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PAEO
PESADELO
James HilIman

~
PAUlUS
"O grande deus Pã está morto!" Esse gri to supostamen-
te ressoou por todo o mundo ant igo, anunciando o fim
do paganismo, com seus mitos e deuses, e a morte da
natureza.
Es te excelente livro traz Pã de volt a à vida, a partir do
famoso dito de C. G. Jung de que os deuses se torn aram
nossas en fe rmidades. Capítulos sob re o pânico nOlumo,
mastu rbação, estupro e nin fo leps ia, instinto e sincl"O-
nicidade , e as amantes de Pã - Eco, Sírinx, Selene e as
Musas - mostram o deus bode atu ando e brincando nos
ímpelos obscuros e paixões cri ativas de nossas vidas.
Os illsiglas de 1-:1 illman mostram a figura arquetípica nas
prof·undezas da natureza e a psicologia arquetíp ica como
método de revelação. Pii e o pesadelo (que inclui uma
tradução completa de Efialtes, o magistral tratado mítico-
-pa tológico que Wilhelm Heinrich Roscher escreveu no
século XlX sobre Pã e os demônios da noite) é o estudo
mais radical já feito so bre esse deus.

JAMES HILLMAN (1926-20 11 ) foi um psicólogo ana lista


no rte-amedcano que se defi nia como a nalista junguiano.
Radical iz.:"l.ndo a psicologia jungu iana ou a na lfti ca , sua
psicologia fic ou conhecida como arquelípica. Didgiu pOl"
vários anos O Institut o Cad Custav Jung, e m Zul"ique. Foi
pl"Of-essor convidado nas Univers idades de Yale, Halvard,
Princeton, Syracuse e Dallas, além de editor (Spring
Publicat ions, lnc., Putnam , Con necticul). Dentre suas
obras, PAU LUS já publicou O livro do pller - EIl$aios
sobre o arquétipo do Pue,· Aetcn1 us ( 1999) e Uma busca
illIerior em psicologia e religitio (1998).
Coleção AMOR E PSIQUE Opuer JAMES HILLMAN
• O livra do Puer, ensaios sobre o arquétipo do
O feminino Puer Aeternus, J. Hilman
• As deusas e a mulher, J. S. Bolen • Puer aeternus, M.-L. von Franz
• A prostituta sagrada, N. Q. Corbett
• O medo do feminino, E. Neumann Relacionamentos e parcerias
• Os mistérios da mulher, Esther Harding • Eros e pathos, A. Carotenuto
• Liderança feminina: Gestão, psicologia Jun- • Os parceiros invisíveis: O masculino e o femi-
guiana, espiritualidade e a jornada global nino, J. A. Sanford
através do purgatório, Karin Jironet
Sombra
o masculino • Mal, o lado sombrio da realidade, J. A.
• No meio da vida: Uma perspectiva Junguia- Sanford
na, • Os pantanais da alma, J. Hollis
M.Stein
O autoconhecimento e a dimensão social
• Os deuses e o homem, J. S. Bolen
• Sob a sombra de Saturno, J. Hollis • Meditações sobre os 22 arcanos maiores do
tarõ, anõnimo
PÃ E O PESADELO
Psicologia e religião Encontros de psicologia analítica, Maria Elci
• Uma busca interior em psicologia e religião, Spaccaquerche (org.)
J.Hillman
Psicoterapia, imagens
Letras imaginativas: breves ensaios de psico-
e técnicas psicoterápicas
logia arquetípica, Marcus Quintaes
Psiquiatria junguiana, H. K. Fierz
Sonhos O mundo secreto dos desenhos: uma abor-
dagem junguiana da cura pela arte, G. M.
• Aprendendo com os sonhos, M. R. Gallbach
Furth
• Breve curso sobre os sonhos, R. Bosnak
O abuso do poder na psicoterapia e na me-
• Os sonhos e a cura da alma, J. A. Sanford
dicina, serviço social, sacerdócio e magisté-
• Comoentenderossonhos, Mary Ann Mattoon
rio, A. G.-Craig
• Sonhos na psicologia junguiana - novas
• Saudades do Paraíso: perspectivas psicoló-
perspectivas no contexto brasileiro, Marion
gicas de um arquétipo, M. Jacobi
Rauscher Gallbach / Durval Luiz de Faria /
• O mistério da Coniunctio: imagem alquími-
Laura Villares de Freitas (org.)
ca da individualização, E. F. Edinger
Pã e o pesadelo, J. Hillman
• Psicoterapia junguiana e a pesquisa con-
Maturidade e Envelhecimento temporânea com crianças: Padrões básicos
de intercâmbio emocional, ,Mario Jacoby
• A passagem do meio, James Hollis
• Medicina arquetípica, Alfred J. Ziegler
• No meio da vida, M. Stein
Corpo e a dimensão fisiopsíquica
Contos de fada e histórias mitológicas
• Dionísio no exílio: Sobre a repressão da
• A individuação nos contos de fada, Marie- emoção
-Louise von Franz e do corpo, R. L.-Pedraza
• Ainterpretaçãodos contosdefada, Marie-Loui- • Presença no corpo - Eutonia e psicologia
se von Franz analítica, Marcel Gaumond
• Mitologemas:encarnaçõesdomundoinvisível,
J. Hollis Outros
• O Gato, M.-L. von Franz • O mundo interior do trauma: defesas arque-
O que conta o conto?, Jette Bonaventure típicas do espírito pessoal, Donald Kalsched
O que conta o conto? (II) - Variações sobre o • A família em foco - sob as lentes do cinema,
tema mulher, Jette Bonaventure M.R. Reis / M. E. Spaccaquerche PAULUS
Título original: Pan and the Nightmare
"An Essay on Pan": copyright © James Hillman 1972
INTRODUÇÃO À COLEÇÃO
"Ephialtes": copyright © Spring Publications 1972 AMOR E PSIQUE
Tradução: Carla C. Pilon
Daniel F. Yago
Direção editorial: Claudiano Avelino dos Santos
Coordenação editorial: Ora. Maria Elci Spaccaquerche
Assistente editorial: Jacqueline Mendes Fontes
Coordenador de revisão: Tiago José Risi Leme
Revisão: Tarsila Doná
Caio Pereira
Diagramação: Ana Lúcia Perfoncio
Capa: Marcelo Campanhã
Impressão e acabamento: PAULUS

N a busca de sua alma e do sentido de sua vida, o


homem descobriu novos caminhos que o levam para a
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
sua interioridade: o seu próprio espaço interior torna-se
um lugar novo de experiência. Os viajantes desses cami-
Hillman, James, 1926- .
nhos nos revelam que somente o amor é capaz de gerar
Pã e o pesadelo / James Hillman; [tradução Carla C. Pilon, Daniel F. Yagol. -- São Paulo:
Paulus, 2015. - (Coleção Amor e psique) a alma, mas também o amor precisa de alma. Assim, em
Título original: Pan and the Nightmare. lugar de buscar causas, explicações psicopatológicas para
ISBN 978-85-349-4241-6
as nossas feridas e os nossos sofrimentos, precisamos,
1. Autoconhecimento 2. Hillman, James. Ensaios sobre Pan 3. Pesadelos 4. Psicologia - em primeiro lugar, amar a nossa alma assim como ela é.
Aspectos religiosos 5. Sonhos -Interpretação I. Título. II. Série.
Desse modo é que poderemos reconhecer que essas feridas
15-06990 CDD-154.632 e esses sofrimentos nasceram de uma falta de amor. Por
outro lado, revelam-nos que a alma se orienta para um
fndices para catálogo sistemático:
1. Pesadelos: Psicologia 154.632
centro pessoal e transpessoal, para a nossa unidade e a
realização de nossa totalidade. Assim a nossa própria
vida carrega em si um sentido, o de restaurar a nossa
unidade primeira.
Finalmente, não é o espiritual que aparece primeiro,
la edição, 2015 mas o psíquico e depois o espiritual. É a partir do olhar
jJ do imo espiritual interior que a alma toma seu sentido,
o que significa que a psicologia pode de novo estender a
© PAULUS - 2015 FSC
www.fsc.org mão para a teologia.
Rua Francisco Cruz, 229 • 04117-091 São Paulo (Brasil)
MISTO
Fax (11) 5579-3627· Tel. (11) 5087-3700 Papel produzido
Essa perspectiva psicológica nova é fruto do esforço
a partir de
www.paulus.com.br·editorial@paulus.com.br fonles responsáveis para libertar a alma da dominação da psicopatologia, do
FSC" C108975
ISBN 978-85-349-4241-6 espírito analítico e do psicologismo, para que volte a si
5
mesma, à sua própria originalidade. Ela nasceu de refle- AGRADECIMENTOS
xões durante a prática psicoterápica, e está começ~ndo a
renovar o modelo e a finalidade da psicoterapia. E uma
nova visão do homem na sua existência cotidiana, do
seu tempo, e dentro de seu contexto cultural, abrindo
dimensões diferentes de nossa existência para podermos
reencontrar a nossa alma. Ela poderá alimentar todos
aqueles que são sensíveis à necessidade de inserir mais
alma em todas as atividades humanas.
A finalidade da presente coleção é precisamente res-
tituir a alma a si mesma e "ver aparecer uma geração de
sacerdotes capazes de entender novamente a linguagem A tradução de "Efialtes" foi feita por A. V. O'Brien em
da alma", como C. G. Jung o desejava. Viena entre 1963-64 e lá editada por A. K. Donoghue, que,
embora prevendo dificuldades à frente, também previu
o valor desta empreitada. Ele, juntamente com Renate
Léon Bonaventure Welsh, duelou com a maioria das referências. A versão final
foi preparada para publicação por Murray Stein, com a as-
sistência de James Fenwick para a tradução das palavras
em grego. Patricia Berry editou meu ensaio; Valerie Donle-
avy projetou e supervisionou a edição do livro. Sou grato a
Rafael López-Pedraza pelas nossas conversas sobre o tema
de Pã e a James Redfield, que, na Universidade de Chicago
em 1968, leu toda a tradução e o esboço anterior do ensaio
sugerindo melhorias para esta edição revisada.
Eu também gostaria de reconhecer meu débito para
com os livros (mencionados em toda parte deste volume,
nos locais apropriados) de Ernest Jones, Reinhard Herbig e
Patricia Merivale, em cujos essenciais trabalhos para este
tema as necessárias referências acadêmicas puderam ser
achadas, e, por fim, meu débito a Wilhelm Heinrich Roscher.
JH
Zurique, 1971

o trabalho acadêmico de Philippe Borgeaud e Roberto


Malini (referidos no texto) precisa ser mencionado.
JH
Thompson, 2000

6 7
Parte I
UM ENSAIO SOBRE PÃ
NOVA EDIÇÃO REVISADA

Por
James Hillman
A PSIQUE RETORNA À GRÉCIA

... Padrões internos brotam de uma profunda fonte que


não foi produzida pela consciência e não está sob seu con-
trole. Na mitologia dos tempos antigos, estas forças eram
chamadas de mana, ou de espíritos, demônios e deuses.
Eles continuam tão ativos na atualidade quanto estavam
no passado. Se eles estão de acordo com nossos desejos,
os chamamos de bons pressentimentos ou impulsos ... Se
eles vão contra os nossos desejos, dizemos que é má sorte,
ou que as pessoas estão contra nós, ou ainda que a causa
de nossos infortúnios deva ser patológica. Recusamo-nos
a admitir que dependemos de "poderes" que não estão sob
nosso controle. 1
Se a tendência à dissociação não fosse inerente à psique
humana, os sistemas psíquicos fragmentários jamais
teriam se cindido; em outras palavras, nem os espíritos
nem os deuses poderiam ter surgido. Esta é também a
razão pela qual nossa época tornou-se tão completamente
ateia e profana: carecemos de todo o conhecimento sobre a
psique inconsciente e nos dedicamos de tal modo ao culto
da consciência que excluímos tudo mais. Nossa verdadeira
religião é o monoteísmo da consciência, estamos possuídos
por ela, ao passo que também negamos fanaticamente a
existência de sistemas fragmentários autônomos. 2

1 Man and his Symbols (1961), 82 [cf. CW 18, § 554]. Para definir o cenário
de nossa investigação sobre uma das figuras divinas mais estranhas de nossa
história, Pã, e uma das experiências mais terríveis de nossa psique, o pesadelo,
começaremos com duas passagens de C. G. Jung e uma passagem longa minha.
2 CW 13, § 51 (os itálicos são meus).

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Quando o monoteísmo da consciência não pode mais Mas olhar para trás permite que avancemos, pois olhar
negar a existência de sistemas autônomos fragmentários para trás reanima a fantasia do arquétipo da criança,fons
e não pode mais cuidar de nosso estado psíquico atual, et origo, que é um momento tanto de fraqueza impotente
surge a fantasia de retorno ao politeísmo grego. Pois esse quanto de um futuro que se desvela. A "renascença" (re-
"retorno à Grécia" se oferece como uma forma de mediação -nascer) seria uma palavra sem sentido sem a conside-
quando nossos centros não mais se sustentam e tudo des- ração da dissolução que ela implica, a verdadeira morte
morona. A alternativa politeísta não resolve as oposições da qual vem esse renascimento. Os críticos perdem de
conflituosas entre a besta e Belém, entre caos e unidade; vista a validade e a necessidade da regressão. Também
ela permite a coexistência de todos os fragmentos psíqui- lhes escapa a necessidade de uma regressão que seja
cos e concede-lhes padrões na imaginação da mitologia especificamente "grega".
grega. Um "retorno à Grécia" foi experimentado na pró- Nossa cultura oferece duas vias alternativas de
pria Roma antiga, no Renascimento italiano e na psique regressão. Essas vias têm sido chamadas helenismo e
romântica dos tempos de revolução. Em anos recentes, foi hebraísmo, e elas representam as alternativas psicológi-
parte intrínseca da vida de artistas e pensadores como cas de multiplicidade e unidade. Podemos ver ambas as
Stravinsky, Picasso, Heidegger, Joyce e Freud. O "retorno alternativas em momentos críticos da história ocidental,
à Grécia" é uma resposta psicológica ao desafio do colapso; por exemplo, quando do declínio de Roma, que acompa-
ele oferece um modelo de integração desintegrada. nhou Constantino rumo ao cristianismo (como se havia
Já se escreveu o bastante para justificar o "retorno começado a chamar o hebraísmo). Voltamos a vê-las
à Grécia" desde os pontos de vista estéticos, filosóficos e novamente em momentos como na Renascença e na Re-
culturais. Nossa cultura tem se voltado para a Grécia em forma, quando o sul da Europa retornou ao helenismo e
busca de glória passada, de perfeição, de graça e clareza o norte, ao hebraísmo.
de mente, e também quando ela busca por suas "origens", O hebraísmo reconfirma o monoteísmo da consciência
pois na Grécia foi onde nossa cultura começou. Mas nosso egoica. Esse caminho convém quando a consciência de
objetivo aqui é olhar para a Grécia em busca de compre- uma época ou de um indivíduo sente que sua sobrevivên-
ensão psicológica. Estamos tentando compreender o que é cia é mais bem assegurada por um padrão arquetípico de
essa "Grécia" que tanto convoca a psique e o que a psique heroísmo e unidade. A imagem primitiva de Cristo era
lá encontra. composta pelo militar Mitra e pelo musculoso Hércules;
Quando a visão dominante de mundo que dá coesão a conversão de Constantino, que definitivamente virou o
a um período da cultura se fissura, a consciência retorna jogo contra o politeísmo clássico, foi anunciada por uma
aos seus reservatórios mais antigos, procurando por fontes visão marcial que veio a ele justo antes que começasse
de sobrevivência que também ofereçam fontes para o seu sua batalha. De modo semelhante, o judaísmo da Reforma,
renascimento. Os críticos estão certos quando veem esse a despeito de sua tolerância para com a contestação, a
"retorno à Grécia" como um desejo regressivo de morte, diversidade e os cismas, era arquetipicamente inspirado
como um escape dos conflitos contemporâneos em direção pela fantasia de uma força heroica unificada; o indivíduo
a mitologias e a especulações de um mundo de fantasia. era concebido como uma unidade indivisível de respon-

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sabilidade armada que se coloca ante a Deus, face a desejaria manter a coesão de seu universo através de
face, o encontro primordial. Nos nossos dias, o caminho sermões culpabilizantes e de autossuperação.
monocêntrico é percorrido sempre que tentamos resolver O helenismo, contudo, traz a tradição da imaginação
uma crise da alma através dos meios da psicologia do ego, inconsciente; a complexidade politeísta grega que nos
sempre que tentamos "reformar". antecipa as nossas situações psíquicas complicadas e des-
A psique em crise tem, naturalmente, outras fanta- conhecidas. O helenismo favorece a renovação ao oferecer
sias. O múltiplo do helenismo e o uno do hebraísmo não maior espaço e outro tipo de bênção para todos os tipos
são as únicas saídas de que dispõe a psique para sair de de imagens, de sentimentos e moralidades peculiares que
seu dilema patológico. Há a fuga para o futurismo e para constituem nossa real natureza psíquica. Ela não mais
suas tecnologias, o voltar-se para o Oriente e para o mundo necessitaria ser livrada do mal se, anteriormente, ela não
interior, o retorno ao primitivo e ao natural, o movimento é imaginada como má.
de ascensão e saída definitiva por meio da transcendência. Se em nossa desintegração não somos capazes de
Mas essas alternativas são menos autênticas. Elas são reintegrar todos os nossos fragmentos a partir de uma
simplistas; negligenciam nossa história e os direitos que psicologia monoteísta do ego, ou não mais conseguimos
as imagens têm sobre nós; urgem-nos a fugir do apuro ao nos iludir com um futurismo progressivo, ou com um pri-
invés de nos aprofundarmos nele, fornecendo-lhe um pano mitivismo natural, que antes funcionavam tão bem, e se
de fundo cultural e uma estrutura diferenciada. precisamos de uma complexidade que esteja à altura de
As ficções científicas e as ficções da ciência, as ins- nossa sofisticação, então devemos retornar para a Grécia.
truções de índios americanos e de conselheiros orien- "Nenhuma outra mitologia conhecida por nós - seja ela
tais - por mais sábios e brilhantes que todos eles possam evoluída ou primitiva, antiga ou moderna - apresenta
ser - falham em nos lembrar de nossa história imaginária a mesma complexidade e qualidade sistemática que a
no Ocidente, as imagens que efetivamente trabalham em grega."3 A Grécia nos oferece o padrão policêntrico de po-
nossas almas. Ao circundarmos nossa tradição imaginaI, liteísmo mais ricamente elaborado de todas as culturas 4
estas acabariam por nos asilar ainda mais. Então, os ca- e, por isso, é capaz de conter o caos das personalidades
minhos alternativos do helenismo e do hebraísmo agem secundárias e dos impulsos autônomos de um domínio,
como repressões, endossando uma ausência de alma que de uma época ou de um indivíduo. Essa extraordinária
suas imagens poderiam contribuir para reparar. diversidade oferece à psique fantasias multifacetadas
O hebraísmo falha em ir de encontro ao dilema atual para que possa refletir sobre suas muitas possibilidades.
simplesmente porque ele está muito bem estabelecido, Por detrás e por dentro de toda cultura grega - na
demasiadamente idêntico à nossa visão moralista de arte, no pensamento e na ação -, há seu pano de fundo
mundo: há uma Bíblia no quarto de todo andarilho, onde mítico policêntrico. Esse era o mundo psíquico imaginaI
seria melhor que encontrássemos a Odisseia. Não somos
capazes de encontrar renovação alguma na tradição de
3 KIRK, G. S., Myth, its meaning and Function (Stanford: University of
nosso eu consciente, mas tão somente uma reiteração dos California Press, 1970), 205.
hábitos empedernidos de uma mente monocêntrica que 4 LEEUW, G. van der, Religion in Essence and Manifestation (I: 19,4).

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do qual a "glória que é a Grécia" veio. Esse pano de fun- métrica eram copiadas, mas poucos de fato foram até a
do mítico talvez estivesse menos circunscrito ao ritual Grécia empírica, e raramente se consultavam os textos
e aos cultos religiosos em vigência do que às mitologias gregos originais. Era uma "imagem de Grécia carregada
de outras grandes culturas. Em outras palavras, o mito de emoção" que imperava. 6 E essa imagem conservou sua
grego serviria de modo menos específico como religião e carga de emoções por meio de um conjunto contínuo de
de modo mais geral como psicologia, agindo na alma tanto mitos (os "mitos gregos" e a metáfora de "Grécia") que se
como estímulo quanto como continente diferenciado para mantiveram na consciência dos tempos pós-helênicos aos
a extraordinária riqueza psíquica da Grécia antiga. nossos dias atuais.
Mas a "Grécia" para a qual nos voltamos não é literal; A "Grécia" persiste mais como uma paisagem interior
ela inclui todos os períodos, do minoico ao helenístico, to- do que uma paisagem externa, uma metáfora para o reino
das as localidades, da Ásia Menor à Sicília. Esta "Grécia" imaginaI, em que os arquétipos enquanto deuses foram
se refere a uma região psíquica histórica e geográfica, a colocados. Portanto, podemos ler todos os documentos e
uma Grécia fantástica e mítica, uma Grécia interior da fragmentos de mito deixados pela Antiguidade também
mente que só indiretamente está ligada à geografia e à como relatos ou testemunhos do imaginaI. A arqueologia
história reais - de modo que estas, então, perderiam seu se torna arquetipologia, apontando menos para a história
valor. "[. .. ] Até a época do Romantismo, a Grécia não era literal do que para as realidades eternas da imaginação,
mais que um museu habitado por pessoas pelas quais se falando-nos sobre o que se passa agora na realidade
tinha o maior desprezo."5 psíquica.
Petrarca, que no século XIV se empenhou mais que O retorno à Grécia não é nem um retorno a uma
qualquer um para dar novamente vida à literatura da época histórica passada, nem a uma época imaginária,
Antiguidade, não sabia ler em grego. Winckelmann, no "era dourada" utópica que desapareceu ou que poderia
século XVIII, que se empenhou mais do que qualquer reaparecer novamente. Pelo contrário, a "Grécia" nos ofe-
outro em fazer reviver o classicismo e que inventou o rece uma chance de rever nossas almas e nossa psicologia
culto moderno à Grécia, jamais colocou os pés lá e talvez através de locais imaginais e de pessoas, ao invés do tem-
nunca tenha visto uma única escultura grega importante po. Mudamo-nos em definitivo do pensamento temporal
em sua versão original. Nem Racine, tampouco Goethe, e da historicidade para irmos em direção a uma região
Hõlderlin, Hegel, Heine, Keats e nem mesmo Nietzsche imaginaI, um arquipélago diferenciado de localizações,
estiveram na Grécia. Ainda assim, todos eles reconsti- onde os deuses estão, e não para o tempo quando eles lá
tuíram a "Grécia" em suas obras. Byron é a absurda - e estavam ou quando ainda estarão.
fatal- exceção. Obviamente, a língua grega, a literatura, É provável que surjam polêmicas opondo a Grécia
a política e a ciência eram conhecidas naqueles séculos. enquanto fato e enquanto fantasia, uma vez que a filolo-
Sócrates era cultuado, a estatuária, a arquitetura e a gia histórica e literária tradicionalmente vê a sua Grécia

5 WEISS, Roberto, Renaissance Discovery of Classical Antiquity (Oxford: 6 OSBORN, J. M., Travel Literature and the Rise ofneo·Hellenism in Eng·
Blackwell, 1969), 140. land (Bull. New York Public Library, 67, 1963), 300.

18 19
de maneira literal, e que cada geração de estudiosos se grandes deuses, suas imagens, suas almas. No entanto,
deleita em desmascarar as interpretações fantasiosas per- relativizar a "Grécia" enquanto somente uma influência
petradas pela geração precedente. De fato, pode-se dizer cultural, puni-la por ser demasiado ocidental, branca,
que a Grécia interior da imaginação afeta as perspectivas masculina, hierárquica e muito distante no passado é
da filologia clássica - um domínio profundamente absorto recair em uma literalidade racista. Com isso, me refiro
no que está enterrado, quebrado e remanescente, em ra- a uma série de erros. Em primeiro lugar, constitui um
ízes e origens desconhecidas, em mitos e deuses, no que erro identificar imaginação com geografia, psicologia com
está especialmente sujeito à influência dos arquétipos no sociologia e tempo com causalidade (por exemplo, consi-
arranjo e interpretação de seus "fatos". Os deuses pare- derarmos que só porque as culturas chinesas, africanas,
cem batalhar precisamente neste campo e, devido àquela egípcias e semitas são mais antigas, seriam também mais
paixão arquetípica, as línguas mortas, tão convocadas a proeminentes em nossas psiques). Em segundo lugar, é
justificar racionalmente sua relevância nos dias atuais, um erro confinar a psique a uma herança genética; pois
são mantidas com vida pela própria psique em razão de a mente não é determinada pelo seu sangue nem pela
sua importância para a imaginação. sua pele. E em terceiro lugar, e talvez o mais grave de
Nós retornamos à Grécia para redescobrir os arqué- todos, constitui um erro personalizar a psique naquilo que
tipos de nossa mente e de nossa cultura. A fantasia lá suas opiniões pessoais consideram relevantes para seus
retorna para se tornar arquetípica. Ao retroceder para o problemas pessoais; essa é uma maneira habitual de se
mítico, para o não factual, para o não histórico, a psique evitar escavar até as raízes arquetípicas da imaginação
pode reimaginar seus predicamentos factuais e históricos na história coletiva, raízes que afetam os problemas sem
a partir de outro ponto de vista. A Grécia se converte na que se esteja consciente disso. Sejamos tibetanos ou ja-
múltipla lente de aumento por meio da qual a psique pode maicanos, tenhamos nascido às margens do Mar Vermelho
reconhecer suas pessoas e seus processos em configurações ou Amarelo, sem qualquer resquício de Grécia em nossos
maiores que a vida, mas que, ainda assim, concernem à ossos e sem a mais vaga ideia sobre os mitos gregos, por-
vida de nossas personalidades secundárias. 7 que estamos inexorável e inegavelmente imersos no curso
*** irrefreável do que se tornou a civilização euro-americana
Quando falamos, a Grécia está dentro de nossas atlântica - suas noções sobre leis e educação, tecnologia
palavras: quando pensamos, construímos, calculamos e raciocínio, psique e pessoa -, para nos conhecermos,
e organizamos, a Grécia está dando forma a nossas devemos retornar à Grécia, onde essa ideia foi formulada
mentes. Até a ideia de uma ideia é grega. A verdade não pela primeira vez.
deve negar os valores herdados de outras culturas, seus Há uma boa razão para que Pã seja o guia desse
retorno à imaginação da Grécia - esse tipo de mentali-
7 A totalidade dessa passagem é de James Hillman, Re-visionary Psychology
dade que precedeu a civilização cristã. O famoso relato
(New York: Harper & Row, 1975),27-30. Na edição brasileira (James Hillman, de Plutarco (ca. 46-120 d.C.), no qual ele anuncia a morte
Re-vendo a psicologia, tradução de Gustavo Barcellos, RJ: Vozes, 2010), esse
trecho corresponde aproximadamente às páginas 87-94, "Uma digressão sobre
do Grande Deus Pã, coincide com a ascensão do cristia-
o 'retorno à Grécia"'. (N.T.) nismo. Lendas, imagens e a teologia atestam um conflito

20 21
irreconciliável entre Pã e Cristo, uma tensão que nunca pela qual cada um de nós responde aos chamados de Pã e
findou em que o Diabo, com seus chifres, cascos e corpo é por ele guiado para o território da "Grécia" depende em
peludo, não é nenhum outro senão o velho Pã, visto pelo grande parte do matiz cristão que subjazeria nas nossas
espelho do cristianismo. atitudes mais íntimas.
A morte de um é a vida do outro. Esse contraste Assim, parece que a única possibilidade de se atraves-
aparece novamente no simbolismo de seus corpos, suas sar a ponte rumo à imaginação dos antigos requer que dei-
geografias, suas retóricas. Um tem a caverna, o outro, xemos do lado de cá esses pontos de vista preconceituosos,
o Monte; um tem a música, o outro, a Palavra; as patas enobrecidos como "civilizados", e que seguem repetindo
de Pã saltam e dançam mesmo sendo tortas, peludas e a morte de Pã, sentimentalizando-o e demonizando-o ao
com cascos de bode, as pernas de Jesus estão quebradas mesmo tempo.
e esticadas; seus pés, cruzados e pregados. Jesus, o Bom Rafael Lopez-Pedraza mostrou em "Um Conto de
Pastor; Pã, o ingovernável e rebelde bode. Pã está nu e é Dríope e o Nascimento de Pã"B que o renascimento de Pã
fálico; Jesus, circuncidado, coberto e assexuado. e do reino que chamamos de imaginaI, mítico e grego se
O conflito PãlJesus apresenta enormes dificuldades inicia com as manifestações de Pã na esfera privada e nas
para o indivíduo em nossa civilização. Como se poderiam reações pessoais de cada indivíduo perante seus fenôme-
superar os obstáculos históricos de modo a reentrar na nos: estupro, masturbação, pânico noturno, sedução das
imaginação pagã de Pã e em sua natureza sem cair em um ninfas e outros eventos induzidos por Pã que nos forçam a
culto satânico e selvagem? Não poderíamos simplesmente sair de nossos hábitos civilizados. Essas são as maneiras
nos desfazer de nossa história, mas devemos lutar contra pelas quais a música de Pã nos alcança. Esses são os cami-
os preconceitos. nhos de retorno, a epístrofe para a imaginação. Portanto,
O famoso ensaio de Matthew Arnold ("Hebraísmo e o retorno à Grécia não é nem uma idealização nostálgica,
Helenismo") define esse preconceito. "A ideia motriz do um romantismo estético, nem um estudo estruturalista
hebraísmo", diz ele, "é a rigidez da consciência", ao que a do e distante de simbólico. Pelo contrário, trata-se de uma
helenismo é "a espontaneidade da consciência". Portanto, descida à caverna.
os fenômenos espontâneos de Pã - pânico, necessidades
sexuais, pesadelos - são abordados a partir de um ponto
de vista moral. Dizem-nos que devemos lutar no combate
do bem contra estes maus impulsos.
A história ocidental nos deixou duas alternativas
igualmente repugnantes. Ou adoramos um Pã árcade da
Natureza sentimentalizada que ofereceria a libertação
dessa história, ou bem o amaldiçoamos como um demônio
pagão que ameaçaria a civilização com atavismo anár-
quico e outros excessos com rótulos psicológicos, como 8 Spring, 1976,AnAnnual ofArchetypal Psychology and Jungian Thought,
t76-190. o texto também se encontra no livro Hermes e seus filhos, de Rafael
a sombra, a atuação, o exibicionismo ou o ido A maneira opez-Pedraza (São Paulo: Paulus, 1999). (N.T.)

22 23
o SONHO NO ANO DE 1900

Uma vez que situamos Pã no contexto de um retorno à


Grécia, precisamos agora localizar o pesadelo no contexto
da teoria dos sonhos, particularmente no modo como ela
foi desenvolvida há cem anos, quando a monografia de
Roscher surgiu. Sua monografia pertence ao conjunto de
trabalhos sobre sonhos que Freud tão cuidadosamente
resenhou na primeira seção de seu revolucionário Traum-
deutung. Mas, obviamente, ele não poderia tê-la mencio-
nado lá, visto que esta monografia e o trabalho de Freud
foram publicados em um intervalo de meses de diferença.
Na virada do século, o sonho era um assunto de interesse
de muitos além de Freud. O século XIX viu aparecer uma
infinidade de obras sobre os sonhos, especialmente na
França, na Alemanha e até mesmo nos Estados Unidos.
Em geral, a literatura desse período pode ser classificada
segundo três categorias que, por sua vez, refletem três
distintas abordagens ao sonho correntes na época.
A primeira abordagem era materialista. Ela sus-
tentava que o sonho é um eco na mente dos eventos
psicológicos no corpo. As imagens oníricas são traduções
psicológicas de eventos fisicos. As pesquisas investiga-
vam a origem física dos sonhos em sensações de frio, de
humidade etc., em percepções subliminares e esquecidas,
no óxido nitroso; havia também investigações sobre os

25
estados fisiológicos em estado onírico de modo a tentar sonhos seriam uma fonte de inspiração e conhecimento.
descobrir a origem dos sonhos em eventos somáticos. Essa Eles possuem um significado pessoal e real.
visão ainda é contemporânea na medida em que ainda Uma das grandes realizações de Freud foi ter combi-
atribuímos o sonho a algo que comemos, aos estímulos nado estes três esclarecimentos sobre a vida onírica em
do último programa visto na televisão, ou ao peso dos uma única e brilhante teoria. Em acordo com os racionalis-
cobertores. O mesmo segue, mas de modo mais sofisti- tas, ele sustentou que o sonho não fazia nenhum sentido,
cado, quando pensamos, por exemplo, que os correlatos prima facie. Ele seria, de fato, desprovido de sentido em
fisiológicos de nossos estados oníricos (padrões elétricos estado manifesto, revelando signos de dissociação, distor-
de atividade cerebral, mudanças neuro-hormonais ou ção e condensação tais como aqueles que se encontram em
circulatórias) são condições necessárias e suficientes uma mente insana. Entretanto, como os românticos, ele
aos sonhos. pensava que o sonho podia ser decifrado; o sonho continha
O segundo ponto de vista era racionalista. Ele sus- uma mensagem pessoal com sentido para o sonhador e era
tentava que o sonho não tem absolutamente nenhum a via regia para o "outro mundo", o inconsciente. Ele tam-
sentido, pois ele não é mais do que uma espécie de dis- bém aceitou, mas em parte, a posição dos materialistas,
túrbio das funções mentais produzido pelo relaxamento pois acreditava que o objetivo último do sonho residia na
durante o sono, como fragmentos de um mosaico que se psicofisiologia do sono (sono protetor), e sua fonte última
desmonta sem o cimento de coesão da vontade consciente nos estímulos somáticos (tensões sexuais).
e da capacidade de associar. Desse modo, os sonhos se- A teoria freudiana, através de sua própria elegância
riam aparentados à loucura, amontoados de fragmentos sintética, abriu novas perspectivas, ainda que eclipsasse
desprovidos de sentido que em nada diziam respeito ao outras, sobretudo as experimentais e fisiológicas. Duran-
sonhador. Portanto, o sonho não constituía um tema digno te os cinquenta primeiros anos que sucederam a Freud,
de atenção séria, e muito menos de uma investigação cien- quase toda a literatura sobre o sonho foi publicada por
tífica. A terceira, a visão romântica, pode ser encontrada psicanalistas. Os novos românticos eram os intérpretes
em meio aos trabalhos de poetas, escritores e pensadores profissionais do sonho, enquanto o tipo de investigação
de inclinação mística - N ovalis, Gerard de Nerval, C,?le- sobre o sonho realizada nos laboratórios de psicologia
ridge, Schubert, dos quais fala Albert Béguih em [}Ame antes de Freud se reduzia a uma ínfima porcentagem na
romantique et le rêve. 1 As visões românticas refletiam em literatura sobre o assunto. A interpretação dos sonhos
linguagem poética e filosófica a antiga visão religiosa dos ascendia em detrimento desse tipo de pesquisa sobre
povos arcaicos e tradicionais, segundo os quais, durante sonhos. Hoje, as diferentes abordagens unidas por Freud
o sono, o espírito ou alma se abrem aos poderes ocultos. estão aparecendo novamente, ao passo que a própria
O sonho era uma via de comunicação com os deuses; no teoria freudiana parece declinar, pois ela não mais as-
sono, a psique perambulava, recebia intuições e mensa- segura a coesão racional entre o místico e o material; a
gens, podia encontrar os mortos no além. Desse modo, os tendência agora parece ser a de abandonar os consultórios
e retornar aos laboratórios como um local de investigação
1 Paris, edição de 1967. onírica. Talvez estejamos esperando por uma nova sínte-

26 27
se, análoga à de Freud no ano de 1900, capaz de abarcar da obra de Jones tenham sido escritas entre 1910 e 1912,
as interpretações atuais enquanto manifestações de um o autor teve tempo suficiente para fazer uso do estudo de
substrato arquetípico da personalidade. Roscher sobre esse mesmo tema, de maneira que a con-
O estudo de Roscher sugere um movimento nessa fiança que Jones deposita em Laistner, e a divergência
direção, pois ele une a experiência física à fantasia, o entre Roscher e Laistner, indicariam duas visões diferen-
sonho às manifestações corporais, atrás das quais estaria tes do sonho em vigência ainda hoje.
a figura de Pão O arquétipo se expressa como um padrão Laistner (3 de novembro de 1845 a 20 de março de
de comportamento (pânico e pesadelo) e como um padrão 1896) começou primeiramente estudando teologia, para
de representação (Efialtes, Pã e seu cortejo). Em outras então mudar-se para o campo dos estudos germânicos, e
palavras, a obra de Roscher também sugere um método editou oito volumes das obras de Goethe em Stuttgard.
de pesquisa psicossomática fundado na psicologia arque- Seu interesse estava particularmente na mitologia e na
típica. Esta pesquisa traria, como fez a pesquisa de Ros- gramática germânica, e também examinou o folclore e
cher, um lugar primário para os padrões de imaginação os contos de fadas, e figuras míticas gregas e de outras
tal como são descritos de maneira precisa pela mitologia. regiões da Europa, inclusive o "Mittagsfrauen" e outros
Por essa razão, sua breve monografia, um estudo mi- demónios do meio-dia. Suas ideias sobre o pesadelo estão
tológico de aparente simplicidade, é uma obra paralela a presentes em dois volumes ainda não traduzidos , Das
Traumdeutung de Freud, na medida em que oferece uma Ratsel der Sphinx (The Riddle of the Sphynx: Fundaments
via de aproximação distinta ao trabalho psicológico do ofthe History ofa Myth), publicados em Berlim, em 1889.
sonho elaborado por Freud. Roscher vai mais além, até Sua pesquisa trata principalmente da relação entre os
mesmo quando sua escrita é menos declaradamente psi- sonhos, por um lado, e o folclore e contos de fadas, por
cológica, pois sua abordagem dos eventos do sonho através outro. A esse respeito, Jones diz:
de Pã ultrapassa a psico dinâmica pessoal. Pã não pode Nesta obra, ele estudou as características clínicas do Pesa-
ser remetido a nenhum complexo pessoal e não poderia delo, e sua ingenuidade extraordinária permitiu remetê-lo
ser referido por meio de explicações psicológicas. Talvez a a uma grande quantidade de mitos. Naturalmente na
época (1889), não havia nenhum conhecimento das ca~a­
diferença de Roscher para Laistner e o que se tornou, em das inconscientes da mente, de forma que atualmente seu
última instância, a tradição freudiana da teoria do sonho trabalho tem somente um valor casuístico. Em parte devido
possa esclarecer melhor este ponto. a algumas dificuldades filológicas, a obra de Laistner foi
A abordagem de Roscher ao pesadelo tem como ponto indevidamente negligenciada por mitólogos, ainda que ela
de partida a obra de Ludwig Laistner. Roscher o critica devesse ser considerada como uma tentativa mais séria
anterior a Freud, de situar a mitologia sobre uma bas~
e desenvolve suas ideias em contraste a Laistner. Ernest naturalisticamente inteligível. 3
Jones, no entanto, segundo o índice de sua obra On the
Nigthmare,2 referiu-se trinta e uma vezes a Laistner Parece que a diferença entre Roscher e Laistner ainda
(trinta e cinco a Freud, e três a Roscher). Embora partes Persiste na psicologia, e não somente no que se refere à

2 Londres, Hogarlh, 1931. 3 Jones, 73.

28 29
interpretação do pesadelo. Roscher culpa Laistner por sua
tentativa, ainda que fracassada, de fazer do sonho, "em PÃ, O DEUS-BODE DA NATUREZA
particular do pesadelo, o princípio fundamental de toda
psicologia". Para Laistner, assim como para Freud e Jones
depois dele, há um fundamento psicológico naturalista
para o mito e a religião. Laistner sublinha o caráter eró-
tico desses sonhos, como mais tarde também farão Freud
e Jones ao reduzir a mitologia e a religião a mecanismos
psicológicos ligados à sexualidade. Roscher, por sua vez,
é primariamente um mitólogo que se recusava a reduzir
o mito a processos intrapessoais.
Até mesmo quando usava as falácias racionalistas A tese de Roscher, em breves palavras, sustenta que
de sua época, é provável que Roscher tivesse aderido, em o demônio do pesadelo na Antiguidade é nada menos que
relação ao sonho e ao mito, mesmo que de modo distinto o grande deus Pã em uma de suas muitas formas, e que
e em uma época diferente, à atitude representada por as experiências desse demônio eram similares àquelas
Jung, Kerenyi e Eliade. Mito e religião são irredutíveis observadas pela psiquiatria e pela psicologia em vigência
aos sonhos, ainda que ambos tenham sua fonte em algo em sua época. Uma vez estabelecido esse ponto, Roscher
transpessoal, em uma realidade que não é pessoalmente nele se detém. Entretanto, poderíamos ir mais adiante,
humana, mesmo que permaneça humana no sentido ar- concluindo que Pã ainda está vivo. Nossa experiência de
quetípico. Mito e religião constituem aspectos sui generis Pã pode ser principalmente encontrada nos distúrbios
da vida, assim como da natureza. Da mesma maneira psicopatológicos, visto que outros modos de conhecê-lo
que a sexualidade é uma função sui generis da psique foram perdidos em nossa cultura.
(e não a psique um derivado da sexualidade), também Assim, é possível que o encontremos nos consultó-
o são o sonhar, a mitopoese [mythmaking] e as funções rios de psicoterapia, onde provas de suas manifestações,
religiosas. Uma fala a respeito da outra e nem por isso se de fato, abundam. 1 Essa conclusão está de acordo com a
equivalem. Suas falas são mitos e suas conexões se dão tese elaborada em muitos dos meus trabalhos: os deuses
através de analogias, mas não por virtude de uma raiz reprimidos retornam como o núcleo arquetípico dos com-
comum. Suas bases não são de ordem naturalista, como plexos sintomáticos. As relações entre mythos e pathos
pretendia Jones, pois a natureza é ela mesma uma metá- constituem somente uma parte da vasta tarefa de explo-
fora; assim, para compreender o sonho temos que falar a
sua língua não em termos de conceitos naturais, mas de
imagens. Consequentemente, a metáfora fundamental do 1 Para dois exemplos de Pã na análise junguiana ver MICHEL, R., "Die
meu ensaio - assim como a de Roscher -, seja do sonho, Gestalt des Pan und Traüme der Gegenwart", Diss., C. G. Jung-Inst, Zurique,
s/d; e BLOMEYER, R., "Die Konsterllierung der Gegenuberstellung beim Auf-
seja de Pã, não é "natural", mas "imaginaI". ~auchen archetypischer Traume", Zeitschrift f Analyt. Psychol. u. i. Grenzgebiete,
II, 1, Berlim, 1971.

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rar a psicopatologia em termos de psicologia arquetípica. -God: His Myth in Modern Times,2 coletou uma assom-
Uma das implicações dessa psicologia é que a mitologia brosa variedade de exemplos da devoção do século XIX
se torne uma disciplina indispensável na formação de por Pã, período em que, segundo ela, teria ocorrido seu
psicoterapeutas. O estudo de Roscher, desde seu título, apogeu literário. Pã, a propósito, é o personagem grego
relaciona a mitologia e a patologia e seria um dos textos favorito da poesia inglesa; em termos de quantidade de
de base para essa formação. evocação, ele se distancia de seus rivais mais próximos
Devido à n.atureza satírica, caprina e fálica de Pã, (Helena, Orfeu e Perséfone) a uma proporção estatística
tanto a angústia de pânico do pesadelo quanto os seus de quase dois para um.
aspectos eróticos podem ser subsumidos em uma mesma O mito grego colocou Pã como o deus da natureza.
figura. No modo como Roscher trata a figura, Pã não é O termo "natureza" tem sido estudado em pelo menos
.uma imagem projetada, uma espécie de complexo psicopa- cinquenta noções diferentes, de forma que nosso uso do
tológico criado pela fantasia para expressar a ansiedade termo "natureza", aqui, deve ser discernido das qualidades
sexual. Sua realidade é de ordem mítica. Ainda que Ros- associadas a Pã, a partir de sua descrição, sua iconografia,
cher em algumas ocasiões tenha sido vítima da concepção seu estilo de comportamento. Todos os deuses possuíam
racionalista-materialista do sonho tal como apresentada aspectos de natureza e podiam ser encontrados na natu-
por Borner (a roupa de cama de pelo de bode e a dispneia reza - fatos esses que levariam alguns a concluir que a
provocariam a experiência de Pã), essa "explicação" do antiga religião mitológica era essencialmente uma religião
pesadelo, não obstante, repousa ainda sobre uma epifania da natureza, cuja transcendência significaria, por parte do
de Pã, sempre permanente como uma vívida realidade cristianismo, portanto, a supressão especialmente de Pã, o
nas páginas de Roscher. O que emerge desse ensaio é um representante da natureza, que rapidamente se converteu
insight genial: o entrelaçamento, a verdadeira unidade no diabo de patas de bode. Para especificar a natureza de
do mitológico e do patológico. Pã, devemos ver como ele mesmo a personifica, tanto em
Quando Roscher discute o pânico e o pesadelo nos S}Ia figura como em sua paisagem externa, a qual é ao
animais, ele mostra estar consciente do nível instintivo mesmo tempo uma paisagem interior e uma metáfora,
do pesadelo - particularmente, da sexualidade nele não mera geografia. Seu local de origem, Arcádia, é um
implicada. Observamos em seus escritos a mesma luta ~ocal físico e psíquico. As "cavernas obscuras" onde podia
com o "problema sexual" que surgia naquele momento ser encontrado (o Hino órfico a Pã) foram compreendidas
através de muitos de seus colegas psicólogos contempo- pelos neoplatônicos 3 como os recessos materiais onde
râneos, Havelock Ellis, Auguste Forel, Ivan Bloch e, é residem nossas pulsões, os buracos negros da psique de
claro, Freud, para não mencionar a obra dos pintores e 9nde emergem o desejo e o pânico.
escritores que, no final do século, redescobriam o sátiro
fálico e caprino nas camadas mais profundas das pulsões
2 Cambridge: Harvard, 1969. Cf. MALINI, Roberto, Pan dio delta selva
humanas e que, tal como fez Freud com Édipo e Roscher CMilão: Ambrosino, 1998), para uma notável antologia de passagens e imagens
com Pã, expressavam seus insights nas configurações do clássicas.
R .3 Ver Thomas Taylor the Platonist, selected Writings, editado por Kathleen
mito grego. Patricia Merivale, em seu livro Pan, the Goat- ame e G. M. Harper CPrinceton: Princeton UP, 1969,297 ss.).

32 33
Seu habitat na Antiguidade, como o de suas formas particularmen~e sa~adop~r Mro~ite, Eros, O mu~do bá- "

romanas posteriores (Fauno, Silvano) e de seus com- quico e a lua, ImplIca sua mserçao nessas assocIações. 5
panheiros, eram seI!lpre vales, grutas, água, bosques e Sua vestimenta inicial implica uma iniciação nesses uni-
lugares selvagens - nunca vilarejos, nuhcaos -assenta- versos; sua adoração por essas estruturas da consciência.
mentos cultivados e cercados da civilização; santuários em Em segundo lugar, Hermes é seu patrono, o que concede
cavernas, nunca templos construídos. Ele era o deus dos aspectos herméticos às ações de Pão Elas podem ser
pastores, o deus dos pescadores e caçadores, um andarilho examinadas em busca de mensagens. Elas são modos de
desprovido da estabilidade provida pela genealogia. Os comunicação, conexões que significam alguma coisa. Em
lexicógrafos do mito atribuem pelo menos yinte filiações terceiro lugar, o prazer de Dioniso expressa a afinidade
a Pã. 4 Ele bem poderia ser filho de Zeus, de Urano, d-ê que os une. Estes deuses fornecem um agrupamento ar-
Cronos, de Apolo, de Odisseu, de Hermes ou da corte de quetípico no qual se encaixa Pã e onde poderíamos esperar
pretendentes de Penélope. Portanto, seu espírito pode que ele constelasse.
surgir de quase qualquer lugar, produto que é dos inúme- Caberia, agora, uma longa ponderação sobre os mi-
ros movimentos arquetípicos ou de geração espontânea. tologemas - "a criança abandonada", "envolto em pele
Uma tradição atribui sua paternidade ao Éter, a tênue animal", e "benquisto pelos deuses". Sua exegese, cujos
substância invisível, porém onipresente, e cujo nome a sentidos são adquiridos mediante sua vivência, pode nos
princípio significa "céu resplandecente", ou o clima asso- dizer muito sobre o comportamento que Pã inspira em
ciado à hora de Pã durante o meio-dia (ver mais adiante). nossos momentos de fraqueza e perdição (abandono),
Se Pã é inespecífico e espontâneo, por que lhe atribuir bem como em nossa luxuria erótica, pois, nas entranhas
parentesco? Esse questionamento foi feito por Apolodoro da promessa de amor que a lebre representa, en~ontra::;se
(Fragmento 44b) e por Sérvio (As geórgicas de Virgílio). oculta a natureza não cultivada e selvagem de Pão Prova-
Certamente, sua linhagem materna é igualmente -se rude aquilo que principiou suave, sob a pele "da lebre
obscura. O principal relato do Hino homérico a Pã e aquele se encontra o bode. Ainda assim, os deuses sorriem para
feito por Kerényi em seu Gods of the Greeks têm Pã por a criança com patas de bode; tomam-no por uma dádiva
abandonado a~ Il!lscimento por sua mãe, uma ninfa dos à divindade; cada um encontra uma afinidade com Pão
bosques, e envolto em pele de lebre por seü pai Herines Pã ref:l.ete a todos.
(ser concebido pb:rHerrnes enfatiza o elemento mercurial Como o deus de toda a natureza, Pã personifica para
da história de Pã). Hermes leva o bebê para o Olimpo onde a l?-ºssa consciência o que é só 01I cõ~pletaníente natural,
ele é aceito por todos (pan) com prazer. Dioniso adorava-o o Gomportamentoem sua mais estreita ligação comá na~
especialmente. .t~J.'eza. O naturálmente circunscrito é, de certo"modo tam-
Esse mito situa Pã em uma configuração específica. b~m divino. É um comportamento quetrarrscerrde ~ jugo
~m primeiro lugar, ser envolvido em pele de lebre, animal h~mano dos propósitos, sendo completamente impessoal,
obJetivo e implacável. A causa de tEl~"_c2Ilc1)!ta éohscw.:a; ela
4 Roscher escreveu um estudo em separado sobre este assunto, Die Sagen
von der Geburt des Pano 5 Ver LAYARD, J. The Lady ofthe Hare (London, 1944),212-220.

34 35
surge de repente, espontaneamente. Como a genealogia de iformoS capazes de escutar o eco da reflexão - a uma nova
Pã é obscura, a origem do instinto também o é. Defini-lo icompreensão acerca dela mesma.
como um mecanismo de descarga inato, ou tratá-lo como ~... Como afirma R. Herbing em sua monografia, Pan -
um espírito ctônico, um impulso da natureza, é exprimir, der griechische Bocksgott,7 este deus é sempre um bode e
através de conceitos psicológicos obscuros, experiências o bode tem uma força divina. Pã não é "representado" por
obscuras que poderíamos ter atribuído a Pã no passado. um bode, nem este é "sagrado" a Pã; Pã é o deus-bode, e
Acima de tudo, devemos nos lembrar de que a ex- esta configuração de natureza-animal distingue a natu-
periência de Pã está para além da vontade do sujeito e reza ao personificá-la como algo peludo, fálico, errante e
de sua psicologia egoica. Até mesmo quando a vontade é lascivo. A natureza de Pã não é um presente idílico para
disciplinada ao máximo e o ego tornado o mais resoluto os olhos, algo que se possa passar batido, ou junto ao
possível, e aqui eu penso nos homens em campos de ba- qual aguardar o retorno da candura. A natureza como
talha, Pã aparece determinado pelo pânico que advém do Pã é quente e íntima, é o odor de sua pelugem animal,
embate. Por duas vezes, na Antiguidade (em Maratona de sua ereção, como se a força desobediente e arbitrária
e contra os celtas em 277 a.C.), Pã apareceu e os gregos da natureza e o sinistro mistério estivessem sintetizados
foram vitoriosos. Ele foi comemorado junto a Nice (Nike). nesta única figura.
A fuga em pânico é uma reação dá. proteção, mesmo que A "união do deus e do bode" - a expressão é de Niet-
ém sua cegueira a fuga possa provocar morte em massa. zsche em O nascimento da tragédia - significou para o
O aspecto protetor da natureza de Pã é representado não mundo pós-nietzscheano um modo de consciência dio-
somente por sua afinidade para com os pastores, ou na raiz nisíaco e também a demência final de seu profeta. Mas
(pan) de "pastor", "pastoral" e pabulum ("nutrição"), mas embora Nietzsche falasse abertamente do deus-bode, "na
também pelo seu papel no treino de Dioniso, quando Pã biografia de Nietzsche" escreve Jung,8 "vocês encontrarão
carregou o escudo de Dioniso em su!l marcha até a Índia. 6 uma prova irrefutável de que o deus ao qual ele se referia
No mito de Eros e Psique tal como contado por Apu- era Wotan".9 Assim, na tentativa de entender a união de
leio, Pã protege Psique do suicídio. Inconsolável, sem seu deus e do bode, tal como Merivale constata10 como sendo
amor, seu clamor por ajuda divina recusado, a alma entra "o ponto focal estável de minhas pesquisas", devemos
em pânico. Psique se atira no rio e ele a rejeita. Neste evitar confundi-lo com o Dioniso de Nietzsche, em cuja
mesmo momento de pânico, Pã aparece acompanhado de figura escondia-se o Wotan germânico.
outro aspecto refletor, Eco, e faz retornar à alma certas Ainda assim, Nietzsche de fato penetra em um dos
verdades naturais. Pã é, ao mesmo tempo, protetor e enigmas da existência caprina (e são muitos enigmas,
destruidor, e estes dois aspectos se apresentam à psi- considerando que o bode do senex e o bode espiatório e a
que em estreita aproximação. Quando somos presas do
pânico, nunca podemos saber precisamente se este será 7 Frankfurt a/M.,1949.
o primeiro movimento da natureza que dará lugar - se B CW 11 § 28.
S : Cf. meu "Dionysos in Jung Writings", Spring 1972 (Nova York/ Zurique:
pnng Publications, 1972), 191-205.
6 Cf. "Pan" Lexikon de Roscher, 1388-90, para referências de Pã, o Guerreiro. 10 Gp. cit., 226.

36 37
criança dionisíaca e a cabra leiteira nem sequer pertence-
riam a este assunto) quando ele fala do horror da natureza
e do horror da existência individual. Pois o bode solitário A REALIDADE IMAGINAL
é, ao mesmo tempo, Unidade e solidão, uma existência
nômade e condenada aos espaços vazios, um apetite que
cada vez mais se esvai, seu canto é a "tragédia". Não se
trata do jovial e roliço Pã da estatuária nem de um elfo
flautista chamado Pedro, ou mesmo do "eu emocional e
profundo" do Pã de D. H. Lawrence; mas do Pã do Hino
homérico, que, na tradução renascentista de Chapman, é
chamado de "esquálido e sem amor".
A lascívia, então, é secundária, e a fertilidade tam- Para compreender Pã enquanto natureza, devemos,
bém; elas surgem da ressecada ânsia pela natureza so- primeiramente, ser compreendidos pela natureza tanto
litária, daquele que sempre é uma criança abandonada "fora de nós", da paisagem campestre inabitada que nos
e que, a despeito de todas as suas inumeráveis uniões, fala em sons e não em palavras, quanto por aquela na-
nunca pôde estar unido nem trocar seu casco bifurcado tureza "dentro de nós", da reação impulsiva (ninguém
por patas de lebre. Ele é chamado de "desafortunado no recriou melhor este Pã que D. H. Lawrence). Sinistra como
amor", e nós humanos sentimos sua tristeza na melancolia o olhar de um bode, a natureza nos alcança através das
da natureza. Há um tom fúnebre nas flautas da natureza, experiências instintivas que Pã personifica. Mas falar em
no qual nos refugiamos nos momentos românticos, enter- "personificação" não faria jus ao deus, uma vez que isso
necidos, solitários e desesperados. Pã talvez agradasse implicaria que o homem cria deuses e que a natureza é
aos deuses, mas nunca chegou a alcançar o Olimpo; ele um campo abstrato e impessoal de forças, tal como o pen-
copulava, mas nunca se uniu a alguém; ele fazia música, samento a conceberia. Ao contrário: a forma demoníaca
mas as musas só favoreciam a Apolo. de Pã transforma o conceito de "natureza" em um choque
psíquico imediato.
A tradição filosófica ocidental, desde seu início na
tradição pré-socrática e no Antigo Testamento, tem pre-
terido as imagens (phantasia) de modo preconceituoso
em benefício do pensamento abstrato. Desde Descartes
e do Iluminismo, essa forma de conceituação se mantém
proeminente, e a tendência da psique de personificar tem
sido desdenhosamente intitulada de antropomorfismo.
Um dos principais argumentos contra o modo mítico de
pensar reside no fato de que ele trabalha através de ima-
gens subjetivas, pessoais, sensuais. É exatamente isso que
38 39
deve ser evitado para a epistemologia ocidental no que se car essas aparições como "projeções" e "ilusões" criadas
refere a descrições das forças da natureza. Personificar "inconscientemente" por aquele que as percebe. De modo
significa pensar de modo animista, primitivo, pré-lógico. que ainda encontramos, como na excelente monografia
Os sentidos enganam; as imagens suscetíveis de transmi- de Borgeaud, The Cult af Pan in Ancient Greece, l uma
tir verdades sobre o mundo devem ser purificadas de seus explicação sobre o encontro direto de Fidípides com Pã
elementos antropomórficos. As únicas pessoas no universo (durante o regresso deste mensageiro de Atenas para Ma-
são pessoas humanas. E, ainda assim, a experiência dos ratona) como "uma simples projeção de seu desejo". "Não
deuses, dos heróis, das ninfas, dos demônios, dos anjos e é difícil de imaginar sua tensão, depressão e exaustão no
dos poderes, dos animais sagrados, lugares e coisas como momento em que, no terceiro dia de corrida constante , ele
pessoas precederia o conceito de personificação. Não é que encontra o deus Pã."
nós personificamos, mas que as epifanias se manifestam Ora, da mesma forma que o pesadelo é necessaria-
para nós como se fossem pessoas. mente causado por indigestão ou por um edredom muito
Por acaso poderíamos retroceder no tempo e nos pesado, Pã também só poderia ter se originado de uma
afastar das pretensões de um ego temeroso que desejaria disfunção física oriunda de uma corrida de maratona!
colocar cada átomo da natureza sob seu controle? Nesse Aqui a filologia não só fracassa quanto ao seu tema,
caso, nos daríamos conta, mais uma vez, de que não somos como também nega a autoridade do text0 2 que se dedica
a fonte dos deuses personificados. Nós não os inventamos a explicar. Heródoto diz que Pã surgiu para Fidípides, o
mais do que não inventamos os sons que ouvimos nos bos- chamou pelo nome e lhe transmitiu a mensagem crucial
ques, nem as pegadas na areia, nem a pressão do pesadelo que salvaria Atenas. Os líderes atenienses acreditaram
pesando em nosso peito. em Fidípedes, ganharam a batalha e instituíram o culto
Por milênios e em quase todas as partes, é bastante de Pã em Atenas. Seriam os astutos e inteligentes gregos
evidente que as figuras divinas e daimônicas surgiam tão deslumbrados? Por acaso tudo isso só teria vindo à
como pessoas. Mas a Weltanschauung científica, com sua tona por causa do estado de exaustão mental de um certo
separação entre observador e observado, nos apartou mensageiro que subitamente teve a grande ideia de con-
dessa evidência, e seu testemunho se converteu em pen- jurar "Pã" para abençoá-lo com autoridade?
samento mágico, crenças primitivas, superstição, loucura. Em sua brilhante, minuciosa e devastadora crítica
Uma vez que essas figuras imaginais ainda irrompem sobre a falsificação redutiva do que "realmente aconteceu"
ocasionalmente em meio às pessoas mais brilhantes e Charles Boer escreve: '
educadas, tal como ocorre nos pesadelos, tendemos a Este foi um dos momentos mais importantes da história da
acreditar que essas figuras só poderiam ter sido criadas civilização ocidental, a aparição de um deus com patas de
por nós. Não podemos conceder-lhes autonomia; pois, do bode às vésperas de uma batalha que haveria de transfor-
contrário, o próprio universo científico se transformaria
em pesadelo. v ~ BORGEAUD, Philippe, The Cult af Pan inAncient Greece (Chicago: Uni-
A filologia clássica, seduzida pelo método redutivo da erslty ofChicago Press, 1988), 133.
2 HERÓDOTO 6, 105.
ciência, rapidamente endossou essa discussão para expli-

40 41
mar o mundo, com sua mensagem de ajuda demarcando a sensações provocadas pela roupa de cama. Trata-se de
fundamental diferença no curso dos eventos que levariam
à salvação da própria democracia. O que ocorre é que atu-
pessoas vividamente reais.
almente não existe ninguém - especialmente mitólogos Dilthey insistia que a personificação era essencial
profissionais - que se permita, devido às enormes restri- para uma compreensão humanista que se opusesse à ex-
ções acerca do tema, levar a sério essa história. Seria a plicação científica, cujo método requereria conceitualiza-
origem da democracia um assunto tão banal assim ou há ção e definição. Lou Andreas-Salomé, seguindo Dilthey,
algo de errado com os mitólogos?
Pode-se entender a presença de Pã, às vésperas da Ba-
instou Freud a conservar esse procedimento como essen-
talha de Maratona, "psicologicamente" (de diversas ma- cial ao progresso da psicanálise enquanto uma psicologia
neiras), pode-se entendê-la "simbolicamente", até mesmo mais humanista do que científica. Jung construiu sua
"historicamente" de uma forma deturpada (conforme a psicologia sob os arquétipos, os quais, embora passíveis
qual se aceita o fato do resultado, mas toma sua causa de descrição conceituaI, podem ser vividos e até mesmo
por equivocada). Mas não podemos levá-la a sério. Algo
mais (ou qualquer outra coisa) deve ter ocorrido, dizem
designados como pessoas. Ademais, Jung foi contrário
os estudiosos, além do que Fidípides diz ter acontecido. à corrente dos tempos, na medida em que defendia as
[... ] Os gregos do inicio do século V a.C. eram, é claro, pri- imagens enquanto dados primários da psique que só pos-
vilegiados por considerar Pã como a esplêndida realidade teriormente seriam consideradas, em seu nível sensual
imaginaI que esse deus era. As figuras imaginais eram emocional, como os fenômenos empíricos que são, e não
"visíveis" a eles, ouvidas por eles, tocadas por eles. Eles
como personificações de ideias abstratas.
não estavam, ao menos não sob o ponto de vista deles
inventando-as. 3 ' A linguagem do sonho (como demonstra o pesadelo),
a linguagem do delírio e da alucinação, bem como a lin-
É o que precisamente aprendemos com Roscher, ape- guagem da cultura popular, se exprimem em termos de
sar de seus próprios escritos. Pois Roscher, assim como pessoas. Da mesma forma, assim deve a psicologia fazer
seus contemporâneos (por exemplo, Ameling acerca da se ela deseja falar à psique em seu próprio discurso. O
personificação), tendia a conceber Pã como uma incorpo- movimento de Jung do conceito abstrato à pessoa sensível
ração composta pelas qualidades brutais e terríficas da corresponde ao movimento do intelecto à imaginação po-
natureza, do mesmo modo como suas charmosas ninfas voada por imagens sensórias palpáveis. A monografia de
eram visões da sedução tenra, graciosa e lÍrica da na- Roscher - ao insistir quanto à pessoa de Pã - contribui para
tureza. Mas o quadro conceituaI de Roscher, tomado da a redescoberta do imaginaI que, posteriormente, veio a ser
psicologia empirista associacionista (as ideias são feixes conhecido como a psicologia do inconsciente, saber cujos
de percepções sensoriais), não concordava com o que afastamentos metodológicos essenciais em relação à filo-
ele havia descoberto em suas descrições empíricas dos sofia e à ciência têm sido sua linguagem da personificação.
demônios do pesadelo. Elas não são uma reconstrução Um grito percorreu a Antiguidade tardia: "O Grande
dos aspectos assustadores, personificações post hoc de Pã está morto". Plutarco assim relatou em "O defeito do
orácu Io"4. O d't
1 o em SI. tornou-se oracular, vindo a significar

3 BOER, Charles, "Watch Your Step", Spring: Ajournal af Archetype and


Culture, 59, 1996, 104. 4 De def ar. 17.

42 43
muitas coisas a muitas pessoas em muitas épocas. Mas parou para limpar também as carcaças desmembradas
uma coisa em especial era anunciada: a natureza estaria deixadas para apodrecer após seus trabalhos civilizató-
doravante privada de sua voz criativa. Ela não mais era rios e criativos. Ele se dirige a passos la:gos rumo a sua
uma força independente e viva de geração. O que antes próxima tarefa e derradeira loucura.) A medida que o
tinha tido alma já não mais tinha, perdida que estava a ser humano perde contato pessoal com a natureza e os
relação psíquica com a natureza. Com Pã morto, Eco já instintos personificados, a imagem de Pã e a imagem do
não mais vivia;já não mais podíamos captar a consciência Diabo se confundem. Pã nunca morreu, observam muitos
através de seu reflexo em nossos instintos. Eles haviam comentadores de Plutarco, ele foi recalcado. Consequen-
perdido sua luz e facilmente caíram no asceticismo, seguin- temente, tal como sugerido acima, Pã ainda vive, e não
do seu novo pastor, Cristo, de modo gregário e desprovido meramente na imaginação literária. Ele vive no retorno
de qualquer tipo de instinto rebelde, com seu novo estilo. do recalcado, nas psicopatologias do instinto que se im-
de cuidado. A natureza não mais nos falava - ou talvez põem, como diz Roscher, primariamente no pesadelo e
não mais pudéssemos escutá-la. A pessoa de Pã, o media- nas qualidades eróticas, demoníacas e do pânico que lhe
dor, tal qual o éter que envolvia invisivelmente todas as são associadas.
coisas naturais com um significado pessoal, com brilho, Dessa maneira, o pesadelo realmente oferece a pista
desapareceu. As pedras se tornaram somente pedras - e as para uma reaproximação da natureza morta, perdida.
árvores, árvores; coisas, lugares e animais não mais eram No pesadelo, a natureza recalcada retorna, tão próxima,
este ou aquele deus, mas se transformaram em "símbolos" tão real que não poderíamos fazer mais do que reagir a
ou foram designados como "posses" deste ou daquele deus. ela naturalmente, isto é, nos tornando totalmente físicos
Quando Pã está vivo, a natureza também está, ela está e possuídos por Pã, urrando, pedindo por luz, conforto,
repleta de deuses, de maneira que o arrulho da coruja contato. A reação imediata é uma reação demoníaca. O
é Atenas e o molusco na orla é Afrodite. Esses pedaços instinto nos faz retornar ao instinto.
da natureza não são meramente atributos ou bens. Eles
são os deuses em suas formas biológicas. E onde melhor
encontrar os deuses do que nas coisas, nos lugares e nos
animais nos quais habitam? Como melhor participar deles
do que através de suas representações naturais concretas?
Seja lá o que fosse comido, cheirado, pisado, ou olhado,
eram todos presenças sensuais do significado arquetípico.
Uma vez que Pã está morto, a natureza pode ser
controlada pela vontade do novo deus, o homem, mode-
lado à semelhança de Prometeu ou Hércules, que pode
criar a partir dela e contaminá-la inescrupulosamente.
(Hércules, quem primeiro limpou o mundo natural de Pã,
combinando instinto com força de vontade, nem sequer

44 45
o "INSTINTO"

Como muitos dos termos psicológicos que usamos


diariamente - alma, humano, emoção, espírito, consci-
ência, sentimento -, o instinto é mais uma metáfora,
mesmo sob sua roupagem conceituaI, do que um conceito.
Talvez seja uma ideia no sentido original do termo, que
é derivado de "ver", de modo que, por meio da palavra
"instinto", somos capazes de ver determinados tipos de
comportamento, tanto olhando do exterior como observa-
dor quanto do interior como participante. Há demasiada
tinta - e leite - derramada sobre o instinto, o que faz com
que o tomemos como uma inteligência primordial que co-
nhece mais sobre a vida do que poderíamos aprender, ou
como o contrário de inteligência, algo mecânico, arcaico,
algo desprovido da possibilidade de transformação. Ao
instinto, o melhor e o pior da natureza humana foram
atribuídos - e isso nos sugere a tônica de nossa aproxima-
ção aqui. Pois, se Pã é o deus da natureza "dentro de nós",
então ele é o nosso instinto. Mas, novamente, uma vez que
todos os deuses compartilham da natureza e encontram
sua mimese na natureza humana, em nossos modelos
de fantasia, de pensamento e de comportamento, é óbvio
que Pã não poderia ser toda forma de instinto porque
ele não é todos os deuses. Quais aspectos do instinto ele
é, ou de quais aspectos da natureza ele é assemelhado,

47
podem somente ser discernidos a partir de um estudo de continuum como instinto (e não como sublimações dele),
sua fenomenologia. aS imagens arquetípicas são partes da natureza e não são
Uma corrente importante de pensamento sustenta :meramente fantasias subjetivas "de nossa mente".
que o comportamento instintivo é caracterizado princi- A figura de Pã tanto representa a compulsão intelec-
palmente pela compulsão, frequentemente chamada de tual quanto oferece o meio no qual a compulsão pode ser
"reação tudo-ou-nada". Para além dos processos biológicos :modificada através da imaginação. Ao trabalharmos com
primários - tropismos, ingestão e eliminação, reprodução, a i:maginação, nós participamos da natureza. O método
crescimento celular, divisão e morte etc. -, a vida animal, desse trabalho, contudo, não é tão simples quanto as apa-
no que se refere ao comportamento, move-se automatica- rências deixariam supor, pois não se trata unicamente de
mente entre os dois polos de aproximação e retirada. Uma uma atividade da mente ou da vontade consciente, embora
polaridade básica de ritmo orgânico tem sido apresentada elas tenham um papel a desempenhar. A modificação do
repetidamente ao longo dos séculos. É sempre a mesma ~ comportamento compulsivo requer outra função psíquica
única ideia arquetípica sobre o ritmo da vida natural que sobre a qual discutiremos posteriormente a respeito dos
ocorre naqueles pares intitulados por diferentes teóricos e amores de Pão Primeiramente, devemos olhar mais aten-
em diferentes épocas, como: acessum / recessum, atração e tamente para a compulsão.
repulsão, Lust / Unlust, diástole/sístole, introversão/extro- Já no Hino órfico (Taylor), encontramos a compulsão
versão, compulsão/inibição, fusão/separação, tudo-ou-nada na descrição de Pã, na qual, por duas vezes, lhe for conferi-
etc. Sob a dominação dos "mecanismos de desencadeamen- do o epíteto de "fanático" e, no Hino homérico (Chapman),
to inato" (como o instinto é também frequentemente cha- pode-se ler que ele escala cada vez mais alto e "não des-
mado), padrões de aproximação e de retirada se tornam cansa nunca". Essa mesma compulsão fanática aparece
compulsivos, indiferenciados, irrefletidos. no comportamento a ele atribuído: pânico, estupro - e o
As duas concepções opostas do instinto - a de que ele pesadelo.
é inteligente e a de que ele não é - foram combinadas na Os dois polos da sexualidade e do pânico, que podem
teoria de Jung. Ele descreve dois fins para o comporta- instantaneamente permutar ou desencadear um ao outro,
mento instintivo: de um lado, um padrão comportamental exibem os extremos compulsivos mais crassos de atração
arcaico e compulsivo e, do outro lado, imagens arquetípi- e repulsão. O pânico nos faz fugir às cegas em profun-
caso Desse modo, o instinto age e, ao mesmo tempo, forma da desordem, e a sexualidade nos faz abraçar de modo
uma imagem de sua ação. As imagens desencadeiam igualmente cego o objeto com o qual desejamos copular.
ações; as ações são padronizadas pelas imagens. Conse- Pã, como mestre da natureza "dentro de nós", domina
quentemente, qualquer transformação das imagens afeta as reações sexuais e também aquelas de pânico e está
os padrões de comportamento, de maneira que aquilo que localizado nesses dois extremos. Sua divisão interna nos
fazemos com nossa imaginação é de relevância instintiva. é apresentada no Hino homérico através das "regiões" as-
Meta o mundo, como alquimistas, místicos e neoplatônicos sombradas por ele - os cumes rochosos e cobertos de neve
acreditavam, mas não exatamente do modo mágico como e os vales suaves (e cavernas) -, e, em nível mitológico,
imaginaram. Porque as imagens pertencem ao mesmo através do Pã fálico, perseguidor da ninfa que foge tomada
48 49
podem somente ser discernidos a partir de um estudo de continuum como instinto (e não como sublimações dele),
sua fenomenologia. as imagens arquetípicas são partes da natureza e não são
Uma corrente importante de pensamento sustenta meramente fantasias subjetivas "de nossa mente".
que o comportamento instintivo é caracterizado princi- A figura de Pã tanto representa a compulsão intelec-
palmente pela compulsão, frequentemente chamada de tual quanto oferece o meio no qual a compulsão pode ser
"reação tudo-ou-nada". Para além dos processos biológicos modificada através da imaginação. Ao trabalharmos com
primários - tropismos, ingestão e eliminação, reprodução, a imaginação, nós participamos da natureza. O método
crescimento celular, divisão e morte etc. -, a vida animal, desse trabalho, contudo, não é tão simples quanto as apa-
no que se refere ao comportamento, move-se automatica- rências deixariam supor, pois não se trata unicamente de
mente entre os dois polos de aproximação e retirada. Uma uma atividade da mente ou da vontade consciente, embora
polaridade básica de ritmo orgânico tem sido apresentada elas tenham um papel a desempenhar. A modificação do
repetidamente ao longo dos séculos. É sempre a mesma é comportamento compulsivo requer outra função psíquica
única ideia arquetípica sobre o ritmo da vida natural que sobre a qual discutiremos posteriormente a respeito dos
ocorre naqueles pares intitulados por diferentes teóricos e amores de Pão Primeiramente, devemos olhar mais aten-
em diferentes épocas, como: acessum / recessum, atração e tamente para a compulsão.
repulsão, Lust / Unlust, diástole/sístole, introversão/extro- Já no Hino órfico (Taylor), encontramos a compulsão
versão, compulsão/inibição, fusão/separação, tudo-ou-nada na descrição de Pã, na qual, por duas vezes, lhe for conferi-
etc. Sob a dominação dos "mecanismos de desencadeamen- do o epíteto de "fanático" e, no Hino homérico (Chapman),
to inato" (como o instinto é também frequentemente cha- pode-se ler que ele escala cada vez mais alto e "não des-
mado), padrões de aproximação e de retirada se tornam cansa nunca". Essa mesma compulsão fanática aparece
compulsivos, indiferenciados, irrefletidos. no comportamento a ele atribuído: pânico, estupro - e o
As duas concepções opostas do instinto - a de que ele pesadelo.
é inteligente e a de que ele não é - foram combinadas na Os dois polos da sexualidade e do pânico, que podem
teoria de Jung. Ele descreve dois fins para o comporta- instantaneamente permutar ou desencadear um ao outro,
mento instintivo: de um lado, um padrão comportamental exibem os extremos compulsivos mais crassos de atração
arcaico e compulsivo e, do outro lado, imagens arquetípi- e repulsão. O pânico nos faz fugir às cegas em profun-
caso Desse modo, o instinto age e, ao mesmo tempo, forma da desordem, e a sexualidade nos faz abraçar de modo
uma imagem de sua ação. As imagens desencadeiam igualmente cego o objeto com o qual desejamos copular.
ações; as ações são padronizadas pelas imagens. Conse- Pã, como mestre da natureza "dentro de nós", domina
quentemente, qualquer transformação das imagens afeta as reações sexuais e também aquelas de pânico e está
os padrões de comportamento, de maneira que aquilo que localizado nesses dois extremos. Sua divisão interna nos
fazemos com nossa imaginação é de relevância instintiva. é apresentada no Hino homérico através das "regiões" as-
Meta o mundo, como alquimistas, místicos e neoplatónicos sombradas por ele - os cumes rochosos e cobertos de neve
acreditavam, mas não exatamente do modo mágico como e os vales suaves (e cavernas) -, e, em nível mitológico,
imaginaram. Porque as imagens pertencem ao mesmo através do Pã fálico, perseguidor da ninfa que foge tomada

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pelo pânico. Ambos pertencem ao mesmo tema arquetí-
pico e se constituem como seu núcleo. Esses dois modos
de comportamento de Pã representam a ambivalência
inerente ao instinto, aparecendo também em sua imagem,
o PÂNICO
como comenta Platão em Crátilo 480 C: é grosseiro, rude
e obsceno em sua parte inferior, liso e ornado de chifres
espirituais na sua parte superior.
A despeito de seu caráter natural, Pã é um monstro.
É uma criatura que não existe no mundo natural. Sua na-
tureza é inteiramente imaginaI, de modo que deveremos
também entender o instinto como uma força imaginaI e
não somente concebê-lo literalmente, ao modo das ciências Conviria, a esta altura, dizer algo a respeito da na-
naturais ou de uma psicologia que se quer fundada sobre tureza do medo. Psicólogos desde São Tomás e Descartes
a ciência ou a metabiologia. Paradoxalmente, os impulsos constatam que o medo seria um suposto afeto primário,
mais naturais não são naturais, e a mais instintivamente concepção também confirmada por fisiologistas e biólogos
concreta de nossas experiências é imaginaI. É como se a especializados em comportamento animal. Cannon o in-
existência humana, mesmo em seu nível vital mais bási-
vestigou como uma de suas quatro reações fundamentais,
co, fosse uma metáfora. Se o comportamento psicológico
e Lorenz o considerava como um dos quatro complexos
é metafórico, então, para compreendê-lo, devemos nos
impulsivos de base.
voltar às metáforas dominantes da psique. Desse modo,
poderemos aprender tanto sobre a psicologia do instinto A abordagem tradicional do Ocidente ao medo é
nos ocupando de suas imagens arquetípicas quanto apren- negativa. No que se refere às atitudes de nosso ego he-
deríamos se nos ocupássemos da pesquisa fisiológica, roico, o medo, como muitos outros afetos e suas imagens,
animal e experimental. é acima de tudo considerado como um problema moral a
ser superado com coragem, como diria Emerson, ou com
"a coragem de ser" na "era de ansiedade", nas palavras de
Tillich. O medo deve ser enfrentado e gerido pelo herói em
seu caminho rumo à masculinidade, e um encontro com o
medo tem um papel principal em todas as cerimônias de
iniciação. Em razão da primeira reflexão de nossa cultura
sobre a psique ser habitualmente moral, o valor psicoló-
gico do medo tende a ser prejudicado, quando não total-
mente ocultado, em nossas perspectivas. A abordagem
moral para eventos psicológicos está tão profundamente
enraizada em nós que a psicologia teve de se reportar à
50 51
L
fisiologia e ao estudo de animais para encontrar uma via do movimento, ocorre na Ilíada (Aquiles perseguindo
isenta de moralismo. Beitor):2
Ainda que a fisiologia reconheça a função protetora do
Como em um sonho, não podemos perseguir um fugitivo,
medo, a emoção do medo é geralmente considerada como um não pode fugir do outro, nem o outro o pode seguir,
um acompanhamento dos padrões instintivos de fuga ou assim um não pode alcançar o outro com seus pés e o outro
desses mesmos padrões bloqueados e retidos no seio do não pode escapar.
organismo. Essa inibição do comportamento motor, junto
a uma excitação intensificada e prolongada do organismo Alguns teóricos da emoção poderiam usar o sonho de
(sistema neurovegetativo e ativação neuroendócrina-quí- ansiedade como evidência para a visão de que a ansiedade
mica), é chamada de "ansiedade". Em termos simples, há é medo inibido, um padrão de fuga retido no seio do orga-
duas faces para o pânico: aquela que é vivida em relação nismo, como se o instinto fosse dividido em dois pedaços:
a um estímulo e é chamada de medo; e aquela mantida' ação e emoção. Durante o sonho de ansiedade, quando a
por nenhum estímulo conhecido, e chamada de ansieda- ação está impedida, a emoção se torna mais intensa. A
de. O medo tem um objeto; a ansiedade não. Pode haver ansiedade, estando em sonhos ou não, permanece, nessa
um medo da ordem do pânico, uma fuga em desespero, perspectiva por demais positivista e behaviorista, como
digamos; pode haver uma ansiedade da ordem do pânico, uma reação substituível, secundária e inadequada. Se
como em um sonho. Em ambos os casos, o resultado pode ousássemos levantar armas contra esse mar de problemas,
ser a morte. Relatos de caso na psicanálise e na psicosso- cairíamos de pronto muito doentes.
mática, bem como as pesquisas sobre o sonho e os estudos A filosofia existencialista contemporânea confere à
antropológicos (por exemplo, a morte vodu), proporcionam ansiedade, terror ou Angst, uma interpretação mais in-
exemplos das consequências fatais do pânico. tencional e opressiva. Angst revela a situação ontológica
O sonho de ansiedade pode ser distinguido do pe- fundamental do homem, sua conexão com o não-ser, de
sadelo no sentido clássico do termo. O pesadelo clássico maneira que todo o medo não é simplesmente pavor da
consiste em uma visitação aterradora de um demônio morte, mas do nada sobre o qual todo o ser repousa. Desse
que fortemente oprime o sonhador até paralisá-lo, lhe modo, o medo se torna o reflexo na consciência de uma
corta o fôlego, de forma que a libertação viria através da realidade universal.
movimentação. O sonho de ansiedade é menos preciso, O budismo vai ainda mais longe: o medo é mais do
no sentido de que não há nenhum demônio, nenhuma que um fenômeno subjetivo e humano. O mundo inteiro
dispneia, mas, ainda assim, experimenta-se a mesma está em medo: árvores, pedras, tudo. E Buda é o redentor
inibição de movimento.! Um protótipo literário do sonho do mundo em medo. Daí a importância do mudra (gesto
de ansiedade, enfatizando uma peculiaridade inibitória com as mãos) do não temer: não um sinal de mero recon-
forto, mas da total redenção do mundo de seu "terror e
tremor", de sua escravidão ao Angst. O amor perfeito de
1 Uma coleção desses sonhos é dada por WEIDHORN, M., "The Anxiety
Dream in Literature from Homer to Milton", Studies in Philology 64 (ChapeI
Hill: University ofNorth Carolina Press, 1967),65-82. 2 Ilíada, xxii, 199-201.

52 53
Buda, à moda das palavras dos Evangelhos, "livrar-nos- Com efeito, a enumeração dos pânicos animais que
-ia do medo". Roscher faz retira a discussão do nível humano e psico-
Para misturar ainda mais os contextos, digamos que lógico em sentido estrito para levá-la a hipóteses mais
o mundo da natureza, o mundo de Pã, está em um estado universais, como. aquelas oferecidas por existencialistas ,
contínuo de pânico subliminar, assim como está em um es- budistas e a pSIcologia arquetípica exibida por Pão Se
tado contínuo de excitação sexual subliminar. Assim como porventura aceitamos as evidências citadas por Roscher,
o mundo é criado por Eros e mantido por esta força cos- que descrevem o terror de Pã como uma forma de infec-
mogónica e carregada de desejo libidinal que é Pã - uma ção psíquica acometendo, ao mesmo tempo, homens e
visão arquetípica mais recentemente apresentada por animais, então provavelmente estaríamos diante de um
Wilhelm Reich -, seu outro aspecto, o pânico, reconhecido acontecimento arquetípico que ultrapassaria a psique
por Buda, pertenceria à mesma constelação. Novamente unicamente humana e colocaria o pânico do pesadelo no
retornamos a Pã e aos dois extremos do instinto. lugar mais profundo da experiência instintiva que o ho-
Brinkmann3 já havia apontado para a falência de mem divide com os animais. Mas, que o homem a divida
todas as teorias do pânico que lidam com ele em termos com as árvores, as pedras e o cosmos em seu conjunto
sociológicos, psicológicos ou históricos e não através de isso ainda não sabemos. '
seus próprios termos. Os termos apropriados, diz Brink- Se o pânico nos animais não é substancialmente di-
mann, são mitológicos. Devemos seguir o caminho traçado ferente do pânico que encontramos entre os homens e
A • ,

por Nietzsche, cuja exploração dos tipos de consciência e se o pamco está na raiz do pesadelo, então a hipótese
comportamento através de Apolo e Dioniso bem poderia formulada por Jones não basta. Pois nem sequer o mais
ser estendida a Pão O pânico, então, não seria mais consi- atrevido dos freudianos teria estendido a universalidade
derado como um mecanismo fisiológico de defesa, ou uma ?o complexo de Édipo e da repressão do desejo/medo do
reação inapropriada ou um abaissement du niveau mental, mcesto do pastor à ovelha. As hipóteses psicológicas de
mas será visto como uma resposta adequada ao numinoso. Freud se limitam ao mundo humano (mesmo quando sua
A fuga cega contribui para a abertura de uma brecha para met~psicologi~ de Eros nos leva na mesma direção que
além da segurança protetora e em direção ao "deserto mis- seguImos aqUI). Roscher, ao contrário, alargou o campo
terioso da existência elementar". O pânico sempre existirá, dos fenómenos de pânico para além do humano.
pois está enraizado na natureza humana enquanto tal. . A hipótese Freud/Jones explica o pesadelo no plano
Por essa razão, segundo Brinkmann, seu governo deve mtrapsíquico: o desejo recalcado retorna como ansiedade
obedecer a um ritual, procedimento mitológico gestual dem?níac~. Mas Roscher abre caminho para uma pers-
e musical (agora nos vem à memória o som das flautas ~ec~lVa mItológica~ o demónio instiga tanto desejo quanto
em batalhas, e que, em numerosas pinturas de Pã, seu nSIedade. Um nao se converte no outro, pela ação da
instrumento não é uma flauta de Pã, mas um trompete). censura freudiana, da hidrostática mecânica de libido
represada e da distorção onírica segundo a fórmula:
3 BRINKMANN, D., "Neue Gesichstpunkte zur Psychologie der Panik," ~ intensidade d~ ~edo é proporcional à culpa dos desejos
Schweiz Zeitschrift für Psychol., 3, 1944,3-15. Incestuosos repnmIdos que buscam uma gratificação ima-
54 55
ginária, cuja contrapartida é o orgasmo - frequentemente
provocado por uma masturbação involuntária. Se o desejo mente notada por Loewenfeld, no caso dos homens, e por
Janet, no caso das mulheres. 6
não estivesse em estado de repressão, não haveria medo, e
a consequência seria um simples sonho erótico. 4
Desde o tempo de Jones e dos outros autores por ele
Isso somente nos levaria a crer que o pesadelo é do- mencionados, uma prodigiosa energia tem sido dedica-
entio, resultado de uma psique defeituosa. Reformulando da à investigação das correlações entre a sexualidade
a questão através de uma paródia reichiana de uma ideia fisiológica e os sonhos. Sabemos, hoje em dia, através
mais antiga: o orgasmo perfeito livrar-nos-ia do medo. da obse,:vação ~aboratorial de sonhadores humanos, que
A visão que elaboramos neste ensaio centrado em Pã as ereçoes pemanas vêm e vão durante o sono de uma
e em seu papel no pesadelo retoma numerosos fenômenos maneira rítmica em acordo com a curva do sonho. Mas
relatados por Jones, mas toma-os por evidência de outra essas investigações, ao invés de nos facilitar a compre-
hipótese. A ansiedade não é o resultado secundário da ensão da relação existente entre sonho e sexualidade
sexualidade subliminar; a ansiedade e o desejo são centros só nos convenceram de que esse domínio é ainda mai~
gêmeos do arquétipo de Pão Nenhum é primário. Ambas complexo do que se havia imaginado com Freud e Jones.
são qualificações sensuais dos polos mais abstratos do A relação entre o conteúdo abertamente sexual do sonho
instinto, que se movem por entre tudo-ou-nada, accessum / e a excitação sexual fisiológica (ou sua ausência) as su-
recessum, Lust e Unlust. tilezas psicológicas e fisiológicas das emissões noturnas
O próprio Jones traz evidências adicionais à ideia a pe~i?dicidade d~ ritmo sexual (tanto psíquica quant~
de que a ansiedade e a sexualidade aparecem juntas, o somatIca), as qualIdades da sexualidade psíquica em ter-
que pareceria contradizer a sua própria fórmula. Como mos de con~telações arquetípicas específicas (por exemplo,
Roscher, ele se refere a Bõrner: se a fa~ta~Ia governante é apolínea, priápica, narcísica,
e ~or aI :aI), a relação entre a fisiologia da ansiedade e a
Em algumas vezes, os sentimentos voluptuosos são pSICologIa do recalque, ou ainda, a natureza da repressão,
acompanhados daqueles com Angst; especialmente nas
mulheres, que acreditam frequentemente que um demônio e aquela do orgasmo "adequado" - todos esses enigmas
noturno copulou com elas (como nos tribunais das feiticei- ~er~anece~ tão mudo~ qu~nto antes; e, certamente, não
ras). Os homens têm sensações análogas pro~enientes da der~o reSOlVIdos. por SImplIficações psicodinâmicas que
pressão exercida sobre os genitais, geralmente seguidas envam de teonas que não correspondem à psique em
por emissões seminais. 5 sua complexidade.
A esse respeito, é importante lembrar-se do quão frequente Ansiedade e sexualidade são palavras que cobrem
é um traço de voluptuosidade nos ataques de Angst dos ;:ma g~ma imensamente sofisticada de experiências. Além
estados de vigília: de fato, isso se transforma em emissão ~ maIS, essas palavras não só abarcam experiências que
real durante um ataque, fenômeno cuja atenção foi inicial-'
~:~ ~e reduzem ~ açõ~s e reações, mas que são também
aforas para sItuaçoes em que o consciente é governado
4 JONES, 343.
5 JONES, 46. 6 Ibid., 49.

56
57
por fantasias arquetípicas. De fato, as ações e reações são a si mesmo como a sabedoria da natureza. Ser destemido,
elas mesmas parte de um padrão metafórico e somente se desprovido de ansiedade, de pavor, inacessível ao pânico,
dotam de sentido no seio desse padrão, sempre exprimindo significaria a perda do instinto, uma perda da relação
algo mais sensualmente qualificado do que as definições com Pão Os destemidos têm seus escudos; contam com
de ansiedade e sexualidade. Um desses padrões metafó- construções que os previnem de emergências, padrões de
ricos nos é fornecido por Pão Ao colocarmos a ansiedade, sobressalto mantidos à distância como um meio sistemá-
o medo ou o pânico nesse pano de fundo, provavelmente tico de defesa.
não resolveremos a questão "o que é medo?", em si mes- Em outras palavras, pegando emprestadas as formu-
ma uma pergunta dúbia, se não carente de sentido, mas lações de Jones, o pânico e a paranoia podem ser inver-
sem dúvida poderemos nos aproximar da compreensão samente proporcionais. Quanto mais suscetíveis somos
de certos tipos de experiências para as quais utilizamos ao pânico instintivo, menos eficazes são nossos sistemas
esse termo e, desse modo, conseguiremos precisar a in- paranoicos.Ademais, como primeiro corolário, a dissolução
tencionalidade do medo. de qualquer sistema paranoico levará ao pânico. Como
Jung, em seus Seminários, discute ocasionalmente segundo corolário, as afirmações psicanalíticas acerca
o problema do medo, considerando-o como uma via legí- da paranoia e do medo da homossexualidade podem ser
tima por onde seguir. Ele parecia querer dizer que só se expandidas para mais além do domínio erótico e incluir
vai aonde se teme, mas não à maneira do herói, que vai o outro núcleo implícito do arquétipo de Pã, o pânico. E,
onde está seu dragão para vencê-lo. Mas o medo, como como terceiro corolário, qualquer complexo que provoque
um padrão instintivo de comportamento, como parte da pânico não foi integrado em uma construção e não deveria
"sabedoria do corpo", utilizando a expressão de Cannon, sê-lo. Portanto, qualquer complexo que provoque pânico
nos proporciona uma conexão com a natureza (Pã) igual é ~ via regia para o desmantelamento das defesas para-
à fome, à sexualidade ou à agressividade. Tal como o nOlcas. Essa é a via terapêutica do medo. Ela leva para
amor, o medo pode tornar-se um chamado à consciência; fora dos muros da cidade, para o meio do campo. Para as
encontramos o inconsciente, o desconhecido, o numinoso terras de Pão
e o incontrolável quando mantemos contato com o medo, O pânico, sobretudo à noite quando a escuridão cai
que eleva o pânico instintual e cego da ovelha perante o s?bre. a cidade e quando o ego heroico dorme, é uma parti-
terror sagaz, astuto e reverencial do pastor. C~patLOn mystique direta com a natureza, uma experiência
Quando Jung diz que devemos reaprender a ter medo, fun~amental, até mesmo ontológica, de um mundo vivo e
ele retoma um fio da meada do Antigo Testamento, "o co- t:rnficante. Os objetos se tornam sujeitos; movem-se Om
meço da sabedoria é o medo do Senhor", e lhe dá uma nova VIda. enquanto estamos paralisados pelo medo. Quarido
forma. Agora, a sabedoria é aquela do corpo que entra em a eXIstência é experimentada através de níveis instinti-
relação com o divino, como o pânico com Pã, com a mesma ~os do medo, da agressão, da fome ou da sexualidade as
intensidade descrita nas visões sexuais dos santos. Pois, ~magens se carregam de uma vida irresistível que lhes
onde há pânico, há também Pão Quando a alma entra em e própria. O imaginaI nunca é tão vívido como quando
pânico, como na história do suicídio de Psique, Pã revela estam os 1·Igad os ms
. t·mtIvamente
. a ele. O mundo vivo,

58 59
naturalmente, é animismo. Que este mundo vivo seja
divino e perfilado por diversos deuses, com seus atributos
e características, é panteísmo politeísta. Que o medo, o PÃ E A MASTURBAÇÃO
terror e o horror sejam naturais, é sabedoria. Segundo
Whitehead, Pã significa "natureza viva", e o pânico abre
uma porta para essa realidade.

oartigo de Roscher sobre Pã no Lexikon afirma


que o deus inventou a masturbação. Roscher se refere
a Amores de Ovídio l, 5, 1 e 26 e a Catulo 32, 3; 61, 114.
Contudo, sua principal fonte é Dião Crisóstomo (ca. 40-
112 d.C.) que, em seu sexto discurso, cita Diógenes como
testemunha (Diógenes era aquele filósofo cínico grego que
supostamente se masturbava em público).
Uma segunda e indireta conexão entre Pã e a mas-
turbação nos é dada por J ones na análise etimológica de
mare (também analisada por Roscher), o demônio notur-
no "esmagador" e opressor retido na palavra nightmare
[pesadelo]. Jones vê que os sentidos contidos na raiz MR
são "uma alusão evidente à masturbação".l
A soma de informações que temos acerca da mas-
turbação demonstra que, histórica e antropologicamen-
te, trata-se de uma prática largamente difundida. Nós
também sabemos que ela ocorre em certos animais supe-
riores (não somente em condição de cativeiro) e que ela
se estende na biografia do ser humano da infância até a
velhice, isto é, precedendo as outras atividades genitais e
continuando por um longo tempo depois que elas cessam.
Nos adultos, a masturbação é praticada paralelamente

1 Op. cit., 332.

60 61
ao seu suposto comportamento sexual, nunca a ele ser- bação nociva, pois ela ~ão serve a nenhum ~m_observável.
vindo como um mero substituto. Ela é espontaneamente Biologicamente, el~ nao promove"a proc~laçao, de modo
descoberta (por animais, bebês e crianças pequenas) e, ue ela não deverIa ser "natural ; emocIOnalmente, ela
ademais, é a única atividade sexual praticada solitaria- ~ãO favorece relacionamentos, de modo que ela deveria
mente. ser "autoerótica" e desprovida de amor; socialmente, ela
Ao considerarmos a relação entre figura mitológica não conduz a libido rumo ao nexo social, de modo que
e ato psicológico, devemos, antes de tudo, deixar de lado ela deveria ser anômica, esquizoide e até mesmo suicida.
simplificações redutivas usuais que tentam explicar os Nossas maneiras habituais de considerá-la procedem ex-
termos desconhecidos de uma associação psicomitoló- clusivamente do ponto de vista civilizatório; assim como
gica em termos do senso comum. Não estamos lidando também desse ponto de vista provém nossa compreensão
meramente com a irrupção de uma urgência sexual que. quanto à sua inibição. A preocupação introspectiva, os
ocorre na solidão de caçadores, pescadores, guerreiros, sentimentos de culpa, o conflito psicológico, em uma pa-
cavaleiros e suas esposas solitárias; não estamos mera- lavra, os fenômenos inibidores de consciência moral são
mente mitologizando o que nossa fantasia sugere acerca meramente considerados como a voz de uma autoridade
dos hábitos sexuais dos pastores durante a hora da sesta, proibitiva, um superego.
nem associando Pã à masturbação como outra maneira de A inversão desse ponto de vista tentaria liberar a
dizer que o bode diabólico e inumano que se esconde na masturbação de sua interdição restritiva, deixando-a
natureza humana há de se exprimir não importa como. livre para seguir o Pã do Romantismo em seu prazer
Mas, ao contrário, atribuir a masturbação a Pã é psico- desenfreado, negligenciando o fator da consciência e o
logicamente apropriado, até mesmo necessário, uma vez caráter sui generis da inibição, parte da própria com-
que ela fornece um paradigma para aquelas experiências pulsão, seu inverso. (Até mesmo delinquentes sexuais
que chamamos de instintivas, em que compulsão e inibição inveterados, isto é, pessoas encarceradas por causa de
se unem. A psicologia da masturbação clarifica as ideias estupro, de repetidos abusos sexuais a crianças e de
anteriormente apontadas a respeito dos dois polos do assassinatos sádicos alegam ter sentimentos de culpa
comportamento instintivo. e consciência pesada por se masturbarem (!), segundo o
Como já elaborei em outro lugar, 2 a masturbação trabalho dos sucessores de Kinsey no Indiana Institute.
reúne dois aspectos do espectro instintivo: de um lado, o A culpa parece ser tão inerente à masturbação quanto a
impulso; do outro, a consciência moral e a fantasia que compulsão.) Pelo menos, a abordagem liberal da mastur-
acompanham e desviam esse impulso. Por muito tempo bação não a condena como psicologicamente regressiva
confundimos a vergonha associada à masturbação com (apropriada para os jovens, mas não para os adultos).
uma proibição social, isto é, com uma autoridade censora, Entretanto, essa abordagem faz com que a atividade
internalizada. Durante muito tempo julgamos a mastur- careça de sentido psicológico. Privada da sua fantasia,
da vergonha e do conflito, a masturbação nada mais é
2 "Toward the Archetypal Model for the Masturbation Inhibition", Loose
que fisiologia, um mecanismo inato de alívio desprovido
Ends (Dallas: Spring Publications, 1975). de sentido para a alma.

62 63
.L
Essa noção amplamente compartilhada e seu inverso eventos psicológicos se fundamentam em dominantes
fisiológico simplificam tanto Pã quanto a masturbação. af<iuetípicos, então.o ,comportamento sempr~L tem um
Ambos compõem um complexo de opostos nos quais o se~tido, e quanto mais arql,l~típico (instintivo) é um
momento da inibição é tão forte quanto o da compulsão. COInportamento, mais primordialmente significativo ele
Esses dois opostos de Pã aparecem na própria atividade: é. Ver a regressão e não o sentido é uma cegueira que a
ou bem recuamos com o medo da masturbação, invadidos íé'rapia não pode se permitir ter. A psicologia do incons-
por vergonha ou fantasias terrificantes, ou então passa- ciente estabeleceu pelo menos um axioma: o significado
mos do medo à coragem através da excitação de nossos eatá no próprio comportamento. Os atos que realizamos,
órgãos genitais. A masturbação apazigua a ansiedade estando regressivamente afastados da consciência, como
- mas também a causa em outro nível. O medo do mau a masturbação, podem talvez servir a outros fins que não
olhado se conjurava, como ainda se conjura em algumas OS de nossa orientação consciente. Eles podem carecer de
sociedades, com a manipulação genital ou, pelo menos, com sentido para nossa mente humana e serem arquetipica-
signos genitais. Nós afastamos o medo tocando a sexua- mente significativos ao mesmo tempo.
lidade, invocando também Pã, inventor da masturbação De modo que podemos considerar que a mastur-
e do pânico. Note bene: a sexualidade que afasta o medo bação é governada pelo deus-bode da natureza, que a
não é o coito, ou seja, conexão com o outro, ou até mesmo "inventou", e também considerá-la como uma de suas
com um animal, mas a masturbação. manifestações. Essa constatação mitológica diz que a
Por outro lado, o fator imaginário aparece em Pã como masturbação é uma atividade instintiva e natural inven-
as configurações de seu meio, na esfoliação da natureza, a tada pelo bode para o pastor. Também se pode dizer que
água, as cavernas e os ruídos que ele tanto aprecia (bem a masturbação é dotada de um significado e sancionada
como o silêncio), sua dança e sua música, seu frenesi. O pelos deuses. Visto que ela pertence a um deus, a ativi-
fator da consciência se manifesta no ato de esconder-se dade é mimética a esse deus, conjurando-o e invocando-o
e retirar-se e no que nossos conceitos denominam como no corpo concreto. A masturbação é uma maneira de se
"leis da natureza", a autoinibição rítmica da sexualidade. representar Pão
A autoinibição humana é menos aparente que nos animais Curiosamente, D. H. Lawrence não se deu conta dis-
cuja periodicidade sexual é claramente marcada. A nossa so. Ele foi o mais próximo de Pã entre todos os modernos 3
é mais sutil, mais psíquica e provavelmente refletê:se e, ainda assim, seus escritos condenam severamente a
primeiro na fantasia e no fundamento arqúetípico-êli:! masturbação. Entretanto, a supressão da masturbação
consciência. Se a inibição não se fizesse presente como um não mata somente Pã enquanto compulsão, mas tam-
arquétipo, ancorada na mesma estrutura psicoide que é ?é.m a fantasia e a vergonha de Pã, as complicações
da nossa sexualidade, então de onde viriam as proibições InIbitórias que acompanham a masturbação e que são
concernentes ao incesto e aos rituais de regulação da parte e parcela dela. A supressão da masturbação como
sexualidade? ato físico é também a supressão de suas contrapartidas
Portanto, quando nos referimos à masturbação,
devemos ter em mente seu significado psicológico. Se oS 3 Ver MERIVALE, Patricia, op. cito sup.

64 65
psíquicas. E, quando essa repressão se inicia, a batalha reaparece quando estamos mergulhados na solidão?
contra a masturbação se transforma em uma disputa Quando Pã é constelado, a masturbação traz a urgência
teológica interior, refletindo a recusa judaico-cristã e e a complexidade da natureza de volta ao opus contra
reforçando-a na natureza "interior". Em nossa cultura naturam da confecção da alma.
bíblica, devemos nos lembrar, a masturbação é atribuída
a Onan, que foi fulminado por Deus, e não a Pã, que era
ele mesmo um deus.
Em síntese: a masturbação pode ser compreendida
em seus próprios termos e a partir de seu próprio padrão
arquetípico, mas não condenada como um comporta-
mento substitutivo para os solitários ou isolados, coms>
um comportamento regressivo para adolescentes, como
uma recorrência de fixações edípicas, ou ainda como
uma compulsão desprovida de sentido da fisiologia a
ser controlada pelas proibições correspondentes das
relações pessoais, da religião e da sociedade. Do mesmo
modo que a masturbação nos conecta a Pã como bode,
ela também nos conecta a sua outra metade, a partie
superieure da função instintiva: a autoconsciência. Por
ser a única atividade sexual praticada solitariamente,
não podemos julgá-la somente em termos de seu serviço
à espécie ou à sociedade. Ao invés de nos concentrarmos
em seu papel inútil para a civilização externa e para a
procriação, poderíamos refletir sobre sua utilidade para
a cultura interna e a criatividade. Ao intensificar a inte-
rioridade com alegria - e com o conflito e a vergonha - e
ao vivificar a fantasia, a masturbação, ainda que não
possua propósito para a espécie ou para a sociedade, é
capaz de trazer prazer genital, fantasia e conflito para
o indivíduo como um sujeito psíquico. A masturbàção
sexualiza a fantasia,haz o corpo à mente, intensjjica
a experiência da consciência e confirma a poderosll. rEil-
alidade da psique introvertida - por acaso ela não teria
sido inventada por um pastor solitário, tocando flauta
pelos espaços vazios de nossas paisagens interiores, que

66 67
o ESTUPRO

Como a masturbação, o estupro é um comportamento


psicológico e, dessa forma, merece que lhe dediquemos
uma atenção psicológica. Como a masturbação e o pânico,
ele exemplifica a relação entre mitologia e patologia, tema
central tanto para este ensaio quanto para a monografia
de Roscher. Parte do complexo do estupro é uma aversão
emocional a ele; é uma violação, uma transgressão, um
horror. Uma investigação sobre este assunto evocará,
portanto, a mesma aversão que é inerente ao seu padrão
arquetípico. O próprio tema nos afeta como se fosse um
estupro perante o qual nossa subjetividade se fecha. O
estupro torna-se um tema fechado; não há nada a se
discutir: ele é o que é. A psicologia prefere criminalizá-lo
e ignorá-lo. Ou, quando ela se volta para ele, afronta-o
servindo-se de elaborados subterfúgios conceituais, como
sadismo, agressão ou vingança. Deve-se deixar a psico-
lOgia e se voltar para as mentes literárias (Jean Genet,
por exemplo) de maneira a encontrar as necessárias
prontidões e inteligências para olhar o estupro fenome-
nologicamente.
Para início de conversa: o estupro tem feito parte da
existência humana e divina bem antes que a psicologia
entrasse em cena para explicá-lo. Por conseguinte, não
esperemos muito da psicologia; suas considerações se ins-

69
crevem em uma tradição mesquinha de algumas poucas Um hermeneuta neoplatônico diria que o estupro
gerações, situadas nos confins de uma cultura estreita, das ninfas expressa a essência imediata, irre:fl.etida e de-
principalmente do hemisfério norte, do mundo ocidental e terminada da divindade no domínio dos relacionamentos
judaico-protestante. Ademais, além da inadequação geral naturais. O estupro mostraria a necessidade compulsiva
da psicologia para tratar dos grandes temas arquetípicos, presente no interior e por detrás de todo tipo de geração.
há uma lacuna específica no que concerne ao estupro, Quanto ma~SpI'9:Wnoseestá do mundo da natureza ma-
como se a abstenção da psicologia ao estudá-lo a prote- terial~jnais o poder divino mostrar-se-ia sexual e compul-
gesse, porventura, de ser violada (são outros os atos cri- sivo. O estupro é o paradigma da penetração divina e da
minosos e sexuais que costumam atrair sua atenção). Os fêhindação do mundo resistente da matéria. Os estupros
cinco volumes de A. Grinstein 1 de quarenta mil verbetes na mitologia podem não ser compreendidos em seu sen-
só reservam quatro entradas para o estupro, e de forma tido literal, mas deveriam ser percebidos como alegorias
muito periférica. A visão clássica da psicanálise associa teofilosóficas. Assim é o neoplatonismo.
o estupro às fantasias libidinais infantis de se ter um pai - Ademais, a "perversidade" do mito, ou aquilo a que
estuprador, ou a uma fantasia de onipotência de estuprar nos referimos como sua psicopatologia, há muito tem
um dos pais. Os junguianos acrescentam à psicanálise a sido uma preocupação para seus exegetas. Os apologistas
noção de mãe fálica que une a sexualidade à agressão e da religião antiga se viram compelidos a se defender de
que é expressa pela imagem do javali urobÓrico. Gosta- acusações de corrupção moral lançadas, sobretudo, por
ria de descartar toda essa tradição psicológica tediosa e cristãos (os quais, pelo menos desde Eusébio, viam o Diabo
começar do zero. na figura de Pã). A defesa neoplatônica do mito foi a mais
Se a masturbação é "divinamente sancionada", inven- elaborada, consistente e intelectual de todas: o ápice de
tada por um deus, então é certo que o estupro está ainda sua compreensão psicológica foi alcançado na filosófica
mais enraizado na divindade, uma vez que o estupro de órfica da Renascença italiana. 2
ninfas e mortais - e de um deus por outro deus - é uma Não obstante, o neoplatonismo é uma defesa. Ele
convenção da mitologia grega. O estupro não é específico pede desculpas. Ele explica. A masturbação não seria
de Pã, ainda que lhe seja característico, como veremos na exatamente masturbação, mas uma expressão simbólica
próxima seção, e é seu principal modo de relacionamento de alguma outra coisa, como a autogeração. O neoplato-
com as figuras femininas, ocasionando a fuga delas e sua nismo usa um método hermenêutico com o qual, graças
própria frustração (suas tentativas de estupro não se a Freud, estamos familiarizados nos dias atuais: o mani-
limitam às ninfas; há Dafne, o menino pastor, que dizem festo nada mais é que o véu para um significado latente
ter sido atacado enquanto participava de aulas de música mais verdadeiro, mais real e mais libertador do que as
ministradas por Pã, e há também as cabras com quem Pã aparências psicopatológicas (sintomáticas). O mesmo
copula em várias posições, como mostram camafeus e a
estatuária).
2 Ver Wind, op. cito sup., e também a tradução de T. Taylor de An apology
for t':e fables of Homer de Proclo em Raine and Harper, op. cito sup., para duas
1 Index of Psychoanalytic Writtings (Nova York: LU.P., 1960). expl!cações fáceis e acessíveis sobre este ponto de vista.

70 71
ocorre com o estupro; esse modo de exegese não acei- então, unicamente no contexto em que os estupros são
ta a psicopatologia como um modo essencial de vida cometidos? Se adotarmos este ponto de vista, estabelece-
psicológica. Ainda assim, é precisamente isso que diz o íamos então uma separação entre o sagrado e o secular
mito. : voltaríamos ao ponto de partida neoplatônico. A copula-
Podemos compreender um aspecto importante da ção de bodes com mulheres em um templo egípcio (como
relação entre mitologia e patologia se nos dermos conta Heródoto conta) seria, então, sagrada e ritualística. Mas
de que o comportamento patológico constitui uma repre- essas considerações nos ajudariam com a psicopatologia
sentação mítica, uma mimesis de um padrão arquetípico. do estuprador do beco? Onde estariam os contextos de hoje
No fim, é isso o que Freud nos contava ao "descobrir" o que fariam a transposição das representações arquetípi-
complexo de Édipo. Ele descobriu que a psicopatologia da cas do secular para o ritual?
família é a representação de um mito. No caso do estupro, Para responder a essa questão, novas formas de
o padrão arquetípico sendo representado é um tipo espe- psicoterapia foram divisadas, bem como seitas e cultos
cífico que vem sendo condenado por outros arquétipos em de bruxaria, como o grupo liderado por Aleister Crowley,
dominância em nossa consciência civilizada, prescrevendo dedicado a Pã e que, conforme diz o verso de Crowley,
como renegados tanto Pã quanto o estupro. também incluía o estupro. 3 Mas estes, ainda assim, perma-
O segundo ponto principal dessa relação reverte neceriam seculares, uma vez que não se pode ressuscitar
o primeiro: a mitologia é necessariamente patológica os deuses. A presença de Pã deve preceder ao culto em seu
(descritiva da psicopatologia), pois, caso contrário, ela nome. Portanto, não se trataria mais de representações
não poderia nos falar da alma tal como ela é. A mitologia míticas, mas de construções míticas. Em certo sentido,
seria, assim, higienizada, uma espécie de religião ideali- haveria uma representação mítica mais verdadeira no
zada (tal como a tradição alemã sempre sonhou com sua beco do que no templo siciliano de Crowley ou em um
simplificação do mundo grego, pagando, desse modo, um workshop psicodramático da Califórnia com suas danças
terrível tributo à psicopatologia). A mitologia, sem sua em honra a Pão
"d~pravação moral", tornar-se-ia somente uma religião Se não essas tentativas exteriores, então talvez o
livresca, uma construção humanista ou uma revelação de sonho, a fantasia e a imaginação das artes poderiam nos
dogmas éticos, e não a contínua corporificação da experi- transpor ao mundo mítico em que outras leis imperam
ência humana, na qual padrões patológicos não poderiam e em que o estupro tem o "seu lugar". Essa solução diz
deixar de ser incorporados. Assim, parece que o mito que nós podemos fazer tudo o que quisermos "dentro de
inclui o estupro como um dos eventos que deveriam ser nós", mas não atuá-Io "fora de nós". O sagrado e mítico
retratados por qualquer sistema adequado à verdadeira agora se tornam intrapsíquicos e mentais, enquanto o
amplitude da alma. secular se torna comportamental. Essa solução nos leva
Mas onde residiria a diferença entre o seu ou o meu de volta a outra direção. Agora, retornamos à posição
estupro e o estupro realizado pelas figuras do mito? Se o cartesiana e a sua radical separação entre a mente e a
mito explica (e sanciona) a patologia, então uma imitatio
Dei implicaria também o estupro. A diferença residiria, 3 Ver MERIVALE, 122 SS.

72 73
matéria. Contudo, o fim explícito de nosso ensaio é seguir aproximação hermenêutica tanto quanto o devaneio mais
Pã mantendo o "dentro de nós" e o "fora de nós" unidos fantástico de uma visão mística requereria.
. ....
lnseparavelS. ' Essas observações podem aliviar o termo "psicopa-
Uma quarta solução diria que o que é patologia nas tologia" do fardo de servir a dois mestres, o legítimo da
ruas também o é na mente. O que fazemos na imagina- psicologia e o parasitário da moralidade. Os critérios
ção teria as mesmas consequências para a alma do que IIlorais do comportamento pertencem à ética, à lei e à
quando damos passagem a um ato. Agora retornamos religião, e esses domínios não deveriam influenciar as
na situação cristã, para quem olhar para uma mulher perspectivas da psicopatologia, cujos julgamentos acerca
com luxúria seria idêntico e tão pecaminoso quanto a do comportamento são menos determinados pelo "quê",
ação externa. A fantasia é tomada inteiramente em sua pelo "onde" e pelo "com quem" essas ações tomam lugar
literalidade. do que pelo "como" elas se dão. Menos importa o ato que
Claramente, o problema permanecerá insolúvel en- sua qualidade.
quanto insistirmos que comportamento e fantasia são Nós nos tornamos mais psicopatológicos quando nos
dois reinos diferentes. Essa cisão produz todas as outras: passa despercebida, neste ou naquele segmento de nos-
o secular e o sagrado, o "dentro em nós" e o "fora de nós" , sas vidas, a fantasia de um ato, ou quando percebemos
a mitologia e a patologia. Por essa razão, o primeiro passo que o que estamos fantasiando também está a acontecer
em direção a uma resolução do problema particular do fisicamente, mesmo se de maneira sutil e indireta. Ao
estupro está em reconhecer o maior erro que se oculta invés disso, fazemos uso da literalidade, e a metáfora,
por trás dele. Esse erro pode ser retificado ao lembrar que preserva a vida psicologicamente intacta, se esfacela.
que, desde sempre, comportamento é também fantasia e Quando metáforas não mais se sustentam, temos, de um
fantasia é também comportamento. lado, fantasias literalizadas em alucinações e delírios;
Isso significa, em primeiro lugar, que a fantasia é do outro, cO,mportamentos literalizados chamados de
também física, ela é um modo de estar no mundo. Não psicopatia ou transtorno do comportamento, dos quais o
podemos estar no mundo físico sem, ao mesmo tempo, estupro é, às vezes, considerado um sintoma.
e a todo momento, estarmos perfilados em um padrão Nós nos tornamos menos psicopatológicos quando
arquetípico. Não podemos nos mover, falar ou sentir sem podemos restaurar a apreciação metafórica do que nos
representar uma fantasia. Nossas fantasias não estão acontece. A terapia fala de "(nsight psicológico",. o que
somente em nossa mente, elas também são nossos com- poderia significar a reconexão da fanta~.üicQmo çomnor-
portamentos. táiiiênto e- a a.issôíuçãodo-Üt~~~Ü~~~ -~través do pod~; do
Em segundo lugar, a união entre fantasia e comporta- iiiSi:ght. Porque a lei, a ética e à religião tendem a tratar
mento significa que não há algo como um comportamento ocõinportamento com o mesmo literalismo que a psico-
puro e objetivo. O comportamento não poderia nunca ser lOgia considera como a origem da psicopatologia; esses
entendido em seu próprio nível, de modo literal. Ele é ?ampos não devem invadir os nossos - além disso, seus
sempre guiado pelos processos imaginais que ele expres- Julgamentos emergem do mesmo literalismo psicopato-
sa. O comportamento é sempre metafórico e requer uma lÓgico patente do comportamento que querem julgar (já

74 75
expressei, em outro lugar, esse conflito necessário entre a t das as partes das histórias, incluindo suas depravações
psicologia e esses outros campos a propósito do suicídio, ~zarras e seus horrores imaginativamente essenciais, que
em que minha ênfase recaía também sobre a perspectiva tualmente classificamos como psicopatológicos.
metafórica do comportamento). a Devemos ter em mente que o horror arquetípico do
Então, a psicologia é obrigada a considerar o estupro estupro afeta até mesmo sua própria discussão. A melhor
sempre como metafórico, até mesmo o seu e o meu e até testemunha dos efeitos desse horror arquetípico é a su-
mesmo aquele que acontece nas ruas. Essa premissa já é pressão legal do estupro. Nos Estados Unidos, em geral,
um ato terapêutico, pois ele afirma a unidade da fantasia e nem a emissão seminal, nem a penetração real da vagina
do comportamento. Mesmo nas ruas, há sempre um ritual OU ânus estão contemplados em sua definição. Basta sim-
tomando lugar no comportamento, e algo de trans-humano plesmente que haja uma justaposição forçada dos genitais
sempre ocorrendo no que é profano. A transposição que para desencadear o poder do judiciário. E mais: há um
estamos procurando é uma transposição da nossa visão estupro puramente legal (estatutário), que incluiria uma
das coisas, uma transposição psicológica para que possa- relação com um menor que consinta, um exame genital por
mos ver a unidade da fantasia e do comportamento. Então, parte de um médico ou uma anestesia geral aplicada por
não mais precisaríamos construir representações literais um dentista (sem quaisquer terceiros presentes). Estas
e chamá-las de rituais. Este ensaio não é senão uma não são trivialidades. A pena de morte para o estupro,
tentativa de transposição de nosso ponto de vista. Ao ver incluindo o estupro estatutário, ainda existe em algumas
Pã no pânico, na masturbação e no estupro, restauramos partes dos Estados Unidos. Esse deslocamento do horror
tanto o deus na vida como a vida em deus. às sutilezas não sexuais e legais pertence a uma longa
Sem essa visão de um deus no comportamento, o tradição de supressão que remonta à época colonial. Na
estupro torna-se somente psicopatologia. Como já mos- Pensilvânia, por exemplo, desde 1700 castravam-se os
trei em outras obras, quando perdemos de vista o Eros negros pela tentativa de estupro (de brancos).
na análise, a erótica da transferência se torna somente Situemos agora o horror do estupro na constelação de
neurótica; sem Saturno e Dioniso, depressão e histeria se Pão Antes de tudo, Pã persegue ninfas, ou seja, o estupro
tornam somente diagnósticos psiquiátricos. Perdemos de visa uma forma de consciência indefinida, ainda localizada
vista o fato de que embora síndromes provoquem sofri- na natureza, mas que não é pessoalmente corporificada.
mento, elas fazem parte de um padrão mais amplo. Em Essa consciência é ainda somente natural, da mesma
cada uma dessas situações, a mente moderna tendeu a maneira que a pulsão de Pã é somente natural. A ninfa
ver a patologia antes da psicologia, esquecendo-se de que ainda está ligada aos bosques, às águas, às cavernas, às
a enfermidade é parte do significado. O pathos é parte formas evanescentes, à bruma; ela é casta, natureza ainda
da psyche e possui seu próprio logos. O patológico - por virgem (veja, adiante, "As ninfas de Pã").
mais distorcido e literalizado que esteja - pertence ao Pã traz um corpo, um corpo de bode. Ele força a
fazer alma. Os neoplatônicosjá haviam reconhecido isso. realidade sexual da geração física a uma estrutura de
Eles viram que, do mesmo modo que as histórias míticas consciência que não tem vida pessoal física, cuja vida
tinham um sentido para a alma, o mesmo se aplicava a é inteiramente "fora de nós" em natureza impessoal. O

76 77
assalto de Pã repentinamente transforma a natureza uptura do hímen de virgens reais, mas da consciência
em instinto. O estupro torna-a íntima. O estupro leva o ~a :flor perpassada e de sua morte. Muito poucos são os
"dentro de nós" para o "fora de nós". O impessoal penetra estupros reais de virgens reais; ainda assim, na imagina-
sub-repticiamente até o corpo mais privado, trazendo ção, todas elas são virgens, .s~jam irmãs, filhas ou freiras,
consigo uma consciência do impessoal enquanto uma de sejam jovens rapazes, colegIaIs, ou velhas empregadas, ou
experiência pessoal. jovens "delinquentes" presos pela primeira vez. A fantasia
Enquanto tal, o estupro é um horror, pois ele é uma da defloração e da virgindade aparece conjuntamente ao
transgressão arquetípica. Ele forçosamente atravessa estupro. Empiricamente, essa associação faz pouco sen-
duas estruturas de consciência não relacionadas, cuja tido; do ponto de vista psicodinâmico, trata-se de uma
distância entre elas se expressa na linguagem dos opostos: elaboração secundária e não essencial. Mas, de um ponto
mulher idosa/jovem rapaz, jovem garota/homem idoso, de vista arquetípico, a associação entre virgindade e estu-
virgem/libertino, branco/negro, nativo/estrangeiro, velho pro é necessária, pois ela mostra que o comportamento é
presidiário/jovem punk, soldado/civil, mestre/escravo, governado pela fantasia de Pã e das ninfas. De um lado, o
bela/fera, classe alta/classe baixa, bárbaro/burguês. Mas intocado, a consciência desprovida de sensações corporais;
essa transgressão é também uma conexão entre estas de outro, aquele que toca, o tátil corpo sensual. Toque,
estruturas. O estupro direciona a pulsão do corpo rumo contato, conexão - termos cruciais para a metáfora que
à alma através de uma metáfora concreta. Ele empurra habita na linguagem corporal. Pã, às vezes chamado de
a alma em direção à concretude. Ele forçosamente acaba "o invisível", é, no entanto, imaginado da maneira mais
com a divisão entre comportamento e fantasia, violando física possível como um estuprador. Ele é chamado de Pã,
a privilegiada distância da alma que antes quisera viver o saltitante, o atrevido, o bárbaro, o feroz, o tosco, o sujo,
a vida através da reflexão e da fantasia. o peludo, o negro. Esses eram seus epítetos latinos. 4
Interpretar a transgressão do estupro como agressão O medo do estuprador negro e primitivo existia na
é um equívoco do ponto de vista arquetípico. A agressão é consciência ocidental muito antes da fundação da Pensil-
insignificante na constelação de Pão Ele não agride nem vânia. Se, como se diz, o medo sexual é a fonte psicológica
estrangula os obscuros objetos do desejo; nenhuma arma da repressão ao povo negro, e se Pã tem sido imaginado
ou lâmina faz parte de sua ameaça. O estupro de Pã, como niger, instabilis, lubricus, rusticus, brutus, noctur-
como o pesadelo de Pã, é um encontro íntimo com a força nus etc., então não seria a morte de Pã uma das fontes
animal do corpo. Seus assaltos, e nossos estupros que os arquetípicas de nossas doenças sociais racistas, tornando-
mimetizam, não são agressões; eles são compulsões. Eles -o totalmente inconsciente e coletivamente projetado?
não são tanto ataques para destruir o objeto quanto são A lei incorporou a fantasia da ninfa de Pã ao formular
uma necessidade compulsiva de possuí-lo. medidas protetivas para ninfetas e mulheres anestesia-
A linguagem do estupro usualmente fala de deflora- das, projetando a imagem do estuprador nos toques do
ção, cujo paradigma é Perséfone colhendo flores quando médico examinador. Legalmente, para que haja estupro,
é raptada por Hades. A defloração também deve ser com-
preendida metaforicamente, pois não estamos falando de 4 CARTER, J. B., "Epitheta Deorum" no Lexikon, VII, de Roscher.

78 79
nem o coito nem a ejaculação são necessários. Esses ara penetrá-los. Serão assaltados de novo e de novo pelos
aspectos essenciais ao ato sexual não definem o estupro ~oncretismos. As reflexões puras serão estupradas de novo
legalmente. Até mesmo a lei reconhece a maneira sinistra de noVO para que grassem finalmente no comportamento.
com que o estupro está acima e além da própria sexuali- e O estuprador perseguindo a virgem é outra manei-
dade concreta. A verdadeira transgressão é a conexão ao ra de colocar o comportamento à procura de fantasias
nível genital entre duas estruturas da existência humana para aplacar su~ c~mpulsão. A ojeriza da virgem ,é .outra
dotadas de diferentes status ontológicos. Illaneira de expnmIr o medo do comportamento fISICO da
Pã, o estuprador, é uma potência intrínseca a todo fantasia. Mas a violação da virgem será inevitável sempre
impulso sexual. A cada ereção ele pode ser libertado, im- que os limites entre as fantasias demasiado esvaídas do
plicando uma necessidade de defloração psíquica. Corno corpo e as fantasias inteiramente imersas no corpo forem
psicólogos, devemos primeiramente ver através deste excessivamente enrijecidas. Então, a metáfora concreta
fato antes de criticá-lo ou defendê-lo. Alguma necessi- da 'justaposição genital forçada" é constelada, re-unindo
dade da psique poderia converter um impulso em uma fantasia e comportamento.
fantasia de estupro, ou mesmo produzir uma fantasia de A ideia psicodinâmica de compensação expressaria
estupro sem excitação sexual. Trata-se de uma tentativa esse conceito dizendo que o concreto nos toma - sob a
de transgressão, uma tentativa de se passar de um nível forma de estupro, de pânico ou de pesadelo - quando
a outro, levando sexo e morte a uma região da alma que a consciência é etérea, por demais efêmera. O concreto
é absolutamente resistente a este modo de consciência. compensa a distância da vida física, que é representada
Eurípedes descreve o estupro como um "matrimónio por um paradigma concentrado nos genitais. Mas a psi-
do pânico".5 Pã agarra, se apodera, copula. A violência é codinâmica, em seu intento de reconduzir os eventos de
comparável ao demónio do pesadelo cuja visita nunca é volta à psique, na realidade, os reconduz ao ego. Diz-se que
desejada; ele se deita sobre aquele que dorme, retendo estes horrores (o estupro, o pânico, o pesadelo) aparecem
sua respiração e privando sua vítima do elemento aéreo, porque o ego está fazendo algo de errado. A irrupção do
pneuma. Apesar do pânico, a cópula é, não obstante, um poder numinoso torna-se somente um mecanismo psíquico
"matrimónio", uma união de destinos. Dificilmente esse que visaria corrigir o ego. As explicações, nos termos da
trágico encontro seria um matrimónio humano de pessoas, Compensação, se esquecem de que a experiência é inteira-
visto que essa união une um impulso monstruoso a uma mentetranspsicológica. Ela se manifesta como numinosa.
inocência ferida. A chegada de Pã não é causal, é sui generis. Ele irrompe.
Pã, o estuprador, será conjurado pelos aspectos Todavia, essa ênfase na concretude da psicodinâmica
virginais da consciência que não são fisicamente reais, tem sua importância se a tomamos fenomenologicamente,
que estão "fora de contato", imperceptíveis. Sentimentos deixando de lado a teoria dos opostos que se equilibram.
e pensamentos que permanecem tênues e fugidios, que Fenomenologicamente, o estupro, o pânico e o pesadelo
ainda são frios, remotos, reflexivos, convocarão o estupro embaraçam a consciência com sua concretude e, por isso,
nos golpeiam sempre como psicopatológicos: os eventos
5 HELEN, 190. são demasiado literais. Novamente, a psicopatologia re-

80 81
si de não no que aconteceu, mas em como aconteceu, na ção significaria não penetração e transformação, mas
metáfora concreta do acontecimento. O estupro, o pânico r~a alma ferida. A partir dessa perspectiva, uma pura
e o pesadelo pertencem ao lugar em que a ansiedade e a ~entelha da luz reflexiva deve manter-se intacta sob todo
sexualidade são tomadas tão concretamente que a psique custo. Um insight espontâneo daria a liberdade de afastar-
já torna uma vítima, capturada, oprimida, sua liberdade -se da opressão da natureza, inflamando a capacidade de
perdida. O horror já começou. imaginar a vida e não somente de ser conduzido por ela.
Da perspectiva da consciência da ninfa, o estupro
sempre será um horror. Esse horror também é arquetipi-
camente autêntico e, portanto, é significativo e não mera-
mente uma resistência fútil e um sintoma de ansiedade.
O horror avisa. Ele procura manter uma estrutura de
consciência intacta. A consciência reflexiva corre perigo
de ser sobrecarregada (vergewaltigt = estupro em Ale-
mão) e violada (viol = estupro em Frances) pelo próprio
mundo físico que ela reflete. A consciência reflexiva se
retira. Esse é o seu movimento natural, pois a reflexão é
também instintiva (ver adiante, ''As ninfas de Pã"). Para
manter sua estrutura reflexiva livre de entraves, esse
aspecto da consciência não deve permitir que o pesadelo,
que é a natureza, lhe monte e lhe cubra. O lado que a
natureza compartilha com o pesadelo é esse concretismo
opressivo e sufocante expresso pelos epítetos de Pã e na
experiência de Efialtes.
Mas o concretismo se faz presente em cada pergunta
literal que fazemos a alguém, em cada conselho sagaz,
em cada interpretação perspicaz sobre como viver e o que
fazer. Nós estupramos e somos estuprados não somente
sexualmente. O sexo não é mais que uma metáfora que
expressa o movimento "de baixo" (redutivamente) rumo
à intimidade pessoal de alguém, de uma maneira crua e
"somente natural". Nada constela mais essas transgres-
sões de fronteira do que as questões inocentes da mente
simplista de uma ninfa.
O concretismo obscurece a luz e bloqueia os movi-
mentos da fantasia. A partir dessa perspectiva, a deflo-

82 83
AS NINFAS DE PÃ

Ao situar o instinto e a imagem no mesmo continuum,


Jung ofereceu uma nova entrada para o mundo de Pão
Tentativas racionais, morais e deliberadas de gerir com-
pulsões instintivas podem somente reprimir o instinto,
uma vez que essas tentativas emergem de um componente
essencialmente diferente da psique. Semelhante se liga a
I' semelhante; semelhante cura semelhante. Imagens mí-
ticas retratam o instinto; instintos representam padrões
míticos. (Vico pensava que os mitos eram terapêuticos.)
Em nível lógico e prático, os impulsos de Pã são mais bem
estudados através de suas imagens míticas companheiras:
suas ninfas.
A esse respeito, o mito pode ser comparado à alqui-
mia. Na alquimia, a transformação do compulsivo enxofre
requer uma substância igual a ele (principalmente o sal,
mas também o mercúrio, uma substância psíquica evasiva
que é o verdadeiro agente de transformação). A mente
e a vontade do operador têm um papel subsidiário aos
efeitos de uma substância sobre a outra. Então, assim
COmo sucede às mudanças representadas pelo mito, um
mitologema como o de Pã se faz necessário.
Antes de prosseguirmos, preciso qualificar a ideia de
mudança no mito apressando-me a acrescentar que não
estamos compromissados aqui com instruções morais. Não

L 85
há nada de errado com Pã, com o instinto, com a compulsão Já vimos que Pã se divide entre o cume da montanha
e seus semelhantes. Mitos descrevem processos subjetivos gruta, entre o ruído e a música, entre ancas peludas
fundamentais nos quais mudanças estão inscritas. É Ulll. e achifres espirituais, entre pânico precipitado e estupro
engano nosso lê-las enquanto melhorias morais, progres_ e tinado. Outro exemplo, ainda mais imaginativo e atra-
b
sos de quaisquer tipos. Portanto, falar da "cura" de uma oS . as
te é Pã e suas parceIras, . nInf:as. p'
OIS um D eus e sua
compulsão é, de um lado, uma noção terapêutica que im- en , . . . . d
arceira descrevem os dOIS componentes prmCIpaIS e um
plica aperfeiçoamento; mas, do outro, "cura" significa uma Pomplexo arquetípico. E se a mais nobre das verdades
passagem de uma forma de aflição a outra. Esforcemo-nos, ~o pensamento psicológico (Jung), assim como a filosofia
pois, para distinguir a noção central de transformação de :mítica e mística, I é a identidade dos opostos, então não
suas camadas interpretativas: algumas mais açucaradas somente os núcleos gêmeos da natureza de Pã são uma
como "crescimento" e "progresso" e outras mais amargas . única e mesma coisa, mas também Pã e as ninfas estariam
como "perda" e "decadência". Se um dos axiomas da psique necessariamente implicados, pois eles também são uma
é que semelhante cura semelhante, dificilmente podería- única e mesma coisa. "As ninfas que acompanham Pã não
mos operar uma transformação de um determinado nível são suas subordinadas ... Seguem sendo tão divinas quanto
atuando em seu nível oposto. Naturalmente, enxofre e ele", escreve Philippe Borgeaud. 2
sal são opostos, e a cura vem, como Heráclito teria tido A explicação etimológica e "natural" de Roscher acer-
prazer em constatar, através dos opostos. Mas opostos ca das ninfas 3 as considerava como personificações das
que estejam dentro de uma mesma classe e em mesmo brumas e das nuvens que erram nos vales, nas encostas
nível. Dessa forma, uma mudança de compulsão não se das montanhas e nas fontes de água, seres que velam as
deveria à consciência operando sobre o inconsciente, pois águas e dançam sobre elas. E, de fato, para Homero,4 é lá
são opostos de duas classes diferentes, similar à situação onde as ninfas vivem. No mesmo volume, Bloch 5 refuta a
da vontade que opera sobre a imaginação, ao superego hipótese de Roscher assinalando que, na mitologia grega,
que opera sobre o id, ou à mente atuando sobre o corpo. a palavra "ninfa" não significa nada além de "donzela em
A mente pode atuar sobre a mente, o corpo sobre o corpo; flor" ou "senhorita", florescendo como um botão, sentido
então, para que mudemos eventos de natureza imaginaI, esse que mais se assemelha ao nosso "núbil" do que a
seríamos obrigados a permanecer dentro de um campo "nebulosa". W. F. Otto, em seu capítulo sobre as ninfas,6
imaginaI. concorda que o termo signifique garota ou noiva, mas as
Ademais, para que a mudança tome lugar em um ní- conecta miticamente em primeiro lugar a Ártemis e ao
vel instintual, o processo deve ser natural; há de ser como
diziam os alquimistas: a natureza que ama e desfruta da
1 WIND, Edgar, "Pan and Proteus", Pagan Mysteries in the Renaissance
natureza e, ao mesmo tempo, a natureza que transforma CEIarmondsworth, 1967).
a natureza. Os opostos devem já ser os mesmos, e deve 2 The Cult af Pan inAncient Greece (Chicago: University of Chicago Press,
1988),173.
haver certa afinidade entre eles. Na alquimia, sol ama 3 Lexikan "Pan" 1392 ss.
4 ' ,
luna, fogo e água se abraçam. Na mitologia, Pã quer aS Odisseia 6, 123.
5 "Nymphen", 500 ss.
ninfas. 6 Die Musen (Darmstatadt, 1945).

86 87
sentimento grego deAidos, vergonha, uma timidez modes_ aJIlplificou a figura de Pítis a sua própria maneira, ex-
ta, um temor silencioso e reverencial perante a natureza erienciando Pã por meio do pinho, com sua aspereza
e pela natureza. Ele descreve esse sentimento como o polo Pungente e "eriçada". Para Lawrence, o pinho é menos
oposto dos transbordamentos compulsivos de Pã (deus da ~Illa sombra confortável na encosta de uma montanha,
epilepsia). As ninfas, assim como Pã, pertencem à mesma evocada pela fantasia de Roscher de ninfas em um bosque
paisagem de nossa natureza interior. 7 da Grécia bucólica, do que a agressiva masculinidade do
Quem são essas ninfas do mito, esses amores da Pã? "pele vermelha", em sua obra Pan in America. O pinho
Em primeiro lugar, muitas não tinham nome; essas "não como Pã, como masculino, reafirma a tese órfica de que
pessoas" revelam, no nível do objeto, a impessoalidade da os opostos são idênticos, e que Pã e as ninfas são um só.
pulsão. A mesma força invisível e indefinida que instiga Há, por exemplo, estátuas femininas de Pã, e também
os estupros de Pã também os objetifica na figura da nin- pinturas e baixos-relevos nos quais Pã aparece junto a
fa obscura e desconhecida. Entre aquelas que possuem um hermafrodita. 8
nome, há Siringe, uma ninfa da água que, para fugir de Uma terceira figura entre os amores de Pã foi Eco,
seu abuso sexual, transformou-se em um junco com o qual que encontramos no conto de Eros e Psique de Apuleio.
Pã fez sua flauta. Embora ela seja a mais célebre de seus Também nesse caso Pã se frustrou, pois Eco não tinha
amores, Siringe é colocada em lugar secundário pelos corpo, não tinha uma existência substancial própria. Em
estudiosos, pois consideram que seu conto nada mais é sua relação com Pã, ela não era senão ele mesmo devolvido
que uma explicação mitologizante e tardia para a flauta a si, uma repercussão da natureza refletindo a si mesma.
de Pã (siringe). Antes de discutirmos o conto de Siringe e (No caso de Narciso, amor de Eco, é ele quem a rejeita,
o pouco caso que a academia lhe presta, nos permitamos seduzido por seu próprio reflexo.)
uma revisitação das outras ninfas. A medida que avançamos na lista de amores de Pã,
Outra figura era Pítis, uma ninfa do pinho. Pã fre- a reflexão parece ser o objetivo. Pois outra de suas aman-
quentemente usa uma grinalda de pinho ou uma coroa de tes foi Eufeme, a ama de leite das Musas. Pã e Eufeme
abeto e, quando está com Dioniso, ocorre frequentemente tiveram um filho, chamado Croto, que, como meio irmão
de estar munido de uma pinha, cuja forma pontiaguda das Musas, costumava brincar com elas. O nome Eufeme
e numerosas sementes lhe valeram o sentido, segUndo o significa "fala justa", "boa reputação", "silêncio religioso".
eufemismo interpretativo favorito dos vitorianos clássicos, Dessa mesma raiz deriva a palavra "eufemismo", que quer
de ser "um símbolo da fertilidade". dizer uso propício das palavras.
Mas aqui Pítis, o pinho, é feminino, e reflete Dioniso Eventos duros ou desafortunados podem ser modifi-
de outra maneira, pois a mistura do pinho e do vinho cados quando renomeados com um melhor nome. O uso
em retsina expressa uma coniunctio. D. H. Lawrence correto do eufemismo nutre as Musas. O eufemismo reside
na origem da transformação da natureza em arte. Desgra-
7 A respeito da ninfa interior, suas atratividade e seus perigos, ver JUNG, ças absurdas ou lamentáveis da natureza podem ganhar
Emma, "The Anima as an Elemental Being",Animus andAnima, Spring PubJi·
cations [Animus e Anima, São Paulo: Cultrix, 1991, trad. de Dante Pignataril;
e também JUNG, C. G., CW 13, § 179 ss., 215 ss. 8 Wernicke em "Pan in Art" no Lexikon de Roscher.

88 89
outras formas por meio do uso da imaginação. De mesmo
modo que Pã pode converter derrota e tumulto em dan_ça, (selas: luz como a da tocha que brilha à noite). Semelhante
clamor em música, sua força de pesadelo busca.express~es cura semelhante: Pã, ao tornar-se semelhante a Selene,
já se encontra conectado a ela.
melhores (eufemísticas) para conferir u~ sentld~ u.lteno r
a sua aspereza e crueza, um valor poétlco e rehgIoso. A Contudo, essa história não quer dizer que a consciên-
relação de Pã com Eufeme e as Musa~ implica também cia lunar de Selene refletiu Pã e, desse modo, o desviou.
que em todas as artes subjaz, de manelra oculta, o poder Ao contrário, a sedução tomou lugar. A consciência lunar
evocativo e primitivo de Pão pode ser arrastada por Pã; ela pode ser convulsionada e
Finalmente a única que revela completamente a cair em pânico, desmaiar e entrar em colapso.9
intenção de Pã é' Selene, deusa da Lua. (Sua inteira con- O estado lunar é particularmente vulnerável a Pã
figuração, seu filho Museu, as conexõe~ dele com ~rf~u. e do mesmo modo que Pã é particularmente atraído por ele~
com os Mistérios de Elêusis estão imphcados na hIstona Já havíamos visto essa ideia anteriormente em relação
de Pã e Selene, mas sua análise requereria uma mono- ao estupro. Ela se reafirma aqui, uma vez que Pã produz
grafia totalmente dedicada a Selene, algo que Roscher, a sua ~~pressão mais vívida, como Efialtes, nos sonhos, que
propósito, também fez.) Todavia, de~emos el~ncar algumas tradICIOnalmente pertencem à Lua. E, em pesadelos sua
de suas características: sua beleza msuperav~l; ~eu olhar natureza lunática aparece especialmente. Pã era u~ dos
que via tudo o que acontecia abaix?; se? domm~o .so~re a deuses diretamente associados aos lunáticos, assim como
menstruação, o ritmo ordenado do mstmto femmmo, s~a Suas ninfas eram uma causa de loucura (nympholeptoi).
dádiva do orvalho, a humidade refrescante; sua rela?ao ' Estamos agora em posição de retornar a Siringe. Em-
com a epilepsia e a cura; o véu que a mantinha :r;>arcIal- ' essa história seja uma invenção tardia, um conceito
mente oculta, indireta; a tocha que carregava e a dIad~ma meramente da ordem da consciência, seu padrão
luminosa que usava; a escura caverna da qual surgIa e pela sua similaridade com outros contos. É
para onde se retirava. d. se a invenção do mitólogo estivesse pré-formatada
Para conquistar a lua, conta-se que Pã teve de IS; arquétipo de Pã e da ninfa para nos contar mais
farçar suas patas negras e peludas com lã branca. Ess.. versão de relação entre Pã, frustração e reflexão.
é uma linguagem da alquimia, correspondente ao moVl de uma história ser recente não significa que ela
mento do nigredo ao albedo da consciência lunar. O que do~ada de menor insight psicológico ou de um valor
é resistente à luz obscuro e impulsivo, sofrida natureza Inferior. A primordialidade arquetípica não deve
de ver '., Confundida com a antiguidade histórica.
em ignorância, se, torna branco e re fl exIVO,
. ca~az.
o que acontece durante a noite. A lã branca nao to " No conto de Siringe, Pã persegue a possibilidade de
Pã de ir em direção a sua conquista. ~ branque~mell ~~lVElrin
que, por meio
. de um incessante afastamento,
não é uma askesis do bode. Não quer dIzer que Pa ~o t b' em seu Instrumento. A música da flauta de
, alll em conhecida como siringe, é a autoconsciência
agora e cesse de dar passagens aos a t os, ~as que__a.. aç!i ,
a ...'",

por meio de branquear-se, torn~-se reflexI~a e, Também pe t


também torna possível que eXIsta conexao com eH r encendo a Pã, de acordo com DODDS, E. R., The Greeks and
oston: Beacon, 1957),
q{)

91
que inibe e transforma a compulsão. Ao invés do estupro :mental de reflexão, então deveríamos esperar encontrar
à beira do rio, há uma toada triste de flauta, canto e reflexão também em sua própria imagem e não somente
dança. A compulsão não é sublimada, mas, no entanto, exemplificada pelas ninfas. E é exatamente isso que
se exprime em e através de outra imagem, pois o canto encontramos. Além da música e dança, existem suas ati-
e a dança são também instintivos. Através da siringe, ° vidades defensivas e protetoras. Além da relação de Nice
ruído tão caro a Pã transforma-se em música, o tumulto, com Atena - tendo Penélope por mãe e/ou Ulisses por pai,
em passo comedido; os padrões se elaboram; há espaço, como é contado em tradições, implica Atena -, há também
distância e ar, como o murmúrio do vento no pinho. Como a semen}e paterna de Hermes (ou de Zeus, Apolo, Cronos,
Eco, que proporciona a receptividade feminina do ouvido Urano, Eter ou Odisseu, cada um dos quais apresentando
e da recordação, a música feita pela flauta de Pã oferta uma modalidade de espírito reflexivo). Ademais, há tam-
uma fantasia sonhadora que inibe a compulsão. A com- bém o motivo de seu precoce amanhecer, sua aparição nas
pulsão sexual de Pã parece completamente dirigida rumo pinturas de vasos junto à aurora, o nascer do dia.
ao fim da reflexão. Lembre-se: Pã não é o Deus Pai, pois Talvez mais significativo do que qualquer uma dessas
sua descendência é mitologicamente insignificante. Sua imagens de consciência reflexiva seja o fato de que, repe-
fecundidade é de outro tipo. tidamente, Pã aparece nas representações artísticas como
Esses contos nos dizem que a própria natureza ins- um observador. 10 Lá se encontra ele de pé, ou sentado, ou
tintiva deseja figuras e fantasias para fazer-se conscien- apoiado, ou agachado, em meio a eventos dos quais não
te de si mesma. Nenhum novo princípio é introduzido, participa, mas nos quais, ao contrário, constitui-se como
nenhuma correção da compulsão se impõe de cima ou de um fator subjetivo de atenção vital. Wernicke afirma que
fora à configuração do próprio Pão Ele busca um outro polo . . ele serve para despertar o interesse do espectador como
intangível - um mero junco, um som, um eco, a pálida , (Se quando olhássemos uma pintura com Pã ao fundo
luz, a ama da musa -, uma consciência útil à obscuridade 'fossemos nós o Pã que a tudo observa. '
da sexualidade concretista e do pânico. Pã nos conta que (. Pã, o observador, nos aparece da maneira ainda mais
a ânsia mais forte da natureza "dentro de nós" (e quem naquelas imagens em que sua mão está
sabe também da natureza "fora de nós") tem por fim a ~elllcO:sta.da em sua fronte, olhando para longe: Pã, "aquele
união da alma com a consciência, uma ideia que já vimos vê longe", "aquele de olhar penetrante", o pastor acima
prefigurada na masturbação e na consciência. O "outro" seu rebanho, em guarda, vigilante. Na intensidade físi-
a quem Pã persegue tão compulsivamente não é outro de Pã, há uma atenção física, uma consciência caprina.
senão sua própria natureza, sua própria alma, refleti da, consciência não é olímpica, pois não se constitui
transposta a outra chave. uma corporificação de notoriedade superior. Sua
--....é a música.
A chave - . Som. Siringe, Eco e Pítis - que
's está em conexão com o rebanho, sua consciência
suspira (Nonnus) ou geme quando o vento sopra atrave aos sinais físicos da natureza "dentro de nós". A
dos pinhos - são os sons da natureza. As ninfas refleteJll está na ereção, no medo, uma consciência que é
a natureza ao pé do ouvido. Ensinam-nos a escutar e a
escuta põe termo à compulsão. Se Pã contém um tipo ele- lOWernick .
e,op. clt.,
l' t
IS
A

a tres colunas de exemplos.

92
i 93
.........
circunscrita na natureza, assim como são as ninfas para jante? Isso seria demasiado fácil, e os pronunciamentos,
suas árvores e riachos; cega, porém intuitiva; previdente, demasiado barulhentos e claros. O profeta é também uma
porém imediata. Pã se reflete por completo no corpo, o figura i~teri,?r, uma ~unção do microcosmo, de modo que
corpo como instrumento, como quando dançamos, e para a profecIa nao podena soar mais forte que a intuição do
o qual Lawrence utilizou a metáfora do "pele vermelha". JOedo ou um desejo repentino.
Essa é a consciência cautelosamente se movendo na Plutarco situa sua história sobre a morte de Pã em
sabedoria do medo através dos lugares vazios de nossas uma discussão sobre por que os oráculos se extinguiram.
paisagens interiores, onde não podemos saber qual direção Com a morte de Pã, as donzelas que proclamavam as ver-
tomar, desprovidos de vestígios, nosso julgamento somente dades naturais também cessaram de existir, pois a morte
embasado nos sentidos, sem jamais perder o contato Com de Pã significou também a morte das ninfas. À medida que
o rebanho de caprichosos complexos, pequenos medos e . Pã se transformava no Diabo cristão, as ninfas se trans-
pequenas excitações. formaram em bruxas, a profecia tornou-se feitiçaria. As
Essa consciência corporal pertence à cabeça, mas se mensagens de Pã no corpo se tornaram apelos do Diabo'
encontra fora dela; é lunática, semelhante ao espírito que qualquer ninfa que evocasse tais chamados não era senã~
reside nos chifres. (E a Lua tem chifres.) Não é mental, , uma bruxa sedutora.
nem calculista; é uma reflexão, mas nem posterior e nem O tipo de consciência que Pã representa é inerente-
simultânea ao evento (à maneira de Atenas). Melhor: mente mântico, de alto a baixo, por assim dizer. (Retor-
trata-se da maneira pela qual o ato é levado adiante, apro- naremos a este tema no próximo capítulo.) Foi de Pã que
priado, económico, um estilo de dança. Do mesmo modo , A ~p~~ndeu. a arte, antes que Delfos tomasse o lugar
que Pã é um com as ninfas, assim seu reflexo é uma só TemIs. As mnfas eram capazes de levar a excitação às
coisa em relação ao seu próprio comportamento. Ao invés da l.oucura, resultado esse que é, ao mesmo tempo,
de um sujeito epistêmico que conhece, há uma fé animal ~"~V~"'IJ','~ét e dom profético. A ninfa Erato era profética no
empistis, de pés seguros como um bode. ~rcade de Pã, e Dafne, o pastor amado por Pã, foi
O caminho de Pã pode ainda ser o "deixa-te guiar pela do mais antigo de todos os oráculos de Delfos:
natureza", mesmo quando a natureza selvagem "fora de de ~aia. 12 A lista de todos que foram enlouque-
nós" está a desaparecer. A natureza "dentro de nós" pode, ,~elas mnfas ou dotados de dons divinatórios por
não obstante , ser seguida mesmo através das cidades e e Imensa.
. "
das formas de domesticação, pois o corpo ainda diz "SllIl
. " Dess~ forma, Pã e as ninfas tiveram seu papel em um
ou "não", "não por aqui, por ali", "espere", "corra", "de}){8 el~~l~l de mântica, que tinha por objetivo promover
ou "vá agora e pegue-o". . aguas e os lugares benéficos para a restauração
O que mais poderíamos desejar de uma profecia do tInham seu spiritus Zoei, geralmente uma ninfa. De
que essa consciência corporal imediata de sabe: ~oJO~
quando e o que fazer? Por que pedir por grandes VIsoeS 11B
lochsob N'
redentores e do declínio das civilizações? Por que espera! 12 PAUSAN' re as mfas no Lexikon,
'le- 13V; •
'. e'aab' IAS 10 , 5, 5 .
que a profecia chegue com uma longa barba e voz tro " aIXo as 'd' ,
eV1 enC1as de Roscher para Pã e os sonhos de cura,

94 95
acordo com Bloch, as ninfas promoviam a cura, a loucura chance de ter pesadelos do que especialistas em educação
e a profecia através de seus efeitos sobre a fantasia. Como física". Uma vez mais, Pã e as Musas.
Otto dizia,14 as ninfas prefiguraram as musas. As ninfas A ninfa suscitou na alma moderna um novo culto a
excitam a imaginação, e ainda voltamos para a natureza Pã; se Pã viveu tão intensamente na imaginação literária,
(instintiva dentro de nós e visível fora de nós) para acen- especialmente no século XIX, então o mesmo aconteceu
der nossa fantasia. com a ninfa. O recrudescimento de Pã pode ser completa-
Não há acesso à mente da natureza sem conexão Com mente entendido como um produto da imaginação nínfica,
a mente natural da ninfa. Mas, quando ela é convertida um estilo anima de consciência que paira na recusa núbil
em bruxa, e a natureza em um campo objetivo morto, o e no horror à sexualidade, nos desmaios, nas retiradas
que nos resta é uma ciência natural desprovida de uma neurastênicas do sistema nervoso vegetativo da brumosa
mente natural. A ciência divisa outros métodos de divini- Inglaterra vitoriana de Elisabeth Barrett Browning. Seu
zação da mente da natureza, e a ninfa enquanto fator se primeiro arrebatamento em Pã foi escrito quando ela ain-
torna uma variável irregular a se excluir. Os psicólogos da era uma ninfeta de onze ou doze anos. 16 Outro encontro
falam , então , do problema de anima dos cientistas. Mas de um vitoriano com uma ninfa pode ser lido no texto de
a ninfa continua a operar em nossas psiques. Quando Clifford Allen chamado The Problem of John Ruskin.17
praticamos magia natural, quando acreditamos nos tra- Em cada ninfa há um Pã, e em cada Pã há uma ninfa.
tamentos naturais, quando nos tornamos nebulosamente A crueza e a timidez caminham juntas. Não podemos ser
sentimentais a respeito da poluição e da conservação tocados por Pã sem, ao mesmo tempo, fugir dele e nos
da natureza, quando nos prendemos a uma árvore em refletirmos nele. Nossas reflexões acerca de nossa sexu-
particular, a um lugar, a uma paisagem, quando bus- alidade impessoal, suja e grosseira, assim como o deleite
camos ouvir significados no vento e nos voltamos aos que ela nos proporciona, são os ecos da ninfa em nós. A
oráculos em busca de conforto - a ninfa está fazendo o ninfa continua a provocar choque e lascívia. E quando
seu trabalho. sentimentos e fantasias caprinas irrompem em meio aos
~, .' . devaneios, sabemos que Pã foi novamente evocado por
.
A ninfa arquetípica continua a aparecer nos achados
da pesquisa clínica de pessoas propensas ao pesadelo. "" uma ninfa.
· 'ty 15
O trabalho de Ernest Hartmann na Tufts U mverS1 . ~m cada uma das histórias sobre Pã e as ninfas,
conclui que pessoas afetadas pelos pesadelos são "pesso: Inclumdo a história que conta o seu nascimento - pois
as cujo sentido de limite é fraco e indefinido. Para elas~ e Dríope, sua mãe nos Hinos homéricos, era uma ninfa
difícil manter fantasia e realidade separadas... Elas nao d~s bosques -, a ninfa foge tomada de pânico perante
possuem uma ideia clara e firme de sua própria ident~da­ ~a. Mas agora Pã não é o único a amedrontá-las. A fuga
de". Além disso, Wernick relata um breve estudo curlO~O ~ essencial ao comportamento das ninfas. Lembrem-se
mostrando que "especialistas em arte têm três vezes maIS as perseguições de Zeus, Apolo e Hermes. De modo que

14 Op. cito sup. sobre as Ninfas e as Musas. 83. ~~ MERNALE, 8l.


15 Relatado por WERNICK, Robert, Smithsonian (19/12, março, 1989),72- International Journal ofSexology (4, 7-14), 1950.

96 97
precisamos nos perguntar o que é que se passa aqui; o no discurso, ou pode aparecer na forma do pensamento
que significa o padrão arquetípico da fuga. Uma vez que abstrato, representação dramática, uma conduta ética;
ou ainda em uma descoberta científica ou em uma obra
"todos os deuses são internos" e que o mito está presente
de arte.
a todo momento em nível arque típico em nossa existência, Através do instinto reflexivo, o estímulo é transformado
a fuga da ninfa continua a existir como um processo nas quase que por completo em um conteúdo psíquico, isto
florestas profundas de nossa alma. é, ele se torna uma experiência: um processo natural é
Tentemos reunir as compulsões de Pã (pânico e estu- transformado em um conteúdo consciente. A reflexão é o
instinto cultural par excellence ... 18
pro) com o objeto feminino de sua compulsão. Recapitule-
mos a relação entre instinto e inibição. Acreditava-se que
o próprio Pã ficava em pânico quando os animais corriam Aqui Jung conceitualizou o mitema arquetípico da
e que essa visão do pânico de Pã fazia o mundo mergu- perseguição de Pã e da fuga da ninfa. A teoria conceituaI
lhar em terror. É como se Pã fosse, ele mesmo, vítima de de Jung é outro modo de afirmar a fantasia dos contos da
pesadelos, convulsões epiléticas, do próprio horror que ele ninfa fugitiva. Em ambos os casos, encontramos a trans-
mesmo provocava. O deus é o que ele faz; sua aparência formação da natureza em reflexão, em discurso, arte e
é sua essência. Em uma única e mesma natureza há, ao cultura (Eufeme e as Musas). A base dessa transformação
mesmo tempo, o poder da natureza e o medo de seu poder. está no poder das imagens liberadas pela reação de fuga.
Em nossa discussão sobre pânico, dissemos que o Em certo sentido, a cultura começa com a compulsão de
medo é um chamado à consciência. As ninfas manifestam Pã e a fuga que ela desperta.
esse medo em sua fuga em pânico. Elas mostram, dessa Mas, para não atribuirmos demasiada importância
maneira, uma das vias da natureza, a fuga, que é também à reflexão - pois, sozinha, ela é estéril 19 -, mantenhamos
uma das quatro reações naturais instintuais descritas , a reflexão na proximidade de seu protótipo, o medo. Nele,
pelo etólogo Konrad Lorenz. Psicologicamente, a fuga se consciência e cultura estão instintivamente enraizadas.
torna reflexão (reflexio), ao retroceder e retirar-se de perto Quando a reflexão está enraizada no medo, nós refletimos
do estímulo e ao recebê-lo indiretamente através da luz para sobreviver. Não se trata mais de devaneios mentais
da mente. Como disse Jung a propósito desse instinto: ou de conhecimento contemplativo.
Ao enfatizarmos a importância do complexo medo-
Reflexio é um voltar-se para dentro, com o resultado ~e -fuga-reflexão, estamos deliberadamente diminuindo o
que, ao invés de uma ação instintiva, surja uma su~es~ao
de conteúdos derivados ou estados que podem ser mtItu- . papel usual de importância do amor na criação da cultura.
lados como reflexão ou deliberação. Assim, em lugar do ato Eros não busca a reflexão do mesmo modo compulsivo com
compulsivo , aparece certo grau de liberdade ... . 1 ~o . ~ue Pã busca. Ao invés, o amor repudiaria a reflexão que
A riqueza da psique humana e seu caráter essenCla ~a Impede seu curso, o amor seria cego. Mesmo quando seu
provavelmente determinados por esse instinto refleXIVO.
A reflexão reencena o processo de excitação e transporta
o estímulo para uma série de imagens que, se o impulso ~: cw 8, § 241-43.
for suficientemente forte, é reproduzida em alguma for~a JaneirV~~meu The Myth ofAnalysis, Parte I, op. cito [O mito da análise. Rio de
de expressão. Isso pode se dar diretamente, por exemp o, o. az e Terra, 1984. Trad. de Norma Tellesl.

98 99
objetivo é a Psique, tal como no conto de Apuleio, há uma servir de alegoria filosófica para exprimir que o Amor a
diferença bastante distinta entre Eros e Dioniso, de um tudo conquista.
lado, e Pã, de outro. Suas similaridades são evidentes e Também vejo essa oposição em termos de amor versus
suas associações (juntamente a Mrodite e Ariadne, com pânico, mas não no sentido cristão do amor vencendo o
sátiros e silenoi, coelhos e crianças, o pinho, o vinho e a medo. A questão aqui não é saber quem conquista quem
hera etc.) nas representações míticas e alegóricas são su- e qual moral que pode ser derivada dessa vitória. Ao con-
ficientemente familiares. As suas diferenças, entretanto, trário, o que está em jogo é a contenção entre o caminho
são menos conhecidas. de Pã e o caminho do amor. A morte de Pã supostamente
A princípio, Pã é ativo e as ninfas são passivas; as coincide com a ascensão do amor (o culto cristão). Inclu-
mênades são ativas em relação à quietude sombria de sive, talvez o reconhecimento de Pã como um dominante
Dioniso. Por outro lado, Eros não é tanto uma figura da psíquico implique uma diminuição dos tributos que pa-
natureza quanto ele é um daimon. Ele é frequentemente gamos ao amor, seja ele representado por Eros, seja por
retratado com asas e com genitais não pronunciados, Cristo, seja por Mrodite.
enquanto Pã é frequentemente um bode em ereção. O amor não desempenha nenhum papel no mundo de
A metáfora de Eros é menos concreta, física; suas inten- Pã, no pânico, na masturbação e no estupro nem em sua
ções e emoções são diferentes em qualidade e local físi- perseguição às ninfas. Essas não são histórias de amor;
co. Em contraste às perseguições de Pã, não há histó- não são contos de sentimentos e relações humanas. A
rias desse tipo (com exceção daquela de Apuleio) quanto dança é ritual, não um casal que se move em conjunto;
aos seus amores. Normalmente, ele é o agens, e não ago- a música soa como as sinistras flautas dos tons medi-
nista. Tanto em Eros quanto em Dioniso, a consciência . terrâneos e não como uma canção de amor. Nós estamos
psíquica parece estar presente e ativa (mênades, Psique, completamente fora do cosmos de Eros e, em seu lugar,
Ariadne), mas em Pã o instinto está sempre à procura há a sexualidade e o medo. Talvez isso explique por que
da alma. nossa civilização se sente tão transtornada diante da
Uma maneira de examinar este agrupamento con- masturbação e do estupro. Eles não se encaixam em um
siste em seguir a tradição que situa Eros e Pã no cortejo mundo de amor. Quando julgados pela perspectiva do
de Dioniso, como subsidiários desse cosmos. Uma longa amor, se tornam patológicos.
tradição de numerosos afrescos e pinturas de vasos mostra Então, devemos concluir que o reino do amor não
20
Pã e Eros lutando, para a diversão da corte de Dioniso. inclui todos os fatores instintivos da natureza humana,
O contraste entre o belo adolescente Eros e a hirsuta do mesmo modo que a figura de Eros é a de mais um
estranheza do rústico e barrigudo Pã, seguido da vitória deus entre muitos outros. Eros não nos fornece imagens
de Eros, foi moralizado para mostrar a superioridade do apropriadas para nos guiar por meio das áreas de nosso
amor ao sexo , do refinamento ao estupro, do sentimento . comportamento governadas por Pão Seguir julgando nosso
à paixão. Ademais, a vitória de Eros sobre Pã podena comportamento-Pã à luz do amor perpetua a supressão
~as qualidades instintivas e a animosidade em relação
20 WERNICKE, op. cit., 1457, e HERBIG, op. cit., 32. a natureza que inevitavelmente conduz a resultados psi-

100 101
copatológicos. A luta entre Eros e Pã, e a vitória de Eros, Nos deuses C?I?p~stos, a tensão entre castidade e paixão,
continua a rebaixar Pã a cada vez que afirmamos que o ou entre pemtenCIa e prazer, que é geralmente associada
pesadelo é um sonho mal, que o estupro viola a relação, ao conflito entre cristianismo e paganismo, foi relevada
como uma fase do próprio paganismo.
que a masturbação é inferior à penetração, que o amor é
melhor ao medo, que o bode é mais feio que a lebre.
Certamente que o estupro é mais violento, que o pe-
sadelo é mais terrível, que a masturbação é mais solitária
e que o bode é mais fétido que as costumeiras harmo-
nias da domesticação civilizada. Mas os fenômenos que
transtornam o habitual não são ipso facto moralmente
repugnantes. Se todas as coisas estão repletas de deuses,
como afirma Eurípedes, então as coisas têm fundamentos
divinos e são governadas pela Necessidade. Até mesmo a
Bíblia diz: "Há um momento para tudo e um tempo para
cada coisa abaixo do sol".21 Os juízos morais emitidos
dentro dos muros da civilização e as leis que protegem o
cidadão não podem fazer justiça aos fenômenos estran-
geiros, cujo alcance é frequentemente uma "saída". O
púlpito deve condenar o estuprador, e a lei, encarcerá-lo,
mas a tarefa do psicólogo é diferente. Devemos tentar
ver os fenômenos por eles mesmos, fora dos colchetes de
nossas civilizadas responsabilidades. O psicólogo tem um
pé para fora do muro.
Finalmente, os insights extraídos da relação entre Pã
e as ninfas poderiam corrigir a ideia cristã de Pã como um
deus de sexualidade pagã desenfreada a ser controlado
pelas proibições judaico-cristãs, seja por meio do amor
ou da lei. Se as ninfas e Pã são um só, então nenhuma
proibição é necessária. A inibição já está presente na
própria compulsão. Portanto, a paixão sexual é sagrada
e, ao mesmo tempo, um aspecto de reflexão, como insis-
tia Lawrence. O desejo animal traz consigo sua própria
vergonha, sua própria piedade.

21 Eclesiastes 3,1.

102 103
ECOLOGIA

Uma pergunta que Pã poderia nos fazer é: "Por que


vocês, pessoas civilizadas que professam um cristianis-
mo tão compassivo, maltratam tanto o meio ambiente?
Por que destroem, arrasam e derrubam tantos acres de
bosques e encostas de montanhas? Por que existem cada
vez menos lugares solitários onde pessoas possam se es-
conder na natureza e a natureza se esconder das pessoas?
Estariam tentando acabar com as minhas tocas? Dar uma
solução final ao problema de Pã?".
Pã poderia continuar dizendo: "Às vezes, creio que
praticam uma psicologia reversa, uma psicologia de
projeção. Vocês estupram a natureza e me chamam de
estuprador. Vocês servem a seus desejos privados e me
chamam de masturbador. Vocês deixam traços de ruína
em seus passos e, no entanto, dizem que sou o deus que
favorece os lugares despopulados e inóspitos. Por acaso
seu mundo diurno não estaria se convertendo em um
pesadelo sufocante? Seus filhos não têm cada vez mais
problemas para respirar? Não vivem obcecados com segu-
rança, armados para se proteger da surpresa, medicados
contra os ataques de pânico? O que fizeram para salvar
as ninfas, os diminutos e distintos sons da natureza, a
suave música noturna da natureza? Parques, resorts,
campos de golfe e trilhas claramente delimitados - não

105
r
existem ninfas nesses espaços, não há riscos de os sentidos retidão dos dois funcionários do Estado percebeu deus no
se perderem diante da beleza da terra. Não há sequer ° chamado ecológico; eles viram seus perigos e advertiram
risco de pânico". aoS ambientalistas que seguir Pã é um caminho perigoso,
Para responder a Pã, imaginemos que a ciência e pois o cristianismo civilizado o quer morto.
sua engenharia tecnológica estão deliberadamente ° Mas não restrinjamos o mundo selvagem a uma Ar-
perseguindo e não simplesmente livrando o progresso da cádia bucólica agora situada nas áreas vazias de Utah e
sociedade do pensamento místico e confuso da natureza. Idaho. A cidade também tem seus locais solitários e suas
Mais que tudo, a ciência teme o retorno do Pã "dentro de cavernas escuras. A cidade também excita a espontanei-
nós". Uma vez que Pã é Efialtes e o pesadelo, ele é impre- dade libidinosa. O bode também habita a cena urbana ,
visível e amoral. Seus impulsos vivem nos lugares mais espreita nas esquinas e, como Efialtes, visita os pesadelos
estéreis da psique, lá onde o pensamento da engenharia do mais urbano dos cidadãos. Pode ser que o selvagem
civil não ousa se aventurar. Ele se esconde nas cavernas não esteja confinado aos lugares selvagens, tal como
da psique, nas regiões da alma. Seus convites ao estupro, imaginado pela oposição habitual entre natureza sublime
à masturbação, a bater em retirada tomados pelo pânico, e cidade degenerada. O "selvagem" pode se libertar das
estão vivos nos cidadãos mais regulados. Não seria, por áreas selvagens da natureza e o próprio lugar selvagem
acaso, uma causa básica da moderna degradação ambien- pode ser desliteralizado de forma que Pã possa retornar
tal "fora de nós" o ato de dar continuidade à determinação à cidade.
da história ocidental de manter sob controle, "dentro de Atenas, o modelo de todas as cidades, tinha o seu culto
nós", o mais potente e resistente dos deuses antigos, de a Pão Luciano chamou Pã de symmakhos, ou o aliado de
assegurar-se de que o Grande Deus Pã permaneça morto? Atenas, onde ele tinha santuários e rituais. De acordo com
Não surpreende que ambientalistas recebam tão pou- Borgeaud, l Pã equilibrava o militarismo de Atenas e Ares
ca simpatia. Por baixo do desdém que esses abraçadores graças a sua agradável música e à dança, ao riso, aos ritos
de árvore evocam e da violência que às vezes sofrem está de mistério e a sua aliança com Mrodite, a "sorridente".
o medo de Pão Os ambientalistas servem não somente · Arcádia apareceria, então, à guisa de uma cidade român-
à orgulhosa e solitária deusa Ártemis em sua tarefa de · tica, brumosa, lânguida, evocativa - Paris Manhattan
proteger o mundo selvagem e seus animais. Os devotos · Veneza, Dresden -, a siringe de Pã se co~verteria e~
da natureza são também servos de Pã, terapeutas de seu saxofone, Selene em anseios sonhadores, a cidade em um
culto, no sentido que a palavra therapeia tinha a princí- · lugar assombrado por ninfas e pela ninfolepsia.
pio - adorador, servo, devoto de um deus ou de um culto.
De modo que não é surpreendente que Watt, secre-
tário do interior de Utah, e Chenowith, congressista de
ldaho, declarassem em diversas ocasiões que o ambien-
talismo é paganismo. O retorno à natureza convida Pã; e
se o Grande Deus Pã e seu paganismo estivessem vivos,
10 .
que implicações haveria para o cristianismo? A temeroSiJ. p. CU., 133 88., d176 8.

106 107
ESPONTANEIDADE - SINCRONICIDADE

A hora de Pã sempre foi o meio-dia. Nesse momento,


ele aparecia nas chamas e no resplendor do meio-dia,
levando homens e animais a um terror cego. Esse fato
parece ter pouco a ver com o pesadelo. Talvez devamos
considerar o meio-dia, o zênite do dia, como o ponto mais
alto da força natural, na qual constela, ao mesmo tempo, a
força vital e seu oposto, a necessária queda de sua altura.
Nesse sinistro momento, minha sombra e eu somos um. O
meio-dia, como a meia-noite, é um momento de transição
e, como a meia-noite, o raiar e o pôr do sol são um eixo de
orientação primordial para o que chamamos de relógio
simbólico. Esses são momentos em que o tempo se detém,
quando a procissão ordenada do tempo se interrompe. De
maneira que certas coisas devem ser efetuadas antes do
canto do galo ao amanhecer, ou antes das doze badaladas
da meia-noite, ou antes do cair da noite. Nesses períodos,
algo de extraordinário atravessa o tempo, algo para além
da ordem usual. O Mittagsfrauen aparece, ou os fantasmas
da meia-noite - semelhante à visão do eterno ao meio-
-dia em Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche. Esse é o
momento em que somente o momento importa, quando
o momento é separado do antes e do depois, de uma lei
Para si mesmo, de uma qualidade, de uma constelação de
forças no ar, sem continuidade e, portanto, sem conexão

109
i'
com o "triste tempo desperdiçado / que se estende antes portanto, considerar eventos espontâneos como eventos
e depois".1 aleatórios, passíveis de figurar nas tabelas de Fischer,
Esta é a impossibilidade de conexão com Pã e o as- borra as categorias de qualidade e quantidade. Aleatório
pecto de espontaneidade da natureza. Ele é simplesmente é um conceito quantitativo; espontâneo é qualitativo e
como deveria ser e está no local onde deveria estar; não é significativo, indica o que Whitehead chamava de "im-
um resultado de eventos, nem uma pendência de retorno; portância". Há uma emoção na espontaneidade. Ela é
impetuoso, imprudente, brutal e direto, seja em terror ou radicalmente livre.
em desejo. É isto que queremos dizer por espontaneidade Ao considerarmos que Pã é o pano de fundo da
do instinto - toda a vida no momento da propagação ou espontaneidade, 2 estamos sugerindo uma aproximação
toda a morte no pânico do rebanho. Poderíamos atribuir dos eventos espontâneos por meio da psicologia arque-
muitas explicações a esse comportamento. Poderíamos típica. Procuramos pelos princípios que os governam,
entender que a espontaneidade é "causada" por leis mais seu dominante arquetípico, de forma que os imaginemos
profundas de autopreservação e de sobrevivência das mais psicologicamente, e também compreendamos mais
espécies. Podemos ainda ver um padrão ecológico mais psicologicamente a tradição que prefigura a dificuldade de
amplo por trás destes eventos súbitos, discernir que eles compreender e conceber tais eventos. Pã não os explica-
pertencem a uma rede maior de fatores entrelaçados. rá, mas poderá nos oferecer uma vereda por onde nossos
Poderíamos considerar os saltos quânticos e o princípio insights possam transitar.
de descontinuidade como operativos também em huma- O pânico espontâneo surgido da imobilidade do
nos e em animais (e não somente na física inorgânica). meio-dia reaparece em outra configuração, o kabald, ou
Ou então poderíamos conceituar a espontaneidade em pequeno demónio que, segundo Roscher, causaria pânico e
termos de códigos genéticos inatos agindo no seio de um pesadelo. Esse ser também tem uma conotação sexual: ele
ciclo temporal inato. Ainda assim, as travessuras espon- é fálico, semelhante a um anão, fecundo, tanto auspicioso
tâneas das crianças e as cambalhotas dos cordeiros, como quanto terrificante. Herbert Silberer (provavelmente o
também a ereção do pastor ou seu sinistro medo, ocorrem pupilo mais talentoso e aventureiro de Freud, mas nem
como eventos não conectados, ainda que instantâneos. A sua profunda perspicácia psicológica acerca da alquimia
espontaneidade permanece fora de qualquer explicação. nem sua rica imaginação e sonhos puderam salvá-lo do
Por definição, ela não pode ser explicada. suicídio) estudou o kabald em relação aos eventos "aci-
Espontaneidade significa autogeração, imprevisibi- dentais". Sua obra foi uma das primeiras investigações
lidade, não repetição. Ela não pertence ao domínio das PSicológicas a respeito do pano de fundo arquetípico do
ciências naturais, tal como a ciência hoje se define, mesmO destino ou dos supostos fenómenos acausais.
que a espontaneidade se pareça com um fenómeno natu- Silberer atribuía a aparição espontânea de figuras de
ral. Descobrir as leis do espontâneo seria uma contradição kobold a eventos fortuitos. Elas podem ser consideradas
de termos, pois esses eventos são irregulares, fora da lei. COmoAugenblicks Gatt [deus instantâneo], na linguagem

1 ELIOT, T. S., "Burnt Norton", V. 2 Cf. ARNOLD, Matthew, 8, acima.

110 111
de Usener. Ou ainda imaginá-los como o daimon que aproximação às suas irregularidades deverá ser herme-
repentinamente advertia Sócrates, ou como qualquer nêutica e não somente sistemática.
"personificação" de um evento obstinado que funcionas_ Jung trabalhou tanto sistemática como hermeneu-
se como uma entidade cruzando o nosso caminho. Jung ticamente acerca dos eventos fortuitos enquanto evidên-
considerava esses eventos em parte como complexos cias para sua hipótese da sincronicidade. Esse termo se
psíquicos e em parte como demônios espirituais. 3 Mas, refere às coincidências significativas dos eventos psíqui-
sobretudo, ele os reconhecia como sendo tão autênticos cos e físicos para os quais não pode ser dada nenhuma
quanto a natureza. explicação satisfatória através das categorias correntes
Hoje em dia, nos utilizamos de conceitos para essas de casualidade, espaço e tempo. Jung considerava que a
experiências, como pressentimento, intuição, sentimen- sincronicidade era um princípio igual aos outros três e,
tos sinistros, ou até mesmo profecia, no sentido acima igual a eles, também parte da natureza. Ele descobriu
mencionado. A parapsicologia fala de um sexto sentido que conexões repentinas, irracionais, peculiares, embora
que a humanidade compartilharia com os animais. Esses significativas, aconteciam principalmente quando níveis
conceitos, no entanto, não nos levam muito longe. Ainda instintuais (emocional, arquetípico, simbólico) da psique
seguimos com a suposição sentimental de que há um nível estavam mutuamente implicados.
de consciência, distribuído onde quer que exista vida ins- Pã não pode ser identificado a todas as emoções,
tintiva, emitindo ecos nesta vida através de sinais súbitos. a todos os arquétipos. Mas quando uma coincidência
O mito expressou essa ideia com o desmembramento significativa ocorre que seja dotada de um caráter par-
de Eco. No conto de Longo sobre Dafne e Cloé, Eco foi feita ticularmente sexual, ou que provoque pânico, ou que
em pedaços pelos pastores de Pã (por ter recusado o deus). se refira à sua temporalidade (meio-dia e pesadelo), ou
Seus membros cantantes foram espalhados aos quatro à sua paisagem e atributos, ou ao estado de humor de
ventos. Digamos que Pã fala nesses pedaços ecoantes suas ninfas, então temos de nos dirigir a ele em busca de
de informação que apresentam a própria consciência da insight. Mas, mais que isso, Pã poderá desempenhar um
natureza nos momentos de espontaneidade. Por que eles papel na sincronicidade em geral, uma vez que Pã, como
ocorrem precisamente neste momento e não em outro, a sincronicidade, conecta a natureza "dentro de nós" à
por que eles são tão frequentemente fragmentários; tri- natureza "fora de nós". Novamente, a fantasia conceituaI
viais e até mesmo falsos - essas questões deveriam ser de Jung sobre a sincronicidade e a fantasia imaginária
exploradas através de uma mitologia do espontâneo e não de Pã têm um pouco em comum.
através de métodos empíricos ou lógicos. Seria necessário Se o princípio da sincronicidade é outra maneira de
penetrar mais fundo na natureza de Pã (e das ninfas) para falar sobre Pã, então podemos começar a compreender por
melhor sondar essas manifestações que parecem querer que todos que se ocupam do campo de espontaneidade a
continuar renegadas e diáfanas, meio zombeteiras e meio que chamamos de parapsicologia se tornam renegados
verdadeiras, e tão presas a fortes emoções. Contudo, a da ordem civilizada dos homens racionais. Na medida
~~ ~ue a sincronicidade é o quarto princípio diabólico,
3 CW 8, § 570-600. a e a sombra diabólica de nossa Trindade arquetípica

112 113
i
,I
I::""
dominante. A integração da parapsicologia na ciência e na
psicologia de respeito requereria uma reavaliação de ~ã e
uma visão de instinto e natureza desde sua perspectIva. CURANDO NOSSA LOUCURA
Do contrário, a parapsicologia tenderá a ser projetada na
sombra de Pã, um campo de sentimentalismo e religião
natural, ao mesmo tempo cômico, não confiável, obscuro e
lunático - tal como nossa mente civilizada ainda acredita
que Pã seja.

o deus que traz a loucura também pode nos livrar


dela. Semelhante cura semelhante. E, apesar desse fato,
pouca atenção foi dada a Pã em todos os escritos sobre
doença mental. Pã foi uma das poucas figuras da mitologia
grega a quem a doença mental era diretamente atribuída. 1
Lemos em Roscher que Sorano considerava Pã respon-
sável tanto pela mania quanto pela epilepsia - fato que
poderíamos delimitar melhor, na linguagem dos dias de
hoje, ao dizermos que Pã (inflator) governa nossos estados
hipomaníacos, especialmente aqueles acompanhados por
compulsões sexuais e atividade hipermotora, bem como
ataques repentinos de violenta convulsão, quer seja de
. pânico, angústia, pesadelo ou mântica (glossolalia).
Segundo a metáfora psicoide, genética, Pã governaria
•. as camadas mais profundas de nosso frenesi e de nosso
medo. Mas, ao mesmo tempo, Pã também seria capaz
,de curar neste nível, de modo que existiriam afinidades
. ,entre ele e Esculápio através dos atributos da música,
do falo, de visões em pesadelos e insight mântico. Ambos,
p~ e Esculápio, curam através dos sonhos. Por meio das
nInfas, lugares especiais, curam e abençoam. Também

ltoU~?ODDS,Op. cit., 79 com nota: cf. ROSEN, G.,Madness in Society (Londres:


. edge, 1968), 77 ss.

115
114
vimos Pã salvar a desesperada Psique e também libertar :mento do outro, o insulta e não será capaz de promover
a prisioneira Cloé no conto de Longo. cura. Não poderemos fazer nada para a alma sem que a
Talvez agora possamos reler a oração que Platão faz reconheçamos como uma natureza "dentro de nós", do
a Pã, referenciada na epígrafe deste ensaio. Ela é pro- :mesmo modo que não poderemos fazer nada pelo instinto
nunciada por Sócrates em um diálogo cuja preocupação se nos esquecermos de que ele possui sua própria fantasia,
principal (e fruto de intenso debate) diz respeito à ma- reflexão e intenções psíquicas. A identidade dos centros
neira correta de se falar sobre Eros e loucura. O diálogo gêmeoS de Pã, estando manifestada por comportamento
é concluído com Pã e se inicia à orla sombria de um rio e fantasia, compulsão e inibição, sexualidade e pânico,
próximo a um local sagrado para as ninfas. Sócrates ali OU pelo deus e suas ninfas, implica que psique e instinto

descansa, com pés descalços. Logo ao início, Sócrates são inseparáveis a todo momento. O que fazemos ao nosso
menciona que ele continuamente luta para compreender instinto também fazemos à nossa alma.
a máxima "conhece-te a ti mesmo", através de sentido de Essa ideia, se levada à abrangência máxima de seus
ignorância a respeito de sua verdadeira natureza. temas mitológicos e dos comportamentos de Pã, tem con-
Então, ao final da oração, ele faz um apelo à beleza sequências. Significa que o autoconhecimento reconhece
interior, a qual colocaria fim à ignorância, pois, na psico- a presença de Pã nas cavernas mais obscuras da psique e
logia platônica, o insight no seio da verdadeira natureza que este é o seu lugar. Significa, indo mais adiante, que o
das coisas seria capaz de trazer a verdadeira beleza. Pã, autoconhecimento reconhece que o "horror" de Pã e suas
então, seria o deus capaz de conceder um modo p~rticu­ ."depravações morais" também pertencem à alma. Esse
lar de consciência do qual Sócrates necessitava. E como . insight, ao dar ao bode o que lhe é devido, poderá trazer
se Pã fosse a resposta para a questão apolínea sobre o àquilo para o qual Sócrates orava. E, ao reconhe-
t·",t:J·HHJ~ Pã, tão plenamente quanto possível, ele poderá nos
conhecimento de si.
O que é esse modo de consciência e como atingi-lo? da bênção que Sócrates buscava, em que interior
Já vimos que Pã é o deus da natureza "d ent ro d e nos ," e exterior são uma só coisa.
da natureza "fora de nós". Enquanto tal, Pã é a configura- A oração de Sócrates é ainda mais relevante nos dias
ção conectiva que impediria as reflexões de se converter hoje do que nunca. Não seremos capazes de encontrar
em duas partes desconexas, vindo a constituir o dilema caminho de volta à harmonia tão somente com o
de uma natureza sem alma e de uma alma sem naturez~, da natureza. Ainda que hoje a principal preocu-
da matéria objetiva fora de nós e dos processos mentaIS . seja ecológica, a ecologia, enquanto tal, não basta.
subjetivos dentro de nós. Pã e as ninfas mantêm a n~tu­ Importância da tecnologia e do conhecimento científico
reza e a psique unidas. Eles dizem que eventos lns: . . da proteção da natureza está fora de discussão
tintivos se refletem na alma e nos dizem que a alma e parte do campo ecológico é natureza humana, em cuj~
os arquétipos dominam. Se lá Pã é suprimido, a
instintiva. _ da
. !al como apres~ntado p~r Pã, toda edu~açao,. to de e os instintos dispersarão, não importando nosso
relIgIão, toda terapIa que nao reconheça a IdentIda I" em níveis racionais para mantermos tudo em seu
da alma no instinto, privilegiando um aspecto em detr lugar. Para que se restaure, conserve e promova a

117
116
natureza "fora de nós", a natureza "dentro de nós" também que havia se refugiado em si mesma por medo. Dizem que
deverá ser restaurada, conservada e promovida precisa- oS diferentes tipos de dança começam no mundo animal;
mente no mesmo nível de intensidade. De outro modo, humanos aprenderam movimentos e gestos dos animais,
nossa percepção da natureza fora de nós, nossas ações oS mestres do balé da espontaneidade ritualizada. A
sobre ela, bem como nossas reações a ela, continuarão a dança surge do selvagem e sua intoxicação nos conduz
mostrar os mesmos excessos de inadequação instintiva de volta a ele.
do passado. Privados de Pã, nossas boas intenções de As sociedades estritamente bíblicas se horrorizam
retificar erros do passado irão somente perpetrá-los de perante a dança. Pouco tempo atrás, eram as polcas e as
outras maneiras. valsas e, mais tarde, o foxtrot e o charleston e, então, im-
A reeducação do cidadão em relação à natureza vai portações sensuais (tango, rumba, lambada). A dança teve
mais além da consciência temerosa e gentil da ninfa. O de ser vigiada, denunciada, proibida. O horror à dança é o
respeito pela vida não é o bastante e até mesmo o amor horror a Pã; hebraísmo versos helenismo, controle versus
rebaixaria Pã, de sorte que não poderemos reeducar o espontaneidade.
cidadão através de meios que nos são familiares. Todos Se a sociedade sofre do mal da rapacidade selvagem,
esses tomam a morte de Pã como seu ponto de partida. do exibicionismo masturbatório, da violência eruptiva e
Essa reeducação teria de começar, ao menos parcialmente, da perda do sentido íntimo de natureza no suposto "va-
pelo ponto de vista de Pã, pois, no final das contas, é o seu zio" de uma "geração perdida", seu domínio e espírito de
mundo natural que tanto nos assombra. Contudo, o mun- selvageria, então o deus dessa doença é Pão Ele oferece
do de Pã inclui masturbação, estupro, pânico, convulsões uma educação musical que tocaria a toda uma geração-
e pesadelos. Reeducar o cidadão na relação à natureza mas a música que figura no currículo das escolas e não
significaria nada menos que o estabelecimento de uma simplesmente o pop da exploração comercial. Assim, Pã
nova forma de relação com os "horrores", "depravações regressaria da cacofonia ruidosa para a flauta e a siringe,
morais" e "loucuras" que fazem parte da vida instintiva delicadas complexidades dos passos do deus de patas de
da alma do cidadão. bode. E, então, poderemos ver que não é Pã que está louco
Se Pã traz a loucura, então ele é o seu curador. Se- e deve ser curado, mas é a sociedade que se esqueceu de
melhante cura semelhante. Ele pertence à educação do como dançar com ele.
cidadão. Como mestre da alma instintiva, ele tem algo a Tudo isso nos leva de volta ao pesadelo e ao lado hor-
nos ensinar acerca de seus ritmos e de sua abrangência. ripilante da alma instintiva que ele revela. A perplexidade
Pã era um músico e se dizia um grande dançarino. Sua de Sócrates diante de si mesmo no início de Fedro (230a)
presença se fazia sentir em reuniões de corais, no com- revela um enfoque similar. Ele considera sua semelhança
passo rítmico dos aplausos,2 trazendo ordem comunal a Tífon, o gigante demoníaco das erupções vulcânicas,
ao pânico privado. A música tira o corpo de sua solidão tormentas e terremotos subterrâneos, "a personificação
asilada. Ela educa (literalmente, "põe para fora") a alma do poder destrutivo da natureza". 3 "Conhecer a si mesmo"

2 BORGEAUD, Philippe, 150. 3 SCMIDT, "Typhoeus, Typhon", Lexikon V, 1426.

118 119
em Fedro se inicia com o insight do aspecto demoníaco enquanto um ser sexual, é una com o ser animal, com
da natureza. o instinto e, portanto, com a natureza. A visão de Pã de
É isso que o pesadelo revela. Nele a reeducação cura- nossa humanidade é que também somos natureza pura,
tiva poderia começar porque nele a alma instintiva é mais que erupções vulcânicas, convulsões e tufões destrutivos
real. Jones nos lembra de que a "vividez dos Pesadelos noS habitam. Essa realidade não pode ser fundamentada
transcende de longe aquela dos sonhos ordinários".4 Ros- por conceitos abstratos. A metáfora da natureza é con-
cher e Laistner observaram o mesmo e Jones cita outros creta e possui forma. Deve ser sentida, experimentada,
autores que evidenciaram essa realidade: contemplada na experiência concreta e real dos pelos e
O grau de consciência durante um paroxismo do Pesadelo dos cascos. Devemos ser paralisados e sufocados por essa
é muito superior que o de qualquer sonho ... De fato, eu realidade como se algo de eufemístico partisse sempre em
não conheceria nenhum meio pelo qual um homem teria fuga do "horror". Esta experiência sensorial foi, e continua
de convencer-se de que a visão que lhe ocorreu durante sendo, a visão de Pã em suas formas de pesadelos. Deste
um paroxismo do Pesadelo não é real. 5 modo, Roscher, Laistner e Jones, nas mais distintas for-
As ilusões que ocorrem são talvez o mais extraordinário mas, estão corretos em ver significado no pesadelo. Seu
fenômeno do pesadelo, e, de tão fortes que suas impressões
frequentemente parecem ser para nossa mente, mesmo poder numinoso reclama uma ideia incomensuravelmente
ao acordarmos, cremos impossível não acreditar que elas esmagadora: através da realidade do pesadelo, a realidade
não são reais. 6 do deus natural é revelada.

Desse tipo de experiência, Jones retira seu principal


ponto condensado na segunda epígrafe no início deste
ensaio: a vividez da experiência do pesadelo deu origem
à crença da realidade objetiva dos demônios personifica-
dos e deuses ou do pesadelo como base experiencial da
religião. Naturalmente, para J ones, existem dinamismos
psicossexuais de ordem pessoal, de modo que o p,oder
fértil de seu insight quanto à relação entre o pesadelo e
a realidade dos deuses se vê castrado por uma utilização
tacanha de sua teoria.
O efeito horripilante e curativo do pesadelo toma
lugar não porque é uma revelação da sexualidade enquan-
to tal, mas porque a natureza fundamental do homem,

4 Op. cit., 71
5 WALLER, J., in JONES, ibid.
6 MACNISH, R., in JONES, ibid.

120 121
Parte II
EFIALTES
UM TRATADO MÍTICO-PATOLÓGICO
SOBRE O PESADELO NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA

Por
Wilhelm Heinrich Roscher

, ,

; :
DA IMPORTÂNCIA PSICOLÓGICA
DO TEXTO E SEU AUTOR
Por James Hillman

A seguinte monografia é um exemplo clássico da filo-


logia europeia do século XIX. Aqui podemos acompanhar
a evolução de um problema significativo - tanto para a
filologia quanto para a vida -, amplificado e analisado por
um homem de imensa cultura. Esta monografia é também
um exemplo de saber negligenciado. À maneira de uma
criatura pré-histórica, o volume e a complexidade de seus
apêndices não permitiram que sua tradução se desse em
outro momento da cultura que não o seu próprio, de modo
que a monografia permaneceu como uma relíquia não lida,
porém preservada, no fundo das bibliotecas acadêmicas e
somente referenciada em notas de rodapé como um tipo
de antecipação de obras posteriores. Uma vez que meu
Ensaio sobre Pã é uma das obras posteriores que depen-
dem deste trabalho, é apropriado honrar a este texto e o
homem que o escreveu.
Devido ao fato de que a monografia de Roscher foi
escrita em uma época muito mais tranquila, quando o
custo de se imprimir extensas notas de rodapé em grego
não era tão inibitório quanto é agora, os estudiosos podiam
sustentar qualquer afirmação feita em um texto com o
auxílio de grande quantidade de citações em grego de
exemplos similares. Às vezes essa ostentação ia mais além
do aconselhável, tornando-se um maneirismo que ainda

125
hoje afeta nossas publicações acadêmicas. Ao preparar espaço nos dicionários bibliográficos que seu filho. Roscher
esta tradução, foi necessário, em primeiro lugar, escolher sênior foi um dos fundadores da escola histórica de eco-
entre o essencial ou a mera curiosidade. A escolha ideal, nomia política, que teve seu papel no desenvolvimento da
incluir cada nota em literal exatidão, não se mostrava Alemanha moderna sob o governo de Bismarck. Roscher
como uma opção possível, visto que teria implicado o Júnior nasceu em Gottingen, em 12 de fevereiro de 1845,
aban,dono de todo o projeto. Ao invés, decidimos então im- e sua família se mudou para Leipzig três anos mais tarde.
primir uma tradução acurada do texto com amplas notas, Ali ele estudou no Ginásio Nikolai e na escola St. Mra
de forma que o leitor não especialista em inglês pudesse perto de Meissen, depois se mudou para estudar línguas
tirar proveito de uma obra essencial, mas sem o exorbi- clássicas por três semestres em Gottingen e, em seguida,
tante aparato de notas fornecido por Roscher. As notas voltou para Leipzig, onde obteve seu doutorado em 1869.
de rodapé relevantes foram incluídas no corpo do texto, Durante a segunda metade do século XIX, Leipzig foi
que, por sua vez, foi completa e fielmente traduzido para um dos maiores centros de atividade científica e filosófica
o inglês. Desse modo, o leitor não se vê obrigado a mover da Alemanha. A cidade não era somente importante pela
seus olhos horizontalmente pela página e verticalmente sua expansão econômica, mas também se consolidou como
entre as notas de rodapé e o texto. Por essa mesma razão, um centro editorial e foi cenário de novas realizações
para facilitar a leitura, todos os termos em grego foram arquitetônicas, incluindo seu famoso museu de arte. Ro-
transliterados em letras familiares, inclusive no capítulo bert Schumann e Richard Wagner estudaram em Leipzig,
3, que se dedica a uma investigação de caráter etimoló- assim como Pavlov, mais tarde; Theodore Mommsen lá
gico. A nota bibliográfica final, na página 160, descreve o mantinha uma cátedra, enquanto nas ciências médicas
plano da monografia original, assim como dá informações havia His em anatomia, Fleching em pesquisas sobre o
de caráter bibliográfico. cérebro, Strumpell em neurologia e Wunderlich, um dos
Qualquer pessoa com suficiente conhecimento para reformadores da medicina alemã a quem devemos a cria-
seguir o assunto para além do que é dado aqui pode, com ção das bases da termometria clínica. A obra de Otswald
certeza, também buscar esses temas diretamente no ori- sobre químico-física foi gestada em Leipzig, e Fechner lá
ginal - não somente no alemão de Roscher, mas também mantinha, também, seu laboratório. Pode-se dizer que a
no grego no qual a obra de Roscher se baseia. Portanto, psicofísica começa com Fechner, do mesmo modo que a
esta tradução se dirige menos a filólogos do que a todos psicologia experimental se inicia com Wundt, que fundou
aqueles cujo amplo interesse pelos sonhos, mitos e ter- seu instituto em Leipzig e que no ano de 1878 logo se
rores da alma se vê limitado pelo moderno mal-estar do converteria em um santuário cobiçado pelos estudantes
"pouco latim e menos ainda grego". Porque não devemos americanos de psicologia.
nos privar por completo do conhecimento da Antiguidade, Assim era Leipzig, reduto intelectual da juventude e
esta tradução pretende nos colocar novamente em contato da maturidade de Roscher que, por sua vez, era também
com essa tradição, mas agora em nossa própria linguagem. um investigador pioneiro e um infatigável compilador
Wilhelm Heinrich Roscher foi filho do famoso eco- de dados à moda do século XIX. Somente agora podemos
nomista alemão Wilhelm R. Roscher, que recebeu mais compreender que suas realizações no terreno da filologia

126 127
são equiparáveis às de seus contemporâneos no campo to do papel das línguas clássicas entre o final do século
das ciências naturais. Ele, mais que qualquer outro clas- XIX e a segunda metade do século XX. Roscher viveria
sicista, é responsável por ter reunido em um único lugar ainda por mais dezoito anos após sua aposentadoria,
o material mítico e religioso do mundo antigo, preparan- morrendo aos setenta e oito anos em Dresden, em 7 de
do assim o terreno para o estudo científico do mito e do março de 1923.
símbolo. Entre seus companheiros na Universidade de Roscher devotou a maior parte da sua vida acadê-
Leipzig, havia Friedrich Nietzsche e Erwin Rohde, filólogo mica a uma enciclopédia de mitologia greco-romana cujo
mais conhecido por nós pela sua obra Psique ou o culto título em inglês seria The Comprehensive Dictionary of
das almas. Com eles, Roscher fundou o Clube de Filologia. Greek and Roman Mythology (Ausführliches Lexikon der
Roscher e Rohde viajaram juntos para a Itália, e Roscher grichischen und romischen MythologieJ. Sua publicação
visitou a Grécia e aÁsia Menor entre 1873 e 74. Em 1876, se iniciou no ano de 1884 e, ao longo da editoração de
ele se casou com Eveline Koller, que, segundo o obituário Roscher, ela pôde chegar à letra "T". Cada um de seus oito
de Roscher no Neue Zürcher Zeitung (Zweite Morgenblatt, volumes continha aproximadamente seiscentas colunas
20 de março de 1923), era uma suíça originária de Herisau. em letras pequenas (fonte 8), o que reimpresso nos dias
Tiveram três filhos. O único filho homem de Roscher (de de hoje representaria nada menos que doze mil páginas.
novo, um Wilhelm) e seu genro serviram na frente oci- Cabe assinalar que os artigos, nem todos da autoria ou da
dental durante a guerra de 1914-1918; Roscher encontrou revisão de Roscher, estão quase todos o mais abreviada
em suas pesquisas o consolo para a ansiedade causada e condensadamente possível em escrita estenográfica. O
pelo fato de ambos estarem na guerra, fato previsto por Lexikon examina não somente o corpus de todos os auto-
seu pai, inclusive, muito tempo antes. Ele é descrito como res clássicos, mas também os da literatura posterior, faz
alguém de natureza tranquila e reservada, trabalhando comparações, propõe comentários e é ricamente ilustrado,
em sua mesa até a idade avançada tanto quanto a luz do pois Roscher tinha enorme familiaridade com as artes, a
dia permitisse. arquitetura e as descobertas arqueológicas relevantes ao
Sua carreira pública foi inteiramente dedicada à assunto. Essa obra é, ainda hoje, fundamental e valiosa;
educação. Ensinou línguas clássicas em sua antiga escola, recentemente, a editora Olms de Hildesheim publicou
St. Mra, por onze anos, e então, até alcançar seus setenta uma reprodução fotomecânica, finalizada por outras mãos,
anos (1905), lecionou no Ginásio de Wurzun. Ascendeu em dez volumes. Nos nossos dias, o Lexikon continua
através dos vários títulos no escalão do sistema da edu- proporcionando material para inúmeros artigos sobre mi-
cação secundária: Oberlehrer, Oberstudienrat, Konrektor, tologia, e constitui um ponto de referência indispensável
Rektor, Geheimrat. Os beneficiários de todo o seu saber nas bibliografias e notas de rodapé. Grande parte de suas
foram seus alunos, que estudaram com ele no equiva- investigações anteriores, bem como aquelas que escreveu
lente ao nosso bacharelado. Esse fato põe em relevo uma paralelamente à compilação do Lexikon - Apollon und
diferença entre a noção seletiva da educação, própria do Mars (1873), Juno undHera (1875),Hermes der Windgott
continente europeu, e a noção de educação da democracia (1878), Die Gorgone und Verwandtes (1979), Nektar und
americana. Põe em relevo, também, a diferença a respei- Ambrosia (1878), Selene und Verwandtes (1890), e seus

128
1 129
estudos sobre Pã - foram integradas à edição ampliada do final do século XIX, reaquecendo-o e inflando-o com
do Lexikon. novoS e surpreendentes tipos de vida, sendo a psicologia
Como os títulos indicam, Roscher estava particular- do inconsciente o mais importante de todos. A obra de
mente interessado em mitologia comparada - assunto esse Roscher no campo da mitologia pertence tanto às fon-
que, em suas últimas obras, o levou para mais além das tes da psicologia profunda quanto também perten-
fontes gregas e latinas. De modo que podemos constatar, cem as obras de Taylor, Frazer e outros antropólogos
a exemplo de seu estudo sobre o pesadelo, que Roscher de seu tempo, de modo análogo às obras dos irmãos
utilizou obras bizantinas, os estudos psicológicos de seu Grimm ao folclore e aos trabalhos de seus contemporâ-
tempo sobre sono e sonhos e recorreu também ao material neos Charcot, Bernheim e Freud no campo da medici-
proveniente de outras mitologias e tradições do norte da na. A exploração do pano de fundo da mente racional,
Europa e Ásia. Em 1897, examinou o papel do cachorro seja através da investigação rigorosa da dissociação
e do lobo na escatologia dos gregos, tentando descobrir histérica, dos hábitos de pensamento dos povos "primi-
conexões entre as ideias religiosas desses animais na tivos", seja por meio das crenças do passado por meio
Antiguidade e o problema do lobisomem, da cinantropia e da investigação linguística, mitológica ou arqueológica,
da licantropia. Ele havia publicado um artigo sobre esses culminou no que hoje conhecemos como a psicologia do
temas antes da aparição de sua monografia sobre o pesa- inconsciente. O conceito junguiano de arquétipo reside
delo em 1900, quando estava com cinquenta e cinco anos. nas evidências acumuladas por essas disciplinas tão
Posteriormente, ele se apaixonou por temas ainda mais variadas.
abstratos: os números na medicina grega, os números sete, Se formos incapazes de ver mais que uma das mui-
nove e quarenta e o conceito de ponto médio imaginário, tas raízes entrelaçadas da obra de Jung - por exemplo,
o omphalos ou o umbigo do mundo, tema recorrente na Freud ou Bleuler, ou sua base nos primeiros experimentos
mitologia grega, romana e semita. Ele também publicou wundtianos de associação, ou seu interesse inicial pela
artigos sobre esses temas. Podemos reconhecer um pa- parapsicologia e ocultismo, ou os problemas da teologia
drão biográfico em seus escritos que vai de estudos para cristã e suas heresias (alquimia) -, corremos o risco de
cada uma das personificações arquetípicas dos deuses, negligenciar outros aspectos do pano de fundo da moderna
passando por seu interesse pelas mais terríveis forças psicologia profunda em detrimento de outros. Ademais,
psicológicas (o pesadelo, a sexualidade, os lobisomens, uma vez que a psicologia profunda moderna surgiu gra-
a licantropia), até chegar a temas típicos da consciência ças a estas novas disciplinas do século XIX (psiquiatria,
senex, quando sob a regência de Saturno: os números e o antropologia, folclore, espiritismo, religiões comparadas
conceito de centro. e mitologia), devemos também ler a história desses cam-
Mas Roscher foi muito mais que um copista ou en- pos a partir de um ponto de vista psicológico. Em suas
ciclopedista. Seu espírito buscava os aspectos insólitos hipóteses e descobertas, esses campos não se limitavam
de seus temas, além de seu aspecto histórico e filológico. a descrever o material correspondente a suas respectivas
Sua erudição foi, de certa maneira, modificada pelas disciplinas, mas também falavam do que, em breve, cha-
correntes românticas que fluíam através do racionalismo maríamos de "psicologia do inconsciente".

130 131
Portanto, os trabalhos desses pioneiros serviram nos compreender no presente. A investigação de Roscher
não somente para conceder pano de fundo histórico para sobre o antigo Pã em relação ao pesadelo contemporâneo
seus descendentes modernos no terreno da psiquiatria constitui um ótimo exemplo.
"científica", da antropologia e da mitologia, mas também O tratamento acadêmico do mito nos termos de uma
continham um fermento psicológico, fazendo crescer departamentalização do saber resultou em uma pletora
muitas de suas hipóteses para além dos limites do que de teorias e de várias explicações falaciosas. Todos nós
seria autorizado pelos fatos na atualidade. Assim sendo, conhecemos alguma. É quase impossível ouvir um mito
não podemos culpar Roscher por lançar longe sua rede recontado nos dias de hoje sem o peso de ter de aturar,
de pesca nem pelos curiosos peixes que ele trouxe à su- na mesmíssima história, uma interpretação de seu
perfície. Os estudos clássicos deste século impuseram significado. O mais perigoso de todos os erros é a sim-
duras restrições e críticas à filologia do século XIX, ques- plificação.
tionando seus métodos e evidências, seu eurocentrismo A complexidade de um mitema, ou de uma de suas
e o pior - rindo de suas ambições. A moderna filologia personagens, nos é apresentada como a descrição de um
acadêmica franze o cenho perante o escopo e a conjectura processo social, econômico ou histórico, ou bem como o
de Roscher e especialmente desaprova o estudo compara- testemunho pré-racional de determinado assunto filosófico
tivo dos temas míticos, o que constitui um dos princípios ou instrução moralista. Os mitos são tomados como expo-
fundamentais da psicologia profunda e também do método sições disfarçadas de ciência natural, metafísica, soberba
básico utilizado em todas as investigações psicanalíticas tribal, opressão de gênero ou de religião. Mas antes de
de Roheim a N eumann. Os acadêmicos insistem quanto cada uma dessas aplicações ao significado de um mito,
às competências de seus departamentos: um mito, um existe o próprio mito e seu puro feito na alma, que, em
tema ou uma figura devem ser estudados em seu con- primeiro lugar, criou o mito e, em segundo lugar, o per-
texto histórico, cultural, textual, linguístico, econômico, petuou com embelezamentos; e a a Ima am . d"a re-sonh a "
formal, sociológico ou dentro do que "seja-Iá-o-que-for" esses temas em suas fantasias, seus comportamentos e em
o seu contexto; a comparação de um determinado tema suas estruturas de pensamento. Desse modo, a primeira
ou de uma figura mítica com aqueles de outro período, aproximação em relação ao mito deve ser psicológica,
área ou cultura, ou ainda a consideração de que sejam uma vez que a psique lhe fornece tanto sua fonte original
relevantes para a psique humana e sua imaginação são quanto seu contexto sempre vivo. Cabe assinalar aqui
verdadeiros anátemas. que o enfoque psicológico não implica um intercâmbio
Para a psicologia profunda, os temas e os perso- simplório de termos, metáforas exóticas sacadas para o
nagens da mitologia não são assuntos unicamente do câmbio usual com conceitos familiares, o colossal tornado
conhecimento. Eles representam o que é real e vivo no ínfimo para facilitar sua aplicação.
ser humano, que existem como realidades psíquicas que Uma abordagem psicológica, tal como compreendo,
coexistiam mesmo antes de sua manifestação histórica e não implicaria uma interpretação psicológica. Não se trata
geográfica. A psicologia profunda recorre à mitologia não de fazer entrar o mito no departamento da psicologia ou
somente para aprender sobre o passado, mas também para na escola de análise das profundezas, colocando em dia

132
I 133
~
nova~ séries de reduções psicológicas análogas em Sua II1ente ao lermos a obra de Roscher. Idealmente, esses
estreIteza a outras simplificações departamentadas (dis~ dois tipos de contribuição deveriam acrescentar-se mu-
farçadas com técnicas presunçosas), as quais eu gostaria tuamente, mas os modernos classicistas com frequência
de desafiar. Na medida em que o mito pertence muito mais consideram as exorbitantes fantasias de seus antecessores
à theoria que à pragmática, sua compreensão pertence como fracassos intelectuais. Não se dão conta de que são
ta.mbém muito mais à exegese e à hermenêutica do que eles mesmos vítimas do contrário: da pobreza da fantasia
a mterpretações previsíveis. e dos simplismos psicológicos, e a enorme aridez emotiva
Uma abordagem psicológica significa exatamente o de seu toque em meio às suas realizações expõe falhas
que o termo sugere: um acesso da psique ao mito, uma co~ imaginais não menos graves. Quando esse é o caso, nós,
nexão com o mito que proceda por meio da alma incluindo os leitores, não deveríamos nos afastar dos livros eruditos,
especialmente suas estranhas fantasias e seu ;ofrimento mas aprender a lê-los. Suas leituras constituem parte
(psicopatologia), um desvelamento e uma extração da da abordagem psicológica, tanto ao experimentarmos o
alma que conduziria ao significado mítico e vice-versa. efeito na imaginação da informação intelectual, quanto
Somente quando a psique reconhecer a si mesma como observando a fantasia imaginativa dentro do qual o autor
encenadora de mitemas ela poderá compreender o mito, a organiza e por meio do qual essa informação é implici-
de modo que uma exegese psicológica do mito deveria se tamente interpretada. Não importa quem aborda o mito
iniciar com a exegese de si, com o fazer alma. Mas também, ou quão pouco imaginativa é sua abordagem, o mundo
por outro lado, somente quando o mito for reconduzido à imaginaI é tocado e deixa seu eco no que está sendo dito.
a~ma e somente quando o mito tiver importância psicoló- Não podemos tocar o mito sem que ele também nos toque.
gIca ele se converterá em realidade vivida, necessária à Ainda que possamos levantar dúvidas acerca da na-
vida, ao invés de um mero artifício literário filosófico ou tureza especulativa da filologia do século XIX e censurá-la
religioso. A filologia pertence a esse process~ como parte pelo seu gosto por aventura, o qual dificilmente se atreve-
da abordagem psicológica. De que outra maneira pode- ria a ter o espírito sofisticado, cético - e, quem sabe, até
ríamos nos aproximar da realidade mítica senão mergu- cínico - que atualmente prevalece no meio acadêmico, não
lhando em seu domínio, nos contextos que a alimentam devemos nos esquecer de que psiquiatras, arqueólogos,
e nas imagens que ela elaborou ao longo da histórié A etnólogos e mitólogos eram movidos por uma tremenda
filologia se converteria, então, em um método de fazer paixão no final do século XIX. Não eram meros traba-
alma ao invés de se prestar a ser somente um método de lhadores acadêmicos. Nem eram seus impulsos simples
criar conhecimento. Revivificação terapêutica da psique obsessões pelo conhecimento, ou pela autoridade, através
e ren~scimento do .mito - dois processos inseparáveis que do conhecimento, ou por eminência e poder, através da au-
poderiam ser consIderados uma só e mesma coisa, pois o toridade. Parecia haver algo novo irrompendo nessa época
que conhecemos é tão importante quanto o conhecimento. por meio desses autores, alguma visão, alguma questão
Assim, o valor da filologia deve ser julgado não so- essencial acerca das profundezas da natureza humana.
mente por sua contribuição ao intelecto, mas também por Ou estariam eles procurando por deuses perdidos?
sua contribuição para a imaginação. Devemos ter isso em Talvez as fascinações pelas profundezas desconhecidas
134 135
dução escrita, suas sistematizações e sua ânsia p.or
indicassem algo que ultrapassava o humanismo secula
?or eles pr~tendido, vindo a alcançar uma dimensã~
probalho reintroduziram na consciência ocidental aqUIlo
tra , . . .
havia sido excluído desde o RenascImento: o 1magI-
Impessoal e Inumana da alma, em que figuras bárbaras que .
e o poder que ele exerce sobre a vida. Suas pesqUIsas
pagãs e míticas ainda subsistiriam e atrairiam seus devo~ naI ·d d -
tos, mesmo quando revestidas de roupagens acadêmicas levaram ao reconhecimento de que a hUn:~~I a e na_o
de um suposto saber imparcial. A psicologia não deve ra somente ocidental, moderna, secular, cIvIlIzada e sa,
e as também primitiva, arcaica, mítica, mágica e louca.
tomar os testemunhos dos sábios somente em sua uni- m 'd . dos
lateralidade literal; devemos considerar que sua paixão Paradoxalmente, eles usaram os meto os n: ms ~vança
pela descoberta era arquetipicamente governada. Como da razão para estabelecer a realidade do IrracIOnal - ou
os alquimistas, os exploradores e os cruzados dos séculos do que teve de ser chamado de i~r~c~onal por caus~ ~a
anteriores, que também tomaram suas atividades e metas definição limitada de razão do posItIVIsmo, do mecamCIS-
literalmente, os investigadores do século XIX não estavam mo e do utilitarismo daquele século. .
somente engajados em uma "investigação científica", mas Se a psiquiatria desse período não prod~zlU novas
também na busca psicológica de um novo território de curas para os insanos, a despeit~ d~ (ou dev.Id~ ~) seu
"profundeza". zelo classificador, tampouCo contrIbUIram a hIstOrIa d,as
. Essas profundezas foram projetadas, como diríamos religiões, a linguística, a antropologia e os estudos clas-
h~Je, em um passado remoto, na mitologia, em obscuras
sicos para revitalizar os rituais moribundos e crenças
t~Ibos estrangeiras e seus exóticos costumes, nas pessoas
de outras culturas ou para transformar esses aspectos
sImples e em sua superstição e também no mentalmente em nossos. Mas uma cura, um re-despertar, surgia à luz
do dia sob a forma de uma reconstrução da consciência
alienado. A exploração minuciosa de cada um desses do-
mínios da filologia é também uma exploração minuciosa ocidental, a qual, devido ao redescobrimento da função
da personalidade humana em seus limites mais obscuros imaginaI da alma, não podia mais identificar-se com sua
em que ela se confunde com o pano de fundo impessoal d~ antiga estrutura psíquica unilateral. A mente com .um
vida em seu estágio "primitivo" da infância do pensamento ego em seu centro havia perdido suas amarras; ~s COlS~S
e da linguagem, das pessoas e da sociedade. A minúcia desmoronavam a psiquiatria descobria a esqUIzofrema
e o século che~ava ao seu fim. Um novo relativismo se
das pesquisas de Roscher, assim como a de Frazer ou de
Cook, ou de Kraepelin na psiquiatria, seria, mais qu~ tudo, tornava agora disponível: havia outros mitos além da-
a tentativa apaixonada de circunscrever as profundezas queles da Bíblia, outros deuses além de Cris~o, ~~tros
povos que não tinham a pele branca e, em cada I~dIVIduo,
do homem para traçar um mapa do que chamamos de
inconsciente. Como Evans sobre Creta, ou Schliemann havia outros tipos de consciência dotados de dIferentes
sobre Troia, esses autores foram dirigidos pelas fanta- intenções e valores.
Roscher, ao que parece, não intencionava que se~
sias privadas da imaginação para a redescoberta de um
mundo imaginaI. Mesmo quando trabalhavam de uma trabalho acelerasse esse processo de desintegração. MUI-
maneira científica, sóbria e racional, essas famosas figuras to pelo contrário. Em 1908, no prefácio do volume III, 1
("N abaiothes-Pasicharea") do Lexikon, ele se lamentava do
profissionais do final do século XIX, com sua imponente
137
136
1.
"quão pouc~ propício era o presente" para uma obra como mapa para o imaginaI. Devemos conhecer as subestrutu-
a sua. Ele VIa ao seu redor "uma indiferença crescente em ras arquetípicas que governam nossas reações, devemos
relação ao que havia sido até então a fundação de nOSsa reconhecer os deuses e os mitos com os quais estamos
educação e cultura superiores, ou seja, a Antiguidade envolvidos. Desprovidos dessa consciência, nosso compor-
Clássica, o Renascimento e os clássicos nacionais da lite- tamento torna-se inteiramente mítico e nossa consciên-
ratura e da arte". Em sua opinião, esses eram os baluartes cia, uma ilusão. Quando Cristo era o mito operante, era
contra "o abismo da barbárie". Mas ele não se dava conta suficiente conhecer seus modos de funcionamento e os
de que, apesar de seu método ser arrazoado e ordenado do Diabo. Dispúnhamos da estrutura cristã para a nossa
seu material era o próprio Olimpo, ou melhor, o corpu; reflexão. Mas agora que esse único modelo de consciência
completo do politeísmo antigo, para cuja ressurreição se dissociou das múltiplas raízes adormecidas abaixo dele
consagrou o trabalho de toda sua vida. Durante mais de apresentadas pela mitologia, não é possível avançar sem
dois mil anos, o judaísmo e o cristianismo tinham colocado uma reflexão mitológica sobre nossos modelos de reações,
todo seu empenho em reprimir este passado pagão que nossas atitudes ou nossas fantasias.
agora, graças a Roscher, se encontrava convenientemente Apesar de Roscher ter sido contemporâneo de Freud
~lencado em seu Lexicon. Tudo transcorreu como se seu (nascido onze anos depois em 1856), sua obra, como a de
mtelecto não percebesse os efeitos que sua obra tinha outros pioneiros, se distingue de um modo significativo das
so?r~ ~ imaginação. Como um cientista que com total obras dos grandes psicólogos, Freud e Jung, que também
obJetIvIdade opera sobre os elementos primordiais dos pertenceram à mesma sucessão erudita em virtude de
materiais fissionáveis, Roscher havia concisamente reco- suas prodigiosas produções, seus métodos de trabalho,
lhido (e colocado à disposição de quem quisesse utilizá-lo) suas audácias especulativas - e seus interesses pela cul-
um material capaz de causar detonações psíquicas e não tura. Freud e Jung sabiam que estavam escrevendo sobre
menos dinâmico para o destino de nossa cultura. Sua as- eles mesmos quando teciam comentários sobre as figuras
sociação
. inicial com Nietzsche não é, portanto, acidental., de Moisés e de JÓ. Poderia Roscher também ter concebido
Juntos,_eles fundaram muito mais que o Clube de Filologia. Pã, ou alguma outra das figuras antigas, para ser, igual-
Nao obstante, o uso que Roscher fez da mitologia em mente, "um problema seu"? Esse tipo de identificação - e
defesa da cultura ainda é válido, mesmo que não do modo de distância - psicológica não foi possível nem mesmo
que originalmente pretendia. Retornamos às raízes mi- para Nietzsche, quem dirá para seus contemporâneos
tológicas não somente para o conhecimento dos clássicos nos terrenos da antropologia, da história das religiões, da
mas para a realidade psicológica que constitui seu contex~ psicopatologia e da mitologia que ainda viviam na ilusão
t? Nessa realidade, o mito é decisivo, e a imaginação po- cartesiana de que suas obras e suas psicologias poderiam
hteísta que el~ sistematicamente catalogou desempenha ser mantidas em separado. Eles ainda estavam tomados
um papel eqUIvalente à razão e ao sentimento. A defesa pela fantasia do sujeito e do objeto. A filologia, como as
da cultura, por consequência, consiste menos em retesar ciências naturais, se reservou ao direito psicológico ina-
a or~em racional, e menos ainda em estender a regra do lienável sobre a "fantasia objetiva", de tal maneira que,
sentImento humano, do que em explorar e planejar um através de suas investigações, esses intelectuais puderam
138 139
ainda se defender da possibilidade de aprender algo sobre
eles mesmos e não somente sobre seu material de estudo
Infelizmente, os pioneiros combinaram a infância d~ PREFÁCIO
pensamento e da linguagem, do indivíduo e da sociedade
muito literalmente. Eles acreditavam que a infância real
da humanidade (Freud), da linguagem (Max Müller) ou
da cultura nos povos "primitivos", na Antiguidade e na
arqueologia, lhes forneceria a chave que buscavam. Seus
trabalhos ainda se dedicavam à fantasia da "origem das
espécies" e com demasiada facilidade intercambiavam em
nível literal, a criança, o primitivo, o mítico e o louco. Este
intercâmbio originou uma confusão incomensurável sobre Muitos anos de detalhado estudo do mito e do culto
o suposto pensamento "primitivo", sobre a infância, sobre a Pã - o antigo Deus grego dos rebanhos e pastores - le-
a aberração mental e também sobre o mito. Não se de- varam outros investigadores e a mim mesmo a empreen-
ram conta de que suas atividades eruditas eram também der uma investigação sobre sua função como Efialtes, o
psicológicas e que as origens e a infância que tentavam demônio ou o espírito maligno dos pesadelos. De modo a
elaborar também eram psicológicas, ou seja, que "criança" alcançarmos uma compreensão básica dessa função, pa-
" .
ongem "e "pnmItIvo
. . . " eram fatores psíquicos anteriores ' rece-nos absolutamente imperativo que, neste momento,
e talvez a priori, ao intelecto racional que realizava ~ adquiramos a mais minuciosa maestria das representa-
investigação. Eles acreditavam estar estudando objetos ções gregas e romanas dos pesadelos e demônios; tentei,
"fora de nós" nas escavações arqueológicas, nos pacientes portanto, reunir tudo o que a Antiguidade preservou para
dos manicômios, nos textos clássicos, enquanto também nós em relação a Efialtes para que possamos traçar uma
estavam estudando o sujeito "dentro de nós", procurando a imagem clara dele que doravante ofereço ao público. Vi-me
cri.ança prim~~dial em nível imaginaI, buscando a psique obrigado a isso porque Ludwig Laistner, o douto e enge-
cUJO modo mItIco de percepção forneceria as origens ar- nhoso autor de The Riddle of Sphinx: Fundamentals of a
quetípicas da própria ciência. De modo que essas investi- History ofa Myth, não alcançou sucesso, a despeito de seus
gações, tendo alcançado o pináculo de seu saber científico, valiosos esforços, em clarificar as tradições e concepções
~rep~ra:am também seu próprio colapso. Pois as forças gregas e romanas acerca dos pesadelos e dos demônios
ImagInaIS a que suas investigações haviam chegado (na de maneira suficientemente rigorosa e em acordo com os
antropologia, na psiquiatria ou na religião clássica) even- cânones da filologia. Essa deficiência, em uma obra bas-
tualmente colocaram à prova o homem racional adulto tante meritosa a respeito de tantos aspectos, se deve a
e civilizado, do Iluminismo, seu método e até me~mo sua duas razões: em primeiro lugar, em razão de sua posição,
mente. O ensaio de Roscher sobre Efialtes constitui uma compreensível e escusável, como especialista em estudos
peça a mais nesse processo que dinamitou o século XIX germânicos, Laistner só podia contar com dados proce-
e abriu caminho para a irracionalidade do século XX. dentes da esfera da mitologia germânica como um todo,
140 141
visto que carecia do conhecimento óbvio e fundamental está o pesadelo de Jacó (Gênesis 32,23 ss.) no qual lutava
das fontes gregas e romanas; em segundo lugar, porque com Elohim. O terceiro capítulo interpreta etimologica-
sua intenção era escrever um livro capaz de interessar a mente as designações gregas e romanas para os pesa-
um grande número de pessoas. Em estreita conexão com delos e os demônios, como Efialtes, (H)ipialos, Epheles,
esse dado, há também o fato do estilo de Laistner estar Típhus, Pnigalion, Baphugnas, Inuus, incubo, Faunus
mais próximo do gênero literário do que do filológico. ficarius, entre outros. Elas são submetidas a um exame
Sua escrita é sempre estimulante, mas frequentemente minucioso e são explicadas etimologicamente com base
carece da moderação desejável e da autocrítica próprias nos pontos de vista contemporâneos acerca da essência
de uma obra genuinamente filológica. Isso é verdadeiro do pesadelo. O quarto capítulo trata em detalhes aque-
não somente para os termos gregos e romanos e para os les demônios gregos e romanos aos quais se atribuíam,
nomes próprios - em certas ocasiões, por demais atrevi- em primeiro lugar, a excitação dos pesadelos (Pã, Sátiro,
dos e, em outras vezes, repletos de etimologia insusten- Fauno, Silvano) e pretende dar uma resposta à questão
tável -, mas também para seu total fracasso em elevar o de por que esses demônios, em especial, se converteram
sonho e, em particular, o pesadelo, ao princípio básico e em demônios do pesadelo.
fundamental de toda mitologia. Por essas razões, vi-me
compelido a desconsiderar e a evitar a obra de Laistner
em meu tratamento dos pesadelos e dos demônios e tive
que me limitar a tomar emprestados somente, e em pou-
cas ocasiões, isolados e valiosos paralelos germânicos e
eslavos. Aqui e ali fui obrigado a mencionar as visões e
explicações de Laistner, seja para concordar com elas, seja
para desassociar-me delas.
Minha investigação divide-se em quatro capítulos
principais. No primeiro, eu tentei desvelar a essência,
a origem e os elementos constitutivos do pesadelo com
base em observações feitas nos trabalhos mais recentes
dos profissionais da medicina; no segundo capítulo, por
outro lado, meu objetivo foi proporcionar provas de que
os pontos de vista dos médicos antigos - todos eles depen-
dentes em maior ou menor grau de Sorano - estão, em
grande medida, em harmonia com os autores modernos.
Este capítulo também contém uma coleção instrutiva e
análises precisas do pesadelo da Antiguidade conservadas
na literatura, tendo por finalidade o exame crítico de seu
fundo extremante diverso de ideias. Em meio das quais

142 143
A NATUREZA
E A ORIGEM DO PESADELO
À LUZ DA MEDICINA MODERNA

No passado servi-me com frequência do método


aplicado em discussões de temas mitológicos e histórico-
-religiosos; este método tomava por ponto de partida a
consideração básica e objetiva das experiências externas
e internas e os fatos que residem na base de um inquérito
das concepções míticas e religiosas. Nessa mesma disposi-
ção mental, desejo agora tentar explicar, antes de tudo e
tão objetivamente quanto me for possível, as observações
e experiências da medicina moderna e da medicina antiga
em relação à origem e à natureza do pesadelo. Situei as
visões modernas no princípio deste estudo não somente
porque derivam de uma observação ampla e exaustiva
atual dos fatos, mas também porque são menos suspeitas
de se basearem em teorias acríticas - insustentáveis e
obsoletas, derivadas de uma observação enviesada - do
que aquelas dos médicos antigos. Ao mesmo tempo, desse
modo, alcançaremos critérios mais ajustados para o exame
crítico das teorias estabelecidas pelos médicos da época
clássica em relação a esses aspectos do pesadelo.
Pelas indicações mais essenciais concernentes à na-
tureza e à origem do pesadelo, estamos primariamente
em débito com J. Béirner 1 que, em 1855, em sua disser-

1 BORNER, J., Über das Alpendrücken. Seine Begründung und Verbütung


CWürburg, 1885).

145
tação inaugural, enunciou os pontos essenciais que, pelo a reagir mesmo diante dos esforços mais extenuantes da
que sei, são aceitos por todas as autoridades em ciências vontade. Isso contribui igualmente para o aumento da
médicas e psicológicas. Borner obteve seus principais re- sensação de uma angústia não aliviável... Finalmente, a
extrema ansiedade e o sonho interrompido que a acom-
sultados em parte através da observação pessoal, tendo panham provocam um movimento violento produzido com
ele mesmo frequentemente sofrido de severas formas de grande esforço e precedido de gemidos lastimosos, que
pesadelos, e em parte com base na observação de compa- habitualmente resultam em um sentimento imediato e
nheiros sofrendo as convulsões de um pesadelo. Através extremamente prazeroso de alívio e tranquilidade, através
desses meios e posteriormente através do estudo mais da qual o indivíduo pode despertar ou bem seguir dormin-
do. Quando ambos o sono e o sonho não são interrompidos,
crítico das condições sob as quais o pesadelo emerge, ele é frequentemente muito difícil de convencer-se de que as
foi finalmente capaz de suscitar pesadelos sempre que visões tidas não eram reais. 2
desejasse, ou seja, experimentalmente. Com base em De acordo com outros observadores, o sentimento de li-
numerosas observações feitas sobre ele mesmo e sobre bertação vem acompanhado por um forte grito. 3 Macnish
outras pessoas, Borner descreveu o caráter do pesadelo afirma em seu livro sobre sonhos que: "No momento de
superação da fúria, parece que nos viramos com prodigio-
da seguinte maneira: so esforço, como se sofrêssemos de pressão baixa e de um
Seu despontar pode acontecer a qualquer momento da noi- peso enorme: e para tentarmos acordar o mais totalmente
te e normalmente começa com uma sensação de respiração possível, muitas vezes chutamos violentamente, desferi-
difícil... Em geral, pensa-se que o ataque se inicia quando mos golpes em nosso peito, nos colocamos de pé na cama
se está deitado de costas, enquanto que, na realidade, a e gritamos uma ou duas vezes. Tão logo possamos voltar
posição mais frequente é de barriga para baixo. O aumento a exercitar nossa vontade ou nossa voz com liberdade, o
da dispneia secundariamente desperta a imaginação - o paroxismo chega ao seu fim".4
sonho -, o que motiva uma ampla variedade de razões para
a dispneia. O sonho mais comum (mas de modo algum No que se refere à origem dos pesadelos em pessoas
exclusivo) é aquele em que a pessoa vê algum animal pe-
ludo. Geralmente se trata de um cachorro que, de maneira saudáveis, Borner chegou à conclusão, através de uma
inconcebível, chega a casa e devagar e deliberadamente observação precisa de si mesmo, de que "uma vez que o
sobe na cama para sentar-se sobre o peito da pessoa, nor- problema sempre desaparecia repentinamente depois
malmente na área da veia jugular. Toma-se, então, tão de um movimento vigoroso, deduzia-se que algum impe-
por certo que essa é a causa da dificuldade de respira'r e dimento para a respiração havia sido eliminado".5 Pos-
da pressão que essa situação se converteu em provérbio.
(Nota do Trad.: "pesadelo" em alemão é Alp-drunk, e drunk teriormente, sua observação de si mesmo mostrou "que,
significa literalmente "pressão"). Frequentemente há a durante o pesadelo, os orifícios externos de respiração
visão de alguma criatura repugnante, um ser humano feio, - nariz e boca - estavam mais ou menos completamente
uma velha ou simplesmente um peso que se localiza sobre cobertos. Quando estava deitado de costas ou de lado, isso
o peito ... A ansiedade aumenta com o grau da dispneia, e
se produz transpiração, palpitação e intumescimento da
face e dos nervos do pescoço. A vítima sente necessidade 2Ibid.,895.
de mudar de posição para que assim derrube o agente 3 BINZ, C., Über den Traum (Bonn, 1878),26 ss.
opressivo, estando ela firmemente convencida de que isso 4 MACNISH, Robert, The Philosophy of Sleep (Glasgow, 1830), 130.

lhe trará alívio. Os músculos afetados, contudo, se negam 5 BORNER, op. cit., 15 ss.

146
1 147
acontecia devido ao fato da roupa de cama pressionar meu finalmente caísse devido a algum movimento realizado
rosto firmemente, ou, mais precisamente, porque estava no ápice da tortura.
deitado de barriga para baixo com a cara no travesseiro". 6 A forma atribuída ao animal pelo sonhador do pe-
Ao tratar desse assunto, Macnish diz: sadelo dependia principalmente dos objetos que Borner
utilizava para cobrir o rosto da pessoa.
Eu tive ataques deste transtorno com frequência quando
me sentava no braço de uma poltrona com a cabeça apoiada Um pano embolotado ou de qualidade inferior sempre
na mesa. De fato, estas são as posturas mais propícias para causava a aparição de um animal peludo, como umpoodle
provocá-los, pois os pulmões estariam mais comprimidos ou um gato. Se somente a boca e o nariz eram cobertos
que em qualquer outra postura. Também os tive claramen- pela mão, essa figura onírica de um animal peludo não
te quando estava deitado de lado e conheço numerosos surgia, mas era geralmente substituída pela de outro ser
casos de descrições semelhantes de outros autores. 7 humano feio e hostil que agarrava e estrangulava a pessoa
que estava a dormir. Quando somente uma pequena parte
dos orificios respiratórios estava gradualmente coberta,
Borner, por outro lado, assevera que, de acordo com produzia-se um grau mais suave de ansiedade e dispneia
suas observações, estar de barriga para baixo é a postura com a correspondente incapacidade de movimento ... Nesse
mais frequente para se ter pesadelos. caso, o fantasma geralmente entrava na casa vagarosa-
Os estudos de Borner sobre ele mesmo foram com- mente e com suavidade. Então, ele olhava ao redor durante
pletamente confirmados por experimentos bem sucedidos algum tempo, até que finalmente começava a atorment~r
a pessoa que estava sobre a cama. Mas, se a boca e o n~rIz
levados a cabo em outras pessoas e, por isso, esses estudos estiverem cobertos ao ponto de provocar uma forte dISP-
foram livrados da suspeita de subjetivismo e autossuges- neia, o fantasma surge instantaneamente na sala, sobre
tão. Ao tapar a boca e o nariz de outras pessoas, Borner o peito da pessoa que dorme; por essa razão, o sonhador
conseguiu em várias ocasiões produzir exatamente os não pode dar nenhuma informação sobre como o fantasma
mesmos sintomas que havia observado em si mesmo. chegou até ali. Essas aparições são muito vívidas, mas
Nesses casos, o pesadelo se dava à maneira de um animal duram pouco tempo.8
Ocasionalmente - e mais comumente em mulheres -, o
peculiar e híbrido - meio cachorro e meio macaco - que sentimento de ansiedade vem acompanhado de luxúria e
não se esgueirava lentamente em direção à cama, como as mulheres frequentemente acreditam que o fantasma
antes, mas que saltava sobre o peito da vítima sem ser manteve relações sexuais com elas. Os homens têm sen-
previamente notado (como o resultado de cobrir o rosto do sações análogas, e geralmente oc~rrem emissões ~e s~men
como resultado da pressão exercIda sobre os gemtms por
paciente). Esse salto repentino do pesadelo é caracterís-
estarem deitados de bruços.9
tico na maioria dos casos e, por essa razão, o termo grego
ephiáltes - "aquele que salta" - é muito oportuno. O ani- Borner assinala que os principais sintomas do pesa-
mal então permanecia quieto como se estivesse dormindo
delo são os sentimentos de pressão geralmente causados
sobre sua vítima enquanto a desafortunada pessoa, presa
por se estar de bruços, pela incapacidade de mover-se e
em ansiedade, não se atrevia mover-se até que o animal

6 Ibid., 17. 8 BORNER, op. cit., 22.


7 MACNISH, op. cit., 131-32. 9 Ibid., 12.
I

148
1 149
pela ansiedade. Macnish dedica uma atenção particular à o estado de sonho que conhecemos sob a terminologia
extraordinária e inexplicável ansiedade do paciente como do pesadelo pode se produzir através de envenenamento
um sintoma que está praticamente nunca ausente. lO Um agudo ... A validade das investigações de Borner pode ser
requisito essencial para a origem do pesadelo é o sono confirmada quando se presta atenção a si mesmo. Se,
quando se sofre de um resfriado que obstrui as fossas na-
profundo. sais, fazemos uma refeição muito pesada e vamos dormir
As experiências e observações de outros doutores e enquanto o nariz está ainda razoavelmente desobstruído
psicólogos ampliaram e confirmaram os estudos de Bor- e a boca fechada como de costume, com frequência ocorre
ner, os quais foram realizados unicamente em pessoas o surgimento de secreção catarral e inflamação da mem-
brana da mucosa nasal durante o sono mais profundo. A
clinicamente normais. De uma maneira quase unânime,
passagem do ar está cada vez mais obstruída e o dióxido de
admite-se que a dificuldade na respiração, que produz carbono e outras substâncias sufocantes produzidas pelo
o pesadelo em pessoas sãs e é causada por um impedi- metabolismo se acumulam no sangue e alteram o sistema
mento externo, como as roupas de cama, também pode nervoso. Uma intranquilidade profunda invade nossa
ter sua origem em determinadas enfermidades e causar mente em formas borradas; às vezes, isso toma a forma de
pesadelos bastante severos. Exemplos dessas enfermi- um processo definido de sufocamento, e a intranquilidade
permanece obscura e confusa em acordo com a duração
dades são a difteria, a tuberculose, o sopro cardíaco, os e a força do que lhe deu origem. Eventualmente um mo-
eventos asmáticos, os estados avançados de hipocondria vimento súbito do corpo é percebido nos lábios fechados,
e histeria, as enfermidades mentais e o delírio causado ou mais frequentemente - como observei repetidamente
por febre. Borner acrescenta: "Dessa maneira, creio que em mim mesmo - escapa um forte grito de medo e pedido
deva existir um tipo de pesadelo que precede a asfixia por de auxílio que abre a boca para permitir a entrada do ar
libertador. O oxigênio é o antídoto. O oxigênio equaliza a
gases, exatamente da mesma maneira que a obstrução irritação perversa causada pelas excreções retidas nas
repentina e noturna das vias respiratórias por corpos células de nosso cérebro; isso acontece ao se combinar às
estranhos, membranas mucosas etc.".l1 Segundo Binz, excreções, alterando-as quimicamente. 13
podemos ver nos delírios causados pela febre tifoide os
mesmo sintomas do envenenamento por estramônio, isto Como veremos mais à frente, essa teoriajá havia sido
é, sonhos sensuais confusos, intoxicação e narcotizações. 12 formulada pelos médicos das épocas antigas.
Ocasionalmente, um pesadelo pode ser resultado de uma Um recurso especial para o que a maior parte dos
dieta inadequada como, por exemplo, alimentar-se com estudiosos chamou a atenção é a natureza excepcional-
alimentos indigestos. mente vívida das visões do pesadelo que frequentemente
Binz de fato afirma com base em suas experiências superam em muito as impressões deixadas pelo que ex-
que quando ele está resfriado, uma refeição indigesta é perimentamos despertos. Em relação a isso, Laistner diz:
suficiente para lhe produzir um pesadelo. Binz escreve:
A intensidade das aparições nos pesadelos é muito maior
do que a das imagens oníricas ordinárias; tanto é que
quando o sujeito desperta, ele está totalmente convencido
10 MACNISH, op. cit., 125.
11 BORNER, op. cit., 28.
12 BINZ, op. cit., 17.
13 Ibid., 26 ss.

150 151
de que não teve somente um sonho. A impressão supera a sono profundo devido a um sonho alarmante ou a qualquer
intuição mais vívida da imaginação da pessoa que acorda, outra circunstância. 16
por mais extraordinariamente "mítica" que ela seja, e, por-
tanto, não há dúvida de que a crença viva nos monstros do Os supostospauores nocturni (terrores noturnos) das
pesadelo pode ser explicada simplesmente pela vivacidade crianças entre as idades de três a sete anos parecem se
das apresentações dos sonhos. 14
inscrever nesse contexto. Soltmann diz:
Dessa forma, Macnish nos conta uma observação real Eles normalmente ocorrem durante a etapa mais profunda
do médico Waller, que foi acometido por uma aparição de do sonho, várias horas após se ter adormecido, sem qual-
quer aviso prévio. As crianças habitua~men:e se sentam
pesadelo que ele tomou por real, até que finalmente com- subitamente na cama por volta da meIa-noite, corados e
preendeu que se tratava somente de um sonho. Macnisch banhados em suor. O olhar fixo em um ponto, a fala confusa,
também assinala: a ausência de resposta a chamados e perguntas, tudo in~ica
que a consciência está embotada. A veia carótida palpita,
Algumas vezes, estamos em um estado que beira o sonho o coração bate com força e as mãos tre~em de terror. A
perfeito; em outras vezes, estamos quase despertos e persuasão não serve de nada e os sentIdos perm:=t~ece,m
podemos observar que quanto mais acordados estiver- aturdidos pelo terror e o medo provocado pela VIsao. As
mos, maior será a violência do paroxismo. Com frequên- vezes as crianças deixam escapar monossílabos e :r;>alavras
cia, experimentei a afecção roubando-me a vitalidade, como "ali, ali", "cachorro", "homem" etc. - que obvIamente
mesmo estando em perfeita possessão de minhas facul- se relacionam com essas visões alarmantes. Frequente-
dades mentais, assim como também vivendo a maior das mente são necessários entre quinze e vinte minutos para
torturas. 15
acalmar a criança. 17

Até certo ponto, essa visão de Macnish parece ser Soltmann assinala a seguir que a maioria dessas
endossada por Cubasch, que, em sua obra Der AIp [O crianças sofre de indigestão, dispepsia, constipação,
pesadelo], afirma: gastrite, anemia, tuberculose e raquitismo. Em algumas
As imagens oníricas frequentemente parecem continu- ocasiões, esses terrores noturnos ocorrem quando elas têm
.
ar depois do despertar; esta é uma particularidade não febre tifoide, escarlatina, bem como quando sob uma eXCI-
somente associada ao pesadelo, mas pode ser observada tação psíquica produzida pelo susto ou medo. Um menino
com frequência em sonhos vívidos de todos os tipos. Essa de doze anos que sofria de spondylitis dorsalis avançada
continuidade das visões deve ser atribuída à embriaguez
do sono, que é o estado entre o completo estado de vigília e imaginava que durante seus ataques um animal tinha se
o sono profundo, ou o inverso. Isso somente demonstra que sentado nas suas costas e queria esmagá-lo até a morte.
a pessoa ainda não parou de sonhar nem está totalmente A partir deste caso, podemos perceber quão próximos do
desperta. As condições mais favoráveis para esse estado pesadelo estão os terrores noturnos das crianças. Com-
se dão quando subitamente uma pessoa é tirada de seu

14 LAISTNER, L., Das Ratsel der Sphinx, Grundzüge einer Mythengeschicte 16 CUBASCH, C., Der Alp (Berlim, 1877),25.. " . "
(Berlim, 1889), x. 17 Eulenburgs Realencyclopadie der gesmmten Hellkunde, ver Nlght Terror
15 MACNISH, op. cit., 136. de Soltmann, 425.

152 153
parando com Tylor: ''Alguns afirmam que esses demônios e se elas continuam a persistir com a mesma intensidade
'aprisionantes' do pesadelo se aproximam dos homens à por um período de dias, semanas ou meses, devem ser
noite, se sentam em seus peitos e lhes chupam o sangue, consideradas como um sinal indiscutível de insanidade.
outros acreditam que eles só chupam o sangue das crian- N esse sentido, vale a pena prestar atenção ao fato de que
ças, sendo para os adultos somente pesadelos".18 O feito "os pacientes mentais com frequência culpam os sonhos
de chupar o sangue de crianças, como pontua Tylor, está pelo início de determinadas ideias fixas, na medida em
relacionado com certas doenças hematológicas da infância. que se entende que o sonho constituiu uma experiência
Retornando ao assunto principal de nosso tema: genuína".21
As imagens do sonho brincam com a consciência meio No que se refere ao perigo dos pesadelos, quando
desperta e fazem com que a mente creia em coisas que estes ocorrem com frequência e de maneira intensa,
não existem na realidade. De modo que as formas ou fi- Borner22 diz que um grau intenso de dispneia, com seu
guras deste mundo extravagante das histórias de contos correspondente retardamento da circulação do sangue,
de fadas, nas quais a pessoa vê a si mesma transfigurada, com facilidade poderia provocar uma hemorragia cerebral
permanecem como um eco perante a consciência obnu-
bilada, fazendo a pessoa crer que está observando essas e, inclusive, um edema agudo no cérebro. De acordo com
coisas completamente desperta, quando de fato ainda não Radestock,23 os pesadelos às vezes precedem à enfer-
despertou por completo. A embriaguez do sono constitui midade mental e se fazem presentes quando existe um
um solo fértil para todo tipo de engano dos sentidos ... sopro cardíaco orgânico ou síndrome asmática, assim
Uma pessoa em estado de embriaguez do sono que está como, de uma maneira recorrente, também nos estados
totalmente persuadida que é dona de si mesma está ven-
do somente fantasmas que a assaltaram quando estava mais avançados da hipocondria e histeria. Na opinião de
adormecida, e agora as vê de olhos abertos como em um Macnish,24 pode se produzir apoplexia ou também ser a
estado de consciência aparentemente normal. 19 causa de ataques epiléticos e de histeria em pessoas que
sejam anormalmente sensíveis.
Em seu Physiologie der Nervenfaser, H. Meyer20 ofere- Por último gostaria de acrescentar algumas palavras
ce numerosos exemplos característicos dessa continuação acerca do que foi observado mais recentemente no que
da aparição do sonho após o despertar. Devo apenas cha- concerne à composição das aparições dos pesadelos. Os
mar a atenção sobre isto de que, depois de despertar, tais pesadelos, segundo a descrição de Macnish25 - que, por
fenômenos permanecem durante algum tempo e se situam sua vez, sofria com muitos pesadelos -, são extraordina-
diretamente no limite entre o sonho e a alucinação - quer riamente variados, mas, em geral, se podem distinguir
dizer, entre a consciência normal e a consciência pertur- dois tipos: alguns são terríveis e causam muito medo;
bada. Elas diferem de modo meramente quantitativo das
alucinações da insanidade pela sua duração mais curta; 21 Eulenburgs Realencyclop6adie der gestmmten Heilkunde, ver "Deliruim"
de Mendel, 464.
22 BORNER, op. cit., 10.
23 RADESTOCK, Paul, "Schalfund Traum, ein physiologishe-psychologische
18 TYLOR, E. B., Primitive Culture, Vo1.2 (Londres, 1903), 192. Untersuchung" (Leipzig, 1789), 130.
19 CUBASCH, op. cit.,25. 24 MACNISH, op. cit., 142.
20 MEYER, H., Psysiologie der Nervenfaser, 309. 25 Ibid., 125.

154 155
outros são mais leves e benévolos e, em algumas ocasiões, ocasiões se trata de um homem e em outras de uma
até mesmo voluptuosos (eróticos). O pesadelo cria uma mulher; pode ser feio ou bonito; algumas vezes, pode ser
impressão terrível e ameaçadora, especialmente quando um duende de aparência quase humana ou um gigante
nele aparece um animal peludo, como umpoodle preto e enorme. A aparição pode ser muda ou pode conversar com
peludo - a forma mais habitual na qual se encarnam os a pessoa que dorme. Com relação a isso, Borner diz que
demónios malignos. Outras formas frequentes são: o gato, "só raramente o monstro é selvagem e às vezes a mulher é
a marta, o ouriço, o rato, o urso, o bode, o porco, o cavalo, o até mesmo encantadora. Nesses casos, o monstro fala e às
tigre, a serpente, o sapo, a enguia, o dragão e, finalmente, vezes incautamente revela o futuro da pessoa encantada.
um híbrido peculiar, metade cachorro e metade macaco. Aqui, a aparição é vista como um emissário da divindade,
A forma do animal no qual o pesadelo encarna parece da qual se aceita com um coração disposto tanto os tor-
depender essencialmente - como já vimos - da natureza mentos quanto os benefícios".27 A forma pode ser de um
da obstrução respiratória que produz a dispneia, como, ser vivo ou morto. É evidente que isso levou a se supor
por exemplo, a qualidade da roupa de cama que obstrui que tanto o ser vivo - bruxas, por exemplo - como o morto
o nariz e a boca. Pode ser suave e branda, ou áspera e possuem o poder de aparecer nos sonhos de uma pessoa
dura. Meyer26 explica que a aparição de um ouriço pode que dorme para atormentá-la. Assim, Spitta reporta o
se produzir com facilidade se a pessoa que dorme está de caso de uma moça de dezoito anos, com um grau avançado
barriga para baixo sobre um leito de palha. O oposto seria de tuberculose e grandes dificuldades respiratórias, que,
o demónio do pesadelo vestido com a pele de uma toupeira, a cada vez que dormia, tinha um sonho horrível no qual
que corresponde naturalmente a uma obstrução respira- sua defunta avó entrava pela janela e se enroscava sobre
tória produzida por um material suave. Ocasionalmente seu peito para esmagá-la até a morte. 28 Outro pesadelo
a aparição se mostra na forma de um objeto inanimado reportado por Radestock é o seguinte:
- tal como um fiapo de palha, uma penugem ou fumaça
C~rta vez, nas primeiras horas da manhã, vi aparecer à
- e isso pode ser facilmente explicado pelo fato de que, mmha frente, aos pés da cama, uma pequena besta horrível
ao despertar de um pesadelo, a pessoa que dormia tinha e de forma quase humana. Pareceu-me que era de estatura
entre seus dedos cerrados um fio de palha ou penugem mediana e que tinha um pescoço fino, era magro com os
de seu colchão. Então, a pessoa imagina que tais objetos olhos muito negros e a testa enrugada. O nariz era adunco,
são a forma final assumida pelo demónio do pesadelo que a boca grande, os lábios proeminentes e a barbicha curta e
pontuda. Aliás, tinha uma barba de bode, orelhas pontiagu-
a assolou, ou bem imagina que a fumaça que preenche das - como Pã - o cabelo sujo e seco, dentes de cachorro, o
o quarto e a atormenta ao despertar, pois dificulta sua peito proeminente, uma corcunda, quadris murchos e suas
respiração, não é nada mais que a metamorfose final do roupas sujas. O fantasma se agarrou na extremidade da
demónio. cama, sacudindo-a com uma força enorme e disse: ''Não
Se o espectro aparece sob forma humana, pode ado- vai permanecer aqui por muito mais tempo!" E quando
tar formas extraordinariamente diversas. Em algumas
27 BORNER, op. cit., II.
d 28 SPITTA, H., Die Sclaf-und Traumsustande der menschlichen Seele 2a
26 MEYER, H., Germanische Mythologie (Berlim, 1891), 107. e . (Tübingen, 1882), 242. '

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o terror me despertou ... eu saltei da cama e me dirigi tanta gente. Puseram-se a dormir sobre um pouco de
rapidamente ao claustro e me joguei em frente ao altar, palha e não tiraram suas roupas, pois não tinham com o
onde permaneci por longo tempo, paralisada pelo terror. 29 que se cobrir. O esgotamento, as precárias condições nas
quais dormiam e os uniformes que os oprimiam causaram
a excitação psicológica que não tardaria a dar lugar a
Em algumas ocasiões, durante o pesadelo podem
uma aparição que todos eles conheciam, uma vez que os
surgir aparições coletivas, como aquelas que chamamos de habitantes do lugar os tinham advertido de que sentiam
terrores do pânico nas doenças mentais. Isso significa que algo misterioso naquela abadia, onde o Diabo rondava sob
um grande número de pessoas é atacado ao mesmo tempo o disfarce de um cachorro negro e peludo. 31
pelo pesadelo e, como se se tratasse de uma epidemia, to-
das as pessoas têm as mesmas visões. Baseando-se nessas Os sonhos eróticos descritos por Bõrner como ocasio-
"aparições coletivas", Krauss 30 supõe que quem produz nalmente associados aos pesadelos podem ser divididos
essas aparições é um "Alpmiasma" específico (miasma de em dois tipos, a depender do sexo do demónio erótico que
pesadelo). A esse respeito, um interessante exemplo desse lhe aparece. Geralmente - mas não necessariamente-,
fenómeno é reportado por Radestock: a aparição do demónio depende do sexo da pessoa que
está dormindo. Por essa razão, na atualidade a supers-
Um batalhão inteiro de soldados franceses que estavam
aquartelados em uma velha abadia perto de Tropea, na tição germânica faz distinção entre o fantasma amoroso
Calábria, foi atacado por um pesadelo durante as horas feminino (mare) e o masculino (mar). O primeiro é muito
centrais da noite. O batalhão inteiro se levantou da cama mais frequente. De acordo com a crença popular medie-
como um só homem, e tomados de um terror de pânico, val, e também atual, os demónios e as bruxas - ou seja,
os soldados saíram correndo para fora. (Note-se aqui a os seres vivos demoníacos - aparecem sob ambas as for-
estrita relação que existia entre o pesadelo e o terror do
pânico do homem e dos animais.) Quando foi perguntado a mas para seduzir ou atormentar nos sonhos de homens
esses soldados sobre o que os havia assustado tanto, todos e mulheres. (Nos vêm à memória os íncubos e os súcubos
responderam que um diabo, sob a forma de um enorme da Idade Média.) De fato, existem numerosos contos de
cachorro negro e peludo, tinha entrado pela porta e tinha fadas e lendas altamente românticos nos quais as pes-
saltado sobre seus peitos com a velocidade de um raio e soas que dormem se enamoram do fantasma amoroso
em seguida desaparecido por outra porta, situada à frente
da entrada. A mesma cena se repetiu na noite seguirtte. e inclusive têm filhos com ele. Obviamente que alguns
Apesar de os soldados terem se distribuído por todas as são os resultados de dolências sexuais orgânicas, como,
partes para fazer guarda contra o diabo, não houve força em particular, demonstra Krauss em seu Der Sinn im
humana capaz de fazer os soldados voltarem para seus Wahnsinn. 32 Como exemplo, citarei aqui somente dois
quartos. Essa manifestação extraordinária tem uma fácil casos bastante críveis, um dos quais tendo sido observado
explicação. Esses soldados tinham feito, em um quente dia
de junho, uma marcha forçada de 25 milhas e em seguida por uma autoridade não inferior a Esquirol. No primeiro
os colocaram nesta abadia, que era muito pequena para deles, uma mulher doente mental com afecções uterinas

29 RADESTOCK, op. cit., 126. 31 RADESTOCK, op. cit., 126.


30 KRAUSS, A., Der Sinn um Wahnsinn, 632 (citado em SPITTA, 236 88.). 32 KRAUSS, op. cit., 618.

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asseverou com total seriedade que havia sido a esposa
do Demônio por um milhão de anos, que tinha dormido
com ele todas as noites e que havia lhe dado quinze fi- A NATUREZA
lhos. O outro caso veio de Radestock, que descreve como E A ORIGEM DO PESADELO
Salomão Maimonides, tendo estudado a Cabala por muito À LUZ DA MEDICINA ANTIGA
tempo, sonhou que o demônio Lilith se deitava sobre ele,
enquanto em outro momento, após ter se ocupado com
ideias exaltadas, desfrutou em sonhos do abraço amoroso
da angelical Shekinah. 33 Em Rodestock, podemos ainda
encontrar um exemplo especialmente interessante de um
sonho sensual mesclado de sentimento erótico (relação
física com Cristo).34 Também se pode estabelecer uma Tendo objetivamente exposto as teorias correntes
comparação com as histórias referentes ao nascimento sobre a natureza e a origem do pesadelo, estamos agora
de Merlim e de Roberto, o diabo. em firme posição para analisar a atitude dos médicos
antigos.
O primeiro médico grego que seguramente sabemos
ter se ocupado do pesadelo em suas investigações cientí-
ficas foi Temison de Lodicea. Contemporâneo de César e
Cícero, ele foi o fundador da escola metódica. Lamentavel-
mente, a única coisa que sabemos é que, em suas cartas,
ele não denominava o pesadelo como ephialtes ("aquele
que salta"), como faziam os outros médicos, mas usava
um termo mais raro e, ao mesmo tempo, característico:
pnigalion ("aquele que se afoga"). Podemos obter infor-
mações muito mais exatas sobre as teorias do membro
mais destacado da escola, Sorano, que, em proximidade a
Hipócrates e Galeno, foi provavelmente o mais produtivo
e significativo dos médicos da Antiguidade. Suas visões
há muito são conhecidas graças à adaptação latina de
Célio Aureliano 1 (século V) e, em grande parte, aos tra-
t,ados médicos tardios, em especial a obra de Paulo de
Egina (século VII), Oribásio (século IV-V) e Aécio (início
do século VI).

33 RADESTOCK, op. cit., 128.


34 Ibid., 289, n. 133. 1 AURELIANO, Célio, Morb. Chron., i, I cap.

160 161
À guisa de informação, em época anterior a Sorano, atos mais vis: acreditam que se agarrarem seu opressor,
sabe-se que Rufo de Éfeso já havia tecido considerações ele desaparecerá".2 A passagem é absolutamente clara e
acerca do pesadelo. Comparemos os fragmentos con- obviamente significa que, de acordo com a crença popular,
servados de Rufo com os fragmentos do médico árabe a pessoa torturada pelo pesadelo deve agarrar o monstro
Rhazes, citados por Darmberg e Ruelle em sua edição de com seus dedos se deseja que ele vá embora. Essa crença
Rufo: "quando alguém estiver acometido por um íncubo, também existe na Alemanha e entre os eslavos. Laistner
prescreva eméticos e laxantes, coloque o paciente em uma diz: ''Aquele a quem a Murawa oprime deve tocar seu dedo
dieta leve, purgue sua cabeça com espirros e gargarejos mínimo do pé e então ela irá embora.". "Deve-se segurar
e depois o esfregue com óleo de castor ou similares para com firmeza o dedo de Pschezolnica (um espírito feminino
prevenir a epilepsia". eslavo) e então ela fugirá." "Deve-se imobilizar a Mura-
Também encontramos uma passagem sobre o pesade- wa ou bruxa do pesadelo, ou agarrá -la pelos cabelos". 3 A
lo no antigo escritor bizantino Miguel Constantino Pselo expressão "com os dedos fechados", utilizada por Paulo de
(século XI), bem como no Anecdota Graeca e Graecolat, Égina, não é de trivial explicação, pois não fica claro se ele
II, editados por V. Rose, nos quais encontramos várias se referia aos dedos do demónio do pesadelo ou aos dedos
reminiscências da teoria do pesadelo de Sorano. da vítima. Se a primeira hipótese valer, então suas pala-
No que concerne aos pontos de vista dos médicos vras são idênticas às de Sorano; mas se valer a última,
da Antiguidade sobre a natureza do pesadelo, a própria então nós nos lembramos da antiga superstição de que
expressão pnigalion ("aquele que se afoga"), que pro- esfregar as mãos ou apertar os punhos eram antídotos
vavelmente Temison tomou emprestado do vernáculo, efetivos para a magia. Segundo Wuttke,4 o pesadelo pode
mostra que, para ele, "afogar-se ou ser estrangulado" é a ser disperso colocando-se o polegar embaixo dos dedos.
característica mais essencial do pesadelo, sintoma ao qual Veckenstedt5 e Laistener6 dizem que qualquer um que
Sorano, Oribásio, Aécio, Paulo de Égina e outros também tenha sucesso em apertar seu dedão três vezes contra
deram especial atenção. Outros sintomas mencionados a armação da cama espantará a Murawa. Todas essas
incluem as sensações do adormecido de ter alguém sen- crenças derivam do fato observável de que o pesadelo
tado sobre seu peito ou que salta de repente sobre ele e o desaparece assim que o adormecido recupera sua capa-
esmaga com seu peso. O sofredor experimenta incapacida- cidade de movimento por meio de um leve movimento
de de mover-se, entorpecimento e incapacidade de falar. dos dedos das mãos ou dos pés.
Qualquer tentativa de falar resulta em sons ~esconexos Os médicos gregos também observaram epidemias
e inarticulados. Segundo Sorano e Paulo de Egina, essa regulares de pesadelos. Célio Aureliano escreve: "Silímaco
impressão talvez se deva ao fato de que o demónio que (confundido com Calímaco), pupilo de Hipócrates, explica
está sobre o peito do sonhador deseja violá-lo, mas que
desaparece tão logo o sonhador tenta agarrá-lo em seus
2 Ibid.
dedos ou una suas mãos ou ainda cerre seus punhos: 3 LAISTNER, op. cit., 1, 41; 1, 52; 1,53.
"Alguns estão tão afetados pelas visões que acreditam 4 WUTTKE, Der Deutsche Volksaberglaube der Cegenwart, § 419.
5 VECKENSTEDT, Wendische Sagen, 13!.
que elas os estão atacando e os forçando a cometer os 6 LAISTNER, op. cit., 230.

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que muitos se contagiaram por pesadelos como na praga mesmo pesadelos eróticos como epilepsias incipientes,
que assolou a cidade de Roma". Obviamente, ele se refere especialmente porque os ataques epiléticos são associados
ao Calímaco hipocrático, que foi discípulo de Herófilo no com frequência à gonorreia sem que o instinto erótico
segundo ou terceiro século a.C. Os escritores antigos, e (cupido) se faça presente. Assim que o ataque tenha pas-
especialmente Sorano, enfatizam que o pesadelo pode ser sado e a vítima despertado, pode-se observar que o rosto
considerado como uma enfermidade perigosa somente e os orifícios corporais estão cobertos por suor úmido, o
quando ele afeta repetidamente a mesma pessoa. Sob es- paciente sente peso na nuca e tem uma suave e irritante
tas circunstâncias, poder-se-ia ter clorose, emagrecimento, tosse. Essa tosse é supostamente uma sequela natural da
insônia, constipação e, se os ataques forem especialmente dispneia precedente.
violentos e frequentes, epilepsia e morte. Sorano acredita No que diz respeito à etiologia ou à causa do pesadelo,
que, em essência, todo pesadelo é igual a um ataque epilé- os antigos já tinham notado que ele frequentemente se
tico. (Antes mesmo de Sorano, o médico Rufo de Éfeso ex- originava de problemas digestivos provocados por sobrea-
plicava o pesadelo como um sinal de epilepsia incipiente.) limentação, por excessos alcoólicos ou por algum alimento
As vítimas de um pesadelo sofrem quando adormecidas indigesto. Naturalmente, os antigos nada sabiam acerca
exatamente do mesmo modo como se tivessem um ataque da possibilidade do pesadelo ser causado pela obstrução
epilético quando despertos. Dessa forma, o mal deve ser das vias respiratórias, como primeiramente notado por
energeticamente tratado desde a raiz, impedindo a croni- Borner. Outra característica corretamente observada nos
ficação desta condição e, assim, permitindo o surgimento tempos antigos é que o estado de embriaguez de sono ou a
de epilepsia, enfermidades mentais ou apoplexia. (Sorano transição entre o estado de vigília e de adormecimento é
descreve como epiléticos aqueles que têm sonhos pesados e muito favorável à produção de pesadelos; e que as visões
atrozes e que facilmente enlouquecem.) Como fiéis pupilos do sonho podem persistir tão vividamente por um período
e seguidores de seu grande mestre Hipócrates, os médicos antes do adormecer ou depois do despertar que o ador-
antigos veementemente se opuseram à crença popular de mecido pode se enganar crendo que sua visão se passou
que o pesadelo era um deus ou espírito malvado. Sorano, com seus olhos abertos e que, portanto, ela é real. Assim,
em particular, refuta detalhadamente essa superstição por exemplo, Macróbio, provavelmente baseando-se em
em sua Etiologia. Célio Aureliano escreve: ''A enfermida- algum dos médicos antigos, afirma:
de anteriormente mencionada é, contudo, uma epilepsia Fantasma é de fato uma visão que, segundo dizem, entre
incipiente. Sorano explicou muito convincentemente em a vigília e o sono profundo - naquelas primeiras brumas
seus livros dedicados às causas da enfermidade, por ele do sono quando se crê que se está acordado, mas que se
intitulado Etiologia, que não se trata de um deus, nem acaba de cair no sono -, parece estar forçando seu caminho
de um semideus nem de Cupido" (confundido aqui com em formas errantes, de tamanho, forma ou caráter variá-
vel, tanto alegres como terríveis. Efialtes é desse tipo, e a
concupiscência). Presumo que Sorano se refira aos pesa- crença popular diz que se aproxima daqueles que dormem,
delos eróticos e aos ensinamentos de Herófilo, segundo o e se instala sobre eles e os oprime severamente. 7
qual nossa concupiscência ou nosso instinto erótico pode
produzir sonhos dessa natureza. Sorano considera até 7 MACRóBIO, Somn. Scrip., I, 3, 7.

164 165
A opinião médica mais moderna confirma que a mortos, contra os quais se defendiam com sacrifícios de
ilusão dos sentidos frequentemente ocorre no estado que purificação e expiação, assim como com encantamentos.
diretamente precede o sono. Até mesmo um leigo seria capaz de ter muitas e fre-
O fato de que certos adoecimentos - especialmente quentes oportunidades de presenciar esses delírios de pe-
aqueles associados à febre agitada - produzam uma sadelo e alucinações durante os processos febris, de modo
grande variedade de visões horrorosas de pesadelo e de que não nos soaria estranho que às vezes os conceitos de
vívida intensidade era bastante familiar aos médicos febre e pesadelo se confundam com o demônio do pesade-
antigos. Comparemos, por exemplo, com Hipócrates: "o lo habitual, Efialtes, e que o chamem repetidamente de
mal nestas febres e cólicas (contorções) dos sonhos", 8 Ipíalos e Ipíalis. Aristóteles, em seu Acerca dos sonhos,
ao que Galeano acrescenta: "Nós também notamos, em reconheceu a estreita relação existente entre os delírios
certas enfermidades terríveis, opressão, medo e cólicas e os sonhos quando escreveu: "encontramos os mesmo
provocados pelos sonhos". Novamente Hipócrates: "De- sintomas nas pessoas assustadas pelos seus sonhos, pois,
pois que ele foi dormir, despertou-se sobressaltado ao ter de fato, os sonhos provocam doenças". E está claro aqui
monstruosas visões" (anteriormente a essa frase, ele fala que Aristófanes pensa em febres severas combinadas com
de febre). Em seguida, ele continua: "Crítias relata sobre perigosa dispneia, em pesadelos e demônios, quando se
sonhos febris". Galeno: "Eu chamei aqueles que têm uma orgulha de ter lutado como um segundo Hércules: "Por
enfermidade física de 'perspicazes' e aqueles que estão vós ele lutou, por vós ele luta: / E então no ano passado,
assustados com seus sonhos de 'profetas e adivinhos por com mãos aventureiras / Ele lutou ademais com Formas
meio de fantasmas"'. Espectrais / Os Calafrios e Febres que assolaram nossa
Em Metamorfoses de Ovídio, são esses medos que, terra".9
segundo Hipócrates, também atacariam as pequenas Os remédios e a disciplina dietética empregados
crianças em seu sono (como notado acima, os pavores noc- pelos doutores antigos para pesadelos estavam estreita-
turni), e de quem o deus dos sonhos, Fobetor, claramente mente alinhados com suas visões acerca de sua origem.
deriva seu nome; a ele se atribuem em particular toda a A maioria e os mais importantes desses remédios tinham
sorte de aparições de animais aterrorizantes. É provável por objetivo remover os humores mórbidos e prejudiciais
que as coisas espantosas e monstruosas, a confusão dos e substituí-los por outros benéficos - método esse que cor-
sentidos e a fuga assustada da cama também pertençam responde à teoria básica dos humores na medicina antiga.
a esse contexto, isto é, que façam parte desses delírios A principal terapia usada iniciava-se com a prática da
noturnos e pesadelos que antes eram considerados como flebotomia e com o uso de diversos tipos de purgantes.
sinais de epilepsia em amplo sentido e dos quais se ocupa Um deles era uma mistura de heléboro negro com suco
Hipócrates em sua obra A doença sagrada. Aprendemos de convolvulus no qual acrescentavam anis, cáucus e sal-
com Hipócrates que as pessoas acreditavam que esses sa. Outro famoso remédio caseiro da época consistia em
eram sinais da influência dos espíritos malignos dos sementes negras de peônia, que eram utilizadas contra

8 HIPOCRATES, Aphor., III, 736, K. 9 ARISTOFANES, Vespae, 1037 SS.

166 167
medo, demônios, epilepsia e febre fria, isto é, pesadelos Encontramos também a mesma - e provavelmente a
e delírios de todos os tipos. Galeno também recomenda mais antiga - superstição popular em Porfírio. Este autor
o heléboro e a flebotomia para apoplexia, epilepsia e afirma, a propósito dos demônios causadores de pesadelos,
melancolia. De acordo com Dioscórides, uma mistura de que eles entram no corpo humano com a comida e que
heléboro e escamônea deveria ser usada para propor- causam todo tipo de prejuízo, em particular, provocando
cionar catarses para epilepsia, melancolia e insanidade flatulência: "Quando comemos, entram em nós e se insta-
(delirium). No vernáculo, a peônia até mesmo recebia lam, poluindo-nos, e não por interferência divina. Por via
o nome de Ephialtion. Para um tratamento dietético de regra, eles se deleitam com o sangue e a imundície e
efetivo, Sorano e Célio aconselham vários dias de jejum invadem o possuído. Em resumo, uma compulsão de avidez
seguidos de uma dieta a base de alimentos facilmente e desejo, um estado geral de excitação turva o pensamento
digeríveis, e também evitar cuidadosamente qualquer racional, de maneira que os sons ininteligíveis associados,
alimento que produza flatulência, especialmente feijões. bem como a flatulência, causam ao homem uma crise
Os feijões eram terminantemente proibidos pelos pita- que satisfaz o demônio".u Parece evidente, a partir de
góricos, pois se acreditava que eram muito indigestos um fragmento encontrado em Proclo, que Porfírio, ao
e causavam sonhos perturbadores e pesadelos devido a falar de flatulência provocada por demônios maléficos,
sua ação flatulenta. Plínio o velho até mesmo menciona provavelmente pensava nos atrozes demônios dos sonhos
uma surpreendente superstição em que se acreditava e nos pesadelos que habitam determinados alimentos
que "as almas dos mortos", isto é, os espíritos malignos, prejudiciais. Zeller relacionou essa afirmação às antigas
habitavam nos feijões. 10 Essa ideia é imediatamente crenças sobre os íncubos.1 2 Os sons ininteligíveis muito
compreensível se lembrarmos de que se acreditava que provavelmente se referem não somente aos arrotos e à
os espíritos malignos atuavam pessoalmente nos sonhos flatulência, mas também aos gemidos inarticulados da
malignos, pesadelos e enfermidades para alarmar e vítima atormentada pelo pesadelo.
atormentar aquele que dorme ou o enfermo com suas Os elementos constitutivos da aparição no pesadelo
aparições. Donde a crença de que habitam determinados clássico são aproximadamente os mesmos do pesadelo
alimentos perniciosos e que a ingestão desses alimentos moderno. Também na época clássica o espectro era às
poderia induzir temporariamente a penetração de espí- vezes aterrador ou erótico e, em outras vezes, uma combi-
ritos no corpo humano. O mais importante dos demônios nação de ambos os aspectos; ele se mostrava sob a forma
que habitava as plantas era Dioniso, o deus do vinho, humana (homem ou mulher), ou em uma forma parte
da hera e talvez também do cânhamo, particularmente humana e parte animal. Em geral, o conceito mais aceito
dotado de força narcótica. Ele era diretamente identifi- sobre a essência do espectro era de que ele ou ela era um
cado à hera e à vinha e, ao transferir-se aos homens que demônio maligno - particularmente, um espírito maligno
desfrutavam do produto dessas plantas, ele os animava dos mortos - que desejava torturar os homens enquanto
e inspirava, possuindo-os, de fato.
11 PORFIRIO, De Philos. Ex. Orae. Haur., ed. Wolff, 149.
10 PLINIO (o Velho), Naturalis Historia, 18, 118. 12 ZELLER, Philos d. Gr., 111,604.

168 169
dormiam. Nada obstante, havia uma antiga crença popu- pelo fantasma de um sátiro que não tinha boas intenções
lar segundo a qual as pessoas malvadas, como as bruxas com as mulheres e sobre o qual se dizia, inclusive, que
ou feiticeiras, também podiam aparecer sob a forma de tinha matado duas por quem havia se apaixonado. (Um
pesadelo. Finalmente, em diversos lugares constatava-se demônio do amor semelhante, Asmodeu - do hebreuAsch-
a aparição de um espírito de pesadelo amável e benévolo modai, aquele que destrói casamentos, "o diabo manco" -, é
que presta um serviço precioso ao homem, pois o curava, mencionado no Livro de Tobias. Ele estava apaixonado por
revelava seu futuro ou lhe oferecia tesouros. Isso é bas- Sara, filha de Raquel, e havia matado seus sete maridos
tante óbvio a partir desta pequena seleção de pesadelos, na noite de núpcias. Tobias baniu o demônio para o deserto
que não pretende, de modo algum, ser exaustiva: queimando o fígado de um peixe que havia anteriormente
1. Um bode aparece como um espírito de pesadelo pescado.) A história continua explicando como Apolônio
na novela retórica de Jâmblico, da qual, infelizmente, só domou o sátiro e o tornou inofensivo ao embriagá-lo com
se conservou um breve resumo na Biblioteca de Fócio: vinho - assim como fez Midas com Sileno (ou sátiro) - e
"o espectro de um bode cobiçou Sinónide; então, eles o baniu para uma gruta de ninfas nas redondezas. Fi-
fugiram através dos prados de Ródanes", isto é, o casal lóstrato acrescenta um fruto paralelo e posterior de sua
de amantes, Ródanes e Sinónide, protagonistas da no- própria experiência quando afirma:
vela, que escaparam da perseguição do rei de Babilônia Não devemos duvidar de que os sátiros existam nem de
através de uma pradaria, são guiados por um demônio que são suscetíveis de experimentar a paixão do amor;
de pesadelo em forma de bode que, por sua vez, ataca a pois conheço em Lemnos um jovem da minha idade cuja
bela Sinónide em seu sono. Uma vez que Jâmblico era mãe, pelo que se dizia, era visitada por um sátiro, algo
perfeitamente possível, a julgar por esta história; pois ele
sírio de origem - e, por consequência, semita - e tinha se apresentava com uma pele de cervo que se ajustava com
se criado na Babilônia, provavelmente esse bode é um perfeição aos seus ombros, com suas patas dianteiras ao
dos chamados sair, isto é, um dos fantasmas ou demônios redor do pescoço e atadas sob o peito.
campestres relacionados aos pãs, aos sátiros e aos fau-
nos repetidamente mencionados no Antigo Testamento. Considerando a frequente mistura dos conceitos de
Mannhardt o tinha anteriormente conjecturado de modo Pã e Sátiro (Fauno) na era helenista, poder-se-ia pensar
correto. novamente em Pã como o principal representante dos
2. Filóstrato conta uma história análoga em A vida pesadelos nos últimos séculos da Antiguidade clássica.1 3
de Apolônio de Tiana (6,27) sobre um espírito de pesadelo A lenda da procriação do sofista Apsines é provavelmente
erótico que aparecia sob a forma de um sátiro. Enquanto baseada em um conceito similar. Pode-se supor que sua
Apolônio e seus companheiros encontravam-se jantando mãe imaginava ter mantido relações sexuais com Pã em
em um povoado da Etiópia, não longe das cataratas do um sonho e posteriormente acreditado que Apsines era
Nilo, de repente ouviram vozes de mulheres que gritavam filho de Pã, especialmente porque o sofista tinha certa
umas com as outras: "Detenham-no, persigam-no!". Tam-
bém pediam a seus maridos que castigassem o "adúltero".
13 Comparemos com FÜRTWÀNGLER, Der Satyr aus Pergamon, 30 ss.
Esse povoado estava sendo assombrado j á havia dez meses
171
170
semelhança com o deus. De todo modo, a história de sobre o íncubo: "Os que sofreram este mal durante um
Apolónio de Tiana, tal como narrada por Filóstrato, é longo período estão pálidos e magros, pois seu medo os
excepcional por relatar uma epidemia de pesadelos que já impede de adormecer". Plutarco também constata que so-
durava dez meses - no caso, a que assolava as mulheres nhos e pesadelos aterradores geralmente terminam com
do povoado etíope. Depois das analogias anteriormente um súbito despertar, o que algumas vezes é seguido de
citadas, não obstante, tal evento não é, de modo algum, um mal-estar físico. O terceiro verso do epodo apresenta
improvável. mais que um problema; ele parece sugerir um arranhado
3. Um tipo de pesadelo que poderíamos deduzir a ou dilaceramento do rosto por uma entidade dotada de
partir de Horácio 14 tem um caráter completamente di- garras. Talvez isso se explique se pensarmos nas "gran-
ferente e não erótico. Nestes versos, um desafortunado des garras" da deusa do destino em Hesíodo,16 nos pés
rapaz é assassinado sem piedade por várias mulheres que com garras das harpias e das sereias e, finalmente, nas
se assemelhavam a bruxas para conseguir uma poção do do Caronte etrusco. Como assinalei recentemente, no
amor e, pouco antes de morrer, ameaça suas assassinas conceito original da forma de abutre desses demónios
sedentas de sangue com estas palavras: dos mortos, eles conservaram essas garras. Comparemos
também com Gervásio de Tilbury,17 em cujo capítulo
Tão logo vocês tiverem satisfeito sua raiva e eu expirar
Meu fantasma irá assombrá-las em todas as noites. acerca de "Bruxas e Espectros Noturnos", as lâmias
Vou mutilar suas bochechas com minhas unhas recurvadas, são interpretadas como "lamiae de laniando = lacerado,
Pois tal é o poder que os Manes dão aos espectros. pois elas laceravam crianças". Mais sobre esse tema
Toda noite, recaídas sobre seus conturbados peitos pode ser encontrado em Mitologia Germânica dos irmãos
Vou afugentar seus sonos com temor e tremor. Grimm.
O mesmo permanece verdadeiro acerca das striges
Obviamente que a desafortunada vítima ameaça romanas, demónios em forma de coruja com garras recur-
suas assassinas com a ideia de que sua morte o conver- vadas e bicos de abutre, que dilaceravam as bochechas
terá em um espírito terrível, um demónio do pesadelo, e das crianças e devoravam seus intestinos à maneira dos
lhes dará uma assustadora vingança. (Comparando com abutres. IS Comparemos também com o que afirma Dínon
Porfírio: "os lémures, as sombras dos mortos vagantes ,na na obra de Plínio 19 sobre as sereias indianas: "cativam
madrugada, devem ser muito temidos".)15 O pesadelo é os homens com seu canto e quando eles caem em sono
evidenciado de uma maneira clara no segundo e quinto profundo, fazem-nos em pedaços". De acordo com uma
verso - comparemos com a imagem "subindo e pousando moderna superstição grega, os Kalikantsaroi, que perten-
sobre o peito" que Sorano (através de Célio) utiliza a cem a esse tipo de demónio, também dilaceram os rostos
respeito do pesadelo. Novamente, o último verso mostra daqueles que encontram durante a noite. Presumo que
uma admirável explicação em Sorano, quando este fala
16 HESÍODO,Aspis, 254,
17 GERVÁSIO de Tilbury, atia Imper., 39,
14 HORACIO, Epodi, 5, 91 SS, 18 OVÍDIO, Fasti, 6, 134,
15 Porfírio, De Philos, Ex. Orae, Haur., 2, 2, 209. 19 PLÍNIO (o Velho), Naturalis Historia, 10, 136.

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esse tema é explicado pela observação de uma erupção alma dos vivos possui o poder de sair do corpo durante
facial chamada Epinuktis, que aparece repentinamente o sonho e aparecer no sonho dos outros, transmitindo
durante a noite. Isso ocorre especialmente nas crianças assim um tipo de realidade. (Estou me referindo à saga
e está associado a terríveis pesadelos. escandinava das Fylgjur.) Depois de um jantar suntuoso,
Com frequência, as vítimas aparecem para seus abundante em carne e bebidas, Aristómene vai dormir
assassinos durante a noite em sonhos ou em alucinações com seu amigo Sócrates. O último rapidamente cai em
quando estão meio despertos, mas ainda embriagados sono profundo. Aristómene, entretanto, tranca a porta e
pelo sono. Assumem a forma de demónios fantasmagó- coloca sua própria cama contra ela para maior proteção.
ricos, aterrorizam suas vítimas e predizem seu destino Quando por fim se deitou para dormir, a porta se abriu
iminente. Um exemplo disso é o fantasma de Júlio César com um forte estrondo e muita força. A cama voou pelos
assassinado que apareceu para Brutus e Cássio. Plutar- ares e ele acabou caído por baixo dela. Ao mesmo tempo,
co chama o fantasma que aparece para Brutus de "teu entraram duas bruxas velhas que atravessaram seu ami-
daimon maligno". Segundo Valério Máximo, o mesmo go adormecido com uma espada, roubando-lhe o sangue e
é verdadeiro para o "homem de enorme estatura, pele fechando a ferida com uma esponja. Em seguida, as bruxas
negra, com uma barba suja e cabelo despenteado" que atacaram Aristómene, banhado que estava com o frio suor
aterrorizou Cássio Parmese pouco antes de sua morte do medo. Elas o tiram debaixo da cama e, diz ele: "sobre
"no primeiro sono, quando estava dormindo em seu divã, meu rosto esvaziaram suas bexigas, me encharcando com
atormentado pela angústia e por problemas". 20 Em ambos a mais nauseabunda das urinas". (O kallikántzaros grego
os casos, o demónio maligno não pode ser outro que não moderno, que se relaciona em muitos aspectos a Pã e os
Júlio César ou seu gênio pessoal. A descrição é muito sátiros, age de maneira similar.) Nesse pesadelo clássico,
provavelmente a de um pesadelo e, contudo, ainda fal- encontramos mais uma vez quase todas as características
tam alguns de seus sintomas mais característicos, como que os médicos da Antiguidade consideravam específicas
o sobressalto, a pressa e a sensação de um peso sobre do pesadelo: um pesadelo causado por má digestão, pro-
si; o mesmo procede para o sonho aterrador de Cecina fusa sudorese, no rosto em particular (Sorano, através de
em Tácito. 21 Célio: "Então, quando despertam de seu sonho, o rosto e
4. Em um pesadelo dramaticamente descrito por as partes utilizadas na deglutição estavam molhados e
Apuleio,22 há duas bruxas que aparecem para o infeliz úmidos"), que provocaram a desagradável impressão de
Aristómene enquanto ele dormia, atormentando-o da bruxas terem urinado em sua cara. Além do mais, a sen-
maneira mais terrível possível. É possível que o conceito sação de pressão e de estrangulamento é perfeitamente
que subjaz na base desse sonho seja similar ao que en- motivada pela cama caída em cima daquele que dormia e
contramos em numerosas sagas nórdicas, isto é, que a as bruxas sentadas em seu rosto. Finalmente, há a penosa
condição e o medo do desafortunado quando acorda que é
dramaticamente descrito: "Sem vida, nu, frio e coberto de
20 VALÉRIO MÁXIMO, 1, 7, 7.
21 JOSEFO, Antiquitales Judaicae, 1,65.
urina, como se tivesse acabado de sair do útero materno
22 APULEIO, Metamorphoses, 1, 11 SS. ou, antes, meio morto".

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5. Em sua história sobre Demarato, rei de Esparta, durante um sonho no qual lhe apareceu Zeus em forma
Heródot023 descreve um esplêndido pesadelo erótico que de um raio. Conhecemos também as histórias sobre os
é de especial importância mitológica, pois grande quan- nascimentos sobrenaturais de Platão, Seleuco e Augusto,
tidade de histórias de nascimentos pode ser explicada bem como a lenda tácia sobre o nascimento de Teágenes;
em analogia a ele. Quando seu adversário Leotíquides e finalmente temos também as fábulas relativas a Zeus e
censurou Demarato dizendo-lhe que não era filho de Alcmena, Zeus e Dânae, Zeus e Sêmele, Marte e Ília etc.
Ariston, visto que o próprio rei carregava sérias dúvidas Mesmo hoje o impulso de fabulação de similares lendas
a respeito de sua paternidade, Demarato foi instar sua não desapareceu de todo. A seguinte passagem de Pashley
mãe, da maneira mais solene possível, a contar-lhe toda lança uma luz acerca do folclore de Creta:
a verdade sobre sua origem. Sua mãe respondeu: Apareceu um vampiro em Anápolis, atormentou as pessoas
Na terceira noite após Ariston ter me levado para sua casa, e violou uma mulher. Induziu os homens a abandonar suas
me apareceu um fantasma que tinha a forma de Ariston, esposas, chamou outros vampiros e fez as mulheres acre-
ele dormiu comigo e colocou suas guirlandas em minha ditarem que eram seus maridos. Quando um dos homens
cabeça. Então, quando essa figura se foi, em seguida che- veio e perguntou: "O que está acontecendo com você?",
gou o Ariston de carne e osso. Ao ver aquelas guirlandas sua esposa respondeu: ''Você me tem usado desajeitada e
em mim, perguntou-me quem as havia dado para mim: frequentemente". O marido, contudo, respondeu: "Não fui
eu respondi que tinha sido ele mesmo, mas ele disse que eu quem veio". Ao que a mulher retruca: "Então era um
não. Então eu disse, e jurei, que ele fazia mal em negar- vampiro". Posteriormente, baniram os vampiros com um
-me; pois que ele havia vindo havia pouco e que eu tinha exorcismo na ilha de Santorini. 24
me deitado com ele e que em seguida ele tinha me dado as
guirlandas. Ariston, vendo que eu falava a verdade, se deu N a Idade Média, os antigos heróis, demônios e deuses
conta de que aquilo era uma coisa divina; com efeito, por que se misturavam com os homens em pesadelos eróticos
um lado, as guirlandas vinham certamente do santuário
do herói chamado Astrábaco; e, por outro, os adivinhos se converteram, naturalmente, em demônios. Às vezes,
responderam que era ele mesmo quem havia me visitado. apareciam como incubi, outras como succubae e, em algu-
Assim, meu filho, você tem tudo o que deseja saber. Pois ou mas ocasiões, geravam filhos que mais tarde se convertiam
você é filho desse herói, e o herói Astrábaco é seu pai, ou em feiticeiros malvados, bruxas etc. Esse conceito desem-
então seu pai é Ariston, pois naquela noite eu te concebi. penhou um grande papel junto aos processos contra as
bruxas. "Die Braut von Korinth", de Goethe, mostra quão
(O mesmo tema aparece na lenda de Roberto, o diabo.) altamente poéticas essas compreensões e representações
Essa fábula nos é valiosa na medida em que ela vem são capazes de ser. O poema se baseia em uma história
de tempos históricos. Ela foi claramente transmitida e de Flegon sobre um vampiro.
faz diversas analogias aos tempos históricos e mitológi- 6. Encontramos ainda outro tipo de pesadelo erótico
cos. Aqui a tradição de Alexandre, o Grande, nos vem à em um interessante relevo helenístic025 cujo conhecimento
mente, cuja mãe, Olímpia, segundo diziam, o concebeu
24 PASHLEY, Travels in Creta, II, 221.
23 HERÓDOTO, 6, 65 ss. (Loeb Library, n. 119). 25 Ver SCHREIBER, Reliefbilder, plate LXI.

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só foi possível mediante a deliciosa obra de Crusius, Die há também as sereias que são as companheiras de Persé-
Epiphanie der Sirene. Uma bela e voluptuosa sereia com fone enquanto ela recolhe flores pelo campo. O golpe de
asas meio estendidas e pernas humanas que terminavam um elfo pode causar claudicação ou trazer alguma doença.
em garras afiadas semelhantes a um falcão se lança sobre Os elfos disparam suas flechas pelos ares e, similarmente,
um pastor ou camponês, aparentemente adormecido ao as "flechadas" de um elfo carregam a morte. O mesmo se
ar livre, com óbvias intenções eróticas. (Comparemos com sustenta verdadeiro para as ninfas. No folclore islandês,
Josefo: 26 "Durante a noite, Mateo parece ter tido relações os elfos mantêm relações amorosas com os seres humanos.
sexuais com uma mulher em um sonho" e, primeiramente, Em estreita conexão com os elfos estão os vampiros, como
as esculturas em que se representa a esfinge debruçando- as empusas ou lâmias, sobre as quais afirma Filóstrato:
-se sobre umjovem reclinado, em que o monstro bem pode- "Estes seres se apaixonam e são devotos dos deleites de
ria significar um demônio do pesadelo.) Crusius assinala Mrodite, mas, especialmente, lhes agrada a carne dos
corretamente que, na literatura helenística - que deve humanos. E ludibriam, com estes prazeres, aqueles que
ser citada para se entender o imaginário -, acreditava- desejam devorar em seus banquetes".28 Aproveitemos
-se que as sereias eram filhas de Aqueloo e uma musa, a oportunidade para recordar da imsomnia Veneris ou
mais parecida com as náiades e, de acordo com Dínon em somni Venerei ("os sonhos maus de Vênus"), que estão
Plínio,27 essas sereias "cativavam os homens com seu can- intimamente aliados à patologia dos pesadelos. Trata-se
to, e quando estes caíam em um sono profundo, mutilavam de sonhos eróticos associados à gonorreia, entendidos
seus corpos". As náiades eram também reputadas como pelos médicos da Antiguidade como sendo os precursores
filhas dos deuses fluviais e especialmente de Aqueloo. ou sintomas de epilepsia e insanidade - assim como os
Encontramos crenças similares a respeito dos elfos pesadelos. As pessoas também os atribuíam aos poderes
no norte da Alemanha. Eles também se distinguem por dos demônios.
sua beleza e pelo seu gosto por se banharem na luz do sol. 7. No Génesis, podemos encontrar um pesadelo evi-
(N ossa sereia também é um demônio do sul.) Se uma elfa dente ou, antes, uma visão de pesadelo. Ali se diz:
deseja unir-se a um homem, ela voa até um raio de sol Levantou-se ainda de noite e tomou suas duas esposas,
para entrar através de alguma abertura que a casa tenha, suas duas servas e seus onze filhos e passou o vau do Ja-
como uma fechadura ou uma fenda no cômodo - exafa- boque. Ele os ajudou a passar a torrente e fez atravessar
mente como os demônios do pesadelo. É perigoso chegar tudo o que tinha. Quando Jacó ficou sozinho, um homem
perto de sua colina e muitos dos jovens que dormiram em se pôs a lutar com ele até o romper da aurora. Vendo que
não podia vencê-lo, atingiu-lhe a articulação da coxa; de
uma colina de elfos nunca mais regressaram (o mesmo modo que o próprio tendão da coxa de Jacó se deslocou
também é verdadeiro para as ninfas). Os elfos gostam de enquanto lutava com ele. Mas o homem disse: "Solta-
dançar nas pradarias à luz da lua. Em correspondência -me. Pois já surge a aurora". Mas Jacó respondeu: "Não
aos elfos que dançam nas pradarias iluminadas pela lua, te soltarei, a menos que tu me abençoes". O homem lhe
perguntou: "Qual é o teu nome?". E ele disse: "Jacó". Ele

26 JOSEFO, Antiquitates Judaicae, 17, 6, 4.


27 Plínio (o Velho), Naturalis Historia, 20, 136. 28 FILÓSTRATO, Vita Apollonii, 4.25.

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lhe disse: "De ora em diante não te chamarás Jacó, mas Ele não dedica atenção alguma para o fato de que
Israel, pois como um príncipe, tens o poder de Deus e dos pesadelos vívidos frequentemente aparecem como expe-
homens e assim prevalecerá". E Jacó lhe pediu, dizendo riências externas e objetivas por parte do adormecido,
"Diz-me, te suplico, teu nome?" Mas ele respondeu: "Par~
que perguntas meu nome?" E ali mesmo o abençoou. Jacó como tampouco atenta para o fato de que todos os motivos
deu àquele lugar o nome de Peniel- a face de Deus: pois contidos na lenda - por exemplo, a paralisia do quadril-
eu vi Deus face a face, e minha vida foi preservada. O sol são recorrentes nos pesadelos, como explicaremos mais
surgia quando ele atravessava Peniel, mancando devido adiante. O fato de que a luta em questão não se designa
a sua coxa. Por isso, os israelitas não comem até hoje o especificamente como uma experiência de caráter oníri-
nervo da articulação da coxa, pois Jacó foi ferido nesse
nervo (Gn 32,22-32). co não deve ser considerado como um obstáculo, pois os
sonhos e, em especial, os pesadelos, se destacam por sua
A noção de que mortais que veem Deus contra a Sua peculiar vivacidade e são descritos como experiências re-
vontade devem morrer ou ficar cegos é amplamente difun- ais, sem o reconhecimento de que são como sonhos. Como
dida. Pensemos em Acteon, Sêmele, Tirésias etc. já vimos, até mesmo médicos modernos habituados a uma
Ainda que nessa lenda singular de Elohim não esteja observação atenta de si mesmos, em algumas ocasiões,
explicitado que a contenda noturna entre Jacó e Elohim confundiram fenômenos oníricos e subjetivos de grande
deva ser interpretada como um sonho ou um pesadelo, intensidade com experiências reais. Comparemos, por
dificilmente haveria qualquer dúvida, depois de todas exemplo, a passagem da Odisseia na qual Odisseu, oculto
as provas serem levadas em consideração, e depois de na forma de uma águia, aparece a Penélope em sonhos e
qualquer outra explicação, de que tal luta violenta re- lhe diz: "isto não é um sonho, mas uma visão real que há de
almente pudesse acontecer na realidade. A maioria dos se cumprir". Pensemos também na extraordinária história
comentaristas atuais do Gênesis considera a luta entre da cura de Sostrata no segundo catálogo de Epidauro,30
Jacó e Elohim uma obra de ficção ou um mito; ainda assim, em que explica como sua paciente tinha empreendido sua
eles se abstêm de dar uma interpretação científica e, por viagem de retorno sem antes ter recebido uma visão clara
mais estranho que seja, rechaçam a opinião mais antiga em sonhos e, no caminho, foi curada por Asclépio, quando
de que a luta deva ser construída à moda de um sonho. estava totalmente desperta e não através da agência de
Quando Dillmann afirma: um sonho. Uma encantadora ode de Horáci0 3! é baseada
em uma visão onírica similar. A melhor analogia de todas,
Que a luta com Deus, no sentido da lenda, seja tanto física entretanto, nos é proporcionada pelo pesadelo de Higino,32
quanto externa é inegável e mais que confirmada pela expressamente definida como uma experiência real. Além
claudicação de Jacó. Somente uma má interpretação dos
fatos poderia explicar por que ela foi narrada como um disso, há o fato, não menos importante, de que a fonte
evento simplesmente mental, quer se trate de uma visão eloísta a quem devemos nossa lenda também faz com que
onírica vívida ou uma luta violenta em oração ... 29

30 EPIDAURO, Eph. Arch, 26-35.


31 HORÁCIO, Carmina, 11, 19.
29 DILLMAN, Genesis, 345. 32 KAIBEL, Epigrammata Graeca ex lapido Collecta, No. 802.

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Deus se revele em sonhos em outros lugares. Se agora ob- o devora". Kolrusch 35 e Perty 36 afirmam que, em alguns
servarmos a história com maior discernimento, podemos casos, o pesadelo é tão intenso que aquele que dorme e
ver que todos os temas dessa lenda aparecem também que está lutando com o espectro cai da cama; é obvio que
nos sonhos e, em especial, nos pesadelos, bem como nos essa queda pode produzir torções, aleijamento e todos os
mitos que derivam delas. De modo que podemos observar, tipos de ferimentos.
em primeiro lugar, o tema da luta noturna, coisa que, Um segundo tema próprio dos pesadelos pode ser
de acordo com Artemidoro, não somente ocorre com fre- visto na duração da luta até o amanhecer, assim como
quência nos sonhos, como também desempenha ~m papel no pedido que Elohim faz ao Jacó vitorioso para soltá-lo,
em pesadelos evidentes. As palavras de ArtemIdoro que pois o dia começa a nascer. Uma das características dos
cabem ser destacadas são: "o sonho que traz a vitória a demônios da noite e dos espectros é que estão relaciona-
um dos dois combatentes, que conserva sua força até o dos com a noite e a escuridão, de forma que devem fugir
amanhecer".33 Segundo Artemidoro, "uma luta com um se uma luz se levanta ou se principia o amanhecer. 37
oponente desconhecido significa perigo devido a alguma Bürger diz: "o primeiro raio do dia bane os demônios da
doença", e não há dúvida de que isso proceda p~ra Jacó, noite"38 ou quando se escuta o canto do galo anunciando
que termina com uma paralisia no quadril depoIs de sua a chegada do dia. O canto do galo que anuncia que é dia
luta com o estranho. Assim, por exemplo, Veckenstedt nos e espanta os espíritos (Grimm). Essa crença também está
explica a seguinte história sobre um demônio es:avo do expressa nos ensinamentos parses e no Talmude. Como
pesadelo chamado Serpolnica: "Uma mulher ~a~u pa~a prova disso, temos a seguinte lenda lituana recolhida por
cortar ervas à noite e não percebeu que o reloglO batia Veckenstedt. 39 Ela está relacionada aos Caucie, pequenos
doze horas. Ela foi atacada por Serpolnica e lutou com ele demônios do pesadelo com longas barbas cinzentas que,
por uma hora inteira, quando o relógio bateu uma ho.ra, nas noites de lua cheia, se esgueiram nos quartos para
momento em que o fantasma se foi. Ela volta em seguIda estrangular aqueles que dormem.
para sua casa exausta e completamente despent eada " .34
Um camponês frequentemente atormentado por demônios
Mais adiante, veremos que os deuses das florestas apare- pediu um conselho a seus vizinhos e, em seguida, passou
cem muitas vezes como demônios do pesadelo, como, por a acender uma tocha assim que percebia que o Caucie
exemplo, os Dusii celtas e os italianos Silvano e Fauno. se aproximava. A partir desse momento, eles o deixaram
De uma maneira similar, Veckenstedt assim diz em sua em paz, pois a luz brilhante os assustava. Outro campo-
obra Mitos Lituanos, a propósito da Medine lituana ou nês em circunstâncias similares, seguindo o conselho do
pároco da igreja, comprou três galos. Ele os mantinha
mulher da floresta. "Para qualquer um que entrar, pode constantemente acordados, para que também cantassem
acontecer que a Medine o obrigue a lutar com ela; se ele à noite. Na noite seguinte, mal tinha o Caucie começado
sai vitorioso, é ricamente recompensado" (assim como JacÓ
foi através de sua bênção!), "mas se ele sai derrotado, ela 35 KOLRUSCH, Schweizer Sagenbuch, 318.
36 PERTY, D. Myst. Erscheinungen der Menschl. Natur, I, 140.
37 WUTTKE, op. cit., § 772.
33 ARTEMIDORO, Oneirocritica, 1, 60. 38 BÜRGER, Lenore V., Verso 28.
34 VECKENSTEDT, op. cit, 109. 39 VECKENSTEDT, Lit. Mythen, II, 145 sS.

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sia) em sua luta com Elohim, podemos situar esse tema
a atormentar o camponês, quando os galos começaram a
cantar fazendo-o desaparecer. sem dificuldade alguma, no âmbito dos pesadelos. E~
primeiro lugar, nos vem à mente que as dores reumáticas
Ademais, o fato de que Jacó perguntou o nome de contraídas por quem incautamente dorme ao ar livre são
Elohim e que Elohim não tenha desejado dizê-lo decidi- conhecidas como "tiros" de bruxa ou de demónio. Essa de-
damente aponta para um pesadelo. Na superstição alemã, signação claramente demonstra que tais dores e paresias
você deve chamar o demónio pelo nome se quiser capturá- eram atribuídas pelas pessoas aos seres que se tornavam
-lo , isto é , submetê-lo ao seu poder. 40 "Para proteger-se visíveis nos pesadelos. 44 O "sopro" das nereidas gregas
das bruxas em forma animal (que frequentemente atuam compartilha semelhanças com essa crença. Esses acome-
como demónios do pesadelo) e obrigá-las a retornar nova- timentos eram particularmente dirigidos às pessoas que
mente para sua forma humana, elas devem ser chamadas iam dormir por volta do meio-dia em um lugar solitário
pelo seu nome cristão três vezes." E as bruxas geralmente e ao ar livre, na proximidade de fontes e riachos e se
.
mamfestava através de doença mental ou física. Notemos
'
reaparecem nuas. Comparando com Grohmann e~ seu
Aberglauben und Gebrüche aus Bohmen und Mahren: que o aleijamento de Jacó se produziu às margens do rio
"Quando a pessoa assombrada se dirige à metamorfose Jaboque, onde as exalações de frio durante a noite - devido
animal (no pesadelo) chamando-a pelo nome humano da à intensa queda da temperatura - poderiam causar um
que causa o pesadelo, a pessoa aparecerá a sua frente em aleijamento reumático. Finalmente, o demónio do pesadelo
sua forma humana e não poderá lhe fazer mal".41 Uma brande burguês Scherber (Serp, Serpel) também se insere
frase do livro de Bühler Davas in seinem Walserdialekt diz: nessa categoria. Trata-se da contrapartida masculina de
"Se o nome de um Daggi (espectro do pesadelo) ou de um Serpolnica que corta o calcanhar de sua vítima com uma
.
Fiinken for conhecIdo, tem-se o po d er sob re e1"42E·t
e . XIS e faca curva, à semelhança da crença de que nos Alpes
a mesma crença entre os Wandos eslavos, cujo demónio do austríacos considera-se muito perigoso pisar descalço
pesadelo se chama Murawa. Sobre esse contexto, Laistner nas pegadas de Habergeiss quando esse demónio caprino
escreve: "Se for possível conjecturar, mesmo sem comp~e~a aparece como um demónio do pesadelo, pois imediata-
exatidão, quem está sentado sobre você (como um demo~I~ mente sente-se o Gallschuss (literalmente , tiro de bile) ,
do pesadelo), tem de chamá-lo pelo nome e a ~urawa Ira que produz uma dor penetrante no pé semelhante ao
embora".43 Esse tema desempenha um papel Importante reumatismo ou gota. 45
em numerosos contos de fadas e sagas compiladas por Enfim, somente nos faltaria provar que a bênção
Laistner. O mais conhecido de todos é o de Rumpelstilzkin. que Jacó força o derrotado Elohim a lhe conceder tam-
Quando na lenda do Gênesis nos é dito mais além bém constitui um tema próprio do pesadelo. Para tornar
que Jacó deslocou o quadril (ou seja, adquiriu uma pare- essa informação compreensível, refiro-me mais uma
Vez à Medine lituana ou mulher do bosque, que a todos
40 WUTTKE, ap. cit., § 404.
41 Ibid., 405. . 44 GRIMM, D., Myth, 381.
42 BÜHLER, Valo, Davas in seinem Walserdwlekt, I, 365. 45 ALPENBURG, Myth., 381. Também LAISTNER, op. cit., I, 334;
43 LAISTNER, op. cit., 41 ss.

185
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compele a entrar no bosque para lutar com ela; e, se a 8. O ponto de vista anteriormente mencionado sobre
pessoa sai vitoriosa, é ricamente recompensada, mas se é o campo de atividade promotor de saúde e concessor de
derrotada, ela a devora. Muito frequentemente, a vitória bênçãos dos demónios do pesadelo é expresso em uma
sobre o demónio do pesadelo consiste em conseguir pegar epigrama em Kaibel, que foi de diversas maneiras mal
o demónio pelo capuz e obrigá-lo a conceder ou divulgar interpretado. Trata-se de uma inscrição encontrada em
a localização de um tesouro - um conceito do qual Petró- Roma, que Kaibel datou em torno do século II d.C. Nela,
nio tinha conhecimento quando falou sobre um homem um pastor afirma ter sido curado de uma séria doença com
pobre que se tornou rico de maneira misteriosa: "Ele que o aparecimento de Pã-Efialtes, quando tirava um cochilo
rouba um cabelo do mcu / b o e encont ra um t esouro. "46 por volta de meio-dia. O epigrama diz:
Esse tema é encontrado em muitas sagas italianas, gre- A você, ó flautista, cantor de hinos, deus benevolente
gas modernas, germânicas e eslavas, mas somente me Puro líder das náiades que derramam águas de banho
limitarei a narrar uma que é bastante característica. Higino, a quem tu mesmo curaste de uma severa doença
Entre os habitantes do bosque Sansomier, o demónio Por meio de sua aproximação, apresenta esta oblação.
do pesadelo é chamado de Vjek (o velho) ou de Gnotek Pois tu apareceste ao meu rebanho
Não como uma visão de sonho, mas em pleno dia. 47
(o pequeno opressor). Não se sabe onde ele passa seus
dias. Não é muito grande, mas é extremamente pesado.
O Vjek se deita sobre aquele que dorme desprevenido e A frase k tin essin ("ao meu rebanho") remeteria,
comprime seu peito com toda a sua força, de forma que certamente, a um pastor que descansa ao meio-dia. Se
a vítima não consiga sequer se mover. As pessoas dizem se referisse a um caçador, skylakessin ("aos meus filho-
que se alguém chega a arrebatá-lo pelo capuz, o demónio tes de cachorro") seria apropriado. Em minha opinião, a
conjectura de E. Curtius, Tekessin ("aos meus filhos"), é
lhe dará muita riqueza.
A bênção que o demónio do pesadelo confere pode a menos provável, e devemos admitir que essa leitura
também consistir na revelação de segredos importantes estaria deslocada se aqui estivéssemos falando de uma
e úteis, bem como a concessão de força e boa saúde. Como epidemia de pesadelos, isto é, se ao mesmo tempo que
veremos mais adiante, esse aspecto da bênção, de fazer Higino fosse acometido por pesadelos, seus filhos também
o bem ou de prestar um serviço, deixou sua marca e foi tivessem sido. Comparemos com Artemidoro, no qual a
amplamente desenvolvido nos espíritos domésticos ger- mesma antítese entre o sonho e o dia pode ser achada,
mânicos (spirutus familiares), que também são, ao mesmo e com certeza com a Odisseia quando Odisseu se dirige
tempo, demónios do pesadelo. Portanto, a conexão ent.re a Penélope em sonho: "Seja forte, filha do célebre Icário!
o até então inexplicável nome de Mefistófeles e Ofells- Pois não é um sonho e sim uma alegre realidade que verá
-Epofelis ("aquele que ajuda", "benfeitor") fica muito clara, cumprir-se" .
pois, segundo a antiga lenda de Fausto, se tratava de um A maioria dos filólogos que estudaram esta interes-
sante inscrição é da opinião de que a divindade a que se
desses tão úteis espíritos domésticos.

46 PETR6NIO, Satyricon, 38. 47 KAIBEL, op. cit., n. 802.

186 187
, ~':
fazem oferendas é Apolo-Pagão, mesmo que em nenhum com experiências reais. É muito provável que os fatos
outro lugar ele receba o nome de soriktis ("flautista"). que deram origem a esse epigrama sejam os seguintes:
Plew e Drexler são os únicos autores que relacionaram a Higino, um pastor afligido por uma doença física grave,
epigrama com Pã, que também recebe em outros textos, está cochilando ao meio-dia com seu rebanho. Ele acredita
como este, os epítetos de cantor de hinos, guia das náia- estar desperto e Pã-Efialtes aparece (o deus dos pastores
des e flautista, tal como corretamente assinalou Drexler. e caçadores) em um sonho extraordinariamente real e o
Por outro lado, o fato de que Pã48 se revele às pessoas cura com sua aparição. O mesmo se pode dizer sobre os
durante o descanso do meio-dia - como aqui - justifica sonhos incubatórios no qual o deus, o demônio ou o herói
essa interpretação. Em Longo,49 todos os tipos de visões que fisicamente habita o santuário aparece para a pessoa
aterradoras, tanto diurnas como noturnas, "tinham sua em sonho proporcionando-lhe cura através de uma inter-
origem na raiva de Pã contra os marinheiros". Podemos venção pessoal ou prescrevendo qual terapia seguir. Em
avançar na compreensão se entendermos que a instância algumas ocasiões, a vividez do sonho é tal que aquele que
de Higino não se refere - como opinam Plew e Robert - a dorme está convencido de que presenciou a aparição do
um sonho normal e comum, mas a um vívido pesadelo deus estando desperto e não em sono. Isso fica evidente
que, como acabamos de ver, era atribuído a Pã-Efialtes e na extraordinária história da cura de Sóstrata no segundo
que, segundo uma antiga crença popular, exercia efeitos catálogo de Epidauro.
curativos sobre a doença. Pã - como Asclépio - curava as Ao aceitar a aparição física e não simplesmente so-
pessoas em sonhos: "O santuário de Pã Litírio em Treze- nhada do deus, Higino é fortalecido pelo fato de que, ao
na". "Desde tempos imemoriais, os habitantes de Trezena mesmo tempo, seu rebanho caiu vítima de um ataque de
mantinham um santuário no qual o deus concedia sonhos pânico (que se atribui igualmente a esse deus) e, como
proféticos que indicavam a cura para as epidemias."50 mostra de gratidão, faz uma oblação ao deus curador por
Os pesadelos também podem estar relacionados a tê-lo concedido cura. É possível que o epíteto de Pã, Pagão,
esse caso, pois, como veremos mais adiante, eles mais bem se deva a sua capacidade de prestar auxílio e ajuda, de
correspondem à natureza de Pã do que os sonhos normais. curar enfermidades. A representação de Efialtes como
Drexler diz que não se trata de um pesadelo, mas de uma um deus que cura e ajuda se explica facilmente por uma
visão que se tem acordado, porque declara expressamente sensação de consolo e redenção que se tem após a maioria
que o deus apareceu para Higino "não como uma visão de dos pesadelos. Mais adiante, veremos como os terrores do
sonho, mas em pleno dia". No entanto, gostaria de pontuar pesadelo e do pânico são conceitos estreitamente relacio-
que as noções de sonho e visão se entrelaçam de muitas nados ente si e, por isso mesmo, são atribuídos frequen-
formas, e os pesadelos frequentemente são tão vívidos que temente aos mesmos demônios.
até os médicos mais experimentados podem confundi-los

48 LONGO, Pastorales, 2, 26.


49 Ibid., 2, 25.
50 Pausânio, 2, 32, 6.

188 189
AS ANTIGAS DENOMINAÇÕES
DO PESADELO

A esta altura da argumentação, já estamos suficien-


temente familiarizados com a natureza e o funcionamento
do pesadelo e dos demônios do pesadelo para sermos ca-
pazes de entender etimologicamente sua multiplicidade
de nomes e, portanto, podemos proceder a uma breve
enumeração e estudo deles.
1. As duas palavras mais amplamente conhecidas
para designar o pesadelo são epialtes e ephialtes, que
estão foneticamente relacionadas entre si como epiorkos
e ephiorkos. Outra forma parece estar presente no nome
lício epaltes (Ilíada, II, 415). Diz-se que Alceu utilizou
a forma sem aspiração; também sendo considerada, de
outro modo, comojônica e ática. Na opinião de Moeris, as
formas epialtes ou ephialtes são helenistas, em contraste
com tiphus, que, conforme declara, é ática. O nome de um
notório traidor em Heródoto é Epialtes; um vaso de cerâ-
mica procedente da Ilha de Ceos, no qual é representada
uma gigantomaquia, mostra o nome de um gigante que
nos vasos áticos e na literatura soa Ephialtes e aparece
escrito como Hipialtes. Kretschemer deriva esse nome
de iallo (hiallo) e crê que o pintor escreveu ou desejava
escrever Hepialtes. No que diz respeito a seu significa-
do, tanto os filólogos antigos como os modernos vacilam
entre os derivados de iallo ("eu envio", "eu disparo") e

1 191
hallomai. Foneticamente, ambos derivados parecem mentador e estrangulador. (Quando Aristófanes diz em
ser igualmente válidos, mas pelo significado é preferí- As Vespas, a propósito dos epialoi e puretoi: "que saiu à
vel hallesthai, pois, de um lado, hallesthai corresponde noite para estrangular os pais e para engasgar os avôs",
muito melhor que iallen ao sentido dos verbos utilizados e ao mesmo tempo indica que ele, como um segundo Hé-
em outros lugares para indicar a aparição do pesadelo, racles, conquistou esses demônios, pode-se entender como
como epipiptein - (pedan), irruere, invadere, incumbere, uma alusão ao texto de Sófron ou alguma outra dessas
epherpein, eperchesthai. O nome que os romanos davam ao fontes). Dizem que Alceu utilizou a terminação epialos em
pesadelo era incubo(-us), derivado de incubere ("apoiar- estreita ligação a epialtes. No que diz respeito ao sentido
-se sobre, precipitar-se, deixar cair o peso sobre"). O nome claramente ativo do sufixo -tos em epial-tos, gostaria de
do gigante Ephialtes deriva claramente de ephallesthai, dirigir ao leitor a obra de Kühner e H. Meyer (Ausf Gr.
uma vez que Filostro de Apolo afirma sobre os gigantes: Gramm. I, 715, Gr. Gramm. § 600). Somente com hesitação
saltam em direção aos céus e não permitem que os deuses eu me atreveria a nomear nesta ligação a forma epiales
lá residam (ourano de epipedesai kai me sunchorein tois mencionada por Hesíquio, possivelmente ao invés de
theois ep'autou einai). Por outro lado, em outros lugares epialles. M. Schmidt prefere ler como epialtes ou epiales.
aparece empregado de maneira similar, assim como ao 3. As formas epialos e epiales são mais difíceis de
pesadelo, para descrever os ataques repentinos e inespe- elucidar. A mais importante entrada a respeito delas é
rados dos guerreiros de Homero ou para retratar a veloz encontrada na Etymologicum Magnum: epialos, epiales e
descida de uma ave que se joga sobre sua presa. De fato, epioles significam as intermitências da febre que também
também é admitido o significado de ephallesthai, que cor- atacam os que dormem à maneira de um demônio. Eufe-
responde ao caráter erótico de Efialtes. Homero o utiliza misticamente, epios é chamado "o amável", "o amigável".
neste sentido na Odisseia quando se refere a Odisseu, Contudo, Apolônio afirma que epialtes é chamado de
que impetuosamente abraça e beija seu velho pai (Kusse epiales, mesmo com a troca do a em o-pioles. O seguinte
de min periphus epialmenos ede proseuda). excerto de Eustáquio mostra que essas palavras têm como
2. Da mesma maneira, as formas mais raras epi-al-es, origem Herodiano: "nos escritos de Herodiano, aparece
gen. -etos, epi-al-os, iphi-al-os e epi-al-tos podem derivar epiales epialetos, que, tal como ele afirma, é utilizado de
de hallesthai. Quanto a epiales - como testemunhado por um modo similar por Sófron quando Héracles estrangula
Hesíquio e Querobosco -, pode-se reportar a um fragmento Epiales". Desses escritos, podemos aprender que, de um
de Sófron que diz: Epiales ho ton patera pnigon ("Epiales lado, os calafrios febris denominados rhigorpuretos, as-
estrangulou seu pai"). Como somos ignorantes de seu con- sim como o pesadelo e seu demônio, são designados pelos
texto, permanecerá em lamentável dubiedade se devemos mesmos termos epialos, epiales e epioles. Por outro lado,
entender que o demônio do pesadelo Epiales estrangula fica claro que as palavras kat'antiphrasin derivam de
seu próprio pai ou o pai de alguma outra pessoa. Neste epios, isto é, pensava-se que tinham se originado a partir
último caso, poderíamos entender que originalmente esse de esforços eufêmicos. O duplo significado de epialos e
demônio do pesadelo era um homem ímpio e parricida epiales ("ataque de febre com calafrios" e "pesadelo") pode
e que em sua morte foi convertido em um espírito ator- ser explicado com facilidade a partir do fato acima men-

192 193
cionado de que os pesadelos se produzem com frequência a luta - unicamente representada na escultura antiga - de
durante episódios de delírios febris. (Pode-se recordar aqui Hércules com Geras, a personific~ção de velhice, ou com
do Paione - também chamado epialteion - que dizem ser Tânatos emAlceste de Eurípedes. E possível que o mito de
um remédio eficiente tanto para pesadelos quanto para fe- Epiales e Hércules esteja representado em um camafeu
bre intermitente.) Entretanto, não é possível no momento de "Gemas Antigas e Anéis" de King. Trata-se de umajoia
determinar com clareza se esses termos estão realmente de estilo belo e grave que até o momento ainda não foi
relacionados com epios e se podemos traçar sua origem a explicada. Nela, Hércules aparece sentado na postura de
um eufemismo. Obviamente, é inconcebível que ao temível um homem completamente exausto ou a ponto de cair no
demônio das febres e pesadelos seja dado um nome de sono. Sua cabeça e seu peito estão inclinados para a frente
sonoridade agradável. Basta recordar eufemismos, tais e ele parece estar sentado sobre uma pedra (?) com sua
como "mar hospitaleiro" no lugar de "mar inospitaleiro"; mão direita apoiada sobre seu bastão. Aproximando-se
"noite amigável" para "noite mortal", "auspicioso" para dele por trás - aparentemente de forma furtiva -, há um
"ameaçador" ou "esquerdo" (sinais de má sorte sempre vêm poderoso homem barbado dotado de largas asas, que se-
do lado esquerdo), Eumênides ("graciosas") por Erínias gura um ramo de arvore ou uma haste de papoula na mão
("Fúrias", literalmente "vingadoras"), entre outros. Pode- esquerda e, com a mão direita, agarra o herói pelo pescoço,
-se sustentar o ponto de vista de que nos sufixos -aios e aparentemente para estrangulá-lo. (Comparemos com a
-ales, o -ai coincide com a raiz hallomai ("saltar sobre") definição de Epiales como um demônio que se aproxima
e, portanto, aponta para Epi-al-os e Epi-al-es como um furtivamente daqueles que dormem, ou que os ataca.) Se-
daimon epios ephallomenos e, dessa maneira, é possível melhantemente, Hipnos também aparece com frequência
que as formas paralelas e aparentemente idênticas de nas esculturas como um demônio barbudo. Normalmente,
Epi-al-os e Epi-ales (veja acima) possam ter contribuí- ele está atrás da pessoa que dorme ou, menos frequente-
do consideravelmente para essa ideia. Em excertos da mente, caminha em direção à pessoa derramando o sono
poesia grega, aparecem figuras incontestáveis de vários a partir de uma cornucópia. Em alguns casos, ele toca as
demônios com forma animal, de maneira que considero têmporas daquele que dorme com um pequeno ramo ou
provável que em epaphos devemos encontrar um demônio uma haste de papoula úmidos com orvalho do Lete. Ele
animal, a poupa. 1 .
é frequentemente alado. Não é necessário relembrar que
De longe, a informação mais importante que Eustá- o demônio do pesadelo, somente operante durante o sono
quio nos ensina é o mito contido no fragmento de Sófron, ou no estado que precede o sono, ou o demônio da febre,
no qual Hércules parece estar assombrado pelo demônio sempre acompanhado por sonhos temerosos e inquietan-
do pesadelo (e da febre?); nele, Hércules o trata de igual tes (epialos, Epiales), devem ter muito em comum com
para igual, estrangulando o demônio da mesma maneira Hipnos (e Oneiros).
que o demônio havia tentado estrangulá-lo. Devemos en- 4. Assim como o demônio da febre e dos calafrios
trever nessa lenda, demasiado esquecida, um paralelo com febris, o demônio da febre tifoide (tuphos, tuphomanie,
tuphodes puretos), frequentemente associado a delírios
1 Aqui, o autor refere-se ao pássaro Upupa epops. (N.T.)
intensos, sonhos confusos e sensuais (pesadelos), into-

194 195
xicação e estupor, parece também ter sido confundido Tudus = Tudeus, Oinus = Oineus, Thesus = Theseus, as-
com o demônio do pesadelo Efialtes. (Os sonhos sensuais sim como em nomes que aparecem na literatura, como
estão provavelmente conectados com a emissão de sêmen Hippus =Hippeus e Nikus =Nikeus. Ainda neste assunto,
que Hipócrates tinha observado em certos casos de febre também seria possível deduzir Tiph-us ("pesadelo") dire-
tifoide.) É evidente que Tifo, cujo nome significa fumaça tamente de Thuphus ("fumaça", "gases") e entender que
ou emanações, deve denotar uma doença semelhante, "sonho asfixiante" (em alemão: Sticktraum) ou pnigalion
algumas vezes acompanhada de delírio e, em outras, de deve seu nome tiphus ao efeito da fumaça que, de acordo
estupor profundo, ambos os sintomas similares aos que com Béirner, produz ataques de asfixia nas pessoas ador-
ocorrem àqueles que permanecem imersos em fumaça por mecidas e, portanto, muito provavelmente em pesadelos.
longo tempo e morrem asfixiados, quando não são resga- Nessa instância, tiphus significaria sonho enfumaçado
tados a tempo. A propósito, a fumaça tem o mesmo efeito (em alemão: Rauchtraum). Não é difícil pensar que, por
sobre animais e homens. Durante o incêndio de outubro conta da pobre qualidade do fogo e da iluminação no
de 1899 no pavilhão dos animais carnívoros do Jardim período clássico - em especial nos primeiros tempos -, o
Zoológico de Berlim, os animais ficaram primeiramente envenenamento por fumaça e os caos de estupor e pesa-
enfurecidos pela fumaça, mas muito rapidamente se delos (tuphoi) deviam ser muito comuns, e todos teriam
tranquilizaram e entraram em estado letárgico, e somente tido a oportunidade de observar isso tanto em si mesmos
com muita de dificuldade foram despertados desse estado. como nos outros.
O uso de tuphoo (que significa basicamente "envol- 5. A palavra epheles ("ser fantasmagórico") foi duas
ver com fumaça") está em completa harmonia com esse vezes atestada por Hesíquio, que a considerava eólica.
conceito, porque Hesíquio explica tetuphosthai ("repleto Ela provavelmente deriva do verbo eph-el-ein, que quer
de fumaça") a partir de memenenai ("fúria"); tetuphotai dizer "apreender ou atacar". Por conseguinte, poderia
("repleto de emanações") a partir de embebrontetai ("atur- significar "atacante" e indicar que o demônio do pesadelo
dido"); tuphosai ("encher com fumaça") a partir de pnixai agarra aquele que dorme pelo pescoço ou lhe tapa a boca,
("sufocar"), apolesai ("destruir"); e por tetuphomenos en- de maneira a provocar uma sensação de asfixia. Cabe re-
tendemos ser uma pessoa narcotizada, tola, irresponsável. cordar, neste contexto, as palavras com as quais Homero
Gostaria de derivar tuphus ("fumaça", "emanações", "febre descreve Odisseu quando este tapa a boca de Euricleia:
tifoide"), tiphus como equivalente de Efialtis, como teste- helon epi mastaka chersin ouk ea eipemenai. Uma apre-
munham Dídimo, Moeris, Fócio e Hesíquio. Isto é, assumo sentação similar se dá na base do uso de epilambaneim
que tiphus substitui o antigo tuphus, da mesma maneira (comparemos com epilepsia), que é frequentemente usado
que phi-tu-s substitui phu-tu-s e phituo substitui phutuo, acerca da doença.
pois, segundo a fonologia grega, quando aparecem dois "u" 6. A palavra pnigalion ("estrangulamento") utiliza-
seguidos, o primeiro se transforma em "i" por dissimilação. da pelo médico Themisom e provavelmente derivada do
A terminação -us parece corresponder ao -eus habitual, vernáculo se baseia em um conceito similar. O demônio
como se vê em uma série de inscrições de vasos coleta- do pesadelo foi apropriadamente designado como "aquele
dos por Kretschemer - por exemplo, Nerus = Nereus, que faz engasgar" ou "aquele que estrangula" e, tendo em
196 197
vista nossas explicações prévias, este tópico não necessita rar o termo como uma combinação de barus e hugnos.
de maiores esclarecimentos. As mudanças de vogais aparentemente irracionais são
7. Também já debatemos suficientemente a compre- mais bem explicadas pela notável tendência das pessoas
ensão de Epopheles e Opheles ("aquele que ajuda", "aquele supersticiosas de alterar arbitrariamente o nome dos
que salva"), atestados por Sorano e Hesíquio. demônios que as assustam, pois temem que eles lhes
8. Nos antigos comentários de Aristófanes (As ves- causem algum mal se chamados pelo seu nome correto.
pas, 1038), fala-se sobre epialoi kai puretoi ("calafrios e A única coisa que podemos afirmar com certeza é que o
febres"), os quais Aristófanes atacou como um segundo adjetivo barus ("pesado"), como já vimos, se faz presente
Héracles: "No entanto, Dídimo diz: 'O demônio Epialos, nessa expressão.
também chamado Epiales e tiphus"'. Em lugar do Euopan, 10. É muito difícil estabelecer a etimologia de ba-
termo até então inexplicável e de difícil compreensão, boutzias e baboutzikarios, que aparecem pela primeira
Rohde deseja ler Euopana (uma referência a Suídas) que, vez na literatura bizantina tardia. O primeiro termo é
com toda certeza, seria perfeito para designar Pã, que achado em um léxico como uma explicação para Efialtes,
dança como um bode e que frequentemente aparece como de acordo com Du Cange (Ephialtes vulgo Babutcios); o
um demônio do pesadelo. Na coleção de vasos do Museu segundo termo é atestado por Suídas e Miguel Pselo na
Nacional de Nápoles, existe um que mostra um ator ou obra de Leão Alácio (ephialtes: ho epi pollou baboutzias).
um membro do coro que se prepara para um drama sa- Uma vez que a distinta família dos Baboutcicoi é mencio-
tírico. Ele está coroado com hera e usa em sua cintura o nada por Genésio na primeira metade do século IX, estas
avental desgrenhado dos sátiros (tragoi) com rabo e falo. duas designações de pesadelo devem ter surgido no mais
O Paniscos com patas de bode no espelho etrusco-romano tardar no século VIII. Pselo acredita que o baboutzikarios
de Víbio-Filipo de Palestrina constitui um claro paralelo é um espírito mal que sai vagueando perto da época de
a isso. Similarmente, o koutsodaimonas em forma de N ataI. Leão Alácio também relacionou essa característica
bode dos gregos modernos, que ataca jovens e que, devido aos vampiros dos gregos recentes: se trata de um demônio
aos seus chifres, é um perigo para mulheres grávidas ou que algumas vezes aparece como um lobisomem e outras
puérperas, tem a voz de um bode. Schmidt o vê como um vezes como um demônio do pesadelo com patas de burro ou
descendente direto do Pã grego. bode, com orelhas de bode e pele peluda, e que, em muitos
Os próximos a serem citados são oriundos de algu- aspectos, se parece com o antigo Pã grego e com os sátiros
mas designações medievais e neogregas do demônio do que, por sua vez, também se parecem com demônios do
pesadelo: pesadelo. Pselo tentou relacionar o baboutzikarios com
9. Baruchnas, notado por Eustáquio e Pselo, junto Baubo, mãe de Demofonte, conhecida através do culto
com as formas claramente desviantes Barupnas, Bra- de Deméter em Elêusis, mas essa suposição é altamente
phnas, garupnas, Brachnas e sbrachnas. Na opinião de questionável. É possível que o nome esteja relacionado
Sakellarios, se trata de uma derivação de barus ("pesa- com a palavra neogregapapoutzas ("sapateiro"),papout-
do") e pneo ("sono"), e entende que barupnas significa zion ("sapatilhas") que, de acordo com Littré, deriva do
barupnous ("respiração difícil"). Polite preferia conside- árabe-persa baboudj, papoch ("babouche", "sapatilha"),

198 , 199
...l.
e foi incorporada pela maioria das línguas modernas pela primeira vez em Virgílio (Eneida, VI, 775), mas ali
(comparando-se com o francês babouche, em alemão Ba- parece ser utilizado no sentido de um assentamento de
bousche ou Papu(t}sche). Resulta difícil explicar de que Inuus. Rutílio Namaciano também destaca sua antigui-
maneira se conectam as ideias de sapatilha e sapateiro dade. Os antigos identificavam Inuus com Fauno (Pã) e
com o conceito de demônio do pesadelo. Contudo, cabe gostavam de derivar seu nome do verbo inire, no sentido
assinalar que, segundo os Grimm, um duende alemão que de concumbere ("deitar-se com alguém"). Essa derivação
também é um demônio do pesadelo é chamado "gato de não é sequer minimamente plausível do ponto de vista
botas" ou simplesmente "botas"; e também como pontua fonético, pois, neste caso, devíamos esperar uma forma
Sartori, em algumas ocasiões, as sapatilhas dos demônios anterior in-i-vus. Parece muito mais provável que Inuus
do pesadelo e dos espíritos noturnos falam, da mesma não seja mais que uma forma derivada da preposição "in"
maneira que os anões aparecem às vezes como sapateiros. ("em", ".sobre", "para", "rumo a"), na qual se acrescentou o
Talvez o próprio demônio seja de origem oriental, como sufixo -vus, mas que, uma vez que a preposição termina
seu nome. Nada disso é surpreendente quando se leva em "n", precisou ser mudado para -uus (comparemos com
em conta as muitas e estreitas relações entre a velha in-gen-uus). Deve-se tomar por certo que essa forma era
Constantinopla e o Oriente. empregada para designar os demônios do pesadelo no
11. Entre as palavras neogregas para pesadelo, mora sentido preciso de "alguém que se agacha ou está sentado
é a mais amplamente utilizada. Parece que sua origem sobre outro", obviamente, em sentido erótico.
remonta à língua eslava, pois o pesadelo recebe o nome 13. Em estreita relação com o conceito de inuus estão
de mora em polonês e mura em boêmio. Grimm a coloca os dois termos in-cub-o e in-cub-us, que aparentemente
em relação com o termo alemão mar (anglo-saxão moere, classificam o demônio como "aquele que senta em cima",
inglês nightmare, francês cauchemar(e) a partir de calca- isto é, um ser demoníaco que se deita sobre aquele que
re - "pisar em cima", "calcar" - e mar, significando "pesa- dorme e se torna seu fardo. Cabe notar neste ponto que
delo"). Mora é também um epíteto de Gillou, um demônio cubare, cubitare, concumbere, concubinus-a, concubitus
que estrangula os bebês, provavelmente idêntico ao antigo etc., eram primeiramente utilizados para designar as
Gello. A confusão que se faz entre o demônio causador de relações sexuais e, portanto, incubo e incubus em algu-
uma doença que faz crianças sufocarem (paidopnikt'ria, mas ocasiões têm um significado secundário claramente
"aquele que estrangula crianças") e o pesadelo não é de erótico. Era conhecido na Idade Média o uso de incubus
todo extraordinária se pensarmos nos pavores nocturni, e succubus no sentido de demônio-amante. Em sentido
que são, por um lado, um estado patológico, e por outro, geral, incubus(-o} e inuus aparecem como epíteto de Fauno
similares aos pesadelos. (Pã) ou de Silvano identificado com Pã (fauno); por outro
Este parece ser um ponto apropriado para enumerar lado, incubus também é encontrado como um apelativo
as outras denominações do pesadelo encontradas nos de Hércules em seu papel como guardião de tesouros e
escritores clássicos, principalmente em latim. até mesmo parece que em algum momento se pensou nele
12. O nome Inuus se destaca claramente como uma como um demônio completamente diferente de Fauno
das mais antigas apelações latinas do pesadelo. Ele ocorre (Pã, Silvano), que revela ou falseia tesouros àqueles que

200 201
dormem - como o grego Efialtes -, se eles conseguirem 15. A designação pilosus pertence aproximadamente
roubar o que lhe cobre a cabeça. Quando incubo é utilizado à mesma época do nome faunus ficarius. Encontramo-la
no sentido de guardião de tesouros, cabe assinalar que pela primeira vez na tradução latina (Vulgate) do Livro
incubare é frequentemente usado no sentido de vigília de Isaías, em que se diz: "Nec ponet ibi tentoriaArabs nec
zelosa, guardar dinheiro ou tesouros etc. pastores requiescent ibi, sed requiescent ibi bestiae et re-
14. Desde o século I d.C., o termo fauni (fatui) fi- plebuntur domus eorum draconibus et habitabunt ibi stru-
carii aparece repetidamente rendido aos demônios do thiones, et Pilosi saltabunt ibi" (versão autorizada: "Não
pesadelo, como, por exemplo, feito por Cornélio Celso em armarás a tenda o árabe, nem os pastores ali terão seus
Pelagônio: "Os cavalos são frequentemente incomodados rebanhos. Mas as bestas selvagens do deserto ali dormi-
durante a noite por Fauno Ficário; eles são então afligi- rão, e os dragões em seus agradáveis palácios, e corujas ali
dos pelas mais terríveis dores e a falta de sono provoca habitarão, e sátiros lá dançarão".) A Septuaginta traduz
perda de peso". Jerônimo escreve um comentário a Isaías: aqui: "kai daimonia ekei / orchesontai" ("e os demônios
"Certas pessoas chamam aquele que a maioria denomina lá dançarão"), enquanto o hebreu original usa a palavra
fauni ficarii tanto como incubi ou sátiros ou silvestres seirim (literalmente "cabras"), pelo que entendemos como
(espíritos dos bosques)". De acordo com Jordanes (que demônios em forma de bode, obviamente aparentados a
retoma a ideia de Cassiodoro), a raça dos hunos surgiu Pã, aos sátiros e aos faunos, que vivem em lugares selva-
quando esses fauni ficarii se misturaram com umas gens e solitários e chamam uns aos outros. Que de fato
mulheres bruxas; e nos glossários antigos a terminação demônios do pesadelo devam ser compreendidos no termo
indo-germânica vudevasan é explicada com sátiros e pilosi não procede somente de: "Os faunos, sem dúvida,
faunic ficarii. (Grimm afirma que os demônios do pesa- são aqueles a quem as pessoas chamam íncubos ou pilosi
delo, as fadas e as bruxas aparecem como borboletas e e dão respostas quando são consultados por pagãos", mas
especialmente como mariposas, cujas lagartas, natural- também de Isidoro (Orig. 8,11,103): "Os Pilosi ("aqueles
mente, vivem perto ou nas árvores.) Du Cange relacionou que são peludos"), que os gregos chamavam de Panitae,
corretamente o adjetivo ficarius com as figueiras em seu os romanos de incubi ou inui por copular indiscrimina-
glossário, enquanto que Bochart entende ficus no senti- damente com animais, com frequência também atacam
do de verrugas-figo (o grego suke), isto é, os pequenos desavergonhadamente as mulheres e têm relações com
inchaços nos pescoços das cabras e sátiros (pherea, verru- elas. Os gauleses chamam esses demônios pelo nome de
culae), muito comuns em seu imaginário. O ponto de vista Dusios, uma vez que praticam incessantemente tais imun-
de Du Cange parece se basear nas canções populares si- dícies".Aliás, o antigo comentário boêmio de Wacerad diz:
cilianas e na superstição grega, em que se crê até hoje "Os Moruzzi pilosi, a quem os gregos chamam panitae e
que as figueiras são habitadas por espíritos malignos. os romanos incubi, cuja forma a princípio deriva da hu-
Talvez o sentido indecente de figo (sukon, em Italiano mana, mas cujas extremidades são como as das bestas".
fica, em francês figue) faça sentido nesse contexto. Com- Convém recordar aqui que em polonês e em grego moderno
paremos também com o grego sukazein ("colher figos mora faz referência ao demônio do pesadelo. No que diz
maduros"). respeito aos pilosi, o fato de que os faunos ou pilosi res-

202 I
203
1
pondem as perguntas que lhes são feitas demonstra que
se trata de genuínos demónios do pesadelo. Obviamente,
o termo pilosi dá a entender que o demónio do pesadelo é OS MAIS IMPORTANTES DEMÓNIOS
um ser de pelo áspero e desgrenhado. Essa representação, DO PESADELO GREGOS E ROMANOS
como já vimos, é explicada simplesmente pela roupa de
cama peluda feita com pele de cabra ou lã de ovelha. Se
essas roupas de cama obstruem a respiração daquele que
dorme, então elas com certeza darão origem ao conceito
de um demónio do pesadelo peludo e assemelhado a um
bode. Assim, entendemos por que os Pãs, sátiros e faunos
caprinos acabaram por ser considerados demónios do pe-
sadelo: pois naquele tempo as peles de cabra ou de ovelha Como já ficou claro a partir de nossa pequena co-
ou as capas feitas com pele de cabra ou lã de ovelha eram leção de pesadelos antigos, sua causa era atribuída a
utilizadas para proteger aqueles que dormiam do frio e vários deuses e demónios em conformidade ao seu amplo
do clima inclemente. e variado conteúdo. De modo que vemos no número 1 de
16. E finalmente, nos restam os Dusii gauleses. Eles nossa coleção um ser em forma de bode, e no número 2
são mencionados pela primeira vez por Agostinho e são ca- um sátiro, e nos números 3 e 5 os espíritos dos mortos
racterizados como demónios do pesadelo deitados à espera (heróis), no número 4 seres humanos dotados de feitiçaria
de mulheres. Dado que quase todas as evidências desses demoníaca, no número 6 uma sereia, no número 7 até
demónios foram cuidadosamente compiladas por Holder mesmo Elohim e, no número 8, Pão Portanto, em geral,
(Altceltischer Spachschatz I, 1387 ss.), tenho justificável a julgar pelos escassos pesadelos antigos descritos em
dispensa para evitar reproduzi-las aqui. Acreditava-se detalhe, parece que o mesmo procede para eles a respei-
que os Dusii viviam nos bosques e nas colinas com os Pãs, to dos sonhos ordinários: cada deus ou demónio - e, na
os faunos e as sílfides. Dusius foi convertido atualmente prática, todo ser humano demoníaco - é capaz de causar
em deuce. Provavelmente a palavra Dus-ii esta relacio- pesadelos e aparecer neles com sua própria forma ou com
nada com o grego dus-, o sânscrito dus-, o parsi dush-i-ti outra diferente. Mas embora o número de seres divinos
("desgraça") e o antigo irlandês du-, e denota os demónios ou demoníacos causadores de pesadelos - e de sonhos
do pesadelo como espíritos malvados. Essa explicação se ordinários - seja quase ilimitado, ao se realizar uma in-
ajusta perfeitamente com o epíteto improbi que usam vestigação mais precisa fica evidente que, na realidade,
Agostinho e Isidoro. Completamente diferente e, em mi- existem muito poucos demónios aos quais se atribuía a
nha opinião, de menor aplicação, é a etimologia oferecida capacidade de desencadear pesadelos. Esses demónios
por Holder, que gostaria de ligá-la ao lituano dvaese ("es- têm suas características próprias. O fato de que quase
pírito", "alma"), ao eslavo duchu e ao grego theos. todos os deuses e demónios sejam potenciais causadores
de pesadelos provavelmente confundiu Laistner, que viu
demónios do pesadelo em todos os deuses e demónios,
204
1 205
elevando, consequentemente, o pesadelo ao patamar de opressivo e pesado, ele é o mesmo nos pesadelos e nos
princípio mestre e básico de toda a mitologia. terrores. Contudo, quaisquer que sejam suas respostas,
Consideraremos agora cada um desses instigadores e elas são sempre verdadeiras. Ele concede diversos favo-
tentaremos buscar uma resposta para a questão: sobre qual res àqueles com quem ele consorcia, e ele faz profecias,
solo cada um desses elementos individuais foi fundamenta- particularmente quando ele não atua como um pesadelo.
do como um demônio do pesadelo? Ou, em outras palavras, Quando ele deseja o bem, ele cura doentes, mas nunca se
como as relações dessas figuras com os pesadelos podem ser aproxima dos moribundos".
explicadas a partir de seus atributos e funções? (Não levo C. O interessante epigrama de Higino, no qual se
em consideração aqui aqueles demônios do pesadelo que afirma que ele foi curado de uma doença severa por uma
não parecem ser mais que personificações do conceito de visão originada por Pã-Efialtes, datado do século II d.C.
"pesadelo" e que, na realidade, somente conhecemos seus d. Agostinho (Cidade de Deus, 15,23): "Há também
nomes, por exemplo, Efialtes, Tifo, Íncubo, Inuus etc., pois um rumor bastante notável, que muitos puderam veri-
foram descritos no capítulo anterior. Eles desempenham o ficar pela própria experiência, ou ouviram testemunhos
mesmo papel sem importância que os demônios do sonho diretos de pessoas confiáveis, que os silvanos e os pãs,
em Ovídio, como, por exemplo, Morfeu, Fobetor ou Ícelo, comum ente chamados de íncubos, sempre se compor-
Fântaso.) Começaremos nossa investigação com Pã, que tam de maneira desavergonhada com as mulheres, as
é o mais conhecido e o mais importante desses demônios. desejam e mantém relações com elas". Achamos prati-
Concebo esse deus como protótipo divino ou demoníaco camente o mesmo conteúdo em Isidoro (Orig. 8,11,103)
dos antigos pastores de ovelhas e cabras gregos e como a e em Gervásio de Tilbury (Otia impero 3, 86), ambos em
encarnação da vida coletiva desses antigos pastores, com débito com a obra de Agostinho. A lenda humorística de
todas as suas experiências, costumes, alegrias e tristezas. Ovídio que, por sinal, provavelmente remonta aos poetas
1. Pão A evidência direta do significado de Pã como alexandrinos, é obviamente baseada neste aspecto de Pão
Efialtes ou causador de pesadelos aparece pela primeira Ela começa com as seguintes palavras: "Era meia-noite.
vez na época de Augusto; não obstante, se levarmos em Quem se atreveria a ensaiar um amor lascivo?" Compa-
conta a totalidade de fatos relevantes, dificilmente existi- remos também com Heráclito (de incred. 25): "A respeito
ria alguma dúvida de que o conceito de Pã como demôhio dos Pãs e dos Sátiros: eles nascem nas montanhas e não
do pesadelo se originou muito antes, até mesmo em sua estão acostumados às mulheres. Se eles encontram uma
Arcádia natal. (Tentei mostrar que o culto de Pã tem suas mulher, eles têm relações sexuais com elas. Em grande
raízes na Arcádia em: "Archiv für Religionswissenschaf- número, costumam provocar terror e pânico entre as
ten", I, pp. 5 ss.) As evidências são estas: mulheres".
a. Aristófanes (As vespas, 1038): "Dídimo disse: 'um As seguintes considerações põem em evidência que
demônio a quem chamam de Ipialis, ou Typhis ou Eua- esses conceitos sobre Pã-Efialtes não se originaram no
pan"'. Ver capítulo III, 8. século I a.C., mas são muito mais antigos. Em primeiro
b. Artemidoro (On. 2,37): "Ephialus, também confun- lugar, Pã foi considerado desde sempre o causador de todo
dido com Pã, mostra, ainda assim, algumas diferenças: tipo de sonhos e visões e especialmente do terror violento

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e repentino. Assim, por exemplo, sabemos a partir de Pau- sonho que teve o líder de um exército durante sua sesta. A
sânias (2, 32, 6) sobre o santuário de Pan Lytirius ("Pã, ampla difusão do conceito de que Pã, quando está irritado,
o redentor") em Trôade que foi fundado em memória da envia sonhos e visões aterradoras claramente se deve aos
libertação da cidade de uma epidemia. Pã havia revelado vários glossários de Hesíquio e Fócio, que até então não
remédios eficazes aos governantes da cidade em sonhos. puderam ser devidamente compreendidos. Fócio (Lex.,
(A bem atestada importância de Pã como deus mântico e ed. Naber, 51): "porque Pã é o instigador de visões que
mestre de Apolo na arte da adivinhação em, por exemplo, causam a insanidade"; Hesíquio: "As emanações de Pã
Licosura e no Liceu árcade, pode remontar com facilida- causam visões noturnas". A ira de Pã é frequentemente
de tanto a um oráculo onírico como a função de Pã como mencionada em outros lugares como, por exemplo, na
um emissário de mania, do êxtase ou do furor divinus.) Medeia de Eurípedes (v. 1172), com relação ao início da
Isso claramente remonta à cura de Higino por meio de epilepsia. Não é difícil perceber que a conexão de Pã com
um sonho ou visão do deus. A famosa aventura do arau- os sonhos e visões - em especial com os pesadelos - está
to Fidípedes, que pouco antes da batalha de Maratona intimamente associada com o pânico e o terror, cuja exci-
proclamou ter tido uma visão do deus nas montanhas do tação também era atribuída a Pão
Partenon, em Tégea, quando estava a caminho de Atenas Se me permitem, repetirei mais uma vez o que já
desde Esparta, também pode ser interpretada como um observei quanto ao entendimento desse interessante
sonho ou visão. Esse evento constituiu um das principais fenômeno, facilmente compreensível em acordo com a
razões para o estabelecimento do culto de Pã na Acrópole natureza de Pã como deus dos pastores e rebanhos: é um
de Atenas. Além do mais, o phasma ("aparição") que rou- fato conhecido que até animais totalmente domestica-
bou a visão de Epicelo (ou Policelo), fazendo-o perder a dos, como ovelhas e bodes, sejam afetados por um desas-
batalha de Maratona, momento em que Pã concede aos sossego e um terror especialmente violento que frequen-
atenienses a vitória enviando pânico e terror aos seus temente os assalta repentinamente - sobretudo durante
inimigos, l nada mais era do que uma aparição de Pã, a noite -, não havendo, em geral, uma razão objetiva
segundo disse um informante desconhecido da Suídas. perceptível para tanto. Os animais perdem o juízo e,
(Quem quer que veja um deus ou descubra o segredo como se tivessem enlouquecido, correm de um lado para
de um deus contra sua vontade fica cego, enlouquece ou outro, até mesmo quando essa ação é perigosa para eles.
morre. Comparemos com as lendas de Tirésias, Astrábaco, Por exemplo, podem cair em um precipício ou atirar-se
Aglauro, Acteon ou Sêmele.) Da mesma maneira, Long0 2 na água, e alguns ou até o rebanho inteiro pode morrer.
explicava várias visões e sons aterradores, tanto diurnos Em Valério Flaco CArgon., 3, 43 ss.), o terror do pânico
quanto noturnos, que causavam pânico, como "revelações fatal para Dolione é atribuído a chamados de trombeta
da ira de Pã contra os marinheiros". Isso é expressamente e gritos de horror durante a noite. Segue a descrição: "O
confirmado mais adiante, pela aparição do deus em um descanso dos homens foi quebrado, o deus Pã tinha trazido
distração para a cidade em dúvida. Pã, senhor dos bosques
1 HERÓDOTO, 6, 117.
e da guerra, que se protege da luz do dia nas cavernas.
2 LONGO, Pastorale, 2, 25 e 26. Aparece por volta da meia-noite nos lugares solitários

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com seu flanco peludo e com folhagens desbastadas em que os homens veem, às vezes sob uma forma e às vezes
sua feroz testa". A descrição se conclui com estas palavras: sob outra, elas inspiram terror, e quaisquer que sejam
"É diversão para o deus quando ele dispersa o assustado as vozes sobrenaturais que chegam a seus ouvidos e os
rebanho de seu redil e o guia enquanto pisoteia arbustos molestam, são, segundo dizem, obra deste deus". Essas
em seu voo. 3 Suídas diz: "Os terrores de Pã - algo que vozes sobrenaturais são os "sons fantasmas da natureza"
corre nos acampamentos militares; homens e cavalos sobre os quais recentemente E. Thiessen dedicou um es-
são subitamente atirados a uma agitação sem qualquer timulante artigo. 5 Esse é o suposto terror de pânico cuja
razão aparente - se denominam dessa maneira porque característica essencial - tal como afirmado pelos anti-
esses terrores infundados são atribuídos a Pã". J. Frobel gos - é o inicio súbito, imprevisível e perigoso, negligente
escreve acerca desse pânico em cavalos, cães etc.: "Um dos de toda razão ou sentido e que ataca vários indivíduos ao
incidentes mais perigosos que pode ocorrer durante uma mesmo tempo. Portanto, esse fenômeno é frequentemen-
viagem é um estampido noturno ou, para expressar-me te chamado de loucura (mania, pavor, lymphaticus). Os
de modo clássico, o efeito de um ataque de pânico em um pastores gregos, naturalmente tentando explicar o caráter
grupo de mulas ... O menor dos infortúnios a ser temido indubitavelmente demoníaco desse fenômeno (que, como
é que um dos muleiros seja pisoteado pelas mulas que já vimos, afetava com frequência as vidas dos pastores)
repentinamente se comportam como se estivessem fora de para torná-lo compreensível de algum modo, atribuíam a
si, pois se pode perder todas as mulas e a caravana inteira ele a ação demoníaca e destrutiva de Pã como o deus dos
pode morrer". Os zoólogos modernos observaram que as rebanhos e pastores. Eles tomavam muito cuidado para
cabras e ovelhas são, em particular, sujeitas a esse terror, não suscitar a ira do deus, para que ele mantivesse os
e aqui também poderíamos recordar o pânico que tomou rebanhos a salvo da loucura.
a manada de porcos no Novo Testamento. Tylor escreve: 4 Assim, Pã se torna também um deus da guerra, pois
"Os animais se assustam e se espantam sem que possamos ele frequentemente semeia o terror do pânico em nu-
saber a causa; por acaso eles veem espíritos que me são merosos grupos de pessoas, em particular nos exércitos.
invisíveis?". Essa crença que Tylor sustenta apresentando Esse ato desempenhou um papel decisivo na história
vários exemplos demonstra que não somente fenômenos militar antiga, como, por exemplo, em Maratona e em
de caráter acústico, mas também, e com a mesma fre- Delfos. A ideia de que o terror do pânico tenha sua origem
quência, visuais, provocam terror e pânico de acordo com primeiramente nas experiências e observações tiradas
o ponto de vista dos antigos. da vida pastoril pode ser constatada também em Enéas
Convidamos o leitor a comparar essas informações (Poliorcética, 27), que explicitamente afirmava que paneia
com Dionísio de Halicarnasso (Antiguidades romanas, ("pânico") deveria ser considerado como um nome pelo-
5, 16): "Pois os romanos atribuem os ataques de pânico poneso ou árcade, pois Arcádia e Peloponeso eram tidos
a esta divindade; e quaisquer que sejam as aparições como a sede autêntica e o lugar originário do culto de Pã
desde tempos imemoráveis. Para uma compreensão mais
3 Selene und Verw, 157 SS.
4TYLOR,Anf D. Cultur, 197 SS. 5 THIESSEN, E., Die Woche (Berlim, 1900) n. 20, 878 SS.

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profunda da estreita relação que une os dois conceitos de dos demônios do pesadelo na Vestfália e Oldenburg) ca-
pesadelo e terror do pânico, quero chamar atenção para: I) valgou neles.
os pesadelos endêmicos já mencionados, cujos efeitos são
perfeitamente comparáveis aos do terror do pânico e 2) o Presumo que essa doença demasiado comum em
fato de que em outros lugares os demônios que suscitam cavalos era realmente chamada de "pesadelo", mas para
terrores de pânico sejam idênticos aos do pesadelo. Assim, o presente não posso produzir qualquer prova para tal de-
por exemplo, a descrição de um estrondo (o efeito que signação. Roncar (dispneia), suar e sentir grande agitação
provoca o pânico nos rebanhos no sudoeste da América também são características de pesadelos em humanos, se-
do Norte) diz o seguinte: "Os vaqueiros o chamam de 'o gundo Sorano. De fato, acreditava-se que cavalos e ovelhas
pesadelo' e atribuem a ele poderes invisíveis, duendes ou sofriam das mesmas doenças que o homem. Sobre isso,
anões que estuporam o gado e o assustam e o separam".6 vejamos Aristóteles: 9 "A experiência mostra que quase
Estava evidentemente tomado por certo, portanto, o fato todas as doenças que afetam os homens também afetam
de que animais e homens eram atormentados em certos os cavalos e o gado". A peculiar crença dos huzulus reco-
estados mórbidos por sonhos aterradores (pesadelos) e lhida por Kaindl certamente se inscreve nesse contexto: 10
alucinações que produziam terror de pânico. A mais ine- No Natal, esses pequenos diabos (szczezlyki, chowanci)
quívoca evidência é encontrada em Suídas: "Excitação por visitam os estábulos e não dão descanso ao gado. Saltam
sonhos: agitados por sonhos, os animais também adoecem, e cavalgam sobre eles até que o gado morre de exaustão
durant~ a noite, ou se tornam muito magros; ademais,
afirma Pitágoras"; e também em Lucrécio, que fala sobre
estes dIabos reduzem os instrumentos do estábulo a pe-
os sonhos dos animais: "Em verdade, verás cavalos animo- daços. Para evitá-los, os estábulos devem ser fumigados
sos, com seus membros enterrados nos sonhos, banhados com incenso (ladan) durante a noite e as fechaduras das
de suor, se apresentarem ofegantes e se movendo como portas presas com alho, capaz de manter todo o mal longe.
se disputassem pela vitória".7
O estado patológico aqui mencionado é indiscutivel- Muito parecida é a história dos Leetons - os demônios
mente idêntico a outro conhecido pela superstição germâ- do pesadelo dos letões - que diz que:
nica que o atribui aos demônios do pesadelo. Comparemos, os cavalos são cavalgados por Maar ou Leeton, como eram
por exemplo, com Wuttke: 8 chamados, durante a noite, de forma que os cavalos ficavam
muito fracos e cansados; e apresentam marcas que, pelo
Até mesmo cavalos e outros aninais são atormentados que se crê, foram feitas por estes montadores. Colocam a
por pesadelos; os animais suam profusamente, ofegam cabeça de um cavalo morto debaixo do feno do comedouro,
ruidosamente, seu pelo se arrepia totalmente e fazem pois [... ] isso afastará os Maars.
apertados nós em suas crinas impossíveis de se pentear;
a única coisa que se pode fazer é queimá-las com velas
benzidas ou cortar em forma de cruz. O Walriderske (nome Os romanos atribuíam uma doença similar a um
demônio malvado do pesadelo a quem chamavam de Fau-
6 Ilustr. Ztg., n. 2821, 22 de julho de 1897, 122.
7 Tradução por H. A. J. Munro, 1908, ed. 1947. 9 ARISTÓTELES, Historia Animalium, VIII, 24.
8 WUTTKE, op. cit., § 403. 10 KAINDL, Zauberglaube b. d. Huzulen, Globus 72, 255.

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nus ficarius. Os sinais dessa doença eram perda de peso, estejam ausentes no demônio retratado no fragmento
agitação violenta durante a noite e dores agonizantes. Os de cerâmica coríntia. Como Furtwangler primeiramente
gregos conheciam o mesmo tipo de demônio que agitava reconheceu, bailarinos grotescos com barrigas e pélvis
e tirava a tranquilidade dos cavalos e o chamavam de conspicuamente enormes e frequentemente com pênis des-
Taraxippos. Esse demônio era venerado nos hipódromos comunais aparecem na antiga cerâmica coríntia no lugar
de Olímpia, no Istmo e em N emeia. Em geral, era conside- dos até então desconhecidos sátiros e silenos, figuras essas
rado um herói, isto é, um espírito dos mortos de natureza muito parecidas com o Taraxippos e com esse kobold do
maligna, mas outras interpretações tomam-no como, por forno. Podemos, ademais, aproveitar a oportunidade para
exemplo, o gigante Isqueno, ou ainda outros gigantes ou relembrar que na peça satírica de Sófocles "Héracles no
titãs, até mesmo Poseidon. A questão sobre a natureza de Tenaro", os hilotas ocupam o lugar do sátiro. Nestes boju-
Taraxippos recebeu uma nova dimensão no interessante dos vasos coríntios, cuja forma se assemelhava aos sátiros,
ensaio de Pernice sobre uma antiga pintura coríntia na pode-se pensar automaticamente na crassa caracterização
qual é possível ver um demônio assemelhado a um anão, que Hesíodo 12 faz dos camponeses incultos e carentes de
imberbe e definitivamente erótico, que está atrás de um educação: "pastores dormindo a céu aberto, consistindo
cavaleiro, próximo à base da cauda do cavalo, apertando somente de estômagos, canalhas". Quando se considera
seu falo extremamente proeminente com ambas as mãos. que os demônios do pesadelo dos huzulos também inco-
(Diz-se que foi encontrado um espectro provocador "com modavam os cavalos e destroçavam os estábulos, a ideia
forma de macaco e de cócoras" em um vaso de Tagliatella, em si sugere que os dois kobolds anões fálicos da pintura
mas não pude ter acesso a ele.) Muito provavelmente, coríntia são os mesmos que esses malignos demônios do
essa figura é Taraxippos. Vemos um demônio de similar pesadelo que, em diversas ocasiões, assustam ou adoecem
compleição com a inscrição LA1 em outro fragmento de ce- os cavalos e outras vezes atuam no forno do ceramista em
râmica coríntia, na qual ele aparece diante do forno de um detrimento de seu dono.
ceramista. Considerando o caráter erótico desse demônio, Comparemos também com as aparições similares de
a inscrição pode ser completada de muitas maneiras. A anões maliciosos e kobolds descritos pelos irmãos Grimm
maioria delas pode ser traduzida como "libidinoso, lasci- em sua Mitologia Germânica. O caráter notadamente
vo"; mas também "imoral" e "perverso" seriam possíveis. fálico desses espíritos nos dá a pista para sua interpreta-
N a interpretação de Pernice, se trata de um dos kobolds ção; essa característica se explica facilmente pelo caráter
maliciosos que, de acordo com a bênção homérica do cera- inequivocamente erótico próprio de todos os demônios
mista (kaminos he karames), causam destroços no forno do pesadelo. Em acréscimo, contamos com a observação
do ceramista e estragam seus vasos. Robertll até mesmo feita pelos autores antigos de que anões possuem grandes
considerou esses kobolds do forno como um tipo peculiar genitais. Aristóteles 13 diz: ''A mula, como os anões, tam-
de sátiro. Essa hipótese poderia estar correta, ainda que bém possui partes privadas grandes". A apresentação de
todas as características próprias do bode ou do cavalo
12 HESIODO, Teogonia, 26.
11 Veja ROBERT em Greek Mythology de PRELLER, voI. I, 726 ss. 13 ARISTOTELES, Historia Animalium, VI, 24.

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tais anões (pigmeus) na arte corresponde a essa ideia. Pão A vali dez dessa hipótese parece indiscutível, sobre-
É verdade que a identidade comum de Taraxippos e Pã tudo quando acabamos de ver que os demónios aos quais
não pode ser provada. O primeiro parece ter mais coisas se atribuem os pesadelos são também frequentemente
em comum com os sátiros do que com Pã, pois faltam os considerados responsáveis por certas doenças fatais do
chifres e as patas de bode, que são específicos de Pão Não gado, manifestando-se em múltiplas formas de extrema
obstante, podemos dar por certo que existia uma relação excitação e agitação; em tais casos, podemos supor que
muito estreita entre ambos os demónios, baseada na esses demónios cavalgaram ou saltaram sobre os ani-
conexão comum com o pesadelo erótico e os terrores do mais. Dado o sentido erótico secundário desses termos,
pânico, ou seja, com a agitação dos animais. eles obviamente indicam copulação (comparemos com o
Por outro lado, as informações sobre um interessante latim salire, inire e o grego thornistai etc.). E, no que se
demónio neogrego, o Laboma que existe hoje em dia nas refere ao costume de cavalgar dos demónios do pesadelo,
crenças dos pastores do Parnaso, devem ser considerados me refiro aos Grimm. 15
como claras reminiscências das antigas representações Em estreitíssima associação com essas visões de
da natureza e das ações de Pão B. Schmidt diz: 14 "Este Pã enquanto demónio do pesadelo e causador tanto dos
ser tem o costume de montar nas cabras montesas como terrores do pânico quanto de determinadas doenças ve-
faria um bode, e provoca sua morte súbita. Numerosos terinárias, há o fato de que se acreditava que ele também
pastores do Parnaso dizem ter sido testemunhas oculares era o causador da epilepsia e das doenças mentais. Uma
desse fato e afirmam que os animais foram tomados por evidência definitiva da crença antiga acerca da relação de
uma dor atroz durante a cópula com o demónio, gritando Pã com a epilepsia pode ser achada em Medeia de Eurípe-
com medo e morrendo pouco depois. Em algumas vezes, des, em que se fala sobre a origem da doença de Creusa
o demónio imita o som da flauta do pastor guiando o (causada pela túnica envenenada por Medeia), que, a
rebanho e atrai os animais inocentes para si mesmo. princípio, parecia ser um ataque epilético causado por Pã,
Ninguém se atreve a disparar sua pistola ou escopeta pois a rigidez repentina, o cair por terra e a palidez são os
contra o Laboma quando notam sua presença, pois muitas três principais sinais da epilepsia. Os antigos escoliastas
armas explodiram causando uma ferida fatal no atira,dor". já haviam sintetizado essa opinião quando assinalaram,
Schmidt colocou bastante ênfase no fato de que como a acerca dessas palavras, que "se trata de um acesso de fúria
gruta Corícia era dedicada a Pã e às ninfas da Antigui- de Pã ou de algum outro deus" e que "os homens acredi-
dade, e que sempre serviu de refúgio para os pastores do tam desde tempos imemoriais que aqueles que de repente
Parnaso e seus rebanhos, e uma vez que Pã era conside- caem por terra (aqueles que sofrem de epilepsia) estão
rado, e também representado como, um agressor seme- transtornados por causa de Pã ou de Hécate"; consciente
lhante ao moderno demónio Laboma, consequentemente da estreita relação que existe entre ataques epiléticos e
devemos ver no deus-bode dos pastores contemporâneos terror do pânico e as súbitas alterações mentais que deles
do Parnaso simplesmente uma metamorfose particular de derivam, o autor ainda acrescenta: "acreditam que a razão

14 SCHMIDT, B., Volksleben der Neugriechen, I, 156. 15 GRIMM, Dit Myth., 384 SS.

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desses temores súbitos e das alterações mentais é Pã". A (o demônio da morte) deve desprovê-lo de sentimento,
medicina moderna também sustenta que um sentimento memória, respiração, até que ele seja somente uma som-
de terror violento e repentino pode produzir formas es- bra de si mesmo". O resto é ilegível. O demônio retratado
pasmódicas de epilepsia, doença de São Vito, asma e até nessa pequena tábua é descrito por Wünsch da seguinte
alterações mentais. O aborto que sucede a um choque maneira: "na Antiguidade, o demônio invocado tinha os
violento também se insere nesse contexto. Isso deu lugar cascos fendidos e peludos de um bode e estava armado
à teoria de que os demônios que produzem o pânico são com estilingue e um gancho".1 7 Perda dos sentidos, da
perigosos para as mulheres grávidas e puérperas e que consciência, da memória, da fala e retenção da respira-
são os causadores da terrível febre puerperal com seus ção são sintomas muito semelhantes aos da epilepsia, de
delírios correspondentes. Areteu já havia observado com modo que, em minha conjectura, não seria improvável
notável precisão que muitos epiléticos imaginam imedia- considerar Pã, na forma de demônio com patas de bode,
tamente antes do ataque que estão sendo hostilizados por como o causador de pesadelos e ataques epiléticos. Em
um animal selvagem horrível ou um fantasma e têm todo conclusão, lembremos mais uma vez do ponto de vista
tipo de sonhos malignos e estranhos, bem como alucina- de Sorano, de que o pesadelo é uma epilepsia incipiente.
ções acústicas peculiares que nos lembram dos fenômenos Essa afirmação, como acabamos de ver, agora parece ser
visuais e acústicos provocados pela ira de Pã sobre Longo. muito natural e compreensível a partir do ponto de vista
É interessante notar que Hipócrates não menciona Pã da antiga crença popular.
entre os demônios que a crença popular atribuía à origem Portanto, Pã acabou por se converter no ser causador
da epilepsia (Cibele, Poseidon, Enoida (= Hécate), Apolo das alterações mentais (mania). (A propósito, gostaria de
Nomios (?), Ares, os Heróis). A razão é provavelmente chamar a atenção para quão proximamente relacionados
que, na época de Hipócrates, o culto do deus árcade dos são os conceitos de mania e epilepsia). Como tal, Pã apare-
pastores ainda não havia se estendido até Cos e a costa ce nas obras de Eurípedes, que, em Hipólito, versos 14 ss.,
da Ásia Menor. faz com que o coro diga a Fedra, que está louca de amor:
Pã, como autor de ataques epiléticos severos e algu- O selvagem êxtase lhe possui
mas vezes fatais, que ocasionalmente não eram convul- Enviado por Pã ou por Hécate?
sivos, de maneira que podiam dar a impressão de morte, Dos andarilhos Coribantes?
eventualmente se converteria em um malvado demônio Ou do poder de Cibele?
da morte, como mostra uma pequena tábua de encanta-
mento encontrada em uma tumba perto de Constantino. O escoliasta acrescenta: "Entusiastas são aqueles
N essas pequenas tábuas se inscrevia uma maldição e cuja razão foi roubada pela aparição e que estão possu-
eram enterradas em tumbas para estabelecerem contato ídos pelo deus que se apresentou a eles e executou suas
com o Submundo. A inscrição diz: 16 "Ele (aquele a ser ordens". Essa observação do antigo comentarista é psicolo-
amaldiçoado) deve ser carregado para longe, assim você gicamente correta, na medida em que alucinações, visões

16 C.I.L., VIII supp. N. 19525 = Wünsch, Defixion. tabell. Praef, xxvi. 17 WÜNSCH, Defixion, tabell, praef, xxvi.

218 219
e ilusões constituem o sinal mais seguro da doença mental a algo que novamente nos faz recordar do terror do pânico.
e primeiramente se manifestam nos sonhos dos insanos; Na passagem que cito a seguir, aprendemos muito sobre
esse fato está em completa harmonia com a observação um caso de loucura epidêmica em forma de cinantropia e
feita na Antiguidade, quando os sonhos pesados - em par- licantropia atribuída a Pã, na qual se fala de Pã e Eco: "Pã
ticular os pesadelos - precedem a aparição da epilepsia e está enfurecido com a menina porque ele a inveja, inveja
da loucura. De modo que podemos entender facilmente a sua música e porque ele é feio. Assim, ele enlouquece
como Pã, o agente dos pesadelos, das visões, das alucina- os pastores de ovelhas e de cabras. Estes a despedaçam
ções e dos ataques epiléticos teve de se converter no cau- como lobos ou cães e espalham seus membros por todos
sador das doenças mentais. Mais dois fatos contribuíram os cantos. No entanto, os membros continuam a cantar" .19
para isso: o primeiro é a experiência de um medo violento Há mais evidências de Pã como causador da loucura em
e repentino, como as phasmata que Pã geralmente cau- outros textos. Se nos referimos a Rhein. Mus, 1898, 199,
sa, frequentemente produzindo não meramente ataques acharemos muitos outros casos desse tipo de insanidade
epiléticos, mas também severos distúrbios mentais; e o epidêmica, bem como de provas de que a doença das filhas
segundo é o terror de pânico dos homens e dos animais, de Pandareu (Odisseia, XX, versos 66 e seguintes), men-
interpretado como mania ou ataques de ira e, portanto, cionada pelo escoliasta, muito provavelmente consistia
atribuído a demônios que em outros lugares eram também em cinantropia (licantropia).
a causa da demência ou loucura, de acordo com o ponto de Devo concluir esta reflexão sobre Pã-Efialtes, com o
vista antigo. Esse fato é posteriormente elucidado através objetivo expresso de especificar tanto quanto for possível
de uma passagem dos evangélicos sinóticos,18 no qual os motivos pelos quais o antigo deus dos pastores daArcá-
Jesus expulsa uma legião de demônios que haviam possu- dia se transformou em um demônio do pesadelo - aI udin-
ído um homem, fazendo com que seus espíritos imundos do, agora, ao impulso erótico a ele atribuído desde sempre
entrassem em um rebanho de dois mil porcos. Os porcos e, sobretudo, nas numerosas esculturas. Cabe relembrar
foram então tomados pelo terror de pânico, "e acabaram sua imagem de pelagem áspera, caprina, que divide com
correndo para um precipício e se lançaram ao mar". Por os outros deuses do pesadelo, pois, como já vimos, o leito
outro lado, temos a história de Pausânias (X, 23, 7) sobre habitual de Antiguidade era pele de cabra ou feita com
o terror do pânico que assaltou os gauleses sob as ordens pelo de cabra, que, por sua natureza, devia provocar a
de Breno em Delfos, no ano de 278 a.C., pânico esse que aparição de demônios parecidos com uma cabra na pessoa
hoje em dia chamamos de mania. afligida por um pesadelo. Poderíamos pensar na aparição
De modo ajustificar adiante a posição de equivalência do bode para Sinônide, ou no sátiro que aparece como
do terror do pânico e da loucura na Antiguidade, gostaria um demônio do pesadelo em Filóstrato - provavelmente
de chamar a atenção para a relativa frequência das epi- também forma parcial de cabra -, e finalmente podemos
demias de pesadelos e de insanidade, isto é, o fato de um recordar o Bocksmahrte germânico (literalmente, o bode
grande número de indivíduos sucumbir ao mesmo tempo do pesadelo), o Habergeiss (literalmente, o bode-aveia,

18 Marcos 5,1-14; Mateus 8,28 ss.; Lucas 8,26 ss. 19 LONGO, Pastorales, 3,23.

i 220 221
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provavelmente devido à conotação erótica da aveia; cf. ("ereto"), Poston ("pequeno rabo"), Eraton ("libertino").
em inglês "to sow wild oats"20) e o bode no qual montava Em outros aspectos, contudo, eles também se parecem
a Murawa e a Trude. muito com os já mencionados kobolds dos germânicos e
2. Sátiros. Como já vimos, os sátiras às vezes apare- dos outros povos do norte, que frequentemente também
cem como demônios do pesadelo em pesadelos eróticos aparecem como demônios do pesadelo. Vem daí sua grande
absolutamente genuínos. Esse fato é facilmente compre- propensão a todos os tipos de chistes e brincadeiras, que
ensível, pois, tanto nesse aspecto como em muitos outros, até mesmo seriam proferidas para provocar o poderoso
os sátiras estavam estreitamente relacionados a Pã, cuja Hércules. Inclusive, há também sua paixão por roubos,
imagem é representada por eles, ainda que de modo de- saques e enganações, justamente as mesmas inclinações
formado por vulgaridade, comicidade, burlesco e maldade. dos malvados kobolds. Os cercops possuem uma natureza
Os sátiras também se originaram em Argos. Como Pã, muito similar. São também incapazes de realizar qualquer
são demônios em forma de bode; sua relação com ele é trabalho; eles são saqueadores e ladrões. Sua lascívia está
praticamente a mesma que os pequenos Pãs que - como provavelmente expressa em seu próprio nome (kerkos =
é evidenciado pela coleção de Wernicke de ilustrações phallus). Não me aventurarei a conjecturar a propósito
sobre vasos de cerâmica - são absolutamente idênticos do rabo dos macacos porque, até onde me consta, eles não
visualmente aos sátiras e confundidos constantemente aparecem na estatuária, ainda que os cercops, como os
com eles nas descrições modernas. O temo "bode" é igual- sátiras e Pã, possuam conexão com os macacos. Lobeck
mente adequado para ambos. Algo similar ocorre com os os colocou em relação com os kobaloi, um tipo de demô-
chamados "sátiras com chifres", que frequentemente não nio do cortejo de Dioniso, enquanto que pertencentes da
podem ser diferenciados do Pã de pernas humanas. Com esfera desses demônios do pesadelo burlescos e malicio-
Pã, eles compartilham a forma parcial ou completa de sos e assemelhados a kobolds. Todavia, atualmente não
bode, evidenciada pelo fato de serem sempre chamados existe nenhuma prova definitiva de sua conexão com os
de bodes ou Titiros (que é, na verdade, um macaco com pesadelos.
um longo rabo) e pela sua representação nos vasos áticos 3. Faunos. Não é minha tarefa aqui demonstrar que
antigos em figuras vermelhas excelentemente tratadas Fauna, em sua origem e significado básico, seja bastante
por Wernicke (Hermes, XXXII, p. 297 ss.). Ademais, são próximo a Pão Isso implicaria dizer que, assim como Pã,
peludos e possuem um impulso erótico irrefreável. Todas ele é um antigo demônio dos pastores (camponeses) e dos
essas características também são comuns a todos os outros rebanhos e que, devido a sua óbvia semelhança com o
demônios do pesadelo. Comparemos também com o sátira pastor árcade, foi colocado no mesmo nível que Pã desde
Lásio da taça de Munique e os numerosos sátiras encon- o primeiro cantata com a religião grega e com a religião
trados em vasos: Peos ("falo"), Sybas ("sibarita"), Stygon dos romanos. Devo me contentar aqui em assinalar que
Fauna se tornou um demônio do pesadelo pelas mesmas
razões que Pão Convocando a prova anteriormente men-
20 "To sow wild oats" é uma expressão que literalmente significa "semear
aveia selvagem", mas cujo sentido informal significa "viver ajuventude intensa-
cionada acerca da validade de Fauna como um demônio
mente", em especial no que se refere a ter muitos relacionamentos sexuais. (N.T.) do pesadelo, gostaria de chamar a atenção, antes de

222 223
1
tudo, para o fato de que Fauno costuma revelar-se pelas Ainda mais numerosos são os testemunhos que ates-
mesmas razões que Pã nos sonhos proféticos e em todos tam a crença de que Fauno - como Pã - se mostra em fenô-
os tipos de visões óticas e acústicas, sobretudo naquelas menos óticos e acústicos de todo tipo e em sua maioria pro-
que inspiram terror. A crença em Fauno como inspirador duzem horror. A passagem principal sobre esse tema pode
de sonhos proféticos é muito antiga e difundida, como ser encontrada em Dionísio de Halicarnasso,26 que segue:
demonstram os ritos de incubação descritos por Virgílio,21
~ois os romanos atribuem o pânico a essa divindade; e
a propósito de um oráculo de Fauno situado em um bos- mdependentemente das aparições que chegam à visão
que sagrado que cercava a fonte de Albunea. Igualmente, das pess?as, uma hora sob uma forma e depois sob ou-
em Ovídio,22 esses ritos deviam ser observados se Fauno tra, mspIrando o terror, e independentemente das vozes
desejasse enviar uma revelação em sonhos: em primeiro sobrenaturais que chegam a seus ouvidos para molestar
lugar, tinham de sacrificar algumas ovelhas; em seguida, as pessoas, elas são obra, segundo afirmam, desse deus.
os peregrinos tinham que deitar e dormir sobre a pele dos
Notemos como os fenômenos acústicos e óticos de
animais sacrificados no bosque consagrado a Fauno. Em
fauno ~stão relacionados com o terror de pânico, o que,
acréscimo, era necessário colocar uma coroa de folhas de
posterIOrmente ao que acabo de dizer sobre Pã, é facil-
faia, praticar a castidade e abstinência e retirar todos
mente compreensível e nos brinda com uma bem-vinda
os anéis dos dedos. Entre as raças mais primitivas, uma
confirmação da explicação que demos aqui. Possivelmen-
dieta frugal oujejum era o principal meio para assegurar
te, as seguintes palavras de Lucrécio estão relacionadas
visões e sonhos proféticos, como demostram as excelentes
aos fenômenos acústicos de Fauno: "As pessoas afirmam
observações de Tylor. Esse ritual, como assinala Preller,23
que a calma noturna é interrompida pelas brincadeiras
corretamente dá a impressão de ser realmente muito anti-
dos furiosos e barulhentos faunos". Sem dúvida, não
go e surpreendentemente coincide com os costumes gregos
podemos excluir a ideia de que esse conceito tem origem
de incubação. Desconheço o modo pelo qual Marquart24
grega e que foi tomado emprestado por Pã e pelos sátiros
chegou à conclusão de que o ritual de incubação romano
anteriormente mencionados juntamente com as ninfas:
só se tornou usual tardiamente e que deveríamos situar
A caracterização de Pico e Fauno oferecida por Plutarco
sua origem na Grécia. De qualquer maneira, a autoridade
(Numa, 15), com relação à antiga e conhecida lenda roma-
mais competente no aspecto das religiões antigas, Bouche-
na, na qual Numa domina esses demônios, diz que, como
-Leclerq, 25 dá por certo, e com boas razões, que o oráculo
os genuínos demônios do pesadelo, "eles renunciam à sua
de sonhos de Pã Litírio de Trezena está relacionado com a
própria natureza tomando formas diversas e conjuram
incubação. Se essa suposição for correta, o paralelo entre
visões aterrorizantes perante os olhos dos homens. Eles
Pã e Fauno é ampliado em um importante ponto.
predizem muito do futuro e informam os homens sobre
ele", particularmente quando estão bêbados de vinho e
21 VIRGÍLIO,Aeneis, VII, 81 ss. fortemente presos. Similarmente, Ovídi027 fala a respeito
22 OVIDIO, Fausti, Iv, 641.
23 PRELLER, Roman Myths, I, 383.
24 MARQUART, Ram. Staatsv. III, 97 ss. 26 DIONÍSIO de Halicarnasso RomanAntiquities 6 16
25 BOUCHE-LECLERQ, Histoire de la Divination, II, 386. 27 OVÍDIO, Metamorphoseon, II, 638 ss. ".

i 224 225
'I
i
....
do deus do sonho Ícelo ou Fobetor: ele "se transforma em ção de Horáci029 demonstra que, em geral, se acreditava
fera, em pássaro, em uma enorme serpente. Os deuses que ele era o causador, mas também o protetor contra a
chamam-no de Ícelo, mas os mortais o chamam de Fobe- doenças dos animais, em particular aquelas que afetavam
tor". Comparemos também com Laistner, The Riddle af as jovens e recém-nascidas ovelhas:
the Sphinx, 1,62 ss., 82 ss., 92 s. e II, 4 s., sobre as meta-
Para além de meus ensolarados campos,
morfoses dos demônios do pesadelo. Passais benevolente, e retirai-vos das vistas
Outros demônios do pesadelo também podem ser Sendo gentil ao gado jovem.
persuadidos a realizar profecias e também para que levem
a cabo serviços úteis se forem embriagados com vinho e Porfírio aqui explica: "Ele invoca fauno, sobre quem
se fortemente imobilizados. Logo, esses conceitos sobre se diz ser um deus malvado e pestilento". Comparemos
Fauno não foram pegos emprestados do culto e do mito com Acrão, acerca dessa passagem: "Os jovens bezerros
grego de Pã, mas sua origem genuinamente italiana está são os mais prejudicados pelos Faunos", e com Sérvio:
demonstrada pela lenda histórica da batalha no bosque de "Horácio representa Fauno como prejudicial, dizendo
Arsia, onde tanto Fauno como Silvano - semelhantes em 'passa benevolente"'.
natureza e, portanto, identificados com ele - semearam o Não há nenhuma tradição direta que considere Fau-
terror do pânico entre os inimigos através de fenômenos no como o causador da loucura como se considerava Pã,
acústicos noturnos, decidindo o desenlace da batalha em mas isso não seria improvável se levarmos em conside-
favor dos romanos. As crenças nos fenômenos acústicos e ração que o êxtase mântico ou a inspiração divinatória
visuais de Fauno estavam tão arraigadas entre os roma- foram interpretados desde sempre como "furor" (furaris
nos que até podemos nos aventurar a explicar o nome do divinalis),30 assim como a profecia através de sonhos
' · 28 o nome d e
deus na seguinte base: de acor d o com S ervlO, sempre foi relacionada com Fauno (Fatuus) e sua esposa
Fauno deriva de phane = "ruído", ao passo que Hesíquio Fauna (Fatua). Consequentemente, Fauno recebeu os
interpreta o nome a partir de phainan autan = "aquele apelativos de fatiducus, 31 Fatuclus e Fatuus ("profeta"); os
que mostra a si mesmo". Outras fontes atribuem a mesma ditados e profecias mais antigos dos habitantes da Itália
importância que os fenômenos visuais têm aos fenômenos escritos em versos saturninos ou "fáunica" eram atribuí-
acústicos de Fauno. Já vimos que, sobre as mesmas bases, dos a ele. Vejo aqui um paralelo definitivo com Pã, a quem
também houve intenções de derivar o nome de Pã do verbo se dispensavam oráculos "desde os tempos imemoriais" e
· . ="mos t rar-se " .
P h aLnem cuja profetisa, segundo se dizia, era a ninfa Erato, a esposa
Algumas doenças equinas, com sintomas de perda de Arcas. Uma coleção de profecias comparáveis àquelas
de peso e mal-estar noturno, também foram atribuídas a das sibilas circulou sob o nome dela até mesmo na época
Fatuus ficarius, ou seja, a Fauno enquanto um demônio de Pausânias, pois Periegete diz tê-las lido.
do pesadelo. Esse assunto já foi discutido. A seguinte ora-
29 HORÁCIO, Carmina, III, 18, 295. Tradução de Lord Dunsany, Londres,
1947.
30 CÍCERO, De Diuinatione, 1. 2. 4.
28 Sérvio, em Aeneis, VII, 81. 31 VIRGÍLIO, Aeneis, VII, 82.

226 227
Finalmente, podemos apelar para a relação familiar vezes é Silvano que é creditado como o demônio que
com os bodes, caracterizada por pelos duros e pronunciado convoca e origina o pânico. Sua essencial semelhança
impulso erótico, para provar a conversão do antigo deus com Pã e Fauno é posteriormente demostrada pelo fato
italiano dos pastores e rebanhos, Fauno, em um demônio de que ele, como os outros, também se transformou em
do pesadelo. Não podemos demonstrar definitivamente um demônio do pesadelo. Isso fica evidente em Agos-
que Fauno, mesmo antes de ser equacionado a Pã, era tinho: "Há também um rumor bastante notável, que
representado como uma mistura de bode e homem (com muitos puderam verificar pela própria experiência, ou
patas e chifres de bode) tal como Pã, mas é certo que os ouviram testemunhos diretos de pessoas confiáveis, que
antigos sacerdotes romanos, os lupercos, eram chamados os silvanos e os pãs, comum ente chamados de incubos,
de Creppi, ou seja, bodes, pois se vestiam somente com sempre se comportam de maneira desavergonhada com
uma pele de cabra, em semelhança à forma como o pró- as mulheres, as desejam e mantém relações com elas".35
prio Fauno era pictoricamente representado, assim como Novamente, como acontece com Pã e Fauno, Silvano é
também os sátiros, também chamados de bodes. O sa- considerado um dos originadores do terror do pânico, em
crifício de bodes e cabras era habitual tanto nos cultos particular através de fenômenos acústicos; donde o terror
de Pã quanto nos de Fauno, e com certeza estão relacio- do despertar da batalha no bosque de Arsia ser às vezes
nados. atribuído a Silvano e outras vezes a Fauno. Varro (citado
4. Silvano. O deus das florestas, Silvano, surge de por Agostinho) sugere a crença de que Silvano também
uma esfera de pensamento e experiência quase que idên- provocava visões aterradoras e perigosos delírios da febre
ticas às de Fauno e Pão A semelhança com esses deuses puerperal, quando afirma que:
era tão óbvia para os antigos que Silvano era às vezes A mulher depois do parto é guardada por três deuses para
identificado com o primeiro e, em outras vezes, com o se- que o deus Silvano não a importune durante a noite. Com
gundo. De acordo com o comentário de Prob0 32 a Virgílio, o intuito de representar estes três guardiões, três homens,
o pastor Crátis gerou seu filho Silvano com uma cabra. durante a noite, visitam e rondam os umbrais da casa,
Elian0 33 conta a mesma lenda a respeito de Pão O mito é primeiramente golpeando o umbral com um machado,
depois o golpeando com um pilão e, por fim, o esfregando
de origem sibarita e, sem dúvida, os sibaritas procediam com uma vassoura. Esses sinais mostram que a casa está
em parte da Acaia (onde também havia um rio chamado ocupada e impedem Silvano de entrar. Pois nenhuma ár-
Crátis) e em parte de Trezena, e, por conseguinte, do vore pode ser derrubada sem corte ou ferro, nem o milho
local de origem do culto de Pão Auréli0 34 também atesta pode ser preparado sem um pilão, nem a colheita pode
a equação entre Silvano e Fauno. Segundo a lenda da ser amontoada sem uma vassoura. Os nomes dos deuses
derivam destas três coisas: Intercidona, da intercessão do
batalha do bosque de Arsia, percebe-se que essa equação golpe cortante do machado; Pilumnus, do pilão (Pilus), e
é muito antiga. Em algumas vezes é Fauno, e em outras Deverra, das vassouras. O poder desses três deuses protege
a pós-parturiente de Silvano.

32 PROBO, Georgica, I, 20.


33 ELIANO, De Natura Animalium, 6, 42.
34 [AURÉLIO VICTOR], De Viris Illustribus, 4. 35 AGOSTINHO, De Civitate Dei, 15,23. Tradução de M. Dods, II, 92 ss.
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228 229
I
Agostinho acrescenta mais adiante: e Picumno, os deuses do matrimônio". Sérvio comenta
Portanto, o olhar dos justos não prevaleceria contra a ira a respeito de Virgílio, Eneida, 10, 76: "Varro atesta que
do deus malicioso se não houvesse várias pessoas para Pilumno e Picumno são os deuses dos recém-nascidos e
repeli-lo, grosseiro, inculto e repugnante que é, assiI? como que a eles se prepara uma oferenda no umbral por par-
os bosques, mas com os símbolos da lavoura e cultIvo que te da mulher pós-parturiente para averiguar se o bebê
são opostos à sua natureza. 36 recém-nascido vai sobreviver". Vemos aqui que Pilumno
e Picumno tinham que proteger não somente a mãe, mas
Possivelmente, as "certas doenças" dos lunáticos também seu filho recém-nascido. Parece que também
[sonâmbulos] em Macróbi0 37 são parcialmente relacio- existia a crença de que Silvano sequestrava e trocava os
nadas às febres puerperais, em particular quando estão bebês uns pelos outros (changelings), fato que é atestado
relacionadas a doenças fatais. A crença de que mulheres pela superstição corrente no vale de Fasa, no sul do Tirol,
pós-parturientes estavam especialmente vulneráveis a de que os Salvegn (= Silvanos) frequentemente trocavam
demônios malignos e que deveriam ser protegidas contra as crianças.
eles é, de fato, muito difundida.) Obviamente, se dava por Como um ponto final, convém assinalar que Silvano
certo que era o mesmo demônio que importunava as mu- também corresponde a Pã e a Fauno nas vezes que toma
lheres nos pesadelos e que também aparecia em delírios a forma de um bode, recebe cabras como vítimas sacrifi-
da febre puerperal e podia tornar-se perigoso. O mesmo ciais e é peludo e desgrenhado; todas estas características
se pode dizer do Koutsodaimonas com forma de bode dos contribuíram em grande medida para que se convertesse
gregos modernos, que muito provavelmente corresponde- em um demônio do pesadelo.
ria ao antigo Pã grego. Ele tem Os antigos demônios do pesadelo dos índios, os Gran-
um queixo muito longo com uma barba (barba de bode), dharves e Rakshas, também mostram extraordinária
seus olhos são rodeados de pelos duros e tem a voz de um similaridade com Pã, Fauno, Silvano e os sátiros. Cobertos
bode. Não somente ataca as jovens mulheres, mas também de couro e peles, dançam e correm pelos bosques ao cair da
as mulheres pós-parturientes e grávidas, porque golpeia noite, pois evitam a luz do dia; saltam ao redor das casas,
suas barrigas com seus chifres. 3s guinchando como asnos. Tomam a forma de um irmão ou
de um pai, ou aparecem enrolados em panos, ou com uma
Acreditava-se que Silvano constituía um perigo não horrível deformidade, corcundas ou disformes, com a bar-
somente para as mulheres que acabavam de dar à luz, riga flácida e torso proeminente, pelo negro, duro e descui-
mas também para os recém-nascidos, como vemos em dado, e exalam o fedor de um bode. O antídoto mais eficaz
um fragmento de Varro: "Se a criança nasce viva e é pega contra eles é uma erva amarela, de cheiro forte - Baja ou
pela parteira, é depositada no solo para garantir auspí- Pinga ou Ayacringi (Chifre-de-bode) -, que desempenha o
cios favoráveis; uma oferenda é preparada para Pilumno mesmo papel que o paionie da superstição greco-romana.
Eles ficam à espreita de mulheres adormecidas, na lua de
36 Ibid., 6,9. mel, e logo após o parto; atormentam as mulheres como
37 MACRóBIO, Saturnalia, 1, 17, II.
38 SCHMIDT, B., Das Volksleben der Neugriechen, l, 153 SS. espíritos sexuais licenciosos, permanentemente excitados

230 231
e com grandes testículos, e se divertem matando recém-
-nascidos. Habitam lugares sombrios e escuros (como
Silvano) e são capazes de enlouquecer as mulheres. Tem NOTA BIBLIOGRÁFICA FINAL
o pelo áspero e são comparados a macacos e cachorros.
Sua contrapartida feminina são as Apsaras, que podem
ser comparadas com os elfos, as ninfas e as sereias e são
quase iguais aos Grangharvas.

N a primeira página da monografia original estava


impresso o seguinte: EPHIALTES, eine Pathologische-
-Mythologische Abhandlung über die Alptraume und
Alpdamonen des klassischen Altertums Von Wilhelm
Heinrich Roscher. (Des XX. Bander der Abhandlungen der
philologisch-historischen Classe der Ki:inigl. Sachsischen
Gesellschaft der Wissenschaften. No II, Leipzig, bei B. G.
Teubner, 1900).
A monografia consistia de 123 páginas de texto (mais
um sumário "sistemático", isto é, um resumo dos conte-
údos, e um índice). Aqui, 92 páginas foram traduzidas
juntas com mais de 285 notas de rodapé que foram, em
maioria, mantidas no texto. A tradução das passagens
, '
clássicas foi principalmente - mas não totalmente - feita
I. por nós. O leitor que desejar se aprofundar em quaisquer
referências em detalhes pode tanto consultar a versão em
inglês do autor clássico quanto a original em grego ou
latim. Em geral, as referências foram adaptadas para as
abreviações do inglês padrão que prefaciam The Oxford
English Dictionary, o Greek-English Lexicon de Liddell e
Scott, e o Latin Dictionary de Lewis e Short.
Os três curtos apêndices que não foram incluídos nes-
ta edição são: I. "O significado do nome Mefistófeles", em
que Roscher conclui que o Diabo medieval e renascentista

233
232
não só é figurativamente, mas também etimologicamente
ligado ao Pã enquanto demónio do pesadelo; II. "Passa-
gens dos antigos médicos acerca da natureza e origem ÍNDICE
dos pesadelos" apresenta, à luz dos resultados obtidos
na monografia, textos melhorados (em grego e em latim)
de tudo que se refira ao pesadelo no trabalho dos antigos
médicos (Sorano, Oribásio, Aécio etc.); III. Uma citação
latina de Tritêmio (Annales Hirsaugiensis II) do século
XVII sobre demónios do pesadelo que possuíram freiras
enclausuradas. Finalmente, as páginas 120-123 contêm
em letras miúdas o "Nachtrage" de Roscher, ou seus pós-
-escritos, argumentos filológicos, correções e considerações 5 Introdução à coleção Amor e Psique
sobre sua obra como um todo. Era costumeiro que se
incluísse informação adicional, reunida posteriormente 7 Agradecimentos
à publicação do trabalho nas primeiras páginas em um
"N achtrag", de modo que o trabalho pudesse estar tão
atualizado e com tanta autoridade quanto fosse possível. PARTE I
UM ENSAIO SOBRE PÃ
NOVA EDIÇÃO REVISADA
Por James Hillman
13 A psique retorna à Grécia
,I
25 O sonho no ano de 1900
Iii,
31 Pã, o deus-bode da natureza
li
I' 39 A realidade imaginaI
i!


47 O "instinto"
",I
ii 51 O pânico
ir
61 Pã e a masturbação
69 O estupro
85 As ninfas de pã
105 Ecologia
109 Espontaneidade - sincronicidade
115 Curando nossa loucura
234
235
PARTE II
EFIALTES
UM TRATADO MÍTICO-PATOLÓGICO
SOBRE O PESADELO NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA
Por
Wilhelm Heinrich Roscher

125 Da importância psicológica do texto e seu autor


141 Prefácio
145 A natureza e a origem do pesadelo à luz
da medicina moderna
161 A natureza e a origem do pesadelo à luz
da medicina antiga
191 As antigas denominações do pesadelo
205 Os mais importantes demônios
do pesadelo gregos e romanos
233 Nota bibliográfica final

236
......
I