pelos 300 mil iranianos mortos na guerra IrãIraque.de línguas.. Aqui as gravações dão literalmente a volta ao mundo.. continuamos na sanção. Mais uma vez é utilizado o discurso dos jornais impressos para mostrar a importância da prisão de Saddam. mantendo o plano próximo.. their freedom. Note-se aqui novamente o tempo dado ao discurso dos vencedores e. ..fazer justiça.. Outro ponto importante é a imagem de Saddam. Sem cansar o telespectador.. 196 .. são os jornais.. 1 .(09m20s17) – Close no jornal 1 Em centenas. Em termos de nível narrativo. 103.(09m23s08) – Câmera faz uma panorâmica sobre os jornais da dir. Só que é uma repetição especial.(09m21s21) – Plano americano. um fantasma que poderia aterrorizar o mundo pra sempre.. A reiteração valoriza o fato para o telespectador... também ser repetida. à esq. E quem diz isso é a mídia impressa.(09m03s05 – Plano médio de Blair. com leitor em primeiro plano. quase um mendigo. no julgamento.. dos inimigos. Blair disse que está confiante na capacidade dos iraquianos de. 2 Voz de Tony Blair: “The Iraque people want… 99.em milhões. O telespectador fica sabendo que o fato teve repercussão mundial.(09m22s17) – Plano próximo. No Irã. 3 de frases e palavras.

110. 108.mercados.. 1 ..(09m34s07) – Câmera faz uma panorâmica na bolsa de Nova York. 1 .(09m26s05) – Plano de conjunto dos jornais e leitores.105. Plano Geral 6 . 107.. 106. Entramos aqui em um segundo tipo de repercussão: a econômica.. 1 E repercutiu nos. O dólar também subiu em relação.(09m30s05) – Mesmo jornal da tomada anterior aparece agora em plano próximo. 1 . à dir.nos Estados Unidos. Detalhe: o fragmento não corresponde à fala. 6 .... 197 ..(09m32s25) – Plano médio. As bolsas em geral fecharam em alta. 2 ... que se relaciona à tomada anterior... E o preço do petróleo caiu com a expectativa de que o Iraque passe a exportar.(09m31s08) – Plano de conjunto de painel.. da esq.os jornais do mundo.de Saddam Hussein foi.....(09m28s11) Câmera está em plano médio... 109... Caracteres se movem.manchete em quase todos. 1 . 111....ao euro...(09m27s06) – Novo close nos jornais que mostram fotos de Saddam.. Na Ásia. 112.(09m40s11) – Plano geral com suave zoom out. com leitor em primeiro plano. Jornal aparece balançando.na Europa...

.113. A mesma coletiva de Bush é retomada. 8 Temos aqui o quarto e último sub-bloco: como fica a ocupação norte-americana no Iraque e os dividendos obtidos por Bush com a prisão de Saddam.melhorar tão cedo.(10m12s00) Fusão de cenas..... 4 . 119. com manifestantes em primeiro plano. 11 116..” Bush : “. 198 .And the citizens of Iraque need to know we´ll stay in the (trecho não identificado)…” Voz de correspondente em off: “George Bush disse que os militares americanos não vão sair do Iraque enquanto não houver segurança no país.(10m08s25) Fusão de cenas.) Eraldo: “O presidente George Bush deixou claro que a captura de Saddam Hussein não vai acelerar a retirada americana do Iraque. 3 Para Bush...(10m07s13) Câmera faz uma panorâmica e acompanha caminhada dos soldados – Plano geral.diretamente os ataques contra alvos americanos e civis.que Saddam Hussein não estava comandando. Plano Geral. agora para falar sobre os destinos do Iraque e os passos dos Estados Unidos no país.Mas reconheceu.(09m48s20) – Plano médio.(09m56s28) – Plano próximo... 2 . Plano de conjunto com soldados em primeiro plano. a situação no Iraque não vai. 118. são inseridas gravações das ações dos soldados norteamericanos no Iraque. Euforiza-se a ação com as palmas 114... 1 .. 115.. 1 .(10m14s23) – Plano geral em perspectiva.mais daqui para frente..... Para manter a atenção do espectador. 120. 117. 2 ..” (Sobe som de membros da bolsa batendo palmas.(09m46s15) – Plano de conjunto..(10m17s14) – Plano Geral com soldado em primeiro plano.

em outra reiteração da importância da prisão de Saddam. Note-se ainda o close nos fragmentos. você se escondeu em um buraco. no total.) Correspondente em off: “Bush aproveitou a entrevista Tempo é valor em telejornalismo. Saddam Hussein..“ (BG.. tomou dois minutos e 30 segundos.. durante a entrevista. 2 . (Voz de Bush vai a BG). quase um quarto do tempo total. O depoimento é interpretado pelo telespectador como o acontecimento mais importante da reportagem.. mais jornais. quase 10 minutos e 40 segundos. 2 . . 10 Bush: “He is. para encaixar a fala de Bush nas afirmações do repórter. por meio de fusões. O que o JN faz aqui é dar enorme destaque à fala de Bush. Novamente vemos impressos na tela do JN. você já vai tarde.” Bush: “The world is better (trecho não identificado) mister Saddam Hussein.(10m18s28) – Plano próximo.121... Chamou Saddam de assassino. 8 127-(10m53s04) Plano próximo.. Bush mostrou desprezo. pela terceira vez.. Classificou Saddam de enganador e mentiroso.. 199 .) Correspondente em off: “Quando a coisa ficou quente. com pouco mais de 50 segundos.. Bush aparece assim como o grande destinador. Os fragmentos a seguir foram gerados a partir de segmentações de uma mesma tomada e unidos.. que mostra uma mesma tomada.(10m21s18) – Close. Correspondente em off: “O presidente americano diz que não confia no que o ex-presidente do Iraque diz. 123.armas de destruição em massa. As afirmações do presidente dos Estados Unidos também praticamente servem como conclusão de tudo o que foi relatado. Esse conjunto de fragmentos.. várias vezes.(10m23s25) – Close.. dividida em duas partes. é o mais longo da matéria. a coletiva de Bush.interrogatório inicial... 124. 19 126-(10m45s36) Plano próximo. Saddam..Hussein nega que tenha produzido. E ironizou:” Bush: “When he (não identificado) he got himself in a roll. 4 . Bush disse..” (Voz de Bush vai a BG.(10m26s80) Plano próximo.” 125. 122. “(trecho não identificado). De torturador. O mundo é um lugar melhor sem você. sem contar com a apresentação e os comentários do correspondente em Washington. Em uma reportagem que tem..(10m25s12) – Plano médio. e depois. 3 Segundo informações que já vazaram sobre o.

Segundo o porta-voz do governo americano. um de Londres e outro de Washington. Eles se dirigem a alguém que pouco sabe.. todos fazendo stand-ups. 15 . 129. observou-se o JN utilizar quatro correspondentes internacionais.” Stand up do correspondente Luis Fernando Silva Pinto. nos próximos cinco anos. Ele faz um boletim de fechamento.128.(11m03s44) Plano próximo. Na conclusão. 22 Vê-se o correspondente Luiz Fernando Silva Pinto.” Faremos agora alguns comentários mais amplos sobre a reportagem para depois discutir a importância da notícia na estrutura geral do programa e retomar a questão da montagem.” Bush: “Forget politics. por sua vez.” Nessa matéria. Nota-se a relação professoral dos jornalistas com o público. de 48% foi para 58%. o que reforça. de Washington: “Bush não precisa esperar pela campanha. valorizando o local da informação e o sentido de “estar onde os fatos estão”. o selo desapareceu. que se justifica por um fato em comum entre os dois acontecimentos. Prometeu.(11m18s29) – Plano entre médio e próximo. O benefício político já é uma realidade.. Há também um encaixe de uma nota – a operação de retirada de um câncer de Collin Powell – no conjunto da reportagem. Há uma clara razão mercadológica para 200 . a idéia de um JN que está em todos os lugares. O jornalista usa recursos da entonação. Segundo uma pesquisa do jornal Washington Post e da rede de televisão ABC. uma redução de 50% no déficit do orçamento federal. Salienta a informação “10 pontos” e cria um silêncio retórico antes de citar “foi para 58%. para fazer um pouco de campanha política.” 130. Ele foi operado hoje para a retirada de um câncer de próstata. ou seja.(11m40s26) Plano próximo Término em 11m56s12. dois de Nova York. Powell. Mas disse que na campanha de reeleição não vai tirar proveito da captura de Saddam. o índice de aprovação à intervenção americana no Iraque já subiu 10 pontos em relação aos números de novembro. Powell estava envolvido com a guerra do Iraque. de 66 anos. 22 Renato Machado: “O Secretário de Estado Collin Powell acompanhou a captura de Saddam Hussein pelo telefone. passa bem e deve voltar ao trabalho no começo de 2004. Apresentadores e correspondentes têm um “tom didático” e se mantêm na posição de donos do saber.

essa atitude. tem menos variações. dia em que não há edição do Jornal Nacional. O principal noticiário da Globo possui correspondentes em diversos países. soam como erro. e é possível que no dia seguinte prefira assistir a outro canal. Os “acentos de expressividade” (manejo de recursos de intensidade. Se o chefe de família não entende o significado das notícias... mas “mundial”. da altura e da duração da voz) são muito utilizados. local de coordenação do jornal e de onde falam os apresentadores. um monitor de vídeo que fica acoplado à câmera. Não existem marcas de espontaneidade. O JN não quer ser um jornal carioca. como algo indesejado. principalmente a dos repórteres. edição 1869. que simula uma conversação cordial. D ou E. Praticamente não há interrupções. a foto do ex-ditador também apareceu pela manhã nos principais jornais brasileiros. apesar do nome. págs. reportagem de João Gabriel de Lima. Mas era preciso dar sensação de atualidade. A linha do olhar de leitura do texto é muito próxima da posição da lente da câmera. A prisão de Saddam ocorreu no sábado e foi divulgada no Brasil no domingo. O JN é finalizado no Rio de Janeiro. daí a simulação de que se está falando com o telespectador. fica constrangido.”109 A entonação dos jornalistas do JN. reformulações e outros recursos típicos da fala. 201 . no caso dos âncoras. nem nacional. em relação aos profissionais do Jornal da CBN. notadamente na frase final dos relatos dos repórteres nos stand-ups. (. 106 e 107. toma contato com notícias do Brasil inteiro e do mundo. Quando existem. revista Veja. A apresentação das manchetes da edição – a escalada – não deixa dúvidas sobre a solução pensada: 109 “A Guerra atrás das Câmeras”. O uso das acelerações e desacelerações ao narrar (recurso de duração) é constante. como lembra reportagem de Veja sobre os 35 anos do programa: “A questão da linguagem é ainda mais premente quando se leva em consideração que três em cada quatro espectadores do Jornal Nacional são de classe C. que é quem traduz para os demais o teor das notícias mais complexas. da leitura de textos de frases curtas por meio do teleprompter.) Pesquisa (com os telespectadores) sinalizou que o programa quase sempre é visto em família. Esse efeito é produto. no entanto. O JN sabia que a prisão de Saddam era ainda o grande fato do dia. caso da Folha de São Paulo. O público. 1° de setembro de 2004. Tudo isso sugere como espaço da enunciação o próprio planeta. Na segunda-feira. Um dos grandes meios para compensar a fala mais distanciada dos jornalistas do JN é o “olho no olho” com o telespectador. e as famílias costumam ter um ‘explicador’ – em geral o pai -. com grande utilização das pausas retóricas para dar valor a certos aspectos da informação.

isso corresponde a um homem parado. Do ponto de vista semiótico. falando em frente a um microfone. Eraldo Pereira: O presidente Bush garante que o julgamento do ex-ditador vai ser aberto a observadores internacionais. 4 – As ações seguintes de Bush: como fica a ocupação do Iraque e os dividendos políticos advindos da captura.” Só no terceiro bloco observamos uma entrevista. política e econômica. diz ter informações ainda não divulgadas. Há quatro sub-blocos: 1 – O julgamento e o destino de Saddam – possibilidades e acusações. Saddam Hussein tentou negociar com os soldados no momento da prisão. o telespectador sabe instantaneamente que a matéria tem continuação. apresenta-se o selo do assunto. o primeiro sub-bloco é de sanção ao exditador. Desse modo. o JN não está mostrando um fato passado. Não se deve pensar. Só que não rende bons teipes. de destinador julgador. Ao falar do destino do ex-ditador. porém com menos destaque. Deve-se reforçar que a detenção do expresidente do Iraque é o grande fato gerador de toda a notícia. Ao mesmo tempo. 2 – A performance da captura. que a captura do ex-ditador. faz o papel de satisfazer a curiosidade de um telespectador que ainda não sabia ao certo como tinha sido a prisão de Saddam ou queria revê-la. Observe-se o papel reservado a Bush. como fato 202 . porém.Renato Machado (início da escalada): O destino de Saddam Hussein. Eraldo Pereira: Os novos detalhes da captura. principalmente no último. modo de acrescentar novidade a um fato já sabido. Questionar o futuro de Saddam é um elemento de atualização importante. Vale notar que esse fato também aparece nos outros sub-blocos. O efeito de atualidade determina um modo de organização da matéria.boletim do correspondente. Como o final de um bloco e o ressurgimento do apresentador no estúdio podem dar sentido de término da matéria. Do ponto de vista televisivo. Esse recurso de montagem também preenche os offs dos correspondentes. O problema da monotonia é resolvido com o grande uso de gravações de arquivo intercaladas nessa fala. O JN. nesse caso. 3 – A repercussão social. Cada um desses sub-blocos tem um esquema básico: “apresentador .off do correspondente – sonoras . mas antecipando os passos futuros. pois há pouca movimentação. É considerado mais importante tudo o que se vincula ao sentido de “agora” do telespectador. Renato Machado: E diz que iraquianos vão decidir como aplicar a justiça. “Novos detalhes” sobre a captura são prometidos.

e outros “pontuais”. Há momentos mais longos entremeados por outros com “pedaços” mais curtos: 203 . o constante ir e vir da câmera (categoria afastamento x aproximação) e também a quase obsessiva escolha dos editores em mostrar pessoas e objetos em movimento (categoria ativo x inativo).que “duram” . O efeito de atualidade da narração dos jornalistas se sobrepõe inclusive às cenas de arquivo. inicialmente. No entanto. O momento de referência não é mais o passado. Vejamos o gráfico a seguir. que chegam a ter menos de um segundo. trata-se do recurso mais facilmente verificável de montagem e mostra bem as conseqüências de estratégias ligadas ao manejo perceptivo. semanas. Justifiquemos nossa preocupação com a fragmentação textual. ou seja. Existem outros efeitos importantes da montagem. ele muda de canal. desencadeadas pela aspectualização do plano de expressão. Vejamos. nunca tem fragmentos com a mesma duração por muito tempo. Em TV. precisa ser altamente estimulado. não corresponde à realidade do programa.jornalístico. que faz uma representação da duração dos fragmentos em segundos. A notícia analisada tem 10 minutos e 40 segundos (começa em 1m16s e termina em 11m56s). só que esse raciocínio. é que a matéria “pulsa”. Há uma mudança a cada 4. além de 130 fragmentos. Discutem formas de julgar Saddam “neste momento” e o que acontecerá com o ditador nos próximos dias. especialmente para o olhar.9 segundos. pelos efeitos obtidos com o jogo entre fragmentos “durativos” . Não é mais o “sábado” da captura. O que o JN faz é “re-atualizá-lo”. não pode existir monotonia para os sentidos. O grande número de fragmentos indica que o simulacro do telespectador é pensado como o de alguém com reduzido potencial de atenção. Inicialmente. É por essa razão que descrevemos as mudanças de planos. Esse enunciatário. o que remete a uma estratégia de arrebatamento contínua. que remete a uma média. Manchetes e depois a cabeça da matéria têm a função de desencadear a curiosidade do telespectador. Há uma série de outras estratégias que também avivam a curiosidade no nível sensível. no entanto. tinha envelhecido. é preciso fazer um lembrete importante – notadamente em um trabalho cuja preocupação é considerar o objeto telejornalístico em seu caráter mais abrangente. São descontinuidades encontradas no interior de um mesmo fragmento. O que podemos notar. ou seja. É a estratégia de sustentação. Os jornalistas comentam o presente e o futuro. meses. O público deve ficar tenso e atento para acompanhar todo o desenrolar da reportagem e do programa. Sem uma enorme carga de estimulação.

o que corrobora uma reflexão de Arlindo Machado. o do apresentador e do repórter na frente da câmera. Depois de um começo “tenso”. mais chamativos -. Existe uma característica notável em quase todos os “picos” de duração. O gráfico mostra pelo menos cinco intervalos com fragmentos mais longos e representa essa idéia de um objeto “pulsante”. verificam-se trechos mais longos entremeados por momentos de retomada de fragmentos curtos com uma desaceleração no final. mediá-los. o primeiro trecho tem os menores segmentos. mostra que os primeiros segundos são entendidos como os que devem concentrar as principais estratégias de geração de laços enunciador-enunciatário. os correspondentes. da característica mais pontual e menos durativa dos fragmentos. Entretanto. apresenta uma aspectualização mais intensa do plano de expressão que. O autor enfatiza que “o telejornal é. Apenas quatro ultrapassam 22 segundos. O mais antigo dos recursos. é o que menos causa um forte efeito de “novidade”. O telespectador vai julgar se uma matéria é pertinente principalmente no início da apresentação. Se a matéria for dividida em quatro partes iguais de tempo. ou seja. por exemplo. os maiores tempos dos fragmentos são das vozes institucionais. o lugar onde se dão atos de enunciação a respeito dos eventos” (2000: 104). em função das descontinuidades. a duração máxima.Relação entre fragmento e duração Diversos fragmentos têm menos de um segundo. reunida a conteúdos informativos atualizados – portanto. Tão importante como mostrar os “fatos” é falar sobre eles. Assim como pudemos notar no programa de rádio analisado anteriormente. Para compensar. Essa forte aceleração inicial. faz com que o telespectador sinta que tudo passa muito rapidamente. 204 . São fragmentos que apresentam alguém falando para a câmera em plano próximo ou plano médio – o enquadramento que simula uma situação de diálogo -. continua a ser o que mais se prolonga. antes de mais nada.

É evidente – e isso foi dito anteriormente – que há uma estrutura que busca máxima tensão no início e um certo relaxamento no final. O esquema básico de uma reportagem de TV – cabeça de matéria – off do repórter (ou correspondente) . Ele diz “Na Grã-Bretanha não existe pena capital e o governo daqui já deixou claro que não participará de um julgamento que possa resultar na morte de Saddam Hussein. pra sempre. o que compensa a duração do segmento. é ilustrativo dessa estratégia. o sentido de familiaridade que os profissionais despertam e até mesmo as expressões faciais deles. mas necessários para “descansar” o telespectador após uma bateria de estímulos notadamente visuais.. há ainda dois pedaços longos que correspondem às duas animações em terceira dimensão. a execução de Saddam criaria um mártir para os terroristas. a entonação na hora de narrá-la ou comentá-la.. O boletim de Marcos Losekann. As falas dos apresentadores. Menos tenso. Há os selos junto aos âncoras. era a de que a reunião de um grande número de fragmentos com pouca duração correspondia a pontos altos. Grosso modo. Para o primeiro ministro Tony Blair. em grande relação. o enunciatário seria então apresentado a uma nova saraivada de pedaços de cenas.. um fantasma que poderia aterrorizar o mundo pra sempre. e dos correspondentes nos stand-ups. com certos momentos mais 205 . correspondente em Londres. O estudo do material mostra que não é exatamente assim que a estrutura funciona. seriam momentos de sensível perda de interesse. em cenários de cartão postal.sonoras – boletim em stand up – revela que cada segmento é pensado para ter um potencial de arrebatamento. diante do material. sustentação e fidelização diferenciado e. mas estreitamente relacionados. pode-se dizer que cada uma dessas partes citadas tem “recursos próprios” para prender a atenção. A falta de grande impacto “imagético” também é compensada por estratégias como a de criação de curiosidades específicas relacionadas à notícia.” Além de uma informação com grande carga persuasiva – a possibilidade de mais atentados terroristas – há um efeito de desaceleração discursiva da fala do correspondente. há enorme movimentação de elementos ou da câmera virtual. ao mesmo tempo.aparecem nas ruas. mesmo com os recursos citados. o que dá ainda mais “peso” à sua enunciação “.. de maior atenção.” Essa mesma característica aparece nas intervenções dos outros correspondentes. Entretanto. Uma única enunciação: a fala como elemento articulador Nossa primeira hipótese.aterrorizar o mundo. No caso da reportagem sobre Saddam. Ele praticamente cria reticências no final de sua frase.

Ouvimos a voz do repórter ou do apresentador e vemos as gravações correspondentes. contudo. como analisamos. ruídos e efeitos sonoros. Mostra-se alguém que conte a história. Arlindo Machado afirma que. no cinema. Essa possibilidade. muito tempo para tudo ficar pronto e até a quebra de uma das cláusulas do contrato entre jornal e público: o telespectador espera “a realidade”. Eles contam histórias. com tantos elementos. Na tela. como mostra a notícia sobre a prisão de Saddam. ao conjunto do programa. é pouco utilizada no telejornalismo analisado. É comum uma história estar em pleno andamento e não ser totalmente acessível aos jornalistas que devem reportá-la. há diversas formas de se contar uma história. No cinema. musicais. O último recurso é bastante usado no telejornalismo. esse momento pode ser “recriado”.acelerados do que outros. a câmera pode assumir o ponto de vista de um “sujeito narrador onividente e tomar todas as imagens e sons considerados importantes para a plena visualização e audição da história” (2000:101). não peças de ficção que simulam o “real”. A fala dos apresentadores e correspondentes ocupa lugar privilegiado. que podem ser complementares. No noticiário da TV. Esse ritmo é inerente a cada notícia e. entre uma narrativa falada e segmentos (geralmente trechos de gravações. o citado off. Só que. é produto de uma articulação. com áudio e vídeo) que expõe alguns pontos de funcionamento da textualização nesse objeto. que utiliza com muita parcimônia e somente em momentos bem definidos um grande número de diferentes estímulos verbais. A sensação de se ver diante de uma única enunciação. ou indiretamente. no jornalismo de televisão existe intenso relacionamento entre diferentes substâncias de expressão na maior parte dos momentos. não é possível voltar no tempo. A essa narração são adicionados fragmentos existentes de filmagens. Começam pelo momento de maior tensão. 206 . A solução encontrada pelos telejornais é mais simples. por sua vez. Refilmar o acontecimento traz enormes problemas: custo de produção alto. sem apoio do verbal. ou seja. e tentam motivar a curiosidade do público para saber os detalhes. E por várias razões. Mais corriqueiro é o fato já ter acontecido e necessitar ser re-atualizado. o clímax. sem a presença deles no vídeo. digamos “pura”. A câmera também pode fazer o papel de narradora. caso de ações de guerra. Analisemos a razão de o telespectador não se perder e ficar prestando atenção a tudo o que lhe é oferecido. Esse é o recurso mais usual. Alguém pode narrar diretamente. no fluxo temporal. ao contrário do radiojornalismo. aparecer falando na frente das câmeras.

Citamos que foram anotadas 130 fragmentações na reportagem sobre a prisão de Saddam. existem apenas 36 fragmentações de áudio. precisa se servir dessas observações com certo cuidado. por exemplo.. explicando. São. Trata-se da inútil tentativa de mostrar se o “verbal” é mais importante na TV do que o “visual” ou vice-versa. dos militares americanos no Iraque. principalmente. Pode-se notar que diversos segmentos têm som (fala e ruídos) além da imagem. No total. O telejornalismo (. de instauração de um ponto de vista sobre o que se vê e ouve (como um som em segundo plano. convém dizer que não estamos querendo retomar um assunto criticado no início desse estudo sobre o telejornalismo. Nem todas são “sonoras”. As intercalações têm como base o que poderíamos chamar de uma trilha de áudio principal. os dois cidadãos norteamericanos ouvidos e a entrevista com o representante brasileiro em Bagdá. que analisou.) baseado apenas na capacidade informativa da imagem. O número inclui os apresentadores. Inicialmente. fragmentos que apresentam sincretismo. Por outro lado. e do extinto Telejornal Brasil. por exemplo). Antes de explicar melhor esse ponto. A trilha de áudio das narrações serve como ponto de organização discursiva e. que correspondem a 14 falantes. Chamar os fragmentos de “imagens”. os correspondentes. Alguns são pequenas seqüências. seis edições do Jornal Nacional.. O que a pesquisa de Rezende evidencia é a forma de organização do discurso telejornalístico. ficou muito longe da realidade. entre 14 e 19 de agosto de 1996.Guilherme Jorge Rezende. a significação do telejornalismo não pode ser pensada em termos de oposição ou hierarquização simples entre o verbal e o “imagético”. do SBT (transformado depois em Jornal da Record. portanto. de vozes. pedaços de uma história mostrada em diferentes ângulos. comentando. comandado por Boris Casoy). do Jornal da Cultura (TV Cultura de São Paulo). além das pequenas falas em inglês de Bush. A análise semiótica. O mesmo não acontece com o áudio. de Tony Blair. Nenhuma informação foi transmitida apenas por imagens. Ao contrário. no entanto. “sem exceção. Chamaremos de intercalação a correspondência entre uma fala (segmento de áudio) e os segmentos visuais que o acompanham. é muitas vezes um reducionismo. O que se detectou mesmo foi a função insubstituível da palavra. esclarecendo a informação visual ou até mesmo comandando o processo de composição jornalística na TV” (2000:272). todas as matérias divulgadas nas seis edições dos três telejornais utilizaram-se da expressão verbal. Se 207 . com as falas. queremos apontar certas características do texto telejornalístico e de organização de suas unidades por meio dos recursos de montagem. é evidente que a base narrativa verbal foi construída também a partir do conjunto de informações e gravações obtidas. concluiu que. com ou sem som original.

Tikrit. os maiores segmentos de áudio são dos correspondentes e dos apresentadores. Uma placa de isopor esculpida.” Novamente. porém. ou intercalante. Militares norte-americanos no Iraque se surpreenderam com a falta de reação do ex-ditador no momento da prisão e com as condições do local em que ele estava escondido.” Temos aí o áudio principal que determina a narrativa falada intercalante. As gravações que se sucedem – com ou sem áudio próprio (ou secundário) surgem como fragmentos relacionados a essa narrativa principal (ou mostrada). Um dos segmentos de narração em off da correspondente em Nova York. Os jornalistas contam ou comentam as histórias que vão sendo mostradas nos fragmentos audiovisuais. tapou a entrada”. não é Saddam correndo nem se jogando no buraco. Ao iniciar o bloco sobre a prisão de Saddam. E o que se vê. há a apresentação de um momento clímax..um efeito de realidade. agora do ponto inicial. Essas cenas. obviamente. que retoma a mesma história. para ser novamente retomado. principalmente dos jornalistas. Em alguns momentos específicos. Cristina Serra. As gravações observáveis em seguida surgem como pedaços intercalados à história principal. o apresentador Heraldo Pereira afirma: “Saddam Hussein queria negociar com os soldados perto de sua cidade Natal. para contá-la em detalhes: “Saddam Hussein iria passar a noite de sábado. principalmente de fragmentos curtos. com certas nuances. O desenvolvimento narrativo se dá por meio da fala. a trilha de áudio principal continua a se sobrepor. Exemplifiquemos. Eles enunciam a notícia na forma de uma narrativa falada.. ouvimos o off do correspondente. Em certos momentos. Para que a atenção do telespectador não se perca diante de tanto estímulo. as vozes institucionais. apresenta 18 fragmentos com imagem e som. 208 . a ser ouvida (caso dos correspondentes explicando manifestações) na sucessão de fragmentos. E servem de “prova” ao que se fala . É o caso das falas dos âncoras no estúdio e dos correspondentes em stand-ups. que vão sendo intercalados. Diz o correspondente: “Quando os soldados norte-americanos se aproximaram. O maior número de intercalações.observarmos atentamente. A alternância entre o áudio principal e as gravações é feita de modo a permitir que o telespectador possa acompanhar a progressão da notícia sem perder o enredo. Os fragmentos audiovisuais são recursos de concretização discursiva. o áudio da trilha sonora principal corresponde à imagem que se vê na tela. Saddam correu para o esconderijo subterrâneo do lado de fora. No segmento seguinte. acontece no momento em que se ouve a voz em off dos correspondentes. O telespectador é convidado para acompanhar o que motivou esse ponto da história. como se fosse uma pedra. o áudio principal se alterna ou cede lugar ao áudio secundário ou original em um mesmo fragmento ou conjunto de fragmentos.

que é provocada com a narração em off. aquele ali. na tela. como se fosse uma gravação de um programa de radiojornalismo. no final da reportagem examinada. ser justamente a “imagem” de um acontecimento o fragmento mais curto. Não podemos esquecer que os planos de câmera e a montagem também controlam parte do nível de afetividade ou de inteligibilidade que se quer do enunciatário. O correspondente Luiz Fernando Silva Pinto. mas o buraco mostrado. Funcionam como ilustração do que é dito. só pode ser verdade. Já a reunião dos fragmentos audiovisuais não teria grande significado. 110 É notável. Busca-se. como mulheres e crianças. A filmagem dos estragos de uma bomba tem um certo impacto. 209 . Quem se der ao trabalho somente de ouvir a matéria analisada do JN. E sua atenção é estimulada justamente porque ele quer ver o “verdadeiro buraco” onde se escondia Saddam. não é o buraco que se imagina. o vídeo que mostra a explosão será muito mais chamativo. Os fragmentos municiam. Podemos notar como certas paixões são estimuladas. no regime de Saddam. Em alguns momentos. O poder de atenção “imagético” parece estar relacionado ao fato de a cena gravada ser de “constatação” do acontecimento. Saddam Hussein nega que tenha produzido armas de destruição em massa. O “buraco verdadeiro” serve como subsídio e complemento à imaginação do telespectador. perceberá que tem pleno sentido. de distrair o olhar do que de servir de “prova” ao que se narra. A concretude mostrada nas gravações satisfaz a curiosidade de não apenas entender. cumprem um papel de ancorar o verbal! Ou seja. de outro. que organiza e tira proveito dos sentidos gerados pela reunião das gravações. meio e fim. o que parece cansar mais. O áudio principal é a voz do saber.110 Pode-se observar essa situação.” E o que vemos são os jornais mostrando a captura de Saddam na primeira página. à narrativa intercalante. Com certeza. a indignação ao se apresentar o assassinato de inocentes. ou de registro da “ação”. controlando a polissemia ao determinar pessoa. por exemplo. por exemplo. não é qualquer buraco. É isso o que ele espera do programa. a serventia é mais a de manter a atenção. por exemplo: “Segundo informações que já vazaram sobre o interrogatório inicial. a idéia de que tudo o que alguém apresenta. no telejornalismo analisado. de gente e até mesmo de salas vazias. comenta. O estudo da reportagem mostra ainda que diversos fragmentos têm outras funções e relações. comenta ou descreve tem uma correspondência no mundo real. tempo e espaço do que é mostrado e relacionando tudo ao que está sendo dito verbalmente. de um lado.entretanto. não remeteria a uma história com começo. com seus pedaços de conflitos. mas também a de experimentar a vibração da história e a de verificar sua pretensa autenticidade. porém.

substituindo-a por uma entidade passante. também depois da escalada: “Agora. o que surge como transmissão direta mais cotidiana é o trabalho dos apresentadores no estúdio. do efeito) e outro apresentado como previamente gravado. Os efeitos de atualidade se basearam mais na discussão de conseqüências do fato principal. Seqüências como reportagens. a idéia de uma notícia que teve um desenvolvimento até aquele instante. que serviram para ilustrar as falas. do espaço que tem um tempo “agora”. representam. podem ou não ser gravadas. o tempo da narração de um correspondente. Podemos notar.Mais questões sobre a temporalização Uma das principais características dos jornais de fluxo é a possibilidade de parecer enunciar em “tempo real”. atualizaram os próprios segmentos gravados. vale comentar que essa constatação. do ponto de vista temporal. não houve segmentos “ao vivo”. a televisão apresenta o tempo da enunciação como um tempo presente ao espectador. Resulta daí a marca de efemeridade que caracteriza muitos produtos televisuais: a transmissão direta desmoraliza a noção de ‘obra’ como algo perene. O telejornalismo tem outros recursos para simular que a recepção do telespectador se dá no mesmo momento de produção do programa. o aqui-e-agora do faiscar eletrônico” (2000: 139). petrificações de um tempo que. Na edição analisada de julho. por exemplo. nesse sentido. Fátima Bernardes diz: “O Jornal Nacional está começando”. estamos discutindo aqui o domínio do “parecer”. caso do acompanhamento jornalístico da longa agonia do presidente Tancredo Neves. mesmo com os problemas técnicos da rede. pois enquanto a fotografia e o cinema realizam congelamentos.e diz que é “um procedimento exclusivo da televisão. no Jornal Nacional”. notadamente dos correspondentes. por sua vez. Os apresentadores do estúdio. Note-se que a máxima sensação de proximidade com o público-alvo buscada em um telejornal é a do tempo. se sobrepor 210 . Inicialmente. uma vez obtido. o que pressupõe um “agora”. após a escalada. É por isso que a programação temporal do JN. Diante da estrutura do telejornal. durável e estocável. o telespectador se defronta com dois tipos de segmentos: um sentido como uma operação em transmissão direta (e vamos insistir. já é passado. As narrações. muitos deles de arquivo. Esse efeito de atualidade é levado ao limite com a transmissão de acontecimentos “ao vivo”. No primeiro caso. Nos casos analisados. Machado chama essa coincidência de “tempo presente” – preferimos a expressão “tempo real” . Na edição de dezembro. a prisão de Saddam. também vale para o rádio e para a Internet. Eraldo afirma. ter uma produção simultânea à recepção. como da maioria dos telejornais. ou seja. é comandada do estúdio. na realidade.

(1997: 40). o certo é que há um elo entre o pensamento e o tempo. O controle da percepção: o uso ideológico da edição e dos planos de câmera Teóricos e críticos da televisão e do telejornalismo sempre citam o problema da reflexão diante do que é mostrado na tela da TV. é passado. Ela transmitia as notícias de um estúdio no local. É francamente aristocrático.C. Marcondes Filho. do “ao vivo”.) É preciso notar que o rápido é sempre perigoso e pode facilmente levar a conseqüências desastrosas.” Surgem duas imagens correspondentes. Na verdade.. o outro chora. A mesma enunciação que remete ao presente nos informa. Ele diz. por exemplo. É um velho tópico do discurso filosófico: a oposição feita por Platão entre o filósofo que dispõe de tempo e as pessoas que estão na ágora. Pode-se pensar com velocidade?” Na mesma linha. que inclui também estratégias espaciais. Os dados chegariam do mesmo jeito e pelos menos canais.. Há diversas embreagens temporais. e que são tomadas pela urgência.enquanto um iraquiano beija a foto de Saddam Hussein. não se pode pensar. É o ponto de vista do privilegiado que tem tempo.. negativo. diz que “(. a Globo enviou a apresentadora Fátima Bernardes a Washington D. é que os jornais de fluxo necessitam cada vez mais enunciar não só sobre o acontecimento. Bourdieu. Outro ponto interessante sobre a questão da atualidade. de uma narração mostrada.) há algo de podre na eleição do rápido como categoria central do telejornalismo. e que se interroga muito sobre seu privilégio. Diz Marcos Losekann: “. quase como parte dele. não faria a menor diferença a jornalista apresentar o JN nos Estados Unidos ou no Brasil. Só que o presente – o beijar e o chorar – é um presente histórico. (.. mas também “dentro” do acontecimento. O que se pretendeu foi justamente o impacto dessa inserção: de que se estava no centro dos fatos. Do ponto de vista do conteúdo informativo. E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão entre pensamento e velocidade. 211 . Estabelece um elo. exatamente pela ausência de uma identificação sobre um “ao vivo”. na urgência. entre a urgência e o pensamento. que o fato é gravado. Expliquemos: para acompanhar a eleição do presidente dos Estados Unidos em novembro de 2004.. Bougnoux fala da dificuldade que ela traz de ‘fechamento do círculo semiótico’: o rápido impede o pensar sobre a coisa” (2000:82). como parte dele. mais ou menos. e também citando Platão. a praça pública.ou tentando se confundir com o tempo de uma seqüência. Platão dizia que na urgência não se pode pensar. Mas este não é o lugar de discutir esse aspecto.. que. o fato já ocorreu. afirma que “a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento.

é colocar a matéria da invasão dos Sem-terra (Tabela 2. as formas de percepção de valores e o tempo dos fragmentos. Em cinema e TV. ou seja. ou no comercial. unidade 15) num bloco claramente “policial”. não só no telejornalismo. por fim. como mostramos 212 . Em objetos de textualização complexa.Sem esquecer outros recursos. A montagem. No Jornal Nacional. de criação de paixões e o grau de inteligibilidade do assunto quando lhe interessa. por exemplo. evidenciando ou desvalorizando certos aspectos do discurso. quando o líder do Sem-terra fala da invasão. podemos dizer que câmera e edição. o espectador não tem muito tempo para “encaixar” o que vê e ouve ao seu código de valores na maioria das vezes. Devemos notar. O estudo das chamadas estratégias sensíveis. um tipo de sucessão de tomadas tão diverso e intenso que o público só consegue. manipulados pelo enunciador e decodificados facilmente pelos enunciatários. é fundamental para compreensão dos interesses. que o JN cede tempo para o telespectador. Em outras palavras. em última instância. reforça ou coíbe certos momentos de reflexão. na maior parte dos momentos. cada notícia. vivenciar impactos afetivos. o ritmo de cortes mostra o investimento na dimensão afetiva. esse contato é sobredeterminado pelo tempo de duração desse fragmento. o ato editar. já se está em outra notícia. E pode-se cortar qualquer coisa: de planos a pedaços de narrativas. Deixamos para o final do trabalho uma questão importante: com o manejo dos planos de câmera e da montagem manipula-se o tempo que o público precisa para pensar e dar ordem aos estímulos. Em vez de falar do telejornalismo como um gênero televisual no qual é impossível a reflexão. pelo seu aspecto ideológico. A montagem do Jornal Nacional cria um ritmo. É importante novamente ressaltar que as relações entre plano de conteúdo e plano de expressão se apóiam numa série de efeitos de sentido cristalizados. define as relações entre unidades. de acordo com os interesses ideológicos do enunciador. a montagem. mas principalmente nesse tipo de objeto. controlam o contato do público com os fragmentos e os conteúdos e têm a missão de também administrar como o público deve se sentir e reagir. Uma estratégia notável. Qualquer objeto que for focado pela câmera em detalhes imediatamente será entendido pelo público como “importante” para a trama. contudo. o acesso à ideologia não está apenas na análise do conteúdo. Entretanto. como o close-up citado. mas também na maneira de apresentá-lo. acreditamos que é mais relevante notar como cada programa. entretanto. valores e objetivos do enunciador para persuadir e manipular o enunciatário. depois de uma “longa” reportagem sobre a morte do traficante Marcinho VP e a invasão de um terreno na cidade de São Bernardo que foi palco do assassinato de um fotógrafo. é sinônimo de cortar. Quando tenta elaborar determinado estímulo.

ao desacelerar. Vale notar. no plano de expressão.111 111 É evidente que se trata de um dado dessa matéria específica. quem assiste ao programa entende que. não uma posição que queremos imputar ao JN em relação à guerra dos EUA no Iraque. Seu tom de voz é cortês. Em outras palavras. o que o valoriza do ponto de vista inteligível. É dele ainda a palavra final e quase conclusiva. do diálogo. ao contrário. tudo sem porta-voz. e aparece depois da rememoração dos crimes de Saddam. que o impacto da captura do ex-ditador entre os árabes passa em ritmo frenético. principalmente quando se apresenta a reação negativa de palestinos. 213 . ao dar um efeito de “presença” justamente a Bush e a sua fala “civilizada”. O pronunciamento de Bush é mais desacelerado. Bush é filmado em plano próximo. interessa ao enunciador que o enunciatário elabore os dados da história. tem clara função de valor no plano de conteúdo. está claramente valorizando o discurso do presidente dos Estados Unidos e sua posição ideológica. Ou à enunciação do presidente Bush ao comentar a prisão de Saddam Hussein. A figura de Bush. se o JN cedeu tanto tempo para a fala de Bush. No fluxo televisivo. que misturam povos e questões. Nesses momentos. aparece em um quarto do tempo da matéria.anteriormente. Não podemos esquecer que a prisão de Saddam não deixa de ser o momento de comemoração de vitória de Bush. É possível afirmar que a matéria. o JN trata o mundo árabe em gravações e cenas carregadas de emocionalismos e destruição. da performance vitoriosa do exército dos Estados Unidos na captura do ex-ditador. é porque o discurso deve ser entendido como o mais importante da matéria. isso sem contar o que os jornalistas comentam sobre ele. na matéria sobre Saddam. Na mesma matéria. mesmo com os questionamentos dos correspondentes. o plano da “justa medida”. iraquianos. a cessão de tempo.

As reflexões sobre a significação nas revistas têm como objeto a Veja. que estão num patamar um pouco acima da sociedade como um todo.JORNALISMO IMPRESSO Nesta parte do trabalho. citaremos outras publicações para enriquecer a discussão. Nos estudos mais específicos de construção textual. O diretor de Redação da Folha de São Paulo. diz que “o consumidor da mercadoria jornal é um indivíduo que tem certas expectativas e certas exigências em termos intelectuais. verificaremos como foi feita a cobertura da prisão de Saddam Hussein pela Folha e pela Veja. É um fato. Os dois meios de comunicação foram colocados em um único item em função de diversas semelhanças. a chamada mídia impressa. Faremos. Considerações gerais – Folha de São Paulo e revista Veja Proprietários de jornais e revistas afirmam que seus produtos são para a “elite”. que já se cristalizou há 50 anos essa distinção entre aquele que é o veículo de 214 . como ponto de partida para reflexões de maior alcance. este capítulo é o que mais tem amparo nas idéias de nossa dissertação de mestrado sobre o semanário de informação da editora Abril. os chamados formadores de opinião. Como não poderia deixar de ser. Otávio Frias Filho. Em alguns momentos. um levantamento minucioso das diferenças entre as publicações. a base é a Folha de São Paulo. é analisada a produção de sentido dos diários e revistas. Para o estudo dos diários. em diversos aspectos. não há o que discutir. e para permitir algumas comparações com os outros noticiários também examinados neste trabalho. no entanto. principalmente a forma de textualização baseada no manejo do espaço do plano de expressão. tomada.

janeiro de 2004. em março de 2005. e o veículo de informação do conjunto das elites.Mariluce Moura. Como em 2003 tivera uma média de 315 mil exemplares diários. os três jornais perderam juntos 31%. 114 “A confiança dos leitores”.000 exemplares por dia. Marcelo Beraba. a televisão.masteremjornalismo. 95.3%. Folha de São Paulo.112 Nos últimos anos. que naquele mesmo longínquo 1995 chegou a vender 412 mil exemplares por dia.htm . e foi o único. O ombudsman da Folha. coluna do ombudsman. por tabela. o rádio (64%) e a televisão (61%).O diretor de redação da Folha de S. os jornais só perdem em credibilidade para os médicos (85%) e as Forças Armadas (75%) e estão mais bem posicionados que dois de seus concorrentes diretos. ed. revista Fapesp. terminou 2004 com 233 mil. e principalmente a imprensa escrita. Terminou o ano passado com uma média de 308 mil.”114 E qual a razão da crise. Em relação a 2003.br/entrevistas/otavio/entreotavio1. teve um crescimento pífio de 4. Folha de São Paulo. 113 “O futuro dos grandes”. ele arrisca um palpite para a queda nas vendas: “Um dos pontos que as empresas e os jornalistas têm de se perguntar é se a desconfiança não é um dos fatores que estão corroendo a credibilidade e.Paulo explica por que o interesse jornalístico pela ciência tende a aumentar “ .último acesso em maio/2005. vive um período de crise de definição. Marcelo Beraba. Numa relação de 17 instituições e profissões avaliadas. 10 mil a menos do que no ano anterior. Pesquisa nacional realizada pelo Ibope em maio mostra que a confiança que a população tem nos diários subiu de 65% em setembro de 2003 para 74% no mês passado. coluna do ombudsman. 13/03/2005. Beraba culpa a concorrência principalmente com sites. Marcelo Beraba. encerrou 2004 com uma média de 257 mil.” No entanto.org. O jornal do Rio. o próprio Marcelo Beraba. 215 . diante da grande concorrência com outros meios mais ágeis. Se tomamos por base o ano 2000.informação de massa. O "Estado". A6. na mesma coluna. que no seu auge alcançou 385 mil exemplares. A imprensa está em mutação. está 112 Trecho de entrevista – “Uma porta de entrada para novos leitores de jornal . 5/06/2005. então? Em artigo sobre a renovação de seu mandato. a Folha chegou a vender uma média diária de 606 mil exemplares. diz que a confiança dos diários é imensa no Brasil: “É uma surpresa para mim que a credibilidade dos jornais brasileiros esteja em alta. mostrou que os maiores diários do País enfrentavam quedas de tiragem sem interrupção desde 1996: “Em 1995. três meses depois. a queda em um ano foi de 2. essa mesma elite tem preferido revistas aos diários. Os desempenhos do "Estado" e do "Globo" não são muito diferentes.”113 Na mesma coluna. a venda dos grandes jornais. rádio e TV: “Acho que a imprensa em geral. A8. que é o jornal”. Disponível no endereço: http://www.

os efeitos de projetos gráficos e de diagramação remetem aos trabalhos de profissionais ligados ao design. como deve ser o posicionamento de fotos e outros elementos. 116 “Três vezes Paulo Coelho”. sustentação e fidelização da atenção dos leitores. Folha de São Paulo. as estratégias de arrebatamento. Em meados de março. capitaneadas pela Veja. cada número de um jornal ou de uma revista é diferente de outro no aspecto visual. Marcelo Beraba. que aparecem na forma de receitas do gênero “vermelho significa paixão” e “Times New Roman é uma letra que sugere seriedade”. Época. Folha de São Paulo. coluna do ombudsman. A6. tipos e características de letras a serem utilizados na manifestação do verbal. foram trocando o noticiário pesado dos assuntos públicos. Por outro lado. o gerenciamento do nível de atenção. Isso acontece porque o material 115 “Ombudsman tem mandato renovado por mais um ano”. 24/04/2005. Ao mesmo tempo. Marcelo Beraba viu na coincidência uma das razões para o sucesso das publicações: “As revistas mudaram muito nos últimos anos. como a política e a economia. nos impressos. As celebridades têm espaço valorizado.vivendo uma mudança e não tem ainda uma clareza do tipo de modelo que deve adotar. É o caso do uso das cores ou tipos gráficos. 216 . que define com alguma rigidez a quantidade de colunas em cada página.”115 As revistas semanais. 27/03/05. Essa estratégia vem dando certo sob o ponto de vista comercial. Tentaremos uma abordagem mais integral. geralmente ecoando padrões culturais da moda. Isso acontece porque jornais e revistas têm um projeto gráfico. Aos poucos. “O Zahir”. por seções mais leves e temas relativos à vida das pessoas.117 Qualquer leitor que toma contato com diversos números de uma mesma publicação nota certas recorrências na maneira de as unidades noticiosas serem apresentadas. o caminho do sensível ao inteligível. pesquisadores e teóricos do jornalismo parecem não valorizar os efeitos dos projetos gráficos nos seus estudos. nem sempre interessados em discutir as produções de uma perspectiva teórica. 117 O manejo de suportes. as capas com Paulo Coelho até que são coerentes. comportamento. finanças. crenças. Nesta perspectiva. Alguns designers apresentam listas de significações rígidas para a confecção de projetos gráficos.”116 Organização textual: efeitos do projeto gráfico e da diagramação O estudo das especificidades de diários e revistas tem como ponto de partida o exame da administração de elementos no suporte de papel que mostra como funciona. tiveram uma circulação semanal em 2004 de quase 2 milhões de exemplares. como saúde. A6. Isto é e Veja deram capa para o novo livro de Paulo Coelho. tanto que as três revistas tiveram crescimento em relação a 2003. por exemplo. diversos jornalistas. reportagem local (sem identificação de autor). em que parte da publicação certos assuntos deverão ser tratados.

que o formato de um noticiário não é conseqüência somente de coerções de consumo. para facilitar e agilizar os fechamentos das edições ao padronizar rotinas e modos de operacionalização dos editores. organizar e manifestar gráfica e plasticamente as unidades noticiosas a partir das necessidades da edição (aqui como ato ou efeito de editar). ou seja. tem funções importantes para o processo industrial de confecção de um jornal. o conjunto de normas e recomendações que norteiam o trabalho dos jornalistas. contudo.que chega às redações e o modo de organizá-lo sempre variam. apontamos as principais funções da organização textual administrada pela diagramação e como se relacionam com as três estratégias de gerenciamento do nível de atenção. mas de produção. acontece por meio da diagramação. sua aplicação e adaptação ao cotidiano de produção de um diário ou de uma revista. está atrelada ao projeto editorial do jornal. por exemplo. Serve. Como já comentamos no item III. adequar o projeto gráfico às necessidades do dia-a-dia do jornal. 217 . a edição (como ação) é entendida como estratégia global de enunciação.118 A organização espacial executada pela diagramação expõe uma série de regras que mostram como essas publicações valorizam e diferenciam as unidades noticiosas e como dirigem a percepção dos leitores para que realizem essa mesma operação de reconhecimento da importância das notícias. Diagramar é. sobre a organização textual. A diagramação. A edição. Na tabela a seguir. A execução do projeto gráfico. 119 Devemos relembrar. por sua vez. somente a Folha de São Paulo torna público seu projeto editorial por meio de seu Manual de Redação. Outra importante contribuição é criar uma distinção clara entre a parte jornalística e a dos anúncios. É preciso. Editar é textualizar (relacionar um plano de expressão com um plano de conteúdo).119 118 Dos jornais estudados. como aplicação cotidiana das diretrizes do projeto gráfico. portanto. em termos gerais.

necessário. (Vale lembrar ainda que a “passionalização” do leitor é função principalmente dos conteúdos.Criar um sentido de identidade ao material.120 2 . “indispensável” ou que “não dá pra não ler”. uma foto cuja cor crie contraste com o fundo branco. 218 . bonito.Fazer-crer em uma fácil legibilidade. uma matéria) visualmente atraentes por meio do manejo da cor. Ele é persuadido. Ou seja. uma foto. Nesse sentido. como veremos depois. O espaço é manipulado para se obter maior ou menor nível de atenção e a correspondente tensão do leitor.estratégias de ordem sensível. certos modos de ocupação de espaços e divisões. notas com grandes matérias.Funções da organização textual 1 . a função da diagramação é a de permitir que a importância desses conteúdos se torne visualmente evidente e chamativa por meio da ocupação espacial. por conhecer o lugar onde é colocada. Concebe espacialmente uma unidade noticiosa para que tenha pontos de atração de curiosidade. portanto. Pressupõe contatos anteriores bem-sucedidos. se o leitor precisa ver a cotação da bolsa. A identidade visual. é preciso leitura. com o tempo saberá rapidamente como conseguir essa informação.Criar iscas para o olhar. São. a partir das coerções do projeto gráfico. Não devem ser confundidas com as estratégias de sustentação. que se ligam às curiosidades despertadas pelos conteúdos das próprias notícias. bonita. 3. Estratégia de gerenciamento da atenção mobilizada Estratégia de arrebatamento – As iscas estão relacionadas à criação de descontinuidades do plano de expressão com a função de obter o primeiro engajamento perceptivo do leitor. Em outras palavras. 4 . por causa da ocupação espacial. como um título com um corpo de letra maior em relação a outro. também gera sentido de familiaridade. o leitor pode transitar facilmente pela publicação e parar somente onde achar necessário. O enunciatário consegue identificar. inicialmente. divide o material para não cansar o leitor. uma administração de categorias cromáticas. de que pode se informar de maneira rápida e eficiente. o tipo de valorização de uma unidade noticiosa. A diagramação deve manejar assim um ritmo. com o tempo. maneiras rotineiras de valorizar ou desvalorizar conteúdos que criam um código comum entre enunciador e enunciatário. 5 . é tornar elementos das unidades noticiosas (caso de um título. na repetição de determinados padrões. Estratégia de sustentação – Há aqui uma mobilização mais passional do leitor. Essa familiaridade em relação ao suporte gráficoplástico é produto do uso contínuo das mesmas famílias de letras.) Estratégia de fidelização – Nasce do contato rotineiro com diferentes edições e da satisfação de saber obter o que se quer com facilidade. Em outras palavras. que alie a beleza ao caráter prático exigido pelo leitor. o que significa passar a sensação ao leitor de que ele pode ter acesso rápido a tudo o que interessa saber (o que é “importante”) na edição inteira. completa. o que facilita cada vez mais a obtenção da informação buscada pelo enunciatário. topológicas e eidéticas). pela forma de apresentação do jornal. por exemplo. entre outras possibilidades. posição e forma (ou semioticamente falando. Jornais e revistas apresentam-se como um tipo de objeto prático. passagem do sensível para o inteligível. uma legenda. A prisão de Saddam Hussein determinou na Veja e na Folha de São Paulo uma grande ocupação espacial. dosando.Buscar construir uma publicação atraente. entre outros procedimentos. Nos textos mais longos. A tarefa do diagramador. Uma comparação entre jornais de um certo intervalo de tempo já dá indicações importantes dos sentidos manejados pela diagramação e partilhados entre veículos e 120 As iscas da diagramação são de ordem gráfica e se relacionam com as estratégias de arrebatamento.Instaurar uma comunicação de valores instantânea.

leitores. Atentemos ao espaço preenchido pelo título do bloco de manchete principal: 219 . Vejamos essa seqüência de primeiras páginas da Folha de São Paulo de 10 a 21 de dezembro de 2003.

destacando-o por meio de um título com um corpo de letra mais proeminente. com nitidez.Em todas as primeiras páginas. Percebemos. Uma comparação entre as edições mostra que o jornal também dá pesos diferentes para alguns blocos de manchete. a Folha de São Paulo “comunica” qual é o seu assunto principal. e a do afastamento de dois juízes na Operação Anaconda. que recebeu o menor destaque entre as primeiras páginas. Duas reportagens expõem os limites dessa estratégia: a da captura de Saddam Hussein. que toma o maior espaço. Comparemos a seguir a ocupação espacial desses dois assuntos. entre outros recursos. assinalados em amarelo: 220 . uma variação de ocupação espacial.

interesse. ineditismo. O de Saddam é o maior entre as primeiras páginas comparadas. por meio da aspectualização do espaço da página (criação de continuidades ou descontinuidades). comunicam a existência de uma manchete “fraca” e de uma manchete “forte”.A diferença é muito acentuada. ao plano de conteúdo. A diagramação está informando. por meio das diferentes maneiras de ocupação espacial de uma unidade noticiosa. entre outros. Analisaremos agora com mais profundidade como são homologados esses valores a 221 . Deve-se observar a variação do corpo de letra dos títulos. E essa hierarquização é mostrada visualmente. principalmente a que o apresenta quase como um mendigo. para um reconhecimento imediato. As fotos de Saddam. Na comparação entre edições. A manchete menor conta apenas com um infográfico. A administração dos espaços está atrelada a conceitos. de maneira distinta. sem segmentação. com cerca de 40 toques. A maioria dos títulos de manchetes tem seis colunas. o que é mais relevante e tem maior valor como informação. Nos exemplos citados. no plano de expressão. os recursos também valorizam. Existe um contrato pressuposto entre leitor e jornal para que os assuntos abordados apareçam hierarquizados por ordem de importância. que também se relaciona com a ocupação espacial. Os dois casos parecem indicar dois extremos na maneira de manifestar as manchetes principais. “Traduz”. a principal notícia do jornal. também recebem destaque. o que o leitor pode esperar da notícia no plano de conteúdo. o seu valor ou importância em termos de impacto. atualidade.

de que a significação emerge a partir de diferenças. of course) may be all very well.” 121 222 . That is why flamboyance in layout succeeds only when it is presented in the context of nonflamboyance. but what about situations that demand special handling? Those Special Reports and extra-exciting articles or issues? Paradoxically. O autor diz que é preciso criar uma espécie de sensação gráfica de “normalidade” para justamente poder valorizar momentos especiais. O diretor de arte Jan V. “Paradoxalmente. para transmitir excitação. normalness (of a distinctive kind. parágrafo completo: “Now. The best setting for excitement is a styling that creates a climate of normalness. frenetic confusion (a visual babel) results. Mountains get their drama from valleys. já que o excitamento existe somente em função do contraste. pudemos observar que a manipulação do espaço do jornal é uma forma de administrar a atenção do leitor. Todo o processo desdobra-se em outros semisimbolismos. for excitement exists only in contrast. Isso responde por que a extravagância em um projeto só tem sucesso quando é apresentada em um contexto que não é extravagante. ao apresentar estudos e técnicas sobre projetos gráficos de publicações impressas. No nosso trabalho sobre a revista Veja (Hernandes. O raciocínio também é válido para as revistas. de descontinuidades. Montanhas obtêm seu drama dos vales. é preciso haver primeiramente enfado. agora. apresentamos quatro “leis” de diagramação. faz uma observação que serve para entender as técnicas utilizadas pela Folha e reforça um conceito básico de semiótica. como o manejo das relações topológicas do plano de expressão dos diários e das revistas (categoria maior espaço ocupado x menor espaço ocupado) relaciona-se ao valor e ao potencial de atenção de uma notícia. Fica mais evidente. isso resulta numa frenética confusão (uma babel visual).uma unidade noticiosa. detalharemos o item 3 do gráfico anterior sobre funções da diagramação e do projeto gráfico (“instaurar uma comunicação de valores instantânea”). Três outras leis são válidas para todas as formas de noticiários impressos: No original. White. 2004: 53). to convey excitement. If excitement is attempted everywhere.”121 Na comparação entre os blocos de manchetes. Em outras palavras. one has to have dullness first. Se a excitação é tentada em toda a parte. O exemplo explorado até agora se relaciona à primeira lei.

Cada página é um módulo formado por outros módulos menores. dá a quase todos esses elementos uma forma quadrada ou retangular. Dessa maneira. Esses elementos quadrados e retangulares quase sempre aparecem meticulosamente reunidos em “módulos”. Quarta lei: o início de uma unidade noticiosa é o espaço mais valorizado. há um encaixe sem sobras. Dar menos espaço desvaloriza. Nos diários. ao integrar títulos. Nessa situação. portanto. encaixar elementos pertencentes a um assunto dentro de um módulo e relacioná-lo ou separá-lo de outros. A lei também vale para os elementos. matérias. há raros casos em que há um bloco maior no meio da página do que em cima. fotos. Categorias topológicas de expressão Maior área ocupada x menor área ocupada Correspondência no plano de conteúdo Parte de cima x parte de baixo Maior potencial de atenção x menor potencial de atenção Exterior x interior Inicial x final Devemos lembrar também que as leis de diagramação que citamos estão baseadas na maneira de um ocidental ler um texto verbal: uma seqüência de começo. meio e fim. A diagramação de jornais e revistas. expõem a existência de hierarquias internas e externas de 223 . infográficos em uma ou mais páginas. A lei é válida tanto para a relação entre unidades noticiosas numa mesma página (ou conjunto de páginas) quanto para elementos de uma única unidade noticiosa. Segunda lei: tudo o que estiver na parte de cima tem mais valor do que na parte de baixo. a sensação de que o jornal apresenta os assuntos na forma de “blocos” encaixados. sem espaços em branco na maior parte da área normalmente utilizável das páginas (conhecida por mancha gráfica). Inicialmente. Nesse espaço. E que não se trata de algo “natural”. Os módulos interessam ao trabalho por diversos motivos. ao leitor. Isso dá. permitem visualizar as hierarquias e “leis” expostas.Estratégia do plano de expressão Primeira lei: o valor de uma unidade noticiosa é proporcional ao espaço a ela concedido. se as fotos ocupam mais espaço. como pode parecer. já que são meios de organização espacial dos elementos. Diagramar é. literalmente. Terceira lei: a máxima valorização espacial de uma revista ou diário acontece na capa ou na primeira página. a primeira lei prevalece. Módulos. somos comunicados de que as imagens estão sendo mais valorizadas. em quadrados ou retângulos maiores. Dar mais espaço valoriza. da parte de cima para a parte de baixo. o enunciador informa o assunto ou assuntos que considera mais importantes na edição. legendas. Essa lei leva à colocação das principais informações e dos elementos de mais impacto sempre no começo. Existem outras formas de diagramar publicações com diferentes efeitos. Por exemplo. da esquerda para a direita.

matéria. ou seja. torna rentável para a análise observar a categoria de expressão englobante x englobado. título) dentro de um único tema. apresenta sua própria “notícia principal”. tem uma hierarquia interna. Essa organização guia a atenção do leitor e informa o valor das notícias na visão do 224 . no qual se vê Pelé. Cada uma dessas divisões admite outras. por sua vez. realçada em roxo. que é mascote da Copa do Mundo 2006. mas sobre um mesmo tema). a apresentação conjunta de fotos. que vai variar dependendo do recorte que se faça: da edição inteira a uma nota. A matéria principal sobre Oliveira é seguida de outras três. destacada em rosa. Os diferentes elementos das notícias aparecerem hierarquizados pelos módulos. Para esclarecer esse funcionamento.unidades. A modulação de unidades (ou seja. gráfico. Todo jornal (e uma revista também) é constituído por esses módulos. que fazem com que as unidades noticiosas apareçam na forma de blocos. vejamos esse exemplo de uma página de abertura do caderno de esporte da Folha de 22 de março de 2005 (D1): Podemos notar que há somente dois blocos de textos: a matéria sobre a saída do técnico do Santos. Beckenbauer e um leão. e uma panorâmica (nome que a Folha dá a uma parte com notas de assuntos diversos. além do infográfico “O Santos em números”. A panorâmica. visualmente agrupadas em um bloco.

Os módulos produzidos pela diagramação dão pistas importantes sobre o funcionamento do sincretismo nos impressos. principalmente dos diários.uol. Cada módulo é.folha.shtml . as coerções do projeto gráfico mostram que o enunciador maneja grupos de elementos determinando relações espaciais muito claras entre unidades e elementos. um dispositivo de sincretização manejado pelo diagramador. 123 No Jornal Nacional.”125 Vamos agora analisar e verificar os efeitos dessa “organização da leitura” na Folha e na Veja. na forma de editorias. meios de comunicação impressos têm um ordenamento muito rígido de blocos de assuntos. 124 O Projeto Editorial Folha é “uma série de documentos que o jornal começou a divulgar a partir de 1981 visando ordenar seus procedimentos e estabelecer suas prioridades editoriais” – In “Jornalismo em tempos de crise” – Fernando de Barros e Silva – um dos textos que discute os 80 anos da Folha de São Paulo. 122 Participamos de várias discussões sobre sincretismo em jornais e revistas com um tema recorrente. diferentes unidades são relacionadas espacialmente e.br/folha/conheca/projetos-1988-4. O padrão modular de um jornal ou revista para o grande público.com.122 Cada módulo submete diferentes elementos (fotos. e força o olhar do leitor a relacioná-los visualmente. Nas justificativas para mudanças do Projeto Editorial124 1988-1989. 17 de outubro de 2004. já que cada leitor faz o recorte que deseja. dava margem ao que consideramos uma falsa polêmica: a de não se poder falar em “todo de sentido” nos impressos.folha.shtml . títulos. cria-se a idéia de um todo de sentido. da Folha de São Paulo. É nesse sentido que falamos em rigidez. Divisões do jornal.acessado em março de 2005.com. no caso dos diários. facilmente reconhecíveis pelo enunciatário.uol. Dentro de um módulo.enunciador. Esse ordenamento não se altera com a importância da notícia. 225 . e que vem necessariamente antes da editoria Brasil. dos editoriais e da primeira página. a gráfico-plástica. edições especiais e.123 Além disso.br/folha/80anos/futuro. Na Folha. esse assunto só poderia aparecer. Disponível em http://www1. colunas fixas. típica dos impressos. A disposição de elementos facilmente reconhecíveis e separáveis. em si mesmo.último acesso em março de 2005. as citadas leis de diagramação. no caderno Mundo. de modo a organizar psicologicamente a leitura e atrair novas frações do leitorado. As leis de diagramação podem ser pensadas também como prescrições de como montar os módulos. há suplementos. a prisão de Saddam ocupou um quarto do programa e apareceu logo no início. gráficos) a uma única forma semiótica. que visava “a facilitar a leitura e tornar mais atraente o cardápio diário de informações” (A10). por exemplo. maior a importância da notícia. o de impor a inter-relação espacial entre elementos. mesmo com todo o destaque. dedicado aos assuntos internacionais. É o módulo que faz o papel sincretizador mais importante. Maior o bloco. 125 Texto “Segmentação ou riqueza de detalhes” – sem autor . assim.disponível no endereço: http://www1. seções. até mesmo o encarte de revistas. Praticamente as mesmas razões são invocadas pelo jornal O Estado de São Paulo para justificar sua mudança de projeto gráfico a partir de domingo. suporte e a atualidade da notícia Ao contrário do rádio e da TV. há uma explicação para o projeto gráfico ter tantas divisões: “Segmentamos o jornal em cadernos e suplementos.

uma palestra organizada pelo próprio jornal. Sua pequena importância editorial não justifica. cadernos especiais e revistas se repetem dentro desse segundo período. O primeiro e mais evidente é o de 24 horas. Consideramos que essa necessidade até se acentua. existe um outro. mensal. Entendemos que é esse ritmo de 24 horas e não o suporte . que é encartado no jornal toda última terçafeira do mês. Na quarta-feira. tem o maior número de páginas.que pode ser tanto o papel quanto a tela . a mais vendida. continua e continuará havendo a demanda por um panorama noticioso que reflita o que aconteceu de essencial nas últimas 24 horas. dia 27. O diretor de redação da Folha de São Paulo. A reportagem completa sobre o mesmo evento. por parte de um contingente grande de pessoas.127 Na Folha. Sessões. cadernos. Paulo explica por que o interesse jornalístico pela ciência tende a aumentar” – Revista da Fapesp – edição 95. inassimilável de informação. o Sinapse.que define o jornal. preocupado com o futuro do jornal diante de novas tecnologias de informação.O diretor de redação da Folha de S.” 126 226 . Otávio Frias Filho. O título foi “Drauzio defende aborto legal para que deixe de ser matéria ‘de marginal’”. 23 de março de 2005. marcado por um ápice. 127 O leitor de domingo é pensado como alguém que tem mais tempo para ler e merece “o melhor”.Folha de São Paulo . Vejamos como o jornal se apresenta: Trecho da entrevista “Uma porta de entrada para novos leitores de jornal . janeiro de 2004 – autoria de Mariluce Moura. na medida em que existe uma oferta muito grande. no entanto. revistas. Uma página inteira foi editada sob o título: “Drauzio não vê sentido em lei próeutanásia.Comecemos pelo diário. mais suplementos. pensar em um terceiro ciclo. no mesmo caderno Cotidiano. Cada número da Folha apresenta unidades noticiosas organizadas a partir de dois tipos básicos de intervalos de tempo. com níveis de credibilidade muito díspares. há ainda um suplemento mensal. a Folha descreveu em poucas linhas as “sabatinas”. que reúne os assuntos mais analíticos.”126 Além do ciclo de 24 horas. semanal. Isso gera situações curiosas. a edição de domingo. afirma que esse período define inclusive o tipo de jornalismo realizado: “Na Folha fazemos uma análise de que. com os detalhes das considerações do médico e escritor Drauzio Varella só foi publicada no domingo seguinte.

FOLHA DE SÃO PAULO – DIVISÃO Partes fixas – diárias – que aparecem em todas as edições128 Características Tem uma versão paulista e outra nacional. Fotografia. Esportes. Notícias sobre as últimas descobertas e pesquisas mais recentes e importantes no Brasil e no mundo. Na edição São Paulo. linguagem clara e elucidativa. Traz diariamente notícias relativas às principais capitais do país. Erramos. A seção Opinião Econômica tem como objetivo manter o pluralismo de opiniões. Mais!. que nele encontram análises sobre os últimos acontecimentos. ao mesmo tempo. na sexta. Painel do Leitor. o caderno orienta quanto a investimentos. Notícias locais. como o dedicado à mulher. concentra sua cobertura na capital paulista. Folhinha. Empregos.folha. coluna de Gilberto Dimenstein. Guia da Folha. Tendências/Debates. Cotidiano. Revista da Folha. 227 . Élio Gaspari. Loterias. brasileira e internacional. Cotidiano Oferece ao leitor informações úteis ao seu dia-a-dia nas áreas de segurança. institucional e aos movimentos sociais. inclui coluna do ombudsman. Mercado Aberto. Bárbara Gancia. 128 Base Folha de São Paulo do primeiro trimestre de 2005.com. sempre acompanhadas de análises precisas e enfoque didático. e o mundo dos negócios são o principal alvo do caderno Folha Dinheiro. com Walter Cenevida. saúde. Informática. Opinião Econômica. colunistas. Não vamos tratar aqui dos cadernos e revistas especiais. inclui Painel (notas) e Toda Mídia (análise de Nelson de Sá). no sábado. traz indicadores econômicos e faz a cobertura de temas que mereçam atenção especial em função da conjuntura econômica. no domingo. Arte. No domingo. a edição paulista traz informações sobre tempo no Estado e rodízio de automóveis. coluna de Moacyr Scliar. coluna de Luís Nassif (exceto às segundas) – Agrofolha (às terças). Mortes. Ciência. Letras Jurídicas. O leitor também tem acesso ao que é publicado nos mais influentes meios de comunicação do planeta. na quarta. Cidade é Sua. Editoriais. trânsito e meteorologia. com especial atenção para o didatismo e para o uso de recursos visuais na explicação de assuntos complexos. inclui “Entrevista da 2ª”. Notícias Internacionais.br/folha/conheca/ . 129 Todas as informações dessa parte da tabela constam do site do jornal “Conheça a Folha” – (http://www1. para que ele exerça sua cidadania. Imóveis. com Pasquale Cipro Neto. Procura oferecer ao leitor informações pluralistas e apartidárias. Na segunda. Mundo. Tem colunas de Jânio de Freitas. O que diz a própria Folha129 Primeira Página Opinião Brasil No primeiro caderno da Folha.uol. Esses cadernos são resultado da divisão espacial e do trabalho conjunto das diversas editorias da Folha de São Paulo: Brasil. Ilustrada. Tudo. Urbanidade. Procura prestar serviço ao leitor sobre temas como direito do consumidor. um instrumento fundamental para os formadores de opinião. com Gilberto Dimenstein. Regionais. Além das manchetes. TV Folha. a editoria se dedica à vida política. Acompanhe seus Fundos. Atmosfera. É. na quinta. Uma vez por semana. Mundo Ciência Notícias científicas Notícias econômicas. Câmbio. Folhateen. Além de notícias nacionais. Há 50 anos. Dinheiro. Turismo. educação e direito do consumidor. encartado na Folha de 8 de março de 2005. Veículos. Dinheiro Folha Mundo publica diariamente as principais notícias internacionais. inclui página sobre saúde. A conjuntura econômica. Falências.último acesso em março 2005) – links Cadernos diários e Suplementos. português. Com informações precisas.

a Folhinha publica reportagens e fotos em sintonia com os interesses das crianças.Todo sábado. Circula às sextas. O Folha Turismo traz os principais destinos do Brasil e do mundo com coberturas exclusivas. sexo e muito mais. Criado em março de 97 o Guia cobre a programação de cultura e entretenimento da Grande São Paulo. Tem como grande diferencial a prestação de serviço.Esporte Notícias esportivas. Meu Sábado. Os dez +. hospedagem. Foi o primeiro a usar estatísticas. decoração. fotos e muito serviço. casas noturnas e dicas para as crianças. cultura. traz encartado o suplemento Acontece. dança. comportamento. Seções com quadros informativos e dicas de preços e lugares fazem deste caderno um roteiro útil para quem gosta de viajar. família. dirige-se tanto ao leitor iniciante quanto ao mais experiente. Equilíbrio Suplemento de saúde. Notas. É atualmente um dos cadernos mais lidos da Folha. coluna de José Simão (exceto às segundas). filosofia e artes. As reportagens e as seções procuram desfazer a fronteira entre o profissional. Na Grande São Paulo. shows. Bárbara responde. F. Ponto de fuga . Painel FC. sociologia. gastar menos. quadrinhos com Hugo. Coluna de José Geraldo Couto. gastronomia e muito mais. atualidades e consumo. Hardware. Placas. O objetivo do novo caderno é dar ao leitor instrumentos para o leitor (sic) que não quer ficar para trás numa sociedade que cada vez mais exige capacidade de reciclagem e atualização. passeios. humor e diversidade de pontos de vista. Toda quinta. Curtas cartas. Televisão. na análise esportiva. O Folha Informática auxilia os leitores a entender e a usar melhor a Internet e os computadores. marketing. A Folha Ilustrada traz a melhor cobertura do que há de mais original e relevante nas áreas de cultura e entretenimento. além de dicas precisas sobre cuidados com o corpo e a mente. Internet. Cultura e Variedades. Traz as últimas técnicas e terapias para quem quer viver mais e melhor. comportamento. Além de acompanhar os principais campeonatos. Programação de TV. coluna de Mônica Bergamo. Seus colunistas garantem análise. Para crianças. Palavras Cruzadas. exposições. Toda quinta. Quadrinhos. Aborda o tema de forma diferenciada. Cartas. Cruzadas. O caderno se dirige ao leitor que quer sempre conhecer mais. Notícias sobre viagens. Toda semana os adolescentes encontram no Folhateen os principais assuntos de seu interesse: música. Toda segunda. Comida. Ilustrada Suplementos durante a semana Folhateen Notícias para adolescentes. teatro. Colunistas especializados respondem às dúvidas e incentivam o adolescente a buscar informação. Com linguagem simplificada e objetiva. + cinema . + poema. + livros . Turismo Folhinha Sinapse Guia da Folha Suplementos. ensino. o acadêmico. Foco no desenvolvimento profissional. Saúde. Único suplemento mensal – circula na última terça-feira do mês. o pessoal. videogames. Um caderno dedicado à busca da saúde e da qualidade de vida. quadrinhos.log. brincadeiras e promoções. Roteiro de lazer. O foco do Folha Sinapse é o aprendizado contínuo. região onde circula. Úteis e fúteis. traz assuntos relacionados à política. Cada dia tem um colunista ou ensaísta na última página. além de seus personagens preferidos. o caderno Mais! é referência internacional como caderno cultural. bares. cadernos e revistas exclusivos do final de semana Mais Revista da Folha 228 . passatempos. Lançamentos.P. Televisão. Um caderno especial para os leitores que procuram literatura. É uma revista semanal de moda. Informática Toda quarta. Crítica e ousada. Variedades. Com autores e colunistas conceituados. preparadas pelo Datafolha.Jorge Coli Biblioteca básica. somente para a Grande S. Filmes. cinema. Todo sábado. O Folha Esporte trata o esporte como espetáculo e fenômeno empresarial. É Grátis. Plural. a Ilustrada fala sobre discos. Só circula na Grande São Paulo. Inclui roteiros de restaurantes. legislação e moda. Caderno cultural. além de seções. quadrinhos. Era uma vez na América. Procura orientar o leitor para comprar melhor. concertos. ganhar tempo e obter melhores resultados ao navegar na internet. Inclui Astrologia. sexo e saúde. guia de programação da região.

Folha Imóveis Há ainda duas seções semanais sobre lançamentos e soluções para problemas da vida em condomínio. tabelas e anúncios. outra com exemplos práticos de bricolagem e uma que vasculha produtos diferenciados nas lojas paulistanas de construção e decoração. legislação e tendências do setor são alguns dos temas apresentados. o do Vale do Ribeira. O jornal que os paulistas recebem. Notícias sobre imóveis e reformas. acabamento e legislação. há a preocupação de "traduzir" a linguagem técnica em temas como eletricidade. A cargo do Datafolha. a tabela de preços publicada no caderno é a mais atualizada do mercado. o caderno engloba temas relacionados à decoração. Tem páginas de anúncios.131 Na Folha de São Paulo existem também dois “fechamentos”. Seções internas como Gestão.municiam o leitor de informações para administrar com eficiência. O caderno orienta quem quer entrar no mundo dos negócios. que aparecem durante a semana. questões comportamentais. A edição nacional deve parecer menos paulista. Além de testes. Finanças. o de Campinas. como o da região do ABCD. No entanto. fazer a manutenção e tirar as dúvidas a respeito dos automóveis. A maioria das páginas é de anúncios. além dos anúncios. Inclui reportagens. orienta sobre elaboração de currículo e processos de seleção.e investimento em imóveis residenciais e comerciais. o jornal tinha mais cadernos regionais. cursos e bolsas de estudo. mas também a todos que querem atualizar-se sobre assuntos desse mercado. Folha Construção Além de dicas sobre materiais e técnicas construtivas. Reportagens deixam o empreendedor bem atualizado sobre as tendências de mercado. O caderno reúne reportagens e serviços direcionados aos profissionais que querem ampliar suas chances no mercado e aos que pretendem dar um impulso maior à carreira. motocicletas. Dá sugestões de aperfeiçoamento. Feiras e Congressos. 131 Informações prestadas por Aparecida Cordeiro. e a da edição paulista às 23h15. os setores em alta e a conjuntura econômica para que possa tomar decisões estratégicas precisas. Folha Imóveis. venda e locação. 229 . A crise financeira obrigou o jornal a fechar quase todas as redações locais. Três seções se revezam semanalmente: uma que dá dicas para reformas. hidráulica. A segmentação rotineira do jornal ainda tem mais ramificações. mercado de compra. em 14 de setembro de 2005. comparativos e tabelas. por exemplo. Folha Empregos não devem ser confundidos com espaços ou páginas de anúncios comuns. uma regional (Ribeirão Preto). secretária da redação da Folha. A conclusão da edição nacional acontece geralmente às 20h. Para permitir que o leitor converse com os profissionais da área. Anos atrás. comprar. abrir o próprio empreendimento e crescer. O caderno Imóveis é voltado não somente para quem está à procura da casa própria. Inclui reportagens. indica oportunidades de emprego. Empregos Folha Negócios Gestão. A característica marcante de todos eles é apresentar notícias. O Folha Veículos é uma fonte de consulta para o leitor na hora de vender. O Cotidiano têm três versões: a paulista. Folha Construção. e a Nacional. Maioria das páginas é de anúncios. produzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia.Folha Veículos130 Inclui reportagens. pode ter notícia mais atualizada. são temas do caderno comparativos entre vários modelos. Financiamento bancário à classe média. esses fechamentos distintos privilegiam principalmente a adequação da primeira página aos diferentes tipos de leitores. legislação e novidades da indústria automobilística. Finanças. portanto. 130 Os cadernos Folha Veículos. Feiras e Congressos .

de ciclo semanal. Na edição nacional. Na prática. Inicialmente. Veja – a revista da editora Abril. da edição paulista. Já a notícia “Teatros fazem revitalização da praça Roosevelt”. há destaque – com foto – para um encontro de maracatus em Pernambuco. nesse dia. essas duas páginas iniciais de 8 de fevereiro de 2005. Periodicamente. o título era: “Escolas recorrem à nostalgia no 2° dia de desfiles no Rio”. Na versão de São Paulo. os habitantes da Grande São Paulo e do Grande Rio recebem duas revistas. tem uma estrutura menor. A primeira é da edição nacional. O leitor paulista recebeu um jornal com notícias mais atuais. a Veja São Paulo e a Veja Rio. em efeitos de atualidade diferentes. Veja apresenta edições 230 . com maior poder de despertar a atenção. A diferença entre os fechamentos das edições resultou. há dois suplementos regionais encadernados toda semana junto com a revista.Comparemos. não é encontrada. a manchete comentava o 1° dia de desfile. da edição paulista: Na edição nacional. Na edição paulista. por exemplo. vale notar o destaque maior para o Carnaval carioca. portanto. A segunda.

E a página final é sempre dedicada a um ensaio de Roberto Pompeu de Toledo. filmes. o leitor encontra outras 20 páginas de reportagens – quase todas reservadas a consumo. Os livros mais vendidos. Veja Salvador. Os jornalistas André Petry e Tales Alvarenga também têm espaços exclusivos. Economia e Negócios. consideramos que a base impressa da revista ainda se sobrepõe e comanda as outras formas de interação com o público-alvo. Geral. que pode ser de Walcyr Carrasco ou de Ivan Ângelo.shl acessado em abril/2005. A última página é reservada a uma crônica. os comentários de Diogo Mainardi. oferece pouco mais de 100 páginas de jornalismo por semana (sem contar as informações do Roteiro da Semana).134 Inicialmente. Veja Brasília. 132 A fonte é o site da empresa: http://www. Veja Campinas. para os leitores dos grandes centros paulistas ou fluminenses.133 A edição principal de Veja tem cerca de 80 páginas de jornalismo. Veja Recife. e a seção Ponto de Vista. 134 Veja faz bastante uso da estratégia conhecida como cruzamento de mídias. tecnologia. Internacional. Veja Belo Horizonte. além do Roteiro da Semana. Datas. Gente. mulheres. comportamento. Holofote. Veja.abril. conhecer trailer de filmes por meio de consulta ao site Veja On-line. comida.br/aempresa/areasdeatuacao/revistas/pgart_030102_28102002_111. shows. a revista apresenta informação na forma de notas muito curtas. jovens. Veja Recomenda. Contexto. É o caso da adaptação dos formatos às necessidades regionais. exposições. Há efeitos de proximidade.132 Podemos notar novamente a necessidade de buscar um sentido de proximidade espacial com o leitor. que alterna vários autores. Os leitores internacionais têm à disposição ainda uma assinatura da Veja em versão digital. e Artes e Espetáculos. Lya Luft. 231 . compras e turismo. Podemos encontrar editorias comuns nos diários: Brasil. peças de teatro. ver mais imagens. portanto. A edição de papel coloca à disposição dos leitores a possibilidade de saber mais de um assunto. Colaboradores têm espaço fixo. como Stephen Kanitz. como a página de humor de Millôr Fernandes. Veja Porto Alegre. Existe também um grande número de seções. ouvir trechos inéditos de entrevistas. Radar. que tanto pode dizer a uma futura mãe o que ela pode ou não fazer para ter uma gravidez saudável. Veja Goiânia. homens. estaduais e nacionais. ecologia e saúde e edições regionais que não têm periodicidade definida. Neste trabalho. 133 Há também uma óbvia estratégia de marketing: suplementos regionais conquistam anunciantes que não se interessariam pela edição nacional. Veja Fortaleza. bares. Na Veja São Paulo. Veja Curitiba. como Veja Nordeste. com cerca de 50 páginas de dicas de restaurantes. Veja Essa.com. como apresentar uma receita para montar um computador.especiais sobre crianças. Há ainda uma área de serviços chamada Guia. Há sempre uma entrevista em páginas amarelas. Em Cartas. devemos observar que o leitor da Veja ou da Folha não tem como conhecer certos aspectos da segmentação dos noticiários.

uma outra notícia em menor destaque. graças à divisão e à ordem dos cadernos. Mundo. o raciocínio não é diferente. tenta de alguma forma espalhar os assuntos de variedades e comportamento junto a outros das editorias Brasil. Se não levarmos em consideração o efeito da primeira página – que varia bastante ao apresentar assuntos de todos os pesos – podemos notar que Veja tenta. A Ilustrada ocupa todo o caderno E. o leitor administra o contato com as notícias. Na Folha espera-se que o leitor tome conhecimento do resumo e da hierarquização das principais notícias por meio da primeira página e. ler uma história. depois. quando se apresentam em manchete de primeira página. A página inicial do semanário não tem. ler atentamente o noticiário econômico ou seu colunista preferido na área de esportes” (Schwartz. Ciência. no caderno A. que as notícias mais destacadas em blocos de manchete são as relativas às questões políticas de maneira geral. Economia e Negócios. de Esportes. prepará-lo para os assuntos mais densos e. jornais diários e revistas semanais têm uma estrutura “happy end”. editoriais no Opinião. folhear a parte das histórias em quadrinhos. encontramos a capa. decida o que ver. É preciso folheá-lo para conhecer o conteúdo. Na ordem normal de leitura. mas colocam no mesmo nível de valorização espacial e editorial o que acontece no espaço considerado mais importante pelo leitor. retomar 232 . na Veja a estratégia é um pouco diferente. a característica de ser uma síntese da própria edição. Já a revista Veja apresenta na primeira página apenas a reportagem principal e. O D. Economia. Nos jornais e revistas. Geral. Na revista. Basta verificar a disposição de assuntos e dos respectivos cadernos. Se na Folha há um relaxamento gradual e constante. A revista. como no jornal. é possível notar. no final. O caderno B é somente o Folha Dinheiro. Geralmente. 1985: 78). O caderno C trata do cotidiano. que pretendem mostrar que os impressos apresentam notícias do Brasil e do mundo. as duas páginas de frases de celebridades) obter a atenção do leitor. Internacional. com temas leves (entrevistas. Como quase todos os noticiários analisados. “O leitor de um jornal constrói seu próprio jornal: primeiramente pode dar uma olhada nas manchetes. apesar de ser também relaxante no final. o do cotidiano.principalmente de ordem afetiva. Cotidiano. o Turismo vai tomar todo o caderno F. página humorística do Millôr. depois Brasil. Se for uma quinta. o que não acontece nos noticiários de rádio e de TV. Brasil. depois. são valorizados a partir do viés político. por meio da primeira página. Assuntos das editorias de Geral. o “aqui” de suas práticas habituais. às vezes. o leitor do diário toma contato inicial com os conteúdos mais “densos” até chegar aos cadernos com notícias mais “leves”. como a Folha. Nos grandes diários.

ou privado. Em certos dias. economia. geram paixões empáticas eufóricas. com os serviços do Guia e os comentários sobre o mundo das artes e do entretenimento. obter saberes relacionados a “oportunidades” para se dar bem. Existem.o relaxamento. tristeza. Do ponto de vista da obtenção da curiosidade. unidades noticiosas sobre saúde. Notícias de viés político geralmente produzem paixões empáticas disfóricas. planejar ações agradáveis. moda. Qualquer publicação faz um balanço entre notícias quentes e frias. Como as notícias de política apelam mais para o lado “cidadão”. apesar das diversas coerções que os jornalistas devem enfrentar. Estão atrás do que consideram mais relaxante. entretenimento. devem fazer o leitor se envolver afetivamente com as narrativas. comportamento. Por outro lado. Já as notícias leves. tanto unidades noticiosas de viés político como outras de serviços e diversão devem atrair o leitor. perderão impacto. as partes inicias têm notícias mais densas e que envelhecem rapidamente – notadamente das editorias de política. geral. não é preciso grande elucubração para verificar que. sobre turismo. sexualidade promovem paixões eufóricas. não havia crimes que justificassem a abertura da página. Observamos a seguinte situação em certo jornal diário que tinha uma página fixa diária dedicada a assuntos policiais. principalmente ligadas à esperança e à satisfação. de falta. quase sempre mobilizam paixões negativas. frustração. Já as unidades noticiosas de cultura. disfóricas. esportes. as outras paixões citadas instauradas pelos impressos. que ficam nas partes finais. do enunciatário.135 135 Falamos de notícias quentes ou frias vinculando esses termos ao efeito de atualidade (envelhecimento lento x envelhecimento rápido). como medo. de disjunção sujeito-objeto. Expliquemos melhor a manipulação de estados de tensão e de relaxamento do leitor durante a leitura de uma edição. entretenimento. Essas notícias. porém. lazer. Note-se que. É por isso que algumas pessoas começam a leitura da Veja ou da Folha de São Paulo pelas páginas finais. no caso do leitor brasileiro. E relacionam-se ao lado individualista. ou seja. ou público. em um diário. relacionadas à manipulação de afetos e de outros níveis de relaxamento e de tensão do enunciatário. Descrevemos que as estratégias de sustentação envolvem a projeção do enunciatário nas histórias reportadas. A solução encontrada era lembrar do último grande assassinato de 233 . como já citado. despertar desejos. Ele se serve delas para se entreter. ou seja. As notícias instauram paixões empáticas. são consideradas quentes. São notícias frias. geralmente podem ser publicadas em um intervalo de tempo mais longo. moda. Temos a já citada paixão da curiosidade. beleza. gastronomia. Devemos relembrar que a “temperatura” de uma notícia é ainda uma construção do texto. de esperança de junção sujeito-objeto. Se não forem consumidas imediatamente. do leitor. a disforia de querer-saber e a satisfação de obter o conhecimento desejado.

tablóide. O tipo de papel vincula-se a uma publicação que pode ser guardada e lida o ano inteiro sem que muitos conteúdos envelheçam. com o novo gancho. desatrelados das grandes diretrizes do projeto gráfico. fazia-se uma manchete do tipo: “Crime x permanece sem solução”. quente. de viés político. Pode-se observar formatos mais livres. Há outro ponto notável. Quase sempre não existia nenhuma. essas editorias geralmente apresentam assuntos que despertam a atenção por bastante tempo. pensadas para os cadernos iniciais. Com a informação da polícia. também tem notícias “frias”. com algo que o leitor sinta que “está acontecendo”. No entanto. Mobiliza-se o sentido tátil. Já a queda de um avião deve ser abordada na edição mais próxima do acontecimento. há uma vinculação entre a idéia de menor envelhecimento do conteúdo. Unidades noticiosas mais quentes. o lançamento de um novo livro. Sinapse têm formatos diferenciados. Mas era uma notícia essencialmente fria. É por isso que. Buscavam-se fotos feitas na época. na parte jornalística (há anúncios em papel jornal). muitas vezes exclusiva para cada notícia principal. mais resistente que o papel jornal. Já as notícias frias geram um enunciatário cuja única tensão. Em 13 de março de 2005. A Revista da Folha. turismo trabalhem essencialmente com notícias frias.Não estamos querendo dizer. que editorias de cultura. era um fator de atualização. mas cada um segue seu ritmo na hora da azaração. Trata-se de um fato que esgota seu potencial de atenção rapidamente. por exemplo. contudo. Em outras palavras. a manchete era “Cuidado. E contava-se a mesma história de outra forma. mas não utilizadas na primeira vez. com uma diagramação variada. têm formatos mais fixos e com uma diagramação mais presa a regras do projeto gráfico. A resposta. A diagramação é mais arejada e aberta à experimentação. é a de leitura com fins de relaxamento. ou seja. Folhateen. de ciclo semanal. É como se um conteúdo sobre questões inovadoras. O formato assemelha-se ao da Veja. Em qualquer parte do jornal existe a coerção de achar elementos de atualização para hierarquizar certos fatos (os “ganchos” jornalísticos) que construam uma ponte com o cotidiano. se existir. suplementos como Equilíbrio. que é atual. ligada a novos comportamentos familiares. como isso. e também a durabilidade do papel.” O assunto buscava certa atualidade. A temporada de uma peça de teatro ou de um show. a diagramação diferenciada. necessitassem de um plano de expressão arrojado. 234 . um roteiro de férias são notícias de vida longa. O leitor tinha a sensação de informação nova. repercussão e ligar para a Polícia para saber se havia novidades. apesar de a única novidade ser o fato de que não havia novidade. lazer. papai na pista – eles cruzam com os filhos na mesma balada. na Folha. como as relacionadas a certos comportamentos. branco. com papel de qualidade.

43. ‘Truque’ do fotógrafo. cadernos. mas vários enunciatários diferentes no mesmo texto. mas não encontrou ânimo para se sustentar e encerrou o dia com perdas de 1. Depois internos enviados provisoriamente para presídios. A seqüência de fatos pode explicar a crise atual da Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do 235 . do ‘tudo azul’.136 A Veja. e a construção. Na economia.Toda essa diversidade na forma de apresentar as unidades noticiosas mostra que o jornal diário não apenas trabalha com uma categoria inicial x final para vincularse a notícias quentes x notícias frias. descontrole e destruição. não nos apresenta na sua nova e aguardada fornada de prosa. suplementos tem profundas implicações na construção do leitor das publicações analisadas. uma matéria no Cotidiano (C3 . reportagem local): “A Bovespa chegou a abrir suas operações em alta. A Bolsa de Valores de São Paulo vira um ser com humores.71% na semana). a antropomorfização da Bovespa. A Folha não instaura um.71% . assunto que iremos discutir neste item. o caderno A (inicial) e a Revista da Folha. por exemplo (B4 – Bovespa fecha dia com queda de 1. de 0. Há também uma relação entre essas categorias. de um lead “disfarçado”.sem assinatura. a cor do ‘tudo bem’. está diante de uma parede branca. Comparemos dois extremos.” Há um apelo ao leitor – uma relação eu-tu. de intimidade – a remissão a um aspecto de uma foto que acompanhava a reportagem. ao contrário. Neste estudo dos impressos. Outro exemplo na Ilustrada (E1 – Na boca do inferno – assinada por Cassiano Elek Machado – reportagem local): “Vê o azul da foto ao lado? Tudo mentira. Em seguida.” Note-se. a forma de diagramação e o formato do suporte.31%. Luiz Ruffato. E o azul. nessa abertura de matéria. Vejamos alguns exemplos de leads da edição de sábado. fugas em massa. um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. projeta e dirige-se a apenas um 136 Cada parte do jornal tem uma construção textual diferente.Motins e promessas repetem crise de 1999 – sem assinatura – reportagem local): “Primeiro. mesmo com um início pouco usual.7% (1. pacotes de medidas que priorizam a descentralização e promessa de criar unidades mesmo sem o consentimento dos municípios. CADERNO INICIAL Ciclo de 24h Papel jornal Diagramação fixa Notícia quente (maior Plano de conteúdo envelhecimento – assuntos mais densos) Efêmero FORMATO REVISTA Ciclo semanal Papel branco Diagramação flexível/diferenciada Notícia fria (menor envelhecimetno – assuntos mais leves) Durável Plano de expressão Entre o essencial e o acessório: a construção de um leitor fragmentado A segmentação das notícias em editorias. o que mais chamou a atenção na hora da análise foi a enorme diferença entre o leitor apreensível da Folha de São Paulo e o de Veja. é tudo o que o escritor mineiro. 19 de março de 2005. rebeliões.

com assuntos políticos. não tinha necessidade de muita imagem. Ressaltamos. Na Folha. 236 . do Estado. A diagramação da Veja cria um ritmo entre notas e matérias mais longas. econômicos. Décadas atrás. na tentativa de explicar as razões da crise atual na Febem. mais fotos. E a revista tem ainda um mesmo “tom”. institucional e aos movimentos sociais. com essa divisão. e até culturais.” • Sujeito lúdico. Já a diagramação da Folha ajusta-se ao perfil de seus diferentes enunciatários. a posição do futebol é interessante. portanto. Essencialmente. hoje chamado de Brasil. Não afirma. reservou suas matérias frias para o Caderno 2. O Estadão. da Folha. mesmo sem assinatura. Não sem razão. policiais e as “features”. em hipótese alguma. nessa concepção. interessado em temas da coletividade. quando a fundação passava por outra grave crise. as notícias frias. é também diversão. Já existiam suplementos. 2004). inicialmente. bem recortado e delimitado. o caderno de variedades foi chamado de Ilustrada por apresentar. Essa classificação dá conta das características do enunciatário dos jornais do passado recente. Podemos utilizá-lo para mostrar que é nessa parte do jornal que esse sujeito é construído com mais propriedade: “A editoria se dedica à vida política. mesmo que todos tenham como característica pertencer à “elite”. tanto na parte jornalística quanto na industrial.” Praticamente não há lead. quadrinhos. O primeiro caderno da Folha. pouco se alterou com o tempo. sociais. O texto. como o futebol. Aliás. mas uma engenhosa construção que une o presente e passado por meio da existência de uma mesma série de eventos. por exemplo. entre o que é político e cultural. já que as fotos tornavam a edição mais complexa. por sua vez. mas também descreve bem os últimos dias de 1999. que se importa com atividades que lhe dão prazer. um mesmo “estilo” e um modo único de escolher e apresentar notícias (Hernandes.leitor. na divisão comum do jornalismo. a inexistência de um sujeito político no caderno de cultura. porém. para que ele exerça sua cidadania. a peça bem cotada em cartaz. como o Folhetim. grandes diários como a Folha e o Estado tinham duas divisões básicas. quase como uma passagem entre os cadernos de assuntos densos e os de temas mais leves. O que era mais atual e “sério”. apenas o Menor) de São Paulo. podia ser observado um enunciatário desdobrado em duas posições básicas: • Sujeito político. Havia a parte de notícias quentes. Apesar de assunto que pode ser tratado como “quente”. do dia-a-dia. como o Infantil e o Feminino. sem nunca perder a identidade na hora de apresentar o que considera notícia. é claramente “interpretativo”. Procura oferecer ao leitor informações pluralistas e apartidárias. em um diário o esporte fica sempre próximo à parte de cultura e entretenimento. Problemas técnicos também motivavam essa divisão.

fez campanha pela despoluição do rio Tietê. mas não aplicados. chamamos a atenção para o fato de as matérias de serviço terem certas características: • • • A dinâmica social é apresentada como jogo de oportunidades. Surgem dois novos sujeitos: • Sujeito pragmático – Ao contrário do sujeito político. o sujeito político. ou seja. ou uma comunidade. entre outros exemplos. Nossa hipótese. ou seja. cada vez mais. A Folha Cotidiano. educação e direito do consumidor”. ao mesmo tempo. ao parecer uma espécie de amigo. para o leitor interessado em matérias de serviço. que atravessa o Estado de São Paulo. Alguém que usa um jornal como força de pressão está. como místico. Os textos de serviços trabalham a idéia de que determinadas informações são fator decisivo de vantagem pessoal e até de sobrevivência pessoal. os momentos nos quais um leitor.que há de mais determinante nesses espaços. por exemplo. pragmático e harmonizador.137 Em nosso trabalho sobre a revista Veja (Hernandes. é que o jornal apela. 137 A única dúvida que tivemos ao tentar montar essa classificação foi onde colocar os “serviços de utilidade pública”. ao verificar certos casos. Quando a rádio Eldorado. Ele pode ser tanto científico. de buscar equilíbrio. a Folha Turismo aponta a melhor e mais vantajosa viagem. por exemplo. na verdade. 237 . essa situação é fruto da relação entre duas ou mais “posições de sujeito”. o pragmático espera encontrar no jornal soluções rápidas para seus problemas práticos. Com matérias de serviço. meios de ter mais saúde. ligado às descobertas de novos remédios e tratamentos médicos. a Folha Dinheiro mostra como aplicar bem os recursos. ao mesmo tempo. a partir da proliferação de cadernos. na posição de sujeito político e pragmático. o jornal humaniza sua imagem. o pragmático e o harmonizador. conselheiro ou cúmplice que vai doar o saber decisivo para o leitor satisfazer suas necessidades. de indivíduo contra indivíduo. que incluem os interesses do sujeito lúdico. que quer ter uma visão da coletividade e de seu papel nela. que percebe a vida regida por forças divinas. por exemplo. a Folha Negócios orienta como abrir e gerir uma empresa. 2004). mobilizou. utiliza o jornal para fazer valer determinados direitos reconhecidos. • Sujeito harmonizador – É o que está interessado em “qualidade de vida”. O que pudemos notar. Passemos agora para a análise que leva em consideração os efeitos das segmentações atuais. dos planetas. “oferece ao leitor informações úteis ao seu dia-a-dia nas áreas de segurança. suplementos e revistas. da natureza. de viver relações mais satisfatórias. é que.

os assuntos políticos são colocados como “obrigatórios” aos leitores. a Folha estaria contrabalançando a disforia dos temas políticos com a euforia das notícias sobre serviços. A Folha estampa na sua primeira página que é “um jornal a serviço do Brasil”. Como pudemos verificar na divisão de cadernos da Folha de São Paulo. Com as matérias de serviços. por paixões de solução de falta. relacionadas às aflições coletivas dos brasileiros. lúdicos e harmonizadores expõe a influência crescente do marketing sobre a tradição de guardiões da verdade e dos interesses coletivos que os noticiários impressos gostam de assumir. e no tratamento do que é manchete. Em publicidades institucionais veiculadas no próprio jornal. Em outras palavras. a vocação missionária dos impressos parece se chocar com o papel utilitarista e cada vez mais “prático” que precisam vender para parcela dos seus leitores. outros diários) tomou um caminho distinto do de Veja e do das outras revistas semanais de informação. Essa procura de equilíbrio entre os assuntos abordados tem uma grande razão: o medo de perder o leitor. um dever-ler. Não abandonaram a ênfase política. vinculadas às satisfações individuais. ao que tudo indica. uma base ideológica de concepção anticidadã ao deixar subentendido que a solução individual é mais importante e eficaz que a solução coletiva.• As matérias de serviços camuflam. assumiram a pulverização. Em vez de pensar o enunciatário globalmente. não raras vezes. a Folha escolhe mostrar como vantagem justamente a segmentação: 238 . Compensaria as paixões de falta. mesmo com todos os cuidados para buscar a curiosidade do leitor em função de estratégias de arrebatamento e sustentação. como a compra do melhor microcomputador do mercado pelo menor preço por meio de uma dica do Folha Informática. mas criaram cadernos e revistas para agradar a esses diferentes destinatários. os jornais o fragmentaram. A busca pela satisfação dos leitores pragmáticos. É possível notar que a Folha (e.

pragmática e relacionadas com a “qualidade de vida”.Nesse anúncio. Nos diários. Sem abandonar o político. o que corrobora nosso estudo. O caminho adotado pelo jornal. a Folha mostra o significado da sua enorme fragmentação: o de parecer um “jornal completo”. Cada fragmento tem uma coerência discursiva diferente. O jornal cria. que cada edição é pensada para que diferentes leitores. construam caminhos individuais e cada vez mais atrelados à satisfação de necessidades de ordem lúdica. diversas possibilidades de fruição dentro do seu próprio texto. A fragmentação do jornal mostra. portanto. A estratégia de Veja foi diferente. assim. Veja passou a dar espaço de primeira página – o que significa grandes reportagens – para assuntos 239 . esse direcionamento justifica a hierarquização de manchetes a partir de impactos de ações econômicas e políticas. no entanto. no final das contas. Investir no sujeito político e preocupado com a coletividade garante a credibilidade necessária para que o jornal mantenha-se como voz social. foi o de apresentar várias publicações diferentes dentro de uma mesma edição ou de um ciclo de edições. No canto esquerdo pode-se ler que “a Folha tem cadernos para tudo e para todos”. adequada a um certo grupo de leitores.

e o primeiro semestre de 2005: CAPAS DE VEJA PRIMEIRO TRIMESTRE DE 1975 1° de janeiro 8 de janeiro 15 de janeiro 29 de janeiro 5 de fevereiro 12 de fevereiro 19 de fevereiro 26 de fevereiro 5 de março 12 de março 19 de março 26 de março 240 .relacionados aos serviços. plena ditadura militar. Fizemos uma comparação entre as capas da revista no primeiro trimestre de 1975.

entretenimento receberam grande espaço: há seis capas sobre esses assuntos. ao que tudo indica. ao que tudo indica. 241 . Tudo é pensado em termos de impacto no leitor. a que fala de férias (de 15 de janeiro). manchetes de saúde.138 Já no primeiro semestre de 2005. constata-se somente uma matéria que. 138 A capa dedicada aos sambistas (de 12 de fevereiro). não é para divulgar shows. mas para uma análise cultural. pode receber o rótulo de “serviços”.CAPAS DE VEJA PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2005 5 de janeiro 12 de janeiro 19 de janeiro 26 de janeiro 2 de fevereiro 9 de fevereiro 16 de fevereiro 23 de fevereiro 2 de março 9 de março 16 de março 23 de março Há 30 anos.

interessada em vender. Veja também participa ativamente. Tentaremos agora uma classificação. É o caso das capas seguidas relacionadas ao escândalo do chamado “mensalão” em meados de 2005. desenvolve capas e reportagens de fôlego sobre todos esses assuntos. Em outras palavras. É importante esclarecer que essa tentativa de organizar os conjuntos significantes (unidades com expressão e conteúdo) tem conseqüências teóricas importantes e não serve apenas como mero detalhamento descritivo dos objetos. legendas. Jornal do Brasil como textos constituídos por elementos verbais e não verbais também não resolve o problema. Questões sobre o plano de conteúdo são apresentadas ainda neste item. nesse momento.Pode-se argumentar que.diz respeito às letras. como veremos depois. Finalmente. classificados a seguir. E a revista. texturas. O verbal se dá a conhecer a partir de um suporte visual que tem uma significação claramente determinada nos projetos gráficos. Veja. a eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados. no sentido de criar uma separação entre essas pretensas unidades. Veja mudou. a corrupção do governo Lula. Nos jornais e revistas. Na verdade. aos tipos gráficos e as suas possibilidades de concretização. matérias. sobre a necessidade de romper a excessiva simplificação na abordagem do plano de expressão desses noticiários. Insistimos. Isto é. Os cinco conjuntos significantes manejados pela diagramação Até agora. como cores. deixa implícita a necessidade de reconhecimento dos conjuntos significantes. O leitor que a revista constrói coloca no mesmo nível um lançamento do novo livro de Paulo Coelho. Os objetos jornalísticos não são apenas visuais. Mas isso só mostra que a revista se pauta pelo que acredita ser a curiosidade do leitor. o que tentamos fazer. as partes que compõem um noticiário impresso foram chamadas indistintamente de “unidade” ou “elemento”. diagramar é uma tarefa de administração de quatro grandes conjuntos significantes. manifestado tipograficamente . as possibilidades de fazer uma cirurgia plástica. Jornais e revistas também não podem ser pensados apenas como apresentando elementos verbais e visuais. 139 Nosso interesse. a partir do plano de expressão:139 1. 242 . tamanhos que geram títulos. enunciando que todos têm mesmo “peso” em termos informativos. no início do trabalho. apontar Folha de São Paulo. é mais o impacto na página. em momento de grande efervescência política. Nos impressos. Verbal. o sentido do tato é importante.

via computador ou essencialmente digitais. 4. caixas coloridas ou vazadas. a última grande alteração do projeto gráfico aconteceu em 2000 e teve como autor o designer gráfico italiano Vincenzo Scarpellini. Pictórico – abrange produtos de arte e de técnica de representar. gráficos. cujas matérias principais têm sempre uma apresentação diferente).2. demonstrações visuais de acontecimentos. os infográficos são os que têm ganhado espaço crescente na mídia impressa. O "Outro Lado" de uma notícia controversa passou a ser identificado por um fundo 140 A maioria desses recursos tem como função auxiliar na organização visual e não remetem a conteúdos. queremos chamar a atenção para o item 3. que compreende as unidades que denominamos “pictóricas”. Já os elementos diagramáticos fazem parte do projeto gráfico ou de uma diagramação específica (caso do Folhateen. Fotográfico – inclui imagens fotográficas obtidas por meios convencionais ou digitais. explicações didáticas. etc. das ilustrações. dos quadrinhos. quadrinhos. indicações de leitura entre muitos outros recursos (Manual da Folha de São Paulo. Os infográficos são considerados textos de apoio e podem aparecer na forma de mapas. a definição desse elemento é a seguinte: “Combinação de desenhos. inclusive. ilustrações. No Aurélio. A diagramação também utiliza certos elementos com funções específicas. fundos. no sentido de serem representações feitas à mão. que estamos chamando de Diagramáticos – linhas. é perceptível que o item pode ser desdobrado em outros conjuntos. Ainda no caso do pictórico. gráficos. além de produções digitais que criam. geralmente com o uso abundante da cor. 3. efeitos de terceira dimensão.. apresentação biográfica de personagens envolvidos na notícia.” Note-se novamente que se está diante de um caso de sincretismo. caso das charges. vinhetas. Ele fez várias modificações. numa superfície. 2001: 23). como utilizar “cores sinalizadoras”. para representar figuras e situações. fusões que apresentam um todo de sentido com base na utilização dos outros conjuntos significantes citados. Inclui charges. formas que vão do figurativo ao abstrato. glossário de termos técnicos ou específicos. Misto – infográficos. Em relação aos elementos mistos. 243 . fotos. Na Folha de São Paulo. para a apresentação visual dramatizada de dados e informações.140 Nesse primeiro esboço.

7 de maio de 2000. A primeira é a de Antonio Vicente Pietroforte. Um olhar ingênuo sobre os tipos gráficos pode ser bastante útil para começar a reflexão sobre essa forma de manifestação do verbal. Por esse ponto de vista. O autor. Cotidianamente. detalharemos nos próximos itens somente a fotografia e a manifestação tipográfica do verbal. Nesses casos. à “mensagem”. faremos um pequeno estudo sobre a significação produzida pelas letras nos diários e revistas. Tendo em vista os objetivos de nosso trabalho.. que parecem sempre ter certas atribuições. há semi-simbolismos criados pelo projeto gráfico. em análise de poesias concretas. Em relação ao assunto. lembra que “quando escrita. queremos defender o estudo de cada um dos conjuntos significantes por meio de suas características mais importantes. a palavra ganha dimensões plásticas. é a qualidade material gráfica da linguagem verbal que se exacerba. transcrever uma língua faz da escrita também uma semiótica verbal. Já para Lúcia Teixeira (2004: 236). O formato da letra pouco acrescenta ao plano de conteúdo. Devido a sua expressão plástica. é impossível ficar indiferente aos caracteres tipográficos de textos jornalísticos e publicitários.) numa poesia que desenha figuras numa página branca. Em outras palavras. que complexifica a expressão lingüística e a imagem” (idem:153). 141 244 . a manifestação do verbal já é sincrética (ibidem: 142). 14. a escrita não pode ser reduzida a um sistema semiótico plástico. de veículo do verbal.azul claro. Em grande parte das vezes. “embora formada por desenhos gráficos. que consideramos mais relevantes em função do impacto e da maior utilização no jornalismo impresso. Tipos gráficos e novo patamar de semi-simbolismos Nesta parte do trabalho. nesses objetos. Os textos didáticos têm apresentação sobre fundo ocre. pág. Por outro lado. as letras cumprem uma função meramente utilitária. Por isso. as letras são pensadas e reunidas para significar “algo mais”.. no entanto. portanto. localizamos duas posições entre os semioticistas. uma pessoa alfabetizada entra em contato com uma multiplicidade de textos escritos. a escrita participa desse tipo de semiótica. não há uma manifestação que integra diferentes linguagens Essas informações constam do texto “ Novo projeto gráfico estréia terça para realçar informações essenciais e dar mais leveza ao jornal” – Folha de São Paulo. Não menciona autor. já que a letra é também imagem” (2004:143).” Para a autora. entretanto.141 Com essas observações. há na escrita um sincretismo entre o verbal e o plástico. Para Pietroforte. “(.

os terminais das letras não lineais de caixa-alta e caixabaixa. remate. que a característica plástica é inerente a qualquer forma de manifestação verbal. barra. posições.” Uma letra A Arial e outra A Times New Roman mostram a diferença. por exemplo. A questão é se essa plasticidade é inerente à escrita ou produto de uma semiótica plástica que cria relação com uma semiótica verbal. em seguida.142 Podemos observar. a letra A em diversas famílias: A A A A A A A A A A A A A A Arial Times New Roman Verdana Impact Avant Gard Bauhaus Courier New Swiss921bt TypoUpright BT Zinjaro LET Vineta BT Bickley Script LET Ruach LET Alexei Copperplate Somos obrigados a reconhecer que todas as famílias de tipos gráficos são criadas a partir de uma letra que representaria um “grau zero”. “mas a exploração máxima das qualidades de visibilidade e sonoridade da própria linguagem verbal” (idem). que remata. simples espessamento. 245 . variações de “peso” entre as linhas 142 Acreditamos que a reflexão de Vicente Pietroforte é mais pertinente na análise de letras com desenhos exclusivos. uma letra sem serifas143. 143 Serifa. de um ou de ambos os lados. diferenciados. às vezes. em termos mais semióticos.num único todo de sentido. É inegável. é um “pequeno traço. etc. A serifa aparece no segundo caso. na base da letra. o trabalho com formas. Para pensar o jornalismo impresso. Aurélio. diz o Dic. inclinações. cores. ou. sem desenhos. No uso gráfico-plástico das letras no jornalismo. obviamente não há a mesma experiência radical da poesia concreta. contudo. Mesmo assim. Apresentamos. horizontais. ou. a proposta de Lúcia Teixeira nos parece mais adequada. na forma de traços adicionais. o manejo de formantes plásticos do plano de expressão.. e que pode ter a forma de filete.

que mostra que os tipos impressos estão longe de ser mero suporte dessemantizado do verbal. justamente por seu caráter “limpo”. “Entre a Fala e a escrita: algumas reflexões sobre as posições intermediárias”. Analisemos a relação entre formas. altura. mais ou menos jovial a partir da exploração das possibilidades plásticas. O fato de certas letras não terem significado no cotidiano não é uma falta de plasticidade. O uso contínuo anula o sentido plástico das letras porque cria um padrão de normalidade que as dessemantiza. na Folha de São Paulo. é considerada “moderna”. PRETI. vale a pena analisar uma crônica de José Simão. a distância entre unidades. mais ou menos sério. a plasticidade das letras enriquece a manifestação escrita no jornalismo. arriscamos um caminho já delineado em nosso trabalho sobre a revista Veja: uma das principais funções das formas das letras nos jornais é construir um simulacro visual de um tom de voz. entretanto. Humanitas. São Paulo. Antes de determinar essas relações entre plano de expressão e plano de conteúdo que criam esse simulacro de fala na escrita. produto de uma “saturação”. utilizada neste trabalho. antes de tudo. Dino (org.que a compõe não deixa de ter sentido plástico. Diana Luz Pessoa de.144 Isso quer dizer que há uma relação entre o desenho e a apresentação das letras . para melhor situar a discussão sobre o assunto.seu tamanho da página. 2 de dezembro de 2003. que pode parecer mais ou menos estridente. duração e ritmo da fala.com a entonação. No jornalismo. mas. de terça-feita. As letras nas páginas de jornais e revistas tentam simular alguns recursos próprios da oralidade e retomar certas possibilidades prosódicas perdidas na escrita. O título é “Turcocircuito! Lula embarca na esfirra voadora!” 144 As relações entre fala e escrita são bastante complexas. A letra Arial. produto da variação na intensidade. (2000) in Fala e escrita em questão volume 4 do Projetos Paralelos – NURC/SP – Núcleo USP. Da mesma maneira que a prosódia faz parte da fala. as formas de alinhamento e de entrelinhamento . diante da enorme complexidade da questão. “acrescentando sentidos”. Há uma certa tradução intersemiótica proporcionada pela tipografia (sempre subordinada à diagramação e ao projeto gráfico). ocupação espacial e o simulacro da oralidade. Uma perspectiva semiótica sobre o assunto pode ser encontrada em Barros.). 246 .

pois uma escrita que registrasse todas as inflexões e andamentos da fala seria complexíssima. como se o leitor pudesse ter acesso a toda a modulação de voz do autor. “a ortografia desde sempre descurou da prosódia. em corpo de letra maior. José Simão simula uma fala exaltada. como lembra José Roberto do Carmo Júnior na análise da locução do futebol. Quando ele pergunta. No exemplo. pouco importando como é dito. José Simão não quis perder nada.funciona ou projeta uma substância que ele chama de “grafemática”: as letras e os outros sinais pertinentes. cheia de pontos de exclamação.Em princípio. No entanto. com isso. perde-se muito também” (2005: 46). já que retiramos a ilustração que o acompanha e até mesmo o título. percebemos um tom excessivo.as regras de grafia das palavras e de pontuação . O mais notável é simular – na escrita – o jeito da fala espalhafatoso esperado ao se concluir uma piada numa conversa. ponto e vírgula. no jargão da imprensa). Teoricamente. em letras maiúsculas (“caixa alta”. mas. O próprio Hjelmslev diz que uma ortografia . Vamos analisar apenas algumas questões do plano de expressão. apenas o que é dito. estamos diante de um texto verbal. Jornais e revistas criaram regras com esse mesmo propósito 247 . “QUEM VAI FICAR TOMANDO CONTA DA LOJINHA?”. O humorista manejou de forma criativa certos elementos da escrita para simular a oralidade. e por uma razão bastante boa e justificável. ou seja. Na grande maioria das vezes o que buscamos registrar na escrita é apenas o conteúdo de um texto. no texto. que tem uma série de outros efeitos interessantes. etc. Com isso se ganha muito. O arranjo gráfico das letras sugere uma forma de oralidade. pelo contrário. O conteúdo não nos interessa aqui. Nosso alfabeto é fonético e representa sons da fala. todos esses efeitos se referem à escrita. cuja função é simular mesmo uma espécie de fala na nossa consciência. um “jeito de contar piada”. como ponto.

portanto. White ao sugerir escolhas de letras para as revistas. Não se pode cometer o erro comum de achar que existem somente relações simbólicas envolvendo os tipos gráficos e suas possibilidades de apresentação (em negrito. Os títulos com letras grandes simulam exaltação. parecem reproduzir gritos. como se alguém quisesse despertar a atenção do outro. contudo. baseadas na disposição espacial que define a importância de uma unidade noticiosa. inclinados ou não. estão ligadas a assuntos mais sérios. mais sério ou mais leve. rompendo com os estereótipos. Podemos notar sua função na estratégia de arrebatamento. Grandes manchetes. Essas considerações abrem caminho para abordar outra função importante dos tipos gráficos. • O tamanho do corpo de letra relaciona-se com a altura da voz. ligado à estratégia de 248 . por exemplo).para apresentar e chamar a atenção para as unidades noticiosas e. Os textos. em alguns quadros) só aparece na função de criar contraste.os traços mais finos ou mais grossos.cria um simulacro de um tom da voz. que é a de criar um sentido de familiaridade. representar a enunciação oral nas páginas. o itálico utilizado nos tipos gráficos (Times New Roman. Porém. determinadas não só pelo tipo de ocupação espacial como também pelo formato das letras (com mais ângulos retos ou arredondados. na Folha. • O formato da letra . de buscar a atenção por meio de descontinuidades. os tipos mais finos vinculamse a questões mais leves. Podemos notar novamente que estamos às voltas com sistemas semi-simbólicos cristalizados. que. e o Arial. por sua vez. a inclinação da letra marca o espaço dos comentários. representa um tipo de valorização da notícia. densas. Em Veja. por exemplo). de enunciar. quase símbolos. Convencionou-se. alegres. só existe a partir de leis de diagramação já citadas. mais comum. com ou sem serifa . que as letras mais grossas. Da perspectiva semiótica. assim. Vejamos então como as letras simulam sonoridades. lembra que o itálico deve ser evitado por dar uma idéia de informalidade. de algo fraco. o que é próprio dos sistemas semi-simbólicos. os caracteres gráficos mantêm relações especiais entre o plano do conteúdo e o plano de expressão. mas mostram diferentes formas de dizer. Já o corpo de letra menor das matérias retoma um tom mais sereno. opiniões. itálico. uma parte nobre do jornal. por sua vez. Esse simulacro. para uma conversa. de sensibilização do olhar do leitor. Do mesmo modo. Não apenas “dizem”. mais elegante ou mais austero. podem manejar os sentidos das letras de maneiras diversas. crônicas. leve (1974: 78). pelo menos na comunicação ocidental. próprio para a troca de informações. no entanto.

145 Informações de Fábio Marra. vamos utilizar O Estado de São Paulo. desaparece da Revista da Folha. a partir do projeto gráfico. A Folha é um caso notável. Nos jornais. do mesmo dia. 4 de abril de 2005. que remetam a um modelo conhecido que. A diagramação. que criou um padrão de uso para letras que ilustra as relações semi-simbólicas que acabamos de apresentar no esquema anterior. suplementos. A plasticidade das letras e sua organização espacial manipulada pelas leis de diagramação envolvem semi-simbolismos que podem ser assim representados: Letras e relações semi-simbólicas Formantes plásticos Plano de expressão Corpo de letra com traços grossos x corpo de letra com traços finos Maior espaço ocupado x menor espaço ocupado Mais intenso e disfórico x Mais distenso e não disfórico (Maior valor e potencial de atenção ) x (Menor valor e potencial de atenção) Plano de conteúdo Notícia quente x Notícia fria Respeito x Irreverência Dramaticidade x Prosaísmo Tom grave x Tom leve Para dar um exemplo. 249 . o segundo elemento mais presente. Todo o resto varia. e a página inicial do Caderno 2. há uma comparação entre a primeira página da segunda-feira. revistas. O logotipo.145 A idéia de identidade nos impressos está relacionada ao fato de se enxergar elementos comuns. Na Veja. editor-adjunto.fidelização. de cultura e variedades. há a Folha Serif e nas matérias o Folha Minion. gerencia a identidade visual de uma publicação. Na Folha de São Paulo. é preciso levar em consideração os diferentes cadernos. Nos títulos. com o tempo. os padrões se repetem com mais constância. O jornal criou letras exclusivas. Editoria de Artes da Folha de São Paulo (março-2005). A seguir. a única unidade recorrente em todo o jornal é a fonte Folha Minion e o entrelinhamento. gere familiaridade. por exemplo.

que remete a questões individuais. tem toda a tipologia dos títulos diferenciada. o que dá grande leveza e uma identidade visual particular às páginas. Observamos uma crescente valorização da fotografia e do fotojornalismo. como o prazer de assistir ao filme. por exemplo.A forma dos títulos principais das duas páginas não deixa dúvida. Trata-se da principal notícia do jornal. Basta observar a grande ocupação espacial. Já o Caderno 2 estampa uma notícia mais amena. “Incorporamos ao procedimento do fotojornalismo padrões que até então estavam reservados à fotografia artística: ângulos e enfoques diferenciados.146 O fotojornalismo O estudo que fazemos da fotografia. porém. 250 . neste item é. as perspectivas e até os problemas dos novos usos da fotografia no jornal. As letras valorizam o assunto. carregada de drama. O Caderno 2. ênfase no detalhe das fotos de esportes. Isso significa que se aposta cada vez mais nas fotos para obter laços com os leitores. fórmulas para que as fotos de jornal expressem mais do 146 O novo projeto gráfico do Estado radicalizou esse uso das letras. Não deixam de caracterizá-lo. predominando o corpo de letra com traços muito finos. um filme do conjunto Demônios da Garoa. de envelhecimento rápido. já explicita as bases. O Projeto Editorial 1988-1989 da Folha de São Paulo. de grande dimensão pública. como algo leve. O corpo de letra mais denso do título da manchete comenta os preparativos do velório do papa. ligado às nossas preocupações sobre o gerenciamento do nível de atenção. como não poderia deixar de ser. notadamente pelos diários.

que mera imagem e se entrelacem com o significado do evento a que essa imagem está ligada; interesse maior por imagens de beleza plástica e de efeito inusitado, ainda que sua temperatura noticiosa seja baixa. Também aqui é preciso depurar os avanços realizados; evitar com igual energia tanto o retorno ao fotojornalismo convencional como o exagero que consiste em esquecer que num jornal tudo o que se publica deve ser informação.”147 O fotojornalismo nunca foi alheio à estética ou ao enfoque diferenciado. O que se nota no projeto da Folha é um novo patamar de coerção do discurso fotográfico, que deve romper o sentido de ser mero registro da realidade. A mesma preocupação é visível nos outros jornais. O Estado de São Paulo, em sua reforma gráfica de 2004, também cedeu um espaço muito maior para a fotografia. A busca dos efeitos de belo, de estranhamento, entre outros, ficou mais perceptível. Não queremos neste ponto do trabalho discutir novas maneiras de analisar a significação de fotos nos jornais e revistas. O objetivo, muito mais modesto, é apresentar alguns apontamentos sobre “antigas” e atuais estratégias do fotojornalismo para arrebatar e sustentar a curiosidade dos leitores.148 Também não há interesse aqui, como convém a um estudo de semiótica, em discutir ou explicitar a produção da fotografia. O que se quer é mostrar algumas estratégias persuasivas que essa forma de imagem mobiliza com base no estudo de sua utilização. Apresentaremos, a seguir, o papel da fotografia na construção dos sentidos do jornal:149

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Projeto Editorial 1988-1989, Agosto de 1988 - A hora das reformas - Aprendendo com as falhas. Disponível no endereço: http://www1.folha.uol.com.br/folha/conheca/projetos-1988-1.shtml - acessado em abril/2005. 148 No estudo sobre a imagem televisiva, falamos de planos de câmera e de como se relacionam com o gerenciamento do nível de atenção. Pode-se questionar se as mesmas observações valem para o fotojornalismo, já que ambas produzem sentidos por meio de recortes espaciais. Jornais e revistas trabalham com essas relações de maneira muito diferenciada. A principal distinção é o formato fixo da tela de TV. Os planos se sucedem a partir desse espaço determinado. Já os jornais e revistas trabalham as fotos de maneira completamente diferenciada. Um efeito de close-up na tela da TV só teria esse mesmo impacto se tomasse grande espaço no jornal. Isso raramente acontece. 149 Essas estratégias são pensadas como uma verdadeira lista de obrigações aos fotógrafos. Busca-se, sempre, a “grande foto”, que significa mais atenção, mais leitores, mais vendas. Só que o texto fotográfico depende de uma série de fatores, muitos imponderáveis, para ser bemsucedido. As crescentes cobranças pela “grande foto”, entretanto, esbarram na própria dinâmica da fotografia, dos fotógrafos, dos jornais. É preciso um fotógrafo estar presente na hora do acontecimento, por exemplo. O tsunami que varreu a Ásia no final de 2004 foi surpreendentemente pouco fotografado. Perdido o momento de ápice narrativo, só se registraram conseqüências. A fotografia tem ainda que dizer muito com apenas um enquadramento. O valor de uma foto também raramente se desvincula do potencial de atração de uma reportagem como um todo. A cobertura da posse de um prefeito vai render imagens de “peso” muito diferentes das proporcionadas pela queda de um avião em um bairro residencial.

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1 – Uma fotografia deve ser uma das principais iscas para o olhar em uma página, ou seja, uma das mais importantes armas na estratégia de arrebatamento e de sustentação. Com suas cores, contrastes, ocupação espacial, a foto precisa atrair a atenção do leitor para a unidade noticiosa da qual faz parte. O olhar deve ser fisgado. É a estratégia de arrebatamento. O leitor precisa ainda se interessar pelo conteúdo. A foto deve depois encaminhar o leitor para a parte verbal, ou seja, apresentar uma estratégia de sustentação geral que também tenha êxito. Para arrebatar e sustentar a atenção, o fotojornalismo busca cada vez mais os efeitos estéticos. É evidente que o estético - como manifestação sensível e também inteligível – sempre fez parte do discurso fotográfico e é inerente à própria atividade dos fotógrafos jornalistas. Queremos evidenciar, contudo, que a busca por um discurso visual plástico nos diários e nas revistas é hoje uma coerção cada vez mais forte para obter adesão à leitura e chamar a atenção para as próprias publicações. Uma justificativa para mostrar essa mudança de mentalidade é que as fotos tiveram uma valorização espacial inédita nos últimos anos, principalmente nos diários. A fotografia também passou a não ser mais preocupação apenas do fotógrafo. O Manual de Redação da Folha de São Paulo afirma que cabe aos profissionais da redação, e não apenas aos fotógrafos, a “elaboração da pauta já com uma perspectiva visual e plástica” (2001:33). Diz ainda que “o entendimento mínimo das técnicas fotográficas e de suas possibilidades estéticas é uma necessidade em todos os patamares da hierarquia de uma Redação, não apenas de fotógrafos e editores” (ibidem). Acreditamos que essa busca pelo belo, pelo estranho, pelo inusitado faz parte de outras publicações. Pode-se observar também que, do ponto de vista jornalístico, não é na TV, mas nos diários, e também nas revistas, que a imagem é um objeto de contemplação. Há possibilidade de maior fruição, de controle do tempo de consumo sem prejuízo do processo de obter e manter o nível de atenção. White explica que a fotografia apresenta uma vantagem em relação ao texto escrito na hora de arrebatar e sustentar a atenção. “Retratos atraem o olho, ganham a atenção, incitam a curiosidade. Retratos fazem o leitor ser receptivo à informação. Pessoas resistem ao esforço de ler: isso significa trabalho. Mas elas parecem não prestar atenção a isso quando olham retratos. Então, quanto mais informação puder ser acondicionada sem usar palavras, melhor. Retratos, ao substituir a descrição verbal por imagem visual, ajudam a diminuir o percurso do processo de leitura” (1974: 98).150
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Fragmento original: “Pictures attract the eye, gain attention, arouse curiosity. Pictures make the reader receptive to information. People resist the effort of reading: it means work. But they do not seem to mind looking at pictures. So, the more information that can be packaged in non-

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Essas observações abrem caminho para discutir a fotografia nos jornais e revistas a partir das estratégias de arrebatamento (ligadas ao sensível), de sustentação (uma forma de passionalização, instauração de curiosidade para saber “o que aconteceu”) e também de fidelização. Em outras palavras, um jornal que apresenta sempre fotos instigantes mobiliza o leitor a manter um relacionamento de longo prazo.

2 – A fotografia tem um papel de servir de prova ao que se reporta, de parecer mostrar fragmentos de uma realidade inquestionável. Ou como afirma Kossoy: “A informação visual do fato representado na imagem fotográfica nunca é posta em dúvida. Sua fidedignidade é em geral aceita a priori, e isto decorre do privilegiado grau de credibilidade de que a fotografia sempre foi merecedora desde seu advento. (...) Esta objetividade positivista creditada à fotografia tornou-se uma instituição alicerçada na aparência, no iconográfico enquanto expressão da verdade; um equívoco fundamental que ainda hoje persiste” (2001: 103). Falar de realidade em fotografia é analisar um “efeito de sentido” dessa forma de comunicação. Do ponto de vista do gerenciamento do nível de atenção, o caráter argumentativo-persuasivo do fotojornalismo está cada vez mais nitidamente dependente da estratégia de fidelização. Ou seja, é o cumprimento de um contrato enunciador-enunciatário por certo período, e a satisfação obtida nessa relação pelo leitor, que vai garantir à fotografia no jornal o seu status de “fragmento da realidade”. A credibilidade da fotografia depende da credibilidade do próprio jornal que a insere, principalmente quando leitores sabem das crescentes facilidades de manipulação digital das imagens.151
words, the better. Pictures, by substituting visual images for verbal description, help to shortcircuit some of the reading process.” 151 Ao contrário do que ingenuamente se pensa, a fotografia não é, necessariamente, um tipo de objeto cuja imagem resultante estabelece uma correspondência ponto por ponto entre as partes do referente submetidas à ação da luz. Há filtros, jogos de sombra, efeitos de lentes. A manipulação da imagem fotográfica também é tão antiga quanto a própria fotografia. Já há fotomontagem em 1857. Trata-se de “The two ways of life” (Os dois modos de vida), exibida em 1857 na exposição “Art Treasures”, em Manchester, Inglaterra, e de autoria de Oscar Rejlander, que usou mais de trinta negativos diferentes para compor a imagem. Entre outros detalhes, mostra-se um ancião de barbas brancas, vestido com um pesado manto, que conduz dois jovens para a vida adulta. Informação de “O que é fotografia”, de Kubrusly, Cláudio A., Edit. Brasiliense, São Paulo, 4ª ed., 1991, págs. 81 e 82. Com os avanços da fotografia digital, porém, houve enorme alargamento das possibilidades de alteração das imagens. Em fotos dos vagões destruídos por atentados terroristas em Madri, certos jornais apagaram, via manipulação digital, pedaços de carne e membros humanos espalhados pelos trilhos para que a imagem da tragédia ficasse menos chocante. Acreditamos que, com o advento da imagem computadorizada, a fotografia está perdendo o próprio status cultural de objeto que registra fragmentos de uma dada realidade. Em outras palavras, a manipulação no computador está abalando o senso comum de que fotos “congelam” momentos de uma maneira inocente, desvinculada dos propósitos de quem a clicou ou a encomendou. O mundo digital, por

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3 - A fotografia deve “transmitir a força das idéias expressas nas reportagens” - A frase consta do texto de apresentação do “novo visual” do jornal O Estado de São Paulo, edição de domingo, 17 de outubro de 2004, quando mostrou seu novo projeto gráfico, em que passou a destinar maior espaço às fotos (pág. A 10). Pode-se notar que a fotografia deve transcender seu papel de registro para ser uma espécie de resumo do que é apresentado nas outras unidades. 4 – O fotojornalismo valoriza o flagrante. Uma narração verbal, oral ou escrita, pode simular que os fatos estão acontecendo no momento da leitura. Já uma foto (e uma filmagem também) terá o valor de atenção proporcional à captura do “momento decisivo”, conceito formulado por Henri Cartier-Bresson: é o aprisionamento imagético do instante clímax de uma narrativa. Nesse sentido, as fotografias mais valorizadas são as de flagrante, não as posadas. Temos uma relação flagrante x posada que estabelece correspondência, respectivamente, com notícias quentes e frias. As fotos posadas são abundantes nas revistas e menos comuns, mas dignas até de primeira página, nos jornais diários. Quase sempre se relacionam com assuntos frios, que não perdem a atualidade facilmente. Podem ser despojadas ou, no limite, feitas em um estúdio, com condições especiais de luz, maquiagem, com elementos cênicos.

Essas estratégias redundam em diferentes tipos de fotos. O que vamos fazer agora é mostrar o resultado dessas demandas no dia-a-dia dos diários e revistas. É importante não esquecer que uma foto, na análise de uma reportagem, não deve ser encarada como texto, apesar de sua relativa independência semântica. Uma foto é sempre um elemento a mais, de maior ou de menor utilidade, no gerenciamento do nível de atenção de uma unidade noticiosa. É também parte de uma encenação que tenta convencer o leitor de que a notícia apresentada é um pedaço da realidade – e não um ponto de vista sobre o que acontece no mundo. Vamos apontar a seguir como as estratégias apresentadas geram diferentes tipos de fotos: das mais comuns – e portanto, com menor potencial de atenção – até as mais admiráveis e, por isso mesmo, mais envolventes:

massificar o controle individual sobre a captura e o tratamento de imagens, ao mesmo tempo em que torna o processo simples, rápido e facilmente reproduzível, vai contribuir para bombardear a fronteira entre ser e parecer no discurso fotográfico que, por mais de um século e meio, conseguiu vender-se para as multidões como “objetivo”. Toda essa discussão, no entanto, nos interessa por outro viés. Nos jornais e revistas, a questão da objetividade não é técnica, mas ética, o que retoma observações do início do trabalho.

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Fotos de registro - É produto da estratégia 2. São as fotos mais comuns encontradas na mídia impressa. A foto de registro é a que mais se aproxima do mero papel ancorador da fotografia nos textos. É utilizada ainda para “decorar” a página, buscar o olhar e tem grande valor na estratégia de fazer crer na objetividade da informação. Serve para mostrar o deputado de quem se fala na parte escrita da matéria, ou o jogador que fez determinado gol, ou ainda como ficou o carro destruído em um acidente. É de fácil decodificação. Pode-se retomar o exemplo da matéria sobre a demissão do técnico do Santos. Deve-se notar que a foto de Oliveira pouco acrescenta em termos de novidade, em acréscimo de informação:

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Foto de síntese – Satisfaz a estratégia 3 - é a mais adequada para representar o que é a “força expressiva” do assunto abordado. Resume toda uma situação tratada na parte escrita da matéria e geralmente apela para a passionalidade do observador (estratégia de sustentação). É o caso da foto a seguir, de Arko Datta, repórterfotográfico da Reuters, que mostra uma mulher chorando a morte de um parente morto pelo tsunami em Cuddalore, Índia, em 28 de dezembro de 2004.152 Fica evidente para o leitor que a realidade não está sendo mais mostrada de maneira “objetiva”, mas filtrada por um conjunto de valores que quer ressaltar determinados simbolismos.

Essa foto, “Tsunami Grief,” ficou em segundo lugar na Pictures of the Year International. Disponível no endereço: http://64.233.161.104/search?q=cache:yeOFsG6rim8J:www.poyi.org/62/15/02.php+Arko+Datta, +Reuters,+%22Tsunami+Grief%22&hl=pt-PT

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uma das raríssimas do tsunami que varreu a Ásia no final de 2004. curiosidade e tensão que o enunciador acreditou despertar no enunciatário. Acreditamos que o ato do fotógrafo de captar um acontecimento no momento de maior tensão narrativa é a essência do fotojornalismo. mereceu o espaço de uma página inteira em caderno especial da Folha de São Paulo sobre a tragédia.Capta o chamado “instante decisivo” (coerção 4) e tem enorme valor documental e impactante.Foto de flagrante . 257 . A foto abaixo. o que ilustra muito bem o potencial de atenção.

mais preencher os requisitos enumerados. no Iraque. 153 Essa foto. acreditamos que.153 Devemos notar que uma foto plástica pode ser também uma foto de síntese e de registro. não raras vezes. de um soldado morto por soldados norte-americanos em Tikrit. determina a perda de parte da iconicidade. de 13 de dezembro de 2003. é a que mais expõe o fotógrafo como enunciador.Foto plástica . De qualquer maneira. ficou em segundo lugar no Picture of the Year de 2004. Vale notar que a busca por uma representação mais estetizada. dessa maneira. O leitor é convidado a uma interpretação mais pausada. mas pode ou não ter características de síntese e impacto estético. mais uma foto cumprirá a sua missão de engajar e manter o enunciatário na leitura no jornal. Há um forte sentido de “autoria” da foto.Busca efeito estético (estratégia 1) e. Essa imagem será sempre uma foto de registro. ou seja. da agência AFT. Um exemplo notável é essa foto do fotógrafo brasileiro Maurício Lima. elaborada. 258 . de um ponto de vista subjetivo. Já a foto de flagrante é um caso particular. da representação do real. quanto mais “completa”. “Dead Iraq”. A foto de síntese freqüentemente cumpre a função de ser um registro.

Nenhum outro tema recebeu tamanho espaço no jornal daquele dia: 259 . a análise permite investigar algumas estratégias ligadas ao plano de conteúdo e dar acesso às visões de mundo dos dois meios de comunicação.O jornal de segunda-feira. Além de fornecer mais um exemplo do que foi discutido até o momento. 15 de dezembro de 2003. que cobre assuntos internacionais. Folha .Análise de abordagem: a prisão de Saddam Hussein Neste item. vamos comparar a cobertura da Folha de São Paulo e de Veja da prisão de Saddam Hussein. dedicou ao assunto cinco páginas e meia das seis da editoria Mundo.

260 .

O leitor que folheava o jornal precisava ser surpreendido ao chegar na parte das notícias internacionais e. 261 . uma espécie de página de manchete exclusiva para que o assunto fosse introduzido.Deve-se notar como o jornal construiu. sentir a valorização do tema. A estratégia de arrebatamento é evidente. Há enorme diferença na diagramação da página que antecede a da cobertura da prisão de Saddam. assim. na editoria Mundo.

assim. dessa vez. Não podemos esquecer que o jornal já tinha dado ao tema um grande espaço na primeira página: O jornal apresenta a cobertura da prisão do ex-ditador do Iraque por meio da seguinte divisão entre páginas e assuntos: A11 – Performance da captura de Saddam e detalhes do esconderijo A12 – Sanção do presidente dos EUA e de outros políticos norte-americanos . Tony Blair.A Folha faz. e de outros líderes europeus 262 . dessa vez com mais detalhes. uma segunda página de manchete. Busca-se atrair o olhar com o procedimento de fazer o leitor se interessar pelas fotos e infográficos e. já “arrebatado”. Dois terços da página inicial são ocupados por fotos (com detalhe para o conjunto de quatro imagens de Saddam justapostas. com destaque para o vermelho utilizado na metade inferior “nas mãos dos EUA”. dentro da estratégia de sustentação. dedicada a um só assunto e aos seus desdobramentos. Devem ser notados os títulos em letras maiúsculas (caixa alta). ficar com vontade de ler detalhes da captura por meio das matérias. o que o conduz para a necessidade de satisfazer curiosidades sobre o assunto. e a repetição do mesmo infográfico utilizado na primeira página. como se fosse a seqüência de um filme).Sanção do primeiro-ministro da Inglaterra.

principalmente se ele teve acesso a meios mais rápidos. a Internet. a TV. mostrouse errada. como já apontamos.Comportamento de Saddam na prisão A14 – Como poderá ser o julgamento de Saddam . O 263 . É apresentado o clímax da história. sempre no início. A notícia mais fria. O último assunto a ser abordado dentro do tema é o estouro de um carrobomba no Iraque. Busca-se fazer o leitor ficar curioso não só para os detalhes como também.bomba explode e mata 17 iraquianos A disposição das unidades noticiosas informa que a parte mais valorizada é a captura. de que a resistência armada contra os EUA deveria diminuir com a prisão de Saddam. para obter um efeito de atualidade do material. A performance e as repercussões mundiais são apresentadas com grande afastamento enunciaçãoenunciado. por exemplo. à medida que a edição avança. separando sua enunciação da enunciação dos jornais e do governo dos Estados Unidos.Avaliação de que a prisão é trunfo eleitoral de Bush . o relato da vida de Saddam. fato já acontecido. passado – com análises e comentários sobre as repercussões da prisão do ditador. Na Folha. como já apontado. depois o impacto no Iraque e no mundo Árabe. As armas mais importantes para prender a atenção estão. A análise de Sérgio Dávila. interpretativos e opinativos também é bastante marcada. para as conseqüências da detenção de Saddam.. É esse exercício de futurologia que faz com que o jornal garanta certa identidade para o material apresentado e a sensação de que a edição não é um mero relato de acontecimentos já sabidos pelo leitor. a divisão jornalística entre textos factuais ou “objetivos”. Essa necessidade de agregar ao fato principal ou gerador um elemento de atualização. O diário tenta não se envolver com o discurso norte-americano. Podemos notar que o jornal.Expectativa de abertura democrática no mundo árabe A16 – (Só principal matéria envolve o Iraque) . fica para a penúltima página. distribui notícias envolvendo a performance principal – a captura. depois a repercussão nos EUA e no mundo.Divisão no mundo árabe A13 – Repercussão em Bagdá .Esperança de analista na diminuição da resistência armada . faz com que se pise no perigoso terreno da especulação.“Comentário” sobre as imagens de Saddam . como o rádio. a performance da prisão.Cálculo de mortos pelo regime A15 – Retrospectiva de Saddam no poder .

É o caso de “Chove tiro na antiga Saddam City” (A13). o chefe americano no Iraque foi aplaudido. escrita por Cíntia Cardoso. há um efeito de intimidade. na A14 (“Resistência deve diminuir”) fala diretamente ao leitor no trecho final da matéria: “De resto. O lado emocional do leitor. o ponto de vista árabe. a cobertura figurativa das matérias principais – um meio de investigar filiações ideológicas . o jornal privilegia o ponto de vista norte-americano.) O propósito era o de destroná-lo energicamente no plano simbólico. ou de afastamento em relação ao que narra. Na matéria. espere nova onda de patriotismo americano. No geral. já demonstrado no anúncio da captura. Para mim. Até mesmo o texto de Veja sobre o assunto. apoderar-se violentamente” (Aurélio) que “ocupação” não tem. inclusive. A imagem se destinava ao consumo interno iraquiano e com ao menos duas finalidades. notadamente dos iraquianos em Bagdá. E ainda sobrou para o consumo simbólico nos demais 264 . Sérgio Dávila. de Robert Fisk. Eu estava sentado no chão de concreto da casa de um clérigo xiita morto por um tanque americano. É o caso do trecho a seguir: “Na cobertura das televisões americanas.. Por exemplo: fala-se em “ocupação do Iraque” em diversas unidades noticiosas. no entanto. por Paul Bremer. com um raríssimo (no jornalismo) texto com um “eu” claramente marcado. para a subjetividade.. com grande efeito de “neutralidade”.recurso mais comum são as aspas. por exemplo. Nos textos interpretativos. para contrabalançar. se refere à guerra também como uma “invasão”. João Batista Natali (“Imagens da TV desumanizam ditador deposto” – A14) faz comentários relevantes sobre o que ele chama de operação de mídia dos Estados Unidos: “(. usurpar. há outros exemplos. que busca simbolismos. Aos partidários da ditadura deposta era um recado de que a resistência à ocupação militar norteamericana estava acéfala. Na própria cobertura da Folha.” Entretanto. Ao dizer as palavras ‘We got him’ (nós o pegamos). foram os disparos de armas de fogo que anunciaram a notícia. em certos momentos. a Folha faz uma cobertura “escrita” com forte apelo racional. A imagem de Saddam como um mendigo é um grande exemplo de fotografia de síntese. é explorado por meio das fotografias. diz Bush”.) Vamos nos recordar de onde estávamos quando Saddam Hussein foi finalmente capturado.” Há espaço. Na pág. A12. correspondente em Bagdá do “Independent”: “(.. dignidade e respeito. expressões como ‘fim do regime de terror’ e ‘grande vitória de Bush’ predominaram.” Na publicação como um todo.. de modo a tirar dele reminiscências residuais de autoridade. recebe grande destaque. analisado depois. que tem um sentido de “entrar à força.mostra que. Para as vítimas numerosas da ditadura ou para as lideranças muçulmanas reprimidas era o sinal de que o pós-saddanismo se tornava de uma vez por todas irreversível. de Nova York. esse cuidado está no título principal: “Acabou a ‘era de trevas’.

. A capa da edição 1834 foi sobre fé. é um número especial. do Ano Novo. por exemplo. demonstração de sua fraqueza e fragilidade que se contrapõem à imagem de ditador besta-fera e assassino de centenas de milhares de iraquianos que ousaram desafiar o regime. Fica evidente que a Folha quer mostrar-se como “jornal completo”. pág. (.) Tentou ainda atropelar princípios da ONU (. é oferecido para que o leitor faça o caminho que achar mais conveniente.) procurou e conseguiu se impor como liderança regional. quase o tempo despendido para ler a Veja inteira ou para assistir a três edições do Jornal Nacional. por meio do excesso. Para compensar. é aquele que pode ser lido em 10 minutos ou três horas. porém. 265 . O grande número de unidades noticiosas (há.). O leitor tem esse direito".. em que é possível discordar de Natali na análise que ele faz da fotografia do ex-ditador. a revista sempre apresenta uma retrospectiva (o que garante certa atualidade para a leitura).. autor do último projeto gráfico da Folha: "Um bom jornal. (. no entanto. O objetivo é dar opção para o leitor que tem tempo de ler o jornal e para o que não tem. matérias especiais de temas amplos. A imagem de Saddam barbudo e sujo é justamente a de sua humanização. 154 In “ Novo projeto gráfico estréia terça para realçar informações essenciais e dar mais leveza ao jornal” – Folha de São Paulo. 7 de maio de 2000. três infográficos).países do mundo árabe. ou no máximo um prisioneiro sem vontade própria. também de assuntos que não envelhecem facilmente..) Saddam (. de 24 de dezembro de 2003.. É costume a última Veja do ano ser mais “fria”. 14. Não menciona autor... A imagem que restará dele será agora a de um médico militar inimigo que o examina como se ele fosse um bicho. O jornal também insiste em explicar com enorme número de detalhes tudo o que aconteceu. e um suplemento especial. Não há edição na semana seguinte.. com o bombardeio crescente da mídia.154 Veja – A revista que tratou da prisão de Saddam na edição 1834. O resultado é um material que pode consumir de duas a três horas de leitura. Como lembra Scarpellini.” Há um ponto.

Apesar de não ser capa. Veja abordou a captura de Saddam quase uma semana depois de o fato ter acontecido. Vejamos o que foi feito. Outras estratégias foram pensadas. com o título: “Como ficar mais bonito e saudável” foi encartada na publicação. é possível pensar que se trata de um tema mais indigesto para os leitores. Uma discussão sobre fé parece ser mais palatável. O assunto já tomara grande parte do tempo e do espaço de outros noticiários. a prisão de Saddam recebeu grande destaque espacial.Uma edição especial sobre Saúde. Há várias razões para o texto de Saddam não ocupar a primeira página. que iam receber a revista na véspera do Natal. Os jornalistas da revista não poderiam apenas apresentar as mesmas informações e análises sobre a prisão já dadas pelos outros jornais. com nove páginas: 266 . Inicialmente. Por outro lado.

267 .

268 .

para contrastar com as fotos dos cadáveres dos filhos do expresidente e para lembrar que os genros foram mortos pelo próprio ditador. que vai se desdobrar. Presidente do Iraque. O conjunto mais evidente é encontrado logo no primeiro conjunto de páginas. Glorioso Líder. mãe e filha curdas. não exatamente por meio da apresentação de uma performance de captura do ex-ditador.000 dólares que guardava numa maleta. investe na passionalização do leitor. O primeiro parágrafo é primoroso nesse procedimento e afirma que Saddam. O texto. liberdade x prisão. mortas por armas químicas. a escolha do material fotográfico e infográfico. Tentou-se mostrar como a prisão exacerbou contrastes. em uma série de outras relações: luxo x miséria. ostentação x privação. Esse tom aparece em todo o texto e se apresenta como o “diferencial” em relação aos outros noticiários: a busca da curiosidade – estratégia de sustentação . Saddam. estava armado com dois fuzis AK-47 e uma pistola. Marechal-de-Campo de seus exércitos. não se matou com um tiro. o “galã”.do leitor. Tentou.Grandes letras brancas em fundo preto. 13. O tirano que dispunha de 23 palácios para uso pessoal tinha se escondido numa cova de 1. quase mendicante. como fez Adolf Hitler em situação similar em 1945. que ocupa a maior parte dos espaços da reportagem. Grande Tio de todos os seus clãs e tribos. que propalava ser a personificação da tradição guerreira árabe. fotos diagramadas em clara oposição no espaço das duas primeiras páginas mostram o investimento inicial na estratégia de arrebatamento.80 por 2. No segundo conjunto de páginas duplas mostra-se o palácio e também a cozinha do casebre onde o ditador foi encontrado. Temos os “dois” Saddam: o poderoso. No terceiro conjunto. é “o fim melancólico de um dos tiranos mais sanguinários dos tempos modernos”. vida x morte. isso sim. suborná-los com os 750. Não engoliu uma cápsula de cianeto. explicitado no terceiro parágrafo.” 269 . imediatamente. um infográfico toma quase as duas páginas com uma grande foto de Saddam com a família. na noite de sábado. no quesito covardia. O “gancho” do texto como um todo. o ungido. com uma tampa de concreto camuflada com lixo. nem atirou nos soldados. O último conjunto de páginas duplas conclui a reportagem com a apresentação de cinco vítimas de Saddam. quase todos sorridentes. Presidente de seu Conselho de Comando da Revolução. Comandante-em-Chefe da Imortal Mãe de Todas as Batalhas. figurativamente. Chama a atenção. mas entregou-se sem resistência. força x fraqueza. de José Eduardo Barella. foi descoberto num buraco. Há imagens de conteúdos díspares.40 metros. cuidadosamente relacionadas para formar quase um paradoxo visual. é pior do que Hitler: “Saddam Hussein. e o vencido. Há uma categoria de base. Descendente direto do Profeta. um “fazer-odiar”. coragem x covardia. entre elas.

. o presidente americano desistiria de derrubá-lo e ele poderia retomar sua rotina de ditador. opressão. de autoria de André Petry (“E nem parecia Bush. para não perder o tema. Há relatos de torturas.) discute as razões do “tom sóbrio” adotado pelo presidente dos Estados Unidos ao fazer um pronunciamento ao povo norte-americano. pela última vez. Há um aspecto notável desse texto. Retoma-se. No total. justifica a própria invasão norte-americana: “Só o delírio causado pelo poder absoluto. estatísticas. que tudo sabe. pode explicar por que ele preferiu o confronto. o de parecer discutir o anterior em alguns momentos. assim. e portanto incapaz de produzir efeitos práticos?”. assassinatos. pergunta. Tenta-se atenuar a forte carga opinativa com informações. Mas a matéria é cuidadosa ao dosar o teoricamente já conhecido com o novo na busca do efeito de atualidade. o texto segue um tom comum na Veja. que desperte o nível de atenção esperado do leitor.” O último texto das nove páginas motivadas pela prisão do ex-ditador do Iraque.. dirigindo-se aos jurados.) Ele acreditava que. para Veja. jornal Sunday Times) e mostrar que tudo o que é apontado só pode ser a única conclusão possível. de tortura à morte.. 51 foram assassinados sob acusação de traição.Como um todo. o relato sobre a “ambição” de Saddam que. aliado à depravada indiferença para com a desgraça de seu povo. a reação de Saddam na prisão e. ou dito de outra forma. (. retoma. como as guerras. Saddam. contudo. Colin Powell. como resumiu o secretário de Estado americano. argumentos de autoridade (ONU. fortíssimo. crueldade. resta apenas jogá-lo na lata do lixo da história. Os relatos das atrocidades do ex-ditador não são exatamente “fato novo”. Depois. Agora. faz mais descrição de torturas. dirige foco para os próprios parentes de Saddam. análises que também funcionam como elementos de atualização. Os iraquianos são apresentados como vítimas. que impunha sua vontade (fazer-fazer ou fazer-agir) na base do dever e sob pena de sanções pragmáticas severas. A quinta página da seqüência (número 37). A revista não esconde o papel de promotor da acusação. com muitos detalhes. explicitando as artimanhas da revista na busca da passionalização do leitor e sua relação com o ponto de vista norte- 270 .. em um único parágrafo. revista Forbes. “Será que a Casa Branca percebeu que a captura de Saddam é só um símbolo – forte. mas um símbolo apenas. o que Veja faz é construir para o ex-presidente do Iraque o papel de anti-destinador. após os bombardeios. Mais do que a figura de um anti-sujeito. aparece como fonte de anti-valores: tirania. o de sanção. Há discussões sobre as formas de julgamento do ex-ditador e as conseqüências para a “ocupação norte-americana”. O texto termina com uma especulação mais ampla. “episódios documentados”. sujeitos obrigados a manter relações com objetos que lhes causam repulsa. Acabou. ‘como um detrito esperando para ser coletado’.

o relato de Veja serve para desencadear no leitor a paixão da vingança contra Saddam. o Baath. “revoltado”. Em outro trecho. que “se ressente de estar sob as botas de um ocupante estrangeiro”. a de despertar simpatia pelos norteamericanos e sua incursão no Iraque. É interessante que o caminho buscado por Veja foi ver. pág. A transição de conquistadores para construtores de nações vai demandar ainda toda a energia criativa e muito da riqueza americana. na prisão de Saddam. 56.. terroristas da Al Qaeda e até mesmo a classe média iraquiana. ao criar um leitor tenso. É nesse sentido que acreditamos que todo o emocionalismo do texto principal. continua o analista. autoritária. O ano termina com as expectativas americanas e as de seus adversários bastante diluídas. Mas a catarse tem possibilidade de acontecer via apoio à ação do governo dos Estados Unidos. cuja biografia. Veja cita a guerra do Iraque e lembra a seus leitores que a missão de Bush foi a de “implantar a democracia no país que foi de Saddam Hussein”.. minoria da qual o ex-presidente do Iraque fazia parte e que perderam influência política. Na Retrospectiva 2003. com amplo apelo às injustiças cometidas contra famílias. que tem uma estratégia de sustentação particular. (.) Nem toda a força econômica dos Estados Unidos é capaz de fazer valer sua cultura e modo de vida em um país derrotado e empobrecido como o Iraque. É evidente que o leitor não pode ir à desforra contra o exditador. como estratégia de sustentação. a revista sai em defesa do governo Bush: “Nesses oito meses. Busca-se.” No momento seguinte. tem clara função ideológica. a ação armada americana no Oriente Médio prendeu a atenção do mundo e levantou suspeitas de ressurgimento do imperialismo de dominação territorial. na mesma edição. prática colonialista do século XIX. Numa análise narratológica da enunciação. facilitou amplamente a tarefa. nem a democracia no Iraque deve ser construída tão cedo. Nem Bush e seus assessores neoconservadores têm planos de dominar o mundo. os soldados fiéis ao ex-ditador. a empatia do público com as vítimas. enterrada no século passado. Ele cita os militantes do partido de Saddam. tudo fica mais complicado porque “há muita gente sem lugar no Iraque do pós-guerra”. os sunitas. contra crianças massacradas para que pais confessassem crimes. a Casa Branca precisou demonizar Saddam. Veja não esconde suas simpatias nem do que quer convencer. sangrenta.americano: “No jogo de guerra.” 271 . uma justificativa para convencer seus leitores da importância da guerra dos EUA contra o Iraque.

O próprio UOL acomoda versões eletrônicas da Folha de São Paulo. a ordem dos estudos específicos tem uma justificativa. na conclusão. de Veja e de inúmeras outras publicações jornalísticas. essa característica é mais perceptível do que na Internet. 272 . Em função disso. será o de recortar com mais precisão o próprio objeto. Como foi dito no início da segunda parte do trabalho. Como o assunto é de enorme amplitude. uma comparação com as coberturas dos outros noticiários. A investigação de um portal como veículo de jornalismo não deixa de trazer questionamentos e dúvidas. adaptadas. foi escolhido o portal UOL para estudo. Nosso primeiro procedimento. a cobertura da prisão de Saddam Hussein servirá para mostrar alguns modos de textualização. nesta parte do trabalho. apresentar formas de abordagem do assunto e permitir depois.PORTAL. portanto. notadamente das características do funcionamento do gerenciamento do nível de atenção em determinados objetos jornalísticos na rede mundial de computadores. Uma teorização sobre o jornalismo e a Internet precisa enfrentar certas dificuldades. tivemos a preocupação de apresentar reflexões que não fossem facilmente sepultadas com a descoberta de novos usos para as tecnologias de informação digital. Finalmente. Em nenhum veículo. Limites e vantagens tecnológicas sempre vão determinar formas de relacionamento entre um meio de comunicação e seu público. explicamos com mais detalhes algumas questões de ordem técnica para o entendimento do objeto de análise e seus impactos. Diversas reflexões dos outros noticiários serão agora reaproveitadas e.JORNALISMO NA INTERNET O último ponto de análise da tese é o jornalismo na Internet. em certos momentos. Qualquer estudo corre o perigo de envelhecer precocemente. Para enfrentar o problema. A rede também vive uma evolução muito mais rápida do que a experimentada por outros veículos de comunicação. porém.

blogs. Conteúdo é “a informação disponibilizada pelos sites aos seus leitores. o telégrafo e o fax. deixando bastante complexa a questão do próprio suporte existente. Desse modo concilia algumas observações que acabamos de fazer e permite situar melhor nosso objeto de estudo. a de memória de toda produção intelectual. que são pequenos jornais ou newsletters em forma exclusivamente eletrônica. “como meio de comunicação social. a de mídia. boletins. fazer entrevistas. 157 O portal. sites 156 e portais. A Internet acumula outras funções importantes. vamos nos referir a essa definição como conteúdo-web. que são amplos espaços com grande número de conteúdos e informações. O autor explica que. vídeo ou infográfico” (Ferrari. em sua maioria. finalmente. Beth Saad lembra que “as operações digitais brasileiras acabaram. não está no mesmo nível dos sites. que pode vir em formato de texto. acolhe. Kuncinski refere-se à Internet como “mídia” no sentido mais geral. acessíveis de qualquer parte do mundo” (2005: 73). modifica e mesmo inaugura outras mídias. artística e científica. 273 . a mais nova depois da invenção da TV nos anos 1950. mas que na Internet assume caráter também de comunicação socializada.a Internet e o portal Bernardo Kucinski afirma que a rede mundial (também conhecida por world wide web – daí o famoso “www”) exerce e combina quatro características principais relativamente distintas: “A função de transmissão de dados. de “meio de comunicação”. sendo 155 156 Blogs são diários on-line.Considerações gerais . Há alguns reparos possíveis nessa classificação. que são versões às vezes resumidas ou seletivas de publicações que já existiam e continuam a existir em forma impressa. na forma de arquivos digitalizados. que não existiriam se não fosse a Internet. os e-mails. boletins. características que perpassam as quatro funções apontadas. como mídia. inclusive publicidade e programas de venda direta. foto. sem contar a possibilidade de consumir ou “baixar” músicas e filmes. como a de meio de comércio eletrônico (e-commerce). Também apresenta um amplo espaço para entretenimentos específicos. 157 É mais preciso dizer que a Internet. A rede permite a compra de produtos. há uma superação dialética entre público e privado” (idem: 76). 2004: 97). que permite acessar bancos de dados. e. ler jornais e publicações de todo o mundo e trabalhar com base nesse material. caso dos jogos on-line. Em todas essas formas. Como em um estudo semiótico a palavra pode causar problemas. uma modalidade de correio ou comunicação interpessoal. a Internet se apresenta em várias formas: blogs 155 pessoais. facilita o acesso a serviços e exibe verdadeiros estabelecimentos virtuais. no entanto. a de ferramenta de trabalho. ampliando o leque de instrumentos de meios de transmissão que compreende também o telefone. jornais e revistas on-line.

Ao mesmo tempo em que “engloba” tudo. superior.com. que se auto-intitula “o maior provedor da América Latina”. de várias áreas e de várias origens. “Os portais tentam atrair e manter a atenção do internauta ao apresentar. Pollyana Ferrari afirma que o termo “portal”. sair do final de uma página e voltar ao início com um toque do mouse em um desenho). começou a ser usado em 1997 (2004:18).Reino Unido. Trata-se do domínio. que mantêm computadores denominados servidores. é notável também verificar que a página inicial do UOL é a própria síntese da Internet e de suas possibilidades. Isso é evidente Hiperlinks ou links são elos entre elementos de um site que possibilitam: 1. registrou seu principal domínio no Brasil. Graças aos links. menos os Estados Unidos. pois apresenta inclusive os recursos listados inicialmente como funções da rede. pausado. não deixa de ser também parte “englobada”. por exemplo.a passagem de um documento a outro. reunidas em torno de um determinado tema e interessadas no detalhamento do conteúdo em questão e seus respectivos hiperlinks em novas janelas de browser” 159 158 que surgem (idem: 30).uk . não nasceu para ser um jornal digital. Fica agora mais claro o recorte proposto. supondo-se que um portal é mais importante que uma página web” (2003: 250). como www. consideramos aqui o portal como “texto” na acepção semiótica. é preciso ter ainda um programa que “puxe” e dê visibilidade às páginas de um site hospedado em determinado servidor.fr . Ponto de partida do internauta para que possa utilizar a Internet. 2. que pode ser colocado em funcionamento. O UOL. é recoberto com siglas e nomes para ficar mais fácil de decorar. sem indicação de país de origem. entre outras possibilidades. Empresas que querem parecer globalizadas adotam um domínio internacional. A solução ajuda a formar ‘comunidades’ de leitores digitais. . 159 Os sites ficam armazenados em provedores de acesso. Esse fato não é nada inocente do ponto de vista ideológico. Outro ponto interessante é que todos os países do mundo têm uma identificação com duas letras nos domínios (. é preciso conhecer seu endereço na rede.globo. Esse programa é o browser ou navegador (como o Explorer e o Netscape). acima da hierarquia e das regras impostas aos outros países. O endereço eletrônico já é produtor de sentido. como o do portal da Rede Globo: www.globo. Além de um computador conectado a rede.com. seja por refletirem verdadeiramente uma estratégia de amplo acesso. numérico. seja por uma questão de marketing ou de status.a passagem de um ponto a outro de um mesmo documento (como. Existe um enunciador que precisa manipular um enunciatário para que se estabeleça um laço.frança. o portal é ainda um filtro que hierarquiza o mundo caoticamente apresentado em formato digital. O portal. chamadas para conteúdos díspares. De qualquer maneira. uma convivência. como significado de “porta de entrada”. 158 274 .cunhadas como ‘portal’. Ferrari também aponta a questão que mais nos interessa: “O conteúdo jornalístico tem sido o principal chamariz dos portais”.com. só para citar dois exemplos). caso de um vídeo. e tem o endereço www. por exemplo. nem mesmo para ter características jornalísticas. “navega” onde quer e quando quer. como “invenção”. Os Estados Unidos aparecem como espaço globalizado.uol. Para ter acesso a um site. na página inicial. Como veremos depois. que acaba por garantir a própria sobrevivência do serviço.br. registrado nos Estados Unidos. Esse endereço (ou URL). a Internet ganha sua grande característica: o internauta constrói seu próprio caminho dentro da rede. 3 – O controle da ação de um elemento.

Para completar os efeitos de atualidade e de sensação de “fluxo”. Um terceiro caso. O jornalismo. característica dos textos de manifestação temporal. foi exibir os principais assuntos por meio de uma hierarquia que privilegia a sensação de máxima proximidade com o tempo presente – cronológico . e uma outra página que chama a atenção para um assunto de grande destaque. A razão é simples. a homepage propriamente dita. o internauta. Desse modo. 160 275 . Foi preciso então encontrar meios de representar a idéia de fluxo. predominantemente estática. erroneamente confundida com o site. consegue o efeito de sentido de representação do A página inicial de um portal ou site geralmente é a homepage (ou casa-página). A tela. geralmente uma imagem em movimento. no entanto. é o aparecimento de uma pequena propaganda ou chamada. A principal solução pensada. Cada portal. as notícias vão sendo trocadas em intervalos curtos de tempo. mas existe. ao enunciar o tempo todo sobre um conjunto de fatos. no seu processo interpretativo. apresenta uma forma de textualização de base espacial.do enunciatário. em pleno “desenrolar”. Aos poucos. portanto. Podemos observar ainda hoje as unidades noticiosas sendo apresentadas. deve reconhecer que está diante de informação “nova”. o carregamento simultâneo de duas páginas iniciais.quando se vê a homepage 160 do UOL de 1999. O formato repetia-se todos os dias e dava a impressão de enorme imobilidade. Percebeu-se que a maior coerção de um site ou um conjunto de sites que formam um portal era a de se mostrar em constante atualização. Só que se relacionam a acontecimentos que acabaram de ocorrer ou em pleno desenrolar. o jornalismo foi ganhando mais e mais espaço. antes do carregamento da homepage. o pop-up. uma pequena introdução. e ainda válida. hierarquizadas no espaço da página. É mais raro. não foi somente escolhido pelo interesse do público nas notícias. Alguns sites têm. ou seja.

apresenta as mais evidentes estratégias de gerenciamento do nível de atenção do internauta. Dessa maneira. ou de grandes ONGs. As ONGs falam dos andamentos de seus projetos. Como principal entrada. 161 Formas de textualização Em um estudo sobre o portal. bastante comum entre construtores de sites (ver. por exemplo. em sua arquitetura. A textualização de uma home-page e a primeira página de um jornal têm procedimentos parecidos. 276 . na home. Antes de apresentálas em detalhes. Basta ver. por exemplo. Temos na página inicial de um site geralmente “notícias” que não passam de informação atualizada sobre os próprios enunciadores. digitalmente. anunciam seus últimos contratos. Um portal apresenta. As agências. manifestações gráficoplásticas que têm uma série de pontos em comum com as encontradas nos jornais impressos. Podemos falar que. é também o espaço ocupado e o posicionamento dos elementos que mostram os valores em jogo em relação às notícias. Saad. o público não só fica sabendo das “novidades” como também é manipulado para enxergar o próprio dinamismo do site e de seus donos. Trata-se do ponto inicial de visitação. enfim. Relembremos que estipulamos quatro “leis de diagramação” para os jornais e revistas impressos: 161 O recurso de apresentar “notícias” para dar impressão de atualidade a um site ou portal virou lugar comum na rede quando se percebeu seu potencial. por exemplo. Em outras palavras. a palavra “arquitetura”. podemos conhecer o que ele considera mais – ou menos – importante. sua visão de mundo. o que valoriza e o que “esquece”. podemos utilizar – com adaptações . Grande hierarquizadora dos assuntos de um site. é preciso conhecer melhor a homepage. a homepage também escancara os valores do enunciador. Por meio da primeira página. 2003: 259) denuncia que se fala de organização do texto por meio de relações espaciais.os conceitos de espaço/nível de atenção propostos para as publicações de papel. os sites das principais agências de publicidade brasileiras.próprio pulsar da vida cotidiana e de inserção do internauta nesse movimento incessante. seus anúncios mais recentes. Aliás. a homepage merece o maior empenho. parte considerável de sua ideologia.

Entretanto. Essa lei obriga a colocação das principais informações e dos elementos de mais impacto sempre no começo. A página a seguir foi capturada às 10h30 da manhã da terça-feira. Categorias topológicas de expressão Maior volume ocupado x menor volume ocupado Parte de cima x parte de baixo Exterior x interior Inicial x final Correspondência no plano de conteúdo Maior valor e potencial de atenção x menor valor e potencial de atenção Vejamos os elementos da homepage do UOL para verificar a pertinência dessas relações dos impressos no portal. Terceira lei: a máxima valorização espacial acontece na capa ou primeira página. Segunda lei: tudo o que estiver na parte de cima tem mais valor do que na parte de baixo. O potencial gráfico- 277 . A manchete principal aparece com um corpo de letra maior. Quarta lei: o início de uma unidade noticiosa é o espaço mais valorizado. 10 de maio de 2005: Podemos verificar que as “leis” dos impressos são aplicáveis para o estudo da primeira página do portal.Estratégia do plano de expressão Primeira lei: o valor de uma unidade noticiosa é proporcional ao espaço a ela concedido. há pouca variação de corpos e espessuras de letras nas contínuas atualizações da homepage. ocupa mais espaço. está na parte de cima.

e a disposição imóvel das letras. em cinza. O olhar do internauta pousa no branco do retângulo das principais manchetes porque as outras partes do portal. mas também cromáticas.de “notícias” e de “e-commerce”. Quase todas as manchetes. A home tem três partes principais. amigos virtuais. portanto.que é diferente da existente nos impressos. como se autodefine o UOL. essa porção visível aparece dentro do retângulo pontilhado).plástico é pouco explorado. porém. são conteúdos-web já em forma de manchete. de notícias. Analisemos um pouco mais a parte central. ou seja. constata-se que a ocupação dos espaços da home do portal é bastante fixa. Só que. acabam por destacá-lo por contraste. por serem coloridas.Jornais e Revistas. sexo. A parte central também permite acessar as estações. a divisão entre partes de “serviços” . o retângulo das manchetes está na parte de cima. De qualquer maneira. A tela que aparece no computador é geralmente a metade superior (no gráfico. entre outros . importantes e chamativas na ótica do enunciador. levando-se em conta somente a parte inicialmente exposta no carregamento da página. é de organização e hierarquização. O efeito pretendido. mas sua característica maior é a de ser uma coletânea do que as estações têm de mais chamativo e atual. Deve-se notar que o internauta. O retângulo central branco é o principal ponto de valorização e captação da atenção para determinados assuntos. Há uma categoria . à esquerda e no topo. Lá estão as notícias mais quentes. tendendo ao cinza. Isso cria novas relações. se impôs em um suporte que tem a possibilidade de apresentar não só um. dá acesso principalmente ao que os administradores do UOL chamam de “estações”. O “principal portal de conteúdo do país”. Na terceira parte. Seu dinheiro. Do ponto de vista da página inteira (parte exposta mais a parte oculta). principalmente para o material jornalístico. Os temas aparecem em caixas cujos títulos ficam em um retângulo vermelho escuro e com as chamadas em fundo bege. tem uma organização muito semelhante à de um jornal impresso. o mesmo bloco de manchetes está na parte central.aqui no sentido de uma organização de assuntos que permite o acesso rápido do internauta ao que ele procura . São sites que organizam os principais conteúdos-web disponíveis: biblioteca. Outro ponto a observar é a função não só das relações topológicas. Esses conteúdos-web . de uma tragédia à vitória de um time de futebol.não são fixos. há o shopping UOL. precisa “rolar a página” com o mouse. É notável como o verbal.exposto x oculto . que tem assim máxima visualização. Em outras palavras. mas diversos objetos em movimento e simultaneamente. A parte azul. nos 278 . É nítida. para ter acesso a tudo o que há no portal. O retângulo laranja mostra o conteúdo multimídia. aparecem da mesma maneira. E há blocos de conteúdosweb distintos. uma forma de construção de sentido por meio da aspectualização do espaço que. jornais.

diários, de maneira geral, pouco se alterou em décadas.

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Os elementos que se

movem – ou seja, apresentam relações também temporais - são quase sempre publicitários. Isso quer dizer que a estratégia de arrebatamento, quando a página é carregada na tela do computador, vincula-se principalmente às unidades de “ecommerce” e não às jornalísticas. A atenção inicial deve ser fisgada para que o enunciatário se interesse em realizar compras ou em adquirir serviços por meio do site. Podemos notar, no portal, a presença dos quatro grandes conjuntos significantes já mostrados nos jornais impressos: 1. Verbal, manifestado tipograficamente - Na home analisada, há pouca variação. 2. Fotográficos – Também aqui, há pouca variação de tamanhos na home. Como grande parte das fotos deve ser pequena, há uma profusão de “carinhas”, retratos.

Entre os autores consultados, é constante a observação de que a Internet, e notadamente o chamado webjornalismo ou jornalismo digital, ainda se apóia em modelos conhecidos porque todos os interessados na questão – empresários, jornalistas, acadêmicos – ainda não sabem muito bem como utilizar todas as potencialidades da rede. Em “Webjornalismo de Terceira Geração – continuidades e rupturas no jornalismo desenvolvido para a web”, Luciana Mielniczuk (http://www.adtevento.com.br/intercom/resumos/R08161-pdf - acessado em maio/2005) busca respostas, mas constata: “Navegando por webjornais, há alguns anos, tinhase a impressão de estar lendo o jornal impresso na tela do computador. Hoje, a situação mudou bastante, encontramos muito mais links e recursos de multimidialidade, mas não vemos nada de muito diferente do que já foi visto. A ‘novidade’, por enquanto, é que podemos ler o jornal impresso, assistir ao noticiário de televisão e ouvir o noticiário do rádio, na mesma tela do computador, de maneira quase simultânea.” Marcos Palácios, em “Jornalismo Online, Informação e Memória: Apontamentos para debate” (disponível em www.facom.ufba.br/jol/pdf/ 2002_palacios_informacaomemoria.pdf – último acesso em maio/2005) enumera as possibilidades – mal utilizadas - do jornalismo de Internet: multimidialidade/convergência, interactividade, hipertextualidade, personalização, memória, e a instantaneidade do acesso, que permitem a atualização contínua do material informativo. O autor, ao mesmo tempo, lembra que mesmo essas características, separadamente, não são privilégio do web jornalismo, que não apresenta uma grande ruptura em relação às outras maneiras de buscar, tratar e distribuir notícias, mas é, antes de tudo, uma continuidade e uma potencialização dessas mesmas formas: “A Multimidialidade do Jornalismo na Web é certamente uma Continuidade, se considerarmos que na TV já ocorre uma conjugação de formatos mediáticos (imagem, som e texto). No entanto, é igualmente evidente que a Web, pela facilidade de conjugação dos diferentes formatos, potencializa essa característica. O mesmo pode ser dito da Hipertextualidade, que pode ser encontrada não apenas em suportes digitais anteriores, como o CD-ROM, mas igualmente, e avant-la-lettre, num objecto impresso tão antigo quanto uma enciclopédia. A personalização é altamente potencializada na Web, mas já está presente em suportes anteriores, através da segmentação de audiência (públicos-alvos). No jornalismo impresso isso ocorre, por exemplo, através da produção de cadernos e suplementos especiais (cultural, infantil, feminino, rural, automobilístico, turístico, etc); no rádio e na TV a personalização tem lugar através da diversificação e especialização das grades de programação e até mesmo das emissoras, como no caso da RTP Internacional, totalmente voltada para a Comunidade Lusitana na Diáspora.” Para Palacios, o webjornalismo encontra sua especificidade potencializando e principalmente combinando as características descritas, notadamente a que envolve a memória, o acesso às informações acumuladas.

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3. Pictóricos - Na home, os recursos pictóricos também não são muito utilizados. 4. Mistos – Os infográficos, fusões são mais comuns nas estações, fora da home. Há também os diagramáticos – como as caixas coloridas ou vazadas, entre outros recursos. Ao contrário dos impressos, existe no portal grande uso dessas últimas possibilidades de expressão, principalmente para dar a idéia de organização de determinados assuntos e para valorizar outros. Os recursos diagramáticos também são responsáveis pela divisão da home em partes distintas, de conteúdos-web facilmente reconhecíveis. Temos semi-simbolismos “cristalizados” nos recursos diagramáticos, caso do azul representar a entrada para as estações e o espaço do assinante. Um outro conjunto significante (na verdade, um “conjunto de conjuntos”) é exclusivo da Internet: 5. Hipermidiáticos –referem-se à manifestação de informação de mídias de fluxo, como o rádio, a TV, ou quaisquer arquivos que tenham uma progressão temporal, como uma apresentação de fotos em programas de slides do tipo PowerPoint, desenhos animados, e até mesmo animações somente com letras.163 Quaisquer unidades dos cinco grandes grupos de conjuntos significantes podem ou não dar acesso a outras, ou ainda desencadear funções pré-programadas pelo enunciador, como a de movimentar uma foto quando o mouse simplesmente desliza sobre um elemento. A passagem às páginas e outras unidades do portal ou fora dele é feito por hiperlinks. Funções e links põem um fim à semelhança de um site com uma revista. Notadamente os links
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possibilitam um contato não linear,

personalizável, com os conteúdos-web da rede. É possível conhecer certas partes sem passar por outras. Via links, os conteúdos-web do site e de outros sites podem ficar disponíveis, acessíveis.
Para a construção de páginas web é preciso utilizar uma linguagem de programação. A mais básica é chamada de HTML (Hipertext Markup Language). Podemos comparar essas linguagens como uma cola. Os elementos são “grudados” e depois apresentados na forma de uma página, com fotos, texto verbal, links, ou até mesmo um filme. Tudo isso vira bit, ou seja, a unidade mínima de um sistema digital, que pode assumir apenas os valores 0 ou 1. O mundo digital, portanto, transforma tudo em 0 e 1. É interessante que mesmo os elementos hipermidiáticos também são entendidos como fragmentos agregados a uma página ou conjunto de páginas de modo que a organização espacial se imponha à temporal. 164 Os links também informam os valores do site. Se um site de música coloca links destacados para cada gênero de música popular (samba, rock, mpb, axé, etc) e insere gêneros como jazz, música erudita em um link chamado “outros”, mostra o que considera importante e o que considera menos importante. No caso, quer criar uma imagem de quem se identifica com o gosto popular.
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Sabemos que os elementos tipográficos são os preferidos para a construção de links. Teoricamente, no entanto, qualquer elemento citado pode apresentar um link ou um conjunto de links
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, ações, ou seja, ser um elo para mais conteúdos-web.

Observa-se uma categoria ativo x inativo que pode ser utilizada para determinar se um elemento de qualquer um dos seis conjuntos significantes citados é ou não uma ponte para um outro. A característica cada vez mais evidente de a Internet ser a “mídia de outras mídias” (a multimidialidade) faz com que a maioria das observações sobre outros tipos de jornais apresentados durante todo o trabalho tenha plena validade no ambiente virtual. Um programa de radiojornalismo ou telejornalismo na Internet também vai obedecer às características básicas – como efeitos da entonação no primeiro e de câmera e edição no segundo - apontadas nas outras partes do trabalho. As relações entre conjuntos significantes mostradas nos impressos – notadamente as que envolvem os tipos gráficos e o fotojornalismo – também podem ser aplicadas na análise de um portal como o UOL. Algumas adaptações são, porém, inevitáveis. Os conjuntos significantes hipermidiáticos, marcados por relações textuais temporais, como um programa de TV ou rádio que pode ser assistido por meio do portal, se submetem a uma estrutura espacial, que lhes atribui valor. Mesmo que diversas janelas pudessem ser abertas para diferentes elementos de hipermídia, as formas de visualização do fluxo precisariam ser hierarquizadas e topologicamente organizadas. Poderíamos em teoria entrar em uma home com, por exemplo, quatro programas de televisão passando simultaneamente. Se tivessem diferentes tamanhos de tela, tenderíamos a considerar que o mais importante é o apresentado no quadro maior. Se todos fossem mostrados em telas do mesmo tamanho, seríamos tentados a valorizar mais o programa que está na parte de cima.

O efeito de sentido de “infinitas possibilidades”

Há outros pontos instigantes relacionados ao modo de textualização de um portal. Pode-se questionar a validade de uma reflexão sobre “texto” diante de um meio de comunicação que apresenta “conteúdos” de maneira hipertextual. É preciso lembrar, inicialmente, que um portal não é um texto sem limites. O caminho hipertextual realizado pelo Internauta também é conseqüência de uma estratégia enunciativa que tenta organizar e tirar proveito da passagem do usuário pelas páginas, dentro da busca de audiência. As milhões de páginas disponíveis no UOL não

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Uma única foto, por exemplo, pode ter vários links.

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impedem o enunciador, por exemplo, de organizar todo o portal na famosa estratégia – entre webdesigners - dos “três cliques”. O portal inteiro é concebido para que o internauta “chegue” no lugar desejado passando por apenas três páginas: a home principal, a home da estação analisaremos no próximo item. Existem, no entanto, muitos caminhos possíveis dentro do portal. Só que é preciso discutir essa pretensa liberdade do internauta em construir seu próprio “texto”, ou seja, o que ele quer consumir. Vejamos como o usuário pode ter acesso às notícias. Há dois caminhos principais: clicar no link de alguma manchete na parte central, de notícias, ou ir diretamente às estações. No UOL, há oito estações dedicadas ao jornalismo. Todas têm funções específicas e, ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser na Internet, apresentam certa interligação: - UOL News – Em maio de 2005 é comandado pela ex-âncora do Jornal da Globo Lillian Witte Fibe. Trata-se de uma experiência de telejornalismo on-line. As notícias são oferecidas on demand (ficam disponíveis para serem consumidas a qualquer momento) em dois tipos de codificação: uma para banda larga e outra para banda estreita. Os conteúdos-web também são mostrados em diferentes mídias, apesar da ênfase em vídeos. É possível ler ou assistir a uma mesma entrevista. Grande parte dos vídeos é produzida pela Band News.
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, e a home do site relacionado na estação, como

- UOL Jornais – Apresenta uma lista dos sites de jornais brasileiros e internacionais. Abriga ainda o site Mídia Global, que faz uma seleção das principais manchetes de jornais, revistas e agências de notícias (Cox Newspapers, Der Spiegel, El País, Financial Times, Hearst Newspapers, Herald Tribune, La Vanguardia, Le Monde, Prospect Magazine, The Boston Globe, The New York Times, The NYT News Service, USA Today, Agências de Notícias AFP, EFE, Folha Online, Lusa, Reuters, Valor Online) e apresenta links para os respectivos sites. UOL Últimas notícias – É praticamente a apresentação de uma lista dos assuntos jornalísticos que vão entrando no site, às vezes de minuto em minuto. O material mais atual sempre encabeça a relação. Os títulos também têm a função de links e remetem para outras estações. O efeito de atualidade é tão perseguido que antes dos títulos se informa a hora em que a notícia foi colocada no portal.

No UOL, para relembrar e definir melhor, a palavra estação se refere a um site com conteúdo específico, mas de grande abrangência, hospedado pelo portal, marcado na barra de navegação à esquerda da home do portal. É o caso do UOL Notícias, UOL Sexo, UOL Jornais, entre outras opções. 167 “Lillian Witte Fibe estréia no comando do UOL News” - sem crédito. Disponível em http://noticias.uol.com.br/uolnews/2004/09/17/ult2528u8.jhtm - último acesso em maio de 2005.

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Folha Online – Site que mostra os conteúdos da Folha de São Paulo que são disponibilizados assim que produzidos pelo jornal. A Folha tem, portanto, dois sites distintos dentro do UOL, o que apresenta, na forma de conteúdo-web dentro do UOL Jornais, toda a sua edição do dia (praticamente o conteúdo verbal), e o Folha Online, com notícias que vão se renovando, e que irão, no dia seguinte, fazer parte da edição impressa. UOL Revistas - traz sites de dezenas de publicações nacionais, entre elas Caras, Trip, Atrevida, Herói, National Geographic, Fluir, Sexy, Próxima Viagem, PC World, Corpo a Corpo, Gula e Ciência Hoje, além de traduções de textos de revistas estrangeiras como a alemã Der Spiegel. UOL Televisão - traz ampla cobertura jornalística da programação e de celebridades do veículo. TV UOL – O destaque são os vídeos de entretenimento – músicas, entrevistas com artistas, trailer de filmes. Expõe os conteúdos em vídeo do UOL News e do UOL Esportes. UOL Esportes – Apresenta bastante conteúdo jornalístico, com cobertura de diversas modalidades esportivas, os grandes campeonatos nacionais e internacionais. Destaca futebol, automobilismo e tênis. Traz também tabelas, entrevistas, reportagens e imagens dos gols, além de transmitir em vídeo os jogos e melhores momentos dos principais campeonatos brasileiros.

Essa lista, reforcemos, inclui as estações com conteúdos mais jornalísticos. A maioria das estações, no entanto, utiliza o formato “notícia” para dar efeito de atualidade aos conteúdos-web particulares. Até o UOL Bichos estampa notícias. Uma análise um pouco mais cuidadosa mostra que uma mesma notícia pode aparecer em diversas estações, com formatos distintos (vídeo, texto verbal, conjunto de fotos). Em 18 de maio de 2005, por exemplo, estreou o filme “A vingança dos Sith”, último da cinesérie Star Wars. A parte central da home apresentava uma chamada. O mesmo assunto era tema de reportagens no UOL News, UOL Cinema, UOL Diversão e Arte, UOL Últimas Notícias, UOL Teen, Folha On Line, UOL Tecnologia. A mesma notícia: “‘Star Wars: Episódio 3’ estréia em 430 salas do Brasil” – era encontrada no UOL Cinema, UOL Diversão e Arte, UOL Últimas Notícias, Folha Online Busca. Percebe-se que a sensação de uma enormidade de notícias em um portal também é um efeito de sentido. E por vários motivos. O que o internauta tem é uma espécie de “mais do mesmo”, porém embalado de um jeito que dá a sensação de uma infinidade de possibilidades de consumo do mesmo assunto. Outro ponto é que a mesma notícia aparece em várias estações diferentes, pois é pouco provável que um

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internauta visite todas. Há maneiras de atraí-lo e de dar o que ele procura – ou seja, satisfazê-lo - por diferentes caminhos. Finalmente, também é possível verificar que as estações hierarquizam a notícia ao gosto do internauta. O mesmo filme para adolescentes pode merecer uma nota na home da Folha Online e um destaque maior na do Folha Teen. Cada estação pressupõe a existência de um diferente contrato enunciador-enunciatário, questão que vamos investigar.

O enunciatário impaciente
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Em uma conversa on-line com internautas

sobre a última grande mudança

no portal UOL, ocorrida no começo de 2004, a diretora de conteúdo, Márion Strecker, foi questionada sobre qual público-alvo pretendia atingir com a reformulação. “Pela contagem feita pela Tecnologia do UOL, temos perto de 17, 18 milhões de visitantes únicos por mês. É muita gente. A homepage do UOL é vista por gente de todas as idades e de todo o país. Somos um meio de comunicação de massa e não podemos mais eleger uma só fatia do público como alvo” – respondeu. O portal, como fica bastante visível na distribuição de assuntos em links ou manchetes, busca o maior número possível de visitas, ou, em termos mais técnicos, de “page-views”, uma das bases de medição de audiência. Para discutir melhor a questão do enunciatário instaurado pelo portal, devemos notar que o UOL divide seus visitantes em dois tipos distintos: 1 - os assinantes, que pagam e têm acesso irrestrito a milhões de páginas, e 2 - os visitantes, que devem ser conquistados para fazer parte do primeiro grupo e têm acesso restrito. A home, portanto, é não só o lugar para manter o internauta cativo. É também o espaço de busca pelo internauta desgarrado, que está zanzando pela rede. A dinâmica da rede mundial criou um sujeito nervoso, pouco paciente. Se não encontra o que quer com rapidez, tem sua auto-imagem afetada, se julga incompetente, assim como também passa a julgar o site “ruim”. Ele imagina que há um grande número de possibilidades para atingir determinados objetivos. Por isso, se irrita com qualquer demora ou obstáculo. Dos enunciatários de jornais analisados, ele é o mais volúvel e fragmentado (inclusive se comparado ao da Folha de São Paulo). Como tem opções demais, cada vez que navega em uma página, tem a sensação de que pode estar perdendo algo melhor, de que seu tempo precioso poderia ser utilizado para tomar contato com informações que lhe dessem mais satisfação.
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“Bate-papo com Márion Strecker” em 26/03/2004, às 20h – disponível no endereço: http://bp.tc.uol.com.br/convidados/arquivo/frames.jhtm?url=http://bp.tc.uol.com.br/convidados/ar quivo/midia/ult1666u117.jhtm - acessado em maio/2005

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por exemplo. a estratégia de arrebatamento do portal é muito mais sutil.Um portal também deve disponibilizar as notícias o mais rapidamente possível. semi- 285 . ser eficiente em dar ao internauta o que ele procura e. “caixinhas”. Como citamos. Analisemos com mais profundidade o primeiro problema: a coerção de um portal ou site. que o internauta tende a se sentir mais seguro diante do que já conhece. as páginas devem ser apresentadas e ordenadas de modo a facilitar ao máximo a navegação do internauta. Uma análise superficial da home do UOL por semanas. assim. imensa variação e possibilidades. como nos jornais impressos. cores. passar a sensação de “rapidez”. por meio de animações nos banners (barra de anúncios). nas próximas páginas. Mudam as manchetes e publicidades. É preciso que as páginas e conteúdos não demorem a chegar ao internauta interessado. há três questões diferentes e complementares que envolvem essa sensação de que tudo é ligeiro. por sua vez. Uma investigação mais cuidadosa. 2 . Como já dissemos. Em um estudo mais superficial. Mas as divisões. porém. 3 . apresenta a avidez do enunciatário e a pouca mobilidade da home principal como outro falso paradoxo. Essas limitações. é mais reservada à publicidade. Essa última questão será tratada na análise sobre a cobertura de Saddam. ou desenhos que surgem repentinamente e atravessam a tela. quase tudo permanece igual dia após dia. por exemplo. Em outras palavras. obviamente. veloz: 1 Inicialmente. É precisamente pelo fato de a Internet vender-se como meio que disponibiliza bilhões de páginas. apressado. Para atingir esse objetivo.O principal valor partilhado entre enunciador e enunciatário em um portal é a rapidez. em chegar onde se deseja rapidamente. Os acessos à maioria dos conteúdos-web são fixos e marcados por convenções entre enunciador e enunciatário (mais precisamente. tamanhos das fotos.A Internet também apresenta uma série de limitações de ordem técnica que envolve. No entanto. evita obstáculos de qualquer ordem. de novidades. faz do enunciatário na rede um sujeito que não quer pensar muito. o chamado “carregamento” das páginas ou conteúdos-web nos navegadores dos internautas. a rapidez deve ser conseqüência de uma construção eficiente do portal. para arrebatar a atenção desse enunciatário instável. o UOL constrói uma home cuja apresentação gráfico-plástica pouco se altera. Nesse sentido. na home do UOL. Outro ponto importante é que a ansiedade em navegar. principalmente da homepage. existe a tentação de imaginar que. também são levadas em consideração na hora de construção de um site ou portal. uma homepage deveria ser cheia de surpresas. mostra pouquíssima variação de expressão. nem mesmo os títulos aumentam ou diminuem ao sabor da importância das notícias. O internauta tem pressa. Ele deve percorrer o menor caminho possível para chegar onde deseja. ou meses.

o portal é carregado de manchetes de diversos assuntos para instigar a curiosidade dos diversos segmentos do público-alvo 286 . pode torná-lo “pesado”. Um site com muitos recursos de hipermídia constrói um usuário que tem banda larga e maior poder aquisitivo. Mostra ainda grande investimento do enunciador na estratégia de arrebatamento do enunciatário.simbolismos cristalizados). Cada uma das opções de concepção de um site também revela o tipo de público para o qual ele foi pensado. principalmente. fundos coloridos ou letras voando pela tela tornam um site mais atrativo. como filmes. são “pesadas”. O Internauta deve passar os olhos nos títulos e querer saber detalhes da história.que. Músicas e. imagens congeladas cuja apresentação em seqüência de quadros engana nossos olhos e simula movimentação). vincula-se ao carregamento das páginas e às relações temporais lento x veloz. na verdade. desenhos. O grande drama da Internet atualmente é a velocidade de tráfego de bits pelas linhas telefônicas e outras formas de transmissão (como cabo. por exemplo. O enunciador de um portal como o UOL. não podem ser utilizadas na home. podemos observar uma categoria site “pesado” x site “leve” . É evidente que a Internet. Quem gosta de ver os conteúdos multimídia do site UOL em 2005 sabe. como o uso de fotos enormes de grande contraste de cores. Tenta-se então instaurar e manter a curiosidade por meio da apresentação e da decodificação dos conteúdos. fotos e desenhos podem consumir milhões de bits. porém. sofre de limitações técnicas de toda a ordem. etc. de carregamento quase instantâneo na tela do enunciatário. são “leves”. que precisa satisfazer enunciatários díspares – dos que têm banda larga aos que ainda convivem com um modem ultrapassado no micro – também concebe as páginas-web em função desse aspecto técnico. por exemplo. privilegiar mais e mais aspectos estéticos. Se o construtor de um site. satélite. que a lista dos mais “quentes” se encontra no citado quadrado laranja no meio da home. por meio da estratégia de sustentação. Imagens em movimento (na verdade. Isso tudo é importante do ponto de vista semiótico. Fotos. Como há muitos tipos de enunciatários. De maneira geral. ou seja. Um site que demora a carregar vai afugentar enunciatários sem paciência ou recursos para manter uma linha de banda larga. Isso significa que não é possível tirar proveito de uma série de opções de design gráfico.) com profundos impactos na maneira de conceber os sites. Textos verbais não têm muitos bits. mais do que qualquer outro meio de comunicação. Até mesmo estratégias de arrebatamento comuns nos jornais diários. E aqui entramos na segunda questão que envolve a necessária sensação de rapidez na rede mundial de computadores. de grande pertinência na análise de um meio de comunicação marcado pela necessidade de parecer sempre mais e mais rápido.

há mais de 40 títulos. ao entrar na página inicial e escolher ir para a parte de “Corpo e Saúde”.e compensar a falta de outros recursos. “utilitarista” da home do portal é quebrada em diversas homes das “estações”. Essa estratégia “racional”. ou “Criança” já mostrou certos interesses que permitem ao enunciador saber como “segmentá-lo”. de organização. A falta de variação gráfico-plástica do portal também indica a importância da estratégia de fidelização. tanto para encontrar o que se pretende quanto para o descarregamento de informações na tela de qualquer usuário. Vejamos as homes dessas estações citadas: 287 . Portanto. A organização textual de pouca variação do UOL aponta que é muito mais vital dar acesso imediato ao que o internauta deseja do que “entretê-lo” durante a operação. a home do portal é essencialmente utilitária. de investimento em uma relação na qual o internauta sempre tenha segurança de achar o que quer rapidamente porque conhece já os caminhos. Geralmente. o efeito buscado pela principal página web do portal é o de simplicidade. “Economia”. Isso porque o internauta. de rapidez. Em função disso. Nenhum outro jornal estudado tem tantas manchetes.

288 .

Nas outras estações. O UOL Criança. como o UOL Economia. O internauta que acessa essas duas homes pela primeira vez está diante de estratégias 289 . ao contrário da home do portal. também apresenta chamativos fundos laranja e verde.A home de cada estação. Pode-se observar o volume de informação disponível nessa home. com ícones junto à barra de navegação. Percebe-se um simulacro de um internauta que quer “saber de tudo”. o número de links e de informações é bem menor. tem uma home construída em cores vibrantes. Um site de informações econômicas. A estação Corpo e Saúde. pode adequar-se ao seu público-alvo. o que projeta um enunciatário que está interessado em chegar rapidamente à informação desejada. além de apresentar menos assuntos. continua privilegiando um contato “racional”.

às vezes ideologicamente díspares. como um caminho do geral ao particular (home do portal – home da estação – home do assunto específico). mesmo as que apresentam mais estratégias de arrebatamento. encontram-se unidades noticiosas sobre a reunião dos presidentes da Argentina e Brasil. Há também uma parte reservada para as “últimas notícias” que mostra a existência de um site com informação quente. de certa maneira. ele trabalha basicamente para recompor a emissão centralizada.de arrebatamento. No exemplo citado de 10 de maio de 2005. que quer fazer crer que é atual. uma contraposição às características inovadoras da comunicação on-line. também não utilizam muitos recursos que as tornem pesadas. continua a existir um certo limite técnico com a intenção de buscar e manter a atenção de qualquer enunciatário. A ‘interatividade’ configura-se como fabricação.. de quantidade de alternativas. imaginada. o que o enunciador considera mais importante. a teórica viagem dos “três cliques”. de elementos que atraem o olhar e se colocam para serem “sentidos”. E que deve dar a sensação de acesso rápido ao conteúdo desejado. em princípio. Em outras palavras. utilizando-se de forte esquema valorativo para impor as alternativas ‘ideais’. desse modo. Se a Internet abre um modelo todos-todos.) Se o hipertexto pressupõe alteração na relação de forças entre autor/leitor. simulando ambientes de abordagem individualizada. ou que 169 As homes das estações.” Tudo é notícia As homes dos portais tornaram mais evidente a elasticidade do conceito de notícia.. o portal investe na produção de escolhas viciadas. na maior parte das vezes. Trata-se de tática de dissimulação de seu caráter massivo. A barra à esquerda remete a assuntos mais específicos ou a mais pontos de interesse do internauta. transforma a homepage de um grande portal na mais concreta expressão da pós-modernidade. na mesma página do portal reservada aos assuntos que se querem fazer crer como jornalísticos. Completa-se. torna-se. (“Lula marca novas reuniões com Kirchner e Chávez” . 290 . pode ser observada a mesma arquitetura de construção. A necessidade de satisfazer a públicos distintos. de diversidade de escolhas. 169 Nos três casos. (.manchete principal) junto a outras como “Presos rebelados exigem 15 pizzas para libertar reféns”. Percebe-se o destaque espacial para as “notícias”. porém. sobre o UOL: “O portal configura-se como iniciativa de introdução do caráter massivo na web que. Essas constatações corroboram a análise de Ricardo Augusto Silveira Orlando. O investimento num modelo típico de comunicação massiva espelha a fé dos portais na passividade dos usuários.

O portal como um todo é dependente da temperatura das unidades noticiosas. que dizem respeito a questões de ordem coletiva) percam sua força e as notícias leves (de diversão. o UOL instaura um enunciatário que valoriza do mesmo modo os detalhes de um escândalo de corrupção no governo e o resultado de uma disputa entre Santos e Palmeiras. Outro ponto. ou seja. Ressalte-se que há mais manchetes para os assuntos políticos do que para os de esportes. por exemplo. é uma continuação do jornal. de de rápido envelhecimento. Há dois tipos de conteúdos mais valorizados – que ficam no quadrado branco – e recebem maior destaque visual (caso da manchete principal. Nesse sentido. recebe tanta atenção quanto o sujeito lúdico. para 170 Várias empresas jornalísticas também colocam no ar seus sites valendo-se do prestígio de suas marcas. de consumo imediato. entretenimento. O grande destaque dado ao esporte diferencia o portal dos outros noticiários estudados. De um lado. que falam ao lado mais individualista. Citamos o fato de qualquer jornal precisar fazer seu consumidor acreditar que as notícias divulgadas são atuais. numa estratégia de transferência de valor dos pedaços para o todo. as manchetes sobre assuntos “densos”. Serve para gerar o efeito de proximidade temporal entre enunciador e enunciatário. no uso das mesmas cores. dos mesmos recursos verbais. em corpo de letra maior em relação ao de outros títulos da home). como nos diários. A “face” virtual busca reproduzir. que tenha credibilidade. não uma mídia totalmente diferenciada. Uma comparação com os outros jornais analisados torna possível verificar que grande parte da home do portal deve ser preenchida com notícia quente. Em nenhum outro meio de comunicação analisado essa dependência é tão crítica. pertinente. O “ineditismo” de um fato é um valor mais importante no portal do que em outros meios de comunicação. O sujeito político. a usuários com interesses desiguais que precisam se sentir contemplados no recorte de mundo disponibilizado na home. principalmente jogos de futebol. a identidade já consagrada. lembrado por Orlando (2001:244). a apresentadora da Rede Globo. a cada punhado de segundos. Precisa. persistem. que envolvem política e economia.buscam a curiosidade sobre o “Futuro incerto de Angélica”. 170 É preciso um enunciador autorizado. O portal tem o contrato com a cláusula mais rígida. Enfim. afirmar-se como atual. Mantém-se desse modo a idéia de que um site. tradicionais. O UOL também valoriza conteúdos esportivos. econômicos. que se importa com atividades que lhe dão prazer. o que é novidade ou mera 291 . privado do internauta) adquiram respeitabilidade. Vale a pena estudar sites para verificar até onde cada um se ampara no prestígio de outras mídias mais “antigas”. A convivência faz com que os assuntos densos (políticos. como o da Folha de São Paulo. é que o portal se utiliza do prestígio de diversos outros jornais para obter autoridade na hora de enunciar as próprias notícias. interessado em temas da coletividade.

as notícias começaram a ocupar as telas no domingo pela manhã. não informando quais lhe serviram.noticiar. Beatriz Singer e Dennis Barbosa. O Terra anunciou às 8h40. é de a segunda-feira. porém. Já a GloboNews publicou a notícia exatamente no mesmo horário que o iG. não pudemos localizar e reproduzir a primeira homepage do UOL que noticiou a prisão de Saddam Hussein. o dia todo. acreditamos que os objetivos do trabalho podem ser alcançados. dentro de uma mesma marca. 172 “Captura de Saddam> Ig foi o primeiro”. Em http://observatorio. ou seja. como veremos a seguir. já que temos ainda o assunto como manchete principal. liga conteúdos de várias edições via links. às 8h32. já que os subordina. ficou sabendo da prisão de Saddam Hussein em primeira mão.ultimosegundo. 171 Infelizmente. de mídia “completa”. No texto. e sim substituída a todo o instante. O motivo é que a página inicial não é gravada no servidor. o que não deixa de ilustrar um pouco o próprio funcionamento do jornalismo na Internet. mas a partir da informação de "agências internacionais". sons e. registraram a corrida brasileira entre os sites para a divulgação da detenção do ex-ditador do Iraque: “Nahum Sirotsky. principalmente. a página com a primeira notícia sobre o assunto no site. foi o primeiro jornalista a serviço de um veículo brasileiro a dar a notícia da captura de Saddam.br/artigos/mo161220031.Paulo deu a informação às 8h43. O efeito pretendido. que é a de apresentar fatos com intervalo de uma semana. No entanto. há outras conseqüências desse grande número de vozes a noticiar. no Folha Online. do Observatório da Imprensa. colheu informações junto a agências estrangeiras. e não no sábado.com. da homepage do UOL.” 172 (Um reparo: na verdade. correspondente do iG em Israel. utiliza o site para quebrar a limitação da revista. fornece mais imagens. O site também apresenta conteúdo diferenciado. 171 A cobertura da prisão de Saddam Quem acessou os grandes portais brasileiros na manhã de domingo. As atualizações na Internet são continuas. 292 . nem todas positivas para o portal. é o de expansão hipermidiática do jornalismo impresso.) reprodução para manter uma identidade de sucesso. como “nova mídia”. não foi só a de se beneficiar da credibilidade de veículos jornalísticos ao incorporá-los no interior do portal. portanto. com informações da Associated Press. Não há memória. 14 de dezembro. O UOL se vende ainda como mídia de outras mídias. Com essa reprodução.último acesso em maio/2005. ou mais serviços e detalhes informativos à disposição dos leitores. também com informações da IRNA.htm . A Folha Online anunciou às 8h26. portanto. detalha matérias. mostrada nesse item. Como os outros dois sítios. A estratégia do UOL.ig. Ressalte-se que apresentamos. um novo canal. O Último Segundo saiu com a informação às 8h32 no sábado. por exemplo. A página de notícias da edição online do Estado de S. A Veja. A página capturada. porém. cita a agência iraniana IRNA. que tira proveito de cada um dos “ethos” dos jornais abrigados no seu servidor para compor um “ethos” próprio. 24 horas após o anúncio da prisão. que a eles se sobrepõe.

por exemplo. o “tornar consumível”. Devemos relembrar que o ethos da marca é beneficiado pelo valor da notícia e também pela forma de divulgá-la. não havia sequer a certeza de que a informação procedia: 293 . Quando o UOL citou a prisão de Saddam pela primeira vez. Pollyana Ferrari refere-se a essa lógica como de “empacotamento” e “empilhamento” de informações (2004: 19 e 50). no jornalismo do UOL.Por esses comentários. pode-se observar que. Na Internet. O noticiário tem uma fragmentação enorme porque está submetido a um procedimento de edição (como ato) completamente diferente em relação ao realizado pelos outros jornais. o mais rápido é sancionado como o mais competente. Na Internet. a apresentação de um menu de notícias em constante renovação é uma das estratégias para a dar sensação de máxima atualidade ao material divulgado. Essa corrida pela “disponibilização” das novidades traz vantagens. mas também problemas. Aurélio) perde um pouco o sentido em função de seu caráter de enorme fragmentação. ou a “disponibilização” rivaliza com o próprio impacto do que é divulgado. A própria idéia de notícia como “resumo de um acontecimento” ou “exposição sucinta de um assunto qualquer” (Dic. o valor da notícia também se relaciona com o fato de a novidade estar rapidamente disponível para consumo. Retomamos a última questão sobre a sensação de rapidez do portal. No UOL.

de terno e gravata. o panorama mudou. Lia-se o lead sobre a prisão e todos os 11 parágrafos restantes contavam a trajetória do ex-ditador em ordem cronológica a partir do nascimento dele. em 1937. Às 9h36. a Folha Online liberou uma matéria de arquivo. Em seguida. Mas já havia uma tentativa de contextualização. só nas primeiras linhas. Novidade mesmo. nova manchete: “Governo provisório no Iraque anuncia captura de Saddam. E o portal foi publicando e empilhando as notícias por ordem de novidade.Nem mesmo o departamento de defesa norte-americano confirmou a notícia. outra notícia: 294 . Às 9h08. EUA não confirmam”. Via-se uma foto de Saddam sorrindo. preparada muito antes para a ocasião: “Saiba mais sobre Saddam Hussein”. Às 9h53.

na versão dos militares norte-americanos. O ex-ditador terminou detido após se esconder em um buraco. informação que depois foi desmentida pelo exército dos EUA.Nesse texto. nova atualização do Folha Online: 295 . o internauta ficou sabendo que Saddam foi preso dormindo. Às 10h30.

Não houve. o Internauta passa a conhecer a “nota oficial do governo provisório do Iraque”. às 9h59. porém. desmentidos. O portal.Dessa vez. ficava-se sabendo pelo relato da agência Reuters que o ex-presidente iraquiano “usava uma barba falsa” no momento da prisão. no mesmo espaço. como no UOL Últimas Notícias. com mais informações. Além de uma obviedade. Nesse último espaço. um texto da BBC Brasil também falava da captura e tinha um link para o site da agência. A informação não era verdadeira. foi disponibilizando informações sobre o assunto em outras estações. uma pequena nota de quatro linhas da agência France Presse. como a recompensa oferecida pela captura. a de que Saddam estava preso “sob forte vigilância”. Às 10h08. Às 10h12. colocava um mapa. anunciava a prisão. a Folha Online dava destaque para a confirmação da notícia pelo governo norte-americano. As notícias mais atuais iam corrigindo as informações. ao mesmo tempo. links para mais detalhes e imagens no final da página: 296 . a maioria já conhecida.

297 .

Folha Online 15h45 .Para assessor brasileiro.France Presse.Saddam Hussein será julgado por magistrados iraquianos .France Presse.Saddam Hussein foi retirado do Iraque logo após captura. em Bagdá 10h03 .Presidente paquistanês escapa de atentado no norte do país .Folha Online 10h48 .OLIVIER LUCAZEAU da France Presse.JEAN-LOUIS DOUBLET da France Presse.Cálculo de mortos pelo regime de Saddam chega a um milhão .CÍNTIA CARDOSO da Folha de S.Folha Online 18h55 . prisão de Saddam ajuda Bush na eleição . em Washington 23h25 . estão notícias sobre outros temas.France Presse.France Presse. em Bagdá 16h44 . em Lima 21h35 .France Presse.Rice questiona efeito da prisão de Saddam em ataques contra coalizão .Site do Pentágono celebra a captura do "ás de espada" .Paulo 05h24 . em Washington 05h46 .Cantora Lauryn Hill ataca Igreja no Vaticano .France Presse.Quatro soldados americanos são feridos em ataque no Kuait .SÉRGIO MALBERGIER da Folha de S. a Folha Online vai apresentando novos detalhes e as repercussões.France Presse.Bush fala sobre prisão de Saddam às 15h . em Madri 17h05 ."Regime terrorista terminou" no Iraque.France Presse.France Presse.Igreja católica peruana pede perdão por violações de direitos humanos .France Presse.Captura de Saddam Hussein beneficia governo Tony Blair . em Mossul (Iraque) 19h42 .Paulo 05h14 .Negociações sobre a Coréia do Norte podem ser adiadas para 2004 .France Presse. em Washington 19h05 . em Washington 18h07 .Paulo 05h36 .France Presse. em Washington 22h58 . em Paris 21h33 . A seguir.Saddam nega ter arsenal e não coopera em interrogatório. em Buenos Aires 19h25 .Folha de S.France Presse.Veja a cronologia da Guerra do Iraque – Folha Online 11h25 . diz TV . em Paris 05h49 .Blair diz que prisão de Saddam traz "reconciliação e paz" ao Iraque .CAROLINA VILA-NOVA da Folha de S. em Washington 15h52 .Paulo 04h08 .Especialista do Exército dos EUA é morto em explosão no Iraque .SÉRGIO DÁVILA da Folha de S.Paulo 04h49 .Canadá felicita forças da coalizão por captura de Saddam Hussein . diz revista .EUA ofereciam recompensa de US$ 25 mi por Saddam Hussein .France Presse. de Buenos Aires 05h37 . 14/12/2003 09h53 .Veja os principais trechos do discurso de Bush após prisão de Saddam .France Presse.France Presse.Códigos da operação para capturar Saddam foram inspirados em filme – France 20h15 .France Presse. em Brasília . em Taipe 21h22 .France Presse 17h18 .Morre ministro filipino das Relações Exteriores .France Presse.France Presse.Bush diz que prisão de Saddam não encerra guerra ao terrorismo . o que ilustra bem a idéia de “empilhamento” na forma de um menu.France Presse.Folha de S.Veja nota oficial do governo provisório no Iraque sobre a captura de Saddam .EUA escolheram cuidadosamente imagens do vídeo de prisão de Saddam .France Presse. em Washington 15/12/2003 03h35 .France Presse. em Bagdá 19h22 . em Bagdá 11h02 .Folha Online 11h55 .Saddam Hussein será tratado como um prisioneiro de guerra.France Presse.France Presse 19h19 . em Bogotá 298 .Paulo.France Presse.Tumulto em show na Argentina deixa 20 feridos e 110 detidos .Captura de Saddam é oportunidade para a paz.Prisão de Saddam causa euforia e descrença em iraquianos . em Dubai (Emirados Árabes Unidos) 22h50 . Cada título era também um link.Vídeo com imagens de Saddam Hussein é exibido . em Washington 15h32 .France Presse.EUA confirmam prisão de Saddam Hussein .Acabou a "era de trevas".France Presse. em Montreal 20h25 .Human Rights Watch defende julgamento de Saddam sem "vingança" .France Presse. em Bagdá 20h04 .Folha Online.JEAN-MICJEL CADIOT da France Presse.Sentimentos se dividem no mundo árabe após prisão de líder anti-EUA .Veja a lista dos dirigentes iraquianos presos ou mortos pela coalizão .Saddam Hussein será tratado como prisioneiro de guerra. em Londres 20h55 . diz Rumsfeld . no qual o internauta tinha acesso aos detalhes. diz Rumsfeld .Captura de Saddam pode ajudar Bush nas eleições de 2004 . A prisão de Saddam dominou os assuntos do site.France Presse.Tribunal Penal iraquiano poderá julgar Saddam Hussein . sensação é de alívio e medo . em Paris 20h17 . em Islamabad 19h02 .SÉRGIO DÁVILA da Folha de S.Paulo 04h36 .Carro bomba explode no centro de Bagdá . em Nova York 19h56 .Coalizão anglo-americana ainda procura 14 ex-dirigentes iraquianos .Veja a lista das pessoas mais procuradas no mundo .A partir daí. mostramos todas as manchetes e a ordem de disponibilidade das notícias no site.Ex-aliado aponta ação de De la Rúa em suborno . em Washington 18h01 .Folha Online 16h17 .Em Bagdá. diz George W. Em vermelho. em Washington 13h32 .Análise: Resistência deve diminuir com captura de Saddam .JOÃO SANDRINI .Alemanha e França cumprimentam Bush pela captura de Saddam . afirma Rumsfeld .Paulo. de Nova York 03h52 . em Tóquio 22h45 .Membro do Conselho Iraquiano afirma que Saddam permanece no país 18h51 .France Presse.Paulo 05h05 . em Islamabad (Paquistão) 22h54 .Iraque apresentará à ONU projeto de cessão de soberania . em Washington 21h06 .Al Arabiya volta ao Iraque sem permissão para cobrir prisão de Saddam . em Paris 21h14 . diz Conselho de Governo .Presidente do Paquistão confirma que foi alvo de atentado .France Presse. em Bagdá 17h29 .France Presse.SÉRGIO DÁVILA da Folha de S.Líderes mundiais expressam satisfação pela prisão de Saddam Hussein .Folha de S.Reuters 10h12 .Dois franceses morrem em acidente aéreo no noroeste da Colômbia . diz Kofi Annan .France Presse 11h46 .Presidente afegão defende manutenção de poderes na nova Constituição .France Presse.General da antiga Guarda Republicana de Saddam é morto a tiros .Saddam dormia quando foi capturado. em Washington 16h32 . Bush .Análise: Prisão do ex-ditador dá alento a abertura árabe .

France Presse/Folha Online 08h12 . mas circunstância inerente à urgência de informar.Saddam pediu para negociar sua prisão. Não houve correções das informações conflitantes.Folha Online Devemos lembrar que outras partes do portal também foram sendo atualizadas.Folha Online 15h29 .EUA dizem ter capturado outros ex-dirigentes iraquianos .Prisão de Saddam fortalece Bush antes de eleição presidencial de 2004 . apresenta justamente essas possibilidades que. diz UE .France Presse. ainda não foram corretamente aproveitadas. à Folha de São Paulo em sua versão on line que.France Presse.Cruz Vermelha pretende visitar Saddam Hussein .Folha Online 07h41 .France Presse.France Presse.Saddam pode ser condenado à morte. ao que tudo indica. em Washington 13h40 . O auge da divulgação aconteceu entre a manhã e a tarde de domingo.Folha Online 11h07 . textos. O livro de Pollyana Ferrari. Rádio e TV das grandes redes nem contam com edições de seus principais programas no final de semana.Detenção de Saddam é um "passo para a paz" no Iraque. Jornalismo Digital. É possível notar que o material mais factual. individualmente. em Washington 15h39 .Saddam Hussein será levado a julgamento. O portal UOL dá voz. em Ad Dawr (Iraque) . dia de pouco jornalismo “quente”. remete às agências de notícias na maioria dos momentos. Uma conseqüência da fragmentação narrativa é a curiosidade de acompanhar o desenrolar da história. na acepção jornalística. esconderijo de Saddam é decorado por arca de Noé .JOÃO BATISTA NATALI da Folha de S. em Washington 07h01 . como veremos depois.Colin Powell faz operação de câncer de próstata . filmes.Folha Online 13h50 . um site pode apresentar fotos. Não houve. Percebe-se.France Presse.Irã prepara denúncia contra Saddam em tribunal internacional . é uma fragmentação que contraria os prognósticos mais otimistas em relação ao chamado “web jornalismo”.France Presse/Folha Online 09h36 .Comentário: Imagens da TV desumanizam ditador deposto .Folha Online 14h37 . no caso da cobertura da prisão de Saddan.Folha Online 12h48 . um enunciador cedendo voz a outro que tem mais autoridade para cumprir o papel de informar. organização desses recursos para apresentar a prisão de Saddam em alguns casos. O preço. não é sentido como defeito. 173 Dito de outra maneira. porém. diz líder iraquiano .France Presse. foi dando lugar ao especulativo.Prefeitura de Fallujah é saqueada por partidários de Saddam .agência Lusa. diz comandante . em Lisboa 09h31 .Após captura de Saddam. poderia fazer. no entanto.France Presse.Paulo 07h17 . por exemplo.Sem banheiro. EUA prendem antigos membros do regime . 173 299 . Do ponto de vista do gerenciamento do nível de atenção. em Wellington (Nova Zelândia)/Folha Online 08h32 . sons. diz Bush .France Presse.Governo australiano apóia pena de morte para Saddam . em Bruxelas 10h36 .Segurança é reforçada no Vaticano após advertência de Israel . infográficos e muitos outros recursos para contar detalhes de uma notícia. o de possibilitar o acesso a uma série de recursos de hipermídia para contextualizar a história de uma maneira que nenhum outro jornal. por sua vez. acredita a autora.Ataque suicida mata oito iraquianos em Bagdá . O contato do enunciatário com o empacotamento contínuo de notícias.Nova Zelândia se opõe à pena de morte para Saddam . É preciso ressaltar que o internauta tinha na tela do computador o que de mais recente era divulgado sobre a prisão do ex-ditador.Lula felicita Bush pela captura de Saddam Hussein . a fragmentação narrativa em dezenas de textos tem inúmeras conseqüências.Estudantes fazem manifestação pró-Saddam em Tikrit .05h41 . em Fallujah (Iraque) 14h11 . um tipo de estratégia de sustentação que tem grande peso nos sites noticiosos.Folha Online 07h13 . em Teerã (Irã) 12h31 .

a sensação. por sua vez.o final do texto apresentava em “Saiba mais sobre Saddam Hussein”. prisão de Saddam ajuda Bush na eleição” . no Jornal Nacional. por sua vez. além de efeito de atualidade.Ao contrário. As manchetes da home têm como critério de escolha não somente o que é mais atual. o seguinte conjunto de links: • Site do Pentágono celebra a captura do "ás de espada" • Veja a cronologia da Guerra do Iraque • Com barba e roupa de camponês. tenha também maior repercussão em relação a outras notícias. 14h54: 174 174 A primeira página mostra um estágio anterior em relação à home analisada. que tem um intervalo de tempo fixo. eram matérias anteriores. mais o que é potencialmente mais atrativo num dado período. é preciso escolher uma manchete que. A barra das estações está em vermelho. em azul.“Para assessor brasileiro. A reprodução a seguir da primeira página do UOL foi feita na segunda-feira. esse texto criava um outro texto maior que. 300 . devemos relembrar. Um portal. de 24 no Jornal da CBN. Na matéria das 16h44 do dia 14 . há espaço para o enunciador fazer escolhas do que o enunciatário deve valorizar. Essa hierarquia fica evidente no que aparece na primeira página do próprio portal. em vermelho. e de uma semana na revista Veja. o que cria quatro regiões distintas (serviços para usuários. Na Folha Online. a contextualização significou somente apresentar ao internauta links que remetiam a outros textos da lista de notícias. Enfim. Em um portal. é o único noticiário estudado que não se organiza na forma de edições. por exemplo. serviços nas estações. na Folha de São Paulo. por mais que o empacotamento tenha como coerção um ordenamento temporal. notícias em branco e e-commerce em cinza e branco). Percebemos também que. Há menos destaques cromáticos para os blocos de informação. foi de mais e mais empilhamento. Saddam não resistiu à prisão Esses links. que pode ser de alguns minutos ou de algumas horas. dava acesso a mais e mais dados sobre a prisão do ex-ditador.

A notícia principal sobre um Saddam não cooperativo foi pinçada de uma série de outras possibilidades. Tentavase atrair a curiosidade do internauta que queria saber as reações do ex-ditador já no cárcere. As outras notícias contextualizavam o assunto e mostravam os primeiros textos interpretativos. estava sendo apresentado à novidade. 301 . o portal tentava conciliar os interesses de um público que já tinha tomado contato com a notícia e de outro que. no entanto. Pode-se notar. ao chegar à home. que abordavam o julgamento do ex-ditador. uma escolha cuidadosa. Desse modo.

A manchete principal e as três submanchetes no retângulo de destaque não deixam dúvidas sobre a valorização do assunto. o internauta seria levado à parte de Mídia Global (a seguir) e ao site “Especial Iraque”. 302 . Ao contrário de um jornal impresso. ouvintes e leitores dos outros noticiários analisados. Temos um desdobramento da primeira lei de diagramação que é exclusiva do portal: a importância de uma notícia está ligada ao número de manchetes e links a ela associados. o valor do assunto não ocorre somente porque o título tem um corpo de letra muito grande. o usuário do UOL não encontrava na home do UOL Mídia Global. pode-se observar como a novidade aparece contextualizada. Obviamente havia ainda o empacotamento. como a Folha de São Paulo. e em outras partes do site. O portal ainda apelava às estações UOL News. Se clicasse no link da manchete principal. Como esse seria o caminho natural do internauta que tomava o primeiro contato com a notícia. UOL Jornais e UOL Revistas para mostrar ao internauta que nesses espaços também a detenção do ex-ditador teria máximo destaque.A home do portal apresentava sete possibilidades distintas de entrada para o assunto “prisão de Saddam”. algo muito diferente do que estava à disposição de telespectadores. Pelo menos nessa seqüência de fragmentos sobre a prisão de Saddam.

se uma análise desse tipo é possível na Internet. Encontramos a mesma cobertura figurativa. Pode-se questionar. Mas o fato gerador. O presidente dos EUA também aparece como sujeito com plena competência para prender e aplicar sanções. já que há diferentes enunciadores. as agências de notícias internacionais que. Bush como o destinador-julgador. examinemos a visão de mundo que emerge dos textos “empacotados”. a prisão de Saddam. principalmente fotos e filmes de maior impacto no público. 303 . O internauta podia fazer as associações que desejasse entre os links à disposição. inicialmente. começava a envelhecer. Novamente surgem os Estados Unidos como paladinos da democracia e vingadores da maioria do povo iraquiano. No entanto. Não há links para visões contrárias. A maior parte do material.as “últimas notícias”. teve a mesma origem. por sua vez. foram buscar tudo na mesma fonte: o exército dos Estados Unidos. Para finalizar. é possível observar as mesmas posições actancias já vistas nos outros noticiários estudados: Saddam como anti-sujeito.

304 .

trabalhava “na conquista de novos territórios no aprimoramento do instrumental. por questões tensivas. fugazes. Fontanille). persuadido de que a vocação da semiótica é contribuir com a metodologia das ciências humanas e sociais”. Greimas e Courtés (1991: 9 e 10) afirmam que os pesquisadores da teoria que participaram da obra em meados da década de 80 mostravam três tendências principais de encarar o próprio fazer semiótico. Análises sobre o hábito e o consumo de longo prazo tiveram apoio nas reflexões da sociossemiótica (Landowski). persuadido como está de que la vocación de la semiótica es contribuir a la metodologia de las ciencias humanas y sociales”. mas por novas aquisições. citamos certos estudos comuns: técnicos. em la conquista de nuevos territórios y en afinamiento del instrumental. adequar outras contribuições. Só que também é preciso construir conhecimento para examinar os jornais como instrumentos de persuasão e de poder em suas manifestações concretas. No jornalismo.Qualquer pesquisador escolhe um ponto de vista para conceber e analisar um objeto. O último. atraentes. desenvolver e adaptar elementos teóricos e metodológicos já existentes e. Essas análises são indispensáveis. generalizantes. recorremos ao que já ficou definido como semiótica “clássica” (Greimas. 305 . para adaptar conceitos comuns no jornalismo e na comunicação. Com a semiótica. Um grupo procurava maior formalismo dos modelos da teoria. entre outros). Teorização proposta reúne várias orientações dentro da própria semiótica A análise mais integral do objeto jornalístico que foi proposta se valeu de estudos de semiótica bastante distintos. por uma contínua ampliação do campo de estudo. mostrar estratégias gerais. de “histórias de bastidores”. 175 Trecho original da tradução espanhola: “Un sólido núcleo trabaja. pudemos utilizar. Essa busca de ferramentas de investigação de objetos jornalísticos norteou todo o nosso trabalho e foi possível graças à existência de uma perspectiva teórica clara. ao mesmo tempo. Barros. Courtés. inclusive de jornalistas. dinâmicas. Discini. Fiorin. Já as questões afetivas motivaram incursões nos estudos da semiótica tensiva (Tatit. Zilberberg. segmentadores. a da semiótica francesa. As várias maneiras de ver e de fazer a teoria são compatíveis e complementares. No exame do conteúdo.175 O resultado final de nosso trabalho ilustra como o desenvolvimento da própria semiótica não se dá por rompimentos. cotidianas. Outro se interessava pelo “dinamismo das estruturas”. por último. Na apresentação do segundo Dicionário de Semiótica. ao modelo de análise proposto. Floch.

do cientista? Trata-se de uma falsa questão. das coerções do jornalismo como atividade. nos cursos de jornalismo. como o de objetividade. Pensar como os jornais gerenciam o nível de atenção é tentar encontrar resposta à principal pergunta formulada cotidianamente pelos profissionais que criam e sustentam esses meios de comunicação: “O que fazer para que o público-alvo se interesse o tempo todo pelo que apresentamos?” Percebe-se a razão do reinado do marketing e de suas teorias no mundo atual. O dever-fazer jornalístico não pode ser confundido com o fazer-crer das empresas de comunicação. 306 . as estratégias de gerenciamento do nível de atenção (arrebatamento. Se tudo é manipulação. comunicação e jornalismo. que inaugura e mantém a relação entre enunciador e enunciatário. O estudo da atenção proposto é uma das contribuições teóricas desta pesquisa para exame do jornalismo.Conceitos-chave e separação entre dever-fazer e fazer-crer jornalístico Já no início do trabalho. Uma teoria para o fenômeno da mobilização da atenção Dentro da preocupação maior deste trabalho. sustentação e fidelização) apontam um caminho proveitoso. A separação das reflexões levou em consideração um problema que pode surgir em sala de aula. mostrou-se como a teoria pode dar contribuições ao jornalismo ao discutir seus conceitos-chave. qual o argumento de um professor de jornalismo para convencer seus alunos de que. relacionados aos interesses das empresas de comunicação. Investigar o fenômeno da atenção em um programa de rádio ou de TV. não pode legitimar seu recorte da realidade e seus valores ao conjunto da sociedade. Fizemos também questão de separar os efeitos persuasivos mobilizados pelos jornais. de notícia. eles devem exercitar a objetividade. de uma análise mais integral dos maiores noticiários brasileiros. na discussão sobre relações entre semiótica. O jornal depende da tiragem ou da audiência para o exercício de seu poder como ator social. como profissionais. de um jornal impresso ou de uma revista. Sem atrair e manter a atenção de grandes fatias do público-alvo. Foi apresentado o conceito de “neutralidade” de uma outra perspectiva para evitar a confusão entre efeitos de objetividade mobilizados via enunciação com o que é considerado “texto objetivo” para jornalistas e pesquisadores. a mesma do pesquisador. impõe um olhar menos fragmentado a qualquer estudioso. de verdade. parte integrante de uma sociedade que se quer democrática. de um site.

têm uma organização textual que se dá espacialmente. por exemplo. Separamos o ato de edição (entendido como um trabalho integral de produção de sentido comum a qualquer objeto jornalístico) dos recursos que permitem executar a edição. Apresentamos o fazer-sentir principalmente ligado a efeitos de atualidade e de empatia. torná-la possível de diferentes maneiras em cada jornal estudado a partir de coerções de tempo ou de espaço: a diagramação (nos jornais.uma relação entre uma categoria do plano de expressão e outra do plano de conteúdo. Semi-simbolismos cristalizados A análise dos modos de textualização dos jornais apontou uma série de acordos de atribuição de importância às notícias. Pudemos verificar que os quatro grupos de jornais analisados - impressos. o webdesign (no portal). Essa solução mantém termos da prática jornalística. Entendemos a ação de editar como um procedimento que envolve todos os níveis de geração de sentido. daí sua característica de ser o próprio mecanismo global de enunciação no jornalismo. é produto de estratégias de organização textual complexas. deve ser entendida como mais importante em relação à outra que toma uma área menor da página. profissionais e até pelo público. outro ponto explorado no trabalho e que também pensamos ser uma contribuição teórica rentável para os estudos dos objetos jornalísticos. nos dois primeiros. é que esses semisimbolismos são muito especiais. Essas convenções são partilhadas entre enunciador e enunciatário e têm como base a organização espacial (nos impressos e na Internet) ou temporal (no rádio e na TV) de elementos do texto. Uma notícia que ocupa maior espaço em um diário. TV e rádio . como mostramos. a sonoplastia (no rádio) e a montagem (na TV). revistas). de 307 .Pôde-se notar que o estudo da atenção também motivou um aprofundamento teórico sobre as formas de estruturação dos afetos mobilizados pelos jornais. como mostramos. portal. mas pouco investigada. e temporalmente. revistos na perspectiva da semiótica. questão sempre citada por teóricos. de novidade. sob o comando da edição (como ato). Estratégias de organização textual: tempo e espaço A manipulação da atenção. que produz sentidos estéticos. e pode facilitar o entendimento da teoria por pesquisadores da comunicação. O mais curioso. nos dois últimos. Há semisimbolismos de texto inteiro. Estão no meio do caminho entre o que seria o semisimbolismo stricto sensu .

Ritmo nos jornais As reflexões sobre o plano de expressão e a aspectualização do tempo do texto. e do espaço. o que impõe uma série de efeitos de construção textual.e o simbolismo . entre outros recursos. Diante dessas possibilidades de construção textual para arrebatar e manter a atenção. Há uma sensação de aceleração. permite a desaceleração do plano de expressão sem perda de atenção do enunciatário. impede a inteligibilidade do texto. nos sinais de trânsito. No limite. no caso dos programas de rádio e de TV. encontrada. como a perda de atenção por falta de novidade ou por impaciência. Já a continuidade gera mais contato sujeito/unidade noticiosa. Um certo suspense em determinado trecho da narrativa de uma notícia (estratégia de sustentação). foram observados nos jornais verdadeiros sistemas de compensação na hora de noticiar. Basta que o programa lhe conceda bastante tempo de apresentação. de sons. relacionada à variação de planos.uma conformidade termo a termo entre expressão e conteúdo. E que também tem limites.têm como função permitir a decodificação rápida e eficiente de certos valores em jogo no texto. Muita descontinuidade de expressão mostra ainda valorização da estratégia de arrebatamento em relação às de sustentação e fidelização. De um lado. Trata-se de uma valorização das estratégias de sustentação e de fidelização em relação à de arrebatamento. com a apresentação de textos em terceira pessoa. 308 .criatividade . Ethos e outros efeitos de proximidade Os jornais analisados mostraram a necessidade de equilibrar duas coerções quase contraditórias. Há perda da atenção em função da impossibilidade de o público acompanhar a evolução narrativa. devem parecer objetivos na maneira de noticiar. Foram observados “quasesímbolos”. de elementos. mostraram-se rentáveis para verificar os efeitos de ritmo nos jornais. porém. Esses “semi-simbolismos cristalizados” – outro nome possível . Ao mesmo tempo. com destaque para as mídias de fluxo. Apresentamos um esquema aspectual do plano de expressão (criação de continuidades ou descontinuidades) e as relações com o plano de conteúdo nos jornais. sem um “eu” que assume a enunciação. Willian Bonner não precisa afirmar a importância de uma notícia. por exemplo. por exemplo. fundamental na estratégia de arrebatamento. No Jornal Nacional. que produzem sentido de convenção culturalmente estabelecida. o que permite maior reflexão. principalmente nos jornais e nas revistas. A descontinuidade aviva uma curiosidade sensorial.

assim como o próprio JN. Já a Veja prefere mostrar que sabe mais. o que significa investir em um ethos amigável. como mostrado. 2 . explica em detalhes nomes e situações complexas com voz pausada. Podemos citar como exemplos o Jornal Nacional e a revista Veja. Essa forma de ligação é marcada por um didatismo que impõe uma construção textual que remete à posição de alguém que muito sabe em relação a outro que pouco sabe. porém com uma atitude diferente. Ambos têm em comum o fato de se dirigirem a um público mais amplo se comparados aos jornais anteriores. É o caso da Folha. A Folha. é importante notar que cada jornal faz uma verdadeira regência de todas as suas unidades e possibilidades discursivas para administrar sentidos que trafegam entre esses dois limites. O apresentador do JN Willian Bonner usa sempre terno e gravata. O necessário equilíbrio entre os efeitos de distanciamento em relação às notícias e de proximidade com o público-alvo gerou dois ethos distintos dos jornais: 1 O que simula uma relação entre iguais.O que simula uma relação professoral. do Jornal da CBN e do Portal UOL. no sentido de sujeitos que partilham uma posição sócio-cultural parecida. compreensivo. No Jornal da CBN. A revista se apresenta como juiz de tudo o que acontece. mesmo que o slogan da rede tente construir essa relação. Comparação entre os jornais analisados A tabela a seguir relaciona os jornais estudados e a textualização predominante com o ciclo de produção e a forma de interação: 309 . Mais do que afirmar que existe um efeito de enunciação de objetividade (enuncivo) ou de subjetividade (enunciativo). ao segmentar os leitores. Não fala para os seus “iguais”. o âncora faz brincadeiras com resultados do futebol. vocabulário simples. chega ao requinte de ter uma construção adequada a cada segmento do público. que tentam fazer crer numa relação de mesmo nível com seu público. O enunciador está em um nível sócio-cultural superior. dirige-se aos ouvintes como se fossem amigos. mesmo caso do Portal UOL com as diferentes “estações”.buscam obter e manter a atenção por meio de certa intimidade e confiança entre enunciador e enunciatário.

Na análise da edição do Jornal Nacional. se aposta na narrativa verbal como procedimento organizador do texto. o JN é bastante dependente da estratégia de arrebatamento. de repórteres e de apresentadores. isso sim. enquanto as mais de três horas do Jornal da CBN analisado tiveram cerca de 600. um texto sincrético. Tão frágeis que. Para não perder a atenção. No JN constatou-se uma profusão de estímulos. por exemplo. com constante mudança de vozes. Se compararmos o que foi divulgado sobre a prisão de Saddam Hussein no Jornal Nacional e nos outros noticiários analisados. de criação de atenção de base sensorial. Os 10 minutos e 40 segundos da reportagem sobre o ex-ditador do Iraque apresentam 130 segmentações. essa “falta de profundidade” não se verifica. São apresentadas curiosidades da história que motivam o 310 . de cenas. certos limites e vantagens de cada um ficaram demarcados na análise. um impressionante resumo de todas as principais questões sobre o assunto abordadas nos outros noticiários.Veículo e noticiário Impresso Folha de S. mas tem a possibilidade de obter informações gerais consumindo apenas uma parte do programa Se cada jornal é obrigado a disputar a atenção do público-alvo. O que pode ser observado é. observou-se como o verbal assume um papel estratégico. O telespectador precisa de estimulação a cada segundo. Paulo e Veja De internet Portal UOL De televisão Textualização Ciclo de produção Forma de interação Espacial 24 horas no primeiro e semanal no segundo Usuário define forma de consumo de um número determinado de notícias Predomínio da espacialidade sobre a temporalidade Possibilidade de ser de minuto a minuto Usuário define forma de consumo de um número determinado de notícias Temporal Jornal Nacional De rádio Jornal da CBN Temporal 24 horas Usuário deve adequar-se ao horário e à programação 24 horas Usuário deve adequar-se ao horário e à programação. em que vários conjuntos significantes se organizam para produzir um todo de sentido. têm os laços mais tênues com a audiência. Os programas jornalísticos da TV. Para manter o telespectador atento. como foi discutido. certos teóricos acham impossível qualquer conteúdo mais “profundo” nesse veículo de comunicação.

O ritmo acelerado não dá tempo de refletir sobre o que é dito e mostrado. também um noticiário que se desenvolve no tempo. de segurança pública no outro. contudo. no entanto. Ambos “espalham” os assuntos. Pode-se observar um “adensamento” de informações. Momentos de aceleração do plano de expressão são compensados por outros. valoriza-se um contato mais pessoal. como o Jornal Nacional. Também realiza outras atividades enquanto ouve o rádio. muito mais preocupados em criar um ritmo do que em organizar rigidamente o material. Somente no Jornal da CBN esse relaxamento não é gradual. uma parte do programa. Nos segundos finais. é preciso manter um nível de tensão quase sempre alto até os instantes finais. de conversa entre amigos. mais páginas para os 311 . No Jornal Nacional um escândalo de corrupção ou a morte de alguém muito famoso pode ocupar grandes partes ou até o noticiário inteiro. Falar sobre massacres de Saddam mostrando suas vítimas é muito mais do que redundância ou estratégia de ilusão referencial. também impõe uma leitura. Uma canção ironiza alguns aspectos da história ou dos personagens. Existe grande preocupação com a estratégia de arrebatamento. ao poucos. Há. geralmente. Não há. predomínio do verbal diante de outras “linguagens”. No Jornal da CBN. apresentando assuntos mais leves. a apresentação de uma edição cotidiana inteira dedicada a uma única notícia e a seus desdobramentos é impensável. Um noticiário de televisão.engajamento do público para saber mais detalhes – estratégia de sustentação. Ao contrário do JN. Isso quer dizer que notícias longas devem ser colocadas junto de outras curtas. mais partes do programa serão preenchidas. tem a possibilidade de fazer uma narrativa visual. o programa é bastante segmentado. Trata-se da comentada estrutura “happy end”. apesar de ainda intenso. só que com elementos de atualização diferentes. Também precisam iniciar muito tensos e irem. Já nos impressos. caso dos impressos. Há um ir e vir das mesmas notícias. de desaceleração. o ritmo é mais desacelerado. e de política no seguinte. assim. Os dois jornais podem começar com um assunto de saúde em um dia. O Jornal. vê e “comprova” a existência de personagens e lugares citados. sim. O telespectador ouve. brinca-se com um assunto do dia. que também inclui todos os outros noticiários estudados. mas prefere construir inicialmente uma lógica “verbal” na qual são intercalados trechos de vídeos. O Jornal da CBN e o Jornal Nacional têm maior controle do contato do enunciador com a notícia. de sentidos. Para tentar mantê-lo “ligado” à apresentação. O enunciatário consome. com a criação de descontinuidades do plano de expressão para avivar a curiosidade do ouvinte. Maior o potencial de atenção. que tem duração fixa. Como a rotatividade de enunciatários é muito grande (a rádio chega a medir a audiência em minutos).

proporcionada pela possibilidade de organização dos elementos espacialmente. as estratégias de sustentação e fidelização têm como base a promessa de apresentação de uma notícia em primeira mão. Buscou-se acirrar contrastes da vida do ex-ditador. lhes dar um pouco de tudo em uma mesma edição. Todos os noticiários estudados tentam construir efeitos de neutralidade em relação às notícias. Isso ficou evidente no texto sobre Saddam Hussein. deve ter seus assuntos principais mostrados em todas as edições normais. contudo. Daí a escolha cuidadosa do material fotográfico. um “diferencial” na abordagem da notícia. a Folha lhe dá mais detalhes.assuntos considerados mais importantes. a leitura do mesmo assunto nas cinco páginas e meia da Folha demandaria de duas a três horas. E todos devem encontrar alguma coisa de interesse nas páginas para manter laços com o diário. A voz que tudo sanciona da revista. no caso de Saddam. Como o leitor tem maior controle do que quer ler ou ver. E edições especiais. A 312 . o diário apresenta uma série de iscas diferentes para buscar a atenção de enunciatários distintos. mais possibilidades de escolha. Um leitor pode se interessar sobre detalhes da captura. ao mesmo tempo. como a que representa a família unida e feliz de Saddam ao lado das que mostram os cadáveres dos filhos. Os impressos precisam “organizar o mundo” para os seus leitores. ao contrário das outras mídias. menos Veja. Quem consulta o UOL tem a chance de ser o primeiro a saber algo “importante”. mais “profundidade”. Qualquer editoria. Se não aparecesse como “juiz”. Ele espera uma “contextualização” e. O que vale é a “rapidez”. Veja perderia uma grande maneira de se diferenciar dos outros noticiários. o Portal UOL pode comercializar as novidades nos menores pedaços possíveis. de edição semanal. Podemos observar uma estratégia de sustentação específica da Folha. No Portal UOL. Podemos notar que. é muito mais uma coerção do que uma escolha qualquer para construir o ethos do enunciador. fica evidente a necessidade de parecer “excessiva” aos leitores. Na Folha de São Paulo. tem tempo para refinar suas estratégias de arrebatamento e de sustentação. Optou-se pela diagramação de fotos de conteúdos díspares. o internauta teve como grande estímulo para manter a audiência ir acompanhando o desenrolar da própria notícia. Outro. Sem ter a obrigação de organizar conteúdos na forma de edições com intervalo de tempo fixo. O leitor instaurado pela revista não é o que nada sabe. É evidente que os jornalistas do diário sabem que poucos leitores vão gastar esse tempo. por saber o que pensa a população iraquiana. Se o Jornal Nacional se esforça em resumir a prisão de Saddam em 10 minutos e 40 segundos. Já a revista Veja. O que está em jogo é tentar convencer o enunciatário de que. contudo.

Um olhar dirigido ao Jornal Nacional. ou ao programa de rádio CBN Brasil. Só na Internet o usuário administra esse processo e o adapta às suas necessidades de consumo. O portal enuncia o tempo todo e. não têm condição de oferecer uma espécie de “menu” de notícias em constante atualização. A característica de fluxo das TVs força os canais de notícias a ocupar todo o tempo com o que for muito importante ou a fazer um rodízio de notícias de destaque. mas ninguém é compelido a seguir o roteiro pré-determinado. Até mesmo os canais jornalísticos das TVs por assinatura. principalmente na Internet. Na Internet. As mesas de iguarias devem dar a impressão de uma enorme diversidade. juntos. Uma analogia entre jornais e restaurantes É possível fazer uma analogia entre restaurantes e jornais. a agravar. Quem estipula o horário de consumo é o próprio internauta. É possível ainda 313 . criação de necessidades e de satisfação de desejos. cada noticiário. Isso significa que o Internauta relaciona-se com a notícia de uma maneira diferente. pode submeter-se ao consumo e às necessidades de qualquer usuário. Dito de outro modo. O consumidor não tem de ficar adequando seu ritmo pessoal à grade de programação ou a um programa jornalístico específico. contudo. caso da Globo News. mostra que cada um se vende como produto cujo grande apelo de consumo é apresentar um saber organizado sobre o mundo – mesmo com estratégias distintas . No rádio e na TV. faz um “arquivo de novidades”. como fazem portais do tipo UOL. Em relação aos noticiários “rápidos” analisados neste trabalho – como o Jornal Nacional e o Jornal da CBN -. se vende como solução para um problema que ajuda. Esses noticiários assemelham-se a um estabelecimento do tipo bufê. as novidades são organizadas em programas com horários fixos. não há o momento especial. ao contrário. individualmente. como no caso da TV e do rádio. à Veja. as notícias também podem ser divulgadas em boletins espaciais. ao portal UOL. a manipulação do espaço determina certas formas de consumo. Basta entrar na home. à Folha de São Paulo. um meio e um fim. O bufê tem um começo. Inicialmente.curiosidade sobre a notícia é. coletivamente. desse modo. relacionada à sua própria apresentação como “última novidade”. Em função de sua importância. Ao acessar um portal como o UOL. um caminho a ser percorrido. o UOL leva algumas vantagens.que traz vantagens a seus consumidores. ele sabe que estará diante de uma hierarquia de notícias em constante atualização. Nos impressos. com auto-serviço. mesmo sabendo-se que cada consumidor tem seus limites. É notável que. os veículos de comunicação impõem um excesso de informação.

Porém. pois tem outras atividades para realizar. assim. Uma vantagem do rodízio do rádio é que dura horas. ou seja. Para compensar a massificação. chamar mais a atenção. no entanto.equiparar o arranjo do bufê ao projeto gráfico de um jornal. com os melhores conteúdos. O restaurante também tem um cliente padrão. classe social. deve permitir a escolha de maneira rápida e eficaz do que é considerado mais interessante para ser degustado. realiza outras tarefas. O empreendimento. exista mais consumo. E que exige que o consumidor se adapte ao horário fixo de consumo. além da impressão de grande variedade. Em outras palavras. é montado para uma maioria que engole tudo com rapidez. no entanto. O telejornalismo estudado proporciona um prato-feito em sistema de fast food. O serviço é muito rápido. Pensemos as unidades noticiosas como um tipo de alimento específico que se coloca em cada recipiente do bufê. Não há muita variedade. A diagramação é justamente a arrumação no dia-a-dia. mas também bonita. Alguns vão direitamente para as alegrias das variedades de sobremesas. A comida vai passando na frente do cliente. degustam. se ele se distrair. O restaurante dos outros noticiários analisados seria um pouco diferente. e portanto. há partes fixas. Assim. no limite. 314 . não se pode escolher. tudo é servido por gente bem-vestida e educada. Como ele não pode ir até a comida desejada. sem parar. faixa etária. Vende-se também a idéia de que se trata de uma refeição gratuita. que pode ser imaginado com base no poder aquisitivo. e satisfaz a quem não tem tempo a perder. Certos consumidores montam o prato com um pouco de tudo. mas os ingredientes são pensados para dar conta das necessidades diárias. e deve esperar que o alimento venha até ele. mastigam mais vezes. Essa arrumação. O do rádio é no sistema de rodízio. apelar aos sentidos para que. e ele não tem como prever quando entrará em contato com o que está buscando. Há quem encha o prato só com um item. Outros colocam grande quantidade da salada da política – sempre valorizada espacialmente. pratos especiais. espaços determinados que nunca se alteram para grupos diferentes de alimentos. Os que dispõem de mais tempo vão e voltam ao bufê. O arranjo geral. pode ter de esperar a próxima rodada para colocar no prato o item desejado. também precisam ficar em recipientes diferenciados. Só que a variedade de pratos deve satisfazer desde vegetarianos até os amantes de carnes mal passadas. dos que querem emagrecer com uma porção diminuta e insossa até os que não têm a menor preocupação com colesterol. em uma localização espacial privilegiada para. As melhores iguarias são servidas no final. precisa não apenas ser prática. acessível a qualquer consumidor.

e se achar. A Veja construiu dois relatos diferentes. Antes de achar. é preciso procurar e procurar entre muita coisa ruim. Ele não chefia uma equipe que corre atrás de notícias. No material sobre a prisão de Saddam. Tentou-se ainda confundir detalhamento com aprofundamento. vídeos. mas geralmente estão crus ou mal cozidos. Em comum. Nos noticiários. todos os jornais analisados foram empacotadores de um relato de uma única fonte. No principal. não foi diferente. assim como o portal UOL. mas um grupo de jornalistas que dá uma roupagem diferente ao que vem pronto.Já o portal é um bufê sem fim. mas arrumado sempre do mesmo jeito. A apresentação de imagens. o consumidor terá de experimentar um pouco de tudo. foram os elementos de atualização. A função do editor é tornar tudo mais atrativo. ironizou-se a ação norte-americana no final da edição. a forma de embalagem. O Jornal da CBN não deixou de ironizá-lo. A notícia principal e seu destaque não variaram. o exército dos Estados Unidos. A Folha de São Paulo foi o único jornal que tinha jornalistas no Iraque. O que se alterou. enunciou que considerava a detenção do ex-ditador do Iraque uma notícia de enorme importância. Basta verificar o total de páginas construídas para abordar o assunto. Saddam vira o bandido dos bandidos. O efeito de neutralidade buscado pela Folha de São Paulo também não a isentou de participação intensa nesse fazer-crer na importância da prisão de Saddam. Mudaram os detalhes. fotos. O Jornal Nacional preferiu uma postura mais distanciada. que muda a cada minuto. O consumidor é obrigado a ficar procurando o que quer diante de um enorme número de possibilidades. Pollyana Ferrari (2004: 44) refere-se ao editor de jornalismo de um portal como um “empacotador”. tudo não altera o fato de 315 . links e dezenas e dezenas de matérias com menor ou maior contextualização e comentários. principalmente o da entrada do restaurante. No Portal UOL. Para achar algo. o que reforça ainda mais a posição de mocinho do presidente dos Estados Unidos. aparece a prisão como o único fato gerador. de jornal para jornal. Fica patente que os jornais brasileiros utilizaram um relato principal que já chegou embalado nas redações. Os produtos são os mais frescos encontrados. Só que o programa inteiro. ao dar grande realce para a prisão. por exemplo. No Jornal da CBN. o que permitiu ouvir os iraquianos. E pode ficar saturado antes de localizar o que realmente deseja. Mais do mesmo O consumidor de informação no Brasil foi bombardeado por inúmeros detalhes sobre a prisão de Saddam Hussein. houve grande valorização do assunto. parte interessadíssima em vender uma versão da prisão do ex-ditador iraquiano. os efeitos com animações.

Eles não são a “garantia da verdade dos fatos”. laços. pior é Durante as leituras de outros trabalhos para realizar a análise. principalmente do Portal UOL. informava-se que Saddam tinha sido preso com uma barba falsa. Outro ponto é que. internautas. transmissão e armazenagem de dados. Há cada vez mais meios de comunicação lutando por uma fatia de público. que tinha acontecido no sábado e sido divulgada no domingo. mas produzem algo mais simples e não menos importante: outras visões de mundo que podem conflitar e questionar versões oficiais. a auto-referência 316 . criam as notícias que de fato deveriam ser buscadas exteriormente. dar a notícia da prisão de Saddam em primeira mão com detalhes absurdos. Como filosofia do ‘eu me basto’. faturamento.que houve uma única fonte de informação. Observou-se durante o estudo das reportagens uma série de exercícios de futurologia que se mostraram errados com o tempo. Muita rapidez e pouco jornalismo fizeram o UOL. observou-se um certo encantamento com as novas tecnologias de informação. como a necessidade da reportagem. E o que se viu foi um espetáculo midiático cuidadosamente orquestrado pelo governo dos Estados Unidos correr o planeta e ser aceito de bom grado pelos jornais porque. construir comentários e análises sobre o assunto. afinal de contas. gerava curiosidade. Numa das matérias iniciais. porém. ouvintes receberam “mais do mesmo”. os jornais citaram-se uns aos outros. constroem um universo para si próprios e o colocam no lugar do mundo externo. como elementos de atualização. Ciro Marcondes Filho chama esse processo de auto-referência midiática: “A auto-referência é o mesmo que fechamento de círculo: os meios de comunicação falam de si mesmos. Atualização e citação Para dar sensação de atualidade ao relato da prisão de Saddam. O que se viu com a análise. A análise das reportagens da prisão do ex-ditador do Iraque não deixa de mostrar que leitores. telespectadores. como o que previa a pacificação do Iraque na Folha de São Paulo. por exemplo. é que as possibilidades de uma nova mídia não podem prescindir das “antigas” práticas que parecem imutáveis no jornalismo. de todo mundo. A Internet concentrou um grande número de esperançosos em um futuro de informação menos manipulada. mantêm-se num procedimento de se citarem mutuamente. os jornais de segunda-feira buscaram. para valorizar o assunto. Mais rápido. da presença de jornalistas. em suma.

apresentarem-se essencialmente como um meio de comunicação do dever-fazer. as igrejinhas intelectuais). o editor do jornal Fernando de Barros e Silva faz uma análise do “novo leitor” e de suas “novas necessidades”: “Vistas em conjunto. temas impensáveis como manchetes principais da Folha de São Paulo. As posições extremas foram observadas no grupo dos impressos. Na Veja. assunto que não tinha sido previsto inicialmente. essa tendência se explica por uma dificuldade histórica anotada pelo 317 . destaca o político quando parece haver curiosidade prévia sobre o assunto. a Folha lança cadernos e outras publicações sobre esses assuntos. vive uma longa fase difícil. Já a revista Veja. ao modo de cada um valorizar ou desvalorizar certas notícias.é um processo que se vê em muitos outros campos da sociedade (as comunidades fechadas. mesmo que os textos sejam carregados de opiniões. ao contrário. Para compensar. Em um texto que fala dos 80 anos da Folha de São Paulo. Mesmo com possíveis e justas ressalvas. e das perspectivas do futuro. como voz social. De um lado. em tudo o que é associado à construção de mundos paralelos” (2000:41). A revista Veja. com uma tiragem que quase não se altera há anos. estão os assuntos políticos ou de viés político claro (como as mudanças ou rumos econômicos do País). as seitas. ao contrário. Seus jornalistas têm mais tempo para avaliar o está sendo valorizado pelo seu leitor. a publicação tira pleno benefício da condição de ser semanal. um assunto que envolve o governo federal pode ter o mesmo peso editorial das novas descobertas da cirurgia plástica. em suma. E nesse dever. Sucesso e crise Nossos estudos esbarraram na questão do sucesso ou da crise vivida pelos meios de comunicação analisados e a relação com suas escolhas de montagem textual. tem sido um sucesso de vendas. Parece não haver um “dever-ler” bem marcado. que dizem respeito ao lado mais individualista do leitor. como os demais diários do País. as iniciativas da Folha nos últimos anos indicam uma expansão significativa de um novo jornalismo de serviços. Os diários não abrem mão de. da imposição de certas obrigações aos leitores. ou de regimes inovadores de emagrecimento. principalmente do que devem considerar como importante. acreditamos que é válido relacionar esses diferentes resultados às linhas editoriais adotadas pelos dois meios de comunicação. Demanda crescente de um leitor individualista. temos a Folha de São Paulo que. que todos os dias são valorizados por meio das principais manchetes. Trata-se de um tipo de informação que serve ao egoísmo pragmático que caracteriza a mentalidade dominante dos nossos dias. Nesse sentido.

E o jornal acha necessário encontrar formas de interlocução com essas novíssimas formas de vida política. O crítico julga ter acesso à verdade sobre determinado assunto e recrimina o jornal por não tê-la apresentado “fielmente”. anômica e flexível. Texto faz parte de um site dedicado a comemorar 80 anos da Folha de São Paulo.. mesmo com os suplementos. os comentários do âncora em um noticiário radiofônico. cadernos especiais.) Conceito sempre difuso. a opinião pública ganha unidade com a convergência geral de idéias. portanto. Freqüentemente.(. 176 In “Jornalismo como crise permanente – Fernando de Barros e Silva (editor da seção Painel”). também uma construção midiática. As questões políticas e sociais. entretanto.folha. racionais e passionais mobilizadas pelos jornais no seu processo de persuasão.com. e até brindes. E como podem atrair o leitor para o jornal? Até agora. é a quarta maior revista semanal de informação do mundo. aparecem como disfóricas para o público.shtml.”176 O problema que se apresenta é realmente preocupante. Último acesso em agosto/2005. receba um tratamento jornalístico revigorado.” Na mesma análise. E não é difícil criticar um programa de TV. A crítica tem de ser construída em outro nível. terreno em que o jornalismo sempre lastreou sua legitimidade. passa por um terremoto que ainda não se assentou. a Folha e os outros diários em geral.uol. Os jornais. 318 . não acharam um caminho. Já a Veja.Projeto de 1997: ‘O espaço público. revistas. quando tratadas como temas coletivos. lançando mão de instrumentos de análise que tentem dar conta das dimensões sensíveis. ao apostar no “individualismo do leitor”. pulverizada. A incipiente fragmentação do consenso ideológico dos anos 90 coloca a necessidade de que a exclusão social. diz o texto. mas se dispersa numa segmentação de interesses que desafia a linguagem em comum’. que cresceu no período. o jornalista afirma que “um dos maiores desafios da Folha daqui em diante será compatibilizar os interesses de um leitor cada vez mais encerrado em seu universo individual com um jornalismo capaz de lançar nova luz sobre um espaço público hoje difícil de identificar. Disponível em http://www1. uma reportagem em um diário. esse atrito é conseqüência de choques ideológicos.. A semiótica e a produção de estados mentais pelos noticiários Os jornais são sempre objetos de muita crítica. Parte dessa mesma concepção de mundo que o crítico jura ser produto de sua mais profunda reflexão pessoal é.br/folha/80anos/futuro. O colunista Clóvis Rossi tem chamado a atenção para o fato de que está sendo gestada uma sociedade civil diferente. são instrumentos de poder complexos.

“A compreensão crítica do discurso veiculado pelos meios de comunicação de massa é garantia de exercício pleno da cidadania (..177 Temos convicção de que as investigações realizadas neste trabalho mostraram a operacionalidade e o potencial da semiótica para esclarecer certos procedimentos dos jornais para fazer os valores de seus proprietários e do grupo social ao qual pertencem se transformarem nos valores de toda a sociedade. Afirmam os dois autores que “a liberdade política não pode se resumir no direito de exercer a própria vontade. 177 A afirmação consta de resumo de trabalho apresentado pelo professor no Fórum de Atualização de Pesquisas semióticas.). apresentado na USP em 19 de março de 2004. é preciso compreender os mecanismos de que se vale o discurso para conseguir eficácia” – afirma José Luiz Fiorin. esclarece o funcionamento dessas estruturas de dominação.. disponível no endereço: www.usp. 319 . Para isso.htm. Armand e Michèle Mattelart asseveram que “a era da chamada sociedade da informação é também a da produção de estados mentais”.br/dl/semiotica/fap-fior. na nossa concepção.fflch. Ela reside igualmente no direito de dominar o processo de formação dessa vontade” (2202: 187). A semiótica.

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